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Prefácio (Por José P. Castiano) Die Eule der Minerva beginnt erst mit der einbrechenden Dämmerung ibren Flug1. Estas palavras de foram escritas por G.F.Hegel (1770-1831), o considerado pai da filosofia clássica alemã, no penúltimo parágrafo do prefácio à sua obra Grundlinien der Philosophie des Rechtes2 a 25 de Junho de 1820, data em que o assinava. Na mesma data, em Moçambique, aproximadamente um século e meio depois, Samora Machel proclama a Independência total e completa de Moçambique acto que formalizou a Liberdade política. Se há alguma coisa que o filósofo Ngoenha teria desejado fazer, seria convidar o velho Hegel a assistir a um dos momentos mais importantes da caminhada do povo moçambicano para a sua Liberdade. Mas ao invés disso, Ngoenha obsequeia-nos com a visita da coruja da Minerva por via deste livro no vigésimo ano da Independência de Moçambique, ano das terceiras eleições multipartidárias para o Parlamento e Presidência da República. A coruja é a ave que a Minerva envia para anunciar as boas novas. Quando ela levanta o seu voo e o povo a vê chegando, sabe que é prenúncio da luz da esperança. Algo vai mudar? No mesmo parágrafo, antes desta frase, Hegel escreve: “Enquanto pensamento do mundo, [a filosofia] aparece no tempo só depois da realidade ter consumado o seu processo de formação e esteja realizada3”. A ideia é que a Filosofia, como amor pela sabedoria, é um Gedanke (pensamento) sobre os fundamentos dos fenómenos da natureza, da sociedade e do pensamento. Entre os quais estão os fenómenos políticos. A Filosofia para este pensador, é o resumo do tempo no pensamento, por isso só pode chegar ao “entardecer” depois de tudo acontecer durante uma jornada. Para Hegel, neste sentido, a Filosofia é contemplativa e é o ponto de chegada reflectiva. Ngoenha se propõe com este livro fornecer os fundamentos para o pensar filosófico sobre a Democracia moçambicana. Chegou tarde demais como a coruja da Minerva? Ou chegou ainda a tempo de, com o livro, espalhar uma luz do olhar filosófico sobre o processo político em Moçambique? Ele próprio diz que as questões que trata neste livro foram suscitadas há quase quatro anos atrás. De lá para cá lhe perseguiram nas suas reflexões e conversas. O convite da Academia Filosófica na Matola em 1999 foi o ponto de partida e pretexto para pensar e escrever sobre o papel da Filosofia, particularmente da Filosofia Política, em Moçambique. O convite foi nas vésperas das eleições legislativas e presidenciais de 1999. Ngoenha vem responder quase cinco anos depois ... por sinal [?] nas vésperas de outras eleições gerais. Tarde como a coruja da Minerva? Sim porque as eleições que eram a ocasião do questionamento já se realizaram. Mas Ngoenha precisava de tempo para reflectir sobre os fundamentos. E pensar sobre os fundamentos precisa de prudência porque pomos em evidência e pensamos sobre os erros, conflitos, lutas e disputas do passado com os olhos postos no futuro. Mas Ngoenha tem uma visão interventiva e não contemplativa da Filosofia. Tal como o jovem Marx, ele defende que a Filosofia não só deve interpretar o Mundo – o que 1 “A coruja da Minerva só levanta o seu voo quando chega o crepúsculo” (tradução minha). Há pelo menos uma boa dezena de traduções diferentes desta frase de Hegel, alterando, naturalmente, ligeiramente o seu sentido. Em algumas traduções portuguesas se emprega o termo mocho e não coruja e ainda o termo entardecer ao invés de crepúsculo. Atenas ou Minerva era a deusa da cidade de Atenas, da coruja e da oliveira e da civilização, era a encarnação da sabedoria, da razão e da pureza. 2 Fundamentos da Filosofia do Direito. 3 “Als der Gedanke der Welt erscheint sie [die Philosophie] erst in der Zeit, nachden die wirklichkeit ihren Bildungsprozeβ vollendet und sich fertig gemacht hat”. (Hegel, F., Philosophie des Rechtes. Vorrede, Bd. 7,9p.) Hegel até aí fizera –mas ela deve sobretudo transformar o Mundo procurando oferecer aos homens melhores alternativas de interpretar e agir sobre a sua História. Por isso acho que, para além de ter pensado na Filosofia em Geral, Ngoenha personalizou a questão. Entendeu e bem que a sociedade moçambicana através dos membros da ACAFIL, lhe estivesse a questionar «qual é o teu papel como filósofo em Moçambique? ». Naturalmente que, assim colocada a questão, os proponentes queriam manifestar, através de Ngoenha, o desejo de ver nos intelectuais moçambicanos, um maior engajamento teórico-crítico e mais intervenção nos processos políticos nacionais, se é que estes têm a pretensão de ser intelectuais moçambicanos. E Ngoenha responde a este apelo com ousadia e arrojo que testemunham o seu ímpeto de querer ser mais interventivo no processo moçambicano. Por exemplo, numa das passagens, escreve o seguinte: “digo muitas vezes que lamento ter nascido tarde e não poder ter aderido naquela luta [de libertação] que continua a ser nos meus olhos justa”. Mas ao escrever a presente obra Ngoenha socializa a questão, isto é estende o convite de reflexão para outros intelectuais como ele, desafiando-os desta feita a trazerem as suas reflexões sobre as seguintes questões fundamentais para Moçambique: qual é o sentido actual de lutar pela Liberdade no nosso país democrático? Como devemos militar e lutar por este sonho da Liberdade? Quais são as nossas armas e que são hoje os inimigos da Liberdade dos moçambicanos? Numa linguagem menos militante podemos formular a questão desta forma: Quais são os constrangimentos de hoje à Liberdade dos moçambicanos e qual é o papel da Filosofia na maximização das liberdades democráticas dos indivíduos e povos assim como na sua participação política? Vista neste ângulo, a coruja não chegou tarde porque nunca o sentimento de falta de liberdades esteve tão presente como hoje nos países africanos; e a filosofia africana nunca como hoje se sentiu tão chamada a mostrar luzes que iluminam o caminho dos povos africanos para a sua liberdade. Aliás, se há uma filosofia que desde o seu surgimento tem como sua essência a busca da liberdade, esta filosofia é a africana; é tanto assim que Ngoenha declara que ela sempre foi marcada pelo paradigma libertário: “se existe um substracto filosófico que está na origem axiológica de Moçambique é sem dúvida a busca da liberdade”, escreve Ngoenha em relação ao processo moçambicano. Esta liberdade que se busca tem duas facetas: a positiva, segundo o autor, quer dizer liberdade (ou direito) de sermos nós mesmos” e a negativa, enfatiza a necessidade de vivermos sem constrições de carácter político e económico. Este livro de Ngoenha é em si uma das luzes que a Minerva traz para iluminar a caminhada dos moçambicanos para uma maior maximização das Liberdades individuais e colectivas. Caminhemos, pois, com o livro. No capítulo I, cujo título é Filosofia e democracia em Moçambique- pela sua função na obra trata-se de um capitulo introdutório- o autor pregunta-se sobre “qual pode ser o papel da Filosofia no processo democrático de Moçambique?”. Antes de responder a questão que coloca, Ngoenha deixa claro que, qualquer pessoa que lhe desejar responder, tem o dever de ser “coerente”, isto “e, deve começar por clarificar sua posição pessoal e os valores pelos os quais milita. Para Ngoenha, que se crê ser militante da tradição filosófica africana na sua vertente libertaria, o valor máximo e ao mesmo tempo o fim da sua filosofia é a Liberdade. Como ele mesmo escreve: “o valor do fundo do meu engajamento é a militância a favor desde valor humano supremo para os moçambicanos e para os africanos” que é Liberdade. Mas o que significa militar pela Liberdade no contexto actual e em Moçambique? Entre outras coisas Ngoenha, para dar resposta a esta questão, exige que o filósofo ou o intelectual que milita pela causa da Liberdade deve preocupar-se constantemente em “relevar e fundamentar as razões que militam afavor de uma democracia mais participativa, de uma democracia que subordina a [A1] Comentário: As aspas altas no texto original apenas aparecem no fecho sem no entanto terem sido abertas, neste período. Mantivemo-las como estão no original. Prefácio economia às escolhas políticas e societais (...) e que baseia as suas instituições nos imaginários colectivos das populações ...”, neste caso, das populações moçambicanas. Portanto, a filosofia deve continuar a procurar e oferecer luzes à velha questão grega do “melhor governo e das melhores formas institucionais” para alargar a participação das pessoas e grupos de homens e mulheres. Para além disso, o intelectual que milita pela Liberdade deve, no seu entender, resistir às tentações do(a) político(a). Deve resistir ao cortejo pelo poder, seja ele por parte do Governo ou da oposição (que no caso de Moçambique, para Ngoenha, a oposição não é a Renamo nem os outros partidos). Neste ponto reconhecemos o regresso de Ngoenha às suas reflexões sobre o papel do intelectual. Segundo ele, o papel do intelectual seria o de contribuir com ideias e reflexões para o melhoramento da sociedade. Colocando-se nesta perspectiva, este seu livro pretende ser o seu modesto contributo para o crescimento político e social de Moçambique. Enfim, o intelectual deve resistir às tentações da corrupção. Não terá sido esta a atitude de Sócrates ao recusar sair da prisão esperando tranquilamente (e ingenuamente) pela justiça? Não serão modelos disso tanto Eduardo Mondlane como Samora Machel, o primeiro pelo abandono do conforto das Nações Unidas e pela carreira universitária nos Estados Unidos e o segundo pela sua abnegação (des)comedida em defender a independência de Moçambique contra tudo e todos? Não serão Julius Nyerere e Thomas Sankara exemplos de governantes africanos que “tentaram ser justos” durante o tempo que assumiram a responsabilidade de conduzir a construção da Liberdade nas suas nações? - pergunta-se Ngoenha. E acrescenta que Azikiwé, Nkrumah, Senghor, C. A. Diop, A. Cabral, A. Neto são, entre outros, os modelos de intelectuais no poder político ou detentor de poderes políticos mas que fizeram tudo ao alcance para serem militantes pela Justiça e Liberdade. Ngoenha reflecte, neste ponto, a profunda angústia que sente quando, de cada vez que vem a Moçambique Filosofia na Universidade Pedagógica (UP), na Universidade Eduardo Mondlane (UEM) ou no Instituto Superior de Relações Internacionais (ISRI), ou ainda para proferir palestra em que o seu tema predilecto acaba sendo a missão do intelectual moçambicano hoje, constata a ausência das elites políticas, económicas e intelectuais no debate político. Penso que no fundo, neste capítulo ele exterioriza a angústia pessoal de não poder estar presente neste debate de forma presencial em Moçambique. Quem convive com Ngoenha sabe que o papel dos intelectuais moçambicanos na maximização das liberdades é o seu tema predilecto... Como pensar filosoficamente o facto político hoje em Moçambique? É a questão central do capítulo II A Filosofia em Moçambique. É aqui onde Ngoenha propõe que a filosofia deve ser capaz de elaborar um discurso para mobilizar o “espírito da tradição” – conceito que retoma do filósofo Eboussi Boulaga para os desafios da Justiça Social no quadro do Estado moderno em Moçambique. O espírito é a chamada solidariedade africana que presumivelmente existe de forma espiritual raramente pouco praticada pelos membros das comunidades e das sociedades na África hodierna, pois, se fosse esse espírito que respeitamos, teríamos a “coragem” de passar por uma criança faminta e doente na rua nos nossos carros four by fours ou de assistir ao aumento do luxo ao lado de tanta pobreza? Não, para um contrato de natureza social a dita solidariedade africana deve ser tomada discursivamente no seu espirito tradicional mas materializada sob forma (moderna) de redistribuição equitativa da riqueza material ou dos impostos e sob uma nova forma de conceber justiça como equidade (e eu acrescento, restaurativa). O espírito da tradição em Ngoenha deve ser aquele que mobiliza os aspectos do passado, somente na medida em que os valores defendidos por este espírito têm capacidade de oferecer respostas alternativas aos desafios colocados pelo desenvolvimento. Deve despir-se o mito da chamada solidariedade africana ou melhor, se é que ela existe e mesmo que essa existência seja apenas na forma espiritual, o desafio é torna-lo útil para o contrato social em debate. Pois é isso mesmo que Ngoenha reflecte quando nos propõe que o símbolo (ideal) da justiça no contexto africano não deve ser uma mulher com a espada e balança mas sim uma mulher com uma agulha numa das mãos para cozer os pedaços de um tecido na outra mão; os pedaços do tecido na segunda representam, nesta imagem de Ngoenha, os diferentes indivíduos e grupos sociais que compõem Moçambique que a Justiça deve unir e não separar. Mas como efectivar esta justiça social num contexto em que, na “primeira República” o Estado esteve pan-presente decidindo sobre a educação, saúde, a moral, a política e mesmo sobre as biografias dos indíviduos, e na “segunda República” o mesmo Estado “dolarcrático” peca primando pela “ausência” deixando os “vencedores da guerra” governarem o país passando o próprio para a oposição? É nesta aporia que se deve perguntar sobre a legitimidade do Estado no contexto africano. Como Ngoenha defende, seria preciso perguntar-se se a representatividade por via dos partidos políticos, tal e qual é prescrita na democracia ocidental, é retomada pelo texto constitucional de 1990 e pelos Acordos de Roma em 1992, constitui a forma mais apropriada de mobilização e legitimação dos imaginários políticos e sociais dos moçambicanos. Este modelo europeu, falsamente apelidado universal, mostra-se (até agora) inadequado para os países da África. Para Ngoenha, não são as culturas (africanas) que se devem adaptar à todo o custo aos modelos (europeus) mas o ideal é que os modelos se forjem a partir dos imaginários culturais dos povos: isto significa que nós temos de (re)inventar um modelo de sociedade que nos seja próprio, conclui Ngoenha. É um modelo que terá forçosamente de tomar em conta a dimensão sócio- cultural e que exija, de partida, uma acção “concebida a partir das realidades autênticas das nossas comunidades autóctones, apreendidas a partir do interior”. Mas, entretanto, o que impede o nascimento deste modelo do interior que talvez fosse mais libertário? Ngoenha alerta sobre a existência de dois problemas que constrangem o tal nascimento: um, é que não existem mecanismos jurídicos legais previstos constitucionalmente que permitam ao eleitor, no período entre as eleições, fazer-se ouvir ou participar no debate público. O segundo problema, é que a nação teve que nascer sob o comando das leis e da lógica produtivista impondo-se em detrimento de qualquer projecto político que tivesse havido ou estivesse prestes a emergir, são leis, sob o ponto de vista interior antidemocráticas, porque impostas por instituições como FMI e o Banco Mundial sem legitimidade popular para governar o nosso país mesmo que seja em nome do desenvolvimento; são leis que não assentam nos imaginários culturais dos moçambicanos e, o que é pior, ganham conivência de uma parte da elite moçambicana. Por isso, a este ponto, em relação ao primeiro problema, se deve questionar a aplicabilidade da Democracia Representativa em Moçambique; e, em relação ao segundo problema, temos que equacionar sob que pressupostos assenta a Soberania de Moçambique. Ao dissertar sobre a democracia representativa, Ngoenha revisita o princípio básico da Democracia, o da separação de poderes. Na aplicação deste princípio, Ngoenha identifica conflitos entre poderes executivo e legislativo, por um lado, e entre os poderes executivo e judiciário, por outro. Pois, o “paradigma Anibalzinho-Nyimpini” é para Ngoenha o sintoma destes conflitosinstitucionais, ou seja, reflecte o problema de como fazer que entre o poder executivo e judicial (ou entre o legislativo e executivo) não haja interferência. Este é o problema de muitas democracias actuais no mundo (Chirac, na França ou Berlusconi, na Itália, entre outras). Ao dissertar, em seguida, sobre o problema da Soberania, Ngoenha começa por lembrar-nos que esta está ligada à Responsabilidade. Aliás, não é primeira vez que Ngoenha debate a questão da Liberdade, soberania e responsabilidade. Já em 1998 no Prefácio seu artigo Identidade Moçambicana, já e ainda não é4 Ngoenha apresenta algumas linhas deste seu pensamento ao perguntar-se com Booker Washington “O que é que a Liberdade comporta em termos de responsabilidade?” Será necessário percorrer as páginas deste capítulo para inteirar-se da forma filosófica como o Ngoenha trata esta aporia. Mas adianto que o objectivo do autor ao introduzir a problemática da soberania é o de desvendar uma aporia na prática da Política Internacional actual que é a predominância de Governos nacionais soberanos, portanto que se regem por princípios democráticos válidos na sua acção interna, mas, em contrapartida, na sua acção externa são totalmente antidemocráticos, o que, segundo Ngoenha, Luigi Ferrajoli chamou de “comunidade selvagem de Estados soberanos”. São pois duas histórias paralelas do percurso da Soberania que teremos que registar, sendo uma de um Estado de direito interno e outra de Estado que se absolutiza permanentemente na sua acção no plano internacional. Moçambique seria vítima deste processo de absolutização externa da Soberania a tal ponto que, no dizer de Ngoenha, “falar de soberania moçambicana [seria] hoje um autêntico abuso de linguagem” porque, sendo a soberania o pressuposto filosófico da constituição moçambicana, a prática política e jurídica porém tem demonstrado o contrário. As instituições da Bretton Wodds encabeçam uma interferência “abusiva e anti-soberana” da chamada comunidade internacional nos planos político, económico, cultural, social e mesmo jurídico em Moçambique. Mas, se a soberania está sob o comando da chamada comunidade internacional, assumirá esta comunidade da mesma forma o que a Soberania comporta como responsabilidade? Eu perguntaria de uma outra forma, haverá mecanismos legais nacionais e internacionais ao alcance do Governo moçambicano para que possa exigir responsabilidades da comunidade internacional pela sua acção no nosso território? Que mecanismos legais se podem acionar quando, por exemplo como recentemente sucedeu, uma organização estrangeira, teve que reduzir drasticamente o seu apoio financeiro ao sector de educação (porque o seu apoio externo tinha assumido, entretanto, encargos maiores na reconstrução do Afeganistão) e já não pôde dar corpo aos vários projectos de apoio institucional que teria assumido com os planos do Governo moçambicano? Quem assumiria a responsabilidade perante as crianças que porventura deixarão de poder entrar na escola ou não terão uma educação de qualidade por encurtamento de meios ou por falta de apoio prometido durante as negociações de parceria? No actual panorama institucional as possibilidades são quase nulas, só restando apelar ao plano da moral e princípios não vinculativos na prática da cooperação em forma de “parcerias inteligentes”. Eu diria, intervir na soberania sem assumir a responsabilidade dos actos que isso comporta, é batota que a comunidade internacional faz connosco. Em jeito de conclusão, o fio condutor que o leva a temas apresentados no capítulo II (o papel do Estado, a questão da legitimidade, a democracia representativa e a questão da soberania) é o debate em torno do papel da(s) tradição(ões) no contexto da África moderna e a questão dos constrangimentos à justiça entendida como equidade, não somente confinada à garantia das Liberdades no quadro do liberalismo político, mas sobretudo na sua vertente de distribuição dos recursos materiais, sociais e culturais moçambicanos (individualmente e por grupos). Não é por acaso, pois, que o título do capítulo III de Ngoenha seja Aos vencidos não se pede opinião. Pois engana-se, como eu me enganei ao ler este título pela primeira vez quando o manuscrito me chegou às mãos, o leitor que atribuir o estatuto de “vencido” à Renamo e a outros partidos da oposição e de “vencedor” à Frelimo que 4 Publicado pela Livraria Universitária na colectânea Identidade, Moçambicanidade, Moçambicanização, sob a direcção de Carlos Serra (Maputo 1998). [A2] Comentário: A minha modesta proposta é que se suprima o artigo definido “o”. forma o Governo sozinha. Para Ngoenha o que acabou foi a guerra mas não a violência. Transferiu-se a luta pelas armas por uma violência pelo controle do poder. E violência não é só a morte de Carlos Cardoso. O tipo de violência que preocupa mais a Ngoenha é o que priva uma criança de ter comida ou de ir à escola. Estamos numa situação de Paz com Violência. Mas é uma violência que é ditada pelo poder económico. Por isso, pergunta-se, se a guerra acabou, quem venceu e quem perdeu? Se a violência continua, qual é a causa? À primeira pergunta apresenta três cenários possíveis ([i] o país perdeu, [ii] o país ganhou, [iii] há vencedores externos) e escolhe, naturalmente o último por que “nós, e quando digo nós, quero dizer, nós moçambicanos perdemos a guerra. A Frelimo não ganhou, mas também a Renamo não ganhou”. Quem ganhou foi o capitalismo internacional representado pelas suas instituições da comunidade internacional, foi o liberalismo na sua dimensão económica (daí o facto de Ngoenha incluir a África do Sul entre os vencedores). Ao depor-se as armas que estavam nas mãos da Renamo e do Governo acabando com a guerra, voltou a ressuscitar a velha luta entre inimigos já denunciados por Marx: o capital e o trabalho, ou seja, entre os que têm poder económico e os que para sobreviver precisam deixar-se explorar vendendo a sua força de trabalho. Com o Governo aderindo abertamente ao neo-liberalismo, mostrando, em consequência, fragilidade em salvaguardar a soberania e em regulamentar a vida social dos moçambicanos, unida à dificuldade da Renamo em contrapor-se ao projecto político neo-liberal, portanto com ambos à direita, quem está à esquerda? Não há, por isso, debate político em Moçambique. O que há é uma violência pelo poder entremeada pela capacidade da comunidade internacional, que por razões óbvia “não pode governar directamente”, em prolongar um projecto dolarcrático neocolonialista. Mais do que em qualquer capítulo Ngoenha mostra neste a sua adesão às três dimensões do seu pensamento, ou seja às dimensões nacionalista, africanista e socialista procurando sempre ser fiel ao paradigma libertário. Ngoenha termina a sua obra apresentando-nos, no capítulo IV, uma apologética para a renovação da constitucionalidade actual. Por um Triplo Contrato Moçambicano é um título deste capítulo onde o autor advoga a necessidade de um triplo contratualismo: contrato cultural, contrato social e contrato político. Em relação ao contrato cultural, Ngoenha começa por ressaltar que a democracia comporta duas partes: uma axiológica e outra institucional. Ngoenha não negocia a dimensão axiológica. Segundo ele, o plano de valores comporta princípios de igualdade e do respeito pelos direitos humanos. Estes valores constituem uma forma abstracta para corrigir as desigualdades naturais entre os homens, para garantir o respeito pela dignidade e pelos direitos inalienáveis do homem. Portanto os valores da democracia, na óptica de Ngoenha, são de natureza universal e por isso mesmo não negociáveis. Em contrapartida, os modelos institucionais que comportam as democracias, na opinião de Ngoenha, devem ser “aculturados”, ou seja, devem ser adequados de tal forma que a sua legitimidade deve derivar daquilo que o autor chama por “imaginários colectivos” dos povos e culturas.O resultado ou o fim do processo ou Moçambicanização de instituições chama ele de contrato cultural. No artigo do mesmo autor que fiz referência acima, escrito em 1998, ele esboçava já os primeiros contornos desse contrato cultural. Ele escrevia naquele artigo5 que “o pacto cultural deveria reconciliar a política com as culturas nacionais ... [o] que permitiria libertar as instituições estatais da política cultural sobre a qual vegetam e metê-las numa dinâmica de cultura política mais produtiva6. O que no fundo quer dizer que para escrever este contrato seria necessário mobilizar uma capacidade integradora nacional que (re)conciliem o projecto político com as características étnico-culturais das populações de Moçambique. Ele chama atenção para 5 Refiro-me ao texto: Ngoenha, S., Identidade Moçambicana: já e ainda não. In: Serra, C. Identidade, Moçambicanidade, Moçambicanização, Livraria Universitária, UEM, Maputo, 1998 (pp.17-34). 6 Ngoenha, S., Identidade Moçambicana... (p.30) Prefácio o facto de não se tratar de renovar ou reabilitar as instituições tradicionais ancestrais, mas sim conferir à democracia uma dimensão moçambicana. Mas para isso temos que conhecer as nossas tradições e culturas para a partir deste conhecimento pensar o direito e a democracia moçambicanas, recuperando assim aquilo que Montesquieu chamava por “espírito da lei”, ou se quisermos falar com Eboussi Boulaga, por “espírito da tradição”. Para efectivar esta reflexão e recuperar a tradição em função do futuro, Ngoenha vê a universalidade como o local de reflexão e, consequentemente, ele vê as elites intelectuais como sendo a força social que deveria estar na vanguarda deste empreendimento. É em volta deste pensamento que o autor desenvolve os subtítulos de “cultura jurídica”, “pluralismo jurídico” e “transferência jurídica” a partir dos quais conceptualiza, no final do livro, o seu projecto político democrático e multicultural. No projecto político de Ngoenha há um contrato entre o Estado e os subgrupos em que cada uma das partes tem obrigações morais perante as suas acções. Por meio deste contrato é preciso assegurar que os indivíduos admitam a existência duma nação unificada e independente, que contenha regras e princípios a ser respeitados, mas ao mesmo tempo, em que a igualdade de cada pessoa não seja minada pelas desigualdades dos domínio s da vida social. Neste ponto emerge Rawls no contrato ngoenhiano. Ngoenha desenha, pois, o seu contrato social inspirado de forma significativa pelo debate iniciado pela obra de John Rawls Uma Teoria de Justiça. Nesta obra, Rawls defende no fundo dois princípios de justiça como equidade. São princípios que defendem a distribuição dos bens primários entre os membros de uma sociedade de forma equitativa; considera por “bens primários” os bens básicos que todas as pessoas, independentemente dos seus projectos pessoais de vida ou das suas concepções do bem, devem usufruir. São eles o auto-respeito, a auto-estima, as liberdades políticas básicas, as rendas assim como direitos a recursos sociais como a educação e a saúde. A referência aos princípios de John Rawls7 e ao debate em torno deles, servem de chamada de atenção para Ngoenha sobre dois aspectos: o primeiro, alerta-nos para o facto de que a garantia das liberdades fundamentais (pela constituição democrática liberal) não é suficiente para o fortalecimento da democracia moçambicana, se não houver uma preocupação em diminuir o fosso entre ricos e pobres; o segundo aspecto que Ngoenha pretende mostrar é o redimensionamento do paradigma libertário: é que uma filosofia que se pretende moçambicana não só deve buscar fundamentar a Liberdade, mas também fundamentar a busca da Justiça. Com isto Ngoenha redimensiona o que declarou ser um paradigma libertário da filosofia africana para integrar um outro patamar paradigmático, ao que podemos chamar de «Paradigma de Justiça Social». Considero que fundamentar as formas de implementar os princípios de Justiça Social é um aspecto importante que merecerá um debate aceso para amadurecer o sentido democrático da luta dos moçambicanos. Mas este novo patamar não pode efectivar-se sem um contrato político que tenha como interlocutores as diversas forças políticas que articulam aos seus interesses na sociedade moçambicana. Para isso seria necessário reinventar, criar ou alargar o espaço público onde as diferentes forças vivas da sociedade entrem em confrontação somente pela via argumentativa (e não pela via das armas ou da violência física ou moral). Ngoenha propõe-nos no seu contrato político, que as forças políticas moçambicanas deveriam fazer um acordo sobre aquilo que é essencial, indiscutível, não negociável, ou seja sobre o fundamento normativo do Estado. E este acordo é possível “se a nação estiver em primeiro lugar”8. Ngoenha escreve sobre as zonas não negociáveis: “a nível de bens económicos que constituem o património nacional (portos, caminhos de ferro, minas, terra, etc.), de jurisdição-política, espaços estritamente nacionais que não são acessíveis a estrangeiros (ministérios, lugares de defesa, de segurança, de planificação, etc.), prerrogativas ciumentamente nacionais não cedíveis a ONG, cooperações, doadores, etc.”. 7 Trata-se do princípio da equal liberty principle (igual liberdade) como o primeiro e, como segundo, o principio das desigualdades sociais e económicas, este segundo princípio, por sua vez, subdividido em dois: o primeiro, o princípio da igualdade equitativa das oportunidades e o segundo o polémico princípio da diferença (Cfr. John Rawls, Uma Teoria da Justiça, Editorial Presença, Lisboa, 1993, p.67-107). 8 Parafraseo aqui, e citando de memória, o título de um artigo do economista Prakash Ratilal num comentário analítico à Agenda 2025. O engajamento intelectual que Ngoenha nos traz por meio deste livro tem paralelismos com o engajamento intelectual de um dos grandes pensadores da Filosofia Política dos últimos tempos e a que ele faz muita referência: John Rawls. Se para o filósofo moçambicano o leitmotiv do seu engajamento e da sua actividade intelectual é a militância a favor da Liberdade, os esforços intelectuais de Rawls foram para fundamentar a Justiça como Equidade a partir do senso de justiça e a faculdade de concepção do bem que, segundo o próprio Rawls, são inerentes às pessoas morais, livres e iguais e que vivem numa sociedade democrática9. Na sua obra Justice as Fairness: A Restatment Rawls afirma que o facto de a sociedade democrática ser frequentemente vista como um sistema de cooperação social “(...) é sugerido pelo facto de que, de um ponto de vista político e no contexto da discussão pública de questões fundamentais de direito político, seus cidadãos não consideram a sua ordem social como uma ordem natural fixa ou como uma estrutura institucional justificada por doutrinas religiosas ou princípios hierárquicos exprimindo valores aristocráticos”10. Lendo esta citação conclui-se que há concordância tácita mas ao mesmo tempo um afastamento entre Ngoenha e Rawls. A concordância nota-se em relação ao facto de considerarem que a característica de uma democracia moderna é –emprestando o termo a Beck, Giddens e outros –a reflexibilidade, ou seja, por um lado a interconexão entre a racionalidade científica e a racionalidade social no debate público sobre a(s) política(s) e, por outro, o debate sobre os próprios fundamentos da democracia liberal. Entre os fundamentos da democracia liberal que ambos propõem colocar ao debate é o que Rawls no trecho acima chama de “estrutura institucional” e Ngoenha denomina por necessidade de “aculturar as instituições”. Mas o ponto em que discordam é nas implicações dos seus discursos. Rawls escreve tendo em vista formular uma teoria universal da justiça e Ngoenha nos chama atenção para a necessidade da sua particularização.O filósofo queniano Odera Oruka escreve, a propósito das ideias de John Rawls, que seria difícil imaginar alguém que formule uma teoria universal de justiça social que não tome em conta os factores de ordem económica, tradicional ou ideológica nas diferentes sociedades11. Porque são exactamente estas características que poderiam, no dizer de Oruka, determinar o que deveria fazer parte do cabaz das “necessidade básicas” ou ainda o que poderia ser considerado como sendo os “direitos fundamentais” de uma determinada sociedade. Rawls imagina que o bem-estar (wealth) e o rendimento (income) constituem as necessidades básicas. Mas, segundo Oruka, o conteúdo do bem-estar e das liberdades fundamentais, por depender das contingências locais, é diferente. Ele dá o exemplo de sociedades onde os princípios de existência colectiva ou são derivados de ideologias marxistas onde o indivíduo tende a relegar os seus interesses para a última instância (sociedades socialistas) ou são derivadas da relação religiosa com entidades metafísicas onde a coerção social põe a autonomia e valores dos indivíduos em segundo lugar (sociedades tradicional-comunalistas). Nessas sociedades, prossegue Oruka, as pessoas que tenham acumulado algum bem-estar ou com grandes rendimentos, não têm individualmente o poder de usar os seus rendimentos a seu belo prazer e de forma legal. O Estado, nas condições de sociedade exemplificadas por Oruka, deveria ser coercivo para tirar as riquezas individuais das mãos das pessoas e ‘legitimar’ esta coerção a partir da necessidade de redistribuir a riqueza favorecendo aos grupos até então historicamente desfavorecidos. É o que no fundo foi feito depois da independência de Moçambique com as nacionalizações cuja justificação era a de ‘devolver ao povo o que lhe pertencia e acabar com a exploração do homem pelo homem’ e, de certo modo, a mesma justificação que é dada hoje pelo Governo do Zimbabwe para arrebatar as terras das mãos dos agricultores brancos em nome do povo (negro) daquele país. O que quero (de)monstrar aqui é que há nos Estados africanos de hoje uma aporia política cuja origem é a existência do Estado neo-liberal inspirado e edificado na base do contratualismo clássico no qual os indivíduos têm direitos a ser defendidos pelo Estado, mas simultaneamente notamos que há uma grande injustiça social no que diz respeito à distribuição do bem-estar e da renda. Assim, para uma melhor distribuição, o Estado não pode 9 Rawls, J., Uma Teoria da Justiça. Editorial Presença, Lisboa, 1993, p.68. 10 Cfr. Oliveira, N., Rawls. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2003, p. 49. 11 Oruka, H. O., John Rawls´s Ideology. Justice as Egalitarian Fairness. In: Oruka, H. O., Practical Philosophy. In Search of an Ethical Minimum East African Educational Publishers. Nairobi-Kampala, 1997 (115- 125). Prefácio ‘forçar’ os poucos ricos a darem mais que os outros sem correr o risco de invadir a esfera dos direitos individuais, particularmente sem correr o risco de passar por cima do direito à propriedade. Este é o dilema da África do Sul hoje: como ‘obrigar’ a minoria branca que acumulou riquezas por meio de vantagens históricas do apartheid a darem uma parte da sua riqueza evitando violar os direitos individuais, sobretudo os de propriedade e mantendo o Estado do Direito intacto? Aqui parece ser necessário haver uma espécie de contratualismo que se baseie não só na defesa e garantia dos direitos dos indivíduos mas também que consiga submeter os interesses económicos de grupos aos interesses políticos e a defesa de idiossincrasias particulares de grupos culturais. Encaixa assim o facto de Ngoenha ter introduzido a ideia dos contratos sociais e culturais junto ao contrato político. Se é que o contrato político, baseado na Constituição, garante a observação em primeira linha dos direitos dos moçambicanos como individuais, os dois contratos adicionais que Ngoenha propõe (o social e o cultural) terão que ter como assinantes grupos de moçambicanos. Desta feita, o contrato social deverá comprometer os grupos com interesses económicos, ou mais precisamente, grupos com maior rendimento, com os desafios políticos do desenvolvimento, e com redistribuição equitativa do rendimento nacional; e o contrato cultural deverá criar espaços abertos para a articulação de diversos valores e práticas culturais no contexto da política nacional. Estes dois contratos só serão possíveis alargando a teoria contratual da esfera individual para a colectiva de articulação de interesses económicos e de defesa e promoção de valores culturais. Assim resolve Ngoenha o problema axiológico ou da falta de uma “cultura política”. Cada geração ou acusa ou aprecia o engajamento intelectual e físico da anterior. A geração moçambicana de hoje só pode agradecer à geração que decidiu pegar em armas para encetar uma luta justa e dura cujo fim era eliminar a dominação colonial. Aquela luta foi uma heroicidade de toda a geração. Foi a geração que maximizou o gozo das liberdades nacionais ao proclamar a Independência Nacional. E, pelo que se vem publicando ultimamente sobre a história da luta de libertação, pode notar-se que foi um processo cheio de contradições, indecisões, determinações, cisões, mas sobretudo de unidade em torno do objectivo comum. O que quero perguntar é: qual é o papel da nossa geração agora? Não teremos a responsabilidade de deixar um Moçambique com as liberdades mais alargadas do que as que gozamos? Podemos dar-nos ao luxo de deixar explorar todas as riquezas do solo e subsolo sem a preocupação de sustentabilidade das vidas futuras? Não temos a responsabilidade de não só preparar as gerações futuras através da educação, mas também criar todas as condições para que tenham emprego e segurança? Que valores deixamos para que os nossos filhos e netos se orgulhem dos anos 80 e 90? Moçambique pertence tanto aos moçambicanos presentes, aos espíritos dos nossos antepassados proclamados como heróis ou não, assim como aos futuros moçambicanos que aqui irão nascer, crescer, viver, amar e morrer nesta pátria. Moçambicanos são também os nossos heróis que morreram, somos nós hoje, mas também o futuro. Daí que é preciso vivermos hoje com a responsabilidade do amanhã. Hans Jonas, na sua obra O Princípio da Responsabilidade (1979), reformulando o princípio da ética kantiana, projecta uma ética de responsabilidade polarizada nas condições de vida das gerações vindouras. Segundo esta ética, o homem não deve esperar que venha a receber alguma coisa em troca da sua acção responsável. Aplicada a Moçambique, esta seria uma ética que visa criar condições para que os moçambicanos do amanhã tenham a possibilidade de serem sujeitos-agentes mais livres e responsáveis. Por isso, penso que deveria haver também uma quarto contrato –o contrato de gerações. Neste, que não teria necessariamente uma força constitucional, caberiam todos os temas “futuristas”, tais como, tecnologia e inovação, meio ambiente, geração de empregos assim como compromissos sociais na utilização das poupanças públicas. Portanto, o contrato de gerações faria parte integrante da planificação estratégica para o desenvolvimento. Em nome deste contrato, as crianças e a juventude hodierna moçambicana (que ainda não tem direitos políticos) deveria estar em condições de exigir aos adultos o direito de viverem bem amanhã e de serem uma espécie de supervisores da acção daqueles. Derivado deste acréscimo ao contratualismo há ainda um outro ponto que Ngoenha, com este livro, introduz no debate político em Moçambique. É o ponto da cultura ou da diversidade cultural. Como é que a diversidade cultural pode ser gerida politicamente? O que significa erguer uma Estado multicultural? Já Frederic Jameson notava que, na impossibilidade de haver qualquer projecto colectivo na condição pós-moderna, o capital multicultural elabora o jogo da heterogeneidade permitindoassim que muito mais do que nas épocas anteriores a questão cultural se transforme num problema político. Segundo Jameson, o ambiente pós-moderno, dado o seu conteúdo de expansão multicultural do capital, encerra possibilidades de resistência cultural12. Pois a possibilidade de ser “outro” nos é dada pela cultura e é por isso que a culturalidade se torna o centro da política. É isso que Ngoenha faz nesta obra: tematiza a diversidade cultural sob o prisma da sua gestão política pois, constata ele, não há ainda o diálogo necessário entre as culturas e as instituições políticas. A constituição política deve reflectir, respeitar mas sobretudo ter os seus fundamentos na diversidade cultural do nosso país. E esta diversidade cultural é incorporada não no abstracto mas em grupos etno-culturais específicos. Neste aspecto é uma grande coragem de Ngoenha trazer este aspecto à lume do debate, embora não seja a primeira vez. Já na obra Por uma Dimensão Ngoenha termina fazendo uma apologia a uma constitucionalização da gestão das culturas particulares. Ngoenha lança com este livro um outro desafio aos políticos que querem ou quererão governar o nosso país. Estes não se devem limitar a dizer-nos qual será a sua política cultural mas, sobretudo, deverão equacionar que tipo de cultura política irão desenvolver. Com esta ideia lança-se um desafio à eticidade. A eticidade é tomada por mim como manifestações na “luta pelo reconhecimento” no sentido que o filósofo alemão e sucessor de Habermas na direcção do Instituto de Pesquisa Social em Frankfurt, Axel Honnet13, usa. Portanto, a eticidade não é aqui entendida no seu sentido da moralidade kantiana, ou seja, de uma atitude universalista em que o respeito pelo outro se torna um fim em si mesmo na acção de indivíduos autónomos; este entendimento de eticidade seria incapaz, segundo Honnet, “de identificar o fim da moral em seu todo nos objectivos concretos dos sujeitos humanos”. A Eticidade é sim entendida aqui por mim como o ethos “de um mundo de vida particular que se tornou hábito, do qual só se podem fazer juízos normativos na medida em que ele é capaz de se aproximar das exigências” dos princípios universais14. Desta forma, as eticidades particulares (culturais) são vistas não só do ponto de vista do seu espírito (da tradição), mas também encerram elementos normativos e padrões de comportamentos concretos de devem se ajustar a um certo número de princípios normativos nacionais. A nossa cultura política moçambicana seria orientada pela necessidade de estabelecer um patamar de diálogo entre os diferentes grupos culturais que lutam pelo seu reconhecimento. A Unidade por exemplo, é um princípio de ordem nacional do qual se podem fazer juízos normativos sobre a eticidade dos grupos particulares. Aos grupos que, na luta pelo seu reconhecimento, procurem ferir a constitucionalidade unida de Moçambique, serão sancionados. 12 Cfr. Peixoto, M.G., A Condição Política na Pós-Modernidade. A Questão da Democracia. EDUC, São Paulo, 1998, pp. 56-58. 13 Axel Honnet foi assistente de Jürgen Habermas e segue a tradição da Teoria Crítica apresentado a sua teoria que se basea na ideia da “luta pelo reconhecimento”. Honnet parte da doutrina de reconhecimento em Hegel e recorre a G.H. Mead para estabelecer a ideia de uma crítica social na qual os processos de mudança social devem ser explicados a partir de acções que têm como objectivo restabelecer o reconhecimento mútuo ou desenvolvê-lo para um nível superior. As lutas pelo reconhecimento são, nesta perspectiva, uma força moral que impulsiona o desenvolvimento. Aproveitando esta ideia, podemos inferir que os diferentes grupos culturais lutam pelo seu reconhecimento num ambiente democrático. (Honnet, A., Luta pelo Reconhecimento. A Gramática Moral dos Conflitos Sociais. Editora 34, São Paulo, 2003, 269 pp.) 14 Honnet, Idem, 270. [A3] Comentário: No texto do roda-pé, sugiro a substituição do particípio passado “apresentado” pela forma gerundiva “apresentando” ...a sua teoria ... logo no primeiro período. Prefácio Penso que Ngoenha, com este livro, abre e oferece horizontes filosóficos para o debate de duas questões básicas do futuro da política em Moçambique: a da Justiça social redistributiva (questão económica) e a da Unidade Nacional na Diversidade Cultural (questão da cultura política). São estas questões que, a meu ver, irão constituir os eixos do debate para a afirmação da moçambicanidade na busca pela Liberdade. No fim da sua leitura o leitor dirá se esta coruja da Minerva (Ngoenha) chegou “tarde” demais ou se o velho Hegel se terá esquecido de completar o seu aforismo: Que a coruja da Minerva levanta o seu voo ao crepúsculo sim, mas se vai deitar cedo para o amanhecer, quer dizer, só se vai deitar no início de outra jornada, depois de ter espalhado a sua boa nova que serão os eixos da caminhada para a Liberdade de um povo inteiro. Este livro é uma referência obrigatória no qual Ngoenha oferece aos moçambicanos alternativas de pensar filosoficamente e de agir racionalmente neste caminhada. Maputo, Julho de 2004. CAPITULO I Filosofia e democracia em Moçambique Este trabalho nasceu das questões que a Academia Filosófica (ACAFIL) nos submeteu, a mim e a outros oradores –Lourenço do Rosário (Reitor do ISPU), Carlos Tembe (Presidente do Conselho Municipal da Matola) e Patrício José (vice-Reitor do ISRI) – aquando do simpósio consagrado às eleições presidenciais em 9 de Outubro de 1999 subordinado ao tema “Moçambique, que eleição?”. Os coordenadores da ACAFIL puseram-nos, a mim e aos outros oradores, quatro questões: 1. Qual é o tipo de governação de que Moçambique precisa hoje para o seu bom funcionamento? 2. O que eleger e para quê? 3. Qual é o papel da filosofia num país democrático? 4. Que leitura podemos fazer com vista às segundas Eleições Gerais, Legislativas e Presidenciais? Já então, o programa me pareceu excessivamente denso e os problemas que invocava extremamente complexos. E, ainda hoje, volvidos quatro anos, continuo a pensar que mais do que programa a ser respondido num simpósio, como era o caso de 1999, ou mesmo num livro, como é hoje o caso, trata-se de uma série de questões de índole filosófico-político que vão necessariamente ter que acompanhar continuamente a história da vida política moçambicana. Com efeito, em todas as épocas históricas e em todos os climas culturais, nós vamos estar sempre confrontados com a primeira – e perpétua – questão da filosofia política a que Platão chamou a questão do “melhor regime”, ou seja, o regime que melhor pode garantir a justiça na cidade. Ora, a avaliação axiológica do “melhor regime” não tem nada de metafísico. Não se trata de um governo, ou um grupo de homens ou de normas que emanam da sua governação que têm, intrinsecamente e por essência, o melhor gene de poder. Trata-se, de um lado, de avaliar os ideais, a moral-política e a competência dos homens; e, do outro, a capacidade das instituições sócio-políticas em serem uma plataforma adequada na busca de respostas aos problemas com os quais somos confrontados. Eis porque não pude ontem e nem posso hoje responder às quatro questões. Por uma questão de afinidade disciplinar – que afinal de contas constitui um esforço de maior penetração, mas ao mesmo tempo um limite – decidi concentrar a minha atenção sobre a questão número três –qual é o papel da filosofia num país democrático? É a única em que se apela directamente à filosofia e, também talvez por defeito profissional, me parece ser a questão mais abrangente e, ao mesmo tempo, a mais urgente. Tomei, por conseguinte, a liberdade de me debruçar sobre a terceira questão que é relativa “ao papel da filosofia num país democrático”. E mesmo aqui, permiti-me alterar ligeiramente a sua formulação a fim de libertá-la da sua grande generalização e dar-lhe umcunho teórico mais aculturado a Moçambique. Com efeito, é inegável que a filosofia esteve sempre presente nos debates políticos. Aliás, em parte está na sua origem. São exemplo disso os Tratados de Platão (República) e de Aristóteles (Politeia) sobre a política, assim como o conceito de cidadania desenvolvido pelos sofistas (Górgias, Protágoras, Hippias). A filosofia não é só pioneira no domínio da política, mas é um ponto de passagem obrigatório para o conjunto das disciplinas que se interessam por questões afins: a ciência política, a sociologia política, o direito, a antropologia política, etc. Mas se a filosofia sempre desempenhou um papel importante na instauração dos regimes democráticos (Rousseau, Locke, Kant), na proposição de instituições susceptíveis de dar corpo à democracia (J. Locke, Montesquieu, J.