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Epistemologia da história da psicologia

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agência que não tem corpo, que tem corpo invisível, que pode mudar de corpo ou separar-se dele, trata-se sempre da separação da agência e do seu suporte material ou, se preferirmos uma fórmula mais simples, da alma e do corpo. 
Conclusão do anteriormente dito:
Em conclusão, todas as culturas têm noção de que o homem é um corpo guiado por alma. A conduta dos outros agentes e dos fenómenos dinâmicos é sempre interpretada em termos de intenções. 
Somos, pois, espontaneamente dualistas, tendemos a acreditar na separação entre alma e corpo e concebemos um agente como dirigido pela sua alma (os seus desejos e sentimentos) mais do que pelo sue corpo, que tem de ser animado para permanecer vivo. É destas duas intuições fundamentais que nos sentimos como agência e que detetamos nos outros agências, que se desenvolve a noção de mente.
Posições de primeira, segunda e terceira pessoa:
O mental é uma qualidade da nossa experiência e uma interpretação intencional do movimento ou de acontecimentos inexplicáveis. Não é, pois, um objeto.
Contudo, para pensar numa coisa qualquer, temos de a transformar em objeto da nossa atenção: eu, sujeito, concentro-me numa coisa, objeto. Para que eu possa pensar na mente tenho, portanto, de a transformar em objeto. Posso fazê-lo de duas maneiras:
· Concentrar-me nos meus estados mentais e tentar descrevê-los;
· Inferir estados mentais a partir da conduta dos outros.
A essa distinção chama-se, de maneira um tanto imprecisa, posições de primeira e terceira pessoas.
Na posição de primeira pessoa, o sujeito examina a sua mente, quer no momento imediato, quer pela recordação do que sentiu (descrever o que sinto- estados mentais- ou representar na mente sem recurso ao exterior- descrever objetos mentais por memória ou imaginação).
Do processo automático de atribuição de estados mentais que ocorre quando duas pessoas interagem, estamos a falar então da posição de segunda pessoa.
Na posição de terceira pessoa, tento hipotetizar quais os processos mentais que me permitem explicar a conduta “vista de fora”. Muitas vezes, quando se fala da posição de terceira pessoa, está implicado que se suprime a introspeção, por ser considerada subjetiva, como método de chegar às hipóteses de explicação da mente.
Modelos da mente:
Qualquer que seja o método a que se recorra (primeira, segunda ou terceira pessoa), para teorizar sobre a mente, terei de a transformar num objeto conceptual que eu, sujeito, posso pensar e modificar.
Historicamente, as hipóteses da mente distribuem-se em dois grandes problemas:
· Como pode a mente chegar onde quer que seja;
· Como podemos controlar-nos para agir de maneira justa e atingir a felicidade.
A mente como mistério:
Dificuldade de descrição do mental:
Por ser invisível, a mente é difícil de descrever por ausência de referentes comuns. Não posso apontar para uma emoção e dizer “isto é a angústia”; posso dizê-lo de um comportamento, porque quer eu quer o leitor o vemos, mas não de um estado mental. Para o conseguir, terei de seguir uma estratégia indireta: apresentar uma imagem ou uma situação que desencadeie uma sensação, quer em mim, quer no leitor, e dar nome ao sentimento que ocorre através da imagem. Nunca saberei, com certeza, se o leitor teve a mesma emoção que eu.
Dir-se-ia que posso, em contrapartida, descrever os meus estados mentais, mas isso só é verdade até certo ponto. De facto, não é possível evocar, com intensidade, sentimentos diferentes em sucessão, de maneira a compará-los uns com os outros.
Além disso, não consigo tornar os estados mentais em objetos, isto é, coisas em que me concentro: apenas posso evocar um estado mental recordando um estímulo que o desencadeia; e posso, até certo ponto, fazê-lo para vários estados, em sucessão rápida. 
Mas, mesmo evocando experiências, não conseguirei descrever muito, porque é muito mais difícil descrever estados dos sujeito do que estados do objeto. Apenas posso recordar um desencadeador desse estado mental e assim reviver tenuemente esse estado mental. A mente é, pois, muito difícil de decompor em partes, de analisar e de descrever.
