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C A P Í T U L O 2 3 �����������ȱ����¤��� ������ȱ�����ǰȱ �������ȱ��������ȱ�ȱ������ȱ���������� INCIDÊNCIA HISTÓRIA E EXAME CLÍNICO Testes Térmicos e Elétricos Exames Radiográficos FRATURAS CORONÁRIAS Fratura Coronária Complicada TRATAMENTO DA POLPA VITAL Requisitos para o Sucesso Métodos de Tratamento Capeamento Pulpar Pulpotomia Parcial Tratamento da Polpa Necrosada Dente Imaturo – Apicificação Barreira Apical de Tecido Duro Revascularização Pulpar FRATURA COROA-RAIZ FRATURA RADICULAR Tratamento das Complicações INJÚRIAS POR LUXAÇÃO Diagnóstico das injúrias por luxação na sessão de emergência DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO DE EMERGÊNCIA Concussão Subluxação Luxação Lateral Luxação Extrusiva (Extrusão) Luxação Intrusiva (Intrusão) Prognóstico das injúrias por luxação Necrose Pulpar Obliteração do Canal Radicular Reabsorção Radicular AVULSÃO E REIMPLANTE Esplintagem INCIDÊNCIA Embora as injúrias traumáticas ocorram em qualquer idade, a faixa etária mais comum em que elas afetam os dentes permanentes varia de 8 a 12 anos, principalmente como resultado de acidentes com bicicletas, skates, em playgrounds ou acidentes esportivos.1–5 Meninos são mais comumente afetados do que meninas, na proporção de 1,5:1.1–5 O dente mais vulnerável é o incisivo central superior, que envolve aproximadamente 80% das injúrias dentárias, seguido pelo lateral superior e pelos incisivos centrais e laterais inferiores.2, 4, 5 HISTÓRIA E EXAME CLÍNICO As injúrias dentárias nunca são agradáveis tanto para o paciente como para o clínico. Um cenário comum durante a visita de emergência revela um paciente traumatizado ou o seu responsável estressado diante de um clínico assoberbado. Este é um dos desafios que os clínicos enfrentam para controlar a cena, acalmar os pacientes e os pais e levar o tempo necessário para conduzir uma avaliação qualitativa das injúrias do paciente. Sem esse controle pelo clínico, lesões importantes podem ser facilmente negligenciadas pela urgência do momento. A história médica é fundamental para todas as outras avaliações e para o tratamento do paciente. História do Acidente Quando, como e onde ocorreu o acidente são significativos.2 Quando o acidente ocorreu é o mais importante. Com o passar do tempo, começam a se formar coágulos sanguíneos, o ligamento periodontal resseca, a saliva contamina a ferida e tudo isso se torna um fator decisivo em relação à sequência de tratamento. Compreender como o acidente ocorreu ajudará o clínico a localizar injúrias específicas. Um murro nos dentes anteriores pode causar fraturas da coroa, da raiz e do osso da região anterior e é menos provável de lesar regiões posteriores. Uma pancada sob o queixo ou sob a mandíbula pode causar fraturas em qualquer dente da boca. Uma pancada amortecida (p. ex., queda contra o braço de uma cadeira revestida) pode causar fratura da raiz ou deslocamento do dente, enquanto uma pancada em superfície dura (parede de concreto) tende a causar fraturas coronárias. Onde o trauma ocorreu torna-se significativo para o prognóstico. A necessidade de profilaxia para o tétano é influenciada pelo local do acidente. Onde o trauma ocorreu também pode ser significativo por causa do seguro e de um possível litígio. Outra questão importante é perguntar se algum tipo de tratamento já foi realizado pelos pais, técnico, médico, enfermeira do colégio, professor ou funcionário de ambulância. Um dente de aparência normal pode ter sido reimplantado ou reposicionado previamente por qualquer uma dessas pessoas ou pelo próprio paciente, e isso irá influir no prognóstico e na sequência do tratamento. Exame Clínico Queixa Principal Com exceção de dor e sangramento, pode haver uma queixa específica que ajude no diagnóstico. Se a queixa for de que os dentes “não estão encaixando”, o clínico deve considerar possíveis deslocamentos ou uma fratura óssea. Dor que ocorre somente quando o paciente trinca os dentes pode indicar fraturas coronárias, radiculares ou ósseas, ou deslocamentos. EXAME NEUROLÓGICO Quando o clínico está obtendo a história do acidente e da queixa principal, o paciente deve ser observado em relação a complicações neurológicas ou outras complicações médicas.6 As injúrias dentárias podem ocorrer simultaneamente com outras injúrias de cabeça e pescoço. Deve ser registrado se o paciente está se comunicando de forma coerente. O paciente tem dificuldade para focar ou rodar os olhos, ou para respirar? O paciente pode virar a cabeça de um lado para o outro? Existe alguma parestesia dos lábios ou da língua? O paciente reclama de zumbido no ouvido? Ele tem apresentado dores de cabeça persistentes, tonteiras, sonolência ou vômitos desde o acidente? Obstrução aérea por aparelhos dentários também deve ser considerada. EXAME EXTERNO Antes de o paciente abrir a boca para um exame intraoral, o clínico deve primeiramente procurar sinais externos da injúria. Lacerações de cabeça e pescoço são facilmente detectáveis. Entretanto, desvios dos contornos normais do osso devem ser atentamente investigados. A articulação temporomandibular deve ser palpada externamente quando o paciente abre e fecha a boca. O padrão de abertura e fechamento da boca do paciente desvia para um dos lados? Se isto ocorre, pode haver indicação de uma fratura mandibular unilateral. Da mesma forma, o arco zigomático, o ângulo e a borda inferior da mandíbula devem ser palpados bilateralmente e devem ser feitos registros sobre qualquer área de amolecimento, edema ou equimose da face, bochecha, pescoço ou lábios. Estes podem ser sinais de possíveis fraturas ósseas. EXAME DOS TECIDOS MOLES INTRAORAIS A próxima etapa é procurar lacerações nos lábios, língua, mucosa jugal, palato e assoalho bucal. As gengivas vestibulares e linguais e a mucosa oral são palpadas, devendo ser registradas áreas de sensibilidade, edema ou equimose. A borda anterior do ramo da mandíbula é palpada. Quaisquer achados anormais sugerem possíveis injúrias ao dente e ao osso, e um posterior exame radiográfico da área é indicado. Lacerações dos lábios e da língua devem ser observadas e radiografadas no caso de envolvimento de corpos estranhos. EXAME DOS TECIDOS DUROS Um dos melhores exames para evidenciar injúrias traumáticas é simplesmente olhar cuidadosamente. Cada dente e suas estruturas de suporte devem ser examinados com uma sonda exploradora e periodontal. Perguntas básicas como “o plano oclusal está desalinhado?” e “está faltando algum dente?” devem ser respondidas antes da realização de qualquer teste térmico ou elétrico. O examinador procura inicialmente uma evidência grosseira de injúria. Se vários dentes estiverem fora de alinhamento, uma fratura óssea é a explicação mais razoável. A mandíbula deve ser examinada para pesquisa de fraturas, colocando o dedo indicador sobre o plano oclusal dos dentes inferiores com os polegares sob a mandíbula, movendo-a de um lado para o outro, para frente e para trás. Uma fratura mandibular irá causar desconforto com esses movimentos e um som desagradável de fragmentos quebrados poderá ser ouvido. Uma pressão suave, mas firme, deve ser usada para prevenir um possível trauma adicional ao nervo alveolar inferior e aos vasos sanguíneos. Também pode se tentar mover os dentes individualmente através de uma pressão com o dedo. Qualquer mobilidade é indicativa de deslocamento do osso alveolar. O movimento de vários dentes juntos é uma evidência de fratura alveolar. A mobilidade da coroa deve ser diferenciada da mobilidade de um dente. Quando ocorrem fraturas coronárias, a coroa fica móvel, mas o dente permanece em posição. Ocasionalmente, fraturas radiculares podem ser sentidas colocando um dedo sobre a mucosa de um dente e movendo a coroa. Quaisquer fraturas recentes de cúspides ou de margem incisal devem ser registradas. Fraturas incompletas de cúspide podem ser observadas usando a ponta de um explorador dental como uma cunha nos sulcos oclusais dos dentes posteriores para evidenciar o movimento de alguma cúspide. Cada margem incisal e cada cúspide devem ser gentilmentepercutidas com o cabo do espelho para localizar fraturas incompletas ou dentes que tenham sido levemente deslocados de seus alvéolos. Hemorragia no sulco gengival pode indicar um dente ou um segmento de dente deslocado. Qualquer alteração na coloração dos dentes deve ser observada; a inspeção da superfície lingual dos dentes anteriores com uma luz refletida irá ajudar. Exposições evidentes da polpa devem ser observadas. Fraturas coronárias com exposições pulpares mínimas podem ser detectadas com uma bolinha de algodão embebida em solução salina e pressionada contra a área suspeita de exposição.2 Quando o exame visual estiver completo e todos os achados anormais forem registrados, radiografias das áreas traumatizadas devem ser realizadas. TESTES TÉRMICOS E ELÉTRICOS Durante décadas, a validade dos testes térmicos e elétricos em dentes traumatizados tem sido motivo de controvérsia. Apenas impressões genéricas podem ser obtidas a partir desses testes subsequentes a uma injúria traumática. Eles são, na realidade, testes de sensibilidade para a função nervosa e não indicam a presença ou a ausência de circulação sanguínea no interior da polpa. Presume-se que, após a injúria traumática, a capacidade de condução das terminações nervosas e/ou dos receptores sensoriais esteja suficientemente desordenada para inibir o impulso nervoso a partir de um estímulo elétrico ou térmico. Isso torna o dente traumatizado vulnerável a leituras falso-negativas a partir desses testes.7 Os dentes que apresentam resposta positiva ao exame inicial podem não necessariamente ser considerados saudáveis, uma vez que podem não continuar a dar respostas positivas com o tempo. Dentes que produzem resposta negativa ou que não produzem resposta não podem ser considerados com polpas necrosadas, porque eles podem apresentar resposta positiva em consultas posteriores de controle. Foi demonstrado que pode levar em torno de nove meses para que o fluxo sanguíneo normal retorne à polpa coronária de um dente traumatizado completamente formado. À medida que a circulação é restaurada, a resposta aos testes retorna.8 A transição de uma resposta negativa para positiva em um teste subsequente pode ser considerada um sinal de polpa saudável. Os achados contínuos de respostas positivas podem ser considerados um sinal de polpa saudável. A transição de uma resposta positiva para negativa pode ser considerada uma indicação de que a polpa esteja provavelmente em processo de degeneração. A persistência de uma resposta negativa sugere que a polpa foi comprometida de forma irreversível, mas mesmo assim, isso não é absoluto.9 Testes pulpares térmicos e elétricos de todos os dentes anteriores (canino a canino), superiores e inferiores devem ser realizados no momento inicial do exame e cuidadosamente registrados para se estabelecer uma base de comparação com testes subsequentes repetidos nos meses posteriores. Esses testes devem ser repetidos depois de 3 semanas, 3, 6 e 12 meses e com intervalos anuais após o trauma. O propósito dos testes é estabelecer uma diretriz do status fisiológico das polpas desses dentes. Particularmente, em dentes traumatizados, a neve de dióxido de carbono (–78ºC) ou o diclorodifluorometano (–40ºC), colocados sobre o terço incisal da superfície vestibular, produzem respostas mais precisas do que o bastão de água gelada (Fig. 23-1).10,11 O frio intenso parece penetrar no dente e na cobertura dos splints ou das restaurações e alcançar áreas mais profundas do dente. Além disso, o gelo seco não forma água gelada, que pode dispersar sobre o dente adjacente ou sobre a gengiva e produzir uma resposta falso-negativa. FIGURA 23-1 Gás diclorodifluormetano (−40° C) é aplicado em uma mecha de algodão e então colocado em contato com a borda incisal do incisivo superior. O teste pulpar elétrico se baseia em estímulos elétricos diretamente sobre os nervos pulpares. Esses testes apresentam valor limitado em dentes jovens, porém são úteis em casos nos quais os túbulos dentinários estão fechados e não permitem que os fluidos dentinários circulem dentro deles. Esta situação é típica em dentes de pacientes mais idosos ou em dentes traumatizados que foram submetidos à esclerose prematura. Nessas situações os testes térmicos que se baseiam no fluxo do fluido nos túbulos não podem ser usados e o teste elétrico torna-se importante. A fluxometria Laser Doppler (FLD) foi introduzida no início dos anos 1970 para a mensuração do fluxo sanguíneo na retina.12 A técnica tem sido usada para avaliar o fluxo sanguíneo em outros sistemas tissulares, como a pele e o córtex renal, e utiliza um feixe de luz infravermelha (780 a 820 nm) ou quase infravermelha (632,8 nm) direcionada para o tecido por fibras ópticas. Enquanto a luz penetra no tecido, ela se dispersa através dos eritrócitos em movimento e das células teciduais estacionárias. Os fótons que interagem com os eritrócitos em movimento são dispersados e a frequência é modificada de acordo com o princípio do Doppler. Os fótons que interagem com as células estacionárias são dispersados, mas não são modificados pelo Doppler. Uma porção da luz retorna ao fotodetector e um sinal é produzido (Figs. 23-2). FIGURA 23-2 Fluxometria Laser Doppler. A, Uma luz vermelha é emitida de uma fonte: se o feixe de luz encontra células ou tecidos estacionários, não há alteração no espectro de luz; contudo, se a luz encontra células se movimentando no interior de vasos sanguíneos, há uma alteração no espectro de luz espalhada (por dispersão), de acordo com o princípio de Doppler. B, Aparelho Laser Doppler da Moor Instruments®. Este aparelho é montado com duas sondas que podem medir a circulação de dois dentes simultaneamente. Têm sido feitas tentativas de utilizar a tecnologia FLD para o diagnóstico da vitalidade pulpar em dentes traumatizados, porque ela ofereceria uma leitura mais precisa do status de vitalidade