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EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA Programa de Pós-Graduação EAD UNIASSELVI-PÓS Autoria: Carolina dos Santos Maiola CENTRO UNIVERSITÁRIO LEONARDO DA VINCI Rodovia BR 470, Km 71, no 1.040, Bairro Benedito Cx. P. 191 - 89.130-000 – INDAIAL/SC Fone Fax: (47) 3281-9000/3281-9090 Reitor: Prof. Hermínio Kloch Diretor UNIASSELVI-PÓS: Prof. Carlos Fabiano Fistarol Coordenador da Pós-Graduação EAD: Prof. Ivan Tesck Equipe Multidisciplinar da Pós-Graduação EAD: Prof.ª Bárbara Pricila Franz Prof.ª Tathyane Lucas Simão Prof. Ivan Tesck Revisão de Conteúdo: Graciele Alice Carvalho Adriano Revisão Gramatical: Equipe Produção de Materiais Diagramação e Capa: Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI Copyright © UNIASSELVI 2018 Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri UNIASSELVI – Indaial. 370 M217e Maiola, Carolina dos Santos Educação integral e educação inclusiva / Carolina dos Santos Maiola. Indaial: UNIASSELVI, 2018. 129 p. : il. ISBN 978-85-69910-88-6 1.Educação. I. Centro Universitário Leonardo Da Vinci. Carolina dos Santos Maiola Mestre em Educação pela Universidade Regional de Blumenau; especialista em Psicopedagogia Institucional e Educação Especial Inclusiva. Recebeu o prêmio Mérito Universitário Catarinense em pesquisas relacionadas à inclusão de pessoas com deficiência no ensino regular. Atua como professora no atendimento educacional especializado; tutora-externa em cursos de educação a distância Uniasselvi e nos cursos de especialização em Educação Especial Inclusiva, Psicopedagogia e Gestão Escolar. Desenvolve pesquisas relacionadas à Deficiência visual, ao transtorno do espectro autista e à formação de professores. Publicou: Práticas inclusivas na escola: o que os alunos têm a dizer sobre isso?; Os dizeres dos acadêmicos com deficiência sobre o seu processo de inclusão na universidade; Das relações e dos dizeres: os sentidos de escola inclusiva para colegas e aluna com deficiência visual; A criança com paralisia cerebral e o papel do fisioterapeuta no contexto escolar; Políticas públicas em educação: um olhar sobre a diferença. Sumário APRESENTAÇÃO ....................................................................01 CAPÍTULO 1 Histórico da Educação Especial Inclusiva...........................9 CAPÍTULO 2 A Educação Inclusiva na Contemporaneidade ..................29 CAPÍTULO 3 CAPÍTULO 4 CAPÍTULO 5 O Direito à Diferença na Igualdade de Direitos: Aspectos Legais ....................................................................47 Deficiências, Transtornos e Suas Especificidades ..........71 Práticas Inclusivas na Educação Integral ......................113 APRESENTAÇÃO Caro pós-graduando, O caderno de Educação integral e educação inclusiva vem contribuir para a formação pessoal e profissional através de algumas reflexões sobre os processos inclusivos no contexto social e principalmente escolar. Entendemos que a educação promove alterações no contexto social dos alunos, da escola e da comunidade. Diante disso, faz-se necessário compreendermos melhor todo esse processo para que a nossa atuação seja mais efetiva e qualitativa. Este caderno está organizado em cinco capítulos, distribuídos de forma a auxiliar o leitor a realizar algumas reflexões, elaborar conceitos e compreender/aplicar estratégias pedagógicas inclusivas no contexto da educação integral. Diante disso, veremos no Capítulo 1 – Histórico da educação especial inclusiva – reflexões sobre os aspectos das diferenças no contexto social, a deficiência na história, o início da educação especial e o seu papel no atendimento especializado, bem como as perspectivas inclusivas através dos estudos da defectologia desenvolvidas por Vygotsky. No Capítulo 2 – A educação inclusiva na contemporaneidade – acompanharemos os primeiros passos da educação especial inclusiva no Brasil, bem como as concepções presentes nesse momento histórico até os dias atuais, marcados pela exclusão, segregação, integração e inclusão. No Capítulo 3 – O direito à diferença na igualdade de direitos, aspectos legais – estudaremos sobre os documentos norteadores da educação especial/inclusiva, bem como os avanços históricos desses materiais. Apresentaremos também, os programas e ações de apoio ao desenvolvimento inclusivo dos sistemas de ensino existentes em nosso país. O Capítulo 4 – Deficiências, transtornos e suas especificidades – explanaremos sobre as deficiências e os transtornos mais comumente presentes no contexto escolar e também analisaremos os diferentes tipos de materiais e equipamentos de acessibilidade utilizados na inclusão dessas pessoas. Finalizamos nosso estudo com o Capítulo 5 – Práticas inclusivas na educação integral – que apresenta as contribuições da educação integral para a inclusão dos alunos com deficiência, algumas reflexões sobre as práticas inclusivas no contexto escolar, bem como o estudo sobre a importância da adaptação curricular e da produção de material pedagógico adaptado. Além dos textos do caderno de estudo, você encontrará no decorrer dos capítulos, sugestões de livros, filmes, sites, bem como uma vasta opção de referências bibliográficas que ampliarão ainda mais os seus estudos sobre os temas abordados. Organize sua agenda de estudos e inicie este novo desafio! Bom trabalho! CAPÍTULO 1 Histórico da Educação Especial Inclusiva A partir da perspectiva do saber fazer, neste capítulo você terá os seguintes objetivos de aprendizagem: � Conhecer os processos históricos da deficiência no contexto social. � Identificar perspectivas inclusivas na teoria sociointeracionista de Vygotsky. � Analisar as concepções de diversidade e diferença ao longo da história. � Relacionar os estudos da defectologia com a educação especial inclusiva. 10 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA 11 Histórico da Educação Especial Inclusiva Capítulo 1 Contextualização Iniciamos nossos estudos convidando você para uma caminhada de re- flexões sobre a educação especial e as concepções de diversidade no percurso da nossa história. Você poderá perceber que a representação das pessoas com deficiência na sociedade, no decorrer dos tempos mudaram e, estas mudanças estavam muito relacionadas com o período em que ocorriam e com as concepções e expectativas sobre o ser humano que havia em cada época. A educação especial permeou grande parte dos momentos históricos com papéis característicos à época. Inicialmente, acolhendo as pessoas que eram ex- cluídas da sociedade num trabalho mais assistencialista, até a sua função mais at- ual, como mediadora do processo inclusivo nos contextos sociais e educacionais. Consideramos de fundamental importância, apresentar nesse capítulo, os estudos realizados por Vygotsky em: “Obras escogidas: estudo da defectologia”, que buscam, de forma aprofundada, esclarecedora e ainda muito atual, discutir sobre as influências que a sociedade (meio) tem sobre o desenvolvimento integral da pessoa com deficiência. Para Vygotsky, era essencial que todas as pessoas tivessem qualidade nas interações; e estas só poderiam ocorrer quando a diversi- dade humana e de experiências estivesse presente. O Olhar Sobre as Diferenças no Contexto Social A escola prepara o futuro e, de certo que, se as crianças aprendem a valorizar e a conviver com as diferenças nas salas de aulas, serão adultos bem diferentes de nós, que temos de nos empenhar tanto para entender e viver a experiência da inclusão! (MANTOAN, 2003, p. 91). Conhecer um pouco mais sobre a educação especial inclusivarequer que se retome algumas questões a essa temática. Historicamente, pode-se perceber que a escola se caracterizou por um espaço que, por muito tempo, delimitava a escolarização como privilégio de um grupo, excluindo indivíduos considerados fora dos padrões homogeneizadores; apresentando assim, características de segregação e seleção dos mais aptos para estarem nesse espaço. Outrossim, aquele que era considerado diferente e que fugia do padrão considerado normal, não deveria estar junto dos demais. 12 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA Diante disso, você já parou para analisar sobre o que é ser diferente? O conceito de diferença pode ser analisado sobre várias perspectivas presentes nas práticas sociais e também alguns “marcadores”, como gênero, classe social, características físicas, intelectuais, culturais e suas respectivas conotações. A diferença também pode ser construída negativamente, por meio da exclusão ou da marginalização daquelas pessoas que são definidas como “outros”. Por outro lado, pode ser celebrada como fonte de diversidade, heterogeneidade e hibridismo, sendo vista como enriquecedora (SILVA, 2003). O conceito de diferença pode ser analisado sobre várias perspectivas presentes nas práticas sociais e também alguns “marcadores”, como gênero, classe social, características físicas, intelectuais, culturais e suas respectivas conotações. Estas pessoas costumam ser percebidas pelo que foge ao padrão, tanto no que falta, quanto no que necessitam em questão de assistência e adaptações. Figura 1 – Diferença Fonte: Disponível em: <https://br.pinterest.com/pin/550635491920698774/>. Acesso em: 13 dez. 2017. Além da definição de “diferente”, considera-se que a definição de “deficiência” também seja construída socialmente, por meio da qual, atribui-se a uma pessoa qualidades negativas. Beyer (2006) concorda com esta informação e acrescenta que a deficiência pode ser culturalmente elaborada através de um processo de atribuição das expectativas sociais, por meio de normas, preconceitos e valores presentes na interação entre os que definem e os que são definidos. No caso das pessoas com deficiência, suas diferenças se exaltam e respondem na forma de preconceitos que menosprezam suas potencialidades. Estas pessoas costumam ser percebidas pelo que foge ao padrão, tanto no que falta, quanto no que necessitam em questão de assistência e adaptações. 13 Histórico da Educação Especial Inclusiva Capítulo 1 Se você gostou dessa temática sobre diversidade e diferença, sugerimos a obra da autora Rosita Edler Carvalho: Escola inclusiva: a reorganização do trabalho pedagógico, Mediação, 2008. Figura 2 – Escola inclusiva: a reorganização do trabalho pedagógico Fonte: Disponível em: <https://www.editoramediacao.com.br/livro/escola-inclusiva/6/148>. Acesso em: 13 dez. 2017. Para ilustrar nossos estudos até o momento, sugerimos o filme “Sempre Amigos” (1998). Nele, você poderá conhecer a história de um garoto com problemas de aprendizagem, que passa a encarar melhor os preconceitos a sua volta quando conhece o novo vizinho, que tem uma doença que o impede de se locomover. Juntos, os garotos vivem grandes aventuras, superando as expectativas de suas famílias e escolas, mostrando que o diferente une, constrói e permite inovadoras e significativas relações. 14 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA Figura 3 – Sempre amigos Fonte: Disponível em: <http://www.eovideolevou.com.br/detalhe/completo.asp?cp=39561>. Acesso em: 13 dez. 2017. Com as políticas de educação especial, surge o consenso de que as diferenças não podem continuar a serem vistas como meros desvios de norma ou resultado de comparação entre as pessoas. Conforme Veer e Valsiner (1999), Vygotsky sugere que o ser humano, antes de ser definido comparativamente, deveria ser reconhecido como detentor de identidade única, o que anularia as relações binárias do tipo normal/anormal, mais inteligente/menos inteligente, melhor/pior, entre outras. Com as políticas de educação especial, surge o consenso de que as diferenças não podem continuar a serem vistas como meros desvios de norma ou resultado de comparação entre as pessoas. 15 Histórico da Educação Especial Inclusiva Capítulo 1 Figura 4 – Diversidade Fonte: Disponível em: <https://br.pinterest.com/pin/45176802492376006/>. Acesso: 18 out. 2017. Para Maiola (2016), é importante que se constate que a educação deva se desvincular de uma pedagogia indiferente às diferenças, passando a possibilitar relações com a diversidade. É neste contexto que emerge a necessidade de uma pedagogia inclusiva, em que tanto seja discutida a diferença da pessoa com deficiência quanto a de cada indivíduo como ser único, bem como seja levado em conta esse sujeito; enfatizando assim as possibilidades pedagógicas que contemplem esta diversidade humana em sala de aula. Dentro desta proposta, o papel do professor também toma novas perspectivas, pois, para mediar um grupo tão diversificado, é preciso rever conhecimentos sobre desenvolvimento humano, aprendizagem e como intervir diante das múltiplas facetas da inteligência. É preciso, também, ver o indivíduo em sua totalidade; complexidade; potencialidade; como indivíduo ativo; cheio de emoções, desejos e sonhos; como alguém fazendo história; que deseja ser visto, escutado, entendido e, até mesmo, provocado. Todos são diferentes: pensam, aprendem, entendem e veem de forma diferente, porque também têm emoções e histórias diferentes (MAIOLA, 2016). É sobre esta diversidade humana que o professor age ou com a qual interage. Por esta razão, questiona-se o motivo pelo qual se deva resistir ao diferente, uma vez que se lida com as diferenças no dia a dia. É preciso, também, ver o indivíduo em sua totalidade; complexidade; potencialidade. 16 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA Atividade de Estudos: 1) Você já vivenciou ou presenciou alguma situação em que as diferenças foram evidenciadas? Elas aconteceram de forma positiva ou negativa? Como você se sentiu diante desse cenário? Faça um breve registro sobre esse acontecimento, relatando os sentimentos envolvidos neste momento. ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ A Deficiência na História Para que se possa compreender os processos de inclusão nos dias atuais, faz-se necessário conhecer um pouco sobre os caminhos percorridos pelas pessoas com deficiência nas últimas décadas. Os termos utilizados para denominar a pessoa com deficiência vão se modificando com o passar do tempo. Para que se acompanhe todo o processo de construção desse sujeito no contexto social e escolar, optou-se por manter os termos utilizados em cada época descrita, até se chegar às concepções utilizadas atualmente. Os nomes dados, de acordo com o período histórico, mostram também como as pessoas eram concebidas naquela época. Adiante, um breve recorte dessa trajetória. Pode-se observar que a pessoa com deficiência na história mundial, vivenciou dois tipos de tratamento: a rejeição e a eliminação de um lado; e a proteção assistencialista e a piedosa, de outro. Na Roma Antiga, as famílias tinham permissão de sacrificar os filhos que nascessem com alguma deficiência. Em Esparta, as pessoas eram lançadas ao mar ou em precipícios. A pessoacom deficiência na história mundial, vivenciou dois tipos de tratamento: a rejeição e a eliminação de um lado; e a proteção assistencialista e a piedosa, de outro. 17 Histórico da Educação Especial Inclusiva Capítulo 1 De acordo com registros existentes, de fato, o pai de qualquer recém-nascido das famílias conhecidas como homoio (ou seja, “os iguais”) deveria apresentar seu filho a um Conselho de Espartanos, independentemente da deficiência ou não. Se esta comissão de sábios avaliasse que o bebê era normal e forte, ele era devolvido ao pai, que tinha a obrigação de cuidá- lo até os sete anos; depois, o Estado tomava para si esta responsabilidade e dirigia a educação da criança para a arte de guerrear. No entanto, se a criança parecia “feia, disforme e franzina”, indicando algum tipo de limitação física, os anciãos ficavam com a criança e, em nome do Estado, a levavam para um local conhecido como Apothetai (que significa “depósitos”). Tratava-se de um abismo onde a criança era jogada, “pois tinham a opinião de que não era bom nem para a criança nem para a república que ela vivesse, visto que, desde o nascimento, não se mostrava bem constituída para ser forte, sã e rija durante toda a vida” (LICURGO DE PLUTARCO apud SILVA, 1987, p. 105). Diante do exposto, pode-se perceber que o processo de classificação entre pessoas hábeis ou não hábeis era algo naturalizado para a época, e se não “servissem” à sociedade, eram excluídas de forma definitiva. Atualmente, essa prática parece cruel e repugnante, no entanto, deve ser entendida de acordo com a realidade histórica e social da época. Para eles, a expectativa era de se criar sujeitos perfeitos para que se tornassem guerreiros. Ainda, há relatos de civilizações que utilizavam comercialmente as pessoas com deficiência para fins de prostituição ou entretenimento. [...] cegos, surdos, deficientes mentais, deficientes físicos e outros tipos de pessoas nascidas com má formação eram também, de quando em quando, ligados a casas comerciais, tavernas e bordéis; bem como a atividades dos circos romanos, para serviços simples e às vezes humilhantes (SILVA, 1987, p. 130). Percebe-se a exposição das pessoas que eram consideradas como “fora do padrão de normalidade”, caracterizados como seres “bizarros” e que diante disso, serviam como atração para divertimento dos demais. 18 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA Figura 5 – Trabalho em circo Fonte: Disponível em: <https://www.obaoba.com.br/filmes-e-series/noticia/conheca-mais- sobre-o-circo-dos-horrores-aposta-do-seriado-american-horror-story>. Acesso em: 13 dez. 2017. Com a vinda do cristianismo, algumas mudanças sobre como as pessoas com deficiência eram vistas mudaram. O próprio conteúdo da doutrina cristã, voltado para a caridade e amor ao próximo, deu respaldo à vida daqueles que ficavam às margens da sociedade. Diante disso, criaram-se hospitais e instituições de caridade voltados ao atendimento dessa demanda (SILVA, 1987). Na Idade Média, as incapacidades físicas, problemas mentais e malformações eram considerados “castigos de Deus” e, nessa mesma época, a própria igreja, que antes propunha a caridade, passa a rejeitá- los por fugirem do “padrão de normalidade” (SILVA, 1987). O período do Renascimento marca uma fase mais esclarecida da humanidade, principalmente com a criação dos direitos reconhecidos como universais, numa filosofia humanista, bem como a realização de avanços na ciência que viabilizaram um olhar mais clínico à pessoa com deficiência. Assim, passa-se a ter uma atenção mais direcionada e constroem-se espaços de atendimento específico para essas pessoas. O período do Renascimento marca uma fase mais esclarecida da humanidade, principalmente com a criação dos direitos reconhecidos como universais, numa filosofia humanista, bem como a realização de avanços na ciência que viabilizaram um olhar mais clínico à pessoa com deficiência. 19 Histórico da Educação Especial Inclusiva Capítulo 1 Figura 6 – Renascimento Fonte: Disponível em: <https://daytodayforever.files.wordpress.com/2013/07/ambroise_ pare.jpg?w=445&h=300>. Acesso em: 13 dez. 2017. Beyer (2006) relata que as primeiras tentativas de se educar crianças com deficiência se baseavam na ideia de que elas apresentavam uma significativa limitação na aprendizagem, impedindo que houvessem avanços no seu desenvolvimento. Sua situação requeria apenas os cuidados da medicina. Somente com o surgimento das escolas especiais, as crianças com deficiência obtiveram a chance de poder frequentar um espaço educacional. Elas foram importantes historicamente, mas uma solução transitória. A longa existência e prática de segregação escolar reforçou a ideia de que não se poderia educar a pessoa com deficiência em outro lugar, a não ser nas escolas especiais, considerando esse espaço o melhor ou mais apropriado para eles. Somente com o surgimento das escolas especiais, as crianças com deficiência obtiveram a chance de poder frequentar um espaço educacional. Elas foram importantes historicamente, mas uma solução transitória. Atividade de Estudos: 1) Quais as suas impressões sobre o processo histórico da pessoa com deficiência apresentado até o momento? Percebeu algum tipo de mudança? Qual? ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ 20 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA A Educação Especial A escola sempre desejou simplificar o que era complexo no que diz respeito à condição humana e, por isso, selecionava o que era de sua responsabilidade e o que não cabia em suas abordagens educacionais (BLEIDICK, 1981, apud BEYER, 2006). Para isso, criava-se espaços educacionais que separavam aqueles que não cabiam nos padrões estabelecidos pela escola, dando origem a novos parâmetros de desenvolvimento e concepções de seres humanos, para atender às disparidades excluídas das instituições anteriores. Figura 7 – Educação especial Fonte: Disponível em: <http://bomjesus.br/niveis-de-ensino/educacao-especial.vm>. Aces- so em: 13 dez. 2017. Por isso, criaram-se instituições de acolhimento às pessoas que não se enquadravam no modelo estabelecido pelas escolas, as quais viam nesses espaços a possibilidade de integração social, mesmo que agrupadas a partir de uma característica ou condição clínica. 21 Histórico da Educação Especial Inclusiva Capítulo 1 Atividade de Estudos: 1) Você conhece algum espaço educacional na sua cidade ou região que realiza esse tipo de atendimento, voltado apenas às pessoas com deficiência? Faça seu registro. ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ Para Vygotsky (1997), a dificuldade encontrada nas escolas especiais consiste na limitação de acesso ao horizonte social das crianças com deficiência, enquanto estas precisariam da convivência com crianças com condições cognitivas e socioafetivas diferenciadas dos seus. Beyer (2006, p. 14) ainda questiona: “As escolas especiais são de fato as escolas certas para crianças com necessidades especiais?”