Prévia do material em texto
PSICOLOGIA DO ESPORTE Profa.: Madalena de Freitas Lopes André Queiroz Stelle P100036 Jefferson Aparecido de Almeida Santos P100032 Helen Miranda Coelho Mauriz P100025 Leonardo Gallan Silva P100007 1º ANO PSICOLOGIA Santo André 2020 SÚMARIO 1. INTRODUÇÃO 3 2. HISTÓRICO DA PSICOLOGIA DO ESPORTE 5 3. CAMPO DE ATUAÇÃO 9 4. MÉTODOS PSICOLÓGICOS 12 5. CONCLUSÃO 13 6. ENTREVISTA COM ESPECIALISTA 14 7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 16 INTRODUÇÃO “A psicologia tem um longo passado ainda que uma curta história”, essa frase foi dita por Hermann Ebbighaus, um psicólogo alemão, aluno de Wilhem Wundt, que estudou a memória e desenvolveu os primeiros testes de inteligência (Miotto, 2018). Apesar dos primeiros pensadores e filósofos se debruçarem sobre questões que fazem parte dos estudos que atualmente chamamos de psicologia, foi século XIX que os pesquisadores, suportados na experimentação e investigação científica, puderam construir a identidade própria, aperfeiçoando as técnicas, métodos e instrumentos de estudo da psicologia. A psicologia surgiu na história como uma disciplina específica na Alemanha em 1879, denominando a Wilhem Wundt o título de fundador da psicologia como ciência experimental, com a criação do laboratório em Leipzing, sendo os primeiros esforços de estabelecer a psicologia como ciência. Para Wundt a psicologia seria uma ciência intermediária entre as ciências da natureza e as ciências da cultura, tendo como objetivo a experiência real no sujeito, ou seja, a forma como o indivíduo vive as circunstâncias da vida, antes mesmos de pensar nelas, comunicá-las ou entendê-las. Podemos dizer que a Psicologia como ciência estuda os aspectos do funcionamento interno da mente, como memória, sentimentos, pensamentos e percepções, bem como as funções de relação com o comportamento e a fala (Viera et al. 2010). A Psicologia enquanto ciência e profissão vêm ampliando sua área de influência, dividindo espaço com outros profissionais ao longo da história. Isso pode ser interpretado como um movimento de buscar facilitar a comunicação entre áreas que se aproximam, porém que é necessário manter cada qual em sua especificidade. No caso do esporte, essa dinâmica é bem vista, uma vez que a Psicologia do Esporte vem compor um quadro denominado como Ciências do Esporte e que é composto por disciplinas como antropologia, filosofia, sociologia, medicina, fisiologia e biomecânica do esporte, mostrando a necessidade da interdisciplinaridade (Figura 1). A Psicologia do Esporte é uma especialidade identifica como um subdisciplina da Psicologia e ao mesmo tempo como uma subdisciplina da Ciência do Esporte. Esse novo ramo emergente integra a investigação, a consultoria clínica, a educação e atividades práticas, associadas à compreensão, influência e explicação de comportamentos de indivíduos e de grupos que estejam envolvidos em esportes de alta competição, esportes recreativos, exercícios físicos e outras atividades. Figura 1 – Psicologia do Esporte e suas inter-relações Profissionais. (Vieira et al, 2010) No Brasil a Psicologia do esporte continua lutando para conquistar espaço enquanto campo de atuação profissional, educacional ou na pesquisa cientifica. Isso porque como há interposição das ciências como apresentado na Figura 1, outros profissionais atuavam nesse campo, como médicos, fisioterapeutas, treinadores, ex-atletas ou principalmente o profissional de Educação Física, seja o graduado ou pós-graduado (Rubio, 1999). A demanda pela Psicologia se dá devido assuntos cada vez mais comum na área do Esporte. Temas como motivação, personalidade, violência, liderança, dinâmica de grupo, sentimentos, pensamentos e bem estar psicológico de atletas e outros aspectos das práticas esportivas tem requerido pesquisas e atuação de profissionais da área psicológica, visto que o nível técnico de atletas e equipes de alto rendimento estão cada vez mais equilibradas, o diferencial que é apontado para se sobressair nas competições, é voltado especialmente para a preparação emocional dos atletas para que possam chegar até o podium nas competições (Viera et al, 2010). HISTÓRICO DA PSICOLOGIA DO ESPORTE Aristóteles e Platão, filósofos gregos, especularam sobre a função perceptual e motora do movimento por meio dos conceitos de corpo e alma, já na Grécia Antiga, onde é tida como o berço da Psicologia Esportiva. Com isso, o desenvolvimento da Psicologia Esportiva se confunde com o desenvolvimento da Psicologia Geral, devido à sua base filosófica (Viera et al. 2010). No final do século XVII, habilidades motoras e processos físico-fisiológicos como tempo de reação, o limiar de determinação, atenção e sentimentos ocuparam os estudos da época no terreno da Psicologia aplicada ao esporte. Entre os estudos iniciais em Psicologia do Esporte encontra-se o de George Wells Fitz, que estabeleceu o primeiro laboratório de educação física na América do norte, no Departamento de Anatomia, Fisiologia e Educação Física da Universidade de Harvard, em 1891. Fitz afirmou que a prática esportiva era um meio pelo qual os jovens poderiam se preparar para a vida, por promover a capacidade de julgamento, habilidade de perceber as condições corretamente e a habilidade de reagir rapidamente a um ambiente mutável. A importância do esporte é destacada em estudos iniciais dessa especialidade, os quais afirmam que o esporte permite o desenvolvimento de hábitos de vida e que os músculos são os mecanismos pelos quais se desenvolvem a imitação, a obediência e o caráter. Destacam que seria por meio do esporte que a mente, corpo e alma se manifestariam em situações reais, que por meio da atividade física não se constrói apenas um corpo forte, mas também uma mente forte. (Rubio, 2000) Estes estudos serviram como base para as pesquisas de Norman Triplett, investigador da Universidade de Indiana – EUA, o qual realizou os primeiros experimentos direcionando a Psicologia do Esporte ao caminho em que se encontra atualmente (Viera et al, 2010). Triplett em 1898, estudou a influência do adversário em ciclistas de rendimento e acreditava que a presença de um competidor servia de estímulo para a liberação de uma energia que permanecia latente num treino individual e sem ritmo de competição. A presença do adversário funcionava como um elemento motivador para o aumento do esforço do atleta. No início do século XX surgiram as primeiras discussões sobre a influência do aspecto psicológico no desempenho de atletas no contexto esportivo, mas como a Psicologia ainda não estava consolidada como uma ciência, as publicações da época eram escritas por educadores, atletas e jornalistas, que não apresentavam suporte científico suficiente para explicar esta variável. Ressalta-se, porém, que nesse período o sucesso de um atleta era atribuído ao seu controle emocional, evidenciando que o segredo do sucesso de um atleta não está no