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Entre o povo de Deus, há muita interrogação a 
respeito do verdadeiro significado da oração. Alguns a 
consideram uma necessidade urgente, enquanto 
outros, taivez devido aos muitos afazeres diários, a 
negligenciam tanto. Mas, o que é a oração? Como 
manter este relacionamento com Deus? O que significa 
orar em nome de Jesus? Como saber a vontade de 
Deus? A nossa oração pode mudar a vontade de Deus? 
A oração não é o encontro de dois amigos, nem o de 
um benfeitor com um mendigo, assim como não é o 
encontro de um chefe com um subordinado. 
Tampouco é o encontro de um Deus que tudo pode 
com homens dispostos a tudo, nem o encontro de um 
pai indulgente com filhos caprichosos. A oração é o 
ato através do qual a criatura encontra o seu Criador, 
o pecador encontra o Deus justo e santo; o filho 
querido encontra o seu Pai.
O autor, através de reflexões muito práticas sobre estas 
e outras perguntas a respeito da oração, ajuda o leitor 
a meditar sobre esta bendita comunhão com Deus, a 
fim de que a experimente com mais eficácia.
Guy Appéré
EDITORA FIEL
A O ração que D eus Responde
Copyright ® Evangelical Press
Primeira edição no Brasil — 2001
Todos os direitos reservados. É proibida 
a reprodução deste livro, no todo ou em 
parte, sem a permissão escrita dos Editores.
Editora Fiel da
Missão Evangélica Literária 
Caixa Postal 81 
São José dos Campos, SP 
12201-970
ín d ic e
I ntrodução ....................................................................................... 5
1. E ncontro com D eus em Or a ç ã o .......................................... 7
2. O que M otiva a Oração? ....................................................... 15
3. A N atureza da Or a ç ã o .......................................................... 21
4. Os H orizontes da Oração? .................................................. 25
5. O M odo de Or a r ....................................................................... 29
6. A P erseverança e a Oração ................................................ 37
7. A P alavra de D eus e a Oração ............................................ 43
8 . A Fé e a Or a ç ã o ................................................................. 51
9. J esus, o H omem de Or a ç ã o .................................................. 57
“S enhor,
Ensina-nos a orar!”
(Lucas 11.1)
Ser crente é orar!
Incontestavelmente, a oração está exatamente no centro da 
vida cristã. Ela é inseparável da vida cristã; aparece com a vida 
cristã e desta é uma evidência. A oração é vida!
Muitas vezes, o novo crente vivência esta realidade sem 
mesmo estar consciente dela. Mas, quem caminha através das 
alegrias e tristezas da vida na companhia do seu Deus, quem 
compartilha com seu Pai, em intimidade crescente, as alegrias e 
os dissabores de uma longa jornada, certamente comprova esta 
verdade: ser crente é orar.
Se isto é verdade, não exageramos ao afirmar que uma correta 
noção a respeito do que significa a oração é absolutamente 
indispensável a uma exata compreensão e a um feliz crescimento 
na vida cristã. Portanto saber orar equivale a saber viver! Logo, 
nossa primeira oração deve ser: “Senhor, ensina-nos a orar” (Lc 
11. 1) .
Desejamos ter Jesus como Mestre e não a experiência 
humana, não importando quão rica ela seja. Queremos humil­
demente matricular-nos na sua escola, a fim de escutarmos sua 
Palavra, a única norma de todo o conhecimento.
As modestas reflexões, todas elas práticas, que apresentamos 
a seguir, não pretendem ensinar a orar. Atingirão o seu alvo se 
ajudarem a meditar, de novo e melhor, sobre esta única e 
maravilhosa relação com Deus: a oraçãol
ônconào com D̂ms em Õftação
O importante é o nosso 
relacionamento com Deus!
S e m dúvida, é importante termos idéias claras sobre a 
oração. No entanto, o que importa ainda mais é o espírito em que 
nós oramos, a atitude que tomamos diante de Deus, quando nos 
aproximamos dEle, a fim de invocá-Lo. O importante é que este­
jamos cônscios a respeito do que é o nosso relacionamento com 
Deus. Quem é Ele e quem somos nós nesse encontro devocional? 
Como podemos e devemos nos apresentar?
A oração não é o encontro de dois amigos, nem o de um 
benfeitor com um mendigo, assim como não é o encontro de um 
chefe com um subordinado. Tampouco é o encontro de um Deus 
que tudo pode com homens dispostos a tudo, nem o encontro de 
um pai indulgente com filhos caprichosos.
A oração é o ato através do qual a criatura encontra o seu 
Criador; o pecador encontra o Deus justo e santo; o filho querido 
encontra o seu Pai. Estas são três maneiras de encarar algo tão 
íntima e simultaneamente ligado e vivido; mas, para melhor 
compreendê-las, precisamos estudá-las separadamente.
A criatura diante de seu Criador
A oração é o encontro de Deus, em sua grandiosidade infinita, 
sua majestade única, sua independência absoluta e sua soberania 
indiscutível, com o ser por Ele criado, o ser que depende
8 A Oração que D eus Responde
totalmente dEle, nada pode e sem Ele não é coisa alguma.
Uma distância infinita separa o Criador soberano do ser que 
Ele criou. Se não tivermos, desde o início, o sentimento desta 
esmagadora desproporção entre Deus e o homem, nossa atitude 
não será correta, e a nossa oração perderá muito da sua eficácia. 
O Pregador estava consciente de tal abismo, quando escreveu: 
“Não te precipites com a tua boca, nem o teu coração se apresse 
a pronunciar palavra alguma diante de Deus; porque Deus está 
nos céus, e tu, na terra” (Ec 5.2). Perante o Senhor, disse o 
apóstolo João: “Caí a seus pés como morto” (Ap 1.17); e Jó, 
vencido, reconheceu: “Bem sei que tudo podes, e nenhum dos 
teus planos pode ser frustrado. Quem é aquele, como disseste, 
que sem conhecimento encobre o conselho? Na verdade, falei do 
que não entendia; coisas maravilhosas demais para mim, coisas 
que eu não conhecia. Escuta-me, pois, havias dito, e eu falarei; 
eu te perguntarei, e tu me ensinarás. Eu te conhecia só de ouvir, 
mas agora os meus olhos te vêern. Por isso, me abomino e me 
arrependo no pó e na cinza” (Jó 42.2-6).
Moisés, no deserto do Sinai, “escondeu o rosto, porque temeu 
olhar para Deus” (Êx 3.6). Isso porque ele tinha consciência da 
infinita grandiosidade de Deus; doutra forma não podería ser, 
quando o seu divino interlocutor lhe sublinhou o solene caráter 
desse encontro: “Não te chegues para cá; tira as sandálias dos 
pés, porque o lugar em que estás é terra santa” (Êx 3.5).
Esta compreensão da infinita grandiosidade de Deus e a 
percepção de nossa própria fraqueza são as marcas indispensáveis 
a um verdadeiro espírito de oração. Toda a proximidade, toda a 
simplicidade ou mesmo toda a ousadia que a segurança de nossa 
filiação pode produzir, em termos de proximidade, de simpli­
cidade e mesmo de audácia, não é capaz de anular estas duas 
marcas. Confiar à semelhança de uma criança e ter a humildade 
de um ser criado: eis dois sentimentos que, ao invés de se 
excluírem, completam-se e enriquecem-se mutuamente.
O pecador ante o Deus justo e santo
Também somos pecadores. Diante de Deus, perfeitamente 
justo e santo, não nos sentimos apenas indignos, mas também
Encontro com Deus em Oração 9
nos reconhecemos culpados. “Tu és tão puro de olhos, que não 
podes ver o mal” (Hc 1.13). Ora, nós praticamos o mal. “Se 
dissermos que não temos cometido pecado, fazemo-lo mentiroso, 
e a sua palavra não está em nós” (1 Jo 1.10).
Por outro lado, mesmo aquele que com toda a sinceridade 
se julgava justo, isento de faltas, não poderia permanecer um 
instante sequer diante de Deus, em oração sincera, sem ser levado 
à plena consciência de seu pecado. Perante o Deus santo, santo, 
santo, todo ser humano se sente pecador, perdido. Ninguém pode 
se manter de pé na presença de Deus. O fariseu não estava em 
oração quando, ao levantar os olhos ao céu, dizia para si mesmo: 
“O Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens” 
(Lc 18.11). Tentava persuadir-se de sua própria justiça. Isso, 
porém,ele só podia fazer em face da ausência de Deus. O fariseu 
não orava, deleitava-se em palavras, enganava a si mesmo.
O publicano estava em atitude de verdadeira oração. Estava 
na presença do Deus invisível. Deus estava junto dele; era uma 
presença tão real que o pecador não ousava sequer levantar os 
olhos. Batendo no peito, murmurava a única oração que convinha 
ao homem consciente da santidade divina e de seu próprio pecado: 
“Ó Deus, sê propício a mim, pecador!” (Lc 18.13). Era tudo o 
que ele podia dizer, porque, na presença de Deus, todo o seu 
pecado se revelava acusador. O espírito do publicano, cônscio de 
que na oração tudo resulta da misericórdia e da graça divinas, é 
o tipo de espírito que deve ser a mola mestra de nossa oração.
Os homens de todas as épocas têm reagido assim diante de 
Deus, mesmo aqueles que não conheceram, em toda a sua 
plenitude e à semelhança dos filhos da Nova Aliança, o dom da 
graça divina. Basta mencionar o profeta Isaías que, adorando no 
templo, teve um encontro pessoal com o Senhor: “Ai de mim! 
Estou perdido! Porque sou homem de lábios impuros, habito no 
meio dum povo de impuros lábios, e os meus olhos viram o Rei, 
o S enhor dos Exércitos! ” (Is 6.5). Esta é a marca de um verdadeiro 
encontro com Deus, uma verdadeira oração. Como é humilde 
essa oração! Nela reconhecemos o homem que encontra Deus; 
esse hornem não ora para ser ouvido pelos outros, ele ora ao 
Senhor; e reconhece sua pequenez ante a santidade de Deus.
10 A Oração que D eus Responde
Porém, se esta fase é essencial, ela não é a única. A oração 
não é uma melodia que se possa tocar em uma só corda. O cântico 
dos redimidos não é entoado somente na voz grave dos baixos, 
nem apenas no sóbrio cantar do tenor; é entoado também na 
graciosa e leve melodia do soprano. É um conjunto harmonioso 
em que cada voz tem seu lugar.
O filho em comunhão com o Pai
Ao temor reverente, que a grandiosidade do Criador faz 
irromper no espírito do ser por Ele criado, ao sentimento de 
culpa e condenação que a santidade divina provoca na alma do 
pecador, devemos juntar a simples e alegre certeza de que o 
amor paterno inunda o coração do filho. Isto deve acontecer porque 
a oração também é o encontro de amor entre o pai e o filho 
querido. A verdadeira oração manifesta, com perfeição máxima, 
este profundo sentimento filial. Mais cedo ou mais tarde, em um 
ou outro momento, em sua expressão e seu espírito, a oração 
deve irromper este espontâneo grito do coração, este grito tão 
claro e tão profundo: “Aba, Pai” (Rm 8.15). “Pai! ” — esta palavra 
única, tão plena de significado para o crente, é a suma de uma 
experiência que, para a explicarmos, as palavras nos faltam — 
uma experiência construída na admiração, respeito, reconhe­
cimento, ternura, humildade, entrega total, confiança, e muitos 
outros sentimentos e aspirações da alma, os quais são indes­
critíveis. Sim, apesar de nossa fraqueza, de nosso pecado, de 
nossa indignidade, “somos filhos de Deus” (1 Jo 3.2).
A lembrança da nossa insuficiência e do nosso pecado diante 
do Criador, o Deus santo, ao invés de destruir nosso sentimento 
filial, fazem-no intensificar-se e enfatizam-no, levando-nos a 
compreender a nossa condição em toda a sua amplitude. Não 
poderemos exclamar: “Pai!” , em todo o pleno significado desta 
palavra, se, como Davi, não suspiramos: “Que é o homem, que 
dele te lembres? E o filho do homem, que o visites?” (SI 8.4); 
se, como Isaías, não exclamamos: “Ai de mim! Estou perdido! 
Porque sou homem de lábios impuros,... e os meus olhos viram 
o Rei, o Senhor dos Exércitos!” (Is 6.5).
Não existe amor sem admiração, sem reconhecimento. O
Encontro com Deus em Oração 11
amor não germina sob a influência do dever ou da reivindicação, 
mas sob a ação da imerecida graça divina. Que sentimento de 
libertação, que explosão de alegria, quando, após havermos 
gemido ou mesmo enquanto lamentamos nosso pecado, vemos 
raiar o amor de Deus em nossa profunda tristeza! O amor de 
Deus é Jesus Cristo, é a cruz! Que experiência, quando, em nosso 
desespero, entre a Lei e o pecado, a glória de Cristo irrompe nos 
evangelhos; o Cristo da História torna-se o Cristo de nossa vida, 
de nossa inteligência, o Cristo de nosso coração! A cruz, nós a 
vemos em toda a sua plenitude. A escuridão do monte do Calvário 
é rasgada pelos luminosos raios da páscoa, “porque Deus, que 
disse: Das trevas resplandecerá a luz [isso ocorreu na aurora do 
universo], ele mesmo resplandeceu em nosso coração, para 
iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Cristo” 
(2 Co 4.6). O Deus criador, o Todo-Poderoso que é a origem de 
tudo, o Deus justo e santo que proclamou a santa e, ao mesmo 
tempo, implacável Lei, é também o Deus de misericórdia e graça.
Não há contradição alguma entre o Deus do Antigo 
Testamento e o Senhor do Novo Testamento, porque Jesus Cristo 
“é a imagem do Deus invisível” (Cl 1.15). É Ele quem, na 
reconciliação, nos revela e conduz ao Pai. Historicamente, a Lei 
conduziu a Cristo; mas, noutro sentido, ela suscita no coração do 
homem a profunda necessidade de um Salvador e leva-o a Cristo, 
que, por sua parte, leva-o para junto do Pai. Porém, devemos 
nós, que já estamos em Cristo e na comunhão com o Pai, esquecer 
a Lei, afastando de nosso coração aquilo que expressa a santidade 
de Deus? De forma alguma. De acordo com as palavras do próprio 
Jesus, toda a Lei se resume em uma só palavra: “amor” . Amor a 
Deus e ao próximo. Jesus vai mais além, ao mostrar que “toda a 
Lei e os Profetas” (Mt 22.36-40) têm suas raízes neste amor, 
sendo eles também uma expressão do amor a Deus. Não há 
oposição entre a Lei e a Graça, como muitos se comprazem em 
fazer crer. Existe, sim, oposição entre o espírito legalista e o 
espírito de misericórdia e graça. Disse Jesus: “Não penseis que 
vim revogar a Lei ou os Profetas: não vim para revogar, vim 
para cumprir” (Mt 5.17).
