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PSICOTERAPIA EXISTENCIAL HUMANISTA - FENOMENOLÓGICA: 
O OLHAR PARA ALÉM DAS IMPERFEIÇÕES 
 
Luciane Patrícia Yano1 
RESUMO 
A compreensão do comportamento humano exige o aprofundamento teórico e prático em diversas 
áreas, uma vez que a pessoa encontra-se influenciada por variáveis sociais, históricas, culturais e 
biológicas. A Filosofia buscou as primeiras explicações e intervenções quanto ao comportamento e, 
a Psicologia, atualmente, apresenta-se como área que possui como foco principal atender a esta 
problemática. Desenvolver um approach ou aproximação-abordagem ideal é questão de longas 
discussões na ciência psicológica. Com isso, linhas de aproximação conhecidas como Abordagens 
teóricas foram desenvolvidas, a partir de perspectivas diferenciadas em relação ao comportamento. 
Neste contexto, este artigo teve por objetivo apresentar a abordagem Existencial Humanista-
Fenomenológica (EHF), tendo como foco principal, discutir sobre quais as características essenciais 
inerentes a esta teoria e quais aspectos foram evidenciados no caminho pela busca da melhoria da 
qualidade de vida de ambos, cliente/paciente e psicoterapeuta. Com base na literatura selecionada, 
percebeu-se na EHF a recorrência de discussões sobre responsabilidade, autenticidade, busca por 
sentido e crescimento pessoal. Ainda, discute-se que o reconhecimento do sentido de todos os 
aspectos relacionados à vivência humana, e não à busca pelas perfeições conceituais, são 
fundamentais para o crescimento pessoal. Como pontos a serem desenvolvidos sugerem-se a 
realização de estudos de casos clínicos em abordagens fundamentadas na EHF visando o 
conhecimento das implicações destas no trabalho do psicoterapeuta no atendimento individual e de 
grupos. Ainda, a utilização dos referidos conceitos em áreas além da psicoterapia, como por 
exemplo, na educação, como discussão que visaria à prevenção de atitudes que desrespeitam a 
compreensão da singularidade do outro, a partir do conhecimento dos aspectos ligados à 
autenticidade. 
Palavras-chave: Psicoterapia Existencial Humanista-Fenomenológica; Responsabilidade; 
Autenticidade; Sentido. 
ABSTRACT 
It is comprehended that the knowledge of human behavior requires the theoretical and practical 
studies in several areas considering the social, historical, cultural and biological variables. The 
philosophy sought the first explanations and interventions regarding the behavior and, nowadays, 
psychology appears as that area has focused primarily this theme. The development of satisfactory 
approach in order to access the human is a matter of long discussions in Psychological Science. In 
this way, many theoretical approaches have been developed from different perspectives regarding 
behavior. In this context, this article aims to focus on the psychotherapeutic approach called 
Existential Humanistic-Phenomenological (EHF), specially discussing about the essential matters to 
improve the quality of life of both patient/client and therapist. Based on the selected literature, the 
EHF often discussed about responsibility, search for meaning, personal growth and authenticity. Still, 
it is argued that the recognition of the direction of all aspects of the human experience, and not the 
searching for conceptual perfections are essential for personal growth. As points to be developed it 
suggests the development of case studies in clinical approaches based on EHF seeking to know the 
implications of these on the work of psychotherapist in individual and group therapies. Still, it 
suggested that the use of these concepts in areas beyond psychotherapy, for example, in education, 
can be a way to prevent attitudes that violate the understanding of the other's uniqueness, 
throughout the issues related to authenticity. 
 
Keywords: Existential Humanistic Psychotherapy; Responsibility; Authenticity; Meaning. 
 
1Psicoterapeuta e professora universitária. Especialista em Habilidades Sociais pela Miyazaki National University; M.A. e 
Ph.D. em Humanidades e Ciências Sociais pela Nagoya City University do Japão - Doutorado Psicóloga Clínica e Cultura 
pela Universidade de Brasília. Psicóloga clínica do centro de estudos e atendimentos em Psicologia Cuidar de Rio Branco 
– AC. Professora das disciplinas Psicologia Humanista Existencial-Fenomenológica, Habilidades Sociais, Psicopatologia 
e Supervisora clínica do curso de Psicologia da Faculdade da Amazônia Ocidental – FAAO, na cidade de Rio Branco – 
AC. 
