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Ponto 1 - introdução

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Curso: Direito
Disciplina: Direito das Coisas
Profª. Kátia Rovaris de Agostini
Ponto 1 – Introdução ao Direito das Coisas
1. Direitos das Coisas: Noção e Distinção.
	Por direito das coisas designa-se tradicionalmente a categoria das relações jurídicas que regula a apropriação e a utilização dos bens jurídicos.
	A categoria foi concebida, pela dogmática tradicional, com base na distinção estabelecida entre os direitos subjetivos reais e os pessoais (ou de crédito). Enquanto o direito das obrigações cuida dos direitos de crédito, o direito das coisas se ocupa dos direitos subjetivos reais, particularmente da propriedade, o direito real por excelência[footnoteRef:1]. [1: TEPEDINO, Gustavo. Comentários do Código Civil. Vol. 14. Direito das Coisas (arts. 1.196 a 1.276). Coord. Antônio Junqueira de Azevedo. São Paulo: Saraiva, 2011. p. 23.] 
	A classificação traduz a relevância social e política da propriedade privada ao longo dos séculos, a avocar disciplina jurídica e princípios diferenciados e a influenciar toda a dogmática do direito civil.
1.1. Distinção Entre Direitos Reais e Pessoais.
Não há um critério indiscutível para distinguir o direito real do direito pessoal. Várias teorias multiplicam-se neste sentido, o que traz uma certa obscuridade ao assunto. 
Nada obstante as críticas as várias teorias explicativas, Orlando Gomes[footnoteRef:2] destaca que, modernamente, os autores direcionam a diferenciação entre os direitos reais e os direitos pessoais voltando os olhos para a estrutura interna do direito real, a qual passa a ser analisada com o fito de fazer essa diferenciação [2: Orlando Gomes, Direitos Reais ..., p. 15.] 
1.1.1 Estrutura interna 
a) Princípio da aderência, especialização ou inerência
Orlando Gomes ao analisar a estrutura interna do direito real, mais especificamente, o modo de exercício deste direito, destaca que a característica básica do direito real é o fato de o titular sempre exercê-lo diretamente sem a necessidade de socorrer-se de qualquer intermediário, ao passo que, no direito pessoal, isso não ocorre, já que o seu titular sempre depende de outra pessoa (no caso, o devedor) para exercitar o seu direito[footnoteRef:3]. [3: Orlando Gomes, Direitos Reais ..., p. 15.] 
Nesse sentido, o proprietário, titular máximo do direito real, o exerce, utilizando a coisa sem que precise da intervenção de qualquer intermediário. Assim, sendo dono do automóvel, não preciso pedir autorização a ninguém para utilizá-lo. Eu simplesmente me apodero dele e o utilizo porque este direito é um direito real típico. Já no caso do direito pessoal isso não ocorre. O credor precisa necessariamente da cooperação de outra pessoa (no caso, o devedor) para exercer seu direito. Nesse sentido, se alugo uma casa, não posso simplesmente ir já me apoderando da mesma, a utilizando. Após firmar o contrato, devo obter autorização do locador (entrega das chaves, a chamada tradição simbólica) para poder usufruir da coisa. 
Em decorrência dessa relação de senhoria entre o sujeito e a coisa seu titular tem o direito de reivindicá-la onde quer que se encontre, independentemente de quem seja o devedor, tal como preconiza o art. 1.228 do CC. 
Art. 1.228. O proprietário tem a faculdade de usar, gozar e dispor da coisa, e o direito de reavê-la do poder de quem quer que injustamente a possua ou detenha.
“O direito de sequela é o que tem o titular de direito real de seguir a coisa em poder de todo e qualquer detentor ou possuidor.” (p. 19) “Para significá-lo, em toda a sua intensidade, diz-se que o direito real adere à coisa como a lepra ao corpo (uti lepra cuti). Segundo ainda Orlando Gomes, “a inerência do direito ao seu objeto é tão substancial que o sujeito pode persegui-lo seja qual for a pessoa que o detenha.” (p. 20)
b) Princípio do Absolutismo
Os direitos reais se exercem erga omnes, ou seja, contra todos, fazendo, novamente surgir o direito de sequela, bem como o direito de preferência.
