Artigo-A-pandemia-do-coronavírus-COVID-19-e-o-trabalho-de-assistentes-sociais-na-saúde-2
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A pandemia do coronavírus (COVID-19) e o trabalho de assistentes sociais na saúde 
 
Maurílio Castro de Matos
\uf02a
 
 
Considerações sobre o impacto da COVID-19 no Brasil 
 
A pandemia do coronavírus - COrona VIrus Disease (COVID-19) - tem sido enfrentada, a 
partir da orientação dos órgãos de saúde pública, por meio de isolamento social e quarentena. 
Assim, todo o mundo (conforme se fala no Brasil), ao menos, ouviu ou recebeu centenas de 
mensagens nas redes sociais para que fique em casa. A partir disso, expressivo segmento dos/as 
trabalhadores/as formais está desenvolvendo seu trabalho em casa, no chamado trabalho remoto ou 
home office. Algumas empresas também estão colocando seus/suas trabalhadores/as em férias. 
Em direção contrária vem ocorrendo a recomendação para aqueles/as que trabalham nos 
serviços de saúde. Para estes/as, as férias previstas foram suspensas e estão trabalhando 
presencialmente. 
Já não há mais dúvidas de que a pandemia gera um medo. Morando num país do Sul do 
hemisfério, quando lemos o grande número de mortos do velho continente e relatos da insuficiência 
dos serviços de saúde, conhecido pelas suas boas condições de vida, nos dá um medo. 
O Brasil construiu, no seu marco jurídico-normativo, um serviço de saúde muito bom. O 
Sistema Único de Saúde (SUS) é uma política, que se materializa em uma série de serviços, do qual 
não é necessário contribuir diretamente para acessá-los (entretanto todos/as contribuem no seu 
financiamento) e tem uma ampla concepção de saúde, onde esta é compreendida como acesso ao 
que construído coletivamente, mas apropriado privadamente (BRAVO, 1996). 
No entanto, desde o seu nascedouro, na Constituição Federal de 1988, o SUS vem vivendo 
imensos boicotes, deste citamos apenas três: o desfinanciamento público (a exemplo da Emenda 
Constitucional (EC) nº 95/2016, que congelou por 20 anos o investimento da saúde e na educação); 
a sistemática alteração do seu modelo de gestão para perspectivas privatizantes - Plano de 
Atendimento a Saúde (PAC), em São Paulo, e \u201ccooperativa\u201d, no Rio de Janeiro, nos anos 1990 -, 
Organizações Sociais (OSs) desde o governo federal do Partido da Social Democracia Brasileira 
(PSDB), Fundações Estatais de Direito Privado (FEDPs) e Empresa Brasileira de Serviços 
Hospitalares (EBSERH) desde a década passada; e o avanço do setor privado criando uma ideologia 
 
\uf02a Assistente Social da Secretaria Municipal de Saúde de Duque de Caxias, no estado do Rio de Janeiro (RJ). Professor 
da Faculdade de Serviço Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Pesquisador do Grupo de 
Pesquisa Gestão Democrática na Saúde e Serviço Social / Pela Saúde. Mestre pela Universidade Federal do Rio de 
Janeiro (UFRJ) e Doutor pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) em Serviço Social. E-mail: 
mauriliomatos@gmail.com 
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da impossibilidade da assistência pública à saúde de qualidade, expulsando amplos segmentos que, 
iludidos com a compra do plano de saúde, julgam não ser fundamental a defesa do SUS (MATOS, 
2014; BRAVO et al, 2015). 
Enfim, a pandemia COVID-19 chega ao Brasil, que com sua histórica desigualdade social e 
com anos de destruição do SUS (mas que não podemos ignorar a existência de resistências, como 
trataremos adiante), coloca no horizonte imensas dificuldades de se pensar um futuro tranquilo para 
esse quadro desolador que a pandemia tem gerado nos países onde, antecipadamente, já passou. 
Para piorar a situação tem havido sistematicamente falas do presidente da república, Jair 
Bolsonaro, de desqualificação do potencial do vírus, o tratando como uma \u201cgripezinha\u201d, bem como 
se posicionando contrário ao isolamento social. Tal postura, não por acaso, também tem sido de 
empresários que o apoiam. Sob o discurso de que a economia não pode parar, as falas do presidente 
expressam, mais uma vez seu caráter neofascista, ao tratar como mais importante a possibilidade de 
mortes de contingente da classe trabalhadora, em detrimento da manutenção dos lucros do capital. 
Assim, com isso corroboramos com análises que reconhecem o medo que essa situação 
coletiviza. Mas, sabemos que um meio eficaz para enfrentar o medo, seja ele qual for, é a razão 
(para que possamos pensar), aqui no caso cabe também ressaltar que se trata da razão 
emancipatória, aquela que potencializa nossa riqueza como ser social pensante e sujeito de sua 
história (GUERRA, 2013). E como consequência, a ação (não ficarmos paralisados/as), que se 
baseia na realização de escolhas. Enfim, estamos falando do agir ético, inerente a sociabilidade 
humana, que aqui defendemos seja a sociabilidade que valorize a riqueza humana, entendida como 
o exercício das potencialidades que homens e mulheres desenvolveram em seu processo de 
humanização (BARROCO, 2001). 
Assim, é do humano a existência desse medo no atual contexto. 
 
