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Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 1 Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 2 ÍNDICE DIREITO PENAL 01 CONFLITO APARENTE DE NORMAS ............................................................................................... 03 02 CONCURSO DE CRIMES ............................................................................................................... 11 03 CONCURSO DE PESSOAS ............................................................................................................. 18 PROCESSO PENAL 04 DAS NULIDADES ......................................................................................................................... 34 05 DA TEORIA GERAL PROVAS .......................................................................................................... 43 06 DAS PROVAS EM ESPÉCIE ............................................................................................................ 59 PADRÃO DE RESPOSTAS .............................................................................................................. 91 Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 3 CONFLITO APARENTE DE NORMAS I) CONCEITO Algumas vezes os tipos penais se coordenam, relacionam e interpenetram, de sorte que um mesmo episódio encontra a possibilidade de ser captado, alcançado e subsumido por mais de um tipo legal delitivo, sem que, no entanto, todos se apliquem. Em outras palavras, às vezes, duas ou mais normas parecem regular o mesmo fato. Neste caso, surge o que se denomina conflito aparente de normas penais, também chamado concurso aparente de normas, concurso aparente de normas coexistentes, concurso ideal impróprio e concurso impróprio de normas. Diz-se aparente porque só seria real se a ordem jurídica não resolvesse a questão. Portanto, conflito aparente de normas é a situação que ocorre quando, ao mesmo fato, parecem ser aplicáveis duas ou mais normas, formando um conflito apenas aparente. É o conflito que se estabelece entre duas ou mais normas aparentemente aplicáveis ao mesmo fato. Há conflito porque mais de uma norma pretende regular o fato, mas é aparente, porque, com efeito, apenas uma delas acaba sendo aplicada à hipótese. II) PRINCÍPIOS PARA A SOLUÇÃO DOS CONFLITOS APARENTES DE NORMAS Como dito, o conflito que se estabelece entre as normas é apenas aparente, porque, na realidade, somente uma delas acaba regulamentando o fato, ficando afastadas as demais. 01 Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 4 A solução dá-se pela aplicação de alguns princípios, os quais, ao mesmo tempo em que afastam as normas não incidentes, apontam aquela que realmente regulamenta o caso concreto. Os mais importantes são três: princípio da especialidade, princípio da subsidiariedade e o princípio da consunção. - Alguns autores incluem, ainda, um quarto princípio: o da alternatividade. A) PRINCÍPIO DA ESPECIALIDADE A.1) Conceito de norma especial Diz-se que uma norma penal incriminadora é especial em relação a outra, geral, quando possui em sua definição legal todos os elementos típicos desta, e mais alguns, de natureza objetiva ou subjetiva, denominados especializantes, apresentando, por isso, um minus ou um plus de severidade. A norma especial, ou seja, a que acresce elemento próprio à descrição legal do crime previsto na geral, prefere a esta, conforme dispõe o artigo 12 do CP Ex1: A norma do art. 123 do CP, que trata do infanticídio, prevalece sobre a do art. 121, que cuida do homicídio, porque possui, além dos elementos genéricos deste último, os seguintes especializantes: “próprio filho”, “durante o parto ou logo após” e “sob a influência do estado puerperal”. O infanticídio não é mais completo nem mais grave, ao contrário, é bem mais brando do que o homicídio. É, no entanto, especial em relação àquele. Ex2: Sob outro aspecto, na conduta de importar cocaína, aparentemente duas normas se aplicam: a do art. 334 do CP, definindo o delito de contrabando (importar mercadoria proibida) e a do art. 33 da Lei de Tóxicos (importação de substância entorpecente ou que determina dependência física ou psíquica). Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 5 O tipo incriminador previsto na Lei de Tóxicos, embora mais grave, é especial em relação ao contrabando. Assim, a importação de qualquer mercadoria proibida configura o delito de contrabando, mas, se ela for de substância psicotrópica, esse elemento especializante afastará a incidência do art. 334 do CP. B) PRINCÍPIO DA SUBSIDIARIEDADE B.1) Conceito de norma subsidiária Há relação de subsidiariedade entre normas quando descrevem graus de violação do mesmo bem jurídico, de forma que a infração definida pela subsidiária, de menor gravidade que a da principal, é absorvida por esta. Subsidiária é aquela que descreve um grau menor de violação de um mesmo bem jurídico, isto é, um fato menos amplo e menos grave, o qual, embora definido como delito autônomo, encontra-se também compreendido em outro tipo como fase normal de execução de crime mais grave. Dessa forma, se for cometido o fato mais amplo, duas normas aparentemente incidirão: aquela que define esse fato e a outra que descreve apenas uma parte ou fase dele. A norma que descreve o “todo”, isto é, o fato mais abrangente, é conhecida como primária e, por força do princípio da subsidiariedade, absorverá a menos ampla, que é a norma subsidiária, justamente porque esta última cabe dentro dela. A norma primária não é especial, é mais ampla. O crime de ameaça (art. 147) cabe no de constrangimento ilegal mediante ameaça (art. 146), o qual, por sua vez, cabe dentro da extorsão (art. 158). O sequestro (art. 148) no de extorsão mediante sequestro (art. 159). O disparo de arma de fogo (Lei 10.826/2003, art. 15) cabe no de homicídio cometido mediante disparos de arma de fogo (art. 121). Há um único fato, o qual pode ser maior do que a norma subsidiária, só se pode encaixar na primária. Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 6 B.2) Comparação Não pode ser feita como no caso da especialidade. Em primeiro lugar, porque, para a aplicação do princípio da subsidiariedade, é imprescindível a análise do caso concreto, sendo insuficiente a mera comparação abstrata dos tipos penais. Com efeito, da mera leitura de tipos não se saberá qual deles deve ser aplicado ao caso concreto. Antes de mais nada, é necessário verificar qual crime foi praticado e qual foi a intenção do agente, para só então saber qual norma incidirá. Em segundo lugar, na subsidiariedade não existem elementos especializantes, mas descrição típica de fato mais abrangente e mais grave. A comparação se faz de parte a todo, de conteúdo a continente, de menos para mais amplo, de menos para mais grave, de minus a plus. Um fato (subsidiário) está dentro do outro (primário). É como se tivéssemos duas caixas de tamanhos diferentes, uma (a subsidiária) cabendo na outra (primária). Ex: o agente efetua disparos de arma de fogo sem, no entanto, atingir a vítima. Aparentemente três normassão aplicáveis: o art. 132 do CP (periclitação da vida ou saúde de outrem); o art. 15 da Lei 10.826/2003 (disparo de arma de fogo); e o art. 121 c/c o art. 14, II, do CP. O tipo definidor da tentativa de homicídio descreve um fato mais amplo e mais grave, dentro do qual cabem os dois primeiros. Assim, se ficar comprovada a intenção de matar, aplica-se a norma primária, qual seja, a da tentativa branca de homicídio; não demonstrada a vontade de matar, o agente responderá pelo crime de disparo de arma de fogo, o qual é considerado mais grave do que a periclitação. Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 7 B.3) Espécies a) Subsidiariedade Expressa ou explícita A própria norma reconhece expressamente seu caráter subsidiário, admitindo incidir somente se não ficar caracterizado fato de maior gravidade. Ex. Art. 132 - Expor a vida ou a saúde de outrem a perigo direto e iminente: Pena - detenção, de três meses a um ano, se o fato não constitui crime mais grave. Ex2: art. 129, § 3º, do CP, ao definir a lesão corporal seguida de morte, afirma incidir se “...as circunstâncias evidenciam que o agente não quis o resultado, nem assumiu o risco de produzi-lo”. b) SUBSIDIARIEDADE TÁCITA OU IMPLÍCITA Ocorre quando uma figura típica funciona como elementar ou circunstância legal específica de outra, de maior gravidade punitiva, de forma que esta exclui a simultânea punição da primeira. A norma nada diz, mas, diante do caso concreto, verifica-se a sua subsidiariedade. Ex1. Estupro contendo o constrangimento ilegal. Ex2: O crime de dano é subsidiário do furto qualificado pelo arrombamento. Os elementos típicos do dano funcionam como circunstância qualificadora do furto. Ex3: O constrangimento ilegal (art. 146) é subsidiário de todos os crimes que têm como meios executórios a vis absoluta e a vis compulsiva (violência física e grave ameaça), como o aborto de coacta (art. 126, par. Único), a extorsão (art. 158). Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 8 c) PRINCÍPIO DA CONSUNÇÃO C.1) Conceito Ocorre quando um ato definido por uma norma incriminadora é meio necessário ou normal fase de preparação ou execução de outro crime, bem como quando constitui conduta anterior ou posterior do agente, cometida com a mesma finalidade prática atinente àquele crime. Trata-se da hipótese de crime meio e do crime fim. Ex1. é o que se dá na violação de domicílio com a finalidade de praticar furto em residência. A violação é mera fase de execução do delito de furto. Ex2: O crime de homicídio absorve o delito de porte ilegal de arma, pois esta infração penal constitui-se simples meio para a eliminação da vida. Ex3: O estelionato absorve o falso, quando este é fase de execução daquele. Súmula 17 STJ “Quando o falso se exaure no estelionato, sem mais potencialidade lesiva, é por este absorvido”. No conflito, os crimes se denominam: 1º) crime consuntivo: o que absorve o de menor gravidade; 2º) crime conjunto: o absorvido. C.2) Fato anterior (“ante factum”) não punível Caracteriza-se quando um fato antecedente menos grave é considerado meio necessário para a prática de outro fato, mais grave, ficando, por conseguinte, o primeiro absorvido. Verifica-se o antefactum não punível quando uma conduta menos grave precede a uma mais grave como meio necessário ou normal de realização. Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 9 A primeira é consumida pela segunda. Em consequência da absorção, o antefato torna-se um indiferente penal. É o que ocorre no caso de o sujeito ter em seu poder “instrumentos empregados usualmente na prática do crime de furto” (art. 25 LCP) e, em seguida, praticar uma subtração punível. O detentor de chaves falsas ou gazuas, que se serve desses meios para praticar um furto, responde somente pela subtração, em que fica consumida a contravenção. C.3) Fato posterior (“post factum”) não punível A prática ulterior (posterior) à consumação do delito, consistente em nova agressão ao mesmo bem jurídico é considerada mero exaurimento (exemplo: um sujeito furta um objeto e o vende. O fato de o agente ter vendido o bem furtado é irrelevante, tendo em vista que o furto não deixará de ser punido). Ocorre quando, após realizada a conduta, o agente pratica novo ataque contra o mesmo bem jurídico, visando apenas tirar proveito da prática anterior. O fato posterior é tomado como mero exaurimento. Ex: após o furto, o agente vende ou destrói a coisa. Existe o posfactum impunível quando um fato posterior menos grave é praticado contra o mesmo bem jurídico e do mesmo sujeito, para a utilização de um fato antecedente e mais grave, e disso para deste tirar proveito, mas sem causar outra ofensa. Assim, se após o furto o ladrão destrói a coisa subtraída, só responde pelo furto, e não também pelo dano (art. 163). Neste caso, a lesão ao interesse jurídico causada pela conduta precedente torna indiferente o crime de dano. C.4) Crime Progressivo e Progressão Criminosa I – CRIME PROGRESSIVO – O AGENTE DESDE O INÍCIO DE SUA CONDUTA POSSUI A INTENÇÃO DE ALCANÇAR O RESULTADO MAIS GRAVE, DE MODO QUE SEUS ATOS Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 10 VIOLAM O BEM JURÍDICO DE FORMA CRESCENTE. AS VIOLAÇÕES ANTERIORES FICAM ABSORVIDAS. CRIME DE PASSAGEM OBRIGATÓRIA – DELITO DE MENOR GRAVIDADE, ESTANDO NA MESMA LINHA DE DESDOBRAMENTO DA OFENSA DO BEM JURÍDICO PRINCIPAL. Ex. Para consumar o homicídio haverá o crime de lesão corporal (crime de passagem). II – PROGRESSÃO CRIMINOSA – O AGENTE PRODUZ O RESULTADO PRETENDIDO, MAS, EM SEGUIDA, RESOLVE (SUBSTITUIÇÃO DO DOLO) PROGREDIR NA VIOLAÇÃO DO BEM JURÍDICO E PRODUZ UM RESULTADO MAIS GRAVE QUE O ANTERIOR. O FATO INICIAL FICA ABSORVIDO. Ex. SUJEITO PRATICA LC. EM SEGUIDA NÃO SATISFEITO RESOLVE MATÁ- LA. OBS: SUBSTITUIÇÃO DO DOLO – NÃO CONFUNDIR COM CRIME PROGRESSIVO, POIS NESTE O AGENTE DEDSDE O INÍCIO POSSUI A INTENÇÃO DE PRATICAR O CRIME DE MAIOR GRAVIDADE. D) PRINCÍPIO DA ALTERNATIVIDADE Aplica-se aos tipos mistos alternativos, isto é, aqueles que descrevem crimes de ação múltipla. Assim, mesmo havendo várias formas de conduta (mais de um verbo) no mesmo tipo, somente haverá a consumação de um único delito, independente da quantidade de condutas realizadas no mesmo contexto. Ex. Artigo 122 do código penal e artigo 33 da lei de drogas. OBS: Na verdade não há conflito de normas, mas conflito dentro da própria figura típica. Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 11 CONCURSO DE CRIMES 2.1) CONCURSO MATERIAL – Art. 69 Ocorre o concurso material quando o agente, mediante mais de uma ação ou omissão, pratica dois ou mais crimes, idênticos ou não (art. 69, caput). 0 Ex: o agente ingressa na residência da vítima, furta e comete estupro. A) APLICAÇÃO DA PENA Nos termos do art. 69, caput, quando o agente realiza o concurso real de crimes, “aplicam-se cumulativamente as penas em que haja incorrido”. Portanto, no concurso material as penas são cumuladas, somadas. Ex: se comete furto e estupro, as penas privativas de liberdade devem ser somadas. 2.2) CONCURSO FORMAL – Art. 70 A) CONCEITO Ocorre o concursoformal (ou ideal) quando o agente, mediante uma só ação ou omissão, pratica dois ou mais crimes (art. 70, caput). Difere do concurso material pela unidade de conduta. Ex. o agente, com um só tiro ou um golpe só, ofende mais de uma pessoa; Concurso Material Concurso Formal Concurso Continuado 1 ação ou omissão 02 (ou mais) crimes UNIDADE de conduta PLURALIDADE de CRIMES de 1 ação ou omissão 02 (ou mais) crimes PLURALIDADES de condutas e crimes SOMA AS PENAS 02 Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 12 B) CONCURSO FORMAL PERFEITO – Art. 70, primeira parte Está previsto na primeira parte do artigo 70. Ocorre quando o agente pratica duas ou mais infrações penais através de uma única conduta. Resulta de um único desígnio. O agente, por meio de um só impulso volitivo, dá causa a dois ou mais resultados. Ex: o agente dirige um carro em alta velocidade e acaba por atropelar e matar três pessoas. C) CONCURSO FORMAL IMPERFEITO – Art. 70, segunda parte É o resultado de desígnios autônomos. Aparentemente, há uma só ação, mas o agente intimamente deseja os outros resultados ou aceita o risco de produzi-los. Como se nota, essa espécie de concurso formal só é possível nos crimes dolosos. Ex: o agente incendeia uma residência com a intenção de matar todos os moradores. O agente tem desígnios autônomos (intenção de matar) em relação a cada um dos moradores da residência. Observe-se a expressão “desígnios autônomos”: abrange tanto o dolo direto quanto o dolo eventual. Assim, haverá concurso formal imperfeito, por exemplo, entre o delito de homicídio doloso com dolo direto e outro com dolo eventual. Neste caso o concurso continua sendo formal, mas, na aplicação da pena, manda o CP que seja realizada com base na regra do concurso material: as penas devem ser somadas. D) APLICAÇÃO DA PENA * No concurso formal perfeito Se for homogêneo, aplica-se a pena de qualquer dos crimes, acrescida de 1/6 até a metade. 1 ação ou omissão 02 (ou mais) crimes Com a intenção de produzir cada um dos resultados SOMA DAS PENAS Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 13 Se for heterogêneo, aplica-se a pena do mais grave, aumentada de 1/6 até a metade. O aumento varia de acordo com o número de resultados produzidos. * No concurso formal imperfeito As penas devem ser somadas, de acordo com a regra do concurso material. 2.3) CRIME CONTINUADO - Art. 71 A) CONCEITO Ocorre o crime continuado quando o agente, mediante mais de uma ação ou omissão, pratica dois ou mais crimes da MESMA ESPÉCIE, devendo os subsequentes, pelas condições de TEMPO, LUGAR, MANEIRA DE EXECUÇÃO E OUTRAS SEMELHANTES, ser havidos como continuação do primeiro (art. 71, caput). B) REQUISITOS a) PLURALIDADE DE CONDUTAS O mesmo agente deve praticar duas ou mais condutas. Se houver uma conduta, ainda que desdobrada em vários atos ou vários resultados, o concurso poderá ser formal. de 1 ação ou omissão 02 (ou mais) crimes CRITÉRIO EXASPERAÇÃO DA PENA Da mesma ESPÉCIE, CONDIÇÕES DE TEMPO, LUGAR e MODO DE EXECUÇÃO Pluralidade de Condutas Crimes da mesma Espécie Condições de Tempo Condições de Lugar Maneira de Execução Homogeneidade das Circunstâncias Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 14 b) CRIMES DA MESMA ESPÉCIE São os que estiverem previstos no mesmo tipo penal. Nesse prisma, tanto faz sejam figuras simples ou qualificadas, dolosas ou culposas, tentadas ou consumadas. Assim, furto e roubo, embora delitos do “mesmo gênero” (contra o patrimônio), não são da mesma espécie. Entre eles, por isso, não pode haver continuação. Esta é a posição dominante. c) CONDIÇÕES DE TEMPO Deve haver uma conexão temporal entre as condutas praticadas para que se configure a continuidade delitiva. Deve existir, em outros termos, uma certa periodicidade que permita observar-se um certo ritmo, uma certa uniformidade, entre as ações sucessivas, embora não se possam fixar, a respeito, indicações precisas. A jurisprudência considera crime continuado quando praticados no intervalo de tempo entre um e outro inferior a 30 dias. d) CONDIÇÕES DE LUGAR (ESPAÇO) Deve existir entre os crimes da mesma espécie uma conexão espacial para caracterizar o crime continuado. A jurisprudência mesma circunstância de espaço quando os crimes são praticados na mesma cidade ou em regiões metropolitanas. e) MANEIRA DE EXECUÇÃO A lei exige semelhança e não identidade. A semelhança na “maneira de execução” se traduz no modus operandi de realizar a conduta delitiva. Maneira de execução é o modo, a forma, o estilo de praticar o crime, que, na verdade, é apenas mais um dos requisitos objetivos da continuação criminosa. Ex: o furto fraudulento, por exemplo, não guarda nexo de continuidade com o furto mediante arrombamento ou escalada. f) HOMOGENEIDADE DAS CIRCUNSTÂNCIAS Para a configuração do crime continuado, não é suficiente a satisfação das circunstâncias objetivas homogêneas, sendo de exigir-se, além disso, que “os delitos tenham sido praticados pelo sujeito aproveitando-se das mesmas relações e oportunidades ou com a utilização de ocasiões nascidas da primitiva orientação. Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 15 C) CRIME CONTINUADO ESPECÍFICO – Art. 71, parágrafo único O crime continuado específico prevê a necessidade de três requisitos, que devem ocorrer simultaneamente: a) Contra vítimas diferentes: Admite-se nexo de causalidade entre crimes que lesam interesses jurídicos pessoais, ainda que praticados contra vítimas diversas Assim, admite a reforma penal nexo de continuidade entre homicídios, lesões corporais ou roubos contra vítimas diversas, podendo o juiz, de acordo com as circunstâncias judiciais do art. 59, caput, aumentar a pena de um dos delitos até o triplo, desde que a pena não seja superior à que seria imposta se o caso fosse de concurso material. b) com violência ou grave ameaça à pessoa Mesmo que o crime seja contra vítimas diferentes, se não houver violência – real ou ficta – contra a pessoa, não haverá a continuidade específica, mesmo que haja violência contra a coisa. c) somente em crimes dolosos Se a ação criminosa for praticada contra vítimas diferentes, com violência à pessoa, mas não for produto de uma conduta dolosa, não estará caracterizada a exceção. D) APLICAÇÃO DA PENA * Crime continuado comum: aplica-se a pena do crime mais grave, aumentada de 1/6 até 2/3. * crime continuado específico: Aplica-se a pena do crime mais grave aumentada até o triplo. - Se, da aplicação da regra do crime continuado, a pena resultar superior à que restaria se somadas as penas, aplica-se a regra do concurso material. Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 16 Unidade De Conduta Unidade De Conduta Formal Perfeito Formal Imperfeito Crimes Mesma Espécie ssssss Condições Modo Execução Exasperação De pena Cúmulo MaterialExasperação De pena Tempo Lugar CONCURSO DE CRIMES Concurso Material art. 69, CP Concurso Formal Crime Continuado art. 70, CP art. 71, CP Pluralidade De Condutas Cúmulo Material Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 17 Questão 04 – XXII EXAME Diego e Júlio caminham pela rua, por volta das 21h, retornando para suas casas após mais um dia de aula na faculdade, quando são abordados por Marcos, que, mediante grave ameaça de morte e utilizando simulacro de arma de fogo, exige que ambos entreguem as mochilas e os celulares que carregavam. Após os fatos, Diego e Júlio comparecem em sede policial, narram o ocorrido e descrevem as características físicas do autor do crime. Por volta das 5h da manhã do dia seguinte, policiais militares em patrulhamento se deparam com Marcos nas proximidades do local do fato e verificam que ele possuía as mesmas características físicas do roubador. Todavia, não são encontrados com Marcos quaisquer dos bens subtraídos, nem o simulacro de arma de fogo. Ele é encaminhado para a Delegacia e, tendo-se verificado que era triplamente reincidente na prática de crimes patrimoniais, a autoridade policial liga para as residências de Diego e Júlio, que comparecem em sede policial e, em observância de todas as formalidades legais, realizam o reconhecimento de Marcos como responsável pelo assalto. O Delegado, então, lavra auto de prisão em flagrante em desfavor de Marcos, permanecendo este preso, e o indicia pela prática do crime previsto no Art. 157, caput, do Código Penal, por duas vezes, na forma do Art. 69 do Código Penal. Diante disso, Marcos liga para seu advogado para informar sua prisão. Este comparece, imediatamente, em sede policial, para acesso aos autos do procedimento originado do Auto de Prisão em Flagrante. Considerando apenas as informações narradas, na condição de advogado de Marcos, responda, de acordo com a jurisprudência dos Tribunais Superiores, aos itens a seguir. A) Qual requerimento deverá ser formulado, de imediato, em busca da liberdade de Marcos e sob qual fundamento? Justifique. (Valor: 0,65) B) Oferecida denúncia na forma do indiciamento, qual argumento de direito material poderá ser apresentado pela defesa para questionar a capitulação delitiva constante da nota de culpa, em busca de uma punição mais branda? Justifique. (Valor: 0,60) Obs.: o(a) examinando(a) deve fundamentar suas respostas. A mera citação do dispositivo legal não confere pontuação. Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 18 CONCURSO DE PESSOAS 3.1) CONCEITO DE CONCURSO DE PESSOAS Trata-se de contribuição entre dois ou mais agentes para o cometimento de uma infração penal. Ocorre quando duas ou mais pessoas, em conjugação de esforços, reúnem-se para a prática de um ou mais delitos. A doutrina utiliza também as expressões concurso de agentes e codelinquência. 3.2) AUTORIA I) CONCEITO Para se compreender o instituto do concurso de pessoas, mostra-se imprescindível estabelecer o conceito de autoria criminal, já que repercutirá na identificação da conduta de cada agente na prática delituosa. Várias teorias buscam definir o conceito de autor, merecendo destaque duas posições apontadas pela doutrina: a) Teoria do domínio do fato De acordo com a teoria do domínio do fato, autor é quem tem o controle final do fato. É quem domina o decurso do crime e decide sobre sua prática, interrupção e circunstâncias. O partícipe não tem o domínio do fato, pois apenas coopera, induz e incita a prática do delito. Assim, autor é quem realiza a figura típica, mas também quem tem o controle da ação típica dos demais, dividindo-se entre “autor executor”, “autor intelectual” e “autor mediato”. O partícipe é aquele que contribui para o delito alheio, sem realizar a figura típica, nem tampouco comandar a ação. Assim, exemplificando, por essa teoria, o chefe de um grupo de justiceiros, que ordenou a execução, bem como o agente que diretamente matou a vítima são coautores. (NUCCI, 2012, p. 384). b) Teoria restritiva Segundo essa teoria, autor é aquele que pratica a ação descrita no verbo nuclear do tipo penal, isto é, o que pratica o verbo nuclear do tipo: mata, subtrai, constrange, etc. Em síntese, autor é aquele que realiza a conduta descrita no tipo penal, ou seja, executa a ação consubstanciada no verbo núcleo do tipo. O partícipe, por sua vez, apenas coopera com o delito, induzindo, instigando ou auxiliando materialmente seu autor (ESTEFAM, 2010, p. 281). 03 Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 19 Nesse sentido, quem aponta o revólver, exercendo a grave ameaça, e quem subtrai os bens da vítima são coautores do roubo, enquanto o motorista do carro que aguarda para dar fuga aos agentes é o partícipe (os dois primeiros praticaram o tipo do art. 157; o último apenas auxiliou) (NUCCI, 2013, p. 384). B) TEORIA ADOTADA Um setor respeitável da doutrina, sustenta que a teoria do domínio do fato deve ser aceita como solução aos casos envolvendo autoria mediata1. Ao tecer comentários sobre a autoria mediata, Bitencourt (2009, p. 453) assevera que: A teoria do domínio do fato molda com perfeição a possibilidade da figura do autor mediato. Todo o processo de realização da figura típica, segundo essa teoria, deve apresentar-se como obra da vontade reitora do “homem de trás”, o qual deve ter absoluto controle sobre o executor do fato. O autor mediato realiza a ação típica através de outrem, que atua sem culpabilidade. Todavia, para a maioria da doutrina2, a teoria restritiva é a aplicada pelo Código Penal. Na visão de NUCCI (2013, p. 385), a melhor teoria é a restritiva, ou seja, coautor é aquele que pratica, de algum modo, a figura típica, enquanto ao partícipe fica reservada a posição de auxílio material ou suporte moral (onde se inclui o induzimento, a instigação ou o comando) para a concretização do crime. Consegue-se, com isso, uma clara visão entre dois agentes distintos na realização do tipo penal – o que ingressa no modelo legal de conduta proibida e o que apoia, de fora, a sua materialização -, proporcionando uma melhor análise da culpabilidade. 1 Autoria mediata, em síntese, ocorre quando o agente se vale de outra pessoa, que age sem dolo ou culpa, para a prática do delito. 2 Guilherme de Souza Nucci; André Estefam; Fernando Capez, Aníbal Bruno, Mirabete, René Ariel Dotti, dentre outros. Assim, AUTOR é quem realiza a figura típica, isto é, quem executa o crime, enquanto o PARTÍCIPE é todo aquele que contribui de qualquer forma para a prática delituosa, induzindo, instigando ou auxiliando, sem executar, portanto, a ação descrita no verbo nuclear do tipo. Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 20 3.3) PARTICIPAÇÃO I) CONCEITO E FORMAS DE PARTICIPAÇÃO – Art. 31 Conforme a teoria restritiva de autoria, partícipe é quem contribui para que o autor ou coautores realizem a conduta principal, ou seja, aquele que, sem praticar o verbo nuclear do tipo, concorre de algum modo para a produção do resultado. De acordo com a teoria do domínio do fato, participação é a contribuição dolosa – sem o domínio do fato – em um fato punível de outrem (PRADO, 2010, p. 463). Como regra, o partícipe responde pelo mesmo crime dos autores e coautores do delito e a pena em abstrato para todos é a mesma. É claroque, no momento da fixação da pena, o juiz deve levar em conta o grau de envolvimento de cada um no ilícito (culpabilidade). É até possível em certos casos que o partícipe receba pena mais alta do que o próprio autor do delito, como eventualmente no caso do mentor intelectual. (ESTEFAM; GONÇALVES, 2013, p. 443). A participação pode ser: A) Moral A determinação (ou induzimento) e a instigação são as formas de participação moral. A.1) Induzimento ou determinação Ocorre a determinação ou induzimento quando uma pessoa faz surgir na mente de outra a intenção delituosa. Ex: Rafa incute na mente de Iuri a ideia homicida contra Jonas. A característica da determinação é a inexistência da resolução criminosa na pessoa do autor principal. Se Iuri matar Jonas, Rafa responde por homicídio na condição de partícipe. A.2) Instigação Instigar é reforçar uma ideia já existente. O agente já a tem em mente, sendo apenas reforçada pelo partícipe. No caso do exemplo acima, Iuri já tinha em mente matar Jonas. Rafa apenas reforçou a ideia homicida. Rafa é partícipe do crime de homicídio, enquanto Iuri responde pelo crime na condição de autor. Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 21 B) Material Ocorre na forma de auxílio. Considera-se, assim, partícipe aquele que presta ajuda efetiva na preparação ou execução do delito. Auxilia na preparação quem fornece a arma ou informações úteis à realização do crime. Auxilia na execução quem permanece de atalaia, no sentido de avisar o autor da aproximação de terceiro, leva o ladrão em seu veículo ao local do furto, carrega a arma do homicida. II) NATUREZA JURÍDICA DA PARTICIPAÇÃO A participação é acessória a um fato principal. Significa que não se pode falar em participação sem que haja uma ação principal, ou seja, sem que alguém realize atos de execução de um crime consumado ou tentado. Como a conduta do partícipe não descrita no tipo penal, faz-se necessária uma norma de extensão que viabilize a adequação típica da conduta do partícipe à norma incriminadora. Trata-se de uma norma de ligação entre a conduta do partícipe e o tipo penal. E essa norma se encontra no artigo 29 do Código Penal, segundo o qual quem concorrer, de qualquer forma, para um crime por ele responderá. NÃO EXECUTA AÇÃO DESCRITA NO VERBO NUCLEAR DO TIPO FORMAS MORAL MATERIAL PARTÍCIPE AUXILIAR INDUZIR; INSTIGAR AUTOR executa a ação descrita no verbo nuclear do tipo: TEORIA RESTRITIVA Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 22 Nesse sentido, o artigo 29 do Código Penal viabiliza que o agente que contribuiu para um resultado sem praticar a ação descrita no tipo penal seja enquadrado no crime praticado por conta de uma conduta principal (do autor). Assim, quem ajudou a matar não praticou a conduta descrita no art. 121 do Código Penal, mas, como concorreu para o seu cometimento, será alcançado pelo tipo do homicídio, graças à regra do art. 29. Uma vez atestada que a conduta do partícipe é acessória em relação à do autor, o ponto nevrálgico é atestar o grau de acessoriedade em relação à conduta principal, ou seja, definir a extensão da conduta principal para que haja participação punível. Existem diversas teorias acerca do assunto, destacando-se três. *Acessoriedade limitada: De acordo com essa teoria, a participação será punível se a conduta principal se revestir de tipicidade e antijuridicidade. Ou seja, o fato principal deve ser típico e ilícito. Não é necessário que o autor seja culpável. Assim, a participação exige, além da tipicidade do fato principal, a sua ilicitude. Em outras palavras, se a conduta for típica, mas praticada acobertada por uma excludente de ilicitude, não haverá participação punível. Ex: Leocádio instiga Bento a defender-se de uma agressão injusta que está sendo cometida por Tavinho. Leocádio e Bento não respondem pelo resultado lesivo produzido em Tavinho, pois agiram em situação de legítima defesa, fato considerado lícito pela legislação penal. FATO PRINCIPAL FATO TÍPICO FATO ILÍCITO PRINCÍPIO DA ACESSORIEDADE LIMITADA DESNECESSÁRIO QUE AUTOR SEJA CULPÁVEL Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 23 QUESTÃO 2 - VI EXAME OAB Hugo é inimigo de longa data de José e há muitos anos deseja matá-lo. Para conseguir seu intento, Hugo induz o próprio José a matar Luiz, afirmando falsamente que Luiz estava se insinuando para a esposa de José. Ocorre que Hugo sabia que Luiz é pessoa de pouca paciência e que sempre anda armado. Cego de ódio, José espera Luiz sair do trabalho e, ao vê-lo, corre em direção dele com um facão em punho, mirando na altura da cabeça. Luiz, assustado e sem saber o motivo daquela injusta agressão, rapidamente saca sua arma e atira justamente no coração de José, que morre instantaneamente. Instaurado inquérito policial para apurar as circunstâncias da morte de José, ao final das investigações, o Ministério Público formou sua opinio no seguinte sentido: Luiz deve responder pelo excesso doloso em sua conduta, ou seja, deve responder por homicídio doloso; Hugo por sua vez, deve responder como partícipe de tal homicídio. A denúncia foi oferecida e recebida. Considerando que você é o advogado de Hugo e Luiz, responda: a) Qual peça deverá ser oferecida, em que prazo e endereçada a quem? (Valor: 0,3) b) Qual a tese defensiva aplicável a Luiz? (Valor: 0,5) c) Qual a tese defensiva aplicável a Hugo? (Valor: 0,45) Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 24 III) PARTICIPAÇÃO IMPUNÍVEL – Art. 31 Para a participação ser punível, afigura-se imprescindível que o ato executório do crime tenha sido iniciado. Ex: Fabrício contrata Félix para matar Mafalda. Félix sai em busca de Mafalda e, ao avistá-la, apiedado, não dá início ao intento executório. Nesse caso, tanto Fabrício quanto Félix não respondem pelo delito de homicídio, pois sequer foi dado início ao ato executório. IV) PARTICIPAÇÃO POSTERIOR AO CRIME A participação em concurso de pessoas exige que a conduta acessória tenha sido praticada antes ou durante a execução do delito. A contribuição posterior à consumação do crime, conforme o caso, pode configurar o crime de favorecimento pessoal (art. 348 do CP) ou real (art. 349 do CP), além de outros... É claro que, se uma pessoa diz ao ladrão, antes de um furto, que se dispõe a comprar carro de determinada marca e modelo e realmente o faz após a subtração, ela é partícipe do furto porque, antes do delito, incentivou o furtador – embora tenha recebido o bem posteriormente. Ao contrário, aquele que recebe o veículo furtado sem ter de qualquer modo incentivado anteriormente o crime incorre em delito de receptação. (ESTEFAM; GONÇALVES, 2013, p. 445). QUESTÃO 01 – IX EXAME OAB Raimundo, já de posse de veículo automotor furtado de concessionária, percebe que não tem onde guardá-lo antes de vendê-lo para a pessoa que o encomendara. Assim, resolve ligar para um grande amigo seu, Henrique, e após contar toda sua empreitada, pede-lhe que ceda a garagem de sua casa para que possa guardar o veículo, ao menos por aquela noite. Como Henrique aceita ajudá-lo, Raimundo estaciona o carro na casa do amigo. Ao raiar do dia, Raimundo parte com o veículo, que seria levado para o comprador. Considerando as informaçõescontidas no texto responda, justificadamente, aos itens a seguir. A) Raimundo e Henrique agiram em concurso de agentes? (Valor: 0,75) B) Qual o delito praticado por Henrique? (Valor: 0,50) Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 25 3.4) TEORIA UNITÁRIA (OU MONISTA) Todos os que contribuem para a prática do delito cometem o mesmo crime, não havendo distinção quanto ao enquadramento típico entre autor e partícipe. Comentando sobre a teoria unitária, NUCCI (2013, p. 389) leciona que “havendo pluralidade de agentes, com diversidade de condutas, mas provocando-se apenas um resultado, há somente um delito. Nesse caso, portanto, todos os que tomam parte na infração penal cometem idêntico crime. É a teoria adotada, como regra, pelo Código Penal (Exposição de Motivos, item 25)”. Daí decorre o nome da teoria: todos respondem por um único crime (Teoria unitária). 3.5) REQUISITOS DO CONCURSO DE PESSOAS A) PLURALIDADE DE CONDUTAS Trata-se de requisito elementar do concurso de pessoas: a concorrência de mais de uma pessoa na execução de uma infração penal. Assim, para que haja concurso de pessoas, exige-se que cada um dos agentes tenha realizado ao menos uma conduta relevante. Pode ser em coautoria, onde há duas condutas principais; ou autoria e participação, onde há uma conduta principal e outra acessória, praticadas, respectivamente, por autor e partícipe. P A R T IC IP A Ç Ã O PUNÍVEL QUANDO O AUTOR DEU INÍCIO À EXECUÇÃO DO CRIME ART. 31 - O AJUSTE, A DETERMINAÇÃO OU INSTIGAÇÃO E O AUXÍLIO, SALVO DISPOSIÇÃO EXPRESSA EM CONTRÁRIO, NÃO SÃO PUNÍVEIS, SE O CRIME NÃO CHEGA, PELO MENOS, A SER TENTADO. CONDUTA ACESSÓRIA TEM QUE SER PRATICADA ANTES OU DURANTE À AÇÃO DELITUOSA CONTRIBUIÇÃO POSTERIOR AO CRIME PODE CONFIGURAR FAVORECIMENTO PESSOAL (ART. 348 CP) OU FAVORECIMENTO REAL (ART. 349 CP) PUNÍVEL QUANDO A CONDUTA PRINCIPAL FOR TÍPICA E ILÍCITA NÃO É NECESSÁRIO QUE A CONDUTA SEJA CULPÁVEL Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 26 B) RELEVÂNCIA CAUSAL DAS CONDUTAS Para justificar a punição de duas ou mais pessoas em concurso, afigura-se necessário que a conduta do agente tenha efetivamente contribuído, ainda que minimamente, para a produção do resultado. Em outras palavras, se a conduta não tem relevância causal, isto é, se não contribuiu em nada para a produção do resultado, não pode ser considerada como integrante do concurso de pessoas. A simples manifestação de adesão a uma prática delituosa não configura participação. Assim, se Tereza Cristina simplesmente diz que vai concorrer no homicídio a ser cometido por Ferdinand não há participação. Agora, se Tereza Cristina instiga Ferdinand a matar, ocorrendo pelo menos tentativa de homicídio, existe participação. De outro lado, no exemplo daquele que, querendo participar de um homicídio, empresta uma arma de fogo ao executor, que não a utiliza e tampouco se sente estimulado ou encorajado com tal empréstimo a executar o delito. Aquele não pode ser tido como partícipe pela simples e singela razão de que o seu comportamento foi irrelevante, isto é, sem qualquer eficácia causal. (BITENCOURT, 2011, p. 485). C) DO LIAME SUBJETIVO E NORMATIVO (Vínculo subjetivo e normativo entre os participantes) Exige-se homogeneidade de elemento subjetivo-normativo. Significa que autor e partícipe devem agir com o mesmo elemento subjetivo (dolo+dolo) ou normativo (culpa+culpa). As várias condutas não são suficientes para a existência da participação ou coautoria. Imprescindível é o elemento subjetivo, pelo qual cada concorrente tem consciência de contribuir para a realização do resultado. Os agentes devem atuar conscientes de que participam de crime comum, ainda que não tenha havido acordo prévio de vontades. A ausência desse elemento psicológico inviabiliza o concurso de pessoas, ensejando condutas isoladas e autônomas. O simples conhecimento da realização de uma infração penal ou mesmo a concordância psicológica caracterizam, no máximo, conivência, que não é punível, a título de participação, se não constituir, pelo menos, alguma forma de contribuição causal, ou, então, constituir, por si mesma, uma infração típica. Tampouco será responsabilizado com partícipe quem, Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 27 tendo ciência da realização de um delito, não o denuncia às autoridades, salvo se tiver o dever jurídico de fazê-lo. (BITENCOURT, 2011, p. 485). Assim, não há participação dolosa em crime culposo. Ex. Anastácio, desejando matar Grizelda, sua paciente, alcança a Januária, enfermeira contratada para cuidar da velha senhora, uma substância dizendo ser medicamento, quando, na verdade, tratava-se de veneno. Mesmo percebendo a dosagem inadequada e a coloração diferente, a enfermeira, sem maiores cautelas, de forma negligente, ministra a substância à paciente, causando-lhe a morte. Não há, no caso, concurso de pessoas, por ausência de vínculo subjetivo, já que Anastácio agiu com dolo e Januária a título de culpa. Há, portanto, dois delitos: homicídio doloso em relação a Anastácio; homicídio culposo em relação a Janária. Da mesma forma, não há participação culposa em crime doloso. Ex. médico, negligentemente, entrega a uma enfermeira um veneno, supondo-o substância medicinal. Ela, percebendo o engano, mas com intenção de matar o doente, ministra-lhe a substância fatal. Há dois crimes: homicídio culposo por parte do médico; doloso em relação à enfermeira. (JESUS, 2010, p. 464). Importante lembrar que a lei não requer acordo prévio entre agentes, sendo suficiente a consciência por parte das pessoas que de algum modo contribuem com o fato. (ESTEFAM, 2010, p. 280). Ex. uma empregada doméstica, percebendo a presença de um ladrão, para vingar-se do patrão, deliberadamente deixa a porta aberta, facilitando a prática do furto. Há participação e, não obstante, o ladrão desconhecia a colaboração da empregada. Por consequência, a empregada também responderá pelo crime de furto. Vínculo normativo guarda relação com os crimes culposos. D) IDENTIDADE DE INFRAÇÃO PARA TODOS OS PARTICIPANTES Nos termos do artigo 29, todos que concorrem para o crime respondem pelo mesmo delito. Ex: Alguém planeja a realização da conduta típica, ao executá-la, enquanto um desvia a atenção da vítima, outro lhe subtrai os pertences e ainda um terceiro encarrega-se de evadir-se do local com o produto do furto. Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 28 É uma exemplar divisão de trabalho constituída de várias atividades, convergentes, contudo, a um mesmo objetivo típico: subtração de coisa alheia móvel. Respondem todos por um único tipo penal, qual seja, furto. 3.6) CONCURSO EM CRIMES OMISSIVOS a) Participação por omissão A participação por omissão ocorre quando o agente tem o dever jurídico de evitar o resultado, ao tomar ciência de que terceira pessoa pretende praticar um crime, omite-se, mesmo podendo evitar a execução do delito, admitindo que o resultado criminoso se produza. Ex: Um policial visualizado uma pessoa desconhecida estuprando uma mulher. Mesmo sendo possível evitar a execução do delito e ciente do seu dever de agir, o policial conscientemente se omite, admitindo à conduta do estuprador. O desconhecido será autor do delito de estupro e o policial partícipe por omissão, pois tinha o dever jurídico de impedir o resultado (art. 13, § 2º, “a”). Conforme leciona Nucci (2013,p. 391), “pode ocorrer a participação por omissão em um crime, desde que a pessoa que se omitiu tivesse o dever de evitar o resultado. Portanto, o bombeiro que, tendo o dever jurídico de agir para combater o fogo, omite-se deliberadamente, pode responder como partícipe do crime de incêndio”. REQUISITOS DO CONCURSO DE PESSOAS (cumulativos) PLURALIDADE DE CONDUTAS RELEVÂNCIA CAUSAL LIAME SUBJETIVO E NORMATIVO MESMA FINALIDADE DOLO + DOLO DESNECESSÁRIO AJUSTE PRÉVIO IDENTIDADE DE INFRAÇÃO PARA TODOS OS PARTICIPANTES Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 29 b) Coautoria e participação em crimes omissivos A coautoria e a participação em crime omissivo não se confunde com a participação por omissão. Na participação por omissão, o agente, tendo o dever jurídico de agir para evitar o resultado (art. 13, §2º), omite-se intencionalmente, admitindo a execução e consumação do delito; na coautoria ou participação em crime omissivo, o agente, tendo o dever jurídico de agir e evitar o resultado, adota postura ativa na produção do resultado, colaborando na prática delituosa induzindo, auxiliando ou instigando outrem a descumprir a conduta exigida no tipo legal. Em outras palavras, na participação por omissão, o agente que detém o dever jurídico de impedir o resultado atua de forma omissiva no crime praticado por terceira pessoa. Com relação aos crimes omissivos impróprios, afigura-se perfeitamente possível tanto a coautoria quanto a participação. Nesse sentido, destaca-se o exemplo sugerido por ESTEFAM e GONÇALVES (2013, p. 447): Quando pai e mãe combinam não alimentar o filho de pouca idade para que ele morra de fome, há coautoria, pois ambos têm o dever jurídico de evitar o resultado e este só ocorre em decorrência da omissão recíproca. De nada adiantaria, para alcançar o fim almejado, que um deles deixasse de alimentar o filho, mas o outro o fizesse. Haverá participação, por sua vez, por parte daquele que não tem o dever jurídico de evitar o resultado, mas que incentiva o detentor deste dever a se omitir. QUESTÃO 4 – X EXAME Erika e Ana Paula, jovens universitárias, resolvem passar o dia em uma praia paradisíaca e, de difícil acesso (feito através de uma trilha), bastante deserta e isolada, tão isolada que não há qualquer estabelecimento comercial no local e nem mesmo sinal de telefonia celular. As jovens chegam bastante cedo e, ao chegarem, percebem que além delas há somente um salva-vidas na praia. Ana Paula decide dar um mergulho no mar, que estava bastante calmo naquele dia. Erika, por sua vez, sem saber nadar, decide puxar assunto com o salva-vidas, Wilson, pois o achou muito bonito. Durante a conversa, Erika e Wilson percebem que têm vários interesses em comum e ficam encantados um pelo outro. Ocorre que, nesse intervalo de tempo, Wilson percebe que Ana Paula está se afogando. Instigado por Erika, Wilson decide não efetuar o salvamento, que era perfeitamente possível. Ana Paula, então, acaba morrendo afogada. Nesse sentido, atento(a) apenas ao caso narrado, indique a responsabilidade jurídico-penal de Erika e Wilson. (Valor: 1,25) Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 30 O examinando deve fundamentar corretamente sua resposta. A simples menção ou transcrição do dispositivo legal não pontua. 3.7) PUNIBILIDADE DO CONCURSO DE PESSOAS E COMUNICABILIDADE DAS ELEMENTARES E CIRCUNSTÂNCIAS DO CRIME A ressalva “na medida da sua culpabilidade” feita aos limites da culpabilidade no art. 29 diz respeito somente à graduação da pena para os agentes que praticaram o mesmo crime. Portanto, todos respondem pelo mesmo crime (teoria monista ou unitária). Todavia, a unidade criminosa não importa necessariamente na aplicação de pena idêntica a todos os que contribuíram para a prática do crime, pois cada um deverá responder na medida da sua culpabilidade. I) PUNIBILIDADE DO CONCURSO DE PESSOAS A) PARTICIPAÇÃO DE MENOR IMPORTÂNCIA – ART. 29, §1º A participação aqui referida diz respeito exclusivamente ao partícipe. Isso porque, ainda que tenha sido pequena, a contribuição do coautor não pode ser considerada de menor importância, uma vez que atuou diretamente na execução do crime. A sua culpabilidade, naturalmente superior à de um simples partícipe, será avaliada nos termos do art. 29, caput, do CP, e a pena a ser fixada obedecerá aos limites abstratos previstos pelo tipo penal infringido. O partícipe que houver tido “participação de menor importância” poderá ter sua pena reduzida de um sexto a um terço, nos termos do art. 29, § 1º. Trata-se, pois, de uma causa de diminuição da pena. B) DA COOPERAÇÃO DOLOSAMENTE DISTINTA OU DESVIOS SUBJETIVO ENTRE OS PARTICIPANTES – ART. 29, § 2º O agente que desejava praticar um delito, sem a condição de prever a concretização de crime mais grave, deve responder pelo que pretendeu fazer, não se podendo a ele imputar outra conduta indesejada, sob pena de se estar tratando de responsabilidade objetiva. Esse dispositivo cuida da hipótese de o autor principal cometer delito mais grave que o pretendido pelo partícipe ou coautor. Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 31 Ex. “A” determina “B” a espancar “C”. “B” mata “C”. Segundo o art. 29, § 2º, “A” responde por crime de lesão corporal, cuja pena deve ser aumentada até metade se a morte da vítima lhe era previsível. De fato, a solução dada pelo CP leva à punição de “A” pelo delito de lesões corporais, que foi o crime desejado, cuja pena será elevada até a metade se o homicídio for previsível. II) COMUNICABILIDADE DAS ELEMENTARES E CIRCUNSTÂNCIAS DO CRIME Via de regra, as circunstâncias e condições pessoais relacionadas a um dos agentes não se comunica aos outros que contribuíram para a prática delituosa. Todavia, há determinadas circunstâncias ou condições pessoais que compõem, integram o tipo penal, figurando, no caso, como verdadeira elementar no tipo penal. Nesse caso, quando também constituem o tipo penal, ou seja, figuram como elementares do tipo penal, as circunstâncias ou condições pessoais relacionadas a um dos sujeitos se comunicam aos demais coautores ou partícipes. Ex: “A”, funcionário público, comete um crime de peculato (art. 312), com a participação de “B”, não funcionário público. A condição pessoal (funcionário público) é elementar do crime de peculato, comunicando-se, portanto, ao agente que não é funcionário público. Logo, os dois respondem por crime de peculato. De outro lado, as circunstâncias objetivas alcançam o partícipe ou coautor se, sem haver praticado o fato que as constitui, houveram integrado o dolo ou culpa. PARTICIPAÇÃO DE MENOR IMPORTÂNCIA Exclusivamente ao partícipe Causa de diminuição de pena de 1/6 a 1/3 COOPERAÇÃO DOLOSAMENTE DISTINTA Autor comete delito mais grave que o pretendido pelo partícipe ou coautor Aumenta-se até a metade, na hipótese de ter sido previsível o resultado mais grave. Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 32 Ex: “A” instiga “B” a praticar homicídio contra “C”. “B”, para a execução do crime, emprega asfixia. O partícipe não responde por homicídio qualificado (art. 121, § 2º, III, 4ª figura), a não ser que o meio de execução empregado pelo autor principal tenha ingressado na esfera de seu conhecimento. Conforme ESTEFAM (2010, p. 285), da regra contida no artigo 30 do Código Penal podem-se extrair duas conclusões: a) Todas as elementares do crime, objetivas, normativas ou subjetivas,comunicam-se a todos os agentes (se por eles conhecidas). Assim, por exemplo, a condição de funcionário público, elementar do crime de peculato (CP, art. 312), estende-se ao coautor ou partícipe que não ostente tal qualidade, fazendo com que ele, embora particular, responda pelo delito. b) As circunstâncias da infração penal comunicam-se apenas quando objetivas (e forem conhecidas pelos demais concorrentes). Por esse motivo, o emprego de arma por um dos agentes no crime de roubo provoca, com relação a todos, a incidência da causa de aumento de pena daí decorrente (CP, art. 157, § 2º, I). Se subjetivas, serão incomunicáveis. Exemplo: o motivo egoístico, que qualifica o crime de dano (CP, art. 163, parágrafo único, IV, primeira figura), não se comunica aos demais concorrentes que tenham colaborado com o fato por outros motivos. QUESTÃO 3 – XIX EXAME Sabendo que Vanessa, uma vizinha com quem nunca tinha conversado, praticava diversos furtos no bairro em que morava, João resolve convidá-la para juntos subtraírem R$ 1.000,00 de um cartório do Tribunal de Justiça, não contando para ela, contudo, que era funcionário público e nem que exercia suas funções nesse cartório. Praticam, então, o delito, e Vanessa fica surpresa com a facilidade que tiveram para chegar ao cofre do cartório. Descoberto o fato pelas câmeras de segurança, são os dois agentes denunciados, em 10 de março de 2015, pela prática do crime de peculato. João foi notificado e citado pessoalmente, enquanto Vanessa foi notificada e citada por edital, pois não foi localizada em sua residência. A família de Vanessa constituiu advogado e o processo prosseguiu, mas dele a ré não tomou conhecimento. Foi decretada a revelia de Vanessa, que não compareceu aos atos processuais. Ao final, os acusados foram condenados pela prática do crime previsto no Art. 312 do Código Penal à pena de 02 anos de reclusão. Ocorre que, na verdade, Vanessa estava presa naquela mesma Comarca, desde 05 de março de 2015, em razão de prisão preventiva decretada em outros dois processos. Ao ser intimada da sentença, ela procura você na condição de advogado(a). Considerando a hipótese narrada, responda aos itens a seguir. Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 33 A) Qual argumento de direito processual poderia ser apresentado em favor de Vanessa em sede de apelação? Justifique. (Valor: 0,65) B) No mérito, foi Vanessa corretamente condenada pela prática do crime de peculato? Justifique. (Valor: 0,60) Obs.: o mero “sim” ou “não”, desprovido de justificativa ou mesmo com a indicação de justificativa inaplicável ao caso, não será pontuado. Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 34 PROCESSO PENAL DAS NULIDADES 4.1 - TEORIA GERAL DAS NULIDADES: a) INTRODUÇÃO Podemos afirmar que no processo penal há uma grande tensão existente em compatibilizar o direito do Estado-acusação perseguir a responsabilização penal do indivíduo que, supostamente, violou a lei penal e o dever do Estado, imposto pela Constituição da República, de garantir aos acusados, de uma maneira geral, a observância do devido processo legal, do contraditório, da ampla defesa, dentre outras garantias fundamentais. Tal tensionamento é bastante perceptível no tema de nulidades, uma vez que há uma tendência natural da acusação e da jurisprudência em relativizar algumas violações a dispositivos inerentes à lei processual, havendo um verdadeiro descompasso entre o que preceitua a doutrina, à luz do que prega a Constituição da República, e a jurisprudência dominante. Em razão disso, o estudo da teoria das nulidades é bastante tormentoso, uma vez que a ausência de uma interpretação uniforme aliada ao casuísmo jurisprudencial e a falta de uma atualização legislativa em consonância com o sistema processual adotado pela Constituição dificultam sobremaneira a análise das invalidades processuais. B) SISTEMA DA TIPICIDADE DOS ATOS PROCESSUAIS Em relação ao sistema processual adotado pelo legislador no que concerne aos atos processuais, bem como as consequências jurídicas advindas de eventual não- observância do modelo padrão estipulado pela lei processual, mister elencar o preciso ensinamento de Heráclito Antônio Mossin (2005, p. 46-47), abordando o sistema adotado pelo legislador processual brasileiro: 04 Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 35 O processo, sob o quadrante formal, é um conjunto de atos processuais, cuja coordenação ou sucessão encadeada é feita por intermédio do chamado procedimento. Para que esses atos que compõem o procedimento produzam seus efeitos jurídicos dentro e fora do processo e para que a ordem jurídica não pereça, necessário se torna que sejam realizados segundo as formas preconizadas pela lei processual penal. Em circunstâncias desse matiz, cumpre ao legislador estabelecer a constituição intrínseca e extrínseca do ato processual, enfim o modelo segundo o qual deve ser praticado: Forma dat est rei. A isso se chama de tipicidade dos atos processuais No tocante ao chamado sistema da tipicidade dos atos processuais ou legalidade dos atos processuais, podemos afirmar que o legislador construiu um modelo pelo qual o juiz, os assistentes e as partes devem se ajustar ao modelo legal, ou seja, todos aqueles que participam da relação processual devem pautar o seu agir em conformidade com aquilo que a lei processual determina. Desta feita, quando há uma inadequação ao modelo proposto pela lei no tipo processual em comento, haverá a atipicidade de tal ato processual, sendo que a consequência jurídica variará de acordo com o grau de violação respectivo, podendo ensejar uma mera irregularidade sem qualquer espécie de sanção processual ou até mesmo acarretar a inexistência do ato, por não conter os requisitos mínimos de formação. C) GRAUS DE ATIPICIDADE De uma maneira geral, a doutrina aponta os seguintes graus de violação: I - ATIPICIDADE IRRELEVANTE – Neste caso a consequência jurídica será a mera irregularidade, não ensejando sanção processual específica, como por exemplo, no caso de a defesa ou a acusação oferecer as razões da Apelação fora do prazo estabelecido pelo artigo 600 do CPP, uma vez que já interpôs o aludido recurso, podendo o Tribunal respectivo conhecer e julgá-lo, inclusive sem as respectivas razões. Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 36 II – ATIPICIDADE MUITO INTENSA – Neste caso a consequência jurídica será a própria inexistência do ato processual, uma vez que a atipicidade em questão atingiu os requisitos mínimos de formação do ato processual em si, não se situando no plano da validade e sim no plano da existência, como, por exemplo, no caso de uma sentença exarada por pessoa não investida de jurisdição ou alegações finais escritas assinadas somente pelo estagiário do escritório de advocacia. III- ATIPICIDADE ATINGINDO NORMA DE INTERESSE PÚBLICO – Neste caso, haverá a nulidade absoluta, restando o prejuízo presumido em razão da natureza da norma violada. IV – ATIPICIDADE ATINGINDO NORMA QUE ATENDA INTERESSE DAS PARTES – Neste caso haverá a nulidade relativa, devendo a parte comprovar o prejuízo, sob pena de convalidação ou sanatória do ato. 4.2) CONCEITO DE NULIDADE Nulidade é o vício que contamina determinado ato processual, praticado sem a observância da forma prevista em lei, podendo invalidar o ato ou o processo, no todo ou em parte. 4.3)NULIDADE ABSOLUTA E RELATIVA a) nulidades absolutas: São aquelas que devem ser proclamadas pelo magistrado, de ofício ou a requerimento de qualquer das partes, porque produtoras de nítidas infrações ao interesse público na produção do devido processo legal. Ex.: não conceder o juiz ao réu ampla defesa, cerceando a atividade do seu advogado São nulidades insanáveis, que jamais precluem. O prejuízo da parte é presumido. A única exceção é a Súmula 160 do STF: “É nula a decisão do tribunal que acolhe, contra o réu, nulidade não arguida no recurso da acusação, ressalvados os casos de recurso de ofício.” c) nulidades relativas: São aquelas que somente serão reconhecidas caso arguidas pela parte interessada, demonstrando o prejuízo sofrido pela inobservância da formalidade legal prevista para ato realizado. 4.4) VÍCIOS PROCESSUAIS – art. 564 Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 37 I) JURISDIÇÃO E COMPETÊNCIA – ART. 564, I a) Incompetência A competência absoluta (em razão da matéria e de foro privilegiado) não admite prorrogação; logo, se infringida, é de ser reconhecido o vício como nulidade absoluta, b) Suspeição Se houver suspeição do juiz, caberá às partes, se o próprio Magistrado não se abstiver de funcionar no feito, argui-la, nos termos do art. 98 do CPP. Reconhecida a suspeição, ficarão nulos todos os atos (probatórios e decisórios), como estabelece o art. 101 do CPP. Os motivos legais de suspeição estão elencados no art. 254 do CPP. II) ILEGITIMIDADE DA PARTE (ART. 564, II) No inciso II, erige-se à categoria de nulidade a ilegitimidade de parte. Em se tratando de ilegitimidade do representante da parte, a sanabilidade poderá ocorrer antes da sentença, com a simples ratificação dos atos processuais. III) FALTA DE ATOS ESSENCIAIS (FALTA DE FÓRMULAS OU TERMOS) – Art. 564, III Há, no processo, atos considerados essenciais, imprescindíveis para a validade da relação processual. São assim considerados porque a omissão (do ato) de qualquer deles é nulidade absoluta. São atos estruturais, ou essenciais, os alinhados no inciso III do art. 564. Faz-se exceção àqueles elencados nas letras “d” e “e”, segunda parte, e, finalmente, “g” e “h” desse mesmo inciso. O próprio legislador admitiu a sanabilidade desses atos, nos termos do art. 572. O inciso IV do art. 564 cuida da omissão da formalidade que constitua elemento essencial do ato. a) Denúncia ou queixa e a representação (art. 564, III, “a”) A falta de denúncia ou de queixa impossibilita o início da ação penal, razão pela qual este inciso, na realidade, refere-se à ausência das formulas legais previstas para essas peças processuais. Uma denúncia ou queixa formulada sem os requisitos indispensáveis (art. 41, CPP), certamente é nula. * Representação: A falta de representação pode gerar nulidade, pois termina provocando ilegitimidade para o órgão acusatório agir. Entretanto, é possível convalidá-la, se dentro do prazo decadencial. b) Exame de corpo de delito – art. 564, III, “b” Quando o crime deixa vestígios, é indispensável a realização do exame de corpo de delito, direto ou indireto, conforme preceitua o art. 158 deste Código. Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 38 Assim, havendo um caso de homicídio, por exemplo, sem laudo necroscópico, nem outra forma válida de produzir a prova de existência da infração penal, deve ser decretada a nulidade do processo. Trata-se de nulidade absoluta. c) Defesa do réu – art. 564, III, “c” Preceitua a Constituição Federal que “aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes” (art. 5º, LV). Nessa esteira, o Código de Processo Penal prevê que “nenhum acusado, ainda que ausente ou foragido, será processado ou julgado sem defensor” (art. 261). Assim, a falta de defesa é motivo de nulidade absoluta. c.1) Não nomeação de defensor dativo: É caso de nulidade absoluta. c.2) Ausência de defesa ou deficiência de defesa: Súmula 523 do STF: “ No processo penal, a falta de defesa constitui nulidade absoluta, mas a sua deficiência só o anulará se houver prova de prejuízo para o réu”. d) Falta de Intervenção do Ministério Público – art. 564, III, “d” É causa de nulidade se o representante do Ministério Público não interferir nos feitos por ele intentados (ação pública), bem como naqueles que foram propostos pela vítima, em atividade substitutiva do Estado-acusação (ação privada subsidiária da pública) e nas ações privadas. e) Falta ou nulidade da citação do réu para se ver processar (Ampla defesa e contraditório e interrogatório) – art. 564, III, “e” e.1) Citação Se o réu não for citado ou se a citação for feita em desacordo com as normas processuais, prejudicando ou cerceando o réu, é motivo para anulação do feito a partir da ocorrência do vício. Trata-se de nulidade absoluta. A falta ou a nulidade da citação estará sanada desde que o interessado compareça antes de o ato consumar-se (art. 570). Porém, haverá nulidade insanável se a falta de citação prejudicar a defesa do acusado, não sendo possível a convalidação do vício apenas pelo comparecimento do réu ao ato. e.2) Interrogatório – art. 564, III, “e” O interrogatório, sendo ato fundamental – mesmo que não imprescindível -, deve sempre ser realizado quando o acusado estiver presente, em qualquer momento do Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 39 procedimento, a fim de que ele, no exercício de sua defesa pessoal, possa apresentar diretamente a sua versão a respeito do fato, influindo sobre o convencimento do juiz. Por isso, o CPP, estatui, no artigo 564, III, “e”, que há nulidade na falta de interrogatório do réu presente. Cuida-se de nulidade insanável. e.3) Concessão de prazos à acusação e à defesa: Ao longo da instrução, vários prazos para manifestações e produção de provas são concedidos às partes. Deixar de fazê-lo pode implicar um cerceamento de acusação ou de defesa, resultando em nulidade relativa, ou seja, se houver prejuízo demonstrado. f) Sentença de pronúncia – art. 564, III, “f” - Com a abolição do libelo, a alínea “f” fica restrita à pronúncia. g) Intimação do réu para a sessão de julgamento pelo Tribunal do Júri – art. 564, III, “g” Tornou-se possível a realização do julgamento em plenário do Tribunal do Júri, mesmo estando o réu ausente (art. 457). Entretanto, é direito do acusado ter ciência de que se realizará a sessão, podendo exercer o seu direito de comparecimento. Logo, a falta de intimação pode gerar nulidade, porém relativa. Por outro lado, se o acusado, ainda que não intimado, comparecer para a sessão, supera-se a falta de intimação, pois a finalidade da norma processual foi atingida, que é permitir sua presença diante do júri. h) Intimação de testemunhas - art. 564, III, “h” Com a abolição do libelo, as partes poderão arrolar suas testemunhas, máximo 5 para cada uma das partes, conforme dispõem os arts. 422 e 423 do CPP. Se não forem intimadas e, sem embargo, comparecerem, a nulidade será considerada sanada, nos termos do art. 572. Não comparecendo, por não terem sido intimadas, a nulidade é absoluta. i) Instalação da sessão do júri – art. 564, III, “i” Trata-se de norma cogente, implicando nulidade absoluta a instalação dos trabalhos, no Tribunal do Júri, com menos de quinze jurados. j) Incomunicabilidade dos jurados – art. 564, III, “j” É causa de nulidade absoluta a comunicação dos jurados, entresi, sobre os fatos relacionados ao processo, ou com o mundo exterior – pessoas estranhas ao julgamento -, sobre qualquer assunto. k) Inexistência dos quesitos e suas respostas – art. 564, III, “k” Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 40 Súmula 156 do STF: “ É absoluta a nulidade do julgamento pelo júri, por falta de quesito obrigatório”. l) Acusação e defesa no julgamento pelo Tribunal do Júri – art. 564, III, “l” m) Ausência da sentença – art. 564, III, “m” n) Recurso de oficio – art. 564, III, “n” Na verdade, cuida-se do duplo grau de jurisdição necessário. Em determinadas hipóteses, impôs a lei que a questão, julgada em primeiro grau, seja obrigatoriamente revista por órgão de segundo grau. A importância do tema faz com que haja dupla decisão a respeito. Ex: a sentença concessiva de habeas corpus (art. 574, I). o desrespeito a esse dispositivo faz com que a sentença não transite em julgado, implicando a nulidade absoluta dos atos que vierem a ser praticados após a decisão ter sido proferida. Caso a parte interessada apresente recurso voluntário, supre-se a falta do recurso de ofício. o) Intimação para recurso – art. 564, III, “o” As partes têm direito a recorrer de sentenças e despachos, quando a lei prevê a possibilidade, motivo pelo qual devem ter ciência do que foi decidido. Omitindo-se a intimação, o que ocorrer, a partir daí, é nulo, por evidente cerceamento de acusação ou de defesa, conforme o caso. IV) REGULARIZAÇÃO DA FALTA OU NULIDADE DA CITAÇÃO, INTIMAÇÃO OU NOTIFICAÇÃO – ART. 570 Estabelece o art. 570 do CPP que o comparecimento do interessado, ainda que somente com o fim de arguir a irregularidade, sana a falta ou nulidade da citação, intimação ou notificação. Exemplo de como já foi cobrado pela FGV: Enunciado da Peça XXII EXAME O magistrado concedeu prazo para as partes se manifestarem em alegações finais por memoriais. O Ministério Público requereu a condenação nos termos da denúncia. O advogado de Leonardo, contudo, renunciou aos poderes, razão pela qual, de imediato, o magistrado abriu vista para a Defensoria Pública apresentar alegações finais. Gabarito Comentado: No conteúdo das Razões Recursais, preliminarmente, deveria o advogado alegar a nulidade da sentença, devendo os atos desde a apresentação das alegações finais pela defesa serem anulados. Isso porque Leonardo tinha advogado constituído nos autos que veio a renunciar. Diante disso, deveria o magistrado intimar o réu, que estava preso, para informar se tinha interesse em constituir novo advogado ou ser assistido pela Defensoria Pública. A Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 41 decisão do juiz de, de imediato, encaminhar os autos para Defensoria Pública viola o princípio da ampla defesa na vertente da defesa técnica. Certamente houve prejuízo, pois as Alegações Finais foram apresentadas sem qualquer contato do Defensor com o acusado e este foi condenado. Distribuição dos Pontos Preliminarmente: Nulidade da sentença ou de todos os atos processuais desde as alegações finais apresentadas pela Defensoria Pública (0,25), tendo em vista que não houve intimação do réu para manifestar interesse em indicar novo advogado OU tendo em vista que houve prejuízo para ampla defesa (0,15). Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 42 QUESTÃO 2 – XXII EXAME OAB Em inquérito policial, Antônio é indiciado pela prática de crime de estupro de vulnerável, figurando como vítima Joana, filha da grande amiga da Promotora de Justiça Carla, que, inclusive, aconselhou a família sobre como agir diante do ocorrido. Segundo consta do inquérito, Antônio encontrou Joana durante uma festa de música eletrônica e, após conversa em que Joana afirmara que cursava a Faculdade de Direito, foram para um motel onde mantiveram relações sexuais, vindo Antônio, posteriormente, a tomar conhecimento de que Joana tinha apenas 13 anos de idade. Recebido o inquérito concluído, Carla oferece denúncia em face de Antônio, imputando-lhe a prática do crime previsto no Art. 217-A do Código Penal, ressaltando a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal no sentido de que, para a configuração do delito, não se deve analisar o passado da vítima, bastando que a mesma seja menor de 14 anos. Considerando a situação narrada, na condição de advogado(a) de Antônio, responda aos itens a seguir. A) Existe alguma medida a ser apresentada pela defesa técnica para impedir Carla de participar do processo? Justifique. (Valor: 0,60) B) Qual a principal alegação defensiva de direito material a ser apresentada em busca da absolvição do denunciado? Justifique.(Valor: 0,65) Obs.: o(a) examinando(a) deve fundamentar suas respostas. A mera citação do dispositivo legal não confere pontuação. Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 43 DA TEORIA GERAL DAS PROVAS Trata-se de todo e qualquer meio de percepção empregado pelo homem com a finalidade de comprovar a verdade de uma alegação. 5.1) INTRODUÇÃO E CONCEITO TRATA-SE DE TODO E QUALQUER MEIO DE PERCEPÇÃO EMPREGADO PELO HOMEM COM A FINALIDADE DE COMPROVAR A VERDADE DE SUA ALEGAÇÃO. É o conjunto de elementos produzidos pelas partes ou determinado pelo juiz visando à formação do convencimento quanto a atos, fatos e circunstancias. O termo prova, segundo Guilherme de Souza Nucci, vem do latim “probatio”, que significa ensaio, verificação, inspeção, exame, argumento, razão, aprovação ou confirmação. OBSERVAÇÕES IMPORTANTES: A) NORMALMENTE NO PROCESSO PENAL HÁ UMA CONTROVÉRSIA FÁTICA: IMPUTAÇÃO DOS FATOS PENALMENTE RELEVANTES PELA ACUSAÇÃO X NEGATIVA DE TAIS FATOS PELA DEFESA. NESTE SENTIDO AS PROVAS NO PROCESSO PENAL DESEMPENHAM UMA FUNÇÃO IMPORTANTÍSSIMA. B) NA ATIVIDADE PROBATÓRIA HÁ UMA RECONSTRUÇÃO HISTÓRICA DOS FATOS, RAZÃO PELA QUAL A ATIVIDADE DO MAGISTRADO POSSUI SEMELHANÇAS COM A ATIVIDADE DO HISTORIADOR, UMA VEZ QUE AMBOS ANALISAM FATOS JÁ OCORRIDOS, ENTRETANTO, COM ALGUMAS DIFERENÇAS, NA MEDIDA EM QUE A ATIVIDADE DO MAGISTRADO POSSUI LIMITES, COMO POR EXEMPLO, EM RELAÇÃO À INADMISSIBILIDADE DE PROVAS ILÍCITAS E, NECESSARIAMENTE, PRECISA CHEGAR A UMA CONCLUSÃO, AINDA QUE NÃO CONVENCIDO DA CULPABILIDADE DO ACUSADO. C) TENDO EM VISTA QUE O CÓDIGO DE PROCESSO PENAL É DE 1941, APESAR DA OCORRÊNCIA DE ALGUMAS REFORMAS RECENTES, AINDA HÁ UMA NECESSIDADE DE COMPATIBILIZAR O CPP COM A CR/88, PRINCIPALMENTE EM RELAÇÃO ÀS CLÁUSULAS DE RESERVA DE JURISDIÇÃO. (EX. ART. 241 CPP – BUSCA E APREENSÃO DOMICILIAR SEM MANDADO) 05 Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 44 D) O CPP NÃO REGULAMENTOU TEMAS ESSENCIAIS COMO A INTERCEPTAÇÃO AMBIENTAL, (LEI 12850/13) OU TELEFÔNICA (LEI 9296/96), SENDO NECESSÁRIA A OBSERVÂNCIA DA LEGISLAÇÃO EXTRAVAGANTE. E) A LEI 11690/08 ALTEROU O CÓDIGO DE PROCESSO PENAL DE MANEIRA SUBSTANCIAL EM RELAÇÃO ÀS PROVAS: E.1) Alterou os artigos referentes às disposições gerais (155/157). E.2) Alterou o artigo 159 do CPP, passando a exigir apenas um perito de natureza oficial. E.3) Alterou o art. 212 do CPP, admitindo que as partes fizessem perguntas de forma direta às testemunhas. E.4) Alterou o art. 386, VI do CPP dispondo que a dúvida fundada sobre a existência de circunstância que exclua o crime ou isente réu de pena é caso de absolvição. 5.2) OBJETO DA PROVA E OBJETIVO A regulamentação dos meios de prova no CPP não é taxativa. Objetivo:Formar a convicção do juiz sobre os elementos necessários para a decisão da causa. Objeto: fatos principais ou secundários, que reclamem apreciação judicial e exijam uma comprovação. Dispensam a necessidade de comprovação: a) fatos axiomáticos: são aqueles considerados evidentes, que decorrem da própria intuição, gerando grau de certeza irrefutável. Ex: A prova da putrefação do cadáver dispensa a prova da morte, pois a primeira circunstância decorre da segunda. b) fatos notórios: são aqueles que fazem parte do patrimônio cultural indivíduo. Se aplica o princípio notorium non eget probatione (o que é notório dispensa a prova). Ex. crime contra honra do prefeito dispensa a juntada de diploma do mandato. c) presunções legais: são juízos de certeza decorrentes da lei. Podem ser: jure et jure (absoluta) ou juris tantum (relativas). As presunções absolutas não admitem prova em contrário, sendo exemplo a condição de inimputável do indivíduo menor de 18 anos. As presunções relativas admitem prova em contrário, como no exemplo da vulnerabilidade do menor de 14 anos em relação ao crime de estupro de vulnerável para parte da doutrina (A jurisprudência entende que a presunção neste caso será absoluta). Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 45 Obs: Os fatos incontroversos (admitidos pelas partes) não dispensam a prova = vide art. 156, II, e art. 197 do CPP (não dá para aplicar a regra do processo civil neste caso). 5.3) – CLASSIFICAÇÃO DAS PROVAS a) Classificação das provas quanto ao objeto: a.1) diretas: são aquelas que por si sós demonstram o próprio fato objeto da investigação. Ex: testemunho ocular de homicídio. a.2) indiretas: são aquelas que não demonstram, diretamente, determinado ato ou fato, mas que permitem deduzir tais circunstâncias a partir de um raciocínio lógico e irrefutável. Ex. álibi. b) Quanto ao valor das provas: b.1) plenas: são aquelas que permitem um juízo de certeza quanto ao fato investigado, podendo ser utilizadas como elemento principal na formação do convencimento do juízo acerca da responsabilidade penal do acusado. Ex: documentos, perícia, prova testemunhal. b.2) não-plenas: apenas reforçam convicção, não podendo ser consideradas como o fundamento principal do ato decisório. Ex. indícios (art. 239 CPP) e fundada suspeita (art. 240, §2°, CPP). b.3) prima facie: primeira aparência, deixando desde logo no espírito do juiz a convicção da veracidade daquele fato. Ex: matar ladrão na casa – a primeira vista parece que o homicídio foi praticado em legítima defesa. c) Quanto ao sujeito: c.1) reais: surgem de algo externo para comprovar existência fato. Ex. cadáver, arma utilizada no crime. Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 46 c.2) pessoais: decorrem da própria pessoa. Ex. interrogatório, testemunho 5.4) PRINCÍPIOS Princípios regentes da produção probatória: a) contraditório: significa que toda prova realizada por uma das partes admite a produção de uma contraprova pela outra. Significa garantir a participação das partes no processo, bem como o poder de influência na decisão judicial b) comunhão (aquisição): De acordo com esse princípio as provas pertencem ao processo e não àquela parte que as trouxe. Desta feita, a doutrina apontava que se uma das partes desistir da oitiva de uma testemunha arrolada, o juiz, antes de concordar com a desistência, deveria intimar a parte contrária. Entretanto, a, a lei 11719 trouxe importante inovação, ao introduzir o parágrafo 2º no artigo 401: ...§ 2o A parte poderá desistir da inquirição de qualquer das testemunhas arroladas, ressalvado o disposto no art. 209 deste Código. Desta feita, pelo texto legal, se a acusação ou a defesa desistirem de uma testemunha arrolada, o juiz não precisa da concordância da parte contrária. Em razão disso, há quem entenda que o princípio da comunhão se aplica após o momento em que determinada prova é juntada ao processo e não antes. c) oralidade: predomínio da prova falada. Prestigia-se a concentração, publicidade e a imediação. Possui como subprincípios: c.1) concentração. Ex. Lei 9099/95 e audiência una de instrução e julgamento no procedimento comum (arts. 394 e seguintes do CPP. c.2) imediação: É necessário assegurar ao juiz o contato físico com as provas no ato de sua obtenção. Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 47 d) autorresponsabilidade: partes assumem o ônus da inércia, erro ou negligência. e) não autoincriminação (nemo tenetur se detegere).: princípio da inexigibilidade de produção da prova contra si mesmo, fazendo que o acusado não seja obrigado a realizar alguma conduta positiva que pode lhe incriminar. Ex. Não é obrigado a realizar o exame de etilômetro. 5.5) MEIOS DE PROVA E MEIOS DE OBTENÇÃO DE PROVA O Projeto do novo CPP (PL 156/2009) adotou essa nomenclatura, bem como a lei 12850/13 também adotou. A doutrina moderna também adotou, uma vez que o Código de Processo Penal é atécnico. A) MEIO DE PROVA: SÃO APTOS A SERVIR DIRETAMENTE AO CONVENCIMENTO DO JUIZ SOBRE A VERACIDADE OU NÃO DE UMA AFIRMAÇÃO FÁTICA. EX. DEPOIMENTO DE UMA TESTEMUNHA B) MEIO DE OBTENÇÃO DE PROVA: SÃO INSTRUMENTOS PARA A COLHEITA DE ELEMENTOS OU FONTES DE PROVAS E, DEPENDENDO DO RESULTADO, PODEM SERVIR À RECONSTRUÇÃO DOS FATOS. EX. INTERCEPTAÇÃO TELEFÔNICA 5.6) SISTEMAS DE APRECIAÇÃO DAS PROVAS a) SISTEMA DO LIVRE CONVENCIMENTO MOTIVADO O CPP adotou, como regra, o do livre convencimento do juiz, fundamentado na prova produzida sob o contraditório judicial (art. 155, caput, CPP), embora remanesçam exceções com resquícios dos sist. da íntima convicção e da prova tarifada. Consequências da adoção do Sistema do Livre Convencimento do Juiz: a.1) ausência de limitação quanto aos meios de prova: o CPP não exaure as possibilidades probatórias; Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 48 Ex: captações ambientais (gravação de conversa de duas ou mais pessoas em local público), serve como prova, embora careça de regulamentação específica. a.2) ausência de hierarquia: inexistência de valor prefixado na legislação. O juiz confere valoração às provas. Ex: pode desprezar a perícia e a confissão do réu. Restrições à liberdade valorativa do julgador: i) obrigação de motivar o decisum: art. 93, IX, CF e art. 381, III, CPP. ii) as provas deverão constar dos autos do processo judicial (quod nos est in actis nos est in mundo). iii) produção sob crivo contraditório: o art. 155 CPP não proibiu o uso de eventuais provas da fase extrajudicial como elementos de convicção secundário, restrição apenas como fundamento exclusivo de seu convencimento. Obs: as provas realizadas em caráter cautelar, antecipadamente e não sujeitas à repetição dispensam a necessidade de contraditório judicial. Ex: interceptação telefônica (art. 3°, I, Lei n° 9.296/96), busca domiciliar e perícia (exame de conjunção carnal e lesões). b) SISTEMA DA ÍNTIMA CONVICÇÃO: É adotado nos julgamentos afetos ao Tribunal do Júri: Os jurados não estão vinculados às provas existentes no processo e não precisam fundamentar a decisão, podem decidir com base em critérios subjetivos. (art. 593, III, e §3°, CPP). c) SISTEMA DA PROVA TARIFADA, DA VERDADE LEGAL OU DA CERTEZA MORAL DO LEGISLADOR A lei estabelece o valor de cada prova, impede poder discricionário dojuiz para decidir contra a previsão legal. Ex: art. 62 CPP - extinção da punibilidade pela morte do réu exige certidão óbito. Ex.2: Art. 155, parágrafo único, CPP prova estado de pessoas deve ser comprovada via certidão. Súmula 74 do STJ. Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 49 5.7) PROVA EMPRESTADA CONCEITO: É A PROVA PRODUZIDA EM UM DETERMINADO PROCESSO E QUE DEPOIS É TRASLADADA, NA FORMA DOCUMENTAL, PARA OUTRO PROCESSO. VALORAÇÃO: TERÁ O MESMO VALOR PROBANTE DA PROVA ORIGINAL SE RESPEITADOS OS REQUISITOS. REQUISITOS (GUSTAVO BADARÓ): 1) Prova do primeiro processo tenha sido produzida perante o juiz natural. (Não confundir com identidade física do juiz, embora Ada Pellegrini, Antônio Scarance Fernandes exijam) 2) Prova do primeiro processo tenha possibilitado o exercício do contraditório perante a parte do segundo processo. 3) Mesmo objeto de prova. 4) Mesmo âmbito de cognição. 5) Totalidade do traslado. Prova emprestada (Norberto Avena): exigência de identidade de partes e observância do contraditório terá o mesmo valor das demais, senão constituirá simples indício. Jurisprudência: 1) STF HC 67064-4/RS – A prova emprestada não deve funcionar como prova propriamente dita, mas como indício corroborador de outros fatos. 2) STF HC 67707-0 – Não haverá nulidade dse não for a única prova que serviu de condenação. 3) STJ HC 91781/SP: É possível a utilização de prova emprestada no processo penal desde que ambas as partes tenham ciência e que sobre elas seja possibilitado o exercício do contraditório. 5.8) ELEMENTOS DE INFORMAÇÃO X ELEMENTOS DE PROVA (análise do art. 155 do Código de Processo Penal) Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 50 Art. 155. O juiz formará sua convicção pela livre apreciação da prova produzida em contraditório judicial, não podendo fundamentar sua decisão exclusivamente nos elementos informativos colhidos na investigação, ressalvadas as provas cautelares, não repetíveis e antecipadas. A) ELEMENTOS DE INFORMAÇÃO X ELEMENTOS DE PROVA: ELEMENTO DE INFORMAÇÃO: PRODUZIDOS NA FASE INVESTIGATÓRIA, SEM OBSERVÂNCIA DO CONTRADITÓRIA E AMPLA DEFESA (SISTEMA INQUISITORIAL) / FINALIDADE: DECRETAÇÃO DAS MEDIDAS CAUTELARES E FORMAÇÃO DA OPINIO DELICTI DO TITULAR DA AÇÃO PENAL ELEMENTOS DE PROVA: PRODUZIDOS NA FASE JUDICIAL, COM OBSERVÂNCIA DO CONTRADITÓRIO E DA AMPLA DEFESA (SISTEMA ACUSATÓRIO) / FINALIDADE: CONVENCIMENTO DO MAGISTRADO) REGRA GERAL: O MAGISTRADO NÃO PODERÁ FUNDAMENTAR SUA DECISÃO EXCLUSIVAMENTE NOS ELEMENTOS INFORMATIVOS COLHIDOS NA INVESTIGAÇÃO. EXCEÇÃO: PROVAS CAUTELARES, IRREPETÍVEIS OU ANTECIPADAS. B) PROVAS CAUTELARES, IRREPETÍVEIS OU ANTECIPADAS: b.I) PROVA IRREPETÍVEL: NÃO É PRODUZIDA E NEM SUBMETIDA AO CRIVO DO CONTRADITÓRIO (CONTRADITÓRIO IMPOSSÍVEL) – A DOUTRINA EXIGE A CARACTERÍSTICA DA IMPREVISIBILIDADE: Ex. MORTE DE TESTEMUNHA (SE JÁ ERA PREVISÍVEL – ART. 225CP) b.II) PROVA CAUTELAR: É PRODUZIDA SEM OBSERVÂNCIA DO CONTRADITÓRIO (NORMALMENTE NA FASE INVESTIGATÓRIA), SENDO SUBMETIDA AO CONTRADITÓRIO POSTERIORMENTE EM JUÍZO. Ex. PROVA PERICIAL b.III) PROVA ANTECIPADA: PRODUZIDAS EM JUÍZO DE FORMA ANTECIPADA, AINDA QUE NA FASE DE INVESTIGAÇÃO. Ex: art. 225 Código de Processo Penal - ver art. 156, inciso I CPP) Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 51 5.9) ÔNUS DA PROVA A) INTRODUÇÃO ÔNUS SIGNIFICA UMA FACULDADE CUJO EXERCÍCIO É NECESSÁRIO PARA A CONSECUÇÃO DE UM INTERESSE. I - PODE SER ABSOLUTO OU PERFEITO: QUANDO A NÃO REALIZAÇÃO NECESSARIAMENTE ACARRETARÁ UM PREJUÍZO Ex. NÃO RECORRER DE UMA SENTENÇA CONDENATÓRIA. II - PODE SER IMPERFEITO OU RELATIVO (NÃO NECESSARIAMENTE OCORRERÁ UM PREJUÍZO). Ex. ÔNUS DA PROVA NÃO CONFUNDIR ÔNUS COM OBRIGAÇÃO, UMA VEZ QUE NA OBRIGAÇÃO EXISTE SANÇÃO PARA O CASO DE DESCUMPRIMENTO (testemunha que regularmente intimada não comparece ao ato pode ser conduzida coercitivamente). B) ÔNUS DA PROVA É A FACULDADE DE OS SUJEITOS PARCIAIS PRODUZIREM AS PROVAS SOBRE AS AFIRMAÇÕES DE FATOS RELEVANTES PARA O PROCESSO, CUJO EXERCÍCIO PODERÁ LEVÁ-LOS A OBTER UMA POSIÇÃO DE VANTAGEM OU IMPEDIR QUE SOFRAM UM PREJUÍZO. NÃO POSSUI CARÁTER ABSOLUTO EM RAZÃO DOS PODERES INSTRUTÓRIOS CONFERIDOS AO MAGISTRADO E AO PRINCÍPIO DA COMUNHÃO DAS PROVAS. SE DIVIDE EM: SUBJETIVO: “QUEM DEVERÁ PROVAR CADA FATO” OBJETIVO: DISCIPLINA COMO O JUIZ DEVERÁ JULGAR. C) DISTRIBUIÇÃO UMA PRIMEIRA CORRENTE DEFENDE QUE NO PROCESSO PENAL, EM RAZÃO DO PRINCÍPIO DA PRESUNÇÃO DE INOCÊNCIA, O ÔNUS DE PROVA RECAI INTEIRAMENTE SOBRE A ACUSAÇÃO, NÃO HAVENDO QUE SE FALAR EM DISTRIBUIÇÃO DO ÔNUS DA PROVA. Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 52 O ART. 156 DISPÕE QUE A PROVA DA ALEGAÇÃO INCUMBIRÁ A QUEM FIZER. JÁ UMA SEGUNDA CORRENTE (MAJORITÁRIA) DISPÕE QUE: A) à acusação compete provar a existência do fato imputado e sua autoria, elementos subjetivos de dolo ou culpa, a existência de circunstâncias agravantes e qualificadoras. B) à defesa incumbe provar excludentes de ilicitude, culpabilidade ou tipicidade, atenuantes, minorantes e privilegiadoras. Obs: Importante saber que a lei 11690/08 alterou o art. 386, VI do CPP dispondo que a dúvida fundada sobre a existência de circunstâncias que excluam o crime ou isentem o réu de pena devem ensejar a absolvição do acusado, o que mitigou o ônus da defesa neste ponto. Obs.2: Ônus da prova direito local: analogia à regra do art. 337 CPC. O juiz pode exigir da parte que o alega a respectiva comprovação. 5.10) PODERES INSTRUTÓRIOS DO MAGISTRADO (ARTIGO 156 CPP) Art. 156. A prova da alegação incumbirá a quem a fizer, sendo, porém, facultado ao juiz de ofício: (Redação dada pela Lei nº 11.690, de 2008) I – ordenar, mesmo antes de iniciada a ação penal, a produção antecipada de provas consideradas urgentes e relevantes, observando a necessidade, adequação e proporcionalidade da medida; (Incluído pela Lei nº 11.690, de 2008) II – determinar, no curso da instrução, ou antes de proferir sentença, a realização de diligências para dirimir dúvida sobre ponto relevante. (Incluído pela Lei nº 11.690, de 2008) Em razão do princípio da busca da verdade e tendo em vista o fato de ser o destinatário das provas, o magistrado possui certa iniciativa probatória, não dependendo única e exclusivamente das partes para formar o seu convencimento. Entretanto, tal atividade é complementar a das partes. A faculdade do juiz na produção antecipada de prova: O juiz pode ordenar ex officio a produção antecipada de provas urgentes e relevantes, mesmo antes de iniciada a ação penal, respeitada a necessidade, a adequação e a proporcionalidade. Essa faculdade do art. 156, I, CPP exige interpretação restritiva, sob pena de violação ao sistema acusatório. Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 53 Requisitos: I - Existência do periculum in mora: relevância e urgência. II - Presença do fumus boni iuris: indício autoria e/ou materialidade. III - Existência de investigação em andamento. IV - Necessidade de procedimento sob análise judicial V - Excepcionalidade da atuação judicial - (Princ. Proporcionalidade). Faculdade do juiz na produção de provas ex officio: a) antes de iniciar a instrução: art. 149, §2°, art. 225, art. 366 CPP. b) após iniciar a instrução:art. 196, art. 209, art. 234, art. 242 CPP. 5.11) PROVAS ILEGAIS, VEDADAS OU PROIBIDAS: A Constituição em seu artigo 5°, inciso LVI, consagrou a regra da inadmissibilidade das provas ilícitas. Neste sentido, a doutrina majoritária sempre traçou uma diferenciação da prova ilícita (obtida com violação a uma regra de direito material) e a prova ilícita (obtida com violação ao uma regra de direito processual. Além disso, como consequência da sua produção, a prova ilícita deveria ser desentranhada do processo e a prova ilegítima acarretaria a utilização da Teoria das Nulidades. Ocorre que a lei 11690/08, ao alterar o art. 157 do Código de Processo Penal, não fez menção a prova considerada ilegítima, razão pela qual parcela da doutrina, em especial o professor Guilherme de Souza Nucci, passou a sustentar que, após a referida reforma, não haveria diferenciação entre prova ilícita e ilegítima, ensejando o desentranhamento qualquer que seja a modalidade. Entretanto, a doutrina majoritária entende que, por se tratar de regra advinda da Constituição da República, em que pese ter havido reforma no CPP, ainda persistiria a diferenciação clássica, a seguir exposta: a) PROVAS ILÍCITAS (art. 157 CPP): violação de regras direito material, produzindo reflexos diretos ou indiretos em direitos e garantias constitucionais. Ex: interceptação telefônica e busca e apreensão sem ordem judicial, violação carta lacrada, grampo, coação em interrogatório policial (afrontamento direito ao art. 5°, X, XI, XII, e LXIII, CF). Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 54 Outros casos de afrontamento indireto à CF: interrogatório judicial de réu sem a presença de advogado ou sem prévia entrevista reservada com defensor (art. 185 CPP e art. 5°, LV, CF) e mediante coação (art. 186 CPP). Consequências do uso de provas ilícitas (art. 157 CPP): desentranhamento e, uma vez preclusa a decisão de desentranhamento da prova declarada inadmissível, esta será inutilizada, podendo as partes acompanhar o incidente. Obs: na ausência de previsão legal expressa, caberá recurso em sentido estrito em relação ao reconhecimento da ilicitude e no tocante ao desentranhamento e inutilização - (art. 581, XIII, CPP). b) PROVAS ILEGÍTIMAS: São aquelas produzidas a partir da violação de normas de natureza eminentemente processual. Ex: perícia por apenas um perito não-oficial - art. 159, §1°; reconhecimento judicial do réu sem observância das formalidades do art. 226 do CPP; extinção da punibilidade sem juntada de certidão óbito - art. 62 CPP. c) PROVAS ILÍCITAS POR DERIVAÇÃO: (art. 157, §1°, CPP) Embora lícitas na essência, decorrem exclusivamente de prova considerada ilícita ou de ilegalidade manifesta ocorrida anteriormente à sua produção (contaminadas). Antes da reforma de 2008 a qual expressamente previu tal regra, a jurisprudência se valia do art. 573, parágrafo 1°, que dispõe: a nulidade de um ato, uma vez declarada, causará a dos atos que dele diretamente dependam ou sejam consequência. Com a reforma de 2008, o artigo 157 incorporou de maneira expressa em nosso ordenamento jurídico a Teoria da Árvore dos Frutos Envenenados (fruits of the poisonous tree), a qual exige relação de exclusividade entre a prova posterior e a anterior que lhe deu origem. Exemplos: Sujeito que confessou a autoria de delito, entretanto, momento antes foi torturado por policiais civis. O professor André Nicoliti em seu blog relatou um caso que julgou como magistrado, no qual, policiais militares abordaram um sujeito na rua, que não se encontrava com drogas em sua posse, entretanto teria admitido (confissão não revestida das Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 55 formalidades legais) aos policiais que tinha drogas em casa, razão pela qual, em ato contínuo, tais policiais se dirigiram até a residência em questão, encontrando substâncias entorpecentes. OBS: EXCEÇÕES OU LIMITAÇÕES À ADMISSIBILIDADE DA PROVA ILÍCITA POR DERIVAÇÃO: I - Fonte independente: Prevista de forma expressa no artigo 157, parágrafo 1°, parte final e no parágrafo segundo do aludido artigo, a Teoria da Fonte independente dispõe que se, além da prova ilícita, um outro elemento de convicção licitamente produzido conduzir ao objeto da prova em análise não haverá ilicitude. Neste caso, não haverá nexo de causalidade entre a prova que se quer utilizar e a situação de ilicitude ou ilegalidade antes ocorrida. Exemplo: A testemunha João, essencial para a elucidação de um fato, foi descoberta em razão de uma interceptação telefônica não revestida das formalidades legais. Ocorre que uma outra testemunha, sem qualquer relação com aquela interceptação telefônica ilegal, teria referido que João presenciou o referido fato. Neste sentido, o depoimento de João não será considerado ilegal pois decorreu de uma fonte independente. II - Limitação da contaminação expurgada (purged taint limitation) ou limitação da conexão atenuada: Não possui previsão expressa, decorrendo do direito americano. Ocorre quando um acontecimento posterior elide a ilicitude da prova viciada. Diferentemente da fonte independente, na limitação da contaminação expurgada há nexo de causalidade entre a situação de ilegalidade e a prova que se quer utilizar, entretanto este nexo é abrandado ou atenuado pela interferência de um acontecimento posterior. Exemplo: Sujeito que confessa sob tortura na fase policial. Entretanto, posteriormente, na fase judicial, devidamente acompanhado de advogado, vem a confessar a prática delitiva visando atenuar a pena em caso de provável condenação. III - Descoberta inevitável (inevitable discovery): Também não possui previsão expressa, decorrendo do direito americano. Na descoberta inevitável, ainda que não fosse a ilicitude anterior, a prova teria surgido de qualquer modo pelos meios legais. Exemplo: Uma equipe de policiais da Delegacia de Polícia local, sem mandado, violou o domicílio de João, encontrando drogas na referida residência. Ocorre que, naquele momento, uma outra equipe de policiais da Delegacia Especializada no Combate às Drogas, Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 56 devidamente munida do mandado, se dirigia para a residência em questão com a finalidade de investigar provável crime de tráfico de drogas. OBS: UTILIZAÇÃO DE PROVA ILÍCITA EM FAVOR DO RÉU E EM FAVOR DA SOCIEDADE: A doutrina e jurisprudência entendem ser possível o uso de provas ilícitas em favor do réu quando se tratar da única forma de absolvê-lo ou comprovar um fato importante à sua defesa. Uso da prova ilícita pro societate: Entendimento majoritário: o princípio da proporcionalidade não serve para justificar o uso da prova ilícita em favor da sociedade, mesmo que seja o único elemento para uma condenação. Entendimento minoritário: Norberto Avena defende o uso quando o interesse público exigir, em prevalência da segurança da sociedade, evitando-se a impunidade de criminosos. Ex: organizações criminosas, tráfico drogas e etc. (mal coletivo) QUESTÃO 01 – IV EXAME 2011.1 Maria, jovem extremamente possessiva, comparece ao local em que Jorge, seu namorado, exerce o cargo de auxiliar administrativo e abre uma carta lacrada que havia sobre a mesa do rapaz. Ao ler o conteúdo, descobre que Jorge se apropriara de R$ 4.000,00 (quatro mil reais), que recebera da empresa em que trabalhava para efetuar um pagamento, mas utilizara tal quantia para comprar uma joia para uma moça chamada Júlia. Absolutamente transtornada,Maria entrega a correspondência aos patrões de Jorge. Com base no relatado acima, responda aos itens a seguir, empregando os argumentos jurídicos apropriados e a fundamentação legal pertinente ao caso. a) Jorge praticou crime? Em caso positivo, qual(is)? (Valor: 0,35) b) Se o Ministério Público oferecesse denúncia com base exclusivamente na correspondência aberta por Maria, o que você, na qualidade de advogado de Jorge, alegaria? (Valor: 0,9) QUESTÃO 02 – EXAME XXI No dia 03 de março de 2016, Vinícius, reincidente específico, foi preso em flagrante em razão da apreensão de uma arma de fogo, calibre .38, de uso permitido, número de série identificado, Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 57 devidamente municiada, que estava em uma gaveta dentro de seu local de trabalho, qual seja, o estabelecimento comercial “Vinícius House”, do qual era sócio-gerente e proprietário. Denunciado pela prática do crime do Artigo 14 da Lei nº 10.826/03, confessou os fatos, afirmando que mantinha a arma em seu estabelecimento para se proteger de possíveis assaltos. Diante da prova testemunhal e da confissão do acusado, o Ministério Público pleiteou a condenação nos termos da denúncia em alegações finais, enquanto a defesa afirmou que o delito do Art. 14 do Estatuto do Desarmamento não foi praticado, também destacando a falta de prova da materialidade. Após manifestação das partes, houve juntada do laudo de exame da arma de fogo e das munições apreendidas, constatando-se o potencial lesivo do material, tendo o magistrado, de imediato, proferido sentença condenatória pela imputação contida na denúncia, aplicando a pena mínima de 02 anos de reclusão e 10 dias-multa. O advogado de Vinícius é intimado da sentença e apresentou recurso de apelação. Considerando apenas as informações narradas, responda na condição de advogado(a) de Vinicius: A) Qual requerimento deveria ser formulado em sede de apelação e qual tese de direito processual poderia ser alegada para afastar a sentença condenatória proferida em primeira instância? Justifique. (Valor: 0,65) B) Confirmados os fatos, qual tese de direito material poderia ser alegada para buscar uma condenação penal mais branda em relação ao quantum de pena para Vinicius? Justifique. (Valor: 0,60) Obs.: o(a) examinando(a) deve fundamentar as respostas. A mera citação do dispositivo legal não confere pontuação. QUESTÃO 03 – EXAME XXI Mário foi surpreendido por uma pessoa que, mediante ameaça verbal de morte, subtraiu seu celular. No dia seguinte, quando passava pelo mesmo local, avistou Paulo e o reconheceu como sendo a pessoa que o roubara no dia anterior. Levado para a delegacia, Paulo admitiu ter subtraído o celular de Mário mediante grave ameaça, mas alegou que estava em estado de necessidade. O celular não foi recuperado e Paulo foi liberado em razão da ausência da situação de flagrante. Oferecida a denúncia pela prática do delito de roubo, Paulo foi pessoalmente citado e manifestou interesse em ser assistido pela Defensoria Pública. No curso da instrução, a vítima, única testemunha arrolada pelo Ministério Público, não foi localizada, assim como Paulo nunca compareceu em juízo, sendo decretada sua revelia. A pretensão punitiva foi acolhida nos termos do pedido inicial, tendo o juiz fundamentado seu convencimento no que foi dito pelo lesado e pelo acusado na fase extrajudicial, Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 58 aumentando a pena-base pelo fato de o agente ter ameaçado de morte o ofendido e deixando de reconhecer a atenuante da confissão espontânea porque qualificada. QUESTÃO 01 – EXAME XXII Chegou ao Ministério Público denúncia de pessoa identificada apontando Cássio como traficante de drogas. Com base nessa informação, entendendo haver indícios de autoria e não havendo outra forma de obter prova do crime, a autoridade policial representou pela interceptação da linha telefônica que seria utilizada por Cássio e que fora mencionada na denúncia recebida, tendo o juiz da comarca deferido a medida pelo prazo inicial de 30 dias. Nas conversas ouvidas, ficou certo que Cássio havia adquirido certa quantidade de cocaína, pela primeira vez, para ser consumida por ele, juntamente com seus amigos Pedro e Paulo, na comemoração de seu aniversário, no dia seguinte. Diante dessa prova, policiais militares obtiveram ordem judicial e chegaram à casa de Cássio quando este consumia e oferecia a seus amigos os seis papelotes de cocaína para juntos consumirem. Cássio, portador de maus antecedentes, foi preso em flagrante e autuado pela prática do crime de tráfico, sendo, depois, denunciado como incurso nas penas do Art. 33, caput, da Lei nº 11.343/06. Considerando os fatos narrados, responda, na qualidade de advogado(a) de Cássio, aos itens a seguir. A) Qual a tese de direito processual a ser suscitada para afastar a validade da prova obtida? (Valor: 0,65) B) Reconhecidos como verdadeiros os fatos narrados, qual a tese de direito material a ser alegada para tornar menos gravosa a tipificação da conduta de Cássio? (Valor: 0,60) Obs.: o(a) examinando(a) deve fundamentar suas respostas. A mera citação do dispositivo legal não confere pontuação. Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 59 DAS PROVAS EM ESPÉCIE Trata-se de todo e qualquer meio de percepção empregado pelo homem com a finalidade de comprovar a verdade de uma alegação. 6.1) PROVA PROIBIDA – ART. 157 A CF/88, no artigo 5º, LVI, dispõe serem “inadmissíveis, no processo, as provas obtidas por meios ilícitos”, isto é, conseguidas mediante a violação de normas de Direito Constitucional ou Material. Prova vedada ou proibida é, portanto, a produzida por meios ilícitos, em contrariedade a uma norma legal específica. A prova vedada comporta duas espécies: A) Prova ilegítima: Quando a norma afrontada tiver natureza processual, a prova vedada será chamada de ilegítima. Ex: o documento exibido em plenário do Júri, com desobediência ao disposto no art. 479, “caput”, CPP. B) Prova ilícita Quando a prova for vedada, em virtude de ter sido produzida com afronta a normas de direito material, será chamada de ilícita. Ex: confissão obtida com emprego de tortura (Lei 9455/97), uma apreensão de documento realizada mediante violação de domicílio (art. 150 CP), a captação de uma conversa por meio de crime de interceptação telefônica (Lei 9296/96, art. 10). 6.2) PROVAS ILÍCITAS POR DERIVAÇÃO E A TEORIA DOS “FRUTOS DA ÁRVORE ENVENENADA” (ART. 1571, §§1º E 2º) As denominadas provas ilícitas por derivação dizem respeito àquelas provas em si mesmas lícitas, mas a que se chegou por intermédio da informação obtida por prova ilicitamente colhida. É o caso da confissão extorquida mediante tortura, que venha a fornecer informações corretas a respeito do lugar onde se encontra o produto do crime, propiciando a sua regular apreensão. Esta última prova, a despeito de ser regular, estaria contaminada pelo vício na origem. 06 Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 60 Outro exemplo seria o da interceptação telefônica clandestina – crime punido com pena de reclusão de dois a quatro anos, além de multa (art. 10 da Lei 9296/96) – por intermédio da qual o órgão policial descobre uma testemunha do fato que, em depoimento regularmente prestado, incrimina o acusado. Haveria, igualmente, ilicitude por derivação. Consequência da admissão da prova ilícita: O novo artigo 157 do CPPexpressamente determina o desentranhamento dos autos das provas ilícitas. Questão 1 - EXAME 2010-02 José da Silva foi preso em flagrante pela polícia militar quando transportava em seu carro grande quantidade de drogas. Levado pelos policiais à delegacia de polícia mais próxima, José telefonou para seu advogado, o qual requereu ao delegado que aguardasse sua chegada para lavrar o flagrante. Enquanto esperavam o advogado, o delegado de polícia conversou informalmente com José, o qual confessou que pertencia a um grupo que se dedicava ao tráfico de drogas e declinou o nome de outras cinco pessoas que participavam desse grupo. Essa conversa foi gravada pelo delegado de polícia. Após a chegada do advogado à delegacia, a autoridade policial permiti u que José da Silva se entrevistasse particularmente com seu advogado e, só então, procedeu à lavratura do auto de prisão em flagrante, ocasião em que José foi informado de seu direito de permanecer calado e foi formalmente interrogado pela autoridade policial. Durante o interrogatório formal, assisti do pelo advogado, José da Silva optou por permanecer calado, afirmando que só se manifestaria em juízo. Com base na gravação contendo a confissão e delação de José, o Delegado de Polícia, em um único ato, determina que um de seus policiais atue como agente infiltrado e requer, ainda, outras medidas cautelares investigativas para obter provas em face dos demais membros do grupo criminoso: 1. quebra de sigilo de dados telefônicos, autorizada pelo juiz competente; 2. busca e apreensão, deferida pelo juiz competente, a qual logrou apreender grande quantidade de drogas e armas; 3. prisão preventiva dos cinco comparsas de José da Silva, que estavam de posse das drogas e armas. Todas as provas coligidas na investi ação corroboraram as informações fornecidas por José em seu depoimento. Relatado o inquérito policial, o promotor de justiça denunciou todos os envolvidos por associação para o tráfico de drogas (art. 35, Lei 11.343/2006), tráfico ilícito de entorpecentes (art. 33, Lei 11.343/2006) e quadrilha armada (art. 288, parágrafo único). Considerando tal narrativa, excluindo eventual pedido de aplicação do instituto da delação premiada, indique quais as teses defensivas, no plano do direito material e processual, que podem ser arguidas a partir do enunciado acima, pela defesa de José. Indique os dispositivos legais aplicáveis aos argumentos apresentados. Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 61 6.3) PROVAS ILÍCITAS E A INVIOLABILIDADE DO SIGILO DAS COMUNICAÇÕES. COMUNICAÇÕES TELEFÔNICAS A interceptação em sentido estrito e a escuta telefônica, quando feitas fora das hipóteses legais ou sem autorização judicial, não devem ser admitidas, por afronta ao direito à privacidade. A) BASE JURÍDICA Art. 5º, inciso XII – CRFB/88 - É inviolável o sigilo da correspondência e das comunicações telegráficas, de dados e das comunicações telefônicas, salvo, no último caso, nas hipóteses e na forma que a lei estabelecer para fins de investigação criminal ou instrução processual penal O referido dispositivo constitucional aborda a questão do sigilo das comunicações, o qual pode ser dividido em quatro grupos, quais sejam: 1) o sigilo das correspondências; 2) o sigilo das comunicações telegráficas; 3) o sigilo das comunicações de dados; 4) o sigilo das comunicações telefônicas. A doutrina diverge quanto à extensão da ressalva feita pelo legislador constitucional (“salvo neste último caso), surgindo as seguintes posições: i) a ressalva feita pelo legislador constituinte somente inclui o sigilo das comunicações, razão pela qual os grupos (1, 2 e 3), gozam de inviolabilidade absoluta (GRINOVER E SCARANCE FERNANDES) ii) a ressalva feita pelo legislador constituinte incluiu o sigilo das comunicações telefônicas e o sigilo das comunicações de dados (interpretação hermenêutica e a forma como o inciso XII foi redigido – NORBERTO AVENA, PAULO RANGEL E STF NA PET. 577-DF). Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 62 B) ABRANGÊNCIA DA LEI 9.296/96 Art. 1º A interceptação de comunicações telefônicas, de qualquer natureza, para prova em investigação criminal e em instrução processual penal, observará o disposto nesta Lei e dependerá de ordem do juiz competente da ação principal, sob segredo de justiça. Parágrafo único. O disposto nesta Lei aplica-se à interceptação do fluxo de comunicações em sistemas de informática e telemática. Aplica-se a lei, a teor de seu art. 1º, “à interceptação de comunicações telefônicas, de qualquer natureza”. Por mais amplitude que se pretenda atribuir ao conceito, permanece ele limitado à escuta e eventual gravação de conversa telefônica, quando praticada por terceira pessoa, diversa dos interlocutores (com ou sem conhecimento de um deles). Ficam excluídas do regime legislativo as gravações clandestinas de telefonemas próprios, assim como as gravações entre presentes. C) CLASSIFICAÇÃO (INTERCEPTAÇÃO TELEFÔNICA LATO SENSU - GÊNERO) C.1) interceptação telefônica stricto sensu: terceiro viola a conversa telefônica de 2 ou mais pessoas, registrando ou não os diálogos, sem que nenhum dos interlocutores tenha conhecimento. C.2) escuta telefônica: terceiro viola a conversa telefônica mantida entre 2 ou mais pessoas, com ciência de um ou alguns dos interlocutores de que os diálogos estão sendo captados. C.3) gravação telefônica: um dos interlocutores simplesmente registra (grava) a conversa que mantém com o outro, não há a figura de terceiro. Obs: Art. 5°, XII, CF: a proteção constitucional alcança somente as duas primeiras formas de interceptação acima. Logo, não tutela a gravação, devendo este meio de prova ser considerado lícito, mesmo sem autorização judicial, salvo se obtido com traição de confiança ou segredo profissional (STF e STJ). D) REQUISITOS LEGAIS PARA A CONCESSÃO DA QUEBRA DO SIGILO TELEFÔNICO: a) Ordem do juiz competente para o julgamento da ação principal: Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 63 Art. 1º A interceptação de comunicações telefônicas, de qualquer natureza, para prova em investigação criminal e em instrução processual penal, observará o disposto nesta Lei e dependerá de ordem do juiz competente da ação principal, sob segredo de justiça. Parágrafo único. O disposto nesta Lei aplica-se à interceptação do fluxo de comunicações em sistemas de informática e telemática. Somente o juiz competente para o julgamento da ação principal poderá determinar a quebra do sigilo telefônico, jamais o Promotor de Justiça ou o Delegado de Polícia poderão fazê-lo. Obviamente que se trata de juiz que exerça jurisdição penal, seja esta eleitoral, militar, ou comum, já que a interceptação será realizada para prova em investigação criminal e em instrução processual penal. Assim, o juiz que determinar a quebra do sigilo será o competente para a ação principal. b) Indícios razoáveis de autoria ou participação em infração penal Art. 2° Não será admitida a interceptação de comunicações telefônicas quando ocorrer qualquer das seguintes hipóteses: I - não houver indícios razoáveis da autoria ou participação em infração penal; II - a prova puder ser feita por outros meios disponíveis; III - o fato investigado constituir infração penal punida, no máximo, com pena de detenção. Parágrafo único. Em qualquer hipótese deve ser descrita com clareza a situação objeto da investigação, inclusive com a indicação e qualificaçãodos investigados, salvo impossibilidade manifesta, devidamente justificada. Consta do art. 2º, I, da Lei. Não se exige prova plena, sendo suficiente o juízo de probabilidade (fumus boni iuris), sob o influxo do princípio in dubio pro societate. Havendo indicação provável de prática de crime, o juiz poderá autorizar. Não se exige a instauração formal de inquérito policial. c) Que a infração penal seja crime punido com reclusão Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 64 Art. 2° Não será admitida a interceptação de comunicações telefônicas quando ocorrer qualquer das seguintes hipóteses: I - não houver indícios razoáveis da autoria ou participação em infração penal; II - a prova puder ser feita por outros meios disponíveis; III - o fato investigado constituir infração penal punida, no máximo, com pena de detenção. Parágrafo único. Em qualquer hipótese deve ser descrita com clareza a situação objeto da investigação, inclusive com a indicação e qualificação dos investigados, salvo impossibilidade manifesta, devidamente justificada. De acordo com o art. 2º, III, não será admitida a interceptação quando o fato investigado constituir infração penal punida, no máximo, com pena de detenção. Isto significa dizer que somente será admissível a quebra do sigilo telefônico nas hipóteses de crimes apenados com reclusão. Contudo, conforme a doutrina, tal critério trouxe duas impropriedades: a) deixou de lado crimes apenados com detenção, como a ameaça, comumente praticado via telefone, ou mesmo contravenções, como o jogo do bicho; b) ao elencar genericamente todas as infrações penais apenadas com reclusão como objeto da interceptação, alargou sobremaneira o rol dos delitos passíveis de serem investigados por quebra do sigilo telefônico, crimes estes, muitas vezes, destituídos de maior gravidade, o que torna discutível, no caso concreto, o sacrifício de um direito fundamental como o sigilo das comunicações telefônicas. Deve incidir, na hipótese, o princípio da proporcionalidade dos bens jurídicos envolvidos, não se podendo sacrificar o sigilo das comunicações em prol de um bem de menor valor. d) Que não exista outro meio de se produzir a prova Art. 2° Não será admitida a interceptação de comunicações telefônicas quando ocorrer qualquer das seguintes hipóteses: I - não houver indícios razoáveis da autoria ou participação em infração penal; II - a prova puder ser feita por outros meios disponíveis; III - o fato investigado constituir infração penal punida, no máximo, com pena de detenção. Parágrafo único. Em qualquer hipótese deve ser descrita com clareza a situação objeto da investigação, inclusive com a indicação e qualificação dos investigados, salvo impossibilidade manifesta, devidamente justificada. Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 65 Para a concessão da medida cautelar é necessário demonstrar o periculum, isto é, o perigo de se perder a prova sem a interceptação. A quebra do sigilo telefônico, por constituir medida excepcional, somente deverá ser utilizada quando a prova não puder ser obtida por outros meios. Por se tratar de medida que restringe um direito fundamental do cidadão, qual seja, o seu direito à intimidade e liberdade de comunicação, caberá ao juiz, no caso concreto, avaliar se há outras alternativas menos invasivas, menos lesivas ao indivíduo. Se houver outros meios processuais de obtenção da prova, estes deverão ser utilizados. Deve-se, portanto, demonstrar fundamentadamente a necessidade da medida. Convém notar que se existir outro meio, mas este for de extrema dificuldade de produção, na prática, a autorização poderá ser concedida. e) Que tenha por finalidade instruir investigação policial ou processo criminal Art. 1º A interceptação de comunicações telefônicas, de qualquer natureza, para prova em investigação criminal e em instrução processual penal, observará o disposto nesta Lei e dependerá de ordem do juiz competente da ação principal, sob segredo de justiça. Parágrafo único. O disposto nesta Lei aplica-se à interceptação do fluxo de comunicações em sistemas de informática e telemática. Trata-se de requisito constante da Carta Magna e que foi reproduzido pela Lei nº 9.296/96 em seu art. 1º. Assim, não se admite a quebra do sigilo para instruir processo cível, por exemplo, ação de separação por adultério, em que é comum a ação de detetives particulares “grampeando” o telefone do cônjuge suspeito, já que a autorização só é possível em questão criminal. Da mesma forma, incabível a interceptação em sede de inquérito civil ou ação civil pública. Observação importante: No caso de descoberta fortuita ou ocasional de crime distinto daquele para o qual foi expedida a ordem, o entendimento majoritário é da licitude das provas para responsabilização penal, exigindo-se relação de conexidade (relação com o fato investigado), pouco importando se é punido com reclusão. Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 66 d) LEGITIMADOS (ART. 3°) Os legitimados para requerer a decretação da interceptação telefônica constam no artigo 3° da Lei 9296/96: Art. 3° A interceptação das comunicações telefônicas poderá ser determinada pelo juiz, de ofício ou a requerimento: I - da autoridade policial, na investigação criminal; II - do representante do Ministério Público, na investigação criminal e na instrução processual penal. Há a possibilidade de requerimento pelo ofendido enquanto titular ação penal privada (indícios de autoria, crime reclusão e excepcionalidade), bem como também há a possibilidade de requerimento pelo assistente acusação regularmente habilitado (artigos 31, 268 e 271 CPP) No que tange à possibilidade de decretação do sigilo de ofício pelo magistrado, recomendamos a utilização do mesmo raciocínio aplicado no item 1.12 (poderes instrutórios do magistrado – Art. 156 do Código de Processo Penal. F) PRAZO O prazo de duração da interceptação telefônica está descrito no art.5°, sendo de 15 dias, renovável por igual tempo uma vez comprovada a indispensabilidade do meio de prova. Art. 5° A decisão será fundamentada, sob pena de nulidade, indicando também a forma de execução da diligência, que não poderá exceder o prazo de quinze dias, renovável por igual tempo uma vez comprovada a indispensabilidade do meio de prova. Em relação ao cômputo do prazo, aplica-se o artigo 10 do Código Penal e não o art. 798, §1°, CPP. Observação importante: a interceptação telefônica não pode exceder 15 dias, porém pode ser renovada por igual período, não havendo restrição legal ao número de vezes da renovação, desde que comprovada a necessidade. Entretanto, em que pese a lei não limite o número de vezes, há que se respeitar o princípio da proporcionalidade, não podendo a restrição durar “ad eternum” por se tratar de uma garantia constitucional do indivíduo. G) PROCEDIMENTO O procedimento está regulado nos artigos 5° ao artigo 10 da Lei 9296/96. Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 67 Em caso de indeferimento da medida, poderá a parte impugnar a decisão judicial através de mandado de segurança criminal, sendo tal ato mais recomendável pois dispensa contrarrazões. Já no caso de deferimento da medida à revelia da lei, a medida mais adequada é a impetração de habeas corpus, uma vez que atinge de forma indireta a liberdade do indivíduo. 6.4) INTERCEPTAÇÃO DE DADOS: (e-mails, MSN, chat, sites e etc.) Como mencionadono item 2.1, em relação à interceptação de dados, há uma primeira corrente doutrinária que sustenta a sua inconstitucionalidade com base no art.5°,XII, da Constituição da República Federativa do Brasil, uma vez que a ressalva constitucional de violação do sigilo seria aplicável somente às comunicações telefônicas. Já uma segunda corrente sustenta a constitucionalidade de tal medida com base em uma interpretação hermenêutica de tal instituto, sendo a interceptação da comunicação de dados mencionada no artigo 1°, parágrafo único da Lei 9296/96. Neste sentido, partindo da premissa de que a segunda corrente seria mais adequada fazemos as mesmas observações anteriormente expostas no item 2.1 (em relação aos legitimados, procedimento, classificação e requisitos). Obs: Devemos considerar que o artigo 5°, inciso XII do texto constitucional, em relação à interceptação de dados, tutela a comunicação por intermédio de dados e não as informações referentes a dados que constam nos aparelhos celulares ou computadores, tais como agendas telefônicas, registros de chamadas, arquivos digitalizados. Entretanto, o STJ tem entendimento consolidado ( Edição 69 – NULIDADES NO PROCESSO PENAL - RHC 068419/RN,Rel. Ministro FELIX FISCHER, QUINTA TURMA,Julgado em 28/06/2016,DJE 01/08/2016; RHC 051531/RO,Rel. Ministro NEFI CORDEIRO, Julgado em 19/04/2016,DJE 09/05/2016) que são nulas as provas obtidas por meio da extração de dados e de conversas privadas registradas em correio eletrônico e redes sociais (v.g. whatsapp e facebook) sem a prévia autorização judicial. 6.5) INTERCEPTAÇÕES AMBIENTAIS: Trata-se de captação de sons, imagens ou sinais eletromagnéticos sem uso de linha telefônica, realizadas por meio de filmagens, gravadores e etc. Não há previsão no Código Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 68 de Processo Penal, entretanto, há previsão no art. 3° da lei 12850/13 como meio de obtenção de prova. Em regra, não implica, per si, violação ao direito de intimidade a ponto de tornar ilícita a prova obtida, salvo se realizada em ambiente de expectativa de privacidade e quando praticada com violação de confiança. Gravação de conversa informal entre investigado e a polícia: • momento do relato de sua colaboração no crime investigado: tal prova (gravação clandestina) será ilícita por afronta ao direito ao silêncio ou não autoincriminação - art. 5°, LXIII, CF e art. 186 CPP. • momento do relato de detalhes do envolvimento de terceiros: nesse enfoque, a prova será lícita, pois o narrador comporta-se como uma testemunha - sem direito ao silêncio - sujeitando-se a crime de falso testemunho se, ciente dos fatos, não os relata à autoridade. 6.6) SIGILO DE CORRESPONDÊNCIA: (art. 5°, XII, primeira parte, CF) O sigilo de correspondência está intrinsecamente ligado ao direito à intimidade, impedindo que terceiros tenha acesso ao texto incorporado à carta. Entretanto, para o STJ prevalece o entendimento de que não se estende a tutela à encomenda via postal, podendo esta ser violada sempre que houver suspeita de que se trata de objeto ilícito/proibido. OBS1: Apreensão de cartas abertas: (art. 240, §1°, “f”, CPP): a) impossibilidade: tutela-se o teor escrito e não o envelope, não podendo ser usado como prova válida - art. 233 CPP. b) possibilidade: se a carta está aberta, não há violação - STJ. Obs.2: Violação da correspondência do preso: (art. 41, XV, Lei n° 7.210/84) É crime = art. 151 CP e art. 3°, “c”, Lei n° 4.898/65. Não obstante, o STF decidiu que, excepcionalmente, é possível a interceptação da correspondência, por razões de segurança pública, não podendo a inviolabilidade do sigilo epistolar albergar ilicitudes. Obs.3: Violação e-mails (controvérsias): 1) não pode: substituto carta escrita (art. 5°, XII, CF). 2) pode: equiparação a dados (art. 1°, par. único, da Lei n° 9.296/96). Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 69 3) eclético: possível a violação apenas de e-mails em fluxo, ainda não à disposição do destinatário em seu endereço eletrônico = dados. 6.7) EXAME DE CORPO DE DELITO: (ARTS. 158 a 184 CPP) Art. 158. Quando a infração deixar vestígios, será indispensável o exame de corpo de delito, direto ou indireto, não podendo supri-lo a confissão do acusado. O exame de corpo de delito tem por finalidade comprovar a materialidade de infrações que deixam vestígios (delitos não transeuntes). Pode ser: •Direto: realizado pelo perito diante do vestígio deixado pela infração. •Indireto: desaparecimento dos vestígios em face do tempo, podendo o expert se valer de laudo particular realizado após a ocorrência ou de prova testemunhal, nos termos do artigo 167 do CPP. a) Mitigação ao rigor do art. 158 CPP (indispensabilidade do exame): art. 77, §1°, Lei n° 9.099/95 = basta boletim médico ou equivalente. art. 167 CPP = prova testemunhal supre a ausência do exame. Também pode ser documental (fotografia). Obs: não se aceita a confissão como meio hábil para suprir a perícia porque tem valor relativo, depende de confirmação por outros meios. b) Formalidades do exame de corpo de delito: Art. 159. O exame de corpo de delito e outras perícias serão realizados por perito oficial, portador de diploma de curso superior. (Redação dada pela Lei nº 11.690, de 2008) 1o Na falta de perito oficial, o exame será realizado por 2 (duas) pessoas idôneas, portadoras de diploma de curso superior preferencialmente na área específica, dentre as que tiverem habilitação técnica relacionada com a natureza do exame. (Redação dada pela Lei nº 11.690, de 2008) § 2o Os peritos não oficiais prestarão o compromisso de bem e fielmente desempenhar o encargo. (Redação dada pela Lei nº 11.690, de 2008) Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 70 O exame de corpo de delito deve ser realizado por perito oficial portador de curso superior, sendo que na falta, poderá ser realizado por dois peritos não-oficiais (leigos), com curso superior, preferencialmente na área objeto da perícia, nomeadas pelo delegado ou juiz, devendo prestar compromisso. Ausência de termo de compromisso: a) causa de nulidade. b) mera irregularidade se o auto é chancelado pela autoridade (STJ). Ausência de graduação superior: a) nulo o exame: entendimento esposado pelo STJ. b) mera irregularidade: pois os diplomas recentes (Lei n° 11.343/06 - art. 50, §1°, e art. 530-D do CPP) não exigem a escolaridade como condição para nomeação. c) Contraditório diferido Art. 159. O exame de corpo de delito e outras perícias serão realizados por perito oficial, portador de diploma de curso superior. (Redação dada pela Lei nº 11.690, de 2008) § 3o Serão facultadas ao Ministério Público, ao assistente de acusação, ao ofendido, ao querelante e ao acusado a formulação de quesitos e indicação de assistente técnico. (Incluído pela Lei nº 11.690, de 2008) § 4o O assistente técnico atuará a partir de sua admissão pelo juiz e após a conclusão dos exames e elaboração do laudo pelos peritos oficiais, sendo as partes intimadas desta decisão. (Incluído pela Lei nº 11.690, de 2008) § 5o Durante o curso do processo judicial, é permitido às partes, quanto à perícia: (Incluído pela Lei nº 11.690, de 2008) I – requerer a oitiva dos peritos para esclarecerem a prova ou para responderem a quesitos, desde que o mandado de intimação e os quesitos ou questões a serem esclarecidas sejam encaminhados com antecedência mínima de 10 (dez) dias, podendo apresentar as respostas em laudo complementar;(Incluído pela Lei nº 11.690, de 2008) II – indicar assistentes técnicos que poderão apresentar pareceres em prazo a ser fixado pelo juiz ou ser inquiridos em audiência. (Incluído pela Lei nº 11.690, de 2008) § 6o Havendo requerimento das partes, o material probatório que serviu de base à perícia será disponibilizado no ambiente do órgão oficial, que manterá sempre sua guarda, e na presença de perito oficial, para exame pelos assistentes, salvo se for impossível a sua conservação. (Incluído pela Lei nº 11.690, de 2008) Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 71 § 7o Tratando-se de perícia complexa que abranja mais de uma área de conhecimento especializado, poder-se-á designar a atuação de mais de um perito oficial, e a parte indicar mais de um assistente técnico. (Incluído pela Lei nº 11.690, de 2008) A lei 11690/09 ampliou o exercício do contraditório diferido em relação ao exame pericial, tendo em vista que o Art. 159 do CPP facultou ao MP, assistente de acusação, ofendido, querelante e acusado o direito a formular quesitos e indicar assistente técnico, que atuará a partir da admissão do juiz, e após a conclusão dos exames e elaboração do laudo pelos peritos oficiais. d) Aspectos Importantes: Indeferimento injustificado da admissão de assistente técnico: recurso: habeas corpus, mandado de segurança e correição parcial. Oitiva dos peritos em audiência (art. 159, §5°, I, CPP). Necessidade de intimação dos peritos com antecedência mínima de 10 dias da solenidade, encaminhando-lhes, no mesmo prazo, as questões a serem respondidas. Divergência de conclusões entre os peritos (art. 180 do CPP). Laudos complementares: a) esclarecer omissões, obscuridades ou contradições (art. 181 CPP) b) necessidade de aguardar-se decurso lapso temporal para viabilizar a resposta a quesitos (art. 168, caput e §§ 1°2°, CPP). O juiz não está vinculado às conclusões do laudo pericial. O CPP adotou o sistema liberatório da apreciação da prova pericial, o que guarda sintonia com o princípio do livre convencimento motivado. e) Outras Perícias •Necropsia: exame interno do cadáver, morte violenta (art. 162 CPP). •Exumação: requer justa causa e autorização judicial. Sanar dúvidas acerca da causa mortis ou complementar dados (art. 163 CPP). •Incêndio: acidental ou criminoso (art. 173 CPP). •Reconhecimento de escritos: coletar material gráfico para confronto. Segundo o art. 174, IV, CPP, vale destacar que a autoridade policial não poderá mandar, apenas solicitar, ante o privilégio da não autoincriminação. Instrumentos do crime: sujeitos a exame (art. 175 CPP). Crimes contra a propriedade imaterial: o exame de corpo de delito, direto ou indireto, visando a atestar a existência do crime é condição de procedibilidade para ação penal quando a infração deixar vestígios (arts. 524 a 530-I CPP). Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 72 6.8) INTERROGATÓRIO: (ARTS. 185 A 196 CPP) – SÚMULA VINCULANTE 11 STF a) Características: a.1) obrigatório: pena de nulidade processual (art. 564, III, “e”, CPP) a.2) personalíssimo: no caso de incapacidade do agente após a prática da infração (art. 152 CPP) e se preexistia (art. 151 do CPP). Crime ambiental praticado por pessoa jurídica (art. 225, §3°, CF): O CPP é omisso. Analogia art. 12, VI, CPC = pessoa indicada no estatuto. No interrogatório deverá ter instrumento de preposição. a.3) oralidade: perguntas e respostas orais. Exceção: surdo, mudo e estrangeiro (arts. 192 e 193 do CPP). a.4) publicidade: ato público, mas o juiz pode determinar que o ato seja realizado às portas fechadas, limitando o n° presentes, para evitar pressão, escândalos ou perturbação ordem pública. a.5) individualidade: não se permite interrogatório conjunto. b.6) Sistema de Inquirição: Trata-se do sistema Presidencialista, no qual as partes formulam as perguntas por intermédio do juiz, o qual poderá indeferir as perguntas impertinentes e irrelevantes (art. 188 do CPP) Entretanto, no procedimento do júri as perguntas poderão ser realizadas diretamente pelas partes (art. 474, §1°), enquanto os jurados deverão fazê-las por intermédio do juiz (art. 474, §2°) b) Natureza jurídica do interrogatório: Trata-se de meio de prova e meio de defesa. Em que pese tenha sido elencado no Código de Processo Penal como meio de prova, é a oportunidade no qual se materializa a defesa pessoal do réu. Neste sentido, a reforma de 2008, ao situar o interrogatório como último ato da instrução no procedimento comum ordinário reforça o argumento de se tratar de verdadeiro meio de defesa. Ademais, nos termos do artigo 185 do CPP é obrigatória a presença de defensor, pena de nulidade absoluta. c) Aspectos Importantes Em que pese o artigo 185 e seguintes do CPP se refiram de um modo geral ao interrogatório na fase judicial, o artigo 6°, inciso V do CPP, determinada que tal normatização deve ser aplicada, no que for aplicável, ao interrogatório realizado em sede policial. Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 73 O acusado possui o direito de entrevista pessoal e reservada com seu Defensor, nos termos do art. 185, §5°, 1ª parte, havendo uma oscilação jurisprudencial se o descumprimento acarreta nulidade absoluta ou relativa. Em caso de réu algemado no momento de seu interrogatório, em caso de não haver justificativa idônea, tal ato será nulo de pleno direito, acarretando também a responsabilização civil, administrativa e penal do agente ou da autoridade, nos termos da Súmula Vinculante n.