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Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Instituto de Psicologia
Um estudo de caso sobre conflitos do complexo paterno
Guilherme Machado Jahn
Porto Alegre, 2013
Introdução
A psicologia do inconsciente descortinou processos riquíssimos da psique subjacentes àquilo que se manifesta explicitamente. Basicamente, as manifestações da psique foram divididas entre aquelas da consciência e aquelas cujas raízes brotam de uma camada mais profunda, o inconsciente. Em relação ao inconsciente, Jung ressalta um estrato da psique que chamou de inconsciente profundo, ou inconsciente coletivo, subjacente ao inconsciente pessoal. Cada uma dessas camadas da psique carrega suas características peculiares, de forma que abordar psicologicamente um tema requer do observador um posicionamento: sobre qual camada da psique estamos avaliando o objeto de estudo?
O tema da paternidade, por exemplo, pode ser entendido em sua fenomenologia consciente ou inconsciente. Sendo este último o caso, ainda se poderia entendê-lo em suas características à nível de inconsciente pessoal ou de inconsciente coletivo. Se tratarmos o tema levando-se em conta o inconsciente coletivo, teríamos um determinado leque de possibilidades à vista, e a paternidade seria avaliada em seu nível profundo – o nível dos arquétipos. Já abordar o tema da paternidade sob o prisma do inconsciente pessoal, ou seja, onde a paternidade existe como um complexo, envolve outros termos, outros entendimentos e permite ao observador outros olhares. 
Inconsciente coletivo e pessoal, arquétipo e complexo
Jung diferencia o inconsciente entre uma camada coletiva e impessoal e uma camada pessoal. Em A Natureza da Psique (2000), Jung esclarece que o inconsciente coletivo ou impessoal é composto de imagens "primordiais" ou "arquétipos", que não podem ser explicadas como aquisições pessoais reprimidas. O inconsciente coletivo é "uma parte da psique que pode distinguir-se de um inconsciente pessoal pelo fato de que não deve sua existência à experiência pessoal, não sendo, portanto, uma aquisição pessoal" (Jung, 2011a, p.51). Jung também diz que "os conteúdos do inconsciente coletivo nunca estiveram na consciência e, portanto não foram adquiridos individualmente, mas devem sua existência apenas à hereditariedade" e arremata que "o conteúdo do inconsciente coletivo é constituído essencialmente de arquétipos" (Jung, 2011a, p. 51).
No texto "Sobre os arquétipos do inconsciente coletivo" (Jung, 2011b), Jung diz que os arquétipos são imagens primordiais, arcaicas, que existem desde os tempos mais remotos e em O eu e o inconsciente (2008a, p.13) esclarece que o arquétipo "não se trata de ideias inatas, mas de caminhos virtuais herdados".
Para Jung (2011a, p.57)
Há tantos arquétipos quantas situações típicas de vida. Intermináveis repetições imprimiram essas experiências na constituição psíquica, não sob a forma de imagens preenchidas de um conteúdo, mas precipuamente apenas formas sem conteúdo, representando a mera possibilidade de um determinado tipo de percepção e ação. 
Assim, pode-se pensar que no inconsciente coletivo há o arquétipo paterno, ou seja, aquele "caminho virtual herdado", uma "forma sem conteúdo" que baliza a experiência humana de paternidade. É o leque de possibilidades adquirido pela humanidade, que impulsiona o indivíduo a uma ação em relação à paternidade. 
Ledbetter (1998) aponta que os pais são heróis para os filhos, provedores, modelos de controle físico e emocional, coragem, enfim, seu “primeiro modelo de iniciativa masculina” (p.52). É claro, estamos falando da fantasia do filho sobre o pai, e não da objetividade dos fatos - em crianças pequenas essa fantasia é bastante perceptível. Em alguns casos as crianças pintam com as cores da alegria e da nobreza o mesmo pai que os maltrata. Ledbetter (1998) menciona a importância dessa fantasia na infância, mais especificamente antes da adolescência, quando os pais representam a figura de um melhor amigo, de um companheiro, de um herói infalível. 