. E explica seu posicionamento: O desafio é construir e por em prática no ambiente uma pedagogia que consiga ser comum ou válida para todos os alunos da classeescolar, porém capaz de atender aos alunos cujas situações pessoais ou características de aprendizagem requeiram uma pedagogia diferenciada. Tudo isso sem demarcações, preconceitos ou atitudes nutridoras dos indesejados estigmas. Ao contrário, pondo em andamento, na comunidade escolar, uma conscientização crescente dos direitos de cada um (BEYER, 2006, p. 76). Veja que há mais de 80 anos, Vygotsky já vislumbrava uma perspectiva que iria além do atendimento às pessoas com deficiência em escolas especiais. Diante dos seus estudos sobre o desenvolvimento humano e seus processos de aprendizagem, já conotava uma grande inclinação para os processos inclusivos. Conheça um pouco mais sobre este teórico e sua principal obra direcionada às pessoas com deficiência a seguir. 22 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA Vygotsky e os Fundamentos da Defectologia Vygotsky (1997) deixou uma contribuição significativa no que se refere à educação especial, nos chamados fundamentos da defectologia, presentes num conjunto de obras intituladas “Obras escogidas”, traduzidas para o espanhol, e que aborda os aspectos da deficiência e das interações dos sujeitos com o meio. O termo defectologia era utilizado para a ciência que estudava as crianças com vários tipos de problemas (defeitos), tanto intelectuais quanto físicos. Dentre as crianças estudadas, estavam os surdos- mudos, atualmente classificados somente como surdos, cegos, não educáveis e deficientes mentais, hoje, deficientes intelectuais. Veer e Valsiner (1999) apontam que o interesse de Vygotsky por problemas de defectologia tornou-se evidente em 1924, com sua primeira publicação nessa área, na qual relatava os trabalhos que estava realizando no subdepartamento de educação de crianças defeituosas no Narkompros, academia russa de ciências. Assim, a partir de 1924, Vygotsky tentou formular sua própria visão da criança “defeituosa”, tarefa que nunca foi completada e prosseguiu até sua morte, em 1934. O termo defectologia era utilizado para a ciência que estudava as crianças com vários tipos de problemas (defeitos), tanto intelectuais quanto físicos. Você deve ter achado estranho a utilização do termo “crianças defeituosas”, não é mesmo? Porém, esta era uma referência muito comum utilizada na época para denominar as pessoas com deficiência. Os termos foram evoluindo com o passar dos tempos. 23 Histórico da Educação Especial Inclusiva Capítulo 1 Figura 8 – Obras escogidas – fundamentos de defectologia Fonte: Disponível em: <https://goo.gl/Ug2eS2>. Acesso em: 3 jan. 2018. Vygotsky (1997) distinguia dois tipos de deficiência: primária e secundária. A deficiência primária era compreendida como biológica, relacionada a lesões orgânicas, lesões cerebrais, malformações, alterações cromossômicas, ou seja, características físicas apresentadas pelo sujeito. A deficiência secundária, compreendia o desenvolvimento do sujeito com essas características (orgânicas), com base nas interações sociais, ou seja, derivada do isolamento das relações sociais e culturais características do entorno em que cada sujeito se insere. [...] uma educação ideal só é possível com base em um ambiente social orientado de modo adequado e que os problemas essenciais da educação só podem ser resolvidos depois de solucionada a questão social em toda a sua plenitude. Dai deriva também a conclusão de que o material humano possui uma infinita plasticidade se o meio social estiver organizado de forma correta. Tudo pode ser educado e reeducado no ser humano por meio da influência social correspondente. A própria personalidade não deve ser entendida como uma forma acabada, mas como uma forma dinâmica de interação que flui permanentemente entre o organismo e o meio (VYGOTSKY, 1997, p. 200). 24 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA Com base nessa capacidade plástica citada por Vygotsky (1997), pode-se compreender que um indivíduo com limitações físicas ou intelectuais pode modificar seus estados a partir de estímulos externos e refinar suas capacidades já desenvolvidas, de modo a ressaltar, preferencialmente, o que cada sujeito tem de melhor para oferecer ao seu meio e a si mesmo. Um indivíduo com limitações físicas ou intelectuais pode modificar seus estados a partir de estímulos externos e refinar suas capacidades já desenvolvidas. Vygotsky (1997) enfatizava a importância da educação social de crianças deficientes e o potencial da criança para o desenvolvimento normal. Figura 9 – Estimulação precoce Fonte: Disponível em: <http://leandrafono.blogspot.com.br/2012/04/estimulacao-pre- coce-e-linguagem-em.html>. Acesso em: 13 dez. 2017. Em seus escritos, Vygotsky (1997) enfatizava a importância da educação social de crianças deficientes e o potencial da criança para o desenvolvimento normal. Afirmava que as deficiências corporais afetavam suas relações sociais, e não suas interações diretas com o ambiente físico, ou seja, o defeito orgânico manifestava-se devido à situação social da criança. Assim, as pessoas que faziam parte do seu meio o tratariam de maneira diferente das demais, de um modo positivo ou negativo (MAIOLA, 2016). 25 Histórico da Educação Especial Inclusiva Capítulo 1 Vygotsky (1997) considerava que os problemas de crianças com deficiência resultavam de falta de adequação entre sua organização psicofisiológica desviante e os meios culturais disponíveis. Sendo assim, a educação social, baseada na compensação social dos problemas físicos, era a maneira de proporcionar uma vida satisfatória às pessoas com deficiência. Por isso, defendia uma escola que integrasse, tanto quanto fosse possível, todas as crianças na sociedade para que aquelas com deficiência tivessem a oportunidade de conviver junto com pessoas sem deficiência. Ao enfatizar que grande parte das crianças com deficiência era “normal” e tinha potencialidade para se desenvolver normalmente, Vygotsky reivindicou que os muros das escolas especiais fossem derrubados e que essas crianças participassem da vida escolar comum a todos. O teórico opunha-se a todos os procedimentos diagnósticos que fossem baseados em uma abordagem puramente quantitativa, lembrando que na época dos seus estudos, havia uma valorização aos testes de Quociente de Inteligência (QI). Vygotsky (1997) considerava que os problemas de crianças com deficiência resultavam de falta de adequação entre sua organização psicofisiológica desviante e os meios culturais disponíveis. Atividade de Estudos: 1) Você percebeu que, em nossos estudos, muitas ideias de Vygotsky contribuem para uma perspectiva inclusiva da pessoa com deficiência. Retome o texto e pontue algumas dessas ideias. ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ Outra contribuição dos escritos de Vygotsky (1997) refere-se à ideia de grupos de níveis mistos como condição de promover o desenvolvimento do indivíduo. Diferentemente das práticas segregacionistas da época, em que a pessoa com deficiência permanecia agrupada com pessoas que tivessem o mesmo tipo de deficiência que ela. 26 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA Em seus estudos, concluiu que as pessoas com deficiência encontravam como suporte para o seu desenvolvimento, ações recíprocas sociais com outras pessoas que estivessem em um nível superior a elas próprias. Esta ideia antecipao conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal, da forma como ela é tradicionalmente compreendido. Você se recorda do conceito de zona de desenvolvimento proximal proposta por Vygotsky? Ele define que a zona de desenvolvimento proximal da criança é a distância entre seu desenvolvimento real, determinado com a ajuda de tarefas solucionadas de forma independente, e o nível de seu desenvolvimento potencial, determinado com a ajuda de tarefas solucionadas pela criança com a orientação de adultos e em cooperação com seus colegas mais capazes (VEER; VALSINER, 1999). Em linhas gerais, pode-se dizer que, para Vygotsky, não bastava conhecer o desempenho cognitivo atual da criança, mas dar importância à qualidade da mediação dada a ela, e avaliar o desempenho posterior. Nas palavras do teórico, importante seria conhecer a possibilidade de dilatamento intelectual que a criança apresenta, antes de concluir meramente sobre suas capacidades. Para Vygotsky, não bastava conhecer o desempenho cognitivo atual da criança, mas dar importância à qualidade da mediação dada a ela, e avaliar o desempenho posterior. Atividade de Estudos: 1) Qual a contribuição dos estudos sobre a zona de desenvolvimento proximal nos processos de aprendizagem dos alunos com deficiência? ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ 27 Histórico da Educação Especial Inclusiva Capítulo 1 Algumas Considerações No primeiro capítulo do nosso caderno de estudos, pudemos acompanhar os caminhos percorridos pelas pessoas com deficiência em vários momentos históricos na nossa sociedade. As concepções sobre diversidade e diferença, bem como a forma de compreender o indivíduo na sua particularidade, com habilidades e limitações passaram por modificações no decorrer dos tempos. Vimos, em nosso texto, que a sociedade vivenciou movimentos de exclusão social, nos quais só os considerados normais poderiam ter seu espaço, bem como direitos e deveres. As pessoas com deficiência eram invisíveis nesse cenário. A educação especial teve papel fundamental nesse primeiro momento de acolhimento às pessoas com deficiência. Essas instituições oportunizavam a socialização dessa demanda, permitindo que estes conhecessem novos espaços e novas experiências, mesmo que ainda em contextos limitados Foi através dos escritos de Vygotsky na obra “Defectologia”, que novas perspectivas sobre as pessoas com deficiência se fizeram presentes. Para o teórico, era através da interação com o outro, na riqueza de estímulos e, pela diversidade humana, que as pessoas se desenvolviam e aprendiam. E que as pessoas com deficiência teriam muito mais avanços se estivessem envolvidos nesses espaços. Até hoje, as ideias de Vygotsky são amplamente estudadas e fundamentam os trabalhos desenvolvidos dentro das políticas de educação inclusiva. Referências BEYER, Hugo Otto. Inclusão e avaliação na escola: de alunos com necessi- dades educacionais especiais. Porto Alegre: Mediação, 2006.127p. MAIOLA, Carolina dos S. Práticas inclusivas para formação de professores. Indaial: Uniasselvi, 2016. MANTOAN, Maria Teresa Egler. Inclusão escolar: o que é? por quê? como fazer? 2. ed. São Paulo: Moderna, 2003. SILVA, Tomás Tadeu. Documentos de identidade: uma introdução as teorias do currículo. Belo Horizonte: Autêntica, 2003. SILVA, Otto Marques. Epopéia ignorada: a história da pessoa deficiente no mun- do de ontem e de hoje. São Paulo: Cedas, 1987. VEER, Rene Van der; VALSINER, Jaan. Vygotsky: uma síntese. 3. ed. Tradução Cecília C. Bartalotti. São Paulo: Loyola, 1999. VYGOTSKY, Lev Semenovich. Obras escogidas V: fundamentos de defectologia. Madrid: Visor, 1997. 28 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA CAPÍTULO 2 A Educação Inclusiva na Contemporaneidade A partir da perspectiva do saber fazer, neste capítulo você terá os seguintes objetivos de aprendizagem: � Compreender as concepções de exclusão, segregação, integração e inclusão da pessoa com deficiência no contexto social e escolar. � Conhecer as perspectivas da educação inclusiva. � Analisar a trajetória de educação especial/inclusiva no Brasil e no mundo. � Avaliar as concepções de exclusão, segregação, integração e inclusão escolar. 30 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA 31 A Educação Inclusiva na Contemporaneidade Capítulo 2 Contextualização No capítulo anterior, acompanhamos os momentos históricos da deficiência no contexto social, as concepções de diversidade, diferença e os estudos pioneiros na educação especial, a partir das ideias de Vygotsky na obra intitulada “Defectologia” (1983) (estudo do defeito). Avançaremos no Capítulo 2, no qual trataremos sobre a trajetória da educação especial, principalmente em nosso país, as contribuições desse trabalho nas discussões sobre deficiência e educação, as instituições precursoras dessa nova modalidade de ensino, bem como os movimentos de inclusão que começam a acontecer na sociedade e nas instituições escolares. Nesse contexto, você irá identificar as concepções de exclusão, segregação, integração e inclusão, podendo analisar todos esses momentos, que ainda estão presentes no nosso dia a dia. A Educação Especial Inclusiva No Brasil Estar junto é se aglomerar com pessoas que não conhecemos. Inclusão é estar com, é interagir com o outro (MANTOAN, 2003, p. 26). No Brasil, o atendimento a pessoas com deficiência iniciou na época do Império, com a criação do Imperial Instituto dos Meninos Cegos, em 1854, atual Instituto Benjamin Constant (IBC), e o Instituto dos Surdos-Mudos, em 1857, conhecido como Instituto Nacional da Educação dos Surdos (INES), ambos no Rio de Janeiro. 32 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA Figura 10 – Instituto Benjamim Constant Fonte: Disponível em: <www.ibc.org.br>. Acesso em: 13 dez. 2017. Figura 11 – Ines Fonte: Disponível em: <https://chpenhanews.wordpress.com/2012/02/17/forum-permanen- te-de-educacao-linguagem-e-surdez-em-2012/>. Acesso em: 13 dez. 2017. 33 A Educação Inclusiva na Contemporaneidade Capítulo 2 Atividade de Estudos: 1) Convidamos você para acessar o site do Instituto Benjamin Constant <www.ibc.gov.br> e acompanhar as principais atividades e projetos desenvolvidos ainda hoje nessa instituição. Registre aqui os programas de atendimento, os centros de estudos e os trabalhos realizados na educação básica. ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ___________________________________________________ ____________________________________________________ No início do século XX, fundou-se o Instituto Pestalozzi (1926), cujo atendimento estava direcionado às pessoas com deficiência intelectual; em 1954, foi fundada a primeira Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE); e, em 1945, foi criado o primeiro atendimento educacional especializado às pessoas com superdotação na Sociedade Pestalozzi, por Helena Antipoff. Em 1954, foi fundada a primeira Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE). Figura 12 – Instituto Pestalozzi Fonte: Disponível em: <http://pt.slideshare.net/bernardoalves967/303-o-inclusiva>. Acesso em: 13 dez. 2017. 34EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA Figura 13 – Primeira Apae do Brasil Fonte: Disponível em: <http://niteroi.apaebrasil.org.br/artigo.phtml/23740>. Acesso em: 13 dez. 2017. Figura 14 – Helena Antipoff Fonte: Disponível em: <http://www.pestalozzi.org.br/historia.html>. Acesso em: 13 dez. 2017. 35 A Educação Inclusiva na Contemporaneidade Capítulo 2 Para ilustrar nosso estudo, deixamos como sugestão o documentário: Do luto à luta. O título expressa a passagem do sentimento de perda para o de afirmação da vida, que nem todos os pais de crianças com Síndrome de Down conseguem fazer, e que Mocarzel fez. É um filme corajoso e comovente, e que lança um novo olhar sobre a síndrome de Down. Figura 15 – Documentário: do Luto à Luta Fonte: Disponível em: <http://tvbrasil.ebc.com.br/programadecinema/episodio/do-luto-a- luta-1>. Acesso em: 13 dez. 2017. Com o passar dos anos, novas escolas de educação especial foram criadas, com base nessas instituições de referência. Demarcando assim, um período histórico até então caracterizado pela exclusão, para um momento de inserção do sujeito com deficiência na escolarização, mesmo que ainda segregacionista. A educação especial também foi marcada pelo atendimento em salas de recursos. Estas salas ficavam na instituição escolar, porém, separadas das salas de ensino comum. O aluno com deficiência tinha suas aulas nestes espaços, junto de alunos com o mesmo tipo de deficiência, como se fossem “salas especiais”. Novas escolas de educação especial foram criadas, com base nessas instituições de referência. 36 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA Figura 16 – Sala de recurso Fonte: Disponível em: <http://www.dgabc.com.br/Noticia/512226/o-mundo-em-libras>. Acesso em: 13 dez. 2017. É importante salientar que a sala de recurso descrita não é a mesma que a atual sala de recurso multifuncional. A proposta da sala de recurso é a escolarização de alunos com o mesmo tipo de deficiência em uma mesma sala (dentro da escola regular), atendidos por um educador especial. Essas aulas acontecem todos os dias, cumprindo a carga horária escolar. Diferentemente da atual sala de recurso multifuncional, que consiste num serviço de atendimento realizado no contraturno das aulas do aluno, em que ele irá receber o suporte para as suas necessidades específicas. Em 2007, foi lançado o Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE) e dentre os eixos norteadores do trabalho, o documento sugere a oferta de formação de professores para a educação especial e a implantação de salas de recursos multifuncionais nas redes de ensino comum. Nestas salas, os professores de educação especial realizariam o atendimento educacional especializado, no contraturno das aulas, de modo a complementar ou suplementar a escolarização. O detalhamento desse trabalho é apresentado posteriormente no documento que embasará a educação especial pelos próximos anos, conhecido como Política de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, que será visto no decorrer dos estudos (MAIOLA, 2016). 37 A Educação Inclusiva na Contemporaneidade Capítulo 2 Concepção de Exclusão, Segregação, Integração e Inclusão Conforme Beyer (2006), até o momento, pode-se perceber em relação à trajetória da educação especial no Brasil, quatro momentos históricos da pessoa com deficiência: a exclusão do sistema escolar, atendimento especial, integração no sistema escolar regular, e inclusão no sistema escolar, demonstrados da seguinte forma: Figura 17 – Momentos históricos da pessoa com deficiência Fonte: Disponível em: <http://umanjoazulentrenos.blogspot.com.br/2013/11/a-indu- stria-da-exclusao-escolar.html>. Acesso em: 13 dez. 2017. Na exclusão as pessoas com deficiência eram ignoradas, rejeitadas, perseguidas e exploradas, pois não havia nenhuma forma de atenção educacional dada a elas (SASSAKI,1997). Figura 18 – Exclusão Fonte: Disponível em: <http://umanjoazulentrenos.blogspot.com.br/2013/11/a-indu- stria-da-exclusao-escolar.html>. Acesso em: 13 dez. 2017. 38 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA Figura 19 – Exclusão Fonte: Disponível em: <http://www.liga.ufc.br/?p=1139>. Acesso em: 13 dez. 2017. Na segregação, buscou-se o desenvolvimento educacional das pessoas com deficiência através do atendimento educacional que era oferecido geralmente nas chamadas instituições especializadas, surgindo assim, as escolas especiais. Figura 20 – Escola especial Fonte: Disponível em: <http://posglobal.com.br/educacao-especial-e-inclusao/>. Acesso em: 13 dez. 2017. A integração, de acordo com Sassaki (1997), é identificada no momento que acontece a proliferação das classes especiais nas escolas de ensino regular. Essas salas se baseavam na compreensão de que, separados dos alunos sem deficiência em salas à parte, os alunos com deficiência não atrapalhariam o ensino dos demais. 39 A Educação Inclusiva na Contemporaneidade Capítulo 2 Figura 21 – Sala de recurso para surdos Fonte: Disponível em: <http://escolasbilingueparasurdodobrasil.blogspot.com.br/2012/12/ sala-de-aula.html>. Acesso em: 13 dez. 2017. Na inclusão, os alunos com deficiência devem ser matriculados diretamente no ensino regular, cabendo à instituição se adaptar para atender às suas necessidades no contexto escolar. Figura 22 – Inclusão escolar Fonte: Disponível em: <https://novaescola.org.br/conteudo/3436/boas-praticas-de-inclu- sao>. Acesso em: 13 dez. 2017. Percebe-se que os termos integração e inclusão são comumente vistos, porém com base de concepção e objetivos diferentes. Entende-se que a definição de inclusão é algo mais amplo e complexo do que integração. 40 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA Figura 23 – Inclusão Fonte: Disponível em: <http://rutevera.blogspot.com.br/2013/12/>. Acesso em: 13 dez. 2017 O MEC disponibiliza uma central de mídia com alguns vídeos relacionados à inclusão. Sugerimos que você acesse o material e acompanhe as discussões sobre essa temática com histórias e práticas educacionais inclusivas no ensino regular. Entre esses vídeos, destacamos: <http://centraldemidia.mec.gov.br/index. php?option=com_hwdmediashare&view=mediaitem&id=9326:par te-1-caminhos-para-inclusao&Itemid=484?&filter_mediaType=4>. Acesso em: 3 jan. 2018. Pode-se perceber que esses quatro momentos (exclusão, segregação, integração e inclusão) não podem ser vistos de forma linear e cronológica. Eles permanecem presentes em situações escolares diferenciadas, ou seja, algumas experiências escolares ainda se encontram num momento apenas de integração das pessoas com deficiência, com o intuito de possibilitar a elas maior socialização; outras já criaram estratégias bem-sucedidas para a permanência de todas as crianças, cada qual com suas especificidades, procurando, mesmo que nas suas limitações, o maior índice de aproveitamento e experiência educacional (MAIOLA, 2016). Quanto à palavra inclusão, esta implica numa mudança de perspectiva educacional, porque não atinge apenas os alunos com deficiência e os que apresentam dificuldades de aprender, mas a todos. 