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DIREITO PENAL 1 DIREITO PENAL 2 SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO ......................................................................................................................... 04 2. TEORIA DA NORMA PENAL..................................................................................................... 20 3. TEORIA GERAL DO CRIME ...................................................................................................... 36 4. FATO TÍPICO ........................................................................................................................... 41 5. ILICITUDE ................................................................................................................................. 53 6. CULPABILIDADE ...................................................................................................................... 61 7. CONSUMAÇÃO E TENTATIVA ................................................................................................. 68 8. CONCURSO DE PESSOAS ........................................................................................................ 71 9. CONCURSO DE CRIMES .......................................................................................................... 75 10. PUNIBILIDADE ....................................................................................................................... 82 11. PENAS ................................................................................................................................... 86 12. LIVRAMENTO CONDICIONAL .............................................................................................. 115 13. EFEITOS DA CONDENAÇÃO ............................................................................................... 117 14. CRIMES EM ESPÉCIE ........................................................................................................... 123 15. LEGISLAÇÃO PENAL ESPECIAL ............................................................................................ 170 DIREITO PENAL 3 DIREITO PENAL 4 INTRODUÇÃO CONCEITO DE DIREITO PENAL Direito Penal é o ramo do direito que trata das regras para aplicação das normas incriminadoras, ou seja, aquelas que representam uma seleção dos comportamentos mais gravosos para os bens jurídicos, cominando-lhes as respectivas sanções, que, no Brasil, são penas ou medidas de segurança. Assim, “o Direito Penal tem por objeto condutas humanas descritas em forma positiva (ações) ou em forma negativa (omissão de ações) de tipos legais de condutas proibidas”.1 Justifica-se a aplicação do Direito Penal quando meios menos eficazes, como os adotados por outros ramos do Direito não são suficientes para proteger eficazmente os bens jurídicos, daí extraindo-se que tem – ou deveria ter - caráter secundário ou de ultima ratio. CARACTERES O Direito Penal positivo possui três caracteres principais: valorativo, finalista e sancionador. O caráter valorativo se manifesta pela tutela dos valores mais elevados da sociedade, uma vez que o Direito Penal os dispõe em uma escala hierárquica e valora os fatos de acordo com a sua gravidade. “Quanto mais grave o crime, o desvalor da ação, mais severa será a sanção aplicável ao seu autor.” 2 A lei penal é finalista porque pretende prevenir lesões aos bens e interesses jurídicos merecedores de tutela mais eficiente, por meio da ameaça legal de aplicação de sanções de maior poder intimidativo (a pena). Assim, essa prevenção é a maior finalidade do Direito Penal. Ainda, o Direito Penal possui caráter sancionador, pois reforça a tutela jurídica dos bens já regidos pela legislação extrapenal. No entanto, não podemos esquecer que a lei penal atinge também bens jurídicos não tutelados pelas leis extrapenais. FUNÇÕES DO DIREITO PENAL Seguem abaixo as principais funções do Direito Penal. a) proteção de bens jurídicos: A principal função do Direito Penal é de instrumento de proteção de bens juridicamente relevantes.4 Não se admite a criação de norma incriminadora que não vise à proteção de um bem jurídico; b) controle social: a ameaça de penalização de condutas danosas, em teoria, contribui para a paz pública. No entanto, ante a incerteza da efetiva aplicação da norma e da ausência de políticas públicas que visem à redução da criminalidade, não se consegue promover um efetivo controle social; 1 SANTOS, Juarez Cirino dos. Direito Penal – Parte Geral. 5ª edição. Florianópolis: Conceito Editorial, 2012. p. 3. 2 MIRABETE, Julio Fabbrini; FABBRINI, Renato N. Manual de Direito Penal. 28ª edição. São Paulo: Atlas, 2012. V. 1, p. 4. 4 GOMES, Luiz Flávio; MOLINA, Antonio García-Pablos de; BIANCHINI, Alice. Direito penal – introdução e princípios fundamentais. São Paulo: RT, 2007. V.1, p. 222. DIREITO PENAL 5 c) função ético-social: parte da doutrina entende que o Direito Penal exerce função de proteção dos valores elementares da consciência, de caráter ético-social. No entanto, o Direito não tem função pedagógica, o que cabe a outros mecanismos de controle social, de modo que a adoção dessa perspectiva viola a ideia do Direito Penal como “ultima ratio”5; d) função de garantia: o Direito Penal também tem como função limitar o poder punitivo estatal, de modo a garantir ao cidadão que não será alvo de arbitrariedades por parte do poder público; e) função simbólica: é o efeito psicológico que a proibição gera na sociedade. A criminalização de uma conduta vem carregada de um simbolismo que visa produzir um efeito psicossocial nos cidadãos de que o Estado está agindo efetivamente para reprimir determinados comportamentos; f) função promocional: atribui-se ao Direito Penal uma função de transformação social. Para estes autores, a criminalização não depende dos valores da sociedade, pois a criação de delitos serve justamente para transformar tais valores; g) prevenção de vingança privada: o Direito Penal, ao conferir ao Estado o monopólio da pretensão punitiva, exerce o papel de evitar que vítimas façam justiça com as próprias mãos; h) função motivadora: por meio da ameaça de uma sanção, o Direito Penal motiva os indivíduos a não realizarem determinadas condutas. A CIÊNCIA CONJUNTA DO DIREITO PENAL: DOGMÁTICA PENAL, POLÍTICA CRIMINAL E CRIMINOLOGIA Franz Von Liszt, Penalista Alemão, cunhou a expressão “Ciência Conjunta do Direito Penal”, como a integração entre Dogmática Penal, Criminologia e Política Criminal. Estas três, entretanto, apesar de serem complementares, são disciplinas autônomas, com características e objetos de estudo próprios. a) Criminologia: é uma ciência empírica, descritiva e interdisciplinar que tem como objetos de estudo o crime e suas causas, o criminoso, a vítima e o controle social de comportamentos criminosos. Tem como função, entre outras, apontar os problemas sócias decorrentes da aplicação do Direito Penal, fornecendo dados para a formulação de políticas criminais. a.1.) Escola Positiva Italiana: a criminologia surge como criminologia positivista (com enorme influência das ciências naturais, como a biologia) e buscava explicar as causas naturais do crime (etiologia criminal), entendendo o crime como uma doença e o criminoso como um doente que poderia ser tratado. Tem como principais expoentes Cesare Lombroso, que desenvolveu a teoria do criminoso nato, indivíduo que seria biologicamente predisposto à prática de crimes; Enrico Ferri, que fundamentava a responsabilidade penal no determinismo social, afastando a tese do livre arbítrio; e Rafaelle Garofalo, que idealizou a teoria 5 BUSATO, Paulo César. Direito Penal. São Paulo: Atlas, 2013, p. 10. DIREITO PENAL 6 psicologicistasegundo a qual os criminosos irrecuperáveis deveriam ser afastados do convívio social pela deportação ou pela morte. a.2.) Criminologia Crítica: a criminologia desenvolveu-se e atualmente as correntes mais populares entendem o crime como um fenômeno social que tem suas causas não em fatores biológicos, mas em problemas e conflitos sociais, de forma que critica a estrutura social, o Direito Penal e o controle institucional de crimes, como a atuação das polícias, por exemplo (esta corrente tem diversas divisões). a.3.) Criminologia da Reação Social: é uma corrente de origem norte-americana, que entende a sociedade como uma rede de interações sociais que origina símbolos (chamada por isso de interacionismo simbólico). O crime é um desses símbolos criados pela interação social, de forma que o crime não tem existência ontológica (ou natural) e, portanto, o criminoso é alguém que foi etiquetado pela sociedade (teoria do etiquetamento ou labelling approach). Tem como principal expoente Howard Becker. b) Política Criminal: é a ciência que estuda e sistematiza estratégias para a prevenção e repressão estatal eficiente da criminalidade, de forma a maximizar a segurança pública sem violação de direitos fundamentais dos cidadãos (inclusive o criminoso). As políticas criminais são papel da política e sua implementação, portanto, depende da atuação dos legisladores. Entretanto a Política Criminal enquanto ciência não se trata das políticas concretas existentes em um país, mas do estudo de estratégias para fazer boas políticas criminais. Ademais, a criminalização de condutas e aumento das penas não são os únicos meios recomendados pela Política Criminal para a diminuição da criminalidade, sendo preferíveis políticas preventivas e sociais. c) Dogmática Penal: como já referido, é atividade de interpretação e sistematização do direito positivo que busca estabelecer o alcance, os limites e os objetivos das normas penais, estabelecendo critérios para sua aplicação. Está mais vinculada ao direito positivo do que a Criminologia e a Política Criminal. FONTES DO DIREITO PENAL Por fonte do Direito deve ser entendida a origem primária do Direito, identificando-a com a gênese das normas jurídicas. Nesse sentido, seria todo fator real ou fático que condiciona o aparecimento da norma jurídica. Distinguem-se as fontes do Direito Penal em materiais (ou de produção) e formais (ou de cognição ou conhecimento). As últimas podem, ainda, ser imediatas ou mediatas. FONTE MATERIAL OU DE PRODUÇÃO Relaciona-se à gênese da norma penal, com respeito ao órgão encarregado de sua elaboração. Fonte de produção é o Estado (não os Estados-Membros que compõem a Federação brasileira, mas sim esta última). Conforme preceitua o art. 22, I, CF, compete privativamente à União legislar sobre direito penal. Assim, cabe tão somente à União, como única fonte de produção, ditar normas gerais de Direito Penal, bem como proibir ou impor determinadas condutas (comissivas ou DIREITO PENAL 7 omissivas), sob a ameaça de sanção. A Constituição, ao referir-se à competência privativa da União, quer dizer que somente a conjugação da vontade do povo, representado pelos seus deputados, com a vontade dos Estados, representados pelos seus senadores, e, ainda, com a sanção do Presidente da República, é que pode inovar em matéria penal. Excepcionalmente, porém, prevê o parágrafo único do art. 22, CF, que “lei complementar poderá autorizar os Estados a legislar sobre questões específicas das matérias relacionadas neste artigo”. Objetivando a regionalização de determinadas questões penais, mostra-se, em tese, admissível que a União autorize os Estados-membros a criminalizar determinada conduta, prevendo delito peculiar a certa parte do País. Não obstante não se tenha notícia de tal prática, o certo é que a norma penal deve possuir alcance nacional, a fim de manter a integridade do sistema, sendo impensável a possibilidade de legislação, em matéria penal, por parte dos Estados-membros. FONTES FORMAIS OU DE COGNIÇÃO OU DE CONHECIMENTO Dizem respeito ao modo de exteriorização do Direito Penal e podem ser imediatas (ou direta) e mediatas (ou indiretas ou secundárias). FONTE FORMAL IMEDIATA A única fonte formal imediata é a lei, à qual se recorre para saber se determinada conduta praticada por alguém é proibida pelo Direito Penal. Observe-se que somente a lei, em sentido estrito, pode criar crimes e cominar penas. Outras espécies legislativas: a) lei complementar: pode legislar sobre matéria penal, uma vez que possui processo legislativo mais complexo do que a lei ordinária (ex.: art. 10, LC 105/01, que instituiu o crime de quebra de sigilo fora das hipóteses autorizadas na mesma Lei). Há, no entanto, posição em contrário6, sustentando que o rol da lei complementar é exaustivo na Constituição, não incluindo nenhuma hipótese de criação de lei penal, além de que é exigido quorum qualificado para elaborar uma lei complementar, o que iria engessar o Congresso Nacional se houvesse necessidade de modificar lei penal que fosse criada pelo processo qualificado; b) lei delegada: é aquela elaborada pelo Presidente da República por delegação do Congresso Nacional, não podendo veicular norma penal, pois o art. 68, § 1º, II, CF, veda a delegação em matéria de direitos individuais, entre os quais está o Princípio da Reserva Legal (art. 5º, XXXIX, CF). Além disso, o procedimento legislativo, que exige intenso debate dos congressistas sobre as propostas de alteração da legislação penal, restaria enfraquecido, sem trâmite pelas duas Casas Legislativas e sem apresentação de emendas; c) medida provisória: não pode disciplinar matéria penal em face de expressa vedação constitucional (art. 62, § 1º, I, b, CF), conforme alteração advinda pela Emenda Constitucional n. 32/01. Antes de tal EC, no entanto, a matéria gerava certa controvérsia, tendo ocorrido casos de leis penais criadas por MPs, como a Lei 6 CERNICCHIARO, Luiz Vicente; COSTA JR., Paulo José da. Direito Penal na Constituição. São Paulo: Ed. Revista dos Tribunais, 1991, p. 46-7. DIREITO PENAL 8 7.960/89 (Lei da Prisão Temporária), acrescendo tipo penal à Lei 4.898/65, que trata do abuso de autoridade; d) emenda à constituição: pode, em tese, criar lei penal, já que é fruto do Poder Constituinte Derivado ou Reformador, mesmo porque não há vedação expressa a respeito. No entanto, a teor do art. 60, § 4º, CF, a EC não poderá restringir direitos e garantias individuais. FONTES FORMAIS MEDIATAS São fontes formais mediatas o costume, os princípios gerais de direito e o ato administrativo, embora já tenham sido também elencados os tratados e convenções, a equidade, a doutrina, a jurisprudência e até mesmo a analogia.8 COSTUME É a repetição da conduta, de maneira constante e uniforme, em razão da convicção da sua obrigatoriedade jurídica. Em virtude do Princípio da Reserva Legal, o costume não pode criar crimes e nem cominar penas, embora continue eficaz em outros ramos do Direito, principalmente naqueles pautados pela common law. São elementos do costume: a) objetivo: a constância e uniformidade dos atos (consuetudo); e b) subjetivo: a convicção da obrigatoriedade jurídica (opinio necessitatis). O costume não se confunde com o hábito, uma vez que neste inexiste a convicção da obrigatoriedade jurídica do ato. Como características do costume, pode-se apontar a sua uniformidade, pois pressupõe sensível e múltipla repetição da mesma prática; sua constância, pois não pode ser interrompido, sob pena de descaracterizar-se como norma jurídica; sua publicidade, porque obriga a todos e por todos deve ser conhecido; e sua generalidade, no sentido de alcançar todos os atos e todas as pessoas e relações que realizam os pressupostos de sua incidência. Espécies de costume:a) costume secundum legem: é o chamado costume interpretativo, auxiliando a esclarecer o conteúdo de certos elementos do tipo penal; b) costume praeter legem: é o chamado costume integrativo, que preenche ausência ou lacuna da lei; c) costume contra legem: é o chamado costume negativo, que contraria a lei. Das três espécies, os costumes secundum legem e praeter legem poderão ter validade para o Direito Penal, já que não atuam além dos limites do tipo ou em sua oposição, mas agem na intimidade da norma para que o seu sentido se ajuste às concepções sociais dominantes. Atenção: o costume contra legem não revoga a lei penal, em face do que dispõe o art. 2º, § 1º, LINDB, segundo o qual uma lei só pode ser revogada por outra lei9. 8 Nesse sentido: MAGALHÃES NORONHA, Edgard. Direito Penal (introdução e parte geral). 30ª ed., vol. 1, São Paulo: Saraiva, 1985, p. 59. 9 A propósito: O sistema jurídico brasileiro não admite possa uma lei perecer pelo desuso, porquanto, assentado no princípio da supremacia da lei escrita (fonte principal do direito), sua obrigatoriedade só termina com sua revogação por outra lei. Noutros DIREITO PENAL 9 PRINCÍPIOS GERAIS DE DIREITO Tratando das lacunas na lei e demonstrando a completude do direito (sua não- lacunosidade), dispõe o art. 4º, LINDB: “Quando a lei for omissa, o juiz decidirá o caso de acordo com a analogia, os costumes e os princípios gerais de direito”. Os princípios gerais de direito são premissas éticas que são extraídas, mediante indução, do material legislativo. As lacunas da lei, ao serem preenchidas pelos princípios gerais de direito, obrigam à criação de regras formuladas pelos princípios morais que informam a legislação onde ocorre o caso omisso. Tais princípios não podem ser fontes de incriminação de condutas. No entanto, no campo das normas não-incriminadoras, poderão ampliar as causas de exclusão da ilicitude ou da culpabilidade. No caso da mãe que fura as orelhas da filha para colocar-lhe brincos, não obstante a concepção moderna indique uma atipicidade - em face do princípio da adequação social -, alguns penalistas10 irão aplicar os princípios gerais de direito para afastar a ilicitude do fato. ATO ADMINISTRATIVO Em algumas normas penais em branco, o complemento da definição da conduta criminosa dependerá de um ato da Administração Pública. No delito de omissão de notificação de doença, previsto no art. 269, CP, é um ato administrativo11 que irá elencar o rol de doenças cuja notificação é compulsória, servindo, dessa forma, como fonte formal mediata do Direito Penal. PLEBISCITO E REFERENDO COMO FONTES DO DIREITO PENAL De acordo com a Constituição, cabe ao Congresso Nacional autorizar referendo e convocar plebiscito (art. 49, XV). Tais instrumentos, no entanto, apenas poderão aprovar ou rejeitar lei penal a ser criada ou já materializada pelos parlamentares. PRINCÍPIOS BÁSICOS PENAIS PRINCÍPIO REITOR: DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA Com o advento da Constituição de 1988, a dignidade da pessoa humana foi alçada à categoria de princípio fundamental (art. 1º, III). O princípio constitucional da proteção e da promoção da dignidade da pessoa humana deve influenciar o sistema penal (amplamente considerado), para que ele funcione com respeito aos direitos humanos fundamentais e para que se baseie, precipuamente, no paradigma humanitário. Juridicamente, a noção da dignidade humana está ligada aos movimentos constitucionalistas modernos, sobretudo aos constitucionalismos francês e americano. A constituição moderna, de caráter nitidamente liberal, surgiu com a finalidade de declarar direitos, de fundamentar a organização do governo e de limitar o poder político, termos, significa que não pode ter existência jurídica o costume contra legem. STJ, REsp 30.705-7, 6a T., Rel. Min. Adhemar Maciel, unânime, DJU 3-04-1995. 10 Como Mirabete e Damásio de Jesus. 11 Portaria n.° 104, de 25 de janeiro de 2011, do Ministério da Saúde. DIREITO PENAL 10 limitação essa que era o maior anseio dos mentores burgueses setecentistas. Assim, o valor moral da dignidade da pessoa humana foi consagrado como preceito constitucional na Declaração de Direitos de Virgínia, que precedeu a Constituição americana de 1787, e na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789, que resultou da Revolução Francesa. Apesar de ser possível sua dedução dos textos constitucionais mais antigos que tutelavam as liberdades fundamentais, a expressa positivação do ideal da dignidade da pessoa humana é bastante recente. Com algumas exceções, somente após sua consagração na Declaração Universal da ONU de 1948 é que o princípio foi expressamente reconhecido na maioria das Constituições. Com o advento da Constituição brasileira de 1988, restou consagrado o valor da dignidade da pessoa humana como princípio máximo, elevando, de maneira inconteste, o princípio em comento a uma categoria superlativa em nosso ordenamento, na qualidade de norma jurídica fundamental. Tal princípio é, portanto, o regente dos demais princípios, sendo que toda lei que violar a dignidade da pessoa humana será inconstitucional. PRINCÍPIOS PENAIS FUNDAMENTAIS RELACIONADOS AO DIREITO PENAL PRINCÍPIO DA EXCLUSIVA PROTEÇÃO DE BENS JURÍDICOS O principal objetivo do Direito Penal é efetivamente a proteção de bens jurídicos, uma vez que não há crime sem a existência de lesão ou perigo de ofensa a um bem ou interesse juridicamente tutelado. A noção de bem jurídico adquiriu, dentro do Direito Penal, uma importância particular logo após a Segunda Guerra Mundial. Neste sentido, seu valor principal foi o de legitimar ou dar validade às normas penais com fundamento no princípio que diz não poder haver lei penal sem um bem jurídico para tutelar. É exatamente aqui que reside a ideia de princípio da exclusiva proteção de bens jurídicos. Isso porque a noção de bem jurídico supõe critérios evidentes de taxatividade e de delimitação daquilo que se quer proteger. De tal perspectiva, a noção de bem jurídico buscou impedir que se façam difusos ou intangíveis os conteúdos cuja afetação pode ser objeto de imputação de consequências penais. O bem jurídico converteu-se, então, em núcleo do conceito material de crime. Com esse conteúdo, o bem jurídico pretendeu ancorar a atividade legislativa da política criminal somente a certas realidades ou interesses relevantes para a convivência social, deixando fora dessa competência os campos da privacidade e as crenças pessoais. PRINCÍPIO DA LEGALIDADE A Constituição traz um princípio geral de legalidade no inciso II de seu art. 5º, segundo o qual: “ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei”. Do ponto de vista penal, a legalidade assume feição mais estrita, nos termos do inciso XXXIX do art. 5º, assim redigido: “não há crime sem lei anterior que o defina, nem pena sem prévia cominação legal”, cujo texto é análogo, aliás, ao do art. 1º, CP. Cuida-se de regra antiga, já consagrada no brocardo latino “nullun crimen, nulla poena sine lege”, do qual se retira a tipicidade penal, de modo que o cidadão saiba quais são os comportamentos proibidos. DIREITO PENAL 11 Destarte, o princípio da legalidade proíbe que a) a retroatividade da lei penal seja utilizada como meio de criminalização ou agravação da pena de fato anterior; b) o costume seja aplicado como fonte de criminalizações e agravações de penas; c) a analogia seja empregada como método de criminalização de condutas; e d) haja indeterminação dos tipos legais e das sanções penais.12 Não há violação do princípio da legalidade: a) na interpretação sistemática de váriosdispositivos legais aplicáveis, como no caso da orientação “predominante no Supremo Tribunal Federal no sentido de que o cometimento de falta grave, durante a execução da PPL, implica, por exemplo, a necessidade de reinício da contagem do prazo de 1/6 (um sexto) para obtenção da progressão no regime de cumprimento da pena” (STF, HC 99093, Ellen, 2ª. T., u., 24.11.09); b) na especialização de vara para julgamento de crimes sexuais contra crianças ou adolescentes, por ato administrativo do tribunal (STF, HC 91509, Grau, 2ª. T., u., 27.10.09); c) na utilização de medida provisória em favor do réu, como no caso daquelas que: “abolem crimes ou lhes restringem o alcance, extingam ou abrandem penas ou ampliam os casos de isenção de pena ou de extinção de punibilidade” (STF, RE 254818, Pertence, Pl., u., 8.11.00). Há violação do princípio da legalidade: a) na Resolução de TRE que afirma caracterizado o crime do art. 347 do Código Eleitoral em caso de descumprimento da Resolução, quando o delito exige ordem individualizada e dirigida ao agente (STF, ADI 2283, Gilmar Mendes, Pl., m., 15.2.06). ANALOGIA Analogia é a técnica de colmatação das lacunas da lei consistente na aplicação de uma regra legal a uma situação não prevista na norma, mas assemelhada aquela que está regulamentada. Em Direito Penal, admite-se a analogia in bonam partem, ou seja, a favor do réu, desde que se trate de uma lacuna involuntária, e não de uma opção deliberada do legislador de dar tratamento diverso à matéria (STF, HC 94777, Direito, 1ª. T., u., 5.8.08). É vedada, porém, a analogia in malam partem, ou desfavorável ao réu, por violar o princípio da legalidade estrita ou tipicidade cerrada, que exige lei formal para a veiculação de normas penais (STF, Inq. 1145, Corrêa, Pl., u., 19.12.06). Não há vedação, porém, à aplicação analógica da lei penal, assim entendido a extensão de uma regra a casos assemelhados, com base em expressa autorização legal, como no caso da alínea c do inciso II do art. 61, CP, que prevê uma agravante para o crime praticado: “à traição, 12 SANTOS, Juarez Cirino dos. Direito Penal – Parte Geral. 5ª edição. Florianópolis: Conceito Editorial, 2012. p. 19. DIREITO PENAL 12 de emboscada, ou mediante dissimulação, ou outro recurso que dificultou ou tornou impossível a defesa do ofendido”. Nesse caso é possível, por expressa autorização legal, a aplicação da lei penal em caso de utilização de outros recursos que não a traição, a emboscada ou a dissimulação, desde que tenham dificultado ou tornado impossível a defesa da vítima. NORMA PENAL EM BRANCO Norma penal em branco é aquela de conteúdo incompleto, que requer complementação por outra norma jurídica, usualmente extra-penal. O fundamento do uso da técnica da norma penal em branco é permitir a adequação da norma penal ao conteúdo de outros ramos do direito, permitindo, assim, uma atualização automática da norma penal em caso de modificação da norma complementar. Além disso, a técnica confere maior agilidade em caso de necessidade de atualização da norma, que poderá ser feita por ato da autoridade administrativa, e não da lei formal, em um procedimento mais complexo e moroso, sujeito, ainda, às complexidades políticas inerentes ao parlamento. A norma penal em branco poderá ser: Modalidade Complemento Exemplo Homogênea ou em sentido lato Lei extra penal art. 237, CP Heterogênea ou em sentido estrito Norma infra-legal (Decreto, regulamento, portaria, etc.) art. 33, Lei 11.343/06 PRINCÍPIO DA ANTERIORIDADE Mas não basta que os comportamentos penais estejam previstos em lei. O art. 5º, XXXIX, CF, e o art. 1º, CP, já mencionados, também exigem que a lei penal seja anterior ao fato em julgamento, de modo que o cidadão esteja devidamente advertido da ilicitude do seu comportamento. Em caso de norma penal em branco, somente serão consideradas criminosas as condutas praticadas depois da entrada em vigor da norma complementar (STF, Inq. 1915, Pertence, Pl., m., 5.8.04). PRINCÍPIO DA IRRETROATIVIDADE Corolário da anterioridade é a irretroatividade da lei penal mais gravosa, pois de nada adiantaria estabelecer a anterioridade se esse princípio fosse esvaziado pela possibilidade de uma lei penal retroativa, que tornaria ineficaz a garantia13. Bem por isso, assim reza o art. 5º, XL, CF: “a lei penal não retroagirá, salvo para beneficiar o réu”. O princípio em exame aplica-se também às normas de execução penal (STF, HC 68416/DF, Brossard, 2ª. T., u., 8.9.92). Não se pode, então, por exemplo, negar o indulto ao delito incluído no rol dos crimes hediondos pela Lei 8.930/94, ainda que o Decreto exclua os 13 NUCCI, Guilherme de Souza. CP Comentado. 7 ed. rev. atual. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2007. p. 41. DIREITO PENAL 13 crimes hediondos, se o fato em questão foi cometido antes da lei nova mais gravosa (STF, HC 101238/ SP, Grau, 2ª. T., u., 2.2.10). O princípio em exame não se aplica às normas processuais penais, que tem vigência imediata (STF, AI 177313 AgR-ED/MG, Mello, 1ª. T., u., 18.6.96). PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE DA LEI BENÉFICA Como visto acima, a vedação da retroatividade da lei penal não se aplica a lei que beneficiar o acusado, como explicita, aliás, o parágrafo único do art. 2º, CP, nos seguintes termos: “A lei posterior, que de qualquer modo favorecer o agente, aplica-se aos fatos anteriores, ainda que decididos por sentença condenatória transitada em julgado”. Na mesma linha o art. 107, III, CP, que arrola como uma das causas da extinção da punibilidade a: “retroatividade de lei que não mais considera o fato como criminoso”. PRINCÍPIO DA INTERVENÇÃO MÍNIMA Segundo tal princípio, o Direito Penal só intervirá na defesa dos bens jurídicos imprescindíveis à coexistência pacífica dos homens, interesses esses que não podem ser eficazmente tutelados de forma menos gravosa. Tem origem na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789, que determina, no seu art. 8º, que a lei só deve prever as penas estritamente necessárias. A lei penal, portanto, só deve intervir como ultima ratio, ou seja, quando absolutamente necessária à sobrevivência da comunidade. Isso porque o uso excessivo do Direito Penal – e da própria pena – não garante uma maior proteção aos bens, mas, ao contrário, condena o sistema penal a uma função meramente simbólica e negativa. Subdivide-se em princípio da fragmentariedade e princípio da subsidiariedade. PRINCÍPIO DA FRAGMENTARIEDADE Apenas as condutas mais graves, consideradas socialmente intoleráveis e endereçadas a bens efetivamente valiosos, é que podem ser objeto de criminalização. Como fragmento é parte de um todo, o Direito Penal, visto como fragmentário, só poderá ocupar-se de ações ou omissões que lesem, verdadeiramente, a vida em sociedade. PRINCÍPIO DA SUBSIDIARIEDADE Só haverá intervenção do Direito Penal quando outros ramos do Direito não resolverem de forma satisfatória o conflito. O Direito Penal, portanto, é a ultima ratio. PRINCÍPIO DA ADEQUAÇÃO SOCIAL Concebida por Hans Welzel14, a teoria da adequação social significa que, não obstante determinada conduta se amolde formalmente ao modelo legal, não será considerada típica se for socialmente adequada ou reconhecida, ou seja, se estiver de acordo com a ordem social da vida historicamente condicionada. A ação será socialmente adequada quando realizada dentro do âmbito da normalidade admitida pelas regras de cultura do povo. 14 WELZEL, Hans. Derecho penal alemán. Trad. Juan Bastos Ramírez e Sérgio Yáñez Perez. 11a ed., Santiago: Jurídica de Chile, 1997, p. 85. DIREITO PENAL 14 Assim, as pequenas lesões desportivas que advêmda violação de normas cuja inobservância é prática corriqueira no jogo, e o corte coativo de cabelo do calouro aprovado no vestibular, por exemplo, são comportamentos que, a despeito de serem considerados típicos pela lei penal, não afrontam o sentimento social de justiça, ou seja, aquilo que a sociedade tem por certo e justo. Atenção: o STF, no julgamento do HC 104467, entendeu inaplicável o princípio da adequação social em relação ao art. 229, CP (“manter, por conta própria ou de terceiro, estabelecimento em que ocorra exploração sexual, haja, ou não intuito de lucro ou mediação direta do proprietário ou gerente”), crime que permanece típico, uma vez que caberia somente ao legislador o papel de revogar ou modificar a lei penal em vigor. PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA OU BAGATELA A introdução do princípio da insignificância no sistema penal deve-se a Claus Roxin15, que reconhecia a insignificância como auxiliar interpretativo, e não como característica do tipo delitivo, objetivando restringir o teor literal do tipo formal, conformando-o com condutas socialmente admissíveis, em decorrência de suas ínfimas lesões a bens juridicamente tutelados. Em face do princípio da insignificância, que Klaus Tiedemann chamou de princípio da bagatela, mínimas ofensas a interesses protegidos pela norma penal não justificam a incidência do Direito Penal, que se mostra desproporcionado ao castigar fatos de importância manifestamente insignificante. É imperativa uma efetiva proporcionalidade entre a gravidade da conduta que se pretende punir e a drasticidade da intervenção estatal. Como a tipicidade penal exige um mínimo de lesividade ao bem juridicamente tutelado, sempre que a lesão for insignificante, a ponto de tornar-se incapaz de ofender o interesse protegido, não haverá adequação típica. O princípio da insignificância é hoje tomado como causa excludente da tipicidade material, impedindo a configuração do injusto típico. Observações: a) natureza jurídica: é causa supralegal de exclusão da tipicidade material; b) quatro condições essenciais para a aplicação do princípio da insignificância17: mínima ofensividade da conduta, inexistência de periculosidade social do ato, reduzido grau de reprovabilidade do comportamento e inexpressividade da lesão provocada; c) não cabe em crimes praticados com violência ou grave ameaça contra pessoa, como roubo e resistência (Inf. STJ 439 e 441); d) não cabe no crime de moeda falsa (Inf. STJ 437) e no crime de tráfico de drogas (STJ, HC 248652, j. 18/09/2012); 15 Roxin fala do princípio da insignificância, pela primeira vez, em 1964, e depois volta a repeti-lo em sua obra Política Criminal y Sistema del Derecho Penal, partindo do adágio latino minima non curat praetor. 17 Segundo STF e STJ DIREITO PENAL 15 PRINCÍPIO DA CONFIANÇA O princípio da confiança baseia-se na expectativa de que as outras pessoas ajam de um modo já esperado, ou seja, normal. Consiste, portanto, na realização da conduta de uma determinada forma na confiança de que o comportamento do outro agente se dará conforme o que acontece normalmente. O motorista que, conduzindo seu veículo pela preferencial, passa por um cruzamento, confia que o outro automóvel, que se encontra na via secundária, aguardará sua passagem, por exemplo; havendo acidente, não terá o primeiro agido com culpa. O princípio da confiança tem sido tratado, hoje, como causa supralegal de exclusão da culpa e, por consequência, do próprio fato típico. PRINCÍPIO DA CONSTITUCIONALIDADE DAS NORMAS PENAIS Decorre do princípio da Supremacia Constitucional, segundo o qual a Constituição está no ápice do ordenamento jurídico nacional e nenhuma norma jurídica pode contrariá-la, material ou formalmente, sob pena de advir uma inconstitucionalidade. Disso resulta uma presunção relativa (juris tantum) no sentido de que todas as normas atinentes a Direito Penal estão em consonância plena com a Constituição, sob pena de não serem recepcionadas e, como consequência, de serem afastadas pelo ordenamento constitucional superior. PRINCÍPIO DA COMPLEMENTARIDADE Conforme tal princípio, a conjunção dos princípios constitucionais é que afirma o modelo fundamental, no qual se arrima toda a construção jurídico-normativa da sociedade estatal, pelo que se caracterizam e pela complementaridade que os anima. Dessa forma, embora não estejam expressamente previstos na Constituição, os princípios modernos norteadores do Direito Penal – como a intervenção mínima, a insignificância, a ofensividade e a proporcionalidade, entre outros – podem ser invocados e reconhecidos no sistema pela complementação natural entre eles e o princípio da reserva legal. PRINCÍPIOS PENAIS FUNDAMENTAIS RELACIONADOS AO DELITO PRINCÍPIO DA EXTERIORIZAÇÃO OU MATERIALIZAÇÃO DO FATO O Direito Penal somente poderá intervir quando o agente, por meio da sua conduta voluntária, exteriorizar ações ou omissões concretas. Não se pode punir o pensamento, o estilo de vida, a orientação sexual, a ideologia, a personalidade. O Direito Penal moderno caracteriza- se como um direito penal do fato (pune-se o sujeito pelo que fez), e não mais como um direito penal do autor (pune-se o sujeito pelo que é). Atenção: a contravenção penal da vadiagem (art. 59, LCP), embora formalmente vigente, é tida por muitos autores como não recepcionada pela CF, já que representaria o indesejável direito penal do autor. PRINCÍPIO DA OFENSIVIDADE OU LESIVIDADE DIREITO PENAL 16 Segundo tal princípio, não se pode conceber a existência de qualquer crime sem ofensa ao bem jurídico (nullum crimen sine iniuria). O princípio da ofensividade do fato decorre de outro princípio geral de direito, que é o neminem laedere. O princípio atua em dois âmbitos: ao legislador determina que não pode criminalizar condutas em que não haja previsão de uma lesão ou perigo de lesão a um bem jurídico; ao julgador determina que deve interpretar os tipos penais de forma a verificar se houve lesão ou perigo de lesão ao bem jurídico tutelado pela norma penal, pois apenas neste caso existe de fato um crime. A partir da ofensividade discute-se na doutrina brasileira a constitucionalidade dos crimes de perigo abstrato, nos quais o perigo é presumido. Atenção para a arma de fogo desmuniciada: A posição amplamente majoritária no STJ é que haverá crime, tanto no porte de arma desmuniciada quanto no porte de munição (STJ, HC 328697/SP, j. 15/09/201518). No entanto, o mesmo tribunal vem entendendo que, no roubo praticado com arma desmuniciada não incide a majorante do emprego de arma, punindo-se o agente por roubo simples (STJ, AgRg no REsp 1536939/SC, j. 15/10/201519). Importante: o bem jurídico atingido deve pertencer a terceira pessoa, ou seja, a prática criminosa pressupõe conduta que transcenda a esfera individual do agente. Por isso o princípio da ofensividade deve ser complementado pelo princípio da alteridade (altero: o outro) ou transcendentalidade, fazendo com que a autolesão e a própria tentativa de suicídio restem impuníveis. Exceção: a autolesão configurará crime em duas hipóteses: se cometida com o fim de fraudar seguro caracterizará estelionato (art. 171, § 2º, V, CP), e se praticada para criar incapacidade física que inabilite o convocado para o serviço militar, poderá constituir-se em crime militar (art. 184, CPM). PRINCÍPIOS PENAIS FUNDAMENTAIS RELACIONADOS AO SUJEITO PRINCÍPIO DA RESPONSABILIDADE PESSOAL Como o indivíduo só pode ser responsabilizado penalmente pelos próprios atos, descabe a aplicação de pena criminal por fato alheio. PRINCÍPIO DA RESPONSABILIDADE SUBJETIVA Para que o agente seja punido penalmente, não basta a mera prática material do fato, já que se requer, também, a presença do dolo ou da culpa. Isso significa que não há mais lugar, hodiernamente,para a chamada responsabilidade penal objetiva. Observe-se, a propósito, o art. 19, CP: “Pelo resultado que agrava especialmente a pena, só responde o agente que o houver causado ao menos culposamente”. 18 “É típica a conduta de portar arma de fogo sem autorização ou em desconformidade com determinação legal ou regulamentar, ainda que desmuniciada, ‘por se tratar de delito de perigo abstrato, cujo bem jurídico protegido é a incolumidade pública, inde- pendentemente da existência de qualquer resultado naturalístico’”. 19 “Conforme o atual entendimento do Superior Tribunal de Justiça, o emprego de arma de fogo desmuniciada tem o condão de configurar a grave ameaça e tipificar o crime de roubo, no entanto não é suficiente para caracterizar a majorante do emprego de arma, pela ausência de potencialidade lesiva no momento da prática do crime”. DIREITO PENAL 17 PRINCÍPIO DA CULPABILIDADE A culpabilidade exerce a função de limite material do jus puniendi, sendo vedada a responsabilização penal objetiva. Afora isso, a culpabilidade tem graus, exercendo importante papel na determinação da pena (art. 59, CP). Atenção para a tese da coculpabilidade de Zaffaroni: fundamenta-se na possível influência do meio social sobre a personalidade do agente, ou seja, seria a “sociedade marginalizadora” concorrendo para a prática do crime, podendo ser considerada uma atenuante inominada (art. 66, CP). PRINCÍPIO DA ISONOMIA OU IGUALDADE Está previsto especialmente no art. 5º, CF (“todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”), impondo a igualdade da lei (a lei não pode fazer qualquer espécie de discriminação) e a igualdade perante a lei (não deve haver qualquer discriminação na aplicação da lei). É por isso que, no caso do concurso de agentes, a decisão do recurso interposto por um dos réus, se fundado em motivos que não sejam de caráter exclusivamente pessoal, aproveitará aos outros (art. 580, CPP). PRINCÍPIO DA PESSOALIDADE De acordo com o art. 5º, XLV, CF: “nenhuma pena passará da pessoa do condenado, podendo a obrigação de reparar o dano e a decretação do perdimento de bens ser, nos termos da lei, estendidas aos sucessores e contra eles executadas, até o limite do valor do patrimônio transferido”. Do princípio em referência decorrem as seguintes consequências: a) extinção da punibilidade pela morte do agente (CP, art. 107, I); b) a impossibilidade de substituição do condenado por terceiro no cumprimento da pena, ainda que se trate de PSC (STF, HC 68309, Mello, 1ª. T., 27.11.90). PRINCÍPIOS PENAIS FUNDAMENTAIS RELACIONADOS COM A PENA PRINCÍPIO DA HUMANIDADE O poder punitivo estatal não pode aplicar sanções que atinjam a dignidade da pessoa humana ou que lesionem a constituição físico-psíquica dos condenados. Estabelecem a Declaração dos Direitos do Homem (1948): “todo indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal (art. III), e ninguém será submetido a tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante (art. V)”; o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos (1966): “ninguém será submetido a tortura, nem a penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes. Será proibido, sobretudo, submeter uma pessoa, sem seu livre consentimento, a experiências médicas ou científicas” (art. 7º); a Convenção contra a Tortura e outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanos ou Degradantes (1984) define e pune a tortura (arts. 1º e 4º). DIREITO PENAL 18 O princípio da humanidade do Direito Penal é, atualmente, o maior entrave para a adoção da pena capital e da prisão perpétua, apresentando-se como verdadeira diretriz garantidora de ordem material e restritiva da lei penal. Atenção: com base no princípio da humanidade, as Cortes superiores, em algumas decisões recentes, vêm entendendo que o prazo máximo de duração da medida de segurança aplicável aos inimputáveis é ou o de trinta anos, previsto no art. 75, CP20 (STF, HC 107432, 24.5.11), ou o limite máximo da pena abstratamente cominada ao delito (STJ, , HC 91602, 6ª. T., 20.9.12). PRINCÍPIO DA LEGALIDADE Não há crime sem lei anterior que o defina e nem pena sem prévia cominação legal (art. 1º, CP, e art. 5º, XXXIX, CF). PRINCÍPIO DA PROPORCIONALIDADE Não obstante remonte à Antiguidade, foi com o Iluminismo, especialmente com Cesare Beccaria, que o princípio da proporcionalidade se firmou como postulado penal. Em sentido amplo, a proporcionalidade pressupõe: a) adequação ou idoneidade; b) necessidade ou exigibilidade; e c) proporcionalidade em sentido estrito. Gomes Canotilho21 refere que a adequação (chamada por ele também de conformidade) trata de controlar a relação de adequação medida-fim; a exigibilidade, por sua vez, não põe em crise a adoção da medida (necessidade absoluta), mas sim a necessidade relativa da providência, ou seja, perquire se o legislador poderia ter adotado outro meio igualmente eficaz e menos desvantajoso para os cidadãos; e a proporcionalidade em sentido estrito sopesa as desvantagens dos meios em relação às vantagens do fim. No âmbito penal, o princípio da proporcionalidade ensina que as penas devem estar proporcionadas ou adequadas à intensidade ou magnitude da lesão ao bem jurídico representada pelo crime, não tendo cabimento o exagero, de um lado, e a liberalidade extrema, de outro. Ofenderia a proporcionalidade punir um latrocínio, por exemplo, com pena de multa. Observações: a) sobre individualização da pena (art. 5º, XLVI, CF), deve ser lembrada a Súmula 471 do STJ: “Os condenados por crimes hediondos ou assemelhados cometidos antes da vigência da Lei n.º 11.464/2007 sujeitam-se ao disposto no art. 112 da Lei n.º 7.210/1984 (LEP) para a progressão de regime prisional”. b) princípio da personalidade, pessoalidade ou intranscendência da pena: de acordo com a Constituição (art. 5º, XLV), “nenhuma pena passará da pessoa do condenado”; 20 Cumpre esclarecer que o tempo máximo de cumprimento de pena privativa de liberdade foi ampliado para 40 anos, conforme nova redação do art. 75, CP, dada pela Lei 13.964/19. 21 GOMES CANOTILHO, José Joaquim. Direito Constitucional e Teoria da Constituição. 5a ed., Coimbra: Almedina, 2002, p. 262-3. DIREITO PENAL 19 ocorre que há duas exceções: a reparação do dano e a decretação do perdimento de bens, que podem ser, nos termos da lei, estendidas aos sucessores e contra eles executadas, até o limite do valor do patrimônio transferido; c) deve-se analisar a necessidade concreta da pena; lembre do perdão judicial (art. 121, § 5º; art. 129, § 8º), quando o magistrado, mesmo diante da culpabilidade do réu, decide pela desnecessidade concreta da pena; d) deve-se analisar a suficiência da pena alternativa (substituição da PPL por restritiva de direitos, na forma do art. 44, CP); e) princípio da proibição de excesso (Übermassverbott) ou do garantismo negativo: a proporcionalidade é utilizada como proteção contra os excessos ou abusos do Estado (proibição da pena de morte, por exemplo); f) princípio da proibição de insuficiência (Untermassverbot) ou do garantismo positivo: a proporcionalidade é utilizada como proteção contra a omissão estatal diante dos direitos fundamentais (punir o crime de extorsão mediante sequestro com pena mais grave que a do homicídio significa violação à necessária tutela do bem vida). PRINCÍPIO DA INDIVIDUALIZAÇÃO DA PENA A pena, por imposição constitucional, é individualizada (art. 5º, XLVI, CF), o que representa uma manifestação do princípio da proporcionalidade, no sentido de que a pena deve ser adequada, em justa relação com o ato e a culpa do agente, sem excesso, sendo que a fundamentação individualizada constitui direito subjetivo do sentenciado (STF, HC 72.992, Mello,1ª T., u., DJ 14.11.96). O processo individualizador se dá em três fases, a saber: a) legislativa, quando são escolhidos os fatos puníveis, as penas aplicáveis, seus limites e critérios de fixação; b) judicial, que se dá na sentença, quando o juiz estabelece as penas previstas dentre as cominadas, seus quantitativos e eventuais substituições; c) executiva, por ocasião do cumprimento da pena. Corolário lógico do processo de individualização é que, ao final deste, possam ser condenados a penas diferentes corréus no mesmo feito (STF, HC 70022/RJ, Mello, 1ª. T., u., 20.4.93; STF, HC 70.900, M. Alves, RTJ 157/138), conforme variarem as circunstâncias referentes a uns e outros, até mesmo por aplicação dos princípios constitucionais da igualdade e da proporcionalidade, impondo-se a diferenciação para corréus cuja participação no crime foi distinta (TRF4, EIAC 97.04.47112-2, Sarti, 1ª S., m., 2.9.98, DJ 7.10.98).Não há, de outro lado, obrigatoriedade de se chegar a penas diferentes. Assim, poderão ocorrer casos em que, idênticas as circunstâncias objetivas e subjetivas, impor-se-á a mesma pena (STF, HC 70931/RJ, Pertence, 1ª. T., u., 14.12.93; STF, HC 72.992, Mello, 1ª T., u., DJ 14.11.96). Em outras palavras, o fato de se cuidar de um processo de individualização não sugere, necessariamente, apenamento em quantitativos diferentes. A diferenciação no resultado final dependerá, então, da existência de circunstâncias diversas, devidamente referidas na sentença, não sendo razoável o tratamento diferenciado dado a corréus, no mesmo processo, sem que tenha sido declinado o fundamento para tanto (STJ, REsp. 225.398/PR, Félix Fischer, v.u.u., DJ 28.2.00) ou DIREITO PENAL 20 quando o juiz afirma presentes as mesmas circunstâncias (TRF4, AC 2001.04.01.083970-0, Penteado, 8ª T., u., 11.6.03). PRINCÍPIO DA INCOLUMIDADE FÍSICA E MORAL O respeito à integridade física e moral dos acusados, em especial dos presos, é extraída dos seguintes incisos do art. 5º, CF: Art. 5º (...) III - ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante; (...) XLIII - a lei considerará crimes inafiançáveis e insuscetíveis de graça ou anistia a prá- tica da tortura, o tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, o terrorismo e os definidos como crimes hediondos, por eles respondendo os mandantes, os execu- tores e os que, podendo evitá-los, se omitirem; (...) XLIX - é assegurado aos presos o respeito à integridade física e moral; Sobre o tema, ver o Decreto 8.858/16 e a Súmula Vinculante 11 do STF, que tratam do emprego de algemas. TEORIA DA NORMA PENAL CONCEITO E DISTINÇÃO ENTRE NORMA PENAL E LEI PENAL Norma penal é o imperativo ou comando dirigido ao cidadão para realizar (mandamento) ou deixar de realizar (proibição) uma determinada conduta. É diferente da lei penal, que se trata de um ato formal e escrito por meio do qual os legisladores criam, publicizam e tornam obrigatórias as normas. Percebe-se, portanto, que embora sejam distintas, norma e lei se relacionam. Por exemplo, no homicídio, a lei penal (art. 121, CP) dispõe “Matar alguém: Pena - reclusão, de seis a vinte anos”, já a norma penal implícita é “não se deve matar”. Note-se: a lei penal apenas descreve uma conduta e vincula a ela uma sanção, a norma penal dá um comando (“não se deve”). ESTRUTURA DA LEI PENAL INCRIMINADORA A lei penal estrutura-se em dois elementos: a) Preceito primário ou disposição: descreve a conduta criminosa (ex: “matar alguém”). b) Preceito secundário ou sanção: fixa a sanção aplicável, sua espécie e os limites mínimo e máximo (ex: “reclusão, de seis a vinte anos”). O imperativo derivado do preceito primário da lei penal (chamado de norma de comportamento) dirige-se a todos os cidadãos, impondo o dever de realizar ou deixar de realizar uma conduta. O imperativo derivado do preceito secundário (chamado de norma de DIREITO PENAL 21 sanção), por outro lado, dirige-se aos julgadores, impondo o dever de punir aqueles que realizam a o preceito primário. São eles, portanto, os destinatários da norma de sanção. Este não pode se dirigir ao criminoso, pois inexiste dever de autopunição CARACTERÍSTICAS A lei penal possui as seguintes características:22 a) imperativa: é imperativa pois a violação do comando principal acarreta a pena; b) geral: é geral porque é destinada a todos, inclusive aqueles sujeitos à medida de segurança (inimputáveis); c) impessoal e exclusiva: é impessoal porque não é dirigida a pessoas determinadas e exclusiva porque só ela pode definir crimes e respectivas sanções. INTERPRETAÇÃO A interpretação ou hermenêutica é o meio utilizado para se alcançar o sentido dos termos constantes nas normas, sendo conceituada como o processo lógico que busca encontrar a vontade contida na norma jurídica. A seguir, elencamos as espécies de interpretação: - Quanto ao sujeito: a) autêntica: é a que procede da mesma origem que a lei e tem força obrigatória (por ex., a definição de funcionário público do art. 327, CP); b) jurisprudencial: é a orientação que os juízos e tribunais dão à norma, sem ter força vinculativa; c) doutrinária: é o entendimento dado pelos escritores ou comentadores do Direito (obviamente, essa interpretação não tem força obrigatória). - Quanto ao meio empregado: a) gramatical (literal): examina-se a “letra da lei”, buscando o significado das palavras ou expressões; b) lógica: quando a interpretação gramatical não for suficiente, busca-se a vontade da lei, por meio de um confronto lógico entre seus dispositivos; c) teleológica: apura o valor e a finalidade do dispositivo. - Quanto aos resultados: a) declarativa: ocorre quando o texto não é ampliado nem restringido, encontrando- se apenas o significado oculto do termo usado pela lei; b) restritiva: ocorre quando se reduz o alcance da lei para que se possa encontrar sua vontade exata; c) extensiva/analógica: ocorre quando se amplia o sentido da lei. 22 MIRABETE, Julio Fabbrini; FABBRINI, Renato N. Manual de Direito Penal. 