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Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 2
 
 
 
LIÇÕES AOS MEUS ALUNOS (Vol. 2) 
[Clique na palavra ÍNDICE ] 
 
HOMILÉTICA E TEOLOGIA PASTORAL 
 
C. H. SPURGEON 
 
PUBLICAÇÕES EVANGÉLICAS SELECIONADAS 
 
Título original: Lectures To My Students 
Tradução do original por: Odayr Olivetti 
Primeira Edição em Português 
1980 
 
Contracapa: 
 
Para muitos ministros do evangelho, mesmo ainda hoje, Charles 
Haddon Spurgeon foi um dos maiores pregadores de todos os tempos. 
Por que esta avaliação? Se quisermos compreender melhor seu grande 
sucesso, então nada melhor que ler esta segunda parte de Lições aos 
Meus Alunos – preleções dadas nas sextas-feiras à tarde àqueles que 
estudavam em sua Escola Bíblicas (The Pastors' College). 
O presente volume contém treze capítulos da obra Lectures To My 
Students, talvez a mais conhecida de todas as publicações do "príncipe 
dos pregadores". Que Deus abençoe estas "Lições" como o fez quando 
originalmente elas foram proferidas é a oração dos que as publicam na 
língua portuguesa. 
 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 3
 
 
ÍNDICE 
 
1. A Auto-vigilância do Ministro..............................................3 
2. O Chamado para o Ministério...........................................25 
3. Oração Particular do Pregador.........................................53 
4. Oração em Público...........................................................69 
5. O Conteúdo do Sermão....................................................93 
6. A Escolha do Texto.........................................................109 
7. A Arte de Espiritualizar...................................................132 
8. A Voz..............................................................................150 
9. Atenção...........................................................................175 
10. A Capacidade de Falar de Improviso.............................194 
11. As Crises de Desânimo do Ministro...............................214 
12. A Conversação Comum do Ministro...............................231 
13. Aos Obreiros Mal Equipados..........................................244 
 
 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 4
 
 
A AUTO-VIGILÂNCIA DO MINISTRO 
 
"Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina" 1 Tim. 4:16. 
 
Todo trabalhador sabe que deve manter as suas ferramentas em bom 
estado, pois, "se estiver embotado o ferro, e não se afiar o corte, então se 
devem pôr mais forças". Se a enxó do operário perder o corte, ele sabe 
que terá que despender mais energia, ou então o seu trabalho será mal 
feito. Miguel Ângelo, o eleito das betas artes, entendia tão bem a 
importância dos seus instrumentos de trabalho, que sempre fazia com as 
próprias mãos os seus pincéis, e com isto nos dá uma ilustração do Deus 
da graça que, com especial cuidado, modela pessoalmente todos os 
verdadeiros ministros da Palavra. 
É certo que o Senhor, como Quintín Matsys na história do bom 
artífice de coberturas de Antuérpia, pode trabalhar com a mais defeituosa 
espécie de instrumentalidade, como acontece quando ocasionalmente faz 
com que uma pregação bastante estulta seja útil para a conversão de 
pecadores. Ele pode agir até mesmo sem intermediários, como quando 
salva pessoas sem usar nenhum pregador, aplicando a Palavra 
diretamente por Seu Espírito Santo. Mas não podemos considerar os atos 
absolutamente soberanos de Deus como uma regra para a nossa ação. No 
caráter absoluto do Seu Ser, Deus pode agir como bem lhe apraz, mas 
nós temas que agir conforme as instruções mais claras que Ele nos dá em 
Suas dispensações. É um fato bastante evidente este, que geralmente o 
Senhor adapta os meios aos fins, o que nos dá a lição de que temos mais 
probabilidade de realizar o máximo quando estamos nas melhores 
condições espirituais. Ou, em outras palavras, geralmente fazemos 
melhor a obra do Senhor quando os nossos dons e graças estão em boa 
ordem, e o trabalho sai pior quando aqueles dons e graças estão 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 5
desordenados. Esta é uma verdade prática para nossa orientação. Quando 
o Senhor faz exceções, estas apenas confirmam a regra. 
Em corto sentido, somos as nossas próprias ferramentas, e, 
portanto, precisamos manter-nos em ordem. Se quero pregar o 
evangelho, só posso usar a minha própria voz; daí, devo aprimorar as 
minhas virtudes vocais. Só posso pensar com o meu cérebro, e sentir 
com o meu coração; portanto, devo educar as mInhas faculdades 
intelectuais e emocionais. Só posso chorar e agonizar pelas almas com a 
minha própria natureza renovada; portanto, devo manter vigilantemente 
a ternura que havia em Cristo Jesus. Ser-me-á vão suprir minha 
biblioteca, ou organizar sociedades, ou fazer planos, se eu negligenciar o 
cultivo de mim mesmo; pois livros, agências e sistemas só remotamente 
são instrumentos da minha santa vocação. 
Meu espírito, alma e corpo são os meus mecanismos mais à mão 
para o serviço sagrado; as minhas faculdades espirituais e a minha vida 
interior são o meu machado de combate, as minhas armas de guerra. 
McCheyne, escrevendo a um colega de ministério que estava no exterior 
com vistas a aperfeiçoar os seus conhecimentos do idioma alemão, 
empregou linguagem idêntica à nossa. Escreveu ele: 
"Sei que você se aplicará arduamente ao alemão, mas não se esqueça 
de cultivar o homem interior – quero dizer, o coração. Quão diligentemente o 
oficial da cavalaria conserva limpo e afiado o seu sabre; qualquer mancha 
ele a remove com o maior esmero. Lembre-se de que você é a espada de 
Deus. É Seu instrumento – espero, vaso escolhido para Ele, para levar o 
Seu nome. Em grande medida, o sucesso será de acordo com a pureza e 
perfeição do instrumento. Deus abençoa não tanto a talentos, como à 
semelhança com Jesus. O ministro santo é temível arma na mão de Deus". 
Estar o arauto do evangelho espiritualmente fora de ordem em sua 
pessoa é, tanto para ele como para o seu trabalho, uma calamidade das 
mais graves. Contudo, irmãos, com que facilidade se produz esse mal, e 
com que vigilância devemos prevenir-nos contra ele! Um dia, viajando 
pelo expresso de Perth a Edimburgo, de repente o trem parou 
bruscamente porque um parafusinho de nada de um dos motores se 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 6
quebrara – sendo que toda a locomotiva compõe-se virtualmente de dois 
motores. Quando partimos de novo, fomos obrigados a arrastar-nos 
lentamente apenas com uma biela de pistão funcionando, em vez de 
duas. Somente se perdera um pequeno parafuso. Se ele tivesse ficado em 
ordem, o trem teria prosseguido velozmente em seu caminho de ferro, 
mas a ausência de uma diminuta peça de ferro desarrumou tudo. 
Conta-se que nas ferrovias dos Estados Unidos um trem parou por 
causa de insetos que penetraram nas caixas de graxa dos eixos do 
comboio. A analogia é perfeita. Uma pessoa em todos os demais 
aspectos habilitada para ser útil pode, por algum defeito diminuto, ser 
extremamente prejudicada, ou até tornar-se inútil por completo. Um 
resultado desses é em extremo ruinoso, uma vez que está associado ao 
evangelho que, no sentido supremo, é adequado a produzir os maiores 
resultados. É terrível quando um ungüento perde a sua eficácia devido ao 
trapalhão que o aplica. Todos vocês sabem dos efeitos nocivos 
produzidos muitas vezes na água quando passa por canos ruins; assim 
também o próprio evangelho, passando através de homens 
espiritualmente doentios, pode ser aviltado a ponto de se tornar nocivo 
aos ouvintes. É de temer que a doutrina calvinista se torne um ensino 
muito danoso quando exposta por homens de vida ímpia, e apregoada 
como se fosse um manto para a licenciosidade. O arminianismo, por 
outro lado, com a sua ampla extensão do oferecimento de misericórdia, 
poderá causar o mais sério dano às almas, se o tom descuidado do 
pregador levar os ouvinte a acreditarem que são capazes de arrepender-
se quando bem quiserem. Com isso, pois, a mensagem do evangelho não 
implica em nenhuma urgência. Além disso, quando o pregadoré pobre 
de graça, qualquer benefício permanente que poderia resultar do seu 
ministério em geral será fraco e completamente desproporcional ao que 
se poderia esperar. 
Muita semeadura seguir-se-á de escassa colheita. O interesse pelos 
talentos será inapreciavelmente pequeno. Em duas ou três batalhas em 
que fomos derrotados na recente guerra americana, diz-se que o 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 7
resultado deveu-se à má qualidade da pólvora entregue por certos 
pseudo-fornecedores contratados pelo exército, de modo que os 
canhoneios não produziram efeito. Pode acontecer o mesmo conosco. 
Podemos errar o alvo, perder a nossa finalidade, o nosso objetivo, e 
desperdiçar o tempo, por não possuirmos dentro de nós a verdadeira 
força vital ou por não a possuirmos na medida em que, compativelmente, 
levaria Deus a abençoar-nos. Cuidem para não serem pseudo-pregadores. 
Um dos nossos primeiros cuidados deve ser que nos mesmos 
sejamos homens salvos. 
Que um mestre do evangelho seja antes um participante dele é 
verdade simples, mas ao mesmo tempo é uma regra da mais ponderável 
importância. Não estamos entre os que aceitam a sucessão apostólica de 
jovens simplesmente porque a supõem. Se a experiência pedagógica 
deles for mais de vivacidade do que de espiritualidade, se as suas honras 
se ligam aos exercícios atléticos e não a trabalhos para Cristo, exigimos 
prova de natureza diversa das que eles estão capacitados para apresentar-
nos. Nenhuma soma paga a título de honorários a cultos doutores do 
saber, e nenhuma soma de conhecimentos clássicos recebidos em troca, 
nos parecem evidência da vocação do alto. A verdadeira piedade é 
necessária como o primeiro requisito indispensável. Seja qual for a 
"vocação" que um homem simule possuir, se não foi vocacionado para a 
santidade, certamente não foi vocacionado para o ministério. 
"Arruma-te primeiro, e depois enfeita o teu irmão", dizem os 
rabinos. "A mão", diz Gregório, "que tenciona limpar a outrem, deve 
estar limpa." Se o seu sal for insípido, como pode dar sabor a outros? A 
conversão é uma sine qua non em um ministro – uma condição 
indispensável. Vós, que aspirais aos nossos púlpitos, "necessário vos é 
nascer de novo". Tampouco deve ser presumida a posse desta primeira 
qualidade, pois existe grande possibilidade de estarmos enganados sobre 
se somos ou não convertidos. 
Creiam-me, não é brincadeira infantil "fazer cada vez mais firme a 
vossa vocação e eleição". O mundo está repleto de limitações, e está 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 8
apinhado de alcoviteiros do amor-próprio carnal, que cercam o ministro 
como abutres em volta de uma carcaça. Nossos corações são enganosos, 
de sorte que a verdade não está na superfície, mas tem que ser arrancada 
do poço mais profundo. Devemos sondar-nos a nós mesmos com ávido 
interesse e de modo completo, para não suceder que, tendo de alguma 
forma pregado a outros, não venhamos a ficar reprovados. 
Que corsa horrível, ser pregador do evangelho e, todavia, não estar 
convertido! Cada qual sussurre consigo mesmo no íntimo de sua alma: 
"Que coisa terrível seria para mim, se eu ignorasse o poder da verdade 
que me estou preparando para proclamar!" O ministério exercido por um 
inconverso envolve relações das mais antinaturais. Um pastor destituído 
da graça é semelhante a um cego eleito professor de ótica, que faz 
filosofia sobre a luz e a visão, comentando e distinguindo para outros os 
belos sombreados e as delicadas combinações das cores prismáticas, 
enquanto ele mesmo está absolutamente em trevas! É um mudo elevado 
à cátedra de música; um surdo a falar sobre sinfonias e harmonias! Uma 
toupeira pretendendo criar filhotes de águias; um molusco eleito 
presidente de anjos! 
A esse tipo de relação poder-se-iam aplicar as metáforas mais 
absurdas e grotescas, se o assunto não fosse tão solene. É uma tremenda 
posição para um homem ocupar, pois ao fazê-lo está se comprometendo 
com uma obra para a qual está inteiramente, completamente, totalmente 
desqualificado, mas de cujas responsabilidades sua falta de habilitação 
não o resguarda, porque ele as assumiu voluntariamente. Sejam quais 
forem os seus dons naturais, sejam quais forem os seus poderes mentais, 
estará completamente fora do páreo para a obra espiritual se não tiver 
vida espiritual. E será seu dever interromper o ofício ministerial 
enquanto não receber esta qualificação, que é a primeira e a mais básica 
de todas. 
O ministério exercido por inconversos pode ser igualmente terrível 
noutro sentido. Se o homem não for realmente comissionado, que infeliz 
é esta posição para ele! Que poderá achar na experiência das pessoas sob 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 9
o seu cuidado pastoral que o possa confortar? Como haverá de sentir-se 
quando escutar o clamor dos arrependidos, ou quando ouvir as suas 
dúvidas repassadas de ansiedade e os seus graves temores? Ficará 
espantado ao pensar que as suas palavras deveriam se adequadas àquela 
necessidade aguda! A palavra de um homem não convertido pode ser 
abençoada para a conversão de almas, desde que o Senhor, embora 
repudie ao homem, continue honrando a Sua verdade. Como há de ficar 
perplexo o homem, quando consultado sobre dificuldades de cristãos 
amadurecidos! No caminho da experiência, pelo qual são conduzidos os 
seus ouvintes regeneradas, ele mesmo só poderá sentir-se um completo 
fracasso. Como poderá captar as alegrias dos que estão em seus eleitos 
de morte, ou participar da comunhão fervorosa dos crentes à mesa do 
Senhor? 
Em muitos casos de jovens empregados numa profissão que não 
podem agüentar, correm eles a engajar-se na marinha, preferindo isso a 
seguir uma ocupação penosa. Mas, para onde fugirá aquele que treinou 
para dedicar-se a vida toda a esta santa vocação, e, contudo, é 
completamente alheio ao poder da vida piedosa? Como poderá 
diariamente exortar que os homens venham a Cristo, enquanto ele 
mesmo é estranho ao Seu amor que O levou à morte sacrificial? Ó 
senhores, seguramente isto só pode ser uma escravidão perpétua. Tal 
homem certamente odiará a simples visão de um púlpito, tanto quanto 
um escravo das galés odeia o remo. 
E quão imprestável há de ser um homem desses! Cabe-lhe guiar 
viajores ao longo de uma estrada que ele nunca percorreu, navegar por 
uma costa da qual não conhece nenhuma das balizas orientadoras! É 
chamado para instruir a outros, sendo ele mesmo um tolo. Que é que ele 
pode ser, senão uma nuvem sem chuva, uma árvore que só tem folhas? 
Como quando uma caravana no deserto, com todos sedentos e quase 
morrendo assados ao sol, chega à tão desejada fonte e – horror dos 
horrores! – encontra-a sem uma gota d'água, assim, quando almas 
sedentas de Deus chegam a um ministério carente da graça, ficam prestes 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 10
a perecer porque não acham ali a água da vida. É melhor abolir os 
púlpitos do que enchê-los de homens que não têm conhecimento 
experimental daquilo que ensinam. 
Ah! o pastor não regenerado vem a ser terrivelmente nocivo 
também, pois, de todas as causas produtoras de infidelidade, os ministros 
carentes de vida piedosa devem ser classificados entre as primeiras. Li 
outro dia que nenhum aspecto do mal já apresentou tão extraordinário 
poder de destruição como o ministro não convertido de uma paróquia 
que contava com um órgão caríssimo, um coro composto de cantores 
ímpios, e membros de uma igreja aristocrática. A opinião do escritor era 
que não poderia haver maior instrumento de condenação do que isso, 
fora do inferno. As pessoas vão para o seu local de culto, sentam-se 
comodamente e se acham cristãs, quando o tempo todo, tudo aquilo em 
que a sua religião consiste resume-se em ouvir um orador, sentir cócegas 
nos ouvidos, feitas pela música, e talvez ter os olhos divertidos por 
atitudes graciosas e maneiras elegantes, sendo o conjunto todo nada 
melhor do que o que ouvem e vêem na ópera – talvez não tão bom, 
quanto à beleza estética, e nem um átomo mais espiritual. Milharesse 
congratulam, e até bendizem a Deus por serem Seus devotos adoradores 
quando, ao mesmo tempo, vivem numa condição de não regenerados, 
sem Cristo, tendo a forma da piedade mas negando o poder dela. Quem 
dirige um sistema que não visa a nada mais elevado que o formalismo, é 
muito mais servo do diabo do que ministro de Deus. 
Um pregador meramente formal já é nocivo enquanto preserva o 
seu equilíbrio externo, mas como não possui o equilíbrio da piedade que 
poderia preservá-lo, mais cedo ou mais tarde é quase certo que cometerá 
um erro em seu caráter moral, e em que posição fica ele neste caso! 
Como Deus é blasfemado! E como o evangelho sofre abusos! 
É terrível considerar que morte espera tal homem! E qual será a 
sua condição posterior! O profeta retrata o reí da Babilônia descendo ao 
inferno, e todos os reis e príncipes que ele tinha destruído, e cujas 
capitais tinha assolado, erguendo-se dos seus lugares no inferno e 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 11
saudando o tirano caído com o cortante sarcasmo: "Tu também adoeceste 
como nós, e foste semelhante a nós" (Is. 14:10). E vocês não podem 
imaginar um homem que foi ministro, mas que viveu sem Cristo no 
coração, indo para o inferno, e todos os espíritos em prisão que 
costumavam ouvi-lo, e todos os ímpios da sua igreja, levantando-se e lhe 
dizendo em tom amargo: "Tu também te fizeste como nós? Médico, não 
te curaste a ti mesmo? Tu, que te proclamavas ser brilhante luz, lançado 
nas trevas para sempre?" Ah! se alguém tem que se perder, que não seja 
desse jeito! Perder-se à sombra de um púlpito é terrível, mas quanto mais 
terrível é perecer havendo ocupado o púlpito! 
No tratado de John Bunyan intitulado "Suspiros do Inferno" (Sighs 
from Hell) há uma temível passagem que muitíssimas vezes ressoa em 
meus tímpanos: 
"Quantas almas foram destruídas por causa da ignorância de clérigos 
cegos? Pregação que não era melhor para as suas almas do que veneno de 
rato para o corpo. É de temer que muitos deles tenham que responder por 
cidades inteiras. Ah! amigo, digo-te, tu que te incumbiste de pregar ao povo, 
pode ser que não consigas sequer falar aquilo de que te incumbiste. Não te 
doerá ver toda a tua igreja ir atrás de você para o inferno? – e a clamar: "Isto 
devemos agradecer-te. Tiveste medo de falar-nos dos nossos pecados, para 
que acaso não continuássemos metendo comida suficiente na tua boca. Ó 
ente vil e maldito, que não te contentaste, guia cego como foste, em cair tu 
mesmo no fosso, mas também nos arrastaste contigo para o mesmo lugar!" 
Richard Baxter, em sua obra, Reformed Pastor, em meio a muitas 
outras coisas profundas, escreve como se segue: 
"Tenham cuidado consigo mesmos, para que não estejam vazios 
daquela graça salvadora de Deus que oferecem a outros, e não sejam 
estranhos àquela obra eficaz efetuada por aquele evangelho que pregam; e 
para não acontecer que, enquanto proclamam ao mundo a necessidade de 
um Salvador, os seus próprios corações O negligenciem', e lhes falte 
interesse por Ele e por Seus benefícios salvíficos. Tenham cuidado consigo 
mesmos, para que você não pereçam enquanto chamam a atenção de 
outros a que se cuidem para não perecerem, e para que vocês não morram 
de fome enquanto prepararam alimento para eles. Embora haja uma 
promessa aos que a muitos converteram à justiça, promessa de que 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 12
refulgirão como as estrelas (Dn. 12:3), é feita com a suposição de que eles 
mesmos foram guiados primeiro a ela. Promessas desse tipo são feitas 
coeteris paribus, et suppositis supponendis (com a união dos iguais e com 
as suposições que se devem fazer). Sua própria sinceridade na fé constituí a 
condição da sua glória considerada simplesmente, embora os seus grandes 
labores ministeriais sejam uma condição da promessa de maior glória a eles. 
"Muitos que advertiram a outros a fim de que não 'venham para este 
lugar de tormento', eles próprios se precipitaram para lá. Muito pregador que 
cem vezes conclamou os seus ouvintes a empregarem o máximo cuidado e 
diligência para escaparem ao inferno, lá está. Pode alguma pessoa razoável 
imaginar que Deus salvaria homens por oferecerem a salvação a outros, 
enquanto eles mesmos a recusaram, e por dizerem a outros as verdades 
que eles mesmos negligenciaram e das quais abusaram? Muito alfaiate que 
confecciona custosos trajes para outros, veste-se de andrajos; e muito 
cozinheiro mal lambe os dedos, apesar de ter preparado para outros os 
pratos mais caros. 
"Acreditem, irmãos, Deus nunca salvou ninguém por ser pregador, nem 
por ter sido pregador capaz; mas porque foi um homem justificado, 
santificado e, conseqüentemente, fiel no serviço do seu Mestre e Senhor. 
Portanto, tenham cuidado consigo mesmos primeiro, para que sejam aquilo 
que procuram persuadir outros a serem, creiam naquilo em que procuram 
diariamente persuadir outros a crerem, e tenham acolhido no seu próprio 
coração aquele Cristo e aquele Espírito Santo que oferecem a outros. 
Aquele que lhes ordenou que amem o próximo como a si mesmos, ordenou 
implicitamente que se amem a si próprios e não destruam nem a si mesmos 
nem aos outros". 
Meus irmãos, permitam que estas pesadas considerações produzam 
o devido efeito em vocês. Certamente não há necessidade de acrescentar 
nada mais. Deixem-me, porém, rogar-lhes que se examinem a si 
mesmos, e assim façam bom uso daquilo que lhes foi dirigido. 
Estabelecido o primeiro ponto da verdadeira religião, segue-se em 
importância para o ministro, em segundo lugar, que a sua piedade seja 
vigorosa. 
O ministro não deve se contentar em estar no mesmo nível dos 
soldados rasos das fileiras cristãs; tem que ser um crente amadurecido e 
adiantado, pois o ministério de Cristo tem sido com acerto denominado 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 13
"Sua escolha mais seleta, o eleito da Sua eleição, uma igreja extraída da 
Sua igreja". Se o ministro fosse chamado para uma posição comum e 
para um trabalho comum, talvez a graça comum pudesse satisfazê-lo, 
apesar de que mesmo então seria uma satisfação indolente. Sendo, 
porém, eleito para trabalhos extraordinários, e chamado para um lugar 
em que há perigos fora do comum, ele deve aspirar avidamente a posse 
daquela força superior que é única e adequada ao seu oficio. O pulso da 
sua religiosidade vital deve bater forte e com regularidade; os olhos da 
sua fé devem ser brilhantes; os pés da sua resolução devém ser firmes; as 
mãos da sua atividade devem ser ágeis; todo o seu ser interior deve estar 
no mais alto grau de sanidade. 
Dizem que os egípcios escolhiam os seus sacerdotes dentre os seus 
filósofos mais doutos, e depois os tinham em tão alta estima que dentre 
eles escolhiam os seus reis. Exigimos que os ministros de Deus sejam a 
nata de todos os que formam nos exércitos de Cristo. Homens tais que, 
se a nação quisesse reis, não poderia fazer melhor do que elevá-los ao 
trono. Os nossos homens de pequeno poder mental, muito tímidos, 
carnais e de personalidade mal equilibrada não prestam como candidatos 
ao púlpito. Há alguns trabalhos que jamais devemos confiar a inválidos 
ou deformados. Um homem pode não ser qualificado para trepar em 
altos edifícios. Seu cérebro pode ser fraco demais, e o trabalho em 
lugares altos pode colocá-lo em grande perigo. Faça-se tudo para mantê-
lo no chão e para achar-lhe uma ocupação em que um cérebro estável 
seja menos importante. 
Há irmãos que têm análogas deficiências espirituais. Não podem ser 
chamados para um serviço proeminente e elevado porque têm cabeça 
fraca. Se lhes fosse permitido obter um pouco de sucesso, ficariam 
intoxicados com a vaidade – vício comum entre os ministros, e, de todas 
as coisas, a que menos lhes convém, e a que com maior certeza lhes 
assegura a queda. Se como nação fôssemos chamados a defender as 
nossas casas e os nossos lares, não enviaríamos nossos meninos e 
meninas com espadas e armas de fogo a enfrentar o inimigo, tampouco a 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 14
igreja podeenviar todo noviço verboso ou zelote sem experiência a 
batalhar pela fé. O temor do Senhor há de ensinar sabedoria ao jovem, 
ou, do contrário, ser-lhe-á vedado o pastorado. A graça de Deus há de 
amadurecer o seu espírito, ou seria melhor que esperasse até ser-lhe dado 
poder do alto. 
O mais elevado caráter moral deve ser mantido com a máxima 
diligência. Muitos que são ótimos membros de igreja não são 
qualificados para exercer ofício na igreja. Tenho opiniões rígidas quanto 
a cristãos que caíram em pecado grosseiro. Regozijo-me de que possam 
ter se convertido de verdade, e que, com uma mistura de esperança e 
cautela, sejam recebidos à comunhão da igreja. Mas questiono, e 
questiono com seriedade, se um homem que pecou escandalosamente 
deve ser logo restaurado ao púlpito. 
Como observa John Angell James: 
"Quando um pregoeiro da justiça se detém no caminho dos pecadores, 
nunca deverá tornar a abrir os lábios na grande congregação, enquanto o 
seu arrependimento não for tão notório como o seu pecado". 
Que os que foram tosquiados pelos filhos de Amom esperem em 
Jericó até que as suas barbas cresçam. Muitas vezes isso tem sido usado 
como um insulto a jovens imberbes, a quem evidentemente não se 
aplica; é uma metáfora bem precisa referente a homens sem honra e sem 
caráter, seja qual for a sua idade. Lastimável! A barba da reputação uma 
vez raspada, dificilmente cresce de novo. A imoralidade praticada 
abertamente, na maioria dos casos, por mais profundo que seja o 
arrependimento, é um sinal fatal de que as graças ministeriais nunca 
estiveram no caráter desse homem. A mulher de César deve estar fora de 
qualquer suspeita, e é preciso que não corram fetos boatos sobre a 
inconsistência ministerial do passado, se não, será débil a esperança de 
uma valiosa prestação de serviço. Na igreja esses que caíram devem ser 
recebidos como penitentes, e no ministério poderão ser recebidos se 
Deus os colocar lá. Minha dúvida não é sobre isso, mas é se Deus 
realmente os colocou lá. E minha convicção é que devemos ser muito 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 15
lentos em ajudar a voltarem para o púlpito homens que, tendo sido 
provados uma vez, mostraram possuir pouquíssima graça para agüentar o 
teste crucial da vida ministerial. 
Para alguns serviços não escolhemos ninguém senão os fortes. E 
quando Deus nos chama para o labor ministerial, devemos esforçar-nos 
para obter graça para que sejamos fortalecidos com vistas a habilitar-nos 
para a nossa posição, e não sejamos simples novatos arrastados pelas 
tentações de Satanás, para prejuízo da igreja e para a nossa própria ruína. 
Temos que manter-nos equipados com toda a armadura de Deus, prontos 
para corajosas proezas não esperadas de outros. Para nós, a abnegação, a 
renúncia, a paciência, a perseverança, a resignação, têm que ser virtudes 
postas em prática todo dia, e quem é suficiente para estas coisas? Temos 
necessidade de viver bem perto de Deus, se queremos ser aprovados em 
nossa vocação. 
Recordem-se, como ministros, de que toda a sua vida, 
especialmente toda a sua vida pastoral, será afetada pelo vigor da sua 
piedade. Se o seu zelo se amortecer, vocês não orarão bem no púlpito, 
orarão pior no seio da família, e pior ainda a sós, no gabinete pastoral. 
Quando a sua alma se empobrece, os seus ouvintes, sem que saibam 
como e por que, acharão que as suas orações em público têm pouco 
sabor para eles. Sentirão a sua aridez possivelmente antes de vocês a 
perceberem. Em seguida, os seus discursos denunciarão o seu declínio. 
Poderão pronunciar palavras tão bem escolhidas e sentenças tão bem 
coordenadas como antes, mas haverá perceptível perda de poder 
espiritual. 
Poderão sacudir-se como noutros tempos, exatamente como 
aconteceu com Sansão, mas verão que a sua grande força ter-se-á 
retirado. Em sua comunhão diária com os da sua igreja, não se 
demorarão a notar a crescente decadência dos seus dons e graças. Olhos 
perspicazes verão antes de vocês os cabelos grisalhos aqui e ali. Basta 
que um homem seja atacado de uma enfermidade do coração para que 
todos os males o envolvam – o estômago, os pulmões, as entranhas, os 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 16
músculos e os nervos padecerão todos. Assim, basta que um homem 
fique com o coração enfraquecido nas coisas espirituais para que bem 
depressa a sua vida toda sinta a influência debilitante. 
Além disso, como resultado da sua decadência, cada um dos seus 
ouvintes sofrerá em maior ou menor grau. Os vigorosos dentre eles 
superarão a tendência depressiva, mas os mais fracos serão gravemente 
prejudicados. Acontece conosco e com os nossos ouvintes o que 
acontece com. os relógios de uso pessoal e com os relógios públicos. Se 
o nosso relógio não estiver certo, muito pouca gente, além de nós 
mesmos, sofrerá com o engano, mas se o do edifício dos Horse Guards, 
de Londres, ou o do Observatório de Greenwich, estiver errado, a metade 
de Londres ficará desorientada. Assim com o ministro. Ele é o relógio da 
comunidade. Muitos conferem a sua hora com ele e, se ele for incorreto, 
todos andarão erradamente, uns mais outros menos, e em grande medida 
ele terá que responder por todos os pecados que ocasiona. Não podemos 
agüentar sequer pensar nisso, meus irmãos. Não deve nos dar 
confortadora consideração nem por um momento, e, contudo, temos que 
dar-lhe atenção para proteger-nos contra esse mal. 
Devemos lembrar-nos também de que precisamos ter piedade 
deveras vigorosa porque o perigo que enfrentamos é muito maior do que 
o que os outros enfrentam. De modo geral, nenhuma posição é tão 
assaltada pelas tentações como o ministério da Palavra. A despeito da 
idéia popular de que a nossa vocação é um refúgio abrigado da tentação, 
a verdade é que os perigos que nos cercam são mais numerosos e mais 
insidiosos dos que cercam os cristãos em geral. A nossa posição pode ser 
um terreno vantajoso quanto à altura, mas essa altura é perigosa, e para 
muitos o ministério revelou-se uma rocha tarpeiana.* 
Se me perguntarem quais são essas tentações, talvez não dê tempo 
para particularizá-las, mas entre elas há as mais grosseiras e as mais 
refinadas. As mais grosseiras são tentações como a do desregramento à 
 
* Rochedo de onde eram precipitados os criminosos em Roma. Nota do tradutor. 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 17
mesa, a da adulação dos que possuem superabundância de bens no seio 
de um povo hospitaleiro, as tentações da carne, incessantes com os 
jovens solteiros, que se vêem nas alturas no meio de uma multidão de 
jovens admiradoras. Chega disto, porém. Sua observação logo lhes 
revelará mil laços, a menos que os seus olhos sejam cegos de fato. Além 
desses, há outros laços secretos, dos quais temos menos facilidade de 
escapar. E o pior destes é a tentação do ministerialismo – tendência de 
ler as nossas Bíblias como ministros, de orar como ministros, de aplicar-
nos a fazer tudo o que constitui a nossa religião, não como sendo nós 
mesmos, pessoalmente, mas só relativamente interessados naquilo tudo. 
Perder o caráter pessoal do arrependimento e da fé é sofrer uma perda 
real. "Homem nenhum", diz John Owen, "prega bem o seu sermão a 
outros se o não pregar primeiro ao seu próprio coração." 
Irmãos, é eminentemente difícil ater-nos a isso. O nosso oficio, em 
vez de ajudar a nossa vida piedosa, como alguns afirmam, torna-se um 
dos seus mais sérios empecilhos, devido à maldade da nossa natureza; 
pelo menos, eu penso assim. Como a gente esperneia e luta contra o 
oficialismo! Todavia, com que facilidade ele nos bloqueia, como uma 
vestimenta comprida que se enrosca nos pés do corredor e o impede de 
correr. Acautelem-se, caros irmãos, contra isso e contra todas as outras 
seduções que assediam a sua carreira; e, se vocês têm agido assim até 
agora, continuem vigilantes até á última hora da vida. 
Assinalamos apenas um dos perigos, mas, na verdade, são uma 
legião. O grande inimigo das almas esmera-se em não deixar pedrasem 
revirar no afã de arruinar o pregador. 
"Cuidem-se", diz Baxter, "porque o tentador fará a sua primeira e mais 
mordaz investida contra vocês. Se vocês forem os líderes contra ele, ele não 
os poupará nem um pouco além da medida da restrição que Deus lhe impõe. 
Ele sustenta contra vocês o máximo da sua maldade porque estão 
empenhados em causar-lhe o maior dano. Assim como odeia a Cristo mais 
que a qualquer de nós, porque Ele é o "comandante-em-chefe" e o "capitão 
da nossa salvação", e faz muito mais que o mundo inteiro contra o reino das 
trevas, assim põe mais atenção nos líderes subordinados a Cristo que aos 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 18
soldados rasos, por semelhante motivo, guardadas as devidas proporções. 
Ele sabe muito bem a derrota que poderá impor aos restantes, se os líderes 
caírem à vista deles. Por longo tempo ele tem usado esta forma de pelejar, 
"nem com pequenos, nem com grandes", relativamente falando mas dirige-
se especialmente aos grandes, conforme está escrito: 'Ferirei o pastor, e as 
ovelhas do rebanho se dispersarão'. E por este meio tem conseguido tal 
sucesso, que continuará a usá-lo enquanto puder. 
"Tenham cuidado, pois, irmãos, porquanto o inimigo os fita com um 
olhar especial. Vocês sofrerão as suas insinuações mais sutis, solicitações 
incessantes e assaltos violentos. Por mais sábios e instruídos que sejam, 
cuidem-se, para que ele não lhes sobrepuje o engenho. O diabo é mais 
douto que vocês, e contendor mais esperto; pode transfigurar-se em "anjo 
de luz" para enganar. Ele dominará vocês e levar-vos-á por onde quiser 
antes que se dêem conta; bancará ilusionista com vocês, sem ser percebido, 
e vos logrará, fazendo-vos perder a fé ou a inocência, e vocês nem saberão 
que a perderam; pelo contrário, fará com que creiam que ela se multiplicou 
ou cresceu, quando na verdade foi perdida. Vocês não enxergarão nem a 
vara nem o anzol, e muito menos o pescador sutil, enquanto ele oferece a 
sua isca. E as suas iscas serão tão adequadas ao temperamento e à 
disposição de vocês, que terá certeza de colher vantagem no vosso íntimo, 
fazendo com que os vossos princípios e inclinações vos traiam; e sempre 
que vos arruinar, fará de vocês instrumentos da vossa própria ruína. Oh, que 
vitória ele fica rememorando, se consegue tornar um ministro ocioso e infiel; 
se pode fazer um ministro cair na tentação da cobiça ou de um escândalo! 
Ele se ufanará contra a igreja. e dirá: 'Estes são os teus santos pregadores; 
vês qual é a virtude deles, e para onde ela os levará'. 
"Ele se ufanará contra o próprio Senhor Jesus Cristo, e dirá: 'São estes 
os teus campeões! Posso fazer com que os Teus principais servos Te 
desonrem; posso tornar infiéis os mordomos da Tua casa'. Se ele insultou 
tanto a Deus baseado numa falsa suspeita, e Lhe disse que podia levar Jó a 
blasfemar dEle na Sua lace (Jó 1:2), que faria se deveras prevalecesse 
contra nós? E finalmente insultará o mais que puder, achando que poderá 
levar vocês a serem falsos para com a sua grande incumbência, a desonrar 
a sua santa profissão, e a prestar grande serviço àquele que foi seu inimigo. 
Oh! não gratifiquem tanto a Satanás! Não deixem que faça tanta troça. Não 
deixem que os use – como os filisteus usaram Sansão – primeiro privando-
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 19
os da sua força; depois, arrancando-lhes os olhos; e fazendo-os, assim, 
objeto do triunfo e da zombaria dele". 
Ainda uma palavra. Temos que cultivar o mais alto grau de 
religiosidade autêntica porque o nosso trabalho exige isto 
imperiosamente. O labor do ministério cristão é executado na exata 
proporção do vigor da nossa natureza renovada. Nosso trabalho só é bem 
feito quando nós estamos bem. Como o trabalhador é, assim será o seu 
trabalho. Enfrentar os inimigos da verdade, defender os baluartes da fé, 
governar bem a casa de Deus, consolar todos os que choram, edificar os 
santos, orientar os que andam perplexos, tolerar os insolentes, conquistar 
almas e nutri-las – todas estas obras e outras mil não são para um João 
Fraco da Mente, nem para um José É Já Que Paro, mas estão reservadas 
para o Cristiano Coração Grande, que o Senhor fez forte para Si mesmo. 
Procurem, pois, obter forças daquele que é o Forte, e sabedoria daquele 
que é o Sábio – sim, busquem tudo do Deus de todos. 
Em terceiro lugar, que o ministro cuide para que o seu caráter 
pessoal se harmonize em todos os aspectos com o seu ministério. 
Já ouvimos todos a historia do homem que pregava tão bem e vivia 
tão mal que, quando estava no púlpito, toda gente dizia que ele não devia 
sair mais de lá, e quando estava fora dele, todos declaravam que ele não 
devia voltar a ocupá-lo. Que o Senhor nos livre da imitação de tal Janes. 
Que nunca sejamos sacerdotes de Deus junto ao altar e filhos de Belial 
fora das portas do tabernáculo. Ao contrário, como diz Nazianzeno sobre 
Basílio, "trovejemos em nossa doutrina e relampagueemos em nossa 
conversação". Não confiamos nas pessoas de duas caras e ninguém dará 
crédito àqueles cujos testemunhos verbais e práticos são contraditórios. 
Segundo o provérbio, as ações falam mais alto do que as palavras, assim 
uma vida má efetivamente abata a voz do mais eloqüente ministério. 
Afinal de cantas, a nossa mais veraz obra de edificação deve ser 
realizada com as nossas mãos; o nosso caráter tem que ser mais 
persuasivo do que o nosso falar. 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 20
Aqui vos advirto não somente sobre pecados de comissão, mas 
também sobre pecados de omissão. Muitos pregadores esquecem-se de 
servir a Deus quando estão fora do púlpito, sendo incoerentes em seu 
modo de viver. Diletos irmãos, detestem pensar em ser ministros tipo 
relógio, não vivendo pela graça presente no seu íntimo, mas agindo pela 
corda dada por influências passageiras; homens que somente são 
ministros quando têm que ser, quando são pressionados pelas horas de 
ministração, mas deixam de ser ministros quando descem a escada do 
púlpito. Os verdadeiros ministros são ministros sempre. Muitos 
pregadores são como aqueles brinquedos de areia que compramos para 
as nossas crianças; viramos a caixa de boca para baixo, e o pequeno 
acrobata volve-se e revolve-se até esvair-se a areia toda, e então ele 
pende imóvel. Assim há alguns que perseveram nas ministrações da 
verdade enquanto há alguma necessidade oficial do seu trabalho, mas, 
depois disso, sem pagamento, não há oração: se não há salário, não há 
sermão. 
É horrível ser ministro incoerente. De nosso Senhor se diz que foi 
semelhante a Moisés por esta razão, por que foi "profeta poderoso em 
obras e palavras". O homem de Deus deve imitar nisto o seu Mestre e 
Senhor. Deve ser poderoso tanto na palavra da sua doutrina como nos 
seus atos exemplares, e mais poderoso, se possível, no segundo caso. É 
notável que a única história da igreja que temos é esta: "Atos dos 
Apóstolos". O Espírito Santo não preservou todos os seus sermões. Eram 
muito bons, melhores do que jamais pregaremos, mas, apesar disso, o 
Espírito Santo Se interessou mais pelos "atos" dos apóstolos. Não temos 
livros de atas com o registro das resoluções dos apostoles. Quando temos 
nossas reuniões eclesiásticas, registramos as nossas atas e resoluções, 
mas o Espírito Santo faz constar mais os "atos". Os nossos atos devem 
ser tais que mereçam registro, pois registrados serão. Devemos viver 
como estando sob o mais direto olhar de Deus, e como na luz do grande 
dia da revelação de todas as coisas. 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 21
No ministro, a santidade é ao mesmo tempo a sua principal 
necessidade e o seu mais excelente ornamento. A simples excelência 
moral não basta; é preciso haver virtude mais elevada. Tem que haver 
um caráter consistente, mas este precisa ser ungido com o óleo santo da 
consagração, ou, do contrário, estará faltando aquilo que nos impregna 
do melhor aroma para Deus e para os seres humanos. O velho John 
Stoughton, em seu tratado intitulado The Preacher's Dignity and Duty (A 
Dignidadee o Dever do Pregador), insiste na santidade do ministro com 
declarações contundentes. "Se Uzá deve morrer por tocar na arca de 
Deus, e isso para segurá-la por estar prestes a cair; se devem morrer os 
homens de Bete-Semes porque olharam para dentro dela; se os próprios 
animais são ameaçados somente por aproximar-se do monte santo – 
então, que espécie de pessoas devem ser os que são aceitos para falar 
com Deus familiarmente, para "estar de pé diante dele", como o fazem os 
anjos, e "contemplar continuamente a sua face"? "Para levar a arca em 
seus ombros"; "para levar o seu nome perante os gentios"; numa palavra 
para ser Seus embaixadores? "A santidade convém à Tua casa, Senhor". 
E não seria ridículo imaginar que os vasos devem ser santos, as vestes 
devem ser santas, tudo deve ser santo, mas somente aquele sobre cujas 
vestimentas precisa estar escrito "santidade ao Senhor" pode deixar de 
ser santo? Não seria ridículo que as campainhas dos cavalos devem ter 
em si uma inscrição de santidade (Zac. 14:20); e as campainhas dos 
santos, isto é, as campainhas de Arão, fiquem sem santificar-se? 
Não, eles devem ser "lâmpadas que ardem e brilham", ou então a 
sua influência projetará alguma qualidade maligna; têm que "ser 
ruminantes e ter o casco dividido", ou serão imundos; precisam "manejar 
bem a palavra" e andar retamente na vida, juntando assim a vida ao 
saber. Se faltar santidade, os embaixadores desonrarão o país do qual 
procedem e o príncipe que os enviou. E este Amasa morto, esta doutrina 
não vitalizada pela vida genuína, jazendo no caminho, detém o povo de 
Deus, impedindo-o de prosseguir com entusiasmo em sua luta 
espiritual." 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 22
A vida do pregador deve ser um ímã para atrair homens a Cristo, e é 
triste de fato quando os retém longe dEle. A santidade dos ministros é 
um sonoro chamamento aos pecadores para que se arrependam, e, 
quando aliada à santa alegria, torna-se maravilhosamente atraente. 
Jeremy Taylor, em sua linguagem peculiar e rica, diz: "As pombas de 
Herodes nunca poderiam ter convidado tantos estranhos para os seus 
pombais, se estes não tivessem sido lambuzados com o bálsamo de 
Gileade. Mas, dizia Didymus, "faça os seus pombos cheirarem 
agradavelmente, e eles atrairão bandos completos"; e se a sua vida for 
excelente, se as suas virtudes forem como um ungüento precioso, logo 
você fará os que estão a seu cargo correrem "in odorem unguentorum", 
atrás das suas precisas fragrâncias". Mas você precisa ser excelente, não 
"tanquam unus de populo", mas "tanquam hamo Dei"; você deve ser um 
homem de Deus, não segundo a maneira comum dos homens, mas 
"segundo o coração de Deus". E os homens se empenharão para ser 
semelhantes a você, se você for semelhante a Deus. Mas quando você 
fica parado à porta da virtude, apenas para manter fora o pecado, não 
introduzirá ninguém no aprisco de Cristo, exceto aqueles impelidos pelo 
temor. "Ad majorem Dei gloriam", "Fazer o que mais glorifique a Deus", 
esta é a linha pela qual você deve andar. Portanto, não ir além daquilo 
que todos os homens fazem por obrigação, é servilismo, não atingindo a 
afeição de filhos. Muito menos poderão ser país espirituais os que não 
chegam a igualar-se aos filhos de Deus. Pois um farol obscuro, 
conquanto haja fraca luz por um lado, mal iluminará a um, e muito 
menos conduzirá uma multidão, nem atrairá muitos seguidores com o 
brilho da sua chama". 
Outro teólogo episcopal igualmente admirável disse com acerto e 
com energia: 
"A estrela que guiou os magos a Cristo, e a coluna de fogo que 
conduziu os filhos de Israel a Canaã, não brilharam apenas, mas foram 
adiante deles (Mt. 2:9; Êx. 13:21). A voz de Jacó fará pouca coisa boa, se as 
mãos forem de Esaú. Na lei, ninguém que tivesse alguma mancha poderia 
oferecer as oblações ao Senhor (Lv. 21:17-20); por meio dessas coisas, o 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 23
Senhor nos ensina quais dons e graças devem existir em Seus ministros. O 
sacerdote devia ter em suas vestes campainhas e romãs, umas figurando 
doutrina sã, outras simbolizando vida frutífera (Êx. 28:33-34). O Senhor será 
santificado naqueles que andam junto dEle (Is. 52:111; pois os pecados dos 
sacerdotes levam o povo a aborrecer as ofertas ao Senhor (1 Sm. 2:17). 
Suas vidas ímpias lançam vergonha sobre a sua doutrina. Passionem Christi 
annunciant profitendo, male agendo exhonorant, como diz Agostinho – com 
a sua doutrina edificam, e com as suas vidas destroem. Concluo este ponto 
com a salutar passagem de Hierom ad Nepolianum. Não permitas, diz ele, 
que as tuas obras envergonhem a tua doutrina, para que os que te ouvem 
na igreja não te respondam tacitamente: Por que não praticas o que ensinas 
a outros? É bom demais o mestre que persuade outros a jejuarem, estando 
ele de barriga cheia. Um ladrão pode denunciar a cobiça. Sacerdotis Christi 
os, mens, manusque concordent. A língua, o coração e a mão do sacerdote 
de Cristo devem concordar entre si". 
Muito apropriada também é a linguagem de Thomas Playfere em 
sua obra: "Fale bem, Aja bem". "Havia um ridículo ator na cidade de 
Esmirna que, quando pronunciava: Ó coelum! Ó céu! apontava com o 
dedo para o chão; o que vendo Polemo, o principal vulto da localidade, 
não pôde ficar ali por mais tempo e saiu muito irritado, dizendo: "Este 
tolo cometeu solecismo com a mão, e falou falso latim com o dedo". 
Assim são os que ensinam bem e agem mal. Esses, apesar de terem o céu 
na ponta da língua, têm a terra na ponta do dedo. Os tais não só falam 
falso latim com a língua, mas falam falsa teologia com as mãos. Esses 
vivem em desacordo com o que pregam. Mas Aquele que tem o Seu 
trono no céu rir-se-á deles com desdém, e os varará expulsando-os do 
palco, se não corrigirem o seu procedimento. Mesmo nas pequenas 
coisas o ministro deve cuidar que sua vida esteja em harmonia com o seu 
ministério. 
Deve ter especialmente o cuidado de nunca faltar com a palavra. 
Isto deve ser levado ao escrúpulo extremo. Não conseguiremos exagerar 
nisto. A verdade não somente deve estar em nós; deve também irradiar-
se de nós. Em Londres, um célebre doutor em teologia que agora está no 
céu, não tenho dúvida – homem excelente e muito piedoso comunicou 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 24
num domingo que tencionava visitar todos os membros da sua igreja, e 
disse que, a fim de poder informá-los e visitá-los e suas famílias uma vez 
por ano, deveria seguir a ordem na lista de "bancos cativos". 
Uma pessoa que conheço bem, nesse tempo um homem pobre, 
apreciou muito a idéia de que o ministro ia à sua casa para vê-lo, e, uma 
ou duas semanas antes da ocasião que ele imaginava que seria a sua vez, 
sua mulher esmerou-se muito em limpar a lareira e em manter a casa 
bem arrumada, e o homem corria logo para casa ao sair do serviço todas 
as tardes, esperando encontrar lá o doutor. Isto continuou acontecendo 
durante considerável tempo. Ou o teólogo esqueceu a promessa, ou foi-
se cansando de levá-la a efeito, ou por alguma outra razão nunca foi à 
casa daquele homem pobre. O resultado foi este: o homem perdeu a 
confiança em todos os pregadores, e dizia: "Eles cuidam dos ricos, mas 
não cuidam de nós, os pobres". 
Por muitos anos aquele homem não se firmou em nenhum local de 
culto, até que um dia caiu no Exeter Hall e durante anos foi meu ouvinte, 
até que a Providência o removeu. Não foi tarefa pequena fazê-lo crer que 
todo ministro podia ser sincero e amar imparcialmente ricos e pobres. 
Tratemos de evitar esse mal, dando cuidadosa atenção à nossa palavra 
pessoal. Devemos lembrar-nos de que somos muito observados. 
Dificilmente os homens têm o descaramento de transgredir a leí à plena 
vista dos seus semelhantes; todavia, nós vivemos e nos movemos nessa 
publicidade. Milhares de olhos de águias nos vigiam. Procedamos de 
modo que nunca precisemos ter preocupação sobre se todo o céu, terra e 
inferno alongam a lista de espectadores. A nossa posição pública é 
grande ganho, caso sejamos habilitados a mostraros frutos do Espírito 
Santo em nossas vidas. Tenham cuidado, irmãos, para não suceder que 
joguem fora a vantagem. 
Meus caros irmãos, quando lhes dizemos que cuidem bem da sua 
vida, queremos dizer que sejam cuidadosos até com as minudências do 
seu caráter. Evitem as pequenas dívidas, a impontualidade, fazer 
mexericos, dar apelidos, contendas minúsculas, e todos aqueles pequenos 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 25
males que enchem de moscas o ungüento. As auto-indulgências que têm 
rebaixado a reputação de muitos, não podemos tolerar. As familiaridades 
que têm lançado suspeita sobre outros, temos que evitar castamente. Da 
grosseria que tem tornado alguns odiosos, e das futilidades que tornaram 
muitos desprezíveis, temos que nos descartar. Não podemos permitir-nos 
correr grandes riscos por causa de pequenas coisas. Tenhamos o cuidado 
de conduzir-nos de acordo com a regra: "Não dando nós escândalo em 
coisa alguma, para que o nosso ministério não seja censurado". 
Com isto não se quer dizer que devemos manter-nos presos a 
quaisquer caprichos da sociedade em que nos movemos. Em regra, odeio 
as modas da sociedade e detesto os convencionalismos, e se eu achasse 
que a melhor atitude seria pisar numa regra de etiqueta, sentir-me-ia 
gratificado ao fazê-lo. Não; somos homens, não escravos; e não devemos 
renunciar à nossa liberdade varonil para sermos lacaios dos que fingem 
gentileza ou alardeiam polidez. Entretanto, irmãos, de tudo que se 
aproxima da grosseria que cheira a pecado temos que fugir como 
fugiríamos de uma víbora. Para nós as regras de Chesterfield são 
ridículas; não, porém, o exemplo de Cristo. Ele nunca foi grosseiro, 
baixo, descortês ou indelicado. 
Mesmo em vossas recreações, lembrem-se de que são ministros. 
Quando estão fora da mira, ainda continuam sendo oficiais do exército 
de Cristo, e, como tais, não se rebaixem. Mas, se devemos observar com 
cautela as coisas mínimas, quanto cuidado devemos ter nas grandes 
questões da moralidade, da honestidade e da integridade! Nestas é 
preciso que o ministro não falhe. Sua vida particular deve estar sempre 
em harmonia com o seu ministério, ou, do contrário, o seu dia se porá 
com ele, e quanto mais cedo se afastar, melhor, pois a sua permanência 
nesse ofício servirá somente para desonrar a causa de Deus e ocasionar a 
ruína de si mesmo, 
 