41 A Educação Inclusiva na Contemporaneidade Capítulo 2 A sociedade e as instituições precisam se redimensionar para a remoção dos obstáculos existentes à participação das pessoas com deficiência na vida social e escolar. Para isso, entende-se que a sociedade e as instituições precisam se redimensionar para a remoção dos obstáculos existentes à participação das pessoas com deficiência na vida social e escolar, através de uma política de educação inclusiva pautada no princípio da “cidadania” e que norteie a promoção do atendimento à demanda: a) com garantiade acesso e permanência na escola; b) com priorização da formação continuada de educadores e de projetos arquitetônicos adaptados e acessíveis a todos; c) com propostas, materiais e recursos pedagógicos que viabilizem a participação efetiva da pessoa com deficiência; d) com base em uma individualização dos percursos, ritmos e intervenções educativas; e e) com a socialização contida na convivência escolar. Atividades de Estudos: 1) Elabore um esquema que contemple as principais ideias dos quatro momentos históricos vivenciados pela pessoa com deficiência (exclusão, segregação, integração e inclusão): ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ 2) Na escola em que você atua (ou outro espaço profissional), há inclusão de pessoas com deficiência? Você acredita que exista respeito e acolhimento às diferenças? ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ 42 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA Caminhos Para uma Educação Mais Inclusiva A perspectiva de inclusão exige, por um lado, modificações profundas nos sistemas de ensino; e estas modificações [...] demandam ousadia, por um lado e prudência por outro; - que uma política efetiva de educação inclusiva deve ser gradativa, contínua, sistemática e planejada, na perspectiva de oferecer às crianças deficientes educação de qualidade; e que a gradatividade e a prudência não podem servir para o adiamento “ad eternum” para a inclusão [...] devem servir de base para a superação de toda e qualquer dificuldade que se interponha à construção de uma escola única e democrática (BUENO, 2001, p. 27). No Brasil, o projeto ainda caracterizado de integração escolar surgiu com mais ênfase na década de 1990, como decorrência das pressões e experiências desenvolvidas em outros países. Diante disso, medidas políticas foram necessárias, a mencionar, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, nº 9.394 de 1996, que, ainda com imprecisões e indefinições, sinaliza um espaço de atendimento educacional com alunos com deficiência no ensino comum. Assim, pode-se acompanhar um lento progresso no sentido de democratização do ensino e da inserção gradual dessas crianças no cenário da educação formal, até se chegar em novas discussões com foco na inclusão propriamente dita. Adotou-se o termo educação inclusiva para traduzir a orientação política proposta e que influencia em diversas mudanças nas atitudes das pessoas e práticas educacionais nas instituições escolares. A partir de uma perspectiva de educação para todos, é necessário possibilitar condições viáveis e ao mesmo tempo desafiadoras para que cada aluno possa explorar a aprendizagem em suas possibilidades, e não em suas deficiências. As pessoas com deficiência estão sendo inseridas nas escolas regulares, porque, além de um direito conquistado, têm um maior número de estímulos e possibilidades de desenvolvimento que, adquiridos nas inter-relações, nos centros de interesse e na motivação frente aos novos desafios, contribuem com todos os alunos da sala. Conforme relata Mantoan (2003), a educação inclusiva entende que a presença de alunos com deficiência, embora torne o conjunto da turma de alunos mais heterogêneo e complexo, também pode torná-lo mais rico, no sentido de que a convivência com a diversidade colocaria em pauta as diversas formas de aprender e de ensinar, bem como a variedade de ideias e concepções de pessoa e de mundo. A partir de uma perspectiva de educação para todos, é necessário possibilitar condições viáveis e ao mesmo tempo desafiadoras para que cada aluno possa explorar a aprendizagem em suas possibilidades. 43 A Educação Inclusiva na Contemporaneidade Capítulo 2 Referente à análise das realidades educacionais brasileiras, Afonso (2004) sugere que se deve considerar quatro níveis de análise da realidade educacional: • Nível microssociológico: no caso, a sala de aula, pois é onde predo- mina o processo de ensino-aprendizagem e a proposta de educação inclusiva pode traduzir-se apenas pela presença física de pessoas com deficiência, sem as indispensáveis ações para remover barreiras para a aprendizagem e para a participação de todos os alunos. • Nível mesossociológico: a instituição escolar no qual as práticas de- vem ser avaliadas, permitindo identificar as características excludentes ou inclusivas em relação aos alunos que apresentam diferenças signif- icativas na aprendizagem e no desenvolvimento. • Nível macrossociológico: o Estado tem papel na definição de sua política educacional. Isso inclui os processos de gestão, prestação de contar e também analisar as articulações entre políticas públicas, pois os movimentos inclusivos não dependem só das escolas e dos educa- dores. • Nível megassociológico: o papel das organizações, no contexto da globalização, impõe certas ações que acarretam a prevalência das re- gras de uma pedagogia mais humanista, na qual a educação não é bem de investimento e sim bem de consumo essencial para todos os cidadãos. Pode-se perceber que estes quatro níveis apontam três dimensões: cultura; política; e práticas pedagógicas que precisam estar em consonância para se vivenciar uma escola para todos. Compreender a dimensão dessa realidade educacional ajudará no trabalho pedagógico na diversidade, envolvendo práticas pedagógicas comuns para todos e sensíveis às diferenças individuais. Compreender a dimensão dessa realidade educacional ajudará no trabalho pedagógico na diversidade, envolvendo práticas pedagógicas comuns para todos e sensíveis às diferenças individuais. Você sabia que o escritor de histórias em quadrinhos Maurício de Sousa criou personagens com algum tipo de deficiência e que eles participam de muitos gibis da Turma da Mônica? Sabemos da importância da literatura para a disseminação de informações e esclarecimentos, e essa foi a contribuição do escritor para que as crianças tivessem contato com a diversidade na sua mais variada forma. Veja! 44 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA Figura 24 – Personagens do Maurício de Sousa Fonte: Disponível em: <http://blogs.atribuna.com.br/deficienciaempauta/mauricio-de-sou- sa-e-a-turminha-da-inclusao/>. Acesso em: 13 dez. 2017. Figura 25 – Inclusão Fonte: Disponível em: <http://turmadamonica.uol.com.br/saibamaisinclusaosocial/>. Aces- so em: 13 dez. 2017. 45 A Educação Inclusiva na Contemporaneidade Capítulo 2 Algumas Considerações No Capítulo 2 do nosso caderno, acompanhamos os primeiros trabalhos da educação especial desenvolvidos no Brasil. Entendemos que esse serviço ofereceu acolhimento a uma demanda bastante excluída pela sociedade, dando assistência e espaço para que essas pessoas pudessem conviver e se integrar. Novas discussões e ações surgem com o intuito de ampliar o campo de possibilidades desse público-alvo. Vimos também os momentos históricos que perpassaram àqueles que fugiam do modelo, do padrão estabelecido pela sociedade. Assim, acompanhamos o processo de exclusão, em que não havia aceitação e nem participaçãodas pessoas com deficiência no contexto social. Em seguida, acompanhamos os primeiros passos segregacionistas, cujo papel da educação especial foi fundamental para iniciar o processo de discussão dessa demanda na sociedade. Também pudemos compreender sobre os movimentos de integração e, por fim, as perspectivas inclusivas discutidas e reivindicadas até hoje. Referências BEYER, Hugo Otto. Inclusão e avaliação na escola: de alunos com necessi- dades educacionais especiais. Porto Alegre: Mediação, 2006.127p. MANTOAN, Maria Teresa Egler. Inclusão escolar: o que é? por quê? como fazer? 2. ed. São Paulo: Moderna, 2003. SASSAKI, Romeu Kazumi. Inclusão: construindo uma sociedade para todos. Rio de Janeiro: WVA, 1997. VEER, Rene Van der; VALSINER, Jaan. Vygotsky: uma síntese. 3. ed. Tradução Cecília C. Bartalotti. São Paulo: Loyola, 1999. VYGOTSKY, Lev Semenovich. Obras escogidas V: fundamentos de defectologia. Madrid: Visor, 1997. 46 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA CAPÍTULO 3 O Direito à Diferença na Igualdade de Direitos: Aspectos Legais A partir da perspectiva do saber fazer, neste capítulo você terá os seguintes objetivos de aprendizagem: � Conhecer os documentos norteadores da educação especial/inclusiva no Brasil. � Avaliar os avanços históricos presentes nos documentos e leis norteadores da política de educação especial inclusiva. � Analisar os programas e ações de apoio ao desenvolvimento inclusivo dos sistemas de ensino. 48 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA 49 O Direito à Diferença na Igualdade de Direitos: Aspectos Legais Capítulo 3 Contextualização Nas escolas, inclusivas pela força da lei, não há preparação antes, para o exercício das relações do depois. O próprio exercício das relações de ensino tem preparado os professores para receber e acolher ‘alteridade deficiente’ (FONTANA, apud GÓES, p. 163, 2004). Nos capítulos anteriores, estudamos a pessoa com deficiência que, por um significativo período histórico, esteve às margens da escolarização; e percebemos, ao longo do tempo, movimentos para a criação de leis na tentativa de reconfigurar a inserção da pessoa com deficiência no ensino comum. A educação inclusiva é um movimento ainda em construção e que necessita ser constantemente repensada sobre as políticas públicas e as práticas pedagógicas nas escolas. Por isso, abordaremos neste momento, os principais aspectos da trajetória legal revisados por Maiola (2016), com as principais leis e documentos norteadores da educação especial, notas técnicas e os programas e ações de apoio ao desenvolvimento inclusivo dos sistemas de ensino. Você perceberá que esse percurso se inicia com discussões feitas em conferências nas quais vários países se reuniram para repensar as políticas de inclusão, resultando em declarações e leis norteadoras. A educação inclusiva é um movimento ainda em construção e que necessita ser constantemente repensada sobre as políticas públicas e as práticas pedagógicas nas escolas. Da Conferência de Jomtien à Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva – Caminhos Trilhados A partir do século XX, movimentos sociais de luta contra todas as formas de discriminação se tornaram mais intensos e a importância do exercício de cidadania das pessoas com deficiência surge, em nível mundial, através da defesa de uma sociedade mais inclusiva. 50 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA Ainda marcada por práticas de categorização e segregação, fortalece-se a crítica a essas ações, questionando-se os modelos de ensino e aprendizagem homogeneizadores. A Constituição Federal de 1988, traz como seus objetivos fundamentais “promover o bem de todos, sem preconceito de origem, raça, sexo, cor, idade e quais outras formas de discriminação” (artigo 3º, inciso IV) (BRASIL, 1988, p. 160) e define, no artigo 205, a educação como um direito de todos, garantindo o pleno desenvolvimento da pessoa, o exercício da cidadania e a qualificação para o trabalho (BRASIL, 1988). No seu artigo, 206, inciso I, estabelece “igualdade de condições de acesso e permanência na escola” (BRASIL, 1988, p. 160) como um dos princípios para o ensino e garante como dever do Estado, a oferta do atendimento educacional especializado, preferencialmente na rede regular de ensino (artigo 208). Mesmo essa exposição clara, relatada pela Constituição, não foi suficiente para garantir a igualdade de direitos e de oportunidades às pessoas com deficiência no contexto da educação comum. Na tentativa de enfrentar esses desafios e pensar em ações capazes de superar esses processos históricos de exclusão, conferências importantes aconteceram, e delas, novos documentos norteadores de políticas públicas foram criados, conforme alguns exemplos especificados a seguir. A Constituição Federal de 1988, traz como seus objetivos fundamentais “promover o bem de todos, sem preconceito de origem, raça, sexo, cor, idade e quais outras formas de discriminação” (artigo 3º, inciso IV). Conferência Mundial de Educação Para Todos: Jomtien A Conferência Mundial de Educação para Todos aconteceu na cidade de Jomtien, na Tailândia, em 1990. Neste encontro, evidenciou-se os altos índices de crianças, adolescentes e jovens sem escolarização, objetivando assim, a promoção de transformações nos sistemas de ensino e o acesso e permanência de todos na escola. Desse encontro, surgiu um plano de ação (Declaração de Jomtien), do qual participaram representantes de governos e organizações não governamentais (ONGs), com o intuito de garantir as necessidades básicas da aprendizagem de todas as crianças, jovens e adultos. Essas necessidades básicas compreendem tanto os instrumentos essenciais para a aprendizagem como a leitura, a escrita, a expressão oral, o cálculo, a solução de problemas, quanto a aquisição de conhecimentos, habilidades, valores e atitudes necessários para que os seres humanos possam sobreviver e se desenvolver plenamente. Ao mencionar as pessoas com deficiência, o documento refere, em seu artigo 3º, a universalizar o acesso à educação e promover a equidade: 51 O Direito à Diferença na Igualdade de Direitos: Aspectos Legais Capítulo 3 1. A educação básica deve ser proporcionada a todas as crianças, jovens e adultos. Para tanto, é necessário universalizá-la e melhorar sua qualidade, bem como tomar medidas efetivas para reduzir as desigualdades. 2. Para que a educação básica se torne equitativa, é mister oferecer a todas as crianças, jovens e adultos, a oportunidade de alcançar e manter um padrão mínimo de qualidade da aprendizagem. [...] 5. As necessidades básicas de aprendizagem das pessoas portadoras de deficiências requerem atenção especial. É preciso tomar medidas que garantam a igualdade de acesso à educação aos portadores de todo e qualquer tipo de deficiência, como parte integrante do sistema educativo (On-line. Disponível em: <http://unesdoc.unesco.org/ images/0008/000862/086291por.pdf>). Os países que participaram desta conferência foram incentivados a elaborar planos decenais, em que as diretrizes e metas do plano de ação da conferência fossem contempladas. No Brasil, o Ministério da Educação divulgou o Plano Decenal de Educação Para Todos para o período de 1993 a 2003, elaborado em cumprimento às resoluções da conferência. A partir deste plano, ocorreu a aceitação formal, do governo federal, das propostas formuladas nos foros internacionais para a melhoria da educação básica. Diante disso, pode-se considerar que a Conferência de Jomtien foi um marco político e conceitual na educação ao reafirmar a necessidade de que todos dominem os conhecimentosindispensáveis à compreensão do mundo em que vivem, recomendando a todos os países participantes que se empenhem nesse movimento. A Conferência de Jomtien foi um marco político e conceitual na educação ao reafirmar a necessidade de que todos dominem os conhecimentos indispensáveis à compreensão do mundo em que vivem. Conferência Mundial de Necessidades Educativas Especiais: Acesso e Qualidade: Declaração de Salamanca A Conferência Mundial de Necessidade Educativas Especiais: Acesso e Qualidade foi realizada pela UNESCO em 1994, na cidade de Salamanca na Espanha, com a participação de 92 governos e 25 organizações internacionais, cujo objetivo consistiu na discussão sobre a escola não acessível a todos os estudantes. 52 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA A partir dessas discussões, sobre as práticas educacionais e a desigualdade social, surgiu o documento denominado Declaração de Salamanca e Linhas de Ação sobre Necessidades Educativas Especiais, no qual se evidenciou a necessidade de combater as atitudes discriminatórias, conforme vemos em Brasil (1994, p. 17-18): O princípio fundamental desta Linha de Ação é de que as escolas devem acolher todas as crianças, independentemente de suas condições físicas, intelectuais, sociais, emocionais, linguísticas ou outras. Devem acolher crianças com deficiência e crianças bem-dotadas; crianças que vivem nas ruas e que trabalham; crianças de populações distantes ou nômades; crianças de minorias linguísticas, étnicas ou culturais e crianças de outros grupos e zonas desfavorecidas ou marginalizados. Adiante são apresentados alguns dos itens discutidos nesse documento, que mos- tram as ações indicadas para uma perspectiva de educação para todos. Eles per- passam, tanto dos conceitos da educação especial, quanto da estrutura escolar, profissionais envolvidos, capacitação, recursos financeiros, participação da famí- lia, mercado de trabalho e outros. Seguem alguns recortes do documento pertinen- tes para estudo e compreensão. Assim, proclama-se que: • toda criança tem direito fundamental à educação, e deve ser dada a oportunidade de atingir e manter o nível adequado de aprendizagem; • toda criança possui características, interesses, habilidades e necessidades de aprendizagem que são únicas; • sistemas educacionais deveriam ser designados e programas educacionais deveriam ser implementados no sentido de se levar em conta a vasta diversidade de tais características e necessidades; • aqueles com necessidades educacionais especiais devem ter acesso à escola regular, que deveria acomodá-los dentro de uma Pedagogia centrada na criança, capaz de satisfazer a tais necessidades; • escolas regulares que possuam tal orientação inclusiva constituem os meios mais eficazes de combater atitudes discriminatórias criando-se comunidades acolhedoras, construindo uma sociedade inclusiva e alcançando educação para todos; além disso, tais escolas provêm uma educação efetiva à maioria das crianças e aprimoram a eficiência e, em última instância, o custo da eficácia de todo o sistema educacional. (BRASIL, 1994, p. 1) Propondo a todos os governos que (BRASIL, 1994, p. 1-2): 53 O Direito à Diferença na Igualdade de Direitos: Aspectos Legais Capítulo 3 • atribuam a mais alta prioridade política e financeira ao aprimoramento de seus sistemas educacionais no sentido de se tornarem aptos a incluírem todas as crianças, independentemente de suas diferenças ou dificuldades individuais; • adotem o princípio de educação inclusiva em forma de lei ou de política, matriculando todas as crianças em escolas regulares, a menos que existam fortes razões para agir de outra forma; • desenvolvam projetos de demonstração e encorajem intercâmbios em países que possuam experiências de escolarização inclusiva; • estabeleçam mecanismos participatórios e descentralizados para planejamento, revisão e avaliação de provisão educacional para crianças e adultos com necessidades educacionais especiais; • encorajem e facilitem a participação de pais, comunidades e organizações de pessoas portadoras de deficiências nos processos de planejamento e tomada de decisão concernentes à provisão de serviços para necessidades educacionais especiais; • invistam maiores esforços em estratégias de identificação e intervenção precoces, bem como nos aspectos vocacionais da educação inclusiva; • garantam que, no contexto de uma mudança sistêmica, programas de treinamento de professores, tanto em serviço como durante a formação, incluam a provisão de educação especial dentro das escolas inclusivas. Na estrutura de ação, esclarece como termos (BRASIL, 1994, p. 3-4): [...] necessidades educacionais especiais, refere-se a todas aquelas crianças ou jovens cujas necessidades educacionais especiais se originam em função de deficiências ou dificuldades de aprendizagem. Muitas crianças experimentam dificuldades de aprendizagem e, portanto, possuem necessidades educacionais especiais em algum ponto durante a sua escolarização. Escolas devem buscar formas de educar tais crianças bem-sucedidamente, incluindo aquelas que possuam desvantagens severas. Existe um consenso emergente de que crianças e jovens com necessidades educacionais especiais devam ser incluídas em arranjos educacionais feitos para a maioria das crianças. E reforça a importância da educação inclusiva (BRASIL, 1994, p. 4-5): 6. [...] O desafio que confronta a escola inclusiva é no que diz respeito ao desenvolvimento de uma pedagogia centrada na criança e capaz de bem sucedidamente educar todas as crianças, incluindo aquelas que possuam desvantagens severa. O mérito de tais escolas não reside somente no fato de que 54 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA elas sejam capazes de prover uma educação de alta qualidade a todas as crianças: o estabelecimento de tais escolas é um passo crucial no sentido de modificar atitudes discriminatórias, de criar comunidades acolhedoras e de desenvolver uma sociedade inclusiva. [...] 