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2013
EpistEmologia das 
CiênCias soCiais
Prof.ª Franciele Otto
Copyright © UNIASSELVI 2013
Elaboração:
Prof.ª Franciele Otto
Revisão, Diagramação e Produção:
Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI
Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri 
UNIASSELVI – Indaial.
 O912e
 Otto, Franciele
Epistemologia das ciências sociais / Franciele Otto. Indaial: 
Uniasselvi, 2013.
207 p. : il 
 
ISBN 978-85-7830-759-2
 
I. Ciências sociais. II. Filosofia e teoria.1.Centro 
Universitário Leonardo da Vinci. 2. Otto, Franciele.
COD 300.7
III
aprEsEntação
Querido(a) acadêmico(a)!
Quantas vezes você já se questionou quais são os mecanismos que 
levam a humanidade a conhecer o mundo e a acumular este conhecimento 
em forma de memória? Certamente você já se perguntou como este processo 
ocorre. E esta questão nos remete à ciência, a tentar entender como ela chegou 
ao estatuto que possui hoje, de conhecimento legítimo e válido.
Para responder a estas questões temos a Epistemologia, área do 
conhecimento que busca compreender os critérios de cientificidade dos 
campos do conhecimento, ou seja, como uma ciência passa a ser aceita como 
tal. Ela pode tratar sobre grandes problemas que envolvem todas as ciências, 
ou sobre problemas especializados de cada disciplina específica.
E é neste caminho que a Epistemologia encontra as Ciências Sociais. 
Afinal, se são ciências, quais são os critérios que estas cumprem para ter este 
“título”? Qual é o seu grau de cientificidade? Por que são constantemente 
comparadas às Ciências Naturais? Como se relacionam com seu objeto de 
estudos? Estas e outras inúmeras questões são formuladas e suas respostas 
buscadas por meio da Epistemologia das Ciências Sociais.
Neste Caderno de Estudos, você terá acesso a conteúdos que dizem 
respeito ao objeto da Epistemologia, mais especificamente, considerando a área 
das Ciências Sociais. Para tal, o caderno está dividido em três grandes unidades:
UNIDADE 1 – Epistemologia, situando conceitos
UNIDADE 2 – Ciências Humanas e Sociais, fundamentos da Análise Social
UNIDADE 3 – Saberes sociológicos, crítica da reflexão epistemológica
A Unidade 1 objetiva que você compreenda a própria Epistemologia, 
os conceitos principais que envolvem esta área do conhecimento, bem 
como a própria noção de conhecimento e de ciência. A Unidade 2 traz 
saberes acerca das análises sociais, ou seja, de como a Epistemologia atua 
nas Ciências Humanas e Sociais, explicando também as principais correntes 
epistemológicas e sua relação com estas áreas. A Unidade 3 apresenta 
a especificidade da Sociologia, bem como as novas perspectivas que se 
desenvolvem na área da Epistemologia e seus novos paradigmas de análise.
Você fará uso destes conhecimentos ao longo de toda a sua caminhada 
como licenciado em Ciências Sociais, afinal, é fundamental que saiba como 
esta área se reconhece enquanto ciência, como se relaciona com seus objetos 
de estudo, e como está situada no campo científico. Além disso, terá noções 
gerais acerca da área de Epistemologia, entendimentos sobre o conhecimento, 
e elementos para debater a própria noção de ciência.
Espero que este Caderno de Estudos auxilie na compreensão das 
Ciências Sociais com relação ao campo científico, permitindo reflexões críticas 
IV
APRESENTAÇÃO DA CONTEUDISTA
 Sou a professora Franciele Otto. Sou bacharel 
e licenciada em Ciências Sociais pela Universidade 
Regional de Blumenau – FURB e Mestre em Educação pela 
Universidade de São Paulo – USP, na linha de pesquisa 
em História da Educação e Historiografia. Trabalho 
com pesquisas que envolvem sociologia e educação 
há sete anos. Participei de monitorias na Universidade 
de São Paulo com turmas de diversas licenciaturas, na 
disciplina de Didática. Tenho artigos publicados em periódicos educacionais, e 
muitas publicações em anais de congressos, incluindo Simpósios Internacionais 
e Reuniões da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação 
– ANPEd. Atualmente trabalho com produção de material e tutoria para cursos 
na modalidade a distância, e também sou professora do Ensino Superior na 
modalidade presencial (Área de Educação, Ciência e Pesquisa).
acerca da legitimidade desta área do conhecimento e debates construtivos 
sobre sua relação com seus objetos de investigação. Assim, poderemos 
contribuir cada vez mais com o desenvolvimento deste campo de estudos.
Espero que você tenha uma excelente leitura, e agradeço por poder 
compartilhar estas reflexões. Bons estudos!
Prof.ª Franciele Otto
V
Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfim, tanto para 
você que está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é veterano, há 
novidades em nosso material.
Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é 
o material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um 
formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura. 
O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova 
diagramação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também 
contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo.
Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto de nossas ações sobre o ambiente, 
apresenta também este livro no formato digital. Assim, você, acadêmico, tem a possibilidade 
de estudá-lo com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador. 
 
Eu mesmo, UNI, ganhei um novo layout, você me verá frequentemente e surgirei para 
apresentar dicas de vídeos e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto 
em questão. 
Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas 
institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa 
continuar seus estudos com um material de qualidade.
Aproveito o momento para convidá-lo para um bate-papo sobre o Exame Nacional de 
Desempenho de Estudantes – ENADE. 
 
Bons estudos!
NOTA
VI
VII
UNIDADE 1 - EPISTEMOLOGIA: SITUANDO CONCEITOS ...................................................1
TÓPICO 1 - O QUE É CONHECER? ..................................................................................................3
1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................3
2 O CONHECIMENTO .........................................................................................................................4
3 DESENVOLVIMENTO HISTÓRICO DA NOÇÃO DE CONHECIMENTO .........................9
4 MODOS DE CONHECER O MUNDO ..........................................................................................14
4.1 CONHECIMENTO POPULAR ....................................................................................................15
4.2 CONHECIMENTO RELIGIOSO .................................................................................................16
4.3 CONHECIMENTO FILOSÓFICO ...............................................................................................18
4.4 CONHECIMENTO CIENTÍFICO ................................................................................................19
5 CONHECIMENTO X CETICISMO .................................................................................................20
5.1 HIPÓTESE DO ENGANO DOS SENTIDOS ..............................................................................22
5.2 HIPÓTESE DO SONHO ...............................................................................................................23
5.3 HIPÓTESE DO GÊNIO MALIGNO ............................................................................................24
RESUMO DO TÓPICO 1......................................................................................................................26
AUTOATIVIDADE...............................................................................................................................27
TÓPICO 2 - O QUE É A CIÊNCIA? ....................................................................................................29
1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................29
2 CONHECIMENTO CIENTÍFICO: CARACTERÍSTICAS ..........................................................30
3 METODOLOGIA CIENTÍFICA ......................................................................................................36
3.1 METODOLOGIA CIENTÍFICA NAS CIÊNCIAS SOCIAIS ....................................................40
4 CIÊNCIAS SOCIAIS E HUMANAS E O MÉTODO CIENTÍFICO ..........................................42
5 LEGITIMIDADE CIENTÍFICA DAS CIÊNCIAS SOCIAIS ......................................................46
RESUMO DO TÓPICO 2......................................................................................................................51
AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................52
TÓPICO 3 - O QUE É EPISTEMOLOGIA? .......................................................................................53
1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................53
2 DEFINIÇÃO DE EPISTEMOLOGIA ..............................................................................................53
3 BASES PARA A DEFINIÇÃO: FÉ, CRENÇA E CONHECIMENTO ........................................56
4 DEDUÇÃO E INDUÇÃO NA CIÊNCIA ........................................................................................59
4.1 RACIOCÍNIO DEDUTIVO ...........................................................................................................60
4.2 RACIOCÍNIO INDUTIVO ............................................................................................................61
5 O SUJEITO E O OBJETO ..................................................................................................................63
LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................66
RESUMO DO TÓPICO 3......................................................................................................................70
AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................71
UNIDADE 2 - CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS: FUNDAMENTOS
 DA ANÁLISE SOCIAL ..............................................................................................73
TÓPICO 1 - CIÊNCIAS DA NATUREZA E CIÊNCIAS SOCIAIS ..............................................75
1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................75
sumário
VIII
2 SURGIMENTO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS ..................................................................................76
2.1 UM POUCO DE HISTÓRIA... ..................................................................................................... 78
3 FUNDAMENTOS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS ..............................................................................79
4 TIPOS DE CIÊNCIA ...........................................................................................................................81
4.1 CLASSIFICAÇÃO DAS CIÊNCIAS ........................................................................................... 83
4.1.1 A demarcação ........................................................................................................................86
5 NATURALISMO E ANTINATURALISMO ..................................................................................87
5.1 NATURALISMO RADICAL.........................................................................................................87
5.2 NATURALISMO MODERADO ...................................................................................................88
5.3 ANTINATURALISMO ..................................................................................................................89
RESUMO DO TÓPICO 1......................................................................................................................91
AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................92
TÓPICO 2 - PRINCÍPIOS FILOSÓFICOS DA ANÁLISE SOCIAL ............................................93
1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................93
2 A FILOSOFIA E AS ANÁLISES SOCIAIS ....................................................................................94
3 FUNDACIONALISMO E ANTIFUNDACIONALISMO ...........................................................96
3.1 FUNDACIONALISMO .................................................................................................................97
3.2 ANTIFUNDACIONALISMO .......................................................................................................100
4 COERENTISMO .................................................................................................................................102
5 EPISTEMOLOGIA DAS CIÊNCIAS SOCIAIS ............................................................................105
RESUMO DO TÓPICO 2......................................................................................................................110
AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................111
TÓPICO 3 - CORRENTES EPISTEMOLÓGICAS E SUA PRESENÇA
 NAS CIÊNCIAS SOCIAIS ............................................................................................113
1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................113
2 RACIONALISMO ...............................................................................................................................113
3 EMPIRISMO ........................................................................................................................................118
4 POSITIVISMO ....................................................................................................................................122
5 DIALÉTICA .........................................................................................................................................127
6 HERMENÊUTICA ..............................................................................................................................132
LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................135
RESUMO DO TÓPICO 3......................................................................................................................136
AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................137
UNIDADE 3 - SABERES SOCIOLÓGICOS: CRÍTICA DAS
 REFLEXÕES EPISTEMOLÓGICAS .........................................................................139
TÓPICO 1 - O SABER SOCIOLÓGICO ............................................................................................141
1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................141
2 SURGIMENTO E LEGITIMIDADE DA SOCIOLOGIA ............................................................1423 A FORÇA DO POSITIVISMO .........................................................................................................145
4 HOLISMO E INDIVIDUALISMO ..................................................................................................149
5 A CIÊNCIA E A SOCIOLOGIA .......................................................................................................153
RESUMO DO TÓPICO 1......................................................................................................................156
AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................157
TÓPICO 2 - NOVAS BASES EPISTEMOLÓGICAS .......................................................................159
1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................159
2 GLOBALIZAÇÃO ...............................................................................................................................160
3 PENSAMENTO COMPLEXO...........................................................................................................164
IX
4 COMPORTAMENTO SIGNIFICATIVO .......................................................................................170
5 FALSIFICACIONISMO .....................................................................................................................175
RESUMO DO TÓPICO 2......................................................................................................................180
AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................181
TÓPICO 3 - NOVOS PARADIGMAS EPISTEMOLÓGICOS X
 NOVOS OBJETOS DE ANÁLISE ................................................................................183
1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................183
2 FUNÇÃO DO ESTADO E TRABALHO .........................................................................................184
3 RELAÇÕES ENTRE CULTURA E NATUREZA ............................................................................187
4 IDENTIDADE .....................................................................................................................................192
5 INDIVIDUALISMO E SOLIDARIEDADE ...................................................................................194
6 FRAGMENTAÇÃO E TOTALIDADE ............................................................................................196
LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................200
RESUMO DO TÓPICO 3......................................................................................................................202
AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................203
REFERÊNCIAS .......................................................................................................................................205
X
1
UNIDADE 1
EPISTEMOLOGIA: SITUANDO 
CONCEITOS
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
PLANO DE ESTUDOS
A partir desta unidade, você será capaz de:
• definir o conhecimento e sua possibilidade de negá-lo, situando esta no-
ção historicamente e diferenciando os modos de conhecer os fenômenos;
• definir a ciência, apontando as características do conhecimento científico 
e as etapas da metodologia científica, relacionando-as com a área e os 
objetos das ciências sociais;
• definir a epistemologia, situando os raciocínios dedutivo e indutivo na 
ciência, e as relações entre subjetividade e objetividade.
Esta unidade está dividida em três tópicos e em cada um deles você 
encontrará atividades visando à compreensão dos conteúdos apresentados.
TÓPICO 1 – O QUE É CONHECER?
TÓPICO 2 – O QUE É A CIÊNCIA?
TÓPICO 3 – O QUE É EPISTEMOLOGIA?
2
3
TÓPICO 1
UNIDADE 1
O QUE É CONHECER?
1 INTRODUÇÃO
Querido(a) estudante, ao longo de sua trajetória de estudos você já deve 
ter parado para se perguntar como conseguimos acumular informações em nossa 
memória e, a partir delas, elaborar novos conhecimentos. A construção e aquisição 
de conhecimentos pelos seres humanos sempre foi algo intrigante, e isto é o que 
a diferencia das demais espécies animais.
Existem diferentes possibilidades de conhecimento dos fenômenos que 
ocorrem no mundo, além da possibilidade que o ceticismo nos traz de não 
acreditar em nenhuma destas formas de conhecimento.
Mas, para você, enquanto estudante da área de Ciências Sociais, o mais 
importante é voltar suas análises para o conhecimento científico, elaborado a 
partir dos métodos da ciência. Os saberes sociológicos foram, em dado momento 
na história, legitimados como saberes de base científica, permitindo que os 
chamemos, na atualidade, de “ciências”. 
E para que existam estas delimitações do campo científico, há o 
alinhamento com uma área de análise, que estuda as determinações e os critérios 
que estabelecem que uma ciência pode ser considerada uma ciência. Esta é a 
epistemologia.
Achou confuso? Fique tranquilo(a), esta unidade do Caderno de Estudos 
foi desenvolvida para entendermos exatamente estas questões que envolvem o 
conhecimento, a ciência, a cientificidade das ciências e as formas de análise da 
epistemologia, principalmente aquelas que dizem respeito às Ciências Sociais.
Para isto, dividimos e estruturamos esta unidade conforme apresentamos 
a seguir.
No primeiro tópico, entenderemos o que é a noção de conhecimento, 
como a humanidade chegou historicamente até esta noção, os modos que existem 
para conhecer o mundo e a negação da possibilidade de conhecer (ceticismo). 
No tópico dois, entenderemos como é possível afirmar que um conhecimento é 
científico, o funcionamento do método científico e qual a relação entre as Ciências 
Sociais e este método, explicando também porque elas podem ser legitimadas 
UNIDADE 1 | EPISTEMOLOGIA: SITUANDO CONCEITOS
4
como ciências. Por último, no tópico três, veremos do que se trata a epistemologia, 
suas bases conceituais, os processos de racionalidade dedutiva e indutiva, e os 
problemas da subjetividade e objetividade nas Ciências Sociais.
Certamente você ficou curioso(a), afinal, são questões que lidam 
diretamente com o estatuto de validade de nossa área do conhecimento, ou seja, das 
Ciências Sociais. Então, sem mais delongas, vamos começar pelo conhecimento?
2 O CONHECIMENTO
As diferentes espécies animais que existem em nosso planeta, permitem 
que observemos certa regularidade em se tratando de agrupamentos. Você já 
notou que existem características comuns nos modos de agrupamento, formas de 
convivência, estratégias de acasalamento, enfim, em tudo o que se relaciona com 
a convivência e sobrevivência?
É como se o objetivo de vida dos grupos animais fosse melhorar a espécie e 
preservá-la por meio de estratégias saudáveis de convivência e sociabilidade. Para 
isso, criam-se os chamados modelos de vida, ou seja, sistemas que organizam o 
coletivo para um objetivo comum, como a defesa, a alimentação, o acasalamento, 
entre outros.
A espécie humana também desenvolve estes modos de vida, estes modelos 
que guiam os comportamentos coletivos. Há as ações e reações que ocorrem de 
forma espontânea, mecânica, pois se relacionam às reações instintivas, como 
respirar ou sentir fome. Estas atividades dispensam a necessidade do aprendizado, 
pois, por serem instintivas, não exigem uma atividade sistemática de ensino para 
que o ser humano possa cumpri-las.
Em contrapartida, a humanidade também desenvolveu habilidades que 
dependem do processo de ensino, que resulta na aprendizagem. Quer seja por 
dificuldades impostas pelo ambiente, quer seja por particularidades daespécie, 
estas habilidades são desenvolvidas apenas após serem apreendidas (COSTA, 
1997). Podemos citar como exemplos a regularidade de horários para refeições 
e para dormir, o ato de obedecer aos adultos, o aprendizado do trabalho e do 
governo, entre outros. 
Assim, a grande distinção entre a humanidade e as outras espécies animais 
é a capacidade do aprendizado e a possibilidade de aprender novas formas de 
comportamento que não estejam, em si, previamente definidas pelos genes. Estes 
comportamentos não se desenvolveriam individualmente, eles são comportamentos 
relacionados à convivência coletiva.
TÓPICO 1 | O QUE É CONHECER?
5
Portanto, para que um bebê humano se transforme em um homem 
propriamente dito, capaz de agir, viver e se reproduzir como tal, é 
necessário um longo aprendizado, pelo qual as antigas gerações 
transmitem às mais novas suas experiências e conhecimentos. Essa 
característica, essencialmente humana, só se tornou possível porque 
o homem tem a capacidade de criar sistemas de símbolos, como a 
linguagem, por meio dos quais dá significado às suas experiências 
vividas e as transmite aos seus semelhantes (COSTA, 1997, p. 2, grifo 
do original).
Aos seres humanos, o ato de conhecer, assim como a capacidade de 
pensar, constituem não apenas uma capacidade, e sim uma necessidade. Elas se 
relacionam diretamente com a sobrevivência, em virtude do desenvolvimento 
da vida humana. Por exemplo, é preciso conhecer as regras de trânsito e seus 
perigos para saber como evitar acidentes e situações que coloquem a própria 
vida em risco. E o trânsito é algo criado a partir das necessidades humanas de 
deslocamento.
 A grande diferença com relação aos animais é que, ainda que eles 
também possuam certa capacidade de conhecer - suficiente para optar pelo 
alimento correto, evitar os venenosos, distinguir seus filhos, entre outros –, esta 
capacidade é proveniente de ações instintivas e apenas os fazem render-se às leis 
naturais. A humanidade possui outro tipo de conhecimento, que permite que haja 
certo domínio sobre a natureza, um controle de fenômenos e um conhecimento 
mobilizado em função de objetivos.
O ato de conhecer e pensar coloca o universo ao nosso alcance e nos dá 
o sentido, finalidade e razão de ser. O homem é “o ser verdadeiro, o 
olho que vê o mundo”. Vê e conhece, conhece o que vê e pensa no que 
viu e no que não viu, conhece e pensa, pensa e interpreta. Os animais 
conhecem as coisas; o homem, além disso, investiga-lhes as causas. 
Os animais só conhecem por via sensorial; o homem conhece e pensa, 
elabora o material de seus conhecimentos (RUIZ, 2002, p. 90).
As experiências e interpretações da realidade, portanto, são repassadas 
às gerações seguintes por meio de símbolos, e não pelas determinações 
genéticas. Assim, consideramos a humanidade composta por seres racionais, 
pois conseguem transformar suas experiências em discurso, baseando-se na 
linguagem, e repassam-nas aos descendentes de sua espécie.
UNIDADE 1 | EPISTEMOLOGIA: SITUANDO CONCEITOS
6
Por meio desta capacidade de ordenação de símbolos, a humanidade passou 
a ser capaz de dotar o mundo de significado, avaliando fenômenos e acumulando 
todas as informações decorrentes da experiência. Este “conhecimento do mundo” 
tornou-se cultura humana na medida em que foi organizado, comunicado e 
compartilhado com seus contemporâneos e repassado aos descendentes. 
Conforme Costa (1997, p. 3), “Essa elaboração simbólica da experiência 
fez com que os homens recriassem o mundo segundo suas necessidades e pontos 
de vista, traduzindo-o sob a forma de informação ou conhecimento”. 
Vemos aí a palavra-chave desta seção, sobre a qual iremos refletir neste 
espaço do Caderno de Estudos: o conhecimento. Você já se perguntou o que é o 
conhecimento? 
O conhecimento, portanto, foi criado a partir da capacidade da humanidade 
no que diz respeito a pensar o mundo, atribuir significados e transmiti-los sob a 
forma de cultura. 
Podendo escolher, julgar, pensar sobre situações passadas e futuras, o 
homem passou da simples experiência imediata a explicações que lhe 
garantiam o conhecimento de si e do mundo à sua volta, formulando 
justificativas para fatos, atitudes e comportamentos. A partir do 
desenvolvimento dessa capacidade simbólica e da linguagem, a ação 
humana passou a ser intermediada pela atribuição de significados, 
interpretações estabelecidas e partilhadas entre os grupos humanos 
(COSTA, 1997, p. 4).
Sobre a questão do aprendizado de comportamentos, 
que diferenciam os humanos dos comportamentos instintivos, 
veja o filme “O enigma de Kaspar Hauser”, do ano de 1976, dirigido 
por Werner Herzog. Ele mostra como um homem criado longe 
da sociedade humana não adquire comportamentos necessários 
à vida social e perde esta capacidade, porque seus instintos 
prevalecem.
DICAS
Reflita sobre o que é o conhecimento para você. Após finalizar a leitura deste tópico, 
analise se estava de acordo com a reflexão trazida pelos autores e apresentada a seguir.
UNI
TÓPICO 1 | O QUE É CONHECER?
7
As interpretações trazidas na citação acima são o conhecimento, elas 
proporcionam à humanidade soluções para problemas cotidianos relacionados com 
a sobrevivência e com as necessidades concretas de vida. Enquanto estas soluções 
foram eficientes, elas continuaram a ser compartilhadas, até que surgissem novas 
dificuldades, quando houvesse uma mudança e/ou adaptação cultural.
A palavra “conhecimento”, em nossa língua, deriva do latim cognoscere, 
cuja etimologia significa “conhecer junto” ou “procurar saber”, que, 
por sua vez, se relaciona com o grego gnosis, habitualmente traduzido 
com o próprio sentido de “conhecimento”. Em grego, também se 
usam outras palavras relacionadas com esse tópico e que iremos 
encontrar ao longo da nossa exposição, como nous (que se pode dizer 
ser o “entendimento pela razão”), episteme (“habilidade decorrente 
do saber”) e sofia (“sabedoria” – como aparece na palavra “filosofia”) 
(MAGALHÃES, 2005, p. 13).
Há também a palavra grega logos, que tem como significado fala, razão, 
entendimento, que se relaciona ao sufixo “logia”, que utilizamos em geral para 
designar uma ciência. Por exemplo, a sociologia seria o estudo da sociedade, a 
geologia o estudo da terra, entre outros. Desta forma, este sufixo está relacionado 
a conhecer algo por meio do método científico.
O conhecimento, o ato de conhecer, está diretamente relacionado ao uso 
da razão, a um processo mental chamado racionalização. Ele pode advir do uso 
de órgãos dos sentidos, ou seja, partir da sensação humana, ou de extensões 
destes, como livros, instrumentos de laboratório etc. O ato de conhecer remete a 
fazer surgir, por meio do raciocínio, um entendimento ou explicação do que é o 
que se conhece, ou seja, o objeto de conhecimento naquele contexto.
Magalhães (2005) define o conhecimento como alguém fazendo uso de 
um objeto do saber a seu favor, ou seja, conhecimento, para ele, é o “processo de 
compreender para adquirir domínio sobre alguma parcela do universo, tanto um 
objeto material quanto mental” (MAGALHÃES, 2005, p. 14). 
O conhecimento não pode ser tomado em um sentido muito geral, que indica 
seu uso voltado para qualquer coisa desconhecida que se queira saber, como, por 
exemplo, as dezenas que serão sorteadas na loteria, pois então estaríamos considerando 
o sentido comum deste termo. Desta forma, estaríamos desconsiderando o uso da 
razão neste processo (MAGALHÃES, 2005).
O ato de conhecer exige e supõe três elementos, “o sujeito, ou seja, a 
consciência cognoscente, o objeto, ou aquilo a que o sujeito se dirige para conhecer, e 
a imagem, que representa o ponto de coincidência entre o objeto e o sujeito” (RUIZ, 
2002, p. 90, grifos do original).
A produção do conhecimento se dá a partir de estruturas mais simples, 
não tão complexas, iniciando-se nos dados, passando pela informação, e só então 
constituindo-se conhecimento. Veja na figura a seguir as características de cada 
item:
UNIDADE 1| EPISTEMOLOGIA: SITUANDO CONCEITOS
8
FIGURA 1 – QUADRO “DADOS, INFORMAÇÃO, CONHECIMENTO”
FONTE: Disponível em: <http://gestaoempreendedor.blogspot.com.br/2010/08/ainda-existem-
muitas-duvidas-sobre-area.html>. Acesso em: 30 abr. 2013.
Os dados são quantificações, até mesmo uma máquina (como o 
computador, por exemplo) tem condições de produzi-los ou obtê-los, são apenas 
o estado de algo no mundo, mensurações. Já as informações são estes dados em 
uma leitura contextualizada, ou seja, dados visualizados a partir de um objetivo 
traçado por um ser humano, e possuem uma unidade de análise que produz a 
sua relevância. Partindo destas informações e realizando reflexões e sínteses, o 
ser humano produz o conhecimento.
E para que nos serve o ato de conhecer, ou seja, para que serve o 
conhecimento?
Ele possui utilidade imediata na vida humana, pois é a base para as 
reações aos fenômenos e também a fonte que garante os instrumentos para as 
transformações que o ser humano realiza no ambiente. O conhecimento produz 
a cultura humana, e assim permite o avanço dessa espécie biológica por meio 
das ciências, técnicas, artes. Foi assim que surgiu a economia, outra atividade 
humana que nos diferencia das outras espécies animais, pois passamos a 
conhecer os excedentes, e produzi-los nos permitiria superar limites impostos 
pelos racionamentos (MAGALHÃES, 2005).
O conhecimento se relaciona diretamente com o interesse em algo, pois 
ninguém deseja conhecer aquilo que não lhe interessa. Temos aí uma primeira 
reflexão epistemológica, pois alguns autores defendem a existência de um 
conhecimento puro, isolado de interesses sociais, culturais e econômicos, 
enquanto outros defendem a interferência direta destes fatores no conhecimento 
(MAGALHÃES, 2005).
Simples
observações sobre o 
estado do mundo
• Facilmente 
estruturado
• Facilmente obtido por 
máquinas
• Fequentemente 
qualificado
• Facilmente 
transferível
Dados dotados
de relevância e 
propósito
• Requer unidade de 
análise
• Exige consenso em 
relação ao
 significado
• Exige 
necessariamente a 
mediação humana
Informação valiosa da 
mente humana.Inclui 
reflexão, síntese, contexto
• De difícil estruturação
• De difícil captura em 
máquinas
• Frequentemente 
tácito
• De difícil 
transferência
DADOS INFORMAÇÃO CONHECIMENTO
TÓPICO 1 | O QUE É CONHECER?
9
De fato, a história mostra que não existe um conhecimento por si 
mesmo, por puro deleite ou diletantismo, que não tenha um vínculo 
aparente ou oculto com a realidade humana. Embora isso pareça 
acontecer (e ocorre até mesmo em locais considerados templos do 
saber desinteressado, como as universidades), uma curiosidade 
pura de conhecer para explicar, e nada mais, é no máximo uma fase 
passageira do processo de conhecimento. Quando um pesquisador 
procura entender, por exemplo, se existe alguma estrutura abaixo do 
nível das entidades chamadas na física atual de “quarks” (estrutura 
que já se designa por “subquarck”), isso pode parecer a busca de 
um conhecimento em si, mas certamente o que move esse tipo de 
conhecimento ainda é dominar a realidade da matéria e da energia, 
para disso tirarmos proveito no futuro. A história das ciências tem 
demonstrado esse tipo de interesse para a realidade, mesmo em áreas 
como a matemática e a lógica (MAGALHÃES, 2005, p. 17).
O conhecimento constitui seu sentido a partir do momento em que é 
útil para solucionar problemas da humanidade, melhorando a possibilidade de 
usufruto da vida e minimizando o que existe de desagradável para os humanos. 
Assim, ele é um fator de liberdade, conduzindo à felicidade e possuindo grande 
valor para essa espécie.
As gerações atuais encontram um mundo interpretado do qual basta fazer 
uso, sem que seja preciso pensá-lo, uma vez que já foi interpretado por gerações 
passadas. No entanto, não é adequado que o conhecimento de mundo seja 
proveniente de “segunda mão”, afinal, se as gerações anteriores tivessem pensado 
deste modo, não teríamos desenvolvimento e acúmulo de novos conhecimentos.
3 DESENVOLVIMENTO HISTÓRICO 
DA NOÇÃO DE CONHECIMENTO
A busca por uma interpretação do mundo, o entendimento de si mesmo 
e do real, a construção de conhecimentos a partir da experiência e teorias para 
auxiliar no cotidiano é algo que se desenvolveu ao longo de séculos na história 
da humanidade.
Quando falamos sobre a civilização ocidental, esta se diferencia no 
desenvolvimento da busca pelo conhecimento com relação aos outros povos. De 
modo geral, de acordo com a cultura e com o período de tempo que se estava 
vivendo, havia diferenciações entre o tipo de problemas que se buscava conhecer e, 
portanto, o tipo de conhecimento que se desejava adquirir. 
Os egípcios, por exemplo, possuíam grandes conhecimentos acumulados 
sobre a geometria, que sinalizam para uma ciência que faz a “medição da Terra”. 
O problema cotidiano que gerou a busca por este tipo de conhecimento está 
relacionado com as grandes cheias do rio Nilo, pois estas eliminavam e apagavam 
as fronteiras entre territórios. O problema social causado pela inexistência das 
demarcações foi solucionado com o uso de cordas divididas em 13 partes com 
nós (conforme pode ser visualizado na imagem a seguir), permitindo a esta 
UNIDADE 1 | EPISTEMOLOGIA: SITUANDO CONCEITOS
10
civilização o desenvolvimento de diferentes formas geométricas, solucionando o 
problema dos territórios (COSTA, 1997).
Esta mesma técnica foi aplicada posteriormente nas grandes construções 
arquitetônicas do Egito e foi a base do conhecimento geométrico pitagórico. No 
entanto, para esta civilização, este saber continuava associado a outras grandes 
questões que os circundavam e estavam ligadas à sua cultura, como a vida após a 
morte, seus deuses ou hierarquias (COSTA, 1997).
FIGURA 2 – MEDIÇÃO GEOMÉTRICA EGÍPCIA
FONTE: Disponível em: <http://arqsagrado.blogspot.com.br/2011_01_01_archive.
html>. Acesso em: 30 abr. 2013.
Os gregos é que iniciaram de fato um pensamento sistemático acerca 
do conhecimento, compreendendo o saber como um fim em si, ou seja, como 
uma atividade de fato que objetivava adquirir descobertas que solucionavam 
questões teóricas ou problemas de ordem imediata e prática. Como eles não se 
importavam tanto com o pensamento religioso, elaboraram uma atividade que 
possuía objetivos como os citados acima, chamada filosofia. 
Os gregos se interessaram pelos conhecimentos específicos, criando a 
filosofia e as divisões disciplinares, decisivas na compreensão do mundo e das 
coisas. Romperam com as explicações míticas do mundo, deixando de lado 
deuses e aspectos sobrenaturais, e com a sistematização e organização necessárias 
C
(8º nó)
(4º nó)
(1º e 13º nó)
B
A
TÓPICO 1 | O QUE É CONHECER?
11
ao estudo de um objeto determinado, somada à razão humana, desvendaram 
inúmeros fenômenos. Enquanto isso, outros povos buscavam compreender o 
universo a partir do mundo em que viviam.
Por exemplo, “os egípcios elaboraram princípios de biologia e química 
porque acreditavam na ressurreição e queriam conservar os cadáveres: os 
gregos afirmaram que tais conhecimentos não eram domínio da religião, mas da 
medicina” (COSTA, 1997, p. 6). Por isso, eles buscaram desenvolver as habilidades 
e acumular conhecimentos, desconsiderando em um primeiro momento uma 
aplicação imediata ou finalidade religiosa. 
Deram às ideias sobre o que deve ou não se deve fazer o nome de ética, 
ramo da filosofia que estabelece os critérios de virtude, os valores de bem e mal 
do comportamento humano, fundamentando os padrões morais da sociedade. Se 
os povos antigos justificavam sua maneira de agir em função do que os deuses 
queriam, para os gregos isso fazia parte e era resultado da intenção pura e simples 
de pensar sobre os fatos. Isso não significa que a geometria ou a medicina grega 
fosse mais desenvolvida do que a egípcia, mas que, a partir de então, o homem 
desvinculara sua curiosidade pelo mundo das preocupações meramente práticas 
e passara a tratá-la como uma “atividadedo espírito”, importante em si mesma e, 
para muitos, a mais elevada dentre todas (COSTA, 1997).
Desligando-se da religião, surgiu a filosofia como forma de explicar 
o porquê e para que de tudo, na qual os sábios eram as figuras que buscavam 
desvendar os segredos do mundo. Esta modificação no conhecimento, no modo 
de ver o mundo, foi batizada de “milagre grego”, a partir do abandono das 
explicações míticas e sua substituição pelo saber adquirido por meio da abstração, 
ou seja, das atividades da razão humana.
A partir daí temos uma modificação tão grande na vida que esta ruptura 
foi chamada de milagre. Vejamos o que ocorreu:
A expansão comercial e colonizadora do período arcaico pôs o homem 
grego em contato com outras culturas; o estabelecimento da escravidão como 
base de produção das riquezas e da sobrevivência acabou liberando a abastada 
classe comerciante da necessidade de ter de trabalhar, dando-lhe muito tempo 
ocioso; o surgimento da moeda organizou a economia; a criação da escrita e das 
leis ordenou os direitos da comunidade e do cidadão; a consolidação da polis 
(cidade) rompeu o estrito círculo familiar e a rígida e hierárquica estrutura da 
sociedade agrícola, provocando o conflito de interesses; todos esses foram fatores 
decisivos para o desenvolvimento do povo grego (COSTA, 1997, p. 6).
A razão era cada vez mais dominante, o destino não era mais obra de 
deuses ou rituais e sim obra das ações e construções humanas, causando uma 
maior consciência individual de que se exigia um pensamento racional antes 
da ação. Cada vez era mais evidente ao ser humano que ele era um indivíduo 
que possuía a capacidade de ações próprias e tinha o domínio sobre suas ações. 
UNIDADE 1 | EPISTEMOLOGIA: SITUANDO CONCEITOS
12
Em função disto, o modo de agir também foi modificado, pois as pessoas não 
se submetiam mais a agir condicionadas por ensinamentos que teriam sido 
transmitidos pelos deuses aos seus ancestrais.
Havia anteriormente a força da consciência coletiva, que determinava, por 
meio de rituais e regras, comportamentos moldados de acordo com a sociedade que 
se reproduzia a cada geração. Não obedecer às normas implicava em punições e faltas 
para toda a comunidade, já que o indivíduo era compreendido como um coletivo. 
Desta forma, quando a estrutura social que se baseava nas explicações 
míticas, cujas normas eram provenientes desta mesma fonte, buscava explicações 
para o mundo na ciência e na filosofia, os fenômenos sociais também passavam a 
ser foco de análise, pois já se entendia que não eram mais forças do além que os 
definiam.
Durante o Império Romano houve a permanência da razão como forma 
principal para aquisição do conhecimento, mantendo-se a sociedade comercial 
e manufatureira criada pelos gregos. Quando este Império sofreu sua queda, a 
Europa passou a ter uma estrutura agrária e teocrática, na qual a razão e a filosofia 
estavam submissas à teologia. Assim, o conhecimento teológico perdurou nesta 
situação, em detrimento das explicações baseadas na razão humana.
Na Idade Média houve uma pequena modificação, tempo no qual a razão 
passou a ser considerada como auxiliar da fé, ou seja, o poder da Igreja Católica 
era reafirmado e a fé era mais amplamente divulgada a partir de argumentos 
obtidos com a razão, baseados inicialmente nos escritos de Platão e Aristóteles. 
O comportamento social passou a ser determinado novamente a partir da fé e da 
crença, enquanto que os conhecimentos filosóficos e das demais ciências eram 
restritos aos integrantes das ordens religiosas (COSTA, 1997).
Após o Renascimento é que esta situação modifica-se, pois este período 
foi responsável pelo retorno da humanidade à investigação, a partir da retomada 
de antigos textos. O mundo passa a ser investigado, bem como suas leis de 
organização, e isto como uma atividade com valor em si mesma, independente 
de religião ou princípio metafísico.
Para compreender mais este tema e ter acesso a 
informações específicas da participação dos gregos no surgimento 
da ciência, veja a obra “Filósofos pré-socráticos: primeiros mestres 
da filosofia e da ciência grega”, de Miguel Spinelli, Porto Alegre: 
EDIPUCRS, 2003.
DICAS
TÓPICO 1 | O QUE É CONHECER?
13
O Renascimento introduziu e desenvolveu o antropocentrismo, 
a laicidade, o individualismo e o racionalismo. Com relação à vida 
social, passou a concebê-la como uma realidade própria sobre a qual 
os homens atuam; percebeu-se também a existência de diferentes 
modelos – a República, a Monarquia – e passou-se a analisá-los e a 
defender um ou outro modelo. Conseguiu-se vislumbrar a oposição 
entre indivíduo e sociedade, entre vontade individual e regras sociais 
(COSTA, 1997, p. 30).
O Renascimento traz consigo uma modificação de postura com relação ao 
modo de conhecer o mundo e produzir este conhecimento. A Igreja sofria um processo 
de descrédito, e muitas seitas e credos pregavam a interpretação das escrituras, 
voltando assim a reforçar o pensamento especulativo (COSTA, 1997). A partir desta 
retomada, “o conhecimento deixa de ser revelado como resultado de uma atividade 
de contemplação e fé, para voltar a ser o que era antes entre gregos e romanos – o 
resultado de uma bem conduzida atividade mental” (COSTA, 1997, p. 19).
Após o período renascentista, a burguesia passou a pensar diferente, 
entendendo o conhecimento como uma exaltação da vida e dos feitos de seus 
heróis, mas lançando nele uma utilidade prática. O desenvolvimento industrial 
se anunciava e os bons empreendimentos começavam a indicar bons lucros, 
portanto, os sábios teriam que se voltar à produção de conhecimentos de aplicação 
prática.
Esta busca por aplicações imediatas para o conhecimento construído 
impulsionou o desenvolvimento do pensar científico, pois a aplicação dos métodos 
da ciência facilitou o desenvolvimento da indústria, e auxiliou o entendimento 
dos novos fenômenos sociais decorrentes desta nova ordem.
Nos últimos quatrocentos anos, e em particular a partir do século 
XVII, vimos assistindo ao crescente progresso desse conhecimento – a 
ciência – destinado à descoberta das relações entre as coisas, das leis 
que regem o mundo cultural, organizando as ideias e interpretações 
do ponto de vista lógico-científico. Aprimoraram-se as técnicas e os 
utensílios de medição, e a imprensa e os demais meios de comunicação 
levaram a uma transmissão cada vez maior de informações e de 
saber. No seio desse movimento de ideias surgiu, no século XIX, uma 
ciência nova – a sociologia, a ciência da sociedade. O surgimento da 
sociologia significou o aparecimento da preocupação do homem com 
o seu mundo e a sua vida em grupo, numa nova perspectiva, livre das 
tradições morais e religiosas (COSTA, 1997, p. 8).
Nesta nova perspectiva, as relações humanas passam a ser objeto do 
conhecimento científico, sendo observadas, medidas e analisadas. Com o 
racionalismo dominando as formas de pensar, entendeu-se que era possível, a 
partir de então, descobrir regras sociais e, consequentemente, controlar fenômenos 
causados por elas. 
O estatuto científico e a constituição da legitimidade das ciências sociais 
como campo do conhecimento serão discutidos mais adiante neste Caderno de 
Estudos. Por hora, basta registrar que a inserção das ciências sociais impactou 
diretamente na construção do conhecimento acerca das estruturas sociais.
UNIDADE 1 | EPISTEMOLOGIA: SITUANDO CONCEITOS
14
4 MODOS DE CONHECER O MUNDO
Como vimos até aqui, o conhecimento é produzido a partir das sensações 
humanas sobre o mundo e de seu raciocínio a este respeito. O conhecimento 
científico não é a única forma de conhecer o mundo, existem outras alternativas 
além dele. E a melhor forma de compreendê-lo é contrapondo-o com as outras 
formas de conhecimento.
Os seres humanos possuem as habilidades de sentir e de raciocinar 
que, somadas à possibilidade de processar conceitos e ideias, permitem que as 
sensações obtidas sejam avaliadas e articuladas a partir do raciocínio. Surge assima produção do conhecimento.
A partir deste conhecimento a humanidade irá se relacionar com o mundo 
e interpretar a realidade existente, e conforme a interpretação, os conjuntos de 
conhecimentos são classificados diferentemente. 
Quando se utiliza minimamente a razão e a sensação, temos o conhecimento 
de senso comum. Quando maximizado o sentimento e reduzida a racionalidade, 
temos o conhecimento religioso. Quando maximizada a razão e minimizada a 
sensação, temos o conhecimento filosófico. Quando maximizadas a sensação e a 
razão, temos o conhecimento científico.
Segue uma tabela que indica as características gerais de cada tipo 
de conhecimento. Para introduzir seus aspectos, porém, vamos continuar 
compreendendo individualmente cada um destes modos de conhecer e interpretar 
o mundo, com suas peculiaridades.
FIGURA 3 – CARACTERÍSTICAS DOS TIPOS DE CONHECIMENTO
FONTE: Disponível em: <http://maiconsilvaribe.blogspot.com.br/>. Acesso em: 30 abr. 2013.
CARACTERÍSTICAS DO CONHECIMENTO
Conhecimento 
Popular
Conhecimento 
Científico
Conhecimento 
Filosófico
Conhecimento 
Religioso
Valorativo Real (factual) Valorativo Valorativo
Reflexivo Contingente Racional Inspiracional
Assistemático Sistemático Sistemático Sistemático
Verificável Verificável Não Verificável Não Verificável
Falível Falível Infalível Infalível
Inexato Aproximadamente Exato Exato Exato
TÓPICO 1 | O QUE É CONHECER?
15
4.1 CONHECIMENTO POPULAR
Este tipo de conhecimento é o conhecimento do povo, que compreende os 
fatos sem buscar suas causas. Ele é obtido ao acaso e repassado de uma geração 
a outra, sendo aprendido ou ensinado sem a aplicação de algum método de 
investigação, apenas partindo das circunstâncias da vida.
Ele também é chamado de conhecimento empírico, vulgar ou senso 
comum. Não possui uma base racional, é obtido das experiências do cotidiano, 
pois o ser humano, em sua existência, vai “acumulando conhecimentos daquilo 
que viu pessoalmente, daquilo que ouviu de terceiros; vai acumulando vivências, 
vai interiorizando as tradições da coletividade” (RUIZ, 2002, p. 95).
A fonte principal deste tipo de conhecimento são os sentidos, as 
experiências sensíveis e, aos poucos, ele se transforma em crença ou em opinião.
Estas experiências causais, ametódicas e assistemáticas, fragmentárias 
e ingênuas, que atingem o fato nas suas aparências globais, sem 
análise, sem crítica e sem demonstração; que acolhem informações e 
assimilam tradições sem analisar as credenciais do testemunho e sem 
penetrar nos fundamentos das crenças tradicionais, esse modo de 
conhecimento é o denominado vulgar (RUIZ, 2002, p. 95).
Por exemplo, uma mãe que ensine à outra como lidar com a personalidade 
de seu filho; ou indique um comprimido muito eficiente contra dores de cabeça, 
está disseminando o conhecimento popular, pois não sabe do que é feito o 
comprimido, suas formas de ação, ou quais teorias embasam o comportamento 
dos pais que incutem nas crianças a ideia de autoridade. No entanto, um 
farmacêutico ou químico saberá a composição do remédio, seu modo de agir 
no organismo, e um psicólogo saberá cientificamente como opera a relação de 
autoridade entre pais e filhos.
Assim, o conhecimento popular diferencia-se do conhecimento 
científico. E, de modo geral, sempre temos muito mais conhecimento popular 
do que científico em nossa vida, pois utilizamos lógicas simples nas soluções de 
problemas cotidianos. 
Ander-Egg (1978, p. 13, apud LAKATOS; MARCONI 2003, p. 75) indica 
algumas características do conhecimento popular:
• Superficial, isto é, conforma-se com a aparência, com aquilo que se pode 
comprovar simplesmente estando junto das coisas, expressa-se por frases 
como “porque o vi”, “porque o senti”, “porque o disseram”, “porque todo 
mundo o diz”;
• Sensitivo, ou seja, referente à vivência, estado de ânimo e emoções da vida diária;
• Subjetivo, pois é o próprio sujeito que organiza suas experiências e 
conhecimentos, tanto os que adquire por vivência própria, quanto os “por 
ouvir dizer”;
UNIDADE 1 | EPISTEMOLOGIA: SITUANDO CONCEITOS
16
• Assistemático, pois esta “organização” das experiências não visa a uma 
sistematização das ideias, nem na forma de adquiri-las nem na tentativa de 
validá-las;
• Acríticos, pois, verdadeiros ou não, a pretensão de que esses conhecimentos o 
sejam não se manifesta sempre de uma forma crítica.
Estes conhecimentos populares também são exemplificados quando 
pensamos na transmissão de conhecimentos pela tradição nos grupos sociais que 
dependem das lavouras. Seus integrantes sempre sabem qual o melhor período para 
plantar; a quantidade de adubo, água, inseticida corretos; a hora certa de colher; entre 
outros. Eles não possuem as explicações científicas para isso, ou seja, os detalhes 
técnicos adquiridos pela aplicação do método em cada fenômeno, mas possuem 
todos estes conhecimentos obtidos a partir de seus ancestrais, de modo geral.
4.2 CONHECIMENTO RELIGIOSO
O conhecimento religioso, também chamado conhecimento teológico, 
possui seus fundamentos nas crenças individuais e na fé. Interpreta-se a realidade 
e se explica o mundo a partir das doutrinas das respectivas religiões. Aliás, as 
doutrinas representam justamente o conhecimento religioso em sua forma 
sistematizada e organizada, ou seja, instituída.
Suas bases não passam pela razão, as interpretações realizadas relacionam-
se ao sentimento, à inspiração, e se constituem verdadeiras a partir da aceitação do 
sujeito, ou seja, não é verificável de modo empírico, pois nele se acredita mesmo 
com evidências contrárias que indiquem a existência de alternativas de explicação.
O objeto de estudo da Teologia, Filosofia ou da ciência é o mesmo, mas 
os teólogos firmam seus posicionamentos nos textos da Bíblia, enquanto que os 
cientistas, por exemplo, buscam fatos concretos para comprovar hipóteses acerca 
de fenômenos. Esta situação causou conflitos ao longo da história, que “forçaram 
os teólogos e escrituristas a interpretarem com maior largueza os textos bíblicos 
e contribuíram também para iniciar a divulgação da seriedade e do prestígio da 
ciência junto às camadas mais religiosas e menos cultas” (RUIZ, 2002, p. 95).
Assim, pode-se afirmar que na atualidade é mais comum que os teólogos 
reestudem suas doutrinas para não caírem em contradições com a ciência, do que 
os cientistas pressuporem dogmas religiosos (RUIZ, 2002).
O conhecimento teológico supõe e exige a autoridade divina; nela se 
fundamenta e só a ela atende; a ciência, ao contrário, não supõe, não 
exige, não admite autoridade; a ciência só admite o que foi provado, 
na exata medida em que se podem comprovar experimentalmente os 
fatos. A teologia não demonstra o dogma; apela para a autoridade 
divina que o revelou e exige fé; a ciência demonstra os fatos e só se 
apoia na evidência dos fatos (RUIZ, 2002, p. 108).
TÓPICO 1 | O QUE É CONHECER?
17
FONTE: Disponível em: <http://mbardead.99k.org/contabeis/?p=86>. Acesso em: 21 maio 2013.
FIGURA 4 – SÍMBOLOS RELIGIOSOS
FONTE: Disponível em: <http://luzecalor.blogspot.com.br/2012/11/o-livro-das-
religioes-jostein-gaarder.html>. Acesso em: 30 abr. 2013.
O conhecimento religioso, isto é, teológico, apoia-se em doutrinas que 
contêm proposições sagradas (valorativas), por terem sido reveladas pelo 
sobrenatural (inspiracional) e, por esse motivo, tais verdades são consideradas 
infalíveis e indiscutíveis (exatas); é um conhecimento sistemático do mundo 
(origem, significado, finalidade e destino) como obra de um criador divino; suas 
evidências não são verificadas: está sempre implícita uma atitude de fé perante 
um conhecimento revelado. Assim, o conhecimento religioso ou teológico parte 
do princípio de que as "verdades" tratadas são infalíveis e indiscutíveis, por 
consistirem em "revelações" da divindade (sobrenatural). A adesão das pessoas 
passa a ser um ato de fé, pois a visão sistemática do mundo é interpretada 
como decorrente do ato de um criador divino, cujas evidências não são postas 
emdúvida nem sequer verificáveis. A postura dos teólogos e cientistas diante 
da teoria da evolução das espécies, particularmente do homem, demonstra as 
abordagens diversas: de um lado, as posições dos teólogos fundamentam-se 
nos ensinamentos de textos sagrados; de outro, os cientistas buscam, em suas 
pesquisas, fatos concretos capazes de comprovar (ou refutar) suas hipóteses. 