A paz que nos traz a segurança da salvação não deve esconder
12 A Oração que D eus Responde
as tristes realidades do pecado. A perfeita alegria de sabermos 
que o nosso pecado está perdoado pode existir juntamente com o 
pesar pelas nossas fraquezas, que nos fazem suspirar pelas 
perfeições celestiais. Em meio às nossas mais puras alegrias, a 
cruz deve estar presente. “O perfeito amor lança fora o medo” (1 
Jo 4.18) do castigo que devia cair sobre o pecado, mas não afasta 
o receio de desagradar ao Senhor. O verdadeiro filho é obediente 
a seu pai, não porque receie o castigo, mas porque treme diante 
do pensamento de ver o pai magoado. Não é, pois, o receio pelo 
castigo que inspira a sua obediência, é o AMOR.
Determinada forma de temor é compatível com o amor. O 
verdadeiro amor, em parte, é constituído deste temor que se 
caracteriza por respeito e reverência. Deus, que, ao perdoar-nos, 
esqueceu o nosso pecado (Mq 7.18), não exige que nós es­
queçamos o pecado. “Lembra-te de onde saíste” (Dt 9.7).
O não esquecermos de onde fomos tirados é, em certo sentido, 
a nossa salvaguarda. Davi, que no livro de Salmos, de maneira 
insuperável, cantou o perdão de Deus, devia ter bem gravado no 
seu coração, durante toda a sua vida, a lembrança de uma de suas 
faltas, com todas as suas terríveis conseqüências.
O sentimento de fraqueza e de dependência que a criatura 
manifesta para com seu Criador, o sentimento de indignidade do 
pecador perante o Deus santo, santo, santo, e o sentimento de 
alegria e de liberdade do filho junto ao Pai são, pois, as três 
condições de uma correta atitude de oração. Deus, Criador e 
Soberano de todas as coisas, eterno, infinito, imutável, todo- 
poderoso, onisciente, sábio em toda a perfeição, santo, justo e bom, 
a Quem são devidos, no mais alto grau, a obediência, a confiança, 
as ações de graças, o amor e o louvor... e o próprio homenú
E à luz deste belo encontro, a sós com Deus, que todo o 
assunto da oração deve ser visto, que todo o problema ou dúvida 
que possa existir deve ser resolvido. Não devemos, jamais, 
permitir que nossas concepções,nossas interpretações, nossos 
argumentos tentem diminuir a grandiosidade de Deus. Não 
devemos, jamais, perder de vista o modesto lugar do homem que 
recebe a graça de um tal encontro: orar. Somente a glória de 
Deus deve inspirar e ser o alvo em nossas orações.
2
Ô que LÃÁotíua a Qkação ?
A oração depende dos motivos 
que a inspiram!
A oração, que é condicionada a uma correta noção de nosso 
relacionamento com Deus, depende também de uma definição 
clara dos motivos que a inspiram.
Por que nós oramos? Prevalece grande confusão sobre esse 
assunto. Raramente fazemos essa pergunta. Ora, a ignorância a 
respeito do que verdadeiramente motiva a oração conduz, muitas 
vezes, à sua mecanização e insipidez ou, por outro lado, a um 
entusiasmo inútil e, por vezes, ao afastamento do espírito que 
deveria estimular-nos à oração.
Por que nós oramos? A resposta a essa pergunta resulta, 
naturalmente, da maneira como respondemos à pergunta que 
fizemos no capítulo anterior — a quem dirigimos as nossas 
orações? Se verdadeiramente adoramos o Todo-Poderoso, o 
Criador de todas as coisas que subsistem, então, adoramos o 
Deus onisciente, que vê todas as coisas com perfeita clareza. É 
necessário fazermos tal afirmação? Nenhum de nós ignora que 
Ele é todo-poderoso; no entanto, oramos muitas vezes como se 
Deus necessitasse ser informado, a menos que — referindo-nos a 
oração em público — não queiramos que a igreja fique ciente do 
assunto sobre o qual oramos. Nesse caso, porém, não oramos, e
14 A Oração que D eus Responde
aquilo que chamamos oração dirige-se não a Deus, e sim aos 
homens.
O primeiro aspecto que precisamos enfatizar é que dirigimos 
as nossas preces ao Deus Onisciente. Ah! Como estão longe do 
nosso pensamento, tantas vezes, as palavras de Jesus! “E, orando, 
não useis de vãs repetições, como os gentios; porque presumem 
que pelo seu muito falar serão ouvidos. Não vos assemelheis, 
pois, a eles; porque Deus, o vosso Pai, sabe o de que tendes ne­
cessidade, antes que lho peçais” (Mt 6.7-8). Não temos, por 
vezes e em certo grau, esta noção pagã que Deus é sensível à 
extensão das nossas orações e que, quanto mais insistirmos, quan­
to mais repetirmos os mesmos pedidos, maiores serão as pro­
babilidades de obtermos respostas às nossas orações? Essa ati­
tude revela, com certeza, uma errônea interpretação da parábo­
la do amigo importuno (Lc 11.5-8), sobre a qual falaremos 
adiante.
A Bíblia nos diz que Deus sonda os corações e conhece os 
nossos pensamentos. Davi estava persuadido da perfeita onis- 
ciência divina, quando clamou: “S enhor, tu me sondas e me 
conheces... de longe penetras os meus pensamentos... conheces 
todos os meus caminhos... Ainda a palavra não me chegou à 
língua, e tu, S enhor, já a conheces toda... As trevas e a luz são 
a mesma coisa” (SI 139.1,2,3,4,12). Davi foi mais além, ao 
declarar, com certeza: “E no teu livro foram escritos todos os 
meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um 
deles havia ainda” (v. 16).
Deus é S e n h o r ; logo, o que acabamos de transcrever é 
verdadeiro. Portanto, se é verdadeiro, nada temos a ensinar-lhe 
em nossas orações! Dirigimos nossa oração a um Deus que tudo 
conhece antecipadamente e está ciente de nossas necessidades, 
tanto as que em oração expressamos, quanto as que ignoramos e, 
talvez, são ainda mais importantes. O testemunho de Daniel 
confirma nosso pensamento. O enviado divino lhe disse, em 
resposta à sua súplica: “Daniel... No princípio das tuas súplicas, 
saiu a ordem, e eu vim, para to declarar, porque és mui amado” 
(Dn 9.22,23).
Estas passagens bíblicas não enfatizam uma verdade que
O que Motiva a Oração? 15
conhecemos muito bem, porém dela nos esquecemos, quando, 
em oração, estamos na presença de Deus? Ele sabe quando caímos 
ou fracassamos. Não há, portanto, a menor necessidade de Lhe 
explicarmos. Em nossa oração não O informaremos sobre o fato 
de havermos caído, mas Lhe confessaremos a nossa tristeza, o 
nosso arrependimento, o quanto lamentamos a nossa falta, e 
experimentaremos compreender a dor por Ele sentida face ao 
nosso pecado, chorando-o com o próprio Deus.
Ele também sabe quando somos provados. Não há ne­
cessidade de Lhe expormos todas as nossas inquietudes e 
desapontamentos. Visto que Ele está conosco todos os dias 
(Mt 28.20), Ele conhece as nossas dificuldades e até as car­
rega conosco. Ao contrário, na oração, será necessário que 
nos libertemos destes fardos e bebamos, junto a Ele, da con­
fiança que necessitamos, do poder, da ternura, da paz e da 
serenidade dEle. Talvez Lhe expomos os nossos problemas, 
mas muito simplesmente, porque, por um confidente que 
perfeitamente nos conhece e acolhe com doçura a nossa fra­
queza, temos a necessidade de sermos confortados. Pela 
mesma razão, seria supérfluo lembrarmos a Deus os seus 
deveres, pois Ele não tem qualquer dever para conosco. Tudo 
é pura graça da parte dEle, visto que em nós existe apenas 
indignidade e pecado.
A oração também não deve ser considerada um meio de fazer 
Deus mudar seus propósitos. Lutero dizia: “Orar não é vencer a 
resistência de Deus, é experimentar sua boa vontade” . O que 
seria Deus, se a todo o momento os homens pudessem fazê-lo 
mudar de idéia? Ele não é como um cata-vento que muda sua 
direção de acordo com os ventos contraditórios das orações dos 
homens. Se assim fosse, não poderiamos ter nenhuma segurança 
na oração. Mas em Deus não há “variação ou sombra de mudança” 
(Tg 1.17). É isto que deve fortalecer a nossa oração. Ele sabe 
tudo, muito melhor do que nós.
Um dia ocorreu aos israelitas utilizarem a oração como 
instrumento para fazer Deus ceder. Reivindicaram dEle uma 
comida diferente do maná. Essa reivindicação não expressava 
uma verdadeira necessidade, e sim o fruto da influência de alguns
16 A Oração que D eus Responde
agitadores cheios de cobiça, os quais induziram o povo à revolta. 
Deus respondeu a esta oração, mas na sua cólera: “Não comereis 
um dia, nem dois dias, nem cinco, nem dez, nem ainda vinte; 
mas um mês inteiro, até vos sair pelos narizes, até que vos 
enfastieis dela, porquanto rejeitastes ao S enhor, que está no meio 
de vós” (Nm 11.19-20).
Extraímos dois ensinos importantes desta resposta divina à 
oração dos israelitas: Deus pode deixar parecer que cede em 
detrimento de seu próprio desejo; Ele pode satisfazer um pedido 
contra a sua própria vontade. A satisfação de um tal pedido é, 
então, um sinal de sua cólera e não de seu favor. Deus pode 
também satisfazer aquele que O tem rejeitado. O fato de que 
através da oração se tem obtido exatamente o que nela pedimos 
nem sempre significa que essa oração foi aprovada. É com 
prudência e mesmo com austero rigor que devemos apreciar a 
resposta às nossas orações.
O Senhor sabe quais são as nossas necessidades reais e sempre 
age com sabedoria e amor, tendo como alvo a nossa maior 
felicidade. Seja o silêncio ou seja a intervenção dEle, um e outro, 
na sua providência, fazem parte do seu eterno propósito. Ele age 
sempre “conforme o conselho da sua vontade” (Ef 1.11).
Ele conhece tão bem o que Lhe pediremos, que, se realmente 
orarmos como devemos, em verdadeiro espírito de oração, o 
Espírito de Deus mesmo inspirará a nossa oração e expressará 
as nossas necessidades, como escreveu o apóstolo Paulo: “Tam­
bém o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza; 
porque não sabemos orar como convém, mas o mesmo Espírito 
intercede por nós sobremaneira, com gemidos inexprimíveis” 
(Rm 8.26). É o Espírito de Deus que deve inspirar a nossa oração; 
e Aquele que a inspira não a conhece perfeitamente? Não admi­
remos que Gabriel tenha dito ao profeta Daniel: “No princípio 
das tuas súplicas, saiu a ordem, e eu vim, para to declarar” (Dn 
9.23).
Sim, Deus sabe! Ter conhecimento de que Ele conhece todas 
as coisas não impedirá que oremos, visto que orar não é informar; 
esse conhecimento em nível mais elevado nos motivará a orar e 
será também a certeza que nos assistirá, quando o fizermos. VistoO que Motiva a Oração? 17
que Deus sabe as nossas necessidades com antecedência, Ele nos 
escuta e nos entende quando a Ele nos expomos em oração.
Um meio escolhido por Deus
O segundo motivo que nos deve encorajar à prática da oração 
é este: Deus, conhecendo aquilo que necessitamos e sendo capaz 
de concedê-lo diretamente, escolheu providenciá-lo por meio de 
sua resposta às nossas orações.
Esse modo de agir pode intrigar-nos; talvez pensemos que 
esta é uma maneira curiosa de proceder. Não é menos verdade 
que a oração é o canal escolhido por Deus para derramar sobre 
nós os seus benefícios. Não podemos discutir nem criticar; é 
assim! “Todo o que pede, recebe” (Lc 11.10); esta é a regra, 
mesmo que, paradoxalmente, para que ela se cumpra, o próprio 
Deus inspire a oração.
Por que precisamos orar, visto que Deus conhece a nossa 
situação? Precisamente porque Deus espera a nossa oração para 
responder às nossas necessidades. O Senhor quer que Lhe peçamos 
o que Ele nos quer dar. Certamente Ele tem as suas razões! Uma 
delas é, talvez, que reconheçamos a nossa dependência em relação 
a Ele, compreendendo, portanto, mais claramente a nossa necessi­
dade. Além disso, às vezes, a oração é a própria resposta de 
Deus. O simples fato de orarmos e compartilharmos com o Senhor 
conforta o coração, acalma a inquietude, traz de volta a paz ou a 
alegria perdida.
Além do mais, aquele que pratica a verdadeira oração 
constantemente, isto é, que vive de modo consciente na presença 
de Deus, encontrará nesta atitude a sua fonte de alegria, paz e 
segurança.
Então, por que orar? Porque fazê-lo é estar diante de Deus, 
com Deus; e estar com Deus é a resposta a tudo. A comunhão 
com Deus dispensa, muitas vezes, uma petição verbal. Um sus­
piro, um olhar, uma palavra bastam para expressar toda uma 
oração, quando se sabe que se vive em harmonia e amor. Por que 
orar? Sim, porque a oração é o meio escolhido por Deus para 
responder às nossas necessidades reais.
18 A Oração que D eus Responde
A alegria de Deus
Mas eis aqui, talvez, de todos os motivos, o mais importante, 
o mais divino, o mais misterioso: a oração do filho é motivo de 
alegria para o Pai. “A oração dos retos é o seu contentamento” 
(Pv 15.8); a oração dos santos é como o incenso de um perfume 
agradável que sobe até o Senhor. Se o crente encontra a sua 
alegria na oração, nesse contato com Deus, há um fato ainda 
mais extraordinário: o próprio Deus também encontra alegria e 
gozo nessa comunhão. Essa alegria incompreensível de Deus, o 
crente a antevê um pouco quando se lembra que é filho de Deus 
e que Deus é — maravilha de sua graça e amor — seu Pai! Que 
haverá de mais triste para um pai do que ter um filho que não lhe 
fala, que não compartilha de nenhuma das suas alegrias e de 
nenhum dos seus cuidados, mas que vive indiferente no lar, 
contentando-se apenas em ali tomar as suas refeições e encontrar 
a sua pousada? Que tristeza para um pai, viver com um filho cujo 
olhar, lábios, coração não exprimem nenhum desejo, nenhuma 
necessidade, nem tãmpouco gratidão! Porém, que alegria para 
um pai, dar ao filho aquilo que sabe que ele deseja! Talvez o pai 
sinta mais prazer na alegria causada ao filho do que este em face 
daquilo que recebe do pai.
Do mesmo modo, Deus sente mais felicidade em dar do que 
em receber. Isso é próprio do amor. Ora, temos aí um bom motivo 
para orarmos e oferecermos ao nosso Pai celeste a oportunidade 
de darmos, isto é, de O alegrarmos... Ainda que esse fosse o 
único motivo de nossas orações, não é suficientemente forte para 
nos levar a orar?
Deus tem prazer em ouvir as nossas orações. Alegra-se em 
ter comunhão conosco. Nós, que em tantas ocasiões somos para 
Ele um motivo de tristeza e de vergonha, não aproveitaremos 
esta oportunidade de Lhe causar alegria? Gostamos de com­
partilhar com Ele as nossas alegrias e tristezas, mas temos nós 
pensado em compartilhar as dEle?