da polpa.13,14 Estudos demonstraram resultados promissores indicando que o Laser Doppler pode detectar o fluxo sanguíneo de forma mais consistente e mais cedo do que os testes comumente utilizados. Atualmente, o custo do aparelho de fluxometria por Laser Doppler limita seu uso nos consultórios dentários particulares; ele é usado primariamente em hospitais e em instituições de ensino. EXAMES RADIOGRÁFICOS As radiografias são instrumentos essenciais do exame completo dos tecidos duros traumatizados. Elas podem revelar fraturas radiculares, fraturas coronárias subgengivais, deslocamentos dentários, fraturas ósseas, reabsorções das raízes e do osso adjacente ou objetos estranhos. Entretanto, a radiografia dentária padrão apresenta graves limitações. Por exemplo, uma linha de fratura pode estar presente no sentido mesiodistal de um dente e não estar evidente na radiografia. Uma linha de fratura também pode ser diagonal em um sentido vestibulolingual e não ser óbvia em um filme. Da mesma forma, uma fratura muito fina pode não estar evidente na radiografia, ao exame inicial, e somente mais tarde tornar-se óbvia quando fluidos teciduais e mobilidade se espalharem sobre as partes fraturadas. A reabsorção radicular também é extremamente difícil de detectar em radiografias dentárias. A radiodensidade da raiz requer que uma quantidade significativa de substância radicular seja removida para que haja contraste suficiente na radiografia que permita detectá-la. Assim, somente os defeitos de reabsorção na superfície mesial ou distal da raiz podem ser detectados de forma previsível. A fim de superar essas dificuldades é essencial que se tire quantas radiografias anguladas forem possíveis para avaliar a reabsorção do osso adjacente.15 Se a reabsorção em virtude do trauma dentário for de natureza inflamatória, o osso adjacente a uma área de reabsorção radicular será afetado de forma semelhante e será reabsorvido. Pelo fato de o osso não ser tão radiodenso quanto a raiz, é mais fácil detectar reabsorção óssea do que reabsorção radicular.15 Novas técnicas radiográficas, como a Tomografia Computadorizada de AberturaSincronizada (Tuned Aperture CT ou TACT), têm se mostrado promissoras para aprimorar a capacidade de os clínicos diagnosticarem a reabsorção radicular,16 mas atualmente elas são experimentais ou financeiramente inviáveis de serem praticadas pelo dentista. Nos casos de laceração dos tecidos moles, é recomendável radiografar a área lesada antes de suturar para ter certeza de que não há corpos estranhos envolvidos. Uma radiografia de tecido mole com um filme de tamanho normal, exposta brevemente a uma kilovoltagem reduzida, deve revelar a presença de várias substâncias estranhas, inclusive fragmentos dentários (Figs. 23-3). FIGURA 23-3 Paciente com fraturas coronárias complicadas em dentes superiores. A, Capeamento pulpar de emergência foi realizado e resina composta foi aplicada. Seis dias depois, o paciente foi encaminhado à clínica por causa de reparação inadequada da laceração do lábio. B, Uma radiografia do lábio revelou parte da coroa do incisivo lateral ainda no lábio. O paciente foi anestesiado e a coroa removida. C, A reparação então ocorreu sem maiores incidentes. Na revelação dos filmes de dentes traumatizados, uma atenção especial deve ser dada à dimensão do espaço do canal radicular, ao grau de fechamento apical da raiz, à proximidade das fraturas com a polpa e à relação das fraturas radiculares com a crista alveolar. Enquanto os filmes periapicais convencionais são geralmente úteis, um filme oclusal e/ou um filme panorâmico podem complementá-los quando o examinador está investigando fraturas ósseas ou corpos estranhos. Traumas sérios como acidentes de automóvel podem afetar qualquer dente e ocorrem em todas as faixas etárias. Assim, em muitos casos após injúria traumática dentária, a terapia endodôntica é realizada em um dente permanente jovem unirradicular sem cárie. Portanto, se um tratamento rápido e correto é realizado logo após a injúria, o potencial para um resultado endodôntico bem-sucedido é bastante grande. Fraturas Coronárias Estas injúrias geralmente ocorrem em dentes anteriores jovens e sem cáries. Isso faz com que a manutenção da vitalidade pulpar seja altamente desejável. Por sorte, a terapia para polpa vital tem um bom prognóstico nessas situações se o tratamento correto e os procedimentos de acompanhamento forem seguidos. Fraturas Coroa-raiz Essas fraturas são primeiramente tratadas do ponto de vista periodontal para assegurar que seja possível uma margem para a restauração. Se o dente pode ser mantido do ponto de vista periodontal, a polpa é tratada como para uma fratura de coroa. Fraturas Radiculares Surpreendentemente, um grande número de polpas em dentes com fratura radicular sobrevive a uma injúria traumática. Na verdade, em quase todos os casos o segmento apical permanece vital. Se o segmento coronário perde a vitalidade, ele deve ser tratado como um dente permanente jovem necrosado. O segmento apical vital não deve ser tratado! Injúrias por Luxações Essas injúrias geralmente resultam em necrose pulpar e também em lesão da camada protetora de cemento. A combinação potencial da infecção pulpar em uma raiz que tenha perdido sua camada protetora de cemento torna essas injúrias potencialmente catastróficas e o tratamento de emergência correto e o tratamento endodôntico, críticos. FRATURAS CORONÁRIAS Como já foi mencionado, o primeiro objetivo sob o ponto de vista endodôntico é manter a vitalidade após esses tipos de injúrias dentárias. Trincas de esmalte (“fraturas incompletas ou rachaduras do esmalte sem a perda de estrutura dentária”) e fratura dentária não complicada (“fratura somente do esmalte ou do esmalte e da dentina sem exposição pulpar”)2 são injúrias que têm pouco risco de resultar em necrose pulpar. Na verdade, o maior risco à saúde da polpa se deve a causas iatrogênicas, provocadas pelo dentista durante a restauração estética desses dentes. Portanto, um acompanhamento meticuloso por um período de 5 anos é a medida endodôntica preventiva mais importante nestes casos. Se, a qualquer momento do acompanhamento, a reação aos testes de sensibilidade muda ou, à avaliação radiográfica, desenvolvem-se sinais de lesão perirradicular ou a raiz parece ter interrompido seu desenvolvimento ou encontra-se obliterada, a intervenção endodôntica deve ser considerada. FRATURA CORONÁRIA COMPLICADA Definição Fraturas coronárias que envolvem esmalte, dentina e polpa (Fig. 23-4).2 FIGURA 23-4 Fratura coronária complicada envolvendo esmalte, dentina e polpa. Incidência Fraturas coronárias complicadas ocorrem em 0,9-13% das injúrias dentárias17–19. Consequências Biológicas Uma fratura que envolve a polpa, se não for tratada, sempre irá resultar em necrose pulpar. Entretanto, a maneira e a sequência de tempo pela qual a polpa se torna necrosada é responsável por grande parte da possibilidade de sucesso de uma intervenção para manter a polpa saudável. A primeira reação após a injúria é hemorragia e inflamação local (Fig. 23-5). FIGURA 23-5 Aparência histológica da polpa 24 horas após exposição traumática. A polpa proliferou para a área de dentina exposta. Há aproximadamente 1,5 mm de polpa inflamada abaixo da superfície de fratura. As alterações inflamatórias subsequentes geralmente são proliferativas, mas também podem ser destrutivas. Uma reação proliferativa é favorecida nas injúrias traumáticas, já que a superfície fraturada geralmente é plana, permitindo a irrigação pela saliva com pouca chance de impactação de restos alimentares contaminados. Portanto, a menos que a impactação de detritos contaminados seja óbvia, espera-se que nas primeiras 24 horas após a injúria, uma resposta proliferativa com inflamação se estendendo não mais que 2 mm para o interior da polpa esteja presente (Fig. 23-5).20–22 Com o tempo, a invasão bacteriana irá resultar em necrose pulpar local e em uma lenta disseminação apical da inflamação pulpar (Fig. 23-6). FIGURA 23-6 Aparência histológica da polpa dias após exposição traumática. Necrose superficial da polpa pode ser observada acima de uma área inflamada. Tratamento As opções de tratamento são: 1. tratamento da polpa vital compreendendo: capeamento pulpar; pulpotomia parcial e pulpotomia total ou 2. pulpectomia. A escolha do tratamento depende do estágio do desenvolvimento do dente, do tempo entre o trauma ou a lesão e o tratamento, injúria periodontal concomitante e plano de tratamento restaurador. Estágio do Desenvolvimento do Dente A perda da vitalidade em um dente imaturo pode ter consequências catastróficas. O tratamento do canal radicular em um dente com um canal em forma de bacamarte é difícil e leva tempo. Provavelmente, o mais importante é o fato de que a necrose de um dente imaturo o deixa com paredes dentinárias delgadas e suscetíveis à fratura durante e depois do procedimento de apicificação (Fig. 23-7).23 Portanto, todo o esforço deve ser realizado para manter o dente vital pelo menos até que o ápice e a raiz cervical tenham se desenvolvido completamente. FIGURA 23-7 Dente imaturo (rizogênese incompleta) submetido a capeamento pulpar e que, por causa de um selamento coronário inadequado, acabou resultando em necrose pulpar e lesão perirradicular. A remoção da polpa em um dente maduro não é tão significativa quanto em um dente imaturo, já que a pulpectomia em um dente maduro tem um índice de sucesso extremamente alto.24 Entretanto, tem sido demonstrado que a tratamento da polpa vital (em vez de sua remoção) em um dente maduro realizada sob condições ideais pode ser executada com sucesso.25,26 Portanto, sob certos aspectos, esta forma de tratamento pode ser uma opção, mesmo sendo a pulpectomia o tratamento que oferece o sucesso mais previsível. Em dentes imaturos, deve-se sempre que possível optar pelo tratamento conservador da polpa vital, por causa das grandes vantagens da manutenção da vitalidade pulpar. Tempo entre o Trauma e o Tratamento Até as primeiras 48 horas após a injúria traumática, a reação inicial da polpa é proliferativa com não mais que 2 mm de profundidade de inflamação pulpar(Fig. 23-5). Depois de 48 horas, as chances de contaminação bacteriana direta da polpa aumentam à medida que a zona de inflamação progride apicalmente (Fig. 23-6).21 Assim, com o passar do tempo, a chance de sucesso de manutenção de uma polpa saudável diminui. Dano Concomitante ao Periodonto Uma injúria periodontal irá comprometer o suprimento nutricional da polpa. Este fato é especialmente importante em dentes maduros nos quais a chance de sobrevivência da polpa não é tão boa quanto nos dentes imaturos.27 Plano de Tratamento Restaurador Ao contrário de um dente imaturo, no qual os benefícios da manutenção da vitalidade da polpa são grandes, em um dente maduro a pulpectomia é a opção de tratamento mais viável. Entretanto, quando realizada em condições ideais, o tratamento da polpa vital, após exposições traumáticas, pode ser bem-sucedido. Assim, se o plano de tratamento restaurador é simples e uma restauração de resina composta é suficiente como restauração permanente, esta opção de tratamento deve ser seriamente levada em consideração. Se, por outro lado, uma restauração mais complexa for colocada, por exemplo, uma coroa ou uma ponte fixa, a pulpectomia pode ser o método de tratamento mais indicado. TRATAMENTO DA POLPA VITAL Requisitos para o Sucesso O tratamento da polpa vital tem um índice de sucesso extremamente alto se os seguintes requisitos puderem ser adicionados: a) Tratamento de uma Polpa Não Inflamada O tratamento de uma polpa saudável tem demonstrado ser um requisito desejado para o sucesso do tratamento.28,29 O tratamento da polpa vital quando a mesma está inflamada, por outro lado, apresenta resultados menos previsíveis.28,29 Portanto, o tempo ideal para o tratamento envolve as primeiras 24 horas quando a inflamação pulpar é superficial. À medida que aumenta o tempo entre o momento da fratura e o tratamento, a remoção da polpa deve ser estendida apicalmente a fim de assegurar que um segmento de polpa não inflamada foi atingido. b) Selamento Antibacteriano Este requisito é possivelmente o fator mais crítico para um tratamento bem-sucedido.29 A invasão por bactérias durante a fase de reparação causará insucesso.30 Por outro lado, se a polpa exposta estiver efetivamente vedada contra a passagem bacteriana, a reparação bem- sucedida da polpa com a formação de uma barreira de tecido duro irá ocorrer independentemente da proteção colocada sobre ela.30 c) Curativo Pulpar O hidróxido de cálcio tem sido tradicionalmente o curativo comumente usado para a tratamento da polpa vital. Suas vantagens são que ele é antibacteriano31,32 e irá desinfetar a polpa superficialmente. O hidróxido de cálcio puro causará uma necrose em cerca de 1,5 mm do tecido pulpar,33 que removerá as camadas superficiais de polpa inflamada quando estas estiverem presentes (Fig. 23-8). O alto pH de 12,5 do hidróxido de cálcio causa uma necrose por liquefação nas camadas mais superficiais da polpa.34 A toxicidade do hidróxido de cálcio parece ser neutralizada à medida que as camadas pulpares mais profundas são afetadas, causando uma necrose coagulativa na junção da polpa necrótica com a polpa vital, resultando apenas em uma discreta irritação pulpar. Esta discreta irritação dará início a uma resposta inflamatória que, na ausência de bactérias,34 irá permitir à polpa uma reparação por causa da formação de uma barreira de tecido duro (Fig. 23-9).34,35 A colocação de hidróxido de cálcio de presa rápida não causará necrose nas camadas superficiais da polpa e tem demonstrado iniciar uma reparação também com a formação de uma barreira de tecido duro.36,37 FIGURA 23-8 Necrose superficial da polpa com cerca de 1,5 mm de profundidade como resultado do alto pH do hidróxido de cálcio. FIGURA 23-9 Barreira de tecido duro após pulpotomia parcial e aplicação de hidróxido de cálcio. Aparência histológica de odontoblastos