INTRODUÇÃO 
Ao longo de seu 
desenvolvimento a Psicologia, pelo 
menos por ora2, sectarizou-se no 
sentido de buscar uma aproximação 
mais apropriada para explicação do 
complexo comportamento humano, o 
que gerou visões e intervenções com 
metodologias diferenciadas e, 
inevitavelmente, simplicações 
funcionais. Contudo, pode-se dizer que 
cada linha psicoterápica possui, ao 
menos, três objetivos em comum: 1. 
Conhecer o ser humano; 2. Ajudar a 
melhorar a qualidade de vida dos 
indivíduos e, 3. Aprimorar as práticas 
de atendimento. 
Dentre as três grandes escolas 
da Psicologia, 1ª - Psicanálise, 2ª - 
Teorias Comportamentais e 3ª 
Humanistas, a EHF insere-se como 
parte do terceiro movimento, baseado 
nesta Filosofia que ganhou força na 
década de 60, dentro do Zeigeist 
quanto às discussões sobre o respeito 
às diferenças, especialmente, no 
contexto dos EUA. Enquanto o 
Modernismo buscava sentido na vida 
enfatizando o que deveria ser feito, 
surgiam atitudes e mudanças não-
convencionais que insistiam no que 
não deveria ser feito. A esta força 
cultural chamou-se de Pós-modernismo 
(PARRY, 2004) e o desenvolvimento 
da EHF associa-se a estas ideias 
emergentes. 
2 É possível citar uma tendência evolutiva 
integracionista na prática psicoterapêutica, uma vez 
que a própria APA – American Psychological 
Association, considera que, alguns psicoterapeutas, 
optam por buscar uma abordagem integrativa para 
suas práticas de atendimento (APA, 2012), tomando 
como base, suas próprias concepções teóricas e 
pessoais e às necessidades do cliente/paciente. 
Ademais, considera-se que toda prática clínica em 
Psicologia é integrativa, uma vez que é possível dizer 
que nenhum psicoterapeuta adere total e rigidamente 
a uma única abordagem. 
Por esta perspectiva pode-se 
entender a EHF como linha psicológica 
que viria a atender às necessidades da 
sociedade democrática, em que o 
respeito aos direitos humanos, a 
singularidade humana em relação à 
sua etnia, cultura, gênero, religião, 
orientação sexual, etc. e à liberdade na 
expressão de ideias estão priorizados 
em oposição ao preconceito 
apresentado como conceito apriorístico 
que atrapalharia a possibilidade de 
uma experiência autêntica. 
1 PSICOTERAPIA EXISTENCIAL 
HUMANISTA-FENOMENOLÓGICA 
(EHF) 
 Partindo de um ponto base, 
define-se a EHF como modelo 
psicoterápico que pode ser seguido por 
profissionais de Psicologia em diversos 
contextos e que possui por objetivo 
como descreveu Villegas (1988), 
facilitar na pessoa do cliente um auto-
conhecimento e uma autonomia 
psicológica suficiente para que ele 
possa assumir livremente sua 
existência (VILLEGAS, 1988 apud 
TEIXEIRA, 2006, p. 289) 
 
O conceito de psicoterapia para 
a EHF vai além de um sistema de 
teorias e técnicas que objetivam curar 
transtornos mentais, mas sim, 
considera-se esta como “intervenção 
psicológica que contribui para o 
crescimento e para a transformação do 
cliente como pessoa” (TEIXEIRA, 2006, 
p. 290). 
As discussões na Psicologia 
que têm como foco iniciar a caminhada 
em direção à compreensão humana 
desenvolveram-se, fundamentalmente, 
centradas em questões do inconsciente 
ou do comportamento. A EHF defende 
como objeto de estudo a existência 
humana ou Dasein3, partindo das dúvidas 
3no pensamento de filósofo alemão Martin Heidegger 
(1889-1976), o tipo particular de existência manifesta 
nos humanos. É sua existência como Dasein que dá 
aos seres humanos acesso à questão mais ampla doser em geral, pois nosso acesso ao mundo é sempre 
através do que nossa própria existência possibilita. 
