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Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 1 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. PORTUGUÊS FERNANDO MOURA Curso Completo de Gramática, Interpretação de Textos e Redação Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 2 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. APRESENTAÇÃO Olá, caro (a) aluno (a)! Criar uma jornada de SUCESSO não é tarefa fácil. Exige concentração, fôlego, determinação. Ser aprovado em um bom concurso público ou em um vestibular da carreira dos sonhos demanda objetivos bem traçados. No mundo real, a concorrência é significativa, e, por isso, você precisa estar entre os melhores. Mas não há o que temer se você tem a convicção de que teve preparação sólida. Pensando nisso, elaborei este material com vistas a prepará-lo melhor para os desafios que virão. Resolver questões é excelente caminho para atenuar boa parte das angústias que enfrentamos diante do caderno de provas real. TREINAR É FUNDAMENTAL. No início dos seus estudos, não haverá problema se você ler a questão proposta e, em seguida, os meus comentários. Depois, mude a estratégia: primeiro, resolva todas as questões; depois, confira cada resposta e acompanhe cuidadosamente os meus comentários. Lembre-se de criar ambiente de estudos agradável (silencioso, arejado, confortável) para utilizar esta excelente ferramenta que lhe ofereço. Marque as questões e os comentários que não entendeu, para, depois, voltar a eles com mais cuidado. Paciência. Você é uma pessoa talentosa. Procure destacar tudo o que considerar importante para posterior revisão. ALGUMAS QUESTÕES SE REPETEM PROPOSITADAMENTE, a fim de que você fixe detalhes importantes. Conquistar os primeiros lugares nos certames mais concorridos impõe preparação prévia, o que desencadeia mais segurança. Exige FOCO ─ fator determinante na velocidade e no alcance dos seus objetivos. Portanto, trace boas estratégias de estudo e faça deste material um importante degrau para a escalada rumo ao sucesso. Forte abraço! Professor Fernando Moura Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 3 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. PROVA 1 TEXTO I Leia o texto abaixo para responder aos itens de 1 a 10. A declaração final da Rio+20 (Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável), submetida nesta sexta-feira à ratificação de chefes de Estado e de governo das Nações Unidas, é um texto de 53 páginas, com boas intenções e o lançamento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. O texto reafirma os princípios processados durante conferências e cúpulas anteriores e insiste na necessidade "de acelerar os esforços" para empregar os compromissos anteriores, homenageando as comunidades locais, que "fizeram esforços e progressos". - "Políticas de economia verde" (três páginas e meia do texto): "Uma das ferramentas importantes" para avançar rumo ao desenvolvimento sustentável. Elas não devem "impor regras rígidas", mas "respeitar a soberania nacional de cada país", sem constituir "um meio de discriminação", nem "uma restrição disfarçada ao comércio internacional". Eles devem, também, "contribuir para diminuir as diferenças tecnológicas entre países desenvolvidos e em desenvolvimento". "Cada país pode escolher uma abordagem apropriada". - Governança mundial do desenvolvimento sustentável: o texto decide "reforçar o quadro institucional". A comissão de desenvolvimento sustentável, totalmente ineficaz, é substituída por um fórum intergovernamental de alto nível. O Pnuma (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) terá seu papel reforçado e valorizado como "autoridade global e na liderança da questão ambiental", com os recursos "assegurados" (os depósitos atualmencte são voluntários) e uma representação de todos os membros das Nações Unidas (apenas 58 participam atualmente). - "Quadro de ação": em 25 páginas, correspondentes a metade do documento, o texto propõe setores onde hajam "novas oportunidades" e onde a ação seja "urgente", notavelmente devido ao fato das conferências anteriores terem registrado resultados insuficientes. Os 25 temas particularmente abordados incluem erradicação da pobreza, segurança alimentar, água, energia, saúde, emprego, oceanos, mudanças climáticas, consumo e produção sustentáveis. - Objetivos de desenvolvimento sustentável: nos moldes dos Objetivos do Milênio para o desenvolvimento, cujo prazo para cumprimento se encerra em 2015, a cúpula insiste na importância de que se estabeleçam os ODS (Objetivos do desenvolvimento sustentável) "em número limitado, conciso e voltado à ação", aplicáveis a todos os países, mas levando em conta as "circunstâncias nacionais particulares". Um grupo de trabalho de 30 pessoas será criado até a próxima Assembleia Geral da ONU, em setembro, e deverá apresentar suas propostas em 2013 para cumprimento a partir de 2015. - Os meios de realização do desenvolvimento sustentável: "é extremamente importante reforçar o apoio financeiro de todas as origens, em particular para os países em desenvolvimento". "Os novos parceiros e fontes novas de financiamento podem Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 4 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. desempenhar um papel". A declaração insiste na "conjugação de assistência ao desenvolvimento com o investimento privado". O texto insiste, também, na necessidade de transferência de tecnologia para os países em desenvolvimento e sobre o "reforço de capacidades" (formação, cooperação, etc). (Folha de S. Paulo, 22/6/2012, com adaptações) Com base no texto, julgue os itens seguintes: (1) Em ―submetida nesta sexta-feira à ratificação de chefes de Estado‖, o elemento destacado tem função dêitica. (2) No primeiro parágrafo, os termos ―de chefes de Estado e de governo das Nações Unidas‖ e ―dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável‖ são complementos nominais, respectivamente, dos substantivos ―ratificação‖ e ―lançamento‖. (3) No trecho ―O texto reafirma os princípios processados durante conferências e cúpulas anteriores e insiste na necessidade ―de acelerar os esforços‖, há duas orações reduzidas‖. (4) O emprego das aspas, em vários momentos do texto, têm a função de destacar o valor plurívoco ou translato das palavras constantes do documento oficial da Rio+20. (5) O trecho ―A comissão de desenvolvimento sustentável, totalmente ineficaz, é substituída por um fórum intergovernamental de alto nível‖ constitui exemplo de voz passiva analítica. A transposição correta para a voz ativa corresponde a: ―Um fórum intergovernamental de alto nível substituiu a comissão de desenvolvimento sustentável, totalmente ineficaz‖. (6) O quinto parágrafo está totalmente redigido em consonância com o princípio do uso do padrão culto da linguagem. (7) O trecho ―Os 25 temas particularmente abordados incluem erradicação da pobreza, segurança alimentar, água, energia, saúde, emprego, oceanos, mudanças climáticas, consumo e produção sustentáveis‖ admite a seguinte reescritura, sem prejuízo para a correção gramatical e sem alteração semântica: ―Os 25 temas, particularmente abordados, incluem: erradicação da pobreza, segurança alimentar, água, energia, saúde, emprego,oceanos, mudanças climáticas, consumo; e produção sustentáveis‖. (8) No trecho ―é extremamente importante reforçar o apoio financeiro de todas as origens‖, os verbos ―é‖ e ―reforçar‖ são impessoais, uma vez que remetem a sujeitos genéricos, sem referentes específicos na construção sintática. (9) A construção "Os novos parceiros e fontes novas de financiamento podem desempenhar um papel" não admite transposição para a voz passiva. (10) No fragmento ―... a cúpula insiste na importância de que se estabeleçam os ODS (Objetivos do desenvolvimento sustentável)‖, a palavra ―que‖ é conjunção integrante que introduz oração subordinada substantiva completiva nominal, e a palavra ―se‖ é partícula apassivadora, que caracteriza voz passiva sintética ou pronominal. TEXTO II Viver em grandes centros urbanos é uma prerrogativa do mundo moderno. Estima- se que, nas próximas duas décadas, 70% da população do planeta estará aglutinada nas cidades, um índice que, nos anos 1950, era de apenas 30%. Abandonar a tranquilidade do campo, tem seus benefícios. Shopping centers, melhores oportunidades de emprego, bons hospitais e escolas, além de atividades sociais intensas são apenas alguns deles. Mas a migração tem um lado alarmante. O estresse e a ansiedade gerados pela Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 5 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. urbanização alteram fisicamente o cérebro, predispondo o desenvolvimento de doenças mentais e distúrbios de humor. Uma pesquisa publicada na capa da edição de hoje da revista especializada Nature mostra, pela primeira vez, que mesmo os indivíduos saudáveis que vivem nos centros urbanos têm conexões neurais alteradas em regiões do cérebro associadas à ansiedade. Já se sabia que o atribulado ambiente das grandes cidades estava ligado a problemas como estresse e esquizofrenia. Mas, até agora, não se tinha ideia de que isso provoca mudanças fisiológicas, que podem ser medidas por exames de imagem. O mais grave, notam os autores, é que, teoricamente, habitantes das cidades deveriam ser mais saudáveis, pois têm à sua disposição tratamentos hospitalares mais modernos. O grupo de cientistas, de diversos institutos de pesquisa, realizou três testes em diferentes populações, sempre analisando a resposta cerebral dos participantes, capturada pela ressonância magnética funcional. O primeiro grupo passou por um protocolo de estudos chamado Montreal Imaging Stress Task (Mist), desenvolvido pelo instituto onde Pruessner trabalha. Eles foram expostos a uma situação de pressão social, em que suas habilidades eram desafiadas enquanto os cientistas analisavam a ativação dos cérebros na máquina de ressonância magnética. A pressão a qual os participantes foram submetidos era a mesma. O que os diferenciava era o local de residência. O nível de urbanidade foi medido da seguinte forma: cidades com mais de 100 mil habitantes, municípios com menos de 100 mil habitantes e áreas rurais. Em todos os voluntários, os pesquisadores conseguiram induzir o estresse, algo verificado pela medição de seus batimentos cardíacos e do aumento na circulação sanguínea do hormônio cortisol. Mas as fotografias dos cérebros mostraram um cenário bem diferente. Quanto mais urbanizados os indivíduos, maior a ativação de duas regiões do cérebro intimamente relacionadas ao estresse e aos distúrbios mentais e de humor. A amígdala cerebral, que se localiza no sistema límbico e centro regulador da agressividade, entre outros comportamentos, exibia uma resposta muito maior nos moradores de cidades grandes. Mesmo os habitantes de pequenos municípios tiveram mais ativação dessa região, comparados aos voluntários que viviam na zona rural. Outra área cerebral que exibiu um padrão diferente nos moradores dos grandes centros urbanos foi o córtex cingulado anterior, associado às emoções. O segundo teste foi semelhante ao anterior e teve os mesmos resultados. Para saber se o estresse foi desencadeado pelo tipo de tarefa a qual os voluntários foram submetidos, além das questões aritméticas, eles tinham de resolver problemas de rotação mental, um tipo de experimento que usa imagens para avaliar a cognição. Os pesquisadores também investigaram questões como idade, escolaridade, renda e estado civil dos voluntários, assim como aspectos relacionados à saúde, ao humor, à personalidade e ao apoio social de cada participante. ―Nenhum desses fatores influenciou significativamente a atividade cerebral, sugerindo que viver em um ambiente urbano é que altera a resposta do cérebro a um fator de estresse devido a um distinto e misterioso mecanismo‖, observam Daniel P. Kennedy e Ralph Adolphs, cientistas do Instituto de Tecnologia da Califórnia, em um artigo sobre a pesquisa, também publicado na Nature. O principal autor do estudo, Andreas Meyer-Lindenberg, do Instituto de Saúde Mental de Heidelberg, na Alemanha, diz ao Correio que a pesquisa é do interesse do Brasil. ―Acho que nossos resultados são especialmente importantes para os países em desenvolvimento, porque a urbanização ocorre mais rápido nesses locais e as diferenças entre a vida nas zonas rural e urbana podem ser ainda maiores‖. No artigo, os pesquisadores dizem que o estudo pode ajudar a nortear políticas públicas integradas, que visem a diminuir os riscos de desenvolvimento de doenças mentais. ―Esses resultados contribuem para a nossa compreensão do risco ambiental urbano em relação aos transtornos mentais e à saúde em geral. Além disso, eles apontam para uma nova abordagem empírica para integração das ciências sociais, neurológicas e de políticas públicas que possam responder a esse desafio‖. No Brasil, o Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística revelou que, dos 190.732.694 habitantes, 84% vivem em áreas urbanas. Há 10 anos, esse índice Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 6 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. era de 81%. Dos 1.520 municípios que perderam população nesse espaço de tempo, as cinco maiores quedas foram registradas em cidades pequenas, com menos de 16 mil moradores. (Paloma Oliveto, Correio Braziliense, 26/6/2011, com adaptações) Julgue os itens a seguir com base nos aspectos morfossintáticos e semânticos do texto. (11) Na linha 2, o verbo ―estará‖ pode ser substituído por ―estarão‖, sem prejuízo para a correção gramatical e para a coerência textual. (12) O primeiro parágrafo do texto não apresenta erro quanto à pontuação. (13) Em ―... até agora, não se tinha ideia de que isso provoca mudanças fisiológicas, que podem ser medidas por exames de imagem‖, a primeira ocorrência da palavra ―que‖ é conjunção integrante que introduz oração subordinada substantiva completiva nominal; a segunda ocorrência é pronome relativo que exerce mesma função sintática do termo que ele retoma. (14) No trecho ―A pressão a qual os participantes foram submetidos era a mesma‖, omitiu-se o sinal indicativo de crase e desencadeou-se um solecismo. (15) Em ―Outra área cerebral que exibiu um padrão diferente nos moradores dos grandes centros urbanos foi o córtex cingulado anterior, associado às emoções‖, a substituição de ―às‖ por ―a‖ altera as relações semânticas, mas não provoca erro gramatical. (16) O trecho ――Nenhum desses fatores influenciou significativamente a atividade cerebral‖ admite a seguinte reescritura, sem prejuízo para a correção gramatical e para a coerência textual: ―Nenhum desses fatores influenciaram significativamente a atividade cerebral‖. (17) No trecho ―...eles tinham de resolver problemas de rotação mental, um tipo de experimento queusa imagens para avaliar a cognição‖, a vírgula separa a oração principal da oração subordinada adjetiva explicativa. (18) Em ―No Brasil, o Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística revelou que, dos 190.732.694 habitantes, 84% vivem em áreas urbanas‖, as vírgulas empregadas indicam, respectivamente, deslocamento de adjunto adverbial e interrupção de aposto explicativo. (19) Em ―Já se sabia que o atribulado ambiente das grandes cidades estava ligado a problemas como estresse e esquizofrenia‖ e em ―A amígdala cerebral, que se localiza no sistema límbico e centro regulador da agressividade, entre outros comportamentos, exibia uma resposta muito maior nos moradores de cidades grandes‖, as ocorrências da palavra ―se‖ exercem a mesma função na construção sintática. (20) No trecho ―Mesmo os habitantes de pequenos municípios tiveram mais ativação dessa região, comparados aos voluntários que viviam na zona rural. Outra área cerebral que exibiu um padrão diferente nos moradores dos grandes centros urbanos foi o córtex cingulado anterior, associado às emoções‖, as ocorrências destacadas do vocábulo ―que‖ evidenciam igual função morfossintática. RESPOSTAS COMENTADAS (1) Certo. Em ―submetida nesta sexta-feira à ratificação de chefes de Estado‖, o elemento destacado tem função dêitica, uma vez que constitui marca temporal de quem redige o texto. (2) Errado. O termo ―de chefes de Estado e de governo das Nações Unidas‖ estabelece com o substantivo ―ratificação‖, cognato de ―ratificar‖, uma relação subjetiva (chefes ratificaram). Portanto, o termo preposicionado é locução adjetiva Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 7 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. com valor de adjunto adnominal. O termo ―dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável‖ estabelece com o substantivo ―lançamento‖, cognato de ―lançar‖, uma relação objetiva ou completiva (lançar os Objetivos). Por conseguinte, trata-se de sintagma nominal preposicionado com valor de complemento nominal. Entendeu? (3) Certo. Observe as estruturas desenvolvidas: ―O texto reafirma os princípios (que foram) processados durante conferências e cúpulas anteriores e insiste na necessidade de (que acelerem) acelerar os esforços‖. No trecho, há duas orações reduzidas: a primeira é subordinada adjetiva restritiva reduzida de particípio (observe que o pronome relativo ―que‖ ficou logicamente implícito), e a segunda é subordinada substantiva completiva nominal (necessidade de) reduzida de infinitivo (observe que a conjunção integrante ―que‖ também ficou logicamente implícita). Lembre-se de que os conectivos estão implícitos, e os verbos estão registrados, respectivamente, no particípio e no infinitivo. (4) Errado. O emprego das aspas, em vários momentos do texto, tem a função de destacar trechos retirados do documento oficial. Diz-se, assim, que as aspas indicam a inserção de discurso alheio. Valor plurívoco ou translato das palavras corresponde a valor conotativo, o que não ocorre nos trechos indicados entre aspas. (5) Errado. O trecho ―A comissão de desenvolvimento sustentável, totalmente ineficaz, é substituída por um fórum intergovernamental de alto nível‖ constitui exemplo de voz passiva analítica. A transposição correta para a voz ativa corresponde a: ―Um fórum intergovernamental de alto nível substitui (e não ―substituiu‖) a comissão de desenvolvimento sustentável, totalmente ineficaz‖. (6) Errado. Façamos as correções: "Quadro de ação": em 25 páginas, correspondentes a metade do documento, o texto propõe setores onde haja (o verbo ―haver‖ com o sentido de ―existir‖ é impessoal) "novas oportunidades" e onde a ação seja "urgente", notavelmente devido ao fato de as conferências anteriores (sujeito não pode vir preposicionado) terem registrado resultados insuficientes. (7) Errado. No trecho original, a oração adjetiva reduzida de particípio ―particularmente abordados‖ tem valor restritivo. Na reescritura, com o emprego das entrevírgulas, passa a ter caráter explicativo. Ademais, o emprego do sinal de ponto e vírgula antes da conjunção aditiva ―e‖ desrespeita o paralelismo e o padrão culto da língua. (8) Errado. Verbo impessoal é aquele que não apresenta sujeito. No trecho ―é extremamente importante reforçar o apoio financeiro de todas as origens‖, a oração destacada é sujeito do verbo ―é‖. Que é extremamente importante? Reforçar o apoio financeiro de todas as origens. Agora, veja: quem irá ―reforçar‖ o apoio financeiro de todas as origens? Nesse caso, o texto não apresenta referente e, por isso, o sujeito é indeterminado (há sujeito; ele só não foi determinado). Portanto, os verbos ―é‖ (que apresenta sujeito oracional) e ―reforçar‖ (que apresenta sujeito indeterminado) não são impessoais. (9) Errado. Os verbos transitivos diretos admitirão a voz passiva, a não ser que sejam impessoais (não é o caso). A construção "Os novos parceiros e fontes novas de financiamento podem desempenhar um papel" admite transposição para a voz passiva: ―Um papel pode ser desempenhado pelos novos parceiros e fontes novas de financiamento). Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 8 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. (10) Certo. No fragmento ―... a cúpula insiste na importância de que se estabeleçam os ODS (Objetivos do desenvolvimento sustentável)‖, a palavra ―que‖ é conjunção integrante que introduz oração subordinada substantiva completiva nominal (completa sintaticamente o substantivo abstrato ―importância‖ e vem preposicionada) e a palavra ―se‖ é partícula apassivadora, que caracteriza voz passiva sintética ou pronominal, já que o verbo ―estabeleçam‖ é transitivo direto e concorda com o sujeito ―os ODS‖. Veja a voz passiva analítica correspondente: ―... que os ODS sejam estabelecidos‖. (11) Errado. Na linha 2, não só o verbo ―estará‖ pode ser substituído por ―estarão‖ mas também o adjetivo ―aglutinada‖ pode ser substituído por ―aglutinados‖, para concordarem com ―70%‖. Assim, ―70% da população estará aglutinada‖ (concordando com ―população‖) ou ―70% da população estarão aglutinados (concordando com ―70%‖). A estrutura ―70% da população estarão aglutinada‖ fere o padrão culto da língua. (12) Errado. No trecho ―Abandonar a tranquilidade do campo, tem seus benefícios. Shopping centers, melhores oportunidades de emprego, bons hospitais e escolas, além de atividades sociais intensas são apenas alguns deles‖, deve-se eliminar a vírgula após ―campo‖, porquanto a oração ―Abandonar a tranquilidade do campo‖ é sujeito oracional da forma verbal ―tem‖. Não separe o sujeito do seu verbo. Ademais, faltou vírgula após ―intensas‖, para marcar a interrupção ou intercalação sintática. (13) Errado. Em ―... até agora, não se tinha ideia de que isso provoca mudanças fisiológicas, que podem ser medidas por exames de imagem‖, a primeira ocorrência da palavra ―que‖ é conjunção integrante que introduz oração subordinada substantiva completiva nominal (completa sintaticamente o substantivo abstrato ―ideia‖. A segunda ocorrência é pronome relativo que não exerce mesma função sintática do termo que ele retoma. A palavra ―que‖, pronome relativo, retoma o antecedente ―mudanças fisiológicas‖, objeto direto da forma verbal ―provoca‖. Como a palavra ―que‖ substitui ―mudanças fisiológicas‖, ela exerce a função sintática de sujeito da estrutura verbal ―podem ser medidas‖ (voz passiva analítica). Portanto, trata-se de funções sintáticas distintas. (14) Certo. Solecismo é qualquer erro de estruturação sintática (colocação pronominal, concordânciae regência). No trecho ―A pressão a qual os participantes foram submetidos era a mesma‖, omitiu-se o sinal indicativo de crase e desencadeou-se um solecismo (no caso, erro de regência). A estrutura verbal ―foram submetidas‖ exige a preposição ―a‖ (submetidas a quê?), que se fundirá com o ―a‖ do pronome relativo ―a qual‖. Estrutura correta: ―A pressão à qual os participantes foram submetidos era a mesma‖. (15) Certo. Em ―Outra área cerebral que exibiu um padrão diferente nos moradores dos grandes centros urbanos foi o córtex cingulado anterior, associado às emoções‖, a substituição de ―às‖ por ―a‖ altera as relações semânticas, mas não provoca erro gramatical. Isso porque a retirada do artigo definido feminino plural ―as‖ dá ao substantivo ―emoções‖ um valor genérico (―a quaisquer emoções‖). Fica somente a preposição ―a‖, exigida por ―associado‖ (―associado a emoções‖). (16) Errado. O trecho ―Nenhum desses fatores influenciou significativamente a atividade cerebral‖ não admite a concordância com ―fatores‖, mas somente com o núcleo do sujeito ―Nenhum‖. (17) Errado. No trecho ―... eles tinham de resolver problemas de rotação mental, um tipo de experimento que usa imagens para avaliar a cognição‖, a vírgula indica a Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 9 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. inserção do aposto explicativo ―um tipo de experimento que usa imagens para avaliar a cognição‖, que reitera ou reforça o antecedente ―rotação mental‖. Observe que a oração ―que usa imagens‖ é subordinada adjetiva restritiva, introduzida pelo pronome relativo ―que‖, não precedido de vírgula. (18) Errado. Em ―No Brasil, o Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística revelou que, dos 190.732.694 habitantes, 84% vivem em áreas urbanas‖, as vírgulas empregadas indicam, respectivamente, deslocamento de adjunto adverbial de lugar e interrupção de adjunto adverbial de relação (de uma relação de 190.732.694 habitantes, retiram-se 84%). (19) Errado. Em ―Já se sabia que o atribulado ambiente das grandes cidades estava ligado a problemas como estresse e esquizofrenia‖ e em ―A amígdala cerebral, que se localiza no sistema límbico e centro regulador da agressividade, entre outros comportamentos, exibia uma resposta muito maior nos moradores de cidades grandes‖, as ocorrências da palavra ―se‖ exercem, respectivamente, a função de partícula apassivadora (que acompanha o verbo transitivo direto ―sabia‖) e a de parte integrante do verbo (que integra o verbo ―localizar‖, empregado em sua forma pronominal ―localizar-se em‖. (20) Certo. No trecho ―Mesmo os habitantes de pequenos municípios tiveram mais ativação dessa região, comparados aos voluntários que viviam na zona rural. Outra área cerebral que exibiu um padrão diferente nos moradores dos grandes centros urbanos foi o córtex cingulado anterior, associado às emoções‖, as ocorrências destacadas do vocábulo ―que‖ evidenciam igual função morfossintática: são pronomes relativos que exercem a função sintática de sujeito, respectivamente, de ―viviam‖ (―voluntários viviam na zona rural‖) e de ―exibiu‖ (―outra área cerebral exibiu um padrão diferente‖). PROVA 2 TEXTO I Leia o texto abaixo para responder aos itens de 1 a 10. ESTE QUINCAS BORBA, se acaso me fizeste o favor de ler as Memórias Póstumas de Brás Cubas, é aquele mesmo náufrago da existência, que ali aparece, mendigo, herdeiro inopinado, e inventor de uma filosofia. Aqui o tens agora em Barbacena. Logo que chegou, enamorou-se de uma viúva, senhora de condição mediana e parcos meios de vida, mas tão acanhada que os suspiros no namorado ficavam sem eco. Chamava-se Maria da Piedade. Um irmão dela, que é o presente Rubião, fez todo o possível para casá- los. Piedade resistiu, um pleuris a levou. Foi esse trechozinho de romance que ligou os dois homens. Saberia Rubião que o nosso Quincas Borba trazia aquele grãozinho de sandice, que um médico supôs achar- lhe? Seguramente, não; tinha-o por homem esquisito. É, todavia, certo que o grãozinho não se despegou do cérebro de Quincas Borba, nem antes, nem depois da moléstia que lentamente o comeu. Quincas Borba tivera ali alguns parentes, mortos já agora em 1867; o último foi o tio que o deixou por herdeiro de seus bens. Rubião ficou sendo o único amigo do filósofo. Regia então uma escola de meninos, que fechou para tratar do enfermo. Antes de professor, metera ombros a algumas empresas, que foram a pique. Durou o cargo de enfermeiro mais de cinco meses, perto de seis. Era real o desvelo de Rubião, paciente, risonho, múltiplo, ouvindo as ordens do médico, dando os remédios Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 10 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. às horas marcadas, saindo a passeio com o doente, sem esquecer nada, nem o serviço da casa, nem a leitura dos jornais, logo que chegava a mala da Corte ou a de Ouro Preto. ─ Tu és bom, Rubião, suspirava Quincas Borba. ─ Grande façanha! Como se você fosse mau! A opinião ostensiva do médico era que a doença do Quincas Borba iria saindo devagar. Um dia, o nosso Rubião, acompanhando o médico até à porta da rua, perguntou- lhe qual era o verdadeiro estado do amigo. Ouviu que estava perdido, completamente perdido; mas, que o fosse animando. Para que tornar-lhe a morte mais aflitiva pela certeza?... ─ Lá isso, não, atalhou Rubião ─ para ele, morrer é negócio fácil. Nunca leu um livro que ele escreveu, há anos, não sei que negócio de filosofia... ─ Não; mas filosofia é uma cousa, e morrer de verdade é outra; adeus. Quincas Borba (fragmento/capítulo IV). Obra Completa, de Machado de Assis, vol. I, Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994. Com base no texto, julgue os itens seguintes: (1) Em ―... se acaso me fizeste o favor de ler as Memórias Póstumas de Brás Cubas‖, a estrutura ―se acaso‖ é equivalente a ―se caso‖ ou ―eventualmente‖, podendo ser substituída por qualquer uma dessas formas, sem prejuízo para a correção gramatical e para a coerência textual. (2) O vocábulo ―inopinado‖ (linha 2) pode ser substituído por ―certo‖ ou ―convicto‖, sem alteração do sentido original. (3) O trecho ―Logo que chegou, enamorou-se de uma viúva, senhora de condição mediana e parcos meios de vida, mas tão acanhada que os suspiros no namorado ficavam sem eco‖ pode ser reescrito da seguinte forma, sem prejuízo para a correção gramatical e para a coerência textual: ―Assim que chegou, enamorou-se de uma viúva ─ senhora de condição mediana e modestos meios de vida ─ contudo, tão acanhada que os suspiros no namorado ficavam sem eco‖. (4) Em ―Um irmão dela, que é o presente Rubião, fez todo o possível para casá-los‖, as vírgulas isolam oração subordinada adjetiva explicativa. (5) Em ―Piedade resistiu, um pleuris a levou‖, o vocábulo ―pleuris‖ foi empregado com valor translato. (6) No trecho ―Foi esse trechozinho de romance que ligou os dois homens‖, a palavra ―que‖ é, morfologicamente, pronome relativo e exerce função sintática de sujeito do verbo ―ligou‖. (7) Nos fragmentos ―... tinha-o por homem esquisito‖ e ―...que o deixou por herdeiro de seus bens‖, os termos destacados desempenham igual função sintática. (8) No segundo parágrafo, a oração ―que foram a pique‖, com função adjetiva, significa ―que cresceram energicamente‖. (9) O período ―Durou o cargo de enfermeiro mais de cinco meses, perto de seis‖, construído por meio de uma anástrofe, apresenta o sujeito simples posposto ao verbo. (10) Em ―Um dia, o nosso Rubião, acompanhando o médico até à porta da rua, perguntou-lhe qual era o verdadeiroestado do amigo‖, o acento grave indicador de crase é opcional; o pronome ―lhe‖ exerce função sintática de objeto indireto; e a oração ―qual era o verdadeiro estado do amigo‖ classifica-se em subordinada substantiva objetiva direta. TEXTO II Leia o texto a seguir para responder aos itens de 11 a 20. Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 11 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. Com um programa precoce de distribuição gratuita de medicamentos e o enfrentamento frontal das poderosas companhias farmacêuticas multinacionais, o Brasil se tornou o grande modelo de luta contra a Aids na América Latina e no mundo em desenvolvimento, nos 30 anos de descoberta da doença. "Quando nenhum país havia tomado esta decisão, o Brasil se tornou, em 1996, o primeiro país em desenvolvimento a oferecer a terapia pública e para todas as pessoas" infectadas, disse à AFP o coordenador no Brasil do programa OnuAids, Pedro Chequer. "A expectativa de vida antes da introdução da terapia era de 5,8 meses; com a terapia, passou a 58 meses e hoje temos muitas pessoas que estão há mais de 20 anos convivendo com o HIV", disse à AFP Eduardo Barbosa, diretor adjunto do programa brasileiro contra a Aids, que acaba de completar 25 anos. O Brasil assumiu um papel preponderante no enfrentamento dos laboratórios internacionais para baratear os preços dos medicamentos antiAids nos países em desenvolvimento. "Entre o nosso comércio e a nossa saúde, nós cuidaremos da nossa saúde", afirmou em 2007 o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao confirmar a primeira quebra de patente brasileira do remédio antiAids Efavirenz, do laboratório Merk. Esta batalha começou em 2001, quando o então ministro da Saúde, o social- democrata José Serra, ameaçou quebrar as patentes dos laboratórios. Após um embate com os Estados Unidos, que ameaçaram levar o Brasil à Organização Mundial do Comércio (OMC), o gigante latino-americano conseguiu uma substancial redução de preços. O Brasil produz hoje 10 dos 20 medicamentos de tratamento antiAids, que também distribui a países da África e da América Latina, como Bolívia, Paraguai, Nicarágua e Equador. Em 2008, montou uma fábrica de antirretrovirais em Moçambique. "O modelo brasileiro virou referência porque muito precocemente adotou uma ação integrada de prevenção e tratamento, sem se deixar influenciar pela Igreja ou pela norma moral", disse o coordenador da OnuAids. País com mais católicos no mundo, o Brasil distribui gratuitamente meio milhão de preservativos ao ano. Sua famosa campanha, "Sem camisinha não tem carnaval", completou 13 anos. Estima-se que 630 mil pessoas vivam com HIV no Brasil e 210.000 recebem tratamento do Estado. Estima-se que mais de 250.000 não tenham sido diagnosticadas porque nunca se submeteram a um teste, um enorme desafio para o País. Na região, vários países fizeram avanços cedo na luta contra a Aids, como Uruguai, Argentina, Costa Rica e Cuba, e a América Latina conseguiu, de longe, evitar que a epidemia chegasse aos níveis catastróficos da África. No entanto, em alguns países, como em boa parte da América Central, "a luta atrasou muito" em virtude da prevalência do conservadorismo e da forte dominação da Igreja, explicou Chequer. A América Latina tem hoje 1,6 milhões de soropositivos e 800 mil deles não têm acesso a tratamentos médicos, segundo dados da OnuAids. "A América Latina promoveu o acesso universal à prevenção, ao tratamento e à atenção, mas ainda há obstáculos para alcançar as metas estabelecidas", afirmou o diretor regional da OnuAids, César Antonio Núñez. Atualmente, 33,3 milhões de pessoas vivem com HIV no mundo, do qual 22,5 milhões estão na África, segundo o programa da ONU. As organizações Act Up e Aides estimam que 70% dos doentes do planeta não tenham acesso aos medicamentos antirretrovirais. Mais de 60 milhões de pessoas foram contaminadas pelo vírus da Aids, desde a sua descoberta há trinta anos, em 5 de junho de 1981. (Correio Braziliense, com adaptações.) Julgue os itens a seguir. (11) No trecho ―Com um programa precoce de distribuição gratuita de medicamentos e o enfrentamento frontal das poderosas companhias farmacêuticas multinacionais, o Brasil se tornou o grande modelo de luta contra a Aids na América Latina e no Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 12 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. mundo em desenvolvimento, nos 30 anos de descoberta da doença‖, os termos destacados exercem igual função sintática. (12) Na linha 4 do texto, o verbo ―havia‖ é impessoal. (13) Em ―...o Brasil se tornou o grande modelo de luta contra a Aids‖ e ―Estima-se que 630 mil pessoas vivam com HIV no Brasil‖, as ocorrências do vocábulo ―se‖ têm a mesma função na estrutura sintática. (14) No quarto e no quinto parágrafo, respectivamente, os termos ―o social-democrata José Serra‖ e "Sem camisinha não tem carnaval" estão entre vírgulas em virtude da mesma justificativa. (15) Em "O modelo brasileiro virou referência porque muito precocemente adotou uma ação integrada de prevenção e tratamento, sem se deixar influenciar pela Igreja ou pela norma moral", a palavra ―se‖ indica reflexivização do verbo ―deixar‖ e é sujeito da forma infinitiva. (16) O trecho ―A América Latina tem hoje 1,6 milhões de soropositivos e 800 mil deles não têm acesso a tratamentos médicos, segundo dados da OnuAids‖ respeita o padrão culto da linguagem. (17) No penúltimo parágrafo, o verbo ―há‖ pode ser substituído por ―existe‖, sem prejuízo para a correção gramatical e para a coerência textual. (18) O trecho ―Mais de 60 milhões de pessoas foram contaminadas pelo vírus da Aids‖ admite a seguinte reescritura na voz ativa: ―O vírus da Aids contaminou-se em mais de 60 milhões de pessoas‖. (19) O trecho ―Atualmente, 33,3 milhões de pessoas vivem com HIV no mundo, do qual 22,5 milhões estão na África, segundo o programa da ONU‖ obedece ao padrão culto da linguagem. (20) No trecho ―... o Brasil distribui gratuitamente meio milhão de preservativos ao ano‖, o verbo ―distribuir‖ classifica-se, quanto à regência, como transitivo direto e indireto. RESPOSTAS COMENTADAS (1) Errado. Em ―... se acaso me fizeste o favor de ler as Memórias Póstumas de Brás Cubas‖, a estrutura ―se acaso‖ é equivalente somente a ―se eventualmente‖ (conjunção condicional + advérbio). ―Se caso‖ é junção errada de duas conjunções condicionais. (2) Errado. O vocábulo ―inopinado‖ (linha 2) pode ser substituído por ―inesperado‖ ou ―repentino‖, sem alteração do sentido original. (3) Errado. O trecho ―Logo que chegou, enamorou-se de uma viúva, senhora de condição mediana e parcos meios de vida, mas tão acanhada que os suspiros no namorado ficavam sem eco‖ pode ser reescrito da seguinte forma, sem prejuízo para a correção gramatical e para a coerência textual: ―Assim que chegou, enamorou-se de uma viúva ─ senhora de condição mediana e modestos meios de vida ─, contudo tão acanhada que os suspiros no namorado ficavam sem eco‖. Observe que a vírgula deve ser registrada antes da conjunção adversativa ―contudo‖, e não depois dela. (4) Certo. Em ―Um irmão dela, que é o presente Rubião, fez todo o possível para casá- los‖, as vírgulas isolam oração subordinada adjetiva explicativa, introduzida pelo pronome relativo ―que‖. (5) Errado. Em ―Piedade resistiu, um pleuris a levou‖, o vocábulo ―pleuris‖ foi empregado com valor literal, real (e não translato, conotativo). Pleuris, pleurisia ou pleurite é uma inflamação das pleuras pulmonares (parietal e visceral). (6) Errado. No trecho ―Foi esse trechozinho de romanceque ligou os dois homens‖, a palavra ―que‖ é partícula expletiva ou de realce e não apresenta função sintática. Observe: Esse trechozinho de romance (foi que) ligou os dois homens. A estrutura ―foi que‖ pode ser eliminada sem prejuízo morfossintático. Tem apenas a função de realçar o termo ―esse trechozinho de romance‖. Entendeu? Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 13 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. (7) Certo. Nos fragmentos ―... tinha-o por homem esquisito‖ e ―...que o deixou por herdeiro de seus bens‖, os termos destacados desempenham igual função sintática: são predicativos do objeto direto, representado, nos dois casos, pelo pronome ―o‖. Observe, também, que a preposição ―por‖ tem valor de ―como‖. (8) Errado. No segundo parágrafo, a oração ―que foram a pique‖, com função adjetiva, significa ―que se afundaram, se arruinaram‖. (9) Certo. O período ―Durou o cargo de enfermeiro mais de cinco meses, perto de seis‖, construído por meio de uma anástrofe, apresenta o sujeito simples posposto ao verbo. Vejamos a ordem direta: ―O cargo de enfermeiro durou mais de cinco meses, perto de seis‖. (10) Certo. Em ―Um dia, o nosso Rubião, acompanhando o médico até à porta da rua, perguntou-lhe qual era o verdadeiro estado do amigo‖, o acento grave indicador de crase é opcional (até a); o pronome ―lhe‖ exerce função sintática de objeto indireto (o verbo ―perguntar‖ é transitivo direto e indireto) ; e a oração ―qual era o verdadeiro estado do amigo‖ classifica-se em subordinada substantiva objetiva direta. (11) Certo. No trecho ―Com um programa precoce de distribuição gratuita de medicamentos (distribuir medicamentos/relação completiva) e o enfrentamento frontal das poderosas companhias farmacêuticas multinacionais (enfrentar as poderosas companhias farmacêuticas multinacionais/ relação completiva), o Brasil se tornou o grande modelo de luta contra a Aids (lutar contra a Aids/relação completiva) na América Latina e no mundo em desenvolvimento, nos 30 anos de descoberta da doença‖, os termos destacados exercem igual função sintática: são complementos nominais, respectivamente, de ―distribuição‖, ―enfrentamento‖ e ―luta‖ (substantivos abstratos). (12) Errado. Na linha 4 do texto, o verbo ―havia‖ é pessoal, pois apresenta sujeito: ―... nenhum país (sujeito) havia tomado ( = tinha tomado) esta decisão‖. (13) Errado. Em ―... o Brasil se tornou o grande modelo de luta contra a Aids‖ e ―Estima- se que 630 mil pessoas vivam com HIV no Brasil‖, as ocorrências do vocábulo ―se‖ não têm a mesma função na estrutura sintática. Em ―se tornou‖, a palavra ―se‖ é parte integrante do verbo de ligação ―tornar-se‖. Em ―Estima-se‖, a palavra ―se‖ funciona como partícula apassivadora, já que o verbo ―Estimar‖ é transitivo direto. (14) Certo. No quarto e no quinto parágrafo, respectivamente, os termos ―o social- democrata José Serra‖ e "Sem camisinha não tem carnaval" estão entre vírgulas em virtude da mesma justificativa: são apostos explicativos que reiteram ou reforçam o termo antecedente. (15) Certo. Em "O modelo brasileiro virou referência porque muito precocemente adotou uma ação integrada de prevenção e tratamento, sem se deixar influenciar pela Igreja ou pela norma moral", a palavra ―se‖ indica reflexivização do verbo ―deixar‖ (causativo) e é sujeito acusativo da forma infinitiva (―influenciar‖). Lembre- se de que o sujeito acusativo só aparecerá nas estruturas formadas por verbos causativos (mandar, fazer, deixar) ou sensitivos (ver, ouvir, sentir) seguidos de infinitivo. Um gesto positivo, por favor! (16) Errado. Reescritura correta: ―A América Latina tem hoje 1,6 milhão de soropositivos, e 800 mil deles não têm acesso a tratamentos médicos, segundo dados da OnuAids‖. (17) Errado. No penúltimo parágrafo, o verbo ―há‖ pode ser substituído por ―existem (obstáculos)‖, sem prejuízo para a correção gramatical e para a coerência textual. (18) Errado. Observe a voz ativa: ―O vírus da Aids contaminou mais de 60 milhões de pessoas‖. (19) Errado. Reescritura correta: ―Atualmente, 33,3 milhões de pessoas vivem com HIV no mundo, dos quais (= desses 33,3 milhões) 22,5 milhões estão na África, segundo o programa da ONU‖. (20) Errado. No trecho ―... o Brasil distribui (v.t.d) gratuitamente meio milhão de preservativos (objeto direto) ao ano (adjunto adverbial de tempo)‖, o verbo ―distribuir‖ classifica-se, quanto à regência, apenas como transitivo direto. Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 14 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. PROVA 3 TEXTO I Leia os fragmentos abaixo transcritos, extraídos de contos do livro Felicidade clandestina, de Clarice Lispector, para responder às questões de 1 a 10. ―(...) As palavras me antecedem e ultrapassam, elas me tentam e me modificam, e se não tomo cuidado será tarde demais: as coisas serão ditas sem eu as ter dito. Ou, pelo menos, não era apenas isso. Meu enleio vem de que um tapete é feito de tantos fios que posso me resignar a seguir um fio só; meu enredamento vem de que uma história é feita de muitas histórias. (...)‖ (de ―Os desastres de Sofia‖) (...) Na verdade era uma vida de sonho. Às vezes, quando falavam de alguém excêntrico, diziam com a benevolência que uma classe tem por outra: ―Ah, esse leva uma vida de poeta‖. Pode-se talvez dizer, aproveitando as poucas palavras que se conheceram do casal, pode-se dizer que ambos levavam, menos a extravagância, uma vida de mau poeta: vida de sonho. Não, não era verdade. Não era uma vida de sonho, pois este jamais os orientara. Mas de irrealidade. (...)‖ (de ―Os obedientes‖) Com base nos fragmentos acima transcritos, extraídos de contos do livro Felicidade Clandestina, de Clarice Lispector, considere as seguintes afirmativas: (1) Os fragmentos de texto acima, eminentemente descritivos, priorizam a abordagem da vida interior, própria ou alheia, revelando sutis alternâncias de percepção da realidade. (2) A função metalinguística da linguagem está presente no primeiro fragmento. (3) No último período do primeiro fragmento, Clarice Lispector, por meio da relação de causa e consequência, evidencia alguns elementos que compõem o enredo de suas narrativas. (4) O trecho ―Na verdade era uma vida de sonho. Às vezes, quando falavam de alguém excêntrico, diziam com a benevolência que uma classe tem por outra (...)‖ admite a seguinte reescritura, sem prejuízo para a correção gramatical e para a coerência textual: ―Na verdade, era uma vida onírica. Às vezes, quando falavam de alguém singular, diziam, com a benevolência, que uma classe tem por outra(...)‖. (5) Em ―as coisas serão ditas sem eu as ter dito‖, tanto a oração principal quanto a oração subordinada adverbial reduzida de infinitivo apresentam estrutura verbal na voz passiva analítica. (6) Em ―pode-se dizer que ambos levavam, menos a extravagância, uma vida de mau poeta‖, o verbo auxiliar da locução verbal, ―pode‖, está no singular porque o sujeito é genérico ou indeterminado. (7) No fragmento ―Não era uma vida de sonho, pois este jamais os orientara‖, o pronome ―este‖ tem função dêitica. (8) Em ―diziam com a benevolência que uma classe tem por outra‖, a palavra ―que‖ exerce função sintática de objeto direto. (9) No fragmento ―pode-se dizer que ambos levavam, menos a extravagância, uma vida de mau poeta: vida de sonho. Não, não era verdade. Não era uma vida de sonho, pois este jamais os orientara‖, os sintagmas nominais destacados desempenham igual função sintática. Língua Portuguesa em 560 questões comentadasProf. Fernando Moura 15 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. (10) O período ―Meu enleio vem de que um tapete é feito de tantos fios‖ é composto por subordinação, e a segunda oração classifica-se em subordinada substantiva objetiva indireta desenvolvida. Leia os fragmentos abaixo transcritos, extraídos do livro A hora da estrela, de Clarice Lispector, para responder às questões de 11 a 20. Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou. (...) Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever. Como começar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer? Se antes da pré-pré- história já havia os monstros apocalípticos? Se esta história não existe, passará a existir. Pensar é um ato. Sentir é um fato. Os dois juntos – sou eu que escrevo o que estou escrevendo. [...] Felicidade? Nunca vi palavra mais doida, inventada pelas nordestinas que andam por aí aos montes. Como eu irei dizer agora, esta história será o resultado de uma visão gradual – há dois anos e meio venho aos poucos descobrindo os porquês. É visão da iminência de. De quê? Quem sabe se mais tarde saberei. Como que estou escrevendo na hora mesma em que sou lido. Só não inicio pelo fim que justificaria o começo – como a morte parece dizer sobre a vida – porque preciso registrar os fatos antecedentes. LISPECTOR, C. A Hora da Estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1998 (fragmento). (11) No fragmento acima, nota-se que o narrador observa os acontecimentos que narra sob uma ótica distante e é indiferente aos fatos e às personagens. (12) Infere-se da leitura do fragmento acima que o narrador revela-se um sujeito que reflete sobre questões existenciais e sobre a construção do discurso. (13) No fragmento ―Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim‖, destacaram-se advérbios, respectivamente, de tempo e de afirmação. (14) Em ―Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou‖, os vocábulos destacados são, respectivamente, substantivo, decorrente do processo de derivação imprópria, e conjunção integrante. (15) O trecho ―Como começar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer?