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RESENHA ANTÍGONA
A Grécia Antiga, além de ser o berço da filosofia, foi também fonte de inspiração literária para diversos autores. Dentre eles, existiu Sófocles (496-405 a. C.), o qual escreveu Antígona, uma das três obras que compõem a história de Édipo, rei de Tebas.
Antígona leva o nome de uma das filhas de Édipo, e é sobre o seu destino e o destino do atual rei de Tebas, Creonte, que a obra se desenvolve. Numa época em que a mulher não possuía muitos direitos, a não ser os que lhe são próprios de uma dona de casa, ela revela, sobretudo, a coragem de uma mulher, a própria Antígona, que desafiou o edito do autoritário rei Creonte para enterrar o irmão, ferido mortalmente em batalha. A severa pena decretada pelo rei àquele que cometesse tal ato, não foi suficiente para intimidar a bravura daquela jovem.
Porém, o plano de Antígona não deu certo. Após uma primeira tentativa de enterrar seu irmão, foi flagrada no ato quando tentava, outra vez, recobrir o corpo descoberto pelos guardas. Um deles, o qual já havia informado ao rei que houvera uma tentativa de sepultamento do corpo, levou-a diante de Creonte, com o intuito de livrar sua própria pele. Nesse diálogo, percebe-se bem o desespero de uma pessoa com medo de ser acusada por um ato que não realizou, ainda mais sendo um servo da realeza. O guarda se mostra sempre sincero: o que ele mais quer é ser inocentado. Sem o mínimo de temor e de arrependimento, audaciosamente a personagem confessa o “crime” e não silencia diante das palavras do rei, nem mesmo da sua condenação. Creonte, inflamado em seu orgulho, não volta atrás, e nem sequer ouve seu filho, Hémon, que tenta inocentar a sua amada, cuja fama por seu ato de amor e caridade já corria entre o povo.
Por fim, resistindo até mesmo aos oráculos do profeta Tirésias, o rei só irá compreender que é passivo de erros e que o destino está em nossas escolhas, ao receber a notícia da morte de seu filho e da decadência de seu exército.
ANTÍGONA, de Sófocles
Antígona, tragédia escrita pelo dramaturgo grego Sófocles, mostra como duas opiniões opostas podem ser corretas dependendo do ângulo analisado. Esta obra é uma das seqüências de Édipo Rei, onde mostra como a descendência incestuosa de Édipo e Jocasta, amaldiçoada anteriormente, finalmente termina.
Os dois filhos homens de Édipo, Etéocles e Polinice, morrem em batalha no mesmo dia. Um contra o outro. Um a favor e o outro contra a cidade de Tebas, que passa a ser governada pelo cunhado de Édipo, Creonte. Creonte então manda enterrar honrosamente ao primeiro, mas lança uma lei de que o segundo não seja velado nem sepultado e, por ser um traidor de sua pátria, quem o fizesse seria igualmente considerado traidor. Acontece que Antígona, filha de Édipo e irmã dos falecidos, descumpre a lei e presta as honrarias fúnebres ao morto. Com este gesto é condenada à morte.
Creonte pode ser considerado por muitos como o tirano na história, mas ele fez o que qualquer governante em seu lugar faria. Ele homenageou o herói e puniu o traidor. Nada mais justo e legal aos olhos do estado. E quando Antígona descumpriu a lei, mesmo que significasse punir sua sobrinha e futura nora, não poderia voltar atrás. Considerou que ele não poderia abrir uma exceção à lei somente pelas súplicas dos seus próximos. A lei era superior ao rei. "Se eu tolerar os desmandos da minha gente, perderei autoridade sobre os demais. [...] O insolente, o transgressor das leis, o que se opõe às autoridades não conte com meu aplauso. A que a cidade conferiu poder, a este importa obedecer, seja nas grandes questões seja nas justas... e até nas injustas. [...] Não há mal maior que a anarquia, ela devasta cidades, arrasa casas, aniquila a investida de forças aliadas" (pg. 51-52). A desobediência de Antígona era um ato contra o poder de Creonte, contra as leis do estado, contra o próprio direito soberano. Creonte foi firme em defender a sua posição, assim como hoje os governantes são firmes (ao menos em tese) quando aplicam a lei aos transgressores (outra tese), pois a não punição levaria ao caos e anarquia.
Por outro lado, Antígona também tinha a sua razão. Como ela poderia obedecer a lei estatal e desobedecer a lei moral, religiosa, que mandava prestar homenagens fúnebres aos parentes mortos? A grande questão era: qual das duas leis teria primazia? Ela escolheu a lei de seus deuses, de sua moral e de sua religião. Mesmo que isto significasse a morte. Ela defendeu-se perante Creonte: "Nem eu supunha que tuas ordens tivessem o poder se superar as leis não-escritas, perenes, dos deuses, visto que és mortal. Pois elas não são de ontem nem de hoje, mas são sempre vivas, nem se sabe quando surgiram. Por isso, não pretendo, por temor às decisoões de algum homem, expor-me à sentença divina" (pg. 36). Esta passagem lembra as palavras de Jesus no evangelho de Marcos, capítulo 12, verso 17: "Pagai a César as coisas de César, mas a Deus as coisas de Deus". Quantos em toda história da humanidade não morreram por um ideal? Quantos hoje não morreriam quais mártires por sua crença, por sua família ou por aquilo que faz parte de sua essência como humano? Muitos o fariam, assim como Antígona.
Existe outra discussão sobre se os reais motivos tanto de Antígona quanto de Creonte não seriam políticos. Com os dois sucessores ao trono mortos (os irmãos de Antígona), o próximo herdeiro foi Creonte. Da linhagem dos Labdácidas (Laio e Édipo), sobraram somente Antígona e sua irmã, Ismene. Como Ismene cala-se a respeito do edito real, Antígona com a sua desobediência, silenciosamente incita o povo contra Creonte. Todos passam a admirar e concordar com a atitude dela em relação ao seu irmão. Começam a falar contra o governante. Creonte também pode ter tido a idéia de despoluir Tebas exterminando os descendentes incestuosos de Édipo, pois estes eram amaldiçoados. Caso o seu filho Hemon se casasse com Antígona, a maldição continuaria em seus próprios netos.
Como toda boa tragédia grega, no final muita gente morre. Mas o importante não é a contagem de corpos, antes, a discussão sobre grandes temas que envolvem moral, direito, política e filosofia. Esta discussão ainda faz parte do presente, onde vários pensadores e críticos tem analisado a obra de diferentes pontos-de-vista.
Antígona 
Antígona
Bibliografia: SÓFOCLES.  Édipo Rei. Antígona. Trad. Jean Melville da versão inglesa de Sir Richard Jebbs. São Paulo: Martin Claret, 2005.
Antígona Resenha Acadêmica
A obra Antígona é uma lição sobre o que é justo, legal e ético. Tudo acontece quando dois irmãos de Antígona morrem em guerra. Um deles, Etéocles, em defesa do Estado. Já, Poliníces, contra o Estado, e por isso o rei Creonte determina que apenas Etéocles tenha todo o ritual fúnebre, enquanto o outro, Polinicíes, ficaria entregue aos abutres e animais, totalmente.
A estrutura da obra é basicamente de diálogos. Conversas existentes entre os personagens onde se observa vários contrastes entre eles, e assim, o debate inevitável. A obra possui um pouco mais de cento e vinte páginas, contando com Introdução, Édipo Rei e Antígona, além do Apêndice.
O conteúdo abordado pela obra é uma análise do que é Direito Positivo e até onde ele vai. Onde começa o Direito positivo? Onde termina? E o Direito Divino? É mais forte ou mais fraco que o Direito do poder absoluto do rei? O conteúdo gira em torno da axiologia de uma parte, e a teleologia de outra.
A obra é bem interessante pela forma clara que como é discutido o tema. Colocam-se personagens altamente divergentes para testilhar  sobre o que seria ético ou não. Até onde vai a soberania do rei. Acredito que, até certo ponto, o rei pode ser absoluto. Agora, nunca, mas nunca poderemos tentar desestruturar a dignidade alheia, vivo ou morto. Acredito que Creonte foi infeliz quando usou de seu poder e esqueceu o bom senso.
No caso de Antígona, há um desejo enorme de dignidade que não pode, de forma alguma, ser tolhido. É um Direito humano. Tudo bem que o Estado é totalitário, mas há sempre alguns pontos que a população não concorda. Tantonão concorda que no próprio texto nós veremos alguns personagens dizer que a população são cadáveres, não porque querem, mas porque tem de obedecer ao rei para não sofrer as conseqüências. Conseqüências que Antígona sofreu. Uma mulher, tentar abalar a estrutura de um regime absoluto de governo não é fácil.
No entanto, ela conseguiu. Ela desestruturou todo o equilíbrio que havia no reinado de Creonte. Pecou até que ponto? Não sei. Creonte foi impiedoso e pensava ser tudo, quando na verdade existiam os deuses acima dele. E assim aconteceu. Sofreu com a morte de quase toda a família, mesmo depois de se arrepender, pois se arrependeu tarde.
Então, penso que a obra em si traz um assunto importante. Um assunto fundamental e que, na época, não era tão bem resolvido como hoje. Confesso que não gostaria de ver um término como o ocorrido, mas como é uma tragédia, temos que entender que assim deve ser.
No resto, é uma obra de excelente nível e de fácil entendimento para quem deseja aprender um pouco de Direito, pois ética e moral também é Direito.
A obra é recomendada principalmente para os alunos iniciantes do curso de bacharelado em Direito, além de todos aqueles que se interessam pela área de ciências sociais, sem esquecer aqueles que gostam de uma boa e velha leitura.
Sobre o autor da obra, Sófocles, nasceu em 496 a.C e morreu em -406 a.C. Foi um dos maiores escritores de tragédia da sua época. É considerado o continuador da obra de Ésquilo. Escreveu cerca de cento e vinte peças. Foi sacerdote de Asclépio, o deus da Medicina. Além disso, foi eleito por duas vezes para a Junta dos Generais, que manuseava a administração civil e militar de Atenas. Também comandou o Departamento do Tesouro, que controlava os fundos da Confederação ou liga de Delos. Suas peças sobreviventes são: Antígona; As Traquínias;  Édipo Rei; Electra; Filoctetes; Édipo em Colono.