de substituição e da barreira. A principal desvantagem do hidróxido de cálcio é que ele não veda a superfície fraturada. Portanto, um material adicional deve ser usado para assegurar que a polpa não seja invadida por bactérias, particularmente durante a fase crítica de reparação. Muitos materiais, como o óxido de zinco e eugenol,28 fosfato tricálcico38 e resina composta,39 têm sido propostos como medicamentos para a terapia da polpa vital. Até hoje, nenhum ofereceu a previsibilidade do hidróxido de cálcio usado em conjunção com uma restauração coronária bem vedada. Materiais biocerâmicos, como o Agregado de Trióxido Mineral (MTA), têm mostrado resultados promissores como agente capeador pulpar (Fig. 23-10).40 Ele possui um alto pH semelhante ao hidróxido de cálcio antes de endurecer;41 depois de endurecido, irá gerar um excelente selamento antibacteriano42 e é resistente o bastante para agir como base para a restauração final.41 O MTA foi o primeiro material biocerâmico a ser introduzido no mercado. Suas desvantagens incluem preço, dificuldade de manipulação e o fato de que pode causar alteração da cor do dente. Recentemente, materiais biocerâmicos de nova geração com propriedades similares ao MTA e que contornam a maioria das suas limitações têm sido disponibilizados. Um destes materiais é o Endosequence Root Repair Material ou TotalFill Root Repair Material, que já vem pré-misturado (Fig. 23-11). A manipulação deste material é semelhante ao Intermediate Restorative Material (IRM) e uma vez que vem pré-misturado, a perda é mínima. FIGURA 23-10 Corte histológico de dente de cão após capeamento direto com MTA. Há boa evidência de formação de ponte de dentina diretamente abaixo do MTA. (Cortesia do Dr. Leif Backland.) FIGURA 23-11 Material biocerâmico pré-misturado. MÉTODOS DE TRATAMENTO Capeamento Pulpar O capeamento pulpar implica na colocação de um curativo diretamente sobre a exposição pulpar. Como é demonstrado pelo índice de sucesso desse procedimento (80%),43,44 comparado ao da pulpotomia parcial (95%),20 parece que um capeamento pulpar superficial não deve ser considerado após exposições traumáticas da polpa. O baixo índice de sucesso não é difícil de entender, já que uma inflamação superficial se desenvolve imediatamente após a exposição traumática. Assim, se o tratamento é realizado em nível superficial, um número de polpas inflamadas (em vez de saudáveis) será tratado, diminuindo o potencial de sucesso. Além disso, um selamento antibacteriano coronário rigoroso é muito mais difícil em um capeamento pulpar superficial, já que não há profundidade da cavidade para ajudar na criação de um selamento contra bactérias, como em uma pulpotomia parcial. Pulpotomia Parcial A pulpotomia parcial implica remoção do tecido pulpar coronário até o nível da polpa saudável. Em injúrias traumáticas, este nível pode ser determinado precisamente por causa do conhecimento da reação da polpa após uma injúria traumática. Este procedimento é comumente chamado “Pulpotomia de Cvek”. Técnica São realizadas anestesia, aplicação do isolamento absoluto e desinfecção superficial. Uma cavidade de 1 a 2 mm de profundidade é preparada no interior da polpa usando-se uma broca diamantada estéril de tamanho apropriado com refrigeração profusa com água.45 O uso de broca de baixa rotação ou de colher escavadora deve ser evitado a não ser que a refrigeração com a broca de alta rotação não seja possível. Se o sangramento for excessivo, a polpa é amputada mais profundamente até que apenas uma hemorragia moderada seja observada. O excesso de sangue deve ser cuidadosamente removido através da irrigação com substância salina estéril ou solução anestésica e deve ser seco com bolinha de algodão estéril. Deve-se ter o cuidado de não permitir que um coágulo sanguíneo se desenvolva, pois isto iria comprometer o prognóstico.20, 35 Uma base de material biocerâmico de 1 a 2 mm de espessura é cuidadosamente aplicada sobre a polpa. Sobre a base, coloca-se uma mecha de algodão umedecida e, então, o material restaurador temporário. Poucos dias depois, a restauração temporária é removida e uma restauração permanente é aplicada sobrea base biocerâmica endurecida. Se o material biocerâmico não estiver disponível, a pulpotomia parcial tradicional com hidróxido de cálcio é feita, tomando-se o cuidado de selar a cavidade com uma boa restauração coronária. Um cimento de hidróxido de cálcio comercial de presa rápida pode ser usado36 e a cavidade preparada pode ser obturada com um material que apresente a melhor chance de selamento contra bactérias (óxido de zinco e eugenol ou cimento de ionômero de vidro) a um nível que recubra a superfície fraturada. O material na cavidade pulpar e todos os túbulos dentinários expostos são recobertos com cimento de hidróxido de cálcio de presa fácil e o esmalte condicionado e restaurado com resina composta adesiva como no capeamento pulpar. Recentemente, os materiais biocerâmicos têm sido usados como material de forração permanente para aplicação direta sobre a polpa exposta e para substituir o Ca(OH)2. Acompanhamento A ênfase é colocada na evidência da manutenção de positividade pelos testes de sensibilidade e nas evidências radiográficas da continuação do desenvolvimento radicular (Figs. 23-12). FIGURA 23-12 Capeamento pulpar. A, Foi realizado capeamento pulpar com hidróxido de cálcio, seguido de aplicação de uma camada de cimento de ionômero de vidro e, então, o fragmento fraturado foi colado com resina composta. B, Um ano de acompanhamento. O dente responde normalmente ao frio. Há boa evidência de continuação da formação radicular e de calcificação imediatamente adjacente ao capeamento. Prognóstico Este método apresenta muitas vantagens sobre o capeamento pulpar. A polpa superficial inflamada é removida no preparo da cavidade pulpar. O alto pH do material biocerâmico ou do hidróxido de cálcio promove a descontaminação da dentina e polpa. O mais importante é o espaço oferecido para um material que irá promover o selamento contra bactérias, para permitir que a polpa se repare por formação de tecido duro sob condições ideais. Além disso, a polpa coronária não é removida, o que permite a realização dos testes de sensibilidade em consultas de acompanhamento. O prognóstico é extremamente satisfatório (94% a 96%).20,46 PULPOTOMIA TOTAL Este procedimento envolve a remoção de toda a polpa coronária ao nível dos orifícios radiculares. Este nível de amputação pulpar é escolhido arbitrariamente de acordo com a comodidade anatômica. Portanto, já que a polpa inflamada algumas vezes se estende além dos orifícios do canal para o interior da polpa radicular, muitos “erros” são cometidos, resultando no tratamento de uma polpa inflamada em vez de uma polpa não inflamada. Indicações Quando se prevê que a polpa esteja inflamada em níveis mais profundos do que a polpa coronária. Exposições traumáticas após 72 horas ou uma exposição por cárie são exemplos nos quais esta forma de tratamento pode ser indicada. Em virtude das chances razoavelmente boas de que o curativo será colocado sobre a polpa inflamada, a pulpotomia total é contraindicada em dentes maduros. Entretanto, os benefícios superam os riscos nesta forma de tratamento em dentes imaturos com os ápices incompletamente formados e com paredes de dentina delgadas. Técnica Anestesia, aplicação do isolamento absoluto e desinfecção superficial, como no capeamento pulpar e na pulpotomia parcial. A polpa coronária é removida como na pulpotomia parcial, mas ao nível dos orifícios radiculares. Um curativo de hidróxido de cálcio, o selamento contra bactérias e a restauração coronária são realizados como na pulpotomia parcial. O MTA nesse caso também pode substituir o Ca(OH)2 e pode ser usado como um material permanente. Entretanto, o MTA necessita de vários minutos, horas ou dias para endurecer completamente antes que uma obturação permanente seja aplicada sobre ele. A aplicação do hidróxido de cálcio ou do material biocerâmico, o selamento antibacteriano e a restauração coronária são feitos da mesma forma descrita para a pulpotomia parcial. Na pulpotomia total, o benefício de um material de base selador é minimizado, uma vez que uma restauração coronária bastante profunda é confeccionada nestes casos. Acompanhamento O mesmo do capeamento e da pulpotomia parcial. A principal desvantagem deste método de tratamento é o fato de que o teste de sensibilidade não é possível por causa da perda da polpa coronária. Portanto, o acompanhamento radiográfico é extremamente importante para a avaliação de sinais de lesão perirradicular e para assegurar a continuação da formação radicular. Prognóstico À medida que a pulpotomia é realizada em polpas nas quais são esperadas a presença de inflamação profunda e o local de amputação pulpar é arbitrário, muitos “erros” ocorrem levando ao tratamento de uma polpa inflamada. Consequentemente, o prognóstico que se encontra na faixa de 75% é pior do que o da pulpotomia parcial.47 Em virtude da incapacidade de avaliar o status da polpa após a pulpotomia total, alguns autores recomendam a pulpectomia rotineiramente após a formação completa das raízes (Fig. 23-13). Esta filosofia se baseia no fato de que o procedimento de pulpectomia apresenta um índice de sucesso de 95%, enquanto, quando uma lesão perirradicular se desenvolve, o prognóstico do tratamento do canal radicular cai significativamente para cerca de 80% (Cap. 9).24,48 FIGURA 23-13 Pulpotomia bem-sucedida seguida por pulpectomia 18 meses depois. (Cortesia do Dr. Leif Tronstad.) PULPECTOMIA A pulpectomia implica a remoção de toda a polpa ao nível do forame apical. Indicações Fratura coronária complicada em um dente maduro (se as condições não forem ideais para o tratamento da polpa vital). Este procedimento não difere do tratamento do canal radicular de um dente vital não traumatizado. TRATAMENTO DA POLPA NECROSADA Dente Imaturo – Apicificação Indicações Dentes com ápices abertos e paredes de dentina delgadas nos quais as técnicas padronizadas de instrumentação não podem criar um fechamento apical para facilitar a obturação efetiva do canal radicular. Consequências Biológicas Um dente imaturo não vital apresenta várias dificuldades para o tratamento endodôntico adequado. Em geral, o canal é mais amplo apicalmente do que coronariamente, necessitando de uma técnica de obturação com o uso um material obturador mais amolecido para moldá-lo na forma da porção apical do canal. Uma vez que o forame apical é muito amplo, não existe barreira para impedir que esse material amolecido invada e traumatize os tecidos periodontais apicais. A falta de fechamento apical e o extravasamento do material através do canal ainda podem resultar em um canal mal obturado e suscetível à infiltração. Um problema adicional em um dente imaturo com paredes dentinárias delgadas é sua suscetibilidade à fratura durante e depois do tratamento.49 Esses problemas são superados pelo estímulo da formação de uma barreira de tecido duro que permita uma obturação do canal de forma ideal e reforce a fragilidade da raiz contra fraturas antes e depois da apicificação.23,50 Técnica Como na grande maioria dos casos, os dentes não vitais estão infectados, a primeira fase do tratamento é desinfetar o sistema de canais radiculares para assegurar a reparação perirradicular.31, 51 O comprimento do canal é estimado com uma radiografia pré-operatória e, depois que o acesso aos canais é realizado, uma lima é conduzida a esta extensão. Quando o comprimento tiver sido confirmado radiograficamente, uma limagem muito suave (por causa das paredes delgadas de dentina) é realizada com irrigação copiosa com hipoclorito de sódio 0,5%.52,53 Uma concentração menor de NaOCl é usada em virtude do risco maior de introdução de hipoclorito de sódio através do ápice em dentes imaturos. Essa concentração mais baixa de NaOCl é compensada pelo volume da solução irrigadora usada. Uma agulha de irrigação que possa alcançar passivamente um comprimento próximo do ápice é útil na desinfecção dos canais destes dentes imaturos. O canal é seco com pontas de papel e uma mistura pastosa de hidróxido de cálcio é introduzida no canal comuma espiral de Lentulo (Fig. 23-14). FIGURA 23-14 Mistura cremosa de hidróxido de cálcio em espiral de Lentulo pronta para aplicação no canal. A ação desinfetante adicional (à instrumentação e irrigação) do hidróxido de cálcio é efetiva após a sua aplicação por no mínimo uma semana. O tratamento posterior não deve demorar mais que um mês, já que o hidróxido de cálcio pode ser eliminado pelos fluidos teciduais através do ápice aberto, deixando o canal suscetível à reinfecção. Barreira Apical de Tecido Duro Método Tradicional A formação de uma barreira de tecido duro no ápice requer um meio ambiente semelhante ao que é necessário para a formação de tecido duro no tratamento conservador pulpar, isto é, um discreto estímulo inflamatório para iniciar a reparação e um meio ambiente isento de bactérias para assegurar que a inflamação não seja progressiva. Assim como no tratamento da polpa vital, o hidróxido de cálcio é usado neste procedimento.49, 54 O hidróxido de cálcio em pó é misturado com uma solução salina estéril (ou solução anestésica) até uma consistência espessa (com mais pó) (Fig. 23-15). O hidróxido de cálcio é acamado contra os tecidos moles apicais por meio de um condensador ou instrumento de ponta romba para iniciar a formação de tecido duro. Este passo é seguido pelo preenchimento do restante do canal com hidróxido de cálcio, garantindo, desta forma, um canal isento de bactérias com pouca chance de reinfecção durante os 6 a 18 meses necessários para a formação de tecido duro no ápice. FIGURA 23-15 Mistura espessa de hidróxido de cálcio. O hidróxido de cálcio é meticulosamente removido da cavidade de acesso ao nível dos orifícios radiculares e um material restaurador temporário é colocado na cavidade de acesso. Uma radiografia é realizada e o canal deve parecer como se