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PSICOTERAPIA EXISTENCIAL HUMANISTA - FENOMENOLÓGICA: O OLHAR PARA ALÉM DAS IMPERFEIÇÕES Luciane Patrícia Yano1 RESUMO A compreensão do comportamento humano exige o aprofundamento teórico e prático em diversas áreas, uma vez que a pessoa encontra-se influenciada por variáveis sociais, históricas, culturais e biológicas. A Filosofia buscou as primeiras explicações e intervenções quanto ao comportamento e, a Psicologia, atualmente, apresenta-se como área que possui como foco principal atender a esta problemática. Desenvolver um approach ou aproximação-abordagem ideal é questão de longas discussões na ciência psicológica. Com isso, linhas de aproximação conhecidas como Abordagens teóricas foram desenvolvidas, a partir de perspectivas diferenciadas em relação ao comportamento. Neste contexto, este artigo teve por objetivo apresentar a abordagem Existencial Humanista- Fenomenológica (EHF), tendo como foco principal, discutir sobre quais as características essenciais inerentes a esta teoria e quais aspectos foram evidenciados no caminho pela busca da melhoria da qualidade de vida de ambos, cliente/paciente e psicoterapeuta. Com base na literatura selecionada, percebeu-se na EHF a recorrência de discussões sobre responsabilidade, autenticidade, busca por sentido e crescimento pessoal. Ainda, discute-se que o reconhecimento do sentido de todos os aspectos relacionados à vivência humana, e não à busca pelas perfeições conceituais, são fundamentais para o crescimento pessoal. Como pontos a serem desenvolvidos sugerem-se a realização de estudos de casos clínicos em abordagens fundamentadas na EHF visando o conhecimento das implicações destas no trabalho do psicoterapeuta no atendimento individual e de grupos. Ainda, a utilização dos referidos conceitos em áreas além da psicoterapia, como por exemplo, na educação, como discussão que visaria à prevenção de atitudes que desrespeitam a compreensão da singularidade do outro, a partir do conhecimento dos aspectos ligados à autenticidade. Palavras-chave: Psicoterapia Existencial Humanista-Fenomenológica; Responsabilidade; Autenticidade; Sentido. ABSTRACT It is comprehended that the knowledge of human behavior requires the theoretical and practical studies in several areas considering the social, historical, cultural and biological variables. The philosophy sought the first explanations and interventions regarding the behavior and, nowadays, psychology appears as that area has focused primarily this theme. The development of satisfactory approach in order to access the human is a matter of long discussions in Psychological Science. In this way, many theoretical approaches have been developed from different perspectives regarding behavior. In this context, this article aims to focus on the psychotherapeutic approach called Existential Humanistic-Phenomenological (EHF), specially discussing about the essential matters to improve the quality of life of both patient/client and therapist. Based on the selected literature, the EHF often discussed about responsibility, search for meaning, personal growth and authenticity. Still, it is argued that the recognition of the direction of all aspects of the human experience, and not the searching for conceptual perfections are essential for personal growth. As points to be developed it suggests the development of case studies in clinical approaches based on EHF seeking to know the implications of these on the work of psychotherapist in individual and group therapies. Still, it suggested that the use of these concepts in areas beyond psychotherapy, for example, in education, can be a way to prevent attitudes that violate the understanding of the other's uniqueness, throughout the issues related to authenticity. Keywords: Existential Humanistic Psychotherapy; Responsibility; Authenticity; Meaning. 