Na realidade, vai-se mais longe. Se o fundamento do conhecimento científico 
consiste na evidência dos fatos observados e experimentalmente controlados, 
e o do conhecimento filosófico e de seus enunciados, na evidência lógica, 
fazendo com que em ambos os modos de conhecer deve a evidência resultar 
da pesquisa dos fatos ou da análise dos conteúdos dos enunciados, no caso do 
conhecimento teológico o fiel não se detém nelas à procura de evidência, mas a 
toma da causa primeira, ou seja, da revelação divina.
UNIDADE 1 | EPISTEMOLOGIA: SITUANDO CONCEITOS
18
4.3 CONHECIMENTO FILOSÓFICO
O conhecimento adquirido pela aplicação e uso dos princípios da Filosofia 
está estritamente ligado à razão. São construções racionais que se originam de 
questionamentos acerca do mundo e dos fenômenos que nele existem, bem como 
as formas que os seres humanos usam para compreender tais questões.
Ele é baseado na construção de hipóteses, mas que não partem da 
experimentação, e sim da experiência. São as sensações que dão a base para o 
ponto de partida das hipóteses filosóficas; desta forma, este tipo de conhecimento 
é considerado valorativo. Ele também não é verificável, pois não há como 
confirmar ou refutar as hipóteses apresentadas.
O método do conhecimento científico é experimental; a ciência 
caminha apoiada nos fatos reais e concretos e só afirma aquilo que a 
experimentação autoriza, enquanto a Filosofia usa o método racional, 
no qual prevalece o processo dedutivo, que antecede a experiência, 
e não exige confirmação experimental, mas somente coerência lógica 
(RUIZ, 2002, p. 114).
Assim, o conhecimento filosófico busca fazer uso da razão humana para 
questionar os problemas da humanidade, identificando o certo e o errado, tendo 
como seu objeto de análise todas as ideias, relações entre conceitos, exigências 
lógicas que não há como serem reduzidas à materialidade para serem testadas. 
Diante disso, não há como realizar observações utilizando instrumentos, como a 
ciência exigiria.
Fazendo uso da Filosofia, a forma de conhecer fundamenta-se no método 
racional – baseado na dedução -, que se antecipa com relação à experiência, e 
exige apenas que haja coerência lógica nos resultados, e não experimentações 
para comprovar as hipóteses.
Além disso, outro aspecto importante diz respeito aos objetos de análise da 
Filosofia, pois ela se preocupa com o que existe de mais geral, como as concepções 
acerca do universo, e é dessa forma que “procura responder às grandes indagações 
do espírito humano e, até, busca as leis mais universais que englobem e harmonizem 
as conclusões da ciência” (LAKATOS, MARCONI, 2003, p. 79).
O conhecimento, desde a Antiguidade, se preocupa em interrogar, 
interpretar e compreender o universo e a si mesmo, temas constantes de 
reflexões filosóficas. A filosofia compartilha, portanto, com o conhecimento, 
processos de busca sobre o sentido da vida, as interpretações do universo e 
as possibilidades a respeito do homem, tais como sua liberdade e finitude, 
bem como seus valores. Antigamente, as investigações que hoje se agrupam 
na matemática, lógica, física, química, meteorologia, geologia, biologia etc., 
eram inseparáveis da filosofia, uma tradição que veio pelo menos até o 
TÓPICO 1 | O QUE É CONHECER?
19
FONTE: Magalhães (2005, p. 41)
4.4 CONHECIMENTO CIENTÍFICO
O conhecimento científico busca fazer com que o ser humano rompa 
com o conhecimento popular, que compreende os fenômenos de forma geral e 
sem comprovações, para entender a constituição íntima destes fenômenos. Ele se 
caracteriza, portanto, pela capacidade de explicar, justificar, induzir ou aplicar leis.
Desde crianças, começamos a nos perguntar como o mundo funciona: desde 
a fase dos porquês a curiosidade investigadora está ativa, exigindo explicações 
válidas, respostas e justificações positivas e convincentes (RUIZ, 2002).
Conforme Ruiz (2002, p. 96), “Conhecer perfeitamente é conhecer pelas 
causas; saber cientificamente é ser capaz de demonstrar”. 
O conhecimento científico difere do conhecimento vulgar e vai muito 
além deste, porque explica os fenômenos e não só os apreende.
Uma das características que o conhecimento possui é a possibilidade 
de fazer e gerar perguntas, muitas vezes mais importantes do que as próprias 
respostas. Podemos ver esta técnica já sendo utilizada por Sócrates e Platão, a 
maiêutica. 
O conhecimento científico defende a capacidade de autocrítica, pois 
pretende evitar ambiguidades que são permitidas na linguagem e na arte, por 
exemplo, onde o uso de ironia e metáforas amplia a significação de seus discursos 
(MAGALHÃES, 2005).
século XIX, quando muitas delas ainda eram conhecidas como “filosofia 
natural”, expressão que englobava o estudo dos fenômenos da natureza.
Atualmente, nos estudos de filosofia da ciência ainda é recorrente 
a pergunta sobre a relação entre conhecimento científico e filosofia. Ao 
contrário do que pensam muitas pessoas guiadas pelo senso comum 
– e nessa visão estreita se incluem também muitos cientistas –, continua 
existindo uma relação mútua entre esses dois campos de investigação.
Com essas considerações, vemos que não é desejável separar 
conhecimento científico de filosofia, já que esta também se dedica a questionar 
e criticar uma atitude benéfica para o conhecimento, principalmente 
tendo em vista que graças à crítica ele se transforma e se aprofunda com 
o passar do tempo. Por outro lado, a filosofia encara a realidade sob uma 
multiplicidade de aspectos, enquanto, atualmente, cada ciência ilumina 
por um determinado ângulo. Se hoje as abordagens podem diferir, deve-se 
continuar, porém, a valorizar a multidisciplinaridade, e a filosofia é uma 
aliada na busca de um conhecimento mais integrado entre diversas áreas.
UNIDADE 1 | EPISTEMOLOGIA: SITUANDO CONCEITOS
20
O resultado da crítica foi aumentar o poder da razão, que se identifica 
principalmente por sua aplicação na ciência e tecnologia. Isso foi 
evidenciado pela capacidade crescente da medicina em nos tratar de 
modo eficaz e, depois, pelo papel desempenhado pelas máquinas, 
algo que assombrou o homem, levando-o a entrever o alcance de 
metas de bem-estar social e individual, procurando libertar-se das 
necessidades impostas pela natureza, ou dos males advindos da 
ignorância. O conhecimento puramente científico não se constitui em 
condição suficiente para tal meta, mas é uma condição necessária, 
dada a complexidade cultural atual da humanidade, sob pena da 
ameaça permanente de, sem ciência e tecnologia, cairmos num estado 
de barbárie (MAGALHÃES, 2005, p. 39).
Este tipo de conhecimento é a base de muitos aspectos do nosso cotidiano, 
ele permeia as concepções de todos acerca do mundo, explicando inúmeros 
fenômenos e permitindo a elaboração de conhecimentos comprovados por 
verificações, algo que outros conhecimentos não permitem.
Vamos retomar alguns conceitos fundamentais a respeito do conhecimento? 
Com base nos conteúdos estudados até aqui, responda às seguintes questões:
1. Qual a principal diferença existente entre os seres humanos e as demais 
espécies animais?
2. Qual a função do conhecimento para a humanidade?
3. Explique o que é o conhecimento popular.
4. Explique o que é o conhecimento religioso.
5. Explique o que é o conhecimento filosófico.
6. Explique o que é o conhecimento científico.
5 CONHECIMENTO X CETICISMO
Quando estudamos o conhecimento, suas formas de elaboração, sua 
validade, encontramos muitos temas relacionados com uma corrente de 
pensamento antiga, mas que ainda influencia os aspectos anteriores nas análises 
contemporâneas: o ceticismo.
Mesmo na Gréciaantiga estas ideias já estavam presentes, e participaram 
da construção de correntes filosóficas que apresentam elementos do ceticismo. As 
correntes mais radicais do ceticismo defendem que sequer é possível alcançar o 
conhecimento, e que tudo o que pensamos conhecer, na verdade não conhecemos.
AUTOATIVIDADE
TÓPICO 1 | O QUE É CONHECER?
21
O ceticismo significa o oposto de conhecimento, e também pode ser 
utilizado como sinônimo do ato de não crer, da incredulidade. Quem duvida da 
existência de Deus, por exemplo, é chamado de cético religioso, assim como há o 
ceticismo moral etc. Mas, o ceticismo diretamente relacionado ao conhecimento 
chama-se ceticismo epistemológico, que nega a possibilidade do conhecimento 
ou da crença real.
Uma pessoa pode ser cética com relação a uma determinada área do 
conhecimento e acreditar em outra, além do que, o ceticismo não deve ser confundido 
com uma divergência de opiniões. 
Quando concepções céticas se apresentam, especialmente se a dúvida 
é argumentada e não apenas fruto de um desespero teórico, é preciso 
aceitá-las ou responder a elas. Pois não se tratam apenas de dúvidas 
particulares (por exemplo, se o objeto que vejo sobre a mesa é uma 
caneta ou um lápis), mas dúvidas gerais sobre a confiabilidade das 
formas em que adquirimos, testamos e raciocinamos sobre nossas 
crenças (por exemplo, se nossos sentidos nos dão acesso direto à 
realidade). Uma das formas históricas mais interessantes e influentes 
de considerar o desafio cético encontramos na epistemologia de 
Descartes (SEIFERT, 2007, p. 16).
René Descartes foi cientista e filósofo, nascido na França, e sempre deu 
ênfase à questão epistemológica, sendo considerado fundador da Filosofia 
moderna. Ele não era um cético, mas utilizou a dúvida para obter conhecimento 
seguro (SEIFERT, 2007).
FIGURA 5 – RENÉ DESCARTES
FONTE: Disponível em: <http://www.csus.edu/indiv/g/gaskilld/intro/
epistemology2webnotes.htm>. Acesso em: 30 abr. 2013.
UNIDADE 1 | EPISTEMOLOGIA: SITUANDO CONCEITOS
22
Os filósofos que vieram antes dele pretendiam refutar suas dúvidas 
por meio de conhecimentos contrários, enquanto ele propôs que deveria ser 
considerado como conhecimento seguro apenas aquele que fosse resistente a 
todo tipo de dúvida possível, fundamentando a ciência com garantias.
Ele elaborou um método chamado de dúvida metódica, ou dúvida 
cartesiana. Este método consistia em testar aquilo que era considerado 
conhecimento sob o pano de fundo de hipóteses de dúvida, que colocariam em 
xeque as fontes e os princípios que sustentam a certeza daquele conhecimento. 
E, se conseguirmos mostrar que nossas fontes e princípios são duvidosos ou 
seguros, para ele todo o resto seguirá o mesmo resultado desta investigação 
(SEIFERT, 2007).
Para que nós entendamos adequadamente o que Descartes pretendeu 
fazer, três pontos são importantes. Primeiro, os argumentos que 
ele apresenta são nada mais que hipóteses de dúvida. Não está ele 
afirmando ou supondo que isto é realmente o caso. Segundo, as 
hipóteses de dúvida são abrangentes, e se referem não a conhecimentos 
particulares, mas aos princípios do conhecimento. Terceiro, constituem 
uma dúvida metódica, dirigida a entender em que nossas opiniões se 
baseiam ou como se justificam, e não uma dúvida prática, relacionada a 
nossas ações. Quanto a estas, Descartes adota uma postura prudencial, 
julgando conveniente orientar as ações pelos usos e costumes da 
sociedade em que se vive (SEIFERT, 2007, p. 16).
Para a construção destas hipóteses de dúvidas, Descartes utiliza como 
ponto de partida algo geralmente aceito, modificando apenas, caso seja necessário, 
para a inserção da dúvida metódica, e então amplia o alcance da situação inicial. 
Esta seria uma experiência racional, que estaria baseada em suposições, e que 
pretende auxiliar o alcance de conclusões. Neste sentido, ele elaborou três tipos 
de hipóteses.
5.1 HIPÓTESE DO ENGANO DOS SENTIDOS
Esta hipótese é a mais comum no ceticismo, e relaciona-se com a experiência 
mais cotidiana, como quando acreditamos em algo e depois vemos que é uma 
ilusão causada por nossos sentidos. Por exemplo, podemos nos enganar com as 
cores de um objeto distante, com relação a palavras que foram ditas, entre outros. 
Quem causa este engano são as nossas sensações.
Por isso, Seifert (2007, p. 17) indica que “a hipótese do engano dos 
sentidos consiste em ampliar essa experiência comum e indagar: se os sentidos 
nos enganam algumas vezes, o que nos garante que não nos enganam sempre ou 
na maioria das vezes?”.
Na época, a Física estava se constituindo como ciência, e mostrava com 
clareza que a confiabilidade que era colocada nos sentidos parecia errônea, 
pois muitas das teorias criadas nesta época contrariavam os sentidos humanos, 
TÓPICO 1 | O QUE É CONHECER?
23
explicando fenômenos por meio de descrições que não se alinhavam com a 
sensação humana.
As qualidades do objeto é que acabaram fundamentando esta perspectiva, 
pois compreendia-se que as propriedades sensoriais imediatas não explicavam por 
si o objeto, visto que geralmente estavam associadas apenas a um sentido. Somente 
utilizando a interação dos sentidos e das qualidades do objeto é que seria possível 
chegar a uma sensibilidade mais correta. 
Por meio disso seria possível chegar ao que se chamou de qualidade 
primária, relacionada com a possibilidade de estudar a figura, o número e o 
movimento cientificamente. “Não que os conhecemos independentemente dos 
sentidos, mas temos deles noção mais clara em razão do exercício de reflexão e 
argumentação dos dados sensoriais” (SEIFERT, 2007, p. 18).
Esta hipótese do engano dos sentidos retira-nos algumas certezas com 
relação aos objetos físicos e ao que consideramos verdadeiro com relação a eles, 
mas permite a confiabilidade às sensações mais próximas.
5.2 HIPÓTESE DO SONHO
Esta hipótese também relaciona-se a uma experiência comum, ligada ao 
realismo dos sonhos que vivenciamos, que, mesmo depois que acordamos, ainda 
temos a impressão de que realmente ocorreram. 
Conseguimos diferenciar quando estamos dormindo e sonhando, ou 
acordados e vivendo o suposto real, mas quando paramos para refletir, chegamos 
à conclusão de que o que ocorria no sonho, dentro dele, era a realidade daquele 
contexto. Apenas nos damos conta de que era um sonho quando já estamos 
acordados.
O princípio da hipótese do sonho é esse: quem nos garante que não 
estamos sempre sonhando? Você pode responder que é o nosso despertar, mas 
nada garante que este despertar não esteja dentro de outro grande sonho. Afinal, 
quando sonhamos, as coisas mais usuais e comuns ocorrem.
Admitindo-se a hipótese do sonho, embora muitas de nossas crenças 
comuns (especialmente aquelas relativas ao que consideramos que seja 
a realidade sensível do cotidiano) sejam abaladas, permanecem ainda 
garantidas as crenças relacionadas às qualidades primárias, as crenças 
matemáticas, as regras do raciocínio. Por exemplo, o sonho deixa 
intacta a crença de que 3 . 3 = 9; mesmo que eu admita a possibilidade 
de que esteja agora sonhando, e não posso então estar seguro de que 
os objetos físicos ao meu redor têm as características que me parecem 
ter, ou mesmo existam, o meu conhecimento matemático não se altera, 
e uma multiplicação não muda sua regra, esteja eu acordado ou 
sonhando (SEIFERT, 2007, p. 19). 
UNIDADE 1 | EPISTEMOLOGIA: SITUANDO CONCEITOS
24
5.3 HIPÓTESE DO GÊNIO MALIGNO
Esta hipótese é baseada na existência de um Gênio Maliano extremamente 
poderoso. Supõe-se que ele se divirta nos enganando. Assim, sempre que se julgar 
que se atingiu um determinado conhecimento, na verdade se trata deste Gênio 
Maligno nos enganando e iludindo.
Ele estaria, portanto, produzindo pensamentos em nós, e de todos estes 
pensamentos nós teríamos a sensação da certeza, que na realidade não existe, é 
apenas produzida. E com esta produção, a única coisa de real que permanece é 
o sujeito pensante, mesmo que os pensamentos sejam produzidos por outro ser.É neste ponto que Descartes chegou à sua máxima: “Penso, logo existo”, 
pois para que haja o engano é preciso que o sujeito pense que algo é verdadeiro, 
e quanto a isto, o Gênio Maligno não teria como interferir. Mas a certeza aqui 
encontrada está apenas na certeza momentânea, então se questionou como sair 
do pensamento para o mundo real. 
A partir dos questionamentos e soluções que Descartes indicou, esta 
forma de pensar predominou por muito tempo nos estudos epistemológicos. 
FIGURA 6 – CETICISMO FUNDAMENTADO I
FONTE: Disponível em: <http://www.criacionismo.com.br/2010/07/o-cetico-fundamentos-para-
duvida.html>. Acesso em: 30 abr. 2013.
A hipótese do sonho está bem exemplificada na trilogia do 
filme Matrix. Sugiro que o assista para reforçar a compreensão deste 
conteúdo.
DICAS
TÓPICO 1 | O QUE É CONHECER?
25
FIGURA 7 – CETICISMO FUNDAMENTADO II
FONTE: Disponível em: <http://www.criacionismo.com.br/2010/07/o-cetico-fundamentos-para-
duvida.html>. Acesso em: 30 abr. 2013.
Para ampliar seus conhecimentos acerca do ceticismo em Descartes, acesse 
o link: <http://revistareflexoes.com.br/files/artigos/7.2-Edgar-Descartes-Unicamp.pdf.pdf> e 
leia o texto de ZANETTE, Edgard V. C. A influência do ceticismo na filosofia de Descartes e 
a dúvida cartesiana posta em questão.
DICAS
26
RESUMO DO TÓPICO 1
Neste tópico você viu:
• A grande distinção entre os seres humanos e as outras espécies animais é a 
capacidade do aprendizado, a possibilidade de aprender novas formas de 
comportamento, que não estejam em si previamente definidos pelos genes. 
Esta possibilidade é fruto da capacidade de conhecer.
• Os dados são quantificações, as informações são estes dados em uma leitura 
contextualizada, e partindo destas informações e realizando reflexões e 
sínteses, o ser humano produz o conhecimento.
• De acordo com a cultura e com o período de tempo que se estava vivendo, 
havia diferenciações entre o tipo de problemas que se buscava conhecer e, 
portanto, o tipo de conhecimento que se desejava adquirir.
• Os seres humanos possuem as habilidades de sentir e de raciocinar que, 
somadas à possibilidade de processar conceitos e ideias, permitem que as 
sensações obtidas sejam avaliadas e articuladas a partir do raciocínio. Surge 
assim a produção do conhecimento.
• O conhecimento popular é o conhecimento do povo, que compreende os fatos 
sem buscar suas causas. Ele é obtido ao acaso e repassado de uma geração 
a outra, sendo aprendido ou ensinado sem a aplicação de algum método de 
investigação, apenas partindo das circunstâncias da vida.
• O conhecimento religioso, também chamado conhecimento teológico, possui 
seus fundamentos nas crenças individuais e na fé. Interpreta-se a realidade e 
explica-se o mundo a partir das doutrinas das respectivas religiões.
• O conhecimento adquirido pela aplicação e uso dos princípios da Filosofia 
está estritamente ligado à razão. São construções racionais que se originam de 
questionamentos acerca do mundo e dos fenômenos que nele existem, bem 
como as formas que os seres humanos usam para compreender tais questões.
• O conhecimento científico busca fazer com que o ser humano rompa com o 
conhecimento popular, que compreende os fenômenos de forma geral e sem 
comprovações, para entender a constituição íntima destes fenômenos. Ele se 
caracteriza, portanto, pela capacidade de explicar, justificar, induzir ou aplicar leis.
• O ceticismo significa o oposto de conhecimento, e também pode ser utilizado 
como sinônimo do ato de não crer, da incredulidade. Porém, o ceticismo 
diretamente relacionado ao conhecimento chama-se ceticismo epistemológico, 
que nega a possibilidade do conhecimento ou da crença real.
27
Partindo do que estudamos até aqui a respeito do ceticismo, procure encontrar, 
em livros ou em meios virtuais, informações sobre algum cético grego ou 
romano. Defina um dos argumentos que ele utiliza para defender o ceticismo 
e, a seguir, contraponha este argumento com suas próprias ideias.
AUTOATIVIDADE
28
29
TÓPICO 2
O QUE É A CIÊNCIA?
UNIDADE 1
1 INTRODUÇÃO
Na contemporaneidade, a ciência está presente em inúmeros momentos 
da nossa vida, pois ela permitiu à humanidade a produção de inúmeros novos 
conhecimentos que resultaram em facilidades e também em extensão das 
capacidades humanas no cotidiano.
Mas, como vimos no tópico anterior, nem todo tipo de conhecimento 
pode ser considerado científico, é preciso que ele cumpra certos critérios. O 
conhecimento científico possui características, além de se definir pela aplicação 
do método científico.
Entender o método científico é fundamental para compreender a ciência, 
pois suas etapas devem ser seguidas para que se cumpram os critérios que darão 
ao resultado a legitimidade científica.
No caso das Ciências Humanas e das Ciências Sociais, é preciso que isso 
seja ainda mais considerado, pois uma das grandes problemáticas discutidas 
é o fato de que, ao mesmo tempo, o cientista social é sujeito e objeto em sua 
pesquisa. Afinal, ele está estudando a sociedade, e também faz parte de um 
grupo social.
Portanto, existem especificidades na aplicação do método científico 
nas Ciências Sociais que conduzem à possibilidade de que elas se constituam 
efetivamente como ciências. Assim, podemos determinar a legitimidade 
científica desta área do conhecimento.
Para compreender toda esta problemática que envolve a ciência e as 
Ciências Sociais, neste tópico vamos conhecer as características da ciência, o 
funcionamento do método científico, sua aplicação nas Ciências Sociais, além 
de compreender como se dá o processo de legitimação de seus conhecimentos 
como ciência.
Estas são informações fundamentais para os acadêmicos desta área, 
portanto, vamos lá?
UNIDADE 1 | EPISTEMOLOGIA: SITUANDO CONCEITOS
30
2 CONHECIMENTO CIENTÍFICO: CARACTERÍSTICAS
Considerando os tipos de conhecimentos que foram apresentados no 
tópico anterior, é possível notar que o conhecimento científico está presente 
em nosso cotidiano de forma bastante evidente, pois manifesta-se desde as 
necessidades mais comuns de sobrevivência (como aquecer um alimento), até 
as necessidades mais complexas, como realizar a comunicação com alguém que 
esteja no outro lado do planeta.
A ciência possui origem na palavra scire, que significa saber, ou conhecer, 
e atualmente ela possui dois sentidos. Um deles significa tomar conhecimento 
de algo, conhecer (estar ciente, ter ciência). O outro sentido, que é o que nos 
interessa nestes estudos, trata da ciência como conhecimento que registra fatos 
e os interpreta, mas também identifica e demonstra suas causas constitutivas, ou 
seja, o que os determinou.
Diremos, para nossos propósitos, que ciência é um conhecimento 
crítico generalizante, expresso implícita ou explicitamente em termos 
causais, que busca entender o mundo em que vivemos (incluindo o 
próprio homem), ou seja, a realidade, em qualquer nível. Entender 
o mundo de forma “generalizante” é o que também se poderia 
descrever como elaborar teorias, de modo que essas tenham uma certa 
adequação com a realidade do mundo, permitam nele intervir, fazer 
predições etc. – e não utilizamos o conceito utilitarista de domínio 
sobre o mundo, embora o “entender” favoreça, possibilite e leve a esse 
domínio (MAGALHÃES, 2005, p. 88).
Assim, é importante ressaltar que a ciência não possui a pretensão de 
apenas explicar o mundo e seus fenômenos, mas também objetiva intervir nele.
A ciência também não deve ser entendida como algo pronto e acabado, 
pois se trata de um processo, é algo que se transforma. A realidade nunca está 
finalizada ou esgotada, ela sempre está em modificação, portanto, o ato de 
conhecer significa sempre reiniciar este mesmo processo. E, para isso, podemos 
aproveitar aquilo que já foi produzido e conhecido, acumulando e reforçando a 
existência de um conhecimento progressivo.
O conhecimento científico possui características que garantem sua 
validade e determinam seu método, e que tratadas individualmentenão definem 
o conceito de ciência, mas tratadas em conjunto, caracterizam e o redefinem com 
relação aos outros tipos de conhecimento. 
Uma das características da ciência é o conhecimento pelas causas do 
fenômeno, que interpreta este a partir de suas causas determinantes, ou seja, 
explicando os motivos pelos quais ele é da forma como se apresenta. 
Saber que ao longo do equador faz mais calor que abaixo dos trópicos 
é um simples conhecimento empírico ou vulgar; relacionar este 
fenômeno constante às suas causas determinantes, isto é, demonstrar 
por que razão o fenômeno assim se apresenta, já é conhecimento 
menos vulgar e mais científico (RUIZ, 2002, p. 128).
TÓPICO 2 | O QUE É A CIÊNCIA?
31
Buscando este conhecimento pelas causas, as chances de que se atinja o real, 
o mais íntimo existente nos fenômenos, é ampliada. O fato de que o conhecimento 
científico não para apenas no registro dos fatos, pois se constitui de um longo 
processo de pesquisa, permite que suas conclusões sejam generalizadas.
A causalidade na definição é importante, porque remete a explicação 
ao nível da nossa racionalidade, de forma que possa ser entendida por 
qualquer um, até mesmo quando não concorde com tal explicação. Esse 
conhecimento que se diz “teorizado” é certamente racional, de outra 
forma não seria generalizante, e pode ou não prescindir de experiências 
práticas, conforme a natureza do que se estiver conhecendo – o que 
nos permite nele incluir a importantíssima categoria das experiências 
“mentais”, já referidas e ilustradas no caso de Galileu no que diz 
respeito à queda dos corpos (MAGALHÃES, 2005, p. 89).
A ciência pesquisa a constituição dos fenômenos, apreendendo o elemento 
comum, exprimindo seus resultados em enunciados generalistas que consideram 
e trazem em si a relação entre a causa e o efeito. “A ciência generaliza porque 
atinge a constituição íntima e a causa comum a todos os fenômenos da mesma 
espécie” (RUIZ, 2002, p. 129).
A característica de generalidade que possui o conhecimento científico 
permite a ele ser considerado como válido universalmente e, desta forma, é 
possível afirmar que a validade de seus enunciados autoriza a realização de 
prognósticos, ou seja, previsões seguras. Generalidade refere-se à “capacidade de 
formular leis que sejam as mais gerais possíveis e não apenas válidas para casos 
particulares; quanto que um conhecimento possa ser válido como uma explicação 
ou relação não apenas para uma única pessoa, mas para a maior parte possível da 
sociedade” (MAGALHÃES, 2005, p. 89).
Para que se faça esta generalização, é preciso que haja uma atividade de 
caráter mais duradouro, que abrigue diversos conhecimentos em pesquisas de 
caráter cumulativo. Assim, além da progressividade do conhecimento, pode-se 
garantir a possibilidade de atingir a característica da generalidade. E é preciso 
também um trabalho coletivo, conforme explica Magalhães (2005, p. 90):
Os atributos de “generalizante” e “crítico” do conhecimento servem 
para explicar a racionalidade da ciência, mas também lhe dão o 
caráter de empreendimento coletivo, pois, ainda que indivíduos 
trabalhem em seu desenvolvimento, o processo só se completa 
quando o conhecimento se torna público num certo grau, o que é uma 
outra acepção da palavra “generalizante”. Aí se torna importante 
sua racionalidade, para que passe não só pela autocrítica, mas pela 
crítica pública, principalmente de outros cientistas, sublimando-se 
hostilidades intelectuais.
A ciência possui finalidades que auxiliam o ser humano a encontrar as 
respostas que necessita sobre o mundo: a finalidade teórica e a finalidade prática. 
A finalidade teórica diz respeito à vontade de compreender, de conhecer, de 
desvendar aquilo que é desconhecido, satisfeita pela ciência. Enquanto esta 
necessidade é satisfeita, a ciência está realizando sua finalidade teórica.
UNIDADE 1 | EPISTEMOLOGIA: SITUANDO CONCEITOS
32
Uma vez que a finalidade teórica serviu à pesquisa desinteressada, e 
manteve a curiosidade de pessoas fundamentais para a pesquisa científica, a 
pesquisa fundamental e a descoberta da verdade permitiram avanços práticos no 
domínio da natureza, em previsões futuras e avanços tecnológicos, melhorando 
as condições de vida (RUIZ, 2002). Portanto, aí está a finalidade prática.
O método também é uma importante característica da ciência, pois ela 
se define em função da existência e aplicação deste método. Ele possui etapas 
fundamentais, pelas quais devem passar os conhecimentos que ao final são 
considerados científicos. O conhecimento popular, por exemplo, não possui 
método, baseia-se na observação dos fenômenos e na transmissão de enunciados, 
enquanto o científico utiliza o método para realizar um processo de pesquisa.
A Filosofia usa o método racional de caráter eminentemente dedutivo. 
Em contraposição à Filosofia, a ciência caracteriza-se pelo emprego do 
método experimental, essencialmente indutivo. Este método permite 
o registro de elementos relevantes para a solução de determinado 
problema, assim como a eliminação segura e precisa de eventuais 
causas estranhas, na exata medida em que procura pô-las sob controle. 
Toda experimentação científica processa-se em condições de rigoroso 
controle de toda a situação. Sem controle, não se pode identificar a 
causa ou a fonte real dos fenômenos; se não se eliminar a possibilidade 
de ação ou atuação de causas não controladas, o procedimento não 
será científico, nem conduzirá a conclusão segura (RUIZ, 2002, p. 131). 
As investigações realizadas na ciência são metódicas e rigorosas, por isso 
temos o motivo que origina a confiança em seus resultados. Retornaremos ao 
estudo do método científico na próxima seção, que tratará exclusivamente sobre 
a metodologia científica.
A exatidão é considerada outra característica do conhecimento elaborado 
pela aplicação do método da ciência. Se comparada às outras formas de 
conhecimento, a exatidão das conclusões científicas é decorrente da possibilidade 
de demonstração e comprovação pela via da experimentação, ainda que os 
enunciados científicos possam sofrer processos de revisão. “Cumpre ainda 
observar que a ciência é uma instituição social. Os cientistas são membros de uma 
sociedade intelectual universal consagrada à procura da verdade e à melhoria 
das condições de vida da humanidade” (RUIZ, 2002, p. 131).
O conceito de método científico será estudado com mais afinco na próxima seção!
ESTUDOS FU
TUROS
TÓPICO 2 | O QUE É A CIÊNCIA?
33
A regularidade é identificada nas pesquisas científicas quando se observam 
fenômenos cujas causas sucederam os mesmos efeitos. Os fenômenos apresentam 
regularidades, que se tornam objeto de estudo e, quando constatadas, contemplam 
a elaboração de teorias que podem ser utilizadas por outros pesquisadores para 
repetir os testes. Tornam-se um conjunto de informações comprovadas pela 
observação ou experimentação sistemática (DIAS, 2005).
Para que o conhecimento científico seja atingido, é necessária uma boa dose 
de objetividade. Assim, vale a capacidade do cientista de investigar um fenômeno, 
um problema, e encontrar soluções, indo além do que o conhecimento popular 
supõe, e não apenas o que ele imagina ou pensa. A base deve ser constituída por 
dados reais e concretos, resultado da aplicação do método científico, que já foi 
mencionado anteriormente.
A criticidade é fundamental ao processo de validação da ciência, bem 
como a racionalidade. O conhecimento científico é baseado na razão humana, na 
capacidade de pensamento e, portanto, na possibilidade que o ser humano possui 
de construir conhecimento. Esta racionalidade no processo garante a busca por 
soluções completas, e não apenas soluções pessoais ou opiniões do cientista. 
Além disso, a ciência está sujeita a transformações que irão modificar os 
níveis anteriores de conhecimento, a partir do conhecimento progressivo que se 
desenvolve. Ela é uma atividade que sofre interferência histórica, das ideologias 
vigentes, da opiniãopública, das considerações religiosas, entre outros.
E esta mesma opinião também exige que as pesquisas científicas sejam 
imparciais, ou seja, a publicação de seus resultados deve ser integral, sem disfarces. 
Não se permitem omissões de resultados, ou tentativas de escolha de dados para 
publicação, modificando assim os juízos de valor que serão construídos a partir 
da publicidade.
Como os resultados obtidos a partir da aplicação do método científico 
devem ser gerais, ou seja, ter a capacidade da generalização para casos análogos, 
eles também podem ser considerados consistentes, pois durante o período no 
qual os resultados não são refutados, ela serve como referência. As referências 
tornam-se orientações para os seres humanos e, assim, pode-se afirmar que não 
são limitadas, além de coerentes, por não permitirem contradições.
Os cientistas, por serem detentores do espírito científico, precisam garantir 
em suas pesquisas a característica da integridade, pois além de evitarem a cópia 
indevida de materiais sem referência - ou seja, o plágio -, devem estar preparados 
para as dificuldades que o processo de pesquisa impõe. Acrescenta-se a isso a 
integridade no processo de pesquisa, intrínseca à característica da rigorosidade.
UNIDADE 1 | EPISTEMOLOGIA: SITUANDO CONCEITOS
34
FONTE: Disponível em: <http://www.psiquiatriageral.com.br/cientificos/ciencia_conhe_
cientifico.htm>. Acesso em: 22 maio 2013.
FIGURA 8 – SUBDIVISÕES DAS CIÊNCIAS
FONTE: Lakatos e Marconi (2003, p. 81)
Diversos autores tentaram definir o que se entende por ciência. 
Consideramos mais precisa a definição de Trujillo Ferrari, expressa em seu 
livro Metodologia da ciência. Entendemos por ciência uma sistematização de 
conhecimentos, um conjunto de proposições logicamente correlacionadas sobre o 
comportamento de certos fenômenos que se deseja estudar: "A ciência é todo um 
conjunto de atitudes e atividades racionais, dirigidas ao sistemático conhecimento 
com objeto limitado, capaz de ser submetido à verificação" (1974, p. 8).
As ciências possuem:
a) Objetivo ou finalidade. Preocupação em distinguir a característica comum 
ou as leis gerais que regem determinados eventos.
b) Função\Aperfeiçoamento, através do crescente acervo de conhecimentos, 
da relação do homem com o seu mundo. 
c) Objeto. Subdividido em: 
• material, aquilo que se pretende estudar, analisar, interpretar ou verificar, 
de modo geral;
• formal, o enfoque especial, em face das diversas ciências que possuem o 
mesmo objeto material.
A complexidade do universo e a diversidade de fenômenos que nele 
se manifestam, aliadas à necessidade do homem de estudá-los para poder 
entendê-Ios e explicá-los, levaram ao surgimento de diversos ramos de 
estudo e ciências específicas. Estas necessitam de uma classificação, quer de 
acordo com sua ordem de complexidade, quer de acordo com seu conteúdo: 
objeto ou temas, diferença de enunciados e metodologia empregada.
CIÊNCIAS
FORMAIS
NATURAIS
Lógica
Matemática
Física
Química
Biologia e outras
Antropologia Cultural
Direito
Sociologia
Psicologia Social
Polícia
Economia
SOCIAIS
FACTUAIS
TÓPICO 2 | O QUE É A CIÊNCIA?
35
Na medida em que surgem novos campos, novos conhecimentos – que, 
em geral, são fruto de campos anteriores mais especializados –, estas disciplinas 
passam a exigir seu estatuto de disciplina autônoma. A biologia, química, 
geologia, por exemplo, antes eram agrupadas em “história natural”, e atualmente 
são consideradas individualmente (MAGALHÃES, 2005).
Os profissionais destes campos trabalham para que possam ser encontradas 
e desvendadas regularidades, que correspondem às que eram chamadas, 
antigamente, de leis da natureza. Assim, o estudo específico das regularidades 
dos movimentos dos planetas auxiliou na identificação da lei da gravidade.
A identificação destas leis permite que sejam feitas previsões. Por 
exemplo, onde se encontrará determinado planeta em determinado 
momento. Se as previsões falharem, teremos que voltar à prancheta: 
os cientistas devem estar preparados para modificar suas ideias 
quando houver indícios que sugerem, de modo bastante forte, que 
estão errados. Esse crescimento por meio de mudanças garante 
que a imagem que temos do mundo aumentará continuamente seu 
alcance. Em outras palavras, a ciência progride à medida que o tempo 
passa não apenas pela acumulação de mais dados, mas também por 
proporcionar percepções mais gerais e mais elaboradas da natureza 
de nosso mundo. Todos esses pressupostos levaram os cientistas a 
acreditar que, embora a ciência não seja a única forma de explorar o 
mundo, ela o faz de uma forma única (MEADOWS, 1999, p. 48).
A partir de todas estas características, é possível notar que há um amplo 
campo de estudos definido, que se volta especificamente a compreender como 
se dá a atividade científica. Na área de Ciências Sociais, o campo de estudos que 
busca compreender a atividade de elaboração do conhecimento é a Sociologia 
do Conhecimento. Além de observar com criticidade os saberes e métodos 
sociológicos, ela também se volta para a interpretação da própria ciência.
Para conhecer em detalhes os objetos e estudos da Sociologia 
do Conhecimento, comece pela leitura do seguinte livro: MATTEDI, 
Marcos Antonio. Sociologia e Conhecimento: introdução à abordagem 
sociológica do problema do conhecimento. Chapecó: Argos, 2006.
DICAS
UNIDADE 1 | EPISTEMOLOGIA: SITUANDO CONCEITOS
36
3 METODOLOGIA CIENTÍFICA
O método é um caminho para a resolução de um problema, algo que 
será aplicado racionalmente e que permitirá, por meio de seus resultados, que se 
solucione uma pergunta ou situação colocada inicialmente como problemática. 
Ele é composto por um conjunto de normas que devem ser seguidas para que a 
pesquisa seja conduzida adequadamente.
A palavra grega methodos vem da justaposição de meta e hodos, ou 
seja, “através ou ao longo do caminho”. Metodologia seria, portanto, 
o estudo ou a ciência do caminho, se pretendendo que este seja uma 
trilha racional para facilitar o conhecimento, além de trazer implícita 
a possibilidade de, como caminho, servir para que diversas pessoas 
o percorram, isto é, que possa ser repetidamente seguido. Quando 
se usa a expressão “método científico”, o que se quer designar é, 
geralmente, a estrutura da parte do processo de conhecimento em que 
são elaboradas e testadas hipóteses que dizem respeito à ciência. Uma 
generalização disso é a descrição e busca de caminhos para resolver 
problemas, que até no senso comum acabam tendo uma “metodologia” 
(MAGALHÃES, 2005, p. 226).
Magalhães (2005, p. 227) nos traz um exemplo prático do que é o método: 
Suponhamos que não estamos achando a chave de casa. Primeiro, 
identificamos o problema, que, nesse caso, é imediato – entrar na casa, 
certificando-nos antes de que nela não haja alguém para abrir a porta. 
Fazemos, então, hipóteses, que pensamos serem adequadas – não 
olhamos direito nos bolsos ou na bolsa? Será que há alguém que tenha 
outra cópia da chave? Chamamos um serralheiro? Tentamos entrar por 
outra via que não seja a porta e, nessa hipótese, vamos precisar dar um 
jeito de desligar o sistema de alarme? E assim por diante, até que todas 
ou algumas dessas hipóteses são testadas e, se necessário, alteradas, 
configurando um caminho de raciocínio para resolver o problema.
Os métodos científicos são utilizados por diversos ramos de estudo, que 
nem sempre são ciências, porém todas as ciências são caracterizadas pelo uso 
da metodologia científica. Pois o que as define é justamente a utilização deste 
método para a compreensão e interpretação de fenômenos. 
AUTOATIVIDADE
Registre duas características existentes no conhecimento científico, e 
descreva-as.
TÓPICO 2 | O QUE É A CIÊNCIA?
37
O método não pode ser ignorado, pois há grandes chances de que não 
se atinja o sucesso na pesquisa caso esta postura seja assumida. Além disso, ele 
reflete a economia de tempo que pode ser operada pelo pesquisador, a partir do 
uso de contribuiçõesacumuladas pelos seus antepassados.
Há uma diferenciação entre os termos método e técnica. O método indica 
modos pelos quais as atividades podem ser realizadas de forma mais segura, por 
uma ação mais perfeita, a partir do roteiro (método).
A rigor, porém, reserva-se a palavra método para significar o traçado 
das etapas fundamentais da pesquisa, enquanto a palavra técnica 
significa os diversos procedimentos ou a utilização de diversos 
recursos peculiares a cada objeto de pesquisa, dentro das diversas 
etapas do método. Diríamos que a técnica é a instrumentação específica 
da ação, e que o método é mais geral, mais amplo, menos específico. 
Por isso, dentro das linhas gerais e estáveis do método, as técnicas 
variam muito e se alteram e progridem de acordo com o progresso 
tecnológico, naturalmente (RUIZ, 2002, p. 138).
Assim, entende-se que o uso dos métodos científicos não é exclusivo das 
ciências, mas elas só se definem pela utilização destes métodos. Nas palavras de 
Lakatos e Marconi (2003, p. 83), “o método é o conjunto das atividades sistemáticas 
e racionais que, com maior segurança e economia, permitem alcançar o objetivo 
– conhecimentos válidos e verdadeiros -, traçando o caminho a ser seguido, 
detectando erros e auxiliando as decisões do cientista”.
A partir do século XVI procurou-se criar um método baseado em uma linha 
de pensamento que buscava um conhecimento fundamentado em garantias, não 
procurando mais a natureza íntima das coisas. Passa-se a buscar a relação entre 
elas, e a explicação de fenômenos por meio da observação científica e da razão.
A metodologia consiste no estudo dos métodos, e ela se preocupa com 
as etapas do conhecimento, com a realização de pesquisas e investigações. É 
possível, portanto, que a ciência e sua aplicação sejam estudadas, na intenção 
de analisar seus próprios métodos de pesquisa. “Explicitar e discutir métodos 
pode ser uma via para descobrir novos caminhos e resultados, ampliando o 
conhecimento, além de ajudar a decidir que um caminho deve ser excluído se 
não estiver levando aos resultados procurados – resumidamente, o método pode 
fazer parte da epistemologia” (MAGALHÃES, 2005, p. 230).
Vale lembrar que a metodologia também é contextualizada, pois a ciência 
também é condicionada historicamente, e está situada em um contexto social, no 
qual pode ser válida por grande tempo, mas não imutável. Mas o pesquisador 
não deve apenas voltar sua preocupação para o método, pois de acordo com 
Magalhães (2005, p. 232):
UNIDADE 1 | EPISTEMOLOGIA: SITUANDO CONCEITOS
38
Por outro lado, uma preocupação exagerada com a metodologia pode 
atrapalhar a investigação em qualquer campo. Já mencionamos que não 
existe uma receita de método que deflagre o sucesso de uma pesquisa, e 
a história mostra que não só inexiste um caminho infalível, mas também 
que não há uma receita para, pelo menos, evitar o fracasso. Afinal, 
se houvesse essa precisão, teríamos como chegar ao conhecimento 
completo da realidade, o que não acreditamos ser possível. Há, 
no máximo, alguns métodos dos quais se pode dizer que são mais 
adequados aos trabalhos de pesquisa – afinal, um método nada mais 
é do que um caminho, podendo haver muitos caminhos para se chegar 
a um destino. Além disso, se a metodologia for encarada apenas como 
uma técnica, tende a se tornar automatizada e estéril, pois não fará parte 
da busca do conhecimento, perdendo sua dimensão epistemológica.
As etapas do método científico não surgiram antes que a humanidade 
começasse a pensar cientificamente. Pelo contrário, primeiro passou-se a agir 
para a elaboração do conhecimento científico, e só então se parou para um exame 
e análise do caminho que conduzia ao êxito no resultado de trabalhos. Assim, 
surgiu o caminho que deveria ser traçado para a obtenção de dados e produção 
do conhecimento científico.
Conforme o avanço na ciência, foram surgindo novos métodos e sendo 
modificados outros, mas há etapas que devem ser cumpridas para que se atinja 
objetivos a partir da forma científica. Estas etapas nos são apresentadas abaixo:
a) Descobrimento do problema ou lacuna num conjunto de conhecimentos. 
Se o problema não estiver enunciado com clareza, passa-se à etapa 
seguinte; se estiver, passa-se à subsequente; 
b) Colocação precisa do problema, ou ainda, a recolocação de um velho 
problema, à luz de novos conhecimentos (empíricos ou teóricos, 
substantivos ou metodológicos); 
c) Procura de conhecimentos ou instrumentos relevantes ao problema (por 
exemplo, dados empíricos, teorias, aparelhos de medição, técnicas de cálculo 
ou de medição), ou seja, exame do conhecido para tentar resolver o problema; 
d) Tentativa de solução do problema com auxílio dos meios identificados. 
Se a tentativa resultar inútil, passa-se para a etapa seguinte; em caso 
contrário, à subsequente; 
e) Invenção de novas ideias (hipóteses, teorias ou técnicas) ou produção de 
novos dados empíricos que prometam resolver o problema; 
f) Obtenção de uma solução (exata ou aproximada) do problema com 
auxílio do instrumental conceitual ou empírico disponível; 
g) Investigação das consequências da solução obtida. Em se tratando de 
uma teoria, é a busca de prognósticos que possam ser feitos com seu 
auxílio. Em se tratando de novos dados, é o exame das consequências 
que possam ter para as teorias relevantes; 
TÓPICO 2 | O QUE É A CIÊNCIA?
39
FONTE: Bunge (1980, p. 25 apud Lakatos e Marconi 2003, p. 84)
Estas etapas estão sintetizadas no esquema que segue, facilitando a 
observação das etapas, de sua natureza e das relações entre elas.
FIGURA 9 – ESQUEMA ETAPAS DA METODOLOGIA CIENTÍFICA
FONTE: Lakatos e Marconi (2003, p. 85)
h) Prova (comprovação) da solução: confronto da solução com a totalidade 
das teorias e da informação empírica pertinente. Se o resultado é 
satisfatório, a pesquisa é dada como concluída, até novo aviso. Do 
contrário, passa-se para a etapa seguinte; 
i) Correção das hipóteses, teorias, procedimentos ou dados empregados na 
obtenção da solução incorreta. Esse é, naturalmente, o começo de um 
novo ciclo de investigação.
Problema ou lacuna
Explicação Não Explicação
Colocação precisa do problema
Procura de conhecimento ou instrumentos relevantes
Tentativa de solução
Invenção de novas idéias ou produção de novos dados empíricos
Obtenção de uma solução
Prova da solução
Não satisfatória
Início de novo ciclo
Satisfatória
Satisfatória
Conclusão
Inútil
UNIDADE 1 | EPISTEMOLOGIA: SITUANDO CONCEITOS
40
3.1 METODOLOGIA CIENTÍFICA NAS CIÊNCIAS SOCIAIS
Em nossa área, ou seja, na pesquisa social, temos especificidades quando 
realizamos a aplicação do método científico. Vejamos como Dias (2005, p. 35) 
caracteriza e exemplifica a aplicação do método científico na Sociologia:
Os diversos fenômenos sociais que constituem o conteúdo das 
diferentes sociedades humanas possuem regularidades que, embora mais 
difíceis de serem observadas do que os fenômenos físicos e naturais, podem ser 
estudadas cientificamente, comportando generalizações, teorias e princípios. 
A construção do conhecimento científico exige um estudo objetivo, 
rigorosamente baseado em dados reais e concretos, obtidos por meio de 
métodos científicos.
Os sociólogos, na sua incessante busca da verdade, utilizam o 
método científico para compreender os fenômenos sociais observados. 
Há várias interpretações de como se processa a investigação científica, 
particularmente, em ciências sociais; aqui apresentamos tão somente uma 
das muitas formulações de como realizá-la.
De modo geral, os passos a serem seguidos em uma pesquisa social são:
a) Definir claramente o problema a ser investigado – efetuar um levantamento 
bibliográfico.
b) Formular uma hipótese que possa ser testada.
c) Escolher o tipo de pesquisa que será adotado.
d) Efetuar o levantamento de dados.
e) Analisar e discutir os resultados.
f) Obter uma conclusão.
O primeiro passo de uma investigação científica é decidir qual o 
‘tipo de problema a ser investigado’. Todosociólogo tem sua área particular, 
ou mais de uma, de interesse na sociologia. Podemos incluir, entre outros 
fenômenos: o esporte, o crime, a família, a saúde, a estratificação social, 
o turismo, a demografia, a urbanização, a administração, o direito etc. 
Dependendo do interesse particular do profissional, um assunto ou tópico 
poderá ser escolhido. Se há um interesse na sociologia da religião, por 
exemplo, pode-se decidir realizar um estudo sobre a ascensão das igrejas 
evangélicas na periferia da cidade de São Paulo. Se o interesse é a sociologia 
da administração, pode-se realizar um estudo da cultura organizacional 
existente numa determinada empresa.
Definido o problema, deve-se fazer uma revisão da literatura, um 
levantamento bibliográfico. Antes que o pesquisador inicie sua pesquisa, 
um certo tempo deve ser gasto com a leitura de outros trabalhos sobre o 
mesmo assunto. Revistas científicas, livros, dissertações de mestrado, 
trabalhos de conclusão de curso, além de jornais e revistas semanais 
TÓPICO 2 | O QUE É A CIÊNCIA?
41
e diários são importantes para a correta identificação dos objetivos de 
pesquisa, bem como para se certificar de que sua realização se constituirá 
numa real contribuição ao conhecimento científico como um todo.
Um segundo passo é a ‘formulação de questões’. É aqui que se 
estabelece a ‘hipótese ou conjunto de hipóteses’, que são proposições que se 
fazem antecipadamente sem nenhum fundamento e que se deverão provar 
verdadeiras ou falsas por meio da pesquisa.
