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DIREITO PENAL II - PARTE ESPECIAL

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DIREITO PENAL II - 
PARTE ESPECIAL 
Autores: Lenice Kelner
 Rodrigo Koenig França
Programa de Pós-Graduação EAD
UNIASSELVI-PÓS
 Reitor: Prof. Dr. Malcon Tafner
 Diretor UNIASSELVI-PÓS: Prof. Carlos Fabiano Fistarol
 Coordenador da Pós-Graduação EAD: Prof. Norberto Siegel
 Equipe Multidisciplinar da 
 Pós-Graduação EAD: Profa. Hiandra B. Götzinger Montibeller
 Profa. Izilene Conceição Amaro Ewald
 Profa. Jociane Stolf
 Revisão de Conteúdo: Rodrigo Koenig França 
 Revisão Gramatical: Camila Thaisa Alves
 
 Diagramação e Capa: Centro Universitário Leonardo da Vinci
345
K299d Kelner, Lenice
 Direito penal II : parte especial / Lenice Kelner; 
 Rodrigo Koenig França. Indaial : Uniasselvi, 2012.
 200 p. : il.
 Inclui bibliografia.
 ISBN 978-85-7830-514-7
 1. Direito penal.
 I. Centro Universitário Leonardo da Vinci.
CENTRO UNIVERSITÁRIO LEONARDO DA VINCI
Rodovia BR 470, Km 71, no 1.040, Bairro Benedito
Cx. P. 191 - 89.130-000 – INDAIAL/SC
Fone Fax: (047) 3281-9000/3281-9090
Copyright © UNIASSELVI 2012
Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri
 UNIASSELVI – Indaial.
Rodrigo Koenig França
Possui Graduação em Direito pelo 
Centro Universitário Leonardo da Vinci – 
UNIASSELVI – (2006) e Pós-Graduação em 
Direito Penal pela Universidade do Sul de Santa 
Catarina – UDESC – (2009). Atualmente é Assistente 
de Promotoria do Ministério Público de Santa Catarina 
e Professor Universitário pelo Centro Universitário 
Leonardo da Vinci - UNIASSELVI. Tem experiência 
na área de Direito Público, com ênfase em 
Direito Penal e Ambiental.
Lenice Kelner
Lenice Kelner, Graduada em Direito. 
Mestre em Ciências Jurídicas. Especialista em 
Direito Penal e Processual Penal. Especialista 
em Direito Civil. Advogada na área criminal e cível. 
Professora do Curso de Direito da FURB. Professora 
dos Cursos de Especialização em Direito Penal e 
Processo Penal. Professora da Escola Superior da 
Magistratura do Tribunal de Justiça de Santa Catarina. 
Coordenadora do Programa de Extensão Gestão de 
Conflitos Penais na Comarca de Blumenau e Projeto 
de Assistência Jurídica aos detentos do Presídio 
Regional de Blumenau. 
Sumário
APRESENTAÇÃO ..................................................................... 7
CAPÍTULO 1
Crimes Contra a Pessoa ........................................................ 9 
CAPÍTULO 2
Crimes Contra o Patrimônio ............................................... 39
CAPÍTULO 3
Crimes Contra a Honra ....................................................... 77
CAPÍTULO 4
Crimes Contra o Sentimento Religioso e Contra o 
Respeito aos Mortos .......................................................... 91
CAPÍTULO 5
Crimes Contra a Dignidade Sexual ...................................123
CAPÍTULO 6
Crimes Contra a Família .................................................... 147
CAPÍTULO 7
Crimes Contra a Administração Pública .........................165
CAPÍTULO 8
Crimes Ambientais – Lei nº 9.605/98....................................185
7
APRESENTAÇÃO
Caro(a) pós-graduando(a):
Este caderno de estudos contém textos e reflexões relacionados com a 
parte especial do Código Penal Brasileiro e legislações esparsas. O seu caráter 
funcional será de expor, de forma concisa, mas densa e pragmática, os mais 
variados crimes previstos na legislação penal brasileira. O texto se apresenta 
dentro de uma metodologia dialógica, a fim de suscitar a reflexão, a dúvida, os 
questionamentos acerca de temas tão relevantes para todos os operadores do 
Direito. As leituras que fornecem subsídios para aprofundamento dos temas 
encontram-se ao longo do texto. 
O caderno abordará o tema em 8 capítulos. O primeiro capítulo tratará dos 
crimes contra a pessoa, especialmente a abordagem dos crimes de homicídio, 
participação em suicídio, infanticídio, aborto e lesão corporal. O segundo capítulo 
abordará os crimes contra o patrimônio, especialmente, os crimes de furto, roubo, 
latrocínio, extorsão, extorsão mediante sequestro, apropriação indébita, estelionato 
e receptação. O terceiro capítulo trará uma abordagem dos crimes contra a 
honra, destacando os crimes de calúnia, difamação e injúria. Por conseguinte, o 
quarto capítulo discorrerá sobre os crimes contra a dignidade sexual, destacando 
o crime de estupro, estupro de vulnerável, assédio sexual e o favorecimento da 
prostituição. O quinto capítulo tratará dos crimes contra a família, discorrendo 
sobre a bigamia, simulação de casamento, registro de nascimento inexistente, 
abandono material e intelectual. No sexto capítulo estudar-se-á os crimes 
contra o sentimento religioso, destacando-se o ultraje a culto, o impedimento de 
cerimônia funerária, a violação de sepultura e a destruição, subtração, ocultação 
e vilipêndio de cadáver. No sétimo capítulo abordar-se-á os crimes contra a 
administração pública, abrangendo o peculato, a concussão, a corrupção passiva 
e a prevaricação. Por fim, o último capítulo trará o estudo dos crimes contra o 
meio ambiente, identificando os crimes contra a fauna e os crimes contra a flora. 
Convidamos você a iniciar este diálogo e aprofundamento nos estudos. 
É com grande satisfação que trazemos nosso trabalho. 
Professora Msc. Lenice Kelner
Professor Rodrigo Koenig França
CAPÍTULO 1
Crimes Contra a Pessoa
A partir da perspectiva do saber fazer, neste capítulo você terá os seguintes 
objetivos de aprendizagem:
 3 Conceituar os crimes contra a vida. 
 3 Identificar e distinguir os crimes contra a vida diante de casos reais. 
 3 Buscar na jurisprudência casos julgados pelos Tribunais e apresentar 
comentário crítico referente ao crime pesquisado. 
11
Crimes Contra a Pessoa Capítulo 1 
Contextualização
Neste capítulo, estudaremos os “Crimes contra a pessoa”, que são aqueles 
delitos que ofendem a vida e a integridade física das pessoas. São eles: Homicídio 
(CP, art. 121), Participação em Suicídio (CP, art. 122), Infanticídio (CP, art. 123), 
Aborto (CP, art. 125, 126, 127 e 128) e Lesões Corporais (art. 129 do CP). O 
estudo dos crimes contra a pessoa é de primordial importância, pois trata do bem 
jurídico mais importante a ser tutelado, que é a vida humana.
A proteção de tão relevante bem jurídico é imperativo de ordem constitucional, 
assegurado no artigo 5º, caput, que garante que “todos são iguais perante a lei, 
sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e estrangeiros 
residentes no País a inviolabilidade do direito à vida [...]”. 
Diariamente, a imprensa nos traz notícias de crimes de homicídio brutais, 
abortos em clínicas clandestinas, brigas entre grupos rivais etc. A importância do 
estudo destes crimes será para você, operador do direito, distinguir e dar a correta 
aplicação dos tipos penais, aprofundando os conhecimentos que já possui acerca 
do tema. 
 
Homicídio
O homicídio, já na época de Roma, em 753 a. C. era considerado um crime 
público. A Lei das XII Tábuas (450 a. C) já previa a designação de juízes especiais 
para julgamento do delito de homicídio. Conferimos que na Idade Média, o 
homicídio era usualmente punido com a pena de morte. Conferindo a legislação 
brasileira com as Ordenações Filipinas, o crime de homicídio tinha pena aplicada 
a critério do julgador, que punia seus autores com pena de morte, imposição de 
mutilação e confisco de bens. Já desde o Código Penal do Império em 1830 e 
o Código Penal em vigor (1940) prescrevem, como a punição aos autores dos 
crimes de homicídio, a pena privativa de liberdade. 
a) Conceituação
Nas palavras de Capez (2011, p. 22), “homicídio é a morte de um homem 
provocada por outro homem. É a eliminação da vida de uma pessoa praticada 
por outra”. Importante definir o homicídio como a eliminação da vida humana 
extrauterina praticada por outrem. Pois, como alerta Mirabete (2011, p. 26), “tal 
conceito evita a confusão com o delitode aborto e com o suicídio”.
Mas afinal, quando começa a vida? 
12
 Direito Penal II - Parte Especial 
Bitencourt (2011, p. 48), com precisão, esclarece:
A vida começa com o início do parto, com o rompimento 
do saco amniótico; é suficiente a vida, sendo indiferente a 
capacidade de viver. Antes do início do parto, o crime será de 
aborto. Assim, a simples destruição da vida biológica do feto, 
no início do parto, já constitui crime de homicídio.
Enfim, para a configuração do delito em tela, a vítima deve estar 
viva, manifestando-se a vida com a respiração, não importando seu grau 
de vitalidade ou se exista a capacidade de sobrevivência. 
Para melhor compreensão deste contexto, assista o filme 
“Risco Duplo”.
b) Classificação Doutrinária
Como o crime de homicídio pode ser praticado de vários modos, a doutrina 
penal assim classifica o crime de homicídio: 
• crime comum: pode ser praticado por qualquer pessoa; 
• crime simples: atinge apenas um bem jurídico;
• crime de dano: exige a efetiva lesão de um bem jurídico;
• crime de ação livre: pode ser praticado por qualquer meio, comissivo ou 
omissivo;
• crime instantâneo de efeitos permanentes: a consumação ocorre em um só 
momento, mas seus efeitos são irreversíveis;
• crime material: só se consuma com a efetiva ocorrência do resultado morte, 
ou seja, com a cessação da atividade encefálica.
c) Tipo Penal
O crime de homicídio sempre terá um sujeito ativo, aquele que 
causou a morte, e o sujeito passivo, também chamado de vítima, ou a 
pessoa morta. 
O sujeito ativo, ou seja, aquele que pode praticar o delito, nesse 
caso pode ser qualquer pessoa. Por esse motivo, classifica-se em 
crime comum.
A vida começa com 
o início do parto, 
com o rompimento 
do saco amniótico
O crime de 
homicídio sempre 
terá um sujeito 
ativo, aquele que 
causou a morte, e 
o sujeito passivo, 
também chamado 
de vítima, ou a 
pessoa morta.
13
Crimes Contra a Pessoa Capítulo 1 
O sujeito passivo, ou seja, a vítima, pode ser qualquer pessoa também. O 
núcleo do tipo, que é o verbo descreve a conduta, no presente caso é matar.
Perceba que o crime de homicídio pode ocorrer por ação ou omissão do 
agente. Ex.: “A” esfaqueia “B” como intenção de matar. “B” morre pela ação de 
“A”. Já na omissão, “A” quer matar “B” que está sob sua guarda e para isso deixa 
de alimentá-lo. “B” morre de inanição. “A” responde por homicídio por omissão. 
• Para obter mais informações sobre o tipo penal, sugerimos 
acessar o site:
 http://pt.scribd.com/doc/39843090/Penal
• Leia a lei nº 9434/97, que trata de transplante de órgãos, 
encontrada no site:
 www.senado.gov.br
d) Homicídio Simples
No Código Penal Brasileiro, o homicídio simples é previsto no art. 
121, caput, com a seguinte redação: 
Art. 121 - Matar alguém: 
Pena - reclusão, de 6 a 20 anos.
No parágrafo 1º do Art. 121 do Código Penal Brasileiro, é definido o 
crime de homicídio privilegiado, como um caso de diminuição de pena.
• Caso de diminuição de pena (Homicídio privilegiado)
§ 1º - Se o agente comete o crime impelido por motivo de relevante valor 
social (diz respeito a interesses da coletividade, como, por ex., matar traidor da 
pátria, matar bandido perigoso, desde que não se trate de atuação de justiceiro) 
ou moral (refere-se a sentimento pessoal do agente, como no caso da eutanásia), 
ou sob o domínio de violenta emoção, logo em seguida à injusta provocação 
O homicídio 
simples é previsto 
no art. 121, caput, 
com a seguinte 
redação: 
Art. 121 - 
Matar alguém: 
Pena - reclusão, 
de 6 a 20 anos.
http://pt.scribd.com/doc/39843090/Penal
http://www.senado.gov.br
14
 Direito Penal II - Parte Especial 
da vítima (existência de emoção intensa - ex.: tirar o agente totalmente do sério; 
injusta provocação da vítima - ex.: xingar, fazer brincadeiras de mau gosto, 
flagrante de adultério; reação imediata - “logo em seguida”), o juiz pode (deve) 
reduzir a pena de 1/6 a 1/3.
Em seu parágrafo 2º, o art. 121 contém as formas qualificadas do homicídio, 
aplicando pena superior à do homicídio simples, visto que os motivos do crime, os 
meios empregados ou até os recursos demonstram maior periculosidade do agente.
e) Homicídio qualificado
Importante lembrar que o homicídio qualificado é “crime hediondo” 
quando praticado em atividade típica de grupos de extermínio, mesmo 
que por uma só pessoa.
No segundo parágrafo do Art. 121 do Código Penal Brasileiro, há a 
seguinte afirmação: 
§ 2º - Se o homicídio é cometido:
I - mediante paga ou promessa de recompensa, ou por outro 
motivo torpe (motivo vil, repugnante, que demonstra depravação moral do 
agente - ex.: matar para conseguir herança, por rivalidade profissional, por 
inveja, porque a vítima não quis ter relação sexual);
II - por motivo fútil (matar por motivo de pequena importância, insignificante; 
falta de proporção entre a causa e o crime - ex.: matar dono de um bar que 
não lhe serviu bebida, matar a esposa que teria feito jantar considerado ruim);
III - com emprego de veneno, fogo, explosivo, asfixia, tortura ou outro 
meio insidioso (é o uso de uma armadilha ou de uma fraude para atingir 
a vítima sem que ela perceba que está ocorrendo um crime, como, por 
ex., sabotagem de freio de veículo ou de motor de avião) ou cruel (outro 
meio cruel além da tortura - ex.: morte provocada por pisoteamento, 
espancamento, pauladas), ou de que possa resultar perigo comum (ex.: 
provocar desabamento ou inundação);
IV - à traição (quebra de confiança depositada pela vítima ao agente, que 
desta se aproveita para matá-la - ex.: matar a mulher durante o ato sexual), 
de emboscada (ou tocaia; o agente aguarda escondido a passagem da 
vítima por um determinado local para, em seguida, alvejá-la), ou mediante 
dissimulação (é a utilização de um recurso qualquer para enganar a vítima, 
O homicídio 
qualificado é 
“crime hediondo” 
quando praticado 
em atividade típica 
de grupos de 
extermínio, mesmo 
que por uma 
só pessoa.
15
Crimes Contra a Pessoa Capítulo 1 
visando possibilitar uma aproximação para que o agente possa executar o 
ato homicida - ex.: uso de disfarce ou método análogo para se aproximar da 
vítima, dar falsas provas de amizade ou de admiração para possibilitar uma 
aproximação) ou outro recurso que dificulte ou torne impossível a defesa 
do ofendido (surpresa; efetuar disparo pelas costas, matar a vítima que está 
dormindo, em coma alcoólico);
V - para assegurar a execução, a ocultação, a impunidade ou vantagem de 
outro crime: quando o homicídio é praticado para assegurar a execução 
de outro crime - ex.: matar um segurança para conseguir sequestrar um 
empresário (homicídio qualificado em concurso material com extorsão 
mediante sequestro). Ou quando o homicídio visa assegurar a ocultação (o 
sujeito quer evitar que se descubra que o crime foi praticado), impunidade (o 
sujeito mata alguém que poderia incriminá-lo - ex.: morte de testemunha do 
crime anterior) ou vantagem de outro crime (ex.: matar coautor de roubo para 
ficar com todo o dinheiro, ou a pessoa que estava fazendo o pagamento do 
resgate no crime de extorsão mediante sequestro).
 Pena - reclusão, de 12 a 30 anos.
Lembre-se que, havendo mais de uma qualificadora no caso 
concreto, o juiz usará uma para qualificar o homicídio e as demais 
como agravantes genéricas.
O Código Penal Brasileiro também prevê a possibilidade do homicídio 
culposo, ou seja, quando o resultado morte ocorre por negligência, imprudência 
ou imperícia. 
e) Homicídio culposo
No terceiro parágrafo do Art. 121 do Código Penal Brasileiro há a seguinte 
afirmação: 
§ 3º - Se o homicídio é culposo:
Pena - detenção, de 1 a 3 anos.
Importante verificar que, se a morte culposa ocorreu no trânsito, deveremos 
16
 Direito Penal II - Parte Especial 
buscar pelo novo Código de Trânsito Brasileiro (Lei n. 9.503, de 23-9-97). Eis a 
redação do crime: 
Sobre o princípio da especialidade, leia comentário nosite:
www.jusbrasil.com.br/topicos/297796/principio-da-especialidade
CÓDIGO DE TRÂNSITO BRASILEIRO - CTB – 
LEI Nº 9503 DE 1997
Capítulo XIX - Dos Crimes de Trânsito
Seção II - Dos Crimes em Espécie
Art. 302, CTB - Praticar homicídio culposo na direção de veículo 
automotor:
Penas - detenção, de 2 a 4 anos, e suspensão ou proibição de 
se obter a permissão ou a habilitação para dirigir veículo automotor.
§ único - No homicídio culposo cometido na direção de veículo 
automotor, a pena é aumentada de 1/3 a 1/2, se o agente:
I - não possuir Permissão para Dirigir ou Carteira de Habilitação;
II - praticá-lo em faixa de pedestres ou na calçada;
III - deixar de prestar socorro, quando possível fazê-lo sem risco 
pessoal, à vítima do acidente;
IV - no exercício de sua profissão ou atividade, estiver conduzindo 
veículo de transporte de passageiros.
Fonte: DENATRAN. Lei nº 9.503, de 23 de setembro de 1997. Disponível 
em: <http://www.denatran.gov.br/ctb.htm>. Acesso em: 29 ago. 2011.
O Código Penal Brasileiro prevê em seu art. 121, parágrafo 4º, a possibilidade 
de o homicídio culposo ser qualificado, e nesses casos a pena será aumentada 
em 1/3: 
http://www.jusbrasil.com.br/topicos/297796/principio-da-especialidade
17
Crimes Contra a Pessoa Capítulo 1 
• Aumento de pena
§ 4º - No homicídio culposo, a pena é aumentada de 1/3 se o crime resulta 
de inobservância de regra técnica de profissão, arte ou ofício (ex.: médico que 
não esteriliza instrumento cirúrgico, dando causa a uma infecção da qual decorre 
a morte da vítima), ou se o agente deixa de prestar imediato socorro à vítima 
(se a vítima é socorrida imediatamente por terceiro; se ele não é prestado porque 
o agente não possuía condições de fazê-lo ou por haver risco pessoal a ele; se a 
vítima estiver morta - não incide o aumento da pena), não procura diminuir as 
consequências do seu ato (ex.: após atropelar a vítima, nega-se a transportá-
la de um hospital a outro, depois de ter sido ela socorrida por terceiros), ou foge 
para evitar prisão em flagrante. Sendo doloso o homicídio (homicídio doloso), 
a pena é aumentada de 1/3 se o crime é praticado contra pessoa menor de 14 
anos ou maior de 60 anos.
Importante lembrar que, no homicídio culposo, há a previsão de 
ser aplicado o perdão judicial. Confira o enunciado da lei penal: 
§ 5º (Perdão judicial) - Na hipótese de homicídio culposo, 
o juiz poderá deixar de aplicar a pena, se as consequências da 
infração atingirem o próprio agente de forma tão grave que a 
sanção penal se torne desnecessária.
Como você pode observar, a sentença que reconhece e concede 
o perdão tem natureza declaratória da extinção da punibilidade, não existindo 
qualquer efeito secundário, inclusive a obrigação de reparar o dano.
Prado (2010, p. 90), no mesmo sentido, ensina que “há extinção da 
punibilidade, portanto, se as consequências da infração (homicídio culposo) 
atingirem o agente de forma tão grave que a sanção penal se torne desnecessária”.
Podemos verificar que a morte de pessoas estreitamente ligadas ao agente 
(por vínculo de parentesco ou amizade) pode ser a maior e a mais severa pena 
a ser aplicada, pois sempre se sentirá culpado pela morte da vítima, causada por 
falta de atenção ou cautela. 
Mirabete (2011, p. 46) nos alerta que:
O que dever ser examinado é se existem os requisitos exigidos 
pelo parágrafo 5º do art. 121, de caráter objetivo e subjetivo, 
e quanto a este exige a presunção da dor moral causada 
pela morte da vítima quando, entre esta e o agente, há 
ligações de caráter afetivo. Para isso é necessário que reste 
Homicídio culposo, o 
juiz poderá deixar de 
aplicar a pena, se as 
consequências da 
infração atingirem 
o próprio agente de 
forma tão grave que 
a sanção penal se 
torne desnecessária.
18
 Direito Penal II - Parte Especial 
cumpridamente provado nos autos que as consequências 
do crime atingiram de forma grave o agente de forma que a 
sanção penal é desnecessária. 
A competência para julgar os crimes dolosos contra a vida é do Tribunal do Júri.
Atividade de Estudos: 
1) Ao dirigir seu automóvel, sóbrio e em velocidade compatível com 
a situação da estrada em que se encontrava, um pai de família 
não consegue controlar o veículo, batendo de frente contra um 
poste da via pública. Em consequência do choque, sua esposa, 
que viajava no banco dianteiro, e seus filhos, no banco de trás, 
vêm a falecer. Questiona-se da possibilidade de aplicação do 
contido no artigo 121, § 5o, do CP.
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Induzimento, Auxílio ou Instigação 
ao Suicídio (ou Participação em 
Suicídio)
Estudaremos agora os crimes de Participação em Suicídio, que podem 
ocorrer sob três modalidades: induzimento ao suicídio, auxílio ao suicídio ou 
instigação ao suicídio. 
Podemos dizer que a denominação “participar em suicídio” pode acontecer 
sob três espécies diferentes de ações. Por outro lado, se ao mesmo tempo o 
autor instiga e auxilia a mesma vítima ao suicídio, cometerá somente um crime. 
19
Crimes Contra a Pessoa Capítulo 1 
a) Conceituação 
Suicídio é a deliberada destruição da própria vida. O suicídio somente não é 
um ilícito penal. 
Porém, Capez (2011, p. 121) nos ensina que, “Embora o Código Penal não 
incrimine o ato de dispor da própria vida, [...], considera crime toda e qualquer 
conduta tendente a destruir a vida alheia”. 
Bitencourt (2011, p. 129) esclarece que 
A conduta típica consiste em induzir (suscitar, fazer surgir 
uma ideia inexistente), instigar (animar, estimular, reforçar 
uma ideia já existente) ou auxiliar (ajudar materialmente) 
alguém a suicidar-se. Trata-se de um tipo penal 
de conteúdo variado, isto é, ainda que o agente 
pratique, cumulativamente, todas as condutas 
descritas nos verbos nucleares, em relação à 
mesma vítima, praticará um mesmo crime. 
Então podemos concluir que é autor do crime previsto no artigo 
122 do Código Penal Brasileiro aquele quem induz, instiga ou auxilia 
alguém a suicidar-se. 
Como sugestão, assista ao filme “Roleta Russa”, que dá uma 
ideia de instigação, induzimento e auxílio ao suicídio. 
b) Tipo Penal 
O crime de participação em suicídio terá um sujeito ativo, aquele que instigou, 
induziu ou prestou auxílio no suicídio de alguém, e o sujeito passivo, também 
chamado suicida. 
O sujeito ativo, ou seja, aquele que pode praticar o delito, nesse caso pode 
ser qualquer pessoa, exceto o suicida. Por esse motivo, classifica-se de crime 
comum.
O sujeito passivo, ou seja, a vítima, pode ser qualquer pessoa com 
capacidade de ser induzida, instigada ou auxiliada a suicidar-se. Aquele que 
não tem capacidade de autodeteminar-se não será vítima desse crime e sim de 
É autor do crime 
previsto no artigo 
122 do Código Penal 
Brasileiro aquele 
quem induz, instiga 
ou auxilia alguém a 
suicidar-se.
20
 Direito Penal II - Parte Especial 
homicídio. Ex.: um adulto fala para uma criança de 10 anos pular de um cobertura 
e ela pula e morre, será homicídio e não o tipo penal desse artigo.
Já apresentamos os conceitos de sujeito ativo e passivo quando 
abordamos o Homicídio. Nesta situação, a compreensão é diferente. 
A principal diferença entre o crime de homicídio e participação em 
suicídio é se a vítima é capaz (tem capacidade de entendimento) ou 
não (menores, doentes mentais etc.).
Confira o que diz o art. 122 do Código Penal Brasileiro: 
Art. 122 - Induzir (participação moral; significa dar a ideia do suicídio a 
alguém que ainda não tinha tido esse pensamento)ou instigar (participação 
moral – significa reforçar a intenção suicida já existente) alguém (pessoa ou 
pessoas determinadas) a suicidar-se ou prestar-lhe auxílio para que o faça 
(participação material; significa colaborar materialmente com a prática do suicídio, 
quer dando instruções, quer emprestando objetos para que a vítima se suicide; 
essa participação deve ser secundária, acessória, pois se a ajuda for a causa 
direta e imediata da morte da vítima, o crime será o de “homicídio”):
Pena - reclusão, de 2 a 6 anos, se o suicídio se consuma; 
ou reclusão, de 1 a 3 anos, se da tentativa de suicídio resulta lesão 
corporal de natureza grave.
Importante a distinção que Capez (2011, p.123) faz sobre as 
condutas do autor de crime de participação em suicídio: 
Três são as ações previstas pelo tipo penal:
a) Induzir: significa sucitar a ideia, sugerir o suicídio. Ocorre 
o induzimento quando a ideia de autodestruição é inserida 
na mente suicida, que não havia desenvolvido o pensamento 
por si só. Por exemplo: indivíduo que perde o emprego e é 
sugestionado pelo seu colega a suicidar-se por ser a única 
forma de solucionar os seus problemas.
b) Instigar: significa reforçar, estimular, encorajar um desejo já 
existente. Na instigação, o sujeito ativo potencializa a ideia de 
suicídio que já havia na mente da vítima. Cite-se o exemplo que 
nos é dado por E. Magalhães Noronha: “induz o pai que, ciente 
do desígnio suicida da filha seduzida, lhe conta que assim 
também agiu determinada mulher, revelando honra e brio”.
Três são as ações 
previstas pelo tipo 
penal:
a) Induzir: significa 
sucitar a ideia, 
sugerir o suicídio.
b) Instigar: significa 
reforçar, estimular, 
encorajar um 
desejo já existente.
c) Prestar auxílio: 
consiste na 
prestação de ajuda 
material, que tem 
caráter meramente 
secundário.
21
Crimes Contra a Pessoa Capítulo 1 
c) Prestar auxílio: consiste na prestação de ajuda material, 
que tem caráter meramente secundário. O auxílio pode ser 
concedido antes ou durante a prática do suicídio. [...] o auxíio é 
eminentemente acessório, limitando-se o agente, in exemplis, 
a fornecer meios ( arma, o veneno etc), a ministrar instruções 
sobre o modo de empregá-los, a criar condições de viabiliadde 
do suicídio, a frustar a vigilância de outrem, a impedir ou 
dificultar o imediato socorro. 
O delito de participação em suicídio é qualificado, ou seja, a pena será maior 
quando: 
c) Aumento de pena
A pena é duplicada:
I - se o crime é praticado por motivo egoístico (ex.: para ficar com 
a herança da vítima, com o seu cargo);
II - se a vítima é menor ou tem diminuída, por qualquer causa, 
a capacidade de resistência (ex.: vítima está embriagada, com 
depressão).
CRIME DE PARTICIPAÇÃO EM SUICÍDIO
Podemos concluir, sobre o crime de participação em suicídio, 
que:
1. não admite tentativa;
2. consuma-se no momento da morte da vítima ou quando ela sofre 
lesões corporais graves; resultando lesões leves o fato é atípico;
3. deve haver relação de causa e efeito entre a conduta do agente e 
a da vítima;
4. deve haver seriedade na conduta do agente. Se alguém, em tom 
de brincadeira, diz à vítima que a única solução é “se matar” e ela 
efetivamente se mata, o fato é atípico por ausência de dolo;
5. a vítima deve ter capacidade de entendimento (de que sua 
conduta irá provocar sua morte) e resistência. Assim, quem induz 
A pena é duplicada:
Se o crime é 
praticado por motivo 
egoístico.
Se a vítima é menor 
ou tem diminuída, 
por qualquer causa, 
a capacidade de 
resistência
22
 Direito Penal II - Parte Especial 
criança de pouca idade ou pessoa com grave enfermidade mental 
a se atirar de um prédio responde por “homicídio”;
6. se várias pessoas fazem roleta-russa em grupo, uns estimulando 
os outros, os sobreviventes respondem por este crime.
7. se duas pessoas fazem um pacto de morte e um deles se mata e 
o outro desiste, o sobrevivente responderá por este crime.
8. se duas pessoas decidem morrer juntamente, se trancam em 
um compartimento fechado e um deles liga o gás, mas apenas o 
outro morre, haverá “homicídio” por parte daquele que executou 
a conduta de abrir a torneira do botijão de gás.
Fonte: <http://www.ebah.com.br/content/ABAAAAKrwAD/
direito-penal-parte-especial>. Acesso em: 10 dez. 2011.
A competência para julgar os crimes dolosos contra a vida é do Tribunal do 
Júri.
Atividade de Estudos: 
1) Pedro e Tiago, desanimados da vida, conversam entre si e chegam 
à conclusão de tirarem suas próprias vidas. Considerando que 
ambos não sabem nadar, combinam de atirarem-se no rio das 
Antas, cuja profundidade é de 10 metros. Assim, de mãos dadas, 
jogam-se no rio. Em atitude de desespero (instinto de defesa), 
Tiago consegue nadar e chegar à margem do rio, mas a mesma 
sorte não acompanha Pedro, que vem a óbito.
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23
Crimes Contra a Pessoa Capítulo 1 
Infanticídio
Estudaremos agora o crime de Infanticídio, ou seja, a morte do filho pela mãe 
sob a influência do estado puerperal. Conferimos que, no Direito Romano, a morte 
dada ao filho pela mãe era equiparada ao crime de homicídio. Temos registro que, 
na Lei das XII Tábuas (século V a.C.), havia permissão para que o pai matasse o 
filho que nascesse disforme ou de aspecto monstruoso, mediante o julgamento de 
cinco vizinhos. A lei penal atual não tem mais o mesmo entendimento, e determina 
punição para qualquer pessoa que matar seu filho. 
a) Conceituação 
Infanticídio é considerado pela doutrina como um homicídio 
privilegiado, ou seja, por ser cometido pela mãe contra o filho em 
condições especiais. 
Mirabete (2011, p. 53) nos ensina que “o infanticídio é um crime 
próprio, praticado pela mãe da vítima, já que o dispositivo se refere ao 
‘próprio filho’ e ao ‘estado puerperal’”. 
No mesmo sentido, Bitencourt (2011, p. 148) esclarece:
A ação nuclear descrita no tipo penal é exatamente a 
mesma do homicídio: matar. Assim, toda e qualquer conduta 
que produzir a supressão da vida humana, tal como no 
homicídio, pode sinalizar o início da adequação típica do 
crime de infanticídio. Contudo, a norma que emerge do 
art. 123, definidor do crime de infanticídio, é produto de lex 
specialis, que exige, consequentemente, a presença de outros 
elementos da estrutura típica. A condita típica consiste em 
matar, sob a influência do estado puerperal, o próprio filho, 
durante o parto ou logo após. 
Enfim, Prado (2010, p. 108) alerta que “admite-se qualquer meio de execução 
hábil a produzir a morte do ser humano nascente ou recém-nascido (delito de 
forma livre).”
A morte pode ser ocasionada por uma conduta comissiva (sufocação, 
estrangulamento, traumatismo, asfixia) ou omissiva (falta de sutura do cordão 
umbilical, inanição, não prestação de cuidados especiais). 
b) Tipo Penal 
O crime de infanticídio terá um sujeito ativo, aquele(a) que retirou a vida de 
seu(sua) filho(a), e um sujeito passivo, o(a) filho(a) morto(a). 
O infanticídio é 
um crime próprio, 
praticado pela mãe 
da vítima, já que o 
dispositivo se refere 
ao ‘próprio filho’ e ao 
‘estado puerperal’.
24
 Direito Penal II - Parte Especial 
O sujeito ativo, ou seja, aquele que pode praticar o delito, nesse 
caso somente poderá ser a mãe do nascente ou recém-nascido. Por 
esse motivo, classifica-se de crime próprio.
Importante: O terceiro que participa do crime, junto com a mãe, 
responde por infanticídio seguindo a regrado art. 30 do CP.
O sujeito passivo, ou seja, a vítima, é o nascente ou neonato.
Infanticídio é definido, no Código Penal Brasileiro, nos seguintes 
termos: 
Art. 123 - Matar, sob a influência do estado puerperal (é uma perturbação 
psíquica que acomete grande parte das mulheres durante o fenômeno do parto 
e, ainda, algum tempo depois do nascimento da criança; em princípio, deve ser 
provado, mas, se houver dúvida no caso concreto, presume-se que ele ocorreu), 
o próprio filho, durante o parto ou logo após:
Pena - detenção, de 2 a 6 anos.
Percebemos que o crime de infanticídio acontece no estado puerperal, mas o 
que é estado puerperal?
Buscamos então os ensinamentos dos médicos Almeida Júnior e Costa 
Júnior (1977, p. 381), na clássica obra de medicina legal: 
Puerpério (de puer e parere) é o período que vai da 
dequitação (isto é, do deslocamento e expulsão da placenta) 
à volta do organismo materno à condições pré-gravídicas” (r. 
Briquet). Sua Duração é, pois, de seis a oito semanas (Lee), 
conquanto alguns limitem o uso da expressão “puerpério” 
ao prazo de seis a oito dias, em que a mulher se conserva 
no leito. Fenômeno não bem definido, o estado puerperal é 
por vezes confundido com perturbações à saúde mental, 
sendo até negada sua existência por alguns autores. Merece 
ser transcrita a explicação dos autores já citados: “Nele 
se incluem os casos em que a mulher, mentalmete sã, mas 
abalada pela dor física do fenômeno obstétrico, fatigada, 
enervada, sacudida pela emoção, vem a sofrer um colapso do 
senso moral, uma liberação de impulsos maldosos, chegando 
por isso a matar o próprio filho. De um lado, nem alienação 
mental, nem semialinenação (casos estes já regulados 
genericamente pelo Código). De outro modo, tampouco frieza 
de cálculo, a ausência de emoção, a pura crueldade (que 
caracterizam, então o homicídio). Mas a situação intermédia, 
podemos dizer até normal, da mulher que, sob o trauma da 
parturição e dominada por elementos psicológicos peculiares, 
se defronta com o produto talvez não desejado, e temido, de 
suas entranhas. 
O crime de 
infanticídio terá 
um sujeito ativo, 
aquele(a) que 
retirou a vida de 
seu(sua) filho(a), e 
um sujeito passivo, 
o(a) filho(a) 
morto(a).
25
Crimes Contra a Pessoa Capítulo 1 
Pode-se concluir que, a respeito da expressão “logo após o parto”, não há 
fixação precisa. A jurisprudência admite que, enquanto durar o estado puerperal, 
será “logo após o parto”. 
Importante: se a mãe preencher todos os requisitos do tipo, porém imagina 
ser seu filho e é o filho de outra pessoa, responderá por infanticídio, na hipótese 
de erro sobre a pessoa. (art. 20, § 3º, CP).
Admite-se a tentativa, desde que o resultado morte não ocorra por 
circunstâncias alheias à vontade do agente. 
A competência para julgar os crimes dolosos contra a vida é do Tribunal do 
Júri.
Atividade de Estudos: 
1) Durante o parto, o médico, antes de retirar a criança do ventre 
materno, sabendo que a criança não sobreviverá por muitos dias, 
porém sendo essa informação de completo desconhecimento 
da mãe, acaba estrangulando a mesma com o cordão umbilical, 
dentro do ventre materno, matando-a. Qual a conduta criminosa 
do médico?
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Aborto
Estudaremos agora o crime de aborto, ou seja, a morte do feto pela própria 
gestante. Porém, o aborto também poderá ser praticado por médico, pelo marido, 
pelo namorado, tendo ou não o consentimento da gestante.
Verificamos que, em Roma, nos primeiros tempos, o aborto não era tratado 
como crime. Para os romanos, o feto era tido como parte do corpo da gestante e 
esta poderia dele livremente dispor. Porém, sob a influência do Cristianismo, por 
volta de 374 d.C., o Direito Canônico reprovou a prática do aborto, entendendo 
que o feto, ou o nascituro, morreria sem ser batizado.
26
 Direito Penal II - Parte Especial 
a) Conceituação 
É a interrupção da gravidez com a consequente morte do feto. Mirabete 
(2011, p. 57) conceitua de forma clara o crime de aborto: 
Aborto é a interrupção da gravidez com a destruição do 
produto da concepção. É a morte do ovo (até três semanas 
de gestação), embrião (de três semanas a três meses) ou 
feto (após três meses), não implicando necessariamente 
sua expulsão. O produto da concepção pode ser dissolvido, 
reabsorvido pelo organismo da mulher ou até mumificado, ou 
pode a gestante morrer antes de sua expulsão. Não deixará 
de haver, no caso, o aborto. 
Em síntese, Bitencourt (2011, p. 160) esclarece que “aborto é a interrupção 
da gravidez antes de atingir o limite fisiológico, isto é, durante o período 
compreendido entre a concepção e o início do parto, que é o marco final da 
vida intrauterina”. 
Existe uma classificação para os tipos de aborto, sendo que em algumas 
situações não há punição por não ser considerado crime ou ser o aborto permitido. 
Veja o quadro abaixo:
Quadro 1 – Tipos de aborto e suas consequências legais
Tipos de aborto Consequência e punição 
Aborto natural É a interrupção espontânea da gravidez (impunível).
Aborto Acidental 
Acontece em consequência de traumatismo (impunível) - ex.: 
queda, acidente em geral.
Aborto Criminoso Encontra-se previsto nos artigos 124 a 127 do Código Penal.
Aborto legal ou permitido Encontra-se previsto no art. 128 do Código Penal 
Fonte: Os autores.
b) Meios de Praticar o Aborto
Há várias formas de provocar o aborto. Sobre esta questão, Gonçalves 
(1999, p. 42) afirma que:
Os métodos mais usuais são ingestão de medicamentos 
abortivos, introdução de objetos pontiagudos no útero, raspagem 
ou curetagem e sucção; é ainda possível a utilização de agentes 
elétricos ou contundentes para causar o abortamento.
Aborto é a 
interrupção da 
gravidez com 
a destruição 
do produto da 
concepção.
27
Crimes Contra a Pessoa Capítulo 1 
Importante: se o feto já estiver morto (absoluta impropriedade 
do objeto) ou o meio utilizado pelo agente não puder provocar o 
aborto (absoluta ineficácia do meio), é crime impossível.
c) Tipo Penal
O crime de aborto pode ter tipos penais e penas diferentes, dependendo 
quem cometeu o aborto (por exemplo: própria gestante, médico, namorado etc.) e 
se o aborto aconteceu com ou sem consentimento da gestante. 
O art. 124 do Código Penal Brasileiro prevê o aborto provocado pela gestante 
(autoaborto) ou com seu consentimento. Vejamos: 
Art. 124 - Provocar aborto em si mesma ou consentir que outrem lho 
provoque:
Pena - detenção, de 1 a 3 anos.
Perceba que a gestante que consente, incide nesse artigo, enquanto o terceiro 
que executa o aborto, com concordância da gestante, responde pelo art. 126.
Importante: é crime próprio, já que nelas o sujeito ativo é a 
gestante; é crime de mão própria, uma vez que não admite coautoria, 
mas apenas participação.
O art. 125 do Código Penal Brasileiro prevê o aborto provocado sem o 
consentimento da gestante. Vejamos: 
Art. 125 - Provocar aborto, sem o consentimento da gestante:
Pena - reclusão, de 3 a 10 anos.
O art. 126 do Código Penal Brasileiro prevê o aborto provocado com o 
consentimento da gestante. Vejamos: 
Art. 126 - Provocar aborto com o consentimento da gestante:
Pena - reclusão, de 1 a 4 anos.
28
 Direito Penal II - Parte Especial 
§ único - Aplica-se a pena do artigo anterior se a gestante não é maior de 
14 anos, ou é alienada ou débil mental, ou se o consentimento é obtido mediante 
fraude, grave ameaça ou violência.
O art. 127 do Código Penal Brasileiro contém as formas qualificadas pelo 
resultado. Vejamos: 
Art. 127 - As penas cominadas nos dois artigos anteriores (arts. 125 e 
126) são aumentadas de 1/3, se, em consequência do aborto ou dos meios 
empregados para provocá-lo, a gestante sofre lesão corporal de natureza 
grave; e são duplicadasse, por qualquer dessas causas, lhe sobrevém a morte.
O artigo 128 do Código Penal Brasileiro prevê o aborto legal ou permitido. De 
acordo como texto legal, não se pune o aborto praticado por médico.
d) Aborto necessário - Se não há outro meio de salvar a vida da gestante
No conceito de Estefam (2010, p. 151), “dá-se quando o ato é praticado por 
médico, verificando-se não existir outro meio de salvar a vida da gestante. É a 
interrupção artificial da gravidez para conjurar perigo certo, e inevitável por outro 
modo, à vida da gestante”.
Para Greco (2010, p. 235), “no caso do aborto necessário, também conhecido 
por aborto terapêutico ou profilático, não temos dúvida em afirmar que se trata de 
uma causa de justificação correspondente ao estado de necessidade”.
e) Aborto sentimental
Se a gravidez resulta de estupro e o aborto é precedido de consentimento 
da gestante ou, quando incapaz, de seu representante legal.
A lei também autoriza o aborto quando a gravidez resulta de estupro, e sempre 
que houver, neste caso, consentimento da gestante ou de seu representante legal. 
Estefam (2010, p. 152) ressalva que “o legislador brasileiro 
priorizou que não se pode obrigar uma mulher a levar até o final uma 
gravidez que a fará recordar, diária e permanentemente, de uma odiosa 
violência a que fora submetida”. 
Greco (2010, p. 238) ensina que “o legislador cuidou de uma 
hipótese de inexigibilidade de conduta diversa, não se podendo 
exigir da gestante que sofreu a violência sexual a manutenção de 
sua gravidez”. 
A lei também 
autoriza o aborto 
quando a gravidez 
resulta de estupro, 
e sempre que 
houver, neste caso, 
consentimento da 
gestante ou de seu 
representante legal.
29
Crimes Contra a Pessoa Capítulo 1 
Leia o livro de Maria Tereza Verardo: “Aborto: um direito ou 
um crime”. Editora Moderna. 
Atividade de Estudos: 
1) Elmira Schons recebeu em sua casa Laurinda Zacaron e 
Zildanabel Tavares a fim de praticar as manobras abortivas que 
levaram à consumação do delito em relação a ambas, tendo estas 
últimas consentido no resultado lesivo. Dê o enquadramento legal 
do(s) comportamento(s) de Elmira, Laurinda e Zildanabel.
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Lesões Corporais
Estudaremos agora o crime de lesões corporais, ou seja, a ofensa à 
integridade física da vítima. 
a) Conceituação
No conceito apresentado por Bitencourt (2011, p. 186), lesão 
corporal “consiste em todo e qualquer dano produzido por alguém, 
sem animus necandi, à integridade física ou à saúde de outrem”.
Segundo Capez (2011, p.166), as lesões corporais consistem: 
em qualquer dano ocasionado à integridade 
física e à saúde fisiológica ou mental do homem 
sem, contudo, o animus necandi. A integridade 
física diz respeito à alteração anatômica interna 
ou externa do corpo humano, geralmente 
As lesões corporais 
consistem: 
em qualquer dano 
ocasionado à 
integridade física e à 
saúde fisiológica ou 
mental do homem 
sem, contudo, o 
animus necandi.
30
 Direito Penal II - Parte Especial 
produzida por violência física ou mecânica: por exemplo, 
produzir ferimentos no corpo, amputar membros, furar os 
olhos etc., não se exigindo o derramamento de sangue. A 
saúde fisiológica do corpo humano diz respeito ao equilíbrio 
funcional do organismo, cuja lesão normalmente não produz 
alteração anatômica, ou seja, dano, mas apenas perturbação 
de sua normalidade funcional que produz ofensa à saúde, por 
exemplo: ingerir substância que altere o funcionamento normal 
do organismo. A saúde mental diz respeito à perturbação de 
ordem psíquica (p. ex., choque nervoso decorrente de um 
susto, estado de inconsciência, insanidade mental). Ressalve-
se que a dor não integra o conceito de lesão corporal, até 
porque a sua análise é de índole estritamente subjetiva. 
Podemos, então, assim resumir: 
OFENSA À 
INTEGRIDADE FÍSICA 
Abrange qualquer alteração anatômica prejudicial ao corpo hu-
mano - ex.: fraturas, cortes, escoriações, luxações, queimaduras, 
equimose, hematomas etc.; eritemas e a simples dor não consti-
tuem lesões.
OFENSA À SAÚDE 
Abrange a provocação de perturbações fisiológicas (vômitos, 
paralisia corporal momentânea, transmissão intencional de doença 
etc.) ou psicológicas.
Importante: a prova da materialidade deve ser feita através de 
exame de corpo de delito, mas, para o oferecimento da denúncia, 
basta qualquer boletim médico ou prova equivalente (art. 77, § 1°, L. 
nº 9.099/95).
b) Tipo Penal 
O crime de lesão corporal pode ser assim classificado pelo Código Penal 
Brasileiro:
MODALIDADES PREVISÃO LEGAL 
Lesão corporal leve Art. 129, caput
Lesão corporal grave Art. 129, parágrafo 1º
Lesão corporal gravíssima Art. 129, parágrafo 2º
Lesão corporal culposa Art. 129, parágrafo 6º
Lesão corporal seguida de morte Art. 129, parágrafo 3º 
O artigo 129, caput, do Código Penal Brasileiro prevê o crime de lesões 
corporais leves. Vejamos: 
31
Crimes Contra a Pessoa Capítulo 1 
Art. 129 - Ofender a integridade corporal ou a saúde de outrem:
Pena - detenção, de 3 meses a 1 ano.
Lesões Corporais Leves são as lesões corporais que não 
determinam as consequências previstas nos §§ 1°, 2° e 3° do art. 
129 do CP; são representadas frequentemente por danos superficiais 
comprometendo a pele, a hipoderme, os vasos arteriais e venosos 
capilares ou pouco calibrosos - ex.: o desnudamento da pele ou 
escoriação, o hematoma, a equimose, ferida contusa, luxação, edema, 
torcicolo traumático, choque nervoso, convulsões ou outras alterações 
patológicas congêneres obtidas à custa de reiteradas ameaças.
No mesmo sentido, Capez (2011, p. 173) conceitua como sendo 
dano à integridade física ou à saúde que não constitua lesão grave ou 
gravíssima. 
Na lesão corporal leve, a ação penal é pública condicionada à 
representação (art. nº 88, L. 9.099/95).
Na aplicação da pena no crime de lesões corporais leves, o Código Penal 
prevê que o juiz pode substituir a pena. Vejamos: 
§ 5º - O juiz, não sendo graves as lesões, pode ainda substituir 
a pena de detenção pela de multa:
I - se ocorre qualquer das hipóteses do § 4° (agente comete o crime impelido 
por motivo de relevante valor social ou moral ou sob o domínio de violenta 
emoção; logo em seguida a injusta provocação da vítima);
II - se as lesões são recíprocas.
Já o crime de lesões corporais graves vem descrito no artigo 129, parágrafo 
primeiro, conforme segue: 
§ 1º - Se resulta:
I - incapacidade para as ocupações habituais, por mais de 30 dias;
II - perigo de vida;
III - debilidade permanente de membro, sentido ou função;
Lesões Corporais 
Leves são as lesões 
corporais que não 
determinam as 
consequências 
previstas nos §§ 
1°, 2° e 3° do art. 
129 do CP; são 
representadas 
frequentemente por 
danos superficiais 
comprometendo a 
pele, a hipoderme, 
os vasos arteriais e 
venosos capilares 
ou pouco calibrosos.
32
 Direito Penal II - Parte Especial 
IV - aceleração de parto:
Pena - reclusão, de 1 a 5 anos.
Em síntese, as lesões corporais graves podem ser caracterizadas, 
resumidamente, de acordo com o apresentado no quadro a seguir: 
Quadro 2 – Lesões graves e suas características
TIPOS DE LESÕES 
GRAVES CARACTERIZAÇÃO
Incapacidade para as 
ocupações habituais por 
mais de 30 dias
É quando o ofendido não pode retornar a todas as suas comuns 
atividades corporais antes de transcorridos 30 dias, contados da 
data da lesão; a incapacidade não precisa ser absoluta, basta 
que a lesão caracterize perigo ou imprudência no exercício das 
ocupações habituais por mais de 30 dias.
Perigo de vida
É a probabilidade concreta e objetivade morte (não pode nunca 
ser suposto, nem presumido, mas real, clínica e obrigatoriamente 
diagnosticado); é a situação clínica em que resultará a morte do 
ofendido se não for socorrido adequadamente, em tempo hábil; 
ele se apresenta como um relâmpago, num átimo, ou no curso 
evolutivo do dano, desde que seja antes do trintídio - ex.: hemor-
ragia por seção de vaso calibroso, prontamente coibida; trauma-
tismo cranioencefálico, feridas penetrantes do abdome, lesão de 
lobo hepático, comoção medular, queimaduras em áreas extensas 
corporais, colapso total de um pulmão etc.
Debilidade permanente 
de membro, sentido (são 
as funções perceptivas 
que permitem ao indivíduo 
contatar os objetos do 
mundo exterior) ou função 
(é o modo de ação de um 
órgão, aparelho ou sistema 
do corpo)
É a lesão consequente à fraqueza, à debilitação, ao enfraqueci-
mento duradouro, mas não perpétuo ou impossível de tratamento 
ortopédico, do uso da energia de membro, sentido ou função, sem 
comprometimento do bem-estar do organismo, de origem traumáti-
ca; por permanente entende-se a fixação definitiva da incapacidade 
parcial, após tratamento rotineiro que não logra o resultado almeja-
do, resultando, portanto, verdadeira enfermidade; a ablação ou inu-
tilização de um órgão duplo, mantido o outro íntegro e não abolida 
a função, constitui lesão grave (debilidade permanente); a ablação 
ou inutilização de um órgão duplo e debilitação da forma do órgão 
remanescente, trata-se de lesão gravíssima (perda de membro, 
sentido ou função); a eliminação ou inutilização total de um órgão 
ímpar que tenha suas funções compensadas por outros órgãos, 
bem como a diminuição da função genésica peniana consequente a 
um traumatismo, tratam-se de lesão grave (debilidade permanente); 
a perda de dente, em princípio, não é considerada lesão grave, nem 
gravíssima, compete aos peritos odontólogos apurar e afirmar, de 
forma inconteste, a debilidade da função mastigadora; a perda de 
dente poderá eventualmente integrar a qualificadora deformidade 
permanente se complexar o ofendido a ponto de interferir negativa-
mente em seu relacionamento econômico e social.
33
Crimes Contra a Pessoa Capítulo 1 
 Aceleração de parto
Consiste na antecipação quanto à data ou ocasião do parto, mas 
necessariamente depois do tempo mínimo para a possibilidade 
de vida extrauterina e desencadeada por traumatismos físicos ou 
psíquicos; na aceleração do parto, o concepto deve nascer vivo e 
continuar com vida, dado o seu grau de maturação; no aborto, o 
concepto é expulso morto, ou sem viabilidade, se sobreviver.
Fonte: extraído e adaptado de: <http://resumos.netsaber.com.br/
ver_resumo_c_2043.html>. Acesso em: 10 dez. 2011.
O crime de lesões corporais gravíssimas está previsto no art. 129, parágrafo 
2º. Confira: 
§ 2º - Se resulta:
I - incapacidade permanente para o trabalho;
II - enfermidade incurável;
III - perda ou inutilização de membro, sentido ou função;
IV - deformidade permanente;
V – aborto 
Pena - reclusão, de 2 a 8 anos.
Em síntese, as lesões corporais gravíssimas podem ser caracterizadas, de 
forma resumida, de acordo com o apresentado no quadro a seguir: 
Quadro 3 - lesões corporais gravíssimas e suas características
TIPOS DE LESÕES 
GRAVÍSSIMAS CARACTERIZAÇÃO
Incapacidade permanente 
para o trabalho
É caracterizada pela inabilitação ou invalidez de duração in-
calculável, mas não perpétua, para todo e qualquer trabalho.
Enfermidade 
incurável
É a ausência ou o exercício imperfeito ou irregular de deter-
minadas funções em indivíduo que goza de aparente saúde.
Perda ou 
inutilização de membro, 
sentido ou função
Perda (é a amputação ou mutilação do membro ou órgão) 
ou inutilização (é a falta de habilitação do membro ou 
órgão à sua função específica) de membro, sentido 
ou função – é caracterizada pela perda, parcial ou total, 
de membro, sentido, ou função, consequente à amputação, à 
mutilação ou à inutilização.
34
 Direito Penal II - Parte Especial 
Deformidade 
permanente
É o dano estético irreparável pelos meios comuns, ou por si 
mesmo, capaz de provocar sensação de repulsa no observa-
dor, sem, contudo, atingir o aspecto de coisa horripilante, mas 
que cause complexo ou interfira negativamente na vida social 
ou econômica do ofendido; se o portador de deformidade 
permanente se submeta, de bom grado, à cirurgia plástica 
corretora, a atuação do réu, amiúde, será considerada gravís-
sima, todavia, será desclassificada para lesão corporal menos 
grave, se ainda não foi prolatada a sentença.
Aborto
É a interrupção da gravidez, normal e não patológica, em 
qualquer fase do processo gestatório, haja ou não a expulsão 
do concepto morto, ou, se vivo, que morra logo após pela 
inaptidão para a vida extrauterina; se resultante de ofensa 
corporal ou violência psíquica, constitui lesão gravíssima; 
no aborto, o produto da concepção é expulso morto ou sem 
viabilidade; na aceleração do parto, a criança nasce antes da 
data prevista, porém viva e em condições de sobreviver.
Fonte: extraído e adaptado de: <http://resumos.netsaber.com.br/
ver_resumo_c_2043.html>. Acesso em: 10 dez. 2011.
O crime de lesões corporais seguido de morte está previsto no art. 
129, parágrafo 3º, do Código Penal: 
§ 3º - Se resulta morte e as circunstâncias evidenciam que o 
agente não quis o resultado, nem assumiu o risco de produzi-lo: 
Pena - reclusão, de 4 a 12 anos.
Nesse caso, é “crime preterdoloso”, o agente quer apenas 
lesionar a vítima e acaba provocando sua morte de forma não 
intencional, mas culposa.
Confira que o crime de lesão corporal prevê a possibilidade de 
diminuição de pena (forma privilegiada): 
§ 4º - Se o agente comete o crime impelido por motivo de 
relevante valor social ou moral ou sob o domínio de violenta 
emoção, logo em seguida à injusta provocação da vítima, o juiz pode reduzir 
a pena de 1/6 a 1/3.
Da mesma forma o juiz pode aumentar a pena dependendo da qualidade da 
vítima, veja: 
§ 7º - Aumenta-se a pena de 1/3, se o crime é praticado contra pessoa 
menor de 14 anos e maior de 60 anos.
O crime de lesões 
corporais seguido 
de morte está 
previsto no art. 129, 
parágrafo 3º, do 
Código Penal: 
§ 3º - Se resulta 
morte e as 
circunstâncias 
evidenciam que o 
agente não quis 
o resultado, nem 
assumiu o risco de 
produzi-lo: 
Pena - reclusão, de 
4 a 12 anos.
35
Crimes Contra a Pessoa Capítulo 1 
O crime de lesão corporal culposa está previsto no art. 129, parágrafo 6º, 
confira: 
§ 6º - Se a lesão é culposa:
Pena - detenção, de 2 meses a 1 ano.
No crime de lesão corporal culposa, o juiz pode aumentar a pena quando: 
§ 7º - Aumenta-se a pena de 1/3, se o crime resulta de inobservância de 
regra técnica de profissão, arte ou ofício, ou se o agente deixa de prestar 
imediato socorro à vítima, não procura diminuir as consequências do seu 
ato, ou foge para evitar prisão em flagrante.
No crime de lesão corporal culposa também há possibilidade de perdão 
judicial, como já explica no crime de homicídio culposo: 
§ 8º - Aplica-se à lesão culposa o disposto no § 5º do art. 121 (o juiz poderá 
deixar de aplicar a pena, se as consequências da infração atingirem o próprio 
agente de forma tão grave que a sanção penal se torne desnecessária).
Importante: se as lesões corporais acontecem na direção de veículo 
automotor, será aplicado o Código de Trânsito Brasileiro, confira:
Art. 303, CTB - Praticar lesão corporal culposa na direção de veículo 
automotor:
Penas - detenção, de seis meses a dois anos e suspensão ou proibição de 
se obter a permissão ou a habilitação para dirigir veículo automotor.
Aumenta-se a pena de 1/3 a 1/2 se ocorrer qualquer das hipóteses do § único 
do artigo anterior (não possuir Permissão para Dirigir ou Carteira de Habilitação; 
praticá-lo em faixa de pedestres ou na calçada; deixar de prestar socorro, quando 
possível fazê-lo sem risco pessoal, à vítima do acidente; no exercício de sua 
profissão ou atividade,estiver conduzindo veículo de transporte de passageiros).
Atividade de Estudos: 
1) No dia 11 de maio de 2001, por volta de 18h30min, na rua geral 
Colônia Santa Luzia, Pagará, no bar denominado “Bar da Sra. 
Maria”, o Neri Domingos de Souza, por motivos de somenos 
36
 Direito Penal II - Parte Especial 
importância, desferiu um murro na vítima José Anízio Machado, 
fazendo com que a mesma caísse pesadamente ao solo, 
provocando na mesma traumatismo cranioencefálico, vindo 
a vítima a falecer em 15/05/2001, ou seja, quatro dias após 
a agressão, em consequência de hemorragia intracraniana, 
conforme atesta o laudo pericial de exame cadavérico. Dê o 
enquadramento legal do(s) comportamento(s).
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Algumas Considerações
Neste capítulo, estudamos os crimes contra a pessoa, especialmente a 
abordagem dos crimes de homicídio, participação em suicídio, infanticídio, aborto 
e lesão corporal. . 
Nos crimes analisados no presente tópico, todos os crimes, com exceção do 
crime de lesão corporal, são julgados pelo Tribunal do Júri brasileiro. Percebemos 
que o legislador quer dar um julgamento mais democrático aos crimes desta 
natureza, ou seja, pessoas do povo escolhidas e julgando se o acusado será 
condenado ou não, mas sempre respeitando e de acordo com as normas de 
direito constitucional.
Para finalizar, é importante ressaltar a importância do princípio da inocência, 
do devido processo legal e da legalidade para julgamento justo de todos que 
respondem a um processo por crimes desta natureza. 
37
Crimes Contra a Pessoa Capítulo 1 
Referências 
ALMEIDA JR., A., COSTA JUNIOR, J. B. O. Lições de Medicina Legal. 14. ed. 
São Paulo: Nacional, 1977. 
BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal: Parte especial 2. 11. 
ed. São Paulo: Saraiva, 2011. 
CAPEZ, Fernando. Curso de Direito Penal: parte especial. 11. ed. São Paulo: 
Saraiva, 2011. v. 2
DENATRAN. Lei nº 9.503, de 23 de setembro de 1997. Disponível em: <http://
www.denatran.gov.br/ctb.htm>. Acesso em: 29 ago. 2011.
ESTEFAM, André. Direito Penal: Parte especial. São Paulo: Saraiva, 2010. v. 2
GONÇALVES, Victor Eduardo Rios. Sinopses jurídicas: dos crimes contra a 
pessoa. 2 ed. São Paulo: Saraiva, 1999.
GRECO, Rogério. Curso de Direito Penal: parte especial. 7. ed. Rio de Janeiro: 
Impetus, 2010. v. 2.
MIRABETE, Julio Fabbrini. Manual de Direito Penal: parte especial. 28. ed. São 
Paulo: Atlas, 2011. v. 2
PRADO, Luiz Regis. Curso de Direito Penal Brasileiro. 9. ed. São Paulo: 
Revista dos Tribunais, 2010. v. 2
CAPÍTULO 2
Crimes Contra o Patrimônio
A partir da concepção do saber fazer, neste capítulo você terá os seguintes 
objetivos de aprendizagem:
 3 Conceituar os crimes contra o patrimônio. 
 3 Identificar e distinguir os crimes contra o patrimônio diante de casos reais. 
 3 Buscar na jurisprudência casos julgados pelos Tribunais e apresentar 
comentário crítico referente ao crime pesquisado. 
41
Crimes Contra o Patrimônio Capítulo 2 
Contextualização 
Neste capítulo, estudaremos os “Crimes contra o patrimônio”, que são 
aqueles delitos que ofendem o patrimônio das pessoas. São eles: furto (CP, art. 
155), roubo (CP, art. 157), latrocínio (CP, art. 157, parágrafo 3º.), extorsão (CP, art. 
158), extorsão mediante sequestro (CP, art. 159), apropriação indébita (CP, art. 
168), estelionato (CP, art. 171) e receptação (CP, art. 180).
O estudo dos crimes contra o patrimônio é de grande importância, pois trata 
da proteção de um bem jurídico importante a ser tutelado, que é o seu patrimônio, 
ou seja, tudo aquilo que você conseguiu adquirir com seu trabalho e dedicação. 
Diariamente, a imprensa nos traz notícias de crimes de roubos, latrocínios 
e, ainda hoje, pessoas são vítimas do golpe do bilhete premiado. A importância 
do estudo destes crimes será, para você, operador do direito, distinguir e dar a 
correta aplicação dos tipos penais, aprofundando os conhecimentos que já possui 
acerca do tema. 
Do Furto
Estudaremos agora o crime de furto, que pode ocorrer de várias formas, 
algumas vezes de formas simples, com a simples subtração da coisa alheia, 
e em outras vezes mais elaborado, como furto com destreza, em concurso de 
mais pessoas, com arrombamento, escalada, destreza, enfim, modalidades mais 
elaboradas de subtrair o patrimônio alheio. 
a) Conceituação 
Mirabette (2011, p. 189) conceitua o furto como a “subtração de coisa alheia 
móvel para si ou para outrem. É, pois, o assenhoramento da coisa com o fim de 
apoderar-se dela de modo definitivo.
No mesmo sentido, Capez (2011, p. 426) conceitua “o verbo subtrair, que 
significa tirar, retirar de outrem bem móvel, sem sua permissão, com o fim de 
assenhoramento definitivo”. Chegamos à conclusão que a subtração implica 
sempre a retirada do bem sem o consentimento do possuidor ou proprietário. 
Mas observem que a subtração pode acontecer até mesmo à vista deles. 
Por exemplo, o sujeito que entra em uma loja e, sob vigilância do comerciente, se 
apodera da mercadoria, saindo em fuga depois.
42
 Direito Penal II - Parte Especial 
No Código Penal Brasileiro, o furto simples é previsto no art. 155, caput, com 
a seguinte redação: 
Art. 155 - Subtrair, para si ou para outrem, coisa alheia móvel:
Pena - reclusão, de 1 a 4 anos, e multa.
Agora, descrevemos algumas particularidades do crime de furto: 
Quadro 4 – Furto e suas particularidades.
Quando ocorre a consumação do 
furto?
Se dá quando o objeto é tirado da esfera de vigilância da 
vítima, e o agente, ainda que por breve espaço de tempo, 
consegue ter sua posse tranquila; por isso, há mera 
tentativa se o sujeito pega um objeto, mas a vítima sai em 
perseguição imediata e consegue detê-lo.
“Furto de uso” não é crime ?
Ilícito civil, mas o agente deve devolver a coisa no mesmo 
local e estado em que se encontrava por livre e espontâ-
nea vontade, sem ser forçado por terceiro.
O que é o furto famélico?
É o praticado por quem, em estado de extrema penúria, é 
impelido pela fome a subtrair alimentos ou animais para 
poder alimentar-se; não há crime nesse caso, pois o agen-
te atuou sob a excludente do estado de necessidade.
O que é o “furto de bagatela” 
(“princípio da insignificância”)?
O valor da coisa é inexpressivo, juridicamente irrelevante 
(ex.: furtar uma agulha); ocasiona a exclusão da tipicidade.
E se um ladrão furta outro ladrão? O primeiro proprietário sofrerá dois furtos, pois a lei penal não protege a posse do ladrão.
E se o agente, após 
furtar, destrói o objeto? 
O crime de “dano” fica absorvido; trata-se de post fac-
tum impunível, pois não há novo prejuízo à vítima.
Se o agente, após furtar, vende o 
objeto a terceiro de boa-fé? 
Tecnicamente haveria dois crimes, pois existem duas 
vítimas diferentes, uma do “furto” e outro do crime de 
“disposição de coisa alheia como própria” (art. 171, 
§ 2°, I), porém a jurisprudência, por razões de política 
criminal, vem entendendo que o subtipo do “estelionato” 
fica absorvido, pois com a venda o agente estaria apenas 
fazendo lucro em relação aos objetos subtraídos.
E no caso da “trombada”, o crime 
será de furto ou de roubo? 
Ela, a “trombada”, só serviu para desviar a atenção da vítima 
(“furto qualificado” pelo arrebatamento ou destreza). Se 
houve agressão ou vias de fato contra a vítima, ocorre o 
“roubo”. 
Fonte: Os autores. 
43
Crimes Contra o Patrimônio Capítulo 2 
No parágrafo 1º do art. 155 do Código Penal Brasileiro, é descrita uma causa 
deaumento de pena: 
Causas de aumento de pena (furto noturno)
§ 1º - A pena aumenta-se de 1/3, se o crime é praticado durante 
o repouso noturno.
Mas afinal, o que é o repouso noturno?
Perceba que noite é a ausência de luz solar, mas o repouso 
noturno é período em que as pessoas de uma certa localidade descansam, 
dormem, devendo a análise ser feita de acordo com as características da região 
(rural, urbana etc.) (CESCHIN, 2011).
Esta causa de aumento de pena somente se aplica ao “furto simples”; 
prevalece o entendimento de que o aumento só é cabível quando a subtração 
ocorre em casa ou em alguns de seus compartimentos (não tem aplicação se 
ele é praticado na rua, em estabelecimentos comerciais etc.) e em local habitado 
(excluem-se as casas desabitadas, abandonadas, residência de veraneio na 
ausência dos donos, casas que estejam vazias em face de viagem dos moradores 
etc.) (CESCHIN, 2011).
No parágrafo 2º do Art. 155 do Código Penal Brasileiro, é descrita uma causa 
de diminuição de pena, também denominada de furto privilegiado: 
§ 2º - Se o criminoso é primário, e é de pequeno valor a coisa furtada, o 
juiz pode substituir a pena de reclusão pela de detenção, diminuí-la de 1/3 a 2/3, 
ou aplicar somente a pena de multa (CESCHIN, 2011).
Conforme exige a lei, deverão obrigatoriamente estar presentes os dois 
requisitos acima para o juiz conceder o privilégio legal, ou seja, o autor deverá ser 
primário e a coisa furtada deverá ser de pequeno valor. 
Importante esclarecer que o autor primário é aquele que não é reincidente 
em outro crime, mas se a condenação anterior for por contravenção penal, não 
retira a primariedade. A coisa de pequeno valor é aquela que não excede um 
salário mínimo, ou seja, a jurisprudência firmou entendimento no sentido de que o 
furto é mínimo quando a coisa subtraída não alcança o valor correspondente a um 
salário mínimo vigente à época do fato (CESCHIN, 2011).
A lei equiparou à coisa móvel a energia elétrica ou qualquer outra que tenha 
valor econômico. 
A pena aumenta-se 
de 1/3, se o crime é 
praticado durante o 
repouso noturno.
44
 Direito Penal II - Parte Especial 
Confira a descrição legal do art. 155, parágrafo terceiro:
§ 3º - Equipara-se à coisa móvel a energia elétrica ou qualquer outra que 
tenha valor econômico. 
Usando de interpretação analógica, podemos concluir que também configura 
crime em tela o furto de energia térmica, mecânica, nuclear, genética etc. 
No parágrafo 4º do art. 155 do Código Penal Brasileiro, estão previstas as 
hipóteses de furto qualificado, sendo aplicada pena maior ao furto. 
Com o quadro abaixo, ficará mais fácil compreender as formas qualificadas: 
Quadro 5 – Modalidades de furtos qualificados
I – Destruição ou rompimento 
de obstáculo à subtração da 
coisa
A violência deve ser contra o obstáculo e não contra a coisa; a 
simples remoção do obstáculo e o fato de desligar um alarme 
não qualificam o crime.
II.a – Abuso de confiança
A vítima que, por algum motivo, deposite uma especial con-
fiança no agente (amizade, parentesco, relações profissionais 
etc.) e que o agente se aproveite de alguma facilidade decor-
rente dessa confiança para executar a subtração - ex.: furto 
praticado por empregada que trabalha muito tempo na casa; 
se o agente pratica o furto de uma maneira que qualquer outra 
pessoa poderia tê-lo cometido, não haverá a qualificadora. 
II.b – Mediante fraude
É o artifício, o meio enganoso usado pelo agente, capaz de 
reduzir a vigilância da vítima e permitir a subtração do bem - 
ex.: o uso de disfarce ou de falsificações; a jurisprudência vem 
entendendo existir o “furto qualificado” mediante fraude 
na hipótese em que alguém, fingindo-se interessado na aqui-
sição de um veículo, pede para experimentá-lo e desaparece 
com ele.
II.c – Escalada
É a utilização de via anormal para adentrar o local onde o furto 
será praticado; a jurisprudência vem exigindo para a concre-
tização dessa qualificadora o uso de instrumentos, como cor-
das, escadas ou, ao menos, que o agente tenha necessidade 
de realizar um grande esforço para adentrar no local (transpor 
um muro alto, janela elevada, telhado etc.); a escavação de 
túnel é utilização de via anormal; quem consegue ingressar 
no local do crime pulando um muro baixo ou uma janela térrea 
não incide na forma qualificada.
45
Crimes Contra o Patrimônio Capítulo 2 
II.d – Destreza
É a habilidade física ou manual que permite ao agente 
executar uma subtração sem que a vítima perceba que está 
sendo despojada de seus bens; tem aplicação quando a 
vítima traz seus pertences junto a si, pois apenas nesse caso 
é que a destreza tem relevância (no bolso do paletó, em uma 
bolsa, um anel, um colar etc.); se a vítima percebe a conduta 
do sujeito, não há a qualificadora, haverá “tentativa de 
furto simples”; se a conduta do agente é vista por terceiro, 
que impede a subtração sem que a vítima perceba o ato, há 
“tentativa de furto qualificado” pela destreza; se a 
subtração é feita em pessoa que está dormindo ou embriaga-
da, existe apenas “furto simples”, pois não é necessário 
habilidade para tal subtração.
III - com emprego de 
chave falsa
Chave falsa: é a imitação da verdadeira, obtida de 
forma clandestina (cópia feita sem autorização); qualquer 
instrumento, com ou sem forma de chave, capaz de abrir uma 
fechadura sem arrombá-la (ex.: grampos, “mixas”, chaves 
de fenda, tesouras etc.); não se aplica essa qualificadora na 
chamada “ligação direta”.
IV - mediante concurso de 
duas ou mais pessoas
Concurso de duas ou mais pessoas: basta saber 
que o agente não agiu sozinho; prevalece na jurisprudência o 
entendimento de que a qualificadora atinge todas as pessoas 
envolvidas na infração penal, ainda que não tenham pratica-
do atos executórios e mesmo que uma só tenha estado no 
locus delicti. 
 
