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Olavo De Carvalho - fronteiras-da-tradição

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IRÍllITEIRAS
IIA
TRADICAÍ|
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FRONTEIRAS DATRADIÇÃO
OLAVO DE CARVALHO
coleção elxo
ffi novn sTELLÍt
Crpo: Carlos Roberto Zibel Costa
Revisão: Rogério Carlos castaldo de Oliveira
Conposição: Cilberto Francisco de Liúa
Arte Final: Dorâ Pratt e Bduardo coúes
Índice
Prefác io
l. Fronteirâs da Tradição
2. A tradição, as ciências tradicionais
3- seitas e teligiães
4- o valor do iotelecto
5. À decadêocúe o fiú, segundo âs doutritras
hindus
ó- coÊsiderações
7. xoralidade ser Deus?
I{ota§
I
l! Edição r986
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CopyriAht by Olavo d€ Carvalho
Coleção Bixo
Org- Tom Cenz
llova Stella Editorial Ltda.
Av. Pêülista,2448
são Paulo SP Ol3lO
TeI:881-5771
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PRAÊÁCrO
Com exceção do ârtigo rrMoralidsde sem Deus?rr,
publicado no Jortral da Târde, em 27 de fevereiro de
1982, os trebâlhos reunidos neste volume foram todos
escritos em 1985, e tôm todos â mesma finêIidade que
ele: ajudar o leitor a disringuir entre os ensina-
mentos tradicionais t isto é, provenientes dâs Sran-
des religiões reveladas e ortodoxas) e as suas fa1-
s i ficaçõe s contêmporâneas.
o título explica-se assim pelo nosso intuito de
demarcar, de estabelecer um muro divisório entre o
que é a Tradição, e o q"e é, de outro lado, o caos e
as "trevas exteriores".
De modo geral, essa distinção é simples. Todos
os estudiosos de religiôes comparâdâs do mundo, com
quase oenhuma exceção, utilizam o termo "Tradição"
como sinôniÍno de sâEâthana Dhâma, de Lei Pereúis'
de Sophia Perennis, de Al-Eiknât el-illahiys -- Para
designar o número de princípios mecaÍÍsicos que é
comuú a todas as grándes religiões do mundo, bem
como a transmissão ininterrupta desses princÍpios
por meio dos ritos, normas, leis e hierarquias, ten-
porais e espirituâis, dessas nesmas religiões. Do
ponto de vista prático, o crirério de reconhecimento
á igualmente simples: considera-se "tradicional",
em principio e como regra gerâI, toda doutrinâ ou
prática que seja ãceita como ortodoxe e revelada por
quâ1quer dessas religiões -- e, inversanente, consi-
dêra-se "não-tÍadiciona1", ou, em certos casos ex-
tremos, "antitradicional", a qualquer ensinanento ou
prãtica q"e não seja ortodoxa por nenhuma delas.
Como corolário dessa definiçào, Podemos conPre-
endêr que. de um ládo, a mistura ou tusão de dourri-
na" e-p.áti."" de várias reLigiões num amá[gama ae
pretensões 'runiversalistasi' não é ortodoxo para
nenhuma delâs, ê portanto só pode ser dito "tradi-
cionâl" no mpsno sentido em que umâ (aÍicarurá. párá
sêr câricatura, deve ter alguma longínqua sêmelhança
com a reãlidade. o respeito à forna exterior e à
integridade de cada ortodoxia é uma exigência sine
qua non da verdâdeira universalidadê tradicionâ1.
Por outro lado, a "prova dos noverr de quâlquer
princípio universal e autênticamente tradicional á
justanente a sua possibilidade de ser transposto nos
termos, moldes, parâmetros e símbolos de todas e de
cada uma das grandes religiões, sen ferir a ortodo-
xia de nenhuúa e ner Duito nenos as leis da lógica.
E esta êxigência --- que constitui a pedra-de-toque
para distinguir o joio do trigo -- é tão difícil e
rara de atender, que se identifica mesmo àquilo que
na tradição cristã se denomina o "dom das 1ínguas",
ou a capacidade dê falâr a cada um segundo a lingua-
gen que the é própria, o que evidentenente está nos
aütÍpodas de uÍn sarapatel "universalista" e demagó-
Sico ao gosto dos psêudo gurus en geraL
O terno, portanto, evidenteínentê não designa,
nen pode designar, nenhuma organização, sociedádê
secretaJ escola iniciática ou seita em pãrticular,
mas, justamente ao contrário, aquilo que é o mais
i1iÍnitado e universaL que se possa conceber.
De quâlquer modo, se á distinçào em si mesma é
ráciI de estabelecer, muitas pessoas parpceú encon-
trár dificuldade em aplicá-la aos muitos casos con-
cretos e parciculares que vão surgindo, neste cada
vez ÍÍãis colorido supermercado da pseudo-espiritua-
lidade contenporânea, motivo pelo qual podem cair em
erros trágicos, mesmo estando informadas do que seja
e do que não seja, en princípio, Tradição.