-J. Rousseau), na luta contra regimes totalitários (Voltaire, Hans Jonas), na denúncia do totalitarismo (Adorno, Marcuse, Hannah Arendt), ela nunca foi unívoca nas suas tomadas de posição. Ela foi sempre obra de indivíduos situados no espaço e no tempo e, por conseguinte, pensadores que engajaram a filosofia em função das suas sensibilidades próprias, das suas percepções do mundo e dos problemas circunstantes. Por isso, nem sequer se pode dizer que o denominador comum da filosofia seja a luta pela democracia por muitos filósofos, a começar por Platão (defensor da aristocracia), Maquiavel, Hobbes (entre os pais do Estado moderno) não eram favoráveis à democracia. Eis porque a nossa questão não pode ser qual é o papel da filosofia num estado democrático: a filosofia depende da existência de filósofos que elaboram os próprios pensamentos, e estes pensamentos estão inelutavelmente ligados e são alimentados pelas circunstâncias histórico-culturais (Ortega e Gasset), mas também pela sensibilidade dos filósofos. Por conseguinte, é necessário aculturar, particularizar, circunscrever a filosofia como método sobretudo como espírito (crítico) e atitude (distanciamento rigoroso e sistemático de qualquer tipo de compromisso que possa condicionar a nossa liberdade de análise e juízo) ao processo histórico-político da nação moçambicana. Então a questão transforma-se em “qual pode ser o papel da filosofia no processo democrático de Moçambique?”. A questão assim posta sugere imediatamente três reflexões: 1. O filósofo sempre hauriu as suas preocupações e os seus problemas nas vicissitudes históricas do seu tempo, do seu espaço e tomou posição (o que constitui o seu pensamento filosófico) em função dos seus valores. Em resumo, cada filósofo foi sempre militante de uma causa –e muitas vezes não como resultante de um análise crítica imparcial que deveria caracterizar todo o juízo filosófico, mas por razões que Francis Bacon não teria hesitado em chamar de ídolas e a hermenêutica moderna de pré- compreensões. Por conseguinte, toda e qualquer aplicação de uma filosofia política ao objecto Moçambique deveria ser precedida da clarificação da causa que se pretende defender, da razão que justifica o engajamento intelectual daquele que apela ao método filosófico. Talvez seja útil recordar que, apesar da sua longa história destituída de uniformidades, a filosofia, no seu procedimento metodológico, continua a fazer apelo àquilo a que o velho Aristóteles chamou de “causas últimas”. Por isso, quando digo que quem faz apelo à filosofia deveria, de modo prévio, clarificar a causa ou as causas que quer defender, trata-se de saber quais são as razões últimas do seu engajamento intelectual: ambições individuais ou sociais? Servir ou servir-se da comunidade? Para ser coerente, devo começar por clarificar a minha posição, os valores que são os meus. Como direi mais tarde e com mais detalhes, a história do espaço geográfico chamado Moçambique e do conjunto dos homens que se denominam moçambicanos encontra a sua homogeneização naquilo que de mais negativo pode existir na história de um homem ou de uma comunidade: foi uma história comum de sofrimento, e de um sofrimento muito particular (já tinham essas mesmas populações conhecido a CAPITULO I escravatura). Foi o colonialismo europeu do fim do século XIX que determinou, com a sua divisão arbitrária dos espaços geográficos (e culturais) africanos e a opressão comum dos homens que habitavam esse espaço, a criação de Moçambique. A história da união dos três grupos que deram origem à Frelimo (Udenamo, Unamo e Manu) é exemplar de como os homens dessas terras e culturas diferentes a certa altura criaram Moçambique, unindo-se numa luta comum em prol da liberdade. Se existe um substracto filosófico que está na origem axiológica de Moçambique é, sem dúvida, a busca da liberdade. Aliás, a busca da liberdade caracteriza a história de África no último século. Se quisermos ser mais exaustivos, diremos que desde a sua criação-invenção (para parafrasear Mudimbé), através de um processo de apropriação identitária geneticamente exógena, a África, nascida nas diásporas, caracteriza a sua existência como busca da liberdade. Assim, para mim, o valor de fundo do meu engajamento intelectual é a militância a favor deste valor humano supremo, para os moçambicanos e para os africanos. Liberdade – para utilizar a linguagem de I. Berlin – positiva, quer dizer liberdade de sermos nós mesmos, e negativa, de viver sem contrição nem de carácter político, nem de carácter económico. A história da luta pela liberdade negro-africana conheceu muitas etapas. A primeira foi no chamado novo mundo onde a escravatura concentrou muitos homens e mulheres de origem africana privados da sua liberdade. A primeira luta começou aqui, e a liberdade para esses homens, como para Kunta Kinte de Alex Haley15, num primeiro momento era voltar ao que Delany chamou de “alma mater”. Mas, para a geração seguinte, a liberdade passou a significar a emancipação da escravatura, não tanto para reganhar a “terra mater”, mas para viver como homens livres nos países e nas terras que lhes viram nascer. Depois deste período nos EUA, que é onde a história negra está melhor documentada, os antigos escravos, quer se chamem B. Washington, Du Bois, Marcus Garvey, C. Cullan, Langston Hughes ou C. Mckay, de maneiras diferentes lutam pelo mesmo objectivo: integrar a sociedade como seres humanos iguais, como reza a constituição americana. Porém, pouco tempo depois do fim da escravatura, exactamente vinte anos depois (a escravatura terminou em 1865 e a Conferência de Berlim foi em 1885), os africanos tiveram que fazer frente a uma nova ameaça: o colonialismo. Foi para fazer frente a este novo perigo que nasceu o lema entre os antigos escravos “unir-se para resistir”, que, aliás, está na origem do pan-africanismo16. Desta vez a luta será pela independência política. Este longo processo e destituído de uniformidades ganha consistência a partir do fim da Segunda Guerra Mundial. Contudo, as independências africanas, primeiro invocadas nas diásporas por Du Bois (Segundo Congresso Pan-africano de 1919, em Paris) e Marcus Garvey (Convention da UNIA em 1920), só começam a materializar-se em 1957 no Gana, e atingem o seu apogeu na década de sessenta. 15 Raízes. São Paulo: Cruzeiro, 1997. 16 Oruno D. Lara. La naissance du panafricanisme. Les racines caraibes, américaines ef africaines du mouvement au XIXe sièle. Paris: Maisonneuve et Larose, 2000. Este processo teve, imediatamente, que fazer contas com o desenvolvimento social para garantir essas liberdades. Nós vivemos ainda nessa busca da liberdade como desenvolvimento social. Já não se trata da emancipação da escravatura, da integração nos países do chamado Novo Mundo, da autodeterminação política, mas do desenvolvimento económico, político e social, num clima de relações de força com o Ocidente (esclavagista e colonialista) que ainda não selibertou do seu elán colonial, que hoje se apresenta sob a veste de credor. A questão, apesar de ter uma componente económica importante, é, sobretudo, política. Sempre que se invoca a questão do desenvolvimento, coloca-se em primeiro lugar os factores económicos. Mas a economia (as chamadas leis do mercado) deve, pelo menos no nosso caso, ser subordinadas às escolhas societárias. Caso contrário, condenam-se os mais fracos ao ponto de partida, quer dizer ao trabalho forçado, ao colonialismo e mesmo à escravatura. 2. A segunda reflexão é de carácter filosófico-histórico. Nos últimos anos falou-se muito do fim da filosofia da história. Quer dizer que a ideia da história dos homens como esforço para reproduzir o paraíso edénico (de Adão) perdeu todo o sentido. A modernidade17 foi concebida por Hegel, Kant e retomada por Habermas –e nisto existe um consenso entre os assertores da modernidade (Habermas) e os pós-modernistas (R. Rorty, G. Vattimo) – como emancipação do homem de todo o tipo de garantias meta- sociais. O homem moderno não quer ter nenhuma figura-guia, não quer subordinar os seus valores e as suas escolhas a nenhuma transcendência ou revelação. Mas, paradoxalmente, ao mesmo momento em que o Ocidente mata Deus, para parafrasear Nietzsche, ou como diz Dostoievsky declara que Deus já não tem mais nada a dizer no que Vico teria chamado do mundo civil, o Ocidente se auto-proclama “Theos” para a África e para os países que hoje se chamam de “Sul do mundo”. A história secularizada pela filosofia da história, primeiro de Voltaire e depois de Hegel, não se limita a substituir os paradigmas que de Agostinho até Vico tinham impregnado a compreensão da histórica – “criação, pecado, encarnação revelação e aparusia” – pelo conceito de cultura que fará a felicidade da antropologia desde o século XIX. No mesmo século da antropologia (que, não por acaso, coincide com o colonialismo) inventa-se o evolucionismo18 (Herbert Spencer, J.S. Mill, Darwin) no o Ocidente se coloca como o modelo, a norma, o novo Éden, com o seu conceito político de Estado, com o seu monoteísmo e com a sua escrita. A partir de então o Ocidente apresenta-se a si mesmo como sendo o novo jardim de Éden (super-homem) a imitar, não obstante as suas contradições, as suas histórias de opressão, que permitiram a acumulação do capital que, para alguns historiadores (Etemad Bouda, Thomas David), está na origem do seu arranque económico e que, para nós, significou escravatura, opressão, perda de liberdade e retrocesso. O Ocidente ocupa hoje, em relação a nós, o lugar que outrora era de Deus em relação à humanidade. Por isso, se a filosofia da história (como demonstrou Karl Lõwith) é filha de uma teologia da história o “Theos” para o Ocidente já não tem nada a dizer. 17 Ngoenha, 2000: 31 18 Ngoenha, 1993: 15 e ss. CAPITULO I Mas, nesse mesmo momento e de uma maneira idolátrica, o Ocidente se arroga a prerrogativa de divindade em relação a nós. Que haja uma crise geral da democracia no mundo (a eleição de Berlusconi na Itália, Holder na Áustria, Blocher na Suíça, Busch nos EUS), que os dossiers económicos mais complexos impeçam os cidadãos nas democracias directas de exercerem os seus direitos e deveres cívicos; que, nas democracias representativas, as populações se vejam forçadas a votar com um lenço a cobrir as narinas para não sentirem o cheiro podre da desonestidade e da corrupção que caracteriza cada vez mais a classe política; que os eleitores devam votar por uma elite política que não merece confiança nos países da velha democracia, o que implica uma crise de legitimação política, não importa! Aliás, isso não impede o Ocidente de continuar a dar licções do que é uma boa democracia, omitindo a sua própria história e as contradições que o fazem sistematicamente balançar entre os valores humanistas e o economicismo. Existe uma crise económica? Que isso dependa da desonestidade dos actores económicos (Parmalat), ou porque os economistas cometem erros grosseiros de avaliação (Swissair), ou porque as recitas do FMI e do BM demonstraram-se falaciosas e com consequências nefastas para as populações (Argentina). Não importa: aquilo que o nosso “Theos” ignora para si mesmo nos seus próprios países parece saber para os países dos outros. No fundo, a questão principal para nós é de nos laicizarmos do Ocidente. Não podemos continuar a tomar o Ocidente como modelo; não podemos reproduzir o seu nível económico! Podemos simplesmente importar as suas taras, dado que é isso que ele globaliza (Ulrich Beck19). Por outro lado, não temos populações a escravizar e a colonizar para podermos acumular o capital que nos permita o arranque económico. E se tivéssemos uma tal população subalterna correríamos o risco de ser semelhantes do ponto de vista moral ao Ocidente que, como diz Césaire, faz batota com os seus próprios princípios. 3. Um eventual papel da filosofia no debate político moçambicano depende necessariamente da existência de uma filosofia moçambicana. Mas como demonstrou a corrente crítica da filosofia africana20 (P. Hountondji, Eboussi Boulaga, M. Towa) no âmbito do seu distanciamento da negritude (Senghor, Damas e Césaire) e sobretudo da etnofilosofia (Placide Tempels, Kagame), a existência de uma suposta filosofia, neste caso, moçambicana, depende da existência de filósofos moçambicanos legitimados não só pelos diplomas universitários, mas pelo facto de escreverem o que Hountondji chamou de arquivo e, através dele, instaurarem no país uma tradição crítica. A este nível, o país está paulatinamente a crescer. Nos últimos anos através da Universidade Pedagógica, mas também através de outras instituições estrangeiras, o número de moçambicanos com graus académicos em Filosofia aumentou. Trata-se de uma condição necessária, mas não suficiente para o surgimento de uma tradição filosófica moçambicana. Esta premissa fundamental tem de ser seguida pela coragem e ousadia para instaurar um debate de ideias que, inspirando-se na secular tradição filosófica, incida os seus interesses de uma maneira participativa e construtiva sobre a 19 La société du risque. Paris: L’Harmattan, 2001. 20 Ngoenha, 1993: 89. realidade política moçambicana. Isto é, na reflexão (até mesmo invenção) de um regime político que permita a participação de todos no debate democrático, na reflexão sobre a árdua questão da representatividade, numa constituição adequada à realidade cultural e social moçambicana, num processo de redistribuição, etc. Isto quer dizer que, contra a veleidade de uma aparusia histórica já realizada, como defende Fukuyama, ou contra um modelo realizado na Europa e que nós teríamos simplesmente que imitar, como defendem os novos missionários oriundos das ciências políticas –que de uma maneira acrítica e aparentemente sem dúvidas quanto ao que se deve fazer em Moçambique, sobre o melhor regime político, o tipo de democracia, de representação social –continuam a dar receitas de política, de democracia, de desenvolvimento sustentável. A filosofia não se contenta com o que é, com o que aparece, nem pode admitir a ideia de uma história acabada ou determinada de uma vez por todas. Sob o ponto de vista filosófico, a história é o terreno de uma constante invenção de sentido da parte do homem; é o terreno onde o homem exerce a sua liberdade de poeta, no sentido da poesis grega, é o lugar da criação do sentido no tempo. Que as decisões políticas produzam efeitos que tocam o nosso nível de vida e os nossos direitos; que o assento das instituições fundamentais da sociedade determina e modela as nossas oportunidades; que as escolhas se coadunem mais ou menos com os nossos gostos, com os nossos valores individuais e colectivos; que a distribuição doscustos e benefícios da cooperação social seja coerente com um critério ou com um conjunto de critérios; que as instituições consintam ou não, para cada um de nós, a definição no tempo de um plano de vida e de um projecto de autodesenvolvimento; que cada um de nós conte pelo menos como qualquer outra pessoa, eis algumas questões sumárias que definem o que deveria ser o ponto do ataque da filosofia quando esta se interessa por questões políticas. Trata-se de questões normativas. O que quer dizer que a sua solução implica a referência a um princípio ou a um certo número de princípios capazes de nos guiar nas avaliações que fizermos sobre as decisões políticas, sobre o assento das instituições fundamentais, sobre as escolhas colectivas, sobre a distribuição dos recursos, etc. em suma, a filosofia política é chamada a reflectir sobre como devemos viver no âmbito de uma perspectiva interpessoal que podemos adoptar para as nossas vidas. O carácter normativo da filosofia política distancia-a relativamente da ciência política, sobretudo no âmbito dos objectivos anunciados por cada um dos domínios, mesmo se uma tal distinção na prática resulte pouco evidente. Comummente se diz que a ciência política é uma ciência social entre outras, cujo objectivo seria estudar com imparcialidade os movimentos sociais e as ideologias que os acompanham, enquanto a função da filosofia política seria reflectir não somente sobre o que é, mas também sobre o que deveria ser. Na prática, estas fronteiras –metodologicamente úteis mas difíceis de balizar –são constantemente transgredidas. Com efeito, nenhum especialista sério da ciência política pode limitar-se a uma simples descrição, mas recorre constantemente a noções filosóficas mais ou menos bem domesticadas. O contrário é também verdadeiro: a CAPITULO I filosofia política empresta também muitas vezes, sem o saber ou sem o admitir, conceitos da ciência política e mesmo das ideologias. Outra dificuldade é a seguinte: podemos distinguir uma filosofia política de uma filosofia que não seria política? Podemos distinguir a filosofia política da filosofia moral? Trata-se de duas questões difíceis. Se, desde Platão até S. Tomás de Aquino, existiu um consenso que fez da filosofia política uma simples aplicação da filosofia moral aos problemas da cidade, esta ideia foi definitivamente rompida com Maquiavel e cedeu lugar à ideia inversa, segundo a qual uma diferença importante separa estes dois domínios do saber. Para alguns, por exemplo, a filosofia trata de acções individuais ou privadas; a política de acções públicas ou colectivas. Para outros, o juízo moral é a priori e tem um valor absoluto, enquanto os juízos políticos são de ordem puramente empírica e, por conseguinte, têm um valor relativo. Mais recentemente, com a reabilitação que Habermas operou ao pensamento de Kant, emergiu uma nova tendência que relativiza a oposição entre moral e política, que se funda sobre o facto de que bom número dos nossos juízos políticos resultam de uma deliberação ao mesmo tempo racional e moral. Uma única certeza emerge destas controvérsias: se a política é uma coisa diferente da moral, e mesmo se tende a liberta-se da tutela desta última, não lhe pode fugir completamente e para sempre. Podemos dizer a mesma coisa em termo cínicos, sem recorrer ao transcendental kantiano. Nenhum príncipe, nenhum Estado se pode subtrair de uma maneira definitiva à reprovação suscitada pelos seus crimes; é no interesse do príncipe ou do Estado não se comportar sistematicamente de uma maneira imoral. Para além desta constatação que mesmo Maquiavel fez sua, cada filósofo tem tendência a conceber as relações entre moral e política de uma maneira que lhe é própria. Poder-se-ia, enfim, definir a filosofia política em função do seu “corpus” temático, da particularidade dos problemas que trata ou da sua especificidade metodológica. Infelizmente também aí não podemos ser afirmativos. Temas e problemas variam segundo as idades. No século XVIII, a noção da liberdade foi a que suscitou os principais debates; no século XIX, foi a noção de igualdade; no início do século XX, o conceito de revolução; na segunda metade do século XX, a noção da justiça retomou o passo. Amanhã é provável que a noção de supra-nacionalidade (ONU, União Africana, SADC) seja a mais importante. Uma vez mais, a sucessão destes debates, que marcaram a filosofia política, não tem nada de providencial. Ela reflecte simplesmente as metamorfoses históricas, as mudanças nas preocupações e nas prioridades. Mutações que, a menos que sejamos completamente hegelianos, não podemos considerar que exprimam outra coisa senão a contingência mesma da história que as produziu. Quanto a saber se a filosofia política dispõe de um método privilegiado para produzir enunciados verdadeiros, a resposta é categoricamente não! Significa isto que a filosofia política não é definível? Que não tem um terreno próprio? Que o seu discurso é sem aposta e as suas conclusões sem interesse? A resposta é categoricamente não! Por uma questão de contraposição, o domínio científico que melhor participa na caracterização da validade da filosofia política é a economia. Sempre que se fala de mudar a sociedade embate-se imediatamente na economia, que aparece nos discursos dos seus militantes como a única realidade, como o real que resiste às utopias dos filósofos. Não é só o BM e o FMI, mas a maioria dos actores políticos quem coloca sempre na dianteira as cifras do crescimento económico, do PNB. Aliás, esta tendência economicista salta também à vista numa leitura atenta do recente documento chamado “Agenda 20/25”. Este discurso é de tal maneira extraordinário que ele é pronunciado pelos neo- liberais, pelo antigos marxistas ortodoxos ou por aqueles que querem a todo o custo conservar ou conquistar o poder. Para estes apóstolos da dolarcracia, o capitalismo aparece como o único sistema concebível e a sua vitória sobre a economia planificada ganha um estatuto soteriológico. Que o capitalismo não assegure a felicidade universal, que ele aumente a pauperização das nossas populações mais fracas, que deixe muita gente no desemprego, que o seu ritmo de crescimento diminua constantemente, não importa. Para os economistas neo-liberais e economia tornou-se um fim em si mesmo. Tornando-se mundial, a seguir ao desaparecimento do bloco socialista, imposta na Europa pelas instituições comunitárias, no resto do mundo pelos acordos do GATT (hoje OMC), em África e em Moçambique pelos projectos do BM e do FMI, o chamado mercado livre constitui, doravante, o ponto de referência de todas a acção. À esquerda como à direita, todos se sentem na obrigação de recitar o mesmo credo segundo o qual os governos deveriam deixar de interferir nos fluxos económicos. Quando penso que cresci num país que repetia constantemente: “a política no posto de comando” … É necessário insurgir-se contra este economicismo que condena Moçambique a uma maior dependência e mesmo ao neocolonialismo, e deita por terra todos os esforços realizados em termos de luta pela independência e pela liberdade. Contrariamente à ideologia dominante, não é nas pretensas leis da história, da economia ou do mercado que podemos esperar a nossa salvação. A história não tem leis, o mercado também não. O capitalismo é actualmente a doutrina e mesmo a ideologia dominante, mas nada prova que esta situação deva durar eternamente; mesmo se, é preciso reconhecer, que na hora actual nada prova que o capitalismo deva desaparecer, nem que possa ser substituída por uma organização de produção que elimine a exploração, a dominação e a criação de pobres de ricos. Em suma, um futuro diferente não cairá do céu. Ele será o que nós fizermos, colectivamente; ele será resultado de actos políticos. Neste ponto de reflexão, qualquer homem sensato diria, de uma maneira politicamente correcta, que o futurodepende dos cidadãos. Eu penso ter que dizer que o nosso futuro depende da nossa capacidade de instaurar leis e espaços participativos que permitam que a maioria dos moçambicanos se tornem, de facto, cidadãos. Um amigo italiano, por sinal casado com uma moçambicana, dizia-me ter ficado escandalizado quanto constatou que a sua mulher considerava analfabeta a própria mãe, e este juízo estava ligado unicamente ao facto de que a senhora não falava português. Toda a gama de conhecimentos que ela tinha sobre os mais variados sujeitos era anulado diante do factor “língua portuguesa”. Este amigo italiano, que nunca aceitou considerar o changana um dialecto, dizia que, no fundo, os moçambicanos tinham de tal maneira interiorizado a luso-dependência que tudo o que não se fazia em português era ignorância. O problema poderia situar-se na natureza assimilacionista do colonialismo português –reabilitada pela lusofonia, pelos PALOPs, ou pela pretensa cidadania lusófona –e lá estaríamos em conjecturas de tipo histórico. Poderia situar-se na escolha do português como língua nacional feita pela primeira República –no quadro da luta CAPITULO I contra o tribalismo –e lá estaríamos num quadro de uma decisão de política cultural justificada. Mas no quadro democrático, se o substracto das nossas leis e as modalidades de participação dependem de uma cultura de Estado que vive em português, não só como língua, mas também e sobretudo como Direito, então excluímos pura e simplesmente a maioria dos moçambicanos da cidadania e, por consequência, falsificamos a democracia. Não são as pessoas que devem-se adaptar a organigramas jurídicos e constitucionais de origem exclusivamente exógena, nos seus fundamentos filósofico- históricos e nas suas modalidades de aplicação jurídico-administrativas. É o Direito que deve ser construído e alimentado a partir dos inconscientes colectivos das populações. As aporias filosóficas Como se vê, não estou a trazer respostas às questões que a ACAFIL me pôs, mas a levantar problemas. Com efeito, a filosofia não está à altura de oferecer soluções aos problemas relativamente aporéticos em volta dos quais se ufana. Um dos seus contributos é tentar elucidar, esclarecer a natureza de tais problemas e pôr em evidência a variedade de razoes que militam em favor de escolhas e alternativas. Isto pode também sugerir soluções, linhas e cursos de acção, escolhas e decisões. Mas a responsabilidade, creio, toca a cada um de nós. Se a filosofia terá sido capaz de dar uma plataforma melhor e mais rica para sustentar o princípio de cooperação e favorecer uma comunicação sincera ou um diálogo entre os seres humanos finitos e limitados –como nós somos -; os filósofos deveriam considerar-se satisfeitos num nível muito elevado. O desafio da filosofia política em Moçambique é relevar e fundamentar as razões que militam a favor de uma democracia mais participativa, de uma democracia que subordina a economia às escolhas políticas e societárias (a política no posto do comando), de numa democracia que baseia as suas instituições nos imaginários colectivos das populações, sem abdicar dos contributos das histórias políticas e institucionais dos outros países e povos (contrato cultural), ou numa atitude ético- política que levaria as forças políticas a resolverem entre moçambicanos (contrato político) ou ainda numa organização sócio-económica distributiva e solidária (contrato social). O facto de não poder contar para esta reflexão com uma tradição filosófica moçambicana estabelecida, aumenta as minhas dificuldades e constrange-me a limitar os meus propósitos a ideias e posições muito pessoais que de maneira nenhuma podem ter a pretensão de ser exaustivas. Pelo contrário, serão certamente fragmentárias e parciais. Todavia, fazendo isso, participando na construção de um arquivo da filosofia em Moçambique, apesar de não ser essa a minha intenção de partida, contribuo inelutavelmente para inscrever a filosofia no âmbito dos problemas que emprenham a política moçambicana e, mutatis mutandis, para inscrever os debates que alimentam a vida da nossa jovem democracia no âmbito da filosofia. Percebe-se, assim, que à questão que escolhi para este trabalho –papel da filosofia na democracia moçambicana –mesmo se tirada de um bloco de quatro questões da ACAFIL e, ainda por cima, reajustada como uma camisa por um alfaiate para que me possa servir, dei há quatro anos e dou ainda hoje respostas fragmentárias e parciais. Isto está ligado aos meus limites próprios, aos limites da disciplina que tento praticar e à dificuldade geral de dar respostas exaustivas a questões assim imbricadas como as da democracia. Mas o limite maior das minhas respostas está ligado à temporalidade da filosofia que não é profecia, não é futurologia, não tem a tempestividade e a prontidão de reacção de outros domínios de saber. A filosofia é lenta nas suas reflexões, o seu saber não é cumulativo e, como se isso não chegasse, as suas respostas são muitas vezes novas questões! Hegel comparava a filosofia à coruja de Minerva que chega sempre tarde! Contudo, apesar da sua lentidão e atraso, como diria Voltaire, ela contribui– ou pelo menos deveria contribuir –para levar os homens, mesmo se lentamente, em direcção à sabedoria! Não satisfeito com as respostas que dei há quatro anos a uma questão assim importante, pus-me a reflectir sobre o tipo de contribuição que a filosofia podia dar à democracia, que afinal de contas não é nada mais e nada menos que a contribuição que nós, filósofos moçambicanos, podemos dar ao debate político da nossa terra. Todavia, apesar do tempo, ou melhor, da duração do tempo da reflexão, não venho hoje, volvidos cinco anos (que é o tempo da duração de uma legislatura), com respostas, mas com novas questões e novas interrogações. Com efeito, os tempos de resposta da política não são os mesmos que os tempos de resposta da filosofia. A política e mesmo a economia têm de responder imediatamente aos problemas com as quais são confrontadas. Esta é uma das especificidades da política, mas também uma das suas dificuldades. A filosofia necessita de mais tempo. Com isso não quero dizer que ela seja uma arte mais fácil. Os candidatos (Chissano e Dlakama) não se podiam permitir um tempo de cinco anos de reflexão, nem os economistas, ou empresários se podem permitir um tal luxo. As respostas que eles têm que dar são hic et nunc, aqui e agora. É por isso que os objetivos dos filósofos e dos políticos divergem. O político pensa nos mecanismos para aceder ao poder, ele mesmo, o seu partido, a sua família política. O filósofo pensa nos mecanismos susceptíveis de permitir um melhor acesso de um número sempre maior de indivíduos à vida pública. A isto vão estar ligados os seus respectivos modos de acção e intervenção. A política utiliza a «propaganda», os slogans, as intervenções espectaculares; a filosofia é mais discreta, mais reservada. Mais substancialmente, a política ocupa-se do possível, a filosofia do desejável. Ora, nem tudo o que é possível é desejável. O contrário é também verdadeiro: nem tudo o que é desejável é possível. Todavia, entre os possíveis existem os que são mais desejáveis do que os outros. O diálogo entre a filosofia e a política deveria permitir uma influência reciproca: a filosofia deveria levar a política a não cair na facilidade da realização de um possível acessível mas simples, em detrimento de um possível desejável, mesmo se exige mais esforço e mesmo mais tempo; por sua vez, a política pode ensinar à filosofia a ser mais comprometida com a realidade, sem que isso signifique que ela abdique de uma dose de idealismo e de utopia, no sentido de verdade do amanhã (Victor Hugo). A Filosofia e a política são, por conseguinte, duas artes diferentes, que devem permanecer como tais, não para se contraporem, mas para se completarem. Todavia, as suas diferenças e especificidades respectivas permanecem fundamentais. O políticoque se tenta substituir ao filósofo não estará no seu lugar. Aliás, não sei se ele teria a competência epistémica necessária para exercer o árduo trabalho de reflexão com todos os condicionalismos teórico-metodológicos e apriorismos que a filosofia exige. O contrário é também verdadeiro: o conhecimento teórico que o filósofo pode adquirir do seu estudo, investigação e reflexão, não o habilita necessariamente a exercer, de maneira idônea, um cargo político. Existe uma grande tentação de justapor o conhecimento teórico à política e ao exercício efectivo de cargos políticos. Quando o politólogo, o sociólogo, o jornalista, o jurista ou o filósofo confundem as suas respectivas competências críticas no sentido epistêmico –o que quer dizer antes de mais perspectivas de abordagem específicas em termos de rigor metodológico e uma deontologia de intervenção subordinada a uma hierarquia axiológica bem definida –com uma eventual competência de exercício da função política, cometem um erro. Não digo que um bom filósofo, digamos para ser mais [A4] Comentário: Este nome “Dlakama” aparece no texto original com ortografia diferenciada. Deixo à revisão do autor a uniformização da sua escrita. CAPITULO I abrangente, um bom intelectual, não possa ser também um bom político, ou que um bom político não possa ou não deva ser um grande intelectual ou mesmo filósofo. Aliás, questiono mesmo se o ideal não seria termos políticos com grande veia de conhecimento teórico, o que, aliás, era já o sonho de Platão. Não se tratava tanto de trazer filósofos ao governo, quanto de soprar nos políticos o espírito de desinteresse que deveria caracterizar aquela casta de pensadores privilegiados que se dedica à contemplação do bem, do belo e do justo. Platão queria dizer que os políticos deveriam ser sábios, mas de um saber desinteressado, o único que pode leva-los verdadeiramente à prática da justiça, sem a qual a violência da política corre o risco de se fazer substituir por outras formas mais cruéis de confrontação. A tentação do(a) político(a) Parece que a tentação do poder é própria do homem. Os filósofos e os intelectuais não fogem a esta regra geral. Muitos de entre nós são tentados pela política, pelo poder e, sobretudo, pelo que a política e o poder permitem: um certo bem-estar e uma relativa reputação. É muito humano deixar-se seduzir pelo poder. Não há ninguém que, num momento ou noutro da sua vida, não se tenha deixado seduzir pelo poder e, como consequência, pela política activa. Na nossa sociedade, onde a pobreza, aliás a miséria, é a tónica dominante, mas ao mesmo tempo, onde uma ínfima parte da sociedade tem meios exorbitantes, boa parte da qual é uma burguesia de origem política, a tentação do político é ainda maior. Lá também estamos diante de um fenómeno profundamente humano. Quem de entre nós não quer melhorar a sua condição de vida e da sua família? Como certos fins justificam certos mais, resulta quase óbvio que um certo número de entre nós decida engajar-se na política não como meio para servir ou para defender uma causa, mas para se servir. Todavia, subordinar o engajamento político à solução de questões simplesmente individuais empobrece a política na sua dimensão axiológica –o famoso desinteresse platónico –e a componente crítica do debate público. Mas, por outro lado, esvazia-se a função política do seu significado profundo e primeiro (a questão do melhor regime que significa busca da justiça), e redu-la a meio instrumental para obter meios económicos. A outra vertente deste problema é a tentação do poder político em instrumentalizar os intelectuais. Um intelectual performante e conhecido é imediatamente cortejado pelo poder ou pela oposição ao poder –que nesta dimensão não é a RENAMO, mas a comunidade Internacional que, através de uma espécie de ingerência escandalosa, hipoteca não só a soberania, mas a própria democracia. Parece haver o receio de ver intelectuais como membros de formações políticas adversárias até mesmo de vê-los simplesmente como membros activos da sociedade civil, sem nenhuma ligação com este ou aquele partido. É óbvio que os partidos políticos têm necessidade do que Gramsci chamava de intelectuais orgânicos. Quanto mais bons filósofos, sociólogos, juristas um partido tem – em matéria de competência teórica e de busca constante da justiça social –melhor pode conceber o político, em termos de mecanismos de crítica interna. Aliás, se os partidos políticos pudessem contar nas suas fileiras com intelectuais de craveira, se as nossas elites políticas associassem, nas suas pessoas, a dimensão da militância com a dimensão de competência e de posicionamento ético, o nível da política nacional seria de toda uma outra índole. Se os intelectuais orgânicos, engajados como uma família política, têm o dever de trabalhar para a vitória política da família a que pertencem, e isso é completamente legítimo, uma sociedade tem também necessidade de intelectuais que, mesmo que tenham as suas preferências políticas, caracterizem a sua acção pública como pensadores vocacionados para a busca das condições de uma sempre melhor democracia como participação de todos, para a invenção de mecanismos de sempre maior legitimação de poder, de maior participação, mais transparência, mais serviços, eventualmente com alternância na governação do país, sobretudo de mais consolidação da liberdade e incremento da justiça social. O politólogo americano Francis Fukuyama, numa clara demonstração de mau uso dos conceitos de filosofia da história21, confunde o fim da guerra fria com a obtenção, enfim, do melhor regime possível. Apoiando-se nas interpretações de Alexandre Kojève22 nos seminários que orientou em Paris nos anos trinta sobre a fenomenologia do espírito de Hegel (1807), Fukuyama vê na vitória do liberalismo a prova da entrada da humanidade na sua última etapa de evolução. Ele defende que a partir do momento em que a superioridade da democracia esteja em vias de ser reconhecida pela humanidade inteira, pode-se considera a história do Homem como próxima do seu objetivo final. Em outras palavras, como virtualmente terminada. Esta posição foi contestada não só por filósofos, mas também por politólogo. Jean- Marie Guéhenno23, revelou a fragilização dos laços que ligam o cidadão à sua comunidade nas democracias ditas tradicionais. As decisões políticas estão sempre mais nas mãos de lobbies que agem na sombra. Para Samuel Huntington (1997), a proliferação de zonas de instabilidade no mundo põe em perigo a estabilidade democrática. Este é um argumento com o qual não posso estar de acordo, porque sugere que muitas reivindicações de justiça de povos oprimidos e explorados contra os países que se reclamam padrões dos direitos do homem e a democracia são focos de instabilidade. Na esteira do direito moderno, da escola de Salamanca (Francisco de Vitória, F. Soares, Alberigo Gentile) até Kelsen, a estabilidade mundial é vista como algo que pode fazer conviver no mesmo espaço-mundo e na mesma temporalidade histórica (os trabalhos da antropologia demonstraram que, doravante, os homens vivem na mesma temporalidade, o que levou Lévy-Strauss a falar da crise da antropologia) o genocídio, a escravatura, o colonialismo com uma filosofia humanista, liberal, os direitos do homem e a democracia. Como demonstra Luigi Ferrajoli24, o Estado moderno, desde a sua génese, lança as premissas para uma democracia no interior do Ocidente, mas é selvagem no exterior. Isto supõe que a «aldeia planetária» pode ser estável com um pequeno grupo de ricos que não medem esforços para aumentar a sua riqueza à custa mesmo de genocídio, massacres, assassínios, exploração. Supõe que a maioria massacrada, assassinada e explorada aceite a sua condição de Condenados da Terra (Frantz Fanon) ou então que os eleitos tenham meios para matar todas as reivindicações, mesmo as mais legítimas dos que estão à esquerda de Deus. O progresso humano pode,nesta perspectiva, prescindir da maior parte da humanidade, ou mesmo realizar-se contra ela. Quando os povos periféricos, como o nosso, começam a reivindicar direito à vida, isso é visto como ameaça de desordem à ordem leviatânica que se instaurou como regra. Aliás, o próprio discurso sobre os direitos humanos (que, no entanto, constitui uma das maiores contribuições ao avanço ético da humanidade) é muitas vezes usado como arma de pressão contra aqueles que têm reivindicações a favor dos próprios povos. Apesar das veleidades fukuyamianas do fim da história, nada prova que o triunfo à escala mundial do «melhor regime possível», supondo que um tal triunfo se produza realmente, constitua o último evento importante da humanidade. De facto, volvidos dez 21 La fin de l’histoire et le dernier home. Paris: Flammarion, 1992. 22 Introduction à la lecture de Hegel. Leçons de 1933 à l’E.P.H.E., réunies et publiées par Raymond Queneau, Paris: Gallimard, 1947. 23 La fin de la démocratie. Paris: Flammarion, 1993. 24 La sovranità nel mondo modern. Roama-Bari: Laterza, 1997. CAPITULO I anos do trabalho de Fukuyama, nada confirma as suas predições. A democracia como se apresenta, sem respeito pelas histórias e pelas culturas particulares dos povos, tem ainda dificuldades de vingar em certos países: é imposta a uns, manipulada/instrumentalizada pelas chamadas velhas democracias em certos países do sul, sofre ingerências inaceitáveis e anti-demcráticas por parte das democracias (coloniais) consolidadas contra as democracias emergentes, subordina-se a interesses económicos, etc. Existem razões sérias para pensar que a extensão colonial da democracia (pela sua imposição histórica e institucional) à quase totalidade dos países do planeta equivale a uma sempre maior diminuição da democracia enquanto regime de participação popular. Aliás, podemos mesmo interrogar-nos sobre a existência de um regime que seria, em absoluto, melhor que todos os outros. É mais razoável consentir que a democracia representativa é o menos mau dos sistemas ou, se quisermos dizer positivamente, é o melhor sistema até aqui criado. Por conseguinte, a filosofia(moçambicana) tem o dever de continuar a interrogar- se quanto ao melhor regime e às formas institucionais que deve tomar para adequar-se à nossa situação histórica específica. Eis porque, no contexto moçambicano, a existência de uma elite pensante, não partidocraticamente orgânica, não se pode constituir em oposição aos actores políticos, ainda menos em oposição aos eleitos, os únicos cuja legitimidade política se entra (ou pelo menos deveria encontrar-se) na vontade do povo. Ao mesmo tempo, as elites políticas não podem (não devem) ver, na vontade de uma certa independência de pensamento e de juízo por parte da elite intelectual, uma ameaça, mas uma contribuição necessária (ela deve ser isso) à evolução positiva da nossa democracia e ao progresso social do nosso povo. A função/missão dos intelectuais é contribuir com as suas ideias, sugestões, reflexões, perplexidades, cepticismo, críticas e reticências para o melhoramento da sociedade. Isto estende-se mesmo àqueles que, por fidelidade à disciplina científica a que se referem, limitam a própria intervenção a um nível epistémico e não axiológico (Max Weber). Se os intelectuais, independentemente das disciplinas de referência, não contribuírem para melhorar a sociedade, podemos estender a questão, que Durkheim punha aos cientistas sociais, a todos os intelectuais e perguntar: para que é que servem? A particularidade da filosofia em relação às outras ciências humanas e sociais reside no facto de ela não limitar a sua acção a uma radiografia social (por mais importante que essa radiografia possa ser), mas aspirar normativamente a dizer o que deveria ser a boa sociedade. Eis porque, no que me diz respeito, ouso, muito modestamente, sugerir para o crescimento político e social de Moçambique, a necessidade de incrementar o contrato social, de estabelecer um contrato político entre os partidos principais fautores da política nacional, e de desenhar o quadro institucional, inspirando-se, em primeiro lugar, nos imaginários sociais dos diferentes grupos nacionais, nos espíritos das tradições dos diferentes grupos, sem, no entanto, deixar de ter em conta a contribuição dos outros países e povos na evolução da democracia. Contudo, a relação ambígua entre o saber e o poder é tão velha quanto a filosofia ela mesma. Apesar de se ter Sócrates como fundador mítico da filosofia, a fama deste se deve essencialmente, aos escritos sobre ele que nos foram legados por Platão. Assim, a figura de Sócrates e a fundação desta forma específica de conhecimento que a partir de então se chamou filosofia, está geneticamente ligada à figura e mesmo, ao pensamento de Platão. Se, em Sócrates, o conflito entre a filosofia e a política eram patentes (foi o poder que o condenou ao suicídio –o que historicamente tem servido para demonstrar a dimensão moral da filosofia), o primeiro a sentir a necessidade de teorizar as relações que deveriam transcorrer entre este novo saber e o poder foi Platão. Assim o primeiro escriba «philosophicus» pergunta-se qual seria o melhor regime político possível. Ou, se quisermos ser mais kantianos, ele pergunta-se quais as condições de possibilidade para um homem exercer de uma maneira justa o poder que ele, eventualmente, tenha sobre os outros homens. Em outras palavras, quais são as condições de possibilidade de exercício por parte do homem de uma governação justa. A resposta que Platão dá a esta questão é sobejamente conhecida: que os reis se tornem filósofos ou que os filósofos se tornem reis. O que quer dizer Platão com isso? A preocupação principal de Platão é uma governação justa. Ora, o homem, de uma maneira geral, aparece a Platão como tendente à injustiça, à concupiscência, a privilegiar a sua pessoa, o seu grupo, os seus interesses, em detrimento dos interesses dos demais. Numa «polis» ateniense dividida entre escravos (a maioria da população que trabalhava), militares –o grupo daqueles que deveriam defender a cidade –, e os filósofos que se consagravam à contemplação do mundo ideal, a Platão resultava óbvio que os últimos, pela sua vocação existencial de busca da verdade, fossem os mais aptos a aplicar no mundo da governação política um dos correlativos essenciais da verdade, que é a justiça. Dizer que os governantes têm que ser filósofos ou os filósofos governantes, é uma maneira de denunciar a dificuldade de uma governação justa, mas, ao mesmo tempo, significa dizer de uma maneira prospectiva que a justiça tem que ser o objetivo primeiro de todo o homem do governo. Mas se para o homem do governo a justiça é uma miragem, associada à verdade, a justiça constitui o ideal de base da investigação filosófica. É por isso que o homem de poder deveria ser filósofo ou participar das preocupações dos filósofos. Contemplar a verdade significa para Platão pô-la em prática, ser justo. Eis porque Sócrates, apesar de ter tido a possibilidade de fugir, decidiu ficar e morrer em nome da justiça e do respeito pelas leis do Estado. Mas num filósofo que se torne rei, ou num rei que se converta à filosofia, qual das duas dimensões vai prevalecer: a contemplação do mundo das ideias ou o pragmatismo político (as diferentes razões de Estado)? Alexandre Magno, discípulo de Aristóteles, apesar dos seus ideias ecuménicos – unir o Oriente e o Ocidente –para atingir os objetivos que se propunha, teve como meios a guerra e a constrição dos seus generais a contraírem matrimónio com mulheres orientais. Estes procedimentos eram conformes a justiça da Ética a Nicômaco predicada por Aristóteles? Não estamos perto do pragmatismo maquiavélico para quem os fins justificam os meios? Num registo inverso, o «Faraó» da quinta dinastia egípcia estava de tal maneira ligado à contemplaçãoda verdade do Deus Amoon que negligenciava o pragmatismo que a sua função política exigia. O perigo de um tal governante era o enfraquecimento da autoridade pública, o que poderia pôr o país em perigo, face aos seus inimigos, e mesmo a ordem interna de que um país necessita para que a convivência civil seja possível. De facto, contra a lassitude do Faraó, o aparelho do Estado acabou decretando, em nome do que se pode chamar hoje de Razão de Estado, a supressão do dito Faraó. Pode a filosofia (apesar de compreender) caucionar este tipo de procedimentos? Qual é e deve ser o modelo de filósofo? Sócrates, o campeão da introspecção, o homem que em nome da justiça justa ousa pôr em causa as leis do Estado, da tradição e da religião para apelar-se a uma verdade superior? Ou o realista Aristóteles que não se limita a afastar-se das concepções idealistas do seu mestre Platão, mas tenta influenciar o curso da história através do seu