Mais que uma fantasia, podemos pensar que o pai como um herói é um arquétipo da paternidade. É uma forma virtual herdada, que condensa ao seu redor todos os conteúdos (pessoais) que um filho adquire sobre o tema da paternidade. Em outras palavras, os conteúdos pessoais são abrigados sob a égide de um pai herói e idealizado – em torno do arquétipo. Ledbetter (1998) esclarece que essa visão idealizada dos pais como heróis – ou do “homem bem-sucedido que ele [o filho] poderá vir a ser” – que os filhos conquistam uma segurança imprescindível no decorrer do seu desenvolvimento psíquico e de sua identidade. Sua função é prospectiva. Pensar o pai herói como um arquétipo permite entender o que sustenta a discrepância entre o pai herói da fantasia e o pai falível da realidade consensual - as bases dessa fantasia estão no inconsciente profundo, não obstante a vida pessoal da criança. Por isso muitos pais podem ser qualificados como "péssimos", enquanto sob os olhos dos filhos - com o "enxerto" arquetípico - ele se mantém "herói". 
Mas não necessariamente a psique de um filho elabora o tema da paternidade em torno do arquétipo paterno como um herói. Murray Stein (1998) apresenta os deuses Uranos, Kronos e Zeus como figuras paternas devoradoras. Cada um desses deuses representa um aspecto do arquétipo paterno, mas sob uma forma negativa. Aliás, essa perspectiva do arquétipo paterno como um deus devorador em contraposição ao pai-herói nos permite refletir sobre a riqueza do arquétipo como um caminho virtual herdado e não como uma herança humana literal. O pai como herói e o pai devorador diferem em suas características, mas ambos falam sobre a paternidade e as formas de ser pai. Da mesma forma, o arquétipo paterno como herói tem sempre uma mesma forma - o pai mantenedor, infalível, conquistador - mas com conteúdos que variam conforme o tempo e espaço. Na nossa sociedade, um pai herói pode ser um grande empresário, aquele "cara que venceu na vida", ou um pai que faz incontáveis sacrifícios para que os filhos tenham “uma condição melhor”. Em outras sociedades, um pai herói pode ser um exímio caçador ou o guerreiro mais forte da aldeia. Ambos são pais heróis, através de conteúdos contextuais diferentes. Mesma forma, conteúdos diferentes.
Dito isto, uma discriminação importante deve ser feita. Se quando falamos de formas estamos falando de arquétipos e do inconsciente coletivo, quando tratamos de conteúdos estamos no campo dos complexos e do inconsciente pessoal. Um complexo, conforme Jung (2000, p.20), é uma “imagem de uma determinada situação psíquica de forte carga emocional e, além disso, incompatível com a disposição ou atitude habitual da consciência”. O complexo possui “poderosa coerência interior”, “totalidade própria” e “goza de um grau relativamente elevado de autonomia” (Jung, 2000, p.20). 
Os complexos, portanto, fogem a um total controle da consciência e, embora possam ser reprimidos, retornam quando há uma ocasião favorável (será que os complexos não criam essas “ocasiões favoráveis”?) com toda sua força, conforme a explicação do próprio Jung (2000). Ele ainda diz que muitos sabem que “temos complexos”, mas poucos reconhecem que os complexos podem nos ter. Com as experiências de associações de palavras, Jung chegou ao entendimento de que os complexos perturbam o estado e consciência e seus apanágios, como a vontade e a memória. Como decorrência da atividade de um complexo sobre a consciência, vive-se “por algum tempo num estado de não-liberdade, de pensamentos obsessivos e ações compulsivas” (Jung, 2000, p.19). 