7. Princípio fundamental da escola inclusiva é o de que todas as crianças devem aprender juntas, sempre que possível, independentemente de quaisquer dificuldades ou diferenças que elas possam ter. Escolas inclusivas devem reconhecer e responder às necessidades diversas de seus alunos, acomodando ambos os estilos e ritmos de aprendizagem e assegurando uma educação de qualidade a todos através de um currículo apropriado, arranjos organizacionais, estratégias de ensino, uso de recurso e parceria com as comunidades [...] 8. Dentro das escolas inclusivas, crianças com necessidades educacionais especiais deveriam receber qualquer suporte extra requerido para assegurar uma educação efetiva. Educação inclusiva é o modo mais eficaz para construção de solidariedade entre crianças com necessidades educacionais especiais e seus colegas. O encaminhamento de crianças a escolas especiais ou a classes especiais ou a sessões especiais dentro da escola em caráter permanente deveria constituir exceções, a ser recomendado somente naqueles casos infrequentes onde fique claramente demonstrado que a educação na classe regular seja incapaz de atender às necessidades educacionais ou sociais da criança ou quando sejam requisitados em nome do bem-estar da criança ou de outras crianças. Da política e organização (BRASIL, 1994, p. 6-7): 16. Políticas educacionais em todos os níveis, do nacional ao local, deveriam estipular que a criança portadora de deficiência deveria frequentar a escola de sua vizinhança: ou seja, a escola que seria frequentada caso a criança não portasse nenhuma deficiência. Exceções à esta regra deveriam ser consideradas individualmente, caso por caso, em casos em que a educação eminstituição especial seja requerida. 17. A prática de desmarginalização de crianças portadoras de deficiência deveria ser parte integrante de planos nacionais que objetivem atingir educação para todos. Mesmo naqueles casos excepcionais em que crianças sejam colocadas em escolas especiais, a educação dela não precisa ser inteiramente segregada. Frequência em regime não integral nas escolas regulares deveria ser encorajada [...] 19. Políticas educacionais deveriam levar em total consideração as diferenças e situações individuais. A importância da linguagem de signos como meio de comunicação entre os surdos, por exemplo, deveria ser reconhecida e provisão deveria ser feita no sentido de garantir que todas as pessoas surdas tenham acesso à educação em sua língua nacional de 55 O Direito à Diferença na Igualdade de Direitos: Aspectos Legais Capítulo 3 signos. Devido às necessidades particulares de comunicação dos surdos e das pessoas surdas/cegas, a educação deles pode ser mais adequadamente provida em escolas especiais ou classes especiais e unidades em escolas regulares. [...] 26. O currículo deveria ser adaptado às necessidades das crianças, e não vice-versa. Escolas deveriam, portanto, prover oportunidades curriculares que sejam apropriadas a criança com habilidades e interesses diferentes. 27. Crianças com necessidades especiais deveriam receber apoio instrucional adicional no contexto do currículo regular, e não de um currículo diferente. O princípio regulador deveria ser o de providenciar a mesma educação a todas as crianças, e também prover assistência adicional e apoio às crianças que assim o requeiram. [...] 29. Para que o progresso da criança seja acompanhado, formas de avaliação deveriam ser revistas. Avaliação formativa deveria ser incorporada no processo educacional regular no sentido de manter alunos e professores informados do controle da aprendizagem adquirida, bem como no sentido de identificar dificuldades e auxiliar os alunos a superá-las. 30. Para crianças com necessidades educacionais especiais uma rede contínua de apoio deveria ser providenciada, com variação desde a ajuda mínima na classe regular até programas adicionais de apoio à aprendizagem dentro da escola e expandindo, conforme necessário, à provisão de assistência dada por professores especializados e pessoal de apoio externo. 31. Tecnologia apropriada e viável deveria ser usada quando necessário para aprimorar a taxa de sucesso no currículo da escola e para ajudar na comunicação, mobilidade e aprendizagem. [...] Ainda, sobre a administração da escola (BRASIL, 1994, p. 9-10): 34. Diretores de escola têm a responsabilidade especial de promover atitudes positivas através da comunidade escolar e via arranjando uma cooperação efetiva entre professores de classe e pessoal de apoio. Arranjos apropriados para o apoio e o exato papel a ser assumido pelos vários parceiros no processo educacional deveria ser decidido através de consultoria e negociação. 35. Cada escola deveria ser uma comunidade coletivamente responsável pelo sucesso ou fracasso de cada estudante. O grupo de educadores, ao invés de professores individualmente, deveria dividir a responsabilidade pela educação de crianças com necessidades especiais. Pais e voluntários deveriam ser convidados assumir participação ativa no trabalho da escola. Professores, no entanto, possuem um papel fundamental enquanto administradores do processo educacional, apoiando as crianças através do uso de recursos disponíveis, tanto dentro como fora da sala de aula. 56 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA Além disso, também recomenda a participação dos alunos com deficiência nas áreas prioritárias de atendimento (BRASIL, 1994, p. 12-13): Educação infantil 51. O sucesso de escolas inclusivas depende em muito da identificação precoce, avaliação e estimulação de crianças pré-escolares com necessidades educacionais especiais. Assistência infantil e programas educacionais para crianças até a idade de 6 anos deveriam ser desenvolvidos e/ou reorientados no sentido de promover o desenvolvimento físico, intelectual e social e a prontidão para a escolarização. [...] Preparação para a vida adulta 53. Jovens com necessidades educacionais especiais deveriam ser auxiliados no sentido de realizarem uma transição efetiva da escola para o trabalho. Escolas deveriam auxiliá- los a se tornarem economicamente ativos e provê-los com as habilidades necessárias ao cotidiano da vida, oferecendo treinamento em habilidades que correspondam às demandas sociais e de comunicação e às expectativas da vida adulta. [...] Enfatiza a participação da família e comunidade (BRASIL, 1994, p. 13-14): 57. A educação de crianças com necessidades educacionais especiais é uma tarefa a ser dividida entre pais e profissionais. Uma atitude positiva da parte dos pais favorece a integração escolar e social. [...] Procedimentos-Padrões das Nações Unidas para a Equalização de Oportunidades para Pessoas Portadoras de Deficiências, A/RES/48/96, Resolução das Nações Unidas adotada em Assembleia Geral Referência: Declaração de Salamanca A Declaração de Salamanca foi um documento fundamental para impulsionar novas práticas educacionais que beneficiassem as pessoas com deficiência, valorizando a busca pelo repensar do espaço escolar e os rumos da educação especial, a fim de assegurar condições de acesso, participação e aprendizagem de todos, concebendo a escola como uma instituição que reconhece as diferenças. A Declaração de Salamanca foi um documento fundamental para impulsionar novas práticas educacionais que beneficiassem as pessoas com deficiência, valorizando a busca pelo repensar do espaço escolar e os rumos da educação especial. 57 O Direito à Diferença na Igualdade de Direitos: Aspectos Legais Capítulo 3 Atividade de Estudos: 1) A Declaração de Salamanca foi um dos principais movimentos da educação especial inclusiva, muito significativa para a época, um marco para as políticas públicas e, consequentemente, estratégias educacionais. Pontue os principais aspectos desse documento, de acordo com cada área de ação desenvolvida no texto: a) Ações do governo: ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ b) Políticas educacionais: ____________________________________________________ ____________________________________________________ ___________________________________________________ ___________________________________________________ ____________________________________________________ c) Administração da escola: ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ d) Família e comunidade: ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ 58 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA Política Nacional de Educação Especial A Política Nacional de Educação Especial de 1994 ficou conhecida como um documento que veio na contramão dos movimentos de educação para todos. Utilizou como foco o paradigma ainda integracionista, dando ênfase ao modelo clínico de deficiência e o caráter incapacitantedessas pessoas, criando barreiras de impedimento para sua inclusão educacional e social. Este documento delineia as modalidades de atendimento em educação especial, dispondo escolas e classes especiais; atendimento domiciliar; classe hospitalar e sala de recursos; ensino itinerante; estimulação essencial e as classes regulares. Nesse sentido, mantém a estrutura paralela e substitutiva da educação especial e o acesso da pessoa com deficiência ao ensino comum, condicionado ao seu nível de aprendizagem e a sua capacidade de acompanhar o ritmo da turma na qual estará inserido. Conforme demonstra Brasil (1994, p. 19): Ambiente dito regular de ensino/aprendizagem, no qual também são matriculados, em processo de integração instrucional, os portadores de necessidades especiais que possuem condições de acompanhar e desenvolver as atividades curriculares programadas do ensino comum, no mesmo ritmo que os alunos ditos normais. Diante dessa configuração política, dá-se continuidade a práticas tradicionais que justificam a segregação em razão da deficiência. a) Lei de diretrizes e bases da educação nacional (LDB nº 9.394/1996) A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional retoma o processo de políticas públicas para a escolarização da pessoa com deficiência, com respaldo no caráter substitutivo da educação especial, mesmo que ainda expresse a necessidade de atendimento às especificidades desta clientela inserida na escola comum. Caracteriza-se assim, a educação especial como uma modalidade de educação escolar e cita o “local” que preferencialmente ela deve acontecer, ou seja, no ensino comum. 59 O Direito à Diferença na Igualdade de Direitos: Aspectos Legais Capítulo 3 Outro aspecto relevante do texto da lei é de que preconiza que os sistemas de ensino devam assegurar aos estudantes currículo, métodos, recursos para atender as suas necessidades específicas. Para melhor compreensão, a seguir um recorte da LDB que trata com detalhes a educação especial (BRASIL, 1996): CAPITULO V DA EDUCAÇÃO ESPECIAL Art. 58. Entende-se por educação especial, para efeitos desta Lei, a modalidade de educação escolar, oferecida preferencialmente na rede regular de ensino, para educandos portadores de necessidades especiais. § 1º Haverá, quando necessário, serviços de apoio, especializado, na escola regular, para atender às peculiaridades da clientela da educação especial. § 2º O atendimento educacional será feito em classes, escolas ou serviços especializados, sempre que, em função das condições específicas dos alunos, não for possível a sua integração nas classes comuns de ensino regular. § 3º A oferta de educação especial, dever constitucional do Estado, tem início na faixa etária de zero a seis anos, durante a educação infantil. Art. 59. Os sistemas de ensino assegurarão aos educandos com necessidades especiais: I – currículos, métodos, técnicas, recursos educativos e organização específicas, para atender as suas necessidades; II – terminalidade específica para aqueles que não puderem atingir o nível exigido para conclusão do ensino fundamental, em virtude de suas deficiências, e aceleração para concluir em menor tempo o programa escolar para os superdotados; III – professores com especialização adequada em nível médio ou superior, para atendimento especializado, bem como os professores do ensino regular capacitados para a integração desses educandos nas classes comuns; IV – educação especial para o trabalho, visando a sua efetiva integração na vida em sociedade, inclusive condições adequadas para os que não revelarem capacidade de inserção no mercado de trabalho competitivo, mediante articulação com os órgãos oficiais afins, bem como para aqueles que apresentam uma habilidade superior nas áreas artística, intelectual ou psicomotora; V – acesso igualitário aos benefícios dos programas sociais suplementares disponíveis para o respectivo nível do ensino regular. Art. 60. Os órgãos normativos dos sistemas de ensino estabelecerão critérios de caracterização das instituições privadas sem fins lucrativos, especializados e com atuação exclusiva em educação especial, para fins de apoio técnico e financeiro para o poder público. Preconiza que os sistemas de ensino devam assegurar aos estudantes currículo, métodos, recursos para atender as suas necessidades específicas. 60 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA Diante do exposto, percebe-se que o foco da política de inclusão proposta não estava apenas focada na socialização da pessoa com deficiência no contexto escolar e social, mas também em garantir oportunidade de desenvolvimento, aprendizagem e cidadania. Atividade de Estudos: 1) A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB nº 9.394/1996), no seu capítulo V – Educação Especial, mostra significativos avanços legais no que se refere ao atendimento educacional à pessoa com deficiência. No entanto, muitas vezes, esses aspectos ainda estão muito longe de serem realidade nas instituições escolares. Diante do exposto, aponte quais os avanços relacionados aos itens anteriores que você já identifica no seu âmbito de trabalho, bem como aqueles que estão mais distantes das práticas escolares: a) Aspectos legais que fazem parte da minha realidade escolar: ____________________________________________________ ____________________________________________________ ___________________________________________________ ___________________________________________________ ____________________________________________________ b) Aspectos legais ainda não difundidos na minha realidade escolar: ____________________________________________________ ____________________________________________________ ___________________________________________________ ___________________________________________________ ____________________________________________________ b) Convenção sobre os direitos das pessoas com deficiência A Convenção sobre os direitos das pessoas com deficiência outorgada pela ONU em 2006 e ratificada pelo Brasil através do decreto Legislativo nº 186/2008 e Executivo nº 6.949/2009, altera o conceito de deficiência ao considerar que: 61 O Direito à Diferença na Igualdade de Direitos: Aspectos Legais Capítulo 3 Reconhece a língua brasileira de sinais como meio legal de comunicação e expressão, determinando que sejam garantidas formas institucionalizadas de apoiar seu uso e difusão. A Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, de 2008, trouxe novas concepções às atuações da educação especial, pois sua tarefa passa a ser de complementar à formação dos alunos com deficiência. A Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva A Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, de 2008, trouxe novas concepções às atuações da educação especial, pois sua tarefa passa a ser de complementar à formação dos alunos com deficiência, com foco no ensino e aprendizagem, recursos de acessibilidade, permanência e participação de sua clientela no contexto do ensino comum. O documento apresenta os marcos históricos e normativos da educação especial no Brasil e no mundo, detalha o diagnóstico da educação especial, pontuando os objetivos dessa política e criando diretrizes de atendimento. Pessoas com deficiência são aquelas que têm impedimentos de longo prazo de natureza física, intelectual ou sensorial, os quais, em interação com diversas barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas (ONU, Art. 1). (BRASIL, 2006, p. 26). Destaca-seainda, como um marco político e educacional, a promulgação da Lei nº 10.436/02 que reconhece a língua brasileira de sinais como meio legal de comunicação e expressão, determinando que sejam garantidas formas institucionalizadas de apoiar seu uso e difusão, bem como a inclusão da disciplina de Libras como parte integrante do currículo nos cursos de formação de professores e de fonoaudiologia. E ainda, a Portaria nº 2.678/02 que aprova as diretrizes e normas para o uso, o ensino, a produção e a difusão do Sistema Braille em todas as modalidades de ensino, compreendendo o projeto da Grafia Braile para a língua portuguesa e a recomendação para o seu uso em todo o território nacional. Diante do proposto, impulsiona-se o processo de elaboração e desenvolvimento de propostas educacionais para assegurar o acesso, participação e permanência de todos os alunos no ensino regular. 62 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA Devido à importância desta política e às influências que ela trouxe às práticas de educação inclusiva no país, segue um recorte do texto, enfatizando algumas partes pertinentes ao estudo: IV – Objetivo da Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva A Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva tem como objetivo o acesso, a participação e a aprendizagem dos alunos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação nas escolas regulares, orientando os sistemas de ensino para promover respostas às necessidades educacionais especiais, garantindo: • Transversalidade da educação especial desde a educação infantil até a educação superior; • Atendimento educacional especializado; • Continuidade da escolarização nos níveis mais elevados do ensino; • Formação de professores para o atendimento educacional especializado e demais profissionais da educação para a inclusão escolar; • Participação da família e da comunidade; • Acessibilidade urbanística, arquitetônica, nos mobiliários e equipamentos, nos transportes, na comunicação e informação; e • Articulação intersetorial na implementação das políticas públicas. V – Alunos atendidos pela Educação Especial [...] Na perspectiva da educação inclusiva, a educação especial passa a integrar a proposta pedagógica da escola regular, promovendo o atendimento às necessidades educacionais especiais de alunos com deficiência, transtornos globais de desenvolvimento e altas habilidades/superdotação. [...] A partir dessa conceituação, considera-se pessoa com deficiência aquela que tem impedimentos de longo prazo, de natureza física, mental ou sensorial que, em interação com diversas barreiras, podem ter restringida sua participação plena e efetiva na escola e na sociedade. Os alunos com transtornos globais do desenvolvimento são aqueles que apresentam alterações qualitativas das interações sociais recíprocas e na comunicação, um repertório de interesses e atividades restrito, estereotipado e repetitivo. Incluem-se nesse grupo alunos com autismo, síndromes do espectro do autismo e psicose infantil. Alunos com altas habilidades/superdotação demonstram potencial elevado em qualquer uma das seguintes áreas, isoladas ou combinadas: intelectual, acadêmica, liderança, psicomotricidade e artes, além de apresentar grande criatividade, envolvimento na aprendizagem e realização de tarefas em áreas de seu interesse. VI – Diretrizes da Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva 63 O Direito à Diferença na Igualdade de Direitos: Aspectos Legais Capítulo 3 A educação especial é uma modalidade de ensino que perpassa todos os níveis, etapas e modalidades, realiza o atendimento educacional especializado, disponibiliza os recursos e serviços e orienta quanto a sua utilização no processo de ensino e aprendizagem nas turmas comuns do ensino regular. O atendimento educacional especializado tem como função identificar, elaborar e organizar recursos pedagógicos e de acessibilidade que eliminem as barreiras para a plena participação dos alunos, considerando suas necessidades específicas. As atividades desenvolvidas no atendimento educacional especializado diferenciam-se daquelas realizadas na sala de aula comum, não sendo substitutivas à escolarização. Esse atendimento complementa e/ou suplementa a formação dos alunos com vistas à autonomia e independência na escola e fora dela. Dentre as atividades de atendimento educacional especializado são disponibilizados programas de enriquecimento curricular, o ensino de linguagens e códigos específicos de comunicação e sinalização e tecnologia assistiva. Ao longo de todo o processo de escolarização esse atendimento deve estar articulado com a proposta pedagógica do ensino comum. O atendimento educacional especializado é acompanhado por meio de instrumentos que possibilitem monitoramento e avaliação da oferta realizada nas escolas da rede pública e nos centros de atendimento educacional especializados públicos ou conveniados. O acesso à educação tem início na educação infantil, na qual se desenvolvem as bases necessárias para a construção do conhecimento e desenvolvimento global do aluno. Nessa etapa, o lúdico, o acesso às formas diferenciadas de comunicação, a riqueza de estímulos nos aspectos físicos, emocionais, cognitivos, psicomotores e sociais e a convivência com as diferenças favorecem as relações interpessoais, o respeito e a valorização da criança. Do nascimento aos três anos, o atendimento educacional especializado se expressa por meio de serviços de estimulação precoce, que objetivam otimizar o processo de desenvolvimento e aprendizagem em interface com os serviços de saúde e assistência social. Em todas as etapas e