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Secretaria de Educação do Estado da Bahia - SEE-BA Professor - Língua Portuguesa Educação Brasileira: Temas Educacionais e Pedagógicos As diferentes correntes do pensamento pedagógico brasileiro e as implicações na organização do sistema de educação brasileiro. ............................................................................................................................................................ 1 A didática e o processo de ensino/aprendizagem: planejamento, estratégias, metodologias e avaliação da aprendizagem. ...................................................................................................................................................................... 4 A sala de aula como espaço de aprendizagem. ............................................................................................................ 13 As teorias do currículo. ................................................................................................................................................... 18 As contribuições da psicologia da educação para a pedagogia: implicações para a melhoria do ensino e para ações mais embasadas da ação profissional docente no alcance do que se ensina aos indivíduos. .................. 24 Os conhecimentos socioemocionais no currículo escolar: a escola como espaço social. .................................... 35 As diretrizes curriculares nacionais para a formação docente. ............................................................................... 38 Aspectos legais e políticos da organização da educação brasileira. ........................................................................ 46 Políticas educacionais para a educação básica: as diretrizes curriculares nacionais. (etapas e modalidades).... .................................................................................................................................................................. 46 A Interdisciplinaridade e a contextualização no Ensino Médio. .............................................................................. 75 Os fundamentos de uma escola inclusiva. .................................................................................................................... 79 Educação e trabalho: o trabalho como princípio educativo. ..................................................................................... 82 Convenção da ONU sobre direitos das pessoas com deficiência. ............................................................................. 86 Educação para as relações étnico-raciais Decreto nº. 65.810, de 8 de dezembro de 1969 (promulga a Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as Formas de Discriminação Racial). ........................... 99 O Decreto federal nº 4.738, de 12 de junho de 2003 (reitera a Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as Formas de Discriminação Racial). ............................................................................................................... 106 Ação da escola, protagonismo juvenil e cidadania. A Lei estadual nº 13.559, de 11 de maio de 2016: o Plano Estadual de Educação 19. .............................................................................................................................................. 107 O paradigma da supralegalidade como norma constitucional para os tratados dos direitos humanos. ........ 122 As avaliações nacionais da educação básica. ............................................................................................................. 133 As licenciaturas interdisciplinares como paradigma atual da formação docente (menção no art. 24 da Resolução CNE/CP nº. 2, de 1º de julho de 2015). ................................................................................................... 137 Legislação educacional: a) Constituição Federal de 1988 (Artigo n° 205 ao n° 214); ....................................... 138 b) LDB, atualizada até 30 de setembro de 2017 – Lei federal nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996 a Lei federal nº 13.415, de 16 de fevereiro de 2017; ...................................................................................................................... 142 c) Estatuto da Criança e do Adolescente – Lei federal nº 8069, de 13 de julho de 1990; .................................. 160 Estatuto do Magistério Público do Ensino Fundamental e Médio do Estado da Bahia - Lei estadual nº 8.261, de 29 de maio de 2002. ....................................................................................................................................................... 191 Noções de Igualdade Racial e de Gênero Constituição da República Federativa do Brasil (art. 1°, 3°, 4° e 5°). .......................................................................... 1 Constituição do Estado da Bahia, (Cap. XXIII "Do Negro"). ........................................................................................... 7 Lei federal n° 12.288, de 20 de julho de 2010 (Estatuto da Igualdade Racial). ........................................................ 8 Lei federal nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989 (Define os crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor). ...................................................................................................................................................................................... 16 Lei federal n° 9.459, de 13 de maio de 1997 (Tipificação dos crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor) ....................................................................................................................................................................................... 18 Decreto federal n° 65.810, de 08 de dezembro de 1969 (Convenção internacional sobre a eliminação de todas as formas de discriminação racial). ............................................................................................................................... 19 Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br Decreto federal n° 4.377, de 13 de setembro de 2002 (Convenção sobre a eliminação de todas as formas de discriminação contra a mulher)...................................................................................................................................... 25 Lei federal nº 11.340, de 7 de agosto de 2006 (Lei Maria da Penha). ...................................................................... 30 Código Penal Brasileiro (art. 140). ................................................................................................................................. 37 Lei federal n° 9.455, de 7 de abril de 1997 (Crime de Tortura). ............................................................................... 38 Lei federal n° 2.889, de 1º de outubro de 1956 (Define e pune o Crime de Genocídio). ..................................... 39 Lei federal nº 7.437, de 20 de dezembro de 1985 (Lei Caó). .................................................................................... 39 Lei estadual n° 10.549, de 28 de dezembro de 2006 (Secretaria de Promoção da Igualdade Racial); alterada pela Lei estadual n° 12.212, de 04 de maio de 2011. .................................................................................................. 41 Lei federal nº 10.678, de 23 de maio de 2003, com as alterações da Lei federal nº 13.341, de 29 de setembro de 2016 (Referente à Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República). .......................................................................................................................................................................... 43 Conhecimentos Interdisciplinares Linguagem, texto e contexto nos signos verbais e não-verbais. A intermediação entre linguagem verbal e não verbal no processo de constituição do texto/discurso................................................................................................. 1 A linguagem das ciências e das artes e seu entendimento como chaves à compreensão do mundo e da sociedade. A linguagem das ciências humanas no processo de formação das dimensões estéticas, éticas e políticas do atributo exclusivo do ser humano. A linguagem das ciências e das artes e as implicações ao pensar filosófico, a partir do Renascimento. ............................................................................................................................... 3 As linguagens das ciências, das artes e da matemática: sua conexão com a compreensão/interpretação de fenômenos nas diferentes áreas das relações humanas com a natureza e com a vida social. ............................... 8 As linguagens das ciências e das artes e sua relação com a comunicação humana. O significado social e cultural das linguagens das artes e das ciências – naturais e humanas – e suas tecnologias. ........................................... 10 As linguagens como instrumentos de produção de sentido e, ainda, de acesso ao próprio conhecimento, sua organização e sistematização. ......................................................................................................................................... 15 Conhecimentos Específicos I. LITERATURA BRASILEIRA E BAIANA. A linguagem literária. O Barroco no Brasil. O Arcadismo no Brasil. O Romantismo – a poesia e a prosa no Brasil. O Realismo-Naturalismo no Brasil. O Parnasianismo no Brasil. O Simbolismo no Brasil. A revolução artística do início do século XX. O Pré-Modernismo no Brasil. Modernismo no Brasil – poesia e prosa. O Pós-Modernismo. Autores Baianos: Gregório de Matos, Frei Francisco Xavier, Luís Gama, Castro Alves, Xavier Marques, Jorge Amado, Camilo de Jesus Lima, Adonias Filho, Deoscóredes Maximiliano (Mestre Didi), Herberto Sales, Dias Gomes, Ildásio Tavares, João Ubaldo, Antonio Torres, Aleiton Fonseca. ................................................................................................................................................................................. 1 II. LINGUAGEM E INTERAÇÃO: comunicação e mensagem; código, língua e linguagem; a intencionalidade do discurso; funções da linguagem; figuras de linguagem. ............................................................................................ 27 III. LEITURA: Compreensão literal – relações de coerência: ideia de coerência; ideia principal; detalhes de apoio, relações de causa e efeito, sequência temporal, sequência espacial, relações de comparação e contraste. O processo de letramento. Relações coesivas: referência, substituição, elipse, repetição. Indícios contextuais: definição, exemplo modificadores, recolocação, estruturas paralelas, conectivos, repetição de palavras chave. Relações de sentido entre palavras: sinonímia/antonímia/hiperonímia/hiponímia/campo semântico. Compreensão interpretativa: propósito do autor, informações implícitas, distinção entre fato e opinião. Organização retórica: generalização, exemplificação, descrição, definição, exemplificação/especificação, explanação, classificação, elaboração. Seleção de inferência: compreensão crítica. ............................................ 38 IV. PRODUÇÃO DE GOVERNO DO ESTADO DA BAHIA - SECRETARIA DA ADMINISTRAÇÃO 25 TEXTOS: Gêneros textuais; tipologia textual; novo acordo ortográfico; recursos estilísticos e estruturais (aspectos textuais, gramaticais e convenções da escrita). Fatores constitutivos de relevância – coerência e coesão. .................... 51 V. ANÁLISE LINGUÍSTICA: norma culta e variedades linguísticas; a relação entre a oralidade e a escrita; a linguagem da Internet. Aspectos gramaticais: Estrutura da frase: modos de construção de orações segundo diferentes perspectivas de ordenação. Estrutura do vocábulo: flexão dos vocábulos, seu valor e significação dentro de frases. Aspectos normativos: regras padrão de concordância, regência e colocação. Emprego de certas formas e palavras: modos verbais, aspectos verbais, pronome relativo, conjunção, pronome de tratamento, pontuação, ortografia. Descrição linguística: unidades linguísticas: orações, sintagmas, palavras, morfemas. Categorias semânticas: gênero, número, tempo, modo aspectos, classificação dos vocábulos, processos de coordenação e subordinação, funções sintáticas e papéis semânticos. ......................................... 63 Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br A apostila OPÇÃO não está vinculada a empresa organizadora do concurso público a que se destina, assim como sua aquisição não garante a inscrição do candidato ou mesmo o seu ingresso na carreira pública. O conteúdo dessa apostila almeja abordar os tópicos do edital de forma prática e esquematizada, porém, isso não impede que se utilize o manuseio de livros, sites, jornais, revistas, entre outros meios que ampliem os conhecimentos do candidato, visando sua melhor preparação. Atualizações legislativas, que não tenham sido colocadas à disposição até a data da elaboração da apostila, poderão ser encontradas gratuitamente no site das apostilas opção, ou nos sites governamentais. Informamos que não são de nossa responsabilidade as alterações e retificações nos editais dos concursos, assim como a distribuição gratuita do material retificado, na versão impressa, tendo em vista que nossas apostilas são elaboradas de acordo com o edital inicial. Porém, quando isso ocorrer, inserimos em nosso site, www.apostilasopcao.com.br, no link “erratas”, a matéria retificada, e disponibilizamos gratuitamente o conteúdo na versão digital para nossos clientes. Caso haja dúvidas quanto ao conteúdo desta apostila, o adquirente deve acessar o site www.apostilasopcao.com.br, e enviar sua dúvida, que será respondida o mais breve possível, assim como para consultar alterações legislativas e possíveis erratas. 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Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br EDUCAÇÃO BRASILEIRA: TEMAS EDUCACIONAIS E PEDAGÓGICOS Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br APOSTILAS OPÇÃO Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 1 Pensamento Pedagógico Brasileiro1 O Brasil, no início do século XIX, ao cabo de três séculos de colonização era um país de contrastes, de situações extremas: de um lado o litoral e de outro o sertão, riqueza e pobreza, cultura popular sincrética e ortodoxia filosófica e religiosa, de uma devassidão de costumes e de uma rigidez impecável de comportamento, valores cristãos e de escravidão, mandonismo rural e massa servil, economia exportadora e produção de autoconsumo, prevalecendo ainda a contradição de um país dividido em múltiplas dicotomias. E uma delas, a educação. Lembremos que a nação brasileira, conforme Monarcha era inculta, patriarca, conservadora, oligárquica e acima de tudo, estava atrasada e doente.Na verdade, esta foi a cara do Brasil na Primeira República, que sucede o período de escravidão, da abolição e do tempo monárquico pós- independência. Neste atravessamento, os livres-pensadores da época, com suas visões incertas de mundo, livres da religião e cheios de métodos-científicos veem no novo regime – A República, como derradeira abolição dos privilégios de classe, cor, raça e religião. Todavia não representou a alforria para a maioria ao ingresso na vida, no mercado de trabalho e em especial na educação. Isto porque não houve esclarecimento e conquista das massas humanas, sob os princípios das luzes e virtudes que por sinal foram a euforia da aurora da Primeira República, mas que, infelizmente esquecida e apagadas as luzes e as virtudes postas de lado, em favor da “[...] depravação dos costumes, à predominância dos vícios oligárquicos [...], à transformação da liberdade em licenciosidade, à instrução popular reduzida ao ler e escrever de poucos”. Na verdade milhares de excluídos da alfabetização. E o Estado-República? Após treze anos, o governo nada fez para ensinar o povo a ler e escrever. De repente o governo acorda e se depara com a possível ruína da nação, das elites e do povo, pois o ímpeto modernizador republicano se perderá. Sem povo não existe nação e não temos povo no Brasil, porque não temos educação nacional organizada. A intervenção ou medicação para esta crise foi indicada em 1927, na 1ª Conferência Nacional de Educação, no qual profissionais especialmente do campo da saúde e do ensino por meio do lema norte-americano: sanitation over all, visam a higienização do povo através do saneamento do meio físico, social e moral eliminando a “doença endêmica multiforme e a ignorância do povo”. O povo é inculto e está doente! Acreditem, a educação e a saúde são o elixir com direito a bula que deverá higienizar e 1 Texto adaptado de MÜLLER, C. A. baseado no livro de GADOTTI, M. Pensamento Pedagógico Brasileiro. educar o povo. Tomando, lendo e seguindo a risca a bula o povo terá acesso à riqueza, ao progresso, ao civismo, ao respeito e moralidade tão desejados ao povo ou do povo para alguém? Conforme Bomeny, “O grande problema do Brasil, o analfabetismo de praticamente 80% de sua população, aparece como uma condenação ao projeto republicano.” Essa citação apresenta um quadro, não tão confiável em termos de dados conforme Bomeny, mas delata a instabilidade educacional e política da nação no inicio do século XX. Para corrigir tal distorção, houve um empenho nacional pela alfabetização em massa. “O remédio parecia milagroso: alfabetizando a população, corrigiam-se de pronto todas as mazelas que afetavam a sociedade brasileira em sua expressiva maioria”. Na verdade, vigorou o princípio da ciência positivista com caráter liberal, como direção essencial para instaurar o progresso, a inovação no país. Um destes movimentos foi chamado de Escola Nova, tendo como base Anísio Texeira e organizado por intelectuais inspirados nas ideias político-filosóficas de igualdade entre os homens e do direito de todos à educação. “O movimento via na educação integral vinculada a um sistema estatal de ensino público, livre e aberto, como sendo capaz de modernizar o homem brasileiro, e de transformar essa espécie de “Jeca Tatu” em um sujeito laborioso, disciplinado, saudável e produtivo”. Devemos considerar que esta força intelectual, desejava pela educação, salvar o Brasil do estrago causado por uma política educacional elitista, responsável pelos índices de analfabetismo, bem como pela doença que se alastrou sobre a nação. Nesta perspectiva, os ideais para a renovação da educação foram influenciados em grande parte pela calorosa “conversão” de Anísio Teixeira no movimento educacional norte-americano (pragmatismo), pelo qual o aprendizado ocorre pela capacidade de observação, experimentação do aluno tendo como orientador, ou facilitador o professor treinado para este fim. O movimento reformador queria ver contemplado as suas demandas político-pedagógicas por meio de um sistema nacional de educação, bem como definir um programa educacional para o país. Houve muitas discussões e participações de segmentos. A Igreja acaba participando da discussão na tentativa de garantir seus interesses e territórios enquanto formadora de mentes e de condutas. Já, os educadores reformistas que elaboraram em 1932 o Manifesto da Educação Nova, defendendo a democratização da educação - escola pública gratuita e laica. Em contrapartida, outro movimento buscava estabelecer a proposta de Fernando Azevedo, que tem como base a distinção clara entre educação para elite, enquanto civilizadora e, a educação para a massa, enquanto força instintiva e afetiva. As discussões se estenderam, e os pioneiros são acusados de partidários de ideais contrários aos interesses da nação. O interessante é que este grupo objetivava ser reconhecido como base para uma sociedade capitalista, liberal e de livre- mercado. Todavia, no pós 1930, alguns interesses educacionais da nação foram reclamados na Reforma de Capanema, e houve a retomada das campanhas sanitaristas, que viabilizaram as Reformas no Ensino Secundário tendo como base as orientações humanistas de caráter elitista; criação do Sistema de Ensino Profissional (Senai, Sesi, Senac, Sesc) direcionado ao povo visando formar mão-de-obra qualificada e, Reforma Universitária objetivando um padrão nacional de organização. Em suma, criados para incorporar a massa inculta ao mercado de trabalho e este efeito permanece até hoje. As diferentes correntes do pensamento pedagógico brasileiro e as implicações na organização do sistema de educação brasileiro. Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br APOSTILAS OPÇÃO Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 2 Por uma prática libertadora No atravessamento de ideais, Germano, diz que a vida política do Brasil sempre esteve enlaçada pelas Forças Armadas e em especial pelo exército, principalmente a partir da segunda metade do século XIX, com a Guerra do Paraguai, a qual revelou conflitos entre o Exército e o Poder Imperial. Esses laços se estenderam à abolição da escravatura em 1888; na instauração da República em 1889; cooperou para o fim da República em 1930; auxiliou no estabelecimento da ditadura de Vargas, período conhecido como Estado Novo; destituiu o mesmo Vargas em 1945, bem como, esteve presente no suicídio de Vargas; e, instaurou o golpe de Estado de 1964. O Estado Novo constitui-se, de acordo com Germano, na consolidação do domínio burguês no Brasil e este movimento efetiva uma acentuada intervenção do Estado na economia, na modernização, na educação, entre outros, fazendo com que os militares abandonem as posições reformistas e busquem neste momento, o fortalecimento das “Forças Armadas, na segurança interna e na defesa externa”. Esse deslocamento dos militares preanuncia um aspecto importante do pós 64: a ideologia da Segurança Nacional. Ou seja, é o momento do antiliberalismo e do anticomunismo. Devido a crise econômica e política, o inicio dos anos 60 foi crítico para as elites brasileiras. Conforme Germano, a instabilidade e insustentabilidade do Estado em criar condições favoráveis para um crescimento econômico e de garantir a seletividade de classe e a reprodução da dominação política da burguesia, em 1964 é deflagrado através da participação da elite, de multinacionais, do Governo dos Estados Unidos, e das Forças Armadas como executiva, o golpe, chamado pelos militares de Revolução de 64. A ditadura foi consolidada enquanto processo pelos chamados Atos Institucionais - AI, por meio dos quais, os direitos civis são aluídos. Nessa brutal repressão, milhares de pessoas tornaram-se expatriados políticos, torturadas, mortas emnome da Segurança Nacional. O regime militar, deste período, realizou a Reforma Universitária, através da Lei 5.540/68, e a Reforma do Ensino de 1° e 2° Graus, Lei 5.692/71. Nessas propostas, o homem deverá ser adestrado para a Segurança Nacional. Em um cenário de intensos discursos e ações, surgem ideais em favor de reformas estruturais na sociedade brasileira. Em um primeiro momento, Paulo Freire traz a possibilidade de compreendermos que pela educação, enquanto prática libertadora será possível ampliar a participação das massas e conduzi-las à sua organização crescente, conforme Gadotti citando Freire: [...] as elites (intelectuais) são assistencionalistas e não têm receio de recorrer à repressão e ao autoritarismo quando se sentem ameaçadas. Por outro lado, as classes médias estão em busca de ascensão social e se apoiam nas elites. Desta forma, a solução para transformar a sociedade opressora está nas mãos das massas populares, “conscientes e organizadas”. Nessa perspectiva, a pedagogia do oprimido3, enquanto processo, buscaria a superação de uma cultura colonial para uma sociedade aberta. Esse movimento deveria buscar a conscientização do sujeito articulado com uma práxis desafiadora e transformadora da realidade. Para tanto, torna- se imprescindível estabelecer um diálogo crítico horizontal (oposta ao eletismo) como condição para favorecer e sustentar o amor, a humildade, a esperança, fé e confiança nas relações entre os sujeitos para descobrirem-se como sujeitos históricos no processo. Em linhas gerais, Paulo Freire, conforme Gadotti caracteriza duas concepções opostas de educação: a concepção bancária literalmente burguesa, pois, o educador é o que sabe e julga e os alunos meros objetos. Em contrapartida, a concepção problematizadora funda-se justamente na relação dialógico-dialética entre educador e educando – ambos aprendem juntos, ambos se emancipam. Ser fiel a Paulo Freire significa, antes de mais nada, reinventá-lo e reinventar-se como ele. Nisto, aliás, consiste a superação (aufhebung) na dialética: não é nem a cópia e nem a negação do passado, do caminho já percorrido pelos outros. É a sua transformação e, ao mesmo tempo, a conservação do que há de fundamental e original nele, e a elaboração de uma síntese qualitativa. Em outro movimento, de acordo com Gadotti, o educador e antropólogo Brandão nos apresenta a educação popular como alternativa à educação dominante e à conquista de novas formas de organização de classes. Esse deslocamento aconteceria através de uma educação como processo de humanização ao longo da vida e de maneira variada. Então, o processo de ensino-aprendizagem não é algo imposto e sim um ato de conhecimento e de transformação social, pois, o aprender se daria a partir do conhecimento que o aluno traz consigo, ou seja, um saber popular e para o educador é estar comprometido politicamente e, ser solidário e responsável por buscar a direção justa para que possam em conjunto construir uma consciência cidadã até que o “povo assume de uma vez o leme e a direção do barco”. Nesta perspectiva, a educação popular, será um processo que busca na organização e na persistência, a participação na formação, o “fortalecimento e instrumentalização das práticas e dos movimentos populares, com o objetivo de apoiar a passagem do saber popular ao saber orgânico, ou seja, do saber da comunidade ao saber de classe na comunidade”. Em uma sociedade, conforme Gadotti, que se fundamenta nos princípios da eficiência e do lucro, as pessoas acabam dissipando sua identidade e viram função alienada que segue às cegas as regras da moral, da ciência, da religião etc., que são articuladas pelo poder mágico do discurso vigente. Nesse contexto, Rubem Alves propõe a educação como um espaço possível de desinstalação. Ou seja, procura construir uma educação, uma escola, enquanto espaço de prazer e da fala. Este é o enfoque principal de Alves, citado por Gadotti, a linguagem, a fala ao lado do corpo. O educador fala com o corpo. É no corpo de cada educador e de cada educando que estão escritas as suas histórias. Daí a necessidade de lê-lo e relê-lo constantemente. O corpo é o primeiro livro que devemos descobrir; por isso, é preciso reaprender a linguagem do amor, das coisas belas e das coisas boas, para que o corpo se levante e se disponha a lutar. Mostra a importância da formação do educador comprometido consigo mesmo e com o aluno, capaz de superar a burocratização e a uniformização a que são submetidos. Inquietando-se com o papel da saber e com a crescente desumanização das relações humanas. Nas palavras de Gadotti, é valorizar o prazer, o sentimento, a arte e a paixão na educação e na vida humana. O melhor método? O método do amor é melhor do que o racional para educar, aprender e ensinar. E por que não nos deixarmos envolver pela paixão de conhecer o mundo? Eis a proposta de prática pedagógica de Madalena Freire, na qual é possível o exercício do diálogo desde a primeira educação articulando conhecer e viver, envolvidos pela paixão. O trabalho de Madalena Freire, conforme Gadotti busca superar a dicotomia entre o cognitivo e o afetivo para que a educação seja um processo prazeroso. Nas palavras de Madalena Freire: o ato de conhecer é tão vital como comer ou dormir, e eu não podemos comer ou dormir por alguém. A escola em geral tem esta prática, a de que o conhecimento pode ser doado, impedindo que a criança e, também, os professores o construam. Só assim a busca do conhecimento não é Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br APOSTILAS OPÇÃO Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 3 preparação para nada, e sim VIDA, aqui e agora. E é vida que precisa ser resgatada pela escola. A partir do vivido da criança, o educador pode planejar e organizar as atividades escolares sem perder a direção pedagógica e o seu papel organizativo. As atividades se configuram a partir dos interesses das crianças, da sua vivência, para que o processo de construção do conhecimento e do afetivo, por exemplo, a alfabetização e a construção de um sistema de representação (leitura e escrita), fluam naturalmente na vida da criança para que quando adulto, a vida possa fluir sem artifícios. É procurando compreender as atividades espontâneas das crianças que vou, pouco a pouco, captando os seus interesses, os mais diversos. As propostas de trabalho que não apenas faço às crianças, mas que também com elas discuto, expressam, e não poderia deixar de ser assim, aqueles interesses. Não é de estranhar, pois, que as crianças se encontrem nas suas atividades e as percebam como algo delas, ao mesmo tempo em que vão entendendo o meu papel de organizadora e não de “dona” de suas atividades. Creio que cabe aos professores o exercício proposto por Freire, de se permitirem entender a espontaneidade dos nossos alunos (crianças, jovens, adultos), enquanto condição possível para desestabilizar uma pedagogia atrelada desde muito tempo à autoridade, para reprodução homogeneizadora e, como “campo de vigilância sobre o tempo, o espaço, o movimento, os gestos, para produzir corpos submissos, exercitados e dóceis”. Na verdade, o movimento proposto e quando articulado às práticas pedagógicas é dar sentido não somente para as atividades, mas também às relações que se constituem no espaço pedagógico. Esse deslocamento chama para uma nova postura não somente ao professor, mas também ao aluno. Ao professor, Gadotti citando Chauí cabe algumas perguntas: qual há de ser a função do educador atual? Como romper com essa violência chamada modernização? Como não cair nas armadilhas do conhecer para não pensar, adquirir e reproduzir para não criar, consumir em lugar de realizar o trabalho de reflexão? Ampliando ideais, emancipando ideias. Refletindo sobre os discursos, os ideaise práticas do ontem e do hoje, salvo importantes exceções, percebe-se a constância não somente na nossa história política, mas também à educação voltada, nas palavras de Germano, para manobras do alto, estabelecendo a continuidade, as restaurações, as intervenções e exclusões das massas populares por meio do autoritarismo. Não é para menos que a insígnia, conforme Gadotti, da tradição brasileira é a influência de oligarquias que “compartilham” interesses para conservar o controle do poder. Hoje, esses conceitos e práticas se estendem e respingam na educação com um novo figurino, uma nova e boa maquiagem em nome do moderno. Todavia, modernizar ainda significa, de acordo com Gadotti citando Florestan Fernandes, reajustar as economias periféricas às estruturas e aos dinamismos das economias centrais e é claro, ao bom andamento dos negócios. Nesta perspectiva, uma coisa é certa: de um passado muito presente o pensamento pedagógico brasileiro busca uma práxis, conforme Germano, de resistência à dominação de classe, ao domínio estrangeiro, ao imperialismo e à transplantação cultural, configurando-se como um instrumento de luta em favor da identidade nacional, mediante a valorização e o fortalecimento das raízes culturais do povo brasileiro em busca da construção de um futuro melhor, diferente do passado/presente. Todavia devemos considerar de acordo com Gadotti, para o qual a crise do modelo de educação voltada para a rigidez e inflexibilidade não é apenas interna à escola e sim de acordo com os autores Schwartzman e Brock, que o problema da educação no Brasil, em um primeiro momento, estava erroneamente pautado na falta de escolas, às crianças que não iam para a escola, e à carência de verbas. Neste sentido, foi considerada, a necessidade de construir escolas, melhores salários ao corpo docente e claro, convencer os pais a enviarem seus filhos à escola. Passado alguns bons anos, nos deparamos com os reais problemas: a má qualidade das escolas, a famosa repetência e acrescento aqui a qualidade das aprendizagens. Como após tantas reformas, investimentos, e elaborações de políticas e ações à educação, persistem ainda as elevadas taxas de evasão e repetência e muitas outras dificuldades? Creio que muitas escolas hoje estão afastadas não de uma concepção democrática e libertadora. Isto porque, na grande maioria dos PPP das escolas, estas propostas, conceitos se fazem presentes na escrita. Mas, no planejamento, na prática, no exercício diário da intervenção pedagógica em sala de aula, esta práxis não se faz presente. Tristemente, encontramos influência de uma pedagogia, conforme Gadotti, do bom senso, e do silêncio, desconectada da vida dos educadores e dos alunos. “Uma vida opaca e conciliadora, e na qual é preciso ser falso, esconder interesses, montar estratégias, ser “esperto” e “levar vantagem. Entretanto, se o Brasil precisa de mais e melhor educação, conforme previsto no Programa de Governo de Dilma Rousseff é porque a qualidade do ensino é um dos pilares que sustenta a proposta por meio da valorização do professor. Valoração, renovação, ação. Eis o sentido, das formações e\ou capacitações que deverão propiciar ao professor a redescoberta da sua função e tarefa - assumidas em juramento. Fazer com que o professor saia de um monólogo e busque entender as relações recíprocas existentes entre domínio do saber e o domínio do saber fazer. Ou seja, tomar consciência do seu verdadeiro exercício, como dinamizador do processo de ensino-aprendizagem e organizador da intervenção pedagógica. Esse processo de reflexão em formação pode tornar consciente os modelos teóricos e epistemológicos que se evidenciam na sua prática, para então refletir sobre o saber e o saber fazer. Essa situação levará o professor a rever o que propôs e se dispor a novas possibilidades, modificando sua proposta, dispondo-se a repensá-la, ou manter a mesma proposição. Neste sentido, penso que a questão pontual para uma melhor educação seja a possibilidade do professor estabelecer relações entre teoria e prática, assumindo seu papel no processo de ensino-aprendizagem e a importância deste trabalho ser em conjunto entre professor x aluno, professor x professor. É buscar dar sentido ao que somos ao que fazemos e por que fazemos. Na verdade as colocações apresentadas nos mostram o esforço para permitir um processo de ensino-aprendizagem voltado à constituição de sentidos, ou seja, produzir significado mostrando ao aluno o que aquele conteúdo tem a ver com a vida dele e por que é importante e como aplicá-lo em uma situação real. Chamar os professores, conforme Mello, para uma reflexão sobre a própria prática pedagógica: o que se faz e com quais objetivos se faz. Torna-se muito importante ter um parâmetro de como estamos para saber o que precisamos mudar. Ninguém muda se não tem consciência do que precisa mudar. Já sabemos o que mudar? Penso que se este movimento estiver, conforme Gadotti, a construir um caminho próprio, libertando-se de um pensamento transplantado, buscando realmente a superação Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br APOSTILAS OPÇÃO Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 4 e transformação das dependências enraizadas nos modelos, nos paradigmas e das teorias elaboradas em outros contextos, em especial aqueles de países hegemônicos, estaremos sim, caminhando para um comprometimento real para a transformação social. Um processo, uma luta contra si mesmo à tomada de consciência e contínua; o engajamento, por uma real mudança. Didática Libâneo2 pontua que os alunos costumam comentar entre si: “gosto desse professor porque ele tem didática”. Outros dizem: “com essa professora a gente tem mais facilidade de aprender”. Provavelmente, o que os alunos estão querendo dizer é que esses professores têm um modo acertado de dar aula, que ensinam bem, que com eles, de fato, aprendem. Então, o que é ter didática? A didática pode ajudar os alunos a melhorar seu aproveitamento escolar? O que um professor precisa conhecer de didática para que possa levar bem o seu trabalho em sala de aula? Considerando as mudanças que estão ocorrendo nas formas de aprender e ensinar, principalmente pela forte influência dos meios de informação e comunicação, o que mudar na prática dos professores? É certo que a maioria do professorado tem como principal objetivo do seu trabalho conseguir que seus alunos aprendam da melhor forma possível. Por mais limitações que um professor possa ter (falta de tempo para preparar aulas, falta de material de consulta, insuficiente domínio da matéria, pouca variação nos métodos de ensino, desânimo por causa da desvalorização profissional, etc.), quando entra em classe, ele tem consciência de sua responsabilidade em proporcionar aos alunos um bom ensino. Apesar disso, saberá ele fazer um bom ensino, de modo que os alunos aprendam melhor? É possível melhorar seu desempenho como professor? Qual é o sentido de “mediação docente” nas aulas? Os estilos de professor Há diversos tipos de professores. Os mais tradicionais contentam-se em transmitir a matéria que está no livro didático, por meio de aula expositiva. É o estilo professor- transmissor de conteúdo. Suas aulas são sempre iguais, o método de ensino é quase o mesmo para todas as matérias, independentemente da idade e das características individuais e sociais dos alunos. Pode até ser que essas práticas de passar a matéria, dar exercícios e depois cobrar o conteúdo na prova, tenham algum resultado positivo. Mesmo porque alguns alunos aprendem “apesar do professor”. O mais comum, no entanto, é o aluno memorizar o que o professor fala, decorar a matéria e mecanizar fórmulas, definições etc. A aprendizagem que decorre desse tipo ensino (vamos chamá-la de mecânica, repetitiva) serve para responder questõesde uma prova, sair- se bem no vestibular ou num concurso, mas ela não é duradoura, ela não ajuda o aluno a formar esquemas mentais próprios. O aluno que aprende mecanicamente, na maior parte dos casos, não desenvolve raciocínio próprio, não forma generalizações conceituais, não é capaz de fazer relações entre 2 LIBÂNEO, J. C. Didática. São Paulo: Cortez, 2010. um conceito e outro, não sabe aplicar uma relação geral para casos particulares. O professor transmissor de conteúdo não favorece uma aprendizagem sólida porque o conteúdo que ele passa não se transforma em meio de atividade subjetiva do aluno. Ou seja, o aluno não dá conta de explicar uma ideia, uma definição, com suas próprias palavras, não saber aplicar o conhecimento em situações novas ou diferentes, nem na sala de aula nem fora dela. A participação do aluno é pouco solicitada, e quando o professor faz uma pergunta, ele próprio imediatamente a responde. É possível que entre os professores que se utilizam desses procedimentos de ensino haja alguns que levem os alunos a aprender os conceitos de forma mais sólida, que saibam lidar de forma autônoma com os conceitos. Mas não é o caso da maioria. O que se vê nas instituições de ensino superior é um ensino meramente expositivo, empírico, repetitivo, memorístico. Os alunos desses professores não aprendem solidamente, ou seja, não sabem lidar de forma independente com os conhecimentos, não “interiorizam” os conceitos, o modo de pensar, raciocinar e atuar, próprios da matéria que está sendo ensinada e, assim, os conceitos não se transformam em instrumentos mentais para atuar com a realidade. O estilo professor-facilitador aplica-se a professores que se julgam mais atualizados nas metodologias de ensino, eles tentam variar mais os métodos e procedimentos. Alguns deles preocupam-se, realmente, com certas características individuais e sociais dos alunos, procuram saber os conhecimentos prévios ou as experiências dos alunos, tentam estabelecer diálogo ou investir mais no bom relacionamento com os alunos. Outros tentam inovar organizando trabalhos em grupo ou estudo dirigido, utilizando recursos audiovisuais, dando tarefas que requerem algum tipo de pesquisa. Há, também, em algumas áreas de conhecimento, professores que entendem que a melhor forma de aprender é colocar os alunos no laboratório na crença de que, fazendo experiências, lidando com materiais, assimilam melhor a matéria. Essas formas de trabalho didático, sem dúvida, trazem mais vantagens do que aquelas do ensino tradicional. Entretanto, quase sempre esses professores acabam voltando às práticas tradicionais, por exemplo, não sabem utilizar a atividade própria do aluno para eles próprios formando conceitos. Com efeito, ao avaliar a aprendizagem dos alunos pedem respostas memorizadas e a repetição de definições ou fórmulas. Mesmo utilizando técnicas ativas e respeitando mais o aluno, as mudanças metodológicas ficam apenas na forma, mantendo empobrecidos os resultados da aprendizagem, ou aluno não forma conceitos, não aprende a pensar com autonomia, não interioriza ações mentais. Ou seja, sua atividade mental continua pouco reflexiva. Poderíamos mencionar outros estilos de professor: o professor-técnico (preocupado pelo lado operacional, prático da sua matéria, seu objetivo é saber-fazer, não fazer- pensar-fazer); o professor-laboratório (acha que única forma eficaz de aprender é a pesquisa ou a demonstração experimental); o professor-comunicador (o típico professor de cursinhos que só sabe trabalhar o conteúdo fazendo graça, não dando conta de colocar o próprio conteúdo no campo de interesses e motivos do aluno). Em resumo, muitos professores não sabem como ajudar o aluno a, através de formas de mobilização de sua atividade mental, elaborar de forma consciente e independente o conhecimento para que possa ser utilizado nas várias situações da vida prática. As atividades que organizam não levam os alunos a adquirir LIBÂNEO, J. C. A didática e a aprendizagem do pensar e do aprender: a teoria histórico-cultural da atividade e a contribuição de Vasili Davydov. In: Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, n. 27, 2004. A didática e o processo de ensino/aprendizagem: planejamento, estratégias, metodologias e avaliação da aprendizagem. Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br APOSTILAS OPÇÃO Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 5 conceitos e métodos de pensamento, habilidades e capacidades mentais, para poderem lidar de forma independente e criativa com os conhecimentos e a realidade, tornando esses conceitos e métodos meios de sua atividade. Sugerimos para quem deseja um ensino eficaz, tendo em vista aprendizagens mais sólidas dos alunos, a metáfora do professor-mediador. Quais são as características do professor mediador? O que caracteriza uma didática baseada no princípio da mediação? Numa formulação sintética, boa didática significa um tipo de trabalho na sala de aula em que o professor atua como mediador da relação cognitiva do aluno com a matéria. Há uma condução eficaz da aula quando o professor assegura, pelo seu trabalho, o encontro bem sucedido entre o aluno e a matéria de estudo. Em outras palavras, o ensino satisfatório é aquele em que o professor põe em prática e dirige as condições e os modos que asseguram um processo de conhecimento pelo aluno. Vejamos isso mais detalhadamente. Uma pedagogia que valoriza os conteúdos e as ações mentais correspondentes ao modo de constituição desses conteúdos Uma boa didática, na perspectiva da mediação, é aquela que promove e amplia o desenvolvimento das capacidades intelectuais dos alunos por meio dos conteúdos. Conforme a teoria histórico-cultural, formulada inicialmente pelo psicólogo e pedagogo russo Lev Vygotsky, o objetivo do ensino é o desenvolvimento das capacidades mentais e da subjetividade dos alunos através da assimilação consciente e ativa dos conteúdos, em cujo processo se leva em conta os motivos dos alunos. O ensino é meio pelo qual os alunos se apropriam das capacidades humanas formadas historicamente e objetivadas na cultura material e espiritual. Essa apropriação se dá pela aprendizagem de conteúdos, habilidades, atitudes, formadas pela humanidade ao longo da história. Conforme as próprias palavras de Vygotsky: A internalização de formas culturais de comportamento envolve a reconstrução da atividade psicológica tendo como base as operações com signos. (...) A internalização das atividades socialmente enraizadas e historicamente desenvolvidas constitui o aspecto característico da psicologia humana. Esse processo de interiorização ou apropriação tem as seguintes características: a) O desenvolvimento mental dos alunos depende da transmissão-apropriação de conhecimentos, habilidades, valores, que vão sendo constituídos na história da humanidade; b) O papel do ensino é propiciar aos alunos os meios de domínio dos conceitos, isto é, dos modos próprios de pensar e de atuar da matéria ensinada, de modo a formar capacidades intelectuais com base nos procedimentos lógicos e investigativos da ciência ensinada; c) A ação de ensinar, mais do que “passar conteúdo”, consiste em intervir no processo mental de formação de conceitos por parte dos alunos, com base na matéria ensinada; d) As relações intersubjetivas na sala de aula implicam, necessariamente, a compreensão dos motivos dos alunos, isto é, seus objetivos e suas razões para se envolverem nas atividades de aprendizagem. e) A aprendizagem se consolida melhor se forem criadas situações de interlocução, cooperação, diálogo, entre professor e alunos e entre os alunos, em que os alunos tenham chance de formular e opera com conceitos. Na mesma linha teórica, Davydov afirma que o papel do ensinoé desenvolver nos alunos as capacidades intelectuais necessárias para assimilar e utilizar com êxito os conhecimentos. Ele escreve: Os pedagogos começam a compreender que a tarefa da escola contemporânea não consiste em dar às crianças uma soma de fatos conhecidos, mas em ensiná-las a orientar-se independentemente na informação científica e em qualquer outra. Isto significa que a escola deve ensinar os alunos a pensar, quer dizer, desenvolver ativamente neles os fundamentos do pensamento contemporâneo para o qual é necessário organizar um ensino que impulsione o desenvolvimento. Chamemos esse ensino de desenvolvimental. Conforme Davydov, para que o ensino esteja voltado para o desenvolvimento das capacidades intelectuais dos alunos, é preciso que o professor conheça quais são os métodos de investigação utilizados pelo cientista (em relação à matéria que ensina), pois é nesses métodos que encontrará as capacidades intelectuais a serem formadas pelos estudantes enquanto estudam a matéria. Em outras palavras, para aprender a pensar e a agir com base nos conteúdos de uma matéria de ensino é preciso que os alunos dominem aquelas ações mentais associadas a esses conteúdos, as quais são encontradas nos procedimentos lógicos e investigativos próprios da ciência que dá origem a esses conteúdos. Conclui- se, daí, que a um professor não basta dominar o conteúdo, é preciso que saiba mais três coisas: a) qual é o processo de pesquisa pelo qual se chegou a esse conteúdo, ou seja, a epistemologia da ciência que ensina; b) por quais métodos e procedimentos ensinará seus alunos a se apropriarem dos conteúdos da ciência ensinada e, especialmente, das ações mentais ligadas a esses conteúdos; c) quais são as características individuais e socioculturais dos alunos e os motivos que os impulsionam, de modo a saber ligar os conteúdos com esses motivos. Para M. Castells, a tarefa das escolas e dos processos educativos é o de desenvolver em quem está aprendendo a capacidade de aprender, em razão de exigências postas pelo volume crescente de dados acessíveis na sociedade e nas redes informacionais, da necessidade de lidar com um mundo diferente e, também, de educar a juventude em valores e ajudá- la a construir personalidades flexíveis e eticamente ancoradas. Também E. Morin expressa com muita convicção a exigência de se desenvolver uma inteligência geral que saiba discernir o contexto, o global, o multidimensional, a interação complexa dos elementos. Escreve esse autor: (...) o desenvolvimento de aptidões gerais da mente permite melhor desenvolvimento das competências particulares ou especializadas. Quanto mais poderosa é a inteligência geral, maior é sua faculdade de tratar problemas especiais. A compreensão dos dados particulares também necessita da ativação da inteligência geral, que opera e organiza a mobilização dos conhecimentos de conjunto em cada caso particular. (...) Dessa maneira, há correlação entre a mobilização dos conhecimentos de conjunto e a ativação da inteligência geral. Em síntese, esses estudos destacam, nos processos do ensinar a aprender e a pensar em um campo de conhecimento, o papel ativo dos sujeitos na aprendizagem e, especialmente, a necessidade dos sujeitos desenvolverem habilidades de pensamento, competências cognitivas, como meio para compreender e atuar no mundo da profissão, da política, da cultura. Esses meios da atividade aprender são aprendidos pelo estudante quando desenvolve as ações mentais conexas aos conteúdos, isto é, o modo próprio de pensar, pesquisar e agir que corresponde à ciência, arte ou tecnologia ensinadas. Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br APOSTILAS OPÇÃO Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 6 A didática e o trabalho dos professores A didática é uma disciplina que estuda o processo de ensino no qual os objetivos, os conteúdos, os métodos e as formas de organização da aula se combinam entre si, de modo a criar as condições e os modos de garantir aos alunos uma aprendizagem significativa. Ela ajuda o professor na direção e orientação das tarefas do ensino e da aprendizagem, fornecendo-lhe mais segurança profissional. Em que consiste o processo de ensino e aprendizagem? O princípio básico que define esse processo é o seguinte: o núcleo da atividade docente é a relação ativa do aluno com a matéria de estudo, sob a direção do professor. O processo de ensino consiste de uma combinação adequada entre o papel de direção do professor e a atividade independente, autônoma e criativa do aluno. O papel do professor, portanto é o de planejar, selecionar e organizar os conteúdos, programar tarefas, criar condições de estudo dentro da classe, incentivar os alunos para o estudo, ou seja, o professor dirige as atividades de aprendizagem dos alunos a fim de que estes se tornem sujeitos ativos da própria aprendizagem. Não há ensino verdadeiro se os alunos não desenvolvem suas capacidades e habilidades mentais, se não assimilam pessoal e ativamente os conhecimentos ou se não dão conta de aplicá-los, seja nos exercícios e verificações feitos em classe, seja na prática da vida. Podemos dizer, então, que o processo didático é o conjunto de atividades do professor e dos alunos sob a direção do professor, visando à assimilação ativa pelos alunos dos conhecimentos, habilidades e hábitos, atitudes, desenvolvendo suas capacidades e habilidades intelectuais. Nessa concepção de didática, os conteúdos escolares e o desenvolvimento mental se relacionam reciprocamente, pois o progresso intelectual dos alunos e o desenvolvimento de suas capacidades mentais se verificam no decorrer da assimilação ativa dos conteúdos. Portanto, o ensino e a aprendizagem (estudo) se movem em torno dos conteúdos escolares visando o desenvolvimento do pensamento. Mas, qual é a dinâmica do processo de ensino? Como se garante o vínculo entre o ensino (professor) e a aprendizagem efetiva decorrente do encontro cognitivo e afetivo entre o aluno e a matéria? A pesquisa mais atual sobre a didática utiliza a palavra “mediação” para expressar o papel do professor no ensino, isto é, mediar a relação entre o aluno e o objeto de conhecimento. Na verdade, trata-se de uma dupla mediação: primeiro, tem-se a mediação cognitiva, que liga o aluno ao objeto de conhecimento; segundo, tem-se a mediação didática, que assegura as condições e os meios pelos quais o aluno se relaciona com o conhecimento. Sendo assim, a especificidade de toda didática está em propiciar as condições ótimas de transformação das relações que o aprendiz mantém com o saber. Escreve D´Ávila: A relação com o saber é, portanto, duplamente mediatizada: uma mediação de ordem cognitiva (onde o desejo desejado é reconhecido pelo outro) e outra de natureza didática que torna o saber desejável ao sujeito. É aqui que as condições pedagógicas e didáticas ganham contornos, no sentido de garantir as possibilidades de acesso ao saber por parte do aprendiz educando. A força impulsionadora do processo de ensino é um adequado ajuste entre os objetivos/conteúdos/métodos organizados pelo professor e o nível de conhecimentos, experiências e motivos do aluno. O movimento permanente que ocorre a cada aula consiste em que, por um lado, o professor propõe problemas, desafios, perguntas, relacionados com conteúdos significativos, instigantes e acessíveis; por outro lado, os alunos, ao assimilar consciente e ativamente a matéria, mobilizam seus motivos, sua atividade mental e desenvolvem suas capacidades e habilidades. Portanto, um bom planejamento de ensino depende da análise e organização dos conteúdos junto com a análise e consideração dos motivos dos alunos. Essa forma de compreender o ensino é muito diferente do que simplesmente passar a matéria ao aluno. É diferente, também, dedar atividades aos alunos para que fiquem “ocupados” ou aprendam fazendo. O processo de ensino é um constante vai-e-vem entre conteúdos e problemas que são colocados e as características de desenvolvimento e aprendizagem dos alunos. É isto que caracteriza a dinâmica da situação didática, numa perspectiva histórico-cultural. Insistimos bastante na exigência didática de partir do nível de conhecimentos já alcançado, da capacidade atual de assimilação e do desenvolvimento mental do aluno, dos motivos do aluno. Ou seja, não existe o aluno em geral, mas um aluno vivendo numa sociedade determinada, que faz parte de um grupo social e cultural determinado, sendo que essas circunstâncias interferem na sua capacidade de aprender, nos seus valores e atitudes, na sua linguagem e suas motivações. Ou seja, a subjetividade (os motivos) e a experiência sociocultural concreta dos alunos são o ponto de partida para a orientação da aprendizagem. Um professor que aspira ter uma boa didática necessita aprender a cada dia como lidar com a subjetividade dos alunos, seus motivos, sua linguagem, suas percepções, sua prática de vida. Sem essa disposição, será incapaz de colocar problemas, desafios, perguntas, relacionados com os conteúdos, condição para se conseguir uma aprendizagem significativa. Essas considerações mostram o traço mais marcante de uma didática crítico-social na perspectiva histórico-cultural: o trabalho docente como mediação entre a cultura elaborada, convertida em saber escolar, e o aluno que, para além de um sujeito psicológico, é um sujeito portador da prática social viva. O modo adequado de realizar a mediação didática, pelo trabalho dos professores, é o provimento aos alunos dos meios de aquisição de conceitos científicos e de desenvolvimento das capacidades cognitivas e operativas, dois elementos da aprendizagem escolar interligados e indissociáveis. O ensino e o desenvolvimento do pensamento – O ensino para o desenvolvimento humano A teoria do ensino desenvolvimental de Vasíli Davydov, baseada na teoria histórico-cultural de Vygotsky, sustenta tese de que o bom ensino é o que promove o desenvolvimento mental, isto é, as capacidades e habilidades de pensamento. Segundo Vygotsky, a aprendizagem e o ensino são formas universais de desenvolvimento mental. Para Davydov, a atividade de aprendizagem está assentada no conhecimento teórico-científico, ou seja, no desenvolvimento do pensamento teórico e nas ações mentais que lhe correspondem. É importante esclarecer que, na teoria histórico-cultural elaborada entre outros por Vygotsky, Leontiev e Davídov, pensamento teórico ou conceito não tem o sentido de “estudar teoria”, de lidar com o conteúdo só na teoria. Na teoria histórico-cultural, conceito não se refere apenas às características e propriedades dos fenômenos em estudo, mas a uma ação mental peculiar pela qual se efetua uma reflexão sobre um objeto que, ao mesmo tempo, é um meio de reconstrução mental desse objeto pelo pensamento. Nesse sentido, pensar teoricamente é desenvolver processos mentais pelos quais chegamos aos conceitos e os transformamos em ferramentas para fazer generalizações conceituais e aplicá-las Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br APOSTILAS OPÇÃO Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 7 a problemas específicos. Como escreve Seth Chaiklin, conceito significa um conjunto de procedimentos para deduzir relações particulares de uma relação abstrata. O ensino, portanto, propicia a apropriação da cultura e da ciência, e o desenvolvimento do pensamento, por meio da formação e operação com conceitos. São dois processos articulados entre si, formando uma unidade: Podemos expressar essa ideia de duas maneiras: - à medida que o aluno forma conceitos científicos, incorpora processos de pensamento e vice-versa. - enquanto forma o pensamento teórico-científico, o aluno desenvolve ações mentais mediante a solução de problemas que suscitam sua atividade mental. Com isso, o aluno assimila o conhecimento teórico e as capacidades e habilidades relacionadas a esse conhecimento. Sendo assim, o papel da escola é ajudar os alunos a desenvolver suas capacidades mentais, ao mesmo tempo em que se apropriam dos conteúdos. Nesse sentido, a metodologia de ensino, mais do que o conjunto dos procedimentos e técnicas de ensino, consiste em instrumentos de mediação para ajudar o aluno a pensar com os instrumentos conceituais e os processos de investigação da ciência que se ensina. Por exemplo, a boa pedagogia da física é aquela que consegue traduzir didaticamente o modo próprio de pensar, investigar e atuar da própria física. Boa pedagogia da geografia é aquela cujo aluno sai das aulas pensando, raciocinando, investigando e atuando como o modo próprio de pensar, raciocinar, investigar e atuar da geografia. Trata-se, assim, de fazer a junção entre o conteúdo e o desenvolvimento das capacidades de pensar. A ideia central contida nessa teoria é simples: ensinar é colocar o aluno numa atividade de aprendizagem. A atividade de aprendizagem é a própria aprendizagem, ou seja, com base nos conteúdos, aprender habilidades, desenvolver capacidades e competências para que os alunos aprendam por si mesmos. É essa ideia que Davydov defende: a atividade de aprender consiste em encontrar soluções gerais para problemas específicos, é apreender os conceitos mais gerais que dão suporte a um conteúdo, para aplicá-los a situações concretas. Esse modo de ver o ensino significa dizer que o ensino mais compatível com o mundo da ciência, da tecnologia, dos meios de comunicação, é aquele que contribui para que o aluno aprenda a raciocinar com a própria cabeça, que forme conceitos e categorias de pensamento decorrentes da ciência que está aprendendo, para lidar praticamente com a realidade. Os conceitos, nessa maneira de ver, são ferramentas mentais para lidar praticamente com problemas, situações, dilemas práticos, etc. Explicitando essa ideia numa formulação mais completa, podemos dizer: o modo de lidar pedagogicamente com algo, depende do modo de lidar epistemologicamente com algo, considerando as condições do aluno e o contexto sociocultural em que ele vive (vale dizer, as condições da realidade econômica, social, etc.). Trata-se, portanto, de unir no ensino a lógica do processo de investigação com os produtos da investigação. Ou seja, o acesso aos conteúdos, a aquisição de conceitos científicos, precisa percorrer o processo de investigação, os modos de pensar e investigar da ciência ensinada. Não basta aprender o que aconteceu na história, é preciso pensar historicamente. Pensar matematicamente sobre matemática, biologicamente sobre biologia, linguisticamente sobre português. Essa forma de entender a atividade de ensino das disciplinas específicas requer do professor não apenas o domínio do conteúdo mas, também, dos procedimentos investigativos da matéria que está ensinando e das formas de pensamento, habilidades de pensamento que propiciem uma reflexão sobre a metodologia investigativa do conteúdo que se está aprendendo. Ensinar, portanto, é adquirir meios do pensar, através dos conteúdos. Em outras palavras, é desenvolver nos alunos o pensamento teórico, que é o processo através do qual se revela a essência e o desenvolvimento dos objetos de conhecimento e com isso a aquisição de métodos e estratégias cognoscitivas gerais de cada ciência, em função de analisar e resolver problemas. Escreve a esse respeito Rubtsov: A aquisição de um método teórico geral visando à resolução de uma série de problemas concretos e práticos, concentrando-se naquilo que eles têm em comum e não na resolução específica de um entre eles, constitui-se numa das características mais importantes da aprendizagem. Propor um problema de aprendizagem a um escolar é confrontá-locom uma situação cuja solução, em todas as suas variantes concretas, pede uma aplicação do método teórico geral. (...) Podemos definir o processo de resolução de um problema como o da aquisição das formas de ação características dos conteúdos teóricos. O termo “forma de ação geral”, também chamado de forma de ação universal, designa aquilo que é obtido como resultado ou modo de funcionamento essencial para trazer soluções para os problemas de aprendizagem; mais do que soluções, é este resultado particular que constitui o objeto desses problemas. Nesses termos, o papel da didática é: a) ajudar os alunos a pensar teoricamente (a partir da formação de conceitos); b) ajudar o aluno a dominar o modo de pensar, atuar e investigar a ciência ensinada; c) levar em conta a atividade psicológica do aluno (motivos) e seu contexto sociocultural e institucional. Para chegar à consecução desses objetivos, o professor precisa saber como trabalhar a matéria no sentido da formação e operação com conceitos. Para isso, no trabalho com os conteúdos, podem ser seguidos três momentos: 1º) Análise do conteúdo da matéria para identificar um princípio geral, ou seja, uma relação mais geral, um conceito nuclear, do qual se parte para ser aplicado a manifestações particulares desse conteúdo. 2º) Realizar por meio da conversação dirigida, do diálogo com os alunos, da colocação problemas ou casos, tarefas que possibilitem deduções do geral para o particular, ou seja, aplicação do princípio geral (relação geral, conceito nuclear) a problemas particulares. 3º) Conseguir com que o aluno domine os procedimentos lógicos do pensamento (ligados à matéria) que têm caráter generalizante. Ao captar a essência, isto é, o princípio interno explicativo do objeto e suas relações internas, o aluno se apropria dos métodos e estratégias cognitivas dos modos de atividades anteriores desenvolvidas pelos cientistas; o aluno reproduz em sua mente o percurso investigativo de apreensão teórica do objeto realizado pela prática científica e social. Todos esses momentos devem estar conectados com os motivos e objetivos subjetivos do aluno, ampliados com as necessidades sociais de estudar e aprender interpostos pelo professor, na sua condição de educador. O caminho didático: sugestões para elaboração de planos de ensino Ao assumir o ensino de uma matéria, os professores geralmente partem de um conteúdo já estabelecido num Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br APOSTILAS OPÇÃO Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 8 projeto pedagógico-curricular. O procedimento da análise de conteúdo indicado na didática desenvolvimental pode levar a uma organização do conteúdo muito diferente da existente na instituição, ou seja, os temas podem ser os mesmos, mas a sequência e a lógica de estruturação podem ser outras. Os procedimentos a serem utilizados em relação à formulação de conteúdos, objetivos e metodologia podem ser os seguintes: a) Identificar, o núcleo conceitual da matéria (essência, princípio geral básico) e as relações gerais básicas que a definem e lhe dão unidade. Este núcleo conceitual contém a generalização esperada para que o aluno a interiorize, de modo a poder deduzir relações particulares da relação básica identificada. b) Construir a rede de conceitos básicos que dão suporte a esse núcleo conceitual, com as devidas relações e articulações (mapa conceitual). c) Estudo da gênese e dos processos investigativos do conteúdo, de modo a extrair ações mentais, habilidades cognitivas gerais a formar no estudo da matéria. d) Formulação de tarefas de aprendizagem, com base em situações-problema, que possibilitem a formação de habilidades cognitivas gerais e específicas em relação à matéria. e) Prever formas de avaliação para verificar se o aluno desenvolveu ou está desenvolvendo a capacidade de utilizar os conceitos como ferramentas mentais. A Didática e as Diretrizes Curriculares para a Educação Básica. A estrutura didática da Educação Básica instituída pela Lei n°. 9.394 de 20 de dezembro de 1996 envolve escolas de diferentes níveis: Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio, além de modalidades específicas de ensino, como a Educação de Jovens e Adultos, a Educação Profissional e a Educação Especial. Conforme o artigo 22 desta lei: “A educação básica tem por finalidades desenvolver o educando, assegurar-lhe a formação comum indispensável para o exercício da cidadania e fornecer- lhe meios para progredir no trabalho e em estudos posteriores”. Essas finalidades devem ser analisadas de acordo com os pressupostos filosóficos e políticos contidos na Constituição Brasileira vigente. Portanto, todas as atividades de ensino-aprendizagem devem obrigatoriamente convergir para as finalidades constitucionalmente estabelecidas. A Educação Infantil é o primeiro nível da Educação Básica e tem como finalidade o desenvolvimento integral da criança até seis anos, considerando os aspectos físico, psicológico, intelectual e social e completando a ação da família e da comunidade. Segundo o artigo 30 da LDB, é oferecida em dois níveis: “I - creches, ou entidades equivalentes, para crianças de até três anos de idade; II - pré-escolas, para as crianças de 4 (quatro) a 5 (cinco) anos de idade.”. O Ensino Fundamental, segundo artigo 32 da LDB, obrigatório, com duração de 9 (nove) anos, gratuito na escola pública, iniciando-se aos 6 (seis) anos de idade, terá por objetivo a formação básica do cidadão, mediante: I - o desenvolvimento da capacidade de aprender, tendo como meios básicos o pleno domínio da leitura, da escrita e do cálculo; II - a compreensão do ambiente natural e social, do sistema político, da tecnologia, das artes e dos valores em que se fundamenta a sociedade; III - o desenvolvimento da capacidade de aprendizagem, tendo em vista a aquisição de conhecimentos e habilidades e a formação de atitudes e valores; IV - o fortalecimento dos vínculos de família, dos laços de solidariedade humana e de tolerância recíproca em que se assenta a vida social. § 1º É facultado aos sistemas de ensino desdobrar o ensino fundamental em ciclos. § 2º Os estabelecimentos que utilizam progressão regular por série podem adotar no ensino fundamental o regime de progressão continuada, sem prejuízo da avaliação do processo de ensino-aprendizagem, observadas as normas do respectivo sistema de ensino. § 3º O ensino fundamental regular será ministrado em língua portuguesa, assegurada às comunidades indígenas a utilização de suas línguas maternas e processos próprios de aprendizagem. § 4º O ensino fundamental será presencial, sendo o ensino a distância utilizado como complementação da aprendizagem ou em situações emergenciais. § 5° O currículo do ensino fundamental incluirá, obrigatoriamente, conteúdo que trate dos direitos das crianças e dos adolescentes, tendo como diretriz a Lei no 8.069, de 13 de julho de 1990, que institui o Estatuto da Criança e do Adolescente, observada a produção e distribuição de material didático adequado. § 6º O estudo sobre os símbolos nacionais será incluído como tema transversal nos currículos do ensino fundamental. O Ensino Médio, conforme o artigo 35 da LDB, é a etapa final da Educação Básica, com duração mínima de três anos. Tem como finalidades: I - a consolidação e o aprofundamento dos conhecimentos adquiridos no ensino fundamental, possibilitando o prosseguimento de estudos; II - a preparação básica para o trabalho e a cidadania do educando, para continuar aprendendo, de modo a ser capaz de se adaptar com flexibilidade a novas condições de ocupação ou aperfeiçoamento posteriores; III - o aprimoramento do educando como pessoa humana, incluindo a formação ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamentocrítico; IV - a compreensão dos fundamentos científico- tecnológicos dos processos produtivos, relacionando a teoria com a prática, no ensino de cada disciplina. A Educação de Jovens e de Adultos – EJA é a modalidade de ensino prevista nos artigos 37 e 38 da LDB para jovens e adultos concluírem o Ensino Fundamental ou Médio. A Educação Profissional não se coloca como um nível de ensino, mas tipo de formação que se integra ao trabalho, à ciência e à tecnologia e conduz ao permanente desenvolvimento de aptidões para a vida produtiva. Está regulamentada nos artigos 39, 40 e 41 da LDB. A Educação Especial, de acordo com o artigo 58 da LDB, é uma modalidade de educação oferecida preferentemente na rede regular de ensino, para educandos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação. Conceito de Planejamento O Planejamento pode ser conceituado como um processo, considerando os seguintes aspectos: produção, pesquisa, finanças, recursos humanos, propósitos, objetivos, estratégias, políticas, programas, orçamentos, normas e procedimentos, tempo, unidades organizacionais etc. Desenvolvido para o alcance de uma situação futura desejada, de um modo mais eficiente, eficaz e efetivo, com a melhor concentração de esforços e recursos. Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br APOSTILAS OPÇÃO Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 9 O Planejamento também pressupõe a necessidade de um processo decisório que ocorrerá antes, durante e depois de sua elaboração e implementação na escola. Este processo deve conter ao mesmo tempo, os componentes individuais e organizacionais, bem como a ação nesses dois níveis deve ser orientada de tal maneira que garanta certa confluência de interesses dos diversos fatores alocados no ambiente escolar. O processo de planejar envolve, portanto, um modo de pensar; e um salutar modo de pensar envolve indagações; e indagações envolvem questionamentos sobre o que fazer, como, quando, quanto, para quem, por que, por quem e onde. É um processo de estabelecimento de um estado futuro desejado e um delineamento dos meios efetivos de torna-lo realidade justifica que ele antecede à decisão e à ação. Elementos Constitutivos do Planejamento Objetivos e Conteúdos de Ensino: Os objetivos determinam de antemão os resultados esperados do processo entre o professor e o aluno, determinam também a gama de habilidades e hábitos a serem adquiridos. Já os conteúdos formam a base da instrução. A prática educacional baseia-se nos objetivos por meio de uma ação intencional e sistemática para oferecer aprendizagem. Desta forma os objetivos são fundamentais para determinação de propósitos definidos e explícitos quanto às qualidades humanas que precisam ser adquiridas. Os objetivos têm pelo menos três referências fundamentais para a sua formulação. - Os valores e ideias ditos na legislação educacional. - Os conteúdos básicos das ciências, produzidos na história da humanidade. - As necessidades e expectativas da maioria da sociedade. Métodos e Estratégias: O método por sua vez é a forma com que estes objetivos e conteúdos serão ministrados na prática ao aluno. Cabe aos métodos dinamizar as condições e modos de realização do ensino. Refere-se aos meios utilizados pelos docentes na articulação do processo de ensino, de acordo com cada atividade e os resultados esperados. As estratégias visam à consecução de objetivos, portanto, há que ter clareza sobre aonde se pretende chegar naquele momento com o processo de ensino e de aprendizagem. Por isso, os objetivos que norteiam devem estar claros para os sujeitos envolvidos – professores e alunos. Multimídia Educativa: A multimídia educativa é uma estratégia de ensino e de aprendizagem que pode ser utilizada por estudantes e professores. É imperativa a importância das multimídias educativas com uso da informática no processo educativo como uma ferramenta auxiliar na educação. Avaliação Educacional: É uma tarefa didática necessária e permanente no trabalho do professor, deve acompanhar todos os passos do processo de ensino e de aprendizagem. É através dela que vão sendo comparados os resultados obtidos no decorrer do trabalho conjunto do professor e dos alunos, conforme os objetivos propostos, a fim de verificar progressos, dificuldades e orientar o trabalho para as correções necessárias. A avaliação insere-se não só nas funções didáticas, mas também na própria dinâmica e estrutura do Processo de Ensino e de Aprendizagem. 3COARACY, Joanna. O planejamento como processo. Revista Educação, Ano I, no. 4, Brasília, 1972. Níveis de Planejamento Planejamento Educacional Planejamento educacional é aplicar à própria educação àquilo que os verdadeiros educadores se esforçam por inculcar em seus alunos: uma abordagem racional e científica dos problemas. Tal abordagem supõe a determinação dos objetivos e dos recursos disponíveis, a análise das consequências que advirão das diversas atuações possíveis, a escolha entre essas possibilidades, a determinação de metas específicas a atingir em prazos bem definidos e, finalmente, o desenvolvimento dos meios mais eficazes para implantar a política escolhida. O planejamento educacional significa bem mais que a elaboração de um projeto contínuo que engloba uma série de operações interdependentes. O Planejamento do Sistema de Educação é o de maior abrangência (enquanto um dos níveis de planejamento na educação escolar), correspondendo ao planejamento que é feito em nível nacional, estadual ou municipal. Incorpora e reflete as grandes políticas educacionais. Enfrenta os problemas de atendimento à demanda, alocação e gerenciamento de recursos etc. Objetivos do Planejamento Educacional São objetivos do planejamento educacional, segundo Joanna Coaracy3: - “relacionar o desenvolvimento do sistema educacional com o desenvolvimento econômico, social, político e cultural do país, em geral, e de cada comunidade, em particular; - “estabelecer as condições necessárias para o aperfeiçoamento dos fatores que influem diretamente sobre a eficiência do sistema educacional (estrutura, administração, financiamento, pessoal, conteúdo, procedimentos e instrumentos); - alcançar maior coerência interna na determinação dos objetivos e nos meios mais adequados para atingi-los; - conciliar e aperfeiçoar a eficiência interna e externa do sistema”. É condição primordial do processo de planejamento integral da educação que, em nenhum caso, interesses pessoais ou de grupos possam desviá-lo de seus fins essenciais que vão contribuir para a dignificação do homem e para o desenvolvimento cultural, social e econômico do país. Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br APOSTILAS OPÇÃO Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 10 Requisitos do Planejamento Educacional - Aplicação do método científico na investigação da realidade educativa, cultural, social e econômica do país; - Apreciação objetiva das necessidades, para satisfazê-las a curto, médio e longo prazo; - Apreciação realista das possibilidades de recursos humanos e financeiros, a fim de assegurar a eficácia das soluções propostas; - Previsão dos fatores mais significativos que intervêm no desenvolvimento do planejamento; - Continuidade que assegure a ação sistemática para alcançar os fins propostos; - Coordenação dos serviços da educação, e destes com os demais serviços do Estado, em todos os níveis da administração pública; - Avaliação periódica dos planos e adaptação constante destes mesmos às novas necessidades e circunstâncias; - Flexibilidade que permitaa adaptação do plano a situações imprevistas ou imprevisíveis; - Trabalho de equipe que garanta uma soma de esforços eficazes e coordenados; - Formulação e apresentação do plano como iniciativa e esforço nacionais, e não como esforço de determinadas pessoas, grupos e setores”.4 Pressupostos Básicos do Planejamento Educacional - O delineamento da filosofia da educação do país, evidenciando o valor da pessoa e da escola na sociedade; - A aplicação da análise - sistemática e racional - ao processo de desenvolvimento da educação, buscando torná-lo mais eficiente e passível de responder com maior precisão às necessidades e objetivos da sociedade. Podemos, portanto, considerar que o planejamento educacional constitui a abordagem racional e científica dos problemas da educação, envolvendo o aprimoramento gradual de conceitos e meios de análise, visando estudar a eficiência e a produtividade do sistema educacional, em seus múltiplos aspectos. Planejamento Curricular Planejamento curricular é o processo de tomada de decisões sobre a dinâmica da ação escolar. É a previsão sistemática e ordenada de toda a vida escolar do aluno. É o instrumento que orienta a educação como um processo dinâmico e integrado de todos os elementos que interagem para consecução dos objetivos, tanto os dos alunos como os da escola. O Planejamento curricular, enquanto um dos níveis dos planejamentos da educação escolar é a proposta geral das experiências de aprendizagem que serão oferecidas pela escola, incorporada nos diversos componentes curriculares. Enquanto um dos níveis do planejamento na educação escolar, o Planejamento curricular é a proposta geral das experiências de aprendizagem que serão oferecidas pela escola, incorporada nos diversos componentes curriculares desde as séries iniciais até as finais. A proposta curricular pode ter como referência os seguintes elementos: - Fundamentos da disciplina; - Área de estudo; 4 UNESCO, Seminário Interamericano sobre planejamento integral na educação. Washington. 1958. - Desafios Pedagógicos; - Encaminhamento Metodológico; - Propostas de Conteúdos; - Processos de Avaliação. Objetivos do Planejamento Curricular - Ajudar aos membros da comunidade escolar a definir seus objetivos; - Obter maior efetividade no ensino; - Coordenar esforços para aperfeiçoar o processo de ensino e de aprendizagem; - Propiciar o estabelecimento de um clima estimulante para o desenvolvimento das tarefas educativas. Requisitos do Planejamento Curricular O planejamento curricular deve refletir os melhores meios de cultivar o desenvolvimento da ação escolar, envolvendo, sempre, todos os elementos participantes do processo. Seus elaboradores devem estar alertas paras novas descobertas e para os novos meios postos ao alcance das escolas. Estes devem ser minuciosamente analisados para verificar sua real validade naquele âmbito escolar. Posto isso, fica evidente a necessidade dos organizadores explorarem, aceitarem, adaptarem, enriquecerem ou mesmo rejeitarem tais inovações. O planejamento curricular é de complexa elaboração. Requer um contínuo estudo e uma constante investigação da realidade imediata e dos avanços técnicos, principalmente na área educacional. Constitui, por suas características, base vital do trabalho. A dinamização e integração da escola como uma célula viva da sociedade, que palmilha determinados caminhos conforme a linha filosófica adotada, é o pressuposto inerente a sua estruturação. O planejamento curricular constitui, portanto, uma tarefa contínua a nível de escola, em função das crescentes exigências de nosso tempo e dos processos que tentam acelerar a aprendizagem. Será sempre um desafio a todos aqueles envolvidos no processo educacional, para busca dos meios mais adequados à obtenção de maiores resultados. Planejamento de Ensino Planejamento de ensino é o processo que envolve a atuação concreta dos educadores no cotidiano do seu trabalho pedagógico, envolvendo todas as suas ações e situações o tempo todo. Envolve permanentemente as interações entre os educadores e entre os próprios educandos. Objetivos do Planejamento de Ensino - Racionalizar as atividades educativas; - Assegurar um ensino efetivo e econômico; - Conduzir os alunos ao alcance dos objetivos; - Verificar a marcha do processo educativo. Requisitos do Planejamento do Ensino Por maior complexidade que envolva a organização da escola, é indispensável ter sempre bem presente que a interação professor-aluno é o suporte estrutural, cuja dinâmica concretiza ao fenômeno educativo. Portanto, o planejamento de ensino deve ser alicerçado neste pressuposto básico. Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br APOSTILAS OPÇÃO Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 11 O professor, ao planejar o trabalho, deve estar familiarizado com o que pode pôr em prática, de maneira que possa selecionar o que é melhor, adaptando tudo isso às necessidades e interesses de seus alunos. Na maioria das situações, o professor dependerá de seus próprios recursos para elaborar seus planos de trabalho. Por isso, deverá estar bem informado dos requisitos técnicos para que possa planejar, independentemente, sem dificuldades. Ainda temos a considerar que as condições de trabalho diferem de escola para escola, tendo sempre que adaptar seus projetos às circunstâncias e exigências do meio. Considerando que o ensino é o guia das situações de aprendizagem e que ajuda os estudantes a alcançarem os resultados desejados, a ação de planejá-lo é predominantemente importante para incrementar a eficiência da ação a ser desencadeada no âmbito escolar. O professor, durante o período (ano ou semestre) letivo, pode organizar três tipos de planos de ensino. Por ordem de abrangência: - Plano de Curso - delinear, globalmente, toda a ação a ser empreendida; - Plano de Unidade – disciplinar partes da ação pretendida no plano global; - Plano de Aula - especificar as realizações diárias para a concretização dos planos anteriores. Pelo significativo apoio que o planejamento empresta à atividade do professor e alunos, é considerado etapa obrigatória de todo o trabalho docente. O planejamento tende a prevenir as vacilações do professor, oferecendo maior segurança na consecução dos objetivos previstos, bem como na verificação da qualidade do ensino que está sendo orientado pelo mestre e pela escola. Planejamento Escolar O Planejamento escolar é uma tarefa docente que inclui tanto a previsão das atividades didáticas em termos da sua organização e coordenação em face dos objetivos propostos, quanto a sua revisão e adequação no decorrer do processo de ensino. É um processo de racionalização, organização e coordenação da ação docente, articulando a atividade escolar e a problemática do contexto social. Planejamento global da escola é o nível do planejamento que corresponde às decisões sobre a organização, funcionamento e proposta pedagógica da escola. É o que o que mais requer a participação conjunta da comunidade. O Planejamento da escola, enquanto outro nível do planejamento na educação escolar é o que chamamos de “Projeto Educativo” - sendo o plano global da instituição. Compõem-se de Marco Referencial, Diagnóstico e programação. Envolve as dimensões pedagógicas, administrativas e comunitárias da escola. O Planejamento anual da escola consiste em elaborar a estratégia de ação para o prazo de um ano - conforme a realidade específica de cada escola - tomando decisões sobre o que, para que, como e com o que se vai fazer o trabalho na escola o período proposto levando em conta as linhas tiradas no plano global.5 COSTA, Adelino Jorge: "Construção de projetos educativos nas escolas: traços de um percurso debilmente articulado." - Revista Portuguesa de Educação, Volume 17, nº 2. Projetos Educativos É o primeiro grande instrumento de planejamento da ação educativa da escola, devendo por isso, servir permanentemente de ponto de referência e orientação na atuação de todos os elementos da Comunidade Educativa em que a escola se insere, em prol da formação de pessoas e cidadãos cada vez mais cultos, autônomos, responsáveis, solidários e democraticamente comprometidos na construção de um destino comum e de uma sociedade melhor. Um Projeto Educativo é, segundo a definição de Costa5, um “documento de caráter pedagógico que, elaborado com a participação da comunidade educativa, estabelece a identidade da própria escola através da adequação do quadro legal em vigor à sua situação concreta, apresenta o modelo geral de organização e os objetivos pretendidos pela instituição e, enquanto instrumento de gestão, é ponto de referência orientador na coerência da ação educativa”. Isto é, um Projeto Educativo é um documento de orientação pedagógica que, não podendo contrariar a legislação vigente, explicita os princípios, os valores, as metas as estratégias através das quais a escola propõe realizar a sua função educativa. Barbier6 distingue dois tipos de projeto – o projeto de situação (“representações relativas ao estado final do objeto, da identidade, da situação que se procura transformar ou modificar”) e o projeto do processo (“representações relativas ao processo que permite chegar a este estado final”). O projeto é, por um lado, uma “antecipação” relativa a um estado, uma “representação antecipadora do estado final de uma realidade”, uma previsão ou prospectiva, um objetivo ou fim a atingir, uma pequena utopia. Seu conteúdo não é um acontecimento ou objeto pertencente ao ambiente atual ou passado, mas um fato possível, uma imagem ou representação de uma possibilidade, uma ideia a se transformar em ato, um futuro a se “fazer”, uma possibilidade a se transformar em realidade. Sua relação é com um “tempo a vir”, “um futuro de que constitui uma antecipação, uma visão prévia” (Barbier). Por outro lado, a função do projeto não se reduz a simples representação do futuro. Barbier atribui-lhe ainda um duplo efeito – o operatório ou pragmático e o mobilizador da atividade dos atores implicados. No entendimento de Boutinet7, o projeto implica um comprometimento com o futuro. A construção de um projeto já implica na vontade de fazê-lo acontecer. Daí, seu valor pragmático. O projeto não age, pois, dizer não equivale automaticamente a fazer, mas “dizer prepara o fazer”. O projeto expressa a representação da realização da ação, ou seja, a imagem do resultado da ação. “No caso de uma ação coletiva[...], escreve Barbier, é o projeto que fornece a representação comum que permite a realização coordenada das operações de execução”. Na sua função mobilizadora, o projeto apresenta, no plano afetivo, efeitos dinamizadores da atividade dos atores implicados. 6 BARBIER, J.-M. (1993). Elaboração de projectos de acção e planificação. Porto: Porto Editora. 7 BOUTINET, J. P. (1986). Le concept de projet e ses niveaux. Éducation Permanente, nº 86. Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br APOSTILAS OPÇÃO Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 12 Nossas imagens ou representações constituem um elemento dinamizador da mudança e, portanto, um fator de concretização do projeto. Para Vidal, Cárave e Florencio8, o projeto educativo é: - Um meio de adequação das intenções educativas da sociedade às características concretas de uma escola; - Elemento orientador do conjunto de atividades educativas de uma escola; - Instrumento integrador das atividades educativas de uma escola; - Garantia de coerência e de continuidade nas diferentes atuações dos membros de uma comunidade escolar; - Critério para avaliar e homologar os processos; - Documento dinâmico para definir as estruturas e estratégias organizacionais da escola; - Ponto de referência para a solução dos conflitos de convivência. O projeto educativo traduz o engajamento da instituição escolar, suas prioridades, seus princípios. Ele define o sentido de suas ações e fixa as orientações e os meios para colocá-las em prática. É formulado por um documento escrito que estabelece a identidade da escola (diz o que ela é), apresenta seus propósitos gerais (diz o que ela quer) e descreve seu modelo geral de organização (diz como ela se organiza). Concebido como um projeto de longo prazo, ele visa favorecer a continuidade e a coerência da ação da escola. Embora não seja um documento inalterável, não deverá estar sujeito a profundas e constantes alterações anuais. De modo geral, “a sua duração dependerá fundamentalmente da permanência em cada instituição das pessoas que o elaboraram e da estabilidade das suas convicções” (Costa9). Para Vidal, Cárave e Florencio e para Carvalho e Diogo10, o projeto educativo de escola é um documento de planificação da ação educativa, de amplitude integral, de duração de longo prazo e de natureza geral e estratégica. Assim, é mais amplo e abrangente do que o projeto pedagógico e o plano de Unidade Didática que são meios em relação ao projeto educativo e têm como objeto converter as finalidades deste em ações, pois são documentos de planificação operatória. O projeto educativo distingue-se também de outras planificações escolares, como o Plano Trienal escolar, o Plano anual de Escola, o Projeto curricular de turma e o Regimento interno da Escola, que estão destinados a concretizá-lo relativamente a aspectos mais operacionais e, portanto, têm um caráter tático, e instrumental. O projeto educativo é elaborado por toda a comunidade escolar. O projeto educativo da escola é um conjunto de opções ideológicas, políticas, antropológicas, axiológicas e pedagógicas resultantes da tensão entre o estabelecido ou imposto pelo Estado (projeto vertical), a prática implícita interna à escola (projeto ritual) e a postura utópica ou intencional da comunidade escolar (projeto intencional). Dimensões do projeto educativo, citadas por Carvalho e Diogo: O projeto deve servir a incerteza, ter em conta o indeterminado, ser capaz de infletir de direção como resultado de uma avaliação permanente, incorporar o conflito, mas, sobretudo, devolver a cada indivíduo o seu espaço de 8 VIDAL, J. G., CÁRAVE, G. e FLORENCIO, M. A. (1992). Madrid: Editorial EOS. 9 COSTA, J. A. (1992). Gestão escolar: Participação, autonomia, projecto educativo da escola. Lisboa: Texto Editora. criatividade e ação de modo a que ele sinta reconhecida a sua atividade, compreenda as suas ações e as possa inscrever num todo significativo. Neste sentido, o projeto educativo deve ser coletivo, mas favorecendo a interação; autônomo mas não independente. Uma tal concepção exige do projeto educativo: - explicitação de valores comuns; - coerência de atividades; - busca coletiva de recursos e meios para melhorar o ensino; - definição de ação; - definição de um sentido para uma ação comum; - gestão participativa; - avaliação permanente, participada e interativa; - implicação do conjunto dos atores; - apropriação de saberes e instrumentos de ação por parte dos implicados. Em suma, concebendo-se como uma adaptação do “projeto educacional” do país (leis e diretrizes curriculares) ao nível específico local, como uma programação geral da escola e como um instrumento de autonomia didático-pedagógica e organizativa da escola, o projeto educativo da escola se caracteriza por quatro categorias metodológicas (Baldacci11): - a intencionalidade; - a contextualização;- a metodicidade; e - a flexibilidade. Pela intencionalidade, o projeto educativo estabelece direção e metas precisas e explícitas, evitando a ação educativa casual e extemporânea. A contextualização representa a adaptação do projeto educacional do país à realidade sociocultural concreta de uma escola. A intencionalidade passa a ser “historicizada”, ou seja, contextualizada num ambiente de referência específico, o que permite a passagem de um projeto abstrato para um projeto concreto. A metodicidade valoriza o princípio de sistematicidade e organicidade no processo didático, mesmo reconhecendo as diferenças de estilo de aprender e ensinar de alunos e professores, respectivamente. Finalmente, a flexibilidade assegura que o projeto educativo seja tratado como uma mera hipótese de trabalho e por isso está sujeito a retificações e revisões ao longo de sua implementação. Questões 01. (IFB - Professor Pedagogia - IFB/2017) Em relação aos aspectos do planejamento, assinale a opção que contenha a CORRETA sequência hierárquica do mais amplo ao mais restrito, em relação ao planejamento: (A) planejamento escolar; planejamento educacional; planejamento de ensino; planejamento curricular; (B) planejamento curricular; planejamento educacional; planejamento escolar; planejamento de ensino; (C) planejamento de ensino; planejamento curricular; planejamento escolar; planejamento educacional; (D) planejamento de ensino; planejamento educacional; planejamento curricular planejamento escolar; 10 CARVALHO, A. E DIOGO, F. (1994). Projecto educativo. Porto: Edições Afrontamento. 11 BALDACCI, M. (1996). La scuola dell´autonomia: Il Progetto educativo d´Istituto. Bari: Maria Adda Edittore. Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br APOSTILAS OPÇÃO Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 13 (E) planejamento educacional; planejamento escolar; planejamento curricular; planejamento de ensino. 02. (SEDF - Professor de Educação Básica - Quadrix/2017) Quanto ao planejamento e à organização do trabalho pedagógico, julgue o item subsecutivo. No processo de planejamento e organização do trabalho pedagógico, as ações estão circunstanciadas no âmbito dos vários elementos que compõem o universo escolar, devendo ser dada importância máxima àquelas circunscritas à prática pedagógica do professor e à sua formação. ( ) Certo ( ) Errado 03. (Pref. Rio de Janeiro/RJ - Professor de Ensino Fundamental - Pref./2016) José Carlos Libâneo, em seu livro Didática, declara: (...) A ação de planejar, portanto, não se reduz ao simples preenchimento de formulários para controle administrativo; é, antes, a atividade consciente de previsão das ações docentes (...) LIBÂNEO, José Carlos. Didática. São Paulo: Cortez, 1990. Pág.222 Nesse trecho, o autor destaca uma das características do planejamento pedagógico, que é: (A) a flexibilidade (B) a contextualidade (C) a intencionalidade (D) o rigor administrativo 04. (Pref. Nova Friburgo/RJ - Professor de Ciências - Exatus) Assinale (V) para as alternativas verdadeiras e (F) para as falsas: ( ) O planejamento escolar não assegura a unidade e a coerência do trabalho docente. ( ) O planejamento escolar não inter-relaciona ao plano de aula. ( ) O planejamento escolar é um processo contínuo e dinâmico. ( ) O planejamento escolar deve ser dialógico e flexível. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA de cima para baixo: (A) V, V, F, V. (B) F, F, V, V. (C) V, F, V, F. (D) F, V, V, F. Respostas 01. E / 02. Errado / 03. C / 04. B Questões 01. (SEDUC-PI - Professor – Informática – NUCEPE) A Didática constitui disciplina essencial nos processos de formação de professores, notadamente articulando o saber, o saber-ser e o saber-fazer. No contexto dessa análise, pode-se afirmar CORRETAMENTE, acerca da concepção tradicional de Didática que: (A) refere-se a um conjunto de procedimentos universais relativos à docência; (B) afirma a neutralidade científica do método, a preocupação com os meios desvinculados dos fins e do contexto; (C) caracteriza-se por transcender métodos e técnicas de ensino, buscando articular escola/sociedade; (D) compreende uma doutrina da instrução, revelando-se como um conjunto de normas prescritivas centradas no método; (E) caracteriza-se por estabelecer métodos e técnicas de educação desvinculados dos princípios educacionais. 