1Psicoterapeuta e professora universitária. Especialista em Habilidades Sociais pela Miyazaki National University; M.A. e Ph.D. em Humanidades e Ciências Sociais pela Nagoya City University do Japão - Doutorado Psicóloga Clínica e Cultura pela Universidade de Brasília. Psicóloga clínica do centro de estudos e atendimentos em Psicologia Cuidar de Rio Branco – AC. Professora das disciplinas Psicologia Humanista Existencial-Fenomenológica, Habilidades Sociais, Psicopatologia e Supervisora clínica do curso de Psicologia da Faculdade da Amazônia Ocidental – FAAO, na cidade de Rio Branco – AC. INTRODUÇÃO Ao longo de seu desenvolvimento a Psicologia, pelo menos por ora2, sectarizou-se no sentido de buscar uma aproximação mais apropriada para explicação do complexo comportamento humano, o que gerou visões e intervenções com metodologias diferenciadas e, inevitavelmente, simplicações funcionais. Contudo, pode-se dizer que cada linha psicoterápica possui, ao menos, três objetivos em comum: 1. Conhecer o ser humano; 2. Ajudar a melhorar a qualidade de vida dos indivíduos e, 3. Aprimorar as práticas de atendimento. Dentre as três grandes escolas da Psicologia, 1ª - Psicanálise, 2ª - Teorias Comportamentais e 3ª Humanistas, a EHF insere-se como parte do terceiro movimento, baseado nesta Filosofia que ganhou força na década de 60, dentro do Zeigeist quanto às discussões sobre o respeito às diferenças, especialmente, no contexto dos EUA. Enquanto o Modernismo buscava sentido na vida enfatizando o que deveria ser feito, surgiam atitudes e mudanças não- convencionais que insistiam no que não deveria ser feito. A esta força cultural chamou-se de Pós-modernismo (PARRY, 2004) e o desenvolvimento da EHF associa-se a estas ideias emergentes. 2 É possível citar uma tendência evolutiva integracionista na prática psicoterapêutica, uma vez que a própria APA – American Psychological Association, considera que, alguns psicoterapeutas, optam por buscar uma abordagem integrativa para suas práticas de atendimento (APA, 2012), tomando como base, suas próprias concepções teóricas e pessoais e às necessidades do cliente/paciente. Ademais, considera-se que toda prática clínica em Psicologia é integrativa, uma vez que é possível dizer que nenhum psicoterapeuta adere total e rigidamente a uma única abordagem. Por esta perspectiva pode-se entender a EHF como linha psicológica que viria a atender às necessidades da sociedade democrática, em que o respeito aos direitos humanos, a singularidade humana em relação à sua etnia, cultura, gênero, religião, orientação sexual, etc. e à liberdade na expressão de ideias estão priorizados em oposição ao preconceito apresentado como conceito apriorístico que atrapalharia a possibilidade de uma experiência autêntica. 1 PSICOTERAPIA EXISTENCIAL HUMANISTA-FENOMENOLÓGICA (EHF) Partindo de um ponto base, define-se a EHF como modelo psicoterápico que pode ser seguido por profissionais de Psicologia em diversos contextos e que possui por objetivo como descreveu Villegas (1988), facilitar na pessoa do cliente um auto- conhecimento e uma autonomia psicológica suficiente para que ele possa assumir livremente sua existência (VILLEGAS, 1988 apud TEIXEIRA, 2006, p. 289) O conceito de psicoterapia para a EHF vai além de um sistema de teorias e técnicas que objetivam curar transtornos mentais, mas sim, considera-se esta como “intervenção psicológica que contribui para o crescimento e para a transformação do cliente como pessoa” (TEIXEIRA, 2006, p. 290). As discussões na Psicologia que têm como foco iniciar a caminhada em direção à compreensão humana desenvolveram-se, fundamentalmente, centradas em questões do inconsciente ou do comportamento. A EHF defende como objeto de estudo a existência humana ou Dasein3, partindo das dúvidas 3no pensamento de filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976), o tipo particular de existência manifesta nos humanos. É sua existência como Dasein que dá aos seres humanos acesso à questão mais ampla doser em geral, pois nosso acesso ao mundo é sempre através do que nossa própria existência possibilita. (...). (DICIONÁRIO DE PSICOLOGIA DA APA, 2010, p. 252). essenciais da humanidade: quem somos, de onde viemos e para onde vamos. Uma vez que estas perguntas universais não foram satisfeitas ou que as inúmeras teses no sentido de respondê-las poderiam ser fragilmente contestadas, a EHF toma o conflito inerente quanto à certeza da morte e, concomitantemente a isso, a incerteza quanto aos acontecimentos pós-morte como um importante ponto de partida. Em outras palavras, toma-se a fragilidade da dúvida humana frente às questões fundamentais como base