modalidades da educação básica, o atendimento educacional especializado é organizado para apoiar o desenvolvimento dos alunos, constituindo oferta obrigatória dos sistemas de ensino. Deve ser realizado no turno inverso ao da classe comum, na própria escola ou centro especializado que realize esse serviço educacional. Desse modo, na modalidade de educação de jovens e adultos e educação profissional, as ações da educação especial possibilitam a ampliação de oportunidades de escolarização, formação para ingresso no mundo do trabalho e efetiva participação social. [...] Na educação superior, a educação especial se efetiva por meio de ações que promovam o acesso, a permanência e a participação dos alunos. Estas ações envolvem o planejamento e a organização de recursos e serviços para a promoção da 64 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA acessibilidade arquitetônica, nas comunicações, nos sistemas de informação, nos materiais didáticos e pedagógicos, que devem ser disponibilizados nos processos seletivos e no desenvolvimento de todas as atividades que envolvam o ensino, a pesquisa e a extensão. [...] A avaliação pedagógica como processo dinâmico considera tanto o conhecimento prévio e o nível atual de desenvolvimento do aluno quanto às possibilidades de aprendizagem futura, configurando uma ação pedagógica processual e formativa que analisa o desempenho do aluno em relação ao seu progresso individual, prevalecendo na avaliação os aspectos qualitativos que indiquem as intervenções pedagógicas do professor. No processo de avaliação, o professor deve criar estratégias considerando que alguns alunos podem demandar ampliação do tempo para a realização dos trabalhos e o uso da língua de sinais, de textos em Braille, de informática ou de tecnologia assistiva como uma prática cotidiana. Cabe aos sistemas de ensino, ao organizar a educação especial na perspectiva da educação inclusiva, disponibilizar as funções de instrutor, tradutor/intérprete de Librase guia intérprete, bem como de monitor ou cuidador dos alunos com necessidade de apoio nas atividades de higiene, alimentação, locomoção, entre outras, que exijam auxílio constante no cotidiano escolar. Para atuar na educação especial, o professor deve ter como base da sua formação, inicial e continuada, conhecimentos gerais para o exercício da docência e conhecimentos específicos da área. Essa formação possibilita a sua atuação no atendimento educacional especializado, aprofunda o caráter interativo e interdisciplinar da atuação nas salas comuns do ensino regular, nas salas de recursos, nos centros de atendimento educacional especializado, nos núcleos de acessibilidade das instituições de educação superior, nas classes hospitalares e nos ambientes domiciliares, para a oferta dos serviços e recursos de educação especial. Para assegurar a intersetorialidade na implementação das políticas públicas a formação deve contemplar conhecimentos de gestão de sistema educacional inclusivo, tendo em vista o desenvolvimento de projetos em parceria com outras áreas, visando à acessibilidade arquitetônica, aos atendimentos de saúde, à promoção de ações de assistência social, trabalho e justiça. Os sistemas de ensino devem organizar as condições de acesso aos espaços, aos recursos pedagógicos e à comunicação que favoreçam a promoção da aprendizagem e a valorização das diferenças, de forma a atender às necessidades educacionais de todos os alunos. A acessibilidade deve ser assegurada mediante a eliminação de barreiras arquitetônicas, urbanísticas, na edificação – incluindo instalações, equipamentos e mobiliários – e nos transportes escolares, bem como as barreiras nas comunicações e informações. 65 O Direito à Diferença na Igualdade de Direitos: Aspectos Legais Capítulo 3 Como se pode notar, este documento delimita e descreve as demandas atendidas pela educação especial, os serviços oferecidos pelo atendimento educacional especializado e todos os serviços de assistência e suporte para que a inclusão da pessoa com deficiência ocorra de forma efetiva. Atividades de Estudos: 1) Para a Política de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, qual o conceito de deficiência? Qual a clientela que faz parte da educação especial? ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ 2) Qual a função do atendimento educacional especializado? ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ 3) Como deve ocorrer a avaliação pedagógica numa perspectiva inclusiva? ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ 66 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA 4) Qual o papel do sistema de ensino na política de educação inclusiva? ____________________________________________________ ____________________________________________________ ___________________________________________________ ___________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ Programas e Ações de Apoio ao Desenvolvimento Inclusivo dos Sistemas de Ensino No decorrer dos últimos anos, o Ministério da Educação implementou, em parceria com os sistemas de ensino, ações e programas para atender à Política de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva. A seguir, alguns deles: Programa educação inclusiva (direito à diversidade): objetiva a transformação dos sistemas educacionais em sistemas educacionais inclusivos. Consiste na realização de seminários nacionais de formação dos coordenadores, com disponibilidade de materiais e apoio financeiro para a formação em cada município-pólo. Programa de implantação de salas de recurso multifuncionais: as salas de recursos multifuncionais consistem em espaços para oferta do atendimento educacional especializado, complementar à escolarização de estudantes da educação especial. Estas salas estão situadas dentro do contexto do ensino comum, selecionadas pelo gestor da rede de ensino, que disponibiliza o espaço físico e o professor do AEE. Programa escola acessível: disponibiliza recursos para ações de acessibilidade nas escolas públicas, promovendo o acesso e participação da pessoa com deficiência nos ambientes escolares. Prevê-se despesas de custeio e capital para adequações estruturais e para acessibilidade, além da aquisição de recurso de tecnologia assistiva. Projeto livro acessível: tem por objetivo promover a acessibilidade no âmbito dos Programas do Livro MEC/FNDE, para estudantes com deficiência visual matriculados nas escolas públicas, através de livros em 67 O Direito à Diferença na Igualdade de Direitos: Aspectos Legais Capítulo 3 formatos acessíveis. Assim, livros didáticos e paradidáticos no formato braile são distribuídos para todo o país. O projeto Livro Acessível realiza a produção das obras escolhidas pelas escolas, seguindo o cronograma estabelecido no âmbito dos programas de distribuição de livros do MEC. Figura 26 – Livro ACESSÍVEL Fonte: Disponível em: <http://www.seatmobile.com.br/noticias/livros-sao-fundamentais-pa- ra-inclusao-de-pessoas-com-deficiencia-visual.html>. Acesso em: 15 set. 2017. É possível também ter acesso ao Dicionário Enciclopédico Ilustrado Trilíngue Libras - Língua Portuguesa e Inglês, para atender às necessidades de ensino e de aprendizagem de estudantes com surdez, matriculados no sistema regular de ensino. Figura 27 – Dicionário Trilíngue Fonte: Disponível em <http://portaldoprofessor.mec.gov.br/conteudoJornal.html?idConteu- do=1545>. Acesso em: 15 dez. 2017. 68 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA - Programa Nacional para a Certificação de Proficiência no Uso e Ensino da Língua Brasileira de Sinais – Libras e para a Certificação de Proficiência em Tradução e Interpretação da Libras/Língua Portuguesa (PROLIBRAS). Este programa tem como objetivo a certificação de proficiência no uso e ensino de Libras e na tradução e interpretação da Libras. Figura 28 – Prolibras Fonte: Disponível em: <https://blog.surdoparasurdo.com.br/frases-bil%c3%adngues-inspi- radoras-libras-portugu%c3%aas-1dc06a045715>. Acesso em: 15 dez. 2017. - Centros de Formação e Recursos (CAP, CAS e NAAH/S). Os Centros de Apoio Pedagógico para Atendimento às Pessoas com Deficiência – CAP – e o Núcleo de Apoio Pedagógico e Produção Braille – NAPPB – são centros de apoio técnico e pedagógico a estudantes com deficiência visual. Os Centros de Formação de Profissionais da Educação e de Atendimento às Pessoas com Surdez – CAS – têm por objetivo promover a educação bilíngue, através da formação continuada a professores do AEE. Os Núcleos de Atividades para Alunos com Altas Habilidades/ Superdotação –NAAH/S – têm como função orientar os sistemas de ensino quanto às necessidades específicasdos alunos com altas habilidades/superdotação. 69 O Direito à Diferença na Igualdade de Direitos: Aspectos Legais Capítulo 3 Figura 29 – Atendimento superdotação Fonte: Disponível em: <http://pnaicsantamaria.blogspot.com.br/2016/01/legislacao-atendi- mento-ao-aluno-com.html>. Acesso em: 15 set. 2017. Algumas Considerações Acompanhamos, nesse capítulo, os principais marcos legais da educação especial na perspectiva da educação inclusiva. Ficaram notáveis os avanços nas discussões das políticas públicas no decorrer dos últimos anos. Mais importante do que os direitos garantidos por lei, devemos reivindicar que estas condições saiam do papel e entrem na nossa sociedade, em nossas escolas, nos espaços públicos, na saúde, ou seja, que haja qualidade de serviço para todos os cidadãos. Para isso, precisamos também nos desprover dos conceitos pré-estabelecidos, do olhar que julga, para uma postura acolhedora, que compreende a diversidade como algo da nossa própria condição como seres humanos. Conhecer os aspectos legais nos dá suporte, argumentação e perspectivas para que cobranças sejam feitas para promover igualdade de direitos. É através do olhar reflexivo e da ação conjunta de cada integrante da sociedade que nossos espaços serão ambientes mais acessíveis e inclusivos a todos. 70 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA Referências BRASIIL. Política nacional de educação especial na perspectiva da edu- cação inclusiva. Documento pelo grupo de trabalho nomeado pela Portaria Min- isterial no 555, de 5 de junho de 2007, prorrogada pela Portaria no 948, de 9 de outubro de 2008. Disponível em: <portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/política. pdf>. Acesso em: 10 abr. 2016. ______. Convenção sobre os direitos das pessoas com deficiência. Brasília, 2006. ______. Diretrizes nacionais para a educação especial na educação básica. Brasília. MEC/SEESP, 2001 ______. Plano nacional de educação. Brasília. Casa Civil da Presidência da República, 2001. ______. Educação especial legislação. 1997. Disponível em: <http://portal.mec. gov.br/secretaria-de-educacao-especial-sp-598129159/legislacao>. Acesso em: 15 abr. 2016. ______. Parâmetros Curriculares Nacionais. Brasília. MEC/SEF, 1997. ______. Lei n. 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Brasília, D.O.U. de dezembro de 1996. ______. Constituição Federal do Brasil de 1988. 1988. Disponível em: <http:// www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm>. Acesso em: 15 dez. 2016. Declaração de Salamanca: sobre princípios, políticas e práticas na área das ne- cessidades educativas especiais. Salamanca-Espanha, 1994. MAIOLA, Carolina dos S. Práticas inclusivas para formação de professores. Indaial: Uniasselvi, 2016. CAPÍTULO 4 Deficiências, Transtornos e Suas Especificidades A partir da perspectiva do saber fazer, neste capítulo você terá os seguintes objetivos de aprendizagem: � Identificar as deficiências e transtornos descritos pela Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva. � Distinguir as características das deficiência e transtornos. � Analisar diferentes tipos de materiais e equipamentos de acessibilidade para os alunos com deficiência no contexto escolar. 72 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA 73 Deficiências, Transtornos e Suas Especificidades Capítulo 4 Contextualização Conhecer as definições e os tipos de deficiências e transtornos é fundamental para melhor compreender os processos sociais de desenvolvimento e de aprendizagem de quem apresenta algum desses comprometimentos. Nesse espaço, explanaremos com base no Manual Estatístico e Diagnóstico de Transtornos Mentais (DSM-IV e DSM-V) e a na Classificação Internacional de Doenças (CID-10). Assim, adentramos no que é delineado como clientela da educação especial segundo a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva. O material a seguir, é o primeiro passo de uma longa caminhada que você poderá fazer diante dessa temática tão intrigante e fundamental para todos aqueles que trabalham direta ou indiretamente com o sistema educacional. Deficiências Sensoriais As deficiências sensoriais são classificadas em: • deficiência física; • deficiência visual; • deficiência auditiva; • deficiência intelectual; • deficiência múltipla (quando mais de uma deficiência sensorial é acometida em um único indivíduo). a) Deficiência física São caracterizadas como pessoas com deficiência física, aquelas que apresentam alterações musculares, ortopédicas, articulares ou neurológicas que comprometem o seu desenvolvimento parcial ou global, podendo afetar completa ou parcialmente um ou mais segmentos do corpo, acarretando problemas nas habilidades físicas (MACHADO, 2007). 74 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA Figura 30 – Deficiência física Fonte: Disponível em: <http://rockntech.com.br/18-fantasias-superlegais-para-criancas-por- tadoras-de-deficiencia-fisica/>. Acesso em: 15 dez. 2017. A deficiência física pode ser: • temporária: quando o indivíduo volta a sua condição anterior; • recuperável: quando permite melhora com a realização de tratamento; • definitiva: quando não há a possibilidade de cura ou substituição; • compensável: quando é possível compensar a amputação por uma prótese, por exemplo. Figura 31 – Prótese Fonte: Disponível em:<http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2015/08/impressao-3d-a-servi- co-das-criancas-com-deficiencia-fisica-4826823.html>. Acesso em: 15 dez. 2017. 75 Deficiências, Transtornos e Suas Especificidades Capítulo 4 Pode-se classificar as causas da deficiência física como: • hereditária: transmitida por genes; • congênita: quando existe já na vida intrauterina; • adquirida: ocorre depois do nascimento em decorrência de algum trauma, infecção ou intoxicação. Uma das condições conhecidas e comumente encontrada na escola é o aluno que apresenta Paralisia Cerebral (PC), a qual consiste num conjunto de desordens de controle motor e de postura resultante de uma lesão não progressiva no sistema nervoso central (MACHADO, 2007). Os tipos mais comuns de paralisia cerebral são: • espástico: aumento da tonicidade dos músculos, havendo um lado do corpo afetado, os quatro membros ou os membros inferiores; • atetose: movimentos involuntários e variações na tonicidade muscular; • ataxia: diminuição da tonicidade muscular, incoordenação dos movimentos e falta de equilíbrio. Figura 32 – Adaptação de mobiliário Fonte: Disponível em: <http://www.portobello.com.br/blog/acessibilidade-vamos-nos-adap- tar/>. Acesso em: 15 dez. 2017. 76 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA Figura 33 – Adaptação de material 01 Fonte: Disponível em: <http://impactodapedagogiamoderna.blogspot.com.br/2012/04/ nao-basta-dispor-de-recurso-adaptados-o.html>. Acesso em: 15 set. 2017. Figura 34 – Adaptação de materiais 02 Fonte: Disponível em: <http://projeto-libras.blogspot.com.br/2012/05/curso-aee-modulo-de- ficiencia-fisica.html>. Acesso em: 15 dez. 2017. No processo de inclusão dos alunos com deficiência física no contexto escolar, é importante estar atento para que se removam todas as possíveis barreiras arquitetônicas e assim promover a acessibilidade. Por isso, a adaptação de mobiliário e materiais didático-pedagógicos devem estar de acordo com as suas necessidades específicas. b) Deficiência visual Pode ser classificada em dois grupos: de pessoas com baixa visão e de pessoas cegas. Para Conde (2006), uma pessoa é considerada cega se corresponde a um dos critérios: a visão corrigida do melhor dos seus olhos é de 20/200 ou menos, isto é, seela pode ver a 20 pés (seis metros) o que uma pessoa de visão normal pode ver a 200 pés (60 metros); ou se o diâmetro mais largo do seu campo visual subentende um arco não maior de 20 graus, ainda que sua acuidade visual 77 Deficiências, Transtornos e Suas Especificidades Capítulo 4 nesse estreito campo possa ser superior a 20/200. Esse campo visual restrito é muitas vezes chamado de “visão em túnel” ou “em ponta de alfinete”, e essas definições chamamos de “cegueira legal” ou “cegueira econômica”. O processo de aprendizagem se fará através dos sentidos remanescentes (tato, audição, olfato, paladar), utilizando o Sistema Braille como principal meio de comunicação escrita. Figura 35 – Pessoa cega Fonte: Disponível em: <https://novaescola.org.br/conteudo/1759/deficiencia-visu- al-o-mundo-pelo-toque>. Acesso em: 15 dez. 2017. Chama-se de baixa visão a alteração da capacidade funcional decorrente de fatores como a diminuição da acuidade visual, redução importante do campo visual e da sensibilidade aos contrastes e limitação de outras capacidades (GIL, 2001). Assim, considera-se uma pessoa com baixa visão aquela que, mesmo após tratamento e correção de erros refracionais comuns, apresenta acuidade visual inferior a 0,3, até a percepção de luz e o campo visual inferior a 10º do seu ponto de fixação. A perda da função visual pode se dar em nível severo, moderado ou leve, podendo ser influenciada por fatores ambientais inadequados. O seu processo educativo se desenvolverá, principalmente, por meios visuais, ainda que com a utilização de recursos específicos. 78 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA Figura 36 – Pessoa com baixa visão Fonte: Disponível em: <http://www.hcrp.fmrp.usp.br/sitehc/informacao-leria.aspx- ?id=370&ref=1&refV=12>. Acesso em: 15 set. 2017. Acuidade visual: é o grau de aptidão do olho, para discriminar os detalhes espaciais, ou seja, a capacidade de perceber a forma e o contorno dos objetos. Essa capacidade discriminatória é atributo dos cones (células fotossensíveis da retina), que são responsáveis pela acuidade visual central, que compreende a visão de forma e a visão de cores Figura 37 – Teste de acuidade visual Fonte: Disponível em: <http://g1.globo.com/sp/presidente-prudente-regiao/noticia/2017/02/proje- to-faz-testes-de-acuidade-visual-em-alunos-da-rede-estadual.html>. Acesso em: 15 dez. 2017. 79 Deficiências, Transtornos e Suas Especificidades Capítulo 4 Campo visual: refere-se à toda a área que é visível com os olhos fixados em um determinado ponto. Figura 38 – Campo visual Fonte: Disponível em: <https://pt.slideshare.net/rocha1979/campo-visual-ve- mos-mais-do-que-pensamos>. Acesso em: 15 dez. 2017. A Organização Mundial de Saúde revela a existência de aproximadamente 40 milhões de pessoas com deficiência visual no mundo. No Brasil, a taxa de incidência de deficiência visual é entre 1,0 a 1,5% da população, sendo uma entre 3.000 crianças com cegueira, e uma entre 500 crianças com baixa visão. Calcula- se que os dados estimados poderiam ser reduzidos pelo menos à metade, se fossem tomadas medidas preventivas eficientes. As causas mais frequentes de deficiência visual são classificadas em: • congênitas: – retinopatia da prematuridade (imaturidade da retina em virtude do parto prematuro, ou por excesso de oxigênio na incubadora); – corioretinite (por toxoplasmose na gestação); – catarata congênita (rubéola, infecções na gestação ou hereditária); – glaucoma congênito (hereditário ou por infecções); – atrofia óptica por problema de parto (anoxia ou infecções perinatais); 80 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA – degenerações retinianas (Síndrome de Leber, doenças hereditárias ou diabetes); – deficiência visual cortical (encefalopatias, alterações de sistema nervoso central ou convulsões). • adquiridas: – diabetes; – descolamento de retina; – glaucoma; – catarata; – degeneração senil; – traumas oculares. A identificação precoce de qualquer problema poderá ser decisiva para o desenvolvimento global da criança. Por isso, é importante que o professor fique atento a alguns sinais, sintomas, posturas e condutas do aluno que indiquem a necessidade de uma avaliação clínica mais apurada. • sintomas: tontura, náuseas, dor de cabeça, sensibilidade excessiva à luz (fotofobia), visão dupla e embaçada; • condutas do aluno: apertar e esfregar os olhos, irritação e olhos avermelhados e/ou lacrimejantes, estrabismo, nistagmo (olhos em constante oscilação), franzimento de testa e piscar contínuo para fixar perto ou longe, tropeço e quedas frequentes, desatenção e desinteresse, dificuldade para a leitura e escrita, aproximação excessiva do objeto que está vendo, fadiga ao esforço visual, dentre outros. As principais alterações visuais na infância: • ambliopia: parada ou regressão do desenvolvimento visual em um ou ambos os olhos, determinando a diminuição da acuidade visual, sem uma alteração orgânica aparente; 81 Deficiências, Transtornos e Suas Especificidades Capítulo 4 Figura 39 – Criança com ambliopia Fonte: Disponível em: <http://revistavivasaude.uol.com.br/clinica-geral/tudo-sobre-a-ambli- opia/5438/>. Acesso em: 15 dez. 2017. estrabismo: ausência de paralelismo dos músculos oculares, para uma perfeita coordenação de ambos os olhos, responsável por uma imagem nítida, no mesmo ponto da retina, que possibilita a fusão; Figura 40 – Tipos de estrabismo Fonte: Disponível em:<http://saude.culturamix.com/doencas/estrabismo-o-que-e-e-como- tratar>. Acesso em: 15 dez. 2017. 