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PROVÉRBIOS
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Introdução
Plano do livro
Capítulo 1 Capítulo 9 Capítulo 17 Capítulo 25
Capítulo 2 Capítulo 10 Capítulo 18 Capítulo 26
Capítulo 3 Capítulo 11 Capítulo 19 Capítulo 27
Capítulo 4 Capítulo 12 Capítulo 20 Capítulo 28
Capítulo 5 Capítulo 13 Capítulo 21 Capítulo 29
Capítulo 6 Capítulo 14 Capítulo 22 Capítulo 30
Capítulo 7 Capítulo 15 Capítulo 23 Capítulo 31
Capítulo 8 Capítulo 16 Capítulo 24
INTRODUÇÃO
I. AUTORIA
O título geral é "Provérbios de Salomão, filho de Davi". Em
diversos pontos do livro, entretanto, ocorrem rubricas que denotam a
autoria de diferentes seções. Assim, há seções atribuídas a Salomão em
10.1 e aos "sábios", em 22.17 e 24.23. Em 25.1 existe uma interessante
rubrica: "provérbios de Salomão, os quais transcreveram os homens de
Ezequias, rei de Judá"; o capítulo 30 é introduzido como: "palavras de
Agur, filho de Jaque"; e o capítulo 31 com os seguintes termos: "palavras
do rei Lemuel", ou melhor, de sua mãe.
Os rabinos diziam: "Ezequias e seus homens escreveram Isaías,
Provérbios, Cantares e Eclesiastes" (Baba Bathra 15a); em outras
palavras, editaram ou publicaram esses livros. No que tange ao livro de
Provérbios é duvidoso que essa declaração rabínica esteja baseada em
outra coisa além da rubrica de 25.1.
O ceticismo que desde o século 1 tem reduzido ao mínimo o
elemento salomônico, atualmente parece estar desaparecendo. Quanto a
uma revisão de algum criticismo moderno sobre Provérbios, que faça
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 2
algum exame pesquisador no mesmo, consultar An Introduction to the
Old Testament, de E. J. Young. Anteriormente, a literatura de
Sabedoria, como um todo, era geralmente atribuída a uma data pós-
exílica. Agora o devido reconhecimento está sendo dado à poesia de
Sabedoria, não apenas nos escritos proféticos, mas também nos escritos
pré-proféticos (cf. Jz 9.8 e segs.).
Por exemplo, escreve W. Baumgartner: "Portanto, visto que não
pode ter surgido simplesmente como sucessor da Lei e da Profecia, em
tempos pós-exílicos, uma data tão posterior exige cuidadoso reexame"
(The Old Testament and Modern Study, editado por H. H. Rowley,
1951, pág. 211). O resultado desse reexame, por parte de eruditos
críticos, tem levado, geralmente falando, a uma conceituação mais séria
sobre as rubricas.
Consideremos os autores nomeados nessas rubricas.
a) Salomão
No livro de Provérbios, a sabedoria não é simplesmente
intelectual, mas envolve o homem inteiro; e dessa sabedoria Salomão,
no zênite de sua fama, e a materialização. Ele amava ao Senhor (1Rs
3.3); ele orou pedindo um coração entendido pala discernir entre o bem e
o mal (1Rs 3.9,12); sua sabedoria foi-lhe proporcionada por Deus (1Rs
4.29), e era acompanhada por profunda humildade (1Rs 3.7); foi testada
em questões práticas, tais como administração justa (1Rs 3.16-28) e
diplomacia (1Rs 5.12). Sua sabedoria tornou-se famosa no oriente (1Rs
4.30 e segs.; 10.1-13); ele compôs provérbios e cânticos (1Rs 4.32) e
respondeu "enigmas" (1Rs 10.1); e muito de sua coletânea de fatos foi
tirado da natureza (1Rs 4.33).
Consideramos que as coleções em Pv 10--22.13 e 25--29 vieram
substancialmente dele. Existem, naturalmente, outros elementos
salomônicos em outras porções do livro. Mas mesmo assim, essas
coleções podem ser apenas uma seleção inspirada dentre sua sabedoria,
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 3
pois não existem cerca de 3.000 provérbios em todo o livro de
Provérbios (cf. 1Rs 4.32).
b) Os sábios
As nações do oriente antigo tinham os seus "sábios", cujas funções
iam desde a política do estado até a educação. (Quanto ao Egito, cf., por
exemplo, Gn 41.8; quanto a Edom, cf. Ob 8). Em Israel, onde era
reconhecido que "o temor do Senhor é o princípio da ciência", os
"sábios" também ocupavam uma função mais importante. Jr 18.18
demonstra que, no tempo daquele profeta, os sábios estavam no mesmo
nível com o profeta e com o sacerdote como órgão da revelação de Deus.
Porém, assim como os verdadeiros profetas tiveram de entrar em luta
com profetas e sacerdotes movidos por motivos indignos,
semelhantemente, muitos dos "sábios" transigiram em sua função que era
de declarar o "conselho de Jeová" (Is 29.14; Jr 8.8-9).
Existem pelo menos duas coleções de "palavras dos sábios" no
livro de Provérbios; estas se encontram em 22.17-24.22 e em 24.23-34.
Talvez que os capítulos 1-9, que contêm uma exposição do alvo e do
conteúdo do "conselho dos sábios", venham da mesma origem. É
virtualmente impossível datar essas coleções. Provavelmente
representam a sabedoria destilada de muitos indivíduos que temiam a
Deus e viveram dentro de um considerável período de tempo. Porém
muito desse material é de data antiga. E. J. Young sugere que pode ser
até pré-salomônico (op. cit., pág. 302).
c) Os homens de Ezequias
Por 2Cr 29.25-30 aprendemos que Ezequias providenciou para
restaurar a ordem davídica no templo, bem como os instrumentos
davídicos e os salmos de Davi e de Asafe. Não há dúvida que um
reavivamento de interesse na sabedoria "clássica" de Salomão foi outra
conseqüência dessa reforma, um reavivamento motivado, não pelo amor
às coisas antiquadas, mas pelo desejo de explorar novamente a sabedoria
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 4
de alguém que havia amado supremamente a Jeová. E assim, a coleção
salomônica dos capítulos 25--29 foi editada e publicada. A. Bentzen
(Introduction to the Old Testament, Copenhague, 1949, Vol. II, pág.
173) apresenta a interessante sugestão que essa coleção até aquele tempo
tinha sido preservada exclusivamente em forma oral.
d) Agur, filho de Jaque
Não sabemos quem foi Agur. É possível que devêssemos traduzir
a palavra que aparece como "oráculo", em 30.1, como "de Massá".
Massá era uma tribo árabe que descendia de Abraão por meio de Ismael
(Gn 25.14), e as tribos orientais eram famosas por sua sabedoria (1Rs
4.30). Mas isso de modo algum pode ser mantido com certeza.
e) Rei Lemuel
A mãe desse rei aparece como a originária da seção de 31.1-9, mas
ela é igualmente uma personagem desconhecida, embora também se
possa traduzir como "de Massá" a palavra que aqui surge como
"profecia". Não precisamos supor que ele tenha sido o autor do
magnífico poema da Esposa Perfeita (31.10-31), que forma um apêndice
ao livro de Provérbios.
II. DATA
O que dissemos sobre as coleções individuais é bastante. Mas,
quando foram elas reunidas, formando um livro conforme o conhecemos
agora? O tempo mais recuado para isso é fixado pela referência aos
homens de Ezequias: enquanto que o conhecimento que Ben Sira (cerca
de 180 a.C.) demonstra sobre o livro (Ec 47.17) significa que já era obra
estabelecida e venerada em seus dias. Além disso, não temos evidência
externa.
Talvez o tempo mais provável de sua publicação tenha sido pouco
depois do retorno dos exilados, no estabelecimento dos quais "Esdras, o
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 5
escriba", desempenhou tão importante papel, quando Israel desejava que
"o temor do Senhor" dominasse sua educação.
III. FORMA E CONTEÚDO
A palavra traduzida "provérbio" (mashal) se deriva de uma raiz
que parece significar "representar" ou "assemelhar-se". Sua significação
básica, portanto, é uma comparação ou símile. Seu germe pode ser uma
analogia entre os mundos natural e espiritual (cf. 1Rs 4.33 e Pv 10.26). A
mesma palavra é apropriadamente traduzida como "parábola" em Ez
17.2. Esse termo, entretanto, também denotava afirmações onde
nenhuma analogia é evidente e veio a designar um dito expressivo ou
máxima (cf. 1Sm 10.12).
Porém, os provérbiosdeste livro não são tanto máximas populares
como a destilação da sabedoria de mestres que conheciam a lei de Deus e
estavam aplicando seus princípios a todos os aspectos da vida. O título
do livro, na Septuaginta - Paroimiai - que pode ser latinizado para
obiter dicta, dá uma boa idéia de seu conteúdo. São palavras pelo
caminho para os caminhantes que estão buscando palmilhar pelo
caminho da santidade.
O livro inteiro é composto em forma poética, geralmente aos
pares. Os capítulos 1--9 e 30--31 são discursos poéticos ligados e de
alguma extensão. No resto do livro os provérbios são em sua maioria,
breves, como máximas independentes, cada qual completa em si mesma.
IV. OS PROVÉRBIOS DE ISRAEL E DE OUTRAS NAÇÕES
Assim como a lei dada por intermédio de Moisés não significou
que todo o tesouro comum de leis semíticas tinha de ser abandonado,
semelhantemente a sabedoria de Salomão e de outros homens não
ultrapassou todas as lições aprendidas pelos filhos do oriente. Mas no
caso da lei e da sabedoria igualmente, o que era comum a Israel e a seus
vizinhos foi revolucionado pelas sanções divinas e pela sua adoção, na
vida de um povo que tinha uma relação especial para com Deus.
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 6
Mas, quando o peso devido é dado a isso e ao fato que Agur e
Lemuel talvez não fossem israelitas, não necessitamos aceitar os
argumentos daqueles que vêem no livro de Provérbios empréstimos em
grande escala das fontes não-israelitas. Evidência sobre isso pode-se
freqüentemente encontrar nos paralelos entre a "Sabedoria de Amen-em-
ope", do Egito, com Pv 22.17-24.22, e a difícil sentença: "Porventura
não te escrevi excelentes cousas...?" é reescrita como "trinta coisas",
como na obra de Amen-em-ope, que tem trinta capítulos. Quanto a uma
consideração sobre isso, veja-se o comentário in loc. Visto que os
egiptólogos diferem tanto sobre a data do livro, é perigoso fazer
afirmações dogmáticas. Precisamos notar apenas que Griffith, o
descobridor, datou-o de cerca de 600 a.C., quando então os "sábios" já
agiam em Israel durante séculos. Há bons motivos para acreditar-se que
Amen-em-ope fez empréstimos dos Provérbios. (Os que estiverem
interessados em prosseguir no estudo da questão deveriam ler a tradução
da obra de Amen-em-ope em Ancient Near Eastern Texts relating to
the Old Testament, editado por James B. Pritchard, Princeton, 1950,
págs. 421-424. Sua dependência do livro de Provérbios é sustentada por
R. O. Kevin em The Wisdom of Amen-em-apt, Filadélfia, 1931).
A reputação mundial de Salomão, que levou a rainha de Sabá a
investigar sua sabedoria, é um dos primeiros exemplos do modo como a
sabedoria tornou-se uma ponte pela qual Israel penetrou no mais alto
pensamento de seus vizinhos. Mas, enquanto seria inverídico dizer que
os provérbios egípcios são destituídos de profundo sentimento religioso,
em suas sanções ficam muito aquém da literatura canônica de Sabedoria.
"Não te debruces na balança, nem falsifiques os pesos, nem causes danos
às frações da medida", diz Amen-em-ope (capítulo 16). Nosso livro,
entretanto, diz: "Duas espécies de peso, e duas espécies de medida, são
abominação para o Senhor, tanto uma cousa como outra (20.10). E isso
faz toda a diferença.
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V. O USO DO LIVRO DE PROVÉRBIOS
O Reitor Wheeler Robinson descreveu a sabedoria do Antigo
Testamento como "a disciplina pela qual era ensinada a aplicação da
verdade profética à vida individual, à luz da experiência" (Inspiration
and Revelation in the old Testament, pág. 241). É isso que torna o
livro perenemente relevante. Trata-se de um livro de disciplina: toca em
cada departamento da vida e demonstra que ela é alvo do interesse direto
de Deus. A sabedoria não consiste da contemplação de princípios
abstratos que governem o universo, mas de uma relação com Deus em
que um reverente conhecimento produz conduta consonante com aquela
relação, em situações concretas. O homem que rejeita isso é,
francamente, um insensato. E a sabedoria precisa dominar a vida inteira;
não apenas a devoção de um homem, mas também sua atitude para com
sua esposa, seus filhos, seu trabalho, seus métodos de negócio - e até
mesmo suas maneiras à mesa. Já foi admiravelmente dito que "Para os
escritores de Provérbios... religião significa um bem formado intelecto a
empregar os melhores meios de realizar as mais altas finalidades. A
debilidade, a superficialidade, os pontos de vista e os propósitos estreitos
e contraídos, encontram-se do outro lado" (W. T. Davison, The Wisdom
Literature of the Old Testament, pág. 134).
Há ampla evidência que nosso Senhor, estando na terra, amava
esse livro. De vez em quando encontramos um eco de sua linguagem em
Seu próprio ensino: por exemplo, em Suas palavras acerca daqueles que
procuram os principais assentos (cf. Pv 25.6-7), ou à parábola dos
homens sábio e insensato e suas casas (cf. Pv 14.11), ou a parábola do
rico insensato (cf. Pv 27.1). A Nicodemos Ele revelou a resposta da
pergunta apresentada por Agur, filho de Jaque (cf. Pv 30.4 com Jo 3.13).
E Ele relembra aqueles que, à semelhança dos "insensatos" sem
discriminação do livro de Provérbios, não reconhecem a Ele ou à Sua
mensagem de que "a sabedoria é justificada por seus filhos" (Mt 11.19).
Nosso Senhor, de fato, usou em Suas parábolas exatamente o
método de ensino encontrado no livro de Provérbios. O termo hebraico
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 8
mashal é melhor traduzido para o grego como parabolê, "parábola"; e a
mesma palavra grega pode traduzir o termo hebraico hidhah, "enigma"
ou "adivinhação". Por isso, em Mc 4.11 vemos que, para aqueles que não
O reconhecem, tudo quanto está ligado ao reino aparece na forma de
enigmas, que ouvem mas não podem interpretar.
Teria sido devido à companhia com nosso Senhor que Pedro
derivou seu gosto pelos provérbios? Seja como for, suas epístolas
demonstram uma íntima familiaridade com o livro de Provérbios (cf. 1Pe
2.17 com Pv 24.21; 1Pe 3.13 com Pv 16.7; 1Pe 4.8 com Pv 10.12; 1Pe
4.18 com Pv 11.31; 2Pe 2.22 com Pv 26.11). Paulo também cita e reflete
esse livro (cf., por exemplo, Rm 12.20 com Pv 25.21 e segs.), e quando o
apóstolo fala sobre "Cristo, poder de Deus, e sabedoria de Deus" (1Co
1.24), Pv 8 lança um rico significado a essas suas palavras. Hb 12.5 e
segs. nos ordena que não nos esqueçamos da "exortação que argumenta
convosco como filhos", e que não desprezemos o castigo do Senhor. A
citação é tirada de Pv 3.11 e segs. E isso nos fornece um quadro sobre a
verdadeira natureza do livro de Provérbios - um estudo a respeito da
disciplina paternal de Deus.
As afirmações - como as parábolas de nosso Senhor - precisam ser
ponderadas para poderem ser plenamente apreciadas e provavelmente é
melhor considerar cada afirmação de Provérbios separadamente, lendo
apenas algumas de cada vez.
"Um número de pequenos quadros, acumulados sobre as paredes
de uma grande galeria não podem receber muita atenção individual de
um visitante, especialmente se ele estiver fazendo uma visita apressada"
(Davison, op. cit., pág. 126). Por outro lado, é importante relembrar que
cada afirmação faz parte de um corpo completo de ensinamento. Tirar
um provérbio completamente fora de suas relações para com o todo e
buscar aplicá-lo a qualquer situação, pode enganar muito.
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VI. TEXTO E VERSÕES
Há muitas dificuldades e pontos obscuros no texto hebraico,
particularmente na principal seção salomônica, como já era de esperar-se
num documento tão antigo. Recentes descobertas filológicas, no entanto,
nos advertem contra correções apressadas.
A Septuaginta nos fornece menos ajuda aqui que em certos livros,
visto que tem um caráter literário todo seu. (No que respeita a detalhes,
ver Oudtestamentische Studien, deel VIII, de G. Gerlemann, editado
por P. A. H. De Boer, Leiden, 1950).
PLANO DO LIVROI. TÍTULO, PROPÓSITO E LEMA DO LIVRO - 1.1-7
II. TREZE LIÇÕES SOBRE A SABEDORIA - 1.8-9.18
III. O PRIMEIRO LIVRO DE SALOMÃO - 10.1-22.16
IV. O LIVRO DOS SÁBIOS - 22.17-24.22
V. PALAVRAS DOS SÁBIOS: OUTRA COLEÇÃO - 24.23-34
VI. O SEGUNDO LIVRO DE SALOMÃO - 25.1-29.27
VII. PALAVRAS DE AGUR - 30.1-33
VIII. PALAVRAS DE LEMUEL - 31.1-9
IX. APÊNDICE: A ESPOSA PERFEITA - 31.10-31
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COMENTÁRIO
Provérbios 1
I. TÍTULO, PROPÓSITO E LEMA DO LIVRO - 1.1-7
Trata-se do título mais longo de qualquer livro do Antigo
Testamento. A atribuição do livro a Salomão não significa que ele tenha
escrito o livro inteiro (cf. 24.23; 30.1; 31.1) mas nos relembra que a
maior parte se originou com ele e que ele foi a maior figura da coletânea
proverbial. Os vv. 1-6 formam uma única sentença elíptica: "Provérbios
de Salomão... para se conhecer...".
O leitor é convidado a aprender do livro Sabedoria (cuja natureza é
explicada conforme o livro prossegue) e instrução (2); isto é, disciplina.
Esta última palavra transmite a idéia total de educação espiritual (é a
palavra traduzida como "correção" em Hb 12.5). Do entendimento (3);
melhor ainda: "para se receber instrução em sábio trato". Justiça...
juízo... equidade (3) são características constantemente exigidas pelos
profetas, e são distintivos do governo de Deus e de Seu Messias (ver, por
exemplo, Is 5.7 e Is 11.4).
O verso 4 mostra que essa sabedoria foi posta à disposição dos mais
jovens e inexperientes (cf. Is 35.8), e o verso 5 que aqueles que já
tiraram fundo da fonte da sabedoria ainda encontrarão muito mais
abundantemente.
