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demonstrar o auge de sua cultura e 
civilização alcançada com a consolidação do regime democrático. Do 
ponto de vista da produção do conhecimento desse período, destacam-
se três filósofos: Sócrates, Platão e Aristóteles. Todos eles viveram em 
Atenas, pelo menos durante o período central de sua produção, e todos 
eles têm uma obra que influenciou não apenas o momento histórico 
que viveram, mas também o próprio desenvolvimento da Filosofia e 
da Ciência. A preocupação desses filósofos era trazer para o centro de 
suas indagações o HOMEM, como ser capaz de produzir conhecimento 
através do desenvolvimento de sua Moral. Acreditavam, portanto, 
que o Conhecimento – a Filosofia – tinha uma função social, e por isso, 
consistia na formação de cidadãos como tarefa indispensável para a 
transformação da sociedade (RODRIGUES, 2014).
Porém, além da filosofia, também as religiões foram sendo criadas e 
influenciaram e muito o comportamento humano nas diversas sociedades. 
A necessidade de orientar a vida é fundamental para os seres humanos e era 
uma preocupação dos povos antigos, que percebiam que não precisavam apenas 
de comida e bebida, de calor, compreensão e contatos físicos, mas, essencialmente, 
descobrir a origem da humanidade. 
TÓPICO 1 | A PROTEÇÃO E A ASSISTÊNCIA NA HISTÓRIA DA HUMANIDADE
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Referente ao pensamento cristão, as relações sociais ocupavam um lugar 
considerável no ensinamento dos profetas do Antigo Testamento. E por incrível 
que pareça, é na amplitude da temática da justiça que foi elaborado o pensamento 
religioso e social dos profetas. Assim, era a justiça um assunto (tema, objeto, tópico, 
contexto, matéria), ou melhor dizendo, uma “questão social” de grande importância. 
“É em torno do tema da justiça que está elaborado o pensamento religioso e social 
dos profetas. [...] É um tema religioso, mas é também, e indissoluvelmente, um 
tema social.” (BIGO, 1969, p. 21).
O termo justiça era considerado no sentido do direito, fazer justiça, 
ser justo. Assim, a noção de justiça e de direito era foco de interesse, análise e 
discussão, pois se percebia, já naquela época, as manifestações da falta de justiça 
principalmente aos pequenos, órfãos, viúvas, estrangeiros, indigentes, doentes, 
que eram excluídos pelos que possuíam além de suas necessidades e não faziam 
justiça, melhor enfatizando, não dividiam, mas sim acumulavam mais e mais para si.
 
Exemplos podem ser descritos, conforme diversos relatos bíblicos, pois os 
ricos tinham mesa abundante, roupas finas e luxuosas, ouro, prata e honras não 
merecidas, propriedades diversas, não pagavam seus assalariados justamente, o 
lucro dos impostos, acumulação e uso dos bens além das necessidades, riquezas 
injustas advindas de administrações desleais, entre outras diversas descrições nos 
textos do Antigo e do Novo Testamento.
Sobre essa postura e visão dos profetas, Bigo (1969, p. 24) descreve 
claramente: 
Assim, os profetas já atribuem à justiça uma dimensão que nós não mais 
lhe ousamos dar. A justiça, para eles, não é primeiramente o direito 
daqueles que têm, é, antes de tudo, o direito daqueles que não têm, o 
direito do membro da comunidade quando se encontra em necessidade. 
É nessa perspectiva que se situam as numerosas advertências dos 
profetas àqueles que vivem em demasia fartura. O luxo é, literalmente, 
uma injúria à pobreza, porque retira àquele que nada tem para dar 
àquele que já tem. Há um ensinamento dos profetas sobre o supérfluo, 
[...]. A avidez dos açambarcadores, daqueles que juntam “casa sobre 
casa, campo sobre campo”, é impiedosamente fustigada.
Podemos chegar claramente à conclusão de que, se não existia justiça, 
com certeza existiam inúmeras manifestações, expressões desta “questão social”, 
sendo uma delas a pobreza, outras, a desigualdade, a miséria, a doença e assim 
UNI
Quem somos? Para onde vamos? Por que estamos vivos e como melhorar a vida 
no grupo, no povoado, na cidade, na polis, na metrópole? Assim, muitos questionamentos 
surgiram sobre a existência de tudo, inclusive da vida e da morte. Essas indagações existenciais 
formaram a base de todas as religiões no mundo.