82 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA hipermetropia: dificuldade na capacidade de ver perto, causada pelo achatamento do globo ocular; Figura 41 – Hipermetropia Fonte: Disponível em: <http://oftalmogil.com.br/site/hipermetropia/>. Acesso em: 15 dez. 2017. miopia: dificuldade para ver longe, em virtude do alongamento do globo ocular, que forma a imagem antes da retina; Figura 42 – Miopia Fonte: Disponível em: <http://oftalmologistacb.com.br/?_escaped_fragment_=portfo- lio-item/>. Acesso em: 15 dez. 2017. 83 Deficiências, Transtornos e Suas Especificidades Capítulo 4 astigmatismo: quando a córnea não apresenta a mesma curvatura em todas as direções, ocasionando uma deformação da imagem; Figura 43 – Astigmatismo Fonte: Disponível em: <http://www.saudedica.com.br/o-que-e-causa-e-tratamento-da-astig- matismo/>. Acesso em: 15 dez. 2017. Algumas escolas têm como prática realizar uma triagem ocular com seus alunos. Existem vários testes que podem ser realizados já desde os primeiros anos de vida, porém, o mais conhecido e de fácil aplicação é o chamado Escala Optométrica de Snellen. Figura 44 – Escala optométrica de Snellen Fonte: Disponível em: <http://fonoeduca.blogspot.com.br/2012/05/teste-de-snellen.html>. Acesso em: 15 dez. 2017. 84 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA Sugerimos o vídeo “Teste de acuidade visual de Snellen”, que demonstra de forma clara e prática como esta avaliação pode ser feita nas escolas. Disponível em: <https://www.youtube.com/ watch?v=Y0iTUCy-Zgg>. Acesso em: 4 jan. 2018. Alunos com baixa visão podem se beneficiar visualmente com a utilização de adaptação de recursos ópticos específicos, tanto para enxergar de perto como de longe, facilitando assim seu processo de aprendizagem. Esses recursos têm como objetivo melhorar a focalização por ampliação, nitidez de imagem e corrigir refração: recursos ópticos: Figura 45 – Recursos óticos Fonte: Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/aee_dv.pdf>. Acesso em: 15 dez. 2017. Figura 46 – Telelupas óculos com lentes bifocais lentepara visão de longe lente para visão de perto 85 Deficiências, Transtornos e Suas Especificidades Capítulo 4 Fonte: Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/aee_dv.pdf>. Acesso em: 15 dez. 2017. recursos não ópticos: no manual “Atendimento Educacional Especializado – Deficiência Visual”, elaborado pelo Ministério da Educação (BRASIL, 2010), são considerados auxílios não ópticos: – iluminação natural do ambiente, uso de lâmpada incandescente e ou fluorescente no teto; – contraste nas cores, por exemplo: branco e preto, preto e amarelo; – visores, bonés, oclusores laterais; – folhas com pautas escuras e com maior espaço entre as linhas; livros com texto ampliado; – canetas com ponta porosa preta ou azul escura; lápis (6b) com grafite mais forte; colas em relevo coloridas ou outro tipo de material para marcar objetos ou palavras; – prancheta inclinada para leitura; dispositivo para isolar a palavra ou sentença; Figura 47 – Recursos não-ópticos Fonte: Disponível em: <http://www.sme.pmmc.com.br/site2011/index.php?option=com_ content&view=article&id=466:setor-pedagogico-especializado-srdv&catid=977:pro-esco- lar>. Acesso em: 15 set. 2017 86 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA Atividade de Estudos: 1) Conceitue os termos “cego” e “baixa visão”, e apresente os principais recursos utilizados por cada um deles: ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ Sistema Braile e a alfabetização do aluno cego: o Sistema Braille é um código universal de leitura tátil e de escrita, inventado por um jovem cego chamado Louis Braille, em 1825. Pode-se dizer que a criação deste sistema foi um marco para as novas conquistas que viriam, principalmente no que se refere à oportunidade da educação das pessoas cegas e sua emancipação no direito de ir e vir, da comunicação e aquisição de novas informações pela leitura e pela escrita e da sua inclusão no contexto social e pedagógico. Esse sistema de escrita em relevo é constituído por 63 sinais, formados a partir de um conjunto de seis pontos, denominado de sinal fundamental. O espaço ocupado por ele é denominado de cela Braille ou célula Braille. A seguir, seu alfabeto: 87 Deficiências, Transtornos e Suas Especificidades Capítulo 4 Figura 48 – Alfabeto Braille 7ª série é formanda por sinais que utilizam os pontos da coluna direita da cela (456) 6ª série é formada com a combinação dos pontos 3456 5ª série é formada pelos sinais da 1ª série posicionados nas parte inferior da cela 4ª série é resultante da adição do ponto 6 aos sinais da 1ª série 3ª série é resultante da adição dos pontos 3 e 6 aos sinais da 1ª série 2ª série é resultante da adição do ponto 3 a cada um dos sinais da 1ª série 1ª série - série superior - utiliza os pontos superiores 1245 Fonte: Sá (2007, p. 23). O processo de desenvolvimento e de aprendizagem da criança cega perpassa momentos nos quais se deve enfatizar a atividade lúdica, a utilização do material concreto, a importância de ofertar momentos de construção de conceitos dos mais básicos aos mais abstratos. Muitas vezes, as limitações nas experiências vivenciadas pela criança cega, bem como as barreiras de acessibilidade física e de comunicação, podem comprometer o seu desenvolvimento, por isso destacamos a importância da estimulação precoce, de modo a potencializar suas habilidades e diminuir as barreiras que podem limitar. 88 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA Figura 49 – Estimulação precoce Fonte: Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/brincartodos.pdf>. p. 17. Acesso em: 10 nov. 2017. É importante também avaliar as habilidades essenciais da criança para o processo de alfabetização dela, tanto no que se refere aos aspectos motores (saber colar, empilhar, destacar, recortar, virar página, abotoar etc.); de discriminação auditiva (reconhecer, identificar e localizar sons) e de discriminação tátil (explorar objetivos, classificar, seriar, estabelecer diferenças, assegurar os movimentos corretos das mãos para escrita e leitura). Na alfabetização, o professor poderá utilizar recursos lúdicos como livros interativos, celas braile de materiais diversos, jogos, painéis e outros. Atividade de Estudos: 1) A partir da tabela com o alfabeto Braile, sugerimos a você um desafio, registre com as celas e pontos as letras que compõem o seu nome: ____________________________________________________ ___________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ 89 Deficiências, Transtornos e Suas Especificidades Capítulo 4 2) Discutiu-se no texto, uma fase muito importante do desenvolvimento infantil, que consiste nos seus primeiros anos de vida. Quais são os aspectos essenciais a serem observados e estimulados nas crianças que apresentam deficiência visual? ____________________________________________________ ____________________________________________________ ___________________________________________________ ___________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ Sorobã: o professor Joaquim Lima de Moraes foi o primeiro a se preocupar com as ferramentas que os cegos dispunham para efetuar cálculos. Por ser a Matemática uma de suas matérias preferidas, após aprender o sistema braile, voltou sua atenção a pensar num modo de ensinar matemática às crianças cegas, diante disso, verificou no ábaco adaptado uma possibilidade de instrumento pedagógico, posteriormente formalizado como Sorobã. Para Amiralian (1997), a formação de conceitos, a capacidade classificatória, o raciocínio, as representações mentais e outras funções cognitivas revelam-se como fatores essenciais para a educação das crianças cegas e precisam ser desenvolvidas desde seus primeiros anos. Esta base será essencial para a construção de novos conhecimentos envolvendo habilidades matemáticas. No Sorobã, as principais partes desse instrumento e nomenclatura são: • contas: pequenos círculos que podem ser deslocados verticalmente; • eixo: haste vertical na qual as contas podem ser deslocadas; • regra de numeração: haste horizontal atravessada pelos eixos que dividem o Sorobã em retângulos: superior, contendo uma conta em cada eixo, e o inferior, contendo quatro contas em cada eixo; • pontos: saliências situadas sobre a regra. Destinam-se, principalmente, a dividir o Sorobã em sete classes, consideradas da direita para a esquerda. 90 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA Figura 50 – Sorobã Fonte: Disponível em: <www.sorobanbrasil.com.br>. Acesso em: 15 dez. 2017. Cada conta do retângulo inferior vale uma unidade da ordem a que corresponde e cada conta do retângulo superior vale cinco unidades da ordem a que corresponde. Para numerais de dois ou mais algarismos, utilizamos tantos eixos quantos forem os algarismos. Atividade de Estudos: 1) Quais estratégias podemos utilizarpara trabalhar as funções cognitivas (memória, raciocínio, formação de conceitos etc.) com alunos com deficiência visual? ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ c) Deficiência auditiva A deficiência auditiva é caracterizada por uma diminuição ou ausência da capacidade de ouvir de um indivíduo. A aquisição dessa deficiência pode ser dividida em dois grupos: 91 Deficiências, Transtornos e Suas Especificidades Capítulo 4 ATENÇÃO! O Ministério da Saúde recomenda que nas primeiras 48 horas de vida do bebê seja realizado o exame de emissão otoacústicas evocadas, mais conhecido como “teste da orelhinha”, que verifica se há resposta a um estímulo sonoro e verifica a integridade do ouvido e se há algum tipo de deficiência auditiva. O teste consta na tabela do Sistema Único de Saúde e é oferecido gratuitamente para a população! Figura 51 – Teste da orelhinha Fonte: Disponível em: <http://liglab.com.br/blog/prevencao/importancia-teste-da-orelhinha. html>. Acesso em: 15 dez. 2017. • congênitas: quando a criança nasce surda (considerada como pré-lingual, pois ocorreu antes da aquisição da linguagem); • adquiridas: quando a perda da audição acontece no decorrer da vida. E poderá ser pré ou pós-língual, dependendo da idade que ocorreu a perda auditiva. Sobre as causas da surdez, segue sua etiologia que está dividida em: • pré-natal: quando a surdez foi provocada por fatores genéticos e hereditários, doenças adquiridas pela mãe durante a gestação (toxoplasmose, rubéola etc.) e uso de drogas (incluindo medicamentos); • perinatal: surdez decorrente de parto prematuro, anóxia cerebral (falta de oxigênio no cérebro durante o nascimento) e trauma de parto; • pós-natal: quando a surdez é decorrente de doenças que o indivíduo adquiriu durante a vida, como meningite e caxumba. Pode-se identificar 92 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA Figura 52 – Anatomia OUVIDO INTERNO OUVIDO MÉDIO OUVIDO EXTERNO OSSO TEMPORAL CANAL AUDITIVO TÍMPANO TROMPA DE EUSTAQUIO PAVILHÃO AUDITIVO (ORELHA) Fonte: Disponível: <http://www.audioclean.com.br/audicao/tipos-de-perda-auditiva/attach- ment/anatomia-do-ouvido-perda-auditiva>. Acesso em: 15 dez. 2017. Segundo os especialistas, é possível avaliar isso utilizando um instrumento capaz de realizar alguns testes chamado de audiômetro, que mede a sensibilidade auditiva de um indivíduo. Essa intensidade sonora é conhecida como decibel (Db). Assim, pode-se classificar o grau da perda auditiva em níveis, conforme nos mostra Brasil (2005, p. 16-17): também casos devido ao uso de medicação, acidentes e idade avançada (BRASIL, 2005). Pode-se também identificar o tipo de perda auditiva acometida pelo indivíduo, que pode ser: • condutiva: quando a lesão ou alteração está localizada no ouvido externo e/ou médio, ocasionada por otites, rolhas de cera, acúmulo de secreções, dentre outros e que, na maioria dos casos, é reversível após tratamento; • neurossensorial: alteração acontece no ouvido interno, ocasionada por meningite e rubéola materna, irreversível; • mista: a alteração está localizada no ouvido externo e/ou médio e ouvido interno, ocasionada por fatores genéticos; • central: a alteração está localizada desde o tronco cerebral até as regiões subcorticais e córtex cerebral. 93 Deficiências, Transtornos e Suas Especificidades Capítulo 4 Figura 53 – A.A.S.I. Fonte: Disponível em: <https://fissuraeaudicao.files.wordpress.com/2010/10/aasi_crianca. jpg?w=300&h=214>. Acesso em: nov. 2017 Audição normal: de 0 a 15dB; Surdez leve: de 16 a 40. Nesse caso a pessoa pode apresentar dificuldade para ouvir o som do tic-tac do relógio, ou mesmo uma conversação silenciosa (cochicho); Surdez moderada: de 41 a 55dB. Com esse grau de perda auditiva a pessoa pode apresentar alguma dificuldade para ouvir uma voz fraca ou o canto de um pássaro; Surdez acentuada: de 56 a 70dB. Com esse grau de perda auditiva a pessoa poderá ter alguma dificuldade para ouvir uma conversação normal; Surdez severa: de 71 a 90dB. Nesse caso a pessoa poderá ter dificuldades para ouvir o telefone tocando ou ruídos das máquinas de escrever num escritório; Surdez profunda: acima de 91dB. Nesse caso a pessoa poderá ter dificuldade para ouvir o ruído de caminhão, de discoteca, de uma máquina de serrar madeira ou, ainda, o ruído de um avião decolando. A surdez pode ser, unilateral, quando há comprometimento de apenas um ouvido, ou bilateral, quando de ambos os ouvidos. Em muitos casos, é possível fazer uso de recursos como o Aparelho de Amplificação Sonora Individual (A.A.S.I), para que a criança possa utilizar sua audição residual. Este aparelho converte o sinal sonoro, em sinal elétrico e depois converte novamente em sinal acústico que é encaminhado para o conduto auditivo externo. Já se encontram no mercado vários modelos e dependerá do perfil pessoal e indicação médica para sua escolha. O Sistema de Frequência Modulada (F.M) é um dispositivo de transmissor e microfone, que pode ser utilizado pelo professor, e um receptor que é utilizado pelo aluno com deficiência. O transmissor envia mensagens por meio de ondas de FM que são recebidas pelo aluno através do receptor e amplificadas para um nível de audição adequado para a criança. 94 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA Figura 54 – Sistema FM Fonte: Disponível em:<http://www.facil.com.br/pt/blog/postagem/148/univali-inovacao#. VwcfQmgrLIU>. Acesso em: 15 dez. 2017. Há ainda a opção de implante coclear, que consiste numa prótese auditiva composta por componentes internos e externos que substituem as células sensoriais e ativam as terminações nervosas do nervo auditivo. Esse implante é indicado para indivíduos com perda auditiva profunda e que não se beneficiam do uso do A.A.S.I.. Figura 55 – Implante coclear Fonte: Disponível em: <http://www.direitodeouvir.com.br/implante-coclear/>. Acesso em: 15 dez. 2017. 95 Deficiências, Transtornos e Suas Especificidades Capítulo 4 É importante que o professor fique atento, na sala de aula, para algumas características de comportamento e linguagem dos seus alunos. Segundo o Programa de Saúde Auditiva da USP, através da cartilha “A deficiência auditiva na idade escolar” (BRASIL, 2012, p. 29), orienta o professor a observar: Se a criança apresenta dificuldade na pronúncia das palavras; Se a criança apresenta preguiça e desânimo; Se a criança atende aos chamados; Se a criança inclina a cabeça, procurando ouvir melhor; Se a criança usa palavras inadequadas e erradas, quando comparadas às palavras utilizadas por outras crianças da mesma idade; Se a criança não se interessa pelas atividades ou jogos em grupo; Se a criança é vergonhosa, retraída e desconfiada; Se fala muito alto ou muito baixo; Se a criança pede repetição frequentemente. Figura 56 – Audição Fonte: Disponível em: <http://solucaoperfeita.com/magnesio/audicao/>. Acesso em: 15 dez. 2017. A partir das orientações sugeridas pela cartilha, o professor poderá observar com mais atenção as características e peculiaridades que o aluno pode apresentar em sala de aula. Diante disso, será capaz de realizar os encaminhamentos necessários para que a família busque atendimento adequado. Atividade de Estudos: 1) Apresente as principais características e funções do A.A.S.I., do Sistema de Frequência Modulada e do Implante Coclear: ________________________________________________________________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ 96 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA d) Deficiência intelectual Conceituar a deficiência intelectual ainda gera alguns impasses devido a sua complexidade de definição e pela quantidade e variedade de abordagens. Por muito tempo, a forma de se avaliar o nível de inteligência de uma pessoa, o conhecido Teste do Quociente Intelectual (QI) era o parâmetro para diagnosticar os déficits intelectuais, classificando-os entre leve, moderado e profundo, conforme o seu comprometimento, incluindo sintomas dessa deficiência como a dificuldade no aprendizado e comprometimento no seu comportamento (BATISTA, 2005). Posteriormente, com maior detalhamento, considerou-se como nova definição que a deficiência intelectual: [...] se refere a limitações substanciais no funcionamento atual dos indivíduos, sendo caracterizado por um funcionamento intelectual significativamente abaixo da média, existindo concomitante com relativa limitação associada a duas ou mais áreas de condutas adaptativas, indicadas a seguir: comunicação, autocuidado, vida no lar, habilidades sociais, desempenho na comunidade, independência na locomoção, saúde e segurança, habilidades acadêmicas e funcionais, lazer e trabalho (LUCKASSON et al, 1992, p. 132). Segundo a DSM-V (2015), para os critérios para a deficiência intelectual, além da avaliação cognitiva é fundamental avaliar a capacidade funcional adaptativa. Diante disso, os fatores de risco e causas da deficiência intelectual podem ocorrer em três fases: pré-natais (fatores que incidem desde o momento da concepção do bebê até o início do trabalho de parto): - Fatores genéticos: • alterações cromossômicas (numéricas ou estruturais): provocam Síndrome de Down, entre outras; • alterações gênicas (erros inatos do metabolismo): que provocam fenilcetonúria, entre outras. - Fatores que afetam o complexo materno-fetal: • tabagismo, alcoolismo, consumo de drogas, efeitos colaterais de medicamentos teratogênicos (capazes de provocar danos nos embriões e fetos); • doenças maternas crônicas ou gestacionais (como diabetes mellitus); 97 Deficiências, Transtornos e Suas Especificidades Capítulo 4 • doenças infecciosas na mãe, que podem comprometer o feto: sífilis, rubéola, toxoplasmose; • desnutrição materna. perinatais (fatores que incidem do início do trabalho de parto até o 30º dia de vida do bebê): - hipóxia ou anoxia (oxigenação cerebral insuficiente); - prematuridade e baixo peso: Pequeno para Idade Gestacional (PIG); - icterícia grave do recém-nascido (kernicterus). pós-natais (fatores que incidem do 30º dia de vida do bebê até o final da adolescência): - desnutrição, desidratação grave, carência de estimulação global. - infecções: meningites, sarampo. - intoxicações exógenas: envenenamentos provocados por remédios, inseticidas, produtos químicos como chumbo, mercúrio etc. - acidentes: trânsito, afogamento, choque elétrico, asfixia, quedas etc. (BATISTA, 2005). ATENÇÃO! O teste do pezinho já é obrigatório no Brasil. Consiste na coleta de algumas gotas de sague do recém-nascido que diagnostica doenças que podem causar deficiência, como a fenilcetonúria, hipotireoidismo congênito, toxoplasmose congênita, citomegalovírus, dentre outros, viabilizando tratamento precoce. O aluno com deficiência intelectual tem uma maneira própria de lidar com o saber e, muitas vezes, não corresponde às expectativas da escola, por isso, esta precisa considerar as aprendizagens e conquistas individuais e que não cabem em padrões idealizados. Assim, acentuar a deficiência pode reforçar os sintomas já existentes, agravando a dificuldade desse aluno nas conquistas escolares. Dentro de uma perspectiva inclusiva, o aluno com deficiência intelectual está envolvido, direta ou indiretamente, em todas as etapas educacionais, seja no planejamento do professor, na execução de práticas para todos os alunos, na avaliação e na socialização dos conhecimentos adquiridos. 98 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA Figura 57 – Deficiência intelectual Fonte: Disponível em: <http://www.psicologia.pt/artigos/ver_artigo.php?a-essen- cialidade-da-intervencao-precoce-em-criancas-com-deficiencia-intelectual&codi- go=A0968&area=d6>. Acesso em: 15 dez. 2017. Principais Síndromes Alterações cromossômicas e genéticas, desordens do desenvolvimento do embrião e outros distúrbios que podem reduzir a capacidade do cérebro, podem causar deficiência intelectual. A seguir, algumas síndromes: a) Síndrome de Down É uma alteração genética produzida pela presença de um cromossomo a mais, o par 21, também conhecida como trissomia 21. Neste caso, um cromossomo extra está presente em todas as células do organismo, devido a um erro na separação do cromossomo 21 em uma das células dos pais. Também é possível encontrar, porém em menor porcentagem, a Síndrome de Down mosaico (quando a trissomia está presente em apenas algumas células) e por translocação (quando o cromossomo 21 está unido a outro cromossomo). Essa alteração afeta o desenvolvimento do indivíduo e determina algumas características físicas e cognitivas. 