O que leva um complexo a manifestar-se em sua autonomia? Jung (2000) esclarece que o complexo se personifica quando reprimido por uma consciência inibidora. Rafael López-Pedraza (2011) resume o complexo como “um pedaço de uma vida vivido de modo traumático ou não vivido” (p.13), e esclarece que “o complexo envolve uma emoção histórica – ou seja, um pedaço da história do paciente que é predominante em sua psique” (p.21). De fato, Jung (2000, p.21) afirmaque os complexos são “aspectos parciais da psique dissociados” e aponta – importantíssimo – que a origem de um complexo assim dissociado pode ser, muitas vezes, “um trauma, um choque emocional, ou coisa semelhante, que arrancou fora um pedaço da psique”. Além disso, Jung menciona que uma das causas mais frequentes é um “conflito moral”, difícil de ser integrado à personalidade. 
Um caso clínico
Há alguns meses atrás, recebi no consultório uma mãe e seu filho, H., que tinha oito anos quando encaminhado pela escola com a queixa de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). O menino e sua mãe entraram no consultório e sentaram na poltrona dupla à minha frente. Perguntei à mãe o que a levou ao serviço de psicologia, e ela disparou o diagnóstico de TDAH, dado pelas professoras da escola onde o menino estuda. H., acanhado, sentou à esquerda da mãe, e tinha ao seu outro lado uma prateleira repleta de brinquedos, convidativos a qualquer criança de oito anos. Olhou com vontade os brinquedos, mas não se atreveu a tocá-los. Aliás, não se atreveu a dizer nada, enquanto a mãe falou compulsivamente tudo o que estava acontecendo em suas vidas.
Eis o caso. H. morava com a mãe, uma irmã, uma prima e seu padrasto. Aos fundos da casa, morava avó e outros dois primos. Seu padrasto, figura importante de identificação masculina para o menino, era envolvido com o tráfico de drogas. Certo dia, todos jantavam à mesa quando, de repente, invadiram a casa e atiraram no rosto do padrasto, executando-o na frente de todos. Não sabiam dizer nem quem foi e nem o motivo pelo qual entraram na casa e executaram o padrasto. H. narrou a cena, em detalhes, mas parecia não haver afeto em sua fala. Em algumas sessões, narrou como escutava os passos em volta da casa, dias antes da execução de seu padrasto. Pela fechadura, via pessoas mexendo no portão de sua casa, durante a madrugada. A sensação de ser espreitado ficou fortemente marcada para o menino. Segundo a mãe, o assassinato ocorreu quando H. tinha seis anos. Depois do trauma, H. chorava e tinha medo de armas, policiais e tudo o que remetesse ao tema. Em determinada sessão, disse que, alguns dias depois de presenciar o assassinato de seu padrasto, H. teve muito medo ao ver uma viatura policial na rua. Saiu correndo, com medo de ser preso, ou de que prendessem a sua mãe. 
Um mês antes da sua primeira sessão - em abril de 2013 - o pai biológico de H., que ele não conhecia – nem mesmo sabia que existia esse pai biológico - reatou o relacionamento com sua mãe. Ele não sabia que seu padrasto era padrasto, e que tinha um pai biológico. Até então, seu padrasto era o seu pai. O pai biológico começou a frequentar a casa da família, diariamente. Durante algum tempo, levou guloseimas e almoçava com a família. Demorou um tempo para contar que era seu pai para o menino. Quando contou, não explicou porque esteve afastado, mas se esforçou por respeitar o receio com que o menino lhe recebia na casa. H. não falava muito com ele, parecia temer, ou estar envergonhado, conforme as palavras da mãe. 