Lição Introdutória: A Tragédia Antígone.
A tragédia Antígone discute o conflito entre o Direito Natural – o Direito considerado pelos antigos como sendo de origem divina e aceito ipso facto como costumeiro ou consuetudinário – e o Direito que toma forma jurídica nas leis estabelecidas pelo governante, tradicionalmente denominado Direito Positivo.
A narrativa de Sófocles segue a tradição mitológica. Após a desgraça de Édipo, seus dois filhos, Etéocles e Polinice disputam a posse do trono. Trava-se a luta, perecendo no mesmo dia os dois irmãos, ambos mortalmente feridos no duelo que travaram. Creonte, impondo-se então como tirano de Tebas, resolve prestar honras fúnebres a Etéocles, ao passo que proíbe, sob pena de morte, que se dê sepultura ao corpo de Polinice, para que fique exposto às aves carniceiras aquele que recorreu à aliança com os Argivos (povo inimigo) para conquistar o poder em sua terra.
Antígone, exemplo de amor fraternal, resolve expor-se ao perigo, e, contrariando o decreto do tirano, presta ao infeliz Polinice, seu irmão, o piedoso serviço das honras e dos rituais funerários, sob o risco de ser condenada à morte pela transgressão. Quando interrogada por Creonte, que se considera duplamente afrontado pelo desrespeito a uma lei em vigor e pela atitude criminosa vir de uma mulher, Antígone responde:
"Sim, porque não foi Júpiter que a promulgou; e a Justiça, a deusa que habita com as divindades subterrâneas, jamais estabeleceu tal decreto entre os humanos; nem eu creio que teu édito tenha força bastante para conferir a um mortal o poder de infringir as leis divinas, que nunca foram escritas, mas são irrevogáveis; não existem a partir de ontem, ou de hoje; são eternas sim! E ninguém sabe desde quando vigoram! Tais decretos, eu, que não temo o poder de homem algum, posso violar sem que por isso me venham punir os deuses! Que vou morrer, eu bem sei; é inevitável; e morreria mesmo sem a tua proclamação." (p. 227/228)
Na opinião de muitos esta passagem contém os mais belos versos de Sófocles. Antígone afronta, destemerosa, o poder e a cólera do próprio rei. Ao desobedecer ao decreto e ainda se alegrar com o ato, Antígone argumenta que os deuses exigem que se apliquem os mesmos ritos a todos os mortais. E ao ouvir de Creonte que nunca um inimigo lhe será querido, mesmo após a sua morte, profere a bela frase: "Eu não nasci para partilhar de ódio, mas somente de amor!" (p. 233)
Em diversas passagens, Creonte representa a tese do juspositivismo referente à identidade entre Direito e mandatos, como no positivismo jurídico normativo e legalista: os termos Lei e Direito são essencialmente equivalentes; em consequência, a lei que se manifesta injusta constitui Direito formal e não carece de validade. Veja-se este trecho: "Quem, por orgulho e arrogância, queira violar a lei, e sobrepor-se aos que governam, nunca merecem meus encômios. O homem que a cidade escolheu para chefe deve ser obedecido em tudo, quer seus atos pareçam justos, quer não." (grifo nosso) (p. 243)
Quando surge em cena Hémon, filho de Creonte e noivo de Antígone, a suplicar pela vida de sua amada, trava-se o seguinte diálogo:
"Hémon – Ouve: não há Estado algum que pertença a um único homem!
Creonte – Não pertence a cidade, então, a seu governante?
Hémon – Só num país inteiramente deserto terias o direito de governar sozinho!
Creonte – Bem se percebe que ele se tornou aliado dessa mulher!
Hémon – Só se tu te supões mulher, porque é pensando em ti que assim falo.
Creonte – Miserável! Por que te mostras em desacordo com teu pai?
Hémon – Por que te vejo renegar os ditames da Justiça!
Creonte – Por acaso eu a ofendo, sustentando minha autoridade?
Hémon – Mas tu não a sustentas calcando aos pés os preceitos que emanam dos deuses!" (p. 247/248)
Até mesmo o Corifeu revolta-se contra a lei do governante e não pode conter suas lágrimas ao ver Antígone dirigindo-se ao túmulo. Reconhece a ação piedosa de prestar culto aos mortos, mas quem exerce o poder não pode consentir em ser desobedecido: "tu ofendeste a autoridade" (p. 255), diz ele.
O crime de Antígone foi obedecer aos ditames da "lei divina", que prescreve o sepultamento digno ao cadáver, principalmente quando se trata de um irmão de sangue. Mas ao cumprir a "lei natural" (jus naturae), desobedeceu à norma legal instituída pelos homens, ao Direito posto (jus positum) – ou melhor, imposto - pelo governante. 
A questão não é, neste momento, discutir os fundamentos do Direito, quer em seus princípios jusnaturalistas, quer em suas bases juspositivistas. A tragédia Antígone já antevê, através do gênio de Sófocles, o antagonismo entre Lei e Justiça e o problema da vigência das leis injustas. Os adeptos do positivismo jurídico mais radical não aceitam o problema, pois o valor não é objeto da pesquisa jurídica. O ato de justiça consiste na aplicação da regra ao caso concreto. Não pode haver influência de elementos extra legem na definição do Direito Objetivo. Daí o puro legalismo ou o codicismo. Já os partidários do Direito Natural se identificam com os imperativos do justo, quando, sem desprezar o sistema de legalidade, refletem na instância ética que transcende a ordem positiva e ocupam-se com juízos de valor. O jusnaturalismo refere-se a uma ordem jurídica ideal, no sentido de relacionar Moral e Direito e de buscar nos princípios éticos e/ou antropológicos a fundamentação do Direito. 
O princípio do Direito Natural é jus quia justum: o direito é o que é justo. Como lema, prefere-se até mesmo a desordem ou a ilegalidade do que a injustiça: Pereat mundus, fiat justitia! Para o defensores do positivismo jurídico, o princípio é jus quia jussum: o direito é o que é ordenado enquanto direito. Como lema, os juspositivistas preferem a injustiça à desordem ou ilegalidade: Dura lex, sed lex!
Responda: quem cometeu algum crime: Antígona ou Creonte? Ou de outro modo: qual a fonte ou fundamento jurídico para considerar crime o ato fraternal, respeitoso e costumeiro de Antígone? Qual a fonte ou fundamento do poder legiferante de Creonte? O que equivale a perguntar: qual a legitimidade do poder político e do Estado? Responder a estas e a várias outras questõesdecorrentes da leitura da tragédia Antígone é um excelente exercício de compreensão crítico-sistemática do Direito, ou seja, uma boa maneira de principiar a prática da reflexão crítica em Filosofia do Direito.
Antígona: Direito Positivo versus Direito Natural – Quem ganhou?
Quase todo estudante de direito é apresentado à peça “Antígona”, de Sófocles logo no início do curso, geralmente na disciplina “Introdução ao Estudo do Direito”, pois a obra é uma das primeiras a retratar o eterno embate entre o direito natural e o direito positivo, melhor dizendo, entre a justiça e a lei. 
O enredo da peça todos conhecem: um sujeito chamado Polinície tenta realizar um golpe de Estado para tomar o poder em Tebas, no que foi assassinado. Quebrando as tradições da época, Creonte, o governante, determina que o morto não poderá ser enterrado e que quem descumprir a sua ordem também será assassinado.
Antígona, que era irmã de Polinície, não se conforma com aquela medida. Para ela, seria uma desonra inaceitável não enterrar o irmão. Por isso, em claro descumprimento da ordem de Creonte, Antígona resolve realizar todos os rituais fúnebres devidos em favor do morto.
Creonte, puto da vida, chama Antígona para uma conversinha em particular. O diálogo daí resultante é uma sinfonia para aqueles que defendem o direito natural. Ei-lo:
“Creonte – ô Antígona. Que parte da minha ordem “não pode enterrá-lo” você não entendeu? Vai dizer que não sabia?
Antígona: Estaria mentindo se dissesse que não conhecia a ordem. Como poderia ignorá-la? Ela era muito clara.
Creonte – Portanto, tu ousaste infringir a minha lei? Tá maluca?
Antígona – Descumpri mesmo. Quer saber por quê? Porque não foi Zeus que a proclamou! Não foi a Justiça, sentada junto aos deuses inferiores; não, essas não são as leis que os deuses tenham algum dia prescrito aos homens, e eu não imaginava que as tuas proibições fossem assaz poderosas para permitir a um mortal descumprir as outras leis, não escritas, inabaláveis, as leis divinas! Estas não datam nem de hoje nem de ontem, e ninguém sabe o dia em que foram promulgadas. Poderia eu, por temor de alguém, qualquer que ele fosse, expor-me à vingança de tais leis?”
Eis, nesse diálogo, com algumas licenças poéticas, um bom exemplo do sentimento de indignação que surge toda vez que o ordenamento jurídico encontra-se fora de sintonia com o espírito de justiça presente na sociedade. Por isso, costuma-se dizer que a resposta de Antígona é uma das mais remotas defesas do direito natural.
No entanto, há outro diálogo, na mesma peça, que não é citado nos livros de introdução ao direito, que demonstra que o grande vitorioso desse embate entre direito positivo autoritário versus direito natural não foi nem um nem outro. Quem venceu foi o direito democrático.
O outro diálogo foi travado entre Creonte e Hémon, seu filho, que tinha uma quedinha por Antígona. Hémon, de forma até meio petulante, questiona a ordem do pai. O pai não arreda pé: disse que o que decidiu está decidido e ponto final. Antígona, portanto, deveria ser punida, conforme previsto na sua ordem.
Eis um trecho do diálogo:
“Creonte: Não está Antígona violando a lei?
Hémon: O povo de Tebas não concorda com você.
Creonte: Querias que a cidade me dissesse que ordens devo dar?
Hémon: Agora é você que fala como um menino. [Pouco antes, Creonte havia perguntado se cabia a seu filho ensinar-lhe sabedoria.]
Creonte: Deverei reinar conforme julgam os outros ou segundo meu próprio discernimento?
