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2015 Metodologia do ensino da História Prof.ª Graciela Márcia Fochi Copyright © UNIASSELVI 2015 Elaboração: Prof.ª Graciela Márcia Fochi Revisão, Diagramação e Produção: Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri UNIASSELVI – Indaial. Impresso por: 907 F652m Fochi, Graciela Márcia Metodologia do ensino de história/ Graciela Márcia Fochi. Indaial : UNIASSELVI, 2015. 184 p. : il. ISBN 978-85-7830-898-8 1. História – Estudo e Ensino. I. Centro Universitário Leonardo Da Vinci. III apresentação Caro(a) acadêmico(a)! Olá! Seja bem-vindo ao Caderno de Estudos de Metodologia do Ensino de História. Estudar, pensar e planejar os conteúdos, métodos, estratégias, materiais a serem utilizados na transposição do conhecimento representa um dos momentos primordiais no exercício profissional de um professor/ educador. É quando se dá a articulação entre o universo científico/acadêmico e o universo escolar/social/cotidiano e, em especial o fazer, constituir-se, tornar-se professor propriamente dito. No universo acadêmico, geralmente, as questões que dizem respeito à metodologia e à didática da história acabam sendo deixadas de lado ou numa posição secundária diante dos conteúdos históricos. Isso fica evidente pela dificuldade de se encontrar bibliografia dedicada para estes temas. Muitas vezes, os projetos e estudos acabam somente por fazer críticas aos modelos institucionais de ensino, ou às concepções e tendências pedagógicas e estratégias de ensino-aprendizagem. Porém, compreende-se que a didática e metodologia do ensino de História devem ocupar um espaço em equilíbrio e no mesmo patamar das pesquisas e dos temas históricos, bem como serem pensadas de forma significativa, relevante e estratégica também. Diante deste contexto, procura-se abordar e apresentar elementos que favoreçam pensar a história e a transposição do conhecimento do universo acadêmico ao escolar como quem se preocupa com a necessidade de que existam pressupostos teóricos cientificamente plausíveis, metodologicamente realizáveis, socialmente responsáveis/comprometidos, e que sirvam de fonte de reflexão, inspiração e aproximação entre o universo acadêmico e escolar no potencial que cada um comporta à produção de novos e outros conhecimentos históricos. Caro(a) acadêmico(a)! Trata-se de temas e questões complexas e que precisam ser aprofundadas e amplamente refletidas. Ao longo deste caderno, pretende-se abordá-las de forma introdutória, mas desde já esteja ciente de que este material não pretende ser definitivo e suficiente. Agora, observe como o Caderno de Estudos se encontra estruturado. A primeira unidade, denominada ASPECTOS INTRODUTÓRIOS AO ENSINO DA HISTÓRIA, inicialmente, apresenta as definições de conceitos e noções, específicas ao campo da metodologia e da didática da História, IV as principais correntes historiográficas e os principais modelos e tendências do ensino no contexto da modernidade e pós-modernidade e, por fim, um pouco da história do ensino de História no Brasil. Na segunda unidade, com o tema PLANEJAMENTO E AVALIAÇÃO NO ENSINO DE HISTÓRIA, procura-se discutir os planejamentos de aula tanto na sua dimensão prática como teórica, os recursos didáticos, alternativas em termos de metodologias, os diferentes momentos e formas avaliativas ao longo do processo de aprendizagem. Na terceira unidade, denominada METODOLOGIAS METODOLOGIAS DO ENSINO DA HISTÓRIA, enfatiza-se a importância dos conhecimentos prévios dos estudantes no processo de ensino- aprendizagem, a atuação do professor/educador como mediador cultural no interior das comunidades, o uso de diferentes fontes e linguagens, as possibilidades da história oral e da história local como estratégia pedagógica, os alcances de mapas conceituais e a aprendizagem significativa. Para complementar e aprofundar os estudos em Metodologia do Ensino da História, ao final do Caderno de Estudos, encontram-se diversas referências que poderão lhe ser úteis. É possível também retomar os temas e as questões que foram discutidas nas disciplinas de Introdução aos Estudos Históricos; Pensamento Pedagógico e Construção da Escola; Sociedade, Educação e Cultura; Filosofia Geral e da Educação; Psicologia da Educação e Aprendizagem. Desde já faço votos de que você tenha uma satisfatória jornada de estudos pela frente. Atenciosamente, Prof.ª Graciela Márcia Fochi V Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfim, tanto para você que está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é veterano, há novidades em nosso material. Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é o material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura. O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova diagramação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo. Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto de nossas ações sobre o ambiente, apresenta também este livro no formato digital. Assim, você, acadêmico, tem a possibilidade de estudá-lo com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador. Eu mesmo, UNI, ganhei um novo layout, você me verá frequentemente e surgirei para apresentar dicas de vídeos e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto em questão. Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa continuar seus estudos com um material de qualidade. Aproveito o momento para convidá-lo para um bate-papo sobre o Exame Nacional de Desempenho de Estudantes – ENADE. Bons estudos! NOTA VI VII UNIDADE 1 – ASPECTOS INTRODUTÓRIOS AO ENSINO DA HISTÓRIA ......................... 1 TÓPICO 1 – A HISTÓRIA E A DIDÁTICA DA HISTÓRIA: ASPECTOS INICIAIS ................ 3 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 3 2 O QUE É HISTÓRIA? .......................................................................................................................... 4 2.1 A HISTÓRIA COMO DIDÁTICA E SABER/DISCIPLINA ESCOLAR .................................... 6 3 IMPARCIALIDADE, ENGAJAMENTO E DIÁLOGO NA DOCÊNCIA EM HISTÓRIA ..... 8 3.1 “QUEM ENSINA E QUEM APRENDE”? .................................................................................... 12 4 O QUE É TRANSPOSIÇÃO DIDÁTICA? ....................................................................................... 14 RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................ 19 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 20 TÓPICO 2 – ENSINO E APRENDIZAGEM EM HISTÓRIA .......................................................... 23 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 23 2 ELEMENTOS DO PROCESSO DE APRENDIZAGEM ................................................................ 23 3 A APRENDIZAGEM DE CONHECIMENTOS HISTÓRICOS ................................................... 25 3.1 ALGUNS CUIDADOS À ABORDAGEM DE CONCEITOS ...................................................... 25 4 NOÇÕES DE TEMPO E ESPAÇO NO FAZER DIDÁTICO-PEDAGÓGICO........................... 27 4.1 SOBRE O TEMPO ............................................................................................................................28 4.1.1 A periodização tradicional da história ................................................................................ 30 4.1.2 Outras possibilidades de abordar o passado ...................................................................... 33 4.1.3 Noção de gerações .................................................................................................................. 34 4.2 SOBRE O ESPAÇO ........................................................................................................................... 35 RESUMO DO TÓPICO 2........................................................................................................................ 37 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 38 TÓPICO 3 – O ENSINO DE HISTÓRIA NUMA PERSPECTIVA HISTÓRICA E HISTORIOGRÁFICA ...................................................................................................... 41 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 41 2 NAS SOCIEDADES ÁGRAFAS ATÉ A IDADE MÉDIA .............................................................. 42 3 O MODELO ILUMINISTA E/OU MODERNO .............................................................................. 45 4 O MODELO PÓS-MODERNO .......................................................................................................... 46 4.1 IMPLICAÇÕES NO CAMPO DA HISTORIOGRAFIA .............................................................. 49 4.1.1 A Escola dos Annales ............................................................................................................. 50 4.1.2 A micro-história ...................................................................................................................... 50 5 O ENSINO DA HISTÓRIA NO BRASIL ......................................................................................... 51 6 O MOMENTO CONTEMPORÂNEO E AS NOVAS TENDÊNCIAS HISTORIOGRÁFICAS .....54 6.1 OS DESAFIOS DA INTER E DA TRANSDISCIPLINARIDADE .............................................. 55 6.2 A VIVÊNCIA NA HISTÓRIA E A HISTÓRIA DO TEMPO PRESENTE ................................. 55 6.3 AS POSSIBILIDADES DA NOVA HISTÓRIA ............................................................................. 57 RESUMO DO TÓPICO 3........................................................................................................................ 60 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 61 suMário VIII UNIDADE 2 – PLANEJAMENTO E AVALIAÇÃO NO ENSINO DE HISTÓRIA ..................... 63 TÓPICO 1 – ASPECTOS TEÓRICOS DOS PLANEJAMENTOS................................................... 65 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 65 2 PLANEJAMENTOS: POR QUE E PARA QUE TÊ-LOS?............................................................... 65 3 QUAIS CONTEÚDOS/TEMAS SELECIONAR? ............................................................................ 67 3.1 O QUE DIZEM OS PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS PARA O ENSINO DA HISTÓRIA? ....................................................................................................................................... 69 4 NOÇÕES TEÓRICAS SOBRE COMPETÊNCIAS E HABILIDADES ........................................ 71 4.1 COMPETÊNCIAS ............................................................................................................................ 72 4.2 HABILIDADES ................................................................................................................................. 72 5 É POSSÍVEL CONTEMPLAR OS TEMAS LOCAIS/REGIONAIS E/OU DA REALIDADE DOS ESTUDANTES? ........................................................................................................................... 77 LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................... 79 RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................ 81 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 82 TÓPICO 2 – O PLANEJAMENTO DE ENSINO E O PLANO DE AULA ..................................... 83 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 83 2 O QUE E PARA QUE ENSINAR? ...................................................................................................... 83 2.1 NO ENSINO FUNDAMENTAL .................................................................................................... 84 2.2 NO ENSINO MÉDIO ...................................................................................................................... 85 2.3 ORIENTAÇÕES DIDÁTICAS GERAIS AOS PROFESSORES ................................................... 86 3 PLANEJAMENTO DE ENSINO ........................................................................................................ 87 3.1 PLANO DE AULA ........................................................................................................................... 93 4 PARA QUE ENSINAR HISTÓRIA? .................................................................................................. 98 5 COMO ENSINAR? ALGUMAS POSSIBILIDADES A PARTIR DE DOCUMENTOS, FILMES/DOCUMENTÁRIOS E DO TEATRO ............................................................................... 98 5.1 A ANÁLISE SIGNIFICATIVA DE DOCUMENTOS ................................................................... 99 5.2 O USO DE FILMES E DOCUMENTÁRIOS ................................................................................. 99 5.3 SOBRE AS REPRESENTAÇÕES TEATRAIS ................................................................................ 101 LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................... 103 RESUMO DO TÓPICO 2........................................................................................................................ 105 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 107 TÓPICO 3 – AVALIAR: UM FAZER COMPLEXO ............................................................................ 109 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 109 2 A AVALIAÇÃO E SEUS ALCANCES ............................................................................................... 109 3 A AVALIAÇÃO SIGNIFICATIVA ..................................................................................................... 110 4 A AUTOAVALIAÇÃO.......................................................................................................................... 112 LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................... 114 RESUMO DO TÓPICO 3........................................................................................................................ 116 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 117 UNIDADE 3 – METODOLOGIAS DO ENSINO DA HISTÓRIA ................................................. 119 TÓPICO 1 – O UNIVERSO DOS ESTUDANTES ............................................................................. 121 1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................................121 2 OS CONHECIMENTOS PRÉVIOS E REPRESENTAÇÕES SOCIAIS ...................................... 121 3 ALGUMAS DAS ABORDAGENS PRESENTES NOS MATERIAIS DIDÁTICOS ................ 123 4 O PAPEL DE PROFESSORES MEDIADORES E DOS AGENTES CULTURAIS .................... 124 5 O PAPEL DO AGENTE CULTURAL EM ATIVIDADES DE ENSINO ...................................... 126 IX 6 DINÂMICAS DE GRUPO NOS ESPAÇOS ESCOLARES ........................................................... 127 RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................ 133 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 134 TÓPICO 2 – ALTERNATIVAS METODOLÓGICAS ....................................................................... 135 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 135 2 A PESQUISA NO ENSINO DA HISTÓRIA ................................................................................... 136 2.1 O USO DE DOCUMENTOS ........................................................................................................... 137 3 O ENSINO ATRAVÉS DE PROJETOS DE TRABALHO .............................................................. 139 4 MAPAS CONCEITUAIS EM HISTÓRIA ........................................................................................ 140 5 A HISTÓRIA PROBLEMA E O MÉTODO DIALÉTICO ............................................................. 142 5.1 A EXPERIÊNCIA DE JÚRI SIMULADO ...................................................................................... 143 6 O USO DE HISTÓRIA EM QUADRINHOS, CHARGES E CARTUNS ................................... 145 RESUMO DO TÓPICO 2........................................................................................................................ 152 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 153 TÓPICO 3 – AS POSSIBILIDADES DOS ESPAÇOS NÃO ESCOLARES ................................... 155 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 155 2 SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS .............................................................................................................. 156 3 CENTROS E SÍTIOS HISTÓRICOS ................................................................................................. 158 4 OS MUSEUS .......................................................................................................................................... 160 5 OBJETOS HISTÓRICOS E AS POSSIBILIDADES DE DESCOBERTAS ................................. 162 6 A HISTÓRIA LOCAL E A HISTÓRIA ORAL NOS PROCESSOS DE ENSINO- APRENDIZAGEM ................................................................................................................................ 164 6.1 ALGUNS CUIDADOS METODOLÓGICOS E ÉTICOS ............................................................. 167 7 DEBATES E TENDÊNCIAS EM TORNO DE HISTÓRIA, CULTURA E PATRIMÔNIO ..... 169 8 REPENSANDO A METODOLOGIA DE HISTÓRIA ................................................................... 169 LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................... 172 RESUMO DO TÓPICO 3........................................................................................................................ 175 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 176 REFERÊNCIAS ......................................................................................................................................... 177 X 1 UNIDADE 1 ASPECTOS INTRODUTÓRIOS AO ENSINO DA HISTÓRIA OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir desta unidade, você será capaz de: • reconhecer a importância do saber histórico à formação do indivíduo e en- quanto saber diante das demais disciplinas de conhecimento, levando em consideração os compromissos sociais e éticos que recaem ao fazer docente; • compreender o ensino da história para além do ofício competente e efi- ciente em termos de estratégias e metodologias de temas e conteúdos, que seja um fazer comprometido com a construção de um pensamento crítico- -reflexivo e que seja pautado no fortalecimento dos direitos humanos; • refletir sobre a necessidade de conferir teor científico aos conhecimentos históricos e os cuidados específicos que determinados conceitos e conteú- do requerem quando são transformados em momentos/processos de ensi- no e aprendizagem; • apresentar elementos que auxiliem na compreensão de como ocorrem os pro- cessos de ensino e aprendizagem das noções de tempo e espaço, consideradas como primordiais à percepção da historicidade na experiência humana; • identificar, numa perspectiva histórica, a trajetória de produção do conhe- cimento histórico, o processo de reconhecimento da História como uma disciplina do conhecimento, a experiência brasileira de instituição da His- tória nos currículos escolares e as tendências atuais que se apresentam tanto no campo do ensino como de pesquisa. Esta unidade está organizada em três tópicos. Em cada um deles você encontrará diversas atividades que o(a) ajudarão na compreensão das informações apresentadas. TÓPICO 1 – A HISTÓRIA E A DIDÁTICA DA HISTÓRIA: ASPECTOS INICIAIS TÓPICO 2 – O ENSINO E A APRENDIZAGEM EM HISTÓRIA TÓPICO 3 – A HISTÓRIA E O ENSINO DE HISTÓRIA NUMA PERSPECTIVA HISTORIOGRÁFICA 2 3 TÓPICO 1 UNIDADE 1 A HISTÓRIA E A DIDÁTICA DA HISTÓRIA: ASPECTOS INICIAIS 1 INTRODUÇÃO Estamos em pleno descortinar do século XXI e nos encontramos, no exercício de qualidade de humanidade, diante de um acúmulo de problemas sociais, políticos, econômicos e ambientais, que, por sua vez, nos deixam um tanto perplexos, desorientados e, em especial, desconfiados com o que nos aguarda caso não repensarmos e mudarmos nossos valores, hábitos e costumes enquanto indivíduos e sociedade. Supervalorizam-se as sociedades que apresentam alta urbanização, escrita, arsenal metalúrgico, industrial, científico, bélico, os regimes políticos com maior tempo experiência política de república e democracia, ou seja as sociedades/ nações que circundam o Mar Mediterrâneo e a costa norte do Oceano Atlântico, que por sua vez recebem o status de “nações civilizadas”. Por outro lado, desvalorizam-se os indivíduos e as sociedades/ comunidades tradicionais, as quais se encontram regidas por princípios milenares, que estão fixadas em regiões rurais, sustentadas em atividades agrícolas, artesanais e manufatureiras; que apresentam coesos sistemas morais e religiosos, que se localizam no Oriente Médio ou no interior dos continentes da Ásia e África e América, que acabam por ser interpretadas e traduzidas como ‘bárbaras e/ou incivilizadas”, retrógradas. A metodologia do ensino da História precisa ser pensada para além das funções enquanto disciplina, sua função, sua trajetória histórica, conceitos, categorias, abordagens, tendências, a relação que possui com as demais ciências humanas e sociais e, em especial, deve alcançar também as origens e as funções da consciência cotidiana e histórica, crítica e reflexiva sobre o exercício e papel no interior dos processos de ensino-aprendizagem e do agir socialmente comprometido e responsável (DIEHL; MACHADO, 2001). Uma vez que a metodologia do ensino da história se encontra na pauta, os estudiosos e pesquisadores não poderão somente atender a aspectos operacionais e estratégias que garantam a transposição competente e que mantenha o caráter científico dos conteúdos/conhecimentos históricos a serem ensinados. Deve estaratenta à dimensão do exercício crítico e reflexivo dos conteúdos, ao contexto histórico social que é transposto, dialogado e verificado e, em especial, aos impactos e às possibilidades de transformação da realidade que estes possuem. UNIDADE 1 | ASPECTOS INTRODUTÓRIOS AO ENSINO DA HISTÓRIA 4 É diante deste cenário que se propõe que os conteúdos históricos e a transposição didática destes conhecimentos sejam discutidos e refletidos no que diz respeito às funções e sentidos didático-pedagógicos que ambos comportam, no sentido de que possibilitem uma melhor compreensão dos tempos atuais, em especial que se intuam e vislumbrem alternativas e soluções que promovam justiça, tolerância, equidade, paz, dignidade, realização e felicidade humana. 2 O QUE É HISTÓRIA? “A história se encontra desfavorável às certezas”. (Marc Bloch) Uma questão de difícil definição e demonstração, por isso acaba por embaraçar muitos estudiosos, não somente historiadores, mas também filósofos e na tentativa de apresentar uma resposta imediata e eficiente a esta pergunta se corre o risco de cair em definições simplistas, mecânicas e reducionistas. Glenisson (1991) aponta que é de bom senso que procuremos responder a esta pergunta quando os estudos em nível superior estiverem concluídos e quando se atua na sala de aula ou realiza pesquisas propriamente ditas. Mesmo em meio a terreno incerto, é possível elencar algumas definições que são historicamente legitimadas e que podem nos orientar na tentativa de responder a esta indagação, que nos auxilie no momento da experiência profissional e quando estivermos procurando justificá-la enquanto conhecimento válido. Por muito tempo a História foi definida como como sendo um saber de natureza particular, que ocorre apenas uma vez, ou seja, o fato único, o acontecimento que não se repete, porém foi reelaborada e mais contemporaneamente se tornou consenso entre os historiadores assim como das demais ciências que trata da ciência/estudo do passado. Dosse (2003, p. 7) traz que a disciplina História constitui um conhecimento indireto, um saber que só chega, que é captado e compreendido por meio de vestígios, e que o que se faz nada mais é do que tentar preencher os vestígios em suas ausências. No passado, em um conceito que pertence à uma temporalidade, que se encontra de forma aleatória, desorganizado ou até sobreposto, e que por sua vez pode ser transformado e sistematizado em conhecimento através das perguntas/ problemas, das concepções teóricas e metodológicas que pesquisadores/ estudiosos lhe atribuem. O teórico revolucionário do movimento comunista Karl Marx (1818- 1883), em suas reflexões sobre teorias da história, descrevia que os homens são os responsáveis por fazer a sua própria história, mas devem estar atentos, pois existem condições herdadas do passado que influenciam e determinam seu agir. TÓPICO 1 | A HISTÓRIA E A DIDÁTICA DA HISTÓRIA: ASPECTOS INICIAIS 5 Júlio de Castilhos (1860-1903), político que se manteve atuante por muitos anos no estado do Rio Grande do Sul, defensor da vertente política positivista, gravou em sua lápide de seu jazigo no cemitério da Santa Casa da Misericórdia na cidade de Porto Alegre/RS a seguinte frase: “os vivos são sempre e cada vez mais governados pelos mortos”. Ambos, mesmo pertencendo ao mesmo momento histórico, porém de contextos políticos e ideológicos diferentes, e apresentando uma compreensão semelhante no que diz respeito à influência do passado no presente é muito semelhante, no sentido de reconhecer que a consciência dos vivos pode sofrer ou sofre da influência e determinação das gerações passadas. Mas Rodrigues (1966) nos chama atenção no sentido de que a afirmação expressa por Júlio de Castilhos possui pouco espírito crítico e comprometido com o presente; que pretende defender, restaurar o passado diante do presente, o que representa um equívoco que os historiadores não podem se dar ao luxo de cometer, pois o passado não volta, o historiador precisa estar comprometido com o seu tempo, o presente. No tempo presente existe um grande fardo de tarefas e expectativas, que são herdadas das gerações anteriores, bem como são frutos de nosso próprio tempo (equívocos, injustiças, desigualdades), o que faz com que muitos indivíduos prefiram, estrategicamente, refugiar-se em algum lugar do passado, quase sempre um passado romântico, idealizado, isento de conflitos ou situação a resolver. O peso das tarefas do presente, muitas vezes, recai mais sobre os jovens do que sobre os antigos, as gerações anteriores, as quais precisam transformar a realidade. Quando se dá a oportunidade de implementar algo no sentido de agir/transformar o presente, é comum se manifestar forte dicotomia nas opiniões dos indivíduos, na perspectiva de que alguns defendem que é necessário que se conserve tudo e outros, por sua vez, defendem que é preciso desfazer-se de tudo. Diante disto, Rodrigues (1966) aponta que se faz necessário que ambos dialoguem no sentido de estabelecer uma proximidade e equilíbrio entre o ritmo da vida e da história, entre passado e presente. Por fim, o autor defende que a História deve ser tanto mais viva quanto mais próxima da problemática da vida, assim teria condições de deixar de ser uma coleção de fatos mortos e infecundos. Rodrigues (1984, p. 39) afirma que: o objetivo da História é dar sentido ao passado; é conhecer e compreender não para contemplar um passado morto, mas para agir, para libertar consciências, para dar força às forças do progresso, para identificar e integrar o país com sua história e seu futuro, essa é toda a tarefa da História. UNIDADE 1 | ASPECTOS INTRODUTÓRIOS AO ENSINO DA HISTÓRIA 6 Nos escritos de Glenisson (1991), é possível encontrar algumas definições para a História e o profissional da História, tais como a de Henri Pirenne (1862- 1935), de que o historiador nada mais é além de um homem que se dá conta da mudança das coisas – a maioria das pessoas não toma consciência disto – e que procura a razão desta mudança; para André Piganiol (1883-1968), a história está para a humanidade assim como a memória está para o indivíduo; a história é a memória coletiva; para Gabriel Monod (1844-1912), trata-se do conjunto das manifestações da atividade e do pensamento humano, considerados em sua sucessão, seu desenvolvimento e suas relações de conexão ou dependência; Marc Bloch (1866-1944), o objeto da história é por natureza, o homem. A história ainda pode nos ajudar a conectar as estratégias que as pessoas dispunham em seu momento histórico para transcender a realidade e mobilizar forças espirituais e psíquicas, e estas podem nos conscientizar das chances de criatividade cultural e potencial de superação humana que contamos e dispomos no presente, e que apresentamos dificuldades em perceber e captar. 2.1 A HISTÓRIA COMO DIDÁTICA E SABER/DISCIPLINA ESCOLAR Conseguir dar conta da complexidade e amplitude do título não significa uma tarefa fácil, pois tanto a didática como o saber escolar da História encontram- se imbricados em meio a polêmicas conceituais, muitas vezes, restritas ao âmbito teórico e acadêmico, e poucas vezes chegam a alcançar a dimensão escolar, bem como a produção e a transmissão de saberes, o papel e a função do professor, dos estudantes e dos demais sujeitos envolvidos. Hoje, a História compõe-se junto a um conjunto de disciplinas que foram eleitas como fundamentais no processo de escolarização brasileira, e desde então tem passado por inúmeras mudanças em termos de conteúdos, métodos, objetivos, finalidades até ganhar a configuração que possui na contemporaneidade. As matérias, os conteúdos, as cargas horárias, o ano letivo, com os demais saberes escolares fazem parte do cotidiano de milhares de alunos e professores de tal forma se encontram tão imbricados e articulados que se tem a impressão de que se justificam puramente por necessidades educacionais e escolares, porém também comportamtendências ideológicas e interesses que envolvem os professores, os estudantes e demais indivíduos que fazem parte do universo escolar. O estudo da história encontra-se inserido nos currículos escolares dos mais diferentes níveis de ensino básico e dos exames de seleção ao vestibular desde o século XIX. Bittencourt (2008, p. 33) apresenta que “em 1837 ocorreu a fundação da primeira escola pública brasileira, e no século XX, a partir da década de 1930, se deu a instalação dos primeiros cursos em nível superior”. TÓPICO 1 | A HISTÓRIA E A DIDÁTICA DA HISTÓRIA: ASPECTOS INICIAIS 7 Segundo Chervel (1990), desde o fim do século XIX era discutida a necessidade de se manter um currículo humanístico que favorecia os estudos das línguas (latim, grego, língua e literatura nacional e internacional) e da oratória, o que por sua vez cumpria a função de disciplinar a mente com o uso das obras literárias, e o domínio oral e escrito da “cultura clássica”, e ainda atendia aos interesses fundamentais na formação das elites. Foi a época em que também ocorria a Revolução Industrial, o que por sua vez demandava mão de obra no interior das fábricas, e foi quando as disciplinas como Biologia, Química, Botânica, Física, Matemática passaram a ser relevantes naquela sociedade e, ao mesmo tempo, disputavam lugar com a área de conhecimento das “humanidades clássicas”. A História, bem como as demais disciplinas escolares, encontra-se articulada em um sistema educacional, porém cada qual apresenta especificidades no processo de constituição do conhecimento, bem como na transmissão deste conhecimento. Diante disto, os estudiosos perceberam a necessidade de estabelecer finalidades para cada disciplina, explicitar os conteúdos a serem ensinados, os métodos e as avaliações mais apropriados a cada uma. Neste contexto, cada disciplina procurou formular seus objetivos no intuito de contribuir para uma formação intelectual e cultural que desenvolvesse habilidades e competências diversas e, entre elas, as mais universais são a comparação, a dedução, a criatividade, a argumentação lógica e a aplicação de conhecimentos técnicas específicos. Bittencourt (2008) discute que os objetivos específicos de cada disciplina escolar, geralmente, encontram-se alinhados aos objetivos gerais da escola, os quais fazem sentido numa lógica de variáveis explícitas ou implícitas, como a socialização, os comportamentos individuais e coletivos, a “disciplina do corpo”, a obediência a normas, horários, padrões de higiene, entre outros. Diante disto encontra-se em André Chervel (1990) que a disciplina escolar deve ser estudada numa perspectiva histórica, bem como o papel exercido pela escola deve estar devidamente contextualizado em cada momento histórico. Em suas argumentações, o autor a favor da autonomia da disciplina escolar concebe a escola como uma instituição que, embora obedeça a uma lógica particular e específica da qual participam vários agentes (internos e externos), ela deve ser considerada como lugar de produção de um saber próprio. Goodson (1990) apresenta a disciplina escolar como uma forma de conhecimento oriunda e característica da tradição acadêmica e para o caso das escolas primárias e secundárias utiliza o termo matéria escolar. UNIDADE 1 | ASPECTOS INTRODUTÓRIOS AO ENSINO DA HISTÓRIA 8 No caso da História, ao acompanharmos a sua constituição, na escola e nas universidades, verifica-se que a partir do século XIX existem constantes aproximações e separações entre a história escolar e a dos historiadores no universo acadêmico. Uma das aproximações é a nomenclatura de História Antiga, Medieval, Moderna, Contemporânea, História da América e História do Brasil. IMPORTANT E Caro acadêmico! Diante da constatação apresentada no parágrafo anterior, nos salta aos olhos a seguinte indagação: Uma vez que se deseja mudar o currículo no ensino fundamental e médio, não se fará necessário também modificar o de nível superior? As transformações e mudanças que precisam ser feitas no campo da História, seja do universo acadêmico ou escolar, precisarão ser pensadas e refletidas em ambas as dimensões. No que diz respeito às separações e dicotomias entre o universo acadêmico e o escolar, muitas vezes, observam-se profissionais da história referindo-se ao universo escolar como sendo um âmbito inferior na hierarquia do conhecimento, aspecto que se questiona amplamente. Diehl e Machado (2001) defendem que a didática da história é uma disciplina que possui conteúdos específicos na transformação do saber científico em saber escolar. É compromisso e desafio dos profissionais da história assumirem esta tarefa de uma forma reflexiva, pois, ao se tratar especificamente da didática da história, delimita-se um objeto específico que é o processo de constituição do conhecimento histórico, os meios de apropriação desse conhecimento, as funções sociopolíticas e culturais no e do ensino da história. 3 IMPARCIALIDADE, ENGAJAMENTO E DIÁLOGO NA DOCÊNCIA EM HISTÓRIA Não é suficiente a um homem que se dedica à história ter amor pela busca da verdade, ele ainda deve ter sinceridade para dizê-la e escrevê-la. (Jean Mabillon) Rodrigues (1966) aponta que ao longo do século XIX supunha-se que a História poderia apresentar resultados e efeitos práticos a curto prazo, e que os usos e benefícios dos conhecimentos que estavam sendo produzidos poderiam ser imediatos. Ao longo do século XIX até os primeiros anos do século XX, os indivíduos depositavam enorme fé na História, bem como na ideia de progresso. As duas TÓPICO 1 | A HISTÓRIA E A DIDÁTICA DA HISTÓRIA: ASPECTOS INICIAIS 9 guerras mundiais e mais o aprofundamento dos problemas de desigualdades sociais registradas em todo o planeta foram cruciais no sentido de desmentir esta pretensão e as possibilidades de contribuição da História à realização da tão aclamada evolução da humanidade. O historiador tem responsabilidades e deve prestar contas. O historiador deve demonstrar consciência histórica e social em seu exercício profissional. O mau uso que pode ser feito do passado, bem como a ignorância, o não conhecimento dele não se limita a prejudicar a compreensão do presente; compromete e prejudica também a ação no presente. Tendo como referência a experiência contemporânea, na qual cada vez mais se acentua o dever com os vivos, com o meio em que vivemos e com a manutenção da vida; é possível reconstruir o passado, e que este pode representar uma ferramenta de libertação de qualquer forma de opressão e dominação que é praticada. Segundo Bloch (2001), os historiadores são obrigados a refletir sobre hesitações e arrependimentos que se encontram registrados na história de sociedades, civilizações e dos mais diversos indivíduos. Dosse (2003) reflete que a história constitui um campo de batalhas, um lugar de confrontos primordiais onde se joga não tanto o passado enquanto tal, mas as grandes escolhas do presente. Duby (2002) apresenta que na construção e na abordagem do conhecimento histórico é preciso revelar o homem em toda a sua diversidade, protagonizando papéis que o apresentam como dominador e/ou dominado, santo e/ou pecador, isso para as mais diferentes e variadas atividades humanas. O historiador reflete que se deve buscar a compreensão ampla e totalizante das sociedades e das expressões humanas, sem perder de vista que isto representa uma tarefa impossível de se alcançar. O professor deve estar atento e identificar os discursos parciais e os interesses que existem no interior da comunidade escolar e da sociedade como um todo. Entretanto, deve manter-se alerta, ponderar suas escolhas e ações, precavendo-se com critérios que estejam amparados na defesa dos direitos humanos, na liberdade de expressão, em experiências de paz, respeito, solidariedade, entre outros. UNIDADE 1 | ASPECTOS INTRODUTÓRIOS AO ENSINO DA HISTÓRIA 10 IMPORTANT E Caro(a) acadêmico(a)! É provável que esta imagem lhe seja familiar,mas ela foi pensada no sentido de explorá-la a fim identificar a mudança de cenário educacional, que passou de uma postura autoritária, demonstrada pelos educadores e afirmada pelos pais, para outra na qual os estudantes e seus familiares se encontram e “revertem o jogo”, agora intimidando os professores. FIGURA 1 - MUDANÇAS E PERMANÊNCIAS NA EDUCAÇÃO FONTE: Disponível em:<http://www.emdialogo.uff.br/node/3719> Acesso em: 23 fev. 2015. IMPORTANT E A problematização que se procura fazer é a de que, em ambos os momentos históricos, existe um contexto de permanência/repetição, que é caracterizado por violência e ausência de diálogo respeitoso. Temos grandes desafios pela frente se quisermos dar passos significativos no sentido de uma educação e sociedade humanamente dignas. A realidade possui infinitas possibilidades pelas quais podemos captar, compreender e explicar e, sempre que assim fazermos, estaremos nos movendo mediante nossos interesses, experiências de vida, concepções e vocações que construímos e comportamos. Você já deve ter ouvido falar da expressão “é tudo uma questão de ponto de vista”, ou “este é o seu ponto de vista”. http://www.emdialogo.uff.br/node/3719 TÓPICO 1 | A HISTÓRIA E A DIDÁTICA DA HISTÓRIA: ASPECTOS INICIAIS 11 O passado não é neutro, puro e único, e sim mutável e passível de influências/interesses, bem se percebe o presente; as causas não se encontram postuladas, costumam ser buscadas pelos pesquisadores e estudiosos. Diante disto encontra-se em Rodrigues (1966, p. 11) que existem variedades de posições na história, das quais se pode relacionar: “história partidária, história neutra e história combatente”. A história partidária encontra-se comprometida ideologicamente com um partido, uma facção ou um movimento; costuma se engajar em lutas e revoluções. Poucos historiadores e estudiosos se identificam como partidários. Os escritos e a militância de Karl Max (1818-1883) podem ser indicados intelectual e cotidianamente engajados com o movimento operário e o comunismo/socialismo do século XIX. Na história neutra, evita-se o combate e a luta declarada, mas não foge aos compromissos com algum grupo ou elite, no sentido de fornecer manutenção de um determinado status quo, do qual os historiadores são oriundos. Centra- se em apresentar e descrever fatos e acontecimentos por eles mesmos, sem desnaturalizá-los e julgá-los. A história combatente refere-se ao combate intelectual, não se engaja e não se compromete com os valores da sociedade dominante ou grupos políticos, antes pretende dar espaço às forças novas, aos derrotados, aos esquecidos, não somente os vitoriosos; de maneira geral, defendem o sistema democrático de sociedade. Nesta modalidade de história pode-se relacionar o estudioso Walter Benjamim (1892-1940), que por sua vez será apresentado na sequência de nossos estudos. Esta última forma tem ganho cada vez mais adeptos entre os historiadores e os profissionais da história. A história combatente tem como tarefa rever e reinterpretar o passado com os pés na realidade histórica, buscando conexões significativas do destino e dos feitos do mundo humano passado numa perspectiva contemporânea. Rodrigues (1966, p. 21) defende que “é uma ilusão acreditar que o historiador possa contar a história sem assumir a posição que o guiará na escolha do material. Quem quiser fazer história será obrigado a julgar”. A história deve ser e conter verdade, o historiador se sentir com o dever comprido quando é justo. O profissional da história não deve temer a parcialidade, ou seja, o fato de proceder julgamentos deve estar disposto a posicionar-se no sentido defender os direitos e a dignidade da vida dos humanos e dos animais, da preservação da natureza, em especial da vida no planeta Terra, que por sua vez representa valores universais. UNIDADE 1 | ASPECTOS INTRODUTÓRIOS AO ENSINO DA HISTÓRIA 12 3.1 “QUEM ENSINA E QUEM APRENDE”? Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo. (Paulo Freire) É comum encontrarmos muitos profissionais da educação e da história saudosos do tempo em que o professor se encontrava numa condição de autoridade e superioridade inacessível para os estudantes. Pode ser que os professores de outrora não percebiam a necessidade e a importância de se aproximar e participar do processo de aprendizagem de seus estudantes. A partir das contribuições da psicologia social encontradas em Jean Piaget (1896-1980), Lev Vygotsky (1896-1934) e, mais recentemente, da educação popular, emancipatória e libertária de Paulo Freire (1921-1997) passou-se a compreender que são as estratégias e os processos de aprendizagem que levam em consideração a aprendizagem conceitual, as interferências sociais e culturais, bem como os conhecimentos prévios dos estudantes. Estes aspectos tornaram-se favoráveis uma relação e postura de diálogo e colaborativa nos momentos de ensino-aprendizagem no interior dos espaços escolares. É fundamental que não se percam de vista estes aspectos, docentes e mediadores educacionais precisam levar em consideração o cotidiano, o contexto socioeconômico, as experiências históricas de vida, as apreensões que eles possuem do momento presente, que por sua vez se encontram comunicadas pela mídia, pelo cinema, música, televisão, entre outros meios. Em nossa época, o público escolar é bastante variado e heterogêneo. É composto por crianças jovens, adultos, bem como suas origens étnicas e culturais. Para que o conhecimento histórico consiga sensibilizá-los, possa fazer sentido em suas trajetórias de vida e que seja reconhecido em toda a sua relevância, é necessário que se esteja também atento às problemáticas da sociedade contemporânea, do mundo do trabalho, das relações de convívio, das questões étnicas, sexuais, religiosas, entre outras. Bittencourt (2003) apresenta que o professor não pode se identificar e não pode ser identificado como um técnico específico ou um reprodutor de um saber isolado e externo. Dar aula é uma ação complexa que exige o domínio de vários outros saberes característicos e heterogêneos, tais como saberes da disciplina, curriculares, específicos da formação profissional e os saberes da experiência, do chão da sala de aula, que por sua vez compõem o chamado saber docente. A ideia de transposição didática não pode se resumir somente ao conjunto de estratégias que um professor vai lançar mão no sentido de melhor transpor conteúdos externos, simplificando de maneira mais adequada saberes eruditos ou acadêmicos para que sejam compreendidos e assimilados pelos estudantes. TÓPICO 1 | A HISTÓRIA E A DIDÁTICA DA HISTÓRIA: ASPECTOS INICIAIS 13 3.1 “QUEM ENSINA E QUEM APRENDE”? Com o passar dos anos, os professores gradualmente vão se profissionalizando, passando de leigos a letrados, a especialistas lacto ou strictu sensu. Os cursos de formação acabam por credenciá-los como profissionais no interior das instituições burocraticamente legitimadas, por meio de concursos, contratos e seletivos. Quando reunidos em equipes no interior dos espaços escolares, procuram formar grupos de especialistas por afinidades nas disciplinas, em associações representativas que direta ou indiretamente tendem a reforçar a identidade enquanto profissionais delas. As possibilidades de participação podem ser em sindicatos, associações, grupos de estudos, os quais passam a decidir, interferir e influenciar na composição dos currículos e conteúdos que serão ministrados pelos demais profissionais. Por sua vez, o professor não pode centralizar esta tarefa somente em torno de si. Existem diversos indivíduos que compõem o universo escolar, mas seu papel merece destaque, em especial quando se trata de decidir e ministrar o chamado currículo real, ou seja, o que de fato é estudado e praticado nos espaços de sala de aula. É necessário captar e incluir as leituras de mundo, estabelecer diálogo com os conteúdos e conceitoslatentes na sociedade e aos estudantes, no sentido de favorecer uma maior aproximação entre o conhecimento científico e o saber espontâneo do senso comum. O professor pode querer carregar este peso em seus ombros sozinho, ele pode tranquilamente dividir o palco com seus estudantes, atribuindo-lhe tarefas de estudos/pesquisas e até de condução das atividades propriamente ditas; convidar familiares dos estudantes, diferentes indivíduos da comunidade que contam com vivências ou conhecimentos relacionados aos conteúdos que estão sendo estudados; assim como pessoas que estejam retornando de alguma viagem cujo roteiro/percurso contemplou cidades históricas, ou ainda alguém que esteja visitando a cidade e a escola que seja oriundo de outras regiões e realidades, a fim de dar seu testemunho de vida. O professor é quem transforma o saber a ser ensinado em saber apreendido. Os conteúdos, os métodos e as avaliações constituem-se na realização desse cotidiano e nas relações construídas entre o professor, os demais professores, os estudantes e os demais indivíduos que compõem o universo escolar (coordenação, direção, secretários, auxiliares, merendeiras, zeladores, pais, avós, entre outros). O professor por ele mesmo não pode manter-se isolado na sala de aula com seus estudantes, quanto maior a participação coletiva for possível ao longo da atividade de aprendizagem, mais amplos e abrangentes poderão ser os resultados. UNIDADE 1 | ASPECTOS INTRODUTÓRIOS AO ENSINO DA HISTÓRIA 14 Diante das crises contemporâneas (terrorismo, guerrilhas, as crises econômicas, a fome, a miséria, o desequilíbrio climático) os profissionais da História não podem fugir da possibilidade de transformação e superação da realidade e do compromisso com a vida. Glenisson (1991) arrola que é necessário tomarmos consciência de nossa responsabilidade como historiadores, como professores de História, como indivíduos e cidadãos estas são reais, comprometem o homem na sua totalidade, que precisa de razão, justificativa e sentido. Rüsen (1997) descreve que existe um valor fundamental que pode ser introduzido na estratégia de interpretação da história e na transposição do conhecimento histórico. Trata-se de se levar em conta valores universais da multiplicidade e a diferença das perspectivas, do reconhecimento da diferença na vida humana, que quando internalizado nas estruturas cognitivas dos indivíduos pode produzir um novo acesso e um novo sentido da experiência histórica, que por sua vez liga a unidade da humanidade e da evolução no tempo com as diferenças e a multiplicidade das culturas. 