Nesta época, em que o pai biológico retornou à casa, H. passou a chupar o dedo, ficava em posição fetal, falava como um “nenezinho” – palavras do pai biológico -, e tinha medo de dormir sozinho. Adentrava ao quarto dos pais na madrugada, com medo de alguma coisa, dos barulhos na janela. Era como se estivesse retomando aquela fase da primeira infância, como se precisasse resgatar aquela etapa de vida sob o olhar do pai biológico. Nessa mesma época surgiram os “sintomas de TDAH”. O menino não prestava atenção nas aulas, aliás, a atenção era volátil: mudava de objeto o tempo todo. Se estava jogando videogame, interrompia a atividade em meio do caminho e ia fazer outra coisa. Foi isso que os professores tomaram como um sintoma de TDAH mas que ao meu ver ilustra bem o que Jung falava dos complexos em sua autonomia. A atividade de um complexo irrompe à consciência do menino, sua concentração na atividade em que se envolvia é abalada e surge a exigência de se fazer outra coisa. A capacidade egóica de concentração fica em xeque. Sua consciência navegava – ou era navegada – por outros mares. Tentei relevar com a sua mãe que o que se passava não era TDAH, mas efeitos do trauma sofrido. Não era o que a mãe queria ouvir.
Durante os primeiros meses de sessão, eu percebia uma grande dificuldade do menino em adaptar-se à nova realidade que se impunha em sua vida. A morte brutal do padrasto e o aparecimento do pai biológico pareciam não terem sido digeridas, mas fermentavam em seu íntimo. 
O padrasto e o pai eram, sobretudo, um o negativo do outro. Se o padrasto era descompromissado com horários e com a higiene da casa, não cobrava comprometimento dos filhos com a escola e seus afazeres, o pai fazia a linha dura, organizando a agenda, os compromissos familiares, a estrutura da casa. Ele cobrava os temas de casa das crianças e a organização visual dos cadernos. A presença do pai contribuiu muito com a família nestes termos. Alguma vez o pai desabafou comigo sobre o quanto estava difícil mudar toda uma forma de funcionamento familiar legada pelo padrasto. Segundo o pai, tudo era uma bagunça e toda a organização dependia dele mesmo.
 A polaridade entre as figuras paternas era evidente e o olhar[footnoteRef:1] do menino acusava a dificuldade de contemporizar as discrepâncias. A conjunção dos “aspectos parciais da psique dissociados” – supracitado de Jung – ou a harmonia entre os aspectos representados por ambos, padrasto e pai, era uma necessidade psíquica, já que para a fragilidade de sua consciência a diferença entre ambos não servia a um equilíbrio psíquico, mas surgia como contradição de um conflito pernicioso. [1: Rafael López-Pedraza, em sua obra As emoções no Processo Terapêutico (Editora Vozes, 2010), aborda de maneira muito breve a importância de se perceber as emoções através da expressão facial que, conforme o autor, muitas vezes se dá por meio do olhar. ] 
Em muitas sessões, H. brincava com carrinhos, que andavam em direção opostas, se chocavam, pegavam fogo e um dos motoristas sobrevivia, o outro morria. Muitas vezes a brincadeira era com uma moto e um carro, elementos que apareceram na caixa de areia, cujo material será explorado mais adiante no texto. A brincadeira ganhou corpo aos poucos. O carro dos acidentes passou a ser o carro do policial e a moto do bandido. Ele gostava muito da moto, queria comprar uma como aquela quando adulto. Então me contou que seu padrasto tinha uma moto. 
Com o tempo, H. contou que seu pai, um taxista atualmente, é um policial aposentado, o que me ajudou a repensar muitos elementos que ele houvera trazido na terapia: o medo dos policiais após o assassinato do seu padrasto ou as brincadeiras com o carro da polícia e a moto do bandido, entre as quais o policial aborda o bandido e o prende. Os conflitos do complexo paterno pareciam se delinear. Talvez fosse isso o que a criança estivesse sentindo: que seu pai, como o policial na brincadeira que prendia o bandido, estivesse prendendo algo do complexo paterno nutrido pelo padrasto. O conflito entre dois aspectos do complexo paterno era marcadamente um conflito moral que, conforme o esclarecimento de Jung, é frequentemente causa de uma dissociação psíquica, de difícil integração à consciência. Havia um bandido e um policial, ou seja, figuras coletivas com valores opostos uma frente à outra. O pai de H., importante como um modelo masculino disponível ao filho, encorpava esse conflito moral, pois repetidas vezes valorava negativamente tudo que fosse associado ao padrasto do menino. “Vagabundo”, “malandro”, “um cara não muito legal”, “pessoal lá de cima” (do morro) são adjetivações o pai relacionava ao padrasto. A questão era profunda. H. identificava-se com o padrasto: guardava embaixo de sua cama um baú com as roupas e o perfume do padrasto, que ele dizia que iria usar quando crescesse. Era a sua representação de um masculino adulto. Mas quando o pai valorava negativamente aquela parcela de identificação paterna do menino– o padrasto – era como se dissesse que tudo aquilo que H. aprendeu, todas aquelas identificações colhidas na sua relação com o padrasto, não prestavam, eram ruins, erradas. Embora depois de quase oito meses de terapia a psique de H. parecesse contemporizar melhor a situação e se adaptar ao estilo de vida do pai, lá no “fundo do baú” queria parecer-se com o padrasto. 