Simples (4) provavelmente significa "sujeito a todas as
influências". Adquirir sábios conselhos (5) é sugestivamente traduzido
pela Septuaginta como: "adquirirá um timoneiro". Essa idéia acha-se
implícita na raiz hebraica. Este livro também foi escrito para prover uma
chave para todos os provérbios dos sábios (6; cf. Mc 4.13). A
significação exata da palavra aqui traduzida como interpretação é
incerta. Aparece traduzida como "dito agudo", em Hc 2.6, sua outra
única ocorrência no Antigo Testamento.
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 11
O verso 7 forma uma espécie de lema para o livro, e descreve seu
princípio fundamental. Princípio (heb., reshith), implica tanto ponto de
partida como essência. Sem o conhecimento e o temor de Jeová, o único
verdadeiro Deus, a sabedoria que proporciona orientação para a vida
inteira não pode nem começar a ser adquirida. O lema é repetido, com
pequena variação, em 9.10.
Esses versículos são dignos de ser comparados com Is 11.1-5,
onde a maioria dos dons aqui apresentados são demonstrados como
atributos do Messias e resultado da presença do Espírito de Deus.
II. TREZE LIÇÕES SOBRE A SABEDORIA - 1.8-9.18
O chamamento, "Filho meu", dá início a cada lição excetuando a
última, que é dado pela própria Sabedoria. A relação familiar é mantida
em mente, mas é mais provável que um mestre estivesse se dirigindo ao
seu discípulo.
a) A primeira lição (1.8-33)
1. EVITA AS MÁS COMPANHIAS (1.8-19). O discípulo é
exortado a seguir o ensinamento recebido como um filho de seu pai.
Ouve (8), como freqüentemente no Antigo Testamento, significa
"obedece". A palavra hebraica para lei (torah) tem aqui seu sentido
primário de "ensino", conforme fica demonstrado pelo paralelismo. Os
colares e o diadema, no verso 9, são, naturalmente, ornamentais (cf. Gn
41.42). O conteúdo desse ensino é descrito para nós no livro de
Deuteronômio; ver especialmente Dt 4.9; 6.7; 11.19; 32.46. Um estado
desregrado da sociedade é pintado nos vv. 10-19. O furto organizado e
mesclado com violência parece ter sido epidêmico na Palestina durante
todo o período bíblico (cf., por exemplo, Os 4.2; 6.8 e segs.; Sl 10.8 e
segs.), e mesmo na Palestina, firmemente governada dos dias de nosso
Senhor, essa situação estava bastante estabelecida para ele tê-la usado
como base de uma de Suas parábolas. Torna-se claro, por estes
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 12
versículos, que os bandidos iam até ao homicídio para conseguir seu
saque.
A significação aparente do verso 12 é a de um súdito e sanguinário
assalto: atiravam-se sobre sua vítima tão avidamente como a Morte
devora suas vítimas. Porém, o convite de ganhar uma igual porção em
seu lucro mal ganho (14) deve ser consistentemente recusado (15). O
verso 16, que não aparece na Septuaginta, ocorre novamente em Is 59.7.
A metáfora, no verso 17, é difícil. Parece melhor seguir Oesterley e
interpretar a ave como o discípulo instruído: tendo sido advertido com
antecedência, ele evitaria a armadilha de juntar-se a tão má companhia,
assim como uma ave não se deixa apanhar pela armadilha que viu ser
armada. Mas a sugestão, favorecida por Toy e outros escritores mais
antigos, de que a ave representa os ladrões que são cegos para tudo,
menos para o ganho, e não percebe a armadilha armada sob seus próprios
olhares, é certamente possível.
Os vv. 18-19 falam da sorte inevitável daqueles que enriquecem
dessa maneira. Quando estão emboscados à espera de outros, sem que o
saibam, estão preparando sua própria destruição. Tais são as veredas de
todo aquele... (19); isto é, "esse é o resultado para todo aquele...".
2. O APELO NÃO OUVIDO DA SABEDORIA (1.20-33). Esta é
a primeira das seções em que a sabedoria é personificada. A sabedoria
que tem sua origem no temor de Deus convida o povo em geral para que
aprenda: mas a grande massa da humanidade se recusa a dar ouvidos, a
despeito do fato que assim fazendo estão simplesmente atraindo a ruína e
a aflição contra si mesmos. Somos lembrados sobre o modo como os
profetas pleitearam junto a Israel para que "buscassem a Jeová e
vivessem", mas encontraram uma intransigente falta de entendimento.
Realmente, muito existe nesta seção que é reminiscência do ensino de
Oséias, de Isaías e de Jeremias. Os vv. 20-21 descrevem a maneira da
proclamação da Sabedoria. Tal como diz o verso 20, os profetas também
levantaram suas vozes e proclamaram suas mensagens nas ruas e lugares
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 13
públicos: cf. Jr 5.1; Is 20.2. As entradas das portas (21), onde os
negócios públicos e particulares eram efetuados (cf. Rt 4.1 e segs.).
Os vv. 22 e 23 dão o apelo da Sabedoria. São nomeadas três classes
de pessoas que fazem ouvidos moucos. Simples (22). A raiz dessa
palavra parece significar "sujeitos às influências", quer boas quer más;
quanto à sua origem esse termo é moralmente neutro (cf. verso 4). Mas
as pessoas em questão rejeitam a sabedoria oferecida e por isso
permanecem "simples": e assim essa palavra (como em português
também) assume um sentido não invejável. Escarnecedores (22; em
heb., lesim) uma classe que tornaremos a encontrar. São os piores
adversários da Sabedoria, arrogantes, cínicos e desafiadores. Loucos
(22) são representados como a odiar o conhecimento, a única coisa que
poderia salvá-los do desastre.
Há três vocábulos hebraicos, no livro de Provérbios, que são
traduzidos como "louco": nabhal é o indivíduo grosseiro, obtuso
intelectualmente e, usualmente, moralmente. 'Ewil é o indivíduo sempre
moralmente pervertido; ele não é apenas estúpido, mas também
licencioso (ver 7.22 em seu contexto). Não há muita diferença entre esse
e o kesil, que é a palavra usada neste caso. Toy sumariza que o kesil é o
indivíduo "insensível à verdade moral, que age sem dar-lhe atenção".
O verso 23 pode ser considerado de uma dessas duas maneiras. É
possível que os loucos sejam instruídos para que enfrentem a repreensão
da Sabedoria, e as palavras que a Sabedoria torna conhecidas estão
contidas nos vv. 24-33. Mas é muito melhor, não nos esquecendo do
"Até quando...?" do verso 22, considerar isso como um último apelo aos
surdos para que recebam o conhecimento. Convertei-vos é
freqüentemente usada no sentido de "arrependei-vos", nos escritos dos
profetas,e isso certamente é o seu sentido aqui. O "espírito da sabedoria"
está associado ao Messias (Is 11.2), e é um dos privilégios pertencentes
ao povo do Messias (Ef 1.17).
Os vv. 24-32 descrevem a reação geral ao apelo e as espantosas
conseqüências dessa rejeição. Pois a calamidade certamente seguirá tal
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 14
desobediência, mas então já será tarde demais para buscar ajuda da
Sabedoria celestial. A Sabedoria que rejeitaram rir-se-á em seus rostos,
assim como por tanto tempo eles riram-se da sabedoria; a memória do
conhecimento desprezado será amarga para aqueles que estão perecendo.
Vosso temor (26-27) significa "aquilo que vos provocará temor".
De madrugada me buscarão (28); melhor: "diligentemente me
buscarão". A busca pela Sabedoria, induzida pela calamidade final, será
inútil, uma nota de finalidade que estampa muitas das parábolas de nosso
Senhor acerca do reino.
Note-se que novamente o conhecimento e o temor de Deus são
ligados (29). No vv. 32, os simples, exortados a se converterem a Deus
(cf. verso 23), antes se desviaram dEle, e isso provocará sua destruição.
Prosperidade (32); melhor: "descuido despreocupado", ou seja, o
fruto da prosperidade. A parábola do rico insensato, em Lc 12.16-20
serve de comentário suficiente aqui. Não é negado o fato que o insensato
pode prosperar temporariamente.
O verso 33 mantém a promessa de verdadeira segurança para
aqueles que dão ouvidos à voz da Sabedoria.
Provérbios 2
b) A segunda lição (2.1-22)
1. A BUSCA PELA SABEDORIA E SUA RECOMPENSA (2.1-9).
Esta seção salienta três coisas: que a sabedoria requer pesquisa diligente
(1-5), que não obstante é dada por Deus, e não resultado de mero esforço
humano (6), e que Deus vigia e guarda em Sua vontade aqueles que a
recebem (7-9). Os princípios envolvidos aqui estão implícitos no sonho
de Salomão, em Gibeom (1Rs 3.5-15) e são tornados explícitos por
Paulo, em Fp 2.12-13.
Coração (2) tem um significado mais lato em hebraico do que em
português, pois se relaciona tanto às faculdades intelectual e moral como
à emocional. O aluno está sendo exortado a aplicar todos os seus poderes
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 15
na busca do entendimento, até que se possa dizer que ele está bradando
em alta voz por ela (3).
No versículo 4 a ênfase provavelmente recai menos sobre o fato que
a praia tem que ser escavada e que o tesouro requer intensa busca do que
sobre o fato que ambas as coisas são imensamente valiosas. Nosso
Senhor toma nas mãos e desenvolve esse pensamento, aplicando-o à
busca pelo reino dos céus (Mt 13.44).
A significação literal de reserva (7) é "esconde"; mas deve-se
notar que Ele a esconde para e não dos justos. Quanto ao verso 8: "Para
que guarde as veredas do juízo: e conserve o caminho dos seus santos",
significa, em outras palavras, que o próprio Deus se torna um escudo
para Seu povo, a fim de que Ele providencie para que aquilo que é
perfeitamente reto seja constantemente mantido. "Guarde" significa
"vigie": Deus vigia o caminho tomado por Seu povo, tanto para protegê-
lo no caminho como para conservá-lo no caminho certo.
Santos (8) representa aqueles que rendem lealmente a Jeová o
amor que Lhe é devido na aliança entre Ele e Seu povo. As virtudes
nomeadas no v. 9 são reflexos de Sua vontade: ver 1.3 e segs.
2. ALGUNS BENEFÍCIOS DA SABEDORIA (2.10-22). A
proteção proporcionada pela possessão da sabedoria é ampliada. O bom
siso ou discrição que é prometido (11) contém a idéia de propósito.
Os vv. 12-19 mencionam classes de cujos caminhos perniciosos
aqueles que têm recebido a sabedoria podem escapar. Primeiramente
existe o mau caminho do homem pervertido. Algumas versões dizem do
"homem mau". De qualquer maneira, compare-se a petição, na oração do
Pai Nosso: "Livra-nos do mal" ou "Livra-nos do maligno".
Existe o homem que diz cousas perversas (12); lit., o homem
que diz coisas invertidas, isto é, o mentiroso. Tais homens são tortuosos
e pervertidos (13-15). Poderíamos traduzir o verso 14 como: "Que se
regozijam em fazer o mal, e se deleitam na perversão do mal".
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 16
Acima de tudo, existe a mulher estranha (16), contra a qual
muitas advertências são dadas no livro. Ver mais sobre o verso 3. Aqui,
finalmente, as advertências são contra as atrações da mulher adúltera que
conhece a lei do verdadeiro Deus (17).
Guia (17), uma tradução sem base; "amigo", como dão algumas
versões, é tradução mais fiel. Mas, de uma passagem tal como Jr 3.1-4,
vemos claramente que esse termo era usado para designar o cônjuge de
alguém. A mulher estranha não só peca contra o marido com quem se
casou em sua mocidade; mas ao fazer isso ela peca contra Deus, a quem,
na qualidade de israelita, ela estava ligada por uma relação de aliança.
Foi Ele Quem ordenou o casamento, em Seu concerto, e Ele é Quem
estipulou, como parte de Seu concerto: "Não adulterarás" (Êx 20.14).
Sua casa é uma inclinada descida até à própria morte (18), e sua
vítima não atinge os caminhos de vida que todos os homens desejam
atingir.
Depois desse longo desvio de assunto, o verso 20 retoma uma vez
mais o pensamento do verso 11. O dom da sabedoria de Deus não apenas
protegerá o homem desses maus caminhos; mas capacita-o para uma boa
e reta maneira de vida. Tal como em português, a palavra hebraica para
terra (21 e 22) significa tanto um país como todo o globo terrestre. A
referência primária, sem dúvida alguma, é à "terra que o Senhor teu Deus
te dá" (cf. Êx 20.12; Sl 37.9-11). Mas sua significação não pára aqui,
como é demonstrado naquela beatitude proferida por nosso Senhor,
baseada em Sl 37.11: "Bem-aventurados os mansos, porque eles
herdarão a terra".
Provérbios 3
c) A terceira lição (3.1-10)
O tema é "confia e obedece". A observância das palavras do
mestre é urgentemente exortada (1-2), como fonte de longa vida e paz. A
referência primária é vida longa sobre a terra, geralmente considerado,
no Antigo Testamento, como um grande bem; a observância dos
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 17
princípios fundamentais da vida correta capacitará o homem a evitar as
piores armadilhas e precipícios da vida. Porém, os "mandamentos com
promessa" (cf. Ef 6.2) assumem uma mais profunda significação
conforme a revelação de Deus se vai desdobrando, e nosso Senhor
declara que Suas palavras são espírito e vida (Jo 6.63). Lei (1; em heb.,
torah) novamente no sentido de "ensino".
O tema é desenvolvido nos vv. 4-10, e o conteúdo do ensino
transmissor da vida, referido em verso 1, é esboçado.
Primeiramente a benignidade e a fidelidade (3) devem ser
mantidas. Essa expressão significa mais do que parece à superfície.
Benignidade (hesedh) é uma palavra difícil de compreender fora da
idéia de concerto. Representa amor-de-concerto, e o pleno alcance de
seu significado vemos pelo Grande Mandamento e pelo que lhe é
semelhante (Dt 6.5 e Lv 19.18). Fidelidade (heb., 'cmeth) significa
"firmeza", e daí "dignidade", "estabilidade", "fidelidade", e
eventualmente, aquilo que a fidelidade requer - realidade e verdade.
Assim é que o Senhor é Fiel e Verdadeiro (Ap 19.11); pois uma
qualidade implica na outra. "Benignidade e fidelidade" são
freqüentemente ligadas no Antigo Testamento, e Toy diz com
propriedade que são "a expressão das relações perfeitamente boas entre
homem e homem ou entre o homem e Deus".
Acima de tudo, são atributos divinos (Sl 25.10). O conselho para
que se "ate" (3) essas qualidades à própria pessoa pode ser equiparado ao
mandamento (Dt 6.8) que ordenava que os mandamentos do concerto de
Deus fossem atados, um constante memorial sobre Seus requerimentos.
Os homens, entretanto, necessitam mais do que de ser relembrados; e
assim a benignidade e a fidelidade devem ser escritas sobre seus próprios
corações e mentes (cf. Jr 31.33).
O resultado disso é estabelecido no verso 4. A combinação de
graçae bom entendimento causou dificuldades aos tradutores da
Septuaginta e da Vulgata, como também para muitos comentaristas
modernos. Algumas versões fazem uma leve alteração no hebraico e
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 18
traduzem "favor e boa reputação". Aceitando o texto tal como ele está, a
significação evidente é que a prática da "benignidade e da fidelidade"
atrai não somente o favor divino e humano, mas também o
reconhecimento divino e humano que tal pessoa possui verdadeiro
entendimento. Encontramos o grande exemplo disso em Lc 2.52.
Em segundo lugar é exigida a fé; fé que inclui confiança em Deus
(5), reconhecendo-O em cada departamento da vida (6), e mantendo
reverente respeito para com Ele (7). Estribando-se sobre o próprio
entendimento, dando-se alto valor à própria sabedoria (cf. Is 5.21), e
vivendo-se em termos fáceis com o mal, são as antíteses dessa confiante
dependência a Jeová.
Endireitará as tuas veredas (6) quer dizer tornar o caminho reto
ou plano, retirando os obstáculos. Essa palavra é usada em Is 40.3 sobre
o desimpedir o caminho no deserto. O efeito de tal fé, conforme é
descrito, também é fisicamente benéfico.
Quanto a umbigo (8), a Septuaginta lê "corpo", representando um
texto hebraico diferente em apenas uma letra. De qualquer modo, esta
tradução transmite o sentido do versículo. Finalmente, o aluno é
instruído sobre o fato que a reverência devida a Deus envolve a entrega
dos próprios bens da parte daqueles que são Seus adoradores.
A fazenda com que o adorador honra a Jeová (9) é sua riqueza, ou
renda. Ele não precisa temer que isso venha a envolver prejuízo (10; cf.
Ml 3.10-12). O ensino é transmitido mediante termos agrícolas. A
referência às "primícias", no verso 9, olha de volta para a lei de Dt 26,
onde o adorador toma anualmente dos primeiros frutos da produção de
seu campo e relembra, com alegria e gratidão, a redenção dada pelo
Deus de Israel e Sua contínua benignidade - o antigo festival da colheita,
no Antigo Testamento.
d) A quarta lição (3.11-20)
O tema desta seção é o deleite da sabedoria, um desenvolvimento
do tema repetido na terceira lição de que o ensino proporciona rica
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 19
recompensa. Mas primeiramente é feita uma advertência de que Deus,
em Seu amor, pode trazer adversidade ou prosperidade sobre Seus filhos
(11-12).
A máxima de Bacon: "Prosperidade é a Bênção do Antigo
Testamento; Adversidade é a Bênção do Novo, que inclui a Bênção
maior e a Revelação mais clara do favor de Deus" precisa ser limitada
por passagens tais como esta. A tradução, em Hb 12.6: "Porque o Senhor
corrige o que ama, e açoita a qualquer que recebe por filho" segue a
Septuaginta, que lê as mesmas consoantes hebraicas com vogais
diferentes para obter a palavra "açoita". (Cf. 2Sm 7.14).
Com essa advertência, o mestre expõe as bênçãos que seguem a
possessão da sabedoria. Ao seu derredor os homens estavam ocupados
na tarefa absorvedora de ajuntar riquezas e conseguir honrarias. Ele se
esforça, portanto, para demonstrar (13-18) que a sabedoria celestial é
algo infinitamente mais precioso que todas as coisas que os homens
costumam buscar, e que, em realidade, tal sabedoria possui a chave das
coisas mais desejadas por eles (17), coisas essas que são adicionadas
como um subproduto da busca pela sabedoria. Podemos notar, no v. 14,
o germe ainda de uma outra das parábolas de nosso Senhor: a da pérola
de grande valor (Mt 13.45-46).
A expressão árvore da vida (18) sugere que a sabedoria é uma
fonte de vida em constante crescimento para aqueles que a obtêm.
Alguma alusão é sugerida à árvore da vida, em Gn 2-3 e Ap 2 e Ap 22.