comprimento dos membros, na profundidade do pulmão ou no desenvolvimento muscular, mas sim, no controle nervoso (emocional) sobre o corpo. Por volta de 1920, a Psicologia do Esporte surge de diferentes formas na Alemanha, na União Soviética e nos Estados Unidos da América (EUA). Neste período destacam-se em Moscou os psicólogos Avksentii Puni e Piotr Rudick, que realizaram os primeiros trabalhos de Psicologia no Instituto de Cultura Física na União Soviética; na Alemanha, Schulte Sippel, psicólogo do Instituto de Educação Física de Leizig, publica o livro “Corpo e Alma no desporto: uma introdução à Psicologia do Exercício Físico”; e nos Estados Unidos da América Coleman Roberts Griffith enfoca a relação entre psicologia e esporte, com livro “Psicologia do treinamento e Psicologia do atletismo”. (Rubio, 2000). Coleman Griffith foi considerado o Pai da Psicologia do Esporte, pelo fato de ter sido o primeiro a criar um laboratório de Psicologia do Esporte, o que se deu em 1925, na Universidade de Illinois. Coleman tinha como meta investigar um conjunto de elementos psicológicos relevantes para o rendimento esportivo, e os seus estudos envolviamtemas de aprendizagem, habilidades motoras e variáveis da personalidade. Criou vários testes e foi o primeiro professor de Universidade a oferecer um curso de Psicologia do Esporte, em 1923. A criação do Laboratório de Griffith marca o início do período histórico (1920-1940), quando a Psicologia do Esporte passou a ser desenvolvida e pesquisada na prática. Após a Segunda Guerra Mundial, entre os anos de 1945 e 1964, surgiram vários laboratórios de Psicologia do Esporte nos Estados Unidos, tais como os de Franklin Henry (Universidade de Berkeley), John Lawther (Universidade da Pensilvânia) e Arthur Slater-Hammer (Universidade de Indiana), os quais começaram a oferecer cursos de Psicologia do Esporte nas suas universidades. Neste período, a corrente teórica de influência de estudos era o Behaviorismo de Watson, que principalmente Skinner divulgava nos EUA. Durante o período de 1950-1980 a Psicologia do Esporte começou a construir a sustentação teórica que embasaria as pesquisas desse setor da Psicologia. Apesar das contribuições anteriores de autores como Griffith, foi nesse período que os estudos passaram a ter foco nas características psicológicas, antes o foco ficava na área do comportamento motor (desenvolvimento motor e aprendizagem motora). Neste sentido, devido às diferenças culturais, no contexto mundial cada país enfatizou diferentes aspectos da Psicologia do Esporte e do Exercício. Em 1965, tem a criação da Sociedade Internacional de Psicologia do Esporte (ISSP – International Society of Sport Psychology) por iniciativa da Federação Italiana de Medicina Esportiva, em Roma, tendo como seu primeiro presidente Ferrucio Antonelli, o que demonstra que este ramo de conhecimento se organizou recentemente em todo o mundo. Depois da criação da ISSP, foi criada, em 1966, a Sociedade Norte-Americana para a Psicologia do Esporte e Psicologia da Atividade Física (NASPSPA - North American Society for the Psychology of Sport and Physical Activity). Estas organizações são, oficialmente, as que realizam os congressos internacionais de maior impacto do setor: o Congresso Mundial de Psicologia do Esporte, organizado pela ISSP a cada quatro anos, e o Congresso da NASPSPA, realizado anualmente. Em 1970 foi criada a primeira revista específica dessa especialidade, a International Journal of Sport Psychology. Na década de 80 ocorreu a passagem do enfoque essencialmente comportamental do esporte para uma concepção cognitiva, acompanhando a tendência da Psicologia. Em 1986 é formada a divisão 47 (Sport and Exercise Psychology) na American Psychological Association (APA), a qual emerge no sentido de especificar a qualificação necessária para se tornar um psicólogo esportivo. Isso se deveu ao fato de ser clara a existência de duas psicologias esportivas (educacional e clínica), reconhecendo-se que as duas eram necessárias, mas precisavam de certificações para atuar em seus campos (Veira et al, 2010). A Psicologia Clínica, voltada para intervenção (psicodiagnóstico, técnicas de treinamento mental, aconselhamento e acompanhamento dos atletas) era praticada somente por psicólogos e a Psicologia Educacional (trabalho no ensino, técnicas motivacionais de grupo e desenvolvimento de pesquisas) era praticada por profissionais da Psicologia e não graduados na área. No âmbito nacional, o primeiro trabalho de intervenção foi realizado em 1958 por João Carvalhães, psicólogo do São Paulo Futebol Clube, o qual posteriormente realizou trabalhos com a seleção brasileira de futebol. Outro profissional foi Athaide Ribeiro da Silva, que trabalhou em 1962 e 1963 na seleção brasileira de futebol. Em 1979 surge no Brasil de forma sistematizada a Psicologia do Esporte. Naquele ano foi fundada a Sociedade Brasileira de Psicologia do Esporte, da Atividade Física e da Recreação (SOBRAPE), tendo como seu primeiro presidente o Prof. Dr. Benno Becker Junior. No ano de 2006 surge também no Brasil a Associação Brasileira de Psicologia do Esporte (ABRAPESP), por iniciativa de um grupo de psicólogos e profissionais de educação física preocupados em discutir e promover os estudos e práticas profissionais da Psicologia Esportiva no país. Outro ponto a destacar da formação profissional é que a disciplina Psicologia do Esporte não está presente na grade curricular da maioria dos cursos de Psicologia do Brasil, quando aparece, tem caráter eletivo, embora a disciplina esteja presente há quase duas décadas nos currículos dos cursos de Educação Física como disciplina obrigatória (Rubio, 2000). Neste sentido, parece que a Psicologia do Esporte é uma temática de interesse tanto dos profissionais da Educação Física quanto dos profissionais da Psicologia. Vale ressaltar que a formação de profissionais de Psicologia do Esporte no Brasil é um processo um tanto complexo, devido à dificuldade de encontrar cursos específicos para a formação desses profissionais, a não ser em programas de mestrado/doutorado, o que contribui para que as várias metodologias e outros profissionais interfiram na formação e na atuação além de psicólogos. CAMPO DE ATUAÇÃO As áreas de atuação em Psicologia do Esporte têm-se dividido em duas áreas: a da Psicologia relacionada ao exercício físico e atividade física, refere-se ao relacionamento entre o exercício físico e a saúde (prevenção, reabilitação) e da Psicologia do Esporte que está direcionada para os determinantes e consequências do desempenho e envolvimento com o esporte competitivo. É necessário estabelecer critérios básicos para dois campos de atuação do psicólogo do esporte: o educacional e o clínico. O psicólogo educacional se ocupa mais da análise de dinâmicas de grupo, em atividades mais relacionadas ao ensino e à pesquisa, do treinamento mais pedagógico de estudantes e