Por sinal, querer parecer-se com o padrasto lembra o entendimento de Ledbetter sobre a importância do arquétipo paterno como herói e o que ele oferece ao filho: o “homem bem-sucedido que ele [o filho] poderá vir a ser”. Seu pai, embora fosse o negativo do padrasto, também era um pai herói. Se um realizava-se através das batalhas do tráfico, das adversidades e dos benefícios que o tráfico pode oferecer, o outro realizava-se também por mil esforços em favor daquilo que julgava ser o bem-estar de sua família, através das batalhas do trabalho noturno como taxista ou nas batalhas que viveu como policial. Mas o conflito não se dava no nível do arquétipo, e sim do complexo. Não eram as formas que estavam em conflito: ambos, padrasto e pai, ofereciam um modelo heroico representativo do mundo masculino, cada um a seu modo, um como bandido e outro como policial. Esse entendimento é bastante importante, pois ilustra a neutralidade moral do arquétipo. O arquétipo, como forma, não é em si bom ou mau. É neutro. Em contrapartida, os conteúdos com que os arquétipos são preenchidos podem estar ou não de acordo com as expectativas sociais e resultar em um conflito moral, sobretudo se houver aspectos em oposição (policial versus bandido, por exemplo) servindo de parâmetro um para o outro, mas sem possibilidade de conciliação. 
Na sua obra A Energia Psíquica, Jung (2008b) esclarece que os opostos são extremamente necessários para o bom funcionamento da psique, desde que permaneçam unidos. Quando funcionam dessa forma, os pares de opostos servem de contraimpulso um para o outro, permitindo à psique um funcionamento equilibrado que evita os excessos de um comportamento unilateral. Mas quando os opostos tendem à anular um ao outro, dá-se a condição para a neurose, pois impulso e contraimpulso não trabalham mais de forma equilibrada em favor do movimento psíquico. A “depreciação gradual dos opostos”, nas palavras de Jung (2008b, p.42), faz com que a energia psíquica escoe para conteúdos do inconsciente que passam a perturbar o fluxo da consciência. Esse processo é uma medida da psique cujo objetivo é superar a estagnação psíquica, recuperando o movimento. Para isso, a psique lança mão de conteúdos inconscientes, que até então não tinham sido levados em conta no processo consciente de adaptação do indivíduo à vida. Justamente pelo fato dos recursos habituais da consciência do indivíduo não serem mais suficientes para a sua adaptação é que a psique alimenta conteúdos do inconsciente, com o fito de que se retome o movimento psíquico. 
Dentro desse conflituoso complexo paterno, surgiu durante as sessões uma figura psíquica muito importante para H. Diversas vezes, o menino mencionou um tio seu, de quem gostava muito. Esse tio era atencioso, levava os sobrinhos para passear, para as pracinhas e para os cinemas, e também para comer cachorro-quente. Dentre as coisas que H. mais gostava no seu tio era que ele o levava para brincar com as máquinas. Seu tio trabalhava com máquinas de obra, como escavadeiras e caminhões. Entendo o surgimento dessa imagem do tio na terapia como um importante símbolo da psique, indicando elementos importantes para H. naquele momento de sua vida: uma atenção que alimentava os mimos infantis de sua alma e a robustez das máquinas que transportavam e ajudavam na construção de obras.
