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Laís Kemelly UNIME 2020.1 Restrição do Crescimento Intrauterino Definição O conceito atual para RCIU é a presença de peso fetal abaixo do percentil 10 para a idade gestacional. O feto não atinge seu potencial de crescimento seja por motivos genéticos ou fatores ambientais. As causas podem ser: ↳ Fetal (aneuploidias, malformações) ↳ Infecções maternas ↳ Multifatorial ↳ Placentária Sabendo que os fatores ambientais podem interferir no crescimento fetal, a OMS definiu que cada população tenha sua própria curva de crescimento fetal. RCIU precoce: detectada antes de 32 semanas RCIU tardia: detectada após 32 semanas Efeitos ● Hipoglicemia neonatal ↳ Redução dos estoques de glicogênio hepático e miocárdico ↳ Decréscimo da neoglicogênese hepática ↳ Redução do tecido adiposo ● Hipocalcemia ↳ Prematuridade (atraso na introdução de leite para o RN) ↳ Hipoxia • Sobrecarga de fósforo devido à lesão celular • Aumento dos níveis séricos de calcitonina • Diminuição do fluxo de cálcio para o líquido extracelular ● Hipotermia ↳ Perda excessiva de calor pela escassez de tecido subcutâneo ● Policitemia ↳ Elevação da eritropoetina fetal decorrente da hipóxia ● Hiperviscosidade sanguínea ↳ Causa insuficiência cardíaca, respiratória e trombose cerebral. ● Anomalias hematológicas ↳ Policitemia ↳ Plaquetopenia ↳ Leucopenia ● Prejuízo no desenvolvimento psicomotor ↳ Quando o tecido cerebral é comprometido pela hipóxia e desnutrição antes de 34 semanas, surgem problemas de adaptação, irritação e dificuldade de concentração. ↳ Quando o comprometimento é muito precoce, antes de 26 semanas, os distúrbios são mais graves, com comprometimento do aprendizado, da fala e da escrita. ● 2,5x mais risco de ter estatura menor durante a vida adulta ● Síndromes metabólicas ↳ A deficiência de nutrientes durante a vida fetal reduz de maneira irreversível o número de células em alguns órgãos, levando a mudanças na distribuição dos diferentes tipos celulares, no feedback hormonal e na atividade metabólica. Laís Kemelly UNIME 2020.1 Tipos Clínicos ● Tipo I (simétrico) ↳ Ocorre durante a embriogênese, o agente agressor atua precocemente na gravidez. ↳ Prejuízo da hiperplasia ↳ RN com redução proporcional das medidas corporais (peso, estatura e circunferência cefálica) ↳ Fatores envolvidos: genéticos, infecções congênitas, drogas e radiações ionizantes. ● Tipo intermediário ↳ Ocorre durante o segundo trimestre da gestação ↳ Compromete hipertrofia e hiperplasia ↳ RN com comprometimento cefálico e de ossos longos, mas em grau menor do que no tipo I. ↳ Fatores envolvidos: desnutrição, uso de determinados fármacos, tabagismo e alcoolismo. ● Tipo II (assimétrico) ↳ Ocorre durante o terceiro trimestre de gestação ↳ Interfere na fase de hipertrofia ↳ Fatores envolvidos: insuficiência placentária ↳ RN com redução desproporcional das medidas corporais. O abdome é a região mais comprometida, polo cefálico e ossos longos acima do %10. A determinação do RCIU depende, então do: • Tipo de agente agressor • Momento em que acontece a agressão • Grau de interferência Fatores de Risco Fetais ● Alterações genéticas e malformações congênitas 38% dos fetos com cromossomopatias apresentam RCF. As principais alterações são: ↳ Trissomias autossômicas: quando há uma cópia extra de um cromossomo específico. ↳ Triploidias: quando dois espermatozoides fertilizam ao mesmo tempo um óvulo haploide normal (dispermia) ou quando um espermatozoide diploide, com erro na divisão celular paterna, fecunda um óvulo haploide. São 3 códigos genéticos. ↳ Síndrome de Turner: afeta apenas indivíduos do sexo feminino. Acontece quando o par de cromossomos X não é normal, podendo apresentar um cromossomo X ausente ou parcialmente ausente. ↳ Defeitos abertos do tubo neural: fechamento inadequado durante a 2º semana de embriogênese, pode evoluir para espinha bífida ou Encefalocele. ↳ Acondroplasia: anormalidade na ossificação das cartilagens fetais, decorrente de uma mutação no gene FGFR3 de um dos genitores. ↳ Condodistrofias: a cartilagem dos ossos longos ossifica-se de forma prematura, impedindo a continuidade de seu crescimento. ● Infecções virais ↳ Placentite: quando há presença de infiltrado inflamatório no córion das vilosidades e no espaço interviloso ↳ Viremia fetal ↳ Comprometimento da hiperplasia (multiplicação celular) Laís Kemelly UNIME 2020.1 ↳ Rubéola, CMV, HIV, herpes, varicela ● Infecções por protozoários ↳ Placentite hematogênica: leva à uma imaturidade das vilosidades com consequente prejuízo na distribuição nutricional para o feto. ↳ Toxoplasmose aguda, malária, chagas ● Síndrome da transfusão feto-fetal ↳ Ocorre quando os dois fetos estão dividindo a mesma placenta, porém estão em bolsas diferentes: gestação