28ª edição. São Paulo: Atlas, 2012. V. 1, p. 32. DIREITO PENAL 22 VIGÊNCIA A norma penal é uma norma jurídica, e, como tal, obrigatória, tomando a forma de um comando deôntico, a saber, um mandamento ou proibição. Quando elaborada pelo órgão legislativo competente, de acordo com as regras constitucionais, essa norma apresenta-se sob a forma de uma lei. A lei é a fonte formal do direito positivo e constitui a fonte principal do direito penal, além de ser a única fonte hábil a veicular normas incriminadoras, em razão do já mencionado princípio da legalidade. Como regra geral, as normas penais aplicam-se aos atos cometidos durante a vigência da lei que os tipificou, sem retroatividade, como já mencionado, com exceção da lei penal mais benéfica, que é retroativa, conforme também já analisado. A entrada em vigor da lei se dá na data de sua publicação no diário oficial, que conclui o processo legislativo, a não ser que a própria lei traga previsão de entrada em vigor posterior, o que é usual em se tratando de matérias complexas ou da publicação de um novo código, a fim de permitir que a sociedade e os profissionais tenham condições de absorver as modificações. O período em que a lei já publicada ainda não vigora é conhecido como vacatio legis. A lei vigora até que seja revogada, de forma expressa, ou seja, quando a lei posterior determina expressamente a revogação da anterior; ou tácita, revelada pela incompatibilidade entre a lei anterior e a posterior. Quanto à extensão, a revogação poderá ser: a) geral ou total, também chamada de ab-rogação; b) parcial, ou derrogação. INTEGRAÇÃO A integração é a superação de lacunas do ordenamento jurídico. Uma das características do ordenamento jurídico é suacompletude, ou seja, ele deve poder dar uma resposta a qualquer fato social que aconteça. Portanto, quando existe algum fato social para o qual não há regulação expressa, utiliza-se das técnicas de integração. As técnicas de integração comumente citadas pela doutrina são a analogia, os costumes e os princípios gerais de direito. Todas essas técnicas são explicitamente citadas no art. 4º, LINDB: Art. 4º Quando a lei for omissa, o juiz decidirá o caso de acordo com a analogia, os costumes e os princípios gerais de direito. Os costumes e os princípios gerais de direitos são comumente apontados pela doutrina também como fontes formais mediatas do Direito Penal, de forma que já foram analisados em tópico acima. Portanto nos ateremos à analogia. ANALOGIA DIREITO PENAL 23 A analogia é a aplicação de regra prevista para caso semelhante ao caso para o qual não há expressa regulamentação legal. O fundamento é o brocardo ubi eadem legis ratio, ubi eadem legis dispositio (“onde há a mesma razão legal, aplica-se o mesmo dispositivo”). Para que seja possível o recurso à analogia, exigem-se dois requisitos: a) que o fato não esteja regulado pelo legislador e b) que haja norma regulando caso semelhante, cujo fundamento seja compatível com o caso não regulado23. Importante frisar que, por ser a analogia um método de integração do ordenamento jurídico pelo julgador, a não regulação deve ser involuntária e não uma opção deliberada do legislador de dar tratamento diverso à matéria (STF, HC 94777, Direito, 1ª. T., u., 5.8.08). ANALOGIA IN MALAM PARTEM O recurso à analogia é vedado em Direito Penal sempre que prejudicial ao réu, seja para punir um fato que não está criminalizado ou para agravar a punição de crimes existentes. Isso é uma consequência do princípio da legalidade, que em seu corolário da reserva de lei determina que crimes e sanções só podem ser fixados por lei. A 2ª Turma do STF declarou a atipicidade da conduta de condenado pela prática do crime descrito no art. 155, § 3º, CP24, por efetuar ligação clandestina de sinal de TV a cabo. Reputou-se que o objeto do aludido crime não seria “energia” e ressaltou-se a inadmissibilidade da analogia in malam partem em Direito Penal, razão pela qual a conduta não poderia ser considerada penalmente típica: “EMENTA: HABEAS CORPUS. DIREITO PENAL. ALEGAÇÃO DE ILEGITIMIDADE RECURSAL DO ASSISTENTE DE ACUSAÇÃO. IMPROCEDÊNCIA. INTERCEPTAÇÃO OU RECEPTAÇÃO NÃO AUTORIZADA DE SINAL DE TV A CABO. FURTO DE ENERGIA (ART. 155, § 3º, DO CÓDIGO PENAL). ADEQUAÇÃO TÍPICA NÃO EVIDENCIADA. CONDUTA TÍPICA PREVISTA NO ART. 35 DA LEI 8.977/95. INEXISTÊNCIA DE PENA PRIVATIVA DE LIBERDADE. APLICAÇÃO DE ANALOGIA IN MALAM PARTEM PARA COMPLEMENTAR A NORMA. INADMISSIBILIDADE. OBEDIÊNCIA A O PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL DA ESTRITA LEGALIDADE PENAL. PRECEDENTES. O assistente de acusação tem legitimidade para recorrer de decisão absolutória nos casos em que o Ministério Público não interpõe recurso. Decorrência do enunciado da Súmula 210 do Supremo Tribunal Federal. O sinal de TV a cabo não é energia, e assim, não pode ser objeto material do delito previsto no art. 155, § 3º, do Código Penal. Daí a impossibilidade de se equiparar o desvio de sinal de TV a cabo ao delito descrito no referido dispositivo. Ademais, na esfera penal não se admite a aplicação da analogia para suprir lacunas, de modo a se criar penalidade não mencionada na lei (analogia in malam partem), sob pena de violação ao princípio constitucional da estrita legalidade. Precedentes. Ordem concedida.” (HC 97261, Relator (a): Min. JOAQUIM BARBOSA, Segunda Turma, julgado em 12/04/2011, DJe-081 DIVULG 02-05-2011 PUBLIC 03-05-2011 EMENT VOL-02513-01 PP-00029 RTJ VOL-00219- PP-00423 RT v. 100, n. 909, 2011, p. 409-415). 23 ESTEFAM, André; GONÇALVES, Victor E. Rios. Direito Penal Esquematizado. 4. ed. São Paulo: Saraiva, 2015. p. 179. 24 Art. 155. Subtrair para si ou para outrem, coisa alheia móvel: (...) § 3º Equipara-se à coisa móvel a energia elétrica ou qualquer outra que tenha valor econômico. http://www.jusbrasil.com.br/topicos/11756866/artigo-35-da-lei-n-8977-de-06-de-janeiro-de-1995 http://www.jusbrasil.com.br/legislacao/110300/lei-8977-95 DIREITO PENAL 24 A posição consagrada pelo STF não vem sendo seguida pelo STJ, consoante se conclui do julgado abaixo colacionado: “RECURSO ORDINÁRIO EM HABEAS CORPUS. CAPTAÇÃO IRREGULAR DE SINAL DE TELEVISÃO A CABO. ALEGADA ATIPICIDADE DA CONDUTA. AUSÊNCIA DE DOCUMENTAÇÃO COMPROBATÓRIA. NECESSIDADE DE PROVA PRÉ-CONSTITUÍDA. EQUIPARAÇÃO À ENERGIA ELÉTRICA. POSSIBILIDADE. RECURSO IMPROVIDO. 1. Não há na impetração a cópia da denúncia ofertada contra os recorrentes, documentação indispensável para análise da alegada atipicidade da conduta que lhes foi atribuída. 2. O rito do habeas corpus pressupõe prova pré-constituída do direito alegado, devendo a parte demonstrar, de maneira inequívoca, por meio de documentos que evidenciem a pretensão aduzida, a existência do aventado constrangimento ilegal suportado pelo paciente. 3. Assim não fosse, tomando-se por base apenas os fatos relatados na inicial do mandamus impetrado na origem e no aresto objurgado, não se constata qualquer ilegalidade passível de ser remediada por este Sodalício, pois o sinal de TV a cabo pode ser equiparado à energia elétrica para fins de incidência do artigo 155, § 3º, do Código Penal. Doutrina. Precedentes. 4. Recurso improvido.” (RHC 30847/RJ, Rel. Ministro JORGE MUSSI, QUINTA TURMA, julgado em 20/08/2013, DJe 04/09/2013). RESUMINDO: Como caracterizar a conduta de interceptação clandestina de sinal de TV a cabo? Supremo Tribunal Federal: conduta atípica, inadmitindo a analogia in malam partem (HC97261). Superior Tribunal de Justiça: caracteriza-se como furto simples, a partir da interpretação do art. 155, § 3º, CP (RHC 30847/RJ). ANALOGIA IN BONAM PARTEM O recurso à analogia, com aplicação de regra semelhante para caso não regulado expressamente pelo legislador, é admitida quando favorável ao réu, restringindo o poder punitivo do Estado. A analogia em benefício do réu é muitas vezes necessária para que não se chegue a soluções absurdas a casos semelhantes. Portanto, se não é punível a subtração de coisa comum fungível, cujo valor não exceda a quota a que tem direito o agente (art. 156, CP), igualmente não poderá ser punível o dano de coisa comum fungível nas mesmas circunstâncias. A admissão da analogia in bonam partem e a vedação da analogia in malam partem segue uma tendência geral do Direito Penal de sempre, no conflito entre a liberdade individual e o poder de punir do Estado, privilegiar a primeira. DIREITO PENAL 25 APLICAÇÃO ANALÓGICA DA LEI PENAL Admite-se, entretanto, a chamada “aplicação analógica da lei penal”, que ocorre quando a própria lei penal autoriza a aplicação de uma regra a casos semelhantes, normalmente após um rol exemplificativo. É o que ocorre, por exemplo, no art. 121, § 2º, I, CP, segundo o qual o homicídio é qualificado se é cometido “mediante paga ou promessa de recompensa, ou por outro motivo torpe”. Ou seja, paga e promessa de recompensa são exemplos dados pela lei de motivos torpes, entretanto a lei autoriza o julgador a considerar qualificado o homicídio se houver outra motivação torpe, semelhante a essas duas. ANALOGIA E PROCESSO PENAL A utilização da analogia é comumente admitida no processo penal. O art. 3º,CPP, dispõe que: Art. 3º A lei processual penal admitirá interpretação extensiva e aplicação analógica, bem como o suplemento dos princípios gerais de direito. APLICAÇÃO DA LEI PENAL LEI PENAL NO TEMPO CONFLITOS DE LEIS PENAIS NO TEMPO Visto o tema da vigência da lei penal, e considerados os princípios da legalidade, anterioridade e irretroatividadeda lei penal, com exceção da mais benéfica, é chegado o momento de examinar os casos de sucessão de leis penais ou conflito de leis penais no tempo, à luz daqueles mesmos princípios. De considerar, ainda, na matéria, o art. 2º, CP: Art. 2º Ninguém pode ser punido por fato que lei posterior deixa de considerar crime, cessando em virtude dela a execução e os efeitos penais da sentença condenatória. Parágrafo único. A lei posterior, que de qualquer modo favorecer o agente, aplica- se aos fatos anteriores, ainda que decididos por sentença condenatória transitada em julgado. Visto isso, podem ser antevistas as seguintes situações: Situação Conceito Efeito Fundamento Lei descriminadora ou abolitio criminis Lei nova que deixa de considerar o fato como crime Retroativo, incluindo processos em fase de execução penal arts. 5º, XL, CF, 2º e 107, III, CP, e 66, I, LEP Novatio legis in mellius Lei nova que favorece o agente. Retroativo, incluindo processos em fase de execução penal. arts. 5º, XL, CF, 2º e 107, III, CP, e 66, I, LEP DIREITO PENAL 26 Lei nova incriminadora. Tipifica uma conduta que não era considerada criminosa. Limitado aos fatos posteriores a sua entrada em vigor arts. 5º, XXXIX, CF, e art. 1º, CP Novatio legis in pejus Lei nova que desfavorece o agente, aumentando, por exemplo, o prazo prescricional ou o tempo necessário para a obtenção de progressão de regime (Lei 11.464/07). Limitado aos fatos posteriores a sua entrada em vigor arts. 5º, XXXIX, CF e art. 1º, CP Não há abolitio criminis quando sobrevém lei nova que dá nova disciplina à matéria, mantendo, na essência, a proibição da prática das condutas, embora revogue expressamente a lei anterior. Assim, os crimes de tóxicos ocorridos na vigência da Lei 6.368/76 não deixaram de ser fatos criminosos em virtude da revogação daquela lei pela superveniência da Lei 11.343/06, que manteve, em essência, a proibição daquelas condutas. Em casos tais, deve ser aplicada a lei anterior em relação aos fatos ocorridos na sua vigência, e a lei nova para os fatos ocorridos após a sua entrada em vigor. Afirmar o contrário seria admitir que, com a entrada em vigor de um novo Código Penal, a revogação do anterior implicaria em descriminação de todos os fatos criminosos ocorridos na vigência do diploma anterior, embora as condutas continuem sendo proibidas. Assim também quando a alínea d do art. 95, Lei 8.212/91, foi substituída pelo art. 168-A, CP, quando foi reconhecida, igualmente, a continuidade normativo-típica (STF, RHC 88144, Grau, 2ª. T., u., 4.4.06). Como se vê: 1. A lei penal não retroage, exceto em favor do réu; 2. A lei penal mais favorável tem então, efeito ultrativo, pois continua sendo aplicável aos fatos ocorridos durante sua vigência, que não são alcançados pela lei nova mais prejudicial. a) Crimes Permanente e Continuado É de ver que, nos termos da Súmula 711 do STF: “A lei penal mais grave aplica-se ao crime continuado ou ao crime permanente, se a sua vigência é anterior à cessação da continuidade ou da permanência”. O fundamento da súmula é o fato de que o acusado perseverou na prática criminosa, embora advertido da nova penalidade cominada, de modo que não haveria, aí, ofensa ao princípio da anterioridade. b) Combinação de Leis Predomina o entendimento de que não é permitida, nem mesmo em favor do acusado, a combinação de dispositivos de leis diversas, com a criação de uma terceira norma (lex tertia) por representar violação aos princípios da legalidade, da anterioridade da lei penal e da separação de poderes (STF, CJ 5195, Gallotti, Pl., 3.6.70; STF, HC 96844, Barbosa, 2ª. T., u., 4.12.09). DIREITO PENAL 27 Nesse sentido a Súmula 501/STJ: “É cabível a aplicação retroativa da Lei n. 11.343/2006, desde que o resultado da incidência das suas disposições, na íntegra, seja mais favorável ao réu do que o advindo da aplicação da Lei n. 6.368/1976, sendo vedada a combinação de leis”. c) Leis Excepcionais ou Temporárias As leis excepcionais ou temporárias seguem sendo aplicadas mesmo depois de decorrido seu período de vigência, sendo dotadas de ultratividade, como preceitua o art. 3º, CP, do seguinte teor: “A lei excepcional ou temporária, embora decorrido o período de sua duração ou cessadas as circunstâncias que a determinaram, aplica-se ao fato praticado durante sua vigência”. A lei excepcional é aquela publicada em razão de uma circunstância específica, como guerra, estado de sítio, calamidade pública, estando destinada, portanto, a uma vigência temporária, determinada pela persistência, ou não, das circunstâncias que determinaram sua aplicação. A lei temporária é aquela que já traz em seu texto a previsão do período da sua aplicação, não sendo necessária lei nova para revogá-las. Ex.: Lei Geral da Copa do Mundo de 2014 (Lei 12.663/12). Em ambos os casos, a lei segue sendo aplicável depois de sua vigência, pois, do contrário, seria despida de qualquer efeito coercitivo, uma vez que todos saberiam de antemão da impossibilidade de sua aplicação com a cessação do prazo de vigência ou das circunstâncias excepcionais que autorizaram sua publicação. d) Norma Penal em Branco Em caso de alteração do complemento da norma penal em branco, a modificação acidental do complemento não implica descriminação, como no caso da revogação ou alteração da tabela de preços em caso de crime contra a economia popular caracterizado pela violação do tabelamento (STF, RE 80544, Cordeiro Guerra, 2ª. T., 29.4.75). Quer dizer, somente haverá revogação se a modificação for essencial, como segue: “Em princípio, o artigo 3º do CP se aplica a norma penal em branco, na hipótese de o ato normativo que a integra ser revogado ou substituído por outro mais benéfico ao infrator, não se dando, portanto, a retroatividade. - Essa aplicação só não se faz quando a norma, que complementa o preceito penal em branco, importa real modificação da figura abstrata nele prevista ou se assenta em motivo permanente, insusceptível de modificar-se por circunstâncias temporárias ou excepcionais, como sucede quando do elenco de doenças contagiosas se retira uma por se haver demonstrado que não tem ela tal característica” (STF, HC 73168, M. Alves, 1ª. T., u., 21.11.95). e) Jurisprudência Não há direito subjetivo à ultratividade da jurisprudência mais favorável, podendo ser aplicada o entendimento mais rigoroso aos casos julgados, ainda que a nova orientação tenha se firmado depois da prática do fato (STJ, RE 113.601, M. Alves, 12.6.87; STF, HC 75793, Pertence, 1ª. T., u., 31.3.98). Não assim, porém, quando a mudança é firme, como nos casos em que o STF publica ou revoga uma súmula, ou declara a inconstitucionalidade de uma regra legal desfavorável, casos em que a aplicação aos casos anteriores é imperativa, sob pena de violação do princípio da DIREITO PENAL 28 igualdade. Assim ocorreu, por exemplo, com a determinação de que os condenados por crime hediondo cumprissem a pena em regime integralmente fechado, ainda que já tenha ocorrido o trânsito em julgado (STF, RE 534343, Peluso, 2ª. T., u., 16.12.08). f) Lei Processual Penal A lei processual penal tem incidência imediata, podendo ser aplicada aos processos relativos a fatos ocorridos antes de sua entrada em vigor, ainda que desfavorável, nos temos do disposto no art. 2º do CPP, como é o caso da lei que aumenta os valores da fiança (STF, ARE 644.850-ED, Mendes, 18.10.11). No entanto, se o dispositivo legal for de caráter misto, contendo normas de direito material e processual, prevalecerá a parte penal, ainda que desfavorável, de modo que o dispositivo somente será aplicado a fatos ocorridos antes de sua entrada em vigor, como decidido em relação à alteração do art. 366 do CPP (STF, HC 83.864, Pertence, 1ª. T., 20.4.04). g) Regra Constitucional A regraconstitucional, ainda que disponha sobre matéria penal, como é o caso da previsão de perda dos direitos políticos aos condenados imposta pelo inc. III do art. 15 da CF aplica-se retroativamente (STF, RE 418.876, Pertence, 1ª. T., 30.3.04). h) Norma Extradicional As normas que regulam a extradição, veiculadas por lei nacional ou tratado internacional, aplicam-se mesmo a fatos anteriores a sua entrada em vigor, pois não tem natureza material (STJ, Ext 864, Pertence, Pl., 18.6.03). DO TEMPO DO CRIME De acordo com o art. 4º, CP: “Considera-se praticado o crime no momento da ação ou omissão, ainda que outro seja o momento do resultado”. Como se vê, foi adotada expressamente a chamada teoria da atividade, segundo a qual se considera praticado o crime no momento da conduta, não importando o momento do resultado. O fundamento dessa teoria é a assertiva de que a norma penal atuaria como desestímulo psicológico ao crime, o que dar-se-ia no momento da ação e não por ocasião do resultado. Em caso de crime continuado (art. 171, CP), em que vários fatos são considerados como crime único, por ficção legal, considera-se como tempo do crime o período de todas as ações, o que dá fundamento à já mencionada Súmula 711/STF. De notar, porém, que o termo inicial da prescrição é o momento da consumação (art. 111, I, CP). CONTAGEM DO PRAZO De acordo com o art. 10, CP: “O dia do começo inclui-se no cômputo do prazo. Contam- se os dias, os meses e os anos pelo calendário comum”. Quer dizer, em questões de direito penal material, como, por exemplo, a prescrição, o prazo é contado incluindo-se o dia do começo, ao contrário do que se dá no processo penal, DIREITO PENAL 29 conforme disposto no art. 798, § 1º, CPP, como segue: “Não se computará no prazo o dia do começo, incluindo-se, porém, o do vencimento”. CONFLITO APARENTE DE NORMAS PENAIS São frequentes os casos em que, à primeira vista, parece possível a aplicação de mais de uma norma penal, ambas em vigor, de modo a afastar a possibilidade de conflito de leis no tempo, marcado pela revogação, expressa ou tácita, de uma das normas, ou seja, por um conflito real de normas. O conflito aparente de normas penais deverá ser resolvido com base nos princípios adiante examinados. a) Princípio da Especialidade O princípio da especialidade pode ser assim resumido: a lei especial afasta a aplicação da geral (lex specialis derogat legi generalis). Uma norma é especial quando reúne os elementos da norma geral, acrescido de outros, chamados especializantes. Assim, por exemplo, o ato de “Oferecer droga, eventualmente e sem objetivo de lucro, a pessoa de seu relacionamento, para juntos a consumirem” (art. 33, § 3º, Lei 11343/06), é especial em relação ao delito do art. 33, caput, da mesma lei. b) Princípio da Subsidiariedade Uma norma é considerada subsidiária quando a conduta nela prevista integra o tipo da principal, caso em que somente esta será aplicada. A subsidiariedade pode ser expressa, quando a própria norma condicionar a sua aplicação à inocorrência da modalidade mais grave (ex.: art. 132, CP) ou tácita, quando o fato previsto em uma norma figurar como elemento componente, majorante ou meio prático de execução de outra figura mais grave. c) Princípio da Consunção O princípio da consunção é aplicado quando um crime é considerado meio (crime-meio) para o cometimento de outro (crime-fim), sendo aquele absorvido. Não há absorção, em regra, quando os tipos em conflito aparente protegem bens jurídicos diversos, como é o caso do porte ilegal de arma e quadrilha, que tutelam, respectivamente, a incolumidade e a paz públicas (STF, RHC 83447, Mello, 2ª. T., u., 17.2.04). Nesse sentido a Súmula 17/STJ: “Quando o falso se exaure no estelionato, sem mais potencialidade lesiva, é por este absorvido”. d) Princípio da Alternatividade O princípio da alternatividade é aplicado quando, conforme o caso concreto, uma ou outra norma penal podem ser aplicadas. É o que se dá, por exemplo, em relação aos delitos de falsificação (arts. 297-299, CP) e uso de documento falso (art. 304,CP), que é punível independentemente de determinação da autoria da falsificação, que é prova difícil de ser produzida. Os delitos têm uma relação de alternatividade. Quer dizer, ainda que não seja comprovada a autoria da falsificação, mas exista prova da utilização, a conduta será típica. LEI PENAL NO ESPAÇO LOCAL DO CRIME DIREITO PENAL 30 O CP adotou a teoria da ubiqüidade, quanto ao local do crime, como se vê da leitura do art. 6º, CP: “Considera-se praticado o crime no lugar em que ocorreu a ação ou omissão, no todo ou em parte, bem como onde se produziu ou deveria produzir-se o resultado”. Adotada essa teoria, fica resolvido o problema dos crimes à distância, ou seja, aqueles nos quais a ação se dá em lugar diferente daquele do resultado, como no exemplo da carta- bomba. Em tais casos, considera-se local do crime tanto o local da ação quanto aquele do resultado, concreto ou buscado pelo agente. Desse modo, aplica-se a lei brasileira se o crime, de algum modo, tocou o território nacional, como nos casos seguintes: 1. Latrocínio em que a vítima foi sequestrada no Brasil e morta no exterior, tendo sido subtraídos seus bens (STJ, HC 41892, Limaa, 5ª. T., 2.6.05); 2. De uso de passaporte português falso perante o controle de fronteiras do Brasil visando o ingresso nos EUA, onde a fraude foi detectada (STJ, CC 119645, Reis, 3ª. S., 28.3.12). TERRITORIALIDADE O princípio de direito penal internacional usualmente adotado é o da territorialidade da lei penal, que é aplicada, em regra, aos crimes cometidos no território de cada País (STF, Ext 1077, C. Lúcia, Pl., u., 20.6.07; STJ, HC 231633, Mussi, 5ª. T., 25.11.14), o que decorre da própria noção de soberania nacional, bem como de respeito à soberania dos demais países, os quais, usualmente, também aplicarão a sua própria lei a fatos ocorridos em seus respectivos territórios nacionais. Além disso, haveria dificuldades para investigar e aplicar a lei penal de um país a fatos ocorridos fora do seu território. É esse o critério adotado no Brasil, como deixa claro o art. 5º, CP. Art. 5º Aplica-se a lei brasileira, sem prejuízo de convenções, tratados e regras de direito internacional, ao crime cometido no território nacional. Quer dizer, como regra geral, aplica-se a lei brasileira ao crime cometido em território nacional, independentemente da nacionalidade do autor ou da vítima, bem como dos bens jurídicos envolvidos. Além de estabelecer a aplicabilidade da lei brasileira aos crimes cometidos em território nacional, o dispositivo delimita o conceito de território nacional para fins penais. Conforme o art. 1º, Lei 8.617/93: “O mar territorial brasileiro compreende uma faixa de doze milhas marítima de largura, medidas a partir da linha de baixa-mar do litoral continental e insular, tal como indicada nas cartas náuticas de grande escala, reconhecidas oficialmente no Brasil”. Quanto ao espaço aéreo, o Brasil adota a teoria da absoluta soberania em relação ao espaço sobrejacente ao território nacional e ao mar territorial, como se vê dos seguintes dispositivos legais: Código Brasileiro de Aeronáutica - Lei 7565/86/Art. 11. O Brasil exerce completa e exclusiva soberania sobre o espaço aéreo acima de seu território e mar territorial. Lei 8.617/93/Art. 2º. A soberania do Brasil estende-se ao mar territorial, ao espaço aéreo sobrejacente, bem como ao seu leito e subsolo. DIREITO PENAL 31 Com relação às aeronaves, assim dispõe o art. 3º do Código Brasileiro de Aeronáutica: Art. 3º Consideram-se situadas no território do Estado de sua nacionalidade: I - as aeronaves militares, bem como as civis de propriedade ou a serviço do Estado, por este diretamente utilizadas (artigo 107, §§ 1º e 3º); II - as aeronaves de outraespécie, quando em alto mar ou região que não pertença a qualquer Estado. Parágrafo único. Salvo na hipótese de estar a serviço do Estado, na forma indicada no item I deste artigo, não prevalece a extraterritorialidade em relação à aeronave privada, que se considera sujeita à lei do Estado onde se encontre. EXTRATERRITORIALIDADE O art. 7º, CP, estabelece os casos de extraterritorialidade, ou seja, de aplicação da lei penal brasileira a delitos cometidos fora do território nacional, nos seguintes termos: Art. 7º Ficam sujeitos à lei brasileira, embora cometidos no estrangeiro: I - os crimes: a) contra a vida ou a liberdade do Presidente da República; b) contra o patrimônio ou a fé pública da União, do Distrito Federal, de Estado, de Território, de Município, de empresa pública, sociedade de economia mista, autar- quia ou fundação instituída pelo Poder Público; c) contra a administração pública, por quem está a seu serviço; d) de genocídio, quando o agente for brasileiro ou domiciliado no Brasil; II - os crimes: a) que, por tratado ou convenção, o Brasil se obrigou a reprimir; b) praticados por brasileiro; c) praticados em aeronaves ou embarcações brasileiras, mercantes ou de proprie- dade privada, quando em território estrangeiro e aí não sejam julgados. § 1º Nos casos do inciso I, o agente é punido segundo a lei brasileira, ainda que ab- solvido ou condenado no estrangeiro. § 2º Nos casos do inciso II, a aplicação da lei brasileira depende do concurso das seguintes condições: a) entrar o agente no território nacional; b) ser o fato punível também no país em que foi praticado; c) estar o crime incluído entre aqueles pelos quais a lei brasileira autoriza a extradi- ção; d) não ter sido o agente absolvido no estrangeiro ou não ter aí cumprido a pena; e) não ter sido o agente perdoado no estrangeiro ou, por outro motivo, não estar extinta a punibilidade, segundo a lei mais favorável. § 3º A lei brasileira aplica-se também ao crime cometido por estrangeiro contra brasileiro fora do Brasil, se, reunidas as condições previstas no parágrafo anterior: a) não foi pedida ou foi negada a extradição; b) houve requisição do Ministro da Justiça. O inc. I contempla os casos de extraterritorialidade incondicionada, em que a lei brasileira poderá ser aplicada independentemente da persecução penal no estrangeiro, de acordo com o § 1º, observado, de todo modo, o disposto no art. 8º do CP. O inc. II e o § 3º trazem os casos de extraterritorialidade condicionada, em relação aos quais a aplicabilidade da lei brasileira depende do concurso das circunstâncias mencionadas no § 2º. Os fundamentos da extraterritorialidade da lei penal podem ser assim resumidos: DIREITO PENAL 32 Teoria Fundamento Exemplos Nacionalidade Aplicação da lei penal ao cidadão brasileiro, ainda que pratique crime no estrangeiro. Complementa, de certa forma, a vedação da extradição de nacionais (CF, art. 5º, LI), evitando a impunidade. CP, art. 7º, I, d e II, b. Defesa ou Defesa Real Objetiva A natureza do bem jurídico lesado (patrimônio público nacional) ou a condição da vítima. CP, art. 7º, I, a, b e c e § 3º Justiça Universal ou Cosmopolita A natureza do delito, sendo aplicada em casos de crimes contra a humanidade ou crimes que o Brasil se obrigou a reprimir em virtude de tratado ou convenção. CP, art. 7º, I, d e II, a e c Afora as regras gerais do CP, há também leis especiais e tratados internacionais que determinam a aplicação extraterritorial da lei brasileira, como se vê dos exemplos arrolados abaixo: a) Lei da Tortura (Lei 9455/97): Art. 2º O disposto nesta Lei aplica-se ainda quando o crime não tenha sido cometido em território nacional, sendo a vítima brasileira ou encontrando-se o agente em local sob jurisdição brasileira. b) Lei da Lavagem de Dinheiro (Lei 9613/98): Art. 2º O processo e julgamento dos crimes previstos nesta Lei: (...) II - independem do processo e julgamento das infrações penais antecedentes, ainda que praticados em outro país, cabendo ao juiz competente para os crimes previstos nesta Lei a decisão sobre a unidade de processo e julgamento. As regras sobre extraterritorialidade não se aplicam às contravenções, que somente são puníveis quando praticadas em território nacional, nos termos do art. 2º da LCP: “A lei brasileira só é aplicável à contravenção praticada no território nacional”. Seguem alguns exemplos de aplicação da extraterritorialidade: Caso Modalidade Fundamento Legal Crimes de uso de documento falso e falsa identidade praticados por estrangeiro perante o Consulado do Brasil em Xangai (STJ, CC 122119, Bellizze, 3ª. S., 27.6.12). Incondicionada CP, art. 7º, I, “b” Crime de tráfico de drogas praticado por brasileiro nato no exterior, caso em que não é posssível a extradição (STF, Ext. 1349/DF, Rosa Weber, 1ª. T., 2.3.15) CF, art. 5º, LI; EE, art. 77, I. Estupro praticado por brasileiro contra brasileira na Bolívia, seguido do ingresso do autor do fato no território nacional (STJ, CC 120887, Alderita [Conv.], 3ª. S., 4.2.13). Condicionada CP, art. 7º, II, a e § 2º, “a”. Furto praticado por brasileiro contra brasileiro no Japão, seguido do ingresso do autor no território nacional (STJ, CC 115375, Laurita, 3ª. S., 29.2.12) Condicionada CP, art. 7.º, II, “b”, e § 2.º, “a” Homicídio praticado por brasileiro no Uruguai, juntamente com Condicionada CP, art. 7.º, II, “b”, DIREITO PENAL 33 estrangeiros, seguido do ingresso do autor no território nacional (STJ, CC 104342, Laurita, 3ª. S., 12.8.09) e § 2.º, “a” PENA CUMPRIDA NO ESTRANGEIRO Nos casos de extraterritorialidade condicionada, o fato do cumprimento da pena no estrangeiro obsta a punição do agente no Brasil, conforme previsão do art. 7º, § 2º, d, CP. Já nos casos de extraterritorialidade incondicionada, o infrator estará sujeito à persecução penal no Brasil, pouco importando já ter sido condenado ou absolvido no exterior. O dispositivo sofre a crítica de violar o princípio da proibição do bis in idem, segundo o qual ninguém poderá ser indiciado, processado, julgado e punido mais de uma vez pelo mesmo fato.25 De todo modo, o art. 8.º, CP atenua o problema, ao dispor que: “A pena cumprida no estrangeiro atenua a pena imposta no Brasil pelo mesmo crime, quando diversas, ou nela é computada, quando idênticas”. Além disso, há regras internacionais que vedam a repetição de processo penal pelos mesmos fatos, o chamado duplo risco ou double jeopardy) (STF, Ext. 1223, Mello, 2ª. T., 22.11.11), como segue: CADH (D. 678/92) Art. 2, 4. O acusado absolvido por sentença transitada em julga- do não poderá ser submetido a novo processo pelos mesmos fatos. PIDCP (D. 952), art. 14, 7. Ninguém poderá ser processado ou punido por um delito pelo qual já foi absolvido ou condenado por sentença passada em julgado, em con- formidade com a lei e os procedimentos penais de cada país. EFICÁCIA DA SENTENÇA PENAL ESTRANGEIRA De acordo com o art. 9º, CP: Art. 9º A sentença estrangeira, quando a aplicação da lei brasileira produz na espé- cie as mesmas consequências, pode ser homologada no Brasil para: I - obrigar o condenado à reparação do dano, a restituições e a outros efeitos civis; II - sujeitá-lo a medida de segurança. Parágrafo único. A homologação depende: a) para os efeitos previstos no inciso I, de pedido da parte interessada; b) para os outros efeitos, da existência de tratado de extradição com o país de cuja autoridade judiciária emanou a sentença, ou, na falta de tratado, de requisição do Ministro da Justiça. Como resta claro da leitura, a sentença estrangeira depende de homologação por parte do Judiciário nacional, em razão da soberania. A competência para homologação é do STJ (art. 105, I, CF), uma vez comprovado o trânsitoem julgado no exterior, já que: “Não se homologa sentença proferida no estrangeiro sem prova do trânsito em julgado” (Súmula 420/STF). Afora isso admite-se a transferência de pessoa condenada (arts. 103 e SS., Lei 13.445/17), para cumprimento da sanção penal em seu país de origem, de modo a permitir 25 SALIM, Alexandre. Teoria da Norma Penal. Porto Alegre: Verbo Jurídico, 1008, p. 229. DIREITO PENAL 34 que a execução penal se dê em circunstâncias mais favoráveis (STF, Ext. 1223, Mello, 2ª. T., 22.11.11). IMUNIDADES IMUNIDADES DIPLOMÁTICAS Possuem imunidade penal absoluta em relação à Justiça Penal do país onde estão lotados os diplomatas, como é o caso do Embaixador, Cônsul e Vice-Cônsul (STF, RHC 49183, Trigueiro, Pl., u., 20.10.71) e seus familiares, nos termos do art. 31 da Convenção de Viena (D. 56.435/65). Seus auxiliares diretos também possuem imunidade, mas relativa, pois restrita à atividade em que atuam na embaixada. Quer dizer: “Restringem-se as imunidades e isenções aos assuntos diplomáticos, ao pessoal ‘oficial’ da missão e aos membros das respectivas famílias; excluídos são assim, dos benefícios, os secretários particulares, datilógrafos, mordomos, criados ou motoristas, que constituem o pessoal ‘não oficial’. Quando extensivos lhes fossem, privilégio que é combatido por autoridades na matéria, necessário fora que pertencessem à mesma nacionalidade do chefe da missão” (STF, RHC 34029, Costa, 2ª. T., 4.4.56). Em tais casos é possível que o país acreditante renuncie à imunidade diplomática, ou o que é mais comum, especialmente em casos mais graves, que seja ele declarado persona non grata, e determinado o retorno do diplomata ao seu país. Nesse caso, há causa pessoal de exclusão de jurisdição, podendo, assim, o diplomata ser processado no país que representa. IMUNIDADES DO CHEFE DE GOVERNO Conforme o art. 86, o § 4º, CF: “O Presidente da República, na vigência de seu mandato, não pode ser responsabilizado por atos estranhos ao exercício de suas funções”. Se isso ocorrer, o processo somente poderá ter início após o término do mandato. Afora isso, o Presidente da República, o Vice-Presidente e os Ministros de Estado, possuem a prerrogativa de somente serem processados, seja por crimes comuns, seja por crimes de responsabilidade, após autorização de pelo menos dois terços da Câmara dos Deputados (art. 51, I, CF), cabendo o julgamento ao STF, em caso de crimes comuns, e ao Senado Federal, em caso de crime de responsabilidade. Por fim, é certo que: “Enquanto não sobrevier sentença condenatória, nas infrações comuns, o Presidente da República não estará sujeito a prisão” (art. 85, § 3º, CF). IMUNIDADES PARLAMENTARES As imunidades parlamentares (art. 53, CF), são estabelecidas em razão da função exercida e não da pessoa do parlamentar, ou seja, são prerrogativas da função, e referem-se a opiniões, palavras e votos, que guardem relação com o exercício da função, cuidando-se de imunidade material, de modo que não haverá crime, por ausência de tipicidade (STF, Inq. 2674, Britto, Pl., m., 26.11.09). As imunidades têm por fim garantir a independência do parlamentar, de modo que possa desempenhar suas funções livre de pressões (STF, Pet 4444 AgR, Mello, Pl., u, 26.11.08), de modo que não representam violação do princípio da igualdade, sendo irrenunciáveis (STF, Inq. 510). DIREITO PENAL 35 A imunidade material é absoluta em relação a atos de opinião praticados no recinto do parlamento. Já em relação a atos praticados fora do espaço do parlamento, a imunidade é aplicável quando os atos guardarem relação com o exercício do mandato parlamentar (STF, Inq 3814, Rosa Weber, 1ª. T., 7.10.14; STF, Inq 3672, Rosa Weber, 1ª. T., 14.10.14). Com efeito, as imunidades parlamentares não são ilimitadas e não favorecem o “congressista, quando, na condição de candidato a qualquer cargo eletivo, vem a ofender, moralmente, a honra de terceira pessoa, inclusive a de outros candidatos, em pronunciamento motivado por finalidade exclusivamente eleitoral, que não guarda qualquer conexão com o exercício das funções congressuais”, uma vez que: “O postulado republicano - que repele privilégios e não tolera discriminações - impede que o parlamentar-candidato tenha, sobre seus concorrentes, qualquer vantagem de ordem jurídico-penal resultante da garantia da imunidade parlamentar, sob pena de dispensar-se, ao congressista, nos pronunciamentos estranhos à atividade legislativa, tratamento diferenciado e seletivo, capaz de gerar, no contexto do processo eleitoral, inaceitável quebra da essencial igualdade que deve existir entre todos aqueles que, parlamentares ou não, disputam mandatos eletivos”. Em tal circunstância, poderá o parlamentar sofre interpelação judicial, nos termos do art. 144, CP. Não se beneficiam da imunidade: 1. O suplente (STF, Inq. 1684); 2. O parlamentar licenciado para ocupar outro cargo na administração (CF, art. 56, I; STF, Inq. 105, HC 78093), estando cancelada a Súm. 4 do STF pela jurisprudência posterior, que mantém o foro privilegiado (STF, Inq. 1070). Assim, se o parlamentar passar a ocupar um cargo de Ministro do Estado, remanesce apenas a prerrogativa de foro, mas ficam excluídos os demais efeitos do art. 53, pertinentes à imunidade parlamentar. No que diz respeito aos crimes comuns, o parlamentar responde normalmente, mas além do foro especial perante o STF (art. 53, § 1º, CF) sua casa legislativa pode determinar o trancamento da ação penal em curso (art. 53, § 3º, CF). Nesse caso, o processo fica suspenso, e também a prescrição, até o dia em que o agente deixa de exercer mandato. Essa imunidade processual é, como se vê, relativa, e sua natureza jurídica é causa pessoal condicionada e temporária de exclusão de jurisdição. A suspensão em questão é limitada às: “ações contra parlamentares que tiverem como objeto de apuração crimes cometidos após a diplomação do mandato em curso, o mesmo não sendo possível em relação aos mandatos de legislaturas pretéritas” (STF, RE 457514 AgR, Lewandowski, 1ª. T., u., 27.11.07). A prisão daqueles que exercem mandato no Poder Legislativo, após a expedição do diploma, só pode ocorrer na hipótese de flagrante de crime inafiançável, oportunidade na qual os autos serão remetidos dentro de vinte e quatro horas à casa legislativa respectiva, para que, pelo voto da maioria de seus membros, resolva sobre a prisão (art. 53, § 2º, CF). Ressalte- se que essa imunidade abrange a prisão civil e penal. Aos Deputados Estaduais aplica-se o mesmo regime de imunidades previsto para os membros do Congresso Nacional (art. 27, § 1º, CF). A seu turno, o inc. VIII do art. 29, CF, estabelece a: “inviolabilidade dos Vereadores por suas opiniões, palavras e votos no exercício do mandato e na circunscrição do Município. Como se vê, a imunidade do vereador “é DIREITO PENAL 36 limitada ao exercício do mandato parlamentar sendo respeitada a pertinência com o cargo e o interesse municipal.” 26 TEORIA GERAL DO CRIME CONCEITOS DE CRIME (FORMAL, MATERIAL, ANALÍTICO) a) Conceito formal: sob o aspecto legislativo, é a descrição de uma conduta em lei e previsão de uma sanção penal para sua realização; sob o aspecto judicial, é a realização da conduta descrita em uma lei penal. Foca no aspecto meramente formal da relação entre o comportamento e a lei. b) Conceito material ou substancial: é a conduta que causa lesão ou perigo de lesão a valores ou interesses socialmente relevantes (bens jurídicos). Foca no aspecto material, ou seja, no fundamento de uma conduta se tornar crime. c) Conceito analítico: é a subdivisão do crime em elementos ou categorias cuja função é facilitar a análise da existência de um crime pelo Judiciário. Nesse conceito estão as maiores divergências doutrinárias. Alguns dos entendimentosacerca dos elementos que compõem o crime são que se trata de: a) um fato típico e antijurídico; b) um fato típico, antijurídico, culpável e punível, c) um fato típico, antijurídico e culpável (teoria tripartida). A teoria tripartida é a corrente majoritária no Brasil. O CRIME NA TEORIA GERAL DO DIREITO O crime é um fato jurídico, uma vez que se trata de conduta humana cujos efeitos jurídicos (a sanção penal) não são desejados pelo agente e que contraria o ordenamento jurídico (é um ilícito). Não se trata de ato jurídico, uma vez que neste o agente quer as consequências jurídicas de seu comportamento. Também não se trata, por evidente, de negócio jurídico.27 CLASSIFICAÇÃO DOS CRIMES CRIMES MATERIAIS, FORMAIS E DE MERA CONDUTA a) Crimes materiais: aqueles cuja descrição legal se refere a um resultado natural e exige produção de um dano efetivo para a consumação do delito, caso contrário, haverá apenas tentativa. 