02. (SEE-AL - Todos os Cargos – CESPE) Com relação à didática e à sua prática histórico-social, julgue o item a seguir. O enfoque tecnicista da didática busca estratégia objetiva, racional e neutra do processo de ensino-aprendizagem, em contraposição ao enfoque humanista. ( ) Certo ( ) Errado 03. (Prefeitura de Nova Friburgo- RJ- Professor- EXATUS-PR) Em relação à Didática, é incorreto afirmar que (A) contribui para transformar a prática pedagógica da escola, ao desenvolver a compreensão articulada entre os conteúdos a serem ensinados e as práticas sociais. (B) não compete refletir acerca dos objetivos sócio- políticos e pedagógicos, ao selecionar os conteúdos e métodos de ensino. (C) realiza-se por meio de ação consciente, intencional e planejada, no processo de formação humana, estabelecendo- se objetivos e critérios socialmente determinados. (D) sua finalidade é converter objetivos sócio-políticos e pedagógicos em objetivos de ensino, selecionar conteúdos e métodos em função desses objetivos. 04. (IF-RR- Professor- Pedagogia- FUNCAB) De acordo com a Resolução nº 4, de 13/07/2010, a educação especial: (A) é uma modalidade a parte da educação regular. (B) não é uma modalidade de ensino, devido ao seu caráter específico. (C) é uma modalidade transversal a todos os níveis, etapas e modalidades de ensino. (D) é uma modalidade que deve ser oferecida em instituições específicas. (E) é prevista para ser oferecida exclusivamente nas classes comuns de ensino regular. Respostas 01. D/ 02. Certa/ 03. B/ 04. C As relações interativas em sala de aula A criação de ambientes interativos em sala de aula exige um contexto de ensino-aprendizagem criativo, aberto e dinâmico, permitindo que o aluno tenha um papel interativo e responsável na sua aprendizagem. Desse modo, se faz necessário uma plataforma de trabalho correspondente. O uso de pedagogias interativas que levem o aluno a desenvolver processos cognitivos e sociais de aprendizagem, contribuem para excelentes resultados de aproveitamentos na escola, sendo que os alunos se sentem mais motivados. Infelizmente o uso de tecnologias nas escolas não acontece na prática, e a culpa disso não é exclusivamente à falta de dinheiro, preparação de professores ou equipamentos, mas principalmente a cultura predominante em nosso país, de que o conhecimento não pode ir de encontro a novos métodos de ensino, ficando engessado. A sala de aula como espaço de aprendizagem. Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br APOSTILAS OPÇÃO Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 14 É válido destacar que a iniciativa que levou ao desenvolvimento da Peer Instruction foi uma técnica implantada em sala de aula, onde foi explorada a interação com cada aluno durante as preleções. Esse método vale-se de apresentações curtas através de pontos-chaves, acompanhadas de um conceito que já traz a resposta. Aqui, o aluno traz a resposta e a justificativa para tal, de modo que o professor analisa-as e mostra os pontos que precisam ser superados. A isso damos o nome de classrrom feedback systems. O grande desafio encontrado nas salas de aula é o uso de tecnologias de baixo custo, valendo-se de smartphones, tablets, quepodem ser utilizados por qualquer aluno com facilidade, proporcionando um ambiente interativo em sala de aula. O ensino-aprendizagem que geralmente é utilizado na sala de aula é aquele em que o professor pergunta e o aluno responde, caso tenha interesse, devendo para isso levantar o braço. Seria ultrapassado ou ineficaz? Alguns defendem que não é tão eficaz pelo fato dos alunos mais tímidos não conseguirem interagir e até mesmo com a participação de todos os alunos fica difícil ficaria difícil a administração da sala e o tempo despendido para passar todo o plano de aula. Contudo, os alunos podem tirar suas dúvidas com o professor em momentos de intervalo. Como isso acontece na prática? Baseado na obra: O Construtivismo na sala de aula:12 Professor: Júlio, responda: por que os judeus foram expulsos da Espanha? Júlio: Porque não se deixaram fotografar. Professor: Como? De onde você tirou isso? Júlio: É o que está no livro. Professor: Está, é? Onde? Júlio: Aqui, olhe: "porque não se retrataram". É provável que, como professores, se tivéssemos em nossas mãos a lâmpada de Aladim, três desejos não pareceriam suficientes para tentar resolver os problemas que enfrentamos em nossa tarefa cotidiana. No entanto, se nos concedessem apenas três oportunidades, é provável que um dos nossos desejos fosse que a mente de nossos alunos estivesse em branco, como uma lousa limpa na qual poderíamos ir escrevendo o que queremos que aprendam. Supondo que este desejo nos fosse concedido, o pobre gênio da lâmpada teria um bom trabalho para ir apagando as lousas de nossos alunos até deixá-Ias completamente limpas. As mentes de nossos alunos estão bem longe de parecerem lousas limpas, e a concepção construtivista assume este fato como um elemento central na explicação dos processos de aprendizagem e ensino na sala de aula. Do ponto de vista desta concepção, aprender qualquer um dos conteúdos escolares pressupõe atribuir um sentido e construir os significados implicados em tal conteúdo. Pois bem, essa construção não é efetuada a partir do zero, nem mesmo nos momentos iniciais da escolaridade. O aluno constrói pessoalmente um significado (ou o reconstrói do ponto de vista social) com base nos significados que pôde construir previamente. Justamente graças a esta base é possível continuar aprendendo, continuar construindo novos significados. Esta ideia não é propriamente original. Desde Sócrates até os dias de hoje, ela foi questionada por poucas teorias ou 12 C. Coll, E. Martín, T. Mauri, M. Miras, J. Onrubia, I. Solé, A. Zabala. 6ª edição, editora: Ática, 2006, págs: 57-58. explicações. Entretanto, nem todas explicam do mesmo modo em que consiste esta base, quais são as suas características, que papel desempenha na aprendizagem posterior e, sobretudo, como podemos ou devemos ensinar coisas novas ao aluno a partir desta base (a não ser que decidamos, em um exercício de ilusão, que o gênio da lâmpada tornou o nosso desejo realidade). A natureza ativa e construtiva do conhecimento13 Sempre que nós, professores e professoras, nos propomos ensinar determinados conteúdos escolares aos alunos e alunas de nossa classe, colocamos em funcionamento, quase sem pretender, uma série complexa de ideias sobre o que significa aprender na escola e sobre como se pode ajudar os estudantes nesse processo. Essas ideias, que viemos forjando ao longo de nossa atividade educacional, graças à experiência e à reflexão, constituem nossa concepção de aprendizagem e ensino. Esta, que é nossa própria teoria, atua como referência-chave para a tomada de decisões sobre o quê, quando e como ensinar e avaliar. No entanto, nem todos os profissionais de uma mesma escola compartilham as mesmas ideias, e por isso, quando é preciso tomar uma decisão de equipe (por exemplo: quando é melhor começar a ler? com que método? que livro didático pode ser mais útil para trabalhar Matemática na 5ª série da Educação Primária? etc.), costumam misturar-se argumentos contraditórios, que é melhor compreender e avaliar do que censurar ou simplesmente rejeitar. O propósito geral é conseguir interpretar melhor as ideias que professores e alunos têm sobre o processo de aprendizagem escolar e identificar sua limitação ou não. A seguir, analisaremos algumas das concepções mais habituais entre os docentes sobre esse tema. Em particular, exporemos a ideia que têm do aluno e aluna que aprendem, da concepção de aprendizagem e como concebem o papel do ensino nesse processo. Esta proposta será o parâmetro para aprofundar a concepção que, a nosso ver, seja mais potente entre todas; e, enfim, mais especificamente, tentaremos expor o que implica para o aluno e a aluna aprender diferentes tipos de conteúdos escolares: conceitos, procedimentos e atitudes. Algumas concepções da aprendizagem e do ensino escolar mais habituais entre os docentes A maioria dos docentes estaria de acordo em afirmar que aqueles que aprendem são os alunos e alunas de nossas classes. Entretanto, longe dessa primeira aproximação geral, a explicação que daríamos dessa afirmação seria muito diferente, como também o seria nossa prática em aula. Como frisamos anteriormente, no intuito de analisar as características das concepções de aprendizagem e ensino escolar mais difundidas entre os professores, vamos apresentá-Ias a seguir: 1. A aprendizagem escolar consiste em conhecer as respostas corretas para as perguntas formuladas pelos professores. O ensino proporciona aos alunos o reforço necessário para obter essas respostas. 2. A aprendizagem escolar consiste em adquirir os conhecimentos relevantes de uma cultura. Nesse caso, o ensino proporciona aos alunos a informação de que necessitam. 3. A aprendizagem escolar consiste em construir conhecimentos. Os alunos e as alunas elaboram, mediante sua atividade pessoal, os conhecimentos culturais. Por tudo isso, o 13 C. Coll, E. Martín, T. Mauri, M. Miras, J. Onrubia, I. Solé, A. Zabala. 6ª edição, editora: Ática, 2006, págs: 79-83. Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br APOSTILAS OPÇÃO Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 15 ensino consiste em prestar aos alunos a ajuda necessária para que possam ir construindo-os. Embora a primeira postura apresente características muito diferentes das duas restantes e mantenha com elas escassos pontos de contato, a segunda e a terceira concepções podem ser relacionadas entre si, pois ambas ocupam-se de como os alunos adquirem conhecimentos, porém divergem na explicação desse processo. Conhecer as respostas corretas Os professores (pelo menos em algumas situações que podemos conhecer no papel de alunos) não costumam explicar a lição. Há ocasiões em que nem mesmo a leem ou comentam em voz alta, dedicando a maior parte do tempo a formular perguntas aos alunos com a finalidade de comprovar se eles dispõem ou não do repertório adequado de respostas. Sua tarefa principal é reforçar positivamente as respostas corretas e sancionar as errôneas. A cada aula, antes de terminar, os professores assinalam a parte do texto que será objeto de perguntas na próxima aula. Na outra aula, depois que alunos e alunas dedicaram os momentos iniciais a repassar em silêncio e individualmente a lição, pede-se que alguns deles, seguindo as normas estabelecidas, respondam todas aquelas perguntas que o professor ou a professora desejem formular-lhes, normalmente em voz alta, diante de toda a classe. Esse sistema de ensino permite que os professores identifiquem, quase imediatamente, o acerto ou o erro nas respostas dos alunos, adjudicando-lhes, também de modo imediato, um prêmio ou um castigo. Geralmente, estes últimos adotam a forma de uma nota boa ou ruim, que é anotada na lista correspondente,ao lado do nome do aluno ou da aluna, sem que ninguém possa remediar isso. Quem não lembra da caderneta onde o professor ou professora anotava rigorosamente as qualificações resultantes das respostas dos alunos? Quem não ficou expectante diante da possibilidade de que o dedo do professor se detivesse justo no momento de chamá- Ia entre os "escolhidos" para expor a lição do dia? Nessa concepção, a aprendizagem é vista como aquisição de respostas adequadas graças a um processo mecânico de reforços positivos ou negativos. Os professores acreditam que a conduta que desejam dos alunos (a resposta correta) pode ser determinada externamente mediante o uso do prêmio ou do castigo, ou seja, por meio de notas. Nesse sentido, os alunos são considerados receptores passivos de reforços. Os professores entendem que sua tarefa consiste em suscitar e ir aumentando o número correto de respostas no repertório individual do aluno, e também em avaliar o que e quanto ele responde mais corretamente do que ontem. Nesse processo, dificilmente é discutida a relevância do conteúdo escolar ou das perguntas do professor, e a resposta correta é aquela que reproduz fielmente o texto objeto de estudo. Em geral, nesse caso, os professores não costumam identificar sua função com a de educar, mas com a de um especialista que conhece a fundo a matéria objeto de estudo e que exerce, pela autoridade outorgada por esse fato, um bom controle da conduta dos alunos da classe. Tudo isso faz com que exista um interesse relativo, entre os docentes, em conhecer o que o aluno e a aluna fazem 'para conseguir dar as respostas adequadas. Não são consideradas relevantes perguntas como: Por que respondem corretamente? Isto se 14 C. Coll, E. Martín, T. Mauri, M. Miras, J. Onrubia, I. Solé, A. Zabala. 6ª edição, editora: Ática, 2006, págs: 117-121. deve a algum processo complexo de elaboração da informação do texto? É possível influenciá-lo? O que diferencia alunos e alunas que o conseguem daqueles que quase nunca o conseguem? Desse ponto de vista profissional, importante é diferenciar entre os que conseguem ou não ser bem-sucedidos nesse processo, pois a expectativa dos professores é que os alunos e alunas que não o conseguirem agora, provavelmente nunca o conseguirão. Nesse caso, se forem acumulando notas ruins, a atuação habitual dos professores consiste em recomendar-lhes que estudem mais, porém não explicarão como podem fazê-lo. Se os alunos não conseguem responder adequadamente, continuarão aplicando-Ihes sanções na esperança de que algum dia reajam positivamente. Notas ruins, ficar sem sair na hora do recreio, expulsão da sala de aula, copiar cem vezes a resposta correta são exemplos de tudo isso. E quando isso falha, a sanção torna-se mais rigorosa. Ou seja, atua-se aumentando o número de notas ruins pessoais, de recreios perdidos, a quantidade de dias de expulsão ou o número de vezes que a resposta correta deve ser copiada. Finalmente, se os alunos continuam sem reagir, um mau resultado é augurado diretamente: "Você sabe o que faz, mas se continuar assim não vai passar de ano". E sem qualquer indicação, exceto a de que estudem mais, exigem que continuem tentando (investindo mais esforço, mais tempo) ou que pensem em abandonar os estudos, caso isso seja possível. O que permite aos alunos aprender determinadas atitudes?14 Saberes pessoais dos alunos 1. Estar familiarizado com certas normas e possuir tendências de comportamento que se manifestam em situações específicas, perante objetos e pessoas concretas que sirvam de base às novas normas e atitudes objeto de aprendizagem. 2. Poder recordar, entre todos os que estão na memória, avaliações, juízos ou sentimentos que merecem determinadas coisas, pessoas, objetos e situações mais relevantes e especialmente relacionados com a nova norma ou atitude. 3. Mostrar-se disposto a expressar a outros suas ideias ou opiniões, por meio da palavra, do gesto ou de qualquer outro modo possível, como medida para obter algum grau de consciência sobre elas e conseguir que outros também as conheçam. A consciência pública e privada de uma atitude constitui um elemento importante para a aprendizagem de outras novas, porque torna possível, de acordo com as possibilidades de desenvolvimento e aprendizagem dos alunos, que eles reflitam sobre os próprios comportamentos e ideias, analisem suas relações e implicações mútuas e avaliem o grau de coerência ou discrepância entre, por exemplo, sua atitude e outras informações novas sobre a realidade, as atitudes ou opiniões de pessoas queridas e significativas e também entre a própria atitude e a ação ou comportamento próprio. 4. Poder elaborar o significado da nova norma ou atitude, ligando-a ao próprio comportamento e opinião, e internalizá- la. Para isso pode ser necessário: a. Formar para si uma ideia ou representação da norma ou atitude objeto de aprendizagem. Nesse sentido, são atividades importantes: colocar-se no ponto de vista do outro para conseguir interpretar suas ideias, tomando consciência do conflito ou da contradição entre tendências de atitude; observar o comportamento daqueles que nos inspiram afeto, respeito ou admiração; formular perguntas para conseguir Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br APOSTILAS OPÇÃO Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 16 familiarizar-se com determinadas normas e atitudes e compreender sua origem e significado. Também pode ser útil participar de atividades para rever, redefinir, anular ou substituir uma determinada norma ou defender ou não uma atitude, argumentando com os valores em que se sustenta, e aos quais se concede ou não importância pessoal. Tudo isso de acordo com o nível de desenvolvimento pessoal. b. Comportar-se de acordo com determinados padrões e normas ou modelos de atitudes, com a intenção, inicialmente, e responder às demandas feitas pelas pessoas pelas quais sentimos afeto, admiração ou respeito e, finalmente, com a ideia de demonstrar coerência entre a atitude e a norma que mantemos e os valores aos quais concedemos importância pessoal. Ir elaborando, na medida do possível, critérios pessoais de comportamento ético para poder dar maior relevância a determinadas normas e atitudes em situações concretas e progredir na consecução da autonomia pessoal e moral. 5. Poder aceitar tudo o que implica a mudança de atitude com confiança e segurança em si. O fato de poder ou não mostrar uma atitude determinada não depende apenas de conhecer os argumentos que a sustentam, mas da possibilidade de relacioná-Ia com determinados afetos, emoções e motivos que, as vezes, nos impedem de mudar. Toda inovação pessoal implica certo grau de temor e pressupõe a aceitação de algum tipo de risco. A mudança de atitude na escola é possível se o aluno e a aluna contam com o apoio de um coletivo (como o grupo da classe) que avalia positivamente essa modificação de atitudes e aceita o desafio da mudança constituindo-se como referencial e suporte graças à qualidade das relações geradas no mesmo. Isto é, os alunos estarão em melhores condições de aprender atitudes se a escolha e o grupo de classe permitem a discussão dos argumentos que as apoiam, regulam as exigências de mudança mediante a participação a cooperação e a responsabilidade de todos os seus membros aceitam o conflito como algo necessário e não necessariamente negativo e enfocam os problemas sem dramatismos exagerados nem culpas desmoralizadoras. Intervenção dos professores na construção de atitudes dos alunos 1. O grupo escolar deve ter claramente estabelecidos (e compartilhar as normas que os regulam) os critérios de valor pelos quais é regido. A qualidade da interação que se estabelece na escola e no grupo, tomandocomo base os valores estabelecidos, atuará como referencial de ajustamento da própria ação pessoal e da atividade compartilhada. Isto é, alguém se dispõe a comportar-se de uma determinada maneira ou a acatar uma norma se considerar que há consenso a respeito entre os membros do grupo, fundamentalmente entre aqueles que aprecia ou aos quais atribui valor ou autoridade. 2. Os professores devem facilitar o conhecimento e a análise das normas existentes no centro escolar e no grupo de classe pura que os alunos possam compreendê-Ias e respeitá- Ias. Também devem ficar claramente estabelecidas as formas de participação para que os alunos as conheçam e contribuam para melhorá-las, para trocá-Ias por outras ou anulá-Ias, se for o caso. É importante regular o cumprimento e o desenvolvimento das normas e acordos estabelecidos. 15 Texto adaptado de CARDOSO, M. A. baseado na obra de ZABALA, Antoni. A prática educativa: como ensinar. 3. É função dos professores ajudar os alunos a relacionarem significativamente as normas a determinadas atitudes que se pretende que desenvolvam em situações concretas (no laboratório, no trabalho em grupo, nos espaços comuns da escola, em uma saída, em uma exposição dos professores etc.). Nesse sentido, pode ser útil apresentar as normas e atitudes vinculando-as a situações concretas e familiares para os alunos, a fim de que possam apreender claramente os argumentos que as sustentam e alguns dos comportamentos que as exemplificam em realidades concretas. 4. Facilitar a participação e o intercâmbio entre alunos e alunas para debater opiniões e ideias sobre os diferentes aspectos que dizem respeito à sua atividade na escola (a relevância ou não de estudar e aprender determinados conteúdos, os objetivos da escola e da sociedade, os costumes próprios do grupo escolar como microcultura, a regulamentação, gestão e funcionamento do grupo, o uso de comuns, as notas e avaliações etc.). 5. Uma determinada organização das atividades de aprendizagem de conteúdos na escola facilita a aprendizagem de determinadas atitudes muito importantes, tais como a cooperação, a solidariedade, a equidade e a fraternidade. No entanto, se quisermos que o aluno aprenda essas atitudes e outras, não menos significativas do ponto de vista humano, não podemos deixar de planejar expressamente sua aprendizagem (informar sobre suas características, exemplificar, debater, atribuir-Ihes significado identificando as em situações cotidianas e reais para os alunos, mostrar modelos de comportamento que as incluem e permitir que sejam exercidas e praticadas na escola). 6. Procurar modelos das atitudes que se pretende que os alunos e alunas aprendam na escola e oferecer o apoio e o tempo necessário para que possam ensaiar, testar e imitar. Animar, exigir e apoiar os alunos que tentam mudar, tentando fazer com que eles aceitem o apoio dos demais do grupo e avaliem as críticas que recebem, o trabalho realizado e os sucessos alcançados. Os professores devem estar preparados para apoiar os alunos naqueles momentos em que podem sentir insegurança ou em que manifestem resistência à mudança. A aprendizagem de atitudes se apoia, como demonstramos na elaboração de representações conceituais e no domínio de determinados procedimentos (estratégias de memória, estratégias de relação com os outros etc.). Por sua vez, as atitudes estão na base do desenvolvimento pessoal de estratégias de direção, orientação e manutenção da própria atividade de aprendizagem. Por exemplo, atitudes como o rigor ou a curiosidade baseiam-se no exercício experiente de certos procedimentos e, por sua vez, ajudam os alunos a perseverar na consecução da qualidade da atividade. Da mesma forma, o respeito pela diversidade (atitude) permite que as pessoas continuem interessadas em conhecer as características de outros (conceitos) até conseguir apreciá-los em toda a sua identidade, sem necessidade de comparações desqualificadoras e reciprocamente. Poder chegar a conhecer, apreciar e avaliar outras pessoas por aquilo que elas são implica também conhecer-se e apreciar-se, em suma, confiar nas próprias capacidades e autoestima. As Relações Interativas em Sala de Aula: o papel dos professores e dos alunos15 Para Zabala as relações de que se estabelecem entre os professores, os alunos e os conteúdos de aprendizagem Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br APOSTILAS OPÇÃO Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 17 constituem a chave de todo o ensino e definem os diferentes papéis dos professores e dos alunos. A concepção tradicional atribui ao professor o papel de transmissor de conhecimentos e controlador dos resultados obtidos. Ao aluno cabe interiorizar o conhecimento que lhe é apresentado. A aprendizagem consiste na reprodução da informação. Esta maneira de entender a aprendizagem configura uma determinada forma que relacionar-se em classe. Na concepção construtivista ensinar envolve estabelecer uma série de relações que devem conduzir à elaboração, por parte do aprendiz, de representações pessoais sobre o conteúdo. Trata-se de um ensino adaptativo, isto é, um ensino com capacidade para se adaptar às diversas necessidades das pessoas que o protagonizam. Portanto, os professores podem assumir desde uma posição de intermediário entre o aluno e a cultura, a atenção para a diversidade dos alunos e de situações à posição de desafiar, dirigir, propor, comparar. Tudo isso sugere uma interação direta entre alunos e professores, favorecendo a possibilidade de observar e de intervir de forma diferenciada e contingente nas necessidades dos alunos/as. Do conjunto de relações necessárias para facilitar a aprendizagem se deduz uma série de funções dos professores, que Zabala caracteriza da seguinte maneira: a) Planejar a atuação docente de uma maneira suficientemente flexível para permitir adaptação às necessidades dos alunos em todo o processo de ensino/aprendizagem. Por um lado, uma proposta de intervenção suficientemente elaborada; e por outro, com uma aplicação extremamente plástica e livre de rigidez, mas que nunca pode ser o resultado da improvisação. b) Contar com as contribuições e os conhecimentos dos alunos, tanto no início das atividades como durante sua realização. c) Ajudá-los a encontrar sentido no que estão fazendo para que conheçam o que têm que fazer, sintam que podem fazê-lo e que é interessante fazê-lo. d) Estabelecer metas ao alcance dos alunos para que possam ser superadas com o esforço e a ajuda necessários. e) Oferecer ajudas adequadas, no processo de construção do aluno, para os progressos que experimenta e para enfrentar os obstáculos com os quais se depara. f) Promover atividade mental autoestruturante que permita estabelecer o máximo de relações com novo conteúdo, atribuindo-lhe significado no maior grau possível e fomentando os processos de meta-cognição que lhe permitam assegurar o controle pessoal sobre os próprios conhecimentos e processos durante a aprendizagem. g) Estabelecer um ambiente e determinadas relações presididos pelo respeito mútuo e pelo sentimento de confiança, que promovam a autoestima e o autoconceito. h) Promover canais de comunicação que regulem os processos de negociação, participação e construção. i) Potencializar progressivamente a autonomia dos alunos na definição de objetivos, no planejamento das ações que os conduzirão aos objetivos e em sua realização e controle, possibilitando que aprendam a aprender. j) Avaliar os alunos conforme suas capacidades e seus esforços, levando em conta o ponto pessoal de partida e o processo através do qual adquirem conhecimentos e incentivando a autoavaliação das competências como meio para favorecer as estratégias de controle e regulaçãoda própria atividade. Concluindo, Zabala afirma que os princípios da concepção construtivista do ensino e da aprendizagem escolar proporcionam alguns parâmetros que permitem orientar a ação didática e que, de maneira específica ajuda a caracterizar as interações educativas que estrutura a vida de uma classe, estabelecendo as bases de um ensino que possa ajudar os alunos a se formarem como pessoas no contexto da instituição escolar. Questões 01. (Prefeitura de Juatuba/MG - Professor de Educação Básica I – CONSULPLAN). “A concepção construtivista do ensino e da aprendizagem e a natureza dos diferentes conteúdos estabelecem determinados parâmetros nas atuações e relações que acontecem em aula, envolvendo um conjunto de relações interativas necessárias para facilitar a aprendizagem.” NÃO é uma função dos professores, segundo tal concepção: (A) Contar com as contribuições e os conhecimentos dos alunos, tanto no início das atividades quanto durante sua avaliação. (B) Planejar a atuação de uma maneira suficientemente flexível, para permitir adaptação às necessidades dos alunos em todo o processo educativo. (C) Avaliar os alunos através de fórmulas em que o controle da avaliação recaia em situações e momentos alheios aos processos individuais de aprendizagem e imprescindíveis para promover a capacidade de aprender a aprender. (D) Promover atividade mental autoestruturante, que permita estabelecer o máximo de relações com o novo conteúdo, atribuindo‐lhes significado no maior grau possível e fomentando os processos de metacognição que lhes permitam assegurar o controle pessoal sobre os próprios conhecimentos e processos durante a aprendizagem. 02. (Prefeitura de São José dos Campos/SP - Assistente em Gestão Municipal – VUNESP). Uso das novas tecnologias em sala de aula Em um mundo tecnológico, integrar novas tecnologias à sala de aula ainda é pouco frequente e um desafio para docentes. Em muitos casos, a formação não considera essas tecnologias, e se restringe ao teórico, ou seja, o professor precisa buscar esse conhecimento em outros espaços. Isso nem sempre funciona, pois frequentar cursos de poucas horas nem sempre garante ao professor segurança e domínio dessas tecnologias. Muitos educadores já perceberam o potencial dessas ferramentas e procuram levar novidades para a sala de aula, seja com uma atividade prática no computador, com videogame, tablets e até mesmo com o celular. O fato é que o uso dessas tecnologias pode aproximar alunos e professores, além de ser útil na exploração dos conteúdos de forma mais interativa. O aluno passa de mero receptor, que só observa e nem sempre compreende, para um sujeito mais ativo e participativo. A tecnologia também auxilia o professor na busca por conteúdos a serem trabalhados. O Google, por exemplo, criou um espaço próprio para a educação, o Google Play for Education – cuja versão em português ainda está sem data de lançamento. O programa faz uma peneira por disciplina e série para sugerir aplicativos educacionais específicos para tablets. O professor pode, por exemplo, criar um grupo da sala em que todos os alunos poderão acessar o aplicativo, facilitando a participação. A ideia não é abandonar o quadro negro, mas hoje, com todos os avanços, existe a necessidade de adequação, de abertura para o novo, a fim de tornar as aulas mais atraentes, participativas e eficientes. (Disponível em http://www.gazetadopovo.com.br. Acesso em 24.10.2014. Adaptado) De acordo com o autor do texto, o uso das tecnologias em sala de aula pode contribuir para Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br APOSTILAS OPÇÃO Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 18 (A) distanciar professores e alunos, dada a atração que os conteúdos digitais exercem sobre os adolescentes. (B) diminuir o rendimento dos alunos, em face da intensa interação deles com os conteúdos digitais. (C) tornar as aulas mais interativas, com o aluno desempenhando um papel mais ativo na exploração dos conteúdos. (D) tumultuar as aulas, diante da dificuldade para disciplinar o uso de aparelhos como tablets e celulares em sala de aula. (E) tornar os alunos mais dispersivos, apenas espectadores de ferramentas com as quais não sabem interagir. 03. Grande parte dos professores não costumam identificar sua função com a de educar, mas com a de um especialista que conhece a fundo a matéria objeto de estudo e que exerce, pela autoridade outorgada por esse fato, um bom controle da conduta dos alunos da classe. ( ) Certo ( ) Errado Respostas 01. C / 02. C / 03. certo Concepções de Currículo e a Organização Curricular da Educação Básica Concepções de Currículo Podemos afirmar que as discussões sobre o currículo incorporam, com maior ou menor ênfase, discussões sobre os conhecimentos escolares, sobre os procedimentos e as relações sociais que conformam o cenário em que os conhecimentos se ensinam e se aprendem, sobre as transformações que desejamos efetuar nos alunos e alunas, sobre os valores que desejamos inculcar e sobre as identidades que pretendemos construir. Currículo associa-se, assim, ao conjunto de esforços pedagógicos desenvolvidos com intenções educativas. Por esse motivo, a palavra tem sido usada para todo e qualquer espaço organizado para afetar e educar pessoas, o que explica o uso de expressões como o currículo da mídia, o currículo da prisão etc. Abordagens do Currículo Para entendermos melhor, as ideologias e concepções em relação ao currículo recorreremos ao texto de McNeil16. Neste texto o autor classifica o currículo em quatro abordagens distintas: Acadêmico, Humanista, Tecnológico e Reconstrucionista, que foram sendo construídas ao longo do tempo. Currículo Acadêmico - é dentre as várias orientações curriculares, a que possui maior tradição histórica. Para os adeptos da tendência tradicional, o núcleo da educação é o currículo, cujo elemento irredutível é o conhecimento. Nas disciplinas acadêmicas de natureza intelectual – como língua e literatura, matemática, ciências naturais, história, ciências 16 MCNEIL, John. O currículo reconstrucionista social. Tradução de José Camilo dos Santos Filho. Campinas: editora, 2001. ______. O currículo humanístico. Tradução de José Camilo dos Santos Filho. Campinas: editora, 2001. sociais e belas artes –, se encontra o núcleo do conhecimento, o conteúdo principal ou a matéria de ensino. Sua abordagem baseia-se, principalmente, na estrutura do conhecimento, como um patrimônio cultural, transmitido às novas gerações. As disciplinas clássicas, verdades consagradas pela ciência, representam ideias e valores que resistiram ao tempo e às mudanças socioculturais. Portanto, são fundamentais à construção do conhecimento. Segundo McNeil a finalidade da educação, segundo o currículo acadêmico, é a transmissão dos conhecimentos vistos pela humanidade como algo inquestionável e principalmente como uma verdade absoluta. À escola, cabe desenvolver o raciocínio dos alunos para o uso das ideias e processos mais proveitosos ao seu progresso. Currículo Humanístico - o currículo humanista tem como base teórica a tendência denominada Escola Nova e esta defende que o currículo necessita levar em consideração a realidade dos alunos. Na ênfase humanista, segundo McNeil a atenção do conteúdo disciplinar se desloca para o indivíduo. O aluno é visto como um ser individual, dotado de uma identidade pessoal que precisa ser descoberta, construída e ensinada; e o currículo tem a função de propiciar experiências gratificantes, de modo a desenvolver sua consciência para a libertação e auto realização. A educação é um meio de liberação, cujos processos, conduzidos pelos próprios alunos, estão relacionados aos ideaisde crescimento, integridade e autonomia. A auto realização constitui o cerne do currículo humanístico. Para consegui-la, o educando deverá vivenciar situações que lhe possibilitem descobrir e realizar sua própria individualidade, agindo, experimentando, errando, avaliando, reordenando e expressando. Tais situações ajudam os educandos a integrar emoções, pensamentos e ações. Currículo Tecnológico - sob a perspectiva tecnológica, ainda segundo McNeil a educação consiste na transmissão de conhecimentos, comportamentos éticos, práticas sociais e habilidades que propiciem o controle social. Sendo assim, o currículo tecnológico tem sua base sólida na tendência tecnicista. O comportamento e o aprendizado são moldados pelo externo, ou seja, ao professor, detentor do conhecimento, cabe planejar, programar e controlar o processo educativo; ao aluno, agente passivo, compete absorver a eficiência técnica, atingindo os objetivos propostos. O currículo tecnológico, concebido fundamentalmente no método, tem, como função, identificar meios eficientes, programas e materiais com a finalidade de alcançar resultados pré-determinados. É expresso de variadas formas: levantamento de necessidades, plano escolar sob o enfoque sistêmico, instrução programada, sequências instrucionais, ensino prescritivo individualmente e avaliação por desempenho. O desenvolvimento do sistema ensino e aprendizagem segundo hierarquia de tarefas constitui o eixo central do planejamento do ensino, proposto em termos de uma linguagem objetiva, esquematizadora e concisa. Currículo Reconstrucionista Social - o currículo reconstrucionista tem como concepção teórica e metodológica a tendência histórico crítica e tem como objetivo principal a transformação social e a formação crítica do sujeito. De acordo com McNeil o reconstrucionismo social concebe homem e mundo de forma interativa. A sociedade injusta e alienada pode ser transformada à medida que o homem inserido em um contexto, social, econômico, cultural, político e histórico ______. O currículo acadêmico. Tradução de José Camilo dos Santos Filho. Campinas: editora, 2001. ______. O currículo tecnológico. Tradução de José Camilo dos Santos Filho. Campinas: editora, 2001. As teorias do currículo. Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br APOSTILAS OPÇÃO Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 19 adquire, por meio da reflexão, consciência crítica para assumir-se sujeito de seu próprio destino. Nesse prisma, a educação, é um agente social que promove a mudança. A visão social da educação e currículo consiste em provocar no indivíduo atitudes de reflexão sobre si e sobre o contexto social em que está inserido. É um processo de promoção que objetiva a intervenção consciente e libertadora sobre si e a realidade, de modo a alterar a ordem social. Na perspectiva de reconstrução social agrupam-se as posições que consideram o ensino uma atividade crítica, cujo processo de ensino e aprendizagem devam se constituírem em uma prática social com posturas e opções de caráter ético que levem à emancipação do cidadão e à transformação da realidade. Sob o norte de emancipação do indivíduo, o currículo deve confrontar e desafiar o educando frente aos temas sociais e situações-problema vividos pela comunidade. Por conseguinte, não prioriza somente os objetivos e conteúdos universais, sua preocupação não reside na informação e sim na formação de sujeitos históricos, cujo conhecimento é produzido pela articulação da reflexão e prática no processo de apreensão da realidade. Enfatizando as relações sociais, amplia seu âmbito de ação para além dos limites da sala de aula, introduzindo o educando em atividades na comunidade, incentivando a participação e cooperação. O currículo reconstrucionista acredita na capacidade do homem conduzir seu próprio destino na direção desejada, e na formação de uma sociedade mais justa e equânime. Esse compromisso com ideais de libertação e transformação social lhe imputa certas dificuldades em uma sociedade hegemônica e dominadora. Currículo e Projeto Pedagógico É viável destacar que o currículo constitui o elemento central do projeto pedagógico, ele viabiliza o processo de ensino e de aprendizagem. Sacristán17 afirma que o currículo é a ligação entre a cultura e a sociedade exterior à escola e à educação; entre o conhecimento e cultura herdados e a aprendizagem dos alunos; entre a teoria (ideias, suposições e aspirações) e a prática possível, dadas determinadas condições. Alguns estudos realizados sobre currículo a partir das décadas 1960 a 1970 destacam a existência de vários níveis de Currículo: formal, real e oculto. Esses níveis servem para fazer a distinção de quanto o aluno aprendeu ou deixou de aprender. O Currículo Formal refere-se ao currículo estabelecido pelos sistemas de ensino, é expresso em diretrizes curriculares, objetivos e conteúdos das áreas ou disciplina de estudo. Este é o que traz prescrita institucionalmente os conjuntos de diretrizes como os Parâmetros Curriculares Nacionais. O Currículo Real é o currículo que acontece dentro da sala de aula com professores e alunos a cada dia em decorrência de um projeto pedagógico e dos planos de ensino. Cabe destacar que a palavra currículo tem sido também utilizada para indicar efeitos alcançados na escola, que não estão explicitados nos planos e nas propostas, não sendo sempre, por isso, claramente percebidos pela comunidade escolar. 17 SACRISTAN, J. Gimeno. Poderes instáveis em educação. Tradução de Beatriz Affonso Neves. Porto Alegre: Artmed, 1999. 18 KLIEBARD, H. Burocracia e teoria de currículo. In: MESSIK, R.; PAIXÃO, L.; BASTOS, L. (Orgs.). Currículo: análise e debate. São Paulo: Zahar,1980. p.107-126. Trata-se do chamado currículo oculto, que envolve, dominantemente, atitudes e valores transmitidos, subliminarmente, pelas relações sociais e pelas rotinas do cotidiano escolar. Fazem parte do currículo oculto, assim, rituais e práticas, relações hierárquicas, regras e procedimentos, modos de organizar o espaço e o tempo na escola, modos de distribuir os alunos por grupamentos e turmas, mensagens implícitas nas falas dos(as) professores(as) e nos livros didáticos. Teorias do Currículo Teoria Tradicional Kliebard18 apresenta que os fundamentos da teoria curricular de John Bobbit estão baseados na concepção de administração científica de Taylor, e que a extrapolação desses princípios para a área de currículo transformou a criança no objeto de trabalho da engrenagem burocrática da escola. Neste sentido, as finalidades do currículo eram: - educar o indivíduo segundo as suas potencialidades; - desenvolver o conteúdo do currículo de modo suficientemente variado com o fim de satisfazer as necessidades de todos os tipos de indivíduos na comunidade; - favorecer um ritmo de treinamento e de estudo que seja suficientemente flexível; - dar ao indivíduo somente aquilo de que ele necessita; - estabelecer padrões de qualidade e quantidade definitivos para o produto; - desenvolver objetivos educacionais precisos e que incluam o domínio ilimitado da capacidade humana através do conhecimento de hábitos, habilidades, capacidades, formas de pensamento, valores, ambições, etc., enfim, conhecer o que seus membros necessitam para o desempenho de suas atividades; - oferecer “experiências diretas” quando essas múltiplas necessidades não fossem atendidas por “experiências indiretas”. Da transposição dos princípios gerais da administração científica para a administração das escolas passou-se ao domínio da teoria curricular. As implicações para a prática de uma escola em que a criança é o material e a escola é a escola- fábrica e, que, portanto deve modelá-la como umproduto de acordo com as especificações da sociedade, tem seus objetivos voltados para um controle de qualidade. Kliebard19, defendia que “padrões qualitativos e quantitativos definitivos fossem estabelecidos para o produto”, considerando esse produto como o material criança, a professor deveria obter de seus alunos a maior capacidade que eles possuíssem para solucionar determinada tarefa em determinado período de tempo. A prática docente desse currículo é facilmente compreendida, pois baseia-se num modelo funcional de aplicação de conteúdos e atividades. Para Kliebard a padronização de atividades ou unidades de trabalho e dos próprios produtos (crianças), exigiu a especificação de objetivos educacionais e tornou a criança, em idade escolar como algo a ser modelado e manipulado, produzido de modo que se encaixasse em seu papel social predeterminado. Em sequência a essa concepção fabril de currículo, Kliebard apresenta o pensamento de Tyler, que afirma que o 19 KLIEBARD, H. Os princípios de Tyler. In: MESSIK, R.; PAIXÃO, L.; BASTOS, L. (Orgs.) Currículo: análise e debate. São Paulo: Zahar, 1980. p.107-126. Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br APOSTILAS OPÇÃO Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 20 professor pode controlar as experiências de aprendizagem através da “manipulação do ambiente de tal forma que crie situações estimulantes – situações que irão suscitar a espécie de comportamento desejado, portanto, parte do pressuposto de que “a educação é um processo de mudança nos padrões de comportamento das pessoas”. Teoria Crítica Quanto ao Brasil, apresenta que Regina Celli Cunha considera que a concepção crítica de currículo vivencia uma crise de legitimação, por não conseguir, na prática, implementar seus princípios teóricos. Moreira revela, ainda, que a opinião dominante entre especialistas em currículo acerca da crise é de que os avanços teóricos afetam pouco a prática docente e que essas discussões têm predominância no campo acadêmico, dificilmente alcançando a escola, não contribuindo para maior renovação, e que, apesar da crise, a teoria curricular crítica constitui a mais produtiva tendência do campo do currículo. Fundamentos: - Crítica aos processos de convencimento, adaptação e repressão da hegemonia dominante; - Contraposição ao empiricismo e ao pragmatismo das teorias tradicionais; - Crítica à razão iluminista e racionalidade técnica; - Busca da ruptura do status quo; - Materialismo Histórico Dialético – crítica da organização social pautada na propriedade privada dos meios de produção (fundamentos em Marx e Gramsci); - Crítica à escola como reprodutora da hegemonia dominante e das desigualdades sociais. (Michael Apple) Principais Fundamentos: - Escola Francesa: teoria da reprodução cultural – “capital cultural”. O currículo da escola está baseado na cultura dominante, na linguagem dominante, transmitido através do código cultural (Bourdieu e Passeron) - Escola de Frankfurt: crítica à racionalidade técnica da escola “pedagogia da possibilidade” – da resistência. Currículo como emancipação e libertação. (Giroux e Freire) Teoria Pós-Críticas Já a teoria pós-críticas emergiu a partir das décadas de 1970 e 1980, partindo dos princípios da fenomenologia, do pós-estruturalismo e dos ideais multiculturais. Assim como a teoria crítica, a perspectiva pós-crítica criticou duramente a teoria tradicional, mas elevaram as suas condições para além da questão das classes sociais, indo direto ao foco principal: o sujeito. Desse modo, mais do que a realidade social dos indivíduos, era preciso compreender também os estigmas étnicos e culturais, tais como a racialidade, o gênero, a orientação sexual e todos os elementos próprios das diferenças entre as pessoas. Nesse sentido, era preciso estabelecer o combate à opressão de grupos semanticamente marginalizados e lutar por sua inclusão no meio social. A teorias pós-crítica considerava que o currículo tradicional atuava como o legitimador dos modus operandi dos preconceitos que se estabelecem pela sociedade. Assim, a sua função era a de se adaptar ao contexto específico dos estudantes para que o aluno compreendesse nos costumes e práticas do outro uma relação de diversidade e respeito. Além do mais, em um viés pós-estruturalista, o currículo passou a considerar a ideia de que não existe um conhecimento único e verdadeiro, sendo esse uma questão de perspectiva histórica, ou seja, que se transforma nos diferentes tempos e lugares. Organização Curricular da Educação Básica Veremos agora o que está vigorando (hoje) na Lei de Diretrizes e Bases da Educação: LEI Nº 9.394, DE 20 DE DEZEMBRO DE 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. TÍTULO IV Da Organização da Educação Nacional Art. 9º A União incumbir-se-á de: IV - estabelecer, em colaboração com os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, competências e diretrizes para a educação infantil, o ensino fundamental e o ensino médio, que nortearão os currículos e seus conteúdos mínimos, de modo a assegurar formação básica comum; TÍTULO V Dos Níveis e das Modalidades de Educação e Ensino CAPÍTULO II DA EDUCAÇÃO BÁSICA Seção I Das Disposições Gerais Art. 23. A educação básica poderá organizar-se em séries anuais, períodos semestrais, ciclos, alternância regular de períodos de estudos, grupos não-seriados, com base na idade, na competência e em outros critérios, ou por forma diversa de organização, sempre que o interesse do processo de aprendizagem assim o recomendar. § 1º A escola poderá reclassificar os alunos, inclusive quando se tratar de transferências entre estabelecimentos situados no País e no exterior, tendo como base as normas curriculares gerais. Art. 24. A educação básica, nos níveis fundamental e médio, será organizada de acordo com as seguintes regras comuns: III - nos estabelecimentos que adotam a progressão regular por série, o regimento escolar pode admitir formas de progressão parcial, desde que preservada a sequência do currículo, observadas as normas do respectivo sistema de ensino; IV - poderão organizar-se classes, ou turmas, com alunos de séries distintas, com níveis equivalentes de adiantamento na matéria, para o ensino de línguas estrangeiras, artes, ou outros componentes curriculares; Art. 26. Os currículos da educação infantil, do ensino fundamental e do ensino médio devem ter base nacional comum, a ser complementada, em cada sistema de ensino e em cada estabelecimento escolar, por uma parte diversificada, exigida pelas características regionais e locais da sociedade, da cultura, da economia e dos educandos. (Redação dada pela Lei nº 12.796, de 2013) § 1º Os currículos a que se refere o caput devem abranger, obrigatoriamente, o estudo da língua portuguesa e da matemática, o conhecimento do mundo físico e natural e da realidade social e política, especialmente do Brasil. Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br APOSTILAS OPÇÃO Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 21 § 2o O ensino da arte, especialmente em suas expressões regionais, constituirá componente curricular obrigatório da educação básica. (Redação dada pela Lei nº 13.415, de 2017) § 3o A educação física, integrada à proposta pedagógica da escola, é componente curricular obrigatório da educação básica, sendo sua prática facultativa ao aluno: (Redação dada pela Lei nº 10.793, de 1º.12.2003) § 5o No currículo do ensino fundamental, a partir do sexto ano, será ofertada a língua inglesa. (Redação dada pela Lei nº 13.415, de 2017) § 6o As artes visuais, a dança, a música e o teatro são as linguagens que constituirão o componente curricularde que trata o § 2o deste artigo. (Redação dada pela Lei nº 13.278, de 2016) § 7o A integralização curricular poderá incluir, a critério dos sistemas de ensino, projetos e pesquisas envolvendo os temas transversais de que trata o caput. (Redação dada pela Lei nº 13.415, de 2017) § 8º A exibição de filmes de produção nacional constituirá componente curricular complementar integrado à proposta pedagógica da escola, sendo a sua exibição obrigatória por, no mínimo, 2 (duas) horas mensais. (Incluído pela Lei nº 13.006, de 2014) § 9o Conteúdos relativos aos direitos humanos e à prevenção de todas as formas de violência contra a criança e o adolescente serão incluídos, como temas transversais, nos currículos escolares de que trata o caput deste artigo, tendo como diretriz a Lei no 8.069, de 13 de julho de 1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente), observada a produção e distribuição de material didático adequado. (Incluído pela Lei nº 13.010, de 2014) § 10. A inclusão de novos componentes curriculares de caráter obrigatório na Base Nacional Comum Curricular dependerá de aprovação do Conselho Nacional de Educação e de homologação pelo Ministro de Estado da Educação. (Incluído pela Lei nº 13.415, de 2017) Art. 26-A. Nos estabelecimentos de ensino fundamental e de ensino médio, públicos e privados, torna-se obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena. (Redação dada pela Lei nº 11.645, de 2008). § 2o Os conteúdos referentes à história e cultura afro- brasileira e dos povos indígenas brasileiros serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de educação artística e de literatura e história brasileiras. (Redação dada pela Lei nº 11.645, de 2008). Art. 27. Os conteúdos curriculares da educação básica observarão, ainda, as seguintes diretrizes: I - a difusão de valores fundamentais ao interesse social, aos direitos e deveres dos cidadãos, de respeito ao bem comum e à ordem democrática; II - consideração das condições de escolaridade dos alunos em cada estabelecimento; III - orientação para o trabalho; IV - promoção do desporto educacional e apoio às práticas desportivas não-formais. Art. 28. Na oferta de educação básica para a população rural, os sistemas de ensino promoverão as adaptações necessárias à sua adequação às peculiaridades da vida rural e de cada região, especialmente: I - conteúdos curriculares e metodologias apropriadas às reais necessidades e interesses dos alunos da zona rural; Seção III Do Ensino Fundamental Art. 32. O ensino fundamental obrigatório, com duração de 9 (nove) anos, gratuito na escola pública, iniciando-se aos 6 (seis) anos de idade, terá por objetivo a formação básica do cidadão, mediante: (Redação dada pela Lei nº 11.274, de 2006) § 5o O currículo do ensino fundamental incluirá, obrigatoriamente, conteúdo que trate dos direitos das crianças e dos adolescentes, tendo como diretriz a Lei no 8.069, de 13 de julho de 1990, que institui o Estatuto da Criança e do Adolescente, observada a produção e distribuição de material didático adequado. (Incluído pela Lei nº 11.525, de 2007). § 6º O estudo sobre os símbolos nacionais será incluído como tema transversal nos currículos do ensino fundamental. (Incluído pela Lei nº 12.472, de 2011). Seção IV Do Ensino Médio Art. 35-A. A Base Nacional Comum Curricular definirá direitos e objetivos de aprendizagem do ensino médio, conforme diretrizes do Conselho Nacional de Educação, nas seguintes áreas do conhecimento: (Incluído pela Lei nº 13.415, de 2017) § 1o A parte diversificada dos currículos de que trata o caput do art. 26, definida em cada sistema de ensino, deverá estar harmonizada à Base Nacional Comum Curricular e ser articulada a partir do contexto histórico, econômico, social, ambiental e cultural. (Incluído pela Lei nº 13.415, de 2017) § 2o A Base Nacional Comum Curricular referente ao ensino médio incluirá obrigatoriamente estudos e práticas de educação física, arte, sociologia e filosofia. (Incluído pela Lei nº 13.415, de 2017) § 4o Os currículos do ensino médio incluirão, obrigatoriamente, o estudo da língua inglesa e poderão ofertar outras línguas estrangeiras, em caráter optativo, preferencialmente o espanhol, de acordo com a disponibilidade de oferta, locais e horários definidos pelos sistemas de ensino. (Incluído pela Lei nº 13.415, de 2017) § 5o A carga horária destinada ao cumprimento da Base Nacional Comum Curricular não poderá ser superior a mil e oitocentas horas do total da carga horária do ensino médio, de acordo com a definição dos sistemas de ensino. (Incluído pela Lei nº 13.415, de 2017) § 6o A União estabelecerá os padrões de desempenho esperados para o ensino médio, que serão referência nos processos nacionais de avaliação, a partir da Base Nacional Comum Curricular. (Incluído pela Lei nº 13.415, de 2017) § 7o Os currículos do ensino médio deverão considerar a formação integral do aluno, de maneira a adotar um trabalho voltado para a construção de seu projeto de vida e para sua formação nos aspectos físicos, cognitivos e socioemocionais. (Incluído pela Lei nº 13.415, de 2017) Art. 36. O currículo do ensino médio será composto pela Base Nacional Comum Curricular e por itinerários formativos, que deverão ser organizados por meio da oferta de diferentes arranjos curriculares, conforme a relevância para o contexto local e a possibilidade dos sistemas de ensino, a saber: (Redação dada pela Lei nº 13.415, de 2017) § 3o A critério dos sistemas de ensino, poderá ser composto itinerário formativo integrado, que se traduz na composição de componentes curriculares da Base Nacional Comum Curricular - BNCC e dos itinerários formativos, considerando os incisos I a V do caput. (Redação dada pela Lei nº 13.415, de 2017) § 11. Para efeito de cumprimento das exigências curriculares do ensino médio, os sistemas de ensino poderão reconhecer competências e firmar convênios com instituições de educação a distância com notório reconhecimento, mediante as seguintes formas de comprovação: (Incluído pela Lei nº 13.415, de 2017) Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br APOSTILAS OPÇÃO Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 22 Seção IV-A Da Educação Profissional Técnica de Nível Médio (Incluído pela Lei nº 11.741, de 2008) Art. 36-B. A educação profissional técnica de nível médio será desenvolvida nas seguintes formas: (Incluído pela Lei nº 11.741, de 2008) I - os objetivos e definições contidos nas diretrizes curriculares nacionais estabelecidas pelo Conselho Nacional de Educação; (Incluído pela Lei nº 11.741, de 2008) Seção V Da Educação de Jovens e Adultos Art. 38. Os sistemas de ensino manterão cursos e exames supletivos, que compreenderão a base nacional comum do currículo, habilitando ao prosseguimento de estudos em caráter regular. Obs.: Só colocamos os parágrafos e incisos que dizem respeito ao currículo, por isso não seguimos à ordem. Currículo e Direito à Educação Sabemos o quanto a questão curricular afeta a organização do trabalho na escola, constituindo-se mesmo num elemento estruturante do seu trabalho. Aspectos fundamentais do cotidiano das escolas são condicionados pelo currículo: é ele que estabelece, por exemplo, os conteúdos, seu ordenamento e sequenciação, suas hierarquias e cargas horárias. São também as decisões curriculares que fazem importante mediação dos tempos e dos espaços na organização escolar, das relações entre educadores e educandos, da diversificação que se estabelece entre os professores. A organização escolar, portanto, é inseparável da organização curricular. Miguel G. Arroyo20 é um dos autores que têm se preocupado com o currículo e os sujeitos envolvidos na ação educativa: educandos e educadores.Arroyo tem ressaltado nesses estudos diversos aspectos, como: - a importância do trabalho coletivo na educação para a construção de parâmetros de ação pedagógica; - o fato de serem os educandos sujeitos de direito ao conhecimento; - a necessidade de se mapearem imagens e concepções dos educandos para subsidiar o debate sobre os currículos. Tomando os educandos como sujeitos de direito, os currículos são responsáveis pela organização de conhecimentos, culturas, valores, artes a que todo ser humano tem direito. Isso significa inverter as prioridades ditadas pelo mercado e definir as prioridades a partir do respeito ao direito dos educandos. Somente partindo do conhecimento dos educandos como sujeitos de direitos, estaremos em condições de questionar o trato seletivo e segmentado em que ainda se estruturam os conteúdos. Isso exige repensar a reorganização da estrutura escolar e do ordenamento curricular legitimados em valores de mérito e sucesso, em lógicas excludentes e seletivas, em hierarquias de conhecimentos e de tempos, em cargas-horárias. 20 ARROYO, Miguel Gonzalez. Secretaria de Educação Básica (Org.). Os educandos, seus Direitos e o Currículo: Documento em versão preliminar. 2006. A superação das hierarquias, das segmentações e dos silenciamentos entre os conhecimentos e as culturas pode ser um dos maiores desafios atuais para a organização dos currículos. Eles têm sido repensados, mas, sobretudo, em função do progresso cientifico e tecnológico. Assim, os currículos se complexificam cada vez mais, o que não significa que os mesmos questionem os processos humanos regressivos que acontecem na sociedade e que cada vez mais parecem precarizar a vida dos educandos. As exigências curriculares e as condições de garantia do direito à educação e ao conhecimento se distanciam pela precarização da vida dos setores populares. Por um lado, o direito à educação e, por outro, a vivência da negação dos direitos humanos mais básicos questionam o ordenamento curricular, a lógica sequenciada, linear, rígida, previsível, para sujeitos disponíveis, liberados, em tempo integral, sem rupturas, sem infrequências, somente ocupados no estudo, sem fome, protegidos, com a sobrevivência garantida. A escola vem fazendo esforços para repensar-se em função da vida real dos sujeitos que têm direito à educação, ao conhecimento e à cultura. A nova LDB n° 9394/96 recoloca a educação na perspectiva da formação e do desenvolvimento humano; o direito à educação, entendido como direito à formação e ao desenvolvimento humano pleno. Essa lei se afasta, no seu discurso, da visão dos educandos como mão-de-obra a ser preparada para o mercado e reconhece que toda criança, adolescente, jovem ou adulto tem direito à formação plena como ser humano. Reafirma que essa é uma tarefa da gestão da escola, da docência e do currículo. Currículo e Multiculturalismo Sacristán21 afirma que a escola tem sido um mecanismo de normalização. O multiculturalismo na escola nada mais é do que a inclusão de todos à educação, procurando atender aos interesses de todos, independentemente de etnias, deficiências ou diferentes grupos minoritários, geralmente excluídos e marginalizados. Na sua concepção o currículo educacional deve atender a todas estas diversidades, pois a sociedade não é homogênea. Para tanto, o currículo deve ser ampliado e abranger as necessidades dos grupos minoritários, ou seja, não pode se prender apenas a cultura dominante e geral, mas sim reconhecer a singularidade dos indivíduos. Para que aconteça a inclusão de grupos minoritários, é necessária uma discussão profunda sobre a temática, a qual deve envolver toda a comunidade escolar. O ponto de partida para o movimento inicial é o planejamento curricular, mas é no currículo real, ou seja, as práticas educativas, que de fato ocorrem à desvalorização das experiências dos alunos e as discriminações. Para Sacristán, a cultura transmitida pela escola confronta com outros significados prévios, por isso, deve-se pensar em um currículo extraescolar, para que os educadores possam mediar os educandos com uma perspectiva multicultural, a qual visa o currículo em coordenadas mais amplas. 21 SACRISTAN, José Gimeno. O currículo: uma reflexão sobre a prática. Trad Ernani da Rosa. Porto Alegre, RGS: Artmed, 2000. Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br APOSTILAS OPÇÃO Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 23 Para que não perca a identidade das culturas, o planejamento curricular, de acordo com Sacristán22, deve se pautar na seguinte estratégia: - formação de professores; - planejamento de currículos; - desenvolvimento de materiais apropriados e, - a análise e revisão crítica das práticas vigentes. Para esta abordagem, segundo o autor, deve-se modificar muito o currículo. Em relação ao papel da escola Candau23 enfatiza que as diversidades culturais existentes nas diferentes sociedades, como: - os negros americanos; - os emigrantes em países desenvolvidos; - os emigrantes no Brasil; e mais, - as muitas distintas culturas que variam de grupos e de pessoas se fazem presentes no interior da escola. A escola neste sentido, não pode reproduzir a cultura dominante, ela deve considerar as vivências dos educandos e contribuir para uma pedagogia libertária. Em decorrência do fracasso escolar, intensificaram-se os estudos a respeito do multiculturalismo associado com a Antropologia, mas também se viu a Psicologia como uma das ciências importantíssima para a resolução dos problemas. Candau faz referência à teoria de Paulo Freire, a qual buscou em uma perspectiva da cultura popular, alfabetizar muitas pessoas em blocos divididos, os quais os educadores faziam um estudo do cotidiano das pessoas para daí então, começar alfabetizá-los, considerando a linguagem e os termos comuns. O multiculturalismo, de acordo com Candau, tem sua maior representatividade nos EUA, porque lá vivem negros, mexicanos, porto-riquenhos, chineses e uma pluralidade de raças e etnias distintas. Durante a década de 1960, tiveram muitas manifestações em prol da igualdade dos negros perante aos brancos, eles reivindicavam direitos e participação iguais na sociedade, independentemente de raça, sexo, crenças e religião. O multiculturalismo enfim, se apresenta de muitas formas, as quais não se limitam a uma única tendência. Por isso, sua abordagem educacional é muito ampla, fazendo uma reforma drástica no currículo para uma perspectiva de diversidades. Currículo e Avaliação Que tipo de ser humano queremos formar? É com esta pergunta na cabeça que devemos pensar o currículo. Não obstante, a avaliação, também, perpassa por este viés – uma avaliação que dê conta de suprir algumas de nossas necessidades do cotidiano. É nesse contexto que as três últimas décadas registraram uma preocupação intensa com os estudos sobre avaliação. O processo de avaliação não está ainda bem resolvido e definido pela escola e tampouco nas cabeças dos professores. Muitos estudos foram empreendidos, mas pouco se avançou. Teóricos têm estudado e buscado caminhos para 22 SACRISTAN, José Gimeno. Currículo e diversidade cultural. In SILVA, Tomaz Tadeu da. MOREIRA, Antonio Flávio (Orgs). Territórios Contestados: o currículo e os novos mapas políticos e culturais. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995. romper com um processo tão solidificado na escola como é o caso da avaliação da aprendizagem. Algumas críticas severas têm sido feitas em relação ao aluno não saber quais são os verdadeiros objetivos das avaliações, não saber como ele será avaliado e, o mais importante não saber o que o professor espera que eleresponda, o que o professor, verdadeiramente, quer. É preciso entender, de uma vez por todas, que temos que conciliar a concepção de avaliação em um currículo aberto e em construção que deve contemplar o conhecimento real dos alunos. Como local de conhecimento, o currículo é a expressão de nossas concepções do que constitui conhecimento (...). Trata- se de uma concepção do conhecimento e do currículo como presença: presença do real e do significado no conhecimento e no currículo; presença do real e do significado para quem transmite e para quem recebe. Este conceito assevera a ideia de um currículo em constante movimento. Um currículo aberto e que serve de passagem para o real e significativo. Um lugar perfeito para se processar a avaliação que se deseja em qualquer processo de aprendizagem A avaliação é um processo histórico que se propaga de acordo com as mudanças sociais, tendo em vista os múltiplos contextos que perpassam a vida dos sujeitos humanos. Ou seja, a avaliação está presente no cotidiano dos indivíduos, ocorrendo de maneira espontânea ou através do ensino formal. Na educação, a avaliação deve partir de um currículo planejado, envolvendo todo o coletivo da instituição. O currículo, por sua vez, tem por objetivo direcionar caminhos de como trabalhar as diversidades encontradas dentro da escola, atribuindo juízo de valor que deve ser realizado de forma ética e democrática a respeito do objetivo que se pretende alcançar, principalmente no ensino e na aprendizagem escolar. Nesse sentido, as práticas pedagógicas do educador podem se tornar um ato classificatório, sendo que o juízo de valor se expressa nas suas ações diárias desenvolvidas em sala de aula. Haja vista que a atividade docente requer um processo contínuo de reflexões em torno da práxis, especialmente no tocante ao ato de avaliar. Faz-se fundamental que o educador reflita as suas práticas desenvolvidas no cotidiano da sala de aula, respeitando as experiências que os indivíduos trazem do seu convívio em sociedade. Tendo em vista que a avaliação consiste um dos aspectos do processo pedagógico, cuja prática deve colaborar no desenvolvimento da criticidade do indivíduo, interagindo os conhecimentos escolares com os contextos em que alunos estão inseridos. Nesse sentido, o corpo docente não deve utilizar o ato de avaliar apenas para medir e controlar o rendimento do discente dentro da instituição escolar. Segundo Fernandes e Freitas24 perpassam, na prática escolar, duas formas de avaliação: - a avaliação formativa que tem princípios norteadores no próprio processo educativo e 23 CANDAU, Vera Maria Ferrão. (Org.). Sociedade, educação e cultura(s): Questões e propostas. Rio de Janeiro: Vozes, 2002. 24 FERNANDES, Claudia de Oliveira. Indagações sobre currículo: currículo e avaliação. Organização do documento: Jeanete Beauchamp, Sandra Denise Pagel, Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br APOSTILAS OPÇÃO Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 24 - a avaliação somativa que apresenta a função de julgar o resultado final, ou seja, ao término do ano letivo, sendo feito uma avaliação com objetivo de somar as notas do aluno durante o período escolar. “Os processos de avaliação formativa são concebidos para permitir ajustamentos sucessivos durante o desenvolvimento e a experimentação do currículo”. Referências: ALVES, Alzenira Cândida; SANTOS, Jaiana Cirino dos; FERNANDES, Hercília Maria. Currículo e Avaliação: uma análise do projeto político pedagógico da Escola Cecília Estolano Meireles.IV FIPED. Campina Grande, REALIZE Editora, 2012. BRASIL. Indagações sobre Currículo - Currículo, Conhecimento e Cultura. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Brasília, 2007. FRANCO, Maristela Canário Cella. Teoria Curricular Crítica e Prática Pedagógica: Mundos Desconexos. JESUS, Adriana Regina de. Currículo e Educação: conceito e questões no contexto educacional. MELLO, Guiomar Namo de. Currículo da Educação Básica no Brasil: concepções e políticas. PRADO, Iara Glória Areias. O MEC e a Reorganização Curricular. Secretária de Educação Fundamental do MEC São Paulo Perspec. vol.14 no.1 São Paulo Jan./Mar. 2000. REIS, Danielle de Souza. Concepções de Currículo e suas inter-relações com os Fundamentos Legais e as Políticas Educacionais Brasileiras. Rio de Janeiro,2010. Questões 01. (TSE – Analista Pedagogia – CONSULPLAN) O currículo tem um papel tanto de conservação quanto de transformação e construção dos conhecimentos historicamente acumulados. A perspectiva teórica que trata o currículo como um campo de disputa e tensões, pois o vê implicado com questões ideológicos e de poder, denomina-se (A) tecnicista. (B) crítica. (C) tradicional. (D) pós-crítica. 02. (TSE – Analista Pedagogia – CONSULPLAN) O documento introdutório dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN/1997) propõe um desenvolvimento curricular em quatro níveis de concretização. O primeiro nível de concretização do currículo corresponde aos próprios PCNs que se constituem em uma referência nacional; o segundo diz respeito às propostas curriculares dos (A) Estados; o terceiro refere-se às propostas curriculares dos Municípios e o quarto nível é o momento de realização das programações das atividades de ensino e aprendizagem na sala de aula. (B) Municípios e das instituições escolares; o terceiro refere- se às propostas curriculares implementadas nas salas de aula e o quarto nível corresponde às atividades realizadas individualmente pelos alunos. (C) Estados e Municípios; o terceiro refere-se ao momento de realização das programações das atividades de ensino e aprendizagem na sala de aula e o quarto nível corresponde às atividades realizadas individualmente pelos alunos. (D) Estados e Municípios; o terceiro refere-se às propostas curriculares de cada instituição escolar e o quarto nível é o momento de realização das programações das atividades de ensino e aprendizagem na sala de aula. 03. (UFAL – Pedagogo – COPEVE) Do ponto de vista etimológico, a palavra Currículo deriva da palavra latina curros (carros, carruagem) e de suas variações. Começou a ser empregada na literatura geral norte-americana em meados do século XIX, para designar processo de vida e desenvolvimento. Aricélia Ribeiro do Nascimento. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Básica, 2008. Segundo Vilar (1998), o currículo pode assumir os significados seguintes: Faça a associação correta. 1. Currículo prescrito. 2. Currículo apresentado. 3. Currículo trabalhado. 4. Currículo traduzido. 5. Currículo concretizado. ( ) Conjunto dos meios elaborados por diferentes instâncias com o objetivo de apresentar uma interpretação do currículo prescrito. ( ) Conjunto das tarefas escolares que corporizam as decisões curriculares, anteriormente assumidas. ( ) Consiste na planificação curricular no âmbito da escola, configuram os significados e conteúdos das decisões e propostas. ( ) Consiste no conjunto de efeitos cognitivos, afetivos, morais, sociais etc. ( ) Trata-se do resultado das decisões assumidas pela administração do sistema educativo. Assinale a sequência correta, de cima para baixo (A) 2, 3, 5, 4, 1. (B) 3, 2, 4, 1, 5. (C) 3, 1, 2, 4, 5. (D) 2, 3, 4, 5, 1. (E) 2, 4, 3, 5, 1. 04. (TJ/DF – Analista Judiciário Pedagogia – CESPE) Julgue os item subsequente, relativo às concepções de currículo. A lógica temporal precedente e segmentada fundamenta- se em uma organização curricular baseada na lógica do ser humano como sujeito de direitos. ( ) Certo ( ) Errado 05. (TJ/DF – Analista Judiciário Pedagogia – CESPE) Julgue os item subsequente, relativo às concepções de currículo. Em umavisão emancipadora de currículo, deve-se partir do pressuposto que os alunos são diferentes, porém o parâmetro de organização curricular deve ser a capacidade daqueles mais capazes ou normais para garantia da qualidade. ( ) Certo ( ) Errado Respostas 01. A / 02. C / 03.D / 04. Errada / 05. Errada PSICOLOGIA EDUCACIONAL OU ESCOLAR: UMA QUESTÃO DE NOMENCLATURA? Quando se fala em Psicologia em sua relação com a Educação geralmente se usam os termos "Educacional" ou "Escolar". Além dessas nomeações são comuns os termos: As contribuições da psicologia da educação para a pedagogia: implicações para a melhoria do ensino e para ações mais embasadas da ação profissional docente no alcance do que se ensina aos indivíduos. Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br APOSTILAS OPÇÃO Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 25 Psicologia na Educação, Psicologia da Educação, Psicologia aplicada à Educação e Psicologia do Escolar. Entretanto, por meio da pesquisa histórica, foi possível encontrar ainda as seguintes expressões: Psicologia Pedagógica, Pedagogia Terapêutica, Pedologia, Puericultura, Paidologia, Paidotécnica, Higiene Escolar, Ortofrenia, Ortofrenopedia e Defectologia. Também em obras diversas aparecem expressões relacionadas: Psicotécnica, Psicologia Aplicada às coisas do Ensino, Psicologia para pais e professores, Psicologia da criança, Psicologia do aluno e da professora, Biotipologia Educacional, Psicopedagogia, Psicologia Especial, Higiene Mental Escolar, Orientação Educacional e Orientação Profissional. Em alguns casos se refere à teoria e em outros se designa o conjunto de práticas desenvolvidas nesse âmbito. Com esse emaranhado de nomes pode-se pensar que há inclusive uma indefinição identitária desse campo. Se a resposta for sim, essa é uma discussão muito importante para os profissionais que têm interesse nesse tema. Além disso, é necessário questionar, por exemplo, como geralmente se nomeiam os profissionais e os serviços desse setor? Será que existem diferenças quando se fala Escolar e Educacional? Ou ainda Psicologia da Educação ou na Educação? Na busca de responder a essas indagações que pensamos em traçar um percurso histórico desse conjunto de nomenclaturas para compreender como, ao longo do tempo, foram se constituindo essas nomeações e quais são suas finalidades e distinções. A partir da investigação constatou-se que realmente é fato que a própria definição do que seja ou não Psicologia Educacional e Escolar passou por várias transformações conceituais que refletiram em sua própria designação. A análise histórica dessas configurações revelou que essas diversas terminologias não são meramente uma questão de escolha de nomenclaturas que denominam o mesmo fenômeno. Identificamos que esses termos citados e suas distinções têm todo um sentido histórico. Essas diferenciações estão relacionadas, sobretudo, à definição desse campo em termos de (a) objetos de interesse, (b) finalidades e (c) métodos de investigação e/ou intervenção, que, por sua vez, estão relacionados à visão de homem, de mundo, de sociedade, de educação e de escola e também quanto ao foco de olhar à interface Psicologia e Educação. E isso foi se modificando ao longo do tempo, como será tratado a seguir. Para Antunes, a Psicologia Educacional pode ser considerada como uma subárea da psicologia, o que pressupõe esta última como área de conhecimento. Entende-se área de conhecimento como corpus sistemático e organizado de saberes produzidos de acordo com procedimentos definidos, referentes a determinados fenômenos ou conjunto de fenômenos constituintes da realidade, fundamentado em concepções ontológicas, epistemológicas, metodológicas e éticas determinadas. Faz-se necessário, porém, considerar a diversidade de concepções, abordagens e sistemas teóricos que constituem as várias produções de conhecimento, particularmente no âmbito das ciências humanas, das quais a psicologia faz parte. Assim, a Psicologia da Educação pode ser entendida como subárea de conhecimento, que tem como vocação a produção de saberes relativos ao fenômeno psicológico constituinte do processo educativo. A Psicologia Escolar, diferentemente, define-se pelo âmbito profissional e refere-se a um campo de ação determinado, isto é, a escola e as relações que aí se estabelecem; fundamenta sua atuação nos conhecimentos produzidos pela Psicologia da Educação, por outras subáreas da psicologia e por outras áreas de conhecimento. Deve-se, pois, sublinhar que Psicologia Educacional e Psicologia Escolar são intrinsecamente relacionadas, mas não são idênticas, nem podem reduzir-se uma à outra, guardando cada qual sua autonomia relativa. A primeira é uma área de conhecimento (ou subárea) e tem por finalidade produzir saberes sobre o fenômeno psicológico no processo educativo. A outra constitui-se como campo de atuação profissional, realizando intervenções no espaço escolar ou a ele relacionado, tendo como foco o fenômeno psicológico, fundamentada em saberes produzidos, não só, mas principalmente, pela subárea da psicologia, a psicologia da educação. A autora diz em nota de rodapé que "muitas expressões são utilizadas, dentre as quais: Psicologia Educacional, Psicologia da Educação, Psicologia na Educação e outras. Há implicações teóricas que subjazem à opção por uma ou outra denominação, mas que não serão aqui tratadas, dada delimitação do presente texto". Em termos gerais a definição mostra Psicologia Educacional e da Educação como sinônimos e correspondem à teorização ou produção de saberes sobre o processo educativo e a Psicologia Escolar como um campo de atuação ou prática do psicólogo em contextos educativos diversos. Antunes recentemente voltou a tratar do tema dizendo que essas diferenciações devem ser observadas a partir do contexto histórico no qual estão inseridas e, portanto, é de suma importância trazer à luz como foram constituídas historicamente. Essa diferenciação e diríamos até cisão clássica entre teoria e prática foi historicamente constituída na Psicologia e também na Psicologia Educacional e Escolar, especialmente pela influência estadunidense. E, nesse sentido, no Brasil, devido à influência que se teve das formulações estrangeiras, classicamente se considerava que essa era a distinção primordial. A professora Geraldina Witter ainda complementa dizendo que essa diferenciação é inócua, pois, segundo ela, "é claro que uma coisa não vive sem a outra, não é?" Mas, de um modo geral, essa divisão clássica e hoje tradicional é muito disseminada por alguns teóricos e profissionais que mantêm a ideia de que a Psicologia Educacional fica a cargo de responder pela teorização e pelas pesquisas, e a Psicologia Escolar, pela prática. Contudo, a partir do olhar histórico, verifica-se que o termo "Psicologia Educacional" durante muito tempo no Brasil reunia em si os dois aspectos - o teórico e o prático -, sendo que também havia outras nomeações (antes citadas) que designavam esse campo. Uma peculiaridade da história da Psicologia no Brasil é que, diferentemente do que ocorreu em outros países nos quais o campo da Psicologia Educacional e Escolar se consolidou após a Psicologia propriamente dita, como uma derivação desta, pelo menos no que se refere à prática, aqui ocorreu de forma diferente. Esse campo nasceu, desenvolveu- se e se consolidou concomitantemente à Psicologia propriamente dita. E especialmente ao que tange à aplicação prática dos conhecimentos psicológicos, o campo educativo foi um dos primeiros. Isso é possível apreender por meio das evidências encontradas em documentos escritos, nos depoimentos que podemos ter acesso de pioneiros e também na constituição dos primeiros serviços. Para Antunes, essa ligação é tão intensa que: "[o] vínculoentre a Psicologia e Educação é um vínculo muito estreito, e eu diria até constitutivo". Essa mesma autora reitera que a Psicologia Educacional e Escolar foi um dos principais pilares sob o qual a Psicologia se erigiu no seu processo de autonomização e que muitas práticas iniciais da Psicologia principiaram por meio da sua relação com a Educação. Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br APOSTILAS OPÇÃO Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 26 Como temos conhecido através dos estudos de Massimi e Massimi e Guedes, desde o período colonial, podemos encontrar indícios de conhecimentos psicológicos sendo aplicados em diferentes áreas e uma delas se destaca, o trabalho de educação jesuítica. No Brasil, desde a chegada dos jesuítas e da instituição de um projeto de Educação no país, pode-se verificar o uso de conhecimentos, saberes ou ideias psicológicas em interação com os processos educativos. Massimi relata que encontrou em obras, cartas e documentos históricos do período colonial referências a temas como família, desenvolvimento e aprendizagem infantis, e o papel dos jogos na educação, entre outros assuntos que mais tarde seriam objeto da Psicologia em sua relação com a Educação. Desse modo, muito antes da influência dos estudos norte- americanos aportarem no país, assim como os conhecimentos psicológicos europeus e ingleses do século XX, podemos encontrar referências como a de Juan Luís Vives, comentador de Aristóteles que, segundo Noemy Silveira Rudolfer, em seu trabalho precursor no século XVI, na obra "De Anima et Vita", escreve sobre Psicologia e sua relação com o ensino. A autora afirma que: Ele não podia aplicar à educação princípios psicológicos inexistentes. Nem seria possível encontrá-los numa época de transição da psicologia. Tratou de induzi-los com o alvo da aplicação em mira. [...] não se pode conhecer a natureza ou a origem da alma, mas apenas suas manifestações, diz ele [Vives]. É com razão, pois, que o consideram o iniciador da psicologia empírica. [...] é, por conseguinte, nos elementos da psicologia de Vives que vamos encontrar os primeiros traços da psicologia educacional, na sua exposição da variedade de manifestação da alma. Para Cerqueira, Vives foi um dos colaboradores para a elaboração do "Ratio Studiorum", que foi o plano geral de estudos organizado pela Ordem da Companhia de Jesus para a aplicação em todos os colégios mantidos por esta. A educação jesuíta durou de 1549 a 1759 e tinha como propósito primordial o trabalho educativo visando à catequização e instrução na fé cristã. Em 1759, por meio das Reformas Pombalinas, ocorreu a expulsão da Companhia de Jesus do Brasil. O Marquês de Pombal então instaura uma série de mudanças no sistema educacional que tinham influência das ideias iluministas e defendiam o ensino laico. As reformas de Pombal incluíram mudanças nos "estudos menores" (primeiras letras) e nos "estudos maiores" (ligados à Universidade de Coimbra). Foram contratados professores régios, que recebiam da Coroa e, ao mesmo tempo, se submeteram a uma orientação pedagógica que incorporava os ideais iluministas. Nesse sentido, o ensino passa a ter como característica a educação por meio de aulas régias (ou avulsas) tendo a figura do professor como central no processo. Segundo Antunes, no Período Colonial a característica principal era propiciar a educação dos indígenas e da população recém-chegada ao Brasil. Tinha-se como objetivo principal a educação de crianças de modo a "domá-las", "moldá-las" segundo os propósitos do adulto. A autora considera que se utilizava de castigos e prêmios como meio de controle do comportamento e que é comum encontrar referências do período que tratam do cuidado com a educação moral e física dos infantes. Ela informa que Manoel Andrade Figueiredo (1670-1735), que escreveu a primeira cartilha educativa de Portugal, denominada "A Nova Escola para aprender a ler, escrever e contar" (de 1722), descrevia nesta a "educação de meninos rudes". Estes não deveriam ser tratados de forma punitiva, pois isso poderia afetar o desenvolvimento e a personalidade da criança. Assim, explicações para o comportamento infantil tinham feições ambientalistas e empiristas, além da proposição de formas de prevenção de problemas de comportamento por meio de um sistema de monitoria e ensino. Inicia-se, assim, o uso de conhecimentos que posteriormente chamaríamos de psicológicos com fins educativos, especialmente de cunho punitivo, correcional ou adaptacionista. Os termos Pedologia, Puericultura, Paidologia, Paidotécnica (relacionados à criança) e também Ortofrenia, Ortofrenopedia, Defectologia (relacionados à criança "defeituosa", "deficiente" ou "retardada") têm origem nesse tipo de pensamento adaptacionista. Mesmo com essa origem remota, só podemos falar em uma "área" propriamente dita chamada "Psicologia Educacional" (nome inicialmente dado a esta) a partir da autonomização da Psicologia (em fins do século XIX e início do século XX). No caso do Brasil, também se tem como marco inicial a criação da profissão de psicólogos no país, em 1962. Esse campo teórico e prático tem ainda como origem a criação de instituições e associações dedicadas a esse objeto de estudo e intervenção nos primeiros anos do século XX, especialmente nos anos 1930. Entretanto, aos poucos é que foram sendo definidas as especificidades dessa que é considerada por uns uma "área", por outros um "campo", um "ramo" ou até uma "subdivisão" ou "subárea" da Psicologia. Nesses primórdios a Psicologia Educacional define melhor seu objeto de interesse, suas finalidades, seus métodos de investigação e conceitos primordiais. É nítida a expressão fundante da Puericultura, quando o foco de interesse era o conhecimento do desenvolvimento infantil, e também da Ortofrenia, quando o objetivo era trabalhar as questões das crianças ditas "anormais". Também se observa a presença da chamada Pedagogia Terapêutica, Higiene Escolar ou Higiene Mental Escolar, quando se enfatizavam os métodos de intervenção médico-curativos e clínicos para resolver os chamados "problemas das crianças". Essas referências iniciais da Psicologia Educacional tinham relação com a crescente onda do movimento de Higiene Mental ou higienista que se tornou expressivo no país no início e meados do século XX. Também foram influências iniciais a expansão do movimento psicométrico, da Psicanálise e da Psicologia Infantil (Puericultura) ou Pedagogia Terapêutica, como era chamada. A Psicologia Educacional no Brasil, em seus primórdios, abarcava teoria e prática e estava relacionada sobretudo à disciplina "Psicologia Educacional" dos cursos Normais, que utilizava trabalhos empíricos realizados em Laboratórios de Psicologia, durante muito tempo relacionados ao movimento psicométrico, higienista e influência da Psicologia Infantil. Usavam-se como sinônimos de Psicologia Educacional, com essa configuração, os termos Psicologia na Educação, Psicologia da Educação, Psicologia aplicada à Educação e Psicologia Experimental. Geralmente a expressão "Psicologia Educacional" era mais utilizada por ser a nomenclatura das disciplinas ministradas nos cursos Normais e esta abarcava as demais como conteúdos. Segundo Mello "Em 1931 uma disciplina psicológica é introduzida, pela primeira vez, no currículo de um curso universitário, o nome que recebe - Psicologia Aplicada aos Problemas da Educação - dá indícios do caráter que se queria atribuir ao curso". Essa disciplina era oferecida no curso de aperfeiçoamento pedagógico do Instituto Pedagógico de São Paulo (curso para professores), e sabe-se que existiam disciplinas anteriores que tinham terminologias parecidas também em outros estados. Outras nomenclaturas relacionadas eram Psicologia Pedagógica, Pedagogia Científica, Psicologia Experimental.Em algumas obras dos anos de 1920 e 1930, que analisamos, encontra-se a nomeação Biologia Educacional e Biotipologia Educacional, que traziam conhecimentos do campo biológico e também psicológico. Essas denominações Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br APOSTILAS OPÇÃO Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 27 nos informam o quanto a relação entre Psicologia e Educação era constitutiva, tanto de um quanto de outro desses campos de conhecimento. Também nos comunica sobre a relação inicial da Psicologia com a pesquisa empírica, fisiológica e biológica, a partir das expressões experimental, fisiológica e biológica. Aqui começa a se estabelecer outra grande influência além das anteriormente citadas - o conhecimento biológico e fisiológico, do campo médico, que trouxe a "biologização" dos fenômenos escolares, algo largamente criticado nos dias atuais. Pode-se inferir que a escolha por Psicologia da Educação ou na Educação, Psicologia Pedagógica, Biologia Educacional ou Biotipologia Educacional denotam, por um lado, que os conhecimentos psicológicos foram importantes para a constituição e consolidação desses outros campos de saberes, ao mesmo tempo em que mostram certa relação de "subjugação" de um saber ao outro. No caso, nota-se que a Psicologia estaria relacionada aos campos educacional, pedagógico ou biológico, sendo quase que um "braço" destes. Em outros termos, principia uma influência funesta de alicerçar a Psicologia em sua relação com a Educação à influência biologicista e também pedagógica nesses tempos remotos. É possível inferir que, pelo fato de ainda não termos, naquela época, uma Psicologia como ciência e profissão, algo que foi se consolidar após a legislação que criou a profissão de psicólogos no país (em 1962), a Psicologia e também a Psicologia Educacional ainda estavam se constituindo de forma a "tomar de empréstimo" as produções que eram realizadas em outros campos de saber (Educação, Biologia, Medicina etc.). Isso se observa inclusive nos termos usados até hoje quanto a procedimentos de intervenção como o uso da palavra anamnese e diagnóstico (de origem do campo médico). Pode-se dizer que o objeto de interesse inicial foi se constituir em um campo de teoria e aplicação estritamente ligado à docência nas Escolas Normais e cursos de formação de professores. A Psicologia Educacional caracterizou-se, então, nesses primórdios, como ensino de Psicologia para futuros educadores, tendo a finalidade de formação e utilização de investigação e produção de saberes oriundos dos laboratórios, com vistas à compreensão dos processos educativos. Esses conhecimentos tiveram a influência, sobretudo, do movimento psicométrico e de elementos de Puericultura ou Psicologia da Criança, vindas da Europa, especialmente a partir dos estudos desenvolvidos no Instituto Jean-Jacques Rousseau (nos anos 1930). Também se destacam a forte presença da Psicanálise a partir dos anos 1940 e também do pensamento biologicista medicalizante que se traduzia à época no movimento higienista. Em resumo, a Psicologia Educacional teórica e prática tinha como objetivo principal diagnosticar as crianças no interior da escola quanto a sua "normalidade" ou "anormalidade" e, baseada nos experimentos e testagens, garantia-se a divisão em classes e/ou escolas especiais para atendimento de suas "necessidades especiais" se fosse o caso. Entra em cena a ideia de normatização que se acresce à de adaptação e atendimento das "anormalidades" por meio de trabalhos terapêuticos garantidos por meio da Higiene Mental Escolar. Essa configuração fica evidente nos primeiros serviços de atendimento psicológico do país que tiveram configuração "educacional". Em 1938 são criados o Serviço de Saúde Escolar, que teve o médico Durval Marcondes como coordenador em São Paulo, a Seção Técnica de Ortofrenia e Higiene Mental do Departamento de Educação e Cultura do Distrito Federal no Rio de Janeiro e a Clínica de Orientação Infantil no Rio de Janeiro. Esta última tinha o médico Arthur Ramos (1903-1949) como responsável. Tanto Durval Marcondes como Artur Ramos demonstraram ter forte ligação ao pensamento psicanalítico. Outros serviços semelhantes apareceram com igual finalidade em outros estados da Federação e pode-se afirmar que, como a Educação e a escola brasileira estavam passando naquele momento por muitas reformulações, a Psicologia veio para contribuir com a organização destas, de modo a cumprir com a finalidade "ajustatória". Nesse momento, a marca da Psicologia do "ajustamento" e clínico-médica começava a se consolidar. Especialmente nos anos 1930, a influência das pesquisas produzidas na Europa e nos Estados Unidos cresceu no país, e o movimento da Escola Nova começou a ter presença marcante. Sabe-se que, nesse período, historicamente o país estava passando por mudanças sociopolíticas estruturais, deixando de ser essencialmente agrário e rural para se tornar um país agroexportador, industrializado e urbano. Nesse sentido, com vistas a uma "renovação escolar", crescia a ideia de uma nova "Educação" e também cresceram em conjunto as teorias higienistas que buscavam medidas de caráter profilático para o âmbito escolar. Yazzle esclarece sobre o período que conforme Penna, o pensamento psicológico brasileiro em suas origens - assim como nossa cultura do século XIX - foi profundamente marcado pelas ideias francesas embebidas pelo positivismo comteano. [...] os primeiros trabalhos da Psicologia no Brasil foram desenvolvidos por profissionais da medicina que, oriundos de uma elite econômica, puderam complementar sua formação intelectual junto a centros de cultura europeus (principalmente a França). Assim, a erudição burguesa, humanista e academicista aí veiculada conduzia ao estudo dos fenômenos psicológicos sob a ótica positivista, enfatizando a observação direta e a possibilidade de experimentação. [...] o modo liberal democrático de pensar a sociedade compreendia que a educação dada pela escola, aberta a todos os segmentos, oferecendo oportunidades iguais para todos os indivíduos, no novo modelo econômico que aos poucos ia se implantando no Brasil, ampliando as diferenças sociais, poderia minimizar os efeitos dos movimentos populares [...]