monocoriônica e diamniótica. ↳ Essa divisão não é feita de modo igualitário, ocorrendo então um desequilíbrio no fluxo de sangue entre os fetos. ↳ Existem anastomoses (ligações vasculares) entre a circulação dos dois bebês. Como esse desequilíbrio existe, um feto é caracterizado como doador, transfusor, enquanto o outro é o receptor, o transfundido. ↳ O feto transfusor é menor, apresenta massa placentária menor e líquido amniótico diminuído. ↳ O feto transfundido é maior, porém é hipovolêmico, policitêmico e com líquido amniótico aumentado. Fatores de Risco Placentários ● Insuficiência placentária ↳ A diminuição da perfusão uteroplacentária é uma das causas mais importantes de RCIU. O fluxo diminui, levando à baixa oxigenação fetal. ↳ Ocorrem duas ondas de invasão do trofoblasto, necessárias para o desenvolvimento. No primeiro trimestre, acontece a primeira onda, que atinge os vasos da decídua. A segunda onda (miometrial), vai da 16- 20 semana de gestação. ↳ A invasão inadequada do trofoblasto impede as mudanças fisiológicas necessárias. A suposição é de que as alterações se iniciem na primeira onda, mas as alterações na segunda são mais evidentes. ↳ As artérias espiraladas não são modificadas, já que a invasão não foi suficiente para tal. Com isso, a camada muscular média é mantida com diâmetro maior e alta resistência. Como tem mais resistência, a passagem de sangue é dificultada. ↳ Essas alterações podem ser monitorizadas por um Dopplervelocimétrico. ● Alterações placentárias ↳ A principal é a placenta prévia, uma complicação causada quando a placenta se implanta na parte inferior do útero, cobrindo parcial ou totalmente o colo uterino. ↳ Além da perda de função, ocorre uma perda constante de sangue. Consequentemente, há redução no aporte nutricional e de oxigênio para o feto. Laís Kemelly UNIME 2020.1 Fatores de Risco Maternos ● Síndromes hipertensivas ↳ Presentes em aproximadamente 30 a 40% dos casos de RCIU. ↳ Comprometimento vascular placentário com consequente queda do fluxo uteroplacentário. ● Cardiopatias ↳ O risco depende do tipo de cardiopatia e das condições clínicas. ↳ O baixo débito cardíaco causado pelas cardiopatias diminui a oxigenação materna e fetal ● Anemias ↳ Diminui a oxigenação fetal ↳ Eleva a viscosidade do sangue ↳ Permite a formação de trombos no nível placentário ● Diabetes mellitus ↳ Comprometimento vascular avançado no sítio de implantação placentária ↳ Diminuição do fluxo uteroplacentário ● Doenças autoimunes ↳ A vasculite placentária e a insuficiência placentária podem ser explicadas pela presença de imunocomplexos na membrana basal do trofoblasto, no caso de lúpus eritematoso. ↳ Caso tenha presença concomitante de anticorpos antifosfolipídicos, a mortalidade perinatal é aumentada. Diagnóstico Necessita da determinação exata da idadegestacional, a partir de: ↳ DUM com certeza ↳ USG até 12 semanas Alguns parâmetros devem ser avaliados, como: ● Ganho ponderal materno ↳ O ganho de peso insuficiente para o esperado deve alertar para possibilidade de RCIU. ↳ Curva de Atalah: relaciona o IMC materno com a semana de gestação e é dividido em baixo peso, peso adequado, sobrepeso, obesidade. ● Medida da altura uterina ↳ AU abaixo do percentil 10 indica sinal clínico suspeito para RCIU. ↳ Probabilidade de feto com restrição = 60%. ↳ Não é muito precisa caso a IG não seja conhecida, a situação fetal seja transversa ou a gestação seja gemelar. ● Ultrassonografia ↳ Avalia diversos parâmetros: • Diâmetro biparietal • Circunferência cefálica • Circunferência abdominal • Relação CC/CA • Comprimento do fêmur (F) • Relação F/CA ↳ Importância da CA: é um dos marcadores mais importantes para avaliar o estado nutricional, pois reflete o volume do fígado e da gordura subcutânea abdominal. ↳ O volume hepático depende da quantidade de glicogênio armazenada. Laís Kemelly UNIME 2020.1 ↳ Cálculo do peso fetal: medidas da cabeça, abdome e do fêmur. ↳ Medida do volume de líquido amniótico: sua diminuição indica perda da diurese fetal ● Dopplervelocimetria ↳ Permite avaliar a circulação dos vasos sanguíneos e o fluxo sanguíneo ↳ Inicialmente, avaliam-se as artérias umbilicais. Em situações patológicas, a resistência delas é maior, diminuindo o fluxo diastólico. ↳ Caso o diagnóstico de insuficiência placentária seja estabelecido, a resposta fetal à hipoxemia deve ser avaliada, verificando se há comprometimento arterial e venoso para o feto. ↳ Existem fetos pequenos constitucionais. Se o feto for pequeno, mas o fluxo da artéria umbilical for normal, afasta-se o diagnóstico de RCIU. Conduta Para estabelecer a conduta e qual o momento ideal para o parto, deve-se avaliar: • Tipo de RCIU (simétrico, assimétrico) • Líquido amniótico • Avaliação adicional • Vitalidade fetal Laís Kemelly UNIME 2020.1