26 STF, RE 583559 AgR, Grau, 2ª. T., u., 10.6.08 27 MIRABETE, Julio Fabbrini; MIRABETE, Renato N. Fabbrini. Manual de direito penal: parte geral: arts. 1º a 120 do CP. 26 ed. São Paulo: Atlas, 2010. p. 86. DIREITO PENAL 37 b) Crimes formais: aqueles cuja descrição legal se refere a um resultado natural que, contudo, não precisa se verificar para que ocorra a consumação (p. ex.: ameaça). c) Crimes de mera conduta: aqueles cuja descrição legal não faz alusão alguma a resultado natural para a configuração do fato típico, ou seja, se consumam com o simples agir (p. ex.: porte ilegal de arma). CRIMES INSTANTÂNEOS, PERMANENTES E DE EFEITOS PERMANENTES a) Crimes instantâneos: aqueles cuja consumação se perfaz num só momento certo e determinado (p.ex. homicídio). b) Crimes permanentes: aqueles cuja consumação se estende no tempo (p. ex.: cárcere privado). c) Crimes instantâneos de efeitos permanentes: são crimes instantâneos que se caracterizam pela índole duradoura de suas consequências (p.ex.: confecção de uma certidão falsa, fazendo uso dela por período prolongado no tempo) CRIMES COMISSIVOS, OMISSIVOS PRÓPRIOS E OMISSIVOS IMPRÓPRIOS a) Crimes comissivos: aqueles praticados mediante uma conduta positiva (uma ação). b) Crimes omissivos próprios ou puros: caracterizam-se por um não agir, quando era exigida a ação, ou seja, por um conduta negativa (uma omissão). São próprios porque a lei prevê a conduta em modalidade omissiva, além de que a consumação independe do resultado. (p.ex. omissão de socorro). c) Crimes omissivos impróprios ou impuros: também caracterizam-se por um não agir, quando era exigida a ação, ou seja, por um conduta negativa (uma omissão). São impróprios porque a lei não prevê a conduta em modalidade omissiva, sendo imputado um crime comissivo ao agente porque ele tinha dever de agir para evitar o resultado (art. 13, § 2º, CP). Além disso, a consumação depende do resultado. CRIMES SIMPLES, PRIVILEGIADOS E QUALIFICADOS a) Crime simples: é o tipo penal em sua forma básica (p.ex. homicídio). b) Crime qualificado: quando existem circunstâncias previstas na sequência do tipo penal (normalmente parágrafos) que aumentam as penas mínima e máxima previstas (p.ex. homicídio qualificado). c) Crime privilegiado: quando existem circunstâncias previstas na sequência do tipo penal (normalmente parágrafos) que diminuem as penas mínima e máxima previstas (p.ex. homicídio privilegiado). DIREITO PENAL 38 CRIMES QUALIFICADOS PELO RESULTADO E PRETERDOLOSOS a) Crime preterdoloso ou preterintencional: é aquele em que o tipo prevê dolo (na conduta) e culpa (no resultado). b) Crime qualificado pelo resultado: é quando a um tipo penal é adicionada previsão de pena mais grave para quando realizado o resultado. CRIMES DE DANO E DE PERIGO a) Crimes de dano: são os que se só se consumam com a efetiva lesão do bem jurídico protegido pela norma penal. b) Crimes de perigo: são aqueles que se consumam com a simples criação do perigo para o bem jurídico protegido pela norma penal. O perigo pode ser presumido ou abstrato – aqueles em que a lei presume o perigo – ou concreto – o perigo precisa ser provado, isto é, a situação de risco deve ser demonstrada. CRIMES COMUNS, PRÓPRIOS E DE MÃO PRÓPRIA a) Crimes comuns: aqueles que podem ser praticados por qualquer pessoa. b) Crimes próprios: aqueles que só podem ser cometidos por determinadas pessoas, pois pressupõe no agente uma particular condição ou qualidade. Essa qualidade pode ser de fato, referente à natureza humana (p.ex.: mãe no infanticídio) ou de direito, referente à lei (p.ex.: funcionário público, peritos). c) Crimes de mão-própria: exige sujeito ativo qualificado o qual deve cometer pessoalmente a conduta típica, ou seja, a execução não pode ser repassada a terceiros. Por isso não admite coautoria, somente participação (p.ex.: falso testemunho). CRIMES UNISSUBJETIVOS E PLURISSUBJETIVOS a) Crimes unissubjetivos, monossubjetivos ou de concurso eventual: podem ser cometidos por uma só pessoa ou por várias pessoas. O concurso de agentes, entretanto, não é necessário (p. ex.: furto, homicídio, estupro). b) Crimes plurissubjetivos ou de concurso necessário: aqueles que só podem ser cometidos por mais de uma pessoa (p. ex.: crimes de quadrilha ou bando; rixa). CRIMES UNISSUBSISTENTES E PLURISSUBSISTENTES a) Crime unissubsistente: é o que se realiza com um único ato que não pode ser fracionado (p.ex. injúria verbal). Não admite tentativa. b) Crime plurissubsistente: é o que pode se realizar por meio de vários atos (p.ex. homicídio). Admite tentativa. DIREITO PENAL 39 CRIMES PROGRESSIVOS E PROGRESSÃO CRIMINOSA a) Crime progressivo: é aquele em que o tipo penal contém, implicitamente, ações que compõem outro crime. A intenção é de praticar o crime mais grave, mas é preciso passar (progredir) pelo menos grave. Por exemplo, no homicídio está implícita a lesão corporal, de forma que o agente pode iniciar disparando um tiro que fere a vítima, mas cujo objetivo é causar sua morte. b) Progressão criminosa: é quando o agente inicia uma ação criminosa querendo o crime menos grave, mas no decorrer do iter criminis decide-se por cometer um crime mais grave. Por exemplo, o agente dispara um tipo querendo ferir a vítima, mas na sequência decide matá-la e dispara mais dois. CRIMES HABITUAIS É a prática de um só crime por meio da reiteração da mesma conduta criminosa, que se traduz em um estilo ou hábito de vida, indesejado pela lei penal (p.ex. exercício ilegal de medicina).28 CRIMES DE AÇÃO ÚNICA E DE AÇÃO MÚLTIPLA a) Crimes de ação única: o tipo penal possui apenas um verbo nuclear (p.ex. homicídio, furto). b) Crimes de ação múltipla: o tipo penal possui mais de um verbo nuclear, de forma que a realização de qualquer deles configura o crime (p.ex. receptação simples). CRIMES COMPLEXOS Há duas possibilidades de definição dos crimes complexos na doutrina: crimes que protegem mais de um bem jurídico ou crimes que são a fusão de dois ou mais tipos penais. Os resultados, entretanto, são semelhantes. Para qualquer das definições o roubo é um crime complexo, pois protege dois bens jurídicos (patrimônio e integridade física) e é a fusão de dois tipos penais (furto e ameaça). Outro exemplo é a extorsão mediante sequestro. INFRAÇÃO PENAL, CRIME E CONTRAVENÇÃO Infração penal é gênero, do qual crime e contravenção são espécies. A diferença entre as duas espécies está fundamentalmente na sanção aplicada, conforme disposição do art. 1º da Lei de Introdução ao Código Penal (Decreto-Lei n. 3.914/41): “Considera-se crime a infração penal que a lei comina pena de reclusão ou de detenção, quer isoladamente, quer alternativa ou cumulativamente com a pena de multa; contravenção, a infração penal a que a lei comina, isoladamente, penade prisão simples ou de multa, ou ambas, alternativa ou cumulativamente”. CRIME E ATO INFRACIONAL 28 ESTEFAM, André; GONÇALVES, Victor E. Rios. Direito Penal Esquematizado. 4. ed. São Paulo: Saraiva, 2015. p. 211-2. DIREITO PENAL 40 Quando uma conduta prevista em um tipo penal incriminador é cometida por um adolescente (entre 12 e 18 anos), não há crime, mas ato infracional. Ato infracional é uma “conduta descrita como crime ou contravenção penal” (art. 103, ECA) praticada por inimputável em razão da idade, assim considerados os menores de 18 anos, aos quais não são aplicadas as penas constantes no CP, mas as medidas previstas no ECA (art. 104, ECA). A idade considerada é a da data do fato (art. 104, parágrafo único, ECA), de forma que se quando for condenado tiver mais do que 18 anos, ainda assim será submetido às medidas previstas no ECA. MEDIDAS SOCIOEDUCATIVAS As medidas que podem ser aplicadas estão previstas no art. 112 e seguintes do ECA: Art. 112. (...) I - advertência; II - obrigação de reparar o dano; III - prestação de serviços à comunidade; IV - liberdade assistida; V - inserção em regime de semiliberdade; VI - internação em estabelecimento educacional; VII - qualquer uma das previstas no art. 101, I a VI. As medidas previstas nos incisos I a IV do art. 101 são: Art. 101. (...) I - encaminhamento aos pais ou responsável, mediante termo de responsabilidade; II - orientação, apoio e acompanhamento temporários; III - matrícula e frequência obrigatórias em estabelecimento oficial de ensino fundamental; IV - inclusão em serviços e programas oficiais ou comunitários de proteção, apoio e promoção da família, da criança e do adolescente; V - requisição de tratamento médico, psicológico ou psiquiátrico, em regime hospitalar ou ambulatorial; VI - inclusão em programa oficial ou comunitário de auxílio, orientação e tratamento a alcoólatras e toxicômanos. Aos menores de 12 anos não serão aplicadas as medidas previstas no art. 112 do ECA, mas apenas aquelas previstas no art. 101. A medida socioeducativa mais grave prevista no ECA é a de internação, que, conforme o art. 121, “constitui medida privativa da liberdade, sujeita aos princípios de brevidade, excepcionalidade e respeito à condição peculiar de pessoa em desenvolvimento”. Diferentemente da pena privativa de liberdade aplicada aos adultos, não tem prazo determinado, devendo sua manutenção ser reavaliada, mediante decisão fundamentada, no máximo a cada seis meses. Ademais, em nenhuma hipótese sua duração excederá três anos. Atingido este prazo, o adolescente deverá ser liberado, colocado em regime de semiliberdade ou de liberdade assistida. A liberação também é obrigatória quando o adolescente completar vinte e um anos de idade. Art. 122, ECA, determina que a medida de internação só poderá ser aplicada quando: DIREITO PENAL 41 Art. 122. (...) I - tratar-se de ato infracional cometido mediante grave ameaça ou violência a pes- soa; II - por reiteração no cometimento de outras infrações graves; III - por descumprimento reiterado e injustificável da medida anteriormente impos- ta. FATO TÍPICO FATO TÍPICO Tendo em vista o já mencionado princípio da legalidade, somente a lei pode proibir ou determinar a prática de condutas. Em matéria penal, a proibição é veiculada por meio do fato típico, ou seja, da descrição da conduta proibida, omissiva ou comissiva descrita pelo legislador. TIPICIDADE FORMAL E MATERIAL Afora a tipicidade material, exige-se também um grau mínimo de afetação ou exposição a perigo do bem jurídico. Se esse grau de afetação é mínimo, tem-se ausente a tipicidade material, devendo ser afastada a tipicidade por aplicação do princípio da insignificância (STF, HC 92531, Ellen, 2ª. T., u., 10.6.08). Assim, por exemplo, quando o valor do tributo devido em decorrência do descaminho é inferior ao estabelecido pela administração pública como mínimo para o ajuizamento de ação de execução fiscal (STF, HC 92438, Barbosa, 2ª. T., u., 19.8.08). ELEMENTOS DO FATO TÍPICO Os elementos que integram o tipo podem ser objetivos ou subjetivos. Os elementos objetivos são aqueles que descrevem: Elemento Objetivo O que é? Exemplo Presença em todos os delitos. Pressuposto objetivo Uma circunstância prévia à ocorrência do fato, sem a qual não há crime. A posse ou detenção da coisa nos crimes de apropriação indébita (CP, art. 168) ou peculato (CP, art. 312) Não Verbo Nuclear É a conduta. Apropriar-se (CP, art. 168) Sim Forma de execução É o meio empregado. Artifício, ardil ou outro meio fraudulento, no estelionato (CP, art. 171) Não Resultado É a modificação no mundo natural. Morte da vítima no homicídio (CP, art. 121) Não DIREITO PENAL 42 Sujeito Ativo É o autor do fato. O funcionário público no crime de peculato (CP, art. 312) Não é mencionado nos crimes comuns. Sujeito Passivo É a vítima. A pessoa menor de 14 anos nos crimes do art. 217-A. Nem sempre é mencionado. Elemento normativo Elemento que requer exame conforme as circunstâncias do caso concreto A expressão indevidamente no crime de prevaricação (CP, art. 319) Não. Há tipos sem elementos normativos. Já os elementos subjetivos são aqueles referentes à vontade do agente, ou seja, ao dolo ou à culpa. ELEMENTOS OBJETIVOS DO FATO TÍPICO O fato típico é composto dos seguintes elementos: - Conduta (ação ou omissão); - Resultado (nos crimes materiais); - Nexo de causalidade entre a conduta e o resultado (nos crimes materiais); - Tipicidade (enquadramento do fato material a uma norma penal). CONDUTA Na visão finalista, conduta é toda ação ou omissão humana, consciente e voluntária, voltada a uma finalidade, não sendo punível a mera cogitação, que não chegou a traduzir-se externamente ao sujeito. Uma conduta, marcada pela finalidade, pode ser desdobrada em vários atos dirigidos a uma mesma finalidade. Diz-se unissubsistente o crime quando a conduta não pode ser desdobrada em vários atos, como, por exemplo, a injúria verbal consistente em assacar uma expressão ofensiva à honra subjetiva da vítima. O crime será plurissubsistente quando a conduta puder ser desdobrada em vários atos, como no caso do furto qualificado cometido mediante construção de um túnel para acesso a um estabelecimento bancário, que envolva reunião dos agentes, aluguel de um imóvel próximo, compra de ferramentas, escavação, ingresso no estabelecimento bancário e subtração dos valores. Tradicionalmente se dizia que somente a pessoa física poderia praticar a conduta, que pressupõe vontade, um atributo exclusivo dos seres humanos. Desde o advento da Lei 9605/98, porém, é admissível a prática de crimes por parte de pessoas jurídicas, no âmbito dos crimes ambientais, nos termos dos arts. 3º e 21-24 daquele diploma legal. Não haverá conduta, por ausência de vontade, nos casos seguintes: a) caso fortuito ou força maior; b) atos reflexos, causados por estímulo externo ao sistema nervoso; c) coação física (vis absoluta) enquanto a coação moral (vis compulsiva), não exclui a vontade, mas afastará a culpabilidade, como adiante se verá; DIREITO PENAL 43 d) movimentos praticados durante o sonho, em estado de sonambulismo, hipnose ou inconsciência. CONDUTA COMISSIVA Ação é o comportamento positivo, a movimentação corpórea, o fazer. A maioria dos núcleos dos tipos se consubstancia em modos positivos de agir, como matar, apropriar-se, destruir etc. CONDUTA OMISSIVA Existem duas teorias a respeito da omissão, a saber: 1. Naturalística, para a qual a omissão é um fazer, perceptível no mundo natural como algo que muda o estado das coisas, de modo que quem se omite dá causa, naturalisticamente,a um resultado; 2. Normativa, segundo a qual quem se omite não faz nada e o nada não pode ser causa, sendo desprovido de relevância causal, de modo que a omissão somente terá relevância quando uma norma determinar o dever legal de agir (CP, art. 13, § 2º). O dever jurídico de agir existe nas seguintes hipóteses: a) dever legal de cuidado, proteção ou vigilância, imposto, por exemplo, ao policial em serviço, que testemunha um crime, mas nada faz para evitá-lo. b) dever contratual do garantidor, por liberalidade ou decorrência do contrato, como no caso da empregada doméstica contratada para tomar conta de uma criança ou de um idoso incapaz de alimentar-se ou locomover-se sozinho; c) dever decorrente do comportamento anterior, como no caso do agente que empurra alguém que não sabe nadar para dentro de uma piscina. Existem duas espécies de crimes omissivos: Espécie Crime Omissivo Puro ou Próprio Crime Omissivo Impróprio ou Omissivo por Comissão Característica A conduta omissiva é descrita no preceito primário da lei penal incriminadora. A conduta omissiva não é descrita na norma, mas o agente tem o dever jurídico de agir para evitar o resultado (CP, art. 13, § 2º). Elemento Subjetivo Somente o dolo. Dolo ou culpa. Resultado Não é exigido. É exigido. Tentativa Não é admitida. É admitida. Exemplo Omissão de socorro (CP, art .135) Homicídio causado porque o salva- vidas deixa de entrar no mar para salvar o banhista, embora pudesse fazê-lo. DIREITO PENAL 44 RESULTADO Resultado é a consequência de uma conduta humana juridicamente relevante. Há duas espécies de resultado. O resultado jurídico, que ocorre em todos os crimes, é a lesão ou perigo de lesão a um bem jurídico. O resultado natural, que não ocorre em todos os crimes, é a modificação no mundo concreto. Pelo critério do resultado, os crimes classificam-se em três espécies, a saber: Crimes Característica Exemplo Materiais Somente se consumam com o resultado naturalístico. Homicídio (CP, art. 121); furto (CP, art. 155). Formais Existe um resultado naturalístico, mas este não é relevante para a consumação. Extorsão mediante sequestro (CP, art. 159), que se consuma com a privação da liberdade, independentemente do pagamento do preço do resgate. De mera conduta Não há resultado naturalístico. Violação de domicílio (CP, art. 150). O CP adotou a teoria jurídica ou normativa, como se vê do art. 13 do CP: Art. 13. O resultado, de que depende a existência do crime, somente é imputável a quem lhe deu causa. Considera-se causa a ação ou omissão sem a qual o resultado não teria ocorrido. Assim, nosso ordenamento deduz que não há crime sem resultado, pois todo crime produz dano ou um perigo de dano, isto é, cria uma alteração do mundo externo que afeta a existência ou a segurança do bem ou interesse que a lei protege com a ultima ratio da sanção penal. NEXO CAUSAL OU RELAÇÃO DE CAUSALIDADE Nexo causal ou relação de causalidade é o elo que se estabelece, logicamente, entre a conduta e o resultado, ou seja, que a conduta provocou o resultado, nos termos do art. 13 do CP, acima transcrito. O elemento subjetivo (CP, art. 18), vincula o agente subjetivamente ao resultado, podendo ser chamado de causalidade psicológica. Para a existência do crime, exige- se a causalidade tanto do ponto de vista da causação do resultado quanto do vínculo subjetivo do autor a este. Não há que falar em causa, em sentido estrito, quando não se tratar de crime material. Com efeito, se o crime é formal ou de consumação antecipada, a investigação da causalidade física é desnecessária porque em tais casos o resultado é apenas jurídico ou normativo. Assim também na chamada tentativa branca, no homicídio, quando a vítima não chega sequer a ser lesionada, havendo mera exposição a perigo do bem jurídico protegido. TEORIA DA EQUIVALÊNCIA DOS ANTECEDENTES O CP adota a teoria da equivalência dos antecedentes, segundo a qual toda circunstância que tenha concorrido para produzir o dano pode ser considerada causa. A equivalência resulta do fato de que, se suprimida uma das causas, o dano não se verifica. Assim, se várias são as condições que concorrem para o mesmo resultado, todas têm o mesmo DIREITO PENAL 45 valor e a mesma relevância, equivalendo-se. Adotada essa teoria, desimporta qual a causa foi a mais adequada para produzir o dano, definindo causa como a ação ou omissão sem a qual o resultado não teria ocorrido. Para se estabelecer se a conduta foi causa do resultado, aplica-se o critério da eliminação hipotética, imaginando-se o que ocorreria caso uma determinada conduta não tivesse ocorrido. Se a eliminação da conduta fizer com que desapareça o resultado, deve ser considerada causa. Do contrário, não o será. ESPÉCIES DE CAUSAS São duas as espécies de causas: Tipo de causa Definição Exemplo Dependente Encontram-se na linha normal de desdobramento da conduta, de modo que não rompem o nexo causal. Disparo de arma de fogo, ferimento, desorganização de órgãos e tecidos, hemorragia interna e morte. Independente Encontra-se fora da linha normal de desdobramento causal da conduta, da qual não é uma decorrência esperada ou lógica, surgindo de forma inusitada. Morte por infarto após um “susto” aplicado por “brincadeira”. As causas independentes podem ser absolutamente ou relativamente independentes. A causa absolutamente independente, além de produzir o resultado por si só, tem uma origem completamente diversa da conduta, ou seja, ocorreria ainda que a conduta nunca tivesse sido praticada. Podem ser: Causa Momento de Ocorrência Exemplo Preexistente Anterior à conduta. O genro, com intenção de envenenar a sogra, ministra arsênico no jantar da vítima. Ao terminar o jantar, a vítima morre. Constata-se, então, que a causa da morte da vítima foi o envenenamento produzido pela nora no café da manhã, sendo que a morte não foi causada pela conduta do genro, pois o veneno leva 16 horas para fazer efeito. Não há, portanto, nexo causal. Concomitante Simultânea à conduta. Durante o jantar, quatro indivíduos invadem a residência de uma pessoa que foi envenenada, a qual reage ao roubo e vem a ser morta pelos assaltantes. Não há nexo causal. Superveniente Posterior à conduta. Após ser envenenada, mas ainda viva, desprende-se o lustre sobre a cabeça da vítima, matando-a. Não há nexo causal. Observe-se que, nos exemplos citados, as causas rompem totalmente o nexo causal, razão pela qual o agente só responderá pelos atos até então praticados. DIREITO PENAL 46 Já a causa relativamente independente produz por si só o resultado, contudo origina-se da conduta, ou seja, a causa apareceu por conta da conduta e, inesperadamente, produziu o resultado. Podem ser: Causa Momento de Ocorrência Exemplo Consequência Preexistente Anterior à conduta o agente corta o braço da vítima, que é hemofílica, e esta morre em decorrência da hemorragia. A hemofilia é causa preexistente ao resultado. Existe nexo causal, mas o autor deverá responder por lesão corporal, diante da ausência de dolo de matar, desde que desconheça a especial condição de saúde da vítima. Concomitante Simultânea à conduta. o ladrão anuncia o roubo ameaçando a vítima com arma de fogo, mas a vítima falece de um infarto. Há nexo causal, mas não houve dolo nem culpa em matar. Nesse caso o agente responderia por tentativa de roubo. Superveniente Posterior à conduta A vítima de um roubo, ferida com arma de fogo, morre em decorrência de acidente automobilístico a caminho do hospital. As causas relativamente independentes não têm o condão de romper o nexo causal. No caso das causas preexistentes e concomitantes, como existe nexo causal,o agente responderá pelo resultado, a menos que não tenha concorrido para o mesmo com dolo ou culpa. Afinal, dizer que existe nexo causal não dispensa a presença do elemento psicológico (dolo) ou normativo (culpa) da conduta, sem os quais o fato será atípico. Na hipótese, porém, das supervenientes, embora exista nexo causal físico-naturalístico, o CP, por expressa disposição do art.13, § 1.°, excepcionando a regra geral, manda desconsiderá- lo, não respondendo o agente pelo resultado, mas somente por tentativa. TIPICIDADE O tipo é o modelo descritivo da conduta contido na lei. Quando o fato praticado pelo agente se enquadra no tipo, ocorre a tipicidade. O tipo legal é um dos postulados básicos do princípio da reserva legal. A CF consagra expressamente que “não há crime sem lei anterior que o defina, nem pena sem prévia cominação legal” (art. 5.º, inc. XXXIX), deixando à lei a tarefa de definir, descrever, os crimes. Importante destacar a teoria do tipo, concebida no ano de 1907, por Ernst Beling, segundo a qual o tipo legal realiza e garante o princípio da reserva legal. Consiste na descrição abstrata da conduta humana feita, pormenorizadamente, pela lei penal e correspondente a um fato criminoso – também chamado de tipo incriminador. O tipo é, então, um molde criado pela lei, em que está descrito o crime com todos os seus elementos, sendo que alguém cometerá um delito se realizar uma conduta idêntica à constante no modelo legal. DIREITO PENAL 47 Há tipicidade ou adequação típica quando o fato concreto se amolda à descrição abstrata do tipo legal. A adequação típica pode ser: a) De subordinação imediata: quando há incidência direta da norma penal incriminadora; b) De subordinação mediata, ampliada ou por extensão: o fato não se enquadra imediatamente na norma penal incriminadora; exige para isto o concurso de outra disposição, por exemplo, tentativa (CP, art. 14, II) e concurso de agentes (CP, art. 29), em que a incidência depende do concurso de dispositivos da parte geral. As normas que ampliam o tipo penal são chamadas normas de extensão ou ampliação da figura típica. No caso da tentativa, a ampliação se dá pela inocorrência do resultado previsto no tipo incriminador, embora fosse visado pelo agente. No caso da participação, também não ocorre correspondência entre o fato e o tipo, pois o partícipe é aquele que não pratica o núcleo descrito na norma, decorrendo daí a impossibilidade de adequação direta. O art.29 do CP liga a conduta do partícipe ao modelo legal. A extensão opera-se de uma pessoa (autor principal) para outra (partícipe), denominando-se norma de extensão ou ampliação espacial da figura típica. A tipicidade funciona como uma garantia do cidadão, além de consistir em indício da ilicitude. ELEMENTARES E CIRCUNSTÂNCIAS O tipo legal é composto de elementares e circunstâncias. As primeiras constituem ou integram o tipo, são elementos que o conformam. Já as circunstâncias, são assim chamadas porque circundam, estão em volta, sem fazer parte do tipo. A diferenciação se dá através de um processo hipotético de eliminação. Se a inexistência de um determinado dado faz com que desapareça o crime ou faz surgir um outro crime, se trata de uma elementar. Por exemplo, a hipotética exclusão da qualidade de funcionário público do acusado da prática de peculato- furto dará lugar à desclassificação do delito do § 1º do art. 312 para o art. 155 do CP. Então a condição de funcionário público é elementar do peculato. Como afirmado pelo STJ: “A exclusão de circunstância agravante, pela sentença, não implica na exclusão do crime, pois a agravante é algo que se põe ao redor do tipo, não integrando sua essência. É acidental, acessória, e somente serve para elevar a pena, posto que sua incidência significa que a culpabilidade do agente foi tal que merece maior reprovabilidade. O reconhecimento ou não da agravante não influi no tipo, já que ela é elemento que adere ao delito, sem alterar-lhe a essência” (REsp. 117.706-0, Dipp, 5ª T., u., DJ 4.2.02). A qualificadora, em sentido estrito, estabelece novo mínimo e novo máximo de pena em abstrato, integrando o tipo penal qualificado, sendo tratada, para esse efeito , como elementar e avaliada no momento da adequação típica, antes mesmo da aplicação da pena (STF, HC 80.771, M. Alves, 1ª. T., u., 3.4.01; TRF4, AC 2001.71.00.003961-2, Castro, 8ª T., u., DJ 10.4.02). É o caso, por exemplo, do homicídio (art. 121, CP), do furto (art. 155, § 4º, CP) e do art. 8º da Lei nº 8.072/90. ESPÉCIES DE ELEMENTOS DIREITO PENAL 48 São três as espécies de elementos: a) Elementos objetivos ou descritivos: são aqueles cujo significado depende de mera observação, tornando desnecessária qualquer interpretação. Todos os núcleos (verbos) do tipo constituem elementos objetivos (exemplos: matar, falsificar etc.). São aqueles que independem de juízo de valor, existem concretamente no mundo (exemplos: mulher, coisa móvel, filho etc.). Se um tipo penal possui somente elementos objetivos, ele oferece segurança máxima ao cidadão, visto que, qualquer que seja o aplicador da lei, a interpretação será a mesma. É o chamado tipo normal, pois é normal o tipo penal que ofereça segurança máxima. b) Elementos subjetivos: compõem-se da finalidade especial do agente exigida por alguns tipos. Determinados tipos não se satisfazem com a mera realização do verbo. Existirá um elemento de ordem subjetiva sempre que houver no tipo as expressões “com a finalidade de”, “para o fim de” etc. (exemplo: rapto com fim libidinoso). O elemento subjetivo será sempre a finalidade especial que a lei exige. Não confundir o elemento subjetivo do tipo com o elemento subjetivo do injusto, que é a consciência do caráter inadequado do fato, a consciência da ilicitude (elemento da culpabilidade e não do tipo penal). Tipos que exigem finalidade especial são chamados tipos anormais. c) Elementos normativos: são aqueles que dependem de interpretação para se extrair o significado, ou seja, é necessário um juízo de valor sobre o elemento (exemplo: mulher honesta). O que é mulher honesta? Observe-se que os elementos normativos trazem a possibilidade de interpretações equívocas, divergentes, oferecendo um certo grau de insegurança, por isso são chamados de tipos anormais. c.1) Elemento normativo jurídico: é aquele que depende de interpretação jurídica; c.2) Elemento normativo extrajurídico ou moral: é aquele que depende de interpretação não jurídica. TIPICIDADE SUBJETIVA (DOLO E CULPA) a) Crimes Dolosos Os crimes dolosos são aqueles em que o agente atua com a vontade de praticar a conduta e causar o resultado, nos termos do inc. I do art. 18 do CP: Art. 18. Diz-se o crime: I - doloso, quando o agente quis o resultado ou assumiu o risco de produzi-lo; (...) Parágrafo único. Salvo os casos expressos em lei, ninguém pode ser punido por fato previsto como crime, senão quando o pratica dolosamente. Como revela a leitura do parágrafo único, na ausência de expressa disposição a respeito, somente são puníveis as condutas praticadas dolosamente. a.1) Requisitos dos Crimes Dolosos São requisitos para que haja efetivamente o crime doloso: - Consciência da conduta e do resultado; - Consciência da relação causal objetiva entre a conduta e o resultado; - Vontade de realizar a conduta e produzir o resultado. DIREITO PENAL 49 a.2) Teorias do Dolo Sobre o dolo existem quatro teorias: 1. Teoria da vontade (Carrara): o dolo seria somente a vontade livre e consciente de querer praticar a infração penal. Aqui, o agente deseja o resultado. 2. Teoria do assentimento (Von Liszt): para esta teoria, atua com dolo quem, mesmo prevendo o resultado lesivo e não o querendo de forma direta, assume o risco de vir a produzi-lo. O agente não quer o resultado diretamente, mas o entende como possível e o aceita, caracterizandoo dolo eventual. 3. Teoria da representação: esta teoria determina que basta o agente ter previsto o resultado como possível para se configurar o dolo. Assim, para essa teoria, não haveria diferença entre o dolo eventual (indiferença quanto ao resultado) e a culpa consciente (confiança da não ocorrência do resultado). 4. Teoria da probabilidade: através de dados estatísticos, se de acordo com determinado comportamento praticado pelo agente, houver grande probabilidade de ocorrência do resultado, estaríamos diante de dolo eventual. Como se viu do texto do art.18 do CP, o ordenamento brasileiro adotou a teoria da vontade e a teoria do assentimento, ao determinar que age dolosamente quem diretamente quer a produção do resultado, bem como quem, mesmo não o desejando de forma direta, assume o risco de produzi-lo. a.3) Espécies de Dolo O dolo é classificado conforme o esquema seguinte: - Dolo Direto: é o dolo por excelência, onde o agente quer praticar a conduta descrita no tipo, dirigindo-se finalisticamente para o resultado. Possui duas subespécies: - Dolo Direto de 1.º Grau, que é aquele dirigido imediatamente a produzir o resultado, e de acordo com os meios executórios, não existe possibilidade de ocorrência de qualquer efeito colateral ou concomitante; e - Dolo Direto de 2.º Grau, também conhecido como Dolo de Consequências Necessárias, que acontece quando resultados lesivos concorrentes são previstos e tidos como certos, o que faz dessa modalidade um dolo direto, mas de 2.º grau, uma vez que a finalidade primeira é um determinado e específico resultado lesivo, e as consequências necessárias surgem em virtude do meio de execução selecionado. - Dolo Indireto: é aquele em que a vontade do sujeito não se dirige a certo e determinado resultado, encontra-se direcionada de maneira alternativa, ou em relação à pessoa (alternatividade subjetiva), ou em relação ao resultado (alternatividade objetiva). - Dolo Eventual: modalidade de dolo indireto, que ocorre quando o agente não queria diretamente praticar o delito, mas não se abstém de agir e, com isso, assume o risco de produzir o resultado que por ele já havia sido previsto e aceito. DIREITO PENAL 50 b) Crimes Culposos Crimes culposos são aqueles em que o agente não teve a intenção deliberada de ofender o bem jurídico, no entanto sua atitude resultou da violação do dever objetivo de cuidado na vida de relação, nos termos do inc. II do art. 18 do CP: Art. 18. Diz-se o crime: (...) II - culposo, quando o agente deu causa ao resultado por imprudência, negligência, ou imperícia. Quando do convívio social, as pessoas são obrigadas a adotar certas condutas, isto é, ser dotadas de discernimento e prudência para evitar danos a terceiros, no que é chamado de dever objetivo de cuidado. A culpa resulta justamente da inobservância deste dever de diligência, caracterizando-se os tipos culposos pela maior abertura em relação aos dolosos. b.1) Elementos dos Crimes Culposos Os delitos culposos possuem, em sua constituição, vários elementos: - Conduta: nos crimes culposos a conduta do agente é dirigida, em regra, a um fim lícito. Tendo em vista sua finalidade lícita, o ato será penalmente relevante não pela finalidade, mas pelos meios empregados para alcançá-la, que desatenderam à obrigação objetiva de cuidado para não lesar a bens jurídicos de terceiros; - Inobservância de um Dever Objetivo de Cuidado (negligência, imprudência ou imperícia): caso o agente aja de forma lícita, com finalidade lícita, mas deixando de observar deveres impostos a todos, causando, assim, danos a bens jurídicos de terceiros, deve ser responsabilizado pelos danos; - Resultado: o agente que tiver agido em completa inobservância ao dever objetivo de cuidado, seja de forma imprudente, negligente ou imperita, apenas poderá ser penalmente responsabilizado se efetivamente causar dano a bens jurídicos penalmente tutelados. - Nexo de Causalidade: requisito essencial do fato típico, para que o resultado seja imputado ao agente é sua conduta que lhe deve ter dado causa. - Previsibilidade: É a possibilidade de qualquer pessoa dotada de prudência mediana prever o resultado; - Tipicidade: apenas se pode considerar qualquer conduta como crime se houver previsão legal expressa. Como já referido anteriormente, o dolo é a regra, enquanto que a culpa, a é exceção. b.2) Modalidades de Crimes Culposos Existem três modalidades de crime culposo: 1. Crime Culposo por Imprudência: consiste na prática de um ato perigoso, sem observância de medidas de precaução e segurança previsíveis e necessárias naquele momento e que tenha como consequência fato criminoso, resultando prejuízo à integridade da pessoa, ou infração à lei. DIREITO PENAL 51 2. Crime Culposo por Negligência: consiste na omissão de uma precaução ou simplesmente da indiferença em relação ao ato praticado, e, que tem como consequência, fato criminoso. 3. Crime Culposo por Imperícia: resulta da falta de aptidão, habilidade ou destreza para o exercício da atividade, por despreparo ou insuficiência de conhecimentos técnicos, resultando danos à integridade física ou a interesses jurídicos de terceiros. b.3) Espécies de Culpa Existem também três espécies de culpa: 1. Culpa Inconsciente: é aquela que não tem previsão, em que o agente não prevê o que era previsível; 2. Culpa consciente: o agente prevê o resultado, mas afasta a possibilidade de ocorrência. 3. Culpa imprópria: o agente, por erro de tipo inescusável, supõe estar diante de uma causa de justificação que lhe permita praticar, licitamente, um fato típico. b.4) Diferença entre Culpa Consciente e Dolo Eventual Os institutos da culpa consciente e do dolo eventual não raramente são confundidos, por sua similaridade, no entanto possui características específicas que os diferenciam. Na culpa consciente, o agente, embora preveja o resultado, não deixa de praticar a conduta, pois acredita sinceramente que ele não venha a ocorrer, enquanto que no dolo eventual, embora o agente não queira diretamente o resultado, ele assume o risco de vir a produzi-lo. Enquanto naquela há o chamado excesso de confiança, nesta há a mera indiferença. IMPUTAÇÃO OBJETIVA A teoria da imputação objetiva foi criada por Claus Roxin e busca estabelecer critérios objetivos para a atribuição (imputação) de um resultado à conduta de alguém. Esses critérios, entretanto, não são físicos ou naturais, mas jurídicos ou normativos. De acordo com esta teoria, sendo o direito uma criação humana, o fundamental para a atribuição de um resultado a uma conduta não é tanto a causalidade natural ou física, mas as finalidades da norma penal. É importante frisar, entretanto, que a teoria da imputação objetiva não exclui a necessidade de averiguação da causalidade natural, mas soma-se a ela, adicionando novos critérios. São critérios para a imputação objetiva do resultado à conduta: a) Criação de um risco não permitido ou proibido: para que haja imputação do resultado à conduta, ela deve criar um risco não permitido ao bem jurídico. Riscos são inerentes a todas as atividades humanas. Dirigir em rodovias, por exemplo, é um constante risco à vida; entretanto, trata-se de um risco permitido ou irrelevante (risco geral da vida). Mas alguns riscos são proibidos pelo direito, como o de dirigir após consumo de bebida alcoólica, de forma que o agente que causa a morte de alguém dirigindo após consumo de álcool viola uma norma e, portanto, cria um risco não permitido, de forma que o resultado morte pode lhe ser imputado objetivamente (se por culpa ou dolo não é uma discussão de imputação objetiva, mas de imputação subjetiva). Desta forma, não podem ser imputados resultados a não DIREITO PENAL 52 ser que a conduta do agente crie um risco não permitido, independentemente de ele agir com dolo. Exemplo clássicoé o do sobrinho que, querendo a morte do tio, lhe dá uma passagem de avião, esperando que o avião caia. Andar de avião, em situações normais, é um risco geral da vida, de forma que o sobrinho não criou um risco proibido e, por isso, não pode ser responsabilizado por uma eventual morte do tio. Atua conforme a o risco permitido: o profissional que segue as normas que regulamentam a profissão (lex artis). b) Princípio da confiança: baseia-se na expectativa de que as outras pessoas ajam de forma lícita, de forma que a realização de uma conduta na confiança de que o comportamento do outro agente ocorrerá de acordo com o direito não pode ser considerado criação de um risco proibido e, portanto, não pode ser imputado objetivamente ao agente. O motorista que, conduzindo seu veículo pela preferencial, passa por um cruzamento, confia que o outro automóvel, que se encontra na via secundária, aguardará sua passagem. Havendo acidente, ao primeiro não poderá sem imputado o resultado, uma vez que sua conduta estava abarcada pelo princípio da confiança. c) Realização do risco no resultado: se, embora criado um risco não permitido, ele não se realiza no resultado, este não pode ser imputado objetivamente ao agente. Por exemplo, um motorista dirige embriagado e atropela um pedestre, causando-lhe lesões corporais. O hospital em que o pedestre é tratado pega fogo e ele morre. O motorista não responderá por homicídio, uma vez que o resultado morte não é resultado do risco não permitido criado por ele (dirigir embriagado), mas de um risco imprevisível. Importante, em alguns casos, esse critério pode ser usado para resolver os problemas que também são resolvidos pela análise das causas independentes e dependentes. d) Resultado está abarcado pela norma: se criado um risco não permitido que se realiza no resultado, ainda será possível excluir a imputação objetiva da conduta ao agente no caso de o resultado não estar abarcado pelo tipo penal. Por exemplo, um motorista anda em velocidade acima da permitida, quando um pedestre atravessa a faixa, freia bruscamente, parando a centímetros. O susto faz com que o pedestre tenha um infarto e morra. O motorista não responderá por homicídio, uma vez que a lei que regula o limite de velocidade está prevendo o resultado morte por atropelamento, mas não por susto. e) Autocolocação em perigo, heterocoloação consentida em perigo ou capacidade/competência da vítima: se a vítima quer o risco, o resultado não pode ser imputado a outrem. Por exemplo, se alguém coloca-se consciente e voluntariamente (sem coação) em situação de risco, o resultado não pode ser imputado a outra pessoa. Se alguém consente (consciente e voluntariamente) com a criação de um risco para si por outra pessoa, o resultado não pode ser imputado a esta. f) Âmbito de responsabilidade de terceiros: se, após a criação de um risco não permitido por alguém, terceiro intervém na situação e ocasiona um resultado mais grave do que aquele que decorreria do risco inicial, o resultado mais grave é imputado ao terceiro; o primeiro agente responde apenas pelos resultados que derivam do risco por ele criado. DIREITO PENAL 53 g) Proibição de regresso: a um comportamento lícito, que de alguma forma com comportamento ilícitos de terceiros, não pode ser imputado o resultado, embora tenha colaborado para causá-lo. ILICITUDE (ANTIJURIDICIDADE) Ilicitude é a contradição entre a conduta e o ordenamento jurídico, consistindo na prática de uma ação ou omissão que, além de preencher todos os requisitos de tipicidade (formal e material, objetiva e subjetiva), não está permitida pelo ordenamento jurídico. ANTIJURIDICIDADE FORMAL, MATERI- AL E UNITÁRIA a) Formal: contradição entre o fato e o tipo penal somado à ausência de causas de exclusão da ilicitude. b) Material: é quando o fato causa uma lesão ou um perigo de lesão ao bem jurídico. A conduta não somente está contrária à lei, mas também contraria o sentimento de justiça da sociedade (é injusta). c) Unitária: é quando o fato contraria o ordenamento jurídico, causando lesão ou perigo de lesão ao bem jurídico tutelado por uma norma penal. É a superação da dicotomia formal/material, de forma que a ilicitude depende tanto da contrariedade entre o fato e o tipo penal somado à ausência de causas de exclusão da ilicitude como da ofensa ao bem jurídico tutelado. ANTIJURIDICIDADE E TIPICIDADE A teoria mais aceita acerca da relação ente tipicidade e ilicitude é a de Max Ernest Mayer, que considera a tipicidade como ratio cognoscendi da ilicitude. O fato típico indicia a ilicitude, cria uma presunção de ilicitude (função indiciária da tipicidade). Se não estiver presente nenhuma causa de exclusão da antijuridicidade, considera-se o fato também ilícito, confirmando-se a presunção. A presunção pode ser quebrada pelas causas de exclusão de ilicitude, de forma que o fato é típico, mas não é ilícito. Tipicidade e ilicitude são, portanto, categorias distintas. A essa teoria opõe-se a teoria da ratio essendi, de Edmund Mezger, que sustenta que a ilicitude pertence à tipicidade, que ambas estão fundidas (teoria dos elementos negativos do tipo). ANTIJURIDICIDADE E CULPABILIDADE DIREITO PENAL 54 A antijuridicidade diz respeito ao fato considerado de forma objetiva, no aspecto de sua contrariedade ao ordenamento jurídico. A culpabilidade, por sua vez, é uma consideração subjetiva do fato, em relação ao sujeito passivo, avaliando se sua conduta subjetiva é reprovável nas circunstâncias em que ocorreu. Portanto, existem causas que excluem a ilicitude do fato objetivamente considerado (art. 23, CP). Entretanto, o erro do agente sobre tais causas justificantes pode fazer com que, apesar da ilicitude do fato, seja afastada sua culpabilidade (art. 20, § 1º, CP). É o que ocorre na legítima defesa e no estado de necessidade putativos, que serão vistos abaixo. CAUSAS LEGAIS E SUPRALEGAIS DE EXCLUSÃO DA ANTIJURI- DICIDADE a) Causas legais: são aquelas previstas expressamente em lei (art. 23 do CP: estado de necessidade, legítima defesa, estrito cumprimento do dever legal e o exercício regular de direito). b) Causas supralegais: são aquelas não previstas expressamente em lei, mas que derivam de uma compreensão conjunta do ordenamento jurídico. ESTADO DE NECESSIDADE Consiste em uma conduta típica praticada para afastar uma situação de perigo atual a inevitável para bem jurídico do agente. A situação de perigo pode ser, por exemplo, um fenômeno da natureza, um ataque de animal irracional, um ataque humano justificado (se for injusto, será legítima defesa). No estado de necessidade, um bem jurídico é sacrificado para salvar outro ameaçado por situação de perigo (exemplo: naufrágio em que dois homens lutam por uma boia e um mata o outro). Conforme o art. 24, CP: Art. 24. Considera-se em estado de necessidade quem pratica o fato para salvar de perigo atual, que não provocou por sua vontade, nem podia de outro modo evitar, direito próprio ou alheio, cujo sacrifício, nas circunstâncias, não era razoável exigir- se. § 1º. Não pode alegar estado de necessidade quem tinha o dever legal de enfrentar o perigo. § 2º. Embora seja razoável exigir-se o sacrifício do direito quando ameaçado, a pena poderá ser reduzida de um a dois terços.” REQUISITOS a) Perigo atual: a lei só fala em perigo atual, mas a doutrina considera que o agente não precisa aguardar o perigo surgir para só então agir. Assim, o perigo deve estar acontecendo naquele momento ou prestes a acontecer. Quando, portanto, o perigo for remoto ou futuro, não há o estado de necessidade. A atualidade que se exige é a do perigo e não do dano. Mas se o dano já se iniciou, com maior razão ainda o agente poderá invocar o estado de necessidade. No entanto, se o dano já se realizou totalmente ou se o perigo já cessou, não mais cabe o estado de necessidade.DIREITO PENAL 55 b) Ameaça a direito próprio ou alheio: necessário o bem sob perigo atual esteja protegido pelo ordenamento jurídico (Por exemplo, o condenado à morte não pode alegar estado de necessidade contra o carrasco). c) Perigo não causado voluntariamente pelo agente: o perigo não pode ter sido provocado por vontade do agente. Quem dá causa a uma situação de perigo não pode invocar o estado de necessidade para afastá-la. Aquele que provocou o perigo com dolo não age em estado de necessidade porque tem o dever jurídico de impedir o resultado. Mas, se o perigo foi provocado culposamente, o agente pode se valer do estado de necessidade. Observação: há, entretanto, quem defenda que, mesmo se o perigo foi provocado culposamente, o agente não pode se valer do estado de necessidade. d) Inexistência de dever legal de enfrentar o perigo: de acordo com o § 1º do art. 24, CP, não pode invocar o estado de necessidade quem tem dever legar de afastar a situação de perigo (exemplo: bombeiro). Entram aqui, entre outros, aqueles portadores do dever de agir previsto no art. 13, § 2, CP. e) Inevitabilidade do comportamento lesivo: se não havia nas circunstâncias outra forma disponível para enfrentar o perigo. f) Proporcionalidade do sacrifício: trata-se da razoabilidade do sacrifício, deve-se sacrificar um bem de menor importância ou igual valor do que o sacrificado. Se houver desproporcionalidade o fato será ilícito, afasta-se o estado de necessidade, mas o réu terá direito à redução da pena de 1/3 a 2/3 (art. 24, § 2.º, CP). g) Elemento subjetivo: o agente deve atuar ciente do perigo e com conhecimento e vontade de salvar bem jurídico. Caso aja querendo cometer um crime, não haverá estado de necessidade, embora a situação atenda aos requisitos objetivos (citados acima de a a f), ESPÉCIES DE ESTADO DE NECESSIDADE a) Próprio ou de terceiro: é próprio quando há o sacrifício de um bem jurídico para salvar outro que é do próprio agente. É de terceiro quando o sacrifício visa a salvar bem jurídico de terceiro. b) Defensivo ou agressivo: é defensivo quando há o sacrifício de bem jurídico da própria pessoa que criou a situação de perigo. É agressivo quando há o sacrifício de bem jurídico de terceira pessoa inocente. No último caso, cabe indenização pelo dano causado, com a respectiva ação de regresso contra o causador da situação de perigo. EXCESSO NO ESTADO DE NECESSIDADE Se presentes todos os requisitos para o estado de necessidade, o agente exagera na intensidade de sua conduta, há excesso no estado de necessidade. Conforme o art. 23, parágrafo único, do CP, o agente “responderá pelo excesso doloso ou culposo” de qualquer das causas de justificação. Assim, se o agente se excede consciente e voluntariamente, responderá pela modalidade dolosa do crime que praticar; se o agente se excede por negligência, DIREITO PENAL 56 imprudência ou imperícia, responderá pela modalidade culposa, se prevista, do crime que praticar. ESTADO DE NECESSIDADE REAL E PUTATIVO a) Real: quando os requisitos do estado de necessidade de fato existem. b) Putativo: quando o agente imagina que está em situação de estado de necessidade, mas na verdade não está. Afasta a culpabilidade quando plenamente justificado pelas circunstâncias, conforme dispõe o art. 20, § 1º, CP29. LEGÍTIMA DEFESA Consiste na possibilidade de reação direta do agredido em defesa de um interesse, tendo em vista a impossibilidade da intervenção tempestiva do Estado. Prevista no art. 25, CP: Art. 25. Entende-se em legítima defesa quem, usando moderadamente dos meios necessários, repele injusta agressão, atual ou iminente, a direito seu ou de outrem. Parágrafo único. Observados os requisitos previstos no caput deste artigo, considera-se também em legítima defesa o agente de segurança pública que repele agressão ou risco de agressão a vítima mantida refém durante a prática de crimes. (Incluído pela Lei nº 13.964, de 24.12.2019) Para caracterização da legítima defesa é preciso que a injusta agressão a um direito próprio ou alheio, tanto atual quanto iminente, seja repelida com o uso moderado dos meios necessários para tal finalidade. No entanto, a Lei 13.964/2019 incluiu o parágrafo único ao art. 25, ampliando de forma expressa as hipóteses de legítima defesa. Ou seja, em caso de um crime envolvendo reféns, é possível que o agente de segurança pública venha a agir de modo a repelir a agressão ou risco de agressão, como no caso da utilização de atiradores de elite ou outra forma de fazer cessar a ofensa. Ao contrário do caput, o recente parágrafo único não fala em utilização moderada dos meios necessários, mas apenas que será considerado em legítima defesa o agente de segurança pública que repele agressão ou risco de agressão à vítima que é mantida refém. BENS PASSÍVEIS DE PROTEÇÃO A princípio, aceita-se que qualquer bem jurídico seja protegido pela legítima defesa (vida, integridade física, patrimônio, honra etc.). É necessário, entretanto, atentar para a proporcionalidade entre o bem jurídico defendido e o sacrificado. Caso clássico é o de legítima defesa da honra, quando o marido, ao flagrar a mulher com o amante, o mata. Nesse caso, a doutrina e a jurisprudência têm entendido que não cabe legítima defesa em razão da desproporcionalidade entre o bem sacrificado e o protegido. REQUISITOS 29 Art. 20. (...) §1º É isento de pena quem, por erro plenamente justificado pelas circunstâncias, supõe situação de fato que, se existisse, tornaria a ação legítima. DIREITO PENAL 57 a) Agressão injusta: ataque humano ilícito. No caso de ataque de animal irracional, não há legítima defesa e sim estado de necessidade. Observação: se uma pessoa açula um animal para atacar outra, há legítima defesa, pois nesse caso o animal é instrumento do crime. Também não é necessário que a agressão configure um fato típico, como, por exemplo, no caso de furto insignificante. A doutrina majoritariamente considera a agressão de inimputável como situação de legítima defesa. A maioria da doutrina considera possível a legítima defesa contra conduta culposa, pois o conceito de agressão não é restrito à violência dolosa. Também é majoritário o entendimento que admite a legítima defesa contra ato omissivo. Exemplo: o carcereiro que não põe em liberdade o apenado que já cumpriu a pena. Ademais, a agressão deve ser ilícita, de forma que não se admite legítima defesa contra agressão abarcada por causa de exclusão da ilicitude (estado de necessidade, legítima defesa, estrito cumprimento de dever legal etc.), pois nessas hipóteses não há agressão injusta. b) Atual ou iminente: atual é a agressão que está acontecendo e iminente é a que está prestes a acontecer. Não cabe legítima defesa contra agressão passada ou futura, nem quando há promessa de agressão. No caso dos crimes permanentes a agressão é sempre atual. c) Defesa de direito próprio ou de terceiro: há legítima defesa própria quando o sujeito está se defendendo e legítima defesa alheia quando defende terceiro. Pode- se alegar legítima defesa alheia mesmo agredindo o próprio terceiro (exemplo: em caso de suicídio, pode-se agredir o terceiro para o salvá-lo). d) Meio necessário: é o meio menos lesivo colocado à disposição do agente no momento da agressão. A doutrina majoritária anota que não atua sob o pálio da legítima defesa aquele que, ainda que utilize o único meio de defesa disponível, o faz para defender um bem em manifesta desproporcionalidade com a lesão causada pela defesa. Assim, no exemplo do velho paralítico, preso a uma cadeira de rodas, que vê um ladrão entrar no seu quintal e subtrair frutas do pomar, dispondo de apenas uma espingarda para a legítima defesa de seu patrimônio, não poderá utilizá- la, ante à manifesta desproporção de valor entre um punhado de frutase a vida do agressor. e) Moderação: é o emprego do meio menos lesivo dentro dos limites necessários para conter a agressão. A moderação diz com a intensidade empregada pelo agente no uso dos meios necessários. Somente quando ficar evidente a intenção de agredir e não a de se defender, caracterizar-se-á o excesso. EXCESSO NA LEGÍTIMA DEFESA Se presentes todos os requisitos da legítima defesa e o agente exagera na intensidade de sua conduta, configura-se o excesso. Conforme o art. 23, parágrafo único, CP, o agente “responderá pelo excesso doloso ou culposo” de qualquer das causas de justificação. Assim, se o agente se excede consciente e voluntariamente, responderá pela modalidade dolosa do crime que praticar; se o agente se excede por negligência, imprudência ou imperícia, responderá pela modalidade culposa, se prevista, do crime que praticar. Se o excesso, entretanto, derivar do medo e for inevitável nas circunstâncias, haverá o chamado “excesso exculpante”, restando excluída a culpabilidade. DIREITO PENAL 58 ERRO NA EXECUÇÃO (ABERRATIO ICTUS) DA DEFESA Ocorre quando o agente erra na execução de sua defesa, atingindo bem de pessoa que não o está agredindo. Aplica-se o disposto nos arts. 73 e 74, CP. Por exemplo, A está sendo agredido por B, e desfere tiros que acabam acertando C. A terá agido assim mesmo em legítima defesa, uma vez que conforme dispõe o art. 73, CP, ele responderá pelo fato como se tivesse atingido B.30 LEGÍTIMA DEFESA RECÍPROCA E SUCESSIVA a) Legítima defesa recíproca: “é a legítima defesa contra legítima defesa”31. Não é admissível porque não há agressão ilícita. É admissível se a legítima defesa da qual se defende é putativa. b) Legítima defesa sucessiva: é quando defende-se de excesso na legítima defesa. È admitido, uma vez que o excesso torna ilícita a legítima defesa da qual se defende. LEGÍTIMA DEFESA REAL E PUTATIVA a) Real: quando os requisitos da legítima defesa de fato existem. b) Putativa: quando o agente imagina que está em situação de legítima defesa, mas na verdade não está. Afasta a culpabilidade quando plenamente justificado pelas circunstâncias, conforme dispõe o art. 20, § 1º, CP. PROVOCAÇÃO E DESAFIO a) Provocação: a admissão da legítima defesa dependerá da intensidade da provocação. Tratando-se de uma mera brincadeira de mau gosto, não caberá a legítima defesa. Se for uma injúria de alguma gravidade, admitirá a legítima defesa, desde que forma moderada. Por exemplo, não se admite uma agressão física àquele que apenas provocou verbalmente. b) Desafio: se alguém aceita desafio para luta ou briga, não age em legítima defesa, respondendo pelos ilícitos praticados.32 LEGÍTIMA DEFESA X ESTADO DE NECESSIDADE Legítima defesa Estado de necessidade Fundamento Repulsa à agressão injusta a bem jurídico próprio ou de terceiro Conflito entre dois bens jurídicos expostos a perigo Bem jurídico protegido Próprio ou alheio Próprio ou alheio Origem Conduta humana Não é necessário que seja uma conduta humana Pode-se agir contra Somente o agressor Qualquer pessoa (inclusive terceiro 30 CAPEZ, Fernando. Curso de direito penal: parte geral (arts. 1º a 120). v. 1. 