para o desenvolvimento de inúmeras defesas, a fim de satisfazer seu processo adaptativo e garantir a qualidade de vida de si e de sua espécie em ligação afetiva (família, filhos, amigos). Neste sentido, a EHF frequentemente recorre ao tema morte, a fim de enfatizar as questões da vida. A EHF talvez seja a mais filosófica das Psicologias atuais, uma vez que se baseia nas correntes Humanista, Existencial e Fenomenológica da Filosofia. Esta abordagem inspirou-se na tradição filosófica que teve como base pensadores como Soren Kierkegaard, Edmund Husserl, Jean Paul Sartre e Friedrich Nietzsche. A fundamentação humanista apresentou, dentre várias ideias, a de que o homem deverá estar no centro das discussões. Na psicoterapia, isso se reflete na compreensão de que, mais do que um conjunto de sintomas manifestados, a pessoa deve ser compreendida e valorizada como ela é, com todo o potencial que, às vezes, mesmo sem perceber, possui. Ainda, a ideia do resgate ao positivo, de que sempre há algo que possa ser resgatado, levando o psicoterapeuta a lançar seu olhar para além das coisas que se manifestam na superfície. É a compreensão de que o ser humano sempre terá algo de positivo, saudável a ser trabalhado, mesmo que esteja vivenciando uma experiência significativamente desconfortável num dado momento e que o apresenta como um ser aparentemente fragilizado. O psicoterapeuta possui, nesta perspectiva, o importante papel de aprender a perceber quais pontos encontram-se saudáveis, fortalecidos na pessoa. Em outras palavras, o psicoterapeuta deverá enxergar além. A fundamentação existencialista na psicoterapia de orientação EHF apresenta-se em questões como a tomada da responsabilidade e o usufruto de liberdade com responsabilidade (como veremos adiante), bem como, na compreensão da má fé4 como mecanismo de defesa com objetivo de fugir da responsabilidade inerente ao existir. Da fenomenologia a psicoterapia de base EHF apropriou-se do método de acesso à verdade. Considerando a manifestação dos conteúdos trazidos pelo cliente/paciente como fenômenos ou problemas que necessitam ser trabalhados, pois, tudo possui um sentido para aquele que o experiencia. Da redução fenomenológica a valorização do como em detrimento de um por que causal e reducionista que exclui da pessoa a responsabilidade pela própria vida, uma vez que esta passa a ter um recurso que reforça mecanismos defensivos contra a 4negação do indivíduo de sua liberdade como ser humano ou relutância em aceitar a natureza indeterminada e não forçada de suas ações. Isso frequentemente envolve a negação da responsabilidade pelas consequências das próprias ações e escolhas ou a ocultação intencional da verdade para si mesmo. [...]. (DICIONÁRIO DE PSICOLOGIA DA APA, 2010, p. 570). apropriação da responsabilidade. A questão colocada em evidência aqui não é o por que se faz, mas em como se faz. Não é por que se disse, mas como foi dito ou para que foi dito. O processo, e não a causa ou, por outro lado, o resultado, é priorizado. São exemplos de psicoterapias EHF a Gestalt-Terapia, a Centrada da Pessoa, a Psicologia Narrativa, a Psicologia Positiva, a Logoterapia, a Interpessoal, dentre outras. O psicólogo estadunidense Rollo May (1909-1994) foi um dos maiores difusores da EHF, principalmente, no que se refere aos princípios existencialistas dessa linha. Rollo May ao introduzir a psicoterapia existencial nos EUA apresentou o modelo de ansiedade a que denominou de ansiedade neurótica, em que a pessoa negaria o medo da morte, o medo da liberdade de escolha, adotando um padrão predominantemente conformista em relação às normas sociais impostas. Neste caso, a regulação do comportamento por normas sociais atuaria como mecanismo defensivo contra a assunção da responsabilidade. A pessoa justificaria suas ações e tenderia a procrastinação como resultado do acúmulo da ansiedade. A ansiedade neurótica, nesta compreensão, poderia ser entendida como um vazio existencial. Para Rollo May a proposta da psicoterapia é deixar a pessoa livre para realizar seu projeto de vida ou projeto de mundo5 e 5 a visão de mundo de uma pessoa ou sua orientação fundamental para a vida: seu modo essencial de SER- NO-MUNDO. O termo e conceito se originam do trabalho do psiquiatra suíço Ludwig Binswanger (1881-1966). O projeto de mundo de uma pessoa inclui a forma como aquela pessoa integra a totalidade de sua personalidade com o mundo à medida que ela o vivencia. O entendimento de projeto de mundo de uma pessoa é fundamental para entender a pessoa. (DICIONÁRIO DE PSICOLOGIA DA APA, 2010, p. 746). de crescimento pessoal. Assim, consistiria num primeiro passo para o crescimento pessoal, a aceitação da responsabilidade. 