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modelos teóricos do desenvolvimento motor e as fases do desenvolvimento
	A ciência do desenvolvimento motor, por muito tempo se preocupou em descrever e catalogar dados. Porém, isso não era suficiente para responder as perguntas levantadas pelos pesquisadores da época. Por isso se desenvolveu modelos desenvolvimentistas que explicassem o desenvolvimento baseados em teorias (observação e análise de fatos). E dessa forma a ciência aplicada ao comportamento motor se desenvolveu e se fortaleceu. Como qualquer outro ramo da ciência a observação realizada através de um método científico nos leva a fatos e um conjunto de fatos nos levam a uma teoria.
Uma teoria é um grupo de afirmações e de conceitos que integram fatos existentes e levam a geração de novos conhecimentos. As fases do desenvolvimento motor apresentadas nesse roteiro (propostas por Gallahue) não é fundamentada totalmente em fatos e sim em deduções e induções.
O raciocínio indutivo é quando a partir de uma sequência de fatos semelhantes (premissas particulares) cria-se um modelo teórico generalizado e definitivo. Exemplo: O ferro conduz eletricidade. O ferro é metal. O ouro conduz eletricidade. O ouro é metal. O cobre conduz eletricidade. O cobre é metal. Logo os metais conduzem eletricidade.
O raciocínio dedutivo acontece quando partindo de premissas verdadeiras, podemos estabelecer relações com uma segunda proposição para chegar a uma conclusão. Exemplo: Todos os homens são mortais. Sócrates é um homem. Logo Sócrates é mortal.
	Uma limitação nesses modelos teóricos do desenvolvimento motor é que alguns são restritos demais para explicar todos os fenômenos observados, devido a isso, algumas teorias mais abrangentes se destacam entre outras. Nessa disciplina vamos estudar um modelo considerado abrangente e bem suportado cientificamente.
As fases do desenvolvimento motor
	Sabemos que o desenvolvimento motor acontece de forma contínua e todos nós estamos dentro desse processo permanentemente. Cada novo desafio diário pode criar um novo padrão de comportamento motor e um novo tipo de aprendizado. Sabemos também que esse comportamento pode ser influenciado por fatores internos (biológicos), externos (ambientais) e da tarefa em si (físicos / mecânicos). Assim, se observarmos o comportamento motor de um indivíduo, podemos saber como aconteceu seu desenvolvimento e como classificar esse processo.
	Os movimentos observáveis podem ser agrupados em 3 categorias: movimentos estabilizadores, locomotores e manipulativos. Na prática, o movimento humano geralmente é uma combinação de 2 ou 3 movimentos. Podemos definir melhor cada tipo de movimento como:
	Movimento estabilizador é quando existe a necessidade de algum grau de equilíbrio. Movimentos como girar, virar-se, empurrar ou puxar são um exemplo desses movimentos que por definição não podem ser classificados como locomotores nem manipulativos. Então, qualquer forma de movimento que precise ser ajustada com relação a força da gravidade pode ser considerada um movimento estabilizador.
	Movimento locomotor refere-se a movimentos que envolvem mudanças na localização do corpo relativamente a um ponto fixo na superfície. Caminhar, correr, saltar um obstáculo são exemplos dessa tarefa locomotora. Quando pensamos em um movimento de rolamento para frete temos um exemplo da combinação de movimento locomotor com estabilizador.
	Movimento manipulativo pode ser classificado como manipulação motora rudimentar onde o indivíduo aplica força sobre objetos ou recebe força de objetos como arremessar, chutar, rebater, agarrar; também temos a classificação chamada de manipulação motora refinada onde os movimentos são mais complexos, geralmente envolvendo a musculatura das mãos e punhos. Dentro da categoria de movimentos de manipulação refinada temos: escrever, costurar, digitar ou usar instrumentos.
	A partir desse ponto podemos já classificar e imaginar alguns grupos de movimentos. Agora vamos ver como esses movimentos podem se agrupar e serem divididos em fases relacionadas ao desenvolvimento motor. A seguir, você vai ver um modelo que propõe 4 fases e suas relações com o desenvolvimento.