Que relevância tem o Serviço Social na saúde em tempos de COVID-19 
 
Uma vez reconhecida a naturalidade do medo na atualidade queremos dialogar, com 
segmento da categoria de Serviço Social que não está afastada do trabalho, nem em trabalho 
remoto; mas ao contrário, teve férias suspensas e está nos serviços de saúde trabalhando. Assim, 
queremos aqui dialogar com assistentes sociais profissionais de saúde. 
Certamente os serviços de saúde estão com suas rotinas alteradas. E aqui cabe lembrar que 
esses, ainda que com desvirtuamentos, seguem uma hierarquização: atenção primária, secundária, 
terciária / quaternária. A pandemia impôs aos serviços de saúde reestruturações: suspensão de 
cirurgias eletivas nos ambulatórios especializados e hospitais; \u201ctransformação\u201d de leitos 
direcionados para os agravos decorrentes do COVID-19; suspensão de consultas ambulatoriais de 
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rotina para evitar aglomerações e etc. Nessa reestruturação cada serviço de saúde estabeleceu suas 
prioridades de atendimento. 
Ao eleger as prioridades os serviços de saúde precisaram criar uma forma de comunicação 
com a população usuária. Nos serviços, em geral, se montou na recepção um espaço para informar 
sobre esses reordenamentos, além do recurso aos meios de comunicação, notadamente às redes 
sociais. 
Em meio ao início dessa reestruturação o Ministério da Saúde lançou uma campanha de 
vacinação contra a gripe para os idosos que vem gerando, em algumas unidades de saúde, a 
aglomeração e também a criação, acertada, de uma nova forma de garantir ao acesso que é a vacina 
pelo drive thru para evitar a junção de pessoas. 
Enfim, nesse contexto surgem diferentes iniciativas que, até então não, estavam previstas. 
Trata-se de algo fora no normal, onde os profissionais de saúde são convocados, algo que 
chamamos coloquialmente como força tarefa. Está previsto até em códigos de ética, a exemplo do 
artigo 3, inciso d, do Código de Ética do/a Assistente Social: \u201cparticipar de programas de socorro à 
população em situação de calamidade pública, no atendimento e defesa de seus interesses e 
necessidades\u201d (CFESS, 2012). Assim, podemos perguntar: em que podem contribuir os 
profissionais de Serviço Social? 
Uma situação de pandemia que o Brasil vive hoje, certamente convoca assistentes sociais, 
mas estes devem atuar se limitando ao campo das suas competências profissionais e de suas 
atribuições privativas. Não são quaisquer tarefas, ainda que importantes, que devem esses 
profissionais desenvolver. Conforme atenta Marilda Iamamoto (2012), em sua contribuição ao 
caderno 01 do Conselho Federal de Serviço Social (CFESS) sobre competências e atribuições 
privativas, o trabalho em equipe não erode as particularidades profissionais. Mas, qual é a 
particularidade da profissão no trabalho em saúde? 
O Serviço Social é uma profissão com formação generalista e que tem como objeto as 
diferentes expressões da \u201cquestão social\u201d (Iamamoto, 2012), o que não impede que se possa pensar 
particularidades
sara
sara fez um comentário
Excelente análise !
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