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. 1 SEEDF Cargo 2: Professor de Educação Básica - Área de Atuação: Atividades 1 Relação professor/aluno. .................................................................................................................. 1 2 Bases psicológicas da aprendizagem. .............................................................................................. 2 3 Planejamento de ensino em seus elementos constitutivos: objetivos e conteúdos de ensino; métodos e estratégias; multimídia educativa e avaliação educacional. ................................................................... 7 4 Relação entre a teoria e a prática. .................................................................................................. 19 5 Análise de dificuldades, problemas e potencialidades no cotidiano escolar em sua relação com a sociedade. .............................................................................................................................................. 21 6 Educação continuada dos profissionais da escola. ......................................................................... 28 7 Metodologia de ensino: organização didático‐pedagógica e suas implicações na produção do conhecimento em sala de aula; organização didático‐pedagógica e intencionalidade na prática pedagógica. ............................................................................................................................................ 35 8 Andragogia e as considerações curriculares para aprendizagem do estudante adulto. .................. 41 9 A modalidade de Educação de Jovens e Adultos e os princípios norteadores para a formação do sujeito a partir das suas especificidades culturais. ................................................................................. 44 10 Políticas para Educação de Jovens e Adultos como inclusão social, construção da cidadania e educação ao longo da vida. .................................................................................................................... 54 11 Prática pedagógica e áreas do conhecimento. 11.1 Linguagens. 11.2 Matemática. 11.3 Ciências da Natureza. 11.4 Ciências Humanas. ........................................................................................................ 56 Questões ........................................................................................................................................... 56 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 2 Candidatos ao Concurso Público, O Instituto Maximize Educação disponibiliza o e-mail professores@maxieduca.com.br para dúvidas relacionadas ao conteúdo desta apostila como forma de auxiliá-los nos estudos para um bom desempenho na prova. As dúvidas serão encaminhadas para os professores responsáveis pela matéria, portanto, ao entrar em contato, informe: - Apostila (concurso e cargo); - Disciplina (matéria); - Número da página onde se encontra a dúvida; e - Qual a dúvida. Caso existam dúvidas em disciplinas diferentes, por favor, encaminhá-las em e-mails separados. O professor terá até cinco dias úteis para respondê-la. Bons estudos! 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 1 Caro(a) candidato(a), antes de iniciar nosso estudo, queremos nos colocar à sua disposição, durante todo o prazo do concurso para auxiliá-lo em suas dúvidas e receber suas sugestões. Muito zelo e técnica foram empregados na edição desta obra. No entanto, podem ocorrer erros de digitação ou dúvida conceitual. Em qualquer situação, solicitamos a comunicação ao nosso serviço de atendimento ao cliente para que possamos esclarecê-lo. Entre em contato conosco pelo e-mail: professores @maxieduca.com.br O papel do Professor no processo de ensino e aprendizagem1 As relações humanas, embora complexas, são peças fundamentais na realização comportamental e profissional de um indivíduo. Desta forma, a análise dos relacionamentos entre professor/aluno envolve interesses e intenções, sendo esta interação o expoente das consequências, pois a educação é uma das fontes mais importantes do desenvolvimento comportamental e agregação de valores nos membros da espécie humana. Neste sentido, a interação estabelecida caracteriza-se pela seleção de conteúdos, organização, sistematização didática para facilitar o aprendizado dos alunos e exposição onde o professor demonstrará seus conteúdos. No entanto este paradigma deve ser quebrado, é preciso não limitar este estudo em relação comportamento do professor com resultados do aluno; devendo introduzir os processos construtivos como mediadores para superar as limitações do paradigma processo-produto. Segundo GADOTTI (1999), o educador para pôr em prática o diálogo, não deve colocar-se na posição de detentor do saber, deve antes, colocar-se na posição de quem não sabe tudo, reconhecendo que mesmo um analfabeto é portador do conhecimento mais importante: o da vida. Desta maneira, o aprender se torna mais interessante quando o aluno se sente competente pelas atitudes e métodos de motivação em sala de aula. O prazer pelo aprender não é uma atividade que surge espontaneamente nos alunos, pois, não é uma tarefa que cumprem com satisfação, sendo em alguns casos encarada como obrigação. Para que isto possa ser melhor cultivado, o professor deve despertar a curiosidade dos alunos, acompanhando suas ações no desenvolver das atividades. O professor não deve preocupar-se somente com o conhecimento através da absorção de informações, mas também pelo processo de construção da cidadania do aluno. Apesar de tal, para que isto ocorra, é necessária a conscientização do professor de que seu papel é de facilitador de aprendizagem, aberto às novas experiências, procurando compreender, numa relação empática, também os sentimentos e os problemas de seus alunos e tentar levá-los à auto realização. De modo concreto, não podemos pensar que a construção do conhecimento é entendida como individual. O conhecimento é produto da atividade e do conhecimento humano marcado social e culturalmente. O papel do professor consiste em agir com intermediário entre os conteúdos da aprendizagem e a atividade construtiva para assimilação. O trabalho do professor em sala de aula, seu relacionamento com os alunos é expresso pela relação que ele tem com a sociedade e com cultura. ABREU & MASETTO (1990), afirma que “é o modo de agir do professor em sala de aula, mais do que suas características de personalidade que colabora para uma adequada aprendizagem dos alunos; fundamenta-se numa determinada concepção do papel do professor, que por sua vez reflete valores e padrões da sociedade”. Segundo FREIRE (1996), “o bom professor é o que consegue, enquanto fala, trazer o aluno até a intimidade do movimento do seu pensamento. Sua aula é assim um desafio e não uma cantiga de ninar. Seus alunos cansam, não dormem. Cansam porque acompanham as idas e vindas de seu pensamento, surpreendem suas pausas, suas dúvidas, suas incertezas”. Ainda segundo o autor, “o professor autoritário, o professor licencioso, o professor competente, sério, o professor incompetente, irresponsável, o professor amoroso da vida e das gentes, o professor mal- amado, sempre com raiva do mundo e das pessoas, frio, burocrático, racionalista, nenhum deles passa pelos alunos sem deixar sua marca”. Apesar da importância da existência de afetividade, confiança, empatia e respeito entre professores e alunos para que se desenvolva a leitura, a escrita, a reflexão, a aprendizagem e a pesquisa autônoma; por outro, SIQUEIRA (2005), afirma que os educadores não podem permitir que tais sentimentos interfiram no cumprimento ético de seu dever de professor. Assim, situações diferenciadas adotadas com um determinado aluno (como melhorar a nota deste, paraque ele não fique de recuperação), apenas 1 http://www.espacoacademico.com.br/052/52pc_silva.htm 1 Relação professor/aluno. 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 2 norteadas pelo fator amizade ou empatia, não deveriam fazer parte das atitudes de um “formador de opiniões”. Logo, a relação entre professor e aluno depende, fundamentalmente, do clima estabelecido pelo professor, da relação empática com seus alunos, de sua capacidade de ouvir, refletir e discutir o nível de compreensão dos alunos e da criação das pontes entre o seu conhecimento e o deles. Indica também, que o professor, educador da era industrial com raras exceções, deve buscar educar para as mudanças, para a autonomia, para a liberdade possível numa abordagem global, trabalhando o lado positivo dos alunos e para a formação de um cidadão consciente de seus deveres e de suas responsabilidades sociais. Principais Teorias de Aprendizagem Segundo Silva2, as principais interpretações das questões relativas à natureza da aprendizagem remetem a um passado histórico da filosofia e da psicologia. Diversas correntes de pensamento se desenvolveram, definindo paradigmas educacionais como o empirismo, o inatismo ou nativismo, os associacionistas, os teóricos de campo e os teóricos do processamento da informação ou psicologia cognitiva. A corrente do empirismo tem como princípio fundamental considerar que o ser humano, ao nascer, é como uma "tábula rasa" e tudo deve aprender, desde as capacidades sensoriais mais elementares aos comportamentos adaptativos mas complexos. A mente é considerada inerte, e as ideias vão sendo gravadas a partir das percepções. Baseado neste pressuposto, a inteligência é concebida como uma faculdade capaz de armazenar e acumular conhecimento. O inatismo ou nativismo argumenta que a maioria dos traços característicos de um indivíduo é fixado desde o nascimento e que a hereditariedade permite explicar uma grande parte das diferenças individuais físicas e psicológicas. As formas de conhecimento estão pré-determinadas no sujeito que aprende. Para os associacionistas, o principal pressuposto consiste em explicar que o comportamento complexo é a combinação de uma série de condutas simples. Como precursores desta corrente são de pensamento pode-se citar Edward L. Thorndike e B.F. Skinner e suas respectivas teorias do comportamento reflexo ou estímulo-resposta. Para Thorndike apud Pettenger e Gooding, o padrão básico da aprendizagem é uma resposta mecanicista às forças externas. Um estímulo provoca uma resposta. Se a resposta é recompensada, é aprendida. Já para Skinner, a ênfase é dada à questão do controle do comportamento pelos reforços que ocorrem com a resposta ou após a mesma com o propósito de atingir metas específicas ou definir comportamentos manifestos. As grandes escolas da corrente dos Teóricos de Campo, são representadas, na Gestalt pelos alemães Wertheimer, Koffka e Köhler, e na Fenomenologia, por Combs e Snygg (Pettenger e Gooding). Nestas escolas prevalece a concepção de que as pessoas são capazes de pensar, perceber e de responder a uma dada situação, de acordo com as suas percepções e interpretações desta situação. Diferentemente das primeiras, em que o comportamento é sequencial, do mais simples ao mais complexo, nesta corrente, o todo ou total é mais que a soma das partes. Na Gestalt, o paradigma de aprendizagem é a solução de problemas e ocorre do total para as partes. Consiste também na organização dos padrões de percepção. Segundo Fialho, na Gestalt há duas maneiras de se aprender a resolver problemas: pelo aprendizado conduzido ou pelo aprendizado pelo entendimento. Isto significa que conforme a organização da situação de aprendizagem, dirigida (instrucionista) ou autodirigida (ativa), o indivíduo aprende, entretanto, deve-se promover situações de aprendizagem que sejam suficientemente ricas para que o aprendiz possa fazer escolhas e estabelecer relações entre os elementos de uma situação. Escolher entre as quais para ele, aprendiz, conduza a uma estruturação eficaz de suas percepções e significados. Na Fenomenologia, o todo é compreendido de modo mais detalhado, sem realmente fragmentar as partes. Considera, ainda, entre outras premissas, que a procura de adequação ou auto atualização do indivíduo é a força que motiva todo o comportamento. A aprendizagem, como processo de diferenciação, move-se do grosseiro para o refinado. 2 Texto adaptado de SILVA, C. R. O. 2 Bases psicológicas da aprendizagem. 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 3 Os teóricos do Processamento da Informação ou Psicologia Cognitiva, de origem mais recente, reúnem diversas abordagens. Estes teóricos estudam a mente e a inteligência em termos de representações mentais e processos subjacentes ao comportamento observável. Consideram o conhecimento como sistema de tratamento da informação. Segundo Misukami, uma abordagem cognitivista implica em estudar cientificamente a aprendizagem como um produto resultante do ambiente, das pessoas ou de fatores externos a ela. Como as pessoas lidam com estímulos ambientais, organizam dados, sentem e resolvem problemas, adquirem conceitos e empregam símbolos constituem, pois, o centro da investigação. Em essência, na psicologia cognitiva, as atividades mentais são o motor dos comportamentos. Opondo-se à concepção behavorista, os teóricos cognitivos preocupam-se em desvendar a "caixa preta" da mente humana. A noção de representação é central nestas pesquisas. A representação é definida como toda e qualquer construção mental efetuada a um dado momento e em um certo contexto. Portanto, memória, percepção, aprendizagem, resolução de problemas, raciocínio e compreensão, esquemas e arquiteturas mentais são alguns dos principais objetos de investigação da área, cujas aplicações vêm sendo utilizadas na construção de modelos explícitos em formas de programas de computador (softwares), gráficos, arquiteturas ou outras esquematizações do processamento mental, em especial nos sistemas de Inteligência Artificial. Como afirma Sternberg, os psicólogos do processamento da informação estudam as capacidades intelectuais humanas, analisando a maneira como as pessoas solucionam as difíceis tarefas mentais para construir modelos artificiais onde estes modelos tem por objetivo compreender os processos, estratégias e representações mentais utilizadas pelas pessoas no desempenho destas tarefas. Complementando esta classificação, Fialho destaca que os psicólogos cognitivistas procuram compreender a "mente" e sua capacidade (realização) na percepção, na aprendizagem, no pensamento e no uso da linguagem. Assim, a organização do conhecimento, o processamento de informações, a aquisição de conceitos, os estilos de pensamento, os comportamentos relativos à tomada de decisões e resolução de problemas são alguns dos "processos centrais" dos indivíduos dificilmente observáveis e que são investigados. As abordagens cognitivistas clássicas: o construtivismo de Piaget, o sóciointeracionismo de Vygotsky e Wallon Dentre as teorias mais contemporâneas de aprendizagem, em especial as cognitivistas, destacamos a teoria construtivista de Jean Piaget e as teorias sociointeracionistas de Lev Vygotsky e Henri Wallon devido à pertinência com que suas preocupações epistemológicas, culturais, linguísticas, biológicas e lógico-matemáticas têm sido difundidas e aplicadas para o ambiente educacional, em especial na didática e em alguns dos programas de ensino auxiliado por computador, bem como sua influencia no desenvolvimento de novas pesquisas na área da cognição e educação. A abordagem construtivista de Jean Piaget As respostas às questões sobre a natureza da aprendizagem de Piaget são dadas à luz de sua epistemologiagenética, na qual o conhecimento se constrói pouco a pouco, à medida em que as estruturas mentais e cognitivas se organizam, de acordo com os estágios de desenvolvimento da inteligência. A inteligência é antes de tudo adaptação. Esta característica se refere ao equilíbrio entre o organismo e o meio ambiente, que resulta de uma interação entre assimilação e acomodação. A assimilação e a acomodação são, pois, os motores da aprendizagem. A adaptação intelectual ocorre quando há o equilíbrio de ambas. Segundo discorre Ulbritch, a aquisição do conhecimento cognitivo ocorre sempre que um novo dado é assimilado à estrutura mental existente que, ao fazer esta acomodação modifica-se, permitindo um processo contínuo de renovação interna. Na organização cognitiva, são assimiladas o que as assimilações passadas preparam, para assimilar, sem que haja ruptura entre o novo e o velho. Pela assimilação, justificam-se as mudanças quantitativas do indivíduo, seu crescimento intelectual mediante a incorporação de elementos do meio a si próprio. Pela acomodação, as mudanças qualitativas de desenvolvimento modificam os esquemas existentes em função das características da nova situação; juntas justificam a adaptação intelectual e o desenvolvimento das estruturas cognitivas. 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 4 As estruturas de conhecimento, designadas por Piaget (Gaonach’h e Golder) como esquemas, se complexificam sobre o efeito combinado dos mecanismos de assimilação e acomodação. Ao nascer, o indivíduo ainda não possui estas estruturas, mas reflexos (sucção, por exemplo) e um modo de emprego destes reflexos para elaboração dos esquemas que irão se desenvolver. As obras de Piaget e de seus interpretantes discorrem sobre os estágios de desenvolvimento da inteligência, que se efetua de modo sucessivo, segundo a lógica das construções mentais - da inteligência sensório-motora à inteligência operatório formal, conforme se ilustra sinteticamente no quadro: Estágios de desenvolvimento da inteligência segundo Piaget ESTÁGIOS EQUILÍBRIO LÓGICA ORGANIZADORA Sensório-motor 18 meses até 2 anos Não há lógica Operatório concreto Preparação: entre 2 e 7 anos Equilíbrio: entre 7 e 11 anos Lógica das relações e das transformações sobre o material visível (objeto presentes) Operatório formal Cerca de 16 anos Lógica desarticulada do concreto A primeira forma de inteligência é uma estrutura sensório motora, que permite a coordenação das informações sensoriais e motoras. Surge aos cerca de 18 meses. Consuma-se e equilibra-se entre os 18 meses e 2 anos. No estágio das operações concretas, esta estrutura (equilibrada) se acha aperfeiçoada: o que a criança teria adquirido no nível da ação, ela vai aprender a fazer em pensamento. Precede de uma fase de preparação entre 2 e 7 anos e se equilibra entre 7 e 11 anos. No estágio das operações formais, operam-se novas modificações e deve se equilibrar para poder se aplicar, não mais aos objetos presentes, mas aos objetos ausentes, hipotéticos. O desenvolvimento das estruturas mentais segue uma lógica de construção semelhante aos estudos da lógica, ou seja, que o desenvolvimento da inteligência em seus sucessivos estágios segue uma lógica coerente, tal que pode ser descrita em suas estruturas. Segundo levantou Ulbritch, a equilibração, enfatizada no quadro 2.1, é um mecanismo autorregulador, necessário para garantir uma eficiente integração com o meio. Quando um indivíduo sofre um desequilíbrio, de qualquer natureza, o organismo vai buscar o equilíbrio, assimilando ou acomodando um novo esquema. A autora relaciona quatro fatores determinantes do desenvolvimento cognitivo: A equilibração é o primeiro e constitui-se no nível de processamento das reestruturações internas, ao longo da construção sequencial dos estágios. O segundo é a maturação, relacionado à complexificação biológica da maturação do sistema nervoso. Já o terceiro fator é a interação social, relacionado com a imposição do nível operatório das regras, valores e signos da sociedade em que o indivíduo se desenvolve e com as interações que compõem o grupo social. O quarto é referente à experiência ativa do indivíduo. Sobre este fator Misukami afirma que podem ocorrer de três formas: - devido ao exercício, resultando na consolidação e coordenação de reflexos hereditários e exercício de operações intelectuais aplicadas ao objeto; - devido à experiência física, referente à ação sobre o objeto para descobrir as propriedades que são abstraídas destes, sendo que o resultado da ação está vinculado ao objeto; - devido à experiência lógico - matemática, resultantes da ação sobre os objetos, de forma a descobrir propriedades que são abstraídas destas pelo sujeito. Consistem em conhecimentos retirados das ações sobre os objetos, típicas do estágio operatório formal, que é resultado da equilibração. A condição para que seja obtida é a interação do sujeito com o meio. Piaget não desenvolveu uma teoria da aprendizagem, mas sua teoria epistemológica de como, quando e por que o conhecimento se constrói obteve grande repercussão na área educacional. Predominantemente interacionistas, seus postulados sobre desenvolvimento da autonomia, cooperação, criatividade e atividade centrados no sujeito influenciaram práticas pedagógicas ativas, centradas nas tarefas individuais, na solução de problemas, na valorização do erro e demais orientações pedagógicas. 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 5 No plano da informática, o trabalho de Piaget tem contribuído para modelagens computacionais na área de IA em educação, desenvolvimento de linguagens de programação e outras modalidades de ensino auxiliado por computador com orientação construtivista. Dentre os vários programas existentes, o mais popular é o LOGO, caracterizado como ambiente informático embasado no construtivismo. Neste ambiente o indivíduo constrói, ele próprio, os mecanismos do pensamento e os conhecimentos a partir das interações que tem com seu ambiente psíquico e social. A abordagem sócioconstrutiva do desenvolvimento cognitivo de Lev Vygotsky Os trabalhos de Vygotsky centram-se principalmente na origem social da inteligência e no estudo dos processos sóciocognitivo. Segundo Gilli e Gaonach’h, Vygotsky distingue duas formas de funcionamento mental: os processos mentais elementares e os superiores. Os processos mentais elementares correspondem ao estágio de inteligência sensório-motora de Piaget e são resultantes do capital genético da espécie, da maturação biológica e da experiência da criança com seu ambiente físico. Já as funções psicológicas superiores, ressalta Oliveira, são construídas ao longo da história social do homem. Como? Na sua relação com o mundo, mediada pelos instrumentos e símbolos desenvolvidos culturalmente, fazendo com que o homem se distinga dos outros animais nas suas formas de agir no e com o mundo. Fialho destaca que, para Vygotsky, o desenvolvimento humano compreende um processo dialético, caracterizado pela periodicidade, irregularidade no desenvolvimento das diferentes funções, metamorfose ou transformação qualitativa de uma forma em outra, entrelaçando fatores internos e externos e processos adaptativos. A maturação biológica e o desenvolvimento das funções psicológicas superiores dependem, conforme Fialho, do meio social, que é essencialmente semiótico. Aprendizado e desenvolvimento interagem entrelaçados nessa dialética de forma que um acelere ou complete o outro. Gilli diz que a relação entre educação, aprendizagem e desenvolvimento vem em primeiro lugar. Já o papel da mediação social nas relações entre o indivíduo e seu ambiente (mediado pelas ferramentas) e nas atividades psíquicas intraindividuais (mediadas pelos signos) em segundo lugar, e, a passagem entre o interpsíquico e o intrapsíquico nas situações de comunicaçãosocial, em terceiro lugar. Estes são os três princípios fundamentais, totalmente interdependentes nos quais Vygotsky sustenta a teoria do desenvolvimento dos processos mentais superiores. A abordagem de Henri Wallon A gênese da inteligência para Wallon é genética e organicamente social, ou seja, "o ser humano é organicamente social e sua estrutura orgânica supõe a intervenção da cultura para se atualizar". Nesse sentido, a teoria do desenvolvimento cognitivo de Wallon é centrada na psicogênese da pessoa completa. Para Galvão, o estudo de Wallon é centrado na criança contextualizada, onde o ritmo no qual se sucedem as etapas do desenvolvimento é descontínuo, marcado por rupturas, retrocessos e reviravoltas, provocando em cada etapa profundas mudanças nas anteriores. Nesse sentido, a passagem dos estágios de desenvolvimento não se dá linearmente, por ampliação, mas por reformulação, instalando-se no momento da passagem de uma etapa a outra, crises que afetam a conduta da criança. Conflitos se instalam nesse processo e são de origem exógena quando resultantes dos desencontros entre as ações da criança e o ambiente exterior, estruturado pelos adultos e pela cultura e endógenos e quando gerados pelos efeitos da maturação nervosa. Esses conflitos são propulsores do desenvolvimento. Os cinco estágios de desenvolvimento do ser humano apresentados por Galvão sucedem-se em fases com predominância afetiva e cognitiva: Impulsivo-emocional, que ocorre no primeiro ano de vida. A predominância da afetividade orienta as primeiras reações do bebê às pessoas, às quais intermediam sua relação com o mundo físico; Sensório-motor e projetivo, que vai até os três anos. A aquisição da marcha e da prensão, dão à criança maior autonomia na manipulação de objetos e na exploração dos espaços. Também, nesse estágio, ocorre o desenvolvimento da função simbólica e da linguagem. O termo projetivo refere-se ao 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 6 fato da ação do pensamento precisar dos gestos para se exteriorizar. O ato mental "projeta-se" em atos motores. Como diz Dantas, para Wallon, o ato mental se desenvolve a partir do ato motor; - Personalismo, ocorre dos três aos seis anos. Nesse estágio desenvolve-se a construção da consciência de si mediante as interações sociais, reorientando o interesse das crianças pelas pessoas; - Categorial. Os progressos intelectuais dirigem o interesse da criança para as coisas, para o conhecimento e conquista do mundo exterior; - Predominância funcional. Ocorre nova definição dos contornos da personalidade, desestruturados devido às modificações corporais resultantes da ação hormonal. Questões pessoais, morais e existenciais são trazidas à tona. O referido autor ressalta ainda que na sucessão de estágios há uma alternância entre as formas de atividades e de interesses da criança, denominada de "alternância funcional", onde cada fase predominante (de dominância, afetividade, cognição), incorpora as conquistas realizadas pela outra fase, construindo-se reciprocamente, num permanente processo de integração e diferenciação. Outras abordagens sobre aprendizagem Outras correntes teóricas buscaram aprofundar e/ou explicar as teorias mais representativas, propondo inclusive novas abordagens para compreensão dos processos de desenvolvimento cognitivo e aprendizagem. Dentre elas destacam-se: - Albert Bandura, que levanta uma abordagem de aprendizagem social e o papel das influências sociais na aprendizagem. - J. S. Bruner e a teoria de que o desenvolvimento cognitivo se dá numa perspectiva de tratamento da informação, que ocorre de três modos: inativo, onde a informação é representada em termos de ações especificadas e habituais (caminhar, andar de bicicleta); o modo icônico, onde a informação é representada em termos de imagens, e, simbólica, onde a informação é apresentada sobre a forma de um esquema arbitrário e abstrato. - Maturana e Varela, que não desenvolveram um estudo sobre a cognição especificamente, mas sua teoria sobre o homem como um sistema autopoiético tem influenciado bastante a construção de modelos computadorizados. Os autores entendem que os seres vivos são um tipo particular de máquinas homeostáticas. A ideia de autopoiesis é uma expansão da ideia de homeostase, no sentido em que ela transforma todas as referências da homeostase em internas ao sistema e, afirma ou produz a identidade do sistema. O sistema autopoiético é organizado como uma rede de processos de produção de componentes que se regeneram continuamente, pela sua transformação e interação, a rede que os produziu e que constituem o sistema enquanto uma unidade concreta no espaço onde ele existe, especificando o domínio topológico onde ele se realiza como rede. - Robert M. Gagné, que compartilha dos enfoques behavioristas e cognitivistas em sua teoria. Para ele, as fases da aprendizagem se apresentam associadas aos processos internos que, por sua vez, podem ser influenciados por processos externos. Para Gagné, a aprendizagem é um processo de mudança nas capacidades do indivíduo, no qual se produz estados persistentes e é diferente da maturação ou desenvolvimento orgânico. A aprendizagem se produz usualmente mediante interação do indivíduo com seu meio (físico, social, psicológico). As oito fases que constituem o ato de aprendizagem de Gagné. - Paulo Freire não desenvolveu uma teoria da aprendizagem, mas seus postulados sobre a pedagogia problematizadora e transformadora enfatizam uma visão de mundo e de homem não neutro. Assim. o homem é um ser no mundo e com o mundo. A inspiração de seu trabalho nasce de dois conceitos básicos: a noção de consciência dominada mais dois elementos subjetivos que a compõem e a ideia de que há determinadas estruturas que conformam o modo de pensar e agir das pessoas. Essas estruturas impregnam o comportamento subjetivo à percepção e à consciência que cada indivíduo ou grupo tem dos fenômenos sociais. - Howard Gardner muito tem contribuído para o processo educacional. Ele defende que o ser humano possui múltiplas inteligências, ou um espectro de competências manifestadas pela inteligência. Todas essas competências estão presentes no indivíduo, sendo `que se manifestam com maior ou menor intensidade, tornando o indivíduo mais ou menos deficiente, mais ou menos competente dentro de uma ou várias dessas competências. Em sua teoria, defende que os indivíduos aprendem de maneiras diferentes e apresentam diferentes configurações e inclinações intelectuais. Destaca, ainda, veementemente, o papel da educação no desenvolvimento global e aplicação das inteligências. As 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 7 inteligências múltiplas a que se refere Garder são: a lógico-matemática, a linguística, a espacial, a musical, a corporal- sinestésica, a interpessoal e a intrapessoal. Na prática escolar convencional, a concretização das condições de aprendizagem que asseguram a realização do trabalho docente, estão pautadas nas teorias determinando as tendências pedagógicas. Estas práticas possuem condicionantes psico sociopolíticos que configuram concepções inteligência e conhecimento, de homem e de sociedade. Com base nesses condicionantes, diferentes pressupostos sobre o papel da escola, a aprendizagem, a relações professor-aluno, a recursos de ensino e o método pedagógico .... Influenciam e orientam a didática utilizada. Os programas educacionais informatizados, dos diversos tipos, igualmente contém implícito ou explicitamente (ou no uso educacional que se faz deles) os pressupostos teórico metodológicos desses condicionantes). ATENÇÃO CANDIDATO (A) O conteúdo referente ao Planejamento de ensino e seus elementos constitutivos: objetivos e conteúdos de ensino; métodos e estratégias já foi estudado no material Temas Educacionais e Pedagógicos (parte comum a todos oscargos). Não esqueça de estuda-lo! MULTIMÍDIA EDUCATIVA Alfabetização e tecnologia Lápis e papel. Houve uma época em que esses eram os utensílios disponíveis para escrever, tanto na escola como fora dela. Com o passar do tempo, as máquinas de datilografar, primeiro, e os computadores, depois, foram invadindo os mais diversos ambientes, mas não a sala de aula. Uma pena. Se equipamentos desse tipo fazem parte do dia a dia da maioria das pessoas, que os usam socialmente para redigir, não há porque ignorá-los em atividades de alfabetização. Felizmente, a tendência é que isso mude com a informatização das escolas. Há dez anos, 16% delas tinham computador para uso dos alunos e 12% contavam com acesso à internet - só na opção discada -, conforme dados do Ministério da Educação (MEC). Em 2012, eram 57% com micros para uso didático, 52% deles conectados à rede. O recurso deve chegar a todas as escolas nos próximos anos, razão para que você esteja preparado para usá-lo da melhor forma. É preciso estar atento, porém, a um ponto: a presença da tecnologia não é garantia de aprendizagem. Não bastam laptops à disposição na sala, por exemplo, se eles só são usados para jogos - esses aplicativos certamente chamam a atenção da meninada, mas poucos proporcionam desafios e reflexões sobre a leitura e a escrita. Mesmo quem não sabe ler e escrever, acredite, pode enfrentar o computador em atividades com foco na alfabetização. Afinal, muitas crianças aprendem as letras em um teclado e todas podem usá-lo para grafar palavras da maneira que sabem, mesmo que não seja convencionalmente. A argentina Ana Teberosky destaca no livro “Contextos de Alfabetização Inicial” que diante do teclado o aluno usa as duas mãos para digitar e, em vez de traçar grafias, deve escolher uma das opções para apertar: estão à disposição dele todas as letras possíveis para compor uma palavra (um conjunto finito com uma disposição diferente da alfabética). As peculiaridades continuam: o computador permite relacionar as letras impressas no teclado com as imagens que aparecem na tela e escolher formatos variados. Os recursos tecnológicos não são a salvação para o déficit do conhecimento em leitura e escrita, conforme afirma Emilia Ferreiro, psicolinguista argentina radicada no México. Para ela, no entanto, com a ajuda deles ocorrem práticas que levam à alfabetização "que corresponde ao nosso espaço e tempo". No livro “O Ingresso na Escrita e nas Culturas do Escrito”, ela destaca algumas contribuições das tecnologias para o ensino: deixam mais acessível uma grande diversidade de textos (o que é essencial para alfabetizar), dão mais autonomia ao aluno (já que ele tem à disposição ferramentas que apontam 3 Planejamento de ensino em seus elementos constitutivos: objetivos e conteúdos de ensino; métodos e estratégias; multimídia educativa e avaliação educacional. 