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Etica em Ginecologia e Obstetricia Boyaciyan 5ed

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O Código de Ética em vigência rege a atuação ética de todos os médicos 
– ou seja, também dos médicos residentes. É de suma importância que o re-
sidente conheça o Código de Ética Médica, incluindo seu preâmbulo que es-
tabelece: “a transgressão das normas deontológicas sujeitará os infratores às 
penas disciplinares previstas em lei”. 
Em seu Capítulo III, o Código traz artigos que alertam para situações de 
grande relevância quanto à responsabilidade profissional do médico; o Capí-
tulo IV traz artigos sobre os Direitos Humanos; o Capítulo V, sobre a relação 
com pacientes e familiares; no Capítulo VII, fala-se sobre a relação entre mé-
dicos; no Capítulo IX, sobre sigilo profissional.6
Art. 1º Causar dano ao paciente, por ação ou omissão, caracterizá-
vel como imperícia, imprudência ou negligência.
Parágrafo único. A responsabilidade médica é sempre pessoal e 
não pode ser presumida.
Este artigo sobre a responsabilidade profissional deve permear 
todas as instâncias da Medicina; a partir do momento em que o 
médico se inscreve no CRM, ele assume essa responsabilidade. A 
negligência se caracteriza pela omissão em fazer algo em prol do 
paciente; caso o residente efetue um procedimento sem comunicar 
ao seu preceptor ou sem solicitar sua autorização, deverá assumir 
isoladamente toda a responsabilidade das possíveis consequências 
advindas de seu ato, pois, dessa forma, incorrerá em negligência A 
imprudência se caracteriza pela ação de fazer algo que não deve-
ria ser feito, à revelia de seu preceptor. A imperícia se define por 
fazer algo que não se está capacitado a fazer, seja por falta de trei-
namento ou por falta de conhecimento – nesta situação, a atitude 
negligente seria de âmbito de quem se propõe a treiná-lo, ou seja, 
seu preceptor.7 Art. 3º Deixar de assumir responsabilidade sobre 
Ética em Ginecologia e Obstetrícia44
procedimento médico que indicou ou do qual participou, mesmo 
quando vários médicos tenham assistido o paciente.
Art. 6º Atribuir seus insucessos a terceiros e a circunstâncias ocasio-
nais, exceto nos casos em que isso possa ser devidamente comprovado.
Nos artigos 3º e 6º, o médico residente responde pelos procedimentos 
médicos do qual participou e não pode atribuir a terceiros seu insucesso, ex-
ceto nos casos bem documentados no prontuário médico – por isso a impor-
tância do preenchimento adequado do prontuário médico. 
Art. 23. Tratar o ser humano sem civilidade ou consideração, des-
respeitar sua dignidade ou discriminá-lo de qualquer forma ou sob 
qualquer pretexto.
Art. 32. Deixar de usar todos os meios disponíveis de diagnóstico e 
tratamento, cientificamente reconhecidos e a seu alcance, em favor 
do paciente.
Art. 56. Utilizar-se de sua posição hierárquica para impedir que 
seus subordinados atuem dentro dos princípios éticos.7
Este artigo ressalta a importância da orientação do preceptor.
Art. 57. Deixar de denunciar atos que contrariem os postulados éti-
cos à comissão de ética da instituição em que exerce seu trabalho 
profissional e, se necessário, ao Conselho Regional de Medicina.
Art. 78. Deixar de orientar seus auxiliares e alunos a respeitar o si-
gilo profissional e zelar para que seja por eles mantido.7
Uma vez esclarecidos os principais tópicos que regulamentam a ativi-
dade do residente, cumpre salientar aspecto primordial na relação médico-
paciente. Nela existe uma relação jurídica perfeitamente definida por dispo-
sitivos legais, existindo para ambos direitos e deveres. Destaca-se entre os 
deveres dos médicos a responsabilidade. Entre os direitos do paciente, o de 
não sofrer dano por culpa do médico.
Dessa forma, não há como isentar residentes e docentes da responsabilida-
de jurídica por eventuais danos, uma vez caracterizada a prática de ato ilícito.