Hémon: Uma pólis governada por um só homem não é uma pólis.
Creonte: Então o Estado não pertence àquele que o governa?
Hémon: Sem dúvida, num deserto desabitado poderia governar sozinho”. (apud STONE, I. H. O julgamento de Sócrates. Companhia das Letras: São Paulo, 2005).
No final da peça, a vontade popular vence, levando o público ao delírio, pois foi uma clara vitória da democracia. Normalmente, dá-se pouca atenção a essa lição política contida na “Antígona”. No fundo, a moral da peça é que o povo não apenas tem o direito de se expressar, mas também o de ser ouvido: o governante que despreza as opiniões do povo põe em risco a cidade e a si próprio também. Logo, não foi o direito natural que venceu, mas o direito democrático.
I.Intróito
A peça Antígona é uma representação teatral dos valores humanos contraditórios, característica inerente às tragédias gregas, porém tem como exclusividade a ambientalização na esfera da coletividade, tratando-se assim de um drama não só individual mas sobretudo social. 
Escrita por Sófocles, dito por alguns como o melhor dramaturgo clássico [01], finalizando a hexalogia [02] de Édipo [03], ou o ciclo de Édipo, relata o final da família dos Labdácias.
A peça foi apresentada pela primeira vez, provavelmente nos idos de 441 a.C., no Teatro Grego em Atenas, na competição das Grandes Dionísias ou Dionizadas, evento sobretudo religioso, realizado anualmente, sempre no início da primavera grega (março).
A história passa na cidade de Tebas [04]. O prólogo é a batalha dos sucessores do trono de Édipo, Polinices e Etéocles, na ágora tebana localizada no frontispício do palácio real. Etéocles não tendo honrado sua promessa de revezamento anual do trono com seu irmão Polinices, sofre deste uma tentativa de sublevação, através da expedição armada que ficou conhecida como "Sete contra Tebas" [05]. Nome da eexpedição alusivo às sete portas que guarneciam a cidade, sendo que em cada uma delas houve uma batalha diferente entre os chefes de cada exército.
Na luta pelo poder, a batalha da sétima porta foi travado num combate homem a homem, entre Polinices e Etéocles. Nesta guerra de espada contra espada, a comoriência tem um dos seus primeiros exemplos [06]. 
É erigido à coroa, Creonte, tio de ambos os falecidos. Este decide pelo enterro com honrarias de Etécocles, e, por meio de um decreto [07], interdita qualquer tebano sepultar ou chorar o corpo de Polinices, ficando assim este insepulto. 
II.Os valores antinômicos
A Antígona acreditava que a obediência ao dever familiar–religioso atemporal, segundo o qual toda família tinha o dever de enterrar piedosamente os parentes, fora erigida ao patamar de norma social, ou seja um direito individual dela [08]. Imbuída desta crença, Antígona tenta demonstrar bravamente a transcendência do direito individual dela ao poder efêmero de um Rei. 
A atemporalidade deste dever familiar-religioso de sepultar os parentes, é nos dada por Fustel de Coulanges que elucida que o culto aos mortos, que engloba o sepultamento e a atribuição de poderes divinos aos familiares, talvez seja a origem do próprio sentimento humano de religiosidade [09]. E ainda que o elo forte da família antiga não era o nascimento, e, sim o culto de seus mortos [10], ou seja, a religião não era só o todo da base da organização da sociedade antiga, mas tinha o condão dos laços humanos mais íntimos [11].
Antígona protagoniza o enfrentamento em face dos valores preconceituosos instituídos pela sociedade tebana [12]. Primeiro luta para cumprir com o seu dever religioso, demonstrado nas contraposições às falas de Ismene, e como conseqüência, adquire uma consciência liberal de tangibilidade do edito real, evidenciada nas falas de contraposição a Creonte. 
Já o filho de Meceneu, em sua primeira fala, como em um ato de posse, quer demonstrar uma legitima autoconsciência do poder [13]. Protagonista que personifica o valor da possibilidade do governante sobrepujar a trajetória da idealização dos valores sociais, neste caso iniciado no campo religioso, à consolidação em normas descritivas de direitos individuais. 
A peça desenvolve em um espiral entrelaçado destes valores, num plano ético jurídico-religioso, de suspense incrível, com a capacidade narrativa de remeter a platéia à uma simbiose de simpatia e empatia pelos protagonistas (Antígona e Creonte). 
Um dado importante, trazido por Jean-Pierre Varnant e Pierre Vidal-Naquet, é que na verdade Creonte e Antígona buscam em suas idealizações significados diferentes para uma mesma palavra: nómos. A ambigüidadetraduz, então, a tensão entre certos valores, ou seja, os sentidos da palavra nómos, inconciliáveis a despeito de sua homonímia [14].
III.Entendendo o solucionamento de Sófocles
A solução desta antinomia significativa da palavra nómos, de ser divino ou ser humano, não está superada até hoje. A grande maioria dos interpretes de modo simplístico traduz a palavra como LEI, porém ao saber de Henrique Cairus no pensamento de Sófocles realmente existe esta dicotomia, mas parece ainda só considerar lídimo o significado que remonta aos Deuses [15]. 
Bem coloca a Gilda Naécia Maciel de Barros que na verdade o significado desenvolve ao longo da história grega, que no primeiro momento os significados realmente se confundem, e, após há um rompimento, tendo como continuidade o significado de lei não escrita [16].
Na peça a antinomia essencial identificável realmente é entre a Lei dos Deuses e a Lei do Homem, podendo ser vista como uma das primeiras antinomias jurídicas relatadas na História. 
Porém, por mais que nos deslumbrássemos, Sófocles, como religioso que o era, apresenta o solucionamento da antinomia por meio do sentimento religioso, e não por meio de uma idealização da tangibilidade do poder estatal por uma humana racionalidade jurídica. 
Assim o poder do Estado, forma de poder organizada pelo homem, sucumbe ao poder dos Deuses, ou seja, o mundo divino prevalece ao mundo dos homens como bem disse Maria do Socorro da Silva Jatobá [17].
A idéia central é a antinomia: se uma só mulher pode questionar o Estado ou o Estado é inquestionável contra esta individualidade (privado versus público), ou seja, se Creonte deve escutar Antígona. Em outro plano mais aprofundado se a coletividade pode controlar o poder (público versus público [18]), ou seja, se Creonte deve escutar o Coro [19]. O que prevalece ao final não é esta temporalidade do poder humano (individualidade, Estado ou coletividade), e sim a conformidade deste com o poder atemporal, o divino. 
Não que todas as outras antinomias não possam ser suscitadas através do texto da peça, mas querer erigir-las ao ponto central é algo cientificamente impossível. A neutralidade interpretativa não demonstra o que queremos ver, mas sim o que é nos dado a ver. Não é a distorção do texto que deve caber em nossa idéia, e, sim a distorção de nossa idéia que deve caber no ideal do texto.
IV.A importância na história do Direito
Os jusnaturalistas que problematizam o dever-familiar religioso de Antígona como direito natural do homem, intrinsecamente enaltecendo o poder dos oprimidos e não dos opressores. Vislumbram assim um direito inerente do homem (o da liberdade), provindo da sua própria natureza, independente de atos normativos, como por exemplo fez Paulo Ferreira da Cunha [20].
As antinomias travadas na peça são de toda ordem. Ao longo dos tempos cada um, de cada modo, tentou interpretar, inclusive a psique dos personagens, o embate dos interesses apresentados na peça do Sófocles, conforme George Steiner, tem neste emaranhado de plurisignificações subjetivas, em cada tempo, seguido um caminho próprio [21]. 
A primeira importância da peça ao direito é a inicialização, e conseqüente universalização, da idéia de antinomia jurídica. Neste aspecto ganha importância histórica pois podemos enxergar o embrião dos critérios solucionadores (hierárquico e cronológico) das antinomias. Existe a construção de patamares normativos, o do divino e do humano, e, o tempo como critério, mas precisamente a atemporalidade da Lei-divina como forma de solucionamento do conflito normativo.
Ao tratar a solução de uma antinomia jurídica, Sófocles, também, através do mais sagrado dos sentimentos humanos da época (a religião) visualiza a matriz da individualidade humana em face do Estado-Cidade: o de ser livre [22].
Alexandre de Moraes já destacou que a idéia defendida por Antígona [23]deve ser encarada como uma fonte histórica da evolução dos direitos do homem. A questão fundamental é: Antígona representa no mundo ocidental a mãe da individualização do direito, pois na antiguidade não havia sequer a idéia de direitos individuais. 
As pessoas eram subjugadas em tudo, tudo mesmo, até na inversão dos sentimentos naturais [24], à vontade do Estado-Cidade. Assim tudo decorria das crenças religiosas, reinando estas sobre a inteligência e as vontades [25].
A peça ao mesmo tempo em que inova no pensamento antigo, individualizando o direito, ratifica a imutabilidade do direito, existente até então. O direito sagrado não cedia, não era revogado, era supremo ao tempo [26], este foi o respeito enaltecido por Sófocles, como já dito, homem extramente religioso, que concedida aos Deuses, e somente a estes, o poder de ditar Leis. O pensamento sófocleano fazia questão de enaltecer o respeito a esta imutabilidade, como o fez, por exemplo, em versos da peça Édipo Rei, quando conceitua as Leis: "há um poderoso deus latentes nelas, eterno, imune ao perpassar do tempo." [27]
A imutabilidade, ou seja, a impossibilidade de revogação normativa era princípio absoluto na sistematicidade jurídica. Sendo assim até o surgimento das codificações antigas, como por exemplo, as Doze Tábuas que afirmava: "aquilo que os sufrágios do povo ordenaram por último, essa é a lei." [28], e, o próprio Sólon desejou, quando muito, que as leis elaboradas por ele fossem observadas durante cem anos [29].
V.Apontamentos conclusivos
Assim Sófocles fez a história do mundo ocidental não sendo mais um poeta trágico sentimentalista, e sim um grande ativista político poético, como bem ressaltou Friedrich Nietzche [30], revolucionou o pensar dos antigos, erigindo a individualização do homem à norma superior, construindo a subjetividade de direito, através do único meio possível existente: a religião. Inverteu o papel de cidadão até então existente de fazer o que o Estado-individuo manda para o bem da coletividade, para mandar o Estado-coletivo fazer o bem da individualidade..
