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Traumatismo crânio-encefálico Enf. Julia Garcia Especialista em Emergência 2006 Conceito & dados estatísticos Definição: qualquer agressão à cabeça do indíviduo, que acarrete em lesão anatômica ou comprometimento funcional isolada ou conjuntamente aos seguintes elementos: couro cabeludo, ossos cranianos, meninges, encéfalos ou nervos cranianos. Dados: altos índices de morbimortalidade (50% das mortes traumáticas são associadas ao TCE e mais de 60% dos mortos em acidentes automobilísticos são em decorrência ao TCE). A cada 15 segundos ocorre um TCE no mundo e a cada 5 minutos uma pessoa morre e uma fica com seqüela em decorrência do TCE! OLIVEIRA; PAROLIN; TEIRXEIRA JR.,2004; COIMBRA, et al, 2001. Etiologia Acidentes de trânsito, quedas, FAF, FAB e outros. OLIVEIRA; PAROLIN; TEIRXEIRA JR.,2004; COIMBRA, et al, 2001. Idade Acidentes de trânsito Quedas Outras causas 0 – 14anos 48% 40,8% 10,4% 15 – 29 anos 65,1% 14,8% 20,1% 30 – 59 anos 45,7% 29% 25,3% Acima de 60 anos 15% 65% 20% Etiologia Podem ser fechados: contusões; Podem ser penetrantes: FAF/FAB. Penetrante: FAB Penetrante: FAF Biomecânica: impactos Resulta de impacto direto contra o segmento encefálico ou da ação inerciais de aceleração e desaceleração, que agem sobre os mesmo, ou do somatório desses mecanismos. Impactos diretos: responsáveis pelas fraturas e lesões encefálicas focais. Impacto = lesão focal. OLIVEIRA; PAROLIN; TEIRXEIRA JR.,2004; COIMBRA, et al, 2001 Biomecânica: forças inerciais As forças de impacto quando acompanhadas de aceleração/desaceleração, propiciam deslocamentos do encéfalo dentro da caixa craniana, levando-se a se chocar e a se afastar da superfície ósseo irregular, interna, base do crânio, podendo causar hematomas e contusões. Aceleração/desaceleração: lesão difusa; Fenômenos de contato: golpe e contra golpe; OLIVEIRA; PAROLIN; TEIRXEIRA JR.,2004; COIMBRA, et al, 2001. Lesões Cranianas Encéfalo = cérebro + tronco encefálico + cerebelo Lesões primárias: decorrem da ação da força agressora direta e mecanismos inerciais (aceleração e desaceleração). 1. Lesões de couro cabeludo: - Com solução de continuidade: corto –contusos; lácero-contusos, perfuro-contusos, escalpelamento e avulsões. - Sem solução de continuidade: hematomas subcutâneos, subgaleal (bossa). OLIVEIRA; PAROLIN; TEIRXEIRA JR.,2004; COIMBRA, et al, 2001 2. Lesões ósseas: Fraturas lineares: são retilíneas, visualizadas apenas em Raio X; necessitam de observação rigorosa por 48 h, pelo risco de formação de hematoma extradural agudo. Fraturas com afundamento: quando ocorre desnivelamento ósseo, necessita de intervenção cirúrgica imediata. Sempre estão associadas a contusão parenquimatosa e/ou a lesões meníngeas. - Fratura de base de crânio: incidência de 7 a14%; - Evidências clínicas: fraturas visualizadas em tomografia; otorragia/rinorragia; otorréia/rinorréia (fístula liquórica); sinal de Guaxinim (hematoma periorbital), sinal de Battle (hematoma em processo mastóideo). Fratura múltiplas: associação de vária fraturas. OLIVEIRA; PAROLIN; TEIRXEIRA JR.,2004; COIMBRA, et al, 2001, ATLS. Lesões Cranianas Lesões secundárias: 3. Lesões encefálicas: 3.1. Lesão focal: dependem da natureza, direção e intensidade do impacto – produzindo hemorragias: extradural; subdural ou intraparenquimatosa. Elas podem surgir isoladas ou associadas a lesões difusas. Incluem os hematomas epidurais, subdurais e intraparenquiamtosos. A. Hematomas subdurais pós-traumaticos: 15% dos TCE graves; lesão é causada por alto impacto (movimento de aceleração e desaceleração); associados a lesão intraparenquimatosa das quais resultam em numerosas hemorragias formando o hematoma; - Tipos: Agudo ( < 72h); subagudo ( entre o 3º e 4º dia) e crônico (após 3º semana); - Os hematomas agudos são os de piores prognósticos: - Fatores de prognóstico: idade (mortalidade maior em idosos); tamanho