Fonte: extraído e adaptado de: <http://www.ebah.com.br/content/
ABAAAAKrwAD/direito-penal-parte-especial>. Acesso em: 10 dez. 2011.
46
 Direito Penal II - Parte Especial 
Se forem reconhecidas duas ou mais qualificadoras, uma delas servirá para 
qualificar o “furto” e as demais serão aplicadas como “circunstâncias judiciais”, 
já que o artigo 59 estabelece que, na fixação da pena-base, o juiz levará em conta 
as circunstâncias do crime, e todas as qualificadoras do § 4° referem-se aos 
meios de execução (circunstâncias) do delito (CESCHIN, 2011).
Se a subtração for de veículo automotor que venha a ser transportado para 
outro Estado ou para o exterior, o furto também será qualificado.
Confira o artigo 155, parágrafo quinto, do Código Penal Brasileiro:
§ 5º - A pena é de reclusão de 3 a 8 anos, se a subtração for de veículo 
automotor que venha a ser transportado para outro Estado ou para o exterior.
Trata-se de qualificadora que, ao contrário de todas as demais, não se 
refere ao meio de execução do “furto”, mas sim a um resultado posterior, ou 
seja, o transporte do veículo automotor para outro Estado da Federação ou para 
outro país.
Somente terá aplicação quando, por ocasião do “furto”, já havia intenção 
de ser efetuado tal transporte; sendo assim, uma pessoa que não teve qualquer 
participação anterior no “furto” e é contratada posteriormente apenas para 
efetivar o transporte responde pelo crime de “receptação”, e não pelo “furto 
qualificado”, que somente existirá para os verdadeiros responsáveis pela 
subtração (CESCHIN, 2011).
Se o serviço de transporte já havia sido contratado antes da subtração, 
haverá “furto qualificado” também para o transportador, pois este, ao aceitar o 
encargo, teria estimulado a prática do “furto” e, assim, concorrido para o delito. 
Essa qualificadora somente se aperfeiçoa quando o veículo automotor 
efetivamente transpõe a divisa de Estado ou a fronteira com outro país; a tentativa 
somente é possível se o agente, estando próximo da divisa, apodera-se de um 
veículo e é perseguido de imediato até que transponha o marco divisório entre os 
Estados, masacaba sendo preso sem que tenha conseguido a posse tranquila do 
bem (CESCHIN, 2011).
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Crimes Contra o Patrimônio Capítulo 2 
Atividade de Estudos: 
1) Dois indivíduos, previamente ajustados, saem de um 
supermercado com mercadorias, sem passar pelo caixa, 
vindo um deles a ser preso em flagrante no estacionamento 
do supermercado, com parte das mercadorias, enquanto seu 
comparsa consegue fugir com o restante. Com relação à situação 
apresentada, é correto afirmar que o indivíduo preso em flagrante 
responderá por qual crime? 
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Roubo
Estudaremos agora o crime de roubo, que pode ocorrer de várias maneiras, 
mas sempre existindo a subtração de coisa alheia com o emprego de violência 
contra a pessoa. 
Pode-se dizer que o crime de roubo pode ser classificado como simples, ou 
seja, há subtração e o emprego de violência contra a pessoa. Mas em outras 
circunstâncias o crime de roubo pode ser classificado como qualificado, pois 
acontece com o emprego de arma de fogo, ou em concurso de várias pessoas, ou 
quando o veículo subtraído é transportado para outro Estado ou país. 
a) Conceituação 
Para Capez (2011, p. 461), “o crime de roubo constitui crime complexo, pois 
é composto por fatos que individualmente constituem crimes”. São eles: furto, 
mais constrangimento ilegal, mais lesão corporal leve. 
48
 Direito Penal II - Parte Especial 
Por outro lado, Greco (2010, p. 54) esclarece que “o que torna o roubo 
especial em realção ao furto é justamente o emprego de violência à pessoa ou 
da grave ameaça, com a finalidade de subtrair a coisa alheia móvel para si ou 
para outrem”. 
Confira o art. 157 do Código Penal Brasileiro e sua pena: 
Art. 157 - Subtrair coisa móvel alheia, para si ou para outrem, mediante 
grave ameaça ou violência à pessoa, ou depois de havê-la, por qualquer 
meio, reduzido à impossibilidade de resistência:
Pena - reclusão, de 4 a 10 anos, e multa.
Ressalta-se que, no crime de roubo, sempre existirá a grave ameaça ou o 
emprego de violência contra a pessoa para a subtração da coisa.
Mas, enfim, qual é a diferença entre a grave ameaça e a violência? 
- grave ameaça: é a promessa de um mal grave e iminente 
(de morte, de lesões corporais, de praticar atos sexuais contra 
a vítima de “roubo” etc.); a simulação de arma e a utilização 
de arma de brinquedo constituem “grave ameaça”; tem-se 
entendido que o fato do agente abordar a vítima de surpresa 
gritando que se trata de um assalto e exigindo a entrega dos 
bens, constitui “roubo”, ainda que não tenha sido mostrada 
qualquer arma e não tenha sido proferida ameaça expressa, 
já que, em tal situação, a vítima sente-se atemorizada pelas 
próprias circunstâncias da abordagem.
- violência contra a pessoa: caracteriza-se pelo emprego 
de qualquer desforço físico sobre a vítima a fim de possibilitar 
a subtração (ex.: socos, pontapés, facada, disparo de arma 
de fogo, paulada, amarrar a vítima, violentos empurrões ou 
trombadas - se forem leves, desferidos apenas para desviar 
a atenção da vítima, de acordo com a jurisprudência, não 
caracteriza o “roubo”) (CESCHIN, 2011, grifo do autor).
Enfim, a lei apresenta que haja qualquer outro meio que reduza 
a vítima à incapacidade de resistência. Diante disso, podemos dar 
como exemplo o uso de soníferos, hipnose, superioridade numérica etc.
Podemos concluir que o roubo é um crime complexo, pois atinge 
mais de um bem jurídico: o patrimônio e a liberdade individual (no caso 
de ser empregada “grave ameaça”) ou a integridade corporal (nas 
hipóteses de “violência”).
O roubo é um 
crime complexo, 
pois atinge mais de 
um bem jurídico: 
o patrimônio e a 
liberdade individual 
ou a integridade 
corporal.
49
Crimes Contra o Patrimônio Capítulo 2 
As vítimas de roubo, também chamadas de sujeitos passivos, podem ser o 
proprietário, o possuidor ou detentor da coisa, bem como qualquer outra pessoa 
que seja atingida pela “violência” ou “grave ameaça” (CESCHIN, 2011).
Lembre-se que se o agente emprega “grave ameaça” concomitantemente 
contra duas pessoas, mas subtrai objetos de apenas uma delas, pratica crime 
único de “roubo”, já que apenas um patrimônio foi lesado; não obstante, esse 
crime possui duas vítimas (CESCHIN, 2011).
Por outro lado, se o agente, em um só contexto fático, emprega “grave 
ameaça” contra duas pessoas e subtrai objetos de ambas, responde por dois 
crimes de “roubo” em concurso formal, já que houve somente uma ação (ainda 
que composta de dois atos) - ex.: assaltante que entra em ônibus, subjuga vários 
passageiros e leva seus pertences (CESCHIN, 2011).
A situação é diferente se o agente aborda uma só pessoa e apenas contra 
ela emprega “grave ameaça”, mas com esta conduta subtrai bens de pessoas 
distintas que estavam em poder da primeira, comete crimes de “roubo” em 
concurso formal, desde que o roubador tenha consciência de que está lesando 
patrimônios autônomos - ex.: assaltante que aborda o funcionário do caixa de um 
banco e leva dinheiro da instituição, bem como o relógio de pulso do funcionário, 
tem total ciência de que está lesando patrimônios distintos (CESCHIN, 2011).
O parágrafo primeiro do artigo 157 do Código Penal Brasileiro também prevê 
a possibilidade do crime de roubo, confira: 
§ 1º - Na mesma pena incorre quem, logo depois de subtraída a coisa, 
emprega violência contra pessoa ou grave ameaça, a fim de assegurar a 
impunidade do crime ou a detenção da coisa para si ou para terceiro.
Então, podemos dizer que a doutrina faz distinção no crime de roubo, 
classificando em roubo próprio e roubo impróprio.
No “roubo próprio” (“caput” do art. 157), a “violência” ou “grave ameaça” 
são empregadas antes ou durante a subtração, pois constituem meio para que 
o agente consiga efetivá-la; no “roubo impróprio” (§ 1° do art. 157), o agente 
inicialmente quer apenas praticar um “furto” e, já se tendo apoderado do bem, 
emprega “violência” ou “grave ameaça” para garantir a impunidade do “furto” 
que estava em andamento ou assegurar a detenção do bem (CESCHIN, 2011).
Perceba que o “roubo próprio” pode ser cometido mediante “violência”, 
50
 Direito Penal II - Parte Especial 
“grave ameaça” ou “qualquer outro meio que reduza a vítima à incapacidade 
de resistência”; o “roubo impróprio” não admite a fórmula genérica por último 
mencionada, somente podendo ser cometido mediante “violência” ou “grave 
ameaça” (CESCHIN, 2011).
O “roubo próprio” consuma-se, segundo entendimento do STF, no exato 
instante em que o agente, após empregar a “violência” ou “grave ameaça”, 
consegue apoderar-se do bem da vítima, ainda que seja preso no próprio 
local, sem que tenha conseguido a posse tranquila da res furtiva; o “roubo 
impróprio” consuma-se no exato momento em que é empregada a “violência” 
ou a “grave ameaça”, mesmo que o sujeito não consiga atingir sua finalidade 
de garantir a impunidade ou assegurar a posse dos objetos subtraídos 
(CESCHIN, 2011).
O “princípio da insignificância” não é aceito no crime de “roubo”.
O parágrafo segundo do artigo 157 do Código Penal Brasileiro também prevê 
a possibilidade de causas de aumento de pena para o crime de roubo, confira: 
§ 2º - A pena aumenta-se de 1/3 até 1/2:
I - se a violência ou ameaça é exercida com emprego de arma (própria ou 
imprópria).
A aplicação da majoração só se justifica quando a arma tem 
real potencial ofensivo.
II - se há o concurso de duas ou mais pessoas (v. 
comentários ao art. 155, § 4°, IV); 
III - se a vítima está em serviço de transporte de valores e 
o agente conhece tal circunstância; 
- ex.: roubo a carro-forte, a office-boysque carregam valores 
para depósito em banco, a veículos utilizados por empresas 
para carregar dinheiro ou pedras preciosas etc.
IV - se a subtração for de veículo automotor que venha a 
ser transportado para outro Estado ou para o exterior (v. 
comentários ao art. 155, § 5°); 
V - se o agente mantém a vítima em seu poder, restringindo 
sua liberdade. (CESCHIN, 2011)
51
Crimes Contra o Patrimônio Capítulo 2 
GOMES, Luiz Flávio. STJ cancela Súmula 174: Arma de 
brinquedo não agrava o roubo. São Paulo: IBCCrim, 27.9.2001. 
Disponível em: <www.direitocriminal.com.br>.
O inciso V do parágrafo segundo do art. 157 do Código penal foi acrescentado 
pela Lei nº 9.426, de 24 de dezembro de 1996, com o objetivo de aumentar a 
pena do chamado “sequestro relâmpago”. 
Então, se a vítima é mantida em poder do assaltante por breve espaço de 
tempo, tão-somente para possibilitar sua fuga do local da abordagem, incidirá 
essa qualificadora (ex.: agente aborda pessoa que sai do caixa eletrônico e a 
coage a fazer saque em outro - “sequestro relâmpago”), porém, se for privada de 
sua liberdade por período prolongado, de forma a demonstrar que tal atitude era 
totalmente supérflua em relação ao “roubo” que estava sendo cometido, haverá 
“roubo” em concurso material com “sequestro” (art. 148) (CESCHIN, 2011).
O parágrafo terceiro do art. 157 prevê as formas qualificadas do crime de 
roubo, confira a pena: 
§ 3º - Se da violência resulta lesão corporal grave, a pena é de reclusão, 
de 7 a 15 anos, além da multa; se resulta morte (latrocínio), a reclusão é de 20 
a 30 anos, sem prejuízo da multa.
Para a concretização dessas qualificadoras, o resultado, lesão grave ou 
morte, pode ter sido provocado dolosa ou culposamente pelo autor do crime.
Atividade de Estudos: 
1) Venâncio Pisetta pediu carona ao senhor Agostinho Jacomelli, 
que dirigia o veículo Santana, de sua propriedade, mas, logo 
em seguida, utilizando uma arma de fogo que trazia consigo e 
dizendo ‘que era um assalto’, obrigou esta vítima a se dirigir até 
as proximidades da Fábrica de Cimento, no bairro Salseiros, 
Itajaí, distante trinta quilômetros do local em que Agostinho lhe 
deu a carona, e entregar-lhe a carteira que continha documentos 
pessoais e um talonário de cheques de conta mantida junto 
52
 Direito Penal II - Parte Especial 
ao Banco Itaú, agência local, além de constranger-lhe, sempre 
mediante ameaças produzidas com o emprego de arma, 
abandonar o veículo. Qual o crime que Venâncio cometeu? Dê a 
fundamentação legal.
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Latrocínio
Capez (2011, p. 481) define o crime de latrocínio:
O crime de latrocínio está previsto no art. 157, parágrafo 
terceiro, 2ª parte, do CP. Ocorre quando, do emprego de 
violência física contra a pessoa com o fim de subtrair a res, ou 
para assegurar a sua posse ou a impunidade do crime, decorre 
a morte da vítima. Trata-se de crime complexo, formado pela 
junção de roubo + homicídio (doloso ou culposo), constituindo 
uma unidade distinta e autônoma dos crimes que o compõem.
Então, para que se configure o “latrocínio”, é necessário que a morte tenha 
algum nexo de causalidade com a subtração que estava sendo perpetrada, quer 
tenha sido meio para o roubo, quer cometida para assegurar a fuga etc.
O crime de “latrocínio” é considerado “crime hediondo”, de acordo com a 
lei 8.072/90, que o incluiu nessa categoria. 
Há entendimento predominante que não há crime de “latrocínio” quando o 
53
Crimes Contra o Patrimônio Capítulo 2 
resultado agravador decorre do emprego de “grave ameaça”, por exemplo, vítima 
sofre um enfarto em razão de ter-lhe sido apontada uma arma de fogo (haverá 
crime de “roubo” em concurso formal com “homicídio culposo”).
Existe crime de latrocínio tentado?
O quadro que segue lhe ajudará a entender quando o crime de latrocínio 
será consumado ou tentado. 
Quadro 6 – Formas de crime de latrocínio.
Roubo consumado + Morte consumada = Latrocínio consumado
Roubo tentado + Morte tentada = Latrocínio tentado 
Roubo consumado + Morte tentada = Latrocínio tentado 
Roubo tentado + Morte consumada = Latrocínio consumado
Fonte: Os autores. 
Você pode conferir que quando a subtração e a morte ficam na esfera da 
tentativa, há “latrocínio tentado”; quando ambas se consumam, há “latrocínio 
consumado”; quando a subtração se consuma e a morte não, há “latrocínio 
tentado”; quando a subtração não se efetiva, mas a vítima morre, há “latrocínio 
consumado” (Súmula 610 do STF).
Atividade de Estudos: 
Complete corretamente a afirmação abaixo:
O agente que, invadindo um açougue de arma em punho, mata o 
proprietário e fere gravemente a sua mulher (do açougueiro), ambos 
vitimados a tiros, sendo que a mulher levou um balaço na cabeça, e 
depois foge com o dinheiro do caixa do açougue, deve responder:
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 Direito Penal II - Parte Especial 
Extorsão
Estudaremos agora o crime de Extorsão, sendo considerado por vários 
autores o crime em que há emprego de ameaça para a obtenção de vantagem, 
pelo temor que se infundia à vítima. 
O crime de extorsão também é considerado um crime complexo, pois os 
bens jurídicos protegidos na criminalização da extorsão são a liberdade individual, 
o patrimônio e a integridade física e psíquica do ser humano.
a) Conceituação 
O crime de extorsão é assim conceituado por Mirabete (2011, p. 216):
define-se o delito de extorsão comum no art. 158 como 
constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, 
e com o intuito de obter para si ou para outrem indevida 
vantagem econômica, a fazer, tolerar que se faça ou deixar de 
fazer alguma coisa. 
No mesmo sentido, Prado (2010, p. 373) nos ensina que “a extorsão também 
é um delito complexo, porque atinge a pessoa e o patrimônio. Em consequência, 
a tutela penal abrange ambos os bens jurídicos violados pela ação delituosa. 
Protegem-se o patrimônio e a integridade física e psíquica do ser humano”.
b) Crime de extorsão e pena
Confira como a lei penal descreve o crime de extorsão e qual a pena que se 
aplica.
A extorsão é um crime muito semelhante ao crime de roubo, e muitas vezes, 
na prática, encontra-se dificuldade para definir se determinado fato pode ser 
classificado como roubo ou extorsão. Mas a principal diferença que acontece no 
crime de extorsão é que a conduta do agente: a de constranger a vítima a fazer 
alguma coisa. Veja que o agente pode constranger a vítima mediante violência ou 
grave ameaça como, por exemplo, a morte. Então o agente constrange a vítima, e 
esta, com temor, deposita determinado valor em sua conta bancária. 
Confira que os meios ou formas de execução do crime de extorsão são a 
violência física ou moral (grave ameaça). 
55
Crimes Contra o PatrimônioCapítulo 2 
Advirta-se que a violência empregada deve conter gravidade suficiente para 
criar uma espécie de coação, então, a vítima, com temor que o mal anunciado 
aconteça, faz ou deixa de fazer a ação desejada pelo agente. 
EXTORSÃO E PENA
Art. 158 - Constranger (obrigar, coagir) alguém, mediante 
violência ou grave ameaça, e com o intuito de obter para si ou 
para outrem indevida vantagem econômica, a fazer (ex.: entregar 
dinheiro ou um bem qualquer, realizar uma obra etc.), tolerar que 
se faça (ex.: permitir que o agente rasgue um contrato ou título que 
representa uma dívida etc.) ou deixar fazer alguma coisa (ex.: não 
entrar em uma concorrência comercial, não ingressar com uma ação 
de execução ou cobrança etc.):
Pena - reclusão, de 4 a 10 anos, e multa.
A consumação do crime de extorsão se dá no instante em que 
a vítima, após sofrer “violência” ou “grave ameaça”, toma a atitude 
que o agente desejava (faz, deixa de fazer ou tolera que se faça algo), 
ainda que este não consiga obter qualquer vantagem econômica em 
sua decorrência.
Porém, se o agente emprega “violência” ou “grave ameaça” 
para obter vantagem patrimonial que lhe é devida, comete o delito de 
“exercício arbitrário das próprias razões” (art. 345 do CP).
Percebe-se que o crime de roubo e extorsão tem a mesma pena, 
mas apresentam distinções no modo de como ocorrem. 
Então, qual a principal diferença entre crime de roubo e extorsão?
Grande parte da doutrina e da jurisprudência entende que, 
quando a vítima não tem qualquer opção senão a entrega do bem, o 
crime seria sempre de “roubo” (ex.: entrega sua carteira por ter um 
revólver apontado para sua cabeça, não tem outro escolha senão 
entregá-la); na “extorsão” a vítima deve ter alguma possibilidade de 
escolha, e, assim, sua conduta é imprescindível para que o agente 
obtenha a vantagem por ele visada; no “roubo”, a vantagem é 
concomitante ao emprego da violência ou grave ameaça, enquanto 
na “extorsão” o mal prometido e a vantagem visada são futuros 
(ex.: entro atrás de uma pessoa no caixa eletrônico e digo: “retire 
56
 Direito Penal II - Parte Especial 
R$.500,00”; se ela já tinha o dinheiro no bolso, é “roubo”, se ela é 
forçada a retirar e depois entregar, é “extorsão”).
O crime de extorsão tem aumento de pena no panorama a 
seguir:
§ 1º - Se o crime é cometido por duas ou mais pessoas (presença 
de pelo menos duas pessoas quando da execução), ou com 
emprego de arma, aumenta-se a pena de 1/3 até 1/2.
O crime de extorsão é qualificado quando: 
§ 2º - Aplica-se à extorsão praticada mediante violência o disposto no 
§ 3º do artigo anterior (Se da violência resulta lesão corporal grave, 
a pena é de reclusão, de 7 a 15 anos, além da multa; se resulta 
morte, a reclusão é de 20 a 30 anos, sem prejuízo da multa).
Lembra-se que apenas a “extorsão qualificada pela morte” 
tem natureza de “crime hediondo” (Lei nº 8.072/90).
Fonte: extraído e adaptado de: CESCHIN, Roberto. Resumo de Direito 
Penal. Disponível em: <http://www.ebah.com.br/content/ABAAAAKrwAD/
direito-penal-parte-especial>. Acesso em: 10 dez. 2011.
Extorsão Mediante Sequestro
Estudaremos agora o crime de extorsão mediante sequestro. 
Podemos dizer que a denominação do crime de extorsão mediante sequestro 
pode produzir uma multiplicidade de danos, de um lado a violência sofrida pela 
vítima, que se materializa no constrangimento físico ou psíquico causado pela 
conduta do sujeito ativo, e, de outro lado, a causação de prejuízo alheio, em razão 
de eventual obtenção indevida de qualquer vantagem. 
a) Conceituação 
Mirabete (2011, p. 221) ensina que “uma extorsão [pode] ser praticada [...] 
como meio para a obtenção da vantagem econômica a privação de liberdade de 
uma pessoa”. 
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Crimes Contra o Patrimônio Capítulo 2 
Complementa Capez (2011, p. 501), sobre o crime de extorsão mediante 
sequestro, que “necessita do dolo, consistente na vontade livre e consciente de 
sequestar a vítima, acrescido da finalidade especial de obter, para si ou para 
outrem, qualquer vantagem, como condição ou preço do resgate”. 
b) Extorsão Mediante Sequestro no CP
No Código Penal Brasileiro, o crime de extorsão mediante sequestro é 
previsto no art. 159, caput, com a seguinte redação: 
Art. 159 - Sequestrar (privar a sua liberdade; impedir a sua locomoção) 
pessoa com o fim de obter, para si ou para outrem, qualquer vantagem 
(somente a econômica), como condição (não causar nenhum mal a ela) ou 
preço do resgate (vantagem em troca da liberdade da vítima):
Pena - reclusão, de 8 a 15 anos.
Lembre-se que o crime de extorsão mediante sequestro é “crime hediondo”.
CRIME HEDIONDO E FORMAS QUALIFICADAS
A consumação ocorre no exato instante em que a vítima é 
sequestrada, privada de sua liberdade, ainda que os sequestradores 
não consigam receber ou até mesmo pedir o resgate (desde que se 
prove que a intenção deles era fazê-lo); a vítima deve permanecer em 
poder dos agentes por tempo juridicamente relevante; o pagamento 
do resgate é mero exaurimento do crime, mas pode ser levado em 
conta na fixação da pena-base (art. 59). 
A vantagem (pedido de resgate) deve ser indevida, pois, caso 
contrário, haveria crime de “sequestro” (art. 148) em concurso com 
o delito de “exercício arbitrário das próprias razões” (art. 345).
Veja que a “extorsão mediante sequestro” diferencia-se 
do “rapto” (art. 219), já que neste ocorre a privação da liberdade 
de uma mulher honesta para fim libidinoso, bem como do crime 
de “sequestro ou cárcere privado” (art. 148), no qual a lei exige 
privação da liberdade de alguém, mas não exige qualquer elemento 
subjetivo específico.
58
 Direito Penal II - Parte Especial 
Importante ressaltar que, quando se sequestra alguém para 
matar (queima de arquivo), há “sequestro” (art. 148) em concurso 
com “homicídio” (art. 121).
O crime de extorsão mediante sequestro apresenta as formas 
qualificadas, conforme segue: 
§ 1º - Se o sequestro dura mais de 24 horas, se o sequestrado é 
menor de 18 anos (e maior de 14, pois se tiver menos, a pena é 
aumentada de metade - L. 8.072/90), ou se o crime é cometido 
por bando ou quadrilha (pressupõe uma união permanente de 
pelo menos 4 pessoas com o fim de cometer crimes):
Pena - reclusão, de 12 a 20 anos.
§ 2º - Se do fato resulta lesão corporal de natureza grave:
Pena - reclusão, de 16 a 24 anos.
§ 3º - Se resulta a morte:
Pena - reclusão, de 24 a 30 anos 
Porém, se a morte ou a lesão corporal forem causadas por caso 
fortuito ou culpa de terceiros, não se aplicam as qualificadoras (ex.: 
um relâmpago atinge a casa em que a vítima está sendo mantida ou 
ela é atropelada por terceiros após sua libertação).
Lembre-se que o reconhecimento de uma qualificadora mais 
grave automaticamente afasta a aplicação das menos graves, uma 
vez que as penas são distintas - ex.: se é sequestrada e depois morta 
uma pessoa de 15 anos, somente se aplica a qualificadora do § 3°, 
afastando-se a do § 1°.
Fonte: extraído e adaptado de CESCHIN, Roberto. 
Resumo de Direito Penal. Disponível em: <http://www.ebah.com.br/
content/ABAAAAKrwAD/direito-penal-parte- especial>. 
Acesso em: 10 dez. 2011.
59
Crimes Contra o Patrimônio Capítulo 2 
A maior pena do Código Penal Brasileiro é do art.159, parágrafo 
terceiro, ou seja, quando da extorsão mediante sequestro ocorre a 
morte da vítima sequestrada, a saber, de 24 a 30 anos.
O crime de extorsão mediante sequestro prevê a possibilidade da delação 
eficaz, ou seja, para ser aplicada, exige-se que o crime tenha sido cometido 
por pelo menos duas pessoas e que qualquer delas arrependa-se (coautor 
ou partícipe) e delate as demais para a autoridade pública, de tal forma que o 
sequestrado venha a ser libertado. 
Atividade de Estudos: 
Considere a seguinte situação hipotética: Sílvio interceptou 
o veículo de Mariana e, mediante grave ameaça exercida com o 
emprego de um revólver, privou-a de sua liberdade de locomoção. O 
fato ocorreuem Brasília – DF. Oito horas após a abordagem, Sílvio 
entrou em contato com a família de Mariana e exigiu, como condição 
para libertá-la, a importância de R$ 150.000,00 em dinheiro, a ser 
entregue na cidade de Goiânia – GO. No dia seguinte, enquanto 
Mariana permaneceu no cativeiro em Brasília, Sílvio deslocou-se 
até a cidade de Goiânia, onde foi preso em flagrante no momento 
em que iria receber o dinheiro do resgate. Nessa situação, qual o 
crime cometido por Silvio? Este encontra-se na forma tentada ou 
consumada?
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 Direito Penal II - Parte Especial 
Apropriação Indébita
A apropriação indébita é um crime em que o bem jurídico protegido é a 
inviolabilidade patrimonial, ou seja, protege-se o direito de propriedade contra 
eventuais abusos do possuidor, que possa ter a intenção de dispor da coisa alheia 
como se fosse sua. 
Ao contrário do que acontece no crime de furto, a coisa não é retirada da 
esfera de proteção da vítima, mas o autor, que tem a posse da coisa de forma 
lícita, não restitui, ou não devolve a coisa, agindo como se fosse proprietário. 
a) Conceituação
Para Capez (2011, p. 537), 
o crime consubstancia-se no verbo apropriar-se, que significa 
fazer sua a coisa de outrem; mudar o título da posse ou 
detenção desvigiada, comportando-se como se dono fosse. O 
agente tem legitimamente a posse ou a detenção da coisa, a 
qual é transferida pelo proprietário, de forma livre a consciente, 
mas em momento posterior, inverte esse título, passando a 
agir como se dono fosse. 
Bitencourt (2011, p. 237) esclarece que “o elemento subjetivo é o dolo, 
constituído pela vontade livre e consciente de apropriar-se de coisa alheia móvel 
de que tem a posse em nome de outrem, ou, em outros termos, a vontade 
definitiva de não restituir a coisa alheia ou desviá-la de sua finalidade”. 
b) Tipo objetivo
Percebe-se que o crime de apropriação indébita demonstra um dolo de uma 
vontade livre e consciente de apropriar-se de coisa alheia móvel de que tem a 
posse em nome de outrem, ou, em outros termos, a vontade definitiva de não 
restituir a coisa alheia ou desviá-la de sua finalidade. 
APROPRIAÇÃO INDÉBITA
Art. 168 - Apropriar-se de coisa alheia móvel, de que tem a 
posse ou a detenção:
61
Crimes Contra o Patrimônio Capítulo 2 
Pena - reclusão, de 1 a 4 anos, e multa.
É um crime que se caracteriza por uma situação de quebra de 
confiança, uma vez que a vítima espontaneamente entrega um objeto 
ao agente, e este, depois de já estar na sua posse ou detenção, 
inverte seu ânimo em relação ao objeto, passando a comportar-se 
como dono (prática de um ato de disposição que somente poderia 
ser efetuado pelo proprietário - ex.: venda, locação, doação, troca 
etc. - “apropriação indébita propriamente dita”).
Mas se o autor do crime se recusa em efetuar a devolução da 
coisa solicitada pela vítima - negativa de restituição – também 
estará cometendo o crime de apropriação indébita.
Perceba que, ao receber o bem, o sujeito deve estar de boa-fé, 
ou seja, ter intenção de devolvê-lo à vítima ou de dar a ele a correta 
destinação; se já recebe o objeto com intenção de apoderar-se dele, 
comete crime de “estelionato”.
O crime de apropriação indébita exige o chamado animus 
rem sibi habendi, ou seja, a intenção de ter a coisa para si ou para 
terceiro com ânimo de assenhoramento definitivo.
Veja uma diferença entre o crime de apropriação indébita e o 
crime de estelionato: na “apropriação indébita”, o dolo surge após 
o recebimento da posse ou detenção, enquanto no “estelionato” o 
dolo é anterior; no “estelionato” o agente necessariamente emprega 
alguma fraude para entrar na posse do objeto, ao passo que na 
“apropriação indébita” não há emprego de fraude. Por exemplo, 
pego o carro de alguém e falo que vou levá-lo ao lava-rápido e sumo 
como ele. Se já tenho a intenção de levar o carro, é “estelionato”; se 
ele aparece após pegar a coisa, é “apropriação indébita”.
Importante ressaltar que a “apropriação indébita de uso” não 
constitui infração penal, por exemplo: vítima deixa um carro com um 
mecânico para reparos, e este, durante o fim de semana, utiliza-se 
dele, sem autorização da vítima, diz para seus amigos que o carro 
lhe pertence, mas, no início da semana, devolve-o à vítima, não 
responde pelo crime, trata-se de ilícito civil, pois falta o dolo exigido 
para a configuração do delito (intenção de ter a coisa para si ou para 
terceiro com ânimo de assenhoreamento definitivo). 
E se o autor do crime é funcionário público e apropria-se de 
62
 Direito Penal II - Parte Especial 
bem público ou particular (sob a guarda da Administração) que tenha 
vindo a seu poder em razão do cargo que exerce, comete crime de 
“peculato” (art. 312, “caput”).
O crime de apropriação indébita terá sua pena aumentada, 
conforme segue: 
§ 1º (único) - A pena é aumentada de 1/3, quando o agente recebeu 
a coisa:
I - em depósito necessário (legal - decorre da lei; miserável - por 
ocasião de calamidade; por equiparação - é o referente às 
bagagens dos viajantes, hóspedes ou fregueses);
II - na qualidade de tutor, curador, síndico, liquidatário, inventariante, 
testamenteiro ou depositário judicial;
III - em razão de ofício, emprego ou profissão.
Fonte: extraído e adaptado de CESCHIN, Roberto. Resumo de Direito 
Penal. Disponível em: <http://www.ebah.com.br/content/ABAAAAKrwAD/
direito-penal-parte-especial>. Acesso em: 10 dez. 2011.
Por fim, o Código Penal Brasileiro incrimina a conduta de deixar de 
repassar, isto é, deixar de transferir, não encaminhar à Previdência Social (INSS 
– autarquia federal) as contribuições recolhidas dos contribuintes, no prazo e 
forma legal ou convencional. 
APROPRIAÇÃO INDÉBITA PREVIDENCIÁRIA
Art. 168-A. Deixar de repassar à previdência social as contribuições 
recolhidas dos contribuintes, no prazo e forma legal ou convencional:
Pena – reclusão, de 2 a 5 anos, e multa.
§ 1º - Nas mesmas penas incorre quem deixar de: 
I – recolher, no prazo legal, contribuição ou outra importância 
destinada à previdência social que tenha sido descontada de 
63
Crimes Contra o Patrimônio Capítulo 2 
pagamento efetuado a segurados, a terceiros ou arrecadada do 
público;
II – recolher contribuições devidas à previdência social que tenham 
integrado despesas contábeis ou custos relativos à venda de 
produtos ou à prestação de serviços;
III - pagar benefício devido a segurado, quando as respectivas 
cotas ou valores já tiverem sido reembolsados à empresa pela 
previdência social.
§ 2º - É extinta a punibilidade se o agente, espontaneamente, declara, 
confessa e efetua o pagamento das contribuições, importâncias 
ou valores e presta as informações devidas à previdência social, 
na forma definida em lei ou regulamento, antes do início da ação 
fiscal. 
§ 3º - É facultado ao juiz deixar de aplicar a pena ou aplicar somente 
a de multa se o agente for primário e de bons antecedentes, 
desde que:
I – tenha promovido, após o início da ação fiscal e antes de oferecida 
a denúncia, o pagamento da contribuição social previdenciária, 
inclusive acessórios; ou
II – o valor das contribuições devidas, inclusive acessórios, seja 
igual ou inferior àquele estabelecido pela previdênciasocial, 
administrativamente, como sendo o mínimo para o ajuizamento 
de suas execuções fiscais.
Fonte: extraído e adaptado de CESCHIN, Roberto. 
Resumo de Direito Penal. Disponível em: <http://www.ebah.com.br/
content/ABAAAAKrwAD/direito-penal-parte-especial>. Acesso em: 10 dez. 2011.
Os crimes contra a Previdência Social são de competência da Justiça 
Federal, uma vez que compete a esta processar e julgar as causas em que União, 
entidades autárquicas ou empresa Pública federal forem interessadas, conforme 
preconiza o art. 109, I da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. 
64
 Direito Penal II - Parte Especial 
Estelionato 
Estudaremos agora o crime de estelionato, ou seja, o crime em que o autor 
usa de fraude, mentira, engodo para conseguir proveito injusto com dano alheio. 
O estelionatário é considerado um criminoso, mesmo que tenha fraudado em 
relações que, por si mesmas, não mereçam proteção jurídica, porque sua ação é, 
em qualquer caso, moral e juridicamente ilícita. 
a) Conceituação
Bitencourt (2011, p. 270) nos ensina que “no estelionato, há dupla relação 
causal: primeiro, a vítima é enganada mediante fraude, sendo esta a causa e 
o engano o efeito; segundo, nova relação causal entre o erro, como causa, e a 
obtenção de vantagem ilícita e o respectivo prejuízo, como efeito”. 
Capez (2011, p. 571) diz que:
trata-se de crime em que, em vez da violência ou grave 
ameaça, o agente emprega um estratagema para induzir em 
erro a vítima, levando-se a a ter uma errônea percepção dos 
fatos, ou para mantê-la em erro, utilizando-se de manobras 
para impedir que ela perceba o equívoco em que labora. 
b) Tipo penal e pena
No Código Penal Brasileiro, o crime de estelionato é previsto no art. 171, 
caput, com a seguinte redação: 
Art. 171 - Obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita (de natureza 
econômica; se lícita o crime será o de “exercício arbitrário das próprias razões”), 
em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante 
artifício (é a utilização de algum aparato ou objeto para enganar a vítima - ex.: 
disfarce, efeitos especiais, documentos falsos), ardil (é a conversa enganosa), ou 
qualquer outro meio fraudulento (qualquer outra artimanha capaz de enganar a 
vítima - ex.: o silêncio):
Pena - reclusão, de 1 a 5 anos, e multa.
No crime de estelionato, é necessário que a conduta do agente 
tenha atingido pessoa determinada; condutas que visem vítimas 
65
Crimes Contra o Patrimônio Capítulo 2 
indeterminadas (ex.: adulteração de bombas de gasolina ou balanças) 
caracterizam “crime contra a economia popular” (Lei nº 1.521/51). 
O agente que falsifica cheques (ou documentos em geral) 
como artifício para ludibriar a vítima responde pelo “estelionato”; 
a “falsificação do documento” (art. 297) fica absorvida 
pelo “estelionato” por tratar-se de crime-meio (“princípio da 
consunção”).
Ocorre fraude bilateral quando a vítima também age de má-fé 
no caso concreto, por exemplo: pessoa que compra máquina falsa 
de fazer dinheiro; no caso, prevalece a opinião no sentido de que 
existe o crime de “estelionato”, pois a punição do estelionatário visa 
proteger toda a sociedade.
Qualquer pessoa pode ser sujeito passivo do “estelionato”; 
porém, sendo a vítima incapaz, o agente responderá pelo crime de 
“abuso de incapaz” (art. 173 do CP).
No crime de estelionato, é necessário ter a vítima enganada, 
como no exemplo do jogo de tampinhas, a destreza do agente não 
é suficiente para caracterizar o “estelionato”, a não ser que haja 
fraude, como no caso da retirada da bola usada, escondendo-a entre 
os dedos.
Da mesma forma que o furto, o estelionato poderá ter sua pena 
diminuída: 
§ 1º - Se o criminoso é primário, e é de pequeno valor o prejuízo 
(inferior a um salário mínimo), o juiz pode aplicar a pena conforme 
o disposto no art. 155, § 2º (substituir a pena de reclusão pela 
de detenção, diminuí-la de 1/3 a 2/3, ou aplicar somente a pena 
de multa). 
O crime de estelionato pode ser verificado em várias condutas, 
sendo que o parágrafo segundo do art. 171 descreve algumas, que 
terão as mesmas penas. 
Disposição de coisa alheia como própria
I - vende, permuta, dá em pagamento, em locação ou em garantia 
coisa alheia como própria;
Alienação ou oneração fraudulenta de coisa própria
66
 Direito Penal II - Parte Especial 
II - vende, permuta, dá em pagamento ou em garantia coisa própria 
inalienável - é aquela que não pode ser vendida em razão de 
determinação legal (imóveis dotais), convenção (ex.: doação) ou 
testamento, gravada de ônus (é aquela sobre a qual pesa um 
direito real em decorrência de cláusula contratual ou disposição 
legal - ex.: hipoteca, anticrese) ou litigiosa (é aquela objeto de 
discussão judicial - ex.: usucapião contestado, reinvindicação etc.), 
ou imóvel que prometeu vender a terceiro, mediante pagamento 
em prestações, silenciando sobre qualquer dessas circunstâncias;
Defraudação de penhor
III - defrauda, mediante alienação não consentida pelo credor ou 
por outro modo, a garantia pignoratícia, quando tem a posse do 
objeto empenhado;
Fraude na entrega de coisa
IV - defrauda substância (entregar objeto de vidro no lugar de 
cristal, cobre no lugar de ouro), qualidade (entregar mercadoria 
de segunda no lugar de primeira, objeto usado como novo) ou 
quantidade (dimensão, peso) de coisa que deve entregar a alguém;
Fraude para recebimento de indenização ou valor de seguro
V - destrói, total ou parcialmente, ou oculta coisa própria, ou lesa o 
próprio corpo ou a saúde, ou agrava as consequências da lesão 
ou doença, com o intuito de haver indenização ou valor de seguro;
Fraude no pagamento por meio de cheque
VI - emite cheque, sem suficiente provisão de fundos em poder 
do sacado, ou lhe frustra o pagamento.
 - emitir cheques sem fundos: o agente preenche e põe o 
cheque em circulação (entrega-o a alguém) sem possuir a quantia 
respectiva em sua conta bancária.
 - frustrar o pagamento do cheque: o agente possui a quantia 
no banco por ocasião da emissão do cheque, mas, antes de o 
beneficiário conseguir recebê-la, aquele saca o dinheiro ou susta 
o cheque.
É necessário que o agente tenha agido de má-fé quando 
67
Crimes Contra o Patrimônio Capítulo 2 
da emissão do cheque e que ela tenha gerado algum prejuízo 
patrimonial para a vítima; sendo assim, não há crime na emissão de 
cheque sem fundos para pagamento de dívida de jogo proibido ou de 
programa com prostituta.
Importante lembrar que, sendo o cheque uma ordem de 
pagamento à vista, qualquer atitude que lhe retire esta característica 
afasta a incidência do crime - ex.: emissão de cheque pré-datado ou 
do cheque dado como garantia de dívida.
É necessário que a emissão do cheque tenha sido a causa do 
prejuízo da vítima e do locupletamento do agente, por isso, não há 
crime a emissão de cheques sem fundos para pagamento de dívida 
anterior já vencida e não paga, pois, nesse caso, o prejuízo da vítima 
é anterior ao cheque e não decorrência deste.
Quando o agente susta o cheque ou encerra a conta corrente 
antes de emitir a cártula, responde pelo “estelionato comum”; não 
responde por este crime, porque a fraude empregada foi anterior à 
emissão do cheque.
O crime de estelionato se consuma apenas quando o banco 
sacado formalmente recusa o pagamento, quer em razão da 
ausência de fundos, quer em razão da contra-ordem de pagamento. 
Confira a súmula do STF: 
 