No terceiro passo da investigação científica, o sociólogo ‘seleciona 
um tipo de pesquisa’ que será utilizado: bibliográfica, descritiva ou 
experimental. O tipo de pesquisa a ser adotado, de um modo geral, está 
diretamente relacionado com o tipo de questão que foi formulada. Os 
métodos ou as técnicas de pesquisa serão abordados mais adiante.
O quarto passo é o ‘levantamento de dados’ a serem analisados. 
Organizá-los de maneira que possam ser utilizados facilmente na etapa 
seguinte da pesquisa. 
Chega-se ao quinto passo, que é a ‘análise dos dados’ obtidos e que 
foram ordenados na etapa anterior. 
O último passo na investigação científica é a ‘apresentação dos 
resultados obtidos’.
Com a aplicação destes passos, chegamos à conclusão e esquematização seguinte:
FIGURA 10 – MÉTODO CIENTÍFICO
FONTE: Disponível em: <http://viveraciencia.blogspot.com.br/>. Acesso em: 30 abr. 2013.
UNIDADE 1 | EPISTEMOLOGIA: SITUANDO CONCEITOS
42
4 CIÊNCIAS SOCIAIS E HUMANAS E 
O MÉTODO CIENTÍFICO
O movimento iluminista, como você já estudou, serviu de grande influência 
para que as Ciências Sociais se desenvolvessem. A filosofia desenvolvida neste 
movimento, no século XIX, foi de grande influência para o desenvolvimento 
desta área do conhecimento.
O primeiro item é a sistematização do pensamento científico: muitos 
novos inventos e descobertas podiam ser verificados com facilidade e davam 
legitimidade às atividades científicas. Na época, os grupos sociais consideravam 
extremamente vitoriosas as conquistas atingidas a partir do conhecimento 
humano, e que indicavam um maior domínio sobre a natureza, suas leis e seus 
fenômenos. “As ideias de progresso, racionalismo e cientificismo exerceram 
todo um encanto sobre a mentalidade da época. A vida parecia submeter-se aos 
ditames do homem esclarecido. Preparava-se o caminho para o amplo progresso 
científico que aflorou ao final do século XIX” (COSTA, 1997, p. 39).
Assim, como este pensamento passava a ser compreendido como válido 
na explicação das leis da natureza, explicando-a e permitindo intervenções e 
transformações sobre ela, o mesmo pensamento racional e científico poderia 
explicar a sociedade como um elemento da natureza. Desta mesma forma, a 
natureza poderia ser conhecida e modificada.
Para que o desenvolvimento das ciências sociais fosse legítimo, o 
conhecimento científico precisou de outros aspectos, que foram fundamentais em 
seu processo de aceitação, quando os enunciados passaram a ser compreendidos 
como válidos. 
Baseado nas afirmações de Costa (1997), temos abaixo uma descrição 
dos principais acontecimentos que contribuíram para a legitimidade do 
conhecimento científico.
Questões relacionadas ao método
As grandes discussões acerca do método científico iniciaram a partir do 
desejo de controle sobre a natureza, conhecendo e intervindo em seus fenômenos. 
Foram inicialmente realizadas pelos filósofos do movimento iluminista.
Como leitura complementar para que você tenha mais 
informações sobre a aplicação do método científico nas Ciências Sociais, 
sugiro que busque a seguinte referência: DEMO, Pedro. Metodologia 
científica em ciências sociais. São Paulo: Atlas, 1995.
DICAS
TÓPICO 2 | O QUE É A CIÊNCIA?
43
A indução, método que concebia o conhecimento como resultado da 
experimentação contínua e do aprofundamento da manipulação empírica, 
havia sido desenvolvida por Bacon desde o fim do Renascimento. Em 
contraposição, Descartes defendia a validade do método dedutivo, ou 
seja, aquele que possibilitava descobertas pelo encadeamento lógico de 
hipóteses elaboradas exclusivamente a partir da razão (COSTA, 1997, p. 40). 
A ciência era, portanto, não apenas o estudo do fenômeno, mas também 
o estudo do método para a compreensão dos fatos. Assim, as primeiras questões 
dos sociólogos também foram relacionadas aos fatos sociais e ao método de 
pesquisa. Tanto o de Bacon quanto o de Descartes foram compreendidos como 
válidos para este tipo de pesquisa.
O Anticlericalismo
Este aspecto do pensamento da época foi amplamente difundido por 
Voltaire, por exemplo, que insurgiu-se contra a Igreja Católica, propagando 
ideias e defendendo a revisão de vereditos da Inquisição.
Assim, a Igreja é questionada enquanto instituição social, como a fonte do 
poder “secular, político e econômico, na medida em que se imiscuía em questões 
civis e de Estado. Tal questionamento levou a uma descrença na doutrina e na 
infalibilidade eclesiásticas, assim como ao repúdio à secular atuação do clero” 
(COSTA, 1997, p. 40).
Este foi o processo de laicização da sociedade, desvinculando a Igreja das 
demais instituições sociais, e retirando um pouco de seu poder de decisão. Este 
momento foi fundamental para as Ciências Sociais, pois se passou a compreender 
a Igreja como instituição social, buscando suas origens e funções.
A Igreja como objeto de pesquisa
O anticlericalismo desencadeou análises sociais tendo como objeto a Igreja, 
enquanto instituição social. Destas análises surgiram diferentes interpretações 
sobre a sua real função dentro dos grupos sociais.
Defendida por uns, repudiada por outros, a Igreja perdia, de qualquer 
maneira, o importante papel de explicar o mundo dos homens; passava, ao 
contrário, a ser explicada por eles. A religião começou a ser encarada como um 
dos aspectos da cultura humana, como algo criado pelos homens com finalidades 
práticas relativas à vida terrena, e não apenas à vida futura. Assim, a Igreja e 
sua doutrina sofreram um processo de dessacralização, em que se eliminou 
muito de seu aspecto sobrenatural e transcendente. Toda religião – em especial 
o catolicismo – era agora vista de maneira favorável ou desfavorável, conforme 
sua inserção na vida concreta e material dos homens, como promotora de valores 
sociais importantes para a orientação da conduta humana (COSTA, 1997, p. 41).
Esta situação, inversão de perspectiva, causou impacto direto nos estudos 
das ciências humanas e sociais, positivamente. Afinal, a sacralidade da sociedade 
era deixada de lado, a organização social humana não era mais obra divina, e sim 
fruto da humanidade. 
UNIDADE 1 | EPISTEMOLOGIA: SITUANDO CONCEITOS
44
A sacralização da ciência
Com o reconhecimento da legitimidade do pensamento científico, ocorrido em 
função das ciências naturais que passaram a explicar os fenômenos a partir da ciência, 
e não mais da religião, a sacralidade antes pertencente à religião foi modificada de foco, 
voltando-se para a ciência.Afinal, a partir de então, era a ciência que conseguia explicar 
aos homens o caminho que seguia para a verdade (COSTA, 1997).
A ciência já não parecia mais uma forma particular de saber, mas a 
única capaz de explicar a vida, abolir e suplantar as crenças religiosas 
e até mesmo as discussões éticas. Supunha-se que, utilizando-se 
adequadamente os métodos de investigação, a verdade se descortinaria 
diante dos cientistas – os novos “magos” da civilização -, quaisquer 
que fossem suas opiniões pessoais, seus valores sobre o bem e o mal, o 
certo e o errado (COSTA, 1997, p. 41).
E as ciências sociais, nesta época, se apresentavam da mesma forma, 
pretendendo uma isenção de valores dos resultados e processos de suas 
pesquisas. Pretendia-se encontrar e interpretar as leis que regiam as relações 
sociais, consideradas então como leis naturais, que não dependiam de variáveis 
como a opinião, a crença ou o julgamento humano.
O método científico, portanto, passa a ser o grande poderoso da época, 
pois se fosse utilizado de forma correta, sem julgamentos de valores, daria à 
humanidade a essência da vida e todas as formas de controle dos fenômenos no 
mundo. Soma-se a esta situação a efervescência das crenças na materialidade da 
vida e no real poder da ciência.
Todos os aspectos mencionados acima contribuíram muito com a formação 
de uma ciência social, que se voltasse para as análises das relações sociais e de suas 
variáveis. Para isto, foi preciso também institucionalizar um método científico de 
investigação, trazendo a aplicação deste importante método para a área que tem 
como objeto a própria sociedade.
O autor Dias (2005, p. 36) indica as regras que precisam ser levadas em 
consideração para que as ciências sociais e humanas atinjam a legitimidade e o 
rigor necessários às pesquisas científicas, conforme indicamos abaixo. 
Para ter credibilidade como ciência, a sociologia não pode se ater a 
comentários pessoais baseados no senso comum. É necessário estar sempre 
presente o ‘método científico’. Em linhas gerais, há algumas regras básicas 
que sempre devem ser levadas em consideração em qualquer pesquisa.
• O pesquisador deve confiar nas evidências coletadas por meio da 
observação sistemática; há necessidade de provas. Nas conversas 
cotidianas, acreditamos de modo geral em boatos e crenças, porque parecem 
por demais óbvios, ou até mesmo lógicos. Para a ciência há necessidade 
de evidência empírica ou factual.
TÓPICO 2 | O QUE É A CIÊNCIA?
45
FIGURA 11 – EXEMPLO DE MÉTODO CIENTÍFICO APLICADO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS
FONTE: Disponível em: <http://www.cienciarn.com.br/objetivos.php>. Acesso 
em: 30 abr. 2013.
• O pesquisador das ciências sociais deve se preocupar com minimizar o erro 
e o preconceito; para isso deve utilizar uma variedade de técnicas ordenadas. 
O cientista social deve ser rigoroso na adoção destas estratégias, para que 
seu procedimento seja científico.
• A sociologia, pela própria natureza de seu objeto de estudo, atinge o 
público com mais facilidade que as outras ciências, pois aborda questões 
que envolvem seu cotidiano, acontecendo, assim, um número maior de 
discussões abertas que possibilitam um maior exame da pesquisa, tornando-
se – quando bem compreendido – um mecanismo de autocorreção. Desse 
modo, as conclusões em sociologia nunca podem ser consideradas finais e 
absolutas, mas sempre estarão abertas a questionamentos, testes e revisões. 
Nenhuma nova teoria ou descoberta, mesmo de grande repercussão, é aceita 
acriticamente.
• No cotidiano, frequentemente utilizamos um único fato para expor um 
ponto de vista ou emitir uma opinião, sendo que esse único caso pode ser 
exceção à regra. Os cientistas sociais, por sua vez, estudam profundamente 
vários casos particulares, comparando-os para se chegar a generalizações. 
• A sociologia busca relacionar os fatos uns aos outros e a princípios 
subjacentes para produzir uma teoria; os sociólogos não só procuram 
descrições, mas também explicações. A teoria ajuda os sociólogos a predizer, 
entender e explicar os acontecimentos.
UNIDADE 1 | EPISTEMOLOGIA: SITUANDO CONCEITOS
46
5 LEGITIMIDADE CIENTÍFICA DAS CIÊNCIAS SOCIAIS
A legitimidade científica das assim chamadas Ciências Sociais relaciona-
se com o seu grau de cientificidade, o que está diretamente determinado pelo 
estatuto epistemológico. Simplificando, é possível afirmar que ao estudarmos a 
epistemologia das Ciências Sociais, estamos nos voltando para sua cientificidade, 
ou seja, observando e mensurando as características que permitem que suas 
conclusões sejam científicas.
Isto passa pelo questionamento com relação aos critérios que estabelecem 
esta cientificidade, pois, afinal, é possível estabelecer estes critérios? Desde a 
filosofia antiga praticada na Grécia, esta discussão está presente quando se trata da 
racionalidade na ciência.
Para responder a isso, as ciências naturais possuem respostas bastante 
precisas, enquanto que nas ciências sociais muito se questionou acerca da 
possibilidade de haver credibilidade científica em suas conclusões. O autor Japiassu 
(1981, p. 95) questiona este aspecto da ciência, a partir da seguinte explicação:
Para visualizar a aplicação do método científico na prática do pesquisador, 
veja o vídeo “Pesquisa em Ciências Humanas e Educação”, disponível no link: <http://www.
youtube.com/watch?v=fawbF0Obw-w>.
DICAS
Mas onde iremos encontrar critérios apropriados, não somente para 
as ciências naturais, mas também para as ciências humanas? Invocaremos 
critérios puramente normativos ou critérios tipicamente descritivos? 
No primeiro caso, de onde provém a normatividade? Há quem acredite 
que ela seja fornecida por outra disciplina, notadamente pela filosofia. 
No entanto, se admitirmos que a filosofia tem condições de fornecer tal 
normatividade, estaríamos colocando em xeque uma das ideias básicas 
da ciência: a de tornar-se autônoma de toda e qualquer legitimação 
exterior. Por outro lado, se essa normatividade surgir do interior mesmo 
das disciplinas científicas, torna-se difícil compreendermos como elas 
podem fundar sua própria normatividade: elas seriam autofundantes. 
Uma saída seria fazer apelo a critérios meramente descritivos. Neste caso, 
porém, seria ainda legítimo falar de “critério”? Porque a ideia de critério 
conota a de um juízo, de separação e discernimento. Porque o critério deve 
fornecer a possibilidade de se distinguir entre o “válido” e o “inválido”. 
E é por isso que falar de critérios, a respeito das ciências humanas, é 
TÓPICO 2 | O QUE É A CIÊNCIA?
47
Japiassu (1981) indica que existem dois problemas centrais que devemos 
considerar ao observar e discutir a legitimidade científica das Ciências Sociais: um 
relacionado ao seu conteúdo, e outro relacionado ao seu estatuto epistemológico.
O problema do conteúdo
Segundo ele, a grande dificuldade deste campo do conhecimento está 
na definição de uma problemática e de um campo de exploração próprios das 
Ciências Sociais, necessários para o reconhecimento da cientificidade.
E esta situação ocorre em virtude de três itens:
• As Ciências Sociais se constituem em um conjunto de discursos, e cada 
um destes discursos não pretende definir-se a partir dele mesmo. “Ora, 
consideradas isoladamente ou em seu conjunto, as ciências humanas se 
definem muito menos pelo fechamento de um campo de investigação do que 
pela abertura de um feixe regulado de relações” (JAPIASSU, 1981, p. 98).
• Constituem um conjunto esfacelado de discursos, e sua problemática 
pode ser considerada contemporânea por isso, pois analisando suas vias 
epistemológicas, nota-se que não se persegue um ideal unitário de ciência. 
Elas situam sua cientificidade na história e a partir dela, contextualizando este 
estatuto, e não em um ideal unitário, como se propõe a grande ciência.
• Os discursos acima mencionados possuem relações entre si, mas também 
estão ligados às ideologias de cada época. As Ciências Sociais não delimitam 
seu objeto com um corte epistemológicorígido e decisivo.
É com base nestes discursos diferenciados que as Ciências Sociais se 
fundam e se constituem como ciência, pois na medida em que eles tornam-se 
objeto de estudos, as relações existentes passam a se tornar práticas significantes.
colocar o problema de seu estatuto epistemológico, ou seja, o problema 
de sua cientificidade relativamente às demais formas do saber objetivo. 
Ademais, é tomar consciência do lugar real, não somente da posição, mas 
também do tratamento dos problemas epistemológicos colocados por essas 
disciplinas. Em outras palavras, trata-se de levar em consideração o feixe 
compacto dessas disciplinas e de compreender não só os problemas de 
sua constituição, mas os de suas relações com as outras formas de saber 
e com a sociedade, na medida em que esta condiciona os objetivos, os 
agentes e o modo de funcionamento dos conhecimentos científicos. Porque 
a originalidade das ciências humanas é constituída de uma ambiguidade 
fundamental: de um lado, há uma exigência de inteligibilidade ou de 
um a priori não pretendendo declarar-se; do outro, há uma exigência de 
cientificidade, embora revelando limitações em sua pretensão de assegurar 
controles intersubjetivos universais (objetividade).
UNIDADE 1 | EPISTEMOLOGIA: SITUANDO CONCEITOS
48
Porque a atividade científica é um processo histórico no interior do qual 
as ciências definem suas normas e seu estatuto. Quando esse processo chega a 
produzir o conceito de “ciências do homem”, este acontecimento significa muito 
menos o aparecimento de um novo objeto – o homem não é uma descoberta – do 
que uma situação de crise, onde o problema epistemológico, ao ser radicalizado, 
reveste uma urgência particular. O surgimento das ciências humanas coincide 
com aquilo que se convencionou chamar “a crise da ciência”. É contemporâneo 
da sacudidela epistemológica nos fundamentos da matemática, da física e da 
biologia. É por isso que o interesse por este ou aquele setor das ciências humanas 
nada mais é que a revelação de uma inquietação fundamental a respeito de “a 
ciência” (JAPIASSU, 1981, p. 99).
Nos dias atuais, não há mais uma ideia única de “a ciência”, de uma 
superioridade e da realeza de determinada área do conhecimento. Pelo contrário, 
múltiplos discursos são aceitos e valorizados. Não há mais a possibilidade de 
sintetizar todos os conhecimentos científicos, como em um modelo newtoniano, 
por exemplo. E esta pluralidade de discursos está presente nas Ciências Sociais.
É neste aspecto que se define o campo epistemológico das Ciências Sociais, 
a partir do ecletismo existente nas ciências que estão agrupadas sob esta égide. 
Elas são heterogêneas, no entanto, se entrecruzam e podem ser interpretadas 
entre si. Surgem, a partir destes encontros, as disciplinas intermediárias.
Outro aspecto fundamental dessas ciências é que seu conceito pode 
ser tomado como uma noção ideológica, ampliando o conceito de ciência. Isto 
colabora para que se perceba que os discursos científicos não estão completamente 
protegidos das ideologias, fundando uma nova perspectiva epistemológica que 
considera estes aspectos.
O problema do estatuto
Continuando com base nas análises de Japiassu (1981), nota-se que as 
classificações impõem um problema, que define o estatuto epistemológico das 
Ciências Sociais. Estas classificações permitem observar as diferenças e os elos 
que são mantidos entre as diversas ciências que passam por um processo de 
dispersão crescente.
As classificações são importantes para a epistemologia, mas, segundo o 
autor, sempre revelam intenções ideológicas. Elas buscam indicar a supremacia de 
alguma ciência, ou mesmo dar mais legitimidade a alguma não muito conhecida, 
ou excluir outra. Podemos falar, porém, não necessariamente em uma ciência, 
mas em grupos de ciências.
A criação destas hierarquias, independente de estarem baseadas no 
objeto, método ou estudo, e de seus critérios, glorifica a experimentação. Neste 
sentido, a física recebe grandes créditos como ciência. E, no caso das Ciências 
Sociais, Japiassu (1981) determina quatro objeções que negariam a estas ciências 
sua cientificidade:
TÓPICO 2 | O QUE É A CIÊNCIA?
49
• A primeira objeção seria de nível filosófico, pois segundo a Filosofia, o homem 
não pode se constituir objeto da ciência, por essência. A ciência não teria 
condições de conhecer o vivido, que é o objeto fundamental das Ciências 
Sociais, além de não poder ser sujeito e objeto ao mesmo tempo.
• A segunda objeção relaciona-se aos empiristas, que exigem que as ciências 
tenham seus métodos baseados na física. Além disso, seria preciso a adoção de 
uma perspectiva reducionista, ou seja, apenas reduzindo os fenômenos para 
estudo é que haveria uma legitimação das Ciências Sociais.
• A terceira objeção compõe-se do ponto de vista epistemológico: opondo-se 
as ciências da natureza às Ciências Sociais e admitindo que as segundas não 
possuem meios de atingir o mesmo grau de objetividade das primeiras, não 
seria possível dar crédito à cientificidade.
• A quarta objeção é de ordem neomarxista, que recusa radicalmente a 
possibilidade da existência de uma ciência do homem. Ela se baseia 
em um fundamento já considerado não válido, que indica que todas as 
pesquisas desta área possuem apenas funções ideológicas, e não produzem 
conhecimento objetivo.
Uma coisa precisa ficar bem clara: todas essas quatro atitudes negativas 
em relação às ciências humanas estão apoiadas numa valorização por demais 
excessiva dos métodos e dos resultados das chamadas ciências naturais. Trata-se 
de atitudes pretendendo estabelecer um corte epistemológico [...] entre a ciência 
objetiva e indiscutível, encarnada pelas ciências da natureza, notadamente pela 
física, e as ciências humanas, que seriam subjetivas (JAPIASSU, 1981, p. 103).
A prática efetiva da ciência não permite afirmar a existência deste corte 
epistemológico, que supostamente definiria o que é científico do que não é 
científico. Pelo contrário, a ciência busca sempre romper com o senso comum, 
cujo processo histórico depende sempre daquilo que está por vir, e assim legitima 
a existência das Ciências Sociais. 
Nenhuma ciência pretende estudar a humanidade em sua totalidade, 
ou seja, o homem como um todo. Isto já define uma classificação ordenada de 
objetos, característica do conhecimento científico. Além disso, mesmo as ciências 
da natureza não possuem condições ou pretensões de estudar a natureza como 
um todo: elas também “compartimentam” suas problemáticas.
Colocados estes argumentos, chegamos à conclusão de que a legitimidade 
das Ciências Sociais se dá diretamente em suas relações epistemológicas.
UNIDADE 1 | EPISTEMOLOGIA: SITUANDO CONCEITOS
50
FONTE: Japiassu (1981, p. 107)
A partir desta breve discussão acerca de como as Ciências Sociais adquirem 
o estatuto de ciência, no próximo tópico iremos nos aprofundar no entendimento 
da epistemologia desta área, além de compreender mais adiante, com detalhes, os 
debates acerca da diferenciação com as ciências da natureza. 
No domínio das ciências humanas, não resta a menor dúvida de que é 
em nome do conhecimento objetivo que elas se julgam no direito de explicar 
seus fenômenos e de propor soluções de ordem ética, política, ideológica 
ou simplesmente humanitária. Também é em nome das exigências do rigor 
científico que tentam construir todo o seu corpo teórico dos fenômenos 
humanos, mas através da ideia que gostariam de ter deles, visto terem 
renunciado aos seus apelos e às suas significações. Ao escaparem à ordem 
dos valores e das significações, os objetos das ciências humanas teriam 
ingressado no domínio dos fatos.
[...]
Não se trata de negar que as ciências humanas, para se definirem, 
precisam ao mesmo tempo de um método ou protocolo de operações e de 
um objeto apresentando propriedades susceptíveis de se ajustarem a um 
tratamento científico. No entanto, ao empregarem a metodologia científica, 
tendo em vista analisar e explicar os fenômenos humanos, elasjá pressupõem 
certa preferência exclusiva por determinado modo de pensar o homem como 
um conjunto de propriedades operacionais, ou por determinado tipo de 
filosofia parcial ou total, implícita ou explícita do homem. Não resta dúvida 
de que seu campo de aplicação não pode ser outro senão o do trabalho 
propriamente científico. Em si mesmas, de forma alguma se especificam por 
uma filosofia do homem-instrumento. No entanto, em sua prática efetiva, 
podem colocar à disposição de certos homens conhecimentos sobre os 
indivíduos e sobre as relações sociais, conhecimentos estes que se convertem 
facilmente em subsídios e informações para que eles possam fazer o que 
querem com aquilo que sabem.
51
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico você viu:
• A ciência possui origem na palavra scire, que significa saber, ou conhecer. 
Atualmente, ela possui dois sentidos. Um deles significa tomar conhecimento 
de algo, conhecer (estar ciente, ter ciência). O outro sentido, que é o que nos 
interessa nestes estudos, trata da ciência como conhecimento que registra fatos 
e os interpreta, mas também identifica e demonstra suas causas constitutivas, 
ou seja, o que os determinou.
• Os métodos científicos são utilizados por diversos ramos de estudo, que nem 
sempre são ciências. Mas todas as ciências são caracterizadas pelo uso da 
metodologia científica, pois o que as define é justamente a utilização deste 
método para a compreensão e interpretação de fenômenos. 
• Em nossa área, ou seja, na pesquisa social, temos especificidades quando 
realizamos a aplicação do método científico.
• A legitimidade científica das classificadas Ciências Sociais relaciona-se 
com o seu grau de cientificidade, o que está diretamente determinado 
pelo estatuto epistemológico. Simplificando, é possível afirmar que ao 
estudarmos a epistemologia das Ciências Sociais, estamos nos voltando para 
sua cientificidade, ou seja, observando e mensurando as características que 
permitem que suas conclusões sejam científicas.
52
A ciência está presente em praticamente todos os ambientes na 
contemporaneidade. Desta forma, descreva o conceito de ciência e cite um 
exemplo de situação na qual você faz uso dos conhecimentos científicos em 
seu cotidiano.
AUTOATIVIDADE
53
TÓPICO 3
O QUE É EPISTEMOLOGIA?
UNIDADE 1
1 INTRODUÇÃO
A epistemologia é a área do conhecimento que busca compreender os 
critérios de cientificidade das ciências, além de entender sua relação com os 
objetos de pesquisa de cada área em específico. Ela pode tratar sobre grandes 
problemas que envolvem todas as ciências, ou sobre problemas pontuais de cada 
disciplina específica.
Ela está diretamente relacionada com as discussões apresentadas no 
tópico 1 deste Caderno de Estudos, acerca da produção de conhecimentos da 
humanidade, seus modos de transmissão e aquisição.
Foram os estudos epistemológicos que identificaram dois tipos de 
raciocínio existentes na ciência, o raciocínio dedutivo e o raciocínio indutivo. Eles 
são a base lógica da ciência, e permitem que haja legitimidade nas generalizações 
científicas. Isto você irá compreender ao longo da leitura deste tópico.
Iniciaremos conhecendo o conceito de epistemologia, sua definição, e 
a base para suas definições: conhecimento, crença e fé. Em seguida, veremos 
como funcionam os processos de dedução e indução na ciência, e analisaremos 
o problema da subjetividade e da objetividade neste campo. Tudo isto, voltando 
sempre um olhar para a nossa área, Ciências Sociais, buscando capacitá-lo para 
uma análise crítica da própria ciência. 
Agora, convido você para a leitura do próximo tópico! Bons estudos!
2 DEFINIÇÃO DE EPISTEMOLOGIA
A partir dos conteúdos e saberes que indicamos até este ponto de seu 
caderno, você já consegue emitir uma significação para a epistemologia? Vamos 
tentar? Escreva em seu caderno o que você sabe sobre este conceito, e ao final 
da leitura do tópico retorne para verificar se está correto!
Nós, enquanto humanos, possuímos sensações e percepções acerca 
do mundo que são produzidas a partir de nossos sentidos, atuando a partir 
de nossas experiências. Estas sensações nem sempre são verdadeiras, pois é 
muito comum que nossos sentidos nos enganem, como quando vemos o que 
supomos ser um inseto e, ao chegar mais perto, notamos que é apenas uma 
54
UNIDADE 1 | EPISTEMOLOGIA: SITUANDO CONCEITOS
FIGURA 12 – ORIGEM DA PALAVRA EPISTEMOLOGIA
FONTE: Disponível em: <http://cmapspublic2.ihmc.us/rid=1GZ3598DB-G3S9MP-1M58/
Conceito%20de%20Epistemologia.cmap>. Acesso em: 30 abr. 2013.
folha seca, ou quando vemos um amigo à sombra e achamos que ele está com 
uma camisa preta, quando na verdade ele sai desta sombra e notamos que a 
camisa é vermelha.
Situações como estas são muito comuns e denunciam a possibilidade 
que temos de sermos enganados pelos nossos próprios sentidos. E este 
questionamento está presente não apenas em nossas sensações comuns, mas 
também na ciência.
Na História, como podemos ter certeza do que ocorreu em um passado 
distante, nas grandes guerras mundiais, por exemplo, se temos por base apenas 
testemunhos de pessoas já falecidas, ou mesmo testemunhos escritos que podem 
ser adulterados? (SEIFERT, 2007).
Questões como esta são elaboradas pela epistemologia. Quando 
tratamos de questões gerais, concernentes a diversas áreas, estamos no domínio 
da epistemologia geral. Questões sobre os limites de nosso conhecimento, como 
vimos no primeiro tópico deste caderno, sobre a distinção entre as formas 
de conhecer, sobre a relação entre eles, são perguntas sobre as quais os 
epistemólogos se debruçam. 
TÓPICO 3 | O QUE É EPISTEMOLOGIA?
55
FONTE: Seifert (2007, p. 9)
Esta espécie de debate relaciona-se a questões gerais da ciência, como 
um todo, como uma atividade humana passível de fragilidades. Mas podemos 
também tratar apenas acerca de questões específicas de um determinado campo 
científico, ou mesmo de um tópico determinado dentro desta ciência, e então 
estaremos no domínio da epistemologia aplicada.
O problema do exemplo da memória em História, mencionado 
anteriormente, é um problema específico desta área. A questão da objetividade 
nas Ciências Sociais, por exemplo, quando se trata da relação homem = sujeito e 
objeto, também é um problema específico.
Portanto, existem problemas epistemológicos que afetam a qualquer 
área do conhecimento, enquanto existem outros que são particulares a cada área 
especializada. Entre as Ciências Sociais e as Ciências da Natureza, por exemplo, 
existem diferentes indagações epistemológicas.
Um dos mais importantes debates na epistemologia ocorre em 
referência a esta distinção entre o a priori e o a posteriori, ou, como também 
é chamado, as verdades de razão e as verdades de fato. Um exemplo de 
verdade de razão é “algo é igual a si mesmo”; um exemplo de verdade 
de fato é “Machado de Assis escreveu Dom Casmurro”. Esse debate opõe 
os empiristas aos racionalistas. Segundo o empirismo, todo e qualquer 
conhecimento depende, em última análise, da experiência sensorial. Se 
não for possível, em relação a qualquer fato ou objeto que se diz conhecer, 
apontar para alguma experiência a ele relacionado, tal suposto conhecimento 
é ilusório ou fantasioso. 
As verdades de razão não são inatas, mas adquiridas, e consistem 
em relações de ideias, não em um saber acerca da realidade. Já para o 
racionalismo, nem todo conhecimento depende da experiência sensorial; 
pelo contrário, as verdades mais fundamentais sobre a realidade são 
não sensoriais, e as percepções devem ser julgadas por meio dessas 
verdades, ou desses conhecimentos fundamentais. Assim, em oposição aos 
empiristas, os racionalistas concebem as verdades de razão como inatas, e 
elas se referem à realidade tal como é e não apenas às nossas ideias. O que 
significa que podemos obter algum conhecimento sobre o mundo também 
raciocinando, sem necessidade de ter experiências ou fazer experimentos. 
A mesma distinção é expressa em outros pares de opostos, como verdades 
necessárias/verdadescontingentes, juízo analítico/juízo sintético. 
56
UNIDADE 1 | EPISTEMOLOGIA: SITUANDO CONCEITOS
Por epistemologia entendemos essa disciplina que se interessa 
menos em descrever os métodos, os resultados ou a linguagem “da” 
ciência, ou da “razão” nas ciências, do que em elaborar uma reflexão crítica 
permitindo-nos descobrir e analisar os problemas tais como eles se colocam 
ou se omitem, se resolvem ou desaparecem, na prática efetiva dos cientistas. 
Trata-se de uma disciplina permitindo-nos submeter a prática científica a 
uma reflexão que, diferentemente da filosofia clássica da ciência, aplica-
se não à ciência feita, acabada, verdadeira, de que deveríamos estabelecer 
as condições de possibilidade e de coerência, de que deveríamos fornecer 
todos os seus títulos de legitimidade, mas às ciências em vias de se fazerem, 
em seu desenvolvimento histórico, vale dizer, em sua processualidade. 
No caso das ciências humanas, qual o objeto dessa disciplina? 
Aquilo pelo que se interessa a epistemologia das ciências humanas, aquilo 
de que ela se ocupa, em conformidade com aquilo a que visa, consiste 
em saber como se formam, se desenvolvem, se articulam e funcionam os 
conhecimentos, tais como os elaboram seus “especialistas”, enquanto estes 
são ao mesmo tempo sujeitos e objetos de conhecimento, e na medida em 
que se encontram inseridos em determinado contexto sócio-histórico. 
Na medida ainda em que, de um lado, as ciências humanas podem 
ser agrupadas segundo certa comunidade de objetos, de pontos de vista e 
de métodos, do outro distinguem-se das chamadas ciências naturais por 
um modo próprio de atingirem a objetividade sobre um objeto que, aliás, 
não é um objeto: o homem.
FONTE: Japiassu (1981, p. 96)
Qualquer estudo epistemológico exige antecipadamente o conhecimento 
de certas noções fundamentais, que veremos neste caderno, analisando, sobretudo, 
o que se relaciona principalmente à área de Ciências Sociais.
3 BASES PARA A DEFINIÇÃO: FÉ, CRENÇA E CONHECIMENTO
Segundo o autor Seifert (2007), para que se possa compreender com 
maior facilidade e clareza os estudos epistemológicos, é preciso ter a noção de 
três conceitos fundamentais desta área: fé, crença e conhecimento. Estes termos 
permitem que se construa uma melhor definição de conhecimento científico e 
facilitam o entendimento de suas diferenciações com relação aos outros tipos de 
conhecimento.
TÓPICO 3 | O QUE É EPISTEMOLOGIA?
57
FIGURA 13 – RELAÇÃO FÉ E CIÊNCIA
FONTE: Disponível em: <http://www.gazetadopovo.com.br/blog/tubodeensaio/?mes=201003>. 
Acesso em: 30 abr. 2013.
É possível que a palavra crença seja empregada de duas formas distintas. 
No sentido amplo da palavra, alinha-se ao conhecimento, enquanto que no 
sentido estrito é utilizada como contraposição ao conhecimento. Quando afirmo 
conhecer algo, é porque acredito nisto (sentido amplo), e quando faço suposições 
acerca de algo de que não tenho certeza, também acredito nisto (sentido estrito).
Para a Filosofia existe a possibilidade de verificar se uma sentença é 
verdadeira a partir de três princípios (SEIFERT, 2007):
• Preciso pensar que ela é verdadeira.
• Ela é de fato verdadeira.
• Existem evidências suficientes para que uma pessoa racional concorde que ela é 
verdadeira.
58
UNIDADE 1 | EPISTEMOLOGIA: SITUANDO CONCEITOS
A diferença fundamental, portanto, entre conhecimento e crença (no 
sentido estrito) está no grau de evidência disponível. Uma crença não 
é necessariamente algo em que acredito sem ter nenhuma razão para 
tal, mas algo em que acredito sem possuir evidências suficientes (e 
estou disto ciente) para compelir ao assentimento de qualquer pessoa 
racional. Daí ser adequado falar em graus de crença. Esses graus de 
crença seriam estabelecidos de acordo com sua relação às evidências, o 
que se chama de princípio de proporcionalidade. Repetindo, o grau de 
uma crença, isto é, a força probatória que a sustenta, está em proporção 
direta com as evidências, com as razões que são apresentadas em seu 
favor, e inversamente proporcional às contraevidências, as razões 
apresentadas contra ela. Quanto maior a evidência a favor, mais forte 
(objetivamente) a crença (SEIFERT, 2007, p. 11).
É importante ressaltar que nem todas as crenças exigem a existência de 
evidências, pois se para tudo o que acreditamos buscássemos uma evidência, 
haveria aí um trabalho sem fim. Seria necessário apresentar, por exemplo, a prova 
da crença, a prova da prova, e assim se seguiria.
Para este problema, Seifert (2007) também indica três soluções, a saber: 
• A primeira consiste em aceitar as crenças que possuem evidências em si, cuja 
verdade é conhecida e não precisa de provas. É o caso da sentença “Penso, logo 
existo”, já estudada neste caderno anteriormente. Segundo alguns filósofos, o 
que garante que haja o conhecimento é esta possibilidade de não precisar de 
evidências, é o chamado conhecimento absoluto. E aqui não temos diferenças 
entre o crer e o conhecer.
• A segunda alternativa baseia-se em evidências que são aceitas, ou seja, uma 
crença baseada em evidências que se aceite mesmo que não se esteja certo 
disso. Neste caso, há dois tipos de aceitação: plena e provisória. Aceitando 
plenamente, julga-se que a crença é confiável, e só se volta a considerá-la caso 
alguém apresente uma contraevidência muito consistente (crenças acerca de 
objetos, de memórias, de tradições se enquadram nesta categoria). E aceitando 
provisoriamente, admite-se a necessidade de investigar mais a crença, que 
não é recusada neste contexto. Buscam-se, a partir disso, evidências ou 
contraevidências relacionadas ao conteúdo da crença, como exemplo, neste 
último caso a substituição da teoria geocêntrica pela heliocêntrica, que por um 
tempo foi aceita provisoriamente enquanto eram buscadas evidências.
• A terceira alternativa com relação aos fundamentos da crença reconhece a 
existência de sentenças que não se fundamentam e não são autoevidentes, 
pois as consideramos verdadeiras ou falsas. Estas sentenças são chamadas 
de crenças fundamentais, que se justificam por outro elemento, a fé. Seria, 
portanto, a crença na existência de um mundo exterior. Esta crença não pode 
ser provada e nem é autoevidente, portanto a aceitamos porque temos fé em 
sua veracidade.
A fé é um tipo de crença, geralmente ligado à intensidade, e que possui 
um vínculo emocional com o sujeito, deixando-o desapontado caso seja criticado 
ou se estiver errado. Geralmente possui ligação religiosa, mas nem sempre.
TÓPICO 3 | O QUE É EPISTEMOLOGIA?
59
Levando em consideração o que foi dito até aqui, sendo a fé uma forma 
de crença, embora mais intensa, não se deve julgar de imediato que a fé é algo 
irracional. Este tópico, sobre a racionalidade ou irracionalidade da fé (e quando é 
discutido, geralmente os filósofos estão se referindo à fé religiosa), é complexo, pois 
o termo fé é normalmente aplicado a um conjunto bastante amplo de sentenças 
(por exemplo, quando se fala na fé cristã), e pode ser o caso de serem algumas 
destas sentenças racionais e outras irracionais. Se considerarmos o conceito fé de 
um ponto de vista estritamente epistemológico, e no contexto da discussão feita 
aqui, a fé não é racional nem irracional. No limite, uma crença seria irracional se a 
pessoa que a mantém não é capaz de produzir evidência alguma em seu favor, e 
há diversas contraevidências disponíveis. Mas uma crença pode ser racional sem 
que seja aceita por todas as pessoas racionais que a discutem. Ela não constituiria 
assim um conhecimento, a não ser em um sentido derivado. (SEIFERT, 2007, p. 11).
A epistemologia busca esclarecer a ideia de conhecimento e uso social 
que se faz dela, desvendando também os critérios que são utilizados para não se 
confundir com a crença ou com a fé, além das formas pelas quais chegamos a este 
conhecimento. Assim, esclarecidas estas noções fundamentais, vamos estudar 
agora aspectos da metodologia da ciência.
4 DEDUÇÃO E INDUÇÃO NA CIÊNCIA
Vimos, até aqui, ao estudara metodologia científica e muitos outros 
pontos da epistemologia, que o método é fundamental para a ciência, pois define 
o conhecimento científico e o diferencia dos outros. 
Cada área do conhecimento possui suas especificidades com relação às 
metodologias e técnicas de que dispõe para analisar seus objetos, mas a ciência 
como um todo apresenta a necessidade da utilização de métodos específicos para 
a pesquisa científica. Estes métodos são classificados em dedutivo e indutivo.
Vamos compreender quais as características e como funciona cada um, 
para depois compará-los e estudá-los em conjunto.
Realize a leitura do artigo “Crença, certeza, fé e conhecimento”, de autoria de 
Igor Roosvelt. Disponível em: <http://www.recantodasletras.com.br/artigos/2511264>. 
DICAS
60
UNIDADE 1 | EPISTEMOLOGIA: SITUANDO CONCEITOS
4.1 RACIOCÍNIO DEDUTIVO
FIGURA 14 – RACIOCÍNIO DEDUTIVISTA
FONTE: Disponível em: <http://br.monografias.com/trabalhos917/teoria-metodo-
cientifico/teoria-metodo-cientifico2.shtml>. Acesso em: 30 abr. 2013
O raciocínio dedutivo ocorre quando, “a partir de enunciados mais gerais 
dispostos ordenadamente como premissas de um raciocínio, se chega a uma 
conclusão particular ou menos geral” (RUIZ, 2002, p. 138). Podemos citar como 
exemplos a Matemática e a Filosofia, que utilizam este método. Ele possui como 
função realizar a demonstração daquilo que já está indicado no antecedente, 
inferindo conclusões. 
Uma das leis fundamentais do raciocínio dedutivo é que a conclusão 
nunca pode ser maior do que as premissas. Vamos compreender melhor por meio 
de dois exemplos:
Todo homem é mortal. (Premissa geral)
Thiago é homem.
Logo, Thiago é mortal. (Conclusão particular)
Todo mamífero é vertebrado. (Premissa mais geral)
Todo homem é mamífero.
Todo homem é vertebrado. (Conclusão menos geral)
Este método é utilizado por algumas ciências, mas não em larga escala, 
como o método indutivo. Portanto, iremos desenvolver, a seguir, o conteúdo 
acerca do método indutivo e de sua utilização na ciência. Vamos lá?
TÓPICO 3 | O QUE É EPISTEMOLOGIA?
61
4.2 RACIOCÍNIO INDUTIVO
FIGURA 15 – RACIOCÍNIO INDUTIVISTA
FONTE: Disponível em: <http://br.monografias.com/trabalhos917/teoria-metodo-cientifico/
teoria-metodo-cientifico2.shtml>. Acesso em: 30 abr. 2013.
O raciocínio indutivo é baseado na inversão do método dedutivo, ou seja, de 
fatos particulares chega-se a conclusões genéricas: induzem-se fatos singulares a uma 
conclusão ampla. 
Assim, a partir de observações de alguns fatos, a mente humana busca 
conclusões gerais – como funciona quando falamos de ciência. Estas conclusões 
gerais devem incluir a maior parte dos dados de partida, e para isso é preciso que 
se obtenham relações entre os fatos particulares. 
E como é possível legitimar a indução? Isto é possível a partir da crença de que 
há fenômenos que exibem características análogas, ou seja, acredita-se na repetição 
de características. Vale lembrar, também, que há o risco de que os dados não sejam 
suficientes para uma generalização, induzindo assim a generalizações incorretas.
Vamos visualizar no formato de exemplos esta modalidade de raciocínio:
Todo fio de cobre conduz energia.
Cobre conduz energia.
Ouro conduz energia.
Ferro conduz energia.
---------------------------------------------------------
Todo metal conduz energia. (Conclusão generalizada)
62
UNIDADE 1 | EPISTEMOLOGIA: SITUANDO CONCEITOS
O corvo 1 é negro.
O corvo 2 é negro.
O corvo 3 é negro.
O corvo 4 é negro.
---------------------------------------------------------
Todo corvo é negro. (Conclusão generalizada)
Conforme Lakatos e Marconi (2003, p. 87), devemos considerar três 
elementos fundamentais para toda indução, isto é, a indução realiza-se em três 
etapas (fases):
a) Observação dos fenômenos – nessa etapa observamos os fatos ou 
fenômenos e os analisamos, com a finalidade de descobrir as causas 
de sua manifestação. 
b) Descoberta da relação entre eles – na segunda etapa procuramos, 
por intermédio da comparação, aproximar os fatos ou fenômenos, com 
a finalidade de descobrir a relação constante existente entre eles. 
c) Generalização da relação – nessa última etapa generalizamos 
a relação encontrada na precedente, entre os fenômenos e fatos 
semelhantes, muitos dos quais ainda não observamos (e muitos 
inclusive inobserváveis).
As induções são classificadas em três tipos: indução vulgar, indução 
formal e indução científica.
A indução vulgar, conforme Ruiz (2002), indica que existe uma tendência à 
generalização quanto às propriedades, características e qualidades comuns, a partir 
de casos observados superficialmente. Como não há critérios científicos envolvidos, 
é uma indução que leva ao erro com facilidade, como no exemplo a seguir: 
* Conheço três estudantes que não levam a sério seus estudos. 
* Portanto, todos os estudantes não levam a sério seus estudos.
A indução formal infere conclusões a partir da enumeração de casos 
pertinentes a uma coleção ou série completa, como se tivesse o caráter de uma 
soma. A seguir, apresentamos o exemplo:
* Esta primeira banana está madura.
* Estas segunda e terceira também estão maduras.
* Estas quarta, quinta e sexta também.
-------------------------------------------------------------------
* Estas seis bananas estão maduras.
A que mais nos interessa é a indução científica, que parte de um fenômeno 
para chegar à lei geral, pois “observa, experimenta, descobre a relação causal 
entre dois fenômenos e generaliza esta relação em lei, para efeito de predições” 
(RUIZ, 2002, p. 141).
TÓPICO 3 | O QUE É EPISTEMOLOGIA?
63
Mas pode haver aqui um problema:
Na dedução lógica, sempre que as premissas forem verdadeiras e a 
forma for correta, a conclusão será verdadeira. Na indução, todas as proposições 
do antecedente podem ser verdadeiras, sem que a conclusão o seja; e isto se 
explica por uma razão muito simples: a dedução só será correta quando a 
extensão da conclusão ou a extensão dos termos da conclusão não for maior 
que a extensão das premissas ou dos termos das premissas; no caso da indução 
científica, a extensão da conclusão ultrapassa a extensão dos casos enumerados 
no antecedente (RUIZ, 2002, p. 141).
Então, a partir disso permanece a interrogação sobre como é possível 
realizar generalizações desta natureza na ciência. Muitos filósofos da ciência 
pensaram sobre isso e buscaram responder, portanto temos inúmeras perspectivas.
De acordo com Ruiz (2002), a síntese destas ideias baseia-se na premissa de 
que a relação de causalidade entre dois fenômenos pode ser induzida porque na 
natureza e em seus processos de atuação encontramos uniformidade, constância 
e determinismo. Os cientistas fazem predições, portanto, fundamentados 
há suposição de que a natureza tenha processos uniformes, constantes e 
determinados.
A natureza é estável, e tudo resulta de processos estáveis da natureza 
em ação. Cada fenômeno resulta de processos causadores ou determinantes; as 
causas atuam de maneira uniforme, constante, determinante; sempre é possível 
supor causas, procurá-las; e esta é a missão do filósofo na sua área de reflexão, e 
do cientista no seu devotamento à pesquisa (RUIZ, 2002, p. 143).
Quando as causas naturais são colocadas em circunstâncias específicas, 
sempre que estas mesmas circunstâncias forem repetidas o fenômeno que as causou 
será o mesmo. E chegando-se a esta causa natural do fenômeno, as conclusões não 
serão relativas àquele fenômeno especificamente, e sim ultrapassarão os casos 
estudados e permitirão a conclusão de um enunciado universal, ou uma lei de 
causa-efeito (RUIZ, 2002).
5 O SUJEITO E O OBJETO
Para Seifert (2007), ao refletir sobre a natureza do conhecimento, percebemos 
que sempre existem dois elementos envolvidos no ato de conhecer, que são o sujeito 
que está conhecendo e o objeto que está sendo conhecido. Portanto, é possível notar 
que o ato de conhecer é uma relação entre o sujeito e o objeto.
Explicando melhor, o autor cita o exemplo do filósofo Sócrates,quando este 
ensina “Conhece-te a ti mesmo”, pois esta frase indica que você deve colocar-se 
como objeto de seu próprio conhecimento, ou seja, irá elaborar análises sobre si.
64
UNIDADE 1 | EPISTEMOLOGIA: SITUANDO CONCEITOS
Nestas relações é que podemos encontrar uma grande questão presente 
nas Ciências Sociais, pois, diferente do que se encontra nas ciências chamadas 
naturais, o objeto que será conhecido e o sujeito que está conhecendo são os 
mesmos. O homem conhece e é objeto deste conhecimento nesta situação.
Alguns teóricos que estudam a ciência argumentam que em virtude desta 
situação não é possível atingir a objetividade e, portanto, as Ciências Sociais não 
podem ser chamadas de ciências. Não seria possível adquirir conhecimento pela 
ausência da objetividade, portanto, tudo se resumiria a opiniões.
Parece que as ciências sociais estão impregnadas, inevitavelmente, 
de subjetividade. O que há na subjetividade de tão problemático? 
Para responder a essa questão, é preciso primeiro eliminar uma 
ambiguidade presente no termo “subjetivo”. Subjetivo significa aquilo 
que é tendencioso ou parcial; mas também significa simplesmente 
aquilo que se refere ao sujeito. No primeiro sentido, diz respeito a 
crenças mal fundadas, preconceitos, ou opções de sujeitos individuais; 
no segundo, diz respeito à impossibilidade em que qualquer ser 
humano se encontra de superar os limites da subjetividade humana. 
O subjetivo, nesse segundo sentido, é algo objetivo, na medida em 
que constitui um elemento inescapável da condição humana. Desse 
modo, estudar cientificamente o humano e o social não pode significar 
a eliminação e erradicação do próprio “objeto” (tópico, assunto) de 
estudo (SEIFERT, 2007, p. 96).
Haveria, portanto, uma ambiguidade em ambos os conceitos, de 
subjetividade e de objetividade, que deve ser levada em conta. O elemento 
comum que é compartilhado é o que está relacionado à ideia de valor. E esta 
ideia, para alguns cientistas, está sempre permeando as análises e conclusões 
das Ciências Sociais, pois o cientista não conseguiria despir-se de seus valores 
para realizar análises. Muitos argumentos que criticam as Ciências Sociais estão 
fundamentados nesta ideia.
A questão dos valores nos estudos que possuem o social como objeto 
fica clara quando avaliamos que as conclusões acerca dos fenômenos sociais 
não devem estar “contaminadas” pelos valores, incluindo os morais, que o 
pesquisador aceita e que muitas vezes não possui a consciência de ter.