4 O QUE É TRANSPOSIÇÃO DIDÁTICA? Como didática pode-se entender a arte ou a técnica de ensinar, fazer aprender, instruir. A expressão já fazia parte do repertório dos pedagogos da Grécia Antiga. Todavia, a didática como um campo de estudos específico surge somente no século XVII, a partir das teorizações de João Amós Comenius (1592- 1614), na obra ‘Didática Magna’, publicada em 1649, na qual se encontra a máxima que define a didática como a arte e o fazer de ensinar tudo a todos. IMPORTANT E Caro estudante! Reservando todo o respeito à obra e ao ímpeto de solidariedade expresso na frase de Comenius citada, ousamos fazer a seguinte indagação: é possível dar conta ou abarcar a tarefa/missão de ensinar tudo a todos? Libâneo (2008), teórico brasileiro e contemporâneo, explica que se trata de uma disciplina que estuda o processo de ensino no seu conjunto, no qual os objetivos, os conteúdos, os métodos e as formas organizativas da aula se relacionam entre si, de modo a criar as condições e os modos de garantir aos alunos uma aprendizagem significativa. Por transposição pode-se compreender como sendo as alternativas à adaptação do conhecimento oriundo do universo acadêmico e científico/erudito ao universo escolar/popular. Este exercício precisa ser feito com os devidos cuidados no momento da contextualização e/ou das generalizações. Neste TÓPICO 1 | A HISTÓRIA E A DIDÁTICA DA HISTÓRIA: ASPECTOS INICIAIS 15 processo é possível que o conhecimento em questão perca a plausibilidade científica, a coerência, a especificidade, bem como seja transposto de uma forma que não apresente significado ou não faça sentido à realidade dos estudantes. Os conhecimentos específicos de história, de teorias, de métodos, das formas de representação e comunicação compõem os meios pelos quais a didática da História e a História se constitui enquanto disciplina e saber; portanto, é necessário que se esteja consciente e seguro diante deles. Nesse sentido, conta-se com as contribuições do estudioso francês Yves Chevallard (1946), que foi responsável por apresentar o conceito de transposição didática. De maneira geral, o autor procura explicar como que a transposição didática condiz com o universo de transformações e adaptações que um conteúdo sofre até se tornar um objeto de ensino. O autor reconhece como os responsáveis por realizar a transposição do conhecimento todos os agentes sociais externos à sala de aula, tais como diretores, coordenadores, inspetores, autores dos livros didáticos, técnicos e administradores educacionais, os familiares, além dos professores. Para Chevallard (1991), a teoria da transposição didática consegue corrigir o tradicional equívoco que é cometido quando é atribuído valor inferior e/ou secundário aos saberes escolares, que apresentam o sistema didático em três polos: o saber, aquele que ensina, no caso, o professor, e aquele que aprende, o estudante. O autor argumenta que o enfoque psicológico dominou a análise no interior desse sistema, restringindo-se somente na relação professor-estudante. Procedendo neste esquema, o saber escolar não seria devidamente problematizado, o que contribuiria para sua naturalização e neutralização no entendimento dos responsáveis pelo processo de ensino-aprendizagem. A teoria da transposição didática pretende desestabilizar esse entendimento e propõe pensar o sistema didático com base numa abordagem epistemológica do saber ensinado. Diehl e Machado (2001) propõem que se pense a didática como sendo o componente central na constituição da História enquanto saber e conhecimento específico em meio aos demais saberes científicos. Que se supere a posição secundária, periférica e ornamental que na maioria das vezes lhe é atribuída. Para tanto, os autores sugerem que os procedimentos técnico-críticos sejam aprimorados e refletidos de forma consistente e dialogada ao ponto que possam conferir uma maior plausibilidade e relevância social ao conhecimento histórico e ao exercício profissional no universo escolar quando no acadêmico. O que por sua vez sistematizam na ideia de uma Matriz Disciplinar da História, apresentada a seguir. Observe atentamente: UNIDADE 1 | ASPECTOS INTRODUTÓRIOS AO ENSINO DA HISTÓRIA 16 FONTE: Adaptado de Diehl e Machado (2001, p. 22) FIGURA 2 - MATRIZ DISCIPLINAR DA HISTÓRIA A matriz foi proposta por Diehl e Machado (2001, p. 22) e foi elaborada tendo por referência os estudos do teórico alemão Jörn Rüsen (1938), que pesquisa os temas de teoria, metodologia e didática da história. Esta matriz pode representar um programa/roteiro mínimo de orientação à prática de pesquisa quanto da experiência docente com saber e conhecimento histórico. Como entender e compreender esta matriz? Bem, uma das principais intenções é a de que não se dissocie, pelo contrário, que cada vez mais se aproxime o universo acadêmico/científico do universo escolar/cotidiano. Observe que existe um círculo no qual estão dispostas diversas partes, onde se encontram duas dimensões: na parte inferior, a do cotidiano, a práxis social; na parte superior, o mundo acadêmico, o campo teórico/científico do conhecimento. Na lateral esquerda e na parte superior encontra-se o item 1 da matriz, denominado de os interesses pelo conhecimento histórico, que por sua vez se encontram na esfera do cotidiano (práxis social), na qual ocorrem defato os problemas e as questões que necessitam de reflexão e orientação. Neste momento é provável que surjam as seguintes situações: quais devem ser os fatos, os fenômenos sociais ou problemas que devem ser contemplados e mediados pelo conhecimento histórico? Como não são poucos, se faz necessário decidir/escolher. Aqui o profissional da História deve estar atento às demandas do todo social e evitar favorecimentos e privilégios pessoais ou particulares de um determinado grupo somente. TÓPICO 1 | A HISTÓRIA E A DIDÁTICA DA HISTÓRIA: ASPECTOS INICIAIS 17 Uma vez que a decisão foi tomada, já é possível avançar ao universo acadêmico/científico, no qual se encontram as referências teóricas sistematizadas e que são denominadas como perspectivas orientadoras sobre o passado (2). Este é o momento de reunir as referências historiográficas para o fato ou problema que se encontra em pauta; identificar as principais ocorrências e manifestações que foram registradas, as abordagens, explicações e soluções que ele recebeu. Munidos do fato/problema e do que já foi produzido para ele, pode-se avançar no sentido de proceder um certo tratamento com métodos e técnicas (3) no sentido de identificar, classificar, normatizar, problematizar, criticar e refletir sobre o problema inicial. No momento seguinte, se faz necessário resolver as formas, como o conhecimento que foi gerado nos passos anteriores pode ser sistematizado e narrado/comunicado, que é denominado como forma de representação do conhecimento (4). Neste momento é que os historiadores optam pelas linguagens narrativas (texto, artigo, dissertação, tese, livro, história em quadrinhos, filme, entre outros). O último item (5) corresponde ao retorno ou à reintrodução do fato/ problema que foi retirado da práxis social, ponderado pelo saber/conhecimento científico e sistematizado em linguagem narrativa à realidade na qual ocorria, agora como a intenção de apresentar reflexões e até soluções para a situação anterior. É o momento em que o saber/conhecimento pode ganhar relevância em meio à comunidade, cumprir sua função de atuar em prol dela, no sentido de orientar/explicar e transformar a realidade de vida, que por sua vez, nada mais é do de que as funções didáticas da História. De maneira geral, a matriz disciplinar da história procura expressar que os temas/conteúdos a serem estudados/pesquisados/apreendidos devem partir do cotidiano imediato, ou seja, das problemáticas sociais que se apresentam no momento presente dos indivíduos, estas por sua vez podem ganhar tratamento e reflexão do conhecimento histórico e científico e, por fim, novamente retornar à práxis social a fim de fornecer perspectivas orientadoras diante da realidade que se encontra. Além de o mundo acadêmico/científico fortalecer e ampliar seus objetivos e missão junto à sociedade de sua época, percorrendo os cinco elementos da matriz disciplinar da História, é possível conferir maior plausibilidade científica ao saber/conhecimento. Como a História pode ampliar a sua importância de existência enquanto disciplina e saber no universo escolar (didática) e científico (pesquisa) diante dos demais saberes e disciplinas do conhecimento? Rüsen (1997) e Diehl e Machado (2001) apresentam-se como autores preocupados no que se refere ao teor da História enquanto ciência, didática e conhecimento histórico com funções racionais e reflexivas na sociedade atual, que UNIDADE 1 | ASPECTOS INTRODUTÓRIOS AO ENSINO DA HISTÓRIA 18 por sua vez se encontram em momentos de forte crise de expectativas, seja pela ausência de critérios orientadores ou de soluções e alternativas que realmente gerem mudanças e superações. Os autores ainda chamam a atenção para o fato de que em meio aos profissionais da história ocorre uma espécie de silêncio e indiferença para com as questões que dizem respeito à didática da História, o que por sua vez é nefasto e prejudicial a ela enquanto conhecimento e ciência, e em especial à sociedade, a qual demanda por orientações diante das problemáticas que a envolve. O debate/diálogo para com a didática dos conhecimentos deve ser realizado pelos mais diversos profissionais e sujeitos envolvidos nos processos de ensino e aprendizagem; e uma das questões que não pode ser negligenciada é a do sentido e finalidade, ou seja, o que será feito e/ou para que/quem servirá o saber/conhecimento que foi produzido. De maneira ampla, os autores estão propondo que a história enquanto conhecimento tenha plausibilidade científica e que a didática da história não seja compreendida somente como um mero ornamento externo do conhecimento científico, e, em especial, que o profissional da História se questione sobre a origem, a estrutura, as funções, as perspectivas orientadoras do conhecimento histórico. 19 RESUMO DO TÓPICO 1 • A didática e metodologia do ensino da História deve ser pensada não simplesmente como uma disciplina e conteúdo ornamental e/ou secundário no interior das grades curriculares, mas sim como um saber estratégico e primordial para se transpor o conhecimento o conhecimento oriundo do universo acadêmico ao escolar/social. • O profissional da História deve zelar em evitar reducionismos ou favorecimentos interpretativos, e abordar a experiência humana numa perspectiva que seja capaz de contemplar os mais diferentes indivíduos bem como a diversidade e a complexidade das relações e expressões de que estes lançaram mão. • A História constitui o estudo da trajetória do homem no tempo passado, requer tratamento e coerência teórico-metodológica, e um conhecimento que deve estar comprometido com as problemáticas do tempo presente e apresentar como fim último e maior a busca pela verdade. • O conhecimento histórico e o ofício do profissional da história deve favorecer o reconhecimento das diferenças, das experiências de diálogo, paz; zelar pela preservação do meio ambiente, dos direitos humanos pela dignidade da vida e fomentar solidariedade e a realização/felicidade humana. • Os conteúdos históricos quando transformado em saber escolar requer clareza em termos de critérios teórico-metodológicos, considerar o contexto dos estudantes estão inseridos e ponderação crítico-reflexiva, assim poderá comportar teor científico, capacidade de fornecer orientação e elementos transformadores aos contextos e realidades no qual será aplicado. 20 1 Paulo Freire é um estudioso brasileiro que foi responsável por inúmeras contribuições no sentido de realizar uma espécie de revolução no cenário da educação brasileira. Entre suas teses, encontra-se a seguinte definição: “Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo”. (FREIRE, 1981, p. 79). O que esta definição sugere ao campo da educação e do ensino da História? Analise as sentenças a seguir: I- Que o processo de ensino-aprendizagem se constrói de uma forma que o indivíduo, por ele mesmo, precisa contar com professores muito bem conceituados, caso contrário, não conseguirá desenvolver as competências e habilidades necessárias à vida adulta. II- Que as estratégias didático-pedagógicas de um professor por si só não são suficientes de conferir a formação de um estudante e cidadão por completo. III- Que a educação e formação de um indivíduo ocorre de forma dinâmica e que as mais diversas experiências sociais colaboram para isto. IV- Que o processo educativo deve ser compreendido não somente como de única responsabilidade do professor e do estudante, mas que as relações em sociedade e com o mundo também devem ser contempladas. Agora assinale a alternativa correta: a) As sentenças II e III estão corretas. b) As sentenças II, III, IV estão corretas. c) As sentenças III e IV estão corretas. d) As sentenças I, II e IV estão corretas. 2 Entre os conceitos que são utilizados no campo da metodologia do ensino, encontra-se o conceito proposto por Yves Chevallard (1946) que diz respeito a que atividades educacionais?Assinale a alternativa correta: (a) O momento em que os conhecimentos advindos do campo religioso e da sabedoria popular são tomados como estudo por estudiosos do universo acadêmico. (b) Diz respeito ao conjunto de transformações que um dado conteúdo recebe até se transformar em um objeto/atividade de ensino. (c) Diz respeito ao momento em que os estudantes iniciam as atividades avaliativas em uma dada disciplina do conhecimento. (d) A transposição didática se dá quando uma tese é defendida por algum autor, depois de ter sido examinada e revisada por uma banca de pesquisadores de maior experiência. AUTOATIVIDADE 21 3 No exercício profissional de um professor ou pesquisador de História entre as perguntas que são mais recorrentes está: “O que é, qual é o objetivo e para que serve a História?” No sentido de que você possa se antecipar diante da possibilidade de ser indagado sobre o que vem a ser a História, no que lhe confere importância e que funções ela pode adquirir na sociedade contemporânea, construa um texto respondendo à pergunta apresentada acima. 22 23 TÓPICO 2 ENSINO E APRENDIZAGEM EM HISTÓRIA UNIDADE 1 1 INTRODUÇÃO Caro(a) acadêmico(a)! Ao longo deste tópico procura-se apresentar elementos que tratam de como ocorrem os processos de aprendizagem de conhecimentos, noções e conceitos que pertencem a níveis mais abstratos do saber tais como tempo, espaço, gerações, periodizações, passado, presente, no sentido de ilustrar algumas das abordagens que podem receber nos espaços escolares. Desde já antecipamos que você, futuro professor da História, deve se manter atento e sensível no sentido de captar os níveis intelectuais dos estudantes, por outro lado seja capaz de demonstrar capacidade de precisão e clareza e ao mesmo tempo estar atento às variações, exceções e especificidades que períodos, conceitos, princípios, leis comportam. 2 ELEMENTOS DO PROCESSO DE APRENDIZAGEM No que diz respeito aos processos de aprendizagem, o estudioso do desenvolvimento cognitivo Jean Piaget (1896-1980) pode favorecer o entendimento quando defende que as estruturas cognitivas dos indivíduos são adquiridas ao longo da vida em estágios delimitados pela maturidade biológica, mediadas pelo meio, associadas às estruturas internas orgânicas. Piaget explica que um indivíduo, ao entrar em contato com um objeto, o compreende, incorpora-o e lhe atribui sentido em condições já existentes, em determinados esquemas mentais e estruturas internas, fazendo com que se dê a ampliação da capacidade cognitiva (PIAGET & GRECO, 1974 Piaget apresenta ainda que o indivíduo quando se depara com desafios e desequilíbrios exteriores responde por meio de compensações ativas que tendem a restabelecer o reequilíbrio, o que por sua vez demanda de maturação física do sistema nervoso e interferência de fatores sociais. A partir das teses de Piaget, foi possível justificar os estágios de apropriação de saberes concretos e abstratos, e em especial precisar que estudantes em primeiros anos de escolarização eram incapazes de dominarem conceitos abstratos, como os de tempo históricos. Também ficou compreendido que os conhecimentos espontâneos, provenientes da experiência de vida e do senso comum, e os conhecimentos científicos encontravam-se numa relação de conflito; no sentido de que o primeiro desfavorecia o aprendizado do segundo, e por sua vez passou a ser combatido em favorecimento e substituição pelo segundo. UNIDADE 1 | ASPECTOS INTRODUTÓRIOS AO ENSINO DA HISTÓRIA 24 L. S. Vygotsky (1896-1934) defendeu teorias que se distanciavam das teorias de Piaget, no sentido de que as condições, não apenas a maturidade biológica, imperam na aquisição de conceitos, mas também as dimensões históricas e culturais que participaram do processo de formação e desenvolvimento do indivíduo. E reconhece na linguagem humana um sistema que possibilita a socialização, a mediação entre o sujeito e o objeto de conhecimento, e o intercâmbio social e a formação conceitual, que consegue abarcar as dimensões da abstração e da generalização. Diferente da posição de Piaget, o estudioso russo propõe que na relação entre conhecimento espontâneo e conhecimento científico existem modificações e interferências mútuas entre estes saberes, e que não há necessidade de desaparecimento do primeiro e para a consolidação do segundo. A compreensão profunda e segura diante dos processos de aprendizagem representa uma das noções que exigem maior maturidade, habilidade e competência por parte dos profissionais da educação. Nesse sentido, Bittencourt (2008) reflete que atividades que abordam noções de tempo passado, por exemplo, representam um dos desafios mais complexos de se realizar; estas podem ganhar alcançar melhores resultados quando se parte da experiência concreta dos estudantes e com uma abordagem atemporal e/ou contemporaneizada. Há de se tomar cuidado, porém, no sentido de que não se leve em consideração somente a dimensão do pensamento operatório piagetiano, que preocupada em obter resultados objetivos e imediatos acaba por promover uma história cujos maiores valores envolvidos são os morais e cívicos, por meio de heróis e nomes que foram responsáveis por grandes feitos na história, e que por sua vez se encontram destituídos de crítica e reflexão; assim como podem estar descontextualizados historicamente, o que acaba por revelar somente a dimensão vencedora e triunfante dos indivíduos, semelhante aos heróis de desenhos animados. As implicações das noções piagetianas são indicadas como responsáveis também por fazer com que a História, enquanto conhecimento e saber, fosse desprestigiada e entendida como um saber secundário diante dos demais saberes que possuem teor e especificidade mais prática e concreta. Nesta concepção, a História passa a ser uma espécie de invenção do mundo adulto, resultando de múltiplas interferências e por não compreender uma racionalidade que pode ser captada de forma objetiva, acaba não sendo assimilada como conhecimento verdadeiro. Assim, “a História seria apenas uma matéria escolar criadora de valores morais e cívicos que não exige por parte dos estudantes qualquer tipo de operação intelectual”. (BITTENCOURT, 2008, p. 198). TÓPICO 2 | ENSINO E APRENDIZAGEM EM HISTÓRIA 25 Caro(a) acadêmico(a)! É prudente que levemos em consideração ambas as teorias, tanto a de Piaget como a de Vygotsky, ou seja, a que considera tanto o desenvolvimento cognitivo, o amadurecimento intelectual, bem como as condições socioculturais como aspectos que compõem e estruturam os indivíduos com os quais estarão sendo realizadas experiências de aprendizagem. 3 A APRENDIZAGEM DE CONHECIMENTOS HISTÓRICOS O conhecimento histórico não se limita a apresentar o fato no tempo e no espaço acompanhado de uma série de documentos que comprovam sua existência e relevância à história geral da humanidade. Bittencourt (2008) defende que é preciso ligar o fato a temas e aos sujeitos que o produziram para buscar uma explicação e compreensão crítica. E neste processo de explicar e interpretar os fatos se faz necessário levar em conta determinados princípios, critérios, procedimentos, conceitos e noções, que por sua vez atendem à necessidade de organização e inteligibilidade dos fatos. Neste contexto, a reflexão e abstração teórica podem, muitas vezes, tornar os conhecimentos e conceitos áridos e de difícil apreensão por parte dos estudantes. Diante deste contexto, Bittencourt (2008) indaga para as seguintes condições: como apreendem os indivíduos das mais diferentes idades? Como ocorre a aprendizagem de conceitos? Quais devem ser os conceitos históricos fundamentais e serem abordados em cada fase de escolarização? Caro(a) acadêmico(a)! Estas questões são complexas e merecem nossa atenção. Acredita-se que, se nos aproximarmos um pouco a que elas demandam, pode ser que o ofício de professor de história se torne mais satisfatório, ou seja, os diversos indivíduos envolvidos,bem como os objetivos enquanto professores mediando experiências de ensino-aprendizagem e que sejam alcançados com maior facilidade. 3.1 ALGUNS CUIDADOS À ABORDAGEM DE CONCEITOS A História possui um conteúdo escolar que necessita estar articulado, desde o início da escolarização, com os fundamentos teóricos e critérios metodológicos, a fim de evitar abordagens e conotações de juízo de valor, cargas morais ou perpassadas por tendências dogmáticas e estigmatizadas. À análise e à interpretação dos acontecimentos, fatos e eventos históricos, se fazem necessários conceitos e categorias, o que sugere que os professores selecionem conceitos-chaves, os contextualizem e sistematizem coerentemente de forma precisa com os dados empíricos que estão diante deles. UNIDADE 1 | ASPECTOS INTRODUTÓRIOS AO ENSINO DA HISTÓRIA 26 No exercício de docência com estudantes de diferentes faixas etárias e condições socioculturais, se faz necessário introduzir e encaminhar tarefas que promovam atividades de ensino-aprendizagem norteadas por critérios e saber específico, pois as palavras geralmente circulam confusamente no vocabulário, e assim também podem compor o repertório e a compreensão de sentido e significado de mundo. É importante que estejam o máximo possível integradas nas categorias conceituais e estas, por sua vez, articuladas umas às outras. A aprendizagem e a apropriação dos conceitos espontâneos e os conceitos científicos podem ocorrer de forma muito diferente. Bittencourt (2008) apresenta que a mente se defronta com problemas diferentes quando assimila conceitos na escola e quando se encontra em outros ambientes de sociabilidade. No espaço da escola, os conceitos são transmitidos de forma teórica e sistemática, que os estudantes, por sua vez, não podem vivenciar e apreender diretamente. Diante da constatação deste processo é possível tomar alguns cuidados na tentativa de aproximar as duas dimensões e relacionar o máximo possível os conceitos às mais diversas realidades possíveis. Para estudantes de nível básico e fundamental, é preciso que o conceito espontâneo/cotidiano esteja apreendido para que conceitos históricos possam ser introduzidos, por exemplo, quando as noções “no passado e agora”, “aqui e em outros lugares” são acompanhadas de forma simples e direta. Com estudantes de nível médio, os conceitos/termos podem ganhar abordagem e utilização mais interdisciplinares, é possível lançar mão de conceitos como sociedade, capitalismo, liberalismo, globalização, imperialismo, cidadania, entre outros. Estes apresentam uma maior facilidade de serem apreendidos e as possibilidades de verificação, veiculando-as ao mundo contemporâneo. Existem, entretanto, conceitos singulares, como absolutismo, iluminismo, renascimento, feudalismo, coronelismo, escravidão, pão e circo, clero, os quais são específicos do campo da História, e precisam receber tratamento e exercício de contextualização temporal e espacial mais preciso, para que não sejam compreendidos, utilizados e empregados de forma incoerente e equivocada. Os conceitos precisam de descrições precisas, aprofundamentos e delimitações para se tornarem inteligíveis e apreensíveis. Muitas vezes, eles ocupam capítulos de livros inteiros, em especial, os conceitos/termos do universo acadêmico; outros são provenientes do conhecimento espontâneo e senso comum, que são introduzidos pelos meios de comunicação ou que são provenientes dos modos de viver e compreender o mundo no interior de comunidades. Os conceitos carregam variações e especificidades dos contextos (políticos, econômicos e sociais), variações em termos de esferas locais e regionais, o campo de forças, assim como comportam relações e tensões diversas. TÓPICO 2 | ENSINO E APRENDIZAGEM EM HISTÓRIA 27 As peculiaridades, as distâncias e as diferenças que existem entre a experiência de democracia de Atenas na Grécia antiga; a democracia dos primeiros anos de república no Brasil; a democracia nos Estados Unidos da América, e a democracia no Brasil atual; o caráter do processo de colonização no Brasil colonial, a colonização dos Estados Unidos da América e na região Sul do Brasil no século XIX; as festas juninas que ocorrem em Portugal, no Nordeste e no Sul do Brasil, podem revelar tais problemáticas. Existem conceitos e termos que possuem uma temporalidade e vigência variáveis entre curta, média e longa duração, como a escravidão, a cidadania e o imperialismo podem ser identificados como de longa ocorrência, utilização, ou seja, longa duração; moral e costumes, a reforma e contrarreforma, inquisição, podem ser indicados como que de média duração e vigência; atos políticos, república do café com leite, nazismo, fascismo, revoluções e levantes sociais por sua vez se configuram de curta duração e especificidades em termos de local de ocorrência. 4 NOÇÕES DE TEMPO E ESPAÇO NO FAZER DIDÁTICO- PEDAGÓGICO Os tempos contemporâneos são paradoxais, são marcados pela globalização econômica e comercial, circulação e troca de bens culturais, tecnologias e informações científicas, da percepção da passagem do tempo e da diminuição das distâncias, pela aproximação das fronteiras, maior expressão/manifestação das identidades e das diferenças e, ao mesmo tempo, pelo distanciamento e esfriamento das relações entre os indivíduos. O tempo e o espaço constituem elementos primordiais no fazer pedagógico dos historiadores, bem como no processo de produção do conhecimento histórico, a experiência humana circunscreve-se tanto na dimensão temporal e espacial. Muito diferente da Geografia, das Ciências Biológicas, da Física ou da Antropologia, que compreendem e apresentam as noções de tempo e espaço. A História possui sua especificidade, mas que pode se aproximar destas áreas para elaborar suas definições, e neste percurso é possível que se utilizem noções destas áreas para proceder à sua própria definição. Bloch (2001) definiu a História foi definida como a ciência dos homens no tempo” e o espaço como “a dimensão da realização e construção social e histórica. No ensino de História, o domínio das noções e conceitos de tempo e espaço é imprescindível, pois todo e qualquer objeto, fato ou fenômeno histórico possui delimitações e circunstâncias que os fixam tanto no tempo como no espaço. UNIDADE 1 | ASPECTOS INTRODUTÓRIOS AO ENSINO DA HISTÓRIA 28 4.1 SOBRE O TEMPO O tempo é o meio e a matéria concreta da história. (Marc Bloch) Os fatos humanos são, por essência, fenômenos muito delicados e que podem escapar a qualquer medida matemática. O tempo verdadeiro é por natureza uma espécie de continuum e ao mesmo tempo uma perpétua mudança (BLOCH, 2001). A preocupação com o tempo é um dos atributos específicos e particulares da História. Independente de qual for a concepção de história que adotamos, o tempo impõe-se aos profissionais dela. Segundo Glenisson (1991), jamais espaçaremos a necessidade de datar ou fixar cronologias e, mais especificamente, seremos impelidos a determinar a duração dos fatos e ventos históricos. Historiadores como Henri Pirenne (1862-1935) e Marc Bloch defendem que o profissional da História é aquele que percebe a mudança das coisas, percepção que se dá somente quando se analisam os eventos e acontecimentos através de uma dada organização cronológica. Existem inúmeras noções que se podem utilizar na tentativa de captar o desenrolar do tempo, como a noção de tempo vivido (que é marcada no intervalo transcorrido entre o nascimento e a morte), tempo psicológico, tempo biológico, tempo concebido (que varia conforme cada sociedade compõe seu universo de valores e crenças), tempo cronológico (geralmente regulado com a adoção de calendários), tempo astronômico (caracterizado pelas órbitas de planetas ou presença de estrelas, cometas etc.), tempo geológico (que condiz com a formação do planeta Terra e da natureza), entre outros. As revoluções sucessivas das técnicas, a substituição de matérias- primas,os novos objetos que são adicionados aos modos de vida ampliaram desmedidamente o intervalo psicológico entre as gerações. Bloch (2001, p. 62) afirma que “não sem alguma razão, talvez o homem da era da eletricidade e do avião se sinta bem longe de seus ancestrais”. A percepção da passagem do tempo pelo viés dos indivíduos que residem em cidades e se encontram num contexto de trabalho industrial, regrados pelos horários dos meios de transporte, das atividades comerciais; a relação que as comunidades rurais e campesinas estabelecem com os ciclos e estações do ano, no manejo da terra e trato de animais; a percepção a partir dos rituais de grupos indígenas; a percepção do tempo das comunidades ribeirinhas diante da oscilação do nível das águas, das épocas de chuva e estiagem; assim como não se pode perder de vista a existência de lapsos, amnésias, esquecimentos (voluntários e involuntários), doenças como o Mal de Alzheimer, entre outros fatores que sugerem que se observe e compreenda o tempo como sendo uma ocorrência relativa. TÓPICO 2 | ENSINO E APRENDIZAGEM EM HISTÓRIA 29 4.1 SOBRE O TEMPO Conforme Bittencourt (2008, p. 204), “um dos objetivos básicos da História é compreender o tempo vivido de outras épocas e converter o passado em nossos tempos”. Ou seja, aproximar e tornar familiar na experiência do tempo presente, os tempos distantes. No sentido de reconhecer o que aquele conhecimento do passado pode contribuir para com as problemáticas e impasses que se apresentam na época presente. Ao realizar este exercício o historiador se utilizará de categorias temporais, tais como acontecimento, ciclo, estrutura, conjuntura, que, por sua vez, são noções de tempo qualitativo das durações, que procura perceber as sucessões diacrônicas marcadas por mudanças, rupturas e da simultaneidade sincrônica, que revelam permanências e continuidades. Tem-se o calendário solar, que foi utilizado por inúmeras comunidades antigas, e serviu de base para a formação do calendário gregoriano, que o papa Gregório XIII impôs no século XVI e que rapidamente foi adotado por quase todas as nações cristãs ocidentais da época. Le Goff (1990) analisa que a capacidade de universalização alcançada pelo calendário gregoriano foi possível mediante ao fato que este congregou três dimensões temporais fundamentais: o tempo cíclico dos acontecimentos litúrgicos como o Natal, a Páscoa e o dia dos principais santos; o tempo evolutivo, o antes e o depois de Cristo; tempo salvacionista, o tempo futuro da ressurreição e da redenção dos homens no reino de Deus. Os tempos que sucederam a divulgação do calendário gregoriano foram os das grandes navegações e o da Revolução Industrial em que os instrumentos de medição e controle do tempo foram aprimorados cada vez mais, aliado a isto ocorreram também mudanças na percepção e no valor atribuído ao tempo, em que o tempo adquire conotação do sistema econômico do capitalismo, caracterizado pelas noções de capital, produção, dinheiro e lucro. A partir da sistematização do calendário gregoriano, os historiadores procederam a outras reorganizações do tempo, criando idades, décadas, séculos, milênios e situando os mais expressivos acontecimentos, eventos, revoluções e feitos em cada um deles, no sentido de demarcar o início e o término, a passagem de um para outro. Um dos problemas da criação das padronizações de tempo está no fato de que muitas vezes a passagem do tempo tende a ser percebida numa dinâmica linear, progressiva, evolucionista e triunfante, isenta de contradições, involuções, permanências, retrocessos, danos e perdas do ponto de vista técnico, em meio à natureza, e termos de valores humanitários e civilizacional. Para Bloch (2001), o tempo humano, em resumo, permanecerá sempre rebelde tanto para com a implacável uniformidade como a divisão rígida do tempo do relógio. Faltam medidas adequadas que contemplem a variabilidade de seu ritmo e desenrolar. UNIDADE 1 | ASPECTOS INTRODUTÓRIOS AO ENSINO DA HISTÓRIA 30 4.1.1 A periodização tradicional da história É frequente encontrarmos em livros didáticos ou planos de ensino de professores de História instrumentos utilizados para a medição e contagem do tempo, linhas do tempo que periodizam o conteúdo e, em seguida, apresentam exercícios para a contagem do tempo com o uso de números romanos, assim seguindo o material didático com conteúdos referentes às sociedades ágrafas (pré-história), civilizações clássicas, Idade Média etc., somente atendendo o rol de conteúdos no que se refere ao tempo cronológico, negligenciando o entendimento no que se refere ao tempo histórico propriamente dito. Não se quer dar a entender que estes conteúdos e estratégias não sejam importantes, em especial para situar os acontecimentos aos momentos a que pertencem, mas se pensa que não sejam suficientes, em especial para atribuir ao tempo a historicidade que o mesmo requer, precisa-se ir além, ultrapassar a memorização e informação pela informação somente, avançar na dimensão da busca por explicações, realizar análises, críticas e interpretações, reconhecer os significados e relevância e por fim atribuir-lhe sentido necessário. Chesneaux (1995) discute que as periodizações que são atribuídas à História tradicionalmente sugerem a interpretação de que elas são desta forma desde sempre existiram e que são válidas para as todas as culturas e sociedades do mundo, e por outro lado acabam não sendo interpretadas e relacionadas às necessidades e aos interesses políticos que comportam, aspecto que recai tanto à periodização da História da humanidade como da História do Brasil: FIGURA 3 - PERIODIZAÇÃO TRADICIONAL DA HISTÓRIA FONTE: Disponível em:<http://www.estudopratico.com.br/conceito-e-divisao-da-historia/>. Acesso em: 25 jan. 2015. TÓPICO 2 | ENSINO E APRENDIZAGEM EM HISTÓRIA 31 A França apresenta um modelo de cronologia que se divide em História Antiga, que abarca as sociedades greco-romana, o Egito e os impérios assírio- babilônicos e se estende até o ano de 484); a História da Idade Média, apresenta Bizâncio, os países do leste da Europa, os países árabes do Mediterrâneo e que se estende até 1492; como História Moderna, contempla as grandes navegações, expansão colonial até a Revolução Francesa, aproximadamente até o ano de 1789; e por História Contemporânea, as relações do país com os continentes da Ásia, África e América. Já na Grécia, a cronologia obedece a outros marcos, a Antiguidade por exemplo se estende até o século XV, e por sua vez a Idade Média corresponde à ocupação turca do continente. Na China, a História Moderna é demarcada pelas guerras do ópio ao movimento patriótico de 1929; a partir de 1929, é registrada a Idade Contemporânea. Nos Estados Unidos, a história nacional encontra-se distribuída em blocos, a Guerra da Independência, em fins do século XVIII, e a Guerra de Secessão, em 1860-1864. Segundo Chesneaux (1995), a periodização francesa é a divisão mais rígida e extremada e que exerce forte influência sobre a maior parte dos livros didáticos, inclusive os brasileiros, e esta mesma cronologia é obedecida na distribuição dos conhecimentos históricos na modalidade de ensino básico (Ensino Fundamental e Médio), bem como nos programas e grades de disciplinas curriculares dos cursos superiores de História. De maneira geral, esta repartição dos conhecimentos históricos evidencia posturas ideológicas, como o papel do Ocidente diante do Oriente, e por outro lado, reduz o valor quantitativo e qualitativo dos povos não europeus na transformação e evolução da humanidade. As datações referem-se a eventos, fatos e momentos que os legitimam enquanto civilizações. Apresenta uma lógica eurocêntrica, que privilegia os povos da civilização ocidental cristã e as civilizações letradas da Ásia e da América. A Idade Média, por sua vez, encontra-se centrada no cristianismo romano. Estes elementos se evidenciam com o reconhecimento/prestígio que se obtém em estudargrego e/ou latim; conhecer a história da democracia grega, do direito romano, o poderio da Igreja católica, a história das Cruzadas, a nobreza da cavalaria; as aventuras das grandes navegações, as invenções da revolução industrial, os grandes momentos e batalhas das guerras mundiais. O autor apresenta que existem problemas também no que diz respeito à quatripartição da história segundo os modos de produção marxistas. A divisão conforme os modos de produção denominam-se escravismo na antiguidade; feudalismo na Idade Média; capitalismo nos tempos modernos; o capitalismo ascendente no mundo contemporâneo; e capitalismo desenvolvido, a partir dos confrontados com as experiências de socialismo de 1917. Tanto a quadripartismo temporal-cronológica marxista como a cronologia europeia-francesa representam casos limites, significativos, e permitem análises coerentes e seguras em termos de tempo histórico e dinâmicas políticas, UNIDADE 1 | ASPECTOS INTRODUTÓRIOS AO ENSINO DA HISTÓRIA 32 econômicas, sociais e culturais, porém ambas representam condições históricas muito localizadas e generalizantes, e por sua vez são muito pouco para servirem de recipientes suficientes da complexidade das experiências e dos processos históricos dos povos que compõem a humanidade. Diante deste contexto de tensões e impasses sobre a periodização da história da humanidade, conta-se com a contribuição de Fernand Braudel (1902- 1985), estudioso francês, que incorporou fundamentos da antropologia, da economia e da geografia no sentido de captar e perceber os diferentes ritmos e níveis que impregnam o tempo histórico. Nesse sentido propôs três ordens que apresentam ritmos e dinâmicas diferentes: o acontecimento, a conjuntura e a estrutura. O acontecimento, que possui breve duração, que engloba fatos de ordem acidental e individual, tal como um nascimento, uma morte, uma greve ou uma invasão e ataque, um ato público, um discurso, encontra-se vinculado mais à esfera política das atividades humanas. A conjuntura, que se apresenta como sendo de média duração, na qual são registrados as flutuações e os movimentos, como de uma revolução, uma guerra, os regimes de ditadura e democracia na América Latina, as crises econômicas, geralmente tratam das relações de poder, que possuem dinâmica econômica e determinam as relações sociais. A estrutura corresponde à longa duração dos fenômenos que os marcos cronológicos não limitam ou não alcançam devido à lentidão na qual se processam no interior dos comportamentos coletivos, estão fortemente sedimentados nas mentalidades dos indivíduos, são compostos de ideologias oriundas das tradições religiosas e culturais (judeus, islâmicos, cristãos), por sua vez permeiam várias épocas, como a prática da escravidão, os valores cristãos, leis e códigos morais. Bittencourt (2008) nos chama a atenção ao fato de que organizar os estudos de História por períodos é importante, mas precisamos estar atentos às referências e às abordagens que serão atribuídas às divisões e cronologias do tempo, assim como se pode levar em conta períodos mais extensos, tomando como centro de estudos conceitos ou temas geradores, tais como escravidão, revolução, cidadania, trabalho assalariado, globalização entre outros que por sua vez permitem retornar, circular, recombinar e reescrever o passado, no sentido de contemplar indivíduos, sujeitos, fenômenos, fatos que até então haviam sido negligenciados. TÓPICO 2 | ENSINO E APRENDIZAGEM EM HISTÓRIA 33 4.1.2 Outras possibilidades de abordar o passado O presente e o passado esclarecem-se mutuamente, como uma luz recíproca. (Fernand Braudel) Segundo Rodrigues (1966), o dever do profissional da história não é para com os mortos, nem o culto do passado pelo passado, é pelo presente que julgamos o passado, é pelo presente e realidade que urge diante dele mesmo. Caro(a) acadêmico(a)! Na tentativa de demonstrar como é possível proceder de uma forma comprometida com o presente ao estudar o passado, pode-se recuperar experiências e estruturas de outras épocas e procurar compreender a relação que estas possuem com práticas/experiências do presente. Nesse sentido pode-se lançar mão do funcionamento da democracia na Grécia Antiga, da política do pão e circo que ocorreu no interior do regime Republicano do Império Romano (ocorrência, funcionamento, finalidade, consequência) e problematizá-la e refleti-la em outras sociedades e épocas históricas, nos aspectos que esta reaparece, seja com perfil de repetição, semelhança e/ou sofisticação. PASSADO PRESENTE Assim como partir de situação e fato do presente, é possível recuperar experiências semelhantes que ocorreram em outros tempos históricos e sociedades. Um tema que favorece esta guinada podem ser os conflitos e guerras religiosas e tribais, ditaduras ou democracias políticas, revoltas e movimentos sociais. PASSADO PRESENTE Caro(a) acadêmico(a)! Não se sinta contido ou melindrado em planejar suas aulas e atividades somente na lógica apresentada acima, as possibilidades são muitas. Tenha prudência e sensibilidade aguçada. Conforme você sentir segurança e perceber que seus estudantes estão acompanhando o raciocínio e as explanações, quando demonstram facilidade com deslocamentos teóricos no tempo e no espaço, promova exercícios e situações de ida e vinda, regressão e reversão para com o passado e o presente. PASSADO PRESENTE Os PCN sugerem que as questões atuais podem servir para sensibilizar os estudantes no sentido de despertar o interesse para com o passado, no sentido de que “outras realidades temporais e espaciais” possam dimensionar a inserção e adesão a grupos sociais diversificados. UNIDADE 1 | ASPECTOS INTRODUTÓRIOS AO ENSINO DA HISTÓRIA 34 IMPORTANT E Seja bastante cuidadoso e criterioso ao realizar quaisquer destas estratégias. Não esqueça de considerar e situar cada contexto, cada momento e circunstância histórica, bem como as posições e os lugares ocupados pelos indivíduos que estiveram envolvidos, caso contrário, a atividade e a aprendizagem poderão não alcançar os objetivos esperados, até promover generalizações superficiais, equívocos e inverdades. 4.1.3 Noção de gerações Glenisson (1991) apresenta que desde Heródoto costuma-se considerar uma geração o intervalo de tempo transcorrido de trinta anos. Este espaço de tempo serve de base de avaliação corrente para a duração média da vida humana. Quando se tem a sucessão de três gerações, cobre-se, fecha-se um século. O autor adverte que se deve tomar o cuidado para não serem feitas sistematizações excessivas, que se esteja atento às relações existentes entre as gerações e as reações/respostas que as diferentes gerações manifestaram diante de uma mesma situação ou acontecimento; identificar os diferentes recursos e tecnologias que possuíam, o acesso e a abrangência que tinham sobre as informações, as fontes de matérias-primas, a comunicação e as trocas que estabeleciam com os contemporâneos, com os antecessores e os sucessores. Caro(a) acadêmico(a)! Pensando nas possibilidades de como abordar, como compreender a percepção de diferentes tempos históricos no exercício da docência, sugere-se uma atividade que contempla texto autobiográfico, árvore genealógica e trabalho com fotografias. Prossiga a leitura! Nesta atividade é possível contemplar as trajetórias de vida dos estudantes, de seus pais, avós e demais familiares; revelar as transformações tecnológicas, sociais, culturais que se deram ao longo do tempo vivido, as sucessões temporais da infância, adolescência, juventude, vida adulta e envelhecimento. Esta atividade pode contemplar diversas gerações. Salienta-se que, quando for aplicá-la, observe a capacidade de alcance de complexidade que os estudantes podem alcançar. Favorece abordar a disciplina de História como aberta e não fechada, como um processo simultâneo de média e curtaduração, e que, nesse processo, todos possuem significado e importância. Possibilita significar e contextualizar os estudos históricos do ponto de vista da História individual/particular, na esfera da história local, regional e nacional. Por outro lado, auxilia no processo de contextualização dos conteúdos gerais da História com vivências históricas propriamente ditas, permite incluir as experiências, as memórias, as lembranças de vida dos estudantes e de seus TÓPICO 2 | ENSINO E APRENDIZAGEM EM HISTÓRIA 35 4.1.3 Noção de gerações familiares em esferas mais amplas da história. Construir o sentimento de reconhecimento e pertença à história da família, da cidade, da nação e do mundo, articulando e construindo assim recursos à conquista e exercício da cidadania. 4.2 SOBRE O ESPAÇO Todo fazer e realizar humano ocorre e inscreve-se em um dado espaço; neste percurso, um ambiente composto por montanhas, rios, florestas, pântanos, mares, oceanos, planícies, planaltos, desfiladeiros, encostas, cavernas, desertos, campos, constelações, grutas, entre outros, serviram e servem de cenário para que o homem protagonize sua existência, leve a cabo seus planos e intentos. A ação do homem no espaço precisa ser compreendida como uma espécie de simbiose e transformação constante, não meramente determinista e condicionante do homem em relação à natureza, como pretenderam explicar os estudiosos do século XIX. A cartografia, os mapas de outras épocas, proporcionam a verificação da ocupação espacial em diferentes escalas de diferentes sociedades, bem como a comparação de ocupação, as movimentações (avanços e recuos) das fronteiras, os ganhos e perdas de território entre os diferentes grupos sociais, étnicos e nos mais diferentes momentos históricos. Apoiados na cartografia, estudiosos e professores podem seguramente abordar as dimensões de localidade, regionalidade, nacionalidade; o espaço também pode indicar conteúdos sociológicos, como as trocas e permutas econômicas que ocorrem por meio das sazonalidades das semeaduras/plantações e colheitas; assim como indícios culturais expressos nos dialetos e sotaques linguísticos que conferem noções de pertencimento, identidade, estranhamento e diferenciação entre os indivíduos. Existem inúmeras rotas terrestres, marítimas e aéreas que cortam o território, bem como o espaço atmosférico. O que importa aos profissionais da história é como estas rotas variaram ao longo do tempo que sejam percebidas em seu uso e sentido natural, comercial, político, religioso e intelectual. O mesmo deve ser observado para canais, rios, oceanos, mares, baias, pontes, estradas, viagens, expedições, colheitas etc. Glenisson (1991) explica que, no mar, a luta contra a distância já foi uma questão de sorte; quando ocorria uma rajada de vento favorável, percorria-se em uma ou duas semanas, o que em outras situações de ventos se levaria até seis meses. UNIDADE 1 | ASPECTOS INTRODUTÓRIOS AO ENSINO DA HISTÓRIA 36 Bem como em terra, uma guerra, um alerta, uma chuva, uma nevasca, uma ponte destruída representava um obstáculo que comprometeria de forma não prevista todo um movimento de migração, uma campanha ou estratégia/ tática de guerra, uma manifestação pública, a realização de algum evento, o fluxo de transporte de produtos, pessoas, entre outros. Apoiado nas técnicas e equipamentos, pouco a pouco, o homem impôs e impõe sua vontade diante das inconstâncias e imprevisibilidades da natureza, o que demonstra a amplitude do papel histórico do homem na transformação do espaço/meio geográfico. 37 RESUMO DO TÓPICO 2 • Para que o professor alcance de forma mais satisfatória seus objetivos de ensino- aprendizagem é necessário levar em consideração elementos físico-biológicos, os contextos sócio-históricos e as condições intelectuais que os estudantes possuem. • O conceito e noção de tempo devem ser abordados e compreendidos, pois levam em consideração os aspectos de mudanças, permanências, rupturas e continuidades no sentido de romper com a lógica meramente linear e cíclica que, muitas vezes, se encontra embutida no interior do conhecimento histórico sistematizado. • O estudo do passado não pode se dar de forma isolada no passado ou do passado pelo passado, precisa estar centrado no presente. Atente para as experiências que se assemelham ou se diferenciam, assim como as que são inéditas. • Fernand Braudel elaborou as categorias de acontecimento, conjuntura e estrutura que podem conferir uma diferente dinâmica de interpretação rompendo com a cronologia tradicional da periodização do conhecimento histórico. • Acontecimento designa fatos individuais ou acidentais em trajetórias biográficas eu contextos políticos. • Conjuntura refere-se aos eventos que se desenrolam por uma temporalidade maior, tal como uma revolução. • Estrutura quando trata de temporalidades ainda mais extensas, que os marcos tradicionais não são suficientes para delimitar, pertencem à dimensão das tradições, costumes e ideologias. • A noção de espaço na História deve ser no sentido de que sejam percebidas as variações de usos, as interferências, bem como as transformações tecnológicas que o homem lhe conferiu a fim de empreender suas obras e alcançar seus objetivos. 