educando, Alexandre, O Grande? O filósofo como um CAPITULO I Baptista, deve preparar o caminho da chegada do Leviatã de Hobbes, ou estar ao serviço do Príncipe como Maquiavel? E que fazer quando o príncipe se chama Nerão para fugir ao destino trágico do pobre Séneca? Ser um apologeta da modernidade e da mudança a todo o custo como Voltaire (Towa, Elungu) ou defensor das tradições como Rousseau? Ser filósofo deve significar o metodismo excessivo de Kant, a autarquia de vida de Espinosa, a amargura de Nietzsche ou o mundanismo anti-mundano de Sartre? Para a história de Moçambique todos conhecemos a importância que teve o fundador mítico da FRELIMO, Eduardo Mondlane. O debate recente tentou relativizar o seu papel na fundação da FRELIMO, mas sobretudo pretendeu que teria havido cumplicidade da direcção da FRELIMO no seu assassinato. A mesma coisa tem sido dita acerca da morte trágica de Samora Machel. Ora um dos argumentos trazidos para explicar a morte de Mondlane era que ela era a condição necessária para o prosseguimento da luta de libertação nacional. Quando se conhece a importância da independência nacional para todo um povo, e quando se conhece o anacronismo histórico do colonialismo português que fazia com que o único meio para obter a independência fosse a luta armada, uma hipotética cumplicidade no assassinato de Mondlane, de um ponto de vista pragmático-político poderia resultar lógica. A mesma coisa se pode pensar da morte de Samora Machel. Depois de muita morte e muito sofrimento, a única via de saída para o conflito armado era a abertura do diálogo com a RENAMO. Ora, Machel teria resultado no maior impedimento para que esse diálogo se realizasse, o empecilho maior para a paz de todo um povo. Aqui também a conclusão parece óbvia. Nestes dois casos, existe um conflito claro entre os princípios filosóficos e as acções da práxis política. No primeiro caso, teríamos um homem cioso em utilizar meios pacíficos para atingir o grande valor para todo um povo que é a liberdade. Mas estes meios eram obstruídos pelo anacronismo histórico do colonialismo português que, face ao declínio dos impérios coloniais europeus em África, continuava a impor como único recurso a guerra. No segundo caso, teríamos um Machel que não aceitaria dialogar com a Renamo porque julgava que se tratasse de um instrumento neocolonial de poderes capitalistas ocidentais, o que aliás era partilhado pela direcção da FRELIMO. Qual deve ser a posição do filósofo? Eu poderia responder a isto com Kant que, contra a posição de Platão, pensa que não se deve esperar que os reis filosofem ou se tornem filósofos, nem mesmo desejar isso. Até aqui estou de acordo com o pensamento de Kant, mas com todo o respeito por este grande filósofo, devo emitir reservas quanto às razões. Kant pensa que não se deve sonhar com a transformação de reis em filósofos ou que os reis filosofem porque a partir do momento que os reis detêm o poder-força, estão inexoravelmente condenados à corrupção do livre juízo da razão. Eu não me interesso neste trabalho pelas ilações teóricas do que Kant chama a corrupção do livre juízo da razão, mas pelas interpretações históricas que este axioma acabou tendo nos debates políticos, cujo ápice foi atingido na famosa máxima de Churchil: «o poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente». Apesar dos excessivos exemplos de uma relação quase intrínseca entre poder e corrupção, temos também casos suficientes de governos e governantes que tentaram ser justos sem, no entanto, terem abdicado do pragmatismo que deve necessariamente acompanhar a arte da governação, para refutar a relação que Kant estabelece entre poder e corrupção. Poderíamos citar uma série de exemplos históricos que vao de Marco Aurélio até Julius Nyerere passando por Sankara. Mas talvez seja oportuno voltar ao contexto moçambicano. Tenho expresso muitas vezes a minha admiração pelos jovens que abandonaram tudo: casa, pais e carreiras para se lançarem numa aventura de luta de libertação que sabiam muito perigosa. Digo muitas vezes que eu lamento ter nascido tarde e não poder ter aderido àquela luta que continua, a meus olhos, sendo justa. Tenho também muito respeito pelos governantes da primeira República (apesar dos erros cometidos) por não terem, contrariamente a muitos governos africanos de então, feito da política a arte de encher a bolsa com aquilo que Jorge Rebelo, nas suas vestes de poeta, chamou «coisas sujas e inconfessáveis». Tenho respeito por Machel pela tenacidade com que separava os bens públicos dos privados. Se eu continuasse a referir-me a Kant, para ser justo, deveria dizer que por corrupção Kant não entendia só a corrupção material, mas também a justiça em termos de debate de ideias. A este propósito, devo render homenagem ao governo da segunda República por ter aberto espaço a um debate de ideias. A tentação da corrupção é grande, mas o ideal platónico permanece válido. A sociedade moçambicana tem necessidade de uma elite política preocupada em exercer com rigor e competência as suas funções pragmáticas políticas, mas que tenha em conta, ao mesmo tempo, a necessidade da busca da justiça, sabendo que esta não se define (nem se atinge) uma vez por todas, mas transforma-se com o desenvolvimento da sociedade e com a mudança das necessidades dos indivíduos e dos grupos. É por isso que a sua acção deve ser comprometida por um corpo de filósofos que tenham na verdade a razão última da sua actividade. Mas os filósofos, por sua vez, têm que ter presente que essa verdade não se pode encontrar fora das conjunturas histórico-sociais condicionadas pelos seus imperativos políticos, económicos e sociais. No fundo, a realização da justiça ou a busca de uma justiça sempre mais justa para um número sempre maior de indivíduos passa necessariamente pela colaboração não só dos políticos e filósofos, mas de todos. Colaboração quer dizer influencia recíproca, mas também respeito (não filiação, não subordinação, não instrumentalização) das prerrogativas e das liberdades epistêmicas de cada corpo. A história das relações entre os filósofos (já dissemos que a filosofia só pode existir se existirem filósofos) e o poder não obedece a nenhum critério unívoco. Tanto mais que como a filosofia, o poder também não obedece a nenhuma constante histórica, dado que está intrinsecamente ligado aos regimes políticos: democracia, oligarquia, aristocracia, ditadura (e aqui depende do ditador que pode ser tanto um tirano sem escrúpulos como um ditador iluminado). O poder depende também das épocas históricas, das vicissitudes dos tempos e do lugar. Assim, na Antiguidade, Sócrates, por causa das suas posições filosóficas, é condenado à morte pelo poder; mas, Aristóteles, algumas décadas mais tarde, é «pedagogos» do «ecumênico» Alexandre. Maquiavel põe-se ao serviço do príncipe, Hobbes teoriza a necessidade de um Leviatã, enquanto Thomas More e Campanella sonham uma «Utopos» e uma cidade do sol, respectivamente. Sepúlveda defende osinteresses espanhóis, enquanto a banda dos iluministas franceses, Voltaire, Rousseau, Montesquieu sonha com um humanismo e uma democracia que a afasta sistematicamente das graças do poder político. Mais perto de nós, o grande Heidegger tem uma relação ambígua com o nazismo, Gentile e Croce com o fascismo na Itália; os judeus Jonas e Arendt têm que fugir da Alemanha nazi, Marcuse, Adorno, opõem-se ao nazismo, Sartre e Camus apoiam o nascente movimento da negritude que luta pelo reconhecimento do homem negro. A filosofia não é unívoca, exatamente como o poder. A África independente não escapou a esta relação ambígua entre os intelectuais e o poder. E, portanto, os primeiros intelectuais africanos (de origem africana) não se tinham limitado a inventar CAPITULO I conceptualmente a África. Essa invenção coincidia, na maior parte dos casos, com uma militância política que significava oposição aos regimes (esclavagistas ou colonialistas) que mantinham a África e o homem negro sob dominação. Então, geneticamente, o nascimento dos primeiros intelectuais –muitos dos quais são pastores das igrejas protestantes do Novo Mundo – têm uma relação de oposição com o poder instituído. As primeiras ambiguidades com o poder manifestaram-se na época pós- esclavagista. Dubois inicia uma forma mais intelectual de militância política. A sua luta na América é permitir que os negros, até então escravos, pudessem beneficiar de todas as prerrogativas previstas pela constituição para todos os cidadãos. Para ele a questão negra não era social, mas política. Eles eram a única parte da população americana que tinha ido para os EUA contra vontade, que, em razão da sua história, não podia considerar os EUA como terra de liberdade. Por consequência, a solução da questão negra (contra o gradualismo de B. Washington e o Back to Africa de Marcus Garvey) era necessariamente política. É o início da famosa doutrina da discriminação positiva. Dubois tenta estender a sua doutrina de intelectual engajado pela causa do seu povo ao conjunto dos intelectuais da sua geração através da doutrina «talented tenth» e ao seu Niagara; através do jornal Crisis porta-voz do NAACP, do seu empenho junto dos jovens intelectuais da Black Renaissance (Weldon Jonhson, Langston Hughes, Alain Locke, Claude Mckay) e organizando os congressos pan-africanos, o último dos quais co- presidido com N. Nkrumah que, aliás, vão reivindicar as independências políticas do continente. Mas a história da relações de Dubois com o poder não é linear. Em 1920, ele aceita representar o governo americano na investidura do presidente Roberts, da Libéria. Se ele aceita esta missão é para convencer o futuro presidente. Se ele aceita esta missão é para convencer o futuro presidente liberiano a sua posição de aceitar receber os negros que, no seguimento de M. Garvey, querem voltar a África. Dubois associa-se ao poder político americano para opor-se a um adversário político. Enfim, Dubois, depois da independência do Gana, é eleito vice-presidente, acabando os seus dias a trabalhar como intelectual orgânico pela causa das independências e dos Estados Unidos da África. Weldon Jonhson vai mais longe e aceita fazer campanha para a presidência democrática que, depois das eleições, gratifica-o com a nomeação para Cônsul dos EUA em Haiti. Como representante do governo americano, Jonhson aplica-se, contudo, a denunciar todas as barbaridades cometidas pelos militares americanos durante a ocupação de 1915. Ele utiliza a sua posição para defender a causa negra. O haitiano Anténor Firmin25 começa por contra-atacar o racismo científico emergente, escrevendo, contra Gobineau a Igualdade das raças humanas, depois convocando com Robert Wiliams o primeiro congresso pan-africano. Com efeito, depois do fim recente da escravatura, uma nova ameaça pesa sobre o homem negro representada pelo colonialismo, caucionado, por sua vez, pela antropologia nascente e pela ideologia racista emergente. O lema dos intelectuais reunidos em Londres em 1900 é unir-se para resistir. Edward Blyden não participa nesse encontro porque não pode aceitar a presença do que ele chama de «negros não puros». Blyden é um intelectual problemático. De um lado, ele trabalha como intelectual orgânico pela causa da emigração dos negros para a Libéria, participando em encontros de sensibilização nos EUA, defendendo a causa da Libéria como embaixador junto das chancelarias ocidentais. Mas, do outro lado, ele manifesta um racismo anti-mulato preocupante e, sobretudo, participa na submissão e colonização dos indígenas da Libéria por parte dos yankees negros (blacks, mas anglo- saxões e protestantes). 25 In Oruno Lara, 2000:164-183. A nível de África, não se foge muito a esta regra. Os primeiros intelectuais africanos são militantes pela causa da liberdade dos próprios povos e, por conseguinte, contrários aos poderes estabelecidos (Azikiwé, Nkrumah, Mondlane, Senghor, C.A. Diop, Cabral, Neto, Nyerere). Os da tradição pan-africana, não assimilados pelo colonialismo, reivindicam imediatamente liberdades políticas; os da tradição francesa têm muito mais dificuldades em se distanciarem do colonialismo. Com efeito, apesar das influências que o próprio Senghor reconhece da parte do escritor do Harlem Renaisssance, ou das claras posições tomadas por Etienne Lero e pelo seu movimento Légitime Défense de 1932, a negritude, desde o seu primeiro aparecimento sob forma de Etudients Noire em 1934, dá primazia absoluta ao cultural em detrimento do político. Contudo, o esforço de reabilitação cultural que está no centro da actividade de Senghor, Damas e Césaire, vai necessariamente desembocar na reivindicação das independências políticas e, por consequência, na oposição ao colonialismo. Até à década de sessenta, existe uma ligação entre ser intelectual e uma militância pela causa das liberdades e independências e, em consequência, a oposição ao poder colonial. Aliás, uma das particularidades desse período era a conjugação numa única pessoa das dimensões intelectual e política. O exemplo mais representativo é Senghor: escritor e poeta, e mesmo com uma certa aversão pela política, por razoes históricas independentes da sua vontade, veio a ser um dos pais das independências africanas. Mas Senghor é também o melhor exemplo para demonstrar que um bom intelectual não é, necessariamente, um bom político. De facto, enquanto Presidente do Senegal, ele continuou a ser sobretudo poeta, a escrever e mesmo a utilizar o pouco dinheiro público disponível para organizar encontros para a glória do movimento da negritude, deixando que a economia do país continuasse a depender e a ser pensada a partir de Paris. Todavia, apesar da fusão da dimensão intelectual e política nas mesmas pessoas, as relações entre os intelectuais e o poder complicaram-se no período pós-colonial, devido, fundamentalmente, à combinação de três factores: 1. O clima da política internacional no qual as independências africanas foram proclamadas, dominado essencialmente pela guerra fria. Na África disputada entre dois blocos –o não alinhamento não funcionou –uma das aramas usadas para desestabilizar os governos africanos foi a utilização de intelectuais como ameaça contra o poder dos respectivos países, o que não era de natureza a facilitar uma colaboração entre os intelectuais e o poder. Aliás, isso acabou metendo os governos africanos na defensiva e a considerar certos esforços legítimos de participação na vida pública como sendo tentativas de subversão. 2. No momento da proclamação das independências, o número de africanos formados é quase nulo. Nkrumah, como primeiro-ministro, viu-se a governar o Gana com uma administração britânica que não executava as suas ordens. Esta falta de pessoas formadas levou a que todos os primeiros intelectuais fossem solicitados a ocupar lugares de poder ou de primeiro plano a nível administrativo.Isto acabou levando uma geração de formados a considerarem-se intelectuais e a confundir o ser intelectual com o exercício de cargos políticos ou administrativos. Quem não era contemplado na distribuição de lugares de poder sentia-se discriminado e, em consequência, autorizado a constituir-se em oposição ao poder. 3. De uma maneira geral, os colonizadores não estavam prontos a aceitar a autodeterminação dos povos africanos –ainda hoje dão suficientes provas de não estarem libertos dos seus preconceitos de hegemonia colonial. Assim ao invés de favorecerem um debate democrático lá onde as condições o permitiam, preferiram confiar as independências a indivíduos que pareciam estar mais ao serviço das CAPITULO I metrópoles que das populações africanas (Senghor e Boigny), ajudando-os a reprimir, através das bases militares que inundam a África e dos serviços secretos, toda a reivindicação de debate democrático. Lá onde os dirigentes negavam essa fantochada (o caso da Guiné) fabrica-se uma oposição intelectual, partidária ou mesmo militar, como foi o caso de Moçambique. Então, quando se julgam os regimes das primeiras repúblicas africanas, tem que se pensar nas ingerências externas que, em vez de favorecerem um debate e uma abertura interna, levaram a que os regimes políticos, para se defenderem, perseguissem os que pareciam defender ideias neocoloniais ou os que pareciam ser instrumentos de poderes externos. O corolário disto é que os regimes de partido único, de esquerda ou de direita, acabaram criando uma tradição de conflito entre poder e intelectuais não orgânicos. Esta situação fez com que as elites de um mesmo país não se mobilizassem em direcção a um objectivo comum, mas se fragmentassem numa espécie de oposição entre poder e saber. No Moçambique de hoje, este síndroma instrumentalista volta à tona. Nós não trabalhamos todos para objectivos comuns bem definidos. Pelo contrário, dividimo-nos em intelectuais Frelimo-governo e oposição-comunidade internacional. Se ainda a divisão fosse Frelimo-Renamo, e outras forças nacionais, seria aceitável. Mas como a divisão é entre os que podem pagar, a Frelimo tem os seus meios e, por isso, o seu pessoal e a comunidade internacional, através de uma ingerência ilegítima e escandalosa, nem sequer dá meios a Renamo e aos partidos mais pequenos para crescerem e fortificarem a democracia nacional. A comunidade internacional substitui- se a eles e constitui-se numa verdadeira oposição, rivalizando com a Frelimo na posse das capacidades locais. Parece-me que, apesar de tudo, é tempo de reconciliar os intelectuais e o poder. É tempo de este dar mais espaço a aqueles e de aqueles se engajarem numa participação construtiva. Ouso mesmo pensar que, para melhorar a democracia moçambicana, o elo fraco não é o povo, nem a classe política, mas uma elite intelectual que não está à altura dos desafios a que Moçambique tem que fazer face. Não em termos de críticas do que não vai bem, mas em termos do que é necessário fazer para melhorar as condições de vida das populações. Uma elite que não se confunde com os detentores de diplomas (Deus sabe como são procurados!), mas com a produção de ideias e com a ousadia de participar, sabendo antecipadamente que ser intelectual foi e sempre será um risco. Os intelectuais podem ser coisas diferentes. Jean-François Lyotard26, o pai do chamado pós-modernismo, diz que o saber é uma mercadoria que se compra e se vende. O intelectual, o detentor do saber pode transformar-se num mercante e, no nosso caso, mesmo num mercenário que, em nome do dinheiro, vende ou vende-se sem ter uma visão clara das suas atitudes e do seu posicionamento. O intelectual pode também ser um homem engajado, não necessariamente com um partido, mas com a causa de Moçambique e do seu povo. Césaire27 fala pretensiosamente em carregar sobre os ombros os problemas do povo. Mais modestamente, Senghor fala da necessidade de não sermos exploradores do nosso povo. A ideia de não sermos exploradores do nosso povo é importante porque parece- me que, cada vez mais, ser intelectual significa fazer parte da elite moçambicana. Os acordos que alguns de nós assinam, as coisas que admitimos ou caucionamos com artigos que nos são ditados, fazem com que a maioria do nosso povo volte a situações quase coloniais. Se não somos exploradores do nosso povo, somo muitas vezes, ou pelo 26 A Condição pós-moderna. Lisboa: Gradiva, 1989. 27 Cahier d´un retour au pays natal. Paris: Présence Africaine,1952. menos o perigo existe de sermos, veículos, instrumentos para o restabelecimento dessa exploração. Num pequeno romance extraordinário intitulado Aventura Ambígua28, C. H. Kane propõe uma figura de intelectual que seria uma espécie de enviado do povo à escola a fim de aprender o que ele chama «a arte de ganhar sem ter razão». Nesse sentido, os intelectuais são vistos como enviados pelos grupos, pelas comunidades a fim de contribuírem para melhorar a situação de todos. Esta maneira de pensar o intelectual parece-me judiciosa e equilibrada na medida em que, sem tirar nada ao indivíduo e às suas capacidades, confia-lhe uma responsabilidade social. Qual pode ser a contribuição específica da filosofia (moçambicana) no crescimento democrático de Moçambique? Como a coruja de Minerva, a filosofia chega sempre tarde ... A filosofia parece destinada a seguir a corrida dos tempos sem poder influenciá- los. A filosofia parece destinada a um trabalho de interpretação do passado, a um trabalho de história ou, como diria Nietzsche, de filologia. Aliás, boa parte da filosofia contemporânea limita-se, de facto, a um trabalho de interpretação, a uma re-leitura crítica do passado, a duma hermenêutica. A filosofia africana, depois de uma partida promissora, estagnou-se e limita-se hoje a debates em volta da própria existência sem se ocupar de acompanhar o desenvolvimento sócio-político do continente. Se esta posição de Hegel fosse justa, então a filosofia seria uma espécie de moralismo destituído de toda a capacidade de influenciar os tempos históricos. No entanto, pode-se interpretar o pensamento de Hegel de um outra maneira. Pode-se pensar que, no fundo, relevar os aspectos positivos do nosso passado histórico, assim como pôr em evidência os erros, as incongruências, os conflitos, as lutas e as disputas serve para fazer dos homens seres muito mais prudentes, muito mais precavidos. Neste sentido, a filosofia serviria também a moral, mas não num sentido retórico, mas num sentido de antecipação, de prevenção e, em consequência, a filosofia serviria para fazer dos homens seres mais prudentes e mesmo melhores. É neste sentido que é preciso ler os trabalhos de Manguelle29, A. Kabou30, M. Towa31, P.E. Ilungu32, que tentam desvendar a razão da fraqueza histórica do continente africano em relação aos outros povos, que tentam elucidar a razão pela qual a África não foi capaz de um relacionamento igual, de uma confrontação mais equilibrada com as outras partes do mundo. Esta é razão pela qual estes autores interrogam as culturas africanas, para ver até que ponto são responsáveis ou não pela situação de fraqueza, de pobreza a que o continente está sujeito em relação a outros povos. Este trabalho de análise histórica tem também que ser feito a nível de Moçambique, a fim de clarificarmos o que tornou possível ou, pelo menos, facilitou as práticas da escravatura, do colonialismo, da guerra dita civil, da intolerância política, exactamente para que essas práticas não voltem a repetir-se entre nós. Podemos mesmo pensar que o facto de este trabalho crítico não ter sido feito ou que não se faça, contribui para o retorno hodierno da situação de opressão, análoga à dos tempos passados. Mas de maneira positiva, olhar para o passado significa destacar entre os múltiplos factos históricos, aqueles que são convocáveis para um debate futuro.28 Paris: Présence Africaine, 1963. 29 L’Afrique a-t-elle besoin d´un programme d´ajustament culturel? Paris: Ed. Nouvelles du Sud, 1990. 30 Et si l´Afrique réfusait le development? Paris: L´Harmattan, 1991. 31 Négritude ou servitude? Yaoundé: Presse Universitaire du Cameroun, 1979. 32 Tradition africaine et rationnalité moderne. Paris: L’Harmattan, 1998. CAPITULO I A segunda maneira de pensar a filosofia, também teorizada por Hegel, é concebê- la como um esforço de apreender o próprio tempo através de conceitos. Ao que convém juntar a sentença de Ortega e Gasset: «Eu sou eu e as minhas circunstâncias». Neste sentido, fazer filosofia seria interrogar-se sobre a própria temporalidade histórica, mas sempre em função de uma particularidade que nos é própria. Isto justifica a existência de uma filosofia que olha e se interroga sobre a condição humana e sobre a particularidade do nosso tempo histórico a partir de Moçambique. Por conseguinte, não existe nenhuma contradição entre a filosofia, que se quer universal, e o facto de querermos, parafraseando Voltaire, cultivar o nosso jardim! Na esteira de Hegel e contra Hegel, que na sua filosofia da história colocava a África fora de toda a dimensão histórica, temos que ousar conceber a nossa vida política, a nossa democracia e as nossas instituições não como simples «imitatio» do Ocidente. Temos que ousar inventar uma democracia que seja um governo do povo no respeito pelo povo, das suas representações culturais e dos seus imaginários colectivos. Cultivar o nosso jardim é tomar a sério a democracia, mas também e sobretudo os sujeitos (na sua complexidade e heterogeneidade) de tal regime para que ele possa justificar o seu nome. Cultivamos o nosso jardim quando tomamos a sério e reflectimos em termos filosóficos sobre as preocupações que nos habituam –a pobreza, a fome, a busca de uma democracia – procurando dar-lhes respostas científicas. Mesmo num mundo que se quer global/mundial a partir e em função das nossas particularidades que, em definitivo, são o nosso ponto de observação. O ponto de partida de qualquer filosofia é o contexto, o que faz a sua universalidade são as suas respostas que podem atingir dimensões que ultrapassam o âmbito de um contexto particular. A universalidade da filosofia não pode ser a postulação pura e simples de axiomas gerais, mas deve ser o reconhecimento post- moderno da existência de situações diferentes (as micro-narrativas), a sua interpretação e, em seguida, um diálogo entre as diferentes maneiras através das quais a humanidade dá razão à vida. O próprio pós-modernismo teorizado como foi por Jean-François Lyotard não se limita a pôr fim às metanarrativas, aos discursos universalistas, ao que Gianni Vattimo chama de «pensamento forte». Abre espaço à emergência dos contextos. A história da filosofia se desenvolveu e se desenvolve como uma série de saberes contextuais que escrevem muitas histórias e, em cada uma delas, com um rosto diferente. O racionalismo francês é diferente do idealismo alemão, e este é diferente do empirismo inglês, do pragmatismo americano ou da filosofia da libertação latino-americana. A filosofia – é o próprio Hegel33 a fazê-lo notar –não deve tentar construir-se um mundo à parte, um mundo de livros e de conceitos, existente só no âmbito ideal abstracto. Ao contrário, a sua tarefa é pensar o mundo histórico real, o mundo em curso na história que os seres humanos padecem e fazem, para tentar ser pensamento desse mundo, isto é, esforço para apreender o seu tempo reflexivamente. Se a filosofia se caracteriza por esse esforço, se esse esforço é constitutivo de qualquer filósofo, deve-se então admitir que a história da filosófica não se limita à maneira coma ela tem sido feita nas outras histórias que, aliás, correspondem às formas filosófico-históricas que a disciplina tem tomado. A pluralidade de formas é a expressão multifacetada que concretiza e manifesta a filosofia enquanto saber cuja história de constituição e de articulação tem lugar em conexão essencial com os processos históricos-contextuais da vida da humanidade. 33 G.W.F. Hegel. Filosofia do Direito. Lisboa: Ed. Presença, 1977:16 e ss. Daqui resulta evidente que o tempo e o contexto não são ingredientes que dependem da conveniência ou do arbítrio de cada filósofo, mas conditio sine qua non de todo o filosofar que determinam o gosto e o sabor de todo o saber filosófico. Tempo e contexto decidem, portanto, do vulto da filosofia. E fazem-no imprimindo-lhe o selo da pluralidade, porque pensar o espírito dominante da sua época, mas também significa o compromisso de pensar os mitos tempos e historicidades que a humanidade nas suas múltiplas formas quotidianamente gera e vive. Isto implica, obviamente, a necessidade de pensar não só o contexto global como também a diversidade contextual em que se geram os tempos. Daqui se depreende que a própria filosofia é também um saber contextual, isto é, a filosofia reflecte sempre uma determinada contextualidade. A contextualidade é fonte de pluralidade. Ainda mais importante é relevar que essa pluralidade não depende de simples razões geográficas nem do exotismo, mas de razões hermenêuticas, antropológicas e éticas. O que está em jogo é a riqueza das razões com que a humanidade dá razão à vida. Como expressão concreta dessa riqueza, cada filosofia contextual tem, em si mesma, a razão da usa própria necessidade, pois cada filosofia contextual, justamente porque nasce com as experiências e as esperanças concretas de uma comunidade humana específica, tem que dizer coisas que nenhuma outra filosofia pode dizer no seu lugar. Se quisermos, é a questão da localização do logos, ou da necessidade de não delegar palavra. É por isso que a filosofia contextual, em cada uma das suas formas culturais, é necessária para poder partilhar a irredutível polifonia das culturas da humanidade e, por conseguinte, para poder organizar, a partir da pluralidade, a viagem ideal de uma verdadeira «ecumene» entre os povos. Esta série de razoes teóricas é suficiente para justificar um esforço de pensar filosoficamente a realidade moçambicana no seu processo histórico singular: centro da violência da escravatura, do colonialismo, de um marxismo extremo, de guerras de interesses neocoloniais mascarados de guerra civil, lugar de experimentação de ideologias de esquerda e de direita, mas também de acordos de paz que parecem durar no tempo; de uma democracia que vai fazendo, apesar das dificuldades, o seu caminho; de um povo que aprende a reconciliar-se, mas que deve aprender a dura lei da resistência dos inimigos da independência de origem interna (o domínio do eu) e externa (da invasão dos interesses coloniais). Todavia, a filosofia moçambicana inscreve-se necessariamente num quadro geral da filosofia africana, sobretudo pela natureza comum dos problemas que nos ocupam. Não quero dizer que as problemáticas da etnofilosofia, da filosofia crítica ou da hermenêutica, tenham alguma coisa a ver com as preocupações que impregnam a filosofia moçambicana. Aliás, penso mesmo que o debate actual da filosofia africana representa um momento de involução na história do pensamento africano. Penso mesmo que a filosofia africana não está à altura do debate do pensamento africano que é muito mais antigo e muito mais profundo. O facto de não nos identificarmos com a esclerose do debate que gravita à volta da sua própria existência não implica não identificarmos a nossa busca, a nossa contextualidade com a problemática geral que está na génese do pensamento africano, do qual finalmente, a filosofia africana é um derivado. O substracto filosófico do pensamento africano é, sem dúvida, a busca da liberdade, devido à situação categorial oprimido/escravo/colonizado/subdesenvolvido na qual os povos africanos se encontraram a seguir ao encontro/choque com o ocidente. Estas buscastomam formas diferentes segundo as épocas, os períodos históricos e os lugares geográficos. CAPITULO I A primeira manifestação da busca da liberdade tomou a forma de luta pela emancipação da escravatura. Basta pensar nas lutas dos escravos nos Estados Unidos, na Jamaica, no Brasil e no Haiti. A segunda forma da busca da liberdade foi a luta pela integração social nos países onde os antigos escravos passaram a ser cidadãos (B. Washington, Dubois) de segunda linha. O terceiro movimento identifica a liberdade com a autodeterminação política. A figura mais preponderante é Kwame Nkrumah que, ultrapassando a Renascent África de Azikiwé, reivindica, primeiro no V Congresso Pan- africano de Manchester de 1945 e depois no livro África Must Unit, a liberdade- independência de todo o continente, e se faz o paladino de uma unidade continental em termos políticos e económicos. O quarto nível de liberdade é o desenvolvimento económico e social. Este nível, iniciado logo depois das independências, ocupa ainda hoje o essencial das elucubrações dos africanos, e é aqui que se situa também o nascimento de uma filosofia africana crítica (Towa, Eboussi, Hountondji). As diatribes da história africana, as vicissitudes existenciais primeiro e do pensamento em seguida, deram à política africana, mas também à sua filosofia um cunho muito particular a que eu chamo de libertário. A natureza dos estados africanos (se quisermos ir mais longe diremos negros) quer sejam os da Serra Leoa e da Libéria, primeiro e, depois, os do Gana e Congo são, na essência, libertários: contra a escravatura primeiro e o colonialismo em seguida, aos quais durante séculos os negros estiveram submetidos. A filosofia africana emerge também deste fundo comum de busca de liberdade. Se existe um paradigma –no sentido de Kuhn –do pensamento e da filosofia africanos como eles se desdobraram historicamente, esse paradigma chama-se a busca da liberdade. Não de uma liberdade metafísica ou moral, mas de uma liberdade política. Não podemos pensar a África nem sob ponto de vista político, nem filosófico perdendo de vista o paradigma libertário que deve ser a referência e o critério de julgamento das nossas lucubrações intelectuais e das nossas opções políticas. As nossas reflexões e opções em torno do liberalismo e da democracia devem ser subordinadas a esta busca secular da liberdade. Devem ser analisadas não em função da dinâmica mundial (mesmo se não a podemos ignorar), mas subordinadas à nossa busca secular e histórica. Só na medida em que um regime político, um sistema económico colaboram para incrementar a esfera paradigmática da nossa busca histórica é que eles podem ser avaliados positivamente. A Filosofia em Moçambique Um esforço filosófico a partir de Moçambique não pode deixar de se inscrever no quadro de um esforço africano mais global ligado ao nascimento da filosofia africana que, por seu turno, está intrinsecamente ligado à busca da liberdade que caracteriza a visão continental da África. Contudo, se as nossas inquietações não são geneticamente diferentes das preocupações dos outros países africanos, também não são completamente idênticas. Estamos a nível daquilo que os lógicos chamam analogia. Os problemas e as preocupações que norteiam a filosofia africana soa também nossos. Mas com algumas diferentes significativas de ângulos de ataque e mesmo reservas sobretudo relativas ao solipsismo que tem caracterizado alguns filósofos que centra as suas reflexões em torno da existência da filosofia africana, esquecendo-se de acompanhar criticamente a evolução (ou talvez a involução) dos diferentes países do continente. Isto fá-los cair no mesmo erro da negritude e da etnofilosofia que era, como dizia Fanon, de continuar a remoer em sarcófagos e não mobilizar as inteligências para a dinâmica histórica da África. Nos meus primeiros trabalhos (Por uma Dimensão Moçambicana da consciência histórica; Das independências às Liberdades; O Retorno do Bom Selvagem; Mukadjanadas) tentei pensar em Moçambique, haurindo a base do meu pensamento na história da filosofia e na maneira como ela tem sido pensada e discutida no continente africano. Tentei contribuir para uma reflexão em volta das metamorfoses históricas próprias de Moçambique: por um lado, solicitando a filosofia com a sua história e método a seguir dialogicamente o percurso histórico de Moçambique; por outro, solicitando Moçambique e a sua história a se deixarem interpretar pelo saber filosófico. Este esforço de trazer a filosofia ao debate moçambicano atingiu inesperadamente proporções inauditas quando em 1995 me foi dada uma daquelas ocasiões únicas na vida de um filósofo, isto é, conceber um curriculum de Filosofia para a Universidade Pedagógica e acompanhar a formação de professores que se encarregariam, num segundo momento, de introduzir a filosofia em todas as escolas secundárias do país. A primeira preocupação que tive foi tentar saber a razão pela qual o Ministério da Educação tinha decidido introduzir a filosofia no ensino secundário. Isto é, a filosofia devia contribuir a trazer soluções para que problemas? Tratava-se, para mim, de criar um curriculum que, mesmo respeitando a secular história da filosofia nas suas disciplinas nucleares (história da filosofia, teoria de conhecimento, antropologia filosófica, ética e metafísica), fosse construído em função das necessidades do país. Tratava-se de aculturar a filosofia ao contexto moçambicano sem a desapropriar da sua dimensão de busca do universal centrado sobre a realidade da condição humana. A vontade política de introduzir a filosofia no ensino era, em si mesma, o reconhecimento da capacidade desta disciplina a contribuir na fase crucial e na encruzilhada histórica a que Moçambique se encontrava a nível político-social, mas também a nível moral. Assim decidi propor um curso de filosofia aculturado às preocupações reais de Moçambique, para levar a filosofia a ser um parceiro sério na elucidação dos problemas e das suas causas, mas na busca de soluções. Após um período de investigação e de reflexão identifiquei três campos fundamentais de possível contribuição da filosofia em Moçambique: epistemologia, política e ética. i. Epistemologia A escolha da epistemologia como campo de investigação da filosofia em Moçambique resultou, em primeiro lugar, das dificuldades que os estudantes têm face a questões abstractas. Este défice epistemológico está ligado não só à falta de filosofia (lógica), mas também à fraca preparação no conjunto das disciplinas humanísticas como a história, a literatura, as línguas clássicas, a gramática, etc. Para além de contribuir, dando aos estudantes utensílios de análise mais refinados, a epistemologia pode trazer uma outra contribuição, menos evidente, mas não menos importante. Historicamente, ela teve outras denominações que nos podem ajudar a compreender os seus desafios e, em consequência, a alargar o seu campo de aplicação na educação dos jovens. Ela é também conhecidos por Gnoseologia, Teoria do Conhecimento e Crítica. Dizer «crítica» significa referir-se a uma atitude do espírito que consiste em analisar rigorosamente e sem condescendência os nossos mecanismos de conhecimento, o conteúdo mesmo do que nós dizemos saber, assim como o valor intrínseco dos nossos conhecimentos. CAPITULO II Nos últimos anos, uma parte da filosofia africana (P.E. Elungu, M. Towa, Ka Mana, ali a. Mazrui, Georges B. N. Ayittye, J. A. sofola, Kwasi Wiredu, E. Njoh Mouelle) tem centrado os seus debates à volta do valor dos nossos conhecimentos ditos tradicionais e da sua relação com a racionalidade moderna. A premissas deste debate é paradigmática busca da liberdade africana, centrada hoje sobre o desenvolvimento económico e social. Até à década de setenta, o discurso africano acusava de uma maneira unilateral a escravatura e o colonialismo de serem os únicos responsáveis pelo estado actual do continente. Esta atitudeimpedia um trabalho de introspecção crítica sobre as nossas responsabilidades, sobre as responsabilidades das nossas instituições ancestrais na instauração desses sistemas odiosos. Por outro lado, a grande exaltação das tradições africanas, por obra sobretudo dos adeptos da negritude, encobriu uma análise fundamental quanto ao valor intrínseco dos conhecimentos tradicionais, do seu eventual enquadramento na modernidade, que constitui o substracto mental e filosófico do desenvolvimento a que aspiramos. Marcien Towa (1971), membro, como Houtondji e Boulaga, daquilo que Elungu chamou de escola crítica34, não só se distancia do caminho traçado pela etnofilosofia aberta por Tempels e Kagame35, como nem sequer se limita a atacar a «negritude-servitude» de Senghor que ele associa a etnofilosofia. Ele vai mais longe agora e afirma que o tempo das reivindicações acabou: trata-se agora de nos concentrarmos sobre a questão do desenvolvimento e do progresso. Para Towa a questão é tentar saber o que permite ao Ocidente o seu desenvolvimento, a sua superioridade e o seu poder sobre nós. Trata-se de descobrir e de se apoderar do segredo do Ocidente. Para o filósofo camaronês, o segredo e a superioridade do ocidente reside nos seus conhecimentos técnico-científicos. Eis porque a África deveria, segundo Towa, concentrar todas as suas energias a desenvolver a ciência e a técnica. P. E. A. Elungu (1987) prolonga esta tese ajuntando que o segredo ocidental não é meramente técnico, mas se trata da racionalidade técnico-científica. A superioridade do Ocidente é, assim, remetida para uma dimensão filosófica. A África tem os seus conhecimentos, ditos tradicionais, os seus saberes que no passado certamente ajudaram os africanos a fazerem frente aos problemas com que eram confrontados – alguns pensadores defendem que esses conhecimentos eram fracos e foi essa fraqueza que fez dos africanos vítimas predilectas de todo o tipo de esclavagistas e colonizadores. Mas admitindo que esses conhecimentos tenham ajudado os africanos do passado, que relação existe entre esses conhecimentos e o mundo moderno? Essa questão divide hoje os filósofos africanos em duas posições contrastantes: os que – como Towa, Elungu, E. Njoh Mouelle – defendem a ideia de uma irredutibilidade fundamental entre as tradições africanas e a racionalidade moderna, e, em consequência, a necessidade de a África ter a coragem de sacrificar a sua história e as suas tradições sobre o altar do desenvolvimento. Esta posição põe enormes problemas de carácter antropológico, dado que a cultura aparece como uma espécie de acessório vestimental que podemos levianamente despir e não uma estrutura constituinte da existência humana. É verdade que a cultura não tem nada de genético, que é intrinsecamente ligada a uma determinada sociedade (Edward Tylor36). Mas a antropologia (Remotti37) demonstrou suficientemente que mesmo se a cultura é uma estrutura precária e exactamente por causa da sua fragilidade e precariedade –ligada ao facto que ela só ganha vida através de indivíduos que são diferentes uns dos outros, e ao facto que a simbologia da cultura exige a priori um consenso social, que nunca se obtém completamente –as sociedades reificam as culturas a fim de se protegerem. Por isso, a ideia de um abandono puro e simples da cultura levanta problemas epistémicos enormes. 34 Ngoenha, 1993: 91. 35 Ngoenha, 1993: 55. 36 Culture Primitive. Paris: Seuil, 1974:79 37 Noi, Primitive. Lo specchio dell’antropologia. Torino: Bollati Boringhieri, 1995. Esta posição põe também problemas de carácter filosófico se, como Herder38, concebermos a cultura como sendo a segunda natureza do homem, sem a qual a vida humana não é simplesmente possível. Outros pensadores africanos (W. E. Abraham, M. V. Tsangu Makumba, O. A. Onwubiko, P. Apostle, J. B. N’tandou, Y. Assogba, E. R. Mbaya, Tshipanga Matala, A. M. M’Bow, C . P. M. Kamala) defendem a compatibilidade entre as tradições africanas e o desenvolvimento moderno. Eles sustentam que o que permitiu a África sobreviver, não obstante a escravatura e o colonialismo a que foi sujeita, foi exactamente a vitalidade das culturas africanas. Se essa vitalidade não se manifestou no período pós-colonial e, por conseguinte, não contribuiu para desenvolver o continente, foi devido essencialmente às elites políticas, que manipularam as tradições e as culturas para solidificaram as suas posições de poder. O interesse deste debate reside na sua dimensão crítica, na sua introspecção cultural e esta não é completamente desprovida de interesse para nós. A primeira República, em nome da luta contra o tribalismo, tinha pura e simplesmente banido as tradições e as culturas do campo do político. A segunda República, sobretudo por obra dos doadores, parece reabilitar as chamadas autoridades tradicionais, sem um debate prévio quanto à capacidade de contribuir positiva ou negativamente para o actual curso histórico. De uma maneira mais incisiva e concreta, o debate africano interroga-se quanto à capacidade democrática das tradições africanas onde o peso do chefe ou do ancião impediriam toda a dimensão do debate de ideias e, em consequência, do desenvolvimento democrático. A filosofia africana interroga-se quanto ao valor estatutário dos mecanismos tradicionais da transmissão do saber que, contrariamente ao modelo democrático do sistema de educação moderno, reserva os seus conhecimentos a uma casta de eleitos, cujo desaparecimento equivale muitas vezes à perda definitiva do saber acumulado. Interroga-se sobre a compatibilidade do sistema familiar africano com as necessidades económicas modernas, dado que sob a aparência de solidariedade, se esconderia, de um lado, um sistema de esbanjamento que impede a acumulação e os investimentos; e do outro, alimentar-se- ia um sistema de parasitismo no qual boa parte dos membros da família vive sobre os ombros dos poucos que trabalham. Todavia, na esteira de Eboussi Boulaga39, podemos pensar a tradição como uma utopia crítica. Isto é, os aspectos acima mencionados relativos às fraquezas da tradição têm que ser tomados a sério. Mas, por outro lado, temos que pensar que alguns aspectos aporéticos da vida política e social moçambicana de hoje deixam-se interpelar por aquilo que para o sentido comum (que recordo deve constituir o ponto de partida de toda e qualquer reflexão científica) constituem o espírito da tradição. O primeiro elemento é a chamada solidariedade africana. Os factos de hoje desmentem a famosa solidariedade africana e fazem dela um mito. O nosso país tem uma elite económica cada vez mais importante, no momento mesmo onde o número de miseráveis progride. Mesmo nos momentos dramáticos, como foi o caso das cheias, não vimos da parte dos que têm mais meios nenhum sinal de solidariedade. Os nossos ricos não só não são solidários, mas nós não vimos emergir nem mecenas nem evergetas dedicados a participar na ajuda do bem estar da maioria. Apesar destes factos, nós continuamos a pensar que o homem africano é solidário. Se pensarmos no espírito da tradição tentando mobilizar os aspectos do passado que nos podem ajudar na nossa aventura em direcção ao futuro (Paul Ricoeur), podemos inferir que a solidariedade deve ser pensada como um dever ser. Insisto: trata-se de mobilizar o espírito da tradição, o que aplicado a este caso, quer dizer as formas que essa solidariedade deve tomar no quadro da vida moderna. Por conseguinte, uma defesa de um contrato social renovado que se materializa sob a forma de impostos, por exemplo, pode apelar às teorias clássicas do contrato, desde os sofistas até John Ralws, passando por Hobbes, Rousseau e Locke. Mas pode ser postulado a partir do espírito das tradições africanas. Um outro elemento que me parece fundamental é o domínio da justiça. A iconografia envolta da justiça apresenta-nos muitas vezes a justiça configuradanuma mulher com uma 38 Ainda por uma Filosofia da História para a educação da Humanidade. São Paulo: Ed. Universitárias, 1974: 111. 