do hematoma; tempo do trauma X cirurgia (cirurgia em menos de 4 h reduzem a morte em 25 % dos casos); lesões associadas; injúria secundária (hipoxemia e isquemia cerebral) e hipertensão intracraniana; -Tratamento: intervenção cirúrgica. OLIVEIRA; PAROLIN; TEIRXEIRA JR.,2004; COIMBRA, et al, 2001, ATLS. Hematomas subdural Forma: crescente Não ultrapassa a foice Ultrapassa suturas B. Hematoma extradural agudo: melhor prognóstico, porém evolui, em geral, rapidamente, sendo necessário intervir. É menos freqüente que o subdural; - Localiza-se entre a tábua óssea e a dura-máter – ruptura da artéria meníngea média, região temporal ou têmporo-parietal; - Apresentação clássica: 50% pacientes – perda momentânea de consciência logo após o trauma, seguida por intervalo lúcido de algumas horas e se não reconhecido a tempo, inconsciência e morte; cefaléia e vômito; hemiparesia contralateral e midríase homolateral ao hematoma; - Tratamento: cirúrgico, porém, se hemorragias menores que 15 a 30 cm3, pode ser feito o tratamento conservador. OLIVEIRA; PAROLIN; TEIRXEIRA JR.,2004; COIMBRA, et al, 2001, ATLS. Hematomas extradural: Forma: lente biconvexa Não ultrapassa suturas Lesões Cranianas C. Contusões cerebrais ou hematomas intraparenquiamtosos: - Constitui-se por lesões necróticas-hemorrágicas do parênquima cerebral, conseqüente aos locais de impacto, ou se manifestam no pólo-oposto ao local do impacto; - Quase sempre acompanhadas de hematomas subdurais; - Acometem principalmente o lobo frontal e temporal; - Podem em um períodos de horas a dias, expandir ou coalescer na forma de um hematoma intracerebral; - Craniotomia com aspiração do hematoma. OLIVEIRA; PAROLIN; TEIRXEIRA JR.,2004; COIMBRA, et al, 2001, ATLS. Lesões Cranianas 3.2. Lesões difusas: são conseqüentes a forças de aceleração e desaceleração,provocando uma interrupção das funções cerebrais temporariamente ou permanentemente. A. Concussão: 1. Leve: apresenta consciência preservada, com pequena disfunção neurológica (confusão, desorientação). Sem amnésia pós-traumática. Totalmente reversível. 2. Clássica: perda de consciência com período superior a 5 min, sendo que é transitória e reversível com recuperação completa até 6 h. Após o trauma, ocorre amnésia retrógrada (amnésia para eventos anteriores) e pós-traumática (durante o trauma).Pode não apresentar seqüela ou então ter algum déficit relacionado a memória, tontura e náuseas (síndrome pós concussão). OLIVEIRA; PAROLIN; TEIRXEIRA JR.,2004; COIMBRA, et al, 2001, ATLS. Lesões Cranianas B. Lesão axonal difusa: fragmentação dos axônios em vários níveis do SNC, ocorre perda imediata da consciência conseqüente ao trauma com duração variável. Os pacientes apresentam-se comatosos e permanecem assim por um bom período. 1. Leve: perda de consciência com duração entre 6 – 24h; alternância na resposta motora; 2. Moderada: coma com duração > 24 h; atinge 45% dos pacientes; sinais de disfunção tronco-encefálica pouco freqüentes ; alternância na resposta motora; 3. Grave: coma > 24 h; taxa de mortalidade de 50%; sinal de disfunção tronco-encefálica muito freqüentes (descerebração/decorticação) ; fenômenos autonômicos (HAS, taquicardia, hiper-hidrose, hipertermia e hipersecreção pulmonar). - Tratamento: monitorização da PIC; diuréticos osmóticos; sedação, hiperventilação intermitente. OLIVEIRA; PAROLIN; TEIRXEIRA JR.,2004; COIMBRA, et al, 2001, ATLS. Lesão axonal difusa Sinais Clínicos Lesões aparentes no couro cabeludo, com ou sem exposição óssea e de tecido; Náusea, vômito, tontura; Alteração na fala, déficit sensitivo e motor; Perda de memória momentânea; Presença de hematoma periorbital, retroauricular, otorragia/otorréia e rinorragia/rinorréia. Alteração dos sinais vitais: hipertensão e bradicardia –indicam aumento da pressão intracraniana. Alteração do nível de consciência: que vai desde leve confusão a rebaixamento total. Alteração no diâmetro pupilar