UNIDADE 1 | A GÊNESE DA ASSISTÊNCIA E DA QUESTÃO SOCIAL
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consequentemente. Conforme Bigo (1969, p. 36), “Os sermões dos profetas aos 
ricos giravam sempre em torno do tema da justiça, os de Cristo giravam em torno 
do tema da pobreza.” Interessante perceber que os sermões de Cristo se baseavam 
não na “questão social”, mas nas consequências da falta da justiça, ou seja, no 
conjunto das diversas expressões da sociedade injusta da época, proveniente da 
avareza, ganância e soberba dos ricos.
A religião se expandiu por toda a Europa com a queda do Império Romano 
no ano 400, aproximadamente. A Igreja Católica Apostólica Romana foi o grande 
poder que emergiu das cinzas do Império Romano, em torno do qual se ergueu o 
mundo medieval, que foi caracterizado como a Idade das Trevas. A Santa Inquisição, 
criada em 1232, espalhou medo e terror por toda a Europa, através do Tribunal do 
Santo Ofício (que era uma paranoica luta contra o demônio e as heresias), como 
também as Cruzadas, guerras santas em que a Europa cristã combateu os “mouros 
infiéis”: os islâmicos (COSTA, 1997).
A partir da Idade Média, na Europa, foram criadas as confrarias, que eram 
caracterizadas como grupos, irmandades, congregações ou associações religiosas, 
formadas por leigos do catolicismo que desenvolviam ações com caráter caritativo, 
filantrópico e cultos religiosos. 
FIGURA 3 - IRMANDADES, CONGREGAÇÕES DE AJUDA
FONTE: Disponível em: <https://www.google.com.br/search?q=igreja 
+na+idade+media+e+os+pobres&tbm>. Acesso em: 5 jan. 2015.
Nessa época eram comuns ações assistencialistas ou clientelistas, como 
doações, práticas em forma de favor, boa vontade com fundamento em princípios 
cristãos. “A ética cristã – como a filosofia cristã em geral – parte de um conjunto de 
verdades reveladas a respeito de Deus, das relações do homem com o seu Criador 
e do modo de vida prático que o homem deve seguir para obter a salvação no 
outro mundo.” (VÁZQUEZ,1996, p. 243). 
Sob a perspectiva da ética cristã, a ideologia religiosa da época priorizava 
que toda ação pessoal deveria estar voltada para e com Deus, sob uma nova forma 
TÓPICO 1 | A PROTEÇÃO E A ASSISTÊNCIA NA HISTÓRIA DA HUMANIDADE
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de participação social onde o teocentrismo fazia valer uma ação transcendental, 
direcionada a favor da própria salvação.
Contudo, a ética cristã tende a regular o comportamento dos homens 
com vistas a outro mundo (a uma ordem sobrenatural), colocando o seu 
fim ou valor supremo fora do homem, isto é, em Deus. Disto decorre 
que, para ela, a vida moral alcança a sua plena realização somente 
quando o homem se eleva a esta ordem sobrenatural. (VÁZQUEZ, 1996, 
p. 245).
Segundo a ética cristã, Deus exigia obediência sem precedentes, bem 
como sujeição a seus mandamentos. Assim, no cristianismo, o ser humano é e 
o que deve fazer, antes de tudo em relação a Deus, tendo como valores a fé, a 
esperança e a caridade para a obtenção da salvação eterna. Assim, também os “Dez 
Mandamentos” e a própria Bíblia foram uma forma de tentar garantir a ordem e 
instituir regras e normas para todos, no sentido de mando e doutrina indiscutível, 
vindo a se tornar uma constituição que está presente, de uma forma ou outra, até 
hoje nas mentes e nas ações das pessoas no mundo ocidental. 
Segundo Carvalho (2006, p. 15), “Na Idade Média, a forte influência do 
Cristianismo, através da doutrina da fraternidade, incentivou a prática assistencial, 
com a difusão das confrarias que apoiavam as viúvas, os órfãos, os velhos e os 
doentes”. Esta concepção medieval pensava que a causa da miséria era um 
problema do pecado da humanidade, de desobediência a Deus, castigo individual, 
e em muitos casos visto como castigo coletivo, se