Fase motora reflexa
	Os primeiros movimentos que o feto faz são puramente reflexivos. Podemos chamar de reflexo qualquer movimento involuntário, controlado por regiões subcorticais e que formam a base para o desenvolvimento motor. Os reflexos são formas de o bebê ir construindo seu vocabulário motor e conhecer seu corpo a partir de estímulos como toque, luz e sons.
	Dentro dessa categoria nós temos os reflexos primitivos que podem ser classificados como agrupadores de informação (estimulam a atividade cortical), caçadores de alimentação (herança filogenética de sugar e procurar pelo olfato). Esses reflexos fazem parte de mecanismos de sobrevivência primitivos, mecanismos que são comuns entre indivíduos de uma mesma espécie ou da mesma descendência.
Outra categoria são os reflexos posturais que também são considerados involuntários e parecem servir de base para mecanismos estabilizadores, locomotores e manipuladores que virão posteriormente no desenvolvimento motor. Os reflexos de caminhar dos bebês e se arrastar lembrar posteriormente a caminhada e o movimento de engatinhar. O comportamento de agarrar qualquer objeto faz parte do aprendizado do movimento de soltar. O reflexo corretivo labiríntico e os reflexos de sustentação que estão relacionados as habilidades posteriores de equilíbrio. A fase reflexa do desenvolvimento motor pode ser dividida em dois estágios:
Estágio de codificação de informações é a fase onde existe o agrupamento de informações. Essa fase se estende até o quarto mês e durante esse estágio os centros cerebrais inferiores estão mais desenvolvidos do que o córtex motor. Através desses reflexos o bebê é capaz de reunir informações, buscar alimento e buscar proteção através de alguns movimentos.
Estágio de decodificação de informações é a fase onde após o quarto mês, os reflexos são inibidos e as funções motoras são substituídas por centros motores corticais. Nessa fase começam a surgir movimentos voluntários e o que era puramente sensório-motor se torna perceptivo-motor.
Fase de movimentos rudimentares
	Nessa fase temos as primeiras formas de movimentos voluntários organizados. Podem ser observadas até os 2 anos de idade e são determinados pelo amadurecimento do organismo. Apesar dessa fase ser bem previsível em condições normais ela pode variar de criança para criança devido a fatores já comentados. Ainda estamos falando de movimentos necessários para a sobrevivência da espécie e incluem movimentos estabilizadores como controle da cabeça, do pescoço e músculos do tronco. Tarefas manipulativas como alcançar, agarrar e soltar. Tarefas locomotoras como arrastar-se, engatinhar e caminhar. Essa fase, também pode ser dividida em dois estágios distintos:
	O Estágio de inibição de reflexos é caracterizado pelo início dos movimentos voluntários. Com o desenvolvimento do córtex motor e algumas restrições ambientais os reflexos são inibidos e gradualmente vão desaparecendo. Os reflexos posturais se tornam comportamentos motores voluntários, porém como ainda estão em desenvolvimento (acompanhando o amadurecimento do sistema nervoso central) são movimentos descontrolados e grosseiros. O simples ato de agarrar um objeto envolve ações dos músculos das mãos, braços, ombros e cabeça.
	O Estágio de pré-controle acontece por volta de um ano de idade e é quando as crianças começam a ter precisão e controle maior sobre seus movimentos. Devido a um rápido desenvolvimento dos centros motores e cognitivos a criança desenvolve rapidamente novas habilidades motoras rudimentares. Nesse estágio de pré-controle as crianças aprendem a manter o equilíbrio, manipular objetos e locomover-se pelo ambiente com certo grau de controle. O processo maturacional (encéfalo) pode explicar a velocidade dessa aquisição de novas habilidades, porém isso não diminui a grandiosidade dessa fase do desenvolvimento motor.
Fase de movimentosfundamentais
	As habilidades motoras fundamentais da primeira infância são consequência da fase de movimentos rudimentares do período neonatal. Já na fase de movimentos fundamentais as pequenas crianças já estão envolvidas na exploração e na experimentação de seus corpos. Nesse momento as crianças descobrem uma variedade de movimentos estabilizadores, locomotores e manipulativos, primeiro de forma isolada e depois combinando diferentes tipos de movimentos. O que antes eram reflexos agora se tornam movimentos voluntários e fundamentais para o desenvolvimento motor na infância.