39 La Crise du muntu. Paris: Présence Africaine, 1977: 45 e 123. CAPITULO II espada na mão. Mas a verdadeira essência da justiça, que significa tornar possível a relação social e a vida dos indivíduos em sociedade, estaria melhor refigurada na imagem de uma costureira que pega em linhas dispersas e diferentes e cose-as a fim de fazer um todo. Quando pensamos numa sociedade como a nossa, depois dos conflitos que conheceu, quando prestamos atenção ao racismo, ao tribalismo, às organizações dos amigos do Maputo, de Zambézia, Sofala etc.; quando pensamos ao conflito dentro mesmo da Igreja Católica entre Ndaus e Senas, no tribalismo e no racismos crescentes, o que precisamos é do trabalho paciente e atento de uma costureira que tece, mas fortificando as partes que cose de maneira que o pequeno incidente não rasgue o tecido. Isto significa que é necessário todo o trabalho de carácter ético, mas que não pode prescindir de uma redistribuição de bens materiais. Ora, a justiça moderna decide cortando, separando, dividindo como um leviatã, de espada na mão. Axiologicamente, o espírito da justiça tradicional é muito mais próximo da costureira. Os estudos da antropologia confirmam (Norbert Roland40) que muitos conflitos acabavam (mesmo depois de guerras sangrentas) em casamentos entre vencedores e vencidos ou na incorporação dos vencidos nos vencedores (Império de Gaza). O último aspecto a relevar para pensar e propor um modelo político é uma certa aversão de certas culturas africanas aos sistemas centrais de poder (Pierre Clastres, 1974). O exemplo disto entre nós podia ser a história particular dos chopes. A filosofia pode ajudar a tomar consciência da necessidade de uma introspecção crítica sobre o nosso «eu-histórico», como ponto de partida para um debate de ideias. No que diz respeito à história recente, em vinte e cinco anos passámos do colonialismo ao marxismo e deste para a «democracia liberal». A filosofia, antes de lançar-se num discurso sobre o futuro, deveria interrogar-se sobre a natureza do colonialismo, das condições históricas, políticas e sociais que permitiram a sua emergência. Da mesma maneira, temos que nos interrogar quanto às razões da escolha do marxismo, sobretudo quando sinais da sua decadência eram visíveis; quanto às razões do fracasso do não alinhamento, dos sistemas alternativos como o socialismo Ujaama; quanto às razões endógenas da inviabilização dos Estados Unidos de África prospectada por Nkrumah; quanto à inviabilidade de uma revisão das fronteiras coloniais para criar espaços culturalmente homogéneos (C.A.Diop41) ou economicamente complementares (Mamadou Touré42). A filosofia deve também interrogar-se sobre a natureza filosófica do liberalismo como foi pensado por Jeremy Bentham (1748-1832), John Stuart Mill (1806-1873), John Locke (1632- 1704); as metamorfoses históricas que esta doutrina político-social sofreu no curso da história, as diferentes faces que ele tem no mundo de hoje, a maneira como tenta reconciliar o imperativo incondicional da liberdade com a necessidade de um pacto social para que a vida em sociedade seja possível. Temos que nos interrogar quanto à relação entre o liberalismo e a existência do Estado (o nosso é obrigado a esvaziar-se das suas funções essenciais), recordando que os pais da economia política como Adam Smith como os teóricos que fazem mais referência à filosofia (John Locke), consideram o Estado uma instituição indispensável para a garantia das liberdades dos indivíduos. Isto tem que nos levar a uma interrogação quanto à relação entre o liberalismo clássico e o neo-liberalismo. Por outro lado, é necessário interrogar a democracia na relação do seu espírito e das instituições que dão ou podem dar corpo aos seus ideais. A filosofia deve poder demonstrar que se o espírito é uno, as formas que a democracia toma nos diferentes países do mundo são múltiplos e dependem de uma aculturação das ideias democráticas às diferentes maneiras com as quais os povos entendem e interpretam a sua vida social. Por consequência, no respeito mesmo da democracia, nós temos o dever de tomar a sério a especificidade cultural que nós somos e representamos e inventar um modelo institucional que se inspire nos substractos culturais das populações. 40 Antropologie juridique. Paris: Seuil, 1975. 41 Nation negre et culture. Paris: Présence Africaine, 1979. 42 «Les étudiants africains parlent». Revue Présence Africaine. Paris, 1953. ii. Política e ética A segunda questão do nosso programa é de natureza política: com que pertinência a filosofia se pode ocupar do político? Terá uma contribuição específica, diferente daquela que podem trazer a sociologia política, a ciência política e o direito? Esta questão tem hoje, no contexto cultural moçambicano, toda uma pertinência particular. Nos últimos anos, a Faculdade de Direito retomou as suas actividades e recomeçou a formar juristas e, sobretudo, encaminha, estou certo, uma reflexão do direito a partir da experiência moçambicana e em conformidade com a nossa especificidade histórica e cultural. Por outro lado, uma séria reflexão política e social tem vindo a ser feita pela jovem unidade de Ciências Sociais da Universidade Eduardo Mondlane. Não se trata para nós de reflectir sobre a política e sobre o político, mas de pensar filosoficamente o político e a democracia em Moçambique. Duas razões podem justificar esta escolha. A primeira tem a ver com o facto de que desde Platão e Aristóteles se quis circunscrever a reflexão filosófica sobre a política às suas características fundamentais, distinguindo o aspecto normativo do aspecto positivo43. A reflexão platónica, na República, sobre a cidade ideal incorruptível conduziu muitos pensadores a fazerem da filosofia política uma ciência arquitectónica: para que uma sociedade seja justa, é necessário que ela seja governada por filósofos ou por um rei que seria iniciado em filosofia. Contra esta concepção do filósofo-rei instalado na sua sabedoria teorética e versado na contemplação das essências eternas do mundo inteligível, Aristóteles adoptou uma via intermediária. À sabedoria teórica reservada a uma quantidade ínfima de pessoas consideradas como sábias e que vivem retiradas do mundo da acção, ele opõe uma sabedoria prática, característica de indivíduos que vivem e agem com prudência na cidade. Com efeito, para Aristóteles o homem é um animal político, feito para viver em sociedade. É nisto que a política como género de saber racional se encontra ligada às contingências históricas próprias de cada sociedade. Vista desta maneira, a filosofia política deve ter em conta os objectivos práticos do político para pensa-lo na sua complexidade, de um lado como espaço de possíveis e do outro como espaço de experimentação das condutas humanas sobre os aspectos individuais e colectivos. Contudo, a filosofia consiste na aprendizagem do exercício do pensamento, o que requer do sujeito uma libertação de preconceitos –a que Francis Bacon chamava de «idolas» e a hermenêutica moderna de pré-compreensões –e das ideias falsas. Esta prática reflexiva deveria conduzir à sabedoria, objectivo etimológico da filosofia. Esta sabedoria e esta catarsis às quais a filosofia é suposto dar acesso, soa o resultado de um processo de compreensão do mundo. Isto explica –como bem ilustram as três questões de Kant: o que posso saber? O que me é permitido esperar? O que devo fazer? –que a filosofia tenha sido primeiro uma gnoseologia, depois metafísica e, por fim, ética/política. É fácil compreender que a filosofia política foi durante muito tempo resultado de uma filosofia de conhecimento e colocava-se sob a dependência da filosofiamoral. A questão clássica sobre a melhor ordem política possível compreende-se em referência a uma filosofia de conhecimento. Este conhecimento do justo, do bem e do verdadeiro comportava uma obrigação moral irrecusável. A filosofia política era, assim, determinada por uma reflexão exterior. A questão actual é: como pensar filosoficamente o facto político, quando ele já não se confunde com nenhuma teoria de conhecimento, nenhuma moral e, sobretudo, quando deve ter em conta a pluralidade de opiniões como um facto humano fundamental? Podemos perguntar se a actividade reflexiva aplicada ao domínio da política se reveste de algum sentido e, sobretudo, se tem alguma eficácia. A filosofia política pode parecer aos políticos de profissão demasiado idealista e sem nenhuma incidência sobre a realidade, ou então a sua eficácia se limitaria aos casos em que ela empresta o nome a certas ideologias. Entre a impotência e o integralismo –tudo o que é contrário ao espírito filosófico –não existiria uma via intermediária para a filosofia política. Para além das acusações que se lhe são movidas pelo seu carácter pretensamente não científico, a filosofia política estaria suspensa no vazio. Seria útil 43 J.Freund, Essence du politique. Paris: Sirewy, 1965. CAPITULO II para reflectir sobre o devir ideal da humanidade (no nosso caso de Moçambique). Contudo, ela não seria viável. Seria necessário primeiro trabalhar para conhecer o mundo de uma maneira positiva, e só depois, se restasse tempo, recorrer à filosofia. É óbvio que não restaria nenhum tempo. Isto explica o nascimento de dois discípulos que têm um carácter heurístico: a ciência política e a sociologia política. Mais do que concorrentes, estas duas disciplinas são, de facto, uma complemento necessário à filosofia. A ciência e a sociologia políticas tiveram historicamente a ambição de analisar os fenómenos políticos nos caracteres específicos com que se revestiam numa dada época e, a partir daí, identificar as constantes, até mesmo as leis. Assim, elas observaram os fenómenos como a formação e o funcionamento dos partidos políticos, o recrutamento da classe política, as determinantes das preferências eleitorais, as relações entre as formas de poder e o desenvolvimento económico, considerações longínquas da tomada de posições gerais sobre os direitos do homem, a liberdade de pensamento ou a natureza da democracia. Os efeitos secundários puseram sérios problemas à filosofia política. Da mesma maneira que a etnologia, observando os costumes de povos diferentes, anunciou o relativismo cultural, a ciência e a sociologia políticas invalidaram implicitamente a filosofia política, na sua vontade de descobrir, como fazia Aristóteles, as condições através das quais um governo poderia tornar-se um bom governo. Enquanto, tradicionalmente, a filosofia tinha como missão corrigir ou, pelo menos, controlar as paixões humanas, os estudos empíricos não cessam de denunciar uma tal ilusão. A experiência é erigida à dimensão de prova e a história conquista a dimensão de uma religião revelada. Ao mesmo tempo, essas ciências tornam-se cegas ao passado e o futuro resume-se a uma simples extrapolação das tendências constantes. Todavia, não se pode analisar o funcionamento das sociedades unicamente à luz das ciências políticas e da sociologia das organizações, a não ser que se esteja disposto a ignorar o reconhecimento do bem e do mal que foi sempre possível subverter, mas não esquecer. Por outro lado, a sociedade e o espaço político não são sempre idênticos e demonstrar isso era uma das incumbências da filosofia. A maior dificuldade da filosofia política reside no facto de ela exprimir não só uma acção de conhecimento puro, mas também uma vontade de tornar inteligível o real ao serviço do seu objectivo próprio, que é o desenvolvimento do pensamento. A prática filosófica não é neutra, mas tende para uma certa sabedoria. Certo que o sociólogo ou o politólogo têm as suas ideias sobre o estado do mundo, não podemos negar que os livros de Carlos Serra ou os artigos de Elísio Macamo tenham uma visão de Moçambique sobre o que é aceitável e sobre o que não é, mas as suas análises, descritivas ou explicativas, se querem neutras. Uma tal neutralidade é impensável nos outros discursos. O critério de juízo, no nosso caso, é o caminho em direcção à liberdade da qual emerge, em primeiro lugar, a africanidade «moderna» e, em segundo lugar, o pensamento político africano e depois a filosofia africana. Um lugar comum reza que o lugar da política é a polis, a cidade. Mas quando se diz cidade não se deve entender a dimensão geográfica, os prédios, os escritórios, as embaixadas, pois eliminar-se-iam imediatamente muitas partes e muitas pessoas cuja vida não se desenrola naquilo que tradicionalmente se chama cidade. Os habitantes das zonas suburbanas e do campo não seriam contemplados numa tal definição. A política tem a ver com o espaço onde as pessoas vivem, com o domínio público, o lugar onde os cidadãos se encontram para deliberar. Isto pode ser nos prédios do Maputo, na chique avenida Keneth Kaunda, no parlamento exposto ao barulho da parte baixa da avenida 24 de Julho, mas também pode ser numa palhota, debaixo de uma árvore, etc. O essencial não é o lugar geográfico, mas o espaço simbólico e de significação. Isto quer dizer que o conteúdo da deliberação é de longe mais importante que o lugar onde essa deliberação se realiza. Mas se essencial é o conteúdo, sobre o que é que os cidadãos deliberarão? O debate público é caracterizado por duas coisas essenciais: primeiro, a organização desse debate e a maneira de conclui-lo com um acto de poder, segundo, a gestão da cidade e os objectivos que lhe foram confiados. A organização e a maneira como os cidadãos podem participar no debate público é já, em si, um acto político. Por isso, a capacidade das normas de traduzirem a compreensão das pessoas, de problemas, a criação de mecanismos jurídicos susceptíveis de traduzirem a sensibilidade das pessoas e a sua futura participação nos debates políticos constitui o primeiro acto político do qual vão depender os restantes. Por outro lado, uma «cidade» fixa objectivos, que correspondem à sua maneira específica de se perceber como comunidade, o que corresponde (ou deveria corresponder) aos valores que se fixam previamente e aos objectivos que pretendem atingir, que não são iguais em todas as comunidades. Na estrutura mesma do político, têm uma importância primordial a organização do debate, os valores e os ideais sociais de uma determinada comunidade política. Às questões tradicionais da democracia –como fazer para que o poder da maioria seja acompanhado pelo respeito pelas minorias, como fazer com que a igualdade geral de opiniões no debate público não se transforme em desprezo pelo conhecimento –tem que se acrescentar uma outra: como fazer com que as sociedades modernas não se transformem numa espécie de «Jerusalém celeste» sobre as quais as sociedades «pré-modernas» têm que se moldar? A modernidade introduziu a autonomia do campo político, o que quer dizer que ele não pode ser governado do exterior. É necessário evitar que essa conquista se torne monopólio de certos estratos da humanidade em detrimento da outra parte que não teria possibilidades de propor objectivos e modelos de sociedade que lhes são próprios. A filosofia política tem a função de explicitar as regras da democracia e a definição da organização do político, quando o regime é ameaçado do interior ou do exterior, e de salvá-la contra quem a coloca em perigo. A explicitação da democracia não se faz a partir da fabricação de conceitos abstractos, da dedução lógica e racional de ideias. Ela tem que ver com a constituição de um espaço político, que só pode ser feito a partir das diferentes compreensões culturais dos grupos e dos povos. As sociedades com mais experiênciademocrática podem partilhar connosco as suas experiências, mas não podem servir de modelo porque as modalidades da racionalidade ocidental são historicamente situadas e não susceptíveis de ser levianamente transferidos para outras latitudes. Aliás, isso levaria a um genocídio cultural de toda a dimensão política de que todas as culturas são portadoras. Ocorre criar as modalidades de participação política a partir do substracto político e cultural dos povos e dos grupos. Depois da escravatura em que todos os princípios humanistas e de bom senso foram violados, passou-se ao colonialismo e, logo a seguir, às guerras ditas civis, mas de facto pilotadas do exterior. Hoje estamos num quadro cómico: cooperações, embaixadas, organizações económicas internacionais sem nenhuma legitimidade política apresentam-se, em nome da democracia, como defensores e garantes dessa democracia. Assim, a legitimidade política dos actores políticos não tem nada a ver com os povos, nem com os seus valores, mas com o beneplácito da comunidade internacional. A filosofia deve relevar a ameaça à nossa soberania que provém dessas instituições. A filosofia deve opor-se às ameaças internas representadas pela tentação de certas pessoas e grupos em reduzir a política a um campo de defesa de interesses individuais e partidários, em detrimento do interesse geral. Por fim, contra o economicismo dominante, a filosofia política deve reafirmar o primado do político sobre o económico, da deliberação popular sobre os índices das bolsas de valor. O simpósio da ACAFIL de 1999 pretendia antecipar a natureza dos problemas que iriam supostamente nortear as eleições que se estavam para realizar, e subordinava a sua previsão aos principais resultados e ao desempenho dos eleitos na legislatura que estava para terminar. Julgar-se-iam os candidatos, o governo que chagava ao termo do seu mandato e as suas promessas eleitorais em função do seu desempenho na primeira legislatura da segunda República. Em consequência, ocorreria analisar o que tinha sido essa legislatura em função das promessas precedentes, das expectativas dos eleitores no momento das eleições, do grau da sua realização pelo poder, mas ainda mais importante, da capacidade dos eleitos de acompanhar as metamorfoses sociais, de interpretar e defender adequadamente os interesses dos eleitores. O que é que as populações esperavam do governo durante o período de 1995 a 1999? Foram essas expectativas satisfeitas? Uma análise filosófica sobre o «objecto» Moçambique tem, necessariamente, que partir das análises situacionais e locais e estas são feitas pelos cientistas da política. O olhar filosófico não se pode limitar a elas, pois, como vimos antes, a filosofia não se pode contentar em dizer as coisas como estão, mas tem a pretensão de dizer como é que as coisas deveriam ser ou estar. CAPITULO II As análises dos sociólogos moçambicanos e estrangeiros sobre as votações moçambicanas de 1995 foram unânimes em afirmar que nós fomos votar pelo fim da guerra. A adesão massiva das populações às eleições da primeira legislatura da segunda República foram interpretadas em uníssono como sendo uma acção popular orientada para sancionar e legitimar o fim do conflito bélico. Se aceitarmos este facto como postulado de base da nossa análise, temos que admitir, a priori, que a primeira legislatura cumpriu com o mandato que lhe foi confiado. Durante os cinco anos que se seguiram às eleições, os deputados da Frelimo e da Renamo respeitaram o mandato que lhes tinha sido confiado pelos eleitores. O governo governou e a oposição tentou fazer oposição no respeito pelos papéis democráticos que lhes tinham sido confiados, sem nunca exceder nas suas prerrogativas, mas, sobretudo, respeitando a necessidade de prosseguir o conflito que os opunha em termos políticos e no respeito de um certo número de regras ditadas pelos acordos de paz e pela nova constituição. Este facto é tanto mais importante quanto à nossa volta os outros países africanos soçobravam em velhos e novos conflitos. No Ruanda ou no Burundi, no Zimbabwe ou na Guiné- Bissau, na Costa do Marfim ou em Angola, existe a dificuldade em enterrar o que Hobbes chamava de «estado de guerra» e passar para uma situação, que eu não chamarei de guerra por outros meios como pretende Maquiavel, mas o esforço de re-tecer do tecido da irmandade social –para utilizar a linguagem que prodeligam nas suas relações recíprocas os presidentes Chissano e o chefe da Renamo A. Dlhakama. Esta homenagem é extensiva aos antigos militares, às comunidades que se flagelam durante os anos de conflitos militares. Nesse mesmo período, o processo democrático e de reconciliação foi acrescido e alimentado pelas primeiras tentativas de criação do que commumente se tem chamado de sociedade civil: nasceram novas formações políticas, mas sobretudo organizações cívicas e sociais; as igrejas começaram a participar em actividades de carácter cívico, educativo; sanitário; nasceram organizações de jovens e de mulheres; surgiram universidades privadas, imprensa independente e liberdade de opinião. A isto se deve juntar o crescimento económico (PNB), o restabelecimento da rede económica e comercial, lançou-se o processo de desminagem, a reconstrução da rede de comunicações, a luta contra o que se chamou a pobreza absoluta. De uma maneira geral, no Moçambique de 1999 respirava-se paz, uma certa tranquilidade, uma vontade de participar, um certo crescimento económico, uma melhoria nas condições de vida das populações, etc. Uma vez mais, se fizermos fé naquilo que segundo os analistas políticos era o mando do povo, a primeira legislatura da segunda República cumpriu quase integralmente com o mandato que lhe foi confiado. Contudo, dois problemas cruciais surgiram durante a legislatura e merecem uma atenção especial da nossa parte: um económico e outro político (a organização dos poderes públicos). No decorrer da legislatura nasceram nas diferentes comunidades moçambicanas novas exigências e problemas, ligados ao processo da transformação em curso. Isto não anula em nada o a priori positivo da primeira legislatura, mas os actores políticos e a qualidade de uma legislatura não se podem limitar ao cumprimento linear e lato do mandato popular, por mais importante e substancial que a paz possa ser. A legislatura e os actores políticos devem também ser julgados pela sua capacidade de interpretarem as necessidades «movediças» das populações que, por sua vez, dependem de mutações sócio-económicas e mesmo epocais e históricas que bruscamente invadiram a vida das populações. As épocas históricas deixaram de se poder contar em décadas: o que levava anos a ser feito no passado, hoje faz-se num curto espaço de tempo. As mudanças rápidas a que somos submetidos pelo avanço tecnológico (internet, televisão) que nós não dominamos, a aceleração do processo global que nos é imposto pela economia-mundo (privatizações, programas de FMI e do BM), as transformações políticas regionais e internacionais (SADC, CPLP) que respondem a imperativos financeiros, fazem com que as situações reais das populações sofram metamorfoses demasiado rápidas. Neste contexto de aceleração histórico-temporal, aquilo que no meio dos anos noventa era o único objectivo das populações –a paz ou pelo menos em nome da qual se mobilizaram para votar –sofreu uma metamorfose enorme, ligada à dramática mudança da estrutura económica do país. Os actores políticos devem ser julgados pelo cumprimento do próprio mandato, mas também pela capacidade de defenderem os interesses dos seus eleitores. Tanto mais que a constituição moçambicana não prevê quase nenhum espaço de intervenção das populações (como, por exemplo, referendos) mesmo nos grandes dossiers nacionais ligados, por exemplo, às privatizações de bens públicos de importância estratégica, naquilo que tem se chamado a venda do país ou a mudança radical da estrutura económica do país. A conjunturamundial, dominada por imperativos económicos, exige das elites políticas e económicas nacionais uma dinamicidade de espírito e uma clarividência capazes de lhes capacitar para agirem em função dos interesses das populações, dos eleitores. No decorrer da primeira legislatura, o elemento paz, sem nunca perder a sua importância e primordialidade, foi rapidamente igualado e mesmo ultrapassado pelos imperativos económicos ligados às mudanças radicais que se operaram na gestão do país e na sua organização social. O período da primeira legislatura foi marcado pela inversão da tendência económica de natureza distributiva e planificada e de toda a dimensão social que a acompanhava, para uma orientação individualista, concorrencial e toda a dimensão de violência social e de competividade que a caracteriza. Isso trouxe consigo uma mudança radical, não só na organização económica, mas também na estrutura social e relacional entre os cidadãos. O período da primeira legislatura coincide com o incremento dos investimentos estrangeiros, sob a forma de empréstimos com as consequentes imposições de políticas por parte dos organismos internacionais e países estrangeiros. O país acumulou dívidas colossais e foi obrigado a proceder à privatização de infra-estruturas que, até então, tinham simbolizado parte da identidade nacional (basta pensar na indústria do caju). Não faço um juízo de valor. Constato simplesmente que o povo não só não era consultado na transformação radical da sociedade e na privatização dos espaços de importância vital e simbólica. O que sob o ponto de vista político me parece problemático é que o povo não tinha nenhum mecanismo de participação, nem sob a forma de referendo, nem pressionando os seus eleitos a defenderem os seus interesses e a sua visão de sociedade. A este défice jurídico e constitucional deve-se acrescentar as dificuldades nacionais em termos de comunicação (televisão, rádio, jornais), o nível de analfabetismo elevado e, ainda mais importante, a discrepância entre as concepções político-culturais das populações e o tipo de democracia estabelecido. A questão filosófica que se põe é a seguinte: como fazer com que a democracia não se transforme num jogo de elites, que a maioria da população possa, de facto, participar com conhecimentos de causa, não só através de um boletim de voto de cinco em cinco anos, como uma assinatura de cheque em branco para as elites políticas que se sentem legitimadas a fazer privatizações que vão em detrimento do povo que nelas depositou confiança? Se quisermos ser mais explicativos podemos dizer que três níveis de problemas manifestaram-se no desenrolar-se mesmo da primeira legislatura: o papel do novo estado moçambicano na nova sociedade moçambicana, a questão da representatividade e a soberania nacional face à comunidade internacional. O papel do novo Estado moçambicano na nova sociedade moçambicana É de uma evidência «a la palisse» que a natureza do Estado moçambicano da segunda República é radicalmente diferente da natureza do Estado da primeira República. Na primeira República, os fautores e os executores da política estatal conheciam exactamente o lugar de cada um e o que tinham que fazer. Podemos dizer que o Estado moçambicano, pela sua natureza libertária e socialista era, não direi providencialista, mas distributiva. O papel de cada funcionário do aparelho do Estado, desde o ministério até ao servente de uma escola primária, era estar ao serviço do que se acreditava ser o interesse dos moçambicanos. O Estado moçambicano era implacável contra tudo que, de longe ou de perto, se parecia com a corrupção, desvio de bens públicos, tentativas de enriquecimento pessoal, acumulação individual, etc. Os valores moçambicanos eram contar com as próprias forças, o amor pelo trabalho, o direito à escola, à educação, à saúde; era o facto de que éramos socialmente responsáveis uns pelos outros; era a luta contra todas as formas de discriminação, quer ela fosse de raça, de etnia, de tribo, de região, etc. Estar ao serviço do nosso povo era um valor, participar na construção de CAPITULO II Moçambique através do trabalho e dedicação era um valor. Estes valores constituíam o essencial daquilo que era ou devia ser o Estado. Esta era a maneira através da qual o Estado estava (ou pretendia estar) ao serviço das populações. Mas apesar das intenções excelentes, esse Estado era habitado por contradições intrínsecas que acabaram anulando a grandeza dos objectivos precedentemente anunciados. A dinâmica participativa estava subordinada a uma ideologia unilateral de uma única família política, que se arrogava deter a única visão justa para a construção do país. Essa ideologia política é compreensível no quadro da divisão do mundo que então se vivia, apesar de a Frelimo se ter visto forçada a aderir a um dos lados sem estar necessariamente convencida do bem fundado da sua «opção» ideológica. Aliás, esta tese encontra uma confirmação na adesão sem reservas da maioria da classe política de esquerda às teses e às posições ultra-liberais que repentinamente irromperam na vida social moçambicana durante o início da segunda República. De um dia para o outro as coisas mudaram. Era como se, de repente e sem aviso prévio, nos encontrássemos diante de uma passagem de nível sem guarda. Nesta mudança que corresponde à mudança das relações de força na política mundial, a sociedade moçambicana viu- se, de um dia para o outro, radicalmente mudada: de uma economia planificada para uma economia selvagem. Não digo liberal, digo selvagem, porque o liberalismo tem regras. Por exemplo, se o pressuposto é a livre iniciativa dos indivíduos e a possibilidade de concorrerem uns com os outros (Bentham), a situação moçambicana não se prestava a isso, quer porque as populações não tinham formação e informação, quer porque não tinham os meios financeiros necessários para entrarem neste tipo de economia. Abandonar as populações de um momento para o outro ao volante de um Porsche que vai a duzentos quilômetros à hora sem lhes terem previamente ensinado a conduzir, significa condená-los inevitavelmente ao desastre. Todavia, esta nova política, como aliás a precedente, tem que ser julgada sem apriorismos nem romantismos de todo e qualquer tipo, mas à luz do paradigma libertário. Se ela é capaz de incrementar o espaço de bem-estar para a maioria dos moçambicanos –os objectivos morais do liberalismo como foi pensado pelos seus pais era trazer a maior felicidade para o maior número de indivíduos, o que corresponde ao conceito grego de eudemonia –então temos razão de defendê-la. Se não, ela tem que ser severamente criticada e combatida. Ora, a mudança política e económica comportou uma mudança nos métodos de governação e nas prestações dos poderes públicos. O Estado da primeira República pecava pela sua pan-presença. Ele decidia pela educação, pela saúde, pela moral pública e individual, pela justiça, pelos valores individuais e colectivos. E para isso combatia os alicerces individuais e culturais dos indivíduos e dos grupos. A segunda República tomou uma postura inversa. Ela peca pela sua ausência. As populações não sentem no Estado –desde as instancias mais elevadas até ao servente de uma escola ou dum hospital –«uma pessoa jurídica» que está presente e ao seu serviço. O Estado ficou «dólar-crático». Tudo se faz em função do rendimento, do ganho, das mordomias. O funcionário do Estado transformou-se de servidor público em servidor de si próprio, instrumentalizando o privilégio que o seu lugar lhe concede. O funcionário não serve: serve-se. Esta situação está em discrepância com a ideia que as populações fazem de um funcionário. A ideia que as pessoas têm de um professor é de um homem que é uma referência para as populações, não só pelo seu saber, mas também pela sua conduta moral. Ver um professor a vender notas e provas de exame é simplesmente escandaloso. Ver o hospital transformado num comércio ia contraa ideia que as populações tinham da deontologia médica, mesmo sem conhecerem o juramento de Hipócrates. Apesar do famoso crescimento económico e dos índices do PNB, a situação das populações piora, a qualidade do ensino piora. Aos jovens dá-se a consumir uma cultura feita de telenovelas e de slogans tipo «2M nossa tradição, nossa cultura», ou então «a nossa cerveja, a nossa maneira de ser e de estar». O tratamento nos hospitais depende de dólares, a boa escola custa caro, todas as coisas a que as populações de baixo não se podem permitir. Isto põe um problema enorme de justiça, a nível distributivo e a nível de sansão jurídica. Um dos primeiros sinais da ausência do Estado foi dado quando as populações começaram a fazer justiça com as próprias mãos. Muitas vezes queimava-se um miúdo que roubara para comer, quando funcionários do Estado e outros desviavam coisas muito mais consistentes –esvaziaram literalmente os cofres do Banco Austral, venderam bens essenciais do Estado a estrangeiros ou que têm 500 mil dólares para comprar apartamentos – e eram indemnes a qualquer sanção. Esta violência social, porque é disso que se trata, tem que ser analisada em todos os seus parâmetros. As populações começaram a ser violentas. Podemos dizer que os miúdos da rua são violentos, há assassinatos na cidade, assaltos à mão armada que culminaram em violência-espectáculo, com a morte de Carlos Cardoso e de Siba-Siba Macuácua. Todavia, toda esta violência pode ser conduzida à «dólar-cracia»: a instauração do dólar em valor supremo da nossa sociedade. O fim, «dólar», justifica os meios. Então, ao mesmo tempo que o número e a qualidade de carros e casas de luxo aumenta na cidade, as viagens para compras na RSA, na Suazilândia e mesmo Portugal aumentam, que se multiplicam as viagens para Dubai, para bronzear-se nos Estoril ou para o Carnaval no Rio, o número de pobres, de miseráveis não cessa de aumentar. O número de doentes que morrem de malária devido à falta de saneamento de meio aumenta. Assim, a segunda República muito depressa oscilou da democracia à «dólar-cracia». Com a passagem da primeira à segunda República, deitou-se fora a água e o bebé. Valores verdadeiros para qualquer sociedade foram negligenciados, deliberadamente omitidos ou mesmo invertidos. Durante o período da primeira República nós cantámos que a linha de ordem do nosso povo era a unidade, trabalho e a vigilância. Podemos perguntar se estes valores não têm todo o seu lugar no Moçambique de hoje. Em que é que a unidade pode ser identificada com um regime político? a unidade do nosso povo, contra o tribalismo que está em voga, o regionalismo e o racismo não constitui um valor essencial para o Moçambique de hoje? O trabalho, o facto de contar com as próprias forças, num mundo de assistidos e objeto das ajudas e caridade internacional não é um valor a cultivar? A vigilância contra as divisões, com o perigo de recair no colonialismo, na dominação não é um valor a cultivar e a defender? De facto, a falta desta vigilância condena a maior parte da população, os mais fracos, a processos que recordam muito o que era a época colonial, mas sobretudo distancia o Estado da sociedade. Vale a pena recordar o debate português em volta da Sociedade de Geografia44 no fim do século XIX, depois do ultimato que a Inglaterra impôs a Portugal. Homens como Eça de Queirós pensavam que Portugal deveria desinteressar-se dos «selvagens» que viviam nas colónias. Aliás, Portugal tinha-se mostrado mau colonizador e isso só lhe tinha valido frustrações e humilhações, desde a perda do Congo a favor dos belgas até ao ultimato britânico. Contra estas teses, jovens como António Ennes defendiam que era necessário ter colónias rentáveis como moeda de troca para melhor integrar a Europa. Para isso, Portugal teria primeiro que pacificar as suas terras, controla-las com militares e com a administração, e assim poderia dizer aos parceiros: tenho terra para cultivar, militares para defende-la e, sobretudo, pretos para trabalhá-la. Era o início do trabalho forçado que acabou substituindo a recém extinta escravatura pelo chibalo que faz da colonização portuguesa uma das mais cruéis e os povos de Moçambique dos mais sofredores. Quando vejo certas práticas a que se prestam certas elites moçambicanas, como acordos de parceria com empresas ou indivíduos sem escrúpulos, acordos que não têm em conta os interesses das populações, pergunto-me se o discurso é diferente do discurso de António Ennes. Mas, sobretudo, o risco maior é condenar as populações mais fracas do nosso povo ao novo chibalo, evidentemente com a nossa cumplicidade. Aliás, não é a primeira vez: todo o sistema de dominação do nosso povo contou sempre com a cumplicidade de grupos entre nós. A escravatura foi facilitada por certas práticas internas pela cobiça e sobretudo pela falta do sentido histórico, pois quando o momento chegou vendedores e vendidos tornaram-se todos escravos e colonizados. A falta de sentido histórico seria pensar que nós, pequenos grupos, constituiríamos as excepções de um processo neocolonial no qual somos ou podemos ser cúmplices. Se a questão é dinheiro, então somos mais baratos que os nossos predecessores. Temos que lembrar que uma espingarda no século passado era mais difícil de construir que um Mercedes hoje. Se temos que nos vender para obter um carro, temos que pensar não só na traição histórica para com os nossos e a causa negra de uma maneira geral, mas também no preço dessa mesma traição. 44 Andrea Bignasca, La singolarità terrible del colonialismo portoghese: il dibattito dell Società di Geografia. Roma: Armando, 1971: 71-82. CAPITULO II Podemos considerar que a Frelimo traiu a sua causa? Aquela mesma Frelimo que era constituída por rapazes e raparigas que estavam dispostos a morrer todos os dias durante dez anos em nome da liberdade do nosso povo? O que é que aconteceu? Aos vencidos não se pede opinião. Não foi, em primeiro lugar, a Frelimo que mudou. Há um facto que ninguém quer reconhecer, mas que é fundamental para entender o Moçambique de hoje e as circunstâncias das nossas vidas e acções. Se raciocinarmos em termos libertários podemos afirmar de uma maneira apodíctica que face à intransigência e ao anacronismo histórico do fascismo português, nós, colonizados e em busca da liberdade-independência, fizemos uma guerra justa e ganhámos. A guerra não foi ganha militarmente, mas o terreno de batalha não era esse. O terreno de batalha era político e foi um acidente histórico de responsabilidade portuguesa que obrigou Moçambique e as outras colónias portuguesas – fossem a excepção no contexto africano – a pegar em armas. Mas com o 25 de Abril essa anomalia histórica foi corrigida e abriram-se as portas para as independências políticas das então colónias portuguesas. Na Dimensão Moçambicana da consciência histórica defendi que a Frelimo não escolheu o comunismo: foi-lhe imposto por um processo histórico-político. Agora, tristemente, tenho que defender que o liberalismo selvagem em curso não é também resultado de uma escolha, mas da derrota na segunda guerra. De facto, os objectivos libertários da primeira guerra foram derrotados na segunda guerra. O período que vai de 1945 até 1989, como já se escreveu enormemente, foi dominado pelo conflito ideológico que opôs o bloco chamado de esquerda ao bloco de direita. Nós entramos nesse conflito pela janela da nossa vontade de nos libertarmos do colonialismo. A prova da nossa participação periférica está no facto de termos parado com a guerra no momento mesmo em que os generais R. Reagan e M. Gorbatchov assinaram o armistício do fim das hostilidades. A guerra terminou com a vitória do bloco da direita. Dado que nós estávamos no bloco da esquerda, perdemos. Temos que ter a coragem de dizer que se ganhamos a guerra de libertação (nessa luta nós estávamos no sentido da história, contrao anacronismo histórico do colonialismo português), perdemos a segunda guerra. O fim de todas as guerras é concluído com «actos cívicos» nos quais as partes se encontram, com aparente cortesia e mesmo cordialidade, bem vestidas e engravatadas para o processo de diálogo. Na realidade, trata-se de um encontro humanamente duro e humilhante para os vencidos, durante o qual os vencedores ditam as suas condições. No panorama geral do conflito da guerra fria, a principal discussão do armistício fez-se em Helsínquia e teve como protagonistas principais Reagan e Gorbatchov. Assinado o documento principal, deixou-se que a resolução de detalhes ficasse a carto dos burocratas ou dos oficiais subalternos, mas sempre no espírito de carta fundamental. Isto explica que os acordos de paz moçambicanos tenham sido assinados numa insignificante comunidade de Roma sem tradição nem prévia experiência política. Se a Renamo tinha sido um bom pequeno batalhão no interior da guerra fria, nós sabemos pela história que muitos generais e exércitos, indispensáveis durante os conflitos, tornam-se problemáticos no fim destes mesmo conflitos. Basta pensar na sorte ambivalente que conheceram os soldados da armada invencível de Carlos V e de Isabel, a Católica: heróis durante a guerra contra os «mouros» e peso e perigo para a monarquia logo depois da guerra. Aliás, alguns historiadores45 sugerem mesmo que Isabel, a Católica, teria dado uma frota Marítima a Cristóvão Colombo, não obstante a opinião contrária dos sábios de Salamanca, como forma de se libertar de militares incómodos cuja chegada a Índia ou regresso a Espanha estavam fora de quaisquer previsões científicas sérias. Os vencedores da guerra decidiram que em Moçambique, a Frelimo renovada –nome qua nunca tomou, mas devia ter emprestado da Unita renovada –fosse a melhor força política para governar Moçambique. Com efeito, a natureza do capitalismo é não ter tempo. Dado que a estrutura administrativa de Moçambique tinha sido escangalhada e recomposta por esta força política, para o funcionamento eficaz e imediato de um liberalismo que em termos de eficiência e comprimento de prazos e datas é mais rigoroso que os sistemas de esquerda, o melhor governo 45 Pirlo Damasco e Stefania Graziosi, Carlo V e Isabella, controversia con I saggi di Salamanca. Torino: Einaudi, 1975. seria o da Frelimo. Dava-se a Frelimo o mandato de governar com ordens precisas: utilizar as próprias estruturas para escangalhar o múnus socialista e colectivista que ela mesmo tinha criado, introduzir o capitalismo contra o qual tinha lutado –sistema que tinha sido historicamente responsável pela submissão dos moçambicanos. Aceitaria a Frelimo destruir o que ela mesma tinha construído? Aceitaria dizer às pessoas que tinha educado que o homem novo agora era o capitalista, que a palavra de ordem era acumulação individual, era a exploração do mais fraco? Aceitaria a Frelimo dizer que, afinal de contas, o roubo e a desonestidade eram valores? Aceitaria a Frelimo transformar as funções estatais de serviços para o maior número em lugares de apropriação e de acumulação? Aceitaria a Frelimo destruir a sua lealdade com os camponeses, com os combatentes da independência? A bola parecia estar no campo da Frelimo: ou ela queria permanecer coerente consigo própria e, então, reconhecia a sua derrota e retirava-se, ou então ela se metamorfoseava e tornava-se uma «Frelimo renovada», atacando o poder a todo o custo. Existe, teoricamente, a possibilidade de a Frelimo ter aceita a sua nova condição como forma de resistir, na medida do possível, aos ditames dos vencedores a fim de continuar a defender os seus valores originais. Então a Renamo estava condenada a ser oposição? A nova missão do pequeno batalhão era ser uma pistola apontada à têmpera da nova Frelimo, governante. Se a Frelimo se comportasse bem, a Renamo continuaria na oposição quer ela quisesse ou não. Se a Frelimo se comportasse mal, a oposição premiria o gatilho e a Frelimo saltaria. Só que a Frelimo mostrou-se mais liberal do que era previsível. Isto leva-me a pensar que muitos socialistas da primeira República não o eram por convicção, mas por imposição ou por oportunismo político. A partir do momento em que a Frelimo jogava bem o jogo liberal, a Renamo transformava-se num espantalho que só serve para afugentar os pássaros. Mas as duas questões de fundo são: primeiro, a Frelimo ultraliberalizou-se estrategicamente como forma de manter o poder (e servir os interesses moçambicanos) ou como estratégia de enriquecimento de um certo número de indivíduos? Se foi uma estratégia para conservar o poder, que fim tem o novo poder e governo da Frelimo? Segundo: a comunidade internacional, virando as costas à Renamo e seguindo a estratégia da Frelimo, levanta o problema do futuro da democracia e da sua legitimação em Moçambique. A questão da legitimação A participação nas eleições de 1994, mais do que legitimar as novas forças políticas em presença e a nova governação nacional, era um assentimento que ia mais em direcção da necessidade de terminar com a guerra e todas as consequências que ela comportou em termos de acentuação da pobreza, da fome, da imigração das populações do campo para a cidade, etc. mas, de nenhuma maneira, uma legitimação política. Com efeito, ninguém pode legitimar o que não conhece, e nenhuma legitimidade é possível (legítima) se ela não parte e não se alimenta do substracto mental, cultural e filosófico do povo que deve supostamente governar e representar. Ora, as estatísticas mostram que mais de noventa por cento dos cidadãos moçambicanos não possuem os apetrechos intelectuais necessários para participarem, e por conseguinte, legitimarem uma democracia, cujos paradigmas respondem a pressupostos culturais e históricos ocidentais. Por outro lado, todos os trabalhos de história e de antropologia levados a cabo sobre as diferentes culturas moçambicanas (cfr. Documentos de antropologia moçambicana, Lisboa, 1996) mostram que a participação popular na coisa púbica e os diferentes sistemas de governação das culturas nacionais, diferem em toda a medida do sistema constitutivo e da organização dos poderes públicos actuais. Todavia, e não obstante as afirmações precedentes, as eleições políticas de 1994 marcaram o início de uma nova legitimidade política, não fundada sobre a tradição ou sobre a força das armas, mas pelo princípio da soberania popular. A nossa questão será justamente de nos interrogarmos quanto ao estatuto desta nova legitimação. [A5] Comentário: [no texto original vem ele] CAPITULO II Em Moçambique, o nascimento do projecto nacional está indissociavelmente ligado aos nomes de Eduardo Mondlane46 e da Frelimo. As lutas dos povos africanos pelas próprias liberdades, na qual se situa o projecto de Eduardo Mondlane e da Frelimo, inscreveram-se em dois movimentos históricos opostos. O primeiro inscrevia-se e fundamentava-se no substracto cultural dos diferentes povos autóctones, bastando pensar nas lutas dos Macondes, dos Chopes ou dos Senas. Muitas vezes povos diferentes, mas culturalmente afins e geograficamente contíguos juntaram as forças para combaterem juntos o colonialismo, visto como um inimigo comum. Todavia, por falta de uma estrutura orgânica militar e tecnicamente capaz de fazer frente aos poderes europeus, este movimento não deu grandes resultados em termos de liberdade, configurada como independência. O segundo tem o seu fundamento na história do movimento Pan-africano que nasceu com os negros da diáspora: República das Palmeiras no século XVII no Brasil, Haiti de Toussant Louverture no século XVIII, os marrões da Jamaica no século XIX, mas, sobretudo, as metamorfoses históricas e culturais dos negros nos EUA: «São as dinâmicas pan-africanas e pan-negrista em torno de Dubois e de Marcus Garvey que constituem a ligação ideológica de integração domovimento “afro- português”. A participação nessas correntes libertadoras (operadas, aliás, separadamente, pelas duas organizações) acompanha-se do fascínio exercido pelo universo dos negros americanos – as etapas de uma história, desde os horrores da escravatura à linha de cumes alcançada nos domínios do saber, ciência e tecnologia, letras e artes, desportos. Um referente privilegiado do renascimento africano»47. Os primeiros movimentos eram culturalmente homogéneos, tinham as suas delimitações geográficas e políticas bem definidas. As fronteiras traçadas ou reconhecidas por Berlim eram para os diferentes povos, entidades geo-políticas demasiado extensivas, mas sobretudo não correspondiam às dinâmicas políticas forjadas pelos povos africanos (Estados, Impérios) não paravam sempre nas fronteiras étnico-tribais, bastando pensar no império de Gaza ou no Império do Monomotapa. Contudo, a extensão de uma identidade política a grupos culturalmente heterogéneos era acompanhada por uma série de medidas de inserção jurídica, económica, política e cultural que se inscreviam nas dinâmicas culturais autóctones48. Todavia, nenhuma destas dinâmicas correspondia nem geográfica, nem politicamente àquilo que os portugueses chamaram Moçambique. Se a entidade “Moçambique” era (como, aliás, todas as colónias africanas pós-Berlim) demasiado grande sob o ponto de vista geográfico e culturalmente heterogéneos em relação às dinâmicas políticas autóctones a Moçambique e a África, ela era, ao contrário, demasiado reduzida em relação aos objectivos primeiros do pan-africanismo que prospectava uma unidade política de todos os negros do mundo no solo africano (Delany, Marcus Garvey). Os objectivos do movimento Pan-africano foram-se reformulando sem nunca, contudo, renunciarem ao objectivo de unir politicamente a África, como testemunha a obra política e literária de K. Nkrumah Africa Must Unit, ou mesmo os esforços da criação de uma África federal de Dubois ou, ainda, de Patrice Lumumba. Eduardo Mondlane, como K. Nkrumah ou Azikiwé, pertence por formação e convicção ao movimento Pan-africano cujas ideias tiveram um impacto considerável nos anos em que ele viver e estudou nos EUA. A propósito das origens da noção de unidade africana, Mondlane põe em evidência o papel precursor da liga africana, criada em Lisboa em 1920, num Portugal ainda Republicano e democrático e que acolheu, em 1923, a segunda sessão do III Congresso Pan- 46 Citado por Ngoenha, Para uma reconciliação entre a Política e as Culturas, Programa de reforma dos órgãos locais (PROL), Texto de Discussão Nº 3, Ministério da Administração estatal (MAE), Editado por J. E. M. Guambe e B. Weimer, Maputo, Agosto de 1997: 14. 