Perowne (Cambridge Bible) salienta que a árvore do conhecimento do
bem e do mal era uma árvore mortífera.
Os vv. 19 e 20 mostram mais ainda a glória da sabedoria
descrevendo sua exaltada posição perante Deus, e que ela foi Seu
princípio orientador na criação, e por meio dela, "Aquele que tudo faz
bem" sustenta o universo, quer nos grandes e catastróficos
acontecimentos (a referência à fendição dos abismos aponta de volta
para Gn 7.11), quer no umedecer diário da terra.
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 20
Orvalho (20) possivelmente inclui a chuva, conforme sugerido
por Toy; cf. Jó 36.28. Ver igualmente as anotações sobre o capítulo 8.
e) A quinta lição (3.21-35)
O tema gira novamente em torno das manifestações e efeitos da
sabedoria, um desenvolvimento maior ainda das duas lições anteriores.
Sabedoria sã e propósito discreto (ver 2.7 n.) será vida, saúde e paz (21-
26). A palavra traduzida como alma (em heb., nephesh) no verso 22
parece, embora isso seja disputado, que originalmente significa
"garganta", e daí passou a significar "ser vivo", "pessoa", "ser", "vida".
Serão vida para a tua alma quer dizer, portanto, "ser-te-ão vida". Não
esquecendo o paralelismo, entretanto, é possível que nephesh tenha aqui
seu sentido original de garganta, e seja usado por sinédoque para o
corpo inteiro. Não tropeçará o teu pé (23), traduzido mais literalmente
seria: "Não golpearás teu pé". A injunção, Não temas (26) quando vier a
assolação dos ímpios, pode ser ligada às numerosas passagens de
esperança e encorajamento para os piedosos com as quais os profetas
mesclaram seus anúncios de julgamento iminente por causa do pecado
da nação (ver, por exemplo, Is 10.24 e segs.), e com as palavras de nosso
Senhor a Seu povo, quando a catástrofe houver de tomar conta do mundo
(Lc 21.28).
Os vv. 27-35 consistem de provérbios breves e independentes, tais
como os das secções III, IV, V e VI, todos Ilustrando o tema já
estabelecido nesta lição. Tiago nos assegura que a sabedoria celestial é
pura, pacífica, gentil, cordata, plena de misericórdia e bons frutos, sem
incerteza ou insinceridade, e que existe uma paródia diabólica dessa
sabedoria, cujas marcas são inveja e contenda. Isso é ilustrado pelos
preceitos do mestre. O primeiro recomenda pronto pagamento das
dívidas (27). O texto hebraico diz: "donos" (ba'alim), como nesta
versão. A Septuaginta talvez esteja correta quando substitui credores por
pobres. A frase é difícil, mas não tão difícil que exija as correções
ocasionalmente propostas. O segundo preceito ordena pronta e voluntária
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 21
generosidade (28; cf. Tg 2.16). O terceiro e o quarto preceitos advertem
contra os ataques não provocados (29-30). O quinto adverte contra a
inveja (31). O homem violento pode prosperar. Para os profetas era bem
óbvio que isso realmente pode suceder. Mas suas riquezas, injustamente
adquiridas, não devem ser cobiçadas, nem seus métodos imitados.
O último grupo de provérbios (32-35) apresentam essas injunções
em suas relações com o temor do Senhor. Uma maneira de vida é
abominável para Jeová: a outra conduz à real harmonia com Ele (32).
Oesterley com grande felicidade traduz segredo como "intimidade
familiar e confidencial". A maldição de Deus repousa sobre um desses
caminhos, mas sobre o outro as Suas bênçãos (33; cf. Dt 11.26-28). Deus
recompensa com o Seu favor a humildade, e não a arrogância (34; cf. a
alusão a este verso em Tg 4.6 e 1Pe 5.5). São os sábios, isto é, os retos,
justos e humildes, que eventualmente recebem honra, e não os loucos
(35; em heb., kesilim, ver 1.22 e segs.). A última cláusula do verso 35 é
difícil e a palavra traduzida aqui como confusão é obscura; não obstante,
essa tradução, com seu toque de ironia, pelo menos tem virilidade e
agudeza, o que a maioria das correções sugeridas não possui.
Provérbios 4
f) A sexta lição (4.1-9)
Esta seção contém uma pequena amostra de autobiografia.
Consumido pelo desejo de que seus alunos fossem moral e
espiritualmente saudáveis, o mestre fala da sábia instrução de seu próprio
pai, o que é provado por sua própria vida, no esforço de impressioná-los
a respeito da urgência de obter, acima de tudo, a "sabedoria que vem do
alto".
O verso 1 mostrao mestre a tomar a posição de um pai para com
seus alunos. Ele relata como seus próprios pais se tinham preocupado
com seu próprio bem-estar. Eu era filho de meu pai, com o paralelismo
que se segue, subentende que o pai do mestre se interessou
particularmente pela educação de seu próprio filho. Não podemos dizer
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 22
se a totalidade dos vv. 2-9 representa as palavras do pai, ou se o mestre,
nas últimas sentenças, está a aplicá-las. Uma vez mais, a aquisição da
sabedoria é vista como algo que provê vida (4), proteção (6), honra (7) e
adorno (9).
A sabedoria é a coisa principal: adquire pois a sabedoria (7). O
hebraico diz apenas: "o princípio da sabedoria é - adquire sabedoria". Os
comentaristas abandonam isso como palavras ininteligíveis, mas
Perowne salienta a semelhança com a mensagem de 2.1-5, especialmente
se 2.5 for interpretado à luz de 1.7, e a sentença de que estamos tratando
bem pode ser uma compressão daquela mensagem. Cf. Mt 13.44-46 com
tudo o que possuis (7).
g) A sétima lição (4.10-19)
O tema é "Abomina aquilo que é mal". Uma vez mais o mestre dá
inicio à sua lição com uma urgente injunção a seus alunos, para que se
deixem ensinar e se apeguem firmemente às lições aprendidas (10-13).
Uma vez mais é dito que a possessão da sabedoria conferirá vida longa
(10). Os alunos já tinham aprendido, por seu ensino, em que direção jaz
a sabedoria (11). Em lugar de carreiras direitas (11), é preferível a
tradução "veredas da retidão", isto é, de conduta moral da vida. A
sabedoria que se exibe por meio de tal conduta será um guia seguro para
a verdadeira liberdade (12). Embaraçarão é uma palavra bem
expressiva sobre os movimentos cheios de obstáculos e restrições
daqueles que deixam o "caminho da sabedoria" e as "veredas da retidão".
A urgência de apegar-se a essa disciplina é bem ilustrada no acúmulo de
expressões no verso 13. Oesterley traduz a última frase como: "porque a
sabedoria é tudo em tudo para um homem".
Os vv. 14-19 contêm advertências para que se evitem os desvios
seguidos pelos ímpios (14-15), uma descrição sobre os homens que os
seguem (16-17), e vívidos e contrastantes quadros do que é seguir a
estrada certa (18) e os desvios (19). O verso 17 provavelmente se refere
aos iníquos que ganham seu sustento mediante a iniqüidade e a violência
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 23
(cf. 20.17), embora isso também possa significar que o mal é seu
alimento e bebida e prazer constante (contrastar com Jo 4.34).
Luz da aurora (18) não é tão literal como certas versões, que
dizem "luz brilhante", mas como está aqui fica melhor transmitida a
idéia. "Assim como o sol vai subindo pelos céus, brilhando cada vez
mais, desde a mais desmaiado palidez da madrugada até atingir sua
altura meridiana, onde parece permanecer firme e imóvel: assim é a
vereda da retidão. Seu sol se mantém afinal firme nos céus, e não se
apressa em descer por todo o dia eterno" (Perowne).
Dia perfeito significa "pleno meio-dia". Com este verso cf. Is 2.5.
h) A oitava lição (4.20-27)
O tema é: "Apega-te àquilo que é bom". Contudo, outro apelo
para que os alunos dêem ouvidos às instruções transmissoras de vida do
mestre (20-22) é seguido por um apelo para que mantenham o coração
(23), a linguagem (24), os olhos (25) e os pés (26-27) na direção que
conduz à vida.
No verso 21 o mestre demonstra que não é suficiente ouvir
instruções sábias: estas devem ser assimiladas, ponderadas, e
entesouradas no centro do ser do homem. Cf. Sl 119.11 e Lc 2.19. O
verso 23 nos fornece a chave para toda esta série de lições. A sabedoria
conduz à vida; mas, fundamentalmente, a sabedoria se origina, não em
seguir uma coleção de sábios preceitos, mas se origina no coração, o
foco da mente e da vontade e a fonte da ação. (Quanto ao sentido de
coração, no hebraico, ver 2.2 e segs.). Israel estava necessitando de um
"coração para que me conheçam" (Jr 24.7). As palavras de nosso
Senhor, sobre essa questão, e que provocaram tal escândalo (Mt 15.10-
20) se baseiam no ensinamento deste versículo. No verso 26, em lugar de
pondera é melhor traduzir "endireita" como diz na Septuaginta e em Hb
12.13. Atualmente se reconhece que esse é o sentido dessa palavra; a
remoção de tudo quanto pode servir de obstáculo moral é subentendida.
Mas isso ainda não é tudo. O aluno também é recomendado a verificar
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 24
que seus caminhos sejam bem ordenados (26). A raiz desta palavra
significa "tornar firme". Tendo sido desimpedida dos obstáculos, a
estrada em seguida deve ser feita firme, e então não se poderá alguém
desviar dela (27).
Provérbios 5
i) A nona lição (5.1-23)
O tema é a sabedoria aplicada às relações entre os sexos. Após um
apelo inicial, para que se preste atenção (1-2), o mestre prossegue para
fazer uma descrição da mulher estranha e suas atrações (3-6), uma
injunção para evitá-la (7-8), uma advertência sobre o que sucede às suas
vítimas (9-14), um apelo para que se aprecie o santo amor (15-19), e um
lembrete que Deus está a observar tudo continuamente (20-23).
Essa mulher estranha é uma figura que freqüentemente aparece
no livro de Provérbios (cf. 2.16; 6.24; 7.5; 20.16; 23.27; 27.13). Falando
em termos gerais, existem quatro pontos de vista diferentes sobre o
significado dessa frase: primeiro que ela representa meretrizes ou
adúlteras israelitas, que são descritas como "estranhas" porque não têm
direito à relação com o povo de Israel; o segundo diz que a mulher é
estranha por ser "estrangeira", e que aqui são aludidas mulheres
cananéias ou fenícias (sabemos que a prostituição religiosa era praticada
na religião dos cananeus); o terceiro é que isso se refere a um culto
estrangeiro, talvez de Astarte, a deusa do amor, com forte elemento
sexual, e que tinha relações comerciais com países circunvizinhos; o
quarto ponto de vista afirma que toda a passagem é alegórica e se refere
às seduções da filosofia ou religião grega. Desses, o primeiro é o que
apresenta uma explicação mais simples, mais natural, e a que melhor se
coaduna com as declarações em 2.17 e 7.19 e segs.
Fim (4), muito naturalmente, se refere ao julgamento daqueles que
têm relações com ela.
Absinto (4) é usado no Antigo Testamento como símbolo de
sofrimento (ver, por exemplo, Dt 29.18; Jr 9.15).
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 25
Inferno (5) representa o Seol, "a sepultura" ou habitação dos
depravados. O verso 6 é difícil e obscuro; todavia, recentes descobertas
filológicas têm lançado alguma luz sobre ele. Se seguirmos o prof. G. R.
Driver, vendo a verdadeira significação da palavra aqui traduzida como
pondera, como se fosse "examinar, pesquisar", ou se seguirmos o prof.
D. Winton Thomas, em sua demonstração que o termo hebraico yada',
usualmente traduzido como "conhece", como nesta versão, algumas
vezes tem o sentido de "estar quieto", então poderemos traduzir: "Para
que ela não venha a examinar o caminho da vida; seus caminhos são
instáveis e ela não sossega". A Septuaginta e outras versões, como esta,
entretanto, em lugar de "para que" lêem "não", no começo do versículo,
o que também torna o sentido mais claro.
Os vv. 9-14 descrevem a conclusão da vida do libertino. O quadro,
nos vv. 9-10, parece ser do adúltero, com as energias de sua vida
solapadas, com seus bens materiais desaparecidos, a passar seus anos
restantes como escravo na casa de outrem.
Cruéis (9) é masculino singular. Mais terríveis, entretanto, são as
dores de seu remorso (11-14), que veio tarde demais.
Quase que em todo o mal me achei (14) significa ou "consegui
escapar por bem pouco da suprema penalidade que poderia ter sido
infligida devido esse pecado", que é a morte (cf. Lv 20.10) ou outra
coisa; ou então significa: "tenho cometido as profundezas da
perversidade, mesmo sendo membro da santa congregação de Israel".
Segundo esta última interpretação, a frase da congregaçãoe do
ajuntamento é considerada como uma designação coletiva de Israel na
qualidade de povo de Deus, e o fato que tal pecado foi cometido entre tal
povo constitui um agravamento do mesmo (cf. Hb 12.15). A passagem
inteira serve de ilustração para 1.26 e segs., onde a sabedoria é
representada a "rir-se", quando aqueles que a rejeitaram finalmente
percebem seu erro.
Dessa advertência sobre as más conseqüências do pecado, o
mestre passa para uma positiva instrução a respeito da alegria e da
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 26
santidade de uma pura vida marital, em termos semelhantes aos de
Cantares de Salomão. Para o homem oriental, o cântico de amor é algo
sagrado, e nada existe de indelicado nos termos em que o mestre fala. O
verso 15 exorta o aprendiz a deliciar-se em sua própria esposa em
oposição à "mulher estranha". O verso 16 volta à advertência anterior, na
última seção, contra a promiscuidade. O manancial é bendito (18)
quando desfrutado com respeito pelas leis de Deus; a mulher da tua
mocidade significa "a esposa com quem te casaste sendo jovem", pois
casar-se cedo era costumeiro nos tempos do Antigo Testamento.
Os vv. 21-23 trazem novamente todos os preceitos ensinados em
relação com a aliança estabelecida com o Deus vivo. Ele observa cada
vida (21). Fica melhor e mais claro o sentido se traduzirmos como
"pesquisar" a palavra que aqui aparece como aplana. (Ver anotação
sobre o verso 6). O rebelde rapidamente se torna vítima de sua própria
rebeldia (22), e a razão disso é que ele não deu ouvidos à disciplina
divina (23). Quanto a este versículo é preferível traduzir sem correção
como "por falta de instrução"(cf. Os 4.6). Tal é o restringente final
contra o pecado apresentado pelo mestre. Quanto ao pensamento desta
passagem cf. Ef 4.17-19.
Provérbios 6
j) A décima lição (6.1-19)
Esta lição se baseia no princípio enunciado no verso 22. Três
exemplos do processo ali descrito são tomados, e é adicionada uma lista
de sete pecados mortíferos.
1. A FIANÇA (6.1-5). Nos dias antigos, a lei comercial de Israel
era direta. O empréstimo era necessário somente em emergências
particulares e, assim sendo, receber juros de um compatriota israelita era
estritamente proibido (exemplo, Lv 25.36), e se uma peça de vestuário
fosse recebida como fiança por um empréstimo, aquela deveria ser
devolvida ao cair da noite para que servisse de coberto (Êx 22.25-27).
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 27
Com o crescimento da civilização e das relações comerciais com o
estrangeiro, a prática da fiança parece haver-se desenvolvido, pois um
homem aceitava responsabilidade pela dívida de outro.
A ação do Mercador de Veneza gira em torno, naturalmente,
desse ou de um outro costume semelhante. Talvez que mais profundo
exame lance mais luz sobre o que em realidade é envolvido aqui. De
qualquer modo, em nosso livro a fiança é uniformemente condenada.
Davison provavelmente tenha apontado para a raiz da objeção quando
disse: "O uso do dinheiro é um índice do caráter... O jovem que participa
de movimentos monetários como aqueles que são condenados no livro
de provérbios, em primeiro lugar é moralmente fraco, e em segundo
lugar é praticamente desonesto, e em terceiro lugar, provavelmente
provocará muito sofrimento àqueles que mereciam melhor tratamento de
suas mãos" (The Wisdom Literature of the Old Testament, págs. 193
e segs.). É digno de atenção que o livro de Provérbios se preocupa
especialmente com transações de fiança que envolvam estrangeiros
(comerciantes estrangeiros?); ver, por exemplo, 6.1; 11.15; 20.16; 27.13.
Se deste a tua mão ao estranho (1) se refere ao ato de ratificação
a uma transação. O fiador, à semelhança do ímpio do verso 22, cai na
armadilha de sua própria insensatez. Nos versículos que se seguem ele é
exortado a fazer todos os esforços para livrar-se, importunando, se
necessário for, aquele perante quem ele se obrigara a livrá-lo da dívida.
2. O PREGUIÇOSO (6.6-11). Em O peregrino, Indolente, na
companhia de Simples e de Presunção, é visto pelo Cristão a dormir à
beira do caminho. Ensinando "os outros a presumirem que tudo lhes
sairia bem no fim". Indolente e seus companheiros levam outros a seguir
seu exemplo. Porém, quando o Cristão vai passando, vê que "estão
pendurados em ferros, a pequena distância". Esse quadro se equipara ao
que é dado Provérbios. Um provérbio tirado da natureza, tal como o
composto por Salomão (1Rs 4.33), é empregado para envergonhar o
preguiçoso e fazê-lo agir (6-9); todavia, se ele não atender, logo seu sono
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 28
será rudemente interrompido (10-11) pelo inflexível fato da pobreza e da
necessidade - outro exemplo de um insensato apanhado nas cordas de
sua própria loucura (verso 22).
Ladrão (11). Uma boa tradução seria "ladrão de estrada".
3. O "HOMEM DE BELIAL" (6.12-19). Um breve mas vívido
quadro é esboçado sobre aquele que A.. D. Power chama
apropriadamente de "O Perfeito Salafrário" (12-14). Perverso, enganoso,
desordeiro e degenerado, ele eventualmente também será derrubado em
resultado de seu pecado (verso 15).
Belial (12), que significa "sem proveito", é talvez a única palavra
genuinamente composta em hebraico: é freqüentemente empregada no
Antigo Testamento para denotar iniqüidade (exemplo, Jz 19.22), e Paulo
a usa como título para Satanás (2Co 6.15).
Fala com os pés (13) é tradução literal. Algumas versões dizem:
"usa de embustes". De qualquer modo, fica subentendida a insinceridade.
A seção seguinte (16-19) também se relaciona ao homem de
Belial. Os sete pecados mortíferos, enumerados como coisas que Deus
aborrece, são marcas desse tipo de indivíduo. Ele peca com os olhos (13-
17), com as mãos (13-17), com o coração (14-18) e com os pés (13-18);
causa divisões e é maquinador de males (14-19). Temos outros
"provérbios numéricos" no capítulo 30. Talvez se tratasse, originalmente,
de uma forma didática para uso nas escolas, que dizia: "Quais são as seis
coisas que Jeová aborrece?..."
l) A décima primeira lição (6.20-35)
O tema é o sétimo mandamento. O exórdio trata da orientação
oferecida pelo ensino são (20-23); e solenes advertências são proferidas
contra o pecado específico do adultério (24-35).