futuros profissionais. O clínico é aquele que faz psicodiagnóstico esportivo e realiza intervenções clínicas tanto individualmente no atleta quanto nos contextos grupais (outras pessoas da área), aconselhando ou atuando como consultor em situações de problemas especiais. (Viera et al, 2010) Além da atuação de clínico e educador na Psicologia do Esporte temos também a área de Pesquisa, cujo objetivo é estudar ou desenvolver um conhecimento na Psicologia do Esporte sem que haja uma intervenção direta sobre o atleta ou equipe esportiva. Buscando entender o processo de regulamentação psicológica do exercício e do esporte, produção científica teórica, empírica, aplicada, laboratorial e estudo de campo. (Rubio, 1999) Rubio (2000) apresenta outros desdobramentos além das três principais: ensino, intervenção e pesquisa. Rubio descreve mais a pontualmente os modelos de campo de atuação profissional descritas abaixo: · Especialista em psicodiagnóstico: faz uso de técnicas e teste para avaliar o potencial e deficiências em atletas. · Conselheiro: profissional que trabalha apoiando e intervindo junto a atletas e comissão técnica, visando ajudar com questões coletivas ou individuais do grupo. · Consultor: busca avaliar programas e estratégias estabelecidas, visando otimizar o rendimento. · Cientista: produz e transmite conhecimentos da área e para a área. · Analista: avalia as condições do treinamento, fazendo a intermediação entre atletas e comissão técnica. · Otimizador: Com base numa avalição do evento esportivo busca organizar programas que aumentem o potencial de performance da equipe que atua. Diante dos vários campos de atuação é de se esperar que o profissional da Psicologia do esporte tenha uma diversidade de formação. Além do conhecimento específico da Psicologia como o uso de métodos de diagnóstico e modelos de intervenção, é necessário que o profissional tenha um vasto conhecimento de pontos específicos do universo do atleta, individuo, como noções de anátomo-fisiologia e biomecânica, e específicas do esporte, como as modalidades esportivas e regras, bem como dinâmica de grupos esportivos. Esse conhecimento é necessário na medida em que se atua com indivíduos e/ou grupos que têm sua dinâmica limitada pelos treinamentos, as competições e a interaçãocom um meio restritivo, períodos de isolamento e concentração ou alojamentos conjuntos. A necessidade de uma formação abrangente é apontando como necessário devido a gama de áreas de atuação, mas os principais campos onde podemos utilizar da aplicação da Psicologia do Esporte podem ser sintetizados nesses quatros: · O esporte de rendimento: que busca a otimização da performance numa estrutura formal e institucionalizada. Nessa estrutura o psicólogo atua analisando e transformando os determinantes psíquicos que interferem no rendimento do atleta e/ou grupo esportivo. · O esporte escolar: que tem por objetivo a formação do indivíduo, direcionada por princípios socioeducativos, preparando seus praticantes para a cidadania e para o lazer. O psicólogo busca compreender e analisar os processos de ensino, educação e socialização inerentes ao esporte e seu reflexo no processo de formação e desenvolvimento da criança, jovem ou adulto praticante. · O esporte recreativo: visa o bem-estar para todas as pessoas. É praticado voluntariamente e com conexões com os movimentos de educação permanente e com a saúde. O psicólogo atua na primeira linha de análise do comportamento recreativo de diferentes faixas etárias, classes – sócio econômicas e atuações profissionais em relação a diferentes motivos, interesses e atitudes. · O esporte de reabilitação: desenvolve um trabalho voltado para a prevenção e intervenção em pessoas portadoras de algum tipo de lesão decorrente da prática esportiva, ou não, e com pessoas portadoras de deficiência física e mental. O psicólogo busca trabalhar a autoestima e confiança para que o atleta possa voltar ou iniciar a prática esportiva. MÉTODOS PSICOLÓGICOS A Psicanálise, a Fenomenologia e o Behaviorismo são correntes que contribuíram para a psicologia do esporte. Atualmente todas essas correntes de pensamento se mesclam à psicologia do esporte, a fim de ajudar o atleta a transpor seus próprios limites. A primeira teoria a colaborar com a psicologia do esporte foi o behaviorismo. O princípio fundamental do Behaviorismo, apresentados por John B. Watson, BF Skinner, e outros, é que a psicologia deve preocupar-se com o comportamento observável e não com eventos não observáveis que ocorrem em suas mentes. A escola behaviorista de pensamento, sustenta que comportamentos, podem ser descritos cientificamente, sem recorrer tanto a eventos fisiológicos internos ou construções hipotéticas como pensamentos e crenças. O behaviorismo tem um importante papel nos treinamentos desportivos atuais. A premiação de atletas com bom rendimento é um exemplo dessa abordagem. Na segunda metade do século XX, o behaviorismo foi largamente eclipsado como um resultado da revolução cognitiva. Outra importante contribuição provém dos cognitivistas, cujo maior representante é Jean Piaget. Sua teoria estuda os processos mentais na construção do conhecimento. Muito embora o behaviorismo e os cognitivistas não concordem plenamente, teoricamente, eles complementam-se em aplicações práticas terapêuticas, como em terapia cognitiva-comportamental, que tem utilidade comprovada no tratamento de certas patologias, tais como fobias simples e dependências químicas. A Fenomenologia, do filósofo alemão Edmund Husserl (1859-1938) contribui em relação ao momento. A fenomenologia baseia-se na filosofia tradicional. Tem como preocupação central a descrição da realidade, é uma filosofia da vivência. O interesse para a Fenomenologia é o modo como o conhecimento do mundo se dá e se realiza para cada pessoa. Como exemplo um atleta de corrida de 400m, sua concentração inicia-se a partir do momento em que ele chega ao estádio e começa sua preparação mental para as experiências reais, técnicas corporais e sentimentais que ocorrerão durante a corrida em si, por meio da descrição fenomenológica e imagens visuais. O esporte é crença, movimento e desejo, unidos em um evento multissensorial cujo epicentro é a emoção, ou seja, o sentimento prazeroso da vitória. A psicanálise, de Freud, também tem bastante importância no mundo desportivo. É através dessa abordagem que podemos adentrar o inconsciente do atleta. No universo desportivo profissional há inúmeros exemplos da abordagem psicanalítica. De acordo com a psicanálise, é através da conversa que podemos mergulhar no interior do indivíduo. Neste sentido, a teoria freudiana tem fundamental importância na compreensão da mente humana. Logo, a mente do atleta torna-se fator fundamental na superação dos limites físicos. É a psicanálise que advoga que a mente não tem limites, ela pode ajudar no processo de motivação do atleta. Um bom exemplo disso