2 RESPONSABILIDADE e AUTENTICIDADE A assunção da responsabilidade na EHF é parte importante da influência existencialista nesta corrente. A assunção da responsabilidade prevê que se deve separar o que é de si e o que é do outro, compreendendo o problema pela perspectiva refletida do que é seu e do que é a busca por uma realização conceitual. Quem sou eu? O que eu busco? Para que o busco? Tenho necessidade de responder a um conceito ou este é meu desejo refletido? Necessito da aprovação dos outros ou me sinto realizado ao executar estas ações as quais considero minhas ações? Qual o sentido que esta ação tem para mim? Esta prática não se desconecta do sentido social adaptativo, e nem, muito menos, leva a uma vivência egocentrada, uma vez que atribui a responsabilidade pela liberdade usufruída. O outro não é excluído. Ele é apenas separado de si mesmo, a fim de encontrar o eu autêntico. Ao contrário, nesta separação é possível compreender com mais clareza as características singulares do outro ou da experiência em questão. Este pensamento correlaciona-se à Teoria Paradoxal da Mudança, em que, para que a pessoa possa crescer existencialmente, ela precisa tornar-se ela mesma, como descreveu Tellegen, [...] mudar é tornar-se o eu já é; o árido é fértil; não tentar dominar uma dor pela supressão, mas acompanhá-la atentamente, é um meio para não ser dominado por ela; permanecendo no vazio, encontra-se o pleno; o momento do caos prenuncia uma nova ordenação desde que não se tente impor ordem (TELLEGEN, 1984 apud GIORDANE, 2008, p.22). Embora o ser humano não seja responsável por todas as condições apresentadas à sua própria existência, este pode escolher como reagir a tais acontecimentos, a partir da consciência de que é livre e responsável por seus atos (GLASS E JACKSON, 2008), ao contrário de assumir postura lamuriosa e defensiva em relação à situação em que se encontra. Nas palavras de Jean Paul Sartre: “não importa o que fizeram de mim. O que importa é o que eu faço do que fizeram de mim”. Responsabilidade só pode ser assumida pela própria pessoa e não doada por alguém. Por outro lado, quando assumimos a responsabilidade de outra pessoa, impedimo-la de vivenciar seu próprio crescimento. Autenticidade resulta da aceitação humana da responsabilidadeem controlar sua própria vida, tomando decisões baseadas em valores que foram determinados pela própria pessoa consciente sobre si (BAUMAN E WALDO apud GLASS E JACKSON, 2008). Todavia, esta percepção pode ser dolorosa e muitos mecanismos defensivos podem ser manifestados. [...] O deslocamento da responsabilidade para outra pessoa, onde muitas vezes o psicoterapeuta também costuma ser objeto desse deslocamento, está a serviço da diminuição da angústia, onde a explicação de sentimentos, desejos e eventos é atribuída a fatores alheios ao indivíduo. Os indivíduos com tendências paranóicas são mestres nesse quesito, em projetar seus sentimentos a outros indivíduos ou circunstâncias; as pessoas com distúrbios psicossomáticos também, e assim como os primeiros, têm dificuldade em perceber sua responsabilidade frente a seus padecimentos, defendendo-se através da atribuição de seus males a fatores alheios a si próprios (CABRAL, 2011, p.6). Tornar-se responsável é tornar- se livre para escolher, inclusive, que é possível o desapego das velhas lembranças a que sente desconforto e dor. Considera-se ainda que a fala na 1ª pessoa é um passo importante a caminho da autenticidade. Isto refere- se a falar de conceitos, desejos e sensações na voz ativa e não à atribuição da responsabilidade ao outro ou às circunstâncias. FIGURA 1: Falando na 1a pessoa Fonte: Adaptado de SINAY (1997, p. 96). [tradução do autor] Ao assumir a responsabilidade por seus pensamentos e ações a pessoa estaria mais preparada para sentir, o que o levaria a existir de forma autêntica, uma vez que a vivência baseada na satisfação de conceitos tende a levar a pessoa à perda do sentido. Como citou Lange (2004): As pessoas me criticam e me ignoram... Eu me sinto criticado e ignorado pelas pessoas. [...]