Mandamento e lei, no vers. 20, se referem ao ensino dos pais: no
vers. 23 essas palavras parecem referir-se à lei da aliança. Era essa lei,
contudo (cf. Dt 6.6-7), que era o conteúdo do ensino doméstico dado ao
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 29
israelita piedoso. A lei divina, ensinada e exposta, provê uma clara
orientação para a vida. Oesterley faz uma distinção entre mandamento
como a lâmpada e a lei como a fonte da luz e compara o modo pelo qual
João Batista é chamado de lâmpada (Jo 5.35) enquanto Jesus Cristo é a
Luz (Jo 1.8 e segs.). De qualquer maneira, a lei de Deus deve ser
internamente entesourada e externamente manifestada (21), guiando e
controlando todas as atividades (22).
É salientado que a lei, a disciplina e a correção à luz da lei (cf.
2Tm 3.16) proporciona proteção contra a mulher estranha (24). Aqui
podemos defender uma interpretação alegórica e quando nos lembramos
que a figura de uma adúltera é freqüentemente usada no Antigo
Testamento para descrever a pecaminosa nação de Israel (cf. Os 2) e que
Tiago usa-a para descrever o crente mundano (Tg 4.4), torna-se claro que
o alcance desses capítulos ultrapassa em muito a má conduta sexual. Não
obstante, a maneira pela qual os pormenores são continuamente
reforçados nos leva a acreditar que o mestre tencionava que suas
palavras fossem entendidas literalmente.
Seus olhos (25) eram provavelmente pintados (cf. 2Rs 9.30). Não
é claro se, no vers. 26, o mestre distingue entre dois tipos de mulheres
imorais. Se assim for, o versículo diz que um homem pode ser reduzido à
pobreza (um bocado de pão) por causa de uma prostituta (como diz
aqui), mas corre o risco de perder a vida (por ação socialou legal) por
ajuntar-se a uma mulher adúltera (lit. "esposa de um homem"). Ao
contrário desta versão, entretanto, provavelmente seja preferível traduzir
como a mesma mulher em ambas as porções do versículo. Seio (27)
significa a dobra da veste na parte que cobre o peito.
O vers. 29 nos leva outra vez a pensar no Deus vivo. Algumas
versões traduzem não ficará inocente como "não ficará sem punição".
Ser considerado "não inocent", no Antigo Testamento, inevitavelmente
quer dizer punição. O vers. 30 é um tanto obscuro. A explanação mais
simples é que, se um ladrão que furta para alimentar-se, ainda que isso
seja muito menos desprezível que a ação de um adúltero, mesmo assim
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 30
tem de restituir em plena medida (sete vezes tanto é, provavelmente, um
termo geral e não exato), quanto mais o adúltero não pagará sua
penalidade? O adúltero está a destruir tão-somente sua própria vida (32;
alma deve ser entendida dessa maneira); ele pode esperar punição de
conformidade com a gravidade de seu pecado, e desgraça pública (33), e
não receberá tréguas da parte do marido enganado (34); diferentemente
do ladrão, o adúltero não pode fazer restituição (35).
Provérbios 7
m) A décima segunda lição (7.1-27)
O tema, tal como o da seção anterior, é o perigo do adultério. Em
primeiro lugar há a costumeira exortação para que o aluno observe e
nunca se esqueça do ensino paterno, que é o caminho da vida, e serve
particularmente de defesa contra a mulher estranha (1-5). As relações
mencionadas no verso 4 pintam o íntimo conhecimento pessoal da
sabedoria que o mestre deseja da parte dos seus alunos: parenta implica
em intimidade familiar (cf. Mt 12.50).
Segue-se uma passagem de suprema vivacidade, fornecendo um
relato de testemunha ocular sobre como um jovem caiu presa de uma
mulher estranha (6-23). Isso forma o corpo principal da lição, enquanto
que os vv. 24-27 apontam a moral da história. A descrição da vítima é
habilidosamente feita. Ele é um dos indivíduos simples (7; ver 1.22 e
segs.). Isso Ilustra o fato que aquele que é simples no sentido negativo,
ou seja, sem idéias formadas acerca do bem e do mal, corre o perigo de
tornar-se um louco e um réprobo caso permaneça sem instrução. Pelo
verso 8 aprendemos que ele passava o tempo, do pôr do sol até à meia
noite, a percorrer as ruas próximas da casa da mulher estranha. A mulher
era sensual e desassossegada, atrevida e sem vergonha. Ela apresenta um
sutil pretexto religioso (14).
Segundo a lei da oferta pacífica (Lv 7.11 e segs.), a carne do animal
tinha de ser comida pelo adorador no mesmo dia do sacrifício ou, no
caso de um voto, no dia seguinte. Essa mulher, tendo feito seus votos a
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 31
Jeová, agora convidava e jovem a compartilhar de sua festa de sacrifício.
Ela afirmava tê-lo procurado especialmente para que compartilhasse de
sua mesa (15). Ela pinta em cores rebrilhantes "os prazeres do pecado"
(16-18), bem como a extraordinária sorte deles no fato de seu marido
estar ausente de casa por algum tempo. Em realidade, no texto hebraico,
ela chama o marido simplesmente de "o homem", possivelmente o que
Toy chama de "refinada ironia".
No verso 20, quanto a dia marcado, melhor é ler "lua nova". Após
alguma hesitação (subentendida no versículo 21), o jovem subitamente
capitula (22).
O texto, nos vv. 22 e 23 é notoriamente difícil. A tradução que diz,
como aqui, como o louco ao castigo das prisões, só pode ser obtida
mediante transposição da ordem das palavras e a suposição sem base que
a palavra traduzida como prisões tem essa significação. A Septuaginta
tem uma linha adicional: "... como um boi que é levado ao matadouro, e
como um cão pela sua corrente, ou como um veado é atravessado pelo
fígado por uma flecha". Qualquer que seja a tradução mais correta, o
sentido é claro: a sorte do jovem é súbita e drástica, embora a forma que
ela tome seja deixada à imaginação.
Tendo atingido esse clímax dramático, o mestre encerra sua lição
com umas poucas sentenças solenes. As mortes causadas pela mulher
estranha são inúmeras (26). Muitos feridos (26), ou melhor, "grande
multidão" tem sido ferida por ela. Em outras palavras: "Aquele pois que
cuida estar em pé, olhe não caia". É uma estranha ironia que foram suas
"mulheres estrangeiras" que levaram Salomão a declinar em sua
sabedoria (1Rs 11.1-8).
Provérbios 8
n) A décima terceira lição (8.1-36)
Esta lição, após breve introdução por parte do mestre (1-3), é dada
pela própria Sabedoria personificada: e com ela chegamos ao zênite da
série. Em severo contraste com a maneira arredia, sutil e sedutora da
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 32
mulher da última lição, a Sabedoria com clareza, dignidade, e nos
lugares mais públicos, pleiteia perante os homens que a recebam e
declara os tesouros de sua recompensa (4-21). A parte da Sabedoria, na
criação, é então apresentada (22-31), e ela adiciona sua própria exortação
para que os homens se firmem nela, nos vv. 32-36.
Este capítulo, com sua personificação da Sabedoria, era
interpretado Cristologicamente desde os primeiros séculos da era cristã.
Certamente que Paulo (cf. por exemplo, 1Co 8.6; Cl 1.15-18), o escritor
da epístola aos Hebreus (cf. Hb 1.3), e João (cf. Ap 3.14), vêem nisso
termos que só têm pleno significado em "Cristo, poder de Deus, e
sabedoria de Deus" (1Co 1.24).
Teófilo de Antioquia, o primeiro escritor cristão a usar o termo
"Trindade" para a Deidade, fala de "Deus, Sua Palavra e Sua Sabedoria"
(Ad Autolycum 2.15); à semelhança de outros escritores do século II ele
não demonstra claramente a divisão de funções entre o Filho e o Espírito
Santo. Podemos acreditar que os pais da Igreja foram justificados ao
verem na personificação da Sabedoria um prognóstico da revelação,
mais clara no Novo Testamento sobre três hipóteses em um único Deus.
Como o arquidiácono Perowne diz: "A vívida e augusta
personificação não hesita em seu caminho, até que finalmente nos
apresenta (e não tanto prediz). Aquele que é a "Sabedoria de Deus", o
"Unigênito do Pai", e o "Filho de Seu Amor"; o qual "se tornou carne" e
"habitou entre nós", porque desde toda a eternidade "Ele se deleitava
com os filhos dos homens" (The Proverbs, Cambridge Bible, pág. 31).
Finalmente, podemos notar que nosso Senhor Jesus mesmo se
refere à Sabedoria de Deus em forma personificada (Lc 11.49), ao falar
sobre os profetas e apóstolos, os porta-vozes da sabedoria de Deus, que
consistentemente tinham sido rejeitados pelo povo de Deus.
1. A SABEDORIA ENTRE OS HOMENS (8.1-21). Nos lugares
mais conspícuos (2-3) a Sabedoria se dirige à humanidade inteira (4).
Uma vez mais vemos que a perspicácia discernidora (prudência) é
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 33
oferecida aos simples e que mesmo os mais endurecidos loucos
(kesilim, ver 1.22 n.) ainda têm a oportunidade de aprender (5). As
palavras da sabedoria são verazes, diretas e sinceras (6-9). Podemos
comparar Mt 13.16 com o verso 9. A sabedoria oferece uma rica
recompensa: muito mais rica que as coisas por causa das quais os
homens desgastam suas vidas (10-11).
A sabedoria, em seguida, explica mais ainda o que ela é. No que
tange ao verso 12, ler: "Eu, a Sabedoria, na prudência tenho feito minha
habitação, e adquiro conhecimento e discrição". O significado será,
então, que a Sabedoria é demonstrada na vida prática pelo discernimento
(prudência) e que possui as outras formas de entendimento referidas em
1.4. A sabedoria se identifica com o temor do Senhor (cf. 1.7), o que,
somos informados, envolve aborrecimento ao mal (13). Entre suas outras
possessões encontramos o conselho e a fortaleza (14), qualidades de
realeza que são vistas em sua plenitude no Rei Messias (Is 9.6; 11.2).
Isso leva, naturalmente, à parte da Sabedoria na orientação dada aos
governantes (15-16).
Justiça (15) significa governo justo. Salomão mesmo rogou quelhe fosse dada sabedoria para orientá-lo em seu governo (1Rs 3.5-12). A
sabedoria torna-se acessível quando procurada (17; cf. Lc 11.9-13). De
madrugada, aqui, é a mesma coisa que "diligentemente". A sabedoria
confere grandes riquezas àqueles que a amam (18-21), as quais são
maiores por serem obtidas na retidão (18-20).
Que suas bênçãos são mais que simplesmente materiais fica
demonstrado pelos contrastes no verso 19.
Duráveis (18) é uma palavra que não ocorre em outra porção
qualquer do Antigo Testamento: algumas versões sugerem "antigas",
enquanto que Koehler (Lexicon, in loc.) sugere "hereditárias".
2. SABEDORIA PARA COM DEUS (8.22-36). A sabedoria fala
em seguida sobre sua participação na criação. Desde o início da
controvérsia ariana, no século IV, que o verso 22 tem sido uma das mais
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 34
discutidas passagens do Antigo Testamento. O ponto principal em debate
é, qual o significado da palavra qanah, traduzida como possuiu? A
Septuaginta diz: "O Senhor me criou" e os arianos usavam isso como um
de seus principais textos de prova para sua tese que Cristo era um ser
criado. Foram refutados mediante outros pontos, mas também foi
demonstrado que o hebraico, aqui, não tem tal significação. Possuiu,
tradução dada pelas versões em português, significaria, que desde o
princípio a sabedoria de Deus estava com Deus: Deus é chamado de o
Possuidor (raiz, qanah) dos céus e da terra, em Gn 14.19-22.
C. F. Burney, "Cristo como o Arché da Criação" (em Journal of
Theological Studies, vol. 27, 1926, págs. 160 e segs.), apresenta
evidência que o significado dessa palavra é "gerou", uma tradução que
faria com que essa passagem tivesse uma importância tão grande, sobre a
doutrina da Eterna Geração do Filho, como tinha nos dias de Ário. De
qualquer modo, a referência aqui não é que a Sabedoria foi o primeiro
ser criado, pois a sabedoria de Deus certamente é inseparável dEle: pelo
contrário, deveríamos entender por isso que a Sabedoria estava com Ele
desde toda a eternidade.
Ungida (23) pode referir-se à nomeação da Sabedoria, por Deus,
para sua tarefa. Essa palavra é usada no sentido de consagrar.
Significando originalmente "derramar" veio a significar "consagração
por derrame de libações". A sabedoria precedeu todos os seres criados e
até mesmo as profundezas primevas (24).
Mas isso ainda não é tudo. A sabedoria não só esteve presente na
criação, mas serviu de medianeira na mesma (30). A perícia do homem é
o produto da sabedoria (Êx 35.31); e semelhantemente a perícia que
formou os mundos. "A versatilidade da mente do homem é apenas uma
imagem da versatilidade de seu arquétipo" (Cheyne, Job and Solomon,
pág. 118).
Em lugar de aluno (30), ler "obreiro mestre". Não há paralelo para
essa palavra, no original ('amon). A tradução aqui sugerida - "obreiro
mestre" - exige troca dos pontos vocálicos para 'ommon (cf. Ct 7.1).
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 35
Outros ainda sugerem 'emum, "lactente" ou "pupilo", que também tem
bom sentido, como na versão que usamos; porém, a tradução que
sugerimos se adapta melhor a todo o contexto. Não se trata de uma
objeção insuperável que o próprio Jeová seja apresentado de princípio a
fim como o Edificador. Num mesmo contexto podemos facilmente falar
do proprietário, do arquiteto e do edificador todos a "edificar" a mesma
casa. A sabedoria se regozijou devido ao avanço da criação, e sua alegria
tornou-se completa quando ela estava pronta para receber a humanidade
para ali viver (31). Uma tradução mais literal da primeira parte desse
versículo, seria: "Folgando no mundo habitado de Sua terra". Quanto à
passagem inteira cf. 3.19-20.
Nos versículos finais a Sabedoria fala como um mestre e se dirige
à sua audiência como "filhos" (32), lembrando-os novamente do fato que
amá-la produz vida (35) e que odiá-la atrai a morte (36); Pecar contra
mim (36); melhor ainda: "o que me omite". A palavra hebraica "pecar"
significa originalmente "errar", isto é, "errar o alvo": esse sentido
original cabe melhor aqui, onde o contraste é entre aquele que me achar
(35) e aquele que "me omitir". Omitir a Sabedoria é enganar a si mesmo:
é odiá-la como um suicida (36).
Provérbios 9
o) Sumário das Treze lições (9.1-18)
Alguns dos principais tópicos abordados nos capítulos 1-8 são
sumarizados na forma de um quadro da Sabedoria e da Loucura, cada
qual a convidar homens para um banquete.
1. AS SETE COLUNAS DA SABEDORIA (9.1-12). Uma vez
mais personificada, a Sabedoria é vista agora como uma graciosa
anfitriã. Tem havido muita especulação sobre as sete colunas (1). Têm-
nas feito representar coisas tão diversas como os sete dias da criação, as
sete artes liberais, e até mesmo os primeiros sete capítulos do livro de
Provérbios (ver a lista em Toy, I. C. C., Proverbs, pág. 185). Toy e
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 36
outros argúem que não existe significado especial no número sete, que
talvez tivesse sido o número comum de colunas no estilo de casas
daquele período. Tal casa, entretanto, só recentemente foi encontrada -
casa do festival de Ano Novo de Senaqueribe. (Referência feita por A.
Baumgartner, em The Old Testament and Modern Study, editado por
H. H. Rowley, pág. 215 e segs.). Seguindo uma indicação dada por A. D.
Power (Sidelights on the Book of Proverbs), possivelmente poderíamos
pensar nas sete colunas como conhecimento, Discrição, Sabedoria Sã,
Prudência, Conselho, Instrução e Entendimento. Cada um desses
atributos ocorre freqüentemente no livro; cada qual é uma faceta ou
manifestação da sabedoria, compreendida nela, mas não a exaurindo;
cada qual uma coluna na qual a casa da Sabedoria se apóia.
No interior de sua casa a Sabedoria preparou um magnificente
banquete (2), e despachou suas criadas para que convidassem os
hóspedes (3). Ela mesma sai a convidar quem queira vir a seu banquete
(3-6). Há um lugar especial para o simples sem instrução e para o
ignorante (4); ainda podem receber a vida e o entendimento (6). Deixai
os insensatos (6) seria melhor traduzido como "Deixai, ó simples". Estes
estão sendo chamados para fazer uma decisão definitiva. A Septuaginta,
entretanto, se aproxima mais de certas versões: "Deixai a insensatez". Há
uma evidente conexão entre esta Grande Ceia e a descrita em Lc 14.16 e
segs.
Segue-se um comentário, feito ainda pela própria Sabedoria, que é
possível impressionar os zombadores mediante um convite tal como
aquele que ela estava fazendo aos simples. O contraste, nos vv. 7-9, não
é entre os convidados e os não convidados para o banquete mas entre as
reações dos escarnecedores e dos homens que se deixam ensinar para
com a santa disciplina proporcionada pela Sabedoria. Isso, igualmente, é
um elemento no ensino de nosso Senhor (cf. Mt 7.6). Ver também 1.4-5
e 1.22 e o comentário ali. O verso 10, com sua repetição do lema do livro
(1.7), apresenta a razão para essa diferença nas reações. A sabedoria
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 37
principia com o temor de Deus; o cínico escarnecedor, portanto, nunca
pode aprender.
2. A FESTA DA LOUCURA (9.13-18). A loucura também é
personificada - como uma meretriz. Desavergonhadamente, ela convida
os simples para sua festa. Ela torna seu convite tão geralmente conhecido
como faz a Sabedoria (cf. vv. 14-15 com os vv. 3-4). Mas, enquanto que
a Sabedoria oferece um verdadeiro banquete, preparado por ela mesma
(5), a Loucura oferece uma pobre refeição, furtada, ilícita e clandestina
(17), e seus hóspedes se encaminham para sua morte (18).
A mulher louca (13); lit., "uma mulher de desatino". Em lugar de
simples, ler "simplicidade". O desatino é a própria simplicidade em sua
pior forma, sem qualquer senso moral. Quanto a não sabe cousa alguma
(13) parece melhor seguir o prof. D. Winton Thomas (Journal of
Theological Studies New Series, vol. 4, 1953, pág. 23 e segs.) e traduzir
"e está sempre desassossegada". Ver 5.6n. No verso 18, inferno é, seol,
ou "sepultura".