Por outro lado esta vanguardista inversão da cidadania é concebida através do enaltecimento da atemporalidade e da divindade da Lei. A individualização sófocleana do direito, por mais paradoxal que seja hoje esta idéia, não foi construída numa diretriz: o homem reconhece o direito ao próprio homem; mas sim, os Deuses concebem o bem da individualidade humana.
Notas
01 Sófocles escreveu 123 peças, 20 destas ganharam o prêmio de melhor, e, todas as outras tiveram a segunda colocação nos Festivais de Dionísio. In: Sir Hugh Lloyd-Jones (ed.) Sophocles. Ajax. Electra. Oedipus Tyrannus, Harvard University Press, 1994.
02Sófocles escreveu além das conhecidas (Édipo Rei, Édipo Colono e Antígona) outras três peças sobre a família dos Labdácias, ou seja sobre Édipo, mas até o momento a existência é somente comprovada por referências, ainda não tendo sido achado os originais.
03Filho de Laio, que ordenou a perfuração dos seus pés e que fosse abandonado para morrer no monte Citéron na tentativa de fugir da maldição do oráculo de morrer pela mão de seu filho em razão de seu amor homossexual com Crísipo. A criança sobrevive pela compaixão do pastor executante, o qual daria-lhe o nome ao menino de Édipo (Oidípus=pés inchados), que mata seu pai sem o saber que o era, decifra o enigma da Esfinge, salvando Tebas, e vê obrigado a casar com Jocasta (viúva do Rei Laio), sem saber que era sua mãe, tornando-se o Rei de Tebas, tendo com ela quatro filhos: Etéocles, Ismênia, Antígona e Polinices. In: Márioa da Gama Kury, A triologia tebana / Sófocles. 11 ed. RJ: Jorge Zahar ed.,2004. p.8-9.
04 É a última peça da Trilogia Tebana de Sófocles (a conhecida), as outras são: Édipo Rei e Édipo em Colono.
05 Evento que é relatado em drama satírico de Ésquilo (conjuntamente com Sófocles e Eurípedes formam a tríade dos poetas trágicos mais importantes da antiguidade). A peça faz parte da tetralogia: Laio, Édipo, Sete Contra Tebas, e a Esfinge.
06A simultaneidade das mortes é interpretada nos versos 165,166,167 e 196 de Antígona, e, sobretudo na maldição lançada por Édipo nos versos 1617-1620de Édipo em Colono. Clara também está no verso 636 da tragédia Sete Contra Tebas, de Ésquilo.
07 Na peça também denominado de edito, prevê que Etéocles, morto lutando pela pátria, desça cercado de honras marcias ao túmulo e leve para o seu repouso eterno tudo que só aos mortos mais ilustres se oferece; mas ao irmão... ,Polinices,..., quanto a ele foi ditado que cidadão algum se atreva a distingui-los com ritos fúnebres ou comiseração; fique insepulto o seu cadáver (versos 225 – 235), e, impõe ao transgressor a pena de apedrejamento até a morte perante o povo todo (versos 40 e 41).
08Antígona representa no pensamento de Sófocles a responsabilidade no cumprimento dos deveres familiares. Primeiro não abandona o Pai (Édipo em Colono), e, segundo leva as últimas conseqüências as suplicas de seu irmão Polinices (versos 1664-1667 em Édipo em Colono).
09 "Esta religião dos mortos parece ter sido a mais antiga entre os homens. Antes de conceber e de adorar Indra ou Zeus, o homem adorou os seus mortos; teve medo deles e dirigiu-lhes preces. Parece ser essa a origem do sentimento religioso. Foi talvez diante da morte que o homem, pela primeira vez, teve a idéia do sobrenatural e quis abarcar mais do que seus olhos humanos podiam lhe mostrar. A morte foi pois o seu primeiro mistério, colocando-o no caminho de outros mistérios. Elevou o seu pensamento do visível para o invisível, do transitório para o eterno, do humano para o divino." In: Cidade Antiga. Trad. Jean Melville. São Paulo: Ed. Martin Claret. 2005. p.26.
10 "O que unia os membros da família antiga era algo mais poderoso que o nascimento, o sentimento ou a força física: e esse poder se encontra na religião do lar e dos antepassados. A religião fez com que a família formasse um só corpo nesta e na outra vida. A família antiga seria, pois, uma associação religiosa, mais que associação natural." Ob. cit. p.45.
11"Quando a cidade começou a escrever as leis, achou esse direito já estabelecido, vivendo enraizado nos costumes, fortalecido pela unânime adesão. A cidade aceitou-o, não podendo agir de outro modo e não ousando modifica-lo senão bem mais tarde. O antigo direito não é obra de um legislador: pelo contrário, impôs-se ao legislador. Seu berço está na família. Nasceu ali espontaneamente, formado pelos antigos princípios que a constituíram. Decorreu das crenças religiosas universalmente aceitas na idade primitiva desses povos e reinando sobre a inteligência e as vontades." Ob.cit. p.93.
12Nas falas de Ismene e Creonte, como deuteragonistas da peça, são postos os valores para serem contrapostas por Antígona, temos: o machismo (e não nos esqueçamos de que somos mulheres e, por conseguinte, não poderemos enfrentar, só nós, os homens – Ismene/versos 68,69 e 70), (Não me governará jamais mulher alguma enquanto eu conservar a vida. Se fosse inevitável, mal menor seria cair vencido por um homem, escapando à triste fama de mais fraco que as mulheres! – Creonte/versos 599-600, e, 771-773; o autoritarismo (Enfim, somos mandadas por mais poderosos e só nos resta obedecer a essas ordens e até a outras inda mais desoladoras – Ismene/versos 71,72 e 73), (Devo mandar em Tebas com a vontade alheia? – Creonte/verso 836); a alienação política (Não fujo a ela; sou assim por natureza; não quero opor-me a todos os concidadãos – Ismene/versos 87 e 88), (Não devem as cidade ser de quem as rege? – Creonte/verso838).
13 "Não é possível conhecer perfeitamente um homem e o que vai no fundo de sua alma, seus sentimentos e seus pensamentos mesmos, antes de o vermos no exercício do poder, senhor das leis. Se alguém, sendo o supremo guia do Estado, não se inclina pelas decisões melhores e, ao contrário, por algum receio mantém cerrados os seus lábios, considero-o e sempre o considerarei a mais ignóbil das criaturas; e se qualquer um tiver mais consideração por um de seus amigos que pela pátria, esse homem eu desprezarei " (versos 199 – 210).
14"Na boca de diversas personagens, as mesmas palavras tomam sentidos deferentes ou opostos, porque seu valor semântico não é o mesmo na língua religiosa, jurídica, política, comum. Assim, para Antígona, nómos designa o contrário daquilo que Creonte, nas circunstâncias em que está colocado, chama também nómos. Para a jovem a palavra significa: regra religiosa; para Creonte: decreto promulgado pelo Chefe de Estado. E, de fato, o campo semântico de nómos é bastante extenso para cobrir, entre outros, um e outro sentido. A ambigüidade traduz, então, a tensão entre certos valores sentidos como inconciliáveis a despeito de sua homonímia". In: Mito e Tragédia na Grécia Antiga. Tradução de Anna Lia de Almeida Prado, Filomena Yoshie Hirata, Maria da Conceição M. Cavalcante, Bertha Halpem Gurovitz e Helio Gurovitz. São Paulo: Editora Perspectiva. 1999. p.74
15 "Contudo, os ânimos enchem-se de coragem ecdótica e acadêmica quando o termo é nómos, que, dessarte, pode ser encontrado facilmente seguido do termo "lei", entre parênteses. A proposta é simples: nómos é o termo pelo qual os gregos, que herdamos como modelos mais remotos, designavam o que hoje é a lei. (...) Sófocles parecia estar convicto de que há dois nómos, um que vem dos deuses e outro que vem da sociedade humana. E parece ainda só considerar lídimo o primeiro, como vemos na Antígona e na bela estrofe coral de Édipo Rei (863-71)... O que faz os gregos pensarem esse nómos como algo que se opõe a phýsis? A figura usada pelo poeta trágico nesses versos propõe o tempo como o grande vértice da oposição. A phýsis passa, e o nómos permanece. (...)Sófocles parece requerer para o nómos um estatuto divino, aproximando-o, agora sim, desse vasto conceito de uma lei fundada sobre uma espécie de direito natural. O que não se pode deixar jamais de considerar é que esse poeta trágico acredita na complementaridade do novo e do velho modo de relacionar-se com os deuses." In: Influência: Arte: Debates: Cultura: Direito: Oriente. São Paulo: Uninove, 2004.
16"Dessa perspectiva, caberia distinguir dois momentos - no primeiro, a lei não escrita funda a ordem humana ou a completa, e esta é, de certa forma, um reflexo daquela, e entre ambas a relação é de continuidade. Testemunhos dessa fase encontram-se em Hesíodo (Erga 276), nos círculos órficos (fr. 64), em Ésquilo (Suplicantes v. 673); em Heráclito, (fr. 114; Do Regime I, 11). Num segundo momento dá-se uma solução de continuidade, a ruptura e oposição, com superioridade para a lei não escrita, que aparece fundamentada na religião ou na moral. Ilustrações desse estágio encontram-se em Sófocles - Rei Édipo, Ájax e sobretudo Antígona (450 et sqs), em Xenofonte, Memoráveis IV, 4, 19, entre outros. Um ponto seria comum a ambos os momentos: de origem divina ou não, as leis não escritas apresentam-se com maior amplitude do que as leis escritas. Diferenciam-se sempre dos costumes, daquelas leis comuns marcadas pela relatividade uma vez que se destinam a um determinado grupo social." In: Agraphoi Nomoi. 