	Um conceito errado (sob o ponto de vista desenvolvimentista) é que essas habilidades são desenvolvidas basicamente graças a aspectos maturacionais e pouco influenciadas por fatores ambientais. Embora a maturação (desenvolvimento físico, biológico) seja um fator que contribui para a aquisição de novos movimentos, o grau máximo de influência se dá a partir do ambiente. Toda a base do desenvolvimento motor é devido a oportunidade de praticar, encorajamento, instrução e o ambiente onde as crianças estão envolvidas.
	Para podemos estudar essa fase, podemos dividi-la em três estágios principais, onde podemos identificar alguns padrões motores e separá-los, entretanto, imagine que esses estágios estão sobrepostos.
	O estágio inicial de uma fase movimentos fundamentais representa as primeiras tentativas da criança em alcançar um objetivo motor ou tentar desempenhar uma habilidade fundamental. O movimento é caracterizado por elementos que faltam ou que se apresentam em uma sequência imprópria. Podemos observar nesse estágio movimentos com uso exagerado do corpo e deficiência no ritmo e coordenação. De forma generalista, podemos imaginar que até próximo dos 2 anos, as crianças têm seus movimentos estabilizadores, locomotores e manipulativos ainda nesse estágio inicial.
	O estágio elementar envolve um maior controle motor e melhor coordenação rítmica dos movimentos fundamentais. Aqui a criança já consegue sincronizar elementos temporais e espaciais com seus movimentos, porém os padrões de movimento ainda são restritos ou exagerados. De acordo com um desenvolvimento maturacional normal, crianças com 3 ou 4 anos já passam por essa fase e apresentam movimentos bem mais coordenados. Um fato curioso é que algumas crianças e inclusive adultos não ultrapassam essa fase de desenvolvimento em alguns tipos de movimentos.
	O estágio maduro na fase de desenvolvimento fundamental é caracterizado por desempenhos mecanicamente eficientes, coordenados e controlados. A maior parte dos dados disponíveis sugerem a idade de 5 ou 6 anos para a aquisição desse estágio do desenvolvimento motor. Nesse estágio, as habilidades manipulativas que requerem acompanhamento e interceptação de objetos em movimento (apanhar, derrubar, rebater) desenvolvem-se um pouco mais tarde devido as exigências visuais e motoras mais sofisticadas. Para crianças alcançarem esse estágio de desenvolvimento é necessário o encorajamento, instrução e um ambiente que promova aprendizado. Sem essas oportunidades, por mais que exista o desenvolvimento biológico do organismo, se torna impossível chegar ao estágio maduro do desenvolvimento das habilidades fundamentais.
Fase dos movimentos especializados
	Novamente, vamos comentar sobre uma fase do desenvolvimento que necessidade uma base adquirida na fase anterior. Portanto, a fase dos movimentos fundamentais deve ter sido estimulada e desenvolvida para que a fase dos movimentos especializados seja alcançada. Nessa fase os movimentos tornam-se ferramentas para serem aplicadas em várias outras atividades motoras do dia-dia como recreação e objetivos esportivos. Nesse estágio, a maior parte dos movimentos são combinações e aperfeiçoamentos dessas combinações. As próprias situações onde a criança está envolvida (ambiente) vai promover essa interação entre tipos de movimentos e aperfeiçoamento de habilidades. Os movimentos fundamentais como saltar em um pé só, rebater e chutar por exemplo, podem ser aplicados agora em outros objetivos como uma brincadeira de amarelinha, um jogo de basebol e uma arte marcial.