Se algo é difícil de tornar em objeto, então também é difícil defini-los. Para objetificar a subjetividade, em vez de darmos atenção ao vetor que vai de nós ao objeto, temos de dar atenção ao que sentimos durante a ativação desse vetor; teríamos de passar pela ação/reação para a observação de nós. É isto que é muito difícil de fazer.
Acresce que atualmente apenas se considera conhecimento objetivo o que assenta na descrição de um objeto claro, descrição essa que deve ser quantitativa, se possível. Aplicar essa ideia ao estudo do mental implica uma contradição: o mental é o subjetivo e não o objetivo. Como vimos, é necessário transformar a subjetividade num modelo, isto é, num objeto mental, para poder objetificar a mente.
A mente e o sobrenatural:
O sobrenatural está afastado das nossas vidas, porque conseguimos explicar quase tudo em termos de causas naturais. Mas o sobrenatural subiste nos espíritos menos informados.
O sobrenatural ocorre sempre que a ordem que é esperada é violada de maneira incompreensível. O que é comum a todos os casos de sobrenatural é a interpretação de um fenómeno, de uma pessoa, de uma atividade, como dependente ou em contacto com um agente invisível.
Perante o enorme e muito poderoso, que assusta e não se compreende, há uma experiência específica: a experiência do numinoso, a identificação do sagrado.
A mente é agente e invisível: não podemos vê-la, mas sabemos que ela tem intencionalidade e que causa acontecimentos. O mundo do misterioso e do oculto compõe-se, igualmente, de forças (agentes) invisíveis e consiste na atribuição de agência a entidades que a não suportam (as estrelas, as cartas, os astros, seres invisíveis, etc.).
Como vimos, utilizamos precisamente o mesmo mecanismo para interpretar a conduta dos outros: aquilo que parece ser intencional é interpretado como sendo produto de uma menta.
Mas, se é verdade que faz sentido interpretar a minha conduta e a dos outros, que têm mentes como eu, como resultando de intenções, motivos, planeamento e emoções, aplicar essa interpretação a coisas não animadas é um erro de juízo provocado pela nossa tendência automática para interpretar os acontecimentos inabituais e incompreensíveis como produto de uma mente intencional.
É o facto de essas crenças serem tão resistentes, quer à razão, quer aos dados empíricos, que a nossa mente deteta intenções e agentes invisíveis em tudo; o espírito racional tem tido a maior dificuldade em convencer a humanidade de que se trata apenas de uma ilusão.
Embora, quer a mente, quer o oculto, sejam misteriosas, vagas e inquietantes, há duas diferenças fundamentais entre a psicologia e o ocultismo:
· A psicologia tenta descrever e explicar as funções mentais de modo a esclarecer o que parece misterioso;
· O ocultismo faz o contrário, enfatizando o misterioso, o não compreensível, as forças ocultas que apenas o iniciado é capaz de decifrar e manipular;
· A psicologia ocupa-se de uma coisa que existe, a mente;
· O ocultismo ocupa-se com fantasias que nenhum estudo sério mostra existirem.
Em suma, a psicologia é o estudo racional dos processos mentais, enquanto que o ocultismo é um resultado irracional desses processos mentais.
Os primórdios da psicologia na Grécia:
Os gregos arcaicos:
Numa obra muito conhecida, Mimesis, Auerbach apresenta a Grécia arcaica como absolutamente exterior e não psicológica, ou seja, o contado é aquilo que é visto, e não se teoriza para além do que se vê. As personagens são, assim, vazias de conteúdo psicológico, sendo apenas corpos que movem pelas suas paixões ou vontades dos deuses. As suas vontades e emoções são as que são traduzidas pelas ações. O relatado é apenas o visível.
Na Grécia arcaica, mesmo as paixões que moviam os homens eram consideradas produtos das entranhas (dos líquidos que percorriam o corpo) e a morte era a morte do corpo. Após a morte, a única coisa que restava da vida era a alma, que era vista como algo espectral (fantasmagórico)