17 "Quando Creonte proíbe, em nome da pátria, que seja concedido ao cadáver de Polinices os rituais funerários que lhe é devido e erige uma lei, um nómospara legitimar uma decisão pessoal à qual emprestou um caráter coletivo, atrai contra si não apenas as ações de Antígona como também a cólera dos deuses, principalmente de Hades e Dioniso. A hybris de Creonte conduz à hybrisde Antígona. Impelida pela phylia à família, esta desafiará e desobedecerá as ordens de Creonte em nome do nómos e da Dike divinas. Está marcada, desse modo, a oposição entre o público e o privado, cria-se uma tensão entre o oíkose a cidade, entre o mundo divino e o mundo dos homens, entre o tempo dos deuses e o tempo dos homens. In: Sócrates e Antígona: os desobedientes. Cadernos de Atas da ANPOF. 
18 Neste plano a antinomia é tratada no que entendemos hoje como direito público. Nas falas de Hêmom (versos 785/795 e no diálogo ápice de enfrentamento com Creonte versos 836/839 ) são reveladas o que Tebas pensa, e posteriormente confirmadas na última estrofe da peça pelo Coro (que tem comopapel neste caso expressar o pensamento dos cidadãos).
19 "Agora, o coro ganhou uma nova posição: a força natural dos antagonismos se legitima e torna-se em Sófocles e Ésquilo, a partir do impetuoso coto dionisíaco, o "espectador idealizado", o sereno representante do ponto de vista geral." In: Friedrich Nietzche. Introdução á tragédia de Sófocles; apresentação à edição brasileira, tradução do alemão e notas Ernani Chaves. RJ: Jorge Zahar Ed. 2006. p.62.
20 "Tenho para mim que essa preocupação pela Justiça e essa sintonia com ditames mais altos que a mera engenharia legal ao sabor dos ventos da efémera política, essa preocupação é o critério verdadeiramente definitório do jusnaturalismo e do jusnaturalista. Antígonas sempre clamarão por Leis mais altas que os decretos arbitrários dos ditadores Creontes. O jusnaturalista está ao lado daquelas; o positivista cumpre as ordens destes. Cientificamente, Antígona não prova nada. Mas todos sentimos com o coração quem está certo." In: Problemas do Direito Natural. 
21 "Imprimindo-se na nossa semântica, na gramática fundamental das nossas percepções e declarações [sobre a justiça e a lei], a sintaxe de Antígona e Creonte e o mito em que eles se nos revelam são "universais concretos" que se transformam ao longo dos tempos." In: Antígona, trad. Miguel Serras Pereira, Lisboa: Relógio D’Água. 1995. p.168.
22 Sobre a liberdade dos antigos: "É portanto erro singular, entre todos os erros humanos, acreditar que nas cidades antigas o homem gozava de liberdade, pois não tinha sequer idéia do que fosse isso. Ele não julgava possível que houvessem direitos em face da cidade e de seus deuses." In: Fustel de Coulanges. Ob.cit. p.252.
23 "A origem dos direitos individuais do homem pode ser apontada no antigo Egito e Mesopotâmia, no terceiro milênio a.C., onde já eram previstos alguns mecanismos para a proteção individual em relação ao Estado. O Código de Hammurabi (1690 a.C.) talvez seja a primeira codificação a consagrar um rol de direitos comuns a todos os homens, tais como a vida, a propriedade, a honra, a dignidade, a família, prevendo, igualmente, a supremacia das leis em relação aos governantes. A influência filosófico-religiosa nos direitos do homem pôde ser sentida com a propagação das idéias de BUDA, basicamente sobre a igualdade de todos os homens (500 a.C). Posteriormente, já de forma mais coordenada, surgem na Grécia vários estudos sobre a necessidade da igualdade e liberdade do homem, destacando-se as previsões de participação política dos cidadãos (democracia direta de Péricles); a crença na existência de um direito natural anterior e superior às leis escritas, definida no pensamento dos sofistas e estóicos (por exemplo, na obra Antígona – 441 a.C -, Sófocles defende a existência de normas não escritas e imutáveis, superiores aos direitos escritos pelo homem). Contudo, foi o Direito romano quem estabeleceu um complexo mecanismo de interditos visando tutelar os direitos individuais em relação aos arbítrios estatais. A Lei das doze tábuas pode ser considerada a origem dos textos escritos consagradores da liberdade, da propriedade e da proteção dos direitos do cidadão." In: Direitos Humanos Fundamentais. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2000. p. 24-25.
24 Tendo Fustel de Coulanges intitulado o capítulo XVIII do Livro Terceiro assim: Da onipotência do Estado; os antigos não conheceram a liberdade individual. No qual cita vários exemplos da subjugação total das pessoas ao Estado, como: "Na história de Esparta há um fato muito admirado por Plutarco e Rousseau. Esparta acabava de sofrer a derrota de Leuctra, na qual muitos dos seus cidadãos haviam perecido. A essa notícia, os pais dos mortos tinham de mostrar alegria em público. Assim, a mãe que sabia que seu filho havia esacapado ao desastre e que iria revê-lo demonstrar pesar e chorava. E aquela que sabia que nunca mais voltaria a ver seu filho, mostrava alegria e percorria os templos agradecendo aos deuses. Avaliamos por isso qual fosse o poder do Estado que ordenava a inversão dos sentimentos naturais e era obedecido!" In: Ob.cit. p.249-250. 
25 "Quando a cidade começou a escrever suas leis, achou esse direito já estabelecido, vivendo enraizado nos costumes, fortalecido pela unânime adesão. A cidade aceitou-o, não podendo agir de outro modo e não ousando modifica-lo senão bem mais tarde. O antigo direito não é obra de um legislador: pelo contrário, impôs-se ao legislador. Seu berço está na família. Nasceu ali espontaneamente, formado pelos antigos princípios que a constituíram. Decorreu das crenças religiosas universalmente aceitas na idade primitiva desses povos e reinando sobre as inteligências e as vontades." In: Fustel de Coulanges. Ob.cit. p.93
26 "Em princípio, por ser divina, a lei era imutável. Devemos notar que nunca se revogam as leis. Podiam se fazer leis novas, mas as antigas subsistiam sempre, por mais contradição que houvesse." In: Fustel de Coulanges. Ob.cit. p.209.
27 "Seja-me concedido pelos fados compartilhar da própria santidade não só em todas as minhas palavras como em minhas ações, sem exceção, moldadas sempre nas sublimes leis originárias do alto céu divino. Somente o céu gerou as santas lei; não poderia a condição dos homens, simples mortais, falíveis, produzi-las. Jamais o oblívio as adormecerá; há um poderoso deus latente neles, eterno, imune ao perpassar do tempo." Édipo Rei, Sófocles, versos 1029 – 1040.
28 Tito Lívio, VII, 17; IX, 33, 34. 
29 Plutarco, Sólon, 25.
30 "Sófocles não é poeta da perfeita harmonia entre o divino e humano: submissão e resignação incondicionais, eis a sua doutrina." Ob.cit. p.71.
Sófocles e a Democracia em "Antígona"
Sófocles, na tragédia grega intitulada "Antígona", apresenta a oposição entre o Direito Natural (no caso da peça, Direito que provinha das crenças – deuses – e dos costumes) e o Direito Positivo (Direito imposto pelo representante do Estado). Este foi o aspecto destacado por Hegel, na sua interpretação da peça.
Acontece que o texto de "Antígona" apresenta outros aspectos de relevância para o estudo do Direito, além do que foi proposto por Hegel, mesmo que não estejam em primeiro plano.
Um desses aspectos relevantes é a questão da Democracia. Sófocles deixa evidente a importância da Democracia na Grécia Antiga, tirando-a do pequeno mundo político de Atenas e levando-a como necessidade para as outras cidades gregas; Tebas no caso.
A importância e a necessidade da Democracia no cenário político vivido por Antígona e Creonte vêm à tona nas falas de Hémon. Numa leitura superficial do texto, tem-se a sensação de que Hémon enfrenta seu pai, o rei Creonte, apenas para salvar a vida de sua prima e amada, Antígona; seria uma atitude meramente passional. Mas uma leitura mais atenta pode fazer com que o leitor tenha uma outra impressão.
Na história, os irmãos Etéocles e Polinices eram filhos do rei Édipo e, por isso, herdeiros do trono de Tebas. Polinices cerca a cidade para tomar o trono que está em poder de Etéocles e ambos morrem em combate, um pelas mãos do outro. Com a morte dos irmãos, quem assume o trono é Creonte, irmão de Jocasta - mãe e esposa de Édipo. O novo rei de Tebas faz o enterro de Etéocles com todas as honras devidas e acusa Polinices de traidor, proclamando um edito dizendo que quem o enterrasse seria morto. Por se tratar de um irmão, Antígona se rebela contra a lei positiva de Creonte e enterra o cadáver. É a partir daí que começa a disputa entre o Direito Natural e o Direito Positivo.
Creonte defende a sua posição dizendo que não poderia deixar de matar Antígona por ela ser sua sobrinha, pois as leis deveriam ser para todos. Caso contrário, ele pareceria um rei incorreto, mentiroso e injusto para a cidade. Antígona se defende dizendo que o edito está em desacordo com a vontade dos deuses e com os costumes. O profeta Tirésias tem um papel importante nesse debate pois, ao profetizar o trágico e próximo futuro de Creonte, mostra o Direito Natural sancionando o monarca por seu erro.
Mas Sófocles parece ampliar a discussão,até então restrita ao Direito Natural e Direito Positivo, quando coloca Hémon em cena. É no contexto das falas fortes do herdeiro do trono de Tebas que se encontra a importância da Democracia. No debate com Creonte, Hémon se baseia na razão. Mas, em que consiste essa razão? Consiste em ouvir outras opiniões arrazoadas, não tomar apenas a opinião própria como a única correta. Deve-se ouvir, principalmente, a opinião do povo. Creonte se apresenta numa posição de tirano, parecendo injusto para os tebanos. Hémon vem à presença de seu pai preocupado com a sorte de Antígona, mas também preocupado com a imagem do rei, que está começando a ser mal visto pela população. Em todo o seu discurso, o príncipe defende que a opinião do povo deve ser levada em consideração, não estando preocupado com a opinião dos deuses ou com os costumes.