Podemos notar que os convites, tanto da Sabedoria como da
Loucura, são dirigidos aos simples e ignorantes (4.16). Os sábios,
embora possam ainda crescer em Sabedoria (8-9), e os escarnecedores
(7) não necessitam de convite.
III. O PRIMEIRO LIVRO DE SALOMÃO - 10.1-22.16
Esta é a coleção maior no livro de Provérbios. Calcula-se que
contenha 374 provérbios. Se a coleção foi feita pelo próprio Salomão,
por um membro de sua corte, ou por um colecionador posterior, não
temos meios de saber. Porém, a cifra exata, citada em 1Rs 4.32 sugere
que coleções foram feitas durante sua vida, pelo que esta pode ser uma
delas.
A maioria dos provérbios são de certo tipo, consistindo de duas
linhas, a segunda salientando um contraste com a primeira. O arranjo não
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 38
foi feito com tanta displicência como parece à primeira vista. Geralmente
uma série de provérbios sobre o mesmo assunto ou sobre assuntos
similares, ou a demonstrar o mesmo princípio, é agrupada num bloco; ou
a repetição de um lema pode ser o elo entre provérbios que tratam de
assuntos diferentes. Não obstante, os provérbios foram proferidos em
diferentes ocasiões e geralmente não há conexão entre eles. Deve-se
destacar o fato que os títulos, no início das seções, são meros guias
aproximados quanto ao conteúdo, por motivo de conveniência.
Provérbios 10
a) As recompensas da vida reta e da vida má (10.1-32)
Quanto ao título, Provérbios de Salomão, ver a Introdução, pág.
627. Tal como as lições algumas vezes principiam com uma exortação
para que se siga o ensino paterno (exemplo, 1.8; 6.20), esta coleção
igualmente começa com um provérbio acerca da reação a esse ensino
(1). Louco, aqui, é mais que "estúpido"; o filho é um kesil (ver 1.22 n.).
O verso 2 fala do galardão da retidão. Tesouros da impiedade são
riquezas obtidas mediante a iniqüidade: justiça é a vida reta. Os profetas
freqüentemente falaram de opressão, engano e exploração dos fracos
como negação da justiça que Deus exige de Seu povo. O lema, justo,
introduz o provérbio seguinte (3) que trata do suprimento, por parte de
Deus, das necessidades físicas de Seu povo (cf. Mt 6.11-33), bem como
do fato que Deus frustra os maus desejos dos ímpios. Alma do justo é
equivalente a "ao justo". No Antigo Testamento, a palavra desejo sempre
denota um mau desejo.
Os vv. 4 e 5 tratam da recompensa da preguiça e da indústria.
Com mão enganosa (lit. "com palma negligente") transmite a idéia de
u'a mão pendurada frouxamente.
Os vv. 6-11 retornam ao tema das recompensas do justo e do
ímpio. Por esse paralelismo haveríamos de esperar que a violência cobre
a boca dos ímpios (6) se referisse às repreensões ou golpes que lhes
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 39
serão infligidos tão certamente como as bênçãos que vêm sobre a
"cabeça" do justo. A palavra hamas, entretanto, é usada em outros
lugares para denotar exclusivamente maus tratos. Se conservarmos o
texto tal qual ele está, portanto, parece melhor compreendê-lo
exatamente como está no verso 11; linguagem violenta e suja cobre a
boca dos ímpios. Seu castigo, pois, é subentendido mais por comparação
do que por declaração. O verso 7 mostra que os efeitos da justiça e da
iniqüidade continuam a verificar-se na terra depois da morte do
indivíduo. No verso 8 a significação é que aqueles que são sábios de
coração dão ouvidos aos mandamentos da Sabedoria, porém, aqueles que
não freiam suas línguas, serão derrubados por terra.
No verso 9, será conhecido deve ser "será achado" (cf. 2Tm 3.9).
No verso 10, acena com os olhos refere-se à conduta astuciosa e
insincera. A Septuaginta e o Siríaco lêem: "Mas aquele que repreende
abertamente estabelece a paz", em lugar de e o tolo de lábios será
transtornado. Talvez que aquelas versões apresentem melhor tradução.
No verso 11 a antítese é entre o justo que "é uma fonte de
inspiração e encorajamento para com seus amigos quanto ao caminho da
vida, bem como a fonte à beira do caminho é um refrigério e um vigor
renovado para com o exausto viajante (Oesterley) e o ímpio, cuja boca se
cobre de linguagem imunda e perniciosa. Podemos notar que, tal como
em 6.12 e segs., a justiça e a iniqüidade podem ser manifestados no
coração (8), na boca (6,8,10-11), nos pés (9) e nos olhos (10).
O lema cobre introduz um profundíssimo dístico sobre o amor e o
ódio (12). Cf. 1Pe 4.8; Tg 5.20 e 1Co 13.7. Seguem-se duas, declarações
sobre o falar sábio e o insensato, bem como suas respectivas
recompensas (13-14). No verso 13, em lugar de entendimento, ler
"discernimento"; no verso 14, em lugar de escondem, ler "reservam"
(A.. D. Power); em lugar de é uma destruição, ler "é uma iminente
calamidade". A idéia é que, enquanto que o sábio oculta o que sabe, o
louco ('ewil ver 1.22 n.) se inclina a deixar escapar pela boca sua
estupidez e, conseqüentemente, pôr em perigo a si mesmo e a outros.
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 40
O lema destruição conduz a uma observação sobre a riqueza e a
pobreza (15). Destruição provavelmente dá a entender a ameaça de
desastre iminente, como por exemplo, a insegurança do pobre,
particularmente na revolução social que tomou lugar nos tempos de
Salomão. Quando a primeira metade da afirmação é repetida em 18.11,
porém, fica demonstrado que a história não tinha sido totalmente
relatada, pois a riqueza do homem rico em si mesma não é uma cidade
suficientemente forte.
Dois provérbios (16-17), ligados pela palavra vida, falam sobre o
fruto da vida reta e da iniqüidade, bem como sobre a relação da santa
disciplina (correção, ver 1.2 e segs.) para com isso. Quanto ao verso 17,
ler: "Ele é um caminho de vida que atende à correção, mas o que
abandona a repreensão faz errar". Um dos itens na recompensa das vidas
reta ou errada, é o efeito que seus exemplos exercem sobre os outros.
Quatro provérbios (18-21) se seguem, todos ligados à fala. O
primeiro mostra que é mal ocultar o ódio hipocritamente, e é
perversidade manifestar tal ódio por meio da calúnia. O segundo adverte
contra a conversa tola; o terceiro contrasta o valor da fala daqueles que
vivem retamente e a daqueles que assim não vivem; o quarto desenvolve
esse pensamento.
Apascentam (21) é a palavra comumente usada para o cuidado de
um pastor por suas ovelhas: os justos. Por virtude de sua fala, se tornam
pastores; mas os loucos morrem por falta da sabedoria que os justos são
capazes de proporcionar aos outros.
O verso 22 exibe um provérbio sobre a bênção sem adulterações
de Jeová. Em lugar de não acrescenta dores, é preferível: "e o labor não
acrescenta nada a ela".
O verso 23 fala sobre o divertimento de um insensato.
Os vv. 24 e 25 retornam ao tema principal desta seção, o castigo
reservado para os perversos e a bênção do Senhor entesourada para os
justos.
Temor (24) é equivalente a "coisa temida".
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 41
Quanto a como a tempestade, assim passa... (25), ler: "quando o
redemoinho passa o ímpio desaparece". Com esse verso cf. a parábola
em Mt 7.24 e segs.
O verso 26 nos apresenta novamente o preguiçoso (cf. 6.6). Somos
informados sobre o efeito de tal "mau e negligente servo" (cf. Mt 25.26)
sobre seu mestre. O oposto é visto em Mt 25.13.
O restante do capítulo (27-32) é devotado a mais seis provérbios
que versam sobre a sorte do justo e do ímpio. Vemos vida (27), regozijo
(28), força (29) como bênção dadas ao justo. Na segunda metade do
verso 29, ler: "mas Ele é destruição para os obreiros da iniqüidade".
Caminho do Senhor é Sua maneira de tratar com os homens.
O v. 30 estende mais ainda o princípio expresso em Êx 20.12, e é
estendido mais ainda por nosso Senhor, em Mt 5.5. Os verso 31-32
concernem mais particularmente à fala dos justos e dos ímpios (cf. Tg
3.5 e segs.). Em lugar de produz (31), ler: "floresce com a".
Provérbios 11
b) Alguns aspectosda iniqüidade (11.1-31)
O verso 1 trata da honestidade, e leva a prática comercial, e os
negócios em direta relação para com a lei e a vontade de Deus.
O próximo aspecto da iniqüidade que é tratado é o orgulho (2), e a
afiliação entre a sabedoria e a humildade é destacada. O verso 3
contrasta a integridade do justo com a perversão e distorção (sentido
literal da palavra traduzida como perversidade) dos rebeldes. Desleais
("transgressores" em algumas versões) é palavra que geralmente indica,
no Antigo Testamento, aqueles que se revoltam ou quebram a aliança
com Jeová.
Cinco provérbios se seguem (4-8) e que tratam da relação da
justiça para com a iniqüidade. O primeiro (4) demonstra que no dia da
ira - seja por morte, calamidade súbita ou o grande dia do juízo do
Senhor, referido pelos profetas (cf. Is 10.3; Am 5.18) - a justiça é que
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 42
livra, e não as riquezas. Essa é uma das muitas passagens neste livro, que
expressa princípios eternos, limitados em seu escopo, sob a antiga
aliança, mas cheios de nova significação para o crente cristão. O segundo
provérbio versa sobre as veredas respectivas do justo e do ímpio (5), um
deles tirando os obstáculos do caminho, enquanto prossegue, enquanto
que o outro inevitavelmente vai aos tropeções.
O substantivo cognato com sincero é o traduzido como
sinceridade, no verso 3, onde o pensamento é parecido. O verso 6 leva
ainda mais adiante esse pensamento. Talvez seja melhor traduzir a
palavra perversidade como "desejos" (ver 10.3 n., onde ocorre a mesma
palavra). São os seus maus desejos que enlaçam e derrubam os rebeldes.
Os vv. 7 e 8 continuam a comparação, o primeiro falando do
período após a morte, e o segundo falando do período de suas vidas.
A esperança da iniqüidade perde-se (7), é lit., "e a expectativa do
poder perece", isto é, a esperança baseada na força humana é
completamente frustrada. Nenhum livro da Bíblia se preocupa mais com
a escatologia que o livro de Provérbios.
O verso 9 diz respeito ao hipócrita, isto é, o ímpio ou caluniador.
Mediante o conhecimento o justo será finalmente salvo de tal indivíduo.
Delitzsch observa em seu comentário que o ímpio se torna um "condutor
luminoso" para o justo.
Dois provérbios mais (10-11) falam sobre o efeito exercido por
essas duas classes de pessoas sobre a comunidade.
Cidade (10); em heb., qiryah, uma cidade murada. Oesterley
corretamente salienta que esses versículos pertencem a uma data quando
as cidades israelitas eram governadas por israelitas, isto é, antes do
exílio. A cidade inteira se regozija devido à prosperidade do homem bom
e à queda do homem mau. Uma cidade é enobrecida pela presença de
homens abençoados por Deus e é destruída pela presença de homens
iníquos (11). Uma ilustração desse princípio pode ser vista em Gn 18,
onde Deus está prestes a destruir Sodoma e Gomorra devido ao grande
pecado de seus habitantes, mas então se dispõe a poupar a cidade por
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 43
causa de quaisquer pessoas justas que possam ser encontradas ali. Neste
versículo de Provérbios os líderes da cidade provavelmente são os
referidos.
O verso 12 declara quão insensato é demonstrar desprezo aberto
para com quem quer que seja: o sábio conserva para si mesmo os seus
pensamentos. O verso 13 exibe outro aspecto da iniqüidade, o contador
de histórias que desvenda segredos, e o contrasta com o homem fiel de
espírito - isto é, alguém que é absolutamente digno de confiança.
O verso 14 fala sobre a necessidade de conselho no governo e
sobre o valor de aceitar-se suficientes avisos. Cf. 15.20; 24.6. O
provérbio teria sido especialmente relevante logo após a morte de
Salomão (cf. 1Rs 12.1-14). O verso 15 trata da ameaça da fiança (ver 6.1
n.). "Ninguém soube tão bem que aquele que, aborrece a fiança estará
seguro", como Aquele que, tendo calculado o custo, tornou-se para nós
"de tanto melhor concerto... fiador" (Perowne, op. cit., pág. 30. A
referência é a Hb 7.22).
O verso 16 contém uma comparação em lugar da usual antítese.
Uma mulher graciosa obtém e conserva renome tão certamente como os
violentos agarram seu despojo. Podemos notar, de passagem, quanto este
livro tem a dizer acerca da verdadeira glória da feminilidade, e quanta
honra o livro empresta à esposa e à mãe de família.
Cinco provérbios (17-21) tratam sobre vários aspectos do bem e
do mal. Há o homem que mostra misericórdia (17), isto é, observa as
obrigações do concerto, que lhe impõem a injunção que ele ame a seu
semelhante tanto quanto a si mesmo. Ao assim praticar ele faz o bem
para si mesmo, enquanto que o homem cruel atrai tribulações contra si
próprio. Em seguida o perverso, cuja presente prosperidade é ilusória,
visto que não poderá beneficiá-lo para sempre, é contrastado com o justo
cuja recompensa é certa (18; cf. Gl 6.7). A idéia ficará mais clara se, em
lugar de recebe um salário enganoso, lermos: "opera uma obra
enganosa".
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 44
O verso 19 é difícil, visto que o hebraico, que diz simplesmente
"como justiça para a vida", na sua primeira metade, é tão compacto; mas
o sentido geral deve ser como aparece nesta versão. Os perversos, que
são odiosos para Deus, são contrastados com aqueles que levam vidas
retas (20), e então, uma vez mais, somos relembrados que os iníquos
serão punidos enquanto que a semente dos justos - isto é, as pessoas
retas como um todo - será preservada (21). Junte mão à mão representa
a expressão hebraica "mão com mão", uma expressão obscura, que
provavelmente é uma forte asseveração.
O verso 22 nos apresenta uma breve palavra sobre uma bela
mulher sem gosto (tradução literal) ou modéstia. O verso 23 fala sobre o
desejo dos justos, que é apenas para bem, bem como a ira (lit.,
"derramamento") que os perversos podem esperar.
Seguem-se três provérbios que inculcam a generosidade. A
riqueza não se baseia na avareza (24), mas justamente no contrário (25);
e a prática de guardar alimento para não ser vendido senão quando o
preço alteia (cf. Am 8.4-6) é denunciada (26).
Cinco provérbios, que tratam das recompensas e punições,
concluem esta seção. Aqueles que buscam o bem encontram o favor de
Deus; mas os que procuram tribulações acabarão encontrando mais do
que barganharam (27). É vão confiar nas riquezas, (28). O homem que
provoca distúrbio em sua própria casa pode esperar perder tudo e em
conseqüência pode até ser reduzido à escravidão (29); o resultado da
justiça é "vida mais abundante", que floresce como uma árvore (30).
O que ganha almas sábio é (30) seria melhor traduzido como "um
homem sábio toma almas", relembrando que almas, aqui, significa
"pessoas" ou "vidas". É verdade que o verbo "tomar", quando usado com
nephesh (alma) assume normalmente o sentido de "retirar", mas isso não
formaria bom senso aqui. O significado certamente é que o homem
sábio, por seu exemplo, ganha as vidas de outros homens, pelo que sua
justiça é uma árvore de vida para os outros tanto quanto para si mesmo
(cf. Mt 4.19).
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 45
Tanto os justos como os perversos receberão seu galardão nesta
terra (31). A Septuaginta, entretanto, como também a versão que
usamos, assume que isso significa que ambos serão punidos por seus
pecados; isto é, se os justos haverão de ser punidos (pois até eles,
mesmos pecaram), quanto mais os pecadores não o serão? É a tradução
da Septuaginta que é aceita por Pedro, em 1Pe 4.18.
Provérbios 12
c) Contrastes na conduta (12.1-28)
O primeiro contraste é feito entre as reações de diferentes homens
à disciplina (1). Os dois próximos são entre homens bons e maus (2-3).
Um recebe o favor de Deus, enquanto o outro Sua condenação.
Condenará (2) é um termo legal; lit., "Ele fará ser iníquo", isto é,
Ele considerará o tal homem como Iníquo. Um contraste entre boas e
más esposas é salientado no verso 4, um contraste que revela quantacoisa depende da esposa em um lar. Podemos ver o pleno
desenvolvimento do pensamento de "uma mulher virtuosa" em 31.10-31.
Três contrastes entre o justo e o ímpio se seguem, no tocante às
suas intenções (5), às suas palavras (6), e ao seu destino final (7; cf. Mt
7.26).
O verso 8 contrasta a comenda outorgada aos homens que possuem
alguma sabedoria com o estado do indivíduo de mente distorcida, que
nenhuma sabedoria possui. O verso 9 significa ou: "É melhor ser de
humilde escalão social mas ter o suficiente para manter um servo, do que
ter-se em alta estima e passar fome"; ou então, seguindo a Septuaginta,
mediante uma pequena alteração nos pontos vocálicos: "É melhor ser
humilde e ser o próprio servo", isto é, trabalhar por conta própria.
O verso 10 mostra que o contraste entre um homem justo e outro
ímpio se estende a seu tratamento dado aos animais.
O verso 11 põe em evidência o lavrador industrioso que lavra seu
próprio terreno, em oposição ao homem que desperdiça seu tempo em
atividades inúteis. (Em lugar de os ociosos ler "coisas inúteis").
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 46
O verso 12 é difícil; o hebraico tem apenas "O perverso tem
desejado a rede do iníquo, mas a raiz do justo produz". É mais fácil,
ainda que não necessariamente mais correto, ler conforme a Septuaginta:
"Os desejos dos iníquos são maus, mas as raízes dos justos são firmes".
Dois provérbios sobre recompensas e punições vêm em seguida. O
iníquo fica preso na armadilha de suas próprias palavras perversas,
enquanto que o justo ainda que tenha caído em dificuldade, é capaz de
escapar (13); e os homens serão recompensados de conformidade com
suas palavras e suas ações (14; cf. Mt 12.36; 2Co 5.10). Esses são
seguidos por dois provérbios a respeito do tolo (em heb., 'ewil): sua
presunção é contrastada com a disposição de deixar-se ensinar do sábio
(15); e a maneira pela qual a ira do tolo explode, logo que se sente
ofendido, é contrastada pelo autocontrole do sábio, em face de um
insulto (16).
Os vv. 17-19 representam três contrastes quanto à maneira de
falar: a testemunha veraz que diz o que é correto (essa a significação da
frase manifesta a justiça), e a evidência mentirosa; e o indivíduo de
língua afiada que fere com suas palavras (cf. Sl 106.33), e a conversação
ajudadora e curadora do indivíduo verdadeiramente sábio; a permanência
das palavras verdadeiras e a transitoriedade de uma mentira.