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 8 falhas na escrita independentemente das indicações do professor, como corretores ortográficos) e reforçam a ideia de que professores ou livros didáticos não são a única fonte de informação. "Com o bom uso da tecnologia, aliado aos outros recursos, a criança tem mais uma possibilidade de entrar em contato com os desafios dessa fase", as possibilidades são muitas. Nos tópicos seguintes, apresentamos projetos didáticos e atividade permanente realizados com sucesso na pré-escola e no 1º ano, em que são usados programas como jogos, o Word e o PowerPoint, e equipamentos como a lousa digital e o Datashow, além da internet. Para que a turma cumpra bem os desafios e avance, você verá, o professor deve continuar realizando um planejamento cuidadoso e intervenções adequadas a cada momento. Os estudantes, por sua vez, seguem refletindo sobre o sistema de escrita, discutindo com seus pares e pedindo informações ao educador sempre que necessário. Enfim, uma alfabetização adequada aos dias de hoje. Projeto didático - Pesquisas em sites confiáveis da internet A professora Fabiana Falcão Lopes, propôs que as crianças de 5 anos elaborassem uma enciclopédia sobre animais ameaçados de extinção. A primeira tarefa era para casa: pesquisar, com a família, sobre algumas espécies. De volta à sala, elas compartilharam as descobertas, mostrando livros ou cópias das páginas da internet. Algumas contaram que os pais escreveram no campo de busca do Google "animais ameaçados de extinção", mas que apareceram muitos resultados. Fabiana, então, lançou duas perguntas: "Como fazer para encontrar os bichos que vivem apenas em algum país?" e "Para procurar um bicho específico, o que escrever?". Aos poucos, a turma concluiu que poderia incluir "do Japão" na busca sobre os animais ali encontrados e que digitando "onça" ou "mico- leão" os resultados seriam apenas sobre cada uma dessas espécies. "Assim, levei todos a pensar nos melhores procedimentos de pesquisa”. Ela discutiu também a importância de selecionar os endereços acessados, mostrando que alguns são mais confiáveis e especializados do que outros. Os pequenos escolheram os animais que tinham interesse em pesquisar: macaco-barrigudo, macaco- aranha, tartaruga-gigante, urso panda e rinoceronte. Combinaram focar o estudo em peso, altura, características físicas, hábitat, causa da extinção e reprodução para compor uma ficha técnica e o texto da enciclopédia. Todos foram para o computador da sala e ficaram ao redor da professora. Fabiana mostrava sua experiência como usuária do equipamento -- com o mouse e o teclado - e em procedimentos de pesquisa. O professor deve apresentar quais sites serão consultados e ler para os pequenos. Na pré- escola, eles ainda não têm autonomia para realizar esse trabalho sozinhos e precisam de muitas orientações. Diante da tela, mesmo sem saber ler, eles encontravam os dados se apoiando em números, imagens e palavras que conhecem. Por exemplo, quando identificavam a grafia de ‘peso’ seguida de um número sabiam que aquilo significava o peso do animal." A educadora imprimiu as páginas com informações úteis sobre os cinco animais e leu o material em voz alta, marcando os dados mais importantes, indicados pela turma. Em seguida, a professora dividiu a criançada em pequenos grupos de forma que seus integrantes tivessem conhecimentos variados. Ela circulava pela sala para orientar a turma sobre o que e como escrever, fazendo intervenções pontuais. "Eu ajudava: as informações técnicas não precisam ser decoradas. Às vezes, é necessário recorrer à fonte de pesquisa e relembrar o que foi visto. Vamos pegar o material e ver se o dado que procuramos foi sublinhado", diz a professora. A primeira versão do texto foi revisada e ilustrada e compôs a publicação impressa com os 20 bichos pesquisados por todas as turmas da pré-escola. Atividade permanente - Na lousa digital e no Excel, jogos desafiadores Camila Pazin coordenadora de sala de informática diz: "Eu e as professoras regentes fazemos um planejamento conjunto de acordo com as necessidades dos alunos do 1º ao 5º ano e os conteúdos que precisam ser trabalhados". Para a sala de Eliana Holanda, do 1º ano, Camila propôs atividades permanentes de exploração dos nomes próprios. Entre as práticas que desenvolviam a leitura, uma tinha como objetivo ligar a foto de alguns alunos da sala ao seu nome usando o mouse. Noutra, o desafio consistia em identificar com uma cor, entre três nomes, o que correspondia à criança mostrada na foto. Outras duas exploravam a escrita. Na primeira, a turma tinha de desembaralhar as letras dos nomes dos amigos usando o mouse. A segunda eram cruzadinhas, preenchidas ao digitar no teclado o nome dos colegas cujas fotos apareciam diante dos quadradinhos. "Quem ainda não tem domínio da escrita consegue fazer a tarefa usando as letras de alguns dos nomes para preencher outros ou pesquisando no 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 9cartaz da sala", diz Eliana. "A todo momento, os alunos precisam repensar o que fizeram", completa Camila. Usando o computador, os estudantes não perdem tempo com o que não é necessário. Não precisam apagar, rasurar ou sujar a folha e sobra mais tempo para pensar na escrita, que é o que importa. Em outra escola, uma atividade permanente usando a lousa digital e seus aplicativos desafia o 1º ano de Ana Gabriela Saar Corrêa. Ela montou um jogo da memória com personagens de histórias lidas pela turma. Nas duplas de cartas, "Penadinho" e "fantasma", por exemplo. "A ideia é que as crianças tentem ler palavras de um mesmo campo semântico. Essa característica facilita a antecipação do que pode estar escrito", explica. Quando elas têm dúvidas, a professora chama a atenção para quais são a primeira e a última letras, dando mais elementos para a leitura. O jogo denuncia os erros - desvirando a carta escolhida, que fica disponível para uma próxima jogada. Para participar, uma dupla por vez vai até a lousa e toca na tela elegendo as cartas que considera as corretas até completar a partida. "Eu monto partidas com seis ou 12 pares de cartas para que haja diferentes níveis de complexidade", diz. Projeto didático - PowerPoint funciona como apoio para seminários Observar o ateliê de artistas plásticos para conhecer os materiais utilizados e as obras produzidas por eles. Esse foi o foco do trabalho proposto pela professora Marcia Ferreira, à turma de 1º ano. A sala foi dividida em dois grupos e cada um entrevistou um profissional. Para isso, todos contavam com um roteiro de questões preparado em conjunto pela sala anteriormente. Marcia e sua assistente, Camila Sampaio Lacerda Ferraz, ficaram responsáveis por fotografar os encontros. De volta à escola, uma equipe tinha de contar à outra o que tinha visto. Os registros das visitas, em forma de desenhos e textos, foram importantes numa etapa seguinte. "Como nem todas escreviam convencionalmente, eu atuava como escriba em alguns momentos e, em outros, eu só orientava ou tirava dúvidas", diz Marcia. O próximo passo foi mostrar aos estudantes as fotos feitas e pedir que selecionassem as que melhor resumiam as visitas. Cada imagem foi legendada, em duplas, e ocupou um slide de um arquivo de PowerPoint. Esse momento gerou um desafio diferente se comparado ao que teria ocorrido se a tarefa tivesse sido feita no papel. "Quando as crianças escrevem no computador, percebem mais facilmente alguns pontos que precisam ser modificados, como a aglutinação das palavras ou a troca de letras", indica Dami Cunha, coordenadora pedagógica. O material foi projetado em um telão, com a ajuda do Datashow, como apoio a uma apresentação oral. Uma dupla por vez falou aos colegas contando sua experiência nos ateliês. "Para evitar duplicidade de informações e garantir uma lógica na sequência das falas, nós compartilhamos no grupo os dados que seriam apresentados pelas duplas", explica Marcia. As educadoras orientavam as duplas: "Se vocês forem descrever o material utilizado pelo artista, melhor mostrarmos a foto dos pincéis, não acham?" ou "Lembrem-se de que na hora de separar as palavras é preciso apertar a tecla do espaço no teclado" e "Prestem atenção nessa palavra. Com que letra ela termina?". Quando as crianças não tinham ideias sobre o que escrever ou precisavam completar alguma informação, retomavam os desenhos e os textos feitos logo após a visita. Como resultado, palavras nem sempre escritas de modo convencional (o que era esperado), mas textos sensíveis e com mensagens consistentes. Concluída essa etapa do trabalho, chegou a hora de compartilhar as informações com todo o grupo. Diante da sala, as duplas se revezavam para falar aos colegas sobre o que tinham visto. "Essa foi uma das primeiras atividades delas no uso do computador, no registro de uma experiência e na apresentação oral. Um desafio grande, mas possível, em todas as etapas", diz Fabiana. Projeto didático - Escrita e revisão facilitadas no Word e no PowerPoint Desde fevereiro, a turma de 1º ano da professora Miruna Genoino, realiza propostas de leitura e escrita no notebook, como listar as brincadeiras conhecidas. No início do segundo semestre, já estava preparada para uma tarefa mais complexa: reescrever Chapeuzinho Vermelho usando o teclado. Para que as crianças aprendessem como se faz uma reescrita, a primeira metade da história foi produzida coletivamente: elas ditavam e a professora digitava no computador, usando o Word. O texto era projetado em um telão por meio do Datashow para que todos acompanhassem. Para completar o texto, a educadora formou duplas de acordo com as hipóteses de escrita. Os alunos se revezavam nas tarefas de ditar e digitar no PowerPoint utilizando o modo de apresentação - quando a tela fica em branco. Andréa Luize, coordenadora chama a atenção para o benefício do uso do computador 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 10 em atividades como essa: "O texto digitado não depende do traçado de cada um, facilitando compreender o que está escrito. Além disso, é mais simples para duas crianças visualizá-lo juntas, na tela". Terminada a primeira versão do texto, os estudantes a imprimiram e anotaram no papel os ajustes necessários, de acordo com os focos de revisão pré-combinados. Além de garantir que os fatos essenciais estivessem citados e que o nome dos personagens Chapeuzinho, Lobo Mau e Caçador estivessem escritos convencionalmente, deveriam prestar atenção na repetição das palavras. "Eles não estão preparados para enxergar todos os erros. É importante selecionar os pontos que devem receber mais atenção", diz Andréa. Miruna escolheu algumas produções e as projetou no telão para discutir a forma de escrever os termos que tinham gerado mais dúvidas ou divergências na escrita. Olhando maneiras diferentes de grafar uma mesma palavra, todos conversavam para chegar à melhor solução. Em seguida, as duplas voltaram a se reunir para decidir as mudanças necessárias em seu texto. Feito isso, foram corrigir a versão no computador. Para tanto, reviram os registros nos papéis, procuraram o trecho correspondente e fizeram os ajustes usando os recursos adequados para isso - as setas do teclado e o mouse - sem precisar apagar e reescrever. "Muitas crianças não conseguem inserir todas as mudanças. Por isso, sempre é necessário acompanhar essa etapa e conferir", conta Miruna. O resultado do trabalho foi impresso em formato de livro e entregue às turmas de 5 anos da pré-escola para que pudessem manusear, além de ouvir a leitura feita pelo professor. Fonte:http://revistaescola.abril.com.br/fundamental-1/alfabetizacao-tecnologia-linguagem-leitura- escrita-756962.shtml Avaliação educacional na contemporaneidade3 A palavra avaliação contém a palavra “valor” acrescida da palavra “ação”; portanto, não se pode fugir dessa concepção valorativa da ação educacional. Casali (2007) define avaliação, “de modo geral, como saber situar cotidianamente, numa certa ordem hierárquica, o valor de algo enquanto meio (mediação) para a realização da vida do(s) sujeitos(s) em questão, no contexto dos valores culturais e, no limite, dos valores universais.” Para o autor avaliar é reconhecer ou atribuir um valor. Em se tratando de valor em educação, ele defende que há que se adotar uma postura radicalmente ética e epistemológica. Os valores são histórica e culturalmente construídos, consequentemente a avaliação é histórica e cultural. Já que o valor só existe como referência mediadora de uma ação concreta, a decorrência disso é que a avaliação educativa não é um fim de processo, mas o seu meio. Existem três âmbitos de alcance dos valores, logo, das avaliações: “Há valores para um sujeito, há valores para uma cultura, há valores para a humanidade. O singular, o parcial, o universal. A avaliação é uma medida e uma referência de valor para um, ou dois, ou os três âmbitos.” (CASALI,2007). O autor explica que a avaliação refere-se à determinação do mérito ou valor de um dado processo ou do que dele resultou, seja no âmbito do sujeito, da cultura, ou de toda humanidade. A complexidade inerente aos processos avaliativos torna evidente a exigência com os resultados do desempenho dos alunos e com o desempenho das escolas, mostra que atualmente a avaliação educacional tem uma perspectiva muito mais ampliada, não se atendo apenas aos resultados do rendimento escolar, mas a todos os elementos que permeiam o processo ensino-aprendizagem, ou seja, a toda a realidade educativa. Figari (1996) afirma que, nessa acepção mais alargada de avaliação educacional, há a noção de estrutura que define realidades diferentes: as macroestruturas (os sistemas educacionais), as mesoestruturas (as escolas) e as microestruturas (as salas de aulas). No espaço da macro e da mesoestrutura, a avaliação geralmente é o processo de observação e interpretação dos resultados da aprendizagem que objetiva orientar as decisões necessárias ao bom funcionamento da escola, dos sistemas educacionais e subsidiar a formulação de políticas públicas. Na mesma linha de raciocínio, Almerindo Afonso (2003) analisa a avaliação educacional numa perspectiva sociológica, nos seguintes níveis: micro, meso, macro e mega. A perspectiva de avaliação defendida pelo autor entende que a “escola é confrontada com dimensões éticas, simbólicas, políticas, sociais e pedagógicas que devem ser consideradas como um todo por quem tem especiais responsabilidades na administração da educação quer em nível do Estado, quer em nível municipal e local, quer em nível da própria unidade escolar”. (AFONSO, 2003). 3 BRANDALISE, Mary Ângela Teixeira. Avaliação institucional da escola: conceitos, contextos e práticas. Olhar de Professor, Ponta Grossa, 13(2): 315-330, 2010. Disponível em: http://www.revistas2.uepg.br/index.php/olhardeprofessor/article/viewFile/3220/2360 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 11 O nível microssociológico da avaliação ocorre no âmbito da sala de aula, é a avaliação da aprendizagem, de responsabilidade do docente. Ela deve ter caráter fortemente formativo, ser contínua e baseada na reflexão do processo ensino-aprendizagem. O nível mesossociológico da avaliação é aquele que envolve a análise de uma instituição escolar na sua totalidade, ou seja, engloba todos os componentes do processo educacional: gestão e organização da escola, processo ensino-aprendizagem, currículo, qualificação docente, infraestrutura escolar, resultados educacionais, perfil socioeconômico dos alunos, ação da escola com a sociedade, participação dos pais, entre outros aspectos da escola. O nível macrossociológico da avaliação é aquele desenvolvido em âmbito nacional, por organismos externos à escola, e tem como objetivo verificar a qualidade do ensino e da educação no país. No Brasil há o INEP – Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais, que coordena os processos de avaliação externa às escolas. São exemplos desse tipo de avaliação a Prova Brasil, o SAEB – Sistema de Avaliação da Educação Básica, o ENEM – Exame Nacional do Ensino Médio. O nível megassociológico da avaliação é aquele desenvolvido por organismos internacionais que buscam fixar padrões de desempenho, de referência para a criação de metas e diretrizes para os sistemas educacionais de diferentes países, em nível global. Tem-se como exemplo o PISA – Programa Internacional de Avaliação de Alunos, coordenado pela Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico - OCDE. A criação desses níveis mais globais (mega e macro) deve-se ao fato de a avaliação ter adquirido grande centralidade nas políticas públicas pelos organismos governamentais, particularmente nas políticas educacionais, com o propósito de os Estados ampliarem as ações de controle e fiscalização sobre as escolas e os sistemas educacionais, fenômeno apontado pelos estudiosos em avaliação como a presença do “Estado Avaliador” na educação. Avaliação institucional da escola A avaliação institucional da escola básica ainda não se constitui uma prática consolidada no contexto da educação brasileira. A avaliação externa promovida pelos organismos oficiais como o SAEB, e com as recentes propostas da Prova Brasil e do IDEB, é uma avaliação do sistema educacional, em larga escala, que analisa a proficiência dos estudantes ao final de um ciclo da escolaridade. No entanto, a avaliação interna é pouco realizada no interior das escolas, não está inserida nas várias ações nelas desenvolvidas, como uma análise sistemática da instituição com vistas a identificar suas fragilidades e potencialidades e a possibilitar a elaboração de planos de intervenção e melhorias. Estudos e pesquisas revelam a carência de formação dos profissionais da escola para desenvolvê-la, devido ao desconhecimento de fundamentos teórico-metodológicos sobre a avaliação institucional. Com o propósito de contribuir para a formação dos profissionais da escolas e também para a operacionalização do processo de autoavaliação, discute-se aqui alguns fundamentos teórico- metodológicos sobre a avaliação institucional da escola, suas relações com diferentes contextos e as possibilidades de operacionalização de processo de autoavaliação da escola. Avaliação da escola: conceitos, contextos e relações A avaliação das instituições escolares e a de outros objetos educacionais avaliados podem (ou não) assentar-se nos mesmos fundamentos teóricos. Assim, quando se fala na concepção de avaliação adotada num processo avaliativo, ele pode ser atribuído tanto à avaliação da aprendizagem, de currículo, de docentes, de políticas públicas, de programas, de projetos quanto à avaliação das instituições escolares específicas, como as escolas básicas, os institutos de ensino superior, as universidades, entre outras. Toda instituição, sobretudo a educacional, apresenta características orgânicas que justificam essa correspondência e, consequentemente, o similar fundamento para os processos de avaliação. Uma instituição escolar é compreendida como um conjunto de processos e relações que se produzem em seu cotidiano pelos sujeitos nela inseridos: educadores e educandos, essencialmente. A avaliação institucional numa perspectiva crítica é aquela que consegue captar o movimento institucional presente nas relações da instituição. Toda instituição é constituída por dois princípios em permanente tensão: o instituído e o instituinte. Castoriades (1975) explica que o instituído é o conjunto de forças sedimentadas, consolidadas, que buscam a conservação e reprodução do quadro institucional vigente. O instituído é a forma. Já o conjunto de forças em constante estado de tensão, de mudança, de transformação, de recriação é o instituinte. O instituinte é o campo de forças. 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 12 A avaliação institucional é formalmente a avaliação desse instituído e instituinte. Ela tem que identificar aspectos concretos, formais e informais, explícitos ou não, internos e externos, que viabilizam a realização dos objetivos e fins educacionais propostos num projeto institucional. Há, portanto, que se considerar toda a dinâmica institucional para captar o espírito da instituição avaliada. Nesta perspectiva, a avaliação institucional tem um caráter formativo, está voltada para a compreensão e promoção da autoconsciência da instituição escolar. Nos debates contemporâneos sobre a educação há uma exigência cada vez maior com o desempenho da escola, porque ela é considerada uma instituição social imprescindível à sociedade atual, à formação humana, ainda que essa exigência se exprima de modos variados e contraditórios. Após um período de oscilação das questões avaliativas entre o nível macro do sistema educacionale o nível micro da sala de aula, é justamente para o contexto da instituição escolar – nível meso – que as propostas de inovações educacionais, segundo Nóvoa (1995), têm se voltado, acreditando-se que é no espaço escolar que elas podem implantar-se e desenvolver-se. No entanto, uma das abordagens da avaliação institucional das escolas que se apresenta compreende aquela que tem como eixo direcionador a ação ordenada de normas e prerrogativas da União, isto é, o Estado se transforma num avaliador externo, conforme já apontado anteriormente. Denominado de Estado Avaliador, ele tem o papel de controlar, monitorar, credenciar e oferecer indicadores de desempenho para as escolas e os sistemas de ensino dos países. Normalmente decidida por razões de ordem macroestrutural que se prendem às necessidades de controle organizacional no nível dos sistemas de ensino, essa modalidade é chamada de avaliação institucional externa. A avaliação externa é, portanto, aquela em que o processo avaliativo é realizado por agentes externos à escola (pertencentes a agências públicas ou privadas), ainda que com a colaboração indispensável dos membros da escola avaliada, da comunidade educativa. Outra abordagem é aquela denominada de autoavaliação institucional ou avaliação interna da escola. Diferentemente da avaliação externa, ela é uma modalidade de avaliação que ainda carece de maior aprofundamento teórico e metodológico, particularmente no contexto brasileiro. A avaliação institucional da escola é produto da integração e entrelaçamento dos processos de avaliação externa e interna. É evidente que a avaliação das escolas é uma tarefa complexa, tendencialmente conflituosa, pois as instituições escolares são organizações, e o poder é inerente a todas as organizações. Ao “mexer” nesse poder, num processo de avaliação da escola, interfere-se nos interesses, posturas, motivações e objetivos da comunidade escolar. O processo de avaliação externa deverá completar-se com o processo de autoavaliação institucional, e vice-versa. É a coavaliação, como propõe Santos Guerra (2003), isto é, a combinação do processo de avaliação externa, mais voltado aos resultados do processo educativo, e avaliação interna, centrada na melhoria dos processos internos do trabalho escolar. Cabe aqui chamar atenção para os problemas que podem surgir na escola conforme a natureza que lhe dá origem, associada com o tipo de avaliação escolhida: 1ª) avaliação externa de iniciativa externa (organismos oficiais); 2ª) avaliação externa de iniciativa interna (da própria escola); 3ª) avaliação interna de iniciativa interna. Na primeira, avaliação externa de iniciativa externa, geralmente há uma interpretação dos avaliados de que está se desencadeando um processo de fiscalização e controle do trabalho escolar, com objetivo de estabelecer medidas comparativas, rankings, ou ainda, com uma característica de punição ou premiação, para piores e melhores desempenhos. O que pode acontecer num processo de avaliação externa da escola é a geração de mecanismos internos de defesa, buscando dar aos avaliadores uma imagem distorcida da realidade escolar. Na avaliação externa de iniciativa interna, a escola pode escolher um avaliador para atender seus interesses, que esteja de acordo com a filosofia adotada pela escola, e as informações podem ser ocultadas se os resultados forem contrários aos anseios e intenções da comunidade escolar. Quanto à avaliação interna, proposta pela própria instituição escolar, é preciso estar atento a diversos problemas que podem surgir: a hostilidade e resistência em relação ao processo avaliativo, a credibilidade ética profissional do avaliador, o caráter individualista da função docente, a falta de apoio técnico, logístico e de tempo, a impaciência pela obtenção dos resultados, a ocultação de informações fundamentais, a falta de motivação profissional, a imersão da equipe avaliadora na realidade avaliada, as pressões internas por interesses, a inércia institucional, ou seja, a própria cultura da escola. Aliado aos aspectos apontados, outro que consideramos de muita relevância é a formação da equipe responsável pelo processo avaliativo, pois poucos profissionais dedicam-se ao campo da avaliação de escolas como objeto de estudo. 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 13 Nesse contexto, o desconhecimento dos fundamentos teóricos da avaliação institucional, especificamente das escolas da Educação Básica, pode gerar a falta de planejamento, objetividade e credibilidade perante a comunidade escolar. Deve-se ter uma competência científica e técnico metodológica que direcione o desenvolvimento da avaliação interna da escola, proporcionando-lhe assim legitimidade. As escolas são cada vez mais caracterizadas como centros de aprendizagem de todos os seus membros e da sua própria organização. Enquanto organizações nucleares das sociedades atuais, elas não podem ficar indiferentes às mudanças e transformações que nelas acontecem, sejam de natureza econômica, política, científica, pedagógica ou legal. Para tanto, não se deve proceder à sua apreciação através de uma análise individualizada de cada um dos seus elementos, mas sim apreendê-la como um todo, como uma entidade global, original. Segundo Rocha (1999), a necessidade de avaliá-las é devida a um conjunto de razões: a) Razões de ordem socioeconômica: - A contenção de recursos financeiros para os gastos públicos, considerando-se as recentes e repetidas crises econômicas. - A democratização da sociedade e o desenvolvimento dos processos de participação social, particularmente no campo educacional. - A pressão da opinião pública geralmente apoiada numa avaliação “selvagem” baseada em boatos, na comparação entre escolas, ou seja, em ranqueamentos, ou ainda, na exposição pública de resultados e fragilidades do sistema educacional pela mídia, muitas vezes não condizente com a realidade das escolas e com as concepções dos programas e projetos de avaliação adotados. b) Razões de ordem político-administrativa: - A sociedade tornou-se mais exigente quanto ao desempenho das escolas e a sua função de diminuir as desigualdades sociais. Os poderes públicos passam a investir mais na educação e, consequentemente, a solicitar às escolas que justifiquem tais gastos e suas aplicações. - O aumento da autonomia das escolas a partir dos anos 90 (noventa) com a democratização da sociedade e a descentralização administrativa, em virtude da ineficiência do Estado em gerir com eficácia o sistema educacional. - A legitimidade de os governos democráticos controlarem, no âmbito das suas competências, o desempenho das escolas, questionando-as sobre a eficiência, eficácia, efetividade e relevância da sua ação educativa, particularmente a das escolas públicas. - À medida que a sociedade se complexifica, as mudanças sociais são mais rápidas e imprevisíveis e os sistemas educacionais são maiores, a escola- organização vai se tornando o meio natural e mais importante de muitos projetos de mudança educacional. c) Razões de ordem científico-pedagógica: - Novas abordagens sobre os problemas das escolas e da educação, introduzidas pela comunidade científica a partir de suas investigações: a valorização dos contextos escolares, a busca pelos fatores explicativos da diferença de qualidade entre as escolas, a passagem de uma pedagogia centrada no aluno para outra centrada na escola, e a problematização da eficácia das reformas educacionais, tanto em nível local como global. - A consideração progressiva da avaliação da escola como estratégia de inovação para introdução dos próprios processos de mudanças nos espaços escolares. - A evolução das concepções de avaliação da educação, que, de uma visão voltada quase que exclusivamente para os alunos e programas, passaram a valorizar os fatores relacionados não somente ao contexto de sala de aula, mas também os fatoresque permitem uma ação mais ajustada aos demais contextos e objetivos educacionais, na busca da melhoria da qualidade dos processos educativos (práticas) e dos seus resultados (produtos). d) Razões de ordem legal: - As mudanças na legislação nacional a partir da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional - LDBEN 9394/96, que aponta para a autonomia das escolas e consequente abertura para a necessidade da sua avaliação. Faz referência à Organização da Educação Nacional, no artigo 9º., incisos V, VI e VIII, ressaltando o princípio da avaliação como uma das partes centrais da estrutura administrativa da educação. As razões apresentadas justificam a necessidade da existência da avaliação das escolas. É uma nova exigência com a qual as escolas são confrontadas, e precisam aprender a fazer. 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 14 Autoavaliação da escola: alinhavando sentidos, produzindo significados A problematização em torno da avaliação da escola tem evidenciado a necessidade de discutir, por um lado, a importância da avaliação institucional como processo que permeia o trabalho educativo e o aprimoramento do processo de gestão escolar; por outro, a possibilidade de institucionalização de práticas avaliativas assentadas numa política de mudança e desenvolvimento da qualidade educativa, levando-se em conta a singularidade de cada escola, e não somente a obrigação de resultados pré- estabelecidos e estandardizados pelos organismos oficiais, como na avaliação externa. A autoavaliação da escola é aquela em que o processo é conduzido e realizado por membros da comunidade educativa. Pode ser definida como uma análise sistemática da escola com vistas a identificar os seus pontos fortes e fracos e a possibilitar a elaboração de planos de intervenção e melhorias. Frequentemente é realizada tendo como motivação principal o acompanhamento do projeto pedagógico da escola, no quadro de uma dinâmica de desenvolvimento organizacional e institucional. A avaliação inserida nas várias ações desenvolvidas na escola se coloca como mediadora do crescimento da comunidade escolar, portanto: O projeto pedagógico e a avaliação institucional estão intimamente relacionados. A não existência de um desses processos ou a separação deles trará danos para a própria escola, Sem um projeto pedagógico que delimite a intencionalidade da ação educativa e ofereça horizontes para que a escola possa projetar seu futuro, faltará sempre à referência de todo o trabalho e suas concepções básicas. (FERNANDES, 2002). Porque a avaliação institucional interna das escolas não é tão facilmente operacionalizável como se acredita ou propõe ser, não é fácil construir formas de autoavaliação que consigam lidar com os efeitos e tensões que são decorrentes da pluralidade de sentidos, poderes, dilemas e perspectivas que se estabelecem/interagem num contexto escolar. A avaliação institucional interna ou autoavaliação constitui-se num processo de busca da realidade escolar, com suas tendências, seus saberes, seus conflitos e dilemas. Deve dar suporte às decisões e mudanças na prática educativa. É dinâmica, por isso tem que ganhar lugar como processo que perpassa a ação escolar e o desenvolvimento curricular, explicitando assim os propósitos da escola e suas relações com a sociedade. A avaliação institucional centrada na escola tem as seguintes características: - é o processo pelo qual a escola é capaz de olhar criticamente para si mesma com a finalidade de melhorar o seu desempenho, através da identificação de áreas mais problemáticas e da procura de soluções mais adequadas, para o desenvolvimento do trabalho escolar; - é uma investigação permanente do sentido da organização e das ações da escola conduzida pelos próprios profissionais do estabelecimento de ensino; - é o processo de melhoria da escola, conduzido através quer da construção de referenciais, quer da procura de fatos comprobatórios, evidências, para formulação de juízo de valor; - é um exercício coletivo, assentado no diálogo e no confronto de perspectivas sobre o sentido da escola e da organização; - é um processo de desenvolvimento profissional; - é um ato de responsabilidade social; - é uma avaliação orientada para a utilização; - é um processo conduzido internamente, mas que pode e deve contar com a assessoria de agentes externos. Abordagens teóricometodológicas da autoavaliação da escola Abordagem racionalista ou naturalista? Para a realização de qualquer processo de avaliação de escolas é fundamental a escolha e aceitação de uma concepção de análise. Tradicionalmente duas abordagens epistemológicas de avaliação se destacaram: a concepção racionalista de origem positivista, também denominada de quantitativa, e a concepção naturalista de origem construtivista, também chamada de qualitativa. Tais perspectivas teóricas também são válidas para a avaliação das escolas, pois irão definir a estrutura científica, a visão de mundo, a filosofia através da qual se fará a leitura da realidade social que se quer avaliar. Ao optar-se pela abordagem quantitativa considera-se a educação como um processo tecnológico, acredita-se na objetividade da avaliação e utiliza-se o método hipotético-dedutivo. Os resultados são mais valorizados que os processos da educação, a finalidade da avaliação é o controle e se atribui mais valor 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 15 ao caráter estável do que ao caráter dinâmico da realidade educacional. A abordagem qualitativa, ao contrário, considera a educação sempre ligada a valores, problematiza a objetividade da avaliação utilizando métodos mais qualitativos e compreensivos, valoriza os processos mais que os resultados da educação, considerando como finalidade principal da avaliação a melhoria. Além disso, valoriza mais o caráter dinâmico e subjetivo da realidade educacional. As duas perspectivas avaliativas têm suas fragilidades. A racionalista ou quantitativa procura traduzir a realidade escolar em números, medidas e corre o risco de deformá-la, parecendo que a exprime fielmente. Isso ocorre porque, por um lado, desvaloriza a importância dos contextos, fontes ricas de significação; e, por outro, a simplifica, reduzindo a sua multidimensionalidade qualitativa a uma unidimensionalidade quantitativa. A abordagem naturalista, crítica ou qualitativa, ainda que atualmente seja considerada a melhor para o estudo dos fenômenos educacionais, pode intensificar algum subjetivismo intencional e gerar interpretações distorcidas da realidade educativa. Atualmente estudiosos apontam que as abordagens quantitativa e qualitativa devem ser entendidas como complementares e serem usadas em função das necessidades do processo avaliativo. Eles argumentam que, embora essa prática possa exigir mais tempo, formação e recursos, o esforço vale a pena para “realizar triangulações necessárias ao suporte das conclusões, para se conseguir um fortalecimento mútuo de métodos e para atender a pluralidade e diversidade das iniciativas, dos tipos, das finalidades, dos enfoques e dos objetos de avaliação”. (ROCHA, 1999). Operacionalização do processo de autoavaliação da escola Cada escola pode estabelecer as etapas para a construção do processo interno de avaliação. Para defini-lo algumas escolhas de fundo são necessárias, tais como: - O que avaliar; quais dimensões? (objetos de análise ou de avaliação da escola); - Quem pode/ deve avaliar a escola? (sujeitos, grupo de trabalho); - Com que finalidades? (objetivos); - Com quais enfoques? (concepções e tipos de avaliação: interna /externa); - Como, quando, onde, com quem, com quais recursos? (metodologia, fontes; instrumentos; coleta, organização e análise dos dados; cronograma); - Como divulgar os resultados e propor melhorias? (planos de intervenção). Para que essas escolhas venham a consubstanciar-senum plano é essencial relacioná-las entre si e articulá-las com a finalidade e o foco da avaliação, isto é, estabelecer a operacionalização do processo avaliativo. Fernandes (2002) propõe três etapas, que aqui apresentamos a título de sugestão: preparação, implementação e síntese. 