. Para essa mesma autora, o escolanovismo baseava-se nessa ideia liberal de "mito da igualdade de oportunidades" que a escola pode oferecer, negando as diferenças de classe dadas pela constituição sociopolítica do capitalismo. O movimento de Escola Nova encontrou na Psicologia, através dos testes psicológicos e conhecimento sobre inteligência, maturidade e prontidão para aprendizagem, explicações para as diferenças individuais que culpabilizavam o sujeito pela sua condição e ocultavam as desigualdades sociais. Nesse contexto, a Psicologia tinha como foco analisar o processo de desenvolvimento infantil, o olhar para a criança, e seu interesse era constituir-se como campo que aliaria esses conhecimentos no contexto educacional de forma adaptacionista, cuja identificação era a Pedologia, a Puericultura e até a Paidologia ou Paidotécnica (terminologias que se referem ao estudo do desenvolvimento infantil). Assim, o objeto de interesse primordial passava a ser a criança no contexto educacional, e a finalidade, compreender suas características, seu processo de desenvolvimento, utilizando para isso investigações agora não apenas psicométricas, mas também com foco no estudo das influências familiares e contextuais. A influência da Psicanálise foi um exemplo da mudança de foco do pensamento biologicista e puramente clínico-médico para um olhar direcionado às configurações familiares e sua Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br APOSTILAS OPÇÃOEducação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 28 importância naquele contexto. Embora ainda se possa identificar o olhar medicalizante e de ideologia liberal e a influência do movimento de Higiene Mental, pode-se dizer que o foco deixa um pouco de lado apenas o "indivíduo" criança e passa a observar seu entorno, no caso a família. Esse tipo de pensamento também se inseriu no que depois passou a se designar "Psicologia do Escolar", que representava a ênfase no olhar para "o" escolar, ou o estudante, ressaltando a análise individual dos fenômenos escolares e o olhar para a criança no contexto escolar. Nos anos 1960 e 1970 do século XX, podemos dizer que essa "Psicologia do Escolar" com foco na "criança-problema", ou "criança que não aprende", e nos "problemas de aprendizagem" foi a tônica do momento. A marca ainda clara do modelo clínico-médico permanece e busca-se cada vez mais a investigação dos processos "anormais" ou "desviantes", cuja base é a Psicologia do "ajustamento", da Psicologia Diferencial e da Psicopatologia. É por aí que a história da presença da Psicologia na educação começa. Começa medindo aptidões tidas como naturais, e tentando fazer um encaixe perfeito entre as capacidades medidas de Q.I., habilidades específicas etc. e o ensino. Era um raciocínio muito parecido com o da taylorização do processo de produção industrial. Você tem a máquina e a matéria-prima, por exemplo, uma máquina que processa arame, você precisa de fios de arame no diâmetro exato para que aquela máquina possa processá-lo, e você separa os arames mais grossos ou mais finos. Houve um namoro sério da Escola Nova com o taylorismo, tanto lá fora como aqui no Brasil. E essa ideia de ajustamento, digamos assim, entre o processo de ensino e as características do aprendiz. Esta é a concepção de ensino que está na base da educação compensatória. Para o atendimento ou "tratamento" dos "anormais" surgem os serviços de Higiene Mental, Higiene Mental Escolar, Ortofrenia, Ortofrenopedia e Defectologia. Todas essas nomeações tinham como objeto a investigação e tratamento dos denominados "anormais", "retardatários", "excepcionais", "especiais", campo que hoje denominamos Educação Especial. Nesse contexto, o objeto de interesse se desloca para o indivíduo que apresenta algum tipo de "desvio" daqueles considerados "normais". No contexto educativo, era chamado de "criança-problema", "aluno problema", "criança difícil". A finalidade da Psicologia Educacional interessada nessa temática é então constituída com base na identificação e discriminação desses "diferentes", a partir dos instrumentais psicométricos e avaliativos em moda no período. Ao contrário do que parece, o termo "Psicologia Especial", nessa época, não estava relacionado à área que tinha como foco os indivíduos "anormais" ou "especiais"; a Psicologia Especial da época dizia respeito à distinção da Psicologia Geral, indicando o que atualmente designamos áreas específicas (no momento ditas "especiais" da Psicologia). Assim, a Psicologia Educacional fazia parte da Psicologia Especial, assim como a Psicologia Clínica, a Social ou a do Trabalho (eram especialidades). Em outras palavras, o "especial" aqui se referia a um conteúdo "especial", "específico" ou de "especialidade" no interior do grande campo da Psicologia chamado de Psicologia Geral. Além disso, as nomeações Psicotécnica e Psicologia Aplicada indicavam a ênfase no campo prático da Psicologia e, nesse sentido, se destacava a Psicologia Aplicada aos âmbitos escolar, clínico, do trabalho, social etc. A Psicologia Aplicada à Educação também tinha como símiles a Psicologia para pais e professores, a Psicologia da criança, do aluno e da professora e a Psicopedagogia. Especialmente em textos das décadas de 20, 30, 40 e 50 do século XX é que aparecem tais denominações referindo-se especificamente à atuação prática da Psicologia Educacional. Observou-se que, a partir da profissionalização, com a aprovação de lei que regulamentou a profissão de psicólogos no Brasil (Lei N. 4.119 de 27 de agosto de 1962), usam-se mais termos relacionados à Psicologia Aplicada, assim como se perpetuam as terminologias ligadas ao campo de tratamento dos "anormais" e inicia-se o uso da nomenclatura "Psicologia Escolar" nos anos 1970 e 1980. Em meados dos anos 1970 iniciam-se práticas de psicólogos em unidades como prefeituras e centros de atendimento psicológico específico para atendimento escolar (Taverna, 2003). Também à época é característica o crescimento da "Psicologia do Escolar", que mostrava como objeto de interesse o aprendiz e cuja principal finalidade era compreendê-lo para contribuir com seu processo educativo. Mantém-se ainda a primazia do interesse "na" criança que "não aprende" no contexto escolar e nos chamados "anormais" e "crianças-problema", embora as explicações sobre esse não aprender mudem de foco. Com finalidades liberais e ajustatórias, a teoria da carência cultural, nascida nos Estados Unidos como forma de explicação das diferenças individuais entre as minorias pobres, negras e latinas no país, passa a ser amplamente divulgada em nosso país. Segundo Patto: A teoria da carência cultural foi a resposta que o Estado norte-americano deu aos movimentos das minorias raciais, às suas reivindicações de igualdade de liberdade, de fraternidade, de direitos civis, sociais e políticos... [...] A teoria da carência cultural é baseada nisto. [...] [...] Afirmava-se que as crianças negras não aprendiam, não porque fossem geneticamente inferiores, porque depois da Segunda Guerra Mundial e depois do nazi-fascismo ninguém tinha a coragem de afirmar isso explicitamente, mesmo que acreditasse... A teoria da carência cultural parte do princípio de que a inteligência é algo que se pode aumentar pela estimulação ambiental. E os programas de educação compensatória eram isto, era fazer com que crianças supostamente menos capazes de aprender, porque teriam um ambiente muito pobre de estimulação, pudessem ser estimuladas através desses programas para poderem ir bem na escola. Acreditava-se que desta forma se poderia garantir na sociedade norte-americana a igualdade de oportunidades. Mas, por mais que você queira, não é possível instaurar igualdade de oportunidades numa sociedade desigual, não é? Mas as pessoas que trabalharam a teoria da carência cultural e planejaram os programas de educação compensatória não eram mal intencionadas, elas acreditavam nisso, embora esse não seja o caminho. Como diz Yazzle, a Psicologia passa a minimizar os fatores biológicos como explicação dos comportamentos "do escolar" e inicia-se um discurso sobre os fatores ambientais e socioeconômicos como produtores de "déficits comportamentais", para a autora: "caía-se, assim, no determinismo sociológico". E foi apenas a partir da crítica a esse tipo de pensamento que foi possível construir outro conhecimento e prática que pudesse tirar o foco da "criança- problema", que "não aprende", e das finalidades de trabalho junto aos "problemas de aprendizagem" com objetivos ajustatórios ou discriminatórios, para finalmente se pensar nos processos educacionais de um modo mais amplo. Essa crítica principia em meados e final da década 70 do século XX. Nos anos 1980, muitos teóricos passam a criticar o foco na criança, no educando, no olhar que enfatizava o desenvolvimento individual e a utilização de instrumental psicométrico, psicanalítico ou a teoria da carência cultural. A partir da tese de Maria Helena Souza Patto intitulada "Psicologia e Ideologia, reflexões sobre a Psicologia Escolar" de 1981 nota-se uma mudança provocada pela crítica da autora ao pensamento tradicional que até então era dominante no âmbito da Psicologia Educacional e Escolar no país. Muitos pesquisadores acreditam que essa publicação foi um divisor de Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda)- www.apostilasopcao.com.br APOSTILAS OPÇÃO Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 29 águas para a Psicologia Educacional e Escolar no país, dada a sua crítica ter levado a pensar em outros rumos para a área. A partir da crítica empreendida nessa obra e também em outras posteriores, observa-se a mudança no que se refere ao objeto de interesse, às proposições das finalidades e também aos métodos e técnicas de atuação nesse contexto. Cresce a utilização da nomenclatura Psicologia Escolar com vista a se diferenciar da Psicologia Educacional agora entendida como tradicional e representante de todo o pensamento anterior de cunho ajustatório, adaptacionista, discriminatório e que ora assumiu feições biologicistas, medicalizantes, ora defendeu teorias como aquelas oriundas do pensamento higienista e da carência cultural. A chamada Psicologia Escolar, atualmente denominada por alguns autores como Psicologia Escolar Crítica, tem como prerrogativa outras bases de sustentação teórica e metodológica e se caracteriza por propor um olhar para o processo de escolarização e para o contexto sócio-político- cultural em que estão inseridos os processos educativos. Nessa visão, tem-se como objeto de interesse a investigação e intervenção nos contextos educacionais e processos de escolarização. Compreende-se que o "não aprender" está relacionado a toda uma produção do fracasso escolar, cujas origens se referem a uma multiplicidade de fatores intervenientes, incluindo as políticas públicas educacionais, a formação docente, o material didático, a organização do espaço escolar, entre outros. Muitas vezes, esse "não aprender" é materializado/corporificado sob a forma de uma queixa escolar sobre aquele indivíduo "que não aprende". Essa queixa chega ao psicólogo que deve, a partir de então, atuar de forma diferente da anterior, que tinha na investigação psicométrica seu maior instrumental de trabalho. Nessa linha de pensamento, a função do psicólogo escolar é de modo crítico buscar ir às origens e raízes do processo de escolarização, compreender suas diferentes facetas, incluir em seu trabalho uma atuação junto ao aprendiz, aos docentes, à família, à escola, à Educação como um todo e à sociedade em que está inserida. Essa ideia de "crítica" é endossada por outros pesquisadores e profissionais da Psicologia Educacional e Escolar e fortemente divulgada nos anos 1980, 1990 e 2000. Khouri, por exemplo, na obra "Psicologia Escolar”, descreve o novo papel do psicólogo nesse campo de atuação: [...] "o psicólogo escolar atua, em primeiro lugar, de acordo com um papel de educador" afirma Reger, que acrescenta: seu objetivo básico é ajudar a aumentar a qualidade e a eficácia do processo educacional através dos conhecimentos psicológicos. Ele está na escola para ajudar a planejar programas educacionais [...]25. Tanamachi e Meira afirmam que esse campo é uma "[...] área de estudo da Psicologia e de atuação/formação profissional do psicólogo, que tem no contexto educacional - escolar ou extraescolar, mas a ele relacionado -, o foco de sua atenção". As autoras reiteram que o profissional da área, mesmo não atuando diretamente no contexto escolar, tem um compromisso teórico e prático com as questões da escola e da Educação. Ao produzir referências (ciência) ou atuar (profissão) nesse âmbito, o profissional não deve se limitar aos conhecimentos nem da Psicologia, nem da Educação, mas utilizar como base as produções inúmeras e fecundas de outras áreas de conhecimento como a Filosofia, Sociologia, Antropologia etc. De um modo geral, busca-se, a partir dessa nova orientação, novas formas de pesquisa, produção de conhecimentos e atuação que tenham imbricadas as dimensões teóricas e práticas e, sobretudo, práxicas de 25 KHOURI, Y. G. Psicologia Escolar. 13.ed. São Paulo: Summus Editorial, 1984. compromisso éticopolítico com as questões educacionais, escolares e sua melhoria. As publicações analisadas, relacionadas à perspectiva crítica, revelam que o objeto de estudo e a forma de trabalho se ampliou muito desde aquela atuação inicial nos "problemas de aprendizagem" das chamadas "crianças-problema". Para os autores contemporâneos, o trabalho do psicólogo nesse campo é ter como principal tarefa buscar otimizar situações que envolvam os processos de escolarização a partir de uma prática com o coletivo e o individual concomitantemente. Como métodos e técnicas, utilizam-se diferentes estratégicas que atendam às necessidades das instituições escolares, dos educadores, dos educandos e da comunidade escolar como um todo. O profissional pode atuar como profissional dentro da escola ou nos moldes de trabalho externo (consultoria externa). Por outro lado, mesmo que haja uma identificação com esse novo pensamento, ainda encontram-se trabalhos de Psicologia Educacional e Escolar que expressam a influência do modelo clínico de atendimento, cujo foco ainda é individualizante, sobre a "criança que não aprende". Apesar de encontrarmos muitos relatos teóricos e práticos de cunho crítico, por outro lado, ainda se faz presente o pensamento tradicional. Um exemplo é o crescimento da chamada Psicopedagogia que, em termos gerais, revive o movimento psicanalítico e clínico-médico de atenção à criança no contexto educacional e sua família. Também a onda medicalizante tem possibilitado a entrada de diagnósticos médicos para explicações de fenômenos no campo educacional, retomando a visão biologicista. A partir dos anos 2000, cresceram vertiginosamente trabalhos de atendimento clínico a crianças, assim como o encaminhamento para diagnosticá-las e medicá-las a partir de "supostos" transtornos neurológicos. A medicalização e patologização tem sido cada vez mais frequente no discurso educacional. Em conclusão, é possível afirmar que, ao longo do tempo, foram muitos os objetos de estudo, finalidades, métodos e técnicas de investigação e intervenção no campo de conhecimento da Psicologia Educacional e Escolar. Essas modificações ocorreram também devido à mudança acerca da visão de homem, de mundo, de educação, escola e sociedade. Essas distinções estão relacionadas a concepções ideológicas que perpassaram cada momento histórico. Contudo, na década de 1980 já se verificam algumas práticas de psicólogos escolares voltados para a superação do psicologismo, contemplando os determinantes concretos, sociais e históricos das necessidades e dificuldades que envolvem as instituições educacionais. Ampliou-se o modo de olhar e atualmente não apenas se consideram as "dificuldades de aprendizagem do aluno", pensa-se contemporaneamente no fenômeno do "fracasso escolar", das "queixas escolares", dos "problemas de escolarização", objetos de estudo e intervenção mais abrangentes e não individualizantes da questão. As intervenções/ações do psicólogo escolar também passaram a envolver "orientação profissional", "orientação educacional", "orientação a queixas escolares" e "formação docente", ou seja, um trabalho que envolve todos os atores do contexto educativo (alunos, educadores, pais e a comunidade escolar em geral). Embora essas novas proposições não sejam unânimes, elas têm crescido cada vez mais. Com base em todo esse levantamento bibliográfico, pode se dizer que a crise "identitária" da Psicologia Educacional e Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br APOSTILAS OPÇÃO Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 30 Escolar persiste, mas tem tido nova configuração, pois está cada vez mais claro que a denominação, assim como as definições do modo de construção do conhecimento (teoria) e intervenção (prática), seguirá os pressupostos subjacentes à escolha de cada profissional no que se refere às suas bases de pensamento críticas ou tradicionais. Contudo,em nossa compreensão, é preciso se tomar cuidado com essa polarização pura e simples já que, a nosso ver, é importante que possamos não esquecer a contribuição histórica de certas teorias e práticas que deram sustentação inicial e contribuíram para erigir esse campo de conhecimento. Em outras palavras, exige-se um "dialetizar" dessas dicotomizações de modo a melhor compreendê-las. É por isso que adotamos a terminologia Psicologia Educacional e Escolar, para manter nossa consideração à história desse campo de conhecimento, que no nosso entendimento é amplo, multifacetado, e que tanto deu contribuições relevantes para o campo educacional, como favoreceu a discriminação e o preconceito. Consideramos que é essencial que possamos, a partir do conhecimento da história, compreendermos nossas escolhas no presente de modo a construir um novo futuro. E essa construção é a cada dia, a cada passo, como afirma Guzzo: "Trazendo as palavras de Fagan, tornar-se psicólogo escolar é nunca chegar a ser psicólogo escolar, pois para responder às mudanças sociais no contexto educacional, nunca se está pronto... é preciso que se construa a cada dia". Talvez devamos pensar que esse é um caminho interessante, o do movimento, o de sempre se reinventar, pois, a cada passo da estrada, novos horizontes são avistados, o que exige outras formas de caminhar e seguir. E devemos, ao invés de procurar uma definição, nomeação ou denominação definitiva, estarmos abertos às múltiplas possibilidades que ainda não construímos. Não tenhamos a pretensão de que fique pronta nossa "edição convincente" para não estarmos fechados às mudanças e transformações necessárias. Aspectos Psicológicos da Educação A relação desenvolvimento / aprendizagem: diferentes abordagens Aguiar26 aponta, que a partir das pesquisas e concepções difundidas por grandes pensadores como o psicólogo suíço Jean Piaget, o soviético, Lev Vygotsky, a argentina, Emília Ferreiro e o francês, Henri Wallon eclodiu o interesse de estudos sobre o processo de funcionamento da inteligência e aquisição do conhecimento. Embora, as teorias desses estudiosos do comportamento humano apresentem alguns aspectos divergentes, evidenciam-se em suas obras um alto grau de aproximação e inter-relacionamento. Inicialmente, é considerável afirmar que Piaget não intencionou formular considerações pedagógicas através dos seus estudos. Ele tentou comprovar que a criança raciocina mediante estruturas lógicas próprias que evoluem conforme faixas etárias estabelecidas. Na visão de Piaget, as operações cognitivas são ações interiorizadas de onde se conclui que o conceito de ação passa pelas manifestações da inteligência ao longo do desenvolvimento, desde suas formas primitivas as mais avançadas e abrangentes. Nesse foco, a criança só pode conhecer ou construir seus conhecimentos, através da ação individual que exerce sobre os objetos. Cada vez que ensinamos prematuramente a uma criança alguma coisa que poderia ter descoberto por si mesma, esta criança foi impedida de inventar e consequentemente de compreender completamente. Isso obviamente não significa 26 AGUIAR, G. Concepções de Ensino-aprendizagem.2010. que o professor deve deixar de inventar situações experimentais para facilitar a invenção do seu aluno? Posteriormente, a psicolinguística argentina, Emília Ferreiro deslocou o foco de investigação do como se ensina para o como se aprende, colocando a criança como sujeito central da aprendizagem, sujeito ativo que elabora hipóteses sobre o funcionamento da linguagem escrita em seu contexto social. De acordo com as preposições de Ferreiro há alunos que ingressam na língua escrita por meio da magia (uma magia cognitivamente desafiante) e alunos que entram na língua escrita pelo treino de habilidades básicas. Em geral, as primeiras se tornam leitoras; as outras têm um destino incerto? Nessa perspectiva, Ferreiro também alega que a aprendizagem da leitura e da escrita não está limitada à sala de aula. Ressalta ainda que, o processo de alfabetização é iniciado muito antes da criança entrar na escola. Em suma, a alfabetização deixa de ser saber exclusivo da ação pedagógica. O processo inicial da aprendizagem é explicado também por variáveis sociais, culturais, políticas e psicolinguísticas. É relevante observar que, os estudos de Emília Ferreiro e seus colaboradores partiram do pressuposto que a criança é capaz de criar hipóteses, testá-las e constituir sistemas interpretativos na busca de compreensão do mundo que a cerca. Complementa a autora, que não existe ponto zero da aprendizagem escrita; a criança sempre apresenta um conhecimento prévio que o sujeito reestrutura a partir de um processo de acomodação e assimilação mental. “Os alunos são facilmente alfabetizados desde que descubram, através de contextos funcionais, que a escrita é um objeto interessante que merece ser conhecido (como tantos outros objetos da realidade aos quais dedicam seus melhores esforços intelectuais).” É oportuno salientar que, apesar de Piaget e Vygostky explicitarem visões distintas, ambos podem perfeitamente dialogar por partirem do mesmo pressuposto: o desenvolvimento humano é desencadeado mediante as relações recíprocas e contínuas entre sujeito e objeto, meio físico e social. Nesse sentido, Vygostky fundamenta-se por um cunho sócio histórico, salientando a importância das interações entre sujeito e objeto, explicitando que a ação do sujeito sobre o objeto passa essencialmente pela mediação social. É notório no conceito de Piaget que, a criança é fundamentalmente ativa. Na percepção Vygotskyana, a criança além de apresentar- se ativa, é sobretudo interativa. Nesse prisma, a teoria sócio histórica define o conhecimento como uma construção social que é resultado da apropriação do sujeito, dos saberes, das produções culturais da sociedade pela inter-relação e mediação da própria sociedade. Desde o nascimento as crianças estão em constante interação com os adultos, que ativamente procuram incorporá-las a sua cultura e à reserva de significados e de modos de fazer as coisas que se acumulam historicamente. No começo, as respostas que as crianças dão ao mundo são dominadas pelos processos naturais, especialmente àqueles proporcionados por sua herança biológica. Mas através da constante mediação dos adultos, os processos psicológicos instrumentais mais complexos começam a tomar forma (...). Faz-se necessário refletir sobre o conceito de aprendizagem postulado por Vygotsky. Para ele, a linguagem humana é o instrumento fundamental para a mediação do sujeito e o objeto do conhecimento. Pois ao longo do desenvolvimento do indivíduo, a linguagem é internalizada através das interações sociais, e passa a funcionar como instrumento imprescindível de organização do conhecimento. Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br APOSTILAS OPÇÃO Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 31 Nesse aspecto, acrescenta o autor que, o professor deve agir e pensar de forma ampla, compreendendo que o conhecimento é um conjunto de capacidades ativadas: observação, atenção, memória, raciocínio etc.; e que o aperfeiçoamento de uma destas capacidades significa o melhoramento das capacidades em geral. Assim, concentrar a capacidade de atenção na leitura e compreensão de texto implica em melhorar a capacidade de atenção sobre qualquer disciplina ou temática. Outras contribuições bastante significativas na compreensão do processo ensino-aprendizagem são as valorosas pesquisas destinadas a professores e gestores da educação concebidas por Henri Wallon, autor da Teoria do Desenvolvimento. Em sua teoria, Wallon priorizou conceitos importantes que nortearão um processo pedagógico mais produtivo e satisfatório para o aluno. Esses conceitosenvolvem: integração, integração organismo-meio e integração dos conjuntos funcionais-emoção, sentimento e paixão. Ou seja, o papel da afetividade nos diferentes estágios. A compreensão e a afetividade do professor na prática pedagógica são recursos fundamentais para a eficácia do ensino nos anos iniciais. A relação interpessoal professor- aluno é determinante, para desenvolver aprendizagens significativas. Desse modo, é extremamente importante perceber que, para o professor atingir seus objetivos, faz-se preciso: confiar na capacidade do aluno; promover constantemente o próprio desenvolvimento; desenvolver diferentes saberes, entre eles, habilidades de relacionamento pessoal e conteúdos culturais. Estes saberes são conhecimentos construídos ao longo do tempo e através da socialização familiar e escolar. Nesse contexto, Wallon adverte que, o desenvolvimento humano é estabelecido sob o foco do potencial genético combinado com vários fatores ambientais. Dessa forma, a ênfase da teoria do desenvolvimento é justamente a interação da criança com o meio. Em linhas gerais, é claramente perceptível que o pensamento de Wallon propõe um relacionamento bastante proximal com as ideias de Vygotsky. O meio é um complemento indispensável ao ser vivo. Ele deverá corresponder às suas necessidades e as suas aptidões sensórios-motoras, depois psicomotoras. Não é mesmo verdadeiro que a sociedade coloca o homem em presença de novos meios, novas necessidades e novos recursos que aumentam a possibilidade de evolução e diferenciação individual. A constituição biológica da criança ao nascer não será a única do seu destino (...) Os meios em que vive a criança e aqueles com que ela sonha constituem a forma que amolda sua pessoa (...). A teoria Walloniana insere em suas fundamentações pontos relevantes como o afeto e a emoção. Sendo que, os processos afetivos são estados que despertam sensações de prazer ou desprazer. Já a emoção caracteriza-se como um estado afetivo que comporta sensações de bem-estar ou mal- estar, que tem um início, é ligado a uma situação de duração relativamente breve e inclui ativação orgânica. Do ponto de vista Walloniano, emoção é a exteriorização da afetividade que desencadeia várias expressões: corporal, motora e fisiológica. É o primeiro recurso de ligação entre o orgânico e o social. A emoção promove os primeiros vínculos com o mundo humano e através dele com o mundo físico. Sucintamente, emoção é uma forma concreta de participação mútua. É sobretudo, instrumento de socialização. A emoção é determinante na evolução mental: a criança corresponde a estímulos musculares, viscerais e externos. Em síntese, observa-se que o processo de desenvolvimento e aprendizagem do ser humano é um tema amplo, mutável e 27 RABELLO, E.T. e PASSOS, J. S. Vygotsky e o desenvolvimento humano. Em <http://www.josesilveira.com> complexo. Este envolve várias compreensões sobre a natureza humana: dimensão genética; aspectos sócio-histórico- culturais; fatores afetivos e estímulos; interação e medição da construção do conhecimento. Face às proposições referidas por esses autores, conclui-se que as concepções definidas iluminam diferentes aspectos no cotidiano escolar trazendo consigo contribuições valorosas que poderão auxiliar professores e gestores educacionais a refletir sobre a complexa temática ensino-aprendizagem, bem como nortear e redirecionar as práticas escolares. Atenta-se ainda que, a melhor forma de promover um processo de alfabetização e letramento exitoso é oportunizar as crianças um espaço alfabetizador lúdico, onde o aluno possa interagir com o outro e com o objeto mediado pelo olhar atento e comprometido do professor. A construção do pensamento e da linguagem No livro, “A construção do pensamento e da linguagem”27, Vygotsky estuda questões fundamentais do pensamento infantil, formula concepções inteiramente novas para a época em que o escreveu, articula seu pensamento em um bem tramado aparato conceitual e sedimenta o processo infantil de aquisição da linguagem e do conhecimento com um sistema de categorias bem definidas, subordinando todo o seu trabalho a uma clara orientação epistemológica. Para o autor A linguagem é, antes de tudo, social. Portanto, sua função inicial é a comunicação, expressão e compreensão. Essa função comunicativa está estreitamente combinada com o pensamento. A comunicação é uma espécie de função básica porque permite a interação social e, ao mesmo tempo, organiza o pensamento. Para Vygotsky, a aquisição da linguagem passa por três fases: a linguagem social, que seria esta que tem por função denominar e comunicar, e seria a primeira linguagem que surge. Depois teríamos a linguagem egocêntrica e a linguagem interior, intimamente ligada ao pensamento. A linguagem egocêntrica A progressão da fala social para a fala interna, ou seja, o processamento de perguntas e respostas dentro de nós mesmos – o que estaria bem próximo ao pensamento, representa a transição da função comunicativa para a função intelectual. Nesta transição, surge a chamada fala egocêntrica. Trata- se da fala que a criança emite para si mesmo, em voz baixa, enquanto está concentrado em alguma atividade. Esta fala, além de acompanhar a atividade infantil, é um instrumento para pensar em sentido estrito, isto é, planejar uma resolução para a tarefa durante a atividade na qual a criança está entretida. A fala egocêntrica constitui uma linguagem para a pessoa mesma, e não uma linguagem social, com funções de comunicação e interação. Esse “falar sozinho” é essencial porque ajuda a organizar melhor as ideias e planejar melhor as ações. É como se a criança precisasse falar para resolver um problema que, nós adultos, resolveríamos apenas no plano do pensamento / raciocínio. Uma contribuição importante de Vygotsky, descrita no livro, é o fato de que, por volta dos dois anos de idade, o desenvolvimento do pensamento e da linguagem – que até então eram estudados em separado – se fundem, criando uma nova forma de comportamento. Este momento crucial, quando a linguagem começa a servir o intelecto e os pensamentos começam a oralizar-se – a fase da Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br APOSTILAS OPÇÃO Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 32 fala egocêntrica – é marcado pela curiosidade da criança pelas palavras, por perguntas acerca de todas as coisas novas (“o que é isso?”) e pelo enriquecimento do vocabulário. O declínio da vocalização egocêntrica é sinal de que a criança progressivamente abstrai o som, adquirindo capacidade de “pensar as palavras”, sem precisar dizê-las. Aí estamos entrando na fase do discurso interior. Se, durante a fase da fala egocêntrica houver alguma deficiência de elementos e processos de interação social, qualquer fator que aumente o isolamento da criança, iremos perceber que seu discurso egocêntrico aumentará subitamente. Isso é importante para o cotidiano dos educadores, em que eles podem detectar possíveis deficiências no processo de socialização da criança. Discurso interior e pensamento O discurso interior é uma fase posterior à fala egocêntrica. É quando as palavras passam a ser pensadas, sem que necessariamente sejam faladas. É um pensamento em palavras. Já o pensamento é um plano mais profundo do discurso interior, que tem por função criar conexões e resolver problemas, o que não é, necessariamente, feito em palavras. É algo feito de ideias, que muitas vezes nem conseguimos verbalizar, ou demoramos ainda um tempo para achar as palavras certas para exprimir um pensamento. O pensamento não coincide de forma exata com os significados das palavras. O pensamento vai além, porque capta as relações entre as palavras de uma forma mais complexa e completa que a gramáticafaz na linguagem escrita e falada. Para a expressão verbal do pensamento, às vezes é preciso um esforço grande para concentrar todo o conteúdo de uma reflexão em uma frase ou em um discurso. Portanto, podemos concluir que o pensamento não se reflete na palavra; realiza-se nela, a medida em que é a linguagem que permite a transmissão do seu pensamento para outra pessoa. Finalmente, cabe destacar que o pensamento não é o último plano analisável da linguagem. Podemos encontrar um último plano interior: a motivação do pensamento, a esfera motivacional de nossa consciência, que abrange nossas inclinações e necessidades, nossos interesses e impulsos, nossos afetos e emoções. Tudo isso vai refletir imensamente na nossa fala e no nosso pensamento. O pensamento e a fala unem-se em pensamento verbal. Neste significado há um sentido cognitivo e um afetivo, que sempre estão intimamente entrelaçados. Para Vygotsky, a criança se inscreve desde os seus primeiros dias num sistema de comportamento social em que suas atividades adquirem significado. Sua relação com o ambiente se dá por meio da relação com outras pessoas, situação em que é oferecido a ela um conjunto de acepções, já culturalmente enraizado no grupo em que ela foi inserida. Os significados, por sua vez, são interiorizados ao longo de seu processo de desenvolvimento, culminando com o aparecimento do pensamento verbal. Assim, o pensamento verbal - síntese entre a atividade prática e a fala - é uma forma de comportamento que se circunscreve num processo histórico-cultural e suas características e propriedades não podem ser vislumbradas nas formas naturais da fala e do pensamento. A formação de conceitos, crescimento e desenvolvimento: o biológico, o psicológico e o social28. Cada estágio da vida oferece ao indivíduo desafios importantes para o seu desenvolvimento. O ser humano está em constante processo de aprendizagem e essa não ocorre de 28 MELLO, E.F.F.; TEIXEIRA, A.C. A interação social descrita por Vygotsky e a sua possível ligação com a aprendizagem colaborativa através das tecnologias de rede.2012. forma isolada. São inúmeros os fatores, tanto biológicos, quanto sociais ou históricos que influenciam na formação do sujeito, mas que isoladamente não determinam a sua constituição. Como afirma Vygotsky "o comportamento do homem é formado por peculiaridades e condições biológicas e sociais do seu crescimento". Pode-se dizer que desde o nascimento, o homem já é um ser social em desenvolvimento e todas as suas manifestações acontecem porque existe um outro social. Mesmo, quando ainda não se utiliza da linguagem oral, o sujeito já está interagindo e se familiarizando com o ambiente em que vive. No mesmo sentido, a aprendizagem não acontece de maneira isolada, o indivíduo participante de um grupo social, ao conviver com outras pessoas efetua trocas de informações e, desta forma, vai construindo o seu conhecimento conforme seu desenvolvimento psicológico e biológico lhe permite. Para Vygotsky, a história do desenvolvimento das funções psicológicas superiores seria impossível sem um estudo de sua pré história, de suas raízes biológicas, e de seu arranjo orgânico. As raízes do desenvolvimento de duas formas fundamentais, culturais, de comportamento, surge durante a infância: o uso de instrumentos e a fala humana. Isso, por si só coloca a infância no centro da pré-história e do desenvolvimento cultural. A partir da abordagem do autor, é possível observar que a interação tem papel fundamental no desenvolvimento da mente. A partir da interação entre diferentes sujeitos se estabelecem processos de aprendizagem e, por consequência, o aprimoramento de suas estruturas mentais existentes desde o nascimento. Neste processo, o ser humano necessita estabelecer uma rede de contatos com outros seres humanos para incrementar e construir novos conceitos. O outro social, se torna altamente significativo para as crianças que estão no auge do seu desenvolvimento, uma vez que assume o papel de meio de verificação das diferenças entre as suas competências e as dos demais, para, a partir deste processo, formular hipóteses e sintetizar ideias acerca desses laços constituídos, tornando um processo interpessoal, num processo intrapessoal. Ao tratar das funções psicológicas superiores no desenvolvimento da criança, Vygotsky as classifica em dois momentos: Primeiro no nível social, e, depois, no nível individual; primeiro entre pessoas (interpsicológica), e, depois, no interior da criança (intrapsicológica). Isso se aplica igualmente para atenção voluntária, para a memória lógica e para a formação de conceitos. Todas as funções superiores originam- se das relações reais entre indivíduos humanos. É importante que a criança, ao estabelecer esta comunicação, já se sinta parte do mundo e que dele participe ativamente. Afinal, o conhecimento não está no sujeito nem no objeto, mas na interação entre ambos. Agindo sobre os objetos e sofrendo a ação destes, o homem vai ampliando a sua capacidade de conhecer, ou seja, de vivenciar processos de aprendizagem. Nesta dinâmica, é possível apontar que o sujeito é um elemento ativo no processo de construção do seu conhecimento pois, conforme estabelece relações e se comunica, desenvolve-se cultural e socialmente, constituindo- se como indivíduo ativo. Sobre isto, Rogoff estabelece que o aprendizado acontece a partir da apropriação participatória: O conceito de apropriação participatória se refere a como indivíduos mudam através de seu envolvimento em uma ou outra atividade. Com a participação guiada como processo interpessoal através do qual as pessoas são envolvidas na atividade sociocultural, a apropriação participatória é o processo pessoal pelo qual, através do compromisso em uma atividade, os indivíduos mudam e controlam uma situação posterior de maneiras Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br APOSTILAS OPÇÃO Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 33 preparadas pela própria participação na situação prévia. Esse é o processo de apropriação, e não de aquisição. Assim como teoriza Vygotsky, acerca da natureza social do ser humano que o acompanha desde seu nascimento, Rogoff aprofunda a teoria afirmando que através da apropriação participatória os envolvidos estabelecem novas condição para aquela situação. Ou seja, estabelecem conexões conforme as necessidades do grupo, dinâmica natural uma vez que todos os processos biológicos e sociais se organizam em uma lógica reticular, assumindo-se como uma pessoa que se comunica com outras e que, com estas, estabelece relações conforme seu interesse. O ser humano não vive isolado, ele participa de diferentes ambientes. Os grupos reúnem seus integrantes em torno de um objetivo comum e as pessoas geralmente participam desses porque se sentem acolhidas, porque percebem que naquele grupo sua presença é importante, então, pode-se afirmar que a comunicação cria vínculos e é fundamental para que os indivíduos se efetivem como ser social. Antes de ingressar na escola, a criança participa do grupo familiar, e de grupos ligados à família. Mas é no ambiente escolar que este processo de interação em grupo se intensifica. A frequência de encontros faz com que a experiência seja diferenciada de qualquer outra vivenciada até então, imputando à escola o status de espaço legítimo de construção e partilha de conhecimentos. Nela, a interação é constante, mesmo quando não mediadas pelo educador se consolidam aprendizagens que não constam nos currículos escolares. Pozo salienta que "possivelmente em toda atividade ou comportamento humano se está produzindo aprendizagem em maior ou menor dose." Então, mesmo na ausência de um objetivo claro de ensinar algo, as interações informais e assistemáticasentre os alunos podem leva-los a um novo aprendizado. Fundamentos da Educação: Psicologia29 Os próprios títulos das obras de Jean Piaget põem em evidência a significação que a sua doutrina científica reveste para a didática. A génese do número na criança, O desenvolvimento das quantidades na criança, A geometria espontânea da criança, são todos títulos que deixam entrever um material rico em observações e reflexões que se prestam a uma aplicação imediata ao ensino – impressão que vem confirmar o estudo mais aprofundado desta grande obra psicológica. A psicologia de Jean Piaget é genética. Não se limita a estudar as reações características do adulto, ou de um período isolado da infância, uma vez que analisa a própria formação das noções e operações no decurso do desenvolvimento da criança. Daí resulta não somente uma compreensão aprofundada dos estados finais do desenvolvimento mental, mas também um conhecimento preciso dos seus mecanismos de formação. Ora é evidente que estes últimos interessam ao didata ao mais alto nível. Porque este não aponta a outro alvo senão ao de provocar de maneira consciente e sistemática os processos de formação intelectual, que a psicologia genética, pelo seu lado, estuda na atividade espontânea da criança. E não poderia pôr-se em dúvida que o conhecimento exato destes processos é absolutamente necessário quando nós nos propomos provocá-los através de situações de aprendizagem e de atividades escolares apropriadas. Em segundo lugar, a psicologia de Jean Piaget analisa, com particular sucesso, as funções mentais superiores, a saber: as noções, operações e representações cujo conjunto constitui o pensamento humano. Ora, neste caso, esta psicologia responde ainda a uma necessidade precisa, porque os problemas 29 Rogalski, J. A “Didática psicológica. Aplicação à didática da psicologia de Jean Piaget” de Aebli: uma abordagem e um autor esquecidos. Laboreal. 2014. didáticos mais difíceis não dizem respeito à aquisição de hábitos, de automatismos ou de outros mecanismos primitivos, mas à formação de noções, de representações complexas e de operações constituindo sistemas de conjunto (tabuada da multiplicação, regras da gramática, etc.). Ora, é também bem evidente que só uma psicologia tal como a de Jean Piaget, que fornece uma análise precisa das operações mentais e dos seus grupos e agrupamentos, pode fornecer os conceitos necessários para a solução de semelhantes problemas didáticos: as doutrinas centradas nas funções elementares tais como a motricidade, a percepção ou a associação não esclarecem as reações psíquicas mais complexas. É uma didática geral a que aqui apresentamos ao leitor: estuda as características fundamentais dos processos formativos e daí deduz os princípios metodológicos sobre os quais deve assentar o ensino de todas as áreas fundamentais. Ainda que fornecêssemos um grande número de exemplos concretos, retirados mais frequentemente do ensino primário, não se encontraria neste livro a didática completa de nenhuma área do ensino. Propusemo-nos, pelo contrário, definir as noções fundamentais e o quadro geral comuns a todas as didáticas específicas. Admitiríamos que esta metodologia teria cumprido a sua função, se se demonstrasse que pode servir para ordenar melhor o tão complexo domínio da didática, se as teses emitidas nas partes psicológica e didática incitassem outros investigadores a empreender novas experiências ou se os professores primários que os lessem adquirissem algumas ideias novas para o seu trabalho prático. Tendo nós próprios ensinado no primário e no secundário, cremos saber o que o praticante espera de uma obra didática: além dos princípios pedagógicos gerais, são exemplos concretos mostrando exatamente como o autor entende proceder, e isto em situações escolares reais que frequentemente só oferecem possibilidades muito limitadas de realização, face aos postulados da nova escola. É por razões destas que empreendemos numerosas experiências didáticas destinadas a verificar como e com que sucesso as nossas propostas podem ser postas em prática nas condições escolares correntes. Publicamos, além disso, na parte experimental desta obra os protocolos detalhados das lições que demos no quadro de uma dessas experiências. Pedimos desculpa se essas descrições parecem um pouco longas a um ou outro dos nossos leitores: elas não são reproduzidas apenas para permitir a outros investigadores repetir e verificar a nossa experiência, mas ainda e sobretudo para mostrar aos nossos colegas do ensino como concebemos a realização prática dos nossos princípios didáticos. O próprio Piaget sugeriu-nos que escrevêssemos este trabalho; as suas considerações e conselhos foram da maior utilidade ao longo de toda a sua realização. Além disso, permitiu-nos designar este livro como uma aplicação à didática da sua psicologia. Queira, portanto, Piaget aceitar a presente obra, não somente como uma nova confirmação do valor da sua doutrina psicológica, mas também como um sinal do nosso profundo reconhecimento pela confiança e pelo encorajamento que nunca cessou de nos testemunhar. A contribuição da psicologia para a solução de problemas didáticos O que é de facto a didática? É uma ciência auxiliar da pedagogia na qual esta última delega, para as realizações de pormenor, as tarefas educativas mais gerais. Como levar o aluno a adquirir tal noção, tal operação ou tal técnica de trabalho? São esses os problemas que o didata procura Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br APOSTILAS OPÇÃO Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 34 resolver fazendo apelo ao seu conhecimento psicológico das crianças e dos seus processos de aprendizagem. Existe assim uma didática da aritmética, dos trabalhos manuais, do canto, etc.; todavia limitaremos o presente estudo às aquisições intelectuais, referindo-nos ainda – obviamente – aos outros aspetos da vida psíquica, na medida em que constituem condições ou consequências da formação intelectual. A fim de aclarar a contribuição que a psicologia pode proporcionar à solução dos problemas didáticos, comecemos por nos interrogar como são geralmente determinadas as tarefas da didática. Em quase todos os programas escolares, tais tarefas são definidas em termos de noções a adquirir: noções de geografia, de física, de aritmética, etc. Eis as “matérias” que o aluno deve “aprender”, que deve assimilar para as “conhecer”. Mas, que significa conhecer um objeto como “a alavanca” ou uma noção como “a fração ordinária”? Será a capacidade de apresentar uma definição? É evidente que não. Dir-se-á então que o aluno deve possuir uma representação da alavanca, imaginar o mecanismo do seu funcionamento? Talvez; mas ainda falta explicitar o que se entende exatamente quando se diz que a criança deve adquirir esta ou aquela representação. No domínio do pensamento matemático, o problema é o mesmo. Que significa possuir a noção de fração ordinária? Quando é que pode afirmar-se que ela foi adquirida pela criança? O educador desprevenido acredita, por vezes, que a aquisição está concluída quando os alunos são capazes de resolver os problemas que impliquem as noções e as operações em questão. Ora, frequentemente o fracasso total da turma perante um problema colocado sob um formato pouco habitual evidencia que as crianças nem sequer assimilaram a noção e que usam simplesmente um “truque”. O problema didático assim colocado é de ordem geral. Traduz o facto de que as “matérias” (factos, noções, etc.), inicialmente de algum modo exteriores ao espírito da criança, devem tornar-se elementos do seu pensamento. Sem analisar ainda esse processo de aquisição, é preciso definir-lhe o resultado desejado, que se exprime dizendo que a criança “conhece o facto” ou que “adquiriua noção”. É esse o primeiro problema importante que se coloca a qualquer didática. Incumbe, sem dúvida, à psicologia do pensamento responder-lhe com um máximo de autoridade. Mas há mais. Qualquer didática deve definir, e define de facto, não somente como os alunos “conhecem” certa matéria mas também como a “aprendem”. Tomemos o exemplo de um pedagogo para quem a noção de fração é uma imagem mental, depositada, como que por impressão fotográfica, no espírito dos alunos. Com o objetivo de provocar esse processo, apresentará à turma imagens de círculos divididos em sectores que pendurará nas paredes da sala durante um período prolongado e que mandará copiar, colorir, etc. Este exemplo ilustra uma das soluções (aliás, falsa, como nos esforçaremos por mostrar a seguir) dadas a um segundo problema didático que apela para uma solução psicológica: a de determinar com precisão a natureza dos processos de aquisição pelos quais a criança assimila os factos e as noções. À didática incumbe, além disso, o cuidado de estudar as condições mais favoráveis a esses processos de formação. Ainda aí enfrentamos um campo muito amplo de problemas psicológicos que levantam as questões da necessidade, do interesse, da atenção, da organização social da atividade escolar. O professor primário apoia-se no seu conhecimento psicológico da criança para ter em conta essas condições nos seus ensinamentos. A didática científica atribui-se como tarefa deduzir do conhecimento psicológico dos processos de formação intelectual as medidas metodológicas mais aptas a provocá- los. Tal relação entre a didática e a psicologia não se estabelece senão raramente duma maneira consciente e direta. E, todavia, qualquer método de ensino é solidário com uma psicologia da criança e do seu pensamento, frequentemente não explicitada, é verdade, mas tacitamente pressuposta. A análise atenta de uma metodologia, e mesmo de simples práticas didáticas em uso nas escolas, revela bastante facilmente as concepções psicológicas subjacentes. Estas considerações sugeriram-nos, para esta obra, o plano seguinte: começaremos por estudar a solução dada ao problema da formação das noções e operações pela didática do século XIX. Depois, tentaremos mostrar que esta metodologia é solidária com a psicologia e a filosofia “sensualista- empirista” em voga na mesma época. Numa segunda secção da parte histórica passaremos em revista algumas teorias reformadoras do século XX e os seus fundamentos psicológicos, nomeadamente diversos movimentos pedagógicos habitualmente agrupados sob a designação de teorias da “escola ativa”. Numa terceira parte consideraremos certos aspetos da psicologia de Jean Piaget que nos parece poderem servir de base a princípios metodológicos, cuja exposição constituirá o conteúdo dos capítulos seguintes. Finalmente, ilustraremos as nossas sugestões com a descrição de uma experiência didática que nós mesmo conduzimos nas escolas públicas do cantão de Zurique. Questões 01. (SEDUC-RO- Analista Educacional- Psicólogo- IBADE/2016) A relação entre a Psicologia e a educação teve sua trajetória marcada por diversas polêmicas. Uma delas se refere ao fato de: (A) os conteúdos trabalhados no campo da educação não estarem interligados aos estudos desenvolvidos pelo campo da psicologia. (B) a escola sempre esperar que o profissional da Psicologia resolva os problemas da criança que não aprende ou que apresenta comportamentos agressivos. (C) que a tendência a abordar os fenômenos humanos segundo o paradigma da complexidade de Morin não contempla as dificuldades enfrentadas no âmbito escolar. (D) que o ensino de Psicologia limita-se ao estudo do indivíduo, dificultando o entendimento de sua inserção no contexto escolar. (E) que frente à demanda de uma educação técnica, a função das ciências humanas não é a formação de um senso crítico, emancipador, inovador, criador e humanizado. 