 
 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 26
O CHAMADO PARA O MINISTÉRIO 
 
Todo cristão capaz de disseminar o evangelho tem direito de fazê-
lo. Ainda mais, não só tem direito, mas é seu dever fazê-lo enquanto 
viver (Ap. 22:17). A propagação do evangelho foi entregue, não a uns 
poucos, mas a todos os discípulos do Senhor Jesus Cristo. Segundo a 
medida da graça a ele confiada pelo Espírito Santo, cada discípulo tem a 
obrigação de ministrar em seu tempo e geração, à igreja e entre os 
incrédulos. Na verdade, esta questão vai além dos varões, incluindo 
todos os elementos do outro sexo. Sejam os crentes homens ou mulheres, 
quando capacitados pela graça divina, estão todos obrigados a esforçar-
se ao máximo para divulgar o conhecimento do Senhor Jesus Cristo. 
Todavia, o nosso serviço não assume necessariamente a forma 
particular da pregação. Seguramente, em alguns casos é preciso que não, 
como por exemplo no caso das mulheres, cujo ensino público é 
expressamente proibido: 1 Tm. 2:12; 1 Co. 14:34. Mas, se temos 
capacidade para pregar, é mister exercitá-la. Contudo, nesta preleção não 
me refiro a prédicas ocasionais, nem a quaisquer outras formas de 
ministério comuns a todos os santos, mas ao trabalho e ofício do 
episcopado, em que se incluem o ensino e o governo da igreja, exigindo 
a dedicação da vida inteira do homem à obra espiritual, e que ele se 
separe de todas as carreiras seculares (2 Tm. 2:4). Trabalho e oficio que 
autorizam o obreiro a contar totalmente com a igreja de Deus para o 
suprimento das suas necessidades temporais, visto que ele dá todo o seu 
tempo, energia e esforços para o bem daqueles que estão sob a sua 
direção (1 Co. 9:11; 1 Tm. 5:18). 
A um homem assim Pedro se dirige com estas palavras: 
"Apascentai o rebanho de Deus, que está entre vós, tendo cuidado dele" 
(1 Ped. 5:2). Ora, nem todos de uma igreja podem superintender ou 
governar; alguns têm que ser dirigidos ou governados. E cremos que o 
Espírito Santo designa na igreja de Deus alguns para agirem como 
superintendentes, e outros para se submeterem à vigilância de outros, 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 27
para o seu próprio bem. Nem todos são chamados para trabalhar na 
palavra e na doutrina, ou para serem presbíteros, ou para exercerem o 
cargo de bispo. Tampouco devem todos aspirar a essas obras, uma vez 
que em parte nenhuma os dons necessários são prometidos a todos. Mas 
aqueles que, como o apóstolo, crêem que receberam "este ministério" (2 
Co. 4:1), devem dedicar-se a essas importantes ocupações. Homem 
nenhum deve intrometer-se no rebanho como pastor; deve ter os olhos 
postos no Sumo Pastor, e esperar Seu sinal e Sua ordem. Antes que um 
homem assuma a posição de embaixador de Deus, deve esperar pelo 
chamamento do alto. Se não o fizer, mas se se lançar às pressas ao cargo 
sagrado, o Senhor dirá dele e de outros semelhantes: "Eu não os enviei, 
nem lhes dei ordem; e não trouxeram proveito nenhum a este povo diz o 
Senhor" (Jr. 23:32). 
Consultando o Velho Testamento, vocês verão os mensageiros de 
Deus, da velha dispensação, reivindicando comissionamento da parte de 
Jeová. Isaías conta-nos que um dos serafins tocou os seus lábios com 
uma brasa viva tirada do altar, e que a voz do Senhor lhe disse: "A quem 
enviarei, e quem há de ir por nós?" (Isa. 6:8). Então disse o profeta: 
"Eis-me aqui, envia-me a mim". Não se apressou antes de ter sido 
visitado dessa maneira tão especial pelo Senhor, e de ser por Ele 
qualificado para a sua missão. "Como pregarão, se não forem 
enviados?", são palavras que ainda não tinham sido enunciadas, mas o 
seu solene significado era bem compreendido. 
Jeremias narra em detalhe a sua vocação no primeiro capítulo do 
seu livro: 
"Assim veio a mim a palavra do Senhor, dizendo: Antes que te 
formasse no ventre te conheci, e antes que saísses da madre, te santifiquei; 
às nações te dei por profeta. Então disse eu: Ah Senhor Jeová! Eis que não 
sei falar; porque sou uma criança. Mas o Senhor me disse: Não digas: eu 
sou uma criança; porque aonde quer que eu te enviar, irás; e tudo quanto te 
mandar dirás. Não temas diante deles, porque eu sou contigo para te livrar, 
diz o Senhor. E estendeu o Senhor a sua mão, e tocou-me na boca; e disse-
me o Senhor: Eis que ponho as minhas palavras na tua boca. Olha, ponho-te 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 28
neste dia sobre as nações, e sobre os reinos, para arrancares, e para 
derribares, e para destruíres, e para arruinares; e também para edificares e 
para plantares" (Jr. 1:4-10). 
Diferindo em sua forma externa, mas com o mesmo propósito, foi a 
comissão de Ezequiel. É como se segue, em suas palavras: 
"E disse-me: Filho do homem, põe-te em pé, e falarei contigo. Então 
entrou em mim o Espírito, quando falava comigo, e me pôs em pé, e ouvi o 
que me falava. E disse-me: Filho do homem, eu te envio aos filhos de Israel, 
às nações rebeldes que se rebelaram contra mim, até este mesmo dia" (Ez. 
2:1.3). "Depois me disse: Filho do homem, come o que achares; come este 
rolo, e vai, fala à casa de Israel. Então abri a minha boca, e me deu a comer 
o rolo. E disse-me: Filho do homem, dá de comer ao teu ventre, e enche as 
tuas entranhas deste rolo que eu te dou. Então o comi, e era na minha boca 
doce como o mel. E disse-me: Filho do homem, vai, entra na casa de Israel, 
e dize-lhes as minhas palavras" (Ez. 3:1-4). 
A vocação de Daniel para profetizar, conquanto não registrada, é 
fartamente atestada pelas visões a ele outorgadas, e pelo grandíssimo 
favor que desfrutava da parte do Senhor, quer nas suas meditações 
solitárias, quer nos atos públicos. 
Não há necessidade de passar em revista todosos outros profetas, 
pois todos se arrogavam falar com a autoridade do "assim diz o Senhor". 
Na presente dispensação, o sacerdócio é comum a todos os santos. Mas, 
profetizar, ou fazer aquilo que se lhe assemelha, a saber, ser movido pelo 
Espírito Santo para entregar-se totalmente à proclamação do evangelho, 
é, na verdade, dom e vocação de apenas um número relativamente 
pequeno. E certamente estes precisam estar tão seguros da veracidade da 
sua posição como os profetas estavam da sua. E mais, como podem 
justificar o seu ministério, senão por um chamamento semelhante? 
Tampouco ninguém imagine que essas vocações são simples ilusão, 
e que em nossa época ninguém é separado para a peculiar obra de ensino 
e direção da igreja, pois os próprios nomes dados no Novo Testamento 
aos ministros implicam em uma prévia vocação para a sua obra. Diz o 
apóstolo: "De sorte que somos embaixadores da parte de Cristo, como se 
Deus por nós rogasse". Não é fato, porém, que a própria alma do oficio 
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de embaixador repousa na nomeação feita pelo governo representado? 
Um embaixador não enviado seria objeto de riso. Homens que ousam 
declarar-se embaixadores de Cristo precisam compreender mais 
profundamente que o Senhor lhes "entregou" a palavra da reconciliação 
(2 Co. 5:18-19). Se se disser que isto se restringiu aos apóstolos, 
respondo que a epístola foi escrita, não só em nome de Paulo, mas 
também de Timóteo, e daí incluí outros ministérios além do apostolado. 
Na primeira epístola aos Coríntios lemos: "Que os homens nos (nos aqui 
significando Paulo e Sóstenes, 1 Co. 1:1) considerem como ministros de 
Cristo, e despenseiros dos mistérios de Deus" (1 Co. 4:1). Certamente o 
despenseiro deve considerar o seu oficio como da parte do Senhor. Não 
pode ser despenseiro simplesmente porque o decide ser, ou porque 
outros o consideram tal. Se a nós mesmos nos elegêssemos despenseiros 
do Marquês de Westminster e começássemos a tratar da propriedade 
daquele nobre, imediatamente o erro ser-nos-ia lançado em rosto da 
maneira mais convincente. É evidente que precisa haver autorização 
antes de alguém poder tornar-se legítimo bispo, "despenseiro da casa de 
Deus" (Tt. 1:7). 
O título apocalíptico de anjo (Ap. 2:1) significa mensageiro; e 
como os homens hão de ser arautos de Cristo, senão por Sua eleição e 
ordenação? Se a referência da palavra anjo ao ministro for contestada, 
gostaríamos, que fosse demonstrado que ela se relaciona com qualquer 
outra pessoa. A quem da igreja o Espírito escreveria como representante 
dela, senão a alguém que ocupava posição análogo à do oficial 
presidente? Tito recebeu a incumbência de dar prova cabal do seu 
ministério; havia certamente algo que provar. Há quem seja "vaso para 
honra, santificado e idôneo para uso do Senhor, e preparado para toda a 
boa obra" (2 Tm. 2:21). Não se deve recusar ao Senhor a escolha dos 
vasos que usa; Ele sempre dirá de certos homens o que disse de Saulo de 
Tarso: "Este é para mim um vaso escolhido, para levar o meu nome 
diante dos gentios, e dos reis e dos filhos de Israel" (At. 9:15). 
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Quando o nosso Senhor subiu às alturas deu dons aos homens, e é 
digno de nota que estes dons foram homens separados para obras 
diversas. "E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e 
outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores" (Ef. 4:11); 
disso fica evidente que certos indivíduos são, como resultado da 
ascensão do Senhor, dados às igrejas como pastores; dados por Deus, e, 
conseqüentemente, não se elevam a si mesmos a essa posição. Irmãos, 
espero em que um dia possam falar do "rebanho sobre que o Espírito 
Santo" os constituiu bispos (At. 20:28), e oro no sentido de que cada um 
de vocês possa dizer com o apóstolo dos gentios, que o seu ministério 
não é da parte dos homens, nem por homem algum, mas o recebeu do 
Senhor (Gl. l :1). Oxalá se cumpra em vocês aquela antiga promessa: "E 
vos darei pastores segundo o meu coração" (Jr. 3:15). "E levantarei sobre 
elas pastores que as apascentem" (Jr. 23:4) Que o Senhor mesmo cumpra 
em suas pessoas a Sua declaração: "Ó Jerusalém! sobre os teus muros 
pus guardas, que todo o dia e toda a noite de contínuo se não calarão". 
Oxalá vocês possam apartar o precioso do vil e assim ser como a boca de 
Deus (Jr. 15:19). Oxalá o Senhor manifeste por intermédio de vocês o 
aroma do conhecimento de Jesus em todo lugar, e os faça "o bom cheiro 
de Cristo, nos que se salvam e nos que se perdem" (2 Co. 2:15). Tendo 
um inapreciável tesouro em vasos de barro, que a excelência do poder 
divino pouse sobre vocês, e assim, glorifiquem a Deus e também se 
livrem do sangue de todos os homens. Como o Senhor Jesus subiu ao 
monte e chamou os que quis, e depois os mandou a pregar (Mc. 3:13), 
assim também que Ele vos escolha – a vocês chamando-vos para cima, 
para a comunhão com Ele, e vos envie como Seus servos escolhidos para 
bênção da igreja e do mundo. 
Como pode o jovem saber se é vocacionado ou não? É uma 
indagação ponderável, e desejo tratá-la mui solenemente. Oh, a divina 
orientação para fazê-lo! O fato de que centenas perderam o rumo e 
tropeçaram num púlpito, está patenteado tristemente nos ministérios 
infrutíferos e nas igrejas decadentes que nos cercam. Errar na vocação é 
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terrível calamidade para o homem, e, para a igreja sobre a qual ele se 
impõe, seu erro envolve aflição das mais dolorosas. Seria um curioso e 
penoso tema para reflexão – a freqüência com que homens dotados de 
razão enganam-se quanto à finalidade da sua existência e miram coisas 
que nunca deveriam ter buscado, O escritor que redigiu os seguintes 
versos por certo estava com os olhos postos em muitos púlpitos 
ocupados indevidamente: 
Mostrai ó sábios, se podeis, 
entre animais de toda espécie 
e condição, tamanho e classe, 
desde elefantes a mosquitos, 
um ser que tanto erre nos planos, 
e tantas vezes, como o homem. 
Cada animal quer o bem próprio 
– busca prazer, ração, repouso, 
que a natureza indica e mostra, 
sem nunca errar na escolha feita. 
Só o homem falha, embora tenha razão acima dos demais. 
 
Descei a exemplos e provai: 
O boi jamais tenta voar, 
não deixa os pastos na campina 
nem com os peixes sonda as águas. 
Dos animais, só o homem age oposto à sua natureza. 
 
Quando penso no prejuízo, que por pouco não é infinito, que pode 
resultar do erro quanto à nossa vocação para o pastorado cristão, 
domina-me o temor de que algum de nós tenha sido negligente no exame 
de suas credenciais. Preferiria que vivêssemos em dúvida e nos 
examinássemos muitíssimas vezes, do que tornarmos empecilhos no 
ministério. Não faltam numerosos métodos pelos quais o homem pode 
testar sua vocação para o ministério, se ardorosamente o quiser fazer. É-
lhe imperativo que não entre no ministério enquanto não fizer profunda 
sondagem e prova de si próprio quanto a este ponto. Estando seguro da 
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sua salvação pessoal, deve investigar quanto à questão subseqüente da 
sua vocação para o ofício; a primeira é-lhe vital como cristão, e a 
segunda lhe é igualmente vital como pastor. Ser pastor sem vocação é 
como ser membro professo e batizado sem conversão. Nos dois casos há 
um nome, e nada mais. 
1. O primeiro sinal da vocação celeste é um desejo intenso e 
absorvente de realizar a obra. Para se constatar um verdadeiro 
chamamento para o ministério é preciso que haja uma irresistível, 
insopitável, ardente e violenta sede de contar aos outros o que Deus fez 
por nossas almas. Que tal se eu apelidar isso de uma espécie de ternura, 
como a que os pássaros têm pela criação dos seus filhotes quando chega 
a estação própria; quando a ave mãe está disposta a morrer, antes de 
abandonar o ninho. 
Alguém que conheceu Alleine intimamente disse que ele tinha 
infinita e insaciável avidez pela conversão de almas". Quando pôde ter 
participação societária na universidade em queestava, preferiu uma 
capelania, porque "o inspirava uma impaciência por ocupar-se 
diretamente na obra ministerial". "Não entre no ministério se puder 
passar sem ele", foi o conselho profundamente sábio de um teólogo a 
alguém que procurou a sua opinião. Se alguém neste recinto puder ficar 
satisfeito sendo redator de jornal, merceeiro, fazendeiro, médico, 
advogado, senador ou reí, em nome do céu e da terra, siga o seu 
caminho. Não é homem em quem habita o Espírito de Deus em Sua 
plenitude, pois o homem assim revestido da plenitude de Deus ficaria 
inteiramente enfadado com qualquer carreira que não aquela pela qual o 
âmago da sua alma palpita. 
Por outro lado, se você puder dizer que nem por toda a riqueza da 
Índia poderia ou ousaria esposar qualquer outra carreira, a qual o 
apartasse da pregação do evangelho de Jesus Cristo, fique certo então 
que se noutras coisas o exame for igualmente satisfatório, você tem os 
sinais do apostolado. Devemos estar convictos que a desonra virá sobre 
nós se não pregarmos o evangelho. A Palavra de Deus deve ser como 
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fogo em nossos ossos, do contrário, se nos aventurarmos no ministério, 
seremos infelizes nisso, seremos incapazes de suportar as diversas 
formas de abnegação que lhe são próprias, e prestaremos pouco serviço 
aqueles aos quais ministramos. Falo de formas de abnegação, e digo 
bem, pois o trabalho do verdadeiro pastor está repleto delas, e, se não 
amar a sua vocação, logo sucumbirá ou desistirá da luta, ou prosseguirá 
descontente, sob o peso de uma monotonia tão fastidiosa como a de um 
cavalo cego girando um moinho. 
"Na força do amor há consolação 
que torna suportável uma coisa 
que a qualquer outro rompe o coração." 
Cingidos desse amor, vocês serão intrépidos; despidos desse cinto 
mais que mágico da vocação irresistível, consumir-se-ão na desventura. 
Este desejo deve resultar de reflexão. Não deve ser um impulso 
repentino desajudado por uma ponderação ansiosa. Deve ser o resultado 
do nosso coração em seus melhores momentos, o objeto de nossas 
reverentes aspirações, o assunto de nossas mais ferventes orações. Deve 
continuar conosco quando tentadoras ofertas de riqueza e comodidade 
entrarem em conflito com ele, e deve permanecer como uma resolução 
serena e bem pensada depois de tudo ter sido avaliado em suas 
proporções certas, e o preço muito bem calculado. 
Quando morava com meu avô no campo, na meninice, vi um grupo 
de caçadores, com seus casacos vermelhos, cavalgando pelos campos 
atrás de uma raposa. Foi uma delícia para mim! Meu pequeno coração 
excitou-se; senti-me disposto a seguir os cães de caça, saltando barreiras 
e cruzando valas. Sempre tive gosto natural por essa espécie de 
atividade, e, na minha infância, quando me perguntavam o que eu queria 
ser, costumava dizer que ia ser caçador. Bela profissão, na verdade! 
Muitos jovens têm a mesma idéia de serem clérigos, como eu de ser 
caçador – simples noção infantil, de que gostariam do casaco e do toque 
das cornetas; da honra, do respeito e da tranqüilidade; e talvez sejam 
bastante tolos para pensar – gostariam das riquezas do ministério (só 
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podem ser ignorantes, se buscam riqueza com relação ao ministério 
evangélico). O fascínio exercido pelo ofício de pregador é muito grande 
para as mentes fracas, razão por que energicamente advirto a todos os 
jovens a não confundirem fantasia com inspiração, e preferência infantil 
com vocação do Espírito Santo. 
Notem bem, o desejo de que falei deve ser totalmente 
desinteressado. Se um homem perceber, depois do mais severo exame de 
si próprio, qualquer outro motivo que a glória de Deus e o bem das almas 
em sua busca do episcopado, melhor será que se afaste dele de uma vez, 
pois o Senhor aborrece a entrada de compradores e vendedores em Seu 
templo. A introdução de qualquer coisa que cheire a mercenário, mesmo 
no menor grau, será como um inseto no ungüento, estragando-o de todo. 
Esse desejo deve ser tal que permaneça conosco, uma paixão que 
agüente o teste da provação, um anelo "do qual nos seja completamente 
impossível fugir, ainda que o tentemos; desejo, na verdade, que se torna 
cada vez mais intenso conforme os anos passem, até tornar-se um anseio, 
uma anelante aspiração, uma consumidora fome de proclamar a Palavra. 
Esse desejo intenso é uma coisa tão nobre e tão bela que, toda vez que o 
percebo inflamar-se no peito de algum jovem, sempre me contenho, não 
me apressando a desanimá-lo, mesmo que tenha dúvidas quanto à sua 
capacidade. Talvez seja necessário, por razões que lhes serão dadas mais 
adiante, sufocar as chamas, mas isto deve ser feito com relutância e com 
sabedoria. Tenho tão profundo respeito por este "fogo nos ossos" que, se 
eu mesmo não o sentisse, teria que abandonar de uma vez o ministério. 
Se vocês não sentem o calor sagrado, rogo-lhes que voltem para casa e 
sirvam a Deus em suas respectivas esferas. Mas se com certeza, as brasas 
de zimbro chamejam por dento, não as apaguem, a menos que, de fato, 
outras considerações de grande importância lhes provem que o desejo 
que têm não é fogo de origem celestial. 
 
2. Em segundo lugar, em combinação com o desejo ardente de ser 
pastor, é preciso que haja aptidão para ensinar e certa medida das 
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outras qualidades necessárias ao oficio de instrutor público. Para provar 
sua vocação o homem precisa testá-la com êxito. Não pretendo que na 
primeira vez que um homem se levantar para falar, pregue tão bem como 
Robert Hall em seus últimos tempos. Se a sua pregação não for pior do 
que o grande homem fez no início da sua careira, não deve ser 
condenado. 
Vocês sabem que Robert Hall fracassou completamente três vezes, 
e clamava: "Se isto não me humilhar, nada mais me humilhará". Alguns 
dos mais nobres oradores não foram dos mais fluentes nos seus primeiros 
tempos. Mesmo Cícero no início padecia de voz fraca e dificuldade de 
elocução. Contudo, ninguém deve considerar-se chamado para pregar 
enquanto não provar que pode falar em público. Claro que Deus não 
criou o hipopótamo para voar, e se o leviatã tivesse forte desejo de subir 
aos ares com a calandra, evidentemente seria uma inspiração insensata, 
visto que não é dotado de asas. Se um homem for vocacionado para 
pregar, será dotado de capacidade em algum grau para falar, capacidade 
que ele cultivará e desenvolverá. Se o dom de elocução não existir no 
início em alguma medida, não é provável que venha a desenvolver-se. 
Ouvi falar de um cavalheiro que tinha o mais intenso desejo de 
pregar, e tanto insistiu com o seu pastor que, depois de múltiplas recusas, 
conseguiu licença para pregar um sermão de prova. Essa oportunidade 
foi o fim da sua importunação, pois, depois de anunciar o texto, viu-se 
privado de todas as idéias menos uma, que ele transmitiu sentidamente, e 
em seguida desceu da tribuna: "Meus irmãos", disse ele, "se algum de 
vocês pensa que é fácil pregar, aconselho-o a vir até aqui para perder 
toda a vaidade." 
A prova a que submetem as suas capacidades revelará a sua 
deficiência, se vocês não tiverem a aptidão necessária. Não conheço 
nada melhor. Devemos dar-nos a nós próprios uma boa prova nesta 
questão, ou não poderemos saber com certeza se Deus nos chamou ou 
não; e durante a prova, devemos perguntar-nos a nós mesmos muitas 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 36
vezes se, de modo geral, podemos alimentar a esperança de edificar 
outros com os nossos discursos. 
Contudo, devemos fazer mais do que submeter isso à nossa 
consciência e ao nosso julgamento, pois somos juízes ineptos. Certa 
classe de irmãos tem grande facilidade para descobrir que tem sido 
maravilhosa e divinamente auxiliada em suas declamações. Eu invejaria 
a gloriosa liberdade e a confiança própria desses irmãos, se houvesse 
algum fundamento para isso. Pois, lastimavelmente, com muita 
freqüência tenho que deplorar e lamentar minha falta de sucesso e meus 
fiascos como orador.Não devemos confiar muito em nossa própria 
opinião, mas se pode aprender muito de pessoas judiciosas e de índole 
espiritual. De modo nenhum é isto uma leí que deva obrigar a todas as 
pessoas, mas ainda assim é um bom e antigo costume em muitas das 
nossas igrejas rurais, o jovem que aspira ao ministério pregar perante a 
igreja. Dificilmente é um ensaio agradável ao jovem aspirante, e, em 
muitos casos, mal chega a ser um exercício edificante para o povo; 
todavia, pode dar provas de que é um recurso disciplinar dos mais 
salutares, e poupa a exposição pública da ignorância excessiva. O livro 
de atas da igreja de Arnsby contém o seguinte registro: 
Breve relato do chamamento de Robert Hall Junior para a obra do 
ministério, pela Igreja de Arnsby, 13 de agosto de 1780. 
"O referido Robert Hall nasceu em Arnsby em 2 de maio de 1764; 
desde pequeno foi, não somente sério e dado à oração em secreto antes 
mesmo de poder falar com clareza, mas também foi sempre totalmente 
inclinado à obra do ministério. Começou a compor hinos antes de completar 
sete anos de idade e neles revelou sinais de piedade, de pensamento 
profundo e de gênio. Entre oito e nove anos fez vários hinos, que foram 
admirados por muitos, um dos quais foi publicado na Revista do Evangelho 
(Gospel Magazine) aproximadamente na mesma época. Escreveu expondo 
os seus pensamentos sobre vários assuntos religiosos e sobre porções 
seletas da Escritura. Tinha também intensa propensão para os estudos, e 
fez tanto progresso, que o mestre-escola provinciano de quem ele era aluno 
não pode instruí-lo mais. Então foi enviado à escola-internato de 
Northampton, ficando aos cuidados do Rev. John Ryland, onde passou 
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cerca de um ano e meio, e alcançou grande progresso em latim e grego. Em 
outubro de 1778, foi para a Academia de Bristol, sob os cuidados do Rev. 
Evans; e, em 13 de agosto de 1780, foi comissionado ao ministério por esta 
igreja, estando ele com dezesseis anos e três meses de idade. A maneira 
pela qual a igreja chegou a ficar satisfeita com a capacidade dele para a 
grande obra foi por ter ele pregado, quando lhe tocou a vez, nas reuniões de 
conferências, sobre várias porções da Escritura; nas quais, e na oração, 
havia participado por quase quatro anos antes; e, quando em casa, tendo 
pregado a pedido dos irmãos muitas vezes nas manhãs do dia do senhor, 
para grande satisfação deles. Portanto, eles pediram calorosamente e 
unânimes que ele fosse solenemente separado para o serviço da 
comunidade. Com efeito, no dia acima referido, ele foi examinado por seu 
pai perante a igreja quanto à sua inclinação, seus motivos e seus fins em 
vista, com referência ao ministério, sendo-lhe mostrado igualmente o desejo 
de que ele fizesse uma declaração dos seus sentimentos religiosos. Tendo-
se feito tudo, para inteira satisfação da igreja, consagraram-no, pois, 
levantando as mãos direitas e com oração solene. Depois o seu pai fez-lhe 
um discurso baseado em 2 Tm. 2:1: "Tu, pois meu filho, fortifica-te na graça 
que há em Cristo Jesus". Sendo-lhe assim confiada a obra ministerial, 
pregou de tarde sobre 2 Ts. 1:7.8. "Que o Senhor o abençoe e lhe conceda 
grande sucesso!!" 
 
Considerável importância deve ser dada ao julgamento feito por 
homens e mulheres que vivem perto de Deus, e, na maioria dos casos, o 
seu veredicto não será errôneo. Contudo, este recurso não é final nem 
infalível, e deve ser avaliado somente em proporção à inteligência e à 
piedade das pessoas consultadas. Lembro-me bem do empenho com que 
uma certa piedosa matrona cristã me dissuadiu de pregar. Esforcei-me 
para avaliar a importância da opinião dela com simplicidade e paciência 
– opinião essa sobrepujada, porém, pelo julgamento emitido por pessoas 
de maior experiência. Os jovens em dúvida devem fazer-se acompanhar 
dos seus mais sábios amigos quando vão à igreja rural ou ao salão de 
cultos da vila e tentam transmitir a Palavra. 
Já notei – e o meu amigo Rogers observou a mesma coisa – que 
vocês, cavalheiros, estudantes, como corpo estudantil, no julgamento que 
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fazem uns dos outros raramente erram, se é que erram alguma vez. 
Raramente houve um caso, tomada a instituição de modo global, em que 
a opinião geral da escola toda sobre um irmão foi errada. Os homens não 
são tão incapazes de formar opinião uns dos outros, como às vezes se 
pensa. Reunindo-se como o fazem em classe, nas reuniões de oração, nas 
conversas e nas várias atividades religiosas, vocês se avaliam uns aos 
outros; e o prudente não se apressará a desprezar o veredicto da casa. 
Este ponto não estará completo se eu não acrescentar que a simples 
capacidade para edificar e a aptidão para ensinar não bastam. São 
necessários outros talentos para completar a personalidade do pastor. 
Critério sadio e sólida experiência devem instruí-lo; maneiras gentis e 
qualidades amáveis devem governá-lo; firmeza e coragem devem ser 
manifestas; e não devem faltar ternura e simpatia. Os dons 
administrativos para governar bem são condições tão necessárias como 
os dons instrutivos para ensinar bem. Vocês devem ser aptos para dirigir, 
devem estar preparados para agüentar, e devem ser capazes de 
perseverar. Quanto à graça, vocês devem estar cabeça e ombros acima do 
restante do povo, capazes de ser seu pai e seu conselheiro. Leiam 
cuidadosamente as qualificações do bispo, registradas em 1 Tm. 3:2-7 e 
Tt. 1:6-9. Se esses dons e graças não estiverem em vocês, e com 
abundância, é possível que tenham bom êxito como evangelistas, mas 
como pastores não terão nenhum valor. 
 
3. Ainda para provar a vocação de alguém, depois de exercitar um 
pouco os seus dons, como já lhes falei, é preciso que o aspirante veja 
realizar-se certo número de conversões sob os seus esforços, ou poderá 
concluir que cometeu um engano e, daí, poderá retornar pelo melhor 
caminho que puder encontrar. Não se espera que no primeiro, e mesmo 
no vigésimo esforço em público, sejamos premiados com o sucesso; e 
pode ocorrer que um homem tenha uma vida inteira de provação, se se 
sentir chamado para tanto, mas a mim me parece que quando alguém for 
separado para o ministério, seu comissionamento estará sem selos 
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enquanto almas não forem ganhas por sua instrumentalidade para o 
conhecimento de Jesus. Como obreiro, deve continuar trabalhando, quer 
tenha sucesso ou não, mas como ministro, não pode ter certeza da sua 
vocação enquanto não houver resultados patentes. 
Como o meu coração pulou de alegria quando ouvi as novas da 
primeira conversão que se deu por meu intermédio! Nunca pude ficar 
satisfeito com o templo cheio, e com as bondosas expressões dos 
amigos; ansiava por ouvir de corações quebrantados, de lágrimas 
correndo dos olhos dos penitentes. Muito me regozijei, como alguém que 
acha grande presa, devido a uma pobre mulher de operário ter 
confessado que sentira a culpa do seu pecado e encontrara o Salvador 
com a minha dissertação de domingo à tarde. 
Tenho agora na retina a cabana em que ela morava; creiam-me, 
sempre me parece pitoresca. Lembro-me bem da sua recepção na igreja, 
da sua morte e da sua partida para o lar celestial. Ela foi o primeiro selo 
do meu ministério, e, posso garantir-lhes, selo na verdade muito 
precioso. Mãe nenhuma jamais ficou mais cheia de felicidade com o 
nascimento do seu primogênito. Na ocasião eu poderia ter entoado o 
cântico de Maria, pois minha alma engrandeceu o Senhor por ter Se 
lembrado de mim em minha baixeza, e ter-me dado a grande honra de 
fazer um trabalho pelo qual todas as gerações me chamariam bem-
aventurado, pois assim avaliei a conversão de uma alma. 
É preciso que haja certo número de conversões em seus trabalhos 
ocasionais antes de poderem acreditar que a pregação deve constituir a 
carreira da sua existência toda. Recordem as palavras do Senhor 
mediante o profeta Jeremias; são muito pertinentes ao ponto de que 
estamos tratando, e deveriam alarmartodos os pregadores infrutíferos. 
"Não mandei os profetas, e todavia eles foram correndo: não lhes falei a 
eles, e todavia eles profetizaram. Mas se estivessem no meu conselho, 
então fariam ouvir as minhas palavras ao meu povo, e os fariam voltar 
do seu mau caminho, e da maldade das suas ações" (Jr. 23:21-22). Para 
mim é uma maravilha ver como há homens que continuam tranqüilos a 
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obra da pregação ano após ano, sem conversões. Não têm eles entranhas 
de compaixão pelos outros? Não têm senso de responsabilidade por si 
mesmos? Ousam eles, por uma falsa representação da soberania divina, 
lançar a culpa sobre o seu Senhor? Ou acreditam eles que Paulo planta, 
Apolo rega, e Deus não dá o crescimento? Inúteis são os seus talentos, a 
sua filosofia, a sua retórica, e até a sua ortodoxia, sem os sinais que 
devem seguir-se. 
Como são enviados de Deus os que não trazem homens a Deus? 
Profetas cujas palavras são vazias de poder, semeadores cujas sementes 
fenecem todas, pescadores que não pescam peixes, soldados que não 
ferem – são homens de Deus, estes? Certamente melhor seria trabalhar 
como lixeiro ou limpador de chaminé, do que ficar no ministério como 
uma árvore completamente estéril. A ocupação mais simples confere 
algum beneficio à humanidade, mas o infeliz que ocupa um púlpito e 
nunca glorifica o seu Deus com conversões, é um vazio, uma nódoa, uma 
feiúra, uma injúria. Não vale o sal que come, muito menos o pão. E se 
escreve aos jornais para queixar-se da pequenez do seu salário, sua 
consciência, se é que tem alguma, bem poderia replicar: "E o que você 
ganha, não merece". Tempos de seca podem ocorrer; sim, e anos de 
escassez podem consumir os prévios anos de produtividade. Mas ainda 
haverá fruto em geral e fruto para a glória de Deus. Nesse meio tempo, a 
esterilidade transitória encherá a alma de indizível angústia. 
Irmãos, se o Senhor não lhes de zelo pelas almas, agarrem-se à 
pedra de bater sola, ou à colher de pedreiro, mas evitem o púlpito com a 
mesma resolução com que valorizam a sua paz de coração e a sua 
salvação futura. 
 
4. Contudo, é preciso ir um passo além disso tudo em nossa 
pesquisa. A vontade do Senhor referente aos pastores é conhecida 
mediante o piedoso julgamento da Sua Igreja. É necessário, como prova 
da sua vocação, que a sua pregação seja aceitável ao povo de Deus. 
Deus normalmente abre as portas da elocução para aqueles que Ele 
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chama para falarem em Seu nome. A impaciência forçaria a abertura da 
porta, ou a porta abaixo, mas a fé espera no Senhor, e na ocasião devida 
ela recebe o prêmio da oportunidade. Quando esta chega, vem o nosso 
julgamento. Levantando-nos para pregar, o nosso espírito será julgado 
pela assembléia e, se formos condenados, ou se, como regra geral, a 
igreja não for edificada, não se pode contestar a conclusão de que não 
fomos enviados por Deus. 
Os sinais e marcas do verdadeiro bispo estão registrados na Palavra 
para orientação da igreja; e se ao seguir essa orientação os irmãos não 
virem em nós as qualidades requeridas, e não nos elegerem para o ofício, 
ficará bastante claro que por melhor que possamos evangelizar, o ofício 
de pastor não é para nós. 
Nem todas as igrejas são sábias, e nem todas julgam no poder do 
Espírito Santo, mas muitas julgam segundo a carne. Apesar disso, estaria 
mais pronto para aceitar a opinião de um grupo do povo do Senhor do 
que a minha própria opinião sobre um assunto tão pessoal como o dos 
meus dons e graças. 
De qualquer forma, quer valorizem o veredicto da igreja quer não, 
uma coisa é certa: nenhum de vocês pode ser pastor sem o amoroso 
consentimento do rebanho. Portanto, este lhes servirá de indicador 
prático, senão correto. Se o seu chamamento da parte do Senhor for real, 
vocês não ficarão quietos por muito tempo. Tão certo como o homem 
quer a sua hora, a hora quer o seu homem. A Igreja de Deus está sempre 
com urgente necessidade de ministros vigorosos. Para ela, um homem é 
sempre mais precioso do que o ouro de Ofir. Oficiais formais passam 
fome e necessidade, mas os ungidos do Senhor nunca terão por que ficar 
sem um cargo pastoral, pois existem ouvidos aguçados que os 
conhecerão, só de ouvi-los, e há corações prontos para dar-lhes boas 
vindas ao lugar que lhes for destinado. Mantenham-se em forma para o 
seu trabalho, e nunca ficarão fora dele. Não corram por todo lado, 
pedindo para pregar aqui e ali. Preocupem-se mais com a sua capacidade 
do que com a sua oportunidade, e sejam mais zelosos quanto a andar 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 42
com Deus do que com qualquer outra corsa. As ovelhas conhecerão o 
pastor enviado por Deus, o porteiro do aprisco abrirá a porta para ele, e o 
rebanho conhecerá a sua voz. 
Na época em que transmiti esta preleção pela primeira vez, não 
tinha lido a admirável carta que John Newton escreveu a um amigo sobre 
este assunto. Corresponde tão de perto aos meus pensamentos que, com 
o risco de ser julgado imitador, o que certamente não sou no presente 
caso, vou ler a carta para vocês. 
"O seu caso lembra o meu próprio; os meus primeiros desejos com 
vistas ao ministério foram acompanhados de grandes incertezas e 
dificuldades, e a perplexidade da minha mente piorou com os vários e 
antagônicos julgamentos dos meus amigos. O conselho que tenho para 
oferecer-lhe é resultado de experiência e exames penosos, e, por esta 
razão, talvez não lhe seja inaceitável. Rogo a Deus que, por Sua graça, 
torne-o útil. 
 
"Fiquei muito tempo angustiado, como você está, sobre a que era ou 
não era uma verdadeira vocação para o ministério. Agora me parece ponto 
fácil de resolver, mas, talvez não o seja para você, até que o senhor lho 
esclareça em seu caso particular. O tempo não dá para eu dizer tudo que 
poderia dizer-lhe. Em resumo, creio que a questão inclui principalmente três 
coisas: 
"1. Um ardente e intenso desejo de empregar-se neste serviço. 
Entendo que o homem que uma vez foi movido pelo Espírito de Deus para 
este trabalho, irá preferi-lo, se lhe for acessível, a tesouros em ouro e prata. 
Assim é que, embora às vezes intimidado pelo senso da importância e das 
dificuldades do trabalho, comparadas com a sua grande insuficiência 
pessoal (pois é de presumir-se que um chamamento desta natureza, se 
realmente provém de Deus, será acompanhado de humildade e de auto-
humilhação), ele não poderá abandoná-lo. Afirmo que uma boa regra é 
indagar, neste ponto, se o desejo de pregar é o mais fervente nos centros 
vitais da estrutura do nosso ser, e quando estamos mais prostrados no pó 
perante o Senhor. Se é assim, é bom sinal. Mas se, como às vezes se dá, a 
pessoa está muito ansiosa por ser um pregador para outros, embora não 
exista em sua própria alma uma fome e uma sede da graça de Deus, então, 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 43
é de temer que o seu zelo promana de um principio egoístico, e não do 
Espírito de Deus. 
2. Além desse apaixonado desejo e prontidão para pregar, é preciso 
que, no devido tempo, apareça alguma competente aptidão quanto a dons, 
conhecimento e elocução. Seguramente, se o Senhor envia alguém para 
ensinar outros, supri-lo-á dos meios necessários. Creio que muitos que se 
fizeram pregadores, o fizeram com boa intenção; todavia, foram antes de 
receber ou ultrapassaram a vocação deles ao agirem assim. A principal 
diferença entre um ministro e um cristão sem vocação especial, parece 
consistir naqueles dons ministeriais comunicados àquele, não para o seu 
próprio interesse, mas para a edificação de outros. Mas digo que estes dons 
devem aparecer no devido tempo. Não se deve esperar que surjam 
instantaneamente, mas de forma gradual, no uso próprio dos meros. São 
necessários para desempenhar o ministério, mas não são necessários como 
requisitos que assegurem os nossos desejos quanto a ele. No seu caso, 
você é jovem e dispõe de tempo. Daí, penso que não precisa perturbar-se 
querendo saber se já tem esses dons. Se o seu desejoé firme e se quiser, 
basta esperar no Senhor por eles, por meio da oração e da diligência, pois 
você ainda não precisa deles. 
"3. O que finalmente evidencia um chamamento genuíno é uma 
correspondente abertura na providência, mediante uma série gradativa de 
circunstâncias que apontam para os meios, a ocasião, o lugar de entrar de 
fato no trabalho. E até que chegue esse ponto de coincidência, não espere 
estar sempre livre de hesitação em sua mente. Nesta parte do assunto, a 
principal cautela consiste em não ser apressado em agarrar os primeiros 
indícios que aparecem. Se for da vontade do Senhor introduzi-lo no Seu 
ministério, Ele já designou o seu lugar e o seu serviço, e embora não o saiba 
no presente, sabê-lo-á no devido tempo. Se você tivesse talentos de anjo, 
não poderia fazer muita corsa boa com eles enquanto não chegasse a hora 
de Deus e Ele não o levasse às pessoas que determinou a abençoar por seu 
intermédio. É muito difícil restringir-nos aos limites da prudência neste ponto, 
quando o nosso zelo é ardoroso. O sentir o amor de Cristo em nossos 
corações e a terna compaixão pelos pobres pecadores propendem para 
fazer-nos irromper cedo demais; mas quem crê não se precipita. Fiquei cinco 
anos sob esta compulsão. Às vezes achava que devia pregar, mesmo que 
fosse nas ruas. Dava ouvidos a tudo que me parecia plausível, e a muitas 
coisas que não o eram. Mas o Senhor, misericordiosamente, e como que 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 44
insensivelmente, cobria de espinhos o meu caminho. Da contrário, se eu 
fosse deixado entregue ao meu próprio espírito, eu teria me colocado fora da 
possibilidade de ser introduzido numa esfera de serviço proveitoso como 
esta, à qual aprouve a Deus guiar-me no Seu tempo certo e bom. E agora 
posso ver claramente que, na época que queria sair a campo pela primeira 
vez – embora a minha intenção fosse boa, acredito – eu me superestimei, 
pois não possuía aquele discernimento e experiência espiritual indispensável 
para tão grande serviço". 
 
O que foi dito acima seria suficiente, mas o mesmo assunto estará 
diante de vocês, se eu lhes der em pormenores um pouco da minha 
experiência pessoal no trato com aspirantes ao ministério. 
Constantemente me cabe cumprir o dever que coube aos juízes de 
Cromwell. Tenho que formar minha opinião sobre se é aconselhável 
ajudar certos homens em suas tentativas para tornar-se pastores. É um 
dever da maior responsabilidade, dever que requer cuidado nada comum. 
É claro que não me meto a julgar se um homem vai entrar no ministério 
ou não, mas o meu exame visa simplesmente a responder a questão se 
esta instituição o ajudará ou o deixará entregue aos seus próprios 
recursos. Alguns dos nossos caridosos amigos nos acusam de termos 
"uma fábrica de clérigos" aqui, mas a acusação não contém um pingo de 
verdade. Jamais tentamos fazer um ministro, e se o tentássemos 
fracassaríamos. Não recebemos ninguém nesta escola senão os que já se 
declaram ministros. Estariam mais perto da verdade se me chamassem 
matador de clérigos, pois bom número de principiantes receberam de 
mim o seu despacho final; e sinto a mais completa paz de consciência 
quando reflito no que tenho feito neste sentido. 
É sempre uma tarefa difícil para mim, desanimar um jovem e 
esperançoso irmão que solicita matrícula nesta escola. Meu coração 
sempre se inclina para o lado mais bondoso, mas o dever para com as 
igrejas impele-me a julgar com severa discriminação. Depois de ouvir o 
candidato, após ler as recomendações que traz, e de avaliar as suas 
respostas às perguntas feitas, quando me convenço de que o Senhor não 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 45
o chamou, sinto-me obrigado a dizer-lhe isso. Alguns casos tipificam os 
demais. Jovens irmãos há que desejam com ardor entrar no ministério, 
mas é dolorosamente patente que o seu motivo principal é o ambicioso 
desejo de luzir entre os homens. De um ponto de vista comum, estes 
homens devem ser recomendados por sua aspiração, mas, então, o 
púlpito jamais deve ser a escada pela qual a ambição suba. Se tais 
homens entrassem no exército; não ficariam satisfeitos enquanto não 
chegassem ao mais elevado grau, pois estão determinados a forçar 
caminho para o alto – tudo muito louvável e próprio até aí; mas eles 
abraçaram a idéia de que, se entrassem no ministério seriam 
grandemente distinguidos. Sentiram irromper os rebentos do gênio, e se 
consideraram maiores do que as pessoas comuns. Daí, olharam para o 
ministério, vendo-o como uma plataforma onde poderiam exibir as suas 
pretensas habilidades. Sempre que isto é visível, sinto-me obrigado a 
deixar o aspirante "to gang his ain gate", como dizem os escoceses; ou 
seja, sair por onde entrou, certo de que gente com esse espírito sempre dá 
em nada, se entra no serviço do Senhor. Vemos que não temos nada do 
que nos gloriar, e se tivéssemos, o pior lugar para ostentá-lo seria o 
púlpito; país todo dia somos levados a sentir a nossa insignificância e 
nulidade. 
A homens que desde a conversão têm deixado transparecer grande 
fraqueza mental, que são prontamente levados a abraçar doutrinas 
estranhas, ou a meter-se em má companhia e cair em pecado grosseiro, 
nunca posso encontrar em meu coração nada para encorajá-los a 
entrarem no ministério, seja qual for a maneira como professam a sua fé. 
Se se arrependerem realmente, que fiquem nas últimas fileiras. 
Inconstantes como a água, jamais vencerão. 
Assim também os que não suportam dureza, porque pertencem à 
ordem dos enluvados de pelica, mando-os para qualquer outra parte. 
Queremos soldados. não janotas; trabalhadores zelosos, não vadios 
gentis. A homens que nada fizeram até o dia do seu pedido de matricula 
na escola, dizemos que tratem de obter as suas esporas, antes de serem 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 46
publicamente armados cavaleiros. Os que têm fervorosa paixão pelas 
almas não ficam à espera até que recebam treinamento; servem 
imediatamente ao seu Senhor. 
Chamam-me a atenção alguns bons homens famosos por sua 
enorme veemência e zelo, e por uma notável ausência de cérebro. Irmãos 
capazes de falar sem parar sobre coisa nenhuma – capazes de sapatear na 
Bíblia e de espancá-la, sem extrair dela nada. Zelosos, terrivelmente 
zelosos, exageraram-se em montanhas de trabalhos da mais penosa 
espécie; mas nada resulta disso tudo, nem sequer o ridiculus mus 
(ridículo rato). Existem por aí zelotes que não são capazes de conceber 
ou transmitir cinco pensamentos consecutivos, cuja capacidade é em 
extremo estreita e cuja presunção é extremamente larga. Estes podem 
martelar, vociferar, bramar, arrebatar-se, enfurecer-se, mas o barulho 
todo sai da cavidade oca do tambor. Entendo que esses irmãos terão a 
mesma atuação com instrução ou sem ela, razão por que geralmente 
declino os seus pedidos de matrícula. 
Outra classe demasiadamente numerosa de homens procura o 
púlpito sem saber por quê. Incapazes de ensinar, não conseguirão 
aprender, todavia, de bom grado serão ministros. Como o homem que 
dormiu no Parnaso e depois disso sempre se imaginava poeta, eles 
tiveram atrevimento suficiente para jogar uma vez um sermão por cima 
de um auditório, e agora não querem fazer mais nada, senão pregar. 
Ficam tão ansiosos para pôr de lado o traje operário, que farão uma cisão 
na igreja da qual são membros para realizar o seu intento. O balcão 
comercial porém é desagradável, a almofada do púlpito é cobiçada. 
Estão cansados dos pratos e dos pesos da balança; sentem-se compelidos 
a experimentar a balança do santuário. Homens assim, como enfurecidas 
ondas do mar, geralmente fazem espumar a sua própria vergonha, e nos 
alegramos quando lhes dizemos adeus. 
As fraquezas físicas levantam uma questão acerca da vocação de 
alguns excelentes homens. Eu não julgaria, como Eustenes, os homens 
por suas feições, mas a sua compleição física não é pequeno critério. 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 47
Aquele tórax estreito não indica um homem formado para falar em 
público. Vocês podem acharridículo, mas ainda estou bem certo de que 
quando um homem tem peito encolhido, sem distância entre os ombros, 
o Sapientíssimo não teve a intenção de que ele pregasse habitualmente. 
Se fosse este o Seu propósito, ter-lhe-ia dado, em alguma medida, 
amplitude de peito suficiente para produzir razoável porção de energia 
pulmonar. Quando o Senhor planeja que uma criatura corra, dá-lhe 
pernas velozes, e se planeja que outra pessoa pregue, dá-lhe pulmões 
adequados. O irmão que tem de fazer uma pausa no meio de uma frase e 
acionar a sua bomba de ar, deve perguntar a si mesmo se não há alguma 
outra ocupação para a qual esteja mais bem adaptado. O homem que mal 
chega ao fim de uma frase sem se afligir, dificilmente pode ser chamado 
para cumprir a ordem: "Clama, e não te cales". Talvez haja exceções, 
mas a regra geral não tem valor? Irmãos com deformação na boca e com 
articulação defeituosa, geralmente não são chamados para pregar o 
evangelho. O mesmo se aplica a irmãos destituídos de palato ou com 
palato imperfeito. 
Recebeu-se há pouco tempo o pedido de admissão de um jovem que 
tinha uma espécie de movimento giratório de seu maxilar, movimento do 
tipo mais penoso para quem o vê. Seu pastor o recomendou como um 
jovem muito santo, que fora instrumento para levar alguns a Cristo, e 
expressou a esperança de que eu o receberia, mas não pude ver a 
conveniência disso. Eu não poderia olhar para ele, sem rir, enquanto ele 
pregasse, ainda que tivesse por prêmio todo o ouro de Társis, e, com toda 
a probabilidade, dentre dez dos seus ouvinte, nove seriam mais sensíveis 
do que eu. Um homem com língua grande que enchia toda a cavidade 
bucal e causava confusão, outro sem dentes, outro que gaguejava, outro 
que não conseguia pronunciar todo o alfabeto – a todos, pesarosamente, 
tive de rejeitar baseando-me no fato de que Deus não lhes dera aqueles 
meios físicos que, nos termos do livro de oração da igreja anglicana, são 
"geralmente necessários". 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 48
Encontrei um irmão – eu disse um? Encontrei dez, vinte, cem 
irmãos que alegavam estar seguros, completamente seguros de que 
foram chamados para o ministério – estavam completamente certos disso 
porque tinham falhado em tudo mais. Eis aqui uma espécie de história 
modelo: 
"Sr. Spurgeon", colocaram-me num escritório de advocacia, mas 
nunca pude agüentar a clausura, e não me sentia à vontade estudando 
direito; evidentemente a Providência obstruiu o meu caminho, pois perdi 
o emprego". "Que é que você fez então?" "Ora, senhor, fui induzido a 
abrir uma mercearia." "E você prosperou?" "Bem, senhor, não creio que 
eu jamais pretendesse o comércio, e Deus pareceu-me vedar inteiramente 
o caminho ali, pois fracassei e me vi em grandes dificuldades. Desde 
essa ocasião, tive uma pequena agencia de seguros de vida, e tentei 
organizar uma escola, além de vender chá. Mas o meu caminho está 
fechado, e algo dentro de mim leva-me a achar que devo ser ministro." 
Em geral a minha resposta é: "É, entendo. Você fracassou em tudo 
mais, e daí acha que o Senhor o dotou especialmente para o Seu serviço; 
mas receio que você se esqueceu de que o ministério precisa dos 
melhores homens, e não dos que não conseguem fazer nenhuma outra 
coisa". O homem que teria sucesso como pregador, provavelmente se 
sairia bem como merceeiro, advogado ou qualquer outra profissão. Um 
ministro realmente de valor seria ótimo em qualquer outra ocupação. 
Dificilmente haverá alguma coisa impossível para o homem que mantém 
unida uma igreja durante anos, e que é capaz de edificá-la através de 
centenas de domingos consecutivos. Tem que possuir algumas 
habilidades, e de modo nenhum pode ser um tolo ou um imprestável. 
Jesus Cristo merece os melhores homens para pregarem a Sua cruz, e 
não os cabeças ocas e os desvalidos. 
Um jovem cavalheiro com cuja presença fui honrado uma vez, 
deixou-me na mente a fotografia do seu extraordinário ser. O seu rosto 
mesmo parecia o frontispício de um volume completo sobre presunção e 
tapeação. Mandou-me um recado ao gabinete pastoral um domingo de 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 49
manhã dizendo-me que queria ver-me imediatamente. Sua audácia o fez 
entrar. Quando se viu diante de mim, disse: "Sr.Spurgeon, quero entrar 
em sua escola, e gastaria de entrar imediatamente". "Bem, senhor", disse 
eu, "receio que não temos lugar no momento, mas o seu caso será 
considerado." "Mas o meu caso é deveras notável, Sr. Spurgeon; 
provavelmente o senhor nunca recebeu um pedido de admissão 
semelhante ao meu." "Muito bem, veremos isso; o secretário lhe dará o 
formulário de inscrição, e o senhor poderá ver-me amanhã." 
Na segunda-feira veio ele, trazendo as questões respondidas da 
maneira mais extraordinária. Quanto a livros, alegou ter lido toda a 
literatura antiga e moderna e, depois de dar uma lista imensa, 
acrescentou: "Isto é apenas uma seleção; li extensamente em todas as 
áreas". Quanto às suas pregações, ele poderia conseguir as mais altas 
recomendações, mas nem o julgou necessário, pois uma entrevista 
pessoal me convenceria logo de sua capacidade. Sua surpresa foi grande 
quando eu lhe disse: "Meu amigo, sou obrigado a dizer que não posso 
admiti-lo". "Por que não, Sr. Spurgeon?" "Falarei com franqueza. O 
senhor é tão tremendamente inteligente que não posso insultá-lo 
recebendo-o em nossa escola, onde não temos mais que homens comuns; 
o diretor, os professores e os estudantes, somos todos homens de 
realizações modestas, e o senhor teria que ser muito condescendente, 
estando entre nós." 
Ele me olhou severamente e disse com dignidade: "O senhor quer 
dizer que, porque eu possuo gênio incomum, e engendrei em mim uma 
gigantesca mente, raramente vista igual, é-me recusada admissão na sua 
escola?" "Sim", respondi tão calmamente como pude, considerando-se o 
opressivo temor que o seu gênio inspirava, "exatamente por essa razão." 
"Então o senhor devia permitir-me um exame dos meus talentos como 
pregador. Escolha o texto que quiser, ou sugira o assunto que lhe 
agradar, e, aqui mesmo nesta sala, discorrerei ou pregarei sobre ele, sem 
tomar tempo para reflexão, e o senhor ficará surpreso." "Não, obrigado. 
Prefiro não ter o dissabor de ouvi-lo." "Dissabor, senhor?! Garanto que 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 50
lhe seria o maior prazer possível." Eu disse que podia ser, mas me 
achava indigno do privilégio, e assim lhe disse adeus. O cavalheiro era-
me desconhecido na ocasião, mas daquele tempo em diante tem figurado 
na delegacia de polícia como muito inteligente, em parte. 
Ocasionalmente recebemos solicitações de matrícula que talvez os 
deixassem admirados, pois provém de homens por certo bastante 
fluentes, e que respondem muito bem a todas as perguntas, exceto 
aquelas que se referem às suas opiniões doutrinárias, para as quais 
obtemos repetidamente esta resposta: "O Sr. Fulano de Tal está disposto 
a acatar as doutrinas da escola, sejam quais forem"! Em todos esses 
casos, não discutimos nem um momento; é dada a negativa 
instantaneamente. Menciono o fato porque ilustra a nossa convicção de 
que não são chamados para o ministério homens que não têm 
conhecimento nem crença definida. Quando pessoas jovens dizem que 
ainda não têm opinião teológica formada, devem voltar para a Escola 
Dominical até que a tenham. Ora, um homem entrar na escola 
procurando dar a impressão de que mantém a mente aberta para qualquer 
forma da verdade, e de que é eminentemente receptivo, mas não tem 
firmadas em sua mente coisas como, se Deus faz eleição com base na 
graça, ou se Ele ama o Seu povo até o fim, parece-me uma perfeita 
monstruosidade. "Não neófito", diz o apóstolo. Entretanto, o homem que 
não firmou posição sobre pontos como estes é, confessada e 
egregiamente, um "neófito", e deve ser relegado à classe de catecúmenos 
até aprender as primeiras verdades do evangelho. 
Depois de tudo, cavalheiros, teremos que comprovar a nossa 
vocação mediante a prova prática do nosso ministério na vida ativaposterior, e será para nós uma coisa lamentável iniciar o curso sem o 
devido exame, pois, em fazendo assim, poderá acontecer que tenhamos 
que abandoná-lo com desonra. De modo geral, a experiência é o nosso 
melhor teste, e se Deus nos sustenta ano após ano, e nos dá Sua bênção, 
não precisamos submeter a nossa vocação a nenhuma outra prova. As 
nossas aptidões morais e espirituais, serão provadas pelo labor do nosso 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 51
ministério, e este é o mais fidedigno de todos os testes. Alguém me falou 
de um plano adotado por Matthew Wilks para o exame de um jovem que 
queria ser missionário; a orientação – se não os pormenores do teste – 
recomenda-se ao meu juízo, embora não ao meu gosto. 
O moço desejava ir para a Índia como missionário, ligado à 
Sociedade Missionária de Londres. O Sr. Wilks foi nomeado para avaliar 
a aptidão do rapaz para aquele encargo. Escreveu ao jovem pedindo-lhe 
que o visitasse às seis da manhã do dia seguinte. O irmão morava a 
muitos quilômetros de distância, mas estava na casa às seis horas em 
ponto. Contudo, o Sr. Wilks não apareceu na sala senão horas mais tarde. 
O irmão esperou com estranheza, mas com paciência. Afinal o Sr: Wilks 
chegou e se dirigiu ao candidato nestes termos, com a sua entonação 
nasal de sempre: "Bem, jovem; assim é que você quer ser missionário?" 
"Sim, senhor." "Você ama o Senhor Jesus Cristo?" "Sim, senhor; estou 
certo que sim." "Você tem alguma instrução?" "Sim, senhor, um pouco." 
"Bem, agora vamos testá-lo. Você pode soletrar "gato"?" O moço 
pareceu ficar confuso, e nem sabia responder a tão despropositada 
pergunta. Sua mente por certo vacilava entre a indignação e a submissão, 
mas de pronto respondeu com firmeza: "G, a, t, o, gato". "Muito bem", 
disse o Sr. Wilks"; "agora você pode soletrar "cão"?" O nosso jovem 
mártir hesitou, mas o Sr. Wilks disse da maneira mais fria: "Ora, não faz 
mal; não se acanhe; você soletrou tão bem a outra palavra que eu pensei 
que seria capaz de soletrar esta; por alto que seja o feito, não é tão 
elevado que não o pudesse fazer sem corar". O jovem Jó replicou: "C, a 
com til, o, cão". "Bem, está certo. Vejo que você sabe soletrar; agora, 
quanto à sua aritmética, quanto são duas vezes dois?" É de espantar que 
o Sr. Wilks não tenha recebido "duas vezes dois" à moda do cristianismo 
muscular, mas o paciente jovem deu a resposta correta e foi dispensado. 
Na reunião da comissão, Matthew Wilks disse: "Recomendo de 
coração aquele moço. Examinei devidamente as recomendações em seu 
favor e o caráter dele. Além disso, passei-lhe um estranho exame pessoal 
de tal natureza que poucos poderiam suportar. Provei sua abnegação – e 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 52
ele pulou bem cedo da cama; provei seu temperamento e sua humildade; 
ele é capaz de soletrar "gato" e "cão", e de dizer que "duas vezes dois são 
quatro" – e se sairá muitíssimo bem como missionário". 
Ora, o que se diz que o velho cavalheiro fez com tanto mau gosto, 
devemos fazer conosco mesmos com muita propriedade. Devemos 
provar-nos a nós mesmos para ver se podemos agüentar intimidações, 
fadigas, calúnias, zombarias, privações, e se somos capazes de suportar 
que façam de nós a escória de todos e que nos tratem como nada por 
amor a Cristo. Se podemos suportar todas estas coisas, temos alguns 
daqueles pontos que indicam a posse das raras qualidades que se devem 
encontrar num verdadeiro serviço do Senhor Jesus Cristo. Questiono 
com seriedade se alguns de nós encontraremos os nossos navios, quando 
lançados ao mar, tão completamente aptos para navegar como pensamos. 
Ah meus irmãos, certifiquem-se laboriosamente disto enquanto 
estiverem neste abrigo; e trabalhem diligentemente para habilitar-se para 
a sua elevada vocação. 
Vocês vão ter inúmeras provações, e ai de vocês, se não partirem 
armados dos pés à cabeça com a armadura da experiência. Terão que 
correr competindo com cavalheiros; não deixem que a infantaria os 
canse enquanto estiverem em seus estudos preliminares. O diabo está ao 
largo, e com ele estão muitos. Submetam-se vocês mesmos a provas, e 
queira Deus prepará-los para o crisol e o forno que certamente os 
esperam. Talvez a sua tribulação não seja tão grave como a de Paulo e 
seus companheiros, mas vocês devem estar prontos para provações 
semelhantes. Permitam-me ler as memoráveis palavras que o apóstolo 
escreveu, e rogar-lhes que orem enquanto as ouvem, suplicando ao 
Espírito Santo que os fortaleça para tudo que os aguarda. 
"Não dando nós nenhum motivo de escândalo em coisa alguma, para 
que o ministério não seja censurado. Pelo contrário, em tudo recomendando-
nos a nós mesmos como ministros de Deus: na muita paciência, nas 
aflições, nas privações, nas angústias, nos açoites, nas prisões, nos 
tumultos, nos trabalhos, nas vigílias, nos jejuns, na pureza, no saber, na 
longanimidade, na bondade, no Espírito Santo, no amor não fingido, na 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 53
palavra da verdade, no poder de Deus, pelas armas da justiça, quer 
ofensivas, quer defensivas; por honra e por desonra, por infâmia e por boa 
fama, como enganadores e sendo verdadeiros; como desconhecidos e, 
entretanto, bem conhecidos; como se estivéssemos morrendo e, contudo, 
eis que vivemos; como castigados, porém não mortos; entristecidos, mas 
sempre alegres; pobres, mas enriquecendo a muitos; nada tendo, mas 
possuindo tudo." (2 Cor. 6:3-10) 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 54
ORAÇÃO PARTICULAR DO PREGADOR 
 