‖ admite a seguinte reescritura, sem prejuízo para a correção gramatical e para a coerência textual: ―Como se começar pelo início, caso as coisas acontecem antes de acontecerem?‖. (16) Na linha 4, uma vírgula pode ser registrada após ―resposta‖, sem prejuízo para a correção gramatical do texto. (17) O trecho ―Como começar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer? Se antes da pré-pré-história já havia os monstros apocalípticos? Se esta história não existe, passará a existir. Pensar é um ato‖ admite a seguinte reescritura, sem prejuízo para a correção gramatical e para a coerência textual, alterando-se os sinais de pontuação e fazendo-se os devidos ajustes de iniciais minúsculas: ―Como começar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer; se antes da pré- Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 16 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. pré-história já havia os monstros apocalípticos; se esta história não existe, passará a existir; pensar é um ato‖. (18) Em ―Os dois juntos – sou eu que escrevo o que estou escrevendo.‖, os vocábulos destacados correspondem, respectivamente, a uma partícula expletiva e a um pronome relativo com função sintática de complemento verbal direto. (19) No trecho ―Nunca vi palavra mais doida, inventada pelas nordestinas que andam por aí aos montes‖, as orações destacadas são adjetivas explicativas, respectivamente, reduzida de particípio e desenvolvida. (20) Em ―Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever‖, os sintagmas nominais destacados desempenham igual função sintática. RESPOSTAS COMENTADAS (1) Errado. Os fragmentos de texto acima, eminentemente narrativos, tratam da vida interior, própria ou alheia, revelando sutis alternâncias de percepção da realidade. (2) Errado. A função emotiva ou expressiva da linguagem está presente no primeiro fragmento. Observe o uso da primeira pessoa do singular: ―me‖, ―tomo‖, ―eu‖, ―enleio‖, ―posso‖, ―meu‖. (3) Certo. No último período do primeiro fragmento, Clarice Lispector, por meio da relação de causa e consequência, evidencia alguns elementos que compõem o enredo de suas narrativas. Observe: ―Meu enleio vem de que um tapete é feito de tantos fios (= causa) que (= conjunção subordinativa consecutiva) posso me resignar a seguir um fio só (= consequência); meu enredamento vem de que uma história é feita de muitas histórias. Entendeu? (4) Errado. O trecho ―Na verdade era uma vida de sonho. Às vezes, quando falavam de alguém excêntrico, diziam com a benevolência que (= pronome relativo/a qual) uma classe tem por outra (...)‖ não admite a seguinte reescritura, sem prejuízo para a correção gramatical e para a coerência textual: ―Na verdade, era uma vida onírica. Às vezes, quando falavam de alguém singular, diziam, com a benevolência, que (= conjunção integrante) uma classe tem por outra(...)‖. A mudança de função gramatical do vocábulo ―que‖ tornou a reescritura incoerente. (5) Errado. Em ―as coisas serão ditas (voz passiva analítica)/ sem eu as (objeto direto) ter dito (v.t.d.) (voz ativa)‖. Lembre-se de que o objeto direto somente existirá na voz ativa. (6) Errado. Em ―pode-se (partícula apassivadora) dizer (v.t.d) que ambos levavam, menos a extravagância, uma vida de mau poeta‖, o verbo auxiliar da locução verbal, ―pode‖, está no singular porque o sujeito é oracional. Lembre-se de que a partícula apassivadora transforma a oração ―que ambos levavam, menos a extravagância, uma vida de mau poeta‖ em oração subordinada substantiva subjetiva. Assim, ―que ambos levavam, menos a extravagância, uma vida de mau poeta pode ser dito‖. (7) Errado. No fragmento ―Não era uma vida de sonho, pois este jamais os orientara‖, o pronome ―este‖ tem função anafórica e endofórica, cujo objetivo é retomar o termo sintático próximo ―sonho‖. (8) Certo. Em ―diziam com a benevolência que uma classe tem por outra‖, a palavra ―que‖ exerce função sintática de objeto direto. Observe que o pronome relativo ―que‖ retoma o antecedente ―a benevolência‖. Assim, ―a benevolência uma classe tem por outra‖. Coloque, agora, na ordem direta: ―uma classe tem (v.t.d) a benevolência (objeto direto) por outra‖. (9) Errado No fragmento ―pode-se dizer que ambos levavam (v.t.d), menos a extravagância, uma vida de mau poeta: vida de sonho (objeto direto). Não, não era verdade. (Ela) Não era (verbo de ligação) uma vida de sonho (predicativo do Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 17 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. sujeito), pois este jamais os orientara‖, os sintagmas nominais destacados não desempenham igual função sintática. (10) Certo. O período ―Meu enleio vem (v.t.i) de que um tapete é feito de tantos fios‖ é composto por subordinação, e a segunda oração classifica-se em subordinada substantiva objetiva indireta desenvolvida, já que a conjunção integrante ―que‖ está explícita. (11) Errado. No fragmento acima, nota-se que o narrador participa, ao empregar a primeira pessoa do singular (―eu‖), dos acontecimentos que narra, sem uma ótica distante e indiferente aos fatos e às personagens, uma vez que existem inúmerostraços de subjetividade. (12) Certo. Infere-se da leitura do fragmento acima que o narrador revela-se um sujeito que reflete sobre questões existenciais (―Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever‖) e sobre a construção do discurso (―Como que estou escrevendo na hora mesma em que sou lido. Só não inicio pelo fim que justificaria o começo – como a morte parece dizer sobre a vida – porque preciso registrar os fatos antecedentes.‖). (13) Errado. No fragmento ―Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim‖, destacaram-se substantivos, pelo processo de derivação imprópria. Observe o artigo a acompanhar os substantivos: o nunca/ o sim. . (14) Errado. Em ―Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou‖, os vocábulos destacados são, respectivamente, pronome indefinido interrogativo ao final da frase interrogativa indireta (por isso, o acento circunflexo) e conjunção integrante. Ressalte-se que a forma ―o‖ antes de ―quê‖ é apenas um apoio fonético que pode ser eliminado. Observe: ―O que você fez?‖ ou ―Que você fez?‖. (15) Errado. O trecho ―Como começar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer?‖ admite a seguinte reescritura, sem prejuízo para a correção gramatical e para a coerência textual: ―Como se começar pelo início, caso as coisas aconteçam antes de acontecerem?‖. (16) Certo. Em rigor, na linha 4, uma vírgula deveria ser registrada após ―resposta‖, sem prejuízo para a correção gramatical do texto. Trata-se de oração subordinada adverbial temporal deslocada para o início do período. (17) Errado. O trecho ―Como começar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer? Se antes da pré-pré-história já havia os monstros apocalípticos? Se esta história não existe, passará a existir. Pensar é um ato‖ não admite a seguinte reescritura, sem prejuízo para a correção gramatical e para a coerência textual, alterando-se os sinais de pontuação e fazendo-se os devidos ajustes de iniciais minúsculas: ―Como começar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer; se antes da pré-pré-história já havia os monstros apocalípticos; se esta história não existe, passará a existir; pensar é um ato‖. Na reescritura, misturaram-se perguntas e afirmações, o que torna o texto incoerente e gramaticalmente incorreto. (18) Certo. Em ―Os dois juntos – sou (=expletivo) eu que (= expletivo) escrevo o (= aquilo) que (= o qual) estou escrevendo‖ (eu escrevo o que estou escrevendo), os vocábulos destacados correspondem, respectivamente, a uma partícula expletiva e a um pronome relativo com função sintática de complemento verbal direto. Veja a ordem direta: ―Eu estou escrevendo (v.t.d) aquilo (objeto direto). O pronome relativo ―que‖ está no lugar de ―aquilo‖; substitui, portanto, o objeto direto. (19) Errado. No trecho ―Nunca vi palavra mais doida, (que foi) inventada pelas nordestinas que andam por aí aos montes‖, a primeira oração destacada é adjetiva explicativa reduzida de particípio (veja que o pronome relativo ficou implícito e está precedido de vírgula), mas a segunda oração, introduzida pelo pronome relativo explícito ―que‖ (não precedido de vírgula) é adjetiva restritiva desenvolvida. (20) Certo. Em ―Enquanto eu tiver (v.t.d.) perguntas (objeto direto) e não houver (v.t.d) resposta (objeto direto) continuarei a escrever‖, os sintagmas nominais destacados desempenham igual função sintática: objeto direto. Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 18 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. PROVA 4 TEXTO I A cachorra Baleia estava para morrer. Tinha emagrecido, o pelo caíra-lhe em vários pontos, as costelas avultavam num fundo róseo, onde manchas escuras supuravam e sangravam, cobertas de moscas. As chagas da boca e a inchação dos beiços dificultavam-lhe a comida e a bebida. Por isso Fabiano imaginara que ela estivesse com um princípio de hidrofobia e amarrara-lhe no pescoço um rosário de sabugos de milho queimados. Mas Baleia, sempre de mal a pior, roçava-se nas estacas do curral ou metia-se no mato, impaciente, enxotava os mosquitos sacudindo as orelhas murchas, agitando a cauda pelada e curta, grossa na base, cheia de moscas, semelhante a uma cauda de cascavel. Então Fabiano resolveu matá-la. [...] Sinha Vitória fechou-se na camarinha, rebocando os meninos assustados, que adivinhavam desgraça e não se cansavam de repetir a mesma pergunta: — Vão bulir com a Baleia? [...] Ela era como uma pessoa da família: brincavam juntos os três, para bem dizer não se diferençavam, rebolavam na areia do rio e no estrume fofo que ia subindo, ameaçava cobrir o chiqueiro das cabras. Quiseram mexer na taramela e abrir a porta, mas sinha Vitória levou-os para a cama de varas, deitou-os e esforçou-se por tapar-lhes os ouvidos: prendeu a cabeça do mais velho entre as coxas e espalmou as mãos nas orelhas do segundo. Como os pequenos resistissem, aperreou-se e tratou de subjugá-los, resmungando com energia. Ela também tinha o coração pesado, mas resignava-se: naturalmente a decisão de Fabiano era necessária e justa. Pobre da Baleia. [...] Na luta que travou para segurar de novo o filho rebelde, zangou-se de verdade. Safadinho. Atirou um cocorote ao crânio enrolado na coberta vermelha e na saia de ramagens. Pouco a pouco a cólera diminuiu, e sinha Vitória, embalando as crianças, enjoou-se da cadela achacada, gargarejou muxoxos e nomes feios. Bicho nojento, babão. Inconveniência deixar cachorro doido solto em casa. Mas compreendia que estava sendo severa demais, achava difícil Baleia endoidecer e lamentava que o marido não houvesse esperado mais um dia para ver se realmente a execução era indispensável. RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. 71. ed. Rio de Janeiro: Record, 1998. p. 85-86. No que diz respeito às ideias e às estruturas linguísticas do texto, julgue os itens a seguir. (1) O primeiro e o segundo parágrafos contêm argumentos que justificam a decisão a ser tomada em relação a Baleia. (2) O poder de decisão do chefe de família no ambiente rural fica evidente no texto. (3) Sinha Vitória, ao aceitar passivamente a decisão do marido no que se refere a Baleia, demonstra ser indiferente ao animal e preocupar-se exclusivamente com seus filhos. (4) O conectivo ―Mas‖, no último parágrafo, antecede uma explicação do conflito entre razão e emoção vivido por sinhá Vitória. Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 19 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. (5) Em ―Tinha emagrecido, o pelo caíra-lhe em vários pontos...‖, o pronome ―lhe‖, com valor de posse, tem função anafórica e apresenta como referente o sintagma nominal ―A cachorra Baleia‖ (linha 1). (6) O vocábulo ―onde‖ (linha 2), pronome relativo, pode ser substituído por ―em que‖ ou ―no qual‖ e introduz oração subordinada adjetiva explicativa. (7) O verbo ―imaginara‖ (linha 3) pode ser substituído por ―havia imaginado‖, sem prejuízo para a correção gramatical e para o sentido original do texto. (8) Em ―...roçava-se nas estacas do curral ou metia-se no mato...‖, os verbos estão registrados no singular porque o sujeito é genérico ou indeterminado. (9) Nos trechos ―Sinha Vitória fechou-se na camarinha, rebocando os meninos assustados, que adivinhavam desgraça e não se cansavam de repetir a mesma pergunta: — Vão bulir com a Baleia?‖ e ―Ela também tinha o coração pesado, mas resignava-se: naturalmente a decisão de Fabiano era necessária e justa. Pobre da Baleia‖, há, respectivamente, registro do discurso direto e do discurso indireto livre. (10) Em ―Mas compreendiaque estava sendo severa demais, achava difícil Baleia endoidecer‖, os adjetivos destacados exercem função predicativa, respectivamente, do sujeito e do objeto. TEXTO II Os meninos sumiam-se numa curva do caminho. Fabiano adiantou-se para alcançá- los. Era preciso aproveitar a disposição deles, deixar que andassem à vontade. Sinha Vitória acompanhou o marido, chegou-se aos filhos. Dobrando o cotovelo da estrada, Fabiano sentia distanciar-se um pouco dos lugares onde tinha vivido alguns anos; o patrão, o soldado amarelo e a cachorra Baleia esmoreceram no seu espírito. E a conversa recomeçou. Agora Fabiano estava meio otimista. Endireitou o saco da comida, examinou o rosto carnudo e as pernas grossas da mulher. Bem. Desejou fumar. Como segurava a boca do saco e a coronha da espingarda, não pôde realizar o desejo. Temeu arriar, não prosseguir na caminhada. Continuou a tagarelar, agitando a cabeça para afugentar uma nuvem que, vista de perto, escondia o patrão, o soldado amarelo e a cachorra Baleia. Os pés calosos, duros como cascos, metidos em alpercatas novas, caminhariam meses. Ou não caminhariam? Sinha Vitória achou que sim. [...] Por que haveriam de ser sempre desgraçados, fugindo no mato como bichos? Com certeza existiam no mundo coisas extraordinárias. Podiam viver escondidos, como bichos? Fabiano respondeu que não podiam. –– O mundo é grande. Realmente para eles era bem pequeno, mas afirmavam que era grande –– e marchavam, meio confiados, meio inquietos. Olharam os meninos que olhavam os montes distantes, onde havia seres misteriosos. Em que estariam pensando? zumbiu sinha Vitória. Fabiano estranhou a pergunta e rosnou uma objeção. Menino é bicho miúdo, não pensa. Mas sinha Vitória renovou a pergunta –– e a certeza do marido abalou-se. Ela devia ter razão. Tinha sempre razão. Agora desejava saber que iriam fazer os filhos quando crescessem. –– Vaquejar, opinou Fabiano. Sinha Vitória, com uma careta enjoada, balançou a cabeça negativamente, arriscando-se a derrubar o baú de folha. Nossa Senhora os livrasse de semelhante desgraça. Vaquejar, que ideia! Chegariam a uma terra distante, esqueceriam a catinga onde havia montes baixos, cascalhos, rios secos, espinhos, urubus, bichos morrendo, gente morrendo. Não voltariam nunca mais, resistiriam à saudade que ataca os sertanejos na mata. Então eles Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 20 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. eram bois para morrer tristes por falta de espinhos? Fixar-se-iam muito longe, adotariam costumes diferentes. RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. 71. ed. Rio de Janeiro: Record, 1998. p. 120-122. No que diz respeito às ideias e às estruturas linguísticas do texto, julgue os itens a seguir. (11) Infere-se do texto que Fabiano considera necessária a imersão das crianças no mundo convencional para apreendê-lo e, assim, libertá-las das condições socioculturais vividas. (12) Na linha 1, as duas ocorrências do vocábulo ―se‖ têm função expletiva. (13) O trecho ―Dobrando o cotovelo da estrada, Fabiano sentia distanciar-se um pouco dos lugares onde tinha vivido alguns anos; o patrão, o soldado amarelo e a cachorra Baleia esmoreceram no seu espírito‖ admite a seguinte reescritura no tocante à pontuação, sem prejuízo para a correção gramatical e para o sentido original: ―Dobrando o cotovelo da estrada ─ Fabiano sentia distanciar-se um pouco dos lugares onde tinha vivido alguns anos: o patrão, o soldado amarelo e a cachorra Baleia, esmoreceram no seu espírito‖. (14) Em ―Como segurava a boca do saco e a coronha da espingarda, não pôde realizar o desejo‖, estabelece-se relação de causa e conseqüência. (15) No fragmento ―Os pés calosos, duros como cascos, metidos em alpercatas novas, caminhariam meses. Ou não caminhariam? Sinha Vitória achou que sim‖, o vocábulo ―sim‖ tem função vicária. (16) Em ―Por que haveriam de ser sempre desgraçados, fugindo no mato como bichos? Com certeza existiam no mundo coisas extraordinárias‖, os verbos destacados podem ser substituídos, respectivamente, por teria e havia, sem prejuízo para a correção gramatical do texto. (17) No quarto parágrafo, as ocorrências da palavra ―que‖ exercem, respectivamente, as seguintes funções morfológicas: conjunção integrante, pronome relativo, pronome indefinido interrogativo e pronome indefinido interrogativo. (18) Em ―Sinha Vitória, com uma careta enjoada, balançou a cabeça negativamente‖, as vírgulas isolam aposto de caráter explicativo. (19) O acento indicativo de crase em ―Não voltariam nunca mais, resistiriam à saudade que ataca os sertanejos na mata‖ pode ser eliminado e o elemento que fica é a preposição necessária à regência do verbo ―resistiam‖. (20) No último período do texto, a estrutura ―Fixar-se-iam‖ pode ser substituída por ―Fixariam-se‖, sem prejuízo para a correção gramatical do texto. RESPOSTAS COMENTADAS (1) Certo. De fato, primeiro e o segundo parágrafos contêm argumentos que justificam a decisão a ser tomada em relação a Baleia. Observe que, no início, do segundo parágrafo, o elemento relacionador ―Por isso‖ (= Por causa disso) estabelece Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 21 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. relação anafórica com o parágrafo anterior e cria a situação de justificativa. Ademais, o conector ―Então‖ (= Portanto), ao final do segundo parágrafo, reforça essa justificativa. (2) Certo. O poder de decisão do chefe de família no ambiente rural fica evidente no trecho: ―... naturalmente a decisão de Fabiano era necessária e justa‖. (3) Errado. Sinha Vitória não demonstra ser indiferente ao animal e preocupar-se exclusivamente com seus filhos: ―Ela (Sinhá Vitória) também tinha o coração pesado, mas resignava-se: naturalmente a decisão de Fabiano era necessária e justa. Pobre da Baleia‖. (4) Certo. O conectivo ―Mas‖, no último parágrafo, antecede uma explicação do conflito entre razão e emoção vivido por sinha Vitória: ―... sinha Vitória, embalando as crianças, enjoou-se da cadela achacada, gargarejou muxoxos e nomes feios. Bicho nojento, babão. Inconveniência deixar cachorro doido solto em casa (RAZÃO). Mas compreendia que estava sendo severa demais, achava difícil Baleia endoidecer e lamentava que o marido não houvesse esperado mais um dia para ver se realmente a execução era indispensável (EMOÇÃO). (5) Certo. Em ―(A cachorra Baleia) Tinha emagrecido, o pelo caíra-lhe em vários pontos (= o pelo caíra em vários pontos dela) ...‖, o pronome ―lhe‖, com valor de posse, tem função anafórica e apresenta como referente o sintagma nominal ―A cachorra Baleia‖ (linha 1). (6) Certo. O vocábulo ―onde‖ (linha 2), pronome relativo que retoma ―num fundo róseo‖, pode ser substituído por ―em que‖ ou ―no qual‖ e introduz oração subordinada adjetiva explicativa (coordenada com outra oração): ―onde manchas escuras supuravam / e sangravam‖. (7) Certo. O verbo ―imaginara‖ (linha 3), flexionado no pretérito mais-que-perfeito simples do indicativo, pode ser substituído por ―havia/tinha imaginado‖, flexionado no pretérito mais-que-perfeito composto do indicativo, sem prejuízo para a correção gramatical e para o sentido original do texto. (8) Errado. Em ―Mas Baleia, sempre de mal a pior, roçava-se nas estacas do curral ou metia-se no mato‖, os verbos estão registrados no singular porque concordam com o sujeito singular ―Baleia‖. Nos dois casos, o vocábulo ―se‖ funciona como parte integrante do verbo. (9) Certo. Nos trechos ―Sinha Vitória fechou-se na camarinha, rebocando os meninos assustados, que adivinhavam desgraça e nãose cansavam de repetir a mesma pergunta: — Vão bulir com a Baleia?‖ ( discurso direto: reproduz-se fielmente, com o uso do travessão, a fala das personagens) e ―Ela também tinha o coração pesado, mas resignava-se: naturalmente a decisão de Fabiano era necessária e justa. Pobre da Baleia‖ (discurso indireto livre: não se sabe se essa fala é de Sinha Vitória ou do narrador, até porque não se usam aspas ou travessão), há, respectivamente, registro do discurso direto e do discurso indireto livre. (10) Certo. Em ―Mas (ela) compreendia que (ela) estava sendo severa (predicativo do sujeito ―ela‖) demais, (ela) achava (v.t.d) difícil (predicativo do objeto ―Baleia endoidecer‖) Baleia endoidecer (objeto direto oracional), os adjetivos destacados exercem função predicativa, respectivamente do sujeito e do objeto. Entendeu? Um gesto positivo, por favor! (11) Errado. Não se pode inferir do texto que Fabiano considera necessária a imersão das crianças no mundo convencional para apreendê-lo e, assim, libertá-las das condições socioculturais vividas, uma vez que ele evidencia dúvidas, ao contrário do desejo de Sinha Vitória, do futuro delas e da ideia de ―libertá-las das condições socioculturais vividas‖: ―Agora desejava saber que iriam fazer os filhos quando crescessem. –– Vaquejar, opinou Fabiano‖. (12) Errado. Em ―Os meninos sumiam-se (= desapareciam) numa curva do caminho‖, a palavra ―se‖ tem função expletiva; pode ser eliminada sem prejuízo morfossintático. Contudo, em ―Fabiano adiantou-se (= antecipou-se) para alcançá- los‖, a palavra ―se‖ constitui parte integrante do verbo. Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 22 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. (13) Errado. O trecho ―Dobrando o cotovelo da estrada, Fabiano sentia distanciar-se um pouco dos lugares onde tinha vivido alguns anos; o patrão, o soldado amarelo e a cachorra Baleia esmoreceram no seu espírito‖ admite a seguinte reescritura no tocante à pontuação, sem prejuízo para a correção gramatical e para o sentido original: ―Dobrando o cotovelo da estrada ─ (oração reduzida de gerúndio deslocada para o início do período: deve-se usar a vírgula e não o travessão) Fabiano sentia distanciar-se um pouco dos lugares onde tinha vivido alguns anos: (sinal de dois pontos inadequado: a oração seguinte não reforça nem esclarece a anterior) o patrão, o soldado amarelo e a cachorra Baleia, esmoreceram no seu espírito‖. (14) Certo. Em ―Como (= uma vez que) segurava a boca do saco e a coronha da espingarda (CAUSA), não pôde realizar o desejo (CONSEQUÊNCIA)‖, estabelece- se relação de causa e consequência. (15) Certo. O elemento vicário, segundo a gramática latina, substitui oração. É o que faz o vocábulo ―sim‖ no fragmento seguinte: ―Os pés calosos, duros como cascos, metidos em alpercatas novas, caminhariam meses. Ou não caminhariam? Sinha Vitória achou que sim (= caminhariam)‖. Portanto, o vocábulo ―sim‖ tem função vicária. (16) Errado. Em ―Por que (eles) haveriam de ser sempre desgraçados, fugindo no mato como bichos? Com certeza existiam no mundo coisas extraordinárias‖, os verbos destacados podem ser substituídos, respectivamente, por (eles) teriam e havia (= verbo impessoal; apresenta o sentido de ―existir‖), sem prejuízo para a correção gramatical do texto. (17) Certo. No quarto parágrafo, as ocorrências da palavra ―que‖ exercem, respectivamente, as seguintes funções morfológicas: conjunção integrante, pronome relativo, pronome indefinido interrogativo e pronome indefinido interrogativo: ―Realmente para eles era bem pequeno, mas afirmavam que era grande (= conjunção integrante) –– e marchavam, meio confiados, meio inquietos. Olharam os meninos que (= os quais/ pronome relativo) olhavam os montes distantes, onde havia seres misteriosos. Em que (= pronome interrogativo indefinido em frase interrogativa direta) estariam pensando? zumbiu sinha Vitória. Fabiano estranhou a pergunta e rosnou uma objeção. Menino é bicho miúdo, não pensa. Mas sinha Vitória renovou a pergunta –– e a certeza do marido abalou-se. Ela devia ter razão. Tinha sempre razão. Agora desejava saber que (= pronome interrogativo indefinido em frase interrogativa indireta) iriam fazer os filhos quando crescessem (?). Entendeu? (18) Errado. Em ―Sinha Vitória, com uma careta enjoada, balançou a cabeça negativamente‖, as vírgulas isolam adjunto adverbial de modo registrado entre o sujeito e o verbo. (19) Errado. O acento indicativo de crase em ―Não voltariam nunca mais, resistiriam à saudade que ataca os sertanejos na mata‖ não pode ser eliminado, visto que a preposição é necessária à regência do verbo ―resistiam‖, e o artigo definido ―a‖ deve acompanhar o substantivo feminino ―saudade‖, particularizado no contexto. (20) Errado. A estrutura ―Fixariam-se‖ está errada, haja vista que o futuro do pretérito (assim como o futuro do presente) não admite pronome átono enclítico, ou seja, posposto ao verbo. Forma correta: ―Fixar-se-iam‖ (mesóclise). PROVA 5 Texto para os itens de 1 a 10 As mulheres sabem que a participação democrática é o principal meio de defesa de seus interesses e de conquista de representação política, tal como a implantação do sistema de quotas para aumentar o número de representantes eleitas. Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 23 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. O número reduzido de mulheres que ocupam cargos públicos — atualmente, uma média mundial de 19% nas assembleias nacionais — constitui um déficit a corrigir. A participação das mulheres em todos os níveis do governo democrático — local, nacional e regional — diversifica a natureza das assembleias democráticas e permite que o processo de tomada de decisões responda a necessidades dos cidadãos não atendidas no passado. Internet: <http://www.unric.org/pt/> (com adaptações). Julgue os itens com base nas ideias e nos aspectos estruturais do texto (1) A participação feminina nas assembleias nacionais deveria ser maior. (2) As ―necessidades dos cidadãos não atendidas no passado‖ restringem-se ao universo feminino. (3) Os problemas relativos ao não atendimento das necessidades dos cidadãos já teriam sido sanados se as mulheres sempre houvessem ocupado cargos públicos. (4) O sistema de governo democrático favorece o atendimento das necessidades da população feminina. (5) A inserção de vírgula logo depois do termo ―cidadãos‖ (linha 8) acarretaria prejuízo sintático e semântico ao texto. (6) Se a palavra ―atendidas‖ (linha 8) fosse flexionada no masculino — atendidos —, estariam mantidos a correção gramatical e o sentido original do texto. (7) Pelo emprego das estruturas ―assembleias nacionais‖ (linha 5) e ―assembleias democráticas‖ (linha 7), é correto inferir que a expressão ―cargos públicos‖ (linha 4) se refere, efetivamente, aos cargos políticos no Poder Legislativo, dado o alto índice de participação feminina nos cargos do Poder Executivo. (8) Na linha 6, o trecho entre travessões constitui uma enumeração em progressão ascendente dos ―níveis de governo‖ referidos na linha anterior. (9) Na linha 4, o termo ―mulheres‖ constitui o sujeito sintático do verbo ―ocupam‖. (10) No trecho ―As mulheres sabem que a participação democrática é o principal meio de defesa de seus interesses e de conquista de representação política, tal como a implantação do sistema de quotas para aumentar o número de representantes eleitas‖, há, ao todo, três complementos nominais. Texto para os itens de 11 a 20. A instrumentalização da cidadania e da soberania popular, em uma democracia contemporânea, faz-sepelo instituto da representação política. E a transformação da soberania popular em representação se dá, em grande parte, por meio da eleição. O povo a que remete a ideia de soberania popular constitui uma unidade, e não, a soma de indivíduos. Jurídica e constitucionalmente, a representação ―representa‖ o povo (e não, todos os indivíduos). Além disso, não há propriamente mandato, pois a função do representante se dá nos limites constitucionais e não se determina por instruções ou cláusulas estabelecidas entre ele (ou o conjunto de representantes) e o eleitorado. As condições para o exercício do mandato e, no limite, seu conteúdo estão predeterminados na Constituição e apenas nela. Estritamente, sequer é possível falar em representação, pois não há uma vontade pré-formada. Há a construção de uma vontade, limitada apenas aos contornos constitucionais. Eneida Desiree Salgado. Princípios constitucionais estruturantes do direito eleitoral. Tese de doutoramento. Curitiba: Universidade Federal do Paraná, 2010. Internet: <http://dspace.c3sl.ufpr.br> (com adaptações). Julgue os itens de acordo com as informações presentes no texto e os seus aspectos linguísticos e tipológicos. (11) O representante — um deputado federal, por exemplo — age conforme determinação legal constitucional, e não, segundo a vontade do povo. Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 24 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. (12) O representante representa o indivíduo, ao passo que a representação ―(ou o conjunto de representantes)‖ (linhas 7 e 8) representa o povo. (13) A ―vontade pré-formada‖ (linha 10) corresponderia aos anseios da ―soma de indivíduos‖ (linhas 4 e 5). (14) A expressão ―de indivíduos‖ (linhas 4 e 5) poderia ser substituída por individual sem que houvesse alteração do sentido textual. (15) O instituto da representação política constitui o meio pelo qual a cidadania e a soberania popular são operacionalizadas. (16) A rede temática do texto permite afirmar que, mediante o processo eleitoral, é possível atender às necessidades de cada um dos cidadãos de uma nação. (17) O pronome ―ele‖ (linha 7) tem como referente o nome ―representante‖ (linha 6). (18) A correção gramatical do texto seria mantida caso a expressão ―aos contornos constitucionais‖ (linha 11) fosse substituída por ―à legislação constitucional‖. (19) Identifica-se no texto ambivalência estrutural, evidenciada pela presença de trechos tipicamente dissertativos e outros marcadamente narrativos. (20) Em ―O povo a que remete a ideia de soberania popular constitui uma unidade‖, a palavra ―que‖ introduz oração subordinada adjetiva de caráter restritivo e exerce função sintática de complemento verbal indireto. RESPOSTAS COMENTADAS (1) Certo. Segundo o texto, a participação feminina nas assembleias nacionais deveria ser maior, uma vez que o número reduzido de mulheres que ocupam cargos públicos é um déficit a corrigir. (2) Errado. Em ―necessidades dos cidadãos não atendidas no passado‖, o vocábulo ―cidadãos‖ aplica-se, de forma genérica, a homens e mulheres. (3) Errado. A afirmação de que os problemas relativos ao não atendimento das necessidades dos cidadãos já teriam sido sanados se as mulheres sempre houvessem ocupado cargos públicos extrapola as informações contidas no texto. (4) Certo. O primeiro parágrafo confirma que o sistema de governo democrático favorece o atendimento das necessidades da população feminina. (5) Certo. A inserção de vírgula logo depois do termo ―cidadãos‖ (linha 8) acarretaria, sim, prejuízo sintático e semântico ao texto. A oração ―não atendidas no passado‖ deixaria de ter valor restritivo, conforme intenciona o redator, para assumir valor explicativo, generalizante. (6) Errado. Se a palavra ―atendidas‖ (linha 8) fosse flexionada no masculino — atendidos —, concordar-se-ia com ―cidadãos‖ (incoerente), e não com ―necessidades‖ (coerente). (7) Errado. Pelo emprego das estruturas ―assembleias nacionais‖ (linha 5) e ―assembleias democráticas‖ (linha 7), não é correto inferir que a expressão ―cargos públicos‖ (linha 4) se refere, efetivamente, aos cargos políticos no Poder Legislativo, dado o alto índice de participação feminina nos cargos do Poder Executivo. A afirmação extrapola a realidade textual e é despropositada. (8) Errado. Na linha 6, o trecho entre travessões não constitui uma enumeração em progressão ascendente dos ―níveis de governo‖ referidos na linha anterior. A gradação seria ―local, regional e nacional‖. Ainda assim, poder-se-ia entender que ―nacional e regional‖ corresponde a um aposto de ―local‖. Entendeu? Um gesto positivo, por favor. (9) Errado. Na linha 4, o pronome relativo ―que‖, que retoma o termo ―mulheres‖, constitui o sujeito sintático do verbo ―ocupam‖. (10) Certo. No trecho ―As mulheres sabem que a participação democrática é o principal meio de defesa de seus interesses (defender seus interesses) e de conquista de representação política (conquistar representação política), tal como a implantação do sistema de quotas (implantar sistema de cotas) para aumentar o número de representantes eleitas‖, há, ao todo, três complementos nominais (destacados). Os Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 25 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. outros termos preposicionados são apenas adjuntos adnominais, porquanto não estabelecem com o antecedente relação completiva. (11) Certo. O representante — um deputado federal, por exemplo — age conforme determinação legal constitucional, e não, segundo a vontade do povo. Releia o trecho: ―Além disso, não há propriamente mandato, pois a função do representante se dá nos limites constitucionais e não se determina por instruções ou cláusulas estabelecidas entre ele (ou o conjunto de representantes) e o eleitorado. As condições para o exercício do mandato e, no limite, seu conteúdo estão predeterminados na Constituição e apenas nela‖. (12) Errado. Segundo o texto, não há vontade individual no processo eleitoral. Em tese, o representante representa o povo. (13) Errado. A ―vontade pré-formada‖ (linha 10) não corresponderia aos anseios da ―soma de indivíduos‖ (linhas 4 e 5), mas aos anseios do povo. (14) Errado. A expressão ―de indivíduos‖ (linhas 4 e 5) corresponde a um complemento nominal e, por isso, não poderia ser substituída por individual, visto que haveria alteração do sentido textual. (15) Certo. A leitura do primeiro parágrafo permite afirmar que o instituto da representação política constitui o meio pelo qual a cidadania e a soberania popular são operacionalizadas. (16) Errado. Mediante o processo eleitoral, não é possível atender às necessidades de cada um dos cidadãos de uma nação. Lembre-se de que, segundo o texto, os representantes representam o povo, e não a soma dos indivíduos que o formam. (17) Certo. O pronome ―ele‖ (linha 7) tem, claramente, como referente o nome ―representante‖ (linha 6). (18) Certo. A correção gramatical do texto seria mantida caso a expressão ―aos contornos constitucionais‖ (linha 11) fosse substituída por ―à legislação constitucional‖. Observe o paralelismo (aos contornos/à legislação): preposição + artigo. (19) Errado. O texto é, fundamentalmente, dissertativo-argumentativo, porque o autor, durante todo o texto, expõe argumentos acerca de uma tese que defende. (20) Certo. Em ―O povo a que remete a ideia de soberania popular constitui uma unidade‖, a estrutura ―a que‖ (preposição + pronome relativo = ao qual) introduz oração subordinada adjetiva de caráter restritivo e exerce função sintática de complementoverbal indireto (O.I.) de ―remete‖. Observe: a ideia de soberania popular remete (v.t.i) ao povo (O.I.). PROVA 6 Texto para os itens de 1 a 10 Se há uma pessoa fascinada pelo Universo e ao mesmo tempo grilada com ele, sou eu. Isso começou no dia em que, num curso particular, o professor me revelou a existência da Terra e do Sistema Solar. Saí da aula atordoado. E era natural, uma vez que, até então, o mundo para mim eram as ruas de São Luís com seus sobrados e, sobretudo, o trecho em que eu morava, com as árvores da Quinta dos Medeiros, o bananal do sítio do Fiquene e, lá longe, o Matadouro e o Areal, por onde às vezes vagabundava. E vinha agora o professor me dizer que a Terra era redonda, coberta de oceanos e que o Sol era uma estrela em torno da qual ela girava. A Terra é que gira e não o Sol? Mas eu via o Sol surgir por detrás da Camboa, passar por cima de nossa casa e ir descendo em direção ao rio Bacanga. Cansei de vê-lo ─ uma bola de fogo ─ desaparecer atrás do manguezal. Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 26 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. Agora, vem esse professor e me garante que é a Terra que gira em torno do Sol e que, como ele, é redonda ─ uma bola. Ou seja, nada batia com o que eu percebia. Por isso fiquei atordoado, mas, com o tempo, me habituei. Desde que o bananal continuasse lá onde sempre esteve, que eu pudesse ir tomar banho na praia do Olho d‘Água e jogar bola no Campo do Ourique, pouco se me dava se a Terra fosse redonda e girasse. Foi o que disse a mim mesmo, mas o problema estava criado. De vez em quando, olhava o Sol e imaginava a Terra girando em volta dele, com seus oceanos. E a água não derrama?! Pior: a Terra girava numa velocidade de 107 mil quilômetros por hora ─ cem vezes mais veloz que um jato ─ e, no entanto, para mim, ela estava parada! Tive que ir atrás de livros que me explicassem melhor essas coisas. E desse modo, com as leituras e a reflexão, aprendi a distinguir entre a experiência que os sentidos nos oferecem e o conhecimento científico. O resultado foi que, em lugar da desconfiança, vieram a aceitação e o fascínio. À medida que me informava melhor, entendia as leis cósmicas que regem o funcionamento do Universo, que foi se tornando uma realidade assustadora e deslumbrante. Aprendi que os planetas alteram a forma do espaço em volta deles e que isso influi na propagação da luz, e soube dos buracos negros, onde tudo some, sugado por uma força inimaginável. Até a luz é engolida. Some e vai para onde? Não sei nem me informaram. Mas esses são detalhes, pois o fundamental é responder à questão que intriga a todos: como foi que tudo começou? A resposta é conhecida com o Big Bang, ou seja, a explosão que deu origem ao universo. Bem, para mim, o Big Bang pode ter dado origem às galáxias e a tudo o mais; porém, como o nada não explode, havia antes alguma coisa que explodiu. E não é que agora, com a notícia de que foi afinal confirmada a tal partícula bóson de Higgs ─ apelidada de ―partícula de Deus‖ ─ minha suspeita se confirma? O que nasceu da tal explosão foi só o universo atual, ou seja, o Big Bang não é a origem de tudo. Isso se entendi bem o que significa o bóson de Higgs. Os cientistas do Centro Europeu de Pesquisas Nucleares (Cern) é que detectaram essa nova partícula subatômica, a que faltava para completar o Modelo Padrão da Física. A teoria de Higgs, formulada em 1964, previa a existência de 32 partículas fundamentais, das quais 31 já tinham sido detectadas, menos uma, o bóson, responsável, logo após o Big Bang, pelo surgimento da massa, que viria constituir tudo o que existe, das galáxias aos planetas, das estrelas ao seres vivos. Noutras palavras, não é que antes do Universo não existisse nada: existia apenas a energia que, por alguma razão, explodiu, gerando os prótons, elétrons etc., que formam os átomos e formariam a matéria cósmica. O que possibilitou a agregação dessas partículas, criando assim a massa, foi o bóson, conforme a teoria de Higgs. Agora, como surgiu a energia que fez surgir o bóson que fez surgir a massa que constitui o universo, ninguém sabe. Disso os cientistas não falam, e com toda a razão. Mas disso sobra-me uma certeza: por ser infinito, o universo não tem fora, só dentro. Como já dissera Parmênides (século 5º a.C.), o um é um e não é dois. (―O dentro sem fora‖, Ferreira Gullar) Julgue os itens com base nas ideias e nos aspectos estruturais do texto (1) Segundo o texto, a constatação de que a Terra era redonda e girava em torno do sol, e não o contrário, não estava em consonância com as percepções empíricas do narrador, o que justifica a escolha do título ―O dentro sem fora‖. (2) No trecho ―Agora, vem esse professor e me garante que é a Terra que gira em torno do Sol e que, como ele, é redonda ─ uma bola‖, a primeira e a terceira Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 27 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. ocorrências da palavra ―que‖ correspondem a conjunções integrantes; a segunda, a pronome relativo. (3) Em ―Cansei de vê-lo ─ uma bola de fogo ─ desaparecer atrás do manguezal‖, a forma pronominal ―lo‖ corresponde ao sujeito da forma infinitiva ―desaparecer‖. (4) No fragmento ―O resultado foi que, em lugar da desconfiança, vieram a aceitação e o fascínio‖, a forma verbal ―vieram‖ pode ser substituída por ―veio‖, sem prejuízo para a correção gramatical e para a coerência textual. (5) O texto mostra que a expressão ―partícula de Deus‖ tem origem poética e refere-se ao fato de as partículas conhecidas como bósons atuarem como mensageiras entre as partículas de matéria. (6) O trecho ―Os cientistas do Centro Europeu de Pesquisas Nucleares (Cern) é que detectaram essa nova partícula subatômica, a que faltava para completar o Modelo Padrão da Física‖ admite a seguinte reescritura, sem prejuízo para a correção gramatical e para o sentido original: ―São os cientistas do Centro Europeu de Pesquisas Nucleares (Cern) que identificaram essa nova partícula subatômica ─ a que faltava para completar o Modelo Padrão da Física‖. (7) Em ―O que possibilitou a agregação dessas partículas, criando assim a massa, foi o bóson, conforme a teoria de Higgs‖, o verbo ―foi‖ está no singular para estabelecer concordância com a forma pronominal substantiva ―O‖, núcleo do sujeito. (8) Em ―Agora, como surgiu a energia que fez surgir o bóson que fez surgir a massa que constitui o universo, ninguém sabe‖, a estrutura destacada corresponde a uma oração subordinada substantiva objetiva direta, seguida de três orações subordinadas adjetivas restritivas. (9) No trecho ―Como já dissera Parmênides (século 5º a.C.), o um é um e não é dois‖, as duas ocorrências da forma verbal ―é‖ têm função conectiva ou de ligação. (10) Em ―A teoria de Higgs, formulada em 1964, previa a existência de 32 partículas fundamentais, das quais 31 já tinham sido detectadas‖, as duas primeiras vírgulas indicam interrupção sintática de oração com valor adverbial, e a terceira, a introdução de oração adjetiva explicativa. Texto para os itens de 11 a 15. Monteiro Lobato, ao afirmar que "um país se faz com homens e livros", por certo indicou o caminho das pedras àqueles que, descuidadamente, promovem a história sem a preocupação de seu registro e que, por consequência, legam ao pó do esquecimento tudo o que foi feito – certo ou errado – ou deixado de fazer. Os homens fazem a história. Os livros registram a história. Sem estes, os exemplos do passado, os conhecimentos técnicos e científicos armazenados, o testemunho e as provas colhidas nãoseriam repassados às gerações futuras, o que comprometeria a chamada evolução. Julgue os itens com base nos aspectos morfossintáticos e semânticos do texto. (11) De acordo com o autor do texto, os homens são imprescindíveis à difusão da chamada evolução, por repassarem às gerações consequentes seus conhecimentos e testemunhos acerca do passado. (12) Se os travessões (linhas 3 e 4) forem substituídos por vírgulas, o período permanecerá gramaticalmente correto. (13) É uma opção gramaticalmente correta unir o segundo e o terceiro períodos, substituindo-se o sinal de ponto final por ponto e vírgula antes de ―Os livros‖ (linha 4), com mudança da inicial maiúscula para minúscula. (14) O fato de a forma verbal ―repassados‖ (linha 6) estar no masculino comprova o fato de que predomina o masculino genérico quando o antecedente é constituído de elementos dos dois gêneros. (15) O emprego do sinal indicativo de crase em ―àqueles‖ (linha 2) é exigido pela regência do verbo ―indicou‖. Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 28 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. Texto para os itens de 16 a 20. O Tribunal de Contas do Estado do Paraná tem uma história a contar. São mais de 50 anos de fiscalização perene da coisa pública, cujos princípios foram pinçados da própria história das Cortes de Contas de todo o mundo. Das contribuições gregas e romanas ao modelo canadense de auditoria moderna, do Tribunal Imperial do Brasil de 1824 ao Tribunal de Contas de 1890, do insigne paranaense Manoel Francisco Correia, filho de Paranaguá e primeiro Presidente do Tribunal de Contas da União, aos ilustres pares que hoje conduzem essa casa, tudo contribuiu para o desenvolvimento de um órgão de fiscalização eficiente e dinâmico – dado o constante aperfeiçoamento das ações – , e para a solidificação institucional de um colegiado independente e atuante, como o Tribunal de Contas paranaense. E, dentro de sua competência, o Tribunal de Contas tem buscado na informação, por intermédio dos mais diferenciados meios de comunicação, a formação de sua história, na luta incessante e implacável contra a corrupção e o mal uso do dinheiro público. Com base no texto, julgue os itens a seguir. (16) Preservam-se as relações semânticas originais do texto se o termo ―a contar‖ (linha 1) for substituído por qualquer das opções a seguir: a ser contada, para contar, de quem contar. (17) O emprego do pronome relativo ―cujos‖ (linha 2) indica que ―princípios‖ refere-se a ―coisa pública‖. (18) No último período do texto, não há erro gramatical. (19) Em ―... na luta incessante e implacável contra a corrupção e o (...) uso do dinheiro público...