O Senhor não é um Deus impassível. Os sentimentos de 
Cristo são reflexos dos de seu Pai: “Quem me vê a mim vê o 
Pai” (Jo 14.9). Assim, não é Deus que, em Cristo, se comove
O que Motiva a Oração? 19
ante a morte de Lázaro ou chora ao ver a insensibilidade do povo 
de Jerusalém e a iminente destruição da cidade? Não é Deus 
quem vibra de alegria quando Cristo honra homens humildes, 
confiando-lhes as mais sublimes revelações? Não há por acaso 
alegria nos céus, isto é, no coração de Deus, quando é achado o 
que se havia perdido? (Lc 15)
Orar a Deus é comungar com Ele naquilo que O faz sofrer, 
é alegrar-se com Ele naquilo que Lhe causa alegria.
Não há conforto, para nós mesmos, no fato de carregarmos 
o fardo do nosso irmão? Assim fazendo, esquecemos o que pesa 
sobre nós. Ora, é isso mesmo o que Jesus nos lembra. Na oração, 
Ele nos convida (1 Pe 5.7) a descarregarmos sobre Si o nosso 
fardo e a tomarmos sobre nós o dEle (Mt 11.28-30). Que troca 
maravilhosa! Ele transforma em alegria e torna verdadeiramente 
leve o fardo mais pesado! Um ato tão simples como a oração 
pode dar prazer ao nosso Salvador! Tal perspectiva não nos 
incentiva a orar, a orar sem cessar?
A oração bem compreendida é atraente, é exultante. Ela 
situa-se no extremo oposto à repetição e às ladainhas. Nada tem 
a ver com um catálogo de necessidades e pedidos enfadonhos.
Quando sabemos não somente a Quem oramos, mas por que 
oramos, a oração é o mais belo e excelente dos encontros. Não 
decepciona nem enfada. Tal oração não se recita, vive-se. Não é 
barulhenta, nem extravagante; É P az e A legria.
3
c A íAlaíuâega da Õ/tação
A oração é um momento feliz 
que deve prolongar-se sem cessar!
S e m mesmo havermos tentado, um estudo sobre os alvos 
da oração conduz-nos, muito naturalmente, a compreender o sig­
nificado da oração, que é muito mais do que uma lista de neces­
sidades e pedidos. É algo que se compartilha, uma troca à fé 
íntima e grandiosa, familiar e solene, um momento feliz que deve 
prolongar-se sem cessar.
As mais belas orações que encontramos na Bíblia nem sempre 
são petições endereçadas a Deus. Elas exprimem muitas vezes, 
na forma de exclamações, a admiração do crente perante Deus, 
perante os caminhos, a sabedoria, a misericórdia ou a santidade 
dEle. Tais orações são confissões, gritos de sofrimento em virtude 
do aguilhão do pecado ou da perseguição, cânticos de reconhe­
cimento, suspiros de amargura indescritível ou de uma esperança 
gloriosa. Claro que isto não significa que a petição não tenha lu­
gar na oração. Ao contrário! No entanto, a súplica, por mais 
imperiosa e legítima que seja, não deve levar-nos a esquecer que 
a oração é comunhão.
a
E pedir
Ao insistir na necessidade de oração, Paulo especifica alguns 
dos aspectos da oração, empregando quatro expressões diferen­
tes: “Antes de tudo, pois, exorto que se use a prática de súplicas,
22 A Oração que D eus Responde
orações, intercessões, ações de graças, em favor de todos os 
homens” (1 Tm 2.1). No seu modo de pensar, a diversidade 
destes termos não tem, talvez, significação muito distinta. É a 
sua justaposição, a sua acumulação que é sobremodo importante 
e significativa; ela indica, com exatidão e vigor, o dever de orar.
Todavia, é interessante notar que cada um dos termos 
escolhidos insiste sobre um aspecto particular deste exercício 
espiritual. O primeiro, “súplicas” , significa uma petição particular 
relacionada com uma necessidade pessoal. O segundo, “orações”, 
não é jamais usado senão na conversação com Deus. A primeira 
palavra pode empregar-se para designar um pedido dirigido a um 
homem, mas nunca a segunda, que é reservada ao contato da 
alma temente com Deus. O terceiro termo, “intercessões” , su­
blinha particularmente o sentimento de confiança filial na oração 
e apresenta como que uma conversa familiar entre a alma e o 
próprio Deus. O quarto, enfim, “ações de graças”, facilmente se 
explica por si mesmo, coloca a ênfase no reconhecimento.
Ao escrever aos filipenses, o apóstolo Paulo voltou a usar 
três destas expressões: “Não andeis ansiososde coisa alguma; 
em tudo, porém, sejam conhecidas, diante de Deus, as vossas 
petições, pela oração e pela súplica, com ações de graça” (Fp 
4.6). Há, pois, lugar na oração para as nossas petições, visando 
um benefício particular, assim como para a súplica insistente. E 
por que não vermos, nesta exortação de Paulo, um convite a 
sermos precisos em nossas orações? “Abençoa fulano, abençoa... ” 
é uma expressão tão familiar, mas quão pobre de significado! 
Tal expressão, sendo aplicada de forma generosa a tudo e a todos, 
facilmente torna-se uma generalidade. E, muitas vezes, sintoma 
de superficialidade, porque dispensa aquele que ora de refletir e 
meditar sobre as reais necessidades daqueles por quem inter­
cede, evitando assim que seja possuído de verdadeira simpatia 
pelos mesmos. Por que não procuramos compreender a situação 
dos que se beneficiam de nossa intercessão e, então, rogamos a 
Deus que lhes conceda a graça específica que eles carecem? 
Podemos, evidentemente, enganar-nos sobre este ponto. Agindo 
assim, não somente invocamos o Senhor de forma mais inteligível, 
pelo menos com mais reflexão e seriedade, mas também ao nos
A Natureza da Oração 23
esforçarmos por melhor compreender o nosso próximo, nós o 
teremos amado em um grau mais elevado. A nossa súplica, em 
conseqüência, será enriquecida de pertinência, intensidade e valor.
E ter comunhão
No entanto, sem desprezar este aspecto da oração, devemos 
ultrapassá-lo, porque a oração é muito mais do que isso. A oração 
é comunhão, é como uma troca entre duas pessoas. Não é um 
monólogo, como muitas vezes se pensa, e sim um diálogo, no 
qual o coração fala e escuta, dá e recebe. O profeta Habacuque 
exprime, por meio de uma ilustração bastante vivida, a situação 
do filho de Deus em oração. “Pôr-me-ei na minha torre de vigia, 
colocar-me-ei sobre a fortaleza e vigiarei para ver o que Deus me 
dirá e que resposta eu terei à minha queixa” (Hc 2.1).
Em atitude de quem espera, o profeta está pronto a ouvir o 
Senhor, pronto também a expressar o seu lamento perante Ele. 
“Vigiarei.” A vigília é, muitas vezes, associada à oração. O 
próprio Senhor Jesus não deixa de dirigir aos seus discípulos esta 
recomendação: “Vigiai e orai” (Mt 26.41). Encontramos o eco 
desta recomendação no conselho do apóstolo Paulo: “Orai sem 
cessar” (Ef 6.18; 1 Ts 5.17). Uma dependência, uma consideração 
permanente, uma vigilância constante: a oração deve ser o contato 
ininterrupto com Deus, que se manifesta, às vezes através de sua 
Palavra, às vezes através de um reverente escutar. Logo, ela 
pode ser um tempo em que ficamos em silêncio, para comunhão, 
meditação e adoração. Os sentimentos mais fortes e profundos 
não são expressados com tanta intensidade por meio de palavras, 
como o são por meio do silêncio. Sofonias assim descreveu o 
amor de Deus pelo seu povo: “O S enhor, teu Deus, está no meio 
de ti, poderoso para salvar-te; ele se deleitará em ti com alegria; 
renovar-te-á no seu amor, regozijar-se-á em ti com júbilo” (Sf 
3.17). Por que motivo a oração do homem resgatado não encontra 
a sua melhor forma de expressão numa atitude semelhante à do 
próprio Deus, descrita nesta passagem pelo profeta?
Diz o apóstolo Paulo: “Tendo eu voltado para Jerusalém, 
enquanto orava no templo, sobreveio-me um êxtase, e vi aquele 
que falava comigo” (At 22.17-18a). É de temer que a nossa
24 A Oração que D eus Responde
concepção acerca da oração nos impeça por vezes de ver o Senhor, 
assim como de ouvi-Lo! Tal concepção priva-nos de um dos 
aspectos essenciais nesse contato com Deus (a oração), re­
duzindo-o a um simples monólogo. Sem ter a pretensão de viver­
mos a experiência mística do apóstolo, deveriamos, não obstante, 
poder dizer: “Em oração, vi o Senhor... que falava comigo” .
Estamos de tal forma preocupados quanto ao que devemos 
dizer a Deus e como dizê-lo, ou então achamos tão pouco tempo 
para nos dedicarmos à oração, que esquecemos de escutar a voz 
de Deus. Talvez, se nos rendéssemos a Ele incondicionalmente, 
Ele poderia (diante de nossa humildade então demonstrada) atender 
as nossas petições de acordo com a sua sabedoria infinita, exal- 
çando assim a verdadeira essência da nossa oração. Não foi isso 
mesmo que Ele fez, em outra ocasião, na vida do apóstolo Paulo, 
para firmeza e eficácia espiritual do ministério dele, no serviço 
do Senhor dos Exércitos? “E, para que não me ensoberbecesse 
com a grandeza das revelações, foi-me posto um espinho na carne, 
mensageiro de Satanás, para me esbofetear, a fim de que me não 
exalte. Por causa disto, três vezes pedi ao Senhor que o afastasse 
de mim. Então, ele me disse: A minha graça te basta, porque o 
poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, mais me 
gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de 
Cristo. Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas ne­
cessidades, nas perseguições, nas angústias, por amor de Cristo. 
Porque, quando sou fraco, então, é que sou forte” (2 Co 12.7-10).
Quão grande seria o perigo para o próprio apóstolo Paulo, 
assim como para o mundo, se ele não tivesse compreendido, em 
sua oração, o verdadeiro sentido dos sofrimentos acerca dos quais 
ele pedia, movido por um nobre motivo, que fosse poupado!
Se orar é estar atento, ver e ouvir, ser sensível à operação 
do Espírito de Deus, é também ouvir a sua Palavra. A Bíblia e a 
oração são inseparáveis. Para que em nós se forme o pensamento 
de Cristo, digno de ser expresso tão somente através da oração, 
devemos estar impregnados, possuídos pela Palavra de Deus.
É através das Escrituras que comungamos com Deus, em 
oração. Saibamos, pois, separar tempo durante os afazeres 
cotidianos para nelas meditarmos.
4
©s S&'o/dgoníes da Õ/tação
A oração, se a compreendermos bem, 
pode levar-nos longe. .. muito longe!
O apóstolo Paulo apresenta, para a oração, um campo 
extremamente vasto. Tal campo é ilimitado, tanto no espaço como 
no tempo: “Antes de tudo, pois, exorto que se use a prática de 
súplicas, orações, intercessões, ações de graças, em favor de 
todos os homens, em favor dos reis e de todos os que se acham 
investidos de autoridade, para que vivamos vida tranqüila e mansa, 
com toda piedade e respeito” (1 Tm 2.1-2).
Não podemos, de modo algum, minimizar a nossa respon­
sabilidade nem limitar o nosso homem interior a determinados 
privilégios. O nosso coração deve sempre estar aberto, acolhedor 
para com todos, sem restrição alguma. Mesmo que, na prática, 
não possamos abraçar o mundo, o nosso coração deve ser hos­
pitaleiro a qualquer que, batendo à porta, nos procure. Guar- 
demo-nos da sutil tentação de nos tornarmos sectários, limitando 
a nossa oração a nós mesmos, à nossa família, aos nossos amigos, 
à nossa igreja ou mesmo só aos crentes. O apóstolo exorta-nos 
“que se use a prática de súplicas, orações, intercessões e ações 
de graças, em favor de todos os homens” (1 Tm 2.1).
Notemos que o apóstolo não nos convida apenas a “orar” 
por todos os homens, mas também a sermos “agradecidos” por 
todos os homens. Eis algo que, talvez, nos deixe singularmente
26 A Oração que D eus Responde
embaraçados; pois, ainda que nos seja relativamente fácil pedir 
qualquer coisa a Deus em favor de nosso inimigo, especialmente 
que o Senhor o transforme em uma pessoa mais caridosa, já não 
é assim tão fácil, nem natural, agradecer a Deus por ele!
De fato, a oração, se a compreendermos bem, pode levar- 
nos longe... muito longe! Ela será rápida e vaga, se apenas 
dissermos: “Senhor abençoa o meu inimigo” . Mas ela se tornará 
em uma conversa com Deus acerca de nosso inimigo, se pensarmos 
nele diante de Deus. Isso nos induzirá a escutar o que Deus tem 
a nos dizer acerca de nosso inimigo e a pôr em prática o que 
ouvirmos. Tudo isso inspirará a nossa ação de graças, porque, 
através da existência de nosso “inimigo”, Deus nos fala ou terá 
falado; Ele terá assim aberto o nosso coração, ter-nos-á ensinado, 
quebrantado ou, talvez, enternecido e alegrado.
Não é irrefletidamenteque o apóstolo Paulo formula esta 
recomendação. Sobretudo, não pensemos que ela não nos diz 
respeito. Meditemos no que significava para os seus destinatários, 
Timóteo e os efésios, a exortação do apóstolo: “Que se use a 
prática de... orações... ações de graça... em favor dos reis e de 
todos os que se acham investidos de autoridade” . Era Nero quem 
então reinava; e aqueles que o imperador tinha posto em uma 
posição social elevada compartilhavam, por vezes, de sua ignóbil 
fama. Nero! Aquele demente cruel devia ser objeto das súplicas 
dos cristãos por ele acerbamente perseguidos, e, sem ambi- 
güidades, os cristãos deviam ser gratos pela existência dele!
Tertuliano, o escritor cristão que viveu mais tarde, sob o 
governo de outros imperadores, monstruosos ou perseguidores, 
que por vezes combinavam tristemente ambas as qualidades, 
lembra nos seus escritos a perfeita lealdade dos cristãos para 
com as autoridades, para com aqueles que tinham maior res­
ponsabilidade, isto é, aqueles que tinham maiores possibilidades 
para fazer o bem ou o mal. “Em favor de todos os homens” , eis 
a vastidão do horizonte de nossa oração. Oramos e agradecemos 
a Deus, com respeito, por todos aqueles que dirigem o nosso 
país, mesmo quando, por razões várias, nem sempre aprovamos 
o que fazem? Oramos, embora não ignoremos as suas aviltantes 
crueldades e injustiças, por aqueles que oprimem as nações e,
Os Horizontes da Oração 27
muitas vezes, aqueles que nos são chegados? Oramos nós tam­
bém pelos nossos irmãos que, como os primeiros cristãos, se 
esforçam por serem leais e dignos cidadãos, ainda que sob um 
poderio ou autoridade déspota, seja este vermelho, negro, amarelo 
ou branco?