que tratamos é o atleta lesionado. Por meio de diversas abordagens psicológicas, ele pode superar o trauma e reconquistar a confiança necessária para atingir seus objetivos, bem como se relacionar com os outros de maneira mais saudável. A psicologia auxilia o atleta a lidar com suas dificuldades, sejam elas físicas ou psicológicas. Um atleta que perde o movimento das pernas em um acidente precisa de auxílio psicológico para lidar com essa situação. O atleta pode não voltar a andar, no entanto, através de uma intervenção psicológica reconquista o equilíbrio e busca uma nova alternativa, neste caso, tornando-se um para atleta, é uma possibilidade. CONCLUSÃO A Psicologia do Esporte é uma área em construção que soma conhecimento de duas grandes áreas, a Psicologia e o Esporte, e têm uma gama imensa de objetos de estudo e pesquisa. O reflexo disso é que, para o psicólogo do esporte, é imprescindível conhecer as modalidades, o fenômeno e as instituições esportivas para poder pensar numa prática. A prática clínica, pura e simples, é insuficiente para uma intervenção nesse campo e que é necessário estar abertos para o entendimento da psicodinâmica de atletas e grupos esportivos, que é um mundo à parte. A Psicologia do Esporte, como área de produção acadêmica e de atuação profissional, tem ainda um longo caminho a percorrer dada a imensidão e complexidade do mundo esportivo. Certamente, no Brasil, essa discussão é muito nova, tanto do ponto de vista do interesse como da produção, o que aumenta a necessidade de ampliarmos a discussão, informação e divulgação para uma atuação competente, como já temos em outras áreas da psicologia. ENTREVISTA COM ESPECIALISTA O contato com o especialista foi realizado primeiramente via Instagram, após apresentação e demonstrado a vontade de fazer algumas questões a um profissional da área para melhor entendimento do assunto, foi encaminhada as 13 questões apresentada a seguir, pelo WhatsApp. As respostas foram devolvidas por meio de mensagens de áudio e foram aqui transcritas na sua totalidade. 1. Apresentação breve, nome, idade, onde atua. Arthur Ferraz 40 anos, formado em psicologia pela PUC de São Paulo e fiz a especialização em Psicologia do Esporte no Instituto Sedes Sapientiae, especialista em Psicologia do Esporte reconhecido pelo CFP e atua em consultório particular e no Clube Paineiras do Morumby, atuo como psicológico esportivo e na área clínica, mas o grande foco é com a psicologia do esporte. Dentro do Clube Paineiras, sou o psicólogo de apoio ao atleta competitivo e sou responsável pelas modalidades competitivas do clube, que são o vôlei, tênis, judô, polo aquático, natação e nado artístico. No consultório ainda trabalho com as modalidades de vela, triatlo, corrida de rua, corrida de aventura e outras modalidades e experiencias em alguns outros clubes. 2. Resumidamente, o que faz um Psicólogo do Esporte. O que faz um psicólogo do esporte, é importante que a melhor definição seja: Psicólogo do esporte e exercício, porque quando falamos em esporte, pensamos muito em esporte competitivo e essa é apenas uma das áreas da psicologia do esporte. Basicamente o psicólogo trabalha com essa interação entre pensamento, emoção, sensação e comportamento, sendo o comportamento a atividade esportiva e então como os pensamento e as emoções interagem para que o atleta renda melhor ou desempenhe essa atividade esportivae como essa atividade esportiva também impactada na questão cognitiva e emocional desse atleta ou praticante de atividade física. E o porquê eu falo de Esporte e atividade física, porque o Psicólogo do Esporte não trabalha somente com o rendimento, ele trabalha na área de educação, tudo aquilo que chamado de programas de educação pelo esporte, onde buscamos uma transformação do indivíduo pelo esporte, estamos falando também da psicologia do esporte. Tem diferentes conceitos em educação pelo esporte, tanto dentro de uma linha onde você coloca o jovem ou indivíduo para treinar um esporte competitivo e esse esporte pode transformar, ensinar valores e conceitos, trabalhos de liderança, de trabalho em equipe, de desenvolvimento de capacidades, de lidar com pressão, disciplina etc. Acho que tudo isso tem a ver com o aprendizado, mas também a forma como você estrutura uma atividade física numa escola ou projeto social, onde você faz com que o indivíduo vivencie esses valores e não somente colocar ele para treinar um esporte competitivo mas colocar o esporte e a atividade física estruturada para que ela gere uma mudança no sujeito, que não necessariamente vai ser o treinamento rigoroso. O treinamento competitivo gera mudanças, mas hoje nós vemos que ele também leva para um outro lado competitivo e um outro lado, talvez, ignorar tudo aquilo que está em volta, de forma a tornar atividade esportiva um fim nela mesma. Quando pensa em educar através do esporte, precisamos fazer um pouco mais, precisamos garantir que aquela atividade proporcione uma transformação, nem que precisamos fazer um esporte adaptado, um esporte não competitivo, uma atividade física não organizada, para que assim possamos promover essa cooperação e não somente competição, embora os dois pontos sejam importantes, isso na área da educação. Temos o esporte na área da suade, o tempo todo discutimos os benefícios do esporte na saúde. O psicólogo trabalha nessa transformação, nessa organização de espaços que promovam saúde, promovam mudanças de vida, em processos de reabilitação de álcool e drogas, de operações e tratamentos médicos, problemas cardíacos, pressão e outros, aonde a dificuldade existe no fazer, interagir ou praticar uma atividade física ou de substituir por hábitos saudáveis, o psicólogo usa como ferramenta essa atividade física. Dentro do esporte de reabilitação, imaginando o impacto que para um atleta o significado de uma lesão, então o psicólogo vai acompanhar esse atleta nesse processo de reabilitação, desenvolvendo as melhoras condições psicológicas para que esse atleta, se recupera da maneira mais rápida e saudável possível. O Psicólogo vai mediando estas relações entre o sujeito e o esporte e/ou a atividade física, cuidando para que esses aspectos psicológicos sejam considerados, potencializem a prática esportiva e que seus reflexos sejam os melhores possíveis. Ajudando o sujeito a controlar os reflexos psicológicos negativos que vem com essa prática como medo, frustação, angústia, depressão e ansiedade. 