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Aula 09: Análise do discurso de linha francesa 1 O que seria formação ideológica? Vamos pensar em coisas simples, daquelas que estão em nosso dia a dia, aquelas das quais não nos damos conta. 1. O hábito de usar chapéu diariamente havia sido deixado de lado. No entanto, em revistas de moda têm sido frequentes as reportagens sobre ele, e até a Revista Veja, cujo objetivo, teoricamente, não é lançar moda, publicou em uma de suas edições, do mês de fevereiro de 2012, uma matéria em folha dupla com diversos modelos de chapéus e seus respectivos valores. Assim, em parte por necessidade de proteção, em parte por influência da mídia, esse item voltou a ser usado. 2. E o merchandising nas novelas? Na novela A vida da gente, exibida em 2012 pela rede Globo, a personagem Cristiane, esposa de um rico advogado, pediu que seu motorista trouxesse um creme para que ela pudesse fazer uma milagrosa ‘massagem de 1 minuto’ em seus cabelos. Essa personagem, frequentadora de salões e shoppings de classe média alta, usará essa ampola de tratamento. Você acha que a escolha da personagem foi aleatória? Ou será que há uma relação entre o personagem e o produto que ele representa? Essa relação que parece inconsciente, na verdade, representa uma propaganda subliminar. 1. E os desenhos animados? Você já os observou e percebeu a mudança nos traços do herói? Vamos pensar em Shrek. Nesse desenho, temos uma mudança no comportamento do herói. Mudam-se as visões do que é um príncipe e princesa. Observem o comportamento do Encantado, o suposto príncipe da história. Em A ideologia Disney no cinema, se discute, de forma curiosa, possíveis leituras de animações produzidas pelos estúdios Disney. Esse texto está disponível em: http://www.artedeeducarcomarte.com.br/apostila_aea_cinema.pdf. 1 http://www.artedeeducarcomarte.com.br/apostila_aea_cinema.pdf Vamos ver só mais dois exemplos, para que possamos refletir sobre a forma como a propaganda reflete a ideologia. (Extraído de http://blogtadeus.blogspot.com/2011/08/propagandas-antigas-de- carros-nacionais.html, dia 11/02/12, às 17h46min) Na propaganda acima, o tom é de crítica: É a ‘mulher’ quem tem ‘mania de segurança’. É essa a ideologia vigente ainda hoje? E o que dizer da próxima propaganda? O que se pensaria hoje sobre uma propaganda que estimula a viagem de crianças no teto do carro? 2 http://blogtadeus.blogspot.com/2011/08/propagandas-antigas-de-carros-nacionais.html http://blogtadeus.blogspot.com/2011/08/propagandas-antigas-de-carros-nacionais.html (http://causosdaautomobilistica.blogspot.com/2011/04/fwd-propaganda-dos-carros- nacionais.html, dia 11/02/12, 17h50min) Vamos pensar: Qual a relação entre a AD e a ideologia? A AD tem uma noção discursiva de ideologia: a) As ideologias têm existência material e devem ser analisadas por meio da linguagem; b) As visões de mundo não se desvinculam da linguagem, porque a ideologia transparece na linguagem. 3 http://2.bp.blogspot.com/-LJ-HFj7SWZc/TaIo6BuduWI/AAAAAAAAAvs/JMoeUUgRMH4/s1600/afusca_p_1965-736750.jpg� http://causosdaautomobilistica.blogspot.com/2011/04/fwd-propaganda-dos-carros-nacionais.html http://causosdaautomobilistica.blogspot.com/2011/04/fwd-propaganda-dos-carros-nacionais.html Mas como se vê a ideologia? “Esses sistemas de representações, de normas, de regras e preceitos, que procuram não somente explicar a realidade como regular os comportamentos dos homens, são as formações ideológicas. Esses sistemas são sociais, já que articulados por classes sociais, e reúnem valores que constroem o mundo, ao categorizá-lo. Esses sistemas são feixes de imagens das coisas e dos homens e, criados por uma ideologia dominante, sustentam-se graças às instituições como escola, família religião, e graças aos meios de comunicação de massa. Esses sistemas, internalizados como verdades universais, e não como crenças criadas pelo homem, representam interesses políticos e econômicos dominantes em uma época. Assim, as formações ideológicas, ao ditar o que pensar, o que sentir, o que fazer, governam os discursos nos quais se materializam [...]