estivesse calcificado, indicando que ele foi totalmente preenchido com hidróxido de cálcio (Figs. 23-16). Como a eliminação do hidróxido de cálcio é avaliada por sua radiodensidade relativa, é prudente usar uma mistura de hidróxido de cálcio sem a adição de um material radiopaco, como o sulfato de bário. Estes aditivos não são eliminados prontamente como o hidróxido de cálcio, de modo que se estiverem presentes no canal, a avaliação da eliminação é impossível. FIGURA 23-16 Canal radicular que “desaparece” após colocação de uma mistura espessa de hidróxido de cálcio. A, Antes da aplicação. B, Depois. (Cortesia da Dra. Cecilia Bourguignon.) Em intervalos de três meses uma radiografia é realizada para avaliar se uma barreira de tecido duro se formou e se o hidróxido de cálcio foi eliminado do canal. Esta ocorrência só pode ser avaliada por meio de novas radiografias. Se a eliminação do hidróxido de cálcio é observada, este é recolocado como antes. Se não há evidências de eliminação, ele pode ser deixado intacto por mais três meses. Trocas excessivas no curativo de hidróxido de cálcio devem ser evitadas, já que se considera que a toxicidade inicial do material atrasa a reparação.55 Quando se suspeita da conclusão da barreira de tecido duro, o hidróxido de cálcio deve ser removido do canal com hipoclorito de sódio e uma radiografia deve ser realizada para avaliar a radiodensidade do fechamento apical. Uma lima de calibre suficiente para alcançar facilmente o ápice pode ser usada para sondar delicadamente o fechamento apical por tecido duro. Quando uma barreira de tecido duro é observada radiograficamente e pode ser sondada com um instrumento, o canal está pronto para ser obturado. Barreira de Biocerâmica A previsão para a criação de uma barreira fisiológica de tecido duro gira em torno de 3 a 18 meses. A desvantagem deste longo período de tempo é a necessidade de que o paciente se apresente várias vezes para o tratamento e também de que o dente possa fraturar durante o tratamento e antes que as paredes delgadas do canal sejam fortalecidas. Além disso, um estudo indica que a longo prazo o tratamento com hidróxido de cálcio pode enfraquecer as raízes e torná-las ainda mais suscetíveis à fratura.56 O material biocerâmico tem sido usado para criar uma barreira de tecido duro imediatamente após a desinfecção do canal (Fig. 23-17). Sulfato de cálcio é empurrado para além do ápice para produzir uma barreira extrarradicular reabsorvível contra a qual o material biocerâmico vai ser acondicionado. O material biocerâmico é misturado e colocado em 3 a 4 mm apicais do canal de forma semelhante à colocação do hidróxido de cálcio. Uma bolinha de algodão molhada pode ser colocada sobre o material e deixada por no mínimo 6 horas. Então, todo o canal deve ser obturado com um material obturador endodôntico ou a obturação pode ser colocada imediatamente, já que os fluidos teciduais do ápice aberto provavelmente irão produzir uma umidade suficiente para garantir o endurecimento do material biocerâmico. A porção cervical do canal, então é reforçada com resina composta abaixo do nível do osso marginal como descrito a seguir (Fig. 23-17). FIGURA 23-17 Apicificação com MTA. A, O canal é desinfetado por discreta instrumentação, irrigação copiosa e medicação com mistura cremosa de hidróxido de cálcio por um mês. B, Sulfato de cálcio é aplicado além ápice como uma barreira contra a qual o MTA é condensado. C, Um plugue de MTA de 4 mm é colocado na região apical do canal. D, O corpo do canal é obturado com o sistema Resilon. E, Resina composta é utilizada abaixo da junção amelocementária para fortalecer a raiz. (Cortesia da Dra. Marga Ree.) Vários relatos de caso têm sido publicados usando esta técnica de barreira apical por material biocerâmico,57,58 a qual obteve prontamente popularidade entre os clínicos. Obturação do Canal Radicular Já que o diâmetro apical é maior que o diâmetro coronário da maioria desses canais, uma técnica de obturação termoplastificada é indicada nesses dentes. Deve-se ter cuidado para evitar força lateral excessiva durante a obturação por causa das paredes finas da raiz. Se a barreira de tecido duro foi “produzida” pelo tratamento com hidróxido de cálcio a longo prazo, ela será constituída por camadas arranjadas de maneira irregular de tecido mole coagulado, tecido calcificado e tecido semelhante ao cemento (Fig. 23-18). Também estão incluídas ilhas de tecido conjuntivo conferindo à barreira uma consistência de “queijo suíço”.59 60 Em virtude da natureza irregular da barreira, não é raro que o cimento endodôntico e o material obturador amolecido sejam empurrados para os tecidos perirradiculares durante a obturação (Fig. 23- 19). A formação da barreira de tecido duro deve estar a uma pequena distância aquém do ápice radiográfico. Isso porque ela se forma onde o hidróxido de cálcio entra em contato com tecidos vitais. Em dentes com ápice aberto, o tecido vital pode sobreviver e proliferar em alguns milímetros a partir do ligamento periodontal para o interior do canal radicular. A obturação deve ser concluída ao nível da barreira de tecido duro e não deve ser forçada em direção ao ápice radiográfico. FIGURA 23-18 Aparência histológica da barreira de tecido duro após apicificação com hidróxido de cálcio. A barreira consistem em cemento e osso com inclusões de tecido mole. FIGURA 23-19 Obturação com uma técnica de termoplastificação do material após apicificação com hidróxido de cálcio. Cimento e material obturador amolecido extravasaram pelos “buracos de queijo suíço” na barreira apical. Reforço das Paredes Delgadas da Dentina O procedimento de apicificação tornou-se previsivelmente bem-sucedido (ver Prognóstico mais adiante).61 Entretanto, as finas paredes de dentina ainda constituem um problema clínico. Se ocorrerem injúrias secundárias, os dentes com paredes dentinárias delgadas são mais suscetíveis à fratura, o que os torna não restauráveis.62 Tem sido relatado que aproximadamente 30% desses dentes irão fraturar durante ou após o tratamento endodôntico.63 Consequentemente, alguns clínicos têm questionado a conveniência do procedimento de apicificação e têm optado por tratamentos mais radicais,incluindo extração seguida por procedimentos restauradores mais avançados, como implantes dentários. Estudos têm demonstrado que restaurações adesivas intracoronárias podem reforçar internamente os dentes tratados endodonticamente e aumentar sua resistência à fratura.23,64 Assim, após a obturação do canal, o material deve ser removido a um nível abaixo do osso marginal e uma obturação de resina adesiva deve ser colocada (Fig. 23-17). Acompanhamento Devem ser realizadas novas consultas para avaliação a fim de determinar o sucesso na prevenção ou no tratamento da lesão perirradicular. Os procedimentos restauradores devem ser avaliados para assegurar que eles não provoquem, em qualquer hipótese, fraturas radiculares. Prognóstico A reparação perirradicular e a formação de uma barreira de tecido duro ocorrem de forma previsível no tratamento com hidróxido de cálcio a longo prazo (79 a 96%).49,63 Entretanto, a sobrevida a longo prazo é colocada em risco pelo potencial de fratura das paredes delgadas de dentina destes dentes. Espera-se que as mais novas técnicas de reforço interno desses dentes descritas aumentem sua sobrevida a longo prazo. REVASCULARIZAÇÃO PULPAR A regeneração de uma polpa necrosada tem sido considerada possível apenas após a avulsão de um dente permanente imaturo (ver adiante). As vantagens da revascularização pulpar se baseiam na possibilidade de um posterior desenvolvimento radicular e do reforço das paredes dentinárias pela deposição de tecido duro, fortalecendo a raiz contra a fratura. Após o reimplante de um dente imaturo avulsionado, existe um conjunto exclusivo de aspectos capaz de permitir que ocorra regeneração. O dente jovem tem um ápice aberto e é curto, o que permite o crescimento relativamente rápido de um novo tecido para o interior do espaço pulpar. A polpa está necrosada, mas geralmente não está degenerada e infectada e, dessa forma, irá agir como uma matriz dentro da qual o novo tecido pode crescer. Foi demonstrado experimentalmente que a porção apical de uma polpa pode permanecer vital e proliferar coronariamente após o reimplante, substituindo a porção necrosada da polpa.65,66 Além disso, o fato de que na maioria dos casos a coroa do dente encontra-se intacta e livre de cáries, assegura-se que a penetração bacteriana dentro do espaço pulpar através de rachaduras67 ou defeitos seja um processo lento. Assim, a corrida entre o tecido novo e a infecção do espaço pulpar favorece o tecido novo. Até hoje, pensava-se que a regeneração do tecido pulpar em um dente necrosado e infectado com lesão perirradicular associada fosse impossível. Entretanto, se for possível criar um meio ambiente como foi descrito para o dente avulsionado, a regeneração poderá ocorrer. Assim, se o canal for efetivamente desinfetado, a matriz na qual o novo tecido poderia crescer for produzida e o acesso coronário for efetivamente selado, a regeneração deverá ocorrer como em um dente imaturo avulsionado. Um relato de caso por Banchs e Trope68 reproduziu os resultados de casos reportados por outros que indicam ser possível replicar os aspectos exclusivos de um dente avulsionado de forma a revascularizar a polpa de raízes imaturas necrosadas infectadas. O caso mostrado na Figura 23-20 descreve o tratamento de um incisivo superior com sinais clínicos e radiográficos de lesão perirradicular com a presença de fístula. O canal foi desinfetado sem instrumentação mecânica, mas com irrigação copiosa com hipoclorito de sódio a 5,25% e com o uso de uma mistura de antibióticos.69 Um coágulo sanguíneo foi produzido ao nível da junção amelocementária para obter uma matriz para o crescimento de um novo tecido, seguido por uma restauração coronária para oferecer um selamento contra bactérias. Com evidências clínicas e radiográficas de reparação em 22 dias, a ampla área radiolúcida desapareceu em 2 meses e no controle de 24 meses era óbvio que as paredes radiculares estavam espessas e que o desenvolvimento da raiz abaixo da restauração era semelhante a dos dentes adjacentes e contralaterais. FIGURA 23-20 A, Radiografia pré-operatória mostrando dente imaturo com lesão perirradicular depois de luxação severa 6 meses antes (os pontos negros na cervical são artefatos). B, Radiografia de acompanhamento 4 meses depois do tratamento que incluiu aplicação da mistura de ciprofloxacin, metronidazol e minociclina. C, 24 meses de acompanhamento revelando formação radicular continuada tanto em comprimento quanto em espessura. Estudos confirmaram as potentes propriedades da pasta triantibiótica utilizada neste caso70 e estudos estão sendo realizados para descobrir uma matriz sintética que irá agir como um scaffold mais previsível para o neocrescimento tecidual do que o coágulo sanguíneo que foi usado nestes casos anteriores. O procedimento descrito nesta seção pode ser experimentado na maioria dos casos e se, depois de três meses, não houver sinais de regeneração, os métodos mais tradicionais de tratamento podem ser iniciados. FRATURA COROA-RAIZ Como dito anteriormente, esta injúria traumática é um desafio mais periodontal do que endodôntico. O dente deve ser tratado periodontalmente de forma a permitir a colocação de uma restauração coronária adequada. Uma vez que a exequibilidade da restauração coronária esteja garantida, a fratura coronária é tratada como já foi descrito. FRATURA RADICULAR Definição Esta injúria dentária implica o envolvimento de cemento, dentina e polpa. Incidência Essas injúrias são relativamente infrequentes ocorrendo em menos de 3% de todas as injúrias dentárias.71 Raízes incompletamente formadas com polpas vitais raramente fraturam horizontalmente.72 Consequências Biológicas Quando uma raiz fratura horizontalmente, o segmento coronário é deslocado em um grau variável, mas geralmente o segmento apical não se desloca. Como a circulação pulpar apical não é rompida, a necrose pulpar, no segmento apical, é extremamente rara. A necrose pulpar do segmento coronário resulta do seu deslocamento e ocorre em cerca de 25% dos casos.73,74 Diagnóstico e Apresentação Clínica A apresentação clínica é semelhante à das injúrias por luxação. Em geral, a extensão do deslocamento do segmento coronário indica a localização da fratura e pode variar de nenhum, simulando uma injúria por concussão (fratura apical), a grave, simulando uma luxação extrusiva (fratura cervical). O exame radiográfico para fraturas radiculares é extremamente importante. Visto que as fraturas radiculares geralmente são oblíquas (vestibular para palatina) (Fig. 23-21), uma radiografia periapical pode não revelar sua presença. É imperativo realizar pelo menos três radiografias anguladas (45, 90, 110 graus) para que pelo menos em uma angulação, o feixe de raios-X passe diretamente através da linha de fratura tornando-a visível na radiografia (Fig. 23-22). FIGURA 23-21 Dente extraído após fratura radicular. Observar o ângulo oblíquo da fratura. FIGURA 23-22 Radiografias mostrando a importância de diferentes angulações verticais para diagnóstico de fratura radicular. Todas as três radiografias foram realizadas na mesma consulta com diferenças de poucos minutos entre elas. Tratamento O tratamento de emergência envolve o reposicionamento dos segmentos o mais próximo possível e esplintagem aos dentes adjacentes por 2 a 4 semanas.75 Este protocolo de esplintagem mudou recentemente dos 2 a 4 meses que eram tradicionalmente recomendados.76 Se um longo período ocorreu entre a injúria e o tratamento, provavelmente a reposição dos segmentos próximos à sua posição inicial não será possível, comprometendo o prognóstico do dente a longo prazo. Padrões de Reparação Andreasen e Hjorting-Hansen77 descreveram quatro tipos de reparação das fraturas radiculares. 