1ª) Etapa de Preparação - compreende as ações que antecedem a implementação do processo avaliativo. - constituição da equipe de trabalho da escola; - elaboração de uma proposta de avaliação preliminar para a escola; - discussão da proposta com a comunidade escolar. - definição do projeto de autoavaliação contendo os seguintes elementos: justificativa, referencial teórico, objetivos, dimensões a serem avaliadas (objetos de avaliação), procedimentos metodológicos, cronograma, recursos, referências. (2ª) Etapa de Implementação – compreende as ações de elaboração e aplicação de instrumentos de coleta de dados, organização e análise dessas informações. - elaboração, discussão, testagem e aplicação dos instrumentos de coleta de informações; - apuração e organização dos dados coletados; - discussão coletiva dos dados coletados com a comunidade escolar. (3ª) Etapa de Síntese – compreende as informações já organizadas, que deverão servir de orientação para ações que a escola desenvolverá a partir da análise dos resultados pela comunidade escolar. - revisão e ajustes no processo avaliativo; - elaboração de relatórios conclusivos; - discussão sobre o uso dos resultados, com encaminhamento de ação; - publicação e divulgação do relatório final. Para se autoavaliar, a escola precisa construir um referencial de análise que considere a sua identidade institucional, seus sujeitos e as finalidades da avaliação. O primeiro passo é a definição de dimensões, categorias de análise ou subdimensões, e aspectos (indicadores) a serem avaliados. Existe uma hierarquia entre essas palavras, partindo-se de dados mais gerais para dados mais específicos: - Dimensões: são os pontos de abrangência que deverão ser avaliados, as grandes áreas da avaliação. Elas podem abranger aspectos administrativos, pedagógicos, físicos e estruturais, relacionais. 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 16 - Categorias de análise ou subdimensões: são os pontos básicos dentro da dimensão escolhida que se pretende avaliar. - Aspectos ou indicadores: são pequenos pontos indicadores para as perguntas em cada uma das categorias de análise. Embora existam diferentes maneiras de se construir um referencial de análise para a realização da autoavaliação da escola, apresenta-se neste texto o referencial proposto por Alaiz, Góis, Gonçalves (2003), o qual indica seis áreas ou dimensões: a) Dimensão I - Contexto externo: as variáveis de contexto externo não são maleáveis, ou seja, não são diretamente influenciadas pela ação da escola, mas esta é uma das áreas de avaliação de extrema importância, na medida em que permite enquadrar socialmente a escola. Ela pode ser composta pelas seguintes categorias de análise: caracterização social, econômica e cultural das famílias e alunos; expectativas das famílias e da comunidade quanto ao trabalho da escola; pressão para a qualidade na perspectiva do contexto externo, exercida por entidades ou grupos externos à escola: secretarias, núcleos regionais, associações de pais, ou outras instituições. b) Dimensão II - Contexto interno: corresponde, numa linguagem simples, “às condições com que a escola conta”: história da instituição escolar; recursos físicos, estrutura curricular; corpo docente, administrativo e discente. c) Dimensão III - Organização e gestão: as categorias de análise que compõem a área de organização e gestão dizem respeito à proposta pedagógica da escola e à sua execução e avaliação. d) Dimensão IV - Ensino e aprendizagem: as categorias de análise de avaliação contempladas na área de ensino e aprendizagem convergem no trabalho realizado na sala de aula. e) Dimensão V – Cultura da escola: as categorias associadas à cultura da escola podem ser: identidade institucional; ênfase no ensino e na aprendizagem; participação nos processos de decisão, motivação dos professores, expectativas acerca dos alunos, trabalho em equipe, aprendizagem e desenvolvimento profissional, reconhecimento dos profissionais da escola; disciplina e segurança na escola, aprazibilidade do espaço escolar, relação com a comunidade escolar. f) Dimensão VI - Resultados Educacionais: os resultados dos alunos são as medidas de desempenho da escola. Em última análise, eles refletem a qualidade dos resultados intermediários contemplados nas restantes áreas. Ela pode ser composta pelas seguintes categorias de análise: qualidade do sucesso (classificações internas, estatísticas de resultados, provas estandardizadas, outros resultados não acadêmicos) e cumprimento da escolaridade A escola pode ser avaliada considerando-se as seis dimensões apresentadas, ou pode escolher aquelas consideradas mais necessárias. No entanto, fundamental é que se parta de uma avaliação diagnóstica de todas as dimensões e que, a partir dos resultados alcançados, novas etapas avaliativas sejam desenvolvidas no interior da escola. Instrumentos: elaboração e aplicação Após a definição das dimensões, categorias de análise e indicadores, vem à etapa da escolha dos instrumentos e técnicas a serem utilizados no processo de autoavaliação para coleta dos dados – questionários, entrevistas, grupo focal, observação, portfólio, seminários, pesquisa em arquivos, análise de documentos, análise quantitativa, relatórios, dentre outros – os quais podem ser aplicados em grupos ou individualmente. Os instrumentos escolhidos devem estar adequados às dimensões, categorias e indicadores propostos no projeto. É importante considerar que nenhum instrumento de avaliação é completo por si só, razão pela qual podem ser escolhidos tipos que se complementam. Definidos os procedimentos, devem ser escolhidas as fontes de informação para coleta dos dados, as quais podem ser: documentos, projetos, planos, regimento escolar, gestores, professores, alunos, pais, funcionários, membros colegiados, membros da comunidade externa, dentre outros. A etapa de aplicação dos instrumentos para coleta das informações constitui a fase mais difícil da pesquisa, que é passar pelo confronto com os sujeitos da avaliação, ou seja, com o seu público-alvo. É a fase de implantação do projeto, de provação, confronto com a realidade, de constatação de imperfeições, de ajustes que garantam a sua validade. Se este fosse o processo de uma relação amorosa, dir-se-ia que passadas a fase do romance, em que domina o encantamento e o entusiasmo - A avaliação é a melhor forma de conhecer a escola e tem tudo para ser útil; nunca foi feito nada assim na escola - e a fase da crise, em que se descobre que nem tudo é perfeito e fácil - Para avaliar é necessário dominar as técnicas, escolher bem os instrumentos, ultrapassar dificuldades e gerir conflitos. 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 17 Os autores complementam que é o momento de perceber se há motivação e disposição dos participantes para contribuir com as suas percepções sobre os aspectos solicitados na avaliação da escola. A coleta de dados precisa ser feita de uma forma não incomodativa, com discrição, com profissionalismo, pois a escola não para porque nela está em desenvolvimento um processo de autoavaliação. Portanto, discussões em grupo, entrevistas, aplicação de questionários, observações, devem ser realizados nos momentos que representem a menor alteração do cotidiano dos seus respondentes, pois ninguém deve deixar de realizar o seu trabalho habitual por causa da avaliação da escola. Tratamento, análise e interpretação dos dados Dependendo da natureza da informação coletada e das questões de avaliação, é possível optar-se por um processo de análiseespecífico. Os dados de natureza quantitativa deverão ser objeto de análise estatística, e os de natureza qualitativa poderão ser apresentados em descrições, mas também poderão ser sujeitos a uma análise de conteúdo. Antes de se dar início ao tratamento das informações, procedeu- se a uma verificação dos dados brutos para prepará-los para a primeira análise, o que comumente se designa “limpeza” dos dados. Em seguida realizou-se a análise propriamente dita, integrando e sintetizando os resultados. O trabalho de análise de dados consiste em reduzi-los ou condensá-los em tabelas, gráficos, sumários estruturados em função de categorias de análise, sinopses, registros de pequenos episódios, diagramas que mostram a relação entre eles. São apresentações das informações coletadas nos instrumentos de modo sintetizado, que permitem uma primeira análise para a qual é importante ter presentes os objetivos e as questões de avaliação inicialmente propostas. Dela emergem as primeiras tendências, as primeiras imagens da escola, ainda não articuladas numa imagem global: são os resultados preliminares. Eles geralmente suscitam mais perguntas, ora porque se encontram discrepâncias, ora porque existe uma combinação de informações não prevista ou pensada, que implica um novo olhar aos dados originais. Concluída essa etapa, os resultados devem ser organizados de acordo com as dimensões, categorias e indicadores propostos no projeto de autoavaliação. Assim, serão reveladas as imagens da escola. A obtenção deste retrato é um momento de celebração no desenvolvimento do processo avaliativo. Por um lado, porque se chegou a esse retrato da escola, por outro, porque estes resultados são a matéria- prima para o momento mais difícil do processo, o da interpretação e consequente elaboração de conclusões e recomendações; o momento de extrair da autoavaliação a sua utilidade, mas também o momento de todos os conflitos. Os significados desses resultados expressam o pensamento do coletivo escolar que participou do processo avaliativo. Os dados não falam por si só, por isso há necessidade de interpretá-los, ou seja, estabelecer em que medida os resultados são positivos ou negativos, significam sucessos ou fracassos, pontos fortes ou pontos frágeis, mostrando assim as potencialidades e fragilidades da escola, e as áreas em que a escola precisa melhorar. A divulgação dos resultados à comunidade escolar é fundamental para legitimação do processo avaliativo. Eles devem ser apresentados, divulgados e debatidos de forma alargada, oportunizando a manifestação de pontos de vista e a revisão de conclusões, quando as discussões acrescentarem contribuições que auxiliem no aprofundamento da interpretação. Um relatório deve responder necessariamente a três questões: Quais são os resultados da avaliação? Como se chegou a esses resultados? Face a esses resultados, o que se pode fazer para melhorar? Portanto, um relatório de autoavaliação da escola constitui-se não só num documento em que a escola fala de si, mas também num instrumento de trabalho para subsidiar a análise do que se pode fazer para melhorar. Ainda que a opção teóricometodológica do processo avaliativo deva ser escolhida pela escola, há que se iniciar o trabalho com um planejamento de preparação do projeto coletivo, seguido de sua implementação e síntese dos resultados obtidos. É um ciclo avaliativo que envolve diferentes momentos possibilitadores de se construir um retrato da escola para analisá-la com base em evidências válidas e fiáveis, retirando da autoavaliação aquilo que dá sentido à vida da escola, bem como a sua utilidade para a criação de propostas de melhorias internas voltados ao desenvolvimento institucional. Autoavaliação da escola e desenvolvimento institucional A autoavaliação da escola é um processo necessário para compreender a dinâmica institucional, que pode e deve ser útil para a escola, desde que não se traduza apenas na identificação de pontos fortes e de fragilidades, mas, também, na elaboração de recomendações que deverão ser consideradas na 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 18 proposição de melhorias qualitativas para a instituição. Trata-se da utilização dos resultados para a elaboração dos planos de ação para o desenvolvimento da escola. É, portanto, na mobilização dos resultados que reside a utilidade da autoavaliação. Um plano de desenvolvimento da escola é um documento que contém as intenções do coletivo escolar, refletindo a visão de futuro e desenvolvimento necessário à escola. Identifica as prioridades de ação, estabelece as metas e os modos para sua concretização. Bolívar (2003) argumenta que a melhoria da instituição escolar precisa incidir em toda a escola, com uma interseção em três grandes níveis: desenvolvimento da escola enquanto organização, desenvolvimento dos professores e desenvolvimento do currículo. O desenvolvimento do currículo e da organização escolar constitui um campo indissociável. O desenvolvimento profissional é concebido como um processo contínuo de aprendizagem, que provoca mudanças na ação profissional do professor, através da forma como atribuem sentido às suas experiências e como estas influenciam as suas práticas diárias, mas, por sua vez, na medida em que o desenvolvimento pessoal e profissional está condicionado pelo contexto da escola enquanto local de trabalho e relação, a formação orienta-se para a consecução de uma estreita articulação entre as práticas formativas e os contextos de trabalho, optimizando a dimensão educativa dos processos de trabalho, mediante uma aprendizagem reflexiva e colegial. (BOLÍVAR, 2003). Na acepção do autor o desenvolvimento profissional e o desenvolvimento institucional das escolas devem caminhar lado a lado, pois um não existe sem o outro. A possibilidade de desenvolvimento institucional está ligada à capacidade interna de mudança, que é diferente para cada escola, considerando-se a sua história de vida, sua identidade e singularidade, e está condicionada à política educacional e ao contexto social no qual ela se insere. O desenvolvimento institucional é entendido “como as mudanças nas escolas enquanto instituições que desenvolvem as suas capacidades e atuações com vista a uma melhoria permanente”. O plano de desenvolvimento da escola enquanto instituição deve ser compreendido como o conjunto de ações necessárias para planejar e gerir o crescimento da escola, a sua melhoria contínua, o que pressupõe o fortalecimento da capacidade institucional nos processos internos de trabalho da escola e de decisão sobre as mudanças a serem implementadas. A elaboração de um plano de desenvolvimento institucional pode orientar-se pelos seguintes questionamentos: Quais mudanças necessitamos fazer na escola? Como essas mudanças podem ser geridas ao longo do tempo? Como podemos conhecer os efeitos ou impactos das medidas adotadas? De acordo com Alaíz, Góis e Gonçalvez (2003), a elaboração e o desenvolvimento do plano de desenvolvimento institucional envolvem quatro etapas: autoavaliação ou auditoria, planejamento, implementação e avaliação. A primeira etapa constitui-se da análise dos resultados da autoavaliação, identificando os pontos fortes e fracos da escola. Na segunda, é feita a seleção das prioridades de ação da escola, transformando-as em metas específicas, definindo-se as estratégias e critérios para alcançá-las. A implementação do plano de desenvolvimento constitui a terceira etapa; nela se deve assegurar que o plano é seguido e que as ações previstas estão sendo desenvolvidas. Na quarta etapa avalia-se o sucesso das medidas implementadas e recomendações são propostas para alterações no plano ou para a construção de um novo projeto. Ressalta-se que a avaliação deve ocorrer ao longo do processo de desenvolvimento do plano, numa perspectiva proativa, formativa e reflexiva, possibilitando a introdução dos ajustes necessários duranteo seu período de realização. Em síntese, pode-se apontar que na elaboração do plano de desenvolvimento institucional da escola é necessário contemplar os seguintes procedimentos: - respeito pelo contexto social, considerando as orientações da política educacional, o projeto pedagógico da escola, as características da comunidade escolar e os recursos disponíveis e necessários; - consulta e decisão acerca das prioridades, elaborando o plano de forma coletiva, democrática e negociada; - redação e divulgação do plano, esclarecendo a articulação com os objetivos e fins da escola, justificando a seleção das priori dades, a metodologia ou os recursos envolvidos. O plano de desenvolvimento institucional, no entanto, não é um fim em si mesmo; ele é um documento operacional, orientador da ação da escola no seu processo de melhoria. No entanto, a sua elaboração constitui, também, uma oportunidade para a escola e os seus profissionais se desenvolverem, porque: - está centrado nos objetivos da escola, especial mente nos processos de ensino e de aprendizagem; - possibilita uma abordagem integrada de todas as dimensões da escola: o currículo, aprendizagem; a avaliação, o ensino, a gestão e organização, o contexto interno, o contexto externo, os resultados das aprendizagens e da avaliação externa da escola; 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 19 - proporciona uma visão de futuro, de longo prazo, da escola na qual os objetivos específicos de curto prazo se enquadram, representando as prioridades do plano de desenvolvimento institucional. - auxilia na superação da ansiedade dos professores que assim podem controlar melhor a mudança em vez de serem por ela controlados. - permite maior valorização e reconhecimento do trabalho docente e do desempenho dos professores na promoção da mudança. - melhora a qualidade da instituição e dos que nela trabalham, porque as reflexões, discussões e decisões coletivas por um lado, ajudam a escola a trabalhar mais eficazmente e, por outro, ajudam os professores a adquirirem saberes e competências como parte do seu desenvolvimento profissional. - fortalece as relações interpessoais na escola, em especial as da equipe gestora com os professores. - melhora substancialmente a qualidade do processo educativo e da gestão escolar. Concluindo, o plano de desenvolvimento institucional é um documento estratégico da escola, pois lhe permite olhar criticamente sobre si mesma, ou seja, sobre a concretização dos seus objetivos principais e dos fins educacionais relacionados com o ensino e a aprendizagem. E, enquanto documento contextualizado deixa que a instituição escolar interprete as dinâmicas internas e o integre na sua vida e cultura. Teorias e Práticas na Educação Segundo Hamze4, a sociedade atual por ser social e historicamente construída pelo homem necessita de linguagens plurais para dialogar e interagir com a diversidade. Nesse sentido, a educação reproduz a sociedade por também ser social e historicamente construída pelo homem e, em consequência disto, historicamente sempre teve a obrigatoriedade de dar respostas e interferir nas demandas que os contextos depositaram e colocam. Ao analisarmos as práticas pedagógicas, cabe-nos inquietarmos com a dicotomia que existe entre a teoria e a prática, como se elas não fossem as duas faces de uma mesma moeda. Constatamos, através de estudos feitos que, a formação docente é construída historicamente antes e durante o caminho profissional do docente, e que, se faz também no social. Cria-se então um círculo vicioso, onde a formação docente depende basicamente, tanto das teorias, quanto das práticas desenvolvidas na vida escolar. De acordo com o currículo por competências, a nova ênfase educacional baseia-se na mobilização dos saberes construídos para solucionar problemas específicos. Não podemos enfatizar a teorização em detrimento da prática. Quando o docente se apropria do conhecimento e se beneficia das contribuições teóricas referentes às compreensões de aprendizagem, escolhe as melhores formas de trabalhar, vence as dificuldades e vê com clareza as novas possibilidades de uma atuação com qualidade. Assim sendo, as probabilidades de reflexão e crítica sobre as práticas docentes surgem com maior coerência. Pimenta afirma que o saber docente não é formado apenas da prática, sendo também nutrido pelas teorias da educação. Mediante esta afirmação fica claro que, a teoria tem importância fundamental, pois ao nos apropriarmos de fundamentação teórica nos beneficiamos de variados pontos de vista para uma tomada de decisão dentro de uma ação contextualizada, adquirindo perspectivas de julgamento para compreender os diversos contextos do cotidiano. A interação dialógica entre saberes gera o desenvolvimento de uma prática pedagógica autônoma e emancipatória. Nós, professores, precisamos refletir sobre a constituição e interação dos saberes, que ratificam a prática do fazer docente. O desafio fundamental para o profissional da educação é distinguir e compreender as teorias subentendidas na sua própria prática e, originar condições para que diante das teorias, modifique seus pontos de vista, atitudes, posturas e atuação no exercício educacional. “O nosso saber é o sentido que damos à realidade observada e sentida num dado momento. Existe no tempo, como uma paragem, uma etapa. Está em constante transformação, em perpétuo movimento, tal como uma sinfonia inacabada”. 4 Texto adaptado de HAMZE, A. 4 Relação entre a teoria e a prática. 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 20 A articulação entre a teoria e a prática no trabalho pedagógico5 Segundo Saviani “quanto mais adequado for o nosso conhecimento da realidade, tanto mais adequados serão os meios de que dispomos para agir sobre ela”, assim, entender a racionalidade do fazer pedagógico na academia significa buscar desvelar as diretrizes que são suporte ao agir pedagógico. Portanto, entende-se necessária uma reflexão sobre práticas pedagógicas ocorridas dentro das instituições escolares para que se torne mais clara a realidade observada, na busca de uma educação de qualidade que não reforce o modelo capitalista da sociedade posta. Mesmo tendo consciência da dificuldade de se alcançar uma efetivação da prática transdisciplinar no seio da academia, ela precisa ser permanentemente buscada, para se chegar à autêntica razão de ser da instituição escolar no sentido de preparar cidadãos e cidadãs para compreender, julgar e intervir em sua realidade, de forma responsável, justa, solidária e democrática. É necessário perceber que se é parte do funcionamento da sociedade, determinando-a e sendo determinados por ela. Porquanto a consciência somente se forma na ação transformadora, coletiva, consciente e organizada. O saber fragmentado, dissociado da realidade não satisfaz as necessidades fundamentais dos membros ativos da sociedade. Desta forma, segundo Kuenzer, o dimensionamento de tempos e espaços escolares, articulando disciplinaridade e transdisciplinaridade em projetos articulados, com momentos efetivos para a qualificação de alunos, professores ou equipe de professores em serviço, produz conhecimento que articula a teoria à prática. Transdisciplinaridade Pensar em um processo que integre reciprocamente as várias disciplinas e campos de conhecimento, rompendo as estruturas de cada uma delas, é uma tarefa que demanda um enorme esforço. Principalmente porque se está em uma sociedade industrializada caracterizada pela divisão do trabalho, a fragmentação do saber e a predominância das especializações. Sociedade esta que tem predominância reprodutivista, tanto do saber parcelado que tem refletido na profissionalização e nas relações de trabalho quanto nas formas sistematizadas do conhecimento. O trabalho não disciplinar,prevendo pontes entre as diferentes áreas do saber, tornou-se um imperativo no mundo moderno. A produção e veiculação de conhecimentos relacionados à reestruturação produtiva estão atreladas a aspectos interligados: a influência das novas tecnologias e com isto, a necessidade de diálogo entre as diversas disciplinas científicas. Os meios tecnológicos estão revolucionando a difusão e o acesso ao saber de modo rápido e abrangente ressaltando a noção de que o conhecimento se torna cada vez mais complexo. Frente a esta complexidade está a demasiada especialização do conhecimento que delimita a área de conhecimento frente às demais. A decorrência disto é a falta de visão integral das problemáticas contemporâneas. Desta forma, fazem-se necessárias abordagens educativas que possibilitem uma comunicação entre as diferentes áreas do conhecimento, e que supere a dicotomia decorrente da fragmentação da especialização. A interdisciplinaridade, pluridisciplinaridade, multidisciplinaridade, transdisciplinaridade são avanços na construção de uma nova visão social, que leva em conta os avanços científicos e os desafios do mundo contemporâneo. Existe uma gama de diferentes entendimentos sobre os termos inter, pluri, meta, multi e transdisciplinaridade. Profissionais das mais diversas áreas têm se debruçado sobre os termos. Em educação, eles são vistos como um caminho viável para a construção do conhecimento global, numa época em que os saberes surgem e se acumulam de forma vertiginosa. Assim, eles devem ser elucidados para uma melhor abordagem de seus significados dentro da organização do trabalho pedagógico. Segundo, Domingues a multidisciplinaridade objetiva a interpretação de uma disciplina por outra. Sua primeira utilização aconteceu na França por volta de 1968. A Interdisciplinaridade objetiva a fertilização mútua entre as disciplinas. A primeira divulgação do adjetivo “interdisciplinar” foi na França em 1959, pelo dicionário Robert. Associado ao substantivo “interdisciplinaridade” de 1968. Na abordagem interdisciplinar, as disciplinas trabalham sobre um objeto de estudo, através de pontos de vista diferenciados. Trata-se de um importante avanço para o processo de conhecimento, que vai além da abordagem multidisciplinar. A pluridisciplinaridade foi utilizada pela primeira vez na França em 1966, pelo dicionário Robert. Estava vinculado ao adjetivo “pluridisciplinar” de 1969. A transdisciplinaridade está baseada em novos níveis de realidade, trabalha no espaço vazio “entre”, “através” e “além” das disciplinas. É caracterizada como uma metodologia alternativa e complementar em 5 Texto adaptado de Margarete Terezinha de Andrade Costa. 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 21 relação à multidisciplinaridade e interdisciplinaridade, preenchendo o espaço vazio ao longo das pesquisas. Ainda segundo Domingues (2001), a divisão de disciplinas e especialidades surgiu com a criação da universidade, no Ocidente no século XIII. Neste período aconteceu um conflito entre o especialista e o generalista. O primeiro com o intuito de aprofundar o conhecimento em uma matéria específica, enquanto o segundo, com grande interesse em aplicar o conhecimento de maneira uniforme e não específica. Através da abordagem interdisicplinar, descobre-se a possibilidade de intervenção das matérias e com isso a oportunidade de desenvolver uma nova maneira de explorar e investir no processo de conhecimento. A transdisciplinaridade pensa o cruzamento de especialidades, o trabalho nas interfaces, a superação das fronteiras, a migração do conceito de um campo de saber para outro e a unificação do conhecimento. Os estudos sociológicos do cotidiano6 Se analisarmos de maneira polarizada, o cotidiano se coloca do lado da sociologia subjetiva, na qual se situam as análises micro estruturais, compreensivas e fenomenológicas, opondo-se a visão objetiva da sociologia tradicional, totalizante, sistêmica ou macroestrutural. Estudar o cotidiano, pelo viés da sociologia, pressupõe o conhecimento das relações sociais em seus ambientes e na forma em que realmente elas acontecem. Diferentemente do conceito de fato social, estudado por Durkheim, através do qual os fenômenos sociais são tratados de forma organizada e mensurados. Pode-se dizer que o estudo do cotidiano se estabelece, justamente, no conhecimento da “desorganização dos fatos sociais” (Maffesoli,1988). É, portanto, considerar o que aparentemente não tem importância, o que Pareto e Maffesoli denominaram de “resíduos” nos estudos da sociedade, o qual as análises macro estruturais não conseguem alcançar. De acordo com Balandier (1983), o campo da sociologia do cotidiano possibilita compreender, além das interações sociais, os dispositivos que regulam a vida cotidiana. Faz reaparecer o sujeito face às estruturas sociais, valorizando o efêmero, o contingente, o fragmento, o relativo e o múltiplo. Desse modo, nos estudos do cotidiano, o que parecia não ter importância, é resgatado e assume um lugar central nas análises acerca da sociedade. Tratar do cotidiano como campo de análise é, sobretudo, entrar em um debate ainda muito pouco definido e com limites muito tênues. Algumas correntes que trabalham com o cotidiano ou vida cotidiana, seguem por rumos diferentes, o que nos leva a perceber apenas alguns pontos de partida. A tese marxista, por exemplo, de que o conhecimento deve partir dos homens e da sua vida real, contribuiu para o desenvolvimento de um campo de abordagem, que de certa forma, nos leva a muitos caminhos que vão ao encontro dos estudos do cotidiano principalmente os propostos por Heller, Lefebvre e Certeau que, em seus trabalhos, elegeram a análise da vida cotidiana como objeto de estudo. Além dessas abordagens inspiradas no marxismo, existem outras que não se denominam propriamente de estudos do cotidiano, mas que, de uma forma ou de outra, o privilegia, seja pela ótica do mundo da vida a partir de Schutz, seja pelo viés pós-moderno de Maffesoli. Muitos teóricos da área da sociologia e da antropologia, principalmente após a segunda guerra, desenvolveram estudos que, de certa maneira, envolveram os aspectos comuns da sociedade, presentes nas relações e inter-relações sociais. Alguns destes trabalhos que muito embora não tenham compartilhado a mesma raiz epistemológica, voltaram as suas análises para os processos internos da compreensão e significação do comportamento e das ações sociais delimitadas pela vida cotidiana. Durkheim talvez tenha sido a fonte principal de inspiração do campo sociológico do cotidiano e das representações sociais. Pode parecer um pouco estranha tal dedução, sobretudo, pelo fato dele ter uma preocupação inversa ao que se propõem os estudos do cotidiano. Porém, é nessa inversibilidade que, justamente, os acontecimentos comuns do cotidiano aparecem em suas obras. Durkheim buscava em seus estudos entender os processos macro estruturais da sociedade para deduzir, a partir daí, as relações cotidianas. O que ele busca nessa relação é a frequência dos acontecimentos sociais para que sejam determinadas, a partir daí, as leis empíricas e universais. Os fatos sociais, desta feita, são percebidos por ele como coisas e com grande poder de coercitividade. Descartando, desse modo, qualquer alusão que 6 FERREIRA, A. T. B. COTIDIANO ESCOLAR: uma introdução aos estudos do cotidiano em contribuição ao conhecimento da realidade da escola. Sociedade em Debate. Pelotas, 2002 5 Análise de dificuldades, problemas e potencialidades no cotidiano escolar em sua relação com a sociedade. 