De acordo com o relativismo, os valores são inevitavelmente 
arbitrários, e dependem, em última análise, de um ato de escolha não 
racional dos agentes sociais. Somando estas teses, a da relatividade dos 
valores e a da inevitabilidade de sua presença na pesquisa social, alguém 
pode duvidar se vale a pena tentar realizar investigações cuidadosas acerca 
da natureza humana e da natureza da sociedade, se vale a pena tentar 
compreender (e não apenas manipular) os fenômenos sociais. Pois, se os 
valores são arbitrários e inevitavelmente condicionam as conclusões dos 
cientistas sociais, não é o caso de que temos que aceitar que tais conclusões 
(sociológicas, antropológicas, históricas etc.) são também arbitrárias? 
TÓPICO 3 | O QUE É EPISTEMOLOGIA?
65
FONTE: Seifert (2007, p. 103)
FONTE: Japiassu (1981, p. 110)
Japiassu (1981) indica um exemplo desta situação envolvendo a 
objetividade quando explica que Freud, o famoso psicanalista, atribui à psicanálise 
Mas, então, que interesse teriam elas, a não ser talvez para aqueles que 
compartilham os mesmos valores?
Já de uma perspectiva objetivista, o problema que se apresenta é outro. 
Para o objetivismo, os valores não são arbitrários, e precisamos, em razão 
da pluralidade de crenças morais, criar procedimentos reconhecidamente 
adequados para comparar e decidir objetivamente entre princípios e sistemas 
morais alternativos. Somando as duas teses, a da objetividade dos valores e 
a da inevitabilidade de sua presença na pesquisa social, parece, então, que o 
problema assume outra configuração. Não importam os valores que o cientista 
social pode inferir em suas conclusões, mas que sejam corretos. Esse é o 
caminho para evitar a arbitrariedade, o que, no caso anterior do relativismo, 
não era possível. Mas, contrapõem os críticos, essa vantagem vem a um custo 
muito alto: para elaborar boas teorias sociais será preciso que o cientista 
social mantenha aqueles valores que são objetivamente reais, e quais são eles? 
Parece difícil aceitar que uma investigação que se pretenda científica dependa, 
em última análise, da moralidade. Este é, portanto, um dos dilemas a serem 
tratados e resolvidos, se possível, por uma filosofia das ciências sociais. 
Quando aplicados indiscriminadamente às ciências humanas, esses 
critérios não levam em conta um fato fundamental: o da identidade do 
sujeito científico e do objeto de estudo. A raiz da maioria dos erros aos quais 
se expõem tanto a prática das ciências humanas quanto a reflexão sobre 
essa prática encontra-se numa falsa representação da epistemologia das 
ciências naturais e de sua relação com a epistemologia das ciências humanas. 
A realidade humana e social é constituída de uma mistura inextricável de 
fatos de consciência e de situações objetivas. E é justamente por isso que toda 
conjectura a propósito do fenômeno humano e social não pode deixar de 
apoiar-se em princípios diretrizes, cujo conjunto deverá constituir o objeto de 
uma teoria interpretativa do ser humano e do ser social. E o que afirmamos é 
que essa “teoria”, quer queiramos quer não, já constitui uma ideia filosófica 
sobre a natureza humana e sobre as relações sociais. Desde Aristóteles, até 
nossos dias, sempre a ação humana foi considerada como politicamente 
marcada. E as ciências, na medida em que também são atividades humanas, 
não podem escapar às determinações políticas. Enquanto atividades humanas, 
as ciências do homem ou sociais veiculam, quer queiram quer não, certa ideia 
sobre a natureza do homem. E o que afirmamos é que toda e qualquer ideia 
sobre a natureza humana é veiculada por uma filosofia implícita ou explícita, 
estando impregnada de uma conotação valorativa.
66
UNIDADE 1 | EPISTEMOLOGIA: SITUANDO CONCEITOS
o papel explicativo da sociedade, pois busca explicações em suas teorias acerca 
do início da moral, arte, religião etc., indicando que ela seria base para outras 
ciências por tratar da gênese da civilização humana. 
Além disso, em diversos outros pontos de sua obra, as ideologias das quais 
ele compartilha estão presentes, como quando defende a natureza agressiva dos 
seres humanos, explicando que as guerras serão difíceis de serem combatidas em 
virtude das pulsões dos homens relacionadas com a agressividade.
Isto se torna patente, entre muitos outros, no seguinte caso: quando 
biólogos e bioquímicos se reúnem para discutir e chegar a uma 
conclusão sobre aquilo que é o cérebro humano, sobre seus mecanismos 
de funcionamento, mas coloca-se o problema de saber até que ponto o 
conhecimento científico desse aparelho pode permitir uma retificação da 
experiência coletiva dos homens, o que eles estão fazendo? [...] Portanto, 
a partir do momento em que abandonam o problema estrito no nível da 
biologia molecular, e coloca-se o problema da repercussão da forma do 
indivíduo humano numa coletividade social onde, teoricamente, todos 
são semelhantes, o que estão fazendo? Ciência? Medicina? Filosofia? 
Apenas coloco a questão (JAPIASSU, 1981, p. 112).
Desta forma, as Ciências Sociais também possuem cientistas que se 
encontram integrados no processo social e político, assim como todas as outras 
ciências. As Ciências Sociais não ditam normas sociais, mas orientam rumos. 
Assim, as teorias científicas e técnicas de aplicação se complementam e permitem 
buscar a objetividade, sendo o pesquisador ao mesmo tempo sujeito e objeto.
CAPÍTULO PRIMEIRO: 
A noção de obstáculo epistemológico
Quando se procuram as condições psicológicas do progressoda ciência, 
logo se chega à convicção de que é em termos de obstáculos que o problema 
do conhecimento científico deve ser colocado. E não se trata de considerar 
obstáculos externos, como a complexidade e a fugacidade dos fenômenos, nem 
de incriminar a fragilidade dos sentidos e do espírito humano: é no âmago do 
próprio ato de conhecer que aparecem, por uma espécie de imperativo funcional, 
Assista ao vídeo disponível no link <http://www.youtube.com/
watch?v=jG5E0dR5oNs>. Ele traz a objetividade científica discutida por diversos teóricos 
que representam correntes da epistemologia das ciências, de uma forma divertida e 
simplificada.
DICAS
LEITURA COMPLEMENTAR
TÓPICO 3 | O QUE É EPISTEMOLOGIA?
67
lentidões e conflitos. É aí que mostraremos causas de estagnação e até de 
regressão, detectaremos causas de inércia às quais daremos o nome de obstáculos 
epistemológicos. O conhecimento do real é luz que sempre projeta algumas 
sombras. Nunca é imediato e pleno. As revelações do real são recorrentes. O real 
nunca é “o que se poderia achar”, mas é sempre o que se deveria ter pensado. O 
pensamento empírico torna-se claro depois, quando o conjunto de argumentos 
fica estabelecido. Ao retomar um passado cheio de erros, encontra-se a verdade 
num autêntico arrependimento intelectual. No fundo, o ato de conhecer dá-se 
contra um conhecimento anterior, destruindo conhecimentos mal estabelecidos, 
superando o que, no próprio espírito, é obstáculo à espiritualização.
A ideia de partir de zero para fundamentar e aumentar o próprio acervo 
só pode vingar em culturas de simples justaposição, em que um fato conhecido 
é imediatamente uma riqueza. Mas, diante do mistério do real, a alma não pode, 
por decreto, tornar-se ingênua. É impossível anular, de um só golpe, todos os 
conhecimentos habituais. Diante do real, aquilo que cremos saber com clareza 
ofusca o que deveríamos saber. Quando o espírito se apresenta à cultura científica, 
nunca é jovem. Aliás, é bem velho, porque tem a idade de seus preconceitos. 
Aceder à ciência é rejuvenescer espiritualmente, é aceitar uma brusca mutação 
que contradiz o passado.
A ciência, tanto por sua necessidade de coroamento como por princípio, 
opõe-se absolutamente à opinião. Se, em determinada questão, ela legitimar a 
opinião, é por motivos diversos daqueles que dão origem à opinião; de modo 
que a opinião está, de direito, sempre errada. A opinião pensa mal; não pensa: 
traduz necessidades em conhecimentos. Ao designar os objetos pela utilidade, 
ela se impede de conhecê-los. Não se pode basear nada na opinião: antes de 
tudo, é preciso destruí-la. Ela é o primeiro obstáculo a ser superado. Não basta, 
por exemplo, corrigi-la em determinados pontos, mantendo, como uma espécie 
de moral provisória, um conhecimento vulgar provisório. O espírito científico 
proíbe que tenhamos uma opinião sobre questões que não compreendemos, 
sobre questões que não sabemos formular com clareza. Em primeiro lugar, é 
preciso saber formular problemas. E, digam o que disserem, na vida científica 
os problemas não se formulam de modo espontâneo. É justamente esse sentido 
do problema que caracteriza o verdadeiro espírito científico. Para o espírito 
científico, todo conhecimento é resposta a uma pergunta. Se não há pergunta, 
não pode haver conhecimento científico. Nada é evidente. Nada é gratuito. Tudo 
é construído.
O conhecimento adquirido pelo esforço científico pode declinar. A 
pergunta abstrata e franca se desgasta: a resposta concreta fica. A partir daí, a 
atividade espiritual se inverte e se bloqueia. Um obstáculo epistemológico se 
incrusta no conhecimento não questionado. Hábitos intelectuais que foram úteis 
e sadios podem, com o tempo, entravar a pesquisa. Bergson diz com justeza 
que “Nosso espírito tem a tendência irresistível de considerar como mais clara 
a ideia que costuma utilizar com frequência”. A ideia ganha assim uma clareza 
intrínseca abusiva. Com o uso, as ideias se valorizam indevidamente. Um valor 
68
UNIDADE 1 | EPISTEMOLOGIA: SITUANDO CONCEITOS
em si opõe-se à circulação dos valores. É fator de inércia para o espírito. Às vezes, 
uma ideia dominante polariza todo o espírito. Um epistemólogo irreverente dizia, 
há vinte anos, que os grandes homens são úteis à ciência na primeira metade 
de sua vida e nocivos na outra metade. O instinto formativo é tão persistente 
em alguns pensadores, que essa pilhéria não deve surpreender. Mas, o instinto 
formativo acaba por ceder a vez ao instinto conservativo. Chega o momento em 
que o espírito prefere o que confirma seu saber àquilo que o contradiz, em que 
gosta mais de respostas do que de perguntas. O instinto conservativo passa então 
a dominar, e cessa o crescimento espiritual.
Como se vê, não hesitamos em invocar o instinto para destacar a justa 
resistência de certos obstáculos epistemológicos. É um ponto de vista que em 
nossa exposição tentaremos justificar. Mas, desde já, é preciso perceber que 
o conhecimento empírico, praticamente o único que estudamos neste livro, 
envolve o homem sensível por todas as expressões de sua sensibilidade. Quando 
o conhecimento empírico se racionaliza, nunca se pode garantir que valores 
sensíveis primitivos não interfiram nos argumentos. De modo visível, pode-
se reconhecer que a ideia científica muito usual fica carregada de um concreto 
psicológico pesado demais, que ela reúne inúmeras analogias, imagens, metáforas, 
e perde aos poucos seu vetor de abstração, sua afiada ponta abstrata. É otimismo 
tolo pensar que saber serve, automaticamente, para saber, que a cultura torna-se 
tanto mais fácil quanto mais extensa for, que a inteligência enfim, sancionada 
por êxitos precoces ou por simples concursos universitários, se capitaliza qual 
riqueza material. Admitindo até que uma cabeça bem feita escape ao narcisismo 
intelectual tão frequente na cultura literária e na adesão apaixonada aos juízos do 
gosto, pode-se com certeza dizer que uma cabeça bem feita é infelizmente uma 
cabeça fechada. É um produto de escola.
Com efeito, as crises de crescimento do pensamento implicam uma 
reorganização total do sistema de saber. A cabeça bem feita precisa então ser 
refeita. Ela muda de espécie. Opõe-se à espécie anterior por uma função decisiva. 
Pelas revoluções espirituais que a invenção científica exige, o homem torna-se 
uma espécie mutante, ou melhor dizendo, uma espécie que tem necessidade de 
mudar, que sofre se não mudar. Espiritualmente, o homem tem necessidade de 
necessidades. Se considerarmos, por exemplo, a modificação psíquica que se 
verifica com a compreensão de doutrinas como a da Relatividade ou como a da 
Mecânica Ondulatória, talvez não achemos tais expressões exageradas, sobretudo 
se refletirmos sobre a real solidez da ciência pré-relativista. [...]
Costuma-se dizer também que a ciência é ávida de unidade, que tende a 
considerar fenômenos de aspectos diversos como idênticos, que busca simplicidade 
ou economia nos princípios e nos métodos. Tal unidade seria logo encontrada se 
a ciência pudesse contentar-se com isso. Ao inverso, o progresso científico efetua 
suas etapas mais marcantes quando abandona os fatores filosóficos de unificação 
fácil, tais como a unidade de ação do Criador, a unidade de organização da 
natureza, a unidade lógica. De fato, esses fatores de unidade, ainda ativos no 
pensamento pré-científico do século XVIII, não são mais invocados. Seria tachado 
TÓPICO 3 | O QUE É EPISTEMOLOGIA?
69
de pretensioso o pesquisador contemporâneo que quisesse reunir a cosmologia 
e a teologia.
E, até no pormenor da pesquisa científica, diante de uma experiência 
bem específica que possa ser consignada como tal, como verdadeiramente una 
e completa, sempre será possível ao espírito científico variar-lhe as condições, 
em suma, sair da contemplação do mesmo para buscar o outro, para dialetizar a 
experiência. É assim que a química multiplica e completa suas séries homólogas, 
até sair da natureza para materializar os corpos mais ou menoshipotéticos 
sugeridos pelo pensamento inventivo. É assim que, em todas as ciências rigorosas, 
um pensamento inquieto desconfia das identidades mais ou menos aparentes e 
exige sem cessar mais precisão e, por conseguinte, mais ocasiões de distinguir. 
Precisar, retificar, diversificar são tipos de pensamento dinâmicos que fogem da 
certeza e da unidade, e que encontram nos sistemas homogêneos mais obstáculos 
do que estímulo. Em resumo, o homem movido pelo espírito científico deseja 
saber, mas para, imediatamente, melhor questionar.
FONTE: BACHELARD, Gaston. A formação do espírito científico: contribuição para uma psicanálise 
do conhecimento. Tradução de Estela dos Santos Abreu. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996. 
70
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tópico você viu:
• Quando tratamos de questões gerais, concernentes a diversas áreas, estamos 
no domínio da epistemologia geral. Questões sobre os limites de nosso 
conhecimento, como vimos no primeiro tópico deste caderno, sobre a distinção 
entre as formas de conhecer, sobre a relação entre eles, são perguntas sobre as 
quais os epistemólogos se debruçam.
• Podemos também tratar apenas acerca de questões específicas de um 
determinado campo científico, ou mesmo de um tópico determinado dentro 
desta ciência, e então estaremos no domínio da epistemologia aplicada.
• O raciocínio dedutivo ocorre quando, a partir de enunciados mais gerais 
dispostos ordenadamente como premissas de um raciocínio, se chega a uma 
conclusão particular ou menos geral.
• O raciocínio indutivo é baseado na inversão do método dedutivo, ou seja, de 
fatos particulares chega-se a conclusões genéricas: induzem-se fatos singulares 
a uma conclusão ampla. 
• Ao refletir sobre a natureza do conhecimento, percebemos que sempre existem 
dois elementos envolvidos no ato de conhecer, que são o sujeito que está 
conhecendo e o objeto que está sendo conhecido. Portanto, é possível notar 
que existe uma relação, o ato de conhecer é uma relação entre o sujeito e o 
objeto.
• As Ciências Sociais também possuem cientistas que se encontram integrados 
no processo social e político, assim como todas as outras ciências. As Ciências 
Sociais não ditam normas sociais, mas orientam rumos. Assim, as teorias 
científicas e técnicas de aplicação se complementam e permitem buscar a 
objetividade, sendo o pesquisador ao mesmo tempo sujeito e objeto.
71
AUTOATIVIDADE
A partir do que você estudou até aqui sobre a epistemologia, indique qual a 
aplicação dos estudos epistemológicos na área das Ciências Sociais.
72
73
UNIDADE 2
CIÊNCIAS HUMANAS E 
SOCIAIS: FUNDAMENTOS DA 
ANÁLISE SOCIAL
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
PLANO DE ESTUDOS
Nessa unidade vamos:
• diferenciar os fundamentos epistemológicos das Ciências Sociais compa-
rados aos das demais ciências, sobretudo das Ciências Naturais;
• identificar os princípios filosóficos presentes nas análises sociais, a partir 
das diferentes análises epistemológicas;
• diferenciar determinadas correntes epistemológicas e sua relação com a 
cientificidade das Ciências Sociais.
Esta unidade está dividida em três tópicos e em cada um deles você encon-
trará atividades visando à compreensão dos conteúdos apresentados.
TÓPICO 1 – CIÊNCIAS DA NATUREZA E CIÊNCIAS SOCIAIS
TÓPICO 2 – PRINCÍPIOS FILOSÓFICOS DA ANÁLISE SOCIAL
TÓPICO 3 – CORRENTES EPISTEMOLÓGICAS E SUA PRESENÇA
 NAS CIÊNCIAS SOCIAIS
74
75
TÓPICO 1
CIÊNCIAS DA NATUREZA E 
CIÊNCIAS SOCIAIS
UNIDADE 2
1 INTRODUÇÃO
Querido(a) acadêmico(a), iniciamos mais uma unidade deste Caderno 
de Estudos. Nela iremos nos direcionar à compreensão dos fundamentos 
epistemológicos das Ciências Humanas e Sociais. Afinal, se estas são consideradas 
ciências, é preciso que saibamos quais são os critérios que definem uma ciência, e 
porque elas possuem esse estatuto de cientificidade.
Para que isto se cumpra, no primeiro tópico iremos diferenciar as ciências 
da natureza e as ciências sociais, a fim de que fiquem claros os tipos existentes de 
ciência, seus critérios de demarcação e classificação, os fundamentos das ciências 
sociais e o surgimento destas, além da diferença entre o pensamento naturalista 
e antinaturalista.
O tópico 2 traz reflexões acerca dos princípios filosóficos nos quais se 
baseiam as análises sociais, tratando mais especificamente da epistemologia 
das ciências sociais. Também temos neste tópico as definições e características 
do fundacionalismo, antifundacionalismo e coerentismo, fundamentais para a 
compreensão da epistemologia.
O terceiro e último tópico desta unidade permitirá que você conheça 
as correntes epistemológicas em sua ação, ou seja, suas teorias de acordo com 
o pensamento de cada corrente. Veremos os principais expoentes, definições e 
características do racionalismo, empirismo, positivismo, dialética e hermenêutica. 
Cada uma destas formas de análise epistemológica contribui, à sua maneira, com 
o desenvolvimento das ciências sociais.
Então, vamos iniciar pelo primeiro tópico!
O objetivo dos textos disponibilizados neste tópico é permitir que você 
compreenda as principais diferenciações epistemológicas existentes entre as 
ciências da natureza e as ciências sociais e, diante disso, compreender como 
surgiu esta classificação.
Para isto, veremos os fundamentos das análises sociais, o surgimento 
das ciências sociais, os tipos de ciência existentes e seus critérios de demarcação 
e classificação, finalizando com a busca pelo entendimento do pensamento 
naturalista e antinaturalista, fundamentais para a diferenciação entre as ciências 
naturais e sociais.
UNIDADE 2 | CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS: FUNDAMENTOS DA ANÁLISE SOCIAL
76
É assim que começamos esta unidade, diferenciando as Ciências Sociais 
das demais ciências. Vamos começar?
2 SURGIMENTO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS
As relações sociais são a base da sociedade, ou seja, o sistema social, a 
estrutura social, existe baseada nas relações entre os indivíduos e destes com a 
própria estrutura. É a forma como estas relações são determinadas e estruturadas 
nos grupos que define o comportamento social e, consequentemente, a vida em 
sociedade.
É no contato com o grupo social que o indivíduo se socializa, ou seja, 
aprende determinados comportamentos e suprime outros (instintivos), para 
fazer parte do grupo social no qual nasceu. Por meio do contato com o outro, 
assimila aquilo que é importante para seu cotidiano e passa a agir de acordo com 
as pessoas com as quais convive.
Este relacionamento social, tanto da vida prática quanto afetiva, as formas 
de interação com os grupos e entre eles, as regras e valores compartilhados e 
estabelecidos, são objetos de estudo da área denominada de Ciências Sociais. 
Uma das disciplinas que fazem parte deste conjunto é a Sociologia (CHAUÍ; 
OLIVEIRA, 2010).
O comportamento humano é diversificado, o ser humano recebe estímulos 
do meio social, mas também interfere diretamente nele. Existem comportamentos 
que são biológicos e individuais, como respirar, dormir, entre outros; estes 
comportamentos são objeto de estudo das ciências naturais.
Ser, organizar-se em grupos, promover a educação, casar-se, frequentar 
um grupo religioso, são comportamentos sociais desenvolvidos em relação à 
sociedade, estes comportamentos e suas diversas formas de manifestação são 
objeto das ciências sociais. 
Sendo assim, pode-se afirmar que “As Ciências Sociais caracterizam-se 
pelo estudo sistemático do comportamento social do ser humano. Dessa forma, 
o objeto das Ciências Sociais é o ser humano em suas relações sociais” (CHAUÍ; 
OLIVEIRA, 2010, p. 92).
Este objetivo está aliado ao desejo pela ampliação do conhecimento dos 
seres humanos em suas interações e também acerca das ações sociais. Assim, 
as ciências sociais podem contribuir para o entendimento da sociedade na qual 
vivemos e para sua transformação, denunciando contradições e dominações na 
estrutura. As ciências sociais fazem uso do método científico para realizar suas 
investigações.
Na medida em que o conhecimentoda sociedade foi avançando, as 
ciências sociais foram subdividindo-se em áreas do conhecimento para facilitar as 
TÓPICO 1 | CIÊNCIAS DA NATUREZA E CIÊNCIAS SOCIAIS
77
pesquisas e, principalmente, a sistematização dos estudos (CHAUÍ; OLIVEIRA, 
2010).
FIGURA 16 – AS TRÊS ÁREAS QUE COMPÕEM AS CIÊNCIAS SOCIAIS
FONTE: Disponível em: <http://lufernandescomunicacao.blogspot.com.br/2010_11_01_
archive.html>. Acesso em: 29 maio 2013.
Segundo Chauí e Oliveira (2010, p. 93), as Ciências Sociais dividem-se em:
Sociologia – Estuda as relações sociais e as formas de associação, 
considerando as interações que ocorrem na vida em sociedade. A Sociologia 
envolve, portanto, o estudo dos grupos e dos fatos sociais, da divisão da 
sociedade em classes e camadas, da mobilidade social, dos processos de 
cooperação, competição e conflito na sociedade etc.
Economia – Tem por objeto as atividades humanas ligadas à produção, 
circulação, distribuição e consumo de bens e serviços. Portanto, são 
fenômenos estudados pela Economia a distribuição de renda num país, a 
política salarial, a produtividade de uma empresa etc.
Antropologia – Estuda e pesquisa as semelhanças e as diferenças culturais 
entre os vários agrupamentos humanos, assim como a origem e a 
evolução das culturas. Além de estudar a cultura dos povos pré-letrados, 
a Antropologia ocupa-se também da diversidade cultural existente nas 
sociedades industriais. São objetos de estudo da Antropologia os tipos de 
organização familiar, as religiões, a magia, os ritos de iniciação dos jovens, 
o casamento etc.
Áreas de conhecimento
Linguagem
Antropologia EconomiaSociologia
Ciências 
Naturais
Ciência 
Política
Ciências 
Humanas
Ciências 
Sociais
UNIDADE 2 | CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS: FUNDAMENTOS DA ANÁLISE SOCIAL
78
Ciência Política – Ocupa-se da distribuição de poder na sociedade, assim 
como da formação e do desenvolvimento das diversas formas de governo. 
É a Ciência Política que estuda, por exemplo, os partidos políticos, os 
mecanismos eleitorais etc.
Estas ciências são complementares, o que quer dizer que nem sempre 
atuam de forma isolada para explicar um determinado fenômeno. É comum que 
atuem juntas, ainda que cada uma possua um aspecto da realidade considerado 
como objeto específico.
2.1 UM POUCO DE HISTÓRIA...
O pensamento sobre a vida em sociedade iniciou já na Grécia Antiga, 
quando as primeiras tentativas de entendimento do comportamento humano 
eram baseadas em mitos, deuses e heróis. Havia um deus para a guerra, outro para 
o comércio, uma deusa para as relações amorosas, o que denota a preocupação 
com as relações sociais.
Não satisfeitos com as explicações mitológicas, os filósofos iniciaram 
estudos sistemáticos das relações humanas, inclusive o trio: Platão, Aristóteles 
e Sócrates. Na Idade Média tivemos Santo Agostinho voltando-se ao tema, 
sobretudo à questão das normas sociais.
No Renascimento a abordagem social passou a ser mais realista, baseada 
na racionalidade humana, onde tivemos teóricos como Maquiavel, Francis Bacon, 
Erasmo de Roterdã e Thomas Hobbes. Todos contribuíram, à sua forma, para o 
desenvolvimento das ciências sociais.
Giambattista Vico, em torno do século XVIII, foi um personagem de 
fundamental importância no processo de reflexão desvinculada de perspectivas 
religiosas sobre a sociedade. Ele escreveu “A nova ciência”, obra na qual defende 
que a sociedade se subordina a leis definidas, que podem ser observadas 
objetivamente e descobertas por estudos. “Sua formulação – O mundo social é, 
com toda certeza, obra do homem – foi um conceito revolucionário para a época” 
(CHAUÍ; OLIVEIRA, 2010, p. 94).
Alguns anos depois, foi Rousseau quem reconheceu a predominância da 
sociedade sobre o indivíduo, considerando suas influências. Até então, apenas a 
sociedade agiria sobre o indivíduo, não havia uma troca, como reconhecemos na 
contemporaneidade.
E é a partir do século XIX que a investigação dos fenômenos sociais passa 
a possuir caráter científico, por meio de obras de Comte, Spencer, Durkheim, 
Weber e Marx. Comte, por exemplo, funda a Sociologia como ciência de análise 
das relações sociais.
TÓPICO 1 | CIÊNCIAS DA NATUREZA E CIÊNCIAS SOCIAIS
79
3 FUNDAMENTOS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS
O desenvolvimento da sociedade industrial foi fundamental para a 
consolidação das Ciências Sociais, sobretudo da Sociologia. A partir de então, 
ela passou a estudar e explicar problemas e fenômenos com os quais ainda não 
havia se defrontado. Estes problemas com as minorias, a violência, as drogas, a 
prostituição e a desagregação familiar, por exemplo.
Estes problemas, que ainda existem, exigem uma análise científica dos 
aspectos da vida pessoal dos que estão envolvidos, além do estudo dos agentes 
sociais capazes de provocar grandes mudanças na sociedade. Um dos principais 
objetivos das ciências sociais na atualidade é criar instrumentos teóricos que 
auxiliem na compreensão sobre a sociedade contemporânea.
Como seu objeto é a interação humana, as ciências sociais apresentam o 
papel do observador para o campo científico. Afinal, diferente de outras ciências, 
neste caso o observador é parte integrante do objeto. Ao mesmo tempo em que 
observa, também interfere na realidade de seu objeto de estudo. Com isso, surge 
no campo das ciências sociais a discussão acerca da objetividade do trabalho 
científico (DIAS, 2005).
O cientista social não pode interferir na realidade de seu objeto, pois do 
contrário seus resultados não terão validade, não serão neutros. Isto, porém, 
é uma dificuldade fundamental desta área do conhecimento, pois o cientista 
influencia o meio e é influenciado por ele.
O que caracteriza as ciências sociais, em contraste com as ciências 
físicas, é a circunstância em que nelas o assunto ou objeto de que 
tratam se confunde com o próprio ser humano. O ser humano é, ao 
mesmo tempo, ator e espectador. Os fatos sociais que são seu objeto 
de estudo foram originados por ação humana e ao mesmo tempo é 
ele – como ser humano – quem observa e tece considerações sobre o 
fato, para constituir com ele o conhecimento e a ciência. Em outras 
palavras, o homem tem duplo papel nas ciências sociais – o que não 
ocorre nas ciências físicas (DIAS, 2005, p. 40).
Assim, a objetividade é fundamental nas investigações desta área. Além 
disso, deve ser considerado um arcabouço metodológico que dê conta das 
especificidades das ciências sociais, com meios próprios que considerem esta 
situação dual do cientista. Entre estes métodos temos com frequência análises 
quantitativas, observações e comparações.
Os conteúdos sobre a História da Sociologia foram objeto de estudo da disciplina 
“História da Sociologia”. Retome este caderno para relembrar como ela se desenvolveu!
NOTA
UNIDADE 2 | CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS: FUNDAMENTOS DA ANÁLISE SOCIAL
80
Não é apenas o rigor no uso dos métodos e técnicas que garante que as 
ciências sociais tenham êxito com seus objetos, mas também uma observação 
objetiva acompanhada de interpretações cuidadosas, pressuposto fundamental 
a todo tipo de ciência.
Quando afirmamos que a observação científica deve ser ‘objetiva’, 
significa que, tanto quanto seja humanamente possível, ela não deve 
ser afetada pela própria crença, por emoções, hábitos, preferências, 
desejos ou valores do observador. Em outras palavras, ‘objetividade 
significa ver e aceitar os fatos como são, e não como desejaríamos que 
fossem’. Para o sociólogo, esse é um dos procedimentos mais difíceis, 
pois é muito complicado assumir uma posição de neutralidade perante 
problemas sociais que estão sendo estudados (DIAS, 2005, p. 40).
A objetividade é diferente da neutralidade, outro pressuposto 
fundamental das ciências sociais. A objetividade é muito importante nos estudos 
destas ciências para garantir que se defina o fenômeno social tal como ele é. Já a 
neutralidade é questionada por muitos cientistas sociais, que a consideram um 
modo de controle da ciência por parte daqueles que possuem o poderpolítico 
do campo (DIAS, 2005).
Esta neutralidade relaciona-se à imparcialidade na exposição de resultados, 
e à participação e instrumentalização do cientista social com relação aos movimentos 
sociais, sobretudo os revolucionários, que buscam alterar completamente a vigência 
de certos modelos sociais.
O sociólogo Florestan Fernandes (apud DIAS, 2005, p. 41) descreveu 
muito bem esta relação, em se tratando da sociologia. Contudo, até certo ponto é 
possível estendê-la às demais ciências sociais:
O sociólogo não possui um laboratório. Por isso, ele enfrenta 
muitas dificuldades, que não existem (ou aparecem com intensidade 
desprezível) nas ciências nas quais é possível pôr em prática a investigação 
experimental. A maior parte dessas dificuldades surge de um fato simples: 
o sociólogo está sujeito às normas e aos critérios experimentais do saber 
científico, mas ele não dispõe dos meios e das facilidades experimentais 
de descobertas e de verificação da verdade. Esse ‘limite abstrato’ é, com 
frequência, negligenciado pelos que estudam a formação e a evolução da 
sociologia como ciência. 
No entanto, ele deveria estar sempre presente, dos levantamentos 
iniciais às interpretações finais: é ele que explica os ‘porquês’ dos avanços 
ou recuos dos sociólogos na investigação da realidade. O ponto de vista 
científico enlaça o sociólogo a uma verdadeira condição humana, da 
qual ele não pode escapar se ‘trair’ as normas e os critérios científicos de 
observação e de interpretação da vida em sociedade. Quando ele ignora 
TÓPICO 1 | CIÊNCIAS DA NATUREZA E CIÊNCIAS SOCIAIS
81
esta condição humana – ou se subtrai a ela por omissão –, sua contribuição 
sociológica poderá ser o que se quiser, menos uma sociologia científica.
Para dizer tudo com poucas palavras: as normas e os critérios 
científico-experimentais de verdade e de verificação da verdade põem o 
sociólogos em relação de tensão com a sociedade [...].
Cada cientista social, ao realizar uma análise, utilizará os métodos 
científicos para analisar seu objeto de estudo, garantindo a objetividade dos 
resultados. Os fatos sociais, porém, irão influenciar sua conduta e, portanto, 
a neutralidade é uma impossibilidade real para este profissional, pois mesmo 
estudando um fenômeno, na verdade faz parte dele (DIAS, 2005).
A dupla condição do cientista social já foi identificada por alguns autores, 
o que implica em compromisso duplo, com a humanidade e com a ética da 
ciência. É uma condição que aparece em outras ciências também, mas que se faz 
presente com mais força nas sociais, em virtude de seu objeto social e da inserção 
do cientista neste objeto.
Desta forma, Geertz (apud DIAS, 2005, p. 42), quando questionado acerca 
da influência da sociedade no trabalho dos antropólogos, indica que:
Não há dúvidas quanto a isso, todos nós somos, como se diz hoje, 
‘observadores situados’. A única coisa que se pode fazer a respeito 
é ter a maior consciência possível desse fato e pensar nisso, não 
assumir que o modo como vemos as coisas é o modo como as coisas 
simplesmente são, mas entender. Sim, obviamente, um antropólogo 
norte-americano ou um brasileiro ou um francês, verão as coisas de 
uma maneira diferente, e uma das razões é o contexto cultural do qual 
eles vêm, do qual extraem suas percepções e seus princípios. Não há 
nada de errado nisso, é inevitável, o erro ocorre quando as pessoas 
não se conscientizam disso e simplesmente assumem que qualquer 
sensação que têm não precisa ser confrontada com a realidade. Claro, 
não há nada semelhante a um observador totalmente neutro e abstrato. 
Isso não é tão fatal quanto pode soar, só significa que é preciso pensar 
sobre de onde as pessoas vêm, onde elas estão trabalhando etc. 
Sendo assim, o que garante a possibilidade de certa neutralidade e também a 
objetividade na análise dos fatos sociais é o uso rigoroso de métodos de análise social, 
instrumentos que permitem abordar o objeto e que já são legitimados pela ciência.
4 TIPOS DE CIÊNCIA
O relacionamento das ciências sociais com as ciências naturais é 
um tema que sempre está presente nos debates epistemológicos. Muitas 
perspectivas defendem que os métodos das ciências naturais são tão eficientes 
que devem ser aplicados igualmente às ciências sociais, já outras indicam que 
UNIDADE 2 | CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS: FUNDAMENTOS DA ANÁLISE SOCIAL
82
as ciências sociais devem estabelecer um método próprio, individualizado, 
considerando as especificidades de seu objeto.
Existem duas razões que tentam dar conta da utilização de uma ciência 
como modelo para outra, uma interna, que é a própria concepção do que é a ciência, 
e outra externa, relacionada ao grau de sucesso de uma ciência (universalidade, 
profundidade, capacidade de resolver metodologicamente os problemas que se 
propõe analisar).
Sendo assim, podemos iniciar uma discussão acerca do entendimento das 
próprias divisões entre as ciências, pois a demarcação de fronteiras entre elas 
também é objeto da epistemologia. Nas ciências sociais esta discussão aparece 
com frequência, pois as fronteiras entre as ciências que as compõem nem sempre 
estão claramente determinadas.
Se considerarmos as divisões metodológicas existentes com relação ao 
objeto e métodos de estudo, associadas às informações históricas sobre a ciência, 
é possível afirmar que existem ciências e não apenas ciência. No entanto, ao longo 
do pensamento humano surgiram diversas perspectivas que indicavam a ciência 
como uma só, sem divisões.
Uma dificuldade adicional é a tendência das categorias profissionais se 
associarem a campos de conhecimento e passarem a exigir um estatuto 
de reconhecimento de que são “ciências” separadas, ou seja, de se 
legitimarem porque demonstram ser seguidoras de algum “método” 
de conhecimento científico no seu cotidiano – e introduzem-se novas 
subdivisões. Admitamos, porém, que divisões do conhecimento 
sirvam para algumas finalidades, quando se confundem com tentativas 
classificatórias (MAGALHÃES, 2005, p. 62).
Quando falamos nos gregos, percebemos que o termo filosofia dava conta 
de todo o conhecimento da humanidade, e todas as ciências que conhecemos 
atualmente e suas subdivisões eram parte da filosofia. 
Afirmar a existência de várias ciências pressupõe uma separação entre 
tipos diferentes, mas permanece a ideia de que pode haver um elemento comum, 
ainda que seja um pequeno elemento que permite, ao menos, a diferenciação 
entre o que chamamos de ciência e aquilo que consideramos não científico.
Perguntamos, então: o conhecimento pode mesmo ser assim 
subdividido, como quando se fala na existência das várias “ciências”? 
Notamos que a realidade se apresenta como uma coisa só, apesar de 
nela haver muitos objetos. Portanto, do ponto de vista epistemológico, 
o conhecimento só pode ser uno, porque se destina a compreender 
e controlar um universo em que se manifesta como uma unidade 
global. As reparações resultam sempre em algo artificial, que pode ser 
enganoso e contraproducente, como na especialização preconizada 
pelo positivismo do século XIX (MAGALHÃES, 2005, p. 60). 
TÓPICO 1 | CIÊNCIAS DA NATUREZA E CIÊNCIAS SOCIAIS
83
Marx e Engels, ao pensarem esta questão, indicavam que só havia a 
ciência da história, pois ela seria, ao mesmo tempo, ciência da natureza e ciência 
do homem. 
Para compreender o debate acerca das divisões da ciência, utilizaremos 
como base os dois problemas apresentados por Seifert (2007), e que sofrem 
análises epistemológicas com frequência: o problema da classificação das ciências 
e o problema da demarcação.
4.1 CLASSIFICAÇÃO DAS CIÊNCIAS
Todo o processo classificatório exige um critério que permite realizar 
uma classificação com fundamentos racionais, o que não impede que esta seja 
orientada por um interesse externo. Muitas vezes esta classificação é realizada 
do ponto de vista do ensino, pois quanto mais especializado for o conhecimento, 
mais subdivisões são criadas, e geralmente estas são superficiais. 
Seifert (2007)menciona o exemplo da Sociologia, na qual temos a sociologia 
do conhecimento, da educação, política, urbana, rural, entre outras. Segundo ele, 
dificilmente cada uma destas corresponderá a uma ciência específica, mas esta 
demarcação serve para delinear campos de estudo. 
A sociologia também faz parte de um campo mais abrangente: o campo 
das Ciências Humanas e Sociais, do qual fazem parte também a Economia, 
Ciência Política, Geografia, entre outros. Neste caso temos distintas ciências, cada 
uma com metodologias e objetos próprios.
As propostas usualmente mais aceitas são aquelas que classificam as 
ciências utilizando como critério os seus objetos e seus problemas, e não 
seus métodos. Isso porque é mais fácil fazer este tipo de classificação, 
que alcança um consenso mais abrangente. A classificação ou distinção 
entre tipos básicos de ciências, que se diferenciam em razão da radical 
separação de seus métodos, é tema de debate, não se encontrando 
aqui o mesmo nível de concordância, como mostra a questão acerca da 
relação entre ciências sociais e ciências naturais (SEIFERT, 2007, p. 38).
Já os objetos são classificados de forma a considerar sua unidade, 
características e tipo de questão que se pode formular acerca deles. Por exemplo, 
a sociologia possui como objeto principal as relações sociais, ao distinguir 
sociologia rural e urbana falamos de um mesmo objeto, apenas considerado em 
sua forma mais restrita. Não se trata de um novo objeto, não são novas ciências, 
mas apenas perspectivas mais específicas.
Outra distinção é realizada classificando-se as ciências puras e ciências 
aplicadas. Diferentemente do que afirma o senso comum, esta classificação não 
está relacionada com a aplicabilidade das investigações, e sim porque temos 
as ciências no sentido derivativo, e não próprio, como são as Ciências Sociais 
Aplicadas, por exemplo.
UNIDADE 2 | CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS: FUNDAMENTOS DA ANÁLISE SOCIAL
84
Uma queixa contemporânea bastante comum envolvendo essa 
dicotomia é a de que tem havido um abandono e desaparecimento da 
ciência básica nas instituições de pesquisa e universidades, ao mesmo 
tempo em que se exigem resultados “práticos”, uma visão de que elas 
deveriam se dedicar à pesquisa aplicada, para darem um “retorno” à 
sociedade (MAGALHÃES, 2005, p. 77). 
A epistemologia faz uso das classificações que já existem para compreender 
as subdivisões e buscar o que existe de comum nelas, ou suas especificidades. A 
dificuldade neste caso consiste em fazer este processo sem utilizar premissas que 
vão contra o processo de conhecimento. Certas classificações, no entanto, não se 
chocam com a concepção de uma ciência unitária, estando mais de acordo com a 
perspectiva de uma ciência única (MAGALHÃES, 2005).
Alguns autores buscam fazer a separação do conhecimento em categorias 
como científico, teológico e filosófico. De toda forma, cada uma delas é um 
processo para compreensão do domínio de alguma parcela do universo, então a 
separação perde seu sentido.
Uma separação proposta para o conhecimento é a distinção entre as 
ciências formais e as fatuais. As primeiras, em geral, são a matemática e a lógica, 
enquanto as segundas são as da natureza e do homem. “Esta divisão é arbitrária 
e pouco realista, pois vimos que se pode argumentar que a matemática e a lógica 
(formais) têm um conteúdo ditado pela percepção (fatual) do mundo físico. 
Por outro lado, muitas das ciências chamadas fatuais têm atingido um grau de 
formalização elevado” (MAGALHÃES, 2005, p. 72).
Magalhães (2005, p. 72) indica mais um contraexemplo: “Lembramos que 
muitas descobertas fatuais da física experimental se deram como resultados de 
exercícios mentais ou da concepção de modelos que não eram extraídos de ‘fatos’ 
práticos”.
Outra classificação mantém a mesma lógica de pensamento, mas classifica 
as ciências em: explicativas, empírico-formais ou naturais (correspondem às 
da natureza, como a física), e as hermenêuticas, interpretativas ou humanas 
(correspondem às sociais, como a sociologia). 
E uma última classificação divide o conhecimento em ciências exatas, 
biológicas e humanas, divisão bastante divulgada na contemporaneidade.
Está claro que estas últimas divisões padecem dos mesmos problemas 
já apontados, com o agravante de proporem um exclusivismo para 
a interpretação do que alocam em cada agrupamento. Isso sem falar 
nos problemas de dupla classificação, que são, no entanto, muito 
comuns: onde ficam a psicologia, economia, arquitetura e outras, que 
às vezes ressaltam aspectos das ciências ditas “humanas” e às vezes 
das ciências exatas? Essas divisões não vão conseguir a delimitação 
pretendida, pois mal podem compreender as motivações para se 
buscar conhecimento sobre um objeto, seja qual for, principalmente no 
caso em que o homem é o próprio sujeito e objeto, como nas ciências 
“humanas” (MAGALHÃES, 2005, p. 73). 
TÓPICO 1 | CIÊNCIAS DA NATUREZA E CIÊNCIAS SOCIAIS
85
Não poderia também funcionar uma divisão que considerasse como 
marco divisório os juízos de valor, onde a física, por exemplo, estaria isenta de 
valores, porque não atribui julgamentos, enquanto que a ciência política poderia 
ter este julgamento quando estuda a concentração de renda, hipoteticamente. Mas 
mesmo nos estudos sobre a natureza os valores existem, ainda que não estejam 
explícitos. 
FIGURA 17 – UMA DAS DIVISÕES DA CIÊNCIA
FONTE: Disponível em: <http://thesyspesquisas.blogspot.com.br/p/processo-produtivo.html>. 
Acesso em: 29 maio 2013.
FIGURA 18 – DIVISÃO CIÊNCIAS FORMAIS E FATUAIS
FONTE: Disponível em: <http://www.ipepe.com.br/ciencia.html>. Acesso em: 29 maio 2013.
UNIDADE 2 | CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS: FUNDAMENTOS DA ANÁLISE SOCIAL
86
4.1.1 A demarcação
Outro aspecto a ser considerado, inclusive do ponto de vista epistemológico, 
é a demarcação do conhecimento, ou seja, a distinção entre o que podemos chamar 
de ciência e aquilo que não é considerado ciência. A diferenciação na demarcação 
estará sempre relacionada à definição de ciência que estiver sendo utilizada.
Mas, ainda assim, há dois aspectos, indicados por Seifert (2007), que 
devem ser cumpridos em todos os casos. 
O primeiro aspecto é distinguir a ciência da pseudociência. A pseudociência 
é uma teoria que pretende ser considerada ciência, mas cujo objeto é uma ficção 
ou utiliza metodologias inadequadas. O segundo aspecto é diferenciar a ciência 
de outros produtos humanos, como arte, moral, religião. Estes tipos de debates 
não são ciências. A moral, por exemplo, não descreve como as pessoas agem, e 
sim como deveriam agir.
Contudo, um critério também foi definido por Karl Popper, a testabilidade 
de hipóteses e teorias:
Para serem consideradas científicas, hipóteses e teorias devem 
ser capazes de entrar em conflito com observações possíveis ou 
concebíveis; não podem ser compatíveis com qualquer estado 
de coisas. Isso é diferente de saber ou determinar se uma teoria 
é verdadeira ou aceitável, pois poderia ser verdadeira sem ser 
científica. Também difere de apresentar observações que confirmem 
positivamente a hipótese ou teoria. Se uma teoria for construída de 
tal forma que nos faça ver as coisas de uma determinada maneira, 
encontrará, sem dúvida, frequentes casos que parecem confirmá-la 
(SEIFERT, 2007, p. 40).
Deve ser possível retirar da teoria predições específicas que podem ser 
passíveis de falsificação a partir de observações controladas. Este é o critério de 
refutabilidade: uma ciência deve proibir certos fatos observáveis. 
Existe ainda uma distinção entre as ciências naturais e sociais, chamada 
de diferenças de grau e de tipo. Neste sentido, temos a diferenciação entre duas 
propostas, o naturalismo e o antinaturalismo, que tratam acerca do conhecimento 
também nas ciências sociais.
TÓPICO 1 | CIÊNCIAS DA NATUREZA E CIÊNCIAS SOCIAIS
87
5 NATURALISMO E ANTINATURALISMO
A corrente naturalista defende que as Ciências Sociais podem conhecer os 
fenômenos sociais assim como as Ciências da Naturezapossuem condições para 
conhecer os fenômenos naturais. Afinal, relações sociais se alteram, novas são 
criadas, outras desaparecem, e o comportamento de grupos e instituições pode 
ser objeto da ciência, então a forma de conhecê-los deve ser o método associado 
às ciências naturais.
Muito se tem debatido, ao longo do século XX, a respeito do que 
torna científica uma teoria. A cientificidade postulada por algumas 
das mais importantes e influentes teorias sociais tem sido com 
frequência questionada. A psicanálise, o materialismo histórico e 
a sociologia compreensiva têm sofrido duros ataques por parte de 
vertentes teóricas que gostam de se apresentar, com ou maior ou 
menor legitimidade epistemológica, como “guardiãs do método 
científico” (OLIVA, s.d., s.p.).
“Assim como o cientista natural explica os fenômenos por meio de algum 
tipo de causação física, o cientista social, ao procurar explicar a atividade humana, 
deve fazê-lo através de algum tipo de causação social” (SEIFERT, 2007, p. 42).
O ser humano integralmente é parte da natureza, se houver algo além 
da natureza isto não poderia ser objeto científico, mas como o homem não está 
além da natureza, e sim é parte dela, então este também pode se tornar objeto 
da ciência.
Seifert (2007) indica a distinção entre dois tipos de naturalismo: naturalismo 
radical e naturalismo moderado. Vamos conhecê-los:
5.1 NATURALISMO RADICAL
Este tipo de naturalismo associa-se a concepções reducionistas do 
conhecimento, ou seja, correntes que defendem o reducionismo metodológico. 
Seres e eventos de um tipo, para esta concepção, são apenas seres e eventos de 
um tipo.
A redução é realizada ao nível da metodologia, ou seja, métodos 
específicos de uma ciência podem ser explicados pelos métodos de outra ciência. 
Os métodos da Antropologia poderiam ser explicados pelos métodos da Biologia, 
por exemplo. 
Assim, o reducionismo metodológico possui suas bases de análise na 
ciência, sendo a ideia de que as explicações, inclusive as científicas, devem ser 
continuamente reduzidas às entidades mais simples possíveis. A partir disso, 
seria possível compreendê-las com maior clareza, partindo de unidades simples 
e compreendendo o complexo todo. 
UNIDADE 2 | CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS: FUNDAMENTOS DA ANÁLISE SOCIAL
88
Nesta perspectiva, os fenômenos podem ser reduzidos a explicações 
científicas por meio de um método, de uma técnica, através da qual o objeto de 
estudo em questão é fragmentado e dividido, para que ao final se atinja a desejada 
verdade científica.
Este tipo de reducionismo difere do reducionismo ontológico. O 
reducionismo ontológico defende que certas entidades que supomos que existem 
ou eventos que supomos que ocorreram, nada mais são do que formas diferentes 
de falar de outras entidades e eventos (SEIFERT, 2007).
Desta forma, este tipo de reducionismo argumenta que tudo o que existe 
em termos de seres humanos e de objetos, na verdade é formado por algumas 
substâncias básicas que apresentam comportamentos regulares. Assim, os 
métodos científicos racionais buscam compreender as transformações nestas 
substâncias básicas, que seriam a verdade efetiva das coisas.
Conforme o exemplo de Seifert (2007, p. 42):
Temos um exemplo na discussão contemporânea das ciências cognitivas 
acerca da relação entre o cérebro e a consciência. Segundo uma teoria 
famosa na área, o modelo computacional da mente, nossa consciência 
deve ser entendida como se fosse um computador sofisticado, que 
recebe, processa, armazena, interpreta e usa informação. E estas são 
todas operações cerebrais. A única diferença relevante entre nós e 
computadores está no fato de nosso hardware ser orgânico. Mas não há 
nada além do cérebro, nem a mente pensante cartesiana nem a alma 
religiosa. Continuamos usando termos mentais (como penso, julgo, 
decido, odeio etc.) por conveniência prática, assim como continuamos 
a falar do pôr-do-sol, embora saibamos que o Sol não se põe.