. Vou em busca de mim mesmo; vou encontrar minha autenticidade e meu autorrespeito. A síntese dessas experiências erguerão minha autoestima, que é onde vive a minha alma [tradução do autor] (LANGE, 2004, p. 34). E assim, somos constituídos por nossas escolhas, e nossas escolhas são constituídas por nossa liberdade em fazê-las (MONTEIRO, 2009). A realização do eu autêntico requer consciência sobre as ideias pré- concebidas e sobre a própria responsabilidade, constituindo-se em uma pessoa melhor preparada para criar seu próprio Horizonte (GADAMER apud JAMES E FOSTER, 2004, p. 98) ou sentido de vida. 3 A BUSCA POR UM SENTIDO A busca por um sentido é outro tema recorrente nos estudos sobre a EHF. Para Vitor Frankl sentido é o que move nossa vida (FRANKL, 1967 apud LEONTIEV, 2008, p.1). A ausência de sentido correlaciona-se, linearmente, ao desenvolvimento de psicopatologias (YALOM, 1984). O sentido atuaria como regulador do comportamento, a partir de uma realidade subjetiva, sem desconsiderar, obviamente, as variáveis socioculturais que atuam neste. A EHF compreende que “a vida não é promessa de felicidade, mas a possibilidade de encontrar um sentido” (FRANKL, 1992 apud PIRTLE E PLATA, 2008, p.1). O sentido advém do resultado da experiência da pessoa e suas ações. Na psicoterapia de base EHF encoraja-se a compreensão de que o cliente/paciente é responsável pelo sentido que atribuiu à sua vida. Assim, o sofrimento humano é resultante do como a pessoa escolheu responder ao sofrimento do que ao sofrimento em si (KOENIG, 2008). A descoberta do sentido é fator importante que impulsiona a motivação humana (GLASS E JACKSON, 2008) e, o produto da psicoterapia não é a felicidade, mas a busca por um sentido autêntico. Ainda, entende-se que, na busca pelo sentido, a pessoa poderá recorrer a vários meios. A religião é um deles. O psicólogo existencialista Paul Wong (WONG, 1998 apud ARDELT 2008), descreveu a religião como forma de dar sentido à vida e à morte. Ter um profundo senso de uma vida única a ser significada pode encorajar uma vida focada em metas importantes (ARDELT, 2008). O sentido descrito nos estudos da EHF relaciona-se diretamente à consciência da brevidade da vida. Conscientes desta brevidade, o presente se torna importante. Não o passado com suas lembranças mal utilizadas no presente; não o futuro na perspectiva ansiogênica de que se tem que estar preparado para. Simplesmente o presente. Viver o presente com responsabilidade é preparar-se, aproveitando o processo, autenticamente, para o futuro. E, pessoas autênticas, estariam munidas satisfatoriamente para implementar as mudanças que compreendessem como necessárias e, de preferência, desejadas, em sua vida. A vivência do presente, de maneira responsável, correlaciona-se a um estado em que a pessoa está com o outro e não para o outro. É dizer que se permita viver as experiências como um todo, incluindo, essencialmente, as relações interpessoais, ao invés de manter-se nas expectativas das afagadas satisfações construídas em si. 4 REQUISITOS PARA O PSICOTERAPEUTA EXISTENCIAL Em se tratando dos requisitos para a atuação como psicoterapeuta da EHF, um dos pontos mais importantes é a autenticidade do próprio psicoterapeuta. Ser autêntico não está ligado à perfeição – aqui mais uma vez citada. A perfeição está na compreensão dos aspectos imperfeitos das pessoas e a desenvolver o olhar para sentir além das imperfeições. O psicoterapeuta é um profissional falível e, como tal, dá ao paciente o direito de ser também um ser humano com falhas. O psicoterapeuta possui, na perspectiva humanista, o papel de desenvolver a sensibilidade para perceber quais pontos encontram-se saudáveis, fortalecidos na pessoa. Esta ação, aparentemente simples, pode ser muito mais complexa do que se imagina, uma vez que o olhar humano dentro da sociedade tende a apontar os aspectos negativos, e não os positivos, de uma dada experiência. Por exemplo, o conceito de sucesso como algo positivo, contrapõe-se ao fracasso que tende a ser visto como algo