Imagens da terapia na caixa de areia
O sandplay ou terapia na caixa de areia é um dispositivo terapêutico que trabalha em um nível pré-verbal da psique. O sandplay permite ao paciente uma representação tridimensional de seu mundo inconsciente e tem como postulado básico a capacidade autônoma da psique se curar sozinha, desde que em condições propicias, que a terapia na caixa de areia busca oferecer (Weinrib, 1993). Em seu texto sobre a terapia de casal e a utilização de caixa de areia, Boechat (2005) menciona que o sandplay permite mobilizar símbolos do inconsciente que possam ser visualizados pela consciência, cujo diálogo tem finalidades curativas para o indivíduo. 
A terapia na caixa de areia foi criada por Dora Kalff, uma analista de Zurique contemporânea de Jung e seguidora de sua teoria. A terapia é feita com uma caixa cujas medidas são de 72cm x 57cm x 7cm, cheia até a metade com areia e acompanhada por uma série de miniaturas e objetos diversos para se montar uma cena. Possui as bordas internas e o fundo azul, de forma que represente a água quando exposto. A medida específica da caixa se aproxima do campo visual humano, o que dá continência ao conteúdo exposto, já que pode ser inteiramente observado pelo olhar e pela consciência, evitando-se o transbordamento do ego (Boechat, 2005). Para Dora Kalff (apud Boechat, 2005, p.62), o sandplay permite uma regressão da libido ao Self, que propicia, através dos símbolos do inconsciente, uma melhor estruturação do ego para o paciente. Além disso, não é necessária uma interpretação dos símbolos para expô-los ao paciente: o entendimento que o terapeuta tem da cena exposta na caixa de areia promove uma atmosfera de confiança entre analista e paciente, que exerce uma influência curativa (Dora Kalff, apud Boechat, 2005,p.62).
Durante as sessões, a caixa de areia foi valioso instrumento terapêutico, e pude sentir junto ao menino a intensidade dos elementos trazidos à consciência. Gostaria de compartilhar algumas imagens de seu processo na caixa de areia. Para uma melhor exposição das imagens, colocarei a data da sessão em que a caixa foi montada, a imagem da caixa e algumas considerações.
Cenário 1 – 12 de Abril de 2013
Esse foi o primeiro cenário montado por H., na sua primeira sessão. Segundo ele, esse cenário era um zoológico cuidado por um policial, que não permitia que maltratassem os bichinhos: quem os maltratasse, seria preso. O cenário começou a ser montado pelos bichinhos de madeira, que são todos da mesma cor e largura, diferindo somente na silhueta. Parecem elementos estáticos e confusos, que sujam o campo de visão do policial. Já os outros elementos são diferenciados pela sua cor, formato e textura peculiares. Temos o policial, a girafa, um cachorro, uma porquinha rosa e um peixinho amarelo fora d’água, primeiro elemento a ser colocado após os bichinhos de madeira. Além disso, uma ovelha azul cabisbaixa, bem no centro, que parece estar voltando pra casa, sendo que esta foi o último elemento a ser colocado na caixa.
Não obstante a paisagem morta composta pelas sombras de madeira, um sentindo pode-se extrair dos seguintes elementos da caixa: uma ovelha que volta cabisbaixa para a casa, um policial que cuida para que não maltratem os animais e um peixinho fora d’água. É assim que H. parecia estar naquele momento: um peixinho fora d’água, confuso, embora protegido, com o retorno do pai à sua casa.
