A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
23 pág.
Epistemologia da história da psicologia

Pré-visualização | Página 1 de 6

Faculdade de Psicologia da Universidade de lisboa
epistemologia e história da psicologia
Carolina Loureiro
2º ANO / 1º semestre
2020/ 2021
Origem experiencial do conceito de mente:
A experiência de mim próprio:
Há duas fontes para a experiência do mental:
· A de mim próprio;
· A dos objetos animados.
Ninguém duvida de que existe. Todos temos consciência automática de que somos nós quem age, quem sente, quem deseja.
Esse sentir-me o contro ativo do mundo traduz-se verdadeiramente na primeira pessoa dos verbos: eu quero, eu gosto, tenho sede. Além dos desejos e dos estados emocionais ou de carência temos consciência de sequências de acontecimentos imaginados ou recordados: podemos imaginar uma sequência de ações tão simples como planear o dia ou sonhar acordado. Posso ainda recordar uma pessoa ou uma ideia, ou analisar um problema, ou abstrair uma regra, comparando, detetando causas e consequências, e várias outras operações. E sinto que posso decidir que sou livre na minha decisão.
Não sentimos sempre o mesmo e podemos sentir coisas diferentes em relação ao mesmo objeto (passamos do gostar ao não gostar), mas não temos a dúvida de que somos nós, que sou eu, o sujeito, que sentem
Pode-se dizer que quando me concentro em alguma coisa, passo a ser essa concentração na coisa. 
Essa consciência de mim como sujeito é, na maior parte dos casos, tácita (implícita), mas não teorizada: sei que sou sujeito, mas não teorizo mais que isso. Pode suceder que transforme essa propriedade de ser sujeito em objeto (se eu tento conhecer o sujeito, transformo-o em objeto): eu-sujeito penso nela como objeto, mas a sede é sentida por mim, sujeito. Nesse caso poderei então abstrair a própria subjetividade: sei que sou um sujeito que sente, julga, quer, independentemente dos objetos do sentir, do julgar e do querer.
Afirmarei que sou uma entidade mental independentemente do estado mental em que me encontro. 
Poderei, para além disso, tentar caracterizar as funções desse eu-sujeito: percecionar, emocionar-se, desejar, julgar, comparar, analisar, decidir, etc.
Em suma, o mental que infiro a partir da minha experiência é um sentimento de existir como sujeito num mundo de objetos em relação aos quais me perspetivo como agente ou paciente- ajo ou sofro ação, ambos são sujeitos. Esses objetos podem ser mentais ou corresponderem a coisas que vejo e sinto fora de mim.
Quando penso em mim, objetualizo o que de mim sei. Para que a construção de uma imagem de mim seja possível, tenho de conseguir utilizar conceitos para me objetuar e, nesse sentido, o eu-objeto é sempre uma construção que, embora possa ser informada pelo eu-sujeito, difere da experiência de ser sujeito.
A mente é o sujeito consciente, centro ativo do mundo representado.
Interferência de estados mentais alheios:
Além de ter consciência de mim como sujeito, tendo a atribuir estados mentais a determinadas configurações preceptivas. Há vários níveis dessa atribuição:
· Os mais simples podem ser a atribuição de emoções a expressões faciais e corporais que são reconhecidas universalmente;
· A sintonia emocional entre duas pessoas, o “contágio emocional”;
· A atribuição de intenções a padrões geométricos que interagem.
O que estes dados sugerem é que o processo de atribuição de estados mentais é automático, implícito no próprio processo preceptivo.
Outro processo automático de atribuição de mentes consiste na perspetiva intencional: observando um objeto que exibe uma conduta num ambiente, atribuímos-lhe estados mentais descritos em termos de pensamentos, conhecimentos, intenções congruentes com a ação do objeto.
Além disso, compreendemos os estados mentais dos outros de formas mais complexas:
· Teoria da teoria: defende que temos uma “teoria” implícita sobre o que significam mentalmente os comportamentos dos outros;
· Teoria da simulação: defende que nos colocamos no ponto de vista da outra pessoa e simulamos o que ela sente.