O provérbio seguinte leva mais adiante esses dois pensamentos. O
ímpio não somente profere mentiras; sua própria mente é enganosa, o
que forma contraste com a alegria e a paz daqueles que oferecem sábia
orientação (20).
O verso 21 volta a falar sobre o destino dos justos e dos ímpios.
Mais dois provérbios tratam de contrastes na linguagem: entre o
trato mentiroso e o verdadeiro (22), e entre o ocultar modesto da
erudição e a exposição aberta da insensatez (23). O provérbio seguinte
(24) contrasta o resultado do trabalho de obreiros esforçados e o dos
preguiçosos: uns são investidos de cargos de responsabilidade, mas os
outros acabam apanhando chicotadas num grupo de trabalhadores
escravos. Segue-se uma deliciosa palavra sobre a simpatia.
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 47
O sentido do verso 26, conforme é óbvio, é que os homens bons
são uma ajuda, enquanto que os homens maus são obstáculos aos outros,
na vereda da vida, mas o hebraico da primeira metade é obscuro.
No provérbio seguinte retornamos ao indolente (27). Vemo-lo,
depois de ter-se encorajado suficientemente para apanhar um animal na
caça, agora dominado pela preguiça para cozinhá-lo. Mas outros ligam a
palavra traduzida como assará com uma raiz árabe usada como termo
que denota caça, no qual caso o provérbio diria que o indolente é por
demais preguiçoso para caçar seu próprio alimento. Em contraste com
isso, "o bem precioso do homem é ser diligente" (tradução essa de uma
sentença difícil); ou seja, os indivíduos industriosos é que prosperam. O
versículo final deste capítulo é outra recomendação à vida de retidão
como vereda para a vida. Novamente o hebraico é difícil, e as versões
geralmente entendem uma antítese entre a vereda da justiça e o
caminho que conduz à morte.
Provérbios 13
d) Vida e disciplina (13.1-25)
O sábio e o cínico se destacam por suas respectivas atitudes para
com a disciplina paterna (1). A linguagem pura de um homem bom será
recompensada (cf. 12.14), mas o "apetite" (tal o sentido de alma, aqui)
dos rebeldes contra o concerto com Jeová é pela violência (2).
O verso 3 prossegue no tema da necessidade de disciplina no falar:
muito abre os seus lábios sugere um sorriso vulgar (ver Koehelr,
Lexicon, artigo pshq).
A disciplina é aplicada à atitude de alguém para com seu trabalho
(4) e para com o proferir a verdade (5). Os efeitos respectivos da vida
reta e da vida errada, na jornada da existência, são relembrados (6). Em
seguida aparecem dois provérbios sobre as riquezas. A interpretação
natural do verso 7 é que aqui há um contraste entre as riquezas legitima e
falsa. Um homem pode ser rico, mas não "rico para com Deus", ou então
pede ser pobre e contudo julgar-se proprietário de imensos tesouros (cf.
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 48
Lc 12.21). Não podemos separar esse conceito do pensamento sobre
Aquele que "sendo rico, por amor de vós se fez pobre" (2Co 8.9), em
Quem este versículo alcança sua maior altura de significado. Há versões
que traduzem "se faça" como "se finja", fazendo com que a antítese seja
entre o exibicionismo extravagante e a sovinice. Mas esta última
tradução é muito menos provável. O verso 8 demonstra que a pobreza,
tanto quanto a riqueza, tem as suas vantagens: o homem rico pode
depender de seus haveres para livrar-se de uma dificuldade; mas o
homem pobre está menos sujeito a expor-se a tais dificuldades, ou,
talvez, não tenha "nada a perder senão suas algemas".
O verso 9 nos apresenta outro contraste entre os justos e os ímpios.
O verso 10 ilustra esse princípio exibido nos aspectos particulares do
orgulho e da modéstia. Seguem-se observações sobre a propriedade
ganha por meios errôneos ou pelo trabalho (11); e sobre o efeito
deletério de alguma coisa ansiosamente desejada que é adiada e a
profunda fonte de prazer quando o desejo (isto é, a coisa desejada) é
satisfeito (12), e sobre os perigos envolvidos no desprezar a palavra de
Deus (13), não necessariamente limitada à lei de Moisés, mas certamente
incluindo-a (cf. Is 30.12 e seg.).
Três provérbios acerca da natureza da sabedoria aparecem em
seguida. O primeiro descreve o caráter refrigerador e revitalizador do
sábio ensino (14), pois esse é o sentido em que doutrina (em heb.,
torah) deve ser entendida aqui. O segundo (15) estabelece o modo pelo
qual Deus trata aos sábios e aos rebeldes (prevaricadores; cf. At 9.5), e
o terceiro mostra o modo pelo qual o homem de discernimento e o tolo
(kesil) mostram seu verdadeiro caráter (16).
O verso 17 contrasta mensageiros dignos com mensageiros
indignos de confiança (em lugar de saúde entender "segurança"). Os
resultados de dar ouvidos e de não dar atenção à disciplina são exibidos
no verso 18. O verso 19 pode ser parafraseado como: "Embora nada seja
mais deleitável que ganhar um alto e nobre desejo, os loucos (kesilim)
não abandonam seus perversos caminhos para conseguir isso: fazer tal
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 49
coisa seria odioso (uma abominação) para eles". O vers. 20 mostra outro
aspecto da disciplina divina. O desenvolvimento da sabedoria é afetado
pela companhia familiar que um homem conserva. Dois provérbios mais
(21-22) falam do destino eventual dos perversos e dos justos.
O verso 23 é muito obscuro. Um manuscrito diz: "o perverso", em
lugar de o pobre (em hebraico as duas palavras se assemelham muito), o
que dá bom sentido: não obstante o rico ser visto a florescer, sua colheita
não lhe aproveitará afinal de contas, vistoque foi obtida sem "juízo", isto
é, injustamente. Mas isso não significa que temos aqui um texto
infalivelmente certo. Cf. Tg 5.1-6. O verso 24 fala da necessidade de
disciplina paterna. Cf. Hb 12.6-9. Esta e outras passagens semelhantes
(como, por exemplo, 19.18; 22.15) mostram quão seriamente a educação
das crianças na justiça era considerada sob a antiga aliança. O verso 25
fala sobre a satisfação do justo e a frustração do ímpio.
Provérbios 14
e) A vida e o temor do Senhor (14.1-35)
O verso 1 nos faz recuar ao capítulo nono e às casas da Sabedoria
e da Loucura. A referência não pode ser à edificação literal de casa, o
que dificilmente poderia ser trabalho para mulheres, mas bem pode
referir-se à vida doméstica, que pode ser "edificada" ou "derrubada" pela
sabedoria ou falta de sabedoria da esposa e mãe.
O verso 2 mostra que os caminhos "retos" e "perversos", tão
freqüentemente mencionados neste livro, dependem, em última análise,
da atitude para com Jeová.
O verso 3 trata da linguagem sábia e da linguagem vã.
O ponto alvejado pelo versículo 4 provavelmente é: "Não há boi,
não há necessidade de limpar o estábulo; mas também não há aragem, e
portanto não há trigo". Em seguida encontramos um provérbio sobre as
testemunhas verdadeira e falsa (5), e outro sobre o escarnecedor (6). Este
não pode encontrar a sabedoria quando a busca, pois sua cínica
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 50
arrogância não deixa espaço para "o temor do Senhor" (ver 9.10n.). Em
seguida temos mais dois provérbios sobre os tolos (7-8).
O verso 9 é outro dos versículos obscuros desta seção muito antiga
do livro de Provérbios. Aceitando o hebraico tal qual está, podemos ler:
"Uma oferta culpada zomba dos tolos"; isto é, os sacrifícios pelo pecado,
oferecidos pelos tolos, zombam deles devido a sua ineficácia (cf. Is 1.11
e segs.). Porém, há certos pontos obscuros nesse conceito, que sugerem
que não podemos, no presente, entender totalmente o que o escritor
queria dizer com este provérbio.
O provérbio isolado, no verso 10, acerca da solidão final do
coração humano, em suas alegria e tristezas, é de rara beleza.
Incidentalmente, este versículo labora contra a alegação ocasionalmente
feita de que os mestres sábios se preocupavam exclusivamente com a
conduta exterior, e também ilustra o fato que, neste livro, o termo
coração, tal como em português, algumas vezes salienta as emoções e
não tanto o intelecto e a vontade.
No verso 11 retornamos ao tema da firmeza dos retos e da
destruição dos ímpios.
O verso 12 é intitulado de "o enganoso indicador de caminho" por
A. D. Power.
Na segunda metade do verso 13, que versa sobre o riso, ler "pode
ser" em lugar de é.
Outros provérbios, nesta seção, tratam sobre recompensas e
castigos (14), ingenuidade e discernimento (15), e prudência (15). O
homem sábio é cauteloso e evita o desastre, enquanto que o insensato
perde o controle e se porta com insolência devido à sua vã auto-
confiança (16). Então vêm surgir provérbios sobre o irar-se com
facilidade e a malícia (17), sobre a herança dos estultos e dos prudentes
(18), sobre a retribuição, (19), sobre os vizinhos (20-21), sobre praticar o
bem e o mal (22), sobre o trabalho e o fuxico (23), sobre o adorno dos
sábios e dos tolos (24), e sobre as testemunhas falsas e verdadeiras (25-
27).
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 51
A testemunha veraz livra as almas (25), isto é, "salva vidas" e,
acima de tudo, vive no temor do Senhor (26-27).
O verso 28 é uma observação sobre o governo. O verso 29 diz
respeito ao conter da ira. O verso 30 contrasta a compostura mental (em
lugar de saúde ler "tranqüilidade") com o efeito corrosivo da inveja
sobre a pessoa que a afaga. O verso 31 condena a exploração do pobre, o
que é afirmado ser uma afronta direta contra Deus. O verso 32 trata da
sorte dos iníquos e dos justos. O texto diz que os justos têm esperança
depois da morte. Afirmar que o texto deve estar errado porque tal
esperança ainda não havia despertado em Israel (ver, por exemplo, Toy,
Oesterley) é argüir num círculo vicioso. Embora o escopo dos mestres da
sabedoria normalmente se limitasse a questões deste mundo, isso não
significa que "ninguém pode subir ao cume das montanhas para saudar o
alvorecer" (O. C. White House, Isaiah, Cent. Bible, pág. 100, noutra
conexão).
O verso 33 é outro provérbio a respeito da manifestação da
sabedoria e da estultícia. No interior dos tolos significa a estultícia
deles.
Os vv. 34 e 35 são provérbios acerca do rei, tal qual o verso 35,
diz R. F. Horton: "O estudo das coisas que dizem respeito ao rei, para o
leitor meditativo do livro de Provérbios, é um estudo acerca de Cristo.
Os elementos ideais falam sobre Ele; e as falhas clamam por Ele" (The
Book of Proverbs, Expositor's Bible, pág. 327).
Provérbios 15
f) A vereda da vida e os segredos de um coração animado (15.1-
35)
Os vv. 1-7 falam sobre a loucura e a sabedoria, particularmente
sobre a manifestação dessas qualidades no falar. O pensamento
controlador é o da onisciência de Deus e Sua constante vigilância sobre a
existência (3). Quanto a quebranta o espírito (4) cf. Is 65.14.
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 52
Os vv. 8-17 se ocupam do caminho da vida, e uma vez mais o
pensamento dos provérbios é dominado pelo conhecimento que Deus,
que contempla a habitação desconhecida dos mortos, também vigia os
pensamentos dos homens (11). Em lugar de inferno e perdição (11) ler
"Seol" e "Abadon". Entre os itens salientados temos a recusa de Deus em
aceitar sacrifícios oferecidos por homens iníquos (cf. Is 1.11 e segs.) e
Seu deleite em aceitar a oração dos justos (8), bem como a satisfação,
mesmo em meio a circunstâncias adversas, que o homem temente a Deus
pode desfrutar (15-17).
Os vv. 18-33 consistem de obiter dicta sobre a vereda da vida.
Essa vereda é salientada no verso 24, traduzido por A. D. Power como:
"A vereda da vida é para cima, para o prudente, para que ele possa
desviar-se do Seol, abaixo".
Provérbios 16
g) A vigilância do Senhor sobre a vida (16.1-33)
Pensamentos e planos sábios (as preparações do coração), bem
como sua expressão, vêm da parte de Jeová (1). Um homem pode ficar
satisfeito com sua justiça própria, mas Jeová é o juiz final sobre isso (2;
cf. 1Co 4.4). Todos os propósitos e planos, por conseguinte, deveriam
ser entregues (lit., "rolados sobre") a Jeová (3). Jeová fez todas as coisas
para Seu próprio propósito: e Ele cumprirá Seu propósito referente ao
homem perverso quando Ele trouxer contra ele o dia do mal (4). A frase
é compacta. Não há sentido, aqui, de uma predestinação arbitrária dos
homens para esse dia do mal. Aquilo que Deus aborrece é uma mente
orgulhosa (5; quanto a junte mão à mão... ver 11.21n.).
Misericórdia e verdade (6), isto é amor ao concerto e fidelidade
(ver 3.3-4 e segs.), são os meios empregados para purgar (lit., "cobrir") o
pecado, tal como é afirmado que essa é uma função do amor, em 10.12.
Isso não deve ser considerado como um princípio formal de expiação;
mas expressa as exigências básicas de Deus sob a aliança estabelecida
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 53
com Israel (cf. Mq 6.6-8; Hc 2.4), e está ligado mui intimamente com o
abandono ao mal devido à reverência a Deus. Também expressa
admiravelmente a reação à expiação, ou seja, fidelidade e abandono ao
mal, ocasionados pelo temor de Deus e pelo amor agradecido para com
Ele. Note-se que, o que quer que seja planejado pelo homem, Deus tem o
poder de dispor (9).
O verso 10 exibe um quadro ideal sobre o rei (ver 14.35n.). A
idéia envolvida em adivinhação é que, quando o rei profere um
julgamento justo, fala como oráculo, à semelhança de um profeta, e o
resultado é que sua boca não se revolta contra a justiça. Isso nos prepara
para o quadro do Rei messiânico com seu julgamento divino (cf. Is 9.7-
11.3-4). Os vv. 12-15 também se referem ao rei. Quão aquém desseideal
a casa real estava de fato é revelado na história. Mas o quadro
permaneceu, para ser traçado com mais clareza pelos profetas e para ser
cumprido pela Realeza de Cristo.
Quanto à frase, mensageiro da morte (14), Perowne observa: "A
fúria incontrolável do déspota oriental... é apenas o abuso da espantosa
justiça do Rei Arquétipo" (op. cit., pág. 115).
Exortações para que se adquira a sabedoria e se abandone o
pecado, e provérbios acerca da humildade, da confiança, da fala com
graciosidade, da má porção (27; cf. 6.12 e segs.), do fuxico do homem
violento, da honrosa idade avançada, e do autocontrole, compõem os
versos 16-32. O verso 33 termina o capítulo versando sobre o mesmo
assunto pelo qual teve início. A sorte é lançada no regaço, em cujas
dobras deve ser sacudida e de onde deve ser tirada; mas é Deus que
determina o que ela diz. O pano de fundo é, indubitavelmente, a sorte
sagrada (cf. Js 7.14-18), mas a significação pretendida é muito mais lata.
Deus é Quem dispõe; não existe aquilo que se convencionou chamar
sorte ou acaso. Duas passagens obscuras podem ser notadas. No verso 20
entendemos que o homem que manuseia sabiamente a Palavra de Deus
(isto é, lhe obedece) terá sua recompensa. O verso 26 pode ser traduzido
como: "O apetite (lit., "alma", aqui traduzido como boca) do trabalhar
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 54
trabalha para ele". Perowne salienta que isso é elevado a um novo nível
em Jo 6.27. O verso 25 também ocorre em 14.12.
Provérbios 17
h) Homens maus e tolos, juntamente com alguns outros (17.1-28)
Vítimas (1), ou sacrifícios, é palavra usada por metonímia acerca
das festas desfrutadas pelos adoradores quando o animal inteiro não era
consumido. Ver 7.14n. Ironicamente, uma notável ilustração sobre o
ponto estabelecido pelo verso 2, ocorreu quase imediatamente após a
morte de Salomão, quando seu próprio "servo prudente", Jeroboão,
dividiu a herança com o próprio filho que "procedeu indignamente", isto
é, Roboão, ficando aquele com a parte do leão (ver 1Rs 13). O verso 3 é
outro exemplo do modo pelo qual a conduta reta é tratada no livro de
Provérbios - não isoladamente, mas à luz do fato que é com Deus que
temos de tratar. O processo empregado por Deus, para testar os corações
humanos, é tão drástico como o usado para refinar o ouro (cf. 1Pe 1.7).
Não pode haver ética superficial onde isso serve como princípio
fundamental. Cf. 14.31 com o verso 5.
O presente (8) é provavelmente um suborno (cf. verso 18). O
mensageiro cruel (11) é o mensageiro da condenação do rebelde, o
vingador, quer humano quer angelical.
A provável significação do versículo 14 é que as dissensões
começam com uma bem pequena fricção, como um olho de água dá
início a um rio, pelo que é sábio evitar até esta, antes que se agrave.
Porém, algumas das palavras são de sentido obscuro.
O verso 15 se refere a procedimento legal. O verso 16 tem sido
considerado como a sugerir que "ao sábio" tinha sido oferecida uma
recompensa para instruir o tolo, mas que isso seria inútil. O ponto
almejado é simplesmente que a sabedoria é algo interno que requer um
coração inclinado para ela.
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 55
Provérbios 18
i) Alguns perigos e bênçãos da vida (18.1-24)
Entre os perigos acha-se o separatista (1; chamados por A. D.
Power de "O Individualista Egoísta"), o tolo exibicionista (2), o aborto
da justiça (5), a linguagem rixosa e maldosa do tolo e o fuxico (6-8) e o
indivíduo indolente (9).
Os justos, em suas angústias, podem invocar o nome do Senhor,
que representa Seu poder e majestade, e ali encontrar-se em segurança
(10). As riquezas do homem rico podem servir realmente de fortaleza
para ele (11; cf. 10.15), mas é muito insegura quando comparada com a
torre forte do justo. A fortaleza do rico é um muro alto somente em sua
imaginação. Cf. 16.18 e 15.33 com o verso 12.
Os vv. 13-24 enumeram algumas manifestações da sabedoria e da
estultícia, bem como algumas das bênçãos da vida, tais como o espírito
animado (14), uma boa esposa (22) e um legítimo amigo (24). Há outras
observações: por mais rijo que seja o espírito, uma vez quebrado, sua
carga se torna intolerável, (14); e temos outra referência ao ignominioso
poder do suborno (16); um lembrete sutil e gentilmente humorístico para
que se ouça ambos os lados de uma questão (17; a referência imediata é
claramente a uma ação legal); um comentário, como parece, sobre o uso
do lançamento de sortes para solucionar uma disputa (18); uma anotação
acerca do poder letal da língua (21); uma nota de compaixão,
freqüentemente observada pela lei e pelos profetas, para com os pobres
proscritos (23). O texto do verso 19 é incerto. A Septuaginta diz: "Um
irmão ajudado por um Irmão é como uma forte cidade alta".