(...). (DICIONÁRIO DE PSICOLOGIA DA APA, 2010, 
p. 252). 
essenciais da humanidade: quem 
somos, de onde viemos e para onde 
vamos. Uma vez que estas perguntas 
universais não foram satisfeitas ou que 
as inúmeras teses no sentido de 
respondê-las poderiam ser fragilmente 
contestadas, a EHF toma o conflito 
inerente quanto à certeza da morte e, 
concomitantemente a isso, a incerteza 
quanto aos acontecimentos pós-morte 
como um importante ponto de partida. 
Em outras palavras, toma-se a 
fragilidade da dúvida humana frente às 
questões fundamentais como base 
para o desenvolvimento de inúmeras 
defesas, a fim de satisfazer seu 
processo adaptativo e garantir a 
qualidade de vida de si e de sua 
espécie em ligação afetiva (família, 
filhos, amigos). Neste sentido, a EHF 
frequentemente recorre ao tema morte, 
a fim de enfatizar as questões da vida. 
A EHF talvez seja a mais 
filosófica das Psicologias atuais, uma 
vez que se baseia nas correntes 
Humanista, Existencial e 
Fenomenológica da Filosofia. Esta 
abordagem inspirou-se na tradição 
filosófica que teve como base 
pensadores como Soren Kierkegaard, 
Edmund Husserl, Jean Paul Sartre e 
Friedrich Nietzsche. 
A fundamentação humanista 
apresentou, dentre várias ideias, a de 
que o homem deverá estar no centro 
das discussões. Na psicoterapia, isso 
se reflete na compreensão de que, 
mais do que um conjunto de sintomas 
manifestados, a pessoa deve ser 
compreendida e valorizada como ela é, 
com todo o potencial que, às vezes, 
mesmo sem perceber, possui. Ainda, a 
ideia do resgate ao positivo, de que 
sempre há algo que possa ser 
resgatado, levando o psicoterapeuta a 
lançar seu olhar para além das coisas 
que se manifestam na superfície. É a 
compreensão de que o ser humano 
sempre terá algo de positivo, saudável 
a ser trabalhado, mesmo que esteja 
vivenciando uma experiência 
significativamente desconfortável num 
dado momento e que o apresenta 
como um ser aparentemente 
fragilizado. O psicoterapeuta possui, 
nesta perspectiva, o importante papel 
de aprender a perceber quais pontos 
encontram-se saudáveis, fortalecidos 
na pessoa. Em outras palavras, o 
psicoterapeuta deverá enxergar além. 
A fundamentação 
existencialista na psicoterapia de 
orientação EHF apresenta-se em 
questões como a tomada da 
responsabilidade e o usufruto de 
liberdade com responsabilidade (como 
veremos adiante), bem como, na 
compreensão da má fé4 como 
mecanismo de defesa com objetivo de 
fugir da responsabilidade inerente ao 
existir. 
Da fenomenologia a 
psicoterapia de base EHF apropriou-se 
do método de acesso à verdade. 
Considerando a manifestação dos 
conteúdos trazidos pelo 
cliente/paciente como fenômenos ou 
problemas que necessitam ser 
trabalhados, pois, tudo possui um 
sentido para aquele que o experiencia. 
Da redução fenomenológica a 
valorização do como em detrimento de 
um por que causal e reducionista que 
exclui da pessoa a responsabilidade 
pela própria vida, uma vez que esta 
passa a ter um recurso que reforça 
mecanismos defensivos contra a 
4negação do indivíduo de sua liberdade como ser 
humano ou relutância em aceitar a natureza 
indeterminada e não forçada de suas ações. Isso 
frequentemente envolve a negação da 
responsabilidade pelas consequências das próprias 
ações e escolhas ou a ocultação intencional da 
verdade para si mesmo. [...]. (DICIONÁRIO DE 
PSICOLOGIA DA APA, 2010, p. 570). 
 
apropriação da responsabilidade. A 
questão colocada em evidência aqui 
não é o por que se faz, mas em como 
se faz. Não é por que se disse, mas 
como foi dito ou para que foi dito. O 
processo, e não a causa ou, por outro 
lado, o resultado, é priorizado. 
São exemplos de psicoterapias 
EHF a Gestalt-Terapia, a Centrada da 
Pessoa, a Psicologia Narrativa, a 
Psicologia Positiva, a Logoterapia, a 
Interpessoal, dentre outras. 