Naturalmente o pregador se distingue acima de todos os demais 
como homem de oração. Ele ora como um cristão comum, ou de outra 
forma seria hipócrita. Ora mais que os cristãos comuns, ou de outra 
forma estaria desqualificado para o cargo que assumiu. "Seria totalmente 
monstruoso", diz Bernard, "um homem estar no ofício mais elevado, e 
ser o mais baixo de alma; o primeiro na posição e o último no viver." 
Todas as suas outras formas de relacionamento são aureoladas pela 
preeminência da responsabilidade pastoral, e se ele for fiel a seu Senhor, 
tornar-se-á distinguido em todas elas por sua prática da oração. Como 
cidadão, seu país goza a vantagem da sua intercessão; como vizinho, os 
que estão à sombra dele são lembrados em suas súplicas. Ora como 
marido e como pai; luta para fazer das devoções domésticas um modelo 
para o seu rebanho; e se o fogo do altar de Deus há de bruxulear em 
algum outro lugar, é bem mantido na casa do servo escolhido do Senhor 
– pois ele vela para que os sacrifícios da manhã e da tarde santifiquem a 
sua habitação. Mas há algumas das suas orações que concernem ao seu 
ofício, e o nosso plano nestas preleções nos induz a falar mais destas. Ele 
eleva súplicas peculiares como ministro, e se aproxima de Deus nesta 
função além e acima de todas as suas outras abordagens em todos os seus 
outros relacionamentos. 
Tomo por suposto que, como ministro, ele está sempre orando. 
Toda vez que a sua mente se volta para o seu trabalho, quer esteja 
efetuando-o, quer não, lança uma petição, disparando os seus santos 
desejos como flechas bem dirigidas para o céu. Não está sempre no ato 
de orar, mas vive no espírito de oração. Se o seu coração está posto no 
trabalho, ele não consegue comer ou beber ou recrear-se ou dormir ou 
levantar-se de manhã, sem sentir sempre um ardor de desejo, um peso de 
ansiedade e uma simplicidade da sua dependência de Deus; assim, de um 
modo ou de outro, continua em oração. Se há algum homem debaixo do 
céu compelido a cumprir o preceito – "Orai sem cessar", certamente é o 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 55
ministro cristão. Cabem-lhe tentações peculiares, provações especiais, 
dificuldades singulares e deveres extraordinários; ele tem que se 
entender com Deus em formidáveis relacionamentos, e com os homens 
em misteriosos interesses; por isso ele tem muito mais necessidade da 
graça divina do que os homens comuns, e, sabedor disto, é levado a 
rogar constantemente ao Fortepor força, e a dizer: "Elevo os meus olhos 
para os montes, de onde me virá o socorro". 
Certa vez Alleine escreveu a um amigo: "Embora eu seja propenso 
à agitação e a sair rapidamente dos eixos, considero-me, porém, como 
um pássaro fora do ninho, e não me tranqüilizo, enquanto não retomo a 
minha antiga maneira de manter comunhão com Deus, como a agulha da 
bússola, inquieta enquanto não se volta para o pólo. Posso dizer, pela 
graça, com a igreja: "De alma te desejei de noite, e com meu espírito 
dentro em mim te busquei de manhã". Cedo e de noite o meu coração 
está com Deus; a ocupação e o prazer da minha vida é buscá-Lo." 
Do mesmo teor deve ser o seu modo de ser e de agir, ó homens de 
Deus! Se vocês, na qualidade de ministros, não são de muita oração, são 
dignos de muito dó. Se futuramente, chamados para exercer pastorados, 
pequenos ou grandes, relaxarem nas devoções secretas, não só vocês 
merecerão dó; os seus rebanhos também o merecerão; em acréscimo, 
vocês serão censurados, e chegará o dia em que ficarão envergonhados e 
confusos. 
Dificilmente seria necessário recomendar-lhes os agradáveis usos 
da devoção particular, e, contudo, não posso abster-me de fazê-lo. Para 
vocês, como embaixadores de Deus, o propiciatório tem valor que 
ultrapassa todas as estimativas. Quanto mais familiarizados estiverem 
com a corte do céu, melhor se desincumbirão do seu encargo celeste. 
Dentre todas as influências estruturadoras que formam um honrado 
homem de Deus no ministério, não ser de nenhuma outra que seja mais 
poderosa que a sua familiaridade com o propiciatório. Tudo que o curso 
da faculdade pode fazer por um estudante é tosco e superficial, 
comparado com o refinamento espiritual excelente obtido pela 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 56
comunhão com Deus. Enquanto o ministro que ainda não tomou forma 
gira sobre o eixo da preparação, a oração é a ferramenta do grande oleiro 
com a qual molda o vaso. Todas as nossas bibliotecas e escritórios são 
uma simples vacuidade, comparados com os nossos quartos. Crescemos, 
ficamos cada vez mais poderosos, prevalecemos na oração secreta. 
As suas orações serão os seus assessores mais competentes, 
enquanto os seus discursos estão ainda na bigorna. Enquanto outros, do 
tipo de Esaú, andam à caça da sua porção, vocês, com o auxílio da 
oração, encontrarão saborosa refeição aí mesmo, em casa, e poderão 
dizer de verdade o que Jacó disse com tanta falsidade: "O Senhor, teu 
Deus, a mandou ao meu encontro". Se vocês puderem afundar suas 
canetas em seus corações, recorrendo ardorosamente ao Senhor, 
escreverão bem; e se puderem juntar o seu material de joelhos às portas 
do céu, não deixarão de falar bem. A oração, como exercício mental, 
trar-lhes-á à mente muitos assuntos, e assim os ajudará na seleção de um 
tópico, enquanto que, como elevada ocupação espiritual, limpará a sua 
visão interior para poderem ver a verdade à luz de Deus. 
Muitas vezes os textos se negarão a revelar os seus tesouros, 
enquanto não os abrirem com a chave da oração. De que maneira 
maravilhosa se abriram os livros para Daniel quando elevou súplicas a 
Deus! Quanta coisa Pedro aprendeu no eirado! O quarto é o melhor 
gabinete de trabalho. Os comentadores são bons instrutores, mas o 
próprio Autor é muito melhor, e a oração faz um apelo direto a Ele e O 
alista em nossa causa. É coisa grandiosa a gente orar compenetrado do 
espírito e da essência de um texto; penetrá-lo alimentando-se 
sagradamente dele, exatamente como o verme perfura o seu trajeto rumo 
ao miolo da noz. 
A oração fornece força à alavanca para levantar verdades de peso. 
Causa espanto pensar em como as pedras de Stonehenge [nome do 
monumento pré-histórico mais importante da Grã-bretanha] puderam ser 
colocadas em seus lugares. Causa mais espanto ainda pensar de onde 
alguns homens obtiveram tão admirável conhecimento de doutrinas 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 57
misteriosas. Acaso não foi a oração o potente maquinismo que operou a 
maravilha? Esperar em Deus muitas vezes transforma as trevas em luz. 
A perseverante perquirição no oráculo sagrado (oração) levanta o véu, e 
dá-nos graça sondar as profundas realidades de Deus. Observou-se 
muitas vezes que certo teólogo puritano, durante um debate, escrevia 
algo num papel que tinha diante de si. Outros, procurando curiosamente 
ler as suas anotações, nada viram na página, senão as palavras, "Mais 
luz, Senhor", "Mais luz, Senhor", repetidas muitas vezes; oração 
sumamente própria para o estudante da Palavra quando está preparando 
o seu sermão. 
Com freqüência vocês encontrarão novas correntes de pensamento 
saltando da passagem à sua frente, como rocha batida pela vara de 
Moisés. Novos veios de minério precioso se descortinarão ao seu olhar 
admirado quando vocês escavarem a Palavra de Deus e usarem 
diligentemente o martelo da oração. Às vezes vocês se sentirão como se 
estivessem inteiramente bloqueados, e de repente uma nova estrada se 
abrirá à sua frente. Aquele que tem a chave de Davi abre, e ninguém 
fecha. Se vocês viajaram alguma vez descendo o Reno. o cenário 
aquático daquele majestoso rio os terá surpreendido, lembrando muito o 
efeito de uma série de laços. Adiante e atrás o barco parece encerrado 
por maciças muralhas de rocha, ou ladeado de terraços de parreirais, até 
que num súbito virar de uma curva, eis em sua frente o rio, jubiloso e 
abundante, a fluir, avançando com todo o seu vigor. 
Assim, o laborioso estudante muitas vezes vê isso no texto; parece 
estar fortemente cerrado contra vocês, mas a oração impele o barco e 
dirige a proa para águas vigorosas, e vocês contemplam a larga e 
profunda torrente da verdade sagrada a fluir em sua plenitude, e levando-
os com ela. Não é esta razão convincente para perseverar nas súplicas ao 
Senhor? Usem a oração como vara de sondagem, e as fontes de águas 
vivas saltarão das entranhas da Palavra de Deus. Quem vai contentar-se 
em ficar com sede, quando as águas vivas aí estão, prontas para quem 
quiser obtê-las?! 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 58
Os melhores e mais santos homens sempre fizeram da oração a 
parte mais importante do preparo para o púlpito. De McCheyne se diz: 
"Desejoso de dar a seu povo no dia do Senhor o que lhe tivesse custado 
algo, jamais sem motivo urgente, se apresentava diante dele sem antes 
meditar e orar muito. Seu princípio sobre esta questão foi incluído numa 
observação que fez a alguns de nós quando conversávamos sobre o 
assunto. Quando alguém lhe perguntou qual o seu conceito do diligente 
preparo para o púlpito, lembrou-nos Êxodo 27:20 – "Azeite batido – 
azeite batido para as lâmpadas do santuário". Entretanto, sua vida de 
oração foi maior ainda. Ele realmente não conseguia negligenciar a 
comunhão com Deus antes de comparecer perante a igreja reunida. Tinha 
necessidade de banhar-se no amor de Deus. Seu ministério era em tão 
grande parte a exposição de noções que primeiro santificaram a sua 
própria alma, que a saúde da sua alma era absolutamente necessária para 
o vigor e o poder das suas ministrações". "Para ele o começo de todo 
trabalho invariavelmente consistia no preparo da sua alma. As paredes 
do seu quarto eram testemunhas da sua vida de oração e de suas 
lágrimas, como também dos seus clamores." 
A oração lhes prestará singular assistência na transmissão do 
sermão. De fato, nenhuma outra coisa pode qualificar-vos tão 
gloriosamente para pregar como alguém que desce do monte da 
comunhão com Deus a fim de falar com os homens. Ninguém é tão 
capaz de pleitear com os homens como quem esteve pelejando com Deus 
em favor deles. Dizem de Alleine que "Ele derramava o coração quando 
orava e pregava. Suas súplicas e suas exortações eram tão afetuosas, tão 
cheias de zelo, vida e vigor, que conquistavam os seus ouvintes; ele se 
fundia sobre eles, de modo que amolecia, derretia, e às vezes dissolvia os 
mais duros corações". Jamais dissolveria coração nenhum se antes a sua 
mente não ficasse exposta aos raios tropicais do Solda Justiça pela 
secreta comunhão com o Senhor ressurreto. Uma pregação deveras 
comovente, em que não há afetação, mas muita afeição, só pode brotar 
da oração. Não há retórica igual à do coração, e nenhuma escola onde 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 59
aprendê-la, senão aos pés da cruz. Seria melhor que vocês nunca 
aprendessem uma só regra de oratória humana, porém estivessem cheios 
de poder do amor oriundo do céu; isto seria melhor do que dominar 
Quintiliano, Cícero e Aristóteles, e ficar sem a unção apostólica. 
A oração não poderá torná-los eloqüentes à moda humana, mas os 
tornará verdadeiramente eloqüentes, pois falarão de coração; e não é este 
o sentido da palavra eloqüência? Ela trará rogo do céu sobre o seu 
sacrifício, e assim provará que é aceito pelo Senhor. 
Assim como vigorosas fontes de pensamento muitas vezes 
irromperão em resposta à oração, enquanto se preparam, também será na 
entrega do sermão. Muitos pregadores que se põem na dependência do 
Espírito de Deus lhes dirão que os seus pensamentos mais vívidos e 
melhores não são os que foram premeditados, mas as idéias que lhes 
vêm, voando como que em asas de anjos; inesperados tesouros trazidos 
de repente por mãos celestiais, sementes das flores do paraíso que vêm 
flutuando dos montes de mirra. Muitíssimas vezes, quando me sinto 
embaraçado no pensamento e na expressão, o meu secreto gemido de 
coração me tem trazido alívio; e passo a desfrutar liberdade maior do que 
a costumeira. Mas, como ousarei orar na batalha se nunca clamei ao 
Senhor enquanto afivelo a armadura?! A lembrança das suas lutas em 
casa fortalece o pregador agrilhoado quando no púlpito. Deus não nos 
abandonará, a menos que O abandonemos. Vocês verão, irmãos, que a 
oração lhes assegurará força suficiente para o seu dia. 
Como as línguas de fogo vieram sobre os apóstolos quando ficaram 
vigiando e orando, assim também virão sobre vocês. Ver-se-ão a si 
próprios, talvez quando poderiam ter desfalecido, subitamente 
revivificados, como que pelo poder de um anjo. Rodas de fogo serão 
ajustadas à sua carruagem. que começara a arrastar-se dificultosamente, 
e corcéis angélicos serão num instante atrelados em seu carro chamejante 
até você galgar os céus, como Elias, numa arrebatamento de inflamada 
inspiração. 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 60
Depois do sermão, como poderia o pregador consciencioso dar livre 
curso aos seus sentimentos e achar consolo para a sua alma se lhe fosse 
negado acesso à sede da misericórdia? Elevados ao mais alto grau de 
comoção, como podemos aliviar a nossa alma, senão com intercessões 
importunas? Ou, deprimidos pelo medo de fracassar, como seremos 
confortados senão chorando nossas mágoas diante do nosso Deus? 
Quantas vezes alguns de nós ficamos virando para um lado e para outro 
na cama a metade da noite por causa dos nossos conscientes defeitos no 
testemunho! Com que freqüência ansiamos por correr de volta ao púlpito 
para dizer outra vez, com maior veemência, o que tínhamos dito de 
maneira tão fria! Onde poderíamos achar descanso para o nosso espírito, 
senão na confissão do pecado, e nos ardentes rogos para que a nossa 
fraqueza ou estultícia de modo nenhum estorve o Espírito de Deus? 
Numa assembléia pública não é possível derramar todo o amor do nosso 
coração pelo rebanho que está a nosso cargo. Como José, o ministro 
afetuoso procurará onde chorar; suas emoções, por mais livremente que 
possa ele expressar-se, ficarão enjauladas quando ele estiver no púlpito, 
e somente pela oração secreta poderá abrir as comportas e fazê-las fluir 
para fora. 
Se não podemos persuadir os homens a favor de Deus, havemos de, 
pelo menos, esforçar-nos para persuadir a Deus a favor dos homens. Não 
podemos salvá-los; nem sequer podemos induzi-los a serem salvos, mas 
ao menos podemos deplorar a loucura deles e suplicar a intervenção de 
Deus. Como Jeremias, podemos tomar nossa a resolução: "E, se isto não 
ouvirdes, a minha alma chorará em lugares ocultos, por causa da vossa 
soberba; e amargamente chorarão os meus olhos, e se desfarão em 
lágrimas". A esses apelos tão comoventes o coração do Senhor nunca 
pode ser indiferente; no devido tempo, o lacrimoso intercessor se tornará 
jubiloso ganhador de almas. Existe clara conexão entre a agonia 
importuna e o verdadeiro sucesso, semelhante à que existe entre as dores 
de parto e o nascimento, entre semear em lágrimas e colher com alegria. 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 61
"Como é que a semente que você planta brota depressa assim?", 
perguntou um jardineiro a outro. "É porque a rego", foi a resposta. 
Temos que regar com lágrimas todos os nossos ensinamentos "quando 
ninguém está perto, exceto Deus", e o crescimento deles nos causará 
surpresa e deleite. Poderia alguém admirar-se com o sucesso de 
Brainerd, quando o seu diário contém anotações tais como a seguinte? - 
"Dia do Senhor, 25 de abril – Esta manhã passei cerca de duas horas 
ocupado com deveres sagrados e, extraordinariamente, pude agonizar 
pelas almas imortais; embora fosse bem cedo, e o sol mal começasse a 
brilhar, meu corpo ficou molhado de suor". O segredo do poder de 
Lutero esteve nessa mesma direção. Teodoro disse ele: "Escutei-o em 
oração, mas, bom Deus, com que vida e com que espírito ele orava! Era 
com tanta reverência, como se estivesse falando com Deus, mas com tão 
confiante liberdade, como se estivesse falando com um amigo". 
Meus irmãos, permitam-me rogar-lhes que sejam homens de 
oração. Pode ser que nunca venham a ter grandes talentos, mas se 
desempenharão satisfatoriamente sem eles, se forem abundantes na 
intercessão. Se não orarem sobre aquilo que semearam, Deus, na Sua 
soberania, talvez decida conceder uma bênção, mas vocês não terão 
direito de esperá-la, e se ela vier, não lhes trará conforto ao coração. 
Estive lendo ontem um livro do Padre Faber, finado religioso da 
Ordem do Oratório, em Brompton, maravilhosa composição de verdade 
e erro. Relata nele uma lenda do seguinte teor: Certo pregador, cujos 
sermões convertia homens aos montes, recebeu uma revelação do céu de 
que nenhuma das suas conversões se devia aos seus talentos ou à sua 
eloqüência, mas todas se deviam às orações de um irmão leigo iletrado, 
que ficava sentado nos degraus do púlpito, orando o tempo todo pelo 
sucesso do sermão. Poderá dar-se isso conosco no dia da revelação de 
todas as coisas. Talvez descubramos, depois de termos trabalhado 
demorada e cansativamente na pregação, que a honra toda pertence a 
outro construtor, cujas orações foram ouro, prata e pedras preciosas, ao 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 62
passo que os nossos sermões, sendo apregoados sem oração, não 
passaram de feno e palha. 
Quando tivermos terminado de pregar, não teremos terminado ainda 
de orar, se formos fiéis ministros de Deus, porque a igreja inteira, com 
muitas bocas, estará clamando, na expressão do macedônio: "Passa à 
Macedônia, e ajuda-nos" com oração. Se vocês estiverem habilitados a 
prevalecer em oração, terão muitas súplicas para fazer por outros que se 
juntarão ao seu redor e pedirão participação em suas intercessões, e 
assim vocês se verão comissionados com mensagens enviados ao trono 
da misericórdia a favor de amigos e ouvintes. Essa é sempre a cota que 
me cabe, e para mim é uma satisfação ter tais súplicas para apresentar ao 
meu Senhor. Vocês nunca podem ficar sem temas para oração, mesmo 
que ninguém lhos sugira. Observem as pessoas da sua igreja. Há sempre 
doentes entre elas, e muitas outras que são doentes da alma. Algumas 
não são salvas; outras estão procurando e não conseguem achar. Muitas 
vivem desanimadas, e não poucos crentes são infiéis ou lamurientos. Há 
lágrimas de viúvas e suspiros de órfãos para pôr no seu frasco e derramar 
perante o Senhor. 
Se você é um autêntico ministro de Deus, manter-se-á diante do 
Senhor como um sacerdote, usando espiritualmente o peitoral em que 
você porta os nomes dos filhos de Israel, intercedendo por eles, detrás do 
véu. Conheci irmãos que mantinhamuma lista de pessoas pelas quais se 
sentiam especialmente incumbidos a orar, e não tenho dúvida de que 
aquele registro muitas vezes os lembrava de algo que de outra maneira 
teria fugido da sua memória. No entanto seu rebanho não o absorverá 
totalmente; a nação e o mundo requererão sua parte. O homem que for 
poderoso na oração poderá ser uma muralha de fogo ao redor do seu 
país, seu "anjo da guarda" e seu escudo. Todos já ouvimos sobre como 
os inimigos da causa do protestantismo temiam as orações de Knox mais 
que a exércitos de dez mil homens. O famoso Welch também foi um 
grande intercessor por seu país. Ele costumava dizer que "se admirava de 
como um cristão podia ficar no leito a noite inteira sem se levantar para 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 63
orar". Quando sua esposa, temendo que ele ficasse resfriado, foi até o 
quarto ao qual se havia retirado, ouviu-o clamar em frases entrecortadas: 
"Senhor, não me concederás a Escócia?" 
Ah! se ficássemos lutando assim a desoras clamando: "Senhor, não 
nos concederás as almas dos nossos ouvintes?" 
O ministro que não ora fervorosamente pela obra que realiza, só 
pode ser um homem fútil e vaidoso. Age como que se considerando 
auto-suficiente, e, portanto, como se não precisasse apelar para Deus. 
Todavia, que orgulho mais sem fundamento, conceber que a nossa 
pregação seja em si mesma tão poderosa que pode converter os homens 
dos seus pecados, e trazê-los para Deus sem a ação do Espírito Santo! Se 
formos verdadeiramente humildes de coração, não nos aventuraremos a 
meter-nos no combate enquanto o Senhor dos Exércitos não nos revestir 
de todo o poder, e nos disser: "Vai nesta tua força". 
O pregador que negligencia orar só pode ser muito desleixado 
quanto ao seu ministério. Não é possível que tenha compreendido a sua 
vocação. Não pode ter computado o valor de uma alma, nem avaliado o 
sentido da eternidade. Certamente não passa de um oficial, tentado ao 
púlpito porque o pedaço de pão que pertence ao ofício ministerial é-lhe 
muito necessário; ou não passa de um detestável hipócrita que gosta do 
louvor dos homens e não se preocupa com o louvor de Deus. Será por 
certo um simples palrador superficial, mais bem aprovado onde a graça é 
menos apreciada, e onde uma exibição vã é grandemente admirada. Ele 
não pode ser um daqueles que aram bem e colhem messes abundantes. É 
um reles vadio, não um trabalhador. Como pregador, tem nome de que 
vive, e está morto. Manqueja em sua vida como o coxo de Provérbios, 
cujas pernas eram desiguais, pois a sua oração é mais curta que a sua 
pregação. 
Temo que, uns mais, outros menos, a maioria de nós necessita de 
um auto-exame quanto a este assunto. Se alguém aqui se aventurasse a 
dizer que ora quanto deve, como estudante, eu questionaria seriamente a 
sua afirmação; e se estiver presente algum ministro, diácono ou 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 64
presbítero capaz de dizer que se dedica a Deus em oração em toda a 
extensão da sua possibilidade, eu gostaria de conhecê-lo. Só posso dizer 
que, se ele pode arrogar-se este grau de excelência, deixa-me bem para 
trás, pois eu não posso alegar isso em meu favor. Gostaria que fosse 
possível. E faço a confissão com grande medida de vergonha e confusão, 
mas sou obrigado a fazê-la. Se não somos mais negligentes do que os 
outros, isto não nos serve de consolo; as falhas de outros não nos 
inocentam. 
Quão poucos de nós poderíamos comparar-nos com o Sr. Joseph 
Alleine, cujo caráter mencionei anteriormente! "Quando estava bem de 
saúde", escreve sua esposa, "levantava-se constantemente às quatro 
horas, ou antes, e ficava aborrecido quando ouvia ferreiros ou outros 
artesãos em suas atividades antes de ele estar em comunhão com Deus, 
dizendo-me muitas vezes: "Como este ruído me envergonha! O meu 
Senhor não merece mais que o deles?" Das quatro às oito ficava em 
oração, em santa contemplação e cantando salmos, com que se deleitava 
muito, e o que praticava diariamente, a sós e com a família. Às vezes ele 
suspendia a rotina dos seus compromissos paroquiais e dedicava dias 
completos a esses exercícios secretos, para o que dava um jeito de ficar 
sozinho numa casa desocupada, ou senão em algum ponto isolado, em 
pleno vale. Ali fazia muita oração e meditação sobre Deus e o céu." 
Poderíamos ler, sem ruborizar-nos, a discrição que Jonathan 
Edwards faz de Davi Brainerd? "Sua vida", diz Edwards, "mostra o 
modo certo de se obter sucesso nos labores ministeriais. Ele o buscava 
como um soldado resoluto busca a vitória num assédio ou numa batalha; 
ou como um homem que disputa numa corrida um grande prêmio. 
Animado pelo amor a Cristo e às almas, como trabalhava sempre com 
fervor, não só na palavra e na doutrina, em público e em particular, mas 
também em orações dia e noite, "lutando com Deus" em secreto, e "com 
dores de parto", com gemidos e agonias inexprimíveis, "até ser Cristo 
formado" nos corações das pessoas às quais ele foi enviado! Como era 
sedento por uma bênção a seu ministério, e velava pelas almas "como 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 65
quem deve prestar contas"! Como ele ia "na força do Senhor" Deus, 
procurando e se pondo na dependência da influência especial do Espírito 
para assisti-lo e prosperá-lo! E que feliz fruto, afinal, depois de longa 
espera e de muitos aspectos tenebrosos e desanimadores; como um 
verdadeiro filho de Jacó, perseverava lutando através de toda a escuridão 
da noite, até romper o dia." 
Por certo nos causaria vergonha o diário de Henry Martyn, em que 
achamos assentamentos como estes: "24 de setembro – A determinação 
com que fui para a cama a noite passada, de devotar o dia de hoje à 
oração e ao jejum, pude pôr em execução. Em minha primeira oração por 
libertação de pensamentos mundanos, confiando no poder e nas 
promessas de Deus, firmando a minha alma enquanto orava, tive ajuda 
para desfrutar muita abstinência do mundo por quase uma hora: Li 
depois a história de Abraão, para ver com que familiaridade Deus Se 
revelara a mortais da antigüidade. Em seguida, orando por minha 
santificação pessoal, minha alma aspirou livre e ardentemente a 
santidade de Deus, e este foi o melhor período do dia". Talvez 
pudéssemos juntar-nos mais sinceramente a ele em seus lamentos após o 
primeiro ano do seu ministério, em que julgou "ter dedicado demasiado 
tempo às ministrações públicas, e pouquíssimo à comunhão a sós com 
Deus". 
Quanta bênção perdemos por sermos remissos nas súplicas, mal 
podemos imaginar, e nenhum de nós pode saber como somos pobres em 
comparação com o que poderíamos ser se vivêssemos habitualmente 
mais perto de Deus em oração. Vãos pesares e conjeturas são inúteis, 
mas uma vigorosa determinação a corrigir-nos será muito mais útil. Não 
só devemos orar mais, mas precisamos. O fato é que o segredo de todo o 
sucesso ministerial está em prevalecer na sede da misericórdia – no 
propiciatório. 
Uma fulgente dádiva do céu que a oração particular traz ao 
ministério é algo indescritível e inimitável, melhor para se experimentar 
do que para se contar; é um orvalho do Senhor, uma presença divina que 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 66
vocês reconhecerão de imediato quando lhes disser que é "a unção do 
Santo". Que será isto? Pergunto-me quanto tempo haveríamos de ficar 
espremendo o cérebro até podermos colocar claramente em palavras o 
que se quer dizer com pregar com unção. Contudo, quem prega sabe da 
sua presença, e quem ouve logo detecta a sua ausência. Samaria, em 
crise de fome, tipifica um discurso sem ela; Jerusalém, com suas testas 
repletas de substâncias gordas e de tutano, pode representar um sermão 
enriquecido por ela. 
Toda gente sabe o que é o frescor da manhã quando pérolas 
brilhantes recobrem cada folha da grama, mas quem pode descrevê-lo e, 
quanto mais, produzi-lo por si mesmo? Assim é o mistério da unção 
espiritual; sabemos o que é, mas não a podemos explicar a outros. É tão 
fácil como insensato falsificá-la, como fazem alguns que usam 
expressões que pretendemdemonstrar fervente amor, mas, com mais 
freqüência indicam sentimentalismo piegas ou mera gíria. "Querido 
Senhor!" "Doce Jesus!" "Cristo precioso!" são expressões despejadas por 
atacado por eles, a ponto de deixar a gente com náuseas. Estas 
familiaridades podem ter sido não somente toleráveis, mas até belas, 
quando caíram pela primeira vez dos lábios de um santo de Deus, falando 
como que da glória excelsa, mas quando repetidas petulantemente, não só 
são intoleráveis, como também indecentes, senão profanas. 
Alguns têm tentado imitar a unção por meio de entonação e 
gemidos inaturais; virando os olhos pondo à mostra só o branco do globo 
ocular; e levantando as mãos de modo sumamente ridículo. Ouvem-se a 
entonação e o ritmo de McCheyne repetidos constantemente pelos 
escoceses; preferimos o seu espírito a seu maneirismo; e todo mero 
maneirismo sem poder é como repugnante carniça de toda forma de vida 
desolada, odiosa e nociva. Certos irmãos pretendem obter inspiração 
mediante esforços e altos gritos; mas ela não vem. Sabemos que alguns 
interrompem o sermão, e exclamam: "Deus os abençoe" , e que outros 
gesticulam de maneira selvagem, e metem as unhas nas palmas das mãos 
como se estivessem tendo convulsões de febre celestial. Bolas! Essa 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 67
coisa toda cheira a camarim e palco. Instilar fervor nos ouvinte mediante 
simulação dele pelo pregador, é uma abominável fraude que deve ser 
desprezada pelos honestos. 
"Simular sentimento", diz Richard Cecil, "é repugnante e logo 
percebido mas sentir verdadeiramente é o caminho para o coração dos 
outros." Unção é uma coisa que não se pode fabricar, e suas imitações 
são piores do que indignas; entretanto, seu valor é inestimável, e ela é 
necessária além de toda medida, se é que vocês desejam edificar os 
crentes e levar pecadores a Jesus. Àquele que pleiteia secretamente com 
Deus é entregue este segredo; sobre ele pousa o orvalho do Senhor, e o 
cerca o perfume que alegra o coração. Se a unção que levamos não 
provém do Senhor dos Exércitos, somos enganadores, e desde que só 
com oração podemos obtê-la, perseveremos em súplicas insistentes e 
constantes. Deixem o seu velo na eira dos rogos até umedecer-se com o 
orvalho do céu. Não ministrem no templo enquanto não se lavarem na 
pia perto do altar. Não se considerem mensageiros da graça a outros 
enquanto vocês mesmos não tiverem visto o Deus da graça, e enquanto 
não tiverem recebido a Palavra da Sua boca. 
O tempo passado em quieta prostração da alma perante o Senhor é 
extremamente revigorante. Davi fez isso diante do Senhor (2 Sm. 7:18); 
é uma grande coisa manter esses "aconchegos sagrados", com a mente 
receptiva, como uma flor aberta abeberando-se dos raios solares, ou 
como a sensível chapa fotográfica captando a imagem diante de si. A 
quietude, que alguns não conseguem suportar porque revela a sua 
pobreza interior, é como um palácio de cedro para o sábio, pois ao longo 
dos seus pátios sagrados o Reí em Sua formosura condescende em 
passear. 
"Ó sagrado silêncio! tu és represa 
do coração, sim, do âmago da gente; 
produto de celeste natureza; 
gelo da boca e degelo da mente." 
(Flecknoe) 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 68
Inestimável como o dom da elocução possa ser, a prática do silêncio 
em alguns aspectos o sobrepuja em muito. Acham que sou quacre? Bem, 
que o seja. Nisto eu sigo George Fox com o maior afeto, pois estou 
persuadido. de que a maioria de nós pensa bem demais da linguagem 
falada que, afinal, é apenas o invólucro do pensamento. A contemplação 
em silêncio, o culto silente, o arrebatamento sem articulação de palavras, 
são meus, quando tenho diante de mim as minhas melhores jóias. 
Irmãos, não neguem ao seu coração as alegrias do alto mar; não deixem 
de lado a vida de maior profundidade, ficando sempre a tagarelar entre as 
conchas quebradas e as ondas espumosas da praia. 
Recomendo-lhes seriamente que, quando estiverem estabelecidos 
no ministério, celebrem períodos especiais de devoção. Se as orações 
feitas ordinariamente não estiverem mantendo a vida e o vigor das suas 
almas, e notarem que se enfraquecem, fiquem sozinhos por uma semana, 
ou até por um mês, se possível. Ocasionalmente temos feriados 
nacionais; por que não termos com freqüência dias santos? Sabemos de 
irmãos mais ricos que acham tempo para uma viagem a Jerusalém; não 
poderíamos dispensar tempo para uma viagem menos difícil e muito 
mais proveitosa à cidade celestial? 
Isaac Ambrose, que foi pastor em Preston, autor do famoso livro, 
Looking to Jesus (Olhando para Jesus), sempre reservava um mês por 
ano para reclusão numa cabana em uma floresta de Garstang. Não 
admira que fosse um teólogo tão cheio de poder, desde que passava com 
regularidade tanto tempo no monte com Deus. Noto que os romanistas 
estão acostumados a manter o que chamam de "Retiros", aonde certo 
número de sacerdotes se acolhe por um tempo, procurando a quietude 
completa, para passar o tempo todo em jejum e oração, com o fim de 
inflamar de ardor as suas almas. 
Podemos aprender dos nossos adversários. Seria uma grande coisa 
de vez em quando um grupo de irmãos verdadeiramente espirituais 
passar juntos um dia ou dois em real e consumidora agonia de oração. 
Num retiro só de pastores, estes poderiam ter muito mais liberdade do 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 69
que num grupo misto. Períodos de humilhação e de súplicas para a igreja 
toda também nos beneficiarão, se nos dedicarmos a isso de coração. 
Os nossos períodos de jejum e oração no Tabernáculo têm sido de 
fato dias de grande elevação. Nunca os portais do céu estiveram mais 
amplamente abertos; nunca os nossos corações estiveram mais perto do 
centro da glória. Aguardo sequioso o nosso mês de devoção especial, 
como os marinheiros quando calculam que se aproximam de terra. 
Mesmo que o nosso trabalho público fosse posto de lado para dar-nos 
lugar à oração especial, poderia ser grande ganho para as nossas igrejas. 
Uma viagem pelos rios da comunhão e da meditação seria bem 
recompensada por um frete de sentimento santificado e de pensamento 
elevado. O nosso silêncio poderia ser melhor do que as nossas vozes, se 
passássemos com Deus a nossa solidão. 
Foi uma atitude grandiosa a que o velho Jerônimo tomou quando 
pôs de lado todas as suas prementes ocupações para realizar um 
propósito que ele entendia ser um chamamento do céu. Tinha a seu cargo 
uma grande igreja, tão grande que qualquer de nós gostaria de ter igual. 
Mas ele disse a seu povo: "Agora há necessidade de que o Novo 
Testamento seja traduzido; vocês precisam encontrar outro pregador. A 
tradução precisa ser feita. Vejo-me forçado a partir para o deserto, e não 
voltarei enquanto não concluir a minha tarefa". Lá se foi com os seus 
manuscritos, e orou e trabalhou, e produziu uma obra – a Vulgata Latina 
– que durará enquanto o mundo existir; de modo geral, a mais 
maravilhosa tradução da Escritura Sagrada. Como num retiro, estudo e 
oração igualmente e juntamente puderam produzir uma obra imortal, se 
às vezes disséssemos aos nossos ouvintes, quando nos sentíssemos 
impulsionados a fazê-lo: "Diletos amigos, precisamos realmente sair um 
pouco para renovar a nossa alma na solidão"; o nosso aproveitamento 
logo se tornaria patente, e embora não escrevêssemos Vulgatas Latinas, 
ainda assim realizaríamos uma obra imortal, capaz de resistir ao fogo. 
 