Cenário 2 – 17 de Abril de 2013
Nesse cenário, outros aspectos do complexo paterno, já referidos, aparecem. No campo inferior, da esquerda para a direita parece haver movimento, ou melhor, uma tentativa de movimento. Um homem impede a passagem de bois, e é auxiliado por seu cavalo cinza. Mais adiante, à direita, há uma máquina que tenta resgatar um carro e uma moto atolados. Um pouco mais adiante, uma vaca e um cachorro aparecem engaiolados nas paredes laranja. Em outras brincadeiras, H. associou a moto ao bandido e o carro ao policial. O guindaste, como uma máquina que tenta desatolar o carro e a moto, remete-me em associação ao tio de H., e parece indicar que os aspectos apontados pelo menino sobre o seu tio são aqueles que podem recuperar o movimento dos elementos atolados. 
Em relação aos animais, é interessante que alguns são impedidos de passar pela zona do atoleiro, e os que estão mais adiante parecem tersido engaiolados. A impressão dessa cena é que os recursos psíquicos se concentram nos elementos atolados: é necessário que se libere o caminho para que o movimento se restaure. Por fim, a porquinha do primeiro cenário parece ter se movimentado nesta segunda cena e, do lado esquerdo, surge um “porquinho”, justamente onde a ovelha do primeiro cenário parece ter encontrado a casa. 
Cenário 3 – 12 de Julho de 2013
Esse cenário foi montado quando H. retornou às sessões de terapia. Durante algumas semanas, o menino não compareceu à instituição de educação onde ocorrem os atendimentos de psicologia. Seu pai o proibiu, pois acreditava que H. levava as atividades da instituição como uma farra, e já que estava indo mal na escola, foi privado de frequentar o Serviço de Atendimento Socioeducativo como punição. Fazia três semanas que não vinha à terapia quando montou essa cena. Quando chegou à terapia, contou-me sobre um tiroteio que teve perto de sua casa e sobre uma casa de onde vertia água sem parar. Tomei suas associações sobre o tiroteio e a casa como associação ao trauma do assassinato do padrasto e os sentimentos decorrentes que ainda vertiam. 
Ainda havia um conflito: dois personagens no lado esquerdo da cena apontam armas um para o outro. Mas havia também movimento psíquico: os animais já chegavam ao campo superior direito, conforme uma rota virtual que já se delineava no Cenário 2. Os animais são cuidados, cada um por um guarda. O carro parece tentar voltar atrás, mas é impedido por cercas. Realmente, H. parecia estar em movimento, e a sua relação com o pai e suas normas de vida estava mais apaziguada. Nesta época, H. já não parecia estar mais tão aflito. 
Para finalizar o caso, gostaria de narrar duas sessões, das quais não tenho registros fotográficos, mas que foram muito importantes. Uma dessas sessões foi uma brincadeira na caixa de areia. H. pegou um caminhão grande em relação à caixa de areia, estacionou-o do lado da caixa e repetiu, diversas vezes, encher e esvaziar a caçamba do caminhão com a areia da caixa. Depois, com a caçamba cheia, colocou uma arma pequena embaixo da caçamba, escondida, e dentro da caçamba com areia colocou um exército. Ele levantou a caçamba me mostrou a arma e riu muito. Então H. levou o caminhão armado para o outro lado da sala de terapia, e disse que lá era a sua casa, e que na caixa de areia era a minha. Montou um exército para mim na caixa, e houve uma grande guerra entre os exércitos. Após a brincadeira, H. levou o caminhão com seu exército até a caixa e despejou a areia e os homenzinhos na caixa. 
Essa sessão (16 de Agosto) foi muito intensa. A risada de H. era uma risada que causava incomodo e, assim como sua brincadeira na caixa de areia dessa sessão, denotava algo de dissociação. Em outras sessões, ele já havia dado essa risada. Eu perguntei por que ele ria tanto, e ele disse que não sabia, e que não gostava de rir assim porque as professoras achavam que ele estava louco. Essa sessão de 16 de Agosto marcou bem a profundidade psíquica do seu trauma e as notas de uma dissociação. 