negativo. Os noticiários tendem a enfatizar os eventos negativos da sociedade. O diferencial aqui está em treinar o olhar para os aspectos positivos que podem ser trabalhados na pessoa. Em outras palavras, aprender ou evoluir o olhar que alcance o homem além de suas imperfeições aparentes. Para isso é fundamental que as ações do psicoterapeuta baseiem-se no amor incondicional, traduzido na compreensão deste em relação ao cliente/paciente, a partir da suspensão das pré-concepções6 que o mesmo desenvolveu ao longo de sua vida, para 6 crença ou expectativa relacionada a algum OBJETO DA ATITUDE que é mantida antes que informações substanciais sobre o objeto sejam obtidas (DICIONÁRIO DE PSICOLOGIA DA APA, 2010, p. 723). assim, set clients free, ou, deixar o cliente livre (SCHNEIDER E KRUG, 2010, p. 30). Ainda, a noção de olhar para além das imperfeições associa-se à transcendência, a enxergar além do fenômeno trazido pelo cliente/paciente, como na fala de Bertold Brecht: “você chama de violentas as águas de um rio que tudo arrastam, mas não chama de violentas as margens que as oprimem”. Há sempre algo a transcender. A sempre um ponto que o olhar não alcançou. Outro ponto fundamental para a realização do trabalho de psicoterapeuta da EHF é a capacidade para tolerar incertezas (YALOM, 1989 apud SCHNEIDER E KRUG, 2010). O processo psicoterápico não está para atender às expectativas do psicoterapeuta; mas está com este enquanto processo a ser experienciado evitando assim, a contaminação da psicoterapia pelas projeções do psicoterapeuta e a possibilidade de desenvolvimento de um encontro existencial genuíno. Por final, faz-se necessário que o psicoterapeuta vivencie, que tome para si os preceitos filosóficos fundamentais. Caso este não concorde com os pensamentosda Filosofia de base, provavelmente, não crescerá como profissional da EHF, uma vez que esta consiste muito mais em uma maneira de existir, do que um conjunto teórico-técnico para ser aplicado. A EHF baseia-se no princípio de que se viva a teoria e não apenas que se fale dela. Neste caso, o sentir, no todo, é mais importante do que apenas falar. 5 PSICOTERAPIA COMO CRESCIMENTO PESSOAL DE PSICOTERAPEUTA E CLIENTE As intervenções de base EHF são dirigidas muito mais ao ser do que ao fazer em psicoterapia. É fundamental ao psicoterapeuta que este não traga para a sessão questões pré-determinadas que possam atrapalhar o acolhimento do cliente/paciente. Ainda, estas fundamentam-se na relação que ocorre entre cliente/paciente e psicoterapeuta no processo psicoterápico. Para conhecer a existência humana questiona-se sobre quem é a pessoa? Qual seu projeto de vida? O que ela faz de suas lembranças? Quais as defesas, proteções – ou desculpas (má fé), utilizadas por ela na manutenção de sua vivência inautêntica? Simone de Beauvoir descreveu que “não há nada mais arbitrário que intervir num destino que não é nosso” (BEAUVOIR, 1948, p. 86). Este pensamento correlaciona-se ao encontro existencial que ocorre na psicoterapia de base EHF, visto que o psicoterapeuta apresenta-se como um facilitador da tomada de consciência do cliente/paciente e não alguém que orienta, no sentido de dar respostas prontas, projetando-se naquele que o buscou. Percebe-se a importância de desenvolver um olhar que ultrapasse os limites impostos, pela própria pessoa, quanto às dificuldades e/ou transtornos apresentados por aquele que está adoecido, fragilizado ou que deseja aproveitar-se dos instrumentos psicoterápicos como um meio de crescimento pessoal. A perfeição – ou um modelo de perfeição, não consiste em meta a ser atingida na psicoterapia. Não existem padrões a serem imitados. Pode-se ter, por escolha da pessoa, modos de viver que se decidiu, autenticamente, viver. Neste sentido busca-se a compreensão dos pontos que sinalizam expectativas irracionais, conceituais da pessoa e que são por estas utilizadas como forma de adaptar-se à vida de forma não autêntica e, portanto, com pouco crescimento pessoal e sensação de vazio existencial. Ao perceber isso, ao tornar-se conhecedor de si mesmo, a pessoa elimina – ou diminui, as expectativas não autênticas de si e assim poderá envolver-se muito mais energicamente em suas experiências. Deste modo, reforça-se - o processo passa a ser mais