 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 70
ORAÇÃO EM PÚBLICO 
 
Às vezes a vanglória dos episcopais é que os membros da igreja 
oficial vão aos seus templos para orar e prestar culto a Deus, mas os 
dissidentes (os das igrejas livres) simplesmente se reúnem para ouvir 
sermões. Nossa réplica a isso é que, conquanto possam existir alguns 
crentes professos culpados deste mal, não é verdade quanto aos filhos de 
Deus que nos cercam, e pessoas desta estirpe espiritual são as únicas que 
realmente apreciam a devoção, em qualquer igreja. Os crentes de nossas 
igrejas se reúnem para prestar culto a Deus, enós afirmamos, e não 
hesitamos em afirmá-lo, que se eleva tanta oração verdadeira e aceitável 
em nossas reuniões não-conformistas regulares, como nas melhores e 
mais pomposas realizações da Igreja da Inglaterra. 
Além disso, se aquela observação tiver o propósito de fazer supor 
que ouvir sermões não é cultuar a Deus, funda-se em grosseiro engano, 
porquanto ouvir corretamente o evangelho é uma das partes mais nobres 
da adoração ao Altíssimo. É um exercício mental em que, quando 
corretamente praticado, todas as faculdades do homem espiritual são 
chamadas à realização de atos de devoção. Ouvir reverentemente a 
Palavra exercita a nossa humildade, instrui a nossa fé, engolfa-nos em 
raios de fulgente alegria, inflama-nos de amor, inspira-nos zelo, e nos 
eleva até o céu. 
Muitas vezes um sermão tem sido uma espécie de escada de Jacó na 
qual vimos os anjos de Deus subindo e descendo, e a aliança de Deus no 
alto dela. Temos sentido com freqüência quando Deus fala através dos 
Seus servos ao íntimo das nossas almas. "Este não é outro lugar senão a 
casa de Deus; e esta é a porta dos céus." Temos engrandecido o nome do 
Senhor e O temos louvado de todo o coração, enquanto Ele nos tem 
falado mediante o Seu Espírito, que Ele deu aos homens. Daí, não existe 
aquela larga diferença entre a pregação e a oração, que alguns querem 
que admitamos; pois a primeira parte da reunião funde-se brandamente 
com a outra, e freqüentemente o sermão inspira a oração e o hino. A 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 71
verdadeira pregação é uma aceitável adoração a Deus pela manifestação 
dos Seus atributos graciosos. O testemunho do Seu evangelho, que O 
glorifica preeminentemente, e ouvir com obediência a verdade revelada, 
são uma forma aceitável de culto ao Altíssimo, e talvez uma das mais 
espirituais de que se pode ocupar a mente humana. 
Não obstante, como nos diz o velho poeta romano, é certo aprender 
dos nossos inimigos, e, portanto, talvez seja possível que os nossos 
oponentes litúrgicos nos tenham indicado o que em alguns casos ocupa 
má colocação em nossos cultos públicos. É de temer que os nossos 
exercícios espirituais não sejam, em todos os casos, modelados da 
melhor forma, ou apresentados da maneira mais recomendável. Há 
salões de culto em que as súplicas não são nem tão devotas, nem tão 
fervorosas como desejamos; noutros locais o fervor vem tão aliado à 
ignorância, e a devoção tão desfigurada pelo linguajar bombástico, que 
nenhum crente inteligente pode entrar para partilhar do culto com prazer. 
Orar no Espírito não é praticado universalmente entre nós, como também 
nem todos oram com o entendimento e com o coração. Há lugar para 
melhoramento, e em algumas partes há imperiosa exigência disso. 
Permitam-me, pois, amados irmãos, acautelar-vos contra o perigo de 
estragarem os cultos com as suas orações. Tomem solenemente a 
resolução de que todas as atividades do santuário haverão de ser da 
melhor qualidade. 
Fiquem certos de que a oração espontânea é a mais bíblica, e deve 
ser a mais excelente forma de prece pública. Se perderem a fé no que 
fazem, nunca o farão bem. Portanto, ponham na cabeça que perante o 
Senhor vocês estão prestando um culto de maneira autorizada pela 
Palavra de Deus e aceita pelo Senhor. A expressão "orações para ler" a 
que estamos acostumados, não se acha na Escritura Sagrada, rica de 
palavras como ela é para a transmissão de pensamento religioso; e a 
frase não está lá porque a coisa de que trata nunca teve existência. Onde, 
nos escritos dos apóstolos se acha a idéia pura e simples de uma liturgia? 
Nas assembléias dos primeiros cristãos a oração não se restringia a 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 72
nenhuma fórmula de palavras. Tertuliano escreve: "Oramos sem ponto 
porque do coração". Justino Mártir descreve o ministro dirigente fazendo 
oração "de acordo com sua capacidade". 
Seria difícil descobrir quando e onde começaram as liturgias. Sua 
introdução foi gradativa e, segundo cremos, em paralelo com o declínio 
da pureza da igreja. A introdução delas entre os não-conformistas – isto 
é, entre as igrejas livres, não oficiais – assinalaria a era do nosso declínio 
e queda. O assunto me tenta a dilatar-me, mas não é o ponto em foco, e, 
portanto, passo adiante, anotando apenas que vocês encontrarão a 
matéria referente às liturgias habilmente tratada pelo Dr. John Owen, a 
quem farão bem em consultar.* 
Compete-nos provar a superioridade da oração improvisada, 
fazendo-a mais espiritual e mais fervorosa do que a devoção litúrgica 
formal. É uma lástima quando o ouvinte é levado a observar: "O nosso 
ministro prega muito melhor do que ora". Isto não está de acordo com o 
modelo de nosso Senhor. Ele falava como nenhum homem jamais falou; 
e quanto às Suas orações, tanto impressionaram os Seus discípulos que 
eles disseram: "Senhor, ensina-nos a orar". Todas as nossas faculdades 
devem concentrar as suas energias, e o homem completo deve elevar-se 
ao ponto máximo do seu vigor, quando estiver orando em público, sendo 
nesse ínterim batizado na alma e no espírito com a Sua sagrada 
influência. Mas a fala desalinhada, negligente e sem vida à guisa de 
oração, feita para encher certo espaço de tempo durante o culto, é tédio 
para o homem e abominação para Deus. 
Se a oração espontânea tivesse sido universalmente de categoria 
mais elevada, nunca se teria pensado numa liturgia, e as fórmulas de 
orações atuais não têm melhor desculpa do que a debilidade das 
devoções improvisadas. O segredo está em que não somos realmente 
devotos de coração, como deveríamos ser. A habitual comunhão com 
 
* A Discourse Concerning Liturgies and their Imposition (Discurso Sobre Liturgia e sua Imposição), 
Vol. XV, Owen's Works, Goold's Edition. 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 73
Deus deve ser mantida, ou senão as nossas orações públicas serão 
insípidas ou formalistas. Se não houver degelo das geleiras nas escarpas 
da montanha, não haverá arroios descendo para animar a planície. A 
oração em secreto é o terreno amanhado para as nossas ministrações 
públicas. E não podemos negligenciá-la por muito tempo sem ficarmos 
desajeitados quando estivermos diante do povo. 
As nossas orações nunca devem rastejar; devem alçar vôo e subir. 
Temos necessidade de uma estrutura mental celeste. As nossas petições 
dirigidas ao trono da graça devem ser solenes e humildes, não petulantes 
e ostensivas, nem formalistas e negligentes. A maneira coloquial de falar 
está deslocada, diante do Senhor; devemos inclinar-nos reverentemente e 
com o mais profundo temor. Podemos falar sem embaraço com Deus, 
mas Ele ainda está no céu e nós na terra, e devemos evitar toda 
presunção. Na súplica nos colocamos peculiarmente diante do trono do 
Infinito, e, como o cortesão assume no palácio real outros ares e outros 
modos, diferentes dos que exibe a seus colegas da corte, assim deve ser 
conosco. 
Nas igrejas da Holanda observamos que, tão logo o ministro 
começa a pregar, todos os homens põem o chapéu, mas no instante em 
que passa a orar, todos tiram o chapéu. Este era o costume nas igrejas 
puritanas mais antigas da Inglaterra, e perdurou com os batistas. Usavam 
seus gorros durante as partes do culto que entendiam que não eram 
propriamente atos de adoração, mas os tiravam lago que havia uma 
direta aproximação a Deus, no hino ou na oração. Considero imprópria a 
prática, e errôneo o seu motivo. Tenho insistido em que a distinção entre 
orar e ouvir a Palavra não é grande, e estou certo de que ninguém iria 
propor retorno ao velho costume ou à opinião da qual ele é indicativo. 
Contudo, há uma diferença, e, considerando que na oração estamos 
falando diretamente com Deus, mais do que procurando a edificação dos 
nossos semelhantes, temos que tirar os sapatos dos pés, pois o lugar em 
que estamos pisando é terra santa. 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 74
Que somente o Senhor seja o objeto das nossas orações. Cuidado 
para não ficarem com umolho posto nos ouvintes; cuidado para não se 
tornarem retóricos a fim de agradarem as suas audiências. A oração não 
deve ser transformada num "sermão indireto". É pouco menos que 
blasfêmia fazer da devoção uma oportunidade para exibição. As belas 
orações geralmente são muito ímpias. Na presença do Senhor dos 
Exércitos não fica bem o pecador fazer desfilar a plumagem e os atavios 
de um linguajar extravagante, tendo em vista receber aplauso dos seus 
semelhantes, como ele mortais. Os hipócritas que se atrevem a fazer isso 
têm sua recompensa, mas esta é de causar pavor. Uma pesada sentença 
de condenação foi imposta a um ministro quando se disse 
lisonjeiramente que a sua oração foi a mais eloqüente de todas as orações 
já apresentada a uma igreja de Boston. Podemos ter o objetivo de 
estimular os anseios e aspirações dos que nos ouvem orar; mas cada 
palavra e cada pensamento devem ser dirigidos a Deus, devendo tocar 
nas pessoas presentes só o bastante para levá-las e suas necessidades à 
presença do Senhor. Lembrem-se das pessoas em suas orações, mas não 
modelem as suas súplicas com vistas a obter a sua estima. Olhem para o 
alto; olhem para o alto com os dois olhos. . 
Evitem todas as vulgaridades na oração. Admito que ouvi algumas 
delas, mas não seria proveitoso repeti-las; especialmente quando se 
tornam cada dia menos freqüentes. Raramente topamos agora com as 
vulgaridades na oração que outrora eram muito comuns nas reuniões de 
oração dos metodistas, provavelmente muito mais comuns nos boatos do 
que na realidade. As pessoas sem instrução têm que orar do seu jeito, 
quando têm fervor, e a sua linguagem muitas vezes choca os exigentes, 
senão os devotos; mas essa permissão tem que ser dada, e se o espírito 
for evidentemente sincero, podemos perdoar as expressões toscas. 
Uma vez, numa reunião de oração, ouvi um pobre homem orando 
assim: "Senhor, toma conta destes jovens nos dias de festa, pois sabes, 
Senhor, como os inimigos deles os espreitam como o gato espreita os 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 75
ratos". Alguns zombaram da expressão, mas a mim me pareceu natural e 
significativa, considerando a pessoa que a empregou. 
Um pouco de instrução com delicadeza, e uma ou duas sugestões 
geralmente impedem a repetição de coisas objetáveis em casos assim, 
mas nós, que ocupamos o púlpito, precisamos ter o cuidado de ser bem 
claros. O biógrafo daquele notável pregador metodista americano, Jacob 
Gruber, menciona como exemplo da sua presença de espírito, que, 
depois de ter ouvido um jovem ministro calvinista atacar o seu credo, 
foi-lhe solicitado concluir com oração, e, entre outras petições, orou que 
o Senhor abençoasse o jovem que estivera pregando, e lhe concedesse 
muita graça, "para que o seu coração ficasse mole como a sua cabeça". 
Deixando de lado o mau gosto de tal animadversão pública contra 
um colega, qualquer pessoa cuja mente funcione bem verá que o trono 
do Altíssimo não é lugar para a emissão desses gracejos vulgares. Muito 
provavelmente o jovem orador mereceu castigo por sua ofensa ao amor 
cristão, mas o mais velho pecou dez vezes mais com sua falta de 
reverência. Ao Rei dos reis é cabível dirigir palavras seletas, não as que 
foram poluídas por línguas grosseiras. 
Outro defeito que se deve evitar na oração é a irreverente e 
repugnante superabundância de palavras afetuosas. Quando expressões 
como "Querido Senhor", "Bendito Senhor" e "Doce Senhor" aparecem e 
tornam a aparecer como vãs repetições, estão entre as piores nódoas. 
Devo confessar que não causariam repulsa à minha mente as palavras 
"Querido Jesus", se saíssem dos lábios de um Rutherford, ou de um 
Hawker, ou de um Herbert; mas quando ouço expressões amigáveis e 
afetuosas desgastadas por pessoas nada notáveis por sua espiritualidade, 
inclino-me a desejar que possam, de uma forma ou de outra, chegar a ter 
melhor entendimento da verdadeira relação existente entre o homem e 
Deus. A palavra "querido", dado o seu uso habitual, veio a ser tão 
comum, tão fraca e, em alguns casos, tão afetada e tola, que misturar 
com ela as orações não produz edificação. 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 76
Existe a mais forte objeção à constante repetição da palavra 
"Senhor", que ocorre nas primeiras orações dos jovens conversos, e 
mesmo entre os estudantes. As palavras "Ó Senhor! Ó Senhor! Ó 
Senhor!" nos afligem quando as ouvimos tão perpetuamente repetidas. 
"Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão", é um grande 
mandamento, e, embora se possa quebrar a leí inconscientemente, 
quebrá-la ainda é pecado, e grave. O nome de Deus não deve ser um 
tapa-buracos, para suprir a nossa pobreza de vocabulário. Tomem 
cuidado para empregar com a máxima reverência a nome do infinito 
Jeová. Em seus escritos sagrados, os judeus, ou deixam espaço em 
branco no lugar da palavra "Jeová", ou então escrevem a palavra 
"Adonai", porque na concepção deles aquele nome santo é demasiado 
sagrado para ser usado de modo comum. Não precisamos ser 
supersticiosos assim, mas seria bom sermos escrupulosamente 
reverentes. A profusão de "Ohs!" e de outras interjeições bem pode ser 
dispensada; os jovens pregadores freqüentemente estão em falta aqui. 
Evitem aquele tipo de oração que pode ser denominada – embora o 
assunto seja tal que sobre ele a língua não nos deu muitos termos – uma 
espécie de peremptória exigência feita a Deus. É deleitável ouvir um 
homem lutar com Deus e dizer: "Não te deixarei ir, se me não 
abençoares", mas isso tem que ser dito suavemente, e não com espírito 
de bravata, como se pudéssemos mandar no Senhor de tudo quanto há, e 
exigir-Lhe bênçãos. Lembrem-se, ainda se trata de um homem que está 
lutando, conquanto tenha a permissão de lutar com o eterno EU SOU. 
Jacó "manquejava da coxa" depois daquele santo conflito noturno, para 
fazê-lo ver que Deus é terrível, e que o poder com o qual prevalecera não 
jazia nele próprio. Somos ensinados a dizer, "Pai nosso", mas ainda é 
"Pai nosso, que estás nos céus". 
Familiaridade pode haver, mas familiaridade santa; intrepidez, mas 
a intrepidez que brota da graça e que é obra do Espírito Santo; não a 
intrepidez do rebelde que anda com fronte de bronze na presença do seu 
rei ofendido, mas a intrepidez da criança que teme porque ama, e ama 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 77
porque teme. Jamais caiam no inglório modo de dirigir-se a Deus com 
impertinência. Ele não deve ser assaltado como se fosse um adversário, 
mas deve ser invocado como nosso Senhor e Deus. Sejamos humildes e 
submissos de espírito, e assim oremos. 
Orem quando anunciam que oram, e não falem disso, apenas. Os 
homens de negócio dizem: "Um lugar para cada coisa, e cada coisa em 
seu lugar". Preguem no sermão e orem na oração. Fazer dissertações 
sobre a nossa necessidade de recorrer à oração não é orar. Por que os 
homens não se põem a orar de uma vez? – por que ficam procurando 
evasivas? Em lugar de dizer o que deveriam e gostariam de fazer, por 
que não põem mãos à obra, em nome de Deus, e o fazem? Com decidido 
fervor, dedique-se cada um à intercessão, e volte o rosto para o Senhor. 
Rogue a Deus que supra as grandes e constantes necessidades da igreja, e 
não deixe de instar, com devoto fervor, pelas necessidades especiais da 
hora e do público presentes. Mencione os enfermos, os pobres, os 
moribundos, o gentio, o judeu, e toda classe de pessoas esquecidas, à 
medida que constranjam o seu coração. 
Ore pelas pessoas da sua igreja como sendo santas e pecadoras – 
não como se fossem todas santas. Mencione os jovens e os idosos, os 
cuidadosos e os negligentes; os consagrados e os infiéis. Nunca vire para 
a direita ou para a esquerda, mas continue arando, seguindo os sulcos da 
oração veraz. Sejam as suas confissões de pecado e as suas ações de 
graça sinceras e específicas; e sejam as suas petições apresentadas como 
se você de fato cresse em Deus e não duvidasse da eficácia da oração. 
Digo isto porque muitos oram de maneira tão formal que levam os 
observadores a concluíremque os que as fazem acham que orar é uma 
coisa muito decente, mas é, afinal, uma atividade bem pobre e duvidosa, 
quanto a quaisquer resultados práticos. Ore como alguém que 
experimentou e provou o seu Deus, e portanto vem renovar as suas 
petições com indubitável confiança. E lembre-se de orar a Deus durante 
a oração toda, e jamais passe a fazer discurso ou pregação enquanto ora – 
e muito menos, como fazem alguns – a ministrar censura e a fazer queixas. 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 78
Como regra geral, se for convidado a pregar, dirija você mesmo a 
oração. E se você gozar de alta estima no ministério, como espero que 
aconteça, determine-se, com grande cortesia, mas com igual firmeza, a 
resistir à prática da escolha de homens para orarem, com a idéia de 
honrá-los dando-lhes algo para fazer. As nossas devoções públicas nunca 
devem ser rebaixadas a oportunidades para atenções sociais. De vez em 
quando ouço chamar a oração e o cântico de hinos de "serviços 
preliminares", como se fossem apenas um prefácio do sermão. Espero 
que isso seja raro entre nós – se fosse comum, seria para nossa maior 
vergonha. Esforço-me invariavelmente para encarregar-me eu mesmo de 
toda a ordem do culto, para o meu bem, e creio que também para o bem 
do povo. Não acredito que "qualquer pessoa serve para fazer oração". 
Não, senhores, é minha solene convicção que a oração é uma das 
mais importantes, úteis e honoráveis partes do culto, e que deve até 
merece maior consideração do que o sermão. Não devemos chamar para 
orar pessoas de todo e qualquer tipo e, depois, fazer dentre elas a seleção 
do mais capaz para pregar. Pode suceder que, ou por fraqueza, ou por se 
tratar de ocasião especial, seja um alívio para o ministro ter alguém que 
tome o seu lugar para elevar a oração. Mas se o Senhor lhe deu 
capacidade para amar o seu trabalho, não muitas vezes, nem 
prontamente, você fará essa parte por meio de procurador. Se delegar 
todo o culto a outro, que o faça a alguém em cuja espiritualidade e 
adequado preparo você tenha a mais plena confiança. Mas, pegar de 
improviso um irmão menos dotado, e empurrá-lo para que realize 
pessoalmente os atos de devoção, é vergonhoso. 
"Ao céu nós serviremos com menor respeito 
do que o fazemos com nossas toscas pessoas?" 
Designe o mais competente para orar, e se houver falha, antes seja 
no sermão do que na visita ao céu. Que o infinito Senhor seja servido 
com o que temos de melhor; que a oração dirigida à Majestade divina 
seja cuidadosamente avaliada, e então apresentada com todos os poderes 
de um coração desperto e de um entendimento espiritual. Aquele que, 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 79
pela comunhão com Deus, foi preparado para ministrar ao povo, é 
normalmente de todos os presentes o mais idôneo para aplicar-se à 
oração. Elaborar um programa que coloca outro irmão em seu lugar, é 
macular a harmonia do culto, privar ao pregador uma função que o 
encorajaria para o sermão, e em muitos casos sugere comparações entre 
uma parte do culto e outra, coisa que não se deve tolerar. Se irmãos 
despreparados hão de ser mandados ao púlpito para fazer a minha oração 
no meu lugar quando me compete pregar, não vejo por que não me 
permitir que ore e depois me retire para deixar que aqueles irmãos 
preguem. Não consigo ver nenhuma razão para privar-me do mais santo, 
mais doce e mais proveitoso serviço de que o meu Senhor me incumbiu. 
Se eu puder fazer a escolha, preferirei dispensar o sermão a dispensar a 
oração. Irmãos, falei tanto assim para fazê-los fixar o fato de que 
necessitam ter em alta estima a oração pública, e busquem do Senhor os 
dons e graças necessárias para efetuá-la bem. 
Os que desprezam toda oração improvisada, provavelmente 
apanharão estas observações e as usarão contra ela, mas posso assegurar-
lhes que os defeitos contra os quais vos adverti não são comuns entre 
nós, e na verdade estão quase extintos. Também é fato que o tropeço 
causado por eles, mesmo no pior dos casos, nunca foi tão grande como o 
causado, muitas vezes, pela maneira de realizar o culto, usando a liturgia 
formal. Com muitíssima freqüência o culto na igreja é desenvolvido 
apressadamente, com tanta falta de devoção como se fosse uma canção 
de um cantor de baladas. As palavras são papagueadas sem a mínima 
apreciação do seu significado; não às vezes, mas, muito freqüentemente, 
nos lugares reservados para o culto episcopal, podem-se ver os olhos do 
povo, os olhos dos coristas e os olhos do próprio clérigo, vagando por 
todas as direções, uma vez que, evidentemente, pelo próprio tom da 
leitura, não há sentimento algum em sintonia com o que está sendo lido. 
Estive em funerais em que o ofício fúnebre da Igreja da Inglaterra 
foi conduzido a galope, de maneira tão indecorosa, que me foi necessário 
empregar todo o cavalheirismo que tinha para impedir-me de atirar um 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 80
capacho na cabeça da criatura. Fiquei tão indignado que não soube o que 
fazer ao ouvir, na presença dos parentes do falecido, que estavam com o 
coração sangrando, um homem a matraquear o ritual como se fosse pago 
por peça e tivesse mais trabalho para fazer logo depois e, portanto, 
quisesse chegar ao fim o mais depressa possível. Que efeito ele poderia 
pensar que estava produzindo, ou que bom resultado poderia provir de 
palavras arrancadas e arremessadas com força e violência, nem posso 
imaginar. É realmente chocante pensar como aquele maravilhoso 
cerimonial de enterro é assassinado e transformado numa abominação 
pelo modo como freqüentemente o ofício é lido. Menciono isto 
simplesmente porque, se eles criticarem as nossas orações com 
demasiada severidade, podemos fazer um formidável contra-ataque para 
silenciá-los. Todavia, muito melhor será corrigir as nossas tolices do que 
achar defeito nos outros. 
A fim de transformar a nossa oração pública naquilo que ela deve 
ser, a primeira coisa necessária é, que tem que ser uma coisa do coração. 
O homem tem que estar de fato com fervor quando ora. É preciso que 
seja oração verdadeira e, se for, cobrirá multidão de pecados, como o 
amor. Podem-se perdoar as familiaridades e vulgaridades de uma pessoa, 
quando se vê claramente que o âmago do seu coração está falando com o 
seu Criador, e que somente a sua educação defeituosa é que ocasiona os 
seus defeitos na oração, e não quaisquer males morais ou espirituais do 
seu coração. 
Aquele que eleva súplicas a Deus em público deve ter ardor, pois, 
que pode ser pior preparo para o sermão do que uma oração sonolenta? 
Que é que pode levar mais o povo a não querer ir à casa de Deus do que 
uma oração sonolenta? Ponha toda a alma no ato da oração. Se alguma 
vez todo o seu ser se envolveu com alguma coisa, que o faça no sentido 
de chegar perto de Deus em público. Ore, pois, para que, mediante uma 
divina atração, você leve consigo todos os ouvintes até o trono de Deus. 
Ore, pois, para que, mediante o poder do Espírito Santo pousando sobre 
você, expresse os desejos e pensamentos de cada um dos presentes, e se 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 81
erga como a única voz falando por centenas de corações frementes, que 
estão inflamados de fervor perante o trono de Deus. 
Logo a seguir, as nossas orações devem ser pertinentes. Não digo 
que se entre em todas e em cada uma das minúcias das circunstâncias 
dos membros da igreja. Como já disse, não há necessidade de 
transformar a oração pública numa gazeta dos acontecimentos da 
semana, ou num registro de nascimentos, mortes e casamentos do 
pessoal da igreja, mas os movimentos gerais que se deram entre os 
irmãos devem ser notados pelo diligente coração do ministro. Ele deve 
apresentar igualmente as alegrias e as tristezas do seu povo ao trono da 
graça, e pedir que a bênção divina repouse sobre o seu rebanho em todos 
os seus movimentos, atividades espirituais, serviços e santos 
empreendimentos, e que Deus estenda o Seu perdão a todas as falhas e 
inumeráveis pecados dos irmãos. 
Depois, por meio de umaregra dada em termos negativos, devo 
dizer, não alongue a sua oração. Acho que era John Macdonald que 
costumava dizer: "Se você estiver com espírito de oração, não se 
alongue, porque as outras pessoas não conseguirão manter o passo com 
você nessa incomum espiritualidade; e se você não estiver com espírito 
de oração, não se alongue, porque esteja certo de que aborrecerá os 
ouvintes". 
A respeito de Robert Bruce, de Edimburgo, o famoso 
contemporâneo de Andrew Melville, diz Livingstone: "Ninguém em seu 
tempo falava com tal evidência e poder do Espírito. Ninguém possuía 
tantos selos da conversão; sim, muitos dos seus ouvintes achavam que 
homem nenhum, desde os apóstolos, falara com tal poder. ... Ele era 
muito breve na oração quando havia outros presentes, mas cada frase era 
como um poderoso dardo disparado para o céu. Ouvi-o dizer que se 
cansava quando outros faziam oração comprida; mas, estando a sós, 
passava muito tempo em luta espiritual e oração". 
Em ocasiões especiais, uma pessoa pode, se se sentir 
extraordinariamente movida e arrebatada, orar durante vinte minutos no 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 82
culto matutino mais longo, mas isto não deve suceder com freqüência. O 
meu amigo, Dr. Charles Brown, de Edimburgo, estabelece, como 
resultado do seu ponderado julgamento, que dez minutos é o limite a que 
deve estender-se a oração pública. 
Os nossos antepassados puritanos costumavam orar por três quartos 
de hora, ou mais, mas aí você precisa lembrar-se de que eles não sabiam 
se teriam outra oportunidade de orar de novo diante de uma assembléia 
e, portanto, faziam-no até saciar-se. Além disso, naquele tempo as 
pessoas não eram propensas a contender pela extensão das orações ou 
dos sermões como hoje em dia. Nunca será demasiado longa a sua 
oração em particular. Não a limitaremos a dez minutos ali, nem a dez 
horas, nem a dez semanas, se quiser. Quanto mais tempo estiver de 
joelhos a sós, melhor. Agora estamos falando daquelas orações que vêm 
antes ou depois do sermão, e para essas orações, dez minutos é melhor 
limite do que quinze. Apenas um em mil se queixaria de você por ser 
breve demais, ao passo que dezenas murmurarão por você ser enfadonho 
por alongar-se muito. "Ele orou de modo que me colocou em bom estado 
de espírito", disse uma vez George Whitefield sobre certo pregador, "e se 
tivesse parado ali, estaria tudo muito bem; mas, continuando a orar, 
tirou-me de novo dele". 
A imensa longanimidade de Deus exemplifica-se no fato de ter Ele 
poupado alguns pregadores que neste sentido têm cometido grave 
pecado; eles têm lesado a piedade do povo de Deus com suas orações de 
longo fôlego e, apesar disso, Deus, em Sua misericórdia, permite que 
continuem a ministrar no santuário. Ah! pobres daqueles que têm que 
ouvir pastores que fazem orações de quase meia hora e depois pedem 
perdão a Deus por suas "omissões"! Não se alongue, por diversos 
motivos. Primeiro, porque você e o povo se cansarão; segundo, porque 
fazer oração muito comprida indispõe o coração das pessoas para o 
sermão. 
Toda aquela árida, fastidiosa e prolixa tagarelice na oração serve 
apenas para embotar a atenção, e assim, os ouvidos se fecham como se 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 83
estivessem entupidos. Ninguém que pretenda tomar de assalto a "porta 
da audição" pensará em bloqueá-la com barro ou pedras. Não; trate de 
deixar limpo o portal, para que o aríete do evangelho produza efeito 
quando chegar o tempo de usá-lo. As orações longas consistem, ou de 
repetições, ou de explicações desnecessárias que Deus não requer; ou 
então degeneram, transformando-se em pregações indiretas, de sorte que 
deixa de haver diferença entre a oração e a pregação, exceto que na 
primeira o ministro mantém os olhos fechados, e na segunda os mantém 
abertos. 
Na oração não é preciso recitar o Catecismo da Assembléia de 
Westminster. Na oração não é preciso relatar a experiência de todos os 
presentes, e nem mesmo a sua própria. Na oração não é preciso enfileirar 
uma seleção de textos da Escritura, e citar Davi, Daniel, Jó, Paulo, 
Pedro, e todos os demais, sob o título de "Teu servo do passado". Na 
oração é preciso aproximar-se de Deus, mas não se requer que você 
prolongue tanto o seu falar, que toda gente fique ansiosa por ouvir a 
palavra "Amém". 
Não posso deixar de fazer uma breve sugestão: Nunca faça parecer 
que está concluindo, recomeçando então a falar mais uns cinco minutos. 
Quando os amigos ficam com a idéia de que você está prestes a terminar, 
não podem com um tranco retomar o espírito devoto e prosseguir. 
Conheci homens que nos impunham o suplício de Tântalo, dando-nos a 
esperança de que se aproximavam do fim, e depois se impunham por 
novos períodos, duas ou três vezes. Isso é sumamente insensato e 
desagradável. 
Outra norma é – não empregue frases bombásticas. Irmãos, 
acabemos de uma vez com essas coisas desprezíveis. Tiveram os seus 
dias; deixemos que morram. Não há como exagerar na crítica a essas 
peças de gritante pompa espiritual. Algumas delas são puras invenções; 
outras são passagens tiradas dos apócrifos; outras são textos que se 
originaram na Escritura, mas que têm sido horrivelmente deformados 
desde quando foram produzidos pelo Autor da Bíblia. 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 84
Na Revista Batista de 1861 eu fiz as seguintes observações sobre as 
vulgaridades que ocorrem comumente nas reuniões de oração: 
"As frases bombásticas são um grande mal. Quem poderia justificar 
expressões como as de que tratarei a seguir? "Não deveríamos correr para 
a presença do Senhor como o cavalo, incapaz de pensar, corre para a 
batalha". Como se os cavalos alguma vez pensassem, e como se não fosse 
melhor exibir a elegância e a energia do cavalo do que a lentidão e a 
estupidez do asno! Como a estrofe da qual imaginamos que essa fina 
citação foi extraída relaciona-se mais com pecados do que com orações, 
alegramo-nos com o fato de que a frase está em plena decadência. "Vá de 
coração em coração, como o óleo vai de vaso em vaso" é provavelmente 
citação do conto infantil de Ali Babá e os Quarenta Ladrões, mas destituída 
de sentido, de Escritura e de poesia, como qualquer frase que se poderia 
conceber. Não nos consta que o óleo corra de um vaso a outro de algum 
modo misterioso ou maravilhoso. É certo que ao ser despejado escorre 
lentamente e, portanto, é adequado símbolo do fervor de algumas pessoas. 
Mas, certamente seria melhor receber a graça diretamente do céu do que de 
outro vaso – idéia papista que a metáfora parece insinuar, se é que de fato 
tem algum significado. "Teu pobre e indigno pó", epíteto que geralmente os 
homens mais orgulhosos da igreja se aplicam a si próprios, e não raro os 
mais presos ao dinheiro e mais ordinários, caso em que as duas últimas 
palavras da frase não são muito impróprias. 
"Ouvimos falar de um bom homem que, intercedendo por seus filhos e 
netos, ficou tão obscurecido pela alucinante influência da sua expressão, 
que exclamou: "Ó Senhor, salva o Teu pó, e o pó do Teu pó, e o pó do pó do 
Teu pó". Quando Abraão disse, "Eis que agora me atrevi a falar ao Senhor, 
ainda que sou pó e cinza", a sua declaração foi vívida e expressiva; mas em 
sua forma mal citada, pervertida e exagerada, quanto mais depressa for 
reduzida a pó, melhor. Um miserável aglomerado de perversões da 
Escritura, rudes símiles e ridículas metáforas constituem uma espécie de 
gíria espiritual, fruto de ignorância ímpia, de imitação desfibrada ou de 
hipocrisia decorrente de ausência da graça; são ao mesmo tempo uma 
desonra para os que estão sempre repetindo essas coisas, e um 
aborrecimento intolerável para aqueles cujos ouvidos são atormentados por 
elas." 
O Dr. Charles Brown, de Edimburgo, em admirável discurso numa 
reunião da New College Missionary Association, dá exemplos de 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 85
citações truncadas peculiares à Escócia que, todavia, às vezes atravessa o 
rio Tweed. Com sua permissão, farei citação completa. 
"Háaquilo que se poderia denominar mescla infeliz, às vezes 
inteiramente grotesca, de textos da Escritura. Quem não conhece as 
seguintes palavras dirigidas a Deus em oração: "Tu és o alto e sublime, que 
habitas a eternidade e seus louvores"?, confusão de dois textos gloriosos, 
cada um deles glorioso se tomado isoladamente – ambos maculados, e um 
deles na verdade irremediavelmente perdido, quando assim combinados e 
misturados. Um é Isaías 57:15: "Porque assim diz o alto e sublime, que 
habita na eternidade, e cujo nome é santo". O outro é o Salmo 22:3: "Porém 
tu és Santo, o que habitas entre os louvores de Israel'. A referência à 
habitação entre louvores da eternidade é, para dizer o mínimo, pobre. Não 
havia louvores na eternidade passada para serem habitados. Mas, que glória 
há em condescender Deus em habitar, em fazer Seu domicílio, entre os 
louvores de Israel, da igreja resgatada! 
"Depois há um exemplo nada menos que grotesco sob este título e, 
contudo, em tão freqüente uso que suspeito que geralmente se considera 
que tem a sanção da Escritura. Ei-lo: "Poríamos a nossa mão em nossa 
boca, e a nossa boca no pó, e clamaríamos: Imundos, imundos; ó Deus, tem 
misericórdia de nós, pecadores!" Trata-se de não menos de quatro textos 
reunidos, cada um deles belo, isoladamente. O primeiro é o de Jó 40:4: "Eis 
que sou vil; que te responderia eu? A minha mão ponho na minha boca". O 
segundo é o de Lamentações 3:29: "Ponha a sua boca no pó; talvez assim 
haja esperança". O terceiro é o de Levítico 13:45, onde se diz ao leproso 
que cubra o lábio superior, e grite: "Imundo, imundo". E o quarto é a oração 
do publicano. Mas como é incongruente pôr alguém primeiro a mão na boca, 
depois a boca no pó, e, por último, clamar, etc.! 
"O único outro exemplo que dou é uma expressão quase universal 
entre nós, e, desconfio, considerada quase universalmente como registrada 
na Escritura: "Em teu favor há vida, e tua benignidade é melhor do que a 
vida". O fato é que isso também não passa de uma infeliz junção de duas 
passagens, em que o termo vida é empregado em sentidos completamente 
diversos, e mesmo incompatíveis, a saber, o Salmo 63:3, "Porque a tua 
benignidade é melhor do que a vida", onde evidentemente, vida significa a 
presente vida temporal. A outra passagem é o Salmo 30:5b - "no seu favor 
está a vida". 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 86
"Uma segunda classe pode ser descrita como infelizes alterações da 
linguagem da Escritura. Terei necessidade de dizer que o Salmo 130, "Das 
profundezas", etc., é um dos mais preciosos de todo o livro de Salmos? Por 
que havemos de ter as palavras de Davi e do Espírito Santo dadas assim na 
oração pública, e com tanta freqüência, que os piedosos crentes de nossas 
igrejas vieram a adotá-las em suas orações comunitárias e domésticas: "Mas 
contigo está o perdão, para que sejas temido, e abundante redenção para 
que sejas procurado"? Como são preciosas as singelas palavras registradas 
no salmo citado [versículo 4): "Mas contigo está o perdão, para que sejas 
temido"; versículos 7.8: "no Senhor há misericórdia, e nele há abundante 
redenção. E ele remirá a Israel de todas as suas iniqüidades"! 
"Outra vez, nesse abençoado salmo, as palavras do versículo 3, "Se tu, 
Senhor, observares as iniqüidades, Senhor, quem subsistirá?", muito 
raramente nos são deixadas com sua manifesta simplicidade, mas têm que 
sofrer a seguinte mudança: "Se tu fores estrito em observar as iniqüidades", 
etc. Lembro-me de que nos meus tempos de estudante, costumávamos dar-
lhe forma muito mais ofensiva: "Se tu fores estrito para observar e rigoroso 
para punir"! Outra mudança favorita é a seguinte: "Tu estás nos céus, e nós 
sobre a terra; pelo que sejam poucas e bem ordenadas as nossas palavras". 
O pronunciamento simples e sublime de Salomão (certamente cheio de 
instrução sobre o tema de que estou tratando) é: "Deus está nos céus, e tu 
estás sobre a terra; pelo que sejam poucas as tuas palavras" (Eclesiastes 
5:2). Para outro exemplo desta classe, veja-se como são torturadas as 
sublimes palavras de Habacuque: "Tu és tão puro de olhos, que não podes 
ver o mal, e não podes contemplar o pecado sem te aborreceres". As 
palavras do Espírito Santo são (Habacuque 1:13): "Tu és tão puro de olhos, 
que não podes ver o mal, e a vexação não podes contemplar". Precisaria 
dizer que a força da figura, "e a vexação não podes contemplar", quase se 
perde quando você acrescenta que Deus pode contemplá-la, só que não 
sem se aborrecer? 
"Uma terceira classe consiste de pleonasmos inexpressivos, de 
vulgares e banais redundâncias de expressão, na citação das Escrituras. Um 
desses casos tornou-se tão universal, que me aventuro a dizer que 
raramente você o omite quando a passagem em foco entra em cena. "Fica 
no meio de nós" (ou, como alguns preferem expressá-lo, de modo um tanto 
infeliz segundo penso, "em nosso meio"), "para abençoar-nos, e fazer-nos 
bem". Que idéia adicional há na última expressão, "e fazer-nos bem"? A 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 87
passagem aludida é Êxodo 20:24: "em todo o lugar onde eu fizer celebrar a 
memória do meu nome, virei a ti, e te abençoarei". Esta é a simplicidade da 
Escritura. O nosso acréscimo é: "para abençoar-nos, e fazer-nos bem". Em 
Daniel 4:35 lemos as nobres palavras: "não há quem possa estorvar a sua 
mão, e lhe diga: Que fazes?" A mudança favorita é: "Ninguém pode impedir 
a tua mão de agir". "As coisas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu, e 
não subiram ao coração do homem, são as que Deus preparou para os que 
o amam." Isto sofre a seguinte alteração: "e não subiu ao coração do homem 
conceber as coisas". Constantemente ouvimos referência a Deus como 
Aquele "que ouve e responde a oração", mero pleonasmo vulgar e inútil, pois 
a idéia que a Escritura contém é de que se Deus ouve a oração, Ele 
responde – "Ó tu que ouves as orações! a ti virá toda a carne." "Ouve, 
Senhor, a minha oração". "Amo ao Senhor, porque ele ouviu a minha voz e a 
minha súplica." 
"Por que, outra vez, aquele chavão da oração pública, "As tuas 
consolações não são nem poucas nem pequenas"? Suponho que a 
referência seja às palavras de Jó: "Porventura as consolações de Deus te 
são pequenas?" Assim também raramente se ouve aquela oração do Salmo 
74, "Atenta para o teu concerto; pois os lugares tenebrosos da terra estão 
cheios de moradas de crueldade", sem o acréscimo, "horrenda crueldade"; 
nem o chamamento à oração, em Isaías, "ó vós, os que fazeis menção do 
Senhor, não haja silêncio em vós, nem estejais em silêncio, até que 
confirme, e até que ponha a Jerusalém por louvor na terra", sem o 
acréscimo, "em toda a terra"; nem o apelo do salmista: "Quem tenho eu no 
céu senão a ti? e na terra não há quem eu deseje além de ti", sem o 
acréscimo: "em toda a terra". 
"Estes últimos exemplos parecem coisas na verdade insignificantes. E 
são. Nem valeria a pena achar-lhes defeito, se ocorressem apenas 
ocasionalmente. Mas examinados como lugares comuns estereotipados, 
bem fracos em si mesmos, mas ocorrendo com tanta freqüência que dão a 
impressão de terem autoridade bíblica, humildemente acho que deviam ser 
desaprovados e descartados – banidos totalmente do culto presbiteriano. 
Talvez vocês se surpreendam ao saberem que a única autorização dada 
pela Escritura àquela expressão favorita e algo peculiar sobre o "perverso 
pecado que rola como doce manjar sob as suas línguas", está nas seguintes 
palavras do livro de Jó (20:12): "Ainda que o mal lhe seja doce na boca, e 
ele o esconda debaixo da sua língua"." 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 88
Basta disto, porém. Só lamento ser forçado a estender-me tanto 
sobre um assunto infeliz como esse. Todavia, não posso deixar a matéria 
sem insistir com vocês que façam com exatidão literal todas as citações 
da Palavra de Deus. 
Deveria ser uma questão de honra entre os ministros citar sempre 
corretamente a Escritura. É difícil sempre fazê-lo com exatidão, e, 
porque é difícil, deveria constituir objetodo nosso maior cuidado. Nos 
salões de Oxford ou Cambridge seria considerado quase traição ou crime 
um membro proeminente da universidade citar erroneamente Homero, 
Virgílio ou Tácito; mas um pregador citar erradamente Davi, Moisés ou 
Paulo é coisa muito mais séria, e bem merecedora da mais severa 
censura. Notem que eu me referi a um membro proeminente da 
universidade, não a um principiante; e de um pastor esperamos pelo 
menos igual precisão em seu próprio departamento à daquele que faz 
parte de um corpo universitário. Vocês que sem vacilar crêem na teoria 
da inspiração verbal (para minha intensa satisfação), nunca deveriam 
fazer uma citação enquanto não puderem usar as palavras precisas, 
porque, de acordo com a explicação que vocês mesmos dão, pela 
alteração de uma única palavra pode-se perder por completo o sentido 
que Deus deu à passagem. Se não conseguem citar a Escritura 
corretamente, por que citá-la de qualquer modo em suas petições? Façam 
uso de uma expressão nova, oriunda da sua própria mente, e será tão 
aceitável para Deus como uma frase bíblica desfigurada ou mutilada. 
Lutem com todo o vigor contra as mutilações e perversões da Escritura, e 
renunciem para sempre a todas as frases bombásticas, pois constituem 
deformações da oração improvisada. 
Notei um hábito entre alguns – espero que vocês não tenham caído 
nisso – de orar com os olhos abertos. É inatural, inconveniente e de mau 
gosto. Ocasionalmente, os olhos abertos e elevados ao céu podem ser 
adequados e causar impressão, mas correr o olhar pelo ambiente 
enquanto se declara que se está falando com o Deus invisível, é 
detestável. Nos primeiros tempos da igreja os chamados pais 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 89
denunciaram esta prática imprópria. Deve-se fazer o mínimo de 
movimentos, se tanto, durante a oração. Raramente é bom levantar e 
mover o braço, como se se estivesse pregando. Contudo, os braços 
estendidos e as mãos cerradas são naturais e sugestivos, quando se está 
sob forte e santa comoção. A voz deve harmonizar-se com o assunto, e 
jamais deve ser tempestuosa ou arrogante. Ao falar com Deus, usem-se 
entonações reverentes e humildes. Não é verdade que até a natureza lhes 
ensina isto? Se a graça não o fizer, perco a esperança. 
Com especial atenção às suas orações nos cultos do dia do Senhor, 
talvez sejam úteis algumas observações. Para impedir que o mero 
costume e a rotina se entronizem entre nós, será bom variar quanto 
possível a ordem do culto. O que quer que o Espírito nos mova a fazer, 
façamos de uma vez. Até pouco tempo atrás eu não tinha ciência da 
extensão em que permitiram que se intrometesse o controle dos diáconos 
sobre os ministros em certas igrejas desafortunadas. Estou acostumado a 
dirigir sempre os cultos da maneira que considero mais adequada e 
edificante, e nunca ouvi sequer uma palavra de objeção, e creio que 
posso dizer que vivo nas mais amáveis relações de amizade com os meus 
cooperadores. Mas um irmão e colega de ministério me contou esta 
manhã que certa ocasião orou no início do culto matutino, em vez de 
mandar cantar um hino, e quando se retirou para o gabinete pastoral 
depois do culto, os oficiais lhe disseram que não queriam saber de 
inovações. 
Até aqui entendíamos que as igrejas batistas não estão sob a 
escravidão de tradições e de regras fixas quanto às maneiras de prestar 
culto, e, contudo, essas pobres criaturas, esses pretensos senhores, que 
bradam contra a liturgia formal, querem prender os seus ministros com 
indicações limitadoras produzidas pelo costume. É tempo de silenciar 
para sempre esse absurdo. Pretendemos dirigir o culto conforme nos 
mova o Espírito Santo, e como nos pareça melhor. Não queremos ser 
obrigados a cantar aqui e orar ali, mas queremos variar a ordem do culto 
para evitar a monotonia. 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 90
Ouvi dizer que o sr. Hinton uma vez pregou o sermão no começo do 
culto, de modo que os retardatários puderam ter oportunidade de orar. E 
por que não? Alterações da regularidade fazem bem; a monotonia 
aborrece. Muitas vezes será uma coisa sumamente proveitosa deixar o 
povo serenamente sentado no mais profundo silêncio uns dois a cinco 
minutos. O silêncio solene dá nobreza ao culto. 
Verdadeira oração não é barulho imenso 
de lábios habituados ao clamor; 
mas é o silêncio d'alma, sim, profundo e intenso, 
d'alma que abraça os pés do seu Senhor. 
Variem, pois, a ordem das suas orações, para manter a atenção e 
impedir que as pessoas passem pelo programa todo do mesmo modo 
como anda o relógio até os pesos irem até o chão. 
Variem a extensão das suas orações públicas. Não acham que às 
vezes seria muito melhor que, em vez de dar três minutos à primeira 
oração e quinze à segunda, dessem nove minutos a cada uma delas? Não 
seria melhor, às vezes, estender-se mais na primeira oração, e menos na 
segunda? Não seria melhor fazer duas orações de durarão tolerável, do 
que uma extremamente longa e outra extremamente curta? Não seria 
bom também ter um hino depois da leitura do capítulo, ou um versículo 
ou dois antes da oração? Por que não cantar quatro vezes, 
ocasionalmente? Por que não se contentar com dois hinos, ou só um, 
ocasionalmente? Por que cantar depois do sermão? Por outro lado, por 
que alguns jamais cantam no fim do culto? É aconselhável fazer sempre, 
ou mesmo freqüentemente, uma oração depois da pregação? Não 
causaria maior impressão se fosse feita de vez em quando? A direção do 
Espírito Santo não nos propiciaria uma variedade desconhecida no 
presente? Tratemos de ter algo de maneira que o nosso povo não venha a 
considerar qualquer forma do culto como determinada, e assim torne a 
cair na superstição da qual escapou. 
Variem os temas comuns das suas orações na intercessão. Há 
muitos tópicos que requerem a sua atenção: a igreja com suas fraquezas, 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 91
suas infidelidades, suas tristezas e suas consolações; o mundo exterior, a 
vizinhança, os ouvintes não convertidos, os jovens, a nação. Não orem 
por tudo isso todas as vezes, ou senão as suas orações serão longas e 
provavelmente desinteressantes. Qualquer que seja o tópico 
predominante em seu coração, façam-no predominar em suas súplicas. 
Há um modo de seguir um curso na oração, se o Espírito Santo os guiar 
por ele, o que dará coesão ao culto, e se harmonizará com os hinos e com 
a prédica. 
É muito proveitoso manter unidade no culto, onde possível; não 
servilmente, mas com sabedoria, de sorte que o efeito seja unificante. 
Certos irmãos nem sequer procuram manter unidade no sermão, mas 
vagueiam da Inglaterra ao Japão e introduzem todos os assuntos 
imagináveis. Mas vocês, que já atingiram a preservação da unidade no 
sermão, poderiam ir um pouco além, e demonstrar algum grau de 
unidade no culto, sendo cuidadosos quanto ao hino, à oração e à leitura 
bíblica, para manter em proeminência o mesmo assunto. Pouco 
recomendável é a prática, comum em alguns pregadores, de reiterar o 
sermão na última oração. Pode ser instrutivo para os ouvintes, mas é um 
objetivo totalmente alheio à oração. É uma prática bombástica, 
escolástica e inconveniente; não a imitem. 
Como fugiriam de uma víbora, evitem todas as tentativas para 
conseguir fervor espúrio na devoção pública. Não se esforcem para 
parecer fervorosos. Orem segundo os ditames do seu coração, sob a 
direção Espírito de Deus, e se vocês estiverem embotados e tediosos, 
falem disso ao Senhor. Não será ruim confessar a sua falta de vida, 
deplorá-la e clamar por vivificação. Será uma oração real e aceitável. 
Mas o ardor fingido é uma vergonhosa forma de mentir. Nunca imitem 
os fervorosos. Vocês conhecem um bom homem que geme, e outro cuja 
voz vira grito estridente quando ele é arrebatado pelo ardor, mas, nem 
por isso vocês deverão gemer ou chiar para parecerem fervorosos como 
eles. Simplesmente sejam naturais do começo ao fim, e peçam a Deus 
que os guie nisso tudo. 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 92
Finalmente – esta palavra lhesdigo confidencialmente – preparem 
a sua oração. Vocês dirão com espanto: "Que será que o senhor poderá 
querer dizer com isso?" Bem, quero dizer o que alguns não querem. Uma 
vez foi discutida numa sociedade de ministros a questão: "É certo o 
ministro preparar a sua oração com antecedência?" Alguns afirmaram 
vigorosamente que não é certo; e agiram bem. Outros com igual vigor 
sustentaram que é certo. E não deveriam ser contraditados. Creio que 
ambas as partes tinham razão. Os irmãos do primeiro grupo entendiam 
por preparo da oração o estudo de expressões, e a colocação ordenada de 
uma linha de pensamento, o que todos eles diziam ser completamente 
oposto ao culto espiritual, no qual devemos deixar-nos nas mãos do 
Espírito de Deus para que Ele nos ensine tanto o assunto como as 
palavras. 
Com essas observações concordamos plenamente, pois, se um 
homem escreve as suas orações e estuda as suas petições, que use logo 
uma fórmula litúrgica. Mas os irmãos oponentes queriam dizer por 
preparo uma coisa completamente diversa. Não o preparo da cabeça, mas 
do coração, preparo que consiste em ponderar previamente na 
importância da oração, em meditar nas necessidades espirituais dos 
homens, e em recordar as promessas que havemos de pleitear – indo, 
desta forma, à presença do Senhor com uma petição escrita nas tábuas de 
carne do coração. Segura-mente isso é melhor do que ir a Deus à esmo, 
correr para o trono divino ao acaso, sem mensagem ou desejo definido. 
"Nunca me canso de orar", disse alguém, "porque sempre tenho uma 
mensagem definida quando oro." 
Irmãos, as suas orações são desta espécie? Vocês lutam para estar 
numa adequada disposição de espírito para dirigir as súplicas do seu 
povo? Vocês põem em ordem a sua causa quando vão comparecer 
perante o Senhor? Creio, meus irmãos, que devemos preparar-nos pela 
oração particular para a oração pública. Por uma vida vivida perto de 
Deus, devemos manter espírito de oração, e então não falharemos em 
nossas súplicas elevadas vocalmente. Se se deve tolerar alguma coisa 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 93
além disso, deveria ser a dedicação à memorização dos Salmos e de 
porções da Escritura que contém promessas, súplicas, louvores e 
confissões, os quais possam ser de utilidade no ato de oração. De 
Crisóstomo se diz que aprendeu a Bíblia de cor, de modo que podia 
repeti-la a seu bel-prazer. Não admira que se chamasse boca de ouro. 
Agora, em nossa conversação com Deus, nenhuma linguagem pode 
ser mais apropriada do que as palavras do Espírito Santo – "Faze como 
disseste" sempre prevalecerá junto ao Altíssimo. Aconselhamos, pois, a 
memorização dos inspirados exercícios de devoção presentes na Palavra 
da Verdade. Depois, a contínua leitura das Escrituras os manterá sempre 
supridos de renovadas preces, que serão como ungüento derramado, 
impregnando toda a casa de Deus com a sua fragrância, quando 
apresentarem as suas petições em público perante o Senhor. Sementes de 
oração semeadas assim na memória, constantemente produzirão 
excelentes colheitas, quando o Espírito lhes aquecer a alma com fogo 
santo na hora da oração congregacional. Como Davi usou a espada de 
Golias para vitórias futuras, assim podemos empregar às vezes uma 
petição já respondida, e capacitar-nos a dizer com o filho de Jessé: "Não 
há outra semelhante; dá-ma", pois Deus tornará a cumpri-la em nossa 
experiência pessoal. 
Oxalá as vossas orações sejam fervorosas, cheias de fogo, 
veemência e poder. Rogo ao Espírito Santo que ensine todos os 
estudantes desta Escola a fazer oração pública, de modo que Deus seja 
servido sempre do melhor de cada um. Oxalá as suas petições sejam 
singelas e brotem do coração. E, ao passo que às vezes o povo de sua 
igreja pode achar que o sermão esteve abaixo do normal, possa também 
achar que a oração compensou tudo, 
 
 
 