“Orar em favor de todos os homens” é o único modo de 
conhecermos a paz interior e exterior. Somente quando tivermos 
experimentado esta solidariedade com todos os homens e quando 
houvermos aprendido a carregar os seus fardos ante o Senhor 
Deus, poderemos esperar, em sã consciência, viver a nossa vida 
cristã em tranqüilidade e em paz! Com efeito, o apóstolo Paulo 
nos mostra que desfrutar de uma “vida tranqüila e mansa” é o 
resultado que pode obter a nossa oração “em favor de todos os 
homens” . Tal resultado tem vantagem sobre o motivo que poderia 
alimentar a nossa intercessão apenas pelas autoridades.
Estamos nós inquietos e preocupados com o nosso próximo? 
Oremos por ele. Partilhemos com Deus a nossa ansiedade. A 
oração confiante acalmará os nossos temores, porque nos asse­
gurará que tudo se acha nas mãos de Deus, do Deus que tudo 
pode e outra coisa não quer, senão o bem de todos, no seu grau 
mais elevado. Ele tem poder para fazer advir o bem, para os 
seus, até mesmo daquilo que é mau.
Temos disputas com o nosso próximo? Oremos por ele. 
Falemos dele ao Senhor. A presença de Deus, entre ele e nós, 
nos fará mais atentos, a fim de não agravarmos mais a situação; 
e essa atitude poderá levar-nos bem longe no caminho da paz 
com o nosso semelhante.
Pode acontecer que tenhamos aversão a alguém, de tal forma 
que a sua simples presença seja uma prova difícil para nós, a 
ponto de todas as suas atitudes nos irritarem. Oremos por ele. 
Em algum dia, não muito longe, a aversão cederá ante a oração. 
Não podemos orar por muito tempo a favor de uma pessoa e 
continuarmos a detestá-la. A oração sincera e freqüente nos conduz 
inevitavelmente pelo caminho do amor.
Assim compreendida, a oração “em favor de todos os 
homens” afasta-nos do monólogo irresponsável que temos, talvez, 
por vezes confundido com a oração. Somente a oração com-
28 A Oração que D eus Responde
preendida e exercida nos pode assegurar uma vida cristã “tranqüila 
e mansa” . Ela trará paz à nossa consciência e ao nosso coração; 
também trará “tranqüilidade” , isto é, a paz, em nosso rela­
cionamento com os homens.
A oração “em favor de todos os homens” é fonte de paz, 
porque gera o amor. Não podemos interceder por muito tempo 
em favor de alguém sem virmos a amar o objeto de nossa oração; 
e, então, quando o amor está presente, tudo é possível, mesmo a 
paz!
5
õ (JÂodo de Qm
A oração é procurar 
entrar no plano de Deus!
O fato de termos consciência do nosso estado de criatura, 
de pecador e de filho diante do Senhor, que é ao mesmo tempo o 
Criador todo-poderoso, o Deus santo, santo, santo, tão distante, 
e o Pai tão achegado, deve, no limiar da oração, colocar-nos no 
espírito que convém.
Por outro lado, para que este exercício espiritual possua 
toda a eficácia, toda a riqueza de bênção que ele pode ter, devemos 
lembrar-nos que Deus tem conhecimento perfeito de todas as 
nossas circunstâncias e que Ele tem também um plano específico 
para a nossa vida. É necessário, então, na oração, em comunhão 
com Deus e para sua alegria, procurarmos entrar no plano dEle 
para nós e não continuarmos na obstinação de “reivindicar” dEle 
a satisfação daquilo que cremos ser as nossas necessidades.
Assim, pouco a pouco, temos chegado a uma idéia mais 
correta acerca da oração, de sua natureza, de seus motivos e de 
seus objetivos. Assim, também, nos achamos naturalmente guia­
dos a compreender como devemos orar.
Como devemos orar?
A resposta a esta questão compreende dois aspectos, que
30 A Oração que D eus Responde
distinguiremos somente para analisá-los, mas que, na prática, se 
misturam perfeitamente. A oração que proferimos (Rm 10.1) 
deve ser, necessariamente, a nossa própria oração, a expressão 
dos nossos sentimentos ou necessidades, a oração do nosso coração 
ou da nossa inteligência. Mas, ao mesmo tempo, a oração deve 
ser impulsionada pelo Espírito de Deus (Rm 8.15,26). Devemos, 
pois, orar “no Espírito” e “com a mente” (1 Co 14.15).
Orar no Espírito
O apóstolo Paulo recomenda aos efésios: “Orando em todo 
o tempo no Espírito” (Ef 6.18). Judas confirma esta exigência: 
“Edificando-vos na vossa fé santíssima, orando no Espírito Santo” 
(Jd 20). Não se pode dizer que a oração feita sem a influência e 
sem a unção do Espírito de Deus seja a oração verdadeira. Pode 
acontecer que nós oremos sem o Espírito. Tais orações, então, 
nada mais são do que vãs repetições; são fórmulas estereotipadas 
que se repetem com sinceridade, meditando até no que se diz, é 
certo, mas que, de tanta repetição, talvez não mais tenham 
qualquer afinidade com o Espírito, que, a princípio, as inspirou. 
Podemos enumerar uma lista de pedidos perante Deus sem que o 
Espírito a tal nos inspire. Um certo hábito ou uma determinada 
mecânica do nosso espírito bastam para tal. Podemos dizer uma 
“oração” sem nos sentirmos verdadeiramente na presença de 
Deus. Se uma oração proferida pelos lábios não é necessariamen­
te uma oração que provém do coração, do mesmo modo uma 
oração proveniente do coração não é, forçosamente, uma oração 
“pelo Espírito” ou “no Espírito” . A oração, neste caso, pode de­
sempenhar a função de tranquilizante psicológico. Ela pode, neste 
sentido, ter certa ação direta sobre nós mesmos, porém não 
ultrapassa o alcance do som da nossa voz e, sobretudo, não tem 
qualquer efeito junto a Deus.
Orar “no Espírito” não é um luxo que só certos cristãos 
podem desfrutar. Orar “no Espírito” é fazê-lo com clareza. Não 
há oração eficaz, ou nada que mereça tal nome, se o Espírito 
estiver ausente.
Para que uma oração seja de fato eficaz, isto é, para que
0 Modo de Orar 31
seja respondida, é preciso que esteja de acordo com a vontade 
divina. Deus não pode responder o pedido que não contribui para 
o bem espiritual daquele que o formula, isto é, uma súplica que 
não corresponda ao perfeito e sábio pensamento dEle mesmo. 
Apegar-se a esta condição não é submeter-se a uma restrição; 
pelo contrário, é assegurar-se da melhor das garantias, um salva­
guarda sem preço contra a nossa ignorância e contra as nossas 
ilusões. Porém, nem sempre sabemos discernir o pensamento 
divino. O apóstolo Paulo, não obstante ter uma profunda 
experiência com Deus, reconhecia-o: “Porque não sabemos orar 
como convém” (Rm 8.26). No entanto, longe de se encontrar em 
talafirmação um pretexto ao desencorajamento, nela o apóstolo 
descobre a razão da intervenção do Espírito Santo: “O mesmo 
Espírito intercede por nós sobremaneira com gemidos inex­
primíveis” (Rm 8.26). A ajuda do Espírito é absolutamente 
essencial.
Por inspiração, o mesmo apóstolo escreveu aos coríntios: 
“As coisas de Deus ninguém as conhece, senão o Espírito de 
Deus” (1 Co 2.11). Somente o Espírito Santo, que conhece a 
misteriosa vontade de Deus, pode nos conduzir a orar de acordo 
com essa vontade. A intervenção do Espírito em nossa oração se 
manifestará através do discernimento. Esse será o seu primeiro 
efeito sobre a nossa oração; é nisto, em particular, que a atitude 
de quem escuta, vigia e está silenciosamente atento é de suma 
importância.
Paulo orava no Espírito, em comunhão com Ele e na busca 
da vontade dEle, de coração aberto à sua influência. Assim se 
explica precisamente a intervenção de Deus, que interrompeu as 
súplicas do apóstolo, se bem que legítimas, quando ele orava a 
fim de ser libertado do “espinho na carne” (2 Co 12.7), o que 
quer que fosse aquilo que o afligia.
Igualmente, foi pelo Espírito que a mulher cananéia foi 
conduzida a fazer a experiência inversa e insistir, junto a Jesus, 
na cura de sua filha, apesar de todos os obstáculos encontrados 
pelo caminho. Ela suplicou até a sua prece ser respondida (Mt 
15.21-28).
Não podemos, pois, enunciar uma regra geral. A vontade
32 A Oração que D eus Responde
de Deus para um de seus filhos não é necessariamente a mesma 
que para outro de seus resgatados. Ela permanece misteriosa, 
ultrapassa-nos infinitamente. Somente o Espírito pode sondá-la e 
no-la deixar discernir. É na comunhão com Deus que nós a des­
cobrimos e que podemos verdadeiramente orar.
Orar “no Espírito” — o Espírito é, em certo sentido, o lugar 
para a oração. Devemos ser possuídos pelo Espírito a fim de que 
Ele nos esclareça. E Ele quem produzirá em nós as disposições 
essenciais à oração que descrevemos no primeiro capítulo deste 
livro. Sem Ele, jamais teremos o sentimento de humildade que 
coloca a criatura ante seu Criador e o pecador ante o Deus santo. 
Porque é Ele quem nos convence “do pecado” (Jo 16.8). Sem 
Ele, também não poderemos conhecer a atitude de simplicidade 
e de liberdade do filho perante seu Pai, porque é somente através 
dEle que podemos clamar a Deus: “Aba, Pai” (Rm 8.15).
O Espírito Santo também está presente para ajudar a todos 
os que não sabem orar. A oração poderá, então, ser dirigida a 
Deus tanto pelo simples e iletrado como pelo sábio e entendido, 
tanto por aqueles que se expressam com dificuldade como por 
aqueles que possuem maior capacidade de se expressarem. A 
verdadeira oração é obra do Espírito Santo.
Orar com sabedoria
No entanto, não temos o direito de reduzir toda a realidade 
da oração a um único dos seus aspectos, mesmo se este fosse o 
mais excelente. A verdade tem duas faces que correspondem uma 
à outra, que se completam e se equilibram: “Orarei com o espírito, 
mas também orarei com a mente” (1 Co 14.15).
Não diriamos que Deus substitui a nossa personalidade ou 
desdenha de nossa inteligência. O Espírito Santo não substitui o 
nosso espírito. Ele não trabalha em lugar de, mas através do 
nosso entendimento. Deus criou o homem: corpo, coração, cons­
ciência, razão, alma, espírito. Não é somente uma parte desta 
indissolúvel unidade que deve ser consagrada a Deus, e sim o 
homem em toda a sua constituição, para servi-Lo e adorá-Lo. Na 
oração, o entendimento é ativo, na mesma proporção que o coração
O Modo de Orar 33
e os lábios. O entendimento tem uma função importante a de­
sempenhar (Rm 12.2).
Um dos grandes problemas da oração é, uma vez mais, 
sabermos o que pedir. Acabamos de dizer que o Espírito vem em 
nosso auxílio. Mas como intervém Ele? Como Ele se expressa e 
como nos revela o que devemos pedir? Devemos esperar ouvir 
uma voz celeste ou devemos confiar-nos a uma voz interna? 
Estamos perfeitamente cônscios de que, em teoria, a assistência 
do Espírito Santo é absolutamente indispensável; mas temos 
também a consciência de que, na prática, essa assistência traz 
vários problemas e dá acesso a perigos múltiplos. É reconhecido, 
com efeito, que facilmente pode intrometer-se aquele que é o 
primeiro interessado em minar e fazer ruir a nossa oração, o 
adversário de Deus e de nossas almas.
O Espírito, como o vento, disse Jesus, “sopra onde quer” 
(Jo 3.8). Ouvimos o seu ruído, mas não sabemos de onde vem, 
nem para onde vai. Isto quer dizer que é impossível conceber as 
veredas do Espírito somente de acordo com a nossa lógica. Elas 
não podem ser explicadas, analisadas, deduzidas a partir de leis 
gerais. O Espírito ultrapassa os nossos cálculos. Isto explica a 
nossa perplexidade diante de certas experiências, semelhantes às 
de nossos irmãos. Isto também explica as nossas hesitações ou 
mesmo preocupações (perante as certezas desses irmãos), que 
impedem de nos associarmos a eles em suas súplicas. Eles podem 
afirmar que Deus lhes falou, lhes deu tal e tal promessa, uma 
segurança ou luz, mas nós permanecemos reticentes, tendo a vaga 
impressão de que isso não pode vir de Deus. Não nos sentimos 
totalmente livres, nem para expressar o nosso mal-estar nem para 
nos colocarmos em guarda. Finalmente, “para Deus tudo é 
possível” , e o Espírito “sopra onde quer” (Mt 19.26, Jo 3.8).
De acordo com que critério poderiamos julgar o impulso do 
Espírito? Em nome de que lógica podemos nos opor àquele que 
se diz impulsionado, motivado pelo Espírito? O problema é real 
e nem sempre de fácil solução. Não é, também, um problema só 
dos nossos dias. Parece-nos encontrá-lo já no livro de Atos 
capítulos 20 e 21, onde Paulo é persuadido pelo Espírito, devendo, 
pois, subir a Jerusalém. “E, agora, constrangido em meu espírito,
34 A Oração que D eus Responde
vou para Jerusalém, não sabendo o que ali me acontecerá, senão 
que o Espírito Santo... me assegura...” (At 20.22). Por outro 
lado, em Tiro, encontramos os discípulos, “movidos pelo Es­
pírito” , recomendando a Paulo que “não fosse a Jerusalém” (At 
21.4).
Todavia, Deus não nos deixou na ignorância e obscuridade 
totais. Ele nos deu irmãos para provarem a nossa inspiração e 
convicção interior. A regra enunciada por Paulo aos coríntios é, 
certamente, aplicável nesta instância. “Tratando-se de profetas, 
falem apenas dois ou três, e os outros julguem... Os espíritos dos 
profetas estão sujeitos aos próprios profetas” (1 Co 14.29,32).
Os outros crentes não são, forçosamente, a voz de Deus; 
mas eles podem, graças ao mesmo Espírito que está neles, 
esclarecer aquele que busca ser esclarecido, podem confirmar 
uma convicção pessoal ou, ao invés disso, deixar de sobreaviso 
aquele que busca ser esclarecido. Talvez seja por isso que, ao 
ficar alguém doente, é dado o conselho de chamar os presbíteros 
(“os” e não “o”), para orarem em seu favor (Tg 5.14,16). O 
objetivo disso certamente não é mostrar que a oração de dois, 
três ou quatro terá mais probabilidades de ser atendida do que a 
prece de um só filho de Deus - “Muito pode, por sua eficácia, a 
súplica do justo” (Tg 5.16); antes, é mostrar que a oração exige 
o exercício de um certo discernimento. A enfermidade, como 
sugere Tiago, pode, em certos casos, ser causada por um pecado 
específico, e a sua detectação ou confissão necessita um certo 
refletir, na oração e na meditação. Dois ou três irmãos, ao orarem 
juntos, poderão sentir mais profundamente o pensamento do 
Espírito Santo do que um irmão sozinho. O entendimento, a 
inteligência e a reflexão na oração serão os meios que o Espírito 
Santo usará para revelar a Si mesmo.