° 11 do STF: “Só é lícito o uso de algemas em casos de resistência e de fundado receio de fuga ou de perigo à integridade física própria ou alheia, por parte do preso ou de terceiros, justificada a excepcionalidade por escrito, sob pena de responsabilidade disciplinar, civil e penal do agente ou da autoridade e de nulidade da prisão ou do ato processual a que se refere, sem prejuízo da responsabilidade civil do Estado.” d) Direito ao silêncio (nemo tenetur se detegere) O entendimento majoritário é que tem direito ao silêncio quanto às perguntas relativas ao fato e sobre sua pessoa (ex: oportunidades sociais). No entanto, deve fornecer dados relativos à própria qualificação, pena de incidir no art. 68 da Lei de Contravenções Penais e/ou em crime de falsa identidade prevista no art. 307 do CP. obs.1: O STJ possui entendimento consolidado (Ed. 69 Nulidades no processo penal) que a falta de comunicação ao acusado sobre o direito de permanecer em silêncio é causa de nulidade relativa, cujo reconhecimento depende da comprovação do prejuízo. e) Interrogatórios Especiais I - Interrogatório réu preso: sala própria, no estabelecimento em que estiver recolhido (art. 185, §1°, CPP). II - Interrogatório por videoconferência réu preso: caráter excepcional, decisão fundamentada, intimação das partes com no mínimo 10 dias de antecedência, condicionada à impossibilidade de o juiz interrogar o réu no estabelecimento prisional, em face das seguintes hipóteses: a) prevenir risco à segurança pública e fundada suspeita de que o preso integre organização criminosa (art. 185, §2°, I, CPP). b) prevenir risco à segurança pública quando possa o acusado fugir durante o deslocamento (periculosidade). Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 74 c) haja relevante dificuldade para seu comparecimento em juízo, por enfermidade ou outra circunstância pessoal (ameaça de morte). d) impedir influência do réu noânimo de testemunha ou da vítima. e) responder à gravíssima questão de ordem pública (clamor social). OBS: RESOLUÇÃO N.º 105 DO CNJ: Resolução Nº 105 de 06/04/2010 Ementa: Dispõe sobre a documentação dos depoimentos por meio do sistema audiovisual e realização de interrogatório e inquirição de testemunhas por videoconferência. Origem: Presidência O PRESIDENTE DO CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, no uso de suas atribuições conferidas pela Constituição da República, especialmente o disposto no inciso I, §4º, art. 103-B; CONSIDERANDO que, nos termos do art. 405, § 1º, do Código de Processo Penal, sempre que possível, com a finalidade de obter maior fidelidade das informações, dentre as formas possíveis de documentação dos depoimentos, deve-se dar preferência ao sistema audiovisual; CONSIDERANDO que, embora o art. 405, § 2º, do Código de Processo Penal, quando documentados os depoimentos pelo sistema audiovisual, dispense a transcrição, há registro de casos em que se determina a devolução dos autos aos juízes para fins de degravação; CONSIDERANDO que para cada minuto de gravação leva-se, no mínimo, 10 (dez) minutos para a sua degravação, o que inviabiliza a adoção dessa moderna técnica de documentação dos depoimentos como instrumento de agilização dos processos; CONSIDERANDO que caracteriza ofensa à independência funcional do juiz de primeiro grau a determinação, por magistrado integrante de tribunal, da transcrição de depoimentos tomados pelo sistema audiovisual; RESOLVE: Art. 1º O Conselho Nacional de Justiça desenvolverá e disponibilizará a todos os tribunais sistemas eletrônicos de gravação dos depoimentos, dos interrogatórios e de inquirição de testemunhas por videoconferência. (Redação dada pela Resolução nº 222, de 13.05.16) Parágrafo Único. Os tribunais deverão desenvolver sistema eletrônico para o armazenamento dos depoimentos documentados pelo sistema eletrônico audiovisual. § 1º Os tribunais e o CNJ poderão desenvolver repositórios de mídias para armazenamento de documentos de som e imagem, inclusive os decorrentes da instrução do processo. (Incluído pela Resolução nº 222, de 13.05.16) Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 75 § 2º Os documentos digitais inseridos no Repositório Nacional de Mídias para o Sistema PJe serão considerados, para todos os efeitos, peças integrantes dos autos eletrônicos do processo judicial correspondente e observarão: (Incluído pela Resolução nº 222, de 13.05.16) I) o número único do processo judicial, nos termos da Resolução CNJ 65/2008; (Incluído pela Resolução nº 222, de 13.05.16) II) o localizador padrão permanente de acesso ao conteúdo da informação (URL), na rede mundial de computadores; (Incluído pela Resolução nº 222, de 13.05.16) III) os requisitos dispostos no art. 195 do Código de Processo Civil, de autenticidade, integridade, temporalidade, não repúdio, conservação e, nos casos dos que tramitem em segredo de justiça, confidencialidade, observada a infraestrutura de chaves públicas unificada nacionalmente, nos termos da lei. (Incluído pela Resolução nº 222, de 13.05.16) § 3º As audiências, oitivas de testemunhas e outros atos de instrução a que se refere a Portaria nº 58, de 23/9/2014, da Corregedoria Nacional de acordo com os critérios previstos nesta Resolução. (Incluído pela Resolução nº 222, de 13.05.16) Art. 2º Os depoimentos documentados por meio audiovisual não precisam de transcrição. Parágrafo único. O magistrado, quando for de sua preferência pessoal, poderá determinar que os servidores que estão afetos a seu gabinete ou secretaria procedam à degravação, observando, nesse caso, as recomendações médicas quanto à prestação desse serviço. Art. 3º Quando a testemunha arrolada não residir na sede do juízo em que tramita o processo, deve- se dar preferência, em decorrência do princípio da identidade física do juiz, à expedição da carta precatória para a inquirição pelo sistema de videoconferência. § 1º O testemunho por videoconferência deve ser prestado na audiência una realizada no juízo deprecante, observada a ordem estabelecida no art. 400, caput, do Código de Processo Penal. § 2º A direção da inquirição de testemunha realizada por sistema de videoconferência será do juiz deprecante. § 3º A carta precatória deverá conter: I - A data, hora e local de realização da audiência una no juízo deprecante; II - A solicitação para que a testemunha seja ouvida durante a audiência una realizada no juízo deprecante; III - A ressalva de que, não sendo possível o cumprimento da carta precatória pelo sistema de videoconferência, que o juiz deprecado proceda à inquirição da testemunha em data anterior à designada para a realização, no juízo deprecante, da audiência uma. Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 76 Art. 4º No fórum deverá ser organizada sala equipada com equipamento de informática conectado com a rede mundial de computadores (internet), destinada para o cumprimento de carta precatória pelo sistema de videoconferência, assim como para ouvir a testemunha presente à audiência una, na hipótese do art. 217 do Código de Processo Penal. Art. 5º De regra, o interrogatório, ainda que de réu preso, deverá ser feito pela forma presencial, salvo decisão devidamente fundamentada, nas hipóteses do art. 185, § 2º, incisos I, II, III e IV, do Código de Processo Penal. Art. 6º Na hipótese em que o acusado, estando solto, quiser prestar o interrogatório, mas haja relevante dificuldade para seu comparecimento em juízo, por enfermidade ou outra circunstância pessoal, o ato deverá, se possível, para fins de preservação da identidade física do juiz, ser realizado pelo sistema de videoconferência, mediante a expedição de carta precatória. Parágrafo único. Não deve ser expedida carta precatória para o interrogatório do acusado pelo juízo deprecado, salvo no caso do caput. Art. 7º O interrogatório por videoconferência deverá ser prestado na audiência una realizada no juízo deprecante, adotado, no que couber, o disposto nesta Resolução para a inquirição de testemunha, asseguradas ao acusado as seguintes garantias: I - direito de assistir, pelo sistema de videoconferência, a audiência una realizada no juízo deprecante; II - direito de presença de seu advogado ou de defensor na sala onde for prestado o seu interrogatório; III - direito de presença de seu advogado ou de defensor na sala onde for realizada a audiência una de instrução e julgamento; IV - direito de entrevista prévia e reservada com o seu defensor, o que compreende o acesso a canais telefônicos reservados para comunicação entre o defensor ou advogado que esteja no presídio ou no local do interrogatório e o defensor ou advogado presente na sala de audiência do fórum, e entre este e o preso. Art. 8º Esta Resolução entrará em vigor na data de sua publicação. 6.9. CONFISSÃO: (ARTS. 197 A 200 DO CPP) Ocorre quando o imputado, normalmente no interrogatório realizado na sede policial ou em juízo, assume a sua responsabilidade diante da autoridade. Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 77 a) Aspectos Importantes Requisitos intrínsecos e formais para validade da confissão: verossimilhança, clareza, persistência, coincidência, pessoalidade, caráter expresso, oferecimento perante juiz competente, saúde mental e espontaneidade. Valoração: confronto com as demais provas (art. 197 CPP) A confissão pode ser divisível: juiz considera verdadeira em parte e inverídica em outra parte. Ex: reconhece autoria e nega excludentes. A confissão podeser retratável: mesmo confesso em juízo, o réu pode retratar-se, cabendo ao juiz sua valoração. A confissão policial - retratada em juízo - mas levada em consideração na sentença condenatória, caracteriza a atenuante de confissão espontânea (art. 65, III, “d”, CP) = entendimento do STJ. O STJ ADMITE COMPENSAÇÃO DA ATENUANTE DA CONFISSÃO COM A AGRAVANTE DA REINCIDÊNCIA – ERESP 1.154.752) Já a confissão qualificada ocorre quando oréu reconhece o crime, mas agrega teses defensivas, não permite, em regra, o reconhecimento da referida atenuante (STJ ADMITE A ATENUAÇÃO DE PENA TURMA AGRG NI RESP.1.198.354-ES REL. JORGE MUSSI 16/10/2014 E STF 1 TURMA NÃO ADMITE – HC 119671). 6.10. PERGUNTAS AO OFENDIDO (ART. 201 CPP) A vítima deve ser ouvida pelo juiz, independente de ter sido arrolada. Não se encaixa no contexto da prova testemunhal, não se computando no número máximo de testemunhas facultado pelo rito. Não está sujeito ao compromisso (art. 203 CPP), não podendo ser sujeito ativo do crime de falso testemunho (art. 342 do CP). Se mentir responderá por falsa comunicação de crime ou denunciação caluniosa. Não pode se recusar a depor, podendo ser conduzido à solenidade. Alterações introduzidas pela Lei n° 11.690/08: a) Obrigatoriedade de comunicação ao ofendido quanto a determinados atos processuais (data de audiências, sentenças/acórdãos) e sobre a prisão ou liberdade do acusado. Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 78 Pode ser intimação eletrônica ou carta registrada ao endereço por ele indicado (art. 201, §2°§3°,CPP) b) Reserva de lugar em separado para que o ofendido permaneça antes e durante a audiência (§4°). c) Encaminhamento do ofendido a atendimento multidisciplinar, se for o caso, às expensas do Estado ou, após trânsito em julgado, pelo ofensor (§5°). Ex: crimes sexuais. d) Adoção de medidas necessárias para resguardar a imagem, honra e vida privada do ofendido (§6°). Trata-se de publicidade restrita, com respaldo no art. 792, §1°, CPP. A ordem de sigilo do processo deve ser determinada em casos extremos e fundamentada. 6.11. PROVA TESTEMUNHAL: (ARTS. 202 A 225 CPP) a) Classificação das testemunhas: a.1) referida: embora não arrolada, pode ser inquirida ex officio ou a pedido das partes por ter sido citada por outra testemunha. Não é computada para o número máximo de testemunhas (art. 401,§1°). a.2) judicial: inquirida ex officio e fundamenta-se no poder-dever ao magistrado de buscar a verdade real (art. 209 e art. 156 CPP). a.3) própria: ouvida sobre objeto do litígio por presenciar ou ouvir dizer. a.4) imprópria ou instrumental: que não presta depoimento sobre o mérito da ação penal. Ex: presenciou a apresentação de um preso em sede policial a.5) numerária: testemunha regularmente compromissada (art. 203) a.6) informante: dispensadas compromisso por presunção jure et jure de que são suspeitas suas declarações (art. 206), não se computam no número máximo para cada rito (art. 401, §1°, CPP). a.7) direta: presenciou os fatos. a.8) indireta: não presenciou os fatos, mas soube ou ouviu dizer. b) NÚMERO MÁXIMO DE TESTEMUNHAS: b.1) oito: procedimentos comum ordinário (art. 401, §1°), júri (art. 406, §2°§3°), crimes de responsabilidade funcionário público (art. 518), crimes contra honra (art. 519), crimes contra propriedade imaterial (art. 524), crimes de comp. Tribunais dos Estados, Regionais Federais e Superiores (art. 9° da Lei n° 8.038/90 c/c Lei n° 8.658/93), crimes eleitorais punidos com pena máxima igual ou superior a 4 anos. b.2) três: crime abuso autoridade (art. 2°, par. único, Lei n° 4.898/65). Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 79 b.3) cinco: proc. comum sumário (art. 532), crimes falimentares (art. 185 Lei n° 11.101/05 c/c art. 532 CPP), juizados especiais criminais (inaplicável o art. 34, pois específico ao juizado esp. cível), lei de drogas (arts. 54 e 55, §1°, Lei n° 11.343/06), crimes eleitorais punidos com pena máxima inferior a 4 anos. Obs: Para acusação, o n° de testemunhas é definido segundo a quantidade de fatos imputados, desimportando o n° de agentes. Para defesa, leva-se em conta não apenas o n° de fatos como também de réus. Ex: dois réus acusados de um roubo terão o direito de arrolar cada um oito, totalizando dezesseis, mesmo com defensor único. O mesmo n° será facultado para o caso de um só réu responder por dois crimes de roubo. Já se os dois réus responderem a dois crimes de roubo, o n° máximo permitido será trinta e dois = oito para cada fato atribuído. Não se computarão no número máximo permitido as testemunhas referidas, não compromissadas, as judiciais e as que nada souberem que importe à decisão da causa (art. 401,§1°, e art. 209, caput e §2°). c) TESTEMUNHAS NÃO SUJEITAS A COMPROMISSO: (art. 208 CPP) Doentes mentais, menores de 14 anos e parentes do réu enumerados no art. 206 CPP: ascendentes, descendentes, irmão e cônjuge, ainda que separado judicialmente, e, por fim, os afins em linha reta (sogro). Ausência de regra específica na legislação processual: 1) não há menção a amigo íntimo e inimigo capital, tampouco aos parentes da vítima. Logo, devem prest/r compromisso, mas na prática forense isso não ocorre. 2) os, primos, sobrinhos e cunhado do réu prestam compromisso, pois são parentes colateriais - legítimos e por afinidade - não incluídos no art. 206 e art. 208 CPP. CONTRADITA: impugnar a narrativa de testemunhas arroladas. i) testemunha que não deva prestar compromisso (art. 208 CPP). Acolhida a contradita, o efeito é a dispensa de compromisso. ii) pessoa que seja proibida depor em razão do ofício ou profissão (art. 207 CPP). Acolhida, o efeito é a exclusão da testemunha, não pode depor (padre, psicólogo e etc.). Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 80 ARGUIÇÃO DE DEFEITO: quando tiver ciência de fatos que tornem a testemunha indigna de fé ou suspeita de parcialidade (parentes da vítima, amigo íntimo ou inimigo). Consigna-se no termo de audiência. d) Características da prova testemunhal: d.1) oralidade: pode fazer breve consulta a apontamentos (art. 204) d.2) objetividade: em regra depõe sobre fatos, não sobre impressões pessoais, salvo quando inseparáveis da narrativa ou for abonatória. d.3) individualidade: ouvidas de forma individual (art. 210). d.4) incomunicabilidade: reserva de espaço separado (art. 210 CPP) d.5) retrospectividade: depoimento sobre fatos passados, jamais futuros. Exceção: informações técnicas: médico prognóstico de recuperação. d.6) obrigatoriedade de comparecimento: condução coercitiva, pagamento de despesas, multa e crime de desobediência. Exceções: pessoas doentes e enfermas e determinados cargos, que ostentam prerrogativas (art. 220, art. 221, caput, §1°, CPP). d.7) obrigatoriedade: em regra, não tem direito ao silêncio. Providências judicias em caso de falso testemunho. e) Hipóteses legais de inversão da ordem de oitiva das testemunhas: e.1) testemunhas deprecadas (arts. 400, 411, 531 e 222). e.2) possibilidade de perecimento da prova ou de dificuldade posterior de sua produção (art. 225). e.3) ausência de testemunha de acusação no proc. sumário (art. 536). Observação importante: ante a atual redação do art. 212 CPP, o sistema presidencialista deixou de ser adotado, havendo a possibilidade de perguntas diretamente pelas partes. Neste sentido adveio debate doutrinário quanto ao momento em que o juiz deve realizar as suas perguntas, uma vez que segundo o aludido artigo omagistrado somente pode inquirir de forma complementar às partes. Para Nucci e Avena nada mudou - quem começa a ouvir a testemunha é sempre o juiz, como de praxe forense. Entretanto, na prática há desrespeito a essa regra, exigindo a jurisprudência a demonstração do prejuízo para fins de nulidade de tal inquirição. Neste sentido, o STJ possui Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 81 entendimento consolidado (Ed. 69 Nulidades no Processo Penal) que A inquirição das testemunhas pelo Juiz antes que seja oportunizada às partes a formulação das perguntas, com a inversão da ordem prevista no art. 212 do Código de Processo Penal, constitui nulidade relativa. A expedição de carta precatória não suspende a instrução criminal, consoante art. 222, §1°, CPP. Necessidade de fixar prazo para cumprimento do ato deprecado - entre 30 e 90 dias. Eventual descumprimento possibilita que seja proferida sentença independente do retorno da precatória (art. 222, §2°), sem implicar nulidade, consoante entendimento jurisprudencial. Se retornar após a sentença, deve ser remetida ao Tribunal para que seja acostada ao recurso, intimando-se as partes para aditarem suas respectivas razões. Obs. 2: não há necessidade de intimação das partes para audiência a ser realizada no juízo deprecado, sendo suficiente a intimação da expedição da carta precatória (Súmulas 273 STJ e 155 STF ). 6.12) RECONHECIMENTO PESSOAS E COISAS: (ARTS. 226 A 228 CPP) a) Formalidades legais: 1) a pessoa convidada a fazer o reconhecimento deverá descrever a pessoa que deva ser reconhecida (art. 226, inciso I) 2) em seguida, deverá o reconhecedor apontá-la entre outras que com ela guardarem semelhança, “se possível” (inciso II). Com efeito, o STJ não reconheceu ilegalidade no posicionamento do réu sozinho. 3) ao final, lavrar-se-á o auto, subscrito pela autoridade, reconhecedor e por duas testemunhas presenciais (inciso IV). 4) havendo receio de que, por intimidação, a pessoa chamada para o reconhecimento não fale a verdade, a autoridade poderá providenciar para que não seja vista por quem deva ser reconhecido (inciso III). Ao reconhecimento de coisas aplicam-se as mesmas regras, no que for cabível, abstraindo-se a previsão contida no inciso III do art. 226. Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 82 OBS: O STJ possui entendimento consolidado (Ed. 69 – Nulidades no Processo Penal) que as irregularidades relativas ao reconhecimento pessoal do acusado não ensejam nulidade, uma vez que as formalidades previstas no art. 226 do CPP são meras recomendações legais. 6.13) BUSCA E APREENSÃO: (ARTS. 240 A 250 CPP) a) Natureza jurídica: a.1) meio de prova: uso nas investigações e processo criminal. a.2) assecuratório de direitos: arresto para garantir êxito na reparação civil dos danos causados pela infração penal. b) Classificação: b.1) domiciliar b.2) pessoal. Amplitude de conceito normativo de casa: supera-se o conceito previsto no art. 70 e 72 Código Civil. Utiliza-se o art. 150, §4°, CP e art. 246 CPP. Abrange pátio de residência, boléia caminhão, trailers, cabine de barcos, barracas, motor-home, repartições públicas, quartos de hotel, pensão, motel e congêneres. Necessidade de ordem judicial: fundadas razões para busca e apreensão domiciliar = exigência de indícios convincentes, indicação do local no qual será realizada e objeto da providência (art. 240,§1°). Para busca pessoal, basta fundada suspeita = subjetivo (art. 240,§2°). c) Aspectos Importantes Fora das hipóteses de flagrante, desastre, socorro e consentimento do morador, a exigência do mandado é dispensada quando o próprio juiz competente para expedi-lo realizar a busca pessoalmente, acompanhado de policiais, nos termos do artigo 241, §2°. Entretanto, tal dispositivo deve ser interpretado com ressalva, sob pena de violação ao sistema acusatório e resgate da figura do juiz-inquisidor. Cabimento da busca e apreensão domiciliar: Taxatividade do rol previsto no art. 240, §1°, CPP. Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 83 Desobediência ou recalcitrância do morador: possibilidade de ingresso forçado na casa, arrombamento da porta (art. 245, §2°). Se houver resistência física do morador, poderá ser preso em flagrante por crime de desobediência, resistência ou desacato. Auto de apreensão: lavratura de auto circunstanciado, assinando-o com duas testemunhas presenciais, salvo se executado ou lugar ermo (art. 245, §4° e §7°, CPP). d) Regras Especiais Revista de mulher (art. 249 CPP). Busca em território de jurisdição distinta: seguimento pessoa (art. 250). e) Julgamento do RE 603616 O Plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) concluiu, na sessão desta quinta-feira (5), o julgamento do Recurso Extraordinário (RE) 603616, com repercussão geral reconhecida, e, por maioria de votos, firmou a tese de que “a entrada forçada em domicílio sem mandado judicial só é lícita, mesmo em período noturno, quando amparada em fundadas razões, devidamente justificadas a posteriori, que indiquem que dentro da casa ocorre situação de flagrante delito, sob pena de responsabilidade disciplinar, civil e penal do agente ou da autoridade e de nulidade dos atos praticados”. Questão 1 – XXIII EXAME José Barbosa, nascido em 11/03/1998, caminhava para casa após sair da faculdade, às 11h da manhã, no dia 07/03/2016, quando se deparou com Daniel, ex-namorado de sua atual companheira, conversando com esta. Em razão de ciúmes, retirou a faca que trazia na mochila e aplicou numerosas facadas no peito de Daniel, com a intenção de matá-lo. Daniel recebeu pronto atendimento médico, foi encaminhado para um hospital de Niterói, mas faleceu 05 dias após os golpes de faca. Já no dia 08/03/2016, policiais militares, informados sobre o fato ocorrido no dia anterior, comparecem à residência de José Barbosa, já que um dos agentes da lei era seu vizinho. Apesar de não ter ninguém em casa, a janela estava aberta, e os policiais puderam ver seu interior, verificando que havia uma faca suja de sangue escondida junto ao sofá. Diante disso, para evitar que José Barbosa desaparecesse com a arma utilizada, ingressaram no imóvel e apreenderam a arma branca, que foi devidamente apresentada pela autoridade policial. Com base na prova produzida a partir da apreensão da faca, o Ministério Público oferece denúncia em face de José Barbosa, imputando-lhe a prática do crime de homicídio consumado. Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 84 Considerando a situação narrada, na condição de advogado(a) de José Barbosa, responda aos itens a seguir. A) Qual argumento a ser apresentado pela defesa técnica do denunciado para combater a prova decorrente da apreensão da faca? Justifique. (Valor: 0,65) B) Existe argumento de direito material a ser apresentado em favor de José Barbosa para evitar o prosseguimento da ação penal? Justifique. (Valor: 0,60) Obs.: o(a) examinando(a) deve fundamentar suas respostas. A mera citação ou transcrição do dispositivo legal não confere pontuação. Questão 3 – XVIII EXAME 2015-03 Fernando foi pronunciado pela prática de um crime de homicídio doloso consumado que teve como vítima Henrique. Em sessão plenária do Tribunal do Júri, o réu e sua namorada, ouvida na condição de informante, afirmaram que Henrique iniciou agressões contra Fernando e que este agiu em legítima defesa. Por sua vez, a namorada da vítima e uma testemunha presencial asseguraramque não houve qualquer agressão pretérita por parte de Henrique. No momento do julgamento, os jurados reconheceram a autoria e materialidade, mas optaram por absolver Fernando da imputação delitiva. Inconformado, o Ministério Público apresentou recurso de apelação com fundamento no Art. 593, inciso III, alínea ‘d’, do CPP, alegando que a decisão foi manifestamente contrária à prova dos autos. A família de Fernando fica preocupada com o recurso, em especial porque afirma que todos tinham conhecimento que dois dos jurados que atuaram no julgamento eram irmãos, mas em momento algum isso foi questionado pelas partes, alegado no recurso ou avaliado pelo Juiz Presidente. Considerando a situação narrada, esclareça, na condição de advogado(a) de Fernando, os seguintes questionamentos da família do réu: A) A decisão dos jurados foi manifestamente contrária à prova dos autos? Justifique. (Valor: 0,60) B) Poderá o Tribunal, no recurso do Ministério Público, anular o julgamento com fundamento em nulidade na formação do Conselho de Sentença? Justifique. (Valor: 0,65) Questão 1 – XVII EXAME 2015.2 Rodrigo, primário e de bons antecedentes, quando passava em frente a um estabelecimento comercial que estava fechado por ser domingo, resolveu nele ingressar. Após romper o cadeado da porta principal, subtraiu do seu interior algumas caixas de cigarro. A ação não foi notada por qualquer pessoa. Todavia, quando caminhava pela rua com o material subtraído, veio a ser abordado por policiais militares, ocasião em que admitiu a subtração e a forma como ingressou no comércio Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 85 lesado. O material furtado foi avaliado em R$ 1.300,00 (um mil e trezentos reais), sendo integralmente recuperado. A perícia não compareceu ao local para confirmar o rompimento de obstáculo. O autor do fato foi denunciado como incurso nas sanções penais do Art. 155, § 4º, inciso I, do Código Penal. As únicas testemunhas de acusação foram os policiais militares, que confirmaram que apenas foram responsáveis pela abordagem do réu, que confessou a subtração. Disseram não ter comparecido, porém, ao estabelecimento lesado. Em seu interrogatório, Rodrigo confirmou apenas que subtraiu os cigarros do estabelecimento, recusando-se a responder qualquer outra pergunta. A defesa técnica de Rodrigo é intimada para apresentar alegações finais por memoriais. Com base na hipótese apresentada, responda, fundamentadamente, aos itens a seguir. A) Diante da confissão da prática do crime de furto por Rodrigo, qual a principal tese defensiva em relação à tipificação da conduta a ser formulada pela defesa técnica? (Valor: 0,65) B) Em caso de acolhimento da tese defensiva, poderá Rodrigo ser, de imediato, condenado nos termos da manifestação da defesa técnica? (Valor: 0,60) PEÇA PROFISSIONAL – IX EXAME (2012.3) Gisele foi denunciada, com recebimento ocorrido em 31/10/2010, pela prática do delito de lesão corporal leve, com a presença da circunstância agravante, de ter o crime sido cometido contra mulher grávida. Isso porque, segundo narrou a inicial acusatória, Gisele, no dia 01/04/2009, então com 19 anos, objetivando provocar lesão corporal leve em Amanda, deu um chute nas costas de Carolina, por confundi-la com aquela, ocasião em que Carolina (que estava grávida) caiu de joelhos no chão, lesionando-se. A vítima, muito atordoada com o acontecido, ficou por um tempo sem saber o que fazer, mas foi convencida por Amanda (sua amiga e pessoa a quem Gisele realmente queria lesionar) a noticiar o fato na delegacia. Sendo assim, tão logo voltou de um intercâmbio, mais precisamente no dia 18/10/2009, Carolina compareceu à delegacia e noticiou o fato, representando contra Gisele. Por orientação do delegado, Carolina foi instruída a fazer exame de corpo de delito, o que não ocorreu, porque os ferimentos, muito leves, já haviam sarado. O Ministério Público, na denúncia, arrolou Amanda como testemunha. Em seu depoimento, feito em sede judicial, Amanda disse que não viu Gisele bater em Carolina e nem viu os ferimentos, mas disse que poderia afirmar com convicção que os fatos noticiados realmente ocorreram, pois estava na casa da vítima quando esta chegou chorando muito e narrando a história. Não foi ouvida mais nenhuma testemunha e Gisele, em seu interrogatório, exerceu o direito ao silêncio. Cumpre destacar que a primeira e única audiência ocorreu apenas em 20/03/2012, mas que, anteriormente, três outras audiências foram marcadas; apenas não se Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 86 realizaram porque, na primeira, o magistrado não pôde comparecer, na segunda o Ministério Público não compareceu e a terceira não se realizou porque, no dia marcado, foi dado ponto facultativo pelo governador do Estado, razão pela qual todas as audiências foram redesignadas. Assim, somente na quarta data agendada é que a audiência efetivamente aconteceu. Também merece destaque o fato de que na referida audiência o parquet não ofereceu proposta de suspensão condicional do processo, pois, conforme documentos comprobatórios juntados aos autos, em 30/03/2009, Gisele, em processo criminal onde se apuravam outros fatos, aceitou o benefício proposto. Assim, segundo o promotor de justiça, afigurava-se impossível formulação de nova proposta de suspensão condicional do processo, ou de qualquer outro benefício anterior não destacado, e, além disso, tal dado deveria figurar na condenação ora pleiteada para Gisele como outra circunstância agravante, qual seja, reincidência. Nesse sentido, considere que o magistrado encerrou a audiência e abriu prazo, intimando as partes, para o oferecimento da peça processual cabível. Como advogado de Gisele, levando em conta tão somente os dados contidos no enunciado, elabore a peça cabível. (Valor: 5,0) PEÇA PROFISSIONAL – VI EXAME (2011.3) No dia 10 de março de 2011, após ingerir um litro de vinho na sede de sua fazenda, José Alves pegou seu automóvel e passou a conduzi-lo ao longo da estrada que tangencia sua propriedade rural. Após percorrer cerca de dois quilômetros na estrada absolutamente deserta, José Alves foi surpreendido por uma equipe da Polícia Militar que lá estava a fim de procurar um indivíduo foragido do presídio da localidade. Abordado pelos policiais, José Alves saiu de seu veículo trôpego e exalando forte odor de álcool, oportunidade em que, de maneira incisiva, os policiais lhe compeliram a realizar um teste de alcoolemia em aparelho de ar alveolar. Realizado o teste, foi constatado que José Alves tinha concentração de álcool de um miligrama por litro de ar expelido pelos pulmões, razão pela qual os policiais o conduziram à Unidade de Polícia Judiciária, onde foi lavrado Auto de Prisão em Flagrante pela prática do crime previsto no artigo 306 da Lei 9.503/1997, c/c artigo 2º, inciso II, do Decreto 6.488/2008, sendo-lhe negado no referido Auto de Prisão em Flagrante o direito de entrevistar-se com seus advogados ou com seus familiares. Dois dias após a lavratura do Auto de Prisão em Flagrante, em razão de José Alves ter permanecido encarcerado na Delegacia de Polícia, você é procurado pela família do preso, sob protestos de que Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 87 não conseguiam vê-lo e de que o delegado não comunicara o fato ao juízo competente, tampouco à Defensoria Pública. Com base somente nas informações de que dispõe e nas que podem ser inferidas pelo caso concreto acima, na qualidade de advogado de José Alves, redija a peça cabível, exclusiva de advogado, no que tangeà liberdade de seu cliente, questionando, em juízo, eventuais ilegalidades praticadas pela Autoridade Policial, alegando para tanto toda a matéria de direito pertinente ao caso. PEÇA PROFISSIONAL – IV EXAME (2011.1) Tício foi denunciado e processado, na 1ª Vara Criminal da Comarca do Município X, pela prática de roubo qualificado em decorrência do emprego de arma de fogo. Ainda durante a fase de inquérito policial, Tício foi reconhecido pela vítima. Tal reconhecimento se deu quando a referida vítima olhou através de pequeno orifício da porta de uma sala onde se encontrava apenas o réu. Já em sede de instrução criminal, nem vítima nem testemunhas afirmaram ter escutado qualquer disparo de arma de fogo, mas foram uníssonas no sentido de assegurar que o assaltante portava uma. Não houve perícia, pois os policiais que prenderam o réu em flagrante não lograram êxito em apreender a arma. Tais policiais afirmaram em juízo que, após escutarem gritos de "pega ladrão!", viram o réu correndo e foram em seu encalço. Afirmaram que, durante a perseguição, os passantes apontavam para o réu, bem como que este jogou um objeto no córrego que passava próximo ao local dos fatos, que acreditavam ser a arma de fogo utilizada. O réu, em seu interrogatório, exerceu o direito ao silêncio. Ao cabo da instrução criminal, Tício foi condenado a oito anos e seis meses de reclusão, por roubo com emprego de arma de fogo, tendo sido fixado o regime inicial fechado para cumprimento de pena. O magistrado, para fins de condenação e fixação da pena, levou em conta os depoimentos testemunhais colhidos em juízo e o reconhecimento feito pela vítima em sede policial, bem como o fato de o réu ser reincidente e portador de maus antecedentes, circunstâncias comprovadas no curso do processo. Você, na condição de advogado(a) de Tício, é intimado(a) da decisão. Com base somente nas informações de que dispõe e nas que podem ser inferidas pelo caso concreto acima, redija a peça cabível, apresentando as razões e sustentando as teses jurídicas pertinentes. PEÇA PROFISSIONAL – EXAME (2010.3) Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 88 No dia 17 de junho de 2010, uma criança recém-nascida é vista boiando em um córrego e, ao ser resgatada, não possuía mais vida. Helena, a mãe da criança, foi localizada e negou que houvesse jogado a vítima no córrego. Sua filha teria sido, segundo ela, sequestrada por um desconhecido. Durante a fase de inquérito, testemunhas afirmaram que a mãe apresentava quadro de profunda depressão no momento e logo após o parto. Além disso, foi realizado exame médico legal, o qual constatou que Helena, quando do fato, estava sob influência de estado puerperal. À míngua de provas que confirmassem a autoria, mas desconfiado de que a mãe da criança pudesse estar envolvida no fato, a autoridade policial representou pela decretação de interceptação telefônica da linha de telefone móvel usado pela mãe, medida que foi decretada pelo juiz competente. A prova constatou que a mãe efetivamente praticara o fato, pois, em conversa telefônica com uma conhecida, de nome Lia, ela afirmara ter atirado a criança ao córrego, por desespero, mas que estava arrependida. O delegado intimou Lia para ser ouvida, tendo ela confirmado, em sede policial, que Helena de fato havia atirado a criança, logo após o parto, no córrego. Em razão das aludidas provas, a mãe da criança foi então denunciada pela prática do crime descrito no art. 123 do Código Penal perante a 1ª Vara Criminal (Tribunal do Júri). Durante a ação penal, é juntado aos autos o laudo de necropsia realizada no corpo da criança. A prova técnica concluiu que a criança já nascera morta. Na audiência de instrução, realizada no dia 12 de agosto de 2010, Lia é novamente inquirida, ocasião em que confirmou ter a denunciada, em conversa telefônica, admitido ter jogado o corpo da criança no córrego. A mesma testemunha, no entanto, trouxe nova informação, que não mencionara quando ouvida na fase inquisitorial. Disse que, em outras conversas que tivera com a mãe da criança, Helena contara que tomara substância abortiva, pois não poderia, de jeito nenhum, criar o filho. Interrogada, a denunciada negou todos os fatos. Finda a instrução, o Ministério Público manifestou-se pela pronúncia, nos termos da denúncia, e a defesa, pela impronúncia, com base no interrogatório da acusada, que negara todos os fatos. O magistrado, na mesma audiência, prolatou sentença de pronúncia, não nos termos da denúncia, e sim pela prática do crime descrito no art. 124 do Código Penal, punido menos severamente do que aquele previsto no art. 123 do mesmo código, intimando as partes no referido ato. Com base somente nas informações de que dispõe e nas que podem ser inferidas pelo caso concreto acima, na condição de advogado(a) de Helena, redija a peça cabível à impugnação da mencionada decisão, acompanhada das razões pertinentes, as quais devem apontar os argumentos para o provimento do recurso, mesmo que em caráter sucessivo. Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 89 PEÇA PROFISSIONAL – EXAME (2010.2) A Polícia Civil do Estado do Rio Grande do Sul recebe notícia crime identificada, imputando a Maria Campos a prática de crime, eis que mandaria crianças brasileiras para o estrangeiro com documentos falsos. Diante da notícia crime, a autoridade policial instaura inquérito policial e, como primeira providência, representa pela decretação da interceptação das comunicações telefônicas de Maria Campos, “dada a gravidade dos fatos noticiados e a notória dificuldade de apurar crime de tráfico de menores para o exterior por outros meios, pois o ‘modus operandi’ envolve sempre atos ocultos e exige estrutura organizacional sofisticada, o que indica a existência de uma organização criminosa integrada pela investigada Maria”. O Ministério Público opina favoravelmente e o juiz defere a medida, limitando-se a adotar, como razão de decidir, “os fundamentos explicitados na representação policial”. No curso do monitoramento, foram identificadas pessoas que contratavam os serviços de Maria Campos para providenciar expedição de passaporte para viabilizar viagens de crianças para o exterior. Foi gravada conversa telefônica de Maria com um funcionário do setor de passaportes da Polícia Federal, Antônio Lopes, em que Maria consultava Antônio sobre os passaportes que ela havia solicitado, se já estavam prontos, e se poderiam ser enviados a ela. A pedido da autoridade policial, o juiz deferiu a interceptação das linhas telefônicas utilizadas por Antônio Lopes, mas nenhum diálogo relevante foi interceptado. O juiz, também com prévia representação da autoridade policial e manifestação favorável do Ministério Público, deferiu a quebra de sigilo bancário e fiscal dos investi gados, tendo sido identificado um depósito de dinheiro em espécie na conta de Antônio, efetuado naquele mesmo ano, no valor de R$ 100.000,00 (cem mil reais). O monitoramento telefônico foi mantido pelo período de quinze dias, após o que foi deferida medida de busca e apreensão nos endereços de Maria e Antônio. A decisão foi proferida nos seguintes termos: “diante da gravidade dos fatos e da real possibilidade de serem encontrados objetos relevantes para investigação, defiro requerimento de busca e apreensão nos endereços de Maria (Rua dos Casais, 213) e de Antônio (Rua Castro, 170, apartamento 201)”. No endereço de Maria Campos, foi encontrada apenas uma relação de nomes que, na visão da autoridade policial, seriam clientes que teriam requerido a expedição de passaportes com os nomes de crianças que teriam viajadopara o exterior. No endereço indicado no mandado de Antônio Lopes, nada foi encontrado. Entretanto, os policiais que cumpriram a ordem judicial perceberam que o apartamento 202 do mesmo prédio também pertencia ao investi gado, motivo Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 90 pelo qual nele ingressaram, encontrando e apreendendo a quantia de cinquenta mil dólares em espécie. Nenhuma outra diligência foi realizada. Relatado o inquérito policial, os autos foram remeti dos ao Ministério Público, que ofereceu a denúncia nos seguintes termos: “o Ministério Público vem oferecer denúncia contra Maria Campos e Antônio Lopes, pelos fatos a seguir descritos: Maria Campos, com o auxílio do agente da polícia federal Antônio Lopes, expediu diversos passaportes para crianças e adolescentes, sem observância das formalidades legais. Maria tinha a finalidade de viabilizar a saída dos menores do país. A partir da quantia de dinheiro apreendida na casa de Antônio Lopes, bem como o depósito identificado em sua conta bancária, evidente que ele recebia vantagem indevida para efetuar a liberação dos passaportes. Assim agindo, a denunciada Maria Campos está incursa nas penas do artigo 239, parágrafo único, da Lei n. 8069/90 (Estatuto da Criança e do Adolescente), e nas penas do artigo 333, parágrafo único, c/c o artigo 69, ambos do Código Penal. Já o denunciado Antônio Lopes está incurso nas penas do artigo 239, parágrafo único, da Lei n. 8069/90 (Estatuto da Criança e do Adolescente) e nas penas do arti go 317, § 1º, c/c arti go 69, ambos do Código Penal”. O juiz da 15ª Vara Criminal de Porto Alegre, RS, recebeu a denúncia, nos seguintes termos: “compulsando os autos, verifico que há prova indiciária sufi ciente da ocorrência dos fatos descritos na denúncia e do envolvimento dos denunciados. Há justa causa para a ação penal, pelo que recebo a denúncia. Citem-se os réus, na forma da lei”. Antonio foi citado pessoalmente em 27.10.2010 (quarta-feira) e o respectivo mandado foi acostado aos autos dia 01.11.2010 (segunda-feira). Antonio contratou você como Advogado, repassando-lhe nomes de pessoas (Carlos de Tal, residente na Rua 1, n. 10, nesta capital; João de Tal, residente na Rua 4, n. 310, nesta capital; Roberta de Tal, residente na Rua 4, n. 310, nesta capital) que prestariam relevantes informações para corroborar com sua versão. BIBLIOGRAFIA: I – PROCESSO PENAL ESQUEMATIZADO, NORBERTO AVENA, EDITORA MÉTODO (4 EDIÇÃO). II – PROCESSO PENAL, GUSTAVO BADARÓ, REVISTA DOS TRIBUNAIS (8 EDIÇÃO). III – PROCESSO PENAL – AURY LOPES JR. Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 91 OAB 2ª FASE PADRÃO DE RESPOSTA Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 92 CONCURSO DE CRIMES Questão 04 – XXII EXAME Diego e Júlio caminham pela rua, por volta das 21h, retornando para suas casas após mais um dia de aula na faculdade, quando são abordados por Marcos, que, mediante grave ameaça de morte e utilizando simulacro de arma de fogo, exige que ambos entreguem as mochilas e os celulares que carregavam. Após os fatos, Diego e Júlio comparecem em sede policial, narram o ocorrido e descrevem as características físicas do autor do crime. Por volta das 5h da manhã do dia seguinte, policiais militares em patrulhamento se deparam com Marcos nas proximidades do local do fato e verificam que ele possuía as mesmas características físicas do roubador. Todavia, não são encontrados com Marcos quaisquer dos bens subtraídos, nem o simulacro de arma de fogo. Ele é encaminhado para a Delegacia e, tendo-se verificado que era triplamente reincidente na prática de crimes patrimoniais, a autoridade policial liga para as residências de Diego e Júlio, que comparecem em sede policial e, em observância de todas as formalidades legais, realizam o reconhecimento de Marcos como responsável pelo assalto. O Delegado, então, lavra auto de prisão em flagrante em desfavor de Marcos, permanecendo este preso, e o indicia pela prática do crime previsto no Art. 157, caput, do Código Penal, por duas vezes, na forma do Art. 69 do Código Penal. Diante disso, Marcos liga para seu advogado para informar sua prisão. Este comparece, imediatamente, em sede policial, para acesso aos autos do procedimento originado do Auto de Prisão em Flagrante. Considerando apenas as informações narradas, na condição de advogado de Marcos, responda, de acordo com a jurisprudência dos Tribunais Superiores, aos itens a seguir. A) Qual requerimento deverá ser formulado, de imediato, em busca da liberdade de Marcos e sob qual fundamento? Justifique. (Valor: 0,65) B) Oferecida denúncia na forma do indiciamento, qual argumento de direito material poderá ser apresentado pela defesa para questionar a capitulação delitiva constante da nota de culpa, em busca de uma punição mais branda? Justifique. (Valor: 0,60) Obs.: o(a) examinando(a) deve fundamentar suas respostas. A mera citação do dispositivo legal não confere pontuação. GABARITO COMENTADO A) A defesa de Marcos deverá formular requerimento de relaxamento da prisão, tendo em vista que não havia situação de flagrante a justificar a formalização do Auto de Prisão em Flagrante. Narra o enunciado que, de fato, Marcos, mediante grave ameaça, inclusive com emprego de simulacro de arma de fogo, subtraiu coisas alheias móveis de Diego e Julio, logo praticou dois crimes de roubo. As vítimas reconheceram o acusado, de modo que há justa causa para o oferecimento de denúncia. Todavia, não havia situação de flagrante a justificar a prisão do acusado. Isso porque o reconhecimento e prisão de Marcos ocorreram mais de 07 horas após o fato, sendo certo que não houve perseguição e nem com o agente foram encontrados instrumentos ou produtos do crime. Dessa forma, nenhuma das situações previstas no Art. 302 do Código de Processo Penal restou configurada. Em sendo a prisão ilegal, o requerimento a ser formulado é de relaxamento da prisão. 02 Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 93 Insuficiente, no caso, o examinando apresentar requerimento de liberdade provisória. Primeiro porque, em sendo a prisão ilegal, sequer deveriam ser analisados os pressupostos dos Artigos 312 e 313 do Código de Processo Penal nesse momento. Além disso, a princípio, não seria caso de reconhecimento de ausência dos motivos da preventiva, já que foi praticado crime com circunstâncias graves e o agente é triplamente reincidente. B) O equívoco a ser alegado em relação à capitulação delitiva refere-se ao concurso de crimes. Sem dúvidas, confirmados os fatos, houve crime de roubo, já que foram subtraídas coisas alheias móveis e houve emprego de grave ameaça, ainda que apenas através de palavras de ordem e emprego de simulacro de arma de fogo. Da mesma forma, dois foram os crimes patrimoniais praticados. Isso porque dois patrimônios foram atingidos e presente o elemento subjetivo, tendo em vista que Marcos sabia que estava subtraindo pertences de duas pessoas diversas. Todavia, com uma só ação, mediante uma ameaça, foram subtraídos bens de dois patrimônios diferentes. Assim, deverá ser reconhecido o concurso formal de delitos, aplicando-se a regra da exasperação da pena, e não o concurso material, com aplicação do cúmulo material de sanções. DISTRIBUIÇÃO DE PONTOS ITEM PONTUAÇÃO A. O requerimento a ser formulado é de relaxamento da prisão (0,35), tendo em vista que não está presentenenhuma das situações de flagrante elencadas no Art. 302 do CPP (0,30). 0,00/0,30/0,35/0,65 B. O argumento é que houve concurso formal de crimes (0,35), tendo em vista que, com uma só ação, foram praticados dois delitos (0,15), nos termos do Art. 70 do CP (0,10). 0,00/0,15/0,25/0,35/0,45/ 0,50/0,60 Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 94 CONCURSO DE PESSOAS QUESTÃO 2 - VI EXAME OAB Hugo é inimigo de longa data de José e há muitos anos deseja matá-lo. Para conseguir seu intento, Hugo induz o próprio José a matar Luiz, afirmando falsamente que Luiz estava se insinuando para a esposa de José. Ocorre que Hugo sabia que Luiz é pessoa de pouca paciência e que sempre anda armado. Cego de ódio, José espera Luiz sair do trabalho e, ao vê-lo, corre em direção dele com um facão em punho, mirando na altura da cabeça. Luiz, assustado e sem saber o motivo daquela injusta agressão, rapidamente saca sua arma e atira justamente no coração de José, que morre instantaneamente. Instaurado inquérito policial para apurar as circunstâncias da morte de José, ao final das investigações, o Ministério Público formou sua opinio no seguinte sentido: Luiz deve responder pelo excesso doloso em sua conduta, ou seja, deve responder por homicídio doloso; Hugo por sua vez, deve responder como partícipe de tal homicídio. A denúncia foi oferecida e recebida. Considerando que você é o advogado de Hugo e Luiz, responda: a) Qual peça deverá ser oferecida, em que prazo e endereçada a quem? (Valor: 0,3) b) Qual a tese defensiva aplicável a Luiz? (Valor: 0,5) c) Qual a tese defensiva aplicável a Hugo? (Valor: 0,45) Gabarito Comentado: a) Resposta à acusação, no prazo de 10 dias (art. 406 do CPP), endereçada ao juiz presidente do Tribunal do Júri. OU Habeas Corpus para extinção da ação penal; ação penal autônoma de impugnação que não possui prazo determinado; endereçado ao Tribunal de Justiça Estadual. b) A tese defensiva aplicada a Luiz é a da legítima defesa real, instituto previsto no art. 25 do CP, cuja natureza é de causa excludente de ilicitude. Não houve excesso, pois a conduta de José (que mirava com o facão na cabeça do Luiz) configurava injusta agressão e claramente atentava contra a vida de Luiz. c) Hugo não praticou fato típico, pois, de acordo com a Teoria da Acessoriedade Limitada, o partícipe somente poderá ser punido se o agente praticar conduta típica e ilícita, o que não foi o caso, já que Luiz agiu amparado por uma causa excludente de ilicitude, qual seja, legítima defesa (art. 25 do CP). OU Não havia liame subjetivo entre Hugo e Luiz, requisito essencial ao concurso de pessoas, razão pela qual Hugo não poderia ser considerado partícipe. Item Distribuição dos pontos a) Resposta à acusação (0,1), no prazo de 10 dias (art. 406 do CPP) (0,1), endereçada ao Juiz da Vara Criminal / do Júri (0,1). OU Habeas Corpus para extinção da ação penal (0,1); que não possui prazo determinado (0,1); endereçado ao Tribunal de Justiça (0,1). 0 / 0,1 / 0,2 / 0,3 b) Legítima defesa (0,3). Não houve excesso, pois a conduta de José 0 / 0,2 / 0,3 / 0,5 03 Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 95 configurava injusta agressão e atentava contra a vida de Luiz (OU fundamentação jurídica da legítima defesa) (0,2). c) Não praticou crime (0,2), pois, de acordo com a Teoria da Acessoriedade Limitada, o partícipe somente poderá ser punido se o agente praticar conduta típica e ilícita, o que não foi o caso, já que Luiz agiu amparado por uma causa excludente de ilicitude (0,25). OU Não havia liame subjetivo entre Hugo e Luiz (0,2), razão pela qual Hugo não poderia ser considerado partícipe (0,25). 0 / 0,2 / 0,25 / 0,45 QUESTÃO 01 – IX EXAME OAB Raimundo, já de posse de veículo automotor furtado de concessionária, percebe que não tem onde guardá- lo antes de vendê-lo para a pessoa que o encomendara. Assim, resolve ligar para um grande amigo seu, Henrique, e após contar toda sua empreitada, pede-lhe que ceda a garagem de sua casa para que possa guardar o veículo, ao menos por aquela noite. Como Henrique aceita ajudá-lo, Raimundo estaciona o carro na casa do amigo. Ao raiar do dia, Raimundo parte com o veículo, que seria levado para o comprador. Considerando as informações contidas no texto responda, justificadamente, aos itens a seguir. A) Raimundo e Henrique agiram em concurso de agentes? (Valor: 0,75) B) Qual o delito praticado por Henrique? (Valor: 0,50) Gabarito Comentado A. Não há concurso de agentes, pois o auxílio foi proposto após a consumação do crime de furto. Assim, não estão presentes os requisitos necessários à configuração do concurso de agentes, mormente liame subjetivo e identidade da infração penal. B. Favorecimento real (Art. 349, do CP). Obs.: Respostas contraditórias não serão pontuadas. Distribuição dos Pontos Quesito Avaliado Valores a) Não, pois o auxílio foi proposto após a consumação do crime de furto (0,75) OU Não, pois inexistente liame subjetivo e identidade da infração penal entre ambos (0,75). 0,00/ 0,75 b) Favorecimento real OU praticou o delito descrito no Art. 349, do CP (0,50). 0,00/ 0,50 QUESTÃO 4 – X EXAME Erika e Ana Paula, jovens universitárias, resolvem passar o dia em uma praia paradisíaca e, de difícil acesso (feito através de uma trilha), bastante deserta e isolada, tão isolada que não há qualquer estabelecimento Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 96 comercial no local e nem mesmo sinal de telefonia celular. As jovens chegam bastante cedo e, ao chegarem, percebem que além delas há somente um salva-vidas na praia. Ana Paula decide dar um mergulho no mar, que estava bastante calmo naquele dia. Erika, por sua vez, sem saber nadar, decide puxar assunto com o salva-vidas, Wilson, pois o achou muito bonito. Durante a conversa, Erika e Wilson percebem que têm vários interesses em comum e ficam encantados um pelo outro. Ocorre que, nesse intervalo de tempo, Wilson percebe que Ana Paula está se afogando. Instigado por Erika, Wilson decide não efetuar o salvamento, que era perfeitamente possível. Ana Paula, então, acaba morrendo afogada. Nesse sentido, atento(a) apenas ao caso narrado, indique a responsabilidade jurídico-penal de Erika e Wilson. (Valor: 1,25) O examinando deve fundamentar corretamente sua resposta. A simples menção ou transcrição do dispositivo legal não pontua. Gabarito comentado Segundo os dados narrados na questão, Wilson, por ser salva-vidas, tem o dever legal de agir para evitar o resultado e, naquele momento, podia perfeitamente agir. Assim, trata-se de agente garantidor. Nesse caso, responde por delito comissivo por omissão, qual seja, homicídio doloso praticado via omissão imprópria: art. 121 c/c art. 13, § 2º, alínea 'a' , ambos do CP. Erika, por sua vez, por ter instigado Wilson a não realizar o salvamento de Ana Paula, responde como partícipe de tal homicídio, nos termos do art. 29 do CP. Não há que se falar em omissão de socorro por parte de Erika, pois, conforme dados expressos no enunciado, ela não sabia nadar e nem tinha como chamar por ajuda. Distribuição dos Pontos Quesito Avaliado Valores Wilson, por ser agente garantidor (0,30) /responde pelo delito de homicídio (0,30)/praticado via omissão imprópria. (0,30) 0,00/0,30/0,60/0,90 Erika responde como partícipe de tal homicídio (0,35). 0,00/0,35 QUESTÃO 3 – XIX EXAME Sabendo que Vanessa, uma vizinha com quem nunca tinha conversado, praticava diversos furtosno bairro em que morava, João resolve convidá-la para juntos subtraírem R$ 1.000,00 de um cartório do Tribunal de Justiça, não contando para ela, contudo, que era funcionário público e nem que exercia suas funções nesse cartório. Praticam, então, o delito, e Vanessa fica surpresa com a facilidade que tiveram para chegar ao cofre do cartório. Descoberto o fato pelas câmeras de segurança, são os dois agentes denunciados, em 10 de março de 2015, pela prática do crime de peculato. João foi notificado e citado pessoalmente, enquanto Vanessa foi notificada e citada por edital, pois não foi localizada em sua residência. A família de Vanessa constituiu advogado e o processo prosseguiu, mas dele a ré não tomou conhecimento. Foi decretada a revelia de Vanessa, que não compareceu aos atos processuais. Ao final, os acusados foram Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 97 condenados pela prática do crime previsto no Art. 312 do Código Penal à pena de 02 anos de reclusão. Ocorre que, na verdade, Vanessa estava presa naquela mesma Comarca, desde 05 de março de 2015, em razão de prisão preventiva decretada em outros dois processos. Ao ser intimada da sentença, ela procura você na condição de advogado(a). Considerando a hipótese narrada, responda aos itens a seguir. A) Qual argumento de direito processual poderia ser apresentado em favor de Vanessa em sede de apelação? Justifique. (Valor: 0,65) B) No mérito, foi Vanessa corretamente condenada pela prática do crime de peculato? Justifique. (Valor: 0,60) Obs.: o mero “sim” ou “não”, desprovido de justificativa ou mesmo com a indicação de justificativa inaplicável ao caso, não será pontuado. Gabarito comentado A) O examinando deveria alegar que, em relação à Vanessa, o processo é nulo desde a citação. Quando Vanessa foi citada por edital, ela estava presa em estabelecimento na mesma unidade da Federação do juízo processante, logo sua citação foi nula, conforme Enunciado 351 da Súmula de Jurisprudência do STF. Como ela não tomou conhecimento da ação e nem mesmo foi interrogada, pois teve sua revelia decretada, o prejuízo é claro. Assim, em sede de apelação, antes de enfrentar o mérito da apelação, deveria o advogado buscar a anulação de todos os atos após sua citação, inclusive da sentença. Poderia, ainda, o candidato justificar a nulidade na exigência trazida pelo Art. 360 do CPP, que prevê que o réu preso deve ser citado pessoalmente. B) Vanessa não foi corretamente condenada pela prática do crime de peculato. Em que pese o Art. 30 do Código Penal prever que as “circunstâncias” de caráter pessoal se comunicam quando elementares do crime, não é possível, no caso concreto, a aplicação desse dispositivo, porque o enunciado deixa claro que Vanessa não tinha conhecimento da condição de funcionário público de João, não sendo possível responsabilizá-la por peculato. A simples afirmação de que as circunstâncias pessoais não se comunicam é insuficiente para atribuição da pontuação, pois, quando elementares, poderá haver comunicação, desde que o agente tenha dessa situação. Da mesma forma, inadequada a afirmativa no sentido de que o particular não pode ser responsabilizado pelo crime próprio de peculato, pois insuficiente. DISTRIBUIÇÃO DOS PONTOS Quesito Avaliado Valores A. Nulidade dos atos processuais praticados após sua citação OU nulidade da sentença (0,25), pois a citação por edital foi inválida, já que Vanessa estava presa OU já que a citação de Vanessa deveria ter sido realizada pessoalmente (0,30), nos termos da Súmula 351 do STF OU do art. 360, CPP (0,10). 0,00/0,10/0,25/0,30/ 0,35/0,40/0,55/0,65 Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 98 B. Vanessa não foi corretamente condenada por peculato porque não tinha conhecimento da condição de funcionário público de João, dependendo a comunicação da elementar desse elemento subjetivo OU porque não pode ser aplicado o Art. 30 do CP pela ausência de elemento subjetivo (0,60). 0,00 / 0,60 Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 99 DAS NULIDADES QUESTÃO 2 – XXII EXAME OAB Em inquérito policial, Antônio é indiciado pela prática de crime de estupro de vulnerável, figurando como vítima Joana, filha da grande amiga da Promotora de Justiça Carla, que, inclusive, aconselhou a família sobre como agir diante do ocorrido. Segundo consta do inquérito, Antônio encontrou Joana durante uma festa de música eletrônica e, após conversa em que Joana afirmara que cursava a Faculdade de Direito, foram para um motel onde mantiveram relações sexuais, vindo Antônio, posteriormente, a tomar conhecimento de que Joana tinha apenas 13 anos de idade. Recebido o inquérito concluído, Carla oferece denúncia em face de Antônio, imputando-lhe a prática do crime previsto no Art. 217-A do Código Penal, ressaltando a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal no sentido de que, para a configuração do delito, não se deve analisar o passado da vítima, bastando que a mesma seja menor de 14 anos. Considerando a situação narrada, na condição de advogado(a) de Antônio, responda aos itens a seguir. A) Existe alguma medida a ser apresentada pela defesa técnica para impedir Carla de participar do processo? Justifique. (Valor: 0,60) B) Qual a principal alegação defensiva de direito material a ser apresentada em busca da absolvição do denunciado? Justifique.(Valor: 0,65) Obs.: o(a) examinando(a) deve fundamentar suas respostas. A mera citação do dispositivo legal não confere pontuação. Gabarito Comentado A) Sim, o advogado de Antônio, já no momento de apresentar resposta à acusação, deveria apresentar exceção de suspeição em face da Promotora de Justiça, tendo em vista a presença da causa de suspeição prevista no Art. 254, incisos I e IV, do Código de Processo Penal (CPP). Prevê o dispositivo em questão que o juiz dar-se-á por suspeito quando for amigo íntimo de alguma das partes ou quando tiver aconselhado uma das partes. Carla é muito amiga da genitora da vítima e ainda aconselhou a ofendida e sua família sobre como agir diante do ocorrido. Ademais, o Art. 258 do CPP estabelece que as previsões referentes às causas de impedimento e suspeição do magistrado são aplicáveis, no que couber, ao Ministério Público. Claro está o envolvimento de Carla com a causa, de modo que sua suspeição deve ser reconhecida. Considerando que a mesma não se declarou suspeita, oferecendo denúncia, caberia ao advogado apresentar exceção de suspeição, nos termos do Art. 95, inciso I, do CPP, e do Art. 104 do CPP. B) A principal alegação defensiva, de mérito, de direito material, é a de que houve erro de tipo por parte do denunciado, nos termos do Art. 20 do Código Penal, de modo que fica afastado o seu dolo. Diante da situação apresentada, claro está que Antônio não tinha conhecimento que Joana tinha apenas 13 anos de idade, merecendo destaque as partes se conheceram em uma festa de música eletrônica, ocasião em que a ofendida afirmara estar na faculdade, o que, por si só, já afastaria as suspeitas de que fosse menor de 14 anos. Ainda que se entendesse que o erro foi vencível, não poderia Antônio ser responsabilizado, tendo em vista que esse afasta o dolo e não há previsão de responsabilização culposa pelo crime de estupro de vulnerável. No caso, é 04 13 Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 100 irrelevante a posição dos Tribunais Superiores no sentido de que o passado sexual da vítima não deve ser analisado, bastando quea mesma tenha, objetivamente, menos de 14 anos de idade. Ocorre que o problema apresentado em nada com esse tema se confunde, já que sequer sabia o réu a idade da vítima, que é uma das elementares do tipo. DISTRIBUIÇÃO DE PONTOS ITEM PONTUAÇÃO A) Sim, com apresentação de exceção de suspeição (0,50), nos termos do Art. 95, inciso I, do CPP OU do Art. 104 do CPP (0,10) 0,00/0,50/0,60 B) A principal tese defensiva é a ocorrência de erro de tipo (0,55), nos termos do Art. 20 do CP (0,10). 0,00/0,55/0,65 Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 101 DA TEORIA GERAL DAS PROVAS QUESTÃO 01 – IV EXAME 2011.1 Maria, jovem extremamente possessiva, comparece ao local em que Jorge, seu namorado, exerce o cargo de auxiliar administrativo e abre uma carta lacrada que havia sobre a mesa do rapaz. Ao ler o conteúdo, descobre que Jorge se apropriara de R$ 4.000,00 (quatro mil reais), que recebera da empresa em que trabalhava para efetuar um pagamento, mas utilizara tal quantia para comprar uma joia para uma moça chamada Júlia. Absolutamente transtornada, Maria entrega a correspondência aos patrões de Jorge. Com base no relatado acima, responda aos itens a seguir, empregando os argumentos jurídicos apropriados e a fundamentação legal pertinente ao caso. a) Jorge praticou crime? Em caso positivo, qual(is)? (Valor: 0,35) b) Se o Ministério Público oferecesse denúncia com base exclusivamente na correspondência aberta por Maria, o que você, na qualidade de advogado de Jorge, alegaria? (Valor: 0,9) Gabarito Comentado a) Sim. Apropriação indébita qualificada (ou majorada) em razão do ofício, prevista no art. 168, parágrafo 1º, III do CP. b) Falta de justa causa para a instauração de ação penal, já que a denúncia se encontra lastreada exclusivamente em uma prova ilícita, porquanto decorrente de violação a uma norma de direito material (artigo 151 do CP). DISTRIBUIÇÃO DOS PONTOS a) Sim. / Apropriação indébita qualificada (ou majorada) em razão do ofício, (0,2) / art. 168, § 1º, III, do CP (0,15). 0 / 0,15 / 0,2 / 0,35 b) Falta de justa causa para a instauração de ação penal, (0,3) / já que a denúncia se encontra lastreada exclusivamente em uma prova ilícita, (0,3) / porquanto decorrente de violação a uma norma de direito material (art. 151 do CP OU art. 395, III, do CPP OU art. 5º, XII e LVI, da CRFB) (0,3). 