 - Súmula 521 do STF: “o foro competente para o processo e 
julgamento dos crimes de estelionato, sob a modalidade de 
emissão dolosa de cheque sem provisão de fundos, é o do 
local onde se deu a recusa do pagamento pelo sacado”.
Enfim, se o agente se arrepende e deposita o valor respectivo no 
banco antes da apresentação da cártula, haverá “arrependimento 
eficaz” e o fato tornar-se-á atípico; se ele se arrepender depois 
da consumação (após a recusa por parte do banco) e ressarcir a 
vítima antes do oferecimentoda denúncia, a pena será reduzida 
de 1/3 a 2/3 (“arrependimento posterior”; antes da reforma penal 
de 1984 não existia tal instituto, e, nos termos da Súmula 554 do 
STF, o pagamento efetuado antes do recebimento da denúncia 
retirava a justa causa para o início da ação penal; essa súmula, 
apesar de revogada tacitamente pelo art. 16 do CP, continua sendo 
muito aplicada na prática, por razões de política criminal); se, após 
o oferecimento da denúncia, mas antes da sentença de 1ª instância, 
68
 Direito Penal II - Parte Especial 
implica o reconhecimento da atenuante genérica prevista no artigo 
65, III, “c”.
Fonte: extraído e adaptado de CESCHIN, Roberto. Resumo de Direito 
Penal. Disponível em: <http://www.ebah.com.br/content/ABAAAAKrwAD/
direito-penal-parte-especial>. Acesso em: 10 dez. 2011.
Receptação
O bem jurídico protegido no crime de receptação é o patrimônio, público 
ou privado. O objeto da receptação somente pode ser a coisa móvel. O objeto 
material do crime de receptação há de ser produto de crime, isto é, há de ser o 
resultado, mediato ou imediato, de um fato definido como crime. 
a) Conceituação 
Para Capez (2011, p. 628), é “pressuposto do crime de receptação a 
existência de crime anterior. Trata-se de delito acessório, em que objeto material 
deve ser produto de crime antecedente, chamado de delito pressuposto”. 
No mesmo sentido, Mirabete (2011, p. 322) diz que
é pressuposto indispensável do crime de receptação a 
prática de um crime anterior. Trata-se de crime acessório 
ou parasitário, somente se caracterizando quando a coisa 
é produto de crime. Não há necessidade da existência de 
inquérito policial, processo e muito menos sentença em que 
se ateste a ocorrência do crime antecedente, mas torna-se 
indispensável a prova de sua ocorrência. 
b) Tipo penal e pena 
No Código Penal Brasileiro, o crime de receptação é previsto no art. 180, 
com a seguinte redação: 
RECEPTAÇÃO
Art. 180 - Adquirir, receber, transportar, conduzir ou ocultar, 
em proveito próprio ou alheio, coisa (móvel) que sabe ser 
69
Crimes Contra o Patrimônio Capítulo 2 
produto de crime (própria), ou influir para que terceiro, de boa-
fé, a adquira, receba ou oculte (imprópria):
Pena - reclusão, de 1 a 4 anos, e multa.
Veja que a receptação própria está prevista do artigo 180, 1ª 
parte, sendo então discriminadas pelos verbos; 
 - adquirir – significa obter a propriedade, a título oneroso (compra 
e venda, permuta) ou gratuito (doação).
 - receber – obter a posse, ainda que transitoriamente.
 - transportar – levar um objeto de um local para outro.
 
 - conduzir – refere-se à hipótese em que o agente toma a direção 
de um veículo para levá-lo de um local para outro (guiar, dirigir, 
governar).
 - ocultar – esconder, colocar o objeto em um local onde não 
possa ser encontrado por terceiros. (CESCHIN, 2011)
A receptação é um crime acessório, uma vez que constitui 
pressuposto indispensável de sua existência a ocorrência de 
um crime anterior (pode este ser de ação privada, sem ter sido 
apresentada a queixa, ou de ação pública condicionada, não tendo 
a vítima oferecido representação), não sendo necessário que este 
seja contra o patrimônio; se for produto de contravenção penal, não 
implicará o reconhecimento de “receptação”, podendo constituir 
outra infração penal ou conduta atípica, dependendo do caso. 
(CESCHIN, 2011)
A doutrina e a jurisprudência brasileira aceitam que existe 
“receptação de receptação”, respondendo pelo crime todos aqueles 
que, nas sucessivas negociações envolvendo o objeto, tenham 
ciência da origem espúria do bem.
Veja que a consumação se dá no exato instante em que o 
agente adquire, recebe (crime instantâneo), transporta, conduz ou 
oculta (crime permanente) o bem.
O autor, o coautor ou o partícipe do crime antecedente somente 
responde por este delito e nunca pela “receptação”, assim, quem 
“encomenda” um carro para um furtador é partícipe do “furto”, uma vez 
70
 Direito Penal II - Parte Especial 
que influenciou o autor da subtração a cometê-la. (CESCHIN, 2011)
Excepcionalmente, o proprietário poderá responder por 
“receptação”, como, por exemplo, na hipótese em que toma 
emprestado dinheiro de alguém e deixa com o credor algum bem 
como garantia da dívida (mútuo pignoratício); na sequência, sem que 
haja ajuste com o dono, uma pessoa furta o objeto e o oferece ao 
proprietário, que o adquire com a intenção de locupletar-se com tal 
conduta. (CESCHIN, 2011)
Veja que não descaracteriza a “receptação” o fato de o objeto 
ter sofrido transformação (ainda que para dinheiro) para depois 
ser transferido ao receptor, porque a lei refere-se indistintamente a 
produto de crime.
A “receptação dolosa” pressupõe que o agente saiba, tenha 
plena ciência da origem criminosa do bem (dolo direto); se apenas 
desconfia da origem ilícita, mas não tem plena certeza a esse respeito 
e, mesmo assim, adquire o objeto, responde por “receptação 
culposa” (dolo eventual). (CESCHIN, 2011)
É necessário que o agente queira obter alguma vantagem para 
si ou para outrem, se ele visa beneficiar o próprio autor do crime 
antecedente, responde pelo crime de “favorecimento real” (art. 
349); se quisesse beneficiar outra pessoa que não o autor do crime 
antecedente, responde por “receptação”. (CESCHIN, 2011)
O parágrafo 4º do art. 180 traz uma nota penal explicativa para o 
crime de receptação, vejamos: 
Norma penal explicativa
§ 4º - A receptação é punível, ainda que desconhecido ou 
isento de pena (excludente de culpabilidade - menoridade, 
doença mental; escusas absolutórias) o autor do crime de que 
proveio a coisa.
Para a existência da “receptação”, é necessário que se 
prove que houve um crime anterior, independente de prova de 
autoria dessa infração penal.
Se forem identificados tanto o receptador quanto o autor 
do crime antecedente, serão os crimes considerados conexos 
Norma penal 
explicativa
§ 4º - A receptação 
é punível, ainda 
que desconhecido 
ou isento de pena 
(excludente de 
culpabilidade 
- menoridade, 
doença mental; 
escusas 
absolutórias) o 
autor do crime de 
que proveio a coisa.
71
Crimes Contra o Patrimônio Capítulo 2 
(conexão instrumental ou probatória) e, assim, sempre que possível, 
deverá haver um só processo e uma só sentença. (CESCHIN, 2011).
Se o juiz vier a absolver o autor do crime antecedente, o 
receptador não poderá ser condenado quando ela se deu por: estar 
provada a inexistência do fato; não estar provada a existência do 
fato; atipicidade do fato ou existir circunstância que exclua o crime 
(excludente de ilicitude). (CESCHIN, 2011).
A declaração da extinção da punibilidade do crime antecedente 
não impede o reconhecimento e a punição do receptador, exceto na 
abolitio criminis e na anistia.
Receptação imprópria está prevista no art. 180, 2ª parte, ou 
seja, no verbo influir. Mas o que significa influir?
 - influir – significa instigar, convencer alguém a fazer alguma coisa. 
O agente está ciente da procedência ilícita de um determinado 
produto, toma atitudes no sentido de convencer uma terceira pessoa 
que não tem conhecimento dessa origem criminosa a adquirir, 
receber ou ocultar tal objeto (se esta pessoa tem conhecimento, 
responderá por “receptação própria”, e quem o tiver influenciado 
será partícipe nesse delito) - ex.: uma pessoa furta um carro e pede a 
um amigo que arrume um comprador, e ele sai à busca de eventuais 
interessados de boa-fé (teremos dois delitos distintos, um “furto” e 
uma “receptação imprópria” por parte do amigo). (CESCHIN, 2011).
A receptação imprópria não admite a tentativa, pois, ou o 
agente mantém contato com a vítima, e o crime está consumado 
(independentemente do resultado), ou não o faz, e a conduta é atípica.
No mesmo sentido do crime de furto e estelionato, a receptação 
terá causa de diminuição de pena se o criminoso for primário e a 
coisa receptada for de pequeno valor: 
 § 5º (2ª parte) - Nareceptação dolosa aplica-se o disposto no § 
2º do art. 155. 
Porém, a receptação pode ter causas de aumento de pena, 
também chamada de receptação agravada. Confira o artigo 180, 
parágrafo 6º do Código Penal: 
§ 6º - Tratando-se de bens e instalações do patrimônio da União, 
72
 Direito Penal II - Parte Especial 
Estado, Município, empresa concessionária de serviços públicos 
ou sociedade de economia mista, a pena prevista no caput deste 
artigo aplica-se em dobro.
Para que a pena majorada possa ser aplicada, todavia, não 
basta que o agente tenha ciência da origem ilícita, exigindo-se, 
também, que saiba especificadamente que o patrimônio de uma 
das pessoas jurídicas mencionadas foi atingido.
O crime de receptação tem a forma qualificada, com um 
aumento significativo na sua pena, conforme prescreve o art. 
180, parágrafo 1º do Código Penal: 
§ 1º - Adquirir, receber, transportar, conduzir, ocultar, ter em 
depósito, desmontar, montar, remontar, vender, expor à 
venda, ou de qualquer forma utilizar, em proveito próprio 
ou alheio, no exercício de atividade comercial ou industrial, 
coisa que “deve saber” ser produto de crime:
Pena - reclusão, de 3 a 8 anos, e multa.
Aqui, o crime de receptação ocorre em razão do exercício da 
atividade comercial ou industrial, pois o autor do crime encontra 
grande facilidade em repassar o produto da “receptação” a 
terceiros de boa-fé, que, iludidos pela impressão de maior 
garantia oferecida por profissionais dessas áreas, acabam sendo 
presas fáceis. 
A expressão “deve saber”: existem três posicionamentos, 
mas o que parece ser o mais correto é aquele em que a 
expressão teria sido utilizada como elemento normativo e não 
como elemento subjetivo do tipo (para indicar dolo direto ou eventual); 
sendo assim, “deve saber” seria apenas um critério para que o juiz, 
no caso concreto, pudesse analisar se o comerciante ou industrial, 
tendo em vista o conhecimento acerca das atividades especializadas 
que exercem ou das circunstâncias que envolveram o fato, tinham ou 
não a obrigação de conhecer a origem do bem - ex.: comerciante de 
veículos usados não pode alegar desconhecimento acerca de uma 
adulteração grosseira de chassi de um automóvel por ele adquirido. 
(CESCHIN, 2011)
§ 2º - Equipara-se à atividade comercial, para efeito do § anterior, 
§ 1º - Adquirir, 
receber, transportar, 
conduzir, ocultar, 
ter em depósito, 
desmontar, montar, 
remontar, vender, 
expor à venda, ou 
de qualquer forma 
utilizar, em proveito 
próprio ou alheio, 
no exercício de 
atividade comercial 
ou industrial, coisa 
que “deve saber” 
ser produto 
de crime:
Pena - reclusão, de 
3 a 8 anos, e multa.
§ 6º - Tratando-
se de bens e 
instalações do 
patrimônio da 
União, Estado, 
Município, empresa 
concessionária de 
serviços públicos 
ou sociedade de 
economia mista, a 
pena prevista no 
caput deste artigo 
aplica-se em dobro.
73
Crimes Contra o Patrimônio Capítulo 2 
qualquer forma de comércio irregular ou clandestino, 
inclusive o exercício em residência.
Trata-se de “norma penal explicativa ou complementar”, 
que visa não deixar qualquer dúvida sobre a possibilidade de 
aplicação da qualificadora a camelôs, pessoas que exerçam 
o comércio em suas próprias casas ou a qualquer outro 
comerciante que não tenha sua situação regularizada junto aos 
órgãos competentes. (CESCHIN, 2011)
O crime de receptação prevê a possibilidade de punição na 
forma culposa. Confira o art. 180, parágrafo 3º do Código Penal: 
 § 3º - Adquirir ou receber coisa que, por sua natureza (ex.: 
aquisição de um revólver desacompanhado do registro ou sem 
numeração, de um veículo sem o respectivo documento ou com 
falsificação grosseira do chassi etc.) ou pela desproporção entre 
o valor e o preço, ou pela condição de quem a oferece (ocorre 
quando uma pessoa adquire ou recebe um objeto de alguém 
totalmente desconhecido, que não tinha condições financeiras 
para possuir o bem oferecido, de sujeito sabidamente entregue 
à prática de infrações penais etc.), deve presumir-se obtida por 
meio criminoso:
Pena - detenção, de 1 mês a 1 ano, ou multa, ou ambas as penas.
Conclui-se que se o agente, em razão de um dos parâmetros 
mencionados acima, deveria ter presumido a origem espúria 
do bem, ou, em outras palavras, de que o homem médio 
desconfiaria de tal procedência ilícita e não adquiriria ou 
receberia o objeto.
Por fim, o crime de receptação prevê a possibilidade de 
perdão judicial, mas somente será aplicada pelo juiz no crime 
de receptação culposa. Confira: 
 § 5º (1ª parte) - Na hipótese do § 3º (receptação culposa), 
se o criminoso é primário, pode (deve) o juiz, tendo em 
consideração as circunstâncias (as circunstâncias do crime 
devem indicar que ele não se revestiu de especial gravidade 
- ex.: aquisição de bem de pequeno valor), deixar de aplicar 
a pena. 
O perdão judicial é “causa extintiva da punibilidade”, não 
§ 5º (1ª parte) - 
Na hipótese do 
§ 3º (receptação 
culposa), se o 
criminoso é primário, 
pode (deve) o 
juiz, tendo em 
consideração as 
circunstâncias (as 
circunstâncias do 
crime devem indicar 
que ele não se 
revestiu de especial 
gravidade - ex.: 
aquisição de bem 
de pequeno valor), 
deixar de aplicar 
a pena. 
§ 2º - Equipara-
se à atividade 
comercial, para 
efeito do § anterior, 
qualquer forma de 
comércio irregular 
ou clandestino, 
inclusive o exercício 
em residência.
74
 Direito Penal II - Parte Especial 
subsistindo qualquer efeito condenatório.
Fonte: <http://www.buscalegis.ufsc.br/revistas/files/anexos/11475-
11475-1-PB.htm>. Acesso em: 10 jan. 2012.
Atividade de Estudos: 
Analise a seguinte situação hipotética e responda o que se pede.
Um vendedor de uma loja, que está sob constante vigilância 
do proprietário, pode ser sujeito do crime de furto ou de apropriação 
indébita? 
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Algumas Considerações
Neste capítulo, estudamos os crimes contra a o patrimônio, especialmente 
a abordagem dos crimes de furto, roubo, extorsão, extorsão mediante sequestro, 
latrocínio, apropriação indébita, estelionato e receptação. 
Nos crimes analisados no presente tópico, alguns deles apresentam, 
juntamente com a ofensa ao patrimônio alheio, a violência contra a pessoa, como 
exemplo do roubo, latrocínio, extorsão mediante sequestro. 
Já nos crimes de furto, estelionato, receptação e apropriação indébita não 
existe a presença da violência e, para tanto, as penas destes crimes são bem 
menores. 
Para finalizar, importante ressaltar que os crimes de latrocínio e extorsão 
75
Crimes Contra o Patrimônio Capítulo 2 
mediante sequestro são crimes hediondos, recebendo o condenado tratamento 
diferenciado, tanto no decorrer do processo criminal, quanto no cumprimento de 
sua pena. 
Referências 
BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal: Parte especial 2. 11. 
ed. São Paulo: Saraiva, 2011. 
CAPEZ, Fernando. Curso de Direito Penal: parte especial. 11. ed. São Paulo: 
Saraiva, 2011. v. 2
GRECO, Rogério. Curso de Direito Penal: parte especial. 7. ed. Rio de Janeiro: 
Impetus, 2010. v. 2
MIRABETE, Julio Fabbrini. Manual de Direito Penal: parte especial. 28. ed. 
São Paulo: Atlas, 2011. v. 2
PRADO, Luiz Regis. Curso de Direito Penal Brasileiro. 9. ed. São Paulo: 
Revista dos Tribunais, 2010. v. 2
CAPÍTULO 3
Crimes Contra a Honra
A partir da perspectiva do saber fazer, neste capítulo você terá os seguintes 
objetivos de aprendizagem:
 3 Conceituar os crimes contra a honra. 
 3 Identificar e distinguir os crimes contra a honradiante de casos reais. 
 3 Buscar na jurisprudência casos julgados pelos Tribunais e apresentar 
comentário crítico referente ao crime pesquisado. 
79
Crimes Contra a Honra Capítulo 3 
Contextualização
Neste capítulo, estudaremos os “Crimes contra a honra”, que são aqueles 
delitos que ofendem bens imateriais da pessoa humana, no caso, a sua honra 
pessoal. São eles: calúnia (CP, art. 138), difamação (CP, art. 139) e injúria (CP, 
art. 140). 
Estudaremos também que a proteção à honra é garantida pela Constituição 
Federal de 1988 que, em seu art. 5º, X, prevê que “são invioláveis a intimidade, a 
vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito à indenização 
pelo dano material e moral decorrente de sua violação”.
Crimes Contra a Honra 
O estudo dos crimes contra a honra é de primordial importância, pois trata de 
um bem jurídico que é amparado pela norma constitucional, sendo punido tanto 
criminalmente como civilmente, através de condenações por danos morais. 
a) Conceituação
A honra é o conjunto de atributos morais, físicos e intelectuais de uma 
pessoa, que a tornam merecedora de apreço no convívio social e que promovem 
a sua autoestima.
Noronha (1994, p. 110) conceitua honra como “o complexo ou conjunto de 
predicados ou condições da pessoa que lhe conferem consideração social e 
estima própria”. 
A doutrina distingue a honra objetiva da honra subjetiva, confira abaixo:
Quadro 7 – Tipos de Honra 
Honra
objetiva
É o que os outros pensam a respeito do sujeito; a “calúnia” e a “difamação” 
atingem a honra objetiva, por isso se consumam quando terceira pessoa toma 
conhecimento da ofensa proferida.
Honra
subjetiva
É o juízo que se faz de si mesmo, o seu amor próprio, sua autoestima; ela 
subdivide-se em honra-dignidade (diz respeito aos atributos morais da pessoa) e 
honra-decoro (refere-se aos atributos físicos e intelectuais); a “injúria” atinge a 
honra subjetiva, por isso se consuma quando a própria vítima toma conhecimento 
da ofensa que lhe foi feita.
Fonte: Disponível em: <http://www.ebah.com.br/content/ABAAAAKrwAD/
direito-penal-parte-especial>. Acesso em: 15 de dez. 2011.
80
 Direito Penal II - Parte Especial 
Mas quem pode praticar os crimes contra a honra? Quem será o sujeito 
ativo?
O sujeito ativo pode ser qualquer pessoa, exceto aquelas que gozam de 
imunidades, como os parlamentares (deputados e senadores quando no exercício 
do mandato) (art. 53, CF); os vereadores nos limites do Município onde exercem 
suas funções (art. 29, VIII, CF). Os advogados, quando no exercício regular de 
suas atividades, não praticam “difamação” e “injúria”, sem prejuízo das sanções 
disciplinares elencadas no Estatuto da OAB (NAZARENO, 2011).
E como podem ser praticados os crimes contra a honra, ou seja, 
como podem ser os meios de execução desse crime?
Percebemos que os crimes contra a honra podem ocorrer de forma 
variada, ou seja, por palavras, escrito, gestos, ou até meios simbólicos 
desde que possam ser compreendidos. 
Por conseguinte, o elemento subjetivo dos crimes contra a honra é 
o dolo, ou seja, não basta praticar a conduta descrita no tipo, exige-se 
que o sujeito queira atingir, diminuir a honra da vítima e a seriedade na 
conduta; se a ofensa é feita por brincadeira ou a intenção da pessoa 
era repreender ou aconselhar a vítima, neste caso não há crime contra 
a honra.
b) Crimes de calúnia, difamação e injúria
Importante é distinguir a diferença entre os crimes de calúnia, difamação e 
injúria. 
Para isso, colocamos de forma bem clara a diferença:
Quadro 8 – Diferença dos tipos penais contra a honra
CALÚNIA
Imputa falsamente (se verdadeira, o fato é atípico) fato definido como crime; 
atinge a honra objetiva - ex.: foi você que furtou o dinheiro da carteira de João 
ontem à noite. 
DIFAMAÇÃO
Imputa fato (não se exige que a imputação seja falsa) não criminoso ofensi-
vo à reputação; atinge a honra objetiva - ex.: você não sai daquela boate de 
prostituição.
INJÚRIA
Não se imputa fato, atribui-se uma qualidade negativa; ofensiva à dignidade ou 
decoro da vítima; atinge a honra subjetiva - ex. você é cego e chifrudo. 
Fonte: Disponível em: <http://www.ebah.com.br/content/ABAAAAKrwAD/
direito-penal-parte-especial>. Acesso em: 15 de dez. 2011.
Os crimes contra 
a honra podem 
ocorrer de forma 
variada, ou seja, 
por palavras, 
escrito, gestos, 
ou até meios 
simbólicos desde 
que possam ser 
compreendidos.
81
Crimes Contra a Honra Capítulo 3 
• Calúnia
O Código Penal Brasileiro assim tipifica o crime de calúnia: 
Art. 138 - Caluniar alguém, imputando-lhe falsamente fato 
definido como crime: Pena - detenção, de seis meses a 2 anos, e multa.
§ 1º - Na mesma pena incorre quem, sabendo falsa a imputa-
ção, a propala ou divulga.
§ 2º - É punível a calúnia contra os mortos.
Caluniar alguém significa imputar falsamente fato definido 
como crime. Para Capez (2011, p. 279), “o agente atribui a alguém 
a responsabilidade pela prática de um crime que não ocorreu ou que 
não foi por ele cometido”. 
Perceba que o art. 138 do Código Penal prevê a calúnia contra os mortos. 
Importante ressaltar que o morto não é sujeito passivo de delito, mas o sujeito 
passivo são os familiares. 
Então as vítimas são o cônjuge, o ascendente, o descendente ou o irmão 
do falecido, pois a ofensa será contra o direito dos parentes do morto e à própria 
sociedade. Pelo artigo 31 do Código de Processo Penal Brasileiro, somente estas 
pessoas podem promover a ação penal. 
Para Nazareno (2000, p. 466), o crime de calúnia se divide nas seguintes 
espécies: 
a) Inequívoca ou explícita: o agente afirma explicitamente a 
falsa imputação, por exemplo: “fulano de tal é o sujeito que a 
Polícia está procurando pela prática de vários estupros”. 
b) Equívoca ou implícita: a ofensa não é direta, 
depreendendo-se do conteúdo da assertiva, por exemplo, “não 
fui eu que por muitos anos me agasalhei nos cofres públicos”.
c) Reflexa: imputar o crime a uma pessoa, acusando outra, 
por exemplo, dizer que “um Promotor deixou de denunciar um 
indiciado porque foi por ele subornado”. O indiciado também 
foi ofendido.
Em resumo, podemos dizer que o crime de calúnia necessita de três 
requisitos
Art. 138 - Caluniar 
alguém, imputando-
lhe falsamente fato 
definido como crime: 
Pena - detenção, 
de seis meses a 
2 anos, e multa.
§ 1º - Na mesma 
pena incorre quem, 
sabendo falsa a 
imputação, a propala 
ou divulga.
§ 2º - É punível 
a calúnia contra 
os mortos.
82
 Direito Penal II - Parte Especial 
1) imputação de um fato;
2) esse fato deve ser qualificado como crime;
3) essa imputação deve ser falsa.
Veja que no crime de calúnia é imputado um fato criminoso, e esse fato 
criminoso deve ser determinado, ou seja, é um caso concreto. 
Alerta Capez (2011, p. 281):
a imputação não pode ser vaga, por exemplo, afirmar 
simplesmente que José é um ladrão. Basta que se apontem 
circunstâncias capazes de identificar o fato criminoso (por 
ex.: constitui crime de calúnia afirmar falsamente que Pedro 
matou Paulo porque este não lhe pagou uma dívida de 
grande vulto). Por outro lado, não constitui crime de calúnia a 
simples assertiva de que Pedro é um assassino. Nesse caso, 
configura-se o crime de injúria, ante a atribuição de qualidade 
negativa ao ofendido.
Conforme já estudado, vemos que a calúnia é imputação falsa 
de um crime. Percebemos que o fato pode nem ter ocorrido, ou seja, 
o crime nunca aconteceu, ou a vítima é inocente, ou, mesmo que 
denunciada, ainda não foi condenada. 
Então, o Código Penal Brasileiro, no art. 138, parágrafo 3º, 
oportuniza que o agente prove que a ofensa é verdadeira, afastando 
desta forma o crime:
Exceção da verdade 
§ 3º - Admite-se a prova da verdade, salvo:
I - se, constituindo o fato imputado crime de ação privada, o 
ofendido não foi condenado por sentença irrecorrível;
II - se o fato é imputado a qualquer das pessoas indicadas no nº I 
do art. 141 (Presidenteda República, ou chefe de governo estrangeiro);
III - se do crime imputado, embora de ação pública, o ofendido 
foi absolvido por sentença irrecorrível.
A exceção da verdade é um procedimento especial, que o 
agente pretende provar a veracidade do fato criminoso imputado, e se 
realmente o fato criminoso ocorreu, não há que se falar na configuração 
do crime de calúnia. 
Exceção da 
verdade 
§ 3º - Admite-se a 
prova da verdade, 
salvo:
I - se, constituindo 
o fato imputado 
crime de ação 
privada, o ofendido 
não foi condenado 
por sentença 
irrecorrível;
II - se o fato 
é imputado a 
qualquer das 
pessoas indicadas 
no nº I do art. 
141 (Presidente 
da República, ou 
chefe de governo 
estrangeiro);
III - se do crime 
imputado, embora 
de ação pública, 
o ofendido 
foi absolvido 
por sentença 
irrecorrível.
83
Crimes Contra a Honra Capítulo 3 
• Difamação
Difamação é a imputação a alguém de fato ofensivo à sua reputação. Para 
Capez (2011, p. 298), “imputar consiste em atribuir o fato ao ofendido. A reputação 
concerne à opinião de terceiros no tocante aos atributos físicos, intelectuais, 
morais de alguém. É o respeito que o indivíduo goza no meio social”. 
No mesmo sentido, Mirabete (2011, p. 126) exemplifica que “haverá 
difamação no dizer que certa mulher mantém relações com um homem, sejam 
eles casados ou solteiros; que determinado jovem mantém relações libidinosas 
com seu companheiro de pensão; que certa pessoa pratica incesto com sua 
irmã etc.” 
Perceba que, para a configuração do crime de difamação, não importa se a 
imputação do fato seja falsa, ao contrário da calúnia, de modo que haverá o crime 
se o fato for verdadeiro.
Desta forma não deve o fato imputado ser criminoso, pois, do contrário, 
restará configurado o crime de calúnia. 
Capez (2011, p. 299) nos alerta que o “fato deve ser concreto, determinado, 
não sendo preciso, contudo, descrevê-lo em minúcias. Por outro lado, a imputação 
vaga e imprecisa, ou seja, em termos genéricos, não configura difamação”. 
É necessário que o fato ofensivo chegue ao conhecimento de terceiros. Pois, 
confome Capez (2011, p. 299), 
a lei penal protege é a reputação do ofendido, ou seja, o 
valor que o indivíduo goza na sociedade, ao contrário da 
injúria, em que há a proteção da honra subjetiva, bastando 
para a configuração do crime o só conhecimento da opinião 
desabonadora pelo ofendido. 
O Código Penal Brasileiro assim atribui a pena para o crime de difamação:
Art. 139 - Difamar alguém, imputando-lhe fato ofensivo à sua reputação:
Pena - detenção, de 3 meses a 1 ano, e multa.
O Código Penal Brasileiro também prevê a possibilidade da 
exceção da verdade no crime de difamação quando o ofendido é 
funcionário público e a ofensa é ralativa ao exercício de suas funções. 
• Exceção da verdade
Art. 139 - Difamar 
alguém, imputando-
lhe fato ofensivo à 
sua reputação:
Pena - detenção, de 
3 meses a 1 ano, 
e multa.
84
 Direito Penal II - Parte Especial 
§ único - A exceção da verdade somente se admite se o 
ofendido é funcionário público e a ofensa é relativa ao exercício de 
suas funções.
Confira que a prova da verdade não cabe no caso de um fato que 
tenha relação com a vida privada do funcionário público, bem como se 
este também deixou as funções de funcionário público. 
Exemplo de difamação do funcionário público ocorre quando 
alguém diz que João, funcionário público da Prefeitura de São Paulo, 
vem trabalhar embriagado todas as quintas-feiras. João, sendo 
funcionário Público, pode processar quem faz a afirmação pelo crime 
de difamação, pois alega que a divulgação de tal fato, embora não sendo crime, é 
desabonador ao exercício de suas funções como funcionário Público. 
Em sede de exceção da verdade, como meio de defesa, quem alegou tais 
fatos poderá provar a veracidade da imputação, ou seja, provar que João vem 
trabalhar embriagado, e aí estaremos diante de uma causa excludente de ilicitude. 
• Injúria
Art. 140 - Injuriar alguém, ofendendo-lhe a dignidade ou o 
decoro:
 