O psicólogo estadunidense 
Rollo May (1909-1994) foi um dos 
maiores difusores da EHF, 
principalmente, no que se refere aos 
princípios existencialistas dessa linha. 
Rollo May ao introduzir a psicoterapia 
existencial nos EUA apresentou o 
modelo de ansiedade a que denominou 
de ansiedade neurótica, em que a 
pessoa negaria o medo da morte, o 
medo da liberdade de escolha, 
adotando um padrão 
predominantemente conformista em 
relação às normas sociais impostas. 
Neste caso, a regulação do 
comportamento por normas sociais 
atuaria como mecanismo defensivo 
contra a assunção da responsabilidade. 
A pessoa justificaria suas ações e 
tenderia a procrastinação como 
resultado do acúmulo da ansiedade. A 
ansiedade neurótica, nesta 
compreensão, poderia ser entendida 
como um vazio existencial. Para Rollo 
May a proposta da psicoterapia é 
deixar a pessoa livre para realizar seu 
projeto de vida ou projeto de mundo5 e 
5 a visão de mundo de uma pessoa ou sua orientação 
fundamental para a vida: seu modo essencial de SER-
NO-MUNDO. O termo e conceito se originam do 
trabalho do psiquiatra suíço Ludwig Binswanger 
(1881-1966). O projeto de mundo de uma pessoa 
inclui a forma como aquela pessoa integra a totalidade 
de sua personalidade com o mundo à medida que ela 
o vivencia. O entendimento de projeto de mundo de 
uma pessoa é fundamental para entender a pessoa. 
(DICIONÁRIO DE PSICOLOGIA DA APA, 2010, p. 
746). 
de crescimento pessoal. Assim, 
consistiria num primeiro passo para o 
crescimento pessoal, a aceitação da 
responsabilidade. 
2 RESPONSABILIDADE e 
AUTENTICIDADE 
A assunção da responsabilidade 
na EHF é parte importante da influência 
existencialista nesta corrente. A 
assunção da responsabilidade prevê 
que se deve separar o que é de si e o 
que é do outro, compreendendo o 
problema pela perspectiva refletida do 
que é seu e do que é a busca por uma 
realização conceitual. Quem sou eu? O 
que eu busco? Para que o busco? 
Tenho necessidade de responder a um 
conceito ou este é meu desejo 
refletido? Necessito da aprovação dos 
outros ou me sinto realizado ao 
executar estas ações as quais 
considero minhas ações? Qual o 
sentido que esta ação tem para mim? 
Esta prática não se desconecta do 
sentido social adaptativo, e nem, muito 
menos, leva a uma vivência 
egocentrada, uma vez que atribui a 
responsabilidade pela liberdade 
usufruída. O outro não é excluído. Ele é 
apenas separado de si mesmo, a fim 
de encontrar o eu autêntico. Ao 
contrário, nesta separação é possível 
compreender com mais clareza as 
características singulares do outro ou 
da experiência em questão. Este 
pensamento correlaciona-se à Teoria 
Paradoxal da Mudança, em que, para 
que a pessoa possa crescer 
existencialmente, ela precisa tornar-se 
ela mesma, como descreveu Tellegen, 
[...] mudar é tornar-se o eu já é; o árido 
é fértil; não tentar dominar uma dor 
pela supressão, mas acompanhá-la 
atentamente, é um meio para não ser 
dominado por ela; permanecendo no 
vazio, encontra-se o pleno; o momento 
do caos prenuncia uma nova 
ordenação desde que não se tente 
impor ordem (TELLEGEN, 1984 apud 
GIORDANE, 2008, p.22). 
 
Embora o ser humano não seja 
responsável por todas as condições 
apresentadas à sua própria existência, 
este pode escolher como reagir a tais 
acontecimentos, a partir da consciência 
de que é livre e responsável por seus 
atos (GLASS E JACKSON, 2008), ao 
contrário de assumir postura lamuriosa 
e defensiva em relação à situação em 
que se encontra. Nas palavras de Jean 
Paul Sartre: “não importa o que fizeram 
de mim. O que importa é o que eu faço 
do que fizeram de mim”. 