47 Idem: 15. 48 Idem: 16. africano. Segundo Mondlane, a liga tomava posição não só pela unidade nacional, mas também pela unidade entre as colónias em luta contra a mesma potência colonial, pela unidade africana contra todas as potências colonizadoras e, finalmente, pela unidade de todos os povos negros oprimidos do mundo49. Contudo, a acção política de Eduardo Mondlane e da Frelimo foi precedida e condicionada por dois factos políticos e históricos importantes: a partir do congresso Pan- africano de Manchester de 1945 fala-se abertamente e, pela primeira vez, da questão de autodeterminação dos povos africanos. Mas ao mesmo tempo, o congresso observou que «as divisões arbitrárias e as fronteiras territoriais delimitadas pelas potências coloniais constituem outras tantas medidas deliberadamente tomadas para impedir a unidade política da África». Se a questão da independência estava posta sem equívocos, restava delimitar o quadro geopolítico no qual estas independências se deviam inscrever: etnias, antigos Estados africanos, zonas economicamente viáveis, ou espaços coloniais delimitados em Berlim? O co-presidente do congresso de 1945, Dubois (com Carter G. Woodson, fundador da Association for the Study of Negro Life na History em 1915) foi também um dos promotores da redescoberta da história, das tradições e da cultura da África pré-colonial. Contudo, ele pensava –como, aliás, todos os líderes políticos da época –que a África fragmentada não podia, por si só, na sua própria terra, tomar claramente consciência da sua unidade a não ser sob a forma de uma muito vaga comunidade de origens e de tradições, consideradas num sentido muito geral. De facto, a noção de Pan-africanismo era afectada por um alto grau de abstracção em relação à realidade. Tratava-se mais de uma doutrina cultural (ou do reconhecimento de uma unidade espiritual entre negros, como disser Langston Hughes) do que de uma verdadeira ideologia política. Foi o que fez Azikiwé com o seu Renascent Africa de 1937, Césaire no Cahier d’um retour au pays natal, a revista Presence Africaine, ou ainda Cheik Anta Diop com as Nações negras e cultura. Por falta de uma ideia clara de unidade e mesmo de condições práticas para que essa unidade fosse possível, começou-se a falar de unidades regionais. Mas uma vez mais tinha que se definir os contornos políticos e jurídicos de tal unidade. E, sobretudo, definir-se se tal unidade devia preceder ou vir depois das independências das delimitações individuais daquilo que eram os Estados coloniais. Este assunto esteve no centro do debate político entre os anos 1957 e 1959. Em 1961, um ano antes da fundação da Frelimo, a África independente divide-se claramente em dois grupos: o grupo de Monróvia e o grupo de Casa Blanca. Contudo, a ideia que prevalece é que a unidade que é preciso realizar neste momento não é a integração política dos Estados Africanos soberanos, mas a unidade das aspirações e da acção, do ponto de vista da solidariedade social africana e da identidade política. O pan-africanista e funcionário das Nações Unidas, Eduardo Mondlane, ao fundar a Frelimo, sabe que o quadro geopolítico das liberdades (independências) africanas por vontade da ONU, guiada pelas mesmas potências que em Berlim tinham, cinquenta anos antes, dividido o continente sem se preocuparem nem com as culturas nem com os homens negros que nós somos, com a conivência dos novos dirigentes africanos, deve ser o espaço da colonização europeia, portanto portuguesa, para Moçambique. Isto quer dizer: do Rovuma ao Maputo. Ora, neste espaço geopolítico tinham precedentemente surgido formas de nacionalismo que, sem serem o resultado de uma revolução política interna às culturas locais, inscrevia a sua dinâmica nos substractos culturais locais. Não há dúvida que sob ponto de vista da evolução da política mundial, Mondlane teve razão em criar a Frelimo, como meio de dar força e legitimidade internacionais –no sentido da ONU e, a partir de 1963, da OUA –às reivindicações dos povos que viviam no espaço geográfico que se estendia do Rovuma ao Maputo. Contudo, havia aqui uma transferência de legitimidade. A UDENAMO, UNAMO e Manu, reivindicavam a sua legitimidade nos povos respectivos. A Frelimo que, justamente, não queria nem podia ser um simples somatório dos três movimentos nacionalistas que o precederam, nem sequer era o somatório dos grupos étno-tribais de Moçambique, não podia imediatamente receber a sua legitimação do interior e, portanto, das dinâmicas político-culturais interiores aos povos de Moçambique. Quanto ao exterior, a Frelimo podia receber uma caução, mas não legitimação do Pan- africanismo que, entretanto, tinha sido redimensionado e mesmo isolado com a elevação do 49 Citado por Ngoenha, idem: 17. CAPITULO II espaço colonial a quadro geopolítico para a proclamação das independências. A divisão de 1961 e a criação da OUA eram, de facto, uma vitória das antigas potências coloniais. E, paradoxalmente, eram a ONU e a OUA a legitimarem a Frelimo como movimento de libertação de Moçambique, e mais tarde, como representante do povo moçambicano.Se as independências se devem inscrever no quadro geopolítico colonial, elas não se podem inspirar culturalmente nem nas lutas autóctones dos diferentes povos de Moçambique e das suas evoluções e debates políticos, nem sequer se podem inspirar na dinâmica histórica do Pan-africanismo. A acção de Eduardo Mondlane e da Frelimo deve geopolítica e juridicamente ao trabalho de centralização levado a cabo pelas autoridades coloniais portuguesas e, por outro lado, a partir do Partido transformado em Estado depois da independência, criar uma Nação à imagem e semelhança da Europa. Aqui surgem duas dificuldades: a) Os portugueses para centralizarem a governação dos povos de Moçambique, não só não legitimavam o seu poder a partir dos povos de Moçambique, mas violavam sistematicamente os seus direitos mais elementares. Se a Frelimo-Estado de Moçambique seguia esta governabilidade tinha ou que dialogar e fazer dialogar os diferentes povos e culturas nacionais, o que era tecnicamente impossível, tendo em conta sobretudo o fator tempo e os imperativos regionais; ou então, com uma legitimação proveniente do exterior, impor aos povos de Moçambique culturas políticas estrangeiras. Mas, se assim fosse, em que medida a imposição da Frelimo seria na prática diferente da imposição dos portugueses? Em que medida a governação da Frelimo seria menos colonialista em relação às práticas culturais dos diferentes povos e culturas locais? b) A história social e política da Europa, que doravante servia de modelo, tinha visto nascer o Estado a partir das Nações. Ora, em que medida o Estado de Moçambique estaria à altura de criar a Nação, tarefa primordial que lhe foi confiada pelo Partido? A missão histórica que foi da Frelimo –criar uma nação moçambicana –partiu de movimentos políticos, culturalmente circunscritos (Udenamo, Unamo e Manu), mas teve que se forjar logo depois uma ideologia unitarista. Depois da independência, o postulado de unidade nacional, que em si mesmo não é nem pode ser discutível, implicou também uma governação a partir de cima. O primeiro paradoxo era que o governo legitimava o seu poder no povo, mas governava contra os pressupostos jurídicos das culturas nacionais. O segundo paradoxo era que a legitimação teórica e histórica dos pressupostos políticos de governação respondia a pressupostos europeus: recordemo-nos que o marxismo é filho de um debate histórico próprio da cultura ocidental. Estes paradoxos e mesmo a desconsideração das culturas nacionais no processo político e de governação foram, historicamente, o preço que tiveram de pagar as culturas nacionais pela edificação do Proto-Estado moçambicano. A Nação democrática que se auto-proclamou em 1994 novo actor histórico da vida política e social moçambicana quer, como afirma a constituição de 1990 e os acordos de 1992, que: todos se reconhecem actores e sujeitos da história, ou seja, um partido único não poder ser o dirigente da sociedade e do Estado50. Por democracia se entende, portanto, um sistema de partidos. Ora, este sistema tipicamente ocidental desde há dois séculos tem vindo a provar a sua funcionalidade. Contudo, no contexto histórico actual, caracterizado pelo fim do bipolarismo, muitos sociólogos e politólogo se interrogam quanto à pertinência da divisão clássica da política em partidos e a capacidade deste sistema de representar verdadeiras alternativas políticas e, sobretudo, de representar os diferentes estratos da sociedade. Mas a questão mais interessante para nós é que em nenhum país africano o sistema de partidos como o proposto pela constituição e pelos acordos de Roma parece estar à altura de mobilizar o imaginário colectivo das populações. Das duas uma: ou o africano (e, portanto, também o moçambicano) é geneticamente anti-democrático como sustentam alguns eugenistas (Medeved Arison), ou então o sistema de partidos é, talvez neste momento, um mal necessário, mas não corresponde ao substracto cultural dos nossos povos. Não se trata de uma inadequação dos africanos à democracia, mas do modelo Europeu falsamente universal, que não se coaduna com as nossas culturas. Não são as culturas que se têm 50 Citado por Ngoenha, idem: 21. de adaptar a todo o custo a modelos, que responderam ao génio próprio de certos povos num determinado momento da sua história, mas os modelos que se têm de forjar a partir das culturas. Isto significa que nós temos de inventar um modelo de sociedade que nos seja próprio, um modelo que corresponde às nossas culturas, às nossas sensibilidades, um modelo capaz de mobilizar o conjunto de moçambicanos a participarem não só nas eleições, mas na vida integral da sociedade moçambicana. Depois de uma entrevista que dei ao jornal Savana em Setembro de 1996, um deputado disse que ele tentava levar os seus eleitores a interessarem-se e mesmo a controlarem a sua actividade de deputado, mas em vão: os «eleitores não conhecem as suas prerrogativas jurídicas e políticas como eleitores». Os deputados são, teoricamente, representantes dos interesses dos eleitores. Que tipo de mandato, eleitores que ignoram as suas prerrogativas políticas e jurídicas, podem confiar a um deputado? E se os deputados não têm um mandato claro dos seus eleitores o que é que eles representam? O que é que os autoriza a falarem em nome dos seus eleitores? Mas suponho que os eleitores decidem controlar, acompanhar, influenciar a execução do mandato de um deputado ou, mais profundamente, que eles queiram fazer presente a um deputado que representa no parlamento as suas preocupações, que não são sempre iguais, mas variam com o tempo e com as circunstâncias: de que mecanismos jurídicos e constitucionais dispõem? Que mecanismos estão previstos pela lei que permitam que os eleitores interpelem os seus representantes? Se os parlamentares representam simplesmente as posições dos próprios partidos, em discrepância total com os interesses e a compreensão das pessoas, estamos num sistema de partidocracia. Será que o sistema de representação parlamentar é conforme o génio político e cultural moçambicano? Será que os mecanismos de representação tipicamente moçambicano são os partidos? Os indivíduos, os grupos, as culturas e a sociedade exprimem as próprias opiniões, preocupações, posições através dos partidos, ou existem outros mecanismos, outras vias, outros veículos de opinião e de tomada de posição que são mais congénitos aos povos de Moçambique? A democracia moçambicana e o seu sistema de representação vão ter que colocar o problema dos pressupostos. Temos que centrar os nossos esforços sobre a condição mesma da democracia: a dimensão sócio-cultural. A democracia vai exigir, como condição preliminar, uma acção concebida a partir das realidades autênticas das nossas comunidades autóctones, apreendidas a partir do interior. Contudo, as eleições políticas de 1994 e a nova constituição, fundando doravante a legitimidade política sobre a soberania e a vontade dos moçambicanos, consagra simbolicamente uma ruptura fundamental. Para além do princípio de legitimidade política, é o fundamento mesmo da relação social que é posto em causa. Na era da nação democrática, a política substitui o princípio religioso ou dinâmico para unir os homens: ela reivindica o direito de instaurar o social. Doravante, todos os homens no interior do espaço nacional são iguais em dignidade. Esta cidadania não é simplesmente um atributo jurídico e político, no sentido estrito do termo. É também um meio para adquirir um estatuto social: a condição necessária – mesmo se concretamente não suficiente –para que um indivíduo possa ser plenamente reconhecido como actor de vida colectiva. Existem, no entanto, dois problemas fundamentais. Primeiro – o nascimento da nação democrática foi precedida, e talvez mesmo condicionada, por uma outra nação que vive no seu seio: a nação produtivista. Não é por acaso que a democraciafoi precedida por uma adesão às instituições económicas internacionais como o FMI e BM, composta por indivíduos mais preocupados em satisfazer os próprios interesses que a satisfação dos seus deveres cívicos –que segundo Rousseau constitui o principal problema moral para aquilo a que ele chama o homem social. A lógica produtivista intimamente ligada à eficácia da produção, tende a preceder os valores propriamente políticos. A participação na vida económica é a fonte essencial do estatuto social. Assim, a dimensão económica e social da vida colectiva impõe-se em detrimento do projecto político. Este facto enfraquece ulteriormente o nosso «proto-Estado Democrático» que se vê obrigado a renunciar às suas prerrogativas estatais (que lhe foram confiadas pelos CAPITULO II eleitores) para satisfazer as imposições anti-democráticas do FMI e do Banco Mundial51 que se arrogam a prerrogativa de legitima o poder. Como se isto não bastasse, os eleitores não têm mecanismos jurídicos legais previstos pela constituição que lhes permitam fazer-se ouvir ou simplesmente participar no debate público. Existe, por conseguinte, um outro problema jurídico, desta feita ligado à democracia representativa. A democracia representativa A democracia representativa, em princípio, é uma democracia parlamentar – sendo os parlamentares, como os senadores romanos, donde ele deriva, uma assembleia de homens escolhidos pela sua sabedoria (sagacidade), cujas deliberações devem supostamente desembuchar na melhor decisão possível para a comunidade no seu conjunto. Mas para que o parlamento seja democrático –existem parlamentos não democráticos –deve respeitar três princípios fundamentais, que aliás não encontraram a sua teorização na antiguidade grega, mas nos filósofos pertencentes à primeira idade do individualismo liberal, isto é, John Locke para o primeiro princípio, Locke e Montesquieu para o segundo, e Jean-Jacques Rousseau para o terceiro. O primeiro destes princípios é o princípio da tolerância. Ela obriga o Estado a assegurar sobre o seu solo a expressão livre de crenças políticas, filosóficas, religiosas, na condição de que estas não atentem contra a ordem pública. O segundo é o princípio da separação dos poderes. Ela estipula que o poder de fazer leis (poder legislativo), o poder de fazê-las aplicar (poder executivo) e o poder de punir as infracções cometidas contra as leis (poder judiciário) não possam ser exercidas pelos mesmos membros (ou pelos mesmos órgãos) da comunidade. Este princípio tem por objectivo instaurar o Estado do direito, isto é proteger o cidadão contra os abusos. E, em particular, contra o uso arbitrário que os detentores da autoridade pública poderiam ser tentados a fazer dela. O terceiro é o princípio da justiça. Isto significa dizer que uma democracia digna desse nome não se pode contentar em ser uma democracia formal, cega às desigualdades materiais entre os membros da sociedade, mas ela deve visar a sum objectivo concreto: a justiça social. Podemo-nos perguntar: em que condições reina a justiça social? Isto é uma questão difícil. Em contrapartida, o que é claro é que a sua realização supõe, pelo menos, a criação de mecanismos susceptíveis de impedir o desenvolvimento de desigualdades demasiado grandes no seio da comunidade. Estes três princípios têm, na história, suscitado mitos debates. Poder-nos-iamos limitar aos debates dos últimos anos, relativos ao fim da guerra fria e à extensão do modelo democrático ao conjunto do planeta, com a consequente necessidade de aculturar os aparatos administrativos e institucionais às diferentes realidades culturais, sem adulterar a dimensão axiológica da democracia. O primeiro princípio invoca claramente a dimensão da tolerância. Nos últimos anos tem-se discutido se este princípio se deve também aplicar aos intolerantes, a aqueles que querem chegar ao poder para mudar as regras democráticas que permitiram a sua ascensão ao poder. Para ilustrar isto invoca-se muitas vezes o FIS da Argélia. As duas ameaças a este princípio são representados pelo fundamentalismo religioso que se faz político e pelo nacionalismo étnico. Em Moçambique, estas espécies de fundamentalismo felizmente não existem. Todavia, eu disse no início deste livro, a filosofia deveria ensinar os homens a serem amis prudentes, mais precavidos, a anteciparem eventuais perigos e ameaças. O INDE tinha preparado a introdução experimental do sistema bilíngue no ensino primário 51 Citado por Ngoenha, idem: 33. utilizando um campeão de três zonas correspondentes a línguas diferentes. Uma língua do sul, uma do centro e um do norte. Porque é que, no último momento, o INDE teve que mudar? Porque na segunda cidade do país surgiram conflitos dentro da Igreja Católica entre os falantes de Sena e de Ndau. Juntamente a este perigo latente, existem as associações dos amigos de Maputo, Gaza, Manica, Sofala, Niassa, Zambézia, etc. que representavam um tribalismo apenas velado e o perigo da politização das etnias ou se quisermos da etnicização da política. O que, aliás, começa a ganhar forma na nossa democracia onde, desde o início da segunda República, a Frelimo parece ter assegurada a maioria no sul e a Renamo no centro. A nossa constituição, inspirando-se na história das democracias representativas, separa claramente os poderes executivo do legislativo e este do judicial. Que mecanismos temos para garantir a separação de poderes e gerir eventuais conflitos entre eles? Dois tipos de conflitos têm perturbado de maneira recorrente a vida das democracias contemporâneas: primeiro, o conflito entre o executivo e o legislativo, quer quando a constituição dá mais importância a um ou ao outro, quer quando os representantes do executivo usam todos os subterfúgios para fugirem ao controlo dos representantes do povo. O membro da Renamo ou do Pimo quando se pronunciam no parlamento, fazem-no como representantes do povo. O executivo não deve ridicularizá- los ou fugir às questões, muitas vezes judiciosas e pertinentes que levantam. Segundo, o conflito entre o executivo e o judiciário. Nomeados pelos primeiros, os agentes do segundo, isto é, os magistrados, têm muita dificuldade em fazer compreender aos responsáveis do executivo, que ninguém pode estar acima da lei. Este é um problema que os pais da democracia representativa não resolveram. Trata-se de uma questão que tem minado a vida política, mesmo nas democracias mais experimentadas. É o caso de Chirac na França e, ainda mais grave, de Berlusconi na Itália. Em Moçambique podemos falar do paradigma Anibalizinho-Nyimpini. Que o presidente Chissano tenha feito pressão ao pé das autoridades judiciárias ou não tenha feito, os juízes não podem ser completamente livres de uma certa pressão psicológica no acto mesmo de instaurar um processo e de judiciar Nyimpini. Mas a verdadeira questão não é nem a atitude do presidente, nem Anibalizinho, nem Nyimpini. A questão é como fazer com que entre o poder executivo e o judicial não haja interferência, numa democracia que quer estes poderes iguais, mas subordina a nomeação do judicial à decisão do executivo? Que o presidente faça pressão ou não, que diga algo ou não, que o seu pessoal governativo intervenha ou não, o seu estatuto vai necessariamente condicionar o desenrolar do processo. Este não é um problema só moçambicano e, talvez ainda mais por isso, deve mobilizar as nossas inteligências com vista a encontrarmos uma saída ... A estes pontos tem que se acrescentar um que é a maneira particular como um certo Ocidente se arroga sempre mais, e de maneira antidemocrática, prerrogativas de legitimação anti-coloniais emergentes democracias africanas, e mete sob tutela as nossas economias e, em consequência, a nossa soberania. A questão da soberania A constituição de 1975 prescreve em vinte e cinco artigos os princípios gerais ou, se quisermos, as proposiçõesde base que orientam o conjunto de normas jurídicas e a promulgação das leis. Trata-se de ideias ou de proposições que inspiram e orientam todos os enunciados e todos os actos do direito. O Moçambique de 1975 aparece, assim, no artigo I como «um Estado soberano, independente e democrático sob a direcção da Frelimo». O artigo II define a ideologia CAPITULO II moçambicana como Democracia Popular. O artigo III indica a Frelimo como a entidade que «supervisa a acção dos órgãos estatais a fim de assegurar a conformidade da política do Estado com os interesses do povo». O partido e o Estado identificam-se. O artigo IV indica os objectivos fundamentais da República: «a eliminação das estruturas de opressão e exploração coloniais e tradicionais e da mentalidade que lhes está subjacente a extensão e reforço do poder popular democrático; a edificação de uma economia independente e a promoção do progresso cultural e social; a defesa e a consolidação da independência e da unidade nacional; o estabelecimento e desenvolvimento de relações de amizades e cooperação com outros povos e Estados; o prosseguimento da luta contra o colonialismo e o imperialismo.» Estes artigos mostram a vocação libertária da constituição e a filosofia prática subjacente ao direito moçambicano na sua primeira constituição. A constituição da II República não renuncia ao substracto filosófico de base e aos seus corolários de lógica jurídica. Só que o exercício deste projecto libertário não se exercerá, doravante, através de um sistema de competição entre partidos autónomos, com obrigação de respeitarem e defenderem a soberania nacional, entendida como espaço geopolítico (do Rovuma ao Maputo), e a unidade nacional através da luta contra o tribalismo. Os pressupostos filosóficos estipulados na Primeiras República e confirmados pela segunda aparecem em contradição com os seus corolários políticos. Para compreender o que está por detrás deste fenómeno, tem que se recorrer à história das lutas ideológicas que a subentendem. Lutar contra o colonialismo, libertar Moçambique e ser soberano são conceitos fundamentais e constituintes da nação moçambicana. A comunidade internacional só pode ser positiva e a favor de Moçambique na medida em que respeite este substracto filosófico de base. Isto é, respeito pela soberania, configurada numa espaço geopolítico bem determinado e pela unidade nacional. Ora, o centro nevrálgico da constituição de 1975 era a liberdade/independência. O centro da constituição de 1900/1992/1994 é liberdade/democracia. Em 1975, a liberdade era entendida como contraposição ao colonialismo. Em 1992, à liberdade como anti-colonialismo se junta a democracia. Teoricamente, trata-se de um avanço considerável. Todavia, a opinião pública moçambicana parece acreditar que a nível da opinião pública moçambicana parece acreditar que a nível da liberdade fundamental (independência e soberania), Moçambique tenha pura e simplesmente regredido (regresso de portugueses, economia sob tutela, ONG, cooperação, doadores, etc.). Pode- se progredir em democracia, recuando em soberania? A II República nasceu dos escombros da antiga União Soviética e do fim da guerra fria. Os valores que a ideologia vencedora apregoa são contrários ao espírito da Primeira República defendidos pela Frelimo. Mas serão compatíveis com o espírito que é, ou que devia ser, da Renamo enquanto partido nacional: a defesa e a promoção da unidade e integridade nacionais? No debate que estrutura a filosofia política actual aparece claramente que a política ultrapassa enormemente as suas ligações com a concepção global da história, ao mesmo tempo que se mostra incapaz de pensar a história de uma maneira diferente. A questão de fundo é então saber se é admissível que o campo do possível aberto pela política seja reduzido teoricamente ao modelo ocidental e praticamente à simples modificação e satisfação da existência individual? Se nada de novo e de ocidentalmente diferente pode ser inventado, e se a história e a ambição negra e moçambicana da emancipação, nos escapam, qual é a efectividade da nossa política? Muitos consideram que, em matéria de acção histórica e política, tudo foi já feito. A democracia como ela se apresenta hoje parece-lhe o último regime possível, restando só perpetuar, na melhor das maneiras, os interesses de cada homem e o desenvolvimento de novos terrenos de materialização, ou a observar a sua globalização pós-moderna. No que diz respeito ao primeiro aspecto da questão, convém fazer referência à tese de filosofia política argumentada por Francis Fukuyama cuja carreira pública se abre com um artigo publicado na revista National Interest intitulado «Fim da história?» (1989), seguido pouco tempo depois de um livro O fim da história e o último homem (1991). Com a expressão «fim da história», tomada da filosofia de Hegel, entendia que o prego final (fim aqui não é nem finalidade (zwek), nem objectivo (ziel), mas exactamente o termo Ende) foi plantado no caixão do marxismo-leninismo. Na medida em que nem as religiões (islão, em particular) nem os nacionalismos parecem em altura de constituir desafios sérios, a vitória da modernidade liberal e democrática parece certa ad vitam aeternam. A situação actual de Moçambique, democratismo (que é diferente da democracia), super liberalismo que se traduz em privatizações sumárias, tutela governativa, são a prova da nossa entrada no fim da história, no ponto final da evolução ideológica da humanidade. É neste contexto que tem que ser vista a segunda República moçambicana. Mas resta uma questão de fundo: qual é a relação que existe entre o objectivo de fundo que persegue o negro, o moçambicano, isto é, a liberdade de dispor de si mesmo e esta forma de hegelenismo político-social? Qual é a relação que existe entre este sistema mundial dominante e a possibilidade real de ser soberanos, sem termos que obrigar os moçambicanos a terem que pegar em armas para uma segunda colonização, como escreve Heliodoro Baptista no artigo do Savana (nº 167, Março 1997)? Duas aporias parecem remar contra a nossa liberdade e libertação: uma está intrinsecamente ligada à mesma ideia de soberania e outra à nossa incapacidade como povo de assumi-la com tudo o que ela comporta em termos de responsabilidade. A soberania é um conceito jurídico e político em volta do qual gravitam todos os problemas e as aporias da teoria jus-positivista do direito e do Estado. Falar da sabedoria e das suas vicissitudes históricas e teóricas significa falar da particular formação político-jurídica que é o Estado nacional moderno, nascido na Europa há um pouco mais de quatro séculos e hoje em crise. As aporias da soberania estão ligadas a diferentes perspectivas entre elas (jus-naturalistas, jus-positivistas, contratualistas e idealistas) que as alimentaram durante quatro séculos. A primeira aporia baseia-se no significado filosófico da ideia de soberania. Como categoria filosófico-jurídica, a soberania é uma construção de matriz jus-naturalista que serviu de base para a concepção jus-positivista do Estado e o paradigma do direito internacional moderno. Ao mesmo tempo, ela foi sempre uma metáfora antropomórfica de carácter absolutista, mesmo na mudança da imagem do Estado à qual foi alternativamente associada. A segunda aporia baseia-se na história, teórica e sobretudo prática, da ideia de soberania como potestade absoluta. Esta história corresponde a dois eventos paralelos e divergentes: a soberania interna, que é a história da sua progressiva limitação e dissolução, paralelamente à formação dos estados constitucionais e democráticos de direito; e a soberania externa, que é a história da sua progressiva absolutização. A terceira aporia, enfim, baseia-se na consistência que é a legitimidade conceptual da ideia de soberania sob o ponto de vista da teoria do direito. Existe uma antinomia irredutível entre soberania e direito: uma antinomia não sóno plano interno dos ordenamentos avançados, onde a soberania está em contraste com o Estado de direito e da sujeição à lei de qualquer poder, onde ela é considerada nas cartas CAPITULO II constitucionais internacionais e, de maneira particular, na Carta da ONU de 1945 e na Declaração do Direitos do Homem de 1948. Os historiadores do direito internacional remetem a sua primeira formulação aos teólogos espanhóis do século XVI e, antes de mais, em Francisco de Vitoria (1964). Tratava-se de dar um fundamento jurídico à conquista espanhola da assim chamada descoberta. Francisco de Vitoria contesta todos os títulos de legitimação avançados pelos espanhóis para sustentarem a conquista (o facto de os índios terem sido descobertos, a soberania universal do Império e da Igreja, o facto de os índios serem infiéis e pecadores, a sua submissão voluntária, etc.), e reelabora uma nova doutrina, que será o fundamento do direito internacional moderno e da concepção moderna do Estado como sujeito soberano. As ideias de base dessa construção essencialmente duas: a) A configuração da ordem mundial como sociedade natural do Estado soberano. Estados soberanos, com igual liberdade e independência, sujeitos externamente aos mesmos direitos das gentes e internamente às leis constitucionais de que eles mesmos se dotaram. Trata-se de uma ideia revolucionária que será retomada por Francisco Suarez e, mais tarde, por Alberico Gentile e Ugo Grotius que teorizaram a submissão do inteiro género humano a ius gentium. Em Vitória, esta ideia é acompanhada por uma concepção jurídica de poderes públicos que antecipa a futura doutrina do Estado, do direito internacional, e enuncia o fundamento democrático da autoridade do soberano, antecipando, assim, o princípio moderno da soberania popular. b) Em segundo lugar, o direito das gentes entrelaça os Estados nas suas relações externas, não só com a força dos próprios pactos, mas também com a força da lei. E, enfim, Vitória acaba concebendo a humanidade como sujeito de direito, o que constitui a maior concepção deste pensador espanhol. Mas é justamente sobre esta communitas orbis como sociedade natural de estados livres e independentes que Vitória funda a segunda ideia base da sua construção, antinómica à primeira: a ideia de uma soberania estatal externa, identificada com um conjunto de direitos naturais dos povos, que servem para dar uma nova legitimação à conquista e, por outro lado, para oferecer um substracto eurocêntrico ao direito internacional, a sua valência colonialista e até a sua vocação belicista. Existiria, segundo Vitória, uma comunhão natural entre os povos, que daria a cada um o direito de entrar em relação com os outros. A partir daqui faz derivar uma série de outros direitos cuja aparente universalidade é desmentida pelo seu carácter assimétrico: o direito de trânsito, a liberdade dos mares, o direito do comércio, o direito de ocupação sobre as terras e coisas que os índios não recolhem, a começar pelo ouro e pelo argento, o direito a emigrar e a estabelecer-se no novo mundo e adquirir a cidadania (é óbvio que, nesta falsa configuração universal do direito, só os espanhóis são parte activa, enquanto os índios são vítimas). A isto se juntam quatro prerrogativas que relevam do direito divino: 1) Direito à pregação do Evangelho; 2) Direito-dever de correcçao fraterna; 3) Direito-dever de proteger os convertidos; 4) Direito dos espanhóis, caso os índios não se persuadissem destas boas razões, a defender os seus direitos e a sua segurança mesmo com a guerra. Vitória acaba quase, como corolário, legitimando a guerra justa (e através dela a conquista) redefinida como reparação das injúrias e, portanto, como instrumento de actuação do direito. O resultado é uma configuração jurídica da guerra como sanção para assegurar a efectividade do direito nacional, que durará até ao nosso século (até Kelsen). A ideia de soberania vai ser aperfeiçoada com as doutrinas de Grotius, Hobbes e Locke, que defendem a ideia de uma sociedade de estados igualmente soberanos, mas sujeitos ao «Direito». A teoria internacionalista moderna baseia-se, exactamente, na afirmação de uma série de direitos naturais que seriam prerrogativas intrínsecas dos [A6] Comentário: Conferir se o ano refere-se ao período da vida do pensador ou simplesmente a uma citação. Estados soberanos e da teoria da guerra justa como punição. A ideia abstracta de igualdade entre os Estados como sujeitos soberanos é concretamente desmentida pela desigualdade entre os Estados e pelo papel dominante das grandes potências. Assim, o direito natural dos Estados, mesmo se teoricamente iguais, revelam-se, no fim de contas, concretamente assimétricos e desiguais, ao ponto de converter-se em colonização, conquista, neocolonização ou governo sob tutela. Estas aporias e ambivalências estão na base da falência histórica das ideias de Vitória, mas, ao mesmo tempo, elas explicam a sua persistência no tempo, pelo menos até ao nascimento da ONU, como centro da cultura jurídica mundial e dos assentos da comunidade internacional. O desígnio de Vitória de uma sociedade de Estados sujeitos ao direito das gentes entra em crise por causa da antinomia, que se revelou insolúvel, entre as formas absolutas assumidas historicamente pelas soberanias e a ideia da sua subordinação ao direito. Todavia, o paradigma vitoriano, exactamente pela força da sua ambivalência, continuou a informar até aos nossos dias a ciência internacionalista e a alimentar as imagens opostas mas conviventes. De um lado com a utopia jurídica e a doutrina normativa de convivência mundial gaseada no direito; por outro, com a doutrina, primeiro cristocêntrica e depois laicamente eurocêntrica, a legitimar a colonização e a exploração do resto do mundo por parte dos países europeus, em nome de valores, sempre diferentes, mas sempre proclamados universais: missão de evangelização, de colonização e a hodierna mundialização dos valores ocidentais. A oposição entre o estado civil e o estado de natureza dá lugar, a partir da revolução francesa, a duas histórias paralelas e opostas de soberania: progressiva limitação interna e progressiva absolutização externa, a que Luigi Ferrajoli (1997) chamou a comunidade selvagem dos estados soberanos. A soberania interna e a soberania externa seguem dois percursos inversos: um limita-se tanto quanto o outro se alarga, em correspondência a duas faces do estado, fautor de paz no interior e de guerra no exterior. A partir da metade do século XIX, em plena expansão democrática a nível interno, a soberania externa atinge as formas desenfreadas e ilimitadas de conquistas coloniais. Porquanto possa parecer paradoxal, estes dois processos são simultâneos e conexos um com o outro. Estado de direito no interno e estado absoluto, selvagem, depredador no externo, crescem juntos como duas caras de uma mesma medalha. Quanto mais se limita a soberania interna e através mesmo desses limites, mais se absolutiza e se legitima a soberania externa, o que torna inconcebível o direito internacional como direito ao de lá dos Estados. O que é extraordinário é que depois de se ter secularizado no século XVIII, com a filosofia contratualista e iluminista, o paradigma da legitimação volta a sacralizar-se no século XIX, mesmo se de uma maneira laica, com a filosofia idealista alemã: o Estado que Hobbes tinha chamado metaforicamente «o Deus mortal» torna-se em Hegel «o Deus real». Os corolários disto são a negação do direito internacional, identificado por Hegel como «o direito estadual externo», isto é, o conjunto de normas que regram as relações entre os Estados. A segunda consequência é o espírito de potência e a vocação expansionista e destrutiva que anima um tal paradigma de soberania Estatal. Os corolários terríveis são: desprezo pelos países naturais ou bárbaros –como somos nós – que ainda não chegaram à maturidade do Estado e destinados a desaparecer no contatocom os povos europeus. Primeiro com a colonização, depois com a exportação do modelo através da criação de Estados e nações independentes, o princípio da soberania estatal ilimitada expande-se ao nível mundial, submetendo e homologando povos e culturas. A Carta da ONU, aprovada em São Francisco em 1945, e a Declaração dos Direitos do Homem, aprovada pela Assembleia da ONU em 1948, transformam, pelo menos sob o ponto de vista normativo, a ordem jurídica do mundo. A soberania externa [A7] Comentário: A frase tem problemas de concordância em número entre o sujeito e o predicado. Rever? (pag.130) CAPITULO II do Estado cessa de ser absoluta e selvagem e subordina-se juridicamente a duas normas fundamentais: o imperativo da paz e a tutela dos direitos do homem. Todavia, a parábola da soberania não está ainda no seu descambar. A própria ONU, apesar da sua inspiração universalista, continua, não só sob o plano factual, mas também sob o plano jurídico, a ser condicionada pelo princípio da soberania dos Estados. Propõem-se de novo, assim, as contradições originárias já presentes na doutrina de Vitória entre comunitas orbis e a soberania igual dos Estados. O domínio da paz fica ainda confinado ao domínio soberano das grandes potências (acordos de paz em Moçambique) e, depois da queda do muro de Berlim, aos vencedores filosoficamente profetizados por Hegel e celebrados por Fukuyama. Com efeito, apesar dos proclames igualitários da ONU, nós vivemos vitoriamente numa desigualdade de facto, fruto inevitável da prevalência da lei do mais forte e, portanto, da existência de uma soberania ilimitada, desmembrada, dependente, assistida e tutelada. Eis porque é ridículo e contraditório ter uma constituição cujo pressuposto filosófico –soberania –tem que ser garantido por uma comunidade internacional, democrata certo no interior dos países de origem, mas selvagem nos seus princípios políticos, jurídicos e nas suas práticas económicas. Falar de soberania moçambicana é hoje um autêntico abuso de linguagem. De facto, toda a estrutura constitucional moçambicana, desde os seus fundamentos filosóficos, jurídicos para terminar na prática política, encontram-se esvaziados de conteúdo. Eis porque a política moçambicana, apesar da aparente democracia, tornou-se numa coisa ligeira, leviana onde cada um procura os seus fins individuais: o «cabritismo» que é, de facto, o «laissez-faire, laissez-passer» moçambicano. Todavia, esta situação é possível ou pelo menos é facilitada por um outro facto: «a nossa incapacidade de assumir o que a liberdade comporta como responsabilidade». O camaronês Mveng fala da pauperização antropológica do negro. Eis porque o maior comunista de ontem pode tornar-se no maior apóstolo do liberalismo selvagem; o revolucionário de ontem no reaccionário de hoje, os libertadores de ontem no instrumento de colonização de hoje. A Frelimo viu-se obrigada, por razões militares e pela pressão exterior, a instaurar um sistema democrático, sem estar realmente convencida de dever compartilhar o poder, cuja legitimidade hauria da luta armada contra a colonização portuguesa. Hoje a Frelimo vê-se obrigada a harmonizar as exigências de duas autoridades: a Renamo e a Comunidade Internacional. Ora, se a força da Renamo no contexto nacional é muito fraca, o mesmo não se pode dizer da Comunidade Internacional, que impõe literalmente de uma maneira abusiva e anti-soberana a política, a economia e o tipo de governação. No contexto económico dominante, o governo precisa do dinheiro dos doadores e da comunidade internacional para melhorar a vida dos moçambicanos, o que, aliás, é a sua função política como partido no poder, mas está consciente de divergência de interesses entre os moçambicanos e de certa Comunidade Internacional (cf. entrevista com Mariano Matsinha, Savana 25-04-1997). A Renamo é vista como instrumento da Comunidade Internacional, cujos objectivos são o enfraquecimento do Estado, a divisão do país. Contudo, a Comunidade Internacional, apesar da sua força, só pode governar de maneira indirecta, pois dificilmente pode pegar em armas e ocupar militarmente Moçambique, ou mesmo nomear governadores e administradores em Moçambique. A Frelimo submete-se aos dictats da Comunidade Internacional fazendo tudo o que esta exige, a fim de obter dinheiro e financiamentos, ao mesmo tempo que a nível político, tenta isolar a Renamo («a Carta aberta aos moçambicanos» de Afonso M. M. Dhlakama, Savana, 04-04-1997) e outros partidos da oposição. Todavia, apesar das aparências, o verdadeiro adversário da Frelimo, não é a Renamo, como ontem não era a Renamo –Samora Machel quis discutir directamente com os sul-africanos e não com a Renamo. Hoje a táctica é a seguinte: fazer a vontade dos doadores a fim de ter investimentos, mas isolar politicamente a Renamo e os outros partidos da oposição. Às estratégias de apropriação do poder e do seu abuso por parte de uma certa Comunidade Internacional, a Frelimo responde com uma dupla táctica: docilidade e submissão aparente face à comunidade internacional, e isolamento das oposições políticas nacionais. Como se trata de uma estratégia de luta contra o (neo)colonialismo, não é surpreendente ver reemergir dirigentes históricos da Frelimo que se tinham evidenciado, sobretudo, pelo seu nacionalismo e na luta contra o colonialismo. Este processo faz-se em detrimento de uma democracia real que, portanto, se tinha começado a engodar. Isto faz-se, por outro lado, em detrimento de um debate democrático cultural, que tenderia a deslocar realmente o centro de gravitação do poder em direcção às pessoas reais, aos grupos e às culturas. As consequências são: - o isolamento dos partidos da oposição, a diminuição da possibilidade da democracia; - o centralismo político, que impede a possibilidade de uma cultura política moçambicana. Isto é, a criação de um substracto político nacional a partir dos valores do homem de Moçambique; - o reforço das tendências autoritárias e centralizadoras do partido no poder, que se vê obrigado a recorrer a armas nacionalistas para defender o país. A responsabilidade da Comunidade Internacional no que se passa em Moçambique é enorme. Existem diferentes comunidades internacionais, aquelas pretensamente neocoloniais e tuteladoras, e outras cujos objectivos são de ajudar a construir uma comunidade política soberana, democrática, solidaria e fundada sobre valores moçambicanos. Penso que seria tempo de uma análise crítica das atitudes da Comunidade Internacional e da sua responsabilidade no clima que existe no Moçambique de hoje. Existe hoje um risco de confusão entre democracia e o neocolonialismo; risco de ver na democracia e no liberalismo, simples avatares do neocolonialismo. O maior erro, que poderiam cometer as «velhas democracias», seria apresentarem-se como modelos, como os que sabem como as coisas devem ser feitas, como os problemas devem ser resolvidos, o que elas não são e nem podem ser; e impor, mesmo em termos económicos, o modelo e o estilo de sociedade que elas consideram boa para Moçambique. Neste sentido, é extremamente lamentável a atitude de certas organizações. Exigir que o Estado, o Governo, adopte e implemente práticas políticas e económicas decidas por investigadores e por centros de poder ocidentais, como condição da ajuda económica, é uma política que se baseia no desprezo pelos governantes nacionais. O perigo evidente, neste caso, é desacreditar gravemente o Governo aos olhos do povo, mas sobretudo desacreditar a própria democracia aos olhos do povo e dos seus líderes. A Comunidade Internacional, pelo menos a não colonialista, deve rever a sua posição, deve compreender que ela não pode ser colonizadora, neocolonializadora, tuteladoras, sem ser contra Moçambique e contra os moçambicanos. CAPITULO III Aos vencidos não se pede opinião Historicamente, a direita identificou-se com a crença da primazia absoluta das liberdadesindividuais. Primazia essa que permite a certos indivíduos possuírem aquilo que Marx chamou de meios de produção. A esquerda identificou-se com a redistribuição o mais equitativa possível dos dividendos económicos. Entre 1945 até 1989, esta divisão materializou-se na contraposição entre os blocos do Ocidente e do Este. O primeiro compreendia países que era, ao mesmo tempo, capitalistas e colonialistas. Os segundos eram marxistas, mas também teoricamente anti-colonialistas; em consequência, apoiantes dos movimentos mundiais da luta pela autodeterminação. Nesta óptica, o alinhamento da Frelimo no bloco da esquerda era lógico. Assim, a Frelimo da luta armada e a Frelimo da primeira República foram um movimento e, depois, um partido obviamente da esquerda. Mas a Frelimo da segunda República, que adere ao FMI e ao BM, a Frelimo acumuladora, a Frelimo dos proprietários ou co- proprietários das casas, fábricas, terras, chapas, bancos, restaurantes deixou de ser um partido da esquerda e passou a ser claramente um partido da direita. A Renamo criou o essencial da sua história como movimento e depois como partido político anti-marxista. Com a Frelimo e a Renamo à direita, de que é feito o debate político moçambicano? Em termos de filosofia política, o que é que diferencia a Frelimo da Renamo? Quem é o defensor da igualdade social? O debate político é vazio de todo e qualquer conteúdo em termos de ideias e transformou-se numa corrida desenfreada em direcção à ocupação de lugares de poder, dado que o poder dá acesso a bens materiais. O liberalismo clássico nasce mesmo de posições éticas. É preciso recordar que Adam Smith pertencia à escola moralista escocesa, cuja preocupação era a procura da maior felicidade para o maior número de indivíduos. As respostas que o moralista escocês não encontra nas posições tradicionais da filosofia e da teologia, que tentavam combater ou pelo menos atenuar o egoísmo do homem. Adam Smith parece encontrar na emergente economia política. Através desta nova ciência, Adam Smith prospectava um saber moral que se baseia não no atrofiamento do egoísmo –a longa história da filosofia e da teologia provam a sua impraticabilidade –mas na sua utilização para fins morais. «A maior felicidade do maior número de indivíduos», a que os gregos chamavam eudemonia. Se o liberalismo, quer na sua dimensão económica –Adam Smith ao qual se pode ajuntar os nomes dos anti-utilitaristas G. de Staël (1766-1817), B. Constant (1767- 1830) e Alexis de Tocqueville (1805-1859) –, quer na sua dimensão filosófica (J.Locke) tem uma grande dimensão moral, como se explica a situação do economicismo selvagem que pulula entre nós, em nome do liberalismo? O que se passa tem que ser visto no prisma do que Fukuyama chamou o «fim da história», que é o fim das alternativas ao capitalismo. Este sistema significou, no mundo inteiro, a destruição dos sistemas socialistas, mas também o recuo nos próprios ocidentais de toda a dimensão de conquistas sociais dos trabalhadores. Mas ainda mais fundamentalmente, a elevação do mercado no mundo inteiro à dimensão de regulador das relações sociais. O resultado principal da chamada guerra civil de Moçambique foi o fim de um ideal distributivo que estava intrinsecamente ligado a um projecto de emancipação do homem moçambicano, a favor da dólar-cratização das relações humanas e sociais. Com o fim da guerra não acabou a violência. Transferiu-se a violência das armas para uma violência caracterizada pela luta para a obtenção de riquezas. Isto engendrou CAPITULO III uma nova forma de violência mais velada, mas não menos feroz. As antigas alianças e relações sociais baseadas nos valores socialistas foram muito rapidamente postas em causa e, no seu lugar, nasceram novas alianças baseadas no interesse. Valores como a luta contra o racismo, o tribalismo, o regionalismo desapareceram e cederam espaço a novas alianças baseadas nos interesses que, sem escrúpulos, não hesitam em instrumentalizar as pertenças étnicas, regionais e raciais. Violência não é só a morte de Cardoso ou o massacre de Montepuez; é também a mãe que vê o seu filho morrer por falta de pão; é o homem de Gaza ou Inhambane, Zambézia ou Nampula que passa dias sem comer e na televisão vê festins, recepções de empresários ou workshops de universitários ou políticos. Violência é quando se vêem pessoas a sofrerem no hospital e a não serem atendidas porque não têm dinheiro para entrar na clínica especial. Violência é quando os camponeses produzem muito e os produtos apodrecem porque não há escoamento de produtos agrícolas. Violência é quando as terras dos camponeses são anexadas por estrangeiros para turismo em detrimento dos valores e lugares simbólicos dos grupos e das populações. Violência é quando os pais vêem as filhas utilizadas por indivíduos que transformam as moças em mercadoria que se vende e se compra. Violência é quando os pais não têm meios para mandarem os seus filhos à escola; é quando os moços, depois da formação, não têm acesso ao mercado de trabalho; é quando toda uma sociedade perde sentido de dignidade e torna-se lugar de realização de misericórdia e caridade de todos os países e ONG’s do mundo. Esta situação de violência é até contrária aos valores teóricos do próprio liberalismo. Então, a situação que vivemos não é explicável a partir da doutrina liberal, mas a partir do lugar que (ele) ocupa na combinação entre o fukuyamiano «fim da história» e o nosso lugar extremamente periférico no sistema internacional de globalização. Apesar das tentativas de alargar a globalização a uma dimensão cultural por parte de filósofos como o francês Gerard Leclerc52, os canadianos Paul Dumouchel53 e Pierre Levy54 ou o italiano Maramao55, a globalização é, antes de mais, um fenómeno de ocidentalização do mundo, como defende Serge Latouche56. Mas esta ocidentalização do mundo visa essencialmente as economias, guiadas pelo mercado que, por sua vez, subordinam as tecnologias, sobretudo as tecnologias de informação. Por isso, não é surpreendente que, apesar de sermos um país periférico, tenhamos em muito pouco tempo entrado no sistema informático: e-mails ciber-cafés, celulares. Não é surpreendente que na Mafalala não se bombeiem as águas estagnadas que contaminam as pessoas com malária e cólera, não se limpem as ruas, mas se criem síticos com internet; que a preocupação das universidades seja estabelecer um ensino à distância, não obstante os custos, a falta de electricidade e a fala de uma tradição de leitura. Não é surpreendente que sejamos literalmente invadidos por canais de rádio e televisão, RTP África, canais brasileiros, CNN, a Rádio França Internacional, a BBC, a Voz da Alemanha, etc. De facto, nunca o mundo produziu tanta riqueza, mas ao mesmo tempo, segundo o sociólogo alemão Ulrich Beck, nunca se produziu tanto risco, que chega até aquilo que no Retorno do Bom Selvagem eu chamei de natureza morta57. Ora, o que se 52 Leclerc, 2000. 