38 A autoatividade que é sugerida neste tópico pode ser um projeto a ser transposto aos estudantes, tanto no Ensino Fundamental como no Ensino Médio. A preocupação neste momento é que você, professor ou futuro professor, munido do exercício e da experiência na realização dele, demonstre ainda maior propriedade e segurança no momento de transpô-la aos estudantes. Ao realizá-la, antes mesmo de seus estudantes, lhe possibilitará sugerir alternativas de pesquisas com o intuito de que possam obter as informações que os integrantes da família não sabem precisar, bem como organizar e dispor as fotografias de um modo que evidenciem melhor o potencial de informações que comportam, assim como antever as possibilidades de ajustes que se fazem necessárias e as ampliações que podem ser feitas. 1 TEXTO AUTOBIOGRÁFICO A ideia é iniciar com a redação de um texto que contenha a trajetória/ história de vida pessoal e que retroceda gradualmente à vida dos pais, dos avós e demais familiares que possuem influência mais direta à trajetória de vida. Procure apresentar/descrever os seus momentos da infância, da adolescência, juventude, as experiências de trabalho, de formação escolar, a naturalidade e as migrações no espaço/cidades, os bens adquiridos, os objetivos/sonhos realizados, experiências com doenças/curas, participação comunitária e política; as relações com os demais familiares, as heranças em termos de tradições, gostos, objetos, coleções, as semelhanças e diferenças que existem para com a história de vida deles. Ilustre os principais momentos de sua vida com fotografias originais ou cópias. Procure sinalizar e identificar quem são as pessoas que aparecem com você. Discorra comentários sobre o local, a data aproximada e os motivos da fotografia. Descreva mudanças, permanências, continuidades, alterações e semelhanças para com os espaços, as vestimentas, os motivos, as datas etc. AUTOATIVIDADE 39 2 ATIVIDADE: MINHA ÁRVORE GENEALÓGICA Modelo de árvore genealógica FONTE: Disponível em: <http://www.comofazer.org/sociedade-e-cultura/relacionamentos/ como-fazer-uma-arvore-genealogica/>. Acesso em: 28 jan. 2015. 40 Observe como ocorre a estruturação da árvore. O preenchimento das informações dela deve iniciar por você, que fica junto às raízes. Logo acima se encontram as linhas/caminhos de seus pais, depois os de seus quatro avós e, por fim, de seus oito bisavós. O modelo de árvore genealógica tem o sentido de ilustrar as principais identificações familiares. Caso você queira incluir outros familiares, como os tetravós, tios(as), sobrinhos(as), primos(as), cônjuge, filhos(as), netos(as), utilize outros modelos, ou procure confeccionar sua própria árvore genealógica.A ideia é que ela apresente a sua ancestralidade mais próxima, mas também é possível incluir os demais familiares com quem você construiu vínculos mais diretos. Em seguida, é o momento de pesquisar informações sobre os familiares que compõem sua árvore genealógica, o que demandará pesquisa por informações como as datas de nascimento, batismo e falecimento; naturalidades; tipos de doenças; profissões; níveis de escolaridade; religião; relações de parentesco; locais e tempo de residências; informações não confirmadas, como as histórias dos tetravós contadas pelos avós; instrumentos que tocavam; clubes que participavam; criações próprias, como obras de arte, cidades visitadas; fatos interessantes que vivenciaram etc. Todas essas informações podem ser buscadas em fotos de parentes, anotações, livros, passaportes, documentos pessoais, lápides de cemitérios, listas telefônicas, escrituras de terras, testamentos, inventários, arquivos e documentos em locais públicos, arquivos históricos, centro de documentação de prefeituras, arquivos do Exército, portos, alfândegas, arquivos de jornais ou de instituições, como de hospitais, de Cartório de Registro de Imóveis, de igrejas (livros de batismo, casamento e falecimento) e sites na internet. 3 SISTEMATIZAÇÃO DAS ATIVIDADES A forma de sistematização da Atividade 1 (texto autobiográfico) e Atividade 2 (árvore genealógica) pode ser um pequeno livro/pasta grampeado/ encadernado, ou também pode ser disposto na forma digital (Word ou PowerPoint). A ordenação (o que vem primeiro) entre as atividades 1 e 2 fica a seu critério, e você deve resolver pela forma e modo que fique mais a seu contento, pois este é um trabalho que pode servir a você e seus familiares toda vez que surgirem dúvidas. 41 TÓPICO 3 O ENSINO DE HISTÓRIA NUMA PERSPECTIVA HISTÓRICA E HISTORIOGRÁFICA UNIDADE 1 1 INTRODUÇÃO O modelo em que nos encontramos passou a ganhar evidência desde os anos finais do século XVIII e somente a partir da segunda metade do século XX começou a ser questionado e revisto de forma mais ampla e consciente pela sociedade ocidental. Ao estabelecermos uma observação com olhar em perspectiva e com preocupação crítica e reflexiva com as experiências do passado, ao tentar localizar o ‘primeiro’ e o ‘último’ homem da epopeia humana, sobressaem-se os discursos de que a vontade e o desejo de o homem cultivar-se, edificar-se diante da natureza e das demais espécies seguiria um caminho linear e triunfante e alcançaria os mais profundos e sutis aspectos da realização humana. Alegre engano! A perplexidade se dá diante do fato de que ocorreram duas guerras mundiais; contamos com desequilíbrios climáticos e catástrofes ambientais que se avolumam; dados sobre fome, miséria e desigualdades sociais; e o desrespeito aos direitos humanos apresenta-se cada vez mais expressivo. Neste transcorrer da trajetória humana, o conhecimento histórico não foi poupado, assim como não se manteve neutro e ileso de posições, acabou também a adotar posturas, engajamentos que colaboraram para que este fosse confeccionado. Sabe-se que não é o momento de ficarmos parados esperando que os outros nos tragam soluções prontas. Precisamos perceber que existe mais profundidade e complexidade em nossas vidas do que realmente supomos; perceber uma imensa comunidade de pessoas, nas mais diversas partes do mundo, enfrentando dilemas e desafios semelhantes aos nossos, e despertarmos para alternativas criativas e que realmente consigam nos ajudar a viver experiências mais dignas e justas de vida. Veremos isso com maiores detalhamentos ao longo deste tópico. Caro(a) acadêmico(a), queira avançar na leitura! 42 UNIDADE 1 | ASPECTOS INTRODUTÓRIOS AO ENSINO DA HISTÓRIA 2 NAS SOCIEDADES ÁGRAFAS ATÉ A IDADE MÉDIA Tentar responder à pergunta quando pode ter surgido a História ou o ensino da História representa uma tarefa difícil de ser cumprida, em especial porque ainda restam expectativas de encontrar respostas precisas em termos de tempo e espaço. Quando o homem passou a acumular e superar tecnologias, a exercitar sua capacidade de raciocínio e memória, a viver de forma coletiva, se deparava com a necessidade de organizar e registrar as formas de saber e fazer, de alimentar, afirmar e renovar tradições, transmitir o que criou, vivenciou e, por consequência, preocupava-se em preparar/educar a geração sucessora. Quando? Em que momentos ocorria? De que estratégias lançaram mão? A quem coube tal responsabilidade? Conta-se com raríssimos registros sobre alguns vestígios daquela época. Diante destas circunstâncias, arriscamos um esforço imaginativo no sentido de recriar um cenário no qual existia uma dada aldeia/tribo, onde os integrantes se dispunham sentados em volta do fogo, atentos a apreciar os relatos dos membros, geralmente homens, que retornavam de jornadas que haviam trilhado em domínios próximos e afastados em busca de mantimentos e/ou de aventuras/ conflitos/disputas com outros grupos. Neste mesmo cenário se dava a manifestação de líderes espirituais/ religiosos, geralmente homens de mais idade, que confortavam os pensamentos diante dos acontecimentos do passado e do presente; pronunciavam palavras de proteção, saúde e sorte; e profetizavam e lançavam súplicas/preces de boas novas em relação ao futuro. Ocorria também, no interior da aldeia, à luz do dia, em meio ao cultivo da terra e na lida com os animais, outro momento de ensino e aprendizagem, que geralmente era realizado pelas mulheres da aldeia. Esse período é denominado como sociedades ágrafas, no qual prevalecia a presença da oralidade, quando os integrantes mais antigos e experientes, ou indivíduos com habilidades religiosas e medicinais, em meio a momentos coletivos como o de rituais cotidianos, de orações e danças, faziam a transmissão dos saberes como em comemoração às periodizações da natureza, nos ritos de iniciação e de passagem, na homenagem aos deuses, entre outros. Deste tempo subsistem evidências, no interior nas esculturas cuneiformes, inscrições no interior de cavernas e grutas; eram utilizadas também tábuas de marfim, madeira e peles de animais para inscrever. O caráter dos ensinamentos e conhecimentos continha combinações mitológicas, tendia à imitação dos modos de viver e conviver, o que por sua vez tendia para conteúdos e temas da moral, dos costumes e das tradições, assim TÓPICO 3 | O ENSINO DE HISTÓRIA NUMA PERSPECTIVA HISTÓRICA E HISTORIOGRÁFICA 43 2 NAS SOCIEDADES ÁGRAFAS ATÉ A IDADE MÉDIA como especulações futurológicas. Em termos de métodos e estratégias, pode-se dizer que se tratava de uma educação e aprendizagem que se dava de forma difusa, em que ocorria participação de diversos autores (BURG, 2013). Na antiguidade grega, a sociedade ocidental, já de domínio pleno da escrita, passa e sistematizar as primeiras ciências, tais como a História, a Medicina, a Filosofia, a Física, a Astronomia, a Matemática, o Teatro, a Arquitetura e a Escultura, nas quais prevaleciam os saberes voltados à apresentar coerência e racionalidade aos fatos e fenômenos, o que por sua vez buscavam o fim da felicidade, alcançada por meio de qualidades físicas, espirituais e morais de heroísmo, equilíbrio/justa medida nas ações. A oralidade ainda foi muito utilizada, mas agrega-se também a prática de jogos e esportes, o canto, a poesia, o teatro, as fábulas, foram instrumentos essenciais no sentido de garantir a eficácia no processo de ensino-aprendizagem (LUZURIAGA, 1990). É neste contexto que a História começa lentamente a se diferenciar do gênero literário, do universo fabuloso e mitológico, e pretende constituir um conhecimento cujo teor e pretensão era o da verdade dos fatos. Com a História os gregos esperavam conseguir retardar o desaparecimento dos feitos e façanhas humanas. As epopeias em que deuses e deusas eram os principais personagens foram deixadas de lado, e agora o Histor encontrava-se preocupado em narrar objetivamente osfatos, bem como os valores coletivos dos cidadãos. Heródoto de Holicarnaso, cidade da Jônia, defendeu a necessidade de constituir uma História baseada no relato e testemunho histórico, em especial de quem presenciou os acontecimentos fatos, que seriam escritos e sistematizados (DOSSE, 2003). É quando surgem as primeiras escolas e quando os professores atuam no sentido de complementar os conhecimentos que os indivíduos possuíam em família. A vida na cidade e o exercício da cidadania exigiam demonstração das habilidades e competências argumentativas e discursivas, para tanto, exercícios de oratória e retórica eram frequentes, os conhecimentos históricos tendiam a legitimar os governos, a soberania dos gregos diante de outras nações, assim como agradar aos ouvintes. Dosse (2003) interpreta que era exigido dos historiadores que em suas narrativas houvesse unidade de tempo, duração, meio, local/região, bem como a capacidade de agregar coerentemente estes elementos em torno de um determinado problema (Guerras Médicas, Guerra do Peloponeso). Os historiadores eram convidados a contar suas histórias em momentos solenes da vida cívica grega, como em atos políticos, e/ou em momentos festivos, como na realização das olimpíadas, que reuniam os mais diferentes povos. 44 UNIDADE 1 | ASPECTOS INTRODUTÓRIOS AO ENSINO DA HISTÓRIA Na Roma antiga, a família representava a maior fornecedora de aprendizagem e conhecimentos aos filhos, que por sua vez se centrava no campo das virtudes da vida adulta. Quando a educação era obtida em espaços públicos, conforme a origem social dos estudantes, os conhecimentos e os saberes recebiam abordagem diferenciada. Quando voltado a grupos desprovidos de maiores riquezas, os conteúdos direcionavam-se à realização de tarefas e ofícios do mundo do trabalho. Quando se tratavam de grupos mais abastados, além de preocupações com o escrever e o falar bem (oratória e retórica), os estudos direcionavam-se ao conhecimento da vida pública e política de Roma, em especial de legislação da República Romana. Existiam professores tutores que eram responsáveis e acompanhavam a formação dos jovens das famílias mais abastadas, que agregavam conhecimentos mais vastos e profundos, de forma dialogada e reflexiva. Atuaram nesta modalidade professores como Sêneca, Plotino, Cícero e Marco Aurélio. Na Idade Média, o ensino e o saber centralizam-se em conventos e mosteiros, onde monges copistas foram os responsáveis por transcrever os conhecimentos religiosos e documentos papais. De dentro dos mosteiros, o ensino, os livros e documentos migraram para o interior das universidades. Dosse (2003) explica que os estudos centravam-se em documentos originais e dedicavam-se a organizar a história da Igreja, revelar os altos feitos e curiosidades, enumerar a lista de santos, das relíquias e santuários, mencionar os castigos, prodígios, milagres entre outros. Os estudos históricos prezavam pela erudição, os monges estudavam a antiguidade clássica, a antiguidade nacional e iniciação a métodos históricos de tratamento e tipologias de documentos. O ensino priorizava os temas da teologia, filosofia, direito e política. Existiam também as corporações de ofício, nas quais os estudos atendiam à necessidade de preparar e formar mão de obra, uma espécie de educação profissionalizante. No final da Idade Média, os historiadores deixam de lado as fontes bíblicas e passam a se preocupar com fontes diplomáticas, em especial com o aumento das atividades de navegação a outras regiões para além do continente europeu e oriental. Dosse (2003) apresenta que, nos séculos XV e XVI, se deu a retomada das preocupações da Grécia clássica para com o conhecimento histórico, que por sua vez pretendeu se afastar das concepções e das explicações religiosas católicas. O público, que era formado por togados notáveis, nobres, e comerciantes, encontrava-se ávido pelas narrativas da antiguidade e pela história da França, uma história de cunho político e nacionalista, admiravam a arqueologia e a numismática. TÓPICO 3 | O ENSINO DE HISTÓRIA NUMA PERSPECTIVA HISTÓRICA E HISTORIOGRÁFICA 45 Os estudiosos desse período ficaram conhecidos como humanistas, defendiam o retorno aos clássicos gregos e romanos, sugeriam o gosto pelo antigo, excepcional e exótico; e mesmo munidos de regras e métodos críticos, apresentavam-se com certo olhar deslumbrado diante dos historiadores e das narrativas dos gregos e romanos. 3 O MODELO ILUMINISTA E/OU MODERNO Pode-se dizer que foi regido por intelectuais franceses e alemães, que por sua vez defendiam que a História fosse uma ciência positiva, procuravam escapar da influência subjetiva e defendiam a imparcialidade no interior da História. Apresentavam também uma visão progressista no sentido de que o historiador trabalhava a serviço do progresso da humanidade. Dosse (2003) apresenta que é somente em 1880 que a História ganha um estatuto próprio. Foi quando se criou a licença de ensino da História, que de fato a dissociou da literária, pois até eram indiferenciadas. Logo os primeiros diplomados em História fundaram as primeiras revistas com caráter erudito e científico. Os historiadores se preocupavam no sentido de promover uma acumulação volumosa de trabalhos científicos, os temas ganhavam uma abordagem linear e eram enriquecidos pelos conhecimentos advindos das áreas vizinhas, como antropologia, numismática, paleografia, epigrafia, diplomacia, entre outras. Este período é também conhecido como a época das ‘revoluções otimistas’ e ‘triunfantes’. Os projetos modernos tendiam à forte racionalização do conhecimento, que pode ser encontrada no Iluminismo, em especial pela necessidade prática de orientação no tempo, que deveria ser alcançada pelas estratégias metódicas, ou seja, a prioridade e valorização do método histórico. Isso foi responsável por apresentar certos manuais regulamentadores e pela institucionalização aos moldes acadêmicos. Os estudos que foram produzidos a partir do surgimento da História enquanto disciplina, agora reconhecidos no universo acadêmico e científico, foram denominados de escola Historicista. Estes historiadores preocupavam- se em produzir um conhecimento de cunho racional e científico, teorizante, procuravam analisar, explicar de forma genética, estrutural como funcionava a sociedade. Por sua vez, acabavam negligenciando a relevância e a justificativa em seu tempo e realidade, da existência e da experiência dos seres humanos fora dos modelos ideais e totalizantes, o que por sua vez atribuía ao indivíduo um papel passivo tanto do processo de construção do conhecimento como da transformação da realidade. 46 UNIDADE 1 | ASPECTOS INTRODUTÓRIOS AO ENSINO DA HISTÓRIA Rüsen (1997) explica que o Iluminismo deu o primeiro passo na direção da transformação do método histórico em conceito, quando os procedimentos da crítica das fontes foram sistematizados. O Historicismo deu o passo ao formular pela primeira vez a ideia da interpretação histórica como sendo a operação essencial do pesquisador. A interpretação historicista transforma meros fatos, resultados das fontes, em fatos históricos, vinculando-os uniformemente e linearmente a noção temporal de passado, presente e futuro, dotado de sentido; ou seja, a interpretação proposta pelos historicistas, era a de transformar resultados empíricos em “história”. O Historicismo defendia que a história constituía-se de forças espirituais da ação humana, o que implicou uma espécie de autoavaliação da classe média culta, dotada de competência e criatividade cultural, e esta passou a acreditar que deveria dominar e conduzir as transformações que se encontravam em curso. Os estudiosos que se destacaram neste cenário foram: Johann Gustav Droysen (1808- 1884) e Leopold von Ranke (1795-1886). Rüsen (1997) explica que a forma moderna de pensamento histórico, por meio de sua concepção das transformações no tempo, reconhecia uma ligação genéticaentre o passado e o presente, dando a impressão de que o passado se movia na direção do presente e que nada escaparia a esta dinâmica. De maneira geral, pode-se dizer que a ciência da história no interior do paradigma moderno foi caracterizada essencialmente por concepções de racionalidade, da razão e do método, num ponto extremo de uso e aplicação ao ponto de servir para fins de legitimação da dominação e do poder. Todavia, foi somente no decorrer do século XX, em especial na segunda metade, que recebeu crítica reflexiva e profunda. Em muitos casos acabou por condenar apressadamente os projetos modernos, sem levar em consideração os possíveis contextos e intenções dos quais partiram e a forma e caminhos pelas quais foram colocados em práticas. 4 O MODELO PÓS-MODERNO “A prática histórica é totalmente relativa à estrutura da sociedade.” (Michel de Certau) Os intelectuais da pós-modernidade, em especial do final de século XX, centraram-se em criticar os projetos da modernidade, mas isto não foi somente a tarefa dos intelectuais deste período. Desde o século XIX é possível identificar os discursos de Karl Marx (1818-1883) e Max Weber (1864-1920), que se preocupavam em denunciar as experiências de exploração, alienação, dominação, violência e resignação que se acumulavam. TÓPICO 3 | O ENSINO DE HISTÓRIA NUMA PERSPECTIVA HISTÓRICA E HISTORIOGRÁFICA 47 4 O MODELO PÓS-MODERNO O movimento iluminista defendia os argumentos da racionalidade científica e industrial e estes se legitimavam, ocorriam censuras e restrições ao campo da subjetividade, das superstições, do dogmatismo, não sendo entendidos como dificultadores do esclarecimento, do progresso e do desenvolvimento das sociedades, o que por sua vez não se concretizou e acabou por se revelar como outros. Hoje, a crise do progresso reside de que a concepção de história da modernidade acabou se revelando como uma ideologia eurocêntrica que procurava dominar e sufocar outras nações e formas de identidade cultural. O conhecimento histórico até então sustentado perdeu a capacidade de explicação estrutural dos movimentos socioculturais e processos civilizatórios. As histórias narradas perderam muito de seu sentido original, que se caracterizava por ser heroico e glorioso, os grandes feitos modernizadores cederam lugar à consciência de viver numa época multicultural de múltiplos interesses e formas/ modos de vida. As tendências pós-modernas trouxeram em sua essência aspectos que tratam da heterogeneidade, fragmentação, subjetividade e relatividade, que podem ser entendidos como o estágio e a metamorfose mais sublime da época moderna (DIEHL; TEDESCO, 2001). Ao mesmo tempo, o pensamento pós-moderno permanece gerando catástrofes ambientais, o aprofundamento das desigualdades sociais, de acirramento dos conflitos e atos intolerantes entre os hemisférios Norte e Sul, Ocidente e Oriente, assim como existem, por outro lado, a ampliação e o fortalecimento dos modelos democráticos de governos e sociedades. Diante da ideia de expansão e fortalecimento das experiências democráticas, conta-se com a reflexão crítica de Rüsen (1997), que nos adverte que este processo de legitimação de experiências democráticas tem se dado por meio de violações crescentes dos princípios no interior das organizações democráticas do poder político e dos direitos do homem e do cidadão (as práticas de tortura, fraudes e corrupção ilustram tais fragilidades). Pode-se dizer que o momento pós-moderno iniciou a partir dos anos de 1960, quando eclodiram os movimentos pacifistas, ambientalistas, etnicorraciais, bem como as guinadas de cunho político e econômico da Rússia e do todo leste europeu, em especial a experiência da Perestroika, que procurou realinhar o antigo regime comunista/socialista aos modelos econômicos e políticos capitalista ocidentais. O processo histórico é compreendido como negativo e esgotado e com perfil conservador, no qual os indivíduos seriam desportivos, nacionalistas, militaristas, religiosos, impedindo as possibilidades de desenvolvimento de novos valores e da concepção de outros ideais. 48 UNIDADE 1 | ASPECTOS INTRODUTÓRIOS AO ENSINO DA HISTÓRIA Os pós-modernos foram radicais ao ponto de afirmar que uma entidade como “a história”, como pretendiam os modernos, nem existiria. Haveria somente representações e discursos do passado, que foram criadas através da poética e retórica narrativa, ou seja, quase uma ficção. Nunca haveria existido o que os modernos propuseram em termos de História, que foi algo como um processo evolutivo único e abrangente. Os intelectuais identificados como pós-modernos pretendem restituir a dignidade e autonomia ao passado, excluindo a ideia de evolução e continuidade. Para os pós-modernos a história seria a partir de agora como uma criança rebelde e inconsequente, que desobedece aos seus pais, reage instantaneamente e se comporta conforme suas vontades. Rüsen (1997, p. 91) apresenta que “todo e qualquer encadeamento temporal dos diferentes fenômenos do passado é interrompido em benefício de um evento de natureza única”, que adquire assim um significado histórico substancial. A historiografia pós-moderna é responsável por produzir cenários que contradizem a situação presente, recriando uma consciência que foi perdida com os projetos de modernização. Por outro lado surgiu a concepção de fim da história, esgotamento das explicações que competem à História e ao historiador, assim como possibilidades de mudança e renovação dos discursos, no sentido de que tudo já havia sido dito e feito, de nada valeriam novos/outros ideais e valores, nem mesmo atos e movimentos sociais, protestos e subversões; estes soariam como obsoletos, inconsequentes e teatrais, somente estaríamos reproduzindo antigos esquemas e já estava sabido no que resultariam. Neste sentido, encontra-se a tese de Francis Fuckuyama, publicada em 1989, que defende que se chegou ao fim da história, e que se instalava uma época de felicidade e monotonia na vida dos indivíduos. Fuckuyama (1992) concebeu esta tese no momento que ocorria a queda do murro de Berlim, a dissolução do bloco socialista da URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), que se chegava ao fim da guerra fria e de inúmeras tentativas de revoluções que acabaram por se revelar como frustradas, que a dialética, que as contradições, as questões políticas e econômicas não existiriam, e gradualmente se estaria caminhando à hegemonia do sistema capitalista, liberal e à satisfação completa das necessidades humanas. Bastou o tempo cumprir o seu curso para que a teoria do fim da História fosse colocada em cheque. Os eventos transcorridos no final do século XX e início do XXI, tais como a crise norte-americana e europeia e os ataques terroristas, podem ser utilizados para desqualificar tal teoria. Vive-se um momento em que os modelos conceituais teóricos não dão mais conta de abarcar a realidade, sobressaem-se múltiplas e diversas experiências culturais. Neste contexto, o passado pode assumir importância, como por TÓPICO 3 | O ENSINO DE HISTÓRIA NUMA PERSPECTIVA HISTÓRICA E HISTORIOGRÁFICA 49 exemplo, através das memórias coletivas ou individuais, possibilitando amplos desdobramentos metodológicos e infinitas leituras, releituras, interpretações e versões do passado. Diehl (2001) escreve que não é mais possível contar, exclusivamente, com as luzes da ciência, do progresso e da linearidade temporal como se fez no século XVIII e XIX, agora a ênfase dos estudos e pesquisas no campo da história recai sobre as ruínas, sobre os restos que sobraram dos processos de modernização. Paira uma espécie de perplexidade, desespero e assombro diante do que a memória pode revelar (arquivos dos campos de concentração, da ditadura militar, refugiados, entre outros). A memória adquire status de testemunho sensível do processo e experiência histórica, o que a deixa com poucas certezas e muitos receios no momento de reconstruire significar o passado, fato que por sua vez é responsável por fragilizar o status do conhecimento e a disciplina de História no interior do universo acadêmico, diante de outros conhecimentos e disciplinas que se apresentam com campo e objeto de estudo de maior controle e verificação das fontes e precisão de métodos. Diehl (2001) aponta que agora a diferença é a de que o historiador não pode mais usar modelos teóricos de seleção e classificação evolutiva do conhecimento, como os modernos fizeram em seu tempo. A heterogeneidade temporal, cultural e política da experiência humana impede-o de fazer tábua rasa para com o sentido e significado do conhecimento que está sendo estudado ou se pretende ensinar. De maneira geral identifica-se que o historiador e o professor de história possuem uma postura estratégica no sentido de um retorno ao mundo primitivo, situado antes da modernidade, que reencontra a comunidade, no pequeno, no micro, que procura trazer para o centro do palco o indivíduo como sujeito ético- moral e responsável pelo seu destino e de seus semelhantes. 4.1 IMPLICAÇÕES NO CAMPO DA HISTORIOGRAFIA Com o universo histórico-científico sob o signo da suspeita, em especial para os parâmetros modernos de progresso cumulativo, tempo linear, ações coletivas, discursos racionalizantes, métodos generalistas e artificiais, abre-se espaço a experiências reconstruidoras de fragmentos, das identidades locais, dos nichos, das histórias individuais, os chamados “irracionalismos”. 50 UNIDADE 1 | ASPECTOS INTRODUTÓRIOS AO ENSINO DA HISTÓRIA 4.1.1 A Escola dos Annales A renovação no campo da História foi iniciada a partir do “Movimento dos Annales”, ganhando expressão com o lançamento da Revista Annales, projeto dos historiadores Marc Bloch e Lucien Febvre, que foi lançada em janeiro do ano de 1929, em meio a um contexto de crise mundial e a herança de destruição deixada pela Primeira Guerra Mundial, que por sua vez perturbava e sensibilizava os intelectuais não só da história, mas das ciências sociais e humanas como um todo, em que procurava superar as heranças do historicismo no campo da História. Os intelectuais da época descentram seu foco de questões políticas que por sua vez se encontravam envolvidos nas demandas econômicas e sociais, mascadas pela recessão, desemprego da década de 1920 e primeiros anos de 1930, neste contexto ocorre o lançamento da NEP (Nova Política Econômica) na Rússia e do New Deal nos Estados Unidos da América. Em meio à produção do conhecimento histórico que surge a necessidade de quantificar e calcular as possíveis variáveis no interior das relações comerciais, e que os historiadores procuraram garantir que esta tivesse cada vez mais teor científico. A temática política é deixada de lado, pois os intelectuais deixam de lado a política pelo fato de interpretá-la como cúmplice e conivente com as tragédias e os assombros que haviam transcorrido a partir das guerras mundiais, assim como com a percepção por parte destes de que o declínio, a decadência, a ineficiências das ideologias havia despersonalizado e desumanizado o homem. A partir disto surgem os “novos objetos”, “novos enfoques” e “novos problemas” que foram estudados, em especial, por Jacques Le Goff e Pierre Nora. 4.1.2 A micro-história Outra alternativa apresentada pelos pós-modernos foi a de uma saída por meio da imaginação histórica, contida na história dos fracos, na fraqueza humana, nos sujos da história, daqueles que foram jogados, historiograficamente, na lata do lixo pela tradição da História. É quando surgem os estudos de Carlo Guinzburg, Emmanuel Le Roy Ladurie, Natalie Davis, Martin Guerre, entre outros, que se preocupam com personagens dos períodos anteriores aos da Idade Moderna, a vida e os indivíduos anteriores ao Iluminismo e aos processos de modernização. Ou seja, a micro- história sai em defesa das vítimas da modernização, sobretudo das camadas inferiores, bem como das mulheres, dos artesãos, os trabalhadores comuns, uma espécie de inspiração obtida nas áreas da antropologia cultural e da etnologia. TÓPICO 3 | O ENSINO DE HISTÓRIA NUMA PERSPECTIVA HISTÓRICA E HISTORIOGRÁFICA 51 4.1.2 A micro-história 5 O ENSINO DA HISTÓRIA NO BRASIL No início do século XIX, mesmo com as intenções legislativas, a História aparecia como disciplina optativa do currículo nos programas das escolas elementares. Os planos de estudos das escolas elementares das províncias que as criaram, na maioria das vezes, instituíam “noções de geografia e de história, principalmente, a nacional” como disciplinas “permitidas” pelas autoridades e consideradas facultativas ao ensino elementar. (PCN,1997). A constituição da História como disciplina escolar autônoma ocorreu apenas em 1837, com a criação do Colégio Pedro II, o primeiro colégio secundário do país, que apesar de ser público, era pago e destinado às elites. A História do Brasil foi introduzida no ensino secundário depois de 1855 e, logo após, foram desenvolvidos programas para as escolas elementares. O modelo de conteúdos curriculares seguiu o modelo francês, de uma história universal, agregado da História Nacional. A História Sagrada permaneceu como matéria constitutiva e com conteúdos integrantes da educação moral e religiosa. Por volta de 1870 ocorreram embates entre quem defendia as concepções cientificistas com os setores conservadores ligados ao ensino moralizante dominado pela Igreja Católica, o que gradualmente resultou na ampliação dos conteúdos e na incorporação das disciplinas como Ciências Físicas, de História Natural, com a adoção dos preceitos metodológicos das chamadas “lições de coisas” e a inclusão de tópicos sobre História e Geografia Universal, História do Brasil e História Regional. (PCN, 1997). Estas mudanças incluíram nas discussões temas sobre o fim da escravidão, a transformação do regime político do Império para a República e a retomada dos debates sobre o ensino laico, visando cada vez mais à separação entre o Estado e a Igreja Católica e sua ampliação para outros segmentos sociais. A precariedade das escolas elementares indicava que entre as propostas de ensino e sua efetivação na sala de aula existiu sempre um hiato. Em geral, as salas de aula eram palco de uma prática bastante simplificada. Por isso, as autoridades escolares exigiam dos professores o cumprimento mínimo da parte obrigatória composta de leitura e escrita, noções de Gramática, princípios de Aritmética e o ensino da Doutrina Religiosa. As disciplinas consideradas facultativas raramente eram ensinadas, o que fez a História Sagrada predominar sobre a História Civil nacional. (PCN, 1997). 52 UNIDADE 1 | ASPECTOS INTRODUTÓRIOS AO ENSINO DA HISTÓRIA Os programas de História do Brasil seguiam o modelo consagrado pela História Sagrada, substituindo as narrativas morais sobre a vida dos santos por ações históricas realizadas pelos heróis considerados construtores da nação, especialmente governantes e clérigos. A ordem dos acontecimentos era articulada pela sucessão de reis e pelas lutas contra os invasores estrangeiros, de tal forma que a história culminava com os “grandes eventos” da “Independência” e da “Constituição do Estado Nacional”, responsáveis pela condução do Brasil ao destino de ser uma “grande nação. (PCN, 1997, p. 20). Os PCN (1997) abordam que os métodos de ensino aplicados nas aulas de História deste período eram baseados na memorização e na repetição oral dos textos escritos. Os materiais didáticos eram escassos, restringindo-se à fala do professor e aos poucos livros didáticos que seguiam o modelo dos catecismos. No final do século XIX, com a abolição da escravatura, a implantação da República, a preocupação pela racionalização das relações de trabalho e o processo migratório, atribui à História o duplo papel de dar conta de uma formação ao mesmo tempo civilizatória e patriótica. A História Nacional identificava-se com a História da Pátria, que por sua vezera entendida como o alicerce da “pedagogia do cidadão”, os conteúdos deveriam enfatizar as tradições de um passado homogêneo, com feitos gloriosos de célebres personagens históricos nas lutas pela defesa do território e pela unidade nacional. Foi o momento em que não ocorreu somente a substituição da moral religiosa pelo civismo, desenvolveram-se também práticas e rituais como festas e desfiles cívicos, eventos comemorativos, celebrações de culto aos símbolos da Pátria (PCN, 1997). A partir de 1930, com a criação do Ministério da Educação e Saúde Pública e a Reforma Francisco Campos, acentuou-se o fortalecimento do poder central do Estado e do controle sobre o ensino. O ensino de História era idêntico em todo o País, dando ênfase ao estudo de História Geral, sendo o Brasil e a América apêndices da civilização ocidental. Ao mesmo tempo refletia-se na educação a influência das propostas do movimento escolanovista, inspirado na pedagogia norte-americana, que propunha a introdução dos chamados Estudos Sociais, em substituição a História e Geografia, especialmente para o ensino elementar. As mudanças no campo da didática e da metodologia do ensino da História pouco mudaram, o grupo na Nova Escola sugeria métodos ativos, com aulas mais dinâmicas, centradas nas atividades do aluno, com a realização de trabalhos concretos como fazer maquetes, visitar museus, assistir a filmes, comparar fatos e épocas, coordenar os conhecimentos históricos aos geográficos, o que predominava era a memorização e as festividades cívicas que passaram a ser parte fundamental do cotidiano escolar. Porém a prática no interior das salas de aula continuou sendo a de recitar as “lições de cor”, com datas e nomes dos personagens considerados mais significativos da História. (PCN, 1997). TÓPICO 3 | O ENSINO DE HISTÓRIA NUMA PERSPECTIVA HISTÓRICA E HISTORIOGRÁFICA 53 Nas décadas de 50 e 60, agora sob inspiração da política nacional- desenvolvimentista, e forte presença dos Estados Unidos da América na vida econômica brasileira, o ensino de História, em nível secundário, voltou-se especialmente para o espaço americano, fortalecendo o lugar da História da América no currículo, com a predominância da História dos Estados Unidos. A temática econômica ganhou espaço na disciplina com o estudo dos ciclos econômicos. Conforme consta nos PCN (1997, p. 22) neste momento a História foi entendida a partir da “sucessão linear dos centros econômicos hegemônicos da cana-de-açúcar, mineração, café e industrialização”. Nos anos de 1970, quando o país se encontrava governado pela ditadura militar, ocorreu a consolidação da disciplina de Estudos Sociais ao lado da Educação Moral e Cívica em substituição a História e Geografia. Os conteúdos destas novas disciplinas apresentavam forte caráter nacionalista e era destinado a justificar o projeto de governo dos militares. Em termos de processo de ensino e aprendizagem ocorria que para compreender a História o estudante deveria dominar a noção de tempo histórico. No entanto, o desenvolvimento dessa noção no ensino limitava-se a atividades de organização do tempo cronológico e de sucessão como datações, calendário, ordenação temporal, seqüência passado-presente-futuro. (PCN, 1997). No processo de redemocratização dos anos de 1980 passam a ocorrer redefinições e reformas curriculares, bem como no que diz respeito à clientela escolar, agora composta de vários grupos sociais que viviam um intenso processo de migração, do campo para as cidades, e entre os Estados, com acentuado processo de diferenciação econômica e social. A didática e a metodologia do ensino e da aprendizagem passaram a fazer parte das preocupações na área da educação de forma mais profunda por parte da História a partir dos anos de 1980 e 1990. E muitas vezes são temas que ainda são abordados como temas secundários ao ensino. As novas gerações de alunos habituavam-se à presença de novas tecnologias de comunicação, especialmente o rádio e a televisão, que se tornaram canais de informação e de formação cultural. No ponto de vista historiográfico foi quando se deu a inclusão de novas problemáticas e temáticas de estudo, sensibilizados por questões ligadas à história social, cultural e do cotidiano, sugerindo possibilidades de rever no ensino fundamental o formalismo da abordagem histórica tradicional. Introduziu-se a chamada História Crítica, pretendendo desenvolver com os alunos atitudes intelectuais de desmistificação das ideologias, possibilitando a análise das manipulações dos meios de comunicação de massas e da sociedade de consumo. (PCN, 1997). 54 UNIDADE 1 | ASPECTOS INTRODUTÓRIOS AO ENSINO DA HISTÓRIA Os métodos tradicionais de ensino, os livros didáticos, os textos simplificados, os conteúdos carregados de ideologias, os testes ou exercícios sem exigência de nenhum raciocínio passam a ser questionados com maior ênfase. Na década de 1990, foi quando ocorreu a negação do conteúdo no campo da didática; e se passou a reclamar pela reelaboração da didática, agora contemplando além das questões metodológicas, as ideológicas que perpassam os conteúdos e o exercício profissional do professor. 6 O MOMENTO CONTEMPORÂNEO E AS NOVAS TENDÊNCIAS HISTORIOGRÁFICAS A crise da história não foi uma doença específica que atingisse unicamente a história. Foi e é um dos aspectos, o aspecto propriamente histórico, de uma grande crise do espírito humano. (Lucien Febvre) Mesmo diante do cenário de crise que caracteriza os tempos contemporâneos pode ser entendido como o ponto em que nos encontramos no contraponto do discurso da modernidade e da pós-modernidade, que por sua vez é identificado como crise de civilização, crise das promessas otimistas e triunfantes de progresso, se apresentando agora com um caráter complexo, multifacetado e por apresentar uma dinâmica de extrema fluidez. Rüsen (1997) defende que enquanto os homens forem homens em meio à sua jornada e vida necessitarão de orientações em termos de padrões temporais. O autor chama a atenção para a existência da multiplicidade na História, e não a ideia de entidade, no sentido de que é possível elaborar categorias de representação mental da unidade da experiência histórica, do contrário, corremos o risco de cair na armadilha do relativismo total. Bem como precisamos de uma concepção de história que corresponda à experiência atual do mundo. O questionamento do evolucionismo, da ideia de progresso, desloca a reflexão da história para outros terrenos, exteriores, além das fronteiras, é o momento em que ocorre a aproximação com as ciências sociais, da linguística, da psicanálise, da antropologia (DOSSE, 2003). Em meio à multiplicidade das perspectivas históricas, uma unidade da história somente pode ser alcançada por meio de valores universais que permeiam a interpretação histórica. Portanto, carecemos de um sistema de valores que sejam orientadores. TÓPICO 3 | O ENSINO DE HISTÓRIA NUMA PERSPECTIVA HISTÓRICA E HISTORIOGRÁFICA 55 6.1 OS DESAFIOS DA INTER E DA TRANSDISCIPLINARIDADE A solidariedade do perigo cria entre nós que nem mesmo nem doutrinas soubemos criar, unidade de recusa diante da miséria desoladora de uma época em que tudo o que o homem pode amar e querer se encontra desvinculado de sua origem viva, se encontra estigmatizado, desnaturado, invertido e aplainado. A interdisciplinaridade é a divisão de um problema, fato, movimento entre diferentes abordagens, entre profissionais de diferentes disciplinas ou áreas do conhecimento, o que acaba por gerar a justaposição de diferentes pontos de vista. A transdisciplinaridade implica a reunião de vários especialistas em torno de uma alternativa de resolução de um problema comum. Significa a busca pela aliança de coexistência entre os indivíduos e profissionais da educação. Neste quadro passaram a se diferenciar os professores especialistas das disciplinas e os unidocentes ou polivalentes, estes últimos responsáveis por atender às sériesiniciais do ensino fundamental. Dentre os especialistas das disciplinas formaram-se pequenos grupos mediante a proximidade temática: das “humanas” que envolve professores de História, Língua Portuguesa, Literatura, Geografia, Sociologia, Artes e Filosofia, e das “ciências naturais e exatas”, com profissionais de Ciências, Biologia, Química, Matemática e Física. Estas tendências sugerem profundas mudanças no campo teórico- metodológico da História enquanto disciplina e ciência, assim como no que diz respeito às temáticas de utilização das fontes e as funções do conhecimento histórico. Diante deste contexto que é específico de fragilidade e fragmentação da História e do cenário proporcionado pelas possibilidades da inter e transdisciplinaridade eis que surge novamente a necessidade de se recorrer a critérios de caráter teórico-metodológicos que orientem mais seguramente o ofício do historiador e do docente de história em sua jornada de estudos e experiências de ensino aprendizagem. 6.2 A VIVÊNCIA NA HISTÓRIA E A HISTÓRIA DO TEMPO PRESENTE O presente bem referenciado e definido fornece as condições iniciais e fundamentais ao ofício do professor de história e ao historiador. Glenisson (1991) aborda que, quando vivemos os acontecimentos, geralmente estamos próximos demais para podermos avaliar seu alcance, ou seja, que falta aos contemporâneos o recuo necessário para fixar julgamentos conclusivos acerca do lugar que competirá à sua época no rol da História da humanidade. Mas há também momentos, certamente excepcionais e privilegiados, em que, vivendo a história, tem-se a consciência de viver uma época nova, e a oportunidade de contribuir para a transformação dela. 56 UNIDADE 1 | ASPECTOS INTRODUTÓRIOS AO ENSINO DA HISTÓRIA A visão, da qual Glenisson compartilha, revela herança das correntes teóricas que prevaleciam no século XX, quando ocorreu a institucionalização da História enquanto disciplina e conhecimento histórico, que por sua vez fundava uma forte ruptura entre o passado e presente e atribuía à história a interpretação somente do passado. No século XIX estava se dando a afirmação da história como uma disciplina no universo acadêmico e era exigido que apresentasse um método próprio, no caso o estudo de textos e a prática de decifrar documentos, e que o conhecimento produzido possuísse objetividade e coerência científica, que deveria ser alcançada com o distanciamento em relação aos problemas do presente. Assim, só o recuo no tempo poderia garantir a distância crítica. Acreditava- se que o trabalho do historiador somente deveria começar quando não mais existissem testemunhos vivos dos mundos/tempos estudados. Na defesa, Ferreira (2000) apresenta que na Antiguidade Clássica, quando Heródoto e Tucídides compunham seus trabalhos históricos serviam-se dos fatos recentes e em especial, atestados por testemunhos diretos. Não havia, portanto, nenhuma interdição ao estudo dos fatos recentes, e as testemunhas oculares eram fontes privilegiadas para a pesquisa. Com a renovação do pensamento e das correntes historiográficas no século XX, esta concepção foi mudada. Segundo Ferreira (2000), as expressões histoire du temps présent (história do tempo presente, em francês) e contemporary history (história contemporânea, na língua inglesa) entraram no vocabulário corrente dos historiadores a partir da Segunda Guerra Mundial. No que diz respeito às definições do campo teórico que compreende a História do tempo presente, existem diferentes posições, mas de maneira geral vincula-se ao período que remonta à última grande ruptura em termos de fatos e acontecimentos; ou também a época em que se vive e de que se tem lembranças, ou da época cujas testemunhas são vivas e podem acompanhar, contribuir e supervisionar a atividade do historiador. Os eventos e os problemas que se acumulam no tempo presente acabam por pressionar o profissional da história a rever suas convicções com relação ao passado, as perspectivas, bem como redefinir as periodizações e a própria noção de experiência no passado. É impossível que os indivíduos que viveram a Revolução Francesa, ou que se encontravam na Europa na primeira e segunda guerras mundiais, ou os norte- americanos que presenciaram os ataques terroristas e a crise econômica dos anos de 2000, não tenham pressentido e refletido que se iniciavam outros tempos, e que nada seria como havia sido até então. TÓPICO 3 | O ENSINO DE HISTÓRIA NUMA PERSPECTIVA HISTÓRICA E HISTORIOGRÁFICA 57 6.3 AS POSSIBILIDADES DA NOVA HISTÓRIA A nova história se insere no contexto em que as tradições e os modelos históricos, como o marxismo, o historicismo e o estruturalismo perderam a capacidade de apresentar explicações e soluções diante do momento dos impasses, desigualdades, contrassensos que se apresentam na realidade social e histórica, o que por sua vez pode ser identificado no final dos anos de 1980 e 1990. A nova história se esconde na busca das tradições, ao valorizar o tempo que se repete, as voltas e as reviravoltas dos indivíduos. Na falta de um projeto coletivo essa pesquisa faz-se mais pessoal e mais local. Nas palavras de Dosse, (2003, p. 249), “abandonam-se os tempos fortes e os movimentos voluntaristas de mudança em direção à memória do cotidiano e das pessoas simples”. Foi neste momento que as propostas de Walter Benjamin, Michel Foucault e Michel Certeau ganham maiores chances de recepção. Foi neste momento que as propostas de Walter Benjamin, Michel Foucault e Michel Certeau ganham maiores chances de recepção. Walter Benjamin (1892-1940) ficou conhecido no Brasil a partir de seus estudos sobre Baudelaire, nas discussões teóricas sobre o cinema, nas estratégias de na comunicação de massa e na crítica literária e da arte. No campo da história, seus escritos passam a ser utilizados a partir dos anos de 1970. Benjamin é um homem do século XX, mas que acabou de se despedir do século XIX, o século por excelência dos paradigmas modernos. Walter Benjamin apresentou um conceito de História que por sua vez colocava o cidadão em termos de consciência e agir diante de seu momento histórico no qual nos encontramos e que por sua vez foi gestado ao longo da modernidade. Para tanto se utilizou da obra de Paul Klee, o Angelus Novus que se apresenta abaixo: 58 UNIDADE 1 | ASPECTOS INTRODUTÓRIOS AO ENSINO DA HISTÓRIA FIGURA 4 - O ANGELUS NOVUS DE PAUL KLEE FONTE: Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Angelus_Novus#mediaviewer/File:Klee,_ paul,_angelus_novus,_1920.jpg>. Acesso em: 25 fev. 2015. Benjamin (1987, p. 226) propõe a interpretação da obra de Klee nos seguintes aspectos: Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende- se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos de progresso. Michel Foucault (1926-1984) esteve no Brasil e ministrou aulas na Universidade de São Paulo e ministrou palestras no Rio de Janeiro nos anos de 1965 e 1975. As temáticas abordadas por Foucault favoreceram que os historiadores brasileiros aprimorassem a percepção antropológica para com a História, em especial para pesquisas no campo da História do Cotidiano e das Mentalidades, o que por sua vez procurava incorporar a subjetividade, os modos de viver e fazer, os hábitos os costumes, os valores e as tradições; deixando de lado apartir de então os grandes temas/pesquisas da História política, econômica e/ou as grandes sínteses da História Social (DIEHL, 1993). TÓPICO 3 | O ENSINO DE HISTÓRIA NUMA PERSPECTIVA HISTÓRICA E HISTORIOGRÁFICA 59 Dentre os primeiros estudiosos brasileiros que serviram das obras de Foucault podem-se relacionar: Margareth Rago, Maria Estela Bresciani e Leila Regina Gomide. Na obra de Foucault encontra-se uma forte crítica aos processos de modernização da sociedade, bem como as estruturas dos governos que procuravam racionalizar de forma esmagadora os indivíduos. Diante disto pesquisou a história do ensino, do saber, a epistemologia das palavras, a hermenêutica; a história da loucura, as teorias psiquiátricas, os espaços de manicômios, asilos, hospitais; as teorias penais e a arquitetura de prisões, o nascimento da biopolítica, o Estado regulador, o controle sobre o território, e da população, do final do século XVIII e início do XIX, e as apresenta como instituições disciplinares das condutas e dos comportamentos sociais. Michel de Certeau (1925-1986) apresenta uma proposta no sentido de não abordar os espaços escolares, o saber e o conhecimento histórico por eles mesmos e de forma isolada e localizada. Ao invés disto propõe que no processo de ensino e aprendizagem se leve em consideração as práticas cotidianas e experiências de vida que ocorrem nos mais diversos lugares, para além dos espaços escolares. O autor propõe que se inclua a categoria e a dimensão do cotidiano, que devem articular-se na dimensão do espaço e tempo que, por sua vez, sofreram interferência por parte da ação/experiência humana. Para tanto leva em consideração o patrimônio edificado, as cidades, a dinâmica de urbanização, em especial, sugere que se percepcione a relação que forças se estabelecem entre as edificações e os usos dos espaços, em especial, o jogo de forças que se estabelece entre o novo e o antigo, que se processa no interior destes espaços. O autor defende esta proposta no sentido de que quando nos interroguemos e nos debrucemos ao exercício investigativo e compreensivo de prédios, templos, palácios, ruas, docas, escolas, casas, objetos, cores, gestos e relatos que as compõem que, por sua vez, pertencem a um passado distante, que parece indecifrável em um vasto espaço de profundidade e relações com o presente. Com isso o autor propõe que se pense o tempo e o espaço como práticas cotidianas que abarcam os indivíduos, os hábitos e as habitações, uma espécie de polissemia do “fazer com” para com lugares e coisas, e que tanto os fazeres e os espaços possuem contingências temporais e espaciais. O autor sugere que os indivíduos se apropriem destes espaços, no sentido de que a especulação imobiliária ou os interesses dos locatários não seja maior que o do direito aos espaços dos ocupantes e cidadãos para com os mesmos, bem como contribui com a ideia de que os espaços, para a nossa intenção neste momento, os espaços escolares, ainda se encontram pouco potencializados para com o teor de informações, criatividade, ressignificação e inventividade ao favorecimento das práticas cotidianas no interior dos espaços escolares. 