‖, registraram-se dois complementos nominais. (20) O uso da palavra ―tudo‖ (linha 6) é recurso coesivo anafórico que retoma, de forma sintética, as informações anteriores, exigindo a concordância do verbo ―contribuir‖ no singular. RESPOSTAS COMENTADAS (1) Errado. Segundo o texto, a constatação de que a Terra era redonda e girava em torno do sol, e não o contrário, não estava, de fato, em consonância com as percepções empíricas do narrador, mas o que justifica a escolha do título ―O dentro sem fora‖ é a certeza de que, por ser infinito, o Universo não tem fora, só dentro. (2) Errado. No trecho ―Agora, vem esse professor e me garante que (é) a Terra (que) gira em torno do Sol e que, como ele, é redonda ─ uma bola‖, a primeira e a terceira ocorrências da palavra ―que‖ correspondem a conjunções integrantes; a segunda, a partícula expletiva ou de realce (perceba que as formas ―(é)‖ e ―(que)‖ podem ser eliminadas sem prejuízo morfossintático. (3) Certo. Em ―(Eu) Cansei de vê-lo ─ uma bola de fogo ─ desaparecer atrás do manguezal‖, a forma pronominal ―lo‖ (após o verbo sensitivo ―ver‖) corresponde ao sujeito acusativo ou sujeito da forma infinitiva ―desaparecer‖ (Quem desapareceu? ―Ele‖ (representado pela forma pronominal ―lo‖. (4) Certo. No fragmento ―O resultado foi que, em lugar da desconfiança, vieram a aceitação e o fascínio‖, a forma verbal ―vieram‖ pode ser substituída por ―veio‖, sem prejuízo para a correção gramatical e para a coerência textual, porque o sujeito composto é posposto. Assim, pode-se concordar apenas com o núcleo mais próximo: ―veio a aceitação e (veio) o fascínio‖. (5) Errado. O texto não mostra que a expressão ―partícula de Deus‖ tem origem poética e refere-se ao fato de as partículas conhecidas como bósons atuarem como mensageiras entre as partículas de matéria. Na verdade, segundo conhecimentos extratextuais, o bóson de Higgs ficou conhecido como "partícula de Deus", porque, assim como Deus, estaria em todas as partes, mas é difícil de Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 29 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. definir. Mas a real origem é bem menos poética. A expressão vem de um livro do físico ganhador do prêmio Nobel Leon Lederman, cujo esboço de título era "A Partícula Maldita", em alusão às frustrações de tentar encontrá-la. O título foi, depois, cortado para "A Partícula de Deus" por seu editor, aparentemente temeroso de que a palavra "maldita" fosse ofensiva. (6) Errado. O trecho ―Os cientistas do Centro Europeu de Pesquisas Nucleares (Cern) (é que = partícula expletiva ou de realce/registro coloquial feito por Ferreira Gullar) detectaram essa nova partícula subatômica, a que faltava para completar o Modelo Padrão da Física‖ admite a seguinte reescritura, sem prejuízo para a correção gramatical e para o sentido original: ―Foram (= 1) concordância eufônica, ou seja, de som agradável, com o núcleo do sujeito ―cientistas‖; 2) garante correlação com ―identificaram‖, no pretérito) os cientistas do Centro Europeu de Pesquisas Nucleares (Cern) que identificaram (sinônimo de ―detectaram‖) essa nova partícula subatômica ─ a (partícula) que faltava para completar o Modelo Padrão da Física (nesse caso, por introduzir termo com valor explicativo, a vírgula pode ser substituída por travessão)‖. (7) Certo. Em ―O (= Aquilo) que possibilitou a agregação dessas partículas, criando assim a massa, foi o bóson, conforme a teoria de Higgs‖, o verbo ―foi‖ está no singular para estabelecer concordância com a forma pronominal substantiva ―O‖, núcleo do sujeito, com valor de ―Aquilo‖. (8) Certo. Em ―Agora, como surgiu a energia que fez surgir o bóson que fez surgir a massa que constitui o universo, ninguém sabe‖, a estrutura destacada corresponde a uma oração subordinada substantiva objetiva direta, seguida de três orações subordinadas adjetivas restritivas. Coloque na ordem direta: ―... ninguém sabe (v.t.d) como surgiu a energia (oração subordinada substantiva objetiva direta introduzida pelo advérbio interrogativo ―como‖) que fez surgir o bóson (oração subordinada adjetiva restritiva introduzida pelo pronome relativo ―que‖) que fez surgir a massa (oração subordinada adjetiva restritiva introduzida pelo pronome relativo ―que‖) que constitui o universo (oração subordinada adjetiva restritiva introduzida pelo pronome relativo ―que‖). Entendeu? (9) Certo. No trecho ―Como já dissera Parmênides (século 5º a.C.), o um (sujeito) é (verbo de ligação) um (predicativo do sujeito) e (o um/sujeito elíptico) não é (verbo de ligação) dois (predicativo do sujeito)‖, as duas ocorrências da forma verbal ―é‖ têm função conectiva ou de ligação. Um gesto positivo, por favor! (10) Errado. Em ―A teoria de Higgs, (que foi) formulada em 1964, previa a existência de 32 partículas fundamentais, das quais 31 já tinham sido detectadas‖, as duas primeiras vírgulas indicam interrupção sintática deoração com valor adjetivo, já que o pronome relativo ―que‖ está logicamente implícito), e a terceira, a introdução de oração adjetiva explicativa. (11) Errado. De acordo com o autor do texto, os livros são imprescindíveis à difusão da chamada evolução, por repassarem às gerações consequentes seus conhecimentos e testemunhos acerca do passado. Observe que o pronome ―estes‖ (linha 4) tem função anafórica e retoma, por coesão, ―Os livros‖, e não ―Os homens‖. (12) Certo. Se os travessões (linha 3) forem substituídos por vírgulas, o período permanecerá gramaticalmente correto, pois, agora sim, estamos diante de uma interrupção ou intercalação. (13) Certo. Como se trata de duas orações coordenadas ou independentes sintaticamente, é uma opção gramaticalmente correta unir o segundo e o terceiro períodos, substituindo-se o sinal de ponto final por ponto e vírgula antes de ―Os livros‖ (linha 4), com mudança da inicial maiúscula para minúscula. (14) Certo. O fato de a forma verbal ―repassados‖ (linha 6) estar no masculino comprova o fato de que predomina o masculino genérico quando o antecedente é constituído de elementos dos dois gêneros: ―os exemplos‖, ―os conhecimentos‖, ―o testemunho‖ (núcleos masculinos) e ―as provas‖ (núcleo feminino). Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 30 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. (15) Certo. O emprego do sinal indicativo de crase em ―àqueles‖ (linha 2) é exigido pela regência do verbo ―indicou‖, já que se trata de verbo transitivo direto e indireto: indicar algo a alguém (a + aqueles = àqueles). (16) Errado. Não se preservam as relações semânticas originais do texto se o termo ―a contar‖ (linha 1) for substituído por ―de quem contar‖. (17) Errado. O emprego do pronome relativo ―cujos‖ (linha 2) indica que ―princípios‖ refere-se a ―fiscalização perene da coisa pública‖. (18) Errado. Há erro gramatical: ―mau uso‖ (―mau‖ = adjetivo). (19) Certo. Em ―... na luta incessante e implacável contra a corrupção e o (...) uso do dinheiro público...‖, os termos destacados são, respectivamente, complementos nominais dos substantivos ―luta‖ (abstrato, cognato do verbo ―lutar‖) e ―uso‖ (também abstrato, cognato do verbo ―usar‖). (20) Certo. O uso da palavra ―tudo‖ (linha 6) é recurso coesivo anafórico que retoma, de forma sintética, as informações anteriores (―Das contribuições gregas e romanas ao modelo canadense de auditoria moderna, do Tribunal Imperial do Brasil de 1824 ao Tribunal de Contas de 1890, do insigne paranaense Manoel Francisco Correia, filho de Paranaguá e primeiro Presidente do Tribunal de Contas da União, aos ilustres pares que hoje conduzem essa casa‖), exigindo a concordância do verbo ―contribuir‖ no singular. PROVA 7 TEXTO I Leia o texto seguinte para responder aos itens propostos. A separação não nos esfriou. Ele [Escobar] foi o terceiro na troca das cartas entre mim e Capitu. Desde que a viu, animou-me muito no nosso amor. As relações que travou com o pai de Sancha estreitaram as que já trazia com Capitu, e fê-lo servir a ambos nós, como amigo. A princípio, custou-lhe a ela aceitá-lo, preferia José Dias, mas José Dias repugnava-me por um resto de respeito de criança. Venceu Escobar. Capitu entregou-lhe a primeira carta, que foi mãe e avó das outras. Nem depois de casado suspendeu ele o obséquio... Que ele casou, —adivinha com quem— casou com a boa Sancha, a amiga de Capitu, quase irmã dela, tanto que, alguma vez, escrevendo-me, chamava a esta a "sua cunhadinha." Assim se formam as afeições e os parentescos, as aventuras e os livros. (...) Quando saímos, tornei a falar com os olhos à dona da casa. A mão dela apertou muito a minha, e demorou-se mais que de costume(...). Senti ainda os dedos de Sancha entre os meus, apertando uns aos outros. Foi um instante de vertigem e de pecado. Passou depressa no relógio do tempo; quando cheguei o relógio ao ouvido, trabalhavam só os minutos da virtude e da razão. O retrato de Escobar, que eu tinha ali, ao pé do de minha mãe, falou-me como se fosse a própria pessoa. Combati sinceramente os impulsos que trazia do Flamengo, rejeitei a figura da mulher do meu amigo, e chamei-me desleal. Demais, quem me afirmava que houvesse alguma intenção daquela espécie no gesto da despedida e nos anteriores? Tudo podia ligar-se ao interesse da nossa viagem. Sancha e Capitu eram tão amigas que seria um prazer mais para elas irem juntas. Quando houvesse alguma intenção sexual, quem me provaria que não era mais que uma sensação fulgurante, destinada a morrer com a noite e o sono? Há remorsos que não nascem de outro pecado, nem têm maior duração. Agarrei-me a essa hipótese que se conciliava com a mão de Sancha, que eu sentia de memória dentro da minha mão, quente e demorada, apertada e apertando... Machado de Assis, D. Casmurro (fragmento) Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 31 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. Com base nas ideias, na tipologia e na estrutura linguísticas do texto, julgue os itens a seguir. (1) Narrado em primeira pessoa, o texto constitui uma alegoria subjetiva que visa mostrar, sob uma óptica crítica, as dificuldades presentes nas relações humanas. (2) Em ―Ele [Escobar] foi o terceiro na troca das cartas entre mim e Capitu‖, os termos ―das cartas‖ e ―entre mim e Capitu‖ desempenham igual função sintática. (3) No trecho ―As relações que travou com o pai de Sancha estreitaram as que já trazia com Capitu‖, as ocorrências da palavra ―que‖ desempenham funções morfossintáticas idênticas. (4) No fragmento ―A princípio, custou-lhe a ela aceitá-lo‖, Machado de Assis constrói uma estrutura formada por uma oração principal seguida de uma oração subordinada substantiva reduzida de infinitivo; ademais, na oração principal o objeto indireto pleonástico tem a função de evitar ambiguidade. (5) Em ―Capitu entregou-lhe a primeira carta, que foi mãe e avó das outras‖, Machado de Assis se utiliza de linguagem com valor translato, com vistas a explicitar a ideia de que Capitu entregara mais de uma carta a Escobar. (6) No trecho ―Assim se formam as afeições e os parentescos, as aventuras e os livros‖, temos exemplo de voz passiva com sujeito paciente composto e agente indeterminado. (7) Em ―quando cheguei o relógio ao ouvido‖, o verbo ―cheguei‖ foi empregado com regência transitiva direta e indireta. (8) No trecho ―O retrato de Escobar, que eu tinha ali, ao pé do de minha mãe, falou- me como se fosse a própria pessoa‖, o termo ―O retrato de Escobar‖ é sujeito explícito de ―falou‖ e implícito de ―fosse‖; além disso, a estrutura conectiva ―como se‖ indica realidade virtual ou imaginária. (9) Em ―Sancha e Capitu eram tão amigas que seria um prazer mais para elas irem juntas‖, o vocábulo ―que‖ pode ser substituído por ―porquanto‖, sem prejuízo para a correção gramatical e para os sentidos do texto. (10) No último parágrafo, as formas verbais destacadas estão no singular porque o sujeito de cada uma delas é genérico ou indeterminado. TEXTO II Leia o texto seguinte para responder aos itens propostos. ... Deixe ver os olhos, Capitu. Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera deles, "olhos de cigana oblíqua e dissimulada". Eu não sabia o que era oblíqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira, eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. A demora da contemplação creio que lhe deu outra ideia do meu intento; imaginou que era um pretexto para mirá-losmais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que... Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá ideia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 32 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve. A eternidade tem as suas pêndulas; nem por não acabar nunca deixa de querer saber a duração das felicidades e dos suplícios. Há de dobrar o gozo aos bem-aventurados do céu conhecer a soma dos tormentos que já terão padecido no inferno os seus inimigos; assim também a quantidade das delícias que terão gozado no céu os seus desafetos aumentará as dores aos condenados do inferno. Este outro suplício escapou ao divino Dante; mas eu não estou aqui para emendar poetas. Estou para contar que, ao cabo de um tempo não marcado, agarrei-me definitivamente aos cabelos de Capitu, mas então com as mãos, e disse-lhe, – para dizer alguma cousa, – que era capaz de os pentear, se quisesse. (Trecho do capítulo ―Olhos de Ressaca‖, da obra ―Dom Casmurro‖) Com base nas ideias e na estrutura linguísticas do texto, julgue os itens a seguir. (11) A expressão ―Vá, de ressaca‖, no terceiro parágrafo, significa a ausência de uma expressão melhor para definir os olhos de Capitu. (12) Os ―olhos de ressaca‖ se referem à força dos olhos da Capitu, de atrair Bentinho, de mantê-lo preso a eles. (13) O termo ―assim‖, no trecho ―queria ver se podiam chamar assim‖, refere-se a ―oblíqua‖. (14) No trecho ―Eu não sabia o que era oblíqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar assim‖, há dois pronomes substantivos e uma conjunção integrante. (15) Em ―A demora da contemplação creio que lhe deu outra ideia do meu intento‖, o termo ―A demora da contemplação‖ é sujeito prolíptico ou antecipado da forma verbal ―deu‖. (16) Em ―Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas‖, a vírgula indica deslocamento de oração com função adverbial. (17) O fragmento ―Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve‖ exemplifica ocorrência de voz passiva analítica. (18) Em ―Há de dobrar o gozo aos bem-aventurados do céu conhecer a soma dos tormentos que já terão padecido no inferno os seus inimigos‖, os sujeitos das formas verbais destacadas estão pospostos. (19) No trecho ―Estou para contar que, ao cabo de um tempo não marcado, agarrei- me definitivamente aos cabelos de Capitu‖, há, ao todo, três orações. (20) Em ―Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve. A eternidade tem as suas pêndulas; nem por não acabar nunca deixa de querer saber a duração das felicidades e dos suplícios‖, os termos destacados desempenham igual função sintática. RESPOSTAS COMENTADAS (1) Errado. Apesar de narrado em primeira pessoa, o texto não apresenta traços alegóricos (conotações, personificações, simbologias) para mostrar, sob uma óptica crítica, as dificuldades presentes nas relações humanas. Trata-se de uma narração subjetiva, em que o narrador também é personagem. (2) Certo. Em ―Ele [Escobar] foi o terceiro na troca das cartas (trocar cartas/ relação completiva) entre mim e Capitu (trocar entre mim e Capitu/ relação completiva)‖, os Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 33 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. termos ―das cartas‖ e ―entre mim e Capitu‖ desempenham igual função sintática: são complementos nominais do substantivo abstrato cognato de verbo ―troca‖. (3) Certo. No trecho ―As relações que (= as quais) travou com o pai de Sancha estreitaram as (= aquelas relações) que (= as quais) já trazia com Capitu‖, as ocorrências da palavra ―que‖ desempenham funções morfossintáticas idênticas: são pronomes relativos com função sintática de objetos diretos. Substitua a palavra ―que‖ pelo antecedente: as relações (ele) travou com o pai de Sancha; aquelas relações (ele) já trazia com Capitu. Agora, observe a ordem direta: ele travou (v.t.d) as relações (o.d.) com o pai de Sancha; ele já trazia (v.t.d) aquelas relações (o.d.) com Capitu. Entendeu? (4) Certo. No fragmento ―A princípio, custou-lhe a ela aceitá-lo (= aceitar + o)‖, Machado de Assis constrói uma estrutura formada por uma oração principal (―custou-lhe a ela‖) seguida de uma oração subordinada substantiva reduzida de infinitivo (aceitá-lo). Que custou a ela? Aceitá-lo (sujeito oracional). Ademais, na oração principal o objeto indireto pleonástico tem, sim, a função de evitar ambiguidade. Caso a construção fosse somente ―Custou-lhe aceitar‖, ficaria o questionamento: custou a ele ou a ela aceitar? (5) Certo. Em ―Capitu entregou-lhe a primeira carta, que foi mãe e avó das outras‖, Machado de Assis se utiliza de linguagem com valor translato (= valor conotativo, figurado), com vistas a explicitar a ideia de que Capitu entregara mais de uma carta a Escobar. (6) Certo. No trecho ―Assim se (partícula apassivadora) formam (v.t.d.) as afeições e os parentescos, as aventuras e os livros (sujeito paciente composto posposto)‖, temos exemplo de voz passiva sintética ou pronominal, em virtude da presença da partícula apassivadora) com sujeito paciente composto e agente indeterminado. Observe que a voz passiva analítica confirma que o agente da passiva fica indeterminado: ―As afeições e os parentescos, as aventuras e os livros são formados‖ (por quem? = agente indeterminado). (7) Certo. Em ―quando cheguei ( = aproximei) o relógio ao ouvido‖, o verbo ―cheguei‖ foi empregado com regência transitiva direta e indireta: o relógio (objeto direto) ao ouvido (objeto indireto). (8) Certo. No trecho ―O retrato de Escobar, que eu tinha ali, ao pé do de minha mãe, falou-me como se (ele = o retrato de Escobar) fosse a própria pessoa‖, o termo ―O retrato de Escobar‖ é sujeito explícito de ―falou‖ e implícito de ―fosse‖; além disso, a estrutura conectiva ―como se‖ (com valor comparativo e condicional) indica realidade virtual ou imaginária. Não era a própria pessoa (= realidade factual). Era apenas o retrato. (9) Errado. Em ―Sancha e Capitu eram tão amigas que = conjunção consecutiva) seria um prazer mais para elas irem juntas‖, o vocábulo ―que‖ não pode ser substituído por ―porquanto‖, conectivo que traduz ideia de causa ou explicação. (10) Errado. As ocorrências do verbo ―haver‖ (= existir) não apresentam sujeito e, portanto, são impessoais. No entanto, o verbo ―seria‖ apresenta a oração ―irem juntas‖ como sujeito. Observe: ―irem juntas seria um prazer mais para elas‖. (11) Certo. A expressão ―Vá, de ressaca‖, no terceiro parágrafo, significa, de fato, a ausência de uma expressão melhor para definir os olhos de Capitu. Releia o seguinte trecho: ―Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagemcapaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá ideia daquela feição nova‖. (12) Certo. Os ―olhos de ressaca‖ se referem à força dos olhos da Capitu, de atrair Bentinho, de mantê-lo preso a eles, como comprova o seguinte trecho: ―Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca‖. Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 34 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. (13) Certo. O termo ―assim‖, no trecho ―queria ver se podiam chamar assim‖, refere-se a ―oblíqua‖. Reveja o trecho: ―Eu não sabia o que era oblíqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar assim (= oblíqua)‖. (14) Certo. No trecho ―Eu (= pronome substantivo) não sabia o (= dispensável/apoio fonético) que (= pronome interrogativo indefinido substantivo) era oblíqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se (= conjunção integrante) podiam chamar assim‖, há dois pronomes substantivos e uma conjunção integrante. (15) Certo. Em ―A demora da contemplação creio que lhe deu outra ideia do meu intento‖, o termo ―A demora da contemplação‖ é sujeito prolíptico ou antecipado da forma verbal ―deu‖. Coloquemos na ordem direta: Creio que a demora da contemplação (sujeito) lhe (O.I) deu (v.t.d.i) outra ideia do meu intento (O.D.). Entendeu? (16) Certo. Em ―Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas‖, a vírgula indica deslocamento, para o início do período, de oração subordinada adverbial final reduzida de infinitivo. (17) Errado. O fragmento ―Só os relógios do céu (sujeito) terão marcado (v.t.d) esse tempo infinito e breve (objeto direto)‖ exemplifica ocorrência de voz ativa. (18) Certo. Em ―Há de dobrar o gozo aos bem-aventurados do céu conhecer a soma dos tormentos (sujeito oracional posposto de ―Há de dobrar‖) que (= conjunção subordinativa consecutiva) já terão padecido no inferno os seus inimigos (sujeito posposto de ―terão padecido‖)‖, os sujeitos das formas verbais destacadas estão, de fato, pospostos. (19) Errado. Há quatro orações. No trecho ―Estou (aqui) (oração principal/1) para contar (oração subordinada adverbial final reduzida de infinitivo com v.t.d./2) que, ao cabo de um tempo (que) não (foi) marcado (oração subordinada adjetiva restritiva reduzida de particípio/3), agarrei-me definitivamente aos cabelos de Capitu (oração subordinada substantiva objetiva direta/4). Essa foi um pouco difícil, mas tudo bem! (20) Certo. Em ―Quantos minutos (O.D) (nós) gastamos (v.t.d.) naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado (v.t.d.) esse tempo infinito e breve (O.D). A eternidade tem (v.t.d.) as suas pêndulas (O.D); nem por não acabar nunca deixa de querer saber (v.t.d.) a duração das felicidades e dos suplícios (O.D)‖, os termos destacados desempenham igual função sintática: objetos diretos das formas verbais sublinhadas. PROVA 8 Texto para os itens de 1 a 14 No Brasil, pode-se considerar marco da história da assistência jurídica, ou justiça gratuita, a própria colonização do país, ainda no século XVI. O surgimento de lides provenientes das inúmeras formas de relação jurídica então existentes — e o chamamento da jurisdição para resolver essas contendas — já dava início a situações em que constantemente as partes se viam impossibilitadas de arcar com os possíveis custos judiciais das demandas. A partir de então, a chamada assistência judiciária praticamente evoluiu junto com o direito pátrio. Sua importância atravessou os séculos, e ela passou a ser garantida nas cartas constitucionais. No século XX, o texto constitucional de 1934, no capítulo II, ―Dos direitos e das garantias individuais‖, em seu art. 113, fez menção a essa proteção, ao prever que ―A União e os estados concederão aos necessitados assistência judiciária, criando para Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 35 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. esse efeito órgãos especiais e assegurando a isenção de emolumentos, custas, taxas e selos‖. Por sua vez, a Constituição de 1946 previu, no mesmo capítulo que a de 1934, em seu art. 141, § 35, que ―O poder público, na forma que a lei estabelecer, concederá assistência judiciária aos necessitados‖. A lei extravagante veio em 1950, materializada na Lei n.º 1.060, que especifica normas para a concessão de assistência judiciária aos necessitados. No art. 4.º dessa lei, havia menção ao ―rendimento ou vencimento que percebe e os encargos próprios e os da família‖ e constava a exigência de atestado de pobreza, expedido pela autoridade policial ou pelo prefeito municipal. Foi o art. 1.º, § 2.º, da Lei n.º 5.478/1968, que criou a simples afirmação (da pobreza), ratificado pela Lei n.º 7.510/1986, que deu nova redação a dispositivos da Lei n.º 1.060/1950. Em 1988, a Carta Cidadã ampliou o escopo da assistência judiciária ao empregar o termo assistência jurídica integral e gratuita, que é mais abrangente e que abarca o termo usado anteriormente, restrito apenas à assistência de demanda judicial já proposta ou a ser interposta. O termo atual também engloba atos jurídicos extrajudiciais, aconselhamento jurídico, patrocínio da causa, além de ações coletivas e mediação. Hoje, portanto, alguém que se vê incapaz de arcar com os custos que uma lide judicial impõe, mas necessita da imediata prestação jurisdicional, pode, mediante simples afirmativa, postular as benesses dessa prerrogativa, garantida pela Constituição Federal vigente. Uma história para a gratuidade jurídica no Brasil. Internet: (com adaptações). No que se refere às ideias e informações do texto, julgue os itens a seguir. (1) Infere-se do texto que a Lei n.º 1.060/1950 ainda está em vigência, embora tenha passado por algumas alterações. (2) O autor do texto visa convencer o leitor acerca da necessidade de que se tratem como iguais os desiguais, por meio da prestação jurisdicional gratuita. (3) Em ―A lei extravagante veio em 1950, materializada na Lei n.º 1.060, que especifica normas para a concessão de assistência judiciária aos necessitados‖, a palavra ―que‖ exerce função sintática de sujeito, e os termos destacados exercem igual função sintática: são complementos nominais. (4) No trecho ―...a Carta Cidadã ampliou o escopo da assistência judiciária ao empregar o termo assistência jurídica integral e gratuita...‖, a segunda oração classifica-se em subordinada adverbial temporal. (5) Conclui-se do texto que, ao prever a substituição do atestado de pobreza pela simples afirmativa da pessoa de que ela não pode arcar com os custos judiciais da demanda, a lei teria buscado uma forma de tornar mais acessível ao necessitado o exercício de seu direito. Ainda a respeito das ideias e dos aspectos linguísticos do texto, julgue os itens subsecutivos. (6) A substituição de ―ratificado‖ (2º. §) por confirmada manteria a coerência do texto, embora seu sentido fosse alterado. Esses dois particípios introduziriam, igualmente, oração subordinada adjetiva explicativa reduzida. (7) Em ―Foi o art. 1.º, § 2.º, da Lei n.º 5.478/1968, que criou a simples afirmação (da pobreza), ratificado pela Lei n.º 7.510/1986, que deu nova redação a dispositivos da Lei n.º 1.060/1950‖, destacaram-se pronomes relativos com função anafórica. (8) Seria mantida a correção gramatical do período caso a forma verbal ―dava‖ (1º. §) fosse flexionada no plural, escrevendo-se davam. (9) Em ―as partes se viam impossibilitadas de arcar com os possíveis custos judiciaisdas demandas‖, a partícula ―se‖ corresponde a um pronome reflexivo substantivo que exerce função sintática de complemento verbal direto. (10) O vocábulo ―que‖, em ―incapaz de arcar com os custos que uma lide judicial impõe‖, funciona como pronome relativo e exerce função sintática de sujeito. Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 36 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. (11) No trecho ―No Brasil, pode-se considerar marco da história da assistência jurídica, ou justiça gratuita, a própria colonização do país, ainda no século XVI‖, a palavra ―se‖ tem a função de indeterminar ou generalizar o sujeito. (12) Sem prejuízo para a correção gramatical do período e para o sentido original do texto, o vocábulo ―existentes‖ (1º. §) poderia ser flexionado no singular, caso em que passaria a concordar com o antecedente ―relação jurídica‖. (13) Em ―O termo atual também engloba atos jurídicos extrajudiciais, aconselhamento jurídico, patrocínio da causa, além de ações coletivas e mediação‖, há objeto direto composto por três núcleos. (14) Os elementos ―já‖ (1º. §), ―atual‖ (3º. §) e ―Hoje‖ (4º. §) desempenham a mesma função sintática nas orações em que ocorrem. Texto para os itens de 15 a 20 No início da colonização portuguesa no Brasil, a defesa das pessoas pobres perante os tribunais era considerada uma obra de caridade, com fortes traços religiosos. Anteriormente à primeira Constituição pátria, a de 1824, vigoraram as Ordenações Afonsinas, as Manuelinas e as Filipinas. Destas, somente as Ordenações Filipinas, sancionadas em 1595 e que construíram a base do direito português até o século XIX, com vigência de 1603 até o Código Civil brasileiro de 1916, trazem, em seu texto, algo que remete ao entendimento de concessão de justiça gratuita, prevendo que, se o agravante fosse tão pobre que jurasse não ter bens móveis, nem bens de raiz, nem como pagar o agravo e se rezasse, na audiência, uma vez, a oração do Pai-Nosso pela alma do rei de Portugal, seria considerado quitado o pagamento das custas de então. Ainda com relação ao aspecto da gratuidade, em particular, o colonizador português trouxe para o território brasileiro a praxe forense de acordo com a qual os advogados deveriam assistir, de maneira gratuita e voluntária, pro bono, os pobres que a solicitassem. Essa obrigação era admitida como um dever moral do ofício, diferenciando- se do voluntariado por ser exercida com caráter e competência profissionais, embora fosse uma atividade não remunerada. Essas duas formas de gratuidade no acesso à justiça não se confundem. A advocacia pro bono é definida como a prestação gratuita de serviços jurídicos na promoção do acesso à justiça, ao passo que a assistência jurídica pública gratuita, atualmente prevista na Constituição Federal, no artigo 5.º, inciso LXXIV, e no artigo 134, é um dever intransferível do Estado e, na maior parte das vezes, é realizada na atuação das Defensorias Públicas da União e dos estados e por meio de convênios entre esses órgãos e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Enfim, a importância dessas duas formas de assistência jurídica gratuita reside no fato de que o maior beneficiário dessa prerrogativa é a pessoa com insuficiência de recursos que tenha de demandar em juízo. Internet (com adaptações). Com referência às ideias e aos aspectos linguísticos do texto apresentado, julgue os seguintes itens. (15) De acordo com o texto, o Estado confundia-se com a religião, o que fica evidente no fato de que foram as Ordenações Filipinas que compilaram, em textos legais, o benefício da justiça gratuita de cunho religioso. (16) Conclui-se do texto que a concessão da gratuidade no acesso à justiça originou-se de um dever legal do Estado de auxiliar os pobres na resolução de suas demandas. (17) Em ―Anteriormente à primeira Constituição pátria, a de 1824, vigoraram as Ordenações Afonsinas, as Manuelinas e as Filipinas‖, o acento grave foi empregado em complemento nominal com núcleo feminino. (18) Sem prejuízo do sentido e da correção gramatical do texto, o trecho ―se o agravante (...) custas de então‖ (2º. §) poderia ser reescrito da seguinte forma: caso o agravante for muito pobre a ponto de não ter bens móveis ou bens imóveis, Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 37 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. e caso nem tenha como pagar as custas do processo, se rezar um Pai-Nosso na audiência em honra do rei de Portugal o pagamento das custas da época será considerado liquidado. (19) Presentes no texto, os vocábulos ―caráter‖, ―intransferível‖ e ―órgãos‖ são acentuados em decorrência da regra gramatical que classifica as palavras paroxítonas. (20) Em ―...seria considerado quitado o pagamento das custas de então‖, há estrutura de voz passiva analítica; nela, o sujeito está posposto, e o termo ―quitado‖ tem função predicativa. RESPOSTAS COMENTADAS (1) Certo. Infere-se do texto que a Lei n.º 1.060/1950 ainda está em vigência, embora tenha passado por algumas alterações. Os indícios explícitos do texto evidenciam que a lei extravagante do texto constitucional de 1934 veio em 1950, materializada na Lei n.º 1.060, e que a Lei n.º 5.478/1968 criou a simples afirmação (da pobreza), com artigo ratificado pela Lei n.º 7.510/1986, que deu nova redação a dispositivos da Lei n.º 1.060/1950. Ademais, em 1988, a Carta Cidadã ampliou o escopo da assistência judiciária e, ainda hoje, sentem-se os efeitos da citada lei. (2) Errado. O autor do texto visa mostrar ao leitor o histórico legal da prestação jurisdicional gratuita no Brasil, por meio da Constituição de 1934, de lei extravagante (com as alterações posteriores) e da atual Constituição. (3) Certo. Em ―A lei extravagante veio em 1950, materializada na Lei n.º 1.060, que (= a qual = a Lei n.º 1.060) especifica normas para a concessão de assistência judiciária aos necessitados‖ (= conceder assistência judiciária aos necessitados), observe que a palavra ―que‖ exerce função sintática de sujeito do verbo ―especifica‖, e os termos destacados exercem igual função sintática: são complementos nominais do substantivo abstrato ―concessão‖, em vez de complementos do cognato verbal ―conceder‖. Entendeu? (4) Certo. No trecho ―...a Carta Cidadã ampliou o escopo da assistência judiciária/ ao empregar o termo assistência jurídica integral e gratuita... (= quando empregou o termo...)‖, a segunda oração classifica-se em subordinada adverbial temporal em sua forma reduzida de infinitivo. (5) Certo. Conclui-se, por meio especialmente do segundo parágrafo, que, ao prever a substituição do atestado de pobreza pela simples afirmativa da pessoa de que ela não pode arcar com os custos judiciais da demanda, a lei teria, de fato, buscado uma forma de tornar mais acessível ao necessitado o exercício de seu direito. (6) Certo. A substituição de ―ratificado‖ (2º. §) por confirmada manteria a coerência do texto, embora seu sentido fosse alterado. Esses dois particípios introduziriam, igualmente, oração subordinada adjetiva explicativa reduzida: ... art. 1º..., (que foi) ratificado pela Lei ... ; ... a simples afirmação (da pobreza), (que foi) confirmada pela Lei... . Observe que, em ambas as situações, o pronome relativo ―que‖ fica logicamente implícito e retomam termos diferentes. (7) Errado. ―Foi (=expletivo) o art. 1.º, § 2.º, da Lei n.º 5.478/1968, que (= pronome relativo anafórico) criou a simples afirmação (da pobreza), ratificado pela Lei n.º 7.510/1986, que (= expletivo) deu nova redação a dispositivos da Lei n.º 1.060/1950‖. Veja o trecho sem asformas ―Foi‖ e ―que‖ : ―O art. 1.º, § 2.º, da Lei n.º 5.478/1968, que (= pronome relativo anafórico) criou a simples afirmação (da pobreza), ratificado pela Lei n.º 7.510/1986, deu nova redação a dispositivos da Lei n.º 1.060/1950‖. Percebeu? (8) Errado. Somente seria mantida a correção gramatical do período, com a forma verbal ―dava‖ (1º. §) no plural, escrevendo-se davam, se os travessões fossem eliminados. Assim, caracterizar-se-ia sujeito composto. (9) Certo. Em ―as partes se viam (= a si mesmas) impossibilitadas de arcar com os possíveis custos judiciais das demandas‖, a partícula ―se‖ corresponde a um Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 38 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. pronome reflexivo substantivo que exerce função sintática de complemento verbal direto, já que o verbo ―viam‖ é transitivo direto. (10) Errado. O vocábulo ―que‖, em ―incapaz de arcar com os custos que (= os quais = os custos) uma lide judicial impõe‖, funciona como pronome relativo e exerce função sintática de objeto direto. Coloque na ordem direta agora: ... uma lide judicial (sujeito) impõe (v.t.d) custos (objeto direto). (11) Errado. No trecho ―No Brasil, pode-se (auxiliar) considerar (v.t.d) marco da história da assistência jurídica, ou justiça gratuita, (predicativo do sujeito) a própria colonização do país (sujeito paciente), ainda no século XVI‖, a palavra ―se‖ tem a função de apassivar a construção. Veja a voz passiva analítica: ―No Brasil, a própria colonização do país, ainda no século XVI, pode ser considerada marco da história da assistência jurídica, ou justiça gratuita‖. (12) Errado. Em ―O surgimento de lides provenientes das inúmeras formas de relação jurídica então existentes‖, o adjetivo ―existentes‖ concorda, obrigatoriamente, com ―formas‖. (13) Certo. Em ―O termo atual também engloba (v.t.d) atos jurídicos extrajudiciais, aconselhamento jurídico, patrocínio da causa (objeto direto composto por três núcleos), além de ações coletivas e mediação (adjunto adverbial de acréscimo)‖, há, de fato, objeto direto composto por três núcleos. (Dá uma raiva, não é?) (14) Errado. Os elementos ―já‖ (advérbio = adjunto adverbial) (1º. §), ―atual‖ (adjetivo = adjunto adnominal) (3º. §) e ―Hoje‖ (advérbio = adjunto adverbial) (4º. §) desempenham funções sintáticas diferentes nas orações em que ocorrem. (15) Errado. De acordo com o texto, o Estado apenas sofria influências da religião, o que fica evidente no fato de que foram as Ordenações Filipinas que compilaram, em textos legais, o benefício da justiça gratuita de cunho religioso. (16) Errado. Conclui-se do texto que a concessão da gratuidade no acesso à justiça originou-se de um dever moral do ofício (advocacia) de auxiliar os pobres na resolução de suas demandas, diferenciando-se do voluntariado. (17) Certo. Em ―Anteriormente (advérbio) à primeira Constituição pátria (complemento nominal do advérbio), a de 1824, vigoraram as Ordenações Afonsinas, as Manuelinas e as Filipinas‖, o acento grave foi empregado em complemento nominal com núcleo feminino. (18) Errado. Sem prejuízo do sentido e da correção gramatical do texto, o trecho ―se o agravante (...) custas de então‖ (2º. §) poderia ser reescrito da seguinte forma: caso o agravante seja muito pobre a ponto de não ter bens móveis ou bens imóveis. O restante da reescritura apresenta problemas de coesão e coerência. (19) Certo. Presentes no texto, os vocábulos ―caráter‖, ―intransferível‖ e ―órgãos‖ são acentuados em decorrência da regra gramatical que classifica as palavras paroxítonas. (20) Certo. Em ―...seria considerado quitado (predicado) o pagamento das custas de então (sujeito)‖, há estrutura de voz passiva analítica; nela, o sujeito está claramente posposto, e o termo ―quitado‖ tem função de predicativo do sujeito, cujo núcleo é ―pagamento‖. PROVA 9 Texto para os itens de 1 a 10 As mulheres sabem que a participação democrática é o principal meio de defesa de seus interesses e de conquista de representação política, tal como a implantação do sistema de quotas para aumentar o número de representantes eleitas. O número reduzido de mulheres que ocupam cargos públicos — atualmente, uma média mundial de 19% nas assembleias nacionais — constitui um déficit a corrigir. A Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 39 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. participação das mulheres em todos os níveis do governo democrático — local, nacional e regional — diversifica a natureza das assembleias democráticas e permite que o processo de tomada de decisões responda a necessidades dos cidadãos não atendidas no passado. Internet: <http://www.unric.org/pt/> (com adaptações). Julgue os itens com base nas ideias e nos aspectos estruturais do texto. (1) A participação feminina nas assembleias nacionais deveria ser maior. (2) As ―necessidades dos cidadãos não atendidas no passado‖ restringem-se ao universo feminino. (3) Os problemas relativos ao não atendimento das necessidades dos cidadãos já teriam sido sanados se as mulheres sempre houvessem ocupado cargos públicos. (4) O sistema de governo democrático favorece o atendimento das necessidades da população feminina. (5) A inserção de vírgula logo depois do termo ―cidadãos‖ (linha 8) acarretaria prejuízo sintático e semântico ao texto. (6) Se a palavra ―atendidas‖ (linha 8) fosse flexionada no masculino — atendidos —, estariam mantidos a correção gramatical e o sentido original do texto. (7) Pelo emprego das estruturas ―assembleias nacionais‖ (linha 5) e ―assembleias democráticas‖ (linha 7), é correto inferir que a expressão ―cargos públicos‖ (linha 4) se refere, efetivamente, aos cargos políticos no Poder Legislativo, dado o alto índice de participação feminina nos cargos do Poder Executivo. (8) Na linha 6, o trecho entre travessões constitui uma enumeração em progressão ascendente dos ―níveis de governo‖ referidos na linha anterior. (9) Na linha 4, o termo ―mulheres‖ constitui o sujeito sintático do verbo ―ocupam‖. (10) No trecho ―As mulheres sabem que a participação democrática é o principal meio de defesa de seus interesses e de conquista de representação política, tal como a implantação do sistema de quotas para aumentar o número de representantes eleitas‖, há, ao todo, três complementos nominais. Texto para os itens de 11 a 20. A instrumentalização da cidadania e da soberania popular, em uma democracia contemporânea, faz-se pelo instituto da representação política. E a transformação da soberania popular em representação se dá, em grande parte, por meio da eleição. O povo a que remete a ideia de soberania popular constitui uma unidade, e não, a soma de indivíduos. Jurídica e constitucionalmente, a representação ―representa‖ o povo (e não, todos os indivíduos). Além disso, não há propriamente mandato, pois a função do representante se dá nos limites constitucionais e não se determina por instruções ou cláusulas estabelecidas entre ele (ou o conjunto de representantes) e o eleitorado. As condições para o exercício do mandato e, no limite, seu conteúdo estão predeterminados na Constituição e apenas nela. Estritamente, sequer é possível falar em representação, pois não há uma vontade pré-formada. Há a construção de uma vontade, limitada apenas aos contornos constitucionais. Eneida Desiree Salgado. Princípios constitucionais estruturantes do direito eleitoral. Tese de doutoramento. Curitiba: Universidade Federal do Paraná, 2010. Internet: <http://dspace.c3sl.ufpr.br> (com adaptações). Julgue os itens de acordo com as informaçõespresentes no texto e os seus aspectos linguísticos e tipológicos. (11) O representante — um deputado federal, por exemplo — age conforme determinação legal constitucional, e não, segundo a vontade do povo. (12) O representante representa o indivíduo, ao passo que a representação ―(ou o conjunto de representantes)‖ (linhas 7 e 8) representa o povo. Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 40 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. (13) A ―vontade pré-formada‖ (linha 10) corresponderia aos anseios da ―soma de indivíduos‖ (linhas 4 e 5). (14) A expressão ―de indivíduos‖ (linhas 4 e 5) poderia ser substituída por individual sem que houvesse alteração do sentido textual. (15) O instituto da representação política constitui o meio pelo qual a cidadania e a soberania popular são operacionalizadas. (16) Mediante o processo eleitoral, é possível atender às necessidades de cada um dos cidadãos de uma nação. (17) O pronome ―ele‖ (linha 7) tem como referente o nome ―representante‖ (linha 6). (18) A correção gramatical do texto seria mantida caso a expressão ―aos contornos constitucionais‖ (linha 11) fosse substituída por ―à legislação constitucional‖. (19) Identifica-se no texto ambivalência estrutural, evidenciada pela presença de trechos tipicamente dissertativos e outros marcadamente narrativos. (20) Os sintagmas nominais ―o povo‖ (linha 5) e ―mandato‖ (linha 6) completam o sentido das formas verbais ‗representa‘ (linha 5) e ―há‖ (linha 6), respectivamente. (21) Em ―O povo a que remete a ideia de soberania popular constitui uma unidade‖, a palavra ―que‖ introduz oração subordinada adjetiva de caráter restritivo e exerce função sintática de complemento verbal indireto. RESPOSTAS COMENTADAS (1) Certo. Segundo o texto, a participação feminina nas assembleias nacionais deveria ser maior, uma vez que o número reduzido de mulheres que ocupam cargos públicos é um déficit a corrigir. (2) Errado. Em ―necessidades dos cidadãos não atendidas no passado‖, o vocábulo ―cidadãos‖ aplica-se, de forma genérica, a homens e mulheres. (3) Errado. A afirmação de que os problemas relativos ao não atendimento das necessidades dos cidadãos já teriam sido sanados se as mulheres sempre houvessem ocupado cargos públicos extrapola as informações contidas no texto. (4) Certo. O primeiro parágrafo confirma que o sistema de governo democrático favorece o atendimento das necessidades da população feminina. (5) Certo. A inserção de vírgula logo depois do termo ―cidadãos‖ (linha 8) acarretaria, sim, prejuízo sintático e semântico ao texto. A oração ―não atendidas no passado‖ deixaria de ter valor restritivo, conforme intenciona o redator, para assumir valor explicativo, generalizante. (6) Errado. Se a palavra ―atendidas‖ (linha 8) fosse flexionada no masculino — atendidos —, concordar-se-ia com ―cidadãos‖ (incoerente), e não com ―necessidades‖ (coerente). (7) Errado. Pelo emprego das estruturas ―assembleias nacionais‖ (linha 5) e ―assembleias democráticas‖ (linha 7), não é correto inferir que a expressão ―cargos públicos‖ (linha 4) se refere, efetivamente, aos cargos políticos no Poder Legislativo, dado o alto índice de participação feminina nos cargos do Poder Executivo. A afirmação extrapola a realidade textual e é despropositada. (8) Errado. Na linha 6, o trecho entre travessões não constitui uma enumeração em progressão ascendente dos ―níveis de governo‖ referidos na linha anterior. A gradação seria ―local, regional e nacional‖. Ainda assim, poder-se-ia entender que ―nacional e regional‖ corresponde a um aposto de ―local‖. Entendeu? Um gesto positivo, por favor. (9) Errado. Na linha 4, o pronome relativo ―que‖, que retoma o termo ―mulheres‖, constitui o sujeito sintático do verbo ―ocupam‖. (10) Certo. No trecho ―As mulheres sabem que a participação democrática é o principal meio de defesa de seus interesses (defender seus interesses) e de conquista de representação política (conquistar representação política), tal como a implantação do sistema de quotas (implantar sistema de cotas) para aumentar o número de representantes eleitas‖, há, ao todo, três complementos nominais (destacados). Os Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 41 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. outros termos preposicionados são apenas adjuntos adnominais, porquanto não estabelecem com o antecedente relação completiva. (11) Certo. O representante — um deputado federal, por exemplo — age conforme determinação legal constitucional, e não, segundo a vontade do povo. Releia o trecho: ―Além disso, não há propriamente mandato, pois a função do representante se dá nos limites constitucionais e não se determina por instruções ou cláusulas estabelecidas entre ele (ou o conjunto de representantes) e o eleitorado. As condições para o exercício do mandato e, no limite, seu conteúdo estão predeterminados na Constituição e apenas nela‖. (12) Errado. Segundo o texto, não há vontade individual no processo eleitoral. Em tese, o representante representa o povo. (13) Errado. A ―vontade pré-formada‖ (linha 10) não corresponderia aos anseios da ―soma de indivíduos‖ (linhas 4 e 5), mas aos anseios do povo. (14) Errado. A expressão ―de indivíduos‖ (linhas 4 e 5) corresponde a um complemento nominal e, por isso, não poderia ser substituída por individual, visto que haveria alteração do sentido textual. (15) Certo. A leitura do primeiro parágrafo permite afirmar que o instituto da representação política constitui o meio pelo qual a cidadania e a soberania popular são operacionalizadas. (16) Errado. Mediante o processo eleitoral, não é possível atender às necessidades de cada um dos cidadãos de uma nação. Lembre-se de que, segundo o texto, os representantes representam o povo, e não a soma dos indivíduos que o formam. (17) Certo. O pronome ―ele‖ (linha 7) tem, claramente, como referente o nome ―representante‖ (linha 6). (18) Certo. A correção gramatical do texto seria mantida caso a expressão ―aos contornos constitucionais‖ (linha 11) fosse substituída por ―à legislação constitucional‖. Observe o paralelismo (aos contornos/à legislação): preposição + artigo. (19) Errado. O texto é, fundamentalmente, dissertativo-argumentativo, porque o autor, durante todo o texto, expõe argumentos acerca de uma tese que defende. (20) Certo. Os sintagmas nominais ―o povo‖ (linha 5) e ―mandato‖ (linha 6) completam o sentido das formas verbais ‗representa‘ (linha 5) e ―há‖ (linha 6), respectivamente, uma vez que são verbos transitivos diretos que exigem objetos diretos. (21) Certo. Em ―O povo a que remete a ideia de soberania popular constitui uma unidade‖, a estrutura ―a que‖ (preposição + pronome relativo = ao qual) introduz oração subordinada adjetiva de caráter restritivo e exerce função sintática de complemento verbal indireto (O.I.) de ―remete‖. Observe: a ideia de soberania popular remete ao povo. PROVA 10 Texto para os itens de 1 a 10 Eu não quero passar adiante sem contar sumariamente um galante episódio de 1814, tinha nove anos. Napoleão, quando eu nasci, estava já em todo o esplendor da glória e do poder; era imperador e granjeara inteiramente a admiração dos homens. Meu pai, que à força de persuadir os outros da nossa nobreza acabara persuadindo-se a si próprio, nutria contra ele um ódio puramente mental. Era isso motivo de renhidas controvérsias em nossa casa, porque meu tio João [militar], não sei se por espírito de classe e simpatia de ofício, perdoava no déspota o que admirava no general, meu tio padre era inflexível contra o corso; os outrosparentes dividiam-se: daí as controvérsias e as rusgas. Chegando ao Rio de Janeiro a notícia da primeira queda de Napoleão, houve naturalmente um grande abalo em nossa casa, mas nenhum chasco ou remoque. [...] Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 42 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. Figurei nesses dias com um espadim novo, que meu padrinho me dera no dia de Santo Antônio; e, francamente, interessava-me mais o espadim do que a queda de Bonaparte. Nunca esqueci esse fenômeno. Nunca mais deixei de pensar comigo que o nosso espadim é sempre maior que a espada de Napoleão. E notem que eu ouvi muito discurso, quando era vivo, li muita página rumorosa de grandes ideias e maiores palavras, mas não sei por que, no fundo dos aplausos que me arrancavam da boca, lá ecoava alguma vez este conceito de experimentado: ─ Vai-te embora, tu só cuidas do espadim. Machado de ASSIS. Memórias Póstumas de Brás Cubas (fragmento). No tocante às estruturas lingüísticas do texto, julgue os itens a seguir. (1) Os termos ―um galante episódio de 1814‖ (linha 1), ―a admiração dos homens‖ (linha 4) e ―a notícia da primeira queda de Napoleão‖(linha 10) desempenham igual função sintática. (2) No 2º parágrafo, todas as ocorrências do verbo ―era‖ têm função conectiva ou de ligação. (3) O trecho ―Chegando ao Rio de Janeiro a notícia da primeira queda de Napoleão, houve naturalmente um grande abalo em nossa casa, mas nenhum chasco ou remoque‖ admite a seguinte reescritura, sem prejuízo para a correção gramatical e para a coerência textual: ―Quando a notícia da primeira queda de Napoleão chegou ao Rio de Janeiro, ocorreu naturalmente um grande abalo em nossa casa, mas nenhuma zombaria ou chacota‖. (4) No fragmento ―Figurei nesses dias com um espadim novo, que meu padrinho me dera no dia de Santo Antônio‖, o pronome relativo ―que‖ exerce função sintática de complemento verbal direto. (5) O trecho ―Nunca esqueci esse fenômeno‖ admite a reecritura ―Nunca me esqueci desse fenômeno‖, sem que haja prejuízo da correção gramatical e do sentido original. (6) No final do terceiro parágrafo o pronome ―este‖ tem função catafórica e endofórica. (7) No trecho ―Vai-te embora, tu só cuidas do espadim‖, a palavra ―te‖ tem função expletiva, e o vocábulo ―tu‖ é sujeito das formas verbais ―Vai‖, de forma elíptica, e ―cuidas‖, de forma explícita. (8) Em ―...no fundo dos aplausos que me arrancavam da boca‖, a palavra ―que‖ é sujeito sintático e semântico de ―arrancavam‖. (9) No segundo parágrafo, as três ocorrências destacadas da palavra ―se‖ indicam reflexivização, respectivamente, dos verbos ―persuadindo‖, ―sei‖ e ―dividiam‖. (10) Em ―Chegando ao Rio de Janeiro a notícia da primeira queda de Napoleão‖, o termo ―a notícia da primeira queda de Napoleão‖ exerce função sintática de sujeito, e as duas ocorrências da preposição ―de‖ introduzem, respectivamente, um complemento nominal e um adjunto adnominal. Texto para os itens de 11 a 17. A instrumentalização da cidadania e da soberania popular, em uma democracia contemporânea, faz-se pelo instituto da representação política. E a transformação da soberania popular em representação se dá, em grande parte, por meio da eleição. O povo a que remete a ideia de soberania popular constitui uma unidade, e não, a soma de indivíduos. Jurídica e constitucionalmente, a representação ―representa‖ o povo (e não, todos os indivíduos). Além disso, não há propriamente mandato, pois a função do representante se dá nos limites constitucionais e não se determina por instruções ou cláusulas estabelecidas entre ele (ou o conjunto de representantes) e o eleitorado. As condições para o exercício do mandato e, no limite, seu conteúdo estão predeterminados na Constituição e apenas nela. Estritamente, sequer é possível falar em representação, Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 43 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. pois não há uma vontade pré-formada. Há a construção de uma vontade, limitada apenas aos contornos constitucionais. Eneida Desiree Salgado. Princípios constitucionais estruturantes do direito eleitoral. Tese de doutoramento. Curitiba: Universidade Federal do Paraná, 2010. Internet: <http://dspace.c3sl.ufpr.br> (com adaptações). Julgue os itens de acordo com as informações presentes no texto e os seus aspectos linguísticos e tipológicos. (11) O representante — um deputado federal, por exemplo — age conforme determinação legal constitucional, e não, segundo a vontade do povo. (12) O representante representa o indivíduo, ao passo que a representação ―(ou o conjunto de representantes)‖ (linhas 7 e 8) representa o povo. (13) A ―vontade pré-formada‖ (linha 10) corresponderia aos anseios da ―soma de indivíduos‖ (linhas 4 e 5). (14) A expressão ―de indivíduos‖ (linhas 4 e 5) poderia ser substituída por individual sem que houvesse alteração do sentido textual. (15) O vocábulo ―Jurídica‖ (linha 5) é, morfologicamente, um adjetivo, com função predicativa, que caracteriza o substantivo ―representação‖ (linha 5). (16) Em ―O povo a que remete a ideia de soberania popular constitui uma unidade‖, a palavra ―que‖ exerce função sintática de complemento verbal indireto. (17) No período ―Há a construção de uma vontade, limitada apenas aos contornos constitucionais‖, as formais verbais ―Há‖ (presente do indicativo) e ―limitada‖ (particípio) são impessoais. Julgue os itens a seguir quanto à correção gramatical. (18) Importância especial têm os princípios gerais do direito no suprimento das chamadas lacunas (se é que as hão) de direito. Ferrara, por exemplo, rechaçava a ideia de lacunas de direito, posto que, a seu sentir, não há lacunas e, sim, defeitos da lei. (19) Todavia, se trata de ausência irresgatável da norma, já não se pode falar em lacuna até por que (consigne-se o óbvio) não há como suprí-la ou como remediá-la. (20) Quanto aos princípios gerais propriamente ditos, há os de domínio comum às ordens jurídicas internas e ao direito internacional, é dizer-se, aqueles que são do direito das gentes, mais particularmente. RESPOSTAS COMENTADAS (1) Errado. Em ―contar (v.t.d) sumariamente um galante episódio de 1814 (objeto direto)‖ (linha 1), ―granjeara (v.t.d) inteiramente a admiração dos homens (objeto direto)‖ (linha 4) e ―Chegando (v.i.) ao Rio de Janeiro (adjunto adverbial de lugar) a notícia da primeira queda de Napoleão (sujeito)‖(linha 10), os termos destacados desempenham funções sintáticas diferentes. Veja, também, o comentário do item 10. (2) Certo. No 2º parágrafo, todas as ocorrências do verbo ―era‖ têm função conectiva ou de ligação. Vejamos: ―Napoleão (...) era (v.l.) imperador‖ (predicativo do sujeito); ―Era (v.l.) isso (sujeito) motivo de renhidas controvérsias‖ (predicativo do sujeito); ―... meu tio padre (sujeito) era (v.l.) inflexível (predicativo do sujeito). Entendeu? (3) Certo. O trecho ―Chegando ao Rio de Janeiro a notícia da primeira queda de Napoleão, houve naturalmente um grande abalo em nossa casa, mas nenhum chasco ou remoque‖ admite a seguinte reescritura, sem prejuízo para a correção gramatical e para a coerência textual: ―Quando a notícia da primeira queda de Napoleão chegou ao Rio de Janeiro, ocorreu naturalmente um grande abalo em Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 44 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. nossa casa, mas nenhuma zombaria ou chacota‖.Essa questão testa, também, o seu vocabulário. (4) Certo. Observe: ―Figurei nesses dias com um espadim novo, / que (= o qual = um espadim novo) meu padrinho me dera no dia de Santo Antônio‖. Agora, veja a ordem direta: ... meu padrinho (sujeito) me (= a mim/objeto indireto) dera (v.t.d.i) um espadim novo (objeto direto)...‖. Portanto, o pronome relativo ―que‖ exerce função sintática de complemento verbal direto (objeto direto). (5) Certo. O trecho ―Nunca esqueci (não pronominal = v.t.d) esse fenômeno (objeto direto)‖ admite a reecritura ―Nunca me esqueci (pronominal = v.t.i) desse fenômeno (objeto indireto)‖, sem que haja prejuízo da correção gramatical e do sentido original. (6) Certo. Em ―... lá ecoava alguma vez este conceito de experimentado: ─ Vai-te embora, tu só cuidas do espadim‖, o pronome ―este‖ faz referência a algo a ser mencionado (catafórico) dentro do texto (endofórico). (7) Certo. No trecho ―Vai-te embora, tu só cuidas do espadim‖, a palavra ―te‖ tem função expletiva (―Vai tu embora‖), e o vocábulo ―tu‖ é sujeito das formas verbais ―Vai‖, de forma elíptica, e ―cuidas‖, de forma explícita. (8) Errado. Em ―...no fundo dos aplausos / que (= os quais/ os aplausos) me arrancavam da boca‖, a palavra ―que‖ é objeto direto sintático e semântico de ―arrancavam‖. Veja a ordem direta: ―... arrancavam (v.t.d) os aplausos (objeto direto) da minha boca (adjunto adverbial de lugar). Um gesto positivo, por favor! (9) Errado. Em ―persuadindo-se a si próprio‖, a palavra ―se‖ é objeto direto reflexivo; em ―não sei se (...) perdoava (...) o que admirava‖, a palavra ―se‖ é conjunção integrante; e em ―os outros parentes dividiam-se‖, a palavra ―se‖ é parte integrante do verbo ―dividir-se‖. (10) Certo. Observe o trecho ―Chegando ao Rio de Janeiro a notícia da primeira queda de Napoleão‖ na forma desenvolvida e na ordem direta: ―Quando a notícia da primeira queda de Napoleão (sujeito) chegou (verbo intransitivo) ao Rio de Janeiro (adjunto adverbial de lugar)‖. No termo ―a notícia (abstrato e cognato de verbo = noticiar a primeira queda de Napoleão = relação completiva) da primeira queda (= abstrato e remete a ―cair‖ = Napoleão caiu = relação subjetiva) de Napoleão‖, as duas ocorrências da preposição ―de‖ introduzem, respectivamente, um complemento nominal (= relação completiva) e um adjunto adnominal (= relação subjetiva). Difícil? Não! (11) Certo. O representante — um deputado federal, por exemplo — age conforme determinação legal constitucional, e não, segundo a vontade do povo. Releia o trecho: ―Além disso, não há propriamente mandato, pois a função do representante se dá nos limites constitucionais e não se determina por instruções ou cláusulas estabelecidas entre ele (ou o conjunto de representantes) e o eleitorado. As condições para o exercício do mandato e, no limite, seu conteúdo estão predeterminados na Constituição e apenas nela‖. (12) Errado. Segundo o texto, não há vontade individual no processo eleitoral. Em tese, o representante representa o povo. (13) Errado. A ―vontade pré-formada‖ (linha 10) não corresponderia aos anseios da ―soma de indivíduos‖ (linhas 4 e 5), mas aos anseios do povo. (14) Errado. A expressão ―de indivíduos‖ (linhas 4 e 5) corresponde a um complemento nominal e , por isso, não poderia ser substituída por individual, visto que haveria alteração do sentido textual. (15) Errado. O vocábulo ―Jurídica‖ (= juridicamente) (linha 5) é, morfologicamente, um advérbio, assim como ―constitucionalmente‖ (linha 5), por simetria ou paralelismo. (16) Certo. Em ―O povo/ a que (= ao qual = ao povo) remete a ideia de soberania popular/ constitui uma unidade‖, a palavra ―que‖ exerce função sintática de complemento verbal indireto de ―remete‖. Veja a ordem direta: ―a ideia de soberania popular (sujeito) remete (v.t.i) ao povo (objeto indireto). (17) Errado. No período ―Há (= existir) a construção de uma vontade, ( que é) limitada apenas aos contornos constitucionais‖, a formal verbal ―Há‖ (presente do Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 45 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. indicativo) é impessoal, mas ―limitada‖ (particípio) é pessoal. Observe que o pronome relativo ―que‖ está implícito e retoma o antecedente ―uma vontade‖. Portanto, o pronome relativo ―que‖ (implícito) exerce função sintática de sujeito elíptico de ―é limitada‖. (18) Errado. Estrutura correta: ―Importância especial têm os princípios gerais do direito no suprimento das chamadas lacunas (se é que as há) de direito. Ferrara, por exemplo, rechaçava a ideia de lacunas de direito, visto que, a seu sentir, não há lacunas e, sim, defeitos da lei‖. Lembre-se de que o verbo ―haver‖ (= existir) é impessoal e não admite ser flexionado no plural; ademais, ―posto que‖ tem valor concessivo, e não causal, como ―visto que‖. (19) Errado. Estrutura correta: ―Todavia, se se trata de ausência irresgatável da norma, já não se pode falar em lacuna até porque (consigne-se o óbvio) não há como supri- la (sem acento) ou como remediá-la‖. Lembre-se de que, no enunciado, ―porque‖ é conjunção subordinativa causal. (20) Certo. ―Quanto aos princípios gerais propriamente ditos, há os de domínio comum às ordens jurídicas internas e ao direito internacional, é dizer-se, aqueles que são do direito das gentes, mais particularmente‖. Observe que a estrutura ―é dizer-se‖ tem valor de ―ou seja‖, ―isto é‖ e deve vir entre vírgulas. PROVA 11 Texto para os itens de 1 a 5 ─ Macabéa! Tenho grandes notícias para lhe dar! Preste atenção, minha flor, porque é da maior importância o que vou lhe dizer. É coisa muito séria e muito alegre: sua vida vai mudar completamente! E digo mais: vai mudar a partir do momento em que você sair da minha casa! Você vai se sentir outra. Fique sabendo, minha florzinha, que até o seu namorado vai voltar e propor casamento, ele está arrependido! E seu chefe vai lhe avisar que pensou melhor e não vai mais lhe despedir! (A Hora da Estrela, Clarice Lispector, 1993, p.95, fragmento). No tocante às ideias e às estruturas linguísticas do texto, julgue os itens a seguir. (1) Na fala da cartomante, percebe-se a utilização de alegorias literárias com o intuito de promover a otimização de Macabéa. (2) Nas linhas 1 e 4 do texto, a autora faz uso de vocativos que destacam a função conativa ou apelativa da linguagem. (3) Na linha 3 do texto, o vocábulo ―que‖, pronome relativo, exerce função sintática de adjunto adverbial de tempo; na linha 4, porém, o vocábulo ―que‖, conjunção integrante, não apresenta função sintática. (4) A construção ―E seu chefe vai lhe avisar que pensou melhor e não vai mais lhe despedir!‖ fere, em rigor, o padrão culto da linguagem, já que a estrutura correta é: ―E seu chefe vai lhe avisar que pensou melhor e não vai mais despedi-la! (5) Na linha 4, o vocábulo ―até‖ não corresponde, morfologicamente, a uma preposição; por não ter função morfológica, corresponde a uma palavra denotativa de inclusão. Texto para os itens de 6 a 10. Ele se aproximou e com voz cantante de nordestino que a emocionou, perguntou- lhe: — E se me desculpe, senhorinha, posso convidar a passear? Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 46 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. — Sim, respondeu atabalhoadamente com pressa antes que ele mudasse de idéia. — E, se me permite, qual é mesmo a sua graça? — Macabéa. — Maca — O quê? — Bea, foi ela obrigada a completar. — Me desculpe mas até parece doença, doença de pele. Eu também acho esquisito mas minha mãe botou ele por promessa a NossaSenhora da Boa Morte se eu vingasse, até um ano de idade eu não era chamada porque não tinha nome, eu preferia continuar a nunca ser chamada em vez de ter um nome ninguém tem mas parece que deu certo. Parou um instante e tomando o fôlego perdido e acrescentou desanimada e com pudor — pois como o senhor vê eu vinguei... pois é... — Também no sertão da Paraíba promessa é questão de grande dívida de honra. Eles não sabiam como se passeia. Andaram sob a chuva grossa e pararam diante da vitrine de uma loja de ferragem onde estavam expostos atrás do vidro canos, latas, parafusos grandes e pregos. E Macabéa, com medo de que o silêncio já significasse uma ruptura, disse ao recém-namorado: — Eu gosto tanto de parafuso e prego, e o senhor? Da segunda vez em que se encontraram caía uma chuva fininha que ensopava os ossos. Sem nem ao menos se darem as mãos, caminhavam na chuva que na cara de Macabéa parecia lágrimas escorrendo. (Clarice Lispector, A Hora da Estrela - fragmento) Julgue os itens de acordo com as informações presentes no texto e os seus aspectos linguísticos e tipológicos. (6) Por meio da utilização do discurso direto, Clarice Lispector promove a interação das personagens e constrói um diálogo, espécie do gênero narrativo. (7) No 9º. parágrafo, Macabea explica a origem de seu nome e lamenta o fato de parecer nome de doença de pele, mas, em nenhum momento, envergonha-se da promessa feita pela mãe, já que venceu a enfermidade e vingou. (8) No trecho ―Andaram sob a chuva grossa e pararam diante da vitrine de uma loja de ferragem onde estavam expostos atrás do vidro canos, latas, parafusos grandes e pregos‖, o vocábulo destacado corresponde a um pronome relativo. (9) No último parágrafo, as duas ocorrências da palavra ―se‖ desempenham igual função morfológica e sintática. (10) A última oração do fragmento classifica-se em subordinada adjetiva restritiva reduzida de gerúndio. Texto para os itens de 11 a 15. Um dia em que chovia muito, Macabéa encontrou Olímpico de Jesus, que se apresentou como Olímpico de Jesus Moreira Chaves, metalúrgico, paraibano. Os dois apresentam ruídos no processo de comunicação: ela por não saber e não ter o que dizer, e ele, por se sentir superior, principalmente em relação ao aspecto linguístico, porém pouco sabia. Olímpico era ambicioso, era capaz de qualquer ato para ascender socialmente. Até que ele conhece Glória e resolve afastar-se de Macabéa. Com o rompimento, Macabéa compra um batom vermelho, pinta os lábios no banheiro da firma em busca da identidade desejada: a atriz Marilyn Monroe. Glória zomba da colega, contudo resolve convidá-la para um lanche em sua casa no domingo. Em seguida, indica-lhe um médico. O médico, que não gostava de trabalhar com pobres e para pobres, distrata Macabéa, e ela, mesmo assim, agradece. Constata-se que Macabéa está com tuberculose. Quando ela volta a falar com Glória, esta lhe indica uma cartomante: Madama Carlota. A cartomante mente para Macabéa, que sai de lá convencida de que será outra, Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 47 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. de que será feliz e de que encontrará seu príncipe. Ao dar um passo para atravessar a rua, ela é atropelada por um carro Mercedes Benz ouro. Esta é a hora da estrela, quando ela será "tão grande como um cavalo morto": ferida de morte, a personagem vomita um pouco de sangue, mas queria ter vomitado "uma estrela de mil pontas". O narrador termina refletindo sobre a morte não só de Macabéa, mas também sobre a dele: "por enquanto é tempo de morangos. Sim". (Passagens de A Hora da Estrela, Massaud Moísés) No que se refere às ideias e às estruturas linguísticas do texto, julgue os itens a seguir. (11) No primeiro parágrafo, o autor menciona as causas das limitações de Macabéa e Olímpico no processo comunicativo. (12) O trecho ―Glória zomba da colega, contudo resolve convidá-la para um lanche em sua casa no domingo‖ admite a seguinte reescritura, sem prejuízo para a correção gramatical e para a coerência textual: ―Glória ironiza a colega, todavia, resolve convidar-lhe para um lanche em sua casa no domingo‖. (13) No primeiro período do último parágrafo, o sinal de dois-pontos admite a substituição por vírgula ou por travessão, sem prejuízo para a correção gramatical. (14) No trecho ―A cartomante mente para Macabéa, que sai de lá convencida de que será outra, de que será feliz e de que encontrará seu príncipe‖, a repetição da estrutura ―de que‖ tem a função de introduzir orações completivas nominais coordenadas entre si e subordinadas ao mesmo nome-adjetivo: ―convencida‖. (15) Em ―Ao dar um passo para atravessar a rua, ela é atropelada por um carro Mercedes Benz ouro‖, há três orações, classificadas, respectivamente, em subordinada adverbial temporal reduzida de infinitivo, subordinada adverbial final reduzida de infinitivo e principal. Julgue os itens a seguir quanto à correção gramatical. (16) Macabéa é alagoana, virgem, ignorante tem dezenove anos e diz-se "datilógrafa". Veio para o Rio de Janeiro com uma tia que cuidara dela desde os dois anos de idade. (17) Quando a tia morre, Macabéa muda-se para um quarto que divide com quatro moças as quais trabalhavam nas Lojas Americanas: Maria da Penha, Maria Aparecida, Maria José e Maria. (18) Raimundo, o patrão de Macabéa, avisa-a que será despedida (Macabéa errava demais na datilografia). Macabéa gostava de ouvir a Rádio Relógio porque os locutores falavam "palavras diferentes", embora ela desconhecia os significados delas. (19) Rodrigo S. M., o narrador, constitui um dos personagens centrais de "A Hora da Estrela", de Clarice Lispector. Ao mesmo tempo em que cria e narra a vida de Macabéa, identifica-se com ela, mesmo quando a agride. (20) A "Hora da Estrela", representa o momento epifânico de Macabéa: a hora da morte. É irônica porque só no momento da morte, é que Macabéa alcança a grandeza do ser. Já a autora atinge a epifania ao concluir a obra. É a epifanização do tormento de escrever. RESPOSTAS COMENTADAS (1) Errado. Na fala da cartomante, não se percebe a utilização de alegorias literárias ─ cadeias metafóricas, como as empregadas em fábulas, apólogos e parábolas. Trata-se de linguagem coloquial, informal. Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 48 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. (2) Certo. Nas linhas 1 (―Macabéa!‖) e 4 (―minha florzinha‖) do texto, a autora faz uso de vocativos que destacam a função conativa ou apelativa da linguagem, cujo objetivo é influenciar o receptor da mensagem. (3) Certo. Na linha 3 do texto, o vocábulo ―que‖, pronome relativo, exerce função sintática de adjunto adverbial de tempo. Veja a ordem direta: ... você (suj.) vai sair (verbo intransitivo) de casa (adj. adv. de lugar) no momento (adjunto adv. de tempo). A forma ―em que‖ substitui o antecedente ―no momento‖. Na linha 4, porém, o vocábulo ―que‖, conjunção integrante, não apresenta função sintática. Apenas introduz as orações subordinadas substantivas objetivas diretas coordenadas entre si: ―... que até o seu namorado vai voltar e propor casamento‖ – objeto direto de ―sabendo‖. (4) Certo. A construção ―E seu chefe vai lhe avisar que pensou melhor e não vai mais lhe despedir!‖ fere, em rigor, o padrão culto da linguagem, já que a estrutura correta é: ―E seu chefe vai lhe avisar que pensou melhor e não vai mais despedi-la! O verbo ―despedir‖ é transitivo direto. O pronome átono também poderia adotar outras posições: não a vai mais despedir/ não vai mais a despedir. (5)Certo. Na linha 4, o vocábulo ―até‖ não corresponde, morfologicamente, a uma preposição; por não ter função morfológica, corresponde a uma palavra denotativa de inclusão. Observe que ―até‖ tem valor de ―inclusive‖. Lembre-se de que, nesse caso, até não pode ser preposição, um vez que o sujeito ―até o seu namorado‖ não pode vir preposicionado. (6) Certo. Por meio da utilização do discurso direto (com o emprego dos travessões e da reprodução fiel da fala das personagens), Clarice Lispector promove a interação dessas personagens e constrói um diálogo, espécie do gênero narrativo. (7) Errado. No 9º. parágrafo, Macabea explica a origem de seu nome e lamenta o fato de parecer nome de doença de pele. A segunda parte do item ─ ―mas, em nenhum momento, envergonha-se da promessa feita pela mãe, já que venceu a enfermidade e vingou‖ ─ não traduz informações constantes do parágrafo . (8) Certo. No trecho ―Andaram sob a chuva grossa e pararam diante da vitrine de uma loja de ferragem onde (= na qual, em que) estavam expostos atrás do vidro canos, latas, parafusos grandes e pregos‖, o vocábulo destacado corresponde a um pronome relativo. (9) Errado. No último parágrafo, as duas ocorrências da palavra ―se‖ desempenham igual função morfológica (pronomes reflexivos), mas não sintática. Na primeira ocorrência, ―se‖ é objeto direto reflexivo e recíproco do verbo ―encontraram‖ (v.t.d); na segunda ocorrência, ―se‖ é objeto indireto de ―darem‖ (v.t.d.i). Entendeu? (10) Certo. A última oração do fragmento classifica-se em subordinada adjetiva restritiva reduzida de gerúndio. Veja a forma desenvolvida: ―... parecia lágrimas que (= as quais) escorriam‖. Lembre-se de que o pronome relativo sempre introduz oração subordinada adjetiva. (11) Certo. No primeiro parágrafo, o autor menciona as causas das limitações de Macabéa e Olímpico no processo comunicativo: ―ela por não saber e não ter o que dizer, e ele, por se sentir superior, principalmente em relação ao aspecto linguístico, porém pouco sabia‖. Observe que as duas ocorrências da preposição ―por‖ introduzem causa nas orações reduzidas de infinitivo. (12) Errado. Em ―Glória ironiza a colega, todavia, resolve convidar-lhe para um lanche em sua casa no domingo‖, a vírgula após ―todavia‖ está errada, e o verbo ―convidar‖, transitivo direto, não admite o pronome ―lhe‖ como complemento verbal. (13) Certo. No primeiro período do último parágrafo, o sinal de dois-pontos admite a substituição por vírgula ou por travessão, sem prejuízo para a correção gramatical. Trata-se de aposto explicativo. (14) Certo. No trecho ―A cartomante mente para Macabéa, que sai de lá convencida de que será outra, de que será feliz e de que encontrará seu príncipe‖, a repetição da Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 49 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. estrutura ―de que‖ tem a função de introduzir três orações completivas nominais coordenadas entre si e subordinadas ao mesmo nome-adjetivo: ―convencida‖. (15) Certo. Em ―Ao dar um passo (Quando deu um passo) / para atravessar (para que atravessasse) a rua, / ela é atropelada por um carro Mercedes Benz ouro‖, há três orações, classificadas, respectivamente, em subordinada adverbial temporal reduzida de infinitivo, subordinada adverbial final reduzida de infinitivo e principal. Veja as formas desenvolvidas entre parênteses. Um gesto positivo, por favor! (16) Errado. Em ―Macabéa é alagoana, virgem, ignorante tem dezenove anos e diz-se "datilógrafa". Veio para o Rio de Janeiro com uma tia que cuidara dela desde os dois anos de idade‖, falta vírgula após ―ignorante‖. (17) Certo. ―Quando a tia morre, Macabéa muda-se para um quarto que divide com quatro moças as quais trabalhavam nas Lojas Americanas: Maria da Penha, Maria Aparecida, Maria José e Maria‖ é período inteiramente correto. (18) Errado. Em ―Raimundo, o patrão de Macabéa, avisa-a que será despedida (Macabéa errava demais na datilografia). Macabéa gostava de ouvir a Rádio Relógio porque os locutores falavam "palavras diferentes", embora ela desconhecia os significados delas‖, deve-se substituir ―avisa-a que‖ por ―avisa-lhe que‖ ou ―avisa-a de que‖, já que o verbo avisar é transitivo direto e indireto‖; além disso, deve-se substituir ―desconhecia‖ por ―desconhecesse‖, haja vista que o emprego da conjunção concessiva ―embora‖ exige o emprego do verbo no modo subjuntivo. (19) Certo. ―Rodrigo S. M., o narrador, constitui um dos personagens centrais de "A Hora da Estrela", de Clarice Lispector. Ao mesmo tempo em que cria e narra a vida de Macabéa, identifica-se com ela, mesmo quando a agride‖ é trecho inteiramente correto. (20) Errado. Em ―A ‗Hora da Estrela‘, representa o momento epifânico de Macabéa: a hora da morte. É irônica porque só no momento da morte, é que Macabéa alcança a grandeza do ser. Já a autora atinge a epifania ao concluir a obra. É a epifanização do tormento de escrever‖, deve-se eliminar a vírgula após ―A Hora da Estrela‖ (sujeito) e após ―morte‖, porque a partícula expletiva ou de realce ―é que‖ já realça o adjunto adverbial de tempo ―no momento da morte‖. PROVA 12 Texto para os itens de 1 a 10 Publicado em 1934, São Bernardo é tido como um dos maiores representantes da segunda fase do Modernismo brasileiro. Nos anos conturbados das décadas de 1930 e 40, com crises econômicas, sociais e políticas em todo o mundo, os artistas voltaram-se para as temáticas sociais. No Brasil, os romances dessa época tinham um caráter regionalista, tratando principalmente dos problemas do Nordeste do país, tais como a seca, os retirantes, a miséria e a ignorância do povo. Porém, apesar de o pano de fundo de São Bernardo ser os problemas do sertão, Graciliano Ramos foi muito além disso, criando uma obra com uma densa carga psicológica. Para alcançar sua ascensão social, Paulo Honório abre mão de sua humanidade. Endurecido pelas dificuldades do meio onde vive, ele se torna um homem rude, bruto e violento. Narrado em primeira pessoa, todo o romance irá se desenvolver centrado em dois planos diferentes: o Paulo Honório narrador e o Paulo Honório personagem. Esses planos ficam evidentes por meio do tempo verbal utilizado na narrativa: o Paulo Honório narrador é demarcado pelo uso do tempo presente; já o Paulo Honório personagem é demarcado pelo tempo pretérito. O narrador irá se debruçar sobre seu passado, tentando entender a si mesmo, ao mundo e como ele se relaciona com esse mundo exterior. Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 50 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. O narrador expõe, no primeiro capítulo, como ele planejava contar sua história, delegando funções para pessoas mais cultas. Contudo, Paulo Honório descobre que este método de escrita é falho, pois ninguém falava da forma como estava escrito e ele não se via representado ali. A partir de então, ele mesmo resolve tomar a frente e escrever suas próprias lembranças. Por meio desse processo metalinguístico de exposição do projeto de escrita do livro, coloca-se o próprio ato de escrever em discussão. Ao contrário do que se pode imaginar, a linguagem utilizada na narrativa não é desconexa nem tosca. Pode-se dizer, então, que há uma certa inverossimilhança na obra, pois como um homem rústico, que se diz quase analfabeto, iria escrever um texto tão bem escrito? Mas, apesar de essa crítica ser pertinente, observa-se que a linguagem utilizada é extremamente enxuta e direta, o que, além de ser típica do estilo do próprio Graciliano Ramos, combina com Paulo Honório. De origem humilde, Paulo Honório não mediu esforçospara conseguir sua ascensão social, utilizando, muitas vezes, de meios antiéticos, como ameaças, assassinato e roubo. Sua visão de mundo é totalmente centrada em uma relação de poder entre ―opressor‖ e ―oprimido‖. Para ele, o que importa é ―ter‖. Essa visão de mundo entra em choque com a de sua esposa, Madalena, que é da esfera do ―ser‖, ou seja, ela não se preocupa com posses, mas com a qualidade e dignidade humanas. Por fim, Paulo Honório não consegue compreender o mundo de sua esposa e a acusa de infiel e ―subversiva‖; por sua vez, Madalena não consegue resgatar Paulo Honório de sua desumanidade. Sem sua esposa e abandonado também pelos amigos, Paulo Honório assume em partes seus erros que levaram à tragédia que se abateu sob a fazenda São Bernardo. Todavia, ele joga a culpa de seu endurecimento, de sua perda da humanidade no ambiente em que vive. (Fernando Marcílio, professor de Teoria Literária/Unicamp) No tocante às ideias e às estruturas linguísticas do texto, julgue os itens a seguir. (1) Infere-se do texto que São Bernardo é um romance de confissão narrado em primeira pessoa, em que Paulo Honório, personagem protagonista, registra a história da sua ascensão ao seu declínio, de sua tragédia conjugal e da aridez de sua vida afetiva, utilizando-se do tempo do enunciado (os eventos que ocorreram em sua vida) e do tempo da enunciação (o momento em que se escreve o livro). (2) A duplicidade temporal da narrativa prescinde da monopolização do eu- protagonista, uma vez que, distanciado no tempo, abrange com o olhar toda sua vida e procura recapitulá-la, contando-a para si e para o leitor. (3) O texto de Fernando Marcílio contém elementos que o inserem no âmbito do gênero opinativo. (4) No trecho ―Nos anos conturbados das décadas de 1930 e 40, com crises econômicas, sociais e políticas em todo o mundo, os artistas voltaram-se para as temáticas sociais‖, as vírgulas após ―40‖ e ―mundo‖ podem ser substituídas por travessões ou parênteses, sem prejuízo para a correção gramatical e para a coerência textual. (5) O elemento ―disso‖ (linha 7) refere-se, no texto, à ideia de ―o pano de fundo de São Bernardo ser os problemas do sertão‖. (6) Em ―...ele se torna um homem rude, bruto e violento‖, os adjetivos ―rude‖, ―bruto‖ e ―violento‖ caracterizam, sintaticamente, predicativo do sujeito composto por três núcleos. (7) O trecho ―Para alcançar sua ascensão social, Paulo Honório abre mão de sua humanidade. Endurecido pelas dificuldades do meio onde vive, ele se torna um homem rude, bruto e violento‖ admite a seguinte reescritura, sem prejuízo para a correção gramatical e para a coerência textual: ―Com vistas à alcançar sua ascensão social, Paulo Honório descarta sua humanidade e, por estar endurecido pelas dificuldades do meio onde vive, ele se transforma em um homem insensível, tosco e grosseiro‖. Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 51 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. (8) Mantendo-se a correção gramatical e a coerência textual, o vocábulo ―falho‖ poderia ser substituído por ―falha‖ em ―Paulo Honório descobre que este método de escrita é falho‖, uma vez que a língua, nesse caso, permite a concordância com o termo mais próximo, ―escrita‖. (9) Em ―Ao contrário do que se pode imaginar, a linguagem utilizada na narrativa não é desconexa nem tosca‖, os vocábulos ―que‖ e ―linguagem‖ são, respectivamente, núcleos do sujeito das formas verbais ―pode imaginar‖ e ―é‖. (10) No fragmento ―Essa visão de mundo entra em choque com a de sua esposa‖, os termos destacados desempenham igual função sintática. Texto para os itens de 11 a 17. Antes de iniciar este livro, imaginei construí-lo pela divisão do trabalho. Dirigi-me a alguns amigos, e quase todos consentiram de boa vontade em contribuir para o desenvolvimento das letras nacionais. Padre Silvestre ficaria com a parte moral e as citações latinas; João Nogueira aceitou a pontuação, a ortografia e a sintaxe; prometi ao Arquimedes a composição tipográfica; para a composição literária convidei Lúcio Gomes de Azevedo Gondim, redator e diretor do Cruzeiro. Eu traçaria o plano, introduziria na história rudimentos de agricultura e pecuária, faria as despesas e poria o meu nome na capa. Estive uma semana bastante animado, em conferências com os principais colaboradores, e já via os volumes expostos, um milheiro vendido graças aos elogios que, agora com a morte do Costa Brito, eu meteria na esfomeada Gazeta, mediante lambujem. Mas o otimismo levou água na fervura, compreendi que não nos entendíamos. João Nogueira queria o romance em língua de Camões, com períodos formados de trás para diante. Calculem. Padre Silvestre recebeu-me friamente. Depois da Revolução de Outubro, tornou-se uma fera, exigiu devassas rigorosas e castigos para os que não usaram lenços vermelhos. Torceu-me a cara. E éramos amigos. Patriota. Está direito: cada qual tem as suas manias. Afastei-o da combinação e concentrei as minhas esperanças em Lúcio Gomes de Azevedo Gondim, periodista de boa índole e que escreve o que lhe mandam. Trabalhamos alguns dias. À tardinha, Azevedo Gondim entregava a redação ao Arquimedes, trancava a gaveta onde guarda os níqueis e as pratas, tomava a bicicleta e, pedalando meia hora pela estrada de rodagem que ultimamente Casimiro Lopes andava a consertar com dois ou três homens, alcançava São Bernardo. Comentava os telegramas dos jornais, atacava o governo, bebia um copo de conhaque que Maria das Dores lhe trazia e, sentindo-se necessário, comandava com submissão: ─ Vamos a isso. Graciliano Ramos, São Bernardo (fragmento) Julgue os itens de acordo com as informações presentes no texto e os seus aspectos linguísticos. (11) A substituição do segmento ―Antes de iniciar este livro, imaginei construí-lo pela divisão do trabalho‖ (linha 1) por ―Eis que, ao iniciar este livro, imaginei construí-lo por intermédio da partição do trabalho‖ manteria a correção gramatical e os sentidos originais do texto. (12) O segmento ―em contribuir para o desenvolvimento das letras nacionais‖ (linha 2) funciona, no período em que se insere, como complemento verbal indireto de ―consentiram‖. (13) No terceiro parágrafo, o vocábulo ―Mas‖ poderia ser substituído por ―Malgrado‖, mantendo-se a correção gramatical e os sentidos do texto. (14) O trecho ―Eu traçaria o plano, introduziria na história rudimentos de agricultura e pecuária, faria as despesas e poria o meu nome na capa‖ admite, sem prejuízo para a correção gramatical, a seguinte reescritura: ―Eu traçaria o plano; introduziria, na Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 52 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. história, rudimentos de agricultura e pecuária; faria as despesas; e poria o meu nome na capa‖. (15) Em ―Mas o otimismo levou água na fervura, compreendi que não nos entendíamos‖, o pronome átono ―nos‖ tanto pode ser deslocado para depois de ―que‖ como pode ser deslocado para depois de ―entendíamos‖, com a supressão do ―s‖ final da forma verbal. (16) Em ―Afastei-o da combinação e concentrei as minhas esperanças em Lúcio Gomes de Azevedo Gondim, periodista de boa índole e que escreve o que lhe mandam‖, a estrutura ―que é‖ foi suprimida antes de ―periodista‖, talvez para evitar a repetição exaustiva do vocábulo ―que‖. (17) O acento indicativo de crase em ―À tardinha, Azevedo Gondim entregava a redação ao Arquimedes‖ deve-se à regência do verbo ―entregava‖ e à presença do artigo definido feminino singular. (18) Em ―... trancava a gaveta onde guarda os níqueis e as pratas‖, a oração destacadaclassifica-se em subordinada adjetiva restritiva. (19) No trecho ―... bebia um copo de conhaque que Maria das Dores lhe trazia‖, os vocábulos destacados são complementos, respectivamente direto e indireto, da forma verbal ―trazia‖. (20) Na penúltima linha do texto, o sujeito do verbo ―comandava‖ está elíptico e tem como referente o termo ―Casimiro Lopes‖. RESPOSTAS COMENTADAS (1) Certo. Infere-se do texto que São Bernardo é um romance de confissão (―O narrador irá se debruçar sobre seu passado, tentando entender a si mesmo, ao mundo e como ele se relaciona com esse mundo exterior‖) narrado em primeira pessoa, em que Paulo Honório, personagem protagonista, registra a história da sua ascensão ao seu declínio, de sua tragédia conjugal e da aridez de sua vida afetiva, utilizando-se do tempo do enunciado (os eventos que ocorreram em sua vida: ―o Paulo Honório personagem é demarcado pelo tempo pretérito‖) e do tempo da enunciação (o momento em que se escreve o livro: ―o Paulo Honório narrador é demarcado pelo uso do tempo presente‖). (2) Errado. A duplicidade temporal da narrativa não prescinde da monopolização do eu-protagonista. Este, distanciado no tempo, abrange com o olhar toda sua vida e procura recapitulá-la, contando-a para si e para o leitor. (3) Errado. O texto de Fernando Marcílio, embora contenha alguns elementos opinativos, corresponde a uma resenha crítica (exposição dos principais aspectos do enredo da obra, acompanhada de análise crítica ou apreciativa). (4) Errado. No trecho ―Nos anos conturbados das décadas de 1930 e 40 (primeiro adjunto adverbial deslocado para o início da oração), com crises econômicas, sociais e políticas em todo o mundo (segundo adjunto adverbial deslocado para o início da oração), os artistas (sujeito) voltaram-se para as temáticas sociais‖, as vírgulas após ―40‖ e ―mundo‖ não podem ser substituídas por travessões ou parênteses, sem prejuízo para a correção gramatical e para a coerência textual, porque não se trata de interrupção ou intercalação sintática. São dois adjuntos adverbiais deslocados para o início da oração. Nesse caso, só cabem as vírgulas. (5) Certo. O elemento ―disso‖ (linha 7) refere-se, no texto, à ideia de ―o pano de fundo de São Bernardo ser os problemas do sertão‖. (6) Errado. Em ―...ele (sujeito) se torna (verbo de ligação) um HOMEM rude, bruto e violento (predicativo do sujeito)‖, os adjetivos ―rude‖, ―bruto‖ e ―violento‖ são adjuntos adnominais (adjetivos) do único núcleo do predicativo do sujeito: ―homem‖. (7) Errado. O trecho ―Para alcançar sua ascensão social, Paulo Honório abre mão de sua humanidade. Endurecido pelas dificuldades do meio onde vive, ele se torna um homem rude, bruto e violento‖ não admite a seguinte reescritura, sem prejuízo Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 53 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. para a correção gramatical e para a coerência textual: ―Com vistas à alcançar (acento grave errado) sua ascensão social, Paulo Honório descarta sua humanidade e, por estar endurecido pelas dificuldades do meio onde vive, ele se transforma em um homem insensível, tosco e grosseiro‖. (8) Errado. O vocábulo ―falho‖, em ―Paulo Honório descobre que este método de escrita é falho‖, só poderá concordar com o núcleo do sujeito do verbo ―é‖: ―método‖. (9) Certo. Em ―Ao contrário do (= de + aquilo) que (= o qual) se pode imaginar, a linguagem utilizada na narrativa não é desconexa nem tosca‖, os vocábulos ―que‖ e ―linguagem‖ são, respectivamente, núcleos do sujeito das formas verbais ―pode imaginar‖ e ―é‖. Substituindo-se o pronome relativo ―que‖ pelo antecedente ―aquilo‖, obtém-se: ―aquilo se pode imaginar = aquilo pode ser imaginado‖. Assim, ―aquilo‖ é sujeito de ―pode imaginar‖. Como a palavra que substitui ―aquilo‖ é o pronome relativo ―que‖, este é o sujeito. Ademais, não há dúvida de que ―linguagem‖ é núcleo do sujeito do verbo ―é‖. Faça um gesto positivo, por favor. (10) Certo. No fragmento ―Essa visão (substantivo abstrato) de mundo (relação completiva) entra em choque (substantivo abstrato) com a de sua esposa (relação completiva)‖, os termos destacados desempenham igual função sintática: são complementos nominais de seus respectivos substantivos. (11) Errado. A substituição do segmento ―Antes de iniciar este livro, imaginei construí-lo pela divisão do trabalho‖ (linha 1) por ―Eis que (= Quando) , ao iniciar (= quando iniciei) este livro, imaginei construí-lo por intermédio da partição do trabalho‖ não manteria a correção gramatical (dupla relação temporal) nem os sentidos originais do texto (―Antes de‖ é diferente, semanticamente, de ―Quando‖). (12) Certo. O segmento ―em contribuir para o desenvolvimento das letras nacionais‖ (objeto indireto oracional) funciona, no período em que se insere, como complemento verbal indireto de ―consentiram‖ (verbo transitivo indireto). (13) Errado. No terceiro parágrafo, o vocábulo ―Mas‖ (conjunção adversativa) não poderia ser substituído por ―Malgrado‖ (conjunção concessiva), o que não mantém, portanto, a correção gramatical nem os sentidos do texto. (14) Certo. O trecho ―Eu traçaria o plano, introduziria na história rudimentos de agricultura e pecuária, faria as despesas e poria o meu nome na capa‖ admite, sem prejuízo para a correção gramatical, a seguinte reescritura: ―Eu traçaria o plano; introduziria, na história, rudimentos de agricultura e pecuária; faria as despesas; e poria o meu nome na capa‖. O sinal de ponto e vírgula separa orações independentes ou coordenadas entre si. O adjunto adverbial de curta extensão ―na história‖ pode vir ou não entre vírgulas. (15) Errado. Em ―Mas o otimismo levou água na fervura, compreendi que não nos entendíamos‖, o pronome átono ―nos‖ pode ser deslocado para depois de ―que‖, mas não pode ser deslocado para depois de ―entendíamos‖, já que a conjunção integrante ―que‖ e o advérbio ―não‖ são fatores de próclise. (16) Certo. Em ―Afastei-o da combinação e concentrei as minhas esperanças em Lúcio Gomes de Azevedo Gondim, (que é) periodista de boa índole e que escreve o que lhe mandam‖, a estrutura ―que é‖ foi suprimida antes de ―periodista‖, talvez para evitar a repetição exaustiva do vocábulo ―que‖. (17) Errado. O acento indicativo de crase em ―À tardinha, Azevedo Gondim entregava a redação ao Arquimedes‖ deve-se à presença da preposição ―a‖ na locução adverbial de tempo e à presença do artigo definido feminino singular antes do substantivo ‗tardinha‖. (18) Certo. Em ―... trancava a gaveta onde (= na qual) guarda os níqueis e as pratas‖, a oração destacada classifica-se em subordinada adjetiva restritiva, introduzida pelo pronome relativo ―onde‖. (19) Certo. No trecho ―... bebia um copo de conhaque/ que Maria das Dores lhe trazia‖, os vocábulos destacados são complementos, respectivamente direto e indireto, da forma verbal ―trazia‖. Como o pronome relativo ―que‖ substitui o antecedente ―um Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 54 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. copo de conhaque‖, veja o que se obtém na ordem direta: ―Maria das Dores lhe (objeto indireto) trazia (v.t.d.i) um copo de conhaque (objeto direto). Entendeu? (20) Errado. Na penúltima linha do texto, o sujeito do verbo ―comandava‖ está elíptico e tem como referente o termo ―Azevedo Gondim‖. PROVA 13 Texto para os itens de 1 a 10 A dignidade humana é característica inerente a todas as pessoas e tem por objetivo colocá-las a salvo de qualquer ato discricionário, seja qual for o agente, e protegê-las de ausência de condições mínimasde sobrevivência. É da própria essência do ser humano ser dotado dessa condição e qualidade. Estar desprovido desse manto protetor destitui o ser humano da capacidade de subsistência e da convivência social. Essa é a razão pela qual a dignidade da pessoa humana passa a ser considerada o princípio constitucional norteador das demais normas, porque deve ele se sobrepor a qualquer outro interesse – seja social ou econômico. Apesar de toda essa evolução sistemática dos textos normativos, capazes de servirem de abrigo aos direitos fundamentais, com afastamento de qualquer outro que intimide o seu pleno exercício, não é possível olvidar-se de que as transformações experimentadas pela sociedade, por conta do desenvolvimento industrial e tecnológico, bem como as regras do mercado podem abalar sensivelmente a defesa intransigente desses princípios constitucionais. A evolução do capitalismo e o avanço tecnológico geram a necessidade de criação de direitos que possam regrar, de modo