0 / 0,3 / 0,6 / 0,9 QUESTÃO 02 – EXAME XXI No dia 03 de março de 2016, Vinícius, reincidente específico, foi preso em flagrante em razão da apreensão de uma arma de fogo, calibre .38, de uso permitido, número de série identificado, devidamente municiada, que estava em uma gaveta dentro de seu local de trabalho, qual seja, o estabelecimento comercial “Vinícius House”, do qual era sócio-gerente e proprietário. Denunciado pela prática do crime do Artigo 14 da Lei nº 10.826/03, confessou os fatos, afirmando que mantinha a arma em seu estabelecimento para se proteger de possíveis assaltos. Diante da prova testemunhal e da confissão do acusado, o Ministério Público pleiteou a condenação nos termos da denúncia em alegações finais, enquanto a defesa afirmou que o delito do Art. 14 05 Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 102 do Estatuto do Desarmamento não foi praticado, também destacando a falta de prova da materialidade. Após manifestação das partes, houve juntada do laudo de exame da arma de fogo e das munições apreendidas, constatando-se o potencial lesivo do material, tendo o magistrado, de imediato, proferido sentença condenatória pela imputação contida na denúncia, aplicando a pena mínima de 02 anos de reclusão e 10 dias- multa. O advogado de Vinícius é intimado da sentença e apresentou recurso de apelação. Considerando apenas as informações narradas, responda na condição de advogado(a) de Vinicius: A) Qual requerimento deveria ser formulado em sede de apelação e qual tese de direito processual poderia ser alegada para afastar a sentença condenatória proferida em primeira instância? Justifique. (Valor: 0,65) B) Confirmados os fatos, qual tese de direito material poderia ser alegada para buscar uma condenação penal mais branda em relação ao quantum de pena para Vinicius? Justifique. (Valor: 0,60) Obs.: o(a) examinando(a) deve fundamentar as respostas. A mera citação do dispositivo legal não confere pontuação. GABARITO COMENTADO A questão exige do(a) examinando(a) conhecimento sobre os crimes em espécie previstos na Lei nº 10.826/03, bem como sobre a extensão dos princípios do contraditório e da ampla defesa. Narra o enunciado que Vinícius foi condenado pela prática do crime de porte de arma de fogo de uso permitido, pois tinha o material bélico, devidamente municiado, em seu local de trabalho. Consta, ainda, que o laudo de exame pericial da arma de fogo e das munições apreendidas somente foi juntado após manifestação das partes em alegações finais, tendo o magistrado proferido sentença condenatória de imediato. A) Em sede de apelação, deveria o advogado de Vinícius buscar o reconhecimento da nulidade da sentença, tendo em vista que, após manifestação da defesa, houve juntada de laudo de exame de arma de fogo, ou seja, de prova pericial, sem que fosse aberta vista às partes em relação à documentação. O não acesso pela defesa ao laudo de exame pericial violou o princípio da ampla defesa, em sua vertente da defesa técnica, além do próprio princípio do contraditório, já que aquela prova não lhe foi submetida. Assim, deveria a sentença ser anulada, sendo certo que o prejuízo foi constatado com a condenação do réu. B) A tese de direito material a ser apresentada pela defesa técnica de Vinícius para buscar uma condenação mais branda é de que o delito praticado pelo réu foi de posse de arma de fogo e não de porte de arma de fogo, tendo em vista que o agente possuía, em seu local de trabalho, arma de fogo de uso permitido. Prevê o Art. 12 da Lei nº 10.826/03 que o crime de posse de arma de fogo poderá ocorrer não apenas quando o material bélico estiver na residência do agente, mas também em seu local de trabalho, desde que o agente seja o titular ou responsável legal pelo estabelecimento. No caso, todos os requisitos foram observados, já que a arma estava no local de trabalho de Vinícius, estabelecimento do qual o agente era proprietário e sócio- gerente. Assim, deveria a defesa buscar a desclassificação para o delito previsto no Art. 12 da Lei nº 10.826/03. Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 103 DISTRIBUIÇÃO DOS PONTOS A. Deveria o advogado de Vinicius requerer a anulação da sentença de primeira instância (0,30), tendo em vista houve violação ao princípio do contraditório ou da ampla defesa (0,15), no momento em que foi proferida sentença condenatória sem que a defesa tivesse vista da prova pericial juntada aos autos (0,20) 0,00/0,15/0,20/0,30/0,35/ 0,45/0,50/0,65 B. A tese de direito material é a desclassificação para o crime de posse de arma de fogo, já que Vinicius possuía arma em seu local de trabalho (0,50), nos termos do Art. 12 da Lei nº 10.826/03 (0,10). 0,00/0,50/0,60 QUESTÃO 03 – EXAME XXI Mário foi surpreendido por uma pessoa que, mediante ameaça verbal de morte, subtraiu seu celular. No dia seguinte, quando passava pelo mesmo local, avistou Paulo e o reconheceu como sendo a pessoa que o roubara no dia anterior. Levado para a delegacia, Paulo admitiu ter subtraído o celular de Mário mediante grave ameaça, mas alegou que estava em estado denecessidade. O celular não foi recuperado e Paulo foi liberado em razão da ausência da situação de flagrante. Oferecida a denúncia pela prática do delito de roubo, Paulo foi pessoalmente citado e manifestou interesse em ser assistido pela Defensoria Pública. No curso da instrução, a vítima, única testemunha arrolada pelo Ministério Público, não foi localizada, assim como Paulo nunca compareceu em juízo, sendo decretada sua revelia. A pretensão punitiva foi acolhida nos termos do pedido inicial, tendo o juiz fundamentado seu convencimento no que foi dito pelo lesado e pelo acusado na fase extrajudicial, aumentando a pena-base pelo fato de o agente ter ameaçado de morte o ofendido e deixando de reconhecer a atenuante da confissão espontânea porque qualificada. GABARITO COMENTADO A) A tese jurídica a ser apresentada pela defesa de Paulo para garantir sua absolvição é de insuficiência probatória, já que o magistrado não pode fundamentar sua decisão exclusivamente com base em elementos informativos, nos termos do Art. 155 do Código de Processo Penal. Claramente o magistrado considerou apenas os elementos informativos produzidos em sede policial, que não foram submetidos ao princípio do contraditório. O conceito de prova exige o respeito a esse princípio. Os elementos informativos somente podem embasar um decreto condenatório se confirmados por provas produzidas sob o crivo do contraditório. Ademais, não estamos diante de nenhuma das exceções trazidas pelo Art. 155, in fine, do CPP. Considerando que a decisão do magistrado baseou-se exclusivamente nas palavras da vítima em sede policial e na confissão do acusado na delegacia, não havendo provas produzidas em juízo, a condenação foi indevida. B) Em busca da redução da pena aplicada, deveria o(a) advogado(a) de Paulo defender que o aumento da pena-base em razão da ameaça de morte empregada representa violação ao princípio do ne bis in idem, tendo em vista que a grave ameaça constitui elementar do tipo de roubo, e que deveria ser reconhecida a atenuante da confissão, pois, ainda que qualificada, escorou o decreto condenatório do magistrado, nos termos da Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 104 Enunciado 545 da Súmula de Jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça. Ademais, o Superior Tribunal de Justiça vem reconhecendo, de maneira tranquila, que a confissão qualificada, ou seja, aquela que apresenta causa excludente da ilicitude ou da culpabilidade, apesar de o agente confessar os fatos, é suficiente para o reconhecimento da atenuante. DISTRIBUIÇÃO DOS PONTOS A. Insuficiência probatória (0,20), tendo em vista que o magistrado baseou sua decisão exclusivamente em elementos informativos, o que é vedado pelo ordenamento jurídico (0,35), nos termos do Art. 155 do CPP OU Art. 5º, LV, da CRFB/88 (0,10) 0,00/0,10/0,20/0,30/0,35/ 0,45/0,55/0,65 B. O aumento da pena base em razão da ameaça de morte configura bis in idem OU que a grave ameaça é elementar do tipo (0,30) e deveria ser reconhecida a atenuante da confissão, já que, embora qualificada, escorou o decreto condenatório (0,20), nos termos da Súmula 545/STJ (0,10) 0,00/0,10/0,20/0,30/0,50/0,60 QUESTÃO 01 – EXAME XXII Chegou ao Ministério Público denúncia de pessoa identificada apontando Cássio como traficante de drogas. Com base nessa informação, entendendo haver indícios de autoria e não havendo outra forma de obter prova do crime, a autoridade policial representou pela interceptação da linha telefônica que seria utilizada por Cássio e que fora mencionada na denúncia recebida, tendo o juiz da comarca deferido a medida pelo prazo inicial de 30 dias. Nas conversas ouvidas, ficou certo que Cássio havia adquirido certa quantidade de cocaína, pela primeira vez, para ser consumida por ele, juntamente com seus amigos Pedro e Paulo, na comemoração de seu aniversário, no dia seguinte. Diante dessa prova, policiais militares obtiveram ordem judicial e chegaram à casa de Cássio quando este consumia e oferecia a seus amigos os seis papelotes de cocaína para juntos consumirem. Cássio, portador de maus antecedentes, foi preso em flagrante e autuado pela prática do crime de tráfico, sendo, depois, denunciado como incurso nas penas do Art. 33, caput, da Lei nº 11.343/06. Considerando os fatos narrados, responda, na qualidade de advogado(a) de Cássio, aos itens a seguir. A) Qual a tese de direito processual a ser suscitada para afastar a validade da prova obtida? (Valor: 0,65) B) Reconhecidos como verdadeiros os fatos narrados, qual a tese de direito material a ser alegada para tornar menos gravosa a tipificação da conduta de Cássio? (Valor: 0,60) Obs.: o(a) examinando(a) deve fundamentar suas respostas. A mera citação do dispositivo legal não confere pontuação. Gabarito comentado A questão exige do examinando conhecimento sobre os delitos tipificados na Lei nº 11.343/06, além dos requisitos para decretação válida de interceptação telefônica. Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 105 A) A tese de direito processual a ser suscitada para defesa de Cássio para afastar a prova obtida é a invalidade da decisão que determinou a interceptação telefônica de Cássio, tendo em vista que, de início, foi determinada pelo prazo de 30 dias. Inicialmente deve ser destacado que a autoridade policial possui legitimidade para representar pela decretação da interceptação de comunicações telefônicas, nos termos do Art. 3º, inciso I, da Lei nº 9.296/96. Ademais, o crime investigado é punido com pena de reclusão e consta do enunciado que a prova não poderia ser obtida por outros meios disponíveis. Todavia, prevê o Art. 5º do mesmo diploma legal que a decisão que concede a medida deverá ser fundamentada e que não poderá exceder o prazo de 15 dias, renovável por igual período se comprovada a indispensabilidade do meio de prova. Diante disso, ainda que possa o período de 15 dias ser renovado, não pode, de início, a autoridade judicial determinar a interceptação por mais de 15 dias, sob pena de nulidade. B) A tese de direito material a ser alegada para tornar a conduta de Cássio menos gravosa é que foi praticado o delito previsto no Art. 33, § 3º da Lei nº 11.343/06, já que o agente oferecia drogas, de maneira eventual, sem objetivo de lucro, para seus amigos para juntos consumirem. Não há, assim, que se falar em prática de tráfico do Art. 33 da Lei nº 11.343/06 e nem mesmo na aplicação do §4º do mesmo dispositivo, já que o agente era portador de maus antecedentes. DISTRIBUIÇÃO DOS PONTOS ITEM PONTUAÇÃO A. A nulidade da decisão que decretou a interceptação das comunicações telefônicas OU ilicitude da prova obtida a partir das interceptações telefônicas (0,20), pois decretada a medida pelo prazo inicial de 30 dias (0,35), em desacordo com a previsão do Art. 5º da Lei nº 9.296/96 (0,10) 0,00/0,20/0,30/0,35/ 0,45/0,55/0,65 B. A tese de direito material é que foi praticado o crime previsto no Art. 33, § 3º da Lei nº 11.343/06 (0,45), tendo em vista que o agente tinha o material e o oferecia para junto consumir com seus amigos, de maneira eventual e sem intenção de lucro (0,15) 0,00/0,15/0,45/0,60 Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 106 DAS PROVAS EM ESPÉCIE QUESTÃO 1 - EXAME 2010-02 José da Silva foi preso em flagrante pela polícia militar quando transportava em seu carro grande quantidade de drogas. Levado pelos policiais à delegacia de polícia mais próxima, José telefonou para seu advogado, o qual requereuao delegado que aguardasse sua chegada para lavrar o flagrante. Enquanto esperavam o advogado, o delegado de polícia conversou informalmente com José, o qual confessou que pertencia a um grupo que se dedicava ao tráfico de drogas e declinou o nome de outras cinco pessoas que participavam desse grupo. Essa conversa foi gravada pelo delegado de polícia. Após a chegada do advogado à delegacia, a autoridade policial permiti u que José da Silva se entrevistasse particularmente com seu advogado e, só então, procedeu à lavratura do auto de prisão em flagrante, ocasião em que José foi informado de seu direito de permanecer calado e foi formalmente interrogado pela autoridade policial. Durante o interrogatório formal, assisti do pelo advogado, José da Silva optou por permanecer calado, afirmando que só se manifestaria em juízo. Com base na gravação contendo a confissão e delação de José, o Delegado de Polícia, em um único ato, determina que um de seus policiais atue como agente infiltrado e requer, ainda, outras medidas cautelares investigativas para obter provas em face dos demais membros do grupo criminoso: 1. quebra de sigilo de dados telefônicos, autorizada pelo juiz competente; 2. busca e apreensão, deferida pelo juiz competente, a qual logrou apreender grande quantidade de drogas e armas; 3. prisão preventiva dos cinco comparsas de José da Silva, que estavam de posse das drogas e armas. Todas as provas coligidas na investi ação corroboraram as informações fornecidas por José em seu depoimento. Relatado o inquérito policial, o promotor de justiça denunciou todos os envolvidos por associação para o tráfico de drogas (art. 35, Lei 11.343/2006), tráfico ilícito de entorpecentes (art. 33, Lei 11.343/2006) e quadrilha armada (art. 288, parágrafo único). Considerando tal narrativa, excluindo eventual pedido de aplicação do instituto da delação premiada, indique quais as teses defensivas, no plano do direito material e processual, que podem ser arguidas a partir do enunciado acima, pela defesa de José. Indique os dispositivos legais aplicáveis aos argumentos apresentados. Gabarito comentado 1. gravação informal obtida pelo delegado de polícia constitui prova ilícita, já que o preso tem o direito de ser informado dos seus direitos, dentre os quais o de permanecer calado (art. 5º, inc. LXIII, Constituição). O depoimento policial é um ato formal e, segundo o artigo 6º, V, deve observar as regras para a oitiva do acusado na fase judicial, previstas no Capítulo III, Título VII do Código de Processo Penal. Como as demais provas foram obtidas a partir do depoimento que constitui prova ilícita, devem igualmente ser consideradas ilícitas (art. 157, §1º, Código de Processo Penal). (0,3) 2. A infiltração de agente policial, conforme determina o artigo 53, I da Lei 11343/06, só pode ser determinada mediante autorização judicial e oitiva do Ministério Público. (0,3) 3. Não se admite a acumulação 06 Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 107 das acusações de quadrilha e associação para o tráfico, já que as duas redações típicas compreendem as mesmas ações objetivas (estabilidade na comunhão de ações e desígnios para a prática de crimes). (0,4) Distribuição dos Pontos Item Pontuação Prova ilícita (Art. 157, parágrafo 1º, CPP) 0 / 0,3 Vício na infiltração (Art.53, I, Lei 11.343/06) 0 / 0,3 Cumulação entre quadrilha e associação 0 / 0,4 Questão 1 – XXIII EXAME José Barbosa, nascido em 11/03/1998, caminhava para casa após sair da faculdade, às 11h da manhã, no dia 07/03/2016, quando se deparou com Daniel, ex-namorado de sua atual companheira, conversando com esta. Em razão de ciúmes, retirou a faca que trazia na mochila e aplicou numerosas facadas no peito de Daniel, com a intenção de matá-lo. Daniel recebeu pronto atendimento médico, foi encaminhado para um hospital de Niterói, mas faleceu 05 dias após os golpes de faca. Já no dia 08/03/2016, policiais militares, informados sobre o fato ocorrido no dia anterior, comparecem à residência de José Barbosa, já que um dos agentes da lei era seu vizinho. Apesar de não ter ninguém em casa, a janela estava aberta, e os policiais puderam ver seu interior, verificando que havia uma faca suja de sangue escondida junto ao sofá. Diante disso, para evitar que José Barbosa desaparecesse com a arma utilizada, ingressaram no imóvel e apreenderam a arma branca, que foi devidamente apresentada pela autoridade policial. Com base na prova produzida a partir da apreensão da faca, o Ministério Público oferece denúncia em face de José Barbosa, imputando-lhe a prática do crime de homicídio consumado. Considerando a situação narrada, na condição de advogado(a) de José Barbosa, responda aos itens a seguir. A) Qual argumento a ser apresentado pela defesa técnica do denunciado para combater a prova decorrente da apreensão da faca? Justifique. (Valor: 0,65) B) Existe argumento de direito material a ser apresentado em favor de José Barbosa para evitar o prosseguimento da ação penal? Justifique. (Valor: 0,60) Obs.: o(a) examinando(a) deve fundamentar suas respostas. A mera citação ou transcrição do dispositivo legal não confere pontuação. Gabarito Comentado A) A defesa deveria alegar que a prova obtida a partir da apreensão da faca é ilícita, não podendo ser valorada no momento da sentença. Estabelece o Art. 5º, inciso XI, da CRFB/88 que a casa é asilo inviolável, não podendo nela ninguém ingressar sem consentimento do morador. A própria Constituição, todavia, traz exceções a esta regra, como na hipótese de flagrante delito ou mediante ordem judicial, durante o dia. Não havia, no caso apresentado, situação de flagrante delito, já que a simples posse de faca não configura crime e, em relação ao crime/ato infracional praticado no dia anterior, não havia situação de flagrância, pois Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 108 ausentes os requisitos do Art. 302 do CPP. Ademais, não houve autorização do morador e nem existia ordem judicial de busca e apreensão, já que os policiais decidiram ingressar no imóvel porque viram a arma suja de sangue através da janela aberta. B) Sim, existe, tendo em vista que José Barbosa não poderia ser denunciado pela prática de crime de homicídio qualificado, já que era inimputável na data dos fatos. O Código Penal, para definir o momento do crime, adota a Teoria da Atividade, prevendo o Art. 4º que se considerado praticado o crime no momento da ação ou omissão, ainda que em outro seja produzido o resultado. Dessa forma, o crime foi praticado no dia 07.03.2016, quando José Barbosa tinha 17 anos. Estabelece o Art. 27 do CP que será inimputável o menor de 18 anos. O fato de a consumação do delito só ter ocorrido após a maioridade penal de José Barbosa é irrelevante para o caso concreto, já que outro foi o momento da ação. Distribuição dos Pontos Item Pontuação A. O meio de obtenção da prova quando da apreensão da faca foi ilícito (0,20), tendo em vista que houve ingresso na residência de José Barbosa sem autorização do morador, flagrante delito ou ordem judicial (0,35), nos termos do art. 5º, XI, CRFB OU 157 do CPP (0,10). 0,00/0,10/0,20/0,30/0,35/ 0,45/0,55/0,65 B. Não poderia José Barbosa ser processado criminalmente pela prática do crime de homicídio, tendo em vista que era inimputável na data dos golpes desferidos OU tendo em vista que praticou ato infracional análogo ao crime de homicídio (0,45), pois o Código Penal adota a Teoria da Atividade para definir o momento do crime (0,15). 0,00/0,15/0,45/0,60 QUESTÃO 3 – XVIII EXAME 2015-03 Fernando foi pronunciadopela prática de um crime de homicídio doloso consumado que teve como vítima Henrique. Em sessão plenária do Tribunal do Júri, o réu e sua namorada, ouvida na condição de informante, afirmaram que Henrique iniciou agressões contra Fernando e que este agiu em legítima defesa. Por sua vez, a namorada da vítima e uma testemunha presencial asseguraram que não houve qualquer agressão pretérita por parte de Henrique. No momento do julgamento, os jurados reconheceram a autoria e materialidade, mas optaram por absolver Fernando da imputação delitiva. Inconformado, o Ministério Público apresentou recurso de apelação com fundamento no Art. 593, inciso III, alínea ‘d’, do CPP, alegando que a decisão foi manifestamente contrária à prova dos autos. A família de Fernando fica preocupada com o recurso, em especial porque afirma que todos tinham conhecimento que dois dos jurados que atuaram no julgamento eram irmãos, mas em momento algum isso foi questionado pelas partes, alegado no recurso ou avaliado pelo Juiz Presidente. Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 109 Considerando a situação narrada, esclareça, na condição de advogado(a) de Fernando, os seguintes questionamentos da família do réu: A) A decisão dos jurados foi manifestamente contrária à prova dos autos? Justifique. (Valor: 0,60) B) Poderá o Tribunal, no recurso do Ministério Público, anular o julgamento com fundamento em nulidade na formação do Conselho de Sentença? Justifique. (Valor: 0,65) Gabarito Comentado A) A decisão dos jurados não foi manifestamente contrária à prova dos autos, tendo em vista que o acusado e sua namorada alegaram a existência de legítima defesa. De fato, a namorada da vítima e uma testemunha afirmaram que esta causa excludente da ilicitude não existiu. Contudo, existem duas versões nos autos, com provas em ambos os sentidos, logo os jurados são livres para optar por uma delas, de acordo com a íntima convicção. Não houve arbitrariedade ou total dissociação da prova dos autos, mas apenas escolha de uma das versões. Assim, a soberania dos vereditos deve prevalecer, não cabendo ao Tribunal fazer nova análise do mérito, se a decisão não foi manifestamente contrária às provas produzidas. B) Não poderá o Tribunal anular o julgamento com base na existência de nulidade ocorrida durante a sessão plenária. De fato, prevê o Art. 448, inciso IV, do CPP, que estão impedidos de servir no mesmo Conselho os irmãos. Ocorre que o enunciado 713 da Súmula não vinculante do STF afirma categoricamente que “o efeito devolutivo da apelação contra decisões do júri é adstrito aos fundamentos de sua interposição”. O Ministério Público apresentou apelação apenas com fundamento na alínea ‘d’ do Art. 593, inciso III, do Código de Processo Penal. Assim, está limitado o efeito devolutivo, de modo que o Tribunal somente poderá analisar a existência de decisão manifestamente contrária à prova dos autos. Decisão em contrário prejudicaria a ampla defesa, pois eventual nulidade não foi combatida pela defesa em sede de contrarrazões. Poderia, ainda, o candidato basear sua resposta no enunciado 160 da Súmula do STF, que afirma que é nula a decisão que acolhe, contra réu, nulidade não arguida pela acusação. Distribuição dos Pontos Item Pontuação A. Não. A decisão dos jurados não foi manifestamente contrária à prova dos autos, pois está baseada em uma das versões existentes nos autos OU porque as declarações do réu e de sua namorada escoram a decisão (0,45), devendo prevalecer a soberania dos vereditos OU a íntima convicção dos jurados (0,15). 0,00/0,15/0,45/0,60 B. Não, pois o Tribunal está limitado ao conteúdo da apelação apresentada pelo Ministério Público, OU Não, pois decisão em contrário prejudicaria a ampla defesa e/ou contraditório, tendo em vista que não foi rebatido em contrarrazões (0,55), na forma do enunciado 713 da Súmula não vinculante do STF OU do enunciado 160 da Súmula do STF (0,10). 0,00/0,10/0,55/0,65 Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 110 Questão 1 – XVII EXAME 2015.2 Rodrigo, primário e de bons antecedentes, quando passava em frente a um estabelecimento comercial que estava fechado por ser domingo, resolveu nele ingressar. Após romper o cadeado da porta principal, subtraiu do seu interior algumas caixas de cigarro. A ação não foi notada por qualquer pessoa. Todavia, quando caminhava pela rua com o material subtraído, veio a ser abordado por policiais militares, ocasião em que admitiu a subtração e a forma como ingressou no comércio lesado. O material furtado foi avaliado em R$ 1.300,00 (um mil e trezentos reais), sendo integralmente recuperado. A perícia não compareceu ao local para confirmar o rompimento de obstáculo. O autor do fato foi denunciado como incurso nas sanções penais do Art. 155, § 4º, inciso I, do Código Penal. As únicas testemunhas de acusação foram os policiais militares, que confirmaram que apenas foram responsáveis pela abordagem do réu, que confessou a subtração. Disseram não ter comparecido, porém, ao estabelecimento lesado. Em seu interrogatório, Rodrigo confirmou apenas que subtraiu os cigarros do estabelecimento, recusando-se a responder qualquer outra pergunta. A defesa técnica de Rodrigo é intimada para apresentar alegações finais por memoriais. Com base na hipótese apresentada, responda, fundamentadamente, aos itens a seguir. A) Diante da confissão da prática do crime de furto por Rodrigo, qual a principal tese defensiva em relação à tipificação da conduta a ser formulada pela defesa técnica? (Valor: 0,65) B) Em caso de acolhimento da tese defensiva, poderá Rodrigo ser, de imediato, condenado nos termos da manifestação da defesa técnica? (Valor: 0,60) Obs.: Sua resposta deve ser fundamentada. A simples menção do dispositivo legal não será pontuada Gabarito comentado A) Foi imputado um crime de furto qualificado, pois houve rompimento de obstáculo. Ocorre que, para a punição por essa modalidade qualificada do crime, é necessária a realização de exame de local e a constatação do rompimento de obstáculo por prova pericial (Art. 158 do CPP). Assim têm decidido de maneira recorrente os Tribunais Superiores, não sendo suficiente a simples afirmação dos policiais, no sentido de que Rodrigo narrou que tinha subtraído os cigarros, pois essa confirmação foi apenas quanto à subtração, e os agentes da lei nem mesmo compareceram ao estabelecimento para verificar se, de fato, houve tal rompimento. Assim, diante da ausência de comprovação pericial da qualificadora, o crime praticado foi de furto simples. B) Em caso de acolhimento da tese defensiva, com a consequente desclassificação da conduta de Rodrigo de furto qualificado para furto simples, não poderá ser o acusado de imediato condenado, devendo o magistrado abrir vista para que o Ministério Público se manifeste sobre a possibilidade de oferecer proposta de suspensão condicional do processo, pois a pena mínima passou a ser de 01 ano de reclusão. Nesse sentido é o enunciado 337 da Súmula do STJ, que permite que, em caso de desclassificação ou procedência parcial, seja oferecida proposta de suspensão condicional do processo, ainda que encerrada a instrução. Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 111 Distribuição dos Pontos Item Pontuação A. A principal tese defensiva é a desclassificação do furto qualificado para o simples OU que deve ser afastada a qualificadora prevista no inciso I do parágrafo 4º do Art. 155 do Código Penal (0,25), pois não existe prova pericial do rompimento de obstáculo (0,30), previstano Art. 158 do CPP (0,10). 0,00/0,25/0,30/0,35 0,40/0,55/0,65 B. Em caso de acolhimento da tese defensiva, não pode o réu ser de imediato condenado, pois deve ser possibilitado ao Ministério Público o oferecimento de proposta de suspensão condicional do processo (0,50), nos termos do enunciado 337 da Súmula do STJ (0,10). 0,00/0,50/0,60 PEÇA PROFISSIONAL – IX EXAME (2012.3) Gisele foi denunciada, com recebimento ocorrido em 31/10/2010, pela prática do delito de lesão corporal leve, com a presença da circunstância agravante, de ter o crime sido cometido contra mulher grávida. Isso porque, segundo narrou a inicial acusatória, Gisele, no dia 01/04/2009, então com 19 anos, objetivando provocar lesão corporal leve em Amanda, deu um chute nas costas de Carolina, por confundi-la com aquela, ocasião em que Carolina (que estava grávida) caiu de joelhos no chão, lesionando-se. A vítima, muito atordoada com o acontecido, ficou por um tempo sem saber o que fazer, mas foi convencida por Amanda (sua amiga e pessoa a quem Gisele realmente queria lesionar) a noticiar o fato na delegacia. Sendo assim, tão logo voltou de um intercâmbio, mais precisamente no dia 18/10/2009, Carolina compareceu à delegacia e noticiou o fato, representando contra Gisele. Por orientação do delegado, Carolina foi instruída a fazer exame de corpo de delito, o que não ocorreu, porque os ferimentos, muito leves, já haviam sarado. O Ministério Público, na denúncia, arrolou Amanda como testemunha. Em seu depoimento, feito em sede judicial, Amanda disse que não viu Gisele bater em Carolina e nem viu os ferimentos, mas disse que poderia afirmar com convicção que os fatos noticiados realmente ocorreram, pois estava na casa da vítima quando esta chegou chorando muito e narrando a história. Não foi ouvida mais nenhuma testemunha e Gisele, em seu interrogatório, exerceu o direito ao silêncio. Cumpre destacar que a primeira e única audiência ocorreu apenas em 20/03/2012, mas que, anteriormente, três outras audiências foram marcadas; apenas não se realizaram porque, na primeira, o magistrado não pôde comparecer, na segunda o Ministério Público não compareceu e a terceira não se realizou porque, no dia marcado, foi dado ponto facultativo pelo governador do Estado, razão pela qual todas as audiências foram redesignadas. Assim, somente na quarta data agendada é que a audiência efetivamente aconteceu. Também merece destaque o fato de que na referida audiência o parquet não ofereceu proposta de suspensão condicional do processo, pois, conforme documentos comprobatórios juntados aos autos, em 30/03/2009, Gisele, em processo criminal onde se apuravam outros fatos, aceitou o benefício proposto. Assim, segundo o promotor de justiça, afigurava-se impossível formulação de nova proposta de suspensão condicional do processo, ou de qualquer outro benefício anterior não destacado, e, além disso, tal dado Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 112 deveria figurar na condenação ora pleiteada para Gisele como outra circunstância agravante, qual seja, reincidência. Nesse sentido, considere que o magistrado encerrou a audiência e abriu prazo, intimando as partes, para o oferecimento da peça processual cabível. Como advogado de Gisele, levando em conta tão somente os dados contidos no enunciado, elabore a peça cabível. (Valor: 5,0) Gabarito comentado O examinando, observando a estrutura correta, deverá elaborar MEMORIAIS, com fundamento no Art. 403, §3º, do CPP. A peça deve ser endereçada ao Juiz do Juizado Especial Criminal. Preliminarmente, deve ser alegada a decadência do direito de representação. Os fatos ocorreram em 01/04/2009 e a representação apenas foi feita em 18/10/2009 (Art. 38, CPP). Também em caráter preliminar deve ser alegada a nulidade do processo pela inobservância do rito da Lei 9.099/95, anulando-se o recebimento da denúncia, com a consequente prescrição da pretensão punitiva. Isso porque os fatos datam de 01/04/2009 e a pena máxima em abstrato prevista para o crime de lesão corporal leve é de um ano, que prescreve em quatro anos (Art. 109, inciso V, do CP). Como se trata de acusada menor de 21 anos de idade, o prazo prescricional reduz-se pela metade (Art. 115, do CP), totalizando dois anos. Com a anulação do recebimento da denúncia, este marco interruptivo desaparece e, assim, configura-se a prescrição da pretensão punitiva. No mérito, deve ser requerida absolvição por falta de prova. A materialidade do delito não restou comprovada, tal como exige o Art. 158, do CPP. O delito de lesão corporal é não transeunte e exige perícia, seja direta ou indireta, o que não foi feito. Note-se que não foi realizado exame pericial direto e nem a perícia indireta pôde ser feita, pois a única testemunha não viu nem os fatos e nem mesmo os ferimentos. Também no mérito, deve ser alegado que não incidem nenhuma das circunstâncias agravantes aventadas pelo Ministério Público. Levando em conta que Gisele agiu em hipótese de erro sobre a pessoa (Art. 20, § 3º, do CP), devem ser consideradas apenas as características da vítima pretendida (Amanda) e não da vítima real (Carolina), que estava grávida. Além disso, não incide a agravante da reincidência, pois a aceitação da proposta de suspensão condicional do processo não acarreta condenação e muito menos reincidência; Gisele ainda é primária. Ao final, deve elaborar os seguintes pedidos: a extinção de punibilidade pela decadência do direito de representação; a declaração da nulidade do processo com a consequente extinção da punibilidade pela prescrição da pretensão punitiva; a absolvição da ré com fundamento na ausência de provas para a condenação. Subsidiariamente, em caso de condenação, deverá pleitear a não incidência da circunstância agravante de ter sido, o delito, cometido contra mulher grávida; a não incidência da agravante da reincidência; a atenuação da pena como consequência à aplicação da atenuante da menoridade relativa da ré. Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 113 Distribuição dos Pontos 1) A peça deve ser endereçada ao Juiz do Juizado Especial Criminal. (0,25) 0,00/0,25 2) Indicação do dispositivo legal que fundamenta a peça: Art. 403, § 3º, do CPP (0,20). 0,00/0,20 3) Arguição da preliminar de decadência do direito de representação (0,50). Desenvolvimento fundamentado no sentido de que os fatos ocorreram em 01/04/2009 e a representação apenas foi feita em 18/10/2009 (Art. 38, do CPP).