São PauIo, fevereiro de 1986
8
I
Quer rrêstá" tra Tradição
Para que não sê confunda a Tradigão com qualquer
tipo de I'organização", 'rescolarr, "corrente de opi-
nião" ou coisa assim, nen, poÍ outro lado, se inagi-
ne que ela sejâ apenas um vago "espíritou ou "esti-
Io", é preciso fazer desde Iogo algumas observações:
A Lei exotérica é o "fimite exteriorl da Tradi-
ção. Quem ten unâ retigião e reconhece os seus man-
àamentos, cumprindo-os seja ao nível do "mínirno Ie-
gaIÍ, seja acima, conforme suas eapacidades, já es-
tá na Tradição. Quen não tem uma religião, quem não
está submetido voluntariamente a uma Lei revelada,
não está em Tradição nenhuma, ainda que álegue Per-
teocer a tal ou qual "organizaçãorr e ainda que tal
organização se al irme até mesmo, com denÊnc iâl Pre-
tensào, "o Dirptório Central do Cosmos".
PoÍ outro rado, é necessário distioguir entre o
conceito amplo de rrTradição" e o conceito mais res-
rrito de "viá espirituat". Assir como u, país nào se
esgota na linha.dâs suas fronteiras exteriores, mâs
tem uÍn território interior, por sua vez dividido por
fronteiras inteÍras êm regiões, províncias, cida-
I
Eronteirâs da tradição*
*Tóp ic os de uma conferância pronunciada eú 2 de
de 1985 na Editora AstrocieÍtia, do Rio de
9
Olâvo de Carvalho
des, etc. , igualmênte a Tradição, dentro dâs suas
fronteiras, tem muitos territórios distintos, corn
fÍonteiras ora mais, ora nenos clarámente delimita-
das -- conforme a Tradição de que se trâte --, e que
vão desde as regiôes áui" .*terior"s até as mais
interiores. A região nais exterior é o cumprinento
puro e sinplês àa n".*u social ditada pela Lei (o
quê inclui a execução pelo menos dos gestos exterio-
res que compõem os ritos obrigátórios); a náis inte-
rior é a realização -- teórica e efetiva -- do sen-
tido último e universal dessá Lei. a qual patenrPia,
átravés do homem que aringe essá realização, sua
identidade com a constituição mesrna do real e com a
Normâ que estatui e rege o Cosnos. (Claro que pes-
soas que não atingiran a pleoa realização esPirituáI
podem -- e devem -- possuir algun vislumbre dessa
identidâde entie a Lei revelada e a estruturã do
real, e também é claro que a ausência de quâlquer
Pre§sentinento nessê sentido seriá una marca de
profunda irreligiosidade; nas, ântes de Percorrer
uma viâ espiriLual, ninguéÍn Eem essá consciencia
exceto em modo irteórico'' e "virtual".)
Para o honem primitivo, que desconhecia as limi-
ráções que o processo dê individuaç;o veio a imPor
sobre á inteligência hunana nás geráções subsequPn-
tes, não havia necessidade de uma Lei revelada e
escrita, Porque eles tinham a compreensão iÍnediata e
intuitiva da Lei nstural, que é por si rnesma a pri-
neira das revelações, e da quál as Leis r€veladas
posteriores nào são, po. assi. aizer. senão versões
simplificadas. o "limite êxterior" da Tradição coin-
cidia então con os limites dâ natuÍeza, ou dito de
ourro modo, com os limites intrínsecos da possibili-
dade huíâna em geral.
À progressiva degradação da intetigância humana,
criando hiatos e dissonâncias enrre a mente subjeti-
va e a verdade objêtiva, criou a necessidãde de com-
Pensaçôes períodicas, constituídas pelas sucessivâs
Leis reveladâs. Estes fixavam limites exteriores,
mais restritos que os da simples lei oâtural, e por
isto nesmo nais fáceis de apreender e cumprir. O
cumprimento destâs leis favorecia o homem de duâs
.r.i;.r" , pr ime i ro. que e tas cons r i tu íâD um resumo 'e por isto símbolo, dss Leis nâturáis, e
assim sua obediéncie e estudo podia restaurarr ao
Longo do teÍnpo, a intuição originária dâs leis natu-
rai; (que por suâ vez, sendo um simbolo das qualida-
des divinas, levavam o homem ao conhêcimento -- ou
melhor: recordâçào -- de Deus) i câso nào houvesse!
para este ou aquele indivíduo, a ocasiào de comple-
tar essa restauração interior, o cumprimento da nor-
ma legaL pelo menos o mantinha dentro dos limites de
comunidâde, podendo

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