 
 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 94
O CONTEÚDO DO SERMÃO 
 
Os sermões devem conter ensino valioso, e sua doutrina deve ser 
sólida, substanciosa e abundante. Não subimos ao púlpito para falar por 
falar. Temos para transmitir instruções em extremo importantes, e não 
podemos dar-nos ao luxo de pronunciar belas nulidades. A nossa galeria 
de assuntos é quase ilimitada e, portanto, não poderemos escusar-nos se 
as nossas pregações forem vulgares e vazias de substância. Se falamos 
como embaixadores de Deus, nunca precisaremos queixar-nos de falta de 
assunto, pois a nossa mensagem chega a transbordar de tão cheia. 
O evangelho inteiro deve ser apresentado do púlpito; toda a fé uma 
vez entregue aos santos deve ser proclamada por nós. A verdade como se 
apresenta em Jesus deve ser declarada instrutivamente, de sorte que o 
povo não apenas escute, mas conheça o jubiloso som. Não servimos aos 
pés do altar do "Deus desconhecido", mas falamos aos cultuadores 
daquEle de quem está escrito: "em ti confiarão os que conhecem o teu 
nome". Dividir bem um sermão pode ser uma arte muito útil, mas, como 
fazê-lo se não houver nada para dividir? Um homem que só sabe dividir 
sermão é como um excelente trinchador diante de uma travessa vazia. 
Ser capaz de fazer um preâmbulo apropriado e atrativo, ter facilidade de 
falar com propriedade durante o tempo designado para o sermão, e de 
concluir com uma respeitável peroração, talvez pareça aos meros atores 
que é tudo que se requer. Mas o verdadeiro ministro de Cristo sabe que o 
verdadeiro valor de um sermão está, não em seu molde ou modo, mas na 
verdade que ele contém. 
Nada pode compensar a ausência de ensino; toda a retórica do 
mundo é apenas o que a palha é para o trigo, em contraste com o 
evangelho da nossa salvação. Por mais belo que seja o cesto do 
semeador, é uma miserável zombaria, se estiver sem sementes. O maior 
sermão já pronunciado é um ostentoso fracasso, se a doutrina da graça de 
Deus está ausente dele; passa rapidamente por cima das cabeças dos 
homens como uma nuvem, mas não distribui chuva alguma sobre a terra 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 95
sedenta. E daí, para as almas anelantes por sabedoria pela experiência de 
premente necessidade, a lembrança dele é de desapontamento, ou pior. 
O estilo de um homem pode ser fascinante como o da autoria da 
qual alguém disse que costumava escrever com pena de cristal molhada 
em orvalho, em papel de prata, e para secá-lo usava pó de asa de 
borboleta. Mas para um auditório cujas almas estão em perigo iminente, 
o que será a mera elegância, senão "muito mais leve que a vaidade"? 
Não se julgam cavalos por suas campainhas e por seus arreios, e 
sim, por suas pernas, sua estrutura óssea e por seu sangue; e os sermões, 
quando criticados por ouvintes judiciosos, em grande parte são avaliados 
pela proporção de verdade do evangelho e pelo poder do espírito do 
evangelho que eles contém. Irmãos, ponderem os seus sermões. Não os 
avaliem por retalhos, mas por peças. Não façam as contas pela 
quantidade de palavras que pronunciam, mas lutem para serem avaliados 
pela qualidade da substância que apresentam. É loucura ser pródigo em 
palavras e avarento quanto à verdade. Seria destituído de juízo àquele 
que gostasse de se ouvir descrito à moda de um dos grandes poetas do 
mundo, que diz: "Graciano fala uma quantidade infinita de nada, mais 
que qualquer outro homem de Veneza. Suas razões são como dois grãos 
de trigo escondidos em duas arrobas de palha; você leva o dia todo para 
achá-los, e quando os acha, não valem a busca". 
Dirigir apelos aos sentimentos afetivos é excelente, mas se não vão 
acompanhados de instrução, são apenas um lampejo no panorama, é 
pólvora gasta, sem acertar o alvo. Estejam certos de que o mais 
fervoroso avivalismo se fará fumaça, se não for mantido pelo 
combustível do ensino. O método divino é pôr a lei na mente, e depois 
escrevê-la no coração; o julgamento é iluminado, e então as paixões são 
subjugadas. 
Leiam Hebreus 8:10, e sigam o modelo da aliança da graça. O 
comentário que Gouge faz sobre esse passo bíblico pode ser citado aqui 
com propriedade: "Nisto osministros devem imitar a Deus e, com o 
máximo do seu esforço, devem instruir o povo sobre os mistérios da 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 96
piedade, e ensinar-lhe o que crer e praticar, e depois concitá-lo a mover-
se e a agir, a fazer o que foi ensinado a fazer. De outra forma, o seu 
trabalho teria a probabilidade de ser em vão. Negligenciar esta linha de 
ação é uma das principais causas pelas quais os homens caem em tantos 
erros como acontece hoje em dia". Podemos acrescentar que esta última 
observação ganhou mais força em nossos tempos; é entre os rebanhos 
sem instrução que os lobos do papado fazem estragos. O ensino saudável 
é a melhor proteção contra as heresias que assolam à direita e à esquerda 
entre nós. 
É sadia informação sobre os assuntos bíblicos que os seus ouvintes 
desejam ardentemente, e precisam tê-la. Eles têm direito a explicações 
precisas da Escritura Sagrada, e se cada um de vocês for "um intérprete, 
um de mil", um verdadeiro mensageiro, dá-las-á com abundância. 
Qualquer coisa mais que esteja presente, a ausência da verdade 
instrutiva, edificante, à semelhança da ausência de farinha no pão, será 
fatal. Avaliados pelo seu sólido conteúdo em vez de pela sua área de 
superfície, muitos sermões são bem pobres exemplares do discurso 
sacro. Creio que tem fundamento a observação de que, se vocês ouvirem 
um prelecionador de astronomia ou geologia, durante um breve curso 
obterão uma visão razoavelmente clara do seu sistema. Mas, se ouvirem, 
não por doze meses apenas, mas por doze anos, a um pregador do tipo 
comum, não chegarão a nada que se pareça com uma idéia do seu 
sistema de teologia. Se é assim, é um grave mal, que não conseguiremos 
deplorar demais. 
Ah! as indistintas declarações de muitos sobre as mais grandiosas 
realidades eternas, e a obscuridade de pensamento de outros quanto a 
verdades fundamentais, têm dado muita ocasião à critica! Irmãos, se 
vocês não forem teólogos, não serão absolutamente nada nos seus 
pastorados. Poderão ser ótimos retóricos, profusos em expressões 
polidas; mas sem o conhecimento do evangelho, e sem aptidão para 
ensiná-lo, não passarão de metal que soa ou de sino que retine. 
Muitíssimas vezes a verbosidade é a folha de figueira que funciona como 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 97
cobertura para a ignorância teológica. Ressonantes períodos são 
oferecidos em lugar de boa doutrina, e a retórica floresce em lugar de 
pensamento robusto. Essas coisas não deviam acontecer. A abundância 
de declamações vazias, e a falta de alimento para a alma transformarão o 
púlpito num estofo de enchimento, e inspirarão desprezo em vez de 
reverência. Se não formos pregadores instrutivos, e não alimentarmos de 
fato o povo, poderemos ser grandes recitadores de poesia elegante, e 
poderosos varejistas de foles de segunda mão, mas seremos como o 
antigo Nero, que tocava violino enquanto Roma ardia em chamas, e 
enviava navios a Alexandria em busca de areia para a arena, enquanto a 
população morria de fome por falta de trigo. 
Insistimos nisso – em que é preciso haver abundância de substância 
nos sermões – e, em seguida, em que essa substância deve ser coerente 
com o texto. Em regra, o sermão deve brotar do texto, e quanto mais 
evidente assim for, tanto melhor. Todas as vezes, porém, para dizer o 
mínimo, deve ter a mais estreita relação com ele. Deve se permitir larga 
amplitude no que se refere à espiritualização e à acomodação; mas a 
liberdade não deve degenerar em abuso, e sempre deve existir uma 
conexão, e algo mais que uma remota conexão – uma verdadeira relação 
entre o sermão e o seu texto. 
Outro dia me falaram de um extraordinário texto, que seria próprio 
ou impróprio conforme o pensamento da gente. Um rústico proprietário, 
membro da igreja, dera certo número de flamantes mantos escarlates às 
mais idosas senhoras da comunidade. Solicitou-se que estes seres 
resplendentes fossem à igreja no domingo seguinte, e se sentassem em 
frente do púlpito, do qual um dos pretensos sucessores dos apóstolos os 
edificou usando as palavras: "Nem mesmo Salomão, em toda a sua 
glória, se vestiu como qualquer deles". Consta que, numa reunião 
subseqüente, quando o mesmo benfeitor da paróquia dera meio saco de 
batatas a cada pai de família, o tópico do domingo seguinte foi: "E 
disseram: isto é maná". Não posso dizer se a matéria desse caso e o texto 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 98
escolhido são congruentes. Suponho que sim, pois as probabilidades são 
de que toda a realização em foco era completamente doida. 
Alguns irmãos não querem mais saber do texto, logo depois de o 
terem lido. Havendo prestado toda a devida honra a essa passagem 
particular ao anunciá-la, não vêem mais necessidade alguma de referir-se 
a ela. Tiram o chapéu, por assim dizer, cumprimentando aquela parte da 
Escritura, e passam adiante a verdes campos e novas pastagens. Afinal 
de contas, por que esses homens tomam um texto? Por que limitam sua 
gloriosa liberdade pessoal? Por que fazem da Escritura uma plataforma 
só para que possam montar seu Pégaso sem freios? Certamente as 
palavras do Livro inspirado nunca se destinaram a ser fivelas de sapatos 
para ajudarem o tagarela firmar as suas botas de sete léguas com as quais 
possa saltar de um pólo a outro. 
O modo mais seguro de manter variações é obedecer à mente do 
Espírito Santo na passagem particular que se esteja considerando. Não 
existem dois textos exatamente iguais; alguma coisa na conexão ou na 
tendência de cada um dos textos aparentemente idênticos dá-lhes um 
sombreado diferente. Sigam as pegadas do Espírito e nunca serão 
repetitivos nem ficarão sem material; Suas veredas destilam gordura. 
Além disso, o sermão chega com muito maior poder às consciências dos 
ouvintes quando é pura e simplesmente a própria Palavra de Deus – não 
uma preleção sobre a Escritura, mas a Escritura mesma, exposta e 
imposta. É devido à majestade da inspiração que, quando você declara 
estar pregando sobre um versículo, não o tira da vista para dar lugar aos 
seus pensamentos pessoais. 
Irmãos, se vocês têm o hábito de manter diante de si o sentido 
preciso da Escritura, recomendo-lhes que se atenham à ipsissima verba, 
às palavras do Espírito Santo propriamente ditas; pois, embora em 
muitos casos os sermões tópicos sejam, não só permissíveis mas também 
muito apropriados, aqueles sermões que expõem as exatas palavras do 
Espírito Santo são os mais úteis e os mais convenientes para a maioria 
das nossas igrejas. Elas gostam de receber as palavras mesmas da 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 99
Escritura explicadas e expostas. Muitos não são capazes de captar o 
sentido isolado da linguagem – de enxergar, por assim dizer, a verdade 
desencarnada. Mas quando ouvem as palavras precisas reiteradas muitas 
vezes, e cada expressão comunicada demoradamente, ao estilo de 
pregadores do tipo do Sr. Jay (de Bath) são sobremaneira edificados, e a 
verdade se fixa mais firmemente na memória deles. Sejam, pois, 
copiosamente substanciais os seus sermões, e que a matéria deles evolva 
da Palavra inspirada, como as violetas e as prímulas brotam naturalmente 
do solo fértil, ou como o mel virgem destila do favo. 
Cuidem para que as suas mensagens sejam valiosas e prenhes de 
ensinamentos realmente importantes. Não edifiquem com madeira, feno 
e palha, mas com ouro, prata e pedras preciosas. Dificilmente será 
necessário adverti-los contra as degradações mais grosseiras da 
eloqüência do púlpito, ou, senão, poderíamos citar o exemplo do notório 
orador Henley. Aquele aventureiro loquaz que Alexandre Pope 
imortalizou em sua obra satírica, Dunciad, costumava fazer dos 
acontecimentos sucedidos durante a semana os temas das suas 
chocarrices nos dias úteis, e os tópicos teológicos sofriam o mesmo 
destino aos domingos. Seu ponto forte consistia em sua graça vulgar, nas 
modulações da sua voz e no balanceio das mãos. O satirista diz dele: 
"Que absurdidade fluente escorre da sua língua." Cavalheiros, melhor 
nos fora nunca ternascido do que dizerem com veracidade algo 
semelhante de nós. Com risco de nossas almas, temos que lidar com os 
fatos solenes da eternidade e com tópicos não gerados na terra. 
Todavia, existem outros métodos mais convidativos de edificar com 
madeira e feno, e convém que não se deixem ludibriar por eles. Esta 
observação é necessária, especialmente para aqueles cavalheiros que 
confundem declarações extravagantes com eloqüência, e expressões 
latinizadas com grande profundidade de pensamento. Certos instrutores 
de homilética, por seu exemplo – senão por seus preceitos – estimulam o 
emprego de grandiosas palavras fanfarronas e enfunadas, e, portanto, são 
os elementos mais perigosos para os pregadores jovens. Pensem num 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 100
discurso iniciado com uma asserção assombrosa e estupenda como a 
seguinte que, por sua grandiosidade original, os impressionará de 
imediato, com um sentimento do sublime e do belo: "O HOMEM É UM 
SER MORAL". Este gênio poderia ter acrescentado: "O gato tem quatro 
patas". 
Haveria tanta novidade naquela informação como nesta. Lembro-
me de um sermão pregado por um suposto profundo escritor que 
atordoava por completo o leitor com bombardeio de palavras de dois 
metros de comprimento, mas que, quando postas a cozer do modo certo, 
o suco de carne que sobrava era como este – O homem tem uma alma, 
sua alma viverá noutro mundo, e, portanto, deve cuidar-se para que 
venha a ocupar um lugar feliz. Ora, não se pode fazer objeção ao ensino, 
mas este não é tão novel que precise do toque de trombetas e de uma 
procissão de frases cheias de enfeites para apresentá-lo à atenção 
pública. A arte de dizer chavões elegantemente, pomposamente, 
grandiloqüentemente, bombasticamente, não se perdeu entre nós, embora 
a sua total extinção devesse "ser uma consumação a desejar-se 
devotadamente". 
Sermões desse tipo têm sido apresentados como modelos, e, 
todavia, são simples fragmentos de bexiga que caberiam na unha do 
dedo, soprados até lembrarem aqueles balões coloridos que os 
vendedores ambulantes levam pelas ruas para vendê-los por algumas 
moedas, para a delícia dos extremamente juvenis. O paralelo, lamento 
dizê-lo, está sendo benévolo, pois, em alguns casos, essas pregações só 
contém um matiz de veneno, a modo de coloração, que alguns do tipo 
mais fraco descobriram à sua própria custa. 
É infame subir ao púlpito e despejar sobre os ouvintes rios de 
oratória, cataratas de palavras, em que se dissolvem puras trivialidades 
quais pílulas infinitesimais, de medicina homeopática num atlântico de 
proclamação verbosa. Muito melhor dar ao povo massas de verdade em 
casca, não burilada, como pedaços de carne do cepo do açougue, 
retalhados de qualquer jeito, com osso e tudo, e até caídos no meio da 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 101
serragem – sim, muito melhor dar isso do que, com ostentação e finura, 
apresentar-lhe num prato de porcelana uma deliciosa fatia de coisa 
nenhuma, decorada com salsa de poesia e temperada com molho de 
pedantismo. 
Será uma feliz circunstância se vocês forem de tal modo guiados 
pelo Espírito Santo que dêem claro testemunho de todas as doutrinas 
que constituem o evangelho ou que o circunscrevem. Não se deve reter 
nenhuma verdade. A doutrina retida, tão detestável na boca dos jesuítas, 
não é nem um pouco menos abjeta quando adotada por protestantes. Não 
é verdade que algumas doutrinas sejam somente para os iniciados; não 
há nada na Bíblia que se envergonhe da luz. Os mais sublimes conceitos 
da soberania divina têm um enquadramento prático, e não são, como 
alguns pensam, meras sutilezas metafísicas. Os pronunciamentos 
característicos do calvinismo têm sua aplicação na vida diária e na 
experiência comum, e se vocês sustentarem essas idéias, ou as que lhes 
são opostas, não têm licença para ocultar as suas crenças. Em nove de 
dez casos, a reticência cautelosa é traição covarde. A melhor política é 
não ser político nunca, mas proclamar cada átomo da verdade na medida 
em que Deus lhe tenha ensinado. A harmonia requer que a voz de uma 
doutrina não sufoque as restantes, e também exige que as notas mais 
suaves não sejam omitidas por causa do volume maior dos outros sons. 
Todas as notas assinaladas pelo grande menestrel devem soar, cada nota 
tendo a sua intensidade e a sua ênfase proporcionais. A passagem 
marcada com forte não deve ser suavizada, e as passagens assinaladas 
com piano não devem retumbar como trovão, mas cada uma deve ter a 
sua devida intensidade de vibração sonora. Toda a verdade revelada em 
proporção harmônica, deve constituir o seu tema. 
Irmãos, se vocês desenvolverem no púlpito proposições que tratam 
de realidades importantes, é preciso que nunca jamais fiquem pairando 
em torno dos simples ângulos da verdade. As doutrinas não vitais à 
salvação da alma, nem essenciais ao cristianismo prático, não devem ser 
consideradas em todas as ocasiões de culto. Apresentem todos os 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 102
aspectos da verdade na devida proporção, pois todas as partes da 
Escritura são proveitosas, e a vocês compete pregar não somente a 
verdade, mas toda a verdade. Não insistam perpetuamente numa só 
verdade. O nariz é uma parte importante da fisionomia humana, mas 
pintar somente o nariz não é método satisfatório de retratar a sua 
imagem; uma doutrina pode ser muito importante, mas uma exagerada 
estimativa dela pode ser de fatais conseqüências para um ministério 
harmonioso e completo. Não transformem doutrinas secundárias em 
pontos da maior importância. Não pintem as minúcias do pano de fundo 
do evangelho com o grosso pincel usado para os grandes objetos do 
primeiro plano. 
Por exemplo, os grandes problemas do sublapsarianismo e do 
supralapsarianismo, os mordazes debates sobre a filiação eterna, a zelosa 
discussão concernente à dupla procedência, e os esquemas pré e pós-
milenários, por mais importantes que alguns possam julgá-los, são 
praticamente sem interesse para aquela piedosa viúva com sete filhos 
para sustentar com a sua agulha, que tem muito maior necessidade de 
ouvir da benignidade do Deus da providência do que desses mistérios 
profundos. Se vocês lhe pregarem sobre a fidelidade de Deus a Seu 
povo, ela ficará animada e se sentirá ajudada na batalha da vida; mas as 
questões difíceis a deixarão perplexa ou a farão dormir. Entretanto, ela é 
o tipo representativo de centenas daqueles que mais precisam do cuidado 
pastoral. O nosso tema principal são as boas novas do céu; as notícias da 
misericórdia mediante a morte expiatória de Jesus, misericórdia para o 
maior pecador que crê em Jesus. 
Devemos empenhar todo o nosso poder de julgamento, memória, 
imaginação e eloqüência na transmissão do evangelho; e não 
dediquemos à pregação da cruz os nossos pensamentos casuais enquanto 
assuntos de pequena importância monopolizam as nossas mais profundas 
meditações. Estejam certos de que, se trouxermos o intelecto de um 
Locke ou de um Newton, e a eloqüência de um Cícero, para sobrepor à 
simples doutrina de "crê e viverás", não encontraremos poder em 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 103
excesso. Irmãos, primeiramente e acima de todas as coisas, mantenham-
se nas simples doutrinas evangélicas. Tudo mais que preguem ou deixem 
de pregar, certifiquem-se de apresentar incessantemente a salvadora 
verdade de Cristo, e Ele crucificado. 
Conheço um ministro cujos sapatos sou indigno de desamarrar e 
cuja pregação muitas vezes é pouco melhor do que uma pintura sagrada 
em miniatura – quase que poderia dizer, uma santa ninharia. É grandioso 
sobre os dez dedos da besta, os quatro rostos dos querubins, o 
significado místico da pele de texugo, os suportes típicos das varas da 
arca, e as janelas do templo de Salomão. Mas quase nunca toca nos 
pecados dos homens de negócio, nas tentações atuais e nas necessidades 
da época. Esse tipo de pregação lembra-me um leão empenhado em 
cagar ratinhos, ou um guerreiro metido numa cruzada por uma pipa 
d'água. Tópicos quemal se igualam em importância àquilo que Paulo 
chama de "fábulas profanas e de velhas" são transformados em grandes 
temas por aqueles teólogos microscópicos para os quais a sutileza 
refinada de um ponto é mais atraente do que a salvação de pecadores. 
Decerto vocês terão lido no Student's Manual (Manual do 
Estudante), de Todd, que Harcácio, rei da Pérsia, era perito caçador de 
toupeiras, e que Briantes, rei da Lídia, era igualmente au fait – com 
efeito – hábil no manejo da agulha. Mas essas trivialidades de modo 
nenhum provam que foram grandes reis. É bem parecido com isso o que 
acontece no ministério. Existe disso – mediocridade na atividade mental 
rebaixando a dignidade do embaixador do céu. 
Em certa classe e mentalidade desta época, o desejo ateniense de 
falar ou de ouvir alguma novidade parece predominar. Tais homens 
jactam-se de que têm nova luz, e se arrogam uma espécie de inspiração 
que os autoriza a condenarem todos os que estão fora da sua irmandade. 
Entretanto, a sua grande revelação se relaciona com algum simples ponto 
circunstancial do culto, ou com alguma obscura interpretação de 
profecia. Desta forma, à vista do grande estardalhaço e dos altos brados 
por tão pouca coisa, ocorre-nos: 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 104
"Enfurecer o oceano 
pra fazer uma folha flutuar 
ou simples mosca tragar" 
São piores ainda aqueles que desperdiçam tempo insinuando 
dúvidas sobre a autenticidade de textos, ou sobre a correção de 
afirmações bíblicas acerca de fenômenos naturais. Com pesar recordo ter 
ouvido numa noite de domingo um palavreado com nome de sermão 
cujo tema era uma arguta pesquisa quanto a se um anjo realmente descia 
e agitava as águas do tanque de Betesda, ou se era uma fonte 
intermitente a respeito da qual a superstição judaica tinha inventado uma 
lenda. Homens e mulheres sujeitos a perecer se reuniram para aprender o 
caminho da salvação, e lhes largaram uma frivolidade como esta! Foram 
em busca de pão, e receberam pedra; as ovelhas recorreram ao pastor, e 
não foram alimentadas. Raramente ouço um sermão, e quando ouço, sou 
lamentavelmente desafortunado, pois um dos últimos com que fui 
obsequiado levava a intenção de justificar Josué por destruir os 
cananeus, e outro, a de provar que não é bom que o homem esteja só. 
Quantas almas se converteram em resposta às orações feitas antes desses 
sermões, nunca pude verificar, mas a perspicácia me faz suspeitar que 
nenhuma ação de regozijo incomum perturbou a serenidade das ruas de 
ouro da Jerusalém celeste. 
Acreditando que minha próxima observarão é quase universalmente 
desnecessária, ponho-a em tela com modéstia – não sobrecarreguem o 
sermão com material demais. Não se deve tentar comprimir a verdade 
toda num discurso. Os sermões não devem ser sistemas completos de 
teologia. Sói acontecer existir muitas coisas para dizer, e dizê-las a ponto 
de fazer que os ouvintes voltem para casa nauseados em vez de 
esperançosos. Andando com um jovem pregador, um velho ministro 
apontou para uma lavoura de trigo e fez esta observação: "O seu último 
sermão tinha demasiado conteúdo, mas não bastante clareza, nem 
suficiente boa ordem; foi como aquela plantação de trigo – continha 
muito alimento cru, mas nenhum pronto para ser servido. Você deve 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 105
fazer os seus sermões parecidos com pães – prontos para a gente comer, 
e na forma conveniente". 
É de temer-se que as cabeças humanas (frenologicamente falando) 
não são tão capazes para a teologia agora como outrora, pois os nossos 
antepassados regozijavam-se com cinco quilos de teologia não dissolvida 
e sem enfeites, e podiam continuar a recebê-la durante três ou quatro 
horas numa tirada, mas a nossa geração mais degenerada, ou quem sabe 
mais ocupada, exige apenas uns trinta gramas de doutrina por vez, e essa 
tem que ser extrato concentrado ou essência, e não a substância integral 
da teologia. Nestes tempos precisamos falar muita coisa com poucas 
palavras, mas não demais, nem com demasiada ampliação. Um 
pensamento fixo na mente valerá mais do que cinqüenta pensamentos 
que entram por um ouvido e saem pelo outro. Um prego de alguns 
centavos levado para casa e pregado será mais útil do que uma porção de 
tachinhas frouxamente fincadas e que se soltarão em uma hora. 
O material do nosso sermão deverá ser bem ordenado, segundo as 
legitimas normas da arquitetura mental. Nada de inferências práticas no 
pedestal e de doutrinas no alto das paredes; nada de metáforas no 
alicerce e de proposições na cumeeira; nada de apresentar primeiro as 
verdades mais importantes e no fim os ensinamentos de valor 
secundário, a modo de anticlímax; ao contrário, o pensamento deve 
elevar-se, ascender, um degrau de ensino levando a outro, uma porta de 
argumentação conduzindo a outra, e o conjunto elevando o ouvinte até 
uma recâmara de cujos vitrais se vê a verdade resplandecente, engolfada 
na luz de Deus. Na prédica há lugar para tudo, e cada coisa tem o seu 
lugar. Nunca permitam que as verdades descambem em confusão. Não 
deixem que os seus pensamentos corram qual multidão em tropel, mas 
façam-nos marchar como uma tropa de infantaria. A ordem, que é a 
primeira lei do céu, não deve ser negligenciada pelos embaixadores do 
céu. 
Os seus ensinamentos doutrinários devem ser claros e 
inconfundíveis. Para isto, é preciso que primeiramente estejam claros 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 106
para você, meu irmão. Alguns pensam envoltos em fumaça e pregam 
metidos numa nuvem. O povo da sua igreja não quer névoas fulgentes, 
mas, sim, a sólida terra firme da verdade. As especulações filosóficas 
levam certas mentes a um estado de semi-intoxicação em que, ou vêem 
tudo em dobro, ou não vêm coisíssima nenhuma. 
Anos atrás, um estrangeiro perguntou ao diretor de certa faculdade 
de Oxford qual era o moto do brasão daquela universidade. Respondeu-
lhe que era "Dominus illuminatio mea" (O Senhor é a minha luz) E 
também informou candidamente ao estrangeiro que, em sua opinião 
particular, um moto mais apropriado poderia ser "Aristoteles meae 
tenebrae" (Aristóteles das minhas trevas). Escritores sensacionalistas há 
que quase enlouquecem muitos homens íntegros que conscienciosamente 
lêem as suas lucubrações com a idéia de que devem manter-se 
atualizados com a nossa época, como se esta necessidade não exigisse 
também do nós que fôssemos aos teatros a fim de capacitar-nos para 
julgar as novas peças, ou que freqüentássemos os hipódromos para não 
sermos estreitos demais em nossas opiniões sobre as corridas e o jogo. 
De minha parte, creio que os principais leitores de livros heterodoxos são 
ministros, e que se estes não lhes dessem atenção, ficariam sem 
divulgação como natimortos. Livre-se o ministro de mistificar-se, e 
estará a caminho de tornar-se inteligível para a sua congregação. 
Ninguém que seja incapaz de fazer-se entender pode esperar ser levado 
em conta. Se dermos ao nosso povo a verdade pura, a sã doutrina bíblica, 
e tudo de tal modo verbalizado que nenhuma obscuridade o cerque, 
seremos verdadeiros pastores das ovelhas, e o proveito colhido por 
nossos ouvintes logo se fará patente. 
Esforcem-se para manter o conteúdo dos seus sermões com 
novíssimo vigor quanto lhes for possível. Não fiquem martelando cinco 
ou seis doutrinas com a invariável monotonia da repetição. Comprem um 
realejo teológico, irmãos, com cinco melodias ajustadas com esmero, e 
estarão habilitados para praticar como pregadores hiper-calvinistas em 
Zoar e Jiré, se também comprarem em alguma fábrica de vinagre um 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 107
bom suprimento de amargo abuso contra arminianos e contra outros com 
os quais não concordem. O cérebro e a graça são optativos, mas o realejo 
e a losna são indispensáveis. Nós entendemos e nos alegramos que a 
gama da verdade é mais ampla. Tudo que esses bons homens sustentam 
sobre a graça e a soberania nós também mantemos tão firme e 
intrepidamente como eles, mas não ousamos fechar os olhos paraoutros 
ensinamentos da Palavra, e nos sentimos obrigados a dar plena prova do 
nosso ministério declarando todo o conselho de Deus. Com temas 
abundantes, diligentemente ilustrados por vivas metáforas e 
experiências, não seremos cansativos, mas, nas mãos de Deus, 
ganharemos os ouvidos e os corações dos nossos ouvintes. 
Ampliem e desenvolvam os seus ensinos; que eles sejam 
aprofundados com a sua experiência, e elevados com o seu progresso 
espiritual. Não pretendo dizer que preguem novas verdades, pois, ao 
contrário, afirmo que é feliz o homem que foi tão bem instruído desde o 
início que, depois de cinqüenta anos de ministério, nunca teve que se 
retratar de uma doutrina ou que lamentar uma omissão importante; mas o 
que quero dizer é que tratemos de aumentar constantemente a nossa 
profundidade e o nosso discernimento, e que isto acontecerá onde houver 
progresso espiritual. Timóteo não podia pregar como Paulo. As nossas 
primeiras produções têm que ser sobrepujadas pelas dos nossos anos de 
maior maturidade; não devemos usar aquelas como nossos modelos. É 
melhor queimá-las, ou preservá-las. só para lamentar o seu caráter 
superficial. Seria mau, de fato, se não soubéssemos mais depois de 
estarmos muitos anos na escola de Cristo. O nosso progresso pode ser 
lento, mas progresso tem que haver, ou se não, haverá motivo para 
suspeitar que falta vida interior ou que esta é tristemente doentia. Fixem 
definidamente nas suas mentes que ainda não alcançaram, e oxalá lhes 
seja dado graça que os impulsione para a frente, rumo àquilo que está 
além. Oxalá todos vocês venham a ser competentes ministros do Novo 
Testamento, e nem um pouco atrás dos mais notáveis pregadores, 
embora em si mesmos vocês continuem sendo nada. 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 108
Diz-se que a palavra "sermão" significa "arremetida", e, portanto, 
quando fazemos e pregamos sermões, devemos ter em vista empregar o 
assunto em mão com energia e eficácia, e o assunto deve ser apto para 
tal emprego. Escolher apenas temas morais será usar um punhal de 
madeira; mas as grandes verdades da revelação são agudas como 
espadas. Apeguem-se a doutrinas que mexam com a consciência e com o 
coração. Permaneçam como inabaláveis campeões do evangelho que 
conquista almas. A verdade de Deus é adaptada ao homem, e a graça de 
Deus adapta o homem à verdade. Há uma chave que, na mão de Deus, 
pode dar corda na caixa de música da natureza humana; peguem-na e 
usem-na diariamente. Portanto, eu os concito a ficarem com o antiquado 
evangelho, e somente com ele, pois certamente é o poder de Deus para 
salvação. 
De tudo que eu gostaria de dizer-lhes, o resumo é este: Meus 
irmãos, preguem a CRISTO, sempre e para sempre. Ele é todo o 
evangelho. Sua pessoa, Seus ofícios e Sua obra devem constituir o nosso 
grande e todo-abrangente tema. O mundo continua precisando ouvir falar 
de Seu Salvador e do caminho para chegar a Ele. A justificação pela fé 
deve ser muito mais do que aquilo que tem sido o testemunho diário dos 
púlpitos protestantes. E se a essa verdade dominante se associarem mais 
geralmente as outras grandes doutrinas da graça, melhor para as nossas 
igrejas e para a nossa era. Se com o fervor dos metodistas pudermos 
pregar a doutrina dos puritanos, um grande futuro nos espera. O fogo de 
Wesley e a lenha de Whitefield causarão um incêndio que queimará as 
florestas de erro e aquecerão a própria alma desta frígida terra. 
Não somos chamados para proclamar filosofia e metafísica, mas o 
simples evangelho. A queda do homem, sua necessidade de novo 
nascimento, o perdão mediante a expiação, e a salvação como resultado 
da fé, são estes os nossos machados de combate e as nossas armas de 
guerra. Temos bastante que fazer para aprender e ensinar estas grandes 
verdades, e anátema sejam aqueles aprendizados que nos desviam da 
nossa missão, ou aquela caprichosa ignorância que nos faz coxear 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 109
quando procuramos cumpri-la. Mais e mais estou zelando para que 
nenhuma teoria sobre profecia, governo da igreja, política, e mesmo 
sobre teologia sistemática, leve algum de nós a deixar de gloriar-se na 
cruz de Cristo. A salvação é um tema para o qual eu de bom grado 
alistaria todas as línguas santas. Sou ávido por testemunhas do glorioso 
evangelho do Deus bendito. Oxalá o Cristo crucificado fosse o fardo 
universal dos homens de Deus! 
As suas imaginações sobre o número da besta, as suas especulações 
napoleônicas, as suas conjeturas concernentes a um anticristo pessoal - 
perdoem-me, considero-as todas apenas como ossos para cães. Enquanto 
os homens estão morrendo e o inferno vai ficando cheio, parece-me que 
é a máxima tolice ficar resmungando acerca de um Armagedom em 
Sebastopol ou em Sadowa ou em Sedan, e ficar espreitando por entre as 
cerradas folhas do destino para descobrir a sorte da Alemanha. 
Benditos os que lêem e ouvem as palavras da profecia do 
Apocalipse, mas é evidente que a mesma bênção não tem caído sobre os 
que simulam expô-las, pois o simples passar do tempo tem demonstrado 
que geração após geração deles erraram, e a raça atual os seguirá para o 
mesmo sepulcro inglório. Preferiria tirar um tição do fogo a explicar 
todos os mistérios. Ganhar uma alma, livrando-a de descer ao abismo, é 
um feito mais glorioso do que ser premiado como Doctor 
Sufficientíssímus na arena da controvérsia teológica. Trazer fielmente à 
luz o conhecimento da glória de Deus na face de Jesus Cristo será 
considerado no juízo final como serviço mais valioso do que o de 
solucionar os problemas da esfinge religiosa, ou de desfazer o nó górdio 
das dificuldades apocalípticas. Bem-aventurado o ministério do qual 
CRISTO É TUDO. 
 
 
 