Provérbios 15
j) Estudos sobre o caráter (19.1-29)
Esta seção contém uma série de memoráveis esboços catalogados.
Quanto ao indivíduo paupérrimo mas justo (a palavra hebraica era usada
para os extremamente necessitados) e ao rico inútil (1) cf. 28.6.
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 56
Quanto ao verso 2 fica melhor a tradução: "o desejo sem
conhecimento não é bom, e aquele que se apressa com os pés erra seu
caminho". Podemos ver como a estultícia pode fazer um homem
fumegar de ira contra Deus (3), como as riquezas e a politicagem
granjeiam popularidade (4-6), e vemos o isolamento provocado pela
pobreza (4-7).
O verso 7 é o único provérbio de três linhas no primeiro livro de
Salomão. A Septuaginta apresenta antes dois pares, mas é muito confusa.
A conexão de idéias um tanto frouxa, do verso 10, pode ser
evitada se, seguindo D. Winton Thomas, que identificou uma segunda
raiz hebraica, com as mesmas letras da que é traduzida por deleito
(Journal of Theological Studies, vol. 38, 1937, pág. 400), traduzirmos:
"A administração não é própria para um tolo; muito menos próprio para
um servo é dominar príncipes".
Outro provérbio acerca do autocontrole (11) é seguido ainda por
um outro a respeito da ira e do favor reais (12), e então por um sumário
das piores provações por que pode passar um marido e pai (13). Mas isso
é imediatamente contrabalançado (14) pela asseveração que, apesar de
um homem poder herdar sua riqueza doméstica de seus antepassados,
uma boa esposa é um presente direto de Deus. Doar aos pobres é descrito
como "emprestar a Jeová" (17; cf. Mt 25.34 e segs.). Não é suficiente
evitar a opressão: o homem sábio fornece verdadeira ajuda.
O hebraico do verso 18 é complicado, mas, diferentemente de
outras versões, esta segue quase literalmente o hebraico. A intenção
provável da cláusula é fazer uma advertência contra o destruir um filho
mediante a indulgência exagerada, isto é, por não corrigi-lo.
O verso 19 também é muito compacto e obscuro.
Reunindo as duas porções do verso 22, compreendemos que a
medida da bondade de um homem é aquilo que ele deseja fazer: um
homem pobre que deseja prestar ajuda, embora não possa fazê-lo, é
infinitamente preferível ao homem que, embora melhor capacitado, faz
apenas protestos não cumpridos de desejo de prestar ajuda.
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 57
No verso 24, em lugar de no seio, ler: "no prato". O indivíduo
referido é tão preguiçoso que, tendo mergulhado sua mão no prato, à
maneira oriental, não tem ânimo de levá-la à boca. Uma inocente
hipérbole, sem dúvida!
Quanto ao verso 25, observa Toy: "quando os homens maus são
punidos, os moralmente ignorantes são advertidos".
O hebraico, no verso 27, diz apenas: "Cessa, meu filho, de ouvir
instrução para errar...". Tradução que daria melhor explicação sobre isso
seria: "Cessa... de ouvir instrução apenas para errar...", isto é, não escutes
simplesmente para tornar a esquecer a instrução.
Provérbios 20
l) Meios e fins (20.1-30)
O vinho e a bebida forte (1) são personificados no beberrão, que
se torna um blasfemador ou escarnecedor (ver 1.22n.),bem como um
contencioso.
O verso 4 apresenta novamente o indolente que acha que está frio
demais para arar e então espera em vão pela colheita quando chega o
próximo verão.
O verso 6 declara que muitos se ufanam de sua bondade, mas que
é desesperadamente difícil encontrar um homem que, sob todas as
circunstâncias, seja absolutamente digno de confiança. Fiel, nesse
versículo, tem muito do sentido que lhe é dado no Novo Testamento (cf.
1Co 7.25). Depois disso o verso 9 apresenta mais um desafio e
demonstra o ponto de vista radical que este livro assume sobre o pecado.
O ouvido que ouve, e o olho que vê (12) introduz um provérbio
compacto. "Não apenas os órgãos da audição e da vista, mas suas
funções são trabalho de Deus" (cf. 16.4). Fica subentendido que aquilo
que o ouvido escuta, e aquilo sobre o que o olho repousa, deveria ser
algo reto e agradável a Deus" (Oesterley).
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 58
O verso 13 é outra advertência contra o ócio, que produz a
penúria.
O verso 14 é um pouco de observação sobre a prática comercial. O
comprador se queixa que o artigo é inferior, mas quando exibe aos outros
se gaba de quão boa barganha fez. Quanto à prática da fiança (16) ver
6.1 e seg. O mandamento é dirigido aqui ao credor. Tira sua roupa se
refere ao penhor que foi oferecido pela fiança (Cf. Êx 22.26 e segs.).
Penhora-a (16); isto é, assume uma responsabilidade por causa de
um estranho. Cf. 27.13.
Pão da mentira (17) representa sustento obtido por meios
desonestos. Com o verso 18 cf. Lc 14.31. O verso 25 é difícil, mas a
tradução desta versão provavelmente é a melhor. A advertência,
portanto, é contra os votos precipitados: dedicação de alguma coisa a
Deus mediante a fórmula "é santo", para então fazer inquirição, isto é,
lamentar a ação. Cf. "Corbã"; Mc 7.11n.
A alma do homem (27), ou melhor ainda, "o espírito do homem"
é o que o distingue dos irracionais. Um animal pode ter nephesh (alma),
mas foi nas narinas do homem que Deus soprou o ruah (espírito ou
fôlego) da vida. Esse fato significa que mesmo no caso do homem caído
Deus tem Sua lâmpada mediante a qual Ele sonda o íntimo do homem
(cf. 1Co 2.11), que dá testemunho sobre Si mesmo pela luz da
consciência, iluminando os escuros recantos do coração.
No verso 28, benignidade e verdade (ver 3.3n.) são uma vez mais
características do rei ideal, e a misericórdia de Deus, ligada à Sua
aliança, assegura seu trono - "Teneo et teneor". 2Sm 7.12 e seg., lança
muita luz sobre o que tal afirmação significaria para Salomão. No verso
30 esta versão apresenta bom sentido contudo, o texto hebraico é incerto.
Provérbios 21
m) Reação, na vida, à lei de Deus (21.1-31)
O coração do rei era orientado por Deus tão firmemente como o
irrigador corta e controla os canais (1). Cf. o v. 2 com 16.2. O verso 3
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 59
expressa um pensamento que é freqüentemente encontrado nos escritos
dos profetas.
Em lugar de lavoura (4) ler "lâmpada", o símbolo da prosperidade
de um indivíduo (cf. 13.9). Todavia, o versículo é obscuro. O texto do
verso 6 é igualmente incerto, mas o sentido geral é suficientemente claro.
As riquezas podem ser adquiridas desonestamente, mas são transitórias,
e a posse de riquezas assim adquiridas levam à destruição.
Quanto ao verso 7, a linguagem sugere que a violência de homens
perversos os apanha, como que numa rede. Quanto ao verso 8, ler:
"Muito tortuoso é o caminho de um homem sobrecarregado de culpa".
Uma paráfrase de A. D. Power, quanto ao verso 9, é eficaz: "É melhor
habitar em águas-furtadas debaixo do telhado, do que num duplo salão
com uma esposa rixosa".
O verso 12 é outro provérbio com dificuldades sintáticas. O ponto
visado parece ser, entretanto, que os justos aceitam a lição dada pela
queda da casa dos perversos.
O verso 16 fala sobre a sorte do indivíduo desviado: ele repousará
na assembléia das Sombras.
O verso 18 nos relembra de Is 43.3-4, onde é dito que o Egito
serviu de resgate por Israel. "Há uma espécie de substituição; um resgate
é pago para permitir que o justo escape, e o resgate é a pessoa do iníquo"
(Horton, op. cit., pág. 152).
O verso 21 é um prenúncio das palavras de nosso Senhor: "Mas
buscai primeiro..." (Mt 6.33). A justiça e "o amor do concerto"
(bondade) são coisas particularmente exigidas do povo em aliança com
Deus (Mq 6.6-8), e aqueles que buscam essas coisas, diz o sábio,
possuirão "todas essas coisas", incluindo a adição da vida e da honra.
Como toda a sabedoria, o entendimento e o conselho se derivam
em Deus, não há possibilidade de usá-los eficazmente contra os Seus
propósitos (30). E quaisquer, que sejam os preparativos feitos para a
batalha, o livramento vem da parte de Jeová (31). "Dois provérbios
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 60
gêmeos... Nada vale contra Deus, nada vale sem Ele" (E. H. Plumptre,
Proverbs, Speaker's Commentary).
Provérbios 22
n) Causa e efeito no terreno espiritual (22.1-16)
Quanto ao verso 1 ler: "o favor é melhor que a prata...". Este
provérbio procura expressar o valor de uma boa reputação.
O verso 2 relembra que todos os homens têm uma origem comum
e uma responsabilidade comum para com Deus, quaisquer que sejam as
barreiras existentes entre eles na terra.
O verso 4 sumariza diversas das principais lições do livro em
poucas palavras. A conexão entre a palavra humildade - o senso de
dependência expresso em piedade, e o temor do Senhor é muito
íntima. Cf. 21.21.
Assim como o rico domina o pobre, semelhantemente o que toma
emprestado, com uma dependência igualmente forçada, está sob
constante obrigação para com a pessoa de quem tomara emprestado (7).
A palavra servo não precisa ser tomada literalmente. Com o pensamento
no verso 8, cf. Gl 6.7. A vara da sua indignação falhará sugere que o
tempo virá quando essa ameaça de um homem perderá sua capacidade
para exercer sua ira (cf. Is 10.5 quanto ao significado).
O indolente apresenta duas das mais interessantes desculpas para
não se ocupar em trabalho algum (13). Ele não sai fora de casa por temer
encontrar um leão; e não sai à cidade por temer ser assassinado na rua.
Quanto a mulheres estranhas (14) ver anotações sobre 5.1 e segs.
O verso 16 apresenta uma declaração realmente difícil. Aceitando
o texto conforme traduzido aqui, pode significar: "O homem que adquire
sua riqueza explorando o pobre, e o homem que ganha a sua riqueza
bajulando o rico, serão igualmente reduzidos à pobreza". Isso fornece
sentido coerente, mas exige algum esforço de imaginação.
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 61
IV. O LIVRO DOS SÁBIOS - 22.17-24.22
Existe mais conexão entre os dizeres deste grupo do que na seção
anterior. Há consideráveis paralelos com o ensino egípcio de Amen-em-
ope, especialmente na seção de 22.17-23.11, e uma dependência literária
do egípcio é freqüentemente reconhecida facilmente por alguns
comentaristas. Amen-em-ope é um documento muito mais ordenado e
sistemático que "as palavras dos sábios", e é difícil perceber como um
compilador resolveria estragar, por tratamento tão falho de sistema, a
conexão dos "trinta capítulos" do oráculo egípcio.
a) O que deve ser evitado (22.17-23.11)
Um breve exórdio (17-21) chama a atenção do aluno para as
palavras dos sábios que o mestre selecionou para sua instrução (17),
convida-o para que faça com que elas façam parte de si mesmo (18) e
declara que o propósito delas é implantar nele a confiança em Jeová (19).
Não te escrevi excelentes coisas...? (20) é uma verdadeira
encruzilhada. A palavra hebraica é shilshom, que significa "três dias
atrás". Mas a Septuaginta e a Vulgata traduzem-na como "em forma
tríplice", pelo que Orígenes foi capaz de sustentar seu acesso tríplice à
exegese por esse versículo.
A tradução desta versão excelentes cousas se baseia na suposição
que a palavra era usada para denotar a principal das trêspessoas em uma
carruagem, e que assim ela veio a significar "proeminente" ou
"excelente". Amen-em-ope, entretanto, traz as palavras: "Considera estes
trinta capítulos: eles deleitam, eles instruem; eles são os principais entre
todos os livros..." O vocábulo hebraico para trinta é shelo-shim, e
portanto, fica sugerido que "trinta" aparecia no texto original, e que o
escritor, tomando por modelo Amen-em-ope, escrevera "trinta coisas",
isto é, provérbios. Tal como as coisas se encontram, a despeito do
trabalho de Gressmann, nem todos têm concordado que realmente
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 62
existam trinta provérbios no "Livro dos Sábios", e certamente não mais
que um terço deles tem paralelo em Amen-em-ope.
Alguns provérbios têm paralelos em outras obras, tal como os
Provérbios de Ahikar, da Babilônia. Devido a toda a inclinação de
traduzir-se "trinta coisas" e a admitida dificuldade envolvida na palavra
shilshom, é necessária uma boa dose de reserva. A tradução favorecida
pelos comentaristas mais antigos, "anteriormente", não pode ser
rejeitada, visto que é possível quanto ao sentido e quanto à gramática. O
mestre, nesse caso, estaria a referir-se à alguma obra ou curso de lições
mais antigos. Segundo a gramática estrita, uma outra partícula, temol,
seria necessária; talvez ela tenha sido eliminada.
22.22-23.11 mencionam coisas que o sábio precisa evitar. Em
primeiro lugar a exploração dos pobres (22-23): atropeles na porta ao
aflito (22) significa o uso de ação legal contra ele: salienta o fato que
Jeová é o advogado e vingador do pobre. Em segundo lugar a "infecção
do mau temperamento" (24-25); em terceiro lugar, a fiança (26-27; estes
versículos não têm paralelo egípcio); em quarto lugar, violação de
fronteiras (28; cf. Dt 19.14). O verso 29 fala da promoção do indivíduo
consciente. Amen-em-ope, que era servo civil parece ter tido cuidado
particular na preservação desse paralelo.
Provérbios 23
As instruções do oráculo prosseguem com uma passagem referente
às maneiras à mesa (23.1-3); uma injunção para evitar a busca incansável
e nunca satisfatória pelas riquezas (4-5) e então uma deliciosa passagem
sobre o mísero, em sua casa (6-8).
Olhos malignos ocorre somente aqui e em 22.9, no Antigo
Testamento. É uma expressão usada a respeito de pessoas com espírito
contencioso. A conversação com um tolo não é recomendada (9), e outra
solene advertência é adicionada para que o aluno não usurpe os direitos
dos órfãos (10-11). Ao lado deles existe um poderoso redentor (em
heb., go'el), o próprio Deus. No Antigo Testamento, o go'el é o parente
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 63
chegado que tem ou assume o direito e a responsabilidade de vingar o
sangue derramado (Nm 35.19) e de redimir propriedades (Rt 4.4), e de
proteger em geral os interesses da família do parente falecido.
b) O que procurar (23.12-25)
Após um apelo para que se dê ouvidos à instrução (12), é
aconselhado o castigo corporal (13-14). Uma admoestação sobre a
sabedoria é então adicionada (15-21).
Nesta, o temor do Senhor é uma parte importante (17).
Com os vv. 15 e 16 cf. 3Jo 4.
O aluno deve lembrar-se que há um fim (18), isto é, que haverá
uma recompensa ou retribuição eventual; ele não deve ter inveja dos
pecadores (17) e nem deve ajuntar-se aos dissolutos em suas farras (20-
21), mas antes deve procurar a verdade e a sabedoria a qualquer preço
(23).
c) Armadilhas apontadas (23.26-24.2)
As palavras, Dá-me, filho meu, o teu coração (isto é, "atende-me
cuidadosamente") introduz advertências contra a sensualidade (27-28) a
bebedeira (29-35) e as más companhias (24.1-2).
Provérbios 24
d) Estudos sobre a sabedoria e a loucura (24.3-22)
A aquisição da sabedoria e do conhecimento é comparada com a
edificação e equipamento de mobílias de uma casa (3-4). A relação entre
o conhecimento e o poder é esboçada (5-7); cf. 11.14; 20.18). O tolo não
ousa falar na porta, o centro dos negócios e transações legais (7).
O verso 11 apresenta um mandamento para que se ajude aqueles
que estão em perigo de morrer, quer por motivo de julgamento injusto,
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 64
ou, mais provavelmente, devido a opressão do pobre às mãos de homens
ricos (conforme a opinião de Oesterley); ou, talvez, às mãos de uma
sociedade ímpia tal como a que é pintada em 1.10 e segs. Se esse dever
for negligenciado, Deus saberá (12).
Sete vezes cairá o justo (16); isto é, em calamidade, e não em
pecado. Em contraste com o justo, que pode ser derrubado vez após vez,
mas que de cada vez se recupera, o iníquo é "engolfado pela
calamidade". Um simples desastre é suficiente para esmagar os iníquos.
Assim mesmo, ninguém deve regozijar-se com a queda de um
inimigo (17-18).
Desvie dele a sua ira (18) "não deve ser entendido como a afirmar
que Deus deixará de castigar um homem perverso porque outro homem
se regozija pelo seu castigo; a forma completa da expressão é "se volte
dele para ti", e a ênfase deve ser posta em "para ti"" (Toy). Mas, essa
forma completa de expressão é negada por alguns comentaristas.
Os vv. 21 e 22 falam "dos poderes que existem". As palavras, os
que buscam mudanças (21) são muito incertas. A palavra é intransitiva,
e o sentido de "revolucionários" não pode ser retirado do hebraico. A
Septuaginta diz "não desobedeças a qualquer deles". É melhor ler
conforme diz Toy: "Teme a Deus e ao rei; não ires a qualquer deles; pois
a ruína que infligem é súbita, e a destruição que enviam não pode ser
prevista". Cf. 1Pe 2.17.
V. PALAVRAS DOS SÁBIOS: OUTRA COLEÇÃO - 24.23-34
Os vv. 23-26 tratam do procedimento legal.
O verso 26 apresenta uma estranha cena para um tribunal da lei:
mas é possível que a palavra traduzida como beija tenha o sentido de
"equipar" conforme assumiu no hebraico pós-bíblico. A tradução, então,
seria mais ou menos como segue: "Aquele que equipa seus lábios (isto é,
com sabedoria) dará uma resposta correta".
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 65
O verso 27 é freqüentemente tomado no sentido de que um meio
adequado de vida deveria ser obtido antes do casamento. Isso parece
restringir desnecessariamente a aplicação, especialmente em vista do fato
que, entre os hebreus, o casamento em anos verdes era um costume
generalizado. O que está envolvido em "prepara fora a tua obra",
conforme diz Perowne, certamente é calcular o custo e preparar os
materiais (cf. 1Rs 6.7; Lc 14.28). Cf. o verso 29 com o verso 17. Os
versos 30-34 mostram-nos o indolente a dormir, enquanto sua vinha é
um deserto, e as palavras de 6.6-11 são repetidas como uma nova nota de
ignomínia.