Responsabilidade só pode ser 
assumida pela própria pessoa e não 
doada por alguém. Por outro lado, 
quando assumimos a responsabilidade 
de outra pessoa, impedimo-la de 
vivenciar seu próprio crescimento. 
Autenticidade resulta da aceitação 
humana da responsabilidadeem 
controlar sua própria vida, tomando 
decisões baseadas em valores que 
foram determinados pela própria 
pessoa consciente sobre si (BAUMAN 
E WALDO apud GLASS E JACKSON, 
2008). Todavia, esta percepção pode 
ser dolorosa e muitos mecanismos 
defensivos podem ser manifestados. 
 
[...] O deslocamento da 
responsabilidade para outra pessoa, 
onde muitas vezes o psicoterapeuta 
também costuma ser objeto desse 
deslocamento, está a serviço da 
diminuição da angústia, onde a 
explicação de sentimentos, desejos e 
eventos é atribuída a fatores alheios ao 
indivíduo. Os indivíduos com 
tendências paranóicas são mestres 
nesse quesito, em projetar seus 
sentimentos a outros indivíduos ou 
circunstâncias; as pessoas com 
distúrbios psicossomáticos também, e 
assim como os primeiros, têm 
dificuldade em perceber sua 
responsabilidade frente a seus 
padecimentos, defendendo-se através 
da atribuição de seus males a fatores 
alheios a si próprios (CABRAL, 2011, 
p.6). 
 
Tornar-se responsável é tornar-
se livre para escolher, inclusive, que é 
possível o desapego das velhas 
lembranças a que sente desconforto e 
dor. 
Considera-se ainda que a fala 
na 1ª pessoa é um passo importante a 
caminho da autenticidade. Isto refere-
se a falar de conceitos, desejos e 
sensações na voz ativa e não à 
atribuição da responsabilidade ao outro 
ou às circunstâncias. 
 
FIGURA 1: Falando na 1a pessoa 
 
Fonte: Adaptado de SINAY (1997, p. 96). 
[tradução do autor] 
 
Ao assumir a responsabilidade 
por seus pensamentos e ações a 
pessoa estaria mais preparada para 
sentir, o que o levaria a existir de forma 
autêntica, uma vez que a vivência 
baseada na satisfação de conceitos 
tende a levar a pessoa à perda do 
sentido. Como citou Lange (2004): 
As pessoas me criticam e 
me ignoram... 
Eu me sinto criticado e 
ignorado pelas 
pessoas. 
 
[...]. Vou em busca de mim mesmo; 
vou encontrar minha autenticidade e 
meu autorrespeito. A síntese dessas 
experiências erguerão minha 
autoestima, que é onde vive a minha 
alma [tradução do autor] (LANGE, 
2004, p. 34). 
E assim, somos constituídos por 
nossas escolhas, e nossas escolhas 
são constituídas por nossa liberdade 
em fazê-las (MONTEIRO, 2009). A 
realização do eu autêntico requer 
consciência sobre as ideias pré-
concebidas e sobre a própria 
responsabilidade, constituindo-se em 
uma pessoa melhor preparada para 
criar seu próprio Horizonte (GADAMER 
apud JAMES E FOSTER, 2004, p. 98) 
ou sentido de vida. 
3 A BUSCA POR UM SENTIDO 
A busca por um sentido é outro 
tema recorrente nos estudos sobre a 
EHF. Para Vitor Frankl sentido é o que 
move nossa vida (FRANKL, 1967 apud 
LEONTIEV, 2008, p.1). A ausência de 
sentido correlaciona-se, linearmente, 
ao desenvolvimento de psicopatologias 
(YALOM, 1984). O sentido atuaria 
como regulador do comportamento, a 
partir de uma realidade subjetiva, sem 
desconsiderar, obviamente, as 
variáveis socioculturais que atuam 
neste. 
A EHF compreende que “a vida 
não é promessa de felicidade, mas a 
possibilidade de encontrar um sentido” 
(FRANKL, 1992 apud PIRTLE E 
PLATA, 2008, p.1). O sentido advém 
do resultado da experiência da pessoa 
e suas ações. Na psicoterapia de base 
EHF encoraja-se a compreensão de 
que o cliente/paciente é responsável 
pelo sentido que atribuiu à sua vida. 
Assim, o sofrimento humano é 
resultante do como a pessoa escolheu 
responder ao sofrimento do que ao 
sofrimento em si (KOENIG, 2008). 