60 RESUMO DO TÓPICO 3 • A trajetória histórica do ensino da História e da História enquanto disciplina do conhecimento no universo acadêmico acaba por revelar que a História adquiriu diferentes configurações, diferentes personagens assumiram o papel de transmitir/ensinar os saberes. • Na antiguidade grega, a História, além de servir para retardar o desaparecimento dos feitos históricos relacionados aos governos e exércitos, passa a ganhar a preocupação e coerência racional e passa a se diferenciar das narrativas religiosas/mitológicas. • Na Idade Média, a produção do conhecimento foi centrada no interior das universidades e mosteiros, nas quais os estudiosos se dedicavam a estudar e a sistematizar a biografia de santos, registrar relíquias religiosas e de documentos papais; bem como prezavam pela erudição, questões metodológicas voltadas à melhor adequação das fontes. • Na época moderna, século XVII, XVIII e XIX, os valores gregos foram retomados, especialmente o do racionalismo, e em termos de temas e objetos de estudos da História se destacaram os estudos da história diplomática, a história nacionalista, a numismática; a principal função do historiador era a de transformar resultados empíricos em “história”, é quando a disciplina de História consegue licença e reconhecimento no universo acadêmico. • A historiografia do século XX e XXI encontra-se marcada por tentativas de superação dos modelos da época moderna, na qual se destacam o movimento da Annales que passam a se preocupar com temas e objetos de estudos que até então haviam sido deixados de lado tais como mulheres, negros, índios, trabalhadores comuns. • Os temas e as abordagens que o conhecimento histórico adquire a partir do século XX passam a ser os que privilegiam a interdisciplinaridade, multidisciplinaridade, os problemas do tempo presente, a biopolítica, a memória, a identidade, o patrimônio histórico e os espaços não escolares. 61 1 Na época moderna, a disciplina de História passou a participar do quadro de disciplinas do conhecimento científico/acadêmico. Qual foi o perfil teórico e metodológico que a História precisou apresentar para ser reconhecida como ciência? Assinale a alternativa correta: a) Uma disciplina de forte embasamento teórico religioso, que SE preocupava em reunir e organizar os documentos da história da Igreja e da vida dos santos. b) Precisou apresentar uma visão positiva e progressista da experiência humana, que se preocupava com temas de antropologia, numismática, topografia e diplomacia. O historiador deveria manter-se imparcialidade no fazer histórico. c) A principal preocupação da História enquanto disciplina foi a de propor aos governos da época soluções ou formas de evitar que os problemas do passado não se repetissem. d) A História precisou adaptar métodos, categorias de análise e objetivos disciplinares que haviam sido utilizados ao longo da Idade Média e que haviam sido utilizados no interior de mosteiros e universidade da época. 2 A inclusão da disciplina de História nos currículos escolares brasileiros se deu a partir do ano de 1837, quando se deu a criação do Colégio D. Pedro II. A disciplina de História apresentou forte influências do modelo Francês de ensino (PCN, 1997). Quais foram as principais características da educação e do Ensino de História no Brasil ao longo século XIX. Analise as sentenças a seguir: I- Os conteúdos previam a substituição da ideologia religiosa católica pelos conteúdos laicos/científicos, foi quando se deu a inclusão das disciplinas de História Natural, História do Brasil e História Regional nos currículos. II- Os espaços das escolas eram precários, as alternativas didáticas eram centradas nos conhecimentos do professor e de livros, e a estratégia de verificação do aprendizado era a de tomar a “lição das coisas”. III- Em todo este período o ensino de História ficou caracterizado pela forte tradição religiosa que havia sido herdada da época colonial na qual prevalecia o modelo de catequese. IV- No final do século, os temas como a proclamação da república, a abolição da escravatura, o nacionalismo e o civismo passam a ser as principais preocupações da educação na época. Agora assinale a alternativa correta: a) As sentenças I, II e IV estão corretas. b) As sentenças I e II estão corretas. c) As sentenças I, II e III estão corretas. d) As sentenças II e III estão corretas. AUTOATIVIDADE 62 3 Nos anos de 1980, o conhecimento histórico e o ensino de maneira geral passam por grandes mudanças que acabam por indicar uma grande ruptura em relação às décadas anteriores como de 1970, 1960 e 1950. Procure construir um texto síntese e comparativo sobre os projetos de educação e a relação da História com as disciplinas como Estudos Sociais e Educação Moral e Cívica.63 UNIDADE 2 PLANEJAMENTO E AVALIAÇÃO NO ENSINO DE HISTÓRIA OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS Nessa unidade vamos: • compreender os elementos teóricos que compõem um planejamento bem como a relevância, as orientações que constam nos Planos curriculares na- cionais – PCN – e a necessidade como ferramentas que apoiam e favore- cem o exercício profissional do professor; • identificar como os planejamentos se encaixam em outras instâncias e pro- cessos e podem ser elaborados no sentido de proporcionarem um proces- so de ensino e aprendizagem significativo; • definir e diferenciar o que são competências e habilidades e as previsões que existem nas respectivas modalidades de ensino (fundamental e mé- dio); • apresentar as alternativas metodológicas de análise de documentos, de fil- mes e documentários e representações teatrais como estratégias de trans- por, em situações de ensino e aprendizagem, conteúdos e temas históricos; • discutir e refletir sobre o processo avaliativo na educação no sentido de ultrapassar os modelos tradicionais, e que representem/signifiquem um momento crítico-reflexivo na aprendizagem e autoconhecimento ao estu- dante, bem como ao professor. Os objetivos de aprendizagem desta Unidade se encontram contemplados ao longo de cada tópico temático. No interior dos textos procurou-se oferecer sugestões de materiais e autoatividades que aprofundam e ilustram os con- teúdos e discussões apresentados. TÓPICO 1 – ASPECTOS TEÓRICOS DOS PLANEJAMENTOS TÓPICO 2 – PLANEJAMENTO DE ENSINO E PLANO DE AULA TÓPICO 3 – AVALIAR: UM FAZER COMPLEXO 64 65 TÓPICO 1 ASPECTOS TEÓRICOS DOS PLANEJAMENTOS UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO “Educar é impregnar de sentido o que fazemos a cada instante”. Paulo Freire Caro(a) acadêmico(a)! O texto que se apresenta procura fornecer subsídios à sua futura experiência de estágio obrigatório e orientar de uma forma mais pontual o exercício do professor responsável/ministrante da disciplina de História, no interior de uma escola ou espaço de ensino e aprendizagem, seja público ou privado. O momento do estágio é um período curto se comparado com o que lhe aguarda enquanto prática/experiência docente, no sentido de que é difícil atender a todas as problemáticas e compreensões que um plano de ensino e aula requer e comportam em termos de conteúdos objetivos, estratégias e metodologias e métodos e processos avaliativos. Neste momento espera-se agregar elementos a estas dimensões. 2 PLANEJAMENTOS: POR QUE E PARA QUE TÊ-LOS? Como em nenhuma outra época somos surpreendidos constantemente com a superação e o aprimoramento dos utensílios, artefatos, formas e meios de comunicação, e bombardeados com informações, imagens e performances publicitárias que se não mantivermos o devido distanciamento e o espírito crítico, facilmente adotamos como nosso próprio repertório e conjunto de referências pelo qual interpretaremos e estabeleceremos relações com o mundo. O sucesso de consumo dos novos produtos e valores é alcançado mediante volumosos investimentos em pesquisa e estudos em termos de designers, jogos entre testos e imagens, símbolos referências do inconsciente e das tradições culturais que por sua vez sensibilizam os sentidos e os desejos dos telespectadores. As primeiras relações, contatos que um professor estabelece com qualquer espaço escolar ou de ensino e aprendizagem já passa a compor e fazer parte de sua identidade enquanto profissional da educação. Sendo assim, aproprie- se dos documentos normativos, dos conteúdos, antecipe-se e planeje-se diante das demandas que cada local e contexto exigem, prepare-se para possíveis UNIDADE 2 | PLANEJAMENTO E AVALIAÇÃO NO ENSINO DE HISTÓRIA 66 adversidades e novidades, que as possibilidades de alcance de seus objetivos educacionais e a realização profissional e pessoal podem ser cada vez mais concretas e podem se tornar uma realidade constante em sua jornada de trabalho. Para tanto, é de suma importância identificar e mapear, numa perspectiva hierárquica e deliberativa, como se encontra estruturada a educação e o fazer do professor no Brasil. Pode-se estabelecer uma leitura tomando a participação do professor, que por sua vez é responsável pele elaboração do plano de aula. O Plano de aula deve estar alinhado ao planejamento de ensino da disciplina que vigorará numa dada unidade escolar e comporta os conteúdos que deverão ser ministrados a cada turma. Ambos, plano de aula e plano de ensino, devem estar em consonância ao Projeto Político Pedagógico da unidade escolar, que por sua vez prevê a elaboração colaborativa com os mais diferentes membros da comunidade escolar, tendo em vista a realidade e o contexto sócio-histórico de cada escola e localidade na qual esta se insere. O Plano Político Pedagógico é regulado e aprovado pela Secretaria de Educação, tanto em âmbito municipal como estadual, que se articula aos Parâmetros Curriculares Nacionais – PCN e as Leis de Diretrizes de Base da Educação – LDB, que por sua vez encontram-se agregados no interior do Ministério da Educação – MEC do governo federal. A descrição feita acima acaba por revelar que se tem um grande órgão mediador e regulador da educação no país, que é o Ministério da Educação – MEC e este sustenta embaixo de si todas as demais esferas e dimensões compositivas, conforme é possível observar no esquema que segue: 1º - CONJUNTO DE PCN E DIRETRIZES – MEC – PARA TODO O PAÍS. 2º - PROPOSTAS CURRICULARES DE ESTADOS, MUNICÍPIOS e INSTITUIÇÕES PARTICULARES. 3º - PROPOSTA CURRICULAR DAS UNIDADES ESCOLARES – PROJETO POLÍTICO PEDAGÓGICO – PLANO DE ENSINO. 4º - ATIVIDADES EM SALA DE AULA – PLANO DE AULA. Muitas vezes, o que é contemplado no interior dos currículos e planos de ensino não é cumprido nos espaços de sala de aula, ou também cada professor resolve por si mesmo ministrar os temas dos quais se sente mais seguro e preparado, ou até o que melhor lhe convém. Logo se tem um quadro de comprometimento e prejuízos dos conteúdos e aprendizados para com os estudantes, os quais, por sua vez, se farão necessários nas séries sucessivas. Este quadro também é agravado pelas situações em que o professor não pode, por inúmeros motivos, prosseguir com a turma que havia iniciado as atividades; ou quando ocorrem trocas e substituições de professores, que TÓPICO 1 | ASPECTOS TEÓRICOS DOS PLANEJAMENTOS 67 costumam ser frequentes. É como tentativa de amenizar os impactos destas flutuações junto aos estudantes e de facilitar a atuação dos novos professores que são propostos os respectivos planos. Por outro lado, os planos não conseguem dar conta das necessidades do fazer do professor com seus estudantes ou amenizar os sobressaltos que ocorrem no interior dos espaços escolares ao longo do ano letivo. Outro fato agravante também é que muitas vezes o currículo e os planos de ensino são construídos do lado de fora dos ‘muros da escola’ e são apresentados como prontos e sem chances de ajustes e mudanças, e muito menos possíveis da ponderação dos professores, que por sua vez são os responsáveis primordiais por colocá-los em prática. Martins (2011) ressalta que existe a possibilidade de um pensar e fazer curricular por parte do professor que pode contemplar o contexto da sala de aula, numa perspectiva autônoma, em consonância com seus objetivos, perspectivas educacionais e ao mesmo tempo voltar-se aos interesses dos estudantes. Para que isso ocorra é de fundamental importância que o professor mantenha um perfil crítico e reflexivo sobre a sua prática, a fim de estabelecer diálogos polifônicos e enriquecedores, para depois contar com maior facilidade em promover a renovação dos conteúdos e estratégias e a redefinição/ressignificação de seus fazeres educacionais. 3 QUAIS CONTEÚDOS/TEMAS SELECIONAR? Os PCN enfatizam que sejam consideradas conteúdos e os temas que contemplam o exercício da cidadania e o respeito à diversidade, as relações sociais, o mundo do trabalho, ostemas transversais (ética, meio ambiente, pluralidade cultural) nas mais diferentes disciplinas, conteúdos, séries e faixas etárias dos estudantes. Martins (2011) nos fornece um alerta de que as demandas da escola e da sociedade em relação ao seu ensino da História acabam por determinar que seus objetivos estejam articulados à crítica e ao enriquecimento cultural, muitas vezes, somente, associados ao acúmulo de conhecimentos do passado. O autor enfatiza também que existe uma forte carga político-ideológica presente nos conteúdos da disciplina de história. Diante disto ressalta-se que não se trata de demonizar o conteúdo, até porque ele é a ferramenta principal do professor, é a razão da escola existir, é aquilo que o aluno vai buscar na escola. Antes se faz necessário desnaturalizá-los e reconhecê-los como veiculadores de ideologias. O que se procurou discutir na Unidade 1 quando se tratava dos cinco elementos da Matriz Disciplinar da História e dos aspectos éticos e tomada de posição prudente que o professor pode ter. UNIDADE 2 | PLANEJAMENTO E AVALIAÇÃO NO ENSINO DE HISTÓRIA 68 Nas Diretrizes Curriculares Nacionais – DCN, em seu artigo 5º, para o uso dos conteúdos, apresentam que “os conteúdos curriculares não são fins em si mesmos”, o que dá margem para que o professor possa refletir sobre estratégias de usos do conteúdo com vistas a alcançar os objetivos propostos para o ensino de história. A crítica que geralmente é feita aos currículos e aos conteúdos que lá se encontram versa sobre o fato de que muitas vezes representam um acúmulo de conteúdos selecionados previamente sem considerar a realidade social dos estudantes e da escola; bem como a forma como os conteúdos são trabalhados em sala de aula, que acabam por negligenciar os conhecimentos prévios deles. Dada a imensa variedade de conteúdos e mais as especificidades do conhecimento histórico, é fundamental que se definam critérios para selecionar o que vai ser ensinado. Obviamente, a definição de critérios não ocorre num vazio teórico, mas nas relações de poder que se configuram na e para a educação e cultura. Há uma seleção, preferência cultural, ao legitimar alguns processos históricos como indispensáveis ao ensino, em detrimento de conteúdos que poderiam fazer parte do currículo da disciplina História. Cerri (2004) reflete entre o que é ensinado e o que não é ensinado, entre o currículo prescrito e o aprendizado do estudante, interpõem-se fenômenos como currículo oculto, os condicionamentos específicos de cada escola e de cada sala de aula, que produzem o currículo realizado, distinto daquele que se prescreveu e planejou. De acordo com Martins (2011), é nesse espaço que o professor deve ser capaz de intervir de forma eficaz, tendo em vista seus objetivos, pois se por vezes a voz dele é calada na construção curricular oficial, é na sala de aula que ele tem a possibilidade de um fazer curricular. Mas para que isso aconteça, é indispensável que o professor desenvolva o hábito de intelectualizar e qualificar sua prática. Silva (1996) defende que o currículo é um dos locais privilegiados onde se entrecruzam saber e poder, representação e domínio, discurso e regulação, local em que se condensam relações de poder que são cruciais para o processo de formação das relações sociais que ocorrem na realidade. O que vem a ser o currículo oculto? Quais são as outras modalidades de currículo? Dentre as definições e diferenciações mais comuns tem-se as noções de Currículo Formal, Real e Oculto. Por Currículo Formal pode-se entender o que é estabelecido pelas instituições de ensino e o que se encontra sistematizado em diretrizes, que devem nortear os planejamentos de ensino no campo do fazer pedagógico. TÓPICO 1 | ASPECTOS TEÓRICOS DOS PLANEJAMENTOS 69 Currículo Real constitui o que consta nos planos de aula e que será efetivado no espaço da sala de aula de propriedade de professores e abordado com os estudantes. E o Currículo Oculto encontra-se na abordagem e na postura ideológica que o professor se utilizará na aplicação do plano de aula, e que influenciará e repercutirá na forma como os estudantes aprendem e manifestam em termos de atitudes, falas, comportamentos, gestos e leituras de mundo entre a escola e a realidade social. IMPORTANT E O currículo oculto não se expressa nos planos ou nas diretrizes impressas, ele se revela no fazer didático-pedagógico do professor e na percepção que os estudantes adquirirão. Diante disso pergunta-se: o currículo oculto não representa uma questão de caráter ético e moral do fazer pedagógico? Tem-se mais um momento em que é necessário que os profissionais da educação estejam comprometidos com o salvaguardo da natureza, do respeito ao próximo, á diversidade e na defesa dos direitos humanos. 3.1 O QUE DIZEM OS PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS PARA O ENSINO DA HISTÓRIA? A estruturação curricular é responsável por possibilitar e viabilizar o processo de ensino e aprendizagem. O currículo constitui a ponte articuladora entre a cultura e a sociedade exterior à escola e à educação; entre os conhecimentos e culturas que estão sistematizados e herdados, existem as possibilidades de aprendizagem dos estudantes; entre a teoria (ideias, suposições e aspirações) e a prática possível (espaço de ensino aprendizagem). No ano de 1990, o Brasil participou da Conferência Mundial da Educação para Todos, que foi promovido pelas Organizações das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e Banco Mundial. A partir disto o Brasil iniciava uma espécie de alinhamento com estes órgãos, do qual surgiu a necessidade de elaborar, ajustar e adequar as diretrizes curriculares que norteavam a educação no país. Inicialmente, houve um estudo preliminar para com as realidades dos municípios brasileiros, o que foi levado para um debate geral em 1993, na Semana Nacional de Educação para Todos, que foi mediada por professores universitários, representantes e secretários estaduais e municipais de educação (NETO, 2009). UNIDADE 2 | PLANEJAMENTO E AVALIAÇÃO NO ENSINO DE HISTÓRIA 70 No ano de 1996, o MEC publicou os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) de 1ª à 4ª série; em 1997, de 5ª à 8ª série; em 1998, os de Ensino Médio; em 1999, foram feitos acréscimos aos PCN, que ficaram conhecidos como Orientações Educacionais Complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais. No campo específico da História, os PCN preocuparam-se em apresentar noções de alinhamento com as tendências historiográficas mundiais e fazer crítica à história tradicional nos termos de que esta abordagem seja superada: Os historiadores voltaram-se para a abordagem de novas problemáticas e temáticas de estudo, sensibilizados por questões ligadas à história social, cultural e do cotidiano, sugerindo possibilidades de rever no ensino fundamental o formalismo da abordagem histórica tradicional. A história chamada “tradicional” sofreu diferentes contestações. Suas vertentes historiográficas de apoio, quer sejam o positivismo, o estruturalismo, o marxismo ortodoxo ou o historicismo, produtoras de grandes sínteses, constituidoras de macro-objetos, estruturas ou modos de produção, foram colocadas sob suspeição (BRASIL, 1997, p. 24). Por outro lado, os parâmetros apontam no sentido de uma maior aproximação com as possibilidades temáticas e as abordagens da Nova História: [...] a História, que deverá estar presente também enquanto História das Linguagens e História das Ciências e das Técnicas, não na perspectiva tradicional da História Intelectual, que se limita a narrar biografias de cientistas e listar suas invenções e descobertas, mas da nova História Cultural, que enquadra o pensamento e o conhecimento nas negociações e conflitos da ação social (BRASIL, 1999, p. 9). Outra preocupação que se encontra nas teorizações dos PCN é a de que os professoresem seu exercício profissional ultrapassem as explicações meramente economicistas e marxistas, nos termos de: Nessa vertente, as representações do mundo social passaram a ser analisadas como integrantes da própria realidade social e possibilitaram uma redefinição da história cultural. A aproximação entre a Antropologia e a História tem sido importante, dando origem a abordagens históricas que consideram a cultura não somente em suas manifestações artísticas, mas nos ritos e festas, nos hábitos alimentares, nos tratamentos das doenças, nas diferentes formas que os vários grupos sociais, ao longo dos séculos, têm criado para se comunicar, como a dança, o livro, o rádio, o cinema, as caravelas, os aviões, a internet, os tambores e a música (BRASIL, 1999, p. 21). Os PCN (1997) destacam que o professor não está sozinho no processo de ensino e aprendizagem. Existe a família, o mundo do trabalho, as instituições de ensino e pesquisa, os movimentos sociais, os meios de comunicação, as atividades culturais, entre outras com as quais ele precisa buscar apoio, colaboração e se relacionar. TÓPICO 1 | ASPECTOS TEÓRICOS DOS PLANEJAMENTOS 71 Nas últimas décadas, o conhecimento histórico tem sido renovado e ampliado por pesquisas que têm transformado seu campo que condiz à História. Houve questionamentos significativos por parte dos historiadores, relativos aos agentes condutores da história – indivíduos e classes sociais –, revisões sobre os povos nos quais os estudos históricos devem se concentrar, ampliação das fontes documentais que devem ou podem ser usadas nas pesquisas e quais as ordenações temporais que devem ou podem prevalecer. Simultaneamente, tem sido criticada a produção histórica que legitima determinados setores da sociedade, vistos como únicos condutores da política da nação e de seus avanços econômicos. Tem sido considerada, por sua vez, a atuação dos diversos grupos e classes sociais e suas diferentes formas de participação e expressão na configuração das realidades presentes, passadas e futuras. 4 NOÇÕES TEÓRICAS SOBRE COMPETÊNCIAS E HABILIDADES Trata-se de um quadro conceitual ainda muito recente na tradição da educação brasileira e por outro lado conta com poucas referências teóricas a que se possa recorrer. O governo federal passou a contemplar e verificar estas noções no interior das avaliações do Exame Nacional do Ensino Médio – ENEM. De maneira gera, pertencem ao campo da psicologia e da psicometria cognitiva que estruturam a inteligência humana na dimensão tanto fluida como cristalizada. Competências são as modalidades estruturais da inteligência, ou melhor, ações e operações que utilizamos para estabelecer relações com e entre objetos, situações, fenômenos e pessoas que desejamos conhecer. As habilidades decorrem das competências adquiridas e referem-se ao plano imediato do ‘saber fazer’. Por meio das ações e operações, as habilidades aperfeiçoam-se e articulam-se, possibilitando nova reorganização das competências (INEP, 1999). Tanto no que diz respeito às habilidades e às competências as orientações apontam para que seja estimulado e favorecido a criatividade, a sensibilidade, o respeito e a diversidade, os direitos e os deveres, a responsabilidade social, as atitudes autônomas e solidárias e a preocupação com o patrimônio histórico e com o bem comum. UNIDADE 2 | PLANEJAMENTO E AVALIAÇÃO NO ENSINO DE HISTÓRIA 72 4.1 COMPETÊNCIAS Perrenoud (1999) define as competências como a capacidade de agir eficazmente em um determinado tipo de situação e contexto que se deseja conhecer ou transformar, apoiando-se em conhecimentos específicos que já se possui, mas sem se limitar ou reduzir a eles. Para enfrentar uma situação, geralmente, colocam-se em ação vários recursos cognitivos e imagéticos. Para Perrenoud (1999), quase toda ação requer que se recorra a alguns conhecimentos, algumas vezes, elementares e esparsos, outras vezes, complexos, profundos, que precisam estar associados a uma rede mais vasta de outros conhecimentos. Assim, as competências cognitivas podem ser percebidas como as diferentes modalidades estruturais da inteligência, que compreendem determinadas operações e que o sujeito mobiliza para estabelecer relações em meio a outros indivíduos, fenômenos e/ou com objetos e seres da natureza. 4.2 HABILIDADES As habilidades referem-se, especificamente, ao plano objetivo, prático e operacional, o saber fazer. Sendo assim as habilidades decorrem das competências já adquiridas, ou seja, as competências levadas ao campo prático e que se transformam em habilidades. Conforme o nível e número de experiências pelas quais se passa, as habilidades podem aperfeiçoar-se e articular-se, bem como exigir novas, outras reorganizações por parte das competências. O Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais – INEP elaborou uma matriz de competências e habilidades para o Ensino Fundamental e Médio. No Ensino Fundamental, as competências e habilidades são as mesmas para as disciplinas de História e Geografia, e as referentes ao Ensino Médio encontram- se vinculadas à grande área de Ciências Humanas e suas tecnologias. Tanto para o Ensino Fundamental como para o Ensino Médio foram previstos 5 eixos cognitivos, 6 competências e 30 habilidades. Os eixos cognitivos são iguais às duas fases de escolaridade (fundamental e médio) como a todas as áreas do conhecimento e disciplinas escolares, ou seja, representa um objetivo comum e que deve ser alcançado em todas elas. Observe cada um dos quadros que seguem: LEGENDA: F: Competências ao Ensino Fundamental. M: Competências ao Ensino Médio. H: Habilidades. TÓPICO 1 | ASPECTOS TEÓRICOS DOS PLANEJAMENTOS 73 EIXOS COGNITIVOS COMPETÊNCIAS DE HISTÓRIA E GEOGRAFIA I - Dominar a norma culta da Língua Portuguesa e fazer uso das linguagens matemática, artística e científica. II - Construir e aplicar conceitos das várias áreas do conhecimento para a compreensão de fenômenos naturais, de processos histórico – geográficos, da produção tecnológica e das manifestações artísticas. III - Selecionar, organizar, relacionar, interpretar dados e informações representados de diferentes formas, para tomar decisões e enfrentar situações problema. IV - Relacionar informações, representadas em diferentes formas, e conhecimentos disponíveis em situações concretas, para construir argumentação consistente. V - Recorrer aos conhecimentos desenvolvidos para elaboração de propostas de intervenção solidária na realidade, respeitando os valores humanos e considerando a diversidade sociocultural. F1 – Compreender processos sociais utilizando conhecimentos histórico- geográficos. H1 – Identificar formas de representação de fatos e fenômenos histórico- geográficos expressos em textos e/ou imagens. H2 – Caracterizar processos sociais reconhecendo mudanças e permanências temporais e espaciais. H3 – Interpretar realidades históricas e geográficas estabelecendo relações entre diferentes fatos e processos socioespaciais. H4 – Comparar diferentes explicações para fatos e processos históricos e/ou geográficos. H5 – Analisar fatos e processos históricos e geográficos considerando o respeito aos valores humanos e à diversidade sociocultural. F2 – Compreender o processo histórico de formação da sociedade, da produção do território, da paisagem e do lugar no Brasil. H6 – Utilizar mapas, gráficos ou fontes históricas para explicar fatos e processos histórico- geográficos e seus impactos na sociedade brasileira. H7 – Analisar a formação da sociedade brasileira considerando as dinâmicas dos fluxos populacionais. H8 – Interpretar situações histórico geográficas da sociedade brasileira referentes à constituição do espaço, do território, da paisagem e/ ou do lugar. H9 – Analisar o processo socioeconômico de formação e a apropriação dos recursos naturaisna sociedade brasileira. H10 – Comparar propostas para superação dos desafios sociais, políticos, econômicos e/ou ambientais enfrentados pela sociedade brasileira. F3 – Compreender a importância do patrimônio cultural e suas relações com a organização das sociedades. H11 – Identificar características do patrimônio cultural ao longo da história. H12 – Identificar a presença dos recursos naturais na organização do espaço geográfico, relacionando transformações naturais e intervenção humana. H13 – Interpretar os significados de diferentes manifestações populares como representação do patrimônio regional e cultural. H14 – Analisar a diversidade morfoclimática do território brasileiro e as implicações sociais e ambientais do uso das tecnologias em diferentes contextos histórico- geográficos. H15 – Identificar propostas que reconheçam a importância do patrimônio cultural, tendo em vista a preservação das identidades nacionais e do meio físico. QUADRO 1 - MATRIZ DE COMPETÊNCIAS E HABILIDADES AO ENSINO FUNDAMENTAL UNIDADE 2 | PLANEJAMENTO E AVALIAÇÃO NO ENSINO DE HISTÓRIA 74 F4 – Compreender os processos de formação das instituições sociais e políticas de forma a favorecer uma atuação consciente do indivíduo na sociedade. H16 – Identificar em documentos históricos os fundamentos da cidadania e da democracia presentes na vida social. H17 – Comparar diferentes processos de formação de instituições sociais e políticas. H18 – Relacionar os fundamentos da cidadania e da democracia, do presente e do passado, aos valores éticos. H19 – Avaliar situações em que os direitos dos cidadãos foram conquistados, mas não usufruídos por todos os segmentos sociais. H20 – Analisar propostas de inclusão social promovidas pelas instituições sociais e políticas, considerando o respeito aos direitos humanos e à diversidade sociocultural. F5 – Reconhecer a formação e a organização do espaço geográfico a partir das transformações ocorridas no campo e na cidade. H21 – Identificar representações do espaço geográfico em textos científicos, imagens e gráficos. H22 – Caracterizar formas espaciais criadas pelas sociedades, no processo de formação e organização do espaço geográfico, que contemplem a dinâmica entre a cidade e o campo. H23 – Analisar interações entre sociedade e natureza na organização do espaço histórico e geográfico, envolvendo a cidade e o campo. H24 – Avaliar diferentes formas de uso e apropriação dos espaços, envolvendo a cidade e o campo, e suas transformações no tempo. H25 – A partir de interpretações cartográficas do espaço geográfico brasileiro, identificar propostas de intervenção solidária para consolidação dos valores humanos e de equilíbrio ambiental. F6 – Compreender a organização econômica das sociedades contemporâneas e as mudanças no mundo do trabalho. H26 – Identificar aspectos da realidade econômico-social de um país ou região, a partir de indicadores socioeconômicos graficamente representados. H27 – Caracterizar formas de circulação de informação, capitais, mercadorias e serviços no tempo e no espaço. H28 – Comparar os diferentes modos de organização do trabalho e suas consequências para a vida social. H29 – Avaliar formas de propagação de hábitos de consumo que alterem os sistemas produtivos visando à conservação socioambiental. H30 – Comparar organizações políticas, econômicas e/ ou sociais no mundo contemporâneo, na identificação de propostas que propiciem equidade na qualidade de vida de sua população. FONTE: INEP. Disponível em: <http://download.inep.gov.br/educacao_basica/encceja/matriz_ competencia/Mat_Enc_Hist_Geog_EF.pdf>. Acesso em: 16 fev. 2015. http://download.inep.gov.br/educacao_basica/encceja/matriz_competencia/Mat_Enc_Hist_Geog_EF.pdf http://download.inep.gov.br/educacao_basica/encceja/matriz_competencia/Mat_Enc_Hist_Geog_EF.pdf TÓPICO 1 | ASPECTOS TEÓRICOS DOS PLANEJAMENTOS 75 EIXOS COGNITIVOS COMPETÊNCIAS DE CIÊNCIAS HUMANAS I Dominar a norma culta da Língua Portuguesa e fazer uso das linguagens matemática, artística e científica. II - Construir e aplicar conceitos das várias áreas do conhecimento para a compreensão de fenômenos naturais, de processos histórico- geográficos, da produção tecnológica e das manifestações artísticas. III - Selecionar, organizar, relacionar, interpretar dados e informações representados de diferentes formas, para tomar decisões e enfrentar situações problema. IV - Relacionar informações, representadas em diferentes formas, e conhecimentos disponíveis em situações concretas, para construir argumentação consistente. V - Recorrer aos conhecimentos desenvolvidos para elaboração de propostas de intervenção solidária na realidade, respeitando os valores humanos e considerando a diversidade sociocultural. M1 – Compreender os elementos culturais que constituem as identidades. H1 – Interpretar historicamente e/ou geograficamente fontes documentais acerca de aspectos da cultura. H2 – Analisar a produção da memória pelas sociedades humanas. H3 – Associar as manifestações culturais do presente aos seus processos históricos. H4 – Comparar pontos de vista expressos em diferentes fontes sobre um determinado aspecto da cultura. H5 – Identificar as manifestações ou representações da diversidade do patrimônio cultural e artístico em diferentes sociedades. M2 – Compreender as transformações dos espaços geográficos como produto das relações socioeconômicas e culturais de poder. H6 – Interpretar diferentes representações gráficas e cartográficas dos espaços geográficos. H7 – Identificar os significados histórico- geográficos das relações de poder entre as nações. H8 – Analisar a atuação dos movimentos sociais que contribuíram para mudanças ou rupturas em processos de disputa pelo poder. H9 – Comparar o significado histórico- geográfico das organizações territoriais em escala local, regional ou mundial. H10 – Reconhecer a dinâmica da organização dos movimentos sociais e a importância da participação da coletividade na transformação da realidade histórico- geográfica. QUADRO 2 - MATRIZ DE COMPETÊNCIAS E HABILIDADES PARA O ENSINO MÉDIO UNIDADE 2 | PLANEJAMENTO E AVALIAÇÃO NO ENSINO DE HISTÓRIA 76 M3 – Compreender a produção e o papel histórico das instituições sociais, políticas e econômicas, associando-as aos diferentes grupos, conflitos e movimentos sociais. H11 – Identificar registros de práticas de grupos sociais no tempo e no espaço. H12 – Analisar o papel da justiça como instituição na organização das sociedades. H13 – Analisar a ação dos estados nacionais no que se refere à dinâmica dos fluxos populacionais e no enfrentamento de problemas de ordem econômico- social. H14 – Comparar diferentes pontos de vista, presentes em textos analíticos e interpretativos, sobre situação ou fato(s) de natureza histórico- geográfica acerca das instituições sociais. H15 – Avaliar criticamente conflitos culturais ou socioambientais ao longo da história. M4 – Entender as transformações técnicas e tecnológicas e seu impacto nos processos de produção, no desenvolvimento do conhecimento e na vida social. H16 – Identificar registros sobre o papel das técnicas e tecnologias na organização do trabalho e da vida social. H17 – Analisar os fatores que explicam o impacto das novas tecnologias no processo de desterritorialização da produção industrial e agrícola. H18 – Comparar diferentes processos de produção e circulação de riquezas e suas implicações socioespaciais. H19 – Reconhecer as transformações técnicas e tecnológicas que determinaramas várias formas de uso e apropriação dos espaços agrário e urbano. H20 – Selecionar argumentos favoráveis ou contrários às modificações impostas pelas novas tecnologias à vida social e ao mundo do trabalho. M5 – Utilizar os conhecimentos históricos para compreender e valorizar os fundamentos da cidadania e da democracia, favorecendo uma atuação consciente do indivíduo na sociedade. H21 – Identificar o papel dos meios de comunicação na construção da vida social. H22 – Analisar as lutas sociais e conquistas obtidas no que se refere às transformações das legislações. H23 – Analisar a importância dos valores éticos na estruturação política das sociedades. H24 – Relacionar cidadania e democracia na organização das sociedades. H25 – Identificar referenciais que possibilitem erradicar formas de exclusão social. TÓPICO 1 | ASPECTOS TEÓRICOS DOS PLANEJAMENTOS 77 M6 – Compreender a sociedade e a natureza, reconhecendo suas interações no espaço em diferentes contextos históricos e geográficos. H26 – Identificar em fontes diversas o processo de ocupação dos meios físicos e as relações da vida humana com a paisagem. H27 – Analisar de maneira crítica as interações entre a sociedade e o meio físico, levando em consideração aspectos históricos. H28 – Relacionar o uso das tecnologias com os impactos socioambientais em diferentes contextos histórico- geográficos. H29 -Reconhecer a função dos recursos naturais na produção do espaço geográfico, relacionando-os com as mudanças provocadas pelas ações humanas. H30 – Avaliar criticamente formas de atuação para conservação dos recursos naturais, considerando propostas de desenvolvimento sustentável. FONTE: INEP. Disponível em: <http://download.inep.gov.br/educacao_basica/encceja/matriz_ competencia/mat_cien_hum_tec_em.pdf>. Acesso em: 16 fev. 2015. As competências e habilidades possuem grande versatilidade de aplicação no campo interdisciplinar e multidisciplinar do conhecimento; a escolha dentre elas deve ser feita procurando atender ao potencial que os conteúdos possam proporcionar, e ao mesmo tempo devem ser tomadas como sugestão à abordagem que os conteúdos podem ganhar, bem como favorecer a diversificação das estratégias metodológicas e dos processos avaliativos. 5 É POSSÍVEL CONTEMPLAR OS TEMAS LOCAIS/ REGIONAIS E/OU DA REALIDADE DOS ESTUDANTES? Esta pergunta sintetiza uma das principais críticas que é feita à forma como as diretrizes, os currículos e os planos de ensino se encontram estruturados. A justificativa primordial para que se contemple a realidade dos estudantes nos planejamentos e conteúdos está na ideia de que estes percebam o meio histórico que os circunda; que componham todo um repertório histórico e cultural; que reconheçam os elementos de identidade/semelhança e diferença/alteridade que os compõem, que está latente no outro, e nos demais indivíduos que compõem a diversidade dos grupos sociais nos espaços de socialização, tanto de referência religiosa, étnica, política, artístico, desportivas, entre outros. Um aspecto que não pode ser negligenciado é a relação da dimensão e referência local com as demais esferas de manifestação e expressão tais como o que ocorre em nível regional, nacional e mundialmente, e por sua vez permite reconhecer o que é genuíno, pitoresco, excepcional, programado, fabricado, falsificado, revisitado, replicado na realidade. http://download.inep.gov.br/educacao_basica/encceja/matriz_competencia/mat_cien_hum_tec_em.pdf http://download.inep.gov.br/educacao_basica/encceja/matriz_competencia/mat_cien_hum_tec_em.pdf UNIDADE 2 | PLANEJAMENTO E AVALIAÇÃO NO ENSINO DE HISTÓRIA 78 Contemplar a realidade dos estudantes pode contribuir para que percebam os desafios em que se encontram. Como se trata de desafios que fazem parte da experiência humana e da vida, que reconheçam como esses mesmos desafios já foram enfrentados por outras sociedades e em outras épocas históricas, e vislumbrem possíveis soluções e alternativas para si; por outro lado, contemplar a realidade dos estudantes pode favorecer o fortalecimento do sentimento de pertencimento e a responsabilidade na construção de suas vidas em meio à sociedade no tempo presente. Uma vez feito o recorte pela temática de se levar em conta a realidade dos estudantes ou a esfera local dos fatos e fenômenos históricos, se faz necessário agregar camadas de interpretação temporal que contemplem as diferentes épocas, materialidades e mentalidades, outras formas de vida, outros costumes, que compõem a dimensão da história local, a fim que os auxilie na compreensão de si mesmos e as inúmeras expressões da vida coletiva. TÓPICO 1 | ASPECTOS TEÓRICOS DOS PLANEJAMENTOS 79 LEITURA COMPLEMENTAR ELEMENTOS E CONTRIBUTOS DO PLANEJAMENTO ESCOLAR O ato de planejar a escola e o ensino requer dos educadores a reflexão e mobilização em torno da definição de valores, princípios, significados e concepção de educação e das práticas inerentes ao espaço escolar. Em dimensão mais ampla, o planejamento escolar requer integralização e articulação das ações educativas norteadas pelo projeto político-pedagógico. Enquanto que o planejamento de ensino constitui-se em espaço e momento coletivo para reflexão e análise da práxis pedagógica e dos instrumentos teórico-metodológicos, que permitam a todos os envolvidos reafirmar suas posições e avaliar suas práticas, ressignificando-as. Nesta perspectiva, o planejamento escolar deve ser concebido, assumido e vivenciado cotidianamente, também como um ato político, no sentido de resgate dos princípios que balizam a prática pedagógica em processo de ação-reflexão- ação. Por isso o planejamento escolar requer reflexão e ação coletivas. O planejamento contempla contributos essenciais para a melhoria da escola e do processo de ensino-aprendizagem, uma vez que propicia: balizar o processo de tomada de decisões fundamentadas com base na análise da realidade escolar; refletir e definir coletivamente objetivos das atividades de ensino e de gestão da escola; projetar as potencialidades da escola frente às demandas sociais; fazer a previsão e a provisão dos recursos diversos; organizar a articulação das ações educativas; otimizar o tempo e o espaço pedagógico; organizar o trabalho coletivo; explicitar princípios, diretrizes e procedimentos do trabalho docente que assegurem a articulação das atividades escolares; assegurar a unidade e a coerência do trabalho docente; expressar os vínculos entre o posicionamento político-filosófico, pedagógico e profissional na gestão escolar; enfim, projetar os caminhos da escola, entre tantos outros. Trata-se de um ato participativo, um contínuo propósito coletivo de reflexão e amplo debate a fim de deliberar sobre a construção do futuro da comunidade, contando com a participação do maior número possível de membros das categorias que a constituem. O planejamento participativo no âmbito da escola implica reavivar continuamente o processo de reflexão e ação da coletividade (da comunidade escolar). Implica ainda a busca da identidade institucional, ou seja, da identidade construída e reconstruída pela coletividade. Ele se baliza pela elaboração de seu projeto político-pedagógico. Esclarecendo melhor, isto ocorre porque, na elaboração e implementação do projeto político-pedagógico, materializam-se os diferentes momentos do planejamento passando pela: definição de um marco referencial, elaboração de um diagnóstico, definição da programação com base nos princípios de necessidade e exequibilidade visando à intervenção na realidade escolar e a própria avaliação. UNIDADE 2 | PLANEJAMENTO E AVALIAÇÃO NO ENSINO DE HISTÓRIA 80 A ideia de situar o projeto político-pedagógico como norteador do planejamento escolar adquire grande destaque no processo de redemocratização sócio-política, frente à crítica ao modelo de planejamento tecnoburocrático com ênfasenos seus aspectos técnicos. O processo de elaboração e implementação do projeto político- pedagógico é fundamental porque envolve as pessoas que atuam na escola, dá a elas a sensação de pertencimento, de envolvimento com a instituição escolar. Isto porque não há relação agradável entre submissão e satisfação. A satisfação em trabalhar numa escola, atuar para sua melhora e maior aprendizado dos alunos vem com a condição de partícipe, de sentir-se valorizado e respeitado. Assim, o planejamento escolar norteado pelo político pedagógico não condiz com relações autoritárias ainda presentes em muitas gestões escolares. A forma de ver o mundo e a sociedade de gestores escolares interfere sobre a forma como um diretor de escola toma as decisões ou constrói seu modelo de gestão. Desenvolver a cultura da gestão democrática e participativa significa ter a escola como espaço de deliberação coletiva dos sujeitos escolares, ou seja, os gestores, os professores, os estudantes, seus pais ou responsáveis, os funcionários. Isto não é tarefa só para a direção da escola, mas sim de todas as instâncias e usando muitos mecanismos de participação coletiva, deliberação colegiada. A gestão democrática e participativa é instrumento de superação do autoritarismo e dos individualismos ainda tão presentes nas escolas. Para vivenciá-la é preciso criar momentos coletivos e específicos de discussão sobre o significado de democracia, autonomia, descentralização, participação, cidadania, representatividade responsável. É importante que a comunidade escolar tenha conhecimento das diferentes possibilidades de se gerir uma escola e tenha clareza, compreensão, dos conceitos citados, pois eles são fundamentais para se empreender uma gestão participativa. FONTE: Texto adaptado de: TOSCHIE, Mirza Seabra; ANDERI, Eliane; LEITE, Renato Ribeiro Leite. Curso de Pós-Graduação latu sensu em coordenação pedagógica. Disponível em: <http:// coordenacaoescolagestores.mec.gov.br/uft/file.php/1/coord_ped/sala_3/mod03_1unid_1.html>. Acesso em: 14 jan. 2014. http://coordenacaoescolagestores.mec.gov.br/uft/file.php/1/coord_ped/sala_3/mod03_1unid_1.html http://coordenacaoescolagestores.mec.gov.br/uft/file.php/1/coord_ped/sala_3/mod03_1unid_1.html 81 RESUMO DO TÓPICO 1 Caro(a) acadêmico(a)! Ao final deste tópico é possível sintetizar os temas e conteúdos estudados nos seguintes pontos: • O Ministério da Educação/MEC constituiu o órgão que fornece as diretrizes e propostas curriculares às unidades escolares da rede estadual, municipal e particular de ensino. • Tendo como referência as Propostas Curriculares Nacionais – PCN, cada unidade escolar deve elaborar seu Projeto Político Pedagógico – PPP, que deve ser consultado quando ocorrer a elaboração do Planejamento de ensino e do Plano de aula pelos professores. • No interior dos Planos de ensino e de Aula, os conteúdos não podem ser percebidos como fins em si mesmo, devem ser eficazes em atender à realidade dos estudantes e da unidade escolar. • Os PCN apresentam que o professor não é o único responsável no ofício da escolarização e na educação, esta responsabilidade recai também à família, ao Estado e à sociedade. • As competências referem-se às estruturas de inteligência e ao repertório de conhecimentos que são mobilizadas em uma dada situação. As habilidades consistem nas respostas práticas e operacionais que são apresentadas diante de uma dada realidade e problema. • O planejamento escolar deve ser entendido como uma possibilidade de o professor e os demais colegas de disciplina resolverem sobre os conteúdos e as metodologias que fazem sentido e atendem às demandas de uma dada unidade escolar e realidade. 