53 Mondialisation: perspectives philosophiques. Sous la dir. De Pierre-Yves Bonin. Québec: La Presse de L´Université laval&Paris: L’Hartmattan, 2001. (não informatizada na bibliografia automática ) 54 Levy, 2000. 55 Passaggio a Occidente. Filosofia e globalizzacione, 2003. 56 Latouche, 1989. 57 O Retorno do Bom Selvagem, 1994. CAPITULO III globaliza não são as riquezas, mas os riscos. São a Mozal, indústria extremamente poluente que funciona a trinta quilómetros de Maputo, é a vinda de pessoas que não têm lugar nas próprias sociedades. O que se globaliza não são as benesses, mas os riscos. Desde o início da transição das liberdades como independências às liberdades como desenvolvimento económico e social, começado em 1957 com a independência do Gana e acelerado durante a década de sessenta, que nos encontramos (nós africanos) diante da nossa maior aporia histórica –desde o fim da escravaturaem 1865. Essa aporia identificada em primeiro lugar por J. Nyerere58 na conferência de Arusha de 1965 e generalizada depois da queda do muro de Berlim e da aceleração dos intervencionismos económicos e políticos do Banco Mundial nos nossos países. Nyerere dizia claramente que o grande problema com que estávamos então confrontados não era a escolha de uma área ideológica entre esquerda e direita. Quer alinhássemos pela direita, quer alinhássemos pela esquerda estávamos condenados a cair na dependência e a ser neocolonizados pelos países capitalistas ou socialistas. Nyerere antecipa-se em vinte anos aos sociólogos do pós-guerra fria, diagnosticando que o âmago do problema para a África não residia na adesão a um dos blocos que se opuseram desde o início da política bipolar em 1917 até o «fim da história», mas nas relações aporéticas entre ricos e pobres, o Sul e o Norte. O Sul precisa dos investimentos do Norte para se desenvolver, mas na realidade a ajuda do Norte independentemente das suas modalidades, longo de ajudar o desenvolvimento do sul, remete-nos para uma dependência neocolonial, muitas vezes mais perversa que o próprio colonialismo. Há nisto tudo algo de filosoficamente estranho. O Ocidente moderno deve a sua modernidade ao facto de se ter emancipado de Deus e de todas as garantias meta-sociais que se realizaram no domínio da ciência desde Francis Bacon; no domínio da política, com a proclamação do Estado moderno e do Estado laico, depois da revolução francesa. Esta emancipação trouxe como consequência o fim da filosofia da história. Doravante, o homem não tem nenhum modelo, não visa nenhum milenarismo. Mas, ao mesmo tempo, o homem ocidental se autoproclama, paradoxalmente, modelo para o resto do mundo. Assim, o Sul e a África têm um modelo, uma filosofia teológica da história, uma garantia meta-social e mesmo meta-histórica. Em suma, a história ocidental proclama-se quase essencialmente diferente das histórias-antropológicas dos povos caracterizados pela permanência, pela imutabilidade. Contudo, depois do seu brilhante diagnóstico, a terapia social que Nyerere prospecta é o socialismo Ujaama. Socialismo africano pré-marxista, intrinsecamente ligado à terra, ao campo, à agricultura capaz de nos levar não ao desenvolvimento ligado ao modelo ocidental, mas uma sobrevivência colectiva. Mas as biotecnologias, os OGM, a manipulação genética dos animais e das plantas, a emergente indústria alimentar fazem com que a própria sobrevivência dependa hoje do factor tecnológico ... Para fugir a este neocolonialismo, o economicista Samir Amim propôs o que ele chamou de «desconexão». Não significava um muro napoleónico com pirâmides egípcias entre a África e o resto do mundo, mas uma economia autocentrada, tendente a sair de um sistema económico colonial ao qual toda a África foi submetida desde o início da colonização e que as independências políticas não nos permitiram sair. Tratava-se de pensar a nossa produção económica não prioritariamente em termos de exploração, extroversão ligada às necessidades de consumo dos países do Norte, mas de trocas entre nós, antes de pensarmos no texto do mundo, o que, aliás, ia no sentido da teoria da unidade e federalismo N. Nkrumah59. 58 Nyerere, 1977. 59 Nkrumah, 1979. CAPITULO III Hoje não é possível, nem nos fecharmos em nós como rezava a teoria de Nyerere, sem nos desconectarmos da chamada sociedade global. Mas ao mesmo tempo, não podemos ignorar os factores culturais, não omití-los nos nossos diferentes projectos de desenvolvimento. A questão que se nos apresenta é tentarmos ver como podemos inverter a nossa situação de importadores de riscos em importadores de benesses? Mas, por detrás desta questão imediata, a verdadeira questão filosófica não é saber como podemos modificar a nossa situação no xadrez económico mundial, mas como mudar as regras do jogo, para enveredar por uma economia que não comporte intrinsecamente a produção de minorias ricas em detrimento de uma maioria pobre. O Ocidente não produz só riquezas e benesses, mas também produz a argumentação científica sobre o risco. Assim, a importância do saber, dos saberes, da argumentação científica, nesta luta de David contra Golias é fundamental. O papel do ensino, das universidades é fundamental. Não se trata de um saber que é cópia, repetição, com pressupostos externos e extrínsecos às necessidades das pessoas. Trata- se de uma universidade que esteja engajada com o próprio povo. No Ocidente existe um controlo social das universidades por parte da sociedade. No nosso seio tem que haver um contrato social claro entre os intelectuais, cuja vocação é estar ao serviço do maior número, com as preocupações reais das pessoas. O intelectual tem que ser um hermeneuta que interpreta não a África para o Ocidente mas o Ocidente para a África; que não dê espaços de intervenção para que o Ocidente nos possa inundar com os seus riscos, mas para que nós possamos importar benesses de que necessitamos. Mas isto depende de um projecto de sociedade, de um projecto político, e este tem a ver com o Estado. Ora, o Estado moçambicano é um artefacto em crise. Mas a crise do Estado é geral a todos os Estados do mundo. O Estado já não é o símbolo do avanço do espírito em direcção à liberdade, como tinha teorizado Hegel. Hoje vivemos o fim da história, que não é simplesmente o fim de uma alternativa ao liberalismo triunfante, mas é também a crise do contrato social nas sociedades e nos países onde o Estado era pré-nacional e emancipador. Vivemos a crise das liberdades e o perigo de um colonialismo de retorno. A crise ou o fim do Estado não pode ser confundido com o fim da história em termos soteriológicos, dado que toda a organização social é histórico-temporal: como nasceu, um dia vai chegar ao seu fim. O fim de uma instituição como o Estado significa a sua substituição por outras formas de organização social mais aptas a responder os desafios do tempo presente. Neste sentido, se a instituição Estado não é a mais apta para regulamentar a vida social, é mesmo necessário que ele seja substituído por outras instituições, mais aptas a responder aos desafios temporais. Todavia, a regulamentação da vida social é uma prioridade absoluta para qualquer sociedade. A regulamentação tem a ver com o direito enquanto pressupõe a existência de leis susceptíveis de mobilizar homens e mulheres de raças, culturas, regiões, etnias diferentes numa dinâmica comum, que não dependa de nenhum elemento de separação, mas da força unificadora da lei. Ela tem a ver com o económico na medida em que os indivíduos, sob a mesma tutela da lei (o que quer dizer que decidiram viver juntos, que têm valores comuns), devem-se sentir co-responsáveis uns pelos outros, devem ser solidários. Assim, mesmo se existem e se reconhecem diferenças de capacidade, de inteligência, de possibilidades, os co-cidadãos devem, não obstante tudo, sentir-se ligados por um elo que os leve a ser solidários. Neste sentido, a justiça não pode significar simplesmente dar a cada um o que lhe é supostamente devido ou mesmo as mesmas possibilidades de participação. A justiça significa co-responsabilização colectiva. [A8] Comentário: No texto original (pag. 143) vem “nossa de situação” CAPITULO III O que permite a um empresário avançar nos negócios é a sua pertença a Moçambique. Por isso, ele pode e deve exigir mais possibilidades, maiores e melhores oportunidades que qualquer estrangeiro, ele pode e deve exigir que a lei o tutele na concorrência com os estrangeiros, ele deve exigir que o Estado facilite a expansão e o aumento das suas actividades industriais. Todavia, se o Estado o fizer, como deve fazê-lo, fá-lo em nome de um pacto da moçambicanidade que faz com que homens e mulheres de raças, línguas, religiões, regiões diferentes estejam ligados num pacto de recíproca co- responsabilização. Assim,ele tem deveres para com os seus concidadãos, através do Estado, enquanto instrumento de regulamentação da vida social. Neste sentido, pagar impostos, seguir a legalidade, respeitar os trabalhadores nos seus direitos –tempo de trabalho, salário que permita viver dignamente, respeito pela pessoa que está ao nosso serviço –é um acto de cidadania. Nas cidades, muitos moçambicanos têm empregados domésticos, instituição colonial, que muitas lázaros subidos à cadeira do senhor herdaram sem condescendência e muitas vezes com tirania. Isto significa que muitos de nós somos patrões ou temos pessoas ao nosso serviço. A mesma questão que se põe aos proprietários de empresas, põe-se aos que têm domésticos ao seu serviço: onde e como vivem? Quanto ganham? Qual é a situação da educação deles e dos filhos? Qual é a situação da saúde? Quantos empregados domésticos ganham por mês o que nós gastamos num jantar no restaurante? Aquela justiça que reclamamos dos nossos patrões nas empresas, ou como país dos países do Norte, nós a aplicamos quando somos revestidos de poder? O tema de justiça é tão velho quanto a filosofia ela mesma. Se o direito e a moral se aplicam desde sempre para desvendar o seu mistério, é porque a justiça, como bem viu Kant, está intrinsecamente ligada à questão de paz, questão central da segunda República moçambicana. Começamos este trabalho dizendo que, para os cientistas sociais, o povo moçambicano foi votar nas primeiras eleições para sancionar o fim da guerra, isto é, para a instauração da paz. Então dizer que os actores políticos devem ser julgados pelo mandato claro que tiveram dos eleitores, significa que eles devem ser julgados pela sua capacidade de buscar a justiça. Assim postas as coisas, é difícil pensar que os eleitos cumpriram com o mandato que lhes foi confiado pelos eleitores, pelo menos aos olhos dos eleitores eles mesmos. Com efeito, o sentimento popular em relação ao Estado da primeira legislatura da segunda República era que, contrariamente à situação da primeira República em que o Estado estava demasiado presente, de nova e cinco a dois mil o Estado estava demasiado ausente, ou então que os actores do Estado estavam interessados nas próprias coisas, privadas e muito pouco interessados nas coisas de todos. Os dirigentes políticos são vistos pelas populações como predadores de bens públicos para interesses privados. Em consequência, nós fomos votar a segunda vez com ideia clara de que a arbitrariedade era mais importante do que a lei; que a injustiça, o roubo, as assimetrias, eram as coisas mais importantes. Fomos votar com uma dólar-cracia, com o dinheiro sendo o único valor e não um meio para atingir fins sociais pré-estabelecidos. Resultado, aceder ao poder significava aceder ao dinheiro. Quer dizer que o substracto da vida política não obedece a nenhum princípio ético; as leis não secundam a procura da justiça. O resultado disto é um sentimento de injustiça generalizado e uma constante ameaça à paz. A guerra do Zaire foi seguida por uma afirmação da então Secretária do Estado norte-americano, Margaret Allbright segundo a qual a África estava conhecendo a primeira guerra mundial. O que ela queria dizer era que a África tinha fronteiras não CAPITULO III realistas nem viáveis e que era tempo de repensar as novas fronteiras. De um lado, os principais actores da política internacional pensam em refazer as fronteiras coloniais; do outro, os actores africanos, apesar de reconhecerem a ineficácia sócio-económica da geopolítica herdada do colonialismo, continuam a defendê-la como o principal actor político continental, pela única coisa que ela sempre defendeu: o respeito das fronteiras coloniais. O debate em volta das fronteiras começa com o fim da segunda Guerra Mundial. A questão era saber em que espaço geopolítico deveríamos proclamar as independências para que elas não fossem simplesmente cosméticas. As ideias de Nkrumah não encontraram um terreno fértil entre as ambições pessoais dos líderes emergentes da época e a clara vontade neocolonial e de controle das antigas potências coloniais. A conjugação destes dois factores acabou favorecendo um grande conservatismo e uma grande falta de ousadia para questionar os substractos e as principais instituições coloniais. Às teorias dos Estados Unidos de África e da manutenção das fronteiras coloniais vieram ajuntar-se as ideias de espaços de complementaridade económica de Mamoudou Touré e de Mamadou Dia, e as ideias de homogeneidade cultural de C. Anta Diop. No fundo, a questão não era só traçar fronteiras ou respeitá-las; era a preocupação de ter independências que não fossem cosméticas, mas susceptíveis de trazer verdadeiros resultados também em termos sócio-económicos. No debate do fim da década de cinquenta, Nkrumah tinha chamado a atenção para o perigo de pormos a África na situação de ser económica e socialmente re- colonizada –o que se está a verificar hoje –, do perigo de vermos os antigos impérios voltarem incentivando o tribalismo. Vimos isso no Zaire de Patrice Lumumba onde a África se mostrou incapaz de unidade, de solidariedade, de determinação para se bater pela sua liberdade. No fundo, em 1960, três anos depois da primeira independência, a África tinha demonstrado não estar em altura de assumir «o que a responsabilidade comporta como responsabilidade». Depois desta data, o que aconteceu, incluindo a história política moçambicana, é mais folclore, cosmético que algo de substancial e de real. No Zaire, o neocolonialismo tinha se implantado criando as premissas da tribalização política (a que Nkrumah tinha chamado de balcanização) que infestou a história política do continente; criando as premissas de uma alternância de poder feita de golpes de estado, de uma prática política feita de violência e de assassinatos. Mas, sobretudo, usurpou e privou os povos africanos de democracia, fazendo assassinar o eleito do povo, Patrice Lumumba, para o substituir por um Mobutu. Infelizmente, as práticas políticas do continente não cessaram de se inscrever nos paradigmas neocoloniais claramente estabelecidos desde os eventos do Zaire de 1960. Eis porque se deve saudar a determinação com a qual a união africana interveio e pôs cobro ao golpe de estado em S. Tomé e Príncipe, esperando que seja o início duma nova era. O conflito do Zaire pós-Mobutu não se limitava a evidenciar os limites objectivos da geopolítica herdada da colonização. Chamava a atenção do continente sobre a necessidade impelente de retomar o caminho da reflexão de uma geopolítica susceptível de trazer respostas aos problemas com os quais as populações estavam confrontados. Torna, assim, actual a necessidade de uma unidade, a necessidade de pensar nos imperativos económicos e nas complementaridades económicas (Mamadou Touré e Mamadou Dia), na necessidade de pensar na dimensão cultural (Cesaire, Azikiwé e C.A. Diop), de um desenvolvimento auto-centrado (Samir Amim e Nyerere). A [A9] Comentário: A sugestão que parece correcta é conservantismo. CAPITULO III estas «utopias anteriores» vieram ajuntar-se novas tentativas: O «Renascent Africa» de Tabo Mbeki60 e o NEPAD61. Se de um lado isto é positivo porque representa a retomada de um debate de ideias no continente, podemos lamentar que este ressurgimento de debate de ideias se subordine a imperativos económicos (NEPAD) e uma visão neo-liberal (Renascent Africa). Pode o Renascimento africano liberal, sob a égide da RSA, ser um motor libertário para a África, ou o governo negro da RSA vai simplesmente caucionar e legitimar as veleidades hegemónicas de certos interesses sul-africanos? O período da transição do Apartheid ao governo da ANC encontrou Moçambique também num período de transição política e de incerteza muito importante, e isso foi-nos fatal. A SADCC para a qual nós tínhamos contribuído substancialmente para criar e pela qual pagamos um preço elevado, nasceu contra a teoria da constelaçãode Voster e como instrumento político de resistência regional contra o imperialismo e a dominação racista da RSA. Mas, no momento da transição democrática para a qual tínhamos contribuído, nós gritamos pela nossa ausência. A então SADCC permitiu que a RSA mudasse e reencontrasse o seu novo equilíbrio sem nós. Em vez de termos nova RSA como membro da dinâmica política regional, transformámo-nos em satélites da nova África do Sul. É como se a passagem de SADCC a SADC fosse, na realidade, a vitória da teoria da constelação. A equilibrada geopolítica de Moçambique, com a sua capital na ponta sul, foi o resultado da necessidade de proteges o porto contra as investidas ocupacionais e anexionistas da África do Sul. A RSA sempre quis anexar Maputo, por razões militares (conflito Anglo-Boer) e económicas. O colonialismo português sempre se opôs quer a ceder o porto de Maputo, quer à divisão do país pelo Zambeze. A primeira República também se opôs veemente às veleidades anexionistas sul-africanas. Ora, a primeira República termina com os acordos de paz e com as eleições após um longo período de guerra. Esta guerra não foi civil, nem sequer foi unicamente fratricida. Há uma série de questões que merecem ser postas. Quais são as verdadeiras razões da guerra? A quem é que a guerra serviu? O que é que o país ganhou? O que é que o país perdeu? Há outros vencedores? Existem três cenários possíveis. 1º Cenário: O país perdeu. A guerra civil significou para o país um retrocesso do ponto de vista humano, do ponto de vista económico e do ponto de vista social. Do ponto de vista humano, foram destruídos todos os tecidos sociais que na primeira República, e mesmo antes, se tinham dificilmente cozido. Hoje nós somos tribalistas, racistas, mas sobretudo adoptamos esta nova doença Ocidental que se chama individualismo. Do ponto de vista económico, as poucas infraestruturas que tínhamos foram meticulosamente destruídas e a nossa dívida externa tornou-se uma das mais elevadas do mundo. Do ponto de vista social, todas as redes de solidariedade foram destruídas e, no seu lugar, nasceram a desconfiança entre vizinhos, famílias e mesmo no interior de uma mesma família. 60 Mbeki, 1998 61 Craxi, 2004. CAPITULO III 2º Cenário: O país ganhou. Pode-se avançar o argumento da paz: o país conquistou a paz! Mas o que é a paz? É simplesmente a ausência da guerra? Qual é a relação entre a paz e a justiça? Um sistema injusto ou percebido como tal pelas populações é necessariamente fonte de conflito. Com efeito, existe uma relação intrínseca entre injustiça –ou a percepção de uma realidade como injusta –e a violência. A segunda República é percebida pela população como individualista e injusta. No mesmo momento em que aumentam no país o número de Bancos, de vilas luxuosas, de viagens para shopping em Nelspruit, Lisboa, Dubai ou para o Carnaval do Rio de Janeiro, Moçambique foi aceite no programa IPIC do Banco Mundial destinado aos mais pobres do mundo. O segundo argumento que se pode avançar para defender a vitória do povo é a instauração da democracia. A favor desta tese podem-se mostrar muitos indicadores a começar pela actual constituição, a existência legal de partidos políticos, a existência de meios de comunicação de massas privadas; rádios, televisões, jornais; a existência do ensino secundário e superior privados, a existência de associações, etc. Apesar dos elementos positivos apenas mencionados podemo-nos questionar quanto à natureza da democracia moçambicana e quanto à capacidade de os partidos políticos serem representativos na sua forma actual. Podemo-nos interrogar quanto à capacidade de as populações moçambicanas compreenderem e, por conseguinte, participarem de uma maneira consciente numa democracia que não fala a língua e a linguagem das pessoas, que não haure a sua legitimidade institucional nos imaginários colectivos das populações. Ou seja, de uma democracia que se apresenta mais como uma cópia das instituições políticas, jurídicas e constitucionais do Ocidente, que, em definitivo, são respostas políticas e jurídicas aos problemas com os quais os europeus estiveram confrontados num determinado momento da sua história. Se a nossa democracia não encontra a sua legitimidade no interior do país e do povo, onde é que vai buscar a sua legitimidade? Na comunidade internacional? Nas Organizações Internacionais? Nas embaixadas? Na Fundação Ford? Onde é que estas instituições foram buscar a sua legitimidade política e moral para poderem legitimar e servir de garantes à democracia Moçambicana? O terceiro argumento que se pode avançar é o mercado livre. Teoricamente, todo moçambicano pode ser empresário. Mas onde é que os moçambicanos vão buscar o dinheiro para investir? Onde é que o povo que nunca foi proprietário de nada, nem sequer de si mesmo, vai aprender a arte do empresário? Este dogma liberal –que evacua até o postulado smithiano da necessidade de respeitar as regras estatais e mesmo divinas –não contém nele mesmo os germes da corrupção e, por consequência, da violência que se assiste em Moçambique? Ele não acarretou consigo a confusão entre o público e o privado? Entre o homem político e o empresário? Ou ainda pior, não transformou a política num meio para atingir objectivos individuais de carácter económico? Desta forma, não falsifica a democracia e o debate político? Como têm defendido alguns especialistas (Sabelli, Suzan Jorge), existe o risco de se hipotecarem as liberdades das populações às alianças entre as elites (político- económicas, sem excluir uma participação das elites intelectuais) e os interesses de certas facções ultra-liberais do Norte do mundo. 3º Cenário: Existem outros vencedores Talvez existam vencedores da segunda guerra de Moçambique. Mas será que se tenham que procurar em Moçambique e entre os moçambicanos? Não será que se tenha que procurar os vencedores entre os que até há poucos anos controlavam as alfândegas nacionais? entre os que controlam as nossas fronteiras marítimas? Ou os que controlam CAPITULO III o tráfico financeiro e monetário? Entre os que querem construir bases militares no país? Ou tem que se procurar os vencedores entre os que inundam literalmente Moçambique com os seus produtos, ao mesmo tempo que maltratam e humilham os moçambicanos, não obstante os sacrifícios feitos pelos moçambicanos pela sua libertação? Em definitivo, parece-se poder dizer que nós, e quando digo nós, quero dizer, nós moçambicanos perdemos a guerra. A Frelimo não ganhou, mas também a Renamo não ganhou. O país teve um número inconfessável de mortos, aleijados, as infra- estruturas económicas, escolares e educativas destruídas. O país teve os seus diferentes tecidos sociais gravemente afectados. Mas a Frelimo não ganhou, a Renamo não ganhou e o povo também não ganhou, que foi o vencedor da guerra? Aquilo que a RSA nunca conseguiu nem no período colonial, nem na primeira República fê-lo depois da guerra. Se o porto de Maputo não foi anexado nem Moçambique foi separado do Zambeze, é evidente que sob o ponto de vista puramente económico o sul do país ficou mais vulnerável aos interesses económicos da RSA através da auto-estrada. Mas mais profundamente, nunca como hoje a economia do sul de Moçambique esteve tão dependente da economia sul-africana. Ou talvez seja melhor dizer que nunca houve tanto conformismo à hegemonia económica da África do Sul como hoje. Internamente, dada a vizinhança entre as províncias do sul de Moçambique com a maior potência económica continental, o sul, como Lázaro, recolhe das migalhas que caem da mesa do Senhor. Aliás, a África do Sul, investindo quase unicamente no sul, contribui para aumentar as assimetrias no país o que aumenta os problemas no tecido político nacional. A nível regional, a SADCC tinha nascido como uma instituição económica vocacionada para combater a hegemoniaregional do sistema de Apartheid. Tratava-se de uma cooperação económica pela negativa, mas historicamente necessária. Todavia, esta instituição cometeu dois erros históricos fundamentais. O primeiro: não ter sido capaz de se transformar num organismo prioritariamente político. O segundo: ter aceite ser fagocitado nas lógicas da expansão economicista da RSA. Quando se estava em conversações entre De Clerk e Mandela para a libertação deste último, era claro que se estava num processo inelutável de mudança. Era óbvio que o mesmo factor –fim da guerra fria – que tinha levado ao fim do monopartidarismo em Moçambique, iria também conduzir ao fim da democracia mono-racial da RSA, levando os dois países a alinharem na única política e organização social possível. Isso levaria a uma mudança política na RSA, mas também à mudança das relações sociais e ao processo distributivo dos recursos económicos. O primeiro processo –o político –caminhava sem problemas, mas era previsível que o segundo fosse muito mais complicado. A RSA teria homens de cores e raças diferentes a trabalharem para criar uma dinâmica unívoca e comum, a que mais tarde se chamou a visão de New South Africa. Ora, enquanto as conversações entre Mandela e De Clerk decorriam com altos e baixos, nós ficámos a assistir. Permitimos até que países e comunidades mais longínquas, que muitas vezes tinham sido cúmplices do regime do Apartheid, tomassem parte do processo de reconciliação. Deixámos que os compromissos entre antigos inimigos internos se resolvessem e acabamos sendo nós a integrarmos a RSA no que passou a ser a SADC. Ora, o peso económico que a SADCC queria combater passava a ditar as suas próprias leis e objectivos ao organismo que nasceu para combatê-las. Se tivéssemos que comparar com o processo europeu, diríamos que a RSA é a Alemanha regional, quer pela natureza da sua política que levou à Segunda Guerra Mundial, quer pela importância económica que tem no centro mesmo da Europa. A CAPITULO III França teve a inteligência política de começar a integração europeia com uma Alemanha ainda fragilizada economicamente, mas sobretudo, moralmente, numa dinâmica, que começou com económico, mas sedimentou-se no político. É exactamente a valência política da Europa que faz com que possa existir uma certa igualdade entre a Alemanha e Portugal, entre a França e a Bélgica, entre a Itália e o Luxemburgo, etc. O que a relação de trocas não pode fazer, fá-lo uma dinâmica política lúcida. Quando a África do Sul estava num processo de transição, nós poderíamos ter transformado a SADCC num estrutura política, com uma espécie de organismo parlamentar consultivo, uma espécie de instituição penal para arbitrar conflitos. A posição moral da África do Sul pós-Apartheid não teria permitido que não integrasse estes organismos nas suas dinâmicas políticas. A maneira como o processo regional foi conduzido permitiu que os interesses económicos e hegemónicos da África do Sul, desta vez mediatizados pelos novos actores políticos, se tornassem, de facto, o grande vencedor da guerra –não só em Moçambique – e expandissem a sua hegemonia económica pelos países da região e mesmo mais longe no continente. Se a aproximação regional (SADC) foi guiada (como parece ser) por esta lógica economicista e de Renascimento Liberal, como foi teorizada por Thabo Mbeki, então as teorias constelacionistas de Voster teriam ganho. Nelson Mandela teve a intuição de conceber o direito não como nos é apresentado normalmente pela iconografia, uma mulher com uma espada na mão pronta a cortar, mas como uma costureira que, com muita paciência e tenacidade, coze as diferentes partes, liga linhas diferentes a fim de criar um tecido único. A intuição de Mandela foi boa. O que a África do Sul tinha necessidade não era de uma mulher com espada pronta a cortar, mas do trabalho paciente e meticuloso de uma costureira capaz de recozer as relações sociais. Podem-se discutir métodos e os resultados da comissão de reconciliação chefiada por Desmond Tutu, mas não a filosofia que a subentende. Aliás, este é o coração mesmo da filosofia Ubuntu 62. Não se pode separar a filosofia Ubuntu da política de Renascent Africa. Ora, ela apresenta duas aporias fundamentais. Primeira: o Renascent Africa tem uma vocação continental. Mas esta vocação não tem em conta, para fora da RSA, a necessidade de se fazer preceder ou, pelo menos, acompanhar por um processo de reconciliação da RSA com o continente ou pelo menos com a região. A reconciliação limita-se ao interior do país e não tem em conta a destruição económica e dos tecidos sociais dos países vizinhos e, nomeadamente de Moçambique. A New South Africa supõe um sistema de discriminação positiva orientada para diminuir as divergências entre classes e raças no interior do país. Quando olhamos para as relações entre a RSA e ou seus vizinhos, apercebemo-nos que, para além da dimensão do discurso, só a dimensão económica conta. Em termos de balanço de trocas económicas, as relações entre Moçambique e RSA são piores que as relações entre Moçambique colonial e a África do Sul do tempo do Apartheid. Segunda: se a dimensão do Ubuntu se faz simplesmente em termos de discursos a nível interno e a nível regional, mas não se consegue inverter a pirâmide e entrar num sistema de distribuição e de solidariedade –como a União Europeia, apesar do seu liberalismo, faz para os países mais fracos economicamente, e lá se está a nível do político –então a costureira Ubuntu vai fazer trapos ligeiros e pouco sólidos, susceptíveis de ser rasgados ao pequeno movimento. Contudo, apesar da necessidade de termos presente estes elementos de «fronteira», talvez sobretudo por estarmos justamente conscientes desses problemas que nos vêm do exterior, temos que nos defender reforçando o tecido social interno, a 62 Mbana, 2003. [A10] Comentário: Correcçao tardia – Fevereiro de 2015 CAPITULO III umidade nacional, a moçambicanidade, cujos inimigos principais são hoje, do exterior, novos sistemas de dominação representados pela globalização das economias, dos programas de ajustamento estrutural do BM, o sistema de dívidas, os sistemas de ajuda. De forma resumida: os mecanismos do ultra-liberalismo. Os inimigos do interior são a falta do sentido histórico das elites combinada com a sedução acrítica e doentia da pecúnia. CAPITULO IV Por um triplo contrato moçambicano 1. Contrato Cultural A democracia conheceu duas fases historicamente importantes: a democracia grega e a democracia liberal herdada da Revolução Francesa. Na Grécia Antiga, os cidadãos eram chamados a participar directamente na vida da cidade. Foi este estado de coisas que permitiu a definição da democracia como o governo do povo pelo povo e para o povo. Mas, muito rapidamente, o facto de conceder o direito de voto só a algumas categorias de pessoas e de recusar a outras categorias cuja culpa era simplesmente ter nascido e pertencer a uma determinada categoria social (escravos ou militares), criou uma certa insatisfação. A falência da democracia grega reside no seu exclusivismo, na sua incapacidade de pôr todos os «cidadãos» em pé de igualdade. Foi para responder a esta insatisfação do modelo grego que os pais da Revolução Francesa de 1789 puseram em causa os princípios fundamentais do governo das sociedades encarnadas pelas monarquias e as sociedades feudais estabelecidas há mais de dez séculos na França e na Europa. Para os revolucionários, estas formas de governo eram profundamente inigualitárias, injustas e liberticidas. Eis a razão pela qual eles propuseram uma nova ordem fundada nos ideais da liberdade, igualdade e de fraternidade a que eles chamaram de ordem democrática. Assim vistas as coisas, a democracia comporta duas partes: uma axiológica e outra institucional. Sobre o plano institucional, ponde em causa as monarquias que extraiam aprópria legitimidade da transcendência, da história e da tradição, a revolução democrática cortou o cordão umbilical entre a sociedade e a transcendência, inscrevendo na imanência a fonte de toda a legitimidade. Desse modo, a sociedade adquire uma real autonomia colectiva. Sobre o plano dos valores, o conceito de igualdade é expresso nos conceitos liberais do século XIX e concretizado princípio da Declaração dos Direitos do Homem e do cidadão. A dimensão axiológica repousa essencialmente no princípio da igualdade em direito concebido como uma abstracção para corrigir as desigualdades naturais. A dimensão axiológica da democracia impõe, de uma maneira apodíctica e não negociável, o respeito pelos direitos do homem, a igualdade entre os cidadãos e o respeito pela dignidade das pessoas. Apesar de terem visto dia no Ocidente, estes valores conquistam gradualmente o mundo inteiro e tornam-se parte do patrimônio da humanidade. Elas são uma das maiores contribuições do Ocidente para a história humana. Se os valores não são negociáveis, as instituições, ao invés, nunca conheceram, na história das democracias, uma forma única. Se os valores têm uma vocação universal, a dimensão institucional da democracia releva da história, das sociedades e das culturas. Isso explica a diferença enorme de modelos democráticos entre sociedades com uma tradição democrática provada, como podem ser os EUA, a França, a Inglaterra, a Suiça, etc. As instituições, melhor, os modelos institucionais de democracia podem e devem mudar, podem e devem ser aculturadas, haurir a sua legitimidade dos imaginários colectivos, das linguagens das pessoas, da maneira como eles concebem a sua vida social e colectiva. Eis o que eu chamo contrato cultural. Um dos paradoxos da democracia moçambicana é que ela põe justamente em causa uma série de instituições como o até então mono-partidarismo da Frelimo, o [A11] Comentário: Minha proposta é: havia CAPITULO III estatuo político da Renamo, etc. Mas, ao mesmo tempo, reabilita instituições não democráticas, como são os «hossanados» poderes tradicionais. Ainda mais preocupante, é que essa reabilitação faz-se sob o impulso de uma série de organizações internacionais, contra a vontade e a compreensão dos actores políticos nacionais. Sob a égide de uma sociologia política bastante em voga que pretende que a diferença de representatividade está no binário cidade (Frelimo)-Campo (Renamo), identifica o campo com os chefes tradicionais que teriam sido os principais suportes da guerra da Renamo. Mas, de uma maneira mais profunda, existe uma espécie de antropologização das culturas africanas e sua consequente condenação hegeliana a um perpétuo tradicionalismo a-histórico. Parece-me óbvio que não se trata de ressuscitar as tradições ditas africanas. Aliás, tradição que dizer tradere: o que se transmite de um grupo e de uma geração a outra. Todavia, nenhuma geração aceita o passado que lhe é transmitido de uma maneira acrítica. Cada geração olha para trás para apreender o que o passado tem de bom e recusar o que não lhe convém. Ora, esta escolha faz-se em função da vida presente, da realidade social presente. A nossa realidade é democrática, de participação colectiva. Se há no passado, nas instituições algo que nos possa ajudar neste elã de democratização, que possa servir para aquilo a que Eboussi chamou utopia crítica, isso é bem-vindo. Mas aquilo que não serve e é mesmo contrário ao espírito do tempo que vivemos, não tem sentido que seja reabilitado. Aliás, nos debates que emprenham fortemente a filosofia africana, muitos pensadores têm acusado a tradição africana de ser responsável pela situação de pobreza e de subdesenvolvimento. Acusa-se a tradição africana de não ter dado ao continente forçada sua não democratização. O chefe, o ancião teia nestas tradições sempre razão. Em consequência, o debate político e social não seria possível. Acusa-se a tradição de não ter democratizado o ensino e a transmissão do saber. As nossas tão «hossanadas» autoridades tradicionais e mesmo os régulos não escapam a esta tradição não democrática da qual a filosofia africana quer distanciar-se, mas parece que há tentativas dos novos Heges de nos atracar a elas ad vitam eternam. O contrato cultural não é para mim a reabilitação das instituições ancestrais. Já disse que os valores da democracia liberal não são negociáveis. Então de que é que se trata? Primeiro: é preciso ver que se a dimensão axiológica da democracia se manteve a mesma em todos os países ditos ocidentais, a forma institucional variou de lugar para lugar, de Nação para Nação. Cada país pensou na democracia axiológica inventando, digo bem criando, parturindo instituições sociais adequadas a esta nova maneira socialização, a partir da compreensão dos imaginários colectivos das suas populações, a partir da própria história. É preciso entender que as diferentes formas institucionais que a democracia liberal teve são a história das respostas (históricas e sociais) que os diferentes países (culturas) deram ao problema da democracia quando confrontados com ele num mento da sua história. Eles tomaram a sério duas coisas: primeiro, a democracia como valor; segundo, a própria cultura e a própria história. Não para aculturá-la de uma maneira acrítica na democracia (o que nos levaria aos paradoxos da democracia de Atenas), mas para pensar as condições de possibilidade da realização da democracia a partir das próprias particularidades históricas. É necessário ousar enfrentar a própria cultura e a própria história. É preciso ousar estudá-la a sério, frequentá-la do interior, para poder interroga-la na sua forma e nos seus substractos. A componente que falta às nossas leis, ao nosso avanço democrático, ao nosso debate institucional e mesmo político é a dimensão moçambicana da política e da democracia. É necessário conhecer a fundo duas tradições: a tradição formal das democracias ocidentais e, sobretudo, o que ela subentende sob o ponto de vista da diferença formal em termos de história cultural dos diferentes povos. Mas mais importante ainda, temos que conhecer as nossas tradições e culturas para, a partir delas, CAPITULO IV pensar o direito e a democracia, para que as nossas instituições possam haurir a sua legitimidade dos imaginários colectivos das nossas populações. Insisto: não se trata de conhecer a tradição para segui-la ad literam, mas para se inspirar nela e para sublimá-la e, através deste processo de metástase, criar um direito que seja a imagem e semelhança da maneira como as diferentes populações entendem a vida política e social. Não teríamos, assim, uma democracia incompreensível para as populações ou, então, que se cala paradoxalmente nas autoridades tradicionais, ao mesmo tempo que imita de uma maneira ridícula e a-histórica as tradições ocidentais. Mas como a democracia é um conteúdo axiológico e uma forma, a tradição é também, em si mesma, um conteúdo e uma forma. Boa parte da crítica da filosofia africana à tradição concerne a sua forma, mas também ao seu conteúdo. É verdade que o conceito de crítica compreende a avaliação de todas as componentes: as negativas, mas sobretudo as positivas. Para ser intelectualmente honesta e exaustiva, a crítica deve tentar identificar os aspectos positivos presentes nas tradições: nas suas formas e no seu conteúdo. Montesquieu falava do espírito da lei. Penso que é importante da mesma maneira, pensar no espirito que se esconde por detrás da tradição. Fazer passar o nosso ajustamento cultural pelo egoísmo é inspirar-se nos elementos mais problemáticos do Ocidente. Todavia, não podemos tomar de ligeiro esta crítica. De facto, nós temos que analisar de forma crítica o problema que as nossas estruturas sociais comportam em termos de incremento da pobreza, de incapacidade de investimento económico. Mas, sobretudo, na manutenção de um sistema que favorece o parasitismo e o espírito de dependência quecertamente são componentes importantes na configuração cultural geral da economia e do espírito miserabilista que nos tem caracterizado. Ao mesmo tempo, quando olhamos para o Ocidente temos que nos recordar que nem tudo o que luz é ouro, que o egoísmo é a maior síndrome e a maior fonte de desumanização do homem e dos conflitos entre sociedades que a história da humanidade conheceu; que o ultra-liberalismo é um sistema económico que não pode deixar de produzir poucos ricos e muitos pobres. Quando o dinheiro e o egoísmo são as mas distintivas de uma civilização, não se pode criticar nem a escravatura, nem o colonialismo, nem o trabalho forçado, nem as guerras de petróleo ou outras, nem mesmo a proliferação da droga, do comércio de órgãos humanos, etc. Por outro lado, apesar dos seus limites, as nossas tradições e a nossa história não são de deitar fora como defendem Towa e Elungu. Eboussi Boulaga dizia que a tradição representa o tempo em que éramos livres e fautores da nossa história. Mas eu quero acrescentar que, apesar dos seus limites (perigo de parasitismo, de conformismo), a tradição representa, no seu espírito, a dimensão da solidariedade. Contra o reino do dinheiro, as tradições africanas propõem uma sociedade de partilha. No fundo, o contrato cultural significa apreender o essencial do espírito da tradição e, ao mesmo tempo, acolher a modernidade de uma maneira também crítica e selectiva (Ka Mana). Democracia e cultura (s) moçambicana(s) Segundo o Acordo de Paz de 1992, A democracia acordada em Moçambique exige respeito à diferença de ideias, de opiniões, e de culturas, à consequente igualdade na diferença e respeito pelas instituições, num poder legitimado63. Para todas as consciências minimamente lúcidas, hoje se impõe uma participação maior das culturas no debate democrático. Por outras palavras: uma legitimação do poder e mesmo da política nacional a partir das culturas. A questão é 63 Citado por Ngoenha, Para uma reconciliação entre a Política e as Culturas. Programa de reforma dos órgãos locais (PROL), Texto de Discussão N.