16 ed. São Paulo: Saraiva, 2012. p. 315. 31 ESTEFAM, André; GONÇALVES, Victor E. Rios. Direito Penal Esquematizado. 4. ed. São Paulo: Saraiva, 2015. p. 405. 32 CAPEZ, Fernando. Curso de direito penal: parte geral (arts. 1º a 120). v. 1. 16 ed. São Paulo: Saraiva, 2012. p. 307. DIREITO PENAL 59 inocente) ESTRITO CUMPRIMENTO DE DEVER LEGAL É quando o agente comete um ato típico cumprindo seu dever. Tal conduta não é considerada antijurídica. Deve, no entanto, ser um dever legalmente imposto e que deve ser cumprido dentro dos exatos termos impostos pela lei, não podendo em nada ultrapassá-los. Os casos mais típicos desse instituto são aqueles referentes a servidores públicos, como policias e oficiais de justiça, ou referentes a atos de pais que visam educar seus filhos. REQUISITOS a) Dever legal: obrigação direta ou indiretamente derivada da lei. b) Conduta dentro dos estritos limites do dever c) Elemento subjetivo: consciência e vontade de agir conforme o dever legal; do contrário, há um ilícito. EXCESSO Se houver abuso no cumprimento do dever, o agente reponde pelo excesso culposo ou doloso (art. 23, parágrafo único, CP). O cumprimento deve ser estrito, limitado aos termos legais. ESTRITO CUMPRIMENTO DE DEVER LEGAL PUTATIVO Admite-se o estrito cumprimento do dever legal putativo, ou seja, o sujeito pensa que está agindo no estrito cumprimento do dever legal, mas não está. Afasta a culpabilidade quando plenamente justificado pelas circunstâncias, conforme dispõe o art. 20, § 1º, CP. EXERCÍCIO REGULAR DE DIREITO É a prática de uma conduta típica autorizada pelo ordenamento jurídico, o que o torna lícito. Por exemplo, os atos praticados por pai ou tutor com o fim de correção dos filhos ou pupilos, desde que dentro de limites regulares, não configuram nem maus tratos e nem cárcere privado. SITUAÇÕES QUE CONFIGURAM EXERCÍCIO REGULAR DE DIREITO a) Ofendículos: são aparelhos visíveis, utilizados para defender a propriedade e qualquer outro bem jurídico, funcionando como uma advertência para impedir ou dificultar o acesso de eventuais invasores, como as cercas elétricas. b) Violência esportiva: lesões corporais praticadas em práticas esportivas não são ilícitas quando respeitadas as regras do esporte praticado. Caso haja infração às normas esportivas, deve o agente responder pelo excesso (a menos que incida outra excludente de ilicitude). Exemplo é a luta de boxe ou MMA. DIREITO PENAL 60 c) Intervenções médicas e cirúrgicas: conforme disposto no art. 146, §3º, I, CP, o médico poderá intervir no tratamento de alguém, inclusive com cirurgias, quando não possível o consentimento do paciente ou de seus representantes legais. Se a intervenção for realizada em caso de emergência por alguém que não é médico, será caso de estado de necessidade. d) Utilização de cadáver para fins de exploração científico-didática: apesar de ser considerado bem jurídico penalmente tutelado pelo respeito à memória dos mortos, punindo-se a destruição ou o vilipêndio ao cadáver, nos caso de sua utilização por Faculdades de Medicina, para exploração científico-didática, não configura ilícito penal, conforme previsão na Lei n. 8.501/92. e) Aborto: quando a gravidez resulta de estupro ou atentado violento ao pudor, o aborto provocado com o consentimento da gestante é autorizado por lei, configurando assim exercício regular de direito. EXCESSO Se houver abuso no exercício de direito, o agente reponde pelo excesso culposo ou doloso (art. 23, parágrafo único, CP). CONSENTIMENTO DO OFENDIDO É o consentimento, consciente e voluntário, da vítima com a ofensa de seu bem jurídico. EFEITOS NA TIPICIDADE E NA ANTIJURIDICIDADE a) Excludente de tipicidade: quando há previsão expressa no tipo penal. Exemplo: art. 150, CP: “Entrar ou permanecer, clandestina ou astuciosamente, ou contra a vontade expressa ou tácita de quem de direito, em casa alheia ou em suas dependências”. Se o dono da casa consentir com a entrada, não há violação de domicílio. b) Excludente supralegal de ilicitude: quando não houver previsão expressa no tipo penal, atuará excluindo a ilicitude. REQUISITOS a) Bem jurídico disponível a quem consente: o bem jurídico deve ser disponível (patrimônio, liberdade, honra etc.) e quem consente deve ser o titular do bem. Não é possível consentir com a ofensa de bem indisponível (a vida, por exemplo). b) Consentimento consciente e voluntário: não pode haver fraude, coação ou outro vício. c) Capacidade jurídica e mental de quem consente: no momento do fato aquele que consente deve estarem condições de compreender o fato e suas consequências. d) Correspondência entre o fato consentido e o cometido: se o fato cometido não for igual àquele com o qual se consentiu, não há consentimento. DIREITO PENAL 61 EXCESSO Se o agente extrapolar os limites do fato consentido, responderá pelo excesso culposo ou doloso (art. 23, parágrafo único, CP). CULPABILIDADE A culpabilidade é o juízo de reprovação realizado sobre uma pessoa que pratica um fato típico e ilícito. Compõe-se de três elementos: imputabilidade, potencial consciência da ilicitude e exigibilidade de conduta diversa. Na ausência de algum desses elementos, exclui-se a culpabilidade. TEORIAS DA CULPABILIDADE a) Teoria psicológica: a culpabilidade é uma ligação psicológica entre o sujeito e o fato, de forma que dolo e culpa são considerados formas de culpabilidade. , b) Teoria psicológico-normativa: considera-se que dolo e culpa não são suficientes para caracterizar a culpabilidade, pois é necessário um elemento normativo (valorativo) de censura sobre a conduta. Assim, considera-se a culpabilidade uma soma de dolo/culpa e reprovabilidade da conduta. c) Teoria normativa pura: considera-se que a culpabilidade é apenas a reprovabilidade da conduta do agente, sendo o dolo e a culpa realocados na tipicidade. A justificativa é que a realização do tipo penal já exige uma conduta dolosa ou culposa, de forma que a análise destes elementos não poderia ficar separada do juízo de tipicidade. É a teoria adotada no Brasil, de forma que dolo e culpa são analisados na tipicidade e a culpabilidade diz respeito à reprovabilidade da conduta. CULPABILIDADE E APLICAÇÃO DA PENA A culpabilidade é averiguada em dois momentos pelo julgador: a) Análise do crime (conceito analítico): na análise do conceito analítico de crime, verifica-se se há culpabilidade na conduta do agente (se ele é imputável, se tinha potencial consciência da ilicitude e se lhe era exigível conduta diversa). Caso incida causa de exclusão da culpabilidade, o agente é absolvido. b) Aplicação da pena: se o sujeito é condenado pela prática de um crime, já verificou-se que ele agiu com culpabilidade, mas ainda será necessário averiguar a DIREITO PENAL 62 quantidade (o grau) de culpabilidade. Influencia a dosimetria da pena, constando no art. 59, CP. CAUSAS LEGAIS E SUPRALEGAIS DE EXCLUSÃO DA CULPABI- LIDADE As causas legais de exclusão da culpabilidade são: a) A inimputabilidade: regulada nos arts. 26 a 28, CP; b) Erro de proibição: previsto no art. 21, CP; c) Coação irresistível e obediência hierárquica: previsto no art. 22, CP. Discute-se também a admissibilidade de causas extralegais de exclusão da culpabilidade. A doutrina atualmente inclina-se para a aceitação, uma vez que considera-se que o legislador não é capaz de prever todas as hipóteses em que uma conduta, no caso concreto, pode não ser reprovável, devendo-se abrir espaço para o julgador fazer essa análise. O fundamento das causas supralegais apontadas pela doutrina é a inexigibilidade de conduta diversa, de forma que se poderia excluir a culpabilidade quando a conduta era inevitável.33 São comumente citadas como causas supralegais de exclusão da culpabilidade: a) cláusula de consciência b) desobediência civil Essas causas legais e supralegais serão abordadas abaixo, relacionando-as com o elemento da culpabilidade que excluem especificamente. IMPUTABILIDADE O primeiro requisito da culpabilidade é a imputabilidade, que é a capacidade de compreender o caráter criminoso do fato e de se orientar de acordo com esse entendimento. A imputabilidade possui dois elementos: intelectivo (capacidade de entender) e volitivo (capacidade de querer). Faltando um desses elementos, o agente não será imputável. REQUISITOS DA INIMPUTABILIDADE a) Causal: a inimputabilidade deve ser causada por doença mental, desenvolvimento mental incompleto, desenvolvimento mental retardado, dependência química ou embriaguez completa proveniente de caso fortuito ou força maior. Somente essas causas podem tirar a capacidade de entender ou de querer do agente. b) Cronológico: as causas que levam à inimputabilidade devem existir ao tempo da infração penal. c) Consequencial: perda completa da capacidade de entender ou da capacidade de querer praticar o delito. 33 SANCHES CUNHA, Rogério. Manual de direito penal: parte geral (arts. 1º a 120). 3 ed. São Paulo: Jus Podvim, 2015. p. 295. DIREITO PENAL 63 SISTEMAS DE INIMPUTABILIDADE a) Sistema biológico: exige apenas o requisito causal para que o agente seja declarado inimputável, não sendo necessário que perca efetivamente a capacidade de entender e querer, em consequência dessa causa. É adotado no sistema jurídico brasileiro como exceção nos casos de menores de 18 anos (art. 27, CP). b) Sistema psicológico: verifica se no momento do crime a pessoa tinha ou não capacidade de entender o que estava fazendo, não se ocupando com a existência das causas de inimputabilidade. Não foi adotado pelo sistema jurídico brasileiro. c) Sistema biopsicológico: exige a presença de três requisitos para apuração da inimputabilidade – causal, cronológico e consequencial. Foi o sistema adotado pelo Código Penal no art. 26. CAUSAS QUE EXCLUEM A IMPUTABILIDADE a) Menoridade: os menores de dezoito anos (art. 271, CP) ficam sujeitos às normas estabelecidas na legislação especial (ECA). Adotou-se, neste caso, o critério biológico, que presume, de forma absoluta, ser o menor de 18 anos inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato e de se determinar. b) Doença mental: é a perturbação mental de qualquer ordem (exemplos: psicose alcoólica, esquizofrenia, paranoia, epilepsia etc.). A dependência patológica de substância psicotrópica1 configura doença mental. c) Desenvolvimento mental incompleto: é o desenvolvimento que ainda não se concluiu. É o caso do silvícola inadaptado à sociedade. d) Desenvolvimento mental retardado: é o caso dos oligofrênicos (fronteiriços), que se classificam em débeis mentais, imbecis e idiotas, dotados de reduzidíssima capacidade mental, e dos surdos-mudos que, em consequência da anomalia, não têm qualquer capacidade de entendimento e de autodeterminação. CAUSAS QUE NÃO EXCLUEM A IMPUTABILIDADE a) Embriaguez: intoxicação aguda e transitória provocada pelo álcool ou substância de efeitos análogos, cujas consequências variam desde uma ligeira excitação até o estado de paralisia e coma. A embriaguez pode ser de dois tipos: a.1.) Não-acidental (art. 28, II, CP): decorre da própria conduta (dolosa ou culposa) do agente e pode ser completa (perda total da capacidade de entendimento e autodeterminação) ou incompleta (perda parcial da capacidade de entendimento e autodeterminação). A embriaguez não-acidental não exclui a imputabilidade. Actio libera in causa (ação livre na origem): como a agente tinha plena liberdade para decidir sobre a ingestão ou não da substância, se em razão de sua ação perdeu a capacidade de avaliação, responderá pelas consequências. Considera-se, DIREITO PENAL 64 assim, o momento da ingestão da substância e não o momento da conduta culpável. a.2.) Acidental: é a que deriva de caso fortuito ou força maior (sem dolo ou culpa, portanto). Pode ser completa ou incompleta. Não se aplica a teoria actio libera in causa porque o agente não tinha a intenção de ingerir a substância. A embriaguez acidental completa exclui a imputabilidade (isenta de pena) - art. 28, § 1º, - e a incompleta reduz a pena de 1/3 a 2/3 (art. 28, §2º). a.3.) Preordenada: o agente se embriaga para cometer o crime. A embriaguez preordenada, além de não excluir a imputabilidade, é considerada agravante genérica (art. 61, inciso II, l, CP). a.4.) Patológica (art.26, CP): é a embriaguez do alcoólatra, do dependente de substância química. O agente, para fins penais, é equiparado ao doente mental (exclui a imputabilidade), desde que comprovado, concretamente, o efeito sobre a sua capacidade de entendimento ou determinação em relação ao crime em julgamento (STF, HC 85721/RJ, Joaquim Barbosa, 2ª. T., u., 28.6.05). CAUSAS DE SEMI-IMPUTABILIDADE OU RESPONSABILIDADE DI- MINUÍDA Conforme o art. 26, § único, CP: Art. 26. (...) §1º A pena pode ser reduzida de um a dois terços, se o agente, em virtude de perturbação de saúde mental ou por desenvolvimento mental incompleto ou retardado não era inteiramente capaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento. Difere da inimputabilidade apenas no requisito consequencial. Enquanto na inimputabilidade a perda da capacidade de entender ou querer é total, na semi- imputabilidade, é parcial, de forma que o agente é imputável, mas para alcançar o grau de conhecimento e de autodeterminação lhe é necessário maior esforço. Se sucumbe ao estímulo criminal deve ter-se em conta que sua menor capacidade de resistência diante dos impulsos passionais e disso decorre uma diminuição da reprovabilidade e, portanto, do grau de culpabilidade. A semi-imputabilidade não exclui a culpabilidade, mas permite a redução da pena (redução de 1/3 a 2/3). POTENCIAL CONHECIMENTO DA ILICITUDE Consciência da ilicitude é o conhecimento profano do injusto, não sendo necessário saber que configura crime. Basta ter a consciência de que se faz algo possivelmente contrário à justiça ou ética social. Não se exige a consciência da ilicitude não como requisito da culpabilidade, o que se investiga é se o agente tinha ou não condições de saber o que era errado e possibilidade de evitar o erro. Assim, o que constitui requisito da culpabilidade é a potencial consciência da ilicitude. Deve-se sair do aspecto subjetivo e perscrutar aspectos objetivos do caso concreto para averiguar se o agente possuía condições de saber e evitar o erro. DIREITO PENAL 65 ERRO DE PROIBIÇÃO É o completo desconhecimento de que o fato praticado é contrário à justiça ou ética social; é a crença de que o fato é permitido. Portanto, não se trata do mero desconhecimento da lei: “o desconhecimento da lei é inescusável” (art. 21, primeira parte, CP). Ademais, “a ninguém é dado descumprir a lei alegando que a desconhece” (art. 3º, LINDB). É preciso, repete-se, um desconhecimento acerca da ilicitude do fato: “O erro sobre a ilicitude do fato, se inevitável, isenta de pena; se evitável, poderá diminuí-la de um sexto a um terço” (art. 21, segunda parte, CP). Podem ser de dois tipos: a) Inevitável: exclui a culpabilidade. b) Evitável: reduz a pena de 1/6 a 1/3. ERRO DE PROIBIÇÃO DIRETO, INDIRETO E MANDAMENTAL a) Erro de proibição direto: trata-se do erro sobre o conteúdo da uma norma penal incriminadora. A agente acredita que sua conduta não configura crime. b) Erro de proibição indireto ou erro de permissão: trata-se da suposição errônea de uma causa de justificação, se o autor erra sobre a existência ou os limites da proposição permissiva. c) Erro mandamental: trata-se daquele erro sobre o mandamento contido nos crimes omissivos, sejam eles próprios ou impróprios. É o erro sobre a norma que manda o agente fazer algo (norma mandamental). ERRO DE TIPO X ERRO DE PROIBIÇÃO É comum a confusão entre erro de tipo e erro de proibição. a) Erro de tipo é um erro de representação sobre os elementos fáticos que constituem elementares de um tipo penal incriminador (erro de tipo incriminador) ou imaginação de uma situação fática que constitui elementar de uma causa de exclusão da ilicitude (erro de tipo permissivo). Portanto, o agente faz algo diferente do que acreditava estar fazendo, o que exclui o dolo e/ou culpa. (Veja-se explicação em tópico acima.) b) Erro de proibição é um erro sobre a ilicitude do fato. Ou seja, o sujeito sabe exatamente o que está fazendo, não há deficiência na representação da situação fática, mas ele acredita que este fato é permitido. Exclui a culpabilidade ou reduz a pena, conforme seja inevitável ou evitável. c) Erro de tipo permissivo x erro de permissão: o erro de tipo permissivo é quando o agente erra sobre elementar de uma norma permissiva (causa de justificação). Por exemplo, acredita que existe perigo atual e iminente apto a justifica estado de necessidade. Erro de permissão é quando o agente imagina que há uma causa de justificação que se aplica ao caso ou erra sobre os limites de sua aplicação. Por exemplo, acredita que o direito de legítima defesa justifica amarrar o ladrão e mantê- lo em cárcere privado por um dia, como castigo. DIREITO PENAL 66 d) Descriminantes putativas (art. 20, § 1º, CP): os casos analisados de descriminantes putativas (legítima defesa putativa, estado de necessidade putativo etc.) são hipóteses de erro de tipo permissivo. EXIGIBILIDADE DE CONDUTA DIVERSA É a expectativa social de que o agente tenha outro comportamento e não aquele que se efetivou. A exigibilidade de conduta diversa, como causa de exclusão da culpabilidade, funda- se no princípio de que só podem ser punidas as condutas que poderiam ser evitadas. No caso, a inevitabilidade não tem a força de excluir a vontade, que subsiste como força propulsora da conduta, mas certamente a vicia, de modo a tornar incabível qualquer censura ao agente. São causas que excluem a exigibilidade de conduta diversa a coação irresistível e obediência hierárquica, conforme art. 22, CP: Art. 22. Se o fato é cometido sob coação irresistível ou em estrita obediência a ordem, não manifestamente ilegal, de superior hierárquico, só é punível o autor da coação ou da ordem. Importante, a inexigibilidade de conduta diversa também é comumente considerada uma causa genérica de exclusão da culpabilidade, isto é, mesmo em hipóteses não previstas expressamente em lei (coação moral irresistível e obediência de ordem superior), pode-se afastar a culpabilidade se ficar demonstrado que, nas circunstâncias concretas do fato, a conduta do agente era inevitável. Entretanto, há divergência a respeito do tema, de forma que parte da doutrina sustenta que apenas pode ser afastada a culpabilidade nas hipóteses de inexigibilidade previstas expressamente em lei. COAÇÃO MORAL IRRESISTÍVEL (VIS COMPULSIVA) A coação moral irresistível é a grave ameaça contra a qual o homem médio não consegue resistir. A coação moral irresistível não exclui o crime, pois resta um resquício de vontade, mas exclui a culpabilidade. Ocorre o que a doutrina chama de inexigibilidade de conduta diversa. A coação moral pode ser resistível. No caso da coação moral resistível, a pessoa atua sob influência de ameaça contra a qual podia resistir. Essa forma de coação não elimina o fato típico, a ilicitude, nem a culpabilidade. Trata-se de uma circunstância atenuante (art. 65, III, c, primeira parte, CP). Importante: diferencia-se da coação física (vis absoluta) na qual o agente coagido não realiza uma verdadeira ação ou omissão, apresentando-se como simples instrumento de violência, pelo que só se considera autor do crime o agente da coação. Nesse caso, como visto, exclui-se a conduta, não havendo tipicidade. OBEDIÊNCIA HIERÁRQUICA A obediência hierárquica que a lei refere é aquela decorrente de relações de direito público, ou seja, de um funcionário público a uma ordem proferida por outro funcionário que, na hierarquia administrativa, lhe é superior. Quando a ordem é ilegal, podem ocorrer duas situações: DIREITO PENAL 67 a) ordem manifestamente ilegal: ambos responderão pelo crime. b) ordem não manifestamente ilegal: exclui a culpabilidade do subordinado, respondendo pelo crime apenas o superior hierárquico (art. 22, CP). No caso da ordem ser determinada por lei, não existecrime, por estar o agente no estrito cumprimento de dever legal. Ademais, a exclusão da culpabilidade só existe quando o subordinado observa estrita obediência à ordem emanada do superior, ou seja, caso a ordem fosse, originalmente, legal e o subordinado se excede, vindo a cometer um crime, apenas ele pratica o delito. EMOÇÃO E PAIXÃO A emoção é um sentimento súbito, repentino, passageiro e intenso. A paixão é duradoura, perene. Nem a emoção nem a paixão excluem a imputabilidade (art. 28, I). Somente a emoção pode funcionar como redutor de pena. A emoção pode ser causa de diminuição de pena em alguns crimes, dependendo das circunstâncias (arts. 121, §1º, e 129, § 4º, CP), ou pode constituir atenuante genérica (art. 65, III, c, CP). CAUSAS SUPRALEGAIS DE EXCLUSÃO DA CULPABILIDADE: CLÁUSULA DE CONSCIÊNCIA E DESOBEDIÊNCIA CIVIL O fundamento de ambas estaria na inexigibilidade de conduta diversa. a) Cláusula de consciência: exclui a culpabilidade daquele que, por motivo de consciência, pratica fato previsto como crime, desde com isso não viole direitos fundamentais individuais. O fundamento estaria no art. 5º, VI, CF: “é inviolável a liberdade de consciência e de crença”. Exemplo é o pai, cuja religião é Testemunhas de Jeová, e que em razão de sua crença não permite a transfusão de sangue do filho.34 Caso o filho sobreviva, não haverá crime algum do pai. Mas se o filho morrer, debate-se se responderia por homicídio em razão de o bem jurídico vida ter maior valor (a doutrina entende majoritariamente que o pai responde por homicídio nesse caso.) b) Desobediência civil: é o ato de insubordinação “que têm por finalidade transformar a ordem estabelecida, demonstrando a sua injustiça e necessidade de mudança. Exige-se para o reconhecimento desta dirimente: (a) que a desobediência esteja fundada na proteção de direitos fundamentais; (b) que o dano causado não seja relevante. Exemplo: ocupações de prédios públicos; invasões do MST.”35 34 SANCHES CUNHA, Rogério. Manual de direito penal: parte geral (arts. 1º a 120). 3 ed. São Paulo: Jus Podvim, 2015. p. 295-6 35 Ibid. DIREITO PENAL 68 CONSUMAÇÃO E TENTATIVA CONCEITOS Conforme definição legal no art. 14, CP, o crime é: a) Consumado (inc. I): “quando nele se reúnem todos os elementos de sua definição legal”. É quando a conduta realizou todas as elementares do tipo penal. Acerca do momento da consumação, observar acima a classificação dos crimes em materiais, formais e de mera conduta. O primeiro depende do resultado para que haja consumação, os demais consumam-se com a realização da conduta. b) Tentado: “quando, iniciada a execução, não se consuma por circunstâncias alheias à vontade do agente”. É quando falta à conduta algum elemento do tipo penal, há uma “realização incompleta do tipo penal”36. ITER CRIMINIS O iter criminis é o caminho do crime, isto é, as etapas ou fazes sequências pelas quais o crime passa. 1. Cogitação: é fase interna, o pensar sobre o crime ou planejá-lo apenas na mente, sem agir de qualquer forma para iniciar a preparação. Não é punida, mesmo se externada a terceiros. 2. Preparação ou atos preparatórios: é quando passa do pensar ao agir externo, mas ainda sem iniciar a realização do tipo penal. É, por exemplo, quando alguém compra a arma com a qual quer cometer um homicídio. Em geral não é punida, mas existem hipótese nas quais o legislador converte em crime um ato preparatório. Exemplo é o art. 291, CP: “Fabricar, adquirir, fornecer, a título oneroso ou gratuito, possuir ou guardar maquinismo, aparelho, instrumento ou qualquer objeto especialmente destinado à falsificação de moeda”. 3. Execução ou atos de execução: segundo a teoria mais aceita no Brasil (teoria objetivo-formal), é quando o autor inicia a realização do verbo núcleo do tipo (“matar”, “subtrair” etc.). Conforme a teoria material, é quando a conduta passa a colocar em risco o bem jurídico tutelado pela norma penal. É punível como tentativa. 4. Consumação: é quando a conduta realizou todos os elementos constitutivos do tipo penal. Importante: nos crimes materiais, a consumação ocorre apenas no momento resultado naturalístico; nos crimes formais e de mera conduta, a consumação se dá quando realizada a conduta. 36 MIRABETE, Julio Fabbrini; MIRABETE, Renato N. Fabbrini. Manual de direito penal: parte geral: arts. 1º a 120 do CP. 26 ed. São Paulo: Atlas, 2010. p. 144. DIREITO PENAL 69 5. Exaurimento: é o resultado que ocorre posteriormente à consumação (nos crimes formais e de mera conduta). Não é punível. NATUREZA E TIPICIDADE DA TENTATIVA A punição da tentativa ocorre por adequação típica mediata (quando uma norma estende o conteúdo dos tipos penais incriminadores), de acordo com a norma de extensão temporal prevista no art. 14, II, e parágrafo único, CP, segundo o qual: “Salvo disposição em contrário, pune-se a tentativa com a pena correspondente ao crime consumado, diminuída de um a dois terços”. Importante: o art. 4º da Lei das Contravenções dispõe que “não é punível a tentativa de contravenção”. Ademais, não se admite a tentativa em crimes: culposos, preterdolosos, unissubsistentes, omissivos próprios. Nos crimes omissivos impróprios, como consuma-se com o resultado, admite-se a tentativa, cuja execução inicia com a omissão da conduta. ELEMENTOS37 Constituem elementos da tentativa: a) o início da execução; b) a não consumação; c) interferência de circunstâncias alheias à vontade do agente. FORMAS a) Perfeita ou acabada: o agente realiza todos os atos de execução, mas o crime não se consuma por circunstância alheia à sua vontade. Exemplo: alguém dispara três tiros em outra pessoa, que é socorrida por terceiros e sobrevive. b) Imperfeita: o agente não consegue realizar a totalidade dos atos de execução por circunstância alheia à sua vontade. Exemplo: o agente aperta o gatilho da arma, mas ela falha em disparar. c) Branca ou incruenta: é quando a vítima não é afetada pela tentativa (perfeita ou imperfeita). d) Cruenta: quando a vítima é afetada pela tentativa (perfeita ou imperfeita). DESISTÊNCIA VOLUNTÁRIA E ARREPENDIMENTO EFICAZ Conforme dispõe o art. 15, CP: “O agente que, voluntariamente, desiste de prosseguir na execução ou impede que o resultado se produza, só responde pelos atos já praticados”. A desistência voluntária e o arrependimento eficaz são chamados por alguns autores de tentativa abandonada ou qualificada. a) Desistência voluntária: o sujeito desiste ou abandona voluntariamente a conclusão do delito, quando poderia terminá-lo. Para que ocorra a desistência 37 CAPEZ, Fernando. Curso de direito penal: parte geral (arts. 1º a 120). v. 1. 16 ed. São Paulo: Saraiva, 2012. p. 266. DIREITO PENAL 70 voluntária, é necessária a interrupção definitiva da execução do crime (requisito objetivo) e a voluntariedade da desistência (requisito subjetivo). Não se aplica se a execução do crime já foi concluída, ainda que ainda não tenha sido produzido o resultado. b) Arrependimento eficaz: o crime já foi executado, mas o sujeito age para evitar seus efeitos. Neste caso, o delito é cometido pelo agente, que procura impedir o resultado. Os requisitos para a verificação de arrependimento eficaz são dois: impedimento eficaz do resultado (objetivo) e voluntariedade no arrependimento (subjetivo). Em ambos os casos, a isenção total de pena só ocorrerá quando o delito não tiver produzido resultado. Caso contrário, responderá pelos atos praticados. ARREPENDIMENTO POSTERIOR O arrependimento posterior é causa de diminuição de pena prevista no direito penal brasileiro, no art. 16, CP. Para que ocorra a diminuiçãoda pena, que pode variar de um a dois terços, devem estar presentes os dois requisitos abaixo: a) o crime não pode ter sido cometido com violência ou grave ameaça à pessoa; b) o agente deve reparar o dano suportado pela vítima ou restituir a coisa por ato voluntário, antes do recebimento da denúncia ou da queixa. Quando a reparação do dano ou restituição do bem à vítima ocorrer após o recebimento da denúncia ou queixa, não se aplica esta causa de diminuição de pena, incidindo a atenuante do art. 65, III, b, CP. CRIME IMPOSSÍVEL, PUTATIVO E PROVOCADO a) Crime impossível ou tentativa inidônea ou impossível: previsto no art. 17, CP: “Não se pune a tentativa quando, por ineficácia absoluta do meio ou por absoluta impropriedade do objeto, é impossível consumar-se o crime”. b) Crime putativo ou imaginário: o agente considera erroneamente que sua conduta constitui crime. Trata-se, na verdade, de fato atípico. São espécies de delito putativo: b.1) delito putativo por erro de proibição: quando o agente supõe violar uma norma penal que não existe; b.2) delito putativo por erro de tipo: o agente crê que está violando uma norma penal, mas na sua conduta faltam elementares de tipo. c) Crime provocado ou crime putativo por obra de agente provocador: é quando há flagrante preparado. Quando alguém, de forma capciosa, suscita o agente à prática de um crime, ao mesmo tempo que toma providências para que o mesmo não se consuma. DIREITO PENAL 71 CONCURSO DE PESSOAS O CP adotou a teoria restritiva, segundo a qual autor é apenas aquele que executa a conduta típica descrita na lei, ou seja, quem realiza o verbo contido no tipo penal, assim regulando a matéria: Art. 29. Quem, de qualquer modo, concorre para o crime incide nas penas a este cominadas, na medida de sua culpabilidade. § 1º. Se a participação for de menor importância, a pena pode ser diminuída de 1/6 a 1/3. § 2º. Se algum dos concorrentes quis participar de crime menos grave, ser-lhe-á a- plicada à pena deste; essa pena será aumentada até metade, na hipótese de ter si- do previsível o resultado mais grave. Art. 30. Não se comunicam as circunstâncias e as condições de caráter pessoal, sal- vo quando elementares do crime. Art. 31. O ajuste, a determinação ou instigação e o auxílio, salvo disposição expres- sa em contrário, não são puníveis, se o crime não chega, pelo menos, a ser tentado. Podem, de acordo com a quantidade de agentes, serem divididos, os crimes, em: a) Monossubjetivos: que são os que podem ser cometidos por apenas um sujeito; b) Plurissubjetivos: que são aqueles que exigem pluralidade de agentes. Assim, levando em consideração essa classificação, podemos dividir os tipos de Concurso de Pessoas em duas espécies: a) Concurso Necessário: que é o aquele que diz respeito aos Crimes Plurissubjetivos. b) Concurso Eventual: ocorre quando os Crimes Monossubjetivos são cometidos por mais de um agente. Quando a pluralidade de agentes é elemento do tipo, cada concorrente responde pelo crime, mas este só se integra quando os outros contribuem para a formação da figura típica. O concurso de agentes possui duas espécies, a coautoria e a participação. PARTICIPAÇÃO Na participação, o agente não comete qualquer das condutas tipificadas, entretanto, de alguma outra forma concorre para o crime. Esta conduta está abrangida no previsto no art.29, que se trata de uma norma de extensão, pois sem ele não seria possível a punição do partícipe, uma vez que este não realiza a conduta descrita no verbo nuclear do DIREITO PENAL 72 tipo, mas concorre para o crime 38. Para o partícipe ocorre o que se chama de adequação típica mediata ou indireta (utilizando uma norma de extensão), enquanto que com os coautores, existe a chamada adequação típica imediata ou direta, já que a conduta destes amolda-se na própria descrição típica existente na norma. TEORIAS DO CONCURSO DE PESSOAS Existem três grandes teorias a respeito do Concurso de Pessoas: a teoria unitária, a teoria dualista e a teoria pluralista. O CP adotou a chamada teoria unitária, também conhecida como monista, que estabelece que todos os que contribuem para um resultado delituoso devem responder pelo mesmo crime, como disposto no já transcrito art.29, CP. Para a teoria dualista haveria um crime para os autores e outro para os partícipes, enquanto que para teoria pluralista cada um dos envolvidos responderia por delito autônomo. Existem, no entanto, exceções à teoria unitária, previstas no próprio Código Penal, como segue: - Cooperação Dolosamente Distinta: (art. 29, § 2º, CP). Estabelece que, se algum dos concorrentes quis participar de crime menos grave, ser-lhe-á aplicada à pena deste, diferentemente do que ocorre na chamada participação de menor importância (art. 29, § 1º, CP), na qual a pena do crime “mais grave” será diminuída (nesse caso há uma causa de diminuição de pena, que se aplica quando o juiz verifica, no caso concreto, que a contribuição do sujeito não merece a mesma pena da dos autores do crime, por ter sido ela secundária, não acontecendo efetiva exceção à teoria unitária, uma vez que o crime é o mesmo para todos, havendo apenas uma redução da pena para o partícipe); - Gestante que consente na prática do aborto: uma vez que a gestante incide no art.124, CP, enquanto quem pratica a manobra abortiva, com o consentimento da gestante, infringe o art. 126 do mesmo diploma; - Corrupção, uma vez que o particular que oferece vantagem indevida ao funcionário público comete delito de corrupção ativa, previsto no art. 333, CP, enquanto o funcionário que recebe a vantagem indevida oferecida comete crime de corrupção passiva, previsto no art. 317 daquele mesmo diploma legal. REQUISITOS DO CONCURSO DE PESSOAS São requisitos do concurso de pessoas, na lição de Rogério Greco39: - Pluralidade de Agentes e de Condutas: necessária é a concorrência de duas ou mais pessoas à prática do crime para constituir Concurso de Pessoas; 38 STF, HC 71899, Corrêa, 2ª. T., u., 4.4.95. 39 GRECO, Rogério. Curso de Direito Penal – Volume 1. 9 ed. Rio de Janeiro: Impetus, 2007. DIREITO PENAL 73 - Relevância Causal de Cada Conduta: as condutas individualmente analisadas devem ter, cada uma, relevância para o cometimento da infração penal, caso contrário devemos considerar que o(s) agente(s) não concorreu(ram) para a prática; - Liame Subjetivo entre os Agentes: necessário também que haja ciência do partícipe de estar colaborando para o resultado criminoso visado pelo outro. É, no entanto, desnecessário o prévio ajuste entre as partes, bastando à unidade de desígnios; - Identidade de Infração Penal: por óbvio, devem todos os agentes, unidos pelo liame subjetivo, responder pelo mesmo crime (excetuando-se as exceções já mencionadas). AUTORIA Autor é aquele que pratica a conduta principal descrita no tipo penal. Existem diversos tipos de autoria, das quais trataremos mais detalhadamente a seguir: Autoria Direta ou Indireta; Autoria Colateral; Autoria Incerta; Autoria Mediata; Participação por Omissão; Conivência; Autoria Intelectual; Autoria por Determinação e Coautoria Sucessiva. AUTORIA DIRETA E INDIRETA O autor direto, também chamado de executor, é aquele que pratica a conduta descrita pelo núcleo do tipo penal, enquanto que o autor indireto, também conhecido como mediato, é aquele indivíduo que se vale de outra pessoa, esta servindo como instrumento para a prática da infração penal. A autoria mediata é prevista pelo Código Penal em quatro oportunidades: 1. Erro Determinado por Terceiro (art. 20, § 2º, CP); 2. Coação Moral Irresistível (art. 22, primeira parte, CP); 3. Obediência Hierárquica (art. 22, segunda parte, CP); 4. Autoria Mediata por Terceiro Impunívelem virtude de condição ou qualidade pessoal (art. 62, III, segunda parte, CP). AUTORIA COLATERAL Ocorre quando dois ou mais agentes têm a intenção de causar o mesmo resultado ilícito, no entanto inexiste cooperação entre eles, cada um age por sua própria conta. Não há, nesse caso, portanto, o chamado liame subjetivo. Um exemplo de autoria colateral é quando dois indivíduos, ambos de tocaia, sem saber um do outro, atiram em um terceiro individuo, visando assassiná-lo. e acertam o alvo, causando a morte da vítima. Nesses casos podemos ter diversos resultados, legalmente falando: - Caso a morte tenha ocorrido pela soma dos ferimentos causados por ambos os tiros, os dois atiradores responderão pelo crime de homicídio; DIREITO PENAL 74 - Caso a morte tenha ocorrido tão somente pelo tiro de um dos indivíduos, este responderá criminalmente pelo crime de homicídio, enquanto que o outro responderá apenas por tentativa de homicídio; - Caso reste demonstrado que a vitima já se encontrava morta pelo tiro de um dos indivíduos quando o tiro do outro o atingiu, responderá somente o primeiro pelo crime de homicídio, e ocorrerá o fenômeno conhecido como crime impossível com relação ao segundo atirador, uma vez que não se pode, por óbvio, assassinar pessoa já morta; - Caso não seja possível, com a prova presente nos autos, estabelecer qual dos tiros causou a morte, estaremos diante de um caso de Autoria Incerta (conforme trataremos a seguir). AUTORIA INCERTA A autoria incerta ocorre quando, na autoria colateral, não se consegue apurar qual dos envolvidos provocou o resultado. Por exemplo, dois indivíduos que possuem intenção de assassinar um terceiro, sem que nenhum deles saiba da intenção do outro, e ambos atiram contra a vítima, que morre, recebendo apenas um disparo, não se conseguindo, porém, apurar qual daqueles causou a morte. Nesses casos, a única solução possível é a de que ambos devem responder apenas por tentativa de homicídio, uma vez que é o único crime que se pode irrefutavelmente comprovar que qualquer um deles cometeu. AUTORIA MEDIATA Ocorre quando o agente aproveita-se de pessoa sem discernimento para executar o delito. O executor é usado como mero instrumento por atuar sem vontade ou sem consciência do que está fazendo, respondendo pelo crime apenas o autor mediato, não havendo, portanto, concurso de pessoas entre o executor e o autor mediato. PARTICIPAÇÃO POR OMISSÃO Ocorre quando o indivíduo que tem o dever jurídico de impedir o resultado se omite. Nesse caso, a vontade do indivíduo que se omitiu, tendo o dever jurídico de impedir o resultado, adere à vontade dos agentes do crime. CONIVÊNCIA Similar à participação por omissão, mas, nesse caso, o indivíduo que se omite não possuía o dever jurídico de impedir o resultado, sendo a conduta irrelevante penalmente. AUTORIA INTELECTUAL Ocorre nos casos em que o indivíduo arquiteta a ação delituosa, constituindo o crime produto de sua criatividade. Nesse caso, segundo o disposto no art.62, II, CP, haverá o agravamento da pena. DIREITO PENAL 75 COAUTORIA SUCESSIVA A chamada coautoria sucessiva ocorre nos casos em que, após um indivíduo ou um grupo já ter iniciado o percurso do iter criminis, na fase dos atos de execução, outro indivíduo adere à conduta criminosa, passando, a partir deste momento, unidos pelo liame subjetivo, a praticar, em coautoria, a infração penal, respondendo apenas pelos fatos ocorridos após sua adesão O limite temporal para a adesão de coautores é o da consumação 40. CONCURSO DE CRIMES O concurso de crimes ou de infrações também é chamado de concurso legal puro, em oposição ao concurso aparente de normas penais, que seria o concurso legal impuro. Há discussão, ainda, sobre a nomenclatura, pois, se é certo que a mais consagrada se refere ao concurso de crimes (concursus delictorum), há quem defenda que o concurso deveria chamar-se concurso de penas. Com efeito, o CP trata do tema em seus arts. 69 a 72 e 75 e 76, que estão no cap. III do Título V da parte geral, que trata “Das Penas”. Por outro lado, as indicações marginais dos arts. 72 e 76 referem, respectivamente “concurso de crimes” e “concurso de infrações”. Parece mais acertado, apesar disso, utilizar a nomenclatura concurso de crimes, pois a pena é mera consequência do concurso de infrações. Pode haver concurso de crimes entre crimes dolosos, culposos, consumados, tentados, comissivos, omissivos, e mesmo entre um crime e uma contravenção penal. De outra parte, não é caso de concurso o crime complexo, ou seja, aquele que se forma da união de dois outros tipos penais e que, por isso, ofende, a um só tempo, mais de um bem jurídico, como no caso do latrocínio (art. 157, § 3º, CP), caso em que há somente um crime. Também não é caso de concurso quando ocorre a consunção, ou seja, quando, no conflito aparente de normas, um tipo penal descarta o outro porque consome ou exaure seu conteúdo proibitivo.41 Exemplos: lesões leves resultantes da violência no crime de roubo, dano das roupas da vítima de homicídio, entre outros. SISTEMAS DE APLICAÇÃO DA PENA O concurso de crimes dá origem ao concurso de penas. De fato, a pena a ser aplicada a quem pratica mais de um crime não pode ser a mesma de quem comete um único delito. Por essa razão, existem critérios especiais de aplicação de pena para as diferentes modalidades de concursos de crimes, como segue: 40 STJ, REsp 1449266, Moura, 6ª. T., 6.8.15 41 ZAFFARONI, Eugenio Raúl e PIERANGELI, José Henrique. Manual de Direito Penal Brasileiro. 5. ed. São Paulo: Revista dos Tribu- nais, 2004. p. 697. DIREITO PENAL 76 a) Cúmulo material: É uma mera operação aritmética: somam-se as penas de cada um dos delitos componentes do concurso. Assim, o juiz fixa, separadamente, a pena de cada um dos crimes e, depois, na própria sentença, soma-as, chegando à pena final. Tal sistema é adotado, no Brasil, no concurso material, no concurso formal imperfeito e no concurso das penas de multa. b) Cúmulo jurídico: De acordo com esse sistema, a pena a ser aplicada deve ser maior do que a cominada isoladamente a cada um dos delitos do concurso, mas não pode, porém, chegar à soma deles. Não foi contemplada pelo CP. c) Absorção: Aqui, a pena do delito mais grave absorve a pena do delito menos grave, que deve ser desprezada. Também não foi adotada pelo CP. d) Exasperação: Trata-se da aplicação da pena cominada ao crime mais grave, dentre os integrantes do concurso, aumentada de determinada quantidade em decorrência dos demais crimes. É o sistema adotado no direito brasileiro nas hipóteses de concurso formal próprio e crime continuado. ESPÉCIES DE CONCURSO DE CRIMES São espécies de concurso de crimes: concurso material ou real (art. 69, CP), concurso formal ou ideal (art. 70, CP), e crime continuado (art. 71, CP). CONCURSO MATERIAL Está previsto no art. 69, CP, e ocorre quando o agente pratica dois ou mais crimes, mediante mais de uma conduta, produzindo dois ou mais resultados, idênticos ou não. Há, portanto, “pluralidade de condutas e pluralidade de crimes”.42 Não importa se os fatos ocorreram na mesma ocasião ou em dias diferentes: há vínculo em razão da identidade do agente. Exemplo: pessoa que pratica um furto hoje, um roubo na semana seguinte, mais tarde outro furto e um estupro. No concurso material, as penas são individualizadas separadamente e depois são somadas, para o fim de determinar o regime de execução. Antes da soma, o juiz deve calcular, pelo método trifásico, a pena de cada infração, para verificar eventual ocorrência de prescrição pela pena concretizada na sentença. Essa soma não se confunde com a unificação de penas feita pelo juízo de execução, que tem lugar quando os crimes deveriam ter sido tratadoscomo continuados na fase de conhecimento e, no entanto, não foram.43 Outrossim, a extinção da punibilidade incidirá sobre a pena de cada um dos crimes, separadamente (art. 119, CP). Há duas hipóteses de concurso material: 1. Concurso material homogêneo: Todas as infrações são substancialmente idênticas, da mesma natureza. Exemplo: dois furtos. 2. Concurso material heterogêneo: As infrações são diferentes, ou seja, têm natureza diversa. Exemplo: um estupro e um atentado ao pudor. 42 BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal. v.1. 9.ed. São Paulo: Saraiva, 2004. p. 621. 43 BOSCHI, José Antônio Paganella. Das penas e seus Critérios de Aplicação. 3.ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2004. pp. 312 e ss.. DIREITO PENAL 77 Se as penas aplicadas forem de diferentes hierarquias, por exemplo, de reclusão e de detenção, aquela, que é a mais grave, será executada primeiro. No entanto, se forem impostas penas de multa, elas serão aplicadas distinta e integralmente, não obedecendo ao regramento do concurso de crimes (sistema da exasperação), consoante dispõe o art. 72 do CP. Por fim, os parágrafos do art. 69, CP, estabelecem normas mais específicas quanto ao cumprimento da pena em caso de concurso material. O §1º determina que, sendo aplicada PPL em relação a um dos crimes e sem que seja ela suspensa, ou seja, sem que tenha sido concedido o sursis, não será cabível a substituição da pena por restritivas de direitos quanto aos demais crimes. Já o § 2º, a seu turno, dispõe que, quando aplicadas duas PRDs em substituição à PPL, deverão ser elas cumpridas simultânea ou sucessivamente, de acordo com a compatibilidade da sua execução. CONCURSO FORMAL É a hipótese do art. 70, CP. Ocorre concurso formal quando o agente pratica dois ou mais crimes, da mesma natureza ou não, mediante uma só conduta. Com uma só ação, o agente causa dois ou mais resultados, ou seja, atinge mais de um bem penalmente tutelado. Exemplos: sujeito atira num indivíduo e, concomitantemente, acerta o projétil neste e num outro – houve a prática de uma só ação, mas dois foram os crimes cometidos; motorista conduz seu veículo de modo imprudente, vindo a matar várias pessoas – desenvolvendo um único comportamento, praticou ele vários crimes. O concurso formal subdivide-se em próprio e impróprio, classificação que gera efeitos importantes no tocante à aplicação da pena: 1. Concurso formal próprio ou perfeito: É aquele previsto na primeira parte do art. 70, caput, CP. Nesse caso, o agente, por meio de um só impulso volitivo, de uma única intenção, pratica dois ou mais crimes, dando causa a dois ou mais resultados. Há, portanto, “unidade de desígnios e ação e pluralidade de eventos”.44 Exemplo: o agente dirige um carro em alta velocidade e acaba por atropelar e matar três pessoas. Nas hipóteses de concurso formal próprio, adotou-se o sistema da exasperação da pena, devendo-se atentar para a seguinte classificação, de acordo com a identidade ou não dos crimes praticados: a) Concurso formal homogêneo: Neste, os crimes são iguais; ocorrem resultados idênticos. Exemplo: lesões corporais causadas em várias vítimas em decorrência de acidente de veículo automotor. Como a pena cominada aos crimes é igual, aplica-se a pena de qualquer um deles, aumentada de 1/6 a 1/2. b) Concurso formal heterogêneo: É quando os crimes são diferentes, ou seja, ocorrem resultados diversos. Mediante uma só conduta, o agente agride a bens jurídicos protegidos em diferentes dispositivos penais. Exemplo: em acidente de veículo, o motorista fere um indivíduo e mata outro - ocorreu um homicídio culposo e uma lesão corporal culposa. Nessas hipóteses, aplica-se a mais grave das penas cabíveis, exasperada de um sexto até a metade. 44 Idem, p. 314. DIREITO PENAL 78 Ante a ausência de critério explícito na lei, os Tribunais mensuram o aumento de pena de acordo com o número de bens ofendidos. Em caso de concurso heterogêneo, deverá ser calculada a pena de cada um dos crimes, a fim de verificar: a) eventual prescrição pela pena concretizada na sentença (art. 119, CP); b) a possibilidade de aplicação da regra do concurso material mais benéfico (art. 70, parágrafo único, CP), especialmente quando for grande a diversidade entre as penas dos crimes em concurso. 2. Concurso formal impróprio ou imperfeito: É aquele previsto na segunda parte do caput do art. 70, e que, por sua vez, remete ao art. 69, que trata do concurso material. Ele só é possível nos crimes dolosos. Trata-se, em síntese, do resultado de desígnios autônomos. Aparentemente, há uma só ação, mas o agente, no seu íntimo, deseja os outros resultados ou aceita o risco de produzi-los. Há unidade de ação e pluralidade de vontades. Assim, o concurso é formal impróprio quando o sujeito praticou com dolo direto ou eventual a ação que resultou em dois ou mais crimes. Exemplo: o agente incendeia uma residência com a intenção de matar todos os moradores. Ao concurso formal imperfeito confere-se tratamento mais grave, tendo o CP adotado o sistema de cúmulo material, segundo o qual se somam as penas cominadas a cada um dos crimes, da mesma forma que ocorre no caso de concurso material. - Concurso material benéfico: Por fim, prevê o parágrafo único do art. 70, CP, que, caso a aplicação da regra do concurso formal resulte em pena superior àquela que resultaria do concurso material, deve-se seguir critério deste último, ou seja, somar as penas. Com efeito, quem comete mais de um crime com uma única ação não pode sofrer pena mais grave do que aquele que, de forma reiterada, com mais de uma ação, comete os mesmos crimes. Assim, para evitar um cúmulo de penas desproporcional aos crimes cometidos, limita-se a pena do concurso formal ao máximo que seria cabível pela regra do concurso material. Impede-se, assim, que, numa hipótese de concurso formal heterogêneo entre homicídio doloso mais lesões culposas, por exemplo, aplique-se ao agente pena mais severa, em razão do concurso formal, do que a aplicável pelo concurso material. CRIME CONTINUADO O instituto do crime continuado (art. 71, CP) tem por objetivo mitigar o rigor do apenamento que seria alcançado caso aplicadas as regras de concurso material. Há duas teorias distintas que fundamentam o reconhecimento do crime continuado: 1. Objetivo-subjetiva: além da semelhança entre os delitos, o reconhecimento do crime continuado dependeria também de aspectos subjetivos, como a existência de um plano pré-determinado, enquanto para a segunda o reconhecimento da continuidade delitiva depende apenas de características objetivas. 2. Objetiva (germânica): é adotada pelo CP, como se vê pela leitura do art. 71, o que também foi consignado expressamente no item 59 da Exposição de Motivos. DIREITO PENAL 79 A teoria objetivo-subjetiva sofre as seguintes críticas: a) restringiria o instituto, contrariando as bases de sua instituição, que visavam justamente a evitar o apenamento excessivamente rigoroso; b) a existência de um plano pré-determinado deve ser causa de agravação da pena, não de sua diminuição. Consoante a previsão do art. 71, CP, diz-se que há crime continuado quando o agente, mediante mais de uma conduta, comete mais de um crime da mesma espécie, com algum liame no que diz respeito ao tempo, ao lugar, à maneira de execução e a outras características que façam presumir a continuidade delitiva. Havendo tais similitudes, um crime subsequente será visto como a continuação do que lhe antecedeu. As condições objetivas para a configuração do crime continuado no caso concreto, portanto, são as seguintes: - Diversidade de condutas: O crime continuado reclama uma pluralidade de condutas. Difere ele, portanto, do concurso formal; pois, neste, háapenas uma ação, que pode desdobrar-se em vários atos. Exemplo: no delito de roubo, com pluralidade de vítimas, aplica-se a regra do concurso formal, e não a continuidade delitiva. - Crimes da mesma espécie: As condutas-partes que compõem o crime continuado devem caracterizar crimes da mesma espécie. A definição do que seja crime da mesma espécie, entretanto, não é pacífica. Para o STJ, são da mesma espécie os crimes previstos no mesmo tipo legal, isto é, aqueles que possuem os mesmos elementos descritivos, abrangendo as formas simples, privilegiadas e qualificadas, tentadas ou consumadas (HC 162672, Moura, 6ª. T., 28.5.13; HC 144771, Reis, 6ª. T., 22.11.11). Assim, segundo esse entendimento, não são crimes da mesma espécie, por exemplo, roubo e extorsão, roubo e furto, ou mesmo roubo e latrocínio (STJ, REsp 1008517, Cruz, 6ª. T., 7.11.13; AgRg-REsp 961928, Moura, 6ª. T., 8.2.11) embora possam ser eles do mesmo gênero (contra o patrimônio). Outra possibilidade é considerar como crimes da mesma espécie não são somente aqueles previstos no mesmo tipo, mas sim os que possuem características fundamentais comuns. Assim, ainda que não idênticos, ao atentarem contra um mesmo bem jurídico, serão eles tidos como da mesma espécie. Com efeito, ao determinar a aplicação da “pena mais grave”, sinaliza a lei no sentido da possibilidade de serem os crimes diferentes, contanto que sejam da mesma espécie. Consoante essa posição, seria possível reconhecer-se a continuação entre furto e roubo, roubo e extorsão, estelionato e qualquer outra fraude, entre muitos. Nessa linha, o próprio STJ admite o crime continuado entre os delitos de apropriação indébita previdenciária (art. 168-A, CP) e sonegação de contribuição previdenciária (CP, art. 337-A), embora previstos em tipos penais diversos (REsp 859050, Cruz, 6ª. T., 3.12.13; REsp 1212911, Reis, 6ª. T., 20.3.12). - Nexo adverbial da continuidade delitiva: tempo, lugar, modo de execução e outras semelhantes: Não basta a similitude entre as espécies de crimes; é preciso, ainda, outras semelhanças entre eles para que seja reconhecida a continuidade delitiva, a saber: a) Nexo temporal: Um longo lapso temporal separando a reiteração dos fatos pode, com base na razoabilidade, afastar a continuidade delitiva, mas não há critério preciso de aferição do espaço de tempo em que são cometidas as ações em continuidade. A jurisprudência, de modo geral, tem aceitado o prazo de até DIREITO PENAL 80 trinta dias entre as infrações penais (STJ, AgRg-AREsp 468460, Reis, 6ª. T., 8.5.14; RHC 038675, Mussi, 25.3.14; HC 168638, Moura, 1.3.13), mas o nexo de tempo deve ser analisado em conjunto com as outras circunstâncias exigíveis para a configuração do instituto. Sendo longo o tempo que separa uma ação e outra, a continuação só existirá se as demais condições objetivas assim indicarem. b) Nexo espacial: Também é preciso haver uma espécie de conexão espacial a unir os crimes componentes, mas, a exemplo dos demais requisitos, a similitude de espaço não pode ser encarada com excessivo rigor. Em regra, tem-se reconhecido a continuidade delitiva mesmo em casos de prática do mesmo delito seguidamente em locais diversos, como, por exemplo, bairros da mesma cidade e até cidades ou comarcas limítrofes ou próximas (STJ, HC 206227, Dipp, 5ª. T., 6.10.11; HC 074355, Fischer, 5ª. T., 8.11.07). - Modo de execução: As condutas-partes devem guardar, entre si, similitude no que diz respeito ao modus operandi, ou seja, o agente deve ter laborado com técnicas parecidas na prática do delito. Exemplo: enfermeiro que, de forma continuada, aplica injeção letal em seus pacientes. No caso concreto, a ausência de homogeneidade quanto ao modo de execução dos crimes pode inviabilizar a configuração do crime continuado. - Outras condições semelhantes: A fim de flexibilizar a aplicação do instituto e de abranger quaisquer outras circunstâncias que possam indicar a continuidade delitiva, o CP incluiu, dentre os requisitos do crime continuado, a expressão genérica “outras condições semelhantes”. Aqui, pode-se incluir, por exemplo, condições semelhantes de oportunidade ensejadoras do delito. Em síntese, é o conjunto de todos os requisitos, no caso concreto, que convencerá o julgador acerca da existência ou não do crime continuado. Isoladamente, nenhuma delas é decisiva. O CP adotou a teoria puramente objetiva, segundo a qual é dispensável a vontade de praticar os delitos em continuação, bastando que as condições objetivas semelhantes estejam presentes. Assim, não havendo qualquer requisito de ordem subjetiva na lei, não seria preciso, para o reconhecimento do crime continuado, questionar do aspecto volitivo do agente. No STJ prevalece, porém, a teoria mista ou objetivo subjetiva, segundo a qual, além dos requisitos de ordem objetiva, relativo às condições de tempo, lugar e forma de execução, também há um requisito subjetivo, ou seja, a unidade de desígnios ou vínculo subjetivo entre os eventos (RHC 043601, Moura, 6ª. T., 3.6.14; HC 292875, Ribeiro, 5ª. T., 10.6.14; AgRg-HC 217753, Mussi, 5ª. T., 10.12.13; HC 199645, Reis, 6ª. T., 28.8.12), ou, pelo menos, que deve haver uma vinculação entre os vários fatos para o reconhecimento da continuidade delitiva (STJ, HC 9.497, Vidigal, 5ª T., u., DJ 16.8.99). Tais precedentes tem por finalidade afastar o favor legal nos casos de habitualidade criminosa, ou seja, quando o agente faz do crime profissão (STF, HC 72.669-1, Corrêa, 2ª T., DJ 24.09.99; STJ, HC 249912, Mussi, 5ª. T., 20.3.14; HC 224592, Reis, 6ª. T., 8.10.13; STJ, HC 185336, Moura, 6ª. T., 7.5.13). No tocante à aplicação da pena, adotou-se a regra da exasperação, de modo que se aplica a pena do crime mais grave, ou de um deles, se idênticas as penas, aumentado na forma do art. 71. Para se aferir o quantum de aumento, no entanto, é preciso atentar para a seguinte divisão: DIREITO PENAL 81 a) Crime continuado comum ou simples: É o crime cometido sem violência ou grave ameaça contra a pessoa, previsto no caput do art. 71, CP. Aqui, aplica-se a pena do crime mais grave, aumentada de 1/6 a 2/3. Exemplo: prática continuada de sonegação fiscal. Não há parâmetro para o aumento de 1/6 até 2/3; contudo, a jurisprudência tem-se valido, para isso, do número de infrações penais cometidas. b) Crime continuado específico ou qualificado: É a hipótese do parágrafo único do art. 71 do CP, que exige para sua configuração, além dos requisitos objetivos da continuidade, outros três: crime doloso (afastam-se, pois, os crimes culposos, máxime pela severidade do aumento de pena previsto); praticado contra vítimas diferentes (se a vítima for a mesma, a hipótese será do caput do mesmo artigo); e cometido com violência ou grave ameaça à pessoa (não pode a violência ter sido empregada contra a coisa tampouco não ter havido violência ou grave ameaça, porque, nesses casos, a hipótese será de crime continuado simples). Como se vê, essa hipótese está voltada para a continuidade delitiva nos casos que envolvem agressão a bens personalíssimos, desde que sejam diferentes as vítimas. Com efeito, foi revogada a Súmula 605/STF, que não admitia continuidade delitiva nos crimes contra a vida. Preenchidos os requisitos legais, o julgador, considerando a culpabilidade, os antecedentes, a conduta social e a personalidade do agente, bem como os motivos e as circunstâncias, poderá, se entender cabível, aumentar a pena de um só dos crimes, se idênticas, ou a mais grave, se diversas, até o triplo. Houve omissão da lei quanto ao quantum mínimo da majoração, por isso alguns autores sustentam que se deve utilizar o mínimo previsto no caput do art. 71, ou seja, 1/6, enquanto outros entendem que fica a critério do juiz demarcar o mínimo da exasperação. - Concurso material benéfico: Da mesma forma que ocorre no concurso formal, se, da aplicação da regra do crime continuado, seja ele simplesou específico, a exasperação implicar paradoxal aumento da pena, resultando ela superior à soma das penas individualmente aplicadas a cada crime, aplica-se a regra do concurso material, somando-as. Por fim, também nos casos de crime continuado a pena de multa será aplicada distinta e integralmente. Há entendimento, porém, no sentido de que, sendo o crime continuado um só para efeito de aplicação da pena, dever-se-ia aplicar o sistema de exasperação também à pena de multa, não incidindo, portanto, a regra do art. 72, CP. - Suspensão Condicional: Conforme a Súmula 723/STF: “Não se admite a suspensão condicional do processo por crime continuado, se a soma da pena mínima da infração mais grave com o aumento mínimo de um sexto for superior a um ano”. SUCESSÃO DE LEIS NO TEMPO Conforme a Súmula 711 do STF: “A lei penal mais grave aplica-se ao crime continuado ou ao crime permanente, se a sua vigência é anterior à cessação da continuidade ou da permanência”. PRESCRIÇÃO DIREITO PENAL 82 Conforme o art. 119, CP: "No concurso de crimes, a extinção da punibilidade incidirá sobre a pena de cada um, isoladamente." Deste modo, a ocorrência ou não de prescrição deverá ser verificada em relação a cada fato que integra a cadeia de continuidade. PUNIBILIDADE O jus puniendi é o poder exclusivo e indelegável do Estado de cominar a pena, aplicá-la e executá-la. Somente com a prática de um crime que esse direito concretiza-se, tornando-se uma pretensão: o Estado passa a ter interesse em submeter o agente ao seu direito de punir. A punibilidade é a possibilidade de punir o agente que comete o crime. Ela não é elemento do delito (embora haja doutrina minoritária que afirme o contrário), mas se configura em razão dele e é, em síntese, condição indispensável para a imposição da pena. CAUSAS EXTINTIVAS DA PUNIBILIDADE A extinção da punibilidade é o desaparecimento da pretensão punitiva ou executória do Estado em razão de causas previstas em lei. Nessas hipóteses, embora já praticado o delito (fato típico, ilícito e culpável), resta inviabilizada a aplicação ou a execução da sanção penal. Não há, portanto, a extinção do crime, mas extinção da possibilidade de do Estado exercer o poder de punir. Por isso, embora obstada a imposição da pena, podem permanecer os demais efeitos civis e criminais da condenação. O art. 107, CP, enumera algumas dessas causas; outras delas são encontradas esparsas na legislação penal, como, por exemplo, o reparação do dano no peculato culposo (art. 312, § 3º, CP) e a homologação da composição de danos civis nos crimes de menor potencial ofensivo (art. 74, parágrafo único, Lei n. 9.099/95). MORTE DO AGENTE A morte do agente, comprovada por certidão de óbito, é causa pessoal de extinção da punibilidade, porque o art. 5º, XLV, CF, consagra o princípio da pessoalidade da pena: “nenhuma pena passará da pessoa do condenado, podendo a obrigação de reparar o dano e a decretação do perdimento de bens ser, nos termos da lei, estendidas aos sucessores e contra eles executadas, até o limite do valor do patrimônio transferido”. O princípio aplica-se apenas às sanções criminais, sejam elas pecuniárias ou não, não tendo aplicabilidade às consequências civis de um delito. Pena de multa - A pena de multa, ainda que considerada dívida de valor, deve ser extinta com a morte do agente, não se transmitindo aos herdeiros a obrigação de quitá-la. Certidão de óbito falsa - mesmo que a extinção da punibilidade do agente tenha sido declarada com base em certidão de óbito falsa, a maioria da doutrina entende ser impossível a revisão criminal, por ser vedada a revisão pro societate. Não se pode, portanto, reabrir o processo contra o acusado, sendo o caso de, no máximo, puni-lo pela falsidade. ANISTIA, GRAÇA E INDULTO DIREITO PENAL 83 a) Anistia: é o esquecimento jurídico do ilícito e tem por objeto fatos definidos como crimes, de regra, políticos, militares ou eleitorais. Não há, contudo, qualquer óbice à sua concessão para os delitos comuns. Ela pode ocorrer antes da condenação definitiva ou depois do trânsito em julgado, sendo denominada, respectivamente, de anistia própria ou imprópria. Pode, ainda, ser condicionada ou incondicionada, ou seja, pode estabelecer ou não condições a serem aceitas pelos beneficiários. Por fim, pode ser geral ou parcial. A primeira beneficia todos os que praticaram determinado crime, enquanto que a segunda, somente alguns. A anistia só é concedida por meio de lei do Congresso Nacional e possui efeito ex tunc (apaga o crime e todos os efeitos da sentença), embora não atinja os efeitos civis. Não pode ser revogada, uma vez que se trataria de hipótese de lei posterior com tratamento prejudicial aos réus. b) Graça: também denominada de indulto individual, tem por objeto crimes comuns e dirige-se a um sujeito determinado, condenado irrecorrivelmente. Trata-se de um perdão concedido de forma discricionária pelo Presidente da República, o qual pode ser parcial ou total, conforme alcance a totalidade ou apenas alguns aspectos da condenação do agente. c) Indulto coletivo: é a clemência destinada a um grupo indeterminado de condenados, tendo em vista a natureza do delito e a quantidade de pena aplicada, podendo exigir requisitos objetivos e subjetivos. Alguns doutrinadores chamam de indulto parcial a comutação da pena, a qual não extingue a punibilidade, mas tão- somente diminui a sanção a cumprir. Assim como a graça, a competência para a concessão de indulto coletivo é do chefe do Poder Executivo, conforme previsão do art. 84, XII, CF. É de praxe que ao final de todos os anos, publique-se um decreto de indulto, chamado de indulto natalino. Delitos insuscetíveis de graça e anistia - conforme o art. 5º, XLIII, CF, a lei considerará inafiançáveis e insuscetíveis de graça ou de anistia a prática de tortura, o tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, o terrorismo e os crimes hediondos. O art. 2º, I, Lei n. 8.072/90 (Lei dos Crimes Hediondos), todavia, estendeu a vedação em relação a esses crimes também quanto ao indulto. ABOLITIO CRIMINIS É o fenômeno pelo qual uma lei nova deixa de considerar crime um determinado fato. Como já visto, lei posterior mais benéfica retroage, abrangendo os processos em qualquer fase que estejam. Assim, nenhum efeito penal subsiste, mas apenas as consequências civis. DECADÊNCIA E PEREMPÇÃO a) Decadência: é a perda do direito de ação privada ou de representação por não ter sido exercido no prazo legal. A regra é o art. 103, CP: “Salvo disposição expressa em contrário, o ofendido decai do direito de queixa ou de representação se não o exerce dentro do prazo de 6 (seis) meses, contado do dia em que veio a saber quem é o autor do crime, ou, no caso do § 3º do art. 100 deste Código, do dia em que se esgota o prazo para oferecimento da denúncia”. Este dispositivo prevê a regra geral, mas há exceções na legislação, tal qual o prazo decadencial de três meses estabelecido na Lei de Imprensa. A contagem do prazo ocorre na forma do art. 10, CP, incluindo-se o dia inicial e não havendo prorrogação caso termine em sábado, domingo ou feriado. DIREITO PENAL 84 Vítima menor de 18 anos - o prazo decadencial corre somente para o seu representante legal e diverge a doutrina se, ao atingir a maioridade, terá ela tão-somente o período remanescente ou os seis meses integrais para exercer seu direito. b) Perempção: é uma sanção aplicada ao particular por sua inércia na ação penal privada e consiste na perda do direito de prosseguir no processo. As hipóteses em que se considera a ação perempta estão elencadas no art. 60, CPP: Art. 60. Nos casos em que somente se procede mediante queixa, considerar-se-á perempta a ação penal: I - quando, iniciada esta, o querelante deixar de promover o andamento do proces- so durante 30 dias seguidos; II - quando,falecendo o querelante, ou sobrevindo sua incapacidade, não compa- recer em juízo, para prosseguir no processo, dentro do prazo de 60 (sessenta) dias, qualquer das pessoas a quem couber fazê-lo, ressalvado o disposto no art. 36; III - quando o querelante deixar de comparecer, sem motivo justificado, a qualquer ato do processo a que deva estar presente, ou deixar de formular o pedido de con- denação nas alegações finais; IV - quando, sendo o querelante pessoa jurídica, esta se extinguir sem deixar suces- sor. RENÚNCIA E PERDÃO DO OFENDIDO Renúncia é a manifestação de desinteresse de exercer o direito de queixa. O perdão, por sua vez, é a desistência de prosseguimento na ação penal privada que iniciou. São institutos semelhantes, mas há diferenças importantes, e a principal delas é que a renúncia ocorre antes do ajuizamento da ação, e o perdão, depois. Mais, a renúncia é ato unilateral, não dependendo da aceitação da outra parte, enquanto o perdão é ato bilateral, necessitando ser aceito pelo querelado para que produza efeitos. Tanto a renúncia quanto o perdão podem ser expressos ou tácitos. São expressos quando ocorrem mediante declaração escrita e assinada; são tácitos quando o querelante pratica atos incompatíveis com a vontade de processar o agente. Indenização e Renúncia - prevê art. 104, parágrafo único, CP, que o pagamento de indenização pelos danos não implica renúncia ao direito de queixa. Nos Juizados Especiais Criminais, contudo, tratando-se de ação penal de iniciativa privada ou ação penal pública condicionada à representação, o acordo homologado acarreta a renúncia ao direito de queixa ou representação, por determinação do art. 74, parágrafo único, da Lei n. 9.099/95. Indivisibilidade da ação penal - a renúncia em relação a um ou alguns dos autores do delito estende-se a todos os outros, conforme previsão do art. 49, CPP. O mesmo ocorre com relação ao perdão, consoante o art. 106, I, CP. Saliente-se, contudo, que, quando há mais de um querelante, o perdão concedido por um deles não afetará o direito dos demais ofendidos de prosseguir na ação. RETRATAÇÃO DO AGENTE Retratação é o ato de desdizer-se em relação à calúnia e difamação, conforme previsão do art. 143, CP. Acrescenta o parágrafo único: “Nos casos em que o querelado tenha praticado a calúnia ou a difamação utilizando-se de meios de comunicação, a retratação dar-se-á, se assim desejar o ofendido, pelos mesmos meios em que se praticou a ofensa”. Também é causa DIREITO PENAL 85 extintiva da punibilidade nos delitos de falso testemunho e falsa perícia, de acordo com o art. 342, § 2º, do mesmo estatuto legal. PERDÃO JUDICIAL É o instituto mediante o qual a lei possibilita ao juiz deixar de aplicar a pena em face de justificadas circunstâncias do crime, que causam grande sofrimento ao autor, de forma que, não obstante esteja comprovada a prática da infração penal, resta desnecessária a aplicação da pena. Exemplos: homicídio culposo (art. 121, § 5º, CP), lesão culposa (art. 129, § 8º, CP) e subtração de incapazes (art. 249, § 2º, CP). O magistrado só pode conceder o perdão depois de declarar que o acusado é responsável pelo delito, pois, do contrário, a solução é a absolvição. Diverge a doutrina e a jurisprudência acerca da natureza jurídica da sentença concessiva de perdão. Alguns autores consideram-na uma decisão condenatória, a qual livra o réu da pena e da reincidência, mas permite a subsistência de todos os efeitos secundários da condenação, tais quais os maus antecedentes e a possibilidade de reparar o dano. Nesse sentido: Mirabete e Damásio. Outros referem ser uma decisão declaratória de extinção da punibilidade, que nenhuma consequência gera ao acusado. Nesse sentido: Celso Delmanto e Aníbal Bruno. A Súmula 18/STJ preceitua que: “A sentença concessiva do perdão judicial é declaratória da extinção da punibilidade, não subsistindo qualquer efeito condenatório”. PRESCRIÇÃO É a extinção jus puniendi do Estado em razão da passagem do tempo sem punir ou executar a pena de um crime. Embora haja alguma discussão acerca da natureza jurídica da prescrição, se instituto de direito penal ou processual penal, a doutrina considera majoritariamente se tratar de instituto de direito material.45 Tem como fundamentos a inconveniência de se aplicar uma pena muito tempo após a ocorrência da infração penal, pelo esquecimento do delito e pela perda da função da sanção criminal, mormente quando o autor não reincide e se adapta à vida social. Além disso, serve como estímulo à eficiência do Estado, que deve exercer a pretensão punitiva dentro de determinados prazos. COMUNICABILIDADE DAS CAUSAS EXTINTIVAS DA PUNIBILIDADE Guilherme de Souza Nucci refere que algumas causas de extinção da punibilidade comunicam-se com os coautores e partícipes do crime, quais sejam, o perdão para quem o aceitar, a abolitio criminis, a decadência, a perempção, a renúncia ao direito de queixa e a retratação no delito de falso testemunho. Outras, no entanto, não se comunicam. São elas a morte de um dos coautores, o perdão judicial, a graça, o indulto, a anistia (a qual pode incluir ou excluir coautores), a retratação do querelado na calúnia e na difamação e a prescrição46. ESCUSAS ABSOLUTÓRIAS 45 GRECO, Rogério. Curso de direito penal. 4. ed. Rio de Janeiro: Impetus, 2004. p. 805; CAPEZ, Fernando. Curso de direito penal: parte geral (arts. 1º a 120). v. 1. 16 ed. São Paulo: Saraiva, 2012. p. 622; BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de direito penal: parte geral 1. 16 ed. São Paulo: Saraiva, 2011., p. 810-11. 46 NUCCI, Guilherme de Souza. Manual de direito penal: parte geral: parte especial. 4. ed. São Paulo: Ed. Revista dos Tribunais, 2008. p. 560. DIREITO PENAL 86 As escusas absolutórias são causas pessoais de exclusão ou isenção de pena. Suas hipóteses são taxativas e expressas na lei, em geral, na parte especial do Código Penal. Em razão delas, embora configurado o crime praticado pelo agente, a ele não se impõe a pena cominada em abstrato. Por exemplo, nos crimes patrimoniais, cometidos sem violência ou grave ameaça, os cônjuges, entre si, os ascendentes e os descendentes, entre si, ainda quem cometam infração penal, não recebem punição, por previsão expressa do art. 181, I e II, CP. ESCUSAS ABSOLUTÓRIAS X CAUSAS DE EXTINÇÃO DA PUNIBILIDADE: a) Causas de extinção da punibilidade: excluem a pretensão punitiva ou executória estatal que inicialmente existia. b) Escusas absolutórias: não permitem o surgimento da pretensão punitiva. CONDIÇÕES OBJETIVAS DE PUNIBILIDADE As condições objetivas de punibilidade são hipóteses criadas pelo legislador por razões de política criminal com objetivo de condicionar o exercício da pretensão punitiva estatal sob a perspectiva de sua necessidade. A condição de punibilidade não está contida na noção de tipicidade, antijuridicidade ou culpabilidade, mas é parte integrante do fato punível – são elementos adicionais presentes apenas em alguns crimes. Assim, quando prevista para um crime condição de punibilidade, não basta que o fato seja típico, antijurídico e culpável; é imprescindível que a condição se realize para que nasça o direito de punir do Estado. A condição objetiva de punibilidade costuma vir referida no preceito ou na sanção, podendo, no entanto, resultar de uma norma geral. Exemplos: a) a existência do prejuízo quanto ao crime de introdução ou abandono de animais em propriedade alheia (art. 164, CP); b) a ocorrência do perigo (concreto) à vida, à integridade física ou ao patrimônio de outrem, quanto ao incêndio e outros crimes de perigo comum (art. 250 e seguintes, CP). Condições objetivas de punibilidade x condições de procedibilidade - as condições objetivas de punibilidade são elementos do crime, sem os quais não há crime. As condições de procedibilidade nãoafetam o crime, que já existe, mas impedem o nascimento do processo. São condições de procedibilidade, por exemplo, a representação no caso de ação penal pública condicionada e requisição do Ministro da Justiça no caso de crimes contra a honra da Presidente da República ou chefe de governo estrangeiro. PENAS A pena é definida como: “Privação ou castigo previsto por uma lei positiva para quem se torne culpado de uma infração”. De acordo com Dotti: “A pena criminal é a sanção imposta pelo Estado e consistente na perda ou restrição de bens jurídicos do autor da infração, em DIREITO PENAL 87 retribuição à sua conduta e para prevenir novos ilícitos”.47 A pena é, então, necessariamente aflitiva, trazendo uma ideia de privação. O sistema de penas em vigor no Brasil tem por base os incs. XLVI e XLVII do art. 5º, CF, que elencam, respectivamente, as penas permitidas e proibidas no país. São proibidas as penas de morte, salvo em caso de guerra declarada (art. 84, XIX, CF), as de caráter perpétuo, as de trabalhos forçados, a de banimento e as penas cruéis, ou seja, aquelas cuja imposição e execução trazem requintes de desumanidade. Ademais, as penas impostas não podem violar a dignidade da pessoa humana (art. 1º, III, CF). São permitidas, no direito penal brasileiro, as penas de privação ou restrição de liberdade, a perda de bens, a multa, a prestação social alternativa e a suspensão ou interdição de direitos. Embora não esteja explícita, há uma hierarquia entre elas, tendo em vista a importância do bem jurídico protegido (reclusão, detenção, prisão simples, restritivas de direitos e multa). Infelizmente, como anota Boschi, tal hierarquia se perdeu ante as sucessivas e nem sempre racionais, reformas e alterações pontuais da legislação penal brasileira. Em alguns casos, a sanção aplicável a quem praticou um delito não será a pena, mas a medida de segurança, de acordo com o sistema vicariante trazido pela Reforma Penal de 1984. Resta, pois, analisar as duas sanções penais previstas no ordenamento jurídico brasileiro: as penas, gênero que comporta diversas espécies, e as medidas de segurança. EVOLUÇÃO Antigamente, a pena tinha, essencialmente, um caráter expiatório, com o fim de aplacar a ira dos deuses, confundindo-se as noções de crime e pecado, sendo a pena ilimitada. Não havia limite subjetivo, podendo a pena ser estendida aos familiares, nem proporcionalidade com a falta cometida, de modo que o talião, nesse sentido, foi um avanço.48 Na idade antiga, na Grécia, em Roma, na China, na Índia, no Egito, bem como entre os fenícios e hebreus, a pena possuía caráter reparatório, aplicando-se a perda da paz ou banimento e a vingança de sangue, com a morte do ofensor, aplicada especialmente aos estrangeiros. Predominava a pena de morte, muitas vezes acompanhada de torturas ou tormentos, o que perdurou durante a Idade Média. A partir do iluminismo e do Renascimento, a pena assume um caráter utilitário, deixando de ter fundamento teológico ou religioso.49 A prisão, que era vista apenas como um meio de contenção do criminoso enquanto durava a investigação e não como pena, passa a ser vista como tal, institucionalizando-se e generalizando-se a PPL, com a circunstância de que a execução da pena se dá com trabalhos forçados ou de laborterapia, integrando-se a pena no sistema produtivo. FINS DA PENA 47 DOTTI, René Ariel. O Sistema Geral das Penas. In: DOTTI, René Ariel et alli. PRDs. Críticas e Comentários às Penas Alternativas. Lei n. 9.714, de 25.11.1998. p. 65-125. 48 PIERANGELLI, José Henrique. Das Penas: Tempos primitivos e legislações antigas. Fascículos de Ciências Penais, Porto Alegre, n. 3, p. 3-32, jul.-set. 1992. 49 49 SHECAIRA, Sérgio Salomão; CORRÊA JÚNIOR, Alceu. Pena e Constituição. p. 18-25. DIREITO PENAL 88 A questão dos fins da pena, do que se pretende com a aplicação da pena, está indissociavelmente ligada aos fins do próprio direito penal e da definição do crime, sendo tema de profundas implicações filosóficas, a depender, portanto, de premissas valorativas e políticas sobre os próprios fins do Estado, de modo que não se pode afirmar a existência de uma resposta apodítica sobre a teoria mais acertada, sem a revelação de tais pressupostos.50 É tradicional utilizar-se a classificação de Anton Bauer, que divide as teorias sobre os fins da pena em absolutas, relativas e mistas complementadas pelos conceitos de prevenção geral e especial, de Bentham, acrescendo-se ao primeiro a distinção, mais atual, entre prevenção geral negativa e positiva.51 As teorias absolutas, assim chamadas por não guardarem relação com os fins da pena, foram defendidas pela escola clássica, de Beccaria e Pietro Verri, que viam a pena como retribuição ao mal do crime, sem maior atenção com o criminoso. A pena criminal corresponde, para essa escola, à retribuição, expiação, reparação ou compensação do mal do crime. Ao mal do crime, que é a negação do direito, corresponde o mal da pena, que deve ser proporcional à culpabilidade do agente, sendo este seu principal mérito, ao estabelecer um limite para a pena, até então ilimitada.52 A ideia é de que ao mal do crime se contrapõe o mal da pena, que é imposta com fundamento no imperativo categórico kantiano.53 Contra tais teorias pesa a crítica de que a pena não pode ser vista como um fim em si, mas sim para alcançar uma finalidade maior, além de contrariarem o princípio da subsidiarie- dade do Direito Penal e estarem vinculadas a uma ordem absoluta de valores incompatível com sociedades plurais e democráticas54. Já para as teorias relativas, assim chamadas porque guardam relação, tem referência aos fins da pena, que não é apenas um mal para quem a sofre, mas também em instrumento de prevenção do crime. O fim principal da pena seria a prevenção, que poderá ser geral ou especial. Para Bentham, Schopenhauer e Feuerbach, o fim da pena é a prevenção geral, atuando sobre o conjunto da população, como uma ameaça estatal, assim evitando a ocorrência de novos crimes. Tradicionalmente, a prevenção geral foi concebida como prevenção geral nega- tiva ou de intimidação, com a criação de um contramotivo psicológico para o criminoso. Além de sua duvidosa eficácia, sofre a crítica de que o condenado é visto como um meio para servir de exemplo aos demais, tendo um caráter utilitário55. Para outros, os fins da pena seriam de prevenção especial, de modo a prevenir a reinci- dência. Haveria, ainda, um sentido de defesa social, mediante separação ou segregação do delinqüente, e ainda de ressocialização. Assim como a teoria de prevenção geral, sofre a crítica de instrumentalização do homem56. Mais modernamente, porém, fala-se em prevenção geral positiva ou de integração, en- tendida como reforço da confiança da comunidade na proteção dos bens jurídicos. Atualmen- 50 MIR PUIG, Santiago. Función de la Pena y Teoria del Delito en el Estado Social y Democrático de Derecho. p. 15. 51 RIVACOBA Y RIVACOBA, Manuel. Función y Aplicación de la Pena. p. 16. 52 CHOCLÁN MONTALVO, José Antonio. Individualización Judicial de la Pena: Función de la culpabilidad y la prevención en la de- terminación de la sanción penal. p. 55. 53 VERVAELE, John. As Grandes Teorias da Pena dos Séculos XVIII e XIX. p. 63. Para mais sobre Kant e o Direito Penal, ver: MAYER, Hellmuth. Kant, Hegel und das Strafrecht, p. 73-4. 54 BUSTOS RAMÍREZ, Juan. A Pena e suas Teorias. Fascículos de Ciências Penais, Porto Alegre, n. 3, p. 94, jul.-set. 1992. 55 BUSTOS RAMÍREZ, Juan. A Pena e suas Teorias. Fascículos de Ciências Penais, p. 95. 56 BUSTOS RAMÍREZ, Juan. A Pena e suas Teorias. Fascículos de Ciências Penais, p. 101-2. DIREITO PENAL 89 te, o fundamento é sistêmico-social ou simbólico (Hassemer, Jákobs, Figueiredo Dias). Acon- cepção da prevenção geral positiva teria o mérito de não utilizar o cidadão como meio, como objeto, atendendo ao necessário respeito à dignidade da pessoa humana. Hoje em dia, tendo em vista que não há como, sem ferir a dignidade humana, transformar a pessoa, pretende-se oferecer condições para a sua ressocialização ou socialização, no processo de metanóia. Para Figueiredo Dias, a dignidade humana somente é respeitada se a pena tiver função preventiva geral positiva, como ponto de partida. Já o ponto de chegada é a prevenção especial. Assim, só se admite pena quando essa for necessária para a prevenção geral positiva e o seu quantum será fixado pela necessidade de ressocialização, sempre limitada pela culpabilidade57. Assim, em um ordenamento que consagra a dignidade da pessoa humana, não há lugar para fins retributivos na pena. A prevenção é geral e especial, sempre com o fim de prevenir crimes futuros. A prevenção geral positiva é criticada por aproximar-se das antigas teorias retributivas, bem como por não ser passível de verificação empírica58. Em uma linha de visão crítica criminológica, fala-se, ainda, em função meramente sim- bólica da pena, não reconhecida pela dogmática tradicional, vislumbrando-se na pena uma função política de legitimação da dominação59. Por fim, para as teorias mistas ou unificadoras, que sofrem a crítica da ambiguidade60, a pena teria finalidade de reprovação e prevenção do crime, como formulado no art. 59, CP, bem como de ressocialização, segundo o art. 1º, LEP. ESPÉCIES DE PENA A CF, no inc. XLVI de seu art. 5º, enumera as penas admitidas, deixando aberta, expressamente, a possibilidade de criação de novas modalidades de pena, com a devida interposição legislativa, como resulta do dispositivo, bem como do princípio da legalidade penal, objeto do inc. XXXIX do art. 5º. Não é dado, então, ao Juiz criar novas modalidades de pena, sem previsão legal, como, por exemplo, obrigação de doar sangue ou de frequentar cursos, fora dos casos expressamente previstos (art. 48, parágrafo único, CP; arts. 115 e 152, LEP; art. 28, III, Lei n. 11.343/06). Mesmo o legislador encontra limites na criação de penas, uma vez que o inc. XLVII do mesmo art. 5º veda a aplicação de penas de caráter perpétuo, de trabalhos forçados, de banimento, cruéis e de morte, salvo, quanto à última, em caso de guerra declarada (art. 84, XIX, CF). São vedadas, também, penas que atentem contra a dignidade da pessoa humana (art. 1º, III, CF), ou contra direitos fundamentais como a proibição da tortura e tratamento desumano ou degradante (art. 5º, III, CF), a liberdade de consciência e de crença e o livre exercício do culto religioso (art. 5º, VI, CF). É vedada, nessa linha, por exemplo, a imposição da obrigação de frequência à igreja como pena, uma vez que o direito fundamental em questão, em sua dimensão negativa, implica o direito de não ter crença e de não frequentar o culto. As penas previstas na legislação brasileira são classificadas, pelo art. 32, CP, em: 57 FIGUEIREDO DIAS, Jorge. Questões Fundamentais de Direito Penal Revisitadas. p. 131. 58 STRATENWERTH, Günter. Qué aporta la teoría de los fines de la pena? p. 21. 59 SANGUINÉ, Odone. Função Simbólica da Pena. Fascículos de Ciências Penais, Porto Alegre, n. 3, 1992, p. 114-126, jul.-set. 1992. 60 KREBS, Pedro. Teorias a respeito da finalidade da pena. Revista Ibero-Americana de Ciências Penais. n. 5, p. 120, jan.-abr. 2002. DIREITO PENAL 90 a) privativas de liberdade; b) restritivas de direito; e c) pecuniárias. O Código Penal prevê duas espécies de penas privativas de liberdade, a reclusão e a detenção, as quais se distinguem porque apenas a reclusão: a) pode ser iniciada em regime fechado (CP, art. 33); b) enseja perda do poder familiar, tutela ou curatela (CP, art. 92); c) não permitiria tratamento ambulatorial ao inimputável (CP, art. 97), o que veio, porém, a ser relativizado pela jurisprudência, como veremos ao tratar das medidas de segurança. Além disso, a concessão de fiança é restrita (art. 323, CPP)61 e a possibilidade de decretação de prisão preventiva mais ampla (art. 313, CPP)62. Por fim, a interceptação telefônica somente é admissível para a investigação de crimes apenados com reclusão (art. 2º, III, Lei n. 9.296/96). Além dessas duas, a LCP traz, como terceira espécie de PPL, a prisão simples (art. 6º, LCP). O art. 44, CP, alterado pela Lei n. 9.714/98, prevê as seguintes modalidades de PRDs: a) prestação pecuniária; b) perda de bens e valores, c) prestação de serviços à comunidade ou a entidades públicas; d) interdição temporária de direitos; e) limitação de fim-de-semana. As modalidades de interdição de direitos previstas no CP estão arroladas no art. 47, devendo ser considerado revogado o inc. III, pois a suspensão ou autorização de habilitação para dirigir veículo em decorrência de crime culposo de trânsito (art. 57, CP) é matéria que hoje se encontra submetida ao regime do CBT, que a regulou de forma integral. A Lei n. 9.605/98, que dispõe sobre os crimes ambientais, trouxe, em seu art. 8º, cinco figuras de penas restritivas: prestação de serviços à comunidade; interdição temporária de direitos; suspensão parcial ou total de atividades; prestação pecuniária e recolhimento domiciliar. Esta Lei, nos arts. 21 e 22, prevê as penas aplicáveis às pessoas jurídicas. 61 Art. 323. Não será concedida fiança: I - nos crimes de racismo; II - nos crimes de tortura, tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, terrorismo e nos definidos como crimes hediondos; III - nos crimes cometidos por grupos armados, civis ou militares, contra a ordem constitucional e o Estado Democrático; 62 Art. 313. Nos termos do art. 312 deste Código, será admitida a decretação da prisão preventiva: I - nos crimes dolosos punidos com pena privativa de liberdade máxima superior a 4 (quatro) anos; II - se tiver sido condenado por outro crime doloso, em sentença transitada em julgado, ressalvado o disposto no inciso I do caput do art. 64 do Decreto-Lei no 2.848, de 7 de dezembro de 1940 - Código Penal; III - se o crime envolver violência doméstica e familiar contra a mulher, criança, adolescente, idoso, enfermo ou pessoa com defici- ência, para garantir a execução das medidas protetivas de urgência; Parágrafo único. Também será admitida a prisão preventiva quando houver dúvida sobre a identidade civil da pessoa ou quando esta não fornecer elementos suficientes para esclarecê-la, devendo o preso ser colocado imediatamente em liberdade após a identificação, salvo se outra hipótese recomendar a manutenção da medida. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del3689.htm#art312... http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del2848.htm#art64i http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del2848.htm#art64i http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del2848.htm#art64i http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del2848.htm#art64i DIREITO PENAL 91 Por fim, há as penas pecuniárias, que são a multa propriamente dita, prevista no CP e em leis especiais e a multa reparatória, prevista no CTB, a qual se diferencia da multa em sentido estrito por reverter em favor da vítima, sendo descontada da indenização civil (art. 297). A seu turno, o CDC, em seu art. 78, traz as seguintes penas: Art. 78. Além das penas privativas de liberdade e de multa, podem ser impostas, cumulativa ou alternadamente, observado o disposto nos arts. 44 a 47, do CP: I - a interdição temporária de direitos; II - a publicação em órgãos de comunicação de grande circulação ou audiência, às expensas do condenado, de notícia sobre os fatos e a condenação; III - a prestação de serviços à comunidade. A Lei de Drogas, a seu turno, inova ao prever, como penasprevistas para o usuário, além da prestação de serviços à comunidade, advertência sobre os efeitos das drogas e medida educativa de comparecimento a programa ou curso educativo (art. 28, Lei n. 11.343/06). PENA PRIVATIVA DE LIBERDADE Principal resposta penal desde o século XIX, a prisão é a mais difundida e a mais criticada das penas. Sua história e sua constante crise não apontam, porém, para sua progressiva abdicação, mas para a busca de meios de relegitimação e reforma. Com efeitos, muitas são as críticas que apontam a PPL como fator de degradação humana. Com efeito, a prisão não cumpre suas funções oficiais, dado o caráter criminógeno do cárcere e a omissão das autoridades na garantia dos direitos dos presos e no aporte de recursos compatíveis com as necessidades das penitenciárias. Nessa linha, diversos autores destacam que a pena, expressão do direito penal, cumpre funções veladas de segregação e manutenção do status quo. De todo modo, a PPL ainda é tida como uma necessidade social, devendo, porém, ser reduzida aos casos mais graves e substituída, tanto quanto possível, por alternativas mais humanas. A PPL é o gênero de que são espécies a reclusão, a detenção e a prisão simples. Embora formalmente diversas, não há diferenças ontológicas entre elas, razão pela qual a tendência moderna é a abolição da diferenciação e a adoção de uma pena única, individualizada na fase de sua execução. O Brasil, porém, adota a distinção, de modo que a pena de reclusão é reservada aos crimes mais graves e executada nos regimes aberto, fechado e semiaberto, ao passo que a detenção só admite os regimes semiaberto e aberto, salvo casos de regressão. Na prática, ante o sistema progressivo adotado pela legislação brasileira, é o regime carcerário imposto, e não a espécie da pena, que trará reflexos importantes na fase executória, enquanto as peculiaridades da reclusão e da detenção exteriorizam-se, em geral, na diferença do regime, da ordem de execução, nos efeitos da condenação e na diferença entre as espécies de medidas de segurança e, ainda, em alguns efeitos processuais. PENA DE MULTA A pena de multa, ao lado das penas privativas de direitos, constitui espécie de pena alternativa prevista na legislação penal. Trata-se de instrumento destinado a evitar o encarceramento, por prazo de curta duração, dos autores de ilícitos penais que não DIREITO PENAL 92 apresentem maior gravidade. Sua aplicação, pelo sistema dos dias-multa, será analisado adiante em item próprio. A pena de multa não se confunde com as penas restritivas de direito de prestação pecuniária e de perda de valores, embora estas também consistam em pagamento de quantia em dinheiro. Ela pode ser aplicada isoladamente, como única pena, quando assim estiver cominada no tipo penal ou quando este permitir sua escolha, pelo juiz; cumulativamente com a reclusão, a detenção e a prisão simples, quando o preceito secundário do tipo prever sua aplicação juntamente com a privação de liberdade; e em substituição à PPL, cumulada ou não com PRDs. Ressalva-se, no entanto, o entendimento de que: “Cominadas, cumulativamente, em lei especial, pena privativa de liberdade e pecuniária, é defeso a substituição da prisão por multa” (Súmula 171/STJ). A multa não paga não pode ser convertida em privativa de liberdade, pois, salvo as exceções previstas na CF, não há prisão por dívidas no ordenamento jurídico brasileiro. Assim, sua execução excede os limites da matéria penal. PENAS RESTRITIVAS DE DIREITOS Com a função de substituir as penas privativas de liberdade, as PRDs, como sistema, apareceram no ordenamento jurídico brasileiro tardiamente, com a Reforma Penal de 1984.63 Previstas no art. 43, CP, elas são uma alternativa à imposição da PPL no caso concreto, desde que presentes seus requisitos autorizadores. As PRDs são genéricas, porque sua aplicação independe da natureza do crime ou da espécie de PPL, bastando estarem presentes seus pressupostos legais; autônomas, porque não podem ser aplicadas cumulativamente com as penas privativas de liberdade, e substitutivas, haja vista a possibilidade de ocuparem o lugar da pena de prisão, prevista na parte geral do Código Penal, pressupor prévia determinação da quantidade de pena imposta.64 As espécies de penas restritivas são a prestação pecuniária, a perda de bens e valores, a prestação de serviços à comunidade ou a entidades públicas, a interdição temporária de direitos e a limitação de finais de semana. Tecnicamente, não são todas elas restritivas de direitos; não fosse a lei expressa ao dispor que a prestação pecuniária e a perda de bens e valores são duas de suas modalidades, não seria possível assim entendê-las. Por isso, autores, como Capez, subdividem-nas em PRDs em sentido estrito, quando se tratar de restrição qualquer ao exercício de uma prerrogativa ou direito, e PRDs pecuniárias, quando implicarem diminuição do patrimônio do agente ou prestação inominada em favor da vítima ou seus herdeiros. Outrossim, pode-se subdividir as PRDs em genéricas, que são aquelas que substituem as penas privativas de liberdade em qualquer crime, desde que satisfeitos os requisitos legais, e específicas, ou seja, aquelas que só substituem as penas privativas de liberdade impostas pela prática de determinados crimes (interdição temporária de direitos, salvo a pena de proibição de frequentar determinados lugares). 