Notemos que este problema sublinha a necessidade que a 
igreja, o corpo local de crentes, tem de instrução e crescimento 
dos irmãos e de um caminhar normal de acordo com a vontade 
de Deus (Ef 4.11-16). Sobre todas as coisas, Deus nos deu a sua 
Palavra. O Espírito Santo que nos impulsiona, que fala ao nosso 
coração, através de nossa consciência ou de nossosirmãos, é o 
mesmo Espírito que inspirou a Bíblia (2 Tm 3.16-17). O Espírito
0 Modo de Orar 35
que nos fala, fá-lo também nas Sagradas Escrituras; e estas duas 
vozes não podem se contradizer. Ele não pode dizer-nos pes­
soalmente algo que contradiga o que Ele mesmo diz na Bíblia: 
“O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos 
filhos de Deus” (Rm 8.16). Teremos, então, no Livro — aqui, 
novamente os nossos irmãos poderão intervir para nos ajudarem 
a compreendê-lo e interpretá-lo — um critério ou um ponto de 
referência para provar toda convicção, se ela provém do Espírito 
Santo de Deus ou de nós mesmos. Isso requer, com certeza, um 
estudo sério e inteligente da Palavra de Deus, pressupondo um 
certo conhecimento dos caminhos de Deus, revelados no seu 
Livro, uma certa intimidade com o próprio Deus. Quando não 
temos este conhecimento, quer por sermos novos na fé, quer por 
não termos tido a ocasião de nos aprofundarmos em tais assuntos, 
o Espírito poderá (e bem necessitamos) intervir mais diretamente 
para uma instrução espiritual e sólida, que aliás será ainda ne­
cessário provarmos, com a grata ajuda de irmãos consagrados, 
quando tal for possível (1 Jo 4.1).
Porém, se temos este conhecimento de sua Palavra ou se 
temos a oportunidade de adquiri-lo — e somos exortados a crescer 
em tal conhecimento, para atingirmos o estado espiritual adulto 
— então, Deus convocará esta inteligência esclarecida, convidará 
à reflexão que nos induzirá a provarmos os nossos pensamentos 
à luz da analogia das Escrituras. Deus não opera milagres 
desnecessários. Ele não criou a inteligência do homem para a 
refugar após o novo nascimento. Ao contrário, esclarece-a, 
santifica-a e utiliza-a para o seu verdadeiro fim: conhecer a Deus. 
O Senhor a torna o instrumento de transformação do crente à 
imagem de Cristo: “Mas transformai-vos pela renovação da vossa 
mente” (Rm 12.2). Orar com a mente será, pois, orar com 
reflexão.
A verdade, a espontaneidade e o refrigério do Espírito devem 
refletir-se em nossas orações. Se nos esforçarmos por romper 
com os nossos hábitos estereotipados, certamente eles se des­
vanecerão em nosso diálogo com Deus.
Orar com a mente é colocar-se inteiramente à escuta e à 
disposição do Espírito Santo. Deste modo, os dois aspectos da
36 A Oração que D eus Responde
oração se apresentam complementando-se harmoniosamente. 
Querer somente orar “no Espírito” seria abrir a porta ao mis­
ticismo, ao subjetivismo, ao individualismo, ao orgulho espiritual. 
Contentar-se apenas em orar “com a mente” seria cair num 
racionalismo medíocre, rígido, seco e presunçoso.
Experimentemos atingir este perfeito equilíbrio na oração. 
Que a oração seja o ponto de encontro e a harmonia do Espírito 
Santo com todo o nosso ser. Que a nossa prece seja a oração do 
Espírito de Deus e da mente restaurada através da leitura da 
Bíblia.
6
lA Q'meu&mça e a Õ/tação
A distância entre a súplica e a resposta 
deve levar-nos a perseverar na oração!
A oração eficaz é aquela que se posiciona ao lado da vontade 
divina. Tal é, da parte de Deus, a condição para a resposta favo­
rável do Senhor. Além disso, há outras exigências para com as 
quais nós temos plena responsabilidade e devemos aceitar.
A Bíblia, com efeito, contém promessas formais que muitas 
vezes apresentamos como incondicionais. Quando as examinamos 
mais de perto, todavia, descobrimos que assim não acontece e 
que, quase sempre, as promessas divinas estão associadas a 
condições mais ou menos evidentes.
Abordaremos primeiramente a perseverança. Alguns têm 
certa dificuldade em conciliar a perseverança tanto com a idéia 
da soberania de Deus quanto com as palavras de Jesus: “E, orando, 
não useis de vãs repetições, como os gentios; porque presumem 
que pelo seu muito falar serão ouvidos. Não vos assemelheis, 
pois, a eles; porque Deus, o vosso Pai, sabe o de que tendes 
necessidade, antes que lho peçais” (Mt 6.7-8).
Para alguns, esta declaração do Senhor e as conclusões que 
dela temos extraído podem pôr mesmo em dúvida a utilidade da 
oração. Qual a vantagem de nos dirigirmos a Deus em oração, se 
Ele sabe tudo mesmo antes de abrirmos a nossa boca? Ainda 
mais, a submissão à vontade de Deus, sobre a qual temos insistido,
38 A Oração que D eus Responde
poderia também ser compreendida como desencorajadora para a 
perseverança na oração e até mesmo contrária à oração da fé.
Duas parábolas, a do amigo importuno (Lc 11.5-13) e a do 
juiz iníquo (Lc 18.1-8), completam e equilibram com precisão o 
que temos dito, lembrando-nos que a resposta de Deus é o fruto 
de uma oração perseverante, de uma insistência um tanto de­
sesperada. Quão estranhas parecem as parábolas que o Senhor 
Jesus usa para nos descrever os caminhos de Deus! Por que causa 
recorre Jesus a estas imagens, um tanto antipáticas, de um amigo 
importuno e de um juiz iníquo, para nos falar de Deus?
As dificuldades da oração
Em primeiro lugar, precisamos examinar uma evidência 
negativa que nem sempre ousamos confessar e que conduz a um 
afrouxamento na oração, a um ceticismo que por vezes escon­
demos e acaba por desfazer os inais fortes argumentos, apagando 
o primeiro amor, fazendo do crente um resignado.
Comumente falamos das gloriosas vitórias que a oração 
consegue; com ela tudo é possível! Precisamos apenas nos di­
rigirmos a Deus, e Ele afastará de nós todas as dificuldades; a 
oração é uma arma invencível que triunfa sobre tudo! Porém, 
isso não é apenas uma teoria, vulgarmente desmentida pela nossa 
experiência? O que averiguamos nós através dos fatos?
Quando passamos por momentos de provação e clamamos 
ao Senhor, Ele nos deu instantaneamente forças em resposta à 
nossa oração? Isso é possível; mas Ele o tem sempre feito? Quando 
não tínhamos dinheiro suficiente para cobrir o nosso orçamento 
mensal e nos dirigimos a Ele, enviou-nos Ele um anjo ou um 
amigo trazendo um cheque? Isso talvez aconteceu; mas, algumas 
vezes, isso também não nos deixou no embaraço?
Hoje, alguns filhos de Deus padecem fome porque outros 
fecham o seu coração às necessidades deles. Sim, alguns sofrem, 
ao mesmo tempo em que clamam pelo socorro divino. Não é isso 
um fato? O Senhor Jesus descreve-nos o amor paternal de Deus 
de modo extremamente tocante e pleno de poesia. Deleitamo-nos 
em ler e reler aquela magnífica página da Escritura Sagrada onde
A Perseverança e a Oração 39
Jesus fala do cuidado que seu Pai tem pelas aves do céu e pelos 
lírios do campo (Mt 6:25-34). Mas onde está a providência divina 
neste mundo de injustiças, misérias e mortes? Alguns negam a 
providência de Deus, ao dizerem: “Deus está morto! A ‘fé’ per­
tence ao passado; ela não passa de superstição; é uma esperança 
útil, sem dúvida, mas vazia, vã” . Outros, sem negar a provi­
dência de Deus, hesitam em confessar a sua perplexidade ou, 
talvez, a sua incredulidade. Por que Deus não responde? Por que 
demora tanto? Por quê? É nesses momentos de dúvida que Deus 
pode parecer como o amigo ou o juiz que, nas parábolas citadas, 
não querem atender os rogos que lhes são dirigidos. De fato, as 
parábolas de Jesus descrevem-nos Deus não como Ele é na rea­
lidade, e sim como Ele é visto pelo homem possuído de dúvida e 
de incredulidade, quando a provação o submerge e ele na sua 
tristeza nada mais compreende. Tal como o amigo incompassivo 
ou o juiz iníquo, assim parece Deus ao crente provado pela demora 
divina em agir. Esta tentação pode muito bem assaltar a todo o 
verdadeiro crente.
No início de nossa vida cristã, talvez tivéssemos pensado 
que o pecado estava vencido para sempre. O Senhor deu-nos 
vitórias magníficas que nos confirmaram isso mesmo. Depois, 
um pouco mais tarde, tivemos de enfrentar uma vez ou outra o 
pecado sempre renascente! Clamamos ao Senhor inúmeras vezes 
para nos libertar do mal... mas esse mal sempre volta! Apa­
rentemente, temos batalhado em vão; as vitórias têm sido 
alternadas com fracassos. Cremos que tínhamos chegado, e 
precisamos sempre recomeçar. O Senhor nos deu,por certo, 
vitórias duradouras, definitivas. Mas, em determinadas áreas, 
lutamos ainda. A alguns Ele deu um elevado grau de santidade, 
mas outros enfrentam constantemente um combate que parece 
não ter fim. É verdade que alguns “subjugaram reinos, praticaram 
a justiça, obtiveram promessas, fecharam bocas de leões, extin- 
guiram a violência do fogo, escaparam ao fio da espada, da 
fraqueza tiraram força, fizeram-se poderosos em guerra, puseram 
em fuga exércitos de estrangeiros” (Hb 11.33-34); mas também 
é verdade que outros “foram torturados... passaram pela prova 
de escárnios e açoites, sim, até de algemas e prisões. Foram
40 A Oração que D eus Responde
apedrejados, provados, serrados pelo meio, mortos ao fio da 
espada... (homens dos quais o mundo não era digno), errantes 
pelos desertos, pelos montes, pelas covas, pelos antros da terra” 
(Hbll.35-38).
A parábola do juiz iníquo lembra essa distância, por vezes 
preocupante, que existe entre a oração “venha o teu reino” (Lc 
11.2) e a resposta divina. Como compreender o silêncio de Deus 
ante a aflição dos seus filhos? Pois é precisamente disso que esta 
parábola fala! “Considerai no que diz este juiz iniquo. Não fará 
Deus justiça aos seus escolhidos, que a ele clamam dia e noite, 
embora pareça demorado em defendê-los? Digo-vos que depressa 
lhes fará justiça” (Lc 18.6-8).
A parábola do amigo importuno lembra as dificuldades, 
também por vezes preocupantes, que existem em quem ora: 
“venha o teu reino” (Lc 11.2); oração esta entendida, desta vez, 
na esfera de nossa santificação: que o Teu reino venha ao meu 
coração. “Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas 
aos vossos filhos, quanto mais o Pai celestial dará o Espírito 
Santo àqueles que lho pedirem?” (Lc 11.13). O Espírito Santo, 
nesta passagem, não é a sua Pessoa, mas os seus dons, a sua 
força, a sua vitória, que devem ser obtidos pela perseverança.
A distância entre a promessa e a realização segura, entre a 
súplica e a resposta, entre a regeneração e a perfeita santifica­
ção, entre a semente do Reino de Deus (o grão de mostarda em 
outra parábola - Lc 13.19) e o seu domínio universal (a árvore 
que abriga as aves do céu), não nos deve deixar pasmados; antes, 
deve levar-nos a perseverar na oração.
A perseverança na oração
É disso que nos falam, precisamente, estas duas parábolas: 
a do amigo importuno e a do juiz iníquo. Se um amigo egoísta 
acabou por ceder àquele que lhe pediu três pães; se um juiz iníquo 
acabou, ele próprio, por ceder à insistência daquela mulher pobre 
e queixosa; e se um pai, ainda que mau, não dá uma pedra em 
lugar de pão ao filho, nem uma serpente em lugar de peixe, nem 
ainda um escorpião em lugar de um ovo (Lc 11.11-13), certamen-
A Perseverança e a Oração 41
te Deus agirá de forma muito mais elevada ao responder à 
perseverante oração de seus filhos!
Mesmo que Deus (para aquele que duvida) pareça como um 
juiz insensível ou um amigo egoísta, a realidade é bem diferente. 
E a dolorosa prova que temos feito vai de encontro a essa exortação 
encorajadora: “Por isso, vos digo: “Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, 
e achareis; batei, e abrir-se-vos-á. Pois todo o que pede recebe; 
o que busca encontra; e a quem bate, abrir-se-lhe-á. ” (Lc 11:9,10). 
Notemos, nestas duas parábolas, o silêncio completo de Cristo 
quanto às razões da longa demora de Deus. Jesus não dá qualquer 
explicação àquilo que para nós, por vezes, é um grande e dolo­
roso mistério. Ele poderia demonstrar que a demora de Deus em 
responder às nossas súplicas, é semelhante à ordem existente na 
natureza (Tg 5.7). Na natureza, todo o crescimento é progressivo. 
É somente nos contos de fadas que do grão nasce uma árvore 
instantaneamente e uma criança num instante se transforma em 
um homem. Paulo nos lembra que a perseverança se exercita na 
esperança e que ela não se consolida de um dia para o outro, na 
vida cristã (Rm 5.3-4). A Moisés foram necessários quarenta 
longos anos! (Êx 3) Paulo nos faz notar ainda que o período em 
que esperamos torna mais precioso aquilo que esperamos e que 
os sofrimentos, no tempo presente, tornam ainda mais gloriosa a 
glória por vir (Rm 8.18-25). Pedro diz que a prova da nossa fé é 
mais preciosa do que o ouro (1 Pe 1.7).
Tudo isso é verdade, e hoje estamos disso absolutamente 
convencidos, enquanto tudo vai bem. No entanto, todas estas 
ponderações são de efeito nulo sobre aquele que passa pela sombra 
da provação, da luta incessante, da dúvida; são de efeitos negativos 
para aquele cuja vida espiritual fraquejou, a ponto de que ele 
nada mais vê e duvida de tudo. Isto, provavelmente, explica por 
que Jesus, na sua sabedoria divina, não desperdiçou tempo em 
explicar ou justificar o procedimento divino; mas, com toda a 
sua autoridade, assegurou-nos: “Por isso, vos digo: Pedi, e dar- 
se-vos-á; buscai, e achareis; batei, e abrir-se-vos-á” (Lc 11.9).