 Pena - detenção, de 1 a 6 meses, ou multa.
 § 1º - O juiz pode deixar de aplicar a pena:
 I - quando o ofendido, de forma reprovável, provocou 
diretamente a injúria;
 II - no caso de retorsão imediata, que consista em outra injúria.
Hungria (1979, p. 154) define a injúria como “a manifestação, por 
qualquer meio, de um conceito ou pensamento que importe ultraje, 
menoscabo ou vilipêndio contra alguém”. 
Conferimos que o crime de injúria é classificado como um crime de 
ação livre, pois podem ocorrer de vários meios, não somente através 
de palavras, e na jurisprudência podemos buscar alguns exemplos de 
atitudes que configuram o crime de injúria, como por exemplo: despejar 
lixo na porta de residência da vítima, atirar bebida no rosto da vítima etc. 
Exceção da 
verdade
§ único - A exceção 
da verdade 
somente se admite 
se o ofendido é 
funcionário público 
e a ofensa é relativa 
ao exercício de 
suas funções.
Art. 140 - Injuriar 
alguém, ofendendo-
lhe a dignidade ou 
o decoro:
Pena - detenção, 
de 1 a 6 meses, ou 
multa.
§ 1º - O juiz pode 
deixar de aplicar a 
pena:
I - quando o 
ofendido, de 
forma reprovável, 
provocou 
diretamente a 
injúria;
II - no caso de 
retorsão imediata, 
que consista em 
outra injúria.
85
Crimes Contra a Honra Capítulo 3 
Capez (2011, p. 306) nos ensina que a
injúria, ao contrário da difamação, não se consubstancia 
na imputação de fato concreto, determinado, mas sim na 
atribuição de qualidades negativas ou defeitos. Consiste ela 
em uma opinião pessoal do agente sobre o sujeito passivo, 
desacompanhada de qualquer outro dado concreto. São os 
insultos, os xingamentos (p. ex. ladrão, vagabundo, corcunda, 
estúpido, grosseiro, incompetente, caloteiro etc.).
Confira a classificação doutrinária de injúria apresentada por Capez (2011, 
p. 307):
Quadro 9 - Classificação doutrinária de injúria
Imediata Quando é proferida pelo próprio agente.
Mediata Quando o agente se vale de outro meio para executá-la (p. ex. uma criança). 
Direta Quando se referem ao próprio ofendido.
Oblíqua Quando atinge alguém estimado pelo ofendido (p. ex. seu irmão é um ladrão).
Indireta ou 
reflexa
Quando, ao ofender alguém, também atinge a honra de terceira pessoa.
Explícita Quando são empregadas expressões que não se revestem de dúvidas. 
Fonte: Capez (2011, p. 307).
O crime de injúria se consuma quando o sujeito passivo (vítima) toma 
conhecimento da imputação ofensiva à sua honra, não sendo necessário que 
terceiros tomem conhecimento desta manifestação.
Importante ressaltar que, para se configurar o crime de injúria, deve estar 
presente do dolo de dano, isto é, a vontade livre e consciente de injuriar alguém, 
denegrindo a honra do ofendido. Então não ocorrerá o crime de injúria 
se o agente atuar com intenção de brincadeira, ou em ação de corrigir 
alguém, ou de narrar algum fato que a pessoa praticou. No mesmo 
sentido, entende a jurisprudência que se as expressões ocorreram em 
razão de uma discussão ou, em algum caso, com exaltação emocional, 
não estará presente o crime, pois não restará provado o dolo, ou seja, 
a intenção de injuriar. 
• Injúria Real
O Código Penal Brasileiro prevê a injúria real como uma forma 
qualificada do crime, atribuindo pena superior: 
§ 2º Se a injúria 
consiste em 
violência ou vias de 
fato, que, por sua 
natureza ou pelo 
meio empregado, 
se considerem 
aviltantes 
Pena - detenção, de 
3 meses a 1 ano, e 
multa, além da pena 
correspondente 
à violência.
86
 Direito Penal II - Parte Especial 
§ 2º Se a injúria consiste em violência ou vias de fato, que, por sua 
natureza ou pelo meio empregado, se considerem aviltantes 
Pena - detenção, de 3 meses a 1 ano, e multa, além da pena correspondente 
à violência.
No crime de injúria real, dois são os bens ofendidos pelo crime, ou seja: 
a honra individual e a incolumidade física. 
Perceba que neste crime será necessárioacontecer juntamente com a injúria, 
a violência ou vias de fato. 
A violência, conforme ensina Capez (2011, p. 312), “é a lesão corporal 
produzida da vítima com o fim de humilhar, ultrajar a sua honra. Por exemplo: 
jogar cerveja, jogar um bolo no rosto, atirar sujeira etc.” 
Já as vias de fato são ofensas físicas que não produzem lesões e não deixam 
vestígios, como por exemplo: bofetadas, puxão de cabelo, levantar a saia, rasgar 
a roupa etc. 
Porém, exige a lei que a violência ou as vias de fato sejam consideradas 
aviltantes, quer pelo meio empregado ou quer pela sua natureza, ou seja, aviltante 
é o que realmente humilha a vítima, faz esta se sentir em situação de ultrajada. 
• Injúria por preconceito
Através da Lei 9.459, de 13.5.1997, foi criado o crime de injúria por 
preconceito, que impôs uma pena muito mais severa: 
§ 3º - Se a injúria consiste na utilização de elementos 
referentes a raça, cor, etnia, religião ou origem ou condição de 
pessoa idosa ou portadora de deficiência:
Pena - reclusão de 1 a 3 anos e multa.
No crime de injúria por preconceito, os “xingamentos” decorrem de 
referências a raça, cor, etnia, religião ou origem da vítima. 
Conforme Capez (2011, p. 314), desse modo, “qualquer ofensa à 
dignidade ou decoro que envolva algum elemento discriminatório, como 
por exemplo: ‘preto’, ‘japa’, ‘turco’ ou ‘judeu’, confira o crime de injúria”. 
§ 3º - Se a 
injúria consiste 
na utilização 
de elementos 
referentes a raça, 
cor, etnia, religião 
ou origem ou 
condição de pessoa 
idosa ou portadora 
de deficiência:
Pena - reclusão de 
1 a 3 anos e multa.
87
Crimes Contra a Honra Capítulo 3 
Importantes as lições de Santos (2001, p. 145-146), que ressalva que “ser 
negro, baiano, judeu ou branco não significa possuir qualidade negativa, mas faz-
se necessário que algo exista, na expressão usada, que possa diminuir o conceito 
moral em que tido o ofendido, atingindo-lhe o decoro ou raspando-lhe a dignidade”. 
Resta claro que o crime de injúria por preconceito ocorre quando a intenção é 
humilhar, com a intenção de demonstrar uma inferioridade do indivíduo em virtude 
da raça. 
Porém, diferente do crime de injúria por preconceito é o crime de racismo. 
O crime de racismo, previsto na Lei 7.716/89, enumera ofensas envolvendo 
verdadeira segregação racial, ou seja, impedir acesso a estabelecimento 
comercial por ser preto, proibir realização de matrícula em escola porque é judeu, 
ou de tornar-se sócio de um clube porque é libanês etc. 
Disposições Comuns
Para todos os crimes contra a honra, quer sejam de calúnia, dimação ou 
injúria, as penas serão aumentadas de 1/3 se o crime é cometido: 
I - contra o Presidente da República, ou contra chefe de 
governo estrangeiro;
II - contra funcionário público, em razão de suas funções;
III - na presença de várias pessoas ou por meio que facilite a 
divulgação da calúnia, da difamação ou da injúria.
§ único - Se o crime é cometido mediante paga ou promessa 
de recompensa, aplica-se a pena em dobro.
O Código Penal prevê 3 (três) hipóteses de exclusão de crime de injúria ou 
difamação, conforme apresentado na sequência: 
Art. 142 - Não constituem injúria ou difamação punível:
I - a ofensa irrogada em juízo, na discussão da causa, pela 
parte ou por seu procurador;
II - a opinião desfavorável da crítica literária, artística ou 
científica, salvo quando inequívoca a intenção de injuriar ou 
difamar;
III - o conceito desfavorável emitido por funcionário público, 
em apreciação ou informação que preste no cumprimento de 
dever do ofício.
Enfim, o querelado, ou seja, o autor de um crime de calúnia ou difamação, 
que se retratar cabalmente antes da sentença, ficará isento de pena, não 
necessitando para tanto da aceitação do ofendido (vítima). 
88
 Direito Penal II - Parte Especial 
Os crimes contra a honra, calúnia, difamação e injúria são, regra geral, de 
ação privada, isto é, o procedimento para instauração de uma ação penal será 
através da petição denominada “queixa-crime” e quem a subscreverá será um 
advogado. 
Atividade de Estudos: 
Jurema dos Santos trabalha na empresa FORD na cidade de 
Indaial, como secretária do empresário João Simas. Na data de 
hoje, foi acusada por sua colega de trabalho, Marilene da Silva, na 
presença de vários colegas de trabalho, de “ser amante” do seu 
chefe. Jurema negou a afirmação de Marilene, mas esta, ainda em 
alta voz, proferiu: Só podia ser você, sempre te achei com cara de 
vagabunda e interesseira, pois para conseguir o emprego nesta 
empresa, está saindo com o chefe, João. E não adianta mentir, 
pois ontem à noite eu vi que você saiu da empresa e embarcou no 
carro do Sr. João. Jurema, muito chateada, começou a chorar, pois 
Marilene lhe fez afirmações que não são verdadeiras e com isso 
todos seus colegas de trabalho estão acreditando na história criada 
por Marilene. Diante destes fatos, qual o crime ou quais ou crimes 
cometidos por Marilene? 
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89
Crimes Contra a Honra Capítulo 3 
Algumas Considerações
Neste capítulo, estudamos os crimes contra a honra, especialmente a 
abordagem dos crimes de calúnia, difamação e injúria. 
Os crimes analisados no presente tópico são todos de natureza privada, ou 
seja, a ação penal deverá ser iniciada com a vítima. 
A vítima de um crime contra a honra tem o prazo de 6 (seis) meses para 
dar início à ação penal, e esta deverá ser feita através de procurador habilitado, 
advogado inscrito nos quadros da OAB. 
A honra será sempre protegida, pois, como preconiza a Constituição Federal 
de 1988, art. 5º. Inciso X, são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a 
imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou 
moral decorrente de sua violação. 
Para finalizar, importante ressaltar a importância do respeito à honra das 
pessoas, pois, para muitos, é considerado um dos seus maiores bens, estando ao 
lado da vida e da liberdade. 
Referências 
CAPEZ, Fernando. Curso de Direito Penal: volume 2, parte especial. 11 ed. São 
Paulo: Saraiva, 2011.
HUNGRIA, Nelson. Comentários ao Código Penal. 5 ed. Rio de Janeiro: 
Forense, 1979. v. 5
MIRABETE, Julio Fabbrini. Manual de Direito Penal: parte especial. 28 ed. São 
Paulo: Atlas, 2011. v. 2
NAZARENO, Jesus. Código penal comentado parte especial. Disponível em: 
<http://www.ebah.com.br/content/ABAAAAqfAAH/codigo-penal-comentado-parte-
especial>. Acesso em: 15 dez. 2011.
NORONHA, E. Magalhães. Direito Penal: dos crimes contra a pessoa. 26 ed. 
São Paulo, Saraiva, 1994. v. 3. 
SANTOS, Christiano Jorge. Crimes de preconceito e de discriminação. São 
Paulo: Max Limonad, 2001. 
CAPÍTULO 4
Crimes Contra o Sentimento 
Religioso e Contra o 
Respeito aos Mortos
A partir da perspectiva do saber fazer, neste capítulo você terá os seguintes 
objetivos de aprendizagem:
 3 Conceituar os crimes contra o sentimento religioso e contra o respeito aos 
mortos.3 Identificar e distinguir os crimes contra o sentimento religioso e crimes contra o 
respeito aos mortos diante de casos reais. 
 3 Buscar na jurisprudência casos julgados pelos Tribunais e apresentar 
comentário crítico referente aos crimes pesquisados. 
93
Crimes Contra o 
Sentimento Religioso e 
Contra o Respeito aos Mortos
 Capítulo 4 
Contextualização
Neste capítulo, estudaremos os “crimes contra o sentimento religioso e 
contra o respeito aos mortos”, que são aqueles delitos que ofendem o sentimento 
do culto religioso e respeito aos mortos. 
O estudo dos crimes contra a pessoa é de grande importância, pois trata de 
direito tutelado pela Constituição Federal de 1099, art. 5º, inciso VI, “[...] sendo 
assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a 
proteção aos locais de culto e liturgias”. 
A proteção de tão relevante bem jurídico é imperativo de ordem constitucional 
e amparado pelo Código Penal, em seus artigos 208 a 212. 
Ultraje a Culto e Impedimento ou 
Perturbação de Ato a Ele Relativo
A Carta Magna de 1988 trata o Estado Brasileiro como laico, um Estado 
totalmente desprovido de influência religiosa. No entanto, conhecida é a história da 
religião. Júlio Fabrini Mirabete leciona que a religião causou profundas alterações 
nos modelos políticos das nações, sendo sempre considerada instituição de 
interesse jurídico coletivo. A fé religiosa é conteúdo da própria personalidade 
do homem que, na realidade, deseja a paz duradoura e permanente que não 
encontra no mundo imediato que o cerca e que é prometida pela religião. 
Art. 208 - Escarnecer de alguém publicamente, por motivo 
de crença ou função religiosa; impedir ou perturbar cerimônia 
ou prática de culto religioso; vilipendiar publicamente ato ou 
objeto de culto religioso:
Pena - detenção, de um mês a um ano, ou multa.
Parágrafo único - Se há emprego de violência, a pena é 
aumentada de um terço, sem prejuízo da correspondente à 
violência.
Nesse sentimento religioso, a convenção acentuada “da existência de uma 
ordem universal que se eleva acima do homem” (HUNGRIA apud MIRABETE, 
manual de Direto Penal) é o objeto jurídico penalmente tutelado no artigo 208 do CP. 
Assim, entende-se que o sentimento religioso e o respeito aos mortos são 
valores ético-sociais que se assemelham. O tributo que se rende aos mortos também 
94
 Direito Penal II - Parte Especial 
tem um fundo religioso. Por esse motivo, o legislador de 1940 optou por classificar, 
em um mesmo título, os crimes praticados com relação ao sentimento religioso e 
os praticados contra os mortos (BITENCOURT, 2011, p.446).
Mirabete (apud CUNHA, 2010, p. 241), leciona que, a respeito da objetividade 
jurídica do delito, embora sejam admissíveis os debates, criticas ou polêmicas 
a respeito das religiões em seus aspectos teleológicos, científicos, jurídicos, 
sociais ou filosóficos, não são permitidos os extremos de zombarias, ultrajes ou 
vilipêndios aos crentes ou coisas religiosas.
Por fim, no aspecto constitucional, a CF/88 passou a garantir a liberdade de 
consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos 
e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de cultos e suas liturgias (art. 
5º, inciso VI).
a) Leis 9.099/95 e 10.259/2001 (Delmanto)
A exemplo do que já fizera a Lei dos Juizados Especiais Criminais Federais 
(Lei n° 10.259/01), no artigo 61 da Lei dos Juizados Especiais Criminais Estaduais 
(Lei nº 9.099/95), modificado pela Lei n° 11.313/2006, consideram-se infrações 
penais de menor potencial ofensivo as contravenções e os crimes com pena 
máxima não superior a dois anos, cumulada ou não com multa, não fazendo 
restrição ao tipo de procedimento, se comum ou especial, nem ao tipo de ação 
(incondicionada, condicionada ou privada).
b) Sujeitos do Crime
Pode ser praticado por qualquer pessoa, incluindo os próprios ministros 
e crentes. No entanto, no caso de agente público, pode configurar abuso de 
autoridade (art. 3º da Lei nº 4.898/65). Assim é o entendimento de Cunha (2010, 
p. 241) quanto ao sujeito passivo: segundo o autor, temos que diferenciar duas 
situações: “I) na primeira modalidade, a vítima será pessoa determinada), II) nas 
demais, figurará no polo passivo a coletividade religiosa”. 
Nesse sentido, o autor, citando Noronha, (CUNHA, 2010, p. 241) na primeira 
modalidade (pessoa determinada) é indispensável que o sujeito passivo seja 
uma pessoa física determinada. Se for endereçado aos crentes em geral, não 
concretiza o delito em exame. Por exemplo: não será crime quando se diz que 
os católicos protestantes ou budistas são isso ou aquilo. Sem razão, pois a 
exposição de motivos diz que a tutela se faz religião em si mesma. Se assim 
fosse, desnecessário seria que a ofensa se objetivasse a pessoa determinada, 
máximo quando dirigida em geral aos sacerdotes, pastores etc. 
95
Crimes Contra o 
Sentimento Religioso e 
Contra o Respeito aos Mortos
 Capítulo 4 
Já com relação à segunda modalidade (a coletividade religiosa), os titulares 
lesados são os crentes, contidos neste termo tanto os fiéis que assistem à 
cerimônia como aqueles que celebram ou auxiliam a mesma, nesse entendimento 
tutela-se a coletividade.
c) Tipo Objetivo
O artigo 208 do CP é dividido em três figuras penais distintas, a seguir 
separadamente comentadas.
• 1ª Escarnecer 
Escarnecer significa achincalhar, zombar, ridicularizar, troçar alguém 
publicamente por motivo de crença ou função religiosa. A conduta do agente deve 
ser pública, isso é, na presença de várias pessoas ou por meio capaz de conduzir 
o escárnio ao conhecimento de pessoas indeterminadas, dispensando-se a 
presença da vítima (ex: imprensa). Sanches leciona que não se deve confundir 
com o delito de injúria qualificada (art. 140 § 3º), pois neste o agente atribui ao 
crente qualidade negativa em face de sua crença, e no delito estudado em tela, o 
agente passa a zombar da vítima em razão se sua opção religiosa. 
A crença (BITENCOURT, 2011, p. 449) é “a fé que alguém tem em determinada 
religião, cujos postulados são aceitos e respeitados incondicionalmente”. Já 
a função aqui mencionada não é aquela própria do direito administrativo, mas 
sim a que se refere às atividades exercidas pelos agentes diretamente ligados 
à religião, como os padres, rabinos, ministros, freis para desempenhar papel de 
liderança religiosa.
• 2ª Impedir 
Impedir significa interromper, obstruir, proibir ou perturbar (atrapalhar, 
embaraçar) a cerimônia ou prática de culto religioso, utilizando-se de qualquer 
meio apto (violência, ruídos, algazarras). É importante diferenciarmos cerimônia 
religiosa de culto religioso. 
Entende-se por cerimônia toda manifestação exterior do culto religioso (missa, 
culto, batismo, casamento), que não precisa ser realizada necessariamente 
dentro de uma igreja ou templo. Nesse sentido, pode ser praticado como, por 
exemplo, nas procissões, certos casamentos e missas ao ar livre, via-sacra. Já 
o culto religioso, é uma atividade menos solene, mas que está correlacionada 
96
 Direito Penal II - Parte Especial 
ao culto (oração coletiva na igreja ou sinagoga, ensino de catecismo e sessão 
espírita são exemplos), não se confundindo esta, também, com oração individual, 
a coleta de donativos ou esmolas, a quermesse religiosa etc. Aqui é indiferente 
se ocorre dentro ou fora de igrejas ou templos e se realizada com ou sem agente 
oficial (padre, ministro, frei) (SANCHES, 2010).
Por fim, obviamente somente se tutelam as cerimônias ou cultos religiosos 
que não atentem contra a moral e os bons costumes. Não são tutelados eventos 
que sejam relacionados a magia negra, macumba etc.
 
• 3ª Vilipendiar
Vilipendiar significa desprezar, rebaixar, aviltar publicamente ato ou objeto 
de culto religioso. A ação pode se dar por meio de qualquer ato capaz de conferir 
publicamente o aviltamento. Em razão da exigida publicidade, deve ser praticadona presença de certa quantidade de pessoas. Também é indiferente se ocorre em 
local fechado, dentro ou fora do templo. 
Para Bitencourt (2011), o ato de culto religioso, referido no texto legal, 
são exatamente as cerimônias e práticas religiosas que acabamos de ver 
anteriormente, o que abrange tanto a cerimônia quanto o culto. Os objetos de 
culto religioso são todos aqueles que servem para a celebração desses atos, 
tais como: altar, púlpito, paramentos, turíbulos, crucifixos, imagens etc.
Necessariamente devem estar destinados ao culto. Se estiverem à venda, 
por exemplo, não configura o delito. 
d) Tipo Subjetivo
O tipo subjetivo é o dolo, consubstanciado na vontade consciente de praticar 
uma das condutas descritas no tipo penal. Para Pierangeli (apud CUNHA, p. 243), 
“na primeira e na terceira proposições, apresenta-se, expressamente, um especial 
fim de agir, outrora denominado dolo específico e que a doutrina moderna prefere 
chamar de elemento subjetivo do tipo ou injusto”. 
e) Forma Culposa: Inexiste
Na primeira hipótese, a finalidade é apresentada pela atuação por motivo de 
crença ou função religiosa e assim ofende o sentimento religioso de alguém. Na 
terceira situação, o tipo subjetivo, além do dolo, exige-se um elemento subjetivo, 
que é ofender o sentimento religioso.
97
Crimes Contra o 
Sentimento Religioso e 
Contra o Respeito aos Mortos
 Capítulo 4 
Em sentido contrário, temos Mirabete (2011), para quem somente o dolo já 
basta para caracterizar qualquer forma do crime.
f) Consumação e Tentativa
De acordo com os doutrinadores citados até o momento, na primeira parte 
(escarnecer alguém por motivo de religião), o crime se consuma no instante em 
que o agente zomba publicamente de alguém, por motivo de crença ou função 
religiosa, mesmo que a vítima não se sinta menosprezada ou ridicularizada. 
Na segunda fase (impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto 
religioso), consuma-se no momento em que o agente efetivamente interrompe 
ou atrapalha a realização do culto ou cerimônia. Na terceira etapa (vilipendiar 
publicamente ato ou objeto de culto religioso), consuma-se com o vilipêndio, 
portanto, de acordo com Sanches, pode ser delito material, de mera conduta 
ou mesmo de simples atividade, lecionando ainda que a tentativa, em tese, é 
admitida e possível para todas as figuras, porém somente se admite o escárnio 
quando praticado por escrito.
g) Classificação Jurídica
Trata-se de crime comum (não exige sujeito qualificado por portador de 
alguma condição especial), doloso (não há previsão de forma culposa), formal (na 
modalidade de escarnecer, não exigindo resultado material), material (nas formas 
de impedimento ou perturbação), instantâneo (a execução não se prolonga no 
tempo, produzindo o resultado de imediato). Na figura de impedimento, o crime 
pode ser permanente, de forma livre (pode ser praticado por quaisquer meios 
escolhidos pelo agente) ou unissubjetivo (qualquer das três figuras pode ser 
praticada isoladamente por apenas um agente) (BITENCOURT, p. 450).
h) Ação Penal
A ação Penal é Incondicionada.
i) Aumento de Pena
Segundo Bitencourt (2011, p. 110-111), “o parágrafo único prevê o aumento 
de pena em um terço às três formas típicas, traduzida no emprego de violência. A 
norma não especifica se esta deve ser dirigida contra coisas ou pessoas, motivo 
pelo qual ambas as formas encontram-se abrangidas pela exasperante”.
98
 Direito Penal II - Parte Especial 
Se a conduta violenta caracterizar, além do escárnio, outra infração penal 
(como por exemplo, lesão corporal – art. 129 CP, ou dano – art. 162 do CP), dar-
se-á o cúmulo material obrigatório, já que a lei diz expressamente que o aumento 
ocorrerá “sem prejuízo na pena correspondente à violência”.
Para Greco (2010, p. 443), trata-se neste caso de um bis in idem. Não nos 
parece, contudo, acertada essa visão. Nesta visão, Bitencourt indaga a respeito 
da possibilidade de a violência não configurar crime autônomo e, portanto, não se 
dê o cúmulo material compulsório apregoado pela norma? A resposta é afirmativa, 
posto que a violência utilizada pode constituir somente vias de fato (artigo 21 do 
Decreto-Lei 3.688/41). 
Se assim o é, quando a vis corporalis provocar resultado de maior gravidade 
objetiva ao bem jurídico, como a efetiva lesão corporal, o dano ou o homicídio, 
encontrar-se-á plenamente justificada a imposição cumulativa das penalidades. 
Registrando ainda que, por derradeiro, que não haverá concurso material de 
crimes (artigo 69 do CP) posto que este requer a pluralidade de condutas, algo 
inexistente na hipótese em estudo, mas sim cúmulo material obrigatório.
Para um melhor entendimento, é um grande equívoco a 
afirmação de que a violência de que trata o dispositivo implica 
em concurso material de crimes, pois se ignora a verdadeira 
natureza desse concurso. O fato de determinar-se a aplicação 
cumulativa de penas não significa que se esteja reconhecendo 
o concurso de crimes, mas apenas que se adota o sistema 
de cúmulo material de penas, que é outra coisa, considerando 
que o concurso material não é a soma ou cumulação de 
penas, mas sim a pluralidade de condutas (BITENCOURT, 
2011, p. 451).
Na jurisprudência abaixo, veja como os Tribunais brasileiros têm se 
posicionado em casos reais: 
Quadro 10 – Jurisprudência brasileira
Art. 208
1ª PARTE
Para a configuração do artigo 208, é necessário que o escárnio seja dirigido a de-
terminada pessoa, sendo que a assertiva de que determinadas religiões traduzem 
“possessões demoníacas” ou “espíritos imundos” espelham tão somente posições 
ideológicas, dogmáticas ou crenças religiosas (TACrSP, RJDTACr 23/374).
99
Crimes Contra o 
Sentimento Religioso e 
Contra o Respeito aos Mortos
 Capítulo 4 
2ª PARTE
Foi abusivo o ato do réu que [...] desbordou por escândalo, vociferando em 
público, de maneira a interromper o ato que se realizava no templo repleto de fiéis. 
Desrespeitou a garantia constitucional do livre exercício do culto religioso e sua 
liturgia (TACrSP, APCR 534.549-2). Efetuar disparos de arma de fogo diante da 
capela em que o sacerdote proferia o sermão da missa, perturbando, deste modo, 
o culto, configura o delito do artigo 208 do CP, que exige apenas o dolo eventual 
(TACrSP, RT 419/293). Incide no sermão do artigo 208 do CP aquele que, embria-
gado e de short, ingressa na igreja no momento da celebração da missa, pertur-
bando a cerimônia com palavrões (TACrSP. RT 491/318). Incide no artigo 208 do 
CP, porque, animado, põe evidente dolo, o agente que, agindo com o intuito de 
perturbar o culto religioso, entre outros artifícios, direciona possantes alto-falantes 
para o prédio da igreja e liga os aparelhos em altíssimo volume com músicas car-
navalescas e, em outras oportunidades, faz uso de estampido de bombas juninas, 
tudo para impedir as orações de os cânticos dos fiéis (TACrSP, BNJ 81/13).
3ª PARTE
A propositada derrubada de cruzeiro (cruz de madeira) implantado defronte à 
igreja, com intuito de vilipendiar aquele objeto de culto, enquadra-se nesta figura 
do artigo 208 (TACrSP, julgados 70/280).
Fonte: Os autores.
Impedimento ou Perturbação de 
Cerimônia Funerária
De acordo com o CP:
Art. 209 - Impedir ou perturbar enterro ou 
cerimônia funerária:
Pena - detenção, de um mês a um ano, ou multa.
Parágrafo único - Se há emprego de violência, a 
pena é aumentada de um terço, sem prejuízo da 
correspondente à violência.
a) Considerações Iniciais
Segunda Cunha (2010, p. 244), ao dar suas considerações 
acerca do tipo penal em tela, leciona que “a cultura de respeito aos 
mortos se reporta às mais primitivas formas de vivência em sociedade, 
tendo sido-lhes sempre conferido notável acatamento em virtude, 
Art. 209 - Impedir ou 
perturbar enterro ou 
cerimônia funerária:
Pena - detenção, de 
um mês a um ano, 
ou multa.
Parágrafo único - 
Se há emprego de 
violência, a pena é 
aumentada de um 
terço, sem prejuízo 
da correspondenteà violência.
100
 Direito Penal II - Parte Especial 
até mesmo, da discórdia que cerca a morte”. Obviamente, os cultos prestados 
àqueles já falecidos possuem também e principalmente raízes em ensinamentos 
religiosos de diversas vertentes incutidos nos vivos.
Leciona ainda que a tutela penal atua neste caso em favor do sentimento de 
respeito aos mortos. O respeito aos mortos é um relevante valor ético-social, e 
como tal, um interesse digno, por si mesmo, da tutela penal. 
Para Estefan (2011, p. 112-113), a dignidade da pessoa morta, desta feita, 
pode ser encarada como valor cultural fundamental. 
A dor decorrente da morte de alguém recai diretamente sobre 
seus familiares e pessoas próximas, as quais possuem direitos 
subjetivos de ver realizadas as exéquias do ente falecido e 
promover o seu sepultamento de maneira harmônica após a 
inumação, ostentam os direitos de desejar que a sepultura 
e os restos mortais daquele que deixou de existir não sejam 
objeto de atos que possam ser contrários à dignidade da 
pessoa morta.
Relata ainda o autor que calha a lembrar que a Lei 9.434/97, relativa à 
retirada de tecidos, órgãos ou partes do corpo humano para fins de transplantes e 
outros objetivos terapêuticos, preconiza a necessidade de se respeitar a vontade 
dos familiares quanto à destinação dos restos mortais, incriminando diversos atos 
daí decorrentes, inclusive o fato de deixar de recompor condignamente o cadáver 
ou seus restos para ser entregue aos familiares, visando ao seu sepultamento. 
Reforça este diploma, portanto, o valor acima traçado, consistente no sentimento 
de dignidade à pessoa morta.
b) Leis 9.099/95 e 10.259/2011 (Delmanto)
A exemplo do que já fizera a Lei dos Juizados Especiais Criminais Federais 
(Lei n° 10.259/01), o artigo 61 da Lei dos Juizados Especiais Criminais Estaduais 
(Lei nº 9.099/95), modificado pela Lei n° 11.313/2006, consideram-se infrações 
penais de menor potencial ofensivo as contravenções e os crimes com pena 
máxima não superior a dois anos, cumulada ou não com multa, não fazendo 
restrição ao tipo de procedimento, se comum ou especial, nem ao tipo de ação 
(incondicionada, condicionada ou privada).
c) Sujeitos do Crime
O sujeito ativo é qualquer pessoa, independentemente de qualidade ou 
condição especial. Toda pessoa natural dotada de capacidade de entender e 
querer pode figurar-se como sujeito ativo dessa infração penal. 
101
Crimes Contra o 
Sentimento Religioso e 
Contra o Respeito aos Mortos
 Capítulo 4 
Já o sujeito passivo é o corpo social, os titulares do valor tutelado na norma 
penal, são os familiares do falecido e seus amigos, ou seja, aqueles que, com 
a cerimônia, buscam prestar-lhe homenagem. Bitencourt (2011, p. 545) leciona 
ainda que a “impossibilidade de o cadáver figurar no pólo passivo reside em sua 
natureza de rés, sendo insuscetível, portanto, de dispor de algum direito, uma vez 
que é objeto e não sujeito”.
d) Tipo Objetivo
As condutas nucleares são impedir e perturbar.
Impedir significa obstar a execução ou o prosseguimento do enterro ou da 
cerimônia funerária, embaraçar-lhe de modo que não se iniciem ou prossigam 
os atos. Já a conduta de perturbar significa tumultuar, desarranjar, quebrar a 
regularidade, ou seja, significa evitar que comece ou paralisar a cerimônia em 
andamento.
A conduta impeditiva ou perturbadora deve dirigir-se, necessariamente, 
contra enterro ou cerimônia fúnebre, sendo irrelevante o local onde se realizem 
(BITENCOURT, 2011).
Estefam (2011, p. 114) leciona que o 
delito é onímodo, isto é, pode ser praticado de qualquer 
meio executório (crimes de forma ou ação livre). Podem 
ser lembrados neste diapasão, os seguintes exemplos: 
violência, vias de fato, ameaças, altos brados, vaias, vozes 
propositalmente dissonantes com as rezas [...], ruídos de 
matracas, bater de pés, disparos de tiro, explosões, emissão 
de gases tóxicos ou fumaças incomodativas, colocação de 
obstáculos à entrada do templo ou do cemitério...
Segundo a doutrina majoritária, enterro é o transporte do corpo do falecido 
até o local de sepultamento ou de cremação, é a transladação do cadáver para 
sua última morada, com ou sem acompanhamento, no entanto Estefam (2011) 
entende que o enterro nada mais é que a inumação, ou seja, a colocação do 
corpo de baixo da terra. Já a cerimônia funerária é o ato religioso ou civil de 
encomendação de despedida que se realiza em homenagem ao defunto. 
Leciona Estefam (2011) que a cerimônia religiosa é o gênero, do qual o 
enterro corresponde é uma de suas espécies. Aquela significa a solenidade 
prestada em homenagem à pessoa falecida; como já dito, são as pompas 
fúnebres, que podem se traduzir no sepultamento, seguindo ou não da inumação 
do cadáver; a cremação, o velório etc.
102
 Direito Penal II - Parte Especial 
e) Tipo Subjetivo
É o dolo. Embora a maioria, ante a ausência de previsão legal, não exija 
do agente qualquer finalidade (bastando que, de forma consciente, queira ou 
assuma o risco de perturbar ou impedir enterro ou cerimônia fúnebre), Noronha 
(1994, p 81) pensa diferente: “Não existe o crime sem dolo genérico. A respeito do 
específico, reina divergência”. 
Crê-se, entretanto, que é mister esse outro dolo, que é o fim ou o escopo de 
transgredir ou violar o sentimento de piedade para os que não mais vivem. É o 
que especifica o crime. Se por exemplo um parente do morto, indignado com a 
empresa funerária pela má qualidade do esquife enviado, o danifica ou destrói, 
não cremos haver praticado o delito em apreço, pois o objetivo da pessoa é 
justamente protestar contra o que se reputa falta de consideração ou deferência 
para o ente querido. A jurisprudência tem decidido que basta o dolo eventual, a 
consciência de que perturba, com sua conduta, a cerimônia funerária (TACrSP, 
RT 410/313). 
f) Forma culposa
Inexiste. Pois somente há previsão legal para a forma dolosa.
g) Consumação e Tentativa
O crime só se configura com o efetivo impedimento ou perturbação do 
enterro ou da cerimônia fúnebre. Admite-se a tentativa nas hipóteses em que o 
agente, embora empregando os meios inidôneos à prática do crime, não alcança 
seu intento por circunstâncias alheias à sua vontade.
h) Classificação Jurídica
Segundo os ensinamentos de Estefam (2011, p. 116), trata-se de crime
de forma ou ação livre (admite qualquer meio executório 
e, por isso, chama-se crime onímodo), comum (qualquer 
pessoa pode praticá-lo), monos-subjetivo ou de concurso 
eventual (pode ser praticado por uma pessoa ou por várias), 
plurrisubsistente (seu iter criminis comporta cisão em dois 
ou mais atos executivos), material (depende do resultado 
naturalístico para efeito e consumação, instantâneo (na 
modalidade “interromper”), ou permanente (na conduta 
“perturbar”, prolongando-se a fase consumativa enquanto o 
embaraço persistir). 
103
Crimes Contra o 
Sentimento Religioso e 
Contra o Respeito aos Mortos
 Capítulo 4 
Mirabete (2011, p. 374) entende que pode ocorrer o delito “por omissão”, 
como no caso de não se fornecer o esquife, a viatura para transporte e as chaves 
do túmulo por exemplo.
i) Ação Penal
Incondicionada. O Ministério Público fará a denúncia, independente da 
vontade da vítima, basta a simples comunicação do fato criminoso.
j) Aumento de Pena
Bitencourt (2011, p. 455) ensina que “não há forma qualificada com novos 
limites mínimo e máximo, mas somente uma majorante especial, isso é, quando 
praticado mediante violência, nesse sentido, o delito neste parâmetro é idêntico 
ao artigo 208 do diploma estudado”.
k) Confronto
Se houver o retardamento na entrega aos familiares ou interessados de 
cadáver, objeto de remoção de órgãos para transplante, não se caracteriza o delito 
em tela, mas sim o preceituado no artigo 19, segunda parte, da Lei nº 9.434/97.
Violação de Sepultura
De acordo com o CP:
Art. 210 - Violar ou profanar sepultura ou urna 
funerária:
Pena - reclusão, de um a três anos,e multa.
a) Considerações Iniciais
Na antiguidade, os romanos consideravam os mortos como 
deuses, tanto é que primeiramente a violação tumular era abrangida pelos crimes 
privados, somente no final do império é que passou a ser objeto de ação pública, 
apesar de ser punida com sanção pecuniária (BITENCOURT 2011). 
No direito canônico, os túmulos eram considerados coisa sagrada, e seus 
De acordo com o 
CP:
 
Art. 210 - Violar ou 
profanar sepultura 
ou urna funerária:
 