Quando o dramaturgo grego apresenta Hémon tentando se impor perante Creonte, sem submissão, pode-se visualizar um debate entre Democracia e Tirania, no qual o príncipe apresenta argumentos mais fortes do que os do pai, mas não consegue vencer sua teimosia. Transcreve-se, aqui, alguns trechos do texto para uma melhor visualização:
"Creonte: - (...) Filho, acaso estais aqui para atacar o teu pai, sem prestares ouvido ao decreto fixado acerca de tua noiva?(...)
Hémon: - Pertenço-te meu pai. E tu, que tens nobres pensamentos, regulas os meus para eu os seguir. Na verdade, não há casamento algum que me pareça superior a ser por ti orientado.
Creonte: - Assim, meu filho, é que tu deves fazer - colocar a opinião paterna acima de tudo. (...) Por isso, meu filho, não sacudas o jugo da razão por causa do prazer com uma mulher, ciente de que se tornam frígidos amplexos, quando a companheira de leito que se tem em casa é perversa. (...) Em toda cidade, foi a ela só que eu apanhei em ato de flagrante desobediência. Não me farei passar por mentiroso perante o país. Antes vou matá-la. Sobre isto, ela bem pode invocar o deus da consangüinidade. Porque, na verdade, se eu educar os meus parentes por nascimento a serem desordeiros, mais ainda os serão os de fora. É que quem for firme com os de sua casa, parecerá justo também na cidade. (...) Mas aquele que transgredir e violar as leis ou pense mandar nos que detêm o poder, esse não alcançará elogios de minha parte. Não; aquele a quem a cidade elegeu, força é que o escutem em questões de pouca monta, nas justas como nas contrárias. Não há calamidade maior que a anarquia. (...) E aqueles que seguem caminho direito, é a obediência que salva a vida a maior parte das vezes. (...) Mais vale, quando é preciso, ser derrubado por um homem, do que sermos apodados mais fracos que mulheres.
(...)
Hémon: - Meu pai, de quantos bens os deuses outorgaram aos homens, o raciocínio é o mais excelente. Nem eu poderia nem saberia afirmar que não tens razão de falar assim. Contudo, também pode ocorrer a outro um pensamento aproveitável. Ora, é natural que eu vigie o quanto dizem ou fazem ou têm a censurar, porque teu aspecto é terrível para o homem do povo, ante aquele gênero de palavras que não te apraz ouvir. Mas a mim é-me dado escutar na sombra como a cidade lamenta essa jovem, porque, depois de ter praticado ações tão gloriosas, vai perecer de tal maneira, ela, que, de todas as mulheres, era quem menos o merecia. (...) Não tenhas pois um só modo de ver: nem só o que tu dizes está certo, e o resto não. Porque quem julga que é o único que pensa bem, ou que tem uma língua ou um espírito como mais ninguém, esse, quando posto a nu, vê-se que é oco. Se, portanto, eu posso, apesar de mais novo, apresentar uma opinião boa, direi certamente que mais vale aquele homem que por natureza é mais dotado de saber em tudo; se, porém, assim não for - pois é costume a balança não se inclinar para este lado - é belo aprender com aqueles que falam acertadamente.
(...)
Creonte: - Com que então devo aprender ter senso nesta idade, e com um homem de tão poucos anos?
Hémon: - Nada aprenderias que não fosse justo. E, se sou jovem, não são os anos, mas as ações que cumpre examinar.
Creonte: - ´As ações´ consistem então em honrar os desordeiros?
Hémon: - Nem aos outros eu mandaria ter respeito pelos perversos.
Creonte: - E então ela não foi atacada por esse mal?
Hémon: - Não é isso que afirma o povo unido de Tebas.
Creonte: - E a cidade é que vai prescrever-me o que devo ordenar?
Hémon: - Vês? Falas como se fosses uma criança.
Creonte: - É portanto a outro, e não a mim, que compete governar este país?
Hémon: - Não há Estado algum que seja pertença de um só homem.
Creonte: - Acaso não se deve entender que o Estado é de quem manda?
Hémon: - Mandarias muito bem sozinho numa terra que fosse deserta.
Creonte: - Este é um aliado da mulher ao que parece.
Hémon: - Se acaso tu és mulher, pois contigo me preocupo.
Creonte: - Pelo menos a tua argumentação era toda a favor dela.
Hémon : - E de ti e de mim, e dos deuses infernais.
(...)
Creonte: - Ah! Grande malvado! Entrando em questão com teu pai!
Hémon: - É que te vejo falhar no cumprimento da justiça.
Creonte: - É erro então ter respeito pelo meu soberano poder?
Hémon: - Não tens respeito por ele, quando calcas as honras devidas aos deuses.
(...)
Creonte: - Com lágrimas ganharás senso, tu que és oco de razão.
Hémon: - Queres falar, e, depois, não ter que ouvir.
Creonte: - Sim? Pois, pelo Olimpo, fica sabendo que não me ultrajarás com as tuas censuras impunemente. (Para os guardas) Tragam essa abjeta criatura, para que morra imediatamente diante dos olhos do noivo, e ao lado dele.
Hémon: - Não de mim com certeza, não o julgues jamais, nem ela perecerá perto de mim, nem de modo algum avistarás o meu rosto, vendo-o com os teus olhos. De forma que serás louco, sim, mas na companhia dos amigos que o queiram".
Ora, a postura democrática de Hémon é evidente. Ele percebe que o poder não faz sentido se usado isoladamente ou em desacordo com aqueles em razão de quem o poder é exercido. A Cidade (o Estado) é bem de todos e não daquele que exerce o poder de mando.
Hans Kelsen, no seu livro Teoria Geral do Direito e do Estado (2ª edição, Martins Fontes, pág. 281), afirma que "a idéia de democracia é uma síntese das idéias de liberdade e igualdade". Raymond Aron, nos seus comentários sobre Alexis de Tocqueville no livro As Etapas do Pensamento Sociológico (4ª edição, Martins Fontes, pág. 211) diz: "O primeiro termo que constitui a noção de liberdade é a ausência de arbitrariedade. Quando o poder só é exercido de acordo com as leis, os indivíduos gozam de segurança. Mas é preciso desconfiar dos homens, e como ninguém tem a virtude necessária para exercer o poder absoluto sem se corromper, é preciso não dar o poder absoluto a ninguém (...). E como todos participam da soberania, é necessário que os que exerçam o poder sejam, de certo modo, os representantes ou os delegados dos governados. Em outras palavras, é necessário que o povo, tanto quanto lhe seja materialmente possível, se governe a si mesmo". Ambas as idéias já se encontram implícitas no texto. Hémon nada mais quer que, para que Tebas não seja um reino governado pela Tirania - e para que seu pai não seja tido como um tirano -, Creonte ouça o que o povo tem a dizer. Quer que seja acatada a decisão do povo no que diz respeito à sorte de Antígona, que a escolha do povo se sobreponha à lei outorgada pelo rei. Em suma, que os tebanos tenham o que Rousseau chamou de liberdade política, que é a liberdade de participar das decisões do Estado enquanto sociedade.
A posição de Hémon é sem dúvida uma posição democrática. É a busca da Democracia verdadeira, da qual estiveram perto Atenas e Roma e que foi almejada por Rousseau. Este sábio genebrino já dizia que as leis deveriam ser criadas pelo povo. Com a queda de Roma, a humanidade se afastou por um bom período dessa posição. Mas, a partir do século XVIII, aos poucos fomos retomando a busca pela democracia e, hoje em dia, já contamos com uma vantagem que não existia no tempo de Sófocles, uma das maiores conquistas do século XX: ovoto universal. O que fica claro é que, se o Direito estiver calcado numa base democrática, então a discussão direito natural/direito positivo esvazia-se pois já estará de acordo com a religião, moral e costumes da sociedade e será um Direito instituído pelo povo para um determinado Estado.
Contudo, Hémon e Antígona morrem na peça. Creonte, por sofrer as punições dos deuses profetizadas pelo velho Tirésias, passa a temer o Direito Natural, aprendendo a conciliá-lo com o Positivo. No entanto, não dá o valor merecido às palavras de seu filho, não conseguindo entender a amplitude da importância da Democracia.
Conceitos do Direito em Antígona
A peça que sófocles escreveu há 2.500 anos atrás que exaltva a coragem de uma princesa enfrentando um rei tirano continua até hoje arrancando admiração do público ocidental e intensas indagações da crítica literária e filosófica sobre a real motivação da devotada filha de Édipo em arriscar a própria vida em nome de um príncipio.
É corrente entre os estudiosos das tragédias gregas que elas serviram, antes de ser um entreterimento, como um estímulo a grandes dicussões jurídicas, políticas, filosóficas existencias da sociedade grega e, porque não dizer da humanidade. Antígona é, nesse sentido uma das que mais longamente prestou-se às mais diversas interpretações políticas e literárias. O filoso Hegel, por exemplo, considerou-a, longe de ser apenas um enfrentamento entre dois teimosos de cabeça quente,como um modelo de choque existente entre os interesses do estado representado pelo rei Creonte, frente as leis não escritas, à ordem natural e aos direitos familiares invocados pela princesa tebana. 
A Obra possui inúmeras especifidades, a variedade de pontos de vista é a prova irrefutavel da riqueza e profundidade que se encerram nela.
Uma Reflexão sobre o Direito Positivo e o Jusnaturalismo: A Atualidade de Antígona
1. Introdução
O presente artigo tem por objetivo identificar na obra de Sófocles (496 a.C. – 406 a.C.) traços, congruências, divergências e evidências do positivismo jurídico no período Pré-Socrático salientando que o sistema de valores, crenças e dilemas que orientam a construção da ordem jurídica moderna encontram aí a sua gênese, permeada, obviamente, por toda a construção filosófica erigida desde o período clássico até a filosofia hodierna. 
A escolha da obra Antígona, terceira peça da denominada Trilogia Tebana (Édipo Rei, Édipo em Colono e Antígona) se justifica em razão do conteúdo crítico implícito na obra em relação ao dilema paradoxal entre o direito natural, ainda sob permeado pela metafísica, e o direito legislado.
Por certo, as codificações que precederam a peça de dramaturgia Antígona, tal como o Código de Hamurabi que estima-se foi idealizado em torno 1.700 a.C., poderiam ser objeto de nossa análise. No entanto, cremos que somente a partir do advento da filosofia ocidental, no século VI a.C. é que se torna possível uma análise critica das codificações.