02. (IF-CE- Psicólogo- IF-CE) Acerca do trabalho do psicólogo no campo da educação. Marque a opção incorreta: (A) O psicólogo escolar deve considerar a dinâmica em que o aluno está inserido, integrando aos contextos familiares e comunitários. (B) A presença do psicólogo no contexto escolar tem sofrido resistências, muitas vezes implícita, por parte de outros atores da realidade escolar. (C) A Psicologia Escolar é um campo de atuação restrito à aplicação dos saberes da Psicologia da Aprendizagem e do Desenvolvimento. (D) A escola é o contexto privilegiado de atuação do psicólogo escolar. (E) O psicólogo escolar pode realizar pesquisas e participar da elaboração de planos e políticas educacionais. 03. (TJ- ES- Analista Judiciário- Pedagogia- CESPE) Para compreender as contribuições do pensamento de Vygotsky para a educação, é necessário que se faça uma breve consideração acerca dos fundamentos filosóficos subjacentes a suas ideias. Vygotsky construiu uma psicologia marxista, buscando as bases dessa teoria para explicar a formação da mente. ( ) Certo ( ) Errado Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br APOSTILAS OPÇÃO Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 35 04. (IF-CE- Psicólogo- IF-CE) Marque a opção incorreta: (A) Classicamente, a Psicologia Educacional pode ser definida como uma subárea da psicologia responsável pela produção de saber acerca dos fenômenos psicológicos presentes no processo educativo. (B) Numa perspectiva da história das ideias, encontraríamos na educação jesuítica a presença de conhecimentos psicológicos aplicados. (C) No Brasil, historicamente, os Cursos Normais foram importante locus de desenvolvimento da relação psicologia e educação. (D) A Psicologia Escolar Crítica se sistematiza com a adoção da Teoria da Carência Cultural. (E) A relação entre psicologia e educação no escolanovismo é marcada pelo uso de testes psicológicos e teorias sobre inteligência e aprendizagem para justificar diferenças individuais, responsabilizando o sujeito. Respostas 01. B A maioria das vezes, as escolas, públicas ou particulares, tendem a compreender o trabalho dos psicólogos no contexto escolar como algo focalizado na "criança problema" e em um possível diagnóstico psicológico. O que muitas dessas escolas não sabem é que o trabalho dos psicólogos vão além de um acompanhamento individual. Sua atuação vai desde a produção do PPP (Projeto Político Pedagógico) da escola até a construção do vínculo com os outros profissionais e com os pais das crianças. 02. C A Psicologia Escolar não se restringe aos saberes da Psicologia da Aprendizagem e do Desenvolvimento, ao contrário aplica saberes de diversas áreas da psicologia. 03. Certo Para o autor, a psicologia tem como base epistemológica o materialismo dialético de Karl Max, investigando os processos psicológicos humanos, como relevo em sua dimensão histórica e não natural. Extrai do marxismo a ideia de que o ser humano é uma realidade concreta e sua essência é construída nas relações sociais. 04.D Teoria da Carência Cultural. - Coloca as dificuldades escolares como externas à dinâmica da escola. Isso não é condizente com o que preconiza a Psicologia Escolar Crítica, que vem a romper com isso. O movimento de crítica fortaleceu-se no campo da Psicologia Escolar e atualmente podemos considerar que temos, no Brasil, um conjunto de trabalhos de intervenção e de pesquisa que: a) rompe com a culpabilização das crianças, adolescentes e suas famílias pelas dificuldades escolares; b) constrói novos instrumentos de avaliação psicológica e de compreensão da queixa escolar; c) articula importantes ações no campo da formação de professores e de profissionais de saúde. Educação – Função Social Introdução Estamos vivendo um momento de profundas transformações. A sociedade atual encontra-se em profunda30 UNESCO. Disponível em: <http://unesdoc.unesco.org crise, na qual somos remetidos a repensar nossos valores e atitudes frente ao conceito de educação. A educação faz parte da nossa vida, ninguém está isento dela, estamos envolvidos para aprender e ensinar, e a escola surge como instituição formadora de indivíduos. Para que essa transformação social ocorra é necessário que a escola impõe o conhecimento, nesse caso a educação é e sempre foi um duplo processo, que significa a atividade desempenhada pelos adultos para assegurar a vida e o desenvolvimento de gerações futuras, e para despertar e fazer crescer as suas habilidades, e nesse caso a escola é vista como uma instituição, ou seja, um conjunto de normas e procedimentos padronizados, e valorizados pela sociedade, cujo objetivo principal é a socialização do indivíduo e a transmissão de determinados aspectos da cultura. Reflexões sobre o papel da educação Há muitas reflexões importantes a fazer, quando se fala no conceito de educação para a sociedade. Começa na inserção da escola na comunidade, com formação de espíritos críticos, o envolvimento da escola nos projetos de transformação social, a aproximação entre teorias e práticas, entre ideias e realidades, entre o conhecimento e a existência real do estudante, entre educação e vida, que evidenciam a urgente necessidade de repensar várias coisas relacionadas a educação. Diante tais situações, são muitas as vozes que reivindicam a importância da educação para enfrentar os desafios. Em todo mundo, a educação hoje é uma prioridade nos programas de quase todos os partidos políticos. De fato, umas das principais funções da escola sempre foi a de preparar as novas gerações para as mudanças e garantir uma melhor inserção no mundo profissional e no mercado de trabalho. Devemos perguntar o que significa hoje pedir mais educação. Por um lado, essas mudanças introduzidas pela sociedade da informação e do conhecimento fazem que tenhamos de rever o significado atual do conceito de educação, pois em nenhum caso as formas de transmissão e de criação do conhecimento serão as mesmas. As mudanças ocorridas no âmbito político, científico e tecnológico não parecem trazer uma sociedade mais justa e solidária, pelo contrário, introduzimos novas formas de desigualdade e de injustiça, que fazem aumentar a pobreza, a marginalização e a exclusão. Diante de tal fato, devemos repensar essa frase “a educação para todos durante toda a vida”, está bem longe de ser realidade num mundo que 20%(vinte por cento) das crianças entre 6 a 11 anos estão fora das escolas, mesmos nos países desenvolvidos. Podem refletir em fenômenos derivados da negação da diferença, em forma de guerra, xenofobia e violência, demonstrando que existe uma importante crise ética e moral. Por tudo isso, é preciso que deixemos de pensar na educação exclusivamente a partir dos parâmetros econômicos e produtivos e passamos a uma concepção da educação que cultive, sobretudo em valores de cidadania democrática, conforme a resolução da Unesco30: “Aprender a ser, a formação de uma cidadania criativa, capaz de transformar a informação em conhecimentos que, a partir da diferença, afirme o respeito e a valorização do próximo, para, dessa forma, projetarem juntos um futuro comum de convivência ativa e participativa na vida democrática, como lugar privilegiado para consensuar objetivos que conciliem os legítimos interesses individuais como os coletivo.” Os conhecimentos socioemocionais no currículo escolar: a escola como espaço social. Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br APOSTILAS OPÇÃO Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 36 Muitos anos, a escola e a família foram as duas instituições encarregadas da educação e da formação das novas gerações, mas hoje isso é impossível de afirmar. A família está passando por grandes transformações e muitas vezes, delega sua função educativa tradicional para outros agentes, como a televisão ou a própria escola. Por um lado, a escola não pode enfrentar sozinha todos os desafios apresentados pela nova sociedade da informação. A crise nas escolas agravam, como também aumentam as sensações de desvalorizações sociais aos professores. Nos dias atuais, a influência educativa é exercida a partir de vários âmbitos, a tais como a família, trabalho, sociedade, associações etc., e por diferentes meios, televisão, multimídia e as vezes que opõem às propostas educativas. Considerando, todas essas mudanças dentro do contexto histórico, visando a sua transformação, pois se compreende que a realidade não é algo pronto e acabado, não se trata, no entanto, de atribuir à educação e a escola nenhuma função de salvação e sim de reconhecer seu incontestável papel social no desenvolvimento de processos educativos, na sistematização e socialização da cultura historicamente produzida pelos homens. A educação e sua função social Mudanças legais – Uma nova realidade Ao delimitar a função da educação e da escola como complexas, amplas, diversificadas, ampliam a necessidade de dedicação exclusivamente por parte do professor, de acompanhar as mudanças que se processam no campo de trabalho, atualizando o seu currículo e sua metodologia. Para dar sustentação às contínuas evoluções, a educação precisa ressaltar um ensino que crie conexão entre o que o aluno aprende nela e o que ele faz fora dela, há um parâmetro entre o ensino formal, o trabalho, o conhecimento e a na vida prática do aluno. Buscando a solucionar essas lacunas, o Poder Público tem buscado alternativas de reforma do sistema ensino, criando e aprovando leis, como: Lei de Diretrizes e Bases da Educação – LDB – n. 9.394/96, que institui o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e Valorização do Magistério – FUNDEF – Lei n. 9.424/96 e o Plano Nacional de Educação (PNE). É importante reconhecer o papel da legislação tem exercido no cenário brasileiro, seja no sentido de promover reformas necessárias ou de implantar a profissionalização da educação básica. Mas a reflexão sobre a função social da escola, não pode ser vista somente com base na legislação, isto porque nela estão definidos os fins da educação brasileira. O direito de todos à educação está estabelecido na Constituição Federal no artigo 205 e no artigo 2 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação – LDB – n. 9.394/96: Art. 205. A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. Art. 2º. A educação, dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. De acordo como o artigo 12 da LDB, os seguintes parâmetros: Artigo 12. Os estabelecimentos de ensino, respeitadas as normas comuns e as do seu sistema de ensino, terão a incumbência de: 31 LIBÂNEO, J. C.; OLIVEIRA J. F.; TOSCHI M. S.; Educação escolar: políticas estrutura e organização. 2ª ed. São Paulo: Cortez, 2005. (Coleção Docência em Formação) VI - articular-se com as famílias e a comunidade, criando processos de integração da sociedade com a escola; Portanto, conforme previsto em lei, o papel da escola é de promover o pleno desenvolvimento do educando e preparar para a cidadania, qualificando-o para o trabalho, conforme cada características e formas de organização própria, dependendo de sua localização geográfica e outros aspectos. A função do professor Nos dias atuais levam-nos a refletir sobre a complexidade das funções entre umaboa ou péssima administração da educação e as políticas de formação dos profissionais. No contexto das transformações que vêm ocorrendo no mundo, os desafios das políticas de formação dos profissionais da educação. O professor, exerce sua função enquanto educador, ao estimular o educando a refletir sobre os cuidados com a saúde, natureza, as questões da sociedade, entre outros, a consciência do que seja participante dessa sociedade, sendo aspecto importante ao exercício da democracia, isso se torna mais fácil, facilitar a aprendizagem do aluno, aguçar seu poder de argumentação, conduzir ás aulas de modo questionador, onde o aluno- sujeito ativo estará também exercendo seu papel de sujeito pensante; que dá ótica construtivista constrói seu aprendizado, através de hipóteses que vão sendo testadas, interagindo com o professor, argumentando, questionando em fim trocando ideias que produzem inferências. O papel da família nesse contexto, está ligado ao nível social e educacional, que a escola oferece através da socialização. O professor surge como agente de socialização, significando o elo entre a família e a sociedade. Pois são construídos a partir do desenvolvimento da moralidade, os hábitos e responsabilidade social, devido uma situação de mudança e de resultados das convivências familiares, em um meio que o estimula ou impede. Para o sucesso cognitivo do aluno e êxito no desenvolvimento do trabalho do professor, o planejamento é como uma bússola que orienta a direção a ser seguida, pois quando o professor não planeja o aluno é o primeiro a perceber que algo ficou a desejar, por mais experiente que seja o docente, e esse é um dos fatores que contribuem para a indisciplina e o desinteresse na sala de aula. É importante que o planejar aconteça de forma sistematizada e contextualizado com o cotidiano do aluno, para desperta seu interesse e participar ativamente no resultado, que será aulas dinâmicas e prazerosas. Para que a escola exerça sua função como local de oportunidades, interação e de encontro e o saber, para que haja esse paralelo tão importante para o sucesso do aluno o bom desenvolvimento das atribuições do coordenador pedagógico tem grande relevância, pois a ele cabe organizar o tempo na escola para que os professores façam seus planejamentos e ainda que atue como formador de fato. Conforme que ensina Libâneo31, as características positivas eficazes para o bom funcionamento de uma escola: professores preparados, com clareza de seus objetivos e conteúdos, que planejem as aulas, cativem os alunos, através de um bom clima de trabalho, em que a direção contribua para conseguir o empenho de todos, em que os professores aceitem aprender com a experiência dos colegas. Os coordenadores por sua vez precisam assumir sua responsabilidade pela qualidade do ensino, atuando como formadores do corpo docente, promovendo momentos de trocas de experiências e reflexão sobre a prática pedagógica, o que trará bons resultados na resolução de problemas cotidianos, e ainda fortalece a qualidade de ensino, contribui para o resgate da auto-estima do professor, pois o mesmo precisa se libertar de práticas não funcionais, e para isso a Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br APOSTILAS OPÇÃO Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 37 contribuição do coordenador será imprescindível, o que resultará no crescimento intelectual dos alunos. Essa clareza no plano de trabalho do Projeto pedagógico- curricular que vá de encontro às reais necessidades da escola, para sanar problemas como: falta de professores, cumprimento de horário e atitudes que assegurem a seriedade, o compromisso com o trabalho de ensino e aprendizagem, com relação a alunos e funcionários e seu profissionalismo conquista o respeito e admiração da maioria de seus funcionários e alunos, há um clima de harmonia que predispõe a realização de um trabalho, onde, apesar das dificuldades, os professores terão prazer em ensinar e alunos prazer em aprender. A escola enquanto espaço de reflexões sobre a comunidade, passa a reconstruir alguns elementos de desenvolvimento de uma escola para a formação da cidadania, precisa formar profissionais que conheçam quais as funções sociais da escola brasileira em diferentes momentos, para que em seguida possa discutir a função pedagógica, política e do trabalho em relação à escola cidadã. A função social Ao se falar em educação devemos estar atentos ao contexto social ao qual a escola se configura. É uma instituição social com objetivo explícito, através do desenvolvimento das potencialidades físicas, cognitivas e afetivas dos alunos, capacitando-o a tornar um cidadão, participativo na sociedade em que vivem, tendo como função básica de garantir a aprendizagem de conhecimento, habilidades e valores necessários à socialização do indivíduo, sendo necessário que a escola propicie o domínio dos conteúdos culturais básicos da leitura, da escrita, da ciência das artes e das letras, sem estas aprendizagens dificilmente o aluno poderá exercer seus direitos de cidadania. Neste sentido a escola por ser uma instituição que transmite o saber, essa função de formar cidadãos para atuar na sociedade, deve contribuir para a mudança de uma sociedade desigual, injusta. A escola deve dar condições, para preparar o indivíduo na construção sólida da sua identidade, inserindo valores e pressupostos que possa fazer com que o mesmo conviva em sociedade e na sociedade com autonomia, solidariedade, capacidade de transformação e ética. A escola deve oferecer situações que favoreçam o aprendizado, onde haja sede em aprender e também razão, entendimento da importância desse aprendizado no futuro do aluno. Se ele compreender que, muito mais importante do que possuir bens materiais, é ter uma fonte de segurança que garanta seu espaço no mercado competitivo, ele buscará conhecer e aprender sempre mais. E para o sociólogo francês Émile Durkheim, a principal função do professor é formar cidadãos capazes de contribuir para a harmonia social. Dessa forma, Durkheim acreditava que a sociedade seria mais beneficiada pelo processo educativo. Para ele, "a educação é uma socialização da jovem geração pela geração adulta". E quanto mais eficiente for o processo, melhor será o desenvolvimento da comunidade em que a escola esteja inserida. Assim, a função social da educação e da escola tem como objetivo de incluir o indivíduo ao saber histórico, ao conhecimento científico, de forma eficaz e com qualidade, também cumpre com sua função social de preparar o sujeito para o trabalho, o pleno exercício da cidadania e seu desenvolvimento de pessoas solidárias, cooperativas, autônomas, capazes de conviver com as diferenças, precisa ser um espaço de socialização, que possibilite a construção do conhecimento, tendo em vista que esse conhecimento não é dado a priori. Pois, trata-se de conhecimento vivo e que se caracteriza como processo em construção. E o papel da educação num contexto democrático, está previsto no artigo 3º da LDB: Artigo 3º. O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: XI - vinculação entre a educação escolar, o trabalho e as práticas sociais. As políticas que fortaleçam laços entre comunidade e escola é uma medida, um caminho que necessita ser trilhado, para assim alcançar melhores resultados. O aluno é parte da escola, é sujeito que aprende, que constrói seu saber, que direciona seu projeto de vida, assim sendo a escola lida com pessoas, valores, tradições, crenças, opções e precisa estar preparada para enfrentar tudo isso. Ao analisarmos toda esta conjuntura verificamos que, apesar da tendência para limitar a educação ao contexto escolar e familiar, trabalho e as práticas sociais, a educação assume um sentido muito mais amplo e complexo. Não se reduz apenasa uma etapa, mas trata-se sim de um processo gradual e contínuo, vivido ao longo da vida, que promove a consciencialização, desenvolvimento e libertação do ser humano. Podemos afirmar que a educação assume um papel determinante na formação associada à capacidade de transformação e mudança do indivíduo e consequentemente da própria realidade em que este está inserido. Questões 01 . (Minas Gerais Administração e Serviços S.A - MGS – Pedagogo – IBFC) A escola é uma instituição social, que mediante sua prática no campo do conhecimento, dos valores e atitudes, contribui para a constituição dos processos educativos. Assim, a escola, no desempenho de sua função social de formadora de sujeitos históricos, precisa ser um espaço de sociabilidade que possibilite a construção do conhecimento produzido. Com esse contexto, assinale a alternativa correta a seguir: (A) Em nossa sociedade, a escola é um lugar privilegiado para o exercício da democracia indireta com a escolha dos seus dirigentes. (B) A escola tem como função social formar o cidadão, construir conhecimentos, atitudes e valores que tornem o estudante solidário, crítico, ético e participativo. (C) A escola, em sua função social, contribuirá efetivamente para afirmar os interesses individuais das pessoas no processo educativo. (D) A função social da escola é irrelevante para a administração civil e os órgãos governamentais. 02. (CETAM – Analista Técnico Educacional – Psicologia – FCC) Para responder à questão, considere a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional − LDB (Lei nº 9.394/1996). A Lei destaca um entendimento amplo da função social da educação, quando: (A) determina que a mesma deve ser organizada em período integral. (B) propõe a reflexão crítica da prática educacional. (C) explicita que deverá vincular-se ao mundo do trabalho e à prática social. (D) destaca o entendimento da função social de uma educação preparatória. (E) vincula a vida social à vida cultural a partir do ensino na escola. Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br APOSTILAS OPÇÃO Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 38 03. (FUB- Pedagogo – CESPE) A respeito dos fundamentos da educação e da relação educação/sociedade em suas dimensões filosófica, sociocultural e pedagógica, julgue o item subsequente. A educação, em uma abordagem funcionalista, é, essencialmente, um meio de socialização dos indivíduos a fim de torná-los membros de uma dada estrutura social preestabelecida, exercendo, portanto, a função de integração social. ( ) CERTO ( ) ERRADO 04. (SEDU-ES – Professor –Pedagogo – CESPE) Considerando o desenvolvimento histórico das concepções pedagógicas e a função social atribuída à escola, julgue o item que se segue. A perspectiva progressista, sustentando as finalidades sociopolíticas da educação, define que a escola tem a função social de formar o cidadão mediante um processo de construção de conhecimento, de atitudes e de valores que o tomem um sujeito solidário, crítico, ético e participativo. ( ) CERTO ( ) ERRADO 05. (SAP-SP – Analista sociocultural - VUNESP) De acordo com Libâneo, a didática trata dos objetivos, condições e meios de realização do processo de ensino, unindo meios pedagógico-didáticos a objetivos sócio-políticos. Neste sentido, (A) Os conteúdos devem ser trabalhados de forma acrítica e inflexível para não intervir no produto. (B) O ensino deve ser planejado a partir de propósitos claros sobre a sua finalidade, tendo em vista que os alunos estão sendo preparados para viverem em sociedade. (C) As questões de ordem social sempre prevalecem sobre as de ordem pedagógica. (D) Os planejamentos indicam a necessidade de serem neutros e escolarizados. (E) Os estudantes são vistos enquanto seres passivos, daí porque a facilidade de aprendizagem. Respostas 01. Resposta: B A alternativa b está correta, é a função social da Escola, em termos governamentais, a função social da escola pública é formar o cidadão, isto é, construir conhecimentos, atitudes e valores que tornem o estudante solidário, crítico, ético e participativo. 02. Resposta: C A alternativa c está correta, dispõe o artigo 1º § 2º da LDB: A educação escolar deverá vincular-se ao mundo do trabalho e à prática social. 03. Resposta: CERTO A alternativa é a certa, porque a função de integração social pode confundir, mas é importante perceber que a integração social existe em qualquer modelo de sociedade, é fundamental seja para modificá-la ou para manter seu status quo. 04. Resposta: CERTO A alternativa está correta, porque a educação é comprometida com a formação integral do ser humano deve adotar procedimentos facilitadores que permitam a construção de identidades crítico reflexivas portadoras de autonomia intelectual, política, social e cultural fortemente alicerçadas nos princípios de igualdade, de justiça e de 32 LIBÂNEO, José Carlos. A Didática e as exigências do processo de escolarização: formação cultural e científica e demandas das práticas socioculturais. solidariedade humana. Isso pressupõe que todas as crianças, jovens, adultos, homens e mulheres ao buscarem a escola encontrem um contexto que os permita construir competências e habilidades, qualificando-os para o trabalho, mas, sobretudo, preparando-os para a vida. 05. Resposta: B A alternativa b está correta, porque o papel do ensino é de preparação intelectual e moral dos alunos para assumir um papel na sociedade. Processos Didáticos Básicos, Ensino e Aprendizagem Anteriormente convém ressaltar o conceito atual de didática segundo a análise etimológica, o contexto histórico em que prevaleceram determinados conceitos, a problemática educacional e sua relevância para o ensino. Etimologicamente a palavra ‘didática’ significa ‘expor claramente’, ‘demonstrar’, ‘ensinar’, ‘instruir’. Em primeira instância, este sentido mais originário corresponde aproximadamente a tudo aquilo que é ‘próprio para o ensino’. Levando em consideração o seu significado etimológico percebemos que a didática está intimamente ligada ao processo de ensino-aprendizagem, e a tudo que se refere ao ato de ensinar e aprender. A Didática foi concebida como base de uma reforma educacional importante pela primeira vez no século XVII, com João Amós Comenius, em sua obra Didática Magna. Nesta época, ele havia observado que a educação se dava de maneira muito espontânea, permeada de puro praticismo, não havia sistematização, organização ou planejamento. Com o objetivo de organizar e sistematizar a educação, Comenius escreveu a Didática Magna, que pretendia estabelecer os fundamentos da ‘arte universal de ensinar tudo a todos’, privilegiando sobretudo o professor, o método e o conteúdo. A didática então surge como objeto de estudo no processo de ensino/aprendizagem, pois este está inserido em todas as práticas educacionais, em todos os níveis de ensino, e cada prática educacional evidencia uma intenção, ideologia, objetivos e meios para serem atingidos. Desta forma ocorre o processo de ensino aprendizagem, que em momento algum é neutro, apolítico ou isolado de sua realidade político social. Assim, a Didática é o principal ramo de estudo da pedagogia, pois ela situa-se num conjunto de conhecimentos pedagógicos, investiga os fundamentos, as condições e os modos de realização da instrução e do ensino, portanto é considerada a ciência de ensinar. Nesse contexto, o professor tem como papel principal garantir uma relação didática entre ENSINO x APRENDIZAGEM. Segundo Libâneo32, o professor tem o dever de planejar, dirigir e controlar esse processo de ensino, bem como estimularas atividades e competências próprias do aluno para a sua aprendizagem. A condição para o processo de ensino requer uma clara e segura compreensão do processo de aprendizagem, ou seja, deseja entender como as pessoas aprendem e quais as condições que influenciam para esse aprendizado. Assim, ressalta que podemos distinguir a aprendizagem em dois tipos: aprendizagem casual e a aprendizagem organizada. As diretrizes curriculares nacionais para a formação docente. Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br APOSTILAS OPÇÃO Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 39 A) Aprendizagem casual: É quase sempre espontânea, surge naturalmente da interação entre as pessoas com o ambiente em que vivem, ou seja, através da convivência social, observação de objetos e acontecimentos. B) Aprendizagem organizada: É aquela que tem por finalidade específica aprender determinados conhecimentos, habilidades e normas de convivência social. Este tipo de aprendizagem é transmitido pela escola, que é uma organização intencional, planejada e sistemática, as finalidades e condições da aprendizagem escolar é tarefa específica do ensino. Esses tipos de aprendizagem têm grande relevância na assimilação ativa dos indivíduos, favorecendo um conhecimento a partir das circunstâncias vivenciadas pelo mesmo. O processo de assimilação de determinados conhecimentos, habilidades, percepção e reflexão é desenvolvido por meios atitudinais, motivacionais e intelectuais do aluno, sendo o professor o principal orientador desse processo de assimilação ativa, é através disso que se pode adquirir um melhor entendimento, favorecendo um desenvolvimento cognitivo. Através do ensino podemos compreender o ato de aprender que é o ato no qual assimilamos mentalmente os fatos e as relações da natureza e da sociedade. Esse processo de assimilação de conhecimentos é resultado da reflexão proporcionada pela percepção prático-sensorial e pelas ações mentais que caracterizam o pensamento. Entendida como fundamental no processo de ensino a assimilação ativa desenvolve no indivíduo a capacidade de lógica e raciocínio, facilitando o processo de aprendizagem do aluno. O nível cognitivo refere-se à aprendizagem de determinados conhecimentos e operações mentais, caracterizada pela apreensão consciente, compreensão e generalização das propriedades e relações essenciais da realidade, bem como pela aquisição de modos de ação e aplicação referentes a essas propriedades e relações. De acordo com esse contexto podemos despertar uma aprendizagem autônoma, seja no meio escolar ou no ambiente em que estamos. Pelo meio cognitivo, os indivíduos aprendem tanto pelo contato com as coisas no ambiente, como pelas palavras que designam das coisas e dos fenômenos do ambiente. Portanto as palavras são importantes condições de aprendizagem, pois através delas são formados conceitos pelos quais podemos pensar. O ensino é o principal meio de progresso intelectual dos alunos, através dele é possível adquirir conhecimentos e habilidades individuais e coletivas. Por meio do ensino, o professor transmite os conteúdos de forma que os alunos assimilem esse conhecimento, auxiliando no desenvolvimento intelectual, reflexivo e crítico. Por meio do processo de ensino o professor pode alcançar seu objetivo de aprendizagem, essa atividade de ensino está ligada à vida social mais ampla, chamada de prática social, portanto o papel fundamental do ensino é mediar à relação entre indivíduos, escola e sociedade. O Caráter Educativo do Processo de Ensino e o Ensino Crítico No desempenho da profissão docente, o professor deve ter em mente a formação da personalidade dos alunos, não apenas no aspecto intelectual, como também nos aspectos morais, afetivos e físicos. Como resultado do trabalho escolar, os alunos vão formando o senso de observação, a capacidade de 33 LIBÂNEO, José Carlos. Didática. São Paulo: Cortez, 1994. exame objetivo e crítico de fatos e fenômenos da natureza e das relações sociais, habilidades de expressão verbal e escrita. O processo de ensino deve estimular o desejo e o gosto pelo estudo, mostrando assim a importância do conhecimento para a vida e o trabalho, nesse processo o professor deve criar situações que estimule o indivíduo a pensar, analisar e relacionar os aspectos estudados com a realidade que vive. Essa realização consciente das tarefas de ensino e aprendizagem é uma fonte de convicções, princípios e ações que irão relacionar as práticas educativas dos alunos, propondo situações reais que façam com que os indivíduos reflitam e analisem de acordo com sua realidade. Entretanto, o caráter educativo está relacionado aos objetivos do ensino crítico e é realizado dentro do processo de ensino. É através desse processo que acontece a formação da consciência crítica dos indivíduos, fazendo-os pensar independentemente, por isso o ensino crítico, chamado assim por implicar diretamente nos objetivos sócio-políticos e pedagógicos, também os conteúdos, métodos escolhidos e organizados mediante determinada postura frente ao contexto das relações sociais vigentes da prática social. É através desse ensino crítico que os processos mentais são desenvolvidos, formando assim uma atitude intelectual. Nesse contexto os conteúdos deixam de serem apenas matérias, e passam então a ser transmitidos pelo professor aos seus alunos formando assim um pensamento independente, para que esses indivíduos busquem resolver os problemas postos pela sociedade de uma maneira criativa e reflexiva. As contribuições da Didática na formação do profissional da Educação Como vimos anteriormente à didática estuda o processo de ensino no seu conjunto, no qual os objetivos, conteúdos fazem parte, de modo a criar condições que garantam uma aprendizagem significativa dos alunos. Nessa perspectiva, a didática torna-se o principal ramo de estudos da pedagogia, pois é necessário dominar bem todas as teorias para que haja uma boa prática educativa, assim o educador dispõe de recursos teóricos para organizar e articular o processo de ensino e aprendizagem. Segundo Libâneo33, o trabalho docente também chamado de atividade pedagógica tem como objetivos primordiais: A) Assegurar aos alunos o domínio mais seguro e duradouro possível dos conhecimentos científicos; B) Criar as condições e os meios para que os alunos desenvolvam capacidades e habilidades intelectuais de modo que dominem métodos de estudo e de trabalho intelectual visando a sua autonomia no processo de aprendizagem e independência de pensamento; C) Orientar as tarefas de ensino para objetivo educativo de formação da personalidade, isto é, ajudar os alunos a escolherem um caminho na vida, a terem atitudes e convicções que norteiem suas opções diante dos problemas e situações da vida real. Além dos objetivos da disciplina e dos conteúdos, é fundamental que o professor tenha clareza das finalidades que ele tem em mente, a atividade docente tem a ver diretamente com “para que educar”, pois a educação se realiza numa sociedade que é formada por grupos sociais que tem uma visão diferente das finalidades educativas. Nota-se que a problemática que permeia a educação em torno da didática, consiste na dificuldade de mediar conhecimento prático e teórico, na medida em que muitos educadores apresentam uma concepção fragmentada e ambígua desta interação, chegando ao ponto de dissociá-las. Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br APOSTILAS OPÇÃO Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 40 Essa separação entre teoria e prática impossibilita os profissionais da educação de articular a teoria em proveito da prática, poisuma subsidia a outra. Como resultado dessa separação a prática educativa tende a reduzir-se ao extremo do praticismo. Nesse sentido a didática visa contribuir para a superação dessa dificuldade proporcionando ao profissional da educação embasamento teórico-prático. Os profissionais da educação precisam ter um pleno “domínio das bases teóricas científicas e tecnológicas, e sua articulação com as exigências concretas do ensino”, pois é através desse domínio que ele poderá estar revendo, analisando e aprimorando sua prática educativa. A prática educativa não pode ocorrer de maneira espontânea, sem planejamento, metas e instrumentos, ela deve estabelecer objetivos, os quais devem ser atingidos utilizando-se da didática, que certamente facilitará o caminho a ser trilhado segundo meios viáveis e de acordo com cada realidade educacional, em proveito da ideia de homem que se deseja formar, de acordo com a sociedade em que este homem está inserido, pois “a didática não se limita só ao fazer, só ação prática, mas também se vincula as demais instâncias e aspectos da educação formal”. Dessa forma, o trabalho do professor é reflexo de uma AÇÃO x REFLEXÃO x AÇÃO, ou seja, é papel do professor planejar a aula (AÇÃO), criar condições favoráveis de estudo dentro da sala de aula, estimulando a curiosidade e a criatividade dos alunos (REFLEXÃO), reelaborar as aulas após observadas as necessidades dos educandos (NOVA AÇÃO). Entretanto é necessário que haja uma interação mútua entre docentes e discentes, pois não há ensino se os alunos não desenvolverem suas capacidades e habilidades mentais, ou seja, o professor dirige as atividades de aprendizagem dos alunos a fim de que estes se tornem sujeitos ativos da própria aprendizagem. Portanto, podemos dizer que o processo didático se baseia no conjunto de atividades do professor e dos alunos, sob a direção do professor, apenas como mediador, para que haja uma assimilação ativa de conhecimentos e desenvolvimento das habilidades dos alunos. Assim, é necessário para o planejamento de ensino que o professor compreenda as relações entre educação escolar, os objetivos pedagógicos e tenha um domínio seguro dos conteúdos ao qual ele leciona, sendo assim capaz de conhecer os programas oficiais e adequá-los ás necessidades reais da escola e de seus alunos. Um professor que aspira ter uma boa didática necessita aprender a cada dia como lidar com a subjetividade do aluno, sua linguagem, suas percepções e sua prática de ensino. Sem essas condições o professor será incapaz de elaborar problemas, desafios, perguntas relacionadas com os conteúdos, pois essas são as condições para que haja uma aprendizagem significativa. No entanto para que o professor atinja efetivamente seus objetivos, é preciso que ele saiba realizar vários processos didáticos coordenados entre si, tais como o planejamento, a direção do ensino da aprendizagem e da avaliação. Portanto é a didática que fundamenta a ação docente, é através da didática que a teoria e a prática se consolidam de forma viável e eficaz, pois ela se ocupa do processo de ensino nas várias dimensões, não se restringindo apenas a educação escolar, mas investiga e orienta a formação do educador na sua totalidade. 34 CHAGAS, Valnir. Formação do magistério: Novo sistema. São Paulo: Atlas, 1976. Formação de profissionais da educação: visão crítica e perspectiva de mudança Há cerca de 20 anos, por iniciativa de movimentos de educadores e, em paralelo, no âmbito do Ministério da Educação, iniciava-se um debate nacional sobre a formação de pedagogos e professores, com base na crítica da legislação vigente e na realidade constatada nas instituições formadoras. O marco histórico de detonação do movimento pela reformulação dos cursos de formação do educador foi a I Conferência Brasileira de Educação realizada em São Paulo em 1980, abrindo-se o debate nacional sobre o curso de pedagogia e os cursos de licenciatura. A trajetória desse movimento destaca-se pela densidade das discussões e pelo êxito na mobilização dos educadores, mas o resultado prático foi modesto, não se tendo chegado até hoje a uma solução razoável para os problemas da formação dos educadores, nem no âmbito oficial nem no âmbito das instituições universitárias. A discussão sobre a identidade do curso de pedagogia, que remonta aos pareceres de Valnir Chagas34 na condição de membro do antigo Conselho Federal de Educação, é retomada nos encontros do Comitê Nacional Pró-formação do Educador, mais tarde transformada em Associação Nacional pela Formação dos Profissionais da Educação, e é bastante recorrente para pesquisadores da área. Estes já apontavam, em meados dos anos 80, a necessidade de se superar a fragmentação das habilitações no espaço escolar, propondo a superação das habilitações e especializações pela valorização do pedagogo escolar: (...) a posição que temos assumido é a de que a escola pública necessita de um profissional denominado pedagogo, pois entendemos que o fazer pedagógico, que ultrapassa a sala de aula e a determina, configura-se como essencial na busca de novas formas de organizar a escola para que esta seja efetivamente democrática. A tentativa que temos feito é a de avançar da defesa corporativista dos especialistas para a necessidade política do pedagogo, no processo de democratização da escolaridade. O curso de pedagogia – sem entrar agora no mérito de sua função, isto é, de formar professores ou especialistas ou ambos – pouco se alterou em relação à Resolução no 252/69. Experiências alternativas foram tentadas em algumas instituições e o antigo CFE expediu alguns pareceres sobre “currículos experimentais”, mas nenhum deles, a rigor, apresenta algo realmente inovador. Possíveis “novidades” no chamado “curso de pedagogia” seriam, por exemplo, a atribuição, ao lado de outras, da formação em nível superior de professores para as séries iniciais do Ensino Fundamental, supressão das habilitações (administração escolar, orientação educacional, supervisão escolar etc.) e alterações na denominação de algumas disciplinas. Alterações geralmente inócuas, pois na maior parte dos casos foi mantida a prática da grade curricular e os mesmos conteúdos das antigas disciplinas, por exemplo, Organização do trabalho pedagógico manteve o conteúdo da anterior Administração escolar. Em relação aos cursos de licenciatura, também não houve nenhuma mudança substantiva desde a Resolução no 292/62 do CFE, que dispunha sobre as matérias pedagógicas para a licenciatura. O que se tentou foram diferentes formas de organização do percurso da formação, umas mantendo o 3+1 já presente em 1939, outras distribuindo as disciplinas pedagógicas ao longo do curso específico. Quanto ao local da formação pedagógica, em alguns lugares ela foi mantida nas faculdades de educação, em outros, foi deslocada, total ou parcialmente, aos institutos/departamentos/cursos. Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br APOSTILAS OPÇÃO Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 41 Atualmente, a atuação do Ministério da Educação e do CNE na regulamentação da LDB no 9.394/96 tem provocado a mobilização dos educadores de todos os níveis de ensino para rediscutir a formação de profissionais da educação. A nosso ver, não bastam iniciativas de formulação de reformas curriculares, princípios norteadores de formação, novas competências profissionais, novos eixos curriculares, base comum nacional etc. Faz-se necessária e urgente a definição explícita de uma estrutura organizacional para um sistema nacional de formação de profissionais da educação, incluindo a definição dos locais institucionais do processo formativo. Na verdade, reivindicamos o ordenamento legal e funcional de todo o conteúdo do TítuloVI da Lei de Diretrizes e Bases. O disposto nos artigos 61 caput e incisos e, 62 caput, da LDB é o seguinte: Art. 61. Consideram-se profissionais da educação escolar básica os que, nela estando em efetivo exercício e tendo sido formados em cursos reconhecidos, são: I – professores habilitados em nível médio ou superior para a docência na educação infantil e nos ensinos fundamental e médio; II – trabalhadores em educação portadores de diploma de pedagogia, com habilitação em administração, planejamento, supervisão, inspeção e orientação educacional, bem como com títulos de mestrado ou doutorado nas mesmas áreas; III – trabalhadores em educação, portadores de diploma de curso técnico ou superior em área pedagógica ou afim. IV - profissionais com notório saber reconhecido pelos respectivos sistemas de ensino, para ministrar conteúdos de áreas afins à sua formação ou experiência profissional, atestados por titulação específica ou prática de ensino em unidades educacionais da rede pública ou privada ou das corporações privadas em que tenham atuado, exclusivamente para atender ao inciso V do caput do art. 36; (Incluído pela lei nº 13.415, de 2017) V - profissionais graduados que tenham feito complementação pedagógica, conforme disposto pelo Conselho Nacional de Educação. (Incluído pela lei nº 13.415, de 2017) (...) Art. 62 A formação de docentes para atuar na educação básica far-se-á em nível superior, em curso de licenciatura plena, admitida, como formação mínima para o exercício do magistério na educação infantil e nos cinco primeiros anos do ensino fundamental, a oferecida em nível médio, na modalidade normal. (Redação dada pela lei nº 13.415, de 2017) A proposta básica é a de que a formação dos profissionais da educação para atuação na educação básica far-se-á, predominantemente, nas atuais faculdades de educação, que oferecerão curso de pedagogia, cursos de formação de professores para toda a educação básica, programa especial de formação pedagógica, programas de educação continuada e de pós-graduação. As faculdades de educação terão sob sua responsabilidade a formulação e a coordenação de políticas e planos de formação de professores, em articulação com as pró- reitorias ou vice-reitorias de graduação das universidades ou órgãos similares nas demais Instituições de Ensino Superior, com os institutos/faculdades/departamentos das áreas específicas e com as redes pública e privada de ensino. O curso de pedagogia destinar-se-á à formação de profissionais interessados em estudos do campo teórico- investigativo da educação e no exercício técnico-profissional como pedagogos no sistema de ensino, nas escolas e em outras instituições educacionais, inclusive as não-escolares. 