	A extensão do desenvolvimento de habilidades nessa fase dos movimentos especializados depende de muitos outros fatores comparados com as outras fases. O tempo de reação, velocidade do movimento, coordenação, biotipo (somatotipo), hábitos, pressão do grupo social a que pertence e estrutura emocional são apenas alguns fatores que agora podem se tornar um recurso ou um limitador de desempenho. Também podemos dividir essa fase em três estágios:
	O estágio transitório acontece entre os 7 e 8 anos de idade e as crianças geralmente começam a aplicar as habilidades motoras fundamentais de forma combinada e com objetivos recreacionais e esportivos. Nessa fase temos a aplicação das habilidades motoras fundamentais em formas mais específicas e complexas como andar em uma ponte de cordas, se equilibrar em uma prancha ou um jogo com bola. O objetivo dos educadores nessa fase deve ser o de ajudar as crianças a aumentar o controle motor e a competência motora nas mais variadas atividades. Deve-se tomar cuidado para que o educador não restrinja a criança em algumas habilidades e acabe desenvolvendo mais outras. Um enfoque restrito nessa fase de aprendizado pode causar efeitos indesejáveis nos últimos estágios da fase de movimentos especializados.
	O estágio de aplicação acontece entre os 11 e 13 anos e as crianças (agora adolescentes) já tem um papel ativo na decisão sobre o seu desenvolvimento motor. A avidez natural pela atividade física e pelo movimento da fase anterior já é substituída pela preferência do adolescente. Agora seu desenvolvimento físico e o ambiente em que está inserido vai ter outro significado e irá influenciar nas suas decisões sobre o que aprender ou não. Por exemplo, uma criança de 12 anos, com 1,80m de estatura, que gosta de atividades em equipe, gosta de jogos estratégicos, tenha boa coordenação e que viva em uma cidade dos EUA, pode facilmente escolher especializar-se em basquetebol. Outro adolescente com uma constituição parecida pode optar pelo atletismo. Nesse estágio, o adolescente irá optar por atividades nas quais ele obtenha mais satisfação e sucesso de forma que um auto-exame de forças e fraquezas, oportunidades e restrições pode limitar suas escolhas.
	O estágio de utilização permanente da fase especializada de desenvolvimento motor começa por volta dos 14 anos e continua por toda a fase adulta. O estágio de utilização permanente representa o auge do processo de desenvolvimento motor e é caracterizado pelo uso do repertório de movimentos adquiridos pelo indivíduo por toda a vida. Interesses e competências escolhidas na fase anterior são refinadas e aplicadas em outras oportunidades de desenvolvimento de habilidades motores e durante o cotidiano. Nesse estágio, o nível de participação de um indivíduo em certas atividades dependerá de talento, oportunidades, condições físicas, financeiras e motivação pessoal. O nível de desempenho permanente pode variar desde um atleta de “final de semana” até um medalhista olímpico. Em essência, esse estágio representa a culminação de todas as fases e estágios precedentes. Entretanto, deve ser visto como um processo que não tem um fim ao longo da vida. O aperfeiçoamento de uma ou mais habilidades desempenha um papel importante no desenvolvimento de um adolescente, porém deve-se tomar muito cuidado para esse desenvolvimento limiar o repertório de movimentos (“vocabulário motor”) daquele indivíduo.
Bibliografia Básica 
GALLAHUE, D. L.; OZMUN, J. C. Compreendendo o desenvolvimento motor: bebês, crianças, adolescentes e adultos. São Paulo: Phorte, 2005.
TANI, G. (ed). Comportamento motor: aprendizagem e desenvolvimento. Rio de Janeiro:Guanabara Koogan, 2005
SCHIMIDT, R. A. Aprendizagem e performance motora: dos princípios à prática. São Paulo: Movimento, 1993.
Bibliografia Complementar 
BARREIROS, J.; GODINHO, M.; MELO, F.; NETO, C. (eds). Desenvolvimento e aprendizagem:perspectivas cruzadas. Lisboa: FMH Eduções, 2004.
SCHIMIDT, R. A.; WRISBERG, C. A. Aprendizagem e performance motora: uma abordagem da aprendizagem baseada no problema. 2ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2001.
SHEPHARD, R. J. Envelhecimento, atividade física e saúde. São Paulo: Phorte, 2003.
MAGIL, R. A. Aprendizagem motora: Conceitos e aplicações. 5 ed. São Paulo: Editora Edgard Blücher, 2000.
GUEDES, G. Aprendizagem motora. Problemas e contextos. Lisboa: Edições FMH, 2001.

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