VI. O SEGUNDO LIVRO DE SALOMÃO - 25.1-29.27
Provérbios 25
a) Comparações instrutivas (25.2-28)
Os vv. 2-7 tratam de questões ligadas com a corte. Os caminhos de
Deus são inescrutáveis, e isso reflete a Sua glória. O rei, por outro lado,
tem o dever de "investigar o motivo das coisas", e nisso consiste a sua
glória (2). Mas o rei, igualmente, tem algo de insondável em seus
propósitos (3), pois é o vice-regente de Deus.
Com os vv. 6 e 7 cf. Lc 14.8-10.
A quem já os teus olhos viram pertence ao verso 8, e essas
palavras devem ser lidas como: "o que teus olhos têm visto".
O litígio é o assunto dos vv. 8-10.
Litigar (8) quer dizer "pleitear em tribunal de justiça". A
advertência é contra iniciar ações legais contenciosas e desaconselhadas,
o que só poderá redundar em vergonha para a pessoa que as inicia.
Os vv. 11-14 provêem quatro símiles. Apesar de aqui dizer maçãs,
não podemos dizer com certeza qual a fruta em questão.
O verso 14 se refere ao homem que vive a vangloriar-se daquilo
que dá, mas que, em realidade, coisa alguma dá.
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 66
A advertência, no verso 17, é claramente dirigida contra o abuso
contra a hospitalidade de alguém. Depender de um homem indigno de
confiança, quando vem a tribulação, écomo andar com um pé deslocado
(19). A vingança mais eficaz é fazer-se bem ao próprio inimigo (21-22;
cf. Mt 5.44; Rm 12.20). Com o verso 24 cf. 21.9.
Provérbios 26
b) Tipos de tolos e tratantes (26.1-28)
Os vv. 1-12, com uma possível exceção, forma o Livro dos Tolos.
A palavra usada, em cada um dos casos, é kesil (ver 1.22 n.). A exceção
é o verso 2.
Quanto a pássaro, no verso 2, leia-se "pardal". O sentido do verso
é que a maldição injustificável não produz dano algum, e é uma
refutação que sem dúvida os tolos mantinham aqui, de que eram
capazes de causar dano aos justos por virtude de suas maldições.
A aparente contradição nos vv. 4 e 5 provocou dificuldades para
os rabinos (Tractate Shabbath, 30b). A resposta oficial dada então era:
"um se refere às coisas da lei, e o outro às questões mundanas". Mas é
mais provável, entretanto, que a diferença seja simplesmente entre a
discussão sem proveito, com um tolo, em seu próprio nível (4) e
ocasionalmente, para que não venha a pensar que ninguém lhe pode
responder, confrontar sua estultícia com a sabedoria (5).
Usar um tolo como mensageiro é causar dano próprio devido à
falta de idoneidade do tolo para tal (6; dano é lit., "ira").
Um provérbio (isto é, uma parábola) é algo inteiramente fora de
lugar quando proferido por um tolo (7-9; Moffatt apresenta o significado
do verso 9: "Como ramos espinhentos brandidos por um beberrão").
Honrar um tolo é uma insensatez tão grande como amarrar uma pedra
numa funda para que ela não possa ser lançada (8).
No verso 10 o texto hebraico é obscuro. Algumas versões
traduzem: "Como um arqueiro que fere a todos, assim é aquele que
contrata os tolos e os que passam"; ou seja, o homem que contrata bons e
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 67
maus trabalhadores, indiferentemente, é como um arqueiro a lançar suas
flechas indiscriminadamente. Mas até isso é muito incerto. Com o verso
11 cf. 2Pe 2.22. Todavia, depois de tudo quanto é dito a respeito do tolo,
é asseverado que há mais esperança de redenção para o tolo do que para
o homem que é cego por sua própria presunção (12; cf. Rm 1.22).
Os vv. 13-16 apresentam um breve "Livro dos Indolentes". Ver
anotações sobre 22.13; 19.24.
Os vv. 17-28 nos fornecem um "Livro dos Tratantes". Há o
intrometido, que interfere nas desavenças de outras pessoas (17), o que
vive a fazer brincadeiras de mau gosto (18-19), o fuxiqueiro (20-22), o
hipócrita (23-28).
Em lugar de a quem ela tem maravilhado (28), é preferível "o
aflito".
Provérbios 27
c) Observações sobre as relações humanas (27.1-27)
Nesta coleção mista de provérbios independentes, os principais
assuntos tratados são o amor, a amizade e as relações humanas. Com os
vv. 1 e 2 cf. Tg 4.13-16.
Em lugar de mais pesada (3) ler "mais enfadonha".
Amor encoberto (5) é aquele que não se evidencia pela
administração da repreensão necessária.
No verso 10 a segunda e a terceira partes devem ser
compreendidas juntamente. O sentido então seria: "Não abandones um
amigo da família: quando necessitares de ajuda não será preciso chamar
em teu auxílio um parente, de quem talvez estejas separado por uma
grande distância; o amigo da família, que está à mão, ser-te-á uma ajuda
certa". A grande importância, dada nos tempos do Antigo Testamento,
aos deveres e reivindicações das relações de parentesco algumas vezes
podia tornar-se exagerada, o que teria causado uma advertência como
esta.
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 68
Um bom aluno alegra seu mestre (11). Com o verso 12 cf. 22.3, e
com o verso 13 cf. 20.16.
O verso 14 provavelmente se refere a uma adulação palavrosa e
insincera. Madrugando pela manhã se refere não à hora em que ocorre
aquilo que o versículo diz, mas ao zelo que o acompanha. Quanto a essa
expressão cf. Jr 7.25.
Se a tradução desta versão, quanto ao verso 16, está correta,
significa que essa mulher impossível é tão difícil de controlar como o
vento, e tão escorregadia como o azeite.
O verso 17 declara que o caráter e o intelecto são desenvolvidos
pelas relações humanas.
Com o verso 18 cf. Mt 25.21. O verso 19 significa que assim como
a água fornece um reflexo fiel de um rosto, assim os corações dos
homens se correspondem essencialmente uns com os outros. O verso 20
declara que as ambições de um homem são tão insaciáveis como a Morte
(lit., Seol e Abadon; ver 15.11).
O verso 21 fornece um teste para o caráter - a sua reação aos
louvores; a menos que, conforme algumas versões sugerem, o teste seja
aquilo que ele louva.
Os vv. 23-27 são um curto tratado sobre a vida pastoril, e seu
propósito, sem dúvida, era de encorajar essa indústria, a verdadeira
coluna da prosperidade de Israel, bem como desencorajar as corruptoras
influências de outros meios de ganhar dinheiro, que, superficialmente,
eram mais atrativos.
Provérbios 28
d) Religião pura (28.1-28)
O verso 1 fala sobre o efeito de uma boa e de uma má consciência.
O dizer, no verso 2, teria tido grande propriedade quando os
homens de Ezequias o copiaram, pois o reino do norte – Israel – tinha se
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 69
encaminhado para sua ruína após constantes alterações de reis e
dinastias.
O verso 3 também estaria em evidência nos dias de Ezequias. A
referência, sem dúvida, é ao empobrecido dono de terras ou oficial que,
procurando garantir alguma renda, oprimia aqueles que ainda eram mais
pobres que ele mesmo. O resultado era a fome generalizada. Não há
necessidade de emendar homem pobre para "homem rico", conforme é
freqüentemente sugerido. A obediência é destacada como condição para
adquirir-se o verdadeiro conhecimento (4.5; cf. Jo 7.17).
Com o verso 6 cf. 19.1. O indivíduo extorsivo e o usurário (uma
prática proibida em Israel; cf. Lv 25.36 e segs.) perderão o que ganharam
para um homem mais justo (8).
Com o verso 9 cf. 15.8.
Quanto ao vers. 11 é melhor seguir Winton Thomas e traduzir a
palavra traduzida o examina como "o despreza"; isto é, o homem pobre
despreza as falsas pretensões de sabedoria demonstradas pelo rico.
Encobre (13) significa, naturalmente, não "expia", mas "oculta".
Cf. 1Jo 1.8-9.
Teme (14) não é a mesma palavra usada na frase o temor do
Senhor; mas é empregada para o ter medo de Deus (exemplo, Os 3.5),
pelo que a referência aqui bem pode ser ao temer a Ele e não ao pecado.
Os vv. 15 e 16 tratam do governante iníquo.
O assunto abordado pelo verso 17 é o homicídio. Este é o único
provérbio, no livro, vazado em prosa.
Com o verso 19 cf. 12.11. Quanto ao verso 20 ver 6.29 n. A
referência, no verso 21, é à parcialidade nos tribunais de Justiça: o
significado é que um homem atraiçoará a justiça pelo menor dos
subornos (um bocado de pão).
Quanto a olho mau (22) ver 23.6 n.
No verso 24 o que é condenado é, indubitavelmente, as tentativas
dos filhos de obterem a propriedade de seus pais. Embora estranha a todo
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 70
o espírito da lei mosaica, não havia legislação especifica contra isso, pelo
que um filho podia dizer Não há transgressão (cf. Mc 7.10-13).
O verso 25 trata do contraste entre um homem ganancioso (heb.,
"largo de alma"; "espírito ganancioso" é melhor que altivo de ânimo,
conforme diz esta versão) e o homem que confia em Deus para seu
sustento; o verso 26 leva ainda mais adiante esse pensamento. Com o
verso 28 cf. o verso 12; não há dúvida que os maus governantes são
especialmente referidos aqui.
Provérbios 29
e) Deus e a Sociedade (29.1-27)
Com o verso 3 cf. Lc 15.13-30. Juízo (4) se refere ao exercício da
justiça perfeita por parte de quem governa.
Quanto a amigo de peitas (4) é melhor traduzir, com Winton
Thomas "um homem cobiçoso".
Laço (6) subentende que o homem mau, por seu pecado, armou
uma armadilha para si mesmo, o que faz contraste com o regozijo que
esta em vista para o justo.
Os escarnecedores incendeiam uma cidade (8);a presença de
homens sábios, no entanto, desvia da cidade a ira. A cena, no vers. 9,
conforme a terminologia demonstra, é uma ação legal ou debate: o tolo
tenta encobrir seu caso superficial com a bazófia. Quanto à segunda
metade do verso 10, leia-se: "mas quanto aos retos, eles (isto é, os
sanguinários) buscam a sua vida".
Um novo aspecto do efeito de um governante sobre seu povo é
dado (12), e uma de suas funções, na qualidade do rei, é apontada (14).
Com o verso 13 cf. 22.2, e quanto ao significado ver Sl 13.3; Mt
5.45.
O verso 15 talvez tenha sido relevante para Salomão, pois Absalão
tinha sido um tal rapaz (1Rs 1.6).
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 71
Cairá logo (18); melhor ainda: "soltar-se-á" ou "lançará de si a
restrição". A mesma palavra, conforme Perowne salienta, é usada em Êx
32.25, e o episódio do bezerro de ouro é uma ilustração histórica do
significado deste versículo.
Profecia (18; em heb., hazon) é a palavra normal para a revelação
profética (cf. Is 1.1; Jr 14.14); lei que aparece como um paralelo, é a lei
revelada de Deus. A lei, os profetas, e a literatura de sabedoria se
encontram nestes versículos. Quando a vontade revelada de Deus,
conforme expressa em Sua Palavra, não é mantida constantemente em
vista, Seu povo se solta e rompe seu compromisso. Novamente, esta é
uma palavra que Ezequias provavelmente tomou para si. Com o verso 22
cf. 15.18. Quanto ao verso 23 cf. Mt 5.3; Lc 14.11.
Maldições (24) se refere à conjuração de um juiz, num caso em
que qualquer pessoa que tenha conhecimento sobre o crime deve prestar
evidência. Se um homem evita dar a conhecer as evidências que possui
sobre um crime, tal ofensa é reputada tão grande como a do próprio
criminoso.
Provérbios 30
VII. PALAVRAS DE AGUR - 30.1-33
Não sabemos quem foi Agur, filho de Jaque, nem onde ele viveu.
Talvez que ele tenha sido, à semelhança de Jó e Balaão, um indivíduo
não-israelita que tinha conhecimento do verdadeiro Deus.
Quanto a o oráculo (1), uma anotação marginal diz "de Massá",
assim fazendo de Jaque um ismaelita. Porém, não há necessidade de
adotar tal suposição. No todo, o termo empregado nesta versão -
"oráculo" - é preferível. Cheyne salienta que o discurso não diferente de
Elifaz, em Jó 4.12-21, também tem caráter de um oráculo (Job and
Solomon, pág. 117).
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 72
a) O conhecimento de Deus (30.1-4)
Supõe-se que Itiel e Ucal tenham sido discípulos de Agur (1).
Os versos 2-4 contém o intenso desejo de Agur pelo conhecimento
de Deus.
Ele confessa sua total ignorância sobre Ele (2-3), uma ignorância
que ele compartilha com o resto da humanidade (4). Ele havia refletido a
respeito da imensidade das forças naturais, e ficou maravilhado perante
Aquele que está por detrás de tudo. Pode haver uma pinta de sarcasmo
em suas palavras iniciais. Ele era confrontado por aqueles que
professavam saber tudo acerca de Deus e Suas atividades.
Enoque e Elias subiram vivos para o céu: mas não se sabe de
ninguém que tenha retornado de lá (4).
Qual é o nome de seu filho (4), segundo mostra a seqüência, não
tem Deus por sujeito, mas antes, a pessoa hipotética que escalou as
alturas para olhar para o Senhor, e mediu com precisão a Sua criação.
b) A Palavra de Deus (30.5-6)
A Palavra de Deus é pura, e não deve ser misturada com as
especulações humanas, que podem estar totalmente erradas, afinal de
contas. Cf. Sl 18.30.
O nome para Deus, no verso 5, quanto ao hebraico, é 'Eloah, que
ocorre em Provérbios somente aqui.
c) Uma oração (30.7-9)
O sábio ora para ser preservado das tentações da riqueza e da
pobreza Igualmente.
Lance mão (9), isto é, profane o nome de Deus por um ato
pecaminoso.
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 73
d) Servo de outro homem (30.10)
Para uma aplicação mais plena deste aforismo independente, cf.
Rm 14.4.
e) Quatro classes de pessoas (30.11-14)
Geração, em cada caso, significa "classe" ou "tipo" de pessoa.
f) Quatro coisas insaciáveis (30.15-16)
O que há de difícil nesta seção é a referência à sanguessuga (15),
que a prefacia. De acordo com A. E. Shipley (Prefácio ao livro de
Harding e Moore, Fauna of British India - referência da srta. G.
Gnanadickam) as sangrias nunca foram usadas medicinalmente entre os
hebreus. A mesma autoridade interpreta o verso 15 como as filhas do
cirurgião veterinário local! A sanguessuga da Palestina não ataca o
homem. Provavelmente esta sentença denota simplesmente ainda uma
outra "coisa insaciável".
g) O filho turbulento (30.17)
Trata-se de outro aforismo independente. Os olhos são os órgãos
escolhidos pelos quais a conduta de rebeldia filial é demonstrada. Fica
subentendido que o cadáver ficará insepulto para que os pássaros se
alimentem dele. Cf. Dt 21.18-21.
h) Quatro coisas maravilhosas (30.18-20)
A maravilha é freqüentemente suposta no fato que essas coisas não
deixam traço atrás de si. Se isso for assim, os exemplos - particularmente
a serpente - parecem curiosamente selecionados. A maravilha parece
estar justamente em seus movimentos. Semelhantemente parece que o
caminho do homem com uma virgem (19) não se refere, como é
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 74
geralmente suposto, ao ato da procriação, mas ao crescimento idílico do
amor.
O caminho da mulher adúltera (20) também é "maravilhoso",
ainda que esta maravilha seja apenas uma paródia da última. Ela encobre
seu pecado e calmamente declara que nada fez de errado.
i) Quatro coisas intoleráveis (30.21-23)
Dois exemplos de incongruência são tirados de cada sexo. Farto
de pão (22) significa "rico e prósperos".
j) Quatro pequenas coisas (30.24-28)
Todas as quatro também são sábias. As formigas fazem o que o
indolente não quer fazer (cf. 6.6).
Os coelhos (26) obviamente não são coelhos, como fica
demonstrado por seus hábitos de viver nas rochas: a tradução mais
favorecida é "texugo das rochas".
Os gafanhotos (27) seguem em fileiras ordenadas, sem se baterem
uns nos outros (cf. Jl 2.7-8).
Quanto a aranha apanha com as mãos... (28) é preferível a
tradução: "não podes apanhar o lagarto com as tuas mãos, contudo...
1) Quatro coisas graciosas (30.29-31)
Em cada caso é a imponência que esta em foco. No vers. 31 o
hebraico é difícil. Na última metade deste versículo é melhor ler: "... o
rei, quando seu exército está consigo".
m) Uma admoestação final (30.32-33)
A contenda deve ser evitada mediante o reconhecimento do erro
perpetrado. Põe a mão na boca (32) serve para denotar uma silenciosa
admissão de culpa.
Provérbios (Novo Comentário da Bíblia) 75
Provérbios 31
VIII. AS PALAVRAS DE LEMUEL - 31.1-9
Ver Introdução, pág. 629, e no referente à seção VII. O "oráculo"
do rei Lemuel (há versões que traduzem corretamente "profecia") foi
vazado na forma de um breve tratado sobre os deveres da realeza,
aprendidos de sua mãe. Será possível que Lemuel tenha sido um
ismaelita cuja mãe viera do povo de Israel?
O "oráculo" adverte contra a concupiscência (3) e a intemperança
(4-7), e exorta que governo de eqüidade e justiça seja dado aos
necessitados (5,8-9).
Filho das minhas promessas (2); isto é, um filho que lhe fora
outorgado em resposta aos meus votos (cf. 1Sm 1.11).
O verso 8 subentende que o rei deve mostrar-se amigável para
com aqueles que estão incapazes de fazer algo por si mesmos, ou devido
à torção da justiça ou devido a circunstâncias adversas.
IX. APÊNDICE: A ESPOSA PERFEITA - 31.10-31
Esta seção é um apêndice ao livro. Trata-se de um belo poema
acróstico; o primeiro versículo começa com a primeira letra do alfabeto
hebraico, enquanto que as vinte e uma letras restantes vão aparecendo
sucessivamente. O poema fala por si mesmo. Lado a lado com tudo o
que os provérbios disseram até aqui sobre a "mulher estranha", o "ensino
de uma mãe" e a honra e a dignidade da mulher são constantementeexaltadas. Nosso livro se encerra apropriadamente, portanto, com os
cantantes louvores feitos à esposa e mãe perfeita por seu esposo e seus
filhos (29-31).
W. A. Rees Jones Andrew F. Walls
PROVÉRBIOS
INTRODUÇÃO
PLANO DO LIVRO
COMENTÁRIO
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