. [...] São essas representações que fazem uma montanha, para uns, ser o lugar bucólico de encontros amorosos; Para outros, o lugar de exploração de minérios; Para outros, o lugar do medo das alturas.” (Discini: 2005, 60-61) Dos aparelhos ideológicos retomados por Discini (2005:60), para Althusser, o primeiro autor a expô-los, o AIE (Aparelho ideológico de estado) é a escola, já que ela trata das crianças de diversas classes sociais ao longo de muitos anos. Está curioso sobre os aparelhos ideológicos do estado? Leia o texto Análise de discurso francesa aplicada à notícia de jornal, indicado em nosso Saiba Mais. Acredita-se que a ideologia atue de forma inconsciente. Orlandi (2002:35) nos mostra os dois tipos de ‘esquecimentos’ trabalhados por M. Pêcheux (1975). Esquecimento número 1 é de natureza inconsciente: O sujeito acredita que suas ideias, aquelas que aparecem em seu discurso, são realmente suas. Ele não percebe a ideologia que permeia seu discurso e que já existia antes dele, ou seja, o indivíduo não percebe que é afetado pela ideologia. Esquecimento número 2 atua no nível pré-consciente, pois o sujeito considera seu discurso como parte da relação entre pensamento, linguagem e mundo. Para o sujeito, a relação entre as palavras que escolheu e o discurso proferido é uma relação natural: O indivíduo não percebe que “[...] o modo de dizer não é indiferente aos sentidos.” (Orlandi: 2002, 35) 4 Nas duas tiras sobre televisão, trabalhadas no início dessa aula, observamos a FI refletida em duas FDs. Segundo Mussalim (2001:110), “[...] o sujeito não é livre para dizer o que quer, mas é levado, sem que tenha consciência disso, [...] a ocupar seu lugar em determinada formação social e a enunciar aquilo que é possível a partir do lugar que ocupa”. O que seria a formação discursiva? Vamos definir discurso Ideia de curso percurso correr por ideia de movimento Discurso = fala + social + histórico + + sistema + realização = processo e produto. Discurso = Palavra em movimento, prática de linguagem. Observa-se o homem falando. Discurso - toda produção de linguagem. O conceito de Formação Discursiva (FD) foi utilizado a partir de Michel Foucault (1969) e “[...] determina o que pode ser dito com base em um determinado lugar social.” (apud Mussalim: 2001,119) Lembram-se do que comentamos no começo de nossa aula? A AD de linha francesa teve início na França na década de 1960 e sofreu diversas influências. Afinal de contas, o que mudou? Passou-se a: - Levar em conta o homem na sua história - Considerar os processos de produção de linguagem - Observar as condições de produção da linguagem - Analisar a relação estabelecida pela língua com os sujeitos que a falam, e as situações em que se produz o dizer. 5 Antes da AD, buscava-se “o que o texto quer dizer”. Imagine que você tem em suas mãos um texto ou que está olhando uma propaganda em um outdoor. Antes da AD, olharíamos somente para o texto, olharíamos somente para o outdoor. Depois dela, surge uma busca sobre “como este texto significa”? Em que contexto ele está inserido? Como está a sociedade que vai recebê-lo? O que pensam os homens que compõem essa sociedade? A questão não é “o que o texto significa”, mas “como o texto significa”. Orlandi (2002), em Análise de discurso: Princípios e procedimentos, apresenta no capítulo II, Sujeito, história e linguagem a situação descrita a seguir. Durante eleições no campus universitário, tem-se a faixa a seguir: VOTE SEM MEDO Os votos não serão identificados Associação de funcionários e professores Segundoa autora, temos ‘efeitos de sentido’, pois “[...] a faixa preta traz em si uma memória.” (2002:29) A autora estabelece ainda outras argumentações. 6 “Se a observarmos do ponto da cromatografia política, o negro tem sido a cor do fascismo, dos conservadores, da “direita” em sua expressão política. Por outro lado, as palavras “sem medo”, que parecem apoiar o eleitor em sua posição, trazem dois efeitos a elas apensos: 1. Lançam a suspeita sobre algum dos candidatos (que estaria ameaçando os que não votassem nele...) e 2. Falam em “medo”, sugerindo um perigo, uma ameaça. Outro efeito de sentido que também aí funciona, mas de modo mais indireto, é o de que, se essas entidades assinam algo que produz os dois efeitos acima, significa que elas estão tomando posição contra algum dos candidatos que elas fazem supor que ameaçaria os eleitores. Logo, elas deixam de ter neutralidade, o que é um princípio ético eleitoral.” (2002:29) Perceberam como a análise da autora busca mostrar ‘como o texto significa’? Orlandi nos mostra ainda que uma faixa como a que segue traria outros efeitos de