82 AUTOATIVIDADE 1 Como se encontram estruturados os níveis hierárquicos e deliberativos entre currículos e planos de ensino/aula? Preencha corretamente o quadro a seguir: Governo Federal/Ministéro da Educação Estados, municípios e instituições privadas Unidade escolar Sala de aula 2 Nos anos de 1990 foram elaborados os planos curriculares nacionais/PCN, que apresentam críticas aos modelos tradicionais de educação e fornecem orientações e alinhamentos mínimos ao ensino para todo o Brasil. No campo específico da História, construa um texto apresentando as principais orientações contidas nos PCN. 3 Elabore explicações para o que define e diferencia competências e habilidades. 83 TÓPICO 2 O PLANEJAMENTO DE ENSINO E O PLANO DE AULA UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Refletir sobre a dimensão de forma e conteúdo, a veiculação do conhecimento histórico visando perceber a organização e o planejamento de ensino e de aula no Ensino Fundamental e Médio nas mais diversas esferas que os regulam e legitimam. 2 O QUE E PARA QUE ENSINAR? Querer estudar/ensinar a história de todas as sociedades e de todos os tempos representa uma tarefa humanamente impossível de realizar; outro aspecto que se revela preocupante é que na tentativa de se alcançar esta façanha abre-se mão de se apresentar critérios de sentido de conferir significado aos conteúdos, bem como de realizar aprofundamentos e problematizações de maior fôlego. Existe uma relação de conteúdos que já está cristalizada pelos materiais didáticos, que se deu levando em consideração alguma tradição de ensino em específico, e que com o esforço do professor acaba articulada e alinhada às problemáticas e aos temas mais relevantes que se apresentam na sociedade contemporânea. Os professores devem evitar seguir esta programação dos conteúdos, e, nesse sentido, os planos de ensino e de aula podem ser fortes aliados. As escolhas dos conteúdos pode se dar levando em consideração que serão mais significativos em um dado momento do presente, contexto e realidade social no qual serão abordados, incluir os temas, fatos e fenômenos locais e regionais. Por outro lado, os conteúdos nunca devem ser pensados de forma fixa, os professores precisam demonstrar uma postura criativa e inventiva, no sentido de transformar, recriar e adaptá-los à realidade na qual serão inseridos. Encontra-se junto aos PCN atuais a preocupação para que se privilegie problemáticas locais, numa perspectiva regional, nacional e mundial, no sentido de que os estudantes não percam de vista as relações sociais, a realidade vivida e as histórias individuais transcorridas nos mais diversos espaços de sociabilidade. Ao longo da história da educação no Brasil privilegiou-se o conhecimento técnico-científico em detrimento das humanidades, e somente procurava-se atender à demanda em termos de formação de mão de obra e modernização numa sociedade industrial-tecnológica. UNIDADE 2 | PLANEJAMENTO E AVALIAÇÃO NO ENSINO DE HISTÓRIA 84 Os PCN, a LDB e o Conselho Nacional de Educação apontam que, ao longo do processo de desenvolvimento das ciências humanas, as humanidades foram progressivamente superadas na cultura escolar, ou seja, conseguiram-se incluir conteúdos de formação geral, além da formação específica. Nesse contexto ocorreu a inclusão das disciplinas História, Sociologia, Ensino Religioso, Artes e Geografia, que procuram dedicar-se à compreensão do homem, não somente formá-lo, ensiná-lo ao mercado de trabalho. 2.1 NO ENSINO FUNDAMENTAL Os PCN (1997) apresentam objetivos gerais e objetivos específicos a esta fase de instrução. Os objetivos gerais do Ensino Fundamental residem na tentativa de que os estudantes gradativamente sejam capazes de ler e compreender sua realidade, posicionar-se e agir tendo em vista critérios e parâmetros. Os objetivos específicos preveem que os estudantes adquiram as capacidades de: - identificar o grupo de convívio e as relações que estes estabelecem com outros tempos e espaços; - reconhecer acontecimentos em escala temporal múltipla para questões/ problemas tanto do presente como do passado; - compreender respeitosamente os mais diferentes grupos sociais nas suas manifestações culturais, econômicas e políticas; - reconhecer permanências e mudanças em termos de experiênciase vivências humanas, próximas ou distantes no tempo e no espaço; - questionar a realidade no sentido de perceber como as instituições do governo e a sociedade civil se encontram articuladas e podem ser acionadas diante deles, no sentido de vislumbrar soluções possíveis; - favorecer exercícios e estudos com métodos de pesquisa e produção textual, a partir da exploração de fontes e registros escritos, icnográficos, sonoros, orais, edificados entre outros. - reconhecer o patrimônio sociocultural e a diversidade como sendo um direito dos povos e dos indivíduos com intuito de ampliar e fortalecer a democracia e os direitos humanos. Além destes objetivos específicos, os conhecimentos e temas como ética, saúde, meio ambiente, orientação sexual e pluralidade cultural devem permear as abordagens dos conteúdos. O Ensino Fundamental, conta com a duração mínima de oito anos, obrigatório e gratuito em qualquer instituição escolar pública. Está distribuído em ciclos, que designam as respectivas séries, como está disposto na tabela a seguir: TÓPICO 2 | O PLANEJAMENTO DE ENSINO E O PLANO DE AULA 85 2.1 NO ENSINO FUNDAMENTAL QUADRO 3 - DISTRIBUIÇÃO DAS SÉRIES CONFORME OS RESPECTIVOS CICLOS CICLO SÉRIES 1º CICLO 1ª e 2ª SÉRIES 2º CICLO 3ª e 4ª SÉRIES 3º CICLO 5ª e 6ª SÉRIES 4º CICLO 7ª e 8ª SÉRIES FONTE: A autora A proposta privilegia, assim, no primeiro ciclo, a leitura de tempos diferentes no tempo presente, em um determinado espaço, e a leitura desse mesmo espaço em tempos passados. No segundo ciclo, sugere estudos sobre histórias de outros espaços em tempos diferentes. A predominância deve estar voltada para as histórias sociais e culturais, sem excluir as questões políticas e econômicas. 2.2 NO ENSINO MÉDIO A nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394/96) denominou o Ensino Médio, como uma extensão, a etapa final da Educação Básica, o que atribuiu ao governo a responsabilidade pela oferta obrigatória e gratuita, ou seja, um direito ao cidadão, todos que quiserem deverão ter acesso. A LDB (Lei nº 9.394/96, art. 36) apresenta que o Ensino Médio possui o caráter de terminalidade, o que significa assegurar a todos os cidadãos a oportunidade de consolidar e aprofundar os conhecimentos adquiridos no Ensino Fundamental; aprimorar o educando enquanto pessoa humana; possibilitar a continuidade dos estudos; conferir uma preparação básica para o trabalho e ao exercício da cidadania; tendo em vista o desenvolvimento da compreensão dos “fundamentos científicos e tecnológicos dos processos produtivos”. Por sua vez, o Ministério da Educação ajustou e reformou as propostas de ensino em nível médio, tendo como preocupação melhorar o desenvolvimento social. Os PCN (2000) apresentam que a formação dos estudantes deve ter como alvo principal a aquisição de conhecimentos básicos, a preparação científica e a capacidade de utilizar as diferentes tecnologias relativas às áreas de atuação profissional. A reforma curricular do Ensino Médio estabeleceu a divisão do conhecimento escolar em três áreas: Linguagens, Códigos e suas Tecnologias; Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias; e Ciências Humanas e suas Tecnologias. História encontra-se inserida na grande área de ‘ciências humanas e suas tecnologias’. Os objetivos gerais para a grande área na qual a História se encontra inserida é o favorecimento de consciências críticas e criativas, capazes de elaborar respostas adequadas aos problemas atuais e bem como compreender as mais diversas situações novas. UNIDADE 2 | PLANEJAMENTO E AVALIAÇÃO NO ENSINO DE HISTÓRIA 86 Nos PCN (2000), destaca-se também a necessidade de que os conteúdos favoreçam a extensão da cidadania, que requer o conhecimento, o uso e a produção histórica dos direitos e deveres do cidadão, bem como do desenvolvimento da consciência cívica e social, que implica a consideração do outro em cada decisão e atitude em meio/espaço público ou particular. Os objetivos específicos, por meio da constituição das competências e habilidades, preveem que o estudante seja apto a: • compreender os elementos cognitivos, afetivos, sociais e culturais que constituem a identidade própria e a dos outros; • compreender a sociedade, sua gênese e transformação, e os múltiplos fatores que nela intervêm, como produtos da ação humana; a si mesmo como agente social; e os processos sociais como orientadores da dinâmica dos diferentes grupos de indivíduos; • compreender o desenvolvimento da sociedade como processo de ocupação de espaços físicos e as relações da vida humana com a paisagem, em seus desdobramentos político-sociais, culturais, econômicos e humanos; • compreender a produção e o papel histórico das instituições sociais, políticas e econômicas, associando-as às práticas dos diferentes grupos e atores sociais, aos princípios que regulam a convivência em sociedade, aos direitos e deveres da cidadania, à justiça e à distribuição dos benefícios econômicos; • traduzir os conhecimentos sobre a pessoa, a sociedade, a economia, as práticas sociais e culturais em condutas de indagação, análise, problematização diante de situações novas, problemas ou questões da vida, tanto do ponto de vista pessoal, social, política, econômica e cultural; • entender os princípios das tecnologias associadas ao conhecimento do indivíduo, da sociedade e da cultura, entre as quais as de planejamento, organização, gestão, trabalho de equipe, e associá-las aos problemas que se propõem resolver; • entender o impacto das tecnologias associadas às Ciências Humanas sobre sua vida pessoal, os processos de produção, o desenvolvimento do conhecimento e a vida social; • entender a importância das tecnologias contemporâneas de comunicação e informação para planejamento, gestão, organização, fortalecimento do trabalho de equipe; • aplicar as tecnologias das Ciências Humanas e Sociais na escola, no trabalho e em outros contextos relevantes para sua vida. 2.3 ORIENTAÇÕES DIDÁTICAS GERAIS AOS PROFESSORES Os PCN (1997) sugerem ao professor que, quando abordar os conteúdos com seus estudantes, que valorize o que já possuem, no sentido de dialogar sobre o que se sabe, e ao mesmo tempo lance provocações e indagações que motivem os estudantes a pesquisar, a organizar, aprofundar e compreender de maneira ampla, no sentido de enriquecer e ampliar o repertório que possuem. TÓPICO 2 | O PLANEJAMENTO DE ENSINO E O PLANO DE AULA 87 Por sua vez, os estudantes podem expressar, materializar, tornar tangível os estudos e as pesquisas através de produções textuais, teatralizações, produzir painéis, murais, maquetes, jogos, mapas, infográficos, esquemas cronológicos, entre outros. Que os professores sejam sensíveis ao potencial criativo e inventivo que os estudantes comportam e podem alcançar, bem com as possibilidades de pesquisa, exploração e produção de materiais que os conteúdos possibilitam. Por outro lado que se leve em consideração os alcances e os limites dos estudantes, no sentido de não lhe exigir o que ainda não condiz com a capacidade intelectual, física e material que apresentam. É possível também fazer visitas/saídas de campo com os estudantes, visitas técnicas a locais que representam espaços de ensino-aprendizagem, que evidenciem os conteúdos que serão estudados. Para tanto procure fazer parcerias de trabalho/estudos e de apoio com outros colegas professores que possuem interesse pelos temas afins. Se optar por visitas, visite o local anteriormente, procure elaborar um roteiro mínimo de observação que oriente a visita dos estudantes. O roteiro também poderá subsidiar a confecção de relatórios e a sistematizações das atividades em um momento posterior. Não esqueça de registrar e refletir sobre o transcorrer das atividades, descrevendo as abordagens que foram dadas e os conteúdos e temas que foram contemplados, apresentando os procedimentos metodológicos e refletindo sobre os aspectos positivos, o alcance dos objetivos,bem como as ampliações, os ajustes e as adequações que se fazem necessárias em uma experiência vindoura, bem como ilustrar com registros fotográficos os momentos mais significativos e até anexar os resultados das produções dos estudantes. 3 PLANEJAMENTO DE ENSINO O planejamento de ensino deve conter as informações gerais de como irá transcorrer cada bimestre, semestre ou até mesmo todo o ano letivo, trata- se de um norte para as atividades da disciplina na sua totalidade, devem ser evidenciados os objetivos gerais, os temas/conteúdos, as estratégias didáticas/ metodologias e as referências que serão utilizadas. Se os planos de ensino forem elaborados em conjunto com outros professores da mesma disciplina, bem como das áreas afins, podem ultrapassar as convenções e exigências teóricas e ganhar ainda mais relevância e alcance prático. No momento da elaboração dos planos de ensino, se faz necessário selecionar, escolher e decidir sobre quais conteúdos e quais estratégias poderão ser trabalhadas. Geralmente é elaborado antes do início/retorno do ano letivo UNIDADE 2 | PLANEJAMENTO E AVALIAÇÃO NO ENSINO DE HISTÓRIA 88 e constitui um momento para refletir sobre como transcorreu o ano, semestre, bimestres anteriores; e requer que se pense sobre os ajustes e adequações que se fazem necessários. Podem contemplar os projetos e atividades com outras disciplinas, os momentos/eventos/festas previstos no calendário da unidade escolar, os feriados e eventos cívicos da cidade, do município, estado e nação. É prudente que os planejamentos de aula estejam em consonância com as Diretrizes Nacionais de Educação, os PCN e o PPP (Plano Político-Pedagógico da escola). Os planejamentos podem apresentar diversas configurações, conforme as instituições preveem, mas a intenção maior é de que forneçam um certo alinhamento ao trabalho de todos os professores responsáveis em executá-los. O plano de ensino pode contar com a seguinte estruturação, observe a simulação: 1. Identificação: Curso: 6º Ano – Ensino Fundamental Escola: Disciplina: História Professor/Orientador de Aprendizagem: Período da disciplina: Carga Horária Total (horas/aula): 2. Ementa: - Proporcionar a compreensão crítica do ambiente social, histórico e natural e da complexidade trajetória humana no mundo. 3. Competências: F1 – Compreender processos sociais utilizando conhecimentos histórico-geográficos. F2 – Compreender o processo histórico de formação da sociedade, da produção do território, da paisagem e do lugar no Brasil. F3 – Compreender a importância do patrimônio cultural e suas relações com a organização das sociedades. F4 – Compreender os processos de formação das instituições sociais e políticas de forma a favorecer uma atuação consciente do indivíduo na sociedade. TÓPICO 2 | O PLANEJAMENTO DE ENSINO E O PLANO DE AULA 89 4. Habilidades: H1 – Identificar formas de representação de fatos e fenômenos histórico-geográficos expressos em textos e/ou imagens. H2 – Caracterizar processos sociais reconhecendo mudanças e permanências temporais e espaciais. H3 – Interpretar realidades históricas e geográficas estabelecendo relações entre diferentes fatos e processos socioespaciais. H4 – Comparar diferentes explicações para fatos e processos históricos e/ou geográficos. H5 – Analisar fatos e processos históricos e geográficos considerando o respeito aos valores humanos e à diversidade sociocultural. H6 – Utilizar mapas, gráficos ou fontes históricas para explicar fatos e processos histórico- geográficos e seus impactos na sociedade brasileira. H11 – Identificar características do patrimônio cultural ao longo da história. H12 – Identificar a presença dos recursos naturais na organização do espaço geográfico, relacionando transformações naturais e intervenção humana. H15 – Identificar propostas que reconheçam a importância do patrimônio cultural, tendo em vista a preservação das identidades nacionais e do meio físico. H16 – Identificar em documentos históricos os fundamentos da cidadania e da democracia presentes na vida social. H17 – Comparar diferentes processos de formação de instituições sociais e políticas. H18 – Relacionar os fundamentos da cidadania e da democracia, do presente e do passado, aos valores éticos. H19 – Avaliar situações em que os direitos dos cidadãos foram conquistados, mas não usufruídos por todos os segmentos sociais. H20 – Analisar propostas de inclusão social promovidas pelas instituições sociais e políticas, considerando o respeito aos direitos humanos e à diversidade sociocultural. H21 – Identificar representações do espaço geográfico em textos científicos, imagens e gráficos. H22 – Caracterizar formas espaciais criadas pelas sociedades, no processo de formação e organização do espaço geográfico, que contemplem a dinâmica entre a cidade e o campo. H23 – Analisar interações entre sociedade e natureza na organização do espaço histórico e geográfico, envolvendo a cidade e o campo. H24 – Avaliar diferentes formas de uso e apropriação dos espaços, envolvendo a cidade e o campo, e suas transformações no tempo. H26 – Identificar aspectos da realidade econômico-social de um país ou região, a partir de indicadores socioeconômicos graficamente representados. H27 – Caracterizar formas de circulação de informação, capitais, mercadorias e serviços no tempo e no espaço. H28 – Comparar os diferentes modos de organização do trabalho e suas consequências para a vida social. H29 – Avaliar formas de propagação de hábitos de consumo que alterem os sistemas produtivos visando à conservação socioambiental. 5. Objetivo Geral: - Compreender que o ser humano é elaborador de cultura e transformador da natureza e da História. UNIDADE 2 | PLANEJAMENTO E AVALIAÇÃO NO ENSINO DE HISTÓRIA 90 6. Objetivos Específicos: - Valorizar a vida e a sua qualidade como bens pessoais e coletivos, desenvolver atitudes responsáveis com relação à saúde, cuidado e respeito de si, à sexualidade e à educação das gerações mais novas. - Reconhecer o caráter dinâmico da cultura, valorizar o patrimônio cultural de diferentes grupos sociais, reconhecer e respeitar a diversidade étnica e cultural da sociedade brasileira. - Refletir sobre as principais teorias que existem para o surgimento do homem. - Estudar as diferentes formas de percepção, contagem e registro do tempo bem como as superações que ocorreram ao longo do tempo estabelecendo relação comparativa com as que existem no tempo presente - Compreender as formações sociais, expressões artísticas e culturais mais antigas do homem, bem como o surgimento das cidades e das estruturas político-administrativas. - Estudar e reconhecer as experiências no Brasil de sociedades ágrafas e povos nativos pré-colonização europeia. - Conhecer as condições que favoreceu a formação das civilizações antigas, suas estruturas sociais, econômicas, religiosos e culturais; o legado que conferiram às sociedades posteriores e os aspectos de sua decadência. - Pesquisar sobre os elementos educacionais, religiosos, políticos, artísticos e sociais das sociedades da Grécia e Roma Antiga. - Identificar a herança e a influência que Roma e Grécia exercem no cenário de outras sociedades no tempo contemporâneo. TÓPICO 2 | O PLANEJAMENTO DE ENSINO E O PLANO DE AULA 91 7. Conteúdo Programático: - História é vida. - Sociedades ágrafas. - Período paleolítico. - Período neolítico. - Idade dos metais. - O Brasil na pré-história – povos sambaquianos do litoral e nativos-indígenas do continente. - Conceito de império e civilização. - Egito e Nilo. - Sociedade egípcia. - As cheias do Nilo. - Religião. - A escrita. - Artes e ciência. - Mesopotâmia. - Economia e religião. - Grécia atual e antiga. - Período homérico. - Período arcaico. - Período clássico. - Diferenças entre Esparta e Atenas. - Período helenístico. - Jogos olímpicos. - Artes, filosofia e ciências. - Roma hoje e antiga. - Período monárquico. - Sociedade romana. - Período republicano. - Consequências das conquistas.- Período imperial. - A crise e decadência do império romano. - Cultura, direito e religião romana. 8. Métodos/Técnicas/Recursos: - Aula expositivo-dialogada; exercícios de fixação dos conteúdos; utilização de livro didático como fonte de pesquisa; utilização de livros paradidáticos como fonte de apoio à pesquisa; utilização do mapa-múndi e de filmes, documentários, imagens. - Quadro, caneta, mapa-múndi; mapa do Brasil; livros, atlas, exercícios (fotocopiados), globo, infográficos, cartolina, canetinha, lápis de cor, fita crepe, TV e DVD, filmes, datashow, jornais, revistas, biblioteca. - Visitas técnicas: sítios arqueológicos. UNIDADE 2 | PLANEJAMENTO E AVALIAÇÃO NO ENSINO DE HISTÓRIA 92 9. Critérios e Instrumentos de Avaliação: - Exercícios individuais ou em dupla. - Elaboração de cartazes e apresentação em seminários. - Relatório dos filmes, documentários. - Avaliação: individual e sem consulta com questões de análise de sentenças, múltipla escolha e dissertativas. - Relatórios de visitas de campo. 10. Referências - BARBOSA, Leila Maria; MANGABEIRA, Wilma. A incrível história dos homens e suas relações sociais. Petrópolis: Vozes. - BOULOUS JÚNIOR, Alfredo. História geral. São Paulo: FTD, 1997. - COTRIM, Gilberto. História geral (da antiguidade aos Tempos Atuais). São Paulo: Saraiva. - PILETTI, Nelson Claudino. História e vida. v.1 São Paulo: Ática, 1996. - MACEDO, José Rivair; OLIVEIRA, Mariley W. Brasil, uma história em construção. v.1 São Paulo: Brasil, 1996. - ORDEÑEZ, Marlene; QUEVEDO, Júlio. Horizontes – História. IBEP. - ARRUDA, José Jobson de. Toda a história. São Paulo: Ática. - FILHO, Milton B Barbosa; STOCKLER, Maria Luiza S. História antiga e medieval. v. 3. São Paulo: Scipione. - MOTA, Carlos Guilherme; LOPEZ, Adriana. História e civilização. São Paulo: Ática. - SANTOS, Maria Januária Vilela. História antiga e medieval. v. 3. São Paulo: Ática. - SOUZA, Osvaldo R. de. História antiga e medieval. v. 3. São Paulo: Ática. - VICENTINO, Cláudio. História memória viva. v. 3. São Paulo: Ática. - VICENTINO, Cláudio. História geral. São Paulo: Scipione. - MINIDICIONÁRIO LUFT. São Paulo: Ática, 2004. Revistas: Educação, Escola, Aventuras na História, Planeta, Veja e Superinteressante. Site e blogs: Museu da Pessoa. Disponível em: <http://www.museudapessoa.net/>. Acesso em: 16 fev. 2015. História dos Calendários. Disponível em: <http://www.calendario.cnt.br/Portal/portal. htm>. Acesso em: 17 fev. 2015. FONTE: A autora Caro(a) acadêmico(a)! Quando houver oportunidade de participar da elaboração de planos de ensino com outros colegas professores e gestores escolares, aceite como um desafio positivo, pois você terá a oportunidade de ajudar a decidir e contribuir sobre o que será levado para os espaços de sala de aula no decorrer do ano letivo. http://www.museudapessoa.net/ http://www.calendario.cnt.br/Portal/portal.htm http://www.calendario.cnt.br/Portal/portal.htm TÓPICO 2 | O PLANEJAMENTO DE ENSINO E O PLANO DE AULA 93 É um momento também de socializar materiais e experiências positivas, aprender com os professores mais antigos diante de situações pelas quais eles já passaram, reforçar e ampliar os relacionamentos interpessoais e firmar parcerias colaborativas para projetos, bem como acolher e ajudar os professores que estão iniciando sua carreira, ajudá-los a se situar diante dos trâmites administrativos e das demandas pedagógicas e assim fazer com que se sintam mais confortáveis na sua jornada que estão iniciando. 3.1 PLANO DE AULA O plano de aula diz respeito ao transcorrer e fazer de cada aula propriamente dita, portanto, requer maiores detalhamentos em termos de conteúdos, de objetivos e das estratégias metodológicos que serão utilizadas para efetivar os conteúdos. De maneira geral, exigem dados de identificação, tais como: instituição, professor, disciplina, turma, número de aulas e data. Depois disto passa-se às informações, como o tema gerador, objetivos gerais e específicos, justificativa, competências e habilidades, conteúdos, metodologia/estratégias, recursos materiais, avaliação e referências. Procura-se apresentar um modelo de como pode ser organizado um plano de aula, observe a seguir: Modelo de plano de aula Informações Escola: Disciplina: História Professor: Turma: Horários: Sala: DATA: ____/____/____ DATA: ____/____/____ C om pe tê nc ia s • F1 – Compreender processos sociais utilizando conhecimentos histórico-geográficos. • F2 – Compreender o processo his tór i co de formação da sociedade, da produção do território, da paisagem e do lugar no Brasil. • F3 – Compreender a importância do patrimônio cultural e suas relações com a organização das sociedades. • F5 – Reconhecer a formação e a organização do espaço geográfico a partir das transformações ocorridas no campo e na cidade. F1 – Compreender processos sociais utilizando conhecimentos histórico-geográficos. F3 – Compreender a importância do patrimônio cultural e suas relações com a organização das sociedades. F4 – Compreender os processos de formação das instituições sociais e políticas de forma a favorecer uma atuação consciente do indivíduo na sociedade. F5 – Reconhecer a formação e a organização do espaço geográfico a partir das transformações ocorridas no campo e na cidade. UNIDADE 2 | PLANEJAMENTO E AVALIAÇÃO NO ENSINO DE HISTÓRIA 94 H ab ili da de s • H1 – Identificar formas de representação de fatos e fenômenos histórico-geográficos expressos em textos e/ou imagens. H2 – Caracterizar processos sociais reconhecendo mudanças e permanências temporais e espaciais. H3 – Interpretar realidades h i s t ó r i c a s e g e o g r á f i c a s estabelecendo relações entre diferentes fatos e processos socioespaciais. H4 – Comparar diferentes explicações para fatos e processos históricos e/ou geográficos. H5 – Analisar fatos e processos h i s t ó r i c o s e g e o g r á f i c o s considerando o respeito aos valores humanos e à diversidade sociocultural. H11 – Identificar características do patrimônio cultural ao longo da história. H12 – Identificar a presença dos recursos naturais na organização do espaço geográfico, relacionando transformações naturais e intervenção humana. H15 – Identificar propostas que reconheçam a importância do patrimônio cultural, tendo em vista a preservação das identidades nacionais e do meio físico. H3 – Interpretar realidades históricas e geográficas estabelecendo relações entre diferentes fatos e processos socioespaciais. H16 – Identificar em documentos históricos os fundamentos da cidadania e da democracia presentes na vida social. H17 – Comparar diferentes processos de formação de instituições sociais e políticas. H18 – Relacionar os fundamentos da cidadania e da democracia, do presente e do passado, aos valores éticos. H19 – Avaliar situações em que os direitos dos cidadãos foram conquistados, mas não usufruídos por todos os segmentos sociais. H21 – Identificar representações do espaço geográfico em textos científicos, imagens e gráficos. H28 – Comparar os diferentes modos de organização do trabalho e suas consequências para a vida social. O bj et iv os • Estudar as condições que favoreceram das primeiras civilizações da humanidade. • Pesquisar e diferenciar os sistemas religiosos e culturais das populações da Antiguidade. • Ressaltar as contribuições que essas populações legaram à humanidade e analisar a situação e a disposição geográfica delas atualmente. • Relacionar a importância dos rios Nilo, Tigre e Eufrates às cidades da antiguidade com os rios, lagos, mares das sociedades de outras épocas; • Refletir sobre a máxima de conduta: “olho por olho, dente por dente”. • Identificar as manifestações culturais como música, danças, vestimentas e alimentação entre e como se encontram no cenário contemporâneo. • Abordar os conflitos e demais problemas no Oriente Médio na atualidade, situando os interesses econômicos e religiosos pela região a fimde estudar a formação histórica dos povos da região. • Estudar a formação da Grécia ressaltando seus aspectos políticos, econômicos dando ênfase ao legado do sistema político da Democracia. • Identificar as contribuições culturais da Grécia Antiga para as expressões de teatro, poesia, história e arquitetura. • Identificar e comparar as diferenças entre as cidades de Atenas e Esparta para os aspectos de: educação, economia, política e sociedade. TÓPICO 2 | O PLANEJAMENTO DE ENSINO E O PLANO DE AULA 95 C on te úd os • Civilizações Antigas: 1. Egito e Mesopotâmia. 2. Hebreus, fenícios e persas. • Grécia: Atenas e Esparta: aspectos educacionais, econômicos e culturais. Pr oc ed im en to s M et od ol óg ic os • Elaboração de esquema de quadro, uso de mapa múndi situando a localização dos povos e seus respectivos rios. • Uso de imagens e instigar a curiosidade pelos mistérios como as enigmáticas pirâmides e demais construções faraônicas, primeiros registros escritos etc. • Criação de grupos de estudos e distribuição dos respectivos: e g í p c i o s , m e s o p o t â m i c o s , hebreus, fenícios e persas. • D e f i n i ç ã o d e q u e s t õ e s orientadoras aos estudos. • Disponibilização de materiais à elaboração de painéis/cartazes. • Utilização do projetor de multimídia. • Realização de seminário de apresentação. • Uso livros didáticos disponíveis. • Realizar a escolha de representantes da turma de forma eletiva, secreta, simulando um processo democrático. • Definição de tarefas e compromissos a serem assumidos a fim de a turma de se auto-organizar e gerir as demandas do ano letivo. • Uso de adaptações da histórica de Aquiles, Leônidas, Helena, Hércules e Shena e demais nomes da mitologia difundidos no cotidiano como: Hermes, Cronos etc. • Leitura de fábulas do escritor grego Esopo. • Orientação de tarefas com exercícios de fixação dos conteúdos e de pesquisas pata temas que não foram contemplados na aula. A va lia çã o • Postura respeitosa com os colegas. • Participação e colaboração nas leituras e exposições dialogadas. • Relatos de conhecimentos sobre a mitologia egípcia apreendida em documentários, filmes e na literatura. • Resolução das questões orientadoras de estudos. • Capacidade de síntese, ilustração e apresentação/socialização de painéis nos grupos de trabalho. • Postura respeitosa com os colegas. • Participação e colaboração nas leituras e exposições dialogadas. • Relatos de conhecimentos sobre a mitologia grega apreendida em documentários, filmes e na literatura. • Resolução das questões orientadoras de estudos. • Participação no processo de eleição de líderes da turma. DATA ____/____/____ DATA ____/____/____ C om pe tê nc ia s F1 – Compreender processos sociais utilizando conhecimentos histórico-geográficos. F3 – Compreender a importância do patrimônio cultural e suas relações com a organização das sociedades. F4 – Compreender os processos de formação das instituições sociais e políticas de forma a favorecer uma atuação consciente do indivíduo na sociedade. F5 – Reconhecer a formação e a organização do espaço geográfico a partir das transformações ocorridas no campo e na cidade. F1 – Compreender processos sociais utilizando conhecimentos histórico-geográficos. F3 – Compreender a importância do patrimônio cultural e suas relações com a organização das sociedades. F4 – Compreender os processos de formação das instituições sociais e políticas de forma a favorecer uma atuação consciente do indivíduo na sociedade. F5 – Reconhecer a formação e a organização do espaço geográfico a partir das transformações ocorridas no campo e na cidade. F6 – Compreender a organização econômica das sociedades contemporâneas e as mudanças no mundo do trabalho. UNIDADE 2 | PLANEJAMENTO E AVALIAÇÃO NO ENSINO DE HISTÓRIA 96 ha bi lid ad es H3 – Interpretar realidades h i s t ó r i c a s e g e o g r á f i c a s estabelecendo relações entre diferentes fatos e processos socioespaciais. H16 – Identificar em documentos históricos os fundamentos da cidadania e da democracia presentes na vida social. H17 – Comparar diferentes processos de formação de instituições sociais e políticas. H18 – Relacionar os fundamentos da cidadania e da democracia, do presente e do passado, aos valores éticos. H19 – Avaliar situações em que os direitos dos cidadãos foram conquistados, mas não usufruídos por todos os segmentos sociais. H21 – Identificar representações do espaço geográfico em textos científicos, imagens e gráficos. H28 – Comparar os diferentes modos de organização do trabalho e suas conseqüências para a vida social. H1 – Identificar formas de representação de fatos e fenômenos histórico-geográficos expressos em textos e/ou imagens. H2 – Caracterizar processos sociais reconhecendo mudanças e permanências temporais e espaciais. H3 – Interpretar realidades históricas e geográficas estabelecendo relações entre diferentes fatos e processos socioespaciais. H4 – Comparar diferentes explicações para fatos e processos históricos e/ou geográficos. H5 – Analisar fatos e processos históricos e geográficos considerando o respeito aos valores humanos e à diversidade sociocultural. H6 – Utilizar mapas, gráficos ou fontes históricas para explicar fatos e processos histórico-geográficos e seus impactos na sociedade brasileira. H10 – Comparar propostas para superação dos desafios sociais, políticos, econômicos e/ou ambientais enfrentados pela sociedade brasileira. H11 – Identificar características do patrimônio cultural ao longo da história. H12 – Identificar a presença dos recursos naturais na organização do espaço geográfico, relacionando transformações naturais e intervenção humana. H13 – Interpretar os significados de diferentes manifestações populares como representação do patrimônio regional e cultural. H15 – Identificar propostas que reconheçam a importância do patrimônio cultural, tendo em vista a preservação das identidades nacionais e do meio físico. H16 – Identificar em documentos históricos os fundamentos da cidadania e da democracia presentes na vida social. H17 – Comparar diferentes processos de formação de instituições sociais e políticas. H18 – Relacionar os fundamentos da cidadania e da democracia, do presente e do passado, aos valores éticos. H19 – Avaliar situações em que os direitos dos cidadãos foram conquistados, mas não usufruídos por todos os segmentos sociais. H20 – Analisar propostas de inclusão social promovidas pelas instituições sociais e políticas, considerando o respeito aos direitos humanos e à diversidade sociocultural. H26 – Identificar aspectos da realidade econômico-social de um país ou região, a partir de indicadores socioeconômicos graficamente representados. H27 – Caracterizar formas de circulação de informação, capitais, mercadorias e serviços no tempo e no espaço. H28 – Comparar os diferentes modos de organização do trabalho e suas consequências para a vida social. H29 – Avaliar formas de propagação de hábitos de consumo que alterem os sistemas produtivos visando à conservação socioambiental. H30 – Comparar organizações políticas, econômicas e/ou sociais no mundo contemporâneo, na identificação de propostas que propiciem equidade na qualidade de vida de sua população. ob je tiv os • Abordar o sistema religioso da Grécia antiga em comparação com outros sistemas religiosos anteriormente estudados. • Estudar as contribuições da civilização grega à humanidade dentro da filosofia, poesia, teatro, política, arquitetura etc. • Avaliar o aprendizado dos estudantes aos conteúdos para os temas de Egito e Grécia • Compreender a formação do Império Romano nos aspectos de sua organização política e econômica, bem como seu processo de decadência. • Estudar a atuação dos movimentos sociais no processo de conquistas e ampliação de direitos civis através das conquistas da classe social dos plebeus. • Conhecer os diferentes momentos que caracterizama religiosidade romana: politeísmo: mitologia e monoteísmo: cristianismo. • Identificar do legado cultural, artístico e jurídico do Império Romano. TÓPICO 2 | O PLANEJAMENTO DE ENSINO E O PLANO DE AULA 97 co nt eú do s • Cultura grega, mitologia e contribuições à humanidade. • Império Romano: política e economia;• Sociedade, religiosidade e aspectos culturais. Pr oc ed im en to s m et od ol óg ic os • Retomada do tema a partir dos diferentes sistemas educacionais das duas cidades gregas para com os modelos educacionais contemporâneos. • Introdução através de uma c o n ve r s a ç ã o c o m p a r a t i va sobre o sistema de alistamento, treinamento e o papel do Exército Brasileiro. • Utilização de texto paradidático ao estudo da mitologia grega. • Utilização do conteúdo do livro didático e slides ilustrativos à identificação das contribuições da cultura grega à humanidade. • Menção às expressões de uso cotidiano “Quem tem boca vai à Roma” e “Todos os caminhos levam a Roma”. • Contextualização dos significados na época contemporânea de políticas do “pão e circo”. • Sensibilização para com a origem histórica dos nomes dos planetas da Via Láctea e os dias da semana no idioma espanhol referentes à mitologia romana. • Contação de histórias sobre a fundação lendária de Roma: Rômulo e Remo. • Esquemas de síntese na lousa; e roteiro de pesquisa e estudos paralelos. • Orientação a pesquisas aos próximos temas a serem estudados. A va lia çã o • Postura respeitosa com os colegas. • Participação e colaboração nas conversações, leituras, debates e problematizações. • R e s o l u ç ã o d e t a r e f a e social ização das pesquisas orientadas. • Postura respeitosa com os colegas. • Participação nas conversações, problematizações, registros e realização de roteiro de estudos referentes aos conteúdos. M at er ia is d e ap oi o Materiais de Apoio : Livros didát icos e paradidát icos , mapa múndi, cópias de fichas para atividades, papel pardo, cartolinas, canetões atômicos e réguas, caderno, lápis, borracha, canetas, bloco de anotações, aparelho de DVD E TV, micro- ondas, geladeira, copos, bacias, retroprojetor, laboratório de informática, biblioteca e biblioteca circulante, datashow e etc. FILMES : A múmia , as 10 maravilhas do mundo Antigo, Cleópatra, Os Dez Mandamentos, O elo perdido, Asterix e Obelix contra César, Troia, Nero, Spartacus, Alexandre o grande, Gladiador. LIVROS: Bíblia Sagrada; Mil e uma noites; Aladim e a Lâmpada Mágica. A Mesopotâmia. Editora Saraiva. JACQ, Christian. As egípcias: retratos de mulheres do Egito faraônico. Editora Bertrand Brasil. CIRCULAÇÃO E LEITURA de reportagens de periódicos: Jornais Locais Revistas: Educação, Aventuras na História, Planeta, Veja e Superinteressante. Sites: <http://www.sohistoria.com.br/> <http://www.historianet.com.br/home/> <http://www.historiadomundo.com.br/> <http://www.historiadobrasil.net/>. FONTE: A autora Uma situação que poderá ocorrer é a de que você estiver exercendo o ofício de professor e lhe sejam solicitados os planos de aula ou o planejamento de ensino, tanto por parte da equipe de coordenação dos espaços escolares, dos estudantes, ou pelos pais ou demais integrantes da comunidade escolar. Não tenha receio em apresentar seus materiais, aceitar sugestões e ponderar ajustes, esta postura poderá se reverter em credibilidade e apoio; o ofício dos profissionais da educação deve ser transparente e de livre consulta. UNIDADE 2 | PLANEJAMENTO E AVALIAÇÃO NO ENSINO DE HISTÓRIA 98 Moran (2000) defende que se deve avançar a fim de se aprender a equilibrar planejamento e criatividade, organizar e adaptar a cada situação, aceitando os imprevistos, gerenciar, prever e incorporar o novo, o inesperado, ou seja, conceber o planejamento como uma ferramenta aberta, em construção, que prevê, que se antecipa, e por outro lado que está pronto para mudanças, sugestões e adaptações. 4 PARA QUE ENSINAR HISTÓRIA? No campo da educação, da História, da Filosofia e da Sociologia, esta pergunta não costuma ser feita com tanta frequência ou respondida com eficiência e precisão como ocorre na área das ciências exatas, naturais ou da língua portuguesa e das línguas estrangeiras. É recorrente na fala de professores de história de que se objetiva fomentar o senso crítico no aluno. Pode ser mais interessante que o aluno seja capaz de interpretar uma maior quantidade de leituras possíveis dos diversos processos históricos. Diante de um leque de leituras, o aluno pode passar a ter um olhar mais bem treinado para a compreensão dos processos históricos num sentido menos fragmentado e sem abrir mão da crítica. 5 COMO ENSINAR? ALGUMAS POSSIBILIDADES A PARTIR DE DOCUMENTOS, FILMES/DOCUMENTÁRIOS E DO TEATRO É recorrente na prática de alguns professores e profissionais da educação a reprodução de antigas e tradicionais estratégias de ensino, ou seja, muitos professores ainda ensinam da mesma forma ou muito semelhante de como aprenderam quando foram estudantes. Caro(a) acadêmico(a)! Isso é um perigo grave! Os tempos, as questões, os desafios, as pessoas mudam e a permanência/repetição das respostas pode nos induzir a equívocos que poderiam ter sido evitados com muita facilidade. Por outro lado, as experiências que outras gerações nos legaram ainda podem fornecer resultados frutíferos e não foram totalmente superadas, mas cuidado, existem teorias, modelos, estratégias e abordagens que somente fazem sentido num determinado momento e contexto histórico. Por outro lado, nem tudo que é novo e se apresenta como superação da experiência passada realmente consegue proporcionar as respostas que anunciam e prometem, esteja atento! Experimente, avalie, analise e faça suas escolhas, tome suas decisões conforme as estratégias que melhor lhe ajudam a realizar seus objetivos. TÓPICO 2 | O PLANEJAMENTO DE ENSINO E O PLANO DE AULA 99 Devemos estar atentos à dinâmica oscilante do tempo, à reorganização das perguntas, às turbulências do momento presente, às possibilidades que as novas abordagens podem proporcionar em termos de renovação histórica e transformação da realidade, do mundo, da vida. 5.1 A ANÁLISE SIGNIFICATIVA DE DOCUMENTOS Os PCN (1999) enfatizam que o ensino da História da época contemporânea ultrapasse o uso exclusivo de fontes escritas, e que é possível incluir outras fontes documentais, outras referências, para tanto basta pensar nas mais diversas formas que o homem se utilizou para se expressar e registrar sua experiência. Observe o texto que segue: O estudo de novos temas, considerando a pluralidade de sujeitos em seus confrontos, alterando concepções calcadas apenas nos “grandes eventos” ou nas formas estruturalistas baseadas nos modos de produção, por intermédio dos quais desaparecem de cena homens e mulheres de “carne e osso”, tem redefinido igualmente o tratamento metodológico da pesquisa. A investigação histórica passou a considerar a importância da utilização de outras fontes documentais, além da escrita, o aperfeiçoando métodos de interpretação que abrangem os vários registros produzidos. A comunicação entre os homens, além de escrita, é oral, gestual, sonora e pictórica (BRASIL, 1999, p. 21). Não significa também que se deva abandonar definitivamente as fontes documentais, tais como arquivos públicos (instituição do governo) e privados (empresas e famílias); censos populacionais; mapas, plantas, testamentos, legados, inventários, perícias, sentenças, sindicâncias; livro de registros, livro de presenças/visitas; salvo condutos, títulos, documentos familiares: cartas, diários, certidões, passaportes, carteiras de trabalho, habilitação, registros gerais, títulos eleitorais; relatos e depoimentos pessoais; livros de batismo, casamento e morte; jornais e revistas diversos. É o momento de atribuir-lhe novas perguntas e abordagens, não somente fazer uso ilustrativo e confirmador de conteúdos que são estudados.Significa indagá-los sobre as relações de procedência, validação e circulação; os trâmites hierárquicos e legais a que obedecia, a normalidade/regularidade, a periodicidade, a validade, as alterações/adulterações, anotações; contextualizações históricas, políticas e econômicas que são possíveis de lhe atribuir. 5.2 O USO DE FILMES E DOCUMENTÁRIOS No caso especial de filmes, Cardoso e Mauad (1997) destacam que, ao se utilizar o cinema e as fontes cinematográficas, é preciso que se revele e decodifique o que diz respeito às matrizes ideológicas que se encontram latentes na produção. UNIDADE 2 | PLANEJAMENTO E AVALIAÇÃO NO ENSINO DE HISTÓRIA 100 Compreendê-los como imagem-objeto, cujas significações não são somente e meramente cinematográficas; integrá-los ao mundo social, ao contexto em que surgiram, abordar inclusive os elementos não cinematográficos, como os autores, as produções, os públicos, regimes políticos a que estiveram vinculados. Deve-se compreender um filme como: Uma mensagem de mensagens, de considerável complexidade, reunindo e combinando diversas modalidades e graus de incidência: imagens/fotografia, textos escritos, falas gravadas e incorporadas ao filme, música/trilha, e os ruídos pretensamente naturais: trata-se de uma mista e complexa narrativa e trama. (CARDOSO; MAUAD, 1997, p. 413). Diante destes pressupostos, faz-se necessário decodificar os aspectos e elementos explícitos e implícitos na obra, como a imagem, a palavra/fala/ linguagem, o som, o gênero, bem como os anos de produção, a montagem e as movimentações de câmera, as tecnologias disponíveis, os roteiros de forma contextualizada e problematizada; as mensagens subliminares e sutis tanto em termos de fotografia, figurino, trilha sonora, além dos conteúdos dos diálogos. Burke (2004) discute que tanto o cinema como a fotografia e os cartões postais devem ser tratados como documentos históricos. As imagens são importantes meios de interpretação de fatos históricos, através delas pode-se perceber como as pessoas se portavam, se apresentavam, reagiam em determinados momentos. Em resumo, imagens nos permitem “imaginar” o passado de forma mais vívida e próxima do que ela realmente existiu. Procure assistir aos filmes antes de projetá-los. Quando for projetá-los aos estudantes, elabore uma espécie de roteiro mínimo de observação que evidencie os temas relacionados aos conteúdos históricos em questão, presentes no filme, para que os estudantes avancem para além das tramas, dos suspenses e romances que se apresentam. Para alcançar e obter resultados mais pontuais e que por sua vez até podem lhe servir como instrumento orientador da atividade com filmes e documentários, do qual poderá ser obtido nota para compor médias de seus estudantes, procure orientar a resolução de um roteiro, que pode ser preenchido em dupla ou individual após a projeção dele, ou como tarefa de casa. Observe a sugestão de roteiro que é feita a seguir: TÓPICO 2 | O PLANEJAMENTO DE ENSINO E O PLANO DE AULA 101 ESCOLA DISCIPLINA/PROFESSOR ESTUDANTE/TURMA TÍTULO/NOME DIRETOR, CIDADE e ANO DE PRODUÇÃO PRINCIPAIS ATORES CENÁRIO, FIGURINO e ANIMAÇÃO FOTOGRAFIA e TRILHA SONORA PRINCIPAIS CONTEÚDOS HISTÓRICOS O QUE MAIS LHE AGRADOU/ MARCOU NO FILME? QUADRO 5 – ROTEIRO E ANÁLISE DE FILMES/DOCUMENTÁRIOS FONTE: A autora Procure organizar uma sessão de cinema. Se houver possibilidade e conforme as normas de conduta da escola, sugira que os estudantes tragam alguma coisa para comer e beber ao longo da projeção, assim o ambiente ficará mais convidativo e divertido. 