Ainda que duvidemos da bondade de Deus, que duvidemos 
de sua vontade em nos ajudar e em nos salvar, que não vejamos 
nossa fraqueza ceder ante o seu poder, que creiamos que Ele nos
42 A Oração que D eus Responde
abandonou, isto é, se imaginarmos Deus como o amigo insensí­
vel ou como o juiz iníquo, batamos e Ele nos abrirá. Ainda que 
Deus fosse aquilo que nós podemos crer, não teríamos razão 
suficiente para desesperarmos. Até de um amigo insensível, de 
um juiz injusto ou de um pai ímpio há algo a esperar! Não teremos 
nós mais razão de esperar em Deus para o nosso bem? “Ora, se 
vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, 
quanto mais o Pai celestial dará o Espírito Santo àqueles que Iho 
pedirem?” (Lc 11.13).
Temos nós uma percepção suficientemente viva e intensa de 
nossas necessidades, a ponto de alimentarmos a perseverança 
apesar de todos os obstáculos? Temos nós o verdadeiro desejo de 
ser purificados do pecado, para, assim, perseverarmos em nossas 
preces e lutarmos em oração até à vitória? Temos nós verda­
deiramente o desejo de ver outras almas virem a Jesus para 
perseverarem em oração e, assim lutarem até sua salvação?
Aquele que, na cruz, clamou: “Deus meu, Deus meu, porque 
me desamparaste? (Mt 27.46), sem, contudo, obter de imediato 
a resposta; Aquele que sentiu intensamente o misterioso silêncio 
de Deus, declara-nos: “Por isso, eu vos digo: Pedi, e dar-se-vos-á; 
buscai, e achareis; batei, e abrir-se-vos-á” (Lc 11.9).
Assim, aquele que com sinceridade tem buscado a ajuda de 
Deus, certamente receberá o auxílio esperado. Aquele que, de 
todo coração, verdadeiramente tem buscado o Senhor não deixa­
rá de encontrá-Lo. E aquele que bate ao portal divino, suspirando 
pela comunhão com Deus, será cumulado da sua bênção.
Se Deus conhece os nossos desejos e as nossas orações, 
antes que estas subam aos nossos lábios, e se a sua maior alegria 
é respondê-las, então, a sua sabedoria e o seu amor acharam por 
bem provar, por vezes, a nossa perseverança, ou seja, a sin­
ceridade de nossas necessidades e de nosso amor.
Não poderemos nós confiar-nos a Ele?
7
lA c.Vafaü/ta de Adeus e a O/tação
“Não seja como Eu quero, 
mas como Tu queres ”!
le rseverar em oração, até obtermos uma resposta de Deus, 
— eis o nosso dever. Esse dever, porém, tem limites, como os 
tem a própria oração, segundo o ensino que encontramos na Bíblia.
Orar em nome de Jesus
A expressão “em nome de Jesus” prenuncia em si deter­
minados limites. De fato, é impossível (pensando bem) obtermos 
resposta para o que quer que seja a nossa petição, embora seja 
feita em nome de Jesus. Ou será que o responder as nossas preces 
(tão caprichosas por vezes), conhecendo Deus que elas se chocam 
com a sua vontade a nosso respeito, não nos parece incompatível 
com a pessoa de um Deus soberano? Quando o Senhor prometeu: 
“Tudo quanto pedirdes em meu nome, isso farei, a fim de que o 
Pai seja glorificado no Filho” (Jo 14.13), Ele não tinha em mente 
assinar um cheque em branco para satisfazer qualquer petição 
emanada do coração do homem, até mesmo dos seus mais fiéis 
discípulos. Se duvidamosde tal afirmação, basta recordarmos o 
tom de censura com que Tiago nos adverte: “Pedis e não recebeis, 
porque pedis mal, para esbanjardes em vossos prazeres” (Tg 4.3).
Quando terminamos as nossas preces, devemos guardar-nos
44 A Oração que D eus Responde
de pensar que a frase com a qual habitualmente terminamos a 
nossa oração, “em nome de Jesus”, é como que uma fórmula 
mágica que abre todas as portas e garante a aprovação de nosso 
pedido. Tal frase não é, tampouco, necessária para fecharmos a 
nossa oração com a palavra “Amém”, assim como não é in­
dispensável a uma oração eficaz. Pelo contrário, essa frase, 
incluída ou não na oração, em face do que sempre implica e 
requer, é uma identificação da petição com a vontade de Cristo, 
com o que Ele deseja de nós. A oração que Deus responde é 
aquela que o homem Lhe endereça em harmonia com o seu Filho; 
aquela que, com propriedade, pode ser apresentada em nome 
dEle. Jesus alegra-se quando assim é. A quanta infelicidade não 
seríamos entregues, se recebéssemos sempre o que desejamos e 
pedimos! Nós que ignoramos em absoluto o que nos reservam o 
amanhã ou mesmo os minutos que temos à frente, como po­
deriamos discernir e pedir o que necessitamos para o nosso 
dia-a-dia? E, finalmente, não é o Senhor infinitamente muito mais 
rico, mais hábil e mais generoso do que nós poderemos imaginar? 
(Ef 3.20)
Orar “em nome de Jesus” é pedirmos a Deus aquilo que Ele 
não pode recusar a seu próprio Filho, aquilo que O glorificará e 
que, simultaneamente, contribuirá para o nosso supremo bem. 
Orar “em nome de Jesus” não é outra coisa, senão orar segundo 
a vontade de Deus. A promessa de Jesus: “Tudo quanto pedirdes 
em meu nome, isso farei” (Jo 14.13), corresponde, pois, exa­
tamente ao que o apóstolo João, em outras palavras, disse: “Se 
pedirmos alguma coisa, segundo a sua vontade, ele nos ouve.” 
(1 Jo 5.14). E evidente que a prece — segundo a vontade de Deus 
— pode ser proferida com grande segurança, bem como com 
uma perseverança infatigável. Além disso, não será tal petição, 
uma vez sinceramente meditada e endereçada “em nome de Je­
sus” , o reflexo do amor e do zelo dEle para com o Pai e tudo o 
que a Ele concerne?
Orar segundo a vontade de Deus
Como, pois, a nossa oração e a vontade de Jesus Cristo
A Palavra de Deus e a Oração 45
podem coincidir? Como orar de acordo com a vontade de Deus? 
Esta dificuldade, segundo a nossa visão, está ligada à que 
encontramos na revelação da vontade de Deus. Não pode, pois, 
haver solução válida, a não ser nas Escrituras, as quais são a 
única expressão objetiva da pessoa e da vontade de Deus, o único 
guia autorizado para a nossa vida de oração.
A Bíblia contém promessas claras sobre as quais o crente 
pode apoiar-se, a fim de orar com segurança. Porém, é preciso 
admitir que elas são mais raras do que habitualmente se pensa. 
Assim, na Bíblia, não existe nenhuma promessa, incondicional 
por natureza, que nos garanta o gozo ininterrupto de uma boa 
saúde física. Seria, então, muito perigoso, por exemplo, levar 
certos enfermos a alimentar a convicção de que Deus quer, 
necessariamente, a sua cura; até mesmo tendo como base as 
bem conhecidas palavras de Tiago: “Está alguém entre vós 
doente? Chame os presbíteros da igreja, e estes façam oração 
sobre ele, ungindo-o com óleo, em nome do Senhor. E a oração 
da fé salvará o enfermo, e o Senhor o levantará; e, se houver 
cometido pecados, ser-lhe-ão perdoados. Confessai, pois, os 
vossos pecados uns aos outros e orai uns pelos outros, para 
serdes curados” (Tg 5.14-16). Como já dissemos, parece que a 
enfermidade de que aqui se fala está relacionada com o pecado, 
o que nem sempre acontece (1 Co 11.30-31). Jesus lembrou 
isto de forma inequívoca, quando curou o cego de nascença (Jo 
9.2-3). Jó, que não sofreu por causa do seu pecado, mas devido 
à sua integridade, é uma outra incontestável prova dessa verda­
de (Jó 2.3-6).
Paulo, noutras circunstâncias, como, por exemplo, na ocasião 
da enfermidade que acometeu Timóteo (ver 1 Tm 5.23), em lugar 
de recomendar o processo indicado por Tiago, aconselha um 
simples tratamento médico. Será necessário lembrar que o próprio 
Paulo não foi curado em resposta à sua oração, mas recebeu 
como graça muito superior a vocação de glorificar o Senhor, 
suportando uma enfermidade?
Além disso, Deus não prometeu livrar todos os que sofrem 
por sua causa, nem prometeu a paz entre as nações da terra. Esta 
ausência de segurança total, não impede o filho de Deus de orar
46 A Oração que D eus Responde
pelos seus irmãos que sofrem e mesmo pedir a sua libertação (Jo 
16.23, 2 Tm 3.12, Hb 11.35-40). De igual modo, o crente pode 
e deve suplicar de Deus a paz para o mundo! No entanto, a sua 
intercessão intensa e sincera fundir-se-á na suprema prece: “To­
davia, não seja como eu quero, e sim como tu queres” (Mt 
26.39-42, At 21.14).
Por outro lado, aquele que ora pela salvação dos homens 
pode basear-se sobre claras expressões da vontade divina: “Tão 
certo como eu vivo, diz o Senhor Deus, não tenho prazer na 
morte do perverso, mas em que o perverso se converta do seu 
caminho e viva” (Ez 33.11). O apóstolo cita a palavra profética 
aos gentios, ao confirmar que Deus “deseja que todos os homens 
sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade” (1 
Tm. 2.4). Paulo faz precisamente desta vontade de Deus a base 
de sua exortação para intercedermos “em favor de todos os ho­
mens” (1 Tm 2.1-3).
Também é possível orarmos sem quaisquer reservas e com 
uma perfeita segurança, rogando por um mais alto grau de san­
tidade pessoal, tanto para nós como para nossos irmãos: “Pois 
esta é a vontade de Deus: a vossa santificação” (1 Ts 4.3); por 
paz e unidade na igreja (Ef 4.3); por um testemunho mais ousa­
do acerca de Jesus Cristo; por uma mais abundante medida de 
sabedoria, diante dos acontecimentos e problemas da vida (Ef 
6.19-20, Tg 1.2).
Tendo em mente tais assuntos, Tiago não hesita em dizer 
que a oração deve ser feita a Deus “com fé, em nada duvidando; 
pois o que duvida é semelhante à onda do mar, impelida e agitada 
pelo vento. Não suponha esse homem que alcançará do Senhor 
alguma coisa; homem de ânimo dobre, inconstante em todos os 
seus caminhos (Tg 1.6-8). Seria falso e perigoso pensarmos que 
este critério deve ser aplicado à oração, em qualquer circunstância. 
Se a dúvida é condenável, quando incontestavelmente Deus falou; 
o caso contrário é sabedoria. Muitas vezes somos constrangidos 
a confessar que “não sabemos orar como convém, mas o mesmo 
Espírito intercede por nós sobremaneira, com gemidos inex­
primíveis” (Rm 8.26); e, então, deixamos ao cuidado do Espírito 
de Deus o interceder por nós em nossas orações.
A Palavra de Deus e a Oração 47
Procurando conhecer a vontade de Deus
Ainda que a maior parte dos nossos problemas práticos, tais 
como as grandes decisões de nossa vida e as pequenas questões 
relacionadas à nossa conduta diária, não forem objeto de diretrizes 
específicas da parte de Deus, não é impossível discernir a vontade 
daquele que quer dirigir nossa vida. Com tal finalidade, o apóstolo 
orava ao Senhor, pedindo que os colossenses transbordassem “de 
pleno conhecimento da sua vontade, em toda a sabedoria e en­
tendimento espiritual” (Cl 1.9-10). Como se adquire este co­
nhecimento, que é essencial a uma oração ousada e eficaz? Através 
da Palavra de Deus.
Na oração em favor dos crentes de Colossos, o que acabamos 
de lembrar, Paulo liga o conhecimento da vontade de Deus ao 
conhecimento da própria pessoa de Deus. De fato, só um melhor 
conhecimento de Deus nos permitirá discernir a sua vontade. 
Ora, como conhecer Deus doutro modo, senão por meio da 
revelação que Ele nos tem dado a respeito de Si mesmo, nas 
Escrituras? Esse Livro não tem por alvo apenas comunicar-nos 
um dado número de informes objetivos sobre Deus, mas de 
introduzir-nos a um conhecimento pessoal mais pleno de sua 
Pessoa. Somente uma longa e íntima convivência torna possível 
o verdadeiro conhecimento de uma pessoa.E, igualmente, numa 
freqüente e dedicada leitura da Bíblia que Deus se revelará. A 
contemplação da sua Pessoa e a busca incansável do que Ele nos 
quer comunicar, através da leitura assídua e meditativa do seu 
Livro, hão de realizar progressivamente certa identificação en­
tre Deus e o seu filho que nEle creu através dos méritos de Cristo. 
Tal identificação atingirá a sua plenitude na eternidade, quando 
conheceremos perfeitamente a Cristo.
Este é, pois, o meio que dispomos para aprendermos a co­
nhecer o pensamento de Deus, com o fim de orientarmos as nossas 
vidas. Claro que sempre existirão as fraquezas e limitações de 
nossa natureza e condição humanas nos impondo modéstia e cau­
tela. Também jamais teremos o direito de impor, a quem quer 
que seja, uma convicção adquirida através da leitura da Palavra 
de Deus ou adquirida graças a qualquer intervenção do Espírito;
48 A Oração que D eus Responde
cada qual é pessoalmente responsável diante de Deus (At 21.14, 
Rm 14.22). Talvez devamos ponderar sobre determinada 
convicção que não conseguimos persuadir os nossos irmãos a 
aceitar. O filho de Deus deve estar constantemente disposto a 
retificar a sua linha de pensamento e ação, em função de novos 
esclarecimentos, que certamente aparecerão no caminho da 
fidelidade. O discernimento da vontade de Deus jamais tem fim; 
é o resultado de uma contínua renovação de nossa mente, operada 
pelo Espírito de Deus, especialmente através da leitura da Bíblia 
(Rm 12.2).
Um espírito obediente
Este discernimento é também, não o esqueçamos, a con- 
seqüência de uma vida de obediência. “Se alguém quiser fazer a 
vontade dele, conhecerá a respeito da doutrina, se ela é de Deus” 
(Jo 7.17), disse Jesus. Revelar-se-ia Deus àquele que, no fundo 
do seu coração, decidiu não levar em conta esta revelação e 
continuar a viver segundo as suas próprias idéias? Encontramos 
o mesmo pensamento saído da pena do apóstolo João, que 
escreveu: “Aquilo que pedimos dele recebemos” (1 Jo 3.22). 
Será esta mais uma das promessas incondicionais de Deus? 
Certamente que não, porque o apóstolo prosseguiu: “Porque guar­
damos os seus mandamentos e fazemos diante dele o que lhe é 
agradável” . Vemos que se trata de crentes cujo sincero e profundo 
desejo é agradar a Deus. A sua conduta, que se ajusta aos man­
damentos de Deus, dá testemunho disso. Eles invocam, pois, ao 
Senhor, a fim de que Ele os esclareça naquilo que poderia 
agradar-Lhe. É de admirar que tais crentes sejam atendidos?