99 Deficiências, Transtornos e Suas Especificidades Capítulo 4 Figura 58 – Trissomia 21 Fonte: Disponível em: <http://alunosonline.uol.com.br/biologia/aneuploidias.html>. Acesso em: 15 dez. 2017 Dentre essas características, pode-se destacar a deficiência intelectual, hipotonia muscular, fendas palpebrais, mãos pequenas com pregas transversais, língua protusa, nariz pequeno e problemas cardíacos em 50% dos casos. Figura 59 – Características da Síndrome de Down Língua protusa. Orelha pequena. Orelha a baixo do nível do olho. Nariz pequeno e achatado. Prega horizontal única. Olhinho puxado e com prega no canto interno. Fonte: Disponível em: <https://cromossomodoamor.wordpress.com/2014/11/03/primei- ras-caracteristicas/>. Acesso em: 15 dez. 2017. 100 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA Estudos mostram uma incidência maior de casos de nascimento de crianças com Síndrome de Down em mães com idade acima dos 35 anos. Isso acontece porque os folículos que darão origem aos óvulos já nascem com a mulher, e células mais velhas têm mais chances de terem erros no processo de divisão. Depois do nascimento, o diagnóstico clínico é comprovado através de um exame de cariótipo e a estimulação essencial e o atendimento multidisciplinar (pedagogo, fonoaudiólogo, fisioterapeuta, dentre outros) será muito importante para o desenvolvimento global dessa criança. b) Síndrome de Williams É uma desordem no cromossomo 7 e afeta ambos os sexos. É caracterizada por “face de gnomo ou fadinha”, com nariz pequeno e empinado, cabelos encaracolados, lábios cheios e sorriso frequente. Apresentam atraso psicomotor, intelectual e problemas cardíacos. Ressalta-se o seu comportamento sociável e comunicativo. A maioria apresenta sensibilidade musical e memória auditiva. Figura 60 – Síndrome de Williams Fonte: Disponível em: <http://www.mundodainclusao.com.br/noticia-412_sindrome-de-wil- liams>. Acesso em: out. 2017. Muitas crianças com a síndrome demonstram medo ao escutarem ruídos mais estridentes como de liquidificador, roçadeiras, avião, dentro outros, por serem hipersensíveis ao som. c) Síndrome do X-Frágil É uma mutação genética que interfere na proteína que ajuda a regular a produção de outras proteínas que afetam o desenvolvimento das sinapses, conexões fundamentais no nosso cérebro e que interferem no desenvolvimentoe nas aprendizagens do indivíduo. 101 Deficiências, Transtornos e Suas Especificidades Capítulo 4 Figura 61 – Síndrome do X-Frágil Fonte: Disponível em: <http://www.psiqweb.med.br/site/?area=NO/LerNoticia&idNoti- cia=26>. Acesso em: out. 2017. De difícil diagnóstico clínico, o teste de DNA tem sido a melhor escolha para se confirmar a síndrome, pois apresenta precisão de 99% dos indivíduos portadores. d) Síndrome de Prader-Willi É uma doença congênita que afeta o sistema nervoso central, resultado de uma anomalia no cromossomo 15. Apresentam sintomas como o atraso na linguagem, deficiência intelectual, ansiedade e comportamento hiperativo e cerca de 1\3 desses indivíduos apresentam características do espectro do autismo. Figura 62 – Síndrome de Prader-Willi Fonte: Disponível em: <http://criancaesaude.com.br/especialistas/drmrangel/crian- cas-com-sindrome-de-prader-willi-e-as-queixas-ortopedicas/>. Acesso: out. 2017 102 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA Para Silva (2014, s.p), os principais sintomas são: • Hiperfagia: constante sensação de fome e interesse com comida, que pode surgir entre os dois e cinco anos de idade e levar a obesidade ainda na infância. • Hipotonia: atraso nas fases típicas do desenvolvimento psicomotor quando bebês. Mais tarde, fraco tônus muscular, dificuldades com alguns movimentos, equilíbrio, escrita, uso de instrumentos, lentidão. • Dificuldades de aprendizagem e fala. • Instabilidade emocional e imaturidade nas trocas sociais. • Alterações hormonais: atraso no desenvolvimento sexual. • Baixa estatura. • Diminuição da sensibilidade à dor. • Mãos e pés pequenos. • Pele mais clara que os pais. • Boca pequena com o lábio superior fino e inclinado para baixo nos cantos da boca. • Fronte estreita. • Olhos amendoados e estrabismo e) Síndrome de Angelman Distúrbio neurológico resultante da ausência de uma pequena parte do cromossomo 15 herdado da mãe. De difícil diagnóstico, quando suspeito algum transtorno genético, o diagnóstico é confirmado por testes de DNA e estudo do cariótipo. Figura 63 – Síndrome de Angelman Fonte: Disponível em: <http://enfermedadesrarasinfo.blogspot.com.br/2014/11/sin- drome-de-angelman.html>. Acesso em: 15 dez. 2017. 103 Deficiências, Transtornos e Suas Especificidades Capítulo 4 Os principais sintomas são o atraso motor, dificuldade ou ausência de fala, deficiência intelectual, transtornos no sono, tamanho da cabeça menor do que o normal, estrabismo, desvio de coluna, epilepsia, natureza afetuosa e sorriso frequente. Transtorno Global do Desenvolvimento e o Transtorno do Espectro Autista (Tea) As classificações internacionais adotadas pela medicina – CID e DSM –, responsáveis pela denominação das doenças, deficiências e transtornos, apresentam, entre elas, diferenciação na nomenclatura e na organização estrutural das informações. No caso do Transtorno Global do Desenvolvimento não foi diferente, você perceberá no quadro a seguir essas distinções: Figura 64 – Classificação DO Autismo Fonte: Disponível em: <http://dansilsiloliveira.blogspot.com.br/>. Acesso em: 15 set. 2017. Os documentos que norteiam as políticas de educação especial na perspectiva da educação inclusiva, ainda se baseiam no referencial de classificação do DSM- IV, porém, todo o material produzido a partir de 2017 levará em consideração as informações contidas na atualizada DSM-V. Por isso, você poderá encontrar nas suas leituras e estudos, materiais que ainda utilizem o termo Transtorno Global do Desenvolvimento e os mais atuais como Transtorno do Espectro Autista; sendo este último, o viés a ser estudado neste caderno. 104 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA Transtorno do Espectro Autista (Tea) Descoberto e estudado por Leo Kanner, em 1943, atualmente é definido como uma desordem comportamental e emocional que se deve a algum comprometimento orgânico cerebral. Destaca-se em suas características uma diminuição no ritmo do desenvolvimento psiconeurológico, social e linguístico, assim como reações específicas a sensações como ouvir, tocar, sentir, degustar e outras, levando a acreditar que haja uma alteração orgânica no sistema nervoso central (FACION, 2007). Outro aspecto relevante consiste no fato de que estudos relacionaram o transtorno do espectro autista a graus variados de severidade, de modo que o mesmo deixa de ser visto como um quadro específico para ser considerado uma síndrome que apresenta subtipos variados. Além disso, apresenta características que formam uma tríade: prejuízo social, dificuldades na comunicação e movimentos e esteriotipias. As causas do autismo ainda não são claras e ao se constatar graus diferentes do transtorno, haveria a possibilidade da existência de diversas origens. Figura 65 – Tríade Fonte: A autora. O autismo é uma síndrome e apresenta um conjunto de sintomas presentes desde o nascimento, sendo manifestada até os três anos de idade. Ainda bebês, podem apresentar dificuldades a respostas de estímulos visuais e auditivos, atraso na linguagem, uso inadequado de pronomes e dificuldade na utilização de termos abstratos, bem como dificuldade de envolvimento interpessoal e pouco desenvolvimento nas habilidades sociais. É também reconhecido, em muitos casos, pela ausência de contato visual – olho no olho. 105 Deficiências, Transtornos e Suas Especificidades Capítulo 4 Figura 66 – Transtorno do Espectro Autista Fonte: Disponível em: <https://portomaterno.com/2016/04/04/sinais-de-autismo-em-be- bes/>. Acesso em: set. 2017. a) Sintomas Ainda não existe um exame específico capaz de detectar o transtorno autista. Por isso, seu diagnóstico é realizado a partir da observação de um conjunto de sintomas apresentados pela pessoa. Veja alguns deles: Figura 67 – Sintomas Fonte: Disponível em: <http://www.apoioautista.com.br>. Acesso em: 15 set. 2017. 106 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA Quando se percebe alguns sintomas dos apresentados na imagem, é importante que a família procure orientação em profissionais na área da saúde e educação e faça encaminhamentos para uma avaliação mais detalhada sobre o desenvolvimento da criança. Dentro do espectro autista, podemos ainda classificar pelo grau de comprometimento da deficiência, conforme a seguir: grau leve: necessidade de pouco apoio – a criança necessita de apoio contínuo para que as dificuldades na comunicação social não causem maiores prejuízos; – apresenta dificuldade em iniciar interações com outras pessoas, sejam adultos ou crianças, ocasionalmente oferece respostas inconsistentes às tentativas de interação por parte do outro; – aparentemente, demonstra não ter interesse em se relacionar com outras pessoas; – esse padrão de comportamento repetitivo e restrito ocasiona uma inflexibilidade comportamental na criança, gerando dificuldade em um ou mais ambientes (BELTRAME, 2017); – a criança fica por muito tempo em uma única atividade (hiperfoco) e apresenta resistência quando necessita mudar para outra; – alterações na organização e planejamento podem atrapalhar o trabalho pela busca da independência e autonomia da pessoa. grau moderado: necessidade de apoio substancial – apresenta um déficit notável nas habilidades de comunicação tanto verbais como não verbais; – percebe-se acentuado prejuízo social devido à pouca tentativa de iniciar uma interação social com outras pessoas; – quando o outro inicia o diálogo, as respostas, geralmente, mostram-se reduzidas ou atípicas; – apresenta inflexibilidade comportamental e evita a mudança na rotina, pois tem dificuldade em lidar com ela; – essas características podem ser notadas por um parente ou amigo queraramente visita a casa da família; – se estressa com facilidade e tem dificuldade de modificar o foco e a atividade que realiza. grau severo: necessidade de apoio muito substancial – há severos prejuízos na comunicação verbal e não verbal; – apresenta grande limitação em iniciar uma interação com novas pessoas e quase nenhuma resposta às tentativas dos outros; – comportamentos repetitivos e restritos; 107 Deficiências, Transtornos e Suas Especificidades Capítulo 4 – há presença de inflexibilidade no comportamento; – extrema dificuldade em lidar com mudanças na rotina e apresenta comportamentos restritos/repetitivos que interferem diretamente em vários contextos; – alto nível de estresse e resistência para mudar de foco ou atividade (BELTRAME, 2017). Para conhecer melhor o TEA, deixamos como sugestão os filmes: Mary and Max: Mary é uma menina solitária de oito anos, que vive em Melborne e Max um homem com Transtorno do Espectro Autista que vive em Nova York. Mesmo com tamanha distância e a diferença de idade existente entre eles, Mary e Max desenvolvem uma forte amizade, que transcorre de acordo com os altos e baixos da vida. Temple Grandin: Jovem autista luta para ter uma vida normal. Incentivada pelo professor, ela chega à universidade e usa sua sensibilidade e habilidade com os animais para criar uma técnica que revoluciona a indústria agropecuária dos Estados Unidos. Baseado numa história real. Olhe nos meus olhos: é a narrativa de alguém que cresceu com a Síndrome de Asperger numa época em que esse diagnóstico não existia. Desde criança, John Robison tinha dificuldades em relacionar-se com outras pessoas. Na adolescência, os problemas se agravaram e apenas aos 40 anos Robison foi diagnosticado por um atento terapeuta que era portador de uma forma de autismo chamada síndrome de Asperger. Essa súbita compreensão transformou a maneira como Robison se via e como via o mundo. 108 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA Atividade de Estudos: 1) Você já teve contato ou convívio com alguma pessoa com o Transtorno do Espectro Autista? Se a sua resposta for sim, relembre alguns momentos em que você esteve com ela e descreva as suas características/peculiaridades nos seguintes aspectos: a) Linguagem/comunicação: ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ b) Socialização: ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ c) Esteriotipias: ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ Altas Habilidades e Superdotação As pessoas com altas habilidades e superdotação se caracterizam pela elevada potencialidade de aptidões e talentos que se evidenciam em uma ou diversas áreas de atividade. Para a Política Nacional de Educação Especial (BRASIL, 1994), consiste em pessoas que apresentam notável desempenho e elevada potencialidade em qualquer dos seguintes aspectos, isolados ou combinados: capacidade intelectual geral: indivíduos que apresentam rapidez de pensamento, compreensão, memória, curiosidade e elevada capacidade de abstração; aptidão acadêmica específica: apresentam motivação por disciplinas acadêmicas do seu interesse, excelente desempenho escolar e capacidade de produção acadêmica; 109 Deficiências, Transtornos e Suas Especificidades Capítulo 4 pensamento criativo ou produtivo: indivíduos com alta capacidade de imaginação, resolvem situações de forma inovadora e originalidade de pensamento; capacidade de liderança: caracterizam-se pela relação interpessoal, cooperatividade, poder de persuasão e de resolver situações sociais; talento especial para arte: apresentam grande desempenho em artes plásticas, musicais, cênicas e ou literárias e facilidade em expressarem- se através de gestos ou comunicar sentimentos; capacidade psicomotora: indivíduos que apresentam desempenho superior em esportes ou atividades físicas, podendo se destacar em agilidade de movimentos, coordenação, força e resistência. Para Renzulli (1986), as pessoas com altas habilidades e superdotação, se comparadas, apresentam um conjunto bem definido de traços: habilidades acima da média em alguma área do conhecimento, envolvimento com a tarefa e criatividade. Figura 68 – Teoria dos três anéis Fonte: Disponível em: <http://slideplayer.com.br/slide/294697/>. Acesso em: 15 dez. 2017. Porém, o autor atenta que, nenhum dos traços apresentados é mais importante do que o outro, que nem todos necessitam estar presentes ao mesmo tempo ou na mesma quantidade para que os comportamentos de superdotação se destaquem. É importante que, tanto a família como a comunidade escolar estejam atentas aos aspectos do desenvolvimento deste aluno que apresenta características de superdotação. Porém, outro aspecto relevante a ser considerado consiste na maneira que essas crianças se relacionam com o seu meio e os seus sentimentos diante das dificuldades que porventura encontram ao lidar com esse meio. Muitas vezes, elas não se sentem compreendidas e geralmente não 110 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA encontram na escola e na sociedade um ambiente adequado e estimulador para o desenvolvimento de suas habilidades. Dessa forma, demonstram suas emoções de formas variadas, podendo retrair-se, desafiar, tornar-se desinteressado pelos conteúdos abordados na escola, dentre outras. Outro aspecto a ser considerado é o fato de que as pessoas criam expectativas frente à inteligência do superdotado, acreditando que suas habilidades sejam sempre generalistas e que terão êxito em todas as áreas do conhecimento. Isso nem sempre ocorre, e pode provocar ansiedade na criança, provocado pela família, amigos e escola. Atividade de Estudos: 1) Na sua opinião, por que as pessoas com altas habilidades e superdotação são consideradas clientela da educação especial, visto que elas não apresentam comprometimento cognitivo? ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ Algumas Considerações Neste capítulo, você pôde acompanhar algumas das principais deficiências, síndromes e transtornos encontrados em nosso contexto. Conhecer um pouco dessas características e peculiaridades são fundamentais para que possamos compreender melhor as pessoas que são acometidas e, assim, construirmos uma sociedade mais inclusiva, em que todas as pessoas tenham direito de acesso e participação social. Importante refinarmos o nosso olhar no outro, aquilo que nos diferencia e consequentemente nos engrandece, justamente porque nos permite novas experiências e aprendizagens. 111 Deficiências, Transtornos e Suas Especificidades Capítulo 4 Referências APA. American Psychiatry Association. Proposed DSM-5 organizational structure and disorders names. 2011. Disponível em: <http://www.dsm5.org/ proposedrevision/Pages/proposed-dsm5- organizational-structure-and-disorder- names.aspx>. Acesso em: 15 dez. 2017. BATISTA. C. Educação inclusiva: atendimento educacional especializado para deficiência mental. Brasília: MEC, SEESP, 2005.BRASIL. A deficiência auditiva na idade escolar – cartilha. Programa de saúde auditiva. Bauru: H.P.R.L.L.P. USP, FUNCRAF, Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, 2012. FACION, J. R. Transtorno do déficit de atenção/hiperatividade. In: ______. Especialização em educação especial e educação inclusiva: transtornos do desenvolvimento e do comportamento. 3. ed. Curitiba: IBPEX, 2007. GIL M, coord. Educação inclusiva: o que o professor tem a ver com isso? São Paulo: Ashoka, 2001. 165p. MACHADO, R. Deficiência física. Formação para Professores para o atendimento educacional especializado. Brasília, 2007. OMS. Organização Mundial da Saúde. CID-10 Classificação estatística internacional de doenças e problemas relacionados à saúde. 10. rev. São Paulo: Universidade de São Paulo, 1997. vol.1. SÁ, E. Deficiência visual. Atendimento Educacional Especializado. MEC. Brasília, 2010. SILVA, Ivan. Síndromes. Disponível em: <http://www.fiocruz.br/ biosseguranca/Bis/infantil/sindrome-willians.htm>. Acesso em: 15 dez. 2017. 112 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA CAPÍTULO 5 Práticas Inclusivas na Educação Integral A partir da perspectiva do saber fazer, neste capítulo você terá os seguintes objetivos de aprendizagem: � Identificar as contribuições da educação integral para a inclusão dos alunos com deficiência no ensino comum. � Analisar as estratégias pedagógicas na perspectiva inclusivista. � Organizar práticas pedagógicas inclusivas no contexto da educação integral. 114 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA 115 Práticas Inclusivas Na Educação Integral Capítulo 5 Contextualização No decorrer deste caderno, percorremos grande parte da trajetória da pessoa com deficiência na sociedade até os dias atuais. Percebemos que movimentos políticos e sociais foram realizados para que avançássemos em ações com perspectivas mais inclusivas. A educação integral é uma dessas perspectivas, pois sua proposta é acolher todos os indivíduos, nas suas mais variadas especificidades, oportunizando experiências que incentivem o seu desenvolvimento de forma globalizada. Nosso último capítulo, pretendemos contribuir, apresentando algumas práticas inclusivas que possam auxiliar as dinâmicas pedagógicas e avaliativas em sala de aula e no contexto da escola, com enfoque no planejamento, adaptação curricular, produção de material e avaliação. A partir dessas reflexões, cabe ao professor ajustar esse conhecimento as suas experiências profissionais e de acordo com as necessidades do contexto. Contribuições da Educação Integral Para a Inclusão dos Alunos com Deficiência Entende-se que a educação integral, da mesma forma que a educação inclusiva, promove alterações no contexto social dos alunos, da escola e da comunidade. Mantoan (2003) reforça essa ideia quando afirma que essas mudanças são consideradas pré-requisitos para o progresso do desenvolvimento e para o exercício da cidadania de todas as pessoas, com ou sem deficiência. A educação integral reconhece os alunos como sujeitos únicos, dotados de potencialidades e de saberes múltiplos, e compreende a escola comum e seus espaços vizinhos como extensão para que essas potencialidades sejam cada vez mais ampliadas a partir da cooperação das redes sociais e da comunidade escolar (CENPEC, 2011). Quando a educação permite a formação da escola que valoriza os saberes dos alunos, pode-se assim ampliar o repertório de estratégias de ensino-aprendizagem. O papel da mediação é fundamental para o processo de organização e construção desses saberes, é a “matéria-prima da constituição da vida pessoal e social” (PACHECO, 2008, p. 165) desses sujeitos, considerando- os assim, como seres multidimensionais. Entende-se que a educação integral, da mesma forma que a educação inclusiva, promove alterações no contexto social dos alunos, da escola e da comunidade. 