1. Reparação com tecido calcificado. Radiograficamente, a linha de fratura é visível, mas os fragmentos estão em contato íntimo (Fig. 23-23A). FIGURA 23-23 Padrões de reparação após fraturas radiculares horizontais. A, Reparação por tecido calcificado. B, Reparação com tecidoconjuntivo interproximal. C, Reparação com osso e tecido conjuntivo. D, Tecido conjuntivo interproximal sem reparação. 2. Reparação com tecido conjuntivo interproximal. Radiograficamente, os fragmentos parecem separados por uma estreita linha radiotransparente e as margens da fratura parecem arredondadas (Fig. 23-23B). 3. Reparação com tecido conjuntivo e osso interproximal. Radiograficamente, os fragmentos estão separados por uma ponte óssea distinta (Fig. 23-23C). 4. Tecido interproximal inflamatório sem reparação. Radiograficamente, um aumento da linha de fratura e/ou o desenvolvimento de uma radiolucidez correspondente à linha de fratura se tornam aparentes (Fig. 23-23D). Os três primeiros tipos de padrões reparadores são considerados bem-sucedidos. Os dentes geralmente são assintomáticos e respondem positivamente aos testes de sensibilidade. O amarelamento da coroa é possível, porque a metamorfose cálcica no segmento coronário não é incomum.71 O quarto tipo de padrão reparador é típico quando o segmento coronário perde sua vitalidade. Os produtos infecciosos da polpa coronária causam uma resposta inflamatória e radiolucidez típicas na linha de fratura (Fig. 23-23D).77 Tratamento das Complicações Fraturas Coroa-Raiz Historicamente, pensava-se que as fraturas no segmento coronário tinham um prognóstico ruim e que a sua extração fosse recomendada. As pesquisas não sustentam este tratamento; se esses segmentos coronários forem adequadamente esplintados, as chances de reparação não diferem das fraturas radiculares médias ou apicais.71 Entretanto, se a fratura ocorrer ao nível da crista óssea alveolar ou coronariamente a esta, o prognóstico é extremamente ruim. Se a reinserção dos segmentos fraturados não for possível, a extração do segmento coronário é indicada. O nível da fratura e o comprimento da raiz remanescente são avaliados para saber se há possibilidade de restauração. Se o segmento apical da raiz é suficientemente longo, a erupção forçada desse segmento pode ser realizada para viabilizar a realização da restauração. Fratura Radicular – Média, Apical A necrose pulpar ocorre em 25% das fraturas radiculares.60, 78 Na grande maioria dos casos, a necrose ocorre apenas no segmento coronário e o segmento apical permanece vital. Portanto, o tratamento endodôntico é indicado somente no segmento radicular coronário, a menos que uma lesão perirradicular seja observada no segmento apical. Em muitos casos o lúmen pulpar é amplo na extensão apical do segmento coronário de modo que é indicado o tratamento com hidróxido de cálcio a longo prazo ou a obturação apical com MTA (ver Apicificação). O segmento coronário é obturado depois que uma barreira de tecido duro tenha se formado apicalmente e a reparação perirradicular tenha ocorrido (Fig. 23-24). FIGURA 23-24 Tratamento endodôntico realizado até a linha de fratura, uma vez que uma barreira apical foi formada nesta região. Nos raros casos nos quais tanto a polpa coronária quanto a apical estão necrosadas, o tratamento é mais complicado. O tratamento endodôntico através da fratura é extremamente difícil. Manipulações endodônticas, medicamentos e materiais obturadores têm um efeito deletério sobre a reparação do local da fratura. Se a reparação de uma fratura já ocorreu completamente, mas foi seguida de necrose do segmento apical, o prognóstico é muito melhor. Nas fraturas radiculares mais apicais, os segmentos apicais necrosados podem ser cirurgicamente removidos. Este é um tratamento viável se a raiz remanescente é longa o bastante para fornecer um suporte periodontal adequado. A remoção do segmento apical nas fraturas radiculares medioapicais deixa o segmento coronário com uma inserção comprometida e os implantes endodônticos têm sido usados para promover um suporte adicional ao dente. Acompanhamento Depois que o período de esplintagem for concluído, o acompanhamento é o mesmo das injúrias dentárias traumáticas, isto é, aos 3, 6 e 12 meses e daí em diante, anualmente. Prognóstico Fatores que Influenciam o Reparo Os graus de deslocamento e mobilidade do fragmento coronário são extremamente importantes na determinação do resultado.71,72,75,79 Quanto maior o deslocamento e a mobilidade do fragmento coronário, pior é o prognóstico. Dentes imaturos raramente estão envolvidos em fraturas, mas quando estão, o prognóstico é bom.79 Outro fator relevante é a qualidade do tratamento. O prognóstico melhora com o tratamento rápido, redução dos segmentos radiculares e esplintagem semirrígida por 2 a 4 semanas.75 As complicações são: 1. Necrose pulpar, que pode ser tratada de forma bem-sucedida com o tratamento do segmento coronário com hidróxido de cálcio a longo prazo e obturação após a formação de uma barreira de tecido duro.78 2. Obliteração do canal radicular, que não é incomum se o segmento (coronário ou apical) permanecer vital. INJÚRIAS POR LUXAÇÃO Definições 1. Concussão: ausência de deslocamento, mobilidade normal, sensibilidade à percussão. 2. Subluxação: sensibilidade à percussão, mobilidade aumentada, sem deslocamento. 3. Luxação lateral: deslocamento vestibular, lingual, distal ou incisal. 4. Luxação extrusiva: deslocamento na direção coronária. 5. Luxação intrusiva: deslocamento na direção apical dentro do alvéolo. Essas definições descrevem injúrias de magnitude crescente em termos de intensidade e sequelas subsequentes. Incidência As injúrias por luxação são as mais comuns de todas as injúrias dentárias, com incidências reportadas variando de 30% a 44%.80 Consequências Biológicas As injúrias por luxação resultam em danos ao aparato de inserção (ligamento periodontal e camada de cemento), cuja gravidade depende do tipo de injúria ocorrida (concussão menos, intrusão mais). O suprimento neurovascular apical da polpa também é afetado em graus variáveis resultando na alteração ou na perda da vitalidade pulpar do dente. A reparação pode ser favorável ou desfavorável. A reparação favorável, após uma injúria por luxação, ocorre se o dano físico inicial à superfície radicular é novamente recoberto por cemento. A reparação é desfavorável quando ocorre inserção direta do osso à raiz e ela é progressivamente substituída pelo osso (reabsorção por substituição).81 Existem dois tipos de reabsorção nas quais a polpa tem um papel essencial. 1. Na reabsorção radicular inflamatória externa, a polpa necrosada infectada produz o estímulo para a inflamação periodontal. Se a situação tem origem onde o cemento foi danificado por uma injúria traumática, bactérias e seus produtos presentes no espaço pulpar são capazes de se difundir através dos túbulos dentinários e estimular uma resposta inflamatória sobre amplas áreas do ligamento periodontal. Novamente, por causa da falta de proteção cementária, a inflamação periodontal incluirá reabsorção radicular assim como a esperada reabsorção óssea.6,82 2. Na reabsorção radicular inflamatória interna, a polpa inflamada é o tecido envolvido na reabsorção da estrutura radicular. A patogênese da reabsorção interna não é completamente conhecida. Considera-se aqui que a polpa coronária necrosada infectada produz um estímulo para uma inflamação nas porções mais apicais da polpa. Se, em casos raros, a polpa inflamada estiver adjacente a uma superfície radicular que tenha perdido sua proteção cementária, a reabsorção radicular interna poderá ocorrer. Assim, tanto a polpa necrosada infectada como a polpa inflamada contribuem para este tipo de reabsorção radicular.83,84 CONSEQUÊNCIAS DO DANO AO SUPRIMENTO NEUROVASCULAR APICAL Obliteração do Canal Radicular A obliteração do canal radicular é comum após as injúrias por luxação (Fig. 23-25). A frequência de obliteração do canal parece ser inversamente proporcional à de necrose pulpar. O mecanismo exato da obliteração do canal não é conhecido. Tem sido teorizado que o controle simpático/parassimpático do fluxo sanguíneo para os odontoblastos encontra-se alterado, resultando em produção descontrolada de dentina reparadora.72 Outra teoria é que a hemorragia e a formaçãode um coágulo sanguíneo na polpa após a injúria sejam um foco para a calcificação subsequente se a polpa permanecer vital.72 A obliteração do canal radicular geralmente pode ser diagnosticada dentro do primeiro ano após a injúria85 e tem sido observada com mais frequência em dentes com ápices abertos (> 0,7 mm radiograficamente), em dentes com injúrias por luxação extrusiva e lateral e em dentes que tenham sido esplintados rigidamente.85 FIGURA 23-25 Obliteração quase completa do canal radicular em dente superior um ano após luxação severa. Necrose Pulpar Os fatores mais importantes para o desenvolvimento da necrose pulpar são o tipo de injúria (concussão menos, intrusão mais) e o estágio do desenvolvimento radicular (ápice maduro > ápice imaturo).86 A necrose pulpar pode levar à infecção do sistema de canais radiculares com as seguintes consequências. Infecção Pulpar A infecção pulpar em conjunto com a lesão da superfície externa da raiz resulta em reabsorção da raiz e do osso e continuará em seu estado ativo enquanto o estímulo pulpar (infecção) permanecer. Quando a raiz perde sua proteção cementária, pode ocorrer uma lesão lateral com reabsorção radicular (Fig. 23-26). FIGURA 23-26 Reabsorção radicular inflamatória causada por infecção endodôntica. Observar as áreas radiolúcidas na raiz e no osso adjacente. (Cortesia do Dr. Fred Barnett.) Para que haja uma infecção do espaço pulpar, a polpa deve primeiramente se tornar necrosada. Isso ocorrerá após uma injúria bastante grave na qual o deslocamento do dente resulte em danos aos vasos sanguíneos apicais. Em dentes maduros, a regeneração pulpar não pode ocorrer e, geralmente em três semanas, a polpa necrosada tornar-se-á infectada. Pelo fato de uma injúria grave ser necessária para que haja necrose pulpar, é frequente que as áreas da raiz que são recobertas por cemento também sejam afetadas resultando na perda de proteção. Nesse momento, produtos bacterianos podem passar através dos túbulos dentinários e estimular uma resposta inflamatória no ligamento periodontal correspondente. O resultado é a reabsorção da raiz e do osso. O infiltrado periodontal consiste em tecido de granulação com linfócitos, plasmócitos e leucócitos polimorfonucleares. As células gigantes multinucleadas reabsorvem a superfície desnuda da raiz e isso continua até que o estímulo (bactérias no canal radicular) seja removido (Fig. 23-27).83 Radiograficamente, a reabsorção é observada como áreas radiolúcidas progressivas da raiz e do osso adjacente (Fig. 23-26). FIGURA 23-27 Aparência histológica de osteoclastos reabsorvendo a dentina radicular. Tratamento O dano de inserção em virtude da injúria traumática e a diminuição da inflamação subsequente são o foco da visita de emergência. A atenção do profissional para a infecção pulpar deve ser exatamente de 7 a 10 dias após a injúria.87,88 A desinfecção do canal radicular remove o estímulo da inflamação perirradicular e a reabsorção irá cessar.82,87,88 Em muitos casos, uma nova inserção irá se formar, mas se uma grande área da raiz é afetada, a substituição óssea pode ocorrer por mecanismos já descritos. Novamente, os princípios do tratamento incluem prevenção da infecção do canal radicular ou eliminação das bactérias, se elas estiverem presentes no canal. 1. Prevenção da Infecção do Canal Radicular a) Restabelecer a vitalidade da polpa: se a polpa permanecer vital, o canal estará isento de bactérias e, desta forma, a reabsorção radicular externa inflamatória não ocorrerá. Em injúrias graves, em que a vitalidade foi perdida, é possível sob determinadas circunstâncias promover a revascularização da polpa. A revascularização é possível em dentes jovens, com ápices incompletamente formados, se estes forem recolocados em sua posição inicial dentro de 60 minutos após a injúria89 (Figs. 23-28).89 Se o dente foi avulsionado, embebê-lo em doxiciclina por 5 minutos ou cobrir a raiz com minociclina em pó antes do reimplante pode dobrar ou triplicar as chances de revascularização.89 Entretanto, mesmo sob as melhores condições, a revascularização poderá não ocorrer, o que gera um dilema diagnóstico. Se a polpa revascularizar, a reabsorção radicular externa não ocorrerá e a raiz continuará a se desenvolver e a se fortalecer. Entretanto, se a polpa se tornar necrosada e infectada, a subsequente reabsorção radicular inflamatória externa que se desenvolve poderá resultar em perda do dente em um curto período de tempo. Atualmente, os recursos diagnósticos disponíveis não podem detectar uma polpa vital nessa situação antes de aproximadamente seis meses de uma revascularização bem-sucedida. Este período de tempo obviamente é inaceitável, visto que nesse momento os dentes que não se revascularizaram poderão ser perdidos por um processo de reabsorção. A fluxometria Laser Doppler tem sido considerada um excelente recurso diagnóstico para a detecção da revascularização em dentes imaturos (Fig. 23-2). Esses equipamentos parecem detectar precisamente a presença de tecido vital no espaço pulpar em quatro semanas após a injúria traumática.14 FIGURA 23-28 A, Incisivo central superior após luxação lateral severa. Não respondeu ao teste do frio com CO2, embora os dentes adjacentes tenham apresentado resultados positivos. B. Quatro meses depois, todos os dentes responderam normalmente ao frio. C, Sete meses depois, há bons sinais de formação radicular no incisivo. b) Prevenir a infecção endodôntica pelo tratamento do canal em 7 a 10 dias: em dentes com ápices fechados, a revascularização não pode ocorrer. Esses dentes devem ser tratados endodonticamente em 7 a 10 dias após a injúria antes que a polpa necrosada por isquemia se torne infectada.87,88 Teoricamente, o tratamento desses dentes neste