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 22 por ventura possa ser feita com relação às questões individuais ou subjetivas do ponto de vista psicológico ou das interações sociais. Simmel também,em certa medida, aproximou-se do campo da sociologia do cotidiano analisando as “formas” sociais a partir do primado da interação. Para ele, conforme Boudon (1993), “uma análise sociológica deve remontar às ações e reações dos indivíduos na situação em que se encontram”. Simmel acredita que não é possível conhecer a realidade social sobre uma base de oposição entre indivíduo e sociedade. A sociedade, segundo o autor, é o resultado de uma formalização social, na qual as regras e obrigações, que nela estão contidas, são entendidas como meios e não como fins, o que permite a compreensão de que os indivíduos participam do processo de construção da realidade social. A realidade social para Simmel é constituída por processos interativos que são processos de socialização. Esses processos abrem sempre novas vias em direção à sociabilidade. Essas vias são múltiplas e são produtos das ações dos indivíduos que as percorrem buscando constantemente novos espaços no sentido de afirmação de sua personalidade e de constituição de novos grupos (Mongardini, 1995). Os processos de sociabilidade, apresentados por Simmel, põem em evidência situações que ocorrem no dia a dia de pessoas comuns, através das quais pode-se visualizar relações do cotidiano. Um conjunto de trabalhos que, de certo modo, considerou o cotidiano como elemento de análise da sociedade histórica foi o de Nobert Elias. Os processos e as configurações que a socialização produz na realidade social são os interesses principais deste autor. Para Elias (1984-1995), a sociedade não é possível senão como conjunto de configurações e de combinações de elementos que, longe de serem harmoniosos e coerentes, representam o resultado de um processo de objetivação da vida coletiva e de civilização. O cotidiano, através das construções dos costumes e ações, reflete de maneira exata a estrutura do quadro que engloba do conjunto de indivíduos que o habitam. Desta maneira, a estrutura da vida cotidiana torna-se parte integrante de tal ou qual camada social, na medida em que esta camada não seja vista de maneira isolada das estruturas de poder da sociedade global. Nesta perspectiva, Elias defende a indissociabilidade entre vida cotidiana e as mudanças estruturais da sociedade, a divisão do trabalho e os processos que envolvem as orientações estatais. Dentro dessa abordagem, o indivíduo tem a sua vida intimamente relacionada com as estruturas sociais. De acordo com as ideias de Elias (1995), as mudanças de personalidade podem ser correlatas com as mudanças da estrutura social sob seus diversos aspectos, como por exemplo, a crescente diferenciação social, o aumento dos canais de interdependência, a centralização, os controles sociais etc. Entretanto, de acordo com Juan (1996), esta perspectiva pode favorecer uma visão, de certo modo, sistêmica de sociedade, principalmente quando o autor conclui que as condutas da vida cotidiana são produtos de convenções sociais ou de normas culturais. Analisar a vida cotidiana a partir dessa “organicidade” e indissociabilidade, pode limitar a perspectiva de criatividade e construção social e favorecer o entendimento das relações cotidianas apenas como reprodutoras das estruturas sociais globais e de poder. A Escola de Chicago, principalmente através dos estudos acerca do Interacionismo Simbólico, também direcionou sua atenção para as relações desenvolvidas entre sujeitos sociais em determinados ambientes. Tendo como enfoque os processos de interação, isto é, ação social caracterizada por uma orientação imediatamente recíproca. O exame desses processos se baseia num conceito específico de interação que privilegia o caráter simbólico da ação social (Joas,1999). Embora haja divergências quanto à influência dos estudos de Simmel na Escola de Chicago, podemos dizer que existe uma certa ligação, principalmente, entre os trabalhos de Mead e Simmel, com relação à valorização dos processos de interação social como formas de organização da sociedade. De acordo com Joas (1999) “Havia, em especial, afinidades entre membros da escola e Simmel, na medida em que Simmel buscava um conceito de sociedade que nem reduzisse a sociedade a mero agregado de indivíduos nem a reificasse numa entidade completamente transcendente em relação aos indivíduos”. Entretanto, foi Goffman, outro membro do grupo de estudos do interacionismo simbólico da Escola de Chicago, quem mais se popularizou no meio acadêmico e dirigiu os seus estudos, mais especificamente, para a área da sociologia. A grande preocupação de Goffman residia no fato de entender o que representa a relação face a face dos indivíduos numa interação, ou melhor, perceber como as pessoas em determinadas situações de interação desenvolvem seus “papéis” que, aparentemente, lhes são pré- determinados. As situações de interação, segundo o autor, constituem unidades delimitadas num tempo e numa rede de relações de poder e de formas sociais institucionalizadas que transcendem a contingência das situações interacionais. Os desejos individuais de manipular a apresentação do “eu” em relação aos papéis socialmente estruturados são analisados por Goffman, principalmente em A Representação do eu 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 23 na vida cotidiana, quando utiliza a noção de máscaras, interação, rotina e controle do eu. É a partir desses conceitos que o autor aponta para uma proximidade entre a vida social e a dramaturgia, e mostra sua excessiva preocupação com a relação entre os atores sociais, minimizando, desta forma, a dinâmica das instituições e das estruturas sociais na realidade social. De acordo com Gouldner (1970), o modelo dramatúrgico de Goffman nos deixa a impressão que falta uma interpretação mais geral da motivação das rotinas da vida cotidiana, pois se os indivíduos são apenas atores num palco, escondendo-se em seus papéis, em seus “eus” atrás da interpretação que adotam para a ocasião, o mundo social (enquanto palco/cenário maior) estaria, em grande parte, vazio em substância. Parece-nos que, de certo modo, para Goffman, a realidade social é formada por diversas microexperências as quais compõem o nível macrossociológico deixando de lado, de certo modo, questões importantes a serem consideradas em grandes escalas como a organização dos sistemas sociais, mudança social e a história. Embora Goffman tenha sido muito criticado pela excessiva posição em favor das questões microssociológicas para compreensão da realidade social, é certo considerar que ele é de grande contribuição para as ciências sociais, sobretudo, no sentido das análises institucionais e interacionais. Outro teórico do campo da sociologia que trata especificamente da questão do cotidiano é Michel Maffesoli. Muitos o enquadram dentro do que se pode chamar de autores pós-modernos, justamente, por dinamizar um aparato teórico buscando se desvincular, contrapor-se e transformar os processos e métodos tradicionais da compreensão da realidade social. As análises de Maffesoli (1985:208) têm como objetivo “esboçar uma teoria do conhecimento apta a admitir que a falta de acabamento estrutural da sociedade fica a exigir uma falta de acabamento intelectual”. Quando o autor expõe sua abordagem em torno da questão das intencionalidades que norteiam a vida cotidiana, pode-se perceber, nos seus escritos, influências do campo da sociologia compreensiva, principalmente de Simmel e Weber. Além da socioantropologia do imaginário de Duran, das noções de formas coletivas e solidariedade de Durkheim, da tipicalidade de Schutz, de resíduo de Pareto, entre outros. Embora admita tais influências, ele é claro em considerar que as teorias servem apenas para suscitar outras teorias e que, com o tempo, elas tendem a caducar. O que se torna primordial nas análises sociais, segundo o autor, são as situações, a realidade, o presente e não a teoria. Maffesoli considera o cotidiano como lugar por excelênciapara a análise do social porque é nele que se constitui a sociabilidade. O conhecimento do coletivo, para ele, é primordial para a compreensão da realidade pois é nele que se constitui a “teia de significações insignificantes, efêmeras e polissêmicas que constrói a força e a permanência da vida cotidiana” (1985). De acordo com autor, para conhecer a realidade social torna-se necessário superar, em todos os sentidos, o racional e lançar mão do nosso conhecimento comum, da intuição, do presente e da participação. Ato que exige novos procedimentos de investigação que conviva com a pluralidade de abordagens, sejam de que ordem for para elaboração de uma descrição de um momento ou de um dado espaço que seja o menos enganoso possível. Para conhecer a realidade social Maffesoli (1985:209) considera, portanto, que o Patchwork reflexivo é uma maneira de se adentrar em uma realidade específica. Essa forma de análise da sociedade proposta desvincula-se, desse modo, de qualquer rigor metodológico. Ele justifica que não tem mais sentido as teorias cheias de sentido. Porém, segundo Pais (1986), ao se posicionar dessa forma o autor cai “em uma fenomenologia sensualista, aleatória e cultuadora do sentimento”. Ao que nos indica, Maffesoli considera que o cotidiano se autoproduz desvinculado das referências apriorísticas da estrutura e dos sistemas de racionalidade que lhe são subjacentes. Embora defenda a ideia de integrar os fatos cotidianos numa “compreensão global”, pode-se inferir que as suas análises estão ligadas a um certo relativismo, no qual ele considera tudo válido, o que corre o risco de ignorar e, de certo modo até acabar com a consciência das contradições e dos conflitos (Pais, 1986). Muitas críticas feitas a Maffesoli residem no fato de ele ser adepto às análises do local, do microssocial sem ter em conta os grandes movimentos e as grandes tensões do mundo econômico e da história. Além da falta de rigor metodológico, a contestação ao racionalismo da sociedade moderna, também é considerada um dos pontos críticos na sua abordagem. Por outro lado, ele chama a atenção para a realidade social, valorizando as transformações e as especificidades que o cotidiano nos oferece para o conhecimento da sociedade. A influência do pensamento marxista nos estudos sobre o cotidiano Como já havíamos nos referido anteriormente, alguns teóricos do pós-guerra renovaram algumas ideias de Marx, principalmente as que estão contidas nas suas primeiras obras, através de trabalhos sobre o cotidiano. A filósofa húngara Agnes Heller desenvolveu uma sociologia da vida cotidiana baseada 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 24 nos estudos de Lukács principalmente na tese da “insuprimibilidade” da vida cotidiana. Heller tem seus fundamentos ontológicos centrados na ideia de homem como ser prático e social produzindo-se por meio de suas objetivações, considerando o ponto de vista de classe, da categoria de totalidade, de mediação, de negação e de contradição. O cotidiano, de acordo com Heller (1972), é a vida de todos os dias e de todos os homens em qualquer época histórica que possamos analisar. Segundo a autora, não existe vida humana sem o cotidiano e sem cotidianidade. As atividades do dia a dia promovem a reprodução do indivíduo singular e, por consequência, a reprodução do social. A condição humana, desta forma, depende do cotidiano, porém, não se limita a ele, pois nessa relação estão presentes, sobretudo, a intersubjetividade dos sujeitos, os significados do mundo e as instituições que ordenam a experiência do vivido. Para Heller, o cotidiano possui três dimensões objetivas, a primeira é a objetivação em si mesma (regras de linguagem, maneira de utilizar os objetos, normas de interação humana e costumes) e para si mesma, a qual está na esfera dos significados, das generalizações, das narrativas, da constituição, da manifestação e do retorno da vida cotidiana como totalidade humana. A outra objetivação está no nível intermediário. A objetivação por e em si mesma é a esfera da divisão do trabalho que, no mundo moderno, tem como base à especialização. A diversidade das instituições e as especializações estratificam os indivíduos fazendo-os adaptar-se e integrar-se ao cotidiano. Para compreender a estrutura da vida cotidiana é importante partir de alguns pressupostos que, de acordo com Heller, são imprescindíveis. O sujeito humano considera seu ambiente como algo já dado, já feito, que se apropria espontaneamente de seu sistema de hábitos e técnicas; seu comportamento é pragmático direcionado ao êxito da atividade; seu conhecimento não é medido por critérios de opinião. Na vida cotidiana a heterogeneidade das atividades está em correspondência de modo imediato com a práxis humana total. A práxis humana total está relacionada com o ser particular e o genérico. Para Heller (1972), “O indivíduo contém tanto a particularidade quanto o homem genérico que funciona consciente e inconscientemente no homem”. Essa coexistência do ser genérico e particular na humanidade só acontece em sua plenitude no cotidiano, embora nela, apenas se perceba o singular. A passagem do homem “inteiro” para o "inteiramente homem" acontece quando se rompe a cotidianidade, quando um projeto, uma obra ou um ideal convoca a inteireza de nossas forças e então suprime a heterogeneidade. Neste momento ocorre a homogeneização, porém, apenas ocorre quando o indivíduo concentra toda a sua energia e a utiliza numa atividade humana genérica que escolhe consciente e autonomamente. Quando o ser individual passa para o humano genérico encontra-se na plenitude, esta passagem (suspensão da vida cotidiana) denota que o homem singular se reconhece como integrante da totalidade e dessa forma ganha a consciência e possibilidade de transformação do cotidiano singular e coletivo. A vida cotidiana está mais vulnerável à alienação pelo fato de existirem sucessivas atividades heterogêneas. Essa alienação ocorre quando as formas necessárias de pensamento e ação se absolutizam e deixam pouca margem para o movimento ou manipulação da individualidade. Na sociedade capitalista, segundo Heller, a divisão social do trabalho é um elemento concreto de perda da objetividade do indivíduo, com tendências a se tornar um eu particular fragmentado. Essa percepção do cotidiano e da cotidianidade de Heller, deixa explícita a sua preocupação central na questão do trabalho e na sua hierarquização, que, por sua vez, reflete na prática da vida cotidiana. A busca pelo homem genérico, significa a superação do homem enquanto ser mergulhado em uma cotidianidade alienada e alienante capaz de deixar “imóvel” as grandes transformações históricas da sociedade. Desta forma, o cotidiano enfocado pela autora vai além das relações face a face e está intimamente ligada a uma hierarquia entre as diferentes atividades que constituem a cotidianidade. Lefebvre, em sintonia com algumas ideias de Heller, chamou a atenção para os grandes temas da modernidade - O nacionalismo, a cotidianidade, o estruturalismo, o urbanismo, o estatismo e o neoliberalismo. Analisou o econômico dentro das relações sociais e considerou o Estado como um mediador entre o econômico e o social. Segundo Martins (1996), “Lefebvre trouxe Marx para o nosso tempo criticamente como era próprio do pensamento marxiano”. Através de seus trabalhos sobre cotidiano, uniu a etnografia e o marxismo, fez uma sociologia de análise dinâmica, na qual privilegiou os espaços urbanos, a moradia, as festas etc. Lefebvre (1961), afirma que o cotidiano é um nível de realidade social que se relaciona com outros níveis, como o econômico, o político, o cultural e o psicológico. As análises individuais dos níveis de realidade apresentam, por sua vez, conteúdos de outros níveis, os quais nos mostram que, ao mesmo tempo em que estamos mergulhados em um nível de realidade, estamos também fora dele. Concomitanteàs questões históricas, econômicas e culturais que interferem no cotidiano, são os sujeitos sociais que dão vida e que fazem a prática cotidiana. Cada realidade é única e são os homens e as mulheres os responsáveis pela construção da vida cotidiana, tornando-as singulares nas suas realizações. 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 25 Para Lefebvre, o conceito de cotidiano é global, ele se refere e questiona a totalidade no curso do seu desenvolvimento. As particularidades que compõem a vida cotidiana, devem ser analisadas com cuidado para não se correr o risco de tratar os elementos que fazem parte dessa “globalidade” de maneira singular. A homogeneização do cotidiano pode ser percebida através das leis e da ordem estabelecida, das tarefas repetidas linearmente, da tendência geral de organizar a vida cotidiana como uma empresa, das representações estereotipadas e outros. Os fatores de fragmentação interrompem a linearidade da homogeneização provocando rupturas e descontinuidades: as separações e segregações, a organização sindical, o público e o privado. Todos esses fatores devem ser entendidos dentro de uma abordagem totalizadora e não apenas no específico. O público e o privado tomados como individual e coletivo, nas análises de Lefebvre, de maneira geral, nos fazem perceber que não existe o individual singular, isento do coletivo. E sim uma vinculação entre eles, a qual um interfere no outro. Os fatores de hierarquização tomam forma através da hierarquia das funções, dos trabalhos, dos salários, do saber e da burocracia. Existem também os fatores de centralidade, subjetividade e de sociabilidade que integram o cotidiano e que se opõem à homogeneização. Eles representam elementos de força que atuam de maneira dialética. Esses movimentos podem, por sua vez, provocar mudanças no nível de realidade. Às representações integram-se as ações na composição do cotidiano na sociedade moderna. É a partir das representações que se forma o ideário teórico de uma época, que vai influenciar as ações do cotidiano. Segundo Lefebvre, as representações formam-se entre o vivido e o concebido, ao mesmo tempo em que estes se diferenciam entre si. Entretanto, estudar o cotidiano, de acordo com Lefebvre, vai além de observar os fatores que o compõe. É sobretudo analisar, conjuntamente com as ações, as representações construídas pelos atores sociais, buscando captar, através das representações, o pensamento acerca dessas ações. De certo, Heller e Lefebvre contribuíram muito para o desenvolvimento de uma sociologia do cotidiano, sobretudo, pelo fato de deslocar as análises estáticas da vida social para a análise das relações em movimento. Lefebvre, principalmente, trouxe o cotidiano para a sociologia conjuntamente com as mudanças que a sociedade estava passando. Essas transformações alteravam, segundo o autor, as ocupações dos espaços urbanos e privados que através das relações sociais desenvolvidas naquele e em outros espaços, poderiam também causar alterações em espaços cada vez mais amplos. Associar as mudanças estruturais da sociedade moderna com as relações cotidianas é uma das grandes contribuições deste autor. Porém, outras análises também seguiram os passos de Lefebvre e Heller oferecendo outros enfoques nos estudos sobre o cotidiano, principalmente pelo viés da história e da antropologia, como Michel de Certeau (1990). Segundo Certeau, o cotidiano pode ser entendido como um ambiente onde se formalizam as práticas sociais que, por sua vez, sofre influências exteriores. De certo modo, Certeau concorda com Lefebvre quando este considera que as instituições econômicas interferem nas ações e pensamentos dos indivíduos, porém, o autor é também claro em afirmar que não se pode resumir as análises sociais ao determinismo econômico. Certeau (1982) acredita que, na maior parte dos trabalhos, quando se leva em consideração a questão da produção econômica capitalista nas análises social, olha-se demasiado com o olhar do poder centralizador que esmaga quase que completamente o consumidor e que o cotidiano, por sua vez, reproduz as influências do poder econômico nas suas relações sociais. Desse modo, resta para os “consumidores oprimidos” reproduzir ou superar essa situação. Para Certeau nesta questão existe um outro lado. Segundo ele, do lado do consumidor existe também uma produção, muito embora pareça invisível, em que ele transforma o espaço que lhe é imposto, ele se transforma em um caçador furtivo, o qual circula, caça, faz uma produção, que não é marcada pela criação de novos produtos, mas, que ele se serve de um léxico imposto para produzir algo que lhe seja próprio. Dessa forma o consumidor pode ser visto também enquanto criador, produtor ou praticante. A partir dessas questões, o autor chama atenção para o pressuposto de considerar as práticas cotidianas enquanto práticas. Podemos entender que, para Certeau, as relações sociais são formadas por práticas que são construídas, são “fabricadas”, a partir das diversas atividades que se exercem na vida cotidiana - profissionais, sociais, políticas e culturais -. A partir das operacionalizações dessas práticas cotidianas, considera-se três aspectos. Primeiro o caráter estético que se trata da arte de fazer. Essa dimensão diz respeito à questão do estilo, a maneira específica de fazer, de praticar alguma coisa. O segundo é o caráter ético, quando as práticas cotidianas se constituem em uma recusa do sujeito em se identificar com a ordem tal como ela se impõe. De alguma forma existe uma ordem que não pode ser mudada, porém, quando não se segue tal qual a essa lei configura-se aí um aspecto essencialmente ético. É o abrir de um espaço. Um espaço que não é fundado sobre a realidade existente, mas, sobre a 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 26 vontade de criar alguma coisa. Na multiplicidade dessas práticas cotidianas, dessas práticas transformadoras da ordem imposta, há constantemente um elemento ético. Por fim existe o aspecto polêmico. São as práticas que representam a defesa da vida que estão inscritas como intervenções de conflito permanente em uma relação de força. Considerando estes elementos que compõem as práticas cotidianas, Certeau (1982) esclarece que as práticas devem ser analisadas enquanto operações, como manifestação de táticas e de estratégias. Para tal é importante verificar se algumas delas encontram- se mais reunidas em determinados locais que em outros, se são mais específicas de determinados meios ou de determinada conjuntura na qual algum indivíduo se encontra. Até certo ponto, Certeau (1990) retoma a estratégia de Bourdieu, mas sem obedecer ao seu esquema de circularidade, no qual as estratégias utilizadas pelos sujeitos possuem um certo automatismo. O autor propõe tratar as práticas cotidianas também como grupos de estratégias, sem desconsiderar, também, os aspectos estruturais da sociedade. Porém, essas estratégias são produzidas e recriadas pelos sujeitos através das práticas cotidianas que, por sua vez, possuem sua própria lógica. De acordo com Certeau (op.cit.), a lógica das práticas cotidianas não se apresenta apenas através do que é realizado em forma de ação em um determinado ambiente. A lógica da ação, de acordo com o autor, é toda uma rede de operações nas quais envolvem as relações de força que consiste em construções de táticas de ações “próprias” desenvolvidas pelos sujeitos em um determinado ambiente que, todavia, se estabelece quando as ações se transformam em práticas cotidianas e em práticas discursivas, tornando-se, portanto, indissociáveis. Certeau (1990) considera importante a análise das práticas cotidianas conjuntamente com as práticas discursivas. As práticas discursivas, as quais ele se refere, estão relacionadas com os “atos de fala”, ou melhor, com a utilização social da linguagem. Considerar queos atos de fala são formas de práticas sociais requer uma compreensão de linguagem diferente do conceito saussuriano. Para Certeau (op. Cit.), a linguagem não se analisa de maneira isolada do social, ela está integrada aos contextos sócio culturais e econômicos da mesma forma que as práticas enquanto puramente formas operacionais. Quando se analisa a forma operacional de um determinado grupo considera-se que essas formas são organizadas da mesma forma que a linguagem. Portanto, para Certeau (1985), os “atos de fala” são constitutivos das práticas cotidianas. Os documentos, as leis, o ato de conversar, de cumprimentar, de ordenar e de convencer fazem parte de todo um processo social no qual estão em jogo as relações de força em um determinado espaço social. A partir da proposta de análise das práticas cotidianas de Certeau (1985), podemos perceber que ele se distancia de Heller e Lefebvre quando não evidencia conceitos centrais desses autores como homogeneidade, heterogeneidade, fragmentação, superação, individual, coletivo, particular e genérico. O conhecimento das práticas cotidianas, de acordo com Certeau (1985), centra-se muito mais na busca dos aspectos estéticos, éticos e polêmicos da criação de cada realidade construída através das ações e discursos dos sujeitos sociais, do que na identificação e estruturação dos conceitos nas múltiplas realidades. Os espaços sociais, para ele, não são dados, como afirma Heller, e sim construídos e reconstruídos. As orientações e normas impostas, para Certeau (1990), não são simplesmente reproduzidas e sim “fabricadas” a partir das diferentes realidades sociais. Pode-se inferir que, o que Certau (1985;1990) propõe, através dos estudos do cotidiano, é uma análise mais etnológica e menos filosófica da vida cotidiana, embora, em análise mais aprofundada, pode-se perceber elementos de Heller e Lefebvre nos seus escritos. De acordo com Martins (1998), estes dois autores, quando tratam da reprodução social, não se referem apenas do capital, mas das contradições sociais, referem-se também à questão da criação da História pelo homem, pontos em que, sob diversos aspectos, convergem com Certeau. Na tentativa de se aproximar de algumas questões... Depois desse breve percurso por diferentes abordagens, voltamos às questões iniciais que nos levaram a essa trajetória: qual a importância do cotidiano na análise da realidade social? Será que podemos considerar que detalhes da vida privada ou pública podem ser importantes para a compreensão da sociedade mais ampla? Qual a relação entre o cotidiano e as estruturas da sociedade? Alguns dos autores que apresentamos procuraram responder algumas dessas questões partindo de pontos diferentes ou comuns, como pudemos perceber, e todas elas foram de suma importância para o desenvolvimento da sociologia do cotidiano. A importância do conhecimento dos fatos sociais que Durkheim chamou atenção, fez desenvolver-se muitos trabalhos, embora em direção oposta ao 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 27 tratamento dado por ele a esses fatos, no sentido de indicar a riqueza de informações que a vida social oferece a partir do seu desenvolvimento no cotidiano para o conhecimento científico da realidade social. O deslocamento dos sistemas gerais para os particulares, ou melhor, para uma compreensão crítica da vida cotidiana pode parecer, em relação a muitos teóricos como Parsons, Merton, o conhecimento de apenas pequenos pontos isolados e soltos no universo ou simplesmente “resíduos” que não merecem atenções especiais. A interpenetração das instituições com as ações sociais, através grandes modelos teóricos de análises, ligam os fatos com pessoas, ações com quadros de referência, do ator com o mundo exterior como se essa relação fosse homóloga. De certa forma, na tentativa de valorizar o cotidiano, Nobert Elias parece ter sido influenciado por esse pensamento quando tenta relacionar as situações comuns com as estruturas sociais. Talvez esse seja o ponto problemático de muitos que buscam trabalhar com o cotidiano: A relação entre a vida cotidiana e as estruturas sociais. Outro, como Maffesoli (1985), não parece estar preocupado em resolver essa questão, lança mão de um amplo quadro de teorias, muitas vezes divergentes e conflitantes entre si, do qual dispensa os conceitos em troca de “pontos de vista”. Embora Maffesoli defenda a integração do cotidiano com o global, parece que termina mergulhando em um excesso de “liberdade científica”. Já aos papéis sociais do interacionismo simbólico falta esse “elo de ligação” mais vivo entre os próprios indivíduos e entre eles e as estruturas sociais. Parece-nos que os sujeitos sociais não se relacionam propriamente, apenas interpretam papéis. Nos trabalhos que tomaram os conceitos marxistas de análise do social para analisar criticamente o cotidiano, apresentam muito fortemente o dia a dia como reprodutor das ideologias dominantes e vê nas rupturas desse processo sinais de revolução social. Já Certeau, de certo modo, relativiza esses elementos considerados centrais nessas análises do cotidiano, embora não os neguem. Acrescenta novos conceitos a essas teorias que permitem analisar os sujeitos comuns, não só como reprodutores, mas também, como sujeitos que produzem e constroem da vida de todos os dias. Além de introduzir o conceito de práticas cotidianas que se distingue do conceito de práxis humana revolucionária, utilizado por Heller. A importância do cotidiano, mesmo nestas diferentes perspectivas, é muito evidente porque põe em evidência a relação dos indivíduos sociais em interação em diferentes contextos sociais, sobretudo, no momento em que as ciências sociais colocam em “xeque” diversas abordagens que não conseguem responder os desafios do nosso tempo, os desafios da vida e, por conseguinte, da renovação do pensamento sociológico. Segundo Martins (1998), o interesse sociológico pelas pesquisas do cotidiano tem implicações diretas com interesse da humanidade em um mundo novo, mais justo, livre e igual. O cotidiano ao mesmo tempo em que se tornou um refúgio dos céticos, também se tornou referência das novas esperanças para a sociedade, principalmente através do aparecimento do novo herói, o homem comum imerso no cotidiano. As respostas que venham elucidar questões não desvendadas através de análises globalizantes, macroestruturais, podem estar dentro da vida ativa que a sociologia do cotidiano pretende alcançar. Seja através de estudos mais voltados para o viés da fenomenologia, seja por aqueles que propõem uma releitura dos princípios marxistas. Desta feita, a partir da necessidade de buscar novas formas de compreensão da realidade social, de novas formas de conhecimento da realidade escolar, mais especificamente, é que utilizaremos a abordagem de análise das práticas cotidiana proposta por Certeau a fim de compreender as práticas cotidianas desenvolvidas no interior da escola, porque, como instituição, a escola também faz parte desse processo de transformação que a sociedade atual vem passando. Os estudos do cotidiano da escola Como afirma Petitat (1991), “por volta da metade dos anos 70 a estrela da macroteoria começou a empalidecer”, dessa forma, os trabalhos na sociologia da educação que analisava a escola com base nos problemas estruturais e nas suas relações de dominação, passou a dividir espaço com as novas abordagens que tiveram, inicialmente, influência sobretudo do interacionismo simbólico, principalmente, dos trabalhos de Goffman. Desse modo, a escola passou a ser estudada por dentro, isto é, a partir das relações sociais que acontecem no seu interior. O estudo das interações sociais na escola colocava em evidência tanto os problemas sob ponto de vista da relação professor-aluno em sala de aula, como da relação destes com o conhecimento. De acordo com André (1997), algumas observações críticasacerca deste tipo de estudo em educação foram desenvolvidas já em meados dos anos 70. Elas se concentravam, principalmente, no fato destes estudos utilizarem instrumentos de observação que procuram reduzir os comportamentos da sala de aula a elementos de tabulação e mensuração e, desta forma, pouco contribuir para a compreensão do real processo ensinoaprendizagem. 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 28 Na tentativa de superar esses problemas, passou-se a utilizar os pressupostos da etnografia, que decorre da abordagem antropológica, com vistas a captar as relações desenvolvidas no âmbito da escola, no seu próprio desenvolvimento. Com isso começou-se a valorizar o contexto das interações que ocorrem na sala de aula associada a uma gama de significados culturais que estão presentes nesse processo. Como nos próprios estudos da escola de Chicago, este trabalho centrou-se preferencialmente na dimensão pessoal, das relações face a face, não considerando a dimensão institucional ou macro estrutural. Alguns autores acreditam que estes problemas decorrem, justamente, pelo desconhecimento dos pesquisadores dos princípios básicos da etnografia, como também da falta de clareza do papel da teoria na pesquisa científica. O estudo etnometodológico da escola realizado por Alain Coulon (1995), de certa forma, apresenta uma proximidade com o interacionismo simbólico da escola de Chicago. Tendo como base os estudos de Garfinkel, a etnometodologia da educação propõe um mergulho no interior da escola para compreender e interpretar o processo social no qual os indivíduos interagem entre si e com o conhecimento. O pressuposto epistemológico da etnometodologia da educação proposta por Coulon está baseado na fenomenologia de Schutz. Segundo o autor, a vida da escola é organizada e produzida pelos membros em sua rotina, padronização, disciplinamento, acontecimentos, atividades, competências e socializações. Dessa forma a escola é vista como ambiente em que se produzem “realidades” que devem ser compreendidas e interpretadas. A etnometodologia da pesquisa educacional, de acordo com Coulon, traz uma gama de elementos (noções) para se analisar os processos que ocorrem no interior da escola. Esses elementos, por sua vez, como no interacionismo, estão concentrados nas relações pessoais, não valorizando as questões macro estruturais, bem como as tensões que ocorrem a partir das relações de poder dentro e fora da escola. Régine Sirota (1988) também privilegiou o cotidiano de uma escola primária para entender os processos da relação entre professor em sala de aula. No seu trabalho de análise da divisão da palavra entre mestre e alunos, a autora considerou os elementos estruturais da sociedade como integrantes do cotidiano escolar. Sonia Pennin (1995), em seu trabalho “O Cotidiano e a Escola”, também chamou atenção para a utilização da análise micro sociológica no estudo da educação. Tratando o cotidiano escolar à luz da teoria do sociólogo Lefebvre (1961), a autora procura compreender a gênese e a natureza do processo educativo, através das ações cotidianas e das representações dos sujeitos que estão envolvidos – professoras, diretores e pais -, tentando identificar os elementos transformadores da escola. Com base na abordagem etnográfica da pesquisa científica, o trabalho de Pennin focalizou o cotidiano escolar procurando descobrir os fatores de homogeneização, heterogeneização e fragmentação, bem como de superação, presentes no dia a dia da escola, através das ações e representações (do vivido e do concebido) dos sujeitos. Este é um trabalho de grande importância na área da educação porque chama a atenção para a vida diária escola, não apenas de maneira restrita ao ambiente da sala aula, mas, principalmente para a o seu funcionamento como um todo, sua organização, as atividades de rotina, a utilização do tempo escolar, entre outros. A partir do exposto, podemos afirmar que o cotidiano, ainda pouco explorado ou valorizado como aporte teórico dos estudos sobre a escola, oferece uma gama de elementos para se conhecer o que até então, considerou-se sem importância, mas, que pode conter elementos fundamentais para se compreender melhor a dinâmica das unidades escolares, sobretudo a partir da utilização das táticas e estratégias proposta por Certeau (1985;1990) como forma de interpretação da realidade escolar. Formação Continuada do Professor7. A busca da qualidade de ensino na formação básica voltada para a construção da cidadania, para uma educação sedimentada no aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser e para as novas necessidades do conhecimento, exige necessariamente, repensar a formação inicial de professores, assim como requer um cuidado especial com a formação continuada desse profissional com um olhar crítico e criativo. Essa preocupação é relevante, tendo em vista o atual contexto de reformas educacionais, que visam a dar respostas à complexa sociedade contemporânea. 7 Texto adaptado de COSTA, N. M. L. 6 Educação continuada dos profissionais da escola. 