A sua obediência, é certo, não é a causa de serem eles 
atendidos; se assim fosse, ela se tornaria um mérito ou virtude 
pela qual tais crentes obteriam o que têm pedido. A sua obediên­
cia simplesmente reflete, em suas vidas, a identificação do seu 
desejo com o de seu Deus e Pai. Porque a vontade deles se ajusta 
à de Deus, eles pedem, certamente, o que o Senhor lhes quer 
conceder. Tal conhecimento é fruto de uma comunhão contínua 
com Deus; uma comunhão que sempre carecerá de aprimo-
A Palavra de Deus e a Oração 49
ramento. Por outro lado, tal conhecimento está, de modo geral, 
ao alcance do crente que é novo na fé. Logo, ele também, talvez 
mais do que qualquer outro, tem necessidade de conhecer a 
vontade de Deus relacionada a si mesmo. As grandes inter­
rogações, no início da vida cristã, demandam uma quantidade 
toda especial da luz divina. O Espírito Santo saberá, então, por 
vários meios, esclarecer o caminho àquele que procura agradar a 
Deus. Os meios podem ser: a igreja na qual Ele colocou aquele 
que é novo na fé, face às circunstâncias da vida que Ele dirige 
soberanamente; outros meios dos quais Ele absoluta e livremente 
pode se servir; ou o Livro que Deus inspirou e que permanece 
como fonte de referência segura.
Somente recordemos que as indicações divinas, sejam elas 
de que teor forem, não poderão ser percebidas, compreendidas e 
devidamente avaliadas, senão quando as condições de toda a 
comunhão com Deus estiverem preenchidas: um coração sincero, 
uma consciência purificada e um espírito obediente.
Apesar das nossas ignorâncias
Enfim, certas decisões, nós o sabemos, não esperam e 
impõem-se, antes mesmo que tenhamos adquirido plena certeza 
da vontade divina. Deveremos, então, contentar-nos em agir de 
acordo com uma convicção mesmo insuficiente, desde que sincera 
e clara. A ausência de certeza poderia, de fato, prolongar-se e 
condenar-nos à inércia. Tal inércia poderia, por sua vez, favorecer 
uma atitude de preguiça ou indecisão que comprometería a nossa 
vida espiritual, enfraquecendo, pouco a pouco, o nosso sentido 
de responsabilidade, bem como a nossa aptidão para tomarmos 
iniciativas.
A vontade de Deus revela-se, por vezes, não antes da ação, 
e sim durante a própria ação para a qual nós Lhe suplicamos a 
sua direção. Na ausência de uma revelação divina específica, ou 
levado por uma convicção que revelou-se mal fundamentada, 
Paulo agiu de acordo com o melhor que a sua consciência lhe 
ditava e no interesse da glória de Deus, de acordo com o que ele 
compreendia de tal glória; orou pedindo a sua própria cura (2 Co
50 A Oração que D eus Responde
12.8-9). Foi apenas no decorrer da oração que Deus lhe deu uma 
convicção mais justa de sua vontade.
Precisamos, por vezes, saber tomar humildemente as nossas 
responsabilidades e agir de acordo com o conhecimento que dispo­
mos, ainda que este seja incompleto e frágil, deixando-nos mesmo 
correr o risco de nos enganarmos, mas pedindo sinceramente a 
Deus o reajustar de nossa oração, se tal for necessário, a fim de 
que ela se identifique com o pensamento dEle.
8
u4 cfáe a Q/tação
A oração deve ser apresentada 
a Deus com uma fé firme!
Jesus declarou: “Tende fé em Deus; porque em verdade 
vos afirmo que, se alguém que disser a este monte: Ergue-te e 
lança-te no mar, e não duvidar no seu coração, mas crer que se 
fará o que diz, assim será com ele. Por isso, vos digo que tudo 
quanto em oração pedirdes, crede que recebestes, e será assim 
convosco” (Mc 11.22-24); “E tudo quanto pedirdes em oração, 
crendo, recebereis” (Mt 21.22).
Uma interpretação abusiva destas passagens bíblicas, às quais 
muitos se referem, às vezes com exclusividade, nos faria pensar 
que podemos gentilmente dispensar uma busca atenta e inteligente 
da vontade de Deus. Tiago instrui-nos que a oração deve ser 
apresentada a Deus com uma fé firme. Para Tiago, essa era a 
condição necessária para recebermos a resposta divina. Além 
disso, precisamos observar que Tiago não estava se referindo a 
todo tipo de oração. O que ele recomendou aos seus leitores — 
que peçam a Deus com segurança perfeita — é sabedoria. Ora, 
Deus quer que os crentes sejam sábios (Cl 3.16; 4.5). No entanto, 
sabemos que nem sempre, em todas as nossas petições, podemos 
tirar proveito de uma indicação suficientemente clara da vontade 
de Deus.
Jesus pôde dizer, antes mesmo de ver o milagre de Deus:
52 A Oração que D eus Responde
“Pai, graças te dou porque me ouviste. Aliás, eu sabia que sempre 
me ouves” (Jo 11.41-42). O Senhor, porém, ao orar, o fez de 
modo específico. Acontece-Lhe mesmo, algumas vezes, renunciar 
a satisfação de suas legítimas necessidades (Mt 4.2-4) ou a 
concretização de seus próprios desejos humanos, plenamente 
legítimos, para se sujeitar à perfeita e suprema vontade de seu 
Pai (Mt 26.39-42). Pensemos novamente na experiência bastante 
esclarecedora do apóstolo Paulo. Três vezes (o que significa “com 
insistência”) ele orou ao Senhor com verdadeira fé, tendo o 
objetivo de ser libertado da enfermidade que dolorosamente o 
fazia sofrer; mas ele não foi atendido. Deus reservou-lhe uma 
graça ainda mais excelente. Paulo não experimentou o milagre 
da cura, porém teve um ministério permanente e extraordinário, 
embora enfrentasse determinada fraqueza intransponível. Talvez 
esta experiência nos ajude a obter a resposta para o nosso próprio 
problema.
De que maneira a fé firme, que não tolera a menor dúvida, 
pode ser compatível com o tatear inerente à busca do conhecimento 
davontade de Deus e com a submissão a essa mesma vontade? 
Em uma leitura menos atenta, as palavras de Jesus citadas no 
início desse capítulo parecem atribuir poder sobrenatural à fé em 
si mesma. Elas parecem transmitir a idéia de que basta apenas 
nós termos a convicção absoluta de receber o que estamos pedindo, 
para que o recebamos; ter confiança em nossa própria fé seria a 
garantia infalível de que seremos atendidos com toda a certeza. 
Uma leitura mais atenta corrige esta impressão. O poder de que 
tratam os versículos não reside absolutamente no ato da oração 
em si mesmo, e sim no Senhor, a quem invocamos. Jesus sugeriu 
isso, no início de seu ensino, com estas palavras: “Tende fé em 
Deus” (Mc 11.22). Não são, pois, as nossas palavras que trans­
portam as montanhas, nem mesmo uma medida extraordinária 
de fé — se tivermos tanta como um grão de mostarda (Mt 17.20); 
é Deus quem as transporta. A verdadeira fé não se firma na 
resposta, e sim em Deus. Tal fé não tem relação alguma com a 
auto-sugestão. A oração não é, de maneira alguma, um meio de 
pressionarmos a Deus, para obtermos aquilo que decidimos (em 
nome da fé) conseguir dEle, custe o que custar. Deus não se
A Fé e a Oração 53
deixa intimidar pela presunção, nem tampouco pela quantidade 
de palavras (Mt 6.7).
A fé não é uma segurança cega e obstinada; ela não se baseia 
sobre a força de nosso direito, nem sobre a firmeza de nossa 
convicção, nem ainda sobre a intensidade de nosso desejo. A fé 
confia na bondade, na sabedoria e no ilimitado poder de Deus; 
ela não diz: “Se tu podes alguma coisa, tem compaixão de nós e 
ajuda-nos” (Mc 9.22). A fé sabe, sem a menor dúvida, que Deus 
pode fazer o que Ele quer; mas ela também sabe que o Senhor 
deseja o melhor na relatividade de nossa situação neste mundo. 
Portanto, a fé jamais dirá: “Senhor, tu tens de curar-me” . Impor 
a Deus o que nós queremos, exigir que Ele nos obedeça não é fé, 
é presunção. A fé diz: “Se quiseres, podes purificar-me” (Mc 
1.40). O leproso que pronunciou esta prece foi curado por Jesus; 
não pôs em dúvida o poder do Filho de Deus, nem o seu amor. 
Com verdadeira fé, o leproso se submeteu à perfeita vontade de 
Jesus.
Como poderiamos preferir ver realizado o nosso desejo, em 
vez da vontade do Senhor, infinitamente sábio? Ditar para Deus 
a nossa vontade não equivale a uma tentativa de limitar a graça 
dEle para conosco? Não aumentaríamos a nossa infelicidade, ao 
insistir que Deus faça como nós bem entendemos, segundo a 
nossa pobre imaginação? A nossa concepção do bem é muito 
relativa e depende, muitas vezes, de nossos impulsos instintivos 
e, mesmo, pecaminosos. A fé consiste em confiarmos em Deus. 
Não conhece Ele os nossos desejos? Ele não sabe melhor do que 
nós quais as nossas verdadeiras necessidades? Deus as responderá 
com certeza, no momento mais propício e da maneira mais 
proveitosa para nós. Muitas vezes Ele ultrapassa, em sua resposta, 
tudo o que poderiamos pensar ou imaginar (Ef 3.20). Foi isto 
que o Senhor fez em resposta ao nobre desejo de Davi, que 
pretendeu utilizar todos os seus tesouros e fontes de riqueza na 
edificação de um templo digno do grande nome de Deus. O rei 
Davi teria encontrado na realização deste desejo, caríssimo ao 
seu coração, a alegria e a glória de sua vida. Deus, porém, o 
recusou a Davi, reservando-lhe uma bênção que deveria ultra­
passar infinitamente tudo aquilo com o que ele poderia ter sonhado,
54 A Oração que D eus Responde
uma bênção que ele jamais pôde, em verdade, gozar na sua 
amplitude: “Tu não edificarás casa para minha habitação... 
Também te fiz saber que o Senhor te edificaria uma casa” (1 Cr 
17.4-10). E que casa! Uma casa que deveria coroar Cristo, o 
glorioso Filho de Davi! (Mt 12.6)
Davi exercitou a sua fé, não se obstinando na realização dos 
seus projetos, mas sujeitando-se, em adoração, à maravilhosa 
vontade de Deus! “Pois tu, Deus meu, fizeste ao teu servo a 
revelação que lhe edificarias casa. Por isso, o teu servo se animou 
para fazer-te esta oração. Agora, pois, ó Senhor, tu mesmo és 
Deus e prometeste a teu servo este bem. Sê, pois, agora, servido 
de abençoar a casa de teu servo, a fim de permanecer para sempre 
diante de ti, pois tu, ó Senhor, a abençoaste, e abençoada será 
para sempre” (1 Cr 17.25-27).
Uma última lição que esclarece a relação entre a oração e a 
fé concluímos do comentário que encontramos na Epístola aos 
Elebreus; esse comentário fala sobre a vida louvável dos santos 
do Antigo Testamento, os conhecidos e os desconhecidos (Hb 
11.30-40). Através da fé, alguns deles “subjugaram reinos, 
praticaram a justiça, obtiveram promessas, fecharam bocas de 
leões, extinguiram a violência do fogo, escaparam do fio da 
espada, da fraqueza tiraram força, fizeram-se poderosos em 
guerra, puseram em fuga exércitos de estrangeiros. Mulheres 
receberam, pela ressurreição, os seus mortos” . Porém, esta fé 
que produziu milagres também os tornou recusáveis perante o 
mundo: “Alguns foram torturados, não aceitando seu resgate, 
para obterem superior ressurreição; outros, por sua vez, passaram 
pela prova de escárnios e açoites, até de algemas e prisões. Foram 
apedrejados, provados, serrados pelo meio, mortos a fio de espada; 
andaram peregrinos, vestidos de peles de ovelhas e de cabras, 
necessitados, afligidos, maltratados (homens dos quais o mundo 
não era digno), errantes pelos desertos, pelos montes, pelas covas, 
pelos antros da terra” (Hb 11.35-38).
O autor inspirado, por meio destas linhas, parece indicar 
que a fé exercida pelos vencidos — “dos quais o mundo não era 
digno” — (Hb 11.38) possuía um grau mais elevado do que a dos 
vencedores. Animados por uma fé inabalável, esses mártires
A Fé e a Oração 55
anônimos renunciaram uma graça temporária e terrena por terem 
como alvo a bênção eterna e celeste: “Não aceitando seu resgate, 
para obterem superior ressurreição” (Hb 11.35). Esta aspiração 
por algo mais elevado se harmoniza com a vontade de Deus (Hb 
11.40).
A fé, portanto é, mais do que uma convicção, do que uma 
segurança ou do que confiança, ela é uma percepção, uma 
percepção do melhor que Deus deseja e prepara para nós. Ainda 
mais, a fé é uma adesão, uma rendição de todo o nosso ser a esta 
percepção.
Esse tipo de fé é capaz de tudo; é a garantia de todas as 
respostas divinas. Esse tipo de fé é logo atendida.
9
Ĵ esus, o Sdomern de Ôkação
A vida de oração de Jesus é um exemplo 
único que nos convoca a orar!
N ã o poderiamos terminar estas breves reflexões sobre as 
condições de um diálogo feliz e eficaz com Deus, sem nos 
determos e considerarmos o próprio Jesus, o homem de oração 
por excelência.
Em seus ensinamentos, Ele nos deixou preciosas e con­
vincentes lições a respeito desta atividade espiritual. Durante o 
nosso estudo, falamos sobre algumas delas, considerando-as. A 
própria vida de oração de Jesus é, igualmente, um exemplo único 
que nos convoca a orar. Não podemos abordar o conteúdo de 
certas orações que conhecemos na Bíblia, como, por exemplo: a 
oração que Jesus ensinou como modelo aos seus discípulos, a 
oração que Ele pronunciou em favor deles na última noite que 
passaram juntos ou a oração que, em vão, Jesus tentou com­
partilhar com eles, no Getsêmani.
O trabalho de considerar essas orações ultrapassaria os limites 
que propusemos a nós mesmos, nesta pequena obra. O nosso 
propósito não era empreender um estudo teórico sobre a oração, 
mas, de forma muito mais modesta, preparar-nos para esse diálogo 
santo com Deus — a oração. É nessa perspectiva que, de modo 
simples, tentaremos observar Jesus em sua vida devocional.
Infelizmente, não sabemos tudo o que se relaciona à vida de
58 A Oração que D eus Responde
oração de Jesus. Este assunto escapa aos evangelistas, que pouco 
a ele se referem, por causa de seu caráter particularmente secreto. 