período de tempo pode ser considerado equivalente ao tratamento de um dente com a popa vital. Portanto, o tratamento endodôntico pode ser concluído em uma consulta. Entretanto, o tratamento eficiente imediatamente após uma séria injúria traumática é extremamente difícil e, na opinião dos autores, é vantajoso iniciar o tratamento endodôntico com o preparo químico-mecânico seguido por medicação intracanal com uma mistura cremosa de hidróxido de cálcio (Fig. 23-14).87 O profissional pode então obturar o canal de acordo com a sua conveniência depois que a reparação periodontal da injúria estiver completa, aproximadamente um mês após a consulta de instrumentação. Parece não haver necessidade do tratamento com hidróxido de cálcio a longo prazo nos casos em que o tratamento endodôntico tem início dentro de 10 dias a partir da injúria. Ainda assim, em um paciente complacente o hidróxido de cálcio pode ser aplicado por um longo prazo (até 6 meses) para assegurar a saúde periodontal antes da obturação final do canal radicular.87 2. Eliminar a Infecção Endodôntica Quando o tratamento do canal radicular é iniciado depois de 10 dias do acidente ou se uma reabsorção inflamatória externa é observada, o protocolo antibacteriano preferido consiste no controle microbiano seguido por um curativo a longo prazo com hidróxido de cálcio de consistência espessa.87 O hidróxido de cálcio pode gerar um pH alcalino na proximidade dos túbulos dentinários (Fig. 23-29), eliminando bactérias e neutralizando endotoxinas, potentes estimulantes inflamatórios. FIGURA 23-29 Alto pH do hidróxido de cálcio. O canal foi preenchido com hidróxido de cálcio e a raiz, então, foi seccionada transversalmente. Um indicador de pH revela altos valores no canal e na raiz circundante, enquanto o tecido circunjacente está em pH neutro. A primeira visita envolve o controle microbiano com instrumentação do canal e a colocação de uma mistura cremosa de hidróxido de cálcio usando uma espiral de Lentulo. O paciente retorna aproximadamente um mês depois, quando então o canal é preenchido com uma densa mistura de hidróxido de cálcio. Uma vez preenchido, o canal deve parecer radiograficamente como se estivesse calcificado, visto que a radiodensidade do hidróxido de cálcio no canal é semelhanteà da dentina circunjacente (Fig. 23-16). Radiografias são então realizadas em intervalos de três meses. A cada visita, o dente é testado para sintomas de lesão perirradicular. Além da reparação do processo de reabsorção, a presença ou a ausência de hidróxido de cálcio é avaliada. Visto que a superfície radicular é radiodensa, o que torna a avaliação difícil, a reparação do osso adjacente é avaliada. Se o osso adjacente estiver reparado, presume-se que o processo de reabsorção radicular foi interrompido e, então, o canal pode ser obturado com material obturador permanente (Fig. 23-30). Se for observado que uma reparação adicional seria vantajosa antes da obturação radicular, a necessidade da reposição de hidróxido de cálcio no canal é avaliada. Se o canal ainda parecer calcificado radiograficamente, não há necessidade da reposição de hidróxido de cálcio. Se por outro lado, o canal retornou à sua aparência radiolúcida, o hidróxido de cálcio deve ser recolocado e reavaliado em outros três meses. FIGURA 23-30 Reparação da reabsorção radicular inflamatória externa após tratamento com hidróxido de cálcio. As áreas radiolúcidas vistas antes do tratamento desapareceram com o restabelecimento da lâmina dura. (Cortesia do Dr. Fred Barnett.) DIAGNÓSTICO DAS INJÚRIAS POR LUXAÇÃO NA SESSÃO DE EMERGÊNCIA Avaliação: Pacientes apresentarão história recente de injúria traumática, grau variável de deslocamento dentário e dor à percussão. A história médica e dental deve ser registrada e a avaliação clínica dos dentes feita com ênfase particular na dor à percussão e na mobilidade. A avaliação radiográfica é de vital importância para detectar a extensão do deslocamento e avaliar a presença ou não de fratura radicular. DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO DE EMERGÊNCIA Concussão Diagnóstico e Apresentação Clínica O dente com concussão não apresenta deslocamento tampouco mobilidade. Dor à percussão é a única característica presente. Uma história de trauma recente associada à dor e à percussão tornam o diagnóstico possível. Tratamento A possibilidade de fratura radicular pode ser excluída por meio de radiografias anguladas. A oclusão deve ser checada e ajustada, se necessário. Os testes de sensibilidade pulpar podem dar resultado negativo e a coroa pode ter alteração de cor. O tratamento endodôntico não deve ser realizado nesta consulta, pois os resultados negativos dos testes de sensibilidade e a alteração de cor podem ser reversíveis. Acompanhamento Três semanas, 3, 6, 12 meses e anualmente. A maior preocupação durante o acompanhamento é o desenvolvimento de necrose pulpar. Testes pulpares e perirradiculares são realizados, assim como radiografias. Necrose pulpar pode ser diagnosticada aos 3 meses. Subluxação Diagnóstico e Apresentação Clínica A apresentação clínica da subluxação é similar à da concussão. Além disso, o dente pode apresentar leve mobilidade e sinais clínicos de sangramento ao nível do sulco gengival. Tratamento Como na concussão. Acompanhamento Como na concussão. Luxação Lateral Diagnóstico e Apresentação Clínica História de injúria traumática recente. O dente encontra-se deslocado lateralmente (a coroa usualmente está deslocada no sentido palatino) e sangramento sulcular está usualmente presente. O dente geralmente encontra-se sensível à percussão. Tratamento Na maioria dos casos, a coroa está para a palatina e o ápice radicular para a vestibular. Muitas vezes o ápice é forçado contra a cortical óssea vestibular e o dente fica então travado nesta nova posição e com dificuldade de ser deslocado. O dente deve ser removido desta posição por um movimento em direção coronária e então apical. Isto é realizado da forma mais delicada possível, aplicando-se uma pressão no sentido coronopalatino sobre o ápice radicular com o dedo indicador e exercendo uma pressão na coroa no sentido vestibular com o polegar. O dente é movido, primeiro coronariamente, para fora da cortical vestibular e, então, é algo que “sugado” para sua posição original. O reposicionamento requer anestesia. Se o dente estiver com mobilidade após reposicionamento, deve ser esplintado da mesma forma que para avulsão (ver adiante). Testes de sensibilidade são de pouco valor nesta consulta. Acompanhamento Dente Maduro Embora a sobrevivência da polpa seja possível em alguns casos, é nossa opinião que, se após 3 semanas, os testes de sensibilidade ainda indicarem necrose pulpar, o tratamento endodôntico deve ser realizado. O tratamento endodôntico de um dente maduro sem infecção pulpar tem um índice de sucesso extremamente alto e deveria ser realizado, evitando-se assim o risco de complicações por reabsorção externa. Dente Imaturo Dentes imaturos representam um dilema. As chances de a vitalidade pulpar ser mantida ou haver revascularização são razoavelmente boas. Contudo, se necrose e infecção ocorrerem, esses dentes, que já sofreram dano no cemento por causa do trauma, tornam-se suscetíveis à reabsorção inflamatória externa e podem ser perdidos em curto espaço de tempo. Acompanhamento cuidadoso é muito importante e, ao primeiro sinal (clínico ou radiográfico) de reabsorção radicular, o tratamento endodôntico deve ser iniciado. Fluxometria Laser Doppler é um instrumento promissor para o diagnóstico de revascularização destes dentes jovens. Luxação Extrusiva (Extrusão) Diagnóstico e apresentação clínica, tratamento e acompanhamento são essencialmente os mesmos para as luxações laterais. Luxação Intrusiva (Intrusão) Diagnóstico e Apresentação Clínica O dente é empurrado para o interior de seu alvéolo e apresenta-se firmemente preso, com um som metálico ao teste de percussão e em infraoclusão. Avaliação radiográfica é essencial para checar a extensão e a posição do dente intruído. Tratamento A luxação intrusiva é provavelmente a pior injúria traumática que um dente pode suportar. O movimento do dente no alvéolo resulta em dano extenso ao aparato de inserção com a ocorrência de anquilose e reabsorção por substituição. Além disso, necrose pulpar é bastante comum e reabsorção inflamatória externa pode se desenvolver se o tratamento endodôntico não for realizado a tempo. O tratamento inicial depende do estágio de desenvolvimento do dente. Dentes imaturos usualmente reerupcionam espontaneamente e retornam a sua posição original em poucas semanas a meses. Se a reerupção cessa antes de o dente atingir a oclusão normal, deve-se iniciar imediatamente a movimentação ortodôntica antes que o dente fique anquilosado em posição. Dentes maduros devem ser reposicionados imediatamente para evitar anquilose na posição intruída. O reposicionamento ortodôntico é sempre preferível se um dispositivo ortodôntico puder ser aplicado à coroa do dente intruído. Se a intrusão for pronunciada, pode ser necessário confeccionar um acesso cirúrgico para colocação do dispositivo ortodôntico ou, então, o dente pode ser reposicionado por meio de uma luxação cirúrgica, seguida de recolocação do dente em alinhamento com os dentes adjacentes. Protocolos de tratamento endodôntico são similares ao dente avulsionado (ver adiante). PROGNÓSTICO DAS INJÚRIAS POR LUXAÇÃO Necrose Pulpar A necrose da polpa é comum após injúrias traumáticas de luxação. Mesmo a subluxação, que parece resultar em dano mínimo, conduz à necrose pulpar em 12% a 20% dos casos. Nas luxações lateral e extrusiva, a polpa necrosa em mais da metade dos casos. A incidência de necrose após intrusão é altíssima. A infecção da polpa necrosada ocorre depois de um período de tempo variável. Sinais de lesão perirradicular, incluindo dor à percussão, podem levar de meses a anos para ocorrer. Obliteração do Canal Radicular A obliteração do canal é ocorrência comum nas luxações. O tratamento endodôntico não é rotineiramente indicado nestes dentes. Reabsorção Radicular A reabsorção radicular ocorre em 5% a 15% das luxações. A reabsorção radicular inflamatória pode ser tratada com alto índice de sucesso pelo tratamento endodôntico. Por sua vez, a anquilose é irreversível pelos métodos disponíveis atualmente, tantoque, uma vez detectada, um plano de tratamento levando em consideração a perda do dente deve ser preparado. AVULSÃO E REIMPLANTE Definição Avulsão implica o deslocamento total do dente de seu alvéolo. Incidência A incidência de avulsão dentária varia entre 1% e 16% de todas as injúrias traumáticas que acometem dentes permanentes.2 Como na maioria das injúrias, incisivos centrais superiores são os mais afetados.2 Esportes e acidentes automobilísticos são as causas mais frequentes e a faixa etária mais envolvida situa-se entre 7 e 10 anos de idade.2 Tratamento Clínico do Dente Avulsionado A reparação favorável após uma avulsão requer uma intervenção emergencial rápida, seguida pela avaliação e possível tratamento em momentos decisivos durante a fase de reparação. A emergência de atendimento e a natureza multidisciplinar das avaliações de acompanhamento requerem que tanto o público leigo quanto os profissionais de várias disciplinas estejam conscientes das estratégias de tratamento envolvidas. Consequências da Avulsão Dentária A avulsão dentária resulta em lesão de inserção e necrose pulpar. O dente é “separado” do alvéolo, principalmente, por causa da ruptura do ligamento periodontal, que deixa células viáveis na maior parte da superfície radicular. Além disso, uma pequena lesão cementária localizada ocorre em virtude do impacto do dente contra o alvéolo. Se o ligamento periodontal que ficou inserido na superfície radicular não ressecar, as consequências da avulsão dentária geralmente são mínimas.90,91 As células do ligamento periodontal hidratadas irão manter sua viabilidade e irão se reparar após o reimplante, com uma destruição inflamatória mínima como resultado. Além disso, visto que as áreas da injúria de impacto são localizadas, a inflamação estimulada pelos danos teciduais será igualmente limitada e a reparação favorável, com uma nova reposição de cemento é provável de ocorrer após os episódios inflamatórios iniciais (Fig. 23-31). FIGURA 23-31 Corte histológico mostrando defeito de reabsorção radicular prévio reparado com novo cemento e ligamento periodontal. Se, por outro lado, ocorrer um ressecamento excessivo antes do reimplante, as células danificadas do ligamento periodontal irão promover uma grave resposta inflamatória sobre uma área difusa da superfície radicular. Ao contrário da situação descrita, em que a área a ser reparada após a resposta inflamatória inicial é pequena, aqui uma grande área da superfície radicular que deve ser reparada por um tecido novo é afetada. Os cementoblastos que se movem mais lentamente não podem recobrir toda a superfície radicular a tempo e é provável que em certas áreas o osso irá se inserir diretamente sobre a superfície da raiz. Durante o período de remodelação óssea fisiológica, toda a raiz será substituída por osso. Isso é denominado substituição óssea ou reabsorção por substituição (Figs. 23-32 e 23-33).15 FIGURA 23-32 Aparência histológica da reabsorção por substituição. Há contato direto entre o osso e a estrutura radicular. Defeitos reabsortivos são vistos no osso e na raiz, representando processo fisiológico de turnover ósseo. Os defeitos reabsortivos serão preenchidos com novo osso e áreas adicionais serão reabsorvidas. Desta forma, toda a raiz será substituída por osso em velocidade dependente do metabolismo do paciente. FIGURA 23-33 Aparência radiográfica da reabsorção por substituição. A raiz adquire a aparência radiográfica do osso circundante (sem lâmina dura). Observar que áreas radiolúcidas típicas de inflamação ativa não estão presentes. A necrose pulpar sempre ocorre após uma injúria por avulsão. Enquanto uma polpa necrosada não é uma