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 29 Este é um tema de particular atualidade em função da recente reforma implementada em todos os níveis da educação brasileira, Educação Infantil, Ensino Fundamental, Ensino Médio e hoje em discussão a do Ensino Superior. Uma reforma que merece um domínio profundo por parte dos atores que de fato conduzem o processo ensino-aprendizagem. Pois, as mudanças implementadas são de cunho filosófico, metodológico e sociológico implica numa postura dialética frente ao conhecimento, compreensão de processos cognitivos e metacognitivos, domínio do conceito de competência e sua construção na escola, entre outras exigências. As referidas mudanças educacionais se baseiam em princípios filosóficos inovadores e têm fundamentos epistemológicos da pedagogia crítica. Porém, ao mesmo tempo tem como pilar de sustentação um movimento político-social de clara hegemonia do projeto neoliberal. Na implantação de qualquer proposta pedagógica que tenha implicações em novas posturas frente ao conhecimento, conduzindo a uma renovação das práticas no processo ensino-aprendizagem, a formação continuada de professores assume um espaço de grande importância. A formação continuada de docentes é um tema complexo e que pode ser abordado a partir de diferentes enfoques e dimensões. A história mostra a existência do modelo clássico no planejamento e na implementação de programas de formação, bem como o surgimento de novas tendências de educação continuada praticadas na área profissional da educação, como também em outros contextos profissionalizantes. Será abordada uma discussão a respeito das características do modelo clássico e das novas tendências na formação continuada de professores, suas contribuições para a profissionalização docente, bem como as implicações na operacionalização das propostas coexistentes e ainda, aponta caminhos para atender às atuais necessidades na formação de professores. Modelos de educação continuada O modelo clássico de formação continuada para docentes traduz-se no que vem sendo feito historicamente nas iniciativas de renovação pedagógica. A ênfase é dada na atualização da formação recebida ou numa “reciclagem” que significa “refazer o ciclo”. Candau utiliza o termo reciclagem diferentemente de outros interessados no assunto que discordam da expressão por atribuírem a palavra “reciclar” como um termo próprio do processo industrial e aplicado à reutilização de materiais recicláveis não condizente com a atual discussão da formação docente. Na visão de Prada, os termos empregados para nomear os programas de formação continuada de professores estão impregnados da concepção filosófica que orienta o processo, recebendo tambéminfluências da região, país e instituições envolvidas, entre outros fatores. O autor apresenta algumas das diferentes expressões que são mais utilizadas na denominação dos programas desta formação com o objetivo de ampliar essa compreensão: Quadro 01 – Termos empregados para formação continuada de docentes Capacitação Proporcionar determinada capacidade a ser adquirida pelos professores, mediante um curso; concepção mecanicista que considera os docentes incapacitados. Qualificação Não implica a ausência de capacidade, mas continua sendo mecanicista, pois visa melhorar apenas algumas qualidades já existentes. Aperfeiçoamento Implica tornar os professores perfeitos. Está associado à maioria dos outros termos. Reciclagem Termo próprio de processos industriais e, usualmente, referente à recuperação do lixo. Atualização Ação similar à do jornalismo; informar aos professores para manter nas atualidades dos acontecimentos, r ec e b e críticas semelhantes à educação bancária. Formação Continuada Alcançarníveis mais elevados na educação formal ou aprofundar como continuidade dos conhecimentos que os professores já possuem. Formação Permanente Realizada constantemente, visa à formação geral da pessoa sem se preocupar apenas com os níveis da educação formal. Especialização É a realização de um curso superior sobre um tema específico. Aprofundamento Tornar mais profundo alguns dos conhecimentos que os professores já têm. Treinamento Adquirir habilidades por repetição, utilizado para manipulação de máquinas em processos industriais, no caso dos professores, estes interagem com pessoas. Re-treinamento Voltar a treinar o que já havia sido treinado. 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 30 Aprimoramento Melhorar a qualidade do conhecimento dos professores. Superação Subir a outros patamares ou níveis, por exemplo, de titulação universitária ou pós-graduação. Desenvolvimento Profissional Cursos de curta duração que procuram a “eficiência” do professor. Profissionalização Tornar profissional. Conseguir, para quem não tem, um título ou diploma. Compensação Suprir algo que falta. Atividades que pretendem subsidiar conhecimentos que faltaram na formação anterior. No modelo clássico, caracterizado por vários estudiosos, o professor que já atua profissionalmente com sua formação inicial volta à universidade para renovar seus conhecimentos em programas de atualização, aperfeiçoamento, programas de pós- graduação de latu sensu e strictu sensu, ou ainda, participando de cursos, simpósios, congressos e encontros voltados para seu desenvolvimento profissional. Esses, promovidos pelas Secretarias de Educação, onde os docentes estão vinculados ou por outras entidades interessadas na área. Nesse modelo, permeia uma perspectiva de privilégios aos espaços considerados tradicionalmente como lócus da produção do conhecimento, os quais são: a universidade e os demais espaços vinculados a ela. Nessa perspectiva, considera-se que a universidade é o local em que circulam as informações mais recentes, as novas tendências e buscas nas mais diferentes áreas do conhecimento. Embora não se questione tanto essa realidade, existe um aspecto crítico nessa visão, qual seja, a desconsideração das escolas de Ensino Fundamental e Médio como produtoras de conhecimento e passa-se a considerá-las como espaços meramente destinados à prática, local onde se aplica conhecimentos científicos e se adquire experiência profissional. As pesquisas na área têm confirmado que é esse modelo clássico, que vem sendo praticado nos sistemas educacionais para a formação continuada dos profissionais do magistério, tem sido o mais promovido e portanto, o mais aceito. Candau, destaca quatro modalidades em que se apresentam tais iniciativas numa perspectiva tradicional. Sob a forma de convênios entre universidades e secretarias de educação, em que as universidades destinam vagas para formar professores em exercício do ensino fundamental e médio nos cursos de graduação e licenciatura. A oferta de cursos de especialização através de convênios entre instituições universitárias e secretarias de educação, visando à melhoria da qualidade de ensino tem sido muito praticada. Esses cursos são realizados em regime normal presencial ou na modalidade a distância, lançando mão de diferentes estratégias como, correspondência, via fax, vídeos, computador, teleconferência, ou outras mídias. Atualmente, no Brasil, existe um grande interesse na realização de cursos à distância e várias universidades já estão começando a montar cursos de aperfeiçoamento de professores nesta modalidade, não só para a rede pública, como também para a rede privada de ensino. Embora tais experiências não estejam restritas à área de educação, as possibilidades que as novas tecnologias apresentam podem ser muito bem exploradas em prol da formação continuada, rompendo propostas tradicionais, distâncias geográficas e temporais. Mesmo lançando-se mão dos recursos tecnológicos, tais experiências mantêm ainda, as características do modelo clássico de formação continuada. Uma terceira modalidade de formação continuada, na perspectiva tradicional, são as ações promovidas por órgãos responsáveis pelas políticas educacionais como, Secretarias de Educação dos estados e municípios e/ou o próprio Ministério de Educação, ofertando cursos de caráter presencial ou à distância. Além dos cursos promovidos de natureza presencial, insere-se também nessa modalidade programas de formação continuada a distância como os veiculados pela TV Escola, que se constitui numa formação aberta a todas as escolas públicas que possuam antena parabólica, receptor, TV e vídeo. O programa é vinculado ao Ministério da Educação e coordenado em todos os Estados pelas respectivas Secretarias de Educação. Embora estas iniciativas possuam características do modelo clássico, apresentam condições de ser trabalhada numa perspectiva de práticas inovadoras, onde as escolas se assumam enquanto lugares de formação como um exemplo vivo desse aspecto da interface. Como quarta modalidade surge mais recentemente, ação de apoio às escolas, em que se incluem componentes de formação continuada de professores em atividade. A partir de um slogan “adote uma escola”, universidades ou empresas “adotam” uma escola situada em suas proximidades e desenvolvem 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 31 programas específicos de colaboração em diferentes aspectos, oferecendo bolsas de estudos, equipamentos e outras formas de colaboração. No caso das universidades, oferecem programas de aperfeiçoamento em serviço para os professores. Estes são exemplos concretos de atividades que se constituem como modelo clássico de formação continuada de professores, mesmo que se utilizem estratégias renovadas e lancem mão das mais avançadas tecnologias de comunicação e informação na forma presencial ou à distância. São modalidades que não inovam na sua prática, apenas canalizam espaço e tempo para a formação nos moldes já consagrados. Na visão de Demailly, os modelos de formação continuada de professores, classificam-se em quatro estilos ou categorias, a saber: - A forma universitária, que tem como finalidade a transmissão dos saberes teóricos. Tem características semelhantes à dos profissionais liberais-clientes, por ter caráter voluntário e pela relação constituída entre formador-formando, os mestres são produtores do saber e o aluno funciona como receptor dos conhecimentos. - A forma escolar, onde estão organizados todos os cursos através de um poder legítimo, exigem escolaridade obrigatória e existe uma instância organizadora onde os formadores não são responsáveis pelo programa nem por decisões administrativas. Possuem um papel passivo em termos de planejamento. - A forma contratual se caracteriza pela negociação entre os diferentesparceiros. Estes estão ligados por uma relação de troca ou contratual do programa pretendido, modalidades materiais e ações pedagógicas da aprendizagem. - A forma interativo-reflexiva, bastante presente nas iniciativas de formação voltadas para a resolução de problemas reais. Nessa modalidade, está presente uma ajuda mútua entre formandos e uma ligação à situação de trabalho. Dentro desta concepção, a autora toma uma posição e destaca significativa diferença entre as formas universitária e a interativo-reflexiva. A primeira parece ser mais eficiente no plano individual. A segunda, é mais eficiente nos planos individual e coletivo porque suscita menor resistência por parte dos formandos, permite o prazer da construção autônoma, trazendo respostas aos problemas vivenciados, aborda a prática de maneira global e permite a criação de novos saberes para a profissão. Outros autores também defendem a forma interativo-reflexiva como uma maneira organizada e produtiva no processo ensino-aprendizagem, conforme afirma Gimeno Sacristán. O ensino como atividade racional ou reflexiva, como um fazer em que se mede cada passo dado e cada opção é fruto de um processo de deliberação, é uma prática utópica a que se aspira. Nóvoa apresenta uma síntese dos modelos já discutidos, resumindo-os a dois grandes grupos, nomeando-os de modelos estruturantes e modelos construtivistas. Os modelos estruturantes são organizados previamente a partir da lógica de racionalidade científica e técnica e ainda aplicados a diversos tipos de professores. O autor inclui neste grupo as formas universitárias e escolares citadas por Demailly. Os modelos construtivistas partem de uma reflexão contextualizada para a montagem dos dispositivos de formação continuada, visando a uma regulação permanente das práticas e do processo de trabalho. Este é um modelo que pode suscitar verdadeiras mudanças na prática, pois parte das necessidades dos educadores e se constitui em uma aprendizagem significativa, visto que os estudos teóricos têm ressonância na realidade cotidiana e visam a resolver questões anteriormente identificadas pelos envolvidos. Entretanto, as sistematizações de Demailly e Nóvoa devem servir aos educadores como modelos teóricos de análise e não como modelos práticos de intervenção. Pois os próprios teóricos reconhecem que esses modelos não existem de maneira isolada na prática de formação de professores. Para Nóvoa, “as estratégias de formação continuada são necessariamente híbridas, apelando segundo uma coerência própria e contextualizada a diferentes contributos teóricos metodológicos”. Nesse sentido, confirma Demailly, a inexistência de “formas no estado puro”. É de suma importância o conhecimento desses diferentes modelos, a compreensão de que eles se materializam na prática da formação docente de maneira mista e criam novas formas e representações nessa complexa teia de atuações rumo à melhoria da profissionalização docente. Porém, a experiência tem mostrado bons resultados na metodologia ativa, construtivista e que proporcione ação-reflexão-ação. Nesse contexto, não importa muito a forma em que se dão os programas de educação continuada. O que prevalece é a concepção filosófica entre teoria e prática, a compreensão do papel da universidade e das escolas de educação básica no processo de produção de conhecimento e qual o sentimento do 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 32 profissional da educação e o sentido das instituições formadoras, enquanto agente de socialização de conhecimentos, voltadas para a melhoria do processo ensino-aprendizagem e da profissionalização docente. Novas tendências e recursos para um novo caminhar Em contrapartida à concepção clássica, atualmente vem se desenvolvendo reflexões, anseios e pesquisas científicas, visando à construção de uma nova concepção e práticas condizentes com as relevantes necessidades da formação continuada dos educadores. Esses caminhos estão delineando-se como novas tendências para a formação continuada de professores. É importante destacar que mesmo existindo modelos distintos como o clássico e as novas tendências, nenhum deles existe isoladamente em seu estado puro, sempre apresentam interfaces entre eles. Entretanto, é a partir da perspectiva predominante que se identifica em que modelo e tendência determinada formação está inserida. As investigações recentes, e que estão conquistando consenso entre profissionais da educação, tratam de uma formação voltada para o professor reflexivo e tem como eixo central a própria escola. Desse modo, desloca-se o eixo da formação de professores da universidade para o cotidiano da escola de educação básica. Entretanto, ressalta-se que esse deslocamento é defendido em termos metodológicos, não que se queira depreciar a grande contribuição da universidade na formação docente. Tal perspectiva rompe com a concepção clássica de formação continuada muitas vezes concebida como um meio de acumulação de cursos, conhecimentos ou técnicas. É entendida como um trabalho reflexivo da prática docente, como uma forma de reconstrução permanente de uma identidade pessoal e profissional em interação mútua com a cultura escolar, com sujeitos do processo e com os conhecimentos acumulados sobre a área da educação. Para Nóvoa (1998), todo processo de formação deve ter como referencial o saber docente, o reconhecimento e valorização desse saber. Não é interessante se desenvolver formação continuada sem levar em consideração as etapas de desenvolvimento profissional do docente, ou seja, seus aspectos psicossociais. Existem grandes diferenças de anseios e necessidades entre o docente em fase inicial, o que já adquiriu uma considerável experiência pedagógica e o que já se encaminha para a aposentadoria. Por esta razão, as novas tendências de formação continuada consideram estas diferenças e apontam sérias críticas a situações padronizadas e homogêneas, as quais são amplamente conhecidas como “pacotes de formação” que ignoram tais diferenças e não consideram o contexto no qual o docente está inserido. Alguns pesquisadores sobre a formação continuada de professores revelam que, nessas tendências inovadoras, destacam-se três eixos que norteiam a prática docente e buscam adequá-las aos desafios do momento. Candau (1999), sintetiza esses eixos como pontos centrais de referências para se repensar a formação de professores adequada aos desafios do atual contexto. São eles: - a escola deve ser vista como lócus de formação continuada; - a valorização dos saberes da experiência docente; - a consideração do ciclo de vida dos docentes Primeiramente, a partir dos estudos de Antonio Nóvoa, a escola é vista como lócus de formação continuada do educador. É o lugar onde se evidenciam os saberes e a experiência dos professores. É nesse cotidiano que o profissional da educação aprende, desaprende, estrutura novos aprendizados, realiza descobertas e sistematiza novas posturas na sua “práxis”. Eis uma relação dialética entre desempenho profissional e aprimoramento da sua formação. Entretanto, essa perspectiva não é simples nem ocorre espontaneamente. Não basta acreditar que o cotidiano escolar favorece elementos para essa formação e a partir do seu trabalho, o professor está se formando continuamente. Nesse sentido, o pesquisador alerta: “A formação continuada deve estar articulada com desempenho profissional dos professores, tomando as escolas como lugares de referência. Trata-se de um objetivo que só adquire credibilidade se os programas de formação se estruturarem em torno de problemas e de projetos de ação e não em torno de conteúdos acadêmicos”. A fim de que o cotidiano escolar se torne um espaço significativo de formação profissional é importante que a prática pedagógica seja reflexiva no sentido de identificar problemas e resolvê-los e acima de tudo, seja uma prática coletiva, construída por grupos de professoresou por todo corpo docente de determinada escola. Sendo assim, tem-se uma rica construção de conhecimento em que todos se sentem responsáveis por ela. Nóvoa destaca também a necessidade de se criar novas condições para o desencadeamento desse ousado processo, em que a escola seja explorada em todas suas dimensões formativas. 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 33 Para a escola se constituir enquanto lócus de formação continuada, se faz necessária a promoção de experiências internas de formação, que esta iniciativa se articule com o cotidiano escolar e não desloque o professor para outros espaços formadores. Essa compreensão implica na necessidade das instituições escolares criarem espaços e tempos institucionalizados que favoreçam processos coletivos de reflexão e intervenção na prática pedagógica através de reuniões pedagógicas, dentro da carga horária dos profissionais, construção coletiva do projeto político-pedagógico da escola, inclusive programa de formação contínua e avaliação coletiva deste. Cabe, também, criar uma forma de incentivo à sistematização de práticas pedagógicas a partir da metodologia de pesquisa-ação. Outro aspecto relevante dessa compreensão é a mudança de foco da atuação pedagógica nas instituições escolares. Tal mudança implica numa nova concepção do trabalho do pedagogo nas escolas. Isso somente será possível se estiver muito claro qual é o papel desse profissional no atual contexto escolar. E qual o seu compromisso com a formação contínua dos docentes desenvolvida na própria escola. Numa visão crítica, Kramer, apresenta dois eixos em que devem ser sedimentados o trabalho do orientador pedagógico ou supervisor em uma escola preocupada com a produção coletiva e com a qualidade do processo de formação continuada, quais sejam: “Organizar a ‘formação em serviço’ em torno de temas ou problemas detectados como relevantes ou diretamente sugeridos pelos professores. Favorecer o acesso dos professores aos conhecimentos científicos em jogo nos diferentes temas, ultrapassando o senso comum: a) teorias que analisam o processo educativo de forma ampla (sociologia, antropologia, história, filosofia); b) estudos relacionados ao processo de construção do conhecimento (psicologia do desenvolvimento); c) conhecimentos que tratam diretamente o tema em questão”. No atual contexto educacional estão postos novos desafios para o profissional da pedagogia no cotidiano escolar. Esse novo fazer ultrapassa os aspectos burocráticos de exigências de planos de aula, de objetivos e avaliação, frequência e notas, os quais necessitam de uma sistematização e de um olhar pedagógico, porém tais pontos não podem consumir o fazer do pedagogo/a na dinâmica do processo. Isto se resumiria ao puro tarefemos, deixando exposta a lacuna do profissional que conduziria a escola ao espírito inovador e de pesquisa baseado na ação - reflexão - ação. Nessa perspectiva dinamizadora das atuais tendências de formação continuada de professores, em que a escola é compreendida como lugar de formação continuada, orientadores pedagógicos ou supervisores e professores necessitam discutir a prática pedagógica, situada num contexto mais amplo e buscar as necessárias soluções. Conforme Mediano, esse trabalho parte de dois princípios: 1) converter as próprias experiências em situações de aprendizagem e 2) fazer uma reflexão crítica da própria prática pedagógica. Entretanto, para que a escola redirecione sua prática de formação e redimensione o trabalho do pedagogo, é imprescindível que os dirigentes de escolas e os órgãos gestores da educação em conjunto com essa categoria, revejam os aspectos de atuação desse profissional no cotidiano escolar, contribuam para modificar a representação negativa que foi construída nesta profissão ao longo da história, desde a própria universidade e passem a compreender que este profissional não é um mero assistente ou acessório pertencente ao quadro administrativo da escola. Nesse sentido, outro fator importante, destaca Mediano, e a necessidade de os orientadores pedagógicos se desvincularem da insegurança que assola esse profissional em seu novo campo de atuação, ou seja, na formação de professores em serviço. Para vencer esse desafio, é importante a troca de experiências e a necessidade de se criar instâncias de trocas e de trabalhos coletivos, bem como se instalar um clima de confiança entre os pares. Tardif destaca o segundo eixo das atuais tendências de formação continuada, como sendo a valorização do saber docente. O trabalho desenvolvido parte da investigação dos saberes dos professores, sua natureza, sua origem, na capacidade de construção e reconstrução de saberes específicos dos professores e das relações que estes profissionais estabelecem entre os saberes construídos no cotidiano escolar e as ciências da educação. Os saberes da experiência são de extrema importância na profissão docente, se originam no trabalho cotidiano e no conhecimento do seu meio. São incorporados à vivência individual e coletiva e se traduzem 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 34 em habilidades de saber fazer e saber ser. São conhecimentos que surgem da experiência e são por ela validados. É importante destacar que é através desses conhecimentos experienciados que os professores julgam a formação individual, atribuem valores aos planos e reformas implementados e definem determinados modelos de excelência profissional. Podemos compreender da seguinte forma: “eles constituem, hoje, a cultura docente em ação é muito importante que sejamos capazes de perceber essa cultura docente em ação, que não pode ser reduzida ao saber cognitivo”. É de extrema importância ressaltar a práxis reflexiva na cultura da formação, visto que os saberes adquiridos na experiência ficam relevados ao “ostracismo” e não são canalizados e sistematizados para um saber acadêmico. A própria Universidade não tem essa vivência, em seus cursos de formação inicial ou continuada para docentes, parte do zero e desconsidera um saber construído na experiência que necessita ser confrontado com a produção acadêmica. Para ratificar essa compreensão Nóvoa afirma: “A formação continuada deve alicerçar-se numa reflexão na prática e sobre a prática”, através de dinâmicas de investigação-ação e de investigação- formação, valorizando os saberes de que os professores são portadores. Essa linha de pesquisa se constitui em uma importante iniciativa de reflexão no âmbito educacional. É um espaço de pesquisa emergente e pouco explorado, ainda tem muito a contribuir com o saber sistematizado da prática docente. O terceiro eixo orientador das atuais tendências da formação continuada de professores centra-se na consideração do ciclo de vida dos docentes trabalhados por Hubermann. É uma visão abrangente e unitária que possui grandes contribuições para a superação da dicotomia teoria - prática presente no modelo clássico Essa é uma temática recente no meio acadêmico, vem abrindo uma interessante linha de pesquisa que visa aproximar as etapas do ciclo profissional de professores, conhecida na psicologia como ciclo de vida do adulto. As contribuições de Hubermann, professor da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Genebra têm sido significativas para aprofundar o sentido da docência enquanto “carreira” profissional. Para o pesquisador esse conceito apresenta algumas vantagens: “Em primeiro lugar, permite comparar pessoas no exercício de diferentes profissões. Depois, é mais focalizado que o estudo de "vida" de uma série de indivíduos. Por outro lado, e isso é importante, comporta uma abordagem ao mesmo tempo psicológica e sociológica. Trata-se, com efeito, de estudar o percurso de uma pessoa em uma organização (ou numa série de organizações) e de compreender como as características dessa pessoa exerceminfluência sobre a organização e são, ao mesmo tempo, influenciadas por ela”. Hubermann (1992) correlaciona os estudos clássicos do ciclo da vida individual trazidos da Psicologia com os estudos de um grupo específico de professores. O autor identifica estágios durante a carreira docente; passeia pela subjetividade do professor procurando conhecer a imagem que as pessoas têm de si como professores ativos, em diferentes momentos de sua carreira; o nível de competência com o decorrer dos anos, bem como procura estabelecer o diferencial entre os professores que chegam ao fim da carreira com sofrimentos e aqueles que a finalizam com tranquilidade. Em seus estudos, o autor identifica cinco etapas básicas que não são estáticas nem lineares, a saber: a entrada na carreira, tempo de sobrevivência e descobertas; a fase de estabilização, etapa de identificação profissional; a fase de diversificação, momento de buscas plurais e experimentações; a etapa de distância afetiva, lugar de serenidade e lamentação; e, finalmente, o momento de desinvestimento, próprio do final de carreira profissional. Diante dessas considerações, é possível compreender que o ciclo da vida profissional é deveras complexo, o qual sofre interferências de múltiplas variáveis, muito embora, no desempenho da profissão muitas vezes, não são consideradas as mutações e os estágios psicossociais do educador. Contribuições dessa natureza são de grande valia para a discussão e prática da formação continuada, visto que é imprescindível à compreensão da heterogeneidade desse processo. É importante a tomada de consciência que as necessidades, os problemas, as buscas dos professores não são as mesmas nos variados momentos de sua profissão. Essa compreensão impede a realização de programas de formação que padronizem os profissionais em um mesmo lugar comum ou que desconsidere seus interesses e necessidades. Nesse sentido, podemos refletir a respeito do ciclo de vida dos educadores articulado às novas tendências de formação centrada numa visão construtivista: “É urgente devolver a experiência ao lugar que merece na aprendizagem dos conhecimentos necessários à existência (pessoal, social e profissional), na certeza que este processo passa pela constatação que o sujeito constrói o seu saber ativamente ao longo de seu percurso de vida. Ninguém se 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 35 contenta em receber o saber como se ele fosse trazido do exterior pelos que detém os seus segredos formais”. Todas essas contribuições teóricas que concebem a escola como lócus de formação continuada, valorizam os saberes docentes e reconhecem que os ciclos de vida profissional dos professores se constituem como pilares para a fomentação das novas tendências na formação docente. Os conceitos e formulações tratados aqui visam à formação do educador reflexivo que tem como prática recorrente a ação-reflexão-ação enquanto elemento fundamental para se trilhar novos caminhos rumo à consolidação de um modelo construtivista de formação profissional do educador. CURRÍCULO EM AÇÃO: PLANEJAMENTO, SELEÇÃO E ORGANIZAÇÃO DOS CONTEÚDOS. O currículo escolar e suas implicações no processo do conhecimento8 Na busca da constituição do conhecimento, outro termo a ser levado em consideração é o currículo, palavra de origem latina currere, que se refere à carreira, a um percurso, que deve ser realizado. A escola está e não está em crise, ela reproduz a ideologia do capital, e ao mesmo tempo oferece condições de emancipação humana. Podendo assim, conservar ou reproduzir, e é nesta contradição que é preciso analisar o currículo da escola, pois, ele deve refletir as mais diversas formas de cultura. Segundo Saviani “o currículo deve expressar um caminho pelo qual teoricamente todos deveriam percorrer rumo ao projeto social, passando a ser entendido como forma de contestação do poder". Um sistema escolar é complexo, frequentado por muitos alunos e, portanto, deve organizar-se. O que se deve então ensinar já que o currículo também é uma seleção limitada da cultura? Com certeza um currículo que compreenda um projeto de vida, socializado e cultural, com um conjunto de objetivos de aprendizagem selecionados que possam dar lugar à criação de experiências, para que nele se operem as oportunidades, que se privilegiem conhecimentos necessários para entender o mundo e os problemas reais e que mobilize o aluno para o entendimento e a participação na vida social. Sendo pertinente formar um aluno crítico, reflexivo e participativo das tomadas de decisões da sociedade, que não sejam apenas cidadãos, mas que saibam praticar e exercer sua cidadania ativa conectada com seus direitos e deveres. A produção do conhecimento deve ser o resultado da relação entre o homem e as relações sociais, através da atividade humana, ou seja, o trabalho como práxis humana e produtiva. Para Saviani “é preciso privilegiar a relação entre o que precisa ser conhecido e o caminho que precisa ser trilhado para conhecer, ou seja, entre conteúdo e método, na perspectiva da construção da autonomia intelectual e ética”. Hoje, há um consenso entre educadores de que o “aprender” é o papel mais importante de toda e qualquer instituição educacional. E que nesta linha, o compromisso político do professor apoiada pela equipe e direção se exigem mutuamente e se interpenetram, não sendo mais possível dissociar uma da outra. Para Sacristán: organizar currículo e programas de conteúdo é contribuir na formação das novas gerações da humanidade com possibilidades de traçar caminhos possíveis para superar dificuldades. E, que nós cidadãos participantes deste processo, professores pedagogos e gestores, consigamos construir outra escola, onde todos possam ser sujeitos de suas próprias histórias e parceiros na construção de uma sociedade mais democrática e mais humana. 8 Texto adaptado de OST, N. M. 7 Metodologia de ensino: organização didático‐pedagógica e suas implicações na produção do conhecimento em sala de aula; organização didático‐pedagógica e intencionalidade na prática pedagógica. 