63 BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal. v. 1. 9 ed. São Paulo: Saraiva, 2004. pp. 503-504. 64 BOSCHI, José Antonio Paganella. Das Penas e seus Critérios de Aplicação. 3.ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2004. pp. 371-372. DIREITO PENAL 93 Os requisitos necessários à substituição da PPL serão analisados quando do estudo da aplicação da pena. Resta, aqui, salientar as especificidades de cada espécie de PRD, cuja escolha, no caso concreto, constitui a maior discricionariedade do juiz quando da substituição: PRESTAÇÃO PECUNIÁRIA Prevista no art. 45, § 1º, CP, consiste no pagamento de determinado valor em dinheiro à vítima, a seus dependentes ou à entidade pública ou privada com destinação social, à vista ou em parcelas. Sua finalidade é, pois, reparar o dano causado pelo crime, tanto que, se coincidentes os beneficiários, esse valor deverá ser deduzido da indenização cível. Por isso, o valor só será destinado a uma entidade se não houver dano a reparar ou se não houver vítima imediata. A sanção, fixada pelo juiz, deve estar de acordo com o que for suficiente para a reprovação do delito, levando-se em conta a capacidade econômica do condenado e a extensão do prejuízo causado, bem como a reprovabilidade obtida após a análise do art. 59, CP. Outrossim, ela não pode ser inferior a um nem superior a 360 salários-mínimos Prestação Inominada - Consoante o art. 43, § 2º, CP, a prestação pecuniária poderá consistir em prestação de outra natureza, desde que haja aceitação pelo beneficiário. PERDA DE BENS E VALORES Esta pena, prevista no art. 43, § 3º, CP, consiste na perda de bens móveis, imóveis ou de valores, tais como títulos de crédito, ações, entre outros. Ao permitir a dos bens do infrator sem o ônus de demonstrar sua origem ilícita, diferencia-se do perdimento regulado pelo art. 91, CP, o qual constitui efeito secundário extrapenal da condenação e atinge bens e valores de natureza e origem ilícitas. Em regra, a perda é em favor do FUNPEN, e o seu valor terá como teto o montante do prejuízo causado ou do provento obtido pelo agente ou terceiro, em consequência da prática do crime. PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS À COMUNIDADE OU A ENTIDADES PÚBLICAS Trata-se de uma das espécies de PRDs em sentido estrito, consistente na atribuição de tarefas gratuitas ao condenado (art. 46, §1º, CP) junto a entidades assistenciais, hospitais, escolas, orfanatos e outros estabelecimentoscongêneres, em programas comunitários ou estatais (art. 46, §2º, CP). Uma vez imposta, tem o condenado o dever de prestar determinada quantidade de horas de trabalho não remunerado e útil para a comunidade durante o tempo livre, em prol de pessoas necessitadas ou para fins comunitários, restando afastadas, desde logo, entidades privadas, a fim de se evitar seu locupletamento. As atividades atribuídas ao condenado devem guardar estreita correspondência com suas aptidões pessoais e não coincidir com a jornada normal de trabalho, de forma a não alterar sua rotina diária (art. 46, § 3º, CP). Objetiva-se, com isso, preservar o vínculo empregatício e as relações de trabalho e família do condenado. A carga horária é de uma hora por dia de condenação, mas, embora guarde relação com o tempo de duração da PPL (art. 55, CP), nada impede que, sendo superior a um ano, a prestação seja cumprida em prazo menor, nunca inferior à metade do prazo daquela (art. 46, § 4º, CP). Essa espécie de restritiva não pode, porém, ser aplicada a penas inferiores a seis meses. O início da execução da prestação de serviços dá-se com a intimação e comparecimento do condenado no dia, hora e local indicados, a fim de cumprir as tarefas. As entidades, a seu DIREITO PENAL 94 turno, devem remeter mensalmente ao juízo de execução relatórios circunstanciados das atividades desenvolvidas pelo condenado, ausências, ou outras (art. 150, LEP). INTERDIÇÃO TEMPORÁRIA DE DIREITOS É a única modalidade de pena restritiva que se traduz numa limitação da capacidade jurídica do condenado, destituindo-o de um ou mais direitos. Segundo art. 47, CP, as interdições temporárias podem ser as seguintes: a) Proibição do exercício de cargo, função ou atividade pública, bem como de mandato eletivo: trata-se de pena específica, porque só pode ser aplicada ao crime cometido no exercício do cargo efetivo ou função, com violação de deveres a ele inerentes (art. 56, CP), e desde que preenchidos os requisitos legais da substituição. Para Celso Delmanto, quanto ao mandato eletivo, o dispositivo seria inconstitucional, pois os parlamentares só podem ser impedidos de exercê-lo na forma da CF. b) Proibição do exercício de profissão, atividade ou ofício que dependam de habilitação especial, autorização ou licença do Poder Público: também se trata de restritiva específica, pois só se aplica aos crimes cometidos no exercício da profissão ou atividade e se houver violação de deveres a elas relacionados, como, por exemplo, a profissão de médico, dentista, engenheiro, entre muitas. c) Suspensão de autorização ou habilitação para dirigir veículo: em minha posição a suspensão ou autorização de habilitação para dirigir veículo em decorrência de crime culposo de trânsito (art. 57, CP) é matéria que hoje se encontra submetida ao regime do CBT, que a regulou de forma integral. d) Proibição de frequentar certos lugares: por fim, o inc. IV do art. 47, adicionado pela Lei n. 9.714/98, prevê a proibição de frequentar certos lugares, restrição cujo intuito é o de afastar o condenado de determinados locais que, tendo alguma relação com o fato praticado, possam dar ensejo à reincidência. e) Proibição de inscrever-se em concurso, avaliação ou exame públicos, principalmente nos crimes previstos no art. 311-A, CP, que criou este inc. V do art. 47, CP, durante o prazo de duração da PPL substituída. LIMITAÇÃO DE FIM DE SEMANA Trata-se de uma prisão descontínua, com a intenção de evitar o afastamento do apenado de sua vida diária. Consiste na obrigação do condenado de permanecer aos sábados e domingos, por cinco horas diárias, em casa de albergado (art. 93, LEP) ou outro estabelecimento adequado. Durante esse período, poderão ser ministrados cursos e palestras ou atribuídas atividades educativas (art. 48, parágrafo único, CP, e art. 152, LEP). Não obstante a preocupação educativa desta modalidade de restritiva, ela não tem sido aplicada na prática, quer ante a falta de interesse que palestras de longa duração normalmente despertam,65 quer pela ausência de infraestrutura para sua execução. COMINAÇÃO DA PENA 65 CAPEZ, Fernando. CP Comentado. Inédito. DIREITO PENAL 95 Em caso de cominação alternativa a opção consiste na primeira operação de aplicação da pena (art. 59, I, CP). Abstratamente, as penas podem ser cominadas de forma: a) isolada, prevendo a lei uma só pena, como por exemplo, a reclusão; b) cumulativa, prevendo a lei a aplicação de PPL e multa, por exemplo; c) alternativa, quando é deixada ao julgador a opção de aplicar PPL ou multa. Quando as penas são cominadas alternativamente, a primeira operação a ser realizada é a escolha da pena aplicável, dentre as cominadas (art. 59, I, CP), o que deve ser fundamentado, sob pena de nulidade (STF, HC 78.279, Galvão, DJ. 5.5.99). Exemplifica-se com a ameaça (art. 147, CP) e os crimes contra a ordem econômica previstos no art. 4º, Lei n. 8.137/90, aos quais são cominadas, de forma alternativa, detenção ou multa, caso em que a opção por aquela deverá ser fundamentada. Já na Lei de Drogas, todas as penas podem ser aplicadas de forma isolada ou cumulativa (art. 27, Lei n. 11.343/06), o que confere bastante liberdade ao julgador, em caso de delitos cometidos para consumo pessoal. Caso a opção seja por aplicação de pena de multa, apenas, não deverá ser aplicado o método trifásico, considerando-se como judiciais eventuais circunstâncias que pudessem constituir-se em agravantes, atenuantes, causas de aumento ou de diminuição. O mesmo vale para os casos em que a lei autoriza a aplicação exclusiva da pena de multa, afastando-se a PPL abstratamente cominada, como previsto, por exemplo, nos arts. 155, § 2º, 171, § 1º, e 168-A, § 3º, CP. Os limites das penas privativas de liberdade são estabelecidos em cada tipo penal, no preceito secundário da norma incriminadora (art. 53, CP). Já as PRDs, que tem natureza substitutiva (art. 44, CP), não são cominadas em cada tipo, mas genericamente. A sua duração, nos casos de prestação de serviços à comunidade ou a entidades públicas, interdição temporária de direitos e limitação de fim de semana é a mesma da PPL, substituída, ressalvada e a possibilidade de cumprimento em período menor, nunca inferior à metade do tempo da PPL (art. 46, § 4º, CP). A seu turno, a pena de multa, que pode ser cominada originariamente (art. 58, caput, CP) ou ter natureza substitutiva (art. 58, parágrafo único, CP), tem seus limites definidos no art. 49, CP, em qualquer caso, salvo previsão em lei especial, como será visto no item dedicado à aplicação da pena de multa. APLICAÇÃO DA PENA Reunidos os elementos de uma conduta punível – ação típica, antijurídica e culpável – e ausente qualquer escusa absolutória ou causa de extinção da punibilidade, resta ao juiz, por ocasião da sentença condenatória, aplicar a sanção penal prevista. Para tanto, deverá ele estabelecer, dentre as cominadas, a pena aplicável; a seguir, graduar a pena escolhida dentro dos limites legais, determinando também seu regime de cumprimento; e, por fim, perquirir sobre a possibilidade de substituição da pena ou de concessão da sua suspensão condicional (sursis). DIREITO PENAL 96 A individualização judicial da pena, portanto, consiste na aplicação da pena prevista em abstrato pelo legislador no caso concreto. Trata-se de uma garantia constitucional do réu, razão pela qual deve ser sempre fundamentada, não de forma vazia, com a repetição dos dizeres da lei e em termos abstratos, mas com a indicação precisa dos fatos provados nos autos.66 ELEMENTARES E CIRCUNSTÂNCIAS DO DELITO Os fatores que integram a descrição da conduta típica são chamados elementares do tipo, ou seja, são os elementos essenciais à própria constituição do delito, diferenciado-os de todos os outros. Existem, porém, outrosfatores que, não sendo essenciais à configuração ou à qualificação do tipo, interessam na aplicação da pena. São as circunstâncias do crime, que podem ser circunstâncias judiciais, circunstâncias legais e causas de aumento e diminuição da pena, estas também denominadas majorantes e minorantes. Qualificadoras - As qualificadoras, embora não sejam elementares do tipo, também não entram nas fases de fixação da pena. Elas são elementos do tipo derivado, ou seja, são circunstâncias do crime embutidas num outro tipo penal independente. Com seu reconhecimento, altera-se a própria pena em abstrato, partindo o juiz, desde o início, de outros patamares para a aplicação da pena.67 Non bis in idem - Definido certo aspecto como uma elementar ou uma qualificadora do crime, não pode ele ser tomado em consideração pelo juiz no cálculo da pena, porque já houve sua valoração pelo legislador, ao estabelecer a figura típica. Do mesmo modo, considerada uma circunstância em uma das fases da aplicação da pena, esgota-se sua função, não se podendo ponderá-la novamente em qualquer outro momento. Proíbe-se, pois, o bis in idem, ou seja, a dupla valoração de um mesmo aspecto. Na mesma linha, um fator que deveria ser considerado na segunda ou na terceira fase não pode integrar o cálculo da primeira fase, porque esta é preterida àquelas.68 Outrossim, na hipótese de haver, no caso concreto, duas qualificadoras, uma delas alterará os patamares da pena em abstrato e a outra será usada ou como agravante, se prevista na lei, ou como circunstância judicial. APLICAÇÃO DA PPL O Código Penal, em seu art. 68, consagrou o critério trifásico de fixação da pena, defendido por Nelson Hungria. De acordo com tal sistema, o juiz, julgando procedente a denúncia, deve fixar a pena passando por três fases distintas. Primeiramente, a pena-base será fixada atendendo aos critérios do art. 59, CP, ou seja, as circunstâncias judiciais; a seguir, serão consideradas as circunstâncias atenuantes e agravantes genéricas, a fim de determinar a pena provisória; e, por fim, analisar-se-ão as causas de aumento e de diminuição de pena, chegando-se, então, na pena definitiva. A desobediência ao critério trifásico, porque representa a garantia da individualização da pena ao réu, gera nulidade absoluta. Resta, pois, analisar as três distintas fases de aplicação da pena. 66 AGUIAR JÚNIOR, Ruy Rosado. Aplicação da Pena. 4. ed. Porto Alegre: Ajuris, 2003. p. 2. 67 BOSCHI, José Antonio Paganella. Das Penas e seus Critérios de Aplicação. 3.ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2004. p. 215. 68 AGUIAR JÚNIOR, Ruy Rosado. Op. cit., p. 50. DIREITO PENAL 97 PRIMEIRA FASE - CIRCUNSTÂNCIAS JUDICIAIS Na primeira fase de aplicação da sanção penal, deve o juiz analisar e valorar as circunstâncias judiciais, a fim de determinar a pena-base. Pena-base - A pena-base é o ponto de partida, ou seja, a pena inicial fixada em concreto. No seu cálculo, o juiz deve buscar adequar a sanção ao perfil psicossocial do agente e às necessidades de reprovação e punição do crime. Assim, a pena-base é aquela que o juiz aplicaria, em definitivo, se não existissem causas legais de modificação definidas como agravantes, atenuantes, majorantes e minorantes, de incidência obrigatória nas fases subsequentes. Circunstâncias judiciais - São oito e estão previstas no art. 59, CP, sendo assim denominadas porque sua valoração é feita pelo julgador, de acordo com o caso concreto. Tais circunstâncias interagem mutuamente, uma esclarecendo a outra, e são de duas ordens: uma subjetiva, que engloba a culpabilidade, os antecedentes, a conduta, a personalidade e os motivos, e outra objetiva, que são as circunstâncias e as consequências do fato e o comportamento da vítima. A lei não define quais devem ser consideradas favoráveis ou desfavoráveis ao réu, mas elas fornecem um roteiro para a identificação do homem concreto e de sua história, para que a censura pela prática do fato possa ser graduada segundo a culpabilidade de seu autor. Por isso, sua análise deve ocorrer sempre em relação a cada um dos acusados, separadamente, mesmo em caso de coautoria ou participação. Outrossim, a valoração de cada uma das circunstâncias judiciais exige fundamentação minuciosa; a simples menção aos critérios enumerados no art. 59, CP, não é suficiente. Saliente-se, ainda, que as moduladoras do art. 59, CP, são importantes não apenas para fixar a pena-base, elas são consideradas para a escolha da pena aplicável dentre as cominadas, para fixar o regime inicial de cumprimento e, ainda, para avaliar a possibilidade de substituição da pena por outra espécie, nas hipóteses legais. Ademais, os arts. 77, II, CP, e 89, Lei n. 9.099/05, estabelecem que o sursis e a suspensão condicional do processo só serão aplicados se assim indicarem essas circunstâncias, que são as seguintes: a) Culpabilidade: A primeira circunstância judicial é também a mais importante, pois a pena não pode superar a medida da culpabilidade. Cumpre ao juiz, aqui, avaliar o grau de reprovabilidade da conduta, de acordo com as condições pessoais do agente e as características do crime. Isso não significa, porém, que se deva levar em conta a gravidade da infração em si, porque esta já foi considerada para a escolha da natureza e dos limites da pena. Importa, na sua valoração, o conjunto de circunstâncias que tornam mais ou menos censurável a conduta do agente no caso concreto. Admite-se que se leve em conta, neste momento, a exigibilidade de conduta diversa, pois seria o único elemento da culpabilidade passível de ser mensurado. b) Antecedentes: São todos os fatos penais pretéritos ao crime, praticados pelo réu, que lhe retiram a condição de primário. Na lição de Boschi, eles refletem a tradição do sistema punitivo de considerar os fatos da vida, a personalidade ou o caráter – direito penal do autor – na graduação da censura. Não há consenso sobre o que pode configurar “maus antecedentes”. A teor da Súmula 444 do STJ: “É vedada a utilização de inquéritos policiais e ações penais em curso para agravar a pena-base”. DIREITO PENAL 98 Ao contrário da reincidência, que deixa de gerar efeitos cinco anos do término do cumprimento ou da extinção da pena, os efeitos negativos dos antecedentes não têm limite temporal em lei, afigurando um caráter perpétuo. Por fim, se eventual condenação enquadrar-se na hipótese de reincidência, incidirá ela na segunda fase de aplicação da pena, e não aqui, evitando-se, assim, o bis in idem. De forma diversa, se os fatos pretéritos forem alguns enquadráveis no art. 59, CP, e outros na reincidência, cada qual deverá receber direcionamento próprio. c) Conduta social: É o aspecto que reflete o caráter do indivíduo, servindo de parâmetro para melhor compreensão do contexto pessoal que poderia ter originado o crime de maneira mais ou menos reprovável. Sua valoração é sempre em relação à sociedade, na qual o acusado está integrado, consoante o modo pelo qual ele exerceu os papéis que lhe foram reservados (profissão, relacionamento familiar e social, entre outros). Por isso, sua prova, em geral, é oral, sob forma de “testemunhas abonatórias”. d) Personalidade: Tal circunstância é mais complexa do que simples manifestações do caráter ou do temperamento do agente e, por isso, não é fácil determinar-lhe o conteúdo. Também não há um padrão a ser usado comparativamente com a personalidade do réu para valorá-la. Pode-se dizer, contudo, que, mais do que uma singela avaliação que as pessoas fazem umas das outras, a personalidade é uma dinâmica dos traços emocionais e comportamentais que caracterizam o indivíduo em sua vida cotidiana e que se modificam ao longo de sua história, é um conjunto de dados externos e internos que moldam o perfil da pessoa. Em geral, no entanto, o mergulho na história pessoal e familiardo réu é muito superficial, o que impede uma correta avaliação. De todo modo, em um direito penal da culpabilidade, é preciso revisar a ideia de que os problemas relacionados à personalidade são fontes de maior periculosidade.69 e) Motivos do crime: Não há conduta humana sem motivo, sem finalidade. Assim, os motivos são os fatores que animaram o agente a praticar o delito, ou seja, são os precedentes psicológicos do crime. Eles podem ser valorados como positivos, negativos, nobres ou vis. Quem age por sentimento altruísta deve receber reprimenda mais branda do que aquele que o faz por vingança, por exemplo. A motivação, porém, pode integrar a própria definição típica, assim como pode, ainda, ser uma qualificadora, majorante, minorante, agravante ou atenuante. Em todas essas hipóteses, os motivos não serão avaliados como circunstância judicial, porque não pode haver dupla valoração da mesma circunstância. f) Circunstâncias do crime: São as particularidades do fato, ou seja, todas as suas singularidades, todos os demais elementos, de ordem externa e interna, que cercaram o fato. Dizem respeito, portanto, à forma como ocorreu o crime. No crime de tráfico de entorpecentes, por exemplo, a qualidade e a quantidade da droga apreendida influem nessa circunstância. Em outras hipóteses, podem aqui influir o tempo, o local, a arma utilizada, entre outras. Há que atentar, porém, para a hipótese de alguma das circunstâncias do crime ser valorada na segunda ou terceira etapas do método trifásico, quando, então, sua análise deve- se dar posteriormente. g) Consequências do crime: São as consequências que se projetam para além do fato típico, as quais podem variar substancialmente sem modificar a natureza do resultado, ainda que este integre o tipo. No homicídio, por exemplo, não se pode valorar negativamente as 69 BOSCHI, José Antonio Paganella. Das Penas e seus Critérios de Aplicação. 3.ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2004. p. 213. DIREITO PENAL 99 consequências em razão da morte da vítima, porque esse resultado é necessário para a própria configuração do crime.70 h) Comportamento da vítima: A importância atribuída ao comportamento da vítima decorre dos avanços da chamada vitimologia e, em verdade, tal circunstância está muito ligada à culpabilidade. Seu objetivo não é o de reprovar o comportamento da vítima, e sim o de minorar a resposta penal ao autor do fato punível, em razão de ter havido um especial estímulo à prática delitiva. Para tanto, porém, há de ser demonstrado que o comportamento anterior da vítima, de alguma forma, estimulou a prática do crime ou influenciou negativamente o agente. Cálculo da pena-base - Nesta fase, o juiz não pode ultrapassar os limites legais previstos em abstrato para a infração penal. Ainda assim, com as circunstâncias judiciais, abre-se um amplo espaço discricionário ao juiz para estabelecer a pena-base, a qual deve partir da pena mínima cominada ao tipo e ser a “necessária e suficiente para a reprovação e prevenção do crime”. A lei não define os critérios para sua fixação, mas a jurisprudência tem apontado os seguintes parâmetros: - quando todas as circunstâncias judiciais forem valoradas em favor do réu, por ser diminuto o grau de reprovabilidade da conduta, a pena-base deve ficar no mínimo legal; - quando algumas dessas circunstâncias forem valoradas negativamente, a pena deve ser quantificada pouco acima do mínimo legal; - por fim, caso o conjunto das circunstâncias seja desfavorável, a pena-base, para refletir o grau máximo de censura, deve aproximar-se do termo médio. O termo médio, não mais adotado pelo Código Penal desde a Reforma de 1984, é o resultado da soma da pena mínima e da máxima cominada ao crime dividido por dois e serve, aqui, como patamar para contenção de excessos. SEGUNDA FASE - AGRAVANTES E ATENUANTES Na segunda fase do cálculo, são consideradas as atenuantes e as agravantes genéricas, a fim de determinar a pena provisória, atendendo aos critérios de necessidade e suficiência e, quando concorrerem ambas no caso concreto, dando ênfase às circunstâncias preponderantes. Agravantes e atenuantes genéricas - As agravantes estão previstas nos arts. 61 e 62, CP; as atenuantes, nos arts. 65 e 66, CP. Ambas são circunstâncias legais genéricas, assim denominadas porque estão na parte geral do Código, sendo, portanto, aplicáveis a todo delito. São, ainda, obrigatórias e, no caso das agravantes, taxativas. Elas trazem consigo a carga de valor estabelecida a priori pelo legislador e sinalizam a direção a seguir na determinação da pena provisória.71 Agravantes - Quando não constituem elementar ou qualificadora do crime, as agravantes genéricas a serem consideradas são as seguintes: Reincidência - Está prevista como agravante no art. 61, I, CP, considerado constitucional pelo STF (RE 453000, M. Aurélio, Pl., u., 4.4.13). Segundo o art. 63, CP, é reincidente o agente 70 BOSCHI, José Antonio Paganella. Op. cit., pp. 216-217. 71 BOSCHI, José Antonio Paganella. Das Penas e seus Critérios de Aplicação. 3.ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2004. p. 244. DIREITO PENAL 100 que comete novo crime depois de transitar em julgado a sentença que, no país ou no estrangeiro, o tenha condenado por crime anterior, ou quem pratica uma contravenção depois do trânsito em julgado de sentença condenatória por qualquer crime anterior, no Brasil ou no exterior, ou, ainda, nos termos do art. 7º, Lei de Contravenções Penais, quem pratica, no Brasil, uma contravenção depois do trânsito em julgado de uma sentença condenatória por outra contravenção penal. Não há, portanto, definição legal do que seja reincidência, mas tão somente a indicação das condições de sua verificabilidade. Ela se mostra, pois, como uma relação entre o segundo delito e a condenação anterior. De acordo com a Súmula 241/STJ: “A reincidência penal não pode ser considerada como circunstância agravante e, simultaneamente, como circunstância judicial”. O art. 64, CP, estabelece que a condenação anterior não prevalece para fins de reincidência depois de cinco anos da data do cumprimento da pena, computando-se, nesse prazo, o período de prova do sursis ou do livramento condicional, se não tiver havido revogação do benefício. Ademais, a reincidência só se prova por certidão judicial da sentença condenatória transitada em julgado. Para fins de reincidência, não se consideram os crimes políticos e os crimes militares próprios, ou seja, aqueles previstos no Código Penal Militar sem descrição semelhante na legislação comum (deserção, insubordinação, ou outro). Outrossim, não será reincidente aquele que nunca foi condenado anteriormente; o que já foi condenado por outro crime ou contravenção, quando o segundo fato não foi posterior à sentença definitiva ou quando o fato anterior era uma contravenção e o posterior, um crime; e o réu que retornou à primariedade depois de transcorrido o lapso temporal de cinco anos. A sentença que concede o perdão judicial não induz à reincidência, mas a condenação somente à pena de multa, sim. Saliente-se, por fim, que, além de agravar a pena, o reconhecimento da reincidência gera outros efeitos penais: impede a substituição da PPL por restritiva de direitos (em se tratando de reincidência específica) ou multa e a concessão de sursis, se for por crime doloso; aumenta o prazo de cumprimento da pena para obtenção do livramento condicional e impede sua concessão quando for reincidência específica em crimes hediondos; é causa obrigatória ou facultativa de revogação do sursis, dependendo da hipótese legal; é causa obrigatória de revogação do livramento condicional, se o agente é condenado à PPL por crime cometido durante o período de prova; interrompe a prescrição da pretensão executória e aumenta seuprazo em 1/3; revoga a reabilitação quando a condenação posterior não for só de multa; impede o reconhecimento do privilégio nos crimes que o preveem; obriga o condenado a iniciar o cumprimento de pena em regime mais gravoso; impossibilita a transação penal nas infrações de menor potencial ofensivo; e impede a suspensão condicional do processo. Agravantes aplicáveis apenas aos crimes dolosos - São aquelas do art. 61, II, CP: a) por motivo fútil ou torpe: fútil é o motivo desproporcional, insignificante; torpe é o motivo que gera repugnância, como a vingança e a promessa de recompensa; b) para facilitar ou assegurar a execução, a ocultação, a impunidade ou a vantagem de outro crime: pressupõem uma relação de conexidade com outro crime anterior, concomitante ou posterior. c) à traição, emboscada, dissimulação ou qualquer outro recurso que dificulte ou torne impossível a defesa do ofendido: são hipóteses em que o agente quebra o dever de lealdade e colhe a vítima repentinamente, deixando-a sem condições de defender-se. Autoriza-se a interpretação extensiva para a identificação de outros DIREITO PENAL 101 meios equiparáveis àqueles enumerados exemplificativamente na lei. No homicídio, essas circunstâncias servem como qualificadoras, não agravando, portanto, a pena; d) com emprego de veneno, fogo, explosivo, tortura ou outro meio insidioso ou cruel, ou de que podia resultar perigo comum: meio insidioso é aquele potencialmente capaz de ocultar a danosidade da conduta do agente; cruel é o meio impiedoso, que causa intenso sofrimento à vítima. O legislador, aqui, adotou a mesma técnica da alínea anterior, permitindo sua interpretação extensiva; e) contra ascendente, descendente, irmão ou cônjuge: a maior reprovação da conduta decorre da quebra dos deveres de auxílio mútuo, fraternidade e respeito decorrentes dos laços de parentesco. A agravante, porém, não inclui a união estável, porque não se pode proceder a uma interpretação extensiva em desfavor do réu; f) com abuso de autoridade ou prevalecendo-se de relações domésticas, de coabitação ou hospitalidade, ou com violência contra a mulher na forma da lei específica: aqui, a agravante fundamenta-se no fato de que o agente, diante de uma relação privada, quebra uma expectativa de fraternidade e assistência; g) com abuso de poder ou violação de dever inerente a cargo, ofício, ministério ou profissão: nesses casos, há um desvio por parte de quem está obrigado a um respeito maior à lei, violando-a, a despeito disso, quando do exercício de determinada função; h) contra criança, maior de sessenta anos, enfermo ou mulher grávida: a agravação da pena decorre da menor capacidade de resistência da vítima em relação ao agente; i) quando o ofendido estava sob a imediata proteção da autoridade: agrava-se a pena, nessa hipótese, a fim de tutelar a integridade do indivíduo agredido e o respeito à autoridade pública; j) em ocasião de incêndio, naufrágio, inundação ou qualquer calamidade pública ou de desgraça particular do ofendido: quem se aproveita da tragédia alheia para praticar crimes merece reprimenda penal mais intensa; l) em estado de embriaguez preordenada: aqui, diferentemente da embriaguez decorrente de caso fortuito ou de força maior, que isenta de pena, o agente resolve, deliberada e conscientemente, beber para criar a coragem necessária para praticar o crime. Pela teoria da actio libera in causa, o agente responde pelo delito com a pena agravada. Agravantes em concurso de pessoas - Consoante os incs. I a IV do art. 62, CP, também tem a pena agravada quem: I - promove ou organiza a cooperação no crime ou dirige a atividade dos demais agentes (autoria intelectual); II - coage ou induz outrem à execução material do crime (coação e induzimento); III - instiga ou determina a cometer o crime alguém sujeito à sua autoridade, ou não- punível em virtude de condição ou qualidade pessoal (instigação e determinação); IV - se executa o crime, ou dele participa, mediante paga ou promessa de recompensa (motivo torpe). Atenuantes - As atenuantes genéricas necessariamente abrandam o rigor da pena, mas as hipóteses da lei não são taxativas, porque o art. 66, CP, permite ao juiz a atenuação da pena DIREITO PENAL 102 em razão de circunstância relevante, ainda que não expressamente prevista. Consoante o art. 65, CP, as atenuantes genéricas são as seguintes: I - Réu menor de vinte e um anos, na data do fato, ou maior de setenta anos, na data da sentença: a menoridade é um aspecto da personalidade e, consoante a jurisprudência, é a circunstância legal genérica que prepondera sobre todas as outras. Na perspectiva do legislador, dada sua imaturidade psíquica e física, o menor de idade ainda não dispõe de pleno domínio sobre os fatos da sua conduta; devendo, portanto, ter sua pena diminuída. A prova da menoridade necessita de documento hábil, qual seja, a certidão de nascimento (Súmula 74/STJ). II - Desconhecimento da lei: a ignorância da lei, ao contrário do erro de proibição inevitável, com o qual não se confunde, não isenta o agente de pena, mas pode haver, nesta fase, uma diminuição. III - a) Motivo de relevante valor social ou moral: o motivo social é o que se relaciona ao interesse coletivo, o moral, ao interesse particular, e ambos, por razões éticas, são fatores de abrandamento da pena. III - b) Evitação das consequências e reparação do dano: o agente que, por sua espontânea vontade e com eficiência, procura, logo após o crime, evitar-lhe ou minorar-lhe as consequências, ou repara o dano antes da sentença de primeiro grau, tem sua pena atenuada, porque demonstrado seu arrependimento. Essas circunstâncias não se confundem com a desistência voluntária ou o arrependimento eficaz, porque pressupõem a consumação delitiva. III - c) Coação resistível, cumprimento de ordem de autoridade superior, ou influência de violenta emoção, provocada por ato injusto da vítima: são casos em que o agente podia ter resistido à coação, em que a ordem era manifestamente ilegal ou em que houve influência, mas não domínio, de violenta emoção. Em todos os casos, a conduta é típica, mas o nível de censura do agente é mais brando. III - d) Confissão espontânea: o réu não é obrigado a fazer prova contra si, daí decorrendo seu direito ao silêncio, sem que isso implique prejuízo à sua defesa. Valora-se positivamente, porém, a conduta daquele que confessa a autoria do crime perante a autoridade. Espontânea é a confissão produzida sem que tenha sido provocada, embora alguns julgados tenham decidido pelo reconhecimento da atenuante independentemente de outros requisitos. III - e) Influência de multidão em tumulto, se não o provocou: trata-se da influência das massas humanas sobre o comportamento do indivíduo, afetando sua boa compreensão da realidade. Atenuantes inominadas - O art. 66, CP, prevê, ainda, a possibilidade de ser atenuada a pena em razão de circunstâncias relevantes, anteriores ou posteriores ao crime, ainda que não previstas na lei. Assim, casos de doença terminal, crimes praticados em estado de absoluta miserabilidade, co-culpabilidade, entre outros podem, por razões éticas, justificar a redução da pena.72 72 BOSCHI, José Antonio Paganella. Das Penas e seus Critérios de Aplicação. 3.ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2004. pp. 281-283. DIREITO PENAL 103 Cálculo da Pena Provisória - para a fixação da pena provisória, o exame das agravantes deve preceder ao das atenuantes, para que se evite o risco de se fazer incidir uma atenuante caso a pena já esteja fixada no mínimo legal, embora a ordem legal seja outra. Ademais, há que se atentar para o fato de que, embora de incidência obrigatória, as agravantes pressupõem, para sua incidência, que o crime seja doloso. Se culposo, tem-se admitido apenas a aplicação das circunstânciasde natureza objetiva, como a reincidência. Ocorre que, ao contrário das causas de aumento ou de diminuição de pena, as agravantes e atenuantes não têm prefixados seus quantitativos de influência na fixação da pena, de modo que o montante de aumento ou diminuição em razão delas fica ao prudente arbítrio do juiz. Na prática, o critério mais usual é o da compensação entre agravantes e atenuantes, sempre respeitado o limite quantitativo, quando for o caso, de 1/6 para cada uma dessas circunstâncias, porque é este o limite mínimo fixado para as majorantes e minorantes, cujos efeitos sobre a pena devem ser maiores.73 De acordo com a Súmula 231/STJ: “A incidência da circunstância atenuante não pode conduzir à redução da pena abaixo do mínimo legal”. Assim, se a pena-base já estava no mínimo, a presença de uma atenuante não ocasiona nenhuma modificação, pois ela não teria força para trazer a pena provisória abaixo do limite cominado. Do contrário, estaria o Judiciário invadindo competência própria do Legislativo. No entanto, há julgados no sentido de que a presença de uma atenuante pode, sim, levar a pena provisória para aquém do mínimo previsto em lei, especialmente quando há causas de aumento a serem consideradas na fase subsequente. Concurso entre atenuantes e agravantes - Havendo duas agravantes ou duas atenuantes, no mesmo sentido, ambas serão aplicadas sobre a pena-base. Se uma operar num sentido e outra no outro, não sendo nenhuma delas de natureza subjetiva, poderão anular-se. No caso de concurso entre atenuantes e agravantes, porém, nos termos do art. 67, CP, a pena deve aproximar-se do limite indicado pela circunstância preponderante, entendendo-se como tal aquela de natureza subjetiva, que resulta dos motivos do crime, da personalidade do agente e da reincidência. Ademais, a jurisprudência tem entendido que, apesar de não haver menção expressa, a menoridade e a confissão espontânea, por dizerem respeito diretamente à personalidade do agente, preponderam sobre as demais. Por fim, se duas circunstâncias se equivalem, uma terceira porventura existente é que determinará o sentido da modificação da pena.74 TERCEIRA FASE – CAUSAS DE AUMENTO E DE DIMINUIÇÃO DA PENA A terceira e derradeira fase do cálculo analisa as causas de aumento ou de diminuição, genéricas ou especiais, a fim de determinar a pena definitiva. Pena definitiva - Consoante o art. 68, CP, a pena definitiva é aquela determinada sobre o quantum da pena provisória, e que, a partir daí, não mais será modificada, embora possa, depois, ser substituída por pena de outra espécie, ou, ainda, ter suspensa sua execução, mediante condições, por determinado período. Causas de Aumento (Majorantes) e de Diminuição (Minorantes) - Compõem o quadro de considerações finais do método trifásico. Ao contrário das agravantes e atenuantes, elas 73 BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal. v.1. 9.ed. São Paulo: Saraiva, 2004. p. 612. 74 AGUIAR JÚNIOR, Ruy Rosado. Aplicação da Pena. 4.ed. Porto Alegre: Ajuris, 2003. p. 50. DIREITO PENAL 104 podem ser de ordem objetiva ou subjetiva e estão previstas tanto na parte geral como na parte especial do CP. Identifica-se uma causa de aumento quando a lei se vale de um índice de soma ou de multiplicação a ser aplicado sobre a pena, e uma causa de diminuição quando há um índice de redução da pena. Assim, a principal característica dessas causas diz com o uso de critérios já determinados na lei, ora em quantidades fixas, como o dobro ou a metade, ora dentro de certas margens variáveis, como de um a dois terços. Ademais, elas podem elevar a pena para além do máximo ou reduzi-la para aquém do mínimo. São exemplos de causas de aumento, o concurso formal (art. 70, CP); a continuidade delitiva (art. 71, CP); o fato de ser a vítima de homicídio doloso menor de 14 ou maior de 60 anos (art. 121, §4º, CP); a condição de funcionário público nos crimes contra a honra, se eles se deram em razão de suas funções (art. 141, II, CP); e o período de repouso noturno no delito de furto (art. 155, § 1º, CP). São exemplos de causas de diminuição, a tentativa (art. 14, II, CP); o arrependimento posterior (art. 16, CP); a participação de menor importância (art. 29, § 1º, CP); o motivo de relevante valor social ou moral no homicídio (art. 121, §1º, CP); o privilégio no crime de furto (art. 155, § 2º, CP); e a delação eficaz na extorsão mediante sequestro (art. 159, § 4º, CP). Cálculo da Pena Definitiva - No cálculo da pena definitiva, aplicam-se as causas de aumento e as de diminuição, no sistema de cascata, que leva em conta sempre a última pena encontrada. Isso significa que o cálculo da primeira modificação é feito sobre a pena provisória, mas, havendo uma segunda causa de aumento ou de diminuição, sua incidência se dá sobre a última pena já alterada por influência da anterior causa de aumento ou de diminuição.75 Em decorrência, as majorantes não podem ser compensadas pelas minorantes e vice-versa. Quando a causa de aumento ou diminuição permitir margem de opção, terá o juiz relativa discricionariedade para fixar o quantum da sua incidência. Com relação a algumas dessas causas, porém, a jurisprudência tem fixado critérios objetivos. Na tentativa, por exemplo, tem-se usado a redução de um a dois terços de acordo com a maior ou menor proximidade da consumação do delito. Por fim, dispõe o parágrafo único do art. 68, CP, que no concurso, entre si, de várias causas de aumento ou várias causas de diminuição previstas na parte especial, deve o juiz limitar-se a um só aumento ou a uma só diminuição, prevalecendo, todavia, a causa que mais aumente ou mais diminua. Se há duas majorantes ou minorantes, uma prevista na parte geral e outra na parte especial, todas elas devem ser aplicadas, valendo a regra do art. 68, parágrafo único, CP, apenas para as que se situam na parte especial do Código Penal. APLICAÇÃO DA PENA DE MULTA O Código Penal adota o sistema de dias-multa na cominação da pena de multa, o qual se compõe de duas fases distintas. Num primeiro momento, estipula-se o número de dias-multa aplicável. A seguir, passa-se à mensuração do valor pecuniário de cada dia-multa. Multiplicando-se o número de dias-multa pela importância em dinheiro que representa o valor diário, obtém-se a multa a ser paga pelo condenado. 75 Idem, p.12. DIREITO PENAL 105 Em síntese, o sistema de dias-multa permite flexibilizar e individualizar a pena, ajustando seu valor não só à gravidade do delito, mas à situação socioeconômica do condenado.76 Resta analisar, pois, as duas fases do procedimento. PRIMEIRA FASE – NÚMERO DE DIAS-MULTA A multa é calculada em dias-multa, cujos limites estão previstos no art. 49, CP. A incidência desse dispositivo é genérica, ou seja, aplica-se a todos os crimes previstos na parte especial sancionados com multa e, também, a todos aqueles previstos em lei especial, desde que não haja sistema próprio de mensuração. O número de dias-multa pode variar entre o mínimo de 10 e o máximo de 360. Dentro desses limites, sua fixação deve exprimir o conteúdo do injusto e de culpabilidade da ação e as considerações de ordem preventiva. Logo, é novamente o art. 59, CP, que norteará a imposição da sanção, porque a culpabilidade é o que fundamenta e limita a pena. Por isso, também, em caso de imposição cumulativa de PPL e multa, deve o juiz guardar simetria entre a culpabilidade medida nesta e naquela. SEGUNDA FASE – VALOR DO DIA-MULTA Na segunda fase, o julgador arbitrará a cada dia-multa determinado valor pecuniário, dentro dos limites mínimo e máximo previstos pelo legislador. Consoante o art. 49, § 1º, CP, o valor mínimo legal do dia-multa corresponde a 1/30 do maior salário mínimo mensal vigente ao tempo dos fatos. Outrossim,o patamar máximo a que pode chegar o valor do dia-multa equivale a cinco vezes esse salário. Como se vê, o montante de cada dia-multa serve exclusivamente para ajustar a pena à respectiva capacidade socioeconômica do condenado. Nos termos do art. 60, caput, CP, a situação econômica do réu é o critério a ser usado na determinação do valor de cada dia- multa. Assim, a duas pessoas acusadas pelo mesmo fato, com idêntico grau de culpabilidade, será aplicada a mesma quantidade de pena, ou seja, o mesmo número de dias-multa, mas o valor unitário a que corresponderá o dia-multa poderá ser diferente para cada um. Nessa linha, se o juiz considerar, em virtude da situação econômica do réu, que a multa, embora aplicada no máximo, ainda lhe é ineficaz, poderá ser ela elevada até o triplo, a teor do art. 60, § 1º, CP. Transitada em julgado a sentença condenatória, a multa será executada perante o juiz da execução penal77 e será considerada dívida de valor, aplicando-se a ela as normas da legislação relativa à dívida ativa da Fazenda Pública e não se podendo convertê-la em PPL (art. 51, CP), embora se possa suspendê-la se sobrevém ao condenado doença mental (art. 52, CP). REGIME INICIAL DE CUMPRIMENTO DA PPL A fixação da pena definitiva esgota as etapas do método trifásico, mas não exaure o processo de individualização judicial da pena. É que, com a imposição de pena de prisão, deve- se determinar o regime de sua execução, que pode ser fechado, semiaberto ou aberto, observado o disposto nos §§ 2º e 3º do art. 33, CP. 76 BOSCHI, José Antonio Paganella. Das Penas e seus Critérios de Aplicação. 3.ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2004. p. 588. 77 Alteração proveniente do “Pacote anticrime” (Lei 13.964/19), que especificou que a execução da multa será de competência da execução penal. DIREITO PENAL 106 O regime inicial das penas privativas de liberdade deve sempre integrar a sentença (art. 59, III, CP), mesmo que a pena venha a ser substituída ou suspensa, porque poderá haver a conversão ou revogação da medida alternativa (art. 45, CP). Por isso, sua ausência acarreta nulidade parcial da decisão. Saliente-se, porém, que, por se tratar de um sistema progressivo, o regime inicial imposto será sempre provisório, porque sujeito à progressão e à regressão, matérias de execução penal. Os fatores fundamentais para a determinação do regime inicial são a espécie e a quantidade de pena aplicada e a reincidência, os quais se somarão à análise das circunstâncias judiciais. Com efeito, existem hipóteses em que a quantidade de pena ou a lei especial impõem, obrigatoriamente, a fixação de determinado regime, como ocorre nos crimes de tortura ou decorrentes de organização criminosa. Importante destacar, no entanto, que o STF entendeu inconstitucional a imposição de regime inicial fechado aos crimes hediondos, mesmo após o advento da Lei n. 11.464/07. A pena de reclusão pode ser iniciada em qualquer dos regimes; para a detenção, porém não existe regime inicial fechado, mas tão somente o inicial semiaberto ou aberto (art. 33, caput, CP), o que não impede a submissão a tal regime em razão de posterior regressão. Já a pena de prisão simples, prevista na Lei de Contravenções Penais, deve ser executada sem rigor penitenciário, em estabelecimento especial ou seção especial de prisão comum, em regime semiaberto ou aberto, não se admitindo o regime fechado nem mesmo em caso de regressão. Assim, tem-se: REGIME INICIAL FECHADO Art. 33, § 2º, alínea a, do CP Pena de reclusão superior a 8 anos REGIME INICIAL SEMIABERTO Art. 33, § 2º, alínea b, do CP Pena de reclusão superior a 4, mas inferior a 8 anos, ou pena de detenção superior a 4 anos REGIME INICIAL ABERTO Art. 33, § 2º, alínea c, do CP Pena de reclusão ou de detenção igual ou inferior a 4 anos Em se tratando de reincidente, diz a lei que o regime inicial fechado é obrigatório. No entanto, a Súmula 269/STJ estabelece que, mesmo nesses casos, o juiz poderá fixar o regime inicial semiaberto quando a PPL imposta não exceder a quatro anos e as circunstâncias judiciais forem favoráveis. Em síntese, entende-se que ao reincidente poderá ser aplicado o regime de cumprimento imediatamente mais grave que aquele permitido em razão do critério temporal. Não obstante, como adverte Bitencourt, as alíneas b e c do art. 33 indicam faculdade ao julgador; podendo-se, pois, impor regime mais grave, o que dependerá da análise, favorável ou não, das circunstâncias do art. 59, CP, bem como da observância à vedação legal do regime inicial fechado em caso de condenação a pena de detenção. De todo modo, quando o julgador impuser regime de cumprimento mais severo do que a pena aplicada permitir, deverá motivar a decisão de maneira idônea, não se considerando como tal sua opinião pessoal sobre a gravidade em abstrato do delito (Súmulas 718 e 719/STF e Súmula 440/STJ78). 