A descoberta do sentido é fator 
importante que impulsiona a motivação 
humana (GLASS E JACKSON, 2008) 
e, o produto da psicoterapia não é a 
felicidade, mas a busca por um sentido 
autêntico. 
Ainda, entende-se que, na 
busca pelo sentido, a pessoa poderá 
recorrer a vários meios. A religião é um 
deles. O psicólogo existencialista Paul 
Wong (WONG, 1998 apud ARDELT 
2008), descreveu a religião como forma 
de dar sentido à vida e à morte. Ter um 
profundo senso de uma vida única a 
ser significada pode encorajar uma vida 
focada em metas importantes 
(ARDELT, 2008). 
O sentido descrito nos estudos 
da EHF relaciona-se diretamente à 
consciência da brevidade da vida. 
Conscientes desta brevidade, o 
presente se torna importante. Não o 
passado com suas lembranças mal 
utilizadas no presente; não o futuro na 
perspectiva ansiogênica de que se tem 
que estar preparado para. 
Simplesmente o presente. Viver o 
presente com responsabilidade é 
preparar-se, aproveitando o processo, 
autenticamente, para o futuro. E, 
pessoas autênticas, estariam munidas 
satisfatoriamente para implementar as 
mudanças que compreendessem como 
necessárias e, de preferência, 
desejadas, em sua vida. 
A vivência do presente, de 
maneira responsável, correlaciona-se a 
um estado em que a pessoa está com 
o outro e não para o outro. É dizer que 
se permita viver as experiências como 
um todo, incluindo, essencialmente, as 
relações interpessoais, ao invés de 
manter-se nas expectativas das 
afagadas satisfações construídas em 
si. 
4 REQUISITOS PARA O 
PSICOTERAPEUTA EXISTENCIAL 
Em se tratando dos requisitos 
para a atuação como psicoterapeuta da 
EHF, um dos pontos mais importantes 
é a autenticidade do próprio 
psicoterapeuta. Ser autêntico não está 
ligado à perfeição – aqui mais uma vez 
citada. A perfeição está na 
compreensão dos aspectos imperfeitos 
das pessoas e a desenvolver o olhar 
para sentir além das imperfeições. O 
psicoterapeuta é um profissional falível 
e, como tal, dá ao paciente o direito de 
ser também um ser humano com 
falhas. 
 O psicoterapeuta possui, na 
perspectiva humanista, o papel de 
desenvolver a sensibilidade para 
perceber quais pontos encontram-se 
saudáveis, fortalecidos na pessoa. Esta 
ação, aparentemente simples, pode ser 
muito mais complexa do que se 
imagina, uma vez que o olhar humano 
dentro da sociedade tende a apontar os 
aspectos negativos, e não os positivos, 
de uma dada experiência. Por exemplo, 
o conceito de sucesso como algo 
positivo, contrapõe-se ao fracasso que 
tende a ser visto como algo negativo. 
Os noticiários tendem a enfatizar os 
eventos negativos da sociedade. O 
diferencial aqui está em treinar o olhar 
para os aspectos positivos que podem 
ser trabalhados na pessoa. Em outras 
palavras, aprender ou evoluir o olhar 
que alcance o homem além de suas 
imperfeições aparentes. Para isso é 
fundamental que as ações do 
psicoterapeuta baseiem-se no amor 
incondicional, traduzido na 
compreensão deste em relação ao 
cliente/paciente, a partir da suspensão 
das pré-concepções6 que o mesmo 
desenvolveu ao longo de sua vida, para 
6 crença ou expectativa relacionada a algum OBJETO 
DA ATITUDE que é mantida antes que informações 
substanciais sobre o objeto sejam obtidas 
(DICIONÁRIO DE PSICOLOGIA DA APA, 2010, p. 
723). 
 
assim, set clients free, ou, deixar o 
cliente livre (SCHNEIDER E KRUG, 
2010, p. 30). 
Ainda, a noção de olhar para 
além das imperfeições associa-se à 
transcendência, a enxergar além do 
fenômeno trazido pelo cliente/paciente, 
como na fala de Bertold Brecht: “você 
chama de violentas as águas de um rio 
que tudo arrastam, mas não chama de 
violentas as margens que as oprimem”. 