	A primeira informação de destaque com relação ao direito de preferência é a de que os mesmos estão restritos aos direitos reais de garantia (Orlando Gomes, p. 20).
	O direito de preferência “consiste no privilégio de obter o pagamento de uma dívida com o valor do bem aplicado exclusivamente à sua satisfação. Constituído o direito real de garantia, a responsabilidade da obrigação se concentra sobre determinado bem do patrimônio do devedor. Para o caso de inadimplemento tem o credor o direito de se satisfazer sobre o valor desse bem, afastando outros credores que tenham apenas direito pessoal contra o devedor, ou mesmo, direito real de inscrição posterior. Em suma, a coisa dada em garantia é subtraída da execução coletiva.” (Orlando Gomes, p. 20)
c) Princípio da publicidade ou da visibilidade
Direito real sobre bem imóvel só se adquire com registro no Cartório de Registro de Imóveis (art. 1.227[footnoteRef:4]) e de bens móveis pela tradição (arts. 1.226[footnoteRef:5] e 1.267[footnoteRef:6]). No direito obrigacional prevalece o consensualismo. [4: Art. 1.227. Os direitos reais sobre imóveis constituídos, ou transmitidos por atos entre vivos, só se adquirem com o registro no Cartório de Registro de Imóveis dos referidos títulos (arts. 1.245 a 1.247), salvo os casos expressos neste Código.] [5: Art. 1.226. Os direitos reais sobre coisas móveis, quando constituídos, ou transmitidos por atos entre vivos, só se adquirem com a tradição.] [6: Art. 1.267. A propriedade das coisas não se transfere pelos negócios jurídicos antes da tradição.] 
d) Princípio da Determinabilidade da Coisa
Nos direitos reais a coisa é sempre determinada. O objeto é este. Já nos direitos pessoais, a coisa, é a prestação do devedor, que pode ser determinada ou determinável[footnoteRef:7]. [7: Orlando Gomes, Direito Reais ..., p. 16.] 
e) Princípio da Taxatividade ou numerus clausus
São direitos reais somente os elencados na lei. O art. 1.225[footnoteRef:8] enumera 13, mas também outros são instituídos de forma esparsa, como o direito de retenção, o pacto de retrovenda e a alienação fiduciária, já nos direitos pessoais vigora a autonomia privada. [8: Art. 1.225. São direitos reais: I - a propriedade; II - a superfície; III - as servidões; IV - o usufruto; V - o uso; VI - a habitação; VII - o direito do promitente comprador do imóvel; VIII - o penhor; IX - a hipoteca; X - a anticrese. XI - a concessão de uso especial para fins de moradia;        XII - a concessão de direito real de uso., XIII direito de laje.      ] 
	Vigora nesse campo a ideia de que o proprietário da coisa somente pode constituir os direitos reais especificados na lei. Não está o proprietário autorizado a criar novos direitos reais. Quem os cria é o legislador e ninguém mais. Isso se justifica pelo fato de que os direitos reais são absolutos e, portanto, devem ser respeitados por todos. Não fosse isso há um verdadeiro interesse público envolvido na constituição de direitos reais, principalmente, no caso dos direitos reais instituídos sobre a coisa alheia (p. ex. hipoteca). No caso da constituição de direitos reais na coisa alheia, a sua criação indiscriminada poderia provocar desvios na política legislativa em relação à própria propriedade o que não seria saudável (Orlando Gomes pp. 21/22).
	Destaque-se que o fato de se defender que os direitos reais são nunerus clausus não quer dizer que só os direitos reais que estejam previstos no Código Civil são aqueles considerados válidos. Podem existir direitos reais previstos nas diversas legislações esparsas, os quais terão a mesma validade. Assim, o que se está a afirmar é que só o legislador pode criar direitos reais, ninguém mais (Orlando Gomes p. 22). Nestes termos, pode também se concluir que toda forma de limitação ao direito de propriedade que não esteja prevista em lei como direito real não tem natureza típica de direito real, mas sim, deve ser considerado como típico direito pessoal e, portanto, vinculador somente daqueles participantes daquela relação jurídica especificamente criada (Orlando Gomes p. 21).

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