Como vimos, o mental corresponde às forças invisíveis que determinam o movimento espontâneo e à nossa subjetividade. O vivo e o não vivo são, pois, distinguidos pela capacidade de gerar internamente movimento ou orientação. Essa capacidade é interpretada como uma intenção, isto é, um estado mental.
Parece provável que existam vários níveis de atribuição de intenções aos outros: a leitura automática de estados mentais revelada pelos trabalhos de expressões faciais, posições e movimentos talvez caracterize as formas mais simples de interação. Num nível mais elevado, há processos de simulação, como quando uma pessoa se coloca na posição de outra, podendo inclusivamente fazê-lo tomando em conta os valores e a personalidade dessa outra pessoa.
Dualismo: invisível/dinâmico – concreto/inerte:
Há, pois, um espaço “mental”, sentido quer na minha experiência em mim próprio, quer na interação com os outros.
Em qualquer caso, a experiência do mental é sentida como diferente da experiência do físico.
O mental é, pois, predominantemente sentido em mim e detetado, a partir do comportamento, pelos outros. Sendo sentido em mim, é-o de maneira mais ou menos independente do corpo.
Sentimos, então, um dualismo claro:
· O que é apenas corpo não é sentido como mente;
· O que é mental não é sentido como corporal.
A visão, a audição e a decisão são sentido como independentes do corpo.
A sensação de que, depois de o corpo morrer, a alma pode sobreviver ocorre em todas as culturas em que foi procurada.
O que é considerado “mente” parece, pois, ser aquilo que sinto como subjetivo, aquilo que acompanha os atos do meu corpo, espontaneamente fazemos a separação entre a sensação que acompanha os atos do corpo e esse mesmo corpo.
A mente nas culturas Ágrafas:
Alma e agência:
Há culturas que não têm a palavra para “mente”, mas todas têm palavra para “alma”. Mente e alma, a partir de Platão, são palavras quase intermutáveis e o conceito de alma apenas cedeu lugar ao de mente porque os pensadores quiseram autonomizar-se da visão religiosa, mais associada à palavra de alma.
Os etnólogos procuraram estabelecer uma tipologia das almas e concluíram que a maior parte delas se refere a uma “inteligência/verdade” que dá vida ao corpo. Há almas do corpo responsáveis pela animação desse corpo. Há almas mais independentes desse corpo (como as almas dos xamãs); essas almas mais independentes do corpo podem ser mais agentes ou mais conscientes de si próprias, sendo que a alma agência decide e age voluntariamente.
O conceito espontâneo, primitivo, de alma corresponde ao conceito de agência consciente, quer em nós, quer nos outros. Não imaginemos, pois, a noção primitiva de alma como uma noção abstrata: é a noção de estar vivo e de ser agente, se sentir e de agir; exatamente a nossa experiência de viver.
Almas fora do corpo:
A ideia de que a mente-agência se pode separar do corpo e que determina as ações corporais, é uma característica da nossa espécie. Somos inaptamente dualistas porque sentimos a mente e a matéria como entidades diferentes.
Agências desencarnadas: os espíritos:
Quando as pessoas de culturas ágrafas encontram um fenómeno poderoso, procuram a causa para esse fenómeno. A noção de causa puramente física que ganhou importância no Ocidente foi desenvolvida especialmente na Grécia, a partir dos pré-socráticos, mas em muitas culturas humanas, a uma pergunta causal responde-se com a identidade de um agente invisível (deuses, espíritos, etc.).
A explicação desta tendência para explicar fenómenos através da inferência de agentes invisíveis é fácil de compreender:
1. Identifica-se um efeito (uma coisa a explicar);
2. Infere-se uma intenção por detrás desse efeito e, em consequência;
3. Postula-se um agente portador dessa intenção e realizador desse efeito (um deus ou espírito do trovão, da seca, ou o criador do mundo).
Este fenómeno ocorre mesmo que não haja qualquer testemunho do corpo desse agente. Postular-se-á, pois, um espírito, provavelmente de corpo invisível, que raramente se mostra ou que pode instalar-se em qualquer corpo que queira.
Em todos os casos da