importante que o resultado. No sentido mais amplo, o resultado, para todos, inevitavelmente, é a morte. Em outras palavras, ciente da certeza da morte, pode-se dizer que se aceita, inexoravelmente, a vida, ou seja, o processo. Esta tese opõe-se às atribuições de que a EHF, ao tomar como base parte importante do pensamento existencialista, apresentaria uma perspectiva niilista ou pessimista em relação à vida. Ao contrário, a EHF defende: não fujas de sentir a vida. Viva-a como ela se manifesta no presente, com seus prazeres e desprazeres, pois, fugir da vida não levará o indivíduo, necessariamente, a não morte e o afastará da possibilidade de viver uma existência plena, cheia de imperfeições autênticas. O psicoterapeuta não está ali para interpretar o cliente/paciente, mas está totalmente ali em referência à compreensão holística do encontro terapêutico. Neste processo crescem ambos, cliente/paciente e psicoterapeuta. O cliente/paciente possui sentido holístico e está em relação com o todo. Neste sentido, todo o meio relacional é considerado foco do processo psicoterápico. A qualidade da presença facilitada pelas ações e, principalmente, pela escuta acolhedora do psicoterapeuta, darão sentido à terapia. O processo psicoterápico foca- se nas experiências da pessoa no presente, e, alcança, no processo, efeito em ambos, psicoterapeuta e cliente/paciente. Neste aspecto, concebendo a relação paritária, na qual não há o maior conhecedor de si do que a própria pessoa, o encontro terapêutico é processo de crescimento pessoal para todos os participantes. Em outras palavras, é dizer que, embora com ênfase naquele que buscou ajuda, a psicoterapia provoca mudanças, inevitáveis, no psicoterapeuta que terá, assim como o cliente/paciente a oportunidade de tomar para si todas as experiências, inclusive as que possam ser desagradáveis, como possibilidade de crescimento. CONCLUSÃO Conclui-se que a EHF caracteriza-se por um modelo de aproximação psicoterápica que atribui ao homem a responsabilidade por sua existência, direcionando-o ao alcance de sua autenticidade. Ainda, compreende-se o comportamento humano em seu conceito holístico e existencial, a partir do sentido que a pessoa atribui a sua própria existência. E que a psicoterapia com base na EHF apresenta-se como um convite à pessoa para apropriação de sua própria vida. Como na canção Dare you to move da banda Switchfoot, na EHF, o psicoterapeuta lançará ao cliente/paciente “o desafio de se movimentar” diante das questões de sua vida. Se a responsabilidade é o primeiro passo, a autenticidade - e não a felicidade, é fim a ser alcançado. Compreende-se que o indivíduo autêntico poderá fazer escolhas mais saudáveis e vivenciar sua existência dentro de perspectivas realísticas e imperfeitas, ao invés de viver pela busca do resultado que esteja perfeitamente ligado a, como pressupôs em suas fantasias, que assim o seria ou, ainda, na visão introjetiva dos tenho que. Ademais, na EHF discute-se que o reconhecimento do sentido de todos os aspectos relacionados à vivência humana, e não à busca pelas perfeições conceituais, são fundamentais para o crescimento pessoal. E, por final, que o requisito principal para atuação na área é a vivência da Filosofia escolhida. Sugere-se o desenvolvimento de estudo de casos clínicos na área, a fim de aprofundar as implicações práticas da EHF na psicoterapia, e, que os pensamentos contidos na EHF podem ser utilizados em outras áreas que estão além da psicoterapia, como por exemplo, na educação, como discussão que visaria à prevenção de atitudes que desrespeitem a compreensão da singularidade do outro, a partir do conhecimento dos aspectos ligados à autenticidade. Deste modo, a psicoterapia EHF tende a tornar-se cada vez mais relevante como fundamentação teórica que poderá atender a inúmeras demandas atuais, partindo do princípio da compreensão da vida como algo instável, em que condicionamentos e manuais práticos em demasia podem prejudicar o desenvolvimento da autenticidade, bloqueando o contato humano dos riscos, frustrações e falhas, mecanismos estes, fundamentais para o crescimento humano. REFERÊNCIAS APA - AMERICAN PSYCHOLOGICAL ASSOCIATION. Different approaches to psychoterapy. 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