sentido. VOTE COM CORAGEM Os votos não serão identificados Associação de funcionários e professores Nesse caso, a autora afirma que “A cor vermelha está ligada historicamente a posições revolucionárias, transformadoras. Sobre fundo branco, as palavras “com coragem” fazem apelo à vida, ao futuro, à disposição de luta.” (2002:29). Essa é a ‘materialidade simbólica’ a que nos referimos anteriormente. Um texto não é constituído somente por sentenças: Ele é REALIZADO por sentenças e isso muda a perspectiva linguística. Você não acha que a explicação apresentada por Orlandi justifica como é importante a inclusão da ideologia e o sujeito na análise? Pudemos observar, de forma breve, um estudo linguístico das condições de produção do enunciado e como a língua funciona para a produção de sentidos, ou seja, a relação linguagem-pensamento- mundo. Vimos que a AD rompe com o esquema elementar de comunicação. Temos uma nova visão da comunicação com a inclusão do conceito de ‘Condição de produção’ – a observação dos envolvidos no discurso dentro do ambiente em que essa produção ocorreu. Qual a consequência disso? 7 Procura-se compreender a língua fazendo sentido como parte do trabalho social geral, constitutivo do homem e da sua história. Segundo Orlandi (2000), a AD trabalha “[...] com a língua no mundo, com maneiras de significar, com homens falando, considerando a produção de sentidos [...]” (pág.16). Se deixarmos de trabalhar com a língua de forma fechada e passarmos a analisar o discurso, mudamos a visão do que é ler e de como deveria ocorrer o processo de leitura. A autora afirma que a Ad vai além da interpretação já que ela trabalha com a compreensão de como “[...] os objetos simbólicos produzem sentido [...]” (pág.26). Por isso, a autora apresenta uma distinção interessante entre inteligibilidade, interpretação e compreensão que reproduziremos a seguir. a) Inteligibilidade – basta se conhecer a língua para que o enunciado seja inteligível. Por exemplo, “Ele disse isso”. b) Interpretação - “É o sentido pensando-se o cotexto (as outras frases do texto) e o contexto imediato.” (Orlandi: 2002, 26) c) Compreensão - “É saber como um objeto simbólico (enunciado, texto, pintura, música, etc.) produz sentidos. É saber como as interpretações funcionam. Quando se interpreta, já se está preso a um sentido”. (Orlandi: 2002, 26) Marildes Marinho, em Ler e Navegar: Espaços e percursos da leitura, nos mostra a importância do conceito de leitura para a AD. Segundo a autora, quando consideramos o arcabouço teórico da AD, o número de leituras que são possíveis quando consideramos um determinado texto vai ser restrito. Isso porque, para a AD, há “[...] um conjunto de critérios, com base nos quais se poderia ler objetivamente um texto.” (2001:24) A autora firma ainda que, enquanto muitos consideram a possibilidade de múltiplas leituras para um texto, a AD “[...] tenta explicitar quais são os movimentos que alguém faz para ler como lê.” (pág. 25) 8 9 Agora vamos aplicar esses três níveis à tira a seguir: (Disponível em googleimages.com) Vejamos as etapas ‘entender’, ‘interpretar’ e ‘compreender’, com base na tira acima 1) Inteligibilidade. A tira está escrita em português e conhecemos os significados das palavras utilizadas. Ainda que houvesse uma palavra, cujo significado não conhecêssemos, poderíamos buscá-lo em um dicionário. 2) Interpretação. Considerando-se que Helga, esposa de Hagar, encontra-se sentada em frente a ele, Hagar quer fazer um brinde à Helga, “adorável mulher pela qual me apaixonei, há tantos anos”, mas seu amigo interpreta que Helga e essa mulher não podem ser a mesma pessoa. 3) Compreensão. Se, ao interpretarmos um texto estamos presos a um sentido, resta-nos compreender o que nos levou a esse sentido. A proposta da AD é de que não há neutralidade nos usos da linguagem. Hagar assume seu papel de sujeito do discurso. Sabemos que uma FD faz parte de uma FI, ou seja, o discurso reflete uma ideologia: Para a AD, uma FD é o lugar em que discurso e ideologia se unem. No entanto, é na fala do companheiro de Hagar que essa FI realmente se consolida: “Você não vai contar pra gente quem era ela?”. O que refletem essas palavras? O que elas nos dizem sobre amor e casamento? Segundo a autora, temos ‘efeitos de sentido’, pois “[...] a faixa preta traz em si uma memória.” (2002:29) A autora estabelece ainda outras argumentações.