78 Súmula 718/STF. A opinião do julgador sobre a gravidade em abstrato do crime não constitui motivação idônea para a imposi- ção de regime mais severo do que o permitido segundo a pena aplicada. Súmula 719/STF. A imposição do regime de cumprimento mais severo do que a pena aplicada permitir exige motivação idônea. Súmula 440/STJ. Fixada a pena-base no mínimo legal, é vedado o estabelecimento de regime prisional mais gravoso do que o cabível em razão da sanção imposta, com base apenas na gravidade abstrata do delito. http://www.stf.jus.br/portal/jurisprudencia/listarJurisprudencia.asp?s1=718.NUME.%20NAO%20S.FLSV.&base=baseSumulas http://www.stf.jus.br/portal/jurisprudencia/listarJurisprudencia.asp?s1=719.NUME.%20NAO%20S.FLSV.&base=baseSumulas DIREITO PENAL 107 Cabe ao juiz da sentença aplicar a detração para fins de fixação do regime inicial de fixação da pena (art. 387, § 2º, CPP). SUBSTITUIÇÃO DA PPL Fixada a PPL e seu regime de execução, deve a sentença, a seguir, enfrentar a possibilidade de sua substituição por PRDs ou por multa. A manifestação expressa do juiz sobre a substituição, seja ela cabível ou não, é direito subjetivo público do réu, logo a omissão dá ensejo à nulidade parcial da decisão. Consoante o art. 44, CP, a aplicação da PRD em substituição à PPL está condicionada a determinados pressupostos objetivos e subjetivos, os quais devem estar presentes simultaneamente no caso concreto. Com isso, permite-se ao juiz eleger, com certa margem de liberdade, a espécie de pena mais adequada ao condenado. Trata-se, como lembra Bitencourt, de um sistema de cominação de pena mais flexível, cuja previsão está em capítulo autônomo, não alterando a estrutura geral do CP.79 REQUISITOS OBJETIVOS Os requisitos objetivos da substituição dizem com a natureza do crime cometido, se culposo ou doloso, com a quantidade de pena fixada em sentença e, ainda, com a ausência de violência ou grave ameaça na execução do delito. a) Natureza do crime cometido: A análise da natureza delitiva assume relevo porque, em se tratando de crime culposo, não há limite quanto à quantidade de pena aplicada: é sempre possível a substituição da PPL por restritiva de direitos. Em sendo doloso o delito, porém, torna-se imperioso analisar a presença dos demais requisitos. Importante destacar que não há mais qualquer vedação legal à substituição da PPL em restritiva de direitos em relação ao crime de tráfico de drogas. b) Quantidade da PPL aplicada: Se para os crimes culposos não há limite máximo para o quantum de pena imposta na sentença, em caso de crime doloso a PPL não pode ser superior a quatro anos, seja ela de reclusão ou de detenção.80 Assim, até o máximo de quatro anos não se faz distinção entre crimes dolosos e culposos, pois, presentes os demais requisitos, a pena de qualquer dos dois pode ser objeto de substituição; acima desse limite, admite-sea substituição somente para crimes praticados a título de culpa. Saliente-se, aqui, que o máximo de quatro anos refere-se à pena concretizada, em definitivo, na sentença, e não à pena prevista em abstrato no tipo penal. Na hipótese de concurso de crimes, discute-se se, para fins de substituição, as penas privativas de liberdade deverão ser somadas para o fim de preencher o requisito do limite de pena ou se deverão ser consideradas de forma isolada. Alguns entendem que as penas aplicadas em concurso material deveriam ser consideradas isoladamente81; outros sustentam que a substituição somente será possível se, do somatório resultante do concurso de crimes, a pena total não ultrapassar quatro anos.82 Do mesmo modo, em caso de concurso formal e 79 BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal. v. 1. 9.ed. São Paulo: Saraiva, 2004. pp. 503-504. 80 Na Lei 9605/98, que trata dos crimes contra o meio-ambiente, a pena deve ser inferior a quatro anos. 81 DELMANTO, Celso. CP Comentado. 6.ed. Rio de Janeiro: Renovar, 2002. p. 139. 82 JESUS, Damásio Evangelista de. Penas Alternativas. São Paulo: Saraiva, 1999. p. 88. DIREITO PENAL 108 crime continuado, há divergência quanto à consideração ou não, para a análise da quantidade da pena, do montante da exasperação. Também há dúvida se o art. 60, § 2º, CP, que trata da multa substitutiva da PPL igual ou inferior a seis meses, estaria ou não revogado. Parte da doutrina entende que sim, uma vez que, com a nova redação do art. 44, § 2º, CP, tornou-se possível a substituição por multa quando a PPL não exceder a um ano, desde que preenchidos os demais requisitos do referido dispositivo legal.83 Outros, porém, afirmam que o artigo continua em vigor para alcançar a hipótese de crime cometido mediante violência ou grave ameaça, cuja pena não exceda a seis meses.84 c) Ausência de violência ou grave ameaça à pessoa: Não basta, porém, ser a pena definitiva não superior a quatro anos. Exige a lei que o crime tenha sido cometido sem violência ou grave ameaça à pessoa. Assim, para que possa haver a substituição, não se considera apenas o desvalor do resultado, mas também o desvalor da ação, que, nos crimes violentos, é maior. Há, porém, que fazer uma ressalva: crimes como o de lesões corporais leves, constrangimento ilegal e ameaça, embora sejam cometidos com violência ou grave ameaça, autorizam a substituição da pena, porque são delitos de menor potencial ofensivo. Com efeito, se admitem a transação penal e a suspensão condicional do processo, medidas penais alternativas impostas antes mesmo da instauração do processo, não haveria razão para impedir sua substituição na sentença final. De outra parte, a violência contra a coisa, presente, por exemplo, no crime de furto qualificado com rompimento de obstáculo, não se enquadra nessa restrição, a qual exige que o ímpeto seja contra a pessoa. Por fim, sendo o crime culposo, admite-se a substituição ainda que tenha havido emprego de violência ou grave ameaça, como é o caso do homicídio culposo e das lesões corporais culposas, porque a lei se dirige apenas à violência dolosa. De se salientar que com a supressão, na Lei n. 11.343/06, na vedação à concessão em PRD, inclusive com resolução do Senado, não há mais óbice à substituição da PPL em tráfico de drogas por restritiva de direitos. REQUISITOS SUBJETIVOS Os requisitos subjetivos da substituição da PPL relacionam-se à reincidência e a uma prognose da suficiência da medida como sanção no caso concreto. a) Réu não reincidente em crime doloso: De acordo com o art. 44, II, CP, aquele que, depois de ter sido definitivamente condenado pela prática de crime doloso, vem a cometer novo crime doloso, fica impedido de beneficiar-se da substituição. Contudo, preceitua o § 3º do mesmo artigo que, mesmo na hipótese de ser o condenado reincidente, pode o magistrado aplicar a substituição, desde que, em face de condenação anterior, a medida seja socialmente recomendável e a reincidência não tenha se operado em virtude do mesmo delito. Da leitura sistemática desses dispositivos, infere-se que somente a reincidência específica constitui impedimento absoluto para a aplicação da restritiva de direitos em substituição à PPL. Nos demais casos de reincidência, a aplicação das penas restritivas é 83 GOMES, Luiz Flávio. Penas e Medidas Alternativas à Prisão. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2000. p. 120 e CAPEZ, Fernando. Curso de Direito Penal. v.1. 8.ed. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 380. 84 DELMANTO, Celso. Op. cit., pp. 88-89. DIREITO PENAL 109 possível, se entender o juiz que estão satisfeitos os demais requisitos legais e que a medida, no caso, é socialmente recomendável.85 b) Suficiência da substituição: Previstos no art. 44, III, CP, os critérios para a avaliação da suficiência da substituição são culpabilidade, antecedentes, conduta social e personalidade do condenado, motivos e circunstâncias do fato. Como se vê, das circunstâncias judiciais previstas no art. 59, CP, apenas aquelas de natureza objetiva, ou seja, as consequências do crime e o comportamento da vítima, não foram consideradas parâmetros para o juízo de suficiência da pena alternativa. Regras da substituição - Se a pena não for superior a quatro anos de prisão ou se o delito for culposo, estando presentes os demais pressupostos, será possível a aplicação de PRD, a qual, ante seu caráter substitutivo, terá a mesma duração da PPL substituída, à exceção do § 4º do art. 46, CP. No entanto, de acordo com o § 2º do art. 44, CP, a quantidade de PPL influirá na determinação da pena substitutiva a ser imposta. Assim, na condenação, a pena igual ou inferior a um ano, a substituição poderá ser feita por multa ou por uma PRD; não podendo haver, porém, cumulação de ambas. Todavia, se for inferior a seis meses, dentre as penas substitutivas não se poderá aplicar a de prestação de serviços à comunidade (art. 46, CP). Caso a PPL aplicada seja superior a um ano, poderá ela então ser substituída por uma PRD cumulada com multa (calculada em dias-multa) ou por duas restritivas de direitos. Assim: Pena igual ou inferior a 1 ano, em crime doloso ou culposo Pena superior a 1 ano, até 4 anos, se crime doloso, ou sem limite máximo, se culposo Multa OU uma PRD, NUNCA ambas. Uma PRD E multa OU duas restritivas de direitos. Conversão em PPL - As PRDs, inclusive as de natureza pecuniária, admitem conversão em privativa de liberdade quando ocorrer o descumprimento injustificado da restrição imposta, a teor do art. 44, § 4º, CP. No cálculo da PPL a executar, será deduzido o tempo cumprido da restritiva de direitos, respeitado o saldo mínimo de 30 de detenção ou reclusão. Por fim, sobrevindo condenação a PPL por outro crime, caberá ao juiz da execução penal decidir pela subsistência da pena restritiva, o que será possível sempre que seu cumprimento for compatível com a nova sanção (art. 44, § 5º, CP). SUSPENSÃO CONDICIONAL DA PENA PRIVATIVA DE LIBERDADE (SURSIS) Fixada a PPL na sentença e não cabível, ou não indicada a substituição prevista no art. 44, CP, poderá ser concedido ao acusado, ainda, o sursis. Trata-se da suspensão da execução da PPL por determinado tempo, chamado período de prova, durante o qual o condenado deve 85 BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal. v.1. 9.ed. São Paulo: Saraiva, 2004. p. 509. Discute-se, ainda, se a substi- tuição, nesses casos, é faculdade do juiz da condenação ou direito subjetivo do condenado, havendo posicionamento doutrinário nos dois sentidos. DIREITO PENAL 110 sujeitar-se a algumas condições. Findo esse prazo sem que tenha sobrevindo causa de revogação do benefício, será, então, declarada extinta a pena.A análise do cabimento da suspensão condicional da PPL tem caráter residual, sendo precedida pela avaliação sobre a substituição por restritiva de direitos, que é, em tese, mais benigna ao condenado (art. 77, III, CP, c/c art. 44, CP). O instituto não se estende às PRDs nem à multa (art. 80, CP), porque seu objetivo também é o de evitar a pena de prisão. De outra parte, preenchidos todos os requisitos legais, o sursis constitui direito subjetivo público do réu, não sendo possível ao juiz negar-lhe sua concessão ou sobre ele não se manifestar, sob pena de nulidade parcial da sentença. Pode ele, porém, não concordar com as condições impostas e optar pelo cumprimento da PPL. A revelia do acusado, porém, não impede a suspensão. REQUISITOS Os requisitos para a concessão do sursis, previstos no art. 77, CP, são os seguintes: a) Quantidade da Pena: Este requisito objetivo, previsto no caput do artigo, diz com a quantidade da PPL fixada na sentença, que não pode ser superior a dois anos. Em se tratando de concurso de crimes, a suspensão é possível, mas a jurisprudência tem entendido que, para efeito de consideração do limite quantitativo da pena, não se despreza o acréscimo, ou seja, considera-se a pena final. Na hipótese de crime contra o meio ambiente, admite-se o benefício desde que a PPL não exceda a três anos (art. 16, Lei n. 9.605/98). Outrossim, caso seja o condenado maior de setenta anos à data da sentença concessiva ou tenha problemas de saúde que justifiquem a suspensão, ela pode ser concedida se a pena for inferior a quatro anos (art. 77, §2º, CP). b) Não reincidência em crime doloso: Para que obtenha o sursis, de acordo com o inc. I, o réu não pode ser reincidente em crime doloso. Logo, se um dos crimes foi culposo ou se o crime anterior foi contravenção penal, não há óbice à concessão da suspensão condicional, assim como a condenação anterior a pena só de multa, ainda que por crime doloso, também não a impede, a teor do art. 77, § 1º, CP, e da Súmula 499/STF. c) Circunstâncias judiciais favoráveis ao agente: A culpabilidade, os antecedentes, a conduta social, a personalidade do agente, os motivos e as circunstâncias do crime devem ser favoráveis, autorizando, assim, a concessão do benefício. Como se vê, o inc. II do art. 77, CP, trata das circunstâncias judiciais do art. 59, à exceção das consequências do crime e do comportamento da vítima. d) Não tenha havido substituição por PRD: Por fim, o inc. III explicita o caráter residual do sursis, que só pode ser concedido caso não tenha sido possível a anterior substituição da PPL por restritivas de direitos. ESPÉCIES Estas são as espécies de sursis previstas no Código Penal: Sursis simples ou comum - É aquele em que, preenchidos os requisitos acima, sujeita o réu, pelo prazo de dois a quatro anos, à observação e ao cumprimento das condições estabelecidas, sendo que, no primeiro ano do prazo, deverá ele, obrigatoriamente, prestar serviços à comunidade ou submeter-se à limitação de fim de semana, consoante determina o DIREITO PENAL 111 art. 78, § 1º, CP. Saliente-se, porém, que as demais condições a serem fixadas pelo juiz devem ser adequadas ao fato e à situação pessoal do condenado, não podendo ser vexatórias nem ociosas. Sursis especial - Esta espécie é de aplicação excepcional e vem prevista no art. 78, §2º, CP. Para que seja concedida, o réu deve ter preenchido todos os requisitos gerais exigidos para o sursis simples e, ainda, reparado o dano, salvo impossibilidade de fazê-lo. Além disso, todas as circunstâncias do art. 59 devem militar em seu favor. Satisfeitos esses pressupostos, o magistrado pode substituir as exigências do sursis simples, sujeitando o condenado a situações mais brandas, sendo-lhe aplicadas, de forma cumulativa, a proibição de frequentar determinados lugares e de ausentar-se da comarca onde reside sem autorização do juiz e, ainda, a obrigação de comparecer pessoal e mensalmente ao juízo para informar e justificar suas atividades. Saliente-se que, no tocante à segunda condição, a jurisprudência do TJRS tem entendido tratar-se de mera comunicação, e não propriamente de autorização do juiz. Sursis etário e sursis humanitário - São aqueles concedidos ao réu maior de setenta anos à data da sentença concessiva ou que, independentemente da idade, tem problemas de saúde que justifiquem a suspensão, desde que a pena aplicada seja inferior a quatro anos. Aqui, o período de prova também é maior, de quatro a seis anos. PERÍODO DE PROVA E CAUSAS DE REVOGAÇÃO O período probatório da suspensão condicional, em regra, é de dois a quatro anos, sendo maior em caso de sursis etário ou humanitário e de um a três anos em caso de contravenção. Sua determinação no caso concreto, porém, deve atentar para a natureza do crime, a personalidade do agente e a intensidade da pena, de modo que somente em casos excepcionais deve o juiz fixar o prazo máximo.86 Esse prazo começa a correr depois do trânsito em julgado da sentença condenatória, a contar da audiência admonitória, prevista no art. 160, LEP. Trata-se de formalidade em que o réu será cientificado das condições a serem observadas e advertido das consequências do seu descumprimento. A partir daí, a suspensão será mantida se houver o cumprimento das condições fixadas durante todo o período probatório, cujo fim extingue a pena, devendo o juiz tão somente declarar essa extinção (art. 82, CP). Por outro lado, a suspensão condicional da execução da pena é suscetível de revogação obrigatória e facultativa, as quais pressupõem que o condenado já esteja no período de prova. Com a revogação, ao contrário do que ocorre com a conversão das PRDs, obriga-se o sentenciado a cumprir integralmente a pena suspensa, independentemente do tempo de prova já decorrido. As causas de revogação obrigatória estão dispostas nos incisos do art. 81, CP. Elas ocorrem quando o réu é condenado, em sentença irrecorrível, por crime doloso (I); quando ele frustra, embora solvente, a execução de pena de multa ou não efetua, sem motivo justificado, a reparação do dano (II); e, ainda, quando descumpre a condição de prestar serviços à comunidade no primeiro ano do período de prova (III). O fato de não pagar a multa não é mais causa de revogação do sursis, haja vista o disposto no art. 51, CP, alterado pela Lei 9.268/96. 86 BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal. v.1. 9.ed. São Paulo: Saraiva, 2004. p. 690-692. DIREITO PENAL 112 Outrossim, também é causa de revogação obrigatória o não comparecimento injustificado do réu à audiência admonitória (art. 161, LEP). As causas facultativas, por sua vez, estão elencadas no § 1º do art. 81, CP. Nesse caso, o benefício pode ser revogado se o condenado descumprir qualquer outra condição imposta ou for condenado, com trânsito em julgado da decisão, à PRD ou PPL por crime culposo ou contravenção. A revogação, aqui, fica a critério do juiz, que, em vez de decretá-la, pode optar por prorrogar o período de prova. A prorrogação é, portanto, uma alternativa à revogação facultativa, e só existe quando o período de prova não tiver sido fixado no seu limite máximo. Nela, todas as condições impostas na sentença, à exceção daquelas específicas do primeiro ano de prova, continuam vigentes. Há, porém, outra hipótese de prorrogação do período de prova, que ocorre quando, neste interregno, o condenado passa a ser processado por outro crime ou contravenção. Não basta, pois, a existência de inquérito, porque o processo penal só surge com o recebimento da denúncia ou queixa-crime. Essa prorrogação, ao contrário da anterior, é obrigatória e automática, decorrente da lei, e se estende até o julgamento definitivo do novo processo, mas com ela não subsiste a obrigação de cumprir as condições impostas. Finalmente, cumpre salientar que a revogação do sursissó pode ocorrer mediante prévio procedimento judicial, na vara de execuções em que se garanta o devido processo legal, com contraditório e ampla defesa, ao réu. MEDIDAS DE SEGURANÇA As medidas de segurança são, ao lado da pena, espécie de sanção penal. Com efeito, a distinção fundamental entre pena e medida de segurança diz com o fato de que as penas são aplicadas aos imputáveis, ao passo que as medidas de segurança se destinam aos inimputáveis e, se necessário, aos semi-imputáveis. Outrossim, ao contrário das penas, que têm caráter retributivo-preventivo, com base na culpabilidade (juízo para o passado), as medidas de segurança têm natureza preventiva, fundamentando-se no pressuposto da periculosidade (juízo para o futuro), ou seja, buscam evitar que um sujeito que praticou um crime venha a cometer novas infrações penais. Na prática, a execução da internação em hospitais de custódia e tratamento é, frequentemente, mais gravosa e prejudicial para o interno do que a própria pena imposta ao imputável. Além disso, condenados sujeitos à pena fazem jus a todos os direitos inerentes à execução penal, os quais não são aplicáveis aos inimputáveis.87 Por tais razões, é preciso atentar para a natureza jurídica de sanção penal da medida de segurança, porque ela pressupõe a prática de um crime e implica restrição da liberdade de quem o cometeu. SISTEMAS DE APLICAÇÃO O Código Penal de 1940 consagrava o sistema duplo binário, segundo o qual se aplicava a pena e a medida de segurança, cumulativamente, ao infrator, fosse ele imputável ou semi- imputável. Esse sistema, dada sua total ineficácia, foi abandonado pela Reforma Penal de 1984, que adotou o sistema vicariante. Assim, de acordo com o sistema atual, aos imputáveis aplica-se a pena, aos inimputáveis, a medida de segurança, e aos semi-imputáveis, opta-se ou 87 QUEIROZ, Paulo. Inconstitucionalidade das medidas de segurança? Juristas.com.br, João Pessoa, ano 2, n.º 30, ago. 2005. Dis- ponível em <http://www.juristas.com.br/revista/coluna.jsp?idColuna=264>. DIREITO PENAL 113 pela aplicação da pena reduzida, ou pela medida de segurança, nunca por ambas, como ocorria no sistema anterior. PRESSUPOSTOS DE APLICAÇÃO A aplicação da medida de segurança depende da verificação de alguns pressupostos, a saber: - Reconhecimento da prática de fato previsto como crime: As medidas de segurança, tanto quanto as penas, somente podem ser impostas quando, respeitado o devido processo legal, com todas as garantias que lhe são inerentes, restar comprovado que o agente praticou um crime. Assim, está vedada sua aplicação quando não houver provas de que o réu cometeu a infração penal ou quando estiver extinta a punibilidade, ainda que reconhecida a inimputabilidade por doença mental. - Periculosidade do agente: Também é indispensável que o agente seja dotado de periculosidade. Trata-se de um juízo de probabilidade, tendo por base a conduta antissocial e a anomalia psíquica do agente, de que este voltará a delinquir. Como lembra Bitencourt, há dois tipos de periculosidade previstos no Código Penal: a presumida, em se tratando de inimputável (art. 26, caput, CP) e a real, reconhecida pelo juiz no caso de semi-imputável que necessita de especial tratamento curativo (art. 26, parágrafo único, CP). - Ausência de Imputabilidade Plena: O agente imputável não pode, sob hipótese alguma, sofrer medida de segurança. O semi-imputável, a seu turno, só excepcionalmente estará sujeito à medida de segurança; porque, em regra, a ele deverá ser aplicada a PPL, reduzida de 1/3 a 2/3, a qual só será substituída por medida de segurança caso reste comprovada a necessidade de internação ou de tratamento ambulatorial. Quando sobrevier doença mental ao condenado, porém, poderá ocorrer a substituição da PPL por medida de segurança (art. 41, CP). ESPÉCIES DE MEDIDAS DE SEGURANÇA As medidas de segurança podem consistir em internação ou tratamento ambulatorial, sendo estas as duas espécies apontadas pelo art. 96, CP. Não é, porém, a inimputabilidade ou a semi-imputabilidade que determinará a aplicação de uma ou outra espécie, mas a natureza da PPL prevista para o delito cometido e as condições pessoais do agente.88 I - Medida Detentiva: Segundo a literalidade do art. 96, CP, a regra geral seria a medida detentiva, ou seja, a internação em hospital de custódia e tratamento psiquiátrico, ou, na falta deste, em outro estabelecimento adequado, não se podendo entender como tal a penitenciária. A medida detentiva é aplicável tanto aos inimputáveis quanto aos semi- imputáveis que necessitam de especial tratamento curativo (arts. 97, caput, e 98, CP). Contudo, ante o progresso da ciência, evita-se ao máximo a internação, preferindo-se a o tratamento ambulatorial, a não ser que haja extrema necessidade (STJ, HC 361214, 6ª. T., u., 6.12.16). II - Medida Restritiva: A internação em hospital psiquiátrico pode ser substituída por medida restritiva, que consiste em sujeição a tratamento ambulatorial, no qual se darão ao 88 BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal. v.1. 9. ed. São Paulo: Saraiva, 2004. pp. 740-741. DIREITO PENAL 114 agente cuidados médicos sem que seja necessária sua internação, sendo essa a regra para crimes punidos com detenção. Para que seja aplicada, no entanto, o fato previsto como crime deve ser punido com detenção e, além disso, as circunstâncias fáticas e pessoais devem apontar para sua conveniência no caso concreto. Dito de outro modo, a punição com detenção, por si só, não é suficiente para sua autorização, é preciso analisar a existência de compatibilidade com a medida mais liberal. Não obstante, a submissão ao tratamento ambulatorial não é imutável, pois, consoante o art. 97, § 4º, CP, mostrando-se necessária, sua conversão em internação pode ser determinada para fins curativos. PRAZOS DA MEDIDA DE SEGURANÇA As duas espécies de medidas de segurança têm duração indeterminada. Sua execução inicia-se com o trânsito em julgado da sentença, perdurando enquanto não for constatada, por perícia médica, a cessação da periculosidade. Se a lei não fixa prazo máximo de duração, o prazo mínimo previsto no art. 97, § 1º, CP, que é de um a três anos, constitui tão somente um marco inicial para a realização do primeiro exame médico de verificação do fim da periculosidade. Nessa linha, a determinação legal é de que o exame obrigatoriamente seja realizado no fim do prazo mínimo fixado na sentença e, a partir de então, de ano em ano; nada impede, porém, que o juiz determine sua repetição a qualquer tempo. Há decisão no STF, no entanto, determinando que o prazo da medida de segurança aplicada ao inimputável seria de trinta anos, por analogia ao art. 75, CP 89- “A medida de segurança não pode ultrapassar o limite máximo de trinta anos, porque a CF veda as penas de caráter perpétuo” (STF, HC 84219, M. Aurélio, 1ª. T., 16.8.05). De outra parte, o art. 96, CP, dispõe que as medidas de segurança não subsistem se extinta a punibilidade. Logo, todas as causas extintivas do art. 107, CP, lhe são aplicáveis, inclusive a prescrição. A questão que se impõe, nesse tocante, diz com a ausência de pena concretizada no caso de inimputável. Em se tratando de semi-imputável, há uma sentença condenatória, na qual o juiz fixa a pena em concreto. Essa pena pode ser reduzida de um a dois terços, se o agente, em virtude de perturbação de saúde mental ou por desenvolvimento mental incompleto ou retardado, não era capaz de entender o caráter ilícito do fato (art. 26, parágrafo único, CP). No entanto, se, em razão da sua condição, o condenado demonstrar necessitar de especial tratamento curativo, essa PPL já individualizada poderá ser, então, substituída pela medida de segurança. Ora, havendo uma pena fixada em concreto, seráela o marco para limitar o prazo prescricional. Por isso, é sempre imprescindível que se individualize a pena privativa do semi- imputável antes da aplicação da medida de segurança. Até em razão de que o semi-imputável sempre será condenado. Diversa, porém, é a hipótese de ser o agente inimputável, porque este não é condenado, e sim isento de pena. A sentença, neste caso, é absolutória imprópria: dá-se a absolvição e, em consequência, aplica-se a medida de segurança. Não tendo havido pena concretizada, resta a dúvida quanto ao prazo prescricional a ser aplicado, porque não se pode permitir a inconstitucional possibilidade de segregação perpétua. Nessa linha, Luiz Flávio Gomes, entende deva ser utilizado como parâmetro de contagem do prazo prescricional a 89 Cumpre esclarecer que o tempo máximo de cumprimento de pena privativa de liberdade foi ampliado para 40 anos, conforme nova redação do art. 75, CP, dada pela Lei 13.964/19. DIREITO PENAL 115 pena máxima cominada, em abstrato, ao tipo penal90, ou a pena mínima cominada abstratamente. A primeira posição prevalece. REVOGAÇÃO E EXTINÇÃO DA MEDIDA DE SEGURANÇA Comprovada por perícia médica a cessação da periculosidade, revoga-se a medida de segurança, determinando-se a desinternação, se fora aplicada a medida detentiva, ou a liberação, em caso de medida restritiva; aplicando-se, então, as condições próprias do livramento condicional (art. 178, LEP). Essa revogação, porém, é provisória, perdurando por um ano. Findo esse período sem que tenha havido qualquer fato indicativo da persistência da periculosidade, não necessariamente um crime, a medida de segurança será, então, definitivamente extinta. LIVRAMENTO CONDICIONAL Livramento condicional é uma antecipação provisória da liberdade concedida ao sentenciado que está cumprindo pena privativa de liberdade, desde que atendidos certos requisitos legais. O instituto é regulado pelo Código Penal, a partir do art. 83, e pela LEP, a partir do art. 131. REQUISITOS 1. Requisitos objetivos: art. 83, I, II, IV e V, CP. a) Condenação à pena privativa de liberdade igual ou superior a dois anos. Por disposição do art. 84, CP, devem ser somadas, obrigatoriamente, as penas que correspondem a infrações penais diversas, impostas em um ou em vários processos. Em vista disso, ainda que uma pena isolada não alcance o mínimo de dois anos, existindo outra ou outras penas, pode-se, pela soma de todas, atingir o limite mínimo exigido. b) Bons antecedentes: só poderá obter o livramento condicional no prazo menor aquele que não foi anteriormente condenado. c) Ter o agente cumprido parte da pena ou das penas que lhe foram impostas. Quando o apenado não for reincidente em crime doloso, deve ter cumprido mais de 1/3 da pena; sendo reincidente em crime doloso, mais da metade. Em se tratando de condenado por crime hediondo, prática de tortura, tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, tráfico de pessoas e terrorismo, demanda-se o cumprimento de mais de 2/3 da pena, bem como que o réu não seja reincidente específico em crimes dessa natureza. d) Ter reparado o dano causado pela infração penal, salvo impossibilidade de fazê-lo. Reconhece-se tal impossibilidade em virtude da situação econômica do 90GOMES, Luís Flávio. Medidas de Segurança e seus Limites. RBCCrim, n.º 2, 1993, p. 71. DIREITO PENAL 116 preso, do paradeiro desconhecido da vítima, da prescrição ou novação da dívida, entre outros. 2. Requisitos subjetivos: art. 83, III, CP. a) Comprovação de bom comportamento durante a execução da pena e não cometimento de falta grave nos últimos 12 meses. Conforme citado quando da análise da progressão de regime, o art. 112, LEP, exige para tal comprovação atestado de conduta carcerária fornecido pelo diretor do estabelecimento carcerário. Entretanto, conforme a Súmula 439, STJ: “Admite-se o exame criminológico pelas peculiaridades do caso, desde que em decisão motivada”. b) Bom desempenho no trabalho que lhe foi atribuído. c) Aptidão para prover a subsistência própria mediante trabalho honesto. Entende-se que basta a aptidão, não sendo necessário que haja promessa de emprego. Condenado por crime doloso, cometido com violência ou grave ameaça à pessoa - há um requisito adicional, ficando a concessão do livramento subordinada, além dos requisitos anteriores, à constatação de condições pessoais que façam presumir que o liberado não voltará a delinquir (art. 83, parágrafo único, CP) CONDIÇÕES 1. Condições obrigatórias: art. 132, § 1º, LEP a) obter ocupação lícita, dentro de prazo razoável se for apto para o trabalho; b) comunicar periodicamente ao Juiz sua ocupação; b) não mudar do território da comarca do Juízo da execução, sem prévia autorização deste. 2. Condições facultativas: art. 132, § 2º, LEP - pode ainda o juiz, facultativamente, impor outras condições ao sentenciado. O dispositivo traz um rol exemplificativo, podendo outras condições serem importas: a) não mudar de residência sem comunicação ao Juiz e à autoridade incumbida da observação cautelar e de proteção; b) recolher-se à habitação em hora fixada; c) não freqüentar determinados lugares. 3. Condições legais indiretas: é a não realização pelo beneficiado das causas de revogação obrigatória e facultativa, previstas nos arts. 86 e 87, CP, que serão vistas abaixo. REVOGAÇÃO 1. Revogação obrigatória: art. 86, CP DIREITO PENAL 117 a) Condenação irrecorrível à pena privativa de liberdade por crime praticado durante o livramento condicional. Sendo a pena substituída por multa ou por restritiva de direito, entende-se que a revogação passa a ser facultativa, cabendo ao juiz da execução analisar, com prudente arbítrio, se a revogação se afigura como recomendável no caso específico. É possível que termine o prazo do livramento condicional e o réu esteja sendo processado por fato ocorrido durante o livramento condicional, assim dispõe o art. 89, CP, que “o juiz não poderá declarar extinta a pena, enquanto não passar em julgado a sentença em processo a que responde o liberado, por crime cometido na vigência do livramento”. b) Condenação irrecorrível à pena privativa de liberdade por crime anterior à concessão do benefício. Deve-se observar o art. 84, CP, segundo o qual as penas que correspondem a infrações diversas devem ser somadas para fins do livramento, de forma que, se após soma das sanções o sujeito ainda preencher os requisitos do instituto, ele poderá ser mantido. 2. Revogação facultativa: art. 87, CP a) deixar de cumprir qualquer das obrigações constantes da sentença b) for irrecorrivelmente condenado, por crime ou contravenção, a pena que não seja privativa de liberdade. CONTAGEM DO PRAZO DO LIVRAMENTO CONDICIONAL a) Infração anterior ao livramento: art. 141, LEP - se houver revogação motivada por infração penal cometida anteriormente à vigência do livramento, se computará como tempo de cumprimento de pena o período de prova, sendo permitida, para a concessão do novo livramento, a soma do tempo das duas penas. b) Infração posterior ao livramento: art. 142, LEP - se houver revogação por prática infração penal cometida na vigência do benefício ou descumprimento das condições impostas na sentença, não se computará na pena o tempo em que esteve solto o liberado, e tampouco se concederá, em relação à mesma pena, novo livramento. c) Falta grave. A Súmula 441, STJ dispõe que “A falta grave não interrompe o prazo para a obtenção de livramento condicional”. EFEITOS DA CONDENAÇÃO CONCEITO Condenação é o ato do juiz que considera existente um crime e atribui sua prática a um determinado sujeito. A condenação tem efeitos principais e secundários. 1. Principal: é a imposiçãode pena (privativa de liberdade, restritiva de direitos ou multa) ou de medida de segurança. DIREITO PENAL 118 2. Efeitos secundários ou acessórios: são outros efeitos gerados pela condenação, além da imposição da pena ou medida de segurança. Podem ser de natureza penal ou extrapenal. a) Efeitos secundários penais: repercutem na própria esfera penal. Assim, a condenação induz a reincidência; em regra, impede ou dá causa à revogação do sursis; é causa de revogação do livramento condicional; aumenta o prazo da prescrição da pretensão executória e a interrompe quando caracterizar a reincidência; causa a revogação da reabilitação e leva à inscrição do nome do condenado no rol de culpados (após o trânsito em julgado da sentença penal condenatória).91 b) Efeitos secundários extrapenais: são aqueles que afetam o condenado em outras esferas do direito. Quando se fala de efeitos da condenação, comumente é a estes efeitos que se está referindo. Portanto, são eles que analisaremos na sequência. EFEITOS SECUNDÁRIOS EXTRAPENAIS Como referido anteriormente, são aqueles que repercutem em outra esfera, que não a penal (cível, administrativa, trabalhista, entre outras). Estão previstos nos arts. 91 e 92, CP, e dividem-se em genéricos e específicos. EFEITOS EXTRAPENAIS GENÉRICOS (ART. 91, CP) São efeitos automáticos de qualquer condenação criminal, não necessitando de expressa declaração na sentença. TORNAR CERTA A OBRIGAÇÃO DE REPARAR O DANO CAUSADO PELO CRIME (REPARAÇÃO EX DELICTO) A sentença penal condenatória irrecorrível faz coisa julgada no juízo cível, valendo como título executivo para a reparação do prejuízo. Não será necessário, portanto, rediscutir a culpa do agente causador do dano. Não sendo a obrigação de reparar o dano uma pena, mas simples efeito da condenação, ela se transmite aos herdeiros até os limites da herança. O art. 387, IV, CPP, dispõe que, na sentença condenatória, o juiz “fixará valor mínimo para reparação dos danos causados pela infração, considerando os prejuízos sofridos pelo ofendido”. Entretanto, a vítima ou seus sucessores não são obrigados a aguardar o fim da ação penal, podendo buscar o ressarcimento desde logo, mediante a competente ação cível ex delicto. A sentença absolutória também não impede a propositura da ação indenizatória em juízo cível, a menos que o fundamento da absolvição seja a inexistência material do fato ou o reconhecimento de que o réu não foi seu autor (art. 935, CC). Da mesma forma, a extinção da punibilidade depois do trânsito em julgado da sentença não afasta a obrigação de indenizar. 91 CAPEZ, Fernando. Curso de direito penal: parte geral (arts. 1º a 120). v. 1. 16 ed. São Paulo: Saraiva, 2012. p. 541. DIREITO PENAL 119 CONFISCO, PELA UNIÃO, DOS INSTRUMENTOS E PRODUTOS DO CRIME Trata-se da perda ou privação de bens do particular em favor do Estado, em razão da prática de um crime; não abrangendo, portanto, as contravenções penais. O confisco pode recair sobre os instrumentos do crime, ou seja, objetos, coisas materiais empregadas para a prática do delito, ou sobre seus produtos, que são vantagens, bens e valores que representem proveito, direto ou indireto, auferido pelo agente com a prática criminosa. O confisco só pode ocorrer em relação aos instrumentos do crime quando o fabrico, alienação, uso, porte ou detenção do bem constitua fato ilícito (art. 91, II, a, CP). Ademais, não pode que pertençam a quem dela participou, porque o terceiro de boa-fé e o lesado não podem ser prejudicados. A possibilidade de confisco prescreve com a condenação, mas não se suspende com a concessão do sursis. A Lei 12.694/12 acrescentou dois parágrafos ao art. 91, CP, que agora permite ao juiz decretar a perda de bens e valores lícitos do réu equivalentes ao produto do crime, durante o processo ou ao seu final, desde que não encontrados ou que estejam no exterior o produto ou proveito do crime. SUSPENSÃO DOS DIREITOS POLÍTICOS, ENQUANTO DURAR A EXECU- ÇÃO DA PENA Esse efeito da condenação está previsto no art. 15, III, CF e dele trata a Súmula 9, TSE: “A suspensão de direitos políticos decorrente de condenação criminal transitada em julgado cessa com o cumprimento ou a extinção da pena, independendo de reabilitação ou de prova de reparação dos danos”. Em síntese, enquanto durar a pena, o condenado é privado de seus direitos políticos, não podendo exercer nem mesmo seu direito de voto. A extinção da pena faz cessar esse efeito. PERDA DE BENS CORRESPONDENTES À DIFERENÇA ENTRE O PA- TRIMÔNIO DO CONDENADO E O COMPATÍVEL COM SEU RENDI- MENTO LÍCITO (ART. 91-A, CP) Este artigo foi incluído pela Lei 13.964/19, dispondo que: Art. 91-A. Na hipótese de condenação por infrações às quais a lei comine pena máxima superior a 6 (seis) anos de reclusão, poderá ser decretada a perda, como produto ou proveito do crime, dos bens correspondentes à diferença entre o valor do patrimônio do condenado e aquele que seja compatível com o seu rendimento lícito. § 1º Para efeito da perda prevista no caput deste artigo, entende-se por patrimônio do condenado todos os bens: I - de sua titularidade, ou em relação aos quais ele tenha o domínio e o benefício direto ou indireto, na data da infração penal ou recebidos posteriormente; e II - transferidos a terceiros a título gratuito ou mediante contraprestação irrisória, a partir do início da atividade criminal. § 2º O condenado poderá demonstrar a inexistência da incompatibilidade ou a procedência lícita do patrimônio. § 3º A perda prevista neste artigo deverá ser requerida expressamente pelo Ministério Público, por ocasião do oferecimento da denúncia, com indicação da diferença apurada. DIREITO PENAL 120 § 4º Na sentença condenatória, o juiz deve declarar o valor da diferença apurada e especificar os bens cuja perda for decretada. § 5º Os instrumentos utilizados para a prática de crimes por organizações criminosas e milícias deverão ser declarados perdidos em favor da União ou do Estado, dependendo da Justiça onde tramita a ação penal, ainda que não ponham em perigo a segurança das pessoas, a moral ou a ordem pública, nem ofereçam sério risco de ser utilizados para o cometimento de novos crimes. De acordo com o artigo supracitado, é possível que seja decretada a perda de bens do indivíduo condenado pela prática de crime com pena máxima superior a 6 anos, mesmo que esses bens não sejam diretamente relacionados com o crime. Só que é preciso que exista uma incompatibilidade entre o valor do patrimônio e a renda da pessoa. É possível tanto o perdimento de bens que estejam em nome do condenado, quanto aqueles que estejam em nome de terceiros, desde que tenham sido transferidos gratuitamente ou por uma contraprestação desproporcional, irrisória. O momento adequado para se requerer o perdimento é com o oferecimento da denúncia e esse perdimento deve ser requerido de forma expressa, com a indicação da diferença entre o patrimônio e o rendimento. E, o momento para a decretação do perdimento é na sentença condenatória, quando o juiz deve declarar o valor da diferença apurada e especificar os bens cuja perda seja decretada. Ademais, os instrumentos utilizados para a prática de crimes por organizações criminosas e milícias devem ser declarados perdidos em favor da União ou do Estado, mesmo que esses instrumentos não ponham em risco a segurança das pessoas ou até mesmo a ordem pública, ainda que não ofereçam riscos de serem utilizados para a prática de novos crimes. EFEITOS EXTRAPENAIS ESPECÍFICOS (ART. 92, CP) Decorrem da condenação penal pela prática de determinados crimes, em hipóteses específicas. Devem ser devidamente fundamentados na sentença condenatória e não se confundem com a interdição temporária de direitos, modalidade de pena restritiva de direitos.Os efeitos específicos não são automáticos, devendo ser motivadamente declarados na sentença (parágrafo único). PERDA DE CARGO, FUNÇÃO PÚBLICA OU MANDATO ELETIVO Há duas hipóteses para a perda: 1. art. 92, I, a - condenação à PPL igual ou superior a um ano, sendo necessário, nesse caso, que o agente tenha de alguma forma abusado de seu poder ou violado dever para com a Administração Pública inerente ao cargo, função ou mandato. A perda do cargo, função pública ou mandato eletivo incide não apenas nos crimes funcionais (art. 312 a 327, CP) e em outros crimes cometidos por funcionários públicos, mas também em outros desde que “praticados com abuso de poder ou violação de dever para com a Administração Pública”, mas não se o agente agiu como particular.92 92 MIRABETE, Julio Fabbrini; MIRABETE, Renato N. Fabbrini. Manual de direito penal: parte geral: arts. 1º a 120 do CP. 26 ed. São Paulo: Atlas, 2010. p. 338; GRECO, Rogério. Curso de direito penal. 4. ed. Rio de Janeiro: Impetus, 2004. p. 729. DIREITO PENAL 121 2. art. 92, I, b - condenação à PPL superior a quatro anos, por qualquer crime. Nesse caso, havendo a prática de crime comum e condenação a pena maior do que quatro anos pode ensejar, se fundamentada em sentença, a perda do cargo, função pública ou mandato eletivo. Como se nota, apenas são efeitos em caso de condenação a pena privativa de liberdade, de forma que a aplicação apenas de pena de multa não permite produção deste efeito. Em qualquer dos casos, nada impede que, reabilitado, haja uma ulterior investidura em outro cargo, função ou mandato. INCAPACIDADE PARA O EXERCÍCIO DO PODER FAMILIAR, TUTELA OU CURATELA Exige três requisitos: crimes dolosos, sujeitos à pena de reclusão, cometidos contra outrem igualmente titular do mesmo poder familiar, contra filho, filha ou outro descendente ou contra tutelado ou curatelado. Assim, crimes como o de exposição ou abandono de recém-nascido, porque punidos com detenção, não ensejam tal efeito. Ademais, a incapacidade não decorre automaticamente da condenação, devendo ser declarada, com motivação, na sentença. Exige-se, assim, o exame do caso concreto, reservando-se tal efeito aos crimes de maior gravidade, dos quais resulte a incompatibilidade com o exercício do poder familiar. A perda do poder familiar é permanente com relação ao filho, tutelado ou curatelado ofendido pelo crime, ainda que haja reabilitação. Mas em relação aos demais filhos, tutelados ou curatelados poderá ser excluída pela reabilitação. INABILITAÇÃO PARA DIRIGIR VEÍCULO Tem dois requisitos: crime doloso e veículo utilizado como meio para o crime. A perda de habilitação para dirigir veículo, quando utilizado como meio para a prática de crime doloso, constitui efeito administrativo, embora também de natureza civil, da condenação. Não se confunde com a pena de suspensão de permissão, autorização ou habilitação para dirigir prevista em crimes culposos no trânsito (arts. 302 e 303, CTB). Aqui é preciso que o veículo tenha sido usado para fins ilícitos, como meio para realizar crime doloso. O objetivo desse efeito é, portanto, o de afastar o agente do meio que lhe permite a prática delituosa. OUTROS EFEITOS EXTRAPENAIS a) Rescisão do contrato de trabalho por justa causa: dispõe o art. 482, CLT, que “Constituem justa causa para rescisão do contrato de trabalho pelo empregador: (…) d) condenação criminal do empregado, passada em julgado, caso não tenha havido suspensão da execução da pena”. b) Novos exames de habilitação para dirigir veículo quando da prática de crimes trânsito: o art. 160, CTB, dispõe que “O condutor condenado por delito de trânsito deverá ser submetido a novos exames para que possa voltar a dirigir, de acordo com as normas estabelecidas pelo CONTRAN, independentemente do reconhecimento da prescrição, em face da pena concretizada na sentença”. c) Impedimento de cargo de gestão, administração e gestão de empresa nos crimes falimentares: art. 181, Lei de Falências. DIREITO PENAL 122 d) Impedimento matrimonial: a condenação por tentativa de crime doloso contra a vida impede o casamento com o sobrevivente (art. 1.521, VII, CC). REABILITAÇÃO Prevista no art. 93, CP, trata-se de medida político-criminal que tem por finalidade restaurar a situação anterior à condenação, impondo sigilo sobre as anotações de seu boletim de antecedentes e suspendendo alguns efeitos secundários decorrentes da sentença condenatória, no intuito de restaurar sua dignidade pessoal e facilitar sua reintegração social. É um direito do condenado. A reabilitação só é cabível em existindo sentença condenatória com trânsito em julgado, cuja pena tenha sido executada ou já esteja extinta. Logo, não se pode falar em reabilitação quando há sentença absolutória, prescrição da pretensão punitiva, tampouco para o cancelamento das anotações de inquérito arquivado. É cabível, no entanto, nas hipóteses de prescrição da pretensão executória.93 A competência para sua declaração é do juízo criminal em que tramitou o processo de conhecimento, e não do juízo da execução. REQUISITOS Previstos no art. 94, CP, e seus incisos: a) Existência de uma condenação penal irrecorrível, não importando a pena que foi imposta. b) Decurso do prazo de dois anos do dia da extinção, de qualquer modo, ou do cumprimento da pena. Conta-se o prazo, portanto, a partir da extinção da pena, e não da declaração dessa extinção, ou, ainda, da audiência admonitória que marca o início do período de prova em caso de sursis ou livramento condicional que não tenham sido revogados. Se o período de prova for superior a dois anos, não poderá ser concedida a reabilitação antes do término do prazo. Outrossim, o prazo é sempre o mesmo, independentemente de ser o condenado reincidente. c) Domicílio no país durante os dois anos. d) Bom comportamento público e privado durante os dois anos, demonstrados de modo efetivo e constante. e) Reparação do dano, salvo absoluta impossibilidade de fazê-lo ou renúncia comprovada pela vítima. CONSEQUÊNCIAS a) Garantia do sigilo dos antecedentes (processo, condenação e registros criminais). b) Suspensão condicional dos efeitos secundários específicos da condenação (previstos no art. 92, CP). É vedada, entretanto, a recondução ao cargo, função ou mandato e a recuperação do pátrio poder em relação ao ofendido. 