3. Como o atleta (individuo) chega até você? Por vontade própria ou indicação do treinador, do clube etc. Depende de como você se coloca dentro desse universo, quando você é um profissional conhecido e um profissional atuante nessa área. Exemplo, quando você está num grupo de corrida e as pessoas vão te reconhecer como esse profissional, você se torna referência nesse grupo, elas te procuram ou te indicam para outras pessoas que praticam essa mesma atividade. Portanto vem te procurar devido à essas indicações ou pelo próprio interesse. Quando você entra num clube ou instituição, você começa a fazer parte de um projeto e agregar a equipe multidisciplinar desse projeto. Nesse ponto o clube pode te chamar, assim como o paciente te chama, ou você apresentar um projeto ao clube de como seria essa área da psicologia. No Clube Paineiras, eu comecei a partir do pedido de uma técnica, que era uma conhecida minha, que precisava de um trabalho com a equipe e comecei a atuar dentro do clube e o clube desenvolveu um programa de criação do Centro de Apoio ao Atleta Competitivo, com profissionais de várias disciplinas e me chamou para compor esse time. A partir desse ponto todas ações planejadas junto aos coordenadores e técnicos de cada modalidade, envolvem psicológico conforme a necessidade de cada especialidade. Os técnicos vão escolher junto com o psicólogo quais equipes vão ser atendidas, de que forma, quais atletas vão ser atendidos individualmente ou de que forma (mais pontual ou mais ampla) etc. Você dentro do clube passa a fazer parte desse planejamento e dessa equipe. É fundamental que o técnico compre essa ideia, não adianta você ser trazido pelo clube e o técnico ter uma resistência a esse trabalho ou que ele não goste de você ou que ele não queira que os atletas tenham contato com o psicólogo. Atualmente temos menos desse comportamento do que tinha há anos, estou atuando já há 18 anos, tínhamos muitos relatos que os técnicos ficavam receosos em colocar seus atletas em um processo psicológico. Em geral são, os técnicos, que vivem o dia a dia dos atletas, portanto é fundamental que eles comprem essa ideia. Até para eficiência do seu trabalho, pois parte do trabalho do psicólogo é realizado ali no contexto de set, na entrevista, na sala ou numa atividade em grupo, mas 90% do tempo os atletas passam com os seus treinadores. O trabalho do psicólogo com o treinador é fundamental para que esse desenvolvimento psicológico aconteça a cada jogo, a cada treino, a cada série, a cada momento que ele está convivendo ali. Portando quando mais contato você tem com o treinador, ele começa a entender aquele atleta, quais as necessidades, como ele organiza aquele treino. Então ao invés dele passar a pedir para os atletas reagirem de tal forma, ele organiza aquele treino para que os atletas reajam naturalmente daquela forma, então eles aprendem sem saber ou eles não precisam fazer o esforço quando o psicólogo traz uma sinalização ou quando o próprio técnico tenta convencer o atleta de algo, de uma atitude, de um valor ou algo importante e na hora da estrutura do treino da exigência competitiva o atleta é forçado ou é cobrado a fazer algo totalmente diferente. São essas as formas que o atleta chega até o psicólogo. 4. Normalmente você trabalha com pessoas individualmente ou com toda a equipe? O que determina é a necessidade avaliada, é claro que quando um atleta chega no meu consultório eu vou fazer um trabalho individual, mesmo ele fazendo parte de uma equipe. Dificilmente para um atleta de um clube, por exemplo o Clube Hebraica e eu trabalho para o Clube Paineira, eu não vou entrar no Clube Hebraica e conversar com o resto do time dele, embora eu posso ligar (telefonar) com o treinador dele sobre ele. Mas eu vou trabalhar individualmente com ele no consultório com as necessidades, com as habilidades psicológicas que ele quer desenvolver, com as dificuldades que ele tem em relação ao treinador, até porque é muito difícil você mudar os outros, mas se o atleta já está disposto a procurar esse trabalho, está disposto a se adaptar, a mudar, muitas vezes não só atitude como a própria compreensão desse sobre as situações, esse é o espaço de trabalho. No consultório eu vou trabalhar individualmente, no clube eu já posso trabalhar das duas formas, então o modelo ideal nas situações é que eu trabalhe com uma equipe, como equipe e fortalecendo a equipe, os laços, melhorando a eficiência dessa equipe. Sendo ela de um esporte individual como a natação, seja ela de um esporte coletivo como vôlei ou polo aquático. A equipe tem importância e uma equipe mais forte via trazer atletas mais fortes. Dentro dessa equipe posso fazer trabalhos específicos individuais, com alguém que tem uma necessidade, dificuldades a mais de lidar com a pressão ou de tomar decisões importantes. Eu posso fazer diferentes trabalhos, como de atenção, foco, reflexo com o libero do vôlei, de confiança com o atacante e de tomada de decisão com o levantador do vôlei. E esses podemser trabalho individuas, que não precisam ser acompanhamento individuais, mas que possam ser trabalhos pontuais, que eu vou desenvolvendo individualmente. Ou posso pegar um nadador que é nossa principal esperança, vai disputar seletiva olímpica, então vamos fazer um acompanhamento para que esse nadador, dentro da equipe que ele faz parte e que ainda vai ser uma equipe que queremos que vença e tenha resultados possíveis, esse atleta vai receber um pouco mais de atenção. E tudo isso é importante ser decidido junto ao treinador e o junto com psicólogo, pois o psicólogo precisa mostrar para o treinador, pois embora ele não considere esse lado importante, acho que pode contribuir muito para sua equipe, ou caso contrário, o treinador quer que esse atleta tenha maior atenção ou tenha os melhores cuidados, mas eu acho que vamos desperdiçar a atenção, pois o atleta não está disposto a isso, não é linha dele, ele acha que está perdendo o tempo dele. Então pegamos um outro atleta que pode não ser a “menina dos olhos” mas que é alguém que pode crescer muito com o desenvolvimento do trabalho psicológico, porque gosta, porque se interessa, porque acha importante, consegue se desenvolver. Então vamos fazer essa escolha entre o individual ou coletivo dessa forma. 5. Qual a importância do Psicólogo do esporte para o atleta ou equipe. A importância é tudo aquilo que você consegue fazer ou trazer para equipe. O que eu gosto de pensar é que, para o atleta, nada é mais importante que seu treinamento, do que ele estar na piscina, na quadra, repetindo e treinando. Isso não quer dizer, nem desmerecer, que nenhum das outras áreas que trabalham com ele, mas entender que a partir desse ponto que nós podemos dar essa contribuição, podemos trazer esse algo a mais. O tempo todo o esporte ou a atividade física está exigindo coisas desse atleta, então precisamos organizar para o atleta tudo isso. Entender o que ele quer. Falando de esporte de rendimento que é algo que eu tenho mais contato, embora já tenha trabalho em toda essas áreas, seja com trabalho ou seja com estágios. O Esporte competitivo começa a exigir algumas coisas do atleta, e precisamos mostrar para ele os objetivos deles as necessidades dele, o que ele percebe nesse ambiente que possa ajudá-lo. A importância pode ser estrutural. Já ajudei atletas que se talvez não tivesse esse apoio/trabalho, teriam abandonado