harmônico, essa dicotomia, a fim de preservar não só o ser humano, mas, também, o próprio sistema, que, se não for regulado, pode autodestruir-se. Diante dessas considerações, é possível concluir que a ordem constitucional brasileira erigiu a dignidade humana como pressuposto fundamental, inafastável e norteador de todos os demais diplomas legais. Nádia Regina de Carvalho, Revista Âmbito Jurídico, 2015. Julgue os itens de acordo com as informações presentes no texto e os seus aspectos linguísticos. (1) Segundo o texto, a dignidade humana é imanente a todo ser humano, tem como escopo protegê-lo e constitui princípio constitucional norteador de todas as demais leis. (2) Em ―Essa é a razão pela qual a dignidade da pessoa humana passa a ser considerada o princípio constitucional norteador das demais normas‖, os termos destacados desempenham igual função sintática. (3) O terceiro parágrafo abre-se com um adjunto adverbial de concessão deslocado, o que justifica o emprego da primeira vírgula. (4) No terceiro parágrafo, o verbo ―olvidar-se‖ pode ser substituído por ―duvidar-se‖, sem prejuízo para o sentido original do texto. (5) Em ―... não é possível olvidar-se de que as transformações (...) podem abalar sensivelmente a defesa intransigente desses princípios constitucionais‖, a palavra ―se‖ tem a função de indeterminar ou generalizar o sujeito. (6) No trecho ―A evolução do capitalismo e o avanço tecnológico geram a necessidade de criação de direitos‖, o verbo pode ser flexionado na terceira pessoa do singular, sem prejuízo para a correção gramatical do texto. (7) Em ―... a fim de preservar não só o ser humano, mas, também, o próprio sistema, que, se não for regulado, pode autodestruir-se‖, os vocábulos destacados são, Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 55 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. respectivamente, do ponto de vista morfológico, pronome relativo, conjunção integrante e pronome átono. (8) A palavra ―que‖, em ―Diante dessas considerações, é possível concluir que a ordem constitucional brasileira erigiu a dignidade humana‖, introduz oração com valor de complemento verbal direto de ―é possível‖. (9) O trecho ―Diante dessas considerações, é possível concluir que a ordem constitucional brasileira erigiu a dignidade humana como pressuposto fundamental‖ admite a seguinte reescritura, sem prejuízo para a correção gramatical e para a coerência textual: ―Em face dessas considerações, conclui-se que a ordem constitucional brasileira instituiu a dignidade humana como pressuposto essencial‖. (10) O termo ―como pressuposto fundamental‖, em ―Diante dessas considerações, é possível concluir que a ordem constitucional brasileira erigiu a dignidade humana como pressuposto fundamental‖, exerce função sintática predicativa. Texto para os itens de 11 a 17. A instrumentalização da cidadania e da soberania popular, em uma democracia contemporânea, faz-se pelo instituto da representação política. E a transformação da soberania popular em representação se dá, em grande parte, por meio da eleição. O povo a que remete a ideia de soberania popular constitui uma unidade, e não, a soma de indivíduos. Jurídica e constitucionalmente, a representação ―representa‖ o povo (e não, todos os indivíduos). Além disso, não há propriamente mandato, pois a função do representante se dá nos limites constitucionais e não se determina por instruções ou cláusulas estabelecidas entre ele (ou o conjunto de representantes) e o eleitorado. As condições para o exercício do mandato e, no limite, seu conteúdo estão predeterminados na Constituição e apenas nela. Estritamente, sequer é possível falar em representação, pois não há uma vontade pré-formada. Há a construção de uma vontade, limitada apenas aos contornos constitucionais. Eneida Desiree Salgado. Princípios constitucionais estruturantes do direito eleitoral. Tese de doutoramento. Curitiba: Universidade Federal do Paraná, 2010. Internet: <http://dspace.c3sl.ufpr.br> (com adaptações). Julgue os itens de acordo com as informações presentes no texto e os seus aspectos linguísticos e tipológicos. (11) O representante — um deputado federal, por exemplo — age conforme determinação legal constitucional, e não, segundo a vontade do povo. (12) O representante representa o indivíduo, ao passo que a representação ―(ou o conjunto de representantes)‖ (linhas 7 e 8) representa o povo. (13) A ―vontade pré-formada‖ (linha 10) corresponderia aos anseios da ―soma de indivíduos‖ (linhas 4 e 5). (14) A expressão ―de indivíduos‖ (linhas 4 e 5) poderia ser substituída por individual sem que houvesse alteração do sentido textual. (15) O vocábulo ―Jurídica‖ (linha 5) é, morfologicamente, um adjetivo, com função predicativa, que caracteriza o substantivo ―representação‖ (linha 5). (16) Em ―O povo a que remete a ideia de soberania popular constitui uma unidade‖, a palavra ―que‖ exerce função sintática de complemento verbal indireto. (17) No período ―Há a construção de uma vontade, limitada apenas aos contornos constitucionais‖, as formais verbais ―Há‖ (presente do indicativo) e ―limitada‖ (particípio) são impessoais. Julgue os itens a seguir quanto à correção gramatical. (18) Importância especial têm os princípios gerais do direito no suprimento das chamadas lacunas (se é que as hão) de direito. Ferrara, por exemplo, rechaçava a Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 56 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. ideia de lacunas de direito, posto que, a seu sentir, não há lacunas e, sim, defeitos da lei. (19) Todavia, se se trata de ausência irresgatável da norma, já não se pode falar em lacuna até por que (consigne-se o óbvio) não há como suprí-la ou como remediá-la. (20) Quanto aos princípios gerais propriamente ditos, há os de domínio comum às ordens jurídicas internas e ao direito internacional, é dizer-se, aqueles que são do direito das gentes, mais particularmente. RESPOSTAS COMENTADAS (1) Certo. Segundo o texto, a dignidade humana é imanente (= inerente) a todo ser humano, tem como escopo (= objetivo) protegê-lo e constitui princípio constitucional norteador de todas as demais leis. (2) Errado. Em ―Essa é a razão pela qual a dignidade da pessoa humana (a pessoa humana tem dignidade/relação subjetiva = adjunto adnominal) passa a ser considerada o princípio constitucional norteador das demais normas‖ (que norteia as demais normas/ relação completiva = complemento nominal), os termos destacados desempenham diferentes funções sintáticas. (3) Certo. O terceiro parágrafo abre-secom um adjunto adverbial de concessão deslocado, o que justifica o emprego da primeira vírgula: ―Apesar de toda essa evolução sistemática dos textos normativos,‖. (4) Errado. No terceiro parágrafo, o verbo ―olvidar-se‖ pode ser substituído por ―esquecer-se‖, sem prejuízo para o sentido original do texto. (5) Errado. Em ―... não é possível olvidar-se de que as transformações (...) podem abalar sensivelmente a defesa intransigente desses princípios constitucionais‖, a palavra ―se‖ tem a função de parte integrante do verbo ou pronome fossilizado. O verbo ―olvidar‖ foi empregado em sua forma pronominal. (6) Errado. No trecho ―A evolução do capitalismo e o avanço tecnológico geram a necessidade de criação de direitos‖, o sujeito composto está anteposto ao verbo, e este só pode ser flexionado na terceira pessoa do plural, sem prejuízo para a correção gramatical do texto. (7) Errado. Em ―... a fim de preservar não só o ser humano, mas, também, o próprio sistema, que (= o qual), se (= caso não seja regulado) não for regulado, pode autodestruir-se‖, os vocábulos destacados são, respectivamente, do ponto de vista morfológico, pronome relativo, conjunção condicional e pronome átono. (8) Errado. A palavra ―que‖, em ―Diante dessas considerações, é possível concluir que a ordem constitucional brasileira erigiu a dignidade humana‖, introduz oração com valor de complemento verbal direto de ―concluir‖. (9) Certo. O trecho ―Diante dessas considerações, é possível concluir que a ordem constitucional brasileira erigiu a dignidade humana como pressuposto fundamental‖ admite a seguinte reescritura, sem prejuízo para a correção gramatical e para a coerência textual: ―Em face dessas considerações, conclui-se que a ordem constitucional brasileira instituiu a dignidade humana como pressuposto essencial‖. (10) Certo. O termo ―como pressuposto fundamental‖, em ―Diante dessas considerações, é possível concluir que a ordem constitucional brasileira (sujeito) erigiu (v.t.d) a dignidade humana (objeto direto) como pressuposto fundamental (predicativo do objeto direto)‖, exerce função sintática predicativa. (11) Certo. O representante — um deputado federal, por exemplo — age conforme determinação legal constitucional, e não, segundo a vontade do povo. Releia o trecho: ―Além disso, não há propriamente mandato, pois a função do representante se dá nos limites constitucionais e não se determina por instruções ou cláusulas estabelecidas entre ele (ou o conjunto de representantes) e o eleitorado. As condições para o exercício do mandato e, no limite, seu conteúdo estão predeterminados na Constituição e apenas nela‖. Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 57 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. (12) Errado. Segundo o texto, não há vontade individual no processo eleitoral. Em tese, o representante representa o povo. (13) Errado. A ―vontade pré-formada‖ (linha 10) não corresponderia aos anseios da ―soma de indivíduos‖ (linhas 4 e 5), mas aos anseios do povo. (14) Errado. A expressão ―de indivíduos‖ (linhas 4 e 5) corresponde a um complemento nominal e, por isso, não poderia ser substituída por individual, visto que haveria alteração do sentido textual. (15) Errado. ―Jurídica (= Juridicamente) e constitucionalmente‖ tem valor de advérbio (morfologicamente) e, portanto, é adjunto adverbial de modo (sintaticamente). (16) Certo. Em ―O povo a que remete a ideia de soberania popular constitui uma unidade‖, a estrutura ―a que‖ (preposição + pronome relativo = ao qual) introduz oração subordinada adjetiva de caráter restritivo e exerce função sintática de complemento verbal indireto (O.I.) de ―remete‖. Observe: a ideia de soberania popular remete ao povo. (17) Errado. No período ―Há a construção de uma vontade, limitada apenas aos contornos constitucionais‖, a forma verbal ―Há‖ (presente do indicativo) é impessoal (verbo ―haver‖ com o sentido de ―existir), mas ―limitada‖ (particípio) é pessoal, uma vez que o sujeito está implícito, representado pelo pronome relativo implícito ―que‖, o qual retoma ―uma vontade‖: ―que (= a qual) é limitada apenas aos contornos constitucionais‖. (18) Errado. Correção: Importância especial têm os princípios gerais do direito no suprimento das chamadas lacunas (se é que as há) de direito. Ferrara, por exemplo, rechaçava a ideia de lacunas de direito, visto que, a seu sentir, não há lacunas e, sim, defeitos da lei. ―Posto que‖ é conectivo concessivo, e não causal. (19) Errado. Correção: Todavia, se se trata de ausência irresgatável da norma, já não se pode falar em lacuna até porque (conjunção causal) (consigne-se o óbvio) não há como supri-la (oxítono terminado em ―i‖ não recebe acento) ou como remediá-la. (20) Certo. O trecho está gramaticalmente correto. Ressalte-se que ―é dizer-se‖ tem valor de ―ou seja‖, ―isto é‖. PROVA 14 Texto para os itens de 1 a 10 Eu não quero passar adiante sem contar sumariamente um galante episódio de 1814, tinha nove anos. Napoleão, quando eu nasci, estava já em todo o esplendor da glória e do poder; era imperador e granjeara inteiramente a admiração dos homens. Meu pai, que à força de persuadir os outros da nossa nobreza acabara persuadindo-se a si próprio, nutria contra ele um ódio puramente mental. Era isso motivo de renhidas controvérsias em nossa casa, porque meu tio João [militar], não sei se por espírito de classe e simpatia de ofício, perdoava no déspota o que admirava no general, meu tio padre era inflexível contra o corso; os outros parentes dividiam-se: daí as controvérsias e as rusgas. Chegando ao Rio de Janeiro a notícia da primeira queda de Napoleão, houve naturalmente um grande abalo em nossa casa, mas nenhum chasco ou remoque. [...] Figurei nesses dias com um espadim novo, que meu padrinho me dera no dia de Santo Antônio; e, francamente, interessava-me mais o espadim do que a queda de Bonaparte. Nunca esqueci esse fenômeno. Nunca mais deixei de pensar comigo que o nosso espadim é sempre maior que a espada de Napoleão. E notem que eu ouvi muito discurso, quando era vivo, li muita página rumorosa de grandes ideias e maiores palavras, mas não sei por que, no fundo dos aplausos que me arrancavam da boca, lá ecoava alguma vez este conceito de experimentado: ─ Vai-te embora, tu só cuidas do espadim. Machado de Assis. Memórias Póstumas de Brás Cubas (fragmento). Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 58 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. No tocante às estruturas linguísticas do texto, julgue os itens a seguir. (1) Os termos ―um galante episódio de 1814‖ (linha 1), ―a admiração dos homens‖(linha 4) e ―a notícia da primeira queda de Napoleão‖(linha 10) desempenham igual função sintática. (2) No 2º parágrafo, todas as ocorrências do verbo ―era‖ têm função conectiva ou de ligação. (3) O trecho ―Chegando ao Rio de Janeiro a notícia da primeira queda de Napoleão, houve naturalmente um grande abalo em nossa casa, mas nenhum chasco ou remoque‖ admite a seguinte reescritura, sem prejuízo para a correção gramatical e para a coerência textual: ―Quando a notícia da primeira queda de Napoleão chegou ao Rio de Janeiro, ocorreu naturalmente um grande abalo em nossa casa, mas nenhuma zombaria ou chacota‖. (4) No fragmento ―Figurei nesses dias com um espadim novo, que meu padrinho me dera no dia de Santo Antônio‖, o pronome relativo ―que‖ exerce função sintática de complemento verbal direto. (5) O trecho ―Nunca esqueci esse fenômeno‖ admite a reecritura ―Nunca me esqueci desse fenômeno‖, sem que haja prejuízo da correção gramatical e do sentidooriginal. (6) No final do terceiro parágrafo o pronome ―este‖ tem função catafórica e endofórica. (7) No trecho ―Vai-te embora, tu só cuidas do espadim‖, a palavra ―te‖ tem função expletiva, e o vocábulo ―tu‖ é sujeito das formas verbais ―Vai‖, de forma elíptica, e ―cuidas‖, de forma explícita. (8) Em ―...no fundo dos aplausos que me arrancavam da boca‖, a palavra ―que‖ é sujeito sintático e semântico de ―arrancavam‖. (9) No segundo parágrafo, as três ocorrências destacadas da palavra ―se‖ indicam reflexivização, respectivamente, dos verbos ―persuadindo‖, ―sei‖ e ―dividiam‖. (10) Em ―Chegando ao Rio de Janeiro a notícia da primeira queda de Napoleão‖, o termo ―a notícia da primeira queda de Napoleão‖ exerce função sintática de sujeito, e as duas ocorrências da preposição ―de‖ introduzem, respectivamente, um complemento nominal e um adjunto adnominal. Texto para os itens de 11 a 20. O processo histórico e a dinâmica política têm desdobramentos surpreendentes. A velha raposa mineira já alertava que se assemelham às nuvens com suas formas cambiantes. Por vezes, são anos a fio de calmaria, quase monotonia. De repente, as coisas viram de cabeça para baixo. O Brasil vive um impasse agudo. Entre perplexas e preocupadas, as principais lideranças políticas e sociais assistem à deterioração do quadro institucional e à falência do governo Dilma. A economia brasileira está derretendo. A rejeição ao governo do PT transborda nas pesquisas de opinião. A sensação do estelionato eleitoral é generalizada. A Lava-Jato põe a nu a corrupção sistêmica e institucionalizada. O governo Dilma não tem mais maioria parlamentar. E para culminar, cometeu crimes de responsabilidade inequívocos e graves. E não é a oposição quem diz isso, é o Tribunal de Contas da União. Estamos rumo ao desfiladeiro. Crescimento negativo. Nove milhões de desempregados que poderão chegar a onze milhões ao final de 2016. Inflação acima de 10%. E o mais grave, crise profunda de confiança e credibilidade. A Mesa da Câmara dos Deputados acolheu o requerimento de impeachment apresentado pelos juristas Hélio Bicudo, fundador do PT, e do ex-ministro Miguel Reale Jr. Baseado nas pedaladas fiscais, na transgressão repetida da Lei de Responsabilidade Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 59 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. Fiscal e na triste realidade revelada pela Lava-Jato, oferece fundamento jurídico para a instalação do processo. A presidente Dilma como Ministra da Minas e Energia, presidente do Conselho de Administração da Petrobras e coordenadora do PAC estava no olho do furacão do escândalo na Petrobras. Na última terça-feira, reafirmando a fragilidade do governo, o Plenário da Câmara, por 272 votos a 199, elegeu a chapa alternativa pró-impeachment na composição da Comissão Processante. O vice-presidente Michel Temer escreveu carta na direção clara do rompimento. O ministro do STF Luiz Edson Fachin suspendeu liminarmente qualquer passo à frente até o pronunciamento do Supremo, na próxima quarta-feira, sobre o rito do processo. Após isso, a Comissão será instalada e o impeachment avançará. O PT fala em golpe contra a democracia. Não é. Impeachment é previsto na Constituição. É um processo que necessita de consistência jurídica, mas a decisão é política. O PT pediu o afastamento de Collor, Itamar e FHC. Agora, mesmo diante do maior escândalo da história e dos crimes de responsabilidade, resiste e tenta vender a ideia de golpismo. O Brasil não pode mais ficar pendurado por um fio na incerteza permanente. A realidade pede mudanças. Particularmente preferia uma nova eleição, em que a sociedade apontasse o rumo. Mas o impeachment se dará dentro dos marcos constitucionais e legais. É preciso reinventar o Brasil. Virar a página. E se há uma semana o impeachment de Dilma era improvável, hoje é quase uma certeza. Melhor e menos traumático seria se ela renunciasse e negociasse uma agenda de transição. Marcus Pestana, colunista. No tocante às ideias, à tipologia e aos aspectos linguísticos do texto acima, julgue os itens a seguir. (11) Conclui-se do texto que, despeito da falência do governo Dilma, este é visto pelo Tribunal de Contas da União como responsável por crimes graves e inequívocos, o que justifica o pedido de impeachment, previsto pela Constituição Federal. (12) No trecho ―A rejeição ao governo do PT transborda nas pesquisas de opinião. A sensação do estelionato eleitoral é generalizada‖, há, ao todo, três complementos nominais. (13) Conforme o texto, os juristas Hélio Bicudo, fundador do PT, e o ex-ministro Miguel Reale Jr. basearam-se nas pedaladas fiscais, na transgressão repetida da Lei de Responsabilidade Fiscal e realidade revelada pela Lava-Jato para fundamentar juridicamente o requerimento que instalou do processo de impeachment. (14) Seria mantida a correção gramatical do texto caso a preposição ―em‖ em ―O PT fala em golpe contra a democracia‖ fosse substituída por ―sobre‖, ―de‖, ―a cerca de‖ ou ―a respeito de‖. (15) Em ―Entre perplexas e preocupadas, as principais lideranças políticas e sociais assistem à deterioração do quadro institucional e à falência do governo Dilma‖, as duas ocorrências do acento grave são opcionais. (16) No fragmento ―Agora, mesmo diante do maior escândalo da história e dos crimes de responsabilidade, resiste e tenta vender a ideia de golpismo‖, há, ao todo, três orações em período misto, ou seja, composto por coordenação e por subordinação. (17) Em ―Particularmente preferia uma nova eleição, em que a sociedade apontasse o rumo‖, a vírgula após ―Particularmente‖ e a preposição ―em‖ são opcionais. (18) No trecho ―Mas o impeachment se dará dentro dos marcos constitucionais e legais. É preciso reinventar o Brasil. Virar a página. E se há uma semana o impeachment de Dilma era improvável, hoje é quase uma certeza. Melhor e menos traumático seria se ela renunciasse e negociasse uma agenda de transição‖, as três ocorrências destacadas do vocábulo ―se‖ são conjunções condicionais. (19) Na linha 1, a forma verbal ―têm‖ concorda com o sujeito composto, cujos núcleos são ―processo‖ e ―política‖. Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 60 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. (20) Em ―O ministro do STF Luiz Edson Fachin suspendeu liminarmente qualquer passo à frente‖, o termo ―Luiz Edson Fachin‖ não pode vir entre vírgulas por se tratar de aposto especificativo ou restritivo. RESPOSTAS COMENTADAS (1) Errado. Em ―contar (v.t.d) sumariamente um galante episódio de 1814 (objeto direto)‖ (linha 1), ―granjeara (v.t.d) inteiramente a admiração dos homens (objeto direto)‖(linha 4) e ―Chegando (v.i.) ao Rio de Janeiro (adjunto adverbial de lugar) a notícia da primeira queda de Napoleão (sujeito)‖(linha 10), os termos destacados desempenham funções sintáticas diferentes. Veja, também, o comentário do item 10. (2) Certo. No 2º parágrafo, todas as ocorrências do verbo ―era‖ têm função conectiva ou de ligação. Vejamos: ―Napoleão (...) era (v.l.) imperador‖ (predicativo do sujeito); ―Era (v.l.) isso (sujeito) motivo de renhidas controvérsias‖ (predicativo do sujeito); ―... meu tio padre (sujeito) era (v.l.) inflexível (predicativo do sujeito). Entendeu? (3) Certo. O trecho ―Chegando ao Rio de Janeiro a notícia da primeira queda de Napoleão, houve naturalmente um grande abalo em nossa casa, mas nenhum chasco ou remoque‖ admite a seguinte reescritura, sem prejuízo para a correção gramatical e para a coerência textual: ―Quando a notícia da primeira queda de Napoleão chegou ao Rio de Janeiro,ocorreu naturalmente um grande abalo em nossa casa, mas nenhuma zombaria ou chacota‖. Essa questão testa, também, o seu vocabulário. (4) Certo. Observe: ―Figurei nesses dias com um espadim novo, / que (= o qual = um espadim novo) meu padrinho me dera no dia de Santo Antônio‖. Agora, veja a ordem direta: ... meu padrinho (sujeito) me (= a mim/objeto indireto) dera (v.t.d.i) um espadim novo (objeto direto)...‖. Portanto, o pronome relativo ―que‖ exerce função sintática de complemento verbal direto (objeto direto). (5) Certo. O trecho ―Nunca esqueci (não pronominal = v.t.d) esse fenômeno (objeto direto)‖ admite a reecritura ―Nunca me esqueci (pronominal = v.t.i) desse fenômeno (objeto indireto)‖, sem que haja prejuízo da correção gramatical e do sentido original. (6) Certo. Em ―... lá ecoava alguma vez este conceito de experimentado: ─ Vai-te embora, tu só cuidas do espadim‖, o pronome ―este‖ faz referência a algo a ser mencionado (catafórico) dentro do texto (endofórico). (7) Certo. No trecho ―Vai-te embora, tu só cuidas do espadim‖, a palavra ―te‖ tem função expletiva (―Vai tu embora‖), e o vocábulo ―tu‖ é sujeito das formas verbais ―Vai‖, de forma elíptica, e ―cuidas‖, de forma explícita. (8) Errado. Em ―...no fundo dos aplausos / que (= os quais/ os aplausos) me arrancavam da boca‖, a palavra ―que‖ é objeto direto sintático e semântico de ―arrancavam‖. Veja a ordem direta: ―... arrancavam (v.t.d) os aplausos (objeto direto) da minha boca (adjunto adverbial de lugar). Um gesto positivo, por favor! (9) Errado. Em ―persuadindo-se a si próprio‖, a palavra ―se‖ é objeto direto reflexivo; em ―não sei se (...) perdoava (...) o que admirava‖, a palavra ―se‖ é conjunção integrante; e em ―os outros parentes dividiam-se‖, a palavra ―se‖ é parte integrante do verbo ―dividir-se‖. (10) Certo. Observe o trecho ―Chegando ao Rio de Janeiro a notícia da primeira queda de Napoleão‖ na forma desenvolvida e na ordem direta: ―Quando a notícia da primeira queda de Napoleão (sujeito) chegou (verbo intransitivo) ao Rio de Janeiro (adjunto adverbial de lugar)‖. No termo ―a notícia (abstrato e cognato de verbo = noticiar a primeira queda de Napoleão = relação completiva) da primeira queda (= abstrato e remete a ―cair‖ = Napoleão caiu = relação subjetiva) de Napoleão‖, as duas ocorrências da preposição ―de‖ introduzem, respectivamente, um Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 61 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. complemento nominal (= relação completiva) e um adjunto adnominal (= relação subjetiva). Difícil? Não! (11) Errado. Lembre-se de que ―a despeito de‖ significa ―apesar de‖, com valor concessivo. O conectivo mais adequado para a situação textual é ―além de‖. Ademais, o pedido de impeachment, previsto pela Constituição Federal, apresenta outras justificativas. (12) Errado. Observe: ―A rejeição ao governo (C.N. = rejeitar o governo/relação completiva) do PT (A.A. = petista) transborda nas pesquisas de opinião (A.A. = opinativas). A sensação do estelionato eleitoral (C.N. = sentir o estelionato eleitoral/relação completiva) é generalizada‖, há, ao todo, dois complementos nominais. (13) Certo. Conforme o texto, os juristas Hélio Bicudo, fundador do PT, e o ex-ministro Miguel Reale Jr. basearam-se nas pedaladas fiscais, na transgressão repetida da Lei de Responsabilidade Fiscal e realidade revelada pela Lava-Jato para fundamentar juridicamente o requerimento que instalou o processo de impeachment. (14) Errado. Seria mantida a correção gramatical do texto caso a preposição ―em‖ em ―O PT fala em golpe contra a democracia‖ fosse substituída por ―sobre‖, ―de‖, ―acerca de‖ ou ―a respeito de‖. (15) Errado. Em ―Entre perplexas e preocupadas, as principais lideranças políticas e sociais assistem (= ver, presenciar = v.t.i. que exige a preposição ―a‖) à deterioração do quadro institucional e à falência do governo Dilma‖, as duas ocorrências do acento grave são obrigatórias (―deterioração‖ e ―falência‖ substantivos femininos particularizados que exigem o artigo ―a‖). (16) Certo. No fragmento ―Agora, mesmo diante do maior escândalo da história e dos crimes de responsabilidade, resiste (oração coordenada assindética) /e tenta (oração coordenada sindética aditiva com v.t.d.) /vender a ideia de golpismo (oração subordinada substantiva objetiva direta reduzida de infinitivo)‖, há, ao todo, três orações em período misto, ou seja, composto por coordenação e por subordinação. (17) Errado. Em ―Particularmente preferia uma nova eleição, em que (= na qual) a sociedade apontasse o rumo‖, a vírgula após ―Particularmente‖ é opcional, mas a preposição ―em‖ é obrigatória para a caracterização do adjunto adverbial: ―...a sociedade apontasse o rumo em uma nova eleição‖. (18) Errado. No trecho ―Mas o impeachment se dará (= será dado/ se = partícula apassivadora) dentro dos marcos constitucionais e legais. É preciso reinventar o Brasil. Virar a página. E se (= conjunção condicional) há uma semana o impeachment de Dilma era improvável, hoje é quase uma certeza. Melhor e menos traumático seria se (= conjunção integrante) ela renunciasse e negociasse uma agenda de transição‖, as três ocorrências destacadas do vocábulo ―se‖ são conjunções condicionais. (19) Errado. Na linha 1, a forma verbal ―têm‖ concorda com o sujeito composto, cujos núcleos são ―processo‖ e ―dinâmica‖. (20) Certo. Em ―O ministro do STF Luiz Edson Fachin suspendeu liminarmente qualquer passo à frente‖, o termo ―Luiz Edson Fachin‖ não pode vir entre vírgulas por se tratar de aposto especificativo ou restritivo. Há vários ministros do STF, mas cita- se especificamente Luiz Edson Fachin. PROVA 15 Texto para os itens de 1 a 8 A discussão acerca da influência do pensamento econômico na teoria moderna é aparentemente uma discussão metateórica, ou seja, de caráter metodológico. Mas, na Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 62 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. ciência econômica, como de resto nas ciências sociais em geral, não há consenso sobre a forma de evolução dos paradigmas. Contrariamente ao que, em regra, acontece no mundo das ciências naturais, há aqui dúvidas a respeito de se o conhecimento mais recente é necessariamente o melhor, o mais verdadeiro, ou seja, aquele que incorporou produtivamente os desenvolvimentos teóricos até então existentes, tendo deixado de lado aqueles que não se mostraram adequados a seu objeto. O economista Pérsio Arida tratou desse problema em um texto que se tornou clássico muito antes de ser publicado. Afirma ali que o aprendizado da teoria econômica tem sido efetuado de acordo com dois modelos distintos: o que ele chama de hard science, que ignora a história do pensamento e segundo o qual o estudante deve familiarizar-se de imediato com o estágio atual da teoria, e o que ele chama de soft science, que considera que o estudante deve conhecer bem, e, se possível, dominar, os clássicos do passado, mesmo que em prejuízo de sua familiaridade com os desenvolvimentos mais recentes. Acrescenta a esse enquadramento que, por trás do modelo hard science, está a ideia de uma ―fronteira do conhecimento‖: o estudante não precisaria perder tempo com antigos pensadores, porque todas as suas eventuais contribuições já estariam incorporadas ao estado atual da teoria. De outro lado, subjacente à visão do modelo soft science, estaria a ideia de que o conhecimento está disperso historicamente, ensejando a necessidade de os estudantes se dedicarem a esses pensadores. Leda Maria Paulani. Internet: (com adaptações). Acerca dasideias e dos aspectos lingüísticos do texto, julgue os itens a seguir. (1) O texto constitui uma argumentação em defesa de determinada linha de pesquisa dentro das ciências econômicas. (2) Pela leitura do texto, depreende-se que a hard science e a soft science correlacionam-se, respectivamente, às ciências naturais e às ciências humanas. (3) Infere-se do texto que o conhecimento recente da área econômica pode não ser, necessariamente, o que incorporou as melhores facetas do conhecimento historicamente desenvolvido. (4) O primeiro parágrafo do texto apresenta três ocorrências de pronome relativo e uma ocorrência de conjunção integrante. A autora defende que, na economia e nas ciências sociais em geral, não há consenso sobre a verdadeira qualidade da informação teórica incorporada ao conhecimento recente na área. Tal afirmação pode ser inferida da leitura do primeiro parágrafo. Cada um dos itens de 5 a 8 apresenta uma proposta de reescrita dessa asserção, devendo ser julgado certo se mantiver, com correção gramatical, o sentido dessa assertiva, ou errado, em caso contrário. (5) Não existem, segundo a autora, uniformidade de opiniões, nas ciências sociais, às quais se englobariam a ciência econômica, quanto à verdadeira qualidade da informação teórica incorporada ao conhecimento recente na área. (6) A autora defende não haver consenso na ciência econômica, a exemplo do que ocorre nas demais ciências sociais, a respeito da verdadeira qualidade da informação incorporada ao conhecimento recente na área. (7) Quanto ao consenso nas ciências sociais sobre a verdadeira qualidade da informação teórica incorporada para o conhecimento recente em ciência econômica, a autora defende que não há. (8) A respeito da qualidade real da informação teórica juntada ao conhecimento recente na área, a autora defende não haver consenso seja na ciência econômica, seja nas demais ciências sociais. Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 63 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. Texto para os itens de 9 a 20 Frederick August von Hayek concebe o indivíduo como uma singularidade e o conhecimento como algo subjetivamente determinado, particular e intransferível. Esse conhecimento, portanto, não está, para Hayek, fundamentado nem em fatos objetivos, que a teoria pudesse captar, nem em uma sorte qualquer de razão transcendental. Mas, além de seus propósitos particulares e do conhecimento subjetivo que cada um possui do mundo, a ação humana é, para Hayek, constituída também por regras, que os homens seguem meio inquestionadamente, por um processo de imitação. Essas regras, por sua vez, não são postuladas, não são produtos de um suposto contrato original resultante da ação intencional de indivíduos autocentrados, não podendo, pois, ser reduzidas às ações de indivíduos racionais, como rezam os preceitos metodológicos por trás da rational choice (escolha racional). Ora, o que Hayek está então sugerindo é que nem toda ação humana é produto de indivíduos racionais, autônomos e independentes, autodeterminados e soberanos, tal como requer a teoria econômica moderna. Ao contrário, as ações humanas são fortemente dependentes de um processo que é social e socialmente determinado. Afirma, por isso, que, em uma sociedade complexa como a nossa, o homem não tem outra escolha a não ser se adaptar às forças cegas do processo social. E, em função de tudo isso, afirma que, palavras dele, ―a desgraça do mecanismo de mercado é dupla, porque, por um lado, ele não é produto do desígnio humano e, por outro, as pessoas que são guiadas por ele normalmente não sabem por que são levadas a fazer o que fazem‖. Idem, ibidem. Com referência às ideias, à tipologia e aos aspectos gramaticais do texto, julgue os itens subsequentes. (9) O texto, por apresentar a síntese do pensamento de von Hayek, é predominantemente descritivo. (10) Embora esteja empregada de modo correto, a palavra ―rezam‖ (linha 10) poderia ser substituída, sem prejuízo para o sentido e a correção gramatical do texto, por ditam ou por estabelecem. (11) Ao afirmar, no último período do texto, que as pessoas guiadas pelo mercado ‗normalmente não sabem por que são levadas a fazer o que fazem‘, von Hayek retoma a ideia de que as ações humanas dependem de um processo social socialmente determinado. (12) Em ―Frederick August von Hayek concebe o indivíduo como uma singularidade e o conhecimento como algo subjetivamente determinado, particular e intransferível‖, os termos destacados exercem função predicativa em relação aos respectivos núcleos do complemento verbal. (13) O último período do texto admite, também, a seguinte pontuação, sem prejuízo para a correção gramatical e os sentidos do texto: E, em função de tudo isso, afirma que ─ palavras dele ─ ―a desgraça do mecanismo de mercado é dupla porque, por um lado, ele não é produto do desígnio humano, e por outro, as pessoas que são guiadas por ele normalmente não sabem por que são levadas a fazer o que fazem‖. (14) Em ―Afirma, por isso, que, em uma sociedade complexa como a nossa, o homem não tem outra escolha a não ser se adaptar às forças cegas do processo social‖, o vocábulo ―que‖ corresponde, na estrutura fraseológica, interrupção de curta extensão; por isso, as vírgulas que o isolam podem ser eliminadas sem prejuízo para a correção gramatical e para a coerência textual. (15) Em ―... o homem não tem outra escolha a não ser se adaptar às forças cegas do processo social‖, o acento grave é facultativo, uma vez que o verbo ―se adaptar‖, não necessariamente pronominal, apresenta dupla possibilidade de regência em nossa língua. (16) As palavras ―intransferível‖, ―inquestionadamente‖ e ―indivíduos‖ possuem em sua estrutura elementos que indicam negação. Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 64 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. (17) Em ―... a ação humana é, para Hayek, constituída também por regras...‖, a substituição da preposição ―por‖ pela preposição ―de‖ manteria a passividade da construção. (18) No trecho ―as ações humanas são fortemente dependentes de um processo que é social e socialmente determinado‖, o vocábulo ―que‖ é pronome relativo e exerce função sintática de sujeito. (19) Ainda com relação ao trecho ―as ações humanas são fortemente dependentes de um processo que é social e socialmente determinado‖, o substantivo ―processo‖ é caracterizado por duas orações subordinadas adjetivas coordenadas entre si, em que a primeira é desenvolvida, e a segunda é reduzida de particípio. (20) O trecho ―... ensejando a necessidade de os estudantes se dedicarem a esses pensadores‖ admite a seguinte reescritura, sem prejuízo para a correção gramatical e para a coerência textual: ―... ensejando a precisão dos estudantes dedicarem-se a esses pensadores‖. RESPOSTAS COMENTADAS (1) Errado. O texto constitui uma argumentação em defesa de dupla linha de pensamento dentro do aprendizado das ciências econômicas, por estas evidenciarem falta de consenso ou dúvidas. (2) Errado. Pela leitura do texto, depreende-se que tanto a hard science ─ ignora a história ─ quanto a soft science ─ não ignora a história ─ são dois modelos de aprendizado da teoria econômica que se opõem e correlacionam-se às ciências humanas ou sociais, das quais a economia faz parte. As dúvidas ou a falta de consenso são próprias das ciências humanas, e não das ciências naturais (―Contrariamente ao que, em regra, acontece no mundo das ciências naturais...). Quer dizer: no mundo das ciências naturais não há, em regra, dúvidas ou falta de consenso,mas, no mundo das ciências humanas ou sociais, há. Os modelos econômicos hard science e soft science evidenciam isso. Um gesto positivo, por favor! (3) Certo. Infere-se, de fato, do texto que o conhecimento recente da área econômica pode não ser, necessariamente, o que incorporou as melhores facetas do conhecimento historicamente desenvolvido. Os indícios para essa inferência estão no seguinte trecho: ―Acrescenta a esse enquadramento que, por trás do modelo hard science, está a ideia de uma ―fronteira do conhecimento‖: o estudante não precisaria perder tempo com antigos pensadores, porque todas as suas eventuais contribuições já estariam incorporadas ao estado atual da teoria‖. (4) Certo. O primeiro parágrafo do texto apresenta três ocorrências de pronome relativo e uma ocorrência de conjunção integrante: ―Contrariamente ao (àquilo) que (= o qual/pronome relativo), em regra, acontece no mundo das ciências naturais, há aqui dúvidas a respeito de se (=conjunção integrante/Use o mecanismo de substituição: ... dúvida a respeito disto ...) o conhecimento mais recente é necessariamente o melhor, o mais verdadeiro, ou seja, aquele que (=o qual/pronome relativo) incorporou produtivamente os desenvolvimentos teóricos até então existentes, tendo deixado de lado aqueles que (= os quais/ pronome relativo) não se mostraram adequados a seu objeto. (5) Errado. Não existe, segundo a autora, uniformidade de opiniões, nas ciências sociais, às quais se englobariam a ciência econômica, quanto à verdadeira qualidade da informação teórica incorporada ao conhecimento recente na área (trecho confuso). (6) Certo. A autora defende não haver consenso na ciência econômica, a exemplo do que (= daquilo que) ocorre nas demais ciências sociais, a respeito da verdadeira qualidade da informação incorporada ao conhecimento recente na área. (7) Errado. Quanto ao consenso nas ciências sociais sobre a verdadeira qualidade da informação teórica incorporada para o conhecimento recente em ciência Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 65 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. econômica, a autora defende que não há. (Trecho ambíguo: não há consenso, informação ou conhecimento?) (8) Certo. A respeito da qualidade real da informação teórica juntada ao (= incorporada ao) conhecimento recente na área, a autora defende não haver consenso seja na ciência econômica, seja nas demais ciências sociais. (9) Errado. O texto é predominantemente dissertativo. Expõem-se ideias a respeito do pensamneto de Frederick August von Hayek. (10) Certo. Embora esteja empregada de modo correto, a palavra ―rezam‖ (linha 10) poderia ser substituída, sem prejuízo para o sentido e a correção gramatical do texto, por ditam ou por estabelecem. (11) Certo. Ao afirmar, no último período do texto, que as pessoas guiadas pelo mercado ‗normalmente não sabem por que são levadas a fazer o que fazem‘ , von Hayek retoma, claramente, a ideia de que as ações humanas dependem de um processo social socialmente determinado. (12) Certo. Em ―Frederick August von Hayek concebe (v.t.d) o indivíduo (objeto direto / 1º núcleo) (concebe-o) como uma singularidade (predicativo do objeto) e o conhecimento (objeto direto / 2º. núcleo) (concebe-o) como algo subjetivamente determinado, particular e intransferível (predicativo do objeto) ‖, os termos destacados exercem função predicativa em relação aos respectivos núcleos do complemento verbal. Entendeu? (13) Errado. Os travessões estão bem empregados na interrupção ou intercalação. Contudo, a interrupção ― por um lado‖ é paralela a ―por outro‖ e não ―e por outro‖. (14) Errado. Em ―Afirma, por isso, que, em uma sociedade complexa como a nossa, o homem não tem outra escolha a não ser se adaptar às forças cegas do processo social‖, há interrupção antes da conjunção integrante ―que‖ e depois dela. Por isso, ela está entre vírgulas. (15) Errado. Em ―... o homem não tem outra escolha a não ser se adaptar às forças cegas do processo social‖, o acento grave é obrigatório, uma vez que o verbo ―se adaptar‖, empregado em sua forma pronominal, apresenta regência transitiva indireta e exige a preposição ―a‖. O núcleo do objeto indireto, ―forças‖, veio precedido do artigo ―as‖. Assim, a crase ou fusão é obrigatória. (16) Certo. As palavras ―intransferível‖ (que não se transfere), ―inquestionadamente‖ (de modo que não se questiona) e ―indivíduos‖ (que não se dividem) possuem em sua estrutura elementos que indicam negação. (17) Certo. Em ―... a ação humana é, para Hayek, constituída também por regras...‖, a substituição da preposição ―por‖ pela preposição ―de‖ manteria a passividade da construção. Trata-se de um dos poucos casos em que, na voz passiva analítica, o agente da passiva admite as preposições ―por‖ e ―de‖, como em ―Ele está cercado por (ou ―de‖) curiosos‖. (18) Certo. No trecho ―as ações humanas são fortemente dependentes de um processo/ que (= o qual/ retoma ―um processo‖) é social e socialmente determinado‖, o vocábulo ―que‖ é pronome relativo e exerce função sintática de sujeito do verbo ―é‖: ―um processo é social e socialmente determinado‖. (19) Certo. Ainda com relação ao trecho ―as ações humanas são fortemente dependentes de um processo /que é social/ e /(que é) socialmente determinado‖, o substantivo ―processo‖ é caracterizado por duas orações subordinadas adjetivas coordenadas entre si, em que a primeira é desenvolvida (observe que o pronome relativo ―que‖ está explícito‖, e a segunda é reduzida de particípio (observe que o pronome relativo ―que‖ está implícito, e a forma verbal ―determinado‖ está no particípio). Ambas as orações estão unidas pela conjunção coordenativa ―e‖. (20) Errado: Em ―... ensejando a precisão dos estudantes dedicarem-se a esses pensadores‖, o sujeito de ―dedicarem-se‖ está preposicionado, o que contraria o padrão culto da linguagem. Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 66 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. PROVA 16 TEXTO I Leia o texto seguinte para responder aos itens propostos. O cenário adverso da crise internacional, que se arrasta há meses, foi o motivo para o Banco Central, mais uma vez, baixar a taxa de juros básica da economia, apesar da alta da inflação doméstica, que bateu em 7,31% em setembro, conforme o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulado em 12 meses. Pela segunda vez consecutiva, agora por unanimidade, os membros do Comitê de Política Monetária (Copom) cortaram em 0,50 ponto percentual a taxa Selic, que caiu para 11,50% ao ano. Em nota, o Copom justificou a medida como uma forma de, ―tempestivamente, mitigar os efeitos vindos de um ambiente global mais restritivo‖. O comitê entende que ―um ajuste moderado no nível da taxa básica é consistente com o cenário de convergência da inflação para a meta (de 4,5%) em 2012‖. Faltando apenas mais uma reunião para fechar o ano, o mercado coloca suas fichas em mais uma redução da taxa, na mesma proporção. Ao contrário do que ocorreu em agosto, quando a redução da Selic surpreendeu o mercado financeiro, desta vez as apostas majoritárias estavam em linha com a decisão tomada pelo colegiado. A maioria dos analistas previa uma queda de 0,50 ponto. Dessa maioria, destoavam os economistas do Itaú, que acreditavam em queda de 0,75 ponto percentual, e do RBS, que esperavam uma freada mais brusca, com a taxa recuando um ponto de porcentagem. Os economistas são unânimes em apontar o agravamento da crise externa como a razão da queda. ―Só a desaceleração doméstica não ajuda a trazer a inflação para o centroda meta‖, disse o economista-chefe do Sul América Investimento, Newton Rosa. Para ele, ao reduzir os juros depois de mantê-los em alta até agosto, o BC está se antecipando a piora do quadro internacional. (Correio Braziliense, com adaptações.) (1) Segundo o texto, a causa de o Comitê de Política Monetária (Copom) reduzir a taxa Selic é a mitigação dos efeitos oriundos de ambiente global mais restritivo. (2) Na linha 2, a forma ―apesar da‖ pode ser substituída por ―apesar da‖ ou ―malgrado a‖, sem prejuízo para a correção gramatical e para a coerência textual. (3) Se as vírgulas presentes na linha 4 forem substituídas por duplo travessão, haverá transgressão à norma culta da língua portuguesa. (4) O trecho ―A maioria dos analistas previa uma queda de 0,50 ponto‖ admite que o verbo seja flexionado no plural, sem que haja desrespeito ao padrão culto da linguagem. (5) O primeiro período do quarto parágrafo apresenta oração principal seguida de oração subordinada substantiva completiva nominal reduzida. (6) A substituição da forma ―ao‖ por ―a‖ em ―Para ele, ao reduzir os juros depois de mantê-los em alta até agosto, o BC está se antecipando‖ não mantém as relações sintático-semânticas. (7) O último período do texto apresenta erro quanto à ausência do acento grave. (8) Ainda no que concerne ao último período do texto, a palavra ―se‖ indica o emprego do verbo em sua forma pronominal. (9) Narrado em terceira pessoa, o texto, quanto à tipologia, constitui um ensaio crítico com conteúdo técnico. (10) No trecho ―Ao contrário do que ocorreu em agosto, quando a redução da Selic surpreendeu o mercado financeiro, desta vez as apostas majoritárias estavam em Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 67 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. linha com a decisão tomada pelo colegiado‖, há sete ocorrências de artigo definido. TEXTO II Monteiro Lobato, ao afirmar que "um país se faz com homens e livros", por certo indicou o caminho das pedras àqueles que, descuidadamente, promovem a história sem a preocupação de seu registro e que, por consequência, legam ao pó do esquecimento tudo o que foi feito – certo ou errado – ou deixado de fazer. Os homens fazem a história. Os livros registram a história. Sem estes, os exemplos do passado, os conhecimentos técnicos e científicos armazenados, o testemunho e as provas colhidas não seriam repassados às gerações futuras, o que comprometeria a chamada evolução. Julgue os itens com base nos aspectos morfossintáticos e semânticos do texto. (11) De acordo com o autor do texto, os homens são imprescindíveis à difusão da chamada evolução, por repassarem às gerações consequentes seus conhecimentos e testemunhos acerca do passado. (12) Se os travessões (linha 3) forem substituídos por vírgulas, o período permanecerá gramaticalmente correto. (13) É uma opção gramaticalmente correta unir o segundo e o terceiro períodos, substituindo-se o sinal de ponto final por ponto e vírgula antes de ―Os livros‖ (linha 4), com mudança da inicial maiúscula para minúscula. (14) O fato de a forma verbal ―repassados‖ (linha 6) estar no masculino comprova o fato de que predomina o masculino genérico quando o antecedente é constituído de elementos dos dois gêneros. (15) O emprego do sinal indicativo de crase em ―àqueles‖ (linha 2) é exigido pela regência do verbo ―indicou‖. TEXTO III O Tribunal de Contas do Estado do Paraná tem uma história a contar. São mais de 50 anos de fiscalização perene da coisa pública, cujos princípios foram pinçados da própria história das Cortes de Contas de todo o mundo. Das contribuições gregas e romanas ao modelo canadense de auditoria moderna, do Tribunal Imperial do Brasil de 1824 ao Tribunal de Contas de 1890, do insigne paranaense Manoel Francisco Correia, filho de Paranaguá e primeiro Presidente do Tribunal de Contas da União, aos ilustres pares que hoje conduzem essa casa, tudo contribuiu para o desenvolvimento de um órgão de fiscalização eficiente e dinâmico – dado o constante aperfeiçoamento das ações – , e para a solidificação institucional de um colegiado independente e atuante, como o Tribunal de Contas paranaense. E, dentro de sua competência, o Tribunal de Contas tem buscado na informação, por intermédio dos mais diferenciados meios de comunicação, a formação de sua história, na luta incessante e implacável contra a corrupção e o mal uso do dinheiro público. Com base no texto, julgue os itens a seguir. (16) Preservam-se as relações semânticas originais do texto se o termo ―a contar‖ (linha 1) for substituído por qualquer das opções a seguir: a ser contada, para contar, de quem contar. (17) O emprego do pronome relativo ―cujos‖ (linha 2) indica que ―princípios‖ refere-se a ―coisa pública‖. (18) No último período do texto, não há erro gramatical. (19) Em ―... na luta incessante e implacável contra a corrupção e o (...) uso do dinheiro público...