Há sempre algo a transcender. A 
sempre um ponto que o olhar não 
alcançou. 
Outro ponto fundamental para a 
realização do trabalho de 
psicoterapeuta da EHF é a capacidade 
para tolerar incertezas (YALOM, 1989 
apud SCHNEIDER E KRUG, 2010). O 
processo psicoterápico não está para 
atender às expectativas do 
psicoterapeuta; mas está com este 
enquanto processo a ser experienciado 
evitando assim, a contaminação da 
psicoterapia pelas projeções do 
psicoterapeuta e a possibilidade de 
desenvolvimento de um encontro 
existencial genuíno. 
Por final, faz-se necessário que 
o psicoterapeuta vivencie, que tome 
para si os preceitos filosóficos 
fundamentais. Caso este não concorde 
com os pensamentosda Filosofia de 
base, provavelmente, não crescerá 
como profissional da EHF, uma vez 
que esta consiste muito mais em uma 
maneira de existir, do que um conjunto 
teórico-técnico para ser aplicado. A 
EHF baseia-se no princípio de que se 
viva a teoria e não apenas que se fale 
dela. Neste caso, o sentir, no todo, é 
mais importante do que apenas falar. 
5 PSICOTERAPIA COMO 
CRESCIMENTO PESSOAL DE 
PSICOTERAPEUTA E CLIENTE 
As intervenções de base EHF 
são dirigidas muito mais ao ser do que 
ao fazer em psicoterapia. É 
fundamental ao psicoterapeuta que 
este não traga para a sessão questões 
pré-determinadas que possam 
atrapalhar o acolhimento do 
cliente/paciente. Ainda, estas 
fundamentam-se na relação que ocorre 
entre cliente/paciente e psicoterapeuta 
no processo psicoterápico. 
Para conhecer a existência 
humana questiona-se sobre quem é a 
pessoa? Qual seu projeto de vida? O 
que ela faz de suas lembranças? Quais 
as defesas, proteções – ou desculpas 
(má fé), utilizadas por ela na 
manutenção de sua vivência 
inautêntica? 
Simone de Beauvoir descreveu 
que “não há nada mais arbitrário que 
intervir num destino que não é nosso” 
(BEAUVOIR, 1948, p. 86). Este 
pensamento correlaciona-se ao 
encontro existencial que ocorre na 
psicoterapia de base EHF, visto que o 
psicoterapeuta apresenta-se como um 
facilitador da tomada de consciência do 
cliente/paciente e não alguém que 
orienta, no sentido de dar respostas 
prontas, projetando-se naquele que o 
buscou. 
Percebe-se a importância de 
desenvolver um olhar que ultrapasse 
os limites impostos, pela própria 
pessoa, quanto às dificuldades e/ou 
transtornos apresentados por aquele 
que está adoecido, fragilizado ou que 
deseja aproveitar-se dos instrumentos 
psicoterápicos como um meio de 
crescimento pessoal. A perfeição – ou 
um modelo de perfeição, não consiste 
em meta a ser atingida na psicoterapia. 
Não existem padrões a serem imitados. 
Pode-se ter, por escolha da pessoa, 
modos de viver que se decidiu, 
autenticamente, viver. Neste sentido 
busca-se a compreensão dos pontos 
que sinalizam expectativas irracionais, 
conceituais da pessoa e que são por 
estas utilizadas como forma de 
adaptar-se à vida de forma não 
autêntica e, portanto, com pouco 
crescimento pessoal e sensação de 
vazio existencial. Ao perceber isso, ao 
tornar-se conhecedor de si mesmo, a 
pessoa elimina – ou diminui, as 
expectativas não autênticas de si e 
assim poderá envolver-se muito mais 
energicamente em suas experiências. 
Deste modo, reforça-se - o processo 
passa a ser mais importante que o 
resultado. No sentido mais amplo, o 
resultado, para todos, inevitavelmente, 
é a morte. Em outras palavras, ciente 
da certeza da morte, pode-se dizer que 
se aceita, inexoravelmente, a vida, ou 
seja, o processo. Esta tese opõe-se às 
atribuições de que a EHF, ao tomar 
como base parte importante do 
pensamento existencialista, 
apresentaria uma perspectiva niilista ou 
pessimista em relação à vida. Ao 
contrário, a EHF defende: não fujas de 
sentir a vida. Viva-a como ela se 
manifesta no presente, com seus 
prazeres e desprazeres, pois, fugir da 
vida não levará o indivíduo, 
necessariamente, a não morte e o 
afastará da possibilidade de viver uma 
existência plena, cheia de imperfeições 
autênticas. 