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 36 Sob este ponto de vista o currículo caracteriza-se por uma estratégia de abordagem do objeto, que é o aluno. Estratégia esta que significa um modo de observar, de pensar e de agir do educador sobre o alunado, construindo a partir das teorias que suportam a formação profissional do educador como sobre a sua experiência, sistema de valores, ideologia e estilo pessoa. A didática, o plano de trabalho docente e a hora atividade como possibilidades de aprendizagem Para Pimenta & Anastasiau “a pedagogia possibilita aos profissionais se apropriarem criticamente da cultura pedagógica para compreender e alargar sua visão da situação concreta, nas quais realizam seu trabalho, a fim de transformar a realidade, incluindo a atividade de ensinar que é a didática”. A didática, por sua vez, é o principal ramo da Pedagogia que investiga os fundamentos, as condições e os modos de realizar a educação mediante o ensino. Sendo o ensino uma ação historicamente situada, a didática constitui-se como teoria de ensino. A didática possibilita fazer um julgamento ou uma crítica do valor dos métodos de ensino. Pode-se dizer que a metodologia nos dá juízos da realidade e a didática, juízos de valor. Com isso pode-se concluir que pode ser metodológico, sem ser didático, mas não pode ser didático, sem ser metodológico, pois não se pode julgar sem conhecer. Segundo Pimenta & Anastasiau “a didática neste sentido ocupa-se da busca do conhecimento necessário para a compreensão da prática pedagógica e da elaboração de formas adequadas de intervenção, de modo que o processo ensino- aprendizagem se realize de maneira que de fatoviabilize a aprendizagem do educando”. A educação tem passado por várias concepções, em suas práticas escolares, mas precisamos nos deter neste momento da história, com a Concepção Pedagógica Histórica Crítico, pois ela nos propõe uma síntese superada da Pedagogia Tradicional e renovada, valorizando a ação pedagógica enquanto inserida na prática social concreta. Entende a escola como mediação entre o individual e o social, exercendo a articulação entre transmissão dos conteúdos e assimilação ativa por parte do aluno concreto, ou seja, inserido num contexto de relações sociais, resultando dessa articulação o saber crítico e elaborado de forma a eliminar a seletividade social e torná-la democrática. Dentro desta linha de pensamento destacamos vários estudiosos como: Makarenko, B. Charlot, Manacorda, Snyders, Dermeval Saviani e tantos outros, que concebem os conteúdos como culturais e autônomos, incorporados pela humanidade, mas reavaliados criticamente face às realidades sociais. Fundamentam a concepção de uma proposta educacional universal, mas não numa análise superficial de tornar “acessível à escolarização”; mas numa reflexão fundamentada no “acesso à educação”, garantindo qualidade nos objetivos educacionais, de não servir apenas como reprodutora de um sistema excludente, mas incluir todos os indivíduos no empenho de compreender a realidade social e poder contribuir com sua transformação. Outra prática a ser refletida é o plano de ação da escola e o Plano de Trabalho Docente, sempre a luz da Proposta Pedagógica Curricular. Se partirmos do princípio que planejar é assumir uma atitude séria, diante de uma situação problema, hoje mais do que nunca em todos os campos da atividade humana, precisamos do planejamento, pois ele requer ações e procedimentos capazes de resolver a especificidade de cada situação. O planejamento de ensino é a especificação e operacionalização do plano curricular e parte integrada do Projeto Político Pedagógico, em toda sua extensão. Ao reportar sobre o processo ensinoaprendizagem, é preciso fazer uma reflexão profunda sobre o que é ensinar e o que é aprender. Pois o ensino e a aprendizagem são processos tão antigos quanto à própria humanidade. O professor mantém seu profissionalismo pedagógico quando dialoga e partilha os princípios de um novo olhar sobre o aluno com Necessidades Educacionais Especiais, engajando na educação geral, as famílias, alunos, outros profissionais da educação e gestores das políticas públicas. Continuar buscando resposta para esta questão é acreditar que ensinar, em seu verdadeiro sentido, é reconhecer valores ter compreensão, solidariedade e crença no potencial humano superando atitudes de preconceito e discriminação em relação às diferenças. O compromisso é um convite a um novo olhar sobre a educação e a diversidade, em que currículos que marginalizam as diferenças deem espaço à construção de práticas curriculares calcadas no 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 37 compromisso com a pluralidade das manifestações humanas presentes nas relações cotidianas da escola. Para Vasconcelos “a sua atuação profissional enquanto docente, não há como ignorar o fato de que o centro de toda e qualquer ação didáticopedagógica está sempre no aluno e, mais precisamente, na aprendizagem que esse aluno venha a realizar”. Uma educação integradora na qual professor e aluno possa produzir conhecimentos que possibilitam contribuir para a transformação da sociedade. Para Bloon a formulação dos objetivos tem a finalidade de classificar para os professores as mudanças desejadas, orientar na escolha dos conteúdos, metodologias, experiências de aprendizagem e processo de avaliação. Nesta perspectiva, Czakalski a organização da hora atividade deve garantir o fortalecimento, o desenvolvimento de ações de enfrentamento de problemas diagnosticados que visem à melhoria e a qualidade do ensino e aprendizagem. Fazendo uso da hora atividade, no planejamento das práticas docente, há sempre uma preocupação em abordar a questão da indissociabilidade entre teoria e prática. É nos momentos de hora-atividade que a equipe pedagógica com apoio da direção escolar, oportunizam espaço de reflexão das práticas pedagógicas. Auxiliando o professor em seu trabalho, discutindo e encaminhando alunos para avaliações, redirecionando práticas para alunos com dificuldades de aprendizagem e para alunos repetentes, promover ações e reflexão, com o objetivo fundamental de assegurar aprendizagem. Como garantia de sua especificidade a escola utiliza esses momentos coletivos para com os professores, a fim de que haja uma organização coletiva para melhorar suas práticas. Um momento de rever seu trabalho, metodologia, critérios para retomar as ações, proporcionando ao professor e ao coletivo escolar, uma análise de sua prática sobre as reais condições de trabalho, privilegiando o conhecimento e o aperfeiçoamento do processo educativo, viabilizando a utilização de estudos com atividades teóricas e práticas que se fundem numa totalidade, pois o planejamento das práticas escolares envolve todo um trabalho pedagógico. O espaço de sala de aula não é o único onde se constrói o conhecimento e se aprende sobre cidadania. Mas deve propiciar espaços alternativos onde a pesquisar construa conhecimento que possa interferir favoravelmente na construção de cidadãos conscientes, responsáveis e atuantes em seus diferentes papéis sociais. Para Gadotti “educar significa formar para a autonomia, isto é, para se autogovernar. Um processo educacional somente será verdadeiramente autônomo e libertador se for capaz de preparar cidadãos críticos, dotados das condições que lhes permitam entender os contextos históricos, sociais e econômicos em que estão inseridos”. Nosso tempo requer postura de um novo cidadão consciente, sensível, que possa intervir e modificar a realidade social excludente, tornando-se sujeito da própria história. Para isso a gestão escolar, precisa ser autônoma e democrática. Reconhecendo toda a comunidade escolar e instâncias colegiadas com suas diversidades culturais, com as múltiplas possibilidades e diferentes saberes. Desafiando as incertezas e procurando as soluções diante de cada desafio. Planejar para construir o ensino Em uma sala de aula, durante a fala do professor, um aluno formula uma pergunta. O professor ouve atentamente e se vê diante de um dilema: O que fazer? Responder a pergunta objetivamente e continuar a exposição? Anotar a questão no quadro e dizer que responderá ao terminar o que está expondo? Anotar a pergunta e pedir a toda classe que pense na resposta? Solicitar ao aluno que anote a pergunta e a repita ao final da exposição? Qual a conduta mais correta? Escolher uma resposta adequada depende de vários fatores que devem ser considerados pelo professor. Entre eles, se a pergunta contribui para o desenvolvimento da atividade de ensino e aprendizagem naquele momento, ou ainda se existe pertinência em relação ao conteúdo em jogo na atividade. A pergunta pode evidenciar um nível de compreensão conceitual mais elaborado de um aluno se comparado à maioria da classe. Respondê-la naquele momento transformaria a aula em uma conversa entre o professor e aquele aluno, que dificilmente seria acompanhada pelos demais. Pode também revelar uma criança ou jovem com dificuldade de compreender o conceito em questão, o que sugere algum tipo 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 38 de atenção mais individualizada. É possível concluir ainda que a questão seria uma ótima atividade de aprendizagem em um momento posterior, quando certos aspectos do conteúdo já estiverem esclarecidos. Planejar: coerência para as ações educativas O professor tem um papel fundamental de coordenar o processo de ensino e aprendizagem da sua classe. “É preciso organizar todas as suas ações emtorno da educação de seus alunos. Ou seja, promover o crescimento de todos eles em relação à compreensão do mundo e à participação na sociedade”. Para isso, ele precisa ter claro quais são as intenções educativas que presidem esta ou aquela atividade proposta. Na verdade, ele precisa saber que atitudes, habilidades, conceitos, espera que seus alunos desenvolvam ao final de um período letivo. Certamente isso significa fazer opções quanto aos conteúdos, às atividades, ao modo como elas serão desenvolvidas, distribuir o tempo adequadamente, assim como fazer escolhas a respeito da avaliação pretendida. Se essas intenções estiverem claras, as respostas a esta ou àquela pergunta ou a diferentes situações do cotidiano de uma sala de aula serão mais coerentes com os objetivos e propósitos definidos. O Planejamento do Ensino tem como principal função garantir a coerência entre as atividades que o professor faz com seus alunos e as aprendizagens que pretende proporcionar a eles. Planejamento de Ensino Em muitos casos, quando o professor atua junto à sua classe sem ter refletido sobre a atividade que está em desenvolvimento, sem ter registrado de alguma forma suas intenções educativas, a atividade pode se revelar contraditória com os objetivos educativos que levaram o professor a selecioná-la. Esse tipo de contradição é muito mais comum do que parece. No ensino da leitura, por exemplo, é frequente o professor exigir de um aluno uma leitura em voz alta de um texto que o próprio aluno lerá pela primeira vez. Logo após essa leitura, o professor pede que ele comente o que leu, ou faça um resumo. Faz perguntas sobre as informações contidas no texto e pede-lhe que relacione ideias com outras anteriormente tratadas em classe. Geralmente, os professores que propõem essa atividade a seus alunos dizem que ela tem o objetivo de desenvolver a capacidade de ler e interpretar um texto. Mas esses professores se esquecem de que, para ler em voz alta, principalmente um texto que está sendo lido pela primeira vez, a atenção do leitor volta-se para a emissão da voz, a entonação, os cuidados com a pontuação. Ou seja, o leitor, nessas ocasiões, preocupa-se em garantir a audição de sua leitura, não a compreensão lógica e conceitual do que está lendo. Já uma leitura voltada à compreensão de um texto deve ser silenciosa, visando o entendimento dos raciocínios e, por isso, com idas e vindas constantes. Se um parágrafo apresenta uma ideia mais difícil, pode-se lê-lo várias vezes. Se uma palavra tem significado desconhecido, usa-se o dicionário. A leitura em voz alta é contraditória com uma leitura voltada ao estudo, à confecção de um resumo do texto. A atividade proposta pelo professor fica comprometida por essa contradição. Quem faz o planejamento O planejamento é um trabalho individual e de equipe. A elaboração do Planejamento do Ensino é uma tarefa que cada professor deve realizar tendo em vista o conjunto de alunos de uma determinada classe, sendo, por isso, intransferível. O ideal é desenvolver esse Planejamento em cooperação com os demais professores, com a ajuda da coordenação pedagógica e mesmo da direção da escola, mas cada professor deve ser o autor de seu Planejamento do Ensino. Quantas vezes nós, professores, ouvimos um aluno perguntar: - Professor, por que a gente precisa saber isso? Quantas vezes, no tempo em que éramos alunos, fizemos essa mesma pergunta a nossos professores, sem nunca obter uma resposta satisfatória? Flexibilidade Vale lembrar que nenhum Planejamento deve ser uma camisa-de-força para o professor. Existem situações da vida dos alunos, da escola, do município, do país e do mundo que não podem ser desprezadas no cotidiano escolar e, por vezes, elas têm tamanha importância que justificam por si adequações no Planejamento do Ensino. No processo de desenvolvimento do ensino e da aprendizagem, novos conteúdos e objetivos podem entrar em jogo; outros, escolhidos na elaboração do plano, podem ser retirados ou adiados. É 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 39 aconselhável que o professor reflita sobre suas decisões durante e após as atividades, registrando suas ideias, que serão uma das fontes de informação para melhor avaliar as aprendizagens dos alunos e decidir sobre que caminhos tomar. Além disso, as pessoas aprendem o mesmo conteúdo de formas diferentes; portanto, o Planejamento do Ensino é um orientador da prática pedagógica e não um “ditador de ritmo”, no qual todos os alunos devem seguir uniformemente. Ao longo do ano letivo e a partir das avaliações, algumas atividades podem se mostrar inadequadas, e será necessário redirecionar e diversificá-las, rever os conteúdos, fazer ajustes. Registro Registrar ajuda a avaliação. Vale destacar que a forma de organizar o Planejamento do Ensino aqui apresentado é uma escolha. O importante é o professor ter alguma forma de registro de suas intenções, procurando agir pedagogicamente de forma coerente com os objetivos específicos e gerais traçados no Projeto de Escola e em seu Planejamento do Ensino. A forma como cada professor registra seu Planejamento não deve ser fixa, para que cada profissional possa fazê-lo da forma como se sente melhor. Mas, se um educador deseja ser um profissional reflexivo, que pensa criticamente sobre sua prática pedagógica e se desenvolve profissionalmente com esse processo, ele precisa registrar seu Planejamento do Ensino. Redigir o projeto não é uma simples formalidade administrativa. É a tradução do processo coletivo de sua elaboração [...]. Deve resultar em um documento simples, completo, claro, preciso, que constituirá um recurso importante para seu acompanhamento e avaliação. Componentes do planejamento do ensino O Planejamento do Ensino, chamado também de planejamento da ação pedagógica ou planejamento didático, deve explicitar: - as intenções educativas – por meio dos conteúdos e dos objetivos educativos, ou das expectativas de aprendizagem; - como esse ensino será orientado pelo professor – as atividades de ensino e aprendizagem que o professor seleciona para coordenar em sala de aula, com o propósito de cumprir suas intenções educativas, o tempo necessário para desenvolvê-las; - como será a avaliação desse processo. Conteúdos e objetivos Conteúdo é uma forma cultural, um tipo de conhecimento que a escola seleciona para ensinar a seus alunos. Informações, conceitos, métodos, técnicas, procedimentos, valores, atitudes e normas são tipos diferentes de conteúdos. Informações, por exemplo, podem ser aprendidas em uma atividade, já o algoritmo da multiplicação de números inteiros, que é um procedimento, não. Esse é um tipo de conteúdo cuja aprendizagem envolve grandes intervalos de tempo e que necessita de atividades planejadas ao longo de meses, pelo menos. Valores são conteúdos aprendidos nas relações humanas, ocorram elas no espaço escolar ou não. Muitas vezes, aprender um valor pode significar também mudar de valor, o que torna o ensino e a aprendizagem de valores, e de atitudes também, um processo complexo, que não se resolve apenas com a preparação de atividades localizadas. Em uma escola onde o respeito mútuo e o combate a qualquer tipo de preconceito de gênero, de etnia ou de classe social estejam ausentes no dia-a-dia, não há como ensinar valores e atitudes por meio de atividades ou “sérias conversas” sobre esses temas. Os conteúdos do Planejamento do Ensino são aqueles que guiaram a escolha das atividades na elaboração do plano e são os conteúdos em relação aos quais o professor tentará observar, e avaliar, como se desenvolvem as aprendizagens, pois isso não seria possível fazer com relação a “todos” os conteúdos presentes na atividade. Conteúdo do planejamento X Conteúdo das atividades Em uma atividade de ensino e aprendizagem, os alunos trabalham com vários tipos de conteúdos ao mesmo tempo. Pensando sobre um conceitode Matemática, os alunos podem estar mais ou menos mobilizados para essa ação, e a mobilização necessária pode ser fruto de um valor anteriormente 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 40 aprendido: são alunos que gostam do desafio de aprender, e que identificam na atividade problemas interessantes que aguçam seu pensamento lógico. Para resolver uma questão de História ou de Geografia, o aluno precisa mobilizar seus conhecimentos de leitura, lembrar dados e relações que ele já aprendeu e que lhe permitam compreender a questão feita e pensar em possíveis respostas, ou em possíveis fontes para obter informações ou esclarecer conceitos. Por fim, terá que mobilizar seus conhecimentos de escrita para redigir a resposta. Durante uma atividade, alunos interagem com outros alunos e com o educador, e nessas relações inúmeros valores e atitudes entram em jogo. Quando o professor, ao iniciar um debate, relembra as regras de participação com sua classe, está trabalhando conteúdos atitudinais ainda que o debate seja sobre reprodução celular. É preciso lembrar, ainda, que existem conteúdos, geralmente, valores ou atitudes, que são eleitos no Projeto de Escola, e que devem ser trabalhados em todas as atividades de sala de aula, bem como em todas as relações pessoais ocorridas no espaço escolar. Respeito mútuo e intolerância com qualquer tipo de discriminação étnica, de gênero ou classe social são dois exemplos desses conteúdos. Objetivos Os objetivos educativos do Planejamento do Ensino, também chamados objetivos didáticos ou específicos, ou ainda de expectativas de aprendizagem, definem o que os professores desejam que seus alunos aprendam sobre os conteúdos selecionados. A forma tradicional de redigir um objetivo é utilizar a frase “ao final do conjunto de atividades, cada aluno deverá ser capaz de...”. Não há problema em definir dessa forma os objetivos no Planejamento do Ensino, desde que os alunos não sejam obrigados a atingi- los todos ao mesmo tempo. É possível definir esses objetivos descrevendo as expectativas de aprendizagem da forma que for mais fácil de compreendê-las. Os objetivos educativos do Planejamento do Ensino são importantes porque muitos conteúdos, os conceitos científicos entre eles, são aprendidos em processos que se complementam ao longo da escolaridade. Por exemplo, se um aluno das séries iniciais do Ensino Fundamental afirmar que célula é uma “coisa” muito pequena que forma o corpo dos seres vivos, pode-se considerar que seu conhecimento sobre o conceito de célula está em bom andamento. Mas, se esse for um aluno de 1a série do Ensino Médio, então, ele está precisando aprender mais sobre esse conceito. Os objetivos educativos do Planejamento do Ensino definem o grau de aprendizagem a que se quer chegar com o trabalho pedagógico. São faróis, guias para os professores, mas não devem se tornar “trilhos fixos”, em sequências que se repetem independentemente da aprendizagem de cada aluno. Organização das atividades Organizar as atividades: A principal função do conjunto articulado de atividades de ensino e aprendizagem que devem compor o Planejamento do Ensino é provocar nos alunos uma atividade mental construtiva em torno de conteúdo(s) previamente selecionado(s), no Projeto de Escola, no Planejamento do Ensino ou durante sua realização. Ao escolher uma atividade de ensino e aprendizagem para desenvolver com seus alunos, o professor precisa considerar principalmente a coerência entre suas intenções – explicitadas pelos conteúdos e objetivos – e as ações que vai propor a eles. Precisa também pensar em como aquela atividade irá se articular com a(s) anterior (es) e com a(s) seguinte(s). Uma atividade que está iniciando o trabalho sobre um ou mais conteúdos é muito diferente de uma atividade na qual os alunos estão discutindo um problema real, visto no jornal, por exemplo, baseados em seus estudos anteriores sobre conceitos que estão em jogo no problema. As atividades devem ser de acordo com aquilo que se quer ensinar, seja a curto, médio ou longo prazo. A diversidade é uma de suas características principais: assistir a um filme, a uma peça teatral ou a um programa de TV; realizar produções em equipe; participar de debates e praticar argumentação e contra argumentação; fazer leituras compartilhadas (em voz alta); práticas de laboratório; observações em matas, campos, mangues, áreas urbanas e agrícolas; observações do céu; acompanhamento de processos de médio e longo prazo em Biologia e Astronomia. Idas a museus, bibliotecas públicas, exposições de arte. Pesquisa em livros e revistas, com ou sem uso de informática e Internet. Assistir a uma exposição por parte do professor. 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 41 Novamente, deve-se insistir no fato de que a sequência de atividades que compõe o Planejamento do Ensino deve levar em conta as experiências dos próprios alunos no decorrer de cada atividade escolhida. Existem planos que se realizam quase integralmente, os que se realizam em grande parte, ou aqueles que, simplesmente, precisam ser refeitos tendo como critério a avaliação da aprendizagem dos alunos. ANDRAGOGIA: CONSIDERAÇÕES SOBRE A APRENDIZAGEM DO ADULTO9 Os diversos estudos sobre a infância e a experiência com crianças denotam que as mesmas são seres dependentes, necessitam dos cuidados de terceiros, acostumam-se a esta dependência que é aceita, por todos, como normal. Nessa fase, quando se inicia o período escolar, é esperada proteção por parte dos professores. Já na adolescência iniciam-se os questionamentos, aparecem às rebeldias e a autoridade dos professores deixa de ser absoluta. Na idade adulta acumulam-se experiências, aprende-se com erros, tendo consciência do que não se sabe e quanto estes desconhecimentos fazem falta. Os adultos avaliam cada informação que lhes chega e a incorporam ou não, em função de suas necessidades. Num breve levantamento histórico do ensino, pode-se constatar que no começo do século VII, foram iniciadas na Europa escolas para o ensino de crianças, cujo objetivo era preparar jovens rapazes para o serviço religioso (OLIVEIRA, 2007). Eram as conhecidas Catedrais ou Escolas Monásticas. Os professores dessas escolas tinham como missão a doutrinação dos jovens na crença, fé e rituais da Igreja. Eles reuniram uma série de pressupostos sobre aprendizagem, ao que denominaram de "pedagogia. A palavra, literalmente, significa "a arte e ciência de ensinar crianças" - a etimologia da palavra é grega: "paido", que significa criança, e "gogos" que significa educar. Esse modelo de educação monástico foi mantido, através dos tempos, até o século XX, por não haver estudos aprofundados de sua inadequação para outras faixas etárias, que não a infantil. Veio, assim, a ser a base organizacional de todo o nosso sistema educacional, incluindo o empresarial. Entretanto, logo após a Primeira Guerra Mundial, começou a crescer nos Estados Unidos e na Europa um corpo de concepções diferenciadas sobre as características do aprendiz adulto que, infelizmente, ainda não é considerado por completo na educação de quem não é mais criança. Este processo é, ainda hoje, ignorado pelos sistemas tradicionais de ensino e na maioria dos casos, tenta-se ensinar adultos com as mesmas técnicas didáticas usadas no ensino fundamental e médio. Segundo Cavalcanti (1999), apenas em 1926, Linderman, na tentativa de buscar melhores formas de educar adultos, percebeu a falta de adequação dos métodos utilizados e escreveu: “nós aprendemos aquilo que nós fazemos. A experiência é o livro-texto vivo do adulto aprendiz”. Knowles, em 1970, trouxe à tona as idéias de Linderman e introduziu em 1973 o termo andragogia (do grego: andros = adulto e gogos = educar), como “a arte e a ciência de ajudar adultos a aprender”. Bellan (2005) destaca que andragogia é a ciência que estudacomo os adultos aprendem, e quem primeiro usou esta nomenclatura foi o educador alemão Alexander Kapp, em 1833 para descrever elementos da teoria de Educação de Platão. Seguindo esta linha de pensamento, Perissé (2008) relata que o estudante adulto não pode ser tratado pelos professores como se fosse um adolescente e estivesse apenas começando a entrar no labirinto da vida. Os professores devem ser capazes de compreender que este aluno (com mais idade do que eles, às vezes) requer desafios. Mais do que ficar ouvindo, passivamente, a exposição muitas vezes abstrata e tediosa de um assunto, precisa gerir seu aprendizado e seu desenvolvimento profissional. O professor deve aprender que os adultos precisam que ele lhes ajude a compreender a importância prática do assunto a ser estudado, experimentar a sensação de que cada conhecimento fará diferença e mudará efetivamente suas vidas. Pinto (2007) relata que a educação formalizada é um dos processos pelos quais a sociedade se configura, mas não o é, como retrata a pedagogia ingênua, aquela que parte de idéias pré-concebidas sobre a realidade e que não leva em consideração o sujeito real. Todos os processos configuradores da sociedade estão em estreita relação recíproca e se influenciam mutuamente. Logo, a educação só alcança os resultados que o conjunto dos demais processos lhes permite obter. 9 CARVALHO, J. A. de; CARVALHO, M. P. de; BARRETO, M. A. M; ALVES, F. A. 8 Andragogia e as considerações curriculares para aprendizagem do estudante adulto. 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 42 Segundo Hamze (2008) a andragogia é um caminho educacional que busca compreender o adulto, podendo ser considerada uma teoria, mas também um método de ensino, que se reflete em um somatório de trocas de conhecimentos entre o facilitador do conhecimento e o estudante adulto e suas experiências de vida. No modelo andragógico, a aprendizagem é de responsabilidade compartilhada entre professor e aluno. A andragogia fundamenta-se no “aprender fazendo”. Segundo Finger (2003), a educação de adultos tem merecido especial atenção da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), desde a sua criação, podendo a sua contribuição para este campo ser considerada histórica, especialmente no que se refere à alfabetização e educação básica de adultos. Em continuidade a essa atenção, Pinto (2007), afirma ainda que o método é de fundamental importância no processo de educação do adulto, por se tratar de pessoa já dotada de uma consciência formada, com hábitos de vida e situações de trabalho que não podem ser arbitrariamente modificados. As características que devem fundamentar este método são as seguintes: - Despertar no adulto a consciência da necessidade de instruir-se e a noção clara da sua participação na sociedade; - Partir dos elementos que compõem a realidade do educando, que se destacam como expressão de sua relação direta e contínua com o mundo em que vive; - Não impor o método ao educando e, sim, criá-lo com ele, com base na realidade em que vive. O professor instrutor deve atuar como incentivador da busca autônoma de conhecimentos. - Propor o conteúdo da instrução, o que deve ser justificado como uma contribuição para melhorar as condições de vida do homem. Danyluk (2001) relata que o adulto escolarizado é um sujeito culto, no sentido objetivo da cultura, porque consegue sobreviver na sociedade na qual está inserido. Aquilo que desconhece, talvez seja o que até então, não teve necessidade ou oportunidade de aprender. As pessoas que não sabem ler nem escrever, já atuam em seus mundos como educados, ainda que não de forma escolarizada. O adulto traz consigo os saberes de suas vivências, embora dúvidas e medos o acompanhem, e deixam à vista um ser cheio de vida e experiência existencial. Para DeAquino (2007), a andragogia apresenta-se atualmente, como uma alternativa à pedagogia clássica e refere-se à educação centrada no aprendiz, para jovens e adultos. Ainda segundo Perissé (2008), os conceitos andragógicos devem ser aplicados na formação do professor, uma vez que é adulto e necessita ver e tratar seus alunos adultos como pessoas verdadeiramente livres e responsáveis. Esta é a motivação das motivações - ser tratado como um ser inteligente, capaz de acertar na vida. Muito além das notas, os alunos maduros anseiam ver como a realidade acadêmica concorrerá de fato para que sua realidade pessoal seja dinâmica, produtiva. Os professores de alunos adultos, pressionados por problemas que a pedagogia só em parte pode solucionar, precisam estudar Andragogia. O adulto aprendiz é quem melhor ensinará como ensinar. Hamze (2008), relata ainda que na Andragogia a aprendizagem tem uma particularidade mais centrada no aluno, na independência e na auto-gestão da aprendizagem, para a aplicação prática na vida diária. Sobre a discussão acerca da pedagogia e da andragogia na educação de jovens e adultos, podemos considerar o que aponta DeAquino (2007 p. 13). A grande discussão hoje existente nos meios universitários e de educação continuada é se a pedagogia é uma forma adequada para o ensino e aprendizagem de adultos ou se a andragogia, uma abordagem que considera a postura crítica e a necessidade da experimentação, seria capaz de trazer resultados melhores para esse grupo particular de aprendizes. Nosso entendimento é de que existe um contínuo, no qual a pedagogia, também conhecida com aprendizagem direcionada, posiciona-se em uma extremidade, enquanto a andragogia (aprendizagem facilitada) encontra-se em outra. De modo a se ter eficácia e eficiência no processo de aprendizagem, é necessário que professores e organizações educacionais sejam capazes de se mover ao longo desse intervalo e encontrar a combinação correta entre as duas abordagens. Concordamos com as colocações acima e completamos com o que Chotguis (2007) relata, acerca do desenvolvimento das teorias de educação. Apenas em 1950, alguns educadores começaram a organizar idéias em torno da noção de que adultos aprendem melhor em ambientes informais, confortáveis, flexíveis e não ameaçadores e o termo somente foi usado nos anos 60. A andragogia foi apresentada como a arte e a ciência de ajudar o adulto a aprender e era ostensivamente a antítese do modelo pedagógico clássico que significa, literalmente, a arte e ciência de ensinar crianças. Esse modelo pedagógico, aplicado também ao aprendiz adulto, persistiu através dos 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 43 tempos chegando até o século presente e foi a base da organização do nosso atual sistema educacional. Confere ao professor responsabilidade total para tomar todas as decisões a respeito do que vai ser aprendido, como será aprendido, quando será aprendido e se foi aprendido. É um modelo centrado no professor, deixando ao aprendiz somente o papel submisso de seguir as instruções do professor. Segundo DeAquino (2007), a andragogia, inicialmente definida como a arte de ajudar os adultos a aprender, apresenta-se atualmente como uma alternativa à pedagogia e refere-se à educação centrada no aprendiz para pessoas de todas as idades. Sabemos que à medida que as pessoas amadurecem, sofrem transformações como: passar de dependentes para indivíduos independentes (autodirecionados); acumular experiências de vida que vão fundamentar o substrato de seu aprendizado; direcionar seus interesses para o desenvolvimento das habilidades que utiliza em seu papel social; esperar uma imediata aplicação prática do que aprendem; preferir aprender para resolver problemas e desafios e passar a apresentar motivações internas mais intensas do que motivações externas (Knowles, 2005). Dessa forma, a andragogia é descrita mais como uma forma sequencial do modo de aprender do que como umateoria (KAUFMANN, 2000), Ela oferece, quando muito, as diretrizes de aprendizagem para pessoas que tenham tendência à autonomia e à autoinstrução. São sete as hipóteses por ele levantadas: 1. É necessário um ambiente de aprendizagem eficaz. Os estudantes devem se sentir calmos do ponto de vista psíquico. Eles devem se sentir seguros para se exprimir sem se expor ao julgamento ácido ou ao ridículo. 2. Os estudantes devem participar da elaboração do programa de estudos que deve ser efetivo para o conteúdo e para o processo de aprendizagem. 3. Devem ser estimulados a participar na determinação de suas necessidades educativas o que favorece a automotivação, autoavaliação e a reflexão. 4. Os estudantes devem fixar suas necessidades de aprendizagem, ou seja, a responsabilidade principal por seu aprendizado é deles próprios. 5. Deve-se incitá-los a identificar os recursos necessários para que atinjam os objetivos de aprendizado. Esse princípio estabelece a ligação entre as necessidades, os recursos e os objetivos finais da aprendizagem. 6. Auxiliar os estudantes a colocar em prática seus projetos de aprendizagem. Um dos elementos- chave da motivação é a expectativa de alcançar um bom resultado. Quando muito cobrado, ele perde a motivação para estudar, aparecendo o mal resultado. 7. É necessário que os estudantes estejam implicados em seus próprios processos de avaliação. Essa é uma ferramenta fundamental ao processo de aprendizado autodirigido e que necessita de reflexão crítica. Knowles (2005), afirma, ainda, que o comportamento do aprendiz varia de acordo com a aprendizagem e que situações da vida afetam também o estilo andragógico de aprendizagem. Experiências passadas e atuais também ajudam a formatar a aprendizagem, sendo que adultos aprendem mais no contexto da vida real, sendo motivados em aprender para solucionar problemas. Durante anos se refinou o modelo andragógico emergente, o que, em nossa opinião, fortificaram-no. Aprender é um fenômeno complexo que desafia qualquer modelo. Em contraposição ao modelo pedagógico, Chotguis (2007) relata que o modelo andragógico é baseado em vários outros pressupostos, dentre os quais destacamos: 1. A Necessidade de Saber. Os adultos investem energia investigando o que ganharão em aprender algo, assim, necessitam saber PORQUÊ aprender. 2. Autoconceito do Aprendiz. Os adultos respondem ao autoconceito de serem responsáveis pela própria vida e pelo que acontece com ela, inclusive pelo que aprende. 3. O Papel das Experiências dos Aprendizes. Os adultos acumulam mais experiências e de diferentes tipos, do que na juventude. 4. Prontos para Aprender. Adultos estão prontos para aprender o que vai fazer diferença em sua vida cotidiana, em situações reais. 5. Motivação. As pressões internas, como desejo de satisfação no trabalho e autoestima são motivadores mais potentes para os adultos do que as externas, como melhor emprego, salário etc. Knowles (2005), afirma que, ao se considerar uma teoria, deve-se entender as complexidades envolvidas na definição de educação e aprendizagem Educação enfatiza o educador enquanto a aprendizagem enfatiza a pessoa na qual ocorrerão mudanças. Embora esta definição seja facilmente compreensível, desenvolver uma definição de trabalho de aprendizagem é muito mais complexo. A teoria 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 44 de aprendizagem refere-se a métodos de aprendizagem enquanto a de ensino refere-se a métodos empregados para se influenciar a aprendizagem, logo, entende-se a aprendizagem como processo de ganho de conhecimento e ou experiência. Segundo Freire (1992) as relações do homem com o mundo, independem do fato de ser alfabetizado ou não, basta ser homem para realizá-las, para ser capaz de captar os dados da realidade, de saber, ainda que seja este saber meramente opinativo. Daí que não haja ignorância nem sabedoria absoluta. A compreensão resultante da captação será tão mais crítica, quanto seja feita a apreensão da causalidade autêntica. E será tão mais mágica, na medida em que se faça com um mínimo de apreensão dessa causalidade. Enquanto para a consciência crítica, a própria causalidade autêntica está sempre submetida a sua análise – o que é autêntico hoje pode não ser amanhã - para a consciência ingênua, o que lhe parece casualidade autêntica já não é, uma vez que lhe atribui caráter estático de algo já feito e estabelecido. A consciência crítica é a representação das coisas e dos fatos como se dão na existência empírica. A consciência ingênua, pelo contrário, se crê superior aos fatos, dominando-os de fora e, por isso, se julga livre para entendê-los conforme melhor lhe agradar. A consciência mágica, não chega a acreditar-se superior aos fatos, dominando-os de fora, nem se julga livre para entendê-los como melhor lhe agradar. Por isso é próprio da consciência crítica a sua integração com a realidade, enquanto que da ingênua o próprio é sua superposição à realidade. Devemos buscar, na educação de adultos, o desenvolvimento da consciência crítica. Bellan (2005) destaca que quando se olha a aprendizagem de adultos através da andragogia, vê-se que o papel do professor como é tradicionalmente conhecido, deve ser revisto. Porque os alunos adultos são conscientes de suas habilidades e experiências, e exigem mais envolvimento no processo de aprendizagem. O professor deve transformar-se em facilitador, um agente de transformação. Sobre o conceito de facilitação, Finger (2003) destaca que está diretamente relacionada com o conceito de crescimento, chamada aprendizagem autodirigida. Knowles (2005), afirma que a andragogia é o modelo certo numa dada situação de aprendizagem adulta e disse ainda, em 1989, que, preferia pensar na andragogia como modelo de conceitos que servem como base para uma teoria emergente. A transição da pedagogia para a andragogia deve ser feita durante os estudos universitários, tendo em vista que a maioria dos graduandos inicia os estudos como adolescente e termina como adulto. Enfatizar a aplicação dos princípios andragógicos nas universidades é de fundamental importância, a fim de atingir maior eficiência educacional. Jovens e adultos como sujeitos de conhecimento e aprendizagem10 O tema “educação de pessoas jovens e adultas” não nos remete apenas a uma questão de especificidade etária mas, primordialmente, a uma questão de especificidade cultural. Assim, apesar do recorte por idade (jovens e adultos são, basicamente, “não crianças”), esse território da educação não diz respeito a reflexões e ações educativas dirigidas a qualquer jovem ou adulto, mas delimita um determinado grupo de pessoas relativamente homogêneo no interior da diversidade de grupos culturais da sociedade contemporânea. O adulto, no âmbito da educação de jovens e adultos, não é o estudante universitário, o profissional qualificado que frequenta cursos de formação continuada ou de especialização, ou a pessoa adulta interessada em aperfeiçoar seus conhecimentos em áreas como artes, línguas estrangeiras ou música, por exemplo. Ele é geralmente o migrante que chega às grandes metrópoles proveniente de áreas rurais empobrecidas, filho de trabalhadores rurais não qualificados e com baixo nível de instrução escolar (muito freqüentemente analfabetos), ele próprio com uma passagem curta e não sistemática pela escola e trabalhando em ocupações urbanas não qualificadas, após experiência no trabalho rural na infância e na adolescência, que busca a escola tardiamente para alfabetizar-se ou cursar algumas séries do ensino supletivo. E o jovem, incorporado ao território da antiga educação de adultos relativamente há pouco tempo, não é aquele com uma história de escolaridade 10 Texto adaptado OLIVEIRA, M. K. de. Jovens e adultos como sujeitos de conhecimento e aprendizagem. 