Pena - reclusão, de 
um a três anos, 
e multa.
104
 Direito Penal II - Parte Especial 
profanadores eram punidos como autores de quase sacrilégio, sujeitos a pena de 
excomunhão. Posteriormente, eram entregues ao chamado “braço secular”, para 
lhes serem aplicadas outras sanções.
“O Direito Canônico poderia ser conceituado como o conjunto 
de leis propostas, elaboradas ou canonizadas pela Igreja, 
numa determinada época[Cf. Raoul NAZ et alii. Traité de Droit 
Canonique. Paris, Letouzey et Ané, 1954, p. 14]. Ou, numa definição 
mais completa: conjunto de normas jurídicas, de origem divina 
ou humana, reconhecidas ou promulgadas pela autoridade 
competente da Igreja Católica, que determinam a organização e 
atuação da própria Igreja e de seus fiéis, em relação aos fins que 
lhe são próprios [cf. Rafael LLANO CIFUENTES. Curso de Direito 
Canônico. São Paulo, Saraiva, 1971, p. 10.]. 
Fonte: disponível em: <www.infosbc.org.br/.../index.php?...
id...direito-canonico>. Acesso em: 10 jan. 2012.
A criminalização das condutas de violar ou profanar urna funerária ou sepultura 
veio a ocorrer em nosso ordenamento jurídico com o surgimento do Código Penal 
de 1940, uma vez que as próprias Ordenações do Reino e o Código Criminal do 
Império (1830) não se preocuparam com essa infração penal. O Código Penal de 
1890, por sua vez, tratou dessa infração como sendo contravenção.
O valor protegido é o respeito aos mortos.
b) Transação Penal
Tendo em vista que, a exemplo do que já fizera a Lei dos Juizados Especiais 
Criminais Federais (Lei n° 10.259/01), o artigo 61 da Lei dos Juizados Especiais 
Criminais Estaduais (Lei nº 9.099/95), modificado pela Lei n° 11.313/2006, 
considera-se infrações penais de menor potencial ofensivo as contravenções e os 
crimes com pena máxima não superior a dois anos, assim, aquele que pratica o 
delito in casu não fará jus ao benefício da transação penal.
c) Sujeitos do Crime
O sujeito ativo é qualquer pessoa, independentemente de qualidade ou 
105
Crimes Contra o 
Sentimento Religioso e 
Contra o Respeito aos Mortos
 Capítulo 4 
condição especial. Toda pessoa natural dotada de capacidade de entender e 
querer pode figurar-se como sujeito ativo dessa infração penal. 
Já o sujeito passivo, primeiramente, é o corpo social, a coletividade; entende-
se, portanto, os titulares do valor tutelado na norma penal, e secundariamente os 
familiares ou mesmo os amigos do extinto.
d) Tipo Objetivo
Segundo Sanches (2010), as ações típicas previstas são a de violar (abrir, 
quebrar, devassar) ou profanar (ofender, ultrajar, desrespeitar), sepultura (local 
onde se enterram os cadáveres) ou urna funerária (reservatório destinado 
ao depósito de cinzas ou parte do defunto). Nesse sentido, inspirados nos 
ensinamentos de Mirabete (2011, p. 397), “citam-se como exemplos remover 
pedras, danificar ornamentos, colocar objetos grosseiros, escrever palavras 
injuriosas etc”. Tem-se decidido pela ocorrência do ilícito na alteração chocante, 
de aviltamento, de grosseira irrelevância (RT 476/339), na derrubada da cruz ou 
enfeite religioso (RT 238/621), no derrubamento de bebida alcoólica sobre os 
símbolos funerários (RT 238/621) etc.
A subtração de objetos colocados sobre a sepultura configura 
qual crime? 
 A jurisprudência é divergente. Para uns, haverá delito de furto, 
art. 155 do CP (RT 598/313); para outros, os crimes dos artigos 210 
ou 211, conforme o caso (RT 608/305). Veremos o entendimento 
jurisprudencial mais adiante.
Para Damásio de Jesus (2002, p. 78), “a sepultura vazia ou o monumento 
erigido à memória de alguém, que não contenham sequer parte de um cadáver, 
não constituem objeto material do delito”. No mesmo sentido é a lição de Luiz 
Regis Prado e de Cesar Roberto Bitencourt.
e) Tipo Subjetivo
Segundo Bitencourt (2011) e Estefam (2009), a violação de sepultura é 
punível a título de dolo. No entanto Cunha (2010, p. 246) leciona que há três 
correntes doutrinárias, assim descritas: 
106
 Direito Penal II - Parte Especial 
a) exige-se finalidade especial por parte do agente. Vez que no 
ato de violação ou profanação, é imprescindível o sentimento 
de desrespeito (HUNGRIA, op cit. v 8, p 75); b) somente a 
modalidade profanar deve ser acompanhada do elemento 
subjetivo especial do injusto, tendo em vista não ocorrer esse 
ato sem o propósito de vilipendiar ou desprezar (FRAGOSO, 
Lições de Direito Penal, v 2,p. 485) e, c) o propósito do agente 
é irrelevante, tendo em vista que o respeito aos mortos é 
inerente ao ser humano e, ao praticar uma das condutas 
previstas, sabe que age em desrespeito a esse sentimento, o 
que se afigura bastante (MIRABETE, manual de Direito Penal, 
v.2, p. 397/398).
f) Forma Culposa 
Inexiste. Pois o crime necessita de dolo para existir, ou seja, vontade 
consciente de querer violar a sepultura. 
g) Consumação e Tentativa
Consuma-se o delito com a violação ou a prática de qualquer ato de 
profanação de sepultura ou urna funerária. A tentativa é admissível, no entanto, 
bem colocado por Sanches (apud PRADO, 2010, p. 227), na modalidade tentada 
há duas exceções: “na hipótese de violação, pois sua tentativa já constitui 
profanação consumada; e quando houver ultraje por palavras orais ao público”. 
Por outro lado, Estefam (2009, p. 120) acredita que a mera e simples violação 
pode, em tese, configurar tentativa. Assim, expõe um exemplo: “Uma pessoa pode 
ser surpreendida pelo zelador do cemitério prestes a conspurcar a lápide de um 
túmulo, não consumando por isso seu intento”.
h) Classificação Jurídica
O delito sob exame pode ser definido como crime de forma livre ou onímodo 
(comporta qualquer modo de execução), comum (não se exige qualquer 
condição especial do sujeito ativo), monossubjetivo ou de concurso eventual 
(pode ser praticado por uma pessoa ou por várias em comunhão de desígnios), 
plurissubsistente (seu iter criminis permite fracionamento em dois ou mais 
atos executórios,), material (depende do resultado naturalístico para efeito de 
consumação), e instantâneo (ESTEFAM 2009).
i) Ação Penal
Incondicionada. O Ministério Público fará a denúncia, independente da 
vontade da vítima, basta a simples comunicação do fato criminoso.
107
Crimes Contra o 
Sentimento Religioso e 
Contra o Respeito aos Mortos
 Capítulo 4 
j) Excludentes de Ilicitude
A criminalização da conduta requer, além da correspondência do fato à norma 
penal (tipicidade formal) a da ofensa ao valor protegido (tipicidade material), que o 
ato não se encontre acobertado por alguma excludente de ilicitude. 
O Código Penal trata delas no artigo 23, enumerando as seguintes: estado de 
necessidade, legítima defesa, exercício regular de direito e o estrito cumprimento 
do dever legal. Tendo em conta tais causas de justificação, pode-se pensar em 
algumas situações que, apesar de se amoldarem ao tipo, não terão caráter 
criminoso. É o que se daria, por exemplo, se alguém violasse sepultura depois de 
verificar que o indivíduo enterrado está vivo. Neste caso seu pretenso agiria em 
legítima defesa de terceiro.
O Código de Processo Penal autoriza a exumação de cadáver quando 
necessário à prova do crime (Art. 163). A autoridade policial que efetuá-la 
encontrar-se-á no estrito cumprimento do dever legal (ESTEFAM, 2009).
Por outro lado, o ato de inumar ou exumar cadáver, com infração das 
disposições legais, não pode ser considerado como excludente, mas sim como 
contravenção penal, pois seus atos devem serpunidos mediante prisão simples 
de um mês a um ano, ou multa (art. 67 do Decreto-Lei n° 3.688/41).
k) Concurso de Crimes
A violação de sepultura pode ser praticada como meio executório de outros 
crimes, quando o agente busca subtrair para si ou para outrem parte do cadáver, 
próteses dentárias ou placas de bronze que normalmente ornamentam sepulcros. 
Discute-se, em tal situação, qual a infração penal a ser imputada ao sujeito.
Bitencourt (2009) e Hungria (1981) sustentam haver concurso material 
de crimes. O Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo já entendeu pela 
subsistência do crime do artigo 210 do CO, não respondendo o autor pelo furto, 
ainda que sua intenção fosse a subtração da coroa dentária do cadáver (RT 
608/305). 
A solução para a quaestio, segundo o autor, deve ser pautada pela análise da 
finalidade a que se dirige a conduta, ou seja, pelo elemento subjetivo do injusto. 
Quando alguma pessoa viola o local em que se encontram os restos mortais 
de alguém, visando ao apoderamento destes, atua animus rem sibi habendi e, 
portanto, não deve responder pelo crime do artigo 210, mas por subtração de 
cadáver (art. 211) ou furto (art. 155), conforme a natureza do objeto material (por 
108
 Direito Penal II - Parte Especial 
exemplo: se a res for o cadáver ou parte deste, dar-se-á o crime do artigo 211, se 
for algo que ornamenta a sepultura, como uma placa de bronze, ou restos mortais 
que não mais guardem conexão simbólica com a pessoa falecida, haverá furto).
Ainda é de rigor registrar a posição de Guilherme Nucci (2011) que, na 
hipótese de ocorrer a violação com a finalidade de furtar, a tipificação dependerá 
do resultado material, ou seja, se houve violação, mas não se consumou a 
subtração, responde o agente pelo crime do art. 210; se ocorrer a violação e o 
furto consumou-se, subsiste apenas o crime patrimonial.
Cunha (2009) ainda leciona que se o agente violar a sepultura no intuito de 
subtrair objetos enterrados junto ao cadáver, o delito em análise será absorvido, 
por se tratar de crime meio (RT 598/313). Note-se que outro ato de desrespeito 
ao morto não será absorvido, nem mesmo a profanação, que não se trata de 
meio necessário ao alcance do fim pelo agente. Nesse caso, o autor é a favor do 
concurso material. Ensina ainda que podem ocorrer outras formas de concurso de 
crimes, como por: A calúnia contra os mortos: se o ato de profanação se traduzir 
em calúnia contra o extinto, haverá concurso formal de delitos.
Atividade de Estudos: 
1) A retirada de dentes do cadáver configura o delito do art. 211 do 
CP? 
 ____________________________________________________
 ____________________________________________________
 ____________________________________________________
 ____________________________________________________
 ____________________________________________________
 ____________________________________________________
Destruição, Subtração ou 
Ocultação de Cadáver
De acordo com CP:
Art. 211 - Destruir, subtrair ou ocultar cadáver ou parte dele:
Pena - reclusão, de um a três anos, e multa.
De acordo com CP:
Art. 211 - Destruir, 
subtrair ou ocultar 
cadáver ou parte 
dele:
Pena - reclusão, de 
um a três anos, 
e multa.
109
Crimes Contra o 
Sentimento Religioso e 
Contra o Respeito aos Mortos
 Capítulo 4 
a) Considerações Iniciais
A preocupação e o respeito para com os mortos são sentimentos que as 
civilizações têm demonstrado ao longo da história da humanidade, desde a 
antiguidade. Os Códigos criminais brasileiros do século XX (1830 e 1890) não se 
preocuparam com esse crime.
A criminalização das condutas de destruir, subtrair ou ocultar cadáver 
somente veio a ocorrer em nosso ordenamento jurídico com o advento do Código 
Penal de 1940, já que as próprias Ordenações do Reino, que vigoraram por longo 
tempo no Brasil - Colônia tampouco se preocuparam com essa infração penal 
(BITENCOURT, 2011).
O valor protegido é o respeito aos mortos.
b) Transação Penal
Tendo em vista que, a exemplo do que já fizera a Lei dos Juizados Especiais 
Criminais Federais (Lei n° 10.259/01), o artigo 61 da Lei dos Juizados Especiais 
Criminais Estaduais (Lei nº 9.099/95), modificado pela Lei n° 11.313/2006, 
consideram-se infrações penais de menor potencial ofensivo as contravenções e 
os crimes com pena máxima não superior a dois anos, assim, aquele que pratica 
o delito in casu não fará jus ao benefício da transação penal.
c) Sujeitos do Crime
 O sujeito ativo é qualquer pessoa, independentemente de qualidade ou 
condição especial. Toda pessoa natural dotada de capacidade de entender e 
querer pode figurar-se como sujeito ativo dessa infração penal. 
Já o sujeito passivo, primeiramente, é o corpo social, a coletividade; entende-
se, portanto, os titulares do valor tutelado na norma penal, e secundariamente os 
familiares e os amigos do extinto.
d) Tipo Objetivo
Segundo Cunha (2009), as ações típicas previstas são: destruir (desfazer, 
desmanchar, destroçar), subtrair (apoderar-se) e ocultar (esconder, dissimular) 
cadáver ou parte dele.
110
 Direito Penal II - Parte Especial 
Para Mirabete (2010), o objeto material do crime em exame é o cadáver, 
corpo que ainda conserva a aparência humana, e não os restos em completa 
decomposição. Não abrange o conceito de cadáver o esqueleto e suas cinzas. 
Essa é a opinião mais aceitável, já que apenas no art. 212 a lei se refere a estas. 
Também não é cadáver a múmia, podendo sua subtração ser caracterizada como 
furto. A destruição a que se refere o art. 211 não é apenas de todo cadáver, senão 
parte dele. As partes do cadáver não se confundem com as partes amputadas do 
corpo vivo, que não estão protegidas pelo dispositivo.
Discute-se a respeito do feto e do natimorto. Segundo o autor (MIRABETE, 
2010) há três posições: a) só é cadáver aquele que teve vida extrauterina; b) é 
cadáver o natimorto expulso no termo da gravidez e, c) é cadáver o feto de mais 
de seis meses, por ser viável, nos termos do art. 1.597, inciso I do CC. Optamos 
pela segunda orientação; só o natimorto, não o feto, é cadáver. Para Estefam 
(2011), o natimorto e o feto, quando já suficientemente formados e aptos para a 
expulsão, ainda que prematura, são considerados cadáveres. 
Bitencourt (2011, p. 464) ensina que: para uma corrente, o natimorto e o feto 
não são cadáveres por lhes faltar o elemento essencial para caracterizá-los como 
tais: vida extrauterina autônoma. Para essa concepção, portanto, cadáver refere-
se aos 
restos exânimes de alguém que tenha vivido; para a segunda, 
em sentido contrário, é abrangido pela noção de cadáver 
não apenas o natimorto como também o feto de mais de 
seis meses, que considera desnecessária vida extrauterina 
autônoma; finalmente, para a terceira concepção, somente o 
natimorto pode ser cadáver, por considerar que o natimorto 
inspira o mesmo sentimento de respeito se coisa sagrada, 
sendo tratado na vida social como defunto, o que não ocorre 
com o feto (BITENCOURT, 2011, p. 464).
Cadáver, para Estefam (2011, p. 122), “é o corpo sem vida de um ser 
humano, enquanto represente a pessoa que se foi, isto é, antes de sua 
decomposição total”. Assim, o esqueleto não é considerado cadáver, devido 
faltar-lhe o aspecto fundamental de representação corpórea. No entanto, para 
Cunha (2010, p. 247), “os corpos depois de autopsiados ou que servem para 
estudos anatômicos devem ser considerados cadáveres”. Já as partes do 
cadáver “são aspectos inerentes à manifestação corpórea da pessoa, sejam 
estas naturalmente vinculadas ao corpo o a estes artificialmente conectadas, 
mas que somente se possam dele retirar mediante emprego de violência ou com 
prejuízo de sua integridade, como próteses”.
e) Tipo Subjetivo
111
Crimes Contra o 
Sentimento Religioso e 
Contra o Respeito aos Mortos
 Capítulo 4 
A destruição, subtração ou ocultação de cadáver ou parte dele é crime 
doloso, o qual requer, como de ordinário, a consciênciae a vontade de realizar os 
elementos descritos do tipo penal. Não há qualquer elemento subjetivo específico, 
motivo pelo qual pouco importa o plano que o agente pretendia concretizar 
(vingança, obtenção de proveito econômico, impunidade por delitos anteriormente 
cometidos etc.).
A presença de alguma finalidade específica poderá, no entanto, ter relevância 
como circunstância do tipo. O médico, por exemplo, que oculta o cadáver do feto 
maduro cuja vida ceifou dolosamente, age para garantir a ocultação ou impunidade 
do aborto praticado e, portanto, deverá sofrer a incidência da agravante genérica 
prevista no art. 61, inciso II, alínea b do CP.
f) Forma culposa
Inexiste. Necessário o dolo de querer ocultar o cadáver.
g) Consumação e Tentativa
Consuma-se o crime do art. 211 com a destruição do cadáver, não é 
necessário que haja destruição total, pois o próprio tipo penal se satisfaz com 
“parte dele”; com a subtração, isto é, a retirada do corpo da esfera de vigilância 
ou proteção de quem de direito, ou com sua ocultação, ou seja, fazendo-o 
desaparecer, mesmo que temporariamente. 
É perfeitamente admissível a forma tentada, bastando que a consumação 
não ocorra por circunstâncias alheias à vontade do agente. Mirabete (2010, p. 
378) indica que “pode ainda ser reconhecida a tentativa, por exemplo, no caso 
em que fora adquirida a mala onde seria ocultado o cadáver já de dois dias e 
aberta a vala onde seria enterrado no quintal da residência do agente e no caso 
de queimaduras no corpo, substituindo, porém o cadáver como tal”.
h) Classificação Jurídica
Trata-se de crime doloso, de ação múltipla ou conteúdo varado (uma vez que 
a norma penal contém diversos verbos nucleares, alternativamente capazes de 
caracterizar o crime), comum (qualquer pessoa pode figurar como sujeito ativo), 
monossubjetivo ou de concurso eventual (pode ser cometido por uma pessoa 
ou várias em concurso), plurissubsistente (o comportamento criminoso pode ser 
cindido em mais de um ato), instantâneo (salvo na modalidade “ocultar”, em que 
112
 Direito Penal II - Parte Especial 
a fase consumativa se prolonga no tempo) e material (sua consumação requer a 
produção de resultado naturalístico) (ESTEFAM, 2011).
i) Ação Penal
Incondicionada. O Ministério Público fará a denúncia, independente da 
vontade da vítima, basta a simples comunicação do fato criminoso.
j) Distinção
Não há o crime em apreço no simples fato de enterrar um cadáver com 
desrespeito às disposições legais relativas ao assunto, caracterizando-se apenas 
contravenção penal (art. 67 do Decreto-Lei 3.688/41). Não se configura também 
o delito de ocultação de cadáver quando a vítima é enterrada ainda viva. Trata-se 
no caso de homicídio qualificado pela circunstância de asfixia por soterramento 
(MIRABETE, 2010).
Revogando a Lei 8.489/92, a Lei 9.434/97, que passou a regular a 
remoção de órgãos, tecidos e partes do corpo humano para fins de transplante 
e tratamento, prevê vários crimes: comprar ou vender tecidos, órgãos ou partes 
do corpo humano (art. 15); realizar transplante ou enxerto utilizando tecidos, 
órgãos ou partes do corpo humano de que tem ciência terem sido obtidos em 
desacordo com os dispositivos da citada lei (art. 16); recolher, transportar, guardar 
ou distribuir partes do corpo humano de que tem ciência terem sido obtidos em 
desacordo com os dispositivos da citada lei (art. 17); realizar transplante ou 
enxerto em desacordo com o dispositivo no art. 10 da lei e seu parágrafo único 
(art. 18); deixar de recompor cadáver, devolvendo-lhe aspecto condigno, para 
sepultamento, ou deixar de entregar ou retardar a sua entrega aos familiares ou 
interessados (art. 19) (MIRABETE, 2010).
k) Concurso de Crimes
A ocultação de cadáver para esconder crime anterior (homicídio, infanticídio 
etc.) configura concurso material de delitos. Pode ocorrer, ainda, concurso material 
com o delito de violação de sepultura e concurso formal com o de vilipêndio a 
cadáver (art. 212). Já se decidiu, porém, pela possibilidade de absorção do crime 
de vilipêndio a cadáver pelo de ocultação de cadáver se o propósito do agente foi 
o de tornar mais fácil a remoção e ocultação dos restos da vítima.
113
Crimes Contra o 
Sentimento Religioso e 
Contra o Respeito aos Mortos
 Capítulo 4 
l) Jurisprudência
• Feto: O feto que não atingiu maturidade para ser expulso a termo não pode 
ser considerado cadáver (TJMS, RT 624/355; contra, tendo o feto dois meses: 
TJSP, RJTJSP 118/516, ou nove meses: TJSP, mv – RJTJSP 164/290). 
Configura-se o crime se o feto teve vida extrauterina (TJSP, RT 478/308, 
463/339). O natimorto, expulso a termo, é cadáver (TJSP, RJTJSP 72/352).
• Cadáver com Aparência Humana: Para fins deste art. 211, os restos 
humanos em estado quase completo de esqueletização não são considerados 
cadáveres (TJSP, RT 479/304).
• Desclassificação: Em caso de natimorto enterrado escondido em capela, 
entendeu-se que configuraria a contravenção penal do art. 67 da LCP (TJSP, 
RT 468/313).
• Abandono de Cadáver: Configura o crime do art. 211 o abandono, em terreno 
baldio, de vítima que morreu enquanto o motorista a socorria (TJSP, RJTJSP 
91/439). Não configura se, por falta de recursos, deixa o cadáver em frente à 
residência, para que outrem o encontre e promova o sepultamento (TJRJ, mv 
– RT 533/387). Caracteriza-se o delito do art. 211 se o agente, após a prática 
de latrocínio, coloca o corpo da vítima no porta-malas de veículo e o despeja 
em local ermo para que não seja encontrado (TJPR, RT 809/672).
• Destruição: Configura-se, mesmo que seja só parte do cadáver (TJSP, RT 
526/350).
• Absorção do crime de Vilipêndio a Cadáver: por força do princípio da 
consumação, deve ser absorvida a figura delitiva prevista no art. 212 do CP 
por aquela descrita no art. 211 do mesmo estatuto, se o vilipêndio ao cadáver, 
mediante mutilação do corpo da vítima, teve o propósito inequívoco de tornar 
mais fácil a remoção e ocultação dos restos da ofendida (TJSP, RT 835/556).
• Agravante: Condenada a ré por aborto e ocultação de cadáver, não se deve 
ser reconhecida a agravante do art. 61 II, b, por ser elemento constitutivo do 
art. 211. (TJSP, RJTJSP 118/517).
• Tentativa: Se apesar de o agente tentar queimar o cadáver, este subsistiu 
como tal, desclassifica-se para a forma tentada (TJPR, RT 606/361).
• Subtração: Comete o crime do art. 211 o agente funerário que subtrai os 
corpos das vítimas e pede remuneração das famílias para devolvê-los; é 
infração que se consuma com a simples subtração, sem dependência do fim 
pretendido pelo autor (TJSP, RT 522/324).
114
 Direito Penal II - Parte Especial 
• Ocultação: Retirar o cadáver do local onde deveria permanecer e conduzi-lo 
para outro em que não será normalmente reconhecido, configura, em tese, 
crime de ocultação, trata-se de crime permanente que subsiste até o cadáver 
ser descoberto, pois ocultar é esconder e não simplesmente remover (STF, 
mv – RT 784/530). Contra: remover ou afastar o cadáver do lugar em que 
ele estava não equivale à ocultação do art. 211 (TJSP, RJTJSP 102/424). 
Não se tipifica se o agente, imediatamente após haver escondido o cadáver, 
comunica o fato à autoridade, pois não procurou manter a ocultação, o que 
releva ausência de dolo (TJMT, RT 552/361). Na modalidade de ocultação, o 
art. 211 seria crime permanente, até o momento em que é descoberto (TJSP, 
RJTJSP 98/531).
• Crime Continuado: Configuradas a homogeneidade temporal, espacial e 
modal, e até mesmo a unidade de desígnios, se os agentes matam três vítimas 
e ocultam seus cadáveres, é possível o reconhecimento da continuidade 
delitiva tanto no que se refere ao crime de homicídio quanto ao de ocultação 
(TJPSP, RT 765/576).
• Competência: Afastada a incidência do crime de aborto de competência do 
tribunal do júri, deixa de existir conexão, devendo ao delito de ocultação de 
cadáver ser aplicado, em primeira instância, o disposto no art. 410 do CPP 
(TJSC, mv– RT 810/702).
Vilipêndio a Cadáver
De acordo com o CP:
Art. 212 - Vilipendiar cadáver ou suas cinzas:
Pena - detenção, de um a três anos, e multa.
a) Considerações Iniciais
 
O bem jurídico protegido também é o respeito aos mortos.
A criminalização das condutas de destruir, subtrair ou ocultar cadáver 
somente veio a ocorrer em nosso ordenamento jurídico com o advento do 
Código Penal de 1940. As Ordenações do reino e o código criminal de 1830 não 
disciplinaram o crime de vilipêndio a cadáver. O Código penal de 1890, por sua 
vez, como pioneiro em nosso sistema jurídico, tipificou infração penal semelhante, 
porém como mera contravenção penal.
De acordo com o 
CP:
Art. 212 - 
Vilipendiar cadáver 
ou suas cinzas:
Pena - detenção, 
de um a três anos, 
e multa.
115
Crimes Contra o 
Sentimento Religioso e 
Contra o Respeito aos Mortos
 Capítulo 4 
b) Leis nº 9.099/95 e nº 10.259/2011
A exemplo do que já fizera a Lei dos Juizados Especiais Criminais Federais 
(Lei n° 10.259/01), o artigo 61 da Lei dos Juizados Especiais Criminais Estaduais 
(Lei nº 9.099/95), modificado pela Lei n° 11.313/2006, consideram-se infrações 
penais de menor potencial ofensivo as contravenções e os crimes com pena 
máxima não superior a dois anos, cumulada ou não com multa, não fazendo 
restrição ao tipo de procedimento, se comum ou especial, nem ao tipo de ação 
(incondicionada, condicionada ou privada). Assim sendo, aquele que pratica o 
delito em tela, não fará jus ao benefício da transação penal.
c) Sujeitos do Crime
O sujeito ativo é qualquer pessoa, independentemente de qualidade ou 
condição especial. “Toda pessoa natural dotada de capacidade de entender e 
querer pode figurar-se como sujeito ativo dessa infração penal, inclusive familiares 
do morto e amigos, ou também o próprio coveiro” (CUNHA, 2010, p. 248).
Para Bitencourt (2011), a exemplo dos crimes anteriores deste capítulo, o 
sujeito passivo é a família e amigos do morto, e só mediatamente a coletividade. 
Nesse particular, discorda-se da maioria da doutrina quando sustenta que o sujeito 
passivo mediato é a coletividade. 
Na realidade, a definição de quem pode ser sujeito passivo desse crime deve 
estar intimamente vinculada ao bem jurídico tutelado e, na medida em que se 
admite que esse bem jurídico é “o sentimento dos parentes e amigos do morto 
e não o próprio de cujus”, o sujeito passivo direto só podem ser os parentes e 
amigos, restando a coletividade, secundariamente, como titular passivo. Por mais 
que se queira argumentar, nenhuma coletividade, por mais harmônica, integrada 
e coesa que seja, sentirá mais perda de um de seus membros que os próprios 
familiares, não sendo, portanto, justo nem sensato que aquela e não estes sejam 
sujeito passivo deste crime (BITENCOURT, 2011).
d) Tipo Objetivo
A conduta típica é vilipendiar, que significa tratar com desprezo, ultrajar, 
aviltar, rebaixar o cadáver ou suas cinzas. Além do cadáver, cujo conceito foi 
descrito nos delitos anteriores, protege a lei suas cinzas. Estas são os resíduos da 
combustão ou cremação do corpo (autorizada, casual ou criminosa).
Segundo leciona Cunha (2010), “o delito do art. 2121 é de livre execução, 
116
 Direito Penal II - Parte Especial 
podendo ser praticado pelo escarro, pela conspurcação, desnudamento, colocação 
do cadáver em posições grosseiras ou irreverentes, pela aposição de máscaras 
ou de símbolos burlescos e até mesmo por meio de palavras; pratica o vilipêndio 
quem desveste o cadáver, corta-lhe um membro com propósito ultrajante, derrama 
líquidos imundos sobre ele ou suas cinzas (RT 493/362).
Luiz Régis Prado (2010, p. 243), ao discorrer sobre o objeto material do delito 
(cadáver ou suas cinzas), faz o seguinte apontamento: 
Quanto ao objeto material desse dispositivo, é muito 
importante esclarecer que tanto pode ser cadáver (corpo 
humano inanimado, inclusive o natimorto), as partes deste 
ou suas cinzas. Leciona que embora o legislador não tenha 
expressamente incluído o termo “parte dele” como o fez 
o legislador de 1969 [no código Penal que não chegou a 
vigorar], é perfeitamente possível que aquelas sejam objeto de 
proteção desse dispositivo, com base no argumento a minori 
ad maius. Ora, não seria lógico salientar que constitui crime 
escarrar sobre as cinzas de um cadáver, enquanto o mesmo 
ato praticado sobre um membro de uma pessoa falecida 
constitua conduta atípica.
Noronha (1994, p. 88-89) nos ensina que “deve-se entender que, neste delito, 
igualmente, podem ser objetos do delito os esqueletos, pois se a lei menciona 
tanto o cadáver, quanto suas cinzas, ou seja, os extremos, não há motivo para se 
desconsiderar que se encontra entre essas duas situações”.
Note-se que, se as palavras proferidas imputarem ao morto, falsamente, fato 
definido como crime, haverá concurso formal entre o delito em estudo e o previsto 
no artigo 138, § 2º, do CP.
e) Tipo Subjetivo
É o dolo. Há um elemento ínsito na compreensão da conduta nuclear, 
consistente na intenção de aviltar a memória do falecido (pouco importa, todavia, o 
opróbrio motivador do vilipêndio, ou seja, a razão pela qual a ofensa foi praticada: 
vingança, fim de obtenção de lucro, satisfação da lascívia...). 
No mesmo sentido, Bitencourt (2011, p. 468) leciona que “o elemento 
subjetivo especial do tipo é constituído pelo fim especial de aviltar, de ultrajar, de 
vilipendiar; entendendo que a configuração do delito é indispensável à presença 
do elemento moral, do fim específico”, consistente no desejo consciente de 
desprezar o corpo sem vida da vítima, com intenção clara de ultrajá-lo.
117
Crimes Contra o 
Sentimento Religioso e 
Contra o Respeito aos Mortos
 Capítulo 4 
Assim, por exemplo, o agente que, depois de atirar na vítima, ausenta-
se do local dos fatos, retornando logo depois e, com o pé, empurra a vítima, 
supostamente falecida, para conferir se realmente está morta, não pratica o crime 
de vilipêndio, por faltar o elemento subjetivo especial, que é a vontade consciente 
dirigida à prática da ação, com o objetivo de profanar o cadáver.
f) Forma culposa
Inexiste. Somente se configura a ação criminosa se tiver prova do dolo, ou 
seja, a vontade de querer ultrajar ou vilipendiar o cadáver. 
g) Consumação e Tentativa
Consuma-se com o ato ultrajante, quando material, ou simplesmente com o 
vilipêndio verbal junto ou sobre o cadáver ou suas cinzas. 
É possível a tentativa, pois o iter criminis é cindível. Imagine, por exemplo, o 
sujeito que, pretendendo dar vazão à sua mórbida concupiscência, tente retirar as 
vestes de um cadáver, mas veja frustrada sua meta pela chegada tempestiva de 
algum familiar do morto. 
Não é possível a tentativa se praticado oralmente.
h) Classificação Jurídica
Segundo os ensinamentos de Estefam (2011), o crime é doloso, de forma 
ou ação livre (permite qualquer meio executório – delito onímodo), comum (não 
se requer qualidade ou condição especial do sujeito ativo), monossubjetivo ou de 
concurso eventual (pode ser praticado por uma pessoa ou várias em comunhão de 
desígnios), material ou de resultado (já que somente se consuma com a produção 
do resultado naturalístico), instantâneo (de regra) e plurissubsistente (porquanto o 
iter criminis admite fracionamento).
i) Ação Penal
Incondicionada. O Ministério Público fará a denúncia, independente da 
vontade da vítima, basta a simples comunicação do fato criminoso.
j) Lei dos Transplantes
118
 Direito Penal II - Parte Especial 
O crime de vilipêndio a cadáver não se confunde com o do art. 19 da Lei nº 
9.343/97, que regula, como já tecido anteriormente, os transplantes de órgãos, 
tecidos e partes do corpo humano. O crime especial, de natureza omissiva própria, 
dá-se quando o agente deixar de recompor cadáver, devolvendo-lhes aspecto 
condigno para sepultamento, ou deixar de entregar ou retardar sua entrega aos 
familiares ou interessados (ESTEFAM, 2011).
k) Concurso de Crimes
• Crimes Contraa Honra (CP – Arts. 138/140): o vilipêndio a cadáver pode 
ser cometido por meio verbal ou escrito, mediante, por exemplo, a prolatação 
de palavras ofensivas dirigidas ao morto. Em tais situações, poderá ocorrer 
concurso formal ou ideal, entre o crime contra o respeito aos mortos e a 
calúnia, cuja punição se baseia no art. 138, parágrafo 2º, do CP. É possível, 
ademais, que o vilipêndio também possa representar difamações ou injúrias. 
Se assim o for, haverá delito único, uma vez que nossa lei penal não pune a 
difamação ou a injúria contra os mortos, salvo se reflexamente se pretender 
macular a honra de algum vivo. 
Toma-se este exemplo: “fulano, que agora jaz, sempre foi um imoral, pois 
nunca respeitou seu leito conjugal, em que fornicava com sua vizinha Beltrana” 
– trata-se de injúria que reflexamente fere a honra da vizinha. Há, em tal caso, 
vilipêndio a cadáver e injúria (art. 140 do CP). Nesse caso em específico, os 
sujeitos passivos são, respectivamente, a família e os amigos do de cujus e a 
vizinha acusada de adultério (ESTEFAM, 2011).
• Perturbação ou Interrupção de Enterro ou Cerimônia Funerária: O 
vilipêndio a cadáver pode ser praticado às ocultas ou publicamente, em 
qualquer local, inclusive durante o enterro do falecido ou cerimônia funerária 
efetuada em sua homenagem. Dar-se-á, nesse caso concurso de crimes. Se o 
próprio vilipêndio representar o ato gerador da turbação da cerimônia, surgirá 
o concurso formal. Por exemplo, uma pessoa revoltosa interrompe o velório 
e passa a dirigir graves insultos ao falecido, quebrando a normalidade da 
cerimônia que ali tomava lugar. É possível, contudo, que haja duas condutas 
destacadas, situação em que o concurso será material, exemplo: Fulano 
efetua um disparo, interrompendo o sepultamento do falecido e, em seguida, 
atira lixo sobre o caixão (ESTEFAM, 2011).
• Violação de Sepultura: É possível que o sujeito, visando a cometer o ato de 
vilipêndio, rompa com a integridade do sepulcro onde se encontra o cadáver 
(ainda não decomposto) ou da urna mortuária onde estão as cinzas. Ter-se-á 
concurso material de infrações (art. 69 do CP) (ESTEFAM, 2011).
119
Crimes Contra o 
Sentimento Religioso e 
Contra o Respeito aos Mortos
 Capítulo 4 
• Destruição, Subtração ou Ocultação de Cadáver: Cabe admitir, ainda, o 
concursos delictorum entre as infrações dos artigos 211 e 212. Suponha-se o 
caso em que alguém pratica necrofilia e, em seguida, ateia fogo no cadáver 
para eliminar os vestígios se sua mórbida ação. Como não se trata de duas 
ações diversas, aplicar-se-á concurso material (art. 69 do CP). O TJSP já 
entendeu que o crime de vilipêndio pode ser absorvido pela ocultação de 
cadáver quando o agente, desde o início, tenha como meta optada esconder o 
corpo e, para isso, tenha que conspurcá-lo por meio do desmembramento (RT 
835/556) (ESTEFAM, 2011).
• Dissecações de Cadáver: O ato de dissecar cadáveres para fins acadêmicos, 
por óbvio, não realiza o tipo penal incriminador do artigo 212 do CP. Quando, 
portanto, o professor de medicina legal expõe a seus alunos um corpo sem 
vida e, tratando-o como objeto de estudo, efetua incisões nos tecidos, retira-
lhes órgãos ou membros, não comete crime algum, porque o comportamento 
não ofende o bem tutelado na norma penal, e, ademais, em face da absoluta 
ausência de dolo vilipendiar. O mesmo se dirá se um dos estudantes, atuando 
jocosamente, tocar alguma parte da anatomia do corpo que jaz. Nesse caso, a 
atipicidade da conduta se justificará pelo desconhecimento sobre a identidade 
do falecido, característica que elimina a intenção de vilipendiar sua memória 
(na improvável hipótese de conhecer o morto, seus familiares ou amigos, 
haverá o crime) (ESTEFAM, 2011).
• Erro de Tipo (CP, art. 20): Como deve-se enquadrar penalmente o ato de 
vilipendiar sobre um corpo inerente, acreditando o agente equivocadamente 
que a pessoa faleceu, quando, na verdade, ainda vive? Estefam (2011) 
sustenta haver erro sobre a pessoa, devendo aplicar-se, portanto, o atual art. 
20, parágrafo 3º, do CP, ou seja, imputar-se-ia ao agente o crime do art. 212 
do CP, tratando-se o episódio como erro acidental (incapaz de excluir o dolo). 
O próprio autor discordava dessa solução, aduzindo que deveria ser aplicado 
o artigo 17 do CP, o que seria equivalente ao art. 20 do mesmo diploma legal, 
ou seja, erro de tipo essencial. Correta a resposta do saudoso mestre. A falsa 
percepção da realidade, na hipótese formulada, atinge elementar do crime e, 
destarte, retira o dolo da conduta. Não há falar-se em vilipêndio a cadáver se o 
autor da conduta crê, erroneamente, que a pessoa se encontrava viva. Falta-
lhe o elemento subjetivo do tipo, correspondente à vontade e consciência de 
realizar a conduta típica (ofensa a um falecido).
l) Jurisprudência
• Dolo e Elemento Moral: Para a configuração do delito de vilipêndio de 
cadáver, indispensável é o elemento moral, consistente no desejo consciente 
120
 Direito Penal II - Parte Especial 
de desprezar o corpo sem vida da vítima, com intenção clara de depreciá-la 
(RT 532/368).
• Sobre o delito estudado, já decidiu o pioneiro Tribunal de Justiça do Estado do 
Rio Grande do Sul:
VIOLAÇÃO DE SEPULTURA. VILIPÊNDIO DE CADÁVER. 
PROVA CONSISTENTE. TRANSE MEDIÚNICO.
Os acusados, com intuito de realizar “um trabalho”, ingressaram, 
por volta da meia-noite, no cemitério de Passo Fundo. Uma das 
corrés, com a mãe doente, havia buscado auxílio numa “casa de 
umbanda”. Esta foi apanhada em sua residência, em automóvel 
dos corréus, e conduzida ao cemitério. Lá chegando, enquanto a 
beneficiada pelo trabalho segurava uma lanterna e era amparada 
pela corré, os dois acusados removeram as lajes de uma sepultura 
onde havia sido, há poucos dias, enterrado um homem de 87 anos 
de idade. Após, abriram o caixão, fizeram uma incisão no abdome do 
cadáver, sacrificaram um cachorro e uma galinha sobre o corpo do 
enterrado, nele introduzindo vários papéis. Em seguida, despejaram 
álcool sobre o cadáver, atearam fogo e fecharam a sepultura. Tudo 
foi acompanhado pelo acendimento de velas ao lado da sepultura e 
iluminação de lanterna, à meia-noite. 2. O alegado “transe mediúnico”, 
eventualmente existente e ainda que presente, em face da dimensão 
existencial em que se labora nos processos, não é excludente de 
tipicidade, ilicitude e nem de culpabilidade. 3. Prova consistente nos 
autos, inclusive pericial e fotográfica, onde se pode ver, querendo, 
o ataúde avermelhado, a galinha vermelha e preta, os restos das 
velas queimadas, as flores que adornam o túmulo, a face do morto, 
enegrecida pelo fogo, bem como os restos, aos pedaços, dilacerados, 
do cadáver. No interior do caixão, também se pode ver um cachorro 
e uma galinha, ambos mortos e queimados, junto com o cadáver. 
Ainda, a completar a cena dantesca e tétrica, foram encontradas 
uma garrafa de vodka e outra de plástico, parcialmente derretida. 
Condenações mantidas. APELOS DEFENSIVOS DESPROVIDOS. 
(Apelação Crime Nº 70014529440 de Passo Fundo, Sétima Câmara 
Criminal, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Nereu José Giacomolli, 
Julgado em 22/06/2006).
Fonte: Disponível em: <http://br.vlex.com/vid/-43714860>. 
Acesso em: 15 dez. 2011.
121
Crimes Contra o 
Sentimento Religioso e 
Contra o Respeito aos Mortos
 Capítulo 4 
Atividade de Estudos: 
1) Uma Universidade possui cadáveres para seus alunos do Curso 
de Medicina estudarem. Esta prática configura o crime do art. 212 
do Código penal?
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Algumas Considerações
Neste capítulo, estudamos os crimes contra a o sentimento religioso e os 
crimes contra o respeito aos mortos. 
Os crimes analisados no presente tópico são crimes classificados como de 
menor potencial ofensivo, então, dificilmente será aplicada a pena de prisão se 
condenatória a sentença final. 
Em quase todos os crimes há possibilidade de aplicação dos benefícios da 
Lei do dos Juizados Especiais Criminais Federais (Lei n° 10.259/01), o artigo 61 
da Lei dos Juizados Especiais Criminais Estaduais (Lei nº 9.099/95), modificado 
pela Lei n° 11.313/2006, considerando-se infrações penais de menor potencial 
ofensivo as contravenções e os crimes com pena máxima não superior a dois 
anos, cumulada ou não com multa. 
Para finalizar, importante ressaltar a importância que o Código Penal 
brasileiro ainda dá aos crimes desta natureza, demonstrando o preconizado na 
Constituição Federal de 1988. 
122
 Direito Penal II - Parte Especial 
Referências
BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal 3 – Parte Especial. 7ª 
ed. – São Paulo: Saraiva, 2011.
CUNHA, Rogério Sanches. Direito Penal - Parte Especial. 3ª ed. rev. e atual – 
São Paulo: Revista dos Tribunais, 2010.
DELMANTO, Celso, et al. Código Penal Comentado – 8ª ed. rev. e atual. - São 
Paulo: Saraiva, 2010.
ESTEFAM, André. Direito Penal – Parte Especial (arts. 184 a 285). Volume 3. – 
São Paulo: Saraiva, 2011.
GRECO, Rogério. Curso de Direito Penal: parte especial, volume 2. 7ª ed. Rio 
de Janeiro: Impetus, 2010. 
JESUS. Damásio E. Direito Penal: parte especial, volume 3, 15ª ed. - São Paulo: 
Ed. Saraiva, 2002.
MIRABETE, Julio Fabrini. Manual de Direito Penal, volume 2: Parte Especial, 
28ª ed rev. e atual. – São Paulo: Atlas, 2011.
NORONHA, E. Magalhães. Direito Penal: dos crimes contra a pessoa. 26ª ed. 
São Paulo, Saraiva, 1994, v. 3. 
NUCCI, Guilherme de Souza. Código Penal Comentado - 10ª ed. – São 
Paulo: Revista dos Tribunais, 2011.
PRADO, Luiz Regis. Curso de Direito Penal Brasileiro: volume 2. 9ª ed. São 
Paulo: Revista dos Tribunais, 2010. 
PIERANGELI, José Henrique. Manual de Direito Penal Brasileiro: parte 
especial - São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2005.
CAPÍTULO 5
Crimes Contra a Dignidade Sexual 
A partir da perspectiva do saber fazer, neste capítulo você terá os seguintes 
objetivos de aprendizagem:
 3 Conceituar os crimes contra a dignidade sexual. 
 3 Identificar e distinguir os crimes contra a dignidade sexual diante de casos 
reais. 
 3 Buscar na jurisprudência casos julgados pelos Tribunais e apresentar 
comentário crítico referente ao crime pesquisado. 
125
Crimes Contra a Dignidade Sexual Capítulo 5 
Contextualização
Neste capítulo, serão analisados alguns dos principais crimes sexuais 
previstos no Código Penal, bem como as alterações advindas da Lei nº 12.015/09, 
compatibilizando os dispositivos penais à Constituição Federal de 1988.
Tutela-se nos crimes definidos no artigo 213, 216-A e 217-A a dignidade e 
a liberdade sexual, a livre disposição do próprio corpo no aspecto sexual, bem 
como a proteção sexual de crianças e adolescentes.
Estupro
De acordo com Art. 213 do CP,
Art. 213. Constranger alguém, mediante violência 
ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a 
praticar ou permitir que com ele se pratique outro 
ato libidinoso: 
Pena - reclusão, de 6 (seis) a 10 (dez) anos.
Os crimes contra a liberdade sexual atingem a dignidade da 
pessoa humana, impingindo à vítima sofrimento físico e moral, sendo 
o estupro uma das condutas mais repugnantes descritas no Código 
Penal brasileiro.
Com o advento da Lei 12.015, de 7 de agosto de 2009, efetivou-
se a unificação das figuras anteriormente denominadas estupro e 
atentado violento ao pudor, ampliando-se o conceito de estupro, 
passando a abranger tanto a conjunção carnal quanto a prática de outros atos 
libidinosos. 
Destarte, quanto à antiga figura do atentado violento ao pudor (214), não 
ocorreu abolitio criminis, pois o tipo incriminador foi apenas incluído em outro 
artigo (213), o que a doutrina denomina continuidade normativo-típica. O que 
era proibido antes continua proibido na nova lei, apesar das alterações. Como 
esclarecem Luiz Flávio Gomes e Rogério Sanches da Cunha (2009, p. 100),
A revogação de lei e não ocorrência da abolitio criminis: mas 
não se pode nunca confundir a mera revogação formal de uma 
lei penal com a abolitio criminis. A revogação da lei anterior é 
necessária para o processo da abolitio criminis, porém, não 
suficiente. Além da revogação formal, impõe-se verificar se 
o conteúdo normativo revogado não foi (ao mesmo tempo) 
preservado em (ou deslocado para) outro dispositivo legal. 
De acordo com Art. 
213 do CP,
Art. 213. 
Constranger alguém, 
mediante violência 
ou grave ameaça, a 
ter conjunção carnal 
ou a praticar ou 
permitir que com ele 
se pratique outro ato 
libidinoso: 
Pena - reclusão, de 
6 (seis) a 10 
(dez) anos.
126
 Direito Penal II - Parte Especial 
[…] Logo, nessa hipótese, não se deu a abolitio criminis, 
porque houve uma continuidade normativo-típica (o tipo penal 
não desapareceu, apenas mudou de lugar). Para a abolitio 
criminis, como se vê, não basta a revogação da lei anterior, 
impõe-se sempre verificar se presente (ou não) a continuidade 
normativo-típica.
Com a Lei nº 12.015/09, no crime de estupro, os bens jurídicos tutelados 
são a dignidade e liberdade sexual do homem e da mulher, pouco importando 
sua opção sexual, ao que em relação a crianças e adolescente com idade 
inferior a 14 anos aplica-se dispositivo específico, previsto no artigo 217-A do 
Código Penal.
a) Tipo Objetivo
A ação típica é constranger (coagir, forçar, compelir, obrigar) 
alguém, homem ou mulher, mediante violência ou grave ameaça, a 
praticar ou permitir que com ele se pratique a conjunção carnal ou outro 
ato libidinoso diverso da conjunção carnal.
O núcleo constranger pressupõe um comportamento ativo por 
parte do agente, tratando-se o tipo penal, em regra, comissivo. Contudo, 
o crime poderá ser praticado por omissão imprópria, nos termos do 
artigo 13, § 2º do Código Penal. Leia-se a ilustração contida na obra do 
professor Rogério Greco (2010, p. 454-455): 
Imagine-se a hipótese em que um carcereiro (ou agente 
penitenciário), encarregado legalmente de vigiar os detentos 
em determinada penitenciária, durante sua ronda, tivesse 
percebido que um grupo de presos estava segurando um 
de seus ‘companheiros de cela’ para obrigá-lo ao coito anal, 
sabendo que os presos iriam violentar aquele que ali tinha sido 
colocado sob a custódia do Estado, o garantidor, dolosamente, 
nada faz para livrá-lo da mão dos seus agressores, que 
acabam de consumar o ato libidinoso.
Caso o agente, no mesmo contexto fático, pratique as duas figuras previstas 
no artigo 213 (conjunção carnal e outro ato libidinoso), estaremos diante de dois 
crimes distintos, em concurso material, conforme posicionamento da 5ª Turma do 
Superior Tribunal de Justiça.
Ao interpretar a Lei nº 12.015/2009, que alterou a redação dos artigos do 
Código Penal que tratam dos crimes contra a liberdade sexual, a 5ª Turma do 
STJ (HC 105533/PR, Relatora Ministra Laurita Vaz) adotou a tese de que o novo 
crime de estupro é um tipo misto cumulativo, ou seja, as condutas de constranger 
O núcleo 
constranger 
pressupõe um 
comportamento 
ativo por parte do 
agente, tratando-se 
o tipo penal, em 
regra, comissivo. 
Contudo, o 
crime poderá ser 
praticado por 
omissão imprópria, 
nos termos do 
artigo 13, § 2º do 
Código Penal.
127
Crimes Contra a Dignidade Sexual Capítulo 5 
alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou praticar 
ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso, embora reunidas 
em um mesmo artigo de lei, comuma só cominação de pena, serão punidas 
individualmente se o agente praticar ambas, somando-se as penas (artigo 69 do 
Código Penal).
A interpretação da 5ª Turma levanta divergência com a 6ª 
Turma do STJ, que já proferiu decisões no sentido de que o estupro 
e atentado violento ao pudor praticado contra a mesma vítima, em 
um mesmo contexto, são crime único segundo a nova legislação, 
permitindo, contudo, a continuidade delitiva.
 