 
 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 110
A ESCOLHA DO TEXTO 
 
Espero, meus irmãos, que todos nós estejamos sentindo 
profundamente a importância de dirigir todas as partes do serviço divino 
com a máxima eficiência possível. Ao lembrar-nos de que a salvação de 
uma alma pode depender, instrumentalmente, da escolha de um hino, não 
deveríamos considerar fútil a pequenina questão da seleção de salmos e 
hinos. 
Um forasteiro incrédulo, entrando durante um dos nossos cultos no 
Exeter Hall, foi levado à cruz pelas palavras do verso de Wesley, "Jesus, 
amante de minha alma". "Jesus me ama?", perguntou ele. "Então, por 
que deveria eu viver em inimizade contra Ele?" 
Ao refletirmos, também, que Deus pode dar uma bênção muito 
especial a uma frase da nossa oração para a conversão de algum errante, 
e que orar sob a unção do Espírito Santo pode contribuir grandemente 
para a edificação do povo de Deus e trazer-lhe inumeráveis bênçãos, nós 
nos esforçaremos para orar exercitando o melhor dom e a máxima graça 
ao nosso alcance. Considerando ainda que na leitura da Bíblia podem ser 
distribuídos consolo e instrução copiosamente, deter-nos-emos sobre as 
nossas Bíblias abertas, e, devotamente procuraremos ser guiados àquela 
porção da Escritura que tenha maior probabilidade de fazer-se útil. 
A respeito do sermão, a nossa ansiosa preocupação é primeiramente 
quanto à seleção de um texto. Nenhum de nós olha o sermão sob uma luz 
tão negligente que chegue a conceber que um texto apanhado ao acaso 
será apropriado para toda e qualquer ocasião. Não somos da opinião de 
Sydney Smith, expressa quando recomendou a um irmão indeciso sobre 
um texto, que pregasse sobre, "Partos e medas, elamitas e os que habitam 
na Mesopotâmia", como se qualquer coisa servisse para um sermão. 
Espero que, semanalmente, todos nós tenhamos como coisa da mais 
zelosa e séria consideração, quais serão os assuntos de que falaremos ao 
nosso povo no dia do Senhor, de manhã e de noite, pois, conquanto toda 
a Escritura seja boa e proveitosa, não é toda ela igualmente apropriada 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 111
para todas as ocasiões. Há tempo para tudo, e tudo é melhor quando é 
oportuno. 
Um sábio pai trabalha para dar a cada membro da sua família a sua 
porção de alimento na devida ocasião;não serve todas as rações 
indiscriminadamente, mas ajusta as refeições às necessidades dos 
comensais. Só um mero oficial, escravo da rotina, autômato inanimado 
do formalismo se contentará em agarrar o primeiro tópico que venha à 
mão. Aquele que cata assuntos como as crianças colhem botões-de-ouro 
e margaridas nas campinas, simplesmente como se oferecem, talvez 
esteja agindo de acordo com a sua posição de homem colocado por um 
protetor numa igreja, da qual o povo não o pode expulsar. Mas os que se 
proclamam chamados por Deus, e que foram escolhidos para as suas 
posições pela livre eleição dos crentes, precisam dar maior prova do seu 
ministério do que aquele que se acha nessa negligência. Dentre as muitas 
gemas temos que selecionar a jóia mais adequada à circunstância do 
momento. Não ousamos correr para o salão do banquete do Rei com uma 
confusão de provisões como se o festim devesse ser uma vulgar refeição 
de ovos fritos, mas, como servidores corteses, paramos para perguntar ao 
grande Dono da festa: "Senhor, que queres que sirvamos à Tua mesa 
hoje?" 
Alguns textos nos chocam por terem sido escolhidos com extrema 
infelicidade. Ficamos a indagar o que o pastor do célebre Disraeli disse 
acerca das palavras: "Em minha carne verei a Deus", quando pregou 
recentemente numa casa de uma aldeia por ocasião da colheita! 
Excessivamente infeliz também foi o texto usado no funeral de um 
clérigo assassinado (o Sr. Plow): "Assim dá ele aos seus amados o sono". 
Manifestamente tolo, e muito, foi ainda aquele que escolheu "Não 
julgueis, para que não sejais julgados", para um sermão pregado perante 
os jurados numa sessão do tribunal do júri. 
Não se deixem enganar pela sonoridade e pela aparente aptidão de 
palavras bíblicas. M. Athanese Coquerel confessa ter pregado numa 
terceira visita a Amsterdã baseado nas palavras: "É esta a terceira vez 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 112
que vou ter convosco" 2 Coríntios 13:1 – e bem pôde acrescentar que 
"teve grande dificuldade depois, em colocar no discurso algo que fosse 
próprio para a ocasião". Um caso paralelo foi o de um dos sermões pela 
morte da princesa Charlotte, sobre o texto: "Enfermando ela, morreu". 
Pior ainda é selecionar palavras miseravelmente engraçadas, como no 
caso de um recente sermão sobre a morte de Abraão Lincoln, baseado na 
sentença "E Abraão expirou e morreu". 
Conta-se que um estudante, o qual é de esperar-se nunca tenha 
saído de casa, pregou um sermão em público, diante do seu tutor, o Dr. 
Filipe Doddridge. Ora, o bom homem estava acostumado a postar-se 
justamente em frente do estudante e fitar-lhe diretamente o rosto. 
Avaliem, pois, a sua surpresa, senão indignação, quando o texto 
enunciado desfilou com estas palavras: "Estou há tanto tempo convosco, 
e não me tendes conhecido, Filipe?" 
Cavalheiros, às vezes loucos viram estudantes. Esperemos que 
nenhum desse tipo desonre a nossa Alma Mater. Perdôo o homem que 
pregou perante aquele Salomão bêbedo, Tiago I da Inglaterra e VI da 
Escócia, baseando em Tiago 2:6; a tentação foi grande demais para que 
se lhe pudesse resistir. Outrossim, seja o infame execrado para todo o 
sempre, se existiu realmente o homem que celebrou a morte de um 
diácono com a tirada: "E aconteceu que o mendigo morreu". Perdôo o 
mentiroso que atribuiu a mim esse ultraje, mas espero que não tente 
aplicar as suas manhas infames a ninguém mais. 
Assim como devemos evitar a aplicação descuidada e acidental de 
tópicos, também devemos evitar uma regularidade monótona. Ouvi falar 
de um clérigo que tinha cinqüenta e dois sermões, e uns poucos 
sobressalentes para datas especiais do calendário litúrgico; pregava-os 
em ordem regular, ano após ano. No caso referido, o povo da igreja dele 
não tinha necessidade de rogar-lhe que lhe falasse as mesmas coisas no 
domingo seguinte, nem seria muito de admirar que fossem encontrados 
imitadores de Êutico em outros lugares além do terceiro andar! 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 113
Não faz muito tempo que um clérigo disse a um fazendeiro amigo 
meu: "Sabe, Sr. D., outro dia eu estava folheando os meus sermões e a 
verdade é que a casa pastoral é tão úmida, principalmente o meu 
gabinete, que os meus sermões ficaram todos mofados". O meu amigo, 
embora zelador da igreja, freqüentava um local de culto mantido por 
dissidentes, não foi rude a ponto de dizer: "bem feito!" Mas para os 
respeitáveis cidadãos do povoado que tinham ouvido muitas vezes os 
citados discursos, é possível que eles estivessem mofados em mais de 
um sentido. 
 No ministério há pessoas que, tendo acumulado um pequeno 
estoque de sermões, repetem-nos ad nauseam (até à náusea), com 
horrível regularidade. Os irmãos itinerantes devem estar muito mais 
sujeitos a essa tentarão do que os que permanecem no mesmo lugar 
durante alguns anos. Se forem vítimas do hábito, isto será por certo o fim 
da sua utilidade, e enviará um intolerável calafrio de morte aos seus 
corações, de que depressa o seu povo tomará consciência quando os 
ouvirem papaguear as suas produções gastas pelo tempo. A melhor 
invenção para promover a preguiça espiritual deve ser o plano de 
conseguir um estoque de sermões para dois ou três anos, e repeti-los em 
ordem vezes sem conta. Se nós, meus irmãos, esperamos viver por 
muitos anos, senão a vida inteira, num só lugar, arraigados ali pelo afeto 
mútuo que se desenvolva entre nós e o nosso povo, temos necessidade de 
um método bem diferente daquele que serve para um mandrião ou para 
um evangelista itinerante. 
Imagino que para uns deve ser um fardo pesado, e para outros deve 
ser muito fácil achar assunto, como acontece com aqueles cuja sorte foi 
lançada com a instituição episcopal, em que o pregador geralmente se 
refere ao evangelho ou epístola ou lição para o dia, e se sente obrigado – 
não por lei, mas por uma espécie de precedente – a pregar com base num 
versículo tirado de uma dessas fontes. Seguindo o seu ciclo rotativo 
estereotipado o Advento, a Epifania, a Quaresma e o Pentecoste, 
ninguém precisa angustiar-se no coração com a pergunta: "Que direi a 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 114
esta gente?" A voz da igreja é clara e definida: "Mestre, vá falando; aí 
está o seu trabalho; dedique-se totalmente a ele". 
Pode ser que haja algumas vantagens nesse arranjo prévio, mas o 
povo episcopal não parece partilhar muito delas, pois os seus escritores 
seculares estão sempre reclamando da aridez dos sermões, e lamentando 
a triste condição dos leigos resignados que são compelidos a ouvi-los. O 
hábito servil de seguir o curso do sol e a revolução dos meses, em vez de 
seguir o Espírito Santo, é, em minha opinião, suficiente para explicar o 
fato de que em muitas igrejas, sendo os seus próprios escritores os que 
julgam, os sermões não são nada melhores do que espécimes daquela 
"decente debilidade que protege os seus autores de erros grotescos e ao 
mesmo tempo lhes veda admiráveis belezas". 
Tenha-se, pois, por concedido que para nós é da máxima 
importância, não só pregar a verdade, mas pregar a verdade condizente 
com cada ocasião particular. O nosso esforço há de ser o de dissertar 
sobre assuntos que melhor se adaptem às necessidades do nosso povo, e 
que tenham maior probabilidade de evidenciar-se como canal da graça 
para os seus corações. 
Há alguma dificuldade na obtenção de textos? Lembro-me de que, 
em meus primeiros tempos, li em alguma parte de um volume de 
preleções sobre homilética, uma afirmativa que na ocasião me alarmou 
consideravelmente; tinha mais ou menos este sentido: "Se alguém tiver 
dificuldade para achar um texto, é melhor que volte de uma vez para a 
mercearia ou para o arado, pois evidentemente não tem a capacidade que 
se requer de um ministro". Ora, como essa fora muitas vezes a minha 
cruz e o meu fardo, indaguei-me a mim próprio se deveria recorrer a 
alguma forma de trabalho secular e deixar o ministério. No entanto, não 
o fiz, pois sempre tive a convicção de que, embora condenado pelo 
radical julgamentodo preletor, sigo uma vocação à qual Deus 
manifestamente apôs o Seu selo. 
Fiquei com tal conflito de consciência pela severa observação 
referida, que perguntei a meu avô, que estivera no ministério uns 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 115
cinqüenta anos, se alguma vez tinha ficado embaraçado na escolha do 
seu tema. Disse-me francamente que esse fora sempre o seu maior 
problema, comparada com o qual, a pregação propriamente dita não era 
nenhuma preocupação. Lembro-me desta observação do venerando 
senhor: "A dificuldade não é porque não há bastantes textos, mas porque 
há tantos que fico em apuros entre eles". 
Irmãos, às vezes somos como o apaixonado por flores seletas que se 
vê rodeado de todas as belezas do jardim, com a permissão de escolher 
apenas uma. Quanto tempo hesita entre a rosa e o lírio, e com que 
dificuldade dá preferência a um dentre dez mil encantos floridos! Para 
mim, devo confessá-lo, a escolha de um texto ainda é um enorme 
embaraço – embarras de richesses, como dizem os franceses – embaraço 
de riquezas, bem diferente do aturdimento da pobreza; a inquietação por 
atentar para a mais premente dentre tantas verdades, todas clamando por 
ser ouvidas, tantos deveres necessitando todos de se fazerem cumprir, e 
tantas necessidades do povo, todas exigindo suprimento. Confesso que 
fico muitas vezes horas e horas orando e esperando por um assunto, e 
que esta é a maior parte do meu estudo. Tenho tido muito trabalho 
manipulando tópicos, ruminando pontos de doutrina, esquematizando 
versículos e, depois, enterrando cada um dos ossos deles nas catacumbas 
do esquecimento, saindo a navegar através de léguas de águas 
encapeladas, até ver as luzes vermelhas e conduzir o barco ao porto 
desejado. 
Creio que em quase cada sábado da minha vida fago sermões 
suficientes para um mês, se me sentisse em liberdade para pregá-los, mas 
não me atrevo a usá-los mais que um marujo honesto a levar para a praia 
uma carga de artigos de contrabando. Os temas deslizam diante da mente 
um após outro como as imagens passam pela lente do fotógrafo, mas 
enquanto a mente não for como a chapa sensível que retém o retrato, os 
assuntos não terão valor para nós. 
Qual é o texto certo? Como sabê-lo? Sabemo-lo mediante sinais de 
amigo. Quando um versículo der à sua mente um saudável espasmo, do 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 116
qual não possa livrar-se, não precisará de outra orientação quanto ao 
tema certo. Semelhante ao peixe, você espicaça muitas iscas, mas 
quando o anzol o fisga bem, não vagará mais. Quando um texto nos 
pega, podemos estar certos de que o pegamos, e podemos com segurança 
entregá-lo com a alma. 
Para empregar outro símile, você toma na mão certo número de 
textos, e tenta esmiuçá-los; martela-os com força e empenho, mas o seu 
trabalho é inútil. Por fim acha um que se esmigalha ao primeiro golpe, e 
cintila ao cair em pedaços, e você percebe que dele refulgem jóias do 
mais raro esplendor. Ele cresce diante dos seus olhos como a semente da 
fábula que se desenvolveu e virou árvore enquanto o observador a 
olhava. Encanta-o e o fascina, ou o força a ajoelhar-se e põe sobre você o 
fardo do Senhor. Saiba então que esta é a mensagem que o Senhor quer 
que você entregue. E, com este sentimento, você ficará tão preso àquela 
passagem da Escritura, que não terá mais descanso enquanto não 
submeter toda a sua mente ao poder dela, e enquanto não a tiver 
transmitido conforme o poder que Deus lhe dá para fazê-lo. Espere por 
aquela palavra eleita, mesmo que tenha que esperá-la até quase à hora do 
culto. Isto não pode ser compreendido pelos homens frios e calculistas, 
que não se deixam mover por impulsos como nós, mas, para alguns de 
nós estas coisas são uma lei em nossos corações, lei que não nos 
atrevemos a transgredir. Permanecemos em Jerusalém até que nos seja 
dado poder. 
"Creio no Espírito Santo." É um artigo do credo, mas raramente os 
que o professam crêem no Espírito a ponto de se deixar mover por Ele. 
Muitos ministros parecem pensar que são eles que devem escolher o 
texto, que são eles que devem descobrir o sentido dele, que são eles que 
devem encontrar um discurso nele. Nós não pensamos assim. 
Naturalmente nos compete empregar as nossas volições, bem como o 
nosso entendimento e os nossos sentimentos, pois não acreditamos que o 
Espírito Santo nos compelirá a pregar sobre um texto contra a nossa 
vontade. Ele não nos trata como se fossemos caixas de música, dando-
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 117
nos corda e ligando-nos em certa melodia. Antes, aquele glorioso 
Inspirador de toda a verdade trata-nos como inteligências racionais, 
influenciadas por forças espirituais coerentes com a nossa natureza; além 
disso, as mentes devotas sempre desejam que a escolha do texto fique 
com o sapientíssimo Espírito de Deus, e não com seus entendimentos 
falíveis, e, portanto, colocam-se humildemente em Suas mãos, pedindo-
lhe que condescenda em conduzi-las à porção de alimento na ocasião 
própria que Ele determinou para o Seu povo. Diz Gurnal: 
"Os ministros não possuem capacidade própria para a execução do 
seu trabalho. Ah! quanto tempo podem ficar virando e revirando os seus 
livros e enredando os seus miolos, até vir Deus em seu socorro, e então – 
como a caça de Jacó – a coisa é trazida à sua mão. Se Deus não nos 
trouxer a Sua assistência, escreveremos com caneta sem tinta. Se há 
alguém que mais que qualquer outro precisa andar na confiante 
dependência de Deus, esse alguém é o ministro do evangelho". 
Se alguém me perguntasse, "Como conseguirei o texto mais 
apropriado?" eu responderia: "Clame a Deus por ele". 
Harrington Evans, em sua obra, Rules for Sermons (Regras para 
Sermões), lança como primeira delas a seguinte: "Busque a Deus em 
oração para a escolha de uma passagem. Indague os motivos pelos quais 
se decide por uma passagem. Veja que a pergunta seja bem respondida. 
Às vezes a resposta pode ser tal que deveria levar a mente a decidir-se 
contra a escolha feita". 
Se somente a orarão não o guiar ao desejado tesouro, será em todo 
caso um exercício proveitoso orar. Se a dificuldade em localizar um 
tópico o fizer orar mais que de costume, será uma grande bênção para 
você. Orar é o melhor estudo. Já no passado Lutero dizia: "Bene orasse 
est bene studuisse" (Orar bem é estudar bem), e o repisado provérbio 
agüenta repetição. Ore com meditativamente sobre a Escritura; é 
espremer uvas no tonel, é trilhar trigo no terreiro, junto ao celeiro, é 
fundir ouro extraindo-o do minério. A oração é bênção dupla: abençoa o 
pregador em seus apelos, e abençoa as pessoas por ele servidas. Quando 
o texto lhe vem em resposta à oração, ser-lhe-á o mais caro. Virá com 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 118
aroma e unção divinos, completamente desconhecidos do orador 
formalista para quem não importa se o tema é este ou aquele. 
Depois da oração, somos obrigados a empregar com muito 
empenho os meios próprios para concentrar os nossos pensamentos e 
conduzi-los pelo melhor canal. Considere a condição dos seus ouvintes. 
Reflita no estado espiritual deles como um todo e como indivíduos, e 
prescreva o remédio adequado à sua moléstia, ou prepare o alimento 
próprio para a necessidade prevalecente. Contudo, permita-me acautelá-
lo contra a consideração dada aos caprichos dos seus ouvintes, ou às 
peculiaridades dos ricos e influentes. Não dê muito valor ao cavalheiro e 
à dama que ocupam o banco verde, se é que você é tão infeliz que tem 
esse abominável lugar de distinção numa casa onde todos são do mesmo 
nível. Veja que o grande contribuinte seja por todas as formas 
considerado como os demais, e não permita que sejam negligenciadas as 
fraquezas espirituais dele; mas ele não é a congregação toda, e você 
entristecerá o Espírito Santo se pensar que é. 
Olhe com igual interesse para os pobres nas alas da igreja, e escolha 
tópicos que estejam dentro das suas categorias de pensamento e que 
possam encorajá-los em suas muitas tristezas. Não permita quesua 
cabeça se volte por respeito àqueles membros parciais da igreja que têm 
sorrisos doces para uma porção do evangelho, e se fazem surdos para 
outras partes da verdade. Nunca use de subterfúgio, quer para fazer-lhes 
festa, quer para censurá-los. Pode dar-nos satisfação pensar que estão 
contentes, se são boas pessoas, e respeitamos as suas predileções, mas a 
fidelidade requer que não sejamos simples flautistas para os nossos 
ouvintes, só tocando as músicas que eles exigem, e sim, que sejamos 
como que a boca do Senhor para declarar todos os Seus conselhos. 
Retorno à observação: pense bem no que o seu povo realmente 
necessita para a sua edificação, e seja esse o seu tema. O famoso 
apóstolo do norte da Escócia, o Dr. Macdonald, dá um exemplo 
pertinente em seu Diary of Work in St. Kilda (Diário da Obra em Santa 
Kilda): "Sexta-feira, 27 de maio. Em nosso culto matutino de hoje, li 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 119
Romanos 12 e dei algumas explicações, o que me deu oportunidade para 
expor a relação entre a fé e a prática e para afirmar que as doutrinas da 
graça se harmonizam com a vida consagrada e levam à santidade do 
coração e da vida. Julguei necessário isto, pois do ponto elevado que eu 
tinha ocupado por alguns dias, temi que o povo se desviasse para o 
antinomismo, extremo tão perigoso como o arminianismo, se não mais". 
Tome em consideração os pecados que parecem predominantes na 
igreja e na sua congregação – Mundanismo, cobiça, negligência na 
oração, ira, orgulho, falta de amor fraternal, calúnia e outros males 
semelhantes. Leve em conta, afetuosamente, as provações do seu povo, e 
busque um bálsamo para as suas feridas. Não é necessário descer a 
minúcias, quer na oração, quer no sermão, quanto a essas provações dos 
freqüentadores da sua igreja, embora fosse esse o costume de um 
respeitável ministro que foi bispo nestas cercanias, e já foi para o céu. 
Em seu abundante amor por seu povo, costumava fazer tantas alusões a 
nascimentos, mortes e casamentos ocorridos com o seu rebanho, que um 
dos prazeres dos seus ouvintes assíduos deve ter consistido em descobrir 
a quem o ministro se referia nas várias partes da sua oração e do seu 
sermão. Vindo dele, isso era tolerado, e até admirado – mas, de nós seria 
ridículo. Um patriarca pode fazer com propriedade o que um jovem deve 
evitar escrupulosamente. O venerando clérigo que acabo de mencionar 
tinha aprendido essa arte de particularizar do seu pai, pois era de uma 
família em que os filhos, tendo notado alguma coisa particular ocorrida 
durante o dia, diziam uns aos outros: "Temos que esperar até o culto 
doméstico da noite, quando ficaremos sabendo tudo sobre isso". Mas 
estou fazendo digressão; este caso mostra como um excelente hábito 
pode degenerar em defeito, mas a regra que registrei não é afetada por 
ele. Em conjunturas particulares, ocorrerão certas provações a muitos 
dos freqüentadores dos cultos, e visto que essas aflições atrairão a sua 
mente para novos campos de pensamento, você agirá mal se for surdo ao 
seu chamamento. 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 120
Repito, devemos observar o estado espiritual de nossos ouvintes, e, 
se notarmos que eles estão caindo numa condição de infidelidade; se 
temermos que eles correm o perigo de serem contaminados por alguma 
heresia perniciosa ou alguma imaginação perversa; se de fato alguma 
coisa, no caráter fisiológico da igreja como um todo, chocar a nossa 
mente – devemos apressar-nos a preparar um sermão que, pela graça de 
Deus, possa sustar a praga. Essas coisas são indicações, entre os 
ouvintes, que o Espírito de Deus dá ao pastor cuidadoso e cumpridor 
quanto ao seu curso de ação. 
O pastor cuidadoso examina com freqüência o seu rebanho, e 
orienta o seu modo de tratá-lo de acordo com o estado em que o 
encontra. Estará apto para fornecer com parcimônia um tipo de alimento, 
outro tipo com maior abundância, e remédio na devida quantidade, 
conforme o seu juízo experimentado achar necessário ou um ou outro. 
Estaremos bem orientados, se simplesmente nos associarmos ao "grande 
Pastor das ovelhas". 
Todavia, não permitamos que a nossa pregação feita de modo bem 
adaptado ao nosso povo degenere, assumindo a forma de pura 
reprimenda. Chamam o púlpito de "Cidadela dos Covardes", e este nome 
lhe vai bem em alguns aspectos, especialmente quando estultos sobem à 
plataforma e injuriosamente insultam os ouvintes expondo as suas faltas 
ou fraquezas à irrisão pública. Há uma personalidade – uma 
personalidade ultrajante. frívola e injustificável – que deve ser 
zelosamente evitada. É terrena, grosseira, e deve ser condenada sem 
limitação de palavras. Ao passo que há outra personalidade sábia, 
espiritual, celeste, que deve ser almejada incessantemente. 
A Palavra de Deus é mais aguda que qualquer espada de dois 
gumes, e, portanto, irmãos, é preciso deixar que a Palavra de Deus fira e 
mate, não havendo necessidade de que vocês mesmos cortem com 
palavras e atitudes. A verdade de Deus é penetrante. Deixem que ela 
penetre os corações dos homens sem acréscimos ofensivos da parte de 
vocês. É retratista de mau gosto aquele que precisa escrever o nome 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 121
embaixo do retrato quando este é pendurado na sala de visitas da família 
onde a própria pessoa retratada tem o seu lugar para sentar-se. Levem os 
seus ouvintes a perceberem que estão falando deles, sem contudo referir-
se aos seus nomes nem mesmo no mais remoto grau, e sem apontar para 
eles. 
Talvez ocorram ocasiões em que vocês podem ser forçados a ir ao 
ponto a que chegou Hugh Latimer quando, falando sobre suborno, disse: 
"Aquele que aceitou uma bacia e um jarro de prata como suborno pensa 
que isto nunca virá à luz. Mas ele pode saber que eu sei disso, e não só 
eu; há outros mais que o sabem. Oh, subornador! Oh, suborno! Quem 
assim recebe peitas nunca foi boa gente; e nem posso acreditar que o 
subornador possa vir a ser bom juiz". Aí há tanta reticência prudente 
como revelação ousada. Se vocês não forem além disso, ninguém se 
atreverá, em nome do decoro, a acusá-lo de personalidade severa demais. 
A seguir, observando o texto, o ministro deve considerar quais 
foram os seus tópicos anteriores. Seria insensato insistir perpetuamente 
numa doutrina em detrimento das outras. Alguns dos nossos irmãos mais 
profundos podem ser capazes de tratar do mesmo assunto numa série de 
pregações, e, com um giro do caleidoscópio, podem ser capazes de 
apresentar novas formas de beleza sem nenhuma alteração do assunto, 
mas a maioria de nós, dotada de habilidades menos férteis, achará 
melhor fazer estudos variados, e aplicar-se a mais ampla gama de 
verdades. Freqüentemente eu olho a lista dos meus sermões para ver se 
alguma doutrina escapou à minha atenção, ou se alguma graça cristã foi 
negligenciada em minhas ministrações. 
É bom averiguar se não temos sido demasiado doutrinários 
ultimamente, ou insuficientemente práticos, ou exclusivamente 
experimentais. Não desejamos degenerar até sermos antinomistas, nem, 
por outro lado, queremos rebaixar-nos à condição de simples mestres de 
fria moralidade, mas a nossa ambição é dar prova cabal do nosso 
ministério. Gostaríamos de dar a cada porção da Escritura aquela 
participação do nosso coração e da nossa cabeça que ela merece. 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 122
Doutrina, preceitos, história, tipologia, salmos, provérbios, experiências, 
exortações, promessas, convites, ameaças, repreensão – gostaríamos de 
incluir o conjunto completo da verdade inspirada no âmbito dos nossos 
ensinos. Aborreçamos toda unilateralidade, todo exagero de uma verdade 
e menosprezo de outra, e esforcemo-nos para pintar o retrato da verdade 
com traços balanceados e cores mescladas, para que não a desonremos 
apresentando distorção em vez de simetria, e uma caricatura em lugar de 
uma cópia fiel. 
Supondo, contudo, irmão, que você orou naquele seu pequeno 
quarto, lutou muito e suplicou demoradamente, pensou no povo e nas 
suas necessidades,e ainda não pôde encontrar o texto – bem, não se 
perturbe com isso, nem dê lugar ao desespero. Se você tivesse que ir à 
guerra às suas expensas, ser-lhe-ia uma desgraça ficar sem pólvora, 
estando tão perto a batalha, mas como compete a seu Comandante prover 
o necessário, não há dúvida de que oportunamente distribuirá a munição. 
Se você confiar em Deus, Ele não falhará com você; não pode falhar. 
Continue clamando e velando, pois ao estudante industrioso o auxílio 
celestial é certo. Se você tivesse ficado andando para cima e para baixo 
ociosamente a semana inteira, e não tivesse se preocupado em preparar-
se bem, não poderia esperar a ajuda divina; mas, se fez o melhor que 
pôde, e agora está esperando saber a mensagem do seu Senhor, o seu 
rosto jamais sofrerá vexame. 
Irmãos, ocorreram-me dois ou três incidentes que talvez lhes 
pareçam estranhos, mas, então, eu sou estranho. Quando eu residia em 
Cambridge, tive que pregar certa noite, como de costume, num povoado 
próximo aonde eu tinha que ir a pé. Depois de ler e meditar o dia todo, 
não pude dar com o texto certo. Fizesse o que fizesse, nenhuma resposta 
vinha do oráculo sagrado, nenhuma luz raiava do Urim e Tumim; eu 
orava, meditava, ia de um versículo a outro, mas a mente não pegava 
nada, ou eu estava, como Bunyan diria, "muito virado e revirado em 
meus pensamentos". Em dado momento fui até a janela e olhei para fora. 
No outro lado da rua estreita em que eu morava, vi um pobre canário 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 123
solitário no telhado, cercado por um bando de pardais que o bicavam 
como se o quisessem despedaçar. 
Naquele momento o versículo me veio à mente – "A minha herança 
é para mim ave de várias cores; andam as aves de rapina contra ela em 
redor". Saí dali com a maior serenidade possível, ponderei a passagem 
durante minha longa e solitária caminhada, e preguei acerca do povo 
peculiar, e sobre as perseguições movidas por seus inimigos, e o fiz com 
liberdade e tranqüilidade para mim, e creio que para conforto dos meus 
rústicos ouvintes. O texto foi-me enviado, se não pelos corvos, 
certamente pelos pardais. 
Noutra ocasião, quando estava trabalhando em Waterbeach, tinha 
pregado domingo de manhã, e tinha ido para casa, para almoçar com um 
membro da igreja, como costumava. Ocorre, porém, que havia três 
cultos, e, infelizmente, o sermão da tarde vinha tão em cima do da 
manhã, que era difícil preparar a alma, especialmente quando o almoço é 
uma necessidade, mas séria inconveniência, quando se requer cérebro 
claro. Que pena! Aqueles cultos à tarde em nossas aldeias inglesas eram 
geralmente um melancólico desperdício de esforço. O rosbife e o pudim 
pesam na alma dos ouvintes, e o próprio pregador fica amortecido em 
seus processos mentais, enquanto a digestão reclama o domínio da hora. 
Graças a uma cuidadosa medida de dieta, mantive-me naquela 
ocasião bem animado e vigoroso, mas, para minha consternação, vi que 
se me fora a linha de pensamento elaborada previamente. Não consegui 
achar a pista do sermão que tinha preparado, e espremi a testa quanto 
pude, mas o tópico perdido não me vinha. O tempo era curto, a hora 
chegava, e um tanto alarmado eu disse ao honesto lavrador que, por 
minha vida, eu não conseguia lembrar o que tencionara pregar. "Ah!, 
exclamou ele, '"não tem importância; esteja certo de que terá uma boa 
palavra para nós". Justo naquele momento, um tição em brasa caiu fora 
do fogo da lareira a meus pés, enchendo de fumaça os olhos e o nariz da 
gente. "Aí", disse o lavrador, "aí está o texto para o senhor. Não é um 
tição arrebatado do incêndio'?" Não, pensei, não foi tirado, pois saltou 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 124
fora sozinho. Ali estava um texto, uma ilustração, e um pensamento 
dominante, como um indez no ninho, chamariz de mais ovos. Veio-me 
maior luz, e certamente o sermão não foi pior do que as minhas efusões 
bem preparadas; foi melhor no melhor sentido, pois mais tarde vieram 
um ou dois declarar que se despertaram e se converteram com o sermão 
daquela tarde. Sempre considerei feliz circunstância ter esquecido o 
texto sobre o qual planejara pregar. 
Na rua New Park uma vez passei por uma experiência singular, da 
qual há testemunhas presentes nesta sala. Eu tinha passado com 
felicidade por todas as partes iniciais do culto de domingo à noite, e 
estava anunciando o hino anterior ao sermão. Abri a Bíblia para achar o 
texto que eu tinha estudado cuidadosamente como o tópico do discurso, 
quando na página oposta outra passagem da Escritura saltou sobre mim 
como um leão de uma moita, com muitíssimo mais poder do que eu 
sentira ao considerar o texto que havia escolhido. O povo cantava e eu 
suspirava. Eu estava espremido de ambos os lados, e minha mente 
pendia como em pratos de balança. Naturalmente eu estava desejoso de 
seguir a trilha que tinha planejado cuidadosamente, mas o outro texto 
não queria aceitar recusa, e parecia puxar-me pela orla do casaco, 
gritando: "Não, não! Você tem que pregar sobre mim. Deus quer que 
você me siga". Eu deliberava dentro de mim quanto ao meu dever, pois 
não queria ser nem fanático nem incrédulo, e por fim pensei comigo 
mesmo: "Bem, eu gostaria de pregar o sermão que preparei, e é grande 
risco meter-me a tragar nova linha de pensamento, mas como esse texto 
insiste em constranger-me, talvez seja do Senhor, e portanto me 
aventurarei com ele, venha o que possa vir". 
Quase sempre anuncio as minhas divisões logo depois do exórdio, 
mas nessa ocasião, contrariamente ao meu costume, não o fiz, pela razão 
que talvez alguns de vocês adivinhem. Passei pelo primeiro subtítulo 
com considerável liberdade, falando perfeitamente, de modo 
improvisado, quanto ao pensamento e à palavra. O segundo ponto foi 
tratado com a consciência de um poder incomum, tranqüilo e eficaz, mas 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 125
eu não tinha idéia do que seria ou poderia ser o terceiro, pois o texto já 
não oferecia mais conteúdo, e eu nem poderia dizer agora o que teria 
feito, se não ocorresse um fato que eu nunca teria imaginado. Tinha-me 
metido em grande dificuldade obedecendo ao que julgava ser um 
impulso divino, e me sentia relativamente sossegado sobre isso, crendo 
que Deus me socorreria, e sabendo que ao menos poderia encerrar a 
reunião se não houvesse mais nada que dizer. 
Não tive que ficar deliberando, pois de repente ficamos em 
completa escuridão – o gás se acabara, e como os corredores da igreja 
estavam repletos de gente, e o lugar todo estava superlotado; havia 
grande perigo, mas também houve grande bênção. Que deveria fazer eu 
então? Os presentes assustaram-se um pouco, mas eu os tranqüilizei na 
hora dizendo-lhes que não se alarmassem por faltar a luz, pois logo seria 
reacendida, e quanto a mim, como não tinha manuscrito, podia falar com 
luz ou sem luz, desde que eles tivessem a bondade de sentar-se e ouvir. 
Se o meu discurso fosse muito elaborado, seria absurdo continuá-lo, e 
assim, no aperto em que eu estava, fiquei livre do embaraço. Voltei-me 
mentalmente para o bem conhecido texto que fala do filho da luz 
andando nas trevas, e do filho das trevas andando na luz, e vi que se me 
derramavam observações e ilustrações apropriadas, e quando as luzes se 
acenderam, vi diante de mim um auditório tão arrebatado e subjugado 
como nenhum homem jamais viu em sua vida. 
O estranho nisso tudo foi que, passadas algumas reuniões da igreja, 
duas pessoas foram à frente para fazer a sua confissão de fé, e 
declararam que foram convertidas naquela noite. A primeira deveu a sua 
conversão à primeira parte da pregação, sobre o novo texto que me viera, 
e a outra atribuiu o seu despertamento à última parte, ocasionada pela 
súbita escuridão. Assim, vocês vêem, a Providência favoreceu-me. 
Deixei-me aos cuidados de Deus, e os arranjos que Ele fez apagaram a 
luz na hora certa para mim. Alguns podem ridicularizar-me, mas eu 
adoro o Senhor; outros podem criticar-me, mas eu me regozijo. 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 126Qualquer coisa é melhor do que a mecânica produção e pregação de 
sermões, em que a direção do Espírito é praticamente ignorada. Todos os 
pregadores usados pelo Espírito Santo, não tenho dúvida, terão dessas 
recordações agrupando-se em torno do seu ministério. Portanto, digo: 
observem o curso da Providência; entreguem-se à orientação e ao auxílio 
do Senhor. Se tiverem feito solenemente o melhor que puderam para 
conseguir um texto, e o assunto não lhes vem, subam ao púlpito 
firmemente convictos de que receberão uma mensagem quando chegar a 
hora, mesmo que não tenham uma palavra naquele momento. 
Na biografia de Samuel Drew, famoso pregador metodista, lemos: 
"Detendo-se na casa de um amigo em Cornwall, depois da pregação, 
uma pessoa que assistira o culto, fazendo-lhe a observação de que, 
naquela ocasião, ele sobrepujara a sua capacidade habitual, confirmando-
lhe outros a mesma opinião, disse o Sr. Drew: "Se é verdade, é a coisa 
mais singular, porque o meu sermão foi pregado sem qualquer meditação 
prévia. Fui para o púlpito com a intenção de falar-lhes baseado noutro 
texto, mas, olhando a Bíblia que estava aberta, a passagem sobre a qual 
acabam de me ouvir, "Prepara-te, ó Israel, para te encontrares com o teu 
Deus", prendeu a minha atenção com tanta força que pôs em fuga as 
minhas idéias anteriores; e, conquanto eu nunca antes tivesse 
considerado aquela passagem, resolvi de imediato fazê-la o assunto do 
meu discurso. O Sr. Drew fez bem em ser obediente à direção celestial. 
Meus irmãos, em certas circunstâncias vocês se sentirão 
absolutamente compelidos a porem de lado o discurso bem estudado, e a 
confiarem no presente socorro do Espírito Santo, empregando alocução 
puramente improvisada. Talvez se vejam na situação do finado Kingman 
Nott, quando pregava no Teatro Nacional de Nova York. Numa de suas 
cartas ele diz: "O edifício estava abarrotado de gente, mormente de 
jovens e meninos do tipo mais grosseiro. Fui com o sermão em mente, 
mas logo que cheguei no palco, saudado com "Eh! eh!", e vendo a 
heterogênea e ruidosa multidão com que tinha que lidar, deixei de lado 
todos os pensamentos do sermão, e tomando a parábola do filho pródigo, 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 127
tentei interessar nela os presentes, e consegui manter a maior parte deles 
dentro da casa e toleravelmente atentos". Que simplório teria sido ele se 
tivesse perseverado em sua inadequada preleção! Irmãos, rogo-lhes, 
creiam no Espírito Santo, e levem à prática a sua fé. 
Como adicional assistência prestada a um pobre pregador 
encalhado, incapaz de fazer sua mente navegar por falta de uma ou duas 
ondas de pensamento, recomendo-lhe, em tal caso, voltar insistentemente 
à Palavra de Deus, lendo um capítulo e ponderando seus versículos um 
por um; ou escolher um versículo, e exercitar bem a sua mente nele. 
Talvez não encontre o texto do seu sermão no versículo ou no capítulo 
que está lendo, mas a palavra certa lhe virá mediante o engajamento 
ativo da sua mente em assuntos santos. Conforme a relação dos 
pensamentos uns com os outros, um pensamento induzirá outro, e outro, 
até passar uma longa procissão deles diante da sua mente, dos quais um 
ou outro será o tema predestinado. 
Leia também bons e sugestivos livros, e eleve a sua alma através 
deles. Se os homens querem bombear água com uma bomba não usada 
recentemente, primeiro despejam água nele, e a bomba funciona. 
Mergulhe num dos puritanos, e estude completamente a obra, e logo se 
verá como um pássaro em vôo, mentalmente ativo e cheio de 
movimento. 
Deixe-me observar, porém, a modo de precaução, que devemos 
estar treinando sempre a busca de textos e o preparo de sermões. 
Devemos constantemente preservar a santa atividade das nossas mentes. 
Ai do ministro que ouse desperdiçar uma hora sequer. Leia o Essay on 
the Improvement of Time (Ensaio sobre o aproveitamento do tempo), de 
John Foster, e tome a decisão de nunca perder um segundo. O homem 
que perambula para cima e para baixo, de segunda-feira de manhã até 
sábado de noite, e sonha indolentemente que o texto do seu sermão lhe 
será enviado por um mensageiro angélico na última ou na penúltima hora 
da semana, está tentando a Deus, e merece ficar emudecido no dia do 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 128
Senhor. Como ministros, não temos lazer; nunca estamos de folga, mas 
permanecemos em nossas torres de vigia dia e noite. 
Estudantes, digo-lhes solenemente, nada os escusará da mais rígida 
economia de tempo; desperdiçá-lo é um perigo para vocês. A folha do 
seu ministério logo fenecerá, a menos que, como o varão bem-
aventurado do Salmo primeiro, vocês meditem na lei do Senhor de dia e 
de noite. Desejo ansiosamente que vocês não joguem fora tempo em 
dissipação religiosa, ou em mexericos e em conversa frívola. Cuidado 
para não ficarem correndo desta reunião para aquela, escutando meras 
parolices, colaborando assim na indústria de inflar tagarelas. O homem 
que é grande nos salões de chá, nas festas noturnas e nas excursões da 
Escola Dominical, geralmente é pequeno em todos os demais lugares. O 
preparo para o púlpito é a primeira ocupação de vocês, e se 
negligenciarem nisso, não inspirarão confiança em si, nem no seu 
ministério. As abelhas produzem mel de manhã à noite, e nós temos que 
estar sempre armazenando provisões para o nosso povo. Não confio no 
ministério que ignora a laboriosa preparação. 
Quando viajávamos pelo norte da Itália, o nosso cocheiro dormiu na 
carruagem, e quando o chamamos de manhã, ergueu-se desperto, estalou 
o chicote três vezes, e disse que estava pronto. Não gostei muito de tão 
rápidos aprestos pessoais, e preferia que ele tivesse dormido noutro 
lugar, ou que eu ocupasse outro assento. Vocês que estão prontos para 
pregar em três tempos, perdoem-me se me sentar num banco em 
qualquer outra parte. O exercício mental costumeiro com vistas ao nosso 
trabalho é aconselhável. Os ministros devem ser sempre diligentes, 
principalmente no bom aproveitamento das oportunidades. 
Vocês, irmãos, às vezes não se acham maravilhosamente 
preparados para pregar? O Sr. Jay disse que quando se sentia nessas 
condições, costumava pegar papel e anotar textos e divisões de sermões, 
e guardá-los acumulados para lhe prestarem serviço nas ocasiões em que 
a sua mente não estivesse tão bem disposta assim. O chorado Thomas 
Spencer escreveu: "Conservo um pequeno livro em que anoto cada texto 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 129
da Escritura que me vem à mente com poder e dulçor. Se sonhasse com 
uma passagem da Escritura, eu também a anotaria, e quando me ponho à 
escrever, examino o livro, e nunca me acho em dificuldade quanto a um 
assunto". Estejam atentos em busca de assuntos quando andarem pela 
cidade ou pelo campo. 
Reflitam sobre este exemplo: "Fui induzido a um proveitoso 
impulso de meditação, sobre a maneira como o nosso bom Pastor cuida 
do Seu rebanho, ao ver alguns cordeiros expostos ao frio e uma pobre 
ovelha perecer por não receber os devidos cuidados." – Andrew Fuller's 
Diary (Diário de A. Fuller). 
Mantenham sempre os olhos e os ouvidos abertos, e ouvirão e verão 
anjos. O mundo está repleto de sermões – peguem-nos no vôo. O 
escultor crê, sempre que vê um rude bloco de mármore, que nele se 
esconde uma nobre estátua, e que basta desbastar as superfluidades para 
revelá-la. Assim também creiam vocês que dentro de cada vagem de 
todas as coisas há a amêndoa de um sermão para quem for sábio. Sejam 
sábios, e vejam o celeste em seu molde terreno. Ouçam as vozes dos 
céus, e as traduzam para a língua dos homens. Sejam sempre, ó homens 
de Deus, pregadores que fazem provisões para o púlpito, em todas as 
províncias da natureza e da arte, armazenando e preparando material 
toda hora e em todas as estações. 
Perguntam-me se é boa coisa anunciar os temas preparados e 
publicar listas de sermões previamente planejados. Respondo: Cada 
homem em sua ordem. Não sou juiz dos outros. Mas não me atrevo a 
tentar tal coisa, pois incorreria em memorávelfracasso se me aventurasse 
a fazê-lo. Os precedentes vão muito contra a minha opinião, 
sobressaindo-se as séries de discursos de Matthew Henry, John Newton, 
e de um batalhão de outros mais. Contudo, só posso falar das minhas 
impressões pessoais, e deixo que cada qual seja a sua própria lei. Muitos 
teólogos eminentes deram valiosos cursos de sermões sobre tópicos 
ordenados previamente, mas nós não somos eminentes, e devemos 
aconselhar a outros que são como nós a serem cautelosos sobre como 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 130
agir. Não ouso anunciar sobre o que pregarei amanhã, e muito menos 
sobre o que pregarei daqui a seis semanas ou seis meses, sendo que em 
parte a razão é esta – que tenho consciência de que não possuo aqueles 
dons peculiares que são necessários para interessar uma assembléia num 
assunto ou numa série de assuntos durante qualquer extensão de tempo. 
Irmãos de extraordinária capacidade de pesquisa e de profunda cultura 
podem fazê-lo, e irmãos que não possuem nada disso, e sem bom senso, 
podem ter a pretensão de fazê-lo, mas eu não posso. Sou obrigado a fazer 
grande parte da minha força depender da variedade, antes que da 
profundidade. 
É questionável se a grande maioria dos pregadores de temas em 
série não faria melhor queimando os seus programas, se quisessem ter 
êxito. Tenho nítida recordação, aliás, fúnebre recordação, de certa série 
de conferências sobre Hebreus que causaram profunda impressão em 
minha mente, mas da mais indesejável espécie. Muitas vezes tenho 
desejado que os hebreus tivessem guardado para si mesmos a Epístola 
aos Hebreus, pois ela deixou enfarado um pobre rapaz gentio. Quando se 
tinham apresentado sete ou oito conferências da série, só as pessoas 
muito bondosas podiam agüentá-las; estas naturalmente declaravam que 
nunca tinham ouvido exposições mais valiosas, mas aos de julgamento 
mais carnal parecia que cada sermão ficava mais enfadonho. O escritor, 
naquela epístola, exorta-nos a suportar a palavra de exortação, e foi o 
que fizemos. Serão como aquele todos os cursos de sermões? Talvez 
não, mas temo que as exceções são poucas, pois até se diz daquele 
maravilhoso expositor, Joseph Caryl, que começou as suas famosas 
preleções sobre Jó com oitocentos ouvintes, e terminou o livro com 
apenas oito! Um pregador profético alongou-se tanto sobre "a ponta 
pequena" de que fala Daniel, que certo domingo de manhã só lhe 
restaram sete ouvintes. Sem dúvida achavam 
"Estranho que uma harpa de mil cordas 
tocasse no mesmo tom por tanto tempo". 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 131
Comumente, e para homens comuns, parece-me que discursos 
previamente organizados em série são um erro, nunca passam de 
benefício aparente, e geralmente são um verdadeiro mal. Certamente 
percorrer uma longa epístola requer muitíssimo gênio do pregador, e um 
mundo de paciência da parte dos ouvintes. Sinto-me impulsionado a 
fazer uma consideração mais profunda daquilo que acabo de dizer: 
Tenho a impressão de que muitos pregadores vigorosos e ardentes 
achariam que temas programados são grilhões. Se o pregador anuncia 
para o próximo dia do Senhor um tópico cheio de alegria, que requer 
vivacidade e exaltação de espírito, pode bem acontecer que, por várias 
causas, se sinta num tristonho e sobrecarregado estado mental; apesar 
disso, tem que pôr vinho novo no seu velho cantil e ir para a festa de 
casamento usando roupa de pano de saco e cinzas, e pior que tudo, pode 
ser obrigado a repetir isso um mês inteiro. É assim que deve ser? É 
importante que o orador esteja em sintonia com o seu tema; como, 
porém, assegurar-se isto, a não ser deixando a escolha do tópico às 
influências que operem na ocasião? O homem não é uma máquina a 
vapor correndo sobre trilhos de metal, e é insensato fixá-lo num encaixe. 
Grande parte do poder do pregador consiste em sua alma estar em 
harmonia com o assunto, e eu teria receio de determinar um assunto para 
uma certa data, pois, ao chegar a ocasião, poderia não estar na mesma 
clave. Além disso, não é fácil ver como um homem pode demonstrar 
dependência da direção do Espírito de Deus, se já prescreveu sua própria 
rota. Talvez vocês digam: "Que singular objeção, pois, por que não 
confiar nEle por vinte semanas se confia por uma?" Certo, mas nunca 
tivemos uma promessa para garantir-nos essa fé. Deus promete dar-nos 
graça conforme os nossos dias, mas nada diz de dotar-nos de um fundo 
de reserva para o futuro. 
"Dia a dia o maná forrava o chão; 
oh, tratem de aprender bem a lição!" 
Exatamente assim nos virão nossos sermões, vigorosos, vindos do 
céu, quando necessário. Tenho zelo quanto a qualquer coisa que lhes 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 132
impeça a dependência diária do Espírito Santo, e portanto registro a 
opinião já dada. A vocês, meus jovens irmãos, sinto-me seguro ao dizer-
lhes com autoridade: Deixem as ambiciosas tentativas de elaboradas 
séries de discursos aos mais velhos e mais capazes. Temos apenas uma 
pequena porção de ouro e prata mental; invistamos o nosso pequeno 
capital em mercadorias úteis, que alcancem mercado à disposição, e 
deixemos que os negociantes mais ricos comerciem com artigos mais 
caros e mais difíceis de sair. Não sabemos o que o dia trará – esperemos 
pelo ensinamento diário, e não façamos nada que nos impeça a utilização 
dos materiais que a providência pode lançar em nosso caminho hoje ou 
amanhã. 
Talvez vocês indaguem se deveriam pregar sobre textos que outras 
pessoas escolhem e pedem que preguem sobre eles! Minha resposta 
seria: como regra geral, nunca; e se houver exceções, que sejam poucas. 
Permitam-me lembrar-lhes que vocês não cuidam de uma loja à qual os 
fregueses podem vir e fazer os seus pedidos. Quando um amigo sugere 
um tópico, pensem bem, e considerem se é apropriado, e vejam se ele 
lhes vem com poder. Recebam o pedido com cortesia, pois é seu dever 
agir como cavalheiros e cristãos. Mas, se o Senhor a quem vocês servem 
não lançar a Sua luz sobre o texto, não preguem sobre ele, seja quem for 
que queira persuadi-los. 
Estou absolutamente certo de que, se esperarmos do Senhor os 
nossos assuntos, e fizermos disso objeto de oração, para sermos guiados 
retamente, seremos conduzidos pelo caminho certo. Mas se nos 
inflarmos com a idéia de que nós mesmos podemos fazer facilmente a 
escolha, veremos que até mesmo na seleção de um assunto, sem Cristo 
nada podemos fazer. Esperem no Senhor, irmãos, ouçam o que Ele quer 
falar, recebam a palavra diretamente da boca de Deus, e então partam 
como embaixadores recém-enviados pela corte celestial. "Esperai, pois, 
no Senhor." 
 
 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 133
A ARTE DE ESPIRITUALIZAR 
 
Muitos que escrevem sobre homilética condenam em termos sem 
limites até a ocasional espiritualização de um texto. * "Escolha textos", 
dizem eles, "que dêem um sentido claro, literal; jamais viaje além do 
sentido óbvio da passagem; nunca se permita acomodar ou adaptar; isso 
é artifício de homens de cultura artificial, um estratagema de charlatães, 
miserável exibição de mau gosto e de atrevimento." A quem honra, 
honra, mas humildemente peço licença para discordar dessa opinião 
erudita, entendendo que é mais fastidiosa do que correta, mais plausível 
do que verdadeira. Grandes porções de verdadeiro bem podem ser feitas 
tomando-se ocasionalmente textos esquecidos, singulares, notáveis, 
incomuns; e estou persuadido de que, se apelarmos para um júri de 
pregadores práticos e de sucesso, não teóricos, mas homens da luta, 
teremos a maioria a nosso favor. 
Pode ser que os doutos rabis desta geração sejam demasiado 
sublimes e celestiais para condescender com homens de baixa condição; 
mas nós, que não temos cultura de alto nível, ou profundo saber, ou 
encantadora eloqüência de que nos jactar, julgamos prudente usar o 
mesmo método que os poderosos proscreveram, pois vemos nele um dos 
melhores modos de ficar fora da rotina da formalidade insípida, e ele nos 
fornece uma espécie de sal com que podemos darsabor a verdades 
desagradáveis. Muitos grandes conquistadores de almas acharam bom 
para dar estímulo ao seu ministério, e para prender a atenção dos seus 
ouvintes, uma vez ou outra irromper por um caminho até então não 
palmilhado. A experiência não lhes ensinou que laboravam em erro, mas 
o contrário. 
Dentro de certos limites, irmãos, não tenham medo de espiritualizar, 
ou de tomar textos singulares. Continuem tratando das passagens da 
 
* "A pregação alegórica avilta o gosto e agrilhoa o entendimento, tanto do pregador como dos 
ouvintes." – Adam Clarke. 
A regra de Wesley é melhor: "Seja parcimonioso nas alegorizações ou espiritualizações". 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 134
Escritura, e não dêem apenas o seu significado manifesto, como estão 
obrigados a fazer, mas também extraiam delas os sentidos que talvez não 
estejam na superfície. Aceitem o conselho se tem valor, mas lhes 
recomendo que mostrem aos seus críticos superfinos que nem todos 
prestam culto à imagem de ouro erigida por eles. Aconselho-vos a 
empregarem a espiritualização dentro de certos limites e fronteiras, mas 
lhes rogo que não se precipitem, sob a capa deste conselho, lançando-se 
a incessantes e irrefletidas "imaginações", como George Fox lhes 
chamaria. Não se afoguem porque foram recomendados a se banharem, 
nem se enforquem num carvalho porque se diz que o tanino dele extraído 
é valioso adstringente. Uma coisa permissível levada ao excesso é vício, 
exatamente como o fogo é bom servo sob a chapa do fogão, porém mau 
mestre quando furioso numa casa incendiada. O exagero, mesmo numa 
coisa boa, causa indigestão e desagrado e em nenhum outro caso este 
fato é mais patente do que neste diante de nós. 
A primeira regra a ser observada é esta – não force violentamente 
um texto com uma espiritualização ilegítima. É pecar contra o bom 
senso. Quão terrivelmente a Palavra de Deus tem sido malhada e 
mutilada por certo bando de pregadores que torturam textos, fazendo-os 
revelar o que doutro modo jamais teriam falado. O Sr. "precipitado", de 
que nos fala Rowland Hill em sua obra Village Dialogues (Diálogos de 
Aldeia), é apenas um caso típico de um cardume numeroso. Aquela 
sumidade é descrita como desincumbindo-se de um discurso baseado 
em, "Eis que três cestos brancos estavam sobre a minha cabeça", do 
sonho do padeiro de Faraó. Fundado nisso, o "chocho malho triplamente 
consagrado", como lhe chamaria um amigo meu, discursou sobre a 
doutrina da Trindade! 
Um estimado ministro de Cristo, venerado e excelente irmão, um 
dos mais instrutivos ministros no seu condado, contou-me que um dia 
deu pela ausência de um trabalhador e sua esposa das reuniões da sua 
igreja. Notou a ausência deles seguidamente, domingo após domingo, e 
certa segunda-feira, encontrando na rua o homem, disse-lhe: "Ora, João, 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 135
não o tenho visto ultimamente". "Pois é", foi a resposta; "não estávamos 
tirando proveito do seu ministério como antes". "Verdade João? Lamento 
muito ouvir isso." "Bem, eu e minha mulher gostamos das doutrinas da 
graça, e daí ultimamente temos ido ouvir o Sr. Bawler." "Ah! você se 
refere ao bom homem da High Calvinist Meeting (União Hiper 
Calvinista)?" "Sim, senhor; e estamos tão contentes! Recebemos muito 
boi alimento ali, numa medida transbordante. Estávamos quase 
morrendo de fome sob o seu ministério – mas, sempre o respeitamos 
como homem, senhor." "Está bem, meu amigo; naturalmente vocês 
devem ir aonde possam obter bom proveito para sua alma; só espero que 
seja bom. Mas, como lhes foi domingo passado?" "Ah! foi um dia 
extremamente animador para nós, senhor. De manhã tivemos – não me 
parece bem contar-lhe isto – contudo, tivemos momentos realmente 
preciosos." 
"Sim, mas, que foi, João?" "Bem, senhor, o Sr. Bawler nos fez 
penetrar abençoadamente naquela passagem: "Quando te assentares a 
comer com um governador, ... põe uma faca à tua garganta, se és homem 
glutão". "Que foi que ele tirou dessa passagem?" "'Bem, senhor, posso 
dizer-lhe o que ele tirou dela, mas, primeiro eu gostaria de saber o que o 
senhor teria dito sobre ela." "Não sei, João; creio que dificilmente 
escolheria esse texto, mas se tivesse que falar sobre ele, diria que uma 
pessoa dada a comidas e bebidas deve ter cuidado com o que vai fazer 
quando estiver na presença de grandes homens, se não se arruinará. 
Mesmo nesta vida a glutonaria é danosa." "Ah!", disse o homem, "esta é 
a sua maneira de interpretá-la segundo a letra morta. Como eu disse à 
minha mulher outro dia, desde que começamos a ouvir o Sr. Bawler, a 
Bíblia abriu-se para nós, de modo que podemos ver nela muito mais do 
que víamos." "Sim, mas, que disse o sr. Bawler sobre aquela passagem?" 
"Bem, ele disse que o glutão é o recém-convertido que por certo tem 
tremenda fome de pregação, e sempre está querendo comida, mas nem 
sempre tem o devido cuidado quanto à qualidade da comida." "E depois, 
João?" "Ele disse que se o recém-convertido se sentasse diante de um 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 136
governador – isto é, de um pregador legalista ou de outro homem de 
convicção semelhante – seria a pior coisa para ele." "Mas, e quanto à 
faca, João?" "Bem, o Sr. Bawler disse que é uma coisa muito perigosa 
ouvir pregadores legalistas, pois isto certamente ia arruinar a vida do 
ouvinte, e tanto faz cortar a sua garganta agora como depois!" 
O assunto era, suponho, acerca dos efeitos prejudiciais sobre os 
cristãos novatos que ouvem a outros pregadores, e não os da corrente 
hipercalvinista. E eis a moral dele deduzida: Seria melhor que o irmão 
em foco cortasse a garganta do seu ex-pastor do que ir ouvi-lo! Isto sim é 
notável acomodação do texto. 
Ó vós, críticos, entregamos esses cavalos mortos aos vossos dentes 
brutais! Estraçalhai-os e devorai-os como quiserdes; não vos 
censuraremos. 
Ouvimos falar de outro "ator" que interpretou assim "Provérbios 
21.17: "Necessidade padecerá o que ama os prazeres; o que ama o vinho 
e o azeite nunca enriquecerá". O livro de Provérbios é um dos campos 
favoritos dos espiritualizadores, que com os provérbios se divertem. O 
nosso grande homem utilizou-se do provérbio desta maneira: "O que 
ama os prazeres", isto é, o cristão que usufrui os meios da graça, 
"necessidade padecerá", quer dizer, será pobre, mas pobre de espírito; "o 
que ama o vinho e o azeite", a saber, o que se alegra com as provisões da 
aliança, e desfruta o óleo e o vinho do evangelho, "nunca enriquecerá", 
isto é, não será rico em sua própria opinião", mostrando a excelência dos 
pobres de espírito, e como estes, gozarão os prazeres do evangelho – 
sentimento muito bom, mas os meus olhos carnais não conseguem vê-lo 
no texto. 
Todos vocês já sabem da famosa explicação que William 
Huntingdon deu de Isaías 11:8: "E brincará a criança de peito sobre a 
toca do áspide, e o já desmamado meterá a sua mão na cova do 
basilisco". "A criança de peito", isto é, o bebê na graça, "brincará sobre a 
toca do áspide", "o áspide" quer dizer o arminiano; "a toca do áspide" 
quer dizer a boca do arminiano." Segue-se então uma descrição do 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 137
esporte em que as mentes simples são mais que um trunfo sobre a 
sabedoria arminiana. Os elementos que professam a outra escola 
teológica em geral tiveram o bom senso de não devolver o cumprimento, 
caso em que os antinomianos ver-se-iam competindo com os basiliscos, 
e veriam os seus opositores desafiá-los zombeteiramente à boca da cova 
deles. Tal abuso só serve para prejudicar os que o praticam. Há melhores 
modos de expor e salientar as diferenças teológicas do que essa 
palhaçada. 
Da estupidez estufada de orgulho surgem resultados ridículos. 
Talvez baste um exemplo. Um respeitável ministro disse-me outro dia 
que fazia pouco tempo estivera pregando à sua congregação sobre as 
"vinte e nove facas" de Esdras. Estou certo de que ele sabia manejar com 
discrição esses agudos instrumentos, mas não pude abster-mede dizer-
lhe que esperava que ele não tivesse imitado o sapiente intérprete que via 
naquele curioso número de facas uma referência aos "vinte e quatro 
anciãos" de Apocalipse. 
Diz uma passagem de Provérbios: "Por três coisas se alvoroça a 
terra, e a quarta não a pode suportar: Pelo servo, quando reina; e pelo 
tolo, quando anda farto de pão; pela mulher aborrecida, quando se casa; 
e pela serva, quando fica herdeira da sua senhora". Um enlevado 
espiritualizador declara que isso é um lindo quadro descritivo da obra da 
graça na alma, e mostra o que alvoroça os arminianos, e os põe em pé de 
guerra. "O servo, quando reina", isto é, pobres servos como nós, quando 
feitos reinantes com Cristo; o "tolo, quando está farto de pão", pobres 
tolos como nós, quando somos alimentados com o trigo mais excelente 
da verdade do evangelho; a "mulher aborrecida, quando se casa", isto é, 
o pecador, quando se une a Cristo: e a "serva quando fica herdeira da sua 
senhora", isto é, quando nós, pobres criadas que estávamos sob a lei, 
escravas, fomos acolhidas aos privilégios de Sara, e nos tornamos 
herdeiras da nossa senhora." 
Eis aí alguns espécimes de excentricidades eclesiásticas, as quais 
são tão numerosas e valiosas como as relíquias que todo dia,se juntam 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 138
com tanta abundância no campo de batalha de Waterloo, aceitas pelos 
mais ingênuos como inestimáveis tesouros. Mas já vos enfarei, e não 
quero desperdiçar mais o nosso tempo. É preciso admoestar-vos a 
repudiarem todo esse abominável absurdo! Esses devaneios desonram a 
Bíblia, são um insulto ao bom senso dos ouvintes e um aviltamento 
deplorável do ministro. Contudo, esta não é a espiritualização que lhes 
recomendamos, como igualmente o cardo que se ache no Líbano não é o 
cedro do Líbano. Evitem, irmãos, a infantil perda de tempo e a ultrajante 
torção de textos que farão de vocês sábios entre tolos, ou tolos entre 
sábios. 
A segunda norma é: nunca espiritualizem assuntos indecorosos. É 
preciso dizer isto, pois a família "Precipitado" nunca se sente mais em 
casa do que quando fala de maneira que faz ruborizar a face da modéstia. 
Os escaravelhos são espécies de besouros que procriam na imundícia, e 
esse tipo de criatura tem o seu protótipo entre os homens. Não é que me 
vem à memória neste momento um teólogo cheio de sabor, que se 
estendeu com maravilhoso gosto e com patética unção a respeito da 
concubina cortada em dez pedaços? Azedo como é, não poderia tê-lo 
feito melhor. Que coisas abomináveis têm sido ditas sobre alguns dos 
mais rudes e horripilantes símiles de Jeremias e Ezequiel! Onde o 
Espírito Santo é velado e repassado de pudor, estes homens tiram o véu e 
falam como só as línguas perversas se aventurariam a falar. 
Não sou melindroso, longe disso, mas as explicações do novo 
nascimento com analogias sugeridas por um pré-natal, exposições do rito 
da circuncisão, e minuciosas descrições da vida conjugal, causam-me 
indignação e fazem com que me sinta inclinado a ordenar como fez Jeú, 
que os desavergonhados sejam lançados abaixo desde a sua alta posição 
infelicitada por seu descarado despundonor. Sei que se diz, "A vergonha 
domina a quem o mal imagina", mas assevero que as mentes puras não 
devem ser expostas sequer ao mais leve sopro de indelicadeza 
proveniente do púlpito. A mulher de César tem que estar livre de 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 139
suspeita, e os ministros de Cristo têm que estar sem nódoa em seu viver e 
sem mácula em seu falar. 
Cavalheiros, os beijos e abraços em que alguns pregadores se 
deleitam são repugnantes. É melhor deixar em paz consigo o livro de 
Cantares de Salomão, do que arrastá-lo à lama como se faz muitas vezes. 
Especialmente os jovens devem ser escrupulosa e zelosamente sóbrios e 
puros em suas palavras. A um idoso se perdoa, não sei bem por que, mas 
um jovem ficará completamente sem desculpa, se ultrapassar a linha 
estreita da delicadeza. 
Em seguida, em terceiro lugar, nunca espiritualizem uma passagem 
com o fim de mostrar que são extraordinariamente inteligentes. Tal 
intenção é iníqua, e o método empregado será uma tolice. Somente um 
egrégio simplório procurará ser notado fazendo o que nove entre dez 
poderiam fazer muito bem feito. Certo candidato uma vez pregou um 
sermão sobre a palavra "mas", esperando com isso captar a simpatia dos 
congregados que, pensou ele, seriam arrebatados pelos poderes de um 
irmão capaz de alargar-se tão maravilhosamente sobre uma simples 
conjunção. Seu assunto parece ter consistido no fato de que, não importa 
o que haja de bom no caráter de um homem, ou de admirável em sua 
posição, o certo é que existe alguma dificuldade, algum sofrimento com 
relação a todos nós. "Naamã era um grande homem diante do seu senhor, 
mas – ". Quando o orador desceu do púlpito, os oficiais disseram: "Bem, 
senhor, seu sermão foi deveras singular, mas – o senhor não é o homem 
para o lugar; podemos ver isto com clareza". Ai da inventiva quando é 
tão comum, e com ela põe uma arma nas mãos do próprio adversário! 
Lembre-se de que a espiritualização não é uma esplêndida exibição 
de talento, mesmo que você tenha competência para fazê-la bem, e de 
que, sem discrição, é o método que mais se presta para revelar a sua 
egrégia insensatez. 
Cavalheiros, se aspiram a emular Orígenes em suas interpretações 
extravagantes e ousadas, talvez seria bom ler antes a sua biografia e 
observar as tolices às quais a sua maravilhosa mente foi arrastada por 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 140
permitir que uma desenfreada fantasia usurpasse a autoridade absoluta 
do seu critério de julgamento. E se se meterem a competir com os 
vulgares declamadores de uma geração passada, deixem-me lembrar-lhes 
que hoje em dia o gorro e os sinos já não desfrutam o mesmo patrocínio 
de poucos anos atrás. 
Prosseguindo, a quarta advertência é – nunca pervertam a Escritura 
para dar-lhe um sentido inusitado, pretensamente espiritual, para que não 
seja achado culpado face àquela solene maldição que resguarda e fecha o 
rol dos livros divinamente inspirados. O Sr. Cook, de Maidenhead, 
sentiu-se obrigado a separar-se de William Huntingdon porque este 
interpretou o sétimo mandamento como palavras ditas pelo Senhor ao 
Seu Filho dizendo: "Não cobiçarás a mulher do diabo, isto é, do não 
eleito". Só se pode dizer – horrível! Talvez fosse um insulto à sua razão 
e à sua religião dizer, detestem pensar em tal profanação. Instintivamente 
vocês o evitam. 
Outra coisa mais – em nenhum caso permitam que os seus ouvintes 
esqueçam que as narrativas que vocês espiritualizam são fatos, e não 
apenas mitos ou parábolas. O sentido primário da passagem não deve 
afogar-se na torrente da sua imaginação; deve ser declarado 
definidamente e ter preeminência. A acomodação que fizer do texto 
nunca deverá eliminar o sentido original e próprio, nem mesmo empurrá-
lo para um plano secundário. A Bíblia não é uma compilação de hábeis 
alegorias ou de instrutivas tradições poéticas; ensina fatos concretos e 
revela tremendas realidades. Faça com que a sua plena convicção desta 
verdade se manifeste a todos quantos acompanham o seu ministério. 
Serão péssimos dias para a igreja, se o púlpito vier a endossar a cética 
hipótese de que a Escritura Sagrada é apenas o registro de refinada 
mitologia, em que glóbulos da verdade se dissolvem em oceanos de 
pormenores poéticos e imaginários. 
Contudo, há um terreno legítimo para a espiritualização, ou seja, 
para o dom particular que leva os homens a espiritualizarem fatos. Por 
exemplo, muitas vezes tem sido demonstrado a vocês, irmãos, que os 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 141
tipos oferecem amplo escopo ao exercício do talento santificado. Por que 
precisam andar por aí para encontrar "mulheres aborrecidas" sobre quem 
pregar, quando têm diante de si o tabernáculo no deserto, com todo o seu 
aparelhamento sagrado, as ofertas queimadas, as ofertas pacificas, e 
todos os diferentes sacrifícios que eram oferecidos peranteo Senhor? Por 
que lutar por novidades. quando o templo e todas as suas glórias estão 
diante de vocês? A maior capacidade para a interpretação tipológica 
achará abundante emprego nos indubitáveis símbolos da Palavra de 
Deus, e será seguro praticar esse exercício, porque os símbolos foram 
ordenados por Deus. 
Quando tiverem exaurido todos os tipos do Velho Testamento, terão 
deixado ainda à sua disposição uma herança de mil metáforas. Benjamim 
Keach, em seu laborioso tratado, prova de maneira sumamente prática, 
que minas de verdades se ocultam nas metáforas da Escritura! A 
propósito, sua obra abre os flancos a muita crítica por fazer as metáforas, 
não só correrem com quatro, mas com muitas pernas, como um 
centípede; mas não merece a condenação que lhe imputa o Dr. Adam 
Clarke, quando diz que o livro de Keach fez mais que qualquer obra 
dessa natureza para rebaixar o gosto dos pregadores e do povo. Uma 
discreta explanação das alusões poéticas da Escritura Sagrada será muito 
aceitável aos seus ouvintes, e, com a bênção de Deus, não pouco 
proveitosa. 
Mas, supondo que tenham exposto todos os tipos geralmente 
aceitos, e que tenham esclarecido os emblemas e as expressões 
figuradas, o seu gosto por símiles e o seu prazer neles terão que ir 
dormir? De modo nenhum. Quando o autor sagrado vê mistério em 
Melquisedeque, e Paulo fala de Hagar e Sara desta forma: "O que se 
entende por alegoria", dão-nos precedente para a descoberta de alegorias 
bíblicas noutros lugares além dos dois mencionados. Na verdade, os 
livros históricos não somente nos dão aqui e ali uma alegoria, mas 
parecem em seu conjunto global arranjados com vistas ao ensino 
simbólico. 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 142
O Sr. Andrew Juke, no prefácio da sua obra sobre os tipos em 
Gênesis, mostra como, sem violência, uma pessoa devota pode construir 
uma teoria extremamente elaborada: 
"Como base ou fundamento do que vem a seguir, primeiro se nos 
mostra o que provém do homem, e todas as formas de vida que, pela 
natureza ou pela graça, podem desenvolver-se da raiz do velho Adão. Este é 
o livro de Gênesis. Então vemos que, seja bom ou mau que veio de Adão, 
tem que haver redenção; assim um povo eleito pelo sangue do Cordeiro é 
salvo do Egito. Disso trata Êxodo. Conhecida a redenção, chegamos à 
experiência dos eleitos como tendo necessidade de acesso a Deus o 
Redentor no santuário, e o aprendizado do caminho para ele. Obtemos isto 
em Levítico. Depois, no deserto deste mundo, como peregrinos egressos do 
Egito, da casa da servidão, rumo à terra prometida além do Jordão, ficamos 
sabendo das provações da viagem, desde aquela terra de maravilhas e do 
saber humano até à terra que mana leite e mel. Este é o livro de Números. 
Em seguida vem o desejo de trocar o deserto pela terra melhor; a entrada na 
qual se sabe que, por algum tempo depois da redenção, os eleitos ainda 
evitam; respondendo ao desejo dos eleitos, em certo estágio, de conhecer o 
poder da ressurreição, para viverem, mesmo no presente, como nos lugares 
celestiais. Seguem-se as regras e os preceitos que devem ser obedecidos, 
se isso há de se fazer. Deuteronômio, reiteração da lei, segunda purificação, 
fala do modo de progredir. 
"Depois disso chega-se de fato a Canaã. Atravessamos o Jordão; 
experimentamos na prática a morte da carne, e o que significa sermos 
circuncidados, e desfazer-nos do opróbrio do Egito. Sabemos agora o que é 
ressuscitar com Cristo e lutar, não contra carne e sangue, mas contra os 
principados e as potestades nos lugares celestiais. Este é o livro de Josué. 
Então vem o fracasso dos eleitos nos lugares celestiais, fracasso resultante 
das alianças feitas com os cananeus, em vez de se sobreporem a eles. 
Juízes no-lo mostra. Depois, as diferentes formas de governo, que a igreja 
pode conhecer, passam em revista nos livros de Reis, desde o primeiro 
estabelecimento de governo em Israel até a sua extinção, quando, devido 
seu pecado, o governo da Babilônia sobrepuja o dos eleitos. 
"Conhecido isto, com toda a sua vergonha, vemos os remanescentes 
dos eleitos, cada qual de acordo com a sua capacidade, fazendo o que está 
a seu alcance para, se possível, restaurar Israel: uns, como Esdras, voltando 
para construir o templo, isto é, para restaurar as formas do culto verdadeiro; 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 143
alguns vindo, como Neemias, para construir os muros, isto é, para 
restabelecer, com a permissão dos gentios, uma débil imitação da antiga 
comunidade política; enquanto em Ester um terceiro remanescente se vê 
cativo, mas fiel, salvo providencialmente, embora o nome de Deus (e isto é 
uma característica da sua condição) nunca apareça em parte alguma do 
registro todo". 
Longe de mim recomendar-lhes que sejam fantasiosos como às 
vezes é, o engenhoso autor que acabo de citar, mercê da sua tendência 
para o misticismo, todavia, lerão a Palavra com interesse cada vez maior 
se forem leitores bastante atentos para notar o curso geral dos livros da 
Bíblia, e a sua subseqüência como sistema de tipos. 
Outrossim, a faculdade que possibilita o bom emprego da 
espiritualização consiste em generalizar os grandes princípios universais 
desdobrados em fatos diminutos e isolados. Esta é uma busca engenhosa, 
instrutiva e legítima. Talvez vocês não se decidissem a pregar sobre 
"pega-lhe pela cauda", mas a observação que disso nos vem é muito 
natural: "há um jeito certo de pegar cada coisa". Moisés pegou a serpente 
pela cauda, e assim há um modo de agarrar as nossas aflições e vê-las 
enrijecer-se em nossas mãos, transformando-se numa vara prodigiosa; há 
um modo de sustentar as doutrinas da graça, um modo de confrontar-nos 
com os ímpios, e assim por diante. Em centenas de incidentes 
escriturísticos podemos achar grandes princípios gerais que talvez em 
nenhum lugar estejam expressos com tantas palavras. 
Tomem os seguintes exemplos, fornecidos pelo Sr. Jay. Do Salmo 
74:14, "Fizeste em pedaços as cabeças do leviatã, e o deste por 
mantimento aos habitantes do deserto", ele ensina que os maiores 
inimigos do povo de Deus, povo peregrino, serão mortos, e de que a 
lembrança da misericórdia revigorará os santos. De Gênesis 35:8, "E 
morreu Débora, a ama de Rebeca, e foi sepultada ao pé de Betel, debaixo 
do carvalho cujo nome chamou "Alom-Bacute", ele discursa sobre bons 
servidores e sobre a certeza da morte. Com base em 2 Samuel 15:15, 
"Então os servos do rei disseram ao rei: Eis aqui os teus servos, para 
tudo quanto determinar o rei, nosso senhor", mostra ele que essa 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 144
linguagem pode com propriedade ser adotada pelos cristãos, e dirigida a 
Cristo. Se alguém fizer objeção à forma de espiritualização que o Sr. Jay 
tão eficiente e judiciosamente se permitiu fazer, só pode ser uma pessoa 
cuja opinião não tem por que influir em vocês nem um pouco. Dentro da 
minha capacidade pessoal, tenho tomado a liberdade de fazer a mesma 
coisa, e os esboços dos meus sermões desse tipo podem ser encontrados 
em meu opúsculo Evening by Evening (Noite a Noite), e uma irrigação 
menos liberal em seu companheiro, Morning by Morning (Manhã a 
Manhã). 
Um notável exemplo de um bom sermão firmado numa base 
forçada e injustificável, é o de Everard, em seu Gospel Treasury 
(Tesouro do Evangelho). No discurso sobre Josué 15:16-17, onde as 
palavras são estas: "E disse Calebe: Quem ferir a Quiriate-Séfer, e a 
tomar, lhe darei a minha filha Acsa por mulher. Tomou-a pois Otniel, 
filho de Quenaz, irmão de Calebe; e deu-lhe a sua filha por mulher"; aqui 
o curso da elocução do pregador se baseia na tradução dos nomes 
próprios hebraicos, de maneira que ele propicia esta leitura: "Um bom 
coração disse: Quem ferir a cidade das letras, e a tomar, lhe darei a 
ruptura do véu. E Otniel viu nisso o tempo próprio ou a oportunidade de 
Deus, e se casou com Acsa, isto é, desfrutou a ruptura do véu, pelo que 
teve a bênção das fontes superiores e das fontes inferiores". Não haveria 
outro método para mostrarque devemos procurar o sentido interno da 
Escritura, e não ficar nas meras palavras, ou na letra do Livro? 
As parábolas do nosso Senhor, em sua apresentação e em seu 
vigor, fornecem o mais amplo escopo para a imaginação amadurecida e 
disciplinada, e se todas elas já passaram por vocês, ficam ainda os 
milagres, ricos de ensinos simbólicos. Não pode haver dúvida de que os 
milagres são sermões por meio de ações de nosso Senhor Jesus Cristo. 
Vocês têm Seus "sermões em palavras" em Seu ensino incomparável, e 
os Seus "sermões em atos" em Seus feitos sem par. Apesar de defeitos 
doutrinários, verão que Trench, sobre os milagres, é extremamente útil 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 145
nesta direção. Todas as poderosas obras de nosso Senhor estão repletas 
de ensinamentos. 
Tomem a história da cura do surdo-mudo. Os males que a pobre 
criatura padecia são eminentemente sugestivos quanto ao estado de 
perdigão do homem, e o modo de agir de nosso Senhor ilustra muito 
instrutivamente o plano da salvação. "Tirando-o à parte de entre a 
multidão" – é preciso fazer a alma dar-se conta da sua personalidade e 
individualidade, e deve ser levada a estar a sós. "Meteu-lhe os dedos nos 
ouvidos", indicando assim a fonte do defeito; os pecadores são 
convencidos do seu estado. "E, cuspindo" – o evangelho é um meio 
simples e desprezado, e o pecador, quanto à salvação, tem que se 
humilhar para recebê-la. "Tocou-lhe na língua", indicando também onde 
reside o defeito – o nosso senso de necessidade cresce em nós. "E, 
levantando os olhos ao céu" – Jesus lembrou a Seu paciente que todo o 
poder vem de cima – lição que todo suplicante deve aprender. 
"Suspirou", mostrando que as tristezas do Médico são os meios da nossa 
cura. Depois disse, "Efatá; isto é, abre-te" – eis aí a palavra eficaz da 
graça, que produz uma cura imediata, perfeita e duradoura. Tratem de 
aprender todas as lições desta única exposição, e sempre acreditem que 
os milagres de Cristo são uma grande galeria de quadros que ilustram a 
Sua obra entre os filhos dos homens. 
No entanto, seja isto uma instrução a todos quantos manuseiam 
parábolas ou metáforas, para que sejam discretos. O Dr. Gill é um 
personagem cujo nome deve ser sempre mencionado com honra e 
respeito nesta casa, em que seu púlpito ainda permanece, mas a sua 
exposição da parábola do filho pródigo parece-me ser absurda em alguns 
pontos. O douto comentador diz-nos que "o bezerro cevado" é o Senhor 
Jesus Cristo! A gente estremece ao ver a espiritualização chegar a isto. 
Depois há também a sua exposição da parábola do bom samaritano. O 
animal sobre o qual foi colocado o homem ferido é de novo o nosso 
Senhor, e os "dois dinheiros" que o bom samaritano deu ao hospedeiro 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 146
são o Velho e o Novo Testamentos, ou as ordenanças do batismo e da 
ceia do Senhor. 
A despeito desta precaução, vocês podem permitir grande 
amplitude na espiritualização a homens de raro temperamento poético, 
entre os quais João Bunyan. Cavalheiros, já leram alguma vez a 
espiritualização que João Bunyan fez do templo de Salomão? É uma 
realização sumamente notável, e mesmo sendo um pouco forçada, é 
repassada de santíssima ingenuidade. Tomem, como um espécime em 
particular, uma das suas mais rebuscadas explanações, e vejam se pode 
ser melhorada. É sobre "as folhas da porta do templo". 
"As folhas desta porta ou portal eram dobradiças, como já lhes disse, e 
assim, como foi sugerido, trazem consigo alguma significação. Por causa 
disto a pessoa, principalmente um novo discípulo, pode equivocar-se 
facilmente, pensando estar aberta toda a passagem, quando apenas uma 
parte o está, permanecendo três partes dela ainda sem se lhe revelar. Pois 
essas portas, como já disse, nunca antes foram abertas completamente, 
quero dizer, no antítipo; nunca o homem tinha visto todas as riquezas e a 
plenitude que há em Cristo. Assim digo que o recém-vindo, caso julgasse 
pela visão presente, especialmente se tivesse pequena capacidade de ver, 
poderia enganar-se facilmente; por conseguinte os novos discípulos ficam, 
na maioria, com um medo terrível de que nunca entrarão lá. 
"Que dizes, recém-vindo? Não é este o caso que se dá com a tua 
alma? Pois te parece que és muito grande, sendo na verdade tão grande, 
exageradamente inchado pecador! Mas, ó tu, pecador, não temas; as portas 
são dobradiças, e podem abrir-se mais, e depois abrir-se mais ainda. 
Portanto, ao chegares a esse portal, e imaginares que não há espaço 
suficiente para que entres, bate, e ela se te abrirá mais amplamente, e serás 
recebido (Lucas 11:9; João 6:37). Assim, pois, sejas quem fores, chegado à 
porta da qual o templo era um tipo, não te fies em tuas primeiras concepções 
das coisas, mas crê que há graça abundante. Ainda não sabes o que Cristo 
pode fazer; as portas são dobradiças. "Ele é poderoso para fazer tudo muito 
mais abundantemente além daquilo que pedimos ou pensamos" (Efésios 
3:20). Os gonzos sobre os quais essas portas giram, eram, como lhes falei, 
de ouro; quer dizer que ambas giravam sobre motivos e impulsos de amor, e 
também suas aberturas eram ricas. Gonzos de ouro na porta, para Deus 
girar em torno deles. As ombreiras em que essas portas se fixavam eram de 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 147
oliveira, dessa árvore gorda e oleosa, para mostrar que nunca se abrem com 
relutância ou com lentidão, como portas a cujos gonzos falta óleo. Elas estão 
sempre oleosas, e assim se abrem com facilidade e rapidez aos que batem. 
Daí se lê que Aquele que habita nessa casa faz dádivas e ama por Sua livre 
graça, e nos faz o bem de todo o coração. Sim, diz Ele, "alegrar-me-ei por 
causa deles, fazendo-lhes bem; e os plantarei nesta terra certamente, com 
todo o meu coração e com toda a minha alma" (Jer. 3:12,14,22; 32:41; Apoc. 
21:6; 22:17). Portanto, o óleo da graça, simbolizada por esta oliveira, ou 
essas ombreiras de oliveira, em que estão fixas estas portas, fazem que elas 
se abram soltas ou francas para a alma." 
Quando Bunyan revela o significado de serem as portas de faia, 
quem senão ele diria: "A faia é também a casa da cegonha, ave imunda, 
como Cristo é abrigo e amparo dos pecadores"? "Pois quanto à cegonha, 
diz o texto, a faia é sua casa; e Cristo diz aos pecadores que percebem 
sua necessidade de amparo: "Vinde a mim, e encontrareis descanso". Ele 
é um refúgio para os oprimidos, refúgio em tempo de aflição (Deut. 
14:18; Lev. 11:19; Sal. 104:17 e 74:2-3; Mat. 11:27-28; Heb. 6:17-20)". 
Em sua "Casa da Floresta do Líbano" Bunyan é ainda mais 
enigmático, mas leva adiante a sua empreitada como nenhum outro 
homem poderia tê-lo feito. Ele acha que as três filas de colunas, de 
quinze colunas cada uma, são um enigma demasiado difícil para ele, e 
desiste, não porém antes de fazer algumas bravias tentativas sobre isso. 
O Sr. Bunyan é o principal, o maior, o chefe de todos os alegoristas, e 
não deve ser seguido por nós às profundezas da comunicação típica e 
simbólica. Ele era um mergulhador, nós não passamos de vadeadores; 
não devemos ir além dos nossos níveis de profundidade. 
Sinto-me tentado, antes de encerrar esta palestra, a dar um ou dois 
esboços de espiritualizações que conheci nos meus primeiros tempos. 
Nunca esquecerei um sermão pregado por um homem sem instrução, 
mas notável, que foi meu vizinho próximo no campo. Obtive dos seus 
próprios lábios as anotações do discurso, e eu esperava que 
permanecessem como puras notas, e nunca mais fossem usadas para 
pregação neste mundo. O texto era: "O avestruz, o mocho e o cuco". 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 148
Talvez o texto não lhes dê a impressão de ter conteúdo muito rico; foi a 
impressão que me deu, e, portanto, perguntei inocentemente: "E as 
cabeças (i. é, divisões do sermão) como eram?" Ele respondeu 
astutamente: "Cabeças? Ora, torça os pescoços das aves, e terá três pura 
e simplesmente: o avestruz, o mocho e o cuco". Mostrou que essas aves 
eram imundas sob a lei, e claros tipos dos pecadores impuros.Os 
avestruzes são pessoas que roubam sorrateiramente, e também pessoas 
que adulteram as suas mercadorias e trapaceiam, enganando o próximo 
às escondidas, sem que este suspeite que elas são uns patifes. Quanto aos 
mochos, tipificam os ébrios, ativos de noite, mas de dia quase dão com a 
cabeça num poste, de tão sonolentos. Há mochos entre os cristãos 
professos também. O mocho depenado é uma ave muito pequena. Só 
parece grande porque tem muitas penas. Assim, muitos crentes professos 
são só penas, e se você pudesse arrancar as suas jactanciosas profissões 
de fé, bem pouca coisa sobraria deles. A seguir, os cucos são os 
membros do clero da igreja, que dão sempre a mesma nota, toda vez que 
abrem a boca na igreja, e vivem à custa dos ovos de outros pássaros, com 
as suas taxas eclesiásticas e com os dízimo. Os cucos são também, penso 
eu, os crentes no livre arbítrio, no poder da vontade, que estão sempre 
dizendo: "cum-pra-tu-do-tu-do". 
Não é isso na verdade uma coisa muito boa? Contudo, vindo do 
homem que pregou o sermão, não pareceu nem notável nem 
extraordinário. O mesmo venerável irmão pregou um sermão igualmente 
singular, mas muito mais original e útil. Os que o ouviram lembrá-lo-ão 
até o dia da sua morte. Baseou-se no texto: "O preguiçoso não assará a 
sua caça". O bom ancião inclinou-se no alto do púlpito, e disse: "Então, 
meus irmãos, ele era mesmo um mandrião!" Esse foi o exórdio. Depois 
prosseguiu dizendo: "Ele foi a uma caçada e, depois de muita 
dificuldade, pegou uma lebre, e foi preguiçoso demais para assá-la. Era 
um sujeito preguiçoso mesmo!" 
O homem nos fez sentir quão ridícula é uma preguiça assim, e 
depois disse: "Mas vocês não têm autoridade para acusar esse homem, 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 149
pois fazem justamente a mesma coisa. Ouvem falar da vinda de um 
pregador popular de Londres, atrelam o cavalo à carroça, viajam vinte ou 
trinta quilômetros para ouvi-lo e, depois de terem ouvido o sermão, 
esquecem-se de tirar proveito dele. Cagam a lebre e não a assam; vão 
cagar a verdade e depois não a recebem". 
Daí continuou, para mostrar que, assim como a carne precisa de 
cozimento para ficar boa para ser assimilada pelo organismo – não creio 
que fosse esta a sua terminologia – assim a verdade precisa passar por 
certo processo antes de poder ser recebida pela mente, a fim de que 
sejamos alimentados com ela e cresçamos. Disse que ia mostrar como se 
cozinha um sermão, e o fez da maneira mais instrutiva. Começou como 
começam as receitas dos livros de culinária – "Primeiro pegue a lebre." 
"Assim", disse ele, "primeiro pegue um sermão baseado no evangelho." 
Aí declarou que havia muitos sermões que não valia a pena caçar, e que, 
lamentavelmente, eram muito raros os bons sermões, e valia a pena 
vencer qualquer distância para ouvir um discurso calvinista, sólido e no 
velho estilo. Portanto, depois de pego o sermão, poderia ser necessário 
fazer muita coisa acerca dele, pois, dada a deficiência do pregador, 
poderia haver boa parte não aproveitável, que teria que ser lançada fora. 
Aqui se alongou sobre discernir e julgar o que ouvimos, e sobre não 
acreditar em todas as palavras de qualquer pregador. Seguiram-se depois 
instruções sobre como assar um sermão: atravessem-no de ponta a ponta 
com o espeto da memória, girem-no no cavalete da meditação, ao fogo 
do coração realmente cálido e fervoroso, e deste modo o sermão ficará 
bem assado e pronto para dar verdadeira nutrição espiritual. 
Dou-lhes apenas o esboço, e embora possa parecer-lhes algo risível, 
não foi considerado assim pelos ouvintes. Estava repleto de alegorias, e 
prendeu a atenção do auditório do começo ao fim. 
"Olá, caro senhor, como vai?", foi como o saudei certa manhã. 
"Alegra-me vê-lo tão bem em sua idade." "Sim", disse ele, "estou em boa 
forma para um velho, e praticamente não sinto fraqueza nenhuma." 
"Espero que o seu bom estado de saúde continue durante anos ainda, e 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 150
que, como Moisés, desça ao túmulo sem se escurecerem os seus olhos e 
sem perder o seu vigor." "Ótimo tudo isso!", disse o velho cavalheiro, 
"mas, em primeiro lugar, Moisés nunca desceu ao túmulo, mas subiu a 
ele; e, em segundo lugar, qual é o significado de tudo isso que está 
falando? Por que os olhos de Moisés não se escureceram?" "Suponho, 
senhor", disse eu com muita brandura, "que o seu modo natural de viver 
e o espírito tranqüilo o ajudaram a conservar as suas faculdades e a fazer 
dele um vigoroso ancião." "Muito provável", disse ele, "mas não era 
nisso que eu estava pensando; qual o sentido, o ensinamento espiritual da 
coisa toda? Não será este? – Moisés é a lei, e que glorioso fim o Senhor 
deu à lei no monte em que consumou a Sua obra!Com que dulçor os 
Seus terrores foram postos a dormir com um beijo da boca de Deus! E, 
note bem, a razão pela qual a lei não nos condena mais, não é que os 
seus olhos se escureceram, como se ela não pudesse ver o nosso pecado, 
ou porque perdeu o seu vigor com o qual pudesse amaldiçoar e punir; 
mas Cristo a levou ao alto do monte, e gloriosamente lhe deu fim." 
Era essa a sua maneira comum de falar, e assim era o seu 
ministério. Paz para as suas cinzas! Apascentou ovelhas nos primeiros 
anos da sua vida, e foi pastor de homens depois disso, e, como 
costumava dizer-me, "achava os homens muito mais dóceis do que 
aqueles tímidos animais". Os conversos que acharam o caminho do céu 
sob o seu trabalho foram tantos que, quando os lembramos, ficamos 
como aqueles que viram o coxo saltando pela palavra de Pedro e João; 
estavam dispostos a criticar, mas, vendo o homem que fora curado, de pé 
junto de Pedro e João, nada puderam dizer contra. 
Com isto encerro, reafirmando a opinião de que, guiados pela 
discrição e pelo bom siso, podemos empregar ocasionalmente a 
espiritualização com bom efeito para os nossos ouvintes; certamente os 
interessaremos e os manteremos despertos. 
 