Como paradigma da obra de Sófocles utilizaremos as teorias idealizadas por Herbert Lionel Adolphus Hart (1907 -1992 ), bem como o pensamento de Gustav Radbruch (1878 - 1949), que entendemos melhor se adequam aos nossos estudos.
2. Antígona.
Para que a proposta deste breve estudo seja alcança é necessário, primeiramente, fazer um breve escorço da obra de Sófocles focando nossa análise no dilema vivenciado pela protagonista da história, que servirá de base ao confronto das idéias dos pensadores pós-modernos.
Na peça de dramaturgia Antígona, Sófocles narra que o soberano da Cidade de Tebas, Creonte, após o período de batalhas que o levou ao trono da cidade, determina que deveriam permanecer insepultos seus inimigos. No entanto, entre aqueles que eram tidos como inimigos estava seu sobrinho, Polinice, irmão de Antígona.
Tratamento diferenciado foi dispensado ao outro irmão de Antígona, Etéocles, que por ocasião da batalha travada pelo trono de Tebas havia se aliado ao seu tio, o novo soberano, Creonte. O tratamento díspar dado aos irmãos gerou extrema insatisfação a Antígona.
Isto porque, de acordo com a tradição de Tebas, somente por meio das honras fúnebres e o do sepultamento é que se daria a transição adequada ao mundo dos mortos. Além disso, Antígona não se conformava com o fato de seu irmão Polinice permanecer insepulto, sendo seu cadáver mantido exposto em público para ser devorado pelas aves carniceiras (Sófocles, 2005, p. 06).
Não bastasse a dura pena aplicada a Polinice, Creonte proclamou que qualquer dos cidadãos tebanos que ousassem transgredir sua determinação seriam apenados com a morte, colocando Antígona diante de um dilema: submeter-se à lei do soberano, injusta e desigual, ou sujeitar-se às iras impostas pela transgressão e dar ao seu irmão as pompas fúnebres.
O dilema vivido por Antígona fica evidente no trecho extraído da obra de Sófocles onde Antígona relata a Ismênia, também sua irmã, o drama por ela vivenciado:
ISMÊNIA - Que há, pois? Tu me pareces preocupada!
Antígona - Certamente! Pois não sabes que Creonte concedeu a um de nossos irmãos e, negou a outro as honras da sepultura? Dizem que imunou a Etéocles, como era de justiça e de acordo com os ritos, assegurando-lhe um lugar condigno entre os mortos, ao passo que, quanto ao infeliz Polinice, ele proibiu aos cidadãos que encerrem seu corpo em um túmulo, e sobre estes derramem lágrimas. Quer que permaneça insepulto, sem homenagens fúnebres, e presa de aves carniceiras. Tais são as ordens que a bondade de Creonte impõe a mim, como também a ti, e, eu o afirmo: ele próprio virá a este sítio comunicá-las a quem ainda as ignore. Disso faz ele grande empenho, e ameaça, a quem quer que desobedeça, de ser apedrejado pelo povo. Tu ouvistes o que eu te disse: virá o dia que veremos se tens sentimentos nobres, ou se desmentes teu nascimento. (Sófocles, 2005, p. 06).
Ismênia mesmo diante do relato de sua irmã Antígona não se dispõe a ajudá-la no intento de dar ao irmão Polinice o sepultamento que lhe permitiria a ideal passagem para o mundo dos mortos. Mesmo diante do desprezo pelas leis da cidade impostas por Creonte, Ismênia se diz incapaz de suportar a pena cominada ao descumprimento da mesma (Sófocles, 2005, p. 09).
Diante da renitência de sua irmã, Antígona esboça a sua irresignação com o comportamento da mesma e assim se expressa:
Não insistirei mais; e, ainda que mais tarde queiras me ajudar, já não me darás prazer algum. Faze tu o que quiseres. Quanto ao meu irmão eu o sepultarei! Será um belo fim se eu morrer tendo cumprido este dever. Querida, como sempre fui, por ele, com ele repousarei no túmulo... com alguém a quem amava; e meu crime será louvado, pois o tempo que terei para agradar aos mortos, é bem mais longo que o consagrado aos vivos... Hei de jazer sob a terra eternamente!... Quanto a ti, se isto de apraz, despreza as lei divinas! (Sófocles, 2005, p. 09).
Por fim, Ismênia tenta amenizar sua culpa e o ódio de sua irmã asseverando que nada dirá a respeito do intento de sua irmã, sendo novamente repelida pela mesma, por meio de palavras que revelam o inefável propósito de Antígona em fazer o justo:
ISMÊNIA - Ao menos, não digais a ninguém o que vai fazer; guarda segredo que eu farei o mesmo
Antígona - Não! Fala! Tu me serás mais odiosa silenciado, do que se disseres a todos o que queres fazer.
Decidida a levar a cabo seu intento, Antígona, contrariando a ordem do soberano Creonte, procede ao sepultamento de seu irmão, com as honras e rituais do povo tebano, mantendo-se fiel à tradição.
Mais tarde, mensagem trazidas pelos guardas, dão conta do sepultamento de Polinice, e Creonte, enfurecido, manda buscar aquele que ousara desobedecer suas ordens. Os guardas, através dos vestígios deixados por Antígona, os quais, aliás, segundo narra a história a mesma nunca fizera questão de esconder, localizam-na e a levam diante de Creonte que a indaga sobre o ocorrido. Antígona sem hesitar declara: “Confesso o que fiz! Confesso-o claramente” (Sófocles, 2005, p. 09).
Diante da declaração de Antígona Creonteordena a execução da pena, a morte, mesmo diante das súplicas de seu Filho Hemon, noivo de Antígona, a pena capital é cumprida.
3. A atualidade do dilema vivido pela personagem.
Wayne Morrison (2006, p. 39) sintetiza as tensões vividas em Antígona, trazendo elementos que não podem ficar a par do presente estudo, dado ao paralelo deste com as correntes filosóficas que se erigiram desde então. Assim sintetiza o autor:
(i) As exigências do direito natural versus positivismo. Em sua Fenomenologia do espírito, o filósofo alemão oitocentista Hegel, interpretou a peça como uma exposição das tensões latentes da sociedade grega. A cultura grega operava com base na crença da unidade total, baseada em um estilo de vida comunitário, “natural”. Antígona, porém, recusou-se a seguir a obediência de Ismênia ao direito natural que subordinava as mulheres aos homens, e que fortalecia o direito humano das ordens de Creonte, seguindo, ao contrário, o direito divino que determinava que um membro da família devia ser sepultado por seus parentes, e que seu espírito não teria descanso enquanto isso não ocorresse. Além disso, a determinação de Creonte fazia sentido em seus próprios termos. Cada um é compelido a obedecer a uma lei e desobedecer a outra. Estava, contudo, na contramão do direito divino, portador de uma autoridade contrária, porém rigorosa, que insistia em que Polinice devia ser sepultado, e que um membro da família devia tornar-se especialmente responsável por tal tarefa. Hegel apresenta as duas exigências como inegociáveis. Antígona não é capaz de atuar com um individuo autônomo que opta por fazer uma coisa e não outra; ao contrário, ela é portadora de uma injunção que é absoluta. A tensão se dá entre a exigência social de obedecer às leis da comunidade como injunções estritas, aceitando seu status imemorial de base da verdade que enunciam, e a exigência supra-estatal de obedecer à lei de sepultar seu irmão e reconhecer a natureza sagrada da ligação familiar. Creonte está incumbido da responsabilidade de dar forma às leis da comunidade, e vê-se igualmente obrigado, enquanto homem e governante, a deixar-se guiar pelo princípio de que um inimigo do Estado não deve receber a honra de um funeral, e a punir a mulher que desobedece as suas ordens. A comunidade não dispõe dos recursos intelectuais que lhe permitiriam resolver esse conflito interno;
(ii) Um exemplo da teoria da imperatividade da norma jurídica;
(iii) Um exemplo primitivo e incipiente de desobediência civil; uma ação impossível de conceitualizar de modo bem-sucedido, uma vez que a ordem social não fornecia os recursos intelectuais que sancionassem um conceito de desobediência civil. O conceito de desobediência civil, que passou a existir durante o Iluminismo, concede a um individuo o “direito” de opor-se à parte da ordem jurídica em nome do verdadeiro espírito da ordem jurídica. Tal direito não existia para os gregos clássicos; ao contrário, o que temos são, especificamente, conjuntos opostos de “deveres”;
(iv) O dever de um indivíduo para com sua família versus seu dever para com o Estado, duas formas conflitantes e irreconciliáveis de dever que também representam os elos da sociedade civil em oposição àqueles do estado político;
(v) A irracionalidade do subjetivismo arbitrário das mulheres versus a razão fria do Estado masculino, expresso através do dever abstrato para com o direito formal;
(vi) As exigências da razão prática que enfrenta com determinação um dilema imediato versus as exigências de uma racionalidade teórica (o utilitarismo de Creonte) que se volta para uma categoria dos interesses de Estado;
(vii) Os primórdios da racionalidade individual – a subjetividade – contra a concepção de justiça que prega a obediência às regras objetivas do corpo social. Morrison (2006, p. 28)
As conclusões de Morrison (2006, p. 37) sobre a obra nos remetem diretamente ao positivismo jurídico, seu sistema e suas idiossincrasias, que podem ser relacionados e polemizados a partir da obra de Hebert Lionel Adolphus Hart (1907 -1992 ), bem como o pensamento de Gustav Radbruch (1878 - 1949).
4. UMA REFLEXÃO sobre ANTÍGONA A PARTIR DE HART.
Em primeira análise, é preciso enfatizar que Hart traz uma concepção diversa da idéia de positivismo jurídico comummente difundida, sendo este o primeiro ponto a que se ateve Morrison (2006, p. 39) em suas conclusões sobre Antígona.