º , Ministério da Administração Estatal (MAE), Editado por J. E. M. Guambe e B. Weimer, Maputo, Agosto de 1997:22 CAPITULO III saber qual deve ser o nível de participação a ser deixado às culturas, a fim de que se possa forjar um direito e uma política que tenham numa moçambicanidade cultural os seus fundamentos teóricos e práticos. No discurso de abertura da 1ª Conferência Nacional sobre a Cultura, o presidente Joaquim Chissano afirmou: «a cultura é a plataforma a partir da qual se materializam os planos, programas e actividades tanto de ordem material como de ordem espiritual da humanidade, das nações, das organizações e indivíduos». A importância da cultura foi reafirmada pelo Primeiro Ministro no seu discurso de apresentação do programa do governo para 1995/1999 à Assembleia da República64. Segundo Pascoal Mocumbi, «o Governo inspirar-se-á no princípio segundo o qual o desenvolvimento deve ter a cultura como ponto de partida e de referência obrigatória e permanente». Os homens do Estado (a estes dois discursos podia se juntar o do Ministro da Cultura na Conferência sobre a Cultura, que vai no mesmo sentido dos precedentes) e muitos intelectuais moçambicanos65 retêm à cultura como um ingrediente indispensável para o incremento da democracia e mesmo no processo de governação. De uma maneira mais sistemática, a 1ª Conferência sobre a Cultura propunha- se adoptar um projecto de política cultural que deveria, face às mudanças introduzidas pela Constituição da República de 1990, indicar o papel do Estado, da sociedade e do indivíduo na preservação, fomento e promoção da cultura moçambicana66. A ideia geral da Conferência foi, portanto, propor uma política cultural, isto é, uma governação que tenha em conta as especificidades culturais moçambicanas. Em relação às governações precedentes –dos portugueses e da «primeira República» -há aqui uma evolução considerável. Contudo, uma coisa é a política cultural de um governo, outra é uma cultura política de um povo. Nesta, a política e a governação inspiram-se nas especificidades culturais do povo. Os dirigentes políticos, os programas económicos e socais partem não só das necessidades das pessoas, mas dos seus pressupostos culturais, da sua maneira de conceber, das suas possibilidades de entender, da sua maneira de agir e da sua vontade de participar. É neste sentido que se fala de cultura política francesa, que é muito diferente da cultura política americana ou inglesa. Mas se o governo deve fazer uma política cultural, temos ainda de saber onde vai buscar os pressupostos para tal política que, por sua vez, tem de velar pela cultura. Quem vai legitimar a política que se arroga o direito de legitimar as culturas? Uma cultura não é um todo monolítico, compacto ou bloqueado, mas um conjunto aberto de valores em criação contínua, em dialéctica constante de afirmação de si e de negação, de convergência e de divergência. A criação e a conservação de uma cultura não é simplesmente a interacção de indivíduos criadores e de políticas culturais, mas de interferências que se exercem entre diferentes ordens de valores –religiosos, morais, politicas, jurídicas, sociais, económicos. Estas interferências são essenciais e revelam as relações específicas que associam estas diferentes ordens de valores, mas são modificações ao sabor das contingências da história. Cada caso de interferência é um caso histórico particular. Contudo, por causa da sua natureza própria, os valores políticos e os processos que eles são susceptíveis de engendrar vão jogar um papel à parte. De facto, a vida política manifesta-se nas relações de força que opõem aderentes e adversários, determina as relações entre privado e público, e chega ao estabelecimento do poder que cria relações de comando e de obediência. Estas relações podem fazer-se sentir na vida das instituições, dos grupos e 64 Citado por Ngoenha, Para uma reconciliação entre a Política e as Culturas, 1997 (ibdi): 23. 65 Idem. 66 Idem. CAPITULO IV das culturas. Pela sua própria natureza, a política pratica uma ingerência efectiva na vida dos indivíduos porque ela exerce uma força latente reputada legítima e necessária para manter a vida pública. Ora, a fronteira entre público e privado é fluída e movente: ela constitui uma zona onde o respeito pelas liberdades individuais, dos grupos e das culturas em todos os regimes políticos põe constantemente problemas à força pública. A prática de uma ordem pública constitui um equilíbrio incerto e instável entre a força pública e as forças privadas. Enquanto tal, a vida política, ordenada em volta de valores morais e políticos indissociáveis, é parte integrante da cultura. Sob a sua forma mais rudimentar, ela surge concomitante com o aparecimento de uma coexistência social, de uma comunidade cultural ou de um trabalho em comum. A vida política organiza-se quando uma comunidade cultural adquire uma certa consistência num determinado território; quando começa a tomar consciência dela mesma e se considera um bem comum digno de ser afirmado e defendido, tanto contra os seus inimigos interiores como exteriores. Então, as relações entre indivíduo e indivíduo podem também transformar-se em relações entre cidadão e cidadão. Assim, é quase natural que os homens do poder tenham a convicção de que o seu poder se deve estender a todos os domínios culturais. De facto, os valores culturais emanam do conjunto da cultura ambiente e autoridade do poder político depende, em grande parte, da sua adequação a esses valores. Mas o exercício do poder tende a invertes as relações e os governantes, muitas vezes, consideram que o domínio da cultura depende do seu poder. Na realidade, o poder político e o governo devem estar ao serviçoda cultura que os suscita e os investe. O poder político e os governantes devem fornecer as culturas meios necessários para o seu desenvolvimento. Se o governo tem de criar condições de desenvolvimento, ele tem de criar projectos de sociedade que partam das culturas ou então dos indivíduos mais dotados dessas mesmas culturas, e não das ONG’s, das cooperações, dos doadores, do FMI ou do Banco Mundial. Os projectos de sociedade têm de se inspirar nos valores, nos sonhos das pessoas, e têm de subscrever as suas capacidades para realizar esses mesmos projectos. Isso implica que os governantes tenham de se basear nas inteligências moçambicanas. O único elemento certo, constante, que não passará com as mudanças ideológicas como foram primeiro os portugueses e depois os russos, os búlgaros, romenos, alemães do este, etc; são os moçambicanos. É sobre eles que deve ser construído todo o projecto sério e duradoiro da sociedade moçambicana. Isto implica que o Estado se deve reconciliar com os intelectuais moçambicanos, e que estes devem também reconciliar-se com a política. Vamos ter de reconciliar os jovens portadores de um saber moderno e os nossos velhos portadores do saber tradicional. Vamos ter de reconciliar a cidade e o campo. Sobretudo, vamos ter de retornar o contacto de trabalho com o campo, vamos ter de começar a pensar que o futuro de Moçambique está no campo. O anacronismo histórico que nos habita quer que tenhamos consciência de que o nosso futuro, como país agrícola, está no campo, mas que deixemos o campo para os estrangeiros. E isto quer dizer que deixemos o futuro de Moçambique e dos nossos filhos em mãos alheias. Pousar todos os nossos projectos políticos (construção da democracia e instauração duradoira da paz) e económicos sobre as nossas culturas, sobre a nossa terra e sobre os moçambicanos não quer dizer renunciar a entrar no que se chama do mundo moderno, mas tomar consciência de que nós somos moçambicanos, não japoneses, franceses ou suecos. Nós nunca poderemos reproduzir as suas instituições políticas nem ter o mesmo percurso económico, uma vez que as nossas bases culturais CAPITULO III são diferentes. Isto não quer dizer que não possamos viver democraticamente e desenvolver-nos económica e tecnicamente. Se um desenvolvimento vai ser possível, ele tem de assentar naquilo que os filósofos idealistas chamavam «o génio de um povo». O Estado moçambicano, como todos os países do mundo, é, felizmente composto por uma certa elite. Quem diz Estado, diz administradores, funcionários, professores, etc. O génio das elites consiste exactamente na sua capacidade, por um lado, de se apoiar na cultura e, por outro lado, de suscitar o interesse das culturas pelas actividades que, à primeira vista, não têm nada a ver nem com o espírito, nem com o interesse dos grupos. Caso contrário, as pessoas desinteressar-se-ão das actividades públicas (como é o caso dos eleitores do deputado acima citado), o que é perigo para a democracia e para o desenvolvimento económico. Em termos filosóficos, os gregos chamaram cépticos aos que constatavam, mas não afirmavam nada. Os primeiros entre eles resolveu o problema suspendendo o seu juízo e as suas acções, e refugiando na ataraxia, uma espécie de noite de sentimentos. Quem conhece a história social moçambicana sabe que os chopes nos anos vinte suspenderam não o juízo, mas a acção, e decidiram parar de trabalhar como forma de luta contra a acção colonial portuguesa. Pode-se mesmo pensar que muitos projectos da Frelimo, mesmo os mais justos e ousados faliram por causa de uma espécie de sabotagem passiva por parte e das culturas moçambicanas. Ora, a democracia e a paz a construir não devem significar simplesmente uma ausência de guerra nem a simples trégua, mas a relação do poder que transforma as relações de força entre as comunidades, grupos, culturas em relação de direito. Cultura Jurídica Desde há quase um século, existe em Moçambique uma governação a partir de cima. Alguns vêem-na começar a partir da centralização dos poderes em Moçambique, consequência da criação do Estado Novo em Portugal; outros com a redação da Carta Orgânica do Império colonial 67 . A codificação do direito colonial, que em certas matérias respeitava ou deixava mesmo que fossem os direitos autóctones a solucionarem certos problemas, não significava um respeito maior pelas culturas moçambicanas (culturalmente influentes para o discurso de legitimação). Era, pelo contrário, uma espécie de colonização doce, que tinha a vantagem de evitar revoltas por parte das culturas nacionais. Por este feito, as diferentes culturas moçambicanas vivem, desde há quase um século, o fenómeno de duplicidade jurídica. Não obstante o seu estatuto subalterno, os direitos autóctones foram sempre capazes de metamorfosear-se e adaptar às novas situações, aos novos desafios. Esta é talvez a maior prova da sua dinamicidade, adaptação e mesmo evolução. Existe, portanto, em todas as culturas moçambicanas, uma tradicional «duplicidade jurídica», velha de sessenta de anos. Mas esses mesmos sessenta anos viram o nascimento e o incremento de uma estrutura jurídica em Moçambique habituada, não obstante as suas referências europeias –a Frelimo não mudou fundamentalmente este paradigma –, a ter que fazer contas com a «teimosia» e mesmo a «renitência» da estrutura jurídica e política local. Isto quer dizer que, desde há mais de cinquenta anos se criou uma bivalência entre estruturas diferentes, que tiveram que aprender, muitas vezes contra a própria vontade, a coexistir e transformarem-se no encontro de uma com a outra. Se olharmos para o direito colonial português formulado pelos jurisconsultos de Lisboa para Moçambique e as vicissitudes da interpretação e aplicação pelos actores 67 Citado por Ngoenha, Para uma reconciliação entre a Política e as Culturas (Op. Cit): 27. CAPITULO IV políticos e jurídicos68, damo-nos conta da distância que separa as intenções legislativas e as possibilidades práticas da sua aplicação. Se um diálogo tendente a incrementar a presença das culturas na legitimação política se deve realizar, este deve partir desta tradição moçambicana já existe. Não se trata, portanto, nem sequer para o direito e para a política estatal, de deixar fora a água suja com o bebé, mas, pelo contrário, de transformar este diálogo de força e de submissão dos direitos moçambicanos num diálogo de reconciliação. A priori, a tacha mais importante incumbe à política nacional e ao seu organigrama de organização dos poderes públicos. Mais do que nunca, convém –para evitar equívocos –reafirmar, de chofre, a necessidade de manter a configuração das fronteiras nacionais. Mas a existência de uma Nação e de um Estado responde a dados, pelo menos na sua compreensibilidade e configuração actual, desconhecidos pelos diferentes direitos autóctones, portanto, não susceptível de ser legitimado por eles. Este é um a priori que os diferentes direitos têm que integrar nos seus percursos e o governo do Estado se deve constituir garante. A conservação das fronteiras implica necessariamente o reconhecimento de direitos iguais a todos os que vivem dentro dessas fronteiras (essa igualdade passa inevitavelmente pelo reconhecimento e pelo respeito dos diferentes pontos de referência cultural de todos os indivíduos) e também as garantias do crescimento dos indivíduos e das culturas no interior das fronteiras nacionais. Se a ideia de igualdade de direito, como anunciação de princípio, é quase evidente, é menos óbvia a concepção de igualdade que podem ter as diferentes culturas moçambicanas. Isto quer dizer que para que a política e o Estado, cujas referências teóricas e históricas se encontram em outras culturas históricas e sociedades, possam, não obstante, encontrar uma legitimação cultural moçambicana, os nossos legisladores tem que ir haurir os seus paradigmasconstitucionais da dúplice história jurídica moçambicana e temperá-los a partir da realidade histórica actual. Pluralismo Jurídico A sociedade moçambicana é de facto plural: os macuas não são os macondes, os changanas são diferentes dos chopes, etc. Se um certo poder organizador do Estado é indispensável para que uma certa moçambicanidade jurídica seja possível, a unificação do direito como condição da existência do Estado ou mesmo um excessivo centralismo do Estado poderia pôr em causa pluralidade sociológica da sociedade69. Hoje é importante reconhecer as diferentes visões jurídicas nacionais e fazê- las dialogar com o direito do Estado, cuja lógica e natureza é tentar apropriar-se do monopólio do direito. Do discurso do Primeiro ministro à Assembleia, acima citado, depreende uma vontade governista de reconhecer as prerrogativas jurídicas próprias das diferentes culturas moçambicanas e de integrá-las num processo de legalização e de governação. Este tipo de vontade é de determinação do Estado tem comummente o nome de pluralismo jurídico. Existem, porém, diferentes teorias do pluralismo. Se as principais teorias do pluralismo jurídico foram elaboradas no decurso do nosso século, algumas vêm de tempos mais longínquos. O ensinamento tradicional do direito consiste em apresenta-lo como um atributo de uma sociedade tomada na sua totalidade. É neste sentido que se fala do direito moçambicano. Esta apresentação repousa no postulado segundo o qual a sociedade moçambicana possui um único sistema jurídico, que rege o comportamento de todos os dezasseis milhões de moçambicanos, e um corolário: os subgrupos da 68 Citado por Ngoenha, ibd: 28 69 Ibd:33 CAPITULO III sociedade (etnia, tribos, comunidades rurais, etc.) não dispõem de uma autonomia jurídica. Contudo, nós sabemos que isto não corresponde à verdade: se é verdade que todos os diferentes grupos étnicos nacionais obedecem a determinadas leis do comportamento, não é menos verdade que as leis de comportamento que se podem observar nos moçambicanos do norte são deveras diferentes daquelas que se percebem, olhando mesmo empiricamente para os moçambicanos do centro ou do sul. Isto quer dizer que, não obstante a presença das leis do Estado, o direito não emana simplesmente do nível político superior. Estas constatações, na medida em que põem em evidência fenómenos de heterogeneidade, deveriam abrir estrada ao pluralismo sociólogo e jurídico. Podemos pensar que, no sistema moçambicano, existem diferentes sistemas em interacção. O direito oficial global pode simplesmente solucionar problemas e situação de conflito existente entre grupos distintos, enquanto os direitos internos aos subgrupos da sociedade têm a função de assegurar a coerência e a reprodução desses subgrupos. Isto quer dizer que o poder de legifero do Estado deveria parar nas fronteiras dos ditos subgrupos, afim de permitir que as diferentes jurisdições locais continuem a exercer o poder que lhes é próprio. O resultado seria a existência de um poder jurídico nacional que se consagraria a regulamentar as relações globais entre os diferentes grupos moçambicanos, mas que deixaria livre autonomia de gestão da vida social e política aos diferentes grupos moçambicanos. O Estado moçambicano é portador de uma certa modernidade que é necessária à vida de hoje, pois é ela que detém a educação, a técnica, os meios da saúde, da economia e das finanças. Assim, se o Estado abandonasse a gestão da coisa pública aos grupos, sem ter reforçado as suas capacidades de responder às expectativas económicas e sociais dos seus membros, condená-los-ia a uma ulterior incapacidade de seguir a corrida dos tempos. Mas uma interferência directa e sistemática do Estado impediria uma certa autonomia, portanto, necessária aos diferentes grupos. O direito, cujas fontes se encontram nas organizações sociais, não se deve confundir com o Estado. Todas as sociedades são formadas por subgrupos e cada subgrupo dispões de um sistema jurídico próprio mais ou menos autónomos, em relação ao direito do Estado. O direito do Estado joga mais ou menos o papel de chefe de orquestra nesta sinfonia de sistemas jurídicos pelo facto de que ele rega as relações entre as diferentes ordens jurídicas. Ora, o direito estatal tende a monopolizar o direito, e nesse seu esforço de monopolização encontra no individualismo um grande aliado. Existe uma correlação necessária entre o pluralismo sociológico e o pluralismo jurídico. O pluralismo jurídico é o Estado normal, quase universal de todas as sociedades. O pluralismo do direito é uma consequência do pluralismo sociológico, e nenhuma sociedade é absolutamente homogênea. Em cada campo social operam simultaneamente diferentes direitos: o direito do campo social considerado, o direito de outro ou outros campos sociais e o direito do Estado. Se pensarmos que a sociedade é formada por diferentes campos sociais, estaremos em presença de uma autêntica galáxia jurídica onde o direito estatal não joga necessariamente um papel dominante (J. Griffths). Em Moçambique o pluralismo sociológico e, portanto, jurídico sempre existe. As vicissitudes históricas por que passámos não coincide com o aparecimento daquilo que hoje se chama espaço nacional, não uniformizaram a sociedade e, portanto, o direito. Durante todo o período colonial, os portugueses tiveram que negociar com os diferentes reinos e grupos sociais, sem poderem interferir sempre nas dinâmicas internas dos grupos. Mesmo as relações dos grupos internos entre eles passaram pelo mesmo processo. Ngungunhane teve que negociar com os que tinham caído na sua vassalagem [A12] Comentário: No texto original (p.176) vem Gungunhane. CAPITULO IV deixando-lhes, assim, continuar a viver segundo as prerrogativas axiológicas e jurídicas que lhes eram próprias. António Enes é o primeiro a querer impor um direito uniforme com resultados nefastos. Depois da Independência, a Frelimo tentou impor um direito a todos. Mas o fracasso das aldeias comunais que favoreceram em grande parte a implantação da Renamo no campo, são elucidativas quanto à incapacidade de uniformizar o direito. Segundo J. Griffths, existem dois tipos de pluralismo: um autorizado pelo Estado e outro que escapa ao seu controle. Só o segundo é autêntico. Os portugueses e mais tarde a Frelimo reconheceram certas manifestações e concederam mesmo certos estatutos específicos a grupos como as igrejas, as minorias étnicas etc. Contudo, a política por eles conduzida era unitária e centralizadora. De um lado, o Estado permaneceu sempre o mestre do jogo: era ele que fixava a divisão das competências entre ele e as entidades a que ele reconhecia as autonomias e segundo critérios que lhes eram próprios. Por outro lado, esta divisão de competências era feita de tal maneira que os direitos não estatais eram simplesmente subordinados ou residuais. Tratava-se, de facto, de um pluralismo jurídico fingido. Mais do que o pluralismo jurídico deve-se falar de diversidade jurídica, uma vez que a existência de regras diferentes, aplicáveis segundo os grupos sociais ou territoriais, dependia da tolerância ou da vontade de uma única ordem jurídica, a do Estado. Neste sentido, o direito do Estado deveria ser o ponto de chegada de todo um processo de vida jurídica engendrado pelos diferentes subgrupos nacionais. Mesmo se se acaba por reconhecer o papel orquestral do Estado nas configurações jurídicas nacionais, ele não é o ponto de partida para legiferar nacional, mas o ponto de chegada. O nosso país, mesmo depois da colonização, continua a veicular modelos culturais e jurídicos ocidentais. Todavia, os diferentes direitos tradicionais resistiram bem à alienação. Somente que se esta situação se prolongasse e o Estado continuasse a ter um direito que não se inspirasse nos costumes e nos direitos tradicionais e continuasse em certos casosa legiferar contra o direito tradicional, ter-se-ia, de um lado, um Estado com leis incapazes de mobilizar o imaginário colectivo das populações e, de outro lado, grupos étnicos que vêem nele um adversário. Como a unidade de Moçambique é veiculada pelo Estado e pelas suas leis, a própria unidade, razão fundamental do centralismo do estado nacional, seria posta em causa. A transferência de um direito português, que paradoxalmente é o que se continua a estudar nas universidades moçambicanas, e mais tarde a criação de um direito colonial, que obedecia a critérios de supremacia política e económica dos portugueses sobre as culturas nacionais, nunca conseguiram abolir os diferentes sistemas nacionais e os colonizadores acabaram mesmo tendo que aceitar uma espécie de coexistência jurídica e as diferentes formulações nacionais. Transferência Jurídica A prática jurídica colonial e a prática jurídica da primeira República obedeciam à técnica da transferência jurídica. O resultado desse processo foi a coexistência de dois sistemas. Muitas vezes, as comunidades continuaram a viver segundo o seu direito; o direito recebido era só aplicado pelas instituições estatais. Poucos, são os casos nos quais se pode falar de aculturação jurídica porque, mesmo nas cidades, a maioria da população continuou a viver segundo as normas de comportamento que relevavam da prática jurídica e moral autóctones. Podemo-nos perguntar se a prática da segunda República, apesar de algumas concessões, não obedece ela também a um processo de transferência jurídica. [A13] Comentário: A frase é problemática. Propunha que fosse revista. CAPITULO III Se olharmos para o direito moçambicano e para a estrutura social moçambicana, fundamentalmente rural, com as suas diferentes concepções de lei, damo- nos conta de que o chamado direito moçambicano é um simples resultado de uma transferência jurídica ocidental. Devemos somente recordar que os portugueses falharam neste intento, como falhou também a Frelimo que nunca conseguiu impor um direito marxista uniforme em todo o Moçambique. O que aconteceu foi o estabelecimento, de facto, de um dualismo entre o direito tradicional que se continuava a impor em matérias familiares e latifundiárias, sobretudo nas zonas rurais (basta pensar na poligamia ou no lobolo) e o direito estatal que regulava as instituições estatais, administrativas ou ainda a vida económica. Mas, na prática, os direitos locais continuaram sempre a resistir ao direito estatal. Uma das formas de resistência à transferência foi a desnaturação do direito transferido. Utilizavam-se técnicas jurídicas europeias para proteger uma instituição fundamentalmente comunitária. Existe também um fenómeno de incorporação, que é uma das formas de sujeição do direito autóctone ao direito estatal. O direito autóctone é incorporado no direito estatal em todos os domínios onde não há contradição flagrante. Este processo pode chegar a uma desnaturação do direito autóctone na medida em que, em certos casos, as autoridades estatais fazem aplicar o direito autóctone pelas jurisdições que eles mesmo estabeleceram. O exemplo do régulo é emblemático, como é emblemática a reacção dos chopes à escolha certos régulos que não correspondiam à hierarquia tradicional. Os portugueses garantiram o respeito dos usos e costumes das diferentes comunidades moçambicanas, ao mesmo tempo que impunham os direitos europeus num certo número de casos. Esta atitude procedia da técnica de cooperação. Mas, na prática, esta cooperação exercia-se em detrimento dos direitos autóctones, uma vez que foram utilizados diferentes procedimentos com a finalidade de transferir a fronteira entre direitos autóctones e direitos modernos em benefício destes últimos. Os direitos autóctones são considerados contrários à civilização ou como obstáculos à dominação colonial. Por um Projecto Político democrático e multicultural O princípio unitário do direito não está inscrito na natureza do direito. O direito começa onde se inaugura a vida em sociedade. Moçambique no seu sistema cultural pluralista possui não um sistema jurídico uniforme e único, mas muitos, tantos quantos são os seus grupos culturais. Isto quer dizer que o direito não está ligado, por natureza, à existência do Estado nem à definição de regras explícitas, nem mesmo ao reconhecimento da sua racionalidade. Neste momento fala-se e discute-se muito sobre reformas jurídicas e constitucionais. O grande ausente neste debate de reforma é a tradição. Eu refiro-me às culturas moçambicanas nas quais se deve inspirar toda a constituição que queira ter na moçambicanidade cultural os seus pontos de apoio. Refiro-me à cultura política e jurídica moçambicana e não à política cultural e jurídica de um Estado com paradigmas de base e referencias extra-moçambicanas. É um facto que os nossos costumes são menos espectaculares que as reformas legislativas; porém não são menos profundas. Não é falso que sobre certos pontos o direito tradicional pode ser inapto à vida e às exigências da modernidade, como a constituição de um sistema económico liberal, baseado no individualismo e na concorrência, ou no afastamento puro e simples de sistemas jurídico-culturais autóctones, em favor de uma assimilação incondicional e cega de um sistema jurídico [A14] Comentário: Propunho a correcçao para “profundos” – já que refere-se aos costumes. CAPITULO IV moderno baseado mais sobre considerações de ordem económica que nas observações dos dados sociológicos. Mas é errado pensar que este seja incapaz de produzir novas formas jurídicas. Este é um erro que consiste em confundir o conteúdo do direito tradicional e a sua lógica. Os textos constitucionais, adaptados na nova reforma para a organização dos poderes públicos, foram decalcados dos modelos europeus que repousam sobre a referência de uma entidade abstracta, o Estado, e de um regime de exportação ocidental sobre a separação dos poderes. Estes princípios não correspondem nem às nossas culturas jurídicas, nem à organização da nossa sociedade. O que está em causa não são os modelos em si, mas a sua aplicabilidade na nossa sociedade organizada de modo diferente. Se o idealizador da separação de poderes, Montesquieu, tem razão, nenhum sistema jurídico é transferível ou importável. Isso não significa que não devamos conhecer e aproveitar as experiências que nos são alheias, isto é, os mecanismos técnicos, políticos, socais e jurídicos com os quais os outros povos deram respostas aos problemas com que se tiveram que confrontar. Mais importante ainda é que temos que nos conhecer profundamente a nós mesmos: a nossa sociedade culturalmente heterogénea, a nossa geografia vasta e conflitual, os nossos recursos (humanos) insuficientes demográfica e intelectualmente, a nossa posição económica catastrófica, o nosso lugar no mundo (entre os países mais pobres) e mesmo na África Austral. E isso só se consegue a partir de uma reflexão muito séria e colectiva sobre o que, de facto, somos e do que é Moçambique, a sua sociedade, as suas culturas e, sobretudo, os seus desejos e aspirações. Eu não falo do desejo e aspirações de um pequeno número de indivíduos, por melhor cultura e formação que tenham, nem sequer falo do que um partido pensa que o povo quer. Eu digo que é preciso que se faça um inquérito sério sobre o que são as estruturas das nossas culturas e, sobretudo, sobre o que nós queremos das nossas culturas: os objectivos que nós traçamos, os nossos sonhos, as nossas utopias, os nossos ideais para, a partir daí, pensar o direito. A nossa democracia ou será moçambicana ou não será. No momento da independência o governo deu prioridade a dois problemas: o desenvolvimento económico e a unidade nacional. Muitas vezes recorreu-se à codificação na esperança de resolver estes problemas. Para os adeptos do direito de desenvolvimento, o direito tradicional parecia mal apetrechado e mal adaptado para assegurarum desenvolvimento de tipo ocidental (Peter Abrams, Uma Côroa para Udomo); acusava-se-lhe de estar imbuído de magia e de religião, de ignorar os conceitos fundamentais, necessários para a economia do mercado, dado que ele ignora as formas contratuais necessárias à economia do mercado. Nas relações familiares, a família alargada, o lobolo, a poligamia são concebidos como instituições que entravam a acumulação económica e a mobilidade social (K. Nkrumah). O direito latifundiário é particularmente visado por estas críticas, que o acusam de conduzir à sub-exploração do solo. Os nossos legisladores fizeram reformas agro-latifundiárias a fim de transferirem as maiores superfícies possíveis de terra para o controlo do Estado. Muitas vezes, estas reformas chocam com a hostilidade dos camponeses, muito agarrados aos seus sistemas tradicionais. Como afirma E. Le Roy, este procedimento revelou-se um instrumento de subdesenvolvimento jurídico porque reforçou, por um lado, as desigualdades económicas e, por outro, excluiu, de facto, da vida jurídica indivíduos não lusófonos, nem escolarizados (que constituem mais de oitenta por cento da população moçambicana) metendo, assim, em causa os objectivos de desenvolvimento e de integração nacional. CAPITULO III Eis porque é estritamente necessário ter em conta as opiniões das populações, nomeadamente no que concerne à sua relação com o direito tradicional. Insisto que não se deve confundir o conteúdo do direito tradicional e a sua lógica. Se muitas reformas, justas e oportunas, não produziram os resultados desejados, é porque foram sentidas pelas populações como imposições de exterior. Uma transformação gradual a partir de um processo de diálogo teria dado melhores resultados. Se não se fez desta maneira, é só porque as codificações não eram simples reformas jurídicas, mas serviam também certos interesses sócio-económicos. As mudanças correspondiam, em geral, a um aumento do poder do Estado e a certas mudanças sociais. Ora, com as independências, o direito estatal, na sua concepção e na sua aplicação, passou a ser controlado pelos grupos de interesse que jogavam um papel activo no desenvolvimento dos sectores «modernos» nacionais. A maioria da população, sobretudo constituída por camponeses, ignorava este modo de pensar e o conteúdo do direito estatal, muito influenciado por modelos europeus. Era, portanto, normal que ela o evitasse e continuasse a referir-se ao direito constitucional. Isto explica que as legislações não tenham servido em nada os interesses da unidade nacional, na medida em que elas não desembocaram numa unificação do direito. Como observou o jurista da Costa do Marfim, R. Degni-Ségui, as constituições e os textos de organização judiciária da maior parte dos novos estados africanos referem- se simultaneamente à codificação e à uniformização do direito nacional. Mas ou fazem codificações pelo direito estrangeiro, e acentuam assim a ruptura entre o direito tradicional e o direito moderno, ou acabaram por consagrá-lo oficialmente voltando à opção da legislação e aos modos coloniais da solução de conflitos de leis internas. Contudo, muitas vezes o direito tradicional tinha antes passado por uma série de medidas de desconfiança. Moçambique, apesar das proclamações políticas, aplicou desde a independência o princípio de sucessão ao direito colonial português, por medo de se encontrar diante de um vacatio jurídico, resultante do não conhecimento ou da inadaptação do direito tradicional. Trata-se de medidas conservadoras. No futura, nós teremos que integrar o direito tradicional e associá-lo ao direito moderno. Primeiro, o direito tradicional foi excluído porque se pensava que ele correspondia a um estado arcaico de desigualdades sociais. Hoje pensa-se que é inadequado à economia do mercado. As legislações estatais foram muitas vezes utilizadas contra o direito tradicional. Mas muitas matérias ficaram sem codificação, deixando campo aberto a que o direito tradicional continuasse a exercer a sua influência. Mesmo nos momentos de grande ortodoxia marxista, em certas matérias, não obstante os grupos dinamizadores e as células do partido, o direito tradicional continuou a imperar, sobretudo no domínio familiar e na resolução de conflitos. Os textos constitucionais moçambicanos foram decalcados de modelos europeus, que repousam sobre a referência ao Estado, ao regime de separação dos poderes e a regra da maioria. Ora, estes princípios não correspondem às experiências das sociedades moçambicanas, onde o poder está ligado à autoridade pessoal da pessoa que o exerce, e onde o consenso aparece mais como expressão de unanimidade das vontades do que simples lei da maioria. O pluralismo ocidental herdado da democracia de Atenas permite a cada opinião exprimir-se e contabiliza através de uma adição de sufrágios, o que comporta o sério risco de exasperar os antagonismos, tornando-os ainda mais manifestos. A unanimidade pode, no ocidente como em outros lugares do mundo, servir muitas manipulações e cobrir muitas injustiças, que é, aliás, a outra parte da moeda. Mas a vontade de coesão que ele exprime encontra nas tradições africanas um substracto muito sólido. CAPITULO IV Um novo direito mais democrático e mais integrador sob o ponto de vista do desenvolvimento é possível. Porém, ele tem de ter muito mais em conta as diferentes mentalidades moçambicanas e será nestas condições mais eficaz que os planos de desenvolvimento até aqui muito decalcados dos modelos ocidentais. Não se trata de recuar ao passado pré-colonial, mas de adaptar as antigas soluções às novas exigências. Qual é a missão que a democracia moçambicana quer hoje confiar ao Estado? Quais são os aspectos de legalidade de que as sociedades moçambicanas querem abdicar a favor da existência legítima do estado moçambicano? É necessário uma espécie de contrato entre os subgrupos e o Estado, de maneira que cada um tenha a obrigação moral e legal sobre as suas acções. O Estado deve ter que responder pelas suas actividades, mas também os diferentes grupos devem ter que responder pelas suas acções. O banco de prova de uma democracia, que funciona no respeito pelas diferenças culturais nacionais, deve passar pela capacidade de cada entidade ocupar profundamente o seu lugar, no respeito pelas prerrogativas e pelo campo de outras forças e instituições políticas e sociais. Uma certa moçambicanidade já existe, e para criá-la a Frelimo jogou um papel de primeiro plano. A questão é saber se a sua consolidação passa pelo reforço de estruturas centralizadas (a descentralização quer dizer que existe um centro à volta do qual gravitam todas as outras dimensões políticas e sociais) ou por valorização das culturas nacionais no âmbito do Estado moçambicano. Valorizá-las significa não reduzi- las a folclore nacional, nem sequer reabilitá-las maquiavelicamente para depois subordiná-las às estruturas centrais do Estado paradigmaticamente ocidental, mas retomá-las como entidades em movimento e, portanto, como parceiros sérios para um diálogo social, jurídico e económico. Alguns pensadores insistem na dimensão subjectiva ou espiritual da nação; outros nas características objectivas e nas condições económicas ou técnicas que estão na origem dos nacionalismos. Ora, é necessário ultrapassar estas oposições simplistas e dar espaço às ideias, aos valores e, ao mesmo tempo, às condições concretas da existência da nação. Renan demonstrou a insuficiência da raça, da língua, da religião, dos interesses e dos dados objectivos da geografia para definir a nação. M. Weber e Marcel Mauss foram ainda mais longe na crítica à definição objectiva da nação. A subordinação das identidades culturais ao elemento político supõe que os indivíduos tenham o sentimento de que a sua dignidade colectiva –portanto também individual –é reconhecida e respeitada. Moçambique só pode atingir uma estabilidade política se forjar um projecto políticocapaz de unir as etnias que o compõem, reconhecendo-lhes uma dignidade igual. Hoje Moçambique pertence à ordem política nacional. Na medida em que a sua existência é legitimada pela vontade dos cidadãos, depende do facto de que estes interiorizem valores comuns. A moçambicanidade se funda, portanto, mais na moral que na obrigação, para utilizar a linguagem de Durkheim. Ela se constitui ultrapassando os radicalismos particulares, imediatamente dados pela etnia através da socialização familiar, mas que devem ser construídos pela nação, para criar um sentimento de pertença e de participação graças ao qual o colectivo se pode perpetuar. O trabalho realizado pelo Estado para dar uma certa homogeneidade à cultura das populações é justificado, não pela preocupação de fazer participar todos os indivíduos na vida pública, mas para dar corpo à comunidade abstracta que é a nação e certificar-se da mobilização colectiva. A diversidade cultural enquanto tal não impede a criação da nação. Ultrapassar as particularidades através de uma sociedade política não implica a supressão desses radicalismos. Aliás, não é nem possível nem desejável. A cidadania, contrariamente à CAPITULO III etnicidade, por exemplo, não é fundada sobre a identidade cultural. Não há nenhuma contradição em ser Macua, Chope ou Ndau e ser cidadão moçambicano. A diversidade objectiva, a das línguas, das religiões e das culturas, não é no seu princípio incompatível com a criação de um espaço político comum. A existência de uma nação depende da capacidade de o projecto político resolver as rivalidades e os conflitos entre os grupos sociais, religiosos, regionais ou étnicos segundo regras reconhecidas por todos como legítimas. Para assegurar a existência de uma nação de cidadãos, é necessário satisfazer duas exigências: que os indivíduos admitam a existência de um domínio público unificado e independente –pelo menos nos seus princípios –, e que eles respeitem as regras do seu funcionamento; que a igualdade de cada pessoa, que funda a lógica da nação democrática, não seja contradita por desigualdades de estatuto em outros domínios da vida social, de modo particular nos direitos pessoais. A primeira condição da democracia não é poder votar por um partido ou por outro, nem sequer poder escolher o presidente que queremos que nos governe. A democracia consiste na inserção de cada indivíduo no seio da comunidade e na participação integral na vida daquela. Por isso, temos que encontrar um espaço institucional adequando para a implementação democrática e para um diálogo de reconciliação. Em termos sociológicos, o espaço de reconciliação democrática deve ser uma unidade que tenha em conta o pequeno número dos membros e uma dimensão do território reduzido, dos quais vão necessariamente depender a participação política dos cidadãos. Em termos políticos, o espaço democrático deve permitir um diálogo contínuo e sistemático entre o Estado e as culturas. 2. Contrato Social A segunda Republica é percebida pelos moçambicanos como profundamente injusta. Ora, da mesma maneira que a questão do melhor regime, é a mais velha questão da filosofia política, a justiça é, provavelmente, o seu conceito mais antigo. Aliás, eles estão intrinsecamente ligados. Para Platão, por exemplo, o melhor regime é aquele que está em altura de fazer reinar a justiça na cidade, assim como o objectivo da sabedoria é fazer reinar a justiça na alma. O conceito de justiça não é e nunca foi exclusivamente político. Ainda menos jurídico. Ele pode ser apreendido em diferentes sentidos: ético, metafísico-histórico (justiça imanente), religioso (transcendental), até mesmo estético. Entre estas múltiplas acepções, não separáveis por nenhuma fronteira bem definida, toda uma série de ligações mais ou menos subterrâneas se teceram durante séculos. Esta é a razão pela qual a dimensão política e a dimensão ética estão ligadas, como bem prova John Rawls (1987) na sua Teoria da Justiça que, há trinta anos, teve o grande mérito de dar um novo alento à questão da filosofia política, que tinha sido transcurado depois de Rousseau e de Kant. Desde o aparecimento daquele livro, a justiça voltou a ocupar um espaço importante no debate filosófico actual. Pensar a justiça supõe pensar simultaneamente o conceito de igualdade e do contrato. Com efeito, uma comunidade que aspira a fazer reinar no seu seio igualdade e justiça deveria ser fundada sobre um contrato. Esta ideia não é evidente, dado que ela pressupõe uma hipótese preliminar: o carácter artificial da sociedade política. Hipótese que, desde os gregos até hoje, não cessou de ser combatida a partir dos pontos de vista mais diferentes. Mas o que é que o nosso Moçambique tem de natural? CAPITULO IV Para os sofistas (Protágoras, Híppias, Antiphon), a sociedade política não é uma realidade natural, mas um simples artefacto; toda a lei é uma convenção. Neste sentido, os sofistas são os percursores das teses contratualistas. Ao invés, Platão, Aristóteles, como o mestre Sócrates, pensam que um indivíduo separado da sua cidade deixa de ser homem, crença que faz do cidadão resultado da existência da cidade e não de um acordo entre cidadãos. Em toda a sua obra política, a começar da Política, Platão identifica a arte real, a do legislador ou do homem do Estado com a arte do pastor. Mesmo se nas obras seguintes tenta esquivar-se desta dificuldade, a verdade é que Platão não diferencia – como bem observou Aristóteles –o poder do pastor sobre as suas ovelhas ou o poder do pai sobre a sua família do poder político propriamente dito. Na Política, logo no início do livro, Aristóteles recorda que a cidade –resultante da união de muitas povoações, elas mesmas resultantes da união de muitas famílias –é a realidade natural por excelência, resultado do instinto que leva os seres humanos a reagruparem-se para assegurar a própria reprodução70. Num segundo momento, ela permite ao homem chegar através do logos, através do debate filosófico e político, à consciência plena do justo e do injusto71. Para, além desta forma suprema de comunidade (Koinônia) que constitui a cidade e se confunde com o Estado, não há nada. A dominação do platonismo e do aristotelismo sobre o conjunto da cultura medieval impediu os filósofos e teólogos medievais de conceberem a civitas, isto é, a Nação ou o Estado como criação artificial, como resultado da vontade de viver juntos que se teria manifestado uma comunidade humana. Só no século XVI é que a concepção naturalista da cidade foi globalmente posta em causa. Esta mutação foi devida a dois factores independentes, mas ligados. De uma parte, o desenvolvimento das ciências experimentais, da tecnologia, do racionalismo e do humanismo contribuem para fazer recuar a concepção religiosa do mundo e, portanto, da política. Testemunham este facto a inclusão, há algumas décadas de distância, de doutrinas tão subversivas como as de Maquiavel e Jean Bodin (teóricos da soberania do Estado face à Igreja), de La Boétie (Crítica da Servitude Voluntária), os trabalhos de Johannes Althusius e Francisco Suarez que introduziram progressivamente a noção de soberania popular, para não falar das utopias de Thomas More e de Tommaso Campanella (Cidade do Sol). Doutrinas diferentes, mas com um ponto comum, elas dão à cidade terrestre o seu estatuto de cidade de parte inteira, o que permite ver a cidade como um artefacto. Por outro lado, o surgimento de uma burguesia comercial conduz os filósofos a pressentirem a necessidade de fundar a lei distinguindo a esfera pública –lugar de luta pelo poder –da esfera privada –destinada ao enriquecimento pessoal de carácter material ou espiritual. Ao mesmo tempo, de conceber progressivamente a relação social, constitutiva da esfera pública. Em outras palavras: o contrato, o pacto ou a convenção. Nos dois séculos que vão seguir, este modelo vai tornar-se dominante. Ele inscreve-se numa problemática geral que écomumente identificada como a questão do direito natural. As grandes linhas deste modelo encontram-se nas obras dos dois principais jusnaturalistas do século XVII, Hugo Grotius (Do direito da guerra e da paz, 1625) e Samuel Pufendorf (Do direito da natureza e das gentes, 1972). Depois, o tema do contrato é retomado e desenvolvido por Hobbes no seu Leviathã (1651), Locke nos dois tratados sobre o Governo Civil (1690) e, algumas décadas mais tarde, por Rousseau no seu Contrato Social. 70 Aristóteles, Les Politiques.Livro I, 125a-1252b, 1993. 