No que tange a responsabilidade ética do preceptor pelos atos realizados 
por médicos residentes sob a sua supervisão, entende-se que tal responsabili-
dade é consequência do caráter peculiar da tarefa da preceptoria, redundan-
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do no que o Prof. Genival Veloso de França, em seu livro “Direito Médico”, 
define por “responsabilidade derivada” ou “responsabilidade compartida”. 
Segundo essa definição, cada membro de uma equipe médica carrega consi-
go a corresponsabilidade por atos executados no âmbito da instituição pres-
tadora de assistência médica.8
Assim, tanto o médico residente quanto o preceptor estão passíveis de 
responderem ética e juridicamente por atos médicos realizados, bastando 
que cada instância judicante defina a responsabilidade a ser atribuída a cada 
membro da equipe médica pelo ato médico realizado.
Kesselheim e Austad9 publicaram um artigo intitulado “Residentes: em-
pregados ou estudantes aos olhos da lei?” (Residents: Workers or students in 
the eyes of the law?), em que fizeram uma reflexão sobre a Residência Médi-
ca. Comentam que os residentes, apesar do diploma, não são considerados 
médicos completos; por outro lado, também não se enquadram no papel de 
estudantes. Aos olhos da lei, no entanto, os residentes são julgados da mesma 
forma que qualquer outro médico em caso de erro. 
Fato preocupante é que, entre o início da década de 90 e o final de 2000, 
houve aumento de 136% nas denúncias envolvendo médicos residentes, com fa-
lhas evidentes de aprendizado dos princípios básicos da Ética. Por isso, dentro 
da função educativa das Comissões de Ética Médica e preocupados com o de-
sempenho ético da profissão, a Comissão Nacional de Residência Médica, cum-
prindo a Resolução CNRM nº 02, de 17 de maio de 2006,10 no seu artigo 7º, pa-
rágrafo 2º, determina que seja ministrado obrigatoriamente um curso de Ética 
Médica aos residentes nas atividades teórico-complementares. Ainda, o artigo 
13º determina que sejam incluídos na avaliação periódica atributos como com-
portamento ético e relacionamento com a equipe de saúde e com o paciente.
Esse curso é de extrema importância para o exercício profissional ade-
quado, e é capaz de oferecer aos residentes amplo conhecimento do Código 
de Ética Médica, visando prevenir a progressão do número de denúncias.
Por fim, a diferença entre a responsabilidade de um médico residente e de 
outro profissional médico é o fato de que o residente não é o titular do pacien-
te, por isso atua seguindo ordens e sob supervisão direta de um preceptor; por-
tanto, não decide sozinho sobre a conduta a ser tomada em relação ao paciente. 
Ainda no âmbito processual, o residente sempre estará junto de outros mem-
bros da equipe no processo, cujo principal responsável será o preceptor, exceto 
quando tiver agido à revelia de seu preceptor – nessa situação, o médico resi-
dente estará suscetível a ser o único a ser responsabilizado no processo, tanto 
no Conselho Regional de Medicina quanto na Justiça Comum.7
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Irany Novah Moraes (2003) propõe alguns mandamentos para os médi-
cos residentes. Como ainda são inexperientes e participam intensamente das 
atividades hospitalares, correm grande risco de cometer erros por desconhe-
cimento do comportamento correto. De forma a ajudar, ela elaborou em dez 
itens os mandamentos para que sirvam de guias, diminuindo assim as arma-
dilhas do destino em que se pode cair:11
I. Estude diariamente – Para o médico manter-se atualizado, pre-
cisa estudar diariamente. Erro cometido por desconhecimento da 
modernidade é imperícia. Ignorância é imperícia.
II. Aprimore a relação médico/paciente/família – Fale com o do-
ente olhando em seus olhos. Ouça com paciência suas queixas. 
Mostre interesse. Examine-o de maneira completa. Ao término da 
consulta, refira o que prescreveu, especificamente, para sua quei-
xa. Dificuldade no relacionamento com o paciente é deficiência do 
médico. Aprimore o relacionamento com o doente.
III. Desenvolva suas aptidões – O cirurgião deve treinar obsessi-
vamente. Aprimore a atenção, a memória e a coordenação motora 
para os gestos finos e elegantes. Treine as habilidades pessoais. Seja 
perfeccionista.