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A Roupa, a Moda e a Mulher na Europa Ocidental

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decote* baixo e mangas curtas (fig.5). Por cima, usava-se o 
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61 LAVER, James, op. cit., p. 51. 
62 ibid, op. cit., p. 51. 
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casaco ou túnica*, de mangas longas e justas, que tinha o mesmo feitio ao de uma camisa, 
começava no pescoço e descia até aos pés. 
 
 
 
 
 
Fig. 5: As quatro partes do Império (Eslavínia, Germânia, Gália e Roma prestando homenagem a Otão III) 
Fonte: LAVER, James. A Roupa e a Moda: uma história concisa. São Paulo: Companhia das Letras. 
 
 
“Essas túnicas*, como as dos homens, eram rematadas no decote*, nos punhos e na 
barra com largas faixas de debrum* colorido”.63 Sobre a túnica* as mulheres usavam uma 
capa fechada por uma fivela no meio do busto – as fivelas de bronze cinzeladas ilustram os 
primórdios de migração das nações (fig. 5) – ou um traje semelhante ao que ficava por baixo, 
porém mais curto e com mangas também mais curtas. Em geral, essa sobreveste não era usada 
com cinto, mas muitas mulheres não o dispensavam quando usavam apenas um traje. 
 
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63 KÖHLER, Carl, op. cit., p. 165. 
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Fig. 6: Fivelas de bronze cinzeladas. Primórdios de migração dos povos. 
Fonte: KÖHLER, Carl. História do Vestuário. São Paulo: Martins, 2001, 2ª ed. 
 
A túnica* das mulheres era mais longa e não tão ampla quanto à dos homens; 
apresentava pequenas variações como o decote* baixo da camisa e mangas curtas na peça que 
se usava sobre ela. Todos os trajes da indumentária feminina tinham o mesmo feitio que os 
dos homens. Em termos gerais, as roupas femininas eram confeccionadas de forma primitiva. 
A parte da frente era unida à de trás (mais estreita na altura do busto) por costuras nos ombros 
e nos lados. As mangas eram justas e tinham apenas uma costura. O decote* era 
invariavelmente cortado na parte da frente. 
Uma descoberta na igreja de Saint-Denis, perto de Paris, fornece informações mais 
precisas sobre os trajes femininos. Foram encontrados fragmentos de tecidos da tumba de uma 
rainha merovíngia, Arnegonde (550-570), que fora enterrada com um chemise de linho fino e 
uma veste de seda cor de violeta por cima. Sobre a vesta, uma túnica* de seda vermelha, 
aberta na frente, com mangas compridas e amplas. “Um cinto largo, cruzado nas costas e 
preso na frente, mantinha a túnica* no lugar. Preso à túnica* por broches de ouro ricamente 
trabalhados em esmalte, havia um véu que ia até a cintura”.64 Os sapatos fechados eram de 
couro preto com tiras suficientemente longas para serem cruzadas nas pernas até a altura da 
liga. 
Graças aos manuscritos com iluminuras, podem-se obter informações consideráveis 
sobre as roupas das mulheres anglo-saxônicas. A vestimenta principal era a túnica*, usada 
sobre uma camisola e vestida pela cabeça. A sobretúnica, também vestida pela cabeça, era às 
 