ou parado porque estava muito difícil, estavam sentindo muita cobrança, não estavam rendendo na hora que era preciso, diziam que acham que isso não estava acrescentando em nada, e eles conseguiram se organizar e superar os obstáculos, os medos, os desafios e conseguiram renderem mais e isso contribuir para o próprio desempenho deles e na longevidade da modalidade. Assim como tenho outros atletas que possivelmente, com ou sem o trabalho psicológico, renderiam da mesma forma. Mas tenho total certeza que em algum momento do trabalho eles aprenderam alguma coisa que levam com eles. E é interessante depois que nós trabalhamos por bastante tempo, ver os atletas se desenvolvendo. Já teve atletas com quem trabalhei que eu achava que durante as atividades eles não estavam “nem aí”, eles vinham porque era obrigado e depois encontrar com alguns e eles confessarem: “sabe aquilo que você falou, eu levo até hoje na minha vida. Tem situações na vida, no trabalho ou que eu passei por situações no esporte e que lembrei daquilo que nós conversamos e aquele momento foi realmente importante para mim”. Então essa é a importância do profissional de psicologia. É facilitar / acelerar esses processos, é melhorar o rendimento do funcionamento geral desses atletas, talvez você consiga em momentos pontuais, essa minha intervenção pode ter ajudado a melhorar a eficiência de determinada situação. Exemplo: Vou trabalhar um protocolo de rotina de concentração para o arremesso de lance livre e esse atleta durante o processo, vai ser aplicado por 3 meses controlado, e depois avaliar se durante esse período esse atleta teve uma melhora nessa eficiência ou não. É um trabalho possível, mas que demanda que o atleta, além de todos os outros aspectos, esteja disponível só para melhorar esse ponto específico. Além disso esse atleta vai estar nesse período treinando lance livre com seu treinador, ele vai prestar mais atenção ao realizar o lance livre, ele vai melhorar uma série de outros aspetos que não tem a ver com sua intervenção. Porém não trabalhamos o tempo todo com as equipes, não temos todos os controles e fixar apenas pontos específicos. Portando é mais perceptivo identificar no geral as mudanças de comportamento das equipes, nos repostas dos atletas, na avaliação dos treinadores. É importância muito grande nos atletas, pois é indiscutível a influência do aspecto emocional e do aspecto cognitivo no comportamento dos atletas. 6. Como é possível se tornar um Psicólogo do Esporte? É necessário algum curso específico além da graduação em Psicologia? Formação é muito importante. Tem que ser formado em psicologia e reconhecimento do CFP com o título de especialista do Esporte. Tinha uma prova de proficiência ou cursos reconhecidos como o que eu fiz, o CFP te reconhecia como especialista. Precisa ler e vivenciar muito, estar envolvido com o esporte, regras, dos atletas, dos treinadores, competições. 7. Por que você optou por essa de especialização? Escolhi por essa especialização pois eu tinha um histórico com o esporte, eu gostava da área e queira trabalhar com o esporte, mas não queira ir para o lado técnico, como treinador ou preparador físico. Eu gostada da interação e do aspecto psicológico, principalmente quando observada que esse aspecto psicológico se tornava um obstáculo, que impedia um atleta muito bom, muito bem preparado e com bom recurso de ter o resultado que ele podia ter. Poder atuar nessa área tem muito a ver com isso, liberar o atleta para o seu máximo desempenho, é tirar aquilo que o atrapalha, que é um obstáculo e que impede dele atingir ou chegar no seu máximo possível. Por isso que acabei entrando na psicologia do esporte, o esporte competitivo e de rendimento. Um ponto que venho trabalhando bastante e que gosto é na formação de rendimento, que não é só o adulto olímpico, mas o infantil ou juvenil que vai aprendendo e vivenciando os obstáculos e que é mais flexível para as mudanças e consegue perceber essas experiências. 8. Poderia contar como é um dia a dia de um Psicólogo do Esporte? Posso falar do meu dia a dia lá no clube. Pelo o que eu vou conhecendo as equipes, é importante estar no dia a dia dos treinos, acompanhar os treinos, conhecer os atletas, conhecer os treinadores. Então eu já tenho uma ideia do tipo de trabalho que é possível realizar com as equipes. Me reúno com os coordenadores de cada modalidade, muitas vezes com os outros técnicos e eles me trazem as ideias deles, necessidade, preferencias ou planejamento. por exemplo, vamos trabalhar com a equipe principal que tem como objetivo o troféu Brasil, vamos trabalhar com a equipe subquinze porque é uma equipe muito boa em desenvolvimento e queremos dar uma atenção maior. Ou tenho 2 atletas de destaque que vão disputar a vaga olímpica e querem um trabalho individual desenvolvido com esses atletas. Dessas reuniões que apresentam essas prioridades, principalmente, dos treinadores que saem as ações e alguma coisa que eu levo para eles em relação a minha análise, minha avaliação dessas equipes. Não trabalho com teste, mas faço constantes avaliações em termos de observação ou análise de desempenho, discussões com as equipes ou com o próprio técnico e consigo fornecer algumas informações, a partir daí nós planejamos algumas atividades. No meu dia a dia eu tenho o tempo divido para acompanhamento de treinos, estar ali na borda da piscina, no tatame, na quadra de tênis. Tempo de contato com os técnicos, que eu me reúno e falo sobre os atletas e eles trazem as necessidades deles. E o tempo de intervenção junto aos atletas, com atividades em grupo ou individuais, que normalmente são vistas mais como intervenção,mas todo o tempo que estou lidando com os atletas, eu estou fazendo intervenção, seja falando com o técnico, orientando ele ou mostrando uma organização dentro do time na piscina ou na quadra eu estou fazendo uma intervenção. A grande questão é entender que o trabalho do psicólogo ocorre em todos os momentos, não só no tempo que você está conversando ou fazendo uma atividade, mas cada observação, cada conversa, cada treino que você assisti, cada competição que você vê é uma intervenção. Além de tudo nós temos reuniões de equipe multidisciplinar, junto com fisiologista, com preparador físico, com médico, com fisioterapeuta e com nutricionista, para discutir possibilidade e necessidade das equipes e dos times dentro do clube. 