9 A modalidade de Educaçãode Jovens e Adultos e os princípios norteadores para a formação do sujeito a partir das suas especificidades culturais. 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 45 regular, o vestibulando ou o aluno de cursos extracurriculares em busca de enriquecimento pessoal. Não é também o adolescente no sentido naturalizado de pertinência a uma etapa biopsicológica da vida. Como o adulto anteriormente descrito, ele é também um excluído da escola, porém geralmente incorporado aos cursos supletivos em fases mais adiantadas da escolaridade, com maiores chances, portanto, de concluir o ensino fundamental ou mesmo o ensino médio. É bem mais ligado ao mundo urbano, envolvido em atividades de trabalho e lazer mais relacionadas com a sociedade letrada, escolarizada e urbana. Refletir sobre como esses jovens e adultos pensam e aprendem envolve, portanto, transitar pelo menos por três campos que contribuem para a definição de seu lugar social: a condição de “não-crianças”, a condição de excluídos da escola e a condição de membros de determinados grupos culturais. Com relação à condição de “não-crianças”, esbarramos aqui em uma limitação considerável da área da psicologia: as teorias do desenvolvimento referem-se, historicamente, de modo predominante à criança e ao adolescente, não tendo estabelecido, na verdade, uma boa psicologia do adulto. Os processos de construção de conhecimento e de aprendizagem dos adultos são, assim, muito menos explorados na literatura psicológica do que aqueles referentes às crianças e adolescentes. Palacios, em um artigo que sintetiza a produção em psicologia a respeito do desenvolvimento humano após a adolescência, comenta como a idade adulta tem sido tradicionalmente encarada como um período de estabilidade e ausência de mudanças, e enfatiza a importância de considerar a vida adulta como etapa substantiva do desenvolvimento. Enfatiza também a importância dos fatores culturais na definição das características da vida adulta: Se cada período da vida é suscetível de se identificar com uma série de papéis, atividades e relações, não cabe dúvida de que a entrada no mundo do trabalho e a formação de uma unidade familiar própria são identificadas como papéis, atividades e relações da maior importância a partir do final da adolescência. [A forma como esses dois fenômenos ocorrem] e as expectativas sociais em torno deles são claramente dependentes em relação a fatores históricos, culturais e sociais. No que diz respeito ao funcionamento intelectual do adulto, o mesmo autor afirma que as pessoas humanas mantêm um bom nível de competência cognitiva até uma idade avançada (desde logo, acima dos 75 anos). Os psicólogos evolutivos estão, por outro lado, cada vez mais convencidos de que o que determina o nível de competência cognitiva das pessoas mais velhas não é tanto a idade em si mesma, quanto uma série de fatores de natureza diversa. Entre esses fatores podem-se destacar, como muito importantes, o nível de saúde, o nível educativo e cultural, a experiência profissional e o tônus vital da pessoa (sua motivação, seu bem-estar psicológico...). É esse conjunto de fatores e não a idade cronológica per se, o que determina boa parte das probabilidades de êxito que as pessoas apresentam, ao enfrentar as diversas demandas de natureza cognitiva. Embora nos falte uma boa psicologia do adulto e a construção de tal psicologia esteja, necessariamente, fortemente atrelada a fatores culturais, podemos arrolar algumas características dessa etapa da vida que distinguiriam, de maneira geral, o adulto da criança e do adolescente. O adulto está inserido no mundo do trabalho e das relações interpessoais de um modo diferente daquele da criança e do adolescente. Traz consigo uma história mais longa (e provavelmente mais complexa) de experiências, conhecimentos acumulados e reflexões sobre o mundo externo, sobre si mesmo e sobre as outras pessoas. Com relação a inserção em situações de aprendizagem, essas peculiaridades da etapa de vida em que se encontra o adulto fazem com que ele traga consigo diferentes habilidades e dificuldades (em comparação com a criança) e, provavelmente, maior capacidade de reflexão sobre o conhecimento e sobre seus próprios processos de aprendizagem. Para além dessas características gerais, entretanto, tratar o adulto de forma abstrata, universal, remete a um certo estereótipo de adulto, muito provavelmente correspondente ao homem ocidental, urbano, branco, pertencente a camadas médias da população, com um nível instrucional relativamente elevado e com uma inserção no mundo do trabalho em uma ocupação razoavelmente qualificada. Assim, compreensão da psicologia do adulto pouco escolarizado, objeto de interesse da área de educação de jovens e adultos, acaba por contrapor-se a esse estereótipo. Essa questão foi explorada, com relação especificamente ao funcionamento cognitivo do adulto pouco escolarizado, em trabalho anterior: Parece haver um acordo sobre a existência de uma diferença entre formas letradas e não letradas de pensamento; é importante reiterar, entretanto, que essa diferença não está claramente definida na literatura, não apenas pela falta de investigações mais específicas a respeito do funcionamento cognitivo dos grupos “pouco letrados”, mas também pela ausência de uma teoria consistente sobre os processos intelectuais dos adultos plenamente inseridos na sociedade letrada. Nesse sentido, a modalidade de 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 46 pensamento à qual se opõe o pensamento denominado pouco letrado é, em grande medida, uma construção derivada do senso comum. Do mesmo modo, falar de um jovem abstrato não localiza historicamente qual é esse jovem, que convive, pelo menos parcialmente, com pessoas de idade mais avançada em cursos escolares destinados àqueles que não puderam seguir o caminho da escolaridade regular, e que constitui objeto da área denominada “educação de pessoas jovens e adultas”. Neste sentido é que se pode dizer, conforme afirmado anteriormente, que o problema da educação de jovens e adultos remete, primordialmente, a uma questão de especificidade cultural. É necessário historicizar o objeto da reflexão pois, do contrário, se falarmos de um personagem abstrato, poderemos incluir, involuntariamente, um julgamento de valor na descrição do jovem e do adulto em questão: se ele não corresponde à abstração utilizada como referência, ele é contraposto a ela e compreendido a partir dela, sendo definido, portanto, pelo que ele não é. O primeiro traço cultural relevante para esses jovens e adultos, especialmente porque nos movemos, aqui, no contexto da escolarização, é sua condição de excluídos da escola regular. O tema da exclusão escolar é bastante proeminente na literatura sobre educação, especialmente no que diz respeito a aspectos sociológicos — relações entre escola e sociedade, direito à educação, educação e cidadania, escola, trabalho e classe social — e aspectos pedagógicos ou psicopedagógicos — fracasso escolar, evasão e repetência, práticas de avaliação. Para a presente discussão, o aspecto específico dessa ampla questão que se destaca é como a situação de exclusão contribui para delinear a especificidade dos jovens e adultos como sujeitos de aprendizagem. Um primeiro ponto a ser mencionado aqui é a adequação da escola para um grupo que não é o “alvo original” da instituição. Currículos, programas, métodos de ensino foram originalmente concebidos para crianças e adolescentes que percorreriam o caminho da escolaridade de forma regular. Assim, a organização da escola como instituição supõe que o desconhecimento de determinados conteúdos esteja atrelado a uma determinada etapa de desenvolvimento (por exemplo, desconhecer a diferença entre aves e mamíferos e ter sete anos de idade seriam fatores correlacionados); supõe que certos hábitos, valores e práticas culturaisnão estejam ainda plenamente enraizados nos aprendizes; supõe que certos modos de transmissão de conhecimentos e habilidades seriam os mais apropriados; supõe que certos aspectos do jargão escolar seriam dominados pelos alunos em cada momento do percurso escolar. Essas e outras suposições em que se baseia o trabalho escolar podem colocar os jovens e adultos em situações bastante inadequadas para o desenvolvimento de processos de real aprendizagem. De certa forma, é como se a situação de exclusão da escola regular fosse, em si mesma, potencialmente geradora de fracasso na situação de escolarização tardia. Na verdade, os altos índices de evasão e repetência nos programas de educação de jovens e adultos indicam falta de sintonia entre essa escola e os alunos que dela se servem, embora não possamos desconsiderar, a esse respeito, fatores de ordem socioeconômica que acabam por impedir que os alunos se dediquem plenamente a seu projeto pessoal de envolvimento nesses programas. Um segundo ponto a ser mencionado no que diz respeito à especificidade dos jovens e adultos como sujeitos de aprendizagem relacionada com o processo de exclusão da escola regular é o fato de que a escola funciona com base em regras específicas e com uma linguagem particular que deve ser conhecida por aqueles que nela estão envolvidos. Conforme discutido em trabalho anterior a respeito de alunos de um curso de pós-alfabetização para adultos, o desenvolvimento das atividades escolares está baseado em símbolos e regras que não são parte do conhecimento de senso comum. Isto é, o modo de se fazer as coisas na escola é específico da própria escola e aprendido em seu interior. As mais óbvias dessa regras, que configuram o “modelo escolar”, constituem um estereótipo bastante generalizado em nossa sociedade letrada, mesmo entre indivíduos que nunca estiveram na escola (e mesmo quando esse estereótipo não corresponde exatamente às escolas reais em funcionamento) — praticamente todo mundo sabe que na escola há um professor que ensina e estabelece as regras para um grupo de alunos que deve aprender e obedecer; há um quadro-negro e carteiras e as pessoas trabalham com cadernos, lápis e borrachas. Em nível mais sutil, entretanto, dominar a mecânica da escola e manipular sua linguagem são capacidades aprendidas no interior da escola e, ao mesmo tempo, cruciais para o desempenho do indivíduo nas várias tarefas escolares. Muitas vezes a linguagem escolar mostrou ser maior obstáculo à aprendizagem do que o próprio conteúdo. Alunos que nunca haviam estado na escola tinham grande dificuldade de trabalhar com a linguagem escolar, enquanto que aqueles que já haviam tido certo treino escolar demonstraram dominar a mecânica geral da escola e considerar os diversos tipos de atividades como aceitáveis no interior do mundo escolar, mesmo quando desconhecidas como atividades específicas. Entretanto, ainda que esses alunos mais treinados soubessem bastante a respeito da verossimilhança das atividades desenvolvidas em classe, a apresentação formal das tarefas escolares 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 47 continuou sendo um obstáculo ao seu bom desempenho. Compreensão de instruções, particularmente quando por escrito, também constituía, ainda, grande parte do problema a ser resolvido. Ainda que o foco da presente discussão esteja nos aspectos referentes ao conhecimento e à aprendizagem, é importante mencionar ainda que a exclusão da escola coloca os alunos em situação de desconforto pessoal em razão de aspectos de natureza mais afetiva, mas que podem também influenciar a aprendizagem. Os alunos têm vergonha de frequentar a escola depois de adultos e muitas vezes pensam que serão os únicos adultos em classes de crianças, sentindo-se por isso humilhados e tornando- se inseguros quanto a sua própria capacidade para aprender. Além da referência ao lugar social ocupado pelos jovens e adultos definido por sua condição de excluídos da escola regular, sua especificidade cultural deve ser examinada com relação a outros aspectos que os definem como um grupo relativamente homogêneo no interior da diversidade de grupos culturais da sociedade contemporânea. Na medida em que nos preocupamos, na presente discussão, com a questão do funcionamento intelectual, da capacidade para aprender e dos modos de construção de conhecimento, e como os adultos e os jovens que são objeto das práticas e reflexões sobre a educação de pessoas jovens e adultas não pertencem ao grupo social dominante ou caracteristicamente objeto das práticas educativas de que se ocupa a área da educação em geral, o problema que aqui se coloca é o da homogeneidade e da heterogeneidade cultural, do confronto entre diferentes culturas e da relação entre diferenças culturais e diferenças nas capacidades e no desempenho intelectual dos sujeitos. A pergunta básica que pode ser formulada a esse respeito é a seguinte: há ou não diferenças no funcionamento psicológico em geral, e no funcionamento cognitivo em particular, de sujeitos pertencentes a diferentes grupos culturais? No caso específico aqui examinado, os jovens e adultos de que nos ocupamos, enquanto sujeitos de conhecimento e aprendizagem, operam de uma forma que é universal ou que é marcada por uma pertinência cultural específica? Podemos identificar, na literatura, três grandes linhas de pensamento sobre as possíveis relações entre a cultura e a produção de diferentes modos de funcionamento intelectual: aquela que afirma a existência da diferença entre membros de diferentes grupos culturais, aquela que busca negar a importância da diferença, e uma terceira, que recupera a idéia da diferença em outro plano. A primeira abordagem, que postula os grupos humanos como diferentes entre si, tem sua origem na descoberta, no século XVI, de povos diferentes do humano “civilizado” conhecido até então no Ocidente. Conforme explicita Laplantine (1988), a imagem que o ocidental fez dos “selvagens” descobertos no Novo Mundo oscilou entre a idolatria do homem natural, belo, virtuoso, que vivia uma vida coletiva harmônica e integrada na natureza, e o julgamento desses povos como pouco mais que animais, preguiçosos, feios, impulsivos, atrasados. De qualquer forma, o outro, o desconhecido, tendeu a ser olhado a partir do referencial do observador e de sua cultura, e não compreendido de seu próprio ponto de vista. O discurso etnocêntrico sobre o desconhecido e exótico “selvagem” se reproduz, ao longo da história das ciências humanas em geral e da antropologia em particular, no discurso evolucionista sobre o homem “primitivo”, cujo desenvolvimento não teria alcançado, ainda, o nível de civilização de nossas sociedades complexas. Esse discurso penetra a área da psicologia quando essa se interessa pela investigação das possíveis diferenças nos processos psicológicos das pessoas de diferentes grupos culturais. Particularmente no que se refere ao funcionamento cognitivo, membros de sociedades ou grupos culturais que não são urbanos, escolarizados, burocratizados e marcados pelo desenvolvimento científico e tecnológico, são compreendidos como menos desenvolvidos que “nós” e classificados como primitivos, pré-lógicos, míticos ou mágicos (e não científicos), sem capacidade para o pensamento abstrato, mais baseados na imaginação e na intuição do que na racionalidade. No âmbito dessa abordagem também tem sido produzido um discurso sobre as possibilidades de desenvolvimento e aprendizagem dos jovens e adultos. Eles teriam peculiaridades em seu modo de funcionamento intelectual, em grande medida atribuíveis a sua falta de escolaridade anterior, mas também a características do modo de vida de seu grupo de origem. Assim, se esses adultos não pensam de forma apropriada ou não são capazes de aprender adequadamente, isso se deve a sua pertinência a um grupo cultural específico. Subjacente a essa abordagem está uma postulação bastante determinista,que correlaciona, de forma estática, traços do psiquismo com fatores culturais que os determinariam. A segunda abordagem busca a compreensão dos mecanismos psicológicos que fundamentam o desempenho de diferentes sujeitos em diferentes tarefas, dirigindo-se à investigação daquilo que é comum a todos os seres humanos. Se não nega explicitamente a existência de diferenças entre os indivíduos e grupos culturais, essa abordagem de certa forma nega a relevância das diferenças para a compreensão do funcionamento psicológico. 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 48 Em contraposição às posturas etnocêntricas e ao evolucionismo presentes na primeira abordagem, que buscava diferenciar grupos “primitivos” de grupos “civilizados”, distinguindo processos psicológicos mais e menos adequados, avançados ou sofisticados, as pesquisas na área da chamada psicologia antropológica passaram a enfatizar a necessidade de compreender processos psicológicos básicos, que estariam subjacentes à enorme variedade de modos de vida, crenças, teorias sobre o mundo, artefatos culturais e criações artísticas presentes nos diferentes grupos humanos. Essa contraposição teórica foi, muitas vezes, motivada por uma reação ideológica à idéia de que há seres humanos “melhores” e “piores”, ao posicionamento da ciência como a forma mais adequada de produção de conhecimento e à consequente situação do próprio cientista como representante do tipo mais avançado de sujeito na sua relação com os objetos de conhecimento. Michael Cole e Sylvia Scribner, dois dos principais investigadores contemporâneos das relações entre cultura e pensamento, colocam explicitamente a questão que dirige as pesquisas e reflexões dessa segunda abordagem: as indiscutíveis diferenças observadas no funcionamento psicológico dos vários grupos culturais seriam “resultado de diferenças em processos cognitivos básicos ou apenas expressões dos muitos produtos que a mente humana universal pode produzir, dadas as grandes variações nas condições de vida e de atividades culturalmente valorizadas?”. Eles próprios procuram responder à questão, demonstrando que não há evidências de que algum grupo cultural tenha deficiências nos componentes básicos dos processos cognitivos. Isto é, todo ser humano é capaz de abstrair, categorizar, fazer inferências, utilizar formas de representação verbal etc. Esses processos básicos, disponíveis a todos, seriam mobilizados em diferentes combinações, dependendo das demandas situacionais enfrentadas por membros de diferentes culturas. Como analisa Tulviste (1991), essa maneira de enfrentar a questão acaba por considerar todas as culturas e todos os modos de funcionamento como sendo aparentemente diferentes mas, na verdade, iguais ou equivalentes. Todos somos inteligentes, todos pensamos de forma adequada, já que os mecanismos do psiquismo são universais. Paradoxalmente, o contexto, a cultura, a história, que parecem ser tão proeminentes nessa abordagem que busca romper com o etnocentrismo, seriam componentes quase que acessórios, que apenas permitem, favorecem, promovem a emergência daquilo que está posto como possibilidade psicológica de todos os seres humanos. Permanece, aqui, o problema da origem dos mecanismos universais, já que, por um lado, a cultura não explica o que é universal, mas apenas o que é contingente, e, por outro lado, a postulação de uma fonte endógena não é endossada por todos os que buscam compreender as relações entre cultura e funcionamento psicológico. Se a primeira abordagem apoia-se numa postulação determinista, que relaciona traços do psiquismo com fatores culturais, essa segunda abordagem poderia conduzir a um relativismo radical e a uma postura espontaneísta, que não admitiria nenhuma intervenção nos modos de funcionamento peculiares a cada grupo cultural, já que todo conhecimento é igualmente valioso, toda visão de mundo é legítima, todo conteúdo é importante. No caso dos jovens e adultos, seu desenvolvimento psicológico e suas modalidades de aprendizagem (e seus valores, hábitos, atitudes, formas de organização do conhecimento) teriam que ser respeitados, restando pouco espaço para a intervenção educativa. A terceira abordagem está claramente associada à teoria histórico-cultural em psicologia e poderia ser considerada a mais fecunda para a compreensão das relações entre cultura e modalidades de pensamento. Postula o psiquismo como sendo construído ao longo de sua própria história, numa complexa interação entre quatro planos genéticos: a filogênese, a sociogênese, a ontogênese e a microgênese. Nascido com as características de sua espécie, cada indivíduo humano percorre o caminho da ontogênese informado e alimentado pelos artefatos concretos e simbólicos, pelas formas de significação, pelas visões de mundo fornecidas pelo grupo cultural em que se encontra inserido. A imensa multiplicidade de conquistas psicológicas que ocorrem ao longo da vida de cada indivíduo geram uma complexa configuração de processos de desenvolvimento que será absolutamente singular para cada sujeito. [...] Os processo microgenéticos constituem, assim, o quarto plano genético, que interage com os outros três, caracterizando a emergência do psiquismo individual no entrecruzamento do biológico, do histórico, do cultural. A dinâmica de relação entre esses domínios genéticos define, para essa abordagem, uma posição claramente não determinista. O curso de desenvolvimento suposto na pertinência à espécie e na maturação individual só será realizado por meio da inserção do ser humano no mundo da cultura, o que elimina qualquer possibilidade de consideração de alguma modalidade de dotação prévia ou herança genética como fonte primordial de formação do psiquismo. Isto é, sejam os seres humanos diferentes ou não na origem, o que importa para a compreensão de seu psiquismo é o processo de geração de 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 49 singularidade ao longo de sua história. Ao postular a cultura como constitutiva do psiquismo, por outro lado, essa abordagem não a toma como uma força que se impõe a um sujeito passivo, moldando-o de acordo com padrões preestabelecidos. Ao contrário, a ação individual, com base na singularidade dos processos de desenvolvimento de cada sujeito, consiste em constante recriação da cultura e negociação interpessoal. Se assim não fosse, teríamos culturas sem história e geração de sujeitos idênticos em cada grupo cultural. Emerge aqui a questão da recuperação da importância das diferenças como cerne da própria abordagem genética. Conforme discutido acima, essa é uma abordagem que considera que o psiquismo é totalmente construído na inter-relação entre os planos da filogênese, ontogênese, sociogênese e microgênese, não havendo nenhuma espécie de realidade psicológica preexistente a esse complexo processo histórico, mas sim uma necessária geração de singularidades. Postular diferenças é, portanto, uma conseqüência necessária dessa abordagem genética “forte”: se o psiquismo é construído, a diferença é resultado necessário dessa construção, e a compreensão das configurações particulares é o objeto mesmo da investigação em psicologia. Além disso, toda psicologia seria cultural, na medida em que, caso seja eliminada a dimensão cultural na compreensão do psiquismo humano, restaria apenas aquilo que é orgânico. Nesse sentido, diferenças individuais e diferenças culturais fundem-se em um mesmo fenômeno de geração de heterogeneidade, a partir do envolvimento de indivíduos em diferentes atividades ao longo de seu desenvolvimento psicológico. Conforme explicita Tulviste (1991), pessoas diferentes, membros do mesmo grupo cultural ou não, pensarão sobre partes idênticas do ambiente de formas diversas; e a mesma pessoa pode pensar de maneiras diferentes, usando diferentes métodos, estratégias e instrumentos conforme a atividade em que estejaenvolvida. Não haveria, portanto, um único caminho de desenvolvimento ou uma única forma de “bom funcionamento” psicológico para o ser humano. Ao mesmo tempo, entretanto, o desenvolvimento psicológico não está postulado como sendo totalmente em aberto, já que há limites e possibilidades definidos em cada plano genético. Quando se considera uma determinada instituição social no contexto de uma certa sociedade, como a escola na complexa sociedade contemporânea, a reflexão tem que se referir tanto à possibilidade de múltiplas trajetórias para diferentes indivíduos e grupos como às especificidades culturais em jogo, que definem a finalidade de tal instituição. A intervenção educativa teria que atuar sobre indivíduos necessariamente diversos, no sentido de lhes dar acesso àquela modalidade particular de relação entre sujeito e objeto de conhecimento que é própria da escola, promovendo transformações específicas no seu percurso de desenvolvimento. Alguns trabalhos de pesquisa contemporâneos dirigem-se exatamente a essa questão da constituição da heterogeneidade entre indivíduos e entre grupos, focalizando sua atenção nas práticas culturais que dirigem os processos de construção de diferentes aspectos do psiquismo. Sem a pretensão de uma revisão exaustiva da bibliografia pertinente, fora das possibilidades de um trabalho como este, é interessante mencionar alguns desses trabalhos, que têm particular relevância para o tema do conhecimento e da aprendizagem entre jovens e adultos. Ribeiro (1999) explora a natureza complexa do letramento como fenômeno cultural e das relações entre alfabetismo e características psicológicas, enfatizando a “impropriedade da postulação de que a disseminação da linguagem escrita em si constitui o divisor de águas entre culturas tradicionais e modernas, ou ainda, no plano psicológico, que a aprendizagem da leitura e da escrita por si só possa produzir mudanças psicológicas tais como desenvolvimento do pensamento categorial ou ainda atitudes modernizantes”. Afirma que em “sociedades complexas o fenômeno do alfabetismo é necessariamente heterogêneo, comportando práticas em que se utiliza a linguagem escrita com intensidade e orientação diversas. A variedade das práticas de alfabetismo possíveis e suas relações com outras peculiaridades culturais de subgrupos são constitutivas da pluralidade da cultura e, nessa medida, devem ser compreendidas e valorizadas”. Vóvio (1999), num estudo recente sobre narrativas autobiográficas realizadas por alunos de cursos para jovens e adultos, constata que “não há uma correlação positiva entre o nível de escolaridade dos sujeitos que participaram dessa pesquisa e a incorporação crescente, por eles, de conhecimentos apreendidos na escola sobre a linguagem escrita na produção de textos narrativos. No que se refere à produção de autobiografias orais e escritas, nem o domínio da linguagem escrita, nem o nível de escolaridade mostraram-se como elementos suficientes para explicar os desempenhos dos sujeitos”. Constata ainda que não se podem generalizar os efeitos da aquisição da linguagem escrita sobre a linguagem oral e sobre o uso que as pessoas fazem delas. Sujeitos não ou pouco escolarizados que participam de situações comunicativas que demandam o planejamento do discurso, dirigidas a interlocutores desconhecidos que participam indiretamente dessas situações (situações monológicas), estão lidando com problemas cognitivos específicos. Estes exigem que os sujeitos regulem e reflitam 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 50 sobre seus discursos à medida que os constroem, explicitando informações e referências, selecionando o vocabulário, o estilo e as construções sintáticas, fazendo previsões sobre o próprio discurso e sobre o modo como seus interlocutores o estão recebendo. O meio pelo qual se produz o discurso também impõe condições para sua produção, mas não pode ser tomado como central no que diz respeito à utilização de habilidades cognitivas e conhecimentos linguísticos usados por falantes e escritores. É preciso, portanto, considerar como central as circunstâncias em que a comunicação ocorre e o modo como as interações se conformam nessas circunstâncias, especialmente as estratégias e habilidades acionadas pelo locutor para alcançar seu propósito comunicativo e a de sua audiência de ressignificar o discurso que a ela se dirige. Num trabalho realizado com crianças, Lahire (1997) dirige-se a problemas teórico-metodológicos extremamente pertinentes à presente discussão. Estudando casos de sucesso e de fracasso escolar, o autor busca compreender as “diferenças ‘secundárias’ entre famílias populares cujo nível de renda e nível escolar são bastante próximos. Semelhantes por suas condições econômicas e culturais — consideradas de forma grosseira a partir da profissão do chefe de família —, como é possível que configurações familiares engendrem, socialmente, crianças com nível de adaptação escolar tão diferentes? Quais são as diferenças internas nos meios populares suscetíveis de justificar variações, às vezes consideráveis, na escolaridade das crianças?”. Afirma que “a personalidade da criança, seus ‘raciocínios’ e seus comportamentos, suas ações e reações são incompreensíveis fora das relações sociais que se tecem, inicialmente, entre ela e os outros membros da constelação familiar, em um universo de objetos ligados às formas de relações sociais intrafamiliares”. Mas “a presença objetiva de um capital cultural familiar só tem sentido se esse capital cultural for colocado em condições que tornem possível sua ‘transmissão’. [...] É por essa razão que, com capital cultural equivalente, dois contextos familiares podem produzir situações escolares muito diferentes na medida em que o rendimento escolar desses capitais culturais depende muito das configurações familiares de conjunto. Podemos dizer, lembrando uma frase célebre, que a herança cultural nem sempre chega a encontrar as condições adequadas para que o herdeiro herde”. Para aprofundar a reflexão sobre as relações entre pertinência cultural e cognição e sobre o problema da heterogeneidade, é interessante ainda retomar, aqui, um trabalho de pesquisa da própria autora sobre competências cognitivas exibidas em situações de vida cotidiana por alunos de cursos noturnos para jovens e adultos, residentes em uma favela na cidade de São Paulo. Subjacente ao desenvolvimento desse estudo estava a concepção de que as pessoas aprendem a atuar cognitivamente nos ambientes específicos onde vivem e é nesses ambientes que elas desempenham, repetidamente, tarefas significativas que envolvem capacidades cognitivas. Em contraponto à primeira abordagem discutida acima sobre as possíveis relações entre cultura e funcionamento psicológico, que afirma a existência da diferença entre membros de diferentes grupos culturais, correlacionando, de forma estática, traços do psiquismo com fatores culturais que os determinariam, esse trabalho de pesquisa poderia ser considerado como pertinente à segunda abordagem, ao buscar demonstrar que todos os modos de funcionamento cognitivo são equivalentes, isto é, que todos os seres humanos são inteligentes e pensam de forma adequada. Um trecho do próprio trabalho explicita com clareza essa posição: Essas três características intimamente relacionadas [os indivíduos não pertencem, originalmente, ao ambiente onde vivem atualmente; a vida na comunidade é orientada para atividades conjuntas e interações sociais e não para buscas individuais; os arranjos vigentes nas diferentes esferas de vida são instáveis e sujeitos a constantes mudanças], que demonstraram permear o modo dos indivíduos organizarem sua vida, estão fortemente ligadas às definições normalmente aplicadas aos favelados, migrantes e indivíduos de baixa renda em geral. Eles são vistos como carentes, incompetentes e incapazes de lidar com as demandas da vida moderna. Uma simples listagemdas características que podem ser observadas como significativas em suas vidas pode, realmente, levar a esse tipo de interpretação. Eles são migrantes da zona rural nordestina, muito ligados ao seu local de origem e interagindo, em São Paulo, basicamente com indivíduos provenientes do mesmo local; têm relações sociais extremamente intensas, cruciais para sua sobrevivência; socializam a informação sobre os membros da comunidade e até mesmo as competências necessárias para lidar com as solicitações da vida diária; são muito dependentes de alguns indivíduos centrais na comunidade; têm, no nível do discurso, um conjunto rígido de padrões morais; são extremamente tendentes à violência e parecem inclinados a se tornarem delinquentes; seus arranjos são sempre confusos e sujeitos a mudanças radicais; não planejam as coisas com antecedência e tendem a ser fatalistas. No entanto, quando é possível perceber o que significa “vida moderna” para esses indivíduos e quais são, de fato, as demandas dessa vida, essas características negativas devem ser entendidas como formas eficientes de se lidar com essas demandas. Elas são apenas comportamentos funcionais adaptativos a uma situação de recursos 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 51 materiais escassos, falta de apoio de qualquer tipo de instituição pública, constante insegurança em todas as esferas de vida e total falta de recompensas por comportamento “apropriado”. O interesse em retomar aqui esse trabalho de pesquisa reside no fato de que, embora tendo sido estruturado para explorar a idéia de que processos cognitivos comuns a todos os seres humanos são mobilizados em diferentes combinações, dependendo das demandas situacionais enfrentadas por membros de diferentes grupos culturais, os dados obtidos muitas vezes apontaram para a heterogeneidade no interior do grupo e para diferentes fontes que contribuiriam para a constituição do funcionamento intelectual. A organização da produção em psicologia sobre diferenças culturais e sua relação com o desenvolvimento psicológico em três grandes linhas de pensamento, realizada em 1997 (Oliveira, 1997), explicita uma opção atual da autora por uma abordagem teórica. Essa abordagem pode ser utilizada, retrospectivamente, para uma reinterpretação de dados coletados e analisados de um outro prisma teórico. É como se o próprio material empírico mostrasse certa autonomia, não se deixando restringir às possibilidades interpretativas do modelo utilizado. Assim, criada originalmente como uma pesquisa pertinente à segunda abordagem, podem ser encontrados nela elementos que subsidiam a reflexão na linha proposta pela terceira abordagem, aquela que se apresenta como a que melhor explica a emergência da complexidade do funcionamento cognitivo. O primeiro dado relevante que merece ser mencionado é o fato de que, com relação ao