93 CAPEZ, Fernando. Curso de direito penal: parte geral (arts. 1º a 120). v. 1. 16 ed. São Paulo: Saraiva, 2012. p. 548. DIREITO PENAL 123 INDEFERIMENTO Se o juiz indeferir a reabilitação em razão da ausência de um dos seus requisitos, o pedido poderá ser renovado a qualquer tempo, desde que sejam apresentadas novas provas (art. 94, parágrafo único, CP). Contudo, a reabilitação só pode ser requerida pelo próprio condenado. REVOGAÇÃO Como não é causa extintiva de punibilidade, a reabilitação pode ser revogada, restabelecendo-se os efeitos da condenação antes suspensos. A revogação pode ser decretada de ofício ou a requerimento do Ministério Público e apenas se o reabilitado for condenado, como reincidente, por sentença transitada em julgado, exceto se houver imposição somente de pena de multa (art. 95, CP). CRIMES EM ESPÉCIE CRIMES CONTRA A PESSOA CRIMES CONTRA A VIDA O bem jurídico, protegido nos crimes previstos neste Capítulo, é a vida humana, intra e extrauterina, direito indisponível de assento constitucional (art. 5º, caput, CF). Por isso, a ação penal é pública incondicionada e, se dolosos, tais delitos são de competência do Tribunal do Júri, por força do art. 5º, inc. XXXVIII, d, CF. Homicídio Simples (art. 121, caput): É a eliminação da vida humana extrauterina provocada por outra pessoa. Trata-se de delitocomum que pode ser praticado por qualquer pessoa, exigindo-se para sua configuração o dolo de matar (animus necandi) e o resultado morte, que ocorre quando há cessação da atividade cerebral e se atesta por meio de exame de corpo de delito. Admite-se a tentativa. Pode ser vítima qualquer ser humano nascido com vida; no entanto, sendo ela Presidente da República, membro do Senado Federal, da Câmara dos Deputados ou do STF, o crime será contra a Segurança Nacional, e, sendo menor de quatorze ou maior de sessenta anos, a pena será majorada em 1/3. Não é crime, porém, matar a si próprio: o suicídio é um indiferente penal. Na mesma linha, quem supõe matar um cadáver não pratica homicídio, porque incorre em crime impossível. A conduta é de forma livre: admite-se qualquer modo de atuar do agente, comissivo ou omissivo. Por exclusão, o homicídio será simples quando o fato não se adequar a qualquer das hipóteses de homicídio privilegiado ou qualificado. Outrossim, se praticado em atividade típica de grupo de extermínio (chacinas, por exemplo), o homicídio simples será hediondo (art. 1º, I, da Lei n. 8.072/90). Homicídio Privilegiado (art. 121, § 1º): Se o homicídio é praticado por motivo de relevante valor social ou moral, ou sob domínio de violenta emoção, logo em seguida à injusta DIREITO PENAL 124 provocação da vítima, a pena é reduzida de 1/6 a 1/3. Trata-se de tipo derivado de natureza subjetiva ou pessoal, relacionado à menor reprovabilidade da conduta do agente. Os motivos são incomunicáveis aos coautores e partícipes. No tocante à violenta emoção, exige-se que a conduta delituosa configure reação imediata, instantânea à provocação da vítima; se houver apenas influência de tal sentimento, embora não incida o privilégio, poderá haver a atenuação da pena (art. 65, III, c, CP). Homicídio Qualificado (art. 121, § 2º): O tipo derivado qualificado tem incidência quando ocorre alguma das circunstâncias previstas no § 2º, as quais revelam maior perversidade do agente. Algumas delas são subjetivas e se referem aos motivos e à finalidade do crime praticado; outras, de natureza objetiva, dizem com o modo de ação ou natureza dos meios empregados. Em síntese, é qualificado o homicídio: se cometido mediante paga ou promessa de recompensa ou por outro motivo torpe; por motivo fútil; com emprego de veneno, explosivo, asfixia, tortura ou outro meio insidioso ou cruel, ou de que possa resultar perigo comum; à traição, de emboscada ou mediante dissimulação ou outro recurso que dificulte ou torne impossível a defesa do ofendido; ou para assegurar a execução, a ocultação, a impunidade ou vantagem de outro crime. Foi incluído o inciso VI que trata da figura do feminicídio, que é o homicídio contra a mulher por razões da condição de sexo feminino, assim considerado quando envolve violência doméstica e familiar ou menosprezo ou discriminação à condição de mulher (§ 2º-A). Segundo o §7º, a pena do feminicídio é aumentada de 1/3 até a metade se o crime for praticado: durante a gestação ou nos 3 (três) meses posteriores ao parto (I), contra pessoa menor de 14 anos, maior de 60 anos, com deficiência ou portadora de doenças degenerativas que acarretem condição limitante ou de vulnerabilidade física ou mental (II), na presença física ou virtual de descendente ou de ascendente da vítima (III) ou em descumprimento das medidas protetivas de urgência previstas nos incisos I, II e III do caput do art. 22 da Lei Maria da Penha (Lei 11.340/06). Além disso, foi incluído ainda o inciso VII, que prevê que o homicídio é qualificado quando cometido contra autoridade ou agente descrito nos arts. 142 e 144 da Constituição Federal, integrantes do sistema prisional e da Força Nacional de Segurança Pública, no exercício da função ou em decorrência dela, ou contra seu cônjuge, companheiro ou parente consanguíneo até terceiro grau, em razão dessa condição. Saliente-se que, em caso de latrocínio, extorsão com morte e extorsão mediante sequestro com morte, o agente não responde por homicídio, pois os tipos já o preveem. Em todo caso, o homicídio qualificado, tentado ou consumado, é crime hediondo, por expressa previsão do art. 1º, I, da Lei n. 8.072/90. Homicídio Qualificado-Privilegiado: Quanto à compatibilidade entre a privilegiadora e a qualificadora do homicídio, há duas correntes doutrinárias. A primeira entende inviável a coexistência de ambas. A segunda, amplamente majoritária, admite-a, desde que a qualificadora seja de natureza objetiva. Será qualificado-privilegiado, por exemplo, o homicídio praticado em razão de relevante motivo moral, mas por meio cruel. Nessas hipóteses, a jurisprudência tem entendido que o delito não é hediondo. Homicídio Culposo (art. 121, § 3º): Se o homicídio for praticado em razão de imprudência, negligência ou imperícia, a pena é de detenção, de um a três anos. No entanto, se o delito for praticado na direção de veículo automotor, incide a regra do art. 302, CTB. O homicídio culposo pode ainda ter a pena aumentada de 1/3 se resultar de inobservância de DIREITO PENAL 125 regra técnica de profissão, arte ou ofício ou se o agente deixa de prestar imediato socorro à vítima, não procura diminuir as consequências do seu ato ou foge para evitar a prisão em flagrante (art. 121, § 4º). Não obstante, na hipótese de as consequências do homicídio culposo atingirem o réu de forma tão grave que a sanção prevista se torne despicienda, a ele pode ser concedido o perdão judicial (art. 121, § 5º). Houve a introdução do parágrafo sexto, em que a pena será aumentada de um terço até a metade se o crime for praticado por milícia privada, sob o pretexto de prestação de serviço de segurança, ou por grupo de extermínio. Parte-se da premissa de que a primeira não configurará crime hediondo, mas a segunda sim. Induzimento, Instigação ou auxílio a suicídio ou a automutilação (art. 122): Trata-se de crime de ação múltipla ou variada, porque pode ser praticado mediante mais de uma ação: induzindo (inspirando, incutindo a ideia), instigando (estimulando) e prestando auxílio (dando apoio material). O sujeito ativo do crime pode ser qualquer pessoa. Entretanto, o sujeito passivo deve ser pessoa capaz de compreensão, sob pena de se configurar o homicídio. A conduta deve se dirigir a pessoa determinada ou a pessoas determinadas. Se a conduta se voltar a pessoas indeterminadas, pode-se configurar o delito de incitação ao crime, previsto no art. 286, CP. O elemento subjetivo é o dolo. Não há previsão de punição de modalidade culposa. A Lei 13.968/2019 alterou a redação deste artigo94. A principal modificação operada, no preceito primário, foi a inclusão da participação em automutilação. Isto é, também passa a ser típica a conduta de instigar, induzir ou auxiliar alguém a praticar a automutilação. Automutila- ção é a conduta de causar lesões em si próprio. Assim como o suicídio não é punido, o que o legislador veda é o induzimento, a instigação ou o auxílio material a que alguém suicide ou que se mutile. Ademais, também foi alterado o preceito secundário, trazendo a sanção de 6 meses a 2 anos de reclusão. A maior modificação, neste âmbito, foi a não previsão de condiciona- mento da punição à existência de resultado naturalístico. Como consequência, o crime passa a admitir a modalidade tentada, já que o óbice apresentado pela doutrina majoritária, quando da análise da redação anterior do dispositivo, era a necessidade do resultado morte ou lesão corporal de natureza grave para a imposição de pena. Além disso, a ocorrência dos resultados naturalísticos lesão grave ou morte tornará o crime qualificado, ou seja, com novos limites mínimo e máximo de pena abstratamente cominada. Portanto, o resultado lesão grave torna- rá a conduta punível com a pena de reclusão, de 1 a 3 anos. Se o resultado for a morte, seja por consumação do suicídio, seja como consequência da automutilação, a pena será dereclu- 94 Art. 122. Induzir ou instigar alguém a suicidar-se ou a praticar automutilação ou prestar-lhe auxílio material para que o faça: Pena - reclusão, de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos. § 1º Se da automutilação ou da tentativa de suicídio resulta lesão corporal de natureza grave ou gravíssima, nos termos dos §§ 1º e 2º do art. 129 deste Código: Pena - reclusão, de 1 (um) a 3 (três) anos. § 2º Se o suicídio se consuma ou se da automutilação resulta morte: Pena - reclusão, de 2 (dois) a 6 (seis) anos. § 3º A pena é duplicada: I - se o crime é praticado por motivo egoístico, torpe ou fútil; II - se a vítima é menor ou tem diminuída, por qualquer causa, a capacidade de resistência. § 4º A pena é aumentada até o dobro se a conduta é realizada por meio da rede de computadores, de rede social ou transmitida em tempo real. § 5º Aumenta-se a pena em metade se o agente é líder ou coordenador de grupo ou de rede virtual. § 6º Se o crime de que trata o § 1º deste artigo resulta em lesão corporal de natureza gravíssima e é cometido contra menor de 14 (quatorze) anos ou contra quem, por enfermidade ou deficiência mental, não tem o necessário discernimento para a prática do ato, ou que, por qualquer outra causa, não pode oferecer resistência, responde o agente pelo crime descrito no § 2º do art. 129 deste Código. § 7º Se o crime de que trata o § 2º deste artigo é cometido contra menor de 14 (quatorze) anos ou contra quem não tem o neces- sário discernimento para a prática do ato, ou que, por qualquer outra causa, não pode oferecer resistência, responde o agente pelo crime de homicídio, nos termos do art. 121 deste Código. DIREITO PENAL 126 são, de 2 a 6 anos. O § 3º do art. 122, inserido pela Lei 13.968/19, passou a abrigar as mesmas causas de aumento de pena que já estavam previstas no antigo parágrafo único, quais sejam, motivo egoístico, torpe ou fútil, ou se a vítima for menor ou tiver a capacidade de resistência diminuída. Ademais, a Lei 13.968/2019 trouxe novas majorantes ao crime do artigo 122 do CP, com a inserção dos §§ 4º e 5º, sendo aumentada a pena até o dobro se a conduta for realizada por meio da rede de computadores, de rede social ou transmitida em tempo real ou no caso de o agente ser o líder ou o coordenador de grupo ou de rede virtual. Ainda, foram inseridos pela Lei 13.968/19 os §§ 6º e 7º, com previsão de hipóteses de não configuração do delito do art. 122, mas de crime mais grave. Na redação anterior à Lei 13.968/19, a doutrina já destacava que o sujeito passivo deveria ser pessoa capaz de compre- ensão, sob pena de se configurar o homicídio. Os §§ 6º e 7º destacaram o que já decorria da redação do dispositivo, com a inovação de destacar uma idade limite, a mesma prevista nos crimes sexuais contra vulnerável. Assim, configura lesão corporal gravíssima ou homicídio se o crime qualificado pelo resultado for praticado contra menor de 14 anos de idade, vítima que, por enfermidade ou deficiência mental, não tem o necessário discernimento contra a prática do ato, vítima que, por qualquer outra causa, não pode oferecer resistência. A lei determina que, caso o sujeito passivo seja algum dos elencados acima, a punição deve ocorrer de acordo com o resultado obtido: Lesão corporal gravíssima - o agente deve responder nos termos do artigo 129, § 2º, CP; Morte - haverá a configuração do homicídio, por expressa previsão legal, afastando-se a forma qualificada do parágrafo segundo do art. 122, CP. Infanticídio (art. 123): O infanticídio é, em verdade, o homicídio praticado por influência do estado puerperal, durante ou logo depois do parto. Trata-se de crime próprio, que só pode ser praticado pela mãe do nascente ou recém-nascido; sendo este, pois, a vítima. O estado puerperal é um conjunto de perturbações psicológicas e físicas sofridas pela mulher em razão do parto. Sua comprovação não exige perícia; sua influência para a prática do crime, sim. Por ser elementar do crime, tal circunstância se comunica a coautores e partícipes, desde que a conheça, conforme regra expressa do art. 30, CP. Auto-aborto e Aborto Consentido (art. 124): Aborto é a interrupção da gravidez antes do tempo normal, com a morte do feto. É preciso, portanto, que haja gravidez em curso e que a morte do feto tenha se dado em razão da intervenção abortiva. No art. 124, pune-se a gestante que provocou em si mesma ou consentiu que lhe provocassem o aborto. O crime é de mão própria, só podendo ser praticado pela gestante e não admitindo coautoria. É que, se o abortamento foi praticado por outrem com a anuência da mulher grávida, será ele o autor do crime previsto no art. 126, CP. Aborto Provocado por Terceiro (art. 125 e 126): Distingue-se, aqui, se houve ou não consentimento da gestante. Se ela não concordou com o aborto, incorre o agente que o provocou nas penas do art. 125. Nesse caso, protege-se a vida do feto e a integridade física da gestante. Se houve consentimento da gestante, porém, o delito é aquele tipificado no art. 126, CP. Trata-se de uma exceção à teoria monista, segundo a qual todos os autores e partícipes respondem pelo mesmo crime quando contribuírem para o mesmo resultado típico. Com efeito, aqui a pessoa que provoca o aborto é punida de forma mais severa que a gestante que consente com sua conduta, porque ela responderá pelo crime tipificado no art. 124. Outrossim, se o consentimento não for válido, quer porque a gestante era menor de 14 anos, alienada ou débil mental, quer porque fora obtido à força, por fraude, grave ameaça ou violência, não será ele considerado, e o crime praticado será o de aborto provocado sem o consentimento da gestante (art. 126, parágrafo único). Ademais, se em razão do aborto ou dos DIREITO PENAL 127 meios empregados para tanto sobrevier a morte da gestante, a pena será duplicada; se resultarem lesões corporais graves, será aumentada em 1/3 (art. 127, CP). Aborto Legal (art. 128): Não será punido o médico que praticar aborto terapêutico ou necessário, quando este é o único meio de salvar a vida da gestante (inc. I); ou sentimental, humanitário ou piedoso, quando a gravidez resulta de estupro, desde que haja, nesse caso, consentimento da vítima ou de seu representante legal (inc. II). Não se exige sentença condenatória pelo estupro, tampouco autorização judicial, bastando ao médico prova da ocorrência do delito (por exemplo, boletim de ocorrência policial). LESÕES CORPORAIS Nos crimes de lesões corporais, protege-se a integridade física e psíquica e a saúde do ser humano. O verbo-núcleo do tipo é “ofender”, ou seja, fazer mal a alguém. A autolesão, portanto, não é punível, salvo quando caracterizar o crime de fraude para recebimento de indenização ou valor de seguro (art. 171, § 2º, V, CP). Tratando-se de delitos de resultado, este deve ser comprovado por meio de exame de corpo de delito, direto ou indireto. Admite-se, em regra, a tentativa. No caso das lesões corporais dolosas, se o crime for cometido por motivo de relevante valor social ou moral, ou sob domínio de violenta emoção, logo em seguida à injusta provocação da vítima, a pena pode ser reduzida de 1/6 a 1/3 (lesão corporal privilegiada, art. 129, § 4º). De outra parte, se praticado contra menor de quatorze ou maior de sessenta anos, a pena é aumentada em 1/3 (art. 129, § 7º). Lesão Corporal Leve (art. 129, caput): É aquela que não perfaz nenhum dos resultados indicados nos parágrafos subsequentes, mas que, ao mesmo tempo, não é insignificante, o que levaria à atipicidade da conduta. As lesões leves não se confundem com a contravenção de vias de fato, porque esta se caracteriza pela ofensa não ultrajante sem dano à integridade corporal e sem o animus laedendi. Também se diferenciam da injúria real porque, nesta, há o dolo de injuriar. Consoante o §5º, no caso de lesão leve privilegiada ou em sendo as lesões leves recíprocas,a pena de detenção pode ser substituída pela de multa. Ademais, a lesão leve é crime de ação penal pública condicionada à representação do ofendido e cujo processo e julgamento é de competência dos Juizados Especiais, tendo em vista seu menor potencial ofensivo (art. 88, Lei 9.099/95). Lesão Corporal Grave e Gravíssima (art. 129, §§ 1º e 2º): Grave é a lesão de que resulta incapacidade para as ocupações habituais por mais de trinta dias; perigo de vida; debilidade permanente de membro, sentido ou função e aceleração de parto. Gravíssima, a seu turno, é a lesão que enseja como consequência a incapacidade permanente para o trabalho; a enfermidade incurável; a perda ou inutilização de membro, sentido ou função; a deformidade permanente ou o aborto. Lesão Corporal seguida de Morte (art. 129, § 3º): É a lesão corporal qualificada pelo resultado, ou seja, o homicídio preterdoloso. Nesse caso, da ofensa à integridade física advém o resultado morte, mas as circunstâncias evidenciam que o agente não quis o resultado, nem assumiu o risco de produzi-lo. Há dolo no antecedente e culpa no consequente. Diferencia-se do homicídio, portanto, ante a ausência do animus necandi. DIREITO PENAL 128 Lesão Corporal Culposa (art. 129, § 6º): Aqui, não há gradação entre leve, grave ou gravíssima: sempre que decorrer de imprudência, negligência ou imperícia, a lesão será culposa. No entanto, se das lesões culposas resultar a morte da vítima, responderá o agente por homicídio culposo. A pena será aumentada em 1/3 se ocorrer qualquer das majorantes previstas para o homicídio culposo (art. 129, § 7º). Na mesma linha, poderá ser concedido o perdão judicial se as consequências da infração atingirem o agente de forma tão grave que a pena se torne desnecessária (art. 129, § 8º). As lesões culposas também são de competência dos Juizados Especiais e a ação é pública condicionada à representação. Por fim, se elas forem praticadas na direção de veículo automotor, incorrerá seu autor no crime previsto no art. 303, CTB. Violência Doméstica (art. 129, § 9º): Este parágrafo foi recentemente alterado pela Lei nº 11.340/06. Determina ele que, se as lesões corporais leves forem cometidas contra ascendente, descendente, irmão, cônjuge ou companheiro, ou prevalecendo-se das relações domésticas, de coabitação ou de hospitalidade, a pena é de detenção de três meses a três anos, aumentada de 1/3 se a vítima é portadora de deficiência física (§11). Outrossim, presentes essas circunstâncias nas lesões graves, gravíssimas ou com resultado morte, a pena é a do parágrafo correspondente aumentada em 1/3 (§10). A Lei 13.142/2015 incluiu o §12, que prevê aumento de pena de um a dois terços se a lesão for praticada contra autoridade ou agente descrito nos arts. 142 e 144 da Constituição Federal, integrantes do sistema prisional e da Força Nacional de Segurança Pública, no exercício da função ou em decorrência dela, ou contra seu cônjuge, companheiro ou parente consanguíneo até terceiro grau, em razão dessa condição. CRIMES CONTRA A HONRA Calúnia (art. 138): A conduta típica consiste na imputação falsa a alguém de fato definido como crime. O bem jurídico protegido é a honra objetiva do sujeito, ou seja, a sua reputação, o conceito que os demais membros da sociedade têm a seu respeito. Consuma-se, por isso, quando a imputação chega a conhecimento de um terceiro, o que cria a condição necessária para lesar a fama do indivíduo. Para a configuração da calúnia, exige-se: a) a existência de um fato determinado, ou seja, deve haver a individualização de suas circunstâncias; b) falsidade da imputação, a qual pode recair sobre o fato ou sobre a autoria; c) o animus caluniandi que é constituído pela vontade consciente de caluniar a vítima, não havendo crime quando presente qualquer elemento subjetivo diverso, como o animus defendendi, narrandi ou o jocandi. Prevê o §1º que incorre na mesma pena aquele que, sabendo falsa a imputação, a propala ou divulga. O §2º determina que é punível a calúnia contra mortos. O §3º, a seu turno, trata da exceção da verdade, a qual consiste na possibilidade de o agente provar a veracidade do fato que imputou. O instituto é, contudo, vedado em três situações: nos crimes de ação privada, quando o ofendido não foi condenado por sentença irrecorrível; nos fatos imputados contra o Presidente da República ou contra chefe de governo estrangeiro; se o ofendido foi absolvido por sentença irrecorrível. DIREITO PENAL 129 Difamação (art. 139): A difamação consiste em atribuir fato ofensivo à reputação de alguém. O fato, ao contrário da calúnia, não precisa ser falso e nem ser definido como crime, mas deve ser determinado e individualizado. O bem jurídico tutelado é, novamente, a honra objetiva do sujeito e, por isso, também se consuma quando terceiro toma conhecimento da atribuição. Com relação ao elemento subjetivo do tipo, exige-se o animus diffamandi. Quanto ao instituto da exceção da verdade, só é aplicável quando o ofendido é funcionário público e a ofensa é relativa ao exercício de suas funções. Injúria (art. 140): A injúria consiste na ofensa à dignidade ou ao decoro de alguém. O objeto de proteção deste crime é a honra subjetiva que é um julgamento que o indivíduo faz de si mesmo, ou seja, é um sentimento de autoestima, de autoimagem. Consuma-se, por isso, quando a ofensa irrogada chega ao conhecimento do próprio ofendido. Com relação ao elemento subjetivo do tipo, exige-se o animus injuriandi. O instituto da exceção da verdade não é aplicável, pois não se pode pretender provar um insulto ou uma afronta; a autenticidade dos juízos depreciativos que maculam a honra é irrelevante para a caracterização da injúria. O §1º prevê a possibilidade de perdão judicial, o qual pode ser concedido quando o ofendido, de forma reprovável, provocou diretamente a injúria ou, ainda, no caso de retorsão imediata, que consista em outra injúria. Saliente-se a existência de posição doutrinária no sentido de que o perdão judicial não é mero benefício ao réu, e sim direito subjetivo público de liberdade e, por isso, deve, necessariamente, ser concedido quando houver o preenchimento dos requisitos legais.95 Injúria Real (art. 140, §2º): É aquela praticada mediante violência ou vias de fato que, por sua natureza ou meios empregados, se consideram aviltantes. Injúria Preconceituosa (art. 140, §3º): Consiste na utilização de elementos referentes a raça, cor, etnia, religião, origem ou condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência física. CRIMES CALÚNIA DIFAMAÇÃO INJÚRIA Quanto à veracidade O fato imputado é falso. O fato imputado pode ser verdadeiro. A ofensa irrogada pode ser verdadeira. Quanto à determinação O fato imputado tem que ser definido, determinado. O fato imputado tem que ser definido, determinado. A qualidade pessoal negativa pode constituir um conceito vago e impreciso. Quanto ao bem jurídico tutelado Honra objetiva. Honra objetiva. Honra subjetiva. Quanto à possibilidade de exceção da verdade É admitida como regra. É admitida como exceção. Nunca é admitida. Quanto à classificação e Crime formal que se consuma com o Crime formal que se consuma com o Consuma-se com o conhecimento do 95 BITENCOURT, Cezar Roberto. CP Comentado. São Paulo: Saraiva, 2002. p. 545 e DELMANTO, Celso. CP Comentado. 6.ed. Rio de Janeiro: Renovar, 2002. p. 208. DIREITO PENAL 130 momento consumativo conhecimento de terceiro. conhecimento de terceiro. ofendido. É crime formal. Formas Majoradas (art. 141): As penas cominadas aos delitos contra a honra se aumentam em 1/3 se cometidos contra o Presidente da República ou contra chefe de governo estrangeiro; contra funcionário público, em razão de suas funções;na presença de várias pessoas, ou por meio que facilite a divulgação da calúnia, da difamação ou da injúria; contra maior de sessenta anos ou portador de deficiência, exceto no caso de injúria. O parágrafo único do art. 141 determina que se aplica a pena em dobro se o crime é cometido mediante paga ou promessa de recompensa. Causas Especiais de Exclusão do Crime (art. 142): Não constituem injúria ou difamação punível a ofensa irrogada em juízo, na discussão da causa, pela parte ou por seu procurador; a opinião desfavorável da crítica literária, artística ou científica, salvo quando inequívoca a intenção de injuriar ou difamar; o conceito desfavorável emitido por funcionário público, em apreciação ou informação que preste no cumprimento de dever de ofício. Determina o parágrafo único que, na primeira e na última situação, responde pela injúria ou pela difamação quem lhe dá publicidade. Saliente-se que essas causas de exclusão do crime não se aplicam à calúnia. Retratação (art. 143): O querelado que, antes da sentença, retrata-se cabalmente da calúnia ou da difamação, fica isento de pena. Interpelação Judicial (art. 144): Se, de referências, alusões ou frases, se infere calúnia, difamação ou injúria, quem se julga ofendido pode pedir explicações em juízo. Quem se recusa a dá-las ou, a critério do juiz, não as dá satisfatoriamente responde pela ofensa. Destaque-se que a oração “responde pela ofensa” significa tão somente que o sujeito pode ser criminalmente processado. Não se condena ninguém no pedido de explicações. Ela previne a jurisdição e é facultativa. Ação Penal: A ação penal é, em regra, privada nos delitos de calúnia, difamação e injúria, salvo quando, no caso do art. 140, § 2º, da violência resulta lesão corporal. Nesta situação, se a lesão for grave ou gravíssima, a ação será pública incondicionada; se for leve será condicionada à representação do ofendido, em virtude do art. 88 da Lei 9.099/95. Procede-se, ainda, mediante requisição do Ministro da Justiça, no caso de crime cometido contra o Presidente da República ou contra chefe de governo estrangeiro, ou mediante requisição do ofendido, no caso de delito contra funcionário público em razão de suas funções. Neste caso, o funcionário tem legitimidade concorrente para propor, mediante queixa, ação penal (STF, Súm. 714). CRIMES CONTRA A LIBERDADE INDIVIDUAL Os crimes deste capítulo protegem a liberdade individual do indivíduo, o que engloba sua liberdade pessoal e a inviolabilidade de seu domicílio, de sua correspondência e de seus segredos. CRIMES CONTRA A LIBERDADE PESSOAL Constrangimento Ilegal (art. 146): A conduta típica consiste em constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, ou depois de haver reduzido, por qualquer outro meio, a DIREITO PENAL 131 capacidade de resistência, a não fazer o que a lei permite ou a fazer aquilo que ela não ordena. É delito subsidiário em relação a todos os crimes em que o constrangimento é meio ou elemento, como no roubo (art. 157), na extorsão (art. 158) e no estupro (art. 213). Saliente-se também que a pretensão do agente, ao obrigar o ofendido a não fazer o que a lei permite ou a fazer o que ela não manda, deve ser ilegítima; pois, se for legítima, o crime será o de exercício arbitrário das próprias razões (art. 345). O §1º determina que as penas se aplicam cumulativamente e em dobro, quando, para a execução do crime, se reúnem mais de três pessoas ou há emprego de armas. O §2º, por sua vez, prevê que, além as penas cominadas, aplicam-se as correspondentes à violência. Por fim, o §3º elenca duas causas de exclusão da tipicidade, quais sejam, a intervenção médica ou cirúrgica, sem o consentimento do paciente ou de seu representante legal, se justificada por iminente perigo de vida e a coação exercida para evitar o suicídio. Ameaça (art. 147): O tipo penal consiste em intimidar alguém, por palavra, escrito ou gesto, ou qualquer outro meio simbólico, de causar-lhe mal injusto e grave. Assim, se o “mal” for justo ou não for grave, não haverá o crime. Exige-se a idoneidade da ameaça, devendo ser ela capaz de impingir medo à vítima.96 Saliente-se que o fato de o crime ser formal não afasta a imprescindibilidade de o destinatário sentir-se, realmente, temeroso, pois o resultado naturalístico que pode ocorrer é o mal injusto e grave, o que constitui mero exaurimento do delito. Por disposição do parágrafo único, a ação penal é pública condicionada à representação. Sequestro e Cárcere Privado (art. 148): A conduta típica consiste em privar alguém de sua liberdade, mediante sequestro ou cárcere privado, que são formas muito semelhantes de privação do direito de ir e vir, destacando-se este por um sentido de maior restrição de liberdade. É crime permanente, pois a ofensa ao bem jurídico prolonga-se no tempo: enquanto a vítima estiver privada de sua liberdade, a execução estará se consumando. O § 1º, alterado pela Lei n. 11.106/05, qualifica o crime em razão do desvalor da ação quando a vítima é ascendente, descendente, cônjuge ou companheiro do agente ou maior de sessenta anos; quando o crime é praticado mediante internação da vítima em casa de saúde ou hospital; quando a privação da liberdade dura mais de quinze dias; quando o crime é praticado contra menor de dezoito anos; ou se ele é praticado com fins libidinosos. O § 2º, por sua vez, qualifica o delito em virtude do desvalor do resultado, quando, em razão de maus- tratos ou da natureza da detenção, a vítima sofre grave sofrimento físico ou moral. Redução à Condição Análoga à de Escravo (art. 149): O dispositivo, alterado pela Lei n. 10.803/2003, prevê um crime de forma vinculada que exige, para sua configuração, a existência de relação trabalhista entre sujeito ativo e passivo. Assim, ainda que se trate da supressão do direito individual de liberdade de alguém, a vítima somente pode ser o trabalhador lato sensu. A conduta tipificada consiste na submissão a trabalhos forçados ou jornada exaustiva, a condições degradantes de trabalho ou, ainda, na restrição da locomoção do trabalhador em razão de dívida contraída com o empregador ou preposto. Não obstante, o §1º prevê três outras condutas assimiladas, as quais, ao contrário do caput, demandam o especial fim de reter as vítimas no local de trabalho. A sanção penal é de reclusão e multa, ressalvada aquela correspondente à violência e aumentada de metade se o crime é praticado 96 Assim: BITENCOURT, Cezar Roberto. CP Comentado. São Paulo: Saraiva, 2002. p. 585; DELMANTO, Celso. CP Comentado. 6.ed. Rio de Janeiro: Renovar, 2002. p. 316; e NUCCI, Guilherme. CP Comentado. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2000. p.391. DIREITO PENAL 132 contra criança ou adolescente ou em razão de preconceito de raça, cor, etnia, religião ou origem (§2º). Tráfico de Pessoas (art. 149-A): este artigo foi incluído pela Lei n. 13.344/2016. Art. 149-A. Agenciar, aliciar, recrutar, transportar, transferir, comprar, alojar ou acolher pessoa, mediante grave ameaça, violência, coação, fraude ou abuso, com a finalidade de: I - remover-lhe órgãos, tecidos ou partes do corpo; II - submetê-la a trabalho em condições análogas à de escravo; III - submetê-la a qualquer tipo de servidão; IV - adoção ilegal; ou V - exploração sexual. Pena - reclusão, de 4 (quatro) a 8 (oito) anos, e multa. § 1º A pena é aumentada de um terço até a metade se: I - o crime for cometido por funcionário público no exercício de suas funções ou a pretexto de exercê-las; II - o crime for cometido contra criança, adolescente ou pessoa idosa ou com deficiência; III - o agente se prevalecer de relações de parentesco, domésticas, de coabitação, de hospitalidade, de dependência econômica, de autoridade ou de superioridade hierárquica inerente ao exercício de emprego, cargo ou função; ou IV - a vítima dotráfico de pessoas for retirada do território nacional. § 2º A pena é reduzida de um a dois terços se o agente for primário e não integrar organização criminosa. CRIMES CONTRA A INVIOLABILIDADE DO DOMICÍLIO Violação de Domicílio (art. 150): O crime consiste em entrar ou permanecer, clandestina ou astuciosamente, ou contra a vontade expressa ou tácita de quem de direito, em casa alheia ou, ainda, em suas dependências. A expressão “casa” compreende qualquer compartimento habitado, o aposento ocupado de habitação coletiva e o compartimento não aberto ao público onde alguém exerce profissão ou atividade (§4º). Não envolve, contudo, hospedaria, estalagem ou qualquer outra habitação coletiva (à exceção do aposento ocupado), nem taverna, casa de jogo e outras do gênero (§5º). O §1º relaciona as qualificadoras do crime, quais sejam, que o crime seja cometido durante a noite, ou em lugar ermo, ou com o emprego de violência ou arma, ou por duas ou mais pessoas. Não constitui crime a entrada ou permanência em casa alheia ou em suas dependências durante o dia, com observância das formalidades legais, para efetuar prisão ou outra diligência, bem como, a qualquer hora do dia ou da noite, quando algum crime está sendo ali praticado ou na iminência de sê-lo (§ 3º). O art. 5º, XI, da CF ainda excetua as hipóteses de desastre e a prestação de socorro. CRIMES CONTRA A INVIOLABILIDADE DE CORRESPONDÊNCIA Violação de Correspondência (art. 151, caput), Sonegação ou Destruição de Correspondência (art. 151, § 1º, I) e Violação da Comunicação Telegráfica, Radioelétrica ou Telefônica (art. 151, §1º, II, III e IV): Objetivam, em síntese, proteger a inviolabilidade da correspondência e das comunicações telegráficas e telefônicas, garantias constitucionalmente asseguradas (art. 5º, XII, CF). Com efeito, apenas o sigilo das comunicações telefônicas, por DIREITO PENAL 133 expressa previsão constitucional, pode ser quebrado, desde que nas hipóteses legais (previstas na Lei n. 9.296/96), mediante ordem judicial e para fins de investigação criminal ou instrução processual penal. Os crimes aqui previstos são subsidiários, porque só se configuram quando não são meio ou elemento de crime mais grave. Outrossim, a pena é majorada em metade, se houver dano a alguém (art. 151, §2º), e o delito é qualificado se a conduta é praticada com abuso de função em serviço postal, telegráfico, radioelétrico ou telefônico (art. 151, §3º). Na forma qualificada e com relação ao inc. IV do §1º, a ação penal é pública incondicionada; nos demais casos, somente se procede mediante representação. Violação de Correspondência Comercial (art. 152): É crime próprio que só pode ser praticado pelo sócio ou empregado do estabelecimento comercial ou industrial e desde que incorra ele em abuso dessa condição para desviar, sonegar, suprimir ou revelar a estranho o conteúdo da correspondência. A ação penal é pública condicionada à representação. CRIMES CONTRA A INVIOLABILIDADE DOS SEGREDOS Divulgação de Segredo (art. 153) e Violação de Segredo Profissional (art. 154): Protege- se, aqui, a inviolabilidade do segredo, aspecto da liberdade individual. No primeiro caso, a ação típica é divulgar conteúdo de documento ou correspondência confidencial (art. 153, caput) ou informações sigilosas ou reservadas assim definidas em lei (art. 153, §1º-A). Na segunda hipótese, trata-se de revelar segredo relativo ao exercício das atividades da vida privada como a profissão ou a função (art. 154). O verbo-núcleo revelar tem abrangência mais estrita do que divulgar, porque este pressupõe um número indeterminado de pessoas. Em regra, procede-se somente mediante representação, mas se a divulgação de segredo trouxer prejuízo à Administração, a ação penal será incondicionada (art. 153, §2º). Citamos também a lei que visa a punir os crime praticados pela internet, a partir do caso da atriz Carolina Dieckmann, nos seguintes termos: Art. 154-A. Invadir dispositivo informático alheio, conectado ou não à rede de computadores, mediante violação indevida de mecanismo de segurança e com o fim de obter, adulterar ou destruir dados ou informações sem autorização expressa ou tácita do titular do dispositivo ou instalar vulnerabilidades para obter vantagem ilícita: Pena - detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano, e multa. § 1º Na mesma pena incorre quem produz, oferece, distribui, vende ou difunde dispositivo ou programa de computador com o intuito de permitir a prática da conduta definida no caput. § 2º Aumenta-se a pena de um sexto a um terço se da invasão resulta prejuízo econômico. § 3º Se da invasão resultar a obtenção de conteúdo de comunicações eletrônicas privadas, segredos comerciais ou industriais, informações sigilosas, assim definidas em lei, ou o controle remoto não autorizado do dispositivo invadido: Pena - reclusão, de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos, e multa, se a conduta não constitui crime mais grave. § 4º Na hipótese do § 3o, aumenta-se a pena de um a dois terços se houver divulgação, comercialização ou transmissão a terceiro, a qualquer título, dos dados ou informações obtidos. § 5º Aumenta-se a pena de um terço à metade se o crime for praticado contra: I - Presidente da República, governadores e prefeitos; II - Presidente do Supremo Tribunal Federal; DIREITO PENAL 134 III - Presidente da Câmara dos Deputados, do Senado Federal, de Assembleia Legislativa de Estado, da Câmara Legislativa do Distrito Federal ou de Câmara Municipal; ou IV - dirigente máximo da administração direta e indireta federal, estadual, municipal ou do Distrito Federal. Ação penal Art. 154-B. Nos crimes definidos no art. 154-A, somente se procede mediante representação, salvo se o crime é cometido contra a administração pública direta ou indireta de qualquer dos Poderes da União, Estados, Distrito Federal ou Municípios ou contra empresas concessionárias de serviços públicos. CRIMES CONTRA O PATRIMÔNIO Os crimes contidos neste título protegem a posse e a propriedade, direitos garantidos constitucionalmente (art. 5º, XXII) e, por vezes, a mera detenção de bens. As disposições gerais vêm previstas a partir do art. 181, o qual determina ser isento de pena quem pratica qualquer dos delitos patrimoniais em prejuízo do cônjuge, na constância da sociedade conjugal, do ascendente ou do descendente. O art. 182, a seu turno, dispõe que a ação penal é pública condicionada à representação se o crime for cometido contra cônjuge desquitado ou judicialmente separado, irmão, tio ou sobrinho com quem coabite o agente. Por fim, o art. 183 determina que os dispositivos anteriores não se aplicam aos crimes de roubo, extorsão ou nos quais tenha havido emprego de violência ou grave ameaça; ao estranho que participa do crime, e ao delito cuja vítima é pessoa de sessenta anos ou mais. Os crimes contra o patrimônio são os seguintes: FURTO Furto Simples (art. 155): Trata-se de crime comum que, à exceção do dono da coisa, pode ser praticado por qualquer pessoa. Furtar é subtrair coisa alheia móvel para si ou para outrem. Por coisa alheia móvel, elemento normativo do tipo, entende-se objetos e bens que tenham utilidade ou valor econômico, que pertençam a alguém e que sejam passíveis de deslocamento de um lugar para outro no sentido real, e não jurídico, razão pela qual bens considerados imóveis pelo direito civil podem ser objeto de furto. Equipara-se à coisa móvel a energia elétrica ou qualquer outra que tenha valor econômico (§3º). Não importa se a posse ou propriedade da coisa furtada é legítima, mas não configura o crime a subtração de coisas sem dono, de ínfimo valor, perdidas, abandonadas, tampouco seres vivos (art. 148 ou 249, CP) ou cadáveres (art. 211, CP). Além do dolo, exige-se a presença do especial fim de agir: o animus furandi, a intenção de assenhorar-se de forma definitivapara si ou para terceiro de algo que não lhe pertence. Em decorrência, o furto de uso é fato atípico, desde que a posse tenha sido momentânea e que tenha havido a devolução integral da coisa. Outrossim, o furto deve prescindir de todo e qualquer tipo de violência contra a pessoa, embora a violência exercida contra a coisa não o descaracterize (por exemplo, arrebatamento de objeto das mãos da vítima). Sendo crime material, admite-se a tentativa. Conforme decidido pelo STJ em recurso repetitivo: “Consuma-se o crime de furto com a posse de fato da res furtiva, ainda que por breve espaço de tempo e seguida de perseguição ao agente, sendo prescindível a posse mansa e pacífica ou desvigiada” (REsp 1524450, Néfi, 3ª. S., u., 14.10.15). DIREITO PENAL 135 Para o mesmo tribunal: “é relativa a inidoneidade da tentativa de furto em estabelecimento comercial dotado de segurança e de vigilância eletrônica”, de modo que é possível a tentativa, não se cuidando de crime impossível” (REsp 1385621, Cruz, 3ª. S., u., 27.5.15). Furto Noturno (art. 155, § 1º): Se o furto é praticado durante o repouso noturno, em razão do maior desvalor da conduta, a pena é aumentada em 1/3. Trata-se do período em que as pessoas estão repousando, havendo menor vigilância sobre a res. Há dissídio jurisprudencial quanto à necessidade ou não de o local ser habitado e de que nele haja pessoa repousando para a incidência da majorante. De todo modo, o aumento não se aplica às formas qualificadas do delito, embora se trate, nesses casos, de circunstância do crime, a ser avaliada na primeira fase de dosimetria da pena. Furto Privilegiado (art. 155, §2º): Se a coisa furtada é de valor reduzido e o agente é primário, tem ele direito ao reconhecimento do privilégio, podendo o juiz substituir a pena de reclusão por detenção, diminuí-la de 1/3 a 2/3 ou aplicar somente a pena de multa. A jurisprudência entende que o privilégio é aplicável tanto ao furto simples quanto na sua modalidade qualificada. Saliente-se que o furto privilegiado não se confunde com o famélico, ou seja, quando alguém subtrai gêneros alimentícios para saciar sua fome, sendo este seu único recurso ante o estado de necessidade em que se encontrava. Nessa hipótese, atua o agente amparado por uma excludente de ilicitude e, por isso, não há crime. Furto Qualificado (art. 155, § 4º): O furto é qualificado se cometido: com destruição ou rompimento de obstáculo à subtração da coisa (inc. I); com abuso de confiança, ou mediante fraude, escalada ou destreza (inc. II); com emprego de chave falsa (inc. III); e mediante concurso de duas ou mais pessoas (inc. IV). À exceção da circunstância do abuso de confiança, as demais, de natureza objetiva, comunicam-se aos coautores e partícipes. O §5º do art. 155 traz outro tipo derivado do furto, o qual ocorre quando a subtração é de veículo automotor que venha a ser transportado para outro Estado ou para o exterior. O saque com cartão de débito clonado configura furto qualificado pela fraude e não estelionato. A Lei 13.330/2016 incluiu o § 6º que trata da subtração de semovente dosmeticável de produção, ainda que abatido ou dividido em partes no local da subtração. A pena é de reclusão de 2 a 5 anos. A Lei 13.654/2018 inclui neste artigo os §§ 4º-A e 7º, que estabelecem pena de 4 a 10 anos e multa se houver emprego de explosivo ou de artefato análogo que cause perigo comum (§4º-A) ou se a subtração for de substâncias explosivas ou de acessórios que, conjunta ou isoladamente, possibilitem sua fabricação, montagem ou emprego (§7º). Furto de Coisa Comum (art. 156): Modalidade especial do crime de furto e distingue-se deste porque o objeto da subtração deve ser coisa comum, ou seja, pertencente, a um só tempo, aos sujeitos ativo e passivo. Ademais, tratando-se de crime próprio, só pode ser praticado por condômino, coerdeiro ou sócio da coisa comum. ROUBO E EXTORSÃO Roubo Próprio (art. 157): A figura típica do roubo tem como bens jurídicos protegidos, a um só tempo, o patrimônio e a integridade física e a liberdade da pessoa. Trata-se de crime DIREITO PENAL 136 complexo, consistente no furto associado ao emprego de violência ou grave ameaça. Esta, uma intimidação grave e séria; aquela, um constrangimento físico (vias de fato ou lesões corporais leves, porque, se graves, é caso de roubo qualificado). A subtração de coisa alheia móvel realizada mediante qualquer outro meio que impeça a resistência do ofendido à perda dos seus bens também configura o delito. Em síntese, no roubo próprio, a violência, a grave ameaça ou qualquer outro meio similar são praticados para a retirada dos bens da vítima, antes ou durante a subtração. Qualquer indivíduo pode ser sujeito ativo ou passivo e, em se tratando de crime material, a tentativa é plenamente admissível. O momento da consumação delitiva, porém, é objeto da mesma discussão doutrinária relativa ao crime de furto. Sobre o assunto, entende-se que o crime só se consuma quando o agente retira a coisa da esfera de disponibilidade da vítima, invertendo a posse. Roubo Impróprio (art. 157, § 1º): O roubo impróprio ocorre quando a violência ou grave ameaça é praticada logo depois da subtração, a fim de assegurar a impunidade do crime ou a detenção da coisa para si ou para terceiro. Aqui, os meios para elidir a resistência da vítima são utilizados quando o agente já efetuou a subtração; diferenciando-se, pois, do roubo próprio. Predomina o entendimento de que não é possível a tentativa de roubo impróprio97. Roubo Majorado (art. 157, § 2º): A pena do crime de roubo é aumentada de 1/3 até a metade: se houver concurso de duas ou mais pessoas (II), se a vítima está em serviço de transporte de valores e o agente conhece tal circunstância (III), se a subtração for de veículo automotor que venha a ser transportado para outro Estado ou para o exterior (IV), se o agente mantém a vítima em seu poder, restringindo sua liberdade (V), se a subtração for de substâncias explosivas ou de acessórios que, conjunta ou isoladamente, possibilitem sua fabricação, montagem ou emprego (VI); ou ainda se a violência ou grave ameaça é exercida com emprego de arma branca (VII). A Lei 13.654/2018 ainda inclui neste artigo o § 2º-A que estabelece aumento de pena (2/3) se a violência ou ameaça é exercida com emprego de arma de fogo (I) ou se há destruição ou rompimento de obstáculo mediante o emprego de explosivo ou de artefato análogo que cause perigo comum (II). A Lei 13.964/2019 incluiu o § 2º-B neste artigo, dispondo que a pena do crime de roubo será aplicada em dobro se a violência ou a grave ameaça for exercida mediante o emprego de arma de fogo de uso restrito ou proibido. Ou seja, esta qualificadora levará a pena do roubo para 8 a 20 anos de reclusão. Roubo Qualificado pelas Lesões Corporais Graves (art. 157, §3º, 1ª parte): Se da violência empregada decorrem lesões corporais graves, a hipótese é de roubo qualificado, sendo a pena de reclusão de 7 a 18 anos e multa (Redação dada pela Lei 13.654/2018). Latrocínio (art. 157, § 3º, 2ª parte): O latrocínio é um crime complexo, ou seja, uma unidade jurídica composta pelos delitos de roubo e homicídio (da vítima ou de terceiro). Trata- se, pois, do roubo qualificado pelo resultado morte. Sua configuração exige o dolo na conduta antecedente, mas não importa se houve dolo ou culpa na subsequente, porque o agravamento da pena decorre do maior desvalor do resultado. Outrossim, apesar de atingir o bem jurídico vida, no latrocínio, a morte é um meio para o crime-fim que é contra o patrimônio da vítima, o 97 STJ, REsp 1155927 , Fischer, 5ª. T., 18.5.10. DIREITO PENAL 137 que afasta a competência do Tribunal do Júri para seu julgamento. Neste caso a pena é de reclusão de 20 a 30 anos e multa (Redação dada pela Lei 13.654/2018). Por fim, resta