 
 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 151
A VOZ 
 
Nossa primeira regra quanto à voz seria – não pensem muito nisso, 
pois, conseguir a voz mais agradável nada é, se não houver algo que 
dizer, e por melhor que seja a utilização dela, será como uma carruagem 
bem dirigida, vazia no seu interior, a menos que vocês transmitam por 
meio dela verdades importantes e oportunas a seu povo. Sem dúvida 
Demóstenes estava certo atribuindo um primeiro, segundo e um terceiro 
lugar à boa transmissão; mas que valor terá, se o homem não tiver nada 
para transmitir? 
O homem dotado de voz inexcedivelmente excelente, mas 
destituído de cabeça bem informada e de coração fervoroso, será "uma 
voz que clama no deserto", ou, para usar a expressão de Plutarco, "Vox et 
praeterea nihil" (Voz, e nada mais). Tal homem pode brilhar no coro, 
mas é inútil no púlpito. A voz de Whitefield, sem o poder do coração, 
não teria deixado sobre os seus ouvintes efeitos mais duradouros do que 
os do violino de Paganini. Irmãos, vocês não são cantores, mas 
pregadores; sua voz é de secundária importância; não se envaideçam 
com ela, nem se lamentem como se fossem inválidos por causa dela, 
como tantos o fazem. Uma trombeta não precisa ser feita de prata; um 
chifre de carneiro basta. É preciso, porém, que agüente rude uso, pois as 
trombetas são para os conflitos bélicos, não para os salões de recepção 
da moda. 
Por outro lado, não subestimem demais as suas vozes, pois a 
qualidade excelente delas contribui grandemente para conduzir ao 
resultado que vocês esperam produzir. Confessando o poder da 
eloqüência, Platão menciona o tom de voz do orador. "Tão 
poderosamente", diz ele, "a elocução e o tom do orador repercutem em 
meus ouvidos, que dificilmente lá pelo terceiro ou quarto dia caio em 
mim, percebendo em que ponto da terra estou; e por algum tempo fico 
querendo acreditar que estou vivendo nas ilhas dos bem-aventurados." 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 152
Verdades sumamente preciosas podem ser grandemente maculadas 
por serem transmitidas em tom monótono. Umavez ouvi um ministro 
muito estimado, mas que zumbia tristemente, como "uma humilde 
abelha num jarro" – metáfora vulgar, sem dúvida, mas que oferece 
descrição tão exata que traz à minha mente neste instante, e de modo 
bem destacado, o som do zunido, e me faz lembrar a paródia da Elegia, 
de Gray: 
"Da vista o tênue tema já se esvai, 
e dormente quietude o ar retém, 
salvo onde o cura voa e a zumbir vai 
fazendo o seu rebanho dormir bem". 
Que lástima, um homem transmitir do coração doutrinas de 
indubitável valor, em linguagem a mais apropriada, e cometer suicídio 
harpejando numa corda só, quando o Senhor lhe deu um instrumento de 
muitas cordas para tocar! Ah! aquela voz enfadonha! Zumbia e zumbia, 
como uma roda de moinho, sempre no mesmo tom nada musical, quer 
seu dono falasse do céu quer falasse do inferno, da vida eterna ou da ira 
perpétua. Podia ficar, por acidente, um pouco mais alta ou mais suave, 
conforme o comprimento da frase, mas o tom era sempre o mesmo, uma 
cansativa vastidão de som, um uivante deserto de linguagem falada em 
que não havia alívio possível, nem variação, nem musicalidade nada, 
senão uma horrível mesmice. 
Quando o vento sopra através da harpa eólia, ele ondula em suas 
vibrações através de todas as cordas, mas o vento celestial, passando por 
alguns homens, desgasta-se numa corda só, e isso, na maior parte, 
tremendamente fora da harmonia do todo. Somente a graça poderia 
capacitar os ouvintes a edificar-se debaixo do tantã de alguns ministros. 
Creio que um júri imparcial daria um veredicto de sono justificável em 
muitos casos em que o som proveniente do pregador acalenta os 
ouvintes, fazendo-os dormir com a sua nota sempre repetida. O Dr. 
Guthrie caridosamente atribui o sono dos dorminhocos de certa igreja 
escocesa à má ventilação do local de reuniões; este fator tem algo que 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 153
ver com isso, mas a má condição das válvulas da garganta do pregador 
talvez seja uma causa mais poderosa ainda. Irmãos, em nome de tudo 
que é sagrado, toquem todo o carrilhão do seu campanário, e não 
importunem o seu público com o blim-blem-blom de um pobre sino 
rachado. 
Quando derem atenção à voz, tenham o cuidado de não caírem nos 
maneirismos habituais e comuns dos dias atuais. Raramente um homem 
em doze no púlpito, fala como homem varonil. Estes maneirismos 
enfatuados não se restringem aos protestantes, pois o abade Mullois 
observa, "em todos os demais lugares, os homens falam; falam no balcão 
e na tribuna. Já no púlpito, porém, não falam, pois ali só encontramos 
linguagem fictícia e artificial, e tons falsos. Este estilo de falar só se 
tolera na igreja porque, infelizmente, está por demais generalizado ali; 
em nenhum outro lugar seria tolerado. Que se pensaria de um homem 
que conversasse daquela maneira numa sala de visitas? Certamente 
provocaria muitos sorrisos. 
Há algum tempo havia um guarda do Panteão – bom sujeito a seu 
modo – que, ao enumerar as belezas do monumento, adotava 
precisamente o tom de muitos de nossos pregadores, pelo que nunca 
deixou de provocar a hilaridade dos visitantes, que tanto se divertiam 
com o seu modo de falar, como com os objetos de interesse que ele lhes 
mostrava. O homem que não faz transmissão natural e genuína, não 
deveria ter a permissão de ocupar o púlpito. Pelo menos dali, tudo que é 
falso deveria ser banido sumariamente. 
Nestes tempos de desconfiança, tudo que é falso deveria ser posto 
de lado; e o melhor modo pelo qual a gente pode corrigir-se nesse 
aspecto, quanto à pregação, é ouvir muitas vezes a certos pregadores 
monótonos ou apaixonados. Sairemos com tanto desgosto e com tanto 
horror da sua apresentação, que preferiremos reduzir-nos ao silêncio, a 
imitá-los. No momento em que você abandona o natural e o genuíno, 
perde o direito de ser crido, bem como o direito de ser ouvido. 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 154
Irmãos, vocês podem andar por aí, visitando igrejas e congregações, 
e verão que a imensa maioria dos nossos pregadores tem um tom de voz 
santo para os domingos. Tem uma voz para a sala de visitas e para o 
quarto de dormir, e outro tom completamente diverso para o púlpito, de 
sorte que, se não são dúplices, de língua pecaminosamente, são-no por 
certo literalmente. No momento em que alguns homens cerram a porta 
do púlpito, deixam para trás a sua varonilidade pessoal, e se tornam tão 
formais quanto o porteiro da comunidade. Quase que poderiam gabar-se 
com o fariseu de que não são como os demais homens, conquanto seria 
blasfêmia dar graças a Deus por isso. Deixam de ser carne e osso, já não 
falam como homens, mas adotam um ganido, um roto gaguejar, um ore 
rotundo (boca redonda) ou algum outro modo desgracioso de fazer 
barulho, tudo isso para impedir toda suspeita de que não estão sendo 
naturais e não estão falando do que está cheio o seu coração. Quando é 
posta a veste sacral, quantas vezes fica patente que ela é a mortalha do 
verdadeiro homem, e o efeminado emblema do formalismo! 
Há dois ou três modos de falar que ouso dizer que vocês 
reconhecerão tê-los ouvido muitas vezes. Aquele estilo engrandecido, 
doutoral, inflado, bombástico, que há pouco chamei de ore rotundo, não 
é tão comum agora como costumava ser, mas ainda é admirado por 
alguns. (Desafortunadamente, não se pode representar o preletor aqui 
com nenhuma forma de letra de imprensa conhecida, quando se pôs a ler 
um hino com voz grandiosa, ondulante e empolada.) 
Quando um respeitável cavalheiro estava certa vez soprando vapor 
desse jeito, um homem no corredor da igreja disse que pensava que o 
pregador "tinha engolido um bolinho quente", mas outro cochichou: 
"Não, Jack, não foi isso: ele tragou um diabinho". Posso imaginar o Dr. 
Johnson falando desse modo em Bolt Court; e de homens aos quais esse 
estilo é natural, sai com grandiosidade olímpica; mas no púlpito, fora 
com toda imitação dele, para sempre! Se vem naturalmente, muito bem e 
muito bom, mas imitá-lo é trair a decência comum. Na verdade, no 
púlpito, toda imitação é parente chegado de um pecado imperdoável. 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 155
Há outro estilo do qual lhes rogo que não achem engraçado. É o 
método de enunciação que se diz ser muito feminilmente elegante, 
adocicado, delicado, tipo criadinha de salão, fútil. Opaco e enfadonho, 
não sei como descrevê-lo melhor. A maioria de nós já teve a infelicidade 
de ouvir estas ou algumas outras espécies do amplo gênero de falsetes, 
maneirismos e altos vôos bombásticos. Ouvi-as nas mais diversas 
variedades, desde as formas recheadas à Johnson, até a rala magreza do 
frágil e gentil sussurro; desde o urro dos touros de Basã até o tip, tip, tip 
do tentilhão. Pude seguir a pista de alguns deles até os seus antepassados 
(refiro-me aos seus antepassados ministeriais) de quem recolheram 
originalmente estes modos seráficos de falar, melodiosos, santificados, 
belos em todos os aspectos – mas, devo acrescentar honestamente, 
detestáveis! A indubitável ordem do registro genealógico da sua oratória 
é como se segue: Soquinho, que era filho de Gaguejo, que era filho de 
Sorrisinho, que era filho de Dândi, que era filho de Maneirismo; ou 
Rebolante, que era filho de Pomposa, que era filho de Ostentação – de 
muitos filhos o pai era o mesmo. 
Entendam, até onde esses horrores de som sejam naturais, não os 
condeno – fale cada criatura em sua própria língua. Mas o fato é que em 
nove de cada dez casos, estes dialetos sagrados, que espero logo hão de 
ser línguas mortas, são inaturais e forçados. Estou persuadido de que 
esses tons, semitons e "monotons" são babilônicos, e absolutamente não 
pertencem ao dialeto de Jerusalém, pois o dialeto de Jerusalém tem a sua 
característica distintiva, que é o modo de falar próprio do homem, e esse 
modo é o mesmo, fora do púlpito e dentro dele. O nosso amigo da 
sofisticada escola do ore rotundo nunca foi visto falando fora do púlpito 
como o faz estando nele, ou falando na sala de visitas no mesmo tom que 
empregano púlpito: "Você terá a bondade de me servir outra chávena de 
chá? Usarei açúcar, se isto lhe aprouver". Far-se-ia ridículo se agisse 
assim, mas o púlpito há de ser favorecido com a escória da sua voz, que 
a sala de visitas não toleraria. 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 156
Sustento que as melhores notas de que a voz de um homem é capaz 
deveriam ser dedicadas à proclamação do evangelho, e são precisamente 
as que a natureza lhe ensina a usar numa conversação séria. Ezequiel 
servia a seu Senhor com as suas faculdades mais musicais e melodiosos, 
de modo que Deus lhe disse: "E eis que tu és para eles como uma canção 
de amores, canção de quem tem voz suave, e que bem tange". Ah! isso 
de nada valeu, porém, para o duro coração de Israel, pois nada lhe valerá 
exceto o Espírito de Deus; todavia, assentou bem ao profeta proclamar a 
Palavra do Senhor no melhor estilo de voz e de modos. 
Prosseguindo, se vocês têm quaisquer idiossincrasias no falar, 
desagradáveis ao ouvido, corrijam-nas, se possível. 1 Admite-se que é 
mais fácil ao professor sugerir-lhes isto do que a vocês praticá-lo. 
Entretanto, para os jovens que se acham no alvor do seu ministério, a 
dificuldade não é insuperável. Irmãos oriundos da zona rural têm na boca 
o sabor do seu rústico regime de vida, lembrando-nos irresistivelmente 
os novilhos de Essex, os leitões de Berkshire ou os animais anões de 
Suffolk. Quem poderá deixar de reconhecer os dialetos de Yorkshire e 
Somersetshire, que não são apenas pronúncias regionais, mas entonações 
regionais também? Seria difícil descobrir a causa, mas o fato bastante 
claro é que em alguns condados da Inglaterra as gargantas dos homens 
parecem cobertas de pigarro, como chaleiras usadas durante muito 
tempo, e noutros elas soam como música de um instrumento de latão, 
com defeituoso som metálico. Estas variações da natureza podem ser 
belas em sua ocasião e lugar, mas o meu gosto nunca pode apreciá-las. 
Do agudo e dissonante chiado, como o de uma tesoura enferrujada, 
livremo-nos a todo risco. 
A mesma coisa a fala inarticulada e densa em que nenhuma palavra 
é pronunciada completamente, mas os substantivos, os adjetivos e os 
verbos viram uma espécie de picadinho. Igualmente objetável é aquela 
 