Contudo, alguns doutrinadores sustentam a tese de que o crime de 
estupro pode ser classificado como de ação múltipla, de conteúdo variado ou 
plurinuclear, tratando-se de crime único, cabendo ao Magistrado estabelecer a 
pena entre o mínimo e o máximo, levando em consideração a prática do estupro 
em mais de uma forma. Para Guilherme de Souza Nucci (2009, p. 63), “pacífico 
o entendimento em relação aos tipos alternativos a prática de uma só conduta 
descrita no tipo ou o cometimento de mais de um, quando expostas as práticas 
num mesmo cenário, mormente contra idêntica vítima, resulta na concretização 
de uma só infração penal”.
Não obstante o referido posicionamento seja juridicamente sustentável, gera 
um problema de cunho lógico e moral. Na prática, ocorrerá o seguinte: se o agente 
constranger a vítima e com ela praticar algum ato libidinoso (como, por exemplo, 
apalpadelas lascivas), pode também praticar conjunção carnal sem cometer outro 
crime. Ou seja, praticando um dos atos criminosos, o autor terá acesso livre para 
cometer outra figura típica sem ser punido por ela, resultando apenas em fixação 
da pena base (artigo 59 do Código Penal) de forma distinta.
b) Violência ou Grave Ameaça: “modus operandi”
O termo violência significa força física, empregada com finalidade de vencer 
a resistência da vítima. Esta violência pode ser produzida pela própria energia 
corporal do agente, bem como por outros meios, como fogo, energia elétrica 
(choque), gases etc. A violência poderá ser imediata, quando empregada 
diretamente contra o próprio ofendido, e mediata, quando utilizada contra terceiro 
ou coisa a que a vítima esteja diretamente vinculada (MIRABETE, 2010). 
128
 Direito Penal II - Parte Especial 
Não é indispensável que a força empregada seja irresistível, 
basta que seja idônea para coagir a vítima a permitir que o sujeito 
ativo realize seu intento.
Grave ameaça (vis compulsiva) constitui naquela que efetivamente 
imponha medo, pavor, receio, temor na vítima, intimidando-a. O 
mal prometido deve ser futuro e imediato, bem como determinado e 
inevitável. A violência moral é aquela que age no interior da pessoa, 
cuja força intimidatória é capaz de anular a capacidade de se 
autodeterminar. A grave ameaça deve ser maior que a própria violência 
sexual, não tendo a vítima alternativa senão ceder ao intento do 
agressor. É ínsito ao crime de estupro que haja o dissenso da vítima, 
sendo necessário que ela não queira realizar o ato sexual, que se 
oponha veementemente, somente cedendo em face da violência empregada 
ou do mal prometido. Contudo, a resistência física pode não estar presente no 
crime, porquanto muitas vezes o temor causado pode ocasionar a paralisação dos 
movimentos da vítima, desmaios e perda de sentidos.
c) Conjunção Carnal e Ato Libidinoso
Conjunção carnal é a cópula vagínica, consistente na introdução 
do órgão genital masculino (pênis), na cavidade vaginal da mulher. Ato 
libidinoso é aquele destinado a satisfazer a libido, objetivando prazer 
sexual. Na lição de Heleno Fragoso, citado por Julio Fabbrini Mirabete 
(2010), ato libidinoso é toda ação atentatória ao pudor, praticada com 
propósito lascivo ou luxurioso. Trata-se de ato lascivo, voluptuoso, 
dissoluto, destinado ao desafogo da concupiscência. Alguns são 
equivalentes ou sucedâneos da conjunção carnal (coito anal, coito oral, 
coito interfemora). Outros, não sendo, contrastam com a moralidade 
sexual, tendo por fim a lascívia, a satisfação da libido. Estão incluídos 
os atos homossexuais como os de uranismo, pederastia, lesbianismo, 
tribadismo ou safismo. Afirma Nelson Hungria que “ato libidinoso tem 
que ser praticado pela, com ou sobre a vítima coagida”. Isso não quer dizer, 
porém, que seja indispensável o contato físico, corporal, entre o agente e a 
ofendida. Há atentado violento ao pudor, por exemplo, quando o agente, mediante 
ameaça, obriga a vítima a masturbar-se, tendo em vista a contemplação lasciva.
Grave ameaça 
(vis compulsiva) 
constitui naquela 
que efetivamente 
imponha medo, 
pavor, receio, 
temor na vítima, 
intimidando-a.
Conjunção carnal é 
a cópula vagínica, 
consistente na 
introdução do órgão 
genital masculino 
(pênis), na cavidade 
vaginal da mulher. 
Ato libidinoso é 
aquele destinado a 
satisfazer a libido, 
objetivando prazer 
sexual.
129
Crimes Contra a Dignidade Sexual Capítulo 5 
• Ato Libidinoso X Beijo Lascivo e Apalpadelas em regiões pudendas 
O ato libidinoso pode ser caracterizado por diversas formas, inclusive sem o 
contato de órgãos sexuais (RT 429/380). Tem-se como exemplo o caso do agente 
que, utilizando-se de violência, beija a vítima de forma lasciva, ou apalpa seus 
seios ou nádegas. Entretanto, há doutrinadores que não aceitam a tipificação 
da conduta como estupro em sentido lato, diante da desproporcionalidade da 
reprimenda penal com o ato praticado.
Para Cezar Roberto Bitencourt (2009), a diferença entre desvalor e a 
gravidade entre sexo anal e oral e os demais atos libidinosos é incomensurável. 
Se naqueles a gravidade da sanção cominada (mínimo de seis anos de 
reclusão) pode ser considerada razoável, o mesmo não ocorre com os demais, 
que, confrontados com a gravidade da sanção referida, beiram as raias da 
insignificância. Nesses casos, quando ocorre em lugar público ou acessível 
ao público, deve-se desclassificar para a contravenção do artigo 61 da Lei de 
Contravenções Penais. Caso contrário deve-se declarar sua inconstitucionalidade, 
por violar os princípios da proporcionalidade, da razoabilidade e da lesividade 
do bem jurídico. Em sentido contrário, Damásio Evangelista de Jesus (2002) 
sustenta que tipifica o crime em tela a conduta de acariciar as partes pudendas 
de uma mulher sobre o vestido, bem como o beijo lascivo, quando praticado 
com o emprego de violência ou grave ameaça. Evidentemente que não se pode 
considerar como ato libidinoso o beijo casto e respeitoso aplicado nas faces, ou 
mesmo o “beijo roubado”, furtiva ou rapidamente dado na pessoa admirada ou 
desejada. Assim, um toque praticado ou uma agressão apenas para provocar ou 
irritar a vítima, ainda que em zonas sexuais, não caracteriza o crime de estupro, 
mas mera contravenção de importunação ofensiva ao pudor (artigo 61 da LCP). 
Assim, levantar a saia ou beliscar as nádegas da vítima apenas para provocá-
la ou humilhá-la; dar um rápido beijo, sem introdução da língua e sem lascívia; 
apalpar os seios da ofendida a pretexto de fazer comentários irônicos sobre seu 
tamanho caracteriza crime contra a honra ou mera importunação ofensiva ao 
pudor, dependendo do caso, mas não estupro (CAPEZ, 2010).
d) Sujeitos do Crime
O sujeito ativo pode ser qualquer pessoa (crime comum), independentemente 
do sexo ou opção sexual, tipificando-se também as condutas praticadas dentro de 
relação homoafetiva.
Fato controvertido na doutrina pretérita repousava na possibilidade do 
cônjuge (marido ou mulher) ser sujeito ativo do crime de estupro. Duas teses 
prevaleciam: a) Magalhães Noronha (1988) e Nélson Hungria (1981) entendem 
130
 Direito Penal II - Parte Especial 
que a cópula decorrente do casamento é considerada dever recíproco do 
matrimônio, constituindo verdadeiro exercício regular de direito; b) o chamado 
débito conjugal não assegura o direito de constranger seu companheiro(a) a 
manter consigo atividade sexual, garantindo somente postular o término da 
sociedade conjugal (CAPEZ, 2010; MIRABETE, 2010). 
A primeira corrente fundamenta-se na Lei nº 11.106/2005, que alterouo artigo 
226, inciso II, do Código Penal, passando a prever aumento de pena para todos 
os crimes sexuais cometidos contra o cônjuge, tornando evidente a hipótese de o 
agressor responder pelo crime de estupro praticado contra seu consorte.
A Lei nº 12.015/2009 não alterou o preceito primário do dispositivo 
concernente ao aumento de pena pela prática de violência sexual por 
cônjuge ou companheiro, mantendo-se inalterado o entendimento 
acerca do caráter delitivo da conduta acima exposta. 
O sujeito passivo também pode ser qualquer pessoa, homem ou 
mulher, pouco importando a consciência do caráter libidinoso do ato 
praticado ou de sua finalidade. A prostituta também pode ser vítima do 
crime de estupro. Se a conduta típica tiver como vítima pessoa menor 
de 14 anos, aplica-se o dispositivo do artigo 217-A, do Código Penal.
e) Elemento Subjetivo
O elemento subjetivo geral é o dolo, consistente na vontade livre 
e consciente de constranger a vítima, homem ou mulher, a praticar 
ou permitir que consigo pratiquem ato libidinoso ou conjunção carnal, 
mediante o emprego de violência ou grave ameaça. Quanto ao 
elemento subjetivo específico, finalidade de satisfazer a própria lascívia, 
existe divergência na doutrina, tendo professores como Magalhães 
Noronha (1988) e Júlio Fabbrini Mirabete (2010) que sustentam a 
desnecessidade de requisito especial de satisfação da lascívia, diante 
da ausência de menção na letra da lei, aduzindo que o motivo para 
prática do ato pode ser outro, como o desprezo e sentimento de ódio. 
Em sentido contrário, temos Nelson Hungria (1981), admitindo a 
necessidade de finalidade específica, satisfação sexual.
Na lição de Fernando Capez (2010), o tipo penal não requer 
qualquer finalidade específica, contudo é necessária a satisfação da 
lascívia. Não se trata de finalidade especial, percebida pelo agente, já 
que esta não é exigida pelo tipo, mas de realização de uma tendência 
interna transcendente, vinculada à vontade de realização do verbo do 
tipo.
O sujeito passivo 
também pode ser 
qualquer pessoa, 
homem ou mulher, 
pouco importando 
a consciência do 
caráter libidinoso 
do ato praticado ou 
de sua finalidade. A 
prostituta também 
pode ser vítima do 
crime de estupro.
O elemento 
subjetivo geral é o 
dolo, consistente 
na vontade livre 
e consciente de 
constranger a 
vítima, homem ou 
mulher, a praticar 
ou permitir que 
consigo pratiquem 
ato libidinoso 
ou conjunção 
carnal, mediante 
o emprego de 
violência ou grave 
ameaça. 
131
Crimes Contra a Dignidade Sexual Capítulo 5 
f) Consumação e Tentativa
Consuma-se o delito, no momento da prática do ato libidinoso, no caso de 
conjunção carnal, com a introdução completa ou incompleta do órgão genital masculino 
(pênis) na vagina da mulher, não sendo necessária a ejaculação do agressor.
Admite-se a tentativa quando as circunstâncias deixem manifesta a intenção 
do agente em perpetrar a conduta ilícita, sendo impedido por circunstâncias 
alheias à sua vontade, mesmo sem qualquer contato íntimo. 
“No estupro, como crime complexo que é, a primeira ação 
(violência ou grave ameaça) constituí início da execução, porque está 
dentro do próprio tipo, como sua elementar. Assim, para a ocorrência 
da tentativa basta que o agente tenha ameaçado gravemente a vítima 
com o fim inequívoco de constrangê-la” (BITENCOURT, 2009, p. 5).
g) Concurso de Pessoas
Não é incomum que o estupro seja cometido por várias pessoas, 
que atuam em concurso. Assim, pode ocorrer, por exemplo, que três 
pessoas, unidas pelo mesmo liame subjetivo, com identidade de 
propósito, resolvam estuprar a vítima. Dessa forma, enquanto dois a 
seguram, o terceiro leva a efeito a penetração, havendo entre eles um 
“rodízio criminoso”. 
Questiona-se: nesse caso haveria um único crime ou três estupros em 
continuidade delitiva? Segundo Rogério Greco (2010), sendo o estupro um 
crime de mão-própria, de autuação personalíssima, de execução indelegável, 
intransferível, no caso em exame teríamos, sempre, um autor e dois partícipes, 
cada qual prestando auxílio para o sucesso da empresa criminosa. Nesse caso, 
cada agente que vier a praticar conjunção carnal com os necessários atos de 
penetração será autor de um crime de estupro, enquanto os demais serão 
considerados seus partícipes. Aqui, portanto, no exemplo fornecido, teríamos 
que concluir pela prática de três crimes de estupro, em continuidade delitiva, nos 
moldes preconizados pelos artigos 29 e 71 do Código Penal.
h) Resultados Qualificadores
Não é incomum 
que o estupro seja 
cometido por várias 
pessoas, que atuam 
em concurso.
132
 Direito Penal II - Parte Especial 
Se da conduta resulta lesão corporal de natureza grave ou se a vítima é menor de 
dezoito ou maior de catorze anos, a pena é de reclusão, de oito a doze anos. À 
conduta que resulta em morte, a pena é de reclusão, de doze a trinta anos.
A nova redação adequou também a expressão utilizada, ao prever que 
a pena será diferenciada se “da conduta” resultar lesão corporal ou morte, em 
substituição aos termos “do fato” e “da violência”, evitando discussão outrora 
existente quanto à impossibilidade de caracterizar estupro qualificado quando o 
constrangimento decorresse de grave ameaça. 
Sobre o tema:
Era nítida a diferença e geradora de intensos debates 
doutrinários e jurisprudenciais. Somente era qualificado o 
delito sexual se resultasse lesão grave da violência e não da 
grave ameaça?
Quando se mencionava o fato, poder-se-ia abranger a 
violência e a grave ameaça ou somente a violência? Sem 
pretender ingressar nesse debate, a questão resolveu-se pela 
nova redação abraçada pelos §§ 1.º e 2.º do art. 213.
Eliminaram-se os termos violência e fato, adotando-se 
conduta.
Portanto, se da conduta do agente (constrangimento exercido 
com violência ou grave ameaça) resultar lesão corporal de 
natureza grave ou morte, atinge-se o crime qualificado pelo 
resultado. (NUCCI, 2009, p. 24-25).
Quanto ao elemento volitivo, deve permanecer o entendimento de que o 
resultado lesões corporais graves ou morte deve decorrer de culpa do agente 
(crime preterdoloso), caso contrário, haverá concurso material de crimes. 
Veja-se:
A Lei nº 12.015, de 7 de agosto de 2009, ao contrário do que 
ocorria com as qualificadoras previstas no revogado artigo 
223 do Código Penal, previu, claramente, que a lesão corporal 
de natureza grave, ou mesmo a morte da vítima, devem ter 
sido produzidas como consequência da conduta do agente, 
vale dizer, do comportamento que era dirigido no sentido de 
praticar o estupro, evitando-se discussões desnecessárias. 
No entanto, deve ser frisado que esses resultados que 
qualificam a infração penal somente podem ser imputados ao 
agente a título de culpa, cuidando-se, outrossim, de crimes 
eminentemente preterdolosos. (GRECO, 2009, p. 15)
O estupro absorve as lesões corporais leves decorrentes da violência, 
constrangimento ou conjunção carnal, não havendo como separar estas daquele 
para exigir a representação prevista no artigo 88 da Lei 9.099/95. 
133
Crimes Contra a Dignidade Sexual Capítulo 5 
Muito embora o comportamento sexual de nossa realidade seja 
bastante diferente de outras épocas, ainda é possível afirmar que os 
adolescentes merecem proteção especial, motivo pelo qual andou 
bem o legislador ao estabelecer a idade da vítima, entre 14 (catorze) 
e 18 (dezoito) anos, como qualificadora. O juízo de reprovação sobre 
o agente que, ciente da idade da vítima, pratica o crime de estupro é 
certamente maior.
Por fim, ressalta-se que o estupro continua sendo considerado 
crime hediondo, nos termos do artigo 1º, inciso V, da Lei nº 8.072/90, 
ao que, com o a advento da Lei nº 12.015/2009, mantém-se o caráter 
hediondo também ao estupro simples.
i) Ação Penal
A ação penal nos crimes contra a liberdade sexual é, com a alteração trazida 
pela Lei nº 12.015/2009, pública condicionada à representação, ao que, em se 
tratando de vítima comidade inferior a dezoito anos ou pessoa vulnerável, a ação 
é pública incondicionada. 
Art. 225. Nos crimes definidos nos Capítulos I e II deste Título, 
procede-se mediante ação penal pública condicionada à 
representação. 
Parágrafo único. Procede-se, entretanto, mediante ação penal 
pública incondicionada se a vítima é menor de 18 (dezoito) 
anos ou pessoa vulnerável.
Cuida-se de norma processual de natureza penal material, ou seja, sua 
aplicação provoca efeitos penais. Rogério Sanches Cunha (2009) esclarece 
que ação penal, para os casos praticados antes da vigência da nova lei, deve 
continuar sendo privada (queixa-crime), vez que, do contrário, estar-se-ia 
subtraindo inúmeros institutos extintivos da punibilidade do acusado (ex.: renúncia, 
perdão do ofendido, perempção etc.). A mudança da titularidade da ação penal 
é matéria de processo penal, mas conta com reflexos penais imediatos. Daí a 
imperiosa necessidade de tais normas (processuais, mas com reflexos penais 
diretos) seguirem a mesma orientação jurídica das normas penais. Quando a 
inovação é desfavorável ao réu, não retroage. Deve-se, portanto, respeitar o 
que estabelece o artigo 5º, inciso XL, da Constituição Federal (a lei penal não 
retroagirá, salvo para beneficiar o réu), bem como o artigo 2º do Código Penal, em 
especial, seu parágrafo único (a lei posterior que, de qualquer modo, favorecer 
o agente, aplica-se aos fatos anteriores, ainda que decididos por sentença 
condenatória transitada em julgado). No entanto, decorrendo do estupro ou do 
atentado violento ao pudor, lesão grave ou morte, a persecução será pública 
incondicionada, pois se trata de crime complexo (artigo 103 do CP).
O estupro continua 
sendo considerado 
crime hediondo, nos 
termos do artigo 
1º, inciso V, da Lei 
8.072/90, ao que, 
com o a advento da 
Lei 12.015/2009, 
mantém-se o caráter 
hediondo também 
ao estupro simples.
134
 Direito Penal II - Parte Especial 
Atividade de Estudos: 
1) Qual é a tipificação legal para a seguinte descrição: Belinha 
é uma criança alegre e comunicativa. Fulano de Tal, amigo da 
família, aproveitando-se de sua inocência, manteve conjunção 
carnal com Belinha, mediante violência.
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Estupro de Vulnerável 
De acordo com o CP:
Art. 217-A. Ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso 
com menor de 14 (catorze) anos:
Pena - reclusão, de 8 (oito) a 15 (quinze) anos.
§ 1º Incorre na mesma pena quem pratica as ações descritas 
no caput com alguém que, por enfermidade ou deficiência 
mental, não tem o necessário discernimento para a prática 
do ato, ou que, por qualquer outra causa, não pode oferecer 
resistência.
O artigo 224 do Código Penal, que arrolava os casos em que 
se presumia a violência, foi expressamente revogado pela Lei nº 
12.015/09. Destarte, não será mais possível a utilização de norma de 
extensão para que o agente incida nas penas do artigo 213.
O legislador criou a figura “estupro de vulnerável”, que ocupa o lugar do 
estupro ou atentado violento ao pudor mediante violência presumida. Agora, 
basta que a vítima seja menor de 14 anos (caput), ou não tenha o necessário 
De acordo com o 
CP:
Art. 217-A. Ter 
conjunção carnal 
ou praticar outro 
ato libidinoso 
com menor de 14 
(catorze) anos:
Pena - reclusão, 
de 8 (oito) a 15 
(quinze) anos.
135
Crimes Contra a Dignidade Sexual Capítulo 5 
discernimento para a prática do ato por enfermidade ou deficiência mental, ou não 
possa oferecer resistência, por qualquer outra causa (vulneráveis por equiparação 
- § 1º). 
Constata-se, por conseguinte, que o legislador utilizou o critério biológico 
(idade, enfermidade ou deficiência mental) e psicológico (ausência do necessário 
discernimento para a prática do ato) para caracterizar a vulnerabilidade. 
A presunção de violência era extremamente criticada pela 
doutrina e vinha sendo relativizada por muitos Tribunais Estaduais 
e, em alguns casos, até mesmo pelos Tribunais Superiores. Sugere-
se a leitura do informativo 400 do STJ - ESTUPRO. VIOLÊNCIA 
PRESUMIDA. Guilherme de Souza Nucci (2009) salienta que a 
discussão a respeito do caráter absoluto conferido à vulnerabilidade 
não se encerra com a nova redação legal, ao que a proteção conferida 
aos menores de 14 anos, considerados vulneráveis, continuará a 
despertar debate doutrinário e jurisprudencial. O nascimento de 
tipo penal inédito não tornará sepulta a discussão acerca do caráter 
relativo ou absoluto da anterior presunção de violência. Agora, 
subsumida na figura da vulnerabilidade, pode-se tratar da mesma 
como sendo absoluta ou relativa. Pode-se considerar o menor, com 
13 anos, absolutamente vulnerável, a ponto de seu consentimento 
para a prática sexual ser completamente inoperante, ainda que tenha 
experiência sexual comprovada? Ou será possível considerar relativa 
a vulnerabilidade em alguns casos especiais, avaliando-se o grau de 
conscientização do menor para a prática sexual? Essa é a posição que 
nos parece acertada. A lei não poderá, jamais, modificar a realidade e 
muito menos afastar a aplicação do princípio da intervenção mínima 
e seu correlato princípio da ofensividade. Se durante anos debateu-
se, no Brasil, o caráter da presunção de violência – se relativo ou 
absoluto -, sem consenso, a bem da verdade, não será a criação de 
novo tipo penal o elemento extraordinário a fechar as portas para 
a vida real. O legislador brasileiro encontra-se travado na idade de 
14 anos, no cenário dos atos sexuais, há décadas. É incapaz de 
acompanhar a evolução dos comportamentos na sociedade. 
Necessário esclarecer, diante da perspectiva de inúmeras insurgências nesse 
sentido, que não ocorreu abolitio criminis quanto aos atos praticados por aqueles 
que foram condenados ou estão sendo processados pelos crimes previstos nos 
136
 Direito Penal II - Parte Especial 
artigos 213 ou 214 do Código Penal em razão da presunção de violência prevista 
no artigo 224 (revogado). Houve apenas a realocação do tipo penal (continuidade 
normativo-típica): os atos praticados continuam a ser crime, mas estão agora 
previstos no artigo 217-A. A nova redação legal é, inclusive, mais gravosa e, 
portanto, só pode ser aplicada aos fatos ocorridos após a sua publicação.
Portanto, aqueles que cometeram os crimes de estupro ou atentado ao 
pudor com presunção de violência antes do dia 10 de agosto de 2009 devem ser 
denunciados e condenados às penas previstas na antiga redação dos artigos 213 
e 214 do Código Penal, independentemente de ter havido a expressa revogação 
do artigo 224.
O bem jurídico protegido no artigo 217-A do Código Penal é a dignidade 
sexual da criança e do adolescente menor de 14 anos, não havendo distinção 
de sexo, porquanto, por sua inexperiência e imaturidade, não possuem 
condições para compreender e avaliar as consequências dos atos sexuais. 
Também se tutela a dignidade sexual de enfermos e deficientes mentais, bem 
como qualquer pessoa vulnerável, que não possa, em função de sua condição 
pessoal, oferecer resistência.
 
a) Tipo Objetivo
A ação típica é ter conjunção carnal ou praticar qualquer ato libidinoso com 
menor de quatorze anos (caput), tipificando-se a conduta quando o agente se 
utiliza da inocência da vítima para manter consigo atos de libidinagem, não sendo 
requisito obrigatório o emprego de violência ou grave ameaça.
Na mesma pena incorre quem pratica as ações descritas no caput com 
alguém que, por enfermidade ou deficiência mental, não tem o necessário 
discernimentopara a prática do ato, ou que, por qualquer outra causa, não pode 
oferecer resistência. 
No § 1º do artigo 217 – A, o legislador não apresentou qualquer limitação 
ou indicação de idade, aplicando-se a pena independentemente de ser a vítima 
maior ou menor de quatorze anos.
No caso de enfermidade ou deficiência mental, somente se caracteriza se 
o transtorno mental interfere na capacidade de entendimento da vítima sobre a 
natureza do ato sexual, devendo a deficiência ser comprovada mediante de laudo 
pericial. Ademais, deve o agente ter prévio conhecimento do estado peculiar da 
vítima, não sendo suficiente o estado de dúvida. 
Quando a vítima não pode, por qualquer natureza, oferecer resistência, 
137
Crimes Contra a Dignidade Sexual Capítulo 5 
contempla-se qualquer forma de impossibilidade, como por exemplo: enfermidade 
física, embriaguez completa, uso de entorpecente etc. 
O delito de estupro de vulnerável também é considerado 
hediondo, nos termos do artigo 1º, inciso VI, da Lei 8.072/90.
Sobre a Conjunção Carnal e Ato Libidinoso, aplica-se as 
mesmas ponderações lançadas na alínea “c” da seção Estupro, 
tratada no início deste capítulo IV.
b) Sujeitos do Crime
Trata-se de crime comum, podendo ser praticado por qualquer pessoa. 
Figura como sujeito passivo, no caput, a pessoa menor de 
quatorze anos, pouco importando a consciência do caráter libidinoso 
do ato praticado ou de sua finalidade.
Também pode ser vítima do crime pessoa portadora de 
enfermidade ou deficiência mental ou incapaz de discernimento para 
prática do ato sexual, ou por qualquer outra causa, sem condições de 
oferecer resistência (§ 1º).
c) Elemento Subjetivo
O elemento subjetivo geral é o dolo, consistente na vontade livre e consciente 
de constranger a vítima, menino ou menina, menor de 14 anos, a praticar consigo 
ato libidinoso ou conjunção carnal. Na hipótese de enfermidade ou deficiência 
mental, deve o agente ter conhecimento da condição especial da vítima.
d) Consumação e Tentativa
Consuma-se o delito no momento da prática do ato libidinoso, ao que 
no caso de conjunção carnal, com a introdução completa ou incompleta do 
órgão genital masculino (pênis) na vagina da menina, não sendo necessária a 
ejaculação do agressor. 
Admite-se a tentativa quando as circunstâncias deixam manifesta a intenção 
Figura como sujeito 
passivo, no caput, 
a pessoa menor 
de quatorze anos, 
pouco importando 
a consciência do 
caráter libidinoso do 
ato praticado ou de 
sua finalidade.
138
 Direito Penal II - Parte Especial 
do agente em perpetrar a conduta ilícita, sendo impedido por circunstâncias 
alheias à sua vontade, mesmo sem qualquer contato íntimo.
e) Resultados Qualificadores
Se da conduta resulta lesão corporal de natureza grave, a pena é de reclusão, 
de dez a vinte anos. Se da conduta resulta morte, a pena é de reclusão, de doze 
a trinta anos.
Sobre a Ação Penal, aplicam-se as ponderações lançadas na 
alínea “i” da seção Estupro, tratada no início deste capítulo IV.
Assédio Sexual
De acordo com o CP
Art. 216-A. Constranger alguém com o intuito de obter 
vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se o agente 
da sua condição de superior hierárquico ou ascendência 
inerentes ao exercício de emprego, cargo ou função.
Pena: detenção, de 1 (um) a 2 (dois) anos.
§ 2º A pena é aumentada em até um terço se a vítima é menor 
de 18 (dezoito) anos.
Caracterizado pela pluriofensividade, são bens jurídicos protegidos 
no dispositivo a dignidade e liberdade sexual do homem ou mulher, bem 
como a dignidade na relação trabalhista, impedindo que o exercício de 
sua atividade se torne um constante embaraço ou suplício. 
A Lei nº 12.015/09 apenas acrescentou o § 2º ao tipo penal, não 
alterando o caput. 
a) Tipo Objetivo
 
Para Cezar Roberto Bitencourt (2009, p. 31), assediar sexualmente, 
ou melhor, constranger, implica em importunação séria, grave, ofensiva, 
chantagista ou ameaçadora a alguém subordinado de uma relação de 
hierarquia ou ascendência inerentes ao exercício de emprego, cargo 
De acordo com o 
CP
Art. 216-A. 
Constranger 
alguém com o 
intuito de obter 
vantagem ou 
favorecimento 
sexual, 
prevalecendo-
se o agente da 
sua condição de 
superior hierárquico 
ou ascendência 
inerentes ao 
exercício de 
emprego, cargo ou 
função.
Pena: detenção, de 
1 (um) a 2 (dois) 
anos.
§ 2º A pena é 
aumentada em 
até um terço se a 
vítima é menor de 
18 (dezoito) anos.
139
Crimes Contra a Dignidade Sexual Capítulo 5 
ou função. “Simples gracejos, meros galanteios ou paqueras não têm idoneidade 
para caracterizar a ação de constranger”.
Caracteriza-se a conduta, destarte, com o ato de constranger, leia-se 
assediar, perseguir alguém (homem ou mulher) com insistência, com finalidade 
própria de obter concessões sexuais, aproveitando-se de sua condição de 
hierarquia ou ascendência decorrente da relação de emprego, cargo ou função. 
No crime de assédio sexual, deve-se interpretar o verbo 
constranger no sentido de embaraçar, acanhar, criar uma situação 
ou posição constrangedora para a vítima, com o intuito de obter 
vantagem ou favores sexuais (BITENCOURT, 2009, p. 31). 
Trata-se de crime de ação livre, o assédio pode ser praticado verbalmente, 
por escrito e por gestos. Ainda, para configuração do injusto, é necessário “que 
o assédio seja praticado no exercício do emprego, cargo ou função. 
Exige-se que o agente efetivamente se prevaleça dessa superioridade 
para constranger a vítima a ceder a seus desejos sexuais” (CAPEZ, 
2010, p. 71).
Contudo, a finalidade especial de obter “vantagem ou 
favorecimento sexual” está afastada quando o sujeito ativo tem por 
escopo uma relação duradoura, um namoro efetivo, por exemplo. “Na 
verdade, esses crimes somente podem ocorrer quando o superior 
constranger o subalterno a prestar-lhe, contrariamente, ‘favores 
sexuais’, mesmo que não consiga” (BITENCOURT, 2009, p. 34).
b) Sujeitos do Crime
Considerando que o dispositivo legal apresenta como elementar 
do crime a condição de superior hierárquico ou ascendência, a conduta 
típica somente pode ser praticada por aquele que exerce função de 
chefia, independentemente do sexo, tratando-se de crime próprio.
Qualquer pessoa pode ser vítima do crime de assédio sexual, 
homem ou mulher, desde que se mantenha na condição de inferior 
hierárquico ou esteja submetido à ascendência do agente no que 
concerne a serviço público. Também, “o tipo legal não alcança tão-
A finalidade especial 
de obter “vantagem 
ou favorecimento 
sexual” está 
afastada quando o 
sujeito ativo tem por 
escopo uma relação 
duradoura, um 
namoro efetivo, 
por exemplo.
O dispositivo legal 
apresenta como 
elementar do crime 
a condição de 
superior hierárquico 
ou ascendência, 
a conduta típica 
somente pode 
ser praticada por 
aquele que exerce 
função de chefia, 
independentemente 
do sexo, tratando-se 
de crime próprio.
140
 Direito Penal II - Parte Especial 
somente o assédio sexual ambiental (praticado no ambiente de trabalho), visto que 
a conduta delitiva pode ser perpetrada fora do espaço físico laboral, desde que o 
agente se utilize de sua condição de superior hierárquico ou de sua ascendência 
sobre a vítima para assediá-la” (PRADO, 2010, p. 614).
• Assédio Sexual por professor em face de aluno, ministro religioso em 
face de fiel
Na busca da resposta, é indispensável a análise do conceito de superior 
hierárquico e ascendência, condições elementares do tipo penal.
Superior hierárquico, como elemento normativo do tipo, é condição que 
decorre de uma relação laboral, no âmbito privado, enquanto a segunda, 
ascendência, é inerente ao exercício de emprego, cargo ou função (de natureza 
pública). Logo, a ascendência deve estar ligada diretamente ao exercício de 
atividade pública, prevalecendo-se o agente de sua condição de superioridade 
nos quadros da administração pública, em face de seus subalternos. Assim, não 
configura o crimea mera relação entre professor e aluno ou ministro religioso e 
fiel (BITENCOURT, 2009).
Em sentido contrário temos o posicionamento do professor Luiz Régis Prado 
(2010, p. 615), o qual afirma que, “na ascendência, elemento normativo do tipo, 
não se exige uma carreira funcional, mas apenas uma relação de domínio, de 
influência, de respeito ou até mesmo de temor, reverência”.
c) Elemento Subjetivo
O elemento subjetivo é o dolo, consistente na vontade livre e consciente de 
constranger a vítima com o fim inequívoco de obter vantagem sexual.
d) Consumação e Tentativa
Consuma-se com o ato de constranger (crime formal), sendo dispensável a 
obtenção de vantagem ou favores sexuais, caracterizando a satisfação da lascívia 
mero exaurimento do crime. A tentativa, em tese, é admissível, no caso do meio 
empregado para produzir o constrangimento não chegar ao conhecimento da 
vítima.
e) Resultados Qualificadores
 
A pena é aumentada em até um terço se a vítima é menor de 18 (dezoito) 
141
Crimes Contra a Dignidade Sexual Capítulo 5 
anos. É imprescindível que haja dolo do agente também quanto à circunstância 
majorante, ou seja, deve ter ciência da idade da vítima, pois, caso contrário, 
poderá ser alegado erro de tipo.
A idade da vítima é um dado de natureza objetiva e, portanto, deve ser 
comprovada mediante a apresentação de documento de identificação, atendendo 
o parágrafo único do artigo 155 do Código de Processo Penal (somente quanto 
ao estado das pessoas serão observadas as restrições estabelecidas na lei civil).
Favorecimento da Prostituição ou 
outra Forma de Exploração Sexual 
De acordo com o CP:
Art. 228. Induzir ou atrair alguém à prostituição 
ou outra forma de exploração sexual, facilitá-la, 
impedir ou dificultar que alguém a abandone:
Pena - reclusão, de 2 (dois) a 5 (cinco) anos, e multa. 
Sabe-se que a prostituição é fato atípico, indiferente ao Direito 
Penal; contudo, a lei pune aqueles que estimulam a existência do 
comércio carnal, com ou sem finalidade de lucro, tutelando-se a 
moralidade pública sexual, com o objetivo de evitar o incremento e o 
desenvolvimento da prostituição ou outra forma de exploração sexual.
Com a Lei nº 12.015/2009, o legislador incluiu no artigo 228 o 
termo exploração sexual, criminalizando um rol maior de condutas. Considerando 
o termo exploração sexual mais amplo que prostituição, o professor Rogério 
Sanches da Cunha, citando Eva Faleiros, traz a seguinte definição:
A exploração sexual, de acordo com o primoroso estudo de 
Eva Faleiros, pode ser definida como uma dominação e 
abuso do corpo de crianças, adolescentes e adultos (oferta), 
por exploradores sexuais (mercadores), organizados, muitas 
vezes, em rede de comercialização local e global (mercado), 
ou por pais ou responsáveis, e por consumidores de serviços 
sexuais pagos (demanda), admitindo quatro modalidades:
a) prostituição – atividade na qual atos sexuais são negociados 
em troca de pagamento, não apenas monetário; 
b) turismo sexual – é o comércio sexual, bem articulado, em 
cidades turísticas, envolvendo turistas nacionais e estrangeiros 
e principalmente mulheres jovens, de setores excluídos de 
Países de Terceiro Mundo; 
De acordo com o 
CP:
Art. 228. Induzir 
ou atrair alguém à 
prostituição ou outra 
forma de exploração 
sexual, facilitá-la, 
impedir ou dificultar 
que alguém a 
abandone:
Pena - reclusão, de 
2 (dois) a 5 (cinco) 
anos, e multa.
142
 Direito Penal II - Parte Especial 
c) pornografia – produção, exibição, distribuição, venda, 
compra, posse e utilização de material pornográfico, presente 
também na literatura, cinema, propaganda etc.; e 
d) tráfico para fins sexuais – movimento clandestino e ilícito 
de pessoas através de fronteiras nacionais, com o objetivo 
de forçar mulheres e adolescentes a entrar em situações 
sexualmente opressoras e exploradoras, para lucro dos 
aliciadores, traficantes. (CUNHA; GOMES; MAZZUOLI; 2009, 
p. 65-66).
A exploração da prostituição de crianças e adolescentes está 
prevista como crime no artigo 218-B do CP (revogando o art. 244-A 
do ECA). A exploração da prostituição de adultos está tipificada no 
art. 228 do CP. No art. 231, pune-se a exploração sexual da espécie 
tráfico internacional de pessoas (criança, adolescente e adulto). No 
art. 231-A, o tráfico interno. A pornografia envolvendo crianças e 
adolescentes foi incriminada no ECA, mais precisamente nos artigos 
240, 241, 241-A a 241-D; a de adultos, em regra, não configura 
crime. (CUNHA, Rogério Sanches; GOMES, Luiz Flavio; MAZZUOLI, 
Valerio de Oliveira, 2009. p. 66)
a) Tipo Objetivo
A conduta típica consiste em induzir (inspirar, persuadir, convencer), atrair 
(aliciar, seduzir, fascinar) a vítima à prostituição ou outra forma de exploração 
sexual, facilitá-la (proporcionar meios, prestar qualquer forma de auxílio, por 
exemplo, arranjando cliente) ou impedir (opor-se) ou dificultar (criar obstáculos) 
que a abandone. 
Se há emprego de violência (vis corporalis), grave ameaça (vis 
comlulsiva) ou fraude (ardil, artifício), a pena será de quatro a dez anos, 
além da pena correspondente à violência (§ 2º).
 