9. Você utiliza alguma abordagem psicológica específica? Se sim, poderia nos falar sobre como ela lhe auxilia e atende as demandas do seu trabalho? Acho que a abordagem, na verdade, é fundamental. Individualmente, eu trabalho mais próximo da área cognitiva, entender a forma como o atleta pensa, a ideia que ele faz do seu desempenho, do seu esporte, seus motivos, da sua relação com cobrança, com ansiedade, com desafios. Eu gosto muito dessa análise do pensamento, de como o atleta estrutura o pensamento, porque isso é muito determinante do seu desempenho, como é normalmente falado em esportes, como são as relações de pressão, de confiança, de ansiedade, de foco e de concentração, o desenvolvimento dessa área é muito especifico. Independente da linha teórica que você vai seguir, então se você vai trabalho com a Psicologia do Esporte e a Psicanálise ou Fenomenologia ou Análise do Comportamento, ela é que vai te dar toda a base para que você faça as intervenções, senão a Psicologia do Esporte, assim como qualquer outra área, ela se torna simplesmente aplicação de instrumentos. Algumas vezes a Psicologia do Esporte é vista dessa forma, acham que eu vou chegar e aplicar um teste ou questionário nas equipes e vou ter respostas e vou passar informações para os técnicos e eles poderão organizar e montar o time, mas isso é pura ilusão. Precisamos ter essa compreensão teórica, porque precisamos saber quem é esse nosso sujeito, o porque ele está se relacionando, porque um atleta se relaciona com uma situação de decisão, extremamente motivado, positivo e determinado e outro atleta na mesma situação, inseguro, se sentindo cobrado, com foco no erro, na derrota ou na possibilidade de que tudo pode acontecer caso ele erre aquele momento decisivo. Quando temos uma teoria para embasar tudo isso, compreendemos melhor os fenômenos e podemos intervir melhor de acordo com aquilo que acreditamos nessa linha teórica. Mas ele fundamental porque senão fica superficial, apenas como ferramentas, por exemplo, vamos e só fazer treino de concentração, só atividades motivacionais, e era isso que no começo que imaginavam da psicologia, vamos chamar um motivador, faz um show com auditoria e microfone, passa filmes bonitas, frases bonitas, sai todo mundo chorando e assim teríamos um atleta motivado. Acima de tudo o Psicólogo do Esporte é psicólogo e quanto mais sólida for sua compreensão teórica, mais eficiente ele vai poder ser, até para trazer os métodos e testes psicológicos adequados. 10. Utiliza algum método ou testes psicológicos que aplica com os atletas? O que é avaliado? Já usei alguns testes, já usei o “perfil de estados de humor”, o “Poms”, um teste de métodos de enfrentamento, análise de perfil de ansiedade. Já busquei alguns outros testes, mas a ideia é que com eles você possa um “screening” (triagem), mais rápido e entregar uma fotografia da situação desse time de aspectos que são importantes para ele se desenvolver. Mas no dia a dia eu vejo que essas ferramentas são limitadas, e a não ser que o treinador precise de uma visão um pouco mais geral das características dos atletas, por algum motivo particular, eu acho que esses testes são muitos limitados no tipo de visão que possam dar. No começo os técnicos pediam muito avaliações, queriam conhecer quem são seus atletas e suas equipes. Eu olhava por um treinador que trabalha com a equipe já por 5 anos e me perguntava: o que ele esperava que um teste de 60 questões, que seja, vai me trazer uma visão tão melhor da equipe dele do que a própria visão dele. Então muito do meu trabalho é ensinar os treinadores que o conhecimento que eles já tem da equipe deles, eles já tem todas essas informações. Trabalho muito com observação dos atletas em treinos, em competições, com conversas diretas e participação em atividades, envolvimento e como lidam com dificuldades. Junto com essas informações, começo a colher as informações dos treinadores. O treinador quer saber do perfil, pergunto como o atleta se comporta em determinada situação, qual é o comportamento do atleta em tal situação, normalmente o treinador sabe. E vou mostrando, mais do que aplicar um teste e apresentar um resultado, dentro desse contexto do dia a dia de um clube ou equipe esportiva é ajudar o técnico a compreender quais dessa informações, que eles já tem, eles vai usar para entender o perfil de um atleta e quando você ensina isso ao treinador ele fica muito melhor para avaliar o perfil de todos esses atletas. Ele pode pedir uma opinião e aí tenho a parte da minha observação e da minha avaliação, mas o treinador já em essas informações ou a maioria delas, então nós só as juntamos. É responsabilidade do Psicólogo do Esporte juntar essas informações que o coordenador, os técnicos de cada categoria, que a equipe multidisciplinar tem de vários atletas e passar para os técnicos para poder avaliar. Então como o psicólogo conhece essas reações, relações e comportamentos ele também é capaz de mediar muito bem essas relações entre atletas, entre atletas e treinadores, entre treinadores e entre toda equipe multidisciplinar. 11. Quais são as principais dificuldades que um Psicólogo do Esporte encontra na sua atuação? O que observei ao longo dos anos é que o psicólogo ganhou muito respeito dentro dessas equipes, pouca gente dúvida da importância do psicólogo, ainda mais num ambiente que você já está lá dentro. Talvez se você tentar entrar num algum lugar que nunca trabalho que tenha uma cultura mais fechada ou tradicional, como de futebol, você encontre treinadores que digam que não querem trabalhar com isso. Mas nos clubes e nos lugares que conheço e que contarem com esse trabalho, essa valorização, hoje, é muito grande, ninguém acha que esse trabalho não precisa ou é desnecessário. A carga horária dos atletas é muito grande e precisamos entender que o treino é o principal ponto, a preparação física está junto com o treino e é fundamental, e as outras ciências de apoio precisam encontrar seu espaço. Disputar o atleta que precisa treinar, fazer o preparo, ir à fisioterapia se ele está machucado, tem as consultas nutricionais, as avaliações médicas, alguns testes para fazer e tem sua vida pessoal, falando sobre atletas profissionais já é algo difícil. As crianças que têm escola desde cedo e acaba às 16h, vão para o treino, tem que cumprir preparação física, treino, psicólogo, nutricionista. Hoje o que temos de desafio é conseguir esse espaço no dia a dia. Outro desafio também é as questões individuais, o lado psicológico pode ser um obstáculo como pode ser um potencial. Mas quando ele é um obstáculo, precisa de muito trabalho, dedicação e as vezes de tempo, então o atleta precisa comprar essa ideia. Um desafio constante é mostrar a eficiência, mesmo que estejamos trabalhando com o atleta e isso não se concretize em termos de resultado. Tive uma experiência, por exemplo, numa equipe de basquete que tinha sido desmontada e reorganizada, tinha um conflito muito grande interpessoal entre os atletas, então era um time muito desorganizado, que era muito pouco eficiente em quadra. Tivemos que trabalhar uma temporada toda para formar essa equipe e tornar esta uma equipe forte e unida, em termos de grupo. O time evolui muito e chegou nas finais, mas nas finais perderam por uma dificuldade de sendo um grupo, superarum momento de decisão, de tensão. A grande briga foi mostrar que a psicologia não falhou num momento em que os atletas