e fotorreação. OLIVEIRA; PAROLIN; TEIRXEIRA JR.,2004; COIMBRA, et al, 2001, ATLS. Avaliaçãodo paciente com TCE Medidas iniciais fundamentais: Jamais protele medidas gerais aguardando especialistas!! A: Vias aéreas pérveas, com colocação de colar cervical e prancha rígida. - Forneça oxigênio a 100%, se necessário realize intubação (exceto em pacientes com fratura de base de crânio); B: Ventilação: hiperventile o paciente, mantendo sempre PCo2 em 30 e 35; C: Circulação: suporte hemodinâmico, principalmente nos casos de choque hipovolêmico; corrigir hipotensão, hipoxemia; D: Nível de consciência: verifique através da Escala de Coma de Glasgow; E: Proteja o paciente da perda de calor, aquecendo –o. OLIVEIRA; PAROLIN; TEIRXEIRA JR.,2004; COIMBRA, et al, 2001, ATLS. Anamnese e Exame físico: Anamnese: tipo e natureza do acidente; tempo decorrido entre o trauma e o atendimento; perda de consciência ( no local ou no transporte); cefaléias, vômitos, crises convulsivas, alterações sensórios motoras,ingestão de bebidas alcoólicas. Exame físico: - Dados vitais; exame tóroco-abdominal - membros (associação de fraturas); Segmento cefálico: - explorar ferimentos penetrantes no couro cabeludo (afundamento, fx e perda de massa encefálica); Localização de hematomas subcutâneo e subgaleal; equimoses/hematomas em região mastóidea; periorbital; Sangramento nasal e auricular, perda de líquido cefalorraquidiano (LCR) – “teste do duplo anel”; Exame neurológico: escala de coma de glasgow; diâmetro pupilar e reatividade; função motora; sinal de Babinski e nível sensitivo (lesão raquimedular). OLIVEIRA; PAROLIN; TEIRXEIRA JR.,2004; COIMBRA, et al, 2001, ATLS. Escala de coma de glasgow Criada em 1974 por Teasdale e Jennett, avalia o nível de consciência através da somatória de pontos obtidos nas respostas motora, verbal e ocular. A melhor resposta é 15 e a menor respostas e 03. Abertura Ocular Resposta Verbal Resposta motora Espontânea - 4 -Estímulo verbal – 3 -Estímulo doloroso -2 -Nenhum – 1 - Orientado – 5 - Confuso – 4 - Palavras inapropriadas – 3 - Sons- 2 - Nenhum -1 Obedece aos comandos - 6 -Localiza dor -5 -Flexão normal – 4 - Flexão anormal – 3 Extensão – 2 Nenhum -1 Terminologia comum Alerta:ativo, responde aos estímulos; Vigília: dorme mais, desperta confuso, mas orienta-se em seguida; Letárgico: sonolento o tempo todo, obedece a comandos simples; Torporoso: difícil desperta, obedece mal a comandos simples, palavras isoladas e confusas; Comatoso: não responde ou responde com descebração ou decorticação. * decorticação *: flexão de braços, punhos e dedos com adução dom membros superiores e extensão, rotação interna e flexão plantar de membros inferiores. * descebração *: epistótono com dentes cerrados, os baços estendidos e rígidos, aduzidos e hiperpronados e os membros inferiores estendidos e rígidos, com flexão plantar. Significado: deteriorização cerebral e lesão grave em tronco encefálico. OLIVEIRA; PAROLIN; TEIRXEIRA JR.,2004; COIMBRA, et al, 2001, ATLS. Pupilas Avaliar: fotorreatividade e diâmetro pupilar. Diâmetro pupilar: mióticas (> 2mm); médias (entre 3 e 5 mm) e midríase (> que 6 mm). As pupilas podem estar isocóricas (mesmo tamanho) ou anisocóricas (tamanho diferente); Fotorreatividade: incidir um flash de luz e observar abertura e fechamento da pupila – isofotorreagentes (ambas reagem a luz) e anisofotorreagentes (uma não reage a luz). As pupilas são parâmetros importantes, elas mostram não somente a deteriorização do estado neurológico,mas também a localização deste! OLIVEIRA; PAROLIN; TEIRXEIRA JR.,2004; COIMBRA, et al, 2001, ATLS. Classificação TCE X tratamento TCE LEVE: 13 a 15 TCE MODERADO: 9 A 12 TCE GRAVE < QUE 8 TCE Leve: pacientes acordados com amnésias pós-traumática, ou confusos por uso de bebida alcoólica. Conduta TC de crânio; mantido em observação hospitalar durante 12 a 24 h. Na vigência de parentes, aguardar por 6 h e ir de alta