35 ESCUDERO, Juan M. e BOTIA, Bolívar. "Inovação e formação centrada na escola. Uma perspectiva da realidade espanhola". In: AMIGUINHO, Abílio e CANÁRIO, Rui (orgs.). Escolas e mudança: O papel dos Centros de Formação. Lisboa: Educa, 1994. Os cursos de formação de professores e os programas mencionados, abrangendo todos os níveis da educação básica, serão realizados num Centro de Formação, Pesquisa e Desenvolvimento Profissional de Professores – CFPD, que integrará a estrutura organizacional das faculdades de educação e destinar-se-á à formação de professores para a educação básica, da educação infantil ao Ensino Médio. Distinguindo o curso de pedagogia (stricto sensu) e o curso de formação de professores para as séries iniciais do Ensino Fundamental. Formação teórico-prática articulada na formação inicial e contínua As investigações recentes sobre formação de professores apontam como questão essencial o fato de que os professores desempenham uma atividade teórico-prática. É difícil pensar na possibilidade de educar fora de uma situação concreta e de uma realidade definida. A profissão de professor precisa combinar sistematicamente elementos teóricos com situações práticas reais. Por essa razão, ao se pensar um currículo de formação, a ênfase na prática como atividade formadora aparece, à primeira vista, como exercício formativo para o futuro professor. Entretanto, em termos mais amplos, é um dos aspectos centrais na formação do professor, em razão do que traz consequências decisivas para a formação profissional. Atualmente, em boa parte dos cursos de licenciatura, a aproximação do futuro professor à realidade escolar acontece após ele ter passado pela formação “teórica”, tanto na disciplina especifica como nas disciplinas pedagógicas. O caminho deve ser outro. Desde o ingresso dos alunos no curso, é preciso integrar os conteúdos das disciplinas em situações da prática que coloquem problemas aos futuros professores e lhes possibilitem experimentar soluções. Isso significa ter a prática, ao longo do curso, como referente direto para contrastar seus estudos e formar seus próprios conhecimentos e convicções a respeito. Ou seja, os alunos precisam conhecer o mais cedo possível os sujeitos e as situações com que irão trabalhar. Significa tomar a prática profissional como instância permanente e sistemática na aprendizagem do futuro professor e como referência para a organização curricular. Significa, também, a articulação entre formação inicial e formação continuada. Por um lado, a formação inicial estaria estreitamente vinculada aos contextos de trabalho, possibilitando pensar as disciplinas com base no que pede a prática; cai por terra aquela ideia de que o estágio é aplicação da teoria. Por outro, a formação continuada, a par de ser feita na escola a partir dos saberes e experiências dos professores adquiridos na situação de trabalho, articula-se com a formação inicial, indo os professores à universidade para uma reflexão mais apurada sobre a prática. Em ambos os casos, estamos diante de modalidades de formação em que há interação entre as práticas formativas e os contextos de trabalho. Com isso, institui-se uma concepção de formação centrada na ideia de escola como unidade básica da mudança educativa, em que as escolas são consideradas “espaços institucionais para a inovação e a melhoria e, simultaneamente, como contextos privilegiados para a formação contínua de professores” (Escudero e Botia35). A favor de um curso específico de pedagogia Conforme vimos considerando, as faculdades de educação sediariam, de forma articulada, o curso de pedagogia e a formação inicial e continuada de professores. O que é esse curso de pedagogia? Trata-se de curso para a realização da investigação em estudos pedagógicos, tomando a pedagogia Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br APOSTILAS OPÇÃO Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 42 como campo teórico e como campo de atuação profissional. Como campo teórico, destina-se à formação de profissionais que desejem aprimorar a reflexão e a pesquisa sobre a educação e o ensino da pedagogia, propriamente dita. Como campo de atuação profissional, destina-se à preparação de pesquisadores, planejadores, especialistas em avaliação, gestores do sistema e da escola, coordenadores pedagógicos ou de ensino, comunicadores especializados para atividades escolares e extraescolares, animadores culturais, de especialistas em educação a distância, de educadores de adultos no campo da formação continuada etc. A ampliação do campo educacional e, por consequência, da atuação pedagógica é uma realidade constatada por muitos autores. O curso de pedagogia proposto tem correlatos em praticamente todos os países do mundo, embora em alguns lugares, especialmente na Europa, receba a designação de “ciências da educação”. Poder-se-ia perguntar: por que não chamar esse curso de ciências da educação e não de pedagogia? Libâneo36 aponta, em publicação recente, quatro posições a respeito desseassunto e sobre a denominação “ciências da educação” escreve: (..) tal denominação (...) é criticada por provocar dispersão no estudo da problemática educativa, levando a uma postura pluridisciplinar ao invés de interdisciplinar. Ou seja, a autonomia dada a cada uma das ciências da educação levaria a enfoques parciais da realidade educativa, comprometendo a unidade temática e abrindo espaço para os vários reducionismos (sociológico, psicológico, econômico...), como aliás a experiência brasileira tem confirmado. Assim, assume-se que a pedagogia se apoia nas ciências da educação, mas não perde com isso sua autonomia epistemológica e não se reduz ao campo conceitual de uma ou outra, nem ao conjunto dessas ciências. A pluridimensionalidade do fenômeno educativo não elimina sua unicidade, que permite “estabelecer um corpo cientifico que tem o fenômeno educativo em seu conjunto como objeto de estudo, com a finalidade expressa de dar coerência à multiplicidade de ações parcializadas”. Nessa concepção, a pedagogia promove a síntese integradora dos diferentes processos analíticos que correspondem a cada uma das ciências da educação em seu objeto específico de estudo. Também Pimenta37 discute detidamente a questão recorrendo a vários autores, argumentando pela necessidade de a pedagogia postular sua especificidade epistemológica, de modo a não se conformar com uma mera posição de campo aplicado de outras ciências que também estudam a educação. Com base nisso, firma sua posição de que a pedagogia tem sua significação epistemológica assumindo-se como ciência da prática social da educação. Diferentemente das demais ciências da educação, a pedagogia é ciência da prática. Ela não se constrói como discurso sobre a educação, mas a partir da prática dos educadores tomada como referência para a construção de saberes, no confronto com os saberes teóricos. (...) O objeto/problema da pedagogia é a educação enquanto prática social. Daí seu caráter específico que a diferencia das demais (ciências da educação), que é o de uma ciência prática – parte da prática e a ela se dirige. A problemática educativa e sua superação constituem o ponto central de referência para a investigação. Defendemos, pois, a criação do curso de pedagogia, um curso que oferece formação teórica, científica e técnica para interessados no aprofundamento da teoria e da pesquisa pedagógica e no exercício de atividades pedagógicas específicas (planejamento de políticas educacionais, gestão do 36 LIBÂNEO, José C. Pedagogia e pedagogos, para quê? São Paulo: Cortez, 1998. sistema de ensino e das escolas, assistência pedagógico- didática a professores e alunos, avaliação educacional, pedagogia empresarial, animação cultural, produção e comunicação nas mídias etc.). A existência desse curso tem como suporte algumas premissas: A) O fenômeno educativo sujeita-se à pluralidade de abordagens, à medida que a educação é objeto de várias ciências que o abordam de seu enfoque específico. O estudo da educação tem um caráter de multirreferencialidade – abarca tanto modalidades educativas escolares quanto extraescolares, como os movimentos sociais, a educação ambiental, educação comunitária, educação de grupos sociais marginalizados e de minorias sociais. Não é que se descarte o fato de que a educação escolar seja, ainda hoje, a forma histórica predominante de prática educativa. Mas, mesmo em benefício de uma educação escolar mais aberta e mais articulada com outras instâncias educativas fora de seu marco próprio, a ideia é a de que o educativo não se restrinja ao escolar, uma vez que abrange as relações mais amplas entre o indivíduo e o meio humano, social, físico, ecológico, cultural, econômico. B) Se, por um lado, a compreensão ampliada da educação fortalece as ciências da educação pelo fato de a pedagogia não ser a única área científica que tem a educação como objeto de estudo, por outro, não descaracteriza a especificidade da pedagogia como uma das ciências da educação. Com efeito, cada uma das chamadas ciências da educação (sociologia da educação, psicologia da educação, linguística aplicada à educação, economia da educação etc.) aborda o fenômeno educativo da perspectiva de seus próprios conceitos e métodos de investigação, ao passo que a pedagogia se distingue por estudar o fenômeno educativo em sua totalidade, inclusive para integrar os enfoques parciais daquelas ciências em função de uma aproximação global e intencionalmente dirigida aos problemas educativos. C) Um currículo de pedagogia, além de contemplar como objeto de investigação a pluralidade das práticas educativas, concentra sua temática investigativa nos saberes pedagógicos, com a contribuição das ciências da educação, na forma de inter-relação entre os saberes científicos. Ou seja, assume-se o entendimento de pedagogia como ciência da prática social da educação para daí se definirem saberes pedagógicos. A integração de conhecimentos pela inter-relação entre saberes decorre não apenas da pluralidade que caracteriza o fenômeno educativo, mas também de uma tendência irrefreável das ciências no mundo contemporâneo buscarem a integração entre os saberes, sem perder de vista a especificidade disciplinar. O currículo terá uma forte orientação para a pesquisa, seja como prática acadêmica, seja como atitude. Ressaltem-se, aí, os vínculos entre o ensino e a pesquisa, a pesquisa como forma básica de construção do saber, em confronto, em questionamento, com os saberes já estabelecidos e como instrumento para desenvolvimento das competências do pensar. Tal concepção de pedagogia deveria transpassar toda a formação pedagógica nos cursos de formação de professores, da educação infantil ao Ensino Médio. A defesa de um local institucional específico para formar professores 37 PIMENTA, Selma G. O pedagogo na escola pública. São Paulo: Loyola, 1988. Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br APOSTILAS OPÇÃO Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 43 A atividade docente vem se modificando em decorrência de transformações nas concepções de escola e nas formas de construção do saber, resultando na necessidade de se repensar a intervenção pedagógico-didática na prática escolar. Um dos aspectos cruciais dessas transformações, os quais têm se evidenciado em avaliações educacionais como o Saresp, é o investimento na qualidade da formação dos docentes e no aperfeiçoamento das condições de trabalho nas escolas, para que estas favoreçam a construção coletiva de projetos pedagógicos capazes de alterar os quadros de reprovação, retenção e da qualidade social e humana dos resultados da escolarização. Tem sido unânime a insatisfação de gestores, pesquisadores e professores com as formas convencionais de se formar professores em nosso país. Realizados em dois níveis de ensino – Médio e Superior –, os atuais cursos não dão conta de preparar o professor com a qualidade que se exige hoje desse profissional. No nível médio, realiza-se a formação dos professores das quatro séries iniciais do Ensino Fundamental e, em alguns casos, a formação dos professores para a educação infantil. Às vezes esses profissionais são formados no nível superior (nos atualmente chamados cursos de pedagogia). Os professores para as séries seguintes do Ensino Fundamental e para o Ensino Médio são formados no nível superior, recorrendo ao velho esquema dos cursos de bacharelado e licenciatura. Conforme mencionamos anteriormente, essas modalidades de formação já demonstraram historicamente seu esgotamento (em nosso país e em vários outros). Dentro desse quadro, o aprimoramento do processo de formação de professores requer muita ousadia e criatividade para que se construam novos e mais promissores modelos educacionais necessáriosà urgente e fundamental tarefa de melhoria da qualidade do ensino no país. A LDB no 9.394/96, em seu art. 62, estabelece como regra que a formação dos docentes para a educação fundamental e para a educação infantil far-se-á em nível superior. A elevação da formação docente em nível superior, reivindicação antiga dos educadores em nosso país e já consolidada em grande parte dos países desenvolvidos, fica assim contemplada. No mesmo art. 62, no entanto, admite-se como formação mínima para as séries iniciais e para a educação infantil, “a oferecida em nível médio, na modalidade Normal”, Redação dada pela lei nº 13.415, de 2017. Que professor queremos formar? Na sociedade contemporânea, as rápidas transformações no mundo do trabalho, o avanço tecnológico configurando a sociedade virtual e os meios de informação e comunicação incidem com bastante força na escola, aumentando os desafios para torná-la uma conquista democrática efetiva. Não é tarefa simples nem para poucos. Transformar as escolas em suas práticas e culturas tradicionais e burocráticas – as quais, por meio da retenção e da evasão, acentuam a exclusão social – em escolas que eduquem as crianças e os jovens, propiciando-lhes um desenvolvimento cultural, científico e tecnológico que lhes assegure condições para fazerem frente às exigências do mundo contemporâneo, exige esforço do coletivo da escola – professores, funcionários, diretores e pais de alunos –, dos sindicatos, dos governantes e de outros grupos sociais organizados. Não se ignora que esse desafio precisa ser prioritariamente enfrentado no campo das políticas públicas. Todavia, não é menos certo que os professores são profissionais essenciais na construção dessa nova escola. Entendendo que a democratização do ensino passa pela sua formação, sua valorização profissional, suas condições de trabalho, pesquisas e experiências inovadoras têm apontado para a importância do investimento no desenvolvimento profissional dos professores. O desenvolvimento profissional envolve formação inicial e contínua articuladas a um processo de valorização identitária e profissional dos professores. Identidade que é epistemológica, ou seja, que reconhece a docência como um campo de conhecimentos específicos configurados em quatro grandes conjuntos, a saber: conteúdos das diversas áreas do saber e do ensino, ou seja, das ciências humanas e naturais, da cultura e das artes; conteúdos didático- pedagógicos (diretamente relacionados ao campo da prática profissional); conteúdos relacionados a saberes pedagógicos mais amplos (do campo teórico da prática educacional) e conteúdos ligados à explicitação do sentido da existência humana (individual, sensibilidade pessoal e social). E identidade que é profissional. Ou seja, a docência constituiu um campo específico de intervenção profissional na prática social – não é qualquer um que pode ser professor. Uma visão progressista de desenvolvimento profissional exclui uma concepção de formação baseada na racionalidade técnica (em que os professores são considerados mero executores de decisões alheias) e assume a perspectiva de considerá-los em sua capacidade de decidir e de rever suas práticas e as teorias que as informam, pelo confronto de suas ações cotidianas com as produções teóricas, pela pesquisa da prática e a produção de novos conhecimentos para a teoria e a prática de ensinar. Considera, assim, que as transformações das práticas docentes só se efetivam na medida em que o professor amplia sua consciência sobre a própria prática, a da sala de aula e a da escola como um todo, o que pressupõe conhecimentos teóricos e críticos sobre a realidade. Dessa forma, os professores contribuem para a criação, o desenvolvimento e a transformação nos processos de gestão, nos currículos, na dinâmica organizacional, nos projetos educacionais e em outras formas de trabalho pedagógico. Por esse raciocínio, reformas gestadas nas instituições, sem tomar os professores como parceiros/autores, não transformam a escola na direção da qualidade social. Em consequência, valorizar o trabalho docente significa dotar os professores de perspectivas de análise que os ajudem a compreender os contextos históricos, sociais, culturais, organizacionais nos quais se dá sua atividade docente. Nas últimas décadas assistimos a uma ampliação das oportunidades de acesso à escola, em que pesem as diferenças entre as regiões. Poder-se-ia concluir que o país tem uma escola que realizou a inclusão social de todos? Não nos parece, pois a essa ampliação quantitativa, em grande parte resultante da reivindicação dos educadores e da população, não correspondeu a melhoria das condições de trabalho, de jornada, de organização e funcionamento, de formação e valorização do professor, fatores essenciais para a qualidade do ensino. Sem isso, a escola quantitativamente ampliada permanece excludente. Ao desenvolver um ensino aligeirado, impossibilita a inserção social de crianças e jovens de classes sociais mais pobres em igualdade de condições com aqueles dos segmentos economicamente favorecidos, acentuando a exclusão social. Uma escola que inclua, ou seja, que eduque todas as crianças e jovens, com qualidade, superando os efeitos perversos das retenções e evasões, propiciando-lhes um desenvolvimento cultural que lhes assegure condições para fazerem frente às exigências do mundo contemporâneo, precisa de condições para que, com base na análise e na valorização das práticas existentes que já apontam para formas de inclusão, se criem novas práticas: de aula, de gestão, de trabalho dos professores e dos alunos, formas coletivas, currículos interdisciplinares, uma escola rica de material e de experiências, como espaço de formação contínua, e tantas outras. Por sua vez, os professores contribuem com seus saberes específicos, seus valores, suas competências, nessa complexa empreitada, para o que se requer condições salariais Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br APOSTILAS OPÇÃO Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 44 e de trabalho, formação inicial de qualidade e espaços de formação contínua. Dada a natureza do trabalho docente, que é ensinar como contribuição ao processo de humanização dos alunos historicamente situados, espera-se dos processos de formação que desenvolvam conhecimentos e habilidades, competências, atitudes e valores que possibilitem aos professores ir construindo seus saberes-fazeres docentes a partir das necessidades e desafios que o ensino como prática social lhes coloca no cotidiano. Espera-se, pois, que mobilizem os conhecimentos da teoria da educação e do ensino, das áreas do conhecimento necessárias à compreensão do ensino como realidade social, e que desenvolvam neles a capacidade de investigar a própria atividade (a experiência) para, a partir dela, constituírem e transformarem os seus saberes-fazeres docentes, num processo contínuo de construção de suas identidades como professores. Em síntese, dizemos que o professor é um profissional do humano que: ajuda o desenvolvimento pessoal/intersubjetivo do aluno; um facilitador do acesso do aluno ao conhecimento (informador informado); um ser de cultura que domina de forma profunda sua área de especialidade (científica e pedagógica/educacional) e seus aportes para compreender o mundo; um analista crítico da sociedade, portanto, que nela intervém com sua atividade profissional; um membro de uma comunidade de profissionais, portanto, científica (que produz conhecimento sobre sua área) e social. Esse profissional deve ser formado nas universidades, que é o lugar da produção social do conhecimento, da circulação da produção cultural em diferentes áreas do saber e do permanente exercício da crítica histórico-social. A Organização da Aula e Seus Componentes Didáticos do Processo EducacionalA aula é a forma predominante pela qual é organizado o processo de ensino e aprendizagem. É o meio pelo qual o professor transmite aos seus alunos conhecimentos adquiridos no seu processo de formação, experiências de vida, conteúdos específicos para a superação de dificuldades e meios para a construção de seu próprio conhecimento, nesse sentido sendo protagonista de sua formação humana e escolar. É ainda o espaço de interação entre o professor e o indivíduo em formação constituindo um espaço de troca mútua. A aula é o ambiente propício para se pensar, criar, desenvolver e aprimorar conhecimentos, habilidades, atitudes e conceitos, é também onde surgem os questionamentos, indagações e respostas, em uma busca ativa pelo esclarecimento e entendimento acerca desses questionamentos e investigações. Por intermédio de um conjunto de métodos, o educador busca melhor transmitir os conteúdos, ensinamentos e conhecimentos de uma disciplina, utilizando-se dos recursos disponíveis e das habilidades que possui para infundir no aluno o desejo pelo saber. Deve-se ainda compreender a aula como um conjunto de meios e condições por meio das quais o professor orienta, guia e fornece estímulos ao processo de ensino em função da atividade própria dos alunos, ou seja, da assimilação e desenvolvimento de habilidades naturais do aluno na aprendizagem educacional. Sendo a aula um lugar privilegiado da vida pedagógica refere-se às dimensões do processo didático preparado pelo professor e por seus alunos. Aula é toda situação didática na qual se põem objetivos, conhecimentos, problemas, desafios com fins instrutivos e formativos, que incitam as crianças e jovens a aprender. Cada aula é única, pois ela possui seus próprios objetivos e métodos que devem ir de acordo com a necessidade observada no educando. A aula é norteada por uma série de componentes, que vão conduzir o processo didático facilitando tanto o desenvolvimento das atividades educacionais pelo educador como a compreensão e entendimento pelos indivíduos em formação; ela deve, pois, ter uma estruturação e organização, afim de que sejam alcançados os objetivos do ensino. Ao preparar uma aula o professor deve estar atento às quais interesses e necessidades almeja atender, o que pretende com a aula, quais seus objetivos e o que é de caráter urgente naquele momento. A organização e estruturação didática da aula têm por finalidade proporcionar um trabalho mais significativo e bem elaborado para a transmissão dos conteúdos. O estabelecimento desses caminhos proporciona ao professor um maior controle do processo e aos alunos uma orientação mais eficaz, que vá de acordo com previsto. As indicações das etapas para o desenvolvimento da aula, não significa que todas elas devam seguir um cronograma rígido, pois isso depende dos objetivos, conteúdos da disciplina, recursos disponíveis e das características dos alunos e de cada aluno e situações didáticas especificas. Dentro da organização da aula destacaremos agora seus Componentes Didáticos, que são também abordados em alguns trabalhos como elementos estruturantes do ensino didático. São eles: os objetivos (gerais e específicos), os conteúdos, os métodos, os meios e as avaliações. Objetivos São metas que se deseja alcançar, para isso usa-se de diversos meios para se chegar ao esperado. Os objetivos educacionais expressam propósitos definidos, pois o professor quando vai ministrar a aula já vai com os objetivos definidos. Eles têm por finalidade, preparar o docente para determinar o que se requer com o processo de ensino, isto é prepará-lo para estabelecer quais as metas a serem alcançadas, eles constituem uma ação intencional e sistemática. Os objetivos são exigências que requerem do professor um posicionamento reflexivo, que o leve a questionamentos sobre a sua própria prática, sobre os conteúdos os materiais e os métodos pelos quais as práticas educativas se concretizam. Ao elaborar um plano de aula, por exemplo, o professor deve levar em conta muitos questionamentos acerca dos objetivos que aspira, como O que? Para que? Como? E Para quem ensinar? É isso só irá melhorar didaticamente as suas ações no planejamento da aula. Não há prática educativa sem objetivos; uma vez que estes integram o ponto de partida, as premissas gerais para o processo pedagógico. Os objetivos são um guia para orientar a prática educativa sem os quais não haveria uma lógica para orientar o processo educativo. Para que o processo de ensino-aprendizagem aconteça de modo mais organizado faz-se necessário, classificar os objetivos de acordo com os seus propósitos e abrangência, se são mais amplos, denominados objetivos gerais e se são destinados a determinados fins com relação aos alunos, chamados de objetivos específicos. Objetivos Gerais: exprimem propósitos mais amplos acerca do papel da escola e do ensino diante das exigências postas pela realidade social e diante do desenvolvimento da personalidade dos alunos. Por isso ele também afirma que os objetivos educacionais transcendem o espaço da sala de aula atuando na capacitação do indivíduo para as lutas sociais de transformação da sociedade, e isso fica claro, uma vez que os objetivos têm por fim formar cidadãos que venham a atender os anseios da coletividade. Objetivos Específicos: compreendem as intencionalidades específicas para a disciplina, os caminhos traçados para que se possa alcançar o maior entendimento, desenvolvimento de Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br APOSTILAS OPÇÃO Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 45 habilidades por parte dos alunos que só se concretizam no decorrer do processo de transmissão e assimilação dos estudos propostos pelas disciplinas de ensino e aprendizagem. Expressam as expectativas do professor sobre o que deseja obter dos alunos no decorrer do processo de ensino. Têm sempre um caráter pedagógico, porque explicitam a direção a ser estabelecida ao trabalho escolar, em torno de um programa de formação. Conteúdos Os conteúdos de ensino são constituídos por um conjunto de conhecimentos. É a forma pela qual, o professor expõe os saberes de uma disciplina para ser trabalhado por ele e pelos seus alunos. Esses saberes são advindos do conjunto social formado pela cultura, a ciência, a técnica e a arte. Constituem ainda o elemento de mediação no processo de ensino, pois permitem ao discente através da assimilação o conhecimento histórico, cientifico, cultural acerca do mundo e possibilitam ainda a construção de convicções e conceitos. O professor, na sala de aula, utiliza-se dos conteúdos da matéria para ajudar os alunos a desenvolverem competências e habilidades de observar a realidade, perceber as propriedades e características do objeto de estudo, estabelecer relações entre um conhecimento e outro, adquirir métodos de raciocínio, capacidade de pensar por si próprios, fazer comparações entre fatos e acontecimentos, formar conceitos para lidar com eles no dia-a-dia de modo que sejam instrumentos mentais para aplicá-los em situações da vida prática. Neste contexto pretende-se que os conteúdos aplicados pelo professor tenham como fundamento não só a transmissão das informações de uma disciplina, mas que esses conteúdos apresentem relação com a realidade dos discentes e que sirvam para que os mesmos possam enfrentar os desafios impostos pela vida cotidiana. Estes devem também proporcionar o desenvolvimento das capacidades intelectuais e cognitivas do aluno, que o levem ao desenvolvimento crítico e reflexivo acerca da sociedade que integram. Os conteúdos de ensino devem ser vistos como uma relação entre os seus componentes, matéria, ensino e o conhecimento que cada aluno já traz consigo. Pois não basta apenas a seleção e organização lógica dos conteúdos para transmiti-los. Antesos conteúdos devem incluir elementos da vivência prática dos alunos para torná-los mais significativos, mais vivos, mais vitais, de modo que eles possam assimilá-los de forma ativa e consciente. Ao proferir estas palavras, o autor aponta para um elemento de fundamental importância na preparação da aula, a contextualização dos conteúdos. A) Contextualização dos conteúdos A contextualização consiste em trazer para dentro da sala de aula questões presentes no dia a dia do aluno e que vão contribuir para melhorar o processo de ensino e aprendizagem do mesmo. Valorizando desta forma o contexto social em que ele está inserido e proporcionando a reflexão sobre o meio em que se encontra, levando-o a agir como construtor e transformador deste. Então, pois, ao selecionar e organizar os conteúdos de ensino de uma aula o professor deve levar em consideração a realidade vivenciada pelos alunos. B) A relação professor-aluno no processo de ensino e aprendizagem O professor no processo de ensino é o mediador entre o indivíduo em formação e os conhecimentos prévios de uma matéria. Tem como função planejar, orientar a direção dos conteúdos, visando à assimilação constante pelos alunos e o desenvolvimento de suas capacidades e habilidades. É uma ação conjunta em que o educador é o promotor, que faz questionamentos, propõem problemas, instiga, faz desafios nas atividades e o educando é o receptor ativo e atuante, que através de suas ações responde ao proposto produzindo assim conhecimentos. O papel do professor é levar o aluno a desenvolver sua autonomia de pensamento. Métodos de Ensino Métodos de ensino são as formas que o professor organiza as suas atividades de ensino e de seus alunos com a finalidade de atingir objetivos do trabalho docente em relação aos conteúdos específicos que serão aplicados. Os métodos de ensino regulam as formas de interação entre ensino e aprendizagem, professor e os alunos, na qual os resultados obtidos é assimilação consciente de conhecimentos e desenvolvimento das capacidades cognoscitivas e operativas dos alunos. Segundo Libâneo a escolha e organização os métodos de ensino devem corresponder à necessária unidade objetivos- conteúdos-métodos e formas de organização do ensino e as condições concretas das situações didáticas. Os métodos de ensino dependem das ações imediatas em sala de aula, dos conteúdos específicos, de métodos peculiares de cada disciplina e assimilação, além disso, esses métodos implica o conhecimento das características dos alunos quanto à capacidade de assimilação de conteúdos conforme a idade e o nível de desenvolvimento mental e físico e suas características socioculturais e individuais. A relação objetivo-conteúdo-método procuram mostrar que essas unidades constituem a linhagem fundamental de compreensão do processo didático: os objetivos, explicitando os propósitos pedagógicos intencionais e planejados de instrução e educação dos alunos, para a participação na vida social; os conteúdos, constituindo a base informativa concreta para alcançar os objetivos e determinar os métodos; os métodos, formando a totalidade dos passos, formas didáticas e meios organizativos do ensino que viabilizam a assimilação dos conteúdos, e assim, o atingimento dos objetivos. No trabalho docente, os professores selecionam e organizam seus métodos e procedimentos didáticos de acordo com cada matéria. Dessa forma destacamos os principais métodos de ensino utilizado pelo professor em sala de aula: método de exposição pelo professor, método de trabalho independente, método de elaboração conjunta, método de trabalho em grupo. Nestes métodos, os conhecimentos, habilidades e tarefas são apresentados, explicadas e demonstradas pelo professor, além dos trabalhos planejados individuais, a elaboração conjunta de atividades entre professores e alunos visando à obtenção de novos conhecimentos e os trabalhos em grupo. Dessa maneira designamos todos os meios e recursos matérias utilizados pelo professor e pelos alunos para organização e condução metódica do processo de ensino e aprendizagem. Avaliação Escolar A avaliação escolar é uma tarefa didática necessária para o trabalho docente, que deve ser acompanhado passo a passo no processo de ensino e aprendizagem. Através da mesma, os resultados vão sendo obtidos no decorrer do trabalho em conjunto entre professores e alunos, a fim de constatar progressos, dificuldades e orientá-los em seus trabalhos para as correções necessárias. A avaliação escolar é uma tarefa complexa que não se resume à realização de provas e atribuição de notas, ela cumpre funções pedagógico-didáticas, de diagnóstico e de controle em relação ao rendimento escolar. A função pedagógico-didática refere-se ao papel da avaliação no cumprimento dos objetivos gerais e específicos da educação escolar. Ao comprovar os resultados do processo de ensino, evidencia ou não o atendimento das finalidades Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br APOSTILAS OPÇÃO Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 46 sociais do ensino, de preparação dos alunos para enfrentar as exigências da sociedade e inseri-los ao meio social. Ao mesmo tempo, favorece uma atitude mais responsável do aluno em relação ao estudo, assumindo-o como um dever social. Já a função de diagnóstico permite identificar progressos e dificuldades dos alunos e a atuação do professor que, por sua vez, determinam modificações do processo de ensino para melhor cumprir as exigências dos objetivos. A função do controle se refere aos meios e a frequência das verificações e de qualificação dos resultados escolares, possibilitando o diagnóstico das situações didáticas. No entanto, a avaliação durante a pratica escolar tem sido bastante criticada sobre tudo por reduzir-se à sua função de controle, mediante a qual se faz uma classificação quantitativa dos alunos relativa às notas que obtiveram nas provas. Os professores não têm conseguido usar os procedimentos de avaliação que sem dúvida, implicam o levantamento de dados por meio de testes, trabalhos escritos etc. Em relação aos objetivos, funções e papel da avaliação na melhoria das atividades escolares e educativas, tem-se verificado na pratica escolar alguns equívocos. O mais comum é tomar a avaliação unicamente como o ato de aplicar provas, atribuir notas e classificar os alunos. O professor reduz a avaliação à cobrança daquilo que o aluno memorizou e usa a nota somente como instrumento de controle. Tal ideia é descabida, primeiro porque a atribuição de notas visa apenas o controle formal, com objetivo classificatório e não educativo; segundo porque o que importa é o veredito do professor sobre o grau de adequação e conformidade do aluno ao conteúdo que transmite. Outro equívoco é utilizar a avaliação como recompensa aos bons alunos e punição para os desinteressados, além disso, os professores confiam demais em seu olho clínico, dispensam verificações parciais no decorrer das aulas e aqueles que rejeitam as medidas quantitativas de aprendizagem em favor de dados qualitativos. O entendimento correto da avaliação consiste em considerar a relação mútua entre os aspectos quantitativos e qualitativos. A escola cumpre uma função determinada socialmente, a de introduzir as crianças, jovens e adultos no mundo da cultura e do trabalho, tal objetivo não surge espontaneamente na experiência das crianças, jovens e adultos, mas supõe as perspectivas traçadas pela sociedade e controle por parte do professor. Por outro lado, a relação pedagógica requer a independência entre influências externas e condições internas do aluno, pois nesse contexto o professor deve organizar o ensino objetivando o desenvolvimento autônomo e independente do aluno. Referência: SANTOS, E. P. dos; BATISTA, I. C.; M. L. da S.; SILVA, M. de F. F.da. O processo didático educativo: Uma análise reflexiva sobre o processo de ensino e a aprendizagem. Disponível em: http://meuartigo.brasilescola.uol.com.br/pedagogia/processo-didatico- educativo-analise-reflexiva-sobre-processo-ensino-aprendizagem.htm LIBANEO, José Carlos; PIMENTA, Selma Garrido. Formação de profissionais da educação: visão crítica e perspectiva de mudança. Educ. Soc., Campinas, v. 20, n. 68, p. 239-277, Dec. 1999. Questões 01. (UFPE - Pedagogo – COVEST-COPSET). Das alternativas abaixo, assinale a compatível com a didática. (A) Didática relaciona-se com o estudo dos elementos substantivos ou nucleares do currículo. (B) Didática é reconhecida como um espaço próprio no domínio científico da educação. 38 http://pactoensinomedio.mec.gov.br/images/pdf/pceb007_10.pdf (C) Didática é caracterizada como um todo, organizada em função de propósitos e de saberes educativos. (D) Didática é ligada ao estudo dos processos e práticas pedagógicas institucionalizadas. (E) Didática está associada ao conteúdo, ao programa dos processos de formação. 02. (SEDUC/CE - Professor Pleno I – CESPE). Com relação às características e às propriedades relativas à didática e à formação dos professores, assinale a opção correta. (A) A relação entre o professor, o aluno e o ensino de conceitos científicos constitui uma tríade na qual convergem apenas estudos teóricos de diferentes domínios do conhecimento. (B) Didática é a articulação entre teoria e prática na formação do professor. (C) A formação do professor de biologia é complexa e envolve inúmeras disciplinas que, pela especificidade de cada uma delas, não devem se complementar. (D) Um dos princípios gerais da didática é o foco em conteúdos e atividades de ensino que tenham sentido essencialmente pedagógicos. (E) Uma formação global e integral de professores de biologia requer especialização do professor em determinada disciplina do curso. Respostas 01. A / 02.B Observação: esse assunto será abordado no tópico “Lei Federal 9.394, de 20 de dezembro de 1996.” MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO38 PARECER CNE/CEB Nº: 7/2010 I – RELATÓRIO 1.Histórico Na organização do Estado brasileiro, a matéria educacional é conferida pela Lei nº 9.394/96, de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), aos diversos entes federativos: União, Distrito Federal, Estados e Municípios, sendo que a cada um deles compete organizar seu sistema de ensino, cabendo, ainda, à União a coordenação da política nacional de educação, articulando os diferentes níveis e sistemas e exercendo função normativa, redistributiva e supletiva (artigos 8º, 9º, 10 e 11). No tocante à Educação Básica, é relevante destacar que, entre as incumbências prescritas pela LDB aos Estados e ao Distrito Federal, está assegurar o Ensino Fundamental e Aspectos legais e políticos da organização da educação brasileira. Políticas educacionais para a educação básica: as diretrizes curriculares nacionais. (etapas e modalidades). Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br APOSTILAS OPÇÃO Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 47 oferecer, com prioridade, o Ensino Médio a todos que o demandarem. E ao Distrito Federal e aos Municípios cabe oferecer a Educação Infantil em Creches e Pré-Escolas, e, com prioridade, o Ensino Fundamental. Em que pese, entretanto, a autonomia dada aos vários sistemas, a LDB, no inciso IV do seu artigo 9º, atribui à União estabelecer, em colaboração com os Estados, o Distrito Federal e os municípios, competências e diretrizes para a Educação Infantil, o Ensino Fundamental e o Ensino Médio, que nortearão os currículos e seus conteúdos mínimos, de modo a assegurar formação básica comum. A formulação de Diretrizes Curriculares Nacionais constitui, portanto, atribuição federal, que é exercida pelo Conselho Nacional de Educação (CNE), nos termos da LDB e da Lei nº 9.131/95, que o instituiu. Esta lei define, na alínea “c” do seu artigo 9º, entre as atribuições de sua Câmara de Educação Básica (CEB), deliberar sobre as Diretrizes Curriculares propostas pelo Ministério da Educação. Esta competência para definir as Diretrizes Curriculares Nacionais torna-as mandatórias para todos os sistemas. Ademais, atribui-lhe, entre outras, a responsabilidade de assegurar a participação da sociedade no aperfeiçoamento da educação nacional (artigo 7º da Lei nº 4.024/61, com redação dada pela Lei 8.131/95), razão pela qual as diretrizes constitutivas deste Parecer consideram o exame das avaliações por elas apresentadas, durante o processo de implementação da LDB. O sentido adotado neste Parecer para diretrizes está formulado na Resolução CNE/CEB nº 2/98, que as delimita como conjunto de definições doutrinárias sobre princípios, fundamentos e procedimentos na Educação Básica (...) que orientarão as escolas brasileiras dos sistemas de ensino, na organização, na articulação, no desenvolvimento e na avaliação de suas propostas pedagógicas. Por outro lado, a necessidade de definição de Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para a Educação Básica está posta pela emergência da atualização das políticas educacionais que consubstanciem o direito de todo brasileiro à formação humana e cidadã e à formação profissional, na vivência e convivência em ambiente educativo. Têm estas Diretrizes por objetivos: I – sistematizar os princípios e diretrizes gerais da Educação Básica contidos na Constituição, na LDB e demais dispositivos legais, traduzindo-os em orientações que contribuam para assegurar a formação básica comum nacional, tendo como foco os sujeitos que dão vida ao currículo e à escola; II – estimular a reflexão crítica e propositiva que deve subsidiar a formulação, execução e avaliação do projeto político-pedagógico da escola de Educação Básica; III – orientar os cursos de formação inicial e continuada de profissionais – docentes, técnicos, funcionários - da Educação Básica, os sistemas educativos dos diferentes entes federados e as escolas que os integram, indistintamente da rede a que pertençam. Nesse sentido, as Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para a Educação Básica visam estabelecer bases comuns nacionais para a Educação Infantil, o Ensino Fundamental e o Ensino Médio, bem como para as modalidades com que podem se apresentar, a partir das quais os sistemas federal, estaduais, distrital e municipais, por suas competências próprias e complementares, formularão as suas orientações assegurando a integração curricular das três etapas sequentes desse nível da escolarização, essencialmente para compor um todo orgânico. Além das avaliações que já ocorriam assistematicamente, marcou o início da elaboração deste Parecer, particularmente, a Indicação CNE/CEB nº 3/2005, assinada pelo então conselheiro da CEB, Francisco Aparecido Cordão, na qual constava a proposta de revisão das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil e para o Ensino Fundamental. Nessa Indicação, justificava-se que tais Diretrizes encontravam-se defasadas, segundo avaliação nacional sobre a matéria nos últimos anos, e superadas em decorrência dos últimos atos legais e normativos, particularmente ao tratar da matrícula no Ensino Fundamental de crianças de 6 (seis) anos e consequente ampliação do Ensino Fundamental para 9 (nove) anos de duração. Imprescindível acrescentar que a nova redação do inciso I do artigo 208 da nossa Carta Magna, dada pela Emenda Constitucional nº 59/2009, assegura Educação Básica obrigatória e gratuita dos 4 aos 17 anos de idade, inclusive a sua oferta gratuita para todos os que a ela não tiveram acesso na idade própria. Nesta perspectiva, o processo de formulação destas Diretrizes foi acordado,em 2006, pela Câmara de Educação Básica com as entidades: Fórum Nacional dos Conselhos Estaduais de Educação, União Nacional dos Conselhos Municipais de Educação, Conselho dos Secretários Estaduais de Educação, União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação, e entidades representativas dos profissionais da educação, das instituições de formação de professores, das mantenedoras do ensino privado e de pesquisadores em educação. Para a definição e o desenvolvimento da metodologia destinada à elaboração deste Parecer, inicialmente, foi constituída uma comissão que selecionou interrogações e temas estimuladores dos debates, a fim de subsidiar a elaboração do documento preliminar visando às Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Básica, sob a coordenação da então relatora, conselheira Maria Beatriz Luce. (Portaria CNE/CEB nº 1/2006) A comissão promoveu uma mobilização nacional das diferentes entidades e instituições que atuam na Educação Básica no País, mediante: I – encontros descentralizados com a participação de Municípios e Estados, que reuniram escolas públicas e particulares, mediante audiências públicas regionais, viabilizando ampla efetivação de manifestações; II – revisões de documentos relacionados com a Educação Básica, pelo CNE/CEB, com o objetivo de promover a atualização motivadora do trabalho das entidades, efetivadas, simultaneamente, com a discussão do regime de colaboração entre os sistemas educacionais, contando, portanto, com a participação dos conselhos estaduais e municipais. Inicialmente, partiu-se da avaliação das diretrizes destinadas à Educação Básica que, até então, haviam sido estabelecidas por etapa e modalidade, ou seja, expressando-se nas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil; para o Ensino Fundamental; para o Ensino Médio; para a Educação de Jovens e Adultos; para a Educação do Campo; para a Educação Especial; e para a Educação Escolar Indígena. Ainda em novembro de 2006, em Brasília, foi realizado o Seminário Nacional Currículo em Debate, promovido pela Secretaria de Educação Básica/MEC, com a participação de representantes dos Estados e Municípios. Durante esse Seminário, a CEB realizou a sua trigésima sessão ordinária na qual promoveu Debate Nacional sobre as Diretrizes Curriculares para a Educação Básica, por etapas. Esse debate foi denominado Colóquio Nacional sobre as Diretrizes Curriculares Nacionais. A partir desse evento e dos demais que o sucederam, em 2007, e considerando a alteração do quadro de conselheiros do CNE e da CEB, criou-se, em 2009, nova comissão responsável pela elaboração dessas Diretrizes, constituída por Adeum Hilário Sauer (presidente), Clélia Brandão Alvarenga Craveiro (relatora), Raimundo Moacir Mendes Feitosa e José Fernandes de Lima (Portaria CNE/CEB Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br APOSTILAS OPÇÃO Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 48 nº 2/2009). Essa comissão reiniciou os trabalhos já organizados pela comissão anterior e, a partir de então, vem acompanhando os estudos promovidos pelo MEC sobre currículo em movimento, no sentido de atuar articulada e integradamente com essa instância educacional. Durante essa trajetória, os temas considerados pertinentes à matéria objeto deste Parecer passaram a se constituir nas seguintes ideias-força: I – as Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para a Educação Básica devem presidir as demais diretrizes curriculares específicas para as etapas e modalidades, contemplando o conceito de Educação Básica, princípios de organicidade, sequencialidade e articulação, relação entre as etapas e modalidades: articulação, integração e transição; II – o papel do Estado na garantia do direito à educação de qualidade, considerando que a educação, enquanto direito inalienável de todos os cidadãos, é condição primeira para o exercício pleno dos direitos: humanos, tanto dos direitos sociais e econômicos quanto dos direitos civis e políticos; III – a Educação Básica como direito e considerada, contextualizadamente, em um projeto de Nação, em consonância com os acontecimentos e suas determinações histórico-sociais e políticas no mundo; IV – a dimensão articuladora da integração das diretrizes curriculares compondo as três etapas e as modalidades da Educação Básica, fundamentadas na indissociabilidade dos conceitos referenciais de cuidar e educar; V – a promoção e a ampliação do debate sobre a política curricular que orienta a organização da Educação Básica como sistema educacional articulado e integrado; VI – a democratização do acesso, permanência e sucesso escolar com qualidade social, científica, cultural; VII – a articulação da educação escolar com o mundo do trabalho e a prática social; VIII – a gestão democrática e a avaliação; IX – a formação e a valorização dos profissionais da educação; X – o financiamento da educação e o controle social. Ressalte-se que o momento em que estas Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para a Educação Básica estão sendo elaboradas é muito singular, pois, simultaneamente, as diretrizes das etapas da Educação Básica, também elas, passam por avaliação, por meio de contínua mobilização dos representantes dos sistemas educativos de nível nacional, estadual e municipal. A articulação entre os diferentes sistemas flui num contexto em que se vivem: I – os resultados da Conferência Nacional da Educação Básica (2008); II – os 13 anos transcorridos de vigência da LDB e as inúmeras alterações nela introduzidas por várias leis, bem como a edição de outras leis que repercutem nos currículos da Educação Básica; III – o penúltimo ano de vigência do Plano Nacional de Educação (PNE), que passa por avaliação, bem como a mobilização nacional em torno de subsídios para a elaboração do PNE para o período 2011-2020; 39 São as seguintes as alterações na Constituição Federal, promovidas pela Emenda Constitucional nº 59/2009: - Art. 208. (...) I - Educação Básica obrigatória e gratuita dos 4 (quatro) aos 17 (dezessete) anos de idade, assegurada inclusive sua oferta gratuita para todos os que a ela não tiveram acesso na idade própria; (O disposto neste inciso