A partir deste exemplo, observa-se a relação do naturalismo radical com 
ambos os tipos de reducionismo. Vejamos agora o naturalismo moderado, outra 
perspectiva de compreensão das possibilidades científicas.
5.2 NATURALISMO MODERADO
O naturalismo moderado aceita a existência de diferenças entre eventos 
sociais e eventos físicos, considerando que eventos sociais não são redutíveis a 
eventos físicos, aceitando apenas uma dependência dos primeiros em relação aos 
segundos.
Seifert (2007) utiliza o mesmo exemplo indicado anteriormente para 
explicar o naturalismo moderado:
Para o naturalismo biológico, a consciência ainda é concebida como um 
elemento natural, uma característica biológica ordinária do mundo, 
dependente do cérebro. Não há mente enquanto um algo distinto do 
corpo, mas a consciência não é meramente uma palavra que designa 
eventos neurofisiológicos. É um fenômeno natural, mas singular, e não 
pode ser reduzida a outros fenômenos (SEIFERT, 2007, p. 43). 
TÓPICO 1 | CIÊNCIAS DA NATUREZA E CIÊNCIAS SOCIAIS
89
Por meio desta lógica, o método científico, assim como é desenvolvido e 
aplicado nas ciências naturais, também pode ser utilizado nas ciências sociais. 
Exige-se uma adaptação das regras gerais para que contemplem as características 
específicas das Ciências Sociais.
“Permanece que hipóteses devem ser formuladas, que elas sejam passíveis 
de teste para confirmação ou refutação, que se proponham leis gerais a partir das 
quais elaborar previsões” (SEIFERT, 2007, p. 43).
5.3 ANTINATURALISMO
Além do posicionamento naturalista, temos a perspectiva antinaturalista, 
defensora da diferenciação entre as ciências sociais e naturais, inclusive no que 
diz respeito ao conceito de lei. Conforme esta análise, os dois tipos de ciência são 
muito diferentes, e as características das relações sociais e dos agentes exigem um 
método compreensivo, e não apenas uma análise causal (SEIFERT, 2007).
Para um número expressivo de autores, as criações simbólicas, 
as relações sociais e as molduras institucionais não têm como 
ser subsumidas aos mesmos tipos de taxonomia ontológica que 
se aplicam aos fenômenos que são observados na ordem da 
natureza. Seriam diferentes em espécie. Não poderiam, por isso, 
ser estudadas pelo emprego dos mesmos procedimentos utilizados 
pelos cientistas naturais. Alguns antinaturalistas invocam a livre 
escolha e a espontaneidade para excluir a possibilidade de se chegar 
a leis deterministas e a predições confiáveis em ciências sociais. A 
autocompreensão, enquanto traço distintivo de algumas modalidades 
do “fato” social confere mais relevância cognitiva aos participantes que 
aos observadores. O comportamento regido por regras, distinto dos 
“fatos” submetidos à determinação causal, e a criação de significados 
tornariam imprescindível a utilização de técnicas de compreensão 
por oposição aos modelos de explicação adotados para dar conta dos 
fenômenos naturais (OLIVA, s.d., s.p.).
O argumento antinaturalista está baseado nas características que 
diferenciam estas ciências, explicando porque não é possível generalizar e criar 
leis naturais. Seifert (2007, p. 44) menciona três destas características, conforme 
indicado abaixo.
Leia o artigo de Rodrigues e Faria, disponível em: <http://www.cienciasecognicao.
org/revista/index.php/cec/article/view/770/531>, intitulado “Naturalismo e ciência cognitiva: 
por uma abordagem sistêmica”.
DICAS
UNIDADE 2 | CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS: FUNDAMENTOS DA ANÁLISE SOCIAL
90
Impossibilidade da Experimentação
Os fatos sociais não podem ser repetidos artificialmente em laboratório 
sob situação controlada. Não há como refazer, nem aproximativamente, 
eventos históricos ocorridos no passado. As ciências sociais dependem 
de dados observacionais não experimentais, dados históricos (em sentido 
estrito) que não podem ser verificados da mesma maneira que dados 
físicos, por repetição, mas apenas por fonte testemunhal. Não é possível 
(e nem desejável) repetir, por exemplo, a tomada de Troia pelos gregos, ou 
a batalhade Waterloo (em que Napoleão foi derrotado), para obter uma 
compreensão adequada e científica do fenômeno da guerra.
Novidade
Os eventos sociais são sempre de caráter intrinsecamente novos, 
e não constituem um mero rearranjo daquilo que já existe. Mesmo que 
haja aspectos repetitivos, a situação é outra. Por exemplo, apesar de haver 
similaridades entre o surgimento e consolidação da democracia na América 
do Norte e o mesmo fenômeno no Brasil, compreender um não nos capacita 
a compreender o outro da mesma forma que a explicação causal de um 
evento meteorológico nos permite compreender evento posterior da mesma 
natureza. A compreensão é de outro tipo, pois sempre haverá diferenças 
(novidades) não negligenciáveis entre um evento social e outro.
Complexidade
Os fenômenos sociais possuem uma complexidade muitas vezes 
maior do que os fenômenos físicos, e pressupõem uma quantidade maior 
de conhecimentos, aí incluídos os das ciências naturais. Assim, mesmo que 
houvesse nos fenômenos sociais regularidades similares às que observamos 
nos fenômenos naturais, é provável que sejamos incapazes de identificá-
las, dada sua complexidade. Por exemplo, é muito mais simples explicar a 
migração das aves, o período em que ocorre, suas causas e consequências, 
do que explicar as mudanças nas estruturas familiares no último século, o 
que as motivou e que consequências gera. Daí porque os cientistas naturais 
concordam mais facilmente entre si, enquanto os sociólogos apresentam 
interpretações alternativas e excludentes dos mesmos fatos históricos. 
91
Neste tópico você viu:
• As Ciências Sociais subdividem-se em: Economia, Sociologia, Antropologia e 
Ciência Política.
• O cientista social não pode interferir na realidade de seu objeto, pois do contrário 
seus resultados não terão validade, não serão neutros. Isto é uma dificuldade 
fundamental desta área do conhecimento, pois o cientista influencia o meio e 
é influenciado.
• A neutralidade relaciona-se à imparcialidade na exposição de resultados, 
e à participação e instrumentalização do cientista social com relação aos 
movimentos sociais, sobretudo os revolucionários, que buscam alterar 
completamente a vigência de certos modelos sociais.
• Uma das classificações das ciências é a divisão entre ciências puras e ciências aplicadas. 
Diferentemente do que afirma o senso comum, esta classificação não está relacionada 
com a aplicabilidade das investigações, e sim porque temos as ciências no sentido 
derivativo, e não próprio.
• Uma separação proposta para o conhecimento é a distinção entre as ciências 
formais e as fatuais. As primeiras, em geral, são a matemática e a lógica, 
enquanto as segundas são as da natureza e do homem.
• Outra classificação mantém a mesma lógica de pensamento, mas classifica 
as ciências em: explicativas, empírico-formais ou naturais (correspondem às 
da natureza, como a física), e as hermenêuticas, interpretativas ou humanas 
(correspondem às sociais, como a sociologia). 
• Existe também uma classificação que divide o conhecimento em ciências exatas, 
biológicas e humanas, divisão bastante divulgada na contemporaneidade.
• A pseudociência é uma teoria que pretende ser considerada ciência, mas cujo 
objeto é uma ficção ou utiliza metodologias inadequadas.
• A corrente naturalista defende que as Ciências Sociais podem conhecer os 
fenômenos sociais assim como as Ciências da Natureza possuem condições para 
conhecer os fenômenos naturais.
• Além do posicionamento naturalista, temos a perspectiva antinaturalista, 
defensora da diferenciação entre as ciências sociais e naturais, inclusive no que 
diz respeito ao conceito de lei.
RESUMO DO TÓPICO 1
92
AUTOATIVIDADE
Baseado nos conteúdos expostos neste tópico, explique o que são as 
Ciências Sociais, diferenciando-as das demais ciências, considerando suas 
especificidades e utilizando os argumentos das correntes naturalista e 
antinaturalista. Não se esqueça de dar um título ao seu texto!
93
TÓPICO 2
PRINCÍPIOS FILOSÓFICOS DA 
ANÁLISE SOCIAL
UNIDADE 2
1 INTRODUÇÃO
Preparado(a) para o próximo tópico? Vamos compreender sua estrutura!
As análises sociais possuem bases relacionadas aos conteúdos e objetos da 
Filosofia, afinal, as correntes epistemológicas são provenientes desta área, e são 
elas que analisam a cientificidade das Ciências Sociais.
Sendo assim, iniciaremos verificando quais fundamentos filosóficos 
norteiam as análises sociais, para então seguir com o estudo do fundacionalismo 
e do antifundacionalismo. Ambas são teorias epistemológicas que buscam 
identificar e explicar a validade do conhecimento, baseadas no conceito de crenças 
humanas.
A questão da validade do conhecimento é fundamental não apenas para 
as ciências sociais, mas também para todas as ciências, afinal, o conhecimento 
científico é uma busca pela elaboração do conhecimento. Assim, é fundamental 
verificar a validade deste conhecimento, inclusive para termos critérios e 
condições para determinar o que é e o que não é conhecimento.
Outra teoria epistemológica que segue esta linha de análise é o 
coerentismo. Ele utiliza como argumento principal a coerência dos conhecimentos 
adquiridos, a partir de certos métodos filosóficos. Ele busca justificar a aceitação 
das crenças no conhecimento sem mesmo sair do sistema de crenças. Confuso? 
Fique tranquilo(a), após a leitura deste tópico tenho certeza de que saberá mais 
sobre este tema.
Para finalizar o tópico, você estudará a especificidade da epistemologia 
voltada para as análises sociais, ou seja, a própria epistemologia das ciências 
sociais, compreendendo como ela pretende garantir o estatuto científico destas 
ciências, e os problemas que se propõe a solucionar.
Leia atentamente o tópico e faça anotações quando for necessário, para 
evitar confundir as teorias epistemológicas que irá conhecer, combinado? Vamos 
lá, boa leitura!
UNIDADE 2 | CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS: FUNDAMENTOS DA ANÁLISE SOCIAL
94
2 A FILOSOFIA E AS ANÁLISES SOCIAIS
A relação que se apresenta entre as análises sociais e a filosofia está 
diretamente ligada à filosofia da ciência, ou seja, a todos os problemas que a 
epistemologia se propõe ao estudar uma determinada ciência, passando por suas 
metodologias.
Diante disso, a demarcação filosófica indicando o que é o conhecimento, é 
uma definição importante nas pesquisas das Ciências Sociais, sobretudo para que 
legitime o seu objeto e possa se afirmar como ciência, desenvolvendo seu método 
de acordo com os objetos específicos que se propõe a observar e analisar.
O conhecimento pode ser considerado como o interesse por conhecer e, 
neste sentido, podemos diferenciá-lo em conhecimento filosófico e conhecimento 
epistemológico. As bases da epistemologia são provenientes da filosofia, por isso 
a relação íntima entre esses dois campos do conhecimento.
“Se o conhecimento filosófico é o que se interessa pelo ser em si, ou seja, 
pela verdade do ser, o conhecimento epistemológico se interessa pela verdade 
do ente, ou seja, do ser que se revela particularmente, numa individualidade ou 
ciência particular” (ENCARNAÇÃO, 1997, p. 31).
A filosofia e as ciências sociais possuem sistemas de conhecimento, 
e por isso devem ser metódicas, ou seja, a garantia do resultado se dá pelo 
uso de um método específico de cada área. Assim também serão definidas as 
questões que competem à filosofia e as questões que competem à epistemologia 
(ENCARNAÇÃO, 1997).
As bases do conhecimento social estão fixadas na filosofia, pois a filosofia 
da ciência busca a compreensão das demarcações conceituais científicas, 
relacionadas diretamente ao problema do conhecimento. 
Compete a cada uma das ciências particulares, positivas e experimentais, 
tais como a Física, a Química e a Biologia, determinar as causas 
próximas, reais, integrantes ou determinantes das realidades ou dos 
fenômenos. Mas é evidente que esta espécie de conhecimento científico 
é limitada, em razão do próprio método experimental. A Filosofia 
vai alémdas possibilidades das ciências experimentais, e continua 
questionando o real, mesmo quando as ciências atingiram o máximo 
de seu desenvolvimento. Compete à ciência determinar as causas reais, 
concretas, observáveis, do aparecimento do câncer em determinado 
indivíduo, por exemplo, mas fugiria à sua alçada pesquisar a razão 
última da dor, do sofrimento, da morte, bem como os motivos de tão 
desigual distribuição de males físicos entre os homens, sem a menor 
correspondência aparente aos méritos ou deméritos de cada um. Em 
uma palavra, embora o objeto material das ciências e da Filosofia sejam 
os mesmos, a Filosofia não se confunde com as ciências particulares 
porque estas, fiéis aos seus métodos, jamais poderão pronunciar-se 
sobre as causas mais remotas ou finalidades supremas; tal é o campo 
específico e a função própria da Filosofia (RUIZ, 2002, p. 112).
TÓPICO 2 | PRINCÍPIOS FILOSÓFICOS DA ANÁLISE SOCIAL
95
Os seres humanos, objeto das análises sociais, se diferenciam dos outros 
animais justamente porque suas relações com o conhecimento são diferenciadas, 
pois estes criaram a cultura, que permite interpretar a realidade e pensar na 
sucessão de eventos que determinam a história.
A expressão do pensamento racional, por outro lado, variou e se 
transformou com o tempo. Isso se vê mesmo em forma de argumentação 
mais “permanente”, como a demonstração matemática, a refutação lógica 
ou a fatual, a verificação experimental: todas expressam algo não eterno, 
mas temporário, ainda que de longa duração.
A razão também se concretiza dessa maneira historicizada na 
forma prática de técnicas, algo que nos leva de volta à origem da própria 
espécie humana, pois a razão é a produtora de ferramentas tanto quanto 
de “instrumentos” intelectuais, como a linguagem. É notável, mas de 
certa forma explicável, que o racionalismo tenha se desenvolvido mais 
rapidamente com o advento das primeiras formas de democracia, que 
incentivavam o livre debate, como aconteceu na antiga Grécia, ainda que 
de forma incompleta.
Afirmamos que o conhecimento por meio da razão distingue o 
homem em relação aos demais seres. Experiências com animais como 
símios (e, para algumas finalidades, isso vale também para cetáceos, polvos 
etc.) demonstram sua capacidade de classificar, raciocinar e até de tirar 
conclusões novas, mas o grau com que o homem exerce essas faculdades o 
separa das demais espécies.
É claro que a essência do homem ultrapassa seu conhecimento – 
e aqui poderíamos bem a propósito lembrar a máxima do filósofo grego 
Sócrates (470–399 a.C.): só sei que nada sei. Se o conhecimento é uma parte 
do ser, sempre seremos mais do que conhecemos, mas não nos iludamos: 
nosso conhecimento é que nos faz humanos. Até o amor e o sacrifício 
resultam de um tipo de conhecimento humano, num grau diferente 
daquele dos animais, pois embora não se reduzam sempre a algo lógico (e 
a lógica, por sua vez, nem sempre traduz o conhecimento), o conhecimento 
alcançável por nós é obviamente expresso de forma humana.
Por outro lado, o conhecimento humano é uma atividade 
eminentemente social, ainda que o momento crítico do processo criador 
possa ser levado a cabo por um único indivíduo. É que cada indivíduo é 
herdeiro de todos os processos de conhecimento da cultura da qual faz 
parte. Há uma relação complementar, embora aparentemente contraditória, 
UNIDADE 2 | CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS: FUNDAMENTOS DA ANÁLISE SOCIAL
96
quando se reconhece que o conhecimento transita por essa via de mão dupla 
tanto do indivíduo para a sociedade, quanto ao revés. Sabemos que, de 
modo similar, a mudança das estruturas sociais e econômicas é uma questão 
em que também se reconhecem os papéis do indivíduo e da coletividade.
FONTE: Magalhães (2005, p. 18)
A partir desta perspectiva, nota-se a mescla existente entre a filosofia 
e a ciência que, por consequência, define também o pensamento social e suas 
investigações. As relações epistemológicas desta área estão determinadas pelas 
análises filosóficas, sobretudo aquelas que participaram da formação inicial 
destas ciências.
3 FUNDACIONALISMO E ANTIFUNDACIONALISMO
Muitas teorias epistemológicas buscam, por meio de argumentos válidos, 
explicar como é possível obter conhecimento, no que este se baseia e como o 
mesmo se torna legítimo. Assim, quando a opinião é diferenciada do conhecimento 
justamente porque este é considerado uma crença verdadeira justificada, então 
o papel das teorias epistemológicas é de explicar esta justificação e em que ela 
consiste. Vamos então às bases e fundamentos mais importantes para as ciências 
quando tratamos de epistemologia.
Desde o início da filosofia moderna já se considera a importância deste 
tipo de análise para as ciências, sobretudo pela existência dos argumentos da 
corrente ceticista, defensora da impossibilidade da elaboração do conhecimento 
(SEIFERT, 2007). 
Como o objetivo do cientista é explicar a realidade dos fenômenos a partir 
de uma verdadeira descrição, distinguindo-se do conhecimento popular, há 
necessidade de exposição da teoria científica que fundamenta esta descrição, e 
das relações que o permitem realizá-las.
Assim, as correntes epistemológicas que procuram compreender e definir 
estas relações explicam a possibilidade do conhecimento partindo de ideias, e 
Aproveite para retomar, no Tópico 1 da Unidade 1 deste Caderno de Estudos, o 
conceito e as características do ceticismo.
NOTA
TÓPICO 2 | PRINCÍPIOS FILOSÓFICOS DA ANÁLISE SOCIAL
97
3.1 FUNDACIONALISMO
Vamos definir fundacionalismo:
O termo fundacionalismo vem de fundação, no sentido arquitetônico 
desta palavra. Seu uso é recente na história da epistemologia. Alguns 
dos mais importantes fundacionalistas (Aristóteles, Descartes, 
Leibniz, Locke) não usavam esta palavra, embora seu ponto de vista 
seja adequadamente expresso por ela. A palavra passou a ser utilizada 
no século XX para designar tais teorias, especialmente no âmbito 
linguístico anglo-saxão. O termo em inglês é foundationalism, que, por 
vezes, é também traduzido por fundacionismo. Ambos os termos em 
português são apropriados (SEIFERT, 2007, p. 25). 
Para o fundacionalismo, a justificação existente nas crenças possui uma 
estrutura sequencial: uma crença se baseia em outra, que se baseia em outra, e se 
baseia em outra, e assim sucessivamente.
Ou seja, uma crença ou muitas, encontram sua evidência em outra crença, 
e assim por diante, mas não se pode seguir infinitamente esta sequência: deve 
existir um fundamento último, crenças que não dependam de outras crenças. 
A metáfora apresentada por Seifert (2007) para ilustrar esta situação é a 
construção de uma casa. Ela não pode ser iniciada pelo telhado, precisa de bases 
iniciais. Assim, se as bases não forem sólidas, ela cairá. Mas se as bases forem 
firmes e resistentes, não há como tudo o que está adiante ruir.
Desta forma, pode-se deduzir: para as teorias fundacionalistas, o 
fundamental das teorias epistemológicas é identificar e descrever os fundamentos 
firmes e seguros de cada ciência, de cada área do conhecimento, independente de 
seu campo.
O conhecimento histórico, por exemplo, quando falamos de um fato acerca 
do qual não há mais testemunhas vivas, algo que seja mais antigo, a fonte de 
informações são relatos escritos por testemunhas ou baseados nas testemunhas. 
Então, acredita-se nos relatos porque se confia em quem os fez a partir das 
testemunhas, e quem fez os relatos considerou as testemunhas confiáveis, e as 
testemunhas acreditavam no que falavam porque viram o fato.
Quando falamos de uma grande teoria histórica, esta sequência é ainda 
pior, pois ela precisa ser ampliada e complexificada. Mas ainda assim mantém-
se a estrutura: uma crença baseada na outra, até chegar a uma cuja base não 
é outra crença. É assim que funciona o conhecimento do ponto de vista do 
fundacionalismo.
duas delas são o fundacionalismo e o antifundacionalismo, que conheceremos 
nesta seção baseados nos exemplos expostos por Seifert(2007).
UNIDADE 2 | CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS: FUNDAMENTOS DA ANÁLISE SOCIAL
98
Temos, a partir disso, que estabelecer a diferenciação entre dois tipos de 
crenças: as básicas e as não básicas:
Não Básicas – Esta tipologia de crenças baseia-se em outras crenças, ou seja, ela é 
justificada sempre por outra crença que é justificada por outra, e assim por diante, 
até que se chegue a uma cuja justificação não esteja em outra crença.
Básicas – Estas crenças precisam também ser justificadas, devo explicar porque 
acredito nelas, mas não com base em outras crenças, e sim em aspectos como 
experiências, percepções, intuições, memória, entre outros.
Assim, se dependemos das crenças básicas para justificar o conhecimento, 
é preciso verificar se o estamos adquirindo de forma correta, se as crenças básicas 
estão sendo determinadas de forma correta.
FONTE: Disponível em: Seifert (2007, p. 27)
A pergunta que permanece a partir desta explicação é: como as crenças 
básicas se justificam? A resposta a esta questão relaciona-se às duas formas 
possíveis de raciocínio científico, dedutivo e indutivo.
Não é suficiente dizer que cremos em algo de forma básica, como se 
não fosse necessário apresentar razões; é preciso mostrar que estas crenças 
têm objetividade, e não dependem apenas das preferências individuais ou 
grupais. Em razão dessa exigência, o fundacionalismo procura identificar 
também os fundamentos das crenças básicas, e, justamente nesse ponto, 
aparecem divergências entre concepções alternativas. Os candidatos mais 
usuais são as verdades autoevidentes (favorecidas pelo racionalismo) e as 
percepções sensoriais imediatas (favorecidas pelo empirismo). 
Como exemplos das primeiras, temos: “o todo é maior que a 
parte”; “algo é igual a si mesmo”; “tudo que ocorre tem uma causa”. Como 
exemplos das segundas, temos: “sinto dor de cabeça”; “aquilo que parece 
amarelo”; “lembro-me de ter ido ao cinema”. Geralmente, concorda-se que 
as condições para que uma crença seja básica são: não dependem de outras 
crenças, são indubitáveis, incorrigíveis, inalteráveis. Assim, por exemplo, 
se eu acredito que estou com dor de cabeça, não creio isto com base em 
alguma outra crença; creio diretamente. E também ninguém pode me dizer: 
“não é verdade que você está com dor de cabeça”.
TÓPICO 2 | PRINCÍPIOS FILOSÓFICOS DA ANÁLISE SOCIAL
99
FIGURA 19 – RELAÇÕES DEDUTIVAS E INDUTIVAS
FONTE: Disponível em: <http://hptre.blogspot.com.br/2013/05/o-metodo-
indutivo-de-pesquisa-cientifica.html>. Acesso em: 29 maio 2013.
FIGURA 20 – CARACTERÍSTICAS DA DEDUÇÃO E INDUÇÃO
FONTE: Disponível em: <http://mestradosiad.blogspot.com.br/2007_10_01_archive.
html>. Acesso em 29 maio 2013.
A justificação epistemológica sempre é feita a partir de um argumento, no 
qual algumas sentenças servem de razão para a aceitação de outras, apresentando 
uma relação que resulta em uma conclusão lógica. A estrutura destas relações é 
sempre similar, e estas formas são a dedução e a indução.
O que permite justificar qualquer validade do argumento dedutivo é a 
relação existente entre as premissas e a conclusão. Sendo as sentenças verdadeiras, 
a conclusão também é, não há como uma negar a outra. 
Passamos por estes raciocínios no Tópico 1 da Unidade 1 deste caderno, retome a 
leitura para facilitar a continuidade do entendimento dos conteúdos que estamos abordando.
NOTA
UNIDADE 2 | CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS: FUNDAMENTOS DA ANÁLISE SOCIAL
100
Já no argumento indutivo, a relação entre uma premissa e outra não é 
a implicação, ou seja, uma não irá necessariamente implicar a outra, e sim há 
uma relação de probabilidade. Ou seja, a conclusão será mais ou menos provável, 
dependendo das premissas que a compõem. Afinal, a conclusão excede o que está 
indicado nas sentenças, e qualquer sentença que for acrescentada, desde que seja 
válida como as outras, não irá modificar a conclusão final.
Considerando a plausibilidade inicial de uma explicação 
fundacionalista, e sua tentativa se satisfazer um de nossos desejos 
mais profundos – o de estarmos certos sobre algo –, sofre ela uma série 
de desvantagens: a de que, usando dedução e/ou indução a partir de 
crenças básicas (indubitáveis), pouca coisa se poderia saber, e muito 
daquilo que justamente recebe o nome de ciência nada mais seria que 
“adivinhação” (SEIFERT, 2007, p. 30).
O fundacionalismo tenta dar conta desta questão ao propor que na 
base de nossas crenças existem crenças não inferencialmente justificadas. As 
crenças fundamentais são responsáveis por deter o regresso infinito, servindo 
como base para todo o restante de crenças que justificam aquilo que afirmamos 
conhecer, assim, as crenças justificam-se inferencialmente umas às outras, mas 
existem crenças básicas, que são não inferencialmente justificadas. Estas não 
devem a sua justificação a outras crenças. Alguns autores defendem que nossas 
crenças básicas devem ser sustentadas por outra coisa, que não crenças. No 
que consiste esta ‘outra coisa’ é motivo de divergência entre fundacionalistas, 
afinal, o que constitui a base de nosso conhecimento? 
Os fundacionalistas discordam acerca de que consistem as crenças 
básicas, dando assim origem a uma série de propostas divergentes. Há os que 
defendem que as crenças básicas são crenças oriundas de nossas intuições, 
das leis lógicas, da matemática, estes afirmam que as crenças básicas são 
autoevidentes. Há, também, aqueles que propõem que a sustentação se dá 
a partir de nossos estados sensoriais, este é o tipo de fundacionalismo mais 
defendido atualmente.
Para estes últimos, as crenças básicas são oriundas de experiências 
imediatas do sujeito, por isso são infalíveis. As crenças básicas são aquelas que se 
formulam a partir de como as coisas aparecem a ele. O sujeito formula proposições 
acerca do caráter da experiência, estas proposições são justificadas pela própria 
experiência e são capazes de justificar proposições sobre o mundo exterior.
FONTE: Ketzer (2011, p. 113)
3.2 ANTIFUNDACIONALISMO
O antifundacionalismo é uma corrente que possui em comum a oposição 
ao fundacionalismo, ou seja, são teorias epistemológicas que formam um 
conjunto divergente entre si, mas que diferem do fundacionalismo e se opõem a 
ele. Contempla desde posicionamentos mais radicais, como de Feyerabend, até 
mais amenos, como de Peirce, aceitando inclusive parte do ceticismo.
TÓPICO 2 | PRINCÍPIOS FILOSÓFICOS DA ANÁLISE SOCIAL
101
Esta corrente mantém a distinção entre as crenças básicas e não básicas. 
Em oposição ao fundacionalismo, admite que crenças básicas podem ser revistas, 
corrigidas, alteradas, deixando de lado a possibilidade de um conhecimento 
seguro, que não gere dúvidas. Assim, amplia-se o espectro incluindo crenças que 
derivam da memória, do testemunho, entre outros (SEIFERT, 2007).
Uma das mais importantes e influentes teorias antifundacionalistas é 
a teoria de Karl Popper, conhecida como falsificacionismo. Para este 
filósofo, o que importa não é encontrar as fontes do conhecimento, 
que garantiriam certeza, resistência aos argumentos céticos, mas sim 
toda fonte de conhecimento pode ser utilizada (memória, raciocínio, 
testemunho etc.), desde que esteja aberta ao exame crítico. Em 
ciência, trata-se de propor conjecturas genuínas, ousadas, que devem 
depois ser testadas em sua capacidade de explicação e previsão, 
estando sujeitas a revisões ou abandono conforme o resultado de 
tais testes. Esse exame crítico tem por objetivo tentar refutar a tese 
(ou conjectura, ou hipótese, ou teoria), através de contraexemplos, na 
construção dos quais tem papel fundamental a lógica dedutiva. Para 
contar com uma teoria ou hipótese científica, a tese precisa resistir a 
tentativas frequentes de falsificá-la, e compete ao cientista imaginar 
experimentos (que diferem conforme a área da qual se está tratando) 
que tenham este propósito de refutação. Quanto mais resistir, mais 
próxima da verdade estará a tese (SEIFERT, 2007, p. 32).
FIGURA 21 – FILÓSOFO KARL POPPERFONTE: Disponível em: <http://polegaropositor.com.br/filosofiadaciencia/
o-terceiro-mundo-de-karl-popper/>. Acesso em 29 maio.
Diante desta perspectiva, teríamos que aceitar a incapacidade humana de 
atingir a verdade, mas não entender que ela não existe. As teorias científicas, assim, 
seriam aproximações da verdade, portanto, não é preciso buscar confirmações da 
teoria, pois elas não garantem a verdade.
O argumento que confirma esta situação relaciona-se ao pensamento 
dedutivo, afinal, mesmo premissas falsas podem levar a uma conclusão 
verdadeira, enquanto que se a conclusão for falsa, as premissas serão também.
UNIDADE 2 | CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS: FUNDAMENTOS DA ANÁLISE SOCIAL
102
4 COERENTISMO
Além do fundacionalismo e do antifundacionalismo, temos também as 
teorias coerentistas quando falamos de epistemologia. E elas buscam justificar 
a possibilidade de aceitação de uma crença sem sair deste sistema de crenças, 
e sem estabelecer diferenças entre as crenças sobre seu peso na justificação do 
conhecimento.
Para entendermos com maior facilidade o aspecto das crenças, que não 
se justificam entre si, Seifert (2007) utiliza o exemplo da metáfora em rede: 
não existe um ponto servindo de suporte ao outro, que serve a outro e assim 
sucessivamente. Pelo contrário, existem diversos pontos entrelaçados em um 
todo, e este entrelaçamento é o que sustenta a rede, sem sequer determinar um 
ponto de início, um começo.
FIGURA 22 – METÁFORA DA REDE
FONTE: Disponível em: <http://www.brasilseo.com.br/social-media-marketing/
redes-sociais-e-sua-importancia-em-seo>. Acesso em 29 maio 2013.
Acesse o link: <http://www.repositorio.ufc.br:8080/ri/bitstream/123456789/44 
39/1/2011_Art_PKetzer.pdf> e leia o texto de KETZER, Patrícia. Fundacionalismo: da tradição 
às teorias moderadas. Ele explica com detalhes as teorias fundacionalistas e seus pressupostos.
DICAS
TÓPICO 2 | PRINCÍPIOS FILOSÓFICOS DA ANÁLISE SOCIAL
103
Em virtude deste tipo de perspectiva, a diferenciação entre as crenças 
básicas e não básicas perde sentido, não existe mais um fundamento que as 
sustente. Todas as crenças possuem o mesmo valor e importância nos aspectos 
cognitivos, não há mais uma que fundamente outra, como no fundacionalismo. 
Elas adquirem sua importância a partir de seu entrelaçamento, é sua 
coerência e compatibilidade que garantem sua validade. As relações entre si 
permitem que sejam validadas na estrutura cognitiva, e não uma hierarquia.
Segundo Seifert (2007), as teorias coerentistas não encontram muitos 
adeptos, ainda que reflitam um elemento importante sobre a forma como 
avaliamos aquilo que nos é indicado como verdadeiro. Mas o grande aspecto 
central, nestas teorias, é que a verdade está ligada, de algum modo, à consistência. 
Vejamos o exemplo:
Considere o caso de uma investigação policial. Suponha que tenha 
ocorrido um crime na rua A, e é perguntado ao vigia do prédio B, 
localizado naquela rua perto do local do crime, se viu alguma coisa 
e se conhecia a vítima. Ele nega ambas as coisas. Posteriormente, o 
detetive recebe a informação, do garçom de um restaurante a duas 
quadras do prédio B, que o vigia e a vítima ali jantaram juntos uma vez 
por mês, regularmente, durante o último ano. De imediato, o detetive 
se dará conta de que há uma inconsistência entre os dois relatos, o 
do vigia e o do garçom, e não é possível crer em ambos. Não sabe 
ele, neste momento, qual dos relatos é falso, e pode ser que ambos 
o sejam; contudo, sabe que não podem ambos ser verdadeiros, pois 
são inconsistentes. Aqui a coerência é utilizada como critério negativo 
para a aceitabilidade de uma crença (SEIFERT, 2007, p. 30).
Com esta função de critério negativo conforme o exemplo, o 
fundacionalismo concorda com os argumentos do coerentismo. Neste caso, a 
coerência seria um critério necessário para a justificação, assim como a utilizamos 
no senso comum.
O diferencial das correntes do pensamento coerente é que elas defendem 
que a coerência seja um critério positivo também, podendo assim justificar uma 
crença. Desta forma, mesmo as crenças possuindo uma relação de dependência 
entre si, considerando que elas são inferidas por meio de processo de pensamento 
dedutivo e indutivo, o que as justifica é sua coerência mútua, e não sua dependência 
(SEIFERT, 2007).
Assim, para saber se aceito ou não uma nova ideia, hipótese ou 
teoria, não devo olhar para os fatos, mas para minhas outras crenças 
(ideias, hipóteses e teorias que já aceito); isto porque “fatos” são, para o 
coerentista, outras crenças. Além de ser contraintuitivo, o coerentismo sofre 
de outras desvantagens que o tornam, enquanto explicação epistemológica 
para a justificação do conhecimento, provavelmente falso. Entre estas 
desvantagens podemos mencionar:
UNIDADE 2 | CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS: FUNDAMENTOS DA ANÁLISE SOCIAL
104
• Para o coerentismo, é admissível que, em um processo suficientemente 
longo de dedução ou indução, as crenças que servem de premissa para 
uma determinada conclusão possam tornar-se conclusão de um outro 
raciocínio em que, entre as premissas, encontra-se a conclusão daquele 
argumento anterior. Isto se chama de raciocínio circular, considerado 
“vicioso” pelos fundacionalistas, portanto, ilegítimo.
• Coerência é uma relação que se dá exclusivamente entre crenças, mas, para 
a justificação de uma crença, não se pode depender exclusivamente de sua 
relação com outras crenças. É também importante, mesmo fundamental, 
a relação que tem com a experiência. Caso contrário, qualquer história 
coerente estaria, em razão disto, justificada, isto é, constituiria 
conhecimento. O que é absurdo, como podemos perceber, considerando a 
diversidade de romances na literatura, verossímeis, mas falsos.
FONTE: SEIFERT (2007, p. 31).
A verdade, na teoria coerentista, não é um predicado que se aplica 
a frases ou crenças isoladas; ela se aplica a conjuntos de frases, conjuntos de 
crenças em um todo, um sistema. Assim, um sistema de crenças é dito coerente 
quando seus elementos são consistentes uns com os outros em uma rede de 
crenças; quando esses elementos estão dispostos de tal maneira que o todo 
e as partes mantêm um tipo específico de simplicidade capaz de provocar a 
intelecção racional normal. Dessa forma, o sistema todo e cada um de seus 
elementos são verdadeiros; a verdade é a propriedade de se pertencer a um 
sistema de crenças e/ou enunciados harmonioso, em uma palavra - coerente.
O que é esse sistema? Um sistema de crenças pode ser um campo 
de crenças harmonioso, uma teoria (científica), uma narrativa (científica ou 
histórica) ou, até mesmo, toda uma linguagem. Se os coerentistas procuram 
em Quine frases para os ajudarem, vão encontrar coisas do tipo: nós não 
entendemos algo dito pela ciência ou pela história de modo isolado e por 
isso nem poderíamos falar em verdade e falsidade em relação a enunciados 
isolados; leis físicas ou descrições históricas são aprendidas e compreendidas e 
fazem parte de um largo corpo de conhecimentos que tem sua própria trama.
Mas o que conta contra a teoria coerentista da verdade é que ela 
parece nos conduzir ao relativismo. Susan Haack, por exemplo, tenta levar 
para o campo do relativismo as teses coerentistas. Resumindo ao máximo: 
o que se faz contra o coerentismo é dizer que conhecemos vários conjuntos 
harmoniosos de crenças bem estruturados, mas que não estaríamos 
dispostos a gastar uma gota de saliva em favor deles em uma discussão. 
São coerentes, mas não temos a coragem de chamá-los de verdadeiros, 
porque em nada eles nos convencem de estar falando de alguma realidade. 
Conjuntos coerentes de crenças, no limite, seriam apenas comparados entre 
TÓPICO 2 | PRINCÍPIOS FILOSÓFICOS DA ANÁLISE SOCIAL
105
FONTE: Ghiraldelli (2002, s/p)
Além do coerentismo, temos diversos pontos de vista que buscam 
compreender as bases e fundamentos do conhecimento. E, mais especificamente, 
podemos pensar de forma individualizada como estas teorias se aplicam às 
Ciências Sociais,considerando suas particularidades e diferenças com relação às 
ditas Ciências da Natureza.
5 EPISTEMOLOGIA DAS CIÊNCIAS SOCIAIS
Existem muitos posicionamentos epistemológicos, sobretudo quando 
tratamos das Ciências Sociais, mas deve-se observar que muitos aspectos são 
similares. Não se pode afirmar que a epistemologia não auxilia esta área em sua 
cientificidade em virtude de suas especificidades e variações.
Todas as discussões epistemológicas buscam contribuir com a criticidade 
e reflexividade inerentes ao processo de elaboração do conhecimento científico, 
auxiliando as Ciências Sociais a adquirirem um rumo estável enquanto ciências. 
Mesmo que a epistemologia não faça parte da ciência em si, por não poder 
ser estabelecida através dos mesmos métodos e hipóteses de determinada ciência, 
não há como fazer ciência sem pressupor ideias ou conceitos epistemológicos. A 
epistemologia está situada no campo da Filosofia, portanto deve ser tratada por 
meio dos métodos filosóficos, como a análise conceitual (SEIFERT, 2007).
 O objetivo principal das Ciências Sociais é compreender, descrever, 
explicar as relações sociais, a vida social do indivíduo, a partir de seus fenômenos. 
Isto irá implicar diretamente na vida das pessoas, pois elas fazem parte deste 
objeto de investigação. 
Neste aspecto a diferenciação com relação às ciências naturais é bastante 
evidente, pois a compreensão de fenômenos naturais não afeta os elementos 
naturais, a não ser que se realize uma intervenção. Assim, as discussões 
epistemológicas são mais evidenciadas na área das Ciências Sociais.
Além disso, mesmo considerando o nosso cotidiano, operações 
epistemológicas são realizadas com frequência. As relações operadas entre os 
indivíduos são baseadas em ideias ou crenças sobre a realidade, sobre a natureza 
do ser humano, do comportamento, da sociedade. Mesmo nas práticas mais 
rotineiras do cotidiano estamos nos baseando em crenças (SEIFERT, 2007).
si e, sendo assim, relativos uns aos outros. Se o coerentismo, então, abre 
a guarda para o relativismo, ele não seria uma solução para as falhas do 
correspondentismo, pois no limite tece o tapete para a entrada do cético. Ora, 
o ceticismo é exatamente a figura contra a qual a filosofia mantém guerra 
permanente. Afinal, os manuais de história da filosofia nos ensinam que o 
cético é o que fala sobre a impossibilidade do conhecimento verdadeiro e a 
filosofia é, por sua vez, a busca da verdade.
UNIDADE 2 | CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS: FUNDAMENTOS DA ANÁLISE SOCIAL
106
Se o sujeito estiver enganado acerca dessas crenças, o resultado será 
uma atuação social inadequada. Corrigir ou ampliar essa compreensão 
é tarefa das ciências sociais; esclarecer a importância de uma tal 
compreensão e o que está pressuposto em tê-la, nisto consiste o 
interesse da epistemologia das ciências sociais (SEIFERT, 2007, p. 33).
O papel da epistemologia não se direciona para a criação de normas, 
de regras científicas que devem ser seguidas para a validade do conhecimento, 
desconsiderando aspectos históricos e contextuais, mas que garantiriam o estatuto 
de ciência de fora para dentro nestas atividades. 
Ela deve realizar uma abordagem crítica dos processos de investigação, de 
pesquisa, buscando evidenciar possíveis obstáculos encontrados nos processos, 
aí sim questionando se estes obstáculos são compartilhados pelos diversos tipos 
de ciências, e se ocorrem repetidamente ao longo de épocas e contextos culturais. 
Para garantir esta reflexividade voltada às ciências, a epistemologia pode 
fazer uso de conhecimentos próprios das Ciências Sociais, elaborados a partir da 
história das ciências e da sociologia do conhecimento. 
Para explicar esta definição com maior clareza, Almeida (2007) esclarece 
a existência de dois tipos de epistemologia: a epistemologia interna e a 
epistemologia externa.
FONTE: Almeida (2007, p. 14)
A primeira — a dimensão interna da epistemologia — traduz-se na 
análise das condições e critérios de cientificidade com recurso aos instrumentos 
de cada disciplina. Dito de outra maneira, ela estuda as condições teóricas da 
produção científica que, em cada momento, lhe determinam possibilidades e 
limites. Estuda o estado da problemática do campo científico, a qual, através 
das suas interrogações, define problemas e conduz as pesquisas por recurso 
ao conjunto teórico, metodológico e técnico disponível.
A epistemologia interna desdobra-se numa dimensão metodológico-
sintática organizadora do discurso e uma dimensão teórico-semântica que 
se debruça sobre a relação com os referentes. É aqui que cabe a análise 
crítica do mencionado e clássico trio — proposição verdadeira e justificada.
Mas para se entender o que uma ciência é, ou vai sendo, a dimensão 
externa da epistemologia deve igualmente ser convocada. Por ela se 
analisam as inúmeras redes de interação e de causalidade que articulam os 
processos científicos aos processos globais do seu contexto, eles próprios 
desdobrados nas dimensões pertinentes de âmbito político, econômico, 
social, institucional, simbólico.
Do que se trata agora é de analisar as condições sociais da produção 
científica, ou seja, os elementos do contexto social susceptíveis de interferir 
— em geral indiretamente — no plano da investigação.
TÓPICO 2 | PRINCÍPIOS FILOSÓFICOS DA ANÁLISE SOCIAL
107
As ciências da natureza, em seu momento de consolidação, tiveram que 
lidar com enormes dificuldades exteriores, pois os grupos sociais defendiam seus 
mitos como explicação para os fenômenos naturais. Havia toda uma resistência 
ao conhecimento científico, cujo suporte era fornecido justamente pelas forças 
econômicas, políticas e sociais de cada época. 
Isto também ocorre na contemporaneidade, quando pesquisas são 
condicionadas por oportunidades ou resistências causadas por intervenções 
sociais ou econômicas, por exemplo. Um investimento maior em determinado 
objeto implica em um montante financeiro mais elevado do qual a pesquisa irá 
dispor e, assim, aumentam-se as chances de sucesso nos resultados da pesquisa. 
Assim, ficam desfavorecidos os objetos considerados não privilegiados naquele 
momento social e histórico.
Em se tratando das ciências sociais, as lutas e processos de dominação 
existentes na sociedade irão afetar diretamente as opções de pesquisa. Os 
conceitos e teorias estabelecidos podem ser afetados por estas lutas, afinal, pode-
se lidar com a afirmação de diferentes visões de mundo, ou seja, garantias de 
legitimidade de interesses específicos.
Além disso, estas visões de mundo interferem diretamente no objeto das 
Ciências Sociais, pois definem as opções políticas e econômicas e organizam os 
chamados papéis sociais, desempenhados pelos indivíduos de acordo com a sua 
posição social.
Muitas vezes, os resultados de investigações, de pesquisas direcionadas e 
objetivas, implicam na criação ou não de políticas públicas para uma determinada 
demanda. Portanto, o Estado também pode fazer uso destes resultados.
“Afirmar que essas ciências sofrem inevitavelmente influências e pressões 
não significa, note-se bem, que são delas reféns. O que implica é que as próprias 
condições de resistência e de autonomia da prática científica devam ser objeto de 
reflexão epistemológica específica” (ALMEIDA, 2007, p. 15).
Além do que podemos chamar de obstáculo epistemológico das pressões 
externas às ciências sociais, existe também o obstáculo relacionado às crenças do 
senso comum. Veja a explicação dada por Almeida (2007, p. 16) para a situação 
epistemológica deste aspecto das Ciências Sociais:
Essas evidências tiveram outrora papel simultaneamente negativo e 
relevante no campo das ciências da natureza. 
Não era claro para todos que o Sol andava em torno da Terra? 
Bastava olhar.
Para entender os princípios que levaram à construção dos aviões 
não foi preciso, por outro lado, cessar de imitar o batimento das asas das 
aves, que tantos infortunados tombos produziram no passado?
UNIDADE 2 | CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS:FUNDAMENTOS DA ANÁLISE SOCIAL
108
Ao longo do tempo, no entanto, as ciências da natureza foram 
solidificando os seus núcleos teóricos, foram também formalizando 
linguagens instrumentais e foram prolongando os seus conhecimentos em 
irrefutáveis saberes técnicos.
Ainda aqui as ciências sociais manifestam a sua diferença. Da 
sociedade toda a gente tem de falar. Toda a gente precisa igualmente de 
aprender regras práticas para lidar com o seu quotidiano. O que em sociologia 
se chama socialização tem em grande parte a ver com essas aprendizagens. 
O senso comum sobre o social é, assim, necessário, universal e explícito. Ele 
é também tanto mais informado, quanto mais reflexivas são as sociedades.
O conhecimento científico não se situa num plano hierárquico 
superior ao senso comum, nem, por exemplo, às apropriações artísticas 
da realidade social. É apenas diferente, porque diferentes são os seus 
instrumentos, os seus protocolos e os seus objetivos. Esse conhecimento 
científico sobre as sociedades coexiste e convive com as outras formas e 
partilha, em parte, a mesma linguagem. O que não deixa, evidentemente, 
de condicionar também o seu trabalho.
Gaston Bachelard caracterizava o modelo abstrato dos percursos 
científicos através da trilogia ruptura, construção, constatação. E a ruptura 
é precisamente o momento inicial de ganhar distância em relação ao que 
parece evidente, sejam essas evidências provenientes do senso comum, seja 
de formulações teóricas que se tornaram insuficientes quanto à respectiva 
capacidade explicativa. Trata-se, pois, de uma condição para se passar a 
novas construções conceptuais, à exploração de novas interrogações e 
hipóteses orientadoras de caminhos críticos de pesquisa, bem como ao teste 
e validação de resultados.
Outra questão epistemológica fortemente discutida acerca das Ciências 
Sociais se relaciona a posicionamentos opostos ao empirismo que buscam afirmar 
a presença dos pontos de vista nas definições dos objetos de cada disciplina. 
Estes pontos de vista podem estar separados nas vias disciplinares, 
mas os objetos que competem a estas ciências não estão, pois a realidade não é 
fragmentada. Ela não está aguardando cada disciplina investigar a parte que lhe 
cabe do objeto, estas fronteiras não existem, são artificiais. 
Desta mesma forma, Almeida (2007) justifica que a ilusão da subjetividade 
radical é totalmente homogênea, por ser retirada quando é efetivada e cumprida 
a ideia de que o social reduz-se ao que é coletivo e geral.
Ele defende que as ciências sociais também devem buscar apreender 
as realidades a partir do sujeito, e não apenas a partir do coletivo. Temos aí as 
análises sobre a socialização dos indivíduos, sobre as disposições adquiridas, e 
todos os processos que as envolvem.
TÓPICO 2 | PRINCÍPIOS FILOSÓFICOS DA ANÁLISE SOCIAL
109
Com raiz ou implicação epistemológica, algumas propostas recentes 
merecem informação e debate. Reportáveis às ciências sociais, umas têm 
caráter mais pragmático, outras caráter mais analítico.
Lembramos que as posições racionalistas, com as suas múltiplas 
variantes, recuam ao antigo debate filosófico com os empiristas. Um dos seus 
desenvolvimentos atuais entendeu autoclassificar-se como “epistemologia 
social” e procura prolongar a tradição de complementar a epistemologia 
descartiana, estritamente ligada ao sujeito pensante.
Steve Fuller, um dos promotores da corrente, escreveu um livro 
justamente com esse nome — Social Epistemology.
Com ele, aparece claramente a preocupação pragmática. Em 
circunstâncias normais, diz-nos Fuller, o conhecimento é procurado e 
produzido por muita gente, com todas as limitações e imperfeições de cada 
um dos produtores. Há que reconhecer, por outro lado, que os resultados 
são sempre afetados pelo tipo de relações sociais estabelecidas entre os 
cientistas, bem como pelas instituições onde trabalham, as suas regras e 
os seus poderes internos, além, naturalmente, das influências geradas nos 
contextos sociais mais amplos.
A questão a pôr, então, será a do melhor modo de organizar essa 
produção.
Immannuel Wallerstein, que coordenou há cerca de dez anos um 
grupo de cientistas na chamada Comissão Gulbenkian, foi responsável com 
o grupo por um documento intitulado Open the Social Sciences, propondo 
um diagnóstico crítico da situação, ao tempo, das ciências sociais. E entre 
outras formas de melhorar essa situação, advogava-se a obrigatoriedade de 
cada investigador pertencer a mais do que um departamento, de forma a ir 
diminuindo isolamentos disciplinares e ir favorecendo fertilizações cruzadas.
FONTE: Disponível em: Almeida (2007, p. 20)
Deste modo, as perspectivas epistemológicas mais antigas passam a 
ser confrontadas e surgem novas, como o paradigma mencionado acima, da 
interdisciplinaridade. No próximo tópico veremos as correntes epistemológicas 
que obtiveram mais força e maior divulgação, realizando análises determinantes 
para a definição de estatutos das ciências.
110
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico você viu:
• A relação que se apresenta entre as análises sociais e a filosofia está diretamente 
ligada à filosofia da ciência, ou seja, a todos os problemas que a epistemologia se 
propõe ao estudar uma determinada ciência, passando por suas metodologias.