b) Sujeitos do Crime
Trata-se de crime comum, podendo ser praticado por qualquer 
pessoa, homem ou mulher, ao que eventual qualidade especial do 
agente em relação à vítima (ascendente, descendente, tutor etc.), 
qualifica o crime (§ 1º).
Se há emprego 
de violência 
(vis corporalis), 
grave ameaça 
(vis comlulsiva) 
ou fraude (ardil, 
artifício), a pena 
será de quatro 
a dez anos, 
além da pena 
correspondente à 
violência (§ 2º).
143
Crimes Contra a Dignidade Sexual Capítulo 5 
Sujeito passivo pode ser qualquer pessoa, homem ou mulher, não menor 
de 18 anos (hipótese que poderá configurar o crime previsto no artigo 218-B 
do Código Penal), inclusive os já prostituídos, quando a tenha sido facilitada ou 
impedido de deixar a prostituição, independentemente da opção sexual.
c) Elemento Subjetivo
O elemento subjetivo geral é o dolo, consistente na vontade livre e consciente 
de praticar qualquer das condutas descriminadas no tipo penal. Embora 
geralmente a prostituição ou a exploração sexual implique proveito pecuniário 
(ou de outra natureza), o autor do delito não precisa ter essa finalidade; basta 
o dolo de submeter a vítima à prostituição ou à exploração sexual. Quando o 
agente praticar qualquer das condutas visando lucro, aplicar-se-á também pena 
de multa.
d) Consumação e Tentativa
Somente se consuma o delito do artigo 228 do Código Penal quando a 
ação do sujeito ativo produz na vítima o efeito por ele querido, isto é, quando 
foi levada por ele à prostituição ou é impedida de abandoná-la (BITENCOURT, 
2009, p. 66). 
O tipo penal não admite tentativa na formas induzir, atrair ou facilitar, 
por se tratar de crime condicionado, podendo se configurar nas modalidades 
impedir e dificultar, contudo, de difícil constatação.
e) Resultados Qualificadores
Se o agente é ascendente, padrasto, madrasta, irmão, enteado, cônjuge, 
companheiro, tutor ou curador, preceptor ou empregador da vítima, ou se assumiu, 
por lei ou outra forma, obrigação de cuidado, proteção ou vigilância, a pena é de 
reclusão, de 3 (três) a 8 (oito) anos (§ 1º). Cuida-se de rol exaustivo, que não 
permite interpretação analógica a fim de aplicar pena maior ao acusado.
Se há emprego de violência (vis corporalis), grave ameaça (vis comlulsiva) 
ou fraude (ardil, artifício), a pena será de quatro a dez anos, além da pena 
correspondente à violência (§ 2º). Se o agente for movido pelo fim de lucro, 
além da pena de prisão prevista, aplicar-se-á também a de multa, por constituir 
o lenocínio mercenário crime mais grave, em razão de sua maior torpeza (§ 3º).
144
 Direito Penal II - Parte Especial 
Atividade de Estudos: 
Analise a seguinte situação apresentada.
Ciclana, moça vinda do interior e sem familiares nesta urbe, 
reside em apartamento por ela própria alugado no centrode São 
Paulo, onde passou, com habitualidade, a se prostituir de forma 
discreta, mediante paga, em razão de não arranjar emprego e após 
ter sido abandonada pelo companheiro. Vizinhos, inconformados 
com a movimentação anormal de pessoas no apartamento de 
Ciclana, chamaram a polícia, querendo uma providência de cunho 
criminal. Anote-se que Fulano, amigo de infância de Ciclana, 
compadecido dessa situação, por vezes a visitava, levando alguns 
bens para complementar seu sustento, contribuindo vez por outra no 
pagamento do aluguel do imóvel. Do exposto, conclui-se que:
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Algumas Considerações
No presente capítulo estudamos os crimes contra a dignidade sexual e 
as alterações advindas com a Lei 12.015/2009. Muitas questões polêmicas 
permanecem em aberto, notadamente quanto à classificação do artigo 213 do 
Código Penal – Tipo Misto Alternativo ou Tipo Misto Cumulativo, interferindo no 
quantum de pena que será imposto ao sujeito ativo que praticar coitos ou atos 
libidinosos distintos na vítima, no mesmo contexto. 
145
Crimes Contra a Dignidade Sexual Capítulo 5 
Outra questão interessante é a opção do legislador em aplicar o critério 
biológico nos casos de estupro de vulnerável (artigo 217-A do Código Penal), 
ainda mais na realidade atual, em que muitas meninas e meninos iniciam sua 
vida sexual aos 13 anos de idade, detentores de personalidade e discernimento. 
Evidente que cada situação deve ser analisada isoladamente, contudo não 
seria interessante adotar no Brasil o critério bio-psicológico, valorando as 
particularidades do caso concreto.
Enfim, diversos são os desafios do Direito Penal na regulamentação da vida 
em sociedade, devendo os operadores jurídicos analisar com parcimônia e bom 
senso as questões que envolvem a dignidade sexual.
Referências 
BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal. Parte especial 2. 11 
ed. São Paulo: Saraiva, 2011. 
CAPEZ, Fernando. Curso de Direito Penal: parte especial. 11 ed. São Paulo: 
Saraiva, 2011. v. 2.
ESTEFAM, André. Direito Penal: Parte especial. São Paulo: Saraiva, 2010. v. 2.
GRECO, Rogério. Curso de Direito Penal: parte especial. 7 ed. Rio de Janeiro: 
Impetus, 2010. v. 2.
HUNGRIA, Nelson. Comentários ao Código Penal. 5 ed. Rio de Janeiro: 
Forense, 1979, v. 5. 
MIRABETE, Julio Fabbrini. Manual de Direito Penal, volume 2, parte especial. 
28 ed. São Paulo: Atlas, 2011. 
NORONHA, E. Magalhães. Direito Penal: dos crimes contra a pessoa. 26 ed. 
São Paulo: Saraiva, 1994. v. 3. 
PRADO, Luiz Regis. Curso de Direito Penal Brasileiro: volume 2. 9 ed. São 
Paulo: Revista dos Tribunais, 2010. 
CAPÍTULO 6
Crimes Contra a Família 
A partir da perspectiva do saber fazer, neste capítulo você terá os seguintes 
objetivos de aprendizagem:
 3 Conceituar os crimes contra a família. 
 3 Identificar e distinguir os crimes contra a família diante de casos reais.
149
Crimes Contra a Família Capítulo 6 
Contextualização
No capítulo anterior, analisamos os crimes contra a dignidade sexual, bem 
como toda divergência doutrinária e jurisprudencial quanto às alterações advindas 
com a Lei nº 12.015/2009. 
Neste capítulo, dedicaremos nosso estudo à tutela penal da família, em 
especial quanto ao matrimônio, registro de nascimento e assistência material e 
intelectual.
A Constituição Federal de 1988, artigo 226, assevera que “a família, base 
da sociedade, tem especial proteção do Estado”, legitimando a intervenção do 
direito penal em face de atos atentatórios à harmonia familiar, em todos os seus 
aspectos. 
Bigamia
De acordo com o CP:
Art. 235 - Contrair alguém, sendo casado, novo 
casamento:
Pena - reclusão, de dois a seis anos.
§ 1º - Aquele que, não sendo casado, contrai 
casamento com pessoa casada, conhecendo 
essa circunstância, é punido com reclusão ou 
detenção, de um a três anos.
[...]
O Brasil adota a monogamia como forma de organização familiar. 
O termo bigamia é dirigido somente àquele que, sendo casado, contrai 
novo casamento. Isso significa que o outro cônjuge que contraiu 
casamento sem conhecimento do óbice legal não pratica a infração 
penal sob análise, sendo considerado, em regra, um dos sujeitos 
passivos do delito de bigamia.
A instituição do matrimônio é o bem juridicamente protegido pelo delito de 
bigamia. No entanto, o tipo penal também busca proteger a família, considerada 
como base da sociedade, nos termos do artigo 226 da Constituição Federal de 
1988.
CP:
Art. 235 - Contrair 
alguém, sendo 
casado, novo 
casamento:
Pena - reclusão, de 
dois a seis anos.
§ 1º - Aquele que, 
não sendo casado, 
contrai casamento 
com pessoa casada, 
conhecendo essa 
circunstância, é 
punido com reclusão 
ou detenção, de um 
a três anos.
150
 Direito Penal II - Parte Especial 
a) Tipo Objetivo
A conduta típica consiste em contrair novo casamento sendo o agente 
casado, desconsiderando a proibição legal constante no inciso VI do artigo 1.521 
do Código Civil. Trata-se de Lei penal em branco homogênea heteróloga. 
A lei penal em branco exige um complemento normativo para 
que tenha eficácia. O tipo penal só se compreende por dois textos. A 
norma penal em branco se divide em duas espécies: a) homogênea 
e b) hetorogênea.
Espécies de norma penal em branco:
a) Homogênea: a complementação provém da mesma espécie 
normativa.
- Homóloga ou Homovitelinia: a Lei está no mesmo Estatuto.
- Heteróloga ou heterovitelinia: a Lei está em outro Estatuto. 
b) Heterogênea: a complementação provém de espécie normativa 
diversa.
Ex.: Art. 33 da Lei nº 11.343/06 – complemento: Portaria 344 da 
ANVISA.
O tipo incriminador não pode ser ampliado para atingir o convivente de 
uma união estável, mesmo que desta relação tenha advindo filhos, hipótese 
que configuraria analogia in malan partem. A própria Constituição Federal não 
confunde o casamento com a união estável, trazendo em seu artigo 226, § 3º, 
que “para efeitos da proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o 
homem e a mulher como entidade familiar, devendo a Lei facilitar sua conversão 
em casamento”. Da mesma forma, a cerimônia religiosa que não obedece às 
formalidades legais (artigo 1.515 do Código Civil) não prestará para efeitos de 
reconhecimento de casamento interior.
A lei não exige que o casamento anterior seja válido, desde que vigente, ao 
que em sendo nulo ou anulável, até que se declare a nulidade, produzirá seus 
efeitos e servirá para caracterizar o crime de bigamia.
151
Crimes Contra a Família Capítulo 6 
A simples separação judicial não elide o reconhecimento do delito, porquanto, 
de acordo com o § 1º do artigo 1.571 do Código Civil, “o casamento válido só se 
dissolve pela morte de um dos cônjuges ou pelo divórcio” (BRASIL, 2003, p. 243). 
Contrair novo casamento sendo separado judicialmente não elide 
o crime, porquanto somente o divórcio dissolve o vínculo conjugal 
(TJSP, RT 733/554). 
Logo, o sujeito que, sendo separado judicialmente, se casa pela 
segunda vez, induzindo ao erro essencial o outro contraente, em 
tese, comete o delito de bigamia e induzimento a erro essencial, em 
concurso formal de crimes.
Por outro lado, de acordo com o § 1º do art. 235 do CP, também é 
punido “aquele que, não sendo casado, contraicasamento com pessoa 
casada, conhecendo essa circunstância, é punido com reclusão ou 
detenção, de 1 (um) a 3 (três) anos”. 
b) Concurso de Crimes
Refere-se ao concurso de crimes a bigamia e falsidade ideológica e a 
poligamia.
• Bigamia e Falsidade Ideológica
Considerando que um dos documentos exigidos no processo de habilitação 
de casamento é a declaração feita pelos requerentes, na qual fica consignado 
o seu estado civil, ao praticar o delito de bigamia, o agente, obrigatoriamente, 
comete também “um delito de falsidade ideológica (crime-meio), sendo este, no 
entanto, absolvido pelo crime-fim” (GRECO, 2010, p.639).
O professor Fernando Capez (2010, p.183), contudo, entende “pelo concurso 
material entre a bigamia e a falsidade ideológica, porquanto os momentos 
consumativos e os objetos jurídicos são diversos”.
• Poligamia
A poligamia consiste na assunção de mais de um matrimônio sendo o agente 
casado. O sujeito ativo deve responder pelo concurso material de crimes (artigo 
69 do Código Penal), tantas vezes forem o número de novos casamentos. 
De acordo com o 
§ 1º do art. 235 
do CP, também é 
punido “aquele que, 
não sendo casado, 
contrai casamento 
com pessoa casada, 
conhecendo essa 
circunstância, é 
punido com reclusão 
ou detenção, de 1 
(um) a 3 
(três) anos”.
152
 Direito Penal II - Parte Especial 
c) Sujeitos do Crime
O caput tem como sujeito ativo a pessoa já casada. Cuida-se de crime próprio 
de concurso necessário, demandando duas pessoas para sua execução, mesmo 
que uma delas não seja culpável. Por essa razão é denominado crime bilateral ou 
de encontro. 
Para Luiz Régis Prado (2010, p. 681), “as testemunhas que afirmam a 
inexistência de impedimento, sabendo que um dos nubentes é pessoa casada, 
respondem como partícipe”. Sujeito passivo é o Estado, bem como o cônjuge do 
primeiro casamento e o contraente de boa-fé.
d) Elemento Subjetivo 
O elemento subjetivo geral é o dolo, consistente na vontade livre e 
consciente de contrair novo matrimônio sendo casado. O agente deve estar 
ciente da existência deste impedimento. Do contrário, haverá erro de tipo (artigo 
20 do Código Penal), o qual exclui o dolo e, portanto, o crime. Cite-se como 
exemplo a hipótese em que o agente, supondo erroneamente que seu divórcio foi 
judicialmente decretado, casa-se novamente (CAPEZ, 2010).
e) Consumação e Tentativa
O delito de bigamia se consuma quando da efetiva realização do segundo 
casamento, nos termos do artigo 1.514 do Código Civil, quando o presidente do 
ato leva a efeito a declaração formal de casados, de acordo com a segunda parte 
do artigo 1.535 do Código Civil.
Deste modo, embora os contraentes já tenham manifestado sua vontade no 
sentido de contrair matrimônio, se não houver a declaração solene de casados, 
não se poderá considerar consumado o delito. A lavratura do assento no livro de 
registro (artigo 1.536 do Código Civil) constitui mera formalidade legal, que serve 
como meio de prova da celebração.
Admite-se a tentativa quando, iniciados os atos de celebração do casamento, 
o agente não se manifesta favorável por circunstâncias alheias à sua vontade. 
O procedimento de habilitação de casamento é considerado ato preparatório, 
não caracterizando a tentativa no caso do agente ser descoberto nessa fase, 
respondendo o sujeito ativo unicamente pelo crime de falsidade ideológica (artigo 
299 do Código Penal).
153
Crimes Contra a Família Capítulo 6 
f) Ação Penal e Causa Suspensiva 
A ação penal será pública incondicionada. Se houver ação civil em curso que 
trata da nulidade do primeiro casamento, a ação penal deve ser suspensa, pois 
se trata de questão prejudicial, aplicando-se o disposto no artigo 92 do Código de 
Processo Penal.
g) Causa de Exclusão de Tipicidade
O § 2º do artigo 235 do CP apresenta-se como causa de exclusão de 
tipicidade: “Anulado por qualquer motivo o primeiro casamento, ou o outro por 
motivo que não a bigamia, considera-se inexistente o crime”.
h) Prescrição
Somente depois de descoberta do ulterior casamento do agente por alguma 
autoridade pública (delegado, promotor, juiz), terá início a contagem do prazo 
prescricional, e não da data em que foi realizada a celebração formal (artigo 111, 
inciso IV, do CP). 
Simulação de Autoridade para 
Celebração de Casamento
De acordo com o CP:
Art. 238 - Atribuir-se falsamente autoridade para 
celebração de casamento:
Pena - detenção, de um a três anos, se o fato não 
constitui crime mais grave.
A instituição do matrimônio e a organização familiar (artigo 226 da 
Constituição Federal de 1988), não são os únicos bens juridicamente 
protegidos pelo delito, ao que, ainda, o tipo penal visa proteger a 
segurança jurídica da celebração do casamento. 
a) Tipo Objetivo
Consiste o crime em se intitular falsamente autoridade para celebração de 
De acordo com o 
CP:
Art. 238 - Atribuir-
se falsamente 
autoridade para 
celebração de 
casamento:
Pena - detenção, de 
um a três anos, se 
o fato não constitui 
crime mais grave.
154
 Direito Penal II - Parte Especial 
casamento, assumindo o papel de presidente do ato, levando a efeito, ilegalmente, 
a declaração que os contraentes estão casados (artigo 1.514 do Código Civil). 
Como se percebe na redação do artigo 238 do Código Penal, o delito de 
simulação de autoridade para celebração de casamento pode ser considerado 
uma modalidade especial de usurpação de função pública, tipificado no artigo 328 
do Estatuto Repressivo.
Dispõe o artigo 1.550, inciso VI, do Código Civil, que o casamento realizado 
nessas circunstâncias (por autoridade incompetente) é anulável, reconhecendo, 
assim, a boa-fé dos noivos, induzidos ao erro pelo falso celebrante.
b) Sujeitos do Crime
Qualquer pessoa pode ser sujeito ativo do crime, não se exigindo nenhuma 
condição especial do autor, podendo inclusive ser funcionário público. Sujeito 
passivo será o Estado, bem como os cônjuges que contraírem o falso casamento 
de boa-fé. 
c) Elemento Subjetivo
O elemento subjetivo geral é o dolo, consistente na vontade livre e consciente 
de atribuir-se falsamente autoridade para celebração de casamento, sem qualquer 
objetivo específico.
d) Consumação e Tentativa
Tratando-se de crime de mera conduta, consuma-se o delito quando o agente 
praticar qualquer ato que diga respeito à solenidade de celebração do casamento, 
não havendo necessidade que todos os atos sejam levados a termo, inclusive a 
declaração de casados. Admite-se a tentativa.
e) Ação Penal
A ação penal é pública incondicionada. 
155
Crimes Contra a Família Capítulo 6 
Simulação de Casamento
De acordo com o CP:
Art. 239 - Simular casamento mediante engano 
de outra pessoa:
Pena - detenção, de um a três anos, se o fato não 
constitui elemento de crime mais grave.
A instituição do matrimônio e a organização familiar (artigo 226 da 
Constituição Federal de 1988) não são os únicos bens juridicamente 
protegidos pelo delito, ao que, ainda, o tipo penal visa proteger a 
segurança jurídica da celebração do casamento. 
a) Tipo Objetivo
Consiste o crime em simular casamento mediante engano de outra pessoa. 
É indispensável, para que se configure o crime, que a ação enganosa ludibrie 
alguém diretamente interessado na celebração do casamento. O núcleo simular é 
utilizado no texto legal no sentido de fazer de conta, dar a aparência de verdadeiro 
aquilo que é falso. Para Cezar Roberto Bitencourt (2009, p. 129):
É indispensável a utilização do meio enganoso para a prática 
do crime. Se os dois contraentes simulam o casamento, não 
se configura este crime, uma vez que faltou o engano de 
outra pessoa. Para configurar o crime é indispensável que a 
simulação do casamento ocorra por meio de engano (ardil, 
fraude, armadilha) do outro contraente. Assim a simples 
representação de estar casado, para pregar uma peça nos 
amigos, é insuficiente para caracterizá-lo.
b) Sujeitos do Crime
Qualquer pessoa pode ser sujeito ativodo crime, não se exigindo nenhuma 
condição especial do autor. Sujeito passivo é o Estado, bem como o cônjuge que 
contraiu casamento enganado. Luiz Régis Prado (2010, p.695) alerta que “todos 
os que participem do casamento, tendo ciência da simulação, serão havidos como 
coautores do delito”.
c) Elemento Subjetivo
O elemento subjetivo geral é o dolo, consistente na vontade livre e consciente 
de simular casamento mediante engano de outra pessoa.
De acordo com o 
CP:
Art. 239 - Simular 
casamento mediante 
engano de outra 
pessoa:
Pena - detenção, de 
um a três anos, se 
o fato não constitui 
elemento de crime 
mais grave.
156
 Direito Penal II - Parte Especial 
d) Consumação e Tentativa
A consumação ocorre com a simulação de qualquer ato constante da 
celebração do casamento, não havendo necessidade que todos os atos sejam 
levados a termo, inclusive a declaração de casados. Tratando-se de crime 
plurissubsistente, admite-se a tentativa.
e) Ação Penal
 A ação penal é pública incondicionada. 
Registro de Nascimento Inexistente
De acordo com o CP:
Art. 241 - Promover no registro civil a inscrição de nascimento 
inexistente:
Pena - reclusão, de dois a seis anos.
O bem jurídico tutelado é o estado de filiação, bem como a fé 
pública dos documentos inscritos no registro civil.
a) Tipo Objetivo
Consubstancia-se o crime em promover (gerar, provocar, requerer) no 
registro civil a inscrição de nascimento inexistente, abrangendo o tipo penal, 
também, a inscrição de nascimento de natimorto. Nos termos do artigo 50 da Lei nº 
6.015/73, todo o nascimento ocorrido no território nacional deve ser comunicado e 
registrado em livro próprio, com todos os dados a ele referentes (data, hora, local 
do nascimento, nome dos pais e dos avós etc.). Trata-se de forma especial de 
praticar falsidade ideológica (art. 299) que, no entanto, fica absorvida pelo crime 
(art. 241) – princípio da consunção.
b) Sujeitos do Crime
Qualquer pessoa pode praticar o delito. Segundo Luiz Régis Prado (2010, p. 
698), é bem possível que o sujeito ativo seja pessoa estranha à família ou, ainda, o 
oficial do Registro Civil. O médico que fornece o atestado de nascimento inexistente 
e as testemunhas do suposto nascimento podem figurar como partícipes do crime. 
De acordo com o 
CP:
Art. 241 - Promover 
no registro civil 
a inscrição de 
nascimento 
inexistente:
Pena - reclusão, de 
dois a seis anos.
157
Crimes Contra a Família Capítulo 6 
Sujeito passivo mediato é o Estado, bem como terceiro eventualmente prejudicado 
com o falso registro.
c) Elemento Subjetivo
O elemento subjetivo geral é o dolo, consistente na vontade livre e consciente 
de promover no registro civil a inscrição de nascimento inexistente.
d) Consumação e Tentativa
A consumação ocorre com a inscrição do nascimento inexistente 
no registro civil, independente de qualquer outro efeito. Admite-se a 
tentativa.
e) Ação Penal e Prescrição
A ação penal é pública incondicionada.
Somente depois da descoberta do registro inexistente por alguma 
autoridade pública (delegado, promotor, juiz), terá início a contagem 
do prazo prescricional, e não a partir da data em que foi realizada a 
inscrição no Registro Civil (artigo 111, inciso IV, do Código Penal).
Abandono Material
De acordo com o CP (Alterado pela L-010.741-2003):
Art. 244. Deixar, sem justa causa, de prover a 
subsistência do cônjuge, ou de filho menor de 18 
(dezoito) anos ou inapto para o trabalho, ou de 
ascendente inválido ou maior de 60 (sessenta) 
anos, não lhes proporcionando os recursos 
necessários ou faltando ao pagamento de pensão 
alimentícia judicialmente acordada, fixada ou 
majorada; deixar, sem justa causa, de socorrer 
descendente ou ascendente, gravemente enfermo: 
Pena - detenção, de 1 (um) a 4 (quatro) anos e 
multa, de uma a dez vezes o maior salário mínimo 
vigente no País.
Parágrafo único - Nas mesmas penas incide 
O CP :
Art. 244. Deixar, 
sem justa causa, 
de prover a 
subsistência do 
cônjuge, ou de 
filho menor de 18 
(dezoito) anos 
ou inapto para o 
trabalho, ou de 
ascendente inválido 
ou maior de 60 
(sessenta) anos, não 
lhes proporcionando 
os recursos 
necessários 
ou faltando ao 
pagamento de 
pensão alimentícia 
judicialmente 
acordada, fixada 
ou majorada; 
deixar, sem justa 
causa, de socorrer 
descendente 
ou ascendente, 
gravemente 
enfermo: 
Pena - detenção, de 
1 (um) a 4 (quatro) 
anos e multa, de 
uma a dez vezes o 
maior salário mínimo 
vigente no País.
158
 Direito Penal II - Parte Especial 
quem, sendo solvente, frustra ou ilide, de qualquer modo, 
inclusive por abandono injustificado de emprego ou função, 
o pagamento de pensão alimentícia judicialmente acordada, 
fixada ou majorada.
 
Os bens jurídicos tutelados são a estrutura e a organização familiar, 
notadamente quanto ao amparo material devido por ascendentes, descendentes 
e cônjuges, reciprocamente, no sentido de serem observadas as regras previstas 
nos artigos 229 e 230 da Constituição Federal de 1988.
 
a) Tipo Objetivo
Três são os comportamentos típicos: 
• A primeira conduta consiste em deixar, sem justa causa, de prover a 
subsistência do cônjuge, ou de filho menor de 18 (dezoito) anos ou inapto 
para o trabalho, ou de ascendente inválido ou maior de 60 (sessenta) 
anos, não lhes proporcionando os recursos necessários. Segundo Rogério 
Greco (2010, p. 678), por recursos necessários compreende alimentação, 
vestuário, habitação, tratamento de saúde etc., limitando-se tão-somente às 
necessidades fundamentais à manutenção da pessoa humana com dignidade.
• A segunda conduta consiste na falta de pagamento de pensão alimentícia 
judicialmente acordada, fixada ou majorada, sendo necessária, nesta 
hipótese, a existência de sentença judicial de alimentos.
• A terceira ação criminosa se verifica quando o agente deixar, sem justa causa, 
de socorrer descendente ou ascendente, gravemente enfermo. Não se trata de 
omitir os meios de subsistência que devem ser garantidos ao sujeito passivo, 
mas o amparo de que necessita em razão de grave enfermidade (física ou 
mental), como medicamentos, acompanhamento médico, acomodação 
hospitalar etc. O legislador, nesta figura, deixou de incluir os cônjuges ou 
parentes colaterais. 
Contudo, a doutrina tem caminhado no sentido de que, se a vítima sofre 
de doença não grave, mas que impossibilita o exercício de ofício ou trabalho, 
prejudicando sua subsistência, não se trata de caso de atipicidade, subsumindo-
se a conduta do agente à primeira ação típica. 
Quanto ao parágrafo único, pune-se, principalmente, a conduta daquele que 
abandona o emprego, sem justa causa, com a finalidade de evitar que lhe sejam 
descontados numerários referentes à obrigação alimentar, ao que a lei não pune 
159
Crimes Contra a Família Capítulo 6 
aquele que abandona o emprego, mas também que de qualquer modo frustra ou 
ilide o adimplemento da pensão. 
Ressalta-se que, para a caracterização de qualquer figura 
do tipo penal, deve o agente agir de forma injustificada (elemento 
normativo do tipo), aquilatada no caso concreto, com a apreciação 
das necessidades do paciente e das possibilidades do agente. 
“Deixar de prover implica em recusa, ou desatendimento total à 
subsistência. Prover parcialmente não significa deixar de prover, 
constituindo, por isso mesmo, conduta atípica” (BITENCOURT, 2009, 
p. 115). 
c) Sujeitos do Crime
Trata-se de crime próprio, podendo ser praticado somente por quem 
tem o dever legal de garantir a subsistência da vítima (cônjuge, descendente, 
ascendente). Sujeito passivo é a pessoa desamparada pelo agente.
d) Elemento Subjetivo
O abandono material, segundo Cezar Roberto Bitencourt (2009, p. 115), 
somente se tipifica quando o réu, possuindo recursos para prover o sustento da 
família deixa de fazê-lo propositadamente. Com efeito, a ausência de dolo por 
parte do réu, ou qualquer outro motivo egoístico no sentido de não provera 
subsistência do sujeito passivo, afasta a tipicidade da conduta.
e) Consumação e Tentativa 
A consumação varia de acordo com a conduta típica perpetrada pela agente: 
a) tratando-se de abandono material propriamente dito (1º figura), consuma-se 
o delito no momento em que o agente deixar de prover a subsistência da vítima; 
b) se a conduta consentir no inadimplemento de verba alimentar fixada ou 
acordada judicialmente, consuma-se com o não pagamento na data delimitada 
pela Autoridade Judiciária (seja por sentença, seja por homologação de acordo); 
c) no caso de omissão de socorro, consuma-se com a mera inação, geradora 
do perigo.
160
 Direito Penal II - Parte Especial 
Trata-se, portanto de delito omissivo próprio, sendo inadmissível a tentativa.
f) Prisão Civil e Persecução Penal
Segundo Fernando Capez (2010, p. 209), “a prisão civil por inadimplemento de 
crédito de caráter alimentar (artigo 733 do CPC) não possui condão punitivo, mas 
sim coercitivo, no sentido de forçar o devedor a adimplir com o débito alimentar”, ao 
que tendo sido pago a dívida alimentar e revogada a prisão civil, tal situação não 
tem condão de interferir na persecução penal do crime do artigo 244 do Código 
Penal, o qual se consumou com o inadimplemento do quantum alimentar.
g) Ação Penal
A ação penal será pública incondicionada.
Abandono Intelectual
De acordo com o CP:
Art. 246 - Deixar, sem justa causa, de prover à instrução 
primária de filho em idade escolar:
Pena - detenção, de quinze dias a um mês, ou multa.
Bem jurídico tutelado é o direito à instrução fundamental dos filhos 
em idade escolar, consistente no dever de cuidados dos genitores 
(artigo 229 da Constituição Federal de 1988).
a) Tipo Objetivo
Caracteriza-se a conduta quando o pai ou mãe, convivendo ou não com o 
filho, deixar, sem justa causa, de providenciar seu ingresso à instrução primária 
em idade escolar. Entende-se como filho em idade escolar aquele com tenha 
entre 6 e 14 anos (artigo 6º e 32 da Lei nº 9.394/1996 - Lei de Diretrizes Básicas 
da Educação Nacional). 
Assim como no abandono material, exige-se a inexistência de justa causa 
para a omissão (elemento normativo do tipo). “Como causas que justifiquem a 
omissão do agente podem ser entendidas ‘as dificuldades de acesso às escolas 
De acordo com o 
CP:
Art. 246 - Deixar, 
sem justa causa, de 
prover à instrução 
primária de filho em 
idade escolar:
Pena - detenção, 
de quinze dias a um 
mês, ou multa.
161
Crimes Contra a Família Capítulo 6 
e a falta de escolas, tão comuns em alguns Estados, além do grau de instrução 
rudimentar ou nula dos próprios pais’ (Heleno Cláudio Fragoso)” (BITENCOURT, 
2009, p. 118).
b) Sujeitos do Crime
Somente os pais (naturais ou adotivos) podem figurar como sujeito ativo no 
crime de abandono intelectual, uma vez que o dispositivo se refere a filho em 
idade escolar, não podendo o tipo penal incidir sobre outras pessoas que exercem 
o dever de cuidado (guarda, tutela), por se tratar de analogia in malam partem.
c) Elemento Subjetivo
O elemento subjetivo específico é o dolo, consistente na vontade livre e 
consciente de não cumprir o dever de prover instrução primária ao filho em idade 
escolar, sem justa causa, o que deve ser demonstrado para configuração do delito.
d) Consumação e Tentativa
Consuma-se o crime de abandono intelectual, segundo Fernando Capez 
(2010, p. 213), “no momento em que o filho em idade escolar deixa de ser 
matriculado ou, embora estando matriculado, para de frequentar definitivamente 
a escola. Na primeira hipótese o momento é certo, sendo o crime instantâneo. 
Na segunda, a ausência ocasional não configura o crime em tela. Assim, o crime 
pode assumir a natureza de instantâneo ou habitual, estando ambas as formas 
ínsitas no núcleo deixar”.
Luis Régis Prado (2010, p. 722), lecionando a respeito, alerta que:
em que pese sustentar que não se perfaz o abandono 
intelectual quando a educação do menor é ministrada em 
casa, é forçoso reconhecer que a ratio legis da incriminação 
é a de compelir os pais a providenciar a escolarização 
do filho, oferecendo-lhe a educação fundamental no 
estabelecimento de ensino regular – e não fora dele. Aliás, 
acentua-se, corroborando tal entendimento, que apenas 
naquele local pode o menor, “convivendo intimamente com 
os colegas e respectivas famílias, participando das atividades 
desenvolvidas pela agência educativa, formar integralmente 
sua personalidade, preparando-se para a vida em sociedade”. 
Não fosse assim, “não haveria como justificar a expressão – 
idade escolar – utilizada pelo legislador ao estruturar a figura 
definida no artigo 246 do Código Penal. Idade escolar, ao que 
162
 Direito Penal II - Parte Especial 
tudo indica, significa aquela em que deve ter lugar a entrada 
na escola”.
Tratando-se de crime omissivo próprio, a tentativa é inadmissível.
e) Ação Penal
A ação penal será pública incondicionada.
Atividade de Estudos: 
1) O pai que, por carência de recursos decorrentes de situação de 
desemprego, deixa de submeter o filho, acometido de grave 
doença, a necessária e urgente intervenção cirúrgica, em tese 
comete que delito?
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Algumas Considerações
Neste capítulo estudamos os crimes contra o casamento e contra a 
assistência familiar, bem como sua inter-relação com os outros ramos do direto, 
notadamente o direito civil. 
Nos crimes analisados no presente tópico, temos grande aplicação do 
legislador do instituto da norma penal em branco, como complemento à estrutura 
do crime a aplicação da lei incriminadora. O direito penal não é uma ilha, deve ser 
analisado de acordo com a atual sistemática constitucional, em consonância com 
as demais normas legais.
163
Crimes Contra a Família Capítulo 6 
Para finalizar, importante ressaltar a importância da tutela penal nos institutos 
afetos à relação familiar, casamento, registro de filhos, assistência material e 
intelectual, valores muitas vezes esquecidos e que são imprescindíveis para a 
vida em sociedade. 
Referências 
BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal: Parte especial 2. 11 
ed. São Paulo: Saraiva, 2009. 
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível 
em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constitui%C3%A7ao.htm>. 
Acesso em: 15 dez. 2011.
BRASIL. Novo Código Civil Brasileiro: (Lei nº 10.406, em vigor a partir de 11 de 
janeiro de 2003). Apresentação e comentários de Celso Russomano. São Paulo: 
Escala, 2003.
BRASIL. Decreto-Lei Nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940. Código Penal. 
Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del2848.htm>. 
Acesso em: 02 nov. 2011.
CAPEZ, Fernando. Curso de Direito Penal: parte especial. 11.ed. São Paulo: 
Saraiva, 2010. v. 2
ESTEFAM, André. Direito Penal: Parte especial. São Paulo: Saraiva, 2010. v. 2
GRECO, Rogério. Curso de Direito Penal: parte especial. 7 ed. Rio de Janeiro: 
Impetus, 2010. 
PRADO, Luiz Regis. Curso de Direito Penal Brasileiro. 9 ed. São Paulo: 
Revista dos Tribunais, 2010. v. 2
CAPÍTULO 7
Crimes Contra a 
Administração Pública
A partir da perspectiva do saber fazer, neste capítulo você terá os seguintes 
objetivos de aprendizagem:
 3 Conceituar os crimes contra a administração pública. 
 3 Identificar e distinguir os crimes contra a administração pública diante de casos 
reais. 
 3 Buscar na jurisprudência casos julgados pelos Tribunaise apresentar 
comentário crítico referente ao crime pesquisado. 
167
Crimes Contra a 
Administração Pública 
 Capítulo 7 
Contextualização
Neste capítulo estudaremos os crimes contra a administração pública, 
notadamente os crimes funcionais, que somente podem ser praticados de forma 
direta por funcionário público, no exercício de suas funções ou em razão dela. 
Crimes dessa natureza, segundo Rogério Sanches Cunha (2009), afetam sempre 
a probidade administrativa, promovendo a desvirtuação da administração pública 
nas suas várias camadas, ferindo, dentre outros, os princípios basilares esculpidos 
no artigo 37 da Constituição Federal de 1988. Os crimes funcionais são divididos 
em duas espécies: a) Crimes Funcionais Próprios: quando, faltando a qualidade 
de servidor do agente, o fato deixa de ser crime – Atipicidade Absoluta. Ex: 
Prevaricação (artigo 319); b) Crimes Funcionais Impróprios: faltando a qualidade 
de servidor do agente, o fato deixa de ser crime funcional, mas permanece crime 
– Atipicidade Relativa. Exemplo: Peculato-Furto (artigo 312, § 1º).
PARTICIPAÇÃO E COAUTORIA POR PARTICULAR - Em 
todos os crimes deste capítulo, a condição de funcionário público 
é elementar do crime. Assim, o particular que, ciente da condição 
de funcionário público do comparsa, o ajuda a cometer o delito, 
responde também pelo crime contra a administração pública, nos 
termos do artigo 30 do Código Penal, porquanto as circunstâncias 
de caráter pessoal, quando elementares do crime, se comunicam a 
todos os demais. 
Conceito de funcionário público
Considera-se funcionário público, para os efeitos penais, quem, embora 
transitoriamente ou sem remuneração, exerce cargo, emprego e função pública 
(artigo 327 do Código Penal).
Cargo Público: são criados por Lei, com denominação própria. 
Exemplo: Presidente da República, Senador, Delegado de Polícia, 
Oficial de Justiça, Juízes de Direito, Vereadores etc.
Emprego Público: refere-se ao servidor contratado em regime 
especial ou da CLT, normalmente para serviço temporário. Exemplos: 
mensalistas, contratados etc.
168
 Direito Penal II - Parte Especial 
Função Pública: abrange qualquer conjunto de atribuições 
públicas que não correspondem a cargo ou emprego público. 
Exemplos: Jurados, Mesários nas Eleições etc. 
Equipara-se a funcionário público quem exerce cargo, emprego ou função 
em entidade paraestatal e quem trabalha para empresa prestadora de serviço 
contratada ou conveniada para a execução de atividade típica da Administração 
Pública (artigo 327, § 1º, do Código Penal).
Exemplos de entidades paraestatais: 
• Autarquias: INSS, Caixa Econômica Federal;
• Sociedade de Economia Mista: Banco do Brasil;
• Empresas Públicas: CORREIOS;
• Fundações Públicas: FUNAI;
Por conta da amplitude de equiparação, pode ser punido por crimes de 
corrupção passiva e concussão médicos (particulares) conveniados com o 
SUS (STJ – REsp. 331.055/RS), bem como advogados dativos nomeados para 
defender pessoas carentes (STJ – RHC 17.321/SP).
O conceito de funcionário público não abrange as pessoas que trabalham em 
empresas contratadas com a finalidade de prestar serviços para Administração 
Pública (Exemplo: trabalhador de empreiteira contratado para construção de 
rodovia), bem como que exercem mumus público, como inventariante, curador, 
tutor etc.
A pena será aumentada da terça parte quando os autores dos crimes 
previstos neste Capítulo forem ocupantes de cargos em comissão ou de função 
de direção ou assessoramento de órgão da administração direta, sociedade de 
economia mista, empresa pública ou fundação instituída pelo poder público (artigo 
327, § 2º, do Código Penal). 
Cargo em Comissão: é o cargo em que a pessoa é nomeada 
em confiança, sem a necessidade de concurso público.
169
Crimes Contra a 
Administração Pública 
 Capítulo 7 
Peculato
De acordo com o CP:
Art. 312 - Apropriar-se o funcionário público de dinheiro, valor 
ou qualquer outro bem móvel, público ou particular, de que tem 
a posse em razão do cargo, ou desviá-lo, em proveito próprio 
ou alheio:
Pena - reclusão, de dois a doze anos, e multa.
§ 1º - Aplica-se a mesma pena, se o funcionário público, 
embora não tendo a posse do dinheiro, valor ou bem, o 
subtrai, ou concorre para que seja subtraído, em proveito 
próprio ou alheio, valendo-se de facilidade que lhe proporciona 
a qualidade de funcionário.
Peculato culposo
§ 2º - Se o funcionário concorre culposamente para o crime de 
outrem:
Pena - detenção, de três meses a um ano.
§ 3º - [...].
O crime de peculato tem sua origem no direito romano e se caracterizava 
pela subtração de patrimônio pertencente ao Estado. “Essa infração penal recebia 
o nome de peculatus ou depeculatus, oriundo de período anterior à introdução 
da moeda, quando os animais (bois e carneiros) destinados ao sacrifício em 
homenagem às divindades consistiam na riqueza pública por excelência” 
(BITENCOURT, 2009, p. 4).
O Código Penal brasileiro divide o crime de peculato de diversas formas: 
peculato apropriação (artigo 312, caput, 1ª parte); peculato desvio (artigo 312, 
caput, 2ª parte); peculato furto (artigo 312, § 1ª) e peculato culposo (artigo 312, § 
2º), ao que, ainda, consta a figura do chamado peculato estelionato (artigo 313), 
que não será objeto de estudo. 
Para Cezar Roberto Bitencourt (2009, p. 05):
A eficiência do Estado está diretamente relacionada com 
a credibilidade, honestidade e probidade de seus agentes, 
pois a atuação do corpo funcional reflete-se na coletividade, 
influenciando decididamente na formação ético-moral e 
política dos cidadãos, especialmente no conceito que fazem 
da organização estatal.
O bem jurídico tutelado não é só o patrimônio público, mas, também, a 
probidade administrativa. Para Julio Fabbrini Mirabete (2010, p. 265):
170
 Direito Penal II - Parte Especial 
Tutelados pelo dispositivo estão não só os bens públicos, 
mas também os pertencentes aos particulares que estejam 
sob a guarda, vigilância, custódia etc. da administração. 
Pratica peculato, por exemplo, o policial ou carcereiro que se 
apropria de bens do preso. Não estando a coisa sob guarda e 
responsabilidade da Administração Pública não ocorre o crime, 
mas outro, como no caso de policial que subtraiu toca-fita de 
automóvel que perseguira e que fora abandonado pelo motorista.
Na lição de Damásio de Jesus (2002, p. 125), protege-se a “Administração 
Pública no que diz respeito ao interesse patrimonial – preservação do erário 
público – e moral – fidelidade e probidade dos agentes do poder”. 
a) Tipo Objetivo
A conduta típica descrita no caput consiste na apropriação (tomar para si) 
ou no desvio (alterar o destino). No peculato-apropriação, o agente age com o 
objetivo de fazer sua a coisa de outra pessoa, invertendo o ânimo sobre o objeto 
(CAPEZ, 2010). “Na verdade, corresponde a um tipo especial de apropriação 
indébita, qualificada pelo fato de ser o agente funcionário público, no exercício 
de sua função, prejudicando não só a moral, mas o patrimônio da administração” 
(SANCHES, 2009, p. 405). Exige o tipo penal que essa posse tenha advindo em 
razão do cargo, ao que, também, obtida de forma lícita. No peculato-desvio, o 
agente altera o destino do bem que está em seu poder. O desvio deve ser em 
proveito próprio ou de terceiros, podendo ser material ou moral, ao que se for a 
proveito da própria administração, haverá o crime do artigo 315 do Código Penal 
(emprego irregular de verbas ou rendas públicas). A confiança depositada no 
funcionário público que recebe a coisa, objeto material do crime de peculato, é 
proveniente de imposição legal, em razão do cargo público exercido pelo agente. 
É necessário que receba o bem em razão do cargo que exerce, significando que a 
entrega da coisa ao agente deve ser feita em decorrência de sua competência ou 
atribuição funcional, circunscrevendo-se o ato às atribuições inerentes ao cargo 
que ocupa (BITENCOURT, 2009).Indaga-se, finalmente: no caso em que o funcionário público 
tem um crédito a ser exigido da Administração Pública e resolve 
apropriar-se do dinheiro público com o fim de realizar a compensação 
extrajudicial, comete ele o crime em tela? Sim, pois o dinheiro 
público está vinculado, por lei ou ato administrativo, a determinados 
fins. No momento em que o funcionário público dele se apropria, a 
Administração Pública fica, de forma ilegal, privada da disponibilidade 
daquele dinheiro (CAPEZ, 2010, p. 459).
171
Crimes Contra a 
Administração Pública 
 Capítulo 7 
Quanto ao peculato-furto (§ 1º), também chamado peculato impróprio, 
o agente subtrai (animus furandi) a coisa ou concorre conscientemente para a 
subtração praticada por um terceiro, valendo-se da facilidade que a condição de 
funcionário público lhe proporciona. “Aqui o agente não tem a posse ou detenção 
do bem como no peculato-apropriação ou desvio, mas se vale da facilidade que 
lhe proporciona a qualidade de funcionário público para realizar a subtração” 
(CAPEZ, 2010, p. 463). Leia-se:
O funcionário pode tanto ele próprio realizar a subtração 
– por exemplo, guarda noturno que aproveita para entrar 
no almoxarifado e de lá subtrair diversos materiais – como 
concorrer para que outrem o faça – poderá o agente, 
propositadamente, deixar aberta a porta da repartição 
pública em que trabalha para que outrem, previamente 
conluiado, realize a subtração. Responderão ambos pelo 
crime de peculato, uma vez que a qualidade de funcionário do 
copartícipe comunica-se ao autor da subtração (CAPEZ, 2010, 
p. 463).
Contudo, caso um policial esteja no interior de uma casa fazendo 
uma investigação e subtraia dinheiro de uma gaveta, responde por 
crime comum de furto (artigo 155 do Código Penal), porque o bem 
particular só pode ser objeto de peculato se estiver sob a guarda ou 
custódia da administração.
Se a colaboração tiver decorrido de imprudência ou negligência, haverá 
peculato culposo (§ 2º). Exemplo: funcionário que esquece a porta aberta e 
alguém se aproveita da situação para furtar objetos da repartição. Em tal hipótese, 
o funcionário incorre em peculato culposo e o terceiro em crime de furto. 
A Lei não prevê o chamado peculato de uso, quando do uso não 
autorizado do bem público de coisa infungível. Contudo, tratando-se 
de bem fungível, pode caracterizar outra modalidade de peculato. 
Exemplo: funcionário público usa dinheiro público para compra 
de um veículo importado. Nessa hipótese, houve consumação 
no momento da compra e, mesmo que posteriormente reponha o 
dinheiro, responderá pelo delito. Se o funcionário público, todavia, 
usa bem infungível e devolve posteriormente, não responde pelo 
crime, pois a lei não pune o mero uso. Exemplo: usar maquinário 
172
 Direito Penal II - Parte Especial 
pertencente ao patrimônio público para fins particulares e depois 
devolver. Nesse caso, entende-se que não há crime, exceto se o 
combustível for público e não for reposto, pois então o objeto material 
seria o combustível.
Por fim, “tratando-se de crime funcional, como peculato p. ex., não incide 
a agravante relativa à violação de dever funcional. Segundo a regra exceptiva 
constante da parte final do caput do art. 61, do CP, em decorrência de princípio no 
bis in idem, não se agrava a pena quando a circunstância constitui elementar do 
crime” (MIRABETE; FABBRINI, 2010, p. 259).
b) Objeto Material
Não existe peculato de bem imóvel. Não há crime contra a administração 
pública a conduta de usar serviços ou mão de obra pública. Na lição de Fernando 
Capez (2010, p. 456): 
O dispositivo legal faz expressa menção ao dinheiro, valor 
(por exemplo: letras de câmbio, apólices, notas promissórias 
etc.) ou qualquer bem móvel (veículo, computador, máquina 
de escrever etc.), de natureza pública ou privada, de que 
tem o funcionário público a posse em razão do cargo. A 
apropriação de bens particulares por funcionário público 
configura o denominado peculato-malversação; por exemplo, 
a Administração Pública loca alguns tratores de uma empresa 
particular para auxiliar trabalhadores ruralistas no cultivo de 
suas próprias terras; contudo, o funcionário público incumbido 
de fazer a distribuição dos tratores apropria-se de um deles 
para arar terras próprias, sem, no entanto, devolvê-lo.
Assim, a conduta do chefe que manda subordinado arrumar o jardim de sua 
casa constitui apenas ato de improbidade administrativa do artigo 9º, inciso IV, da 
Lei nº 8.429/92, e não peculato. 
Contudo, sendo o funcionário público prefeito, haverá o crime 
específico do artigo 1º, inciso II, do Decreto-Lei 201/67, que disciplina 
apenas os crimes praticados por prefeitos.
173
Crimes Contra a 
Administração Pública 
 Capítulo 7 
c) Sujeitos do Crime
Sujeito ativo é o funcionário público (artigo 327 do Código Penal), tratando-se 
de crime próprio. Exige-se que o agente pratique a conduta típica valendo-se do 
cargo que ocupa.
O particular que, ciente da condição de funcionário público do comparsa, o 
ajuda a cometer o delito, responde também pelo crime contra a administração 
pública, nos termos do artigo 30 do Código Penal, porquanto as circunstâncias de 
caráter pessoal, quando elementares do crime, se comunicam a todos os demais. 
O sujeito passivo é o Estado, bem como eventual particular prejudicado no 
caso de peculato-malversação.
Prefeitos que se apropriam de bens do qual têm posse não 
respondem por crimes de peculato-apropriação e peculato-desvio 
previsto no Código Penal, pois, para eles, existem crimes específicos 
descritos no art. 1º, I, do Decreto-Lei nº 201/67.
Múnus público. O tutor, curador, inventariante judicial, 
liquidatário, testamenteiro ou depositário judicial, 
nomeado pelo juiz, que se apropria dos valores que 
lhe são confiados, não cometem o crime de peculato, 
uma vez que as citadas pessoas não exercem função 
pública. Eles, na realidade, exercem múnus público, o 
qual não se confunde com função pública. Assim, na 
hipótese, deverão responder pelo crime de apropriação 
indébita majorada (CP, art. 168, § 1º, II) (CAPEZ, 2010, 
p. 465).
Em relação ao administrador judicial da falência que se apodera 
de bem da massa existe crime específico no art. 173 da Lei nº 
11.101/2005.
d) Elemento Subjetivo
O elemento subjetivo geral é o dolo, consistente na vontade livre e consciente 
de praticar uma das condutas previstas no tipo penal, salvo na hipótese de 
peculato culposo.
174
 Direito Penal II - Parte Especial 
e) Consumação e Tentativa
No caso de peculato-apropriação, consuma-se o crime no momento em que 
o funcionário público inverte a titularidade da posse do bem, agindo com animus 
domini, ao que, no peculato-desvio, tem-se a consumação no momento em que 
ocorre o desvio, pouco importando se a vantagem visada é obtida ou não. No 
peculato-furto, consuma-se no instante em que o agente consegue tirar o bem da 
esfera de vigilância da administração e ter a posse tranquila deste, ainda que por 
pouco tempo. Leia-se as ponderações de Cezar Roberto Bitencourt (2009, p. 17):
O momento consumativo do crime de peculato é de difícil 
precisão, pois depende, em última análise, de uma atitude 
subjetiva. A consumação do crime e, por extensão, o 
aperfeiçoamento do tipo coincidem com aquele em que o 
agente, por ato voluntário e consciente, inverte o título da 
posse, passando a reter o objeto material do crime (dinheiro, 
valor ou qualquer outro bem móvel) como se dono fosse (uti 
dominus). Consuma-se o crime com a efetiva apropriação, 
desvio ou subtração do objeto material, ou seja, quando o 
funcionário público torna seu o patrimônio do qual detém a 
posse, ou desvia em proveito próprio ou de terceiro, sendo 
irrelevante o prejuízo efetivo para a Administração Pública. 
Perfeitamente admissível a tentativa quando se tratar das hipóteses de 
peculato doloso, ao que não existe tentativa de crime culposo próprio. 
f) Ação Penal e Causa Extintivade Punibilidade
A ação penal é pública incondicionada, ao que nos termos do artigo 312, § 
3°, do Código Penal, tratando-se de peculato culposo, a reparação do dano, se 
precede à sentença irrecorrível, extingue a punibilidade; se lhe é posterior, reduz 
de metade a pena imposta.
No peculato doloso, a reparação do dano apenas reduz a pena, 
se antes do recebimento da denúncia, aplicando-se o instituto do 
arrependimento posterior do artigo 16 do Código Penal (redução de um 
a dois terços) e, se ocorrer durante o tramitar da ação, será aplicada a 
atenuante do artigo 65, inciso III, b, do mesmo diploma legal.
Concussão
De acordo com o CP:
Art. 316 - Exigir, para si ou para outrem, direta ou indiretamente, 
ainda que fora da função ou antes de assumi-la, mas em razão 
dela, vantagem indevida:
De acordo com o 
CP:
Art. 316 - Exigir, 
para si ou para 
outrem, direta ou 
indiretamente, 
ainda que fora da 
função ou antes 
de assumi-la, mas 
em razão dela, 
vantagem indevida:
Pena - reclusão, de 
dois a oito anos, 
e multa.
175
Crimes Contra a 
Administração Pública 
 Capítulo 7 
Pena - reclusão, de dois a oito anos, e multa.
[...]
A concussão tem origem no Direito Romano “que, refletindo o costume 
contemporâneo, não concebia que altos funcionários do Estado pudessem receber 
alguma recompensa por cumprirem seus deveres funcionais” (BITENCOURT, 
2009, p. 61). Veja-se:
Os costumes de Roma impediam que magistrados, advogados, 
oficiais do exército e outros altos funcionários recebessem 
qualquer pagamento ou recompensa pelos serviços que 
prestassem. Essas funções tinham natureza de dever cívico 
e, por essa razão, deviam ser prestadas gratuitamente 
(BITENCOURT, 2009, p. 62).
O bem jurídico tutelado é a moralidade administrativa, bem como a 
proteção patrimonial do particular constrangido pelo ato criminoso do funcionário 
público. “Também integram os bens jurídicos protegidos pelo tipo penal em exame 
o patrimônio particular e a própria liberdade individual, embora se encontrem num 
plano secundário” (BITENCOURT, 2009, p. 62).
a) Tipo Objetivo
A ação típica consiste em exigir o funcionário público, direta ou indiretamente, 
vantagem indevida, “abusando da sua autoridade pública como meio de coação 
(metus publicae potestatis). O agente, portanto, se vale da autoridade que detém 
em razão da função pública exercida para incutir temor na vítima e com isso obter 
indevidas vantagens” (CAPEZ, 2010, p. 485).
Segundo Cezar Roberto Bitencourt (2009, p. 63):
O verbo nuclear exigir tem o sentido de obrigar, ordenar, 
impor ao sujeito passivo a concessão da pretendida vantagem 
indevida. Convém destacar que exigir não se confunde com 
o simples solicitar (verbo núcleo da corrupção passiva), pois 
naquele há uma imposição do funcionário, que, valendo-se do 
cargo ou da função que exerce, “constrange” o sujeito passivo 
com sua “exigência”.
Na lição de Fernando Capez (2010), a vítima cede exclusivamente em razão 
da condição de funcionário público do agente, sem qualquer emprego de violência 
física. Para Júlio Fabbrini Mirabete (2010) pode ser de qualquer espécie de 
vantagem, sexual, material, moral, uma vez que a lei não faz distinção.
176
 Direito Penal II - Parte Especial 
O objeto material do crime é a vantagem indevida. Quanto à natureza da 
vantagem indevida, há duas posições: a) vantagem é econômica ou patrimonial. 
Nesse sentido: Damásio, Hungria, Noronha, Delmanto, Bitencourt; b) admite-se 
qualquer espécie de vantagem, que não necessariamente patrimonial. Nesse 
sentido: Bento Faria e Mirabete. Fernando Capez adota a segunda posição, 
uma vez que se cuida aqui não de crime patrimonial, mas de delito contra a 
Administração Pública. Dessa forma, qualquer vantagem exigida pelo agente, 
desde que indevida, atenta contra os interesses da Administração Pública 
(CAPEZ, 2010).
a) Sujeitos do Crime
Sujeito ativo é o funcionário público (artigo 327 do Código Penal), tratando-
se de crime próprio. O particular que, ciente da condição de funcionário público 
do comparsa, o ajuda a cometer o delito, responde também pelo crime contra a 
administração pública, nos termos do artigo 30 do Código Penal, porquanto as 
circunstâncias de caráter pessoal, quando elementares do crime, se comunicam 
a todos os demais. 
O próprio dispositivo assevera que pode o agente estar fora da função 
(horário de descanso, férias, licença) ou, até mesmo, nem tê-la assumido (quando 
já passou no concurso, mais ainda não tomou posse, por exemplo). Se o crime for 
cometido por policial militar, estará configurado o crime do artigo 305 do Código 
Penal Militar (Decreto-Lei 1001/69), que é igualmente chamado de concussão. O 
sujeito passivo é o Estado, bem como eventual particular prejudicado no caso de 
peculato-malversação.
Se a conduta de exigir vantagem indevida for praticada por fiscal 
da fazenda, tipifica-se crime contra a ordem tributária, previsto no 
artigo 3º, inciso II, da Lei 8.137/90.
c) Elemento Subjetivo
O elemento subjetivo é o dolo, consistente na vontade livre e consciente 
de exigir para si ou para outrem vantagem indevida, abusando da condição de 
funcionário público.
177
Crimes Contra a 
Administração Pública 
 Capítulo 7 
d) Consumação e Tentativa
Consuma-se o delito no momento em que a exigência chega ao conhecimento 
da vítima, independentemente da efetiva obtenção da vantagem visada pelo 
agente. “O crime de concussão é formal, ou seja, sua consumação não depende 
da ocorrência do resultado naturalístico, verificando-se com a simples exigência 
da vantagem indevida” (BITENCOURT, 2009, p. 64). 
Não desnatura o crime, portanto, a devolução posterior da vantagem. 
“Dessa forma, a devolução posterior da vantagem à vítima configura o chamado 
arrependimento posterior (CP, art. 16), uma vez que o crime já se consumou com 
o simples ato de exigir” (CAPEZ, 2010, p. 489).
e) Ação Penal
A ação penal é pública incondicionada.
 