1 "Cuidado com qualquer coisa que seja grosseira ou sofisticada, na gesticulação, nas frases ou na 
pronúncia." – João Wesley. 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 157
maneira fantasmagórica de falar em que a pessoa fala sem mover os 
lábios, no mais horrível ventriloqüismo; tons sepulcrais podem servir 
para levar alguém a tornar-se agente funerário, mas não se chama Lázaro 
para fora do túmulo com gemidos surdos. Um dos meios mais seguros de 
você matar-se é falar da garganta, e não da boca. Este uso errôneo da 
natureza será vingado terrivelmente por ela; fujam da pena evitando a 
ofensa. 
Talvez seja bom neste ponto concitá-los a que, tão logo se dêem 
conta de que estão gaguejando muito durante um discurso, tratem de 
expurgar de uma vez o insinuante, mas ruinoso hábito. Não há nenhuma 
necessidade dele e, embora os que agora são suas vítimas talvez nunca 
possam romper as cadeias, vocês, principiantes na oratória, podem 
desprezar esse exasperante jugo. É até preciso dizer, abram a boca 
quando falam, pois muito resmungo desarticulado resulta de se manter a 
boca meio fechada. Não é à toa que os evangelistas escreveram a 
respeito de nosso Senhor: "E, abrindo a sua boca, os ensinava". Abram 
bem as portas pelas quais há de sair marchando tão benéfica verdade! 
Além disso, irmãos, evitem o emprego do nariz como órgão da expressão 
oral, pois as melhores autoridades concordam que a função que lhe cabe 
é a de cheirar. Tempo houve em que era correto falar fanhoso, mas nesta 
era degenerada farão melhor em obedecer à evidente sugestão da 
natureza, deixando que a boca faça o seu trabalho sem interferência do 
aparelho olfativo. Se estiver presente um estudante americano, terá que 
me escusar por salientar esse ponto para chamar-lhe a atenção. 
Detestem também a prática de alguns que não pronunciam a letra 
"r". Esse hábito é "deveuas uinoso e uidículo, deveuas uepugnante e 
uepuensível". Ocasionalmente um irmão tem a ventura de possuir um 
cativante e delicioso balbucio. Talvez esteja entre os menores males, 
quando o próprio pregador é franzino e simpático, mas arruinaria a todo 
aquele que visasse à virilidade e ao poder. Mal posso imaginar Elias 
gaguejando a Acabe, ou Paulo graciosamente entrecortando as suas 
palavras na Colina de Marte. 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 158
Pode haver algo peculiarmente patético em olhos fracos e 
lacrimejantes, bem como num estilo titubeante; iremos mais longe, 
admitindo que, quando essas coisas decorrem de intensa paixão, são 
sublimes. Alguns, porém, as possuem de nascimento, e as utilizam com 
excessiva liberdade. Para dizer o mínimo, vocês não têm por que imitá-
los. Falem como a natureza educada lhes sugerir, e farão bem; mas que 
seja a natureza educada, não a crua, rude e sem cultivo. 
Como sabem, Demóstenes trabalhava a duras penas com a sua voz, 
e Cícero, fraco por natureza, fez longa viagem à Grécia para corrigir o 
seu modo de falar. Tendo nós temas muito mais nobres, não tenhamos 
menor ambição pela excelência. "Privem-se de tudo mais", diz Gregório 
de Nazianzeno, "mas, deixem-me a eloqüência, e nunca deplorarei as 
viagens que fiz para estudá-la." . 
Falem sempre de maneira que sejam ouvidos. Conheço um homem 
de peso enorme, e que deveria poder ser ouvido a quase um quilômetro, 
mas é tão insipidamente indolente que em seu pequeno local de culto 
você mal pode ouvi-lo da parte da frente da galeria. Que utilidade tem 
um pregador que os homens não conseguem ouvir? A modéstia deveria 
levar o homem sem voz a dar seu lugar a outros mais bem dotados para a 
obra de proclamar as mensagens do Rei. Alguns falam bastante alto, mas 
sem clareza; suas palavras se sobrepõem umas às outras, ou brincam de 
pular sela, ou passam rasteira umas nas outras. 
Falar de maneira clara e definida é mais importante do que ter 
muito fôlego. Dê boa oportunidade a uma palavra; não quebre as costas 
dela com a sua veemência, nem lhe arranque as pernas em sua pressa. É 
odioso ouvir um grandalhão murmurar e sussurrar quando os seus 
pulmões são bastante fortes para possibilitar-lhe falar bem alto. Mas, ao 
mesmo tempo, ainda que o pregador sempre grite vigorosamente, não 
será bem ouvido se não aprender a lançar para frente as suas palavras 
com o devido espaço entre elas. 
Falar muito devagar é serviço miserável, e sujeita os ouvintes 
mentalmente ágeis à doença chamada "horrores". É impossível ouvir um 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 159
homem que rasteja a um quilômetro por hora. Uma palavra hoje, outra 
amanhã, é uma espécie de fogo lento de que somente os mártires 
poderiam gostar. Falar depressa demais, com violência e furor que 
resultam numa linguagem completamente bombástica, não tem desculpa 
alguma. Não tem, nem nunca poderá ter poder, exceto para os idiotas, 
pois transforma numa turbamulta o que deveria ser um exército de 
palavras, e terá a máxima eficiência em afogar os sentidos em torrentes 
de som. Ocasionalmente se ouve um enfurecido orador de fala indistinta, 
cuja impetuosidade o precipita a uma tal confusão de sons, que logo a 
gente se lembra dos versos de Lucan: 
"Sua língua mole um tom murmurante confunde, 
dissonante e diverso dos humanos sons; 
lembra o latir dos cães ou o uivar dos lobos, 
o soturno piar do mocho á meia-noite; 
das cobras o silvar, do leão o "rugir, 
das ondas o entrechoque, a esbater-se na praia; 
o gemido do vento na frondosa mata 
e o espocar do trovão na lacerada nuvem. 
Todas estas coisas numa só". 
É castigo que não dá para agüentar duas vezes, ouvir quem 
confunde transpiração com inspiração, e dispara como um cavalo 
selvagem como um vespão no ouvido, até perder o fôlego, só fazendo 
pausa para encher de novo os pulmões. A repetiçãodesta indecência 
várias vezes num sermão não é incomum, mas é muito penosa; pausa 
feita a cada passo, para impedir aquele "ufa, ufa" que produz mais 
piedade pelo orador ofegante do que simpatia pelo assunto tratado. 
Nossos ouvintes nem devem perceber que respiramos. O processo de 
respiração deve passar tão despercebido como a circulação do sangue. 
Não fica bem deixar que a simples função animal de inspirar e expirar 
ocasione algum hiato em nosso discurso. 
Não forcem a voz ao máximo na pregação comum. Dois ou três 
varões fervorosos aqui presentes andam fazendo-se em pedaços com 
seus berros desnecessários; os seus pobres pulmões estão irritados, e suas 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 160
laringes estão inflamadas, por causa dos seus furiosos gritos, que 
parecem incapazes de reprimir. Ora, está muito bem atender à exortação: 
"Clama em alta voz, não te detenhas", mas o conselho apostólico é: "Não 
te faças nenhum mal." Quando as pessoas podem ouvi-lo com a metade 
da voz, é bom economizar a força excedente para as ocasiões em que 
seja necessária. "Não gastes demais; falta não terás", pode aplicar-se aqui 
como em qualquer outra parte. Sejam econômicos com esse enorme 
volume de som. Não dêem aos seus ouvintes dor de cabeça, quando o 
desejo é dar-lhes dor de coração. A intenção é impedir que durmam nos 
bancos, mas, lembrem-se de que não é preciso estourar os tímpanos 
deles. "O Senhor não estava no vento." Trovão não é raio. Os homens 
não ouvem na proporção do barulho produzido; na verdade, barulho 
demais ensurdece a gente, cria repercussões e ecos, e efetivamente 
prejudica o poder dos seus sermões. Adaptem suas vozes ao auditório; 
quando vinte mil estão diante de vocês, abram os registros e estrondem 
com todo o vigor, mas não num recinto em que cabem apenas uma 
vintena ou duas. 
Sempre que entro num lugar para pregar, inconscientemente calculo 
quanto som é necessário para enchê-lo, e depois de uma poucas frases, a 
minha tonalidade já está ajustada. Se puderem fazer o homem que está 
no outro extremo do templo ouvir, se puderem ver que ele está captando 
o seu pensamento, poderão estar seguros de que os que estão mais perto 
podem ouvi-los, e não será necessário pôr mais força – talvez seja bom 
diminuí-la um pouco. Experimentem e vejam. Por que falar de modo que 
seja ouvido na rua, quando lá não há ninguém para ouvir? Seja um 
recinto fechado, seja ao ar livre, vejam que os mais distantes ouvintes 
possam acompanhá-los, e isto será suficiente. 
A propósito, devo observar que os irmãos deveriam, por 
misericórdia dos enfermos, atentar sempre com muito cuidado para a 
força das suas vozes nos quartos de doentes e nas igrejas em que se sabe 
que alguns estão muito fracos. É cruel sentar-se ao pés do leito de um 
enfermo e gritar: "O SENHOR É O MEU PASTOR: NADA ME FALTARÁ". Se 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 161
vocês agirem impensadamente assim, o pobre homem dirá logo que 
tiverem descido as escadas: "Ai !Ai! Como me dói a cabeça! Alegra-me 
que o homem tenha ido embora, Mary; esse salmo é muito precioso e 
parece tão tranqüilo, mas ele o leu como raios e trovões, e quase me 
deixou surdo!" Lembrem-se vocês, irmãos mais jovens e solteiros, que 
suaves sussurros servirão melhor ao desvalido do que o rufar de 
tambores e o estampido de trabucos. 
Observem cuidadosamente a regra que manda variar a intensidade 
da voz. A velha regra era: comece de modo bem suave, vá subindo o tom 
gradativamente, e no fim produza as suas notas mais altas. Que esses 
regulamentos sejam estourados à boca do canhão; são inoportunos e 
enganosos. Falem baixo ou alto, conforme a emoção do momento lhes 
sugira, e não observem normas artificiais e fantasiosas. Regras artificiais 
são uma abominação total. Como M. de Cormorin satiricamente o 
coloca: "Seja apaixonado, troveje, entusiasme-se, chore, até à quinta 
palavra da terceira frase do décimo parágrafo da folha dez. Como seria 
fácil! Sobretudo, quão espontâneo!" 
Imitando um pregador popular, a quem isto era inevitável, certo 
ministro se acostumou a falar em tão baixa tonalidade, que ninguém 
conseguia ouvi-lo. Todos se inclinavam para diante, temendo que algo 
importante se estivesse perdendo no ar, mas o esforço era vão; um santo 
sussurro era tudo que podiam discernir. Se o irmão não fosse capaz de 
falar, ninguém o teria acusado, mas era a coisa mais absurda fazer o que 
fazia quando em curto lapso de tempo provava o poder dos seus pulmões 
enchendo o edifício de sonoras frases. Se a primeira parte do seu 
discurso não era importante, por que não omiti-la? Se tinha algum valor, 
por que não apresentá-la audivelmente? 
Efeito, cavalheiros, era o fim que tinha em vista. Ele sabia que 
alguém que falava daquele modo tinha produzido efeitos grandiosos, e 
esperava rivalizar com ele. Se algum de vocês ousar cometer tal loucura 
com o mesmo objetivo detestável, de coração eu preferiria que essa 
pessoa nunca tivesse entrado nesta instituição. Digo-lhes com a maior 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 162
seriedade que essa coisa chamada "efeito" é odiosa porque é falsa, 
artificial e ardilosa manha, e, portanto, é desprezível. Nunca façam nada 
para obter efeito, mas desprezem os estratagemas das mentes estreitas 
que andam em busca da aprovação dos peritos em pregação que 
constituem uma raça tão odiosa para o verdadeiro ministro como os 
gafanhotos para o lavrador oriental. Mas estou fazendo digressão; sejam 
claros e definidamente audíveis logo no início. 
Os seus exórdios são bons demais para serem cochichados para o 
espaço. Apresentem-nos com ousadia e conquistem a atenção desde o 
começo com a sua entonação máscula. Não partam do ponto mais alto, 
como regra geral, pois não conseguirá mais quando estiver aquecido com 
o trabalho; todavia, falem com clareza desde as primeiras palavras. 
Abaixem a voz, quando isso for pertinente, reduzindo-a até a um 
sussurro, pois as expressões orais suaves, deliberadas e solenes não 
somente dão alívio aos ouvidos, mas também são grandemente aptas 
para atingir o coração. Não tenham medo de tonalidades baixas, pois, se 
lhes imprimirem força, serão tão ouvidas como os gritos. Vocês não 
precisam falar em alta voz a fim de serem ouvidos bem. 
De William Pitt diz Macaulay: "Sua voz, mesmo quando afundava 
até tornar-se um sussurro, era ouvida até nos mais distantes bancos da 
Casa dos Comuns". Tem-se dito que não é a arma de fogo mais ruidosa 
que atira mais longe a bala; o estampido de um rifle é tudo, menos 
barulhento. Não é a altura da sua voz que é eficiente, mas a força que 
você lhe dá. Estou certo de que poderia sussurrar e ser ouvido em todos 
os cantos do nosso grande Tabernáculo, e, igualmente, estou certo de que 
poderia gritar e berrar de um jeito que ninguém poderia compreender-
me. A coisa poderia ser feita aqui, mas talvez seja desnecessário o 
exemplo, pois receio que alguns de vocês são capazes de fazer isso com 
notável sucesso. As ondas de ar podem chocar-se com os ouvidos em tão 
rápida sucessão que nenhuma impressão compreensível causam ao nervo 
auditivo. A tinta é necessária para a escrita, mas se você derramar o 
tinteiro numa folha de papel, não transmitirá com isso nada que tenha 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 163
algum significado. Assim é com o som. O som é a tinta, mas, requer-se 
manejo – não quantidade – para produzir uma escrita inteligível para o 
ouvido. Se a sua única ambição for competir com – 
"Estentor o forte, 
com pulmões de bronze, 
sobrepuja, e longe, 
o poder enorme de cinqüenta línguas", 
então, berre para o Elísio tão rapidamente quanto possível, mas se quiser 
ser compreendido e, assim, ser útil, evite a crítica de que é "fraco e 
barulhento". 
Vocês sabem, irmãos, que os sons estridentes vão longe; o singular 
grito usado pelos viajores nas regiões agrestes da Austrália deve o seu 
extraordinário poder à sua estridência. Ouve-se de muito mais longe um 
sino do que um tambor; e, muito singularmente, quanto mais musical for 
um som, maiorserá o seu raio de alcance. Não é preciso dar murros no 
piano, mas extrair o judicioso som, dos melhores registros. Portanto, 
vocês se sentirão em liberdade para abrandar o tom muitas vezes quanto 
ao volume, e estarão dando grande alívio, tanto aos ouvidos dos ouvintes 
como aos seus próprios pulmões. Experimentem todos os métodos, desde 
o do malho até o do suave veludo. Irmãos, sejam gentis como o zéfiro e 
furiosos como um furacão. Sejam, na verdade, justamente o que toda 
pessoa de bom senso é em seu falar quando conversa naturalmente, 
intercede veementemente, sussurra confidencial, apela sentidamente, ou 
proclama com clareza. 
Depois da moderação da força dos pulmões, eu coloria a regra – 
modulem os tons da voz. Alterem a tonalidade com freqüência e variem a 
intensidade do som constantemente. Dêem oportunidade ao baixo, ao 
soprano e ao tenor. Rogo-lhes que façam isso por piedade de si mesmos 
e dos que os ouvem. Deus tem pena de nós e arranja as coisas de modo 
que satisfaçam ao anseio por variação; tenhamos pena dos nossos 
semelhantes, e não os importunemos com o tédio da mesmice. É uma 
grande barbaridade infligir aos tímpanos de uma pobre criatura humana a 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 164
angústia de ser como perfurados por broca ou verruma do mesmo som 
durante meia hora. Que meio mais rápido de tornar a mente idiota ou 
lunática poder-se-ia conceber do que o perpétuo zumbido de uma abelha, 
ou o zunido de uma mosca varejeira no órgão da audição? Que desculpa 
teríamos pela qual deveríamos ser tolerados em tanta crueldade para com 
as desamparadas vítimas que se assentam sob as ministrações do tantã do 
nosso tambor? 
Muitas vezes a bondosa natureza poupa as infelizes vítimas do 
zunido do pleno efeito das nossas torturas, fazendo-as mergulhar num 
suave repouso. Contudo, não é isto que vocês querem; então falem com 
variações na voz. Quão poucos ministros se lembram de que a 
monotonia dá sono. Receio que a denúncia feita por um escritor na 
Review Imperial seja literalmente válida quanto a numerosos irmãos 
meus. 
"Sabemos todos como o ruído de água corrente, ou o murmúrio do 
mar, ou os suspiros do vento sul entre os pinheiros, ou os queixumes dos 
pombos do mato induzem a um delicioso e sonolento langor. Longe de nós 
dizer que a voz de um clérigo moderno se parece, no mínimo grau, com 
qualquer desses suaves sons; todavia, o efeito é o mesmo, e poucos podem 
resistir às letárgicas influências de uma longa dissertação feita sem a mais 
ligeira variação de tom ou alteração da expressão." 
De fato, o uso muito excepcional da frase, "um discurso que 
desperta", mesmo por aqueles que mais conhecem do assunto, traz 
consigo a implicação de que a grande maioria das arengas de púlpito é de 
tendência decididamente soporífera. É um grave mal quando o pregador 
"Deixa os ouvintes perplexos – 
entre os dois, que decidir: 
"Vigiai e orai" diz o texto, 
e o sermão diz, "a dormir!" 
Por mais musical que uma voz possa ser em si mesma, se vocês 
continuarem tocando perpetuamente na mesma corda, os seus ouvintes 
irão sentir que as suas notas, pela distância que percorrem, vão ficando 
mais suaves. Em nome da humanidade, parem de entoar assim e passem 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 165
a falar racionalmente. Se este conselho não conseguir mudá-los, tenho 
tanto zelo neste ponto que, se vocês não seguirem o meu conselho por dó 
dos seus ouvintes, fá-lo-ão por dó de si próprios, pois, como a Deus em 
Sua infinita sabedoria sempre aprouve aplicar uma penalidade a todo 
pecado contra as Suas leis naturais, bem como contra as morais, assim o 
mal da monotonia é freqüentemente vingado mediante aquela perigosa 
doença chamada dysphonia clericorum, ou seja, "disfonia dos clérigos". 
Quando certos irmãos nossos são tão amados por seus ouvintes que 
não se opõem a pagar uma bela soma para livrar-se deles por alguns 
meses, quando uma viagem a Jerusalém é recomendada e providenciada, 
a bronquite de diferente ordem é tão extraordinariamente dirigida para o 
bem, que o meu presente argumento não perturbará a sua equanimidade. 
Mas não é a sorte que nos cabe; bronquite para nós significa miséria de 
verdade e, portanto, para evitá-la deveríamos seguir quaisquer sugestões 
sensatas. Se vocês quiserem estragar as suas gargantas, poderão fazê-lo 
depressa, mas, se quiserem conservá-las, notem bem o que terão agora 
diante de si. 
Muitas vezes nesta sala comparei a voz com um tambor. Se o 
tamborileiro bater sempre no mesmo lugar, a pele se gastará logo e se 
abrirá um buraco ali; mas, quanto mais tempo duraria se tivesse variado 
os golpes e tivesse usado a superfície inteira da pele de percussão do 
tambor! Assim, é com a voz humana. Se usarem sempre o mesmo tom, 
acabarão abrindo um buraco na parte da garganta mais exercitada na 
produção daquela monotonia, e em pouco tempo estarão sofrendo de 
bronquite. Tenho ouvido cirurgiões afirmarem que a bronquite dos 
dissidentes difere da que a Igreja da Inglaterra apresenta. Existe uma fala 
eclesiástica fanhosa muito admirada na igreja oficial, uma espécie de 
grandeza de campanário na garganta, um linguajar declamatório e um 
retumbar de palavras aristocrático, teológico, clerical, supranatural, sub-
humano. 
Pode-se ilustrar com os seguintes espécimes: "A lei nos serviu de 
aio", descrevendo comparativamente o pregador as virtudes do alho 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 166
aplicadas à lei. Notável, senão impressionante, compreensão e aplicação 
de um texto da Escritura! Quem não conhece aquela santa maneira de 
pronunciar – "Caríssimamente amados irmãos, a Escritura nos comove 
em diversos lugares"? Repica em meus ouvidos como o Big Ben – a par 
com juvenis lembranças de monótonos repiques de "O príncipe Albert, 
Albert, príncipe de Gales, e toda a família Real. ... Amém". Ora, se o 
homem que fala com tanta falta de naturalidade não pegar bronquite ou 
alguma outra doença, só posso dizer que as doenças de garganta devem 
ser soberanamente distribuídas. Nas manias de linguagem dos não-
conformistas já dei um golpe, e acredito que é por causa delas que 
laringe e pulmões se debilitam, e os homens sucumbem, reduzindo-se ao 
silêncio e indo parar no túmulo. 
Irmãos, se vocês quiserem saber no que me baseio para apoiar a 
ameaça que lhes fiz, passo-lhes a opinião do Sr. Macready, o eminente 
autor trágico, que merece ser ouvido respeitosamente porquanto olha a 
questão de um ponto de vista não parcial, mas experimental. 
"Garganta distensa em geral não resulta tanto de exercitar o órgão 
como da qualidade do exercício; isto é, não é tanto por falar muito tempo ou 
por falar alto, como por falar com voz simulada. Receio não ser 
compreendido nesta afirmação, mas suponho que não há uma pessoa em 
dez mil que, ao dirigir-se a um grupo de ouvintes, empregue a sua voz 
natural; e este hábito é mais especialmente observável no púlpito. Creio que 
a distensão da garganta é causada por violentos esforços feitos naqueles 
tons artificiais, e que a irritação grave, e muitas vezes a ulceração, é a 
conseqüência. 
"O trabalho requerido pelos deveres de uma igreja num dia inteiro não 
é nada, no que diz respeito ao trabalho propriamente dito, comparado com a 
realização artística de um dos principais personagens de Shakespeare, e 
suponho que também nada é, comparado com qualquer das grandes 
exibições feitas pelos nossos principais estadistas nas Casas do 
Parlamento. E me sinto seguro de que o desarranjo que chamam de "mal de 
garganta de pregador" geralmente se pode atribuir ao modo de falar, e não à 
extensão do tempo ou à violência do esforço que se empregue. Vi vários 
veteranos contemporâneos de palco ficarem sofrendo da garganta, mas não 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 167
creio que se pudesse considerar essa doença como predominante entre os 
elementos eminentes dessa arte." 
Os atores e os jurisconsultos têm muita ocasião para forçar as suas 
energias vocais. Contudo, não existe uma coisa chamada mal de garganta 
de tribunal,ou bronquite de ator trágico; simplesmente porque esses 
homens não se atrevem a servir o público da maneira tão desmazelada 
como alguns pregadores servem a seu Deus. O excelentíssimo senhor 
doutor Samuel Fenwick, num tratado popular sobre "Doenças da 
Garganta e dos Pulmões", diz com a maior sabedoria: 
"Do que se afirmou a respeito da fisiologia das cordas vocais, ficará 
evidente que falar continuadamente no mesmo tom é muito mais fatigante do 
que se fazerem freqüentes alterações na intensidade da voz, porque, no 
primeiro caso, força-se um só músculo ou um só conjunto de músculos, ao 
passo que no segundo, diferentes músculos são postos em ação, e assim 
dão-se descanso uns aos outros. Do mesmo modo, levantar o braço em 
ângulo reto em relação ao corpo cansa-nos em cinco ou dez minutos, 
porque somente um conjunto de músculos tem que agüentar o peso; mas 
estes mesmos músculos podem trabalhar o dia inteiro se a sua ação for 
alternada com a de outros. Portanto, sempre que ouvimos um clérigo 
zunindo durante o culto, e do mesmo jeito e no mesmo tom lendo, orando e 
exortando, podemos estar perfeitamente certos de que ele está dando às 
suas cordas vocais dez vezes mais trabalho do que o absolutamente 
necessário." 
Talvez seja este o ponto próprio para reiterar uma opinião que 
várias vezes expressei neste recinto, que o autor que citei me faz 
lembrar. Se os ministros falassem com maior freqüência, as suas 
gargantas e os seus pulmões estariam menos sujeitos à doença. Disto 
estou bem seguro; é questão de experiência pessoal e de ampla 
observação, e minha confiança é que não estou enganado. Cavalheiros, 
pregar duas vezes por semana é muito perigoso, mas descobri que cinco 
ou seis vezes é saudável, e que até doze ou quatorze vezes não é 
excessivo. Um verdureiro veria que anunciar aos gritos couve-flor e 
batatas um dia por semana seria esforço mais laborioso, mas quando em 
seis dias sucessivos enche as ruas, avenidas e becos com o seu sonoro 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 168
estrépito, não achará nenhuma dysphonia pomariorum (disfonia dos 
fruteiros) ou "mal de garganta de verdureiro" afastando-o dos seus 
modestos trabalhos. Agradou-me ver a minha opinião – de que pregar 
poucas vezes é a raiz de muitos males, declarada explicitamente assim 
pelo Dr. Fenwick. 
"Todas as indicações que aqui registrei serão ineficazes, creio eu, sem 
a sistemática e diária prática da voz. Nada parece ter tanta tendência para 
produzir esta doença como falar prolongadamente, alternando-se isto com 
longos intervalos de repouso, coisa à qual os clérigos estão particularmente 
sujeitos. Qualquer pessoa que der um momento de consideração ao assunto 
entenderá prontamente isto. Se um homem ou qualquer outro animal for 
destinado a qualquer esforço muscular incomum,e treinado nisso 
regularmente todos os dias, tornará fácil o trabalho que de outra forma seria 
quase impossível realizar. Mas a maioria dos que exercem a carreira 
eclesiástica se submete a grande intensidade de esforço muscular falando 
apenas um dia por semana, ao passo que nos restantes seis dias raramente 
eles elevam a voz acima do diapasão normal. Se um ferreiro ou um 
carpinteiro passasse desse modo pela fadiga ligada ao exercício da sua 
ocupação profissional, não só ficaria despreparado para ela, mas também 
perderia a aptidão que tivesse adquirido. O exemplo dos mais célebres 
oradores que o mundo já viu prova as vantagens da regular e constante 
prática da alocução; e em razão disto recomendo com a máxima ênfase a 
todas as pessoas sujeitas a esta questão que leiam em voz alta uma ou 
duas vezes por dia, empregando o mesmo grau de voz que emprega no 
púlpito, e dando especial atenção à postura do peito e da garganta, e à clara 
e adequada articulação das palavras." 
O Sr. Beecher é da mesma opinião, pois observa: 
"Os jornaleiros mostram aquilo que o pregão ao ar livre faz com os 
pulmões do pregador. Que faria o orador de fala apagada e fraca, que mal 
consegue alcançar duzentos ouvintes com a sua voz, se tivesse que gritar 
anunciando a venda de jornais? Os jornaleiros de Nova York ficam de pé no 
início de uma rua, e mandam as suas vozes rua abaixo, por toda a extensão 
dela, como um atleta faria rolar uma bola por uma pista. Aconselhamos os 
homens que se estão preparando para profissões que exigem oratória a que 
se dediquem por algum tempo ao trabalho de vendedor ambulante. Os 
novos ministros poderiam compartilhar do serviço dos camelôs durante 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 169
algum tempo, até que soubessem abrir a boca e tivessem á laringe vigorosa 
e resistente". 
Cavalheiros, uma regra necessária é – adaptem sempre a sua voz ao 
seu assunto. Não mostrem júbilo quando o assunto é melancólico e, por 
outro lado, não se arrastem pesadamente quando os tons deveriam 
saltitar ágeis e alegres, como se estivessem dançando ao som das 
melodias dos anjos do céu. Não me alongarei sobre esta regra, mas 
fiquem certos de que é da maior importância e, se for seguida 
obedientemente, sempre assegurará atenção, desde que a sua exposição a 
mereça. Adaptem sempre a voz ao assunto e, acima de tudo, sejam 
naturais em todas as coisas. Fora para sempre com a servidão a regras e 
modelos. Não imitem as vozes de outrem, mas se por uma invencível 
propensão as reproduzem, então imitem as melhores qualidades de cada 
orador, e o mal estará diminuído. Eu mesmo, por uma espécie de 
influência irresistível, sinto-me arrastado a ser um imitador, de sorte que 
uma viagem pela Escócia ou Gales afetará substancialmente a minha 
pronúncia e a minha entonação por uma semana ou duas. Lutar contra 
isso eu luto, mas aí está, e o único remédio que conheço para curá-lo é 
deixar que o defeito morra de morte natural. 
Cavalheiros, volto à minha regra – usem as suas vozes naturais. 
Não sejam macacos, mas homens; não papagaios, mas homens capazes 
de originalidade em todas as coisas. Diz-se que a maneira mais 
conveniente de um homem usar a barba é aquela em que a barba cresce 
ajustando-se ao rosto, na cor e na forma. Os seus próprios modos de falar 
deverão estar ao máximo em harmonia com os seus métodos de 
pensamento e com a sua personalidade. A mímica é para o teatro; o 
homem ilustrado em sua personalidade santificada é para o santuário. Eu 
repetiria até ao cansaço esta regra, se pensasse que vocês poderiam 
esquecê-la; sejam naturais, sejam naturais, sejam perpetuamente 
naturais. Uma simulação da voz ou uma imitação da maneira do Dr. 
Silvertongue (Língua de Prata), o eminente teólogo, ou mesmo de um 
estimadíssimo preceptor ou diretor, inevitavelmente os arruinará. Dou-
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 170
lhes a incumbência de lançar fora o servilismo da imitação e de elevar-se 
à originalidade viril. 
Diletos irmãos, somos obrigados a acrescentar – esforcem-se para 
educar a voz. Não lamentem as penas e os trabalhos requeridos para 
realizar isso, pois, como já se observou bem, "Por mais prodigiosos que 
sejam os dons da natureza a seus eleitos, só podem ser desenvolvidos e 
levados à sua extrema perfeição pelo trabalho e pelo estudo". Pensem em 
Miguel Ângelo trabalhando uma semana sem trocar de roupa, e em 
Handel deixando côncava como uma colher cada tecla do seu cravo pela 
prática incessante. Cavalheiros, depois disso, nunca falem de dificuldade 
ou cansaço. É quase impossível ver a utilidade do método de falar de 
Demóstenes, com pedras na boca, mas qualquer um pode perceber como 
é útil argumentar com as ruidosas e encapeladas ondas, para que fosse 
capaz de fazer-se ouvir nas tumultuadas assembléias dos seus patrícios; e 
por que falava enquanto subia correndo morro acima para que os seus 
pulmões acumulassem força, graças ao seu uso laborioso, a razão é tão 
óbvia como recomendável é a abnegação. 
Cabe-nos usar todos os meios possíveis para aperfeiçoar a voz, com 
a qual havemos de expor o glorioso evangelho do Deus bendito. Tenham 
grande cuidado com as consoantes, enunciando com clareza cada uma 
delas; são asfeições e as expressões das palavras. Pratiquem 
infatigavelmente, até darem a cada uma das consoantes o que lhe é 
devido; as vogais têm a voz que lhes é própria, e portanto podem falar 
por si mesmas. Em todas as outras questões exerçam uma disciplina 
rígida até dominarem a sua voz e tê-la à mão como um corcel bem 
treinado. Os cavalheiros de peito estreito são aconselhados a exercitar-se 
com halteres todas as manhãs, ou melhor ainda, com aqueles peitorais 
que esta escola providenciou para vocês. 
Irmãos, vocês precisam ter ampla caixa torácica e devem fazer o 
melhor que puderem para consegui-la. Não falem com as mãos metidas 
nos bolsos do colete, contraindo deste modo os pulmões, mas lancem 
para trás os ombros, como fazem os cantores públicos. Não se inclinem 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 171
sobre uma escrivaninha enquanto falam e nunca abaixem a cabeça sobre 
o peito enquanto pregam. Para cima, e não para baixo, façam curvar-se o 
corpo. Fora com todas as gravatas apertadas e com coletes fechados até 
em cima; dêem lugar ao pleno desempenho dos foles e tubos sonoros. 
Observem as estátuas dos oradores gregos e romanos, olhem um quadro 
de Paulo feito por Rafael, e, sem artificialismo pedante, adotem com 
naturalidade as atitudes elegantes e convenientes ali retratadas, pois são 
as melhores para a voz. 
Peçam a um amigo que lhe diga quais são as suas falhas, ou melhor 
ainda, acolham bem um inimigo que os vigie com rigor e os aguilhoe 
com selvageria. Que bênção será para o sábio um crítico irritante assim, 
mas quão intolerável para o tolo! Corrijam-se a si mesmos, com 
diligência e com freqüência, ou cairão inadvertidamente em erros, os 
tons falsos se desenvolverão, ou hábitos desordenados se formarão 
insensivelmente; portanto, façam autocríticas com incessante vigilância. 
Não considerem pouco aquilo pelo que vocês possam vir a ser um pouco 
mais útil. Mas, cavalheiros, jamais degenerem nesta atividade, 
transformando-se em janotas do púlpito, que pensam que a gesticulação 
e a voz são tudo. Meu coração padece quando ouço falar de homens que 
tomam a semana toda para fazer um sermão, sendo que o preparo todo 
consiste em repetir as suas preciosas produções diante do espelho! 
Ai desta era, se corações destituídos da graça hão de ser perdoados 
por amor à graça das suas maneiras. Oxalá nos dêem todas as 
vulgaridades do mais rude pregador itinerante dos rincões mais 
afastados, antes que a perfumada lindeza do donaire efeminado. Como 
eu não os aconselharia a serem fastidiosos com suas vozes, tampouco os 
recomendaria que imitassem o Sr. Taplash (amigo de Rowland Hill) com 
o seu anel de diamante, seu lenço repassado de fino perfume, e seu 
monóculo. Os elementos refinados estão deslocados no púlpito; 
deveriam ser colocados numa vitrina, com uma etiqueta: "Este artigo 
elegante completo, com o Dr. Fulano incluído, 10 libras e 10 xelins". 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 172
Talvez seja este o momento para observar que seria bom se todos os 
pais dessem mais atenção aos dentes dos seus filhos, desde que dentes 
defeituosos podem causar sério prejuízo a um orador. Há homens de 
articulação defeituosa que deveriam procurar logo um dentista (refiro-
me, é claro, a um dentista cientificamente perito e experimentado), pois 
alguns dentes postigos ou algum outro acerto simples seriam uma bênção 
permanente para eles. O meu dentista anota mui sensatamente em sua 
circular: 
"Quando se perdem alguns ou todos os dentes, segue-se uma 
contração dos músculos do rosto e da garganta, os outros órgãos da voz 
que estavam habituados aos dentes ficam prejudicados e são deslocados da 
sua função normal, produzindo uma falha, um entorpecimento ou uma 
depressão, como num instrumento musical deficiente numa nota. Em vão se 
esperará sinfonia perfeita e inflexão proporcional e harmoniosa com a nota, 
a tonalidade e o volume da voz, se os órgãos forem deficientes e, 
naturalmente, a articulação ficará defeituosa. Esse defeito aumenta muito o 
esforço para falar, para dizer o mínimo, e em muitíssimos casos, o resultado 
é gaguejo, ou uma queda rápida ou brusca da fluência, ou uma transmissão 
fraca. De deficiências mais sérias, quase certamente resultarão chiados e 
estalos". 
Quando o mal for este e a cura estiver ao nosso alcance, temos a 
obrigação de utilizar-nos dela, por amor do nosso trabalho. Os dentes 
podem parecer coisa sem importância, mas convém lembrar que nada é 
pequeno numa Vocação tão grande como a nossa. Nas observações 
subseqüentes mencionarei questões menores ainda, mas o faço com a 
profunda impressão de que sugestões sobre coisas insignificantes podem 
ser de valor incalculável para livrar-lhes de graves omissões ou erros 
grosseiros. 
Finalmente, com relação às suas gargantas, eu gostaria de dizer – 
cuidem delas. Tenham o cuidado de limpá-las bem quando estiverem 
perto da hora de falar, mas não fiquem a limpá-las constantemente 
enquanto estiverem pregando. Um irmão muito estimado, meu 
conhecido, fala sempre deste jeito – "Prezados amigos – hem, hem – é 
um assunto – hem – muito importante o que agora – hem, hem – lhes 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 173
apresento, e – hem, hem – lhes peço que me dêem – hem, hem – a sua 
mais cuidadosa – hem atenção". Evitem isto com o máximo empenho. 
Outros, por falta de limpeza da garganta, falam como se estivessem 
entupidos e a ponto de expectorar; seria melhor que o fizessem de uma 
vez, em lugar de deixar enjoado o ouvinte com repetidos sons 
desagradáveis. Fungar e aspirar pelo nariz são desculpáveis quando o 
pregador está resfriado, mas são extremamente desagradáveis, no entanto 
se se tornam habituais, deveriam ser indiciados como infrações contra o 
"decreto dos aborrecimentos". Rogo escusas, pois pode parecer vulgar 
mencionar essas coisas, mas se derem atenção às claras e francas 
observações feitas nesta sala de aulas poderão livrar-se de muitos 
motejos feitos ás suas custas mais tarde. 
Depois de terem pregado, cuidem das suas gargantas, não as 
envolvendo com agasalhos exagerados. Com base em experiência 
pessoal, aventuro-me a dar-lhes este conselho de maneira um tanto 
confidencial. Se alguns de vocês possuem cachecóis de lã deliciosamente 
quentes, com os quais talvez estejam associadas as mais ternas 
recordações da mãe ou da irmã, estimem-nos – mas entesourem-nos no 
fundo do baú; não os exponham a nenhum uso vulgar envolvendo com 
eles os seus pescoços. Se algum colega quiser morrer de gripe, basta usar 
uma cálida manta estreita ao redor do pescoço; depois, numa noite 
qualquer a esquecerá e pegará um resfriado daqueles, que durará pelo 
resto da sua vida. Raramente se vê um marinheiro com o pescoço 
agasalhado. Não. Ele sempre o mantém nu e exposto, com colarinho 
aberto e baixo, e se chega a usar gravata, é das pequenas e de laço solto, 
de modo que o vento possa soprar em torno do seu pescoço. Sou firme 
seguidor desta filosofia, e nunca me desviei dela nestes últimos quatorze 
anos, tendo sofrido resfriado muitas vezes antes disso, e raramente 
depois. Se acham que lhes falta algo, deixem crescer a barba, ora! Hábito 
muito natural, bíblico, másculo e benéfico. Um dos nossos irmãos, aqui 
presente, já faz anos que acha isso muito útil. Foi compelido a sair da 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 174
Inglaterra por perder a voz, mas ficou forte como Sansão, agora que as 
suas melenas ficam sem tosquiar. 
Se suas gargantas ficarem afetadas, consultem um médico, ou, se 
não puderem fazer isso, dêem a atenção que lhes aprouver à seguinte 
idéia: Jamais comprem nenhum dos dez mil emolientes compostos – 
xaropes, pastilhas, descongestionantes – que a propaganda popular exalta. 
Podem servir-lhes por uma vez, removendo o incômodo do momento, 
mas arruínam a garganta com as suas qualidades relaxantes. Se quiserem 
melhorar as suas gargantas, tomem uma boa porção de pimenta – da boa 
pimenta de Caiena, e outras substâncias adstringentes, na quantidade que 
o seu estômago puder agüentar. Não vãoalém dessa medida, porque 
precisam lembrar-se de que devem cuidar do estômago, bem como da 
garganta, e se o aparelho digestivo sofrer desarranjo, nada poderá 
funcionar bem. O bom senso ensina que os adstringentes só podem ser 
úteis. 
Alguma vez vocês ouviram falar que o curtidor transforma pele 
crua em bom couro deixando-a embebida em açúcar? Tampouco servirão 
ao propósito dele o bálsamo-de-tolu, a ipecacuanha e o melado, mas 
justamente o contrário; se ele quer enrijecer e fortalece a pele, coloca-a 
numa solução de casca de carvalho ou tanino, ou de alguma substância 
adstringente capaz de fazer contrair-se o material e de fortalecê-lo. 
Quando comecei a pregar no Exeter Hall, a minha voz era fraca 
para aquele local – tão fraca como as vozes em seu curso normal, e 
muitas vezes me faltava completamente quando pregava na rua. Mas no 
Exeter Hall (lugar geralmente difícil para ser usado para pregação, por 
sua excessiva largura, desproporcional ao seu comprimento), eu sempre 
tinha bem perto de mim um vidrinho de vinagre com pimenta e água. 
Um gole daquilo parecia dar novas forças à garganta, sempre que esta ia 
ficando cansada e a voz parecia sucumbir. Quando a minha garganta se 
enfraquece um pouco, normalmente peço ao cozinheiro que me prepare 
uma tigela de caldo de carne, com tanta pimenta quanta se pode 
agüentar, e até aqui isso tem sido um soberbo remédio. 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 175
Todavia, como não estou qualificado para a prática da medicina, 
vocês não me darão mais atenção nas questões médicas do que a 
qualquer outro charlatão. Minha convicção é que metade das 
dificuldades relacionadas com a voz nos nossos primeiros tempos 
desaparecerá com o passar dos anos e, com a prática, desenvolverá uma 
segunda natureza. 
Quero encorajar os que de fato são zelosos, a perseverarem. Se 
sentem a Palavra do Senhor arder como fogo nos seus ossos, até a 
gagueira poderá ser vencida, e o medo, com os seus resultados 
paralisantes, poderá ser banido. Coragem, jovens irmãos! Perseverem, e 
Deus, a natureza e a prática os ajudarão. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 176
ATENÇÃO 
 
Praticamente nunca notei a presença do assunto de que vamos tratar 
em nenhum livro de homilética – fato deveras curioso, pois é matéria de 
suma importância, fazendo jus a mais de um capítulo. Suponho que os 
sábios em homilética acham que os seus volumes estão inteiramente 
temperados com este assunto, e que não têm por que no-lo dar em 
pedaços, uma vez que, como o açúcar no chá, ele impregna todo o 
conjunto do seu sabor. O tópico omitido é: COMO OBTER E RETER A 
ATENÇÃO DOS NOSSOS OUVINTES. A atenção deles tem que ser 
conquistada, ou nada se poderá fazer com eles; e tem que ser retida, ou 
poderemos continuar levando as palavras a passear, sem colher benefício 
algum. 
Acima do cabeçalho das proclamações militares os nossos oficiais 
ingleses sempre apõem a palavra "ATENÇÃO!", com enormes letras, e 
precisamos de uma palavra como essa para colocar no alto de todos os 
nossos sermões. Precisamos da fervorosa, singela, desperta e continuada 
atenção dos que compõem a congregação. Se a mente dos homens 
estiver vagando longe, não poderá receber a verdade, e é como se 
estivesse inativa. O pecado não pode ser arrancado dos homens enquanto 
estiverem dormindo, como Eva foi arrancada do lado de Adão. Precisam 
estar acordados, compreendendo o que dizemos e sentindo a sua força, 
ou então podemos ir dormir também. 
Há pregadores que pouco se importam se estão sendo ouvidos ou 
não, desde que preencham o tempo determinado. É-lhes de somenos 
importância se o público ouve para a eternidade ou se ouve em vão. 
Quanto mais depressa esses ministros dormirem no cemitério e pregarem 
por meio do epitáfio gravado nos seus túmulos, tanto melhor. 
Alguns irmãos falam para o alto, dirigindo-se ao ventilador, como 
se buscassem a atenção dos anjos; outros olham para baixo, para o seu 
livro, como se estivessem absortos a pensar, ou tivessem a si próprios 
como ouvintes e se sentissem muito honrados com isso. Por que esses 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 177
irmãos não pregam nos prados, edificando as estrelas do firmamento? Se 
a sua prédica não tem relação com os seus ouvintes, bem que poderiam 
fazer isso com evidente propriedade. Se o sermão for um solilóquio, 
quanto mais sozinho estiver o executante, melhor. A um pregador 
racional (e nem todos são racionais) só pode parecer essencial interessar 
todos os seus ouvintes, do mais velho ao mais novo. Nem mesmo as 
crianças devemos fazer com que fiquem desatentas. "Fazer com que 
fiquem desatentas", o senhor diz, "quem faz isso?" Afirmo que a maioria 
dos pregadores o faz. E quando as crianças não ficam quietas numa 
reunião, a culpa é tanto nossa como delas. 
Você não poderia introduzir uma breve estória ou parábola de 
propósito para os pequeninos? Você não pode captar o olhar do menino 
que está na galeria e o da garota embaixo, agitados, e com um sorriso 
trazê-los à ordem? Muitas vezes eu falo com os olhos aos rapazes órfãos 
que ficam aos pés do meu púlpito. Queremos todos os olhos fitos em nós 
e todos os ouvidos abertos para nós. Para mim é um aborrecimento se 
mesmo um cego não me olha com o seu rosto. Se vejo alguém virando-
se para os lados, cochilando, cochichando ou olhando o relógio, julgo 
que não estou atingindo o alvo e que de algum modo devo conquistar 
aquelas mentes. Muito raramente tenho de queixar-me, e quando o faço, 
meu plano geral é queixar-me de mim mesmo, e reconhecer que não 
tenho direito à atenção se não sei captá-la. 
Agora, há algumas congregações cuja atenção você não consegue 
prontamente; não se preocupam em interessar-se. É inútil repreendê-las; 
seria como atirar um penacho numa ave para apanhá-la. O fato é que na 
maior parte dos casos há outra pessoa que você deve repreender, e essa 
pessoa é você mesmo. Pode ser dever dos ouvintes dar atenção, mas é 
muito mais dever seu fazê-los prestar atenção. Você tem que atrair os 
peixes para o seu anzol, e se eles não vêm, você deve culpar o pescador, 
e não os peixes. Constrange-os a ficarem quietos por um pouco, e a 
ouvirem o que Deus, o Senhor, quer falar às suas almas. O ministro que 
recomendou à velha senhora a tomar rapé para evitar o sono, foi 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 178
censurado pela resposta que recebeu – que se ele pusesse mais rapé no 
sermão, ela ficaria bem desperta. Devemos lançar bastante rapé no 
sermão, ou algo mais forte ainda para despertar os ouvintes. Lembre-se 
de que para alguns elementos da audiência não é fácil manter-se atentos; 
muitos deles não estão interessados no assunto, e não há qualquer 
operação da graça nos seus corações que os leve a confessar que o 
evangelho tem algum valor especial para eles. A respeito do Salvador 
que você apregoa, pode dizer-lhes: 
"Nada vos significa contemplar a cruz? 
Nada vos significa a morte de Jesus?" 
Muitos deles sucumbiram durante a semana sob o peso das 
preocupações com os seus negócios. Deviam transferir o seu fardo para o 
Senhor; mas você age sempre assim? Você acha sempre fácil escapar das 
inquietações? Você é capaz de esquecer em casa a esposa exausta e os 
filhos doentes? Não há dúvida nenhuma de que muitos entram na casa de 
Deus sobrecarregados de preocupações com as suas atividades diárias. O 
agricultor lembra-se dos campos que precisam ser arados ou semeados; é 
um domingo chuvoso, e ele fica refletindo sobre o dourado panorama 
dos trigais novos. O mercador vê aquela fatura desonrada ondulando 
diante dos seus olhos, e o comerciante calcula as suas perdas por alheias 
dívidas irrecuperáveis. Não me espantaria se as cores dos adornos das 
senhoras e o ranger das botinas dos cavalheiros perturbassem a muitos. 
Há molestos insetos ao redor, você sabe: Belzebu, o deus dos insetos, 
cuida para que onde houver uma festa do evangelho, os convidados 
sejam atormentados com pequenas contrariedades. 
Muitas vezes mosquitos mentaispicam o homem enquanto você lhe 
está pregando, e ele fica pensando mais em distrações fúteis do que no 
seu discurso; é de admirar muito que ele aja assim? Você tem que 
mandar embora os mosquitos e conseguir que os ouvintes não fiquem 
distraídos com outros pensamentos, retirando-os do canal em que 
estiveram rodando seis dias e colocando.os num canal próprio para o dia 
do Senhor. Você precisa ter força de alavanca suficiente em seu discurso 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 179
e em seu assunto para erguê-los acima da terra à qual estão apegados, e 
elevá-los para mais perto do céu. 
Com os ouvintes acontece freqüentemente que é muito difícil 
prestar atenção por causa do lugar e da atmosfera. Por exemplo, se o 
lugar é como esta sala neste momento, selada contra o ar puro. com todas 
as janelas fechadas, eles têm trabalho bastante para respirar, e não podem 
pensar em mais nada. Quando as pessoas inalam repetidamente o ar que 
já esteve nos pulmões dos outros, toda a maquinaria da vida se 
desengrena, e elas ficam mais propensas a ter dor de cabeça do que dor 
de coração. A segunda melhor coisa depois da graça de Deus para o 
pregador é o oxigênio. Ore para que se abram as janelas do céu, mas 
comece abrindo as janelas do seu salão de cultos. Verifique muitos dos 
nossos templos rurais, e receio que também as nossas capelas urbanas, e 
verá que as janelas não foram feitas para serem abertas. O bárbaro estilo 
moderno de construção não nos dá mais teto do que um celeiro, nem 
mais aberturas para ventilação do que encontraríamos num calabouço 
oriental onde o tirano esperava que o seu prisioneiro morresse pouco a 
pouco. 
Que pensaríamos de uma casa em que as janelas não pudessem ser 
abertas? Algum de vocês alugaria uma moradia dessas? Entretanto, a 
arquitetura gótica e o orgulho tolo levam muitas pessoas a renunciarem à 
salutar janela de caixilhos por pequeninos buracos no teto, ou por 
alçapões para pássaros no lugar das janelas, e assim os locais se tornam 
menos confortáveis do que a fornalha de Nabucodonosor para Sadraque, 
Mesaque e Abede-Nego. Sob a condição de que tais capelas fossem 
convenientemente postas no seguro, eu não poderia orar por sua 
preservação do fogo. Mesmo onde as janelas podem ser abertas, muitas 
vezes ficam fechadas meses inteiros, e de domingo a domingo a 
atmosfera impura não é renovada. Não se deveria tolerar isto. 
Conheço algumas pessoas que não ligam para essas coisas, e já ouvi 
a observação de que as raposas não morrem pelo mau cheiro das suas 
covas. Mas eu não sou raposa, e o ar viciado nos deixa lerdos, a mim e 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 180
aos meus ouvintes. A sensação do ar fresco percorrendo o edifício 
poderia ser para o público a melhor coisa depois do evangelho; pelo 
menos o colocaria em adequada disposição mental para receber a 
verdade. Durante os dias da semana, dê-se ao trabalho de retirar o 
empecilho causado pelo ar poluído. 
Na capela em que eu pregava anteriormente, na Park Street, 
mencionei várias vezes aos oficiais a minha opinião de que seria melhor 
tirar as vidraças superiores das janelas de estrutura de ferro, pois as 
janelas não eram de abrir. Falei disso diversas vezes, e nada consegui. 
Providencialmente, porém, aconteceu que numa segunda-feira alguém 
tirou a maior parte daquelas vidraças, e de maneira magistral, quase tão 
bem como se os vidros tivessem sido retirados por um vidraceiro. Houve 
considerável consternação e muita conjetura quanto a quem teria 
cometido o crime, e propus que se oferecesse uma recompensa de cinco 
libras pela descoberta do ofensor que, quando encontrado, deveria 
receber a quantia de presente. Não se concretizou a recompensa e, 
portanto, não me senti na obrigação de delatar o indivíduo. Espero que 
ninguém desconfie de mim, pois, se vocês desconfiarem, terei que 
confessar que ando com a bengala que fez o oxigênio entrar naquele 
sufocante edifício. 
Às vezes os modos do nosso público são avessos à atenção. Não 
têm o hábito de prestar atenção. Prestam serviço freqüentando a capela, 
mas não prestam atenção ao pregador. Estão acostumados a olhar em 
torno cada vez que alguém entra no recinto, e chegam a qualquer hora, e 
às vezes com muito sapateado, ranger de botas e bater de portas. 
Uma vez eu estava pregando a pessoas que continuamente olhavam 
para os lados, e adotei o expediente de dizer: "Agora, amigos, como 
vocês estão muito interessados em saber quem chega, e como o muito 
olhar em volta de vocês me perturba muitíssimo, se quiserem, eu 
descreverei cada pessoa que entrar, de modo que podem ficar sentados e 
olhando para mim, e façam pelo menos uma demonstração de decência". 
Descrevi um cavalheiro que entrou, que sucedeu ser um amigo que, sem 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 181
ofensa, pude retratar como "um cavalheiro muito respeitável que acabou 
de tirar o chapéu", e assim por diante; e depois dessa única tentativa, 
achei que não era necessário descrever mais ninguém, porque ficaram 
chocados com o que eu estava fazendo, e lhes afirmei que eu tinha ficado 
muito chocado por tornarem necessário que eu reduzisse a conduta deles 
àquele absurdo. Curei-os na ocasião, dando – espero que para sempre – 
muita alegria a seu pastor. 
Suponhamos agora que tudo isso foi acertado. Você pôs para fora 
do recinto o ar viciado e corrigiu os modos do povo. O que vem em 
seguida? Para conseguir a atenção, a primeira regra de ouro é, sempre 
diga algo que valha a pena ouvir. Na maioria, as pessoas possuem um 
instinto que as leva a desejar ouvir coisa boa. Têm também um instinto 
similar, que seria melhor você anotar, a saber, um instinto que as impede 
de ver benefício em ouvir atentamente meras palavras. Não é crítica 
severa dizer que há ministros cujas palavras são grandemente 
proporcionais aos seus pensamentos. De fato, as suas palavras escondem 
os seus pensamentos, se é que eles têm algum. Despejam montões de 
palha, e, talvez haja em algum lugar um ou dois feixes de aveia, mas 
seria difícil dizer onde. As igrejas não ficarão muito tempo escutando 
palavras, palavras, palavras e nada mais. Não me ocorre que entre os 
mandamentos exista um que diga: "Não serás verboso", mas talvez esteja 
compreendido neste mandamento: "Não furtarás"; pois é defraudar os 
ouvintes dar-lhes palavras em vez de alimento espiritual. 
"Na multidão de palavras não falta transgressão", mesmo no melhor 
pregador. Dê aos seus ouvintes algo que eles possam entesourar e 
recordar; algo que tenha a probabilidade de ser-lhes útil, a melhor 
matéria do melhor de todos os lugares, sólida doutrina da Palavra de 
Deus. Dê-lhes o maná repassado do frescor dos céus; não a mesma coisa 
repetida o tempo todo, sempre da mesma forma, ad nauseam (até causar 
náusea), como pão de cadeia fornecido da mesma forma o ano inteiro. 
Dê-lhes algo notável, algo que possa levar um homem a levantar-se no 
meio da noite para ouvir, e que valha uma caminhada de oitenta 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 182
quilômetros para ouvi-lo. Irmãos, vocês são capazes de fazer isso. 
Façam-no continuamente, e terão toda a atenção que possam desejar. 
Disponham com bastante clareza a boa matéria que vocês lhes 
querem dar. Há muita coisa incluída nisto. É possível amontoar uma 
imensa massa de coisas boas, tudo em desordem. Desde o dia em que fui 
à venda com uma cesta e comprei meio quilo de chá, duzentos gramas de 
mostarda e dois quilos de arroz, e, de caminho para casa vi uma matilha 
de cães e achei necessário segui-los através de cercas e valados (como 
sempre fazia quando menino), e ao chegar em casa vi que os artigos 
estavam amalgamados – o chá, a mostarda e o arroz – numa terrível 
confusão, compreendi a necessidade de embalar os meus assuntos em 
porções bem firmes, amarradas com o cordão do meu discurso. E isto me 
faz manter-me no estilo "primeiro, segundo e terceiro", por mais fora da 
moda que esteja este método na atualidade. O povo não tomará vosso 
chá misturado com mostarda, nem gostará dos vossos sermõesdesordenados, nos quais vocês não podem saber qual é a cabeça e qual a 
cauda, porque não têm nem uma nem outra, mas são como o cãozinho 
peludo do Sr. Bright, cuja cabeça e cauda são iguais. Coloquem diante 
dos homens a verdade de maneira lógica e ordenada, de modo que 
possam lembrá-la com facilidade, e eles a receberão mais prontamente. 
Além disso, certifiquem-se de que falam com clareza, porque, por 
mais excelente que seja o argumento, se o ouvinte não o entende, não lhe 
é útil. Se é para usar frases que estejam completamente fora do 
conhecimento dele, e todos de expressão não ajustados à sua mente, 
tanto faz vocês falarem na sua língua ou na de Kamchatka.* Subam ao 
nível dele, se se tratar de homem simples; desçam à sua capacidade de 
compreensão, se for uma pessoa instruída. Vocês dão risada por eu torcer 
os termos desta maneira, mas acho que ser claro para os iletrados é mais 
"subir" do que ser refinado para os polidos. De qualquer forma, é o mais 
difícil dos dois, e mais parecido com o modo de falar do Salvador. É 
 
* Península asiática, outrora parte da Sibéria. Nota do Tradutor. 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 183
sábio andar num passo em que os seus ouvintes podem acompanhá-lo, 
em vez de dar-se ares de importância e ir por cima das cabeças deles. O 
nosso Senhor e Mestre foi o Rei dos pregadores e, contudo, nunca esteve 
acima da compreensão de ninguém, salvo naquilo que se refere à 
grandiosidade e glória do Seu assunto. Suas palavras e declarações eram 
tais que Ele falava como "o santo menino Jesus". Cogitem os seus 
corações boa matéria, arrumada com clareza e simplicidade, e é mais que 
certo que vocês ganharão o ouvido, como também o coração. 
Atentem também para o modo de apresentar a mensagem; visem 
com ela a incentivar a atenção dos ouvintes. E aqui devo dizer – como 
regra geral, não leiam os seus sermões. Tem havido uns poucos leitores 
de sermões que exercem grande poder, como, por exemplo, o Dr. 
Chalmers, que não poderia ter tido audiência mais atenta se falasse 
improvisadamente. Mas o caso é que não suponho que somos iguais ao 
Dr. Chalmers. Homens eminentes assim podem ler, se o preferirem, mas 
para nós "há um caminho ainda mais excelente". A melhor leitura que já 
ouvi tinha gosto de papel, e ficou entalada na minha garganta. Não me 
agradou, porque minha digestão não é tão boa que possa dissolver folhas 
de papel. É melhor dispensar o manuscrito, mesmo que vocês sejam 
obrigados a recitar. Melhor ainda se vocês não precisarem nem de recitar 
nem de ler. Se tiverem que ler, tratem de fazê-lo com perfeição. Sejam 
dos melhores leitores, e terão que o ser, se quiserem garantir atenção. 
Deixem-me dizer aqui – se quiserem ser ouvidos, não exagerem na 
alocução improvisada, pois isso é tão ruim como a leitura, e talvez pior, 
a menos que o manuscrito tenha sido redigido improvisadamente, quero 
dizer, sem estudo prévio. Não vá para o púlpito para dizer a primeira 
coisa que venha à mão, pois na maioria dos homens a coisa impensada é 
mera espuma. Os seus ouvintes precisam de discursos preparados com 
muita oração e muito trabalho. O povo não quer alimento cru; deverá 
recebê-lo cozido e pronto para ser servido. Devemos dar do íntimo das 
nossas almas, com as palavras que surgirem naturalmente, o assunto 
preparado tão completamente tal qual o pudesse fazer o escritor de 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 184
sermões; de fato, deve ser mais bem preparado ainda, se é que queremos 
falar bem. O melhor método é, em meu juízo, aquele em que o homem 
não apresenta improvisadamente a matéria, mas, as suas palavras são 
improvisadas. A linguagem lhe vem de improviso, mas o tema foi objeto 
de muito pensamento, e, como mestre em Israel, fala do que sabe, e 
testifica do que viu. 
A fim de conseguirem a atenção, ajam de maneira tão agradável 
quanto possível. Por exemplo, não cedam ao uso do mesmo tom de voz. 
Variem continuamente a voz. Variem também a velocidade no falar – 
lancem-se rápidos como o fulgor do relâmpago, e, daí a pouco, 
prossigam com serena majestade. Mudem a tônica, alterem a ênfase e 
evitem o falar cantante. Variem a tonalidade; usem às vezes o baixo, 
deixando os trovões rolarem nele; outras vezes falem como deveriam 
fazê-lo geralmente – com os lábios, e dêem tom coloquial à pregação. 
Faça tudo para haver mudança. A natureza humana tem fome de 
variações, e Deus no-las provê na natureza, na providência e na graça; 
tenhamo-las nos sermões também. Contudo, não me delongarei muito 
nisto, pois os pregadores têm fama de despertar e manter a atenção 
somente com o assunto que apresentam, sendo muito imperfeito o seu 
modo de falar. 
Se Richard Sibbes, o puritano, estivesse aqui esta tarde, garanto que 
a atenção estaria firmemente posta em qualquer coisa que dissesse, e, 
entretanto, ele gaguejava horrivelmente. Um dos seus contemporâneos 
diz que ele gaguejava e sibilava demais. Não é necessário muita procura 
de exemplos em nossos púlpitos modernos, pois há muitos deles. 
Devemos lembrar, porém, que Moisés era pesado de boca e de língua, e, 
apesar disso, todos os ouvidos ficavam atentos às suas palavras. Paulo 
provavelmente labutou com a mesma fraqueza, pois diziam que o seu 
falar era desprezível; todavia, não temos certeza disso, porque era só 
crítica dos seus inimigos. O poder de Paulo era grande nas igrejas, mas 
nem sempre era capaz de manter a atenção quando o seu sermão era 
comprido, pois pelo menos um ouvinte dormiu enquanto ele pregava, e 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 185
com séria conseqüência. O modo de falar não é tudo. Entretanto, se 
tiverem ajuntado bom material, será uma lástima transmiti-lo mal. 
Um rei não andaria numa carruagem empoeirada; as gloriosas 
doutrinas da graça não devem ser anunciadas com desalinho. As retas e 
reais verdades devem viajar num carro de ouro. Apresentem os mais 
nobres dos seus brancos corcéis, e façam que a música soe 
melodiosamente das trombetas de prata, enquanto a verdade percorre as 
ruas. Se as pessoas não prestarem atenção, não lhes demos motivo para 
acharem desculpa em nossa comunicação defeituosa. Contudo, se não 
conseguirmos corrigir-nos neste aspecto, sejamos diligentes ao máximo 
para compensar isso com a riqueza do nosso assunto, e em todas as 
ocasiões façamos o melhor que pudermos. 
Como regra geral, não façam introdução muito longa. É sempre 
uma pena construir um grande pórtico para uma casa pequena. Uma 
excelente senhora cristã ouviu uma vez a John Howe, e, como ele gastou 
cerca de uma hora no prefácio, a observação dela foi que o bom e 
querido servo de Deus demorou tanto tempo pondo a mesa, que ela 
perdeu o apetite; não podia esperar que houvesse algum jantar depois de 
tudo. Arrume a mesa depressa, sem fazer barulho com os pratos e 
talheres. 
Talvez vocês tenham visto certa edição da obra, Rise and Progress 
of Religion in the Soul (Surgimento e Progresso da Religião na Alma), da 
autoria de Doddridge, com um ensaio introdutório de John Foster. O 
ensaio é maior e melhor do que o livro, e priva Doddridge da 
oportunidade de ser lido. Não é um absurdo? Evitem este erro em suas 
produções pessoais. Eu prefiro fazer a introdução do meu sermão bem à 
maneira do pregoeiro público, que toca a sua sineta e grita: "Ó, sim! Ó, 
sim! Isto é para dar notícia", apenas para fazer o público saber que ele 
tem notícias para dar-lhe e quer ser ouvido. Para conseguir isso, a 
introdução deve conter algo extraordinário. É bom disparar uma 
estrondosa carga com canhoneio como alerta para a ação. Não comecem 
com todo o impulso e tensão da mente, mas, não obstante, façam-no de 
Lições aos Meus Alunos – Vol. 2 186
modo que todos sejam levados a esperar bons momentos. Não façam do 
seu exórdio uma pomposa introdução de coisa nenhuma, mas, façam 
dele um passo para algo ainda melhor. Sejam vívidos já bem no início. 
Irmãos, na prédica não se repitam a si próprios. Eu costumava 
ouvir um pregador que tinha o hábito de, depoisde ter pronunciado cerca 
de uma dúzia de frases, dizer: "Como já observei", ou, "Repito o que 
antes fiz notar". Bem, alma bondosa, como não havia nada de especial 
no que ele tinha dito, a repetição só servia para revelar com maior 
clareza a nudez da terra. Se foi muito bom, e vocês o disseram com 
ênfase, por que retornar àquilo? Se foi algo fraco, por que exibi-lo 
segunda vez? Ocasionalmente, é claro, a repetição de umas poucas frases 
pode ser muito expressiva; qualquer coisa povo ser boa ocasionalmente, 
e, contudo, pode ser péssima como hábito. Quem se espanta porque o 
povo não o ouve da primeira vez, quando sabe que tudo tornará a vir? 
Ademais, não repitam a mesma idéia vez após vez, empregando 
outras palavras. Façam surgir algo novo em cada frase. Não fiquem a 
vida toda martelando o mesmo prego; a Bíblia é grande; permitam que o 
povo desfrute o comprimento e a largura da Palavra de Deus. E, irmãos, 
não pensem que é necessário ou importante dar, toda vez que pregam, 
um sumário completo de teologia, ou uma compilação formal de 
doutrinas, à moda do Dr. Gill – não que eu queira desacreditar o Dr. Gill 
ou falar uma palavra contra ele – seu método é admirável para um corpo 
de teologia, ou para um comentário, mas não se presta bem para a 
pregação. Conheço um teólogo cujos sermões, sempre que impressos, 
parecem compêndios teológicos, mais próprios para uma sala de aulas do 
que para o púlpito. Soam insípidos nos ouvidos do público. 
Os nossos ouvintes não querem os puros ossos da definição técnica, 
mas carne e sabor. As definições e diferenciações são boa coisa, mas, 
quando constituem o artigo principal do sermão, lembram-nos o jovem 
cujo discurso se compunha de várias distinções importantes. Sobre essa 
apresentação um velho oficial observou que havia uma distinção que o 
pregador omitira, a saber, a distinção entre carne e ossos. Se os 
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pregadores não fizerem esta distinção, todas as suas outras distinções não 
lhes trarão muita distinção. 
Para manter a atenção, evitem alongar-se muito. Um velho pregador 
costumava dizer a um jovem que pregava uma hora: "Meu caro amigo, 
não me importa acerca do que você pregue, mas gostaria que sempre 
pregasse cerca de quarenta minutos". Raramente devemos ir muito além 
disso – quarenta minutos, ou, digamos, três quartos de hora. Se um 
sujeito não puder dizer tudo que tem para dizer nesse tempo, quando o 
dirá? Mas houve alguém que disse que gostava de "fazer justiça ao seu 
tema". Muito bem, mas, não deveria fazer justiça aos seus ouvintes, ou, 
pelo menos, ter um pouco de misericórdia deles, e não os reter 
demasiado tempo? O tema não se queixará de vocês, mas o povo sim. 
Em alguns lugares da zona rural, principalmente à tarde, os sitiantes 
têm que ordenhar as vacas, e um deles queixou-se amargamente comigo 
de um jovem – creio que desta escola – "Sr. Spurgeon, ele devia ter 
terminado às quatro horas, mas continuou por mais meia hora, e lá 
estavam todas as minhas vacas esperando pela ordenha! Como se 
sentiria ele se fosse uma vaca?" Havia muito sentido nessa interrogação. 
A Sociedade Protetora de Animais devia ter processado aquele jovem 
declamador. Como podem os criadores de gado ouvir com proveito 
quando suas cabeças estão cheias de vacas? 
A mãe acha moralmente certo, durante os dez minutos extras do 
sermão, que a criança esteja chorando, ou que o fogo se apague, e ela 
nem pode pôr, e nem põe mesmo, o coração nas suas ministrações. 
Vocês a estão retendo dez minutos além do trato que ela aceitara, e vê 
isso como uma injustiça da parte de vocês. Existe uma espécie de pacto 
moral entre vocês e a congregação, de que não haverão de cansá-la por 
mais de uma hora e meia, e se a retiverem por mais tempo, isto 
equivalerá a uma infração de um tratado e a um ato de desonestidade 
prática da qual não deveriam fazer-se culpados. 
A brevidade é uma virtude que está ao alcance de todos nós; não 
percamos a oportunidade de ganhar o crédito que ela traz. Se me 
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perguntarem como fazer para encurtar os sermões, dir-lhes-ei, estudem-
nos melhor. Passem mais tempo no gabinete, para que necessitem menos 
tempo no púlpito. Geralmente nos alongamos mais quando temos menos 
a dizer. O homem com muito material bem preparado provavelmente não 
excederá quarenta minutos; quando tem menos que dizer, irá aos 
cinqüenta minutos, e quando não tem absolutamente nada, precisará de 
uma hora para dizê-lo. Dêem atenção a estas pequeninas coisas, e elas os 
ajudarão a reter a atenção dos ouvintes. 
Irmãos, se vocês quiserem ter a atenção dos seus ouvintes – tê-la 
completa e constantemente, isto só se pode realizar se eles forem 
conduzidos pelo Espírito de Deus a um elevado e devoto estado mental. 
Se os seus ouvintes forem suscetíveis de ensino, gente de oração, ativos, 
fervorosos, devotas, virão à casa de Deus com o propósito de receber 
uma bênção. Tomarão os seus lugares com atitude piedosa, pedindo a 
Deus que lhes falem por intermédio de vocês; ficarão atentos a cada 
palavra, e não se cansarão. Terão apetite pelo evangelho, pois conhecem 
o dulçor do maná celestial, e estarão ávidos por recolher as porções que 
lhes cabem. Ninguém jamais terá uma igreja á qual pregar que supere a 
minha neste aspecto. Na verdade, os melhores ouvintes, para o pregador, 
são geralmente aqueles com quem ele está mais familiarizado. É-me 
relativamente fácil pregar no Tabernáculo; o meu povo vem com o 
propósito de ouvir alguma coisa, e a sua expectativa ajuda o seu 
cumprimento. Se fosse ouvir outro pregador com a mesma expectação, 
creio que em geral ficaria satisfeito, conquanto haja exceções. 
Quando o pregador está iniciando o seu pastorado; não pode esperar 
que os seus ouvintes lhe dêem aquela fervente atenção obtida por aqueles 
que são como pais entre os próprios filhos, amado pelo seu povo por mil 
lembranças, e estimado por sua idade e experiência. A nossa vida, na 
integra, deve ser tal que acrescente peso às nossas palavras, de sorte que 
nos anos da maturidade sejamos capazes de brandir a invencível 
eloqüência de um caráter mantido através de muito tempo, e possamos 
obter, não somente a atenção, mas também a afetuosa veneração do 
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nosso rebanho. Se com as nossas orações, lágrimas e labutas o nosso 
povo se tornar espiritualmente sadio, não precisaremos ter medo de 
perder a sua atenção. Um povo com fome de justiça, e um ministro 
ansioso por alimentar as suas almas, agirão na mais suave harmonia 
entre si, quando o vínculo comum a ambos for a Palavra de Deus. 
Se vocês tiverem necessidade de outra orientação para obter a 
atenção, devo dizer-lhes, estejam vocês mesmos interessados, e 
interessarão outros. Há mais nessas palavras do que parece, e, portanto, 
seguirei aqui um costume que condenei agora há pouco, repetindo a frase 
– estejam vocês mesmos interessados, e interessarão outras pessoas. O 
assunto que vão apresentar deve pesar tanto sobre suas mentes, que 
vocês dedicarão todas as suas faculdades, no que elas têm de melhor, à 
entrega de suas almas quanto ao referido tema; então, quando os seus 
ouvintes virem que o tópico os absorveu, aos poucos se absorverão 
também. 
Vocês se admiram se o povo não presta atenção a um homem que 
acha que não tem algo importante para dizer? Espantam-se porque o 
povo não é todo ouvidos quando o pregador não fala de todo o coração? 
Maravilham-se de que os pensamentos dos ouvintes vagueiem por entre 
assuntos reais para eles quando vêem que o pregador está perdendo 
tempo com matérias de que trata como se fossem ficção? Romaine 
costumava dizer que era bom entender a arte de pregar, mas 
infinitamente melhor conhecer o coração da pregação; e nesta afirmativa 
não há pouco peso. O coração da prédica, o lançamento da alma nela, o 
fervor que clama como pela própria vida, é metade da batalha pela 
conquista da atenção. 
Ao mesmo tempo, vocês não poderão manter a mente dos homens 
em

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