O Senhor praticou o que ensinou: “Tu, porém, quando orares, 
entra no teu quarto e, fechada a porta, orarás a teu Pai, que está 
em secreto” (Mt 6.6). No entanto, nos evangelhos,aqui e ali, 
surpreendemos Jesus face a face com seu Pai. Esses poucos 
exemplos não nos permitem estabelecer regras para uma vida de 
oração semelhante à de Jesus, mas deixam-nos perceber certas 
diretrizes que devem inspirar o nosso proceder nessa atividade 
espiritual.
E um mistério
Primeiramente, o fato de que Jesus orou é, para nós, bastante 
misterioso e, ao mesmo tempo, muito significativo. E um mistério, 
com efeito, que o Filho de Deus tenha recorrido à oração. Era 
Deus dirigindo-se a Deus. Como é difícil imaginarmos tal diálogo! 
Essa atitude tem alguma semelhança com a nossa oração? Em 
certo sentido, transcende a tudo que o homem pode imaginar, 
pois jamais seremos capazes de penetrar na intimidade divina. 
As orações de Jesus registradas na Bíblia foram orações públicas 
e, em todos os casos, audíveis e “visíveis” para os discípulos. 
Elas visam à consolação, à edificação e à formação dos discípulos. 
Estes podem compreendê-las, pronunciá-las e vivê-las em certa 
medida, porque, se elas são orações do Filho de Deus, são também 
as do Filho do Homem. No entanto, elas não nos permitem son­
dar a misteriosa profundidade da comunhão divina.
Portanto, se o Filho de Deus recorreu à oração, nós temos 
razões muito mais fortes para dela necessitarmos! Se o Homem 
perfeito experimentou a necessidade de se retirar, a fim de estar 
em comunhão com seu Pai, há razões mais fortes para nós (que 
somos tão dependentes, tão vulneráveis, tão fracos) passarmos 
tempo em comunhão com Deus. Esta é a primeira lição.
Há uma segunda lição, que está relacionada à própria natureza 
da oração. Assim como observamos antes, muitas vezes apre­
sentamos nossa oração como uma expressão de necessidade e, 
em conseqüência, como uma série de pedidos. Esta noção
Jesus, o Homem de Oração 59
certamente contribui para desvalorizar essa maravilhosa ocupação 
ante os olhos do mundo incrédulo e, ao mesmo tempo, para de­
turpar a noção que o homem tem a respeito de Deus. O ateísmo 
serviu-se deste conceito de oração, para mostrar que o homem 
havia inventado a Deus, para que Ele preenchesse as suas 
“lacunas”.
Mas, em certo sentido, Jesus não estava em necessidade e 
nem sempre orava a seu Pai para obter dEle qualquer satisfação 
pessoal. O fato de que Jesus orou nos mostra bem que a oração 
não expressa, obrigatoriamente, a necessidade, e sim que ela 
também expressa a plenitude da alma. A oração não surge de um 
sentimento vazio, ela pode representar o transbordamento do 
coração. A oração é súplica e intercessão, mas também é adoração, 
louvor, deslumbramento, um grito de alegria. Toda a gama de 
sentimentos humanos pode ser expressa por meio da oração, 
porque ela é vida e uma expressão da vida em todas as suas 
dimensões. Jesus, o Homem-Deus, em toda a sua vida, foi o 
homem de oração por excelência.
Os lugares privilegiados para oração
Jesus afirmou que a oração é um diálogo em intimidade com 
Deus. Certamente, Ele foi o primeiro a praticá-la (Mt 6.5,ss.).
O apóstolo Paulo recomendou aos crentes do primeiro século: 
“Orai sem cessar” (1 Ts 5.17), indicando assim que eles deveriam 
estar em comunhão permanente com Deus. Jesus fez isso de modo 
perfeito. Ele viveu contínua e conscientemente na presença de 
seu Pai. Este é o ideal que nós incessantemente devemos procurar. 
Além disso, o exemplo de Jesus deve nos levar a meditar nessa 
situação, pois o ideal não é uma abstração. Jesus, que viveu em 
diálogo constante com o Pai, também separava, em sua vida 
terrena, momentos em que se encontrava com o Pai, em oração. 
Se o Filho de Deus agia assim, quanto maior não é a nossa ne­
cessidade de momentos especialmente consagrados à comunhão 
com Deus!
É certo que não podemos estar em comunhão com Deus em 
meio ao corre-corre do mundo, durante os muitos trabalhos ou
60 A Oração que D eus Responde
ocupações cotidianas; e não é menos verdade que, assim como 
Jesus, nós também temos necessidade de fechar a porta do nosso 
quarto, meditar e, no silêncio do nosso coração, nos encontrar­
mos com Deus. Para orar, Jesus buscava a tranqüilidade da noite 
ou da manhã, quando os labores diários já haviam terminado ou 
quando ainda não haviam começado e os seus amigos estavam 
dormindo. Ele orava no escuro da noite ou da madrugada; e, em 
algumas vezes, toda a noite. “E, despedidas as multidões, subiu 
ao monte, a fim de orar sozinho. Em caindo a tarde, lá estava 
ele, só” (Mt 14.23). “Tendo-se levantado alta madrugada, saiu, 
foi para um lugar deserto e ali orava” (Mc 1.35).
O Senhor apreciava também a calma dos lugares desertos 
ou da montanha — “Naqueles dias, retirou-se para o monte, a 
fim de orar, e passou a noite orando a Deus” (Lc 6.12). A oração 
necessita de silêncio. A solidão, o silêncio interior são coisas 
raras ou subestimadas na vida urbana, invadida pela poluição 
sonora. Nesses lugares, às vezes, o silêncio é mesmo insuportável. 
Por que razão temos medo de nos encontrarmos a nós mesmos? 
E por que receamos o silêncio ou por que neste silêncio corremos 
o risco de encontrar a Deus e de ficarmos face a face com Ele? 
As “obras”, não teriam elas invadido a nossa vida — “boas obras” 
que são, às vezes, “frutos diante de Deus”?
No decorrer de uma experiência científica, pessoas enfermas 
que haviam sido colocadas em quartos completamente isolados 
contra o som não puderam suportar o silêncio total mais do que 
alguns momentos: o pulsar de seu coração fazia um barulho in­
tolerável. De maneira semelhante o silêncio coloca o homem 
face a face consigo mesmo e impõe-lhe questões essenciais. O 
silêncio revela o mais profundo do ser humano. Nesta confrontação 
terrível, o homem não pode achar a calma e o equilíbrio que o 
elevam a Deus.
A experiência da solidão e do silêncio na vida conduz à 
revelação do homem e de Deus em sua verdade profunda, pois 
esta experiência torna evidente a distância insuportável que sepa­
ra o homem de Deus. Ela também permite ao crente tomar 
consciência do amor imensurável que galgou esse abismo. In- 
felizmente (devemos confessá-lo), é impossível vivermos
Jesus, o Homem de Oração 61
constantemente em oração face a face com Deus. Todavia, rogue­
mos a Deus que nos conceda mais desses momentos privilegiados 
e, quando nos forem dados, não os rejeitemos; pelo contrário, 
aceitemo-los como bênçãos. Depois, voltemos às nossas ativi­
dades, vivendo, o mais possível, a permanência da comunhão 
divina no quotidiano de nossa existência.
As circunstâncias que exigem a oração
É interessante considerar, durante alguns momentos, as 
ocasiões em que Jesus retirou-se para orar. Na verdade, viver 
em comunhão constante com Deus não exclui a oração em horas 
determinadas e bem reservadas ou em certas circunstancias 
críticas. Uma vez mais, Jesus tem algo para nos ensinar.
1. Vêmo-Lo retirar-se para orar antes de um ato decisivo 
em seu ministério.
“Naqueles dias, retirou-se para o monte, a fim de orar, e 
passou a noite orando a Deus. E, quando amanheceu, chamou a 
si os seus discípulos e escolheu doze dentre eles, aos quais deu 
também o nome de apóstolos” (Lc 6.12-13). Certamente esse dia 
foi sobremodo importante para a história do mundo: a escolha 
dos doze determinou o futuro do cristianismo e marcou a História. 
Ora, essa escolha foi precedida de uma longa noite de comunhão 
com Deus.
Lucas nos diz também que, antes de Jesus revelar aos seus 
discípulos os sofrimentos e a morte que Ele estava prestes a 
suportar, o Senhor esteve “orando à parte” (Lc 9.18).
A oração deve, igualmente, preparar-nos para grandes 
escolhas na nossa vida. Não sabemos como Deus utiliza a oração 
para esclarecer nosso caminho, para nos mostrar a direção certa, 
para inspirar nossas decisões, para nos mostrar o tempo certo, 
mas Ele o faz! Talvez, em contato com Ele e na sua companhia, 
estando unidos a Ele em oração, sejamos levados, às vezes sem 
perceber, a ver as coisas como Deus as vê, a reagir como Ele o 
faria! Não importando os meios que Ele utiliza, Deus agirá naquele
62 A Oração que D eusResponde
que, sentindo a sua fraqueza e a sua dependência, buscá-Lo com 
fé e sinceridade.
2. Observemos, em seguida, que Jesus orou especialmente 
quando as suas atividades eram inúmeras.
“Porém o que se dizia a seu respeito cada vez mais se di­
vulgava, e grandes multidões afluíam para o ouvirem e serem 
curadas de suas enfermidades. Ele, porém, se retirava para lugares 
solitários e orava” (Lc 5.15-16).
O evangelista parece sugerir que, quanto mais ocupado Jesus 
estava, tanto mais Ele orava. Nós somos tentados a fazer o 
contrário. No entanto, a atitude de Jesus é compreensível. Quando 
a atividade (mesmo consagrada a Deus) nos monopoliza e, mais 
particularmente, quando cia é cumulada de sucesso (como no 
caso de Jesus), duas tentações podem surgir: o orgulho (lem­
bremo-nos do conselho de Jesus aos setenta discípulos — (Lc 
10.20) ou a depressão (da qual, entre outros, Elias foi vítima — 
1 Rs 19.4). A oração manterá um saudável equilíbrio. O encontro 
com Deus nos preservará, ao mesmo tempo, do orgulho e do 
desânimo, ambos enganadores e destruidores.
3. Observemos ainda que Jesus orou antes de ser tentado 
(Mt 4.2).
Ele buscou, de um modo particular, a face do Pai (Mt 26.36) 
antes da grande prova da cruz. Aquela foi a ocasião da misteriosa 
e assombrosa oração no Jardim do Getsêmani! Foi a ocasião dos 
fortes clamores e lágrimas do Filho de Deus, antes do terrível 
confronto com o poder das trevas (Hb 5.7).
“Vigiai e orai, para que não entreis em tentação” (Mt 26.41), 
disse Jesus aos seus amigos, a fim de que eles não sucumbissem 
na provação. Eles, porém, não suportaram o sono nessa hora 
crucial. Enquanto Ele, fortalecido pela oração e calmo, caminhava 
para a cruz, os discípulos, que adormeceram no lugar de oração, 
lamentavelmente dispersaram-se, fugindo. Temos necessidade de 
orar mais e sempre, nas circunstâncias que exigem sabedoria ou 
forças especiais.
Jesus, o Homem de Oração 63
Os efeitos da oração
Entre todos os momentos de glória que, na terra, Jesus 
experimentou, existe um que particularmente nos chama a atenção: 
“Subiu ao monte com o propósito de orar. E aconteceu que, 
enquanto orava, a aparência do seu rosto se transfigurou” (Lc 
9.28-29). Esta experiência extraordinária foi singular, ainda que 
Moisés vivera algo parecido, quando desceu do monte Sinai, onde 
havia passado quarenta dias na presença de Deus. A sua face 
resplandecia com uma luz que o povo não podia contemplar (Êx 
34.29).
Mas, se estas experiências maravilhosas não foram gene­
ralizadas, o estar em comunhão com Deus pode marcar pro­
fundamente a vida e mesmo a face do crente que ora, embora 
pareça não haver resposta evidente à oração. Não passamos 
determinado tempo em oração a Deus sem que nosso caráter seja 
modificado, sem que nosso coração seja purificado, sem que nossa 
face se ilumine!
Estamos convencidos da necessidade da oração, apesar de 
sua prática ser difícil. Sabemos que “deveriamos”, mas também 
que fracassamos. Jesus conhece o nosso problema, a nossa falta 
de coragem nesta área, pois a respeito da oração ele pronunciou 
esta frase bem conhecida: “O espírito, na verdade, está pronto, 
mas a carne é fraca” (Mt 26.41).
Ele, que venceu, conhece as nossas derrotas e convoca-nos 
a não abandonar a luta. Ele não se desesperou quanto aos seus 
três amigos — Pedro, Tiago e João, que nem uma hora puderam 
vigiar com Ele. Acerca de nós, Ele também não se desespera! 
Creiamos no seu poder e supliquemos-Lhe desse poder, ao mesmo 
tempo que confessamos a nossa pobreza.
À medida que procuramos manter um contato permanente 
com Deus, ao longo do dia, durante nossas atividades, procuremos 
lugares sossegados, a fim de estarmos em comunhão com Ele, 
nesses momentos de paz. Preparemo-nos, assim, para as grandes 
decisões da vida, preservemos o nosso equilíbrio no turbilhão de 
atividades e armemo-nos para enfrentar as provações. Depois, 
certamente brilharemos com a sua luz diante dos outros.
64 A Oração que Deus Responde
S enhor,
Ensina-nos a orar, 
para nos ensinares a verdadeira fé. 
Ensina-nos a orar, para nos ensinares 
a Te conhecermos.
Ensina-nos a orar, para nos ensinares 
a nos assemelharmos a Ti. 
Ensina-nos a orar,
Para nos ensinares a viver!
Para a tua alegria!
Para o teu deleite!
Para a tua glória!
	Guy Appéré
	índice
	Ser crente é orar!
	ônconào com ^Dms em Õftação
	O importante é o nosso relacionamento com Deus!
	2
	Ô que LÃÁotíua a Qkação ?
	A oração depende dos motivos que a inspiram!
	3
	c A íAlaíuâega da Õ/tação
	A oração é um momento feliz que deve prolongar-se sem cessar!
	4
	©s S&'o/dgoníes da Õ/tação
	A oração, se a compreendermos bem, pode levar-nos longe... muito longe!
	5
	õ (JÂodo de Qm
	A oração é procurar entrar no plano de Deus!
	Como devemos orar?
	Orar no Espírito
	Orar com sabedoria
	6
	lA Q'meu&mça e a Õ/tação
	A distância entre a súplica e a resposta deve levar-nos a perseverar na oração!
	As dificuldades da oração
	A perseverança na oração
	7
	lA c.Vafaü/ta de Adeus e a O/tação
	“Não seja como Eu quero, mas como Tu queres ”!
	Um espírito obediente
	Apesar das nossas ignorâncias
	8
	u4 cfáe a Q/tação
	A oração deve ser apresentada a Deus com uma fé firme!
	9
	J^esus, o Sdomern de Ôkação
	A vida de oração de Jesus é um exemplo único que nos convoca a orar!
	Os lugares privilegiados para oração

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