Corrupção Passiva
De acordo com o CP:
Art. 317 - Solicitar ou receber, para si ou para 
outrem, direta ou indiretamente, ainda que fora 
da função ou antes de assumi-la, mas em razão 
dela, vantagem indevida, ou aceitar promessa de 
tal vantagem:
Pena – reclusão, de 2 (dois) a 12 (doze) anos, e 
multa.
§ 1º - A pena é aumentada de um terço, se, em 
consequência da vantagem ou promessa, o 
funcionário retarda ou deixa de praticar qualquer 
ato de ofício ou o pratica infringindo dever 
funcional.
§ 2º - Se o funcionário pratica, deixa de praticar 
ou retarda ato de ofício, com infração de dever 
funcional, cedendo a pedido ou influência de 
outrem:
Pena - detenção, de três meses a um ano, ou multa.
Para Cezar Roberto Bitencourt (2009), a corrupção não é apenas o mal 
do século, mas da História da humanidade, pois é tão antiga quanto a aventura 
O CP:
Art. 317 - Solicitar ou 
receber, para si ou 
para outrem, direta 
ou indiretamente, 
ainda que fora da 
função ou antes 
de assumi-la, mas 
em razão dela, 
vantagem indevida, 
ou aceitar promessa 
de tal vantagem:
Pena – reclusão, de 
2 (dois) a 12 (doze) 
anos, e multa.
178
 Direito Penal II - Parte Especial 
humana na Terra. “A Lei das XII Tábuas já reprimia com extraordinária severidade 
a venalidade dos juízes, que era criminalizada como corrupção, aplicando a pena 
de morte ao magistrado que recebesse pecúnia” (BITENCOURT, 2009, p. 76). 
O bem jurídico tutelado é a moralidade administrativa, “protegendo-se o 
regular andamento da atividade administrativa, ferida com o abjeto comércio da 
função pública” (SANCHES, 2009, p. 418). “Protege-se, na verdade, a probidade 
de função pública, sua respeitabilidade, bem como a integridade de seus 
funcionários, constituindo a corrupção passiva a venalidade de atos de ofício, num 
verdadeiro tráfico da função pública” (BITENCOURT, 2009, p. 77).
a) Tipo Objetivo
A conduta típica consiste em solicitar, receber ou aceitar promessa da 
vantagem indevida, ao que, na primeira hipótese, acorrupção parte do intraneus; 
é o próprio funcionário público quem toma a iniciativa, solicitando que a vantagem 
lhe seja concedida. No segundo caso, supõe-se uma dação voluntária do 
extraneus, sendo a iniciativa do corruptor. A última hipótese trata da aceitação 
de promessa de uma vantagem indevida. “O objeto material do crime em tela é a 
vantagem indevida, que pode ser de cunho patrimonial, moral, sentimental, sexual 
etc. Assim, pode o funcionário, por exemplo, solicitar favores sexuais em troca da 
prática ou abstenção de um ato de ofício” (CAPEZ, 2010, p. 498).
Na lição de Cezar Roberto Bitencourt (2009, p. 79):
O objeto é a vantagem, de cunho patrimonial ou não, desde 
que ilícita ou indevida (elemento normativo do tipo) e solicitada, 
recebida ou aceita em razão da função pública do agente. 
Esse objeto material representa o conteúdo da vantagem 
indevida solicitada ou recebida, ou então da promessa aceita, 
que é o preço pelo qual o funcionário corrupto se vende.
“Existe corrupção ainda que a vantagem seja entregue ou 
prometida não diretamente ao funcionário, mas a um familiar seu 
(mulher, filhos etc.)” (SANCHES, 2009, p. 419). 
Denomina-se como imprópria a corrupção que tem como finalidade a prática 
de ato legítimo e como própria aquela que se destina à realização de algo ilícito.
179
Crimes Contra a 
Administração Pública 
 Capítulo 7 
b) Sujeitos do Crime
Sujeito ativo é o funcionário público (artigo 327 do Código Penal), tratando-
se de crime próprio. O particular que, ciente da condição de funcionário público 
do comparsa, o ajuda a cometer o delito, responde também pelo crime contra a 
administração pública, nos termos do artigo 30 do Código Penal, porquanto as 
circunstâncias de caráter pessoal, quando elementares do crime, se comunicam a 
todos os demais. O próprio dispositivo assevera que pode o agente estar fora da 
função (horário de descanso, férias, licença) ou, até mesmo, nem tê-la assumido 
(quando já passou no concurso, mais ainda não tomou posse, por exemplo). 
Fiscal que exige ou solicita dinheiro para não cobrar tributo ou contribuição 
social pratica o crime previsto no artigo 3°, inciso II, da Lei nº 8.137/90 (crime 
contra a ordem tributária). A testemunha ou perito não oficial que recebe dinheiro 
para cometer falso testemunho ou falsa perícia incorrem em crime do artigo 342, 
§ 2° do Código Penal. 
O artigo 299 da Lei nº 4.737/65 (Código Eleitoral) prevê crimes idênticos 
à corrupção passiva e ativa, mas praticados com a intenção de conseguir voto, 
ainda que o agente não obtenha sucesso. O Código Penal Militar, artigo 308, 
prevê apenas duas modalidades de crime de corrupção passiva, recebimento 
ou aceitação da vantagem indevida em razão da função, não contemplando a 
modalidade solicitar, ao que, neste último caso, reponde o policial militar por 
corrupção passiva.
c) Elemento Subjetivo
O elemento subjetivo é o dolo, consistente na vontade livre e consciente 
de solicitar ou receber, para si ou para outrem vantagem indevida, abusando da 
condição de funcionário público.
d) Consumação e Tentativa
Consuma-se o crime no momento em que o funcionário solicita, recebe 
ou aceita a vantagem. Na modalidade solicitar, pouco importa, para fim de 
consumação, se o funcionário público efetivamente obtém a vantagem visada. 
Nas modalidades receber ou aceitar promessa de vantagem indevida, também 
não importa se o funcionário pratica ou não algo em face desta.
e) Corrupção Passiva Qualificada
180
 Direito Penal II - Parte Especial 
Nos termos do § 1º do artigo 317 do Código Penal, a pena é aumentada de 
um terço, se, em consequência da vantagem ou promessa, o funcionário retarda 
ou deixa de praticar qualquer ato de ofício ou o pratica infringindo dever funcional. 
O exaurimento do crime se apresenta como causa de aumento de pena, diante da 
realização da pretensão do corruptor.
f) Corrupção Passiva Privilegiada
A corrupção passiva privilegiada é crime material que somente se consuma 
quando o funcionário pratica, deixa de praticar ou retarda o ato de ofício, cedendo 
a pedido, pressão ou influência de outrem (artigo 317, § 2º, do Código Penal).
g) Ação Penal
A ação penal é pública incondicionada.
Prevaricação
De acordo com o CP:
Art. 319 - Retardar ou deixar de praticar, indevidamente, ato 
de ofício, ou praticá-lo contra disposição expressa de lei, para 
satisfazer interesse ou sentimento pessoal:
Pena - detenção, de três meses a um ano, e multa.
A prevaricação, “em sua origem latina – praevaricatio –, tinha o 
sentido de alguém que tem ‘as pernas tortas ou cambaias’, significando 
– etimologicamente, praevaricator – andar de forma oblíqua ou 
desviando-se do caminho correto” (BITENCOURT, 2009, p. 98). Os 
romanos conheceram o ato de prevaricar como patrocínio infiel, 
concepção que fora mantida no direito medieval, ampliando-a, contudo, 
para abranger o comportamento de quem se tornasse infiel ao próprio 
cargo, descumprindo os deveres inerentes ao seu ofício (BITENCOURT, 
2009).
a) Tipo Objetivo
A conduta típica consiste em retardar ou deixar de praticar, indevidamente, 
ato de ofício, ou praticá-lo contra disposição expressa de lei, para satisfazer 
De acordo com o 
CP:
Art. 319 - Retardar 
ou deixar 
de praticar, 
indevidamente, 
ato de ofício, 
ou praticá-lo 
contra disposição 
expressa de lei, 
para satisfazer 
interesse ou 
sentimento pessoal:
Pena - detenção, 
de três meses a um 
ano, e multa.
181
Crimes Contra a 
Administração Pública 
 Capítulo 7 
interesse ou sentimento pessoal. O atraso ou desleixo no serviço ou preguiça não 
constitui crime. 
Prevaricação é a infidelidade ao dever de ofício e à função 
exercida; é o descumprimento das obrigações que lhe são 
inerentes, movido o agente por interesses ou sentimentos 
próprios. Dentre os deveres inerentes ao exercício da 
função pública, o mais relevante deles é o que consiste no 
cumprimento pronto e eficaz das atribuições do ofício, que 
deve ser realizado escrupulosa e tempestivamente, para lograr 
a obtenção dos fins funcionais. O sentimento do funcionário 
público não pode ser outro senão o do dever cumprido e o de 
fazer cumprir os mandamentos legais (BITENCOURT, 2009, 
p. 99).
O objeto material do crime é o ato de ofício. 
Não há falar, portanto, em prevaricação se o ato 
praticado, omitido ou retardado não se insere no 
âmbito de atribuição ou competência funcional do 
funcionário público. Dessa forma, o funcionário, 
por exemplo, que deixar de expedir determinado documento 
judicialmente requisitado por não ter competência para tanto 
não pratica o crime em tela. O tipo penal abrange tanto o 
ato administrativo quanto o judicial. Para Mirabete também 
abrange o ato legislativo (CAPEZ, 2010, p. 509-510).
Na corrupção passiva, o agente negocia seus atos, visando uma 
vantagem indevida. Na prevaricação o funcionário público viola seu 
dever funcional para satisfazer objetivos pessoais. 
b) Sujeitos do Crime
Sujeito ativo é o funcionário público (artigo 327 do Código Penal), tratando-se 
de crime próprio. Sujeito passivo é o Estado.
c) Elemento Subjetivo
O elemento subjetivo é o dolo, consistente na vontade livre e consciente de 
retardar ou deixar de praticar, indevidamente, ato de ofício, ou praticá-lo contra 
disposição expressa de lei, para satisfazer interesse ou sentimento pessoal. 
O objeto material do 
crime é o ato 
de ofício.
182
 Direito Penal II - Parte Especial 
Exige-se também o elemento subjetivo do tipo, consistente 
na vontade de satisfazer interesse ou sentimento pessoal. O 
interesse, que consiste na obtenção de uma vantagem, pode 
ser patrimonial ou moral. Quanto ao interesse patrimonial, 
importa distinguir algumas situações: a) se o ato praticado, 
retardado ou omitido tiver sido objeto de acordo anterior entre 
o funcionário e o particular, visando aquele indevida vantagem, 
o crime passará a ser outro: corrupção passiva; b) se houver, 
anteriormente à práticaou omissão do ato, a exigência de 
vantagem indevida pelo funcionário público, haverá o crime 
de concussão. Veja-se, pois, que no crime de prevaricação a 
obtenção de vantagem patrimonial pelo funcionário não deve 
estar ligada a qualquer oferecimento ou entrega de vantagem 
pelo particular em troca da ação ou omissão funcional (CAPEZ, 
2010, p. 511).
d) Consumação e Tentativa
Consuma-se o crime com a omissão, retardamento ou realização do ato 
de ofício. A tentativa inadmissível nas formas omissivas (retardar ou deixar de 
praticar), ao que na forma comissiva (praticá-lo) a tentativa é possível.
e) Figura Equiparada – artigo 319-A
A Lei nº 11.466/2007 criou nova figura ilícita no artigo 319-A do Código Penal, 
punido com a mesma pena da prevaricação a conduta de “deixar o Diretor de 
Penitenciária e/ou agente público, de cumprir seu dever de vedar ao preso o 
acesso a aparelho telefônico, de rádio ou similar, que permita a comunicação com 
outros presos ou com o ambiente externo”. 
Também conhecido como prevaricação imprópria, o dispositivo pretende 
evitar que presos comandem suas quadrilhas ou organizações criminosas do 
interior de penitenciárias.
f) Ação Penal
A ação penal é pública incondicionada.
Atividade de Estudos: 
1) Fulano, valendo-se da condição de funcionário público, cogita 
183
Crimes Contra a 
Administração Pública 
 Capítulo 7 
subtrair cinco computadores de propriedade do Estado que 
se localizam na repartição pública que trabalha. Para ajudá-lo 
na subtração, convida Ciclano, seu amigo íntimo. Neste caso, 
considerando que Fulano e Ciclano subtraíram somente dois 
computadores, quais crimes ambos cometeram?
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Algumas Considerações
Para Cezar Roberto Bitencourt (2009), os crimes praticados contra a 
administração pública não são adequadamente punidos pelo legislador pátrio, vez 
que são condutas que atentam contra a organização do Estado. Crimes contra a 
administração pública refletem em todas as pessoas, vez que é a coletividade que 
sustenta toda a estrutura do Estado.
Devemos pensar e aplicar a norma penal para o bem da coletividade, 
como instrumento a pacificação social e proteção da coisa pública, ao que 
a organização do Estado é tão ou mais importante do que outros direitos e 
garantias individuais.
Assim, como conceber que alguns crimes contra o erário são passíveis 
de extinção de punibilidade simplesmente com o pagamento da contribuição 
previdenciária apropriada indevidamente, como no caso do artigo 337-A do 
Código Penal?
A lei penal não deve ser criada como incentivo para prática de crimes, mas 
deve atuar como inibidora deles, ao que não se pode admitir a aplicação da teoria 
do direito penal mínimo contra condutas que atentem contra toda coletividade.
184
 Direito Penal II - Parte Especial 
Referências 
BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal: Parte especial. 2 11 
ed. São Paulo: Saraiva, 2011.
BRASIL. Decreto-Lei No 2.848, de 7 de dezembro de 1940. Código Penal. 
Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del2848.htm>. 
Acesso em: 02 nov. 2011.
CAPEZ, Fernando. Curso de Direito Penal: parte especial. 11 ed. São Paulo: 
Saraiva, 2011. v. 2
ESTEFAM, André. Direito Penal: Parte especial. São Paulo: Saraiva, 2010. 
GRECO, Rogério. Curso de Direito Penal: parte especial. 7 ed. Rio de Janeiro: 
Impetus, 2010. v. 2
HUNGRIA, Nelson. Comentários ao Código Penal. 5 ed. Rio de Janeiro, 1979. 
v.5. 
MIRABETE, Julio Fabbrini. Manual de Direito Penal: parte especial. 28 ed. São 
Paulo: Atlas, 2011. 
NORONHA, E. Magalhães. Direito Penal: dos crimes contra a pessoa. 26 ed. 
São Paulo, Saraiva, 1994, v. 3. 
PRADO, Luiz Regis. Curso de Direito Penal Brasileiro. 9 ed. São Paulo: 
Revista dos Tribunais, 2010. 
 
CAPÍTULO 8
Crimes Ambientais – Lei nº 9.605/98
A partir da perspectiva do saber fazer, neste capítulo você terá os seguintes 
objetivos de aprendizagem:
 3 Conceituar os crimes contra o meio ambiente. 
 3 Identificar e distinguir os crimes contra o meio ambiente diante de casos 
reais. 
 3 Buscar na jurisprudência casos julgados pelos Tribunais e apresentar 
comentário crítico referente ao crime pesquisado. 
187
Crimes Ambientais – Lei nº 9.605/98 Capítulo 8 
Contextualização
A vida humana está diretamente ligada à preservação do meio ambiente, ao 
que não se deve colocar o desenvolvimento econômico acima da preservação da 
natureza e das espécies. O meio ambiente ecologicamente equilibrado é um dos 
direitos fundamentais da pessoa humana, justificando a imposição de sanções 
penais às agressões ao direito à sadia qualidade de vida (MILARÉ, 2009). 
A Constituição Federal, em seu artigo 225, § 3°, assevera que 
as condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente 
sujeitarão os infratores, pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais 
e administrativas, independentemente da obrigação de reparar os 
danos causados. 
Nestes termos, o dano ambiental tem repercussão jurídica na 
esfera penal, administrativa e civil, podendo o agente causador da 
atividade lesiva ao meio ambiente ser responsabilizado alternativa 
ou cumulativamente. No âmbito civil, o ato de sancionar as condutas 
lesivas ao meio ambiente já era uma realidade antes mesmo da 
entrada em vigor da Constituição de 1988, porquanto a obrigação 
reparatória de danos, segundo o princípio da responsabilidade 
objetiva, disciplinada pela Lei da Política Nacional do Meio Ambiente 
(artigo 14, § 1º). Para a plena efetividade daquela norma programática 
constitucional, faltava um tratamento adequado da responsabilidade 
penal e administrativa, espaço este agora preenchido com a incorporação ao 
ordenamento jurídico da Lei 9.605/98, que dispõe sobre sanções penais e 
administrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio ambiente. 
Fechou-se, então, o cerco contra o poluidor (MILARÉ, 2009).
As disposições gerais da Lei Federal n. 9.605/98 procuraram 
atender não só os regramentos que fundamentam o direito 
criminal e penal constitucional, como as especificidades 
criadas pelo direito criminal ambiental constitucional e pelo 
direito penal ambiental constitucional (FIORILLO, 2009, p. 
523).
Para Luís Paulo Sirvinskas (2010, p. 787),
nos dias atuais, a tutela penal do meio ambiente continua 
sendo uma necessidade indispensável, especialmente quando 
as medidas nas esferas administrativa e civil não surtirem os 
efeitos desejados. A medida penal tem por escopo prevenir e 
reprimir condutas praticadas contra a natureza.
A Constituição 
Federal, em 
seu artigo 225, 
§ 3°, assevera 
que as condutas 
e atividades 
consideradas lesivas 
ao meio ambiente 
sujeitarão os 
infratores, pessoas 
físicas ou jurídicas, 
a sanções penais 
e administrativas, 
independentemente 
da obrigação de 
reparar os danos 
causados.
188
 Direito Penal II - Parte Especial 
Bem Jurídico Tutelado
O bem jurídico tutelado nos crimes ambientais é o meio ambiente. No conceito 
de meio ambiente integra-se, em verdade, em um conjunto de elementos naturais, 
culturais e artificiais. Todos esses elementos estão protegidos pelo Direito Penal, 
como se vê da nova arquitetura tipológica da Lei 9.605/98 (MILARÉ, 2009). “Nos 
crimes ambientais, os bens jurídicos protegidos aproximam-se mais do ‘perigo’ 
do que do ‘dano’. Isso permite realizar uma prevenção e ao mesmo tempo uma 
repressão” (SIRVINSKAS, 2010, p. 796).
Sujeitos do Crime
Tanto a pessoa física quanto a pessoa jurídica podem praticar crimes 
ambientais, nos termos da Constituição Federal de 1988 e da Lei nº 9.605/98.
a) Sujeito Ativo – PessoaFísica
O sujeito ativo dos crimes ambientais pode ser qualquer pessoa, ao que 
“considera-se imputável toda pessoa que tem capacidade de entender a ilicitude 
do fato e de agir de acordo com esse entendimento” (SIRVINSKAS, 2010, p. 793).
b) Sujeito Ativo - Pessoa Jurídica
O artigo 225, § 3°, da Constituição Federal de 1988, erigiu a pessoa jurídica 
à condição de sujeito ativo da relação processual penal, disciplinando que “as 
condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitarão os 
infratores, pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e administrativas, 
independentemente da obrigação de reparar os danos causados”. 
O artigo 3° da Lei nº 9.605/98 dispõe que 
as pessoas jurídicas serão responsabilizadas administrativa, 
civil e penalmente conforme o disposto nesta Lei, nos 
casos em que a infração seja cometida por decisão de seu 
representante legal ou contratual, ou de seu órgão colegiado, 
no interesse ou benefício da sua entidade.
A responsabilidade da pessoa jurídica, como está escrito no parágrafo único 
do artigo 3°, não exclui a responsabilidade penal das pessoas físicas, autoras, 
coautoras ou partícipes, na medida em que a empresa, por si, não comete crimes. 
Contudo, o legislador adotou o princípio da coautoria necessária entre a pessoa 
física e a jurídica.
189
Crimes Ambientais – Lei nº 9.605/98 Capítulo 8 
Acrescentou a Lei nº 9.605/98 uma nova hipótese da 
omissão àquelas elencadas no artigo 13, § 2°, do Código Penal, 
ao estabelecer, no seu artigo 2º, a responsabilidade do diretor, 
administrador, membro de conselho e de órgão técnico, auditor, 
gerente, preposto ou mandatário de pessoa jurídica, que, sabendo 
da conduta criminosa de outrem, deixar de impedir a sua prática, 
quando podia agir para evitá-la. Assim, tendo referidas pessoas o 
dever jurídico de agir para evitar danos ao ambiente, tornam-se, pela 
omissão, responsáveis criminalmente pelo fato delituoso.
Luís Paulo Sirvinskas (2010, p. 794-795) anota que 
a doutrina majoritária não admite a responsabilidade penal 
da pessoa jurídica, mas a tendência no direito penal moderno 
é romper com o clássico princípio societas delinquere non 
potest. É claro que a pessoa jurídica não pode ser vista com os 
olhos do conceito da doutrina clássica. Deve-se observar suas 
particularidades para a eventual aplicação da pena de caráter 
penal. Sua responsabilidade jurídica não pode ser vista como 
dotada de vontade. Deve-se distinguir a pessoa física que age 
em nome da pessoa jurídica da própria pessoa jurídica.
Atualmente o Superior Tribunal de Justiça admite a responsabilidade penal 
da pessoa jurídica, desde que figure juntamente com a pessoa física que executou 
a infração. Não se admite, portanto, denúncia isolada da pessoa jurídica. 
c) Sujeito Passivo
Nos delitos ambientais, o sujeito passivo direto será a coletividade, por ser 
o bem ou o interesse tutelado considerado de uso comum do povo, segundo 
o disposto no artigo 225 da Constituição Federal de 1988. Mas é possível que 
pessoa certa e determinada acabe também lesada ou ameaçada em seus bens 
por conta de aspectos particulares do dano, figurando como sujeito passivo 
indireto, secundário ou por via reflexa. Logo, sujeito passivo principal permanece 
sempre a sociedade, titular do bem que constitui a objetividade jurídica dos crimes 
contra o meio ambiente.
Aplicação da Pena
Às infrações penais ambientais aplicam-se as penas privativas de liberdade, 
190
 Direito Penal II - Parte Especial 
restritivas de direito e multa, observando-se, para sua aplicação, a gravidade do 
fato, tendo em vista os motivos da infração e suas consequências para a saúde 
pública e para o meio ambiente; os antecedentes do infrator quanto ao cumprimento 
da legislação de interesse ambiental; bem como a situação econômica do infrator, 
no caso de multa (artigo 6º). Como assevera Édis Milaré (2009, p. 993), na nova 
Lei de Crimes Ambientais, optou o legislador pelas penas restritivas de direitos 
e pecuniárias, “não só porque apropriadas tanto às pessoas físicas como às 
pessoas jurídicas, como também porque a pena de prisão, em razão do perfil 
diferenciado do delinquente ambiental, tem-se mostrado inadequada, por impor à 
sociedade um duplo castigo: suportar o dano e pagar a conta do presídio”.
a) Penas aplicáveis às pessoas físicas
As sanções previstas para as infrações cometidas por pessoas físicas 
compreendem: pena privativa de liberdade, pena restritiva de direitos e multa.
As penas privativas de liberdade para os ilícitos penais praticados pelas 
pessoas físicas são as tradicionais reclusão e detenção, para os crimes, e prisão 
simples, para as contravenções. Cabe ressaltar que a maioria das novas infrações 
penais, pela quantidade da pena cominada, enseja a aplicação dos institutos da 
transação penal, suspensão do processo e suspensão condicional da pena.
As penas restritivas de direitos, nos termos do artigo 7º da Lei 9.605/98, 
são autônomas e substituem as penas privativas de liberdade nos casos em 
que: I - tratar-se de crime culposo ou for aplicada a pena privativa de liberdade 
inferior a quatro anos; II - a culpabilidade, os antecedentes, a conduta social e 
a personalidade do condenado, bem como os motivos e as circunstâncias do 
crime indicarem que a substituição seja suficiente para efeitos de reprovação e 
prevenção do crime. As penas restritivas de direitos a que se refere este artigo 
terão a mesma duração da pena privativa de liberdade substituída.
As penas restritivas de direito são: I - prestação de serviços à comunidade; 
II - interdição temporária de direitos; III - suspensão parcial ou total de atividades; 
IV - prestação pecuniária; V - recolhimento domiciliar (artigo 8º da Lei 9.605/98).
Ressalta-se, ainda, a possível conversão da pena restritiva de direitos em 
privativa de liberdade, em caso de descumprimento injustificado da restrição 
imposta ou de superveniente condenação a pena privativa de liberdade, por outro 
crime, conforme o disposto no artigo 44, §§ 4° e 5°, do Código Penal, diante da 
subsidiariedade prevista no artigo 79 da Lei nº 9.605/98.
A penal de multa será calculada segundo os critérios do Código Penal; se 
revelar-se ineficaz, ainda que aplicada no valor máximo, poderá ser aumentada 
191
Crimes Ambientais – Lei nº 9.605/98 Capítulo 8 
até três vezes, tendo em vista o valor da vantagem econômica auferida (artigo 18 
da Lei nº 9.605/98).
b) Penas aplicáveis às pessoas jurídicas
Às pessoas jurídicas as penas aplicáveis são multa, restritivas de direitos e 
prestação de serviços à comunidade. 
Em relação à multa, aplica-se a regra do artigo 18 da Lei nº 9.605/98. 
As penas restritivas de direitos da pessoa jurídica, nos moldes do artigo 22 
da Lei de Crimes Ambientais, são: I - suspensão parcial ou total de atividades; 
II - interdição temporária de estabelecimento, obra ou atividade; III - proibição 
de contratar com o Poder Público, bem como dele obter subsídios, subvenções 
ou doações.
A suspensão de atividades será aplicada quando estas não estiverem 
obedecendo às disposições legais ou regulamentares, relativas à proteção do 
meio ambiente.
A interdição será aplicada quando o estabelecimento, obra ou atividade 
estiver funcionando sem a devida autorização, ou em desacordo com a concedida, 
ou com violação de disposição legal ou regulamentar.
A proibição de contratar com o Poder Público e dele obter subsídios, 
subvenções ou doações não poderá exceder o prazo de dez anos.
A prestação de serviços à comunidade pela pessoa jurídica consistirá 
em: I - custeio de programas e de projetos ambientais; II - execução de obras 
de recuperação de áreas degradadas; III - manutenção de espaços públicos; 
IV - contribuições a entidades ambientais ou culturais públicas (artigo 23 da Lei 
9.605/98).
c) Circunstâncias atenuantes
Segundo o artigo 14 da Lei nº 9.605/98, são circunstâncias que atenuam a 
pena: I - baixo grau de instrução ou escolaridadedo agente; II - arrependimento 
do infrator, manifestado pela espontânea reparação do dano ou limitação 
significativa da degradação ambiental causada; III - comunicação prévia pelo 
agente do perigo iminente de degradação ambiental; IV - colaboração com os 
agentes encarregados da vigilância e do controle ambiental.
192
 Direito Penal II - Parte Especial 
d) Circunstâncias agravantes
Agravam sempre a pena, quando não constituem ou qualificam o crime, as 
circunstâncias referidas no artigo 15 da Lei 9.605/98: I - reincidência nos crimes de 
natureza ambiental; II - ter o agente cometido a infração: a) para obter vantagem 
pecuniária; b) coagindo outrem para a execução material da infração; c) afetando 
ou expondo a perigo, de maneira grave, a saúde pública ou o meio ambiente; 
d) concorrendo para danos à propriedade alheia; e) atingindo áreas de unidades 
de conservação ou áreas sujeitas, por ato do Poder Público, a regime especial 
de uso; f) atingindo áreas urbanas ou quaisquer assentamentos humanos; g) em 
período de defeso à fauna; h) em domingos ou feriados; i) à noite; j) em épocas de 
seca ou inundações; I) no interior do espaço territorial especialmente protegido; 
m) com o emprego de métodos cruéis para abate ou captura de animais; n) 
mediante fraude ou abuso de confiança; o) mediante abuso do direito de licença, 
permissão ou autorização ambiental; p) no interesse de pessoa jurídica mantida, 
total ou parcialmente, por verbas públicas ou beneficiada por incentivos fiscais; 
q) atingindo espécies ameaçadas, listadas em relatórios oficiais das autoridades 
competentes; r) facilitada por funcionário público no exercício de suas funções. 
e) Causas de aumento de pena
Nos termos do artigo 58 da lei de crimes ambientais, nos crimes dolosos 
previstos na Seção III do Capítulo V, as penas serão aumentadas: I - de um sexto 
a um terço, se resulta dano irreversível à flora ou ao meio ambiente em geral; II - 
de um terço até a metade, se resulta lesão corporal de natureza grave em outrem; 
III - até o dobro, se resultar a morte de outrem.
e) Causas excludentes da antijuridicidade
O fato típico perde a ilicitude quando presente uma causa excludente da 
antijuridicidade, ao que considerando a subsidiariedade expressa prevista no 
artigo 79 da Lei nº 9.605/98, aplicam-se aos delitos ambientais as hipóteses 
excludentes de tipicidade elencados no artigo 23 do Código Penal, - em estado 
de necessidade; em legítima defesa; em estrito cumprimento de dever legal ou no 
exercício regular de direito.
Também, o artigo 37 da Lei nº 9.605/98 descriminaliza o abate de animais 
“para saciar a fome do agente ou de sua família”, “para proteger lavouras ou 
rebanhos”, ou quando forem aqueles “nocivos”. 
193
Crimes Ambientais – Lei nº 9.605/98 Capítulo 8 
Crimes em Espécie
A maioria dos crimes ambientais são normas penais em branco, sendo 
complementadas por atos administrativos ou por outra lei. A doutrina entende que 
essa técnica é inevitável nas infrações penais. Os crimes ambientais protegem 
o meio ambiente em sentido amplo: natural (fauna e flora); artificial (construções 
e edificações feitas pelo homem); cultural (patrimônios históricos, artísticos, 
paisagísticos e arqueológicos).
a) Crimes contra a fauna
Os crimes contra a fauna eram disciplinados na Lei nº 5.197/67 (Lei de 
proteção à fauna/código de caça); no Decreto lei 221/67 – Código de Pesca; na 
Lei nº 7.679/87; artigo 64 da Lei de Contravenções Penais e na Lei nº 7.643/87 
– Molestamento pesca de cetáceos. Os crimes previstos nessas leis foram 
revogados pela Lei nº 9.605/98. A única lei que continua em vigor é a Lei nº 
7.643/87 (princípio da especialidade): entendimento da doutrina majoritária e do 
Superior Tribunal de Justiça no HC 19.279. 
Os artigos 29 ao 37 procuram de fato trazer proteção à fauna enquanto bem 
ambiental, na medida em que os animais não são sujeitos de direitos, porquanto a 
proteção do meio ambiente existe para favorecer o próprio homem e, somente por 
via reflexa, as demais espécies (FIORILLO, 2009).
A primeira conduta típica, artigo 29, consiste em matar, perseguir, caçar, 
apanhar, utilizar espécimes da fauna silvestre, nativos ou em rota migratória, 
sem a devida permissão, licença ou autorização da autoridade competente, ou 
em desacordo com a obtida. Incorre nas mesmas penas: I - quem impede a 
procriação da fauna, sem licença, autorização ou em desacordo com a obtida; II 
- quem modifica, danifica ou destrói ninho, abrigo ou criadouro natural; III - quem 
vende, expõe à venda, exporta ou adquire, guarda, tem em cativeiro ou depósito, 
utiliza ou transporta ovos, larvas ou espécimes da fauna silvestre, nativa ou em 
rota migratória, bem como produtos e objetos dela oriundos, provenientes de 
criadouros não autorizados ou sem a devida permissão, licença ou autorização da 
autoridade competente. 
No caso de guarda doméstica de espécie silvestre não considerada 
ameaçada de extinção, pode o juiz, considerando as circunstâncias, deixar de 
aplicar a pena.
194
 Direito Penal II - Parte Especial 
São espécimes da fauna silvestre todos aqueles pertencentes 
às espécies nativas, migratórias e quaisquer outras, aquáticas ou 
terrestres, que tenham todo ou parte de seu ciclo de vida ocorrendo 
dentro dos limites do território brasileiro, ou águas jurisdicionais 
brasileiras (§ 3º).
A pena é aumentada de metade, se o crime é praticado: I - contra espécie rara 
ou considerada ameaçada de extinção, ainda que somente no local da infração; 
II - em período proibido à caça; III - durante a noite; IV - com abuso de licença; 
V - em unidade de conservação; VI - com emprego de métodos ou instrumentos 
capazes de provocar destruição em massa. A pena é aumentada até o triplo se o 
crime decorre do exercício de caça profissional.
As disposições deste artigo não se aplicam aos atos de pesca.
No artigo 30, tem-se como criminosa a exportação de peles e couros 
de anfíbios e répteis em bruto, sem a autorização da autoridade ambiental 
competente, ao que o artigo 31 pune a introdução de espécime animal no 
País, sem parecer técnico oficial favorável e licença expedida por autoridade 
competente.
Praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, 
domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos, está tipificado no artigo 32 
da Lei de Crimes Ambientais, incorrendo nas mesmas penas quem realiza 
experiência dolorosa ou cruel em animal vivo, ainda que para fins didáticos ou 
científicos, quando existirem recursos alternativos. A pena é aumentada de um 
sexto a um terço, se ocorre morte do animal.
O Rodeio é regulamentado pela Lei nº 10.519/02. Assim, se o 
rodeio for feito em obediência à lei, não é crime, trata-se de exercício 
regular de direito. Se desobedecer às exigências da lei, é crime 
ambiental (artigo 32).
195
Crimes Ambientais – Lei nº 9.605/98 Capítulo 8 
Provocar, pela emissão de efluentes ou carreamento de materiais, o 
perecimento de espécimes da fauna aquática existentes em rios, lagos, açudes, 
lagoas, baías ou águas jurisdicionais brasileiras também caracteriza crime 
ambiental, nos termos do artigo 33, incorrendo nas mesmas penas: I - quem 
causa degradação em viveiros, açudes ou estações de aquicultura de domínio 
público; II - quem explora campos naturais de invertebrados aquáticos e algas, 
sem licença, permissão ou autorização da autoridade competente; III - quem 
fundeia embarcações ou lança detritos de qualquer natureza sobre bancos de 
moluscos ou corais, devidamente demarcados em carta náutica.
Por fim, o artigo 34 da Lei nº 9.605 pune a pesca em período no qual seja 
proibida ou em lugares interditados por órgão competente. Incorre nas mesmas 
penas quem: I - pesca espécies que devam ser preservadas ou espécimes 
com tamanhos inferiores aos permitidos; II - pesca quantidades superiores às 
permitidas, ou mediante a utilização de aparelhos, petrechos, técnicas e métodos 
não permitidos; III - transporta,comercializa, beneficia ou industrializa espécimes 
provenientes da coleta, apanha e pesca proibidas. Também, pune-se a pesca 
mediante a utilização de: I - explosivos ou substâncias que, em contato com a 
água, produzam efeito semelhante; ou II - substâncias tóxicas, ou outro meio 
proibido pela autoridade competente.
Nos termos do artigo 36 da Lei nº 9.605/98, considera-se pesca 
todo ato tendente a retirar, extrair, coletar, apanhar, apreender ou 
capturar espécimes dos grupos dos peixes, crustáceos, moluscos e 
vegetais hidróbios, suscetíveis ou não de aproveitamento econômico, 
ressalvadas as espécies ameaçadas de extinção, constantes nas 
listas oficiais da fauna e da flora.
Pesca ou amolestamento de cetáceos (baleias, botos, golfinhos), 
aplica-se a Lei nº 7.643/87: pena de 2 a 5 anos mais multa.
b) Crimes contra a flora
A tutela penal da flora era prevista no artigo 26, letras “a” à “q”, da Lei nº 
196
 Direito Penal II - Parte Especial 
4.771/65 - Código Florestal, ao que só permaneceram em vigor as alíneas “e”, 
“j”, “l” e “m” do artigo 26, o restante foi tacitamente revogado pela Lei 9.605/98. 
A proteção das florestas, assim como o enfrentamento de situações lesivas ou 
mesmo ameaçadoras à biota são o fundamento básico para a aplicação dos 
crimes contra a flora, o que motivou o legislador a adotar desde logo critérios 
não só preventivos (art. 48) como repressivos (art. 50) visando à aplicação das 
sanções penais ambientais (FIORILLO, 2009).
A primeira conduta típica em relação à flora (artigo 38) consiste em destruir 
ou danificar floresta considerada de preservação permanente, mesmo que em 
formação, ou utilizá-la com infringência das normas de proteção. Floresta de 
preservação é espécie do gênero área de preservação permanente. Florestas são 
vegetações de grande porte.
A Lei do Bioma Mata Atlântica (Lei nº 11.428/2006) acrescentou à Lei de 
Crimes Ambientais o artigo 38-A, criminalizando o ato de destruir ou danificar 
vegetação primária ou secundária, em estágio avançado ou médio de 
regeneração, do Bioma Mata Atlântica, ou utilizá-la com infringência das normas 
de proteção. 
Também pune-se a conduta de cortar árvores em floresta considerada de 
preservação permanente, sem permissão da autoridade competente.
O artigo 40, por sua vez, prevê pena de reclusão de 1 (um) a 5 (cinco) 
anos, àquele que causar dano direto ou indireto às Unidades de Conservação 
e às áreas de que trata o art. 27 do Decreto nº 99.274, de 6 de junho de 1990, 
independentemente de sua localização.
Entende-se por Unidades de Conservação de Proteção Integral 
as Estações Ecológicas, as Reservas Biológicas, os Parques 
Nacionais, os Monumentos Naturais e os Refúgios de Vida Silvestre. 
A ocorrência de dano afetando espécies ameaçadas de extinção no 
interior das Unidades de Conservação de Proteção Integral será considerada 
circunstância agravante para a fixação da pena. Se o crime for culposo, a pena 
será reduzida à metade. 
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Crimes Ambientais – Lei nº 9.605/98 Capítulo 8 
Entende-se por Unidades de Conservação de Uso Sustentável 
as Áreas de Proteção Ambiental, as Áreas de Relevante Interesse 
Ecológico, as Florestas Nacionais, as Reservas Extrativistas, as 
Reservas de Fauna, as Reservas de Desenvolvimento Sustentável e 
as Reservas Particulares do Patrimônio Natural.
A ocorrência de dano afetando espécies ameaçadas de extinção no interior 
das Unidades de Conservação de Uso Sustentável será considerada circunstância 
agravante para a fixação da pena. 
Provocar incêndio em mata ou floresta também é conduta punida pela lei 
de crimes ambientais, bem como fabricar, vender, transportar ou soltar balões 
que possam provocar incêndios nas florestas e demais formas de vegetação, em 
áreas urbanas ou qualquer tipo de assentamento humano.
Tem-se como lesivo ao meio ambiente, punido criminalmente: a) extrair de 
florestas de domínio público ou consideradas de preservação permanente, sem 
prévia autorização, pedra, areia, cal ou qualquer espécie de minerais; b) cortar ou 
transformar em carvão madeira de lei, assim classificada por ato do Poder Público, 
para fins industriais, energéticos ou para qualquer outra exploração, econômica 
ou não, em desacordo com as determinações legais; c) receber ou adquirir, para 
fins comerciais ou industriais, madeira, lenha, carvão e outros produtos de origem 
vegetal, sem exigir a exibição de licença do vendedor, outorgada pela autoridade 
competente, e sem munir-se da via que deverá acompanhar o produto até final 
beneficiamento. Incorre nas mesmas penas quem vende, expõe à venda, tem em 
depósito, transporta ou guarda madeira, lenha, carvão e outros produtos de origem 
vegetal, sem licença válida para todo o tempo da viagem ou do armazenamento, 
outorgada pela autoridade competente.
Ainda, temos o crime de impedir ou dificultar a regeneração natural de 
florestas e demais formas de vegetação; e destruir, danificar, lesar ou maltratar, 
por qualquer modo ou meio, plantas de ornamentação de logradouros públicos ou 
em propriedade privada alheia; destruir ou danificar florestas nativas ou plantadas 
ou vegetação fixadora de dunas, protetora de mangues, objeto de especial 
preservação. 
Pune-se, também, desmatar, explorar economicamente ou degradar floresta, 
plantada ou nativa, em terras de domínio público ou devolutas, sem autorização 
do órgão competente. Não é crime a conduta praticada quando necessária à 
198
 Direito Penal II - Parte Especial 
subsistência imediata pessoal do agente ou de sua família. Se a área explorada 
for superior a 1.000 ha (mil hectares), a pena será aumentada de 1 (um) ano por 
milhar de hectare. 
Comercializar motosserra ou utilizá-la em florestas e nas demais formas de 
vegetação, sem licença ou registro da autoridade competente, caracteriza crime 
punido com pena de três meses a um ano e multa.
No mesmo sentido, pune-se a conduta de penetrar em Unidades de 
Conservação conduzindo substâncias ou instrumentos próprios para caça ou 
para exploração de produtos ou subprodutos florestais, sem licença da autoridade 
competente.
Nos crimes previstos na sessão II, da Lei 9.605/98, a pena é aumentada de 
um sexto a um terço se: I - do fato resulta a diminuição de águas naturais, a 
erosão do solo ou a modificação do regime climático; II - o crime é cometido: a) 
no período de queda das sementes; b) no período de formação de vegetações; 
c) contra espécies raras ou ameaçadas de extinção, ainda que a ameaça ocorra 
somente no local da infração; d) em época de seca ou inundação; e) durante a 
noite, em domingo ou feriado.
Atividade de Estudos: 
1) As pessoas jurídicas respondem penalmente pelas condutas 
e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente, 
independentemente da obrigação de reparar os danos causados.
 
 ( ) Verdadeiro. ( ) Falso.
Algumas Considerações
A Lei de Crimes Ambientais é um poderoso instrumento para proteção dos 
recursos naturais e da biodiversidade, com dispositivos próprios e inovadores para 
responsabilização civil, criminal e administrativa de pessoas físicas e jurídicas que 
atentem contra o meio ambiente.
A responsabilidade penal da pessoa jurídica é o grande divisor de águas 
da lei penal ambiental, objeto de grande divergência doutrinária, ao que admitir 
199
Crimes Ambientais – Lei nº 9.605/98 Capítulo 8 
a responsabilização do ente ficto, desprovido de vontade – dolo, desvirtua, em 
tese, todo o desenvolvimento da teoria geral do crime, notadamente quanto a 
seus elementos.
O legislador, muitas vezes inconsequente, edita leis desprovido de qualquer 
critério teórico acerca das questões jurídicas, cabendo ao operador do direito 
sobrepesar os aspectos técnicos para correta aplicação da Lei Penal, seja no 
campo do direito ambiental ou em qualquer área do conhecimento jurídico! 
Referências
BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal. 3 ed. São Paulo: Ed. 
Saraiva, 2009. v. 4
BRASIL. Lei n.9.605 de 12 de fevereiro de 1998. Dispõe sobre as sanções 
penais e administrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio 
ambiente, e dá outras providências. Disponível em: <https://www.planalto.gov.br/
ccivil_03/Leis/L9605.htm>. Acesso em: 02 nov. 2011.
BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. 
Brasília, DF: Senado, 2011.
BRASIL. Decreto-Lei No 2.848, de 7 de dezembro de 1940. Código Penal. 
Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del2848.htm>. 
Acesso em: 02 nov. 2011.
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FIORILLO, Celso Antonio Pacheco. Curso de Direito Ambiental Brasileiro. 10 
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GRECO, Rogério. Curso de Direito Penal. 7 ed. Niterói: Impetus, 2010. v. 3.
HUNGRIA, Nelson. Comentários ao Código Penal. 5 ed. Rio de Janeiro: Ed. 
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MILARÉ, Edis. Direito do Ambiente. 6 ed. São Paulo: Editora Revista dos 
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MIRABETE, Julio Fabbrini. Manual de Direito Penal. São Paulo: Atlas, 2010. v. 2
NORONHA, Magalhães. Direito Penal. 19 ed. - São Paulo: Saraiva, 1988. v. 3
PRADO, Luiz Regis. Curso de Direito Penal Brasileiro. 8 ed. São Paulo: Ed. 
RT, 2010.
SIRVINSKAS, Luís Paulo. Manual de Direito Ambiental. 7 ed. São Paulo: 
Saraiva, 2009.

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