I deverá ser implementado progressivamente, até 2016, nos termos do Plano Nacional de Educação, com apoio técnico e financeiro da União). VII - atendimento ao educando, em todas as etapas da Educação Básica, por meio de programas suplementares de material didático escolar, transporte, alimentação e assistência à saúde. IV – a aprovação do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Professores da Educação (FUNDEB), regulado pela Lei nº 11.494/2007, que fixa percentual de recursos a todas as etapas e modalidades da Educação Básica; V – a criação do Conselho Técnico Científico (CTC) da Educação Básica, da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior do Ministério da Educação (Capes/MEC); VI – a formulação, aprovação e implantação das medidas expressas na Lei nº 11.738/2008, que regulamenta o piso salarial profissional nacional para os profissionais do magistério público da Educação Básica; VII – a criação do Fórum Nacional dos Conselhos de Educação, objetivando prática de regime de colaboração entre o CNE, o Fórum Nacional dos Conselhos Estaduais de Educação e a União Nacional dos Conselhos Municipais de Educação; VIII – a instituição da política nacional de formação de profissionais do magistério da Educação Básica (Decreto nº 6.755, de 29 de janeiro de 2009); IX – a aprovação do Parecer CNE/CEB nº 9/2009 e da Resolução CNE/CEB nº 2/2009, que institui as Diretrizes Nacionais para os Planos de Carreira e Remuneração dos Profissionais do Magistério da Educação Básica Pública, que devem ter sido implantadosaté dezembro de 2009; X – as recentes avaliações do PNE, sistematizadas pelo CNE, expressas no documento Subsídios para Elaboração do PNE Considerações Iniciais. Desafios para a Construção do PNE (Portaria CNE/CP nº 10/2009); XI – a realização da Conferência Nacional de Educação (CONAE), com o tema central “Construindo um Sistema Nacional Articulado de Educação: Plano Nacional de Educação – Suas Diretrizes e Estratégias de Ação”, tencionando propor diretrizes e estratégias para a construção do PNE 2011-2020; XII – a relevante alteração na Constituição, pela promulgação da Emenda Constitucional nº 59/2009, que, entre suas medidas, assegura Educação Básica obrigatória e gratuita dos 4 aos 17 anos de idade, inclusive a sua oferta gratuita para todos os que a ela não tiveram acesso na idade própria; assegura o atendimento ao estudante, em todas as etapas da Educação Básica, mediante programas suplementares de material didático-escolar, transporte, alimentação e assistência à saúde, bem como reduz, anualmente, a partir do exercício de 2009, o percentual da Desvinculação das Receitas da União incidente sobre os recursos destinados à manutenção e ao desenvolvimento do ensino.39 Para a comissão, o desafio consistia em interpretar essa realidade e apresentar orientações sobre a concepção e organização da Educação Básica como sistema educacional, segundo três dimensões básicas: organicidade, sequencialidade e articulação. Dispor sobre a formação básica nacional relacionando-a com a parte diversificada, e com a preparação para o trabalho e as práticas sociais, consiste, portanto, na formulação de princípios para outra lógica de diretriz curricular, que considere a formação humana de sujeitos concretos, que vivem em determinado meio ambiente, contexto histórico e sociocultural, com suas condições físicas, emocionais e intelectuais. - Art. 211. (...) § 4º Na organização de seus sistemas de ensino, a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios definirão formas de colaboração, de modo a assegurar a universalização do ensino obrigatório. - Art. 212. (...) § 3º A distribuição dos recursos públicos assegurará prioridade ao atendimento das necessidades do ensino obrigatório, no que se refere a universalização, garantia de padrão de qualidade e equidade, nos termos do plano nacional de educação Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br APOSTILAS OPÇÃO Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 49 Este Parecer deve contribuir, sobretudo, para o processo de implementação pelos sistemas de ensino das Diretrizes Curriculares Nacionais específicas, para que se concretizem efetivamente nas escolas, minimizando o atual distanciamento existente entre as diretrizes e a sala de aula. Para a organização das orientações contidas neste texto, optou-se por enunciá-las seguindo a disposição que ocupam na estrutura estabelecida na LDB, nas partes em que ficam previstos os princípios e fins da educação nacional; as orientações curriculares; a formação e valorização de profissionais da educação; direitos à educação e deveres de educar: Estado e família, incluindo-se o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) Lei nº 8.069/90 e a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Essas referências levaram em conta, igualmente, os dispositivos sobre a Educação Básica constantes da Carta Magna que orienta a Nação brasileira, relatórios de pesquisas sobre educação e produções teóricas versando sobre sociedade e educação. Com treze anos de vigência já completados, a LDB recebeu várias alterações, particularmente no referente à Educação Básica, em suas diferentes etapas e modalidades. Após a edição da Lei nº 9.475/1997, que alterou o artigo 33 da LDB, prevendo a obrigatoriedade do respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil, outras leis modificaram-na quanto à Educação Básica.40 A maior parte dessas modificações tem relevância social, porque, além de reorganizarem aspectos da Educação Básica, ampliam o acesso das crianças ao mundo letrado, asseguram- lhes outros benefícios concretos que contribuem para o seu desenvolvimento pleno, orientado por profissionais da educação especializados. Nesse sentido, destaca-se que a LDB foi alterada pela Lei nº 10.287/2001 para responsabilizar a escola, o Conselho Tutelar do Município, o juiz competente da Comarca e o representante do Ministério Público pelo acompanhamento sistemático do percurso escolar das crianças e dos jovens. Este é, sem dúvida, um dos mecanismos que, se for efetivado de modo contínuo, pode contribuir significativamente para a permanência do estudante na escola. Destaca-se, também, que foi incluído, pela Lei nº 11.700/2008, o inciso X no artigo 4º, fixando como dever do Estado efetivar a garantia de vaga na escola pública de Educação Infantil ou de Ensino Fundamental mais próxima de sua residência a toda criança a partir do dia em que completar 4 (quatro) anos de idade. Há leis, por outro lado, que não alteram a redação da LDB, porém agregam-lhe complementações, como a Lei nº 9.795/99, que dispõe sobre a Educação Ambiental e institui a Política Nacional de Educação Ambiental; a Lei nº 40 Art. 214. A lei estabelecerá o plano nacional de educação, de duração decenal, com o objetivo de articular o sistema nacional de educação em regime de colaboração e definir diretrizes, objetivos, metas e estratégias de implementação para assegurar a manutenção e desenvolvimento do ensino em seus diversos níveis, etapas e modalidades por meio de ações integradas dos poderes públicos das diferentes esferas federativas que conduzam a: VI - estabelecimento de meta de aplicação de recursos públicos em educação como proporção do produto interno bruto. - Art. 76 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias § 3º Para efeito do cálculo dos recursos para manutenção e desenvolvimento do ensino de que trata o art. 212 da Constituição, o percentual referido no caput deste artigo será de 12,5 % (doze inteiros e cinco décimos por cento) no exercício de 2009, 5% (cinco por cento) no exercício de 2010, e nulo no exercício de 2011. Leis que alteraram a LDB, no que se relaciona com a Educação Básica, e cujas alterações estão em vigor atualmente: Lei nº 12.061/2009: alterou o inciso II do art. 4º e o inciso VI do art. 10 da LDB, para assegurar o acesso de todos os interessados ao Ensino Médio público. Lei nº 12.020/2009: alterou a redação do inciso II do art. 20, que define instituições de ensino comunitárias. Lei nº 12.014/2009: alterou o art. 61 para discriminar as categorias de trabalhadores que se devem considerar profissionais da Educação Básica. Lei nº 12.013/2009: alterou o art. 12, determinando às instituições de ensino obrigatoriedade no envio de informações escolares aos pais, conviventes ou não com seus filhos. Lei nº 11.788/2008: alterou o art. 82, sobre o estágio de estudantes. Lei nº 11.741/2008: redimensionou, institucionalizou e integrou as ações da Educação Profissional Técnica de nível médio, da Educação de Jovens e Adultos e da Educação Profissional e Tecnológica. 10.436/2002, que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS); a Lei nº 10.741/2003, que dispõe sobre o Estatuto do Idoso; a Lei nº 9.503/97, que institui o Código de Trânsito Brasileiro; a Lei nº 11.161/2005, que dispõe sobre o ensino da Língua Espanhola; e o Decreto nº 6.949/2009, que promulga a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo, assinados em Nova York, em 30 de março de 2007. É relevante lembrar que a Constituição Federal, acima de todas as leis, no seu inciso XXV do artigo 7º, determina que um dos direitos dos trabalhadores urbanos e rurais e, portanto, obrigação das empresas, é a assistência gratuita aos filhos e dependentes desde o nascimento até5 (cinco) anos de idade em Creches e Pré-Escolas. Embora redundante, registre-se que todas as Creches e Pré-Escolas devem estar integradas ao respectivo sistema de ensino (artigo 89 da LDB). A LDB, com suas alterações, e demais atos legais desempenham papel necessário, por sua função referencial obrigatória para os diferentes sistemas e redes educativos. Pode-se afirmar, sem sombra de dúvida, que ainda está em curso o processo de implementação dos princípios e das finalidades definidos constitucional e legalmente para orientar o projeto educativo do País, cujos resultados ainda não são satisfatórios, até porque o texto da Lei, por si só, não se traduz em elemento indutor de mudança. Ele requer esforço conjugado por parte dos órgãos responsáveis pelo cumprimento do que os atos regulatórios preveem. No desempenho de suas competências, o CNE iniciou, em 1997, a produção de orientações normativas nacionais, visando à implantação da Educação Básica, sendo a primeira o Parecer CNE/CEB nº 5/97, de lavra do conselheiro Ulysses de Oliveira Panisset. A partir de então, foram editados pelo Conselho Nacional de Educação pareceres e resoluções, em separado, para cada uma das etapas e modalidades. No período de vigência do Plano Nacional de Educação (PNE), desde o seu início até 2008, constata-se que, embora em ritmo distinto, menos de um terço das unidades federadas (26 Estados e o Distrito Federal) apresentaram resposta positiva, uma vez que, dentre eles, apenas 8 formularam e aprovaram os seus planos de educação. Relendo a avaliação técnica do aprovaram os seus planos de educação. Relendo a avaliação técnica do PNE, promovida pela Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados (2004), pode-se constatar que, em todas as etapas e modalidades educativas contempladas no PNE, três aspectos figuram reiteradamente: acesso, capacitação docente e infraestrutura. Em contrapartida, nesse mesmo documento, é assinalado que a Lei nº 11.769/2008: incluiu parágrafo no art. 26, sobre a música como conteúdo obrigatório, mas não exclusivo. Lei nº 11.700/2008: incluiu o inciso X no artigo 4º, fixando como dever do Estado efetivar a garantia de vaga na escola pública de Educação Infantil ou de Ensino Fundamental mais próxima de sua residência a toda criança a partir do dia em que completar 4 (quatro) anos de idade. Lei nº 11.684/2008: incluiu Filosofia e Sociologia como obrigatórias no Ensino Médio. Lei nº 11.645/2008: alterou a redação do art. 26-A, para incluir no currículo a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena”. Lei nº 11.525/2007: acrescentou § 5º ao art. 32, incluindo conteúdo que trate dos direitos das crianças e dos adolescentes no currículo do Ensino Fundamental. Lei nº 11.330/2006: deu nova redação ao § 3º do art. 87, referente ao recenseamento de estudantes no Ensino Fundamental, com especial atenção para o grupo de 6 a 14 anos e de 15 a 16 anos de idade. Lei nº 11.301/2006: alterou o art. 67, incluindo, para os efeitos do disposto no § 5º do art. 40 e no § 8º do art. 201 da Constituição Federal, definição de funções de magistério. Lei nº 11.274/2006: alterou a redação dos arts. 29, 30, 32 e 87, dispondo sobre a duração de 9 (nove) anos para o Ensino Fundamental, com matrícula obrigatória a partir dos 6 (seis) anos de idade. Lei nº 11.114/2005: alterou os arts. 6º, 30, 32 e 87, com o objetivo de tornar obrigatório o início do Ensino Fundamental aos seis anos de idade. Lei nº 10.793/2003: alterou a redação do art. 26, § 3º, e do art. 92 , com referência à Educação Física nos ensinos fundamental e médio Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br APOSTILAS OPÇÃO Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 50 permanência e o sucesso do estudante na escola têm sido objeto de pouca atenção. Em outros documentos acadêmicos e oficiais, são também aspectos que têm sido avaliados de modo descontínuo e escasso, embora a permanência se constitua em exigência fixada no inciso I do artigo 3º da LDB. Salienta-se que, além das condições para acesso à escola, há de se garantir a permanência nela, e com sucesso. Esta exigência se constitui em um desafio de difícil concretização, mas não impossível. O artigo 6º, da LDB, alterado pela Lei nº 11.114/2005, prevê que é dever dos pais ou responsáveis efetuar a matrícula dos menores, a partir dos seis anos de idade, no Ensino Fundamental. Reforça-se, assim, a garantia de acesso a essas etapas da Educação Básica. Para o Ensino Médio, a oferta não era, originalmente, obrigatória, mas indicada como de extensão progressiva, porém, a Lei nº 12.061/2009 alterou o inciso II do artigo 4º e o inciso VI do artigo 10 da LDB, para garantir a universalização do Ensino Médio gratuito e para assegurar o atendimento de todos os interessados ao Ensino Médio público. De todo modo, o inciso VII do mesmo artigo já estabelecia que se deve garantir a oferta de educação escolar regular para jovens e adultos, com características e modalidades adequadas às suas necessidades e disponibilidades, garantindo-se aos que forem trabalhadores as condições de acesso e permanência na escola. O acesso ganhou força constitucional, agora para quase todo o conjunto da Educação Básica (excetuada a fase inicial da Educação Infantil, da Creche), com a nova redação dada ao inciso I do artigo 208 da nossa Carta Magna, que assegura a Educação Básica obrigatória e gratuita dos 4 aos 17 anos de idade, inclusive a gratuita para todos os que a ela não tiveram acesso na idade própria, sendo sua implementação progressiva, até 2016, nos termos do Plano Nacional de Educação, com apoio técnico e financeiro da União. Além do PNE, outros subsídios têm orientado as políticas públicas para a educação no Brasil, entre eles as avaliações do Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB), da Prova Brasil e do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), definidas como constitutivas do Sistema de Avaliação da Qualidade da Oferta de Cursos no País. Destaca-se que tais programas têm suscitado interrogações também na Câmara de Educação Básica do CNE, entre outras instâncias acadêmicas: teriam eles consonância com a realidade das escolas? Esses programas levam em consideração a identidade de cada sistema, de cada unidade escolar? O fracasso do escolar, averiguado por esses programas de avaliação, não estaria expressando o resultado da forma como se processa a avaliação, não estando de acordo com a maneira como a escola e os professores planejam e operam o currículo? O sistema de avaliação aplicado guardaria relação com o que efetivamente acontece na concretude das escolas brasileiras? Como consequência desse método de avaliação externa, os estudantes crianças não estariam sendo punidos com resultados péssimos e reportagens terríveis? E mais, os estudantes das escolas indígenas, entre outros de situações específicas, não estariam sendo afetados negativamente por essas formas de avaliação? Lamentavelmente, esses questionamentos não têm indicado alternativas para o aperfeiçoamento das avaliações nacionais. Como se sabe, as avaliações ENEM e Prova Brasil vêm-se constituindo em políticas de Estado que subsidiam os sistemas na formulação de políticas públicas de equidade, bem como proporcionam elementos aos municípios e escolas para localizarem as suas fragilidades e promoverem ações, na tentativa de superá-las, por meio de metas integradas. Além disso, é proposta do CNE o estabelecimento de uma Base Nacional Comum que terá como um dos objetivos nortear as avaliações e a elaboração de livros didáticos e de outros documentos pedagógicos. O processo de implantação e implementação do disposto na alteração da LDB pela Lei nº 11.274/2006, que estabeleceu o ingresso da criança a partir dos seis anos de idade no Ensino Fundamental, tem como perspectivas melhorar as condições deequidade e qualidade da Educação Básica, estruturar um novo Ensino Fundamental e assegurar um alargamento do tempo para as aprendizagens da alfabetização e do letramento. Se forem observados os dados estatísticos a partir da relação entre duas datas referenciais – 2000 e 2008 –, tem-se surpresa quanto ao quantitativo total de matriculados na Educação Básica, já que se constata redução de matrícula (- 0,7%), em vez de elevação. Contudo, embora se perceba uma redução de 20,6% no total da Educação Infantil, na Creche o crescimento foi expressivo, de 47,7%. Os números indicam que, no Ensino Fundamental e no Ensino Médio, há decréscimo de matrícula, o que trai a intenção nacional projetada em metas constitutivas do Plano Nacional de Educação, pois, no primeiro, constata-se uma queda de -7,3% e, no segundo, de - 8,4%. Uma pergunta inevitável é: em que medida as políticas educacionais estimularia a superação desse quadro e em quais aspectos essas Diretrizes poderiam contribuir como indutoras de mudanças favoráveis à reversão do que se coloca? Há necessidade de aproximação da lógica dos discursos normativos com a lógica social, ou seja, a dos papéis e das funções sociais em seu dinamismo. Um dos desafios, entretanto, está no que Miguel G. Arroyo (1999) aponta, por exemplo, em seu artigo, “Ciclos de desenvolvimento humano e formação de educadores”, em que assinala que as diretrizes para a educação nacional, quando normatizadas, não chegam ao cerne do problema, porque não levam em conta a lógica social. Com base no entendimento do autor, as diretrizes não preveem a preparação antecipada daqueles que deverão implantá-las e implementá-las. O comentário do autor é ilustrativo por essa compreensão: não se implantarão propostas inovadoras listando o que teremos de inovar, listando as competências que os educadores devem aprender e montando cursos de treinamento para formá-los. É (...) no campo da formação de profissionais de Educação Básica onde mais abundam as leis e os pareceres dos conselhos, os palpites fáceis de cada novo governante, das equipes técnicas, e até das agências de financiamento, nacionais e internacionais (Arroyo, 1999, p. 151). Outro limite que tem sido apontado pela comunidade educativa, a ser considerado na formulação e implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para a Educação Básica, é a desproporção existente entre as unidades federadas do Brasil, sob diferentes pontos de vista: recursos financeiros, presença política, dimensão geográfica, demografia, recursos naturais e, acima de tudo, traços socioculturais. Entre múltiplos fatores que podem ser destacados, acentua-se que, para alguns educadores que se manifestaram durante os debates havidos em nível nacional, tendo como foco o cotidiano da escola e as diretrizes curriculares vigentes, há um entendimento de que tanto as diretrizes curriculares, quanto os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), implementados pelo MEC de 1997 a 2002, transformaram-se em meros papéis. Preencheram uma lacuna de modo equivocado e pouco dialógico, definindo as concepções metodológicas a serem seguidas e o conhecimento a ser trabalhado no Ensino Fundamental e no Médio. Os PCNs teriam sido editados como obrigação de conteúdos a serem contemplados no Brasil inteiro, como se fossem um roteiro, sugerindo entender que essa medida poderia ser orientação suficiente para assegurar a qualidade da educação para todos. Entretanto, a educação para todos não é viabilizada por decreto, resolução, portaria ou similar, ou seja, não se efetiva tão somente por meio de prescrição de atividades de ensino ou de estabelecimento de parâmetros ou diretrizes curriculares: Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br APOSTILAS OPÇÃO Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 51 a educação de qualidade social é conquista e, como conquista da sociedade brasileira, é manifestada pelos movimentos sociais, pois é direito de todos. Essa conquista, simultaneamente, tão solitária e solidária quanto singular e coletiva, supõe aprender a articular o local e o universal em diferentes tempos, espaços e grupos sociais desde a primeira infância. A qualidade da educação para todos exige compromisso e responsabilidade de todos os envolvidos no processo político, que o Projeto de Nação traçou, por meio da Constituição Federal e da LDB, cujos princípios e finalidades educacionais são desafiadores: em síntese, assegurando o direito inalienável de cada brasileiro conquistar uma formação sustentada na continuidade de estudos, ou seja, como temporalização de aprendizagens que complexifiquem a experiência de comungar sentidos que dão significado à convivência. Há de se reconhecer, no entanto, que o desafio maior está na necessidade de repensar as perspectivas de um conhecimento digno da humanidade na era planetária, pois um dos princípios que orientam as sociedades contemporâneas é a imprevisibilidade. As sociedades abertas não têm os caminhos traçados para um percurso inflexível e estável. Trata-se de enfrentar o acaso, a volatilidade e a imprevisibilidade, e não programas sustentados em certezas. Há entendimento geral de que, durante a Década da Educação (encerrada em 2007), entre as maiores conquistas destaca-se a criação do FUNDEF, posteriormente transformado em FUNDEB. Este ampliou as condições efetivas de apoio financeiro e de gestão às três etapas da Educação Básica e suas modalidades, desde 2007. Do ponto de vista do apoio à Educação Básica, como totalidade, o FUNDEB apresenta sinais de que a gestão educacional e de políticas públicas poderá contribuir para a conquista da elevação da qualidade da educação brasileira, se for assumida por todos os que nela atuam, segundo os critérios da efetividade, relevância e pertinência, tendo como foco as finalidades da educação nacional, conforme definem a Constituição Federal e a LDB, bem como o Plano Nacional de Educação. Os recursos para a educação serão ainda ampliados com a desvinculação de recursos da União (DRU) aprovada pela já destacada Emenda Constitucional nº 59/2009. Sem dúvida, essa conquista, resultado das lutas sociais, pode contribuir para a melhoria da qualidade social da ação educativa, em todo o País. No que diz respeito às fontes de financiamento da Educação Básica, em suas diferentes etapas e modalidades, no entanto, verifica-se que há dispersão, o que tem repercutido desfavoravelmente na unidade da gestão das prioridades educacionais voltadas para a conquista da qualidade social da educação escolar, inclusive em relação às metas previstas no PNE 2001-2010. Apesar da relevância do FUNDEF, e agora com o FUNDEB em fase inicial de implantação, ainda não se tem política financeira compatível com as exigências da Educação Básica em sua pluridimensionalidade e totalidade. As políticas de formação dos profissionais da educação, as Diretrizes Curriculares Nacionais, os parâmetros de qualidade definidos pelo Ministério da Educação, associados às normas dos sistemas educativos dos Estados, Distrito Federal e Municípios, são orientações cujo objetivo central é o de criar condições para que seja possível melhorar o desempenho das escolas, mediante ação de todos os seus sujeitos. Assume-se, portanto, que as Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para a Educação Básica terão como fundamento essencial a responsabilidade que o Estado brasileiro, a família e a sociedade têm de garantir a democratização do acesso, inclusão, permanência e sucesso das crianças, jovens e adultos na instituição educacional, sobretudo em idade própria a cada etapa e modalidade; a aprendizagem para continuidade dos estudos; e a extensão da obrigatoriedade e da gratuidade da Educação Básica. 2. Mérito Inicialmente, apresenta-se uma sintética reflexão sobre sociedade e a educação, a que se seguem orientaçõespara a Educação Básica, a partir dos princípios definidos constitucionalmente e da contextualização apresentada no histórico, tendo compromisso com a organicidade, a sequencialidade e a articulação do conjunto total da Educação Básica, sua inserção na sociedade e seu papel na construção do Projeto Nacional. Visa-se à formulação das Diretrizes Curriculares específicas para suas etapas e modalidades, organizando-se com os seguintes itens: 1) Referências conceituais; 2) Sistema Nacional de Educação; 3) Acesso e permanência para a conquista da qualidade social; 4) Organização curricular: conceito, limites, possibilidades; 5) Organização da Educação Básica; 6) Elementos constitutivos para organização e implantação das Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para a Educação Básica. A sociedade, na sua história, constitui-se no locus da vida, das tramas sociais, dos encontros e desencontros nas suas mais diferentes dimensões. É nesse espaço que se inscreve a instituição escolar. O desenvolvimento da sociedade engendra movimentos bastante complexos. Ao traduzir-se, ao mesmo tempo, em território, em cultura, em política, em economia, em modo de vida, em educação, em religião e outras manifestações humanas, a sociedade, especialmente a contemporânea, insere-se dialeticamente e movimenta-se na continuidade e descontinuidade, na universalização e na fragmentação, no entrelaçamento e na ruptura que conformam a sua face. Por isso, vive-se, hoje, a problemática da dispersão e ruptura, portanto, da superficialidade. Nessa dinâmica, inscreve-se a compreensão do projeto de Nação, o da educação nacional e, neste, o da instituição escolar, com sua organização, seu projeto e seu processo educativo em suas diferentes dimensões, etapas e modalidades. O desafio posto pela contemporaneidade à educação é o de garantir, contextualizadamente, o direito humano universal e social inalienável à educação. O direito universal não é passível de ser analisado isoladamente, mas deve sê-lo em estreita relação com outros direitos, especialmente, dos direitos civis e políticos e dos direitos de caráter subjetivo, sobre os quais incide decisivamente. Compreender e realizar a educação, entendida como um direito individual humano e coletivo, implica considerar o seu poder de habilitar para o exercício de outros direitos, isto é, para potencializar o ser humano como cidadão pleno, de tal modo que este se torne apto para viver e conviver em determinado ambiente, em sua dimensão planetária. A educação é, pois, processo e prática que se concretizam nas relações sociais que transcendem o espaço e o tempo escolares, tendo em vista os diferentes sujeitos que a demandam. Educação consiste, portanto, no processo de socialização da cultura da vida, no qual se constroem, se mantêm e se transformam saberes, conhecimentos e valores. Exige-se, pois, problematizar o desenho organizacional da instituição escolar, que não tem conseguido responder às singularidades dos sujeitos que a compõem. Torna-se inadiável trazer para o debate os princípios e as práticas de um processo de inclusão social, que garanta o acesso e considere a diversidade humana, social, cultural, econômica dos grupos historicamente excluídos. Trata-se das questões de classe, gênero, raça, etnia, geração, constituídas por categorias que se entrelaçam na vida social pobres, mulheres, afrodescentendes, indígenas, pessoas com deficiência, as populações do campo, os de diferentes orientações sexuais, os sujeitos albergados, aqueles em situação de rua, em privação sociedade brasileira e que começam a ser contemplados pelas políticas públicas. Para que se conquiste a inclusão social, a educação escolar deve fundamentar-se na ética e nos valores da liberdade, na Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br APOSTILAS OPÇÃO Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 52 justiça social, na pluralidade, na solidariedade e na sustentabilidade, cuja finalidade é o pleno desenvolvimento de seus sujeitos, nas dimensões individual e social de cidadãos conscientes de seus direitos e deveres, compromissados com a transformação social. Diante dessa concepção de educação, a escola é uma organização temporal, que deve ser menos rígida, segmentada e uniforme, a fim de que os estudantes, indistintamente, possam adequar seus tempos de aprendizagens de modo menos homogêneo e idealizado. A escola, face às exigências da Educação Básica, precisa ser reinventada: priorizar processos capazes de gerar sujeitos inventivos, participativos, cooperativos, preparados para diversificadas inserções sociais, políticas, culturais, laborais e, ao mesmo tempo, capazes de intervir e problematizar as formas de produção e de vida. A escola tem, diante de si, o desafio de sua própria recriação, pois tudo que a ela se refere constitui-se como invenção: os rituais escolares são invenções de um determinado contexto sociocultural em movimento. A elaboração das Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para a Educação Básica pressupõe clareza em relação ao seu papel de indicador de opções políticas, sociais, culturais, educacionais, e a função da educação, na sua relação com os objetivos constitucionais de projeto de Nação, fundamentando-se na cidadania e na dignidade da pessoa, o que implica igualdade, liberdade, pluralidade, diversidade, respeito, justiça social, solidariedade e sustentabilidade. 2.1 Referências conceituais Os fundamentos que orientam a Nação brasileira estão definidos constitucionalmente no artigo 1º da Constituição Federal, que trata dos princípios fundamentais da cidadania e da dignidade da pessoa humana, do pluralismo político, dos valores sociais do trabalho e da livre iniciativa. Nessas bases, assentam-se os objetivos nacionais e, por consequência, o projeto educacional brasileiro: construir uma sociedade livre, justa e solidária; garantir o desenvolvimento nacional; erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; promover o bem de todos sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. Esse conjunto de compromissos prevê também a defesa da paz; a autodeterminação dos povos; a prevalência dos direitos humanos; o repúdio ao preconceito, à violência e ao terrorismo; e o equilíbrio do meio ambiente, bem de uso comum do povo e essencial à qualidade de vida, impondo-se ao poder público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e as futuras gerações. As bases que dão sustentação ao projeto nacional de educação responsabilizam o poder público, a família, a sociedade e a escola pela garantia a todos os estudantes de um ensino ministrado com base nos seguintes princípios: I – igualdade de condições para o acesso, inclusão, permanência e sucesso na escola; II – liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o pensamento, a arte e o saber; III – pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas; IV – respeito à liberdade e aos direitos; V – coexistência de instituições públicas e privadas de ensino; VI – gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais; VII – valorização do profissional da educação escolar; VIII – gestão democrática do ensino público, na forma da legislação e normas dos sistemas de ensino; IX – garantia de padrão de qualidade; X – valorização da experiência extraescolar; XI – vinculação entre a educação escolar, o trabalho e as práticas sociais. Além das finalidades da educação nacional enunciadas na Constituição Federal (artigo 205) e na LDB (artigo 2º), que têm como foco o pleno desenvolvimento da pessoa, a preparação para o exercício da cidadania e a qualificação para o trabalho, deve-se considerar integradamente o previsto no ECA (Lei nº 8.069/90), o qual assegura, à criança e ao adolescente de até18 anos, todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa, as oportunidades oferecidas para o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade. São direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito mútuo, à liberdade, à convivência familiar e comunitária (artigos 2º, 3º e 4º). A Educação Básica é direito universal e alicerce indispensável para a capacidade de exercer em plenitude o direto à cidadania. É o tempo, o espaço e o contexto em que o sujeito aprende a constituir e reconstituir a sua identidade, em meio a transformações corporais, afetivo-emocionais, socioemocionais, cognitivas e socioculturais, respeitando e valorizando as diferenças. Liberdade e pluralidade tornam-se, portanto, exigências do projeto educacional. Da aquisição plena desse direito depende a possibilidade de exercitar todos os demais direitos, definidos na Constituição, no ECA, na legislação ordinária e nas inúmeras disposições legais que consagram as prerrogativas do cidadão brasileiro. Somente um ser educado terá condição efetiva de participação social, ciente e consciente de seus direitos e deveres civis, sociais, políticos, econômicos e éticos. Nessa perspectiva, é oportuno e necessário considerar as dimensões do educar e do cuidar, em sua inseparabilidade, buscando recuperar, para a função social da Educação Básica, a sua centralidade, que é o estudante. Cuidar e educar iniciam- se na Educação Infantil, ações destinadas a crianças a partir de zero ano, que devem ser estendidas ao Ensino Fundamental, Médio e posteriores. Cuidar e educar significa compreender que o direito à educação parte do princípio da formação da pessoa em sua essência humana. Trata-se de considerar o cuidado no sentido profundo do que seja acolhimento de todos – crianças, adolescentes, jovens e adultos – com respeito e, com atenção adequada, de estudantes com deficiência, jovens e adultos defasados na relação idade-escolaridade, indígenas, afrodescendentes, quilombolas e povos do campo. Educar exige cuidado; cuidar é educar, envolvendo acolher, ouvir, encorajar, apoiar, no sentido de desenvolver o aprendizado de pensar e agir, cuidar de si, do outro, da escola, da natureza, da água, do Planeta. Educar é, enfim, enfrentar o desafio de lidar com gente, isto é, com criaturas tão imprevisíveis e diferentes quanto semelhantes, ao longo de uma existência inscrita na teia das relações humanas, neste mundo complexo. Educar com cuidado significa aprender a amar sem dependência, desenvolver a sensibilidade humana na relação de cada um consigo, com o outro e com tudo o que existe, com zelo, ante uma situação que requer cautela em busca da formação humana plena. A responsabilidade por sua efetivação exige corresponsabilidade: de um lado, a responsabilidade estatal na realização de procedimentos que assegurem o disposto nos incisos VII e VIII, do artigo 12 e VI do artigo 13, da LDB; de outro, a articulação com a família, com o Conselho Tutelar, com o juiz competente da Comarca, com o representante do Ministério Público e com os demais segmentos da sociedade. Para que isso se efetive, torna-se exigência, também, a corresponsabilidade exercida pelos profissionais da educação, necessariamente articulando a escola com as famílias e a comunidade. Nota-se que apenas pelo cuidado não se constrói a educação e as dimensões que a envolvem como projeto transformador e libertador. A relação entre cuidar e educar se Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br APOSTILAS OPÇÃO Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 53 concebe mediante internalização consciente de eixos norteadores, que remetem à experiência fundamental do valor, que influencia significativamente a definição da conduta, no percurso cotidiano escolar. Não de um valor pragmático e utilitário de educação, mas do valor intrínseco àquilo que deve caracterizar o comportamento de seres humanos, que respeitam a si mesmos, aos outros, à circunstância social e ao ecossistema. Valor este fundamentado na ética e na estética, que rege a convivência do indivíduo no coletivo, que pressupõe relações de cooperação e solidariedade, de respeito à alteridade e à liberdade. Cuidado, por sua própria natureza, inclui duas significações básicas, intimamente ligadas entre si. A primeira consiste na atitude de solicitude e de atenção para com o outro. A segunda é de inquietação, sentido de responsabilidade, isto é, de cogitar, pensar, manter atenção, mostrar interesse, revelar atitude de desvelo, sem perder a ternura (Boff, 1999, p. 91), compromisso com a formação do sujeito livre e independente daqueles que o estão gerando como ser humano capaz de conduzir o seu processo formativo, com autonomia e ética. Cuidado é, pois, um princípio que norteia a atitude, o modo prático de realizar-se, de viver e conviver no mundo. Por isso, na escola, o processo educativo não comporta uma atitude parcial, fragmentada, recortada da ação humana, baseada somente numa racionalidade estratégico-procedimental. Inclui ampliação das dimensões constitutivas do trabalho pedagógico, mediante verificação das condições de aprendizagem apresentadas pelo estudante e busca de soluções junto à família, aos órgãos do poder público, a diferentes segmentos da sociedade. Seu horizonte de ação abrange a vida humana em sua globalidade. É essa concepção de educação integral que deve orientar a organização da escola, o conjunto de atividades nela realizadas, bem como as políticas sociais que se relacionam com as práticas educacionais. Em cada criança, adolescente, jovem ou adulto, há uma criatura humana em formação e, nesse sentido, cuidar e educar são, ao mesmo tempo, princípios e atos que orientam e dão sentido aos processos de ensino, de aprendizagem e de construção da pessoa humana em suas múltiplas dimensões. Cabe, aqui, uma reflexão sobre o conceito de cidadania, a forma como a ideia de cidadania foi tratada no Brasil e, em muitos casos, ainda o é. Reveste-se de uma característica – para usar os termos de Hannah Arendt – essencialmente “social”. Quer dizer: algo ainda derivado e circunscrito ao âmbito da pura necessidade. É comum ouvir ou ler algo que sugere uma noção de cidadania como “acesso dos indivíduos aos bens e serviços de uma sociedade moderna”, discurso contemporâneo de uma época em que os inúmeros movimentos sociais brasileiros lutavam, essencialmente, para obter do Estado condições de existência mais digna, do ponto de vista dominantemente material. Mesmo quando esse discurso se modificou num sentido mais “político” e menos “social”, quer dizer, uma cidadania agora compreendida como a participação ativa dos indivíduos nas decisões pertinentes à sua vida cotidiana, esta não deixou de ser uma reivindicação que situava o político na precedência do social: participar de decisões públicas significa obter direitos e assumir deveres, solicitar ou assegurar certas condições de vida minimamente civilizadas. Em um contexto marcado pelo desenvolvimento de formas de exclusão cada vez mais sutis e humilhantes, a cidadania aparece hoje como uma promessa de sociabilidade, em que a escola precisa ampliar parte de suas funções, solicitando de seus agentes a função de mantenedores da paz nas relações sociais, diante das formas cada vez mais amplas e destrutivas de violência. Nessa perspectiva e no cenário em que a escola 41 SAVIANI, Dermeval. Sistema de educação: subsídios para a Conferência Nacional de Educação. In: Reflexões sobre o Sistema Nacional Articulado de de Educação Básica se insere e em que o professor e o estudante atuam, há que se perguntar: de que tipo de educação os homens e as mulheres dos próximos 20 anos necessitam,para participarem da construção desse mundo tão diverso? A que trabalho e a que cidadania se refere? Em outras palavras, que sociedade florescerá? Por isso mesmo, a educação brasileira deve assumir o desafio de propor uma escola emancipadora e libertadora. 2.2. Sistema Nacional de Educação O Sistema Nacional de Educação é tema que vem suscitando o aprofundamento da compreensão sobre sistema, no contexto da história da educação, nesta Nação tão diversa geográfica, econômica, social e culturalmente. O que a proposta de organização do Sistema Nacional de Educação enfrenta é, fundamentalmente, o desafio de superar a fragmentação das políticas públicas e a desarticulação institucional dos sistemas de ensino entre si, diante do impacto na estrutura do financiamento, comprometendo a conquista da qualidade social das aprendizagens, mediante conquista de uma articulação orgânica. Os debates sobre o Sistema Nacional de Educação, em vários momentos, abordaram o tema das diretrizes para a Educação Básica. Ambas as questões foram objeto de análise em interface, durante as diferentes etapas preparatórias da Conferência Nacional de Educação (CONAE) de 2009, uma vez que são temas que se vinculam a um objetivo comum: articular e fortalecer o sistema nacional de educação em regime de colaboração. Para Saviani41, o sistema é a unidade de vários elementos intencionalmente reunidos de modo a formar um conjunto coerente e operante. Caracterizam, portanto, a noção de sistema: a intencionalidade humana; a unidade e variedade dos múltiplos elementos que se articulam; a coerência interna articulada com a externa. Alinhado com essa conceituação, este Parecer adota o entendimento de que sistema resulta da atividade intencional e organicamente concebida, que se justifica pela realização de atividades voltadas para as mesmas finalidades ou para a concretização dos mesmos objetivos. Nessa perspectiva, e no contexto da estrutura federativa brasileira, em que convivem sistemas educacionais autônomos, faz-se necessária a institucionalização de um regime de colaboração que dê efetividade ao projeto de educação nacional. União, Estados, Distrito Federal e Municípios, cada qual com suas peculiares competências, são chamados a colaborar para transformar a Educação Básica em um conjunto orgânico, sequencial, articulado, assim como planejado sistemicamente, que responda às exigências dos estudantes, de suas aprendizagens nas diversas fases do desenvolvimento físico, intelectual, emocional e social. Atende-se à dimensão orgânica quando são observadas as especificidades e as diferenças de cada uma das três etapas de escolarização da Educação Básica e das fases que as compõem, sem perda do que lhes é comum: as semelhanças, as identidades inerentes à condição humana em suas determinações históricas e não apenas do ponto de vista da qualidade da sua estrutura e organização. Cada etapa do processo de escolarização constitui-se em unidade, que se articula organicamente com as demais de maneira complexa e intrincada, permanecendo todas elas, em suas diferentes modalidades, individualizadas, ao logo do percurso do escolar, apesar das mudanças por que passam por força da singularidade de cada uma, bem assim a dos sujeitos que lhes dão vida. Educação e o Plano Nacional de Educação. Brasília, Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, 2009. Apostila Digital Licenciada para IASMIM SANTOS FERREIRA - iasmimferreira20@gmail.com (Proibida a Revenda) - www.apostilasopcao.com.br APOSTILAS OPÇÃO Educação Brasileira: Educacionais e Pedagógicos 54 Atende-se à dimensão sequencial quando os processos educativos acompanham as exigências de aprendizagem definidas em cada etapa da trajetória escolar da Educação Básica (Educação Infantil, Ensino Fundamental e Médio), até a Educação Superior. São processos educativos que, embora se constituam em diferentes e insubstituíveis momentos da vida dos estudantes, inscritos em tempos e espaços educativos próprios a cada etapa do desenvolvimento humano, inscrevem-se em trajetória que deve ser contínua e progressiva. A articulação das dimensões orgânica e sequencial das etapas e modalidades da Educação Básica, e destas com a Educação Superior, implica a ação coordenada e integradora do seu conjunto; o exercício efetivo do regime de colaboração entre os entes federados, cujos sistemas de ensino gozam de autonomia constitucionalmente reconhecida. Isso pressupõe o estabelecimento de regras de equivalência entre as funções distributiva, supletiva, de regulação normativa, de supervisão e avaliação da educação nacional, respeitada a autonomia dos sistemas e valorizadas as diferenças regionais. Sem essa articulação, o projeto educacional – e, por conseguinte, o projeto nacional – corre o perigo de comprometer a unidade e a qualidade pretendida, inclusive quanto ao disposto no artigo 22 da LDB: desenvolver o educando, assegurar-lhe a formação comum indispensável para o exercício da cidadania e fornecer-lhe meios para progredir no trabalho e em estudos posteriores, inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana. Mais concretamente, há de se prever que a transição entre Pré-Escola e Ensino Fundamental pode se dar no interior de uma mesma instituição, requerendo formas de articulação das dimensões orgânica e sequencial entre os docentes de ambos os segmentos que assegurem às crianças a continuidade de seus processos peculiares de aprendizagem e desenvolvimento. Quando a transição se dá entre instituições diferentes, essa articulação deve ser especialmente cuidadosa, garantida por instrumentos de registro – portfólios, relatórios que permitam, aos docentes do Ensino Fundamental de uma outra escola, conhecer os processos de desenvolvimento e aprendizagem vivenciados pela criança na Educação Infantil da escola anterior. Mesmo no interior do Ensino Fundamental, há de se cuidar da fluência da transição da fase dos anos iniciais para a fase dos anos finais, quando a criança passa a ter diversos docentes, que conduzem diferentes componentes e atividades, tornando-se mais complexas a sistemática de estudos e a relação com os professores. A transição para o Ensino Médio apresenta contornos bastante diferentes dos anteriormente referidos, uma vez que, ao ingressarem no Ensino Médio, os jovens já trazem maior experiência com o ambiente escolar e suas rotinas; além disso, a dependência dos adolescentes em relação às suas famílias é quantitativamente menor e qualitativamente diferente. Mas, certamente, isso não significa que não se criem tensões, que derivam, principalmente, das novas expectativas familiares e sociais que envolvem o jovem. Tais expectativas giram em torno de três variáveis principais conforme o estrato sociocultural em que se produzem: a) os “conflitos da adolescência”; b) a maior ou menor aproximação ao mundo do trabalho; c) a crescente aproximação aos rituais da passagem da Educação Básica para a Educação Superior. Em resumo, o conjunto da Educação Básica deve se constituir em um processo orgânico, sequencial e articulado, que assegure à criança, ao adolescente, ao jovem e ao adulto de qualquer condição e região do País a formação comum para o pleno exercício da cidadania, oferecendo as condições 42 A garantia de padrão de qualidade é um dos princípios da LDB (inciso IX do artigo 3º). necessárias para o seu desenvolvimento integral. Estas são finalidades de todas as etapas constitutivas da Educação Básica, acrescentando-se os meios para que possa progredir no mundo do trabalho e acessar a Educação Superior. São referências conceituais e legais, bem como desafio para as diferentes instâncias responsáveis pela concepção, aprovação e execução das políticas educacionais. 2.3. Acesso e permanência para a conquista da qualidade social A qualidade social