‖, registraram-se dois complementos nominais. Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 68 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. (20) O uso da palavra ―tudo‖ (linha 6) é recurso coesivo anafórico que retoma, de forma sintética, as informações anteriores, exigindo a concordância do verbo ―contribuir‖ no singular. RESPOSTAS COMENTADAS (1) Certo. Releia o trecho: ―Pela segunda vez consecutiva, agora por unanimidade, os membros do Comitê de Política Monetária (Copom) cortaram em 0,50 ponto percentual a taxa Selic, que caiu para 11,50% ao ano. Em nota, o Copom justificou a medida (= a medida tem como causa) como uma forma de, ―tempestivamente, mitigar os efeitos vindos de um ambiente global mais restritivo‖. (2) Certo. A locução prepositiva (―apesar de‖) seguida de artigo (―a‖), com valor concessivo, pode ser substituída por ―malgrado a‖, ―em que pese à‖ ou ―a despeito da‖, sem prejuízo para a correção gramatical e para a coerência textual. (3) Certo. O trecho ―Pela segunda vez consecutiva, agora por unanimidade,‖ corresponde ao deslocamento de adjuntos adverbiais para o início do período. Não se trata, portanto, de interrupção ou intercalação. Assim, as duas vírgulas são obrigatórias e, se substituídas por duplo travessão, haverá transgressão à norma culta da língua portuguesa. (4) Certo. O trecho ―A maioria dos analistas previa uma queda de 0,50 ponto‖, que apresenta sujeito representado por núcleo partitivo, admite que o verbo seja flexionado no plural (―previam‖), sem que haja desrespeito ao padrão culto da linguagem. Nesse caso, pode-se estabelecer concordância, também, com o termo mais próximo (―analistas‖). (5) Certo. No trecho ―Os economistas são unânimes em apontar o agravamento da crise externa como a razão da queda‖, o adjetivo ―unânimes‖ exige a oração destacada como subordinada substantiva completiva nominal reduzida de infinitivo. (6) Certo. A substituição da forma ―ao‖ por ―a‖ em ―Para ele, ao reduzir os juros depois de mantê-los em alta até agosto, o BC está se antecipando‖ não mantém as relações sintático-semânticas. Em ―ao reduzir‖, está implícita a forma ―quando reduziu‖ (valor temporal). Em ―a reduzir‖, está implícita a forma ―se reduzir‖ (valor condicional). (7) Certo. Em ―o BC está se antecipando à piora do quadro internacional‖, a preposição ―a‖, exigida por ―se antecipando‖ se funde ao artigo ―a‖, que acompanha o substantivo feminino singular ―piora‖. (8) Certo. A palavra ―se‖ indica o emprego do verbo em sua forma pronominal: ―antecipar-se‖. (9) Errado. O texto não constitui uma narração tampouco um ensaio crítico com conteúdo técnico. Trata-sede texto jornalístico, com base dissertativo-expositiva. (10) Certo. No trecho ―Ao contrário do que ocorreu em agosto, quando a redução da Selic surpreendeu o mercado financeiro, desta vez as apostas majoritárias estavam em linha com a decisão tomada pelo colegiado‖, há sete ocorrências de artigo definido (destacadas). Lembre-se de que, em ―do‖, há preposição (―de‖) + pronome demonstrativo (―o‖ = ―aquilo‖). (11) Errado. De acordo com o autor do texto, os livros são imprescindíveis à difusão da chamada evolução, por repassarem às gerações consequentes seus conhecimentos e testemunhos acerca do passado. Observe que o pronome ―estes‖ (linha 4) tem função anafórica e retoma, por coesão, ―Os livros‖, e não ―Os homens‖. (12) Certo. Se os travessões (linha 3) forem substituídos por vírgulas, o período permanecerá gramaticalmente correto, pois, agora sim, estamos diante de uma interrupção ou intercalação. (13) Certo. Como se trata de duas orações coordenadas ou independentes sintaticamente, é uma opção gramaticalmente correta unir o segundo e o terceiro Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 69 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. períodos, substituindo-se o sinal de ponto final por ponto e vírgula antes de ―Os livros‖ (linha 4), com mudança da inicial maiúscula para minúscula. (14) Certo. O fato de a forma verbal ―repassados‖ (linha 6) estar no masculino comprova o fato de que predomina o masculino genérico quando o antecedente é constituído de elementos dos dois gêneros: ―os exemplos‖, ―os conhecimentos‖, ―o testemunho‖ (núcleos masculinos) e ―as provas‖ (núcleo feminino). (15) Certo. O emprego do sinal indicativo de crase em ―àqueles‖ (linha 2) é exigido pela regência do verbo ―indicou‖, já que se trata de verbo transitivo direto e indireto: indicar algo a alguém. (16) Errado. Não se preservam as relações semânticas originais do texto se o termo ―a contar‖ (linha 1) for substituído por ―de quem contar‖. (17) Errado. O emprego do pronome relativo ―cujos‖ (linha 2) indica que ―princípios‖ refere-se a ―fiscalização perene da coisa pública‖. (18) Errado. Há erro gramatical: ―mau uso‖ (―mau‖ = adjetivo). (19) Certo. Em ―... na luta incessante e implacável contra a corrupção e o (...) uso do dinheiro público...‖, os termos destacados são, respectivamente, complementos nominais dos substantivos ―luta‖ (abstrato, cognato do verbo ―lutar‖) e ―uso‖ (também abstrato, cognato do verbo ―usar‖). (20) Certo. O uso da palavra ―tudo‖ (linha 6) é recurso coesivo anafórico que retoma, de forma sintética, as informações anteriores (―Das contribuições gregas e romanas ao modelo canadense de auditoria moderna, do Tribunal Imperial do Brasil de 1824 ao Tribunal de Contas de 1890, do insigne paranaense Manoel Francisco Correia, filho de Paranaguá e primeiro Presidente do Tribunal de Contas da União, aos ilustres pares que hoje conduzem essa casa‖), exigindo a concordância do verbo ―contribuir‖ no singular. PROVA 17 TEXTO I Leia o texto seguinte para responder aos itens propostos. A separação não nos esfriou. Ele [Escobar] foi o terceiro na troca das cartas entre mim e Capitu. Desde que a viu, animou-me muito no nosso amor. As relações que travou com o pai de Sancha estreitaram as que já trazia com Capitu, e fê-lo servir a ambos nós, como amigo. A princípio, custou-lhe a ela aceitá-lo, preferia José Dias, mas José Dias repugnava-me por um resto de respeito de criança. Venceu Escobar. Capitu entregou-lhe a primeira carta, que foi mãe e avó das outras. Nem depois de casado suspendeu ele o obséquio... Que ele casou, —adivinha com quem— casou com a boa Sancha, a amiga de Capitu, quase irmã dela, tanto que, alguma vez, escrevendo-me, chamava a esta a "sua cunhadinha." Assim se formam as afeições e os parentescos, as aventuras e os livros. (...) Quando saímos, tornei a falar com os olhos à dona da casa. A mão dela apertou muito a minha, e demorou-se mais que de costume.(...) Senti ainda os dedos de Sancha entre os meus, apertando uns aos outros. Foi um instante de vertigem e de pecado. Passou depressa no relógio do tempo; quando cheguei o relógio ao ouvido, trabalhavam só os minutos da virtude e da razão. O retrato de Escobar, que eu tinha ali, ao pé do de minha mãe, falou-me como se fosse a própria pessoa. Combati sinceramente os impulsos que trazia do Flamengo, rejeitei a figura da mulher do meu amigo, e chamei-me desleal. Demais, quem me afirmava que houvesse alguma intenção daquela espécie no gesto da despedida e nos anteriores? Tudo podia ligar-se ao interesse da nossa viagem. Sancha e Capitu eram tão amigas que seria um prazer mais para elas irem juntas. Quando houvesse alguma intenção sexual, quem me provaria que não era mais que uma sensação Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 70 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. fulgurante, destinada a morrer com a noite e o sono? Há remorsos que não nascem de outro pecado, nem têm maior duração. Agarrei-me a essa hipótese que se conciliava com a mão de Sancha, que eu sentia de memória dentro da minha mão, quente e demorada, apertada e apertando... Machado de Assis, D. Casmurro (fragmento) Com base nas ideias, na tipologia e na estrutura linguísticas do texto, julgue os itens a seguir. (1) Narrado em primeira pessoa, o texto constitui uma alegoria subjetiva que visa mostrar, sob uma óptica crítica, as dificuldades presentes nas relações humanas. (2) Em ―Ele [Escobar] foi o terceiro na troca das cartas entre mim e Capitu‖, os termos ―das cartas‖ e ―entre mim e Capitu‖ desempenham igual função sintática. (3) No trecho ―As relações que travou com o pai de Sancha estreitaram as que já trazia com Capitu‖, as ocorrências da palavra ―que‖ desempenham funções morfossintáticas idênticas. (4) No fragmento ―A princípio, custou-lhe a ela aceitá-lo‖, Machado de Assis constrói uma estrutura formada por uma oração principal seguida de uma oração subordinada substantiva reduzida de infinitivo; ademais, na oração principal o objeto indireto pleonástico tem a função de evitar ambiguidade. (5) Em ―Capitu entregou-lhe a primeira carta, que foi mãe e avó das outras‖, Machado de Assis se utiliza de linguagem com valor translato, com vistas a explicitar a ideia de que Capitu entregara mais de uma carta a Escobar. (6) No trecho ―Assim se formam as afeições e os parentescos, as aventuras e os livros‖, temos exemplo de voz passiva com sujeito paciente composto e agente indeterminado. (7) Em ―quando cheguei o relógio ao ouvido‖, o verbo ―cheguei‖ foi empregado com regência transitiva direta e indireta. (8) No trecho ―O retrato de Escobar, que eu tinha ali, ao pé do de minha mãe, falou-me como se fosse a própria pessoa‖, o termo ―O retrato de Escobar‖ é sujeito explícito de ―falou‖ e implícito de ―fosse‖; além disso, a estrutura conectiva ―como se‖ indica realidade virtual ou imaginária. (9) Em ―Sancha e Capitu eram tão amigas que seria um prazer mais para elas irem juntas‖, o vocábulo ―que‖ pode ser substituído por ―porquanto‖, sem prejuízo para a correção gramatical e para os sentidos do texto. (10) No último parágrafo, as formas verbais destacadas estão no singular porque o sujeito de cada uma delas é genérico ou indeterminado. TEXTO II Viver em grandes centros urbanos é uma prerrogativa do mundo moderno. Estima- se que, nas próximas duas décadas, 70% da população do planeta estará aglutinada nas cidades, um índice que, nos anos 1950, era de apenas 30%. Abandonar a tranquilidade do campo, tem seus benefícios. Shopping centers, melhores oportunidadesde emprego, bons hospitais e escolas, além de atividades sociais intensas são apenas alguns deles. Mas a migração tem um lado alarmante. O estresse e a ansiedade gerados pela urbanização alteram fisicamente o cérebro, predispondo o desenvolvimento de doenças mentais e distúrbios de humor. Uma pesquisa publicada na capa da edição de hoje da revista especializada Nature mostra, pela primeira vez, que mesmo os indivíduos saudáveis que vivem nos centros urbanos têm conexões neurais alteradas em regiões do cérebro associadas à ansiedade. Já se sabia que o atribulado ambiente das grandes cidades estava ligado a problemas como estresse e esquizofrenia. Mas, até agora, não se tinha ideia de que isso provoca Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 71 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. mudanças fisiológicas, que podem ser medidas por exames de imagem. O mais grave, notam os autores, é que, teoricamente, habitantes das cidades deveriam ser mais saudáveis, pois têm à sua disposição tratamentos hospitalares mais modernos. O grupo de cientistas, de diversos institutos de pesquisa, realizou três testes em diferentes populações, sempre analisando a resposta cerebral dos participantes, capturada pela ressonância magnética funcional. O primeiro grupo passou por um protocolo de estudos chamado Montreal Imaging Stress Task (Mist), desenvolvido pelo instituto onde Pruessner trabalha. Eles foram expostos a uma situação de pressão social, em que suas habilidades eram desafiadas enquanto os cientistas analisavam a ativação dos cérebros na máquina de ressonância magnética. A pressão a qual os participantes foram submetidos era a mesma. O que os diferenciava era o local de residência. O nível de urbanidade foi medido da seguinte forma: cidades com mais de 100 mil habitantes, municípios com menos de 100 mil habitantes e áreas rurais. Em todos os voluntários, os pesquisadores conseguiram induzir o estresse, algo verificado pela medição de seus batimentos cardíacos e do aumento na circulação sanguínea do hormônio cortisol. Mas as fotografias dos cérebros mostraram um cenário bem diferente. Quanto mais urbanizados os indivíduos, maior a ativação de duas regiões do cérebro intimamente relacionadas ao estresse e aos distúrbios mentais e de humor. A amígdala cerebral, que se localiza no sistema límbico e centro regulador da agressividade, entre outros comportamentos, exibia uma resposta muito maior nos moradores de cidades grandes. Mesmo os habitantes de pequenos municípios tiveram mais ativação dessa região, comparados aos voluntários que viviam na zona rural. Outra área cerebral que exibiu um padrão diferente nos moradores dos grandes centros urbanos foi o córtex cingulado anterior, associado às emoções. O segundo teste foi semelhante ao anterior e teve os mesmos resultados. Para saber se o estresse foi desencadeado pelo tipo de tarefa a qual os voluntários foram submetidos, além das questões aritméticas, eles tinham de resolver problemas de rotação mental, um tipo de experimento que usa imagens para avaliar a cognição. Os pesquisadores também investigaram questões como idade, escolaridade, renda e estado civil dos voluntários, assim como aspectos relacionados à saúde, ao humor, à personalidade e ao apoio social de cada participante. ―Nenhum desses fatores influenciou significativamente a atividade cerebral, sugerindo que viver em um ambiente urbano é que altera a resposta do cérebro a um fator de estresse devido a um distinto e misterioso mecanismo‖, observam Daniel P. Kennedy e Ralph Adolphs, cientistas do Instituto de Tecnologia da Califórnia, em um artigo sobre a pesquisa, também publicado na Nature. O principal autor do estudo, Andreas Meyer-Lindenberg, do Instituto de Saúde Mental de Heidelberg, na Alemanha, diz ao Correio que a pesquisa é do interesse do Brasil. ―Acho que nossos resultados são especialmente importantes para os países em desenvolvimento, porque a urbanização ocorre mais rápido nesses locais e as diferenças entre a vida nas zonas rural e urbana podem ser ainda maiores‖. No artigo, os pesquisadores dizem que o estudo pode ajudar a nortear políticas públicas integradas, que visem a diminuir os riscos de desenvolvimento de doenças mentais. ―Esses resultados contribuem para a nossa compreensão do risco ambiental urbano em relação aos transtornos mentais e à saúde em geral. Além disso, eles apontam para uma nova abordagem empírica para integração das ciências sociais, neurológicas e de políticas públicas que possam responder a esse desafio‖. No Brasil, o Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística revelou que, dos 190.732.694 habitantes, 84% vivem em áreas urbanas. Há 10 anos, esse índice era de 81%. Dos 1.520 municípios que perderam população nesse espaço de tempo, as cinco maiores quedas foram registradas em cidades pequenas, com menos de 16 mil moradores. (Paloma Oliveto, Correio Braziliense, 26/6/2011, com adaptações) Julgue os itens a seguir com base nos aspectos morfossintáticos e semânticos do texto. Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 72 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. (11) Na linha 2, o verbo ―estará‖ pode ser substituído por ―estarão‖, sem prejuízo para a correção gramatical e para a coerência textual. (12) O primeiro parágrafo do texto não apresenta erro quanto à pontuação. (13) Em ―... até agora, não se tinha ideia de que isso provoca mudanças fisiológicas, que podem ser medidas por exames de imagem‖, a primeira ocorrência da palavra ―que‖ é conjunção integrante que introduz oração subordinada substantiva completiva nominal; a segunda ocorrência é pronome relativo que exerce mesma função sintática do termo que ele retoma. (14) No trecho ―A pressão a qual os participantes foram submetidos era a mesma‖, omitiu-se o sinal indicativo de crase e desencadeou-se um solecismo. (15) Em ―Outra área cerebral que exibiu um padrão diferente nos moradores dos grandes centros urbanos foi o córtex cingulado anterior, associado às emoções‖, a substituição de ―às‖ por ―a‖ altera as relações semânticas, mas não provoca erro gramatical. (16) O trecho ――Nenhum desses fatores influenciou significativamente a atividade cerebral‖ admite a seguinte reescritura, sem prejuízo para a correção gramatical e para a coerência textual: ――Nenhum desses fatores influenciaram significativamente a atividade cerebral‖. (17) No trecho ―...eles tinham de resolver problemas de rotação mental, um tipo de experimento que usa imagens para avaliar a cognição‖, a vírgula separa a oração principal da oração subordinada adjetiva explicativa. (18) Em ―No Brasil, o Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística revelou que, dos 190.732.694 habitantes, 84% vivem em áreas urbanas‖, as vírgulas empregadas indicam, respectivamente, deslocamento de adjunto adverbial e interrupção de aposto explicativo. (19) Em ―... assim como aspectos relacionados à saúde, ao humor, à personalidade e ao apoio social de cada participante‖, a combinação de preposição e artigo só se faz necessária em relação ao vocábulo ―saúde‖ e pode ser dispensada na relação com os vocábulos seguintes, sem ferir o princípio da simetria sintático-semântica. (20) O trecho ―No artigo, os pesquisadores dizem que o estudo pode ajudar a nortear políticas públicas integradas, que visem a diminuir os riscos de desenvolvimento de doenças mentais‖, pode ser reescrito da seguinte forma, sem prejuízo para a correção gramatical e para a coerência textual: ―No artigo, os pesquisadores conjeturam que o estudo pode auxiliar a nortear políticaspúblicas integradas, que visem diminuir os riscos de desenvolvimento de doenças mentais‖. RESPOSTAS COMENTADAS (1) Errado. Apesar de narrado em primeira pessoa, o texto não apresenta traços alegóricos (conotações, personificações, simbologias) para mostrar, sob uma óptica crítica, as dificuldades presentes nas relações humanas. Trata-se de uma narração subjetiva, em que o narrador também é personagem. (2) Certo. Em ―Ele [Escobar] foi o terceiro na troca das cartas (trocar cartas/ relação completiva) entre mim e Capitu (trocar entre mim e Capitu/ relação completiva)‖, os termos ―das cartas‖ e ―entre mim e Capitu‖ desempenham igual função sintática: são complementos nominais do substantivo abstrato cognato de verbo ―troca‖. (3) Certo. No trecho ―As relações que (= as quais) travou com o pai de Sancha estreitaram as (= aquelas relações) que (= as quais) já trazia com Capitu‖, as ocorrências da palavra ―que‖ desempenham funções morfossintáticas idênticas: são pronomes relativos com função sintática de objetos diretos. Substitua a palavra ―que‖ pelo antecedente: as relações (ele) travou com o pai de Sancha; aquelas relações (ele) já trazia com Capitu. Agora, observe a ordem direta: ele travou (v.t.d) as relações (o.d.) com o pai de Sancha; ele já trazia (v.t.d) aquelas relações (o.d.) com Capitu. Entendeu? Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 73 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. (4) Certo. No fragmento ―A princípio, custou-lhe a ela aceitá-lo (= aceitar + o)‖, Machado de Assis constrói uma estrutura formada por uma oração principal (―custou-lhe a ela‖) seguida de uma oração subordinada substantiva reduzida de infinitivo (aceitá-lo). Que custou a ela? Aceitá-lo (sujeito oracional). Ademais, na oração principal o objeto indireto pleonástico tem, sim, a função de evitar ambiguidade. Caso a construção fosse somente ―Custou-lhe aceitar‖, ficaria o questionamento: custou a ele ou a ela aceitar? (5) Certo. Em ―Capitu entregou-lhe a primeira carta, que foi mãe e avó das outras‖, Machado de Assis se utiliza de linguagem com valor translato (= valor conotativo, figurado), com vistas a explicitar a ideia de que Capitu entregara mais de uma carta a Escobar. (6) Certo. No trecho ―Assim se (partícula apassivadora) formam (v.t.d.) as afeições e os parentescos, as aventuras e os livros (sujeito paciente composto posposto)‖, temos exemplo de voz passiva sintética ou pronominal, em virtude da presença da partícula apassivadora) com sujeito paciente composto e agente indeterminado. Observe que a voz passiva analítica confirma que o agente da passiva fica indeterminado: ―As afeições e os parentescos, as aventuras e os livros são formados‖ (por quem? = agente indeterminado). (7) Certo. Em ―quando cheguei ( = aproximei) o relógio ao ouvido‖, o verbo ―cheguei‖ foi empregado com regência transitiva direta e indireta: o relógio (objeto direto) ao ouvido (objeto indireto). (8) Certo. No trecho ―O retrato de Escobar, que eu tinha ali, ao pé do de minha mãe, falou-me como se (ele = o retrato de Escobar) fosse a própria pessoa‖, o termo ―O retrato de Escobar‖ é sujeito explícito de ―falou‖ e implícito de ―fosse‖; além disso, a estrutura conectiva ―como se‖ (com valor comparativo e condicional) indica realidade virtual ou imaginária. Não era a própria pessoa (= realidade factual). Era apenas o retrato. (9) Errado. Em ―Sancha e Capitu eram tão amigas que = conjunção consecutiva) seria um prazer mais para elas irem juntas‖, o vocábulo ―que‖ não pode ser substituído por ―porquanto‖, conectivo que traduz ideia de causa ou explicação. (10) Errado. As ocorrências do verbo ―haver‖ (= existir) não apresentam sujeito e, portanto, são impessoais. No entanto, o verbo ―seria‖ apresenta a oração ―irem juntas‖ como sujeito. Observe: ―irem juntas seria um prazer mais para elas‖. (11) Errado. Na linha 2, o verbo ―estará‖ pode ser substituído por ―estarão‖ para concordar com ―70%‖, mas, nesse caso, deve-se empregar também a forma ―aglutinados‖. Portanto, há duas construções corretas com sujeito que apresenta núcleo percentual: ―70% da população do planeta estará aglutinada nas cidades‖ (concordância com o termo próximo); ―70% da população do planeta estarão aglutinados nas cidades‖ (concordância com o núcleo percentual). (12) Errado. O primeiro parágrafo do texto apresenta erro quanto à pontuação: ―Abandonar a tranquilidade do campo, tem seus benefícios‖. Deve-se eliminar a vírgula após ―campo‖, pois não se pode separar o sujeito oracional da oração principal. (13) Errado. Em ―... até agora, não se tinha ideia de que isso provoca mudanças fisiológicas, que podem ser medidas por exames de imagem‖, a primeira ocorrência da palavra ―que‖ é, de fato, conjunção integrante que introduz oração subordinada substantiva completiva nominal (= complemento nominal de ―ideia‖). A segunda ocorrência é pronome relativo que não exerce a mesma função sintática do termo que ele retoma. O termo que a palavra ―que‖ retoma é ―mudanças fisiológicas‖, objeto direto do verbo ―provoca‖. Na oração seguinte, o pronome relativo ―que‖ (= mudanças fisiológicas) é sujeito de ―podem ser medidas‖. (14) Certo. No trecho ―A pressão a qual os participantes foram submetidos era a mesma‖, como o particípio ―submetidos‖ exige a preposição ―a‖, falta o sinal indicativo de crase e desencadeia-se um solecismo (= erro de sintaxe). Correção: ―A pressão à qual os participantes foram submetidos era a mesma‖. Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 74 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. (15) Certo. Em ―Outra área cerebral que exibiu um padrão diferente nos moradores dos grandes centros urbanos foi o córtex cingulado anterior, associado às emoções‖, a substituição de ―às‖ (―emoções‖ tem valor particularizado em virtude da presença do artigo ―as‖) por ―a‖ (―emoções‖ tem valor genérico em virtude da ausência do artigo definido ―as‖) altera as relações semânticas, mas não provoca erro gramatical. (16) Errado. O trecho ―Nenhum desses fatores influenciou significativamente a atividade cerebral‖ não admite concordância verbal com o termo mais próximo. Concorde apenas com o núcleo do sujeito ―Nenhum‖. (17) Errado. No trecho ―...eles tinham de resolver problemas de rotação mental, um tipo de experimento que usa imagens para avaliar a cognição‖, a vírgula introduz um aposto explicativo (―um tipo de experimento‖) seguido de oração subordinada adjetiva restritiva (―que usa imagens para avaliar a cognição‖). (18) Errado. Em ―No Brasil, o Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística revelou que, dos 190.732.694 habitantes, 84% vivem em áreas urbanas‖, as vírgulas empregadas indicam, respectivamente, deslocamento de adjunto adverbial de lugar e interrupção de adjunto adnominal deslocado ( ―84% dos 190.732. 694 habitantes‖). (19) Errado. Em ―... assim como aspectos relacionados à saúde, ao humor, à personalidade e ao apoio social de cada participante‖, a combinação de preposição e artigo se faz necessária em relação aos vocábulos seguintes, a fim de não ferir o princípio da simetria sintático-semântica. (20) Errado. O trecho ―No artigo, os pesquisadores dizem (= afirmam) que o estudo pode ajudar a nortear políticas públicas integradas, que visem a diminuir (certo) os riscos de desenvolvimento de doenças mentais‖, não pode ser reescrito da seguinte forma, pois haverá prejuízo para a coerência textual: ―No artigo, os pesquisadores conjeturam (= supõem) que o estudo pode auxiliar a nortear políticas públicas integradas, que visem diminuir (certo) os riscos dedesenvolvimento de doenças mentais‖. PROVA 18 TEXTO I Leia o texto seguinte para responder aos itens propostos. Quando o mascate chega é um alvoroço na redondeza. Alguém ouviu o péc-péc- péc do instrumento com que ele se anuncia, a notícia corre de boca em boca, o mulherio acode e faz o cerco ao baú. Baú milagroso que tem de tudo um pouco. Pente grosso de pentear, pente fino de limpar a cabeça, pentinho de enfeite com pedrinha que brilha, fivela ou passadeira, grampo de todo o feitio e tamanho, brilhantina que deixa o cabelo "alumiando que é lindeza", água de cheiro, pó de arroz alvo que nem farinha, caixinhas de carmim que dão cor de saúde, peças de renda, cadarço, barbatana, colchete, agulha, linha, botão de ceroula, de madrepérola e de vidro em todas as cores, alfinetinho de cabeça, pregadeira, chinelo, meia de seda e algodão, remédio de curar dor de dente e de botar no ouvido de criança, óleo de Sta. Maria para dar cabo das bichas, garrafinhas de óleo de rícino, que tanto serve pro cabelo como de purgante na hora do aperto, meu Deus, o que é que não sai do baú de mascate! Os olhos das caboclas brilham de alegria. "Que buniteza!" É um colar de conta vermelha que vai "dá hora" no pescoço da Rosenda. "Espia só comadre Cotinha, não dá gosto de se vê?" São o colorido das fitas que esvoaçam na mão encardida e grossa de Nhá Bé. "E isto pr'a mode u que tem serventia?" E o mascate paciente explica o uso da escova de dente e do "soutien" de pano forte, que modela o busto. Se o arraial é grande, o mascate esvazia o baú, porque só daí a dois ou três meses estará de volta, no seu constante giro pelo mundo. E a vaidade das mulheres, Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 75 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. que é a mesma na grã-fina ou na caipira, não pode esperar tanto tempo. Lá se vai o mascate. Alegre, porque deixou alegre a clientela e já não lhe pesa o baú nas costas. (Clarice Lispector, ―Baú de Mascate‖.) Considerando as ideias do texto de Clarice Lispector bem como as estruturas linguísticas nele utilizadas, julgue os itens a seguir. (1) Na linha 2, mantendo-se a correção gramatical do texto, pode-se empregar ―com o qual‖ ou ―em que‖ em lugar de ―com que‖. (2) Infere-se da leitura do texto que o motivo do alvoroço provocado pela chegada do mascate é o fato de ele trazer, em seu baú milagroso, objetos tipicamente femininos. (3) Para evitar o emprego redundante de estruturas sintático-semânticas como se identifica no trecho ―...o mulherio acode e faz o cerco ao baú. Baú milagroso que tem de tudo um pouco‖, poder-se-ia unir as ideias em um só período sintático ─ o mulherio acode e faz o cerco ao baú milagroso que tem de tudo um pouco ─ , o que preservaria a correção gramatical e a coerência textual. (4) No trecho ―Baú milagroso que tem de tudo um pouco‖, o verbo ―ter‖ apresentou como complemento um objeto direto preposicionado. (5) O trecho "Espia só comadre Cotinha, não dá gosto de se vê?" fere, em rigor, o padrão culto da linguagem, pois o certo seria "Espia só, comadre Cotinha, não dá gosto de se ver?". (6) O fragmento ―Pente grosso de pentear, pente fino de limpar a cabeça, pentinho de enfeite com pedrinha que brilha, fivela ou passadeira, grampo de todo o feitio e tamanho, brilhantina que deixa o cabelo "alumiando que é lindeza", água de cheiro, pó de arroz alvo que nem farinha, caixinhas de carmim que dão cor de saúde, peças de renda, cadarço, barbatana, colchete, agulha, linha, botão de ceroula, de madrepérola e de vidro em todas as cores, alfinetinho de cabeça, pregadeira, chinelo, meia de seda e algodão, remédio de curar dor de dente e de botar no ouvido de criança, óleo de Sta. Maria para dar cabo das bichas, garrafinhas de óleo de rícino, que tanto serve pro cabelo como de purgante na hora do aperto, meu Deus, o que é que não sai do baú de mascate!‖ pode ser pontuado corretamente da seguinte forma: ―Pente grosso de pentear; pente fino de limpar a cabeça; pentinho de enfeite com pedrinha que brilha; fivela ou passadeira; grampo de todo o feitio e tamanho; brilhantina que deixa o cabelo "alumiando que é lindeza"; água de cheiro; pó de arroz alvo que nem farinha; caixinhas de carmim que dão cor de saúde; peças de renda; cadarço; barbatana; colchete; agulha; linha; botão de ceroula; de madrepérola; e de vidro em todas as cores; alfinetinho de cabeça; pregadeira; chinelo; meia de seda e algodão; remédio de curar dor de dente; e de botar no ouvido de criança; óleo de Sta. Maria para dar cabo das bichas; garrafinhas de óleo de rícino; que tanto serve pro cabelo como de purgante na hora do aperto. Meu Deus, o que é que não sai do baú de mascate?‖. (7) Seria mantida a coerência das ideias do texto e a correção gramatical, caso o conectivo ―Se‖, em ―Se o arraial é grande, o mascate esvazia o baú, porque só daí a dois ou três meses estará de volta, no seu constante giro pelo mundo‖, fosse substituído por ―Contanto que‖. (8) Em ―Lá se vai o mascate‖, a palavra ―se‖ não tem a função de indeterminar ou generalizar o sujeito. (9) Em ―Alegre, porque deixou alegre a clientela‖, a primeira ocorrência do adjetivo ―Alegre‖ exerce a função sintática de predicativo do sujeito; a segunda, a de predicativo do objeto. (10) No fragmento ―... e já não lhe pesa o baú nas costas‖, o pronome ―lhe‖ traduz, textualmente, a ideia de posse. Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 76 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. TEXTO II Leia o texto seguinte para responder aos itens propostos. Um conhecido chegou, pediu licença, foi sentando e principiando a conversar. Não gostava de corridas nem de remo. Por natação sim, era doido. Só pode ter interesse por corrida quem tem um cavalo amigo do peito correndo. Aí, sim, se pode entusiasmar, torcer e até morrer de colapso. Mas a frio, escolher um puro-sangue desconhecido e gastar com ele o ouro dezoito quilates das nossas emoções, sem nenhuma ligação afetiva? Burrice. O mesmo com o remo; então a gente espicha o pescoço, vê um cara qualquer fazendo força nas pás e diz: "vou apostar naquele?" Não. Não era homem pra isso. Vem de trás uma gargalhada terrível, de mulher, um risco de som duro, no espaço. A mulher ria, ria por tudo e de tudo, por nada e de nada. Devia rir das coisas de rir e também das coisas de chorar. Ria só com a garganta, sem um pingo de alma. E, bem pensado, é um ultraje ao sexo, um atentado à saúde pública o riso de uma mulher que não sabe rir. Todas as mulheres deveriam saber rir e as que não sabem deveriam aprender. E devia também haver na lei do silêncio um artigo condenando ao silêncio do riso, a qualquer hora do dia ou da noite, uma mulher que não sabe rir. Devia, mas não há. Por isso, aquela mulher irritava todo o mundo com a sua risada enervante. Olhei de novo. O jornal empapado tinha sumido, era um pedaço morto de areia o lugar onde estavam a cadelinha e seu dono e eu sentia nas costas um silêncio de sepultura. Longe, no mar grosso, um pontinho e um braço acenando. Não se tratava de nenhum afogado. Era o amigo me dizendo adeus. Não havia mais nada. Estava tudo tão quieto e tão vazio como a cidade numa tarde de sábado. O mar já tinha fechado o expediente e dava descanso à praia. Percebi que tinha começado a ser domingo. (Clarice Lispector, ―Hora em que começa o domingo‖.) Considerando as ideias do texto de Clarice Lispector bem como as estruturas linguísticas nele utilizadas, julgue os itens a seguir. (11) Infere-se do texto que a autora considera uma burrice o fato de seu conhecido gastar com um desconhecidopuro sangue valores exorbitantes, sem que houvesse ligação emocional com o animal. (12) Na linha 1 do texto, as vírgulas foram empregadas para separar orações coordenadas entre si. (13) Em ―Por natação sim, era doido. Só pode ter interesse por corrida quem tem um cavalo amigo do peito correndo‖, os termos destacados desempenham igual função sintática. (14) A relação entre as ideias do texto admite que, em ―A mulher ria, ria por tudo e de tudo, por nada e de nada. Devia rir das coisas de rir e também das coisas de chorar‖, o sinal de ponto depois de ―nada‖ seja substituído pelo sinal de ponto e vírgula, fazendo-se o devido ajuste na letra inicial maiúscula. (15) As regras gramaticais e a coerência textual permitem que o trecho ―E devia também haver na lei do silêncio um artigo condenando ao silêncio do riso, a qualquer hora do dia ou da noite, uma mulher que não sabe rir‖ admita a seguinte reescritura: ―E deviam também existir, na lei do silêncio, um artigo que condenasse ao silêncio do riso, em qualquer hora do dia ou da noite, uma mulher que não soubesse rir‖. (16) No trecho ―O jornal empapado tinha sumido, era um pedaço morto de areia o lugar onde estavam a cadelinha e seu dono e eu sentia nas costas um silêncio de sepultura‖, pode-se, sem prejuízo para a correção gramatical, substituir ―onde‖ por ―em que‖ ou ―no qual‖; além disso, a forma verbal ―estavam‖ pode ser substituída por ―estava‖. (17) Em ―Estava tudo tão quieto e tão vazio como a cidade numa tarde de sábado‖, há, em rigor, apenas uma oração absoluta. Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 77 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. (18) No trecho ―A mulher ria, ria por tudo e de tudo, por nada e de nada‖ as duas ocorrências da preposição ―por‖ introduzem adjuntos adverbiais de causa, e as duas ocorrências da preposição ―de‖, complementos verbais indiretos. (19) As regras gramaticais e a coerência textual permitem que, em ―Vem de trás uma gargalhada terrível, de mulher, um risco de som duro, no espaço‖, o termo ―de mulher‖ seja registrado depois de ―gargalhada‖, o que dispensaria o emprego das vírgulas, a fim de tornar o texto mais claro. (20) No último período do texto, o complemento verbal de ―Percebi‖ é representado por uma oração desenvolvida. RESPOSTAS COMENTADAS (1) Errado. Na linha 2, mantendo-se a correção gramatical do texto, pode-se empregar somente a forma ―com o qual‖. Veja a ordem direta, substituindo-se o pronome relativo ―o qual‖ por ―o instrumento‖: ―Ele se anuncia com o instrumento‖. (2) Errado. Há, em seu baú milagroso, objetos tipicamente femininos e outros não necessariamente femininos, como ―remédio de curar dor de dente e de botar no ouvido de criança, óleo de Sta. Maria para dar cabo das bichas, garrafinhas de óleo de rícino, que tanto serve pro cabelo como de purgante na hora do aperto‖. (3) Certo. Para evitar o emprego redundante de estruturas sintático-semânticas como se identifica no trecho ―...o mulherio acode e faz o cerco ao baú. Baú milagroso que tem de tudo um pouco‖, poder-se-ia unir as ideias em um só período sintático ─ o mulherio acode e faz o cerco ao baú milagroso que tem de tudo um pouco ─ , o que preservaria a correção gramatical e a coerência textual. (4) Errado. No trecho ―Baú milagroso que tem de tudo um pouco‖, em que há uma inversão sintática, o verbo ―ter‖ não apresentou como complemento um objeto direto preposicionado. Basta observar a ordem direta: ―Baú milagroso que tem (v.t.d) um pouco (= algo, alguma coisa) de tudo (objeto direto, cujo núcleo é o pronome indefinido substantivo ―pouco‖) ‖. (5) Certo. O trecho "Espia só comadre Cotinha, não dá gosto de se vê?" fere, em rigor, o padrão culto da linguagem, pois o certo seria "Espia só, comadre Cotinha, (o vocativo deve vir entre vírgulas) não dá gosto de se ver ? (oração subordinada substantiva completiva nominal reduzida de infinitivo que completa sintática e semanticamente o substantivo abstrato ―gosto‖)". (6) Errado. ―Pente grosso de pentear; pente fino de limpar a cabeça; pentinho de enfeite com pedrinha que brilha; fivela ou passadeira; grampo de todo o feitio e tamanho; brilhantina que deixa o cabelo "alumiando que é lindeza"; água de cheiro; pó de arroz alvo que nem farinha; caixinhas de carmim que dão cor de saúde; peças de renda; cadarço; barbatana; colchete; agulha; linha; botão de ceroula; de madrepérola; e de vidro em todas as cores; alfinetinho de cabeça; pregadeira; chinelo; meia de seda e algodão; remédio de curar dor de dente e de botar no ouvido de criança (de curar e de botar se subordinam a ―remédio‖); óleo de Sta. Maria para dar cabo das bichas; garrafinhas de óleo de rícino, que tanto serve pro cabelo como de purgante na hora do aperto (a oração subordinada adjetiva explicativa, iniciada pelo pronome relativo ―que‖, não pode ser separada por meio de ponto e vírgula). Meu Deus, o que é que não sai do baú de mascate?‖. (7) Errado. Não seria mantida a correção gramatical, caso o conectivo ―Se‖, em ―Se o arraial é grande, o mascate esvazia o baú, porque só daí a dois ou três meses estará de volta, no seu constante giro pelo mundo‖, fosse substituído por ―Contanto que‖. Com ―Contanto que‖ ou ―Caso‖, conectivos também condicionais, deve-se fazer o ajuste do verbo: ―Contanto que/Caso o arraial seja grande, o mascate esvazia o baú, porque só daí a dois ou três meses estará de volta, no seu constante giro pelo mundo‖. Nesse caso, a coerência também fica comprometida. O ideal é manter o conectivo ―Se‖. Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 78 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. (8) Certo. Em ―Lá se vai o mascate‖, a palavra ―se‖ não tem a função de indeterminar ou generalizar o sujeito. Veja a ordem direta: ―O mascate se vai lá‖. Sujeito: O mascate. A palavra ―se‖ constitui partícula expletiva ou de realce. (9) Certo. Em ―(Ele estava) Alegre (predicativo do sujeito elíptico ―Ele‖), porque deixou (v.t.d) alegre (predicativo do objeto direto) a clientela (objeto direto)‖, a primeira ocorrência do adjetivo ―Alegre‖ exerce a função sintática de predicativo do sujeito; a segunda, a de predicativo do objeto. (10) Certo. No fragmento ―... e já não lhe pesa o baú nas costas‖, o pronome ―lhe‖ traduz, textualmente, a ideia de posse: ―... e já não pesa o baú nas suas costas‖ ou ―... e já não pesa o baú nas costas dele‖. (11) Errado. Releia o seguinte trecho: ―Um conhecido chegou, pediu licença, foi sentando e principiando a conversar. (Ele) Não gostava de corridas nem de remo. Por natação sim, era doido‖. O trecho seguinte se refere a qualquer pessoa, não ao conhecido. (12) Certo. Na linha 1 do texto, as vírgulas foram empregadas para separar orações coordenadas (independentes sintaticamente) entre si. (13) Certo. Em ―Por natação (complemento nominal do adjetivo ―doido‖) sim, era doido. Só pode ter interesse por corrida (complemento nominal do substantivo abstrato ―interesse‖) quem tem um cavalo amigo do peito correndo‖, os termos destacados desempenham igual função sintática. (14) Certo. A relação entre as ideias do texto admite que, em ―A mulher ria, ria por tudo e de tudo, por nada e de nada. Devia rir das coisas de rir e também das coisas de chorar‖, o sinal de ponto depois de ―nada‖ seja substituído pelo sinal de ponto e vírgula, fazendo-se o devido ajuste na letra inicial maiúscula: ―A mulher ria, ria por tudo e de tudo, por nada e de nada; (ela) devia rir das coisas de rir e também das coisas de chorar‖. O sinal de ponto e vírgula separa períodos independentes sintaticamente entre si. (15) Errado.As regras gramaticais e a coerência textual permitem que o trecho ―E devia também haver na lei do silêncio um artigo condenando ao silêncio do riso, a qualquer hora do dia ou da noite, uma mulher que não sabe rir‖ admita a seguinte reescritura: ―E devia também existir, na lei do silêncio, um artigo que condenasse ao silêncio do riso, em qualquer hora do dia ou da noite, uma mulher que não soubesse rir‖. Veja a ordem direta: ―um artigo devia existir‖. (16) Certo. No trecho ―O jornal empapado tinha sumido, era um pedaço morto de areia o lugar onde estavam a cadelinha e seu dono e eu sentia nas costas um silêncio de sepultura‖, pode-se, sem prejuízo para a correção gramatical, substituir o pronome relativo ―onde‖ por ―em que‖ ou ―no qual‖; além disso, a forma verbal ―estavam‖ pode ser substituída por ―estava‖, já que, com sujeito composto posposto, admite- se a concordância apenas com o termo mais próximo (―a cadelinha‖). (17) Errado. Em ―Estava tudo tão quieto e tão vazio como a cidade numa tarde de sábado (está)‖, há, em rigor, duas orações. Nas orações subordinadas adverbiais comparativas, é comum o segundo verbo ficar implícito: ―Ela fala como um papagaio (fala). (18) Certo. No trecho ―A mulher ria, ria (v.t.i) por tudo (adjunto adverbial de causa) e de tudo (objeto indireto), por nada (adjunto adverbial de causa) e de nada (objeto indireto)‖ as duas ocorrências da preposição ―por‖ introduzem adjuntos adverbiais de causa, e as duas ocorrências da preposição ―de‖, complementos verbais indiretos. Entendeu? Um gesto positivo, por favor! (19) Errado. As regras gramaticais e a coerência textual não permitem que, em ―Vem de trás uma gargalhada terrível, de mulher, um risco de som duro, no espaço‖, o termo ―de mulher‖ seja registrado depois de ―gargalhada‖, o que dispensaria o emprego das vírgulas, a fim de tornar o texto mais claro. Veja como ficaria o trecho: ――Vem de trás uma gargalhada de mulher terrível um risco de som duro, no espaço‖. O adjetivo ―terrível‖ deixaria de caracterizar ―uma gargalhada‖ e passaria a caracterizar ―mulher‖; além disso, o trecho ficaria incompreensível (incoerente) com a retirada das vírgulas. Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 79 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. (20) Certo. No último período do texto, o complemento verbal de ―Percebi (v.t.d)‖ é representado por uma oração subordinada substantiva objetiva direta desenvolvida, haja vista o fato de a conjunção integrante ―que‖ estar explícita. Bom demais! PROVA 19 TEXTO I Levantei-me há cerca de trinta dias, mas julgo que ainda não me restabeleci completamente. Das visões que me perseguiam naquelas noites compridas umas sombras permanecem, sombras que se misturam à realidade e me produzem calafrios. Há criaturas que não suporto. Os vagabundos, por exemplo. Parece-me que eles cresceram muito, e, aproximando-se de mim, não vão gemer peditórios: vão gritar, exigir, tomar-me qualquer coisa. Certos lugares que me davam prazer tornaram-se odiosos. Passo diante de uma livraria, olho com desgosto as vitrinas, tenho a impressão de que se acham ali pessoas, exibindo títulos e preços nos rostos, vendendo-se. É uma espécie de prostituição. Um sujeito chega, atenta, encolhendo os ombros ou estirando o beiço, naqueles desconhecidos que se amontoam por detrás do vidro. Outro larga uma opinião à-toa. Basbaques escutam, saem. E os autores, resignados, mostram as letras e os algarismos, oferecendo-se como as mulheres da Rua da Lama. Vivo agitado, cheio de terrores, uma tremura nas mãos, que magreceram. As mãos já não são minhas: são mãos de velho, fracas e inúteis. As escoriações das palmas cicatrizaram. Impossível trabalhar. Dão-me um ofício, um relatório, para datilografar, na repartição. Até dez linhas vou bem. Daí em diante a cara balofa de Julião Tavares aparece em cima do original, e os meus dedos encontram no teclado uma resistência mole de carne gorda. E lá vem o erro. Tento vencer a obsessão, capricho em não usar a borracha. Concluo o trabalho, mas a resma de papel fica muito reduzida. À noite fecho as portas, sento-me à mesa da sala de jantar, a munheca emperrada, o pensamento vadio longe do artigo que me pediram para o jornal. Vitória resmunga na cozinha, ratos famintos remexem latas e embrulhos no guarda- comidas, automóveis roncam na rua. Em duas horas escrevo uma palavra: Marina. Depois, aproveitando letras deste nome, arranjo coisas absurdas: ar, mar, rima, arma, ira, amar. Uns vinte nomes. Quando não consigo formar combinações novas, traço rabiscos que representam uma espada, uma lira, uma cabeça de mulher e outros disparates. Penso em indivíduos e em objetos que não têm relação com os desenhos: processos, orçamentos, o diretor, o secretário, políticos, sujeitos remediados que me desprezam porque sou um pobre-diabo. Graciliano Ramos, Angústia. Com base nas ideias e na estruturas linguísticas do texto, julgue os itens a seguir. (1) Segundo o narrador-personagem, certos lugares prazerosos, como uma livraria, se tornaram odiosos, por evidenciarem características próprias de uma espécie de meretrício. (2) A presença dos elementos dêiticos subjetivos no texto destaca os sentimentos de angústia e inquietude do narrador-personagem. (3) O trecho ―Levantei-me há cerca de trinta dias, mas julgo que ainda não me restabeleci completamente‖ admite a seguinte reescritura, sem prejuízo para a correção gramatical e para o sentido original: ―Cerca de trinta dias atrás, levantei- me, porém, julgo que ainda não me recompus completamente‖. (4) Em ―Há criaturas que não suporto‖ e em ―Certos lugares que me davam prazer tornaram-se odiosos‖, o vocábulo ―que‖ evidencia funções sintáticas diferentes. Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 80 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. (5) No fragmento ―Outro larga uma opinião à-toa‖, o termo destacado tem função adverbial e indica a ideia de modo. (6) No trecho ―À noite fecho as portas, sento-me à mesa da sala de jantar, a munheca emperrada, o pensamento vadio longe do artigo que me pediram para o jornal‖, a vírgula após ―noite‖ é opcional; as demais vírgulas separam uma sequência de orações coordenadas. (7) Em ―Em duas horas escrevo uma palavra: Marina. Depois, aproveitando letras deste nome, arranjo coisas absurdas: ar, mar, rima, arma, ira, amar‖, a substituição de ―deste‖ por ―desse‖ não provocaria ambiguidade. (8) O período ―E os autores, resignados, mostram as letras e os algarismos, oferecendo-se como as mulheres da Rua da Lama‖ é composto por três orações. (9) Em ―As mãos já não são minhas: são mãos de velho, fracas e inúteis‖, o sinal de dois-pontos pode ser substituído pela conjunção ―porquanto‖, precedida de vírgula, sem prejuízo para a correção gramatical e para a coerência textual. (10) No trecho ―Penso em indivíduos e em objetos que não têm relação com os desenhos: processos, orçamentos, o diretor, o secretário, políticos, sujeitos remediados que me desprezam porque sou um pobre-diabo‖, a ausência do artigo antes de alguns elementos da enumeração constitui opção semântico-estilística do redator. TEXTO II Viver em grandes centros urbanos é uma prerrogativa do mundo moderno. Estima- se que, nas próximas duas décadas, 70% da população do planeta estará aglutinada nas cidades, um índice que, nos anos 1950, era de apenas 30%. Abandonar a tranquilidade do campo, tem seus benefícios. Shopping centers, melhores oportunidades de emprego, bons hospitais e escolas, além de atividades sociais intensas são apenas alguns deles. Mas a migraçãotem um lado alarmante. O estresse e a ansiedade gerados pela urbanização alteram fisicamente o cérebro, predispondo o desenvolvimento de doenças mentais e distúrbios de humor. Uma pesquisa publicada na capa da edição de hoje da revista especializada Nature mostra, pela primeira vez, que mesmo os indivíduos saudáveis que vivem nos centros urbanos têm conexões neurais alteradas em regiões do cérebro associadas à ansiedade. Já se sabia que o atribulado ambiente das grandes cidades estava ligado a problemas como estresse e esquizofrenia. Mas, até agora, não se tinha ideia de que isso provoca mudanças fisiológicas, que podem ser medidas por exames de imagem. O mais grave, notam os autores, é que, teoricamente, habitantes das cidades deveriam ser mais saudáveis, pois têm à sua disposição tratamentos hospitalares mais modernos. O grupo de cientistas, de diversos institutos de pesquisa, realizou três testes em diferentes populações, sempre analisando a resposta cerebral dos participantes, capturada pela ressonância magnética funcional. O primeiro grupo passou por um protocolo de estudos chamado Montreal Imaging Stress Task (Mist), desenvolvido pelo instituto onde Pruessner trabalha. Eles foram expostos a uma situação de pressão social, em que suas habilidades eram desafiadas enquanto os cientistas analisavam a ativação dos cérebros na máquina de ressonância magnética. A pressão a qual os participantes foram submetidos era a mesma. O que os diferenciava era o local de residência. O nível de urbanidade foi medido da seguinte forma: cidades com mais de 100 mil habitantes, municípios com menos de 100 mil habitantes e áreas rurais. Em todos os voluntários, os pesquisadores conseguiram induzir o estresse, algo verificado pela medição de seus batimentos cardíacos e do aumento na circulação sanguínea do hormônio cortisol. Mas as fotografias dos cérebros mostraram um cenário bem diferente. Quanto mais urbanizados os indivíduos, maior a ativação de duas regiões do cérebro intimamente relacionadas ao estresse e aos distúrbios mentais e de humor. A amígdala cerebral, que se localiza no sistema límbico e centro regulador da agressividade, entre outros comportamentos, exibia uma resposta muito maior nos moradores de cidades grandes. Mesmo os habitantes de pequenos municípios tiveram Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 81 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. mais ativação dessa região, comparados aos voluntários que viviam na zona rural. Outra área cerebral que exibiu um padrão diferente nos moradores dos grandes centros urbanos foi o córtex cingulado anterior, associado às emoções. O segundo teste foi semelhante ao anterior e teve os mesmos resultados. Para saber se o estresse foi desencadeado pelo tipo de tarefa a qual os voluntários foram submetidos, além das questões aritméticas, eles tinham de resolver problemas de rotação mental, um tipo de experimento que usa imagens para avaliar a cognição. Os pesquisadores também investigaram questões como idade, escolaridade, renda e estado civil dos voluntários, assim como aspectos relacionados à saúde, ao humor, à personalidade e ao apoio social de cada participante. ―Nenhum desses fatores influenciou significativamente a atividade cerebral, sugerindo que viver em um ambiente urbano é que altera a resposta do cérebro a um fator de estresse devido a um distinto e misterioso mecanismo‖, observam Daniel P. Kennedy e Ralph Adolphs, cientistas do Instituto de Tecnologia da Califórnia, em um artigo sobre a pesquisa, também publicado na Nature. O principal autor do estudo, Andreas Meyer-Lindenberg, do Instituto de Saúde Mental de Heidelberg, na Alemanha, diz ao Correio que a pesquisa é do interesse do Brasil. ―Acho que nossos resultados são especialmente importantes para os países em desenvolvimento, porque a urbanização ocorre mais rápido nesses locais e as diferenças entre a vida nas zonas rural e urbana podem ser ainda maiores‖. No artigo, os pesquisadores dizem que o estudo pode ajudar a nortear políticas públicas integradas, que visem a diminuir os riscos de desenvolvimento de doenças mentais. ―Esses resultados contribuem para a nossa compreensão do risco ambiental urbano em relação aos transtornos mentais e à saúde em geral. Além disso, eles apontam para uma nova abordagem empírica para integração das ciências sociais, neurológicas e de políticas públicas que possam responder a esse desafio‖. No Brasil, o Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística revelou que, dos 190.732.694 habitantes, 84% vivem em áreas urbanas. Há 10 anos, esse índice era de 81%. Dos 1.520 municípios que perderam população nesse espaço de tempo, as cinco maiores quedas foram registradas em cidades pequenas, com menos de 16 mil moradores. (Paloma Oliveto, Correio Braziliense, 26/6/2011, com adaptações) Julgue os itens a seguir com base nos aspectos morfossintáticos e semânticos do texto. (11) Na linha 2, o verbo ―estará‖ pode ser substituído por ―estarão‖, sem prejuízo para a correção gramatical e para a coerência textual. (12) O primeiro parágrafo do texto não apresenta erro quanto à pontuação. (13) Em ―... até agora, não se tinha ideia de que isso provoca mudanças fisiológicas, que podem ser medidas por exames de imagem‖, a primeira ocorrência da palavra ―que‖ é conjunção integrante que introduz oração subordinada substantiva completiva nominal; a segunda ocorrência é pronome relativo que exerce mesma função sintática do termo que ele retoma. (14) No trecho ―A pressão a qual os participantes foram submetidos era a mesma‖, omitiu-se o sinal indicativo de crase e desencadeou-se um solecismo. (15) Em ―Outra área cerebral que exibiu um padrão diferente nos moradores dos grandes centros urbanos foi o córtex cingulado anterior, associado às emoções‖, a substituição de ―às‖ por ―a‖ altera as relações semânticas, mas não provoca erro gramatical. (16) O trecho ――Nenhum desses fatores influenciou significativamente a atividade cerebral‖ admite a seguinte reescritura, sem prejuízo para a correção gramatical e para a coerência textual: ――Nenhum desses fatores influenciaram significativamente a atividade cerebral‖. (17) No trecho ―...eles tinham de resolver problemas de rotação mental, um tipo de experimento que usa imagens para avaliar a cognição‖, a vírgula separa a oração principal da oração subordinada adjetiva explicativa. Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 82 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. (18) Em ―No Brasil, o Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística revelou que, dos 190.732.694 habitantes, 84% vivem em áreas urbanas‖, as vírgulas empregadas indicam, respectivamente, deslocamento de adjunto adverbial e interrupção de aposto explicativo. (19) Em ―... assim como aspectos relacionados à saúde, ao humor, à personalidade e ao apoio social de cada participante‖, a combinação de preposição e artigo só se faz necessária em relação ao vocábulo ―saúde‖ e pode ser dispensada na relação com os vocábulos seguintes, sem ferir o princípio da simetria sintático-semântica. (20) O trecho ―No artigo, os pesquisadores dizem que o estudo pode ajudar a nortear políticas públicas integradas, que visem a diminuir os riscos de desenvolvimento de doenças mentais‖, pode ser reescrito da seguinte forma, sem prejuízo para a correção gramatical e para a coerência textual: ―No artigo, os pesquisadores conjeturam que o estudo pode auxiliar a nortear políticas públicas integradas, que visem diminuir os riscos de desenvolvimento de doenças mentais‖. RESPOSTAS COMENTADAS(1) Certo. Segundo o narrador-personagem, certos lugares prazerosos, como uma livraria, se tornaram odiosos, por evidenciarem características próprias de uma espécie de meretrício, de prostituição. (2) Certo. A presença dos elementos dêiticos subjetivos no texto, especialmente por meio da primeira pessoa do singular (―não me restabeleci‖, ―não suporto‖, ―Vivo agitado, cheio de terrores‖), destaca os sentimentos de angústia e inquietude do narrador-personagem. (3) Errada. O trecho ―Levantei-me há cerca de trinta dias, mas julgo que ainda não me restabeleci completamente‖ não admite a seguinte reescritura ―Cerca de trinta dias atrás, levantei-me, porém, julgo que ainda não me recompus completamente‖, porque a vírgula após a conjunção ―porém‖ está errada. (4) Certo. Em ―Há criaturas que (= criaturas/ objeto direto de ―suporto‖) (eu) não suporto (v.t.d)‖ e em ―Certos lugares que (= certos lugares/sujeito de ―davam‖) me davam prazer tornaram-se odiosos‖, o vocábulo ―que‖ evidencia funções sintáticas diferentes. (5) Errado. No fragmento ―Outro larga uma opinião à-toa‖, o termo destacado tem função adjetiva e caracteriza o substantivo ―opinião‖. (6) Errado. No trecho ―À noite fecho as portas (oração coordenada), sento-me à mesa da sala de jantar (oração coordenada) , a munheca emperrada (termo nominal coordenado) , o pensamento vadio longe do artigo (termo nominal coordenado) que me pediram para o jornal (oração adjetiva restritiva)‖, a vírgula após ―noite‖ é opcional; as demais vírgulas separam uma sequência de orações coordenadas e termos nominais coordenados. (7) Certo. Em ―Em duas horas escrevo uma palavra: Marina. Depois, aproveitando letras deste nome, arranjo coisas absurdas: ar, mar, rima, arma, ira, amar‖, a substituição de ―deste‖ (retoma termo sintaticamente próximo) por ―desse‖ (refere- se a nome já citado) não provocaria ambiguidade. (8) Certo. O período ―E os autores, resignados, mostram as letras e os algarismos (1)/ , oferecendo-se (2)/ como as mulheres da Rua da Lama (se oferecem) (3)‖ é composto por três orações. Observe que, nas orações comparativas, é comum o verbo ficar logicamente implícito. (9) Certo. Em ―As mãos já não são minhas: são mãos de velho, fracas e inúteis‖, o sinal de dois-pontos pode ser substituído pela conjunção ―porquanto‖ (= porque), precedida de vírgula, sem prejuízo para a correção gramatical e para a coerência textual. (10) Certo. No trecho ―Penso em indivíduos e em objetos que não têm relação com os desenhos: processos, orçamentos, o diretor, o secretário, políticos, sujeitos remediados que me desprezam porque sou um pobre-diabo‖, a ausência do artigo Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 83 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. antes de alguns elementos da enumeração constitui opção semântico-estilística do redator. Enquanto vários elementos estão empregados com valor genérico, dois estão empregados com o valor individualizado exigido pela situação semântica. (11) Errado. Na linha 2, o verbo ―estará‖ pode ser substituído por ―estarão‖ para concordar com ―70%‖, mas, nesse caso, deve-se empregar também a forma ―aglutinados‖. Portanto, há duas construções corretas com sujeito que apresenta núcleo percentual: ―70% da população do planeta estará aglutinada nas cidades‖ (concordância com o termo próximo); ―70% da população do planeta estarão aglutinados nas cidades‖ (concordância com o núcleo percentual). (12) Errado. O primeiro parágrafo do texto apresenta erro quanto à pontuação: ―Abandonar a tranquilidade do campo, tem seus benefícios‖. Deve-se eliminar a vírgula após ―campo‖, pois não se pode separar o sujeito oracional da oração principal. (13) Errado. Em ―... até agora, não se tinha ideia de que isso provoca mudanças fisiológicas, que podem ser medidas por exames de imagem‖, a primeira ocorrência da palavra ―que‖ é, de fato, conjunção integrante que introduz oração subordinada substantiva completiva nominal (= complemento nominal de ―ideia‖). A segunda ocorrência é pronome relativo que não exerce a mesma função sintática do termo que ele retoma. O termo que a palavra ―que‖ retoma é ―mudanças fisiológicas‖, objeto direto do verbo ―provoca‖. Na oração seguinte, o pronome relativo ―que‖ (= mudanças fisiológicas) é sujeito de ―podem ser medidas‖. (14) Certo. No trecho ―A pressão a qual os participantes foram submetidos era a mesma‖, como o particípio ―submetidos‖ exige a preposição ―a‖, falta o sinal indicativo de crase e desencadeia-se um solecismo (= erro de sintaxe). Correção: ―A pressão à qual os participantes foram submetidos era a mesma‖. (15) Certo. Em ―Outra área cerebral que exibiu um padrão diferente nos moradores dos grandes centros urbanos foi o córtex cingulado anterior, associado às emoções‖, a substituição de ―às‖ (―emoções‖ tem valor particularizado em virtude da presença do artigo ―as‖) por ―a‖ (―emoções‖ tem valor genérico em virtude da ausência do artigo definido ―as‖) altera as relações semânticas, mas não provoca erro gramatical. (16) Errado. O trecho ―Nenhum desses fatores influenciou significativamente a atividade cerebral‖ não admite concordância verbal com o termo mais próximo. Concorde apenas com o núcleo do sujeito ―Nenhum‖. (17) Errado. No trecho ―...eles tinham de resolver problemas de rotação mental, um tipo de experimento que usa imagens para avaliar a cognição‖, a vírgula introduz um aposto explicativo (―um tipo de experimento‖) seguido de oração subordinada adjetiva restritiva (―que usa imagens para avaliar a cognição‖). (18) Errado. Em ―No Brasil, o Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística revelou que, dos 190.732.694 habitantes, 84% vivem em áreas urbanas‖, as vírgulas empregadas indicam, respectivamente, deslocamento de adjunto adverbial de lugar e interrupção de adjunto adnominal deslocado ( ―84% dos 190.732. 694 habitantes‖). (19) Errado. Em ―... assim como aspectos relacionados à saúde, ao humor, à personalidade e ao apoio social de cada participante‖, a combinação de preposição e artigo se faz necessária em relação aos vocábulos seguintes, a fim de não ferir o princípio da simetria sintático-semântica. (20) Errado. O trecho ―No artigo, os pesquisadores dizem (= afirmam) que o estudo pode ajudar a nortear políticas públicas integradas, que visem a diminuir (certo) os riscos de desenvolvimento de doenças mentais‖, não pode ser reescrito da seguinte forma, pois haverá prejuízo para a coerência textual: ―No artigo, os pesquisadores conjeturam (= supõem) que o estudo pode auxiliar a nortear políticas públicas integradas, que visem diminuir (certo) os riscos de desenvolvimento de doenças mentais‖. Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 84 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. PROVA 20 Texto para os itens de 1 a 10 A separação não nos esfriou. Ele [Escobar] foi o terceiro na troca das cartas entre mim e Capitu. Desde que a viu, animou-me muito no nosso amor. As relações que travou com o pai de Sancha estreitaram as que já trazia com Capitu, e fê-lo servir a ambos nós, como amigo. A princípio, custou-lhe a ela aceitá-lo, preferia José Dias, mas José Dias repugnava-me por um resto de respeito de criança. Venceu Escobar. Capitu entregou-lhe a primeira carta, que foi mãe e avó das outras. Nem depois de casado suspendeu ele o obséquio... Que ele casou, —adivinha com quem— casou com a boa Sancha, a amiga de Capitu, quase irmã dela, tanto que, alguma vez, escrevendo-me, chamava a esta a "sua cunhadinha." Assim se formam as afeições e os parentescos, as aventurase os livros. (...) Quando saímos, tornei a falar com os olhos à dona da casa. A mão dela apertou muito a minha, e demorou-se mais que de costume(...). Senti ainda os dedos de Sancha entre os meus, apertando uns aos outros. Foi um instante de vertigem e de pecado. Passou depressa no relógio do tempo; quando cheguei o relógio ao ouvido, trabalhavam só os minutos da virtude e da razão. O retrato de Escobar, que eu tinha ali, ao pé do de minha mãe, falou-me como se fosse a própria pessoa. Combati sinceramente os impulsos que trazia do Flamengo, rejeitei a figura da mulher do meu amigo, e chamei-me desleal. Demais, quem me afirmava que houvesse alguma intenção daquela espécie no gesto da despedida e nos anteriores? Tudo podia ligar-se ao interesse da nossa viagem. Sancha e Capitu eram tão amigas que seria um prazer mais para elas irem juntas. Quando houvesse alguma intenção sexual, quem me provaria que não era mais que uma sensação fulgurante, destinada a morrer com a noite e o sono? Há remorsos que não nascem de outro pecado, nem têm maior duração. Agarrei-me a essa hipótese que se conciliava com a mão de Sancha, que eu sentia de memória dentro da minha mão, quente e demorada, apertada e apertando... Machado de Assis, D. Casmurro (fragmento) Com base nas ideias, na tipologia e na estrutura linguísticas do texto, julgue os itens a seguir. (1) Narrado em primeira pessoa, o texto constitui uma alegoria subjetiva que visa mostrar, sob uma óptica crítica, as dificuldades presentes nas relações humanas. (2) Em ―Ele [Escobar] foi o terceiro na troca das cartas entre mim e Capitu‖, os termos ―das cartas‖ e ―entre mim e Capitu‖ desempenham igual função sintática. (3) No trecho ―As relações que travou com o pai de Sancha estreitaram as que já trazia com Capitu‖, as ocorrências da palavra ―que‖ desempenham funções morfossintáticas idênticas. (4) No fragmento ―A princípio, custou-lhe a ela aceitá-lo‖, Machado de Assis constrói uma estrutura formada por uma oração principal seguida de uma oração subordinada substantiva reduzida de infinitivo; ademais, na oração principal o objeto indireto pleonástico tem a função de evitar ambiguidade. (5) Em ―Capitu entregou-lhe a primeira carta, que foi mãe e avó das outras‖, Machado de Assis se utiliza de linguagem com valor translato, com vistas a explicitar a ideia de que Capitu entregara mais de uma carta a Escobar. (6) No trecho ―Assim se formam as afeições e os parentescos, as aventuras e os livros‖, temos exemplo de voz passiva com sujeito paciente composto e agente indeterminado. (7) Em ―quando cheguei o relógio ao ouvido‖, o verbo ―cheguei‖ foi empregado com regência transitiva direta e indireta. Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 85 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. (8) No trecho ―O retrato de Escobar, que eu tinha ali, ao pé do de minha mãe, falou-me como se fosse a própria pessoa‖, o termo ―O retrato de Escobar‖ é sujeito explícito de ―falou‖ e implícito de ―fosse‖; além disso, a estrutura conectiva ―como se‖ indica realidade virtual ou imaginária. (9) Em ―Sancha e Capitu eram tão amigas que seria um prazer mais para elas irem juntas‖, o vocábulo ―que‖ pode ser substituído por ―porquanto‖, sem prejuízo para a correção gramatical e para os sentidos do texto. (10) No último parágrafo, as formas verbais destacadas estão no singular porque o sujeito de cada uma delas é genérico ou indeterminado. Texto para os itens de 11 a 20 Leia o texto seguinte para responder aos itens propostos. Um conhecido chegou, pediu licença, foi sentando e principiando a conversar. Não gostava de corridas nem de remo. Por natação sim, era doido. Só pode ter interesse por corrida quem tem um cavalo amigo do peito correndo. Aí, sim, se pode entusiasmar, torcer e até morrer de colapso. Mas a frio, escolher um puro-sangue desconhecido e gastar com ele o ouro dezoito quilates das nossas emoções, sem nenhuma ligação afetiva? Burrice. O mesmo com o remo; então a gente espicha o pescoço, vê um cara qualquer fazendo força nas pás e diz: "vou apostar naquele?" Não. Não era homem pra isso. Vem de trás uma gargalhada terrível, de mulher, um risco de som duro, no espaço. A mulher ria, ria por tudo e de tudo, por nada e de nada. Devia rir das coisas de rir e também das coisas de chorar. Ria só com a garganta, sem um pingo de alma. E, bem pensado, é um ultraje ao sexo, um atentado à saúde pública o riso de uma mulher que não sabe rir. Todas as mulheres deveriam saber rir e as que não sabem deveriam aprender. E devia também haver na lei do silêncio um artigo condenando ao silêncio do riso, a qualquer hora do dia ou da noite, uma mulher que não sabe rir. Devia, mas não há. Por isso, aquela mulher irritava todo o mundo com a sua risada enervante. Olhei de novo. O jornal empapado tinha sumido, era um pedaço morto de areia o lugar onde estavam a cadelinha e seu dono e eu sentia nas costas um silêncio de sepultura. Longe, no mar grosso, um pontinho e um braço acenando. Não se tratava de nenhum afogado. Era o amigo me dizendo adeus. Não havia mais nada. Estava tudo tão quieto e tão vazio como a cidade numa tarde de sábado. O mar já tinha fechado o expediente e dava descanso à praia. Percebi que tinha começado a ser domingo. (Clarice Lispector, ―Hora em que começa o domingo‖.) Considerando as ideias do texto de Clarice Lispector bem como as estruturas linguísticas nele utilizadas, julgue os itens a seguir. (11) Infere-se do texto que a autora considera uma burrice o fato de seu conhecido gastar com um desconhecido puro sangue valores exorbitantes, sem que houvesse ligação emocional com o animal. (12) Na linha 1 do texto, as vírgulas foram empregadas para separar orações coordenadas entre si. (13) Em ―Por natação sim, era doido. Só pode ter interesse por corrida quem tem um cavalo amigo do peito correndo‖, os termos destacados desempenham igual função sintática. (14) A relação entre as ideias do texto admite que, em ―A mulher ria, ria por tudo e de tudo, por nada e de nada. Devia rir das coisas de rir e também das coisas de chorar‖, o sinal de ponto depois de ―nada‖ seja substituído pelo sinal de ponto e vírgula, fazendo-se o devido ajuste na letra inicial maiúscula. (15) As regras gramaticais e a coerência textual permitem que o trecho ―E devia também haver na lei do silêncio um artigo condenando ao silêncio do riso, a qualquer hora do dia ou da noite, uma mulher que não sabe rir‖ admita a seguinte reescritura: ―E deviam também existir, na lei do silêncio, um artigo que condenasse Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 86 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. ao silêncio do riso, em qualquer hora do dia ou da noite, uma mulher que não soubesse rir‖. (16) No trecho ―O jornal empapado tinha sumido, era um pedaço morto de areia o lugar onde estavam a cadelinha e seu dono e eu sentia nas costas um silêncio de sepultura‖, pode-se, sem prejuízo para a correção gramatical, substituir ―onde‖ por ―em que‖ ou ―no qual‖; além disso, a forma verbal ―estavam‖ pode ser substituída por ―estava‖. (17) Em ―Estava tudo tão quieto e tão vazio como a cidade numa tarde de sábado‖, há, em rigor, apenas uma oração absoluta. (18) No trecho ―A mulher ria, ria por tudo e de tudo, por nada e de nada‖ as duas ocorrências da preposição ―por‖ introduzem adjuntos adverbiais de causa, e as duas ocorrências da preposição ―de‖, complementos verbais indiretos. (19) As regras gramaticais e a coerência textual permitem que, em ―Vem de trás uma gargalhada terrível, de mulher, um risco de som duro,no espaço‖, o termo ―de mulher‖ seja registrado depois de ―gargalhada‖, o que dispensaria o emprego das vírgulas, a fim de tornar o texto mais claro. (20) No último período do texto, o complemento verbal de ―Percebi‖ é representado por uma oração desenvolvida. RESPOSTAS COMENTADAS (1) Errado. Apesar de narrado em primeira pessoa, o texto não apresenta traços alegóricos (conotações, personificações, simbologias) para mostrar, sob uma óptica crítica, as dificuldades presentes nas relações humanas. Trata-se de uma narração subjetiva, em que o narrador também é personagem. (2) Certo. Em ―Ele [Escobar] foi o terceiro na troca das cartas (trocar cartas/ relação completiva) entre mim e Capitu (trocar entre mim e Capitu/ relação completiva)‖, os termos ―das cartas‖ e ―entre mim e Capitu‖ desempenham igual função sintática: são complementos nominais do substantivo abstrato cognato de verbo ―troca‖. (3) Certo. No trecho ―As relações que (= as quais) travou com o pai de Sancha estreitaram as (= aquelas relações) que (= as quais) já trazia com Capitu‖, as ocorrências da palavra ―que‖ desempenham funções morfossintáticas idênticas: são pronomes relativos com função sintática de objetos diretos. Substitua a palavra ―que‖ pelo antecedente: as relações (ele) travou com o pai de Sancha; aquelas relações (ele) já trazia com Capitu. Agora, observe a ordem direta: ele travou (v.t.d) as relações (o.d.) com o pai de Sancha; ele já trazia (v.t.d) aquelas relações (o.d.) com Capitu. Entendeu? (4) Certo. No fragmento ―A princípio, custou-lhe a ela aceitá-lo (= aceitar + o)‖, Machado de Assis constrói uma estrutura formada por uma oração principal (―custou-lhe a ela‖) seguida de uma oração subordinada substantiva reduzida de infinitivo (aceitá-lo). Que custou a ela? Aceitá-lo (sujeito oracional). Ademais, na oração principal o objeto indireto pleonástico tem, sim, a função de evitar ambiguidade. Caso a construção fosse somente ―Custou-lhe aceitar‖, ficaria o questionamento: custou a ele ou a ela aceitar? (5) Certo. Em ―Capitu entregou-lhe a primeira carta, que foi mãe e avó das outras‖, Machado de Assis se utiliza de linguagem com valor translato (= valor conotativo, figurado), com vistas a explicitar a ideia de que Capitu entregara mais de uma carta a Escobar. (6) Certo. No trecho ―Assim se (partícula apassivadora) formam (v.t.d.) as afeições e os parentescos, as aventuras e os livros (sujeito paciente composto posposto)‖, temos exemplo de voz passiva sintética ou pronominal, em virtude da presença da partícula apassivadora) com sujeito paciente composto e agente indeterminado. Observe que a voz passiva analítica confirma que o agente da passiva fica indeterminado: ―As afeições e os parentescos, as aventuras e os livros são formados‖ (por quem? = agente indeterminado). Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 87 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. (7) Certo. Em ―quando cheguei ( = aproximei) o relógio ao ouvido‖, o verbo ―cheguei‖ foi empregado com regência transitiva direta e indireta: o relógio (objeto direto) ao ouvido (objeto indireto). (8) Certo. No trecho ―O retrato de Escobar, que eu tinha ali, ao pé do de minha mãe, falou-me como se (ele = o retrato de Escobar) fosse a própria pessoa‖, o termo ―O retrato de Escobar‖ é sujeito explícito de ―falou‖ e implícito de ―fosse‖; além disso, a estrutura conectiva ―como se‖ (com valor comparativo e condicional) indica realidade virtual ou imaginária. Não era a própria pessoa (= realidade factual). Era apenas o retrato. (9) Errado. Em ―Sancha e Capitu eram tão amigas que = conjunção consecutiva) seria um prazer mais para elas irem juntas‖, o vocábulo ―que‖ não pode ser substituído por ―porquanto‖, conectivo que traduz ideia de causa ou explicação. (10) Errado. As ocorrências do verbo ―haver‖ (= existir) não apresentam sujeito e, portanto, são impessoais. No entanto, o verbo ―seria‖ apresenta a oração ―irem juntas‖ como sujeito. Observe: ―irem juntas seria um prazer mais para elas‖. (11) Errado. Releia o seguinte trecho: ―Um conhecido chegou, pediu licença, foi sentando e principiando a conversar. (Ele) Não gostava de corridas nem de remo. Por natação sim, era doido‖. O trecho seguinte se refere a qualquer pessoa, não ao conhecido. (12) Certo. Na linha 1 do texto, as vírgulas foram empregadas para separar orações coordenadas (independentes sintaticamente) entre si. (13) Certo. Em ―Por natação (complemento nominal do adjetivo ―doido‖) sim, era doido. Só pode ter interesse por corrida (complemento nominal do substantivo abstrato ―interesse‖) quem tem um cavalo amigo do peito correndo‖, os termos destacados desempenham igual função sintática. (14) Certo. A relação entre as ideias do texto admite que, em ―A mulher ria, ria por tudo e de tudo, por nada e de nada. Devia rir das coisas de rir e também das coisas de chorar‖, o sinal de ponto depois de ―nada‖ seja substituído pelo sinal de ponto e vírgula, fazendo-se o devido ajuste na letra inicial maiúscula: ―A mulher ria, ria por tudo e de tudo, por nada e de nada; (ela) devia rir das coisas de rir e também das coisas de chorar‖. O sinal de ponto e vírgula separa períodos independentes sintaticamente entre si. (15) Errado. As regras gramaticais e a coerência textual permitem que o trecho ―E devia também haver na lei do silêncio um artigo condenando ao silêncio do riso, a qualquer hora do dia ou da noite, uma mulher que não sabe rir‖ admita a seguinte reescritura: ―E devia também existir, na lei do silêncio, um artigo que condenasse ao silêncio do riso, em qualquer hora do dia ou da noite, uma mulher que não soubesse rir‖. Veja a ordem direta: ―um artigo devia existir‖. (16) Certo. No trecho ―O jornal empapado tinha sumido, era um pedaço morto de areia o lugar onde estavam a cadelinha e seu dono e eu sentia nas costas um silêncio de sepultura‖, pode-se, sem prejuízo para a correção gramatical, substituir o pronome relativo ―onde‖ por ―em que‖ ou ―no qual‖; além disso, a forma verbal ―estavam‖ pode ser substituída por ―estava‖, já que, com sujeito composto posposto, admite- se a concordância apenas com o termo mais próximo (―a cadelinha‖). (17) Errado. Em ―Estava tudo tão quieto e tão vazio como a cidade numa tarde de sábado (está)‖, há, em rigor, duas orações. Nas orações subordinadas adverbiais comparativas, é comum o segundo verbo ficar implícito: ―Ela fala como um papagaio (fala). (18) Certo. No trecho ―A mulher ria, ria (v.t.i) por tudo (adjunto adverbial de causa) e de tudo (objeto indireto), por nada (adjunto adverbial de causa) e de nada (objeto indireto)‖ as duas ocorrências da preposição ―por‖ introduzem adjuntos adverbiais de causa, e as duas ocorrências da preposição ―de‖, complementos verbais indiretos. Entendeu? Um gesto positivo, por favor! (19) Errado. As regras gramaticais e a coerência textual não permitem que, em ―Vem de trás uma gargalhada terrível, de mulher, um risco de som duro, no espaço‖, o termo ―de mulher‖ seja registrado depois de ―gargalhada‖, o que dispensaria o Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 88 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. emprego das vírgulas, a fim de tornar o texto mais claro. Veja como ficaria o trecho: ――Vem de trás uma gargalhada de mulher terrível um risco de som duro, no espaço‖. O adjetivo ―terrível‖ deixaria de caracterizar ―uma gargalhada‖ e passaria a caracterizar ―mulher‖; além disso, o trecho ficaria incompreensível (incoerente) com a retirada das vírgulas. (20) Certo. No último período do texto, o complemento verbal de ―Percebi (v.t.d)‖ érepresentado por uma oração subordinada substantiva objetiva direta desenvolvida, haja vista o fato de a conjunção integrante ―que‖ estar explícita. Bom demais! PROVA 21 TEXTO I Leia o texto abaixo para responder aos itens de 1 a 10. ESTE QUINCAS BORBA, se acaso me fizeste o favor de ler as Memórias Póstumas de Brás Cubas, é aquele mesmo náufrago da existência, que ali aparece, mendigo, herdeiro inopinado, e inventor de uma filosofia. Aqui o tens agora em Barbacena. Logo que chegou, enamorou-se de uma viúva, senhora de condição mediana e parcos meios de vida, mas tão acanhada que os suspiros no namorado ficavam sem eco. Chamava-se Maria da Piedade. Um irmão dela, que é o presente Rubião, fez todo o possível para casá- los. Piedade resistiu, um pleuris a levou. Foi esse trechozinho de romance que ligou os dois homens. Saberia Rubião que o nosso Quincas Borba trazia aquele grãozinho de sandice, que um médico supôs achar- lhe? Seguramente, não; tinha-o por homem esquisito. É, todavia, certo que o grãozinho não se despegou do cérebro de Quincas Borba, nem antes, nem depois da moléstia que lentamente o comeu. Quincas Borba tivera ali alguns parentes, mortos já agora em 1867; o último foi o tio que o deixou por herdeiro de seus bens. Rubião ficou sendo o único amigo do filósofo. Regia então uma escola de meninos, que fechou para tratar do enfermo. Antes de professor, metera ombros a algumas empresas, que foram a pique. Durou o cargo de enfermeiro mais de cinco meses, perto de seis. Era real o desvelo de Rubião, paciente, risonho, múltiplo, ouvindo as ordens do médico, dando os remédios às horas marcadas, saindo a passeio com o doente, sem esquecer nada, nem o serviço da casa, nem a leitura dos jornais, logo que chegava a mala da Corte ou a de Ouro Preto. ─ Tu és bom, Rubião, suspirava Quincas Borba. ─ Grande façanha! Como se você fosse mau! A opinião ostensiva do médico era que a doença do Quincas Borba iria saindo devagar. Um dia, o nosso Rubião, acompanhando o médico até à porta da rua, perguntou- lhe qual era o verdadeiro estado do amigo. Ouviu que estava perdido, completamente perdido; mas, que o fosse animando. Para que tornar-lhe a morte mais aflitiva pela certeza?... ─ Lá isso, não, atalhou Rubião ─ para ele, morrer é negócio fácil. Nunca leu um livro que ele escreveu, há anos, não sei que negócio de filosofia... ─ Não; mas filosofia é uma cousa, e morrer de verdade é outra; adeus. Quincas Borba (fragmento/capítulo IV). Obra Completa, de Machado de Assis, vol. I, Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994. Com base no texto, julgue os itens seguintes. Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 89 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. (1) Em ―... se acaso me fizeste o favor de ler as Memórias Póstumas de Brás Cubas‖, a estrutura ―se acaso‖ é equivalente a ―se caso‖ ou ―eventualmente‖, podendo ser substituída por qualquer uma dessas formas, sem prejuízo para a correção gramatical e para a coerência textual. (2) O vocábulo ―inopinado‖ (linha 2) pode ser substituído por ―certo‖ ou ―convicto‖, sem alteração do sentido original. (3) O trecho ―Logo que chegou, enamorou-se de uma viúva, senhora de condição mediana e parcos meios de vida, mas tão acanhada que os suspiros no namorado ficavam sem eco‖ pode ser reescrito da seguinte forma, sem prejuízo para a correção gramatical e para a coer6encia textual: ―Assim que chegou, enamorou-se de uma viúva ─ senhora de condição mediana e modestos meios de vida ─ contudo, tão acanhada que os suspiros no namorado ficavam sem eco‖. (4) Em ―Um irmão dela, que é o presente Rubião, fez todo o possível para casá-los‖, as vírgulas isolam oração subordinada adjetiva explicativa. (5) Em ―Piedade resistiu, um pleuris a levou‖, o vocábulo ―pleuris‖ foi empregado com valor translato. (6) No trecho ―Foi esse trechozinho de romance que ligou os dois homens‖, a palavra ―que‖ é, morfologicamente, pronome relativo e exerce função sintática de sujeito do verbo ―ligou‖. (7) Nos fragmentos ―... tinha-o por homem esquisito‖ e ―...que o deixou por herdeiro de seus bens‖, os termos destacados desempenham igual função sintática. (8) No segundo parágrafo, a oração ―que foram a pique‖, com função adjetiva, significa ―que cresceram energicamente‖. (9) O período ―Durou o cargo de enfermeiro mais de cinco meses, perto de seis‖, construído por meio de uma anástrofe, apresenta o sujeito simples posposto ao verbo. (10) Em ―Um dia, o nosso Rubião, acompanhando o médico até à porta da rua, perguntou-lhe qual era o verdadeiro estado do amigo‖, o acento grave indicador de crase é opcional; o pronome ―lhe‖ exerce função sintática de objeto indireto; e a oração ―qual era o verdadeiro estado do amigo‖ classifica-se em subordinada substantiva objetiva direta. TEXTO II Leia o texto a seguir para responder aos itens de 11 a 20. A instrumentalização da cidadania e da soberania popular, em uma democracia contemporânea, faz-se pelo instituto da representação política. E a transformação da soberania popular em representação se dá, em grande parte, por meio da eleição. O povo a que remete a ideia de soberania popular constitui uma unidade, e não, a soma de indivíduos. Jurídica e constitucionalmente, a representação ―representa‖ o povo (e não, todos os indivíduos). Além disso, não há propriamente mandato, pois a função do representante se dá nos limites constitucionais e não se determina por instruções ou cláusulas estabelecidas entre ele (ou o conjunto de representantes) e o eleitorado. As condições para o exercício do mandato e, no limite, seu conteúdo estão predeterminados na Constituição e apenas nela. Estritamente, sequer é possível falar em representação, pois não há uma vontade pré-formada. Há a construção de uma vontade, limitada apenas aos contornos constitucionais. Eneida Desiree Salgado. Princípios constitucionais estruturantes do direito eleitoral. Tese de doutoramento. Curitiba: Universidade Federal do Paraná, 2010. Internet: <http://dspace.c3sl.ufpr.br> (com adaptações). Julgue os itens de acordo com as informações presentes no texto e os seus aspectos linguísticos e tipológicos. Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 90 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. (11) O representante — um deputado federal, por exemplo — age conforme determinação legal constitucional, e não, segundo a vontade do povo. (12) O representante representa o indivíduo, ao passo que a representação ―(ou o conjunto de representantes)‖ (linhas 7 e 8) representa o povo. (13) A ―vontade pré-formada‖ (linha 10) corresponderia aos anseios da ―soma de indivíduos‖ (linhas 4 e 5). (14) A expressão ―de indivíduos‖ (linhas 4 e 5) poderia ser substituída por individual sem que houvesse alteração do sentido textual. (15) O instituto da representação política constitui o meio pelo qual a cidadania e a soberania popular são operacionalizadas. (16) A rede temática do texto permite afirmar que, mediante o processo eleitoral, é possível atender às necessidades de cada um dos cidadãos de uma nação. (17) O pronome ―ele‖ (linha 7) tem como referente o nome ―representante‖ (linha 6). (18) A correção gramatical do texto seria mantida caso a expressão ―aos contornos constitucionais‖ (linha 11) fosse substituída por ―à legislação constitucional‖. (19) Identifica-se no texto ambivalência estrutural, evidenciada pela presença de trechos tipicamente dissertativos e outros marcadamente narrativos. (20) Em ―O povo a que remete a ideia de soberania popular constitui uma unidade‖, a palavra ―que‖ introduzoração subordinada adjetiva de caráter restritivo e exerce função sintática de complemento verbal indireto. RESPOSTAS COMENTADAS (1) Errado. Em ―... se acaso me fizeste o favor de ler as Memórias Póstumas de Brás Cubas‖, a estrutura ―se acaso‖ é equivalente somente a ―se eventualmente‖ (conjunção condicional + advérbio). ―Se caso‖ é junção errada de duas conjunções condicionais. (2) Errado. O vocábulo ―inopinado‖ (linha 2) pode ser substituído por ―inesperado‖ ou ―repentino‖, sem alteração do sentido original. (3) Errado. O trecho ―Logo que chegou, enamorou-se de uma viúva, senhora de condição mediana e parcos meios de vida, mas tão acanhada que os suspiros no namorado ficavam sem eco‖ pode ser reescrito da seguinte forma, sem prejuízo para a correção gramatical e para a coerênncia textual: ―Assim que chegou, enamorou-se de uma viúva ─ senhora de condição mediana e modestos meios de vida ─, contudo tão acanhada que os suspiros no namorado ficavam sem eco‖. Observe que a vírgula deve ser registrada antes da conjunção adversativa ―contudo‖, e não depois dela. (4) Certo. Em ―Um irmão dela, que é o presente Rubião, fez todo o possível para casá- los‖, as vírgulas isolam oração subordinada adjetiva explicativa, introduzida pelo pronome relativo ―que‖. (5) Errado. Em ―Piedade resistiu, um pleuris a levou‖, o vocábulo ―pleuris‖ foi empregado com valor literal, real (e não translato, conotativo). Pleuris, pleurisia ou pleurite é uma inflamação das pleuras pulmonares (parietal e visceral). (6) Errado. No trecho ―Foi esse trechozinho de romance que ligou os dois homens‖, a palavra ―que‖ é partícula expletiva ou de realce e não apresenta função sintática. Observe: Esse trechozinho de romance (foi que) ligou os dois homens. A estrutura ―foi que‖ pode ser eliminada sem prejuízo morfossintático. Tem apenas a função de realçar o termo ―esse trechozinho de romance‖. Entendeu? (7) Certo. Nos fragmentos ―... tinha-o por homem esquisito‖ e ―...que o deixou por herdeiro de seus bens‖, os termos destacados desempenham igual função sintática: são predicativos do objeto direto, representado, nos dois casos, pelo pronome ―o‖. Observe, também, que a preposição ―por‖ tem valor de ―como‖. (8) Errado. No segundo parágrafo, a oração ―que foram a pique‖, com função adjetiva, significa ―que se afundaram, se arruinaram‖. Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 91 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. (9) Certo. O período ―Durou o cargo de enfermeiro mais de cinco meses, perto de seis‖, construído por meio de uma anástrofe (inversão sintática), apresenta o sujeito simples posposto ao verbo. Vejamos a ordem direta: ―O cargo de enfermeiro durou mais de cinco meses, perto de seis‖. (10) Certo. Em ―Um dia, o nosso Rubião, acompanhando o médico até à porta da rua, perguntou-lhe qual era o verdadeiro estado do amigo‖, o acento grave indicador de crase é opcional (até a); o pronome ―lhe‖ exerce função sintática de objeto indireto (o verbo ―perguntar‖ é transitivo direto e indireto) ; e a oração ―qual era o verdadeiro estado do amigo‖ classifica-se em subordinada substantiva objetiva direta. (11) Certo. O representante — um deputado federal, por exemplo — age conforme determinação legal constitucional, e não, segundo a vontade do povo. Releia o trecho: ―Além disso, não há propriamente mandato, pois a função do representante se dá nos limites constitucionais e não se determina por instruções ou cláusulas estabelecidas entre ele (ou o conjunto de representantes) e o eleitorado. As condições para o exercício do mandato e, no limite, seu conteúdo estão predeterminados na Constituição e apenas nela‖. (12) Errado. Segundo o texto, não há vontade individual no processo eleitoral. Em tese, o representante representa o povo. (13) Errado. A ―vontade pré-formada‖ (linha 10) não corresponderia aos anseios da ―soma de indivíduos‖ (linhas 4 e 5), mas aos anseios do povo. (14) Errado. A expressão ―de indivíduos‖ (linhas 4 e 5) corresponde a um complemento nominal e, por isso, não poderia ser substituída por individual, visto que haveria alteração do sentido textual. (15) Certo. A leitura do primeiro parágrafo permite afirmar que o instituto da representação política constitui o meio pelo qual a cidadania e a soberania popular são operacionalizadas. (16) Errado. Mediante o processo eleitoral, não é possível atender às necessidades de cada um dos cidadãos de uma nação. Lembre-se de que, segundo o texto, os representantes representam o povo, e não a soma dos indivíduos que o formam. (17) Certo. O pronome ―ele‖ (linha 7) tem, claramente, como referente o nome ―representante‖ (linha 6). (18) Certo. A correção gramatical do texto seria mantida caso a expressão ―aos contornos constitucionais‖ (linha 11) fosse substituída por ―à legislação constitucional‖. Observe o paralelismo (aos contornos/à legislação): preposição + artigo. (19) Errado. O texto é, fundamentalmente, dissertativo-argumentativo, porque o autor, durante todo o texto, expõe argumentos acerca de uma tese que defende. (20) Certo. Em ―O povo a que remete a ideia de soberania popular constitui uma unidade‖, a estrutura ―a que‖ (preposição + pronome relativo = ao qual) introduz oração subordinada adjetiva de caráter restritivo e exerce função sintática de complemento verbal indireto (O.I.) de ―remete‖. Observe: a ideia de soberania popular remete (v.t.i) ao povo (O.I.). PROVA 22 Texto para os itens de 1 a 5 São 21 milhões de brasileiros entre 12 e 17 anos, 8 milhões deles com o futuro comprometido pela baixa escolaridade e renda da família às quais pertencem. Os números nem chegam a surpreender a quem convive com esses jovens. Mas é de estranhar o fato de uma população tão expressiva e estratégica para o desenvolvimento do País continuar em segundo plano nas políticas públicas e na ação da sociedade. Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 92 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. Hoje, o Brasil gasta em torno de R$ 3 bilhões anuais em programas de renda mínima. É o caso do Bolsa Escola e do Bolsa Alimentação. Os dois benefícios estão dirigidos ao mesmo público — famílias com renda per capita inferior a meio salário mínimo. O problema é que a cobertura dos programas atinge somente os que têm até 15 anos de idade. O relatório sobre a adolescência brasileira, divulgado pelo Fundo das Nações Unidas para Infância (Unicef) deixa clara a insuficiência dessas iniciativas na garantia de um futuro melhor para os jovens. A maioria dos garotos com 15 anos, data em que cessam os benefícios do Bolsa Escola, sequer terminou o ensino fundamental. A falta de qualidade do ensino público torna o quadro ainda mais grave. Adolescentes no 7º e 8º anos muitas vezes são incapazes de compreender um bilhete ou realizar operações matemáticas simples. Também não encontram oportunidades de estágio ou profissionalização. No momento em que as famílias deixam de receber o auxílio do governo, a pressão que nunca deixou de existir para que os filhos ganhem dinheiro aumenta. Segundo o Unicef, 3,3 milhões de adolescentes estão no mercado de trabalho, sempre de forma precoce e precária. É a continuidade de um ciclo de exclusão que os programas de renda mínima foram criados para quebrar. No final das contas, boa parte do investimento feito na infância se perde pela falta de apoio a essa faixa etária. Políticas de renda mínima, entretanto, não podem sozinhas resolver as carências da juventude. É vital que os garotos tenham oportunidade de desenvolver seus talentos dentro e fora da sala de aula.Depoimentos de meninos e meninas de todas as classes dão uma dimensão de como a escola, pública e particular, falha por desperdiçar as habilidades dos alunos, por não aproveitá-la de nenhuma forma. (Correio Braziliense, com adaptações) Com respeito à organização das ideias do texto, julgue os itens a seguir. (1) O texto pode ser assim sintetizado: a insuficiência dos programas de renda mínima e a falta de qualidade do ensino público são os principais problemas que afetam as políticas públicas e a ação da sociedade brasileira. (2) Depreende-se, da argumentação do texto, a seguinte síntese de ideias, redigida, desta vez, sob a forma de um título: Juventude desperdiçada. (3) O trecho a seguir serviria como fechamento para a argumentação do texto: Segundo o Unicef, somente 24% dos adolescentes brasileiros têm acesso a alguma atividade complementar como capoeira, artes, música e teatro. Como recomendou o próprio Unicef, é urgente que todas as políticas públicas, principalmente as de educação, sejam reorganizadas para apoiar os jovens. Do contrário, o desenvolvimento futuro do Brasil estará irremediavelmente comprometido. (4) No que diz respeito à progressividade de ideias, adotou-se o seguinte esquema no texto: número de jovens com o futuro comprometido – programas de renda mínima adotados no Brasil – incapacidade dos adolescentes de compreender aspectos linguísticos e matemáticos – inserção dos adolescentes no mercado de trabalho – falha da escola por desperdiçar habilidades dos alunos. (5) Infere-se do texto que o autor é favorável ao aprimoramento das políticas públicas, especialmente educacionais, a fim de não expor a perigo o futuro de milhões de jovens brasileiros e do País. Texto para os itens de 6 a 10 Mal os Carapicus sentiram a aproximação dos rivais, um grito de alarma ecoou por toda a estalagem e o rolo dissolveu-se de improviso, sem que a desordem cessasse. Cada qual correu à casa, rapidamente, em busca do ferro, do pau e de tudo que servisse para resistir e para matar. Um só impulso os impelia a todos; já não havia ali brasileiros e portugueses, havia um só partido que ia ser atacado pelo partido contrário; os que se batiam ainda há pouco emprestavam armas uns aos outros, limpando com as costas da mão o sangue das feridas. Agostinho, encostado ao lampião do meio do cortiço, cantava Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 93 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. em altos berros uma coisa que lhe parecia responder à música bárbara que entoavam lá fora os inimigos; a mãe dera-lhe licença, a pedido dele, para pôr um cinto de Neném, em que o pequeno enfiou a faca da cozinha. Um mulatinho franzino, que até aí não fora notado por ninguém no São Romão, postou-se defronte da entrada, de mãos limpas, à espera dos invasores; e todos tiveram confiança nele, porque o ladrão, além de tudo, estava rindo. O cortiço , Aluísio Azevedo. Com base no texto, julgue os itens. (6) Em ―Mal os Carapicus sentiram a aproximação dos rivais‖ (l.1) , o termo destacado constitui, sintaticamente, complemento nominal. (7) No trecho ―...cantava em altos berros uma coisa que lhe parecia responder à música bárbara que entoavam lá fora os inimigos‖ (l. 7-8), destacaram-se pronomes relativos que exercem, respectivamente, as funções sintáticas de sujeito e objeto direto. (8) Em ―Um só impulso os impelia a todos‖, temos estrutura sintática pleonástica. (9) Em vez de ―já não havia ali brasileiros e portugueses‖, também estaria correto em estilo formal culto ―já não haviam ali brasileiros e portugueses‖. (10) O acento grave em ―à espera dos invasores‖ justifica-se por se tratar de locução conjuntiva com núcleo feminino. Texto para os itens de 11 a 15 Seis meses após inventado, o cinema chegou ao Brasil. A primeira sala exibidora inaugurou-se na rua do Ouvidor, Rio de Janeiro, em julho de 1897, e 15 anos depois os filmes eram a diversão favorita dos brasileiros. No entanto, as produções eram esporádicas. Acreditam os pesquisadores ter sido o italiano Afonso Segreto o primeiro a registrar imagens do país com uma câmara, em 1898, e nos primeiros dez anos só se produziram alguns filmes de atualidades e ficção de curta-metragem. Mas de 1908 a 1911 fizeram-se películas de todos os gêneros: melodramas, épicos, comédias, dramas históricos, adaptações de peças teatrais, obras religiosas e sátiras políticas como Pega na chaleira, sobre os bajuladores do senador Pinheiro Machado. O cinema brasileiro. Paulo Pisaro. (11) A regência do verbo ―chegar‖ em ―... o cinema chegou ao Brasil‖ (l. 1) é a mesma que se verifica em ―O bêbedo chegou o copo ao braço‖. (12) No segundo período, a palavra ―se‖ constitui partícula apassivadora, e o sujeito está anteposto ao verbo. (13) O antônimo de ―esporádicas‖ (l. 3) é ―corriqueiras‖. (14) Em ―só se produziram alguns filmes de atualidades‖ (l. 3) e em ―fizeram-se películas de todos os gêneros‖ (l .5), os termos destacados desempenham igual função sintática. (15) No último período, temos aposto enumerativo. Texto para os itens de 16 a 20 Segundo a mitologia grega, Posêidon, deus do mar, enviou a Minos, rei de Creta, um touro branco que deveria ser sacrificado em sua honra. Deslumbrado com a beleza do animal, o monarca guardou-o para si. Em represália, Posêidon despertou na rainha Pasífae uma doentia paixão pelo animal. Da união, nasceu o Minotauro, ser monstruoso com corpo de homem e cabeça de touro. Logo após seu nascimento, o Minotauro foi levado ao labirinto, construído pelo arquiteto e inventor Dédalo e de onde ninguém conseguia sair. Anos mais tarde, Minos declarou guerra a Atenas, para vingar o assassinato de seu irmão Androgeu. Vitorioso, exigiu que os vencidos enviassem, a cada nove anos, sete rapazes e sete virgens para Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 94 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. serem devorados pelo Minotauro. Quando os atenienses se preparavam para pagar pela terceira vez o tributo, Teseu se ofereceu como voluntário. Penetrou no labirinto, matou o Minotauro e, guiado por um fio que lhe fora dado por Ariadne, filha de Minos, escapou de Creta em sua companhia e na de seus companheiros atenienses. Enciclopédia Britânica do Brasil (16) Os sintagmas nominais ―Posêidon‖(l. 1) , ―Minos‖ (l. 1) e ―Minotauro‖ (l. 4), no primeiro parágrafo, vêm seguidos de aposto explicativo cada um. (17) Em ―... uma doentia paixão pelo animal‖ (l. 3), o termo destacado constitui complemento nominal. (18) Em ―... exigiu que os vencidos enviassem‖ (l. 5), o primeiro verbo exige complemento representado por uma oração. (19) Em ―Teseu se ofereceu como voluntário‖ (l. 7), o verbo indica ação reflexiva em virtude do pronome ―se‖. (20) Em ―...guiado por um fio que lhe fora dado por Ariadne‖ (l. 7), destacaram-se agentes da voz passiva. RESPOSTAS COMENTADAS (1) Certo. O texto pode ser assim sintetizado: a insuficiência dos programas de renda mínima (Releia: ―O relatório sobre a adolescência brasileira, divulgado pelo Fundo das Nações Unidas para Infância ─ Unicef deixa clara a insuficiência dessas iniciativas na garantia de um futuro melhor para os jovens‖) e a falta de qualidade do ensino público (Releia: ―A falta de qualidade do ensino público torna o quadro ainda mais grave‖) são os principais problemas que afetam as políticas públicas e a ação da sociedade brasileira. (2) Certo. Depreende-se, da argumentação do texto, especialmente por meio do último parágrafo, que se conecta com os anteriores, a seguinte síntese de ideias, redigida, desta vez, soba forma de um título: Juventude desperdiçada. Corrobora essa proposta especialmente o último período. (3) Certo. O trecho a seguir serviria como fechamento para a argumentação do texto, por garantir progressividade e sequência lógica do pensamento: Segundo o Unicef, somente 24% dos adolescentes brasileiros têm acesso a alguma atividade complementar como capoeira, artes, música e teatro. Como recomendou o próprio Unicef, é urgente que todas as políticas públicas, principalmente as de educação, sejam reorganizadas para apoiar os jovens. Do contrário, o desenvolvimento futuro do Brasil estará irremediavelmente comprometido. (4) Errado. No que diz respeito à progressividade de ideias, adotou-se o seguinte esquema no texto: número de jovens com o futuro comprometido – programas de renda mínima adotados no Brasil – insuficiência dos programas governamentais na garantia de um futuro melhor para os jovens e falta de qualidade do ensino público – inserção dos adolescentes no mercado de trabalho – falha da escola por desperdiçar habilidades dos alunos. (5) Certo. Infere-se do texto que o autor é favorável ao aprimoramento das políticas públicas, especialmente educacionais, a fim de não expor a perigo (―irremediavelmente comprometido‖) o futuro de milhões de jovens brasileiros e do País. Isso se confirma com a proposta de inserção de fechamento sugerido pelo item 3. Entendeu? (6) Errado. Em ―Mal os Carapicus sentiram a aproximação dos rivais‖, o termo destacado constitui, sintaticamente, adjunto adnominal (relação subjetiva: os rivais se aproximaram). (7) Certo. No trecho ―...cantava em altos berros uma coisa que (= a qual/ uma coisa) lhe parecia responder à música bárbara (ordem: uma coisa /sujeito/ lhe parecia responder à música bárbara) que (= a qual/ a música bárbara) entoavam lá fora os inimigos (ordem: os inimigos entoavam /v.t.d/ a música bárbara /O.D./ lá fora)‖ , Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 95 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. destacaram-se pronomes relativos que exercem, respectivamente, as funções sintáticas de sujeito e objeto direto. (8) Certo. Em ―Um só impulso os (objeto direto) impelia (v.t.d) a todos (objeto direto preposicionado pleonástico)‖, temos estrutura sintática pleonástica. (9) Errado. Em vez de ―já não havia (= existir) ali brasileiros e portugueses‖, também estaria correto em estilo formal culto ―já não haviam ali brasileiros e portugueses‖. Nesse caso, não admite a forma plural ―haviam‖ por não apresentar sujeito plural. (10) Errado. O acento grave em ―à espera dos invasores‖ justifica-se por se tratar de locução prepositiva com núcleo feminino: ―à espera de‖. (11) Errado. A regência do verbo ―chegar‖ em ―... o cinema chegou (verbo intransitivo) ao Brasil (adjunto adverbial de lugar)‖ não é a mesma que se verifica em ―O bêbedo chegou (verbo transitivo direto e indireto) o copo (objeto direto) ao braço (objeto indireto)‖. (12) Certo. No segundo período, a palavra ―se‖ constitui partícula apassivadora, e o sujeito está anteposto ao verbo: ―A primeira sala exibidora (sujeito paciente anteposto ao verbo) inaugurou-se (verbo transitivo direto + partícula apassivadora = foi inaugurada) na rua do Ouvidor (adjunto adverbial de lugar). (13) Certo. O antônimo (oposto) de ―esporádicas (casuais)‖ é ―corriqueiras (frequentes)‖. (14) Certo. Em ―só se (partícula apassivadora) produziram (v.t.d) alguns filmes de atualidades‖ (sujeito paciente) e em ―fizeram (v.t.d) –se (partícula apassivadora) películas de todos os gêneros‖ (sujeito paciente), os termos destacados desempenham igual função sintática. (15) Certo. No último período, temos aposto enumerativo, que reitera ou reforça ―películas de todos os gêneros‖. (16) Certo. Claramente, os sintagmas nominais ―Posêidon‖ (l. 1) , ―Minos‖ (l. 1) e ―Minotauro‖ (l. 4), no primeiro parágrafo, vêm seguidos de aposto explicativo cada um. (17) Certo. Em ―... uma doentia paixão pelo animal‖ (l. 3), o termo destacado constitui complemento nominal (relação completiva: a ―paixão‖ recai sobre ―o animal‖). O termo preposicionado completa, portanto, o substantivo abstrato. (18) Certo. Em ―... exigiu (v.t.d) que os vencidos enviassem‖ (l. 5), o primeiro verbo exige complemento representado por uma oração subordinada substantiva objetiva direta (19) Certo. Em ―Teseu (sujeito) se (= Teseu/objeto direto reflexivo) ofereceu como voluntário (predicativo do objeto)‖, o verbo indica ação reflexiva em virtude do pronome ―se‖. (20) Certo. Em ―... (foi) guiado por um fio que lhe fora dado por Ariadne‖ (l. 7), destacaram-se agentes da voz passiva analítica. Entendeu tudo? Um gesto positivo, por favor. PROVA 23 TEXTO I Época de eleições sempre é muito agitada. Incrível como muitos aspectos da política se assemelham com religião, dado o fervor com que os adeptos de um ou outro candidato discutem. Seria essa tendência a unir toda forma de poder e, consequentemente, toda forma de defender esse poder algo intrínseco de nossa personalidade? Esse é um bom tema para trabalhos de psicologia evolutiva, mas não é sobre isso que quero escrever agora. O assunto desse tópico, na verdade, é um pouco mais amplo, para discutir pequenos aspectos de nosso processo eleitoral. Em primeiro lugar, por que é que temos eleições? Acho que a resposta mais óbvia é que nosso sistema é de uma democracia indireta, ou seja, o povo em si não participa de todos os passos da Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 96 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. elaboração das leis e do governo em si, mas, na verdade, elege seus representantes. No Brasil, elegemos diretamente representantes para os poderes Executivo e Legislativo. O primeiro aspecto que quero discutir é sobre justamente o processo de eleição. O voto no Brasil é obrigatório. Todo cidadão acima de dezoito anos tem o dever de comparecer no dia e período predeterminados à sua seção eleitoral e depositar seu voto na urna. O voto é facultativo apenas para jovens entre dezesseis e dezoito anos e eleitores com mais de setenta, de acordo com a Constituição Federal, no artigo 14. Embora haja discussão sobre isso, penso que se trata de termos o dever de exercer nosso direito de escolher nossos representantes! Isso soa muito estranho. Entretanto, para um povo que precisa de uma lei para não votar em políticos corruptos talvez não seja tão estranha assim. Na realidade, parece existir um medo generalizado da classe política de nos dar efetivamente este direito. Um medo de haver um esvaziamento de eleitores pelo menos nas primeiras eleições, o que, na minha opinião, demonstraria o tamanho da indignação do povo com tanta corrupção vista nessa classe. Por outro lado, embora tenhamos o dever de comparecer às urnas, não somos obrigados a escolher entre um ou outro candidato. Temos a possibilidade de votar em branco ou nulo. Essa me parece a opção mais democrática e ideal para dar nosso voto de protesto. Vale lembrar que escolher essa opção implica invalidar um voto, tornando a quantidade de votos válidos para que um candidato se eleja em primeiro turno, por exemplo, menor. Rubens Pazza, Folha de São Paulo (com adaptações) Julgue os itens a seguir com base nos aspectos morfossintáticos e estilísticos do texto. (1) Em ―O primeiro aspecto que quero discutir é sobre justamente o processo de eleição‖, há indícios de subjetividade no texto em razão da presença da função dêitica, o que não ocorre em ―Temos a possibilidade de votar em branco ou nulo‖, em que há objetividade. (2) Na linha 2 do texto, o pronome relativo ―que‖,precedido da preposição ―com‖, exerce função sintática de objeto indireto. (3) Em ―..., por que é que temos eleições?‖ e em ―…a resposta mais óbvia é que nosso sistema é de uma democracia indireta‖, as ocorrências destacadas da palavra ―que‖ têm função expletiva. (4) Em ―…mas não é sobre isso‖ e em ―Embora haja discussão sobre isso‖, os conectivos destacados estão no campo da oposição semântica. Destaque-se que o primeiro elemento é adversativo e ocorre nas relações de coordenação, e o segundo elemento é concessivo e ocorre nas relações de subordinação. (5) Na antepenúltima linha do texto, a preposição ―em‖ pode ser registrada após o verbo ―implicar‖, sem que se fira a gramática tradicional ou diacrônica. (6) O trecho ―... embora tenhamos o dever de comparecer às urnas, não somos obrigados a escolher entre um ou outro candidato‖ admite a seguinte reescritura, sem prejuízo para a correção gramatical e para a coerência textual: ―...conquanto se tem o dever de comparecer às urnas, não somos obrigados a escolher dentre um ou outro candidato‖. (7) O texto de Rubens Pazza não evidencia, nos dois parágrafos, elementos dêiticos. (8) No primeiro período do segundo parágrafo a preposição ―sobre‖ pode ser eliminada, sem prejuízo para a correção gramatical e para a coerência textual. (9) No trecho ―Na realidade, parece existir um medo generalizado da classe política de nos dar efetivamente este direito. Um medo de haver um esvaziamento de eleitores pelo menos nas primeiras eleições, o que, na minha opinião, demonstraria o tamanho da indignação do povo com tanta corrupção vista nessa classe‖, os termos destacados são, respectivamente, do ponto de vista sintático, adjunto adnominal, adjunto adnominal e complemento nominal. Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 97 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. TEXTO II Um cientista muito preocupado com os problemas do mundo passava dias em seu laboratório, tentando encontrar meios de minorá-los. Certo dia, seu filho de 7 anos de idade invadiu o seu santuário decidido a ajudá-lo. O cientista, nervoso pela interrupção, tentou fazer o filho brincar em outro lugar. Vendo que seria impossível, procurou algo que pudesse distrair a criança. De repente, deparou com o mapa do mundo. Estava ali o que procurava. Recortou o mapa em vários pedaços e, junto com um rolo de fita adesiva, entregou ao filho dizendo: — Você gosta de quebra-cabeça? Então vou lhe dar o mundo para consertar. Aqui está ele todo quebrado. Veja se consegue consertá-lo bem direitinho. Mas faça tudo sozinho. Pelos seus cálculos, a criança levaria dias para recompor o mapa. Passadas algumas horas, ouviu o filho chamando-o calmamente. A princípio, o pai não deu crédito às palavras do filho. Seria impossível na sua idade conseguir recompor um mapa que jamais havia visto. Relutante, o cientista levantou os olhos de suas anotações, certo de que veria um trabalho digno de uma criança. Para sua surpresa, o mapa estava completo. Todos os pedaços haviam sido colocados nos devidos lugares. Como seria possível? Como o menino havia sido capaz? — Você não sabia como era o mundo, meu filho, como conseguiu? — Pai, eu não sabia como era o mundo, mas, quando você tirou o papel da revista para recortar, eu vi que do outro lado havia a figura de um homem. Quando você me deu o mundo para consertar, eu tentei, mas não consegui. Foi aí que lembrei do homem, virei os recortes e comecei a consertar o homem que eu sabia como era. Quando consegui consertar o homem, virei a folha e vi que havia consertado o mundo! Autor anônimo. Mensagem que circulou por e-mail em fev./2004 (com adaptações). Julgue os itens subsequentes, quanto às ideias, à tipologia textual e à morfossintaxe do texto. (10) O texto, predominantemente descritivo-expositivo, conta o espanto de um homem diante da esperteza de seu filho. (11) Os termos ―com os problemas do mundo‖ (linha 1), ―pela interrupção‖ (linha 3) e ―de uma criança‖ (linha 13), são complementos nominais, respectivamente, dos adjetivos ―preocupado‖, ―nervoso‖ e ―digno‖. (12) A expressão ―A princípio‖ (linha 11) pode ser substituída por ―em princípio‖, sem prejuízo para a correção gramatical e para a coerência textual. (13) Em ―Você não sabia como era o mundo, meu filho, como conseguiu?‖ e em ―Pai, eu não sabia como era o mundo‖, os termos ―meu filho‖ e ―Pai‖ têm, respectivamente, função apositiva e vocativa. (14) A construção ―Foi aí que lembrei do homem‖ obedece aos princípios de regência da norma culta da língua portuguesa. (15) No sexto parágrafo, o adjetivo ―Relutante‖ pode ser deslocado para depois de ―cientista‖, com o emprego da inicial minúscula, dispensando-se o uso de qualquer sinal de pontuação, uma vez que a construção fraseológica estará na ordem direta. TEXTO III Leia o texto a seguir para responder às questões seguintes. A Carolina Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 98 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. Querida ao pé do leito derradeiro Em que descansas dessa longa vida, Aqui venho e virei pobre querida Trazer-te o coração do companheiro. Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro Que, à despeito de toda a humana lida, Fez a nossa existência apetecida E num recanto pos um mundo inteiro. Trago-te flores ─ restos arrancados Da terra que nos viu passar unidos E ora mortos nos deixa e separados. Que eu, se tenho nos olhos malferidos Pensamentos de vida formulados, São pensamentos idos e vividos. (Machado de Assis. In: LINS, Álvaro & BUARQUE DE HOLANDA, Aurélio/ adaptado.) Com base no texto, julgue os itens seguintes. (16) O termo ―Em que‖ (v. 2) representa, sintaticamente, adjunto adverbial. (17) O verbo ―Pulsa‖ (v. 5) classifica-se, quanto à predicação, como transitivo direto e indireto. (18) No verso ―Da terra que (A) nos (B) viu passar unidos (C)‖, destacaram-se, respectivamente: (A) sujeito do verbo ―viu‖; (B) sujeito do verbo ―passar‖; (C) predicativo do sujeito ―nos‖. (19) Em ―Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro/ Que, a despeito de toda a humana lida, / Fez a nossa existência apetecida, destacaram-se os núcleos de um predicado verbo- nominal. (20) Considerando que o texto foi adaptado para a realização desta prova, provocaram- se erros de natureza gramatical nos versos 1, 3, 6 e 8. RESPOSTAS COMENTADAS (1) Errado. Em ―O primeiro aspecto que (eu) quero discutir é sobre justamente o processo de eleição‖ há indícios de subjetividade no texto em razão da presença da função dêitica (―eu‖: dêitico subjetivo, marca de quem redige o texto). Em ―(Nós) Temos a possibilidade de votar em branco ou nulo‖, a subjetividade é transferida: ―Nós‖ (inclusive ―eu‖). (2) Errado. Na linha 2 do texto, o pronome relativo ―que‖, precedido da preposição ―com‖, exerce função sintática de adjunto adverbial de modo. Veja: ―dado o fervor com que os adeptos de um ou outro candidato discutem‖. Como o pronome relativo ―que‖ retoma ―fervor‖, obtém-se: ―... os adeptos de um ou outro candidato discutem com fervor (aspectos da política e da religião)...‖. Portanto, discutem ―com fervor‖. ―fervorosamente‖. (3) Errado. Em ―..., por que é que temos eleições?‖, há a função expletiva (―por que temos eleições), mas em ―…a resposta mais óbvia é que nosso sistema é de uma democracia indireta‖, temos conjunção integrante que introduz oração subordinada substantiva predicativa. (4) Certo. De fato, em ―…mas não é sobre isso‖ e em ―Embora haja discussão sobre isso‖, os conectivos destacados estão no campo da oposição semântica. Destaque- seque o primeiro elemento é adversativo e ocorre nas relações de coordenação, e o segundo elemento é concessivo e ocorre nas relações de subordinação. Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 99 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. (5) Errado. Na antepenúltima linha do texto, a preposição ―em‖ não pode ser registrada após o verbo ―implicar‖, sem que se fira a gramática tradicional ou diacrônica. Segundo esta, o verbo ―implicar‖, com a acepção de ―acarretar‖, é transitivo direto. (6) Errado. O trecho ―... embora tenhamos o dever de comparecer às urnas, não somos obrigados a escolher entre um ou outro candidato‖ não admite a seguinte reescritura, sem prejuízo para a correção gramatical e para a coerência textual: ―...conquanto se tem o dever de comparecer às urnas, não somos obrigados a escolher dentre um ou outro candidato‖. O emprego do conectivo concessivo ―conquanto‖ exige o emprego do verbo do modo subjuntivo: ―tenha‖. Ademais, a forma ―dentre‖ (com valor de ―do meio de‖) não cabe no contexto. Deve-se usar a forma ―entre‖. (7) Errado. O texto de Rubens Pazza evidencia, nos dois parágrafos, elementos dêiticos, marcas de quem redige: ―Acho‖, ―quero discutir‖, ―na minha opinião‖ e outras. (8) Certo. No primeiro período do segundo parágrafo a preposição ―sobre‖ pode ser eliminada, sem prejuízo para a correção gramatical e para a coerência textual. Veja: ―O primeiro aspecto que quero discutir é justamente o processo de eleição‖. Nesse caso, a oração principal apresenta a estrutura de sujeito, verbo de ligação e predicativo, sem prejuízo para a correção gramatical: ―O primeiro aspecto (sujeito) é (verbo de ligação) justamente o processo de eleição (predicativo do sujeito)‖. (9) Certo. No trecho ―Na realidade, parece existir um medo generalizado da classe política (relação subjetiva: o medo parte da classe política) de nos dar efetivamente este direito. Um medo de haver um esvaziamento de eleitores pelo menos nas primeiras eleições, o que, na minha opinião, demonstraria o tamanho da indignação do povo (relação subjetiva: a indignação parte do povo) com tanta corrupção vista nessa classe (relação completiva: a indignação recai sobre a corrupção)‖, os termos destacados são, respectivamente, do ponto de vista sintático, adjunto adnominal (relação subjetiva), adjunto adnominal (relação subjetiva) e complemento nominal (relação completiva). (10) Errado. O texto, predominantemente narrativo, conta o espanto de um homem diante da esperteza de seu filho. (11) Errado. No trecho ―O cientista, (que ficou) nervoso pela interrupção, tentou fazer o filho brincar‖, o termo ―pela interrupção‖ indica a causa de o cientista ter ficado nervoso. Portanto, tem-se um adjunto adverbial de causa. (12) Errado. A expressão ―A princípio‖ (= Em primeiro lugar) não pode ser substituída por ―em princípio‖ (= em tese). As expressões apresentam valores semânticos diferentes. (13) Errado. Em ―Você não sabia como era o mundo, meu filho, como conseguiu?‖ e em ―Pai, eu não sabia como era o mundo‖, os termos ―meu filho‖ e ―Pai‖ têm função vocativa, uma vez que servem para chamar alguém. (14) Errado. A construção ―Foi aí que lembrei do homem‖ obedeceria aos princípios de regência da norma culta da língua portuguesa se fosse escrita assim: ―Foi aí que me lembrei do homem‖ (lembrar-se de). (15) Errado. No sexto parágrafo, o adjetivo ―Relutante‖ pode ser deslocado para depois de ―cientista‖, com o emprego da inicial minúscula e das vírgulas (para preservar a função predicativa e o sentido original): ―O cientista, relutante, levantou os olhos de suas anotações...‖. (16) Certo. O termo ―Em que‖ (v. 2) representa, sintaticamente, adjunto adverbial adjunto adverbial de lugar. Como o pronome relativo ―que‖ retoma ―o leito derradeiro‖, obtém-se: ―No leito derradeiro (tu) descansas desta longa vida‖. Veja a ordem direta: ―Tu (sujeito) descansas (v.t.i.) desta longa vida (objeto indireto) no leito derradeiro (adjunto adverbial de lugar). (17) Errado. O verbo ―Pulsa‖ (v. 5) classifica-se, quanto à predicação, como transitivo indireto. Veja a ordem direta: ―Aquele afeto verdadeiro (sujeito) pulsa (v.t.i.) – lhe (objeto indireto). Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 100 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. (18) Certo. No verso ―Da terra que (A) nos (B) viu passar unidos (C)‖, destacaram-se, respectivamente: (A) sujeito do verbo ―viu‖ (o pronome relativo ―que‖ retoma ―a terra‖ ; (B) sujeito do verbo ―passar‖ (nós – representado por ―nos‖ – passamos unidos); (C) predicativo do sujeito ―nos‖ (―unidos tem valor adjetivo e caracteriza o sujeito ―nos‖ – com valor de ―nós‖. (19) Certo. Em ―Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro/ Que, a despeito de toda a humana lida,/ Fez a nossa existência apetecida, destacaram-se os núcleos de um predicado verbo-nominal. O verbo transitivo direto (―Fez‖) e o predicativo do objeto (―apetecida‖ = predicativo do objeto direto ―existência‖) são núcleos concomitantes do predicado. Portanto, o predicado é verbo-nominal. (20) Certo. Considerando que o texto foi adaptado para a realização deste simulado, provocaram-se erros de natureza gramatical nos versos 1, 3, 6 e 8. Verso 1: faltou vírgula após ―Querida‖ (vocativo); verso 3: faltou vírgula após ―virei‖ e ―querida‖ (vocativo); verso 6: deve-se eliminar o acento grave na locução prepositiva com núcleo masculino ―a despeito de‖; verso 8: faltou acento circunflexo na forma verbal ―pôs‖ (monossílabo tônico terminado em ―ôs‖). PROVA 24 TEXTO I Naquele ano, uma noite de agosto, como estivessem algumas pessoas na casa de Botafogo, sucedeu que uma delas, não sei se homem ou mulher, perguntou aos dois irmãos que idade tinham. Paulo respondeu: – Nasci no aniversário do dia em que Pedro I caiu do trono. E Pedro: – Nasci no aniversário do dia em que Sua Majestade subiu ao trono. As respostas foram simultâneas, não sucessivas, tanto que a pessoa pediu-lhes que falasse cada um por sua vez. Esaú e Jacó, Machado de Assis (fragmento) A respeito das ideias e dos aspectos linguísticos do texto acima, julgue os itens a seguir. (1) O texto, de caráter narrativo-descritivo, apresenta ocorrências do discurso direto, do discurso indireto e do discurso indireto livre. (2) O fragmento da obra de Machado de Assis revela aspectos psicológicos, sem relação com a realidade brasileira. (3) Na linha 2, a palavra ―se‖ corresponde a uma conjunção integrante que indica hipótese, conjetura. (4) Na linha 6, a forma ―Sua Majestade‖ não admite a substituição por ―Vossa Majestade‖, uma vez que as formas ―Sua‖ e ―Vossa‖ são empregadas com base em justificativas diferentes. (5) Na linha 1, as duas primeiras vírgulas podem ser substituídas por travessões ou parênteses, sem prejuízo para a correção gramatical e para a coerência textual. Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 101 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. TEXTO II Ora, o que a mãe fez, quando eles entraram e fecharam a porta do quarto, foi pedir-lhes que ficasse cada um do lado da cama e lhe estendessem a destra. Juntou-as sem força e fechou-as nas suas mãos, ardentes. Depois, com a voz expirante e os olhos acesos apenas de febre, pediu-lhes um favor grande e único. Eles iam chorando e calando, porventura adivinhando o favor. — Um favor derradeiro, insistiu ela. — Diga, mamãe. — Vocês vão ser amigos. Sua mãe padeceráno outro mundo se os não vir amigos neste. Peço pouco; a vossa vida custou-me muito, a criação também, e a minha esperança era vê-los grandes homens. Deus não quer, paciência. Eu é que quero saber que não deixo dois ingratos. Anda Pedro, anda Paulo, jurem que serão amigos. Os moços choravam. Se não falavam, é porque a voz não lhes queria sair da garganta. Quando pôde, saiu trêmula, mas clara e forte. — Juro, mamãe! — Juro, mamãe! — Amigos para todo sempre? — Sim. — Sim. — Não quero outras saudades. Estas somente, a amizade verdadeira, e que se não quebre nunca mais. Natividade ainda conservou as mãos deles presas, sentiu-as trêmulas de comoção, e esteve calada alguns instantes. — Posso morrer tranquila. — Não, mamãe, não morre, interromperam ambos. Parece que a mãe quis sorrir a esta palavra de confiança, mas a boca não respondeu à intenção, antes fez um trejeito que assustou os filhos. Paulo correu a pedir socorro. Santos entrou desorientado no quarto, a tempo de ouvir à esposa algumas palavras suspiradas e derradeiras. Esaú e Jacó, Machado de Assis (fragmento) A respeito das ideias e dos aspectos linguísticos do texto acima, julgue os itens a seguir. (6) Na linha 7, a conjunção condicional ―se‖ pode ser substituída por ―caso‖ sem necessidade de ajuste na construção textual. (7) Em ―Eu é que quero saber que não deixo dois ingratos‖, há período composto por quatro orações, com ocorrência de duas conjunções integrantes nas orações desenvolvidas. (8) O trecho ―Quando pôde, saiu trêmula, mas clara e forte‖ pode ser reescrito da seguinte forma, sem prejuízo para a correção gramatical e para a coerência textual: ―Quando lhe foi possível, saiu trêmula, entretanto, clara e vigorosa‖. (9) Em ―— Não, mamãe, não morre, interromperam ambos‖, o sujeito do verbo ―morre‖ está elíptico e corresponde à segunda pessoa do singular. (10) No fragmento ―...a tempo de ouvir à esposa algumas palavras suspiradas e derradeiras‖, o verbo ―ouvir‖ foi construído com regência transitiva direta e indireta. Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 102 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. TEXTO III Estamos no mês natalino. Apesar de não ser a data correta, pois não se sabe ao certo em que dia o Senhor Jesus nasceu, até porque não há uma data específica registrada na Bíblia, o dia 25 de dezembro, tradicionalmente, é considerado o dia do seu nascimento. Por isso, é um dia comemorado e festejado por todos. Para muitos, Natal é um dia especial em que pessoas viajam para rever parentes e amigos. Para outros, Natal é promover festas, é uma oportunidade para se extravasarem os desejos da carne. Para uma criança, é uma data desejada e esperada com muita ansiedade para se ganharem presentes. Talvez, para muitos, o Natal seja um momento do ano em que as famílias se reúnem para se alegrar e agradecer a Deus por mais um ano que se passou. Para os empresários e comerciantes, é um dos eventos festivos do ano que abre o maior espaço para vendas em todos os aspectos. Na verdade, o Natal que a humanidade comemora tem pouco a ver com o nascimento de Jesus. Biblicamente, Ele nasceu um dia em Belém da Judeia. Seu nascimento foi singular, simples e humilde. Em Belém, nasceu Jesus, a parte humana, a carne do verbo, as vestimentas de carne e ossos com as quais o verbo se cobriu. E para o cristão, o que é mesmo Natal? Festas, presentes, compras, viagens, encontros familiares. O cristão deve ter em mente que Natal para ele tem um sentido profundamente espiritual, e não apenas um sentido humano. Émerson Garcia Dutra , titular da Secretaria-Central da IPRB. Com base nos aspectos morfossintáticos e semânticos do texto, julgue os itens a seguir: (11) Em ―...pois não se sabe ao certo em que dia o Senhor Jesus nasceu...‖, a palavra que exerce função morfológica de pronome relativo e é, sintaticamente, núcleo de um adjunto adverbial. (12) No trecho ―o dia 25 de dezembro, tradicionalmente, é considerado o dia do seu nascimento‖, tem-se exemplo de voz passiva analítica; além disso, o termo ―o dia de seu nascimento‖ exerce função sintática de predicativo do sujeito. (13) Em ―Para outros, Natal é promover festas, é uma oportunidade para se extravasarem os desejos da carne‖, a palavra ―se‖ tem a função de apassivar a estrutura oracional. (14) Na construção ―o Natal seja um momento do ano em que as famílias se reúnem para se alegrar e agradecer a Deus por mais um ano que se passou‖, todas as ocorrências da palavra ―se‖ têm função expletiva. (15) Nos períodos ―...é um dos eventos festivos do ano que abre o maior espaço para vendas em todos os aspectos‖ e ―...o Natal que a humanidade comemora tem pouco a ver com o nascimento de Jesus‖, a palavra que apresenta funções sintáticas distintas. (16) Em ―...pois não se sabe ao certo em que dia o Senhor Jesus nasceu...‖, a segunda oração classifica-se em subordinada substantiva subjetiva desenvolvida. Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 103 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. TEXTO IV As capitais brasileiras perdem quase metade (45%) da água retirada dos mananciais em vazamentos de redes de abastecimento, fraudes e falhas de medição. Os 6,14 milhões de litros desperdiçados diariamente nas grandes cidades do País seriam suficientes para atender a 38 milhões de consumidores. Os dados sobre as coberturas e desperdícios nas redes públicas de abastecimento de água e de saneamento estão reunidos em um estudo elaborado pelo Instituto Socioambiental (ISA). O estudo, inédito pela abrangência, ressalta a necessidade urgente de adoção de medidas para expandir as regiões de preservação ambiental e as redes de saneamento básico, assim como para conter a invasão de áreas de mananciais e recuperar aquelas que já foram degradadas em razão da falta de planejamento urbano eficaz — o que acontece na maior parte das grandes cidades. O estudo recomenda, ainda, a intensificação dos esforços de educação ambiental, para que a população compreenda que também é responsável pela conservação da água. O Estado de S.Paulo, 23/3/2014 (com adaptações). Em relação às estruturas linguísticas do texto acima, julgue os itens a seguir. (17) A vírgula logo após ―abastecimento‖ (linha 2) é empregada para isolar expressão apositiva. (18) A expressão ―seriam suficientes‖ (linha 3) está no plural para concordar com ―Os 6,14 milhões de litros‖ (linha 2). (19) A locução conjuntiva ―para que‖ (linha 11) pode, sem prejuízo para a informação original do texto, ser substituída por qualquer uma das seguintes: a fim de que, de modo que, de forma que, contanto que. (20) No trecho ―... recuperar aquelas que já foram degradadas em razão da falta de planejamento urbano eficaz‖ a expressão destacada pode ser substituída por ―em virtude da‖, ―a despeito da‖, por causa da‖, sem prejuízo para a correção gramatical e para a coerência textual. RESPOSTAS COMENTADAS (1) Errado. O texto, de caráter eminentemente narrativo, apresenta somente ocorrências do discurso direto (2º. e 4º. parágrafos) e do discurso indireto (5º parágrafo). (2) Errado. O fragmento da obra de Machado de Assis revela aspectos psicológicos e estabelece relação com a realidade brasileira (―Botafogo‖ e ―Pedro I‖). (3) Certo. Na linha 2, a palavra ―se‖ corresponde a uma conjunção integrante que indica hipótese, conjetura, possibilidade: uma das pessoas poderia ser homem ou uma delas poderia ser mulher. (4) Certo. Na linha 6, a forma ―Sua Majestade‖ (fala-se da pessoa) não admite a substituição por ―Vossa Majestade‖(fala-se com a pessoa), uma vez que as formas ―Sua‖ e ―Vossa‖ são empregadas com base em justificativas diferentes. (5) Errado. Em ―Naquele ano, (em) uma noite de agosto, como estivessem algumas pessoas na casa de Botafogo, sucedeu que...‖, as vírgulas indicam deslocamentos sucessivos de adjuntos adverbiais para o início da construção sintática. Nesse caso, usam-se somente as vírgulas. Se houvesse interrupção sintática (entre o sujeito e o verbo, ou entre o verbo e o complemento), poder-se-iam usar as entrevírgulas, os travessões ou os parênteses, sem prejuízo para a correção gramatical e para a coerência textual. (6) Errado. Na linha 7, a conjunção condicional ―se‖ pode ser substituída por ―caso‖, com necessidade de ajuste na construção textual (forma verbal): ―Sua mãe padecerá no outro mundo caso os não veja amigos neste‖. Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 104 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. (7) Errado. Em ―Eu (é que) quero saber (v.t.d) que não deixo dois ingratos‖, há período composto por duas orações, com ocorrência de uma conjunção integrante na oração subordinada objetiva direta desenvolvida. Ressalte-se que a forma ―é que‖ corresponde a uma partícula expletiva ou de realce (pode ser eliminada sem prejuízo morfossintático). (8) Errado. O trecho ―Quando pôde, saiu trêmula, mas clara e forte‖ não pode ser reescrito da seguinte forma, sem prejuízo para a correção gramatical e para a coerência textual: ―Quando lhe foi possível, saiu trêmula, entretanto, clara e vigorosa‖. O acréscimo da vírgula após a conjunção adversativa ―entretanto‖ produz incorreção gramatical. (9) Certo. Em ―— Não, mamãe, não morre, interromperam ambos‖, o sujeito do verbo ―morre‖ está elíptico e corresponde à segunda pessoa do singular (tu). Observe que Machado de Assis usa, no imperativo negativo, a forma ―morre‖ (tu) ─ com a retirada do ―s‖ do presente do indicativo (tu morres) ─ , que deveria ser empregada apenas no imperativo afirmativo. Em rigor, seriam corretas as formas: ―Não morras (tu)‖ ou ―Não morra (você)‖ (imperativo negativo); ―Morre (tu)‖ ou ―Morra (você)‖ (imperativo afirmativo). Essa troca imprime um tom coloquial ao trecho. (10) Certo. No fragmento ―...a tempo de ouvir (v.t.d.i) à esposa (objeto indireto) algumas palavras suspiradas e derradeiras (objeto direto)‖, o verbo ―ouvir‖ foi construído com regência transitiva direta e indireta. (11) Errado. Em ―...pois não se sabe ao certo em que dia o Senhor Jesus nasceu...‖, a palavra que exerce função morfológica de pronome indefinido interrogativo e é, sintaticamente, adjunto adnominal do substantivo ―dia‖ (núcleo do adjunto adverbial). Veja a ordem direta: ―O Senhor Jesus (sujeito) nasceu (verbo intransitivo) em que dia? (adjunto adverbial de tempo)‖ . (12) Certo. No trecho ―o dia 25 de dezembro, tradicionalmente, é considerado o dia do seu nascimento‖, tem-se exemplo de voz passiva analítica; além disso, o termo ―o dia de seu nascimento‖ exerce função sintática de predicativo do sujeito (termo qualificador de ―o dia 25 de dezembro‖. (13) Certo. Em ―Para outros, Natal é promover festas, é uma oportunidade para se (partícula apassivadora) extravasarem (v.t.d) os desejos da carne (sujeito paciente)‖, a palavra ―se‖ tem a função de apassivar a estrutura oracional. Veja a voz passiva analítica: ―para os desejos da carne serem extravasados‖. (14) Errado. Na construção ―o Natal seja um momento do ano em que as famílias se reúnem para se alegrar e agradecer a Deus por mais um ano que se passou‖, as duas primeiras ocorrências da palavra ―se‖ correspondem a partes integrantes do verbo. Somente a última ocorrência tem função expletiva. O verbo ―reunir‖ conjuga-se pronominalmente (―reunir-se‖) quando significa ―juntar-se‖, ―agregar- se‖. O verbo ―alegrar‖ também se conjuga pronominalmente (―alegrar-se‖) quando significa ―ficar feliz‖. (15) Certo. Nos períodos ―...é um dos eventos festivos do ano / que (= sujeito) abre o maior espaço para vendas em todos os aspectos‖ e ―...o Natal / que (= objeto direto de ―comemora‖) a humanidade (sujeito) comemora (v.t.d) / tem pouco a ver com o nascimento de Jesus‖, a palavra que apresenta funções sintáticas distintas. (16) Certo. Releia o comentário do item 11. Ressalte-se que o pronome indefinido interrogativo, além das conjunções integrantes, introduz oração subordinada substantiva. Em ―...pois não se (partícula apassivadora) sabe (v.t.d) ao certo em que dia o Senhor Jesus nasceu...‖, a segunda oração classifica-se em subordinada substantiva subjetiva desenvolvida. Lembre-se de que a partícula apassivadora transforma o objeto direto em sujeito paciente. Lembre-se, também, de que a preposição ―em‖ não pertence ao sujeito, mas ao adjunto adverbial de tempo. Entendeu? Um gesto positivo, por favor! (17) Errado. A vírgula logo após ―abastecimento‖ (linha 2) é empregada para separar núcleos sucessivos do adjunto adverbial: ―vazamentos‖, ―fraudes‖ e ―falhas‖. (18) Certo. A expressão ―seriam suficientes‖ (linha 3) está no plural para concordar com o sujeito ―Os 6,14 milhões de litros‖ (linha 2), cujo núcleo é o substantivo ―milhões‖. Língua Portuguesa em 560 questões comentadas Prof. Fernando Moura 105 Direitos reservados. Proibida a transmissão deste material sem a prévia autorização do autor. (19) Errado. A locução conjuntiva ―para que‖, que traduz a ideia de finalidade (linha 11), não pode, sem prejuízo para a informação original do texto, ser substituída por ―de modo que‖ e ―de forma que‖, que traduzem a ideia de modo, ou ―contanto que‖, que traduz a ideia de condição. (20) Errado. No trecho ―... recuperar aquelas que já foram degradadas em razão da falta de planejamento urbano eficaz‖ a expressão destacada, que traduz a ideia de causa, não pode ser substituída por ―a despeito da‖, que traduz a ideia de concessão, uma vez que haverá prejuízo para a correção gramatical e para a coerência textual. PROVA 25 TEXTO I Os filhos de Ana eram bons, uma coisa verdadeira e sumarenta. Cresciam, tomavam banho, exigiam para si, malcriados, instantes cada vez mais completos. A cozinha era enfim espaçosa, o fogão enguiçado dava estouros. O calor era forte no apartamento que estavam aos poucos pagando. Mas o vento batendo nas cortinas que ela mesma cortara lembrava-lhe que se quisesse podia parar e enxugar a testa, olhando o calmo horizonte. Como um lavrador. Ela plantara as sementes que tinha na mão, não outras, mas essas apenas. E cresciam árvores. Crescia sua rápida conversa com o cobrador de luz, crescia a água enchendo o tanque, cresciam seus filhos, crescia a mesa com comidas, o marido chegando com os jornais e sorrindo de fome, o canto importuno das empregadas do edifício. Ana dava a tudo, tranquilamente, sua mão pequena e forte, sua corrente de vida. Certa hora da tarde, era mais perigosa. Certa hora da tarde, as árvores que plantara riam dela. Quando nada mais precisava de sua força, inquietava-se. No entanto, sentia-se mais sólida do que nunca, seu corpo engrossara um pouco e era de se ver o modo como cortava blusas para os meninos, a grande tesoura dando estalidos na fazenda. Todo o seu desejo vagamente artístico encaminhara-se há muito no sentido de tornar os dias realizados e belos; com o tempo, seu gosto pelo decorativo se desenvolvera e suplantara a íntima desordem. Parecia ter descoberto que tudo era passível de aperfeiçoamento, a cada coisa se emprestaria uma aparência harmoniosa; a vida podia ser feita pela mão do homem. (Clarice Lispector, ―Amor‖, in Laços de Família) A respeito das ideias e dos aspectos linguísticos do texto acima, julgue os itens a seguir. (1) O termo ―sumarenta‖