116 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA Uma vez que os sujeitos sejam compreendidos como seres multidimensionais, a escola precisa atuar nessa perspectiva, levando em consideração os aspectos que envolvem a integralidade do aluno. Vale ressaltar que a educação integral não se trata apenas de ofertar a ampliação do tempo de jornada de atividades dos alunos na escola, mas que estes permaneçam no ambiente escolar com oportunidades/vivências que enriqueçam suas experiências de aprendizagem. Diante do exposto, a educação inclusiva contribui por compreender que os processos de ensino-aprendizagem acontecem através do respeito às diferenças e às singularidades. Ainda, impulsiona os movimentos que conduzem aos programas, estratégias e projetos pedagógicos que visam à qualidade real e à significativa aprendizagem para todos os alunos, diminuindo assim as desigualdades socioculturais e educacionais que ainda persistem na educação no país. A educação integral não se trata apenas de ofertar a ampliação do tempo de jornada de atividades dos alunos na escola, mas que estes permaneçam no ambiente escolar com oportunidades/ vivências que enriqueçam suas experiências de aprendizagem. Atividade de Estudos: 1) Você já atuou ou conhece as práticas desenvolvidas na educação integral? Você pôde vivenciar experiências que promovessem o desenvolvimento integral do aluno, bem como sua inclusão no contexto escolar? Relate-nos. ____________________________________________________ ____________________________________________________ ___________________________________________________ ___________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ Práticas Inclusivas no Contexto Escolar Como se pode acompanhar nos estudos, atualmente observa-se um discurso que retoma a importância da valorização e o respeito à diversidade, propondo-se a convivência e a aprendizagem de todos os alunos no contexto do ensino comum. 117 Práticas Inclusivas Na Educação Integral Capítulo 5 Diante disso, evidencia-se a necessidade de maior esforço da equipe pedagógica e dos professores para se adequarem a esse novo paradigma e o desafio de ensinarem a turma toda, na perspectiva da educação integral. Assim, além de aprenderem a adaptar o planejamento e os procedimentos de ensino, as competências dos alunos devem ser vistas, em detrimento somente das dificuldades. As práticas pedagógicas inclusivas sinalizam que o professor deve intervir nas atividades que o aluno ainda não tem autonomia, ajudando-o a se sentir capaz de realizá-la. Quando as práticas privilegiam a construção coletiva em sala de aula, com base nas necessidades dos alunos e levando em consideração seus diferentes ritmos, estilos e interesses, têm-se um perfil estratégico de mediação que inclui todos. As práticas pedagógicas inclusivas sinalizam que o professor deve intervir nas atividades que o aluno ainda não tem autonomia, ajudando-o a se sentir capaz de realizá-la. Atividade de Estudos: 1) Na sua opinião, qual o aspecto fundamental para que se vivencie práticas pedagógicas inclusivas em sala de aula? ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ Da mesma forma, a avaliação da aprendizagem desses alunos deve ser coerente com os objetivos e atividades selecionadas em sala, sempre considerando-a não comparativa à aprendizagem do outro, mas sim, a partir do percurso de aprendizagens que este sujeito fez, comparando ele com ele mesmo do começo até o fim do processo.Para isso, a observação e o registro dos resultados das intervenções do professor são essenciais como apoio para a realização dos próximos planejamentos, pois em muitos casos, é necessária a flexibilização na abordagem do conteúdo, na viabilidade de múltiplas formas de participação do aluno e nos diversos modos de expressão dele. Será apresentado a seguir um esquema ilustrativo que mostra o que o professor deve observar, registrar e suas respectivas etapas. Aproveite esta ideia e a coloque em prática em sua sala de aula. A observação e o registro dos resultados das intervenções do professor são essenciais como apoio para a realização dos próximos planejamentos. 118 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA Figura 69 – Registro pedagógico (qual foi a proposta, o material utilizado, como a turma se organizou e de que forma a atividade se desenvolveu, qual o resultado). (quem faltou, quem se alimentou ou não quis comer, quais das crianças chorou ou teve problemas de comportamento e como foi resolvido). (desenvolvimento de cada criança em um registro individual: os aspectos cognitivos e emocionais, as novas conquistas, desafios e potenciais). Qual o foco do seu registro? Defina sobre o que quer falar. Há 3 tipos de registro: sobre atividade, a rotina ou as crinças. Reúna os trabalhos das crianças: fotos, vídeos, áudios, seus desenhos e toda a produção feita em sala. Compare-os e perceba se houve ou não crescimento. Crie um portfólio para visualizar a evolução. Reflita sobre seu papel como professor. Seja honesto ao descrever sucessos e fracassos Como você orientou as atividades em sala e exerceu a prática pedagógica? Como está a relação com a classe? Como lidou com imprevistos e o que pode melhorar? Anote as dificuldades das crianças assim: como seus acertos: isso permite que você planeje as próximas aulas de acordo com o desenvolvimento real da turma! Dê feedback Mude! Tanto para seus coordenadores quanto para os pais - e para os própiros aluno! Em sua próxima aula,não tenha medo de colocar em prática as mudanças que achar necessárias. A partir daí, observe se houver mesmo melhora e o que ainda precisa de mais atenção. Lembre-se: ser professor é um eterno aprender Sobre uma atividade Sobre uma criança Sobre a rotina de classe Fonte: Disponível em: <www.naescola.eduqa.me/>. Acesso em: 20 set. 2017. 119 Práticas Inclusivas Na Educação Integral Capítulo 5 O registro é de fundamental importância para se ter o acompanhamento das estratégias de ensino, da aprendizagem da criança e os resultados dessa construção do conhecimento. Se o professor não realizar esse tipo de organização, perderá grande parte das informações vivenciadas durante as aulas, dificultando uma avaliação mais apurada do desenvolvimento da criança do início até o fim do ano letivo. Adaptação Curricular Uma das grandes barreiras encontradas pelo professor, em se tratando da inclusão de pessoas com deficiência no ensino comum, refere-se à dificuldade encontrada quando verifica disparidade entre os conteúdos, que devem ser abordados em uma determinada turma e o nível de conhecimento que o aluno com deficiência traz consigo. Não ocasionalmente, ainda em processo de aquisição da leitura e escrita, não acompanha o ritmo e os objetivos estabelecidos nas aulas. As práticas inclusivas remodelam esse pensamento e expectativa centrada na manutenção de um currículo pré-determinado para todos os alunos e vislumbra outras possibilidades que se ajustem às necessidades específicas dos alunos quando necessário. O Projeto Político Pedagógico da escola deve orientar a operacionalização do currículo como um recurso para promover a aprendizagem do aluno através da flexibilização, adaptação e estratégias necessárias (BRASIL, 1999). a) Flexibilização e adaptação curricular A flexibilização curricular viabiliza maior participação de todos os alunos sem a necessidade da elaboração de um currículo específico para o aluno com deficiência. Ele não elimina nem reduz conteúdos e objetivos curriculares, mas os torna mais acessíveis, ajustando-se às condições e capacidades de aprendizagem de cada aluno. Já a adaptação curricular, expressa e garantida desde 1999 através dos Parâmetros Curriculares Nacionais – Adaptações curriculares em ação, sugere a viabilidade da adaptação dos conteúdos sem abandonar a qualidade de ensino, permitindo o alcance de objetivos educacionais significativos. 120 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA Figura 70 – Parâmetros Curriculares Nacionais Fonte: Disponível em: <http:///MLB-722002117-pcn-adaptacoes-curriculares-necessi- dades-especiais-_JM>. Acesso em: 20 set. 2017. Para Maiola (2016), as estratégias da adaptação curricular podem ser divididas em dois grupos (BRASIL, 1999): adaptações de grande porte e adaptações de pequeno porte. a) Adaptações de grande porte: são as modificações que necessitam de aprovação técnico-político-administrativa para serem colocadas em prática. Dessa forma, compreendem ações que são de responsabilidade de instâncias político-administrativas superiores, já que exigem modificações que envolvem ações de natureza política, administrativa, financeira, burocrática, entre outras, ou seja, estão além da competência do professor. Figura 71 – Acessibilidade Fonte: Disponível em: <http://blog.isocial.com.br/a-interface-acessibilidade-e- educacao-inclusiva/>. Acesso em: 20 set. 2017. 121 Práticas Inclusivas Na Educação Integral Capítulo 5 b) adaptações de pequeno porte: envolvem modificações a serem realizadas no currículo e, portanto, são de responsabilidade do professor. Tais adaptações têm o objetivo de garantir que o aluno com deficiência participe produtivamente do processo de ensino e aprendizagem, na sala comum da escola regular. Dentre elas, para os PCN (BRASIL,1999), pode-se destacar: • adaptações de acesso ao currículo: referem-se aos recursos técnicos e materiais específicos (tecnologia assistida), bem como a remoção de barreiras arquitetônicas; • adaptações não significativas: conjunto de ajustes nos diferentes elementos da proposta curricular para possibilitar o processo de ensino- aprendizagem e interação do aluno com deficiência na dinâmica geral da aula: – formas de agrupamentos de alunos; – organização dos recursos materiais; – procedimentos de avaliação; – metodologia variada; • adaptações individuais: ocorrem quando todas as alternativas de adequações de aula foram tentadas e o aluno possua um nível curricular significativamente abaixo do esperado pela sua idade. Caracterizam- se como um conjunto de modificações propostas para um determinado aluno, com o objetivo de responder às suas necessidades educacionais especiais, podendo ser compartilhadas com os demais alunos; • adaptações individuais significativas: aplicadas para que sejam úteis ao aluno em curto, médio e em longo prazo. Favorecem o acesso ao conhecimento, consideram os ambientes, os materiais, o modo de ensinar e a lógica nas atividades. Normalmente, os alunos que necessitam desse tipo de adaptação curricular, apresentam graves comprometimentos e para eles são designados professores de apoio. É uma educação para a vida (BRASIL, 1999). Percebe-se maior necessidade de adaptação curricular individual quando há crescente complexidade das atividades acadêmicas que vão se ampliando de acordo com o avanço da escolarização. E isso se estenderá consequentemente para a necessidade de adaptação aos processos de avaliação do indivíduo também. Contudo, os PCN destacam que fazer adaptações no sistema de avaliação não pode ser tomado como“brecha” para aprovação indiscriminada e inconsequente de alunos, nem para “empurrar’ o aluno com deficiência para as séries mais avançadas, até que ele “saia” do sistema (BRASIL,1999). Os PCN destacam que fazer adaptações no sistema de avaliação não pode ser tomado como “brecha” para aprovação indiscriminada e inconsequente de alunos, nem para “empurrar’ o aluno com deficiência para as séries mais avançadas, até que ele “saia” do sistema. 122 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA Material Pedagógico Adaptado O material pedagógico adaptado é um recurso que viabiliza ações educacionais, por meio da participação de todos os alunos nas atividades pedagógicas de forma contínua, contextualizada e difunde o conhecimento científico e acadêmico que a escola deve proporcionar. Pressupondo-se que a escola deva atender às diferentes necessidades educacionais dos alunos, é importante que o seu processo de aprendizagem apresente igualdade de condições, por isso, em muitos casos, é preciso que ele seja instrumentalizado através de materiais pedagógicos adaptados as suas especificidades. Para sua elaboração, faz-se necessário realizar estudos, pesquisas, adequações e preparação para que o material seja adequado e de boa qualidade, podendo ser utilizado com maior funcionalidade e aproveitamento. Estes materiais adaptados contribuem com a ação docente, na busca de resultados em relação à aprendizagem de conceitos, abstrações, criatividade, autonomia e ao desenvolvimento de habilidades (SANTA CATARINA, 2011). Diante disso, pode-se dizer que a produção de materiais pedagógicos adaptados tem como objetivos: • minimizar as dificuldades apresentadas pelas deficiências; • proporcionar situações de aprendizagem condizentes com a capacidade de cada sujeito; • assegurar condições de acesso ao currículo, promovendo a aprendizagem efetiva do aluno. Pode-se realizar o material pedagógico adaptado para todos os tipos de deficiência e em diversos momentos de aprendizagem. Desde o aluno com deficiência física que apresenta limitações motoras para pegar objetos ou realizar atividades de escrita, quanto de alunos cegos, que necessitam de materiais em alto relevo e da escrita no código Braille. A adaptação em relevo é comumente utilizada na produção de materiais e consiste num recurso que viabiliza à pessoa cega, as informações ilustrativas, que podem estar presentes em mapas, gráficos e desenhos e que, em muitos casos, apresentam informações fundamentais para a compreensão dos conhecimentos que se deseja construir. Materiais com texturas também são bem aceitos por alunos que apresentam espectro do autismo e deficiência intelectual. A adaptação em relevo é comumente utilizada na produção de materiais e consiste num recurso que viabiliza à pessoa cega, as informações ilustrativas. 123 Práticas Inclusivas Na Educação Integral Capítulo 5 Figura 72 – Atividades adaptadas 01 Fonte: Disponível em: <http://universoautista.com.br/oficial/produto/atividades-01/>. Aces- so em: 20 set. 2017. Figura 73 – Atividades adaptadas 02 Fonte: Disponível em: <http://www.fai.com.br/portal/noticia_impressao.php?cod_ item=1397> Acesso em: 20 set. 2017. O Guia Prático para Adaptação em Relevo (SANTA CATARINA, 2001, p. 15- 16), considera alguns critérios importantes a serem considerados: 124 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA • eleger materiais que não agridam a sensibilidade tátil, evitando rejeição e irritação da pele, prejudicando o contato e a percepção; • não utilizar materiais perecíveis (arroz, feijão, milho e outros), evitando, assim, a proliferação de fungos e mofos, que podem vir a trazer danos à saúde do usuário; • utilizar texturas diversificadas, sem muitos detalhes, para melhor destacar as partes específicas que compõem o todo. Figura 74 – Atividades em alto relevo Fonte: Disponível em: <http://blogcrer.blogspot.com.br/p/blog-page_14.html> Acesso em: 20 set. 2017. Pode-se utilizar materiais que fazem parte do uso comum, como: • botões, canutilhos e miçangas; • cortiça e cordões; • tecidos, telas e fitas; • argolas, colchetes e velcros; • tule, algodão e lixa; • E.V.A, plástico, esponjas, MDF. a) Utilização do Sistema Braille no contexto da sala de aula Os materiais pedagógicos adaptados, sugeridos anteriormente, são muito bem aceitos nos planejamentos e práticas em sala quando há aluno com deficiência visual inserido no contexto. Além desses recursos, que aproveitam texturas diferenciadas, auxiliam na exploração dos materiais e associam estes a novos conhecimentos, principalmente na formação inicial da criança com deficiência, também podem ser acrescidos outros tipos de tecnologias que serão úteis para o dia a dia em sala de aula, conforme a seguir. 125 Práticas Inclusivas Na Educação Integral Capítulo 5 b) Impressão Braille Atualmente, é possível adquirir impressoras computadorizadas de pequeno porte que imprimem em folhas soltas ou em papel contínuo textos em braile, ou seja, o professor poderá elaborar o texto em um programa específico no computador e ele converte para o código braille no momento da impressão. Figura 75 – Impressora Braile Fonte: Disponível em:<http://www.geocities.ws/acegosjf/depart.html>. Acesso em: 7 out. 2017. c) Tecnologias da informação e comunicação (TICs) As Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) abrangem qualquer equipamento, sistema ou subsistema interconectado, incluem produtos de telecomunicação, equipamentos com word wide web, multimídia, softwares, aplicativos e sistemas operacionais, internet, dentre outros. A existência desses recursos possibilita à pessoa cega a utilização do computador de forma prática e facilitada, conforme as palavras de Borges (2009, p. 99): [...] o computador se tornou o artefato com maior influência nos últimos anos para os cegos, pois a partir de sua disponibilização, tornou-se possível que aquilo que escrevessem, fosse lido ´por qualquer um´, e também a leitura que os ‘outros’ escreveram, sem intermediação de outras pessoas. Assim, pode-se destacar: • leitores de tela: programas que capturam qualquer informação apresentada em forma de texto e a transformam em uma resposta falada, utilizando sintetizador de voz; • JAWS: software de acesso às principais funcionalidades do sistema, desde pastas e arquivos até navegação na internet; 126 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA • sistema DOSVOX: programa utilizado pelas pessoas cegas que realiza a comunicação através de síntese de voz. Neles são encontrados programas específicos e interfaces adaptativas como: editor, leitor e formatador de textos; formatador para braile; jogos de caráter didático e lúdico; programas para acesso à internet, ampliador de ecrãs para pessoas com visão reduzida e programas de apoio à educação de crianças com deficiência visual. Figura 76 – Programa Dosvox Fonte: Disponível em: <http://intervox.nce.ufrj.br/dosvox/ferramentas.htm>. Acesso em: 7 out. 2017. d) Audiodescrição A audiodescrição consiste em transformar imagens em palavras para que informações transmitidas visualmente sejam acessadas pelas pessoas com deficiência visual, assim, materiais audiovisuais como filmes, novelas, teatro, cinema podem estar acessíveis. Figura 77 – Audiodescrição no cinema Fonte: Disponível em: <http://extra.globo.com/noticias/rio/cinema-adaptado-para-sur- dos-cegos-tem-audiodescricao-traducao-em-libras-14404149.html>. Acesso em: 7 out. 2017. 127 Práticas Inclusivas Na Educação Integral Capítulo 5 e) Livro falado O livro falado consiste no acesso à informação de livros e revistas através da gravação dos conteúdos lidosem voz alta. Apresenta baixo custo e facilidade de manuseio. O conteúdo pode ser gravado em voz humana ou sintetizada. Fundações como Dorina Nowill apresentam um enorme acervo de audiolivros disponíveis. Para conhecer melhor este material, você poderá acessar: Disponível em: <www.livrofalado.pro.br>. Acesso em: 5 jan. 2018. Figura 78 – Audiolivro Fonte: Disponível em: <http://www.ebc.com.br/educacao/2013/01/usp-disponibiliza-audi- olivros-para-vestibulandos-cegos>. Acesso em: 7 out. 2017. f) Utilização da Língua Brasileira de Sinais no contexto de sala de aula O aluno surdo foca sua atenção para aspectos visuais do seu cotidiano, por isso, conforme Freitas (2009, p, 123-124), é importante que o professor se atente para algumas situações: • Em relação ao espaço: √ Na sala de aula, o aluno deve ser posicionado de modo que possa ver os movimentos e as expressões faciais e corporais do professor e dos colegas; √ Os espaços da sala, como murais e paredes devem ser aproveitados na exposição de material visual e outros de apoio, que favoreçam a apreensão das informações passadas nas aulas expositivas; 128 EDUCAÇÃO INTEGRAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA √ O espaço escolar deve, como um todo, conter informações em sistema alternativo de comunicação (linguagem icônica, gestual, língua de sinais) que indiquem espaços de uso coletivo ou de acesso comum (banheiro, refeitório, auditório, pátio, secretaria, biblioteca, laboratórios, etc.); • Em relação aos materiais e equipamentos didáticos: √ Computador e softwares educativos específicos; √ Materiais impressos em língua de sinais; √ Materiais com muitas imagens, similares à vida real (revistas, livros, etc.). Na sala de aula, verifica-se que, para a maioria dos conteúdos a serem trabalhados, não há material adaptado para o aluno surdo. Por isso, é importante que o planejamento aconteça previamente para que se possa elaborar esses materiais que auxiliarão na intervenção pedagógica. Eles devem estar relacionados aos temas abordados em sala de aula em consonância com a turma. Seguem alguns exemplos: Figura 79 – Material adaptado libras Fonte: Disponível em: <http://salamultiespecialdaandrea.blogspot.com.br/2012/09/deficien- cia-auditiva-alguns-modelos.html>. Acesso em: 7 out. 2017. O professor que não tiver conhecimento de libras, poderá solicitar orientação e apoio ao intérprete que acompanha o seu aluno, o instrutor de libras ou a instituição que oferece o atendimento educacional especializado ao aluno com deficiência auditiva. Algumas Considerações Acompanhamos no decorrer desse capítulo, algumas práticas inclusivas que podem favorecer os processos de ensino-aprendizagem no contexto da educação integral. Além das reflexões apresentadas no decorrer do texto, precisamos também salientar a importância de se manter uma formação continuada para os profissionais engajados na proposta da educação integral, tendo como princípio os aspectos que norteiam a educação inclusiva. Dessa forma, conquistaremos novos patamares na qualidade educacional e promoveremos espaços mais inclusivos e de desenvolvimento integral dos indivíduos. 129 Práticas Inclusivas Na Educação Integral Capítulo 5 Referências BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: adaptações curriculares – estratégias para a educação de alunos com necessidades educacionais especiais. Brasília: MEC/ SEF/SEESP, 1999. CENPEC. Tendências para educação integral. São Paulo: Fundação Itaú Social/CENPEC, 2011. FREITAS, L.C.F. A luta por uma pedagogia do meio: revisitando o conceito. São Paulo: Expressão popular, 2009. MAIOLA, Carolina dos S. Práticas inclusivas para formação de professores. Indaial: Uniasselvi, 2016. MANTOAN, Maria Teresa Egler. Inclusão escolar: o que é? por quê? como fazer? 2. ed. São Paulo: Moderna, 2003. SANTA CATARINA. Catálogo de materiais pedagógicos adaptados da fundação catarinense de educação especial. São José, SC: FCEE, 2001.