não tiveram a “cabeça” para decidir um jogo final. Pelo contrário a psicologia teve muito sucesso, porque uma equipe que iria ficar na 1ª fase, chegou até a disputa do “playoff” final. A necessidade do tempo inteiro você para a diretoria, gerencia e os próprios técnicos, qual vai ser o objetivo do seu trabalho e que não adianta quere trabalhar tudo, pois você não vai trabalhar nada, é um desafio grande da psicologia. A capacidade de transformação do sujeito, também é um desafio da psicologia, pois alguns você vai conversar e ajudar a organizar os pensamento do atleta e esse atleta vai dar um salto, enquanto você tem outros atletas que melhoram um pouquinho e voltam para trás e você tem que trabalhar e tem que insistir nesse desenvolvimento constante. É um obstáculo grande. Então você se inserir num meio em que você precisa desse espaço e que precisa mostrar esse resultado, acho que é o desafio, mas assim como todas as profissões, você tem que mostrar seu valor. Hoje tenho certeza que o Psicólogo do Esporte, pelo menos nas minhas experiências, tenho conseguido mostrar o valor da psicologia e ser entendido pelos treinadores. 12. Qual é o recado que deixaria para os acadêmicos interessados em trabalhar com Psicologia do Esporte? O recado é que vale muito a pena. É uma área muito difícil, onde você entra num espaço de muito exigência, assim como o atleta é muito cobrado, todos os profissionais que estão por trás também cobrados quanto. O atleta é cobrado para ser o melhor do país e até do mundo. O seu trabalho tem muita influência nesse atleta e você acaba recebendo essa cobrança também. Você parte de um ponto ou uma ciência que os resultados não são concretos e objetivos, ele são sim observáveis e possíveis de demonstrar, porém eles não são o tempo inteiro concretos. Não podemos reduzir nossa intervenção a estudos de casos. Poderíamos fazer uma serie de estudos de casos comprovando a evolução ou influência de determinadas intervenções no desempenho dos atletas. Mas ficaríamos tão presos em registros e organização de dados para fazer isso de uma forma mais concreta, que perderíamos muitas oportunidades. Então precisamos o tempo inteiro mostrar formas de demonstrar nosso trabalho, muitas vezes precisamos buscar essas oportunidades, têm que encontrar com os técnicos, têm que conhecer os técnicos, clubes e atletas, têm de ir em competição, têm que assistir treinos. É um trabalho que demanda muito tempo, muito trabalho e muito estudo. Ler livros de teorias de psicologias, especificas do esporte, biografias, estudar e conhecer as características pessoais dos atletas. É uma profissão muito complexa e precisa conhecer esse espaço e muitas vezes você não consegue esse espaço para trabalhar, por exemplo, com um atleta olímpico, de alto rendimento, medalhista. E só no momento que você convive, entende e conversar com um atleta desse nível é que você entenda as exigências necessárias para chegar nesse nível. O tempo inteiro você tem que entender o mundo dos atletas. E tem que ter disponibilidade de trabalhar com uma equipe multidisciplinar. Mas é muito prazeroso para quem gosta de esporte, pois ter um set de trabalho com uma piscina, quadra ou tatame e estar imerso nesse mundo do atleta, mas precisa estar ciente que é uma doação e um envolvimento bastante completo. 13. Você tem algum case que você possa compartilhar? Apresentei alguns casos durante as outras questões. Eu trabalhei com um atleta de vela, foi quarto lugar na olimpíada do Rio. Umas das coisas mais importantes que ele me falou foi no final do processo, na véspera do início das olimpíadas. Eu perguntei o que ele achava que o nosso trabalho ajudou e o como ele se vê em todo esse processo de 4 anos. Ele disse que quando começaram, ele ficava nos campeonatos entre os 30 e 40 do mundo e agora estou chegando na véspera da olimpíada sempre entre os 10 primeiro e sempre brigando pelo podium em todas as competições, e eu percebo que quando eu estava entre os 30 do mundo, eu olhava para os 10 primeiros e não entendia o que eles faziam diferente. Eu achava que eu velejava da mesma forma, tinha os mesmos equipamentos, que eu corria os mesmos campeonatos, mas não entendia por que no final eu era 35 ou 37 e eles eram os 10 primeiros. Hoje que eu estou entre os 10 primeiros, eu consigo olhar para o cara de 4 anos atrás e sei apontar exatamente aquilo que ele fazia diferente, em termos de concentração, em termos de seriedade, em termos de atitude, em termo de propósito para cada coisa, então não adiante ter o mesmo material, mas você têm que saber usar e quando usar, você tem de fazer as escolhas certas, tem que ter atitudes na hora do treino, você tem que ter o desenvolvimento durante todo o processo, precisa aprender sobre concentração, foco, competitividade e intensidade. Porem se eu virasse para o cara de 4 anos atrás, ele não saberia entender tudo isso, eu poderia explicar, desenhar e escrever para ele e ele não seria capaz. Eu precisei passar por esse processo de 4 anos para saber. E eu sempre repito isso que ele me disse, porque eu acho que é exatamente assim, não podemos chegar para o atleta e dizer o que ele tem de fazer ou o que ele está fazendo de errado. Ele precisa viver o processo e a psicologia, também a psicologia do esporte, mas a psicologia em si é de viver esse processo. Você precisa chegar nesse atleta e viver esse processo junto com o atleta, quando ele chaga no final, ele é capaz de olhar para trás e saber a diferença daquilo que ele fazia e o que ele tem capacidade de fazer agora. E se ele souber disso ele vai ter se desenvolvido e vai valorizar esse processo. Então independente de trabalhar cases específicos ou trabalhar desenvolvimento de concentração, de foco, de tomada de decisão ou que melhoramos esses aspectos, é entender que o processo é esse, você vai junto com o atleta, identificando essas dificuldades e vai acompanhando ele no processo, para que ele aprenda a que tem ferramentas, se aproprie dessas ferramentas e entenda que isso é um diferencial. Essa é a evolução no trabalho. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Miotto, M.L. - A Psicologia entre o ‘Longo Passado’ e a ‘Curta História – Dissertatio: Revista de Filosofia, Pelotas, V.47, pp 95-134. 2018 Viera, L.F.; Vissoci, J.R.N.; Oliveira, L.P.; Vieira, J.L.L – Psicologia do Esporte: uma Área Emergente da Psicologia - Revista Psicologia em Estudo, Maringá, V.15, n.2, pp391-399. 2010 Rubio, K. – A Psicologia do Esporte: Histórico e Áreas de Atuação e Pesquisa – Revista Psicologia Ciência e Profissão, V.19, n.3, pp 60-69, 2000 Weinberg, R.S.; Gould, D. – FUNDAMENTOS DA PSICOLOGIA DO ESPORTE E EXERCÍCIOS – Editora Artmed, Porto Alegre, 6ª ed. versão 2017. https://certificadocursosonline.com/cursos/curso-de-psicologia-do-esporte/ Curso Psicologia do Esporte – Realizado entre 07/05/2020 a 20/05/2020 https://www.abrapesp.org.br/ Acessado em 20/05/2020 11