para casa, orientado a família trazer ao hospital em caso de vômitos, náuseas, confusão mental e cefaléias. TCE Moderado:confuso, sonolento, obedece a comandos simples; TC crânio. Internar o paciente e observar por 24 h, acompanhar quadro clinico com TC crânio. Se melhora, alta para casa. Cerca de 10 a20% dos pacientes evoluem com piora, e devem ser tratados como TCE grave. TCE Grave: não é capaz de obedecer a ordens simples. Realizar ABC do trauma, avaliar constantemente o glasgow, encaminhar para tratamento cirúrgico. OLIVEIRA; PAROLIN; TEIRXEIRA JR.,2004; COIMBRA, et al, 2001, ATLS. Exames de imagem e laboratoriais Imagem:Tomografia axial computadorizada; Raio X simples F + P: coluna cervical; tórax e quadril; Laboratoriais: HMG completo; N+, K+ U, Cr, glicemia, dosagem de tóxicos e alcoolemia, urina I. OLIVEIRA; PAROLIN; TEIRXEIRA JR.,2004; COIMBRA, et al, 2001, ATLS. Pressão intracraniana (PIC) PIC normal em adultos: 10 mmHg, maior que 20 mmHg são consideradas como anormais e > que 40 mmHg são as graves. Diversos fatores podem modificar a PIC, incluindo um TCE, quanto maior a PIC, pior o prognóstico do paciente. PIC elevada = hipertensão intracraniana = herniação cerebral. Doutrina de Monro – Kellie: volume total do conteúdo intracraniano deve permanecer constante, esse é a somatória da massa encefálica, volume sangüíneo e líquido cefálo-raquidiano (LCR); Se a massa encefálica edemacia, o valor da PIC aumente, sendo necessário escoar LCR e o sangue, para tentar estabelecer novamente a PIC. Quanto maior o edema maior o escoamento, até um ponto, em que há diminuição do fluxo sangüíneo cerebral levando a hipoxemia e isquemia cerebral. PIC: instala-se um cateter subaracnóideo ou interventricular. OLIVEIRA; PAROLIN; TEIRXEIRA JR.,2004; COIMBRA, et al, 2001, ATLS ;CINTRA; NISHIDE; NUNES,2005. Pressão de perfusão cerebral PPC = Pressão Arterial Média (PAM) – PIC PPC deve ficar constante também, assim quando há aumento da PIC devemos manter a PAM baixa e vice –versa. Pressões inferiores a 710 mmHg já indicam prognóstico desfavorável; Fluxo sangüíneo cerebral (FSC) normal é em torno de 50 ml/100g de cérebro/minuto, valores entre 20e 25 mmHg fazem com que a atividade cerebral desapareça (hipoxemia e isquemia cerebra)l. Para manter um nível de FSC adequado a PAM deve estar entre 50 e 160 mmHg; OLIVEIRA; PAROLIN; TEIRXEIRA JR.,2004; COIMBRA, et al, 2001, ATLS; CINTRA; NISHIDE; NUNES,2005. Assistência de enfermagem Priorizar ABC do trauma: - Lembrar que: pacientes com sinais de fratura de base de crânio é proibida a passagem de sonda nasogástrica e intubação orotraqueal/nasotraqueal; - Decúbito de 45º: auxilia no escoamento do líquor, diminuindo a PIC (exceto em pacientes portadores de TRM); - Atentar a alteração do nível de consciência; reatividade e tamanho de pupilas; - Atentar a sinais de instabilidade hemodinâmica: hipertensão arterial e bradicardia indicam PIC; pacientes hipotensos pode haver sangramento associado; - Atentar a hiperglicemia e hipertermia: acarretam em aumento do metabolismo cerebral e conseqüentemente o aumento da PIC ; - Não deixar o paciente hipoglicêmico (baixo substrato de energia cerebral) e hiportérmico (diminuição da atividade cerebral); - Aspirar com cuidado o conteúdo traqueal em pacientes com fx de base de crânio, não fazer nasotraqueal; - Observar diurese – excesso indica diabetes insipidus (diurese clara e abundante). Assistência de enfermagem Medicamentos: 1. Soro de reposição com eletrólitos (não hipo/hipernatremia, hipo/hipercalemia); 2. Manitol EV: diurético osmótico – reduz a PIC; 3. Decadron EV: AIE – auxilia na redução do edema, da vasodilatação e da liberação de mediadores químicos; 4. Sedação: diazepan, dormonid - diminuição da atividade cerebral; 5. Amplictil, carmabazepina: anticonvulsivantes; 6. Anti-emético e analgésico; 7. Glicemia de capilar de horário - com controle da glicemia através de insulina.