A outra sessão que gostaria de narrar foi dia 25 de Outubro. Já há algum tempo, H. vinha brincado bastante com tintas. Pintava os dedos e as mãos e imprimia suas digitais em folhas de ofício. Pintando, fez belas obras, desenhos abstratos riquíssimos. Nesta sessão, pegou uma folha em branco bem grande e pediu que eu lhe ajudasse a pintar. Pegou a cor vermelha e a cor azul. Pediu que eu pintasse metade de azul, e ele metade de vermelho. Começamos. Depois, ele me disse que aquilo era um campo de futebol, e pintou as linhas do campo em verde, demarcando os limites entre o campo e o exterior e entre as duas metades do campo. O círculo central pintou de amarelo. Mas o importante é que, com tinta azul, escreveu “Grêmio” no campo vermelho, e com a tinta vermelha, pediu que eu escrevesse “Inter” no campo azul. Perguntei se ele era do Grêmio ou do Inter: do Grêmio. Perguntei sobre seu pai, e ele disse que torcia para o Inter. Depois, perguntei se ele conhecia alguém que torcia para o Grêmio. Ele disse “não”, e depois disse o nome do seu padrasto. As cores já se misturam, e o nome de um time aparece no campo do outro. No meu entendimento, esta obra de arte aponta que os dois times estão em campo, mas já sem armas, rivalizando através do conflito esportivo. 
Considerações finais
Gostaria de tecer algumas considerações finais como ressalva. A primeira é em relação às reflexões sobre o caso e sobre as imagens da caixa de areia. As imagens são riquíssimas e, assim como um tema pode ser abordado em diversos níveis, as imagens da caixa também trazem uma complexidade de leitura que não pode ser abordada aqui. Para além de uma leitura superficial, poder-se-ia fazer uma ampliação das imagens, trazendo-se reflexões sobre cada figura e suas relações com o coletivo, sobre a ordem em que foram colocadas, sobre as associações que o paciente trás e também sobre a posição de cada figura na caixa de areia. 
Por fim, o caso foi pensado a partir de um tema: o complexo paterno. Dado que a formação dos complexos, o seu desenvolvimento e suas relações com a infância e a formação do ego é um tema em aberto para a Psicologia Junguiana, este trabalho não pretende ter um caráter definitivo, consistindo apenas em uma singela reflexão. Se o tema foi o complexo paterno, poderia ser outro, como a formação da persona e da sombra, tema suscitado em supervisão sobre o caso. Enfim, o caso é rico, e as reflexões estão em aberto. 
Referências bibliográficas
Boechat, P. P. (2005). Por que a utilização de caixa de areia em terapia de família e casal? In: J. L. Werres (Org.), Ensaios sobre a clínica junguiana (pp. 61-73). Porto Alegre: Imprensa Livre.
Jung, C. G. (2000). A natureza da psique (5ª ed.). Petrópolis, RJ: Vozes.
Jung, C. G. (2008a). O eu e o inconsciente (21ª ed.). Petrópolis, RJ; Vozes.
Jung, C. G. (2008b). A energia psíquica (10ª ed.). Petrópolis, RJ; Vozes.
Jung, C. G. (2011a). O conceito de inconsciente coletivo. In: C. G. Jung, Os arquétipos e o inconsciente coletivo (pp.51-62). (7ª ed.). Petrópolis, RJ: Vozes. 
Jung, C. G. (2011b). Sobre os arquétipos do inconsciente coletivo. In: C. G. Jung, Os arquétipos e o inconsciente coletivo (pp.51-62) (11-50). (7ªed.). Petrópolis, RJ: Vozes. 
Ledbetter (1998). Filhos e pais: Ou porque filho é um verbo. In: C. Downing (Org.) Espelhos do Self: As imagens arquetípicas que moldam a sua vida. São Paulo: Cultrix.
López-Pedraza, R. 2011. As emoções no processo psicoterapêutico. Petrópolis, RJ: Vozes.
Stein, M. (1998). O pai devorador. In: C. Downing (Org.) Espelhos do Self: As imagens arquetípicas que moldam a sua vida. São Paulo: Cultrix.
Weinrib, E. L. (1993). Imagens do Self:O processo terapêutico na caixa-de-areia. São Paulo: Summus.

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