• Para o fundacionalismo, a justificação existente nas crenças possui uma estrutura 
sequencial: uma crença se baseia em outra, que se baseia em outra, e se baseia em 
outra, e assim sucessivamente.
• Existem dois tipos de crenças: as básicas e as não básicas: 
Não básicas – Esta tipologia de crenças baseia-se em outras crenças, ou seja, ela 
é justificada sempre por outra crença que é justificada por outra, e assim por 
diante, até que se chegue a uma cuja justificação não esteja em outra crença.
Básicas – Estas crenças precisam também ser justificadas, devo explicar porque 
acredito nelas, mas não com base em outras crenças, e sim em aspectos como 
experiências, percepções, intuições, memória, entre outros.
• O antifundacionalismo mantém a distinção entre as crenças básicas e não 
básicas. Em oposição ao fundacionalismo, admite que crenças básicas podem 
ser revistas, corrigidas, alteradas, deixando de lado a possibilidade de um 
conhecimento seguro, que não gere dúvidas.
• As correntes coerentistas buscam justificar a possibilidade de aceitação de uma 
crença sem sair deste sistema de crenças, e sem estabelecer diferenças entre as 
crenças sobre seu peso na justificação do conhecimento.
• Existem muitos posicionamentos epistemológicos, sobretudo quando 
tratamos das Ciências Sociais, mas deve-se observar que muitos aspectos são 
similares. Não se pode afirmar que a epistemologia não auxilia esta área em 
sua cientificidade em virtude de suas especificidades e variações.
• Um dos obstáculos epistemológicos compõe-se pelas pressões externas às 
ciências sociais, e existe também o obstáculo relacionado às crenças do senso 
comum.
• Outra questão epistemológica fortemente discutida acerca das Ciências Sociais 
se relaciona a posicionamentos opostos ao empirismo, que buscam afirmar a 
presença dos pontos de vista nas definições dos objetos de cada disciplina. 
111
AUTOATIVIDADE
A partir do que você estudou até aqui sobre a epistemologia, defina 
fundacionalismo, antifundacionalismo e coerentismo.
112
113
TÓPICO 3
CORRENTES EPISTEMOLÓGICAS E SUA 
PRESENÇA NAS CIÊNCIAS SOCIAIS
UNIDADE 2
1 INTRODUÇÃO
A epistemologia, como todos os campos de conhecimento, apresenta 
diferentes pensamentos entre seus teóricos. Por ser o estudo filosófico da origem 
do conhecimento da humanidade, causa certos debates, sobretudo em se tratando 
do conhecimento científico.
O grande desafio da epistemologia é buscar compreender o que é o 
conhecimento e como chegamos a ele. Nesta perspectiva, tudo o que se relaciona 
com a ciência passa a ser analisado e questionado sob diferentes olhares.
Deste modo, temos diferentes correntes epistemológicas que influenciaram 
os estudos desta área, alémde expressarem o entendimento diferenciado com 
relação ao conhecimento científico ao longo de épocas.
As correntes que influenciaram os rumos da epistemologia, de uma 
forma mais efetiva, são: o racionalismo, empirismo, positivismo, dialética e 
hermenêutica. É nesta mesma sequência que elas estão apresentadas ao longo 
deste tópico. Certamente você já ouviu falar de alguma destas perspectivas, 
especialmente dos estudos de base filosófica.
Neste tópico você estudará as definições destas correntes epistemológicas 
e suas características, bem como os principais teóricos relacionados a cada 
perspectiva e como utilizaram estas ideias em seus estudos ou análises filosóficas.
Além disso, estes modos de pensar a ciência influenciaram diretamente 
no desenvolvimento da filosofia da ciência, que propõe fundamentos para as 
ciências sociais. Portanto, você notará que o texto está voltado especialmente 
para uma análise de como as correntes estão presentes no pensamento sobre as 
ciências sociais, afinal, é esta discussão de cientificidade que no momento é mais 
determinante para você, acadêmico.
Vamos começar? Bons estudos!
2 RACIONALISMO
A tradição filosófica considerada antiga, cujos expoentes de maior 
visibilidade foram Sócrates, Platão e Aristóteles, ao discutir ciência e pensar sobre 
ela, focalizava a natureza do conhecimento para a fundamentação de um método 
que garantisse validade ao saber elaborado por este meio.
114
UNIDADE 2 | CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS: FUNDAMENTOS DA ANÁLISE SOCIAL
FIGURA 23 – RENÉ DESCARTES
FONTE: Disponível em: <http://duvida-metodica.blogspot.com.br/2011/03/
razoes-para-duvidar-segundo-descartes.html>. Acesso em: 29 maio 2013.
Esta tradição buscava compreender o que era o conhecimento, almejava 
construir uma definição adequada. Mas, com a era moderna e as modificações 
na ciência que levaram ao que conhecemos hoje como tal, modificou-se também 
o enfoque epistemológico. O foco não está mais na questão da natureza do 
conhecimento, e sim na questão do método utilizado para elaborá-lo e em sua 
aplicação (KOUDELA, 2003).
A epistemologia, a partir deste novo enfoque, passa a analisar a ciência 
na busca por um método certo e seguro, de preferência em sua totalidade, imune 
a equívocos e também a erros que possam ser causados pela condição humana. 
Assim, os erros tentam ser minimizados a partir destes estudos, evitando 
contaminar o conhecimento resultante da aplicação do método.
Para isso, buscou-se na epistemologia pensar e identificar fontes seguras 
para o conhecimento, e também elaborar um método seguro para evitar as 
situações de erros e equívocos no conhecimento construído.
Baseando-se na busca por este método “perfeito”, existem grandes 
diferenciações constituindo as chamadas correntes epistemológicas. Da França 
veio a força do racionalismo, cujo expoente foi René Descartes, que se opôs ao 
empirismo de Francis Bacon, da Inglaterra.
O racionalismo, baseado nos pensamentos de Descartes, é uma das correntes 
epistemológicas de maior influência na epistemologia e na própria ciência. Ela 
entende que a razão humana possui a capacidade única de conhecer e determinar 
verdades. Apenas a razão humana é que possui condições de chegar ao conhecimento, 
independente de sensação e de sentimentos.
TÓPICO 3 | CORRENTES EPISTEMOLÓGICAS E SUA PRESENÇA NAS CIÊNCIAS SOCIAIS
115
René Descartes nasceu em 31de março de 1596, na cidade de La Haye, 
na França. Ele foi criado por sua avó materna em virtude do falecimento 
precoce de sua mãe. Aos dez anos foi enviado para o Colégio Jesuíta de La 
Flèche. Formou-se em Direito pela Universidade de Poitiers e, dois anos 
depois, ingressou no exército do príncipe Maurício de Nassau na Holanda, 
onde estabelece contato com as descobertas recentes da Matemática. Como 
voluntário no serviço militar, viajou o mundo, onde conheceu cientistas. 
Descartes também fixou residência na Holanda por um tempo, e faleceu em 
Estocolmo, na Suíça, em 1950, vítima de uma pneumonia. Dentre suas obras 
principais estão: Regras para Orientação do Espírito, 1628. O Discurso Sobre 
o Método, 1637. Geometria, 1637. Meditações sobre a Filosofia Primeira, 
164. Princípios da Filosofia, 1644.
FONTE: Cottingham (1999, p. 16) 
Para Descartes, é a razão humana que permite ao ser humano a capacidade 
de emitir julgamentos sobre a realidade, determinando e diferenciando o 
verdadeiro do falso. Basta que ele siga um método para fazer bom uso da razão e 
aproveitar a ciência para buscar a verdade. 
O método seria uma disposição ordenada de objetos para os quais devemos 
direcionar o olhar racional, fazendo uso do eu pensante que nos permitirá chegar, 
por meio da razão, a respostas e à verdade.
Na Primeira Meditação de suas Meditações Metafísicas, Descartes 
formula, buscando estender e radicalizar a dúvida, o chamado 
argumento dos erros dos sentidos, que consiste em estabelecer, à luz 
da razão, a equivalência entre aquilo que não é certo e indubitável e 
aquilo que é manifestamente falso (KOUDELLA, 2003, p. 12).
Para o racionalismo, a origem de todo o conhecimento humano é a razão, 
e apenas ela é o meio possível para se chegar a um conhecimento rigoroso. As 
sensações, os sentidos e a experiência são desvalorizados nesta corrente de 
pensamento: eles não são fontes confiáveis, por não possuírem o rigor adequado.
Assim, podemos afirmar que o racionalismo foi uma perspectiva otimista, 
pois valorizou a razão humana, dando a ela o estatuto de fonte do conhecimento. 
Esta é uma das principais características desta perspectiva epistemológica.
Descartes, a partir de sua convicção racionalista, defendeu a razão e a 
possibilidade do conhecimento, opondo-se assim à corrente ceticista, que defendia 
a impossibilidade do conhecimento.
116
UNIDADE 2 | CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS: FUNDAMENTOS DA ANÁLISE SOCIAL
Enquanto os céticos procuravam explicar que não havia meios de se chegar 
ao conhecimento, Descartes procura demonstrar o contrário, explicando que a razão 
é justamente a origem do conhecimento humano. Para isto, ele criou um método 
que objetivou chegar a uma verdade indiscutível, que não permitisse dúvidas.
Uma das regras mais importantes deste método, apresentado na obra 
“Discurso do Método”, é a regra da evidência, que indica que não se deve 
aceitar como verdadeiro algo que possa deixar dúvidas. Sendo assim, o ponto 
fundamental deste método é a dúvida, enquanto forma de evitar o erro, evitando 
tudo o que possa causar a incerteza com relação a um determinado conhecimento.
FIGURA 24 – UMA DAS OBRAS MAIS IMPORTANTES DE 
DESCARTES: “DISCURSO DO MÉTODO”.
FONTE: Disponível em: <http://bethccruz.blogspot.com.br/2009/08/
descartes.html>. Acesso em 29 maio 2013.
Descartes aplicou o método da dúvida a tudo o que ele considerava que 
poderia ser causador de incertezas, como as informações que os sentidos nos 
passam, as opiniões e crenças pessoais, as realidades físicas corpóreas e tudo o que 
julgamos real a esse respeito, os conhecimentos matemáticos, e a existência de Deus 
(que ele utiliza o método para comprovar).
Retome as ideias principais do pensamento ceticista no Tópico 1 da Unidade 1 
deste caderno!
NOTA
TÓPICO 3 | CORRENTES EPISTEMOLÓGICAS E SUA PRESENÇA NAS CIÊNCIAS SOCIAIS
117
O uso de princípios racionais para o método da dúvida prescinde, portanto, 
de qualquer dado empírico, e baseia-se principalmente no rigor existente no 
modelo matemático de ciência, levando em conta suas certezas, universalidade 
e simplicidade.
Para que o conhecimento seja válido, ele precisa ser evidente, tendo 
clareza e fazendo uso da evidência para diferenciar o verdadeiro do falso. Assim, 
a ausência da dúvida faz dela um procedimento metodológico, por meio do qual 
é possível identificar os conhecimentos que resistem a ela e, portanto, podem ser 
classificados como absoluta certeza.
Este aspecto diferencia esta dúvida da dúvida dos céticos, pois a dúvida 
dos céticos está baseada em não existir a possibilidade do conhecimento, mas adúvida cartesiana é metódica, admite-se o conhecimento e por seu uso se busca 
identificar aqueles que são certos e verdadeiros (assim ele chegou ao princípio do 
“Penso, logo existo”, que já apresentamos neste caderno).
O conhecimento, portanto, não parte do que os sentidos nos dizem como 
seres humanos, pois estes podem ser falhos, e sim do que a racionalidade nos 
permite elaborar.
Desse modo, não poderíamos ainda submeter à dúvida as percepções 
que nos são dadas de modo mais imediato. Essa constatação leva-o 
então a formular o chamado argumento do sonho, que estende a dúvida 
a todo conhecimento sensível, ou pelo menos a seu conteúdo, uma vez 
que, segundo Descartes, não posso pôr em dúvida os componentes de 
minhas percepções, ou seja, as “naturezas simples”, indecomponíveis 
(figura, quantidade, espaço, tempo), que são objeto da Matemática 
(concebendo-as clara e distintamente, não posso deixar de julgá-las 
verdadeiras, encerrando-se aqui o alcance das razões naturais de 
duvidar). Embora apenas com a radicalização da dúvida hiperbólica ou 
metafísica possamos pôr em jogo também as supracitadas “naturezas 
simples”, já nos bastam os dois argumentos acima mencionados para 
tornar clara a radicalidade da proposta cartesiana, que podemos 
traduzir como a rejeição de saída de todo o provável como se fosse falso, 
e a conclusão de que não há como se chegar a nenhum conhecimento 
seguro a partir das experiências dos sentidos (KOUDELA, 2003, p. 13).
Assim, o conhecimento é a ciência que deverá mostrar o que é certo e 
verdadeiro. Para tanto, a proposta do pensamento racionalista relaciona-se 
e defende que o conhecimento deve ser estruturado com base nos moldes da 
matemática, pois esta apresenta “alicerces lógico-dedutivos calculados em 
axiomas ou postulados ‘autoevidentes’” (KOUDELA, 2003, p. 13).
O racionalismo propõe o uso da lógica dedutiva para que se parta dos 
postulados acima indicados e construam-se verdades subsidiadas. Para isso, 
deverão ser utilizados enunciados verdadeiros e certos e um instrumental lógico, 
pois este uso pode assegurar, baseado na certeza das premissas, a certeza e a 
verdade das conclusões. Sendo assim, é possível chegar a enunciados corretos e 
verdadeiros por esta via (KOUDELA, 2003).
Portanto, a observação não desempenha nenhuma função neste modelo 
racionalista, ou cartesiano, de conhecimento. Este é o próprio ideal racionalista de 
ciência: não fazer uso da observação.
118
UNIDADE 2 | CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS: FUNDAMENTOS DA ANÁLISE SOCIAL
FIGURA 25 – PENSADORES RACIONALISTAS: SPINOZA (A) E LEIBNIZ (B)
FONTES: A – Disponível em: < http://www.iep.utm.edu/spinoza/>. Acesso 
em: 29 maio 2013. B – Disponível em: <http://cfcul.fc.ul.pt/cursos%20livres/
LeibnizAbril2011/LeibnizAbril2011.htm>. Acesso em: 29 maio 2013.
3 EMPIRISMO
O empirismo é uma corrente epistemológica que compreende a elaboração 
do conhecimento como fruto das experiências e da observação, ou seja, aquilo que 
é empírico. A partir disso temos o nome: empirismo. Para os empiristas as teorias 
não bastam, é preciso que haja experiência para comprovação de verdades, e aí 
reside a principal diferenciação com relação ao racionalismo, que defende a razão 
como fonte da verdade.
A percepção do mundo exterior associada à abstração permitida pela 
razão é que permite a construção da sabedoria pelos seres humanos, e não apenas 
o uso da dedução e da razão em si. A razão teria apenas a função de articular 
dados obtidos a partir da experiência, unindo dados empíricos. As ideias, 
portanto, seriam resultantes da experiência, da observação, e não apenas do uso 
da capacidade de raciocínio.
Francis Bacon, filósofo inglês, foi um dos principais expoentes do 
pensamento empirista, criador do modelo observacionalista, responsável pela 
interação entre os planos observacional e teórico e sua elevação à legitimidade de 
problema epistemológico. 
FIGURA 26 – FRANCIS BACON
FONTE: Disponível em: <http://dailytheology.wordpress.
com/2013/01/29/downton-abbey-francis-bacon-spiderman-
and-st-augustine-who-holds-the-power-of-that-thing-we-call-
science/>. Acesso em 29 maio 2013.
A B
TÓPICO 3 | CORRENTES EPISTEMOLÓGICAS E SUA PRESENÇA NAS CIÊNCIAS SOCIAIS
119
Nasceu em Londres, em 22 de janeiro de 1561, filho de Nicholas 
Bacon e Anne Cooke. Naquela época a Inglaterra já apontava como a mais 
poderosa nação da era moderna. Com seus 12 anos, o pequeno Bacon 
foi enviado ao Trinity College, Cambridge, onde mais tarde estudaria o 
filósofo e matemático Bertrand Russell. Desde cedo Bacon interessou-se 
pela filosofia, pela política e pela ciência. O filósofo foi amigo do rei Jaime 
I e do Duque de Buckingham. Sempre próximo ao poder, Bacon tomou 
assento na Câmara dos Comuns em 1584, como representante de um 
pequeno distrito. Sob o reinado de Jaime I, foi nomeado Lorde Conselheiro 
(1616), Lorde Guardião (1617) e Lorde Chanceler (1618). Mesmo ocupando 
cargos públicos, Bacon nunca abandonou a vida intelectual. Faleceu em 
1626. Principais obras: Novum organum; Instauratio magna; Elementos das 
leis comuns da Inglaterra; Casos de traição; Ensaios.
FONTE: Galvão (2007, p. 33)
Bacon defendia a aplicação e o uso do conhecimento científico em favor 
do domínio humano sobre a natureza, incluindo o desenvolvimento da indústria. 
Para ele, o bem-estar da humanidade dependia deste domínio, do controle sobre 
os fenômenos da natureza, pois isto facilitaria a vida de todos.
“Para Bacon, a verdadeira finalidade da ciência é contribuir para a melhoria 
das condições de vida do homem; de fato, para Bacon, o conhecimento não tem valor 
em si, mas sim pelos resultados práticos que possa gerar” (PEREIRA, 2000, p. 194).
Para que o conhecimento atinja sua finalidade, segundo Bacon o ser humano 
precisa entrar em contato com a natureza, pois o conhecimento só se dará por essa 
via, a da experimentação, e não pela especulação, pelo uso da razão apenas.
Neste ponto podemos entender melhor a contribuição de seu pensamento 
para a epistemologia, pois ele se preocupou com as noções falsas que faziam com 
que os sábios não conseguissem chegar à verdade e não deixavam que ocorresse 
a produção do conhecimento. Por isso, para corrigir estas falsas noções, seria 
preciso um instrumento, pois é possível que ocorram erros, que ele classificou em 
quatro tipos (PEREIRA, 2000).
Cada erro é chamado por ele de ídolo, e para evitá-los é preciso que os 
cientistas os compreendam e tomem precauções contra eles, do contrário poderão 
constituir-se em obstáculos para o desenvolvimento da ciência. Estes erros foram 
sintetizados por Pereira (2000) e estão descritos abaixo:
Ídolos da tribo – São falhas inerentes à própria natureza humana, falhas comuns a 
todos os seres humanos, provenientes dos sentidos ou do intelecto. São causadas 
porque as percepções são parciais, então não se deve confiar completamente 
nas informações fornecidas pelos sentidos, a não ser que sejam corrigidas por 
experimentações. O intelecto humano também pode falhar, generalizando casos 
favoráveis e desconsiderando itens negativos, por exemplo.
Ídolos da caverna – São falhas que podem ocorrer em decorrência de características 
individuais do pesquisador/cientista. Causa distorções que se interpõem no 
120
UNIDADE 2 | CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS: FUNDAMENTOS DA ANÁLISE SOCIAL
caminho da verdade e surgem em decorrência da história de vida do indivíduo, 
de seus hábitos, leituras etc., e influenciarão o modo de abordagem do objeto.
Ídolos do foro – Estas falhas surgem a partir do uso incorreto da linguagem e de 
problemas de comunicação entre os homens. As palavras limitam a concepção 
das coisas para os seres humanos, pois se pensa nelas a partir das palavras que 
temos para exprimi-las. Para relacioná-las adequadamente seria preciso basear-se 
na experimentação, para que não houvesse conceitos e definições vagas.
Ídolos do teatro – São distorções produzidas a partir de teorias falsas, que são aceitas, 
ou de falsos sistemas filosóficos. Portanto, nãodeveriam ser criadas teorias que não 
fossem fruto do relacionamento concreto com a natureza do objeto estudado.
Estas falhas deveriam ser corrigidas para que o desenvolvimento da ciência 
ocorresse de forma correta, atingindo verdades e chegando a conclusões corretas.
Segundo Bacon, a razão da estagnação das ciências está na utilização de 
métodos que barram o seu progresso: não partem dos sentidos ou da 
experiência, mas da tradição, de ideias preconcebidas e se abandonam 
aos argumentos. O caminho correto para o avanço das ciências estaria 
na realização de grande número de experiências ordenadas, das quais 
seriam retirados os axiomas e, a partir destes, propor-se-iam novos 
experimentos (PEREIRA, 2000, p. 197).
Para o modelo baconiano, o conhecimento científico possui supremacia 
diante dos outros tipos de conhecimento que não são baseados na experiência, 
pois é apenas a partir da experiência dos sentidos que é possível alcançar um 
conhecimento seguro, eliminando as ilusões causadas pelas falhas.
Assim, o poder explicativo da ciência reside e se legitima diante de outras 
formas em virtude das observações meticulosas das quais parte, que permitem 
a realização de induções e a consequente elaboração de teorias embasadas 
fatualmente (KOUDELA, 2003).
A valorização do método fez crescer a discussão com relação a uma 
proposta de critério e de demarcação entre o científico e o metafísico. O método 
indutivo surge então como forma de diferenciação dos cientistas com teólogos, 
metafísicos etc. 
“Provavelmente essa é, dentre outras, uma das razões pelas quais o 
ideal empirista de ciência tornou-se hegemônico durante um período tão longo, 
tendo influenciado profundamente várias concepções acerca da ciência e do seu 
método” (KOUDELA, 2003, p. 15).
O método baconiano, ao preconizar uma teorização sempre fatualmente 
embasada, atribui à observação o papel de alicerce fundamental do 
modelo empirista de ciência. Entretanto, não se trata aqui de um tipo 
qualquer de observação. Segundo Bacon, para haver observação que 
possa consistir, quando levada a efeito de modo rigoroso e meticuloso, 
na única verdadeira fonte de ilusão anteriormente citada. Somente 
assim poderemos abordar os fatos totalmente desprovidos de 
predisposições capazes de distorcê-los, e mesmo de inviabilizar uma 
neutra observação deles (KOUDELA, 2003, p. 15).
TÓPICO 3 | CORRENTES EPISTEMOLÓGICAS E SUA PRESENÇA NAS CIÊNCIAS SOCIAIS
121
Do ponto de vista das relações com o senso comum, enquanto que os 
racionalistas acreditam que este é abandonado em prol da racionalidade, os empiristas 
defendem que se deve partir do senso comum, pois a ciência busca justamente um 
conhecimento que se diferencia dele. 
Apesar de entender que o conhecimento deve partir da diferenciação com 
este senso comum, o empirismo também considera que é preciso a eliminação das 
falhas já indicadas e o cumprimento de certas regras metodológicas que Bacon 
descreveu.
Assim, exemplificando, Bacon menciona que os filósofos metafísicos são 
como aranhas que produzem grandes teias teóricas, a partir de seus próprios 
corpos, descontextualizadas e sem relação com a realidade. Enquanto isso, os 
alquimistas são formigas, que coletam grande quantidade de dados sem uma 
base teórica. E o filósofo científico deve ser como uma abelha: a partir de trabalhos 
cooperativos, coletar dados e produzir classificações e cuidadosas generalizações 
(KOUDELA, 2003).
FIGURA 27 – DIFERENCIAÇÃO ENTRE O PENSAMENTO RACIONALISTA E EMPIRISTA
FONTE: Disponível em: <http://www.notapositiva.com/pt/trbestbs/filosofia/11_empirismo_jon_
locke_d.htm>. Acesso em: 29 maio 2013.
Segundo Bacon, a ciência obedece a dois preceitos metodológicos que 
a distinguem de outras modalidades do conhecimento: observação e 
indução. A partir do mero registro e descrição de fatos particulares 
observáveis, neutralizadas as citadas fontes de ilusão cognitiva 
(observação), somos naturalmente conduzidos a enunciados de 
generalidade ou universalidade crescente (indução). É fundamental 
frisar, todavia, que a atividade observacional só será levada a efeito de 
modo eficaz se precedida da devida anulação das supramencionadas 
fontes de ilusão, bem como o procedimento inferencial indutivo só 
é digno de crédito no caso de assegurar uma transição segura dos 
particulares ao geral (KOUDELA, 2003, p. 17).
122
UNIDADE 2 | CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS: FUNDAMENTOS DA ANÁLISE SOCIAL
O empirismo teve grande impacto no pensamento científico, não apenas 
da época, mas dos dias atuais, pois concedeu relevância às experiências práticas 
e ao conhecimento científico. Baseado nesta forma de pensar, que considera a 
observação e valoriza a experimentação, é que foi criado o método científico.
FIGURA 28 – PENSADORES EMPIRISTAS: LOCKE E HUME
FONTE: A – Disponível em: <http://teoriadeestado.blogspot.com.br/2010/10/
john-locke.html>. Acesso em: 29 maio 2013. B- Disponível em: <http://
eradoespirito.blogspot.com.br/2012/06/reflexoes-sobre-um-texto-de-david-
hume.html>. Acesso em 29 maio 2013.
4 POSITIVISMO
Após as mudanças sociais oriundas da Revolução Francesa e da 
Revolução Industrial, muitas situações novas não eram explicadas pelos filósofos 
da época. A urbanização, por exemplo, era um fenômeno ainda desconhecido, e 
os conservadores, baseados no Iluminismo, não sabiam como explicar este novo 
modelo de relações sociais.
Estava-se considerando que aquele tipo de sociedade, ou seja, a sociedade 
moderna, entrava em declínio e, portanto, estava dominada pelo caos e pela 
desorganização resultantes do progresso e da nova sociedade industrial.
Esta perspectiva conservadora foi uma das bases para o surgimento 
de novos pensadores sociais, interessados em compreender a nova ordem 
econômica que estava surgindo. Consideravam que a instabilidade das relações 
sociais era um problema que deveria ser enfrentado para que a ordem social fosse 
restabelecida, evitando a desordem e a anarquia.
Nascia, assim, o positivismo, corrente de pensamento tanto filosófica 
quanto sociológica. Segundo os positivistas, “para que houvesse coesão e 
equilíbrio na sociedade, seria necessário restabelecer a ordem nas ideias e nos 
conhecimentos, criando um conjunto de crenças comuns a todos os homens, a 
que deu o nome de filosofia positiva” (DIAS, 2005, p. 22).
O Positivismo está diretamente relacionado ao seu fundador, Auguste 
Comte, teórico importante para a área da Sociologia.
A B
TÓPICO 3 | CORRENTES EPISTEMOLÓGICAS E SUA PRESENÇA NAS CIÊNCIAS SOCIAIS
123
FIGURA 29 – AUGUSTE COMTE
FONTE: Disponível em: <http://www.brasilescola.com/sociologia/
positivismo.htm>. Acesso em 29/05/2013.
Filósofo e matemático francês, Auguste Comte (1798-1857) foi 
o fundador do positivismo. Fez seus primeiros estudos no Liceu de 
Montpellier, ingressando depois na Escola Politécnica de Paris, de onde foi 
expulso em 1816 por ter-se rebelado contra um professor. A partir de 1846, 
toda a sua vida e obra passaram a ter um sentido religioso. Ao se dedicar 
mais às questões espirituais, afastou-se do magistério. O pensamento de 
Comte influenciou as teorias existentes, provocando grandes mudanças. 
Teve grande influência, quer como filósofo social, quer como reformador 
social. Morreu em Paris em 5 de setembro de 1857. Suas principais obras 
foram: Curso de filosofia positiva, 6 tomos (1830-1942); Discurso sobre o 
espírito positivo (1844); Sistema de política positiva, 4 tomos (1851-1854); 
Síntese subjetiva (1856).
FONTE: Dias (2005, p. 23) 
Em se tratando de sua dimensão filosófica, o positivismo defende a ciência 
como a única explicação para os fenômenos que correspondem à realidade 
(superioridade da ciência). A dimensão sociológica diz respeito ao entendimento 
de como deve ser e como ocorre o uso do método científico na sociologia, ou seja, 
utilizando os mesmos métodos das ciências naturais.
Na disciplina de História da Sociologia há mais informações e conteúdos sobre 
o positivismo de Auguste Comte, voltado para a área do pensamentosociológico. Vale a 
pena retomar!
DICAS
124
UNIDADE 2 | CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS: FUNDAMENTOS DA ANÁLISE SOCIAL
A dimensão filosófica é o item que interessa quando falamos na epistemo-
logia, pois trata das relações científicas. No caso do positivismo, a concepção de 
ciência é dada por Auguste Comte na lei dos três estados, ou estágios.
Esta teoria defende que a humanidade passa por um processo de evolução 
que ocorre em três fases, que são: estado teológico, estado metafísico e estado 
positivo. Estas fases correspondem ao progresso do conhecimento e em cada uma 
delas o homem possui uma forma diferente de explicar a realidade (SELL, 2002). 
Vamos utilizar as explicações de Sell (2002, p. 34) para compreender 
melhor cada uma destas fases e sua relação com a ciência e o conhecimento.
Estado teológico: Esta primeira fase é marcada pela existência de explicações 
relacionadas a causas primeiras, que em geral utilizam os deuses como figuras 
para a explicação. Assim, as causas de quaisquer fenômenos são atribuídas 
a divindades e a figuras teológicas.
Este estado, ou estágio, é subdividido em:
• Fetichismo – Os seres inanimados e animais são tidos como possuidores 
de vida, ação e poderes sobrenaturais, em um entendimento conferido pelos 
seres humanos a eles.
• Politeísmo – Traços da natureza humana, como motivações, vícios, virtudes 
são atribuídos às potências sobrenaturais, ou seja, aos deuses.
• Monoteísmo – Desenvolve-se neste momento a crença em um deus único.
Estado metafísico: Neste estágio, após o desenvolvimento da crença em um 
deus único, as causas divinas são gradativamente substituídas por causas 
mais gerais, buscando nas ideias explicações sobre os fenômenos e a causa 
dos acontecimentos (metafísica). 
Desta forma, o princípio da causalidade é dado como baseado nas 
essências dos objetos, que estariam neles e os definiriam.
Estado positivo ou científico: Entra em cena a ciência, pois o homem passa a 
buscar a relação entre as coisas e os acontecimentos por meio da observação 
científica e do raciocínio. Ocorre a formulação de leis e ele não busca mais 
conhecer a natureza íntima das coisas e suas causas absolutas.
Estas causas primeiras e causas absolutas, presentes nos estágios 
anteriores, são substituídas pela observação dos fenômenos, realizada por meio 
da aplicação do método científico e de sua rigorosidade.
Assim, esta evolução do conhecimento, dividida em estágios, para Comte 
era similar à evolução do ser humano. Infância, adolescência e maturidade 
representavam, respectivamente, estado teológico, estado metafísico e estado 
positivo. Com base nisso, defendia que o positivo seria o estágio mais desenvolvido, 
a maturidade do ser humano, correspondente à maturidade da sociedade.
TÓPICO 3 | CORRENTES EPISTEMOLÓGICAS E SUA PRESENÇA NAS CIÊNCIAS SOCIAIS
125
O que este esquema deixa claro é que, do ponto de vista filosófico, 
o positivismo sustenta que a ciência é a única explicação razoável 
e legítima para a realidade. A religião e a filosofia conduzem o 
homem ao engano e serão substituídas pelo avanço do conhecimento 
científico. É somente com a ciência que o homem terá um completo 
conhecimento e domínio do mundo que o cerca. Este é o conteúdo 
básico do positivismo (SELL, 2002, p. 35).
Além desta afirmação de superioridade do positivismo, ele também 
representa um modelo de ciência, é uma concepção de como deve ser o 
funcionamento da ciência para explicar a realidade. As ciências não evoluíram 
todas ao mesmo tempo. Para Comte, então, quando a humanidade chegou ao 
estágio positivo foi preciso que as ciências se desenvolvessem de acordo com a 
complexidade de seus objetos, do mais simples ao mais complexo (SELL, 2002).
Para ele, a história da ciência também passou por várias fases, e no 
momento em que ele estava vivendo era hora de fundar a física social, mais tarde 
denominada sociologia. Isto porque a sociologia seria a última ciência a completar 
o quadro geral do conhecimento positivo, contemplando em si a filosofia, a 
história, a psicologia etc. 
A sequência se daria no seguinte desenvolvimento: Matemática; 
Astronomia; Física; Química; Biologia; Sociologia. Assim como a sociologia 
continuava a partir da biologia, Comte defendia que esta deveria fazer uso dos 
mesmos métodos para obtenção de conhecimento. 
Analiticamente, esclarece Comte, as ciências formam uma 
hierarquia de generalidade decrescente, mas de progressiva complexidade; 
cada ciência mantém dependência lógica das outras abaixo dela na 
hierarquia e, apesar disso, lida simultaneamente com uma ordem 
emergente de propriedades que não podem ser reduzidas àquelas com as 
quais as outras ciências estão envolvidas. Assim, a biologia, por exemplo, 
pressupõe as leis da física e da química, tendo em vista que todos os 
organismos são entidades físicas sob as leis que regem a composição 
da matéria. Entretanto, o comportamento dos organismos, como seres 
complexos, não pode derivar-se simples e diretamente dessas leis.
A relação lógica entre as ciências, segundo Comte, ajuda-nos a 
entender sua formação progressiva como disciplinas distintas na evolução 
intelectual da humanidade. As ciências que se desenvolvem primeiro – 
matemática e depois física – são aquelas que lidam com as leis mais gerais 
da natureza, as que regem os fenômenos mais afastados do envolvimento 
e do controle humano. A partir daí, a ciência se introduz de forma cada vez 
mais direta na humanidade e acaba por criar em física social uma ciência 
da própria conduta humana. O processo não é realizado sem esforços; a 
compreensão científica situa-se no fim da progressão da vida intelectual por 
meio dos estágios teológicos e metafísicos característicos de todos os ramos 
do pensamento. O “estágio teológico”, no qual se entende que o universo 
é determinado pela intervenção de seres espirituais, alcança o clímax no 
cristianismo com seu reconhecimento de uma divindade todo-poderosa: 
126
UNIDADE 2 | CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS: FUNDAMENTOS DA ANÁLISE SOCIAL
esse estágio, a que Comte chamava de “o estado fictício”, representa “o 
ponto de partida necessário da inteligência humana”. 
A fase metafísica substitui esses espíritos em movimento por forças e 
entidades abstratas, com isso preparando o terreno para o advento da ciência, 
estado fixo e definitivo do pensamento humano. A enunciação da lei dos três 
estágios, afirma Comte, é suficiente para que sua exatidão seja imediatamente 
verificada por todos os que têm conhecimento aprofundado da história geral 
das ciências. (Mais tarde, o próprio Comte afirmou ter comprovado a lei dos 
três estágios em seus períodos de insanidade, vivenciados, segundo ele, como 
uma regressão do positivismo, passando pela metafísica, chegando à teologia 
na esfera da própria personalidade e, em sua recuperação, reconstituindo a 
evolução desses estágios). 
FONTE: Giddens (2001, p. 219)
FIGURA 30 – POSITIVISMO
FONTE: Disponível em: <http://cmap.ifsc.edu.br/rid=1KFZYVV2B-29FT9NB-8P9/Positivismo.cmap>. 
Acesso em: 29 maio 2013.
As explicações do positivismo influenciaram a compreensão de ciência da 
época em que surgiu, defendendo a ciência como única forma de conhecimento 
verdadeiro. Assim, as únicas teorias corretas são aquelas que podem ser 
comprovadas por meio da aplicação do método científico.
Procure o livro “O que é positivismo?”, do autor João Ribeiro Junior, publicado 
pela Editora Brasiliense (São Paulo, primeira edição em 1982). Ele irá complementar seus 
estudos sobre esta corrente epistemológica.
DICAS
TÓPICO 3 | CORRENTES EPISTEMOLÓGICAS E SUA PRESENÇA NAS CIÊNCIAS SOCIAIS
127
5 DIALÉTICA
A dialética, na Grécia Antiga, era considerada a arte do diálogo. Ela 
era a forma de, no diálogo, argumentar demonstrando uma tese, definindo e 
distinguindo os conceitos presentes na discussão de forma clara.
No entanto, no sentido moderno, podemos afirmar que a dialética “é o 
modo de pensarmos as contradições da realidade, o modo de compreendermos 
a realidadecomo essencialmente contraditória e em permanente transformação” 
(KONDER, 1994, p. 8).
A concepção dialética foi reprimida, historicamente: foi empurrada 
para posições secundárias, condenada a exercer uma influência 
limitada. A metafísica se tornou hegemônica. Mas a dialética não 
desapareceu. Para sobreviver, precisou renunciar às suas expressões 
mais drásticas, precisou conciliar com a metafísica, porém conseguiu 
manter espaços significativos nas ideias de diversos filósofos de 
enorme importância (KONDER, 1994, p. 10).
A partir do Renascimento, a dialética consegue melhores posições e 
adquire maior visibilidade, pois até então, em virtude de seu caráter de pensar as 
contradições sociais, foi relegada pelos movimentos conservadores a manter-se à 
sombra do desenvolvimento das ciências e da filosofia.
Elementos dialéticos passam a estar presentes nas teorias de pensadores 
após o movimento renascentista, e com a Revolução Francesa os filósofos passaram 
a compreender mais concretamente as dinâmicas das transformações sociais. 
Também o Iluminismo contribuiu com esta situação, uma vez que acompanhou 
reivindicações populares, manifestações políticas e todo o surgimento de um 
modo de pensar racional.
Segundo Konder (1994), um dos maiores filósofos iluministas, Denis 
Diderot, trouxe em suas obras observações que contribuíram para a concepção 
dialética de mundo.
Diderot compreendeu que o indivíduo era condicionado por um 
movimento mais amplo, pelas mudanças da sociedade em que 
vivia. “Sou como sou” – escreveu ele – “porque foi preciso que eu 
me tornasse assim. Se mudarem o todo, necessariamente eu também 
serei modificado.” E acrescentou: “O todo está sempre mudando” 
(KONDER, 1994, p. 16).
Além de Diderot, outro filósofo que contribui com as ideias da concepção 
dialética foi Jean-Jacques Rousseau. Ele se opunha aos iluministas, que 
apresentavam uma visão otimista da natureza humana, indicando que preferia 
confiar na natureza ao invés de confiar na razão humana.
Para ele, os homens nasciam livres, e a sociedade lhes tirava o direito de 
exercer a liberdade natural. Assim, ele tentou compreender que tipo de contrato 
social era firmado para que os indivíduos pudessem ter um tipo de liberdade 
128
UNIDADE 2 | CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS: FUNDAMENTOS DA ANÁLISE SOCIAL
social em detrimento de sua liberdade natural. Assim, ao analisar a estrutura social 
e suas contradições, Rousseau concluiu a existência de conflitos de interesses, 
má distribuição de poderes, e afirmava a necessidade de uma democratização da 
vida social.
Immanuel Kant também pensou a realidade em termos dialéticos, notando 
que a consciência humana não registra de forma passiva as impressões que possui 
do mundo exterior, mas que ela é a consciência de alguém que interfere neste mesmo 
mundo. Ele identificou que isso complicava o processo de conhecimento humano.
O centro da filosofia, para Kant, não podia deixar de ser a reflexão 
sobre a questão do conhecimento, a questão da exata natureza e dos 
limites do conhecimento humano. Fixando sua atenção naquilo que 
ele chamou de “razão pura”, o filósofo se convenceu, então, de que 
na própria "razão pura” (anterior à experiência) existiram certas 
contradições – as “antinomias” – que nunca poderiam ser expulsas 
do pensamento humano por nenhuma lógica (KONDER, 1994, p. 22).
Após Kant, Hegel demonstrou que a contradição não era apenas uma 
dimensão essencial na consciência do sujeito do conhecimento, mas era um 
princípio básico que não poderia ser deixado de fora nem da consciência do 
sujeito e nem da realidade objetiva. Hegel foi um filósofo alemão que contribuiu 
muito com o pensamento dialético, e ele concordava com Kant na perspectiva de 
que os sujeitos sempre estão interferindo na realidade.
FIGURA 31 – GEORG WILHELM FRIEDRICH HEGEL
FONTE: Disponível em: <http://www.marxists.org/reference/archive/
hegel/>. Acesso em: 29 maio 2013.
George Wilhelm Friedrich Hegel, filósofo alemão. Nasceu em 
Estugarda. Aos 18 anos de idade ingressou no seminário protestante de 
Tubingen, para estudar Teologia, onde conheceu e foi amigo de Schelling (1775-
TÓPICO 3 | CORRENTES EPISTEMOLÓGICAS E SUA PRESENÇA NAS CIÊNCIAS SOCIAIS
129
1854) e Hölderlin. O pietismo, uma das correntes gnósticas do protestantismo, 
influenciou profundamente o seu pensamento. Hegel foi um ilustre professor 
universitário de Filosofia. Iniciou a sua atividade de professor em Berna, na 
Suíça, entre 1793 e 1796, e depois em Frankfurt, de 1797 a 1800. Foi depois 
mestre de conferências na Universidade de Jena (1801-1806), professor e 
reitor num colégio de Nuremberg (1808), depois professor em Heidelberg 
e finalmente em Berlim (1817-1831), onde permaneceu até à morte. Obras 
principais: A Positividade da Religião Cristã (obra póstuma), O Espírito do 
Cristianismo e o seu Destino (obra póstuma), Diferença entre os Sistemas de 
Fitche e de Scheling (1801), Fenomenologia do Espírito (1807), Ciência da lógica 
(1812-1816), Enciclopédia das Ciências Filosóficas (1817), Lições de História 
da Filosofia (1818), Filosofia do Espírito (dois volumes), Filosofia do Direito 
(1821), Estética, Lições de Estética, Filosofia da História, Princípios da Filosofia 
do Direito (1821), Lógica (dois volumes), Filosofia da Natureza (três volumes).
FONTE: Fontes, s.d., s.p. 
A ideia de diálogo auxilia na compreensão das características do método 
dialético: no diálogo o pensamento é formado a partir da troca de informações 
sem interrupção, contínua. A ação recíproca de uma ideia gera o movimento.
A partir disto, podemos notar a importância da ideia de movimento 
para a concepção dialética, a ideia de transformação. No diálogo, com a troca de 
informações, as nossas ideias e as da pessoa com a qual dialogamos são alteradas 
ao longo da conversa, em um movimento constante. Este movimento é causado 
pela contradição das ideias entre si, pois se não houvesse este confronto não 
haveria o diálogo.
“São justamente estes dois aspectos que formam a essência da dialética 
em Hegel. Segundo o autor, (i) a realidade é uma contínua transformação (ii) cuja 
causa ou razão é o princípio da contradição, ou seja, o fato de que todos os seres são 
contraditórios” (SELL, 2002, p. 154).
Para a dialética de Hegel, todo o ser é contraditório em si mesmo, pois ao 
fazer uma afirmação estará se opondo a outra. A afirmação da ideia que faço passa a 
ser a antítese de outra. Assim, todos os seres são governados pela lei da contradição.
Para mostrar como tudo está submetido à lei do movimento e da 
contradição, os estudiosos de Hegel afirmam que se pode demonstrar que 
todo ser, qualquer que seja, passa por três momentos fundamentais, que são:
Tese: momento da afirmação.
Antítese: momento da negação.
Síntese: momento da negação da negação.
Com esta metáfora, afirmam eles, é possível perceber que todo ser 
passa por transformações, que são geradas pela oposição, expressa nas 
130
UNIDADE 2 | CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS: FUNDAMENTOS DA ANÁLISE SOCIAL
palavras “tese – antítese – síntese”. Cada síntese transforma-se em uma nova 
tese, e assim o movimento continua.
Entretanto, para o pensamento de Hegel, não era apenas cada ser 
em particular que estava submetido à evolução dialética. Pelo contrário, 
para este filósofo, toda a realidade (ou seja, tudo aquilo que existe em seu 
conjunto) evolui dialeticamente e faz parte de um movimento constante. Para 
Hegel, portanto, tudo é história: toda a realidade é modificação e movimento 
gerados pela contradição.
FONTE: Sell (2002, p. 154)
Karl Marx, filósofo e sociólogo, baseou-se nestas ideias para construir a 
sua teoria do materialismo histórico-dialético para explicar a sociedade humana. 
Mas ele inverteu alguns posicionamentos de Hegel. Enquanto Hegel defendia 
que o movimento iniciava da ideia, Marx dizia que o movimento iniciava na 
produção material dos grupos.
A dialética (na acepção que o termo adquiriu após Hegel) é uma 
teoria que assevera que o pensamento humano sedesenvolve de acordo com 
uma “tríade dialética”: há, em primeiro lugar, uma ideia, um movimento, ou 
uma teoria, chamada tese. A tese, de hábito, provocará oposições, uma vez 
que, como acontece com quase tudo neste mundo, terá alcance limitado e terá 
seus pontos falhos. A ideia oposta é chamada antítese. O debate entre a tese e 
a antítese perdura até que se alcance alguma solução. Esta solução, de algum 
modo, sobrepassa tanto a tese como a antítese, reconhecendo seus respectivos 
méritos, que trata de conservar, mas sobrepujando-as pela eliminação de 
suas deficiências. A solução, que é o terceiro “momento” da tríade dialética, 
é a síntese. A síntese, uma vez posta, pode tornar-se tese de uma nova tríade 
dialética, sucedendo isto, em especial, quando a síntese não for satisfatória.
É difícil contestar que a tríade dialética descreve com bastante acerto 
os passos registrados pela história na marcha evolutiva de ideias e teorias, em 
especial de movimentos sociais baseados em ideias ou teorias.
Entretanto, a marcha dialética pode ser considerada como um caso 
especial de um método bem mais amplo, a que se deu o nome de método da 
tentativa e erro. De fato, este último não se confina àqueles casos em que, de 
início, haja apenas uma tese, aplicando-se às situações (aliás, costumeiras) 
em que se digladiam várias opiniões independentes, onde seria deturpação 
colocá-las como reduzidas a duas opostas. Não vai, na observação que se 
acaba de fazer, nenhuma crítica muito contundente, já que é possível (até 
frequente) que se inicie a investigação com uma tese apenas. Quando isso 
acontece, o esquema dialético é aplicável e resume, com certa fidelidade, a 
marcha das ideias. 
TÓPICO 3 | CORRENTES EPISTEMOLÓGICAS E SUA PRESENÇA NAS CIÊNCIAS SOCIAIS
131
O método geral da tentativa e erro, nas linhas em que foi descrito o 
primeiro parágrafo, contenta-se em dizer que uma teoria, uma vez submetida 
a testes que não possa suportar, revelando suas fraquezas, é rejeitada. O 
dialético, no entanto, afirma que há que considerar os aspectos “positivos” 
de qualquer teoria, a se conservarem na síntese. A solução satisfatória 
da pendência será uma síntese que preserve os melhores pontos da tese e 
da antítese. Não há dúvida de que a interpretação dialética da história do 
pensamento pode ser bastante adequada em muitos casos e não se discute 
que acrescenta minúcias de interesse à interpretação em termos de tentativa 
e erro. No desenvolvimento da física, por exemplo, acham-se casos que se 
adaptam ao esquema dialético. É o que sucede com a teoria corpuscular 
da luz, substituída pela teoria ondulatória, sua antítese, e superada, enfim, 
por uma “síntese”, a nova teoria, que permite ver as precedentes como 
“aproximações”, parcialmente conservadas nas formulações em voga.
FONTE: Hegenberg (1965, p. 140). 
FIGURA 32 – SÁTIRA EXPLICATIVA: TESE, ANTÍTESE, SÍNTESE
FONTE: Disponível em: <http://tirarapida.blogspot.com.br/2011/03/dialetica.html>. Acesso em: 29 maio 2013.
Procure o livro “O que é dialética?”, do autor Leandro Konder, publicado pela 
Editora Brasiliense (São Paulo, primeira edição em 1981). Ele irá complementar seus estudos 
sobre esta corrente epistemológica.
DICAS
132
UNIDADE 2 | CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS: FUNDAMENTOS DA ANÁLISE SOCIAL
6 HERMENÊUTICA
A hermenêutica é um método que busca explicar um determinado texto, 
aplicando o sentido de interpretação. Temos diversas manifestações desta corrente 
epistemológica na atualidade.
Uma delas é hermenêutica relacionada à religião, ou seja, trata-se do 
estudo das escrituras sagradas, tentando compreender cada capítulo, cada frase, 
enfim, seus significados. Muitos textos da Bíblia são de difícil entendimento, e 
os métodos da hermenêutica facilitam sua compreensão para quem não conhece 
muito as palavras e símbolos.
Outra é a hermenêutica jurídica, pois foi esta ciência que criou os modelos 
de interpretação das normas jurídicas, na intenção de apresentar seu sentido 
exato. Nesta área, não se pode permitir que cada um interprete à sua maneira, 
pois as interpretações pessoais devem ser substituídas pelos mandamentos legais 
do sistema jurídico em vigor.
Esta corrente de reflexão foi fundada por Hans-Georg Gadamer e é 
chamada também de filosofia prática. Ele observou o quanto a prática estava 
desvinculada da teoria e defendeu que a verdade está acima da metodologia. 
FIGURA 33 – HANS-GEORG GADAMER
FONTE: Disponível em: <http://scienceblogs.com.br/eccemedicu 
s/tag/gadamer/>. Acesso em: 29 maio 2013.
Gadamer nasceu em 11 de fevereiro de 1900 em Marburg, filho de 
um professor de Química Farmacêutica. Estudou filosofia, filologia clássica, 
história da arte, literatura e teologia nas universidades de Breslau, Munique, 
Freiburg e Marburg. Foi professor de filosofia em Marburg, Kiel, Leipzig, 
TÓPICO 3 | CORRENTES EPISTEMOLÓGICAS E SUA PRESENÇA NAS CIÊNCIAS SOCIAIS
133
Frankfurt e Heidelberg. Primeiro presidente da Universidade de Leipzig, após 
a Segunda Guerra Mundial. Era um discípulo de Martin Heidegger e criador 
da hermenêutica filosófica, pela sua própria definição: “é saber que o outro 
pode estar certo.” Sua pesquisa é direcionada para o estudo das condições 
de possibilidade da interpretação e compreensão, especialmente nas ciências 
humanas, e entende a compreensão como característica constitutiva do 
Dasein humano. Desde 1953 dirigiu o Rundschau Filosófica. Alcançou fama 
mundial com seu livro “Verdade e Método” (1960). Hans-Georg Gadamer 
morreu em 13 de março de 2002, em um hospital de Heidelberg.