Para Hart, o positivismo jurídico deve ser visto a partir de uma ótica, ainda que sutil, sociológica, onde os indivíduos encontram nas regras uma forma de concretude dos desejos e necessidades humanas, assim se aproximando ao utilitarismo Jeremy Bentham (1748-1832) e John Stuart Mill (1806-1873)
Diante desta constatação, abstrai-se da teoria de Hart a questão que suscita maiores ressalvas e críticas ao pensamento positivista, sobretudo, o critério imperativo das normas, a par de qualquer outro referencial antropológico, social e filosófico, que permita fazer a análise das regras a par de critérios como o direito, a moral e a justiça.
A mais contundente contribuição é, pelo que foi adrede mencionado, estirpar, ou ao menos dissipar, o critério sancionador presente, sobremaneira, na teoria kelsiana, de que um descumprimento de um dever está indissociavelmente ligado a uma sanção, bem como a cisão advinda do purismo em relação aos demais ramos da ciência.
As regras existem objetivamente, mas não devem ser vistas como obrigação, mas, sim, como meio de manutenção de uma sociedade organizada, onde os indivíduos aderem ao preceitos com o escopo do bem estar comum.
A concepção de Hart assim se resume:
Comandar significa, caracteristicamente, exercer autoridade sobre os homens, em vez de ter o poder de infligir danos; e, ainda que possa estar vinculado a ameaça e danos, um comando é apenas um apelo e não se temer, mas respeitar a autoridade. (HART apud MORRISON, 2006, p. 422)
Dentro da concepção de Hart, as ordens são substituídas por regras, o que permite aos cidadãos fazerem juízos de valoração, ainda que de forma superficial, sobre as posturas próprias e a posturas alheias.
Contrapondo a teoria de Hart a história de Antígona, verifica-se que a determinação do soberano Creonte não se trata e uma regra, mas, sim, de uma ordem, de caráter arbitrário que permite a sua valoração pelo cunho moral e de aceitação chamada por Hart de regra do reconhecimento.
Assim, a teoria da imperatividade da norma jurídica, segundo aspecto ressaltado nas conclusões de Morrison (2006, p. 39), deve, em Antígona, ser mitigado a par dos conceitos insertos na teoria de Hart, vez que há lugar a uma valoração de cunho moral, bem como por não estar presente o aspecto consensual de aceitação das regras, vez que os critérios postos por Creonte assumem feição de “ordem”, vinculada a uma sanção, ou seja, a possibilidade de “infligir danos”.
Esta concepção muito se aproxima do direito natural. A respeito vale, novamente, citar Morrison:
Hart,arrola as seguintes regras mínimas: (1) regras mínimas que restringem o recurso à violência; (2) regras que exigem honestidade e veracidade; (3) regras que restringem a destruição de coisas tangíveis; (4) regras que restringem o assalto dos objetos alheios (MORISSON, p. 437).
De tudo que foi dito, mormente a par das regras mínimas que restringem o recurso da violência, resta claro que o dilema vivenciado por Antígona permanece latente mesmo após de mais de vinte séculos de construção das teorias filosóficas do direito, que tem por finalidade, nada mais, do que explicar e evidenciar o próprio conceito de direito.
Ingressando na terceira constatação de Morrison (2006, p. 39), verificamos que a teoria de Hart pressupõe o trinômio: aceitação da regra, o reconhecimento da autoridade e a validade da mesma.
Para que a regra seja aceita ela deve, em primeiro lugar ser aceita pelo corpo social. Da mesma forma ela deve emanar de autoridade que o corpo social reconheça como tal. Por fim, intrinsecamente ligado aos dois aspectos anteriores, é preciso evidenciar a relação entre o autor e o destinatárioda norma.
Em Antígona nenhuma das situações se fazia presente. A “ordem” imposta violava a conduta presente no corpo social, de dar honras fúnebres e sepultamento aos mortos. Ainda que Morrison (2006, p. 37) afirme tratar de crença firmada em fatores religiosos, uma vez assimilado costume, este passa a fazer parte das regras sociais.
Por esta razão, pode-se dizer que, não obstante a obra Antígona retratar, prima facie, uma tensão entre direito positivo e o direito natural, nada impede que cheguemos também à conclusão, por um outro viés, que esta tensão se operava entre o próprio costume, dissociado de sua origem, e a lei posta por Creonte. Simplificando, o dilema que se opera entre o direito legislado (por Creonte) e o direito consuetudinário. 
Não obstante a posição de soberano de Creonte, deve ser enfatizado que, na peça da dramaturgia pré-socrática, o reconhecimento da autoridade deste era parca, principalmente quando evidenciado a natureza do conflito inter-familiar. Por fim, tratando-se de ordem, e não de regra, resta claro que a protagonista da história (destinatária da ordem), não reconhecia qualquer relação entre esta e seu autor.
Diante deste quadro, bem se afigura a insurgência de Antígona, assumindo uma postura que, nos dias de hoje, poderia ser equiparada a desobediência civil como salientado por Morrison (2006, p. 39).
No que atine a quarta objeção argumentada por Morrison (2006, p. 39), resta evidenciado com solar clareza que na teoria de Hart, dada as suas concepções primárias, Antígona não poderia preterir um direito da família, incorporado aos costumes, em detrimento de uma “ordem” do soberano, sobretudo em razão daquela anteceder a esta, mormente pelo critério da citada regra de reconhecimento, bem como a impossibilidade de aceitação do binômio dever/punição.
Quando Hart disserta sobre o conteúdo mínimo do direito natural, objetiva a caracterização de limites contra os quais a regra jurídica não pode ser estabelecida, sob pena de atentado aos caracteres formadores da natureza humana.
Isto reforça o que aqui já dissemos acerca da aproximação e da melhor conformidade entre o jusnaturalismo e o positivismo a partir da ótica de Hart, enquanto dele se distancia o pensamento kelseniano dada a robustez e o purismo que são atribuídos à norma.
5. A CORRELAÇÃO ENTRE ANTÍGONA E A TEORIA DE Radbruch.
A visão das leis a partir do critério de justiça presente em Atígona, superficialmente abarcada pelas idéias de Hart, toma vigor após a segunda grande guerra, com base na teoria defendida Gustav Radbruch (1878 - 1949 ).
O professor da Universidade de Heidelberg , inicialmente defensor do positivismo jurídico, reformulou seu pensamento e tornou-se voraz crítico desta teoria ao argumento de que a mesma havia se prestado a justificar todo o terror promovido pelo regime nazista.
Sobre a mudança no pensar de Radbruch, María Isabel Azaretto de Vásquez, bem sintetizou a respeito:
A experiência nacional socialista produz uma tal impressão nele, que o obriga a repensar seu anterior positivismo , e esta reflexão o leva a rechaçá-lo, já que vê na separação do direito e da moral a base em que se apoiou o nazismo para levar a cabo, sob a aparência de legalidade, as maiores injustiças. A formação positivista dos juízes e advogados os inabilitou para defender-se contra a legalidade injusta. Isto leva a Radbruch a sustentar que uma lei que contrarie os princípios básicos da moralidade não é direito, ainda que seja "formalmente válida" (2006). 
A citação acima posta bem ilustra a radical mudança no pensar adotado por Radbruch e, ainda que não assente raízes de forma específica na história retratada em Antígona, bem como nas teorias de Hart, não há como negar que a nova constução que será elaborada pelo mesmo aproxima as idéias contidas na obra de dramaturgia e na teoria fiolosófica positivista de Hart.
De forma suscinta, extrai-se do cerne da teoria de Radbruch:
Depois de um século de positivismo jurídico, ressurgiu com força a idéia de um direito acima das leis no qual se chega ao extremo de representar certas leis positivas como perversões jurídicas. Até que ponto a justiça exige que as normas positivas que contrastam com ela devem ser consideradas juridicamente inválidas? Até que ponto a certeza do direito pode propor a contra-exigência de que o direito codificado, a despeito de seu caráter injusto, seja considerado válido? São perguntas que já foram respondidas nos capítulos precedentes deste curso. O sentido geral dessas respostas já pode ser deduzido do fato de que se deu a este curso de filosofia do direito, no catálogo das lições um subtítulo que há muitas décadas tinha caído fora de uso: direito natural” (RADBRUCH: 1997, p. 233-234). 
Como se vê, a teoria de Radbruch não mais permite um dissociação de regras, valores, direito legislado e, sobretudo, na repercussão deste nos destinatários do direito. Não se trata de uma retorno à metafísica, ao direito divino, mas de ressalvas postas ao arbítrio do legislador e a possibilidade de valoração das normas a partir dos critérios de justiça.
Segundo Radbruch, estudar as leis à margem dos critérios éticos e morais é repugnante e poderá produzir, como ocorreu em relação ao nazismo, a legitimação de atrocidades ao homem e a humanidade.
A dissociação dos demais ramos da ciência impede, segundo Radbruch, que se avaliem as conseqüências empíricas de aplicação da norma. Afasta-se desta maneira, a possibilidade de confronto das premissas que orientaram a produção da norma com os efeitos dela decorrentes, criando uma relação fictícia de concretização do direito, visto na teoria de Radbruch, como o justo.
Em suma, na teoria pura de Kelsen a edição da norma tem por base, tão somente, a norma hipotética, e os valores morais e a ética são vistos como incompatíveis e desnecessários.
Diante disto, para que o justo se realize é preciso, de acordo com Radbruch, recobrar os valores éticos e morais, bem como reaproximar o Direito das demais ciências a fim de que, por meio de um estudo sistematizado possa ser aferido e referendado a validade ou não de uma norma jurídica, tendo por base as conseqüências que a mesma produzirá no plano concreto.
6. CONCLUSÃO.
Como podemos observar no decorrer deste singelo estudo, o pensar filosófico é cíclico. Os dilemas vividos por Antígona retornam à atualidade, as tensões constantes na obra, são restabelecidas a partir de novos debates, que ressurgem de forma aprimorada pelo processo dialético, imbuídos de outros referencias plasmados por elementos colhidos na praxis e no pensar filosófico.
Tal comprovação nos traz a certeza de que o pensar jurídico não comporta idéias e teorias isolados, imunes à críticas, que não pode ser desenvolvido exclusivamente a par da Ciência do Direito.
É neste contexto que a filosofia, e mais precisamente um de seus ramos, a epistemologia, deve estar presente no pensar jurídico, sendo esta a única forma de alcançar os meios necessários e racionais ao aprimoramento das leis e do Direito.
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