modo de os indivíduos lidarem com as demandas da vida cotidiana, foram identificados diferentes níveis de competência distribuídos pelos diversos membros da comunidade. Em primeiro lugar haveria um nível básico de competência, altamente condicionado pelas características do ambiente e disseminado entre os membros da comunidade: qualquer pessoa sabe como ir de casa ao trabalho, como preparar algum tipo de alimento ou como lidar com dinheiro, por exemplo. Há um outro nível de competência que não é generalizado e que caracteriza alguns indivíduos como mais capazes que outros. Esses indivíduos são cruciais para a vida da comunidade e podem ter algumas vantagens no decorrer de suas vidas por serem capazes de lidar melhor com os recursos disponíveis no ambiente. Domínio do sistema burocrático, bom conhecimento da cidade, capacidade de realizar boas trocas de produtos usados são exemplos dessas habilidades. No extremo desse nível mais elevado de competência encontram-se alguns indivíduos-chave na comunidade, que foram denominados “focos de competência”, por concentrarem a maior parte das habilidades necessárias à solução dos problemas enfrentados pelos membros da comunidade em geral. Três pessoas, moradoras da favela, foram identificadas como “focos de competência” ao longo da realização da pesquisa. Uma delas era uma das professoras do curso de educação de adultos existente no interior da favela e também educadora de crianças no Centro Comunitário do mesmo local, que sustentava, com seu trabalho, mãe e cinco irmãos. Ela dominava grande quantidade de “informações úteis” (como encontrar um advogado ou um médico, onde é o hospital mais próximo, como fazer para adotar uma criança, por exemplo), conhecia a cidade muito bem e dominava o sistema burocrático (como tirar documentos, preencher formulários etc.). Tinha, também, uma rede de relações com pessoas de nível socioeconômico mais elevado, particularmente por meio dos assistentes sociais e religiosos ligados ao Centro Comunitário. Seus familiares e amigos não faziam nada sem seu apoio e ajuda, e ela era solicitada a realizar diversas tarefas para outras pessoas. O próprio Centro Comunitário apoiava-se muito em sua competência, disponibilidade e autoridade junto às crianças para desenvolver rotinas diárias e atividades extraordinárias. Outro “foco de competência” era um participante do curso de adultos. Era um excelente aluno e liderava o grupo na maior parte das atividades desenvolvidas em sala de aula. Também tocava violão, sabia coordenar jogos de salão, escreveu peças de teatro, compôs músicas e criou roteiros de shows para os alunos apresentarem. Os demais alunos contavam com ele para tudo, não organizando nenhuma atividade nem tomando nenhuma providência sem sua iniciativa ou apoio. Ele também conhecia a cidade muito bem e dominava o sistema burocrático. A terceira pessoa identificada como “foco de competência” era um rapaz que poderia ser considerado um personagem central na comunidade. Sabia dirigir, tinha carro próprio e trabalhava como motorista particular de um importante cantor popular. Sua ocupação dava-lhe não apenas um grande prestígio entre seus pares, mas também um conjunto de privilégios objetivos por estar em interação constante com “pessoas famosas” e com membros de grupos de nível socioeconômico mais elevado. Os moradores da favela contavam com ele quando necessitavam de transporte (principalmente em situações de emergência) e para obter vários tipos de informação e ajuda. É importante mencionar que, devido ao fato de que a interação da pesquisadora na favela foi baseada em seu envolvimento com a escola, a maioria de suas relações desenvolveu-se com membros de alguns dos subgrupos sociais existentes na favela. A identificação de indivíduos como mais e menos 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 52 competentes foi, portanto, referente à presença de certos tipos de habilidades e não de outros. Os tipos de habilidades que foram observados têm duas características que os definem: são “modernos” (isto é, relativos à sociedade urbana, complexa, burocratizada) e são “positivos” (isto é, referem-se a atributos socialmente desejáveis). Pessoas competentes em outras esferas de vida não puderam ser identificadas no âmbito do estudo realizado. Entretanto, é bastante provável que haja indivíduos que concentram tipos mais “tradicionais” de competência (como parteiras, especialistas em cura com ervas, artesãos), bem como pessoas extremamente capazes em áreas não-positivas (como assaltantes, traficantes de drogas). Desse modo, o conceito de “foco de competência” ora utilizado é significativamente restrito. Foram também observadas certas habilidades “extras” que parecem constituir certa vantagem para o indivíduo que as possui, fazendo dele uma pessoa bem-sucedida no ambiente da favela, sem necessariamente implicar possibilidades de melhorias concretas em sua vida (tocar violão, coordenar jogos de salão, cozinhar tipos especiais de comida são exemplos dessas habilidades “extras”).O que distingue essas habilidades daquelas acima mencionadas é sua relação com as demandas do ambiente: elas não são respostas às necessidades fundamentais das pessoas nas esferas de vida capturadas no estudo desenvolvido. É bastante provável, contudo, que habilidades que são supérfluas em um contexto sejam essenciais em outros. A restrição do conceito de “focos de competência” a atributos modernos e positivos refere-se exatamente a essa questão. Isto é, dada a importância relativa de diferentes habilidades em diferentes contextos, as competências identificadas como relevantes no ambiente estudado são referentes apenas àquelas esferas de vida apreendidas pelo estudo realizado. Algumas das habilidades “extras” foram observadas nos mesmos indivíduos que demonstraram possuir habilidades relevantes acima do nível de competência generalizado, mas outras foram observadas em pessoas que apenas funcionavam no nível básico de competência. Parece que, acima do nível generalizado de competências básicas, diferentes indivíduos apresentam diferentes combinações da habilidades mais e menos relevantes. Os “focos de competência” são as pessoas que concentram, mais que outras, muitas das habilidades necessárias para lidar com problemas cotidianos significativos. Além desses indivíduos com habilidades acima do nível básico de competência, observou-se que alguns sujeitos eram considerados por outros membros da comunidade como indivíduos com menos do que as habilidades básicas necessárias na vida cotidiana e, conseqüentemente, como pessoas não confiáveis para assumir responsabilidades no interior da vida da comunidade. A identificação desses diferentes níveis de competência indica que não se pode postular que um grupo de adultos, por compartilharem condições de vida como morar em favelas e possuir baixa escolaridade, funcione psicologicamente de forma homogênea, oposta monoliticamente a uma outra modalidade de funcionamento cognitivo. No caso em questão, mostra-se evidente a grande heterogeneidade dentro do grupo, o que torna bem mais complexa a tarefa de compreender o papel da cultura na constituição do psiquismo. Outro dado relevante obtido na pesquisa em questão que aponta para o fenômeno da heterogeneidade intragrupo diz respeito aos resultados da aplicação de testes de inteligência. Foram aplicados dois testes não-verbais de inteligência geral (Teste de Matrizes Progressivas de Raven e Teste Equicultural de Inteligência de Cattell). Com relação ao resultado global dos sujeitos nos testes houve, por um lado, grande homogeneidade em seu desempenho: todos obtiveram escores abaixo da mediana de quase todos os grupos nos quais as normas apresentadas nos manuais dos testes são baseadas. Além disso, não houve relação entre o resultado nos testes e as seguintes características dos sujeitos: sexo, idade, população urbana do município de nascimento, tempo de vida em São Paulo, idade ao chegar em São Paulo, ocupação dos pais, instrução dos pais. Para além da mera comparação dos escores brutos com as normas dos testes, entretanto, os dados obtidos forneceram informações bastante significativas no que diz respeito à distribuição de escores no interior da amostra e às relações entre os escores e outras variáveis. Os testes discriminaram os diferentes sujeitos estudados e relacionaram-se com variáveis relevantes de seu ambiente. Isto é, embora todos os sujeitos tenham tido um desempenho correspondente aos níveis percentílicos mais baixos dos grupos incluídos nas normas dos testes, seus próprios escores não foram simplesmente um conjunto de escores igualmente baixos, acumulados de forma inexpressiva no extremo inferior de uma escala. Ao contrário, seus escores nos dois testes foram altamente correlacionados e bem dispersos ao longo da faixa de desempenho desse grupo específico. Seus resultados também tiveram claras relações com educação, ocupação, salário mensal e competência na vida cotidiana. Os sujeitos que haviam frequentado escola por um período mais longo, que estavam em séries escolares mais avançadas quando responderam aos testes, que obtiveram notas mais altas nos cursos de educação de adultos onde foi realizada a pesquisa e que permaneceram na escola e passaram de uma série para a seguinte tenderam 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 53 a obter escores mais altos nos testes de inteligência. Os sujeitos que trabalhavam em ocupações mais qualificadas e os que recebiam maiores salários, bem como aqueles identificados como “focos de competência” e aqueles que mostraram “competências relevantes” em situações da vida cotidiana, também tenderam a obter escores mais altos nos testes. Esses resultados indicam que os testes mediram algum atributo relevante dos indivíduos estudados, captando diferenças individuais em habilidades que estão relacionadas com a história de passagem pela escola, com o desempenho na escola e no trabalho no momento de realização dos testes e com níveis de competência no interior da vida da comunidade. O fato de os indivíduos identificados como “focos de competência” e aqueles que mostraram “competências relevantes” terem obtido escores mais altos nos testes é compatível com as relações observadas entre escores nos testes e ocupação, salário e sucesso na escola. Isto é, os dois testes administrados parecem ter medido habilidades relacionadas ao desempenho dos indivíduos em esferas de vida que cações desse fato residem nas relações entre os resultados nos testes e os outros níveis de competência observados. Dos dois sujeitos que mostraram “capacidades extras”, um teve escores altos e o outro escores relativamente baixos nos testes. Os resultados obtidos pelos cinco sujeitos considerados abaixo do nível básico de habilidades necessárias na vida cotidiana estão dispersos ao longo de toda a extensão da distribuição de escores. Um desses casos, para mencionar um exemplo, é o de uma moça que sofria de epilepsia e não era considerada capaz de desempenhar tarefas que exigissem que ela ficasse sozinha, ou de assumir responsabilidades que corressem o risco de não serem cumpridas por causa de seus imprevisíveis acessos epiléticos. Nos testes, entretanto, ela obteve um dos escores mais altos da amostra. Nesse caso, a alta capacidade identificada pelos resultados nos testes não corresponde à competência em contextos da vida cotidiana. Há ainda um outro resultado relevante no que se refere à relação entre os escores obtidos nos testes e outras características dos sujeitos, que também levanta um tema importante a respeito do tipo de habilidades captadas pelos testes e indica a importância de considerar a heterogeneidade entre os sujeitos: os seis sujeitos que declararam ter aprendido a ler e escrever fora da escola regular obtiveram escores mais altos do que aqueles que se alfabetizaram na escola regular quando crianças. Esse resultado é intrigante, pois as relações entre os resultados nos testes e outras variáveis educacionais mostraram que exposição à escola e desempenho escolar foram positivamente relacionadas ao desempenho nos testes. Não há nenhuma razão clara, portanto, para que os sujeitos que aprenderam a ler e escrever fora da escola tenham tido melhor desempenho nos testes se a educação formal for considerada como uma fonte de habilidades. No entanto, o desenvolvimento de tais habilidades pode ter precedido a instrução formal; as habilidades medidas pelos testes poderiam já estar presentes em maior grau nesses seis sujeitos e ter ao mesmo tempo facilitado e ter sido desenvolvidas pelo processo de alfabetização fora da escola regular. Pode haver, também, um componente de autoestima na autoclassificação desses indivíduos como tendo aprendido a ler e escrever fora da escola. Isto é, sujeitos com maior capacidade teriam mais confiança em suas próprias habilidades, a ponto de perceberem algumas irregularidades em sua história de passagem pela escola como característicasde seu “autodidatismo”. É possível que sujeitos com menor capacidade e com o mesmo tipo de história de escolarização não se tenham classificado como aprendizes de fora da escola mas, contrariamente, tenham atribuído seu processo de aprendizagem à sua passagem curta e irregular pela escola. As diferenças na autopercepção teriam, portanto, causado diferenças nas afirmações dos sujeitos sobre o tipo de alfabetização que tiveram. Ainda com relação ao desempenho nos testes, foi possível observar que, além de diferenças em escores globais, os sujeitos apresentaram diferenças em sua forma de operar para resolver os itens dos testes. Isto é, os erros cometidos pelos sujeitos não constituem um conjunto homogêneo de respostas simplesmente erradas. Eles são, ao contrário, resultado de diferentes operações incorretas desenvolvidas no decorrer de um processo ativo de raciocínio. A comparação entre os tipos de erros cometidos pelos sujeitos que obtiveram os escores mais altos nos testes e aqueles dos sujeitos com escores mais baixos demonstrou que a diferença quantitativa no número de itens corretos é o resultado de diferenças qualitativas nos processos de raciocínio desenvolvidos. Os sujeitos com melhor desempenho são aqueles mais aptos a fazer abstrações e a focalizar a atenção em dimensões relevantes dos elementos constantes dos diversos itens, a selecionar e utilizar operações diferentes conforme o tipo de problema a ser resolvido ao invés de repetir um único padrão de raciocínio e a operar com as figuras apresentadas nos itens dos testes como um todo ao invés de operar de forma unidimensional com elementos isolados. Os resultados obtidos parecem mostrar a ação simultânea de dois aspectos complementares das capacidades cognitivas. Por um lado, membros de diferentes grupos culturais, nascidos e educados em determinados contextos socioculturais e capazes de operar cognitivamente em resposta às demandas 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 54 particulares desses contextos e de acordo com o treinamento específico neles obtido, respondem de forma diferente a diferentes tarefas cognitivas. Por outro lado, no interior de grupos culturais relativamente homogêneos, há diferenças individuais em capacidades que distinguem diferentes pessoas em seu modo de responder às demandas de seu contexto de vida cotidiana e de lidar com tarefas cognitivas específicas. Iniciamos este ensaio apontando para a questão da homogeneidade do grupo de sujeitos normalmente envolvidos nos programas de educação de jovens e adultos e de sua diferença com relação a outros grupos culturais. Embora freqüentemente constituindo dois subgrupos distintos (o de “jovens” e o de “adultos”), tal grupo se define como relativamente homogêneo ao agregar membros em condição de “não- crianças”, de excluídos da escola, e de pertinentes a parcelas “populares” da população (em oposição às classes médias e aos grupos dominantes), pouco escolarizadas e inseridas no mundo do trabalho em ocupações de baixa qualificação profissional e baixa remuneração. Essa noção de homogeneidade intra grupo (e de heterogeneidade intergrupos) levou à discussão de diferentes abordagens em psicologia a respeito das relações entre cultura e funcionamento psicológico, o que conduziu, no bojo da terceira abordagem, a um questionamento da própria idéia de homogeneidade. Embora a pertinência a determinado grupo cultural seja, sem dúvida, uma fonte primordial para a formação do psiquismo e, portanto, para o desenvolvimento de formas peculiares de construção de conhecimento e de aprendizagem, não podemos postular formas homogêneas de funcionamento psicológico para os membros de um mesmo grupo, já que o desenvolvimento psicológico é, por definição, um processo de constante transformação e de geração de singularidades. Assim, por um lado podemos arrolar algumas características do funcionamento cognitivo geralmente associadas aos jovens e adultos de que tratamos, tais como pensamento referido ao contexto da experiência pessoal imediata, dificuldade de operação com categorias abstratas, dificuldade de utilização de estratégias de planejamento e controle da própria atividade cognitiva, bem como pouca utilização de procedimentos metacognitivos (Oliveira, 1995). Por outro lado, sabemos que nesse mesmo grupo há pessoas que não apresentam essas características, assim como em outros grupos culturais, com outra história de formação intelectual, há pessoas com essas mesmas características. A escola voltada à educação de jovens e adultos, portanto, é ao mesmo tempo um local de confronto de culturas (cujo maior efeito é, muitas vezes, uma espécie de “domesticação” dos membros dos grupos pouco ou não escolarizados, no sentido de conformá-los a um padrão dominante de funcionamento intelectual) e, como qualquer situação de interação social, um local de encontro de singularidades. Freire e a escola para todos em tempos de Educação Inclusiva11 Pensando na realidade atual em que a EJA se torna aos poucos cada vez mais inclusiva, e recebe cada vez mais alunos com necessidades educacionais especiais, como seria a escola para todos defendida por Paulo Freire? Segundo Freire (2011) o direito à educação não se reduz somente a estar na escola, mas sim em aprender. E, aprender para tomar consciência de seu estado de opressão, para que assim possa se libertar daqueles que o oprimem. E para que os jovens e adultos possam aprender adequadamente, é preciso considerar o conhecimento que estes estudantes possuem. Em geral, os estudantes da EJA possuem uma considerável experiência de vida. E, já aprenderam diferentes coisas em diferentes contextos pela necessidade que a vida lhes impõe. Estes alunos têm conhecimento, ainda que inadequados do ponto de vista escolar, daquilo que se discute em sala de aula. Se para uma criança, que possui uma experiência de vida menor, este conhecimento é de grande relevância para a aprendizagem e motivação, não seria diferente para um jovem ou adulto que está na sala de aula como estudante. Franzi (2010) explica que “não é tarefa fácil o reconhecimento do sujeito jovem e adulto que tem pouca ou nenhuma inserção no mundo escolar como um sujeito que possui saberes”. Apesar disto, desconsiderar esta realidade pode, não somente tornar o processo de aprendizagem menos efetivo mas também, desmotivar os alunos. 11 Texto extraído e adaptado de FREIRE, P. Pedagogia do oprimido, 50ª. ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 2011. 10 Políticas para Educação de Jovens e Adultos como inclusão social, construção da cidadania e educação ao longo da vida. 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 55 Para Freire (2011) as escolas devem valorizar o conhecimento dos alunos, e mais do que isto, respeitar os saberes socialmente construídos na prática comunitária e discutir com os alunos a razão de ser de alguns desses saberes em relação ao ensino dos conteúdos. Esta prática favorece o aprendizado e respeita o estudante como um ser capaz e um ser que sabe. Pode-se inferir, assim, que o sucesso da EJA depende também da escola respeitar os conhecimentos que seus alunos adquiriram em suas experiências diárias. Caso esta prática não ocorra, a escola poderá não contribuir para a tarefa humanizadora que a educação tem. Freire (2011), comenta que: A educação como prática da liberdade, ao contrário naquela que é prática da dominação, implica na negação do homem abstrato, isolado, solto, desligado do mundo, assim também na negação do mundo como uma realidade ausente dos homens. Ao pensar na inclusão do aluno com necessidade educacional especial na EJA, deve-se ter a mesma preocupação. Afinal, este aluno também possui uma experiência de vida e concepções construídas nesta experiência. Na Pedagogia do Oprimido, Freire (2011) diz que: […] de tanto ouviremde si mesmos que são incapazes, que não sabem nada, que não podem saber que são enfermos, indolentes, que não produzem em virtude de tudo isto, terminam por se convencer de sua “incapacidade”. Falam de si como os que não sabem e do “doutor” como o que sabe e a quem devem escutar. Muitas vezes o aluno com NEE acredita ter uma dificuldade de aprendizagem maior que a real, isto ocorre, pois este aluno é constantemente desencorajado pela sociedade que o vê como um coitadinho, que vai precisar sempre de ajuda para realizar as tarefas do dia a dia e escolares. O indivíduo com necessidade educacional especial é capaz de aprender, necessitando de estratégias diferenciadas que favoreçam sua aprendizagem. Conforme destacado nos textos de Vygotski (1983), o modo que a escola, e a sociedade como um todo, por vezes trata esta pessoa com deficiência, pode ser considerada uma forma de opressão, uma ação não humanizadora. Freire (2011) destaca que para que a função humanizadora da escola se concretize, é necessário que o diálogo seja uma parte constante dos processos de ensino e aprendizagem, e este diálogo deve ocorrer de forma democrática, em que todos possam participar. Para o referido autor “a educação autêntica, não se faz de “A” para “B” ou de “A” sobre “B”, mas de “A” com “B”, mediatizados pelo mundo” (FREIRE, 2011). Desta forma, a educação autêntica só ocorre quando todos os envolvidos no processo dialogam, trocando experiências, expondo aquilo que possuem como conhecimento construído ao longo da vida, relacionando com o conteúdo escolar. E na EJA todos os alunos, independentemente das NEE que apresentem, podem participar deste processo de educação autêntica. O caminho da Inclusão na EJA Nas últimas décadas, a inclusão de pessoas com deficiência nas classes comuns da rede regular de ensino vem sendo discutida e assumida como um direito fundamental em vários documentos nacionais e internacionais; entre os mais recentes estão: A Constituição Federal de 1988 (BRASIL, 1988), a Declaração Mundial sobre Educação para Todos (UNESCO, 1990), a Declaração de Salamanca (UNESCO, 1994), a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN) (BRASIL, 1996), a Convenção da Guatemala (1999), ratificada pelo Decreto nº 3.956 (BRASIL, 2001), a Convenção dos Direitos das Pessoas Com deficiência (2007), ratificada e incorporada à constituição como Decreto Legislativo nº 186/2008 (BRASIL, 2008), a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (BRASIL, 2007), entre outros dispositivos legais. Na LDBEN 9.394/96 é estabelecido o direito aos alunos com NEE o acesso ao ensino especializado gratuito, preferencialmente na rede regular de ensino. Com esta determinação, as matriculas dos alunos com deficiência são asseguradas por lei. A LDBEN 9.394/96 também prevê que para incluir adequadamente os alunos com NEE é preciso pensar em práticas e currículo adequados (BRASIL, 1996). Na perspectiva da educação inclusiva a escola passa a ter uma nova função que é a de atender à diversidade de população, inclusive de alunos com deficiência (GÓES & LAPLANE, 2004). Quanto à inclusão, Rodrigues (2006) relata que: 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 56 [...] o conceito de inclusão no âmbito especifico da educação implica inicialmente em rejeitar a exclusão (presencial ou acadêmica) de qualquer aluno da comunidade escolar. Para isso, a escola que pretende seguir uma política de educação inclusiva deve desenvolver práticas que valorizem a participação de cada aluno. A educação inclusiva, para Rodrigues (2006), portanto “pressupõe uma participação plena numa estrutura em que valores e práticas são delineados tendo em conta as características, interesses, objetivos e direitos de todos os participantes no ato educativo”. Isto é evidenciado no documento da UNESCO (1994), quando relata que: O desenvolvimento de escolas inclusivas que ofereçam serviços a uma grande variedade de alunos em ambas as áreas rurais e urbanas requer a articulação de uma política clara e forte de inclusão junto com provisão financeira adequada - um esforço eficaz de informação pública para combater o preconceito e criar atitudes informadas e positivas - um programa extensivo de orientação e treinamento profissional - e a provisão de serviços de apoio necessários. Mudanças em todos os seguintes aspectos da escolarização, assim como em muitos outros, são necessárias para a contribuição de escolas inclusivas bem-sucedidas: currículo, prédios, organização escolar, pedagogia, avaliação, pessoal, filosofia da escola e atividades extracurriculares (UNESCO, 1994). O desafio do processo de inclusão é conseguir dar a todos os alunos condições igualitárias em relação à aquisição do conhecimento. Assim, pode-se considerar que um dos desafios desta década imposto aos educadores é tornar eficaz o processo de inclusão das pessoas com deficiência nas classes regulares. Ao se pensar na EJA o desafio pode ser ainda maior. Ao estudar a EJA, Ferreira (2009) relata que: Jovens e adultos com deficiência constituem hoje ampla parcela da população de analfabetos no mundo porque não tiveram oportunidades de acesso à educação na idade apropriada. Nos países economicamente ricos, a maioria das pessoas com deficiência está institucionalizada, nos países economicamente pobres, está escondida, invisível na escola e nos vários espaços sociais. Em ambos os casos elas são privadas de oportunidades de aprendizagem formal e de desenvolvimento humano. Para Ferreira (2009), a inclusão de pessoas com deficiência na EJA deve ser bem planejada, pois muitas práticas escolares contribuem para exclusão deste aluno. Assim como os demais estudantes da EJA, o aluno com deficiência busca nesta modalidade de ensino a possibilidade de aprender os conhecimentos básicos que lhe garanta entrar no mundo de trabalho, ou seja, se preparar para a vida. Desta forma, a EJA adquire uma nova função: a de incluir mais este grupo. ATENÇÃO CANDIDATO (A) O conteúdo referente ao tópico em questão já foi estudado no material Currículo e Produção do Conhecimento, mais especificamente na parte aborda o assunto Currículo e Movimento da Educação Básica. Não esqueça de estuda-lo! 01. (ENADE – Pedagogia) A professora afirmou que a baleia é um mamífero. Inconformado, Pedro argumentou: “Mamífero é vaca, gato, cachorro, cujos filhotes mamam. A baleia vive dentro d’água, tem nadadeiras, é um peixe”. A maioria dos colegas concordou com Pedro, mas todos começaram a mudar de idéia ao assistir a um filme em que apareciam baleias pequenas sendo amamentadas. Pedro começou a perceber que morar fora d’água não é algo que defina os mamíferos, e que ter rabo de peixe, nadadeiras e morar na água não são características apenas dos peixes. 11 Prática pedagógica e áreas do conhecimento. 11.1 Linguagens. 11.2 Matemática. 11.3 Ciências da Natureza. 11.4 Ciências Humanas. Questões 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 57 A aprendizagem de Pedro foi gerada, segundo a teoria piagetiana, pelo processo de: (A) anulação do conhecimento anterior e substituição deste por conteúdos novos e diferentes. (B) associação de novos conteúdos àqueles que já faziam parte da sua estrutura cognitiva. (C) comparação entre informações contrastantes e o reforço do conhecimento anterior. (D) desequilíbrio, por conflito cognitivo, e acomodação do novo conhecimento ao anterior. (E) reforço positivo por parte da professora, dos colegas e da família. 02. Uma vez que integra a Educação Básica, a modalidade EJA: (A) apresenta determinações legais diferenciadas, embora apresente algumas semelhanças com outras modalidades da Educação Básica. (B) segue as determinações legais da Educação Especial (C) apoia-se em pareceres e decretos que contradizem a LDB. (D) segue as mesmas determinações legaisdas outras modalidades da Educação Básica, resguardando várias particularidades. (E) não segue a LDB, pois apresenta lei própria para sua modalidade. 03. Com base na LDB nº 9394/1996, a EJA é considerada: (A) forma eficaz de erradicação do analfabetismo que acontece prioritariamente por meio de cursos profissionalizantes e técnicos. (B) programa educacional assistencialista para aqueles que foram reprovados na idade certa. (C) correção de fluxo da distorção série e idade com formação centrada no trabalho para atender às demandas do capital. (D) programa educacional compensatório e supletivo. (E) modalidade da educação básica. 04. (ENADE – Pedagogia) QUINO. Toda a Mafalda. Trad. Andréa Stahel M. da Silva et al. São Paulo: Martins Fontes, 1993, p. 71. Muitas vezes, os próprios educadores, por incrível que pareça, também vítimas de uma formação alienante, não sabem o porquê daquilo que dão, não sabem o significado daquilo que ensinam e quando interrogados dão respostas evasivas: “é pré-requisito para as séries seguintes”, “cai no vestibular”, “hoje você não entende, mas daqui a dez anos vai entender”. Muitos alunos acabam acreditando que aquilo que se aprende na escola não é para entender mesmo, que só entenderão quando forem adultos, ou seja, acabam se conformando com o ensino desprovido de sentido. VASCONCELLOS, C. S. Construção do conhecimento em sala de aula. 13. ed. São Paulo: Libertad, 2002, p. 27-8. Correlacionando a tirinha de Mafalda e o texto de Vasconcellos, avalie as afirmações a seguir. I. O processo de conhecimento deve ser refletido e encaminhado a partir da perspectiva de uma prática social. II. Saber qual conhecimento deve ser ensinado nas escolas continua sendo uma questão nuclear para o processo pedagógico. III. O processo de conhecimento deve possibilitar compreender, usufruir e transformar a realidade. IV. A escola deve ensinar os conteúdos previstos na matriz curricular, mesmo que sejam desprovidos de significado e sentido para professores e alunos. V. Os projetos curriculares devem desconsiderar a influência do currículo oculto que ocorre na escola com caráter informal e sem planejamento. 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 58 É correto apenas o que se afirma em (A) I e III. (B) I e IV. (C) II e IV. (D) I, II e III. (E) II, III e IV. 05. (SEDUC-PI - Professor – Sociologia – NUCEPE/2015) Sobre socialização é CORRETO afirmar que é o processo (A) de divisão da riqueza social entre os indivíduos em uma determinada sociedade. (B) de formação de grupos sociais. (C) de constituição de grupos políticos. (D) por meio do qual o indivíduo aprende e interioriza o sistema de valores, de normas e comportamentos de uma determinada cultura, sendo sua condição de classe um aspecto decisivo para a garantia de que aconteça. (E) por meio do qual o indivíduo aprende a ser membro da sociedade 06. (SAEB-BA - Professor - Sociologia - CESPE /2013) O conceito de socialização relaciona-se (A) à divisão das riquezas acumuladas por meio de heranças. (B) ao processo em que os indivíduos são preparados para participar de sistemas sociais. (C) à criação e à fixação da individualidade do sujeito na sociedade. (D) à socialização do Estado, com o objetivo de torná-lo democrático. 07. No que se refere às instituições sociais, assinale o que for correto. (A) A linguagem é uma instituição fundamental da sociedade, expressando e estabelecendo símbolos compartilhados. (B) A grande maioria das sociedades não possui regras que regulamentam as relações sexuais e a procriação de filhos; no entanto, onde elas existem, são praticamente as mesmas. (C) Para a maioria dos indivíduos, a família aparece como a primeira instituição social, já que, para eles, ela é considerada o fundamento básico das sociedades. (D) As instituições sociais podem ser consideradas formas sancionadas de papéis, padrões e relações, cujo objetivo é satisfazer necessidades sociais básicas. (E) O Estado supervisiona apenas os aspectos exteriores da vida social; portanto, não pode ser definido como uma instituição social. 08. (ENADE – Pedagogia) [...] garimpar o que de bom já temos em nossas práticas anteriores, e que ainda são significativas para as necessidades de hoje. Valorizo esse método porque [...] fazer educação não é como fazer um prédio. PIMENTA, S. G. De professores, pesquisa e didática. Campinas: Papirus, 2002, p. 60. Que concepção corresponde ao que defende Pimenta nesse fragmento de texto? (A) Na inovação da prática pedagógica, não há espaço para o tradicional. (B) Em educação, a transformação tem efetivo resultado, quando se abandona o estabelecido no cotidiano escolar. (C) Valorizar o cotidiano já vivido pelo aluno é repetir erros de práticas anteriores. (D) A experiência anterior serve de contraexemplo para o estabelecimento da nova experiência. (E) Inovar é avançar, considerando o que deve ser preservado no contexto do processo educativo. 09. (UFAL – Pedagogo – COPEVE/2013) A incorporação das novas tecnologias de informação e comunicação ao processo educativo traz para a educação a concepção de interatividade. Para Silva (2006), a sala de aula interativa seria o ambiente em que o professor interrompe a tradição do falar/ditar, deixando-se identificar com o contator de história e adota uma postura semelhante à do designer de software interativo. Isso significa que o professor (A) constrói um conjunto de territórios a serem explorados pelos alunos e disponibiliza co autoria e múltiplas conexões, permitindo que o aluno também faça por si mesmo. (B) serve como um conselheiro, estabelecendo uma ponte entre o conhecimento e o aluno, permitindo que este faça as tarefas corretamente (C) disponibiliza o conteúdo para consulta do aluno, sem interferir do processo de construção do conjunto de conhecimentos. 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 59 (D) elabora um conjunto de conteúdos a serem explorados pelos alunos e serve como consultor da melhor forma de resolver as questões. 10. Na escola em que João é professor, existe um laboratório de informática, que é utilizado para os estudantes trabalharem conteúdos em diferentes disciplinas. Considere que João quer utilizar o laboratório para favorecer o processo ensino-aprendizagem, fazendo uso da abordagem da Pedagogia de Projetos. Nesse caso, seu planejamento deve A. ter como eixo temático uma problemática significativa para os estudantes, considerando as possibilidades tecnológicas existentes no laboratório. B. relacionar os conteúdos previamente instituídos no início do período letivo e os que estão