FONTE: Biografias, s.d., s.p. 
A hermenêutica se volta para a linguagem, quando afirma que o 
significado mais profundo de um texto só pode ser adquirido quando os demais 
itens hermenêuticos forem analisados, ou seja, o autor, o leitor e o próprio texto. 
Assim, deve-se comparar a obra com demais obras do autor, para ver o sentido 
que o texto possui naquele momento, e verificando a linguagem trazida no texto.
O leitor, neste caso, pode fazer inúmeras interpretações do texto, portanto, 
é como se o texto fosse desvinculado do autor e passasse a ter uma espécie de 
liberdade própria. Ele libera-se do domínio do escritor e pode ser interpretado de 
diferentes formas, conforme o significado a ele conferido a partir das experiências 
anteriores do leitor.
Se partirmos do ponto de vista de que fazer filosofia é buscar a Verdade, 
ao filosofar sobre a filosofia buscamos a verdade da filosofia, que é, em 
si mesma, a busca da Verdade. Para o filósofo, portanto, a filosofia é, 
ou deveria ser, hermenêutica, já que a filosofia é possível e necessária 
apenas ao Homem, que a faz através da fala. Na verdade, em razão do 
“distanciamento” que só o Homem experimenta, só ele pode ser curioso e 
satisfazer a sua curiosidade acerca das coisas, vale dizer, da sua essência, 
o seu ser! Mas é esse distanciamento que faz com que tudo precise ser 
interpretado, ou seja, é esse distanciamento que sobra ao Homem a 
universalidade da Hermenêutica (ENCARNAÇÃO, 1997, p. 91).
Além de Gadamer, outro autor importante na área da hermenêutica foi 
Dilthey, pois ele foi responsável por estender a interpretação dos textos sagrados 
para a interpretação de todas as ações humanas.
A perspectiva hermenêutica defende que não deve haver um apoio nas 
interpretações metafísicas da razão, que isto não basta para o ser humano. Deveria 
haver uma análise dos próprios participantes com relação às tradições que os 
determinam. Ou seja, a interpretação da história é que permitiria a construção do 
conhecimento. 
A filosofia clássica foi contestada por muitos autores, que sugeriram 
grandes mudanças de pensamento, tais como Marx, Heidegger, Habermas. Em 
virtude destas perspectivas diferenciadas, a metafísica perdeu sua legitimidade. 
E é neste contexto que Gadamer insere o modo de interpretação hermenêutico, 
constituído pelo entendimento de que as interpretações são teóricas, mas possuem 
uma aplicação direta na vida prática. 
134
UNIDADE 2 |CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS: FUNDAMENTOS DA ANÁLISE SOCIAL
É claro que na hermenêutica filosófica de Gadamer aparece a temática da 
finitude, a temática da historicidade. Mas o conceito central de Verdade 
e Método é a expressão da experiência. O problema na experiência é 
desenvolvido de várias maneiras, mas sempre dando ao conceito de 
experiência uma amplitude que substitui de certo modo aquilo que 
no universo lógico-semântico se chamaria o processo dedutivo. A 
experiência é justamente a expressão com que Gadamer procura nos 
sugerir que temos uma possibilidade de representação ou de descrição 
de uma totalidade, e essa totalidade é totalidade da experiência de 
mundo. Há, portanto, um universo fundamental do ser humano que 
pode ser descrito por essa experiência (STEIN, 2004, p. 74). 
Toda a compreensão possui uma aplicação na hermenêutica, mesmo quem 
está compreendendo está dentro do sentido do que está sendo compreendido. Ele 
é parte do objeto que está buscando compreender. 
As teorias hermenêuticas buscam formular um método de trabalho para 
as ciências humanas, pois pela análise da compreensão seria possível repensar 
o que o autor de uma ação viveu ao se expressar. A complexidade de elementos 
do discurso pode ser apreendida por meio de uma interpretação do cientista, 
considerando elementos da realidade na qual foi emitido o discurso.
Assim, a linguagem seria um elemento fundamental, pois ela é o meio 
pelo qual as partes ganham um sentido e constituem o todo. E a interpretação 
desta linguagem permitiria que se estabelecesse um sentido verdadeiro para a 
interpretação, evitando dados incorretos.
Por isso, a perspectiva hermenêutica também está muito presente na área 
das ciências jurídicas, quando as interpretações de juízes irão ter implicações 
práticas na vida humana, e são baseadas em análises e interpretações da 
linguagem, a partir dos argumentos que lhes forem apresentados. 
FIGURA 34 – PENSADORES DA HERMENÊUTICA: DILTHEY (A) E HABERMAS (B)
FONTE: A- Disponível em: <http://www.tumblr.com/tagged/wilhelm%20dilthey>. 
Acesso em: 29 maio 2013. B- Disponível em: <http://dennisnguyen2010.wordpress.
com/2011/05/20/jurgen-habermas-a-few-reliable-online-resources/>. Acesso em: 
29 maio 2013.
A B
TÓPICO 3 | CORRENTES EPISTEMOLÓGICAS E SUA PRESENÇA NAS CIÊNCIAS SOCIAIS
135
Todas as análises precedentes levam a recusar à sociologia um estatuto 
epistemológico de exceção. No entanto, pelo fato de que a fronteira entre os 
saberes comuns e a ciência é, em sociologia, mais imprecisa do que em outros 
campos, impõe-se, com uma urgência particular, a necessidade da ruptura 
epistemológica. Como o erro é indissociável das condições sociais que o tornam 
possível e, por vezes, inevitável, seria necessário confessar uma fé ingênua nas 
virtudes da pregação epistemológica para evitar interrogar-se sobre as condições 
sociais que tornariam possível ou, até mesmo, inevitável, a ruptura com a 
sociologia espontânea e a ideologia, e transformariam a vigilância epistemológica 
em uma instituição do campo sociológico.
Não é um acaso que Bachelard utiliza a linguagem do sociólogo para 
descrever a interpenetração do mundo erudito com seu público mundano, que 
é a característica da física do século XVIII. O sociólogo da sociologia não teria 
dificuldade em encontrar o equivalente desses jogos da alta sociedade que deram 
lugar, em outra época, às curiosidades da física: a psicanálise, a etnologia e, até 
mesmo, a sociologia têm igualmente, no nosso tempo, seus “beijos elétricos”. 
É na sociologia do conhecimento sociológico que o sociólogo pode encontrar 
o instrumento que permite dar sua força plena e sua forma específica à crítica 
epistemológica, tratando-se mais de colocar em evidência os pressupostos 
inconscientes e as petições de princípio de uma tradição teórica, do que colocar 
em questão os princípios de uma teoria constituída. 
Se, em sociologia, o empirismo ocupa, aqui e agora, o topo da hierarquia 
dos perigos epistemológicos, tal situação não se deve somente à natureza 
particular do objeto sociológico como sujeito que propõe a interpretação verbal 
de suas próprias condutas, mas também às condições históricas e sociais em 
que se realiza a prática sociológica. É necessário, portanto, evitar atribuir uma 
realidade trans-histórica à estrutura do campo epistemológico como espectro de 
posições filosóficas opostas por pares, na medida em que, entre outras razões, as 
diferentes ciências surgidas, em datas e condições históricas e sociais diferentes, 
não percorrem, segundo uma ordem preestabelecida, as mesmas etapas da 
história da razão epistemológica.
FONTE: BOURDIEU, Pierre; CHAMBOREDON, Jean-Claude; PASSERON, Jean-Claude. Ofício 
de sociólogo: metodologia da pesquisa na sociologia. Tradução: Guilherme João de Freitas 
Teixeira. Rio de Janeiro: Vozes, 2004. p. 87-88. 
LEITURA COMPLEMENTAR
Paul Ricoeur também foi um teórico que se envolveu com as análises sobre 
a hermenêutica, em sua vertente francesa. Sugiro o livro “A hermenêutica francesa: Paul 
Ricoeur” (Organização de Constança Marcondes Cesar, Porto Alegre: EDIPUCRS, 2002), 
para que aprenda um pouco mais sobre este autor!
DICAS
136
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tópico você viu:
• O racionalismo entende que a razão humana possui a capacidade única de 
conhecer e determinar verdades. Apenas a razão humana é que possui condições 
de chegar ao conhecimento, independente de sensação e de sentimentos.
• Para Descartes, é a razão humana que permite ao ser humano a capacidade 
de emitir julgamentos sobre a realidade, determinando e diferenciando o 
verdadeiro do falso. Basta que ele siga um método para fazer bom uso da 
razão e aproveitar a ciência para buscar a verdade. 
• O empirismo é uma corrente epistemológica que compreende a elaboração do 
conhecimento como fruto das experiências e da observação, ou seja, aquilo que 
é empírico.
• Para os empiristas, as teorias não bastam, é preciso que haja experiência para 
comprovação de verdades, e aí reside a principal diferenciação com relação ao 
racionalismo, que defende a razão como fonte da verdade.
• Em se tratando de sua dimensão filosófica, o positivismo defende a ciência 
como a única explicação para os fenômenos que correspondem à realidade 
(superioridade da ciência). A dimensão sociológica diz respeito ao 
entendimento de como deve ser e como ocorre o uso do método científico na 
sociologia, ou seja, utilizando os mesmos métodos das ciências naturais.
• O positivismo defende que a humanidade passa por um processo de evolução 
que ocorre em três fases, que são: estado teológico, estado metafísico e estado 
positivo. Estas fases correspondem ao progresso do conhecimento e em cada 
uma delas o homem possui uma forma diferente de explicar a realidade.
• A dialética é o modo de pensarmos as contradições da realidade, o modo 
de compreendermos a realidade como essencialmente contraditória e em 
permanente transformação (KONDER, 1994).
• Hegel afirmava que todo ser, qualquer que seja, passa por três momentos 
fundamentais, que são: tese (momento da afirmação); antítese (momento da 
negação); síntese (momento da negação da negação).
• As teorias hermenêuticas buscam formular um método de trabalho para as 
ciências humanas, pois pela análise da compreensão seria possível repensar o 
que o autor de uma ação viveu ao se expressar, a complexidade de elementos 
do discurso pode ser apreendida por meio de uma interpretação do cientista, 
considerando elementos da realidade na qual foi emitido o discurso.
137
AUTOATIVIDADE
Neste tópico você estudou definições e características de correntes 
epistemológicas de grande influência no pensamento acerca da elaboração 
do conhecimento pela humanidade. Assim, para exercitar estas informações, 
indique abaixo a definição de cada uma das seguintes correntes: 
a) Racionalismo: 
b) Empirismo: 
c) Positivismo: 
d) Dialética: 
e) Hermenêutica:
138
139
UNIDADE 3
SABERES SOCIOLÓGICOS: 
CRÍTICA DAS REFLEXÕES 
EPISTEMOLÓGICASOBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
PLANO DE ESTUDOS
A partir desta unidade você será capaz de:
• situar a Sociologia como área de conhecimento científico e seus fundamen-
tos diante das análises epistemológicas;
• identificar paradigmas epistemológicos emergentes e paradigmas já con-
solidados, indicando suas características;
• apresentar novos objetos de análise da Sociologia, definidos a partir dos 
paradigmas epistemológicos contemporâneos.
Esta unidade está dividida em três tópicos e em cada um deles você encontra-
rá atividades visando à compreensão dos conteúdos apresentados.
TÓPICO 1 – O SABER SOCIOLÓGICO
TÓPICO 2 – NOVAS BASES EPISTEMOLÓGICAS
TÓPICO 3 – NOVOS PARADIGMAS EPISTEMOLÓGICOS X NOVOS
OBJETOS DE ANÁLISE
140
141
TÓPICO 1
O SABER SOCIOLÓGICO
UNIDADE 3
1 INTRODUÇÃO
Esta é a última unidade deste Caderno de Estudos, e nela estudaremos 
perspectivas contemporâneas sobre a área das Ciências Sociais, com foco 
nos saberes e análises sociológicas, relacionando-as com os paradigmas 
epistemológicos.
A epistemologia não é estática, ela modifica-se conforme a ciência se 
desenvolve, portanto, com os problemas modernos da ciência, temos também 
novos paradigmas epistemológicos, novas formas de compreender a realidade e 
de legitimar este conhecimento.
Assim, no primeiro tópico, nós começaremos a visualizar e entender o 
saber sociológico diante destas modificações dos paradigmas epistemológicos, 
reafirmando sua legitimidade e os argumentos que as permitem, conhecendo a 
força que o positivismo possui na sociologia, entendendo as perspectivas holísticas 
e individualistas e a relação do conhecimento científico com a sociologia.
No tópico 2, você verá como se constituem as novas bases para estes 
paradigmas epistemológicos contemporâneos, os argumentos que os definem. O 
primeiro será o pensamento global, depois o pensamento complexo, passando 
pelo comportamento significativo e finalizando com o falsificacionismo.
No último tópico, você irá compreender a relação existente entre estes 
novos paradigmas e a emergência de novos objetos de análise, ou modificação em 
objetos, que modificaram as fronteiras das Ciências Sociais. Entenderá as novas 
abordagens da função do Estado e trabalho; relações entre cultura e natureza; 
identidade; individualismo e solidariedade; fragmentação e totalidade.
Neste tópico inicial você estudará sobre o surgimento e a legitimidade 
da sociologia, reforçando aspectos que a permitem ser categorizada como 
ciência. Além disso, entenderá a força que a corrente positivista exerceu sobre 
esta ciência desde suas origens. Irá conhecer a diferença entre as perspectivas do 
holismo metodológico e do individualismo metodológico, além de relacionar o 
conhecimento científico com a sociologia.
Há muito que estudar e aprender, então, vamos começar? Boa leitura!
UNIDADE 3 | SABERES SOCIOLÓGICOS: CRÍTICA DAS REFLEXÕES EPISTEMOLÓGICAS
142
2 SURGIMENTO E LEGITIMIDADE DA SOCIOLOGIA
A Sociologia como ciência passa a ser objeto de estudos epistemológicos 
e, como tal, deve buscar o autoconhecimento, ainda que este seja difícil de ser 
atingido, por ser o homem sujeito e objeto desta ciência. Este é o argumento mais 
comum e mais difundido no que diz respeito à necessidade da Sociologia de 
olhar para si.
Neste caminho, a Sociologia passou por diferentes argumentos, buscando 
atingir critérios sociais de cientificidade e discutindo seus pressupostos 
epistemológicos. Isto, sobretudo para diferenciar-se das Ciências Naturais, em 
virtude de suas experimentações e descobertas de leis naturais. 
Hegenberg (1965) indica duas razões que dificultam a descoberta e 
descrição de leis gerais da sociedade, que seriam capazes de auxiliar na realização 
de predições seguras e nas explicações mais sistematizadas. Estas mesmas 
razões continuam a ser discutidas nas Ciências Sociais, sobretudo na Sociologia, 
portanto, vamos retomar seus argumentos.
Ele menciona dois grupos de razões: as relativas à experimentação 
precária e às relativas à complexidade de fatores.
Um experimento é aceito como tal quando é possível controlar as variáveis 
que o envolvem, ou seja, certos elementos da situação que causam o fenômeno, 
ou que sejam relevantes para isto. As variáveis podem ser modificadas pelo 
experimentador, descobrindo assim as relações de dependência entre as variáveis 
e o fenômeno em questão.
Assim, um experimento que parta de uma problemática social muito 
raramente pode ter suas variáveis controladas, pois o cientista não possui o poder 
de introduzir modificações nos assuntos sociais que está investigando. 
Deste modo, questiona-se a importância dos experimentos científicos 
controlados na ciência, pois a astronomia, por exemplo, não deve suas grandes 
descobertas à manipulação de corpos celestes, e é uma das ciências consideradas 
mais fiel. 
A necessidade maior, portanto, não é de uma experimentação controlada, 
e sim de uma investigação controlada, ou seja, “deve existir uma deliberada 
atenção para a análise do fenômeno que se manifesta de modo mais ou menos 
uniforme em diversas ocasiões” (HEGENBERG, 1965, p. 127). Por este meio é 
possível observar os traços comuns e que possam ter relevância para o fenômeno 
quando se manifestam.
Além disso, Hegenberg (1965, p. 128) comenta também que é possível 
realizar certos experimentos dentro da Sociologia, conforme explica:
TÓPICO 1 | O SABER SOCIOLÓGICO
143
Há que lembrar que já se tem criado “situações de laboratório” muito 
parecidas com as que existem nas ciências físicas. Consistem em 
construir uma situação artificial semelhante às “reais”, constatadas na 
vida social. A título de exemplo, recorde-se o estudo da influência que o 
conhecimento que se tenha da religião professada por um candidato a um 
posto executivo exerce no espírito dos eleitores. Para esse estudo foram 
criados certos “clubes” cujos membros não se conhecessem mutuamente. 
Em alguns, indicou-se a religião do candidato à presidência; em outros, 
essa informação foi omitida. A análise dos resultados revelou que grande 
parte dos eleitores se deixou influenciar pelo informe dado a respeito da 
religião dos futuros diretores, votando segundo preferências religiosas.
Sobre a complexidade dos fenômenos, pode-se afirmar que os problemas 
sociais são complexos, mas não tanto quanto os problemas físicos para os quais já 
existem leis obtidas. Nas ciências naturais já se chegou a terminologias precisas 
que podem indicar classes de objetos homogêneos, enquanto que na sociologia há 
um uso de termos baseados na linguagem cotidiana, em seus significados locais.
Não apenas por isso a Sociologia pode ser considerada complexa. Um 
dos aspectos mais levantados nesse sentido diz respeito à subjetividade das 
investigações sociais. Os objetivos e valores que impregnam a ação do indivíduo 
são difíceis de serem mensurados, pois não há procedimentos usuais para isso, ao 
mesmo tempo em que são determinantes para os resultados da pesquisa.
Outro aspecto está relacionado aos valores que os seres humanos prezam, 
pois se diz que o pesquisador deve se abster o quanto possível destes valores, a 
fim de não influenciar os resultados e análises obtidos.
Ora, essa objeção não tem o menor interesse, porque qualquer pessoa 
que se preocupe com um ramo do saber, estuda-o invocando motivos 
para estudá-lo que são perfeitamente análogos em qualquer setor de 
investigação. Em poucas palavras: em qualquer ciência o investigador 
se deixa guiar por seus interesses ao selecionar o seu assunto de 
especialização (HEGENBERG, 1965, p. 134).
O mais importante na questão dos valores é não permitir que a pesquisa 
se torne uma política para a ação, ou seja, ao mesmo tempo em que investiga, o 
estudioso defende e indica rumos sociais. Esta postura não está adequada com a 
imparcialidade que o cientista busca manter para não modificar seus resultados.
O conflito que permeia a Sociologia desde seus primórdios até os dias 
atuais, relacionado com a objetividade do campo de pesquisapara o sociólogo, 
estende-se na discussão sobre a inserção deste profissional em um campo do qual 
faz parte. Assume-se, então, a impossibilidade de se desenraizar completamente 
do campo social que será estudado, mas estimula-se o maior distanciamento 
possível. Este distanciamento é provocado pela reflexividade, pois é preciso que 
se deixem de lado concepções individuais e, ao mesmo tempo em que é preciso a 
aproximação ao objeto, é necessário se manter excluído da investigação.
Edgar Morin (1984), que voltará a este caderno no tópico sobre o 
pensamento complexo, indica alguns debates inerentes à Sociologia:
UNIDADE 3 | SABERES SOCIOLÓGICOS: CRÍTICA DAS REFLEXÕES EPISTEMOLÓGICAS
144
FONTE: Morin (1984, p. 42)
Todas estas discussões são operadas principalmente pelo campo da 
Sociologia do Conhecimento, que objetiva analisar e pesquisar sobre as condições 
de produção do conhecimento científico pela sociedade. Deste modo, ela analisa 
também os objetos e condições de produção da própria Sociologia.
A sociologia moderna tem de combater em várias frentes. Por um 
lado, luta para existir e para se fazer reconhecer como ciência exata. Esta 
luta é externa, pois é aos olhos das ciências mais antigas, aos olhos das 
instâncias e potências sociais que ela reivindica a existência científica por 
inteiro. Esta luta é igualmente interna, porque a atitude científica, ou seja, 
de generalização de métodos próprios das ciências exatas, deve afirmar-se 
contra hábitos, ou mesmo contra a tradição de uma sociologia reflexiva. 
Mas, por outro lado, a sociologia deve existir para ser uma ciência viva, quer 
dizer, fecunda e inventiva. Também nesta frente a sociologia tem de travar 
uma luta externa e interna: no exterior, a procura que emana de poderes 
administrativos públicos ou privados exige da sociologia que esta se limite 
a ser uma técnica que ajude a conhecer o fator humano dos problemas 
econômicos, ou uma técnica de informação para decisões das cúpulas; no 
interior, a desintegração do sistema individualista da sociologia reflexiva, 
os novos modos de organização do trabalho, a pressão das exigências 
exteriores, ameaçam não só a reflexão tradicional, mas também o princípio 
da reflexão fundamental.
A característica desta luta multifrontal que a sociologia trava por 
ser uma ciência viva consiste em pôr exigências, senão contraditórias, pelo 
menos dificilmente compatíveis. O perigo está em satisfazer apenas uma das 
exigências, em subestimar, isto é, em sacrificar a outra. O perigo está no fato 
de que parece criar-se uma polarização antinômica entre a exigência que 
se diria científica, por um lado, e a exigência que se diria de pensamento, 
por outro. É segundo esta dicotomia que se reacende periodicamente uma 
polêmica banal que opõe ora dois princípios sociológicos – os sociólogos 
de gabinete e os sociólogos de terreno –, ora dois níveis da sociologia – o 
da teoria e o da investigação –, ora duas concepções da investigação, cada 
uma das quais se pretende autêntica, repudiando numa o jogo verbal do 
ensaísmo pelo exercício metódico das regras de validação e, em outra, o 
cego cotejo dos fatos ou a verificação obstinada de hipóteses fúteis para o 
exame reflexivo do real.
Este debate não é absurdo, se pensarmos que se baseia na contradição 
real – mas superável pelo e no próprio progresso científico – entre as duas 
exigências: uma de estruturação científica, a outra de pensamento vivo.
TÓPICO 1 | O SABER SOCIOLÓGICO
145
3 A FORÇA DO POSITIVISMO
Nesta seção iremos retomar alguns pontos fundamentais do Positivismo, 
corrente epistemológica que compreende que a ciência passa por um processo de 
evolução. Já vimos os pressupostos fundamentais deste pensamento na Unidade 
2, mas agora iremos compreender porque ele é fundamental no entendimento 
das Ciências Sociais.
O positivismo influenciou de forma intensa principalmente o surgimento 
da Sociologia, e sabemos que as origens sempre possuem interferência em toda 
a constituição de uma ciência. Assim, é preciso retomar quais argumentos o 
pensamento positivista utiliza em favor das ciências sociais, a fim de esclarecer 
sua relação com a epistemologia (HOLLIS, 2002).
O fato de buscar a fundação de uma física social, posterior à Sociologia, 
já denota a utilização e aplicação de métodos científicos nos fenômenos sociais 
por Comte. Assim, sua perspectiva positivista já começa a influenciar desde este 
primeiro momento.
Deve notar-se, todavia, que se deve a Comte o primeiro tratamento 
da sociologia como ciência, não no sentido em que manda generalizar 
às ciências sociais os métodos e princípios das ciências naturais, 
mas porque foi ele que iniciou o estudo dos fenômenos sociais com 
base nas técnicas de observação, experimentação e comparação, 
a fim de formular hipóteses capazes de transformarem-se em 
leis de desenvolvimento social, assim como enunciou princípios 
fundamentais à teoria sociológica, tais como o que manda considerar 
a sociedade como um sistema, para distinguir o todo das partes e o 
aspecto estático do dinâmico, ou o que leva a tomar as unidades sociais 
como entidades abstratas, e não como concretas ou meras somas de 
realidade psíquicas (SOUSA, 1978, p. 111).
Comte, ao trazer a ideia de que o conhecimento científico não depende 
apenas de observação dos fatos, mas também da existência de uma teoria prévia, 
defende a natureza fisiológica dos fenômenos sociais, associada à sua definição 
teórica de categorias institucionais (HOLLIS, 2002).
Ele defendeu a superioridade do social sobre o organismo individual, pois 
cada sistema social deveria ser composto por elementos de natureza similar, ou 
seja, com funções semelhantes no organismo social. Assim, a ciência não poderia 
entender a sociedade como composta por indivíduos, e sim como unidades, 
instituições. Considerar-se-ia, para fins de análise, a família, e não os casais, por 
exemplo.
A busca por uma ciência social que utilize os métodos científicos para 
produzir conhecimento acerca dos fenômenos sociais relaciona-se com sua 
compreensão de ciência. Para o positivismo, o conhecimento somente é real 
e preciso quando é científico, quando o homem atinge a ordem da natureza e 
poderá utilizá-la em seu benefício (HOLLIS, 2002).
UNIDADE 3 | SABERES SOCIOLÓGICOS: CRÍTICA DAS REFLEXÕES EPISTEMOLÓGICAS
146
Nesta perspectiva, o conhecimento científico seria real porque “o 
conhecimento científico parte do real, parte dos fatos tal como se apresentam e 
que, de resto, apresentam-se ao homem tal como são” (ANDERY; SÉRIO, 2000, 
p. 381).
Comte, entretanto, não supõe que a mera acumulação de fatos leve à 
ciência e, fazendo o que acredita ser uma crítica ao empirismo, assume 
que os fatos acumulados, que são a base e a origem do conhecimento, 
só se transformam em conhecimento científico porque o homem os 
relaciona a hipóteses, por meio do raciocínio. Assim, para ele, os fatos 
são acumulados pela observação, mas essa observação é submetida à 
imaginação que permite relacionar tais fatos; relacioná-los para que 
se estabeleçam as leis gerais e invariáveis a que esses são submetidos 
(ANDERY; SÉRIO, 2000, p. 380).
Assim, o positivismo defende que a ciência deve observar os fatos e as 
relações entre eles, estabelecendo teorias a partir do raciocínio. Mas o objetivo 
não deve ser a descoberta da origem, ou da causa oculta dos fenômenos, e sim a 
descoberta das leis que os regem. Estas leis seriam invariáveis e traduzem o que 
ocorre nos fenômenos.
O composto destas leis seria a constituição do conhecimento científico. 
Esta mesma situação se enquadraria quando o objeto fosse das Ciências Sociais. 
As leis naturais seriam descobertas por meio de métodos específicos destas 
ciências, enquanto que as leis sociais seriam encontradas por meio da aplicação 
dos mesmos métodos, das ciências naturais.
O conhecimento científico positivo apresentaria, portanto, duas 
características: é um conhecimento sempre certo, não admitindo conjecturas, e 
é um conhecimento que possuium grau de precisão, que varia de ciência para 
ciência, conforme o objeto de estudo (ANDERY; SÉRIO, 2000).
Ainda assim, porém, admite-se que o conhecimento pode ser relativo, 
pois os homens só conseguem alcançá-lo na medida em que suas possibilidades 
o permitem, já que são limitados pelos seus sentidos. 
Na perspectiva positivista, entende-se a natureza como composta por uma 
ordem baseada em fenômenos ordenados de forma imutável, e cabe à ciência 
descrever esta ordem. 
Entretanto, Comte supõe graus de possibilidades diferentes de 
o homem intervir nessa natureza rigidamente ordenada. Essa 
possibilidade é maior em relação aos fenômenos referentes à existência 
do homem (individual ou coletiva) e menor em relação aos fenômenos 
não diretamente vinculados à existência humana, chegando a zero na 
astronomia, que diz respeito aos fenômenos mais gerais da natureza 
e, também, mais distantes do homem (ANDERY; SÉRIO, 2000, p. 385).
Mas, independente da capacidade de intervir na natureza, ou da 
TÓPICO 1 | O SABER SOCIOLÓGICO
147
possibilidade de ordenar fenômenos conforme seus objetos de estudo, segundo 
o entendimento positivista, as diversas ciências devem utilizar o mesmo método.
E este é o argumento que mais influenciou a consolidação das Ciências 
Sociais. Na atualidade, os paradigmas epistemológicos compreendem que estas 
ciências possuem especificidades em comparação às ciências naturais, o que 
permite que os objetos também sejam tratados de forma mais específica. No 
entanto, em seus primórdios, a busca pela utilização do método das Ciências 
Naturais foi um dos principais focos iniciais, e motivo de debates epistemológicos.
A relação lógica entre as ciências, segundo Comte, ajuda-nos a entender 
sua formação progressiva como disciplinas distintas na evolução 
intelectual da humanidade. As ciências que se desenvolvem primeiro – 
matemática e depois física – são aquelas que lidam com as leis mais gerais 
da natureza, as que regem os fenômenos mais afastados do envolvimento 
e do controle humano. A partir daí, a ciência introduz-se de forma cada 
vez mais direta na humanidade e acaba por criar em física social uma 
ciência da própria conduta humana (GIDDENS, 2001, p. 219).
Esta defesa do método único também não quer dizer que os mesmos 
procedimentos de investigação devessem ser utilizados, pois procedimentos 
específicos eram aceitos conforme a natureza do objeto. Mas a filosofia positiva 
deveria ser aplicada a todas as ciências, ou seja, a busca deveria estar centrada em 
descobrir as leis gerais dos fenômenos.
A descrição destas leis poderia levar a fatos e raciocínios que permitiriam 
a relação entre as leis, participando da elaboração de um conhecimento único, 
real, concreto e útil, ou seja, um conhecimento positivo, organizando aquilo que 
é relativo.
Neste ínterim surgiu a chamada física social, a ciência que a partir dos 
mesmos métodos de todas as outras, deveria se ocupar da explicação da sociedade. 
Com isto, o positivismo traz também propostas para a própria sociedade, já que esta 
era entendida como possuidora de leis imutáveis independentes e alheias à vontade 
dos indivíduos e grupos (ANDERY; SÉRIO, 2000).
Comte faz, também, uma distinção entre o indivíduo e o coletivo. 
Caracteriza o homem como ser inteligente e dotado de sociabilidade (o 
que o diferencia dos animais) e reivindica para o coletivo, para o grupo 
social, uma superioridade perante o indivíduo. É dessa concepção 
que decorre sua noção de que os homens, enquanto indivíduos numa 
sociedade, existem como substitutos efêmeros de outros indivíduos 
e que, como tal, têm importância, apenas, como perpetuadores da 
espécie. É esse caráter, o de um grupo constantemente modificado 
pela substituição de indivíduos particulares, mas que se perpetua 
e permanece essencialmente o mesmo (apesar dos indivíduos 
particulares) por garantir a sobrevivência da espécie e por submeter-
se às mesmas leis naturais, que garante, de um lado, a superioridade 
do coletivo sobre o individual, e de outro lado, ainda, a noção de 
que os objetivos a serem alcançados pela sociedade são os objetivos 
relevantes ao grupo e não ao indivíduo. Ademais, isto leva à noção de 
que, no verdadeiro espírito positivo, a felicidade individual é obtida 
pela felicidade do grupo (ANDERY; SÉRIO, 2000, p. 389).
UNIDADE 3 | SABERES SOCIOLÓGICOS: CRÍTICA DAS REFLEXÕES EPISTEMOLÓGICAS
148
Nota-se, nesta citação, o quanto a sociedade é a estrutura que define o 
comportamento individual, exercendo pressão para que este comportamento 
esteja de acordo com as regras coletivas. Isto é fruto do entendimento biológico 
da sociologia, no qual a sociedade é um organismo, com partes diferenciadas, 
mas solidárias, pois estão orientadas com relação à manutenção do conjunto. 
Existem as funções especiais, cada parte do organismo com suas 
necessidades específicas, mas que se subordinam a um poder superior, que neste 
caso é a própria sociedade, como estrutura externa aos desejos individuais.
O entendimento acerca das modificações sociais também segue esta 
linha de raciocínio, baseada em argumentos biológicos. Para os positivistas, a 
sociedade não possui um ritmo de evolução revolucionário, pois, assim como os 
organismos, não consegue mudar bruscamente. Deste modo, entende a sociedade 
como um todo harmônico, cujas mudanças possuem um ritmo gradativo.
Quanto às análises desta estrutura social a serem realizadas no âmbito das 
Ciências Sociais, conforme Comte (apud RIBEIRO JUNIOR, 1991), elas devem ser 
divididas em:
- Estática social: é o estudo da ordem social, do consenso (solidariedade) ou do 
organismo com suas relações com as condições de existência.
- Dinâmica social: estudo da evolução da sociedade. Determina o progresso 
social da humanidade.
O progresso social, entendido desta forma, estaria baseado na 
especialização das funções dentro do organismo social, sendo condicionado pelos 
concomitantes biológicos dos indivíduos. Cada aperfeiçoamento na evolução dos 
órgãos particulares promoveria o progresso do organismo.
Comte e suas teorias positivistas possuíam grande fé na ciência, e 
defendiam que ela era a forma de conhecer a realidade e de realizar intervenções, 
a favor do conforto humano. Nota-se na análise a seguir este otimismo:
Não seria correto relacionar Comte entre os filósofos mais francamente 
otimistas quanto ao progresso no século XIX: esse autor revelou-
se muito preocupado com a possibilidade de “anarquia moral”. 
Entretanto, o curso representa uma declaração monumental de fé 
na ciência, em cada um destes vários aspectos: apresentação de uma 
filosofia moral que suplantaria a do feudalismo sem causar a completa 
dissolução da ordem moral; fornecimentos dos únicos critérios 
possíveis para obtenção da verdade, que, comparados aos da religião 
e da metafísica, os fazem parecer meros blefes; e apresentação do 
meio exclusivo, na forma de ciência social, para os seres humanos 
compreenderem as condições da própria existência e exercerem 
controle racional sobre elas (GIDDENS, 2001, p. 225).
Assim, o positivismo influenciou a Sociologia desde seus primeiros passos, 
e ainda hoje é uma perspectiva de análise discutida, quer pelos seus preceitos 
organicistas, quer pela busca incessante pelas leis naturais e sociais, ou mesmo 
pela defesa de uma evolução social.
TÓPICO 1 | O SABER SOCIOLÓGICO
149
4 HOLISMO E INDIVIDUALISMO
Para compreender a diferenciação entre o holismo metodológico e o 
individualismo metodológico é preciso que se compreenda inicialmente o 
que podemos chamar de totalidade e o que são as partes, os componentes da 
totalidade. Para isso, vamos nos apropriar do exemplo citado por Seifert (2007) 
acerca de um time de futebol e dos profissionais desta área:
FIGURA 35 – CHARGE “TIME DE FUTEBOL”
FONTE: Disponível em: <http://novacharges.wordpress.com/2008/09/>. Acesso em: 15 jun. 2013.
Considere um time de futebol: é, sem dúvida, uma totalidade, e nos 
referimos a ele como se fosse um indivíduo, algo único,diferente de outros 
times, com tais e tais características. Por outro lado, é composto de outras 
partes que, por sua vez, também são totalidades e, portanto, unidades: os 
jogadores, os técnicos, os médicos etc. Cada um desses é uma totalidade com 
partes: mãos, pés, cabeças etc. Ao refletirmos sobre isso, percebemos que há 
similaridades entre os dois tipos, mas também diferenças importantes que 
afetam a ideia de totalidade em cada caso. No primeiro, a destruição do todo 
não acarreta a destruição das partes, mas no segundo caso sim. Morrendo 
um jogador, as suas partes não somente perdem suas funções, que tinham 
no todo, como deixam de ser. Fechado um clube, os jogadores perdem as 
funções que ali tinham, as quais estavam definidas na estrutura daquela 
organização, mas continuam a ser. Assim, a interação e interdependência 
entre partes e a totalidade diferem conforme o tipo de objeto que estamos 
considerando (SEIFERT, 2007, p. 77).
Para ampliar seu entendimento sobre a força do pensamento positivista, leia 
o artigo de Ana Rute Pinto Brandão, intitulado “A postura do Positivismo com relação às 
Ciências Humanas”. Disponível em: <http://www.theoria.com.br/edicao0611/a_postura_
do_positivismo.pdf>. Acesso em: 15 jun. 2013.
DICAS
UNIDADE 3 | SABERES SOCIOLÓGICOS: CRÍTICA DAS REFLEXÕES EPISTEMOLÓGICAS
150
Uma sociedade também é uma totalidade e uma unidade. Assim, a 
concepção que compreende a sociedade como um organismo anterior aos seus 
indivíduos, não sendo apenas a soma de seus membros, é a concepção holística. Já 
a concepção que defende que a sociedade não é independente de seus membros, 
dos indivíduos que a formam, é a concepção individualista. Vamos estudar estas 
duas formas de pensamento?
• HOLISMO METODOLÓGICO
O holismo é uma perspectiva que busca definir um método para as 
Ciências Sociais, especialmente para a Antropologia, no qual as análises de um 
fenômeno individual, particular, devem ser baseadas sempre como um conjunto 
de ações do coletivo, ou seja, de atitudes e crenças coletivas. 
O indivíduo, neste método, é desvalorizado em sua dimensão racional, 
pois ele passa a ser muito mais que um simples elemento de uma estrutura social, 
que determina suas ações, do que um participante ativo, que também movimenta 
e modifica estruturas.
O holismo também busca combater o reducionismo, pois como defende 
uma perspectiva do todo, não se contenta com a redução e fragmentação deste 
todo em partes reduzidas.
O reducionismo científico consiste em uma crença segundo a qual a 
realidade última pode apenas ser descoberta pelos métodos científicos, 
mais especialmente trata-se de uma teoria segundo a qual qualquer 
conceito científico pode ser reduzido a conceitos irredutíveis ligados 
às unidades elementares de natureza física; ela procede através de 
uma análise cada vez mais impelida dos fragmentos da realidade a 
partir do conjunto; isto provoca uma perda progressiva da informação 
sobre o conjunto e um ganho de informação sobre os detalhes. A reação 
holística consiste em tentar uma recuperação da informação perdida 
por esta visão fragmentária (WEIL, 1987, p. 55).
A concepção holística de sociedade é organicista, pois considera que os 
integrantes adquirem sentido e propósito a partir do cumprimento de papéis 
sociais. “Não apenas a sociedade é mais do que a soma dos indivíduos e de suas 
relações puramente pessoais, mas os indivíduos são na medida em que integram 
uma sociedade” (SEIFERT, 2007, p.78).
Assim, a sociedade é uma totalidade anterior ao indivíduo, que existe 
independentemente de suas partes. Além disso, o ser humano só se constitui 
como humano a partir da participação na sociedade, uma explicação do que 
realmente elas são.
Esta perspectiva de análise social adquiriu expressão a partir do filósofo 
Hegel, que defende que o indivíduo pode alcançar a liberdade, desde que atinja 
a autoconsciência, e seja parte de uma sociedade organizada de forma racional 
(SEIFERT, 2007).
TÓPICO 1 | O SABER SOCIOLÓGICO
151
Assim, a sociedade existe por si própria, como se fosse um indivíduo, e 
não uma pluralidade deles. Desta forma, as Ciências Sociais não poderiam adotar 
métodos de análise das Ciências Naturais, sobretudo da Física, pois eles foram 
feitos para lidar com coisas estáticas.
 
Para compreender qualquer aspecto que se esteja investigando em 
uma sociedade, é preciso ter como referência a história, as instituições, 
os regulamentos, os ritos que sejam próprios dela. Métodos 
interpretativos devem ser aplicados, que, por assim dizer, partam 
de dentro; observação externa e controlada, como aquela feita com 
fenômenos naturais, conduz a teorias inadequadas. Ao aplicar, então, 
a concepção holística de sociedade à determinação dos métodos pelos 
quais se pode estudá-la cientificamente, temos o holismo metodológico 
(SEIFERT, 2007, p. 79).
Mas o fato de que a sociedade seja algo além de seus indivíduos e das 
relações entre eles causa um problema de análises: não permite extrair disso que 
ela é independente das partes que a formam. Ela pode ser embutida, não existe 
sem eles, mas não é anterior a eles. 
“Na medida em que a sociedade é uma totalidade, e reconheçamos ter ela 
características e propriedades que nenhum dos indivíduos que a integram, ou 
mesmo a soma deles, tem, não é necessário considerarmos a sociedade anterior 
ou independente dos indivíduos que a compõem” (SEIFERT, 2007, p. 89).
No caso das ciências sociais teríamos mais um problema, pois considerando 
esta perspectiva de sociedade, estas ciências deveriam estudar o todo social, ou 
seja, a totalidade. Mas isto seria impossível, porque:
Mesmo admitindo que tal perspectiva holística não possa ser 
empreendida de imediato, mas deve ser construída por meio de uma 
reflexão cuidadosa (comparando e combinando os elementos), até 
alcançar a posição do todo, isso seria impossível. Não apenas porque 
a tarefa estaria além de nossas capacidades, mas porque ela seria 
infinita; cada conjunto de relações comparado e combinado introduz 
um novo evento social, a saber, essa reflexão feita, digamos, por um 
sociólogo (SEIFERT, 2007, p. 90).
O sociólogo não consegue sair da sociedade enquanto ela acontece para 
realizar análises, assim, os holistas poderiam compreender apenas as sociedades 
às quais não pertencessem, esbarrando na dificuldade dos relatos selecionados 
por aqueles que participariam da sociedade a ser estudada.
Aproveite para retomar, no Tópico 3 da Unidade 2 deste Caderno de Estudos, a 
biografia de Hegel.
NOTA
UNIDADE 3 | SABERES SOCIOLÓGICOS: CRÍTICA DAS REFLEXÕES EPISTEMOLÓGICAS
152
• INDIVIDUALISMO METODOLÓGICO
Para o individualismo metodológico, o indivíduo teria em dois aspectos 
precedência sobre a sociedade (SEIFERT, 2007).
Primeiro, a sociedade é formada pelos indivíduos e pelas relações que 
estes mantêm entre si, ou seja, ela é posterior ao indivíduo. Ela é criada após o 
indivíduo e mais, criada por eles, não apenas tornado concreta. 
Segundo, as explicações acerca dos fenômenos sociais devem ser reduzidas 
a explicações sobre os comportamentos individuais e suas consequências. A 
metodologia das ciências sociais consiste em mostrar como os fenômenos sociais 
são resultantes de ações individuais, que serão explicadas conforme as intenções 
do agente.
Um autor representante desta forma de pensar os métodos das Ciências 
Sociais é Max Weber. Ele defendeu o individualismo metodológico como 
metodologia adequada para esta área de conhecimento.
A abordagem de Weber (apud SEIFERT, 2007) indica que os fenômenos 
sociais devem ser explicados a partir de ações sociais que são efetivadas por 
indivíduos. Assim, esta redução do nível macro ao nível micro já foi um suposto 
para o entendimento da sociedade, realizado por meio de metodologia científica. 
“Se alguém pretende explicar, por exemplo, os atos e práticas de empresas 
multinacionais, deve prestar atenção às intenções e propósitos daqueles indivíduos 
que as controlam e determinam as decisões” (SEIFERT, 2007,p. 81). Isto, mesmo 
que seja comum a referência à finalidade de instituições empresariais, mas elas 
apenas existem pelas características das pessoas que compõem o quadro efetivo 
da empresa. 
Nos tópicos iniciais do Caderno de Estudos da disciplina de História da Sociologia 
há mais informações e conteúdos sobre Max Weber e suas ideias sobre a metodologia 
adequada para as Ciências Sociais. Vale a pena retomar!
ESTUDOS FU
TUROS
É preciso distinguir entre indivíduos reais e indivíduos tipológicos. 
Os primeiros são pessoas realmente existentes; os segundos são modelos 
para comportamento individual, e isto diz respeito a um papel social. 
De qualquer maneira, o preenchimento desse papel social será sempre 
executado por um indivíduo real, e se o papel demanda certas finalidades e 
TÓPICO 1 | O SABER SOCIOLÓGICO
153
Assim, o suposto básico do individualismo metodológico é a prioridade 
do indivíduo. A vida social se constitui a partir da ação do indivíduo, e explicar 
as instituições e fenômenos sociais nada mais seria do que mostrar sua relação e 
como são resultado das ações e interações de indivíduos (SEIFERT, 2007).
5 A CIÊNCIA E A SOCIOLOGIA
Segue muito difundida no campo científico a ideia de que o verdadeiro 
conhecimento só é obtido por meio de sistematização de leis e regularidades, 
desenvolvendo assim perspectivas que entendem a realidade de forma linear, 
cumulativa e perseguindo etapas evolutivas.
O ato de conhecer, diante destas ideias, seria composto pela centralização 
das investigações em um fragmento de um evento, dividindo o todo em partes 
para realizar análises. Esta divisão permitiria a busca de dados, procurando 
estabelecer regularidades e características dos fenômenos, que permitem verificar 
tendências gerais.
Para isso, as variáveis que poderão interferir nos resultados finais devem 
ser manipuladas, controlando os riscos para que os resultados obtidos tenham 
intenções, o indivíduo que o ocupa deve torná-las suas. Caso não o faça, há 
risco de alienação ou ruptura.
Também não significa que aquilo que se atribui a entes sociais 
é idêntico ao que se atribui a entes individuais. Isso não faria sentido. Se 
considerarmos, por exemplo, que propriedades de certos entes sociais não são 
elas necessariamente a soma aritmética simples de uma mesma propriedade 
nos indivíduos que a compõem. Por exemplo, se é correto atribuir riqueza 
à Igreja Católica, sua riqueza não está na soma das riquezas de cada um de 
seus fiéis; mas que esta riqueza provém deles. Semelhantemente, quando 
considerarmos as ações sociais tais como elas são executadas por meio de 
coletividades sociais, como governos, empresas, igrejas, a maneira como tais 
instituições são organizadas pode ser um elemento constitutivo do significado 
da ação individual (SEIFERT, 2007, p. 81).
Veja o artigo “Sobre o individualismo metodológico no pensamento social”, 
de Lúcio Alves de Barros. 2008. Disponível em: <http://www.recantodasletras.com.br/
trabalhosacademicos/798988>. Acesso em: 15 jun. 2013.
DICAS
UNIDADE 3 | SABERES SOCIOLÓGICOS: CRÍTICA DAS REFLEXÕES EPISTEMOLÓGICAS
154
legitimidade e reconhecimento social, muitas vezes constituindo-se em verdades 
(BLASS, 2009).
Estas análises reducionistas apresentam resultados como válidos para 
a explicação de uma complexa realidade ao seu redor, entendendo-se que ao 
conhecer uma parcela é possível pressupor o funcionamento do todo. O mesmo 
pode ocorrer com as Ciências Sociais, quando concepções reducionistas e 
deterministas são adotadas nas análises sobre as relações sociais.
“Está em jogo, portanto, uma visão de mundo informada pela 
fragmentação do conhecimento, a partir da qual são claramente traçadas as 
fronteiras imaginadas entre saberes e fazeres científicos e os considerados não 
científicos” (BLASS, 2009, p. 190).
Desde o início da era moderna, a ciência se impôs como a via mais 
eficaz de acesso à realidade, à verdade e à natureza. Sua concepção do 
ato do conhecimento, que ainda hoje impera, no entanto, baseia-se na 
separação entre o sujeito do conhecimento e seu objeto. Assim, temos 
inculcado em nossa própria representação desse ato que seu produto, 
a ideia, o pensamento, o conhecimento, seja algo “imaterial”, abstrato, 
referido a algo que é concreto, natural (MALERBA, 2011, p. 199).
Nesta perspectiva, surgem as propostas de estudos transversais diante 
da pluralidade e da diversidade das práticas sociais, numa tentativa de superar a 
fragmentação disciplinar. Para contemplar as diferentes dimensões de um objeto, 
por exemplo, alguns autores sugerem a perspectiva interdisciplinar.
Além destas propostas, surgem novas tentativas de pensar a realidade, 
formas de conhecimento que inserem variáveis diferenciadas nas Ciências Sociais, 
como o tempo e o espaço. O investigador não deverá mais ter como preocupação 
principal sua neutralidade e objetividade no processo, e sim, partir de uma nova 
relação entre investigadores e investigação.
Quando o modo de produção capitalista apresenta dimensões 
planetárias, ficam mais evidentes as múltiplas formas de conhecimento 
consideradas, até então, não modernas e/ou tradicionais. O cenário 
histórico contemporâneo caracteriza-se, portanto, por saberes 
heterogêneos e epistemologias plurais, nas quais se incluem os 
fazeres e saberes fundados nos pressupostos da ciência moderna. 
Essa constelação de saberes já mostra, por si só, que todas as formas 
de conhecimento são incompletas e provisórias, isto é, pautam-se no 
“por enquanto”, inclusive a ciência moderna. As ideias, as maneiras de 
pensar, agir e sentir individuais e coletivas, as palavras cujos sentidos 
são compartilhados na vida cotidiana, consistem nas alavancas 
propulsoras do conhecimento nas Ciências Sociais, desde que sejam 
decifradas pelos pesquisadores (BLASS, 2009, p. 195).
Desta forma, surgem novas concepções acerca das fronteiras disciplinares 
defendidas pela especialização dos conhecimentos e das áreas, e também 
questionamentos acerca dos critérios de demarcação do conhecimento científico, 
que impactam nas Ciências Sociais.
TÓPICO 1 | O SABER SOCIOLÓGICO
155
A reestruturação das Ciências Sociais não apresenta fórmulas prontas nem 
modelos teórico-metodológicos que predefinem os caminhos a seguir, inclusive 
no que se refere à coleta das informações e fonte de dados. Um dos objetivos 
deste texto seria suscitar um debate coletivo em torno da elaboração de uma 
etnociência, resultado da mistura das tradições culturais e experiências históricas 
que marcam a formação social brasileira.