(0,75) OBS: A mera indicação do artigo não pontua. 0,00/0,50/1,25 4) Também em caráter preliminar deve ser alegada a nulidade do processo pela inobservância do rito da Lei n. 9.099/95 (0,25), anulando-se o recebimento da denúncia (0,25) com a consequente prescrição da pretensão punitiva.(0,25) 0,00/0,25/0,50/0,75 5) Desenvolvimento fundamentado acerca da absolvição por falta de prova (0,25), bem como da ausência de materialidade do delito (0,50), 0,00/0,25/0,50/0,75 6) Desenvolvimento fundamentado acerca da não incidência da agravante de crime praticado contra mulher grávida, pois a hipótese é de erro quanto à pessoa(0,30) na forma do Art.20, § 3º do CP (0,10), OBS: A mera indicação do artigo não pontua. 0,00/0,30/0,40 7) Desenvolvimento fundamentado acerca da não incidência da agravante da reincidência (0,35). 0,00/0,35 8) Pedidos: A) extinção de punibilidade pela decadência do direito de representação (0,20); B) declaração da nulidade do processo (0,10) com a consequente extinção da punibilidade pela prescrição da pretensão punitiva (0,10); C) Absolvição (0,10) por falta de provas para a condenação OU por não haverprova da existência do fato (0,10); 0,00/0,10/0,20/0,30/0,40/0,50/0,60 D) Subsidiariamente, em caso de condenação: d1) não incidência da agravante de crime cometido contra mulher grávida (0,10); d2) não incidência da agravante da reincidência (0,10); d3) incidência da atenuante da menoridade relativa da ré (0,10) 0,00/0,10/0,20/0,30 9) Estrutura correta (indicação das partes/ local/ data/ assinatura). 0,00/0,15 PEÇA PROFISSIONAL – VI EXAME (2011.3) No dia 10 de março de 2011, após ingerir um litro de vinho na sede de sua fazenda, José Alves pegou seu automóvel e passou a conduzi-lo ao longo da estrada que tangencia sua propriedade rural. Após percorrer cerca de dois quilômetros na estrada absolutamente deserta, José Alves foi surpreendido por uma equipe da Polícia Militar que lá estava a fim de procurar um indivíduo foragido do presídio da localidade. Abordado pelos policiais, José Alves saiu de seu veículo trôpego e exalando forte odor de álcool, oportunidade em que, de maneira incisiva, os policiais lhe compeliram a realizar um teste de alcoolemia em aparelho de ar alveolar. Realizado o teste, foi constatado que José Alves tinha concentração de álcool de um miligrama por litro de ar expelido pelos pulmões, razão pela qual os policiais o conduziram à Unidade de Polícia Judiciária, onde foi lavrado Auto de Prisão em Flagrante pela prática do crime previsto no artigo 306 da Lei 9.503/1997, c/c artigo 2º, inciso II, do Decreto 6.488/2008, sendo-lhe negado no referido Auto de Prisão Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 114 em Flagrante o direito de entrevistar-se com seus advogados ou com seus familiares. Dois dias após a lavratura do Auto de Prisão em Flagrante, em razão de José Alves ter permanecido encarcerado na Delegacia de Polícia, você é procurado pela família do preso, sob protestos de que não conseguiam vê-lo e de que o delegado não comunicara o fato ao juízo competente, tampouco à Defensoria Pública. Com base somente nas informações de que dispõe e nas que podem ser inferidas pelo caso concreto acima, na qualidade de advogado de José Alves, redija a peça cabível, exclusiva de advogado, no que tange à liberdade de seu cliente, questionando, em juízo, eventuais ilegalidades praticadas pela Autoridade Policial, alegando para tanto toda a matéria de direito pertinente ao caso. Gabarito Comentado: O examinando deverá redigir uma petição de relaxamento de prisão, fundamentado no art. 5º, LXV, da CRFB/88, ou art. 310, I, do CPP (embora os fatos narrados na questão sejam anteriores à vigência da Lei 12.403/11, a Banca atribuirá a pontuação relativa ao item também ao examinando que indicar o art. 310, I, do CPP como dispositivo legal ensejador ao pedido de relaxamento de prisão. Isso porque estará demonstrada a atualização jurídica acerca do tema), a ser endereçada ao Juiz de Direito da Vara Criminal. Na petição, deverá argumentar que: 1. O auto de prisão em flagrante é nulo por violação ao direito à não autoincriminação compulsória (princípio do nemo tenetur se detegere), previsto no art. 5º, LXIII, da CRFB/88 ou art. 8º, 2, “g” do Decreto 678/92. 2. A prova é ilícita em razão da colheita forçada do exame de teor alcoólico, por força do art. 5º, LVI, da CRFB/88 ou art. 157 do CPP. 3. O auto de prisão em flagrante é nulo pela violação à exigência de comunicação da medida à Autoridade Judiciária, ao Ministério Público e à Defensoria Pública dentro de 24 horas, nos termos do art. 306, §1º, do CPP ou art. 5º, LXII, da CRFB/88, ou art. 6º, inciso V, c/c. artigo 185, ambos do CPP (a banca também convencionou aceitar como fundamento o artigo 306, caput, do CPP, considerando-se a legislação da época dos fatos). 4. O auto de prisão é nulo por violação ao direito à comunicação entre o preso e o advogado, bem com familiares, nos termos do art. 5º, LXIII, da CRFB ou art. 7º, III, do Estatuto da Ordem dos Advogados do Brasil ou art. 8º, 2, “d” do Decreto 678/92; Ao final, o examinando deverá formular pedido de relaxamento de prisão em razão da nulidade do auto de prisão em flagrante, com a consequente expedição de alvará de soltura. Distribuição dos Pontos 1 - Estrutura correta (divisão das partes / indicação de local, data, assinatura) 0 / 0,25 2 - Indicação correta dos dispositivos legais que dão ensejo ao pedido de relaxamento de prisão – art. 5º, LXV, da CRFB OU art. 310, I, do CPP. 0 / 0,5 3 - Endereçamento correto – Juiz de Direito da XX Vara Criminal da Comarca... 0 / 0,25 4.1 - Desenvolvimento jurídico acerca da nulidade do auto de prisão em flagrante por violação ao direito a não produzir prova contra si (0,5) [art. 5º, LXIII, da CRFB OU art. 8º, 2, “g” do Decreto 678/92 (Pacto de San José da Costa Rica)] (0,25) Obs.: A mera indicação do artigo não é pontuada. 0 / 0,5 / 0,75 Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 115 4.2 - em razão da colheita forçada do exame de teor alcoólico e consequente ilicitude da prova (0,5) [art. 5º, LVI, OU art. 157 do CPP] (0,25) Obs.: A mera indicação do artigo não é pontuada. 0 / 0,5 / 0,75 5 – Desenvolvimento jurídico acerca da nulidade do auto de prisão em flagrante por violação ao direito à comunicação entre o preso e o advogado, bem como familiares (0,8), nos termos do art. 5º, LXIII, da CRFB OU art 7º, III, do EOAB (0,2). Obs.: A mera indicação do artigo não é pontuada. 0 / 0,8 / 1,0 6 - Desenvolvimento jurídico acerca da nulidade do auto de prisão em flagrante por violação à exigência de comunicação da medida à autoridade judiciária e à defensoria pública dentro de 24 horas (0,8), nos termos do art. 306, §1º, do CPP OU art. 5º, LXII, da CRFB (0,2). Obs.: A mera indicação do artigo não é pontuada. 0 / 0,8 / 1,0 7 - Pedido de relaxamento de prisão em razão da nulidade do auto de prisão em flagrante (0,25) e expedição de alvará de soltura (0,25). 0 / 0,25 / 0,5 PEÇA PROFISSIONAL – IV EXAME (2011.1) Tício foi denunciado e processado, na 1ª Vara Criminal da Comarca do Município X, pela prática de roubo qualificado em decorrência do emprego de arma de fogo. Ainda durante a fase de inquérito policial, Tício foi reconhecido pela vítima. Tal reconhecimento se deu quando a referida vítima olhou através de pequeno orifício da porta de uma sala onde se encontrava apenas o réu. Já em sede de instrução criminal, nem vítima nem testemunhas afirmaram ter escutado qualquer disparo de arma de fogo, mas foram uníssonas no sentido de assegurar que o assaltante portava uma. Não houve perícia, pois os policiais que prenderam o réu em flagrante não lograram êxito em apreender a arma. Tais policiais afirmaram em juízo que, após escutarem gritos de "pega ladrão!", viram o réu correndo e foram em seu encalço. Afirmaram que, durante a perseguição, os passantes apontavam para o réu, bem como que este jogou um objeto no córrego que passava próximo ao local dos fatos, que acreditavam ser a arma de fogo utilizada. O réu, em seu interrogatório, exerceu o direito ao silêncio. Ao cabo da instrução criminal, Tício foi condenado a oito anos e seis meses de reclusão, por roubo com emprego de arma de fogo, tendo sido fixado o regime inicial fechado para cumprimento de pena. O magistrado, para fins de condenação e fixação da pena, levou em conta os depoimentos testemunhais colhidos em juízo e o reconhecimento feito pela vítima em sede policial, bem como o fato de o réu ser reincidente e portador de maus antecedentes, circunstâncias comprovadas no curso do processo. Você, na condição de advogado(a) de Tício, é intimado(a) da decisão. Com base somente nas informações de que dispõe e nas que podem ser inferidaspelo caso concreto acima, redija a peça cabível, apresentando as razões e sustentando as teses jurídicas pertinentes. Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 116 Gabarito Comentado O examinando deve redigir uma apelação, com fundamento no artigo 593, I, do Código de Processo Penal. A petição de interposição deve ser endereçada ao juiz de direito da 1ª vara criminal da comarca do município X. Nas razões de apelação o candidato deverá dirigir‐se ao Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, argumentando que o reconhecimento feito não deve ser considerado para fins de condenação, pois houve desrespeito à formalidade legal prevista no art. 226, II, do Código de Processo Penal. Dessa forma, inexistiria prova suficiente para a condenação do réu, haja vista ter sido feito somente um único reconhecimento, em sede de inquérito policial e sem a observância das exigências legais, o que levaria à absolvição com fulcro no art. 386, VII, do mesmo diploma (também aceita‐se como fundamento do pedido de absolvição o art. 386, V do CPP). Outrossim, de maneira alternativa, deverá postular o afastamento da causa especial de aumento de pena decorrente do emprego de arma de fogo, pois esta deveria ter sido submetida à perícia, nos termos do art. 158 do Código de Processo Penal, o que não foi feito, de modo que não há como ser comprovada a potencialidade lesiva da arma. Ademais, sequer foi possível a perícia indireta (art. 167 CPP), pois nenhuma das testemunhas disse ter escutado a arma disparar, de modo que o emprego de arma somente poderia servir para configurar a grave ameaça, elementar do crime de roubo. Distribuição dos Pontos Estrutura correta (divisão das partes / indicação de local, data, assinatura) 0 / 0,25 Indicação correta do prazo e dispositivos legais que dão ensejo à apelação, na petição de interposição (art. 593, I, do CPP) 0 / 0,25 Endereçamento correto da interposição – 1ª Vara Criminal do Município X 0 / 0,25 Endereçamento correto das razões – Tribunal de Justiça do Estado 0 / 0,25 Desenvolvimento jurídico acerca da falta de observância da formalidade legal (0,8) / prevista no art. 226, II, do CPP (0,2) 0 / 0,2 / 0,8 / 1,0 Desenvolvimento jurídico acerca da ausência da apreensão da arma (ou de ausência de potencialidade lesiva), o que impede o exame pericial da arma, nos termos do art. 158 do CPP. (0,6) / Ninguém afirmou que a arma tenha efetuado qualquer disparo (perícia indireta) (0,4). 0 / 0,4 / 0,6 / 1,0 Pedido: Absolvição + argumento + base legal 0 / 0,5 Pedidos (0,5 cada) – no mínimo 3 pedidos – máximo 1,5 ponto: ‐ redução da pena + base legal ‐ mudança de regime + base legal ‐ nulidade da prova + base legal ‐ afastamento da agravante + argumento + base legal 0 / 0,5 / 1,0 / 1,5 Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 117 PEÇA PROFISSIONAL – EXAME (2010.3) No dia 17 de junho de 2010, uma criança recém-nascida é vista boiando em um córrego e, ao ser resgatada, não possuía mais vida. Helena, a mãe da criança, foi localizada e negou que houvesse jogado a vítima no córrego. Sua filha teria sido, segundo ela, sequestrada por um desconhecido. Durante a fase de inquérito, testemunhas afirmaram que a mãe apresentava quadro de profunda depressão no momento e logo após o parto. Além disso, foi realizado exame médico legal, o qual constatou que Helena, quando do fato, estava sob influência de estado puerperal. À míngua de provas que confirmassem a autoria, mas desconfiado de que a mãe da criança pudesse estar envolvida no fato, a autoridade policial representou pela decretação de interceptação telefônica da linha de telefone móvel usado pela mãe, medida que foi decretada pelo juiz competente. A prova constatou que a mãe efetivamente praticara o fato, pois, em conversa telefônica com uma conhecida, de nome Lia, ela afirmara ter atirado a criança ao córrego, por desespero, mas que estava arrependida. O delegado intimou Lia para ser ouvida, tendo ela confirmado, em sede policial, que Helena de fato havia atirado a criança, logo após o parto, no córrego. Em razão das aludidas provas, a mãe da criança foi então denunciada pela prática do crime descrito no art. 123 do Código Penal perante a 1ª Vara Criminal (Tribunal do Júri). Durante a ação penal, é juntado aos autos o laudo de necropsia realizada no corpo da criança. A prova técnica concluiu que a criança já nascera morta. Na audiência de instrução, realizada no dia 12 de agosto de 2010, Lia é novamente inquirida, ocasião em que confirmou ter a denunciada, em conversa telefônica, admitido ter jogado o corpo da criança no córrego. A mesma testemunha, no entanto, trouxe nova informação, que não mencionara quando ouvida na fase inquisitorial. Disse que, em outras conversas que tivera com a mãe da criança, Helena contara que tomara substância abortiva, pois não poderia, de jeito nenhum, criar o filho. Interrogada, a denunciada negou todos os fatos. Finda a instrução, o Ministério Público manifestou-se pela pronúncia, nos termos da denúncia, e a defesa, pela impronúncia, com base no interrogatório da acusada, que negara todos os fatos. O magistrado, na mesma audiência, prolatou sentença de pronúncia, não nos termos da denúncia, e sim pela prática do crime descrito no art. 124 do Código Penal, punido menos severamente do que aquele previsto no art. 123 do mesmo código, intimando as partes no referido ato. Com base somente nas informações de que dispõe e nas que podem ser inferidas pelo caso concreto acima, na condição de advogado(a) de Helena, redija a peça cabível à impugnação da mencionada decisão, acompanhada das razões pertinentes, as quais devem apontar os argumentos para o provimento do recurso, mesmo que em caráter sucessivo. Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 118 GABARITO COMENTADO O recurso cabível é o recurso em sentido estrito, na forma do art. 581, IV, do Código de Processo Penal, dirigido ao Juiz da 1ª Vara Criminal (Tribunal do Júri). Em primeiro lugar, deverá o examinando requerer, em preliminar, o desentranhamento das provas ilícitas. Isso porque o crime investigado, infanticídio (art. 123 do Código Penal), é punido com pena de detenção. Em razão disso, não era admissível a interceptação telefônica prevista na Lei 9.296/96, pois a lei em tela não admite a medida quando o crime só é punido com pena de detenção (art. 2º, III). É de ressaltar que o crime de aborto, previsto no art. 124, também só é punido com pena de detenção. Além disso, o enunciado indica não existir indícios suficientes de autoria, uma vez que o delegado representou pela decretação da quebra com base em meras suspeitas. Finalmente, não foram esgotados todos os meios de investigação, condição sine qua non para que a medida seja decretada. Por outro lado, o examinando deverá registrar também que o testemunho de Lia, embora seja prova realizada de modo lícito, será ilícito por derivação, na forma do art. 157, § 1º, do Código e Processo Penal e, portanto, imprestável. Ainda em preliminar, deverá o examinando suscitar a nulidade do processo por violação do art. 411, § 3º do Código de Processo Penal, c/c art. 384 do Código de Processo Penal. Com efeito, diante das regras acima referidas, o Juiz, vislumbrando a possibilidade de nova definição do fato em razão de prova nova, surgida durante a instrução, deverá abrir vista dos autos para que o Ministério Público, se for o caso, adite a denúncia, mesmo que a pena prevista para a nova definição jurídica seja menor, conforme a nova redação do art. 384 do Código de Processo Penal,dada pela Lei 11.719/2008. O candidato deverá, ainda, sustentar que não restou provada a materialidade do crime de aborto, uma vez que nenhuma perícia foi feita no sentido de comprovar que a criança faleceu em decorrência da ingestão de substância abortiva. Finalmente, deveria requerer, em caráter sucessivo, a impronúncia da acusada, uma vez que, retiradas as provas ilícitas dos autos, nenhuma prova de autoria existiria contra a denunciada. Em relação aos itens da correção, assim ficaram divididos: DISTRIBUIÇÃO DE PONTOS Endereçamento correto e indicação da norma (art. 581, IV, CPP) 0 / 0,35 / 0,7 Pedido de reconsideração ao juiz de 1º grau e indicação da norma (art. 589, parágrafo único, CPP) 0 / 0,1 / 0,2 Indicação da ilegitimidade/ilicitude da interceptação telefônica (0,4) por tratar-se de crime apenado com detenção (0,4) OU Indicação da ilegitimidade/ilicitude da interceptação telefônica (0,4) com fundamento na necessidade de esgotamento prévio dos meios 0 / 0,4 / 0,8 de investigação (0,4) Indicação do dispositivo legal (art. 2º, III, Lei 9.296/96) OU (art. 2º, II, Lei 9.296/96) 0 / 0,5 Indicação da ilicitude por derivação da prova testemunhal (0,25) com fundamentação legal (art. 157, §1º, CPP) (0,25) 0 / 0,25 / 0,5 Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 119 Desenvolvimento fundamentado de que haveria violação das regras referentes à mutatio libelli (0,25/0,5) / Indicação do dispositivo legal: art. 384 do CPP (0,25), c/c art. 411, §3º, do CPP (0,25) 0 / 0,25 / 0,5 / 0,75 / 1,0 Desenvolvimento fundamentado acerca da ausência de prova da materialidade do crime de aborto por inexistência de perícia que vincule o óbito à substância abortiva 0 / 0,25 / 0,5 Pedidos principais corretos (0,2 cada): - desentranhamento da prova Ilícita - impronúncia em virtude do desentranhamento da prova ilícita e consequente ausência de indícios suficientes de autoria - impronúncia por ausência de prova da materialidade do crime de aborto - absolvição sumária OU nulidade da decisão de pronúncia, com fundamento na mutatio libelli 0 / 0,2 / 0,4 / 0,6 / 0, Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 120 PEÇA PROFISSIONAL – EXAME (2010.2) A Polícia Civil do Estado do Rio Grande do Sul recebe notícia crime identificada, imputando a Maria Campos a prática de crime, eis que mandaria crianças brasileiras para o estrangeiro com documentos falsos. Diante da notícia crime, a autoridade policial instaura inquérito policial e, como primeira providência, representa pela decretação da interceptação das comunicações telefônicas de Maria Campos, “dada a gravidade dos fatos noticiados e a notória dificuldade de apurar crime de tráfico de menores para o exterior por outros meios, pois o ‘modus operandi’ envolve sempre atos ocultos e exige estrutura organizacional sofisticada, o que indica a existência de uma organização criminosa integrada pela investigada Maria”. O Ministério Público opina favoravelmente e o juiz defere a medida, limitando-se a adotar, como razão de decidir, “os fundamentos explicitados na representação policial”. No curso do monitoramento, foram identificadas pessoas que contratavam os serviços de Maria Campos para providenciar expedição de passaporte para viabilizar viagens de crianças para o exterior. Foi gravada conversa telefônica de Maria com um funcionário do setor de passaportes da Polícia Federal, Antônio Lopes, em que Maria consultava Antônio sobre os passaportes que ela havia solicitado, se já estavam prontos, e se poderiam ser enviados a ela. A pedido da autoridade policial, o juiz deferiu a interceptação das linhas telefônicas utilizadas por Antônio Lopes, mas nenhum diálogo relevante foi interceptado. O juiz, também com prévia representação da autoridade policial e manifestação favorável do Ministério Público, deferiu a quebra de sigilo bancário e fiscal dos investi gados, tendo sido identificado um depósito de dinheiro em espécie na conta de Antônio, efetuado naquele mesmo ano, no valor de R$ 100.000,00 (cem mil reais). O monitoramento telefônico foi mantido pelo período de quinze dias, após o que foi deferida medida de busca e apreensão nos endereços de Maria e Antônio. A decisão foi proferida nos seguintes termos: “diante da gravidade dos fatos e da real possibilidade de serem encontrados objetos relevantes para investigação, defiro requerimento de busca e apreensão nos endereços de Maria (Rua dos Casais, 213) e de Antônio (Rua Castro, 170, apartamento 201)”. No endereço de Maria Campos, foi encontrada apenas uma relação de nomes que, na visão da autoridade policial, seriam clientes que teriam requerido a expedição de passaportes com os nomes de crianças que teriam viajado para o exterior. No endereço indicado no mandado de Antônio Lopes, nada foi encontrado. Entretanto, os policiais que cumpriram a ordem judicial perceberam que o apartamento 202 do mesmo prédio também pertencia ao investi gado, motivo pelo qual nele ingressaram, encontrando e apreendendo a quantia de cinquenta mil dólares em espécie. Nenhuma outra diligência foi realizada. Relatado o inquérito policial, os autos foram remeti dos ao Ministério Público, que ofereceu a denúncia nos seguintes termos: “o Ministério Público vem oferecer denúncia contra Maria Campos Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 48 e Antônio Lopes, pelos fatos a seguir descritos: Maria Campos, com o auxílio do agente da polícia federal Antônio Lopes, expediu diversos passaportes para crianças e adolescentes, sem observância das formalidades legais. Maria tinha a finalidade de viabilizar a saída dos menores do país. A partir da quantia de dinheiro apreendida na casa de Antônio Lopes, bem como o depósito identificado em sua conta bancária, evidente que ele recebia vantagem indevida para efetuar a liberação dos passaportes. Assim agindo, a denunciada Maria Campos está incursa nas penas do artigo 239, parágrafo Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 121 único, da Lei n. 8069/90 (Estatuto da Criança e do Adolescente), e nas penas do artigo 333, parágrafo único, c/c o artigo 69, ambos do Código Penal. Já o denunciado Antônio Lopes está incurso nas penas do artigo 239, parágrafo único, da Lei n. 8069/90 (Estatuto da Criança e do Adolescente) e nas penas do artigo 317, § 1º, c/c artigo 69, ambos do Código Penal”. O juiz da 15ª Vara Criminal de Porto Alegre, RS, recebeu a denúncia, nos seguintes termos: “compulsando os autos, verifico que há prova indiciária sufi ciente da ocorrência dos fatos descritos na denúncia e do envolvimento dos denunciados. Há justa causa para a ação penal, pelo que recebo a denúncia. Citem-se os réus, na forma da lei”. Antônio foi citado pessoalmente em 27.10.2010 (quarta-feira) e o respectivo mandado foi acostado aos autos dia 01.11.2010 (segunda-feira). Antônio contratou você como Advogado, repassando- lhe nomes de pessoas (Carlos de Tal, residente na Rua 1, n. 10, nesta capital; João de Tal, residente na Rua 4, n. 310, nesta capital; Roberta de Tal, residente na Rua 4, n. 310, nesta capital) que prestariam relevantes informações para corroborar com sua versão. Gabarito comentado • O candidato deverá redigir Resposta à Acusação endereçada ao Juiz de Direito da 15ª Vara Criminal de Porto Alegre, RS, com base nos artigos 396 e/ou 396-A do Código de Processo Penal. É indispensável a indicação do dispositivo legal que fundamenta a apresentação da peça. Peças denominadas “Defesa Previa”, “Defesa Preliminar” e “Resposta Preliminar” sem indicação do dispositivo legal não serão aceitas. Peças comfundamento simultâneo nos artigos 406 e 514 doCódigo de Processo Penal, ou em qualquer artigo de outra lei não serão aceitas. Quando se indicava os artigos 396 e/ou 396-A, as peças eram aceitas independente do nome, salvo quando também se fundamentavam no art. 514 do Código de Processo Penal ou em outro artigo não aplicável ao caso. Admitiu-se a resposta acompanhada da exceção de incompetência, pontuando- se os argumentos constantes de ambas as peças. • A primeira questão preliminar que deverá ser arguida é incompetência da Justiça Estadual para processar o feito, eis que o crime é de competência federal, nos termos do que prevê o artigo 109, V, da Constituição Federal. Relativamente a esse tema, admitiu-se também a arguição de incompetência com base no inciso IV do art. 109, da Constituição. Em ambos os casos, será considerada válida a indicação da transnacionalidade do crime ou a circunstância de ser uma acusação de crime supostamente praticado por funcionário público federal no exercício das funções e com estas relacionadas. Admite-se também a simples referência ao dispositivo da Constituição, ou até mesmo à Súmula n. 254, do extinto mas sempre Egrégio Tribunal Federal de Recursos. Não será aceita, por outro lado, a referência ao art. 109, I da Constituição nem às Súmulas 122 e/ou 147 do STJ. • A segunda questão preliminar que deverá ser arguida é nulidade na interceptação telefônica. Aqui, foram pontuados separadamente os dois argumentos para sustentar a nulidade: (a) falta de fundamentação da decisão nos termos do que disciplina o artigo 5º, da Lei n. 9.296/96 e artigo 93, IX, da Constituição da República; no mesmo sentido; (b) impossibilidade de se decretar a medida de interceptação telefônica como primeira medida investigativa, não respeitando o princípio da excepcionalidade, violando o previsto no artigo 2º, II, da Lei n. 9.296/96. Na nulidade da interceptação não se aceitará o argumento do art. 4º, acerca da Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 122 ausência de indicação de como seria implementada a medida. Também não se aceitará a nulidade decorrente da incompetência para a decretação, eis que o argumento da incompetência era objeto de pontuação específica. • A terceira questão preliminar que deverá ser arguida é a nulidade da decisão que deferiu a busca e apreensão nula, eis que genérica e sem fundamentação, fulcro no artigo 93, IX, da Constituição da República. • A quarta questão preliminar que deverá ser arguida é a nulidade da apreensão dos cinquenta mil dólares, eis que o ingresso no outro apartamento de Antônio, onde estava a quantia, não estava autorizado judicialmente. Relativamente a este ponto, era indispensável que se associasse a ilegalidade ao conceito de prova ilícita e consequentemente requerendo-se a desconsideração do dinheiro lá apreendido. • A quinta questão preliminar que deverá ser arguida é a inépcia da inicial acusatória, eis que a conduta é genérica, sem descrever as elementares do tipo de corrupção passiva e sem imputar fato determinado. Isso viola o previsto no artigo 8º, 2, ‘b’, do Decreto 678/92, o qual prevê como garantia do acusado a comunicação prévia e pormenorizada da acusação formulada. Além disso, limita o exercício do direito de defesa, em desrespeito ao previsto no artigo 5º, LV, da Constituição da República. Por fim, há violação ao artigo 41, do Código de Processo Penal. • Em relação ao crime de corrupção passiva, previsto no artigo 317, §1º, do Código Penal, o candidato deverá apontar a falta de justa causa para a ação penal. Afirmações genéricas de falta de justa causa não serão consideradas suficientes para obtenção da pontuação. Com efeito, é preciso que o candidato faça um cotejo entre o tipo penal (com seus elementos normativos, objetivos e subjetivos) e os fatos narrados no enunciado da questão. São exemplos de argumentos: não há prova suficiente de que o réu recebia vantagem indevida para a emissão de passaportes de forma irregular; não há nenhuma prova de que os passaportes fossem emitidos de forma irregular; nenhum passaporte foi apreendido ou periciado na fase de inquérito policial; não há prova de que os passaportes supostamente requeridos por Maria na ligação telefônica foram, efetivamente, emitidos; não há prova de que houve o exaurimento do crime, nos termos do que prevê o §1º do artigo 317, do Código Penal, ou seja, que Antônio tenha efetivamente praticado ato infringindo dever funcional. • No que tange ao crime previsto no artigo 239, parágrafo único, da Lei n. 8.069/90 (Estatuto da Criança e do Adolescente), não há qualquer indício da prática delituosa por parte de Antônio, eis que não há sequer referência de que ele tivesse ciência da intenção de Maria. Em outras palavras, o candidato deverá indicar que não havia consciência de que Antônio estivesse colaborando para a prática do crime supostamente praticado por Maria, inexistindo, dessa forma dolo. Assim como no caso do crime anterior, afirmações genéricas de falta de justa causa não serão consideradas suficientes para obtenção da pontuação. Com efeito, é preciso que o candidato faça um cotejo entre o tipo penal (com seus elementos normativos, objetivos e subjetivos) e os fatos narrados no enunciado da questão. Dessa forma, relativamente à atipicidade do crime do art. 239, é indispensável que o candidato apontasse a ausência de dolo ou falasse do elemento subjetivo do tipo. Argumentos relacionados exclusivamente ao nexo causal não serão considerados aptos. Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 123 • Ao final, o candidato deverá especificar provas, indicando rol de testemunhas. Os requerimentos devem ser de declaração das nulidades, absolvição sumária e, alternativamente, instrução processual com produção da prova requerida pela defesa. Para pontuar o pedido não é necessário que o candidato faça todos os pedidos constantes do gabarito, mas que seus pedidos estejam coerentes com a argumentação desenvolvida na peça. Por outro lado, se houver argumentos flagrantemente equivocados em maior número do que adequados, o pedido deixará de ser pontuado. No pedido, não foi admitida absolvição com fulcro no art. 386 e do 415 do Código de Processo Penal, já que ele trata das hipóteses de absolvição após o transcurso do processo, e não na fase de resposta. • O último dia do prazo é 08.11.2010, eis que a contagem inicia na data da intimação pessoal. Não serão aceitas datas como 06 ou 07 de novembro, pois o enunciado é claro ao especificar que a petição deveria ser protocolada no último dia do prazo, o qual se prorrogou até o dia útil subsequente. Erros como 08 de outubro e 08 de setembro (ou qualquer outra data) serão considerados insuscetíveis de pontuação. • Por fim, o gabarito não contempla nenhuma atribuição de pontuação para as argumentações relativas à: (1) ausência de notificação para apresentar resposta preliminar (art. 514, Código de Processo Penal); (2) nulidade da decisão que decretou a quebra do sigilo bancário. Também não será atribuída pontuação á simples narrativa dos fatos nem às afirmações genéricas de que não havia justa causa para a ação penal. DISTRIBUIÇÃO DE PONTOS Incompetência da Justiça Estadual. Artigo 109, V, CF. 0 / 0,75 Nulidade da decisão que decretou a interceptação telefônica como primeira medida investigatória. Artigo 2º, II, da Lei n. 9.296/96. Nulidade da decisão que decretou a interceptação telefônica sem fundamentação adequada. Basta indicar um dos seguintes dispositivos: artigo 5º, da Lei n. 9.296/96 e artigo 93, IX, da Constituição da República. 0 / 0,25 / 0,5 Nulidade da decisão que deferiu a busca e apreensão por sergenérica e sem devida fundamentação. Artigo 93, IX, da Constituição da República. 0 / 0,5 Nulidade na apreensão dos cinquenta mil dólares em endereço para o qual não havia autorização judicial. 0 / 0,5 Inépcia da denúncia, eis que genérica. Basta indicar um dos seguintes dispositivos: artigo 8º, 2, ‘b’, do Decreto 678/92, artigo 5º, LV, da Constituição da República, e artigo 41, do Código de Processo Penal 0 / 0,5 Atipicidade do artigo 239, parágrafo único, da Lei n. 8.069/90, eis que sem dolo. 0 / 0,5 Falta de justa causa para ação penal em relação ao crime previsto no artigo 317, §1º, do Código Penal. 0 / 0,75 Apresentação de requerimento de declaração de nulidades, absolvição sumária e, alternativamente, sendo instruído o feito, produção das provas em direito admitidas. 0 / 0,25 Apresentação de rol de testemunhas. 0 / 0,25 Prazo: 08/11/2010. 0 / 0,5 Prof. Arnaldo França Quaresma Junior OAB 2ª Fase 124