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64 LAVER, James, op. cit., p. 51. 
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vezes puxada sobre o cinto para mostrar a peça de baixo, pois essa possuía bordados junto ao 
pescoço, na barra e nas mangas. O manto era preso sob o queixo e, às vezes, tinha o 
comprimento da túnica*, nem os homens nem as mulheres usavam chapéus*; ambos tinham 
cabelos compridos, sendo que os homens e as meninas os deixavam soltos. As mulheres 
casadas prendiam os cabelos em uma espécie de chinó*, cobriam-nos por um véu em forma 
de turbante* ou “por um véu comprido o suficiente para ser cruzado sobre o peito e cair até os 
joelhos, cobrindo todo o corpo”.65 
Quando os carolíngios sucederam aos merovíngios (752-987), as condições na França 
e na Europa Ocidental eram bem mais estáveis, e assim o luxo aumentou. Carlos Magno 
tornou-se o soberano dos francos, controlando, em 771, um território que praticamente 
correspondia à França e à Alemanha. A conquista normanda, entretanto, foi um caso muito 
diferente, pois os descendentes dos escandinavos que se estabeleceram na Normandia 
estavam, nessa época, completamente afrancesados, tendo até abandonado a língua de seus 
antepassados. “Os monges, cronistas da época, já reclamavam que os ingleses haviam perdido 
sua simplicidade costumeira, ao cortarem os cabelos, encurtarem as túnicas* e adotarem 
costumes franceses”.66 
Quando os normandos invadiram a Grã-Bretanha, o vestuário consistia em algumas 
túnicas* e um manto largo. A principal inovação da época foram as chausses, calças muito 
justas nas pernas e quadris; em toda a Antigüidade Clássica essa peça era específica do 
vestuário bárbaro. Os gibões e as jaquetas medievais, conhecidos pelos nomes de pourpoints*, 
jupons*, jerkins* e doublets*, se originam todos da túnica*. 
Tem-se considerado, há tempo, a influência das Cruzadas nas alterações das roupas na 
Europa Ocidental. Antes do século XI já houvera contatos com o mundo muçulmano através 
da Sicília e da Espanha, e os ricos produtos do Oriente alcançaram, assim, o Ocidente, quando 
da conquista da Sicília em 1060. Na ocasião, os normandos depararam-se com uma 
civilização bastante superior à sua em termos de conhecimentos e de artesanatos, e que vivia 
em meio a um luxo desconhecido para época. Muitos artesãos permaneceram sob as ordens de 
seus novos soberanos e eram rapidamente empregados nos trabalhos de tecelagem e 
ourivesaria. 
 
 
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65 LAVER, James, op. cit., p. 54. 
66 DUBY, Georges; PERROT, Michelle, op. cit., p. 189. 
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Na Espanha, no século XII, a reconquista gradativa das terras ocupadas pelos mouros 
resultou na coleta de um rico saque: jóias e tecidos finos, muito mais luxuosos do que os 
produtos da Europa cristã. Em seguida vieram as Cruzadas e a reabertura do comércio com o 
Oriente Próximo. Ao retornarem à Europa, os cruzados trouxeram não só os tecidos orientais, 
mas as próprias roupas e a técnica do corte. As mulheres ocidentais adotaram o véu 
mulçumano, e um pequeno véu cobrindo a parte inferior do rosto. Em contrapartida, 
começaram a moldar os vestidos ao corpo por meio de abotoamento lateral que deixava a 
parte superior justa sobre o busto. As mangas tornaram-se muito compridas e amplas no 
punho como se pode ver na figura abaixo a esquerda, um dos documentos mais valiosos da 
época, o Hortus deliciarum da abadessa de Landsberg, da Alsácia, feito por volta de 1175. 
Valiosas fontes de informações são as esculturas das catedrais que começaram a ser 
construídas na França e na Alemanha no século XII. (fig. 7) 
 
 
 
Fig. 7: Rei e rainha santificados da catedral de Chartres, c. 1150. 
Senhora Uta, uma das fundadoras, na catedral de Naumburg, c. 1243. 
Fonte: LAVER, James. A Roupa e a Moda: uma história concisa. 
São Paulo: Companhia das Letras, 1993. 
 
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Em meados do século XII, as roupas passaram a ser mais justas. Pouco antes do final 
do século XIV, as barras recortadas tomaram uma forma exagerada, mantendo-se assim por 
mais de meio século. Os grandes chapéus* brancos, como os das freiras atuais, começaram a 
desaparecer, dando lugar, em fins do século XIV, aos chapéus corníferos*, à mitra*, ao 
turbante*, culminando no característico hennin*, chapéu* alto, em forma de cone, de cujo 
vértice pendia um véu, originário da França do século XV(fig.8). 
 
 
 
 
Fig. 8: A sala e o quarto. Ilustração do romance Renaud de Montauban, século XV. 
Paris, Biblioteca do Arsenal. 
Fonte: DUBY, Georges. ÁRIES, Philippe. História da vida privada. Vol. 2: da Europa feudal à 
Renascença. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. 
 
 
Do vestuário feminino surgiu um novo modelo por volta

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