consequência por si só, o tecido necrótico é extremamente suscetível à contaminação bacteriana. Se não ocorrer a revascularização ou um tratamento endodôntico efetivo não for realizado, o espaço pulpar tornar-se-á inevitavelmente infectado. A combinação de bactérias no canal radicular e a lesão do cemento na superfície externa da raiz resultam em uma reabsorção externa inflamatória que pode ser bastante grave e levar a uma rápida perda do dente (Fig. 23-26).83 Assim, as consequências após a avulsão dentária parecem diretamente relacionadas à gravidade, à área de inflamação sobre a superfície radicular e à lesão resultante na superfície da raiz, que deve ser reparada. As estratégias de tratamento devem ser sempre consideradas dentro de um contexto de limitação da extensão da inflamação perirradicular, pendendo a balança para uma reparação mais favorável (cementária) do que desfavorável (reabsorção inflamatória ou por substituição). Objetivos do Tratamento O tratamento é direcionado para impedir ou minimizar a inflamação resultante das duas principais consequências de uma avulsão dentária, denominadas lesão de inserção e infecção pulpar. A lesão de inserção, como resultado direto da avulsão, não pode ser evitada. Entretanto, uma lesão adicional considerável pode ocorrer ao ligamento periodontal no momento em que o dente estiver fora da boca (primeiro, por causa do ressecamento). O tratamento é direcionado para a minimização desta lesão (e da inflamação resultante) para que as complicações sejam as menores possíveis. Quando uma lesão adicional grave não pode ser evitada e a substituição óssea da raiz é considerada certa, algumas medidas são tomadas para retardar a substituição da raiz pelo osso e manter o dente na boca pelo maior período possível. Em um dente com o ápice aberto, todos os esforços são feitos para promover a revascularização da polpa, evitando, assim, a infecção do espaço pulpar. Quando a revascularização falha (em um dente com o ápice aberto) ou não é possível (em um dente com o ápice fechado), todos os esforços para o tratamento são realizados para prevenir ou eliminar a infecção do espaço do canal radicular. Tratamento Clínico Tratamento de Emergência no Local da Lesão Reimplantar se possível ou colocar em um meio apropriado de armazenamento. Como já foi mencionado, a lesão do aparato de inserção que ocorreu, na fase inicial da injúria, é inevitável, mas geralmente é mínima. Entretanto, todos os esforços são realizados para minimizar a necrose do ligamento periodontal remanescente, enquanto o dente estiver fora da boca. As sequelas pulpares não são levadas em conta inicialmente e serão consideradas em um estágio mais avançado do tratamento. O fator mais importante para assegurar um resultado favorável após o reimplante é a rapidez com a qual o dente é reimplantado. De máxima importância, é a prevenção do ressecamento, que causa perda do metabolismo fisiológico normal e da morfologia das células do ligamento periodontal.91 Todo esforço deve ser feito para reimplantar o dente dentro dos primeiros 15 a 20 minutos.92 Isso geralmente requer uma equipe de emergência no local da injúria com algum conhecimento do protocolo de tratamento. O dentista deve se comunicar claramente com as pessoas no local do acidente. O ideal seria que esta informação fosse dada anteriormente, como suporte educacional às escolas de enfermagem ou aos treinadores de atletas, por exemplo, mas como isso não é feito, a informação pode ser dada por telefone. O objetivo é reimplantar um dente limpo com uma superfície radicular sem danos, o mais delicadamente possível. Depois disso, o paciente deve ser levado ao consultório imediatamente. Se houver dúvida em relação ao reimplante adequado do dente, ele deve ser armazenado em um meio apropriado até que o paciente possa chegar ao consultório dentário para o reimplante. Os meios de armazenamentos sugeridos, por ordem de preferência, são leite, saliva (seja no vestíbulo da boca ou em um recipiente no qual o paciente a tenha coletado), solução salina fisiológica e água.93 A água é o meio de armazenamento menos desejável, porque um ambiente hipotônico causa uma rápida lise celular e aumenta a inflamação durante o reimplante.94,95 Meios de cultura em recipientes de transporte especializados, como Solução Salina Balanceada de Hank (HBSS) ou ViaSpan®,mostraram uma capacidade superior de manter a viabilidade das fibras do ligamento periodontal por longos períodos.96 No entanto, atualmente eles são considerados impraticáveis, porque precisam estar presentes no local do acidente antes que a injúria ocorra. Se considerarmos que mais de 60% das injúrias por avulsão ocorrem perto de casa ou da escola,97 seria vantajoso ter esses meios disponíveis em kits de emergência nesses dois locais. Além disso, seria razoável tê-los em ambulâncias e em outros serviços de emergência que sejam prováveis de tratar pacientes traumatizados. Tratamento no Consultório Dentário Visita de Emergência Preparar o alvéolo, preparar a raiz, construir um splint funcional, administrar antibióticos locais e sistêmicos. É essencial reconhecer que a injúria dentária pode ser secundária a uma injúria mais grave. Se ao exame suspeitar-se de uma injúria mais grave, um encaminhamento imediato a um especialista apropriado é a prioridade. O foco da consulta de emergência é o aparato de inserção. O objetivo é reimplantar o dente com o mínimo de células lesadas irreversivelmente (que irão causar inflamação) e com uma quantidade máxima de células do ligamento periodontal que possam regenerar e reparar a superfície radicular danificada. Diagnóstico e Plano de Tratamento Se o dente foi reimplantado no local da injúria, uma história completa deve ser registrada para avaliar a probabilidade de um resultado favorável. Além disso, a posição do dente reimplantado deve ser avaliada e ajustada se necessário. Em raras ocasiões, o dente pode ser “delicadamente” removido para preparar a raiz a fim de aumentar as chances de um resultado favorável (ver adiante). Se o paciente se apresentar com o dente fora da boca, o meio de armazenamento deve ser avaliado e, se necessário, o dente deve ser colocado em um meio mais apropriado. A Solução Salina Balanceada de Hank é considerada atualmente o melhor meio para este propósito. O leite ou a solução salina fisiológica também são apropriados para fins de armazenamento. A história médica e do acidente é registrada e um exame clínico realizado. O exame clínico deve incluir um exame do alvéolo para assegurar que este esteja intacto e adequado para o reimplante. O alvéolo é delicadamente irrigado com solução salina e, quando da remoção de coágulos ou fragmentos, suas paredes devem ser cuidadosamente examinadas. O alvéolo e as áreas circunjacentes, incluindo os tecidos moles, devem ser radiografados. Três angulações verticais são necessárias para o diagnóstico da presença de uma fratura radicular horizontal em dentes adjacentes. Os dentes remanescentes tanto na arcada superior como na inferior devem ser examinados para injúrias, como fraturas coronárias. Quaisquer lacerações dos tecidos moles devem ser anotadas. PREPARAÇÃO DA RAIZ A preparação da raiz depende da maturidade do dente (ápice aberto versus ápice fechado) e do tempo de ressecamento do dente antes de ser colocado em um meio de armazenamento. Um período de 60 minutos de ressecamento é considerado o ponto em que a sobrevivência das células do ligamento periodontal radicular torna-se improvável. TEMPO EXTRAORAL < 60 MINUTOS Ápice Fechado A raiz deve ser irrigada com água ou solução salina para remover detritos e reimplantada da forma mais delicada possível. Se o dente tiver ápice fechado, a revascularização não é possível,89 mas se o tempo de ressecamento do dente tiver sido inferior a 60 minutos (reimplantado ou colocado em um meio apropriado), a chance de reparação periodontal existe. O mais importante é que a chance de uma grave resposta inflamatória no momento do reimplante é reduzida. Um tempo de ressecamento de menos de 15 a 20 minutos é considerado ideal para que possa haver reparação periodontal.90,92 Um desafio contínuo é o tratamento do dente que tenha ressecado por mais de 20 minutos (sobrevivência garantida das células periodontais), porém menos de 60 minutos (sobrevivência periodontal improvável). Nestes casos, a lógica sugere que a superfície radicular seja constituída por algumas células que tenham o potencial de regenerar e algumas que agirão como estimuladoras inflamatórias. Novas estratégias que podem ser extremamente valiosas nesses casos estão sendo investigadas. O uso de Emdogain® tem sido importante nos casos que, no passado, eram considerados sem esperança (ver adiante). Este medicamento pode ser extremamente valioso em um período de ressecamento entre 20 e 60 minutos. Estudos estão em andamento para avaliação do seu potencial. Ápice Aberto Embeber em doxiciclina ou recobrir com minociclina por 5 minutos, remover delicadamente os fragmentos, reimplantar. Em um dente com o ápice aberto, a revascularização da polpa bem como a continuidade do desenvolvimento radicular são possíveis. Cvek et al.89 observaram em macacos que a imersão do dente em doxiciclina (1 mg em aproximadamente 20 mL de solução salina) por 5 minutos antes do reimplante intensificava significativamente a revascularização. Este resultado foi confirmado em cães por Yanpiset et al.98 Um estudo observou que a cobertura do dente com minociclina aderida à raiz, por aproximadamente 15 dias, aumentava o índice de uma posterior revascularização em cães.99 Embora estes estudos em animais não nos oferecem uma previsão do índice de revascularização em humanos, é razoável esperar que a melhora na revascularização observada em duas espécies animais ocorra também em humanos. Como o dente com ápice fechado, o dente com o ápice aberto também deve ser delicadamente irrigado e reimplantado. TEMPO EXTRAORAL > 60 MINUTOS Ápice Fechado Remover o ligamento periodontal através da colocação em ácido por 5 minutos, embeber em fluoreto ou recobrir a raiz com Emdogain®, reimplantar. Quando a raiz sofreu um ressecamento por 60 minutos ou mais, não se espera que haja sobrevivência das células do ligamento periodontal.91,100 Nesses casos, a raiz deve ser preparada para se tornar o máximo possível resistente à reabsorção (atentando para o lento processo de substituição óssea). Estes dentes devem ser embebidos em ácido por 5 minutos para remover todo o ligamento periodontal remanescente e, dessa forma, remover o tecido que irá iniciar a resposta inflamatória no reimplante. O dente deve ser então embebido em fluoreto estanhoso a 2% por 5 minutos e reimplantado.101 Foi observado que o alendronato retarda a reabsorção de maneira semelhante ao fluoreto, quando utilizado topicamente,102 porém outros estudos devem ser realizados para avaliar se sua efetividade é superior a do fluoreto e se isso justifica seu custo adicional. Iqbal et al.103 observaram que o Emdogain® (proteína da matriz do esmalte) pode ser benéfico em dentes com períodos longos de ressecamento extraoral, não somente por tornar a raiz mais resistente à reabsorção, mas possivelmente por estimular a formação de um novo ligamento periodontal a partir do alvéolo. Se o dente ficou seco por mais de 60 minutos e não foram tomadas medidas para a preservação do ligamento periodontal, o tratamento endodôntico deve ser realizado extraoralmente. No caso de um dente com o ápice fechado, não existe vantagem para esse passo adicional na consulta de emergência. Entretanto, em um dente com o ápice aberto, o tratamento endodôntico, se realizado após o reimplante, envolve um procedimento de apicificação a longo prazo. Nesses casos completar o tratamento endodôntico extraoralmente, quando o selamento de um ápice em forma de bacamarte é mais fácil de ser realizado, pode ser vantajoso. Quando o tratamento endodôntico é realizado extraoralmente, ele deve ser realizado assepticamente com o máximo cuidado para garantir um sistema de canais radiculares isento de bactérias. Ápice Aberto Reimplantar? Em caso afirmativo, tratar como um dente com o ápice fechado. O tratamento endodôntico deve ser realizado fora da boca. Visto que os dentes são de pacientes jovens, nos quais o desenvolvimento facial geralmente está incompleto, muitos odontopediatras consideram o prognóstico tão ruim e as complicaçõespotenciais de anquilose dentária tão graves, que recomendam que esses dentes não sejam reimplantados. De fato, não reimplantar esses dentes é a recomendação atual da Associação Internacional de Trauma Dental.104 Entretanto, existe uma considerável discussão se seria vantajoso reimplantar a raiz mesmo que sua perda fosse inevitável por causa da reabsorção por substituição. Se os pacientes forem acompanhados cuidadosamente e se a raiz for submersa no momento apropriado, o comprimento e, mais importante, a largura do osso alveolar seriam mantidos permitindo que a restauração permanente fosse mais fácil, no momento apropriado, quando o desenvolvimento facial da criança estiver completo. Estudos estão em andamento para avaliar se as recomendações atuais devem ser modificadas. PREPARAÇÃO DO ALVÉOLO O alvéolo não deve ser molestado antes do reimplante. É relevante a remoção de obstáculos dentro do alvéolo para facilitar a reposição do dente no seu interior. Ele deve ser levemente aspirado se um coágulo sanguíneo estiver presente. Se o osso alveolar sofreu colapso e estiver impedindo o reimplante ou torná-lo traumático, um instrumento rombo deve ser inserido cuidadosamente dentro do alvéolo na tentativa da reposição da parede. ESPLINTAGEM Uma técnica de esplintagem que permita o movimento fisiológico do dente durante a reparação e permaneça no local por pouco tempo resulta na diminuição da incidência de anquilose.1,82 Uma fixação semirrígida (fisiológica) por 7 a 10 dias é recomendada. O splint deve permitir o movimento do dente, não deve ter memória (assim o dente não é movido durante a