71 Aristóteles, Les Politiques. Livro I, 1252b-1253a, 1993. [A15] Comentário: Pelo sentido do período, sugiro ao autor a subtituicao do artigo indefinido “uma” pela contraccao preposicional “numa”. CAPITULO III Durante dois séculos, o tema do contrato sofre um eclipse quase total. Mas, inesperadamente, reaparece da obra de John Rawls (Teoria da Justiça, 1971), ponto de partida de um extraordinário renascimento da filosofia política, sobretudo nos países de expressão inglesa. Em pleno período de guerra da religião, que será seguida pela guerra de trinta anos, o holandês Grotius escreve que o Estado é «corpo perfeito de pessoas livres, que se juntaram para gozar tranquilamente dos seus direitos e para a sua utilidade comum». O que se esconde por detrás desta definição de Estado é a sua «investidura», a missão de fazer reinar a paz, sem a qual as transações comerciais não poderiam prosperar. Outra ideia de Grotius é que a sociedade política repousa sobre o consentimento de cada um ao sacrífico voluntário da sua própria independência, sacrifício graças ao qual cada um recolherá o benefício de uma segurança garantida pelas leis, assim como pelas instituições encarregadas de fazê-las respeitar. Esta operação desenrola-se em dois tempos. Primeiro, um pacto de associação (pactum societatis), através do qual os homens se reúnem para constituírem uma sociedade civil. Segundo, um pacto de submissão (pactum subjectionis), através do qual os membros desta nova comunidade designam os titulares do poder que terão a tarefa de protegê-los, de, por outras palavras, fazer reinar a paz. Contudo, mais do que Grotius, foi a doutrina de Hobbes que a história reteve como a primeira grande expressão filosófica da teoria do contrato social. De facto, para além de ser um grande teórico, Hobbes é o primeiro pensador (juntamente com Maquiavel e antes de Locke e de Espinosa) a avançar ideias políticas indissociáveis de uma concepção filosófica do mundo. Hobbes não acredita em Deus nem em espíritos que existiram independentemente do corpo. A única coisa que existe para ele são corpos movidos por uma força interna a que ele chama desejo. O desejo é a única coisa que explica os movimentos humanos. Mas os desejos são insaciáveis. Quando deixo de desejar uma coisa começo imediatamente a desejar outra, ao mesmo tempo que começo a pensar nos meios para satisfazer os meus desejos. Esta é a natureza do homem, é o estado natural do homem, estado de guerra permanente, de todos contra todos. A fórmula clássica é homo homini lupus. Para evitar este estado de guerra, de medo de matar ou ser morto, para escapar ao inferno terrestre, os homens até aqui isolados, prisioneiros dos seus desejos solitários decidem abdicar da sua liberdade para remetê-la a uma autoridade superior, que se encarregará de fazer reinar a paz e a segurança. O soberano escapa a toda e qualquer regra. Se formos ao essencial, Hobbes, indiferente à questão clássica do melhor regime político, tenta legitimar um despotismo de tipo novo: não de um homem ou de muitos homens, mas da lei, a única que pode garantir a paz civil. Locke insiste na necessidade de não confundir o estado natural com o estado de guerra. O estado natural é um estado de paz, de assistência e de conservação mútua, do qual nada nos obriga a sair. Por outro lado, o contrato de Locke não produz um soberano exterior aos mandantes, livre de toda a obrigação. Ao contrário, o governo permanece sob controle, sob dependência dos que lhe confiaram a missão de governar. De resto, este governo não deve nunca agir segundo uma outra regra fora da vontade do grande número. Locke aparece como o primeiro teórico de um governo parlamentar. As suas ideias inspiraram na Inglaterra a redacção da Declaração dos Direitos (Bill of Rights) de 1689, da Constituição Americana (1787) como a Declaração francesa dos Direitos do Homem (1789). Eis porque Locke é o pai incontestável do liberalismo clássico. Mas ele não é o pai da tradição democrática no sentido estrito. Este título, se se tivesse que atribuir a CAPITULO IV alguém, seria a Rousseau do Contrato Social. Para o pensador da Genebra, no estado de natureza, os homens vivem isolados, separados uns dos outros. Eles decidem reagrupar- se para viver melhor –decisão racional, pois a natureza do homem só se realiza plenamente no estado social –, mas não pretendem renunciar a nenhuma parcela da sua liberdade original. Deve-se, portanto, encontrar uma forma de associação que defenda e proteja com toda a força a pessoa e os bens de cada associado, através da qual cada um une-se a todos, obedecendo, entretanto, só a si mesmo, permanecendo, assim, livre como antes72. A solução deste problema reside num pacto social. As consequências são: de um lado, as leis que regem um tal estado só podem ser a expressão da vontade geral – que não é a mesma coisa que a vontade de todos; por outro, a forma legítima de um tal governo só pode ser a democracia directa, dado que Rousseau refuta a ideia de que os cidadãos possam delegar as suas liberdades a representantes. A Revolução Francesa deve tanto a Rousseau como a Revolução Americana a Locke. Mas o radicalismo do primeiro resistirá menos bem às provas dos factos que o pragmatismo do segundo. A Constituição Americana não mudou em dois séculos, a Revolução francesa acabou no banho de sangue que todos conhecemos e a sua herança não cessou de ser questionada. Talvez haja algo de utópico na ideia da democracia directa defendida pelo genebrino. O que é certo é que a questão do contrato continua a inspirar pensadores como Fichte (Fundamento do direito nacional segundo os princípios da doutrina da ciência, 1796 e 1797), Kant (Doutrina do direito, primeiro volume da metafísica dos costumes, 1796). Todavia, a teoria do contrato nunca colheu unanimidade. Espinosa não a pôs no centro do seu Tratado Político (1677); Montesquieu ignorou-a; David Hume criticou- a vivamente no seu ensaio de 1748. Nem Hegel nem Marx tomam a sério a questão do contrato. Temos que esperar até Rawls. Só que este encontra-se colocado ao serviço de uma concepção igualitária da justiça. Trata-se de lutar contra as injustiças sem sacrificar as liberdades. A Justiça como equidade A questão que está no centro das preocupações de John Rawls parece-me importante quer para o contexto actual da comunidade internacional, quer para o contexto moçambicano: «em que condições poderia se instaurar, nas sociedades modernas, uma justiça distributiva?» Vou tentar expor, traduzindo para a situação de Moçambique, as preocupações de Rawls. Se os cidadãos moçambicanos, os do sul como os do Norte, os das cidades como os do campo, os filhos das elites como das camadas mais simples, partissem na vida com chances iguais, a justiça consistiria em tratar todas as pessoas da mesma maneira, isto é, a cada um a mesma quantidade de direito ou de bens sociais. Mas as coisas não se passam assim. Podemos dar tantos exemplos, que se tornam inútil, para provar que partimos para a vida com possibilidades desiguais. Dado que as oportunidades são, à partida, divididas de uma maneira desigual, a justiça deve consistir em dar mais a aqueles que têm menos a fim de restaurar, à chegada, a igualdade. Se se concebe a justiça não em termos matemáticos mas em termos de equidade, pode-se pensarque uma dose de desigualdade é indispensável à justiça. Como determinar esta dose e quais são as modalidades da sua aplicação? 72 Rousseau, 1995. [A16] Comentário: Por referir-se à teoria do contrato, o pronome deve ser “a” e não “o” como vem no texto original. CAPITULO III A resposta de Rawls consiste em reabilitar, três séculos depois de Grotius, o conceito de contrato social. O meu objectivo, diz Rawls, «é apresentar uma concepção da justiça que generaliza e leva ao mais alto nível de abstracção a teoria bem conhecida do contrato social, como ela se apresenta, entre outros, em Locke, Rousseau e Kant.» Algo em termos filosóficos me parece importante nesta obra. Rawls inscreve a sua obra numa perspectiva reformista apresentada como a única via possível contra as derrotas previsíveis da via revolucionária como aquela que conhecemos em Moçambique. Apesar de nos encaminharmos em direcção a um sistema liberal, a situação de injustiça que se vive hoje no mundo e em Moçambique não é aceitável. Ouvi um deputado a dizer na TVM, «o liberalismo (referindo-se às privatizações e ao sistema de mercado selvagens) é o que está a dar». Uma figura histórica da política moçambicana disse-me ter constatado numa reunião do partido a que pertence –a partir dos bens e do discurso –a impossibilidade do regresso a uma prática socialista. E acrescentou que a Frelimo foi o que foi dividido ao contexto internacional. Hoje, isso não é possível e tentar fazer o discurso de 1977 seria suicídio histórico. Todavia, a injustiça, a exploração e a miséria da maioria da população tornaram-se moralmente e politicamente aceitáveis? Os políticos não podem ser fatalistas, as posições políticas não podem depender do que está a dar, mas devem revelar de convicções fortes. É verdade que a via da revolução não é praticável e não só por razões de conjuntura histórica. Mas isso não pode significar nem conformismo nem que aceitamos pautar com a injustiça. Existe uma busca intelectual e um debate no interior do mesmo mundo liberal em favor do «reformismo». É neste sentido que defendo o pensamento de Rawls. Pode ser uma contribuição pertinente para pensar Moçambique. Com efeito, apesar de ressuscitar o contrato social, Rawls não faz um simples retorno às teorias clássicas do direito natural. Ele parte de uma hipótese do interesse, na medida em que esta lhe permite e lhe pode permitir uma imagem rigorosa do que deveria ser uma sociedade justa, uma sociedade bem ordenada. Mas é necessário restituir o verdadeiro sentido à posição original, isto é, à situação de incerteza que logicamente precede o momento da assinatura do pacto. Para Rawls, os futuros contratantes não deveriam saber do que seria a sua sorte pessoal depois da assinatura. Mantidos num estado de ignorância, sem nenhum a priori filosófico ou religioso, eles acabariam por aderir ao sistema que melhor combinaria estas duas exigências: a exigência da maior liberdade individual (no caso em que se nasce rico) e, por outro lado, (quando se nasce pobre) a da maior igualdade possível de chances. Esta situação desembucha sobre a formulação de dois princípios susceptíveis, a eles só, de definir o que se deve esperar de uma sociedade justa. Contra os marxistas, ele afirma que o primeiro princípio é o da liberdade, que não pode ser limitado por nenhum outro que não seja a liberdade ela mesma. Contra os utilitaristas, ele anuncia o princípio da diferença segundo o qual a preocupação pela justiça em geral deve, em todas as circunstâncias, ser colocado antes da preocupação pela eficiência e pelo bem-estar. A priori resulta claro que os princípios acima enunciados parecem jogar uns contra os outros. O direito à educação, à assistência médica a serem oferecidos aos mais desfavorecidos só pode ser financiado por um mecanismo de redistribuição de riquezas com o imposto progressivo sobre o salário, mecanismo que implica para os mais ricos, uma limitação da sua liberdade de se enriquecer. Rawls pensa que é possível conciliar estes dois princípios só se o pacto social for capaz de instaurar instituições a que ele chama de democrático-progressistas. CAPITULO IV Há, contudo, aspectos do pensamento de Rawls que deixam um pouco a desejar. Primeiro, em nenhum momento ele prospecta uma sociedade fundada sobre outra coisa que não seja o mercado livre de tipo capitalista. Apesar de uma tentativa de afirmar que a sua concepção do mercado livre não implica necessariamente a propriedade privada dos meios de produção, fundamentalmente toda a sua doutrina repousa sobre o postulado frágil, segundo o qual a construção de um Estado justo só se pode efectuar lá onde existe previamente uma economia do mercado, isto é, um capitalismo liberal. Aplicado a Moçambique, nós estaríamos condenados à injustiça até ao estabelecimento definitivo de uma economia do mercado. A justiça depende, assim, do mercado, e onde não há ou ainda não há um mercado bem estabelecido se deveria renunciar à procura da justiça. Para além de ser perfeitamente indemonstrável, um tal postulado apresenta um outro inconveniente: ele conduz-nos, sem nenhuma forma de processo, ao universo de A. Smith, Bentham, J. S. Mill, e isto em detrimento da intenção de partida da teoria da justiça que era de se contrapor à definição utilitarista da justiça (assimilada por J.S. Mill com a eficiência económica) com uma definição de inspiração kantiana da justiça como equidade. Pior ainda, a partir dos anos 80, com as suas intervenções Rawls abandona a posição universalista do seu primeiro livro, onde ele reivindicava a validade da sua teoria de justiça para todas as sociedades, e confina a validade do seu pensamento às sociedades já democráticas e liberais. Por outras palavras, as sociedades africanas –para citar o nosso caso –desde que respeitem um mínimo de direito do Homem e sejam minimamente ordenadas, podem continuar a ignorar a liberdade e a justiça. É como dizer que a liberdade e a justiça são prerrogativas exclusivas de alguns povos. Rawls postula este perigoso relativismo cultural e racismo axiológico em nome do respeito pelas culturas... Isto significa carta branca a certos governos totalitários do continente em nome do relativismo cultural, mas isso significa também carta branca a certas empresas do norte nos países do sul e, sobretudo, consolida certas posições da sociobiologia. Sob o ponto de vista filosófico e ético, o relativismo cultural é inaceitável. Contudo, as teses de Rawls suscitaram um enorme debate e alimentaram o essencial do debate filosófico político dos últimos anos. Em relação aos pressupostos metodológicos, Jurgen Habermas contesta que estes sejam «metafisicamente neutros», ao mesmo tempo que acusa os dois princípios de Rawls de desenharem uma sociedade estagnada. Uma sociedade no seio da qual o papel do que se chama «auto-legislação democrática» (ela mesma fundada sobre uma utilização pública –polémica, portanto, comunicacional –da razão) não seria suficientemente valorizada. Todavia, as teses destes dois filósofos são de tal maneira próximas que os seus desacordos não têm que ser exagerados. Como diz o próprio Habermas trata-se de uma «querela» de família73. Aliás, o próprio Rawls, minimizando as polémicas, mostra estar de acordo com a posição de Habermas. Richard Rorty é resolutamente oposto. Depois de ter rompido com os «dogmas» da filosofia analítica para voltar-se para o pragmatismo de William James e John Dewey, não cessa de repetir que a ilusão fundadora é a ilusão filosófica por excelência. A construção através da qual Rawls defende a sua concepção de justiça parece-lhe uma ilustração do erro que consiste em crer que a democracia teria necessidade, por se sentir «em boa saúde», de uma qualquer «justificação» filosófica. Para Rorty, o melhor argumento em favor da democracia é a democracia mesma.73 J. Habermas, 1977. CAPITULO III A questão que a posição de Rorty levantava é saber até que ponto as convicções democráticas se coadunam com um relativismo metodológico, isto é, uma radical ausência de fundação. Temo dever dar razão a Rorty, dado que se deve admitir que a passagem de um «ponto de vista transcendental» a um ponto de vista «neo-pragmático» não nos deveria conduzir a renunciar à convicção segundo a qual a democracia constitui um bem para todas as sociedades actuais, independentemente das diferentes especificidades culturais. Que não haja verdade metafísica não impede que certas coisas sejam verdadeiras. Que toda a verdade não seja demonstrável não implica, ipso facto, que tudo valha, nem que todo o esforço de pensamento seja antecipadamente inútil. Uma segunda controvérsia (que nos interessa de perto em Moçambique) é saber qual deveria ser o peso relativo do Estado numa sociedade democrática. Robert Nozick (Anarquia, Estado e Utopia, 1974) autêntico porta-voz dos libertinos e anarquistas –como Noam Chomsky –defende o cidadão contra os direitos públicos. Pode existir um poder superior ao excelso poder dos indivíduos? Eis o postulado de partida do trabalho de R. Nozick (1974:9). Nozick não adere à teoria anarquista no sentido estrito do termo, apesar de ter escrito a sua obra nos ambientes anárquicos californianos pós-68. Ele pensa que um estado minimal é preferível ao estado de natureza, como, por exemplo, foi descrito por Locke. O estado de natureza expõe os indivíduos a toda a espécie de violências. Contra uma tal violência, existe só um remédio que é a instauração de um sistema de proteção pública, dotada oficialmente de um monopólio do uso da força, isto é, o Estado. Todavia, este Estado deve permanecer num estado minimal e o seu papel deve limitar-se, segundo Nozick (1988:45), às simples questões de protecção contra a força, o roubo, a fraude, assim como a garantir a aplicação dos contratos. Como Chomsky, Nozick recusa admitir que a tolerância possa ter limites, ou que o Estado tenha o direito de proibir seja o que for que crie problemas à sociedade, quer seja de ordem física, psíquica ou mental. Ele aceita o imposto, porque para que o Estado possa exercer o seu direito de violência legítima, segundo a famosa fórmula de Max Weber, ele tem necessidade de prelevar os impostos. O imposto, em si mesmo, não é amoral, na condição de que sirva para financiar serviços protectores. Armado destas bases libertinas, Nozick (sobretudo na segunda parte do seu livro) ataca Rawls em quatro pontos fundamentais. Inspirando-se de Tocqueville e de Mill (On Liberty, 1859) Nozick recusa o direito de o Estado impor à sociedade uma qualquer definição de bem, de moral ou de justiça. Ainda mais, não existe nenhum meio de determinar rigorosamente o que cada membro de uma sociedade mereceria a título de justiça distributiva. 1) A distribuição de riquezas defendida pela teoria da justiça beneficia, só na aparência, a colectividade no seu conjunto. Na realidade, ela beneficia os mais dotados. 2) A desigualdade de chances, no começo da vida, é na verdade um problema social, mas não deve ser encarado com um espírito autoritário e centralizador, pela simples razão que a vida não é uma corrida, na qual estaríamos todos em competição com vista a ganhar um prémio pré-estabelecido por alguém. Enfim, se passarmos da teoria à prática constatamos que os verdadeiros beneficiários das intervenções do Estado na economia não são verdadeiros pobres, mas as classes médias. O que fazer se a justiça distributiva e a igualdade social não são a solução? Para Nozick deve-se, de um lado, recorrer à generosidade voluntária e, do outro, apela para novas soluções num espírito declaradamente utópico. [A17] Comentário: Na pag. 200 do texto original, a citação dentro do texto da obra de Nozick indica uma obra de 1974:45, entretanto na lista da bibliografia final consta a mesma obra em francês mas com a data de 1988. Peço a correcçao do autor. CAPITULO IV Os chamados filósofos comunotaristas (MacIntyre, Charles Tylor, Michael Sandel) criticam a posição de Rawls quanto à sua visão do ser humano, concebido como um indivíduo abstracto e isolado, detentor de direitos intemporais. Eles começam por constatar que a doutrina de Rawls, que eles etiquetam de liberal, constitui um progresso em relação às especulações utilitaristas até então dominantes. Mas acrescentam imediatamente que esse liberalismo, que se tornou a nova ortodoxia, não traz uma resposta definitiva às questões em discussão. Ele é mutilado por três fraquezas congénitas. Primeiro, a doutrina se baseia sobre a ideia de Locke e dos teóricos do direito natural, segundo os quais os seres humanos são simples mónadas ou átomos, isto é, indivíduos racionais, virtualmente idênticos e trocáveis, e que o que os define é feito de possuir, a priori certos direitos. Em seguida, ao Estado fundado sobre a ideia do contrato social, ele confia uma missão limitada: a de aproximar os indivíduos uns dos outros, ao mesmo tempo que lhes oferece um quadro propício para o exercício dos seus direitos e, em particular, ao seu direito de escolher, com toda a liberdade, o tipo de vida que melhor lhes convém. Enfim, ele não concebe que a política possa ter outra finalidade que assegurar o funcionamento, o mais rentável possível do sistema acima descrito. Por outras palavras, a boa gestão dos indivíduos na sua relação com os outros indivíduos, assim como com o Estado. Para os comunotaristas, o ser humano é um pessoa que, pelo nascimento, pertence a diferentes comunidades (familiares, linguísticas, culturais) e cuja história concreta se enraíza na história das comunidades. O Estado não seria uma espécie de máquina jurídica destinada a proteger direitos que lhe preexistem, mas uma das instituições susceptíveis de nutrir o tecido social. A política deveria servir para fazer triunfar, num dado quadro, uma concepção de bem partilhado pelo conjunto dos actores sociais. No livro Depois da virtude: Estudo da teoria Moral (1981) Alasdair MacIntyre defende que se tenha que voltar a Aristóteles. Para ele, os ocidentais ter-se-iam tornado individualistas no Século das Luzes e, por consequência, todo o sentido de valores morais, toda a ideia do que é a virtude, os seus juízes inspirados pelas emoções ter-se- iam tornado existencialistas. E isto quando não sucumbem simplesmente ao cepticismo. Para se reencontrar o sentido global do bem tem que se voltar à ética de Aristóteles, relida numa perspectiva cristã. Isto é, a ideia segundo a qual a vida humana só se pode tornar uma vida boa se ela se assume plenamente, no quadro da polis, como vida comunitária. Passando da moral à política, ele constata que o quotidiano de uma democracia liberal parece-se sempre mais com uma guerra civil combatida com outros meios (meios judiciários que servem para defender os direitos de cada um). MacIntyre (1981:245) denuncia a incapacidade do liberalismo de organizar uma autêntica comunidade política, cimentada pela sua aspiração ao bem colectivo. A justiça já não é uma virtude: ela consiste, simplesmente, no respeito mecânico pelos indivíduos e pelo estado de certas regras formais. É uma justiça desencarnada pela qual é impossível entusiasmar- se, como nota MacIntyre no sétimo capítulo do seu livro, consagrado simultaneamente à crítica de Rawls e de Nozick. Também cristão e também preocupado com o declínio dos valores morais, o canadiano Charles Taylor explora uma outra maneira de escapar à Kant (ou ao suposto kantismo de Rawls) retornando a Hegel. Contudo, a sua visão é menos conservadora que a posição de MacIntyre, a quem ele acusa de não tomar suficientemente a sério o projecto do Iluminismo. Defensor de uma modernidade que ele reconstitui longamente no seu livro principal (As fontes do eu, 1989), Taylor (Hegel, 1975, Hegel e a Sociedade moderna, 1979) insiste sobre a necessidade de não se separar oHomem como agente [A18] Comentário: Não é o livro que consta da lista final de bibliografia. O melhor seria incluir esta obra na lista. CAPITULO III moral do Homem como animal social. O ser humano é incapaz de seguir o bem ou a felicidade fora de uma comunidade determinada pela linguagem, cultura e valores. É esta última preocupação que leva Taylor a procurar, na reactualização do pensamento político hegeliano, uma solução original aos problemas do nosso tempo. Com efeito, nos Princípios da filosofia do direito (1820), para justificar a sua crítica ao individualismo liberal kantiano, Hegel apoia-se sobre a necessidade de distinguir dois conceitos falsamente próximos um do outro. La Sittlichkeit (ou a moralidade objectiva) que se refere às normas condivididas por uma comunidade. Ela fundamenta-se na obrigação na qual me encontro, enquanto membro de uma comunidade, de realizar as potencialidades morais que já estão lá, implícitas na maneira de viver desta última. A Moralität (ou a moral subjectiva, única figura de moral que Kant conhece) remete, ao contrário, para princípios abstractos, não realizados como tais na comunidade na qual me reclamo. A partir de lá, Hegel mostra como o individualismo liberal deve ser dialecticamente ultrapassado (aufgehoben), dado que a Sittlichkeit –e não a Moralität –está à altura de colmatar as nossas aspirações mais elevadas. A liberdade humana só se pode realizar no quadro de Sittlichkeit, isto é, no quadro de uma comunidade ética e política que exprime completamente a identidade dos seus membros. Uma comunidade cujo estado moderno, ele mesmo resultante do surpasso (aufhebung) da família e da sociedade civil burguesa, representa, segundo Hegel, a forma mais completa, aquela com a qual se pode realizar, o fim da história. Um pouco distante desta vasta interpretação filosófica, Michael Sandel, no livro Liberalismo e os limites da justiça (1982) prestou-se a identificar, de maneira mais precisa, as fraquezas da definição liberal do eu como «eu sem qualidades» e as correlativas concepções do Estado sem um verdadeiro projecto ético. Se o indivíduo fosse simplesmente um ser detentor de direitos, e não um agente moral e social, ele teria incapaz de se exprimir pelo seu próprio carácter, de descobrir-se através da experiência do conhecimento de si e, finalmente, sentir a amizade pelos seus semelhantes. Em suma, não teria nada a ver com o que sabemos dos seres humanos reais. Quanto à justiça distributiva, se, como pretende Rawls, ela pode ser definida de uma maneira metafísica «neutra», sem referência a nenhuma ideia de bem, se ela pode ser reduzida a uma série de procedimentos ou de cálculos, então ela cessa, ao mesmo tempo, de constituir o único objectivo válido para uma comunidade política. Não só porque ela nunca será realizada de facto, mas, sobretudo, porque um tal objectivo é, por ele mesmo, demasiado limitada para oferecer à vida comunitária um objectivo exaltante. Nem Sandel, nem Taylor criticam Rawls do ponto de vista conservador. Ao mesmo tempo, nenhum dos dois primeiros ataca o estado de providência. A questão deles seria uma providência, sim, mas para fazer o quê? Se nós não somos capazes de dar à nossa existência social uma outra finalidade que não seja a defesa dos nossos pretensos direitos? Para os comunotaristas, sobretudo os que se dizem da esquerda, como Sandel e Taylor, deve-se denunciar a abstracção que é a justiça distributiva, mas, sobretudo, deve-se voltar ao conceito «cívico» e «republicanao» (para não dizer romano) até mesmo «aristotélico» do bem público. À margem deste debate, uma outra discussão opõe, desde alguns anos, dois americanos que se dizem ambos discípulos de Rawls: o jurista Ronald Dworkin e o historiadro e antropólogo Michael Walzer. No seu principal livro, Tomar os Direitos a Sério (1977), que, na realidade, é uma compilação de artigos publicados durante os dez anos precedentes, Dworkin ataca dois adversários: de um lado, o utilitarismo e, do outro, o positivismo jurídico. O jurista começa por recordar que o direito não se reduz a um conjunto de regras jurídicas inscritas nos códigos existentes. Confrontado com situações para as quais o código não traz nenhuma solução, o juiz é frequentemente obrigado a interpretar a lei. Neste caso, a única base sobre a qual ele CAPITULO IV pode se apoiar é a moral. Não a sua moral pessoal, dependente das suas convicções filosóficas ou religiosas, mas a moral que se depreende dos princípios fundamentais da constituição do seu país, da qual ele é, de certa maneira, garante. Ora, as constituições da maior parte dos estados democráticos derivam de um princípio de base, segundo o qual o indivíduo deve ser protegido contra toda a violência arbitrária, quer ela proceda de outros indivíduos, quer ela provenha do próprio Estado. Trata- se de um princípio segundo o qual (como já diziam Rawls e Nozick) o indivíduo tem direitos morais a fazer contra o Estado, direitos anteriores a todos os códigos escritos, e que estes últimos não poderiam abolir. O direito não é, por conseguinte, separável da moral, como não é separável da economia ou da sociologia. E se o estado democrático quer ser, de facto, um Estado de Direito, deve tomar o direito a sério. Por outras palavras, tomar a sério o direito que os indivíduos têm de se revoltarem contra tal ou tal lei existente, quando esta lhes parece injusta, e mesmo se a lei em questão tiver sido votada democraticamente e, portanto, reflectir a opinião da maioria dos cidadãos. Trata-se de uma tese politicamente audaciosa e filosoficamente discutível. Politicamente audaciosa porque ela acaba restituindo (contra Hobbes, Kant, o positivismo de um jurista kantiano como Hans Kelsen) um forte sentido do direito à desobediência. É uma tese discutível dado que ela reanima o espectro dos famosos direitos naturais do homem – noção de origem estóica, cara aos teóricos do contrato social, mas que Bentham qualificou de pomposa absurdidade, que os positivistas desconstruíram e que Rawls não ousou reivindicar abertamente. Dworkin tinha previsto essas objecções. Para os que o criticam do ponto de vista político, ele faz valer que um dos pontos fortes da constituição americana é exactamente que, em certos casos, o cidadão poderia ter razão contra a decisão do Estado. Nestes casos, a Constituição exige que o direito dos cidadãos seja respeitado, mesmo se em detrimento do interesse geral, ou ao que, nesse momento, é considerado como tal pela maioria dominante. Os que põem em dúvida a solidez da sua construção filosófica, Dworkin responde que não há necessidade de recorrer à ficção metafísica dos direitos «naturais», dado que a realidade dos direitos morais dos cidadãos é literalmente inscrita nos princípios fundadores da Constituição americana. Uma vez mais, é suficiente que se tome a sério a constituição, para tirar logicamente estas ilações. Preocupado em não ser acusado de formalismo, Dworkin relê a dita Constituição para tentar encontrar, concretamente, os valores morais em nome dos quais, segundo os seus detractores, o indivíduo teria o direito imprescindível de se revoltar. É exactamente na Constituição que efectua a sua descoberta mais importante. Contrariamente ao que afirmam os defensores do liberalismo, o valor fundador desta não é a liberdade, mas a igualdade. Mais, precisamente, a igualdade de respeito e de atenção que cada cidadão tem direito a receber da parte do Estado. Com efeito, não existe o direito à liberdade em geral. De facto, os homens têm caracteres, gostos e preferências diferentes, e são levados a escolher o tipo de vida que melhor lhes convém. Tudo isto é normal, mas não cria um direito. Em contrapartida, existe o direito fundamental de cada americano beneficiar de uma protecção igual da parte da lei, ou do que Dworkin chama, para ser preciso, uma igualdade de respeito ede atenção. Cada cidadão tem o direito de não ser mais mal tratado que os outros –sobretudo se ele é, por nascimento ou por condição, mais fraco ou menos favorecido que os outros. E é com base neste direito que ele pode exigir do Estado que a sua liberdade seja protegida. Se a liberdade é segunda em relação à igualdade, se ela é uma simples consequência, não se pode voltar a falar de conflito entre os dois. Dizer que a vontade de reduzir (através do imposto) as desigualdades sócio-económicas no seio do Estado significaria atacar o direito superior dos cidadãos é uma coisa absurda. CAPITULO III Walzer levanta-se não só contra o utilitarismo e o positivismo, mas também contra o que ele chama igualitarismo simples, uma doutrina implícita, segundo ele em Rawls e Dworkin. No seu livro mais controverso Esferas da justiça (1983), Walzer parte de uma constatação empírica: uma certa dose de pluralismo social e cultural é indispensável a toda a comunidade humana. Todo o cidadão aspira possuir diferentes espécies de bens, e todos os cidadãos não procuram, necessariamente, nem o mesmo grau, nem os mesmos bens. Uma dada sociedade divide-se, portanto, em diferentes esferas. Seja, por exemplo, o mercado económico, o mundo da administração, da educação, da saúde, da vida familiar, da vida religiosa, das honras públicas. Em cada uma destas esferas uma espécie de bem determinado (dinheiro, poder, tempo livre, conhecimento, longevidade, o amor, graça divina, ou as recompensas oficiais) é procurada por ela mesma. E, em cada esfera, este bem é manipulado por um pequeno grupo. Esta seria a fonte das desigualdade. A partir desta análise (que Walzer fez habitualmente derivar de Pascal e do jovem Marx) existem dois remédios possíveis: ou, como recomenda Marx, se tenta destruir os monopólios, ou então se toma o seu partido, e apoia-se a um perigo talvez maior, que é o facto de algumas esferas tenderem a predominar sobre outras. Walzer opta pela segunda pista. O objectivo não é transformar a sociedade por via revolucionária, mas estabelecer protecções destinadas a impedir que pequenos grupos no interior de cada esfera monopolizem um determinado bem, utilizem a sua posição para se apoderarem, pela violência, dos bens procurados em outras esferas. Em suma, trata-se de fazer de maneira que os chefes do mercado não se tornem chefes da administração, nem que os detentores da graça divina, os controladores do saber. A condição é que as esferas coexistam sem se justaporem, que não haja transgressões de fronteiras e que os indivíduos sejam livres de escolherem e pertencerem a diferentes esferas. As desigualdades mais graves poderiam, assim, ser reduzidas. Walzer qualifica um tal sistema de justo. Quer dizer que a sua concepção do indivíduo é menos desencarnada que a de Rawls e mais preocupada pelo contrato concreto (necessariamente histórico) dos membros de uma comunidade determinada e das suas aspirações. Enquanto Dworking faz da igualdade entre os cidadãos o valor fundador de toda a democracia, Walzer opõe-se a este igualitarismo simples, em nome do facto de que os homens não querem ser simplesmente idênticos uns aos outros. Eles fazem todos muitas diferentes actividades nas esferas mais diversas. Contra a visão legalista da igualdade, segundo ele demasiado matemática, Walzer propõe o que ele chama um igualitarismo complexo, no qual os que perderiam aqui ganhariam lá. Não haveria nem absolutamente vencedores, nem absolutamente vencidos. A condição, evidentemente, é que o Estado jogue o seu papel e faça respeitar as diferentes esferas. Por outras palavras, limitando as tendências expansionistas do mercado através de medidas apropriadas, como as que preconizam os sócio-democratas. Dworking responde acusando Walzer de relativismo antropológico. Qualquer sistema que respeitasse o axioma da separação das esferas seria justo. Neste sentido, o sistema hindu de castas fundado sobre uma grande desigualdade deveria ser considerado justo. Quais as razões desta longa exposição do debate filosófico-político especificamente americano? 1. Porque ele gravita em volta de John Rawls que teve o grande mérito de ressuscitar a filosofia política. 2. Porque esta ressurgência da filosofia política mostra a possibilidade de coexistência de dois saberes complementares: o saber filosófico com as suas ambições normativas ao lado do saber das ciências sociais com as suas pretensões descritivas. 3. Porque este debate mostra que não só a filosofia não perdeu o seu território e lugar a favor das ciências sociais, mas mostra também que o fim de uma contraposição ideológica não significa o fim da história, pelo menos entendida CAPITULO IV como fim de um debate político ou de uma procura da parte da filosofia do famoso melhor regime platónico. 4. Este debate mostra que o debate «intra» liberal, antes mesmo de ser de carácter político é radicalmente filosófico: é um debate de ideias que resulta da preocupação intelectual de levantar questões que minam ou podem minar o sucesso mesmo da democracia liberal. 5. Rawls e o debate mostram que a liberdade não é suficiente para garantir a democracia liberal, mas que tem que ser incondicionalmente acrescentada pela preocupação de Rousseau: fazer com que a discrepância entre os ricos e os pobres não aumente exponencialmente, mas diminua. 6. Este debate mostra que o liberalismo tem de integrar as preocupações igualitárias e distributivas das quais até agora a esquerda se tem feito intérprete. Da mesma maneira, os antigos sistemas de esquerda que pecavam por um défice de liberdade, tem que integrá-la, sem necessariamente abdicar dos valores igualitários e distributivos de que eram portadores. 7. Se eu me reclamo e me reclamei do contrato –que para mim não pode ser simplesmente social, mas tem que integrar as dimensões do cultural e do político –é porque na esteira de Rawls convoco o conceito de contrato para metê-lo ao serviço da justiça, sem a qual a liberdade perde todo o seu sentido. Em conclusão, o Estado e as suas diferentes formas não são e nem podem ser considerados dados de facto. O espaço político é e deve permanecer um campo aberto. A realidade primeira da socialização é a diversidade espácio-temporal dos indivíduos. Os homens são movidos por uma multiplicidade de interesses e de opiniões. Não nos devemos nem angustiar com esta diversidade ao ponto de lhe impor uma norma do exterior ou uma pretensa unidade preliminar, nem celebrá-la ao ponto de favorecer rupturas. A aposta em jogo é a conciliação do «um» com o múltiplo: um «um» que corresponde ao movimento infinito de uma multiplicidade confrontada com uma pluralidade activa da sua própria mediação. Incumbe à reflexão filosófica incrementar espaços de liberdade, transformar as situações de injustiça, elaborar propostas, esclarecer os fins políticos e transformá-los. Não se trata de estabelecer uma enciclopédia, um programa político ou um sistema de filosofia política, mas de se apropriar das questões políticas nacionais através de uma análise conceptual susceptível de explicitar as apostas em jogo e servir de substracto mental cultural e filosófico para um debate de sociedade e para uma transformação política nacional em função do futuro. Tudo isto sem, contudo, ignorar as contribuições de pensadores de outras sociedades e culturas que deram respostas aos problemas com que as suas sociedades estiveram confrontadas num determinado tempo e etapa das suas histórias. Mas sem também fazer delas verdades transcendentais, prometeicas, pontos de passagem obrigatória, cidades platónicas, Jerusalém celeste pelas quais devemos passar para atingir uma eventual soteriologia terrestre, que acabaria por produzir efeitos contrários. O ponto nevrálgico da reflexão filosófica africana em geral, e moçambicana em particular, é a busca da liberdade e hoje ouso acrescentar a busca dajustiça. 3. Contrato Político Sabemos da história que o processo da escravatura foi facilitado pelas nossas divisões internas; sabemos que o colonialismo foi também facilitado pelas nossas divisões; sabemos que, para neo-colonizar a África, o Ocidente, desde o Congo até Moçambique, passando pela Nigéria, utilizou ou suscitou divisões. Mas a história nos ensina que quando fomos capazes de unidade, fomos fortes e conseguimos, se não ganhar, pelo menos resistir! Eis porque o «contrato político» que CAPITULO III permitiu a unificação da Udenamo, Mani e Unamo e a fundação da Frelimo tem um grande valor pragmático, político, mas sobretudo moral. É necessário que as diferentes forças políticas e sociais do país sejam os principais interlocutores uns dos outros, que tenham o sentido da significação profunda da «palavra» em termos de escuta, diálogo, espaço de reconciliação. Mas como família moçambicana, que tenhamos o sentido de segredo (prudência, cautela) familiar, isto é, do que não pode a nenhum preço ser dito aos estrangeiros, seja eles quem forem. Isso permitiria evitar a ingerência dos que se sentem autorizados a meter o nariz nas nossas coisas privadas (ministérios) com a pretensão de querer resolver problemas em nosso lugar. A filosofia moçambicana é pela liberdade do homem de Moçambique. Ela aplaudiu a independência, aplaudiu o diálogo e a reconciliação entre a Frelimo e a Renamo. Aplaudiu a democracia em Moçambique, como aplaude as eleições autárquicas enquanto caminho em direcção à liberdade do homem de Moçambique, e não como técnicas e estratégias políticas que acabam diminuindo o nosso espaço de liberdade. A única coisa positiva que saiu do trágico período da guerra fratricida foi a abertura do espaço de governação a todas as forças políticas nacionais e a chamada dos povos para a contribuição na tomada de decisões dos problemas que lhes dizem respeito. Neste sentido, as eleições de 1992 foram um passo em frente no caminho das liberdades concretas dos nossos povos, mesmo que restem ainda por descobrir ou mesmo inventar novos mecanismos de participação popular, portanto de democracia, que sejam mais congénitos aos povos de Moçambique. A democracia, como a independência, são valores «moçambicanos» a preservar e a incrementar através da descoberta de novas formas de participação e de restituição do poder ao povo. Por conseguinte, os partidos políticos devem considerar-se adversários e não inimigos. Devem rivalizar uns com os outros não a partir de pertenças étnicas ou regionais, de amizades e apoios internacionais, mas de programas políticos com vista a incrementar as liberdades nacionais, os espaços democráticos, a participação das culturas no debate civil, do nível de vida moçambicano, etc. É indispensável criar um espaço político e uma espécie de contratualismo moçambicano. Para isso, deve-se concretizar um múnus de princípios, um contrato político que os governantes, independentemente da família política a que pertençam, deverão imperativamente respeitar e defender a todo o custo, um número de valores mesmo materiais, que não podem ser alienados sem o consentimento explícito dos moçambicanos, através de um referendo, por exemplo. Independentemente da configuração política e mesmo do intervencionismo internacional, nada pode justificar o isolamento de certas forças políticas nacionais. Dúvidas morais e históricas podem ainda existir, rivalidades podem ser humanamente compreensíveis mas nenhuma incoerência e anacronismo históricos podem ser moralmente justificados. Sobretudo tendo em conta o que nos custou a guerra fratricida passada e o perigo que pode representar uma nova guerra em termos de perdas de vidas, de destruição material, e ouso dizer, do risco da divisão do país. Ocorre aceitar o jogo da democracia e não transformar a força parlamentar em instrumento para destruir a oposição. A oposição é necessária, ela tem que ser vista, não em termos de «inimigo», mas de adversário político e partner para a construção de um Estado democrático. Quanto mais a oposição for marginalizada no debate político nacional, mais ela será tentada a aglutinar os conflitos etno-culturais. O pluralismo político, se for mal interpretado, pode abrir espaço para conflitos tribais e fenómenos do retorno da «retribalização», perigo que hoje é duplicado por outros tipos de conflito, nomeadamente os conflitos de classes e de interesses que tendem a cristalizar-se à medida que o factor económico gera ou amplia os desequilíbrios no seio da sociedade. CAPITULO IV A República tem as suas exigências, o respeito das coisas públicas, e uma forma de governação democrática. O que são as coisas públicas? Este problema releva de uma espécie de contrato social, que temos necessariamente que fazer como país e como sociedade. Deve existir um certo número de coisas intocáveis, que nenhum governo pode tocar sem violar os direitos soberanos do povo e abusar do poder. Mas o que simboliza a liberdade e a soberania deve ser um certo número de coisas tangíveis, materiais, concretas. Como também devem ser um certo número de práticas e de símbolos. As forças políticas e sociais moçambicanas devem ser os principais interlocutores umas das outras na vida política moçambicana. As forças políticas moçambicanas deveriam fazer um deal sobre o essencial, o indiscutível, deveriam fazer com os povos de Moçambique uma espécie de contrato social sobre a essência mesma da liberdade moçambicana, sobre o que não é negociável, o que deveria constituir o fundamento normativo do Estado. A nível de bens económicos que constituem o patrimônio nacional (portos, caminhos de ferro, minas, terras, etc.), de jurisdição- política, espaços estritamente nacionais que não são acessíveis a estrangeiros (ministérios, lugares de defesa, de segurança, de planificação, etc.), prerrogativas ciumentamente nacionais não cedíveis a ONG, cooperações, doadores, etc. No seu funcionamento, o Estado implica uma certa responsabilidade política dos governantes. Trata-se de uma responsabilidade ligada ao exercício do poder, autónoma e específica enquanto ela não releva nem dos méritos históricos –a luta armada contra o colonialismo português, ou contra a existência de um partido único em Moçambique –nem implica a vontade de conservar o poder a todo o custo. O seu objecto deveria ser consagrar, através do funcionamento dos poderes públicos, a ideia de que os governantes estão, de facto, ao serviço dos governados e que lhes devem contas. No domínio constitucional, a responsabilidade política implica que toda a pessoa investida de um mandato de representação, instituída em instrumento de actuação do Estado, deve prestar contas à Nação das suas acções e assumir as consequências das suas acções. Inversamente, esta responsabilidade política dos governantes impõe aos cidadãos a obrigação moral de tomar em consideração a necessidade de assegurar a preservação da comunidade. Isto implica que eles têm a possibilidade real de exercer o seu papel de censores do poder. As forças políticas devem exigir negociações com as instituições internacionais que sejam conformes às prerrogativas de soberania e do respeito pela unidade e integridade nacional. Isto deve ser, contudo, precedido por um consenso entre as forças políticas nacionais e mesmo tradicionais para poderem, sem ambiguidades, falar em uma só voz. Estas prerrogativas são capitais para o futuro, e nem sequer direi da democracia, enquanto inerentes à democracia representativa, mas para a convivência civil em Moçambique, e para prevenir dramas com proporções imprevisíveis. Trata-se de moralizar a vida política que apela para os governantes e os partidos políticos despirem, efetivamente, e de uma vez por todas, o passado histórico, mesmo se grande e insubstituível, de libertadores da pátria moçambicana, e para os governados exercerem, efectivamente, ao seus direitos soberanos no respeito pelos interesses presentese futuros da comunidade nacional. Trata-se da necessidade de um renovar da vida política moçambicana, cultural (mais de participação dos diferentes componentes culturais na vida política) e deontologicamente –no relacionamento dos partidos políticos entre eles, mais de respeito das elites governativas pelos interesses do presente e do futuro de Moçambique, mais diálogo e mais escuta da vontade e dos interesses do povo. O específico das ciências filosóficas no contexto actual deveria ser a invenção de espaços e de mecanismos de incremento da soberania, quer contra o intervencionismo anti-democrático dos democratas ocidentais, quer, e sobretudo, no CAPITULO III trabalho sobre as condições susceptíveis de libertar a imaginação e a criatividade nos moçambicanos, a fim de podermos assumir responsavelmente a nossa liberdade. A «tarefa» da filosofia é não esquecer que a nível interno ainda não somos capazes de ser cabalmente responsáveis pela nossa liberdade. Incumbe-nos, portanto, descobrir e inventar espaços de liberdades concretos, dar material e instrumentos teóricos aos políticos nacionais. A reflexão filosófica moçambicana tem que se situar na intersecção do conflito de soberania entre a soberania externa dos estados europeus e Moçambique; entre a nossa vontade de soberania e a incapacidade dos ocidentais de se libertarem dos seus élans coloniais. Em segundo lugar, ela deve investigar as razões históricas, culturais e sociais que estão na base da nossa fraqueza existencial e as maneiras concretas de combatê-la. A ideia da soberania (liberdade) tem uma valência interna condicionada pelo movimento de participação cultural, que comumente se chama democracia. Esta deve ser internamente garantida por uma cultura política moçambicana que se forja a partir das culturas políticas nacionais, e que tenha em conta a preservação e o incremento da soberania moçambicana. A filosofia africana na sua valência política deve contribuir para a realização das exigências de justiça. Por conseguinte, filosofar sobre a acção significa interrogar as legitimidades edificadas pelos homens (nacionais e internacionais), e tentar dar palavra às pessoas, grupos e culturas que foram privadas dela até aqui. A filosofia não se pode contentar em justificar o statu quo, mas, ao contrário, deve dessacralizar os equilíbrios políticos que parecem únicos. Não vamos esquecer o tempo que passou (Samora Machel). Segundo a imagem de Moçambique «cada cidadão é como um escravo que fugiu da casa do seu senhor». O senhor não repousará antes de retransformar o jovem cidadão de novo em escravo! Atenção: o que aconteceu ontem pode acontecer de novo amanhã ... BIBLIOGRAFIA Bibliografia Aristóteles. (1993). Les Politiques. Livro I, 1252b-1253a. Paris: Flammarion. _______. (1993). Les Politiques.Livro I, 125a-1252b. Paris: Flammarion. Beck, U. (2001). La Société du Risque. Paris: L´Harmattan. Bignasca, A. (1971). La singolarità terrible del colonialismo portoghese: il dibattito della Società di Geografia. Roma: Armando. Bodin, J. (1986). Les Six Livres de la République. In Coll., Corpus des oervres de philosohie en langue française. Paris: Fayard . Boulaga, F. E. (1977). La Crise du muntu. Paris: Présence Africaine. Caillé Alain, Lazzeri Christian, Senellart Michel (sous la direction de). (2001). 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