O psicoterapeuta não está ali 
para interpretar o cliente/paciente, mas 
está totalmente ali em referência à 
compreensão holística do encontro 
terapêutico. Neste processo crescem 
ambos, cliente/paciente e 
psicoterapeuta. 
O cliente/paciente possui 
sentido holístico e está em relação com 
o todo. Neste sentido, todo o meio 
relacional é considerado foco do 
processo psicoterápico. A qualidade da 
presença facilitada pelas ações e, 
principalmente, pela escuta acolhedora 
do psicoterapeuta, darão sentido à 
terapia. O processo psicoterápico foca-
se nas experiências da pessoa no 
presente, e, alcança, no processo, 
efeito em ambos, psicoterapeuta e 
cliente/paciente. Neste aspecto, 
concebendo a relação paritária, na qual 
não há o maior conhecedor de si do 
que a própria pessoa, o encontro 
terapêutico é processo de crescimento 
pessoal para todos os participantes. 
Em outras palavras, é dizer que, 
embora com ênfase naquele que 
buscou ajuda, a psicoterapia provoca 
mudanças, inevitáveis, no 
psicoterapeuta que terá, assim como o 
cliente/paciente a oportunidade de 
tomar para si todas as experiências, 
inclusive as que possam ser 
desagradáveis, como possibilidade de 
crescimento. 
CONCLUSÃO 
Conclui-se que a EHF 
caracteriza-se por um modelo de 
aproximação psicoterápica que atribui 
ao homem a responsabilidade por sua 
existência, direcionando-o ao alcance 
de sua autenticidade. Ainda, 
compreende-se o comportamento 
humano em seu conceito holístico e 
existencial, a partir do sentido que a 
pessoa atribui a sua própria existência. 
E que a psicoterapia com base na EHF 
apresenta-se como um convite à 
pessoa para apropriação de sua 
própria vida. 
Como na canção Dare you to 
move da banda Switchfoot, na EHF, o 
psicoterapeuta lançará ao 
cliente/paciente “o desafio de se 
movimentar” diante das questões de 
sua vida. Se a responsabilidade é o 
primeiro passo, a autenticidade - e não 
a felicidade, é fim a ser alcançado. 
Compreende-se que o indivíduo 
autêntico poderá fazer escolhas mais 
saudáveis e vivenciar sua existência 
dentro de perspectivas realísticas e 
imperfeitas, ao invés de viver pela 
busca do resultado que esteja 
perfeitamente ligado a, como 
pressupôs em suas fantasias, que 
assim o seria ou, ainda, na visão 
introjetiva dos tenho que. 
Ademais, na EHF discute-se 
que o reconhecimento do sentido de 
todos os aspectos relacionados à 
vivência humana, e não à busca pelas 
perfeições conceituais, são 
fundamentais para o crescimento 
pessoal. E, por final, que o requisito 
principal para atuação na área é a 
vivência da Filosofia escolhida. 
Sugere-se o desenvolvimento 
de estudo de casos clínicos na área, a 
fim de aprofundar as implicações 
práticas da EHF na psicoterapia, e, que 
os pensamentos contidos na EHF 
podem ser utilizados em outras áreas 
que estão além da psicoterapia, como 
por exemplo, na educação, como 
discussão que visaria à prevenção de 
atitudes que desrespeitem a 
compreensão da singularidade do 
outro, a partir do conhecimento dos 
aspectos ligados à autenticidade. 
Deste modo, a psicoterapia EHF 
tende a tornar-se cada vez mais 
relevante como fundamentação teórica 
que poderá atender a inúmeras 
demandas atuais, partindo do princípio 
da compreensão da vida como algo 
instável, em que condicionamentos e 
manuais práticos em demasia podem 
prejudicar o desenvolvimento da 
autenticidade, bloqueando o contato 
humano dos riscos, frustrações e 
falhas, mecanismos estes, 
fundamentais para o crescimento 
humano. 
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