reparação) e não deve invadir a gengiva e/ou impedir a manutenção de higiene oral na área. Muitos splints satisfazem os requisitos aceitáveis. Um splint de titânio para trauma (TTS) tem demonstrado ser particularmente efetivo e fácil de usar (Fig. 23-34).105 Depois que o splint é colocado, uma radiografia deve ser realizada para verificar a posição do dente e como uma referência pós- operatória para o futuro tratamento e acompanhamento. FIGURA 23-34 Splint de titânio para trauma (TTS). Quando o dente está na melhor posição possível, é importante ajustar a mordida para que ele não seja esplintado em uma posição que cause oclusão traumática. Uma semana é suficiente para criar um suporte periodontal que mantenha o dente avulsionado em posição.106 Portanto, o splint deve ser removido depois de 7 ou 10 dias. A única exceção é a avulsão em conjunção com fraturas alveolares, para a qual é sugerido um tempo de splint de 4 a 8 semanas.106 TRATAMENTO DOS TECIDOS MOLES As lacerações da gengiva alveolar devem ser adequadamente suturadas. As lacerações do lábio são muito comuns nesses tipos de injúria. O dentista deve abordar as lacerações labiais com alguma cautela e uma consulta ao cirurgião plástico poderia ser prudente. Se essas lacerações forem suturadas, deve-se ter cuidado de limpar totalmente a ferida de antemão, porque a sujeira ou até mesmo fragmentos dentários diminutos deixados na ferida afetam a reparação e o resultado estético. TERAPIA COMPLEMENTAR A administração de antibióticos sistêmicos, no momento do reimplante e antes do tratamento endodôntico, é efetiva na prevenção da invasão bacteriana da polpa necrosada e, portanto, da reabsorção inflamatória subsequente.107 A tetraciclina tem uma vantagem adicional na diminuição da reabsorção radicular, porque afeta a motilidade dos osteoclastos e reduz a efetividade da enzima colagenase.108 A administração de antibióticos sistêmicos é recomendada, começando pela consulta de emergência e continuando até que o splint seja removido.107 Para pacientes não suscetíveis à pigmentação por tetraciclina, doxiciclina duas vezes ao dia, por 7 dias, em doses apropriadas para a idade e peso do paciente é o antibiótico de escolha.108,109 A penicilina V 500 mg, quatro vezes ao dia, por 7 dias, também tem demonstrado ser benéfica. O conteúdo bacteriano do sulco gengival também deve ser controlado durante a fase de reparação. Além de reforçar a necessidade de uma higiene oral adequada ao paciente, o uso de enxágues com clorexidina por 7 a 10 dias pode ser útil. Em um estudo realizado por nosso grupo, uma grande vantagem foi observada na remoção do conteúdo pulpar na visita de emergência e a colocação de Ledermix® no interior do canal radicular.6 Este produto contém uma combinação de tetraciclina com corticosteroide e foi demonstrado que ele penetra nos túbulos dentinários. Aparentemente o uso do medicamento foi capaz de reduzir significativamente a resposta inflamatória após o reimplante, o que permitiu uma reparação mais favorável em comparação com os dentes nos quais o medicamento não foi usado. Estamos confiantes de que o uso imediato desse medicamento tornar-se-á uma prática padrão em um futuro não muito distante. A necessidade de analgésicos deve ser avaliada com base nos casos individuais. O uso de uma medicação mais forte para dor do que anti-inflamatórios não esteroidais que não necessitam de prescrição é incomum. O paciente deve ser encaminhado a um médico para consulta em relação a um reforço contra o tétano dentro de 48 horas a partir da consulta inicial. Segunda Consulta Esta consulta deve ocorrer 7 a 10 dias após a sessão de emergência. Na consulta de emergência, foi colocada ênfase na preservação e na reparação do aparato de inserção. O foco desta segunda visita é a prevenção ou eliminação de agentes irritantes potenciais do espaço do canal radicular. Esses agentes irritantes, se presentes, produzem o estímulo para a progressão da resposta inflamatória e da reabsorção óssea e radicular. Ainda nesta visita, o curso de antibióticos sistêmicos é concluído, o enxágue com clorexidina pode ser interrompido e o splint removido. TRATAMENTO ENDODÔNTICO Tempo Extraoral < 60 minutos Ápice Fechado Iniciar o tratamento endodôntico em 7 a 10 dias. Nos casos em que o tratamento endodôntico sofre atraso ou há sinais de reabsorção, deve-se tratar com hidróxido de cálcio “a longo prazo” antes da obturação. Não existem chances de revascularização destes dentes e o tratamento endodôntico deve ser iniciado na segunda visita, 7 a 10 dias depois da consulta de emergência.27,89 Se a terapia foi iniciada em seu momento ideal, a polpa deve estar necrosada sem infecção ou com infecção mínima. Portanto, o tratamento endodôntico com um efetivo agente antibacteriano entre as consultas por um período relativamente curto (7 a 10 dias) é suficiente para garantir uma desinfecção efetiva do canal.32 Se o dentista confia na cooperação total do paciente, a terapia com hidróxido de cálcio a longo prazo constitui um excelente método de tratamento.83,87 A vantagem do uso do hidróxido de cálcio é que ele permite que o profissional coloque um material obturador temporário no local até que um espaço intacto do ligamento periodontal seja confirmado. O tratamento com hidróxido de cálcio a longo prazo deve ser sempre usado quando a injúria ocorreu há mais de duas semanas antes do início do tratamento endodôntico ou se houver evidência radiográfica de reabsorção.87 O canal radicular é completamente instrumentado e irrigado e então preenchido com uma mistura espessa de hidróxido de cálcio e solução salina estéril (a solução anestésica também é um veículo aceitável). O hidróxido de cálcio é trocado a cada 3 meses em uma variação de 6 a 24 meses. O canal é obturado quando o espaço do ligamento periodontal parecer radiograficamente intacto ao redor da raiz. O hidróxido de cálcio é um agente antibacteriano eficaz e influencia favoravelmente o meio ambiente no local da reabsorção, teoricamente promovendo a reparação.110 Ele também modifica o meio ambiente na dentina para um pH mais alcalino, que pode retardar a ação das células de reabsorção e promover a formação de tecido duro.110 Entretanto, a troca do hidróxido de cálcio deve ser mantida por um tempo mínimo (não mais que a cada 3 meses), porque ele tem um efeito necrosante sobre as células que estão tentando repopular a superfície radicular danificada.55Enquanto o hidróxido de cálcio é considerado a substância de escolha na prevenção e no tratamento da reabsorção radicular inflamatória, ele não é o único medicamento recomendado nestes casos. Algumas tentativas têm sido feitas não apenas para remover o estímulo das células da reabsorção, mas também para afetá-las diretamente. O Ledermix® é efetivo no tratamento da reabsorção radicular inflamatória através da inibição dos osteoclastos111 sem danificar o ligamento periodontal. Sua capacidade de se difundir através da raiz do dente humano tem sido demonstrada.112 Sua liberação e difusão são intensificadas quando usado em combinação com pasta de hidróxido de cálcio.113 A calcitonina, um hormônio que inibe a reabsorção óssea, também é uma medicação efetiva no tratamento da reabsorção radicular inflamatória.114 Ápice Aberto Evitar o tratamento endodôntico e procurar por sinais de revascularização. Ao primeiro sinal de uma polpa infectada, iniciar o procedimento de apicificação. Os dentes com ápices abertos têm um potencial para revascularizar e continuar o desenvolvimento da raiz e o tratamento inicial é direcionado para o restabelecimento do suprimento sanguíneo.89, 98 O início do tratamento endodôntico deve ser evitado, caso seja possível, a menos que estejam presentes sinais explícitos de necrose pulpar, como a inflamação perirradicular. O diagnóstico de vitalidade pulpar é extremamente desafiador nesses casos. Após o trauma, o diagnóstico de uma polpa necrosada deve ser particularmente criterioso, uma vez que a infecção nesses dentes é potencialmente mais nociva em virtude da lesão do cemento que acompanha a injúria traumática. A reabsorção radicular inflamatória externa pode ser extremamente rápida nesses dentes jovens, porque os túbulos dentinários são amplos e permitem que os agentes irritantes circulem livremente pela superfície externa da raiz.89,98 Os pacientes são chamados a cada 3 a 4 semanas para a realização de testes de sensibilidade. Relatos indicam que os testes térmicos com neve de dióxido de carbono (–78ºC) ou difluordiclorometano (–50ºC), aplicados na margem incisal ou no corno pulpar, são os melhores métodos para testar a sensibilidade, particularmente em dentes jovens permanentes.10,11 Um desses dois testes deve ser incluído na avaliação da sensibilidade dos dentes traumatizados. Relatos confirmam a superioridade da fluxometria Laser Doppler no diagnóstico da revascularização de dentes imaturos traumatizados.14 No momento, entretanto, o custo de tal instrumento impede seu uso na maioria dos consultórios dentários. Sinais radiográficos (destruição apical/ou sinais de reabsorção radicular lateral) e clínicos (dor à percussão e à palpação) de doença são cuidadosamente avaliados. Ao primeiro sinal de doença, o tratamento endodôntico deve ser iniciado e, após a desinfecção do espaço do canal radicular, um procedimento de apicificação deve ser realizado. Tempo Extraoral > 60 minutos Ápice Fechado Esses dentes são tratados endodonticamente da mesma forma que os dentes que tenham um tempo extraoral < 60 minutos. Ápice Aberto (se reimplantado) Se o tratamento endodôntico não foi realizado fora da boca, iniciar o procedimento de apicificação. Nestes dentes, a chance de revascularização é extremamente baixa; logo, tentativas são evitadas. Um procedimento de apicificação é iniciado na segunda visita se o tratamento do canal radicular não foi realizado na visita de emergência. Se o tratamento endodôntico foi realizado na visita de emergência, a segunda visita é uma nova convocação para avaliar apenas a reparação inicial. RESTAURAÇÃO TEMPORÁRIA O selamento efetivo do acesso coronário é essencial para prevenir a infecção do canal entre as consultas. Restaurações temporárias recomendadas são reforçadas com cimento óxido de zinco e eugenol, resina composta de ataque ácido ou cimento ionômero de vidro. A profundidade da restauração temporária é crítica para seu selamento. Uma profundidade de no mínimo 4 mm é recomendada para que uma bolinha de algodão não possa ser colocada; a restauração temporária é colocada diretamente sobre o hidróxido de cálcio na cavidade de acesso. O hidróxido de cálcio deve ser primeiramente removido das paredes da cavidade de acesso, porque ele é solúvel e será eliminado quando entrar em contato com a saliva, deixando a restauração temporária defeituosa. Após o início do tratamento endodôntico, o splint é removido. Se o tempo não permitir a remoção completa do splint nesta visita, as bordas da resina devem ser alisadas para que não irritem os tecidos moles e a resina residual será removida em consulta posterior. Nesta consulta, a reparação geralmente é suficiente para a realização de um exame clínico detalhado dos dentes adjacentes ao dente avulsionado. Os testes de sensibilidade, a reação à percussão e à palpação e as medidas de sondagem periodontal devem ser cuidadosamente registradas como referência nas visitas de acompanhamento. SESSÃO PARA OBTURAÇÃO DO CANAL RADICULAR Se o tratamento endodôntico teve início de 7 a 10 dias após a avulsão e os exames clínicos e radiográficos não indicam doença, a obturação do canal radicular nessa visita é aceitável, embora o uso de hidróxido de cálcio a longo prazo seja uma opção comprovada para esses casos. Por outro lado, se o tratamento endodôntico tiver início em mais de 7 a 10 dias após a avulsão ou se uma reabsorção ativa for visível, o espaço pulpar deve ser primeiramente desinfetado antes da obturação do canal radicular. Tradicionalmente, o restabelecimento da lâmina dura é um sinal radiográfico de que a infecção do canal foi controlada. Quando uma lâmina dura intacta for identificada, a obturação do canal radicular pode ser realizada. O canal é limpo, modelado e irrigado sob estrita assepsia. Após a conclusão da instrumentação, o canal pode ser obturado por qualquer técnica aceitável, com especial atenção para a manutenção da assepsia e para o melhor selamento possível promovido pelo material obturador. Restauração Permanente Evidências sugerem que a infiltração pelas restaurações temporárias ou definitivas defeituosas possa resultar em contaminação bacteriana clinicamente relevante do canal radicular após a sua obturação.115 Portanto, o dente deve receber uma restauração permanente no momento ou logo em seguida à obturação do canal radicular. Como na restauração temporária, a profundidade da restauração é importante para o seu selamento e, por isso, uma restauração o mais profunda possível deve ser realizada. Um pino deve ser evitado, se possível. Porque a maioria das avulsões ocorre na região anterior da boca onde a estética é importante, as resinas compostas associadas a agentes adesivos dentinários são geralmente recomendadas nesses casos. Elas possuem a vantagem adicional de reforçar internamente o dente contra fratura se ocorrer outro trauma. Cuidados no Acompanhamento As avaliações de acompanhamento devem ocorrer aos 3 e aos 6 meses e anualmente por no mínimo 5 anos. Se a reabsorção por substituição for diagnosticada (Fig. 23-33) são indicadas revisões periódicas do plano de tratamento a longo prazo. No caso de reabsorção radicular inflamatória (Fig. 23-26), uma nova tentativa de desinfecção do espaço do canal radicular por retratamento pode reverter o processo. Os dentes adjacentes e próximos do dente ou dos dentes avulsionados podem mostrar alterações patológicas bem depois do acidente inicial. Portanto, esses dentes devem ser testados a cada nova consulta e os resultados devem ser comparados aos que foram registrados logo depois do acidente.