5.3 SOBRE AS REPRESENTAÇÕES TEATRAIS A prática da representação teatral remonta aos tempos mais longínquos da existência humana. Mas foi em solo da Grécia antiga que ganhou projeção e ênfase no plano cultural e até político, e foi muito praticado tanto nas formas de tragédia como de comédia. Isso se deu quando as autoridades gregas procuraram fazer a transição de uma cultura que se encontrava centrada nas crenças politeístas, na qual os deuses do Monte Olimpo eram entendidos como os provedores da ordem social e política; para o modo de vida regido pela polis e pela democracia, que estabelecia direitos e deveres aos cidadãos, bem previa que a racionalidade fosse utilizada na compreensão dos fatos sociais e dos fenômenos naturais. UNIDADE 2 | PLANEJAMENTO E AVALIAÇÃO NO ENSINO DE HISTÓRIA 102 Outra experiência semelhante de uso do teatro foi a dos padres das Missões Jesuítas. Quando procuravam converter as populações indígenas utilizavam- se do teatro para sensibilizar seu público e assim promover a desestabilização das antigas tradições e crenças antigas e assim introduzir novos valores e comportamentos aos indivíduos. Reverbel (1997) apresenta o teatro como sendo fundamental nos processos de ensino-aprendizagem, pois, em meio aos jogos de imitação e criação, o estudante é estimulado e provocado a descobrir-se a si próprio, ao outro e ao mundo que a rodeia. Ao longo da experiência teatral os estudantes mobilizam e lançam mão de competências e habilidades múltiplas; aprendizagens para as mais diversas expressões artísticas. Porém reside no professor o papel de fomentador de situações teatrais e lúdicas com intencionalidade de aprendizagem. PCN (1997) defendem que a presença do teatro no processo de formação dos estudantes cumpre não só a função integradora, mas dá oportunidade para que ela se aproprie crítica, criativa e construtivamente dos conteúdos sociais e culturais. Neste contexto é plasmado em meio ao dinamismo da experimentação, da influência criativa que exercita e experimenta as dimensões da liberdade e segurança, favorecendo a emergência e a sensibilização interna da imaginação, da percepção, da emoção, da intuição, da memória e do raciocínio. A preparação de um número teatral se utiliza de várias expressões artísticas afins, tais como texto, cenário, figurino, iluminação, trilha sonora/ música, falas/diálogos, gestos, movimentos e expressões, entrar em cena, ocupar o palco, protagonizar, entre outras expressões. Por fim, os PCN (1997) apontam que a dramatização teatral possibilita e resulta em uma manifestação espontânea, na qual os estudantes assumem feições e funções das mais diversas, e ao mesmo tempo exige a integração e uma forte relação de equilíbrio entre os estudantes, o público e o meio em que se encontram, por fim o teatro comporta a capacidade de comover, emocionar tanto os atores/ estudantes como os o público de espectadores que se encontra envolvidos. TÓPICO 2 | O PLANEJAMENTO DE ENSINO E O PLANO DE AULA 103 LEITURA COMPLEMENTAR ALGUNS MOTIVOS PARA SE ESTUDAR HISTÓRIA A historicidade das coisas pode nos ajudar a agir no presente, nos orientando para o futuro. Relaciona-se com a concepção de práxis que busca na análise crítica entre teoria e prática uma compreensão da atividade humana, que forma o homem na medida em que essa relação se torna consciente e inteligível. A História está presente no nosso dia a dia e nos alerta para nossa condição de sujeitos (aquele que transforma as coisas) e também de sermos objeto da História; ela também nos modifica. A História não deve ser vista como ferramenta para encontrar/descortinar apenas questões pessoais, mas também as conjunturais e coletivas que pertencem ao tempo passado. No segundo capítulo, o autor esclarece que a História não deve ser compreendida como uma simples sucessão de fatos interligados, mas sim que ela é uma disciplina em permanente construção e, por estar nesse processo contínuo, não admite uma definição única. Deve-se reconhecer a importância da memória e o uso do passado, não apenas como uma lembrança de algo morto, passado e sem sentido. Ao contrário, “o que lembramos e o que esquecemos pode servir à libertação humana, mas também pode contribuir para a servidão, para o domínio de determinados grupos” (BOSCHI, 2007), diante disto é necessário uma postura reflexiva e crítica diante não sódas fontes, mas de nossa própria prática pedagógica e cotidiana. Nos tempos contemporâneos, a História pode ser uma excelente ferramenta a entender os processos da globalização que é responsável por relevar e trazer à tona questões étnicas, identidárias, locais, regionais, nacionais e mundiais. Questões de grande importância são indicadas para nossa própria reflexão e que podem ser questões que permeiem nossa prática pedagógica e cidadã. São elas: “Como se posicionam os diversos países diante da realidade dos blocos continentais?”, “Como explicar que, simultaneamente à formação desses blocos, algumas nações se empenhem em preservar e reforçar tradições locais?” e “O que representam as identidades nacionais, coletivas e étnicas?”. Portanto, o autor demonstra como a Ciência História pode ser uma ferramenta que pode proporcionar questões para a busca da compreensão da sociedade atual, revisitando o passado e suas fontes de estudo. A busca pela identidade e pela memória não são ferramentas de exclusão, e sim de uma busca pelo entendimento do outro, da cultura diversa e sua compreensão na busca por um convívio mais harmônico entre todos. É necessário perceber o outro e no outro a diferença e a valorização dessa forma. UNIDADE 2 | PLANEJAMENTO E AVALIAÇÃO NO ENSINO DE HISTÓRIA 104 As utopias desempenham papel fundamental no exercício e ofício da História, elas devem ser abordadas não no sentido de algo que é inalcançável, mas em algo que se sonha de melhor para a humanidade e que a busca pelo entendimento do mundo pode nos ajudar a entendê-lo, não pelo simples fato do entendimento, mas pela necessidade de melhorá-lo. FONTE: Adaptado de: COSTA, Júlio César Virgínio da. Para que serve a História? O que faz o historiador? In: Revista Brasileira de História & Ciências Sociais. Volume 2 - Número 3 - Julho de 2010. Disponível em: <http://www.rbhcs.com/index_arquivos/Resenha.Para%20que%20 serve%20a%20Hist%C3%B3ria.pdf>. Acesso em: 14 fev. 2014. http://www.rbhcs.com/index_arquivos/Resenha.Para que serve a Hist%C3%B3ria.pdf http://www.rbhcs.com/index_arquivos/Resenha.Para que serve a Hist%C3%B3ria.pdf 105 RESUMO DO TÓPICO 2 Caro(a) acadêmico(a)! O Tópico 2 que se preocupa em estudar os aspectos gerais em torno dos planejamentos de ensino e planos de aula pode ser resumido nos seguintes aspectos: • No momento da formulação dos planejamentos de ensino e dos planos de aula, as escolhas pelos conteúdos devem levar em consideração as necessidades do momento histórico, os desafios do contexto e da realidade social na qual estão inseridos os estudantes, bem como incluir os temas, fatos e fenômenos que ocorrem na esfera local e regional. • Na história da educação brasileira do final do século XIX e ao longo do século XX sobressaíram-se as preocupações para com o conhecimento técnico- científico em detrimento dos conteúdos das ciências humanas, que por sua vez visavam conferir a formação da mão de obra no contexto da modernização industrial-tecnológica. • No Ensino Fundamental, os conteúdos históricos contemplam a interpretação dos tempos diferentes que existem no tempo presente, em um determinado espaço, a leitura desse mesmo espaço em tempos passados, permeados pelas experiências sociais e culturais, sem excluir as questões políticas e econômicas. • O Ensino Médio possui a preocupação para com o aprofundamento dos estudos realizados no ensino fundamental, a compreensão dos fundamentos científicos e tecnológicos no interior dos processos produtivos, a continuidade da formação, ao exercício da cidadania e o aprimoramento do estudante enquanto pessoa humana. • O planejamento de ensino deve conter informações amplas de transcorrer o bimestre, semestre ou até mesmo todo o ano letivo na unidade escolar, trata-se de um norte para as atividades da disciplina na sua totalidade, para tanto os objetivos gerais, os temas/conteúdos, as estratégias didáticas/metodologias e as referências são primordiais. • O plano de aula corresponde ao transcorrer das aulas que o professor ministrará junto aos estudantes, a transposição dos conteúdos propriamente dita, para tanto devem contar com maiores detalhamentos em termos de conteúdos, objetivos e estratégias metodológicos que serão utilizadas. 106 • O plano de ensino deve ser elaborado de forma coletiva, com a participação de colegas professores e gestores escolares. Assim cria-se a oportunidade à socialização de materiais e experiências positivas, de reforçar e ampliar os relacionamentos interpessoais e firmar parcerias colaborativas para projetos. • É de suma importância que o professor de História se posicione de forma reflexiva e crítica diante não só das fontes, mas diante da própria prática pedagógica e cotidiana. A História pode auxiliar na compreensão do outro igual e diferente, bem como vislumbrar conhecer a história de outras épocas e sociedades, no sentido de entender melhor os tempos em que se vive e que será legado a outras gerações. 107 AUTOATIVIDADE 1 Elabore um plano de aula com duração de duas aulas, observando os conteúdos e os respectivos aspectos: DATA: DATA: C om pe tê nc ia s H ab ili da de s O bj et iv os C on te úd os • Formação da Europa: feudalismo; • A vida da Corte e dos camponeses • Igreja católica • Reforma Protestante Pr oc ed im en to s M et od ol óg ic os • Representação teatral ou uso de filme/documentário A va lia çã o R ef er ên ci as 108 109 TÓPICO 3 AVALIAR: UM FAZER COMPLEXO UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Neste tópico procura-se discutir o papel da avaliação no processo de aprendizagem, levando em consideração aspectos teóricos, legais, metodológicos e práticos no sentido de percebê-la como um instrumento de apoio na verificação do nível de aprendizagem dos conteúdos pelos estudantes; assim como refletir no sentido de que as avaliações também sejam percebidas como uma ferramenta que permita promover o desenvolvimento de competências e habilidades, e em especial que representem um instrumento e exercício reflexivo também ao fazer didático pedagógico do professor. 2 A AVALIAÇÃO E SEUS ALCANCES A avaliação constitui-se em uma das atividades mais recorrentes e presentes em nossa vida. Por sua vez, ocorre nos mais diferentes espaços de convivência, sociabilidade, trabalho e ensino. Possui um caráter de verificação e identificação das evidências que possam ser consideradas no sentido de realizar a aprovação/promoção ou não a ciclos, estágios etapas superiores em que os indivíduos se encontram. A avaliação representa um dos temas que mais geram discussões entre os profissionais de educação e um dos temas que demanda profunda reflexão, constante revisão e atualização teórica e prática. Se faz necessário zelar para que os propósitos de ensinar e aprender ocupem o centro do processo educativo e que consiga se aproximar aos interesses e expectativas de todos os envolvidos, bem como favoreça a realização humana na sua plenitude e totalidade. Assim como existem conteúdos, objetivos, habilidades e competências mais específicas para cada ciclo e cada momento do ensino-aprendizagem escolar, também existem aspectos que devem ser avaliados. Mas de maneira geral é possível traçar alguns aspectos que podem orientar o exercício de observação que o professor/educador poderá levar em consideração quando estiver diante de tais momentos. Bittencourt (2008) chama a atenção para a responsabilidade e a seriedade que o professor precisa comportar, no sentido que discute que os processos de avaliação demandam que os professores estejam dispostos a revisitar e, muitas vezes, a redefinir posturas e concepções de avaliação e também de ensino; que 110 UNIDADE 2 | PLANEJAMENTO E AVALIAÇÃO NO ENSINO DE HISTÓRIA estejam cientes, possuam consciência e clareza da concepção pedagógica pela qual pautam e norteiam toda a sua prática educacional (planos, aulas, estratégias, metodologias). Observa-se que o processo avaliativo aplicadopelos professores contemporâneos leva em consideração, com grande ênfase, os indicadores cognitivos dos estudantes. Avaliar um estudante apenas pelos indicadores de seu desenvolvimento cognitivo significa avaliar não levando em consideração as diversas possibilidades que a totalidade da expressão humana comporta. Por outro lado é uma atividade que não deveria ser tão centrada na autoridade do professor; por sua vez, os estudantes poderiam ser envolvidos neste processo, no sentido de que se apropriem do instrumento, compreendam e tenham clareza diante das diferentes tipologias de avaliações que são possíveis, saibam da necessidade e da importância dos processos avaliativos, bem como sejam convidados a participar da construção dela, opinar e resolver comprometidamente os conteúdos e temas relevantes. 3 A AVALIAÇÃO SIGNIFICATIVA A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira, Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, traz que a verificação do rendimento escolar deve contemplar a avaliação contínua e cumulativa do desempenho do aluno, com prevalência dos aspectos qualitativos e dos resultados ao longo do período, sobre os de provas finais. Entre as formas de avaliação que se encontram mais em circulação em nossa época pode-se mencionar que se deve proceder a uma avaliação totalizadora que alcance as três dimensões: diagnóstica (entrada, inicial, sondagem); formativa (contínua, acompanhamento, processo e qualitativa); e somativa (final, produto, quantidade). Além de provas, é possível elaborar outros instrumentos e estratégias avaliativas, que representam instrumentos de observação individualizada ou coletiva de atividades realizadas nos espaços de sala de aula como em locais externos de ensino e aprendizagem. Tais instrumentos devem preocupar-se em observar e interpretar como cada indivíduo demonstra o desenvolvimento de habilidades e competências, valores, atitudes, comportamentos. Luckesi (2000) defende que a prática da avaliação nos processos de ensino- aprendizagem implica dois processos articulados e indissociáveis: diagnosticar e decidir. Para o autor, não é possível tomar uma decisão sem um diagnóstico prévio, e um diagnóstico, sem uma decisão, está fadado ao equívoco e ao fracasso. TÓPICO 3 | AVALIAR: UM FAZER COMPLEXO 111 3 A AVALIAÇÃO SIGNIFICATIVA Martins (2011) defende que, se utilizando do referencial que é proposto por Luckesi, é possível identificar que os processos avaliativos, como são tradicionalmente feitos nas escolas da educação básica brasileiras, ainda pecam em ambos os processos. Com relação ao momento em que ocorre o diagnóstico, ocorre que os critérios de escolhas são feitos pelo professor quanto aos conteúdos a serem ensinados e quanto à metodologia pedagógico-didática empregada; por sua vez, utilizam-se ferramentas teóricas e práticas apropriadas à averiguação da aprendizagem do aluno de acordo com as expectativas do professor, e não numa perspectiva que envolva também os estudantes em todo o processo. Perrenoud (1999) tece críticas aos sistemas de avaliações no sentido que denuncia o modelo de prova cumulativa e exame em que os estudantes têm a chance, tanto real como imaginária, de enganar. O autor identifica este aspecto no fato de os estudantes se prepararem de forma intensiva na última hora e ainda preparam cola. Uma alternativa diante deste quadro pode ser a avaliação formativa que pode subsidiar a aprendizagem, deixando de ser um discurso que evidencia somente a autoridade, que determina o futuro dos estudantes, tornando-os reféns. Para que a avaliação desempenhe a função de subsidiar e acompanhar o processo de aprendizagem, ela deve ser composta tendo em vista o modo formativo, o que por sua vez leva a questionar, investigar, ler as hipóteses apresentadas pelos estudantes, refletir sobre a ação pedagógica, com olhos a replanejá-la, o que por sua vez acaba por revelar o caráter de um fazer inacabado e em processo em construção. A avaliação, desta forma, se apresenta de forma interativa, relacional, dinâmica, e não linear, acabada, pronta. Perrenoud (1999) defende que se possa entender melhor a avaliação e suas possibilidades de sentidos, se faz necessária uma discussão sobre o currículo, os planos de ensino e de aula, e isto deve ser feito de forma coletiva, no interior dos espaços específicos em que são produzidos. Assim, a avaliação poderá ser percebida através de uma perspectiva enquanto ferramenta dotada de potencialidades de mediação no interior do processo de aprendizagem e da construção do currículo. Luckesi (1995) apresenta que o desenvolvimento pleno da pessoa humana requer e significa uma formação e realização de suas convicções no campo das relações afetivas, sociais, políticas; de habilidades cognoscitivas e psicomotoras, sua capacidade e modo de viver e conviver. 112 UNIDADE 2 | PLANEJAMENTO E AVALIAÇÃO NO ENSINO DE HISTÓRIA Para ultrapassar a ideia de farsa avaliativa e alcançar a noção de avaliação significativa, se faz necessário criar oportunidades em que os estudantes demonstrem atitudes solidárias, responsáveis, cooperativas, colaborativas, postura respeitosa com os colegas, com o meio ambiente; e por outro lado, que estejam envolvidos e comprometidos, professores e estudantes, com questões éticas e sociais. 4 A AUTOAVALIAÇÃO Atividades de autoavaliação remetem a outros conceitos, competências e habilidades, tais como autoformação, espírito crítico e reflexivo, o domínio da quinta disciplina do ‘aprender a aprender’, da autonomia diante dos conhecimentos, do antecipar-se, do autocontrolar-se, dar-se uma nota, responsabilizar-se, do autocorrigir-se, do autorregular-se. A alternativa da autoavaliação não costuma ser muito praticada e compreendida no interior dos espaços escolares tradicionais de educação. Por sua vez a autoavaliação representa uma estratégia de ensino-aprendizagem não só para o reconhecimento do que o estudante conseguiu compreender e saber em termos de conteúdos, ou que indica o que ficou registrado de mais significativo em termos de conteúdos e temas. Como as demais modalidades e formas de avaliação, a autoavaliação também deve ser entendida como uma atividade que se realiza em “processo” e que requer envolvimento, participação e responsabilidade tanto do professor como do estudante. Diante disto, Hoffmann (2001) defende que a estratégia de autoavaliação possibilita ao estudante uma espécie de tomada de consciência individual diante da aprendizagem, assim como de sua própria conduta cotidiana enquanto estudante. Ela possibilita que o estudante identifique as condições na qual se encontrava, reconheça as fragilidades que ocorreram e vislumbre as possíveis superações que se fazem necessárias. Por outro lado, a autoavaliação pode indicar ao professor elementos de sua eficiência dos objetivos e estratégias didáticas, do alcance e da recepção de seus conteúdos, ou seja, de todo o seu fazer didático pedagógico. Quando o professor contar com autoavaliação redigida pelo estudante, poderá observar a percepção que este tem de si, bem como dos demais estudantes, e em especial como ficou compreendido, a capacidade de clareza de suas explicações e como repercutiu no universo e repertório do estudante. Quando o estudante se encontra envolvido de forma madura, o processo de autoavaliação, poderá adquirir as condições necessárias a uma postura autônoma e autoavaliativa diante de sua própria aprendizagem; sobre seu próprio agir, e levar aos demais espaços de que participa, o que poderá se tornar em uma espécie de identidade na sua atuação enquanto estudante, indivíduo, profissional e cidadão. TÓPICO 3 | AVALIAR: UM FAZER COMPLEXO 113 4 A AUTOAVALIAÇÃO Observe no quadro que conta com as possibilidades que podem ser levadas em consideração na aplicação e no exercício da autoavaliação: AVALIAÇÃO TEM... QUESTÕES RELACIONADAS A AVALIAR... AUTOAVALIAR... QUANDO DA AUTOAVALIAÇÃO, RESPOSTAS PARTICULARES POSSÍVEISOBJETIVOS FINALIDADES PARA QUÊ? - Informar-se sobre sua própria ação ou sobre si mesmo - regular a ação por si mesmo - guiar-se por si mesmo na sua ação - melhorar por si mesmo a eficácia de sua ação RAZÕES DESTINATÁRIOS (AS) AUTOR SUJEITO POR QUÊ? PARA QUEM? QUEM AVALIA? QUEM É AVALIADO? - necessidade induzida pelas finalidades - por si mesmo enquanto autor da ação, da produção - si mesmo, agente/autor da produção - si mesmo, agente/autor da produção OBJETO PARCEIROS(AS) O QUÊ? COM QUEM? - os objetos permanecem diversos - o professor - um estudante - um grupo MOMENTO QUANDO? - antes da ação: regulação proativa (antecipação) - durante a ação: regulação ativa - depois da ação: regulação retroativa FREQUÊNCIA CONTEXTO A QUE RITMO? ONDE? - o mais frequente possível - em qualquer espaço escolar e de ensino-aprendizagem - em casa CIRCUNSTÂNCIAS EM QUE OCASIÕES? - cada vez que o indivíduo deseje controlar a pertinência, a adequação, a validade de uma ação e de seu resultado CONDIÇÕES A PARTIR DO QUÊ? - seus conhecimentos -suas representações - o que ele é - o que ele gostaria de ser - o que ele quer tornar-se MEIOS COMO? - documentos autocorretivos-documentos autoavaliativos QUADRO 6 – POSSIBILIDADES A CONSIDERAR NA AUTOAVALIAÇÃO FONTE: RÉGNIER (2002, p. 3) 114 UNIDADE 2 | PLANEJAMENTO E AVALIAÇÃO NO ENSINO DE HISTÓRIA LEITURA COMPLEMENTAR DIÁLOGO ENTRE AVALIAÇÃO E CURRÍCULO NO ENSINO DE HISTÓRIA A transformação do saber histórico acadêmico em um objeto de ensino nas escolas da educação básica, os processos de construção curricular e a questão da avaliação possuem relações que podem oferecer pistas para uma reflexão mais consistente do professor de história sobre suas práticas e se estas caminham na direção dos objetivos previamente estipulados. No currículo, há uma seleção de conhecimentos e práticas que se produzem e se relacionam em contextos concretos. Dentre as práticas, pode-se destacar a avaliação, pois ela atua como instrumento de aferição dos objetivos propostos, e por sua vez encontram-se permeados por tensões, expectativas e possibilidades. O conteúdo em si mesmo não é garantidor do êxito em relação aos objetivos do ensino de história. As formas de abordagem do conteúdo, bem como as possibilidades de avaliação do aprendizado do mesmo, são de fundamental importância no processo de aquisição das metas propostas na confecção do currículo. A avaliação faz parte do currículo, e apresenta especificidades que a tornam instrumento fundamental do fazer curricular. A avaliação do aluno é uma tomada de decisão curricular. Portanto, a avaliação do aprendizado também não é neutra e precisa de reflexões sobre seus usos e possibilidades. É imperativo que se associem as práticas avaliativas no espaço escolar com os objetivos mais amplos relacionados à escola e à formação cidadã, bem como com a aprendizagem específica dos conteúdos da disciplina. É preciso que se repense sobre os usos e as possibilidades da avaliação dentro dos processos educacionais. A continuidade dos usos das avaliações tal como vêm sendo feitos na maioria das escolas brasileiras, anda na contramão dos objetivos principais da educação, com destaque para a emancipação humana e dar condições de continuidade dos estudos. Enquanto prática curricular, é a avaliação que sinaliza aos alunos o que o professor e a escola valorizam. Por isso, é indispensável que se reflita a partir dos critérios utilizados pelo professor na seleção dos conteúdos a serem ensinados e a fazerem parte das avaliações, das formas de ensinar, dos recursos didático- pedagógicos empregados no ensino, da forma como os conteúdos são abordados nas avaliações, das prioridades do professor em termos de habilidades e competências a serem desenvolvidas pelo aluno, refletidas em questões presentes nas avaliações. TÓPICO 3 | AVALIAR: UM FAZER COMPLEXO 115 Se os processos de construção curricular e de escolhas de conteúdo a serem ensinados não são neutros, os critérios de construção de um instrumento de avaliação também não o são. Há também seleções em seu processo de construção, que vão desde seleções de tipos de questões (múltipla escolha, discursiva, interpretativa com documentos/fontes históricas), passando pelo grau de dificuldade delas, até de conteúdos a serem cobrados. As avaliações fazem parte dos elementos que configuram o currículo na perspectiva aqui utilizada. Elas têm, portanto, um potencial de desempenhar uma função que auxilie o professor de história a conquistar seus objetivos em relação ao ensino da sua disciplina. Elas são, portanto, práticas curriculares. As avaliações constituem, também, um instrumento que permite a construção do conhecimento e não apenas a verificação de aprendizagem. A avaliação deveria atuar como ferramenta propiciadora, também, de construções de significados para os professores sobre suas práticas, mas ela parece caminhar por uma lógica exterior aos muros escolares, mas que se reproduzem nestes. Nesse sentido, o seu potencial é esvaziado e seus usos continuam a, contraditoriamente, afastá-las dos objetivos gerais da educação, dos objetivos históricos e dos objetivos específicos em relação ao ensino de história. FONTE: Adaptado de: MARTINS, Marcus Leonardo Bomfim. (Re)significando a avaliação no ensino de História. In: Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH. São Paulo, jul. 2011. Disponível em: <http://www.snh2011.anpuh.org/resources/anais/14/1299251158_ ARQUIVO_RESIGNIFICANDOAAVALIACAONOENSINODEHISTORIASEMRESUMO.pdf>. Acesso em: 14 fev. 2015. 116 RESUMO DO TÓPICO 3 • Processos de avaliação são frequentes no cotidiano de nossas vidas, é importante que sejamos preparados para isso, bem como, que cada vez mais estes sejam elaborados e transcorram com a participação de todos os envolvidos. • Os processos cumulativos que preveem provas cumulativas são bastante criticados, pois acabam por estimular que os estudantes se preparem para colar. • A alternativa da avaliação formativa leva a questionar, investigar e ler hipóteses apresentadas, e representa um processo avaliativo crítico-reflexivo que possibilita também ao professor replanejar toda a sua ação pedagógica. • Repensar os processos avaliativos requer que seja colocado em pauta também os currículos, os planos de ensino e de aula, e deve ser feito no interior dos espaços escolares e com a participação coletiva. • A avaliação formativa leva em consideração as atitudes e as ações dos estudantes para com os valores de solidariedade, cooperação, relação respeitosa e de cuidado com o outro e com o meio. • A autoavaliação representa uma alternativa em termos de processos avaliativos que possibilita aos envolvidos uma espécie de tomada de consciência diante do processo de ensino e aprendizagem, das condições com as quais chegou, as fragilidades que ocorrem e procure alternativas de superação. • A autoavaliação pode fornecer ao professor elementos que indicam o alcance de todo o seu fazer didático-pedagógico. • O processo de autoavaliação pode acompanhar os estudantes em outros espaços e realizações da experiência de vida, tais como no trabalho, no exercício da cidadania, nas relações familiares e sociais. 117 1 O processo de avaliação representa uma das atividades mais complexas no fazer pedagógico, porém é uma atividade que está presente nas mais diversas esferas da realização da vida. Diante disto reflita e construa um texto para as seguintes problemáticas: Quais são os principais problemas que são identificados nos processos de avaliação tradicional e cumulativa? Como a avaliação significativa pode contribuir para superar este cenário? 2 Como os processos de avaliação realizados no interior dos espaços escolares podem fornecer informações ao fazer didático pedagógico do professor? 3 A realização da autoavaliação ainda não representa uma prática comum nas atividades escolares, acaba sendo uma experiência localizada de alguns professorescom algumas turmas. Quais são as possibilidades que a autoavaliação pode fornecer aos estudantes/indivíduos para além dos espaços de sala de aula e ambientes escolares? AUTOATIVIDADE 118 119 UNIDADE 3 METODOLOGIAS DO ENSINO DA HISTÓRIA OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir desta unidade, você será capaz de: • estudar a importância dos conhecimentos prévios e as representações que os estudantes possuem para os conhecimentos históricos; • analisar criticamente os materiais didáticos e reconhecer o papel do pro- fessor e do mediador cultural no processo de ensino e aprendizagem. • conhecer possibilidades de dinâmicas de grupo, júris simulados, histórias em quadrinhos, charges e cartuns enquanto alternativas didático-pedagó- gicas em meio aos processos de ensino e aprendizagem; • destacar a importância de criar estudos e atividades de aprendizagem uti- lizando-se de projetos de trabalho, a partir do uso de documentos históri- cos e mapas conceituais; • abordar a história de forma problematizada e por meio do método dialéti- co na tentativa de proporcionar a construção do conhecimento de caráter crítico e reflexivo. • enfatizar as possibilidades de experiências de ensino e aprendizagem a partir de espaços de patrimônio histórico e cultural, tais como sítios arque- ológicos, centros e sítios históricos, museus, objetos históricos e da história oral, que contemplam a história local e regional. Para alcançar os objetivos apresentados dividiram-se os temas nos seguintes tópicos: TÓPICO 1 – O UNIVERSO DOS ESTUDANTES TÓPICO 2 – ALTERNATIVAS METODOLÓGICAS TÓPICO 3 – AS POSSIBILIDADES DOS ESPAÇOS NÃO ESCOLARES 120 121 TÓPICO 1 O UNIVERSO DOS ESTUDANTES UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO No ofício de professor/educador é fundamental identificar os conhecimentos que o estudante adquiriu pela experiência de vida, nos espaços de que participou e frequentou, como nos grupos de prática de esportes, espaços que acompanha e é acompanhado dos pais, familiares e amigos, espaços religiosos, de trabalho, outras experiências escolares, no meio familiar, através da mídia, que lhe forneceu referências à apropriação da realidade bem como à constituição de sua identidade enquanto indivíduo na sociedade, possibilitaram que este se inserisse em um determinado grupo para interagir, estabelecer trocas e intercâmbios culturais e simbólicas, com as quais os indivíduos galgam seu espaço de ação, exercem influência e constituem sua identidade. 2 OS CONHECIMENTOS PRÉVIOS E REPRESENTAÇÕES SOCIAIS Conforme Ausubel (1982), os conhecimentos prévios dos estudantes representam uma das condições essenciais no sentido de desenvolver e alcançar a aprendizagem significativa, onde os novos conceitos a serem aprendidos se relacionam com conhecimentos já disponíveis na estrutura cognitiva do estudante. Estes, em geral, precisam ser recuperados e novamente mobilizados no processo de aprendizagem de novos conteúdos, quer para compreender/ solucionar problemas na vida escolar ou no contexto social. De modo geral, a aprendizagem significativa é reconhecida por ser capaz de promover mudanças na estrutura cognitiva do conhecimento, assim tem chance de permanecer por mais tempo na memória, e mesmo quando ocorre o esquecimento, ele é residual e comporta uma grande possibilidade de ser retomado ou reaprendido com grande facilidade. Moscovici (2003) apresenta que as representações sociais constituem um conjunto de conceitos, proposições e explicações originado na vida cotidiana no curso das comunicações interpessoais. Elas são equivalentes em nossa sociedade aos mitos e sistemas de crença das sociedades tradicionais; podem também ser vistas como a versão contemporânea do pensamento relativo ao senso comum. Constituem uma forma de conhecimento, socialmente elaborada e partilhada, com forte visão prática e instrumentalizadora, concorrendo para a construção, desde uma realidade comum a um todo conjunto social. UNIDADE 3 | METODOLOGIAS DO ENSINO DA HISTÓRIA 122 Chartier (1988) aborda que as representações do mundo social são sempre determinadas pelos interesses de grupo que as forjam. Daí, para cada caso, se faz necessário identificar o relacionamento dos discursos proferidos para com a posição de quem os utiliza. As percepções sociais não são, de forma alguma, discursos neutros, produzem estratégias e práticas (sociais, escolares, políticas) que tendem a impor uma autoridade à custa de outros, por elas menosprezada, a legitimar um projeto reformador ou a justificar, para os próprios indivíduos, as suas escolhas e condutas. As representações sociais atendem à necessidade de “tornar familiar o não familiar”, para tanto classificam, explicam e dão nomes ao desconhecido, é o exercício de trazer para a realidade, a prática, para o mundo concreto, as dimensões abstratas. Esta prática se dá a partir da realidade de quem a faz; ocorre amplo uso da memória, e é o espaço primordial da formação de opiniões. As representações sociais constituem um corpo organizado de conhecimentos, bem como de atividades psíquicas pelas quais os indivíduos fazem leituras e apreensões da realidade física e social, de mundo. Por sua vez não representam um saber/conhecimento estático, encontram-se em processo de transformação. Bittencourt (2008) descreve que é de grande importância que o professor faça emergir as mais diferentes representações sociais que os estudantes trazem em relação a um determinado tema, a fim de perceber a partir de que nível de profundidade pode organizar os conteúdos e os estudos a serem estudados e ampliados, bem como, que materiais didáticos se farão necessários. As representações podem ser captadas e identificadas por intermédio da conversação e exposição dialógica em debates e discussões, ou também obtidas a partir da aplicação de questionários orientados. A partir da exposição das representações sociais dos estudantes sobre um determinado objeto ou tema, criam-se as condições também para reconhecer a origem de seus discursos, que são oriundos das vivências e das relações de comunicações estabelecidas diariamente, favorecendo assim que se avance para além do “eu penso”, “eu acho”, “na minha opinião” e que quando percebida no conjunto dos demais estudantes se revelam as proximidades e distanciamentos aos demais colegas. Ao se fazer o levantamento dos conhecimentos dos estudantes sobre um dado objeto ou tema de estudo são reveladas também as atitudes intelectuais e teóricas que estes possuem, diante dos quais o professor poderá identificar equívocos e incoerências conceituais, falhas, lacunas, omissões e desconhecimentos. TÓPICO 1 | O UNIVERSO DOS ESTUDANTES 123 3 ALGUMAS DAS ABORDAGENS PRESENTES NOS MATERIAIS DIDÁTICOS Bittencourt (2008) discute que alguns materiais didáticos acabam por produzir uma história ficcional criada para despertar nos estudantes o interesse pelo passado, apresentando enredos com personagens principais e coadjuvantes, remontando tramas e séries de novelas. Neste quadro, os acontecimentos são apresentados de forma mais amena e motiva, romanceada, com personagens bons e ruins, heróis, vítimas, carrascos, vilões, que compõem uma história maniqueísta, com linguagem para facilitar a memorização do conteúdo, mas que falha no aspecto de se tornar objeto de interpretação, questionamentos e indagações sobre os sujeitos e suas ações. Por outro lado o conhecimento ocorre também que tais conteúdos, acabam não apresentando elementos suficientes em termos de relevância e coerência histórica e social, caráter e teor científico. Existe vasta produção de materiais didáticos que apresentam o conteúdo centrado apenas no viés da história das sociedades do mundo ocidental, na formação econômica, nos processos produtivos, nos modos de produção e nas lutas de classe, ou seja nas teorias marxistas de compreensão dos processos históricos e das experiências sociais. Bittencourt (2008) aborda que os movimentos sociais,tais como o movimento feminino, ambientalista, etnicorraciais e os religiosos, bem como seus confrontos e lutas diante de descriminações e preconceitos, promoveram uma forte valorização da história social no interior da produção do conhecimento histórico e dos espaços escolares. No decorrer dos anos de 1980, passou a acorrer a preocupação da história com outras áreas, como a antropologia, o que favoreceu a temática da história cultural, história social, da história do cotidiano, história das mentalidades, a micro-história e a nova história cultural. A partir destas tendências historiográficas outros sujeitos e indivíduos foram incluídos ao rol do conhecimento histórico; até então representavam as minorias e haviam sido excluídos das grandes narrativas oficiais da história; eis que agora mulheres, operários, prisioneiros, doentes, loucos, andarilhos, leprosos, inválidos, crianças, idosos, artesãos, curandeiras, parteiras, homossexuais, judeus, estrangeiros, ciganos, negros, índios/nativos entre outros, ganham espaços na historiografia. Outra mudança que ocorreu, pode ser observada no campo do ensino e aprendizagem, quando o contexto social e histórico dos estudantes passa a ser considerado como temas e conteúdos de estudo. Zamboni (1993) afirma que a matéria/disciplina de História quando leva em consideração o momento e contexto sócio-histórico dos estudantes desempenha um papel fundamental na construção das noções de identidade e pertencimento dos mesmos. UNIDADE 3 | METODOLOGIAS DO ENSINO DA HISTÓRIA 124 O contexto e momento sócio-histórico do estudante passa a ser utilizado de forma articulada com as relações situadas em contextos mais amplos de representação social e histórica (local, regional, nacional e global). No momento de colocar em prática esta estratégia há de se tomar o cuidado de que a dimensão local e regional ou nacional seja estudada e abordada de uma forma fragmentada, ou seja, que a história da comunidade, bairro, cidade, ou estado seja percebida como desarticulada da história de seu país ou do mundo e vice-versa. 4 O PAPEL DE PROFESSORES MEDIADORES E DOS AGENTES CULTURAIS A palavra mediação vem do latim mediatione, de mediari, e requer uma postura do professor que seja capaz de intervir, problematizar, colocar-se em meio a duas partes. Desloca-se das posturas tradicionais de ensinar ou transferir conhecimento, por outro lado também descentra o local e a posição tradicional do professor, de detentor exclusivo do saber. A mediação consiste na prática do inter-relacionamento, orientado pelo professor, entre ele, os alunos e o que pretende ensinar, utilizando linguagem, ação e recursos múltiplos e alternativos. Gonçalves (2005) apresenta que o professor deve atuar como ponte, conciliador, transmissor, facilitador da aprendizagem e mediação como metodologia. O profissional que atua como mediador deve afastar-se da postura professor localizado no centro da sala ou do quadro, colocar-se em meio os estudantes, ou ao lodo, ou ao fundo, dividindo o palco de atuação como os estudantes; como fomentador e provocador entre os estudantes, difundindo e mediando a apropriação de “conteúdos, que por sua vez são colocados com vivos e latentes e não mais consolidados, conclusivos e sem possibilidade de continuidade. O ato de mediar requer que se indague, o porquê, a origem, as formas de formulação, constituição e legitimação de um dado saber, os prós e os contras, as responsabilidades, as causas, os efeitos, as consequências em que se encontram enredados os temas, conteúdos, fatos, fenômenos e acontecimentos. Este conjunto de competências e habilidades em que a postura de mediação no processo de ensino e aprendizagem não foram contemplados em meio a concepções de educação, que simpatizam com as experiências educacionais como da que vigorou ao longo dos séculos XVII e XVIII, que é identificada como tradicional, por ser se caráter passivo e dentro de modelos preestabelecidos conteudistas e enciclopédicos, que exigia a cópia e memorização rigorosa para com datas, nomes de indivíduos que contribuíram para a história política e econômica e uma nação, de detalhes e preciosismos em relação aos mesmos. TÓPICO 1 | O UNIVERSO DOS ESTUDANTES 125 Também não nas perspectivas tecnicistas que ganharam espaço ao longo do século XX também não era favorecido em meio aos modelos mecanicistas marcado pelo de crescimento das áreas das ciências exatas e engenharias com processos de produção e controle de produtos que deveriam alcançar eficiência e resultados quantitativos imediatos. Neste contexto a educação se apresentava-se fundamentada nas concepções de automatização, fragmentação, no controle de cada atividade do processo de ensino. No contexto de ensino tecnicista, o professor tem como função a organização e o gerenciamento de todo o processo de aprendizagem, cabendo-lhe selecionar as técnicas e os recursos adequados aos objetivos predeterminados. Os conteúdos e temas adquirem um enfoque sistêmico, com objetivos operacionais, com a utilização de módulos de ensino e máquinas de ensinar, com forte organização racional capaz de minimizar as interferências subjetivas que pudessem pôr em risco sua eficiência (SAVIANI, 2005). A postura de professor mediador se aproxima mais à tradição da Escola Nova que prevaleceu a partir do início do século XX, em que o cenário econômico e social de urbanização e industrialização da mão de obra, exigiam aprimoramento dos trabalhos em equipe no interior dos espaços de trabalho, das relações interpessoais, princípios cooperativos em meio aos grupos, criatividade, proatividade, iniciativa e superação de problemas de forma independente. É neste momento que a principal preocupação do trabalho educativo, deixa de centrar-se exclusivamente nos na aquisição de conhecimentos e de conteúdos e passam a preocupar-se com os processos de aprendizagem dos estudantes. A natureza essencial das atividades educativas de perfil mediador requer romper com o silêncio, a solidão, o isolamento e o rigor conteudista, e estar disposto a adentrar em um campo de possibilidades que contemplam situações de improviso, criatividade, dinamismo, surpresa, incertezas, ponderações, reflexões, situação hipotética, imprevisibilidade, do meio e momento em que o estudante vive. Uma proposta de ensino em que o professor exerce o papel de mediador pode favorecer que os estudantes construam um potencial de percepção, ação e expressão crítica profunda diante da realidade social e política na qual se encontram, que busquem a transformação e a mudança diante dos desafios e os impasses que lhe impedem a própria realização. UNIDADE 3 | METODOLOGIAS DO ENSINO DA HISTÓRIA 126 Diferentemente da atuação do professor mediador, está a atuação do agente cultural, que por sua vez atua em espaços não escolares, deve envolver- se com fazeres da administração das artes e da cultura em geral, fomentando as condições para que estes sejam experimentados pelos indivíduos numa esfera e espaço público. Os agentes culturais são responsáveis pela difusão e divulgação das referências culturais, procura aproximar a produção do cultural dos possíveis públicos interessados. A fim de alcançar este objetivo o agente cultural que atua no interior de espaços culturais precisa organizar exposições, mostras, promover palestras, preparar catálogos e folhetos pesquisas sobre os interesses e as tendências de seu público, estimular indivíduos e grupos para a autoexpressão e autocriação; não somente se encontrar à disposição para conceder informações, mas para provocar e precipitar experiências de ensino e aprendizagem (COELHO, 1997). Por muito tempo a arte e a cultura permaneceram expostas e de acesso somente às elites letradas e economicamente abastadas. O público oriundo destes grupos contava com repertório e referências para se relacionar e compreender as criações expostas nos espaços de museus e de cultura. Foi a partir da RevoluçãoFrancesa (1789), em especial, a partir do século XIX, que a função da arte, dos museus e dos espaços de cultura foram reformulados e passaram a ganhar um perfil de universalização e socialização dos mais diferentes indivíduos. Aos poucos as autoridades políticas e do campo da cultura perceberam que não bastava simplesmente universalizar o acesso à cultura e às artes, se fazia necessário também fazer mudanças estruturações e conceituais no interior destes espaços. No Brasil, a atuação de arte-educadores e agentes culturais foi implementada a partir dos anos de 1950. Habitualmente os professores se utilizam de referências das artes, do patrimônio histórico e da cultura na tentativa de ilustrar os conteúdos que estão sendo estudados, porém, muitas vezes, estas estratégias não conseguem levar em consideração o contexto em que a arte ou o patrimônio histórico foram elaborados. Neste contexto, uma visita a um museu pode evitar as situações acima mencionadas, bem como levar à ampliação da capacidade de entendimento de questões sociais que, muitas vezes, foram tratadas pelos artistas e não ficaram evidentes os materiais nos quais estão reproduzidas; por outro lado pode favorecer o enriquecimento do repertório dos estudantes no que diz respeito às técnicas, materiais e ações que envolvem a expressividade e a composição da obra. O ambiente diferenciado dos museus já é um estímulo à percepção e ao questionamento, à sociabilidade e à reflexão. (ROSA; SCALÉA, 2006). 5 O PAPEL DO AGENTE CULTURAL EM ATIVIDADES DE ENSINO TÓPICO 1 | O UNIVERSO DOS ESTUDANTES 127 A presença em grupo dos alunos também favorece a multiplicidade de olhares, interpretações e respostas que podem ser atribuídas às obras. Neste contexto, a mediação se enriquece na troca de pontos de vista de cada um no e com o grupo, acrescidos de outros trazidos por teóricos e estudiosos, que podemos apresentar, rompendo com preconceitos estereotipados, ampliando conhecimentos e partindo para novas problematizações. A reflexão e a socialização destes pontos de vista são, portanto, imprescindíveis para a ampliação de compreensão da arte e do patrimônio, pois geralmente acabam se resumindo somente na voz do mediador (monitor, professor ou teórico) que acabam por apresentar uma única interpretação. Pinto (2012) discute que no interior de um museu, de uma galeria, de um espaço de patrimônio histórico e cultural, de uma exposição entre outros, o mediador deve posicionar-se como um contextualizador, na tentativa de promover o encontro entre o repertório que o próprio público possui com as referências imagéticas e teóricas que ele possui acerca do artista, da obra, do tema, do enredo, dos aspectos formais etc. Martins (2005) alerta que a mediação pode ser tranquilamente compreendida como um encontro, mas, não como qualquer encontro. Um encontro que se configure como sensível e de cooperação, atento ao outro, tanto ao outro que está exposto como ao que está no entorno. 