Esse possível encontro entre diferentes práticas de saberes extrapola, 
contudo, os limites de uma análise puramente epistemológica, embora possa 
perseguir rastros e indícios ainda pouco explorados pelos pesquisadores 
afeiçoados aos ditames da ciência moderna. Uma das questões fundamentais da 
produção de conhecimentos nas Ciências Sociais, no tempo presente, diz respeito 
às mudanças culturais e cognitivas nos valores e visões de mundo dos próprios 
pesquisadores. 
Para tanto, os cientistas sociais encontram-se diante dos desafios de repensar 
as fronteiras fortemente delineadas nas áreas “especializadas” de conhecimento e de 
transpor as dicotomias marcadas por “uma pureza disciplinar excessiva”, escreve 
Morin. Vários enigmas perpassam os circuitos interculturais e pontuam as relações 
sociais contemporâneas permeadas por diversidades e conflitos, colocando, mais 
uma vez, na ordem do dia, esses desafios (BLASS, 2009, p. 202).
A reestruturação das Ciências Sociais não apresenta fórmulas 
prontas nem modelos teórico-metodológicos que predefinem os caminhos a 
seguir, inclusive no que se refere à coleta das informações e fonte de dados. 
Um dos objetivos deste texto seria suscitar um debate coletivo em torno da 
elaboração de uma etnociência, resultado da mistura das tradições culturais 
e experiências históricas que marcam a formação social brasileira.
Esse possível encontro entre diferentes práticas de saberes extrapola, 
contudo,os limites de uma análise puramente epistemológica, embora possa 
perseguir rastros e indícios ainda pouco explorados pelos pesquisadores 
afeiçoados aos ditames da ciência moderna. Uma das questões fundamentais 
da produção de conhecimentos nas Ciências Sociais, no tempo presente, diz 
respeito às mudanças culturais e cognitivas nos valores e visões de mundo 
dos próprios pesquisadores. 
Para tanto, os cientistas sociais encontram-se diante dos desafios 
de repensar as fronteiras fortemente delineadas nas áreas “especializadas” 
de conhecimento e de transpor as dicotomias marcadas por “uma pureza 
disciplinar excessiva”, escreve Morin. Vários enigmas perpassam os circuitos 
interculturais e pontuam as relações sociais contemporâneas permeadas 
por diversidades e conflitos, colocando, mais uma vez, na ordem do dia, 
esses desafios (BLASS, 2009, p. 202).
156
RESUMO DO TÓPICO 1
Neste tópico, você estudou: 
• Hegenberg indica duas razões que dificultam a descoberta e descrição de leis 
gerais da sociedade: as relativas à experimentação precária e as relativas à 
complexidade de fatores.
• O positivismo influenciou de forma intensa principalmente o surgimento da 
Sociologia, e sabemos que as origens sempre possuem interferência em toda a 
constituição de uma ciência.
• Segundo o entendimento positivista, as diversas ciências devem utilizar o 
mesmo método e a filosofia positiva deveria ser aplicada a todas as ciências, ou 
seja, a busca deveria estar centrada em descobrir as leis gerais dos fenômenos.
• O holismo metodológico é uma perspectiva que busca definir um método para 
as Ciências Sociais, especialmente para a Antropologia, no qual as análises de 
um fenômeno individual, particular, devem ser baseadas sempre como um 
conjunto de ações do coletivo, ou seja, de atitudes e crenças coletivas. 
• Segundo o individualismo metodológico, as explicações acerca dos fenômenos 
sociais devem ser reduzidas a explicações sobre os comportamentos individuais 
e suas consequências. A metodologia das Ciências Sociais consiste em mostrar 
como os fenômenos sociais são resultantes de ações individuais, que serão 
explicadas conforme as intenções do agente.
• Análises reducionistas apresentam resultados como válidos para a explicação 
de uma complexa realidade ao seu redor, entendendo-se que ao conhecer uma 
parcela é possível pressupor o funcionamento do todo. O mesmo pode ocorrer 
com as Ciências Sociais, quando concepções reducionistas e deterministas são 
adotadas nas análises sobre as relações sociais.
157
AUTOATIVIDADE
Neste tópico, além de outros conteúdos, você estudou duas perspectivas 
epistemológicas: o holismo metodológico e o individualismo metodológico. 
Escreva um texto (no mínimo 10 linhas) indicando as diferenças existentes 
entre estas abordagens, relacionando-os com a área das Ciências Sociais.
158
159
TÓPICO 2
NOVAS BASES 
EPISTEMOLÓGICAS
UNIDADE 3
1 INTRODUÇÃO
Agora que você já compreendeu como a epistemologia atua identificando 
os critérios dos saberes sociológicos, e identificando suas relações com seus objetos 
de análise, vamos partir para o aprendizado de saberes bem contemporâneos.
Assim como a ciência, a epistemologia também avança e modifica 
perspectivas conforme as mudanças que ocorrem no mundo. Assim, a rápida 
transformação mundial e das relações sociais, que implica diretamente em 
modificações na ciência, indica a existência de novas formas de ver o mundo.
Estas novas formas de ver o mundo estão interligadas não apenas com 
maneiras de olhar os objetos, perspectivas de análise, mas também com os modos 
de entender a realidade. A inserção da tecnologia, a aproximação com as causas 
do meio ambiente, a ruptura com o pensamento fragmentador, são posturas que 
modificam o entendimento da realidade.
Diante deste contexto, surgem novas leituras daquilo que é real e de 
sua construção, emergindo novos paradigmas que busquem dar conta destas 
modificações no mundo.
E são estes novos paradigmas que iremos estudar neste tópico, para que 
você seja capaz de, ao final da leitura dele, identificar os principais paradigmas 
epistemológicos emergentes e buscar materiais complementares para conhecê-los 
ainda mais.
Começaremos analisando como o fenômeno da globalização participa da 
modificação de paradigmas nas Ciências Sociais, para então entender a teoria do 
pensamento complexo, muito difundida quando falamos acerca da relação do 
homem com a natureza.
Em seguida, você irá conhecer a teoria que trata acerca do chamado 
comportamento significativo, e por último as ideias do falsificacionismo, iniciadas 
por Karl Popper, mas revistas por muitos autores na atualidade.
Então, vamos lá? Bons estudos!
160
UNIDADE 3 | SABERES SOCIOLÓGICOS: CRÍTICA DAS REFLEXÕES EPISTEMOLÓGICAS
2 GLOBALIZAÇÃO
As Ciências Sociais têm se defrontado com novos paradigmas 
epistemológicos, fruto de análises sobre a ciência moderna e os novos modos de 
pensar a sociedade. Os diferentes modos de vida desencadeados pela crescente 
urbanização, o avanço tecnológico e as novas formas de relacionamento virtual 
modificam as estruturas de pensamento e a compreensão da realidade.
O grande desafio é liderado pela necessidade de compreender o mundo 
de forma global, ampla, sem perder o foco das especificidades de cada grupo 
social. Mas é preciso considerar que as relações, processos, estruturas econômicas, 
sociais, geográficas, culturais, desenvolvem-se em escala mundial. Assim, acabam 
por se sobrepor ao que se desenvolve em escala nacional.
Enquanto ocorre este movimento de sobreposição, no pensamento 
científico existe a dificuldade no que diz respeito à apreensão, pois as reflexões da 
ciência de um modo geral são realizadas baseadas em dados nacionais, regionais 
ou locais, que nem sempre dão conta da complexidade global.
FIGURA 36 – IMAGEM REPRESENTATIVA DA GLOBALIZAÇÃO
FONTE: Disponível em: <http://www.univesp.ensinosuperior.sp.gov.br/preunivesp/2126/
globaliza-o-mem-ria-e-patrim-nio.html>. Acesso em: 15 jun. 2013.
Mas o que é a globalização? Vamos definir:
A palavra ‘globalização’ foi forjada na década de 1980, nos Estados 
Unidos, e seu significado busca interpretar o processo de formação, 
inicialmente, de uma economia global. Obtendo êxito na designação dessa 
nova realidade – que mostrava o aumento da interação das diversas partes 
TÓPICO 2 | NOVAS BASES EPISTEMOLÓGICAS
161
O paradigma clássico das ciências sociais constituiu-se baseado nas 
reflexões sobre a sociedade nacional, que muitas vezes é sobreposta pela sociedade 
global, ainda não suficientemente estudada. “A sociedade global apresenta 
desafios empíricos e metodológicos, ou históricos e teóricos, que exigem novos 
conceitos, outras categorias, diferentes interpretações” (IANNI, 1994, p. 147).
Portanto, este momento de substituição é fundamental para a 
epistemologia, quando o paradigma clássico, baseado nas reflexões nacionais, é 
gradativamente substituído por um novo paradigma, que considera a sociedade 
global. O conhecimento acumulado sobre a sociedade nacional não é suficiente 
para explicar os movimentos e a realidade internacional e global.
Sim, a sociedade global é o novo objeto das ciências sociais. Ao lado da 
sociedade nacional, vista como um todo e também em suas partes, as 
ciências sociais começam a debruçar-se sobre a sociedade global. São 
dois objetos presentes, um dos quais bastante conhecido, codificado, 
interpretado, ao passo que o outro ainda por se conhecer, se explicar. 
A sociedade nacional pode ser vista como o emblema do paradigma 
clássico das ciências sociais, com o qual elas nascem, amadurecem e 
continuam a se desenvolver. Enquanto que a sociedade global pode 
ser vista como o emblema de um paradigma emergente. Envolve um 
novo paradigma, tanto porque a sociedade global encontra-se em 
constituição, em seus primórdios, como porque carece de conceitos, 
categorias, interpretações (IANNI, 1994, p. 148).
Neste contexto, para as Ciências Sociais é imposto um desafio 
epistemológico,pois muitos conceitos, categorias e interpretações são postos 
em dúvida. Alguns se tornam obsoletos, outros são recriados, e outros apenas 
adaptados. E alinha-se a isso a necessidade da criação de novas interpretações 
(SANTOS, 2002).
Não basta transferir conceitos, categorizações ou interpretações, baseados 
na sociedade nacional, para o contexto global. “As relações, processos e estruturas 
de dominação e apropriação, integração e antagonismo característicos da 
sociedade global exigem também novos conceitos, categorias, interpretações” 
(IANNI, 1994, p. 148).
do mundo, a facilidade de deslocamentos e de comunicação –, a palavra foi 
incorporada com bastante facilidade pelos meios de comunicação de massa 
e, ao mesmo tempo, passou a ser utilizada também pelos meios acadêmicos 
e intelectuais, que procuraram dotá-la de significado mais preciso. Por 
outro lado, o termo hoje é aplicado em outras dimensões que não só a 
econômica, como, por exemplo, a ‘globalização cultural’, da qual há duas 
posições que se contrapõem: aqueles que defendem que está havendo 
uma homogeneização cultural global, com a extinção das particularidades 
culturais; e outros que, ao contrário, afirmam que está ocorrendo uma nova 
diversidade (DIAS, 2005, p. 72).
162
UNIDADE 3 | SABERES SOCIOLÓGICOS: CRÍTICA DAS REFLEXÕES EPISTEMOLÓGICAS
Ocorre que a problemática da globalização se encontra ainda em processo 
de equacionamento empírico, metodológico e teórico. Mais que isso, 
apenas começa a ser percebida em suas implicações epistemológicas. 
Trata-se de uma realidade que pode ser vista como uma totalidade em 
formação. Constitui-se como um jogo de relações, processos e estruturas 
de dominação e apropriação, integração e contradição, soberania e 
hegemonia, configurando uma totalidade em movimento, complexa 
e problemática. Trata-se de um universo múltiplo, uma sociedade 
desigual e contraditória, envolvendo economia, política, geografia, 
história, cultura, religião, língua, tradição, identidade, etnicismo, 
fundamentalismo, ideologia, utopia. Nesse horizonte, multiplicam-se 
as possibilidades e as formas do espaço e tempo, o contraponto parte e 
todo, a dialética singular e universal (IANNI, 1994, p. 148).
Para esclarecer este novo objeto das Ciências Sociais, é possível estabelecer 
observações acerca dos estudos e interpretações realizados sobre a sociedade 
global, compreendendo assim suas configurações e movimentos, conforme vemos 
as características a seguir.
Primeiro, a sociedade global se constitui desde o início como uma 
totalidade problemática, complexa e contraditória, aberta em movimento. Está 
impregnada e atravessada por totalidades também notáveis, às vezes também 
decisivas, ainda que subsumidas formal ou realmente pela totalidade mais 
ampla, abrangente, global: estado-nação, bloco geopolítico, sistema econômico 
regional, grande potência, empresa transnacional, ONU, FMI, Banco Mundial, 
indústria cultural e outras; também tribo, nação, nacionalidade, etnia, religião, 
língua, cultura e outras realidades também fundamentais. As próprias formas 
de pensamento inserem-se na dinâmica da sociedade global, no seu todo ou em 
suas partes, operando no sentido da constituição de todos os subordinados, ou 
da constituição da sociedade global como uma totalidade abrangente, sempre 
problemática, complexa e contraditória.
Segundo, a sociedade global é o cenário mais amplo do 
desenvolvimento desigual, combinado e contraditório. A dinâmica do 
todo não se distribui similarmente pelas partes. As partes, enquanto 
distintas totalidades também notáveis, consistentes, tanto produzem e 
reproduzem seus próprios dinamismos como assimilam diferencialmente 
os dinamismos provenientes da sociedade global, enquanto totalidade 
mais abrangente. É no nível do desenvolvimento desigual, combinado e 
contraditório, que se expressam diversidades, localismos, singularidades, 
particularismos ou identidades. Às vezes, os localismos, provincianismos ou 
nacionalismos podem exacerbar-se, precisamente devido aos desencontros, 
às potencialidades e dinâmicas próprias de cada um, cada parte; e também 
devido às potenciações provenientes da dinâmica da sociedade global, 
das relações, processos e estruturas que movimentam o todo abrangente. 
Sob vários aspectos, a ressurgência de nacionalismos, regionalismos, 
provincianismos, etnicismos, fundamentalismos e identidades são 
fenômenos que se esclarecem melhor quando vistos nos horizontes dos 
rearranjos e tensões provocados pela emergência da sociedade global. Na 
TÓPICO 2 | NOVAS BASES EPISTEMOLÓGICAS
163
medida em que esta debilita o estado-nação, reduz os espaços da soberania 
nacional, transforma a sociedade nacional em província da global, nessa 
medida reflorescem identidades pretéritas e presentes, novas e anacrônicas. 
Também por isto a globalização não significa nunca homogeneização, mas 
diferenciação em outros níveis, diversidades com outras potencialidades, 
desigualdades com outras forças. Nesse horizonte, a sociedade global pode 
ser vista como uma totalidade desde o início problemática, no sentido de 
complexa e contraditória; atravessada pelo desenvolvimento desigual, 
combinado e contraditório, que se especifica no âmbito de indivíduos, 
grupos, classes, tribos, nações, sociedades, culturas, religiões, línguas e 
outras dimensões singulares ou particulares.
Terceiro, na medida em que se constitui e desenvolve a sociedade 
global, como emblema de um novo paradigma das ciências sociais, alguns 
conceitos, categorias e interpretações podem tornar-se obsoletos, exigir 
reelaborações ou ser articulados com novas noções suscitadas pela reflexão 
sobre a globalização. Já são diversas as noções que começam a povoar o 
pensamento global: globalização, desterritorialização, reterritorialização, 
miniaturização, cultura mundial, aldeia global, cidade global, shopping 
center global, Disneylândia global, fábrica global, nova divisão internacional 
do trabalho, redes de articulações intra e intercorporações, alianças 
estratégicas de corporações, modernidade-mundo, sistema-mundo, 
economia-mundo, comunicação-mundo, publicidade global, espaço 
europeu, espaço do Pacífico, capitalismo global, moeda global, capital 
global, terceiromundialização do Primeiro Mundo, exército industrial ativo 
e de reserva global, planeta Terra, sociedade civil mundial, cidadão do 
mundo, contrato social mundial, pensamento universal.
Quarto, nos horizontes abertos pela sociedade global, a história 
universal deixa de ser uma fantasia, metáfora ou utopia. À medida que se 
organiza e movimenta, as histórias das nações e nacionalidades inserem-se 
de forma cada vez mais dinâmica nos movimentos da história universal. As 
nações e as nacionalidades continuam a se desenvolver com ritmos marcados 
por suas singularidades, tradições, forças, dinâmicas, historicidades, 
míticas. Simultaneamente, no entanto, umas e outras são influenciadas pelos 
andamentos da história universal. Esse o contexto em que se instauram 
algumas das novas condições da duração, curta, média ou longa, histórica 
ou mítica. Já não é mais apenas a grande potência, a metrópole imperialista, 
que incute de modo mais ou menos exclusivo o seu andamento neste ou 
naquele segmento ou em grande parte do mundo. Desde que se forma e se 
desenvolve a sociedade global, com a sua economia política, a sua dinâmica 
sociocultural, desde esse momento as histórias nacionais tendem a ser, em 
alguma medida, subsumidas pela história universal.
Quinto, é no âmbito da sociedade global, com sua economia política, 
dinâmica sociocultural, historicidade complexa e contraditória, que se 
concretizam as possibilidades do pensamento global. O que era fantasia, 
metáfora ou utopia, quando o pensamento se propunha pensar o mundo, 
164
UNIDADE 3 | SABERES SOCIOLÓGICOS: CRÍTICA DAS REFLEXÕES EPISTEMOLÓGICAS
equacionar a razão universal, imaginar o cosmopolitismo, diagnosticar 
as contradições universais, mergulhar nas opacidades do real, quando seforma a sociedade global, tudo isso pode adquirir outro significado, novas 
possibilidades. Nesse sentido é que a emergência da sociedade global 
permite repensar a dialética da história esboçada por Marx; ou a teoria 
da racionalização generalizada sugerida por Weber. Talvez se possa dizer 
que sem Weber e Marx, fundamentalmente, mas não exclusivamente, não 
é possível pensar, em toda a sua abrangência e complexidade, a sociedade 
global que se forma no limiar do século XXI. Outra vez, no entanto, isto não 
significa que se torna possível a transferência ou adaptação pura e simples de 
conceitos, categorias, interpretações. Pode-se afirmar que as obras de Marx 
e Weber constituem duas matrizes excepcionalmente fecundas para pensar-
se configurações e movimentos da sociedade global. Pensar, compreender 
e explicar essa sociedade tanto em suas singularidades e particularidades 
como nos horizontes da história universal.
Assim, a perspectiva do mundo moderno das interconexões entre os 
elementos geográficos do mundo permite visualizar novas perspectivas de análises 
sociais, embasadas em entendimentos sobre fenômenos globais, que consideram 
os movimentos dos grupos sociais influenciados pelo fenômeno da globalização.
3 PENSAMENTO COMPLEXO
Para estudarmos o pensamento complexo, precisamos compreender 
inicialmente o conceito de complexidade. Ele difere da noção difundida no senso 
comum, que definiria complexo como algo complicado, talvez até difícil. 
O complicado está relacionado a desembaraçar um fio em um emaranhado 
de nós, por exemplo. O complexo diz respeito a diferentes elementos relacionados 
entre si por fluxos e interconectados em diferentes níveis.
Esta proposta de pensamento foi elaborada por Edgar Morin, que vamos 
conhecer melhor agora.
Assista à entrevista com o sociólogo Alain Touraine sobre a globalização, no link: 
<http://www.youtube.com/watch?v=nV4ApCsTwyU>. Acesso em: 15 jun. 2013.
DICAS
TÓPICO 2 | NOVAS BASES EPISTEMOLÓGICAS
165
FIGURA 37 – EDGAR MORIN
FONTE: Disponível em: <http://augusthocesar.blogspot.com.br/2010/09/
divulgacao.html>. Acesso em: 15 jun. 2013.
Edgar Morin nasceu na França (8/7/1921), formou-se em Geografia, 
História e Direito, dedicou-se também a estudos de sociologia, biologia, 
antropologia e epistemologia. É hoje considerado um dos mais importantes 
e polêmicos intelectuais do século XX. Foi um dos fundadores do Centro 
de Estudos Transdisciplinares da Escola de Altos Estudos em Ciências 
Sociais de Paris, é diretor emérito do Centro Nacional de Pesquisa Científica 
e também preside o Programa Europeu “Modelização da Complexidade”. 
Vem se dedicando ao estudo e à crítica da ciência moderna como pioneiro na 
investigação e construção do pensamento complexo, opondo-se a qualquer 
forma de reducionismo e/ou determinismo. Contemporâneo, entre outros, 
de S. Freud, C. Jung, T. Kuhn, I. Prigogine, K. Popper, F. Capra e F. Varela, 
sua contribuição ao estudo do pensamento complexo vem, desde os anos 
1950, influenciando a formação de pesquisadores em vários países.
FONTE: Matallo; Pádua (2008, p. 16).
A proposta do pensamento complexo indica que nosso próprio 
pensamento seja analisado, porque somos excessivamente apegados à estrutura 
de pensamento na qual fomos educados. Todo o sistema é complexo, e quanto 
mais conseguirmos apreender a complexidade do real, ou seja, destes sistemas, 
melhor iremos conviver com eles (MENDONÇA, 2005).
Para isto o modelo mental precisa ser flexível, aberto e abrangente. 
Assim, neste tipo de pensamento se aceitam as modificações constantes no 
mundo e não se negam a multiplicidade, diversidade, aleatoriedade e a incerteza 
(MENDONÇA, 2005).
166
UNIDADE 3 | SABERES SOCIOLÓGICOS: CRÍTICA DAS REFLEXÕES EPISTEMOLÓGICAS
Em se tratando da ciência, Mendonça (2005) explica que o pensamento 
científico indica que o sistema complexo deve ser decomposto em partes e 
cada parte será estudada separadamente, não considerando nesta análise 
as características formadas pelo conjunto das interações e as propriedades 
emergentes do conjunto das ciências, bem como desconsiderando as próprias 
relações entre elas.
Já para o pensamento complexo, o problema deve ser estudado em sua 
complexidade, sem separação entre as partes, considerando o conhecimento 
sobre cada uma delas e as características mais amplas.
“Edgar Morin afirma que, se a realidade é complexa, separá-la em partes 
vai nos afastar de sua compreensão. A realidade pode ser às vezes maior e às 
vezes menor que a soma de suas partes” (MENDONÇA, 2005, p. 13).
Como exemplo, pode-se pensar na melhoria de um problema de 
comunicação, que um simples avanço tecnológico nem sempre dá conta de resolver. 
Se estivermos envolvendo humanos, as propostas científicas e tecnológicas não 
são suficientes. Separar o todo em partes apenas supõe que algum dia todas elas 
deverão ser unidas novamente.
Os currículos escolares revelam isso claramente: os estudantes 
aprendem uma infinidade de conteúdos distribuídos em diversas 
disciplinas, a fim de que conheçam o mundo e o compreendam. 
Como o mundo é formado por tudo isso e mais as interações entre 
as disciplinas e mais os sentimentos dos alunos e dos demais atores 
sociais, espera-se que um estudante bem aplicado possa, no final de 
sua vida escolar (no ensino fundamental, médio ou superior), reunir 
todo esse aprendizado e formar um mundo, o seu mundo. É claro 
que cada um forma o seu mundo, mas seguramente não é formado 
predominantemente pelo conjunto do aprendizado da vida, pela 
experiência, em toda sua complexidade (MENDONÇA, 2005, p. 132).
O pensamento complexo aceita diferentes visões de mundo, ampliando a 
possibilidade de acordos e consensos, respeitando e convivendo com as diferenças. 
Esses consensos podem ser determinantes para as práticas sociais, pois nada é 
eliminado, já que para esta perspectiva de realidade tudo faz parte dela.
A realidade, neste ínterim, deve ser compreendida sem o descarte do 
pensamento linear e sistêmico, mas fazendo uso de todas estas possibilidades de 
pensamento e de compreensão dos sentimentos que lhes dão origem. Esta seria a 
ferramenta básica para compreensão da complexidade do mundo.
Morin procura integrar as ciências humanas e as ciências físico-químicas, 
além da literatura e artes, de forma transdisciplinar. Esta proposta lançou uma 
nova forma de pensamento, com foco na reflexão do mundo contemporâneo 
em seus múltiplos aspectos, superando assim as divisões originadas nas formas 
clássicas de ciência.
Segundo Matallo e Pádua (2008), do ponto de vista de aspectos teórico-
metodológicos, a análise de Morin se baseia em três pilares da ciência: a ordem, a 
separabilidade e a razão absoluta.
TÓPICO 2 | NOVAS BASES EPISTEMOLÓGICAS
167
A ordem surge a partir da concepção determinista da ciência, por 
exemplo, quando a ciência clássica compara tanto a natureza como o homem 
a um conjunto de mecanismos cujas leis podem ser descobertas. Assim, era a 
ausência do conhecimento destas leis que causava a desordem, pois uma vez que 
as leis fossem descobertas, poder-se-ia organizar o que fosse preciso.
No entanto, essas teorias e leis gerais excluíram os aspectos teleológicos 
e valorativos do conhecimento, operando a disjunção filosofia/
ciência. É justamente essa a crítica que Morin faz à ciência clássica, 
pela disjunção redutora, que teve como consequência a fragmentação 
dos saberes em campos compartimentalizados, disciplinares, que 
ignoram a visão global do saber. Além disso, essa fragmentação 
se apresentou como “natural”, ou seja, não havia necessidade de 
questionamentos sobre os fins e as consequências do conhecimento 
científico, cujo discurso foi tomado como o único válido e competente, 
que dispensava, portanto, a investigação e a crítica de seus próprios 
fundamentos (MATALLO; PÁDUA, 2008, p. 20).
Desde a perspectiva do racionalismo cartesiano, a realidade já era separada 
em fragmentos para que um fenômeno pudesse ser estudado. Ele também era 
decomposto em elementosmais simples e isolado da dimensão temporal, o que 
gerou uma visão simplificadora, que indicava que o todo seria a soma das partes. 
Esta quantificação e formalização do real eliminam conceitos que não podem ser 
mensurados, como o ser e o existir, relacionados ao sujeito e objeto.
O princípio da separabilidade, portanto, impôs-se na história da ciência 
no mundo, e é efetivo quando notamos a quantidade de especializações existentes 
em cada ciência. Estas especializações compartimentam o conhecimento, cada 
qual contribuindo para sua área específica de estudos, ou seja, seu objeto.
Mesmo sendo dominante e considerada eficaz, esta simplificação entrou 
em crise no começo do século XX, pois as grandes descobertas da física indicaram 
problemas nos raciocínios dedutivos e indutivos. Assim, justifica-se a necessidade 
de um paradigma que supere estes limites e considere a complexidade da ciência.
Enquanto a cultura geral admite a possibilidade de se buscar a 
contextualização de toda informação ou de toda ideia, a cultura técnica e científica, 
em nome do seu caráter disciplinar especializado, separa e compartimenta os 
conhecimentos, o que torna cada vez mais difícil a contextualização destes. Além 
disso, até a metade do século XX, a maior parte das ciências tinha a redução como 
método de conhecimento (do conhecimento de um todo para o conhecimento 
das partes que o compõem), e o determinismo como conceito principal, ou seja, a 
ocultação do acaso, do novo, das invenções, e a aplicação da lógica mecânica da 
máquina artificial aos problemas vivos, humanos e sociais (MORIN, 2003, p. 69).
A especialização dos conhecimentos abstrai os objetos de sua totalidade, 
retirando suas ligação e comunicações com o ambiente, inserindo-o na disciplina, 
no compartimento cujas fronteiras destroem a multidimensionalidade dos 
fenômenos. Deste ponto de vista, Morin (2003) afirma que a economia, considerada 
a ciência social mais avançada matematicamente, é a mais atrasada humanamente, 
pois abstraiu as condições sociais, históricas, políticas, psicológicas. 
168
UNIDADE 3 | SABERES SOCIOLÓGICOS: CRÍTICA DAS REFLEXÕES EPISTEMOLÓGICAS
“O conhecimento deve, certamente, utilizar a abstração, mas buscando 
organizar-se com referência ao contexto. A compreensão de dados particulares 
exige a ativação da inteligência geral e a mobilização de conhecimentos conjuntos” 
(MORIN, 2003, p. 70). Para mobilizar o todo, necessário à compreensão dos 
objetos de pesquisa, deve-se articular e organizar as informações, por meio de 
uma reforma do pensamento.
Assim, um novo pensamento que integra deve completar o pensamento 
que separa. Complexus significa aquilo que é tecido junto. O pensamento 
complexo busca, portanto, distinguir, mas não separar, e reunir ao mesmo tempo, 
ressaltando também o princípio da incerteza (MORIN, 2003).
Para alcançar este objetivo, Morin (2003) adianta sete princípios da 
complexidade, que veremos no quadro a seguir.
SETE PRINCÍPIOS-GUIA PARA PENSAR A COMPLEXIDADE 
1. O princípio sistêmico, ou organizacional, que une o conhecimento das partes 
com o conhecimento do todo. A ideia sistêmica é a de que o todo é mais do 
que a soma das partes, e se opõe à perspectiva reducionista. Acrescenta-se que 
o todo é menos do que a soma das partes, pois suas qualidades são inibidas 
pela organização do conjunto.
2. O paradigma hologramático (inspirado no holograma, no qual cada ponto 
contém quase a totalidade de informações do objeto que representa) põe em 
evidência que nos sistemas complexos a parte está no todo, assim como o 
todo está nas partes. Por exemplo, a sociedade, que representa o todo, está 
presente no indivíduo através da linguagem, cultura e normas. 
3. O princípio do ciclo retroativo permite o conhecimento dos processos 
autorreguladores, rompendo com o princípio da causalidade linear: a causa 
age sobre o efeito e o efeito age sobre a causa. Por isso chamado de ciclo 
retroativo. Esta retroação permite reduzir erros e estabilizar o sistema, e 
podemos vê-la com frequência nos fenômenos sociais.
4. O princípio do ciclo recorrente supera a noção de regulação pela de 
autoprodução e pela de auto-organização. É um ciclo gerador no qual os 
produtos e as consequências são originadores daquilo que produzem. Somos 
produtos de um sistema de reprodução, mas, para isso, precisamos nos tornar 
produtores nos reproduzindo.
5. Princípio da eco-organização (autonomia/independência): Os seres vivos são 
seres auto-organizadores que se autoproduzem a todo o tempo e gastam energia 
para isso. Como precisam retirar a energia do ambiente e dependem dele para 
isso, sua autonomia está relacionada a essa dependência, por isso são autoeco-
organizadores. A autonomia dos indivíduos depende de sua cultura (ambiente).
6. O princípio dialógico une princípios e noções em face de se excluírem um 
ao outro, mas que são indissociáveis em uma mesma realidade. É o princípio 
da ordem-desordem: de uma desordem (agitação de moléculas) surge a ordem 
(estrelas). Podemos aceitar, assim, a associação de noções contraditórias na 
formação de um mesmo fenômeno complexo. 
TÓPICO 2 | NOVAS BASES EPISTEMOLÓGICAS
169
Estes princípios guiam a perspectiva do pensamento complexo, indicam 
de que forma a ciência é pensada por meio desta teoria, e como a própria 
realidade é entendida.
FONTE: Adaptado de Morin (2003)
7. O princípio da reintrodução do conhecido em todo o conhecimento: desde a 
percepção até a teoria científica, temos que considerar que todo conhecimento 
é uma reconstrução realizada por uma Inteligência, um indivíduo, em uma 
cultura e tempo determinados.
Não se trata de um pensamento que exclui a certeza pela incerteza, 
que exclui a separação pela inseparabilidade, que exclui a lógica para permitir 
todas as transgressões. O procedimento consiste, ao contrário, em se fazer 
uma ida e vinda incessante entre certezas e incertezas, entre o elementar e o 
global, entre o separável e o inseparável. 
De igual modo, este utiliza a lógica clássica e os princípios de 
identidade, de não contradição, de dedução, de indução, mas conhece os seus 
limites, e tem consciência de que, em certos casos, é necessário transgredi-
los. Não se trata, portanto, de se abandonar os princípios de ordem, de 
separabilidade e de lógica, mas de integrá-los em uma concepção mais rica. 
Não se trata de contrapor um holismo vazio ao reducionismo mutilador; 
trata-se de reatar as partes à totalidade. 
Trata-se de articular os princípios de ordem e de desordem, de 
separação e de junção, de autonomia e de dependência que estão em dialógica 
(complementares, concorrentes e antagônicos), no seio do universo. Em suma, 
o pensamento complexo não é o contrário do pensamento simplificador, 
ele o integra: como diria Hegel, ele realiza a união da simplicidade com a 
complexidade, e mesmo no metassistema que constitui, ele transparece sua 
própria simplicidade. 
O paradigma da complexidade pode ser enunciado tão simplesmente 
como aquele da simplificação: este obriga a separar e reduzir; o paradigma 
da complexidade ordena reunir e distinguir (MORIN, 2003, p. 75).
Para aprimorar seus conhecimentos, leia a obra 
“Introdução ao pensamento complexo”, de Edgar Morin (Trad. Eliane 
Lisboa. 4ª ed. Porto Alegre: Editora Sulina, 2011).
DICAS
170
UNIDADE 3 | SABERES SOCIOLÓGICOS: CRÍTICA DAS REFLEXÕES EPISTEMOLÓGICAS
4 COMPORTAMENTO SIGNIFICATIVO
Além das teorias do pensamento complexo, outra perspectiva epistemológica 
que influencia as ciências sociais atuais é a do autor Peter Winch. Ele publicou 
originalmente em 1958 o texto “A ideia de uma ciência social”, mas reeditou em 
1990, com revisões de conteúdo, inclusive, mas mantendo as ideias centrais. 
FIGURA 38 – PETER WINCH
FONTE: Disponível em: <http://www.actu-philosophia.com/spip.
php?article125>. Acesso em: 15 jun. 2013.
Para Winch, a ideia central da teoria do comportamento significativo era de 
que os fenômenos sociais só podem ser compreendidos a partir do conhecimento 
destescomportamentos das pessoas envolvidas.
Não bastaria, portanto, uma análise que considerasse a estrutura, 
as influências externas, que analisasse a partir de uma perspectiva externa, 
buscando leis gerais e fenômenos que não fossem percebidos pelos indivíduos. 
Deveriam ser levadas em consideração as ideias que as pessoas fazem sobre 
a realidade, compreendendo o que consideram acerca de sua relação com o 
mundo e com os outros.
Veja a roda de debate realizada com Edgar Morin no programa Roda Viva, da TV 
Cultura, cujos vídeos estão disponíveis em: <http://www.youtube.com/watch?v=ptITr1Zl9UQ>. 
Acesso em: 15 jun. 2013.
DICAS
TÓPICO 2 | NOVAS BASES EPISTEMOLÓGICAS
171
Esta perspectiva deve ser ampliada para a compreensão das instituições 
sociais, ainda que estes pareçam independentes dos indivíduos. Esta independência 
pode ser notada com relação a alguns indivíduos, mas não a todos, pois as 
instituições não existem sem algumas pessoas. A família, o Estado, a Igreja, entre 
outras instituições, são independentes e dependentes das pessoas (SEIFERT, 2007).
O senso comum reconhece que um entendimento adequado dos fenômenos 
sociais implica uma perspectiva interna e, nesse ponto, o cientista social 
não deve desprezar o senso comum. Por exemplo, para compreender um 
fenômeno religioso, é preciso que o cientista social que o está estudando (seja 
um sociólogo, um historiador, um antropólogo) tenha algum sentimento 
religioso, caso contrário não conseguirá dar conta dos significados presentes 
nas ações daqueles que participam deste modo de vida. Isso não equivale a 
dizer que o cientista da religião precisa “crer” na realidade que as pessoas 
religiosas supõem em suas práticas; mas precisa estar atento ao que dizem 
as pessoas religiosas, sem partir do pressuposto de que, não havendo um 
referente, o significado deve ser outro do que aquele interno ao próprio 
discurso que sustenta a prática. Winch está procurando chamar atenção 
para a insuficiência de uma perspectiva meramente externa, objetificante 
dos fenômenos e instituições sociais (SEIFERT, 2007, p. 108).
Quando um comportamento for governado por regras, não necessariamente 
conscientes ao indivíduo no momento da ação, é considerado um comportamento 
significativo. E seguir uma regra só é possível quando a ação que está vinculada 
a ela faz parte de um contexto social (SEIFERT, 2007).
Para Peter Berger (apud SEIFERT, 2007), as relações entre indivíduo e 
sociedade são perpassadas pelas ações de diversas pessoas, pela forma como 
estas interagem e constroem estas relações. A sociedade existe porque há esta 
atividade consciente, porque estas pessoas possuem consciência das relações nas 
quais estão envolvidas.
Outro elemento muito forte na relação entre indivíduo e sociedade 
é a linguagem, pois é ela que permite a comunicação entre as pessoas, e é um 
elemento completamente social.
“Assim, o indivíduo e a sociedade estão intrinsecamente ligados. Dizer que a 
sociedade é um produto da ação humana não equivale a afirmar sua irrealidade; o 
mundo social não é como um sonho. Dizer que as pessoas não vivem fora do vínculo 
social não equivale a afirmar sua inferioridade” (BERGER apud SEIFERT, 2007, p. 109).
Para explicar a interdependência entre indivíduo e sociedade, Berger 
(apud SEIFERT, 2007) utiliza três ideias básicas, relacionadas com três processos 
que ocorrem na interação entre o indivíduo e a sociedade: a exteriorização, a 
objetivação e a interiorização. 
Por exteriorização se entende a constante ação humana produtiva, seja 
física ou mentalmente. Berger chama a totalidade dessa produção (seguindo 
um esquema usual na sociologia americana) de “cultura”, incluindo aí tanto 
objetos materiais quanto instituições sociais. Por exemplo, a invenção de um 
instrumento para cortar objetos, como uma faca, bem como a invenção de 
172
UNIDADE 3 | SABERES SOCIOLÓGICOS: CRÍTICA DAS REFLEXÕES EPISTEMOLÓGICAS
uma história para distrair crianças, como A Bela Adormecida, são, ambos, 
cultura, nesse sentido, uma material, outra não material, não sendo o inverso 
verdadeiro. Esse processo de exteriorização é constitutivo da natureza humana; 
não somos seres contemplativos, mas agentes. Mesmo quando contemplamos 
a natureza, criamos formas de compreendê-la. Quando se fala em ciência pura, 
não aplicada ou tecnológica, ainda aqui se trata de uma ação, de uma criação. 
Como a ciência não é a mesma coisa que os objetos e as leis da qual ela trata, 
ao fazermos ciência criamos alguma coisa que antes não existia. E, uma vez 
existente, real em um sentido muito similar ao sentido em que um carro torna-
se real depois de fabricado.
Esse “tornar-se real” dos produtos da ação humana chama-se 
objetivação. Os produtos humanos se solidificam, passam a fazer parte do 
mundo, e passam a se confrontar com seus produtores originais como coisas 
distintas deles. Isso se aplica tanto aos produtos da cultura material como da 
cultura não material. Instituições sociais se tornam entidades, que parecem 
existir antes do indivíduo vir a ser e continuar a existir depois que o indivíduo 
deixar de ser. Tanto objetos físicos (casas, carros, geladeiras, relógios, aviões, 
computadores etc.), como objetos mentais (a economia, o Estado, a Igreja, a 
família, as corporações, a ciência) assumem realidade objetiva (isto é, não são 
mais apenas imaginação do sujeito, como um sonho). Esse processo não é 
estranho à natureza da atividade humana; pelo contrário, lhe é inerente, o que 
pode ser visto facilmente no caso de objetos físicos. Ao criar um instrumento 
qualquer, mesmo simples, como um martelo, este instrumento existe fora 
do sujeito e, como tal, passa a ter potencialmente efeito sobre seu criador. 
Essa exterioridade também se verifica no caso dos objetos não materiais, 
ou mentais. Instituições sociais, como o Estado ou a Igreja, confrontam as 
pessoas como “coisas”, embora em sentido diferente dos objetos físicos. 
E um e outro tipo estão em frequente interação. A distinção dos 
produtos da atividade humana em “objetos físicos” e “objetos mentais”, e a 
correspondente distinção entre “cultura material” e “cultura não material” 
não devem ser exageradas, pois têm elas uma relação importante. A criação 
de um objeto físico é, em situação normal, precedida por um ato imaginativo 
(mesmo que nem sempre claramente definido; quando, como às vezes se diz, 
alguém cria algo por acaso). Alguns objetos físicos, em razão de sua imensa 
complexidade (como um avião, por exemplo), contêm em si grande carga de 
raciocínio e imaginação. Por outro lado, a maioria das instituições sociais tem 
seu aspecto material, elementos físicos nos quais as ideias se concretizam. Essa 
materialidade dos fenômenos sociais auxilia na objetivação, o que diferencia 
as instituições sociais de outros produtos da cultura não material. Pode-se 
falar em graus da realidade objetiva, o que não faz sentido no caso de objetos 
físicos. Tomemos como exemplo sistemas políticos, ou, para usar um único 
termo, o Estado. A objetividade do Estado se expressa no fato de as pessoas 
terem de reconhecê-lo como real, e não lhe puderem ser indiferentes. Por outro 
lado, a concepção de Platão de como deve ser o Estado ideal é também um 
produto cultural, na medida em que, saindo da mente de seu criador, tornou-
se objeto para outros. No entanto, sua realidade objetiva é baixa, pois os ideais 
que propôs não se concretizaram em Estados historicamente concretos.
TÓPICO 2 | NOVAS BASES EPISTEMOLÓGICAS
173
Polanyi (apud SEIFERT, 2007) indica que qualquer tipo de sociedade 
organizada é composta por quatro coeficientes: convicções comuns, interesses 
comuns, cooperação ou ação conjunta e exercício de autoridade ou coerção. Para 
ele, estes quatro coeficientes sempre estarão presentes nas sociedades, e a forma 
e o grau em que aparecem é que determina se ela será estática ou dinâmica, 
revolucionária ou reformista.
Considerando que o comportamento significativo busca seguir um 
propósito, pois consiste emseguir uma regra, questiona-se até onde é possível 
fazer uso desta noção, aplicá-la. Um eclipse lunar, por exemplo, possui um 
propósito? (SEIFERT, 2007). Assim, podemos questionar se a sociedade também 
possui um propósito, um objetivo.
A resposta a essa questão já não é tão óbvia, mas algumas pessoas 
pensam que deva ser tão negativa quanto a resposta ao exemplo 
anterior. A justificação para negar propósito à sociedade reside 
no pressuposto de que necessariamente propósito ou finalidade 
é algo concebido por uma mente. Dessa forma, se for atribuído um 
propósito a alguma coisa, há duas alternativas: ou ela mesma possui 
uma mente, sendo, então, um agente consciente, que nela embutiu 
um determinado propósito. Agora, se aplicarmos isso a sociedades, 
em qual das duas categorias deve ser classificada? Sem dúvida, uma 
sociedade (diferente de um relógio, por exemplo) é composta de 
agentes conscientes, pessoas. E pessoas são capazes de ter propósitos 
e de dotar suas criações de propósito. Contudo, a sociedade à qual 
essas pessoas pertencem não é, ela mesma, um agente consciente. É, 
então, algo criado por um agente consciente visando um determinado 
propósito? Há alguns indícios positivos nessa direção, assim como 
contra-argumentos (SEIFERT, 2007, p. 111).
No senso comum e na ciência voltada à área biológica, atribuir propósito 
a algo não é um problema, eles definem finalidades para as artérias, propósitos de 
Assim, no caso de instituições sociais, o grau de objetivação deve 
ser mais forte para que elas possam ser consideradas fenômenos sociais. 
E aqui entra o terceiro processo mencionado por Berger: a interiorização. 
Como sua realidade objetiva é uma questão de grau, pode ocorrer, como 
a história mostra, que a objetivação conduza à alienação, isto é, quando as 
estruturas sociais me parecem estranhas ou quando me sinto controlado por 
elas, e não mais um participante ativo. Então, para evitar que o processo de 
objetivação degenere em alienação, é preciso interiorizar a realidade social, 
isto é, “transformando-a novamente de estruturas do mundo objetivo em 
estruturas da consciência subjetiva” (BERGER, 1985, p. 16). Em resumo, o 
indivíduo precisa tornar suas as estruturas da sociedade em que vive, mesmo 
que ele, enquanto indivíduo historicamente localizado, não tenha sido um 
partícipe ativo na criação dessas estruturas; mas, inevitavelmente, participará 
de sua recriação constante. Caso contrário, ou o indivíduo é destruído no 
processo, ou alteram-se as estruturas sociais. A questão relevante, portanto, 
é a da integração do indivíduo na sociedade que é produto de sua própria 
atividade intencional (SEIFERT, 2007, p. 110).
174
UNIDADE 3 | SABERES SOCIOLÓGICOS: CRÍTICA DAS REFLEXÕES EPISTEMOLÓGICAS
partes do corpo, enfim, atribuem finalidades a inúmeras descobertas. Esse ponto 
de vista indica a existência de finalidades coletivas, a partir da noção de que o 
propósito pode incluir diversos agentes com a mesma finalidade. Podemos falar 
em comportamento finalista, pois não se trata apenas de um indivíduo, e sim de 
um coletivo objetivando a mesma finalidade.
Para esta abordagem, uma sociedade seria capaz de estabelecer propósitos, 
o que para alguns críticos não condiz com a realidade, ou seja, não é possível. 
Apenas os organismos individuais poderiam estabelecer isto, porque possuem 
a capacidade de ter consciência, podendo programar ações. Portanto, não se 
poderia afirmar que alguma instituição social possua um propósito específico.
Outra objeção é a de que, embora a suposição de que se possa atribuir 
propósito a instituições sociais pareça razoável em relação a algumas 
delas, outras não exigem tal característica. Por exemplo, quando um 
clube é criado, faz sentido dizer que foi criado tendo em vista um 
propósito específico. Mas se quero dizer que a sociedade tem um 
propósito, isso deveria ser verdadeiro também de todas as suas partes, 
isto é, de todas as instituições sociais. Mas algumas instituições sociais 
são naturais, como a família e o Estado. Faz mais sentido dizer que 
elas evoluem ou mudam, do que dizer que são produto da atividade 
consciente das pessoas. Mesmo a forma histórica em que se encontram 
num determinado momento não parece ser fruto da escolha deliberada 
(SEIFERT, 2007, p. 113).
Para Winch e sua teoria do comportamento significativo, entender que 
a sociedade é fruto de comportamentos individuais está errado. “Dizer que a 
sociedade é produto das intenções dos sujeitos que a compõem, os quais observam 
regras de comportamento, não significa que as instituições sociais são criações 
artificiais, conscientemente planejadas” (SEIFERT, 2007, p. 113).
Os objetos podem ser criados com finalidades e propósitos específicos, 
mas a cultura não material é evolutiva, o que não impede que seja produto 
intencional dos agentes humanos. E as ações neste sentido nem sempre são 
intencionais e conscientes, nem sempre estão claras para os agentes. Mas quando 
elas são objetos de consciência é que as mudanças mais significativas ocorrem.
Assim, para Winch não é possível explicar fenômenos sociais a partir de 
categorias causais, como fazem as ciências naturais, pois é preciso entender os 
motivos que sustentam a existência do fenômeno social, que estão baseados nos 
propósitos das pessoas que fazem parte daquele grupo social. 
Por isso existem os papéis sociais, que são a expressão de regras 
compartilhadas e cumpridas e que permitem previsões na área das ciências 
sociais, pois pelas atitudes presentes seria possível prever as futuras, uma vez 
que estão comprometidos, já que se trata do cumprimento de regras.
TÓPICO 2 | NOVAS BASES EPISTEMOLÓGICAS
175
5 FALSIFICACIONISMO
O falsificacionismo é uma corrente de pensamento epistemológico 
ainda muito discutida na atualidade e que, em resumo, defende que o valor do 
conhecimento científico não está na experiência, e sim na possibilidade de a teoria 
ser falseada.
A possibilidade de contrariar uma teoria é que dá a ela o verdadeiro 
estatuto científico, pois quanto mais a teoria puder ser falseada, melhor será, pois 
em cada tentativa de falseamento ela será melhorada ou deixada de lado.
Esta perspectiva de entendimento da ciência foi amplamente difundida 
associada ao nome do filósofo Karl Popper, que legou muitos escritos sobre esta área 
para a humanidade. Ele deixou inúmeros seguidores que continuaram estudando 
o falsificacionismo e suas possibilidades. Vamos conhecer melhor este autor:
FIGURA 39 – KARL POPPER
FONTE: Disponível em: <http://armonte.wordpress.com/2011/03/01/o-
santo-e-o-provocador-wittgenstein-vs-popper/>. Acesso em: 15 jun. 2013.
Karl Popper era filósofo, nascido em 1902, na Áustria, era naturalizado 
britânico e faleceu em 1994. Colaborou com as teorias do liberalismo e da 
democracia no âmbito da filosofia social. Escreveu livros como os títulos: “A 
sociedade aberta e seus inimigos” e a “Lógica da Pesquisa Científica”. Seu 
nome completo era Karl Raimund Popper, era de família judaica, estudou na 
Universidade de Viena, concluindo o doutorado em Filosofia. Fugiu do nazismo, 
viajou para a Nova Zelândia para se refugiar da Segunda Guerra. Após o fim da 
guerra, conseguiu trabalhar como assistente de ensino na London School of The 
Economics, e se tornaria professor da instituição em 1949. É reconhecido como 
um dos principais filósofos do século XX, época em que acompanhou o auge e 
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UNIDADE 3 | SABERES SOCIOLÓGICOS: CRÍTICA DAS REFLEXÕES EPISTEMOLÓGICAS
as crises do capitalismo, o avanço das invenções iniciadas a partir da Revolução 
Industrial iniciada no século XVIII, e as possibilidades por meio do avanço 
das ciências. O filósofo verificou a rápida evolução material da humanidade, 
até então, alcançada em dois séculos de uma maneira mais veloz do que nos 
4.000 anos anteriores. Popper ajudou a elaborar definições a respeito da teoria 
científica, analisando o cientificismo (conjunto de ideias que outorgavam à 
ciência a solução e o sentido de todas as questões),

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