6 DINÂMICAS DE GRUPO NOS ESPAÇOS ESCOLARES FIGURA 5 – DINÂMICAS DE GRUPO FONTE: Disponível em: <http://casamento.vocedeolhoemtudo.com.br/comportamento/ dinamica-de-grupo-motivacao/>. Acesso em: 31 mar. 2015. O uso de dinâmicas nos espaços escolares não representa uma prática consolidada, observa-se que ela se encontra esquecida e deixada de lado; por vezes também acaba não sendo bem compreendida. O que se observa é o uso delas em meio às atividades de gincanas escolares ou nos momentos de formação e confraternização de professores. http://casamento.vocedeolhoemtudo.com.br/comportamento/dinamica-de-grupo-motivacao/ http://casamento.vocedeolhoemtudo.com.br/comportamento/dinamica-de-grupo-motivacao/ UNIDADE 3 | METODOLOGIAS DO ENSINO DA HISTÓRIA 128 As dinâmicas consistem em uma estratégia didática que induz as participações a uma dada circunstância e situação de aprendizagem. Consistem em ações de curta duração que, ao fazer uso de uma técnica própria, localizada, específica em um contexto, circunstância e hipótese exigem e promovem motivação e envolvimento. A realização das dinâmicas em processo de ensino e aprendizagem comportam o potencial de reunir elementos de uma experiência experimental de forte intensidade, a presença do componente lúdico e uma atividade que é permeada pela noção de desafio e superação de condicionantes, adversidades ou obstáculos. As dinâmicas de grupo são oriundas de estudos e pesquisas no campo do comportamento organizacional e no interior de treinamento organizacional que ganhou ênfase a partir dos anos de 1940. Silva (2008, p. 84) afirma que: Em razão de possuir, em sua imensa maioria, um caráter de natureza lúdica, a dinâmica de grupo tem o condão de promover uma reprodução do mundo das relações, a realidade corpórea universal, vivida pelo indivíduo. Justamente por essa similitude com a realidade experimentada pelo sujeito da dinâmica, a atividade constitui-se em um poderoso agente de mudanças. Os objetivos que podem ser alcançados com a realização de dinâmicas encontram-se vinculados à forma e à sequência sistemática que a mesma comporta. As dinâmicas podem consistir em atividades de “aquecimento”, em que os participantes são convidados a se aproximarem, expressar comportamento de integração e acolhimento; na aquisição de alguma habilidade específica e instrumental, como por exemplo, a predisposição no atendimento à clientela, técnicas de abordagem, sensibilização dos consumidores em situações de vendas de produtos, passando por momentos de reflexão e de mudança comportamental e atitudinal. Deve-se tomar o cuidado no sentido de que as dinâmicas de grupo não se tornem um fim nelas mesmas, ou meramente como uma atividade de entretenimento, elas precisam estar articuladas e vinculadas coerentemente ao processo e ensino-aprendizagem. Silva (2008) nos chama a atenção de que a técnica de dinâmica de grupo também não pode nem ser usada para a criação de um “novo” estilo de ensino, mas através da aplicação dela deve ser buscada o fortalecimento da formação do indivíduo. As dinâmicas de grupo, se integradas no interior dos processos de aprendizagem e se conduzidas e realizadas de forma responsável, podem ser uma ferramenta que favoreça o exercício e desenvolvimento às temáticas que pertencem aos eixos cognitivos de realizar intervenção solidária na realidade, que respeitem os valores humanos e a diversidade sociocultural, e as habilidades de analisar propostas de inclusão social promovidas pelas instituições sociais e políticas, considerando o respeito aos direitos humanos e à diversidade sociocultural, previstas nos PCN. TÓPICO 1 | O UNIVERSO DOS ESTUDANTES 129 MATERIAL: Novelos de lã em várias cores e música. OBJETIVOS: Motivar o participante para perceber o seu lugar no mundo que o cerca. Perceber que suas atitudes refletem no outro e que o outro contribui para que a sua linha da vida evolua ou sofra interferências Compreender que o ser humano não vive isolado, traça seu caminho no entrelaçar- se ao outro. PROCEDIMENTOS: Cada participante deverá amarrar uma ponta da linha em um ponto fixo – (exemplo: trinco da porta, janelas, cadeira, mesa). Ao iniciar a música todos iniciam uma espécie de passeio da linha pelo corpo do outro. Após alguns minutos interrompa a música e leia a mensagem abaixo: MENSAGEM: Pare e veja ao seu redor, encontre o caminho traçado pela sua linha, observe quem ela envolveu e quantas linhas envolvem seu corpo, SINTA... DE TUDO UM POUCO Que a energia que passa pelo fio condutor deposite em você de tudo... um pouco. Sensibilidade Para não ficar indiferente diante das belezas da vida. Coragem Para colocar a timidez de lado e poder realizar o que tem vontade. Solidariedade Para não ficar neutro diante do sofrimento da humanidade. Bondade Para não desviar os olhos de quem te pede uma ajuda. Tranquilidade Para quando chegar ao fim do dia, poder deitar e dormir o sono dos anjos. Alegria Para você distribuí-la, colocando um sorrisono rosto de alguém. Humildade Para você reconhecer aquilo que você não é. Amor próprio Para você perceber suas qualidades e gostar do que vê por dentro. Fé Para te guiar, te sustentar e te manter em pé. Sinceridade Para você ser verdadeiro, gostar de você mesmo e viver melhor. Felicidade Para você descobri-la dentro de você e doá-la a quem precisar. Amizade Para você descobrir que, quem tem um amigo, tem um tesouro. Esperança Para fazer você acreditar na vida e se sentir uma eterna criança. Sabedoria Para entender que só o bem existe, o resto é ilusão. Desejos Para alimentar o seu corpo, dando prazer ao seu espírito. Sonhos Para poder, todos os dias, alimentar a sua alma. Amor Para você ter alguém para amar e sentir-se amado. Tenha de tudo, um pouco... e seja muito feliz. DESENROLANDO A TRAMA Sem romper ou cortar a linha, cada um tenta desenlaçar e soltar as linhas. CONTEMPLANDO O RESULTADO Observe a teia que está formada e reflita com todos sobre o espaço que ficou: atitudes, gestos, marcas de cada um, aproximações, estranhamentos, espaços preenchidos e aproximados (favorecer a socialização das experiências dos participantes). DINÂMICA: O FIO DA VIDA UNIDADE 3 | METODOLOGIAS DO ENSINO DA HISTÓRIA 130 FONTE: Disponível em: <http://www.educacao.salvador.ba.gov.br/site/documentos/espaco- virtual/espaco-jornada-pedagogica/dinamicas-de-grupo/din%C3%A2micas-de-grupo-I.pdf>. Acesso em: 17 mar. 2015. MENSAGEM FINAL Quando sua vida começa, você tem apenas uma mala pequenina de mão. A medida em que os anos vão passando, a bagagem vai aumentando porque existem muitas coisas que você recolhe pelo caminho, porque pensa que são importantes. A um determinado ponto do caminho começa a ficar insuportável carregar tantas coisas, pesa demais, então você pode e precisa decidir/escolher: Ficar sentado à beira do caminho, esperando que alguém o ajude, o que é difícil, pois todos que passarem por ali já terão sua própria bagagem. Você pode ficar a vida inteira esperando, até que seus dias acabem. Ou você pode aliviar o peso, esvaziar a mala. Mas, o que tirar? Você começa tirando tudo para fora. Veja o que tem dentro: Amor, amizade... nossa! Tem bastante. Curioso, não pesa nada... Tem algo pesado ... você faz força para tirar... Era a raiva – como ela pesa! Aí você começa a tirar, tirar e aparecem a incompreensão, medo, pessimismo. Nesse momento, o desânimo quase te puxa pra dentro da mala. Mas você puxa-o para fora com toda a força, e no fundo da mala aparece um sorriso, que estava sufocado no fundo da sua bagagem. Pula para fora outro sorriso e mais outro, e aí sai a felicidade! Aí você coloca as mãos dentro da mala de novo e tira pra fora a tristeza. Agora, você vai ter que procurar a paciência dentro da mala, pois vai precisar bastante. Procure então o resto, a força, esperança, coragem, entusiasmo, equilíbrio, responsabilidade, tolerância e o bom e velho humor. Tire a preocupação também. Deixe de lado, depois você pensa o que fazer com ela. Bem, sua bagagem está pronta para ser arrumada de novo. Mas, pense bem o que vai colocar lá dentro de novo, heim! Agora é com você. E não esqueça de fazer isso mais vezes, pois o caminho é MUITO, MUITO LONGO... Uma bela jornada e caminhada a você! http://www.educacao.salvador.ba.gov.br/site/documentos/espaco-virtual/espaco-jornada-pedagogica/dinamicas-de-grupo/din%C3%A2micas-de-grupo-I.pdf http://www.educacao.salvador.ba.gov.br/site/documentos/espaco-virtual/espaco-jornada-pedagogica/dinamicas-de-grupo/din%C3%A2micas-de-grupo-I.pdf TÓPICO 1 | O UNIVERSO DOS ESTUDANTES 131 A dinâmica de grupo proporciona uma forte experiência motivacional repleta de respostas e estímulos do organismo com o meio ambiente e os demais indivíduos que participam da mesma experiência. Teixeira (1950) aborda que quando o nível pessoal é mobilizado e sensibilizado pelos processos de ensino e aprendizagem pode ocorrer uma espécie de libertação de forças, tendências e impulsos que se encontram latentes nos indivíduos e que poderá se equilibrar externamente, na experiência com o coletivo; e retornar refletido e ponderado a composição interna do indivíduo. Nesse sentido, Dewey (1959) defende que quando os indivíduos passam por processos de ensino e aprendizagem práticos e experimentais cria-se a possibilidade para que adquiram uma espécie de patrimônio cognitivo das relações interpessoais e diante do entorno de si, momento que lhe permite também significar a experiência e a vivência que usufruiu, proceder releitura, reformulação aos seus momentos futuros. Silva (2008) defende que o trabalho grupal tem o condão de oferecer ao participante uma oportunidade de expressar-se socialmente, seja por meio de funções de comunicação, seja diante da necessidade de coordenação e liderança da atividade seja pelo escambo de interesses pessoais ou mesmo no exercício de convivência no momento em que estarão sendo expostos. O autor prossegue analisando que as dinâmicas de grupo constituem-se em vetor de mudança do grupo e, ao mesmo tempo, do indivíduo. O autor ainda apresenta que as dinâmicas de grupo atuam no campo de que favorecem que o indivíduo projete, simule, vislumbre, antecipe-se diante de situações e desafios e que ele se prepare, geste sua própria experiência. Deve representar para o participante um momento único em que ele pode aprender da experiência, fazendo uma retrospecção e uma prospecção, simultâneas e de natureza associativa, entre o que ele faz às coisas e aquilo que resulta dessa ação, seja em termos prazerosos ou não. Sob tal ambiente a ação do ser é, em essência, um tentar, uma experimentação, um ato empírico. O indivíduo testa o mundo para apreendê-lo e o que experimenta em retorno transforma-se em um produto de ensinamento-aprendizagem por meio da descoberta. (SILVA, 2008, p. 92). DICAS DICA: você pode encontrar outras dinâmicas acessando ao site dinâmicas de grupo no mesmo link. UNIDADE 3 | METODOLOGIAS DO ENSINO DA HISTÓRIA 132 Encontra-se também nos PCN que: o uso de dinâmicas de grupo, desde que – bem entendido – suportado pela aplicação extensiva da Aprendizagem Experiencial, tem o condão de auxiliar os docentes a trilhar, com aproveitamento, novos caminhos na oportunização de aprendizagem, permitindo, ao menos eventualmente que seja atingido um estágio pedagógico ideal em “que os estudantes desenvolvam competências básicas que lhes permitam desenvolver a capacidade de continuar aprendendo. (BRASIL, 1996, p. 14). A aplicação de dinâmicas de grupo com a intenção de criar momentos em que os participantes possam experienciar abstração e reflexão sobre as realidades individuais, aos desafios que se apresentam no ambiente de trabalho, ou do contexto social no qual os estudantes se encontram inseridos e, que partir desses momentos seja possível obter melhores e maiores chances de compreensão e capacidade de atuação e transformação/mudança naquele mesmo contexto. 133 Ao longo do Tópico 1 foram abordados conteúdos, temas e assuntos que podem ser sistematizados nos seguintes pontos: • Os conhecimentos prévios dos estudantes possibilitam identificar em que nível de compreensão/profundidade é possível ancorar novos conteúdos. O professor apropriado dos conhecimentos prévios de seus estudantes poderá fazer com que os novos temas/conteúdos sejam abordados e problematizados de uma forma que ganhem relevância e sentido na experiência de vida dos estudantes. • Os livros didáticos atuais apresentam grande renovação nas temáticas em termos de conhecimentos históricos, contemplam temas até então não estudados, em especial a tradição dos movimentos sociais, como as questões de gênero (movimento feminista), etnicorraciais (movimento negro e indígena) e ambientalistas (poluição, transgênicos, caça de animais silvestres, entre outros). • O papel do professor nos espaços escolares contemporâneos deve ser o de se aproximar e envolver-se, em meio a atividades de ensino e aprendizagem,com os estudantes, por meio de provocações, diálogos, problematizações e vislumbrar alternativas e saídas diante dos problemas identificados. • Os espaços de museus, de arte e de cultura, nos últimos dois séculos deixarem de ser espaços restritos somente ao acesso de elites religiosas ou político/ econômicas e se popularizaram. Atualmente possuem a preocupação de se universalizarem em meio à sociedade e aos mais diversos indivíduos. • O papel do agente cultural no interior dos espaços culturais deve ser o de promover um encontro entre o repertório que o próprio público possui com as referências imagéticas e teóricas acerca do artista, da obra, do tema, do enredo, dos aspectos formais que se encontram em exposição. • A aplicação de dinâmicas de grupo nos espaços escolares favorece uma prática experimental de forte intensidade, que recupera componentes lúdicos, apresenta noções de desafios, requer superação de condicionamentos, adversidades ou obstáculos. RESUMO DO TÓPICO 1 134 1 Diversos autores defendem que os conhecimentos prévios e as representações sociais que e os estudantes possuem são fundamentais para o processo de ensino e aprendizagem de qualquer tema e conteúdo do conhecimento. Mas em que aspectos eles contribuem aos processos de ensino? Analise as sentenças a seguir: I- As representações sociais comportam as formulações, explicações e sistemas de crenças que fazem parte da vida cotidiana dos indivíduos e dos grupos sociais nos quais elas participam. II- Os conhecimentos prévios não são neutros ou imparciais, trata-se de afirmações de autoridade que legitimam as práticas, as condutas e as intenções dos indivíduos. III- As representações sociais e as opiniões prévias tornam abstratas e teóricas a realidade na qual os indivíduos e os grupos sociais se relacionam e se projetam diante dos demais sujeitos. IV- As representações sociais e os conhecimentos prévios compõem o repertório no qual os indivíduos fazem leituras e apreensões da realidade social e de mundo. Agora assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As afirmativas I, II e IV estão corretas. b) ( ) As afirmativas II, III e IV estão corretas. c) ( ) As afirmativas II e III estão corretas. d) ( ) As afirmativas I e IV estão corretas. 2 Os espaços de cultura como museus de arte e históricos representam espaços nos quais agentes culturais podem atuar como profissionais multiplicadores de saberes e conhecimentos, bem como de atividades de ensino e aprendizagem. Diante disto qual deve ser a postura pedagógica que os agentes culturais devem desempenhar nestes espaços? Analise as sentenças a seguir, e assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Os agentes culturais devem evitar envolver-se em processos administrativos, na preparação de exposições e comunicação das atividades nas quais estarão atuando. b) ( ) Os agentes culturais devem somente dedicar-se em realizar palestras e preparar os materiais ilustrativos ao público interessado em determinada atividade cultural. c) ( ) O agente cultural deve favorecer uma experiência de mediação, que pode ser compreendida como que desperte a sensibilidade e a cooperação entre o que está exposto com o outro que visita; e do outro ao que está no entorno. d) ( ) A postura de um agente cultural deve zelar por um certo distanciamento das obras de arte ou do patrimônio histórico e o público visitante, bem como de que os conhecimentos prévios e questionamentos espontâneos não deturpem a ideia e a intenção do artista e das obras. AUTOATIVIDADE 135 TÓPICO 2 ALTERNATIVAS METODOLÓGICAS UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Bittencourt (2005) discute que o desejo e a expectativa por mudanças nas atividades de ensino e aprendizagem entre professores e estudantes precisam ser cada vez mais significativas, satisfatórias e realmente contribuintes na trajetória de vida de ambos. Para nos aproximarmos destas questões se faz necessário compreender que a educação, o saber, os conteúdos, os métodos possuem historicidade, ou seja, são construídos historicamente e foram gradualmente incorporados e sedimentados no interior da sociedade. Desde a segunda metade do século XX, os métodos de ensino dos educadores vêm sendo revisados, criticados e refletidos, no sentido de promover uma espécie de renovação e ressignificação de todo o saber científico/acadêmico e escolar. Os anos de 1970 foram marcados pelo crescimento do uso de equipamentos audiovisuais nos espaços da sala de aula. A partir dos anos de 1980 ocorreu a elaboração e reformulação das matrizes curriculares, bem como o reconhecimento de que o público escolar era heterogêneo, oriundo de diferentes grupos etnicorraciais e condições socioculturais. O ensino de história caracterizou-se pelo uso do método dedutivo/ intuitivo, numa abordagem que parte do geral para o particular ou vice-versa, apresentando de forma ordenada e inquestionável os conteúdos dos mais próximos aos mais distantes na dimensão espacial e do mais distante ao mais próximo no que diz respeito à dimensão de tempo. Os métodos tradicionais que se utilizam somente de aula expositiva, livro didático, quadro, giz, lousa tem sido apontados como que estratégias passivas de abordar os conteúdos, pois estes podem não passar de meras informações, que serão repetidas mecanicamente. Esta estratégia acaba por centra-se apenas em preocupações de conteúdo e método e apresenta forte hierarquização entre professor e estudantes. Assim como sendo insuficiente no sentido de proporcionar uma formação que estimule a autonomia intelectual, bem como o pensamento crítico-reflexivo. Outra forte 136 UNIDADE 3 | METODOLOGIAS DO ENSINO DA HISTÓRIA crítica que os métodos tradicionais recebem é a de que a forma como ocorrem afirmam a ideia de que os estudantes não possuem conhecimentos prévios ou experiências de vida. Por outro lado Bittencourt (2005) alerta que muitas vezes no campo educacional impera a ideia de que se faz necessário “inventar a roda”, assim como recai uma espécie de mito somente o ‘novo’ é capaz de trazer verdadeiras mudanças na didática e metodologia escolar. Nos que é compreendido como tradicional residem muitos conteúdos, noções e concepções que são essenciais e primordiais na formação dos estudantes. Outra postura que é prudente que os profissionais da educação apresentem a preocupação de investigar, pesquisar e refletir sobre os possíveis significados dos processos de renovação metodológica, assim se tornará possível também evitar a confusão que existe entre inovações metodológicas e técnicas de ensino. 2 A PESQUISA NO ENSINO DA HISTÓRIA A prática da pesquisa no ensino de História é um fenômeno recente, no caso do Brasil, ela passa a ser discutida e introduzida no universo escolar a partir dos anos de 1990, até então restringia-se basicamente aos profissionais que atuavam nos espaços de ensino superior. O fim do regime militar e as novas tendências historiográficas (a História Local, História Oral, História Regional, Micro-História, a História do Cotidiano, a História do Tempo Presente). Movimento que foi reforçada com a realização de encontros de pesquisadores nos eventos regionais e nacionais da Associação Nacional de Professores Universitários em História/ANPUH, com a formação de GTs (grupos de trabalho e de estudos em torno de temáticas específicas), núcleos de pesquisa, nas semanas acadêmicas, seminários, congressos que são promovidos por instituições e órgãos públicos e privados voltados ao ensino e a pesquisa. Além destes fatores, existem aspectos entre o universo escolar e acadêmico que acabam por desfavorecer que a prática de pesquisa se instale e fortaleça nos espaços escolares. Segundo Tristão (2015), ocorre uma espécie de dicotomia, fomentada pela própria dinâmica do sistema educacional brasileiro, que não propicia condições para que os professores-historiadores (pesquisadores), atuem efetivando a prática de pesquisa junto aos seus estudantes; tais como a rigidez doscurrículos, dos planos de ensino e da oficialidade dos conteúdos a serem ministrados. Tristão (2015) aborda também que existe certa concepção em meio à academia e aos centros universitários, de que é autorizada somente a estes a produção do conhecimento histórico, e aos espaços escolares cabe somente o papel de aplicar os frutos dessas pesquisas. A autora sugere que para que sejam TÓPICO 2 | ALTERNATIVAS METODOLÓGICAS 137 2 A PESQUISA NO ENSINO DA HISTÓRIA superadas as dicotomias, se construa uma relação de diálogo colaborativo, envolvimento e participação mútua entre os dois âmbitos de atuação destes profissionais. Caro(a) acadêmico(a)! Ciente de como é o cenário da pesquisa em História na realidade educacional no país, é o momento de estudar e pensar como é possível superar o quadro que foi diagnosticado acima, e avançar no sentido de fortalecer a estratégia de pesquisa no ensino da História nas mais diversas instâncias do conhecimento. 2.1 O USO DE DOCUMENTOS Mas você deve se perguntar, o que é e o se pode considerar como documento? Trata-se de uma conceituação nada fácil de se fazer, a partir dos estudos do grupo de historiadores da Escola dos Annales passou-se a empregar uma abordagem mais globalizante e ampliada do que vem a ser um documento. Para aqueles estudiosos que faziam crítica à noção de documento/ monumento que até então era atribuída aos documentos, pode ser considerado documento tudo o que é vestígio do passado, tudo o que serve de testemunho da experiência humana, tais com um texto escritos, documentos de natureza iconográfica e cinematográfica, testemunhos registrados, objetos do cotidiano, elementos folclóricos e das tradições. Neste momento, para fins didáticos em processo de ensino e aprendizagem nos espaços das salas de aula, procura-se fazer orientações aos trabalhos de pesquisas e estudos exemplos de documentos como certidões, cartas, inventários, testamentos, discursos, passaportes, vistos, salvo condutos, mapas e rotas, atas, certificados, boletins, títulos, contratos, tratados, cédulas, moedas, fotografias, editais, leis, constituições, leis orgânicas, carteiras de trabalho, de vacinação, de habilitação, convênios, entre outros. O documento não é qualquer coisa que fica por conta do passado, é um produto da sociedade que o fabricou segundo as relações de forças que o produziram. Le Goff (1990) nos adverte que só a análise do documento enquanto ‘monumento’ permite à memória coletiva recuperá-lo e ao historiador usá-lo cientificamente, isto é, com pleno conhecimento de causa. E neste contexto, o autor problematiza que quando, em outros tempos, somente a arqueologia de vestígios, registros e descrições das sociedades tendiam à história, nos tempos contemporâneos, o exercício da arqueologia se dá para com a descrição intrínseca do monumento. Michael Foucault (apud LE GOFF, 1990) discute que a história, na concepção que ganhou ênfase no século XIX em especial pelo movimento do historicismo, dedicava-se a 'memorizar' os monumentos do passado, e a transformá-los em documentos e em obter informações por si mesmos. 138 UNIDADE 3 | METODOLOGIAS DO ENSINO DA HISTÓRIA A crítica que é feita pela historiografia contemporânea é a de que o documento não é inócuo, resulta de uma montagem, consciente ou inconsciente, da história, da época, da sociedade que o produziu, mas também das épocas sucessivas durante as quais continuou a viver, ser emitido e utilizado. Os estudos e trabalho com documentos históricos mais recentes apontam no sentido de que seja verificada a autenticidade, identificar a vigência e regularidade em que foram emitidos, contextualizá-los, isolá-los, reagrupá-los, estabelecer relações, compreendê-los em conjunto, e principalmente, e submetê- los a exercícios críticos e reflexivos. Le Goff (1990) já não trata de fazer uma seleção de monumentos, mas sim de considerar os documentos como monumentos, ou seja, colocá-los em série e tratá-los de modo quantitativo; e, para além disso, inseri-los nos conjuntos formados por outros monumentos; tendo em conta o fato de que todo o documento é ao mesmo tempo verdadeiro e falso (verdadeiro/falso), trata-se de pôr à luz as condições de produção (modo de produção, produção/distribuição) e de mostrar em que medida o documento é instrumento de um poder (poder/autoridade). Cellard (2008) destaca que os documentos precisam receber uma espécie de tratamento e identificação preliminar quando são tomados ao estudo, que são contexto, autoria, autenticidade/confiabilidade, natureza do documento, conceitos/palavras-chave, conjunto teórico e institucional à que pertencem; para em seguida, munidos dos dados preliminares e proceder a análises, interpretações e explicações de conteúdos de causa e efeito propriamente ditos. As análises podem levar em consideração a escrita e grafia vigentes em uma determinada época, trabalhar com fragmentos de texto podem ajudar a evidenciar tais aspectos, bem como facilitar a comparação com outro documento de mesma natureza que foi emitido em outra época. Podem ser levados em consideração o tempo e âmbito de vigência, instâncias e autarquias a que pertencem, a regularidade com que foram emitidos, os custos que possuíam, os requisitos necessários para obtê-los, outros documentos que a partir destes foram criados, relacioná-los ao momento histórico em que existiram e as transformações e adaptações que sofreram. Atividades a partir de documentos nos quais se encontram dados de épocas passadas podem favorecer a reconstrução das experiências de cidadania e vida pública em outras épocas e quando comparados a outras épocas e ao momento presente podem gerar novos conhecimentos, bem como identificar a necessidade de novos e outros para as situações atuais, bem como vislumbrar situações futuras. TÓPICO 2 | ALTERNATIVAS METODOLÓGICAS 139 3 O ENSINO ATRAVÉS DE PROJETOS DE TRABALHO Bittencourt (2005) aborda que os projetos devem estar profundamente relacionados/articulados aos interesses e desejos dos estudantes e comprometidos no alcance de resultados/alternativas ou na apresentação de produções, precisam avançar, dar um passo à frente de uma situação, problema ou tema, não podem somente constatar ou explicar algo que ocorre. Entre os elementos fundamentais de projetos tem-se: • o tema (a partir dos interesses dos estudantes, o professor desempenha um papel de orientador, mediador facilitador); • os problemas (do contexto de experiências ou expectativas dos estudantes); • as justificativas (o porquê da escolha do tema); • os objetivos (o que se quer fazer, realizar, resolver, aonde se quer chegar); • a metodologia de desenvolvimento (como será feito, que disciplinas/matérias estarão envolvidas, que conteúdos serão abordados, que atividades, quais os passos do trabalho); • o cronograma de execução (tempo e ações); • os recursos humanos (professores, estudantes, funcionários e demais envolvidos); • recursos materiais à realização do projeto; • as fontes, a bibliografia/referências e a avaliação. Pode ser que os objetivos aos quais o professor se propõe sejam diferentes dos que os estudantes possuem, ocorre que muitas vezes os objetivos não coincidam, cabe ao professor orientar e auxiliar com clareza, na identificação, formulação e apresentação dos mesmos. Experiências de ensino e aprendizagem a partir de projetos de trabalho pode significar a superação da concepção de “tábula rasa” para com história de nossos estudantes enquanto sujeitos históricos, capazes de transformar a realidade na qual se encontram (individual e coletiva), e não meramente receptores de conhecimentos ou espectadores da performance de seus professores, mas sujeitos conscientes, pensantes, criativos e transformadores da realidade. Bittencourt (2005) ressalta que para a realização dos projetos de trabalho além de se levar em conta as experiências dos estudantes, precisam estar atentos aos saberes da sociedade de uma maneira geral,e que possibilitem também fornecer elementos para que se repense, transforme e ressignifique o pensar e agir histórico dos indivíduos. 140 UNIDADE 3 | METODOLOGIAS DO ENSINO DA HISTÓRIA 4 MAPAS CONCEITUAIS EM HISTÓRIA Os mapas conceituais, se prudentemente empregados, possibilitam compreender as relações hierárquicas que existem entre os conceitos, bem como fomentam negociações de significados entre os indivíduos que os elaboram. Os mapas conceituais possuem como ponto de partida os conhecimentos, representações e conceitos que os estudantes já possuem quando iniciam uma etapa de estudos. Estes aspectos fornecem a base para que sejam identificados os níveis de conhecimento que os estudantes comportam bem como que não ocorram compreensões deformadas dos novos saberes. O uso de mapas conceituais pode ser considerado como representações externas dos esquemas cognitivos e possibilitam visualizar as construções conceituais que os estudantes elaboram ao longo dos processos de ensino e aprendizagem; quando em propriedade dos estudantes permitem reconciliar e diferenciar conceitos; em propriedade dos professores como instrumentos que possibilitam avaliar os significados que os estudantes estão atribuindo aos conceitos que estão sendo abordados (LIMA, 2001). Por sua vez não podem ser entendidos como componentes meramente técnicos subordinados puramente aos conteúdos ou objetivos dos planos de aula; é necessário atribuir-lhes as referências do contexto em que serão introduzidos bem como a complexidade que comportam em termos de conceitos e noções teóricas. Para tanto devem estar centrados nas necessidades dos estudantes e não nas do professor, que não solicitem somente a memorização de informações e que mobilize habilidades somente intelectuais, mas que desenvolvam dimensões e percepções das relações humanas. Observe nas imagens a seguir como o conceito/noção ‘política’ pode ser abordada dentro de diferentes perspectivas e níveis, no caso o primeiro que contempla as formulações teóricas e o segundo que contempla o campo prático da realização da ‘política’. TÓPICO 2 | ALTERNATIVAS METODOLÓGICAS 141 FIGURA 6 – MAPA CONCEITUAL TEÓRICO DE POLÍTICA FONTE: Política do Brasil. Disponível em: <http://politica-do-brasil.blogspot.com.br/p/mapa- conceitual.html>. Acesso em: 22 mar. 2015. FIGURA 7 - MAPA CONCEITUAL DA APLICAÇÃO PRÁTICA DA POLÍTICA FONTE: Nossos mapas conceituais. Disponível em: <http://brincandocomasletras.pbworks. com/w/page/11504175/Nossos%20Mapas%20Conceituais>. Acesso em: 22 mar. 2015. http://politica-do-brasil.blogspot.com.br/p/mapa-conceitual.html http://politica-do-brasil.blogspot.com.br/p/mapa-conceitual.html 142 UNIDADE 3 | METODOLOGIAS DO ENSINO DA HISTÓRIA As partes componentes de um mapa conceitual são o conceito, a proposição e o conectivo; suas características são a realizar seleções em forma de síntese, e a de provocar um certo impacto visual. Quando da aplicação do mapa conceitual ele deve transcorrer no sentido de que os objetivos primordiais sejam os de fazer conexão com os conhecimentos dos estudantes, incluir conceitos mais relevantes, diferenciar e ampliar progressivamente os diferentes significados, e por fim reconciliar e reintegrar numa totalidade os conhecimentos construídos (LIMA, 2001). 5 A HISTÓRIA PROBLEMA E O MÉTODO DIALÉTICO A lógica formal de abordagem do conhecimento apresenta, explica, demonstra e justifica determinado tema, conteúdo ou fenômeno. A abordagem problematizada e a dialética podem ajudar a romper com a aparente estabilidade e linearidade que os conteúdos geralmente apresentam. A formulação de um contexto de problemas com relação a um objeto pode dar início ao processo de surgimento de novas perguntas, obstáculos, aprofundamentos, complexidades, inter-relações, variáveis em busca de respostas e compreensões mais completas e amplas. Primordialmente se faz necessário saber formular problemas. No universo acadêmico não é diferente, os problemas não são de origem espontânea, são percebidos e apresentados pelos indivíduos, aliás, é exatamente a formulação de problemas que move o verdadeiro espírito científico. Ou seja, se não há pergunta/ problema não pode haver conhecimento científico. Por outro lado, nada é gratuito, nada é evidente, salvo a busca pela verdade, que deve ser a grande motivação de qualquer problema, a pergunta. Bittencourt (2008) apresenta que uma estratégia também pode ser a de se utilizar o método dialético no ensino da História. Este pressupõe que se identifique um objeto de estudos e seja situado e abordado como um problema a ser desvendado a partir de elementos e critérios de análise, que levam em consideração prós e contras, sim e não, positivo e negativo, convergência e divergência, tese e antítese, para depois voltar a ser reunido e entendido como um todo, no sentido de gerar uma síntese final. No sentido de efetivar os objetivos de História Problema e método dialético tem-se a estratégia de júri simulado que pode apresentar bons resultados. Observe a seguir como é sugerida a estruturação de um júri simulado. TÓPICO 2 | ALTERNATIVAS METODOLÓGICAS 143 5.1 A EXPERIÊNCIA DE JÚRI SIMULADO O júri simulado consiste em uma atividade que simula a realização de um julgamento em um tribunal judiciário; é importante que se escolha um tema que é de interesse e faça parte da expectativa dos estudantes, que esteja em discussão atualmente ou que seja um tema que vem sendo discutido há muito tempo e que ainda não recebeu um direcionamento político ou social concreto ou conveniente. Temas como a reforma agrária, o separatismo de estados brasileiros, a privatização de empresas e serviços públicos/do governo, a participação ou não do Brasil em conflitos internacionais, pena de morte, os regimes políticos (república/ democracia, monarquia, ditadura) podem render bons júris simulados. A seguir procura-se apresentar um exemplo de como o júri simulado para o tema da reforma agrária pode ser proposto, organizado e conduzido: ESCOLA: MATÉRIAS/DISCIPLINAS: PROFESSOR: TURMA: CONTEÚDOS: TEMA: REFORMA AGRÁRIA OBJETIVOS: • Estudar e debater o tema trajetória da terra no Brasil, numa perspectiva histórica e social e as experiências/possibilidades de reforma agrária. • Relacionar os aspectos de distribuição de terras através das capitanias hereditárias, sesmarias, lei de terras devolutas, Incra e Reforma Agrária. • Identificar a formação econômica, política e social do país e a riqueza oriunda das atividades agrícolas. • Abordar os conceitos e temas de minifúndio, latifúndio, plantation, monocultura, policultura, mercantilismo, escravidão, revolução verde, êxodo rural, miséria, desemprego, urbanização, agricultura familiar, agronegócio, desmatamento, transgênicos, entre outros. • Oportunizar uma experiência de debate simulado na qual os estudantes se envolvam e formularem suas próprias concepções e posturas diante dos temas abordados. • Exercitar a expressão, retórica, articulação entre o raciocínio e a arguição diante de um tema e/ou causa. • Desenvolver o senso crítico, de complexidade e de diversidade da formação histórica do Brasil. ESTRUTURAÇÃO DAS FUNÇÕES E ATRIBUIÇÕES COORDENADOR(A) Responsável por dirigir e coordenar o andamento do debate. COMISSÃO FAVORÁVEL (2 estudantes) A partir de dados e estatísticas, formular e apresentar argumentos em defesa da Reforma Agrária no Brasil. 144 UNIDADE 3 | METODOLOGIAS DO ENSINO DA HISTÓRIA COMISSÃO CONTRÁRIA (2 estudantes) Fundamentados em estatísticas, dados, teses, apresentar argumentos que sejam contrários ao movimento de Reforma Agrária no Brasil. INTEGRANTES DE APOIO (4 estudantes) Distribuídos a cada uma das comissões, um favorável e outro contrário, para auxiliar cada comissão a preparar, reforçar os argumentos para e ao longo das defesas. Orientação: durante o debate, acompanhará em silêncio, somente encaminhando sugestões por escrito. CORPO DE JURADOS (5 estudantes) Ouvirátodos os argumentos e a seguir será responsável por proferir a sentença: COMISSÃO VENCEDORA e com JUSTIFICATIVA. Critérios à elaboração da sentença/justificativa: preparação prévia das comissões, qualidade dos argumentos, desempenho no debate, postura respeitosa entre ambos, imparcialidade na elaboração da sentença. PÚBLICO GERAL (todos os demais estudantes) Preparar a sala/ambiente, avaliar e registrar com fotos e por escrito (na forma de ata e/ou avaliação geral) a sessão do júri/debate. CRITÉRIOS PARA ELABORAÇÃO DOS RELATÓRIOS Preparação prévia, qualidade das pesquisas e dos argumentos, desempenho no debate, atuação das comissões, atuação do júri e coerência da sentença; cumprimento dos horários, postura respeitosa, observações gerais e sugestões. DESENVOLVIMENTO/SISTEMÁTICA 1- Coordenador apresenta o assunto e a questão a ser trabalhada, informa as principais orientações aos participantes, prepara o debate e abre a sessão (3-5 min). 2- Comissão favorável inicia com a apresentação da posição (5-8 min). 3- Comissão contrária faz a apresentação de sua posição (5-8 min). 4- Comissão favorável pergunta/questiona a comissão contrária (2 min). 5- Comissão contrária faz a defesa (3 min). 6- Comissão contrária pergunta/questiona a posição favorável (2 min). 7- Comissão favorável faz a defesa (3 min). 8- Momento de perguntas e respostas do público diretas às comissões: (5 min). 9- Momento de resposta para cada comissão: (5-10min). 10- Fala final de um dos integrantes da equipe favorável e um dos integrantes da equipe contrária (2 min para cada um). 11- Corpo de jurados, juntamente com o coordenador/juiz, decidem sobre as duas argumentações (10 min). 12- O público/comissões, comentam o debate, destacando os pontos positivos e os falhos na argumentação. 13- Leitura e justificativa da sentença do corpo de jurados pelo coordenador/juiz (2 min). * Sujeito a alterações conforme o desenvolver da atividade. TÓPICO 2 | ALTERNATIVAS METODOLÓGICAS 145 EQUIPE DE APOIO/ SUPORTE (3 estudantes) • Fotografar, filmar, cronometrar o desenvolvimento fornecer suporte ao andamento do debate. REFERÊNCIAS Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária. Disponível em: <http://www. incra.gov.br/index.php/reforma-agraria-2/questao-agraria/numeros-da-reforma- agraria>. Acesso em: 7 mar. 2015. Movimento sem Terra. Disponível em: <http://www.mst.org.br/taxonomy/term/692>. Acesso em: 7 mar. 2015. Portal do Agronegócio: Disponível em: <http://www.portaldoagronegocio.com.br/>. Acesso em: 7 mar. 2015. Rural Brasil. Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=en4PBZ1Wzno>. Acesso em: 7 mar. 2015. La Via Campesina Internacional. Disponível em: <http://viacampesina.org/en/>. Acesso em: 7 mar. 2015. Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar da Região Sul do Brasil. Disponível em: <http://www.fetrafsul.org.br/>. Acesso em: 7 mar. 2015. Procure reservar duas ou três aulas seguidas à realização do debate, comprometa o público em elaborar e entregar relatórios (individual ou em dupla). Muitas vezes, o tema escolhido para o debate pode apresentar um caráter de vitória ou derrota já anunciado antes mesmo de o debate ser realizado, mas reforce a atividade no sentido de que o objetivo não reside em ganhar ou perder, mas no exercício de estudos, pesquisas, exercício argumentativo/debatedor em nível respeitoso. Procure construir a proposta de debate conjuntamente com outros professores de disciplinas em que a temática é recorrente. Procure envolver os estudantes também na organização, além da realização do júri simulado. Ofereçam o debate a outras turmas, convidem a comunidade escolar e demais indivíduos que possuam interesse e possam aprofundar, enriquecer e tornar relevante a atividade. 6 O USO DE HISTÓRIA EM QUADRINHOS, CHARGES E CARTUNS A linguagem pela qual a Histórias em Quadrinhos (HQs), as charges e cartuns são produzidos permitem que se faça exercícios comparativos e diferenciadores de outras linguagens e expressões artísticas tais como a poesia, as crônicas, os textos dissertativos, obras de arte. Podem ser ferramentas de contextualização, ilustração e síntese de momentos, fatos, fenômenos políticos, sociais, econômicos e culturais de diferentes épocas, e ao mesmo tempo favorecem experiências prazerosas e criativas de leitura. http://www.incra.gov.br/index.php/reforma-agraria-2/questao-agraria/numeros-da-reforma-agraria http://www.incra.gov.br/index.php/reforma-agraria-2/questao-agraria/numeros-da-reforma-agraria http://www.incra.gov.br/index.php/reforma-agraria-2/questao-agraria/numeros-da-reforma-agraria http://www.mst.org.br/taxonomy/term/692 http://www.portaldoagronegocio.com.br/ http://www.youtube.com/watch?v=en4PBZ1Wzno http://viacampesina.org/en/ http://www.fetrafsul.org.br/ 146 UNIDADE 3 | METODOLOGIAS DO ENSINO DA HISTÓRIA Existe a possibilidade também de serem elaborados e produzidos juntamente com os estudantes nos momentos em sala de aula, tanto de modo individual ou coletiva, na qual eles podem estender e explorar os horizontes criativos, inserindo o humor, a sátira, a ironia; circularem pelo campo da livre imaginação e ficção. Mas como toda e qualquer expressão e produção cultural e artística, as HQs também possuem sua trajetória histórica. Nesse sentido, Júnior e Rodrigues (2013) apresentam que as histórias em quadrinhos tenham sido iniciadas pelo norte-americano Richard Outcaut por volta de 1895, quando lançou Yellow Kid (Menino Amarelo). No Brasil, as criações de Outcault repercutiram por volta de 1905, com a criação do personagem Chiquinho, lançado pelo almanaque infantil O Tico-Tico, que por sua vez ficou reconhecida como a primeira história em quadrinhos de circulação no Brasil. FONTE: Disponível em: <http://www.unicamp.br/iel/memoria/Ensaios/RepublicaVelha.htm>. Acesso em: 1 abr. 2015. FIGURA 8 – AVENTURAS DE CHIQUINHO. ALMANAQUE D´O TICO TICO Junior e Rodrigues (2013) apresentam que o personagem Chiquinho apresenta fortes traços de uma criança jovem norte-americana, que conta com Benjamim, seu amigo de suas aventuras. A criação das histórias ‘As aventuras de Chiquinho’ contaram com a colaboração do desenhista italiano Angelo Agostini (1843-1910), que residiu no Brasil ao longo do segundo reinado. Porém os autores alertam que existiam criações anteriores do mesmo desenhista, como é o caso do personagem “Nhô Quim” das histórias “As cobranças” e que havia sido publicada por volta de 1869, e que estas representam as primeiras histórias em quadrinhos brasileiras. http://www.unicamp.br/iel/memoria/Ensaios/RepublicaVelha.htm TÓPICO 2 | ALTERNATIVAS METODOLÓGICAS 147 FIGURA 9 – NHO-QUIM: AS COBRANÇAS FONTE: Sala de Artes visuais. Disponível em: <https://saladeartesvirtual.wordpress.com/ category/9o-ano/>. Acesso em: 1 abr. 2015. Porém as HQs ganham grande destaque e espaço nos meios de comunicação a partir das produções de Maurício de Sousa, com da Turma da Mônica e do cartunista Ziraldo com a Turma do Pererê, na segunda metade do século XX, estimulando outros quadrinistas a inventarem outros personagens e as consolidarem no cenário nacional. Ao longo dos anos de regime militar (1964-1985), as HQs assumiram o papel de denúncia do contexto de repressão e da censura à liberdade de expressão pela qual o país passava, conforme ilustra a figura a seguir: FIGURA 10 – ZIRALDO SOBRE O ATO INSTITUCIONAL Nº 5 DE 1968 https://saladeartesvirtual.wordpress.com/category/9o-ano/ https://saladeartesvirtual.wordpress.com/category/9o-ano/ 148 UNIDADE 3 | METODOLOGIAS DO ENSINO DA HISTÓRIA FONTE: Portal do Professor/MEC. Disponível em: <http://portaldoprofessor.mec.gov.br/ fichaTecnicaAula.html?aula=31930>. Acesso em: 1 abr. 2015. Nas últimas décadas do século XX, com a abertura política no sentido da democracia, da liberdade de expressão, com os movimentos de renovações em termos de tendências historiográficas, em especial, os que estudavam a produção literária, jornalística e a produção cultural do Brasil,as histórias em quadrinhos ganham ampla utilização e prestígio nos espaços no interior dos meios de comunicação em meio a programas e propagandas em canais televisivos, jornais, revistas, fanzines, entre outros. Júnior e Rodrigues (2013) defendem a ideia de que os usos dos quadrinhos nos espaços de sala de aula em meio a experiências de ensino e aprendizagem, constituem uma linguagem capaz de desenvolver o hábito e o interesse dos estudantes pela leitura, além de fomentar o desenvolvimento de atitudes críticas e habilidades criativas. HQs podem englobar ao mesmo tempo várias disciplinas, tais como: história, português, geografia, entre outras, e possibilitar maior compreensão do conteúdo de determinada área do conhecimento. Como é o caso da charge de Aquino, na sua personagem Mafalda, que mobiliza os conhecimentos e conteúdos específicos do Renascimento e da era das grandes navegações, na época moderna, observe o conteúdo dos diálogos: FIGURA 11 – CHARGE DE QUINO FONTE: Quino. Toda a Mafalda. São Paulo: Martins Fontes, 1993. p. 114. http://portaldoprofessor.mec.gov.br/fichaTecnicaAula.html?aula=31930 http://portaldoprofessor.mec.gov.br/fichaTecnicaAula.html?aula=31930 TÓPICO 2 | ALTERNATIVAS METODOLÓGICAS 149 Júnior e Rodrigues (2013) destacam ainda que as principais vantagens de se utilizar HQs, charges e cartuns na transposição do conhecimento histórico, acabam por familiarizar e desenvolver o hábito da leitura; enriquecer o vocabulário e o repertório dos estudantes; a linguagem própria que apresentam instiga o leitor a pensar e imaginar; bem como pode ser empregada em qualquer nível de escolaridade e para qualquer tema; ou seja, possuem um caráter globalizador, generalizante e sintetizador, observe a figura: FIGURA 12 – VIOLÊNCIA É SEMPRE VIOLÊNCIA FONTE: Jornal de Brasília. Disponível em: <http://www.jornaldebrasilia.com.br/charges/>. Acesso em: 20 abri 2015. O tema em evidência nesta charge é o da repressão violenta, praticada tanto por indivíduos/cidadãos como representantes do Estado/governo, numa lógica de revanche de opressor e oprimido, que evidencia a contradição de que quando é aplicada por representantes do Estado/governo se caracteriza como um ato “civilizacional” legítimo e aceito pela sociedade, e quando praticada por indivíduos da sociedade se caracteriza como barbárie. A charge ainda nos leva a uma mensagem mais profunda que é o fato de que em ambas as situações ocorre um ato de violência, e violência sempre será violência, um ato de desrespeito aos direitos humanos, independentemente de quem a pratica. Por outro lado, as HQs, as charges e cartuns, podem articular temas da realidade e momento contemporâneo, como a questão da corrupção, com os conhecimentos e vivências dos estudantes, envolvendo e relacionando os mais diversos grupos, espaços e dimensões de ocorrência do mesmo problema. Observe a figura que segue: http://www.jornaldebrasilia.com.br/charges/ 150 UNIDADE 3 | METODOLOGIAS DO ENSINO DA HISTÓRIA FIGURA 13 – CORRUPÇÃO FONTE: Jornal de Brasília. Disponível em: <http://www.jornaldebrasilia.com.br/charges/>. Acesso em: 20 abri 2015. Trabalhar com HQs, charges, cartuns possibilita realizar atividades de caráter interdisciplinar e transversal contemplando temas que perpassam as matérias/disciplinas tanto de História, Literatura Portuguesa e Artes, Sociologia, Filosofia. Pode estimular os estudantes a desenvolverem a competência de representar e comunicar (comunicação escrita, gráfica e pictórica). Júnior e Rodrigues (2013) contribuem que quando a atividade é a de elaborar HQs, charges, cartuns é possível propor que seja realizada em dupla, em que um estudante seja responsável por elaborar o roteiro da história em quadrinhos e outro, por desenhá-la; ou em equipe: um pode escrever, outro fazer o desenho a lápis e passar para outro finalizar os desenhos com nanquim ou canetinha preta; e outros podem ainda se incumbir dos balões, das letras, e de colorir. Enfim as possibilidades são diversas, proporcione isto a seus estudantes. No sentido de favorecer a efetivação de atividades de ensino e aprendizagem com HQs, charges e cartuns nos espaços escolares sugere-se a seguir alguns aspectos orientadores no que diz respeito a atividades de análises bem como de criação dos quadrinhos propriamente ditos, observe: http://www.jornaldebrasilia.com.br/charges/ TÓPICO 2 | ALTERNATIVAS METODOLÓGICAS 151 ROTEIRO DE ANÁLISE DE HQS, CARTUNS E CHARGES 1. Quem é(são) o(s) autor(es)? 2. Quais são os principais elementos gráficos (desenho, pintura, diálogos, expressões, diálogos, onomatopeias) que foram utilizados? 3. Quando foi produzida? A que contexto histórico, político, social pertence? 4. Onde foi produzida? 5. Quais são os principais personagens? Como são apresentados? 6. A quem se destina? Para quem fala? 7. Qual é a sua finalidade ou a mensagem geral? 8. A temática desenvolvida suscita polêmica, conflito, contradições, reflexão, ou somente entretenimento e diversão? ELEMENTOS À ELABORAÇÃO DE HQS, CHARGES E CARTUNS 1. Definir o tema/problema central da história. 2. Elaborar um roteiro/enredo pautado em início, meio e fim, procurando definir inicialmente quantas imagens e cenas serão necessárias para expressar a ideia/ mensagem. 3. Rascunhar os personagens/protagonistas (explorar os aspectos de diferenciação entre heróis, vilões, figuras secundárias cômicas ou de personalidade forte entre outros). 4. Criar um cenário (explorar elementos gráficos, onomatopeias, expressões de impacto, movimento, ação) no qual a trama se desenvolverá. 5. Evidenciar as expressões faciais dos personagens (levar em consideração emoções/sentimentos, momentos de tensão, surpresas, e desfecho da narrativa). 6. Viabilizar alternativas de apresentação, exposição, divulgação ou publicação. 152 RESUMO DO TÓPICO 2 Ao longo do Tópico 2 foram abordados conteúdos, temas e assuntos que podem ser sistematizados nos seguintes pontos: • As tendências historiográficas no Brasil dos anos de 1980 passaram a apresentar a História Local, História Oral, História Regional, Micro-história, a História do Cotidiano, a História do Tempo Presente o possibilitou que temas, problemas, fontes e sujeitos históricos até então não abordados pudessem fazer parte do rol dos conhecimentos históricos. • Os estudos e trabalho com documentos históricos requerem alguns cuidados metodológicos no sentido de que seja verificada a autenticidade, identificar a vigência e regularidade em que foram emitidos, contextualizá-los, isolá- los, reagrupá-los, estabelecer relações, compreendê-los em conjunto, e principalmente, submetê-los a exercícios críticos e reflexivos. • O uso de mapas conceituais na metodologia do ensino da história possibilitam visualizar as construções conceituais que os estudantes elaboram ao longo dos processos de ensino e aprendizagem; aos estudantes permitem reconciliar e diferenciar conceitos e significados; ao professor podem servir como instrumentos avaliativos. • A história problema pode ajudar a romper com a aparente estabilidade e linearidade que os conteúdos geralmente apresentam, ela permite dar início ao processo de surgimento de novas perguntas, obstáculos, aprofundamentos, complexidades, inter-relações, variáveis em busca de respostas e compreensões mais completas e amplas. No universo acadêmico os problemas não são de origem espontânea, são percebidos e apresentados pelos indivíduos, e é a exatamente a formulação de problemas que move o verdadeiro espírito científico. • O uso de histórias em quadrinhos, charges e cartuns como estratégias didáticas podem favorecer a contextualização, a ilustração e síntese de momentos, fatos, fenômenos políticos, sociais, econômicos e culturais de diferentes épocas, e, ao mesmo tempo, proporcionar experiências prazerosas e criativas de leitura. 153 AUTOATIVIDADE 1 Analise a charge de Ziraldo para o Menino Maluquinho, em meio a uma eleição de representantes de suaturma: Agora procure responder às seguintes questões: 1. Quando foi produzida? A que contexto histórico, político, social e cultural pertence? 2. Quais são os principais personagens? Como são apresentados? 3. A quem se destina? Para quem fala? 4. Qual é a sua finalidade? A temática desenvolvida nelas suscita polêmica, conflito, contradições, reflexão, diversão? 2 Retome os estudos que foram feitos sobre mapas conceituais e procure elaborar um mapa conceitual a partir do conceito/noção de CIDADANIA, levando em consideração a experiência de cidadania de Atenas, cidade da Grécia Antiga: 154 155 TÓPICO 3 AS POSSIBILIDADES DOS ESPAÇOS NÃO ESCOLARES UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO O desafio que é lançado neste momento é o de realizar atividades de ensino e aprendizagem para além dos espaços escolares convencionais, que são a sala de aula, os laboratórios, as quadras, as bibliotecas que se restringem aos domínios de cada unidade escolar propriamente dita. A ideia é entrar em contato, visitar, ensinar e aprender com os mais diversos espaços no interior das comunidades e cidades, como museus, praças, centros históricos, ou sítios arqueológicos, em regiões específicas de acesso. De maneira ampla, as atividades que podem envolver os espaços, os objetos, as expressões histórico-culturais tendo em vista a ideia de se constituir em processo de ensino e aprendizagem pelo viés da educação patrimonial. Fonseca (2003) apresenta que o estudante pode deparar-se com a história ao sair de casa, dobrando a esquina e descendo a rua, pode ouvir os seus ecos no mercado, advinda das memórias dos antigos moradores, ler o grafite nas paredes, seguir suas pegadas no campo, nos quintais, nas construções, nos monumentos, nos nomes das ruas, dos espaços públicos e privados. Discussões sobre o patrimônio histórico e cultural tem ganhado ênfase nos últimos anos em meio a um cenário em que os espaços públicos que reúnem elementos da de sobrevivência, expressão artística e cultural, de memória e identidade dos povos, e muitas vezes acabam sendo alvos de ataques e vandalismos tanto por grupos de terrorismo ou indivíduos que se sentem injustiçados pelos governos pelas instituições que mantêm tais espaços. O trabalho principal da educação patrimonial consiste em ler e problematizar as evidências do passado que se encontram e persistem no presente, e a partir delas obter conhecimentos tecer reflexões sobre a história humana. Uma das justificativas que recaia à educação patrimonial é o fato de muitas vezes os indivíduos não se reconhecem/identificam e não se sentem participantes/ constituidores dos espaços e locais que são apresentados como exemplares e referência histórico-cultural de um povo, de uma sociedade e nação. Através de estudos que se dedicam a exemplares do patrimônio histórico e cultural pode-se realizar uma espécie de “alfabetização cultural” em que o indivíduo é levado a fazer leitura e estabelecer relações mais próximas com o UNIDADE 3 | METODOLOGIAS DO ENSINO DA HISTÓRIA 156 mundo que o rodeia e no qual está inserido, possibilitando que ele se reconheça como participe, construtor/elaborador criativo, melhorando assim sua autoestima e a dos demais indivíduos que contribuíram para tal; reconhecer e valorizar a cultura brasileira nos aspectos de identidade e diversidade e pluralidade. 2 SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS FIGURA 14 - ARTEFATOS INDÍGENAS ORIUNDOS DE SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS FONTE: Disponível em: <http://www.consciencia.org/origens-dos-indigenas-do-brasil>. Acesso em: 31 mar. 2015. Estudos arqueológicos pretendem recuperar informações de sociedades e indivíduos que não contavam ou não restaram registros escritos, que foram tradicionalmente denominados de pré-história e mais recentemente como sociedades ágrafas, encontram-se depositados em locais que foram utilizados como sobrevivência e coexistência ou na oralidade das gerações que as sucederam. O fator de não existirem registros escritos representa um grande e fascinante desafio aos objetivos de pesquisa e ao processo de aprendizagem, os estudiosos e estudantes precisam exercer o papel e funções de detetives, cujos métodos levam em consideração vestígios, pistas, pegadas, marcas, sinais que indicam a existência humana num determinado espaço e local. Paira uma espécie de fascínio com relação à arqueologia, os estudos e possibilidades de descobertas que a arqueologia pode proporcionar. Horta (1990) apresenta que as principais evidências que são possíveis de encontrar de que existe um sítio arqueológico são: http://www.consciencia.org/origens-dos-indigenas-do-brasil TÓPICO 3 | AS POSSIBILIDADES DOS ESPAÇOS NÃO ESCOLARES 157 2 SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS • artefatos: qualquer objeto feito, como instrumentos de trabalho, de caça e pesca, de música ou ritual, brinquedos, vasilhas, utensílios e peças da indumentária. • estruturas: construções tais como casas, abrigos, depósitos e recipientes para guardar alimentos e grãos, templos e igrejas, escolas, colégios, centros administrativos e de governo, fortificações, pontes, estradas, observatórios e locais de sacrifício entre outros. • escofatos: entendidos como elementos da natureza usados pelo homem na realização de suas obras e necessidades de sobrevivência, tais como ossos, conchas, escamas, cascas, sementes, fibras, carvão, pedras, penas, resinas, entre outros. Horta (1990) apresenta que qualquer pessoa pode encontrar vestígios de um sítio arqueológico, e alerta que o trabalho de escavação e investigação precisa ser acompanhado e orientado por algum arqueólogo, pois tentar escavar ou explorar sem conhecimento e uso de métodos apropriados podem facilmente comprometer as informações que contém. O arqueólogo possui a percepção e o conhecimento que de um montinho de lascas ou riscos em pedras é possível obter um sem número de informações que para os demais indivíduos passariam desapercebidos e sem o menor significado. O local onde estes materiais se encontram é de suma importância para que se possa compreender o contexto e conjunto de que faz parte, portanto, oriente os estudantes que quando estiverem diante destes materiais que não tentem removê- los e que interfiram o menos possível e que procurem entrar em contato com os setores de patrimônio histórico e cultural mais próximos. A sugestão de atividade que se faz é que se exercite a compreensão de evidências culturais a partir de objetos do próprio cotidiano. PRIMEIRO PASSO: pode-se apresentar aos estudantes ou solicitar que eles providenciem um objeto qualquer de cerâmica ou louça comum (xícara, prato, bule, pote, caneca, vaso, entre outros), que se encontra quebrado em pequenos pedaços. SEGUNDO PASSO: que o objeto seja identificado, para com os materiais empregados, vestígios de decoração, e forma dos fragmentos. Escolha um dos fragmentos como estruturador da identificação e dos estudos (alça, tampa, cabo, fundo, bicos, redutores, bordas) e repita o exercício com as demais partes. TERCEIRO PASSO: repetir o exercício com os demais fragmentos. Sugira que os estudantes montem uma ficha para o objeto assim como o desenhem no sentido de formar um quebra-cabeça para reconstituir o objeto na totalidade. UNIDADE 3 | METODOLOGIAS DO ENSINO DA HISTÓRIA 158 QUARTO PASSO: levantar hipóteses e avançar nos estudos e pesquisas de como o objeto era utilizado quando foi criado, como não soubessem como ele existe e é utilizado em nossa época; por fim, os estudantes podem socializar com os demais colegas os resultados de suas reconstruções e investigações. Sugira e estimule a imaginação lúdica e criativa dos estudantes, que eles podem ser arqueólogos do século XIX, ou do tempo antes de Cristo. Ser arqueólogo requer trabalhar com imprecisões, que existem informações que poderão não ser encontradas e que em um dado momento a pesquisa precisará ser interrompida diante da falta de evidências e demais materiais que ajudariam a melhor compreender o objeto em estudo. 3 CENTROS ESÍTIOS HISTÓRICOS FIGURA 15 – CENTRO HISTÓRICO DE SÃO FRANCISCO DO SUL- SC FONTE: Disponível em: <http://www.guialitoralsul.com/centro-historico-de-sao-francisco-do- sul/>. Acesso em: 31 mar. 2015. Estudar e analisar um monumento ou sítio histórico proporciona que os estudantes considerem a dimensão do meio em que transcorre a história e a ação humana, em especial, perceber, avaliar a interferência e a influência do homem na paisagem local. Exemplos de monumentos e centros históricos: ruas das palmeiras, praças, portos marítimos, mercados públicos, centros comerciais e de feiras, marcos/ pontos zero, santuários, grutas, uma colônia de imigração, entre outros. http://www.guialitoralsul.com/centro-historico-de-sao-francisco-do-sul/ http://www.guialitoralsul.com/centro-historico-de-sao-francisco-do-sul/ TÓPICO 3 | AS POSSIBILIDADES DOS ESPAÇOS NÃO ESCOLARES 159 3 CENTROS E SÍTIOS HISTÓRICOS A abordagem inicial que estes locais podem receber é: onde está localizado, como é, quando foi construído, quem construiu, qual a forma que apresenta, como foi construído, que fatos transcorreram no local, como foi usado. Uma segunda possibilidade de análise reside em torno da questão “Como era este lugar?” Fazer a coleta de dados, pesquisas de informações históricas e culminar com o trabalho de campo a partir de observações orientadas. Horta (1990) sugere os seguintes aspectos a serem aplicados quando ocorre visita ao centro histórico ou sítio histórico: PRESENTE PASSADO INFLUÊNCIA DO PASSADO NO PRESENTE Como é o lugar hoje: Como era o lugar no passado? Que elementos do passado persistem no presente? Por que este lugar hoje é assim? Que diferenças e semelhanças possui com o passado? Por que este lugar foi assim? Ele se diferencia ou se assemelha a outros lugares do passado? Que influência estes elementos exerceram e exercem sobre o lugar onde se encontra? De que maneira este lugar se relaciona com outros lugares? De que maneira este lugar estava relacionado com outros lugares? De que modo as relações existentes no passado influenciaram este lugar e o modo em que ele se relaciona hoje com outros lugares? Como este lugar está mudado e por quê? Que mudanças aconteceram neste lugar ao longo do tempo e por quê? Como as mudanças ocorridas ainda se refletem hoje? Como é viver neste lugar hoje? Como seria viver nesse lugar no passado? Como o modo de vida e a experiência do passado influencia o viver neste lugar hoje? FONTE: Adaptado de: HORTA, Maria de Lourdes P. et al. Guia básico de educação patrimonial. Brasília: Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional/IPHAN; Museu Imperial, 1990. p.18. QUADRO 7– ASPECTOS APLICADOS EM VISITA A CENTROS E SÍTIOS HISTÓRICOS Podem ser registradas e descritas as principais estruturas existentes, de que e como eram feitas, quantas e quais pessoas viviam ou utilizavam o local, por que escolheram viver neste local, o que era necessário para ali se viver, que vantagens e desvantagens apresentava entre outros. Trabalhe anteriormente a ideia com os estudantes de que nem todas as perguntas poderão ser respondidas a partir das evidências diretas que o local apresenta, bem como existem outras que ainda nem foram encontradas. UNIDADE 3 | METODOLOGIAS DO ENSINO DA HISTÓRIA 160 Os trabalhos podem ser enriquecidos com registros verbais, gráficos, matemáticos, a partir do uso de fotografias antigas, imagens aéreas, maquetes, plantas, registros de propriedade e bens imóveis dentre outros. Esta atividade pode contar com a colaboração e apoio das matérias/disciplinas de Geografia, Matemática e Sociologia. IMPORTANT E Para a visitação escolha um local que seja de fácil acesso; que não apresente riscos de desmoronamento ou demais imprevistos e acidentes; que conta com documentação histórica suficiente aos exercícios de comparação entre o momento atual e o passado. 4 OS MUSEUS “Os museus são espaços que suscitam sonhos”. Walter Benjamin FIGURA 16 – MUSEUS DE HÁBITOS E COSTUMES – BLUMENAU/SC FONTE: Disponível em: <http://www.fcc.sc.gov.br/patrimoniocultural/?mod=pagina&id=14613>. Acesso em: 31 mar. 2015. Os museus contemporâneos representam espaços consolidados, sem fins lucrativos, que se encontram a serviço da sociedade, constituem locais que colecionam, conservam, pesquisam, comunicam e exibem, para fins de instrução, fruição e entretenimento, evidências materiais do homem em relação com seu meio ambiente (COELHO, 1997). http://www.fcc.sc.gov.br/patrimoniocultural/?mod=pagina&id=14613 TÓPICO 3 | AS POSSIBILIDADES DOS ESPAÇOS NÃO ESCOLARES 161 Em outros tempos os museus acabavam por representar espaços reservatórios de memórias e visões de mundo das elites políticas e econômicas do mundo ocidental, ou funcionavam como dispositivos e mecanismos do Estado no sentido de disciplinar e controlar as informações dos diferentes tempos históricos. Na época contemporânea observou-se um processo de democratização, de aproximação com a comunidade e de ressignificação de sua função e uso do seu espaço enquanto tal. Os museus também receberam renovação de acervos e estruturas e equipamentos tecnológicos. Os museus constituem espaço de sociabilidade que favorecem o exercício do pensamento, troca de conhecimentos, de afeto e estimula a criatividade e a ação. Os museus contam com tecnologias, ferramentas e coleções que articulam múltiplas temporalidades em diferentes cenários socioculturais, abarcam as dimensões tangíveis/materiais e intangíveis/imateriais das necessidades humanas, ou seja, são reservatórios do gênio humano. Os museus fazem parte dos gestos que nos humanizam, são produzidos por indivíduos mergulhados na vida social, indivíduos que são unos e múltiplos ao mesmo tempo, indivíduos que em conjunto inventam novos tempos. Procure visitar o museu anteriormente, entre em contato com a equipe de monitoria para se inteirar ainda mais do tema da exposição, as possibilidades de desenvolver outras atividades, como oficinas, após a visitação. Observe os dias e os horários de funcionamento do Museu, as datas de vigência das exposições. Informe aos monitores da faixa etária de seus estudantes, pensando nos estudos já realizados e nos estudos vindouros na escola indique quais temas que podem ganhar maior ênfase ao longo da visitação. Tendo em vista o tema da exposição procure preparar os estudantes para a visita à exposição e à observação orientada. Observe a política do museu com relação à política de realizar fotos ou não, de tocar ou não nos objetos expostos, e oriente os estudantes anteriormente. Elabore um roteiro de análise para nortear minimamente o percurso de visitação dos estudantes, procure contemplar aspectos que tratam de como ocorreu a visita, como foi guiada, as estruturas e condições que o Museu apresenta e disponibilizou, e como a exposição e os espaços visitados se relacionam com os conteúdos e temas já estudados. Em um momento posterior em sala de aula, os resultados destes registros de visita podem servir à sistematização e avaliação da atividade como um todo, bem como para perceber o alcance de entendimento e aprendizagem proporcionada com a visita, e partir de então retomar estudos e/ou ancorar novos e outros conhecimentos. UNIDADE 3 | METODOLOGIAS DO ENSINO DA HISTÓRIA 162 5 OBJETOS HISTÓRICOS E AS POSSIBILIDADES DE DESCOBERTAS FIGURA 17 – XÍCARA EM CERÂMICA FONTE: A autora Horta (1990) defende que os objetos que pertencem ao uso cotidiano no interior dos espaços e habitações podem proporcionar uma vasta gama de estudos e atividades de pesquisa que vão desde o contexto social e histórico no qual foram elaborados e utilizados, os usos que lhe foram atribuídos, as funções que desempenharam e o valor e significado que possuíam e ainda possuem. A observação pode se dar em nível direto/objetivo como indireto/subjetivo, podendo também revelar gostos, hábitos e costumes, modos de viver e conviver, nível e tendências tecnológicase o meio e toda a rede de relações sociais que os cercavam. Exemplos de objetos: cadeira, cama, guarda-roupa, chapeleiro, mesa, cachimbos, óculos, lustres, abajures e luminárias, criado-mudo, telefones, rádios, relógios, xícaras, copos, pratos, calçados, bules, talheres, panelas, acessórios, roupas, malas, entre outros. Agora observe os aspectos que podem ser levados em consideração no momento de estudar ou abordar um objeto: TÓPICO 3 | AS POSSIBILIDADES DOS ESPAÇOS NÃO ESCOLARES 163 ASPECTOS A OBSERVAR OUTRAS PERGUNTAS EVIDÊNCIAS IDENTIFICADAS ASPECTOS A OBSERVAR ASPECTOS FÍSICOS O que parece ser o objeto? Que cor tem? Que cheiro possui? Que barulho produz? De que material foi feito? Que textura apresenta? Quais dimensões possui? É artesanal ou manufaturado? Está completo? Foi alterado, adaptado ou consertado? Está usado? CONSTRUÇÃO Como foi feito? Onde foi feito? É peça única e ou possui partes separadas? C o m o f o i m o n t a d o (parafusos, pregos, encaixes? FUNÇÃO Para que fo i feito? Quem fez? Para que finalidade? Como foi usado? FORMA O objeto tem u m a b o a forma? É bem desenhado? A forma indica a função que possui? É adequado? É decorado ou ornamentado? Como é a decoração? A aparência lhe agrada? VALOR Quanto vale este objeto? Para quem o fabricou: Para quem o usou: Para quem o guarda: Para quem o vende: Para você: Para um banco: Para um museu: QUADRO 8 – COMO DESCOBRIR/ABORDAR UM OBJETO FONTE: Adaptado de: HORTA, Maria de Lourdes P. et al. Guia básico de educação patrimonial. Brasília: Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional/IPHAN; Museu Imperial, 1990, p.14. Os estudos de objetos podem sugerir e motivar pesquisas e investigações em livros, fotografias, documentos, arquivos, visitas a locais de fabricação, entrevistas com fabricantes e proprietários entre outros; bem como exercícios comparativos entre o mesmo objeto utilizado em outras épocas e sociedades. A observação dos objetos tanto pode ser feita nos espaços domésticos, nos locais onde são guardados, como também podem ser deslocados aos espaços da sala de aula; bem como podem contar com a participação de pais e demais familiares no processo de descoberta e investigação. UNIDADE 3 | METODOLOGIAS DO ENSINO DA HISTÓRIA 164 IMPORTANT E Não esqueça de fazer orientações de cuidados para com o armazenamento/ acomodação, manuseio, transporte e segurança, a fim de evitar possíveis danos, perdas ou roubos. 6 A HISTÓRIA LOCAL E A HISTÓRIA ORAL NOS PROCESSOS DE ENSINO-APRENDIZAGEM A utilização da história local e a história oral pode aproximar o estudante da disciplina da História, e se perceber como capaz de produzir e contribuir na sistematização do conhecimento histórico. A metodologia da história oral visa captar elementos que não se encontram nas evidências dos documentos tradicionais ou dos espaços edificados nos quais a história transcorreu, assim como pode contribuir no sentido de ocorrer o processo de renovação do conhecimento histórico e das alternativas didático-pedagógicas do ensino da História. A história local pode ser um tema, um recorte que pode ser contemplado na tentativa de se desenvolver estratégias de pesquisa no ensino da História. Conforme aborda Samuel (1989), a história local requer um tipo de conhecimento diferente daquele focalizado no alto nível dos conteúdos e temas que contemplam o desenvolvimento nacional, por outro lado, fornece ao estudante pesquisador uma ideia muito mais imediata do passado. Para Schwarzstein (2001, p. 40): A história local é um aspecto importante, ainda que limitado do trabalho escolar com fontes orais. Pode-se partir do entorno para promover o interesse por problemas que o transcendem. Entretanto, é importante abordar o local, enfatizando a necessidade de colocá-lo em um contexto global, que permita a análise de um conjunto de relações. Dessa maneira, aproveita-se para a aprendizagem, simultaneamente, a atração ao concreto e próximo, e ao distante e diverso. O conjunto de desafios e possibilidades que analisamos com anterioridade têm consequências muito importantes no desenvolvimento atitudinal e nos instrumentos de aprendizagem que os alunos vão adquirindo através de sua prática, que aponta nessa direção. Assim, as exigências de desenhar um projeto, tarefa conjunta dos docentes com os alunos, eleger os entrevistados, elaborar os questionários e realizar as entrevistas, desenvolvem neles uma grande habilidade para formular perguntas, bem como um sentido crítico fundamental. Devem, ainda, desenvolver critérios de seleção de conteúdos, ideias principais, enfoques etc. O trabalhar com testemunhas que dão prova de maneiras diferentes de processar e avaliar os fatos do passado ajuda aos alunos a levar em consideração as múltiplas perspectivas dos diversos atores envolvidos. TÓPICO 3 | AS POSSIBILIDADES DOS ESPAÇOS NÃO ESCOLARES 165 No Brasil, a história oral passou a ser utilizada nos centros de pesquisas e documentação a partir dos anos de 1980, um tanto quanto tanto em defasagem se comparada a outros países que desde os anos de 1960 vinham sendo amplamente empregados na produção do conhecimento histórico da época contemporânea. Isso se deve em muito de que o Brasil (1964-1985), e alguns países da América Latina, viveram experiências de regimes políticos de ditadura militar, o que por sua vez impedia o amplo acesso às fontes e as discussões que envolvessem a conjuntura política do momento. Thompson (1998) apresenta que a utilização da história oral gera uma atividade de debate e de cooperação. Favorece que os estudantes desenvolvam as habilidades linguísticas, a imaginação além das evidências, a consciência social e aptidões mecânicas. Para os professores de História, os projetos de história oral podem ancorar estudos de História local e regional. Nesse sentido, o alcance da utilização das fontes orais vai muito além da mera gravação de uma fita, ou transcrição de uma entrevista escrita. Utilizar as técnicas de história oral no ensino de história possibilita aos alunos desenvolverem habilidades linguísticas tanto faladas como escritas, tendo em vista que estes participam ativamente do processo de redação das perguntas a serem feitas, assim como da realização da entrevista em si. Além disso, possibilita aos mesmos refletirem sobre o papel que exercem dentro da sociedade enquanto indivíduos. O simples fato da coleta de evidências transfere para o aluno uma “responsabilidade” que até então lhe era negada no processo histórico. Ao trabalhar com evidências os alunos culminam por se envolver (espontânea e consequentemente) com habilidades de pesquisa e com isso passam a enfrentar questões fundamentais como quando confiar em uma informação ou duvidar dela, ou como organizar um conjunto de fatos e como é possível narrá- lo. Vivenciam a história em nível prático, como processo de recriação do passado (THOMPSON, 1998). Ao dedicar-se à história oral os estudantes têm a oportunidade de perceber como os discursos históricos e historiográficos são produzidos, em especial percebem que a história está presente em todos os lugares, em todos os momentos. De que o lugar, o local seja quando, qual e onde for, encontra- se historicamente inserido em espaços e contextos mais amplos, e está profundamente enredada em condições econômicas, políticas, sociais e culturais vividas no dia a dia por seus habitantes e pelo próprio estudante, no município, no país e no mundo (SANTOS, 2002). UNIDADE 3 | METODOLOGIAS DO ENSINO DA HISTÓRIA 166 Na prática percebem-se e incluem-se a si próprios, a seus familiares e demais pessoas da comunidade como partes vivas e ativas da história, e não como ouvintes, telespectadores ou plateia de uma história vista sobre o prisma nacional ou mundial, abstrata e distante, que nunca chega até eles e até o lugar onde moram ou estudam (SANTOS, 2002). Colocando em prática estudos e pesquisas em história oral podem fornecer ascondições necessárias para diminuir a distância existente entre o cotidiano e a vida dos estudantes e os planos de aula, de ensino e os conteúdos que são estudados. Na realização das pesquisas em história oral pode-se contar os acervos existentes em laboratórios, centros e institutos de História Oral disponíveis em arquivos históricos ou universidades, mas o mais fascinante é poder colocar em prática com os estudantes as atividades de entrevistas orais. [...] as entrevistas como formas capazes de fazer com que os estudos de história local escapem das falhas dos documentos, uma vez que a fonte oral é capaz de ampliar a compreensão do contexto, de revelar os silêncios e as omissões da documentação escrita, de produzir outras evidências, captar, registrar e preservar a memória viva. A incorporação das fontes orais possibilita despertar a curiosidade do aluno e do professor, acrescentar perspectivas diferentes, trazer à tona o “pulso da vida cotidiana, registrar os tremores mais raros dos eventos, acompanhar o ciclo das estações e mapear as rotinas semanais. (SAMUEL, 1989, p. 233). Fonseca (2006) defende que os projetos de história oral na educação básica pressupõem uma concepção de ensino de história que envolva a investigação, a pesquisa, a produção de saberes. Neste cenário, o professor desempenha o papel de coordenador/orientador/mediador e gestor das ações educativas, e com papel fundamental no sentido de promover o exercício de repensar, religar pesquisa e ensino, saberes e práticas. Fonseca (2006) arrola que os estudantes instigados a levantar e ouvir os testemunhos vivos, as evidências orais da história do lugar, podem encontrar elementos e subsídios para as seguintes questões: por que esta situação é assim? Como poderia ter sido? Por que isto mudou e/ou aquilo permaneceu? Existe algo de inédito? As interrogações sobre o local em que vivem podem levar à busca de sentido/significado, a exercícios comparativos quantitativos e qualitativos, à compreensão do próximo e do distante, diferente ou igual no espaço e no tempo. A história tem o papel de auxiliar o aluno na busca de sentidos para as construções e reconstruções históricas. Espaço e tempo não são duas categorias abstratas, mas preenchidas de vivências, experiências e historicidade. TÓPICO 3 | AS POSSIBILIDADES DOS ESPAÇOS NÃO ESCOLARES 167 A utilização de história oral, além de envolver a história local, possibilita o acesso à dimensão da memória de indivíduos de diferentes gerações, o que por sua vez favorece a melhoria da autoestima e do reconhecimento da importância histórica para o momento histórico e à geração a que pertencem. Nesse sentido conta-se com a contribuição de Bosi (1992, p. 28): [...] a memória articula-se formalmente e duradouramente na vida social mediante a linguagem. Pela memória as pessoas que se ausentaram fazem-se presentes. Com o passar das gerações e das estações esse processo “cai” no inconsciente linguístico, reaflorando sempre que se faz uso da palavra que evoca e invoca. É a linguagem que permite conservar e reavivar a imagem que cada geração tem das anteriores. Memória e palavra, no fundo inseparáveis, é a condição de possibilidade do tempo reversível. 6.1 ALGUNS CUIDADOS METODOLÓGICOS E ÉTICOS A metodologia da história oral privilegia a realização e gravação de entrevistas, que por sua vez podem ser tomadas de modo individual ou em grupos de mais pessoas. É prudente que a entrevista seja semiestruturada para orientar antecipar ao entrevistado, bem sirva de guia aos estudantes. A estruturação das perguntas deve iniciar por aspectos biográficos (filiação, nascimento, cidade natal, cidades em que viveu, experiências de trabalho, escolaridade, tradição religiosa, entre outros) para depois avançar para informações de vivências com fatos e fenômenos históricos. Os registros podem ser feitos de áudio e vídeo ou somente áudio, dependerá de como você, enquanto coordenador e pesquisador responsável conduzirá a atividade no momento posterior. Procure contatar os entrevistados anteriormente inteirá-los da pesquisa e estudo que está sendo proposto, justifique a importância/relevância da participação para com o estudo e procure convidá-los de modo espontâneo a participar da mesma. No momento de agendar as entrevistas propriamente ditas, atenta para datas e horários que favoreçam de forma mais confortável o entrevistado, respeitando os horários de rotina alimentar, saídas e deslocamentos, compromissos médicos, sociais e de trabalho que o entrevistado possa possuir. Oriente os estudantes que elaborem questionários que estendam a entrevista por no máximo 40 minutos, procure solicitar o acompanhamento e a presença de algum outro familiar do entrevistado no momento da atividade, especialmente quando se tratar de pessoas com idade avançada ou que demandam de cuidados. UNIDADE 3 | METODOLOGIAS DO ENSINO DA HISTÓRIA 168 A entrevista deve ser realizada somente a partir da leitura, concordância e de sua autorização obtida através da assinatura do Termo de Livre Consentimento, que consta redigir no modelo a seguir: TE R M O D E ES C LA R EC IM EN TO E L IV R E C O N SE N TI M EN TO Vo cê e st á se nd o co nv id ad o a pa rti ci pa r d a pe sq ui sa e e st ud os in tit ul ad os _ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ _ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ cu jo s ob je tiv os s ão d e id en tifi ca r a sp ec to s da h is tó ria , m em ór ia e c ul tu ra lo ca l e re gi on al tr an sc or rid os n a ép oc a de _ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ _. A su a pa rti ci pa çã o no re fe rid o es tu do s e da rá p or m ei o de e nt re vi st a or al g ra va da e fi lm ad a a pa rti r d e qu es tõ es s em ie st ru tu ra da s. E ss a pe sq ui sa te m c om o be ne fíc io s ap ro xi m ar o s es tu da nt es do e st ud o do s co nt eú do s hi st ór ic os , c on he ce r a H is tó ria d as g er aç õe s an te rio re s e da lo ca lid ad e, c om un id ad e e re gi ão n a qu al s e en co nt ra m in se rid os . A p es qu is a se rá re al iz ad a so m en te a p ar tir d a le itu ra , c on co rd ân ci a e de s ua a ut or iz aç ão o bt id a at ra vé s da a ss in at ur a de st e te rm o. P or o ut ro la do , v oc ê nã o se rá s ub m et id o a qu al qu er tip o de p re ss ão , a e nt re vi st a se rá a p ar tir d a re al iz aç ão d e co nv ite d e pa rt ic ip aç ão v ol un tá ri a, c on si de ra nd o a po ss ib ili da de d a ac ei ta çã o ou n ão d es ta e v oc ê se rá tr at ad o co m to do r es pe ito , di gn id ad e e ét ic a ca bí ve l. D ep oi s de g ra va da e tr an sc ri ta , a e nt re vi st a se rá e nt re gu e pa ra v oc ê re vi sa r e a ut or iz ar o c on te úd o de sc ri to , j un ta m en te c om o T er m o de D oa çã o do c on te úd o e da im ag em . A su a pr iv ac id ad e se rá re sp ei ta da , o u se ja , o se u no m e ou q ua lq ue r o ut ro d ad o ou e le m en to q ue p os sa , d e qu al qu er fo rm a, id en tifi cá -lo n ão se rá re ve la do e m q ua lq ue r h ip ót es e. T am bé m vo cê p od e se re cu sa r a p ar tic ip ar d o es tu do , o u re tir ar se u co ns en tim en to a q ua lq ue r m om en to , b em c om o po r s ai r d a pe sq ui sa , s em p re ci sa r j us tifi ca r e n ão so fr er á qu al quer p re ju íz o. A (o ) p es qu is ad or (a ) r es po ns áv el p el o es tu do é __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ _ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ _, q ue a tu a na In st itu iç ão de e ns in o_ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ _ lo ca liz ad a no en de re ço _ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ _. É as se gu ra da a a ss is tê nc ia d ur an te a p es qu is a, b em c om o sã o ga ra nt id os o s ig ilo e o li vr e ac es so a to da s as in fo rm aç õe s e es cl ar ec im en to s so br e o es tu do , e nfi m , t ud o o qu e vo cê qu ei ra s ab er a nt es , d ur an te e d ep oi s da s ua p ar tic ip aç ão n a pe sq ui sa . Vo cê n ão r ec eb er á e ne m p ag ar á ne nh um v al or e co nô m ic o pa ra p ar tic ip ar d o es tu do . N o en ta nt o, c as o oc or ra a lg um d an o de co rre nt e da s ua p ar tic ip aç ão n o es tu do , s er á de vi da m en te in de ni za do , c on fo rm e de te rm in a a le i. O T er m o de E sc la re ci m en to e L iv re C on se nt im en to s e en co nt ra rá im pr es so e a ss in ad o em d ua s vi as , s en do u m a qu e fic ar á de s ua p os se , o ut ra d e po ss e do re sp on sá ve l p el a pe sq ui sa ou p or s eu re pr es en ta nt e le ga l, qu e pr ov id en ci ar á o de vi do a rq ui va m en to . Eu ,_ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ _ co nc or do v ol un ta ria m en te e m p ar tic ip ar d a pe sq ui sa /e st ud o __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ _ co nf or m e in fo rm aç õe s co nt id as n es te T EL C , q ue e st á im pr es so e m d ua s vi as , u m a fic a co m o p ar tic ip an te do e st ud o e a ou tra c om o p es qu is ad or . C id ad e, d ia / m ês /a no . __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ _ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ _ As si na tu ra d o pa rti ci pa nt e R es po ns áv el p el a Pe sq ui sa TÓPICO 3 | AS POSSIBILIDADES DOS ESPAÇOS NÃO ESCOLARES 169 7 DEBATES E TENDÊNCIAS EM TORNO DE HISTÓRIA, CULTURA E PATRIMÔNIO Caro(a) acadêmico(a)! Yúdice (2004) discute que a cultura é o que “cria o espaço onde as pessoas se ‘sentem seguras’ e ‘em casa’, onde elas se sentem como pertinentes e partícipes de um grupo”, de acordo com essa perspectiva, ela é a condição necessária para a formação da cidadania. Arruda (2006) propõe que o patrimônio, a memória, a cultura e a identidade sempre remetem a um coletivo generalizado: o “nós” – todos os termos envolvem o problema do “nosso”, a nossa história, a nossa memória, a nossa identidade, o nosso patrimônio. Sendo assim, a esse “nosso”, consequentemente se faz necessário indagar sobre o “de quem” ou “a qual coletivo” está vinculado o “nosso” patrimônio, a identidade coletiva, passada ou presente, independentemente de ser cultural, arquitetônico, imaterial, natural etc. Assim compreende-se que a cultura, aparece como fator aglutinador entre o patrimônio e seus sujeitos e a arena aonde se galga a experiência da cidadania. Nesse sentido, o universo de questões relacionadas ao patrimônio, relacionadas ao ‘senso comum’ e ao dado ‘natural’, aquilo que parece como ‘natureza’, que ‘está aí desde sempre’ e que possui validade universal, podem revelar, quando indagado criticamente, complexas tramas e teias, que foram estabelecidas com a conjugação das forças sociais. Canclini (1997) discute que o patrimônio, a cultura, os objetos, a memória não é um simples artefato neutro que vem do passado, mas sim, um campo de conflito, de disputa econômica, política e simbólica. O patrimônio encontra- se atravessado pela ação de três tipos de agentes: o setor privado, o Estado, os movimentos sociais e os usos e as relações que os indivíduos estabeleceram para com estes. 8 REPENSANDO A METODOLOGIA DE HISTÓRIA História narrativa, ciência, disciplina... Professor leitor, historiador, decodificador Ensino reprodução, produção, inovação... Passado, presente, futuro... Que horizonte descortinar? História nova, novas formas, Novos objetos, novos sujeitos, Novas linguagens, novos papéis. Serão novos os saberes? (NIKITIUK, 2012, p. 11). UNIDADE 3 | METODOLOGIAS DO ENSINO DA HISTÓRIA 170 As indagações de Nikitiuk (2012) apresentadas acima perguntam e indagam sobre a trajetória a história enquanto disciplina, sobre o ofício do Historiador, dos desafios do professor, das possibilidades de novas fontes, linguagens e estratégias metodológicas e em especial do sentido do fazer educacional. Quem sabe estas indagações devam servir de alimento e motivação à busca e vontade de superação, renovação e aprimoramento de todo o conhecimento histórico. Mais uma vez gostaria de reforçar a ideia de que este material é introdutório e não conclusivo, as possibilidades que o ensino de história permite e exige são inúmeras. Não hesitem na criatividade e na ousadia, uma vez que se possui segurança em relação aos conteúdos, aos objetivos de aprendizagem que se quer alcançar e quando se está atendo ao universo de expectativas e necessidades dos estudantes, ainda mais as estratégias e as metodologias didático-pedagógicas podem ser variadas, ajustadas, reinventadas e recriadas. Analise criticamente e se aproprie dos recursos que os materiais didáticos que são utilizados no espaço escolar em que você atua ou atuará. Existem conteúdos primordiais, imagens, charges, sugestões de atividades e tarefas que podem contribuir muito na ilustração e fixação dos conteúdos. Crie os próprios materiais, especialmente a fim de contemplar a história local e regional, os espaços não escolares o contexto e a realidade dos estudantes com que você está atuando. Alie-se com outros professores e educadores que compartilham de sua perspectiva educacional, se possível atue junto a sindicatos que defendem a melhoria das condições de trabalho da categoria, procure envolver os pais e familiares dos estudantes, construa parcerias e projetos com outras instâncias da sociedade como ONGs (Organizações Não Governamentais), movimentos sociais, cooperativas, grupos de trabalho voluntário, órgãos públicos que realizam atividades e intervenções culturais e sociais (centros de memória, arquivos públicos, CAPs, conselhos tutelares, abrigos, sindicatos, associações entre outros), e dos mais diversos meios de comunicação social (rádios, jornais, revistas, editoras, sites, redes sociais, blogs de conhecimento). Além de abordar os conteúdos e temas do conhecimento em história, reconheça elementos do universo pessoal de seus estudantes, se possível dirija- se a eles pelo nome próprio, sorria ao encontrá-los em outros espaços em outros momentos além do espaço de sala de aula, quando alguém estiver comemorando aniversário, quando possível proporcione momentos de confraternização/ partilha; se utilize de mensagens de motivação, conforte quem apresentasinais de cansaço, conflito existencial, quem se encontra abatido por algum problema de saúde, quem vivenciou perdas de familiares ou de amigos, quem está deixando a escola; acolha e integra quem está chegando. Procure perceber quem apresenta mudança de corte de cabelo, passou a usar aparelho ou óculos; ouça os relatos de quem fez alguma viagem ou visitou algum local diferente; vibre e comemore com as superações e vitórias que são alcançadas; alerte prudentemente quem se encontra muito seguro/confiante e TÓPICO 3 | AS POSSIBILIDADES DOS ESPAÇOS NÃO ESCOLARES 171 confortável; demonstre-se indignado e que se fazem necessárias mudanças diante de situações em que os direitos humanos e do cidadão, o patrimônio histórico e cultural, a natureza e a vida estiverem sendo desrespeitadas. Enfim, busque construir e fortalecer laços de amizade, cooperação e solidariedade; semear paz, o respeito e tolerância; despertar para as mais diferentes formas do cuidado de si, do outro, do meio, do patrimônio histórico e público, e da natureza; em fim que a educação e constitui um fazer excepcional e que um mundo melhor é possível de ser construído. A jornada do campo educacional exige seriedade, comprometimento, responsabilidade, dedicação, doação, tempo, espera, paciência, fé, atitude, liderança, sensibilidade, amor, cuidado, e toda vez que se fizer necessário lembre- se da frase, por alguns atribuída a Willian Shakespeare, por outros a Henrique de Souza Filho, mais conhecido como Henfil que é a de que “se não houver frutos, valeu a beleza das flores; se não houver flores, valeu a sombra das folhas; se não houver folhas, valeu a intenção da semente”; bem como os dizeres de Raduan Nassar, de que já é gratificante e louvável, a possibilidade de semear. Caro(a) acadêmico(a)! Leia com a atenção o texto a seguir, pois procura situar um pouco dos usos que são feitos da cultura, da identidade e do patrimônio em meio a uma sociedade cada vez mais globalizada e com exploração comercial e financeira das mais diversas dimensões da natureza e das sociedades. UNIDADE 3 | METODOLOGIAS DO ENSINO DA HISTÓRIA 172 LEITURA COMPLEMENTAR CULTURA SEM FRONTEIRAS Nestor García Canclini CADERNO DE LEITURA: Em uma recente entrevista (2005) à Revista Occidente, de Madrid, você propõe o termo interculturalidade para definir as relações entre imaginários e identidades na América Latina. Em que ele se diferencia do conceito de hibridação? NÉSTOR GARCÍA CANCLINI: Hibridação designa um conjunto de processos de intercâmbios e mesclas de culturas, ou entre formas culturais. Pode incluir a mestiçagem – racial ou étnica –, o sincretismo religioso e outras formas de fusão de culturas, como a fusão musical. Historicamente, sempre ocorreu hibridação, na medida em que há contato entre culturas e uma toma emprestados elementos das outras. No mundo contemporâneo, o incremento de viagens, de relações entre as culturas e as indústrias audiovisuais, as migrações e outros processos fomentam o maior acesso de certas culturas aos repertórios de outras. Em muitos casos essa relação não é só de enriquecimento, ou de apropriação pacífica, mas conflitiva. Fala-se muito, nos últimos anos, de “choque” entre as culturas. Em todo esse contexto vemos que os processos de hibridação são uma das modalidades de interculturalidade, mas a noção de interculturalidade é mais abrangente, inclui outras relações entre as culturas, intercâmbios às vezes conflitivos. CADERNO DE LEITURA: Como diferenciar o consumo de cultura, no mundo globalizado, dos interesses de mercado? Há como distinguir o objeto artístico da noção de marca, com suas características mercadológicas estritas? NÉSTOR GARCÍA CANCLINI: O consumo de qualquer produto, e também o de bens culturais, é o momento final do ciclo econômico, que inclui a produção e a circulação. No campo da cultura falamos de consumo, mas também de apropriação, para nos referirmos ao caráter ativo e a possíveis reapropriações e modificações que o consumidor pode fazer ao receber um programa de televisão, ler um romance, ou relacionar-se com uma mensagem na Internet. Nesse ciclo, sabemos que a maior parte dos bens culturais funciona como mercadoria, portanto são objetos de operações de venda, compra e trocas mercantis. O consumo costuma referir-se às necessidades dos consumidores, mas igualmente aos desejos, outros tipos de disposições dos sujeitos que não são simplesmente necessidades. Quando nos referimos aos objetos artísticos, falamos de um tipo de bem, ou de mensagem, que tem uma longa história de definições ou de redefinições. Em certa etapa da modernidade, considerava-se arte o tipo de experiência, ou de objetos, em que a forma prevalecia sobre a função. Na atualidade, há muitas outras, que reafirmam TÓPICO 3 | AS POSSIBILIDADES DOS ESPAÇOS NÃO ESCOLARES 173 o prazer, o caráter transcendente da experiência, a intensidade do que sentimos ao nos relacionarmos com o ideal artístico. A noção de marca pode se opor, num certo sentido, a esse tipo de experiência singular, porque tende a agrupar os objetos artísticos ou literários em séries, onde se perde a especificidade de cada um. Por exemplo, no mercado literário costuma-se agrupar os romances em tendências, como o realismo mágico, ou romances históricos, mas entre cada um deles há diferenças que têm a ver com os autores e com a especificidade de cada busca artística. CADERNO DE LEITURA: Em que medida o consumismo desenfreado de bens culturais ainda pode ser investido de um conteúdo político e antropológico, como o de cidadania, tema de seu livro Consumidores e cidadãos? NÉSTOR GARCÍA CANCLINI: Não gosto da noção de consumismo, porque costuma ser utilizada para desqualificar a proliferação dos bens de consumo e os comportamentos que tratam de incrementar o consumo. Em princípio o consumo não é mal, o mal é não poder consumir. Na sociedade contemporânea, em que se implementou a universalidade de bens, resultam insatisfatórias as opções que em outras épocas tiveram certo êxito, como a do consumo como um lugar de simples satisfação de necessidades utilitárias. Em quase todo tipo de consumo estão claramente presentes um conjunto de dimensões estéticas, de sentidos sociais, antropológicos, que às vezes são ocultados pela publicidade e pela redução da diversidade de significados a uma função única. Quanto à cidadania, efetivamente, muitas vezes ela se opõe ao consumo, como se ser cidadão não fosse uma atividade mais nobre que a satisfação proporcionada pelo consumo. Ambas atividades, consumir e ser cidadão, são indispensáveis para a sociedade, sobretudo as democráticas. Se não tivermos consumo, não se completaria o ciclo de produção e não poderíamos sobreviver. Vejo a função dos cidadãos nesses processos de consumo como um conjunto de atos de responsabilidade social através dos quais tratamos de participar dos desenhos da produção e da circulação do consumo. CADERNO DE LEITURA: Ao analisar questões complexas como multiculturalismo, globalização e construção de identidades, você utiliza muito o conceito de fronteiras. Poderia explicar em que sentido esse termo nos ajudaria a compreender a exclusão da grande maioria de cidadãos, nos países em desenvolvimento, dos projetos neoliberais aplicados em escala planetária? Existem situações paradoxais, em que o desemprego acaba gerando novas formas de trabalho. NÉSTOR GARCÍA CANCLINI: Historicamente, as fronteiras são identificadas com os territórios étnicos ou nacionais, tomando forma de barreiras físicas, aduanas, controles de trânsito das pessoas ou produtos. No século XX, tudo isso se tornou muito mais complexo, pelo aumento da circulação de pessoas, das migrações, das viagens de turismo, pelo crescimento da circulação UNIDADE 3 | METODOLOGIAS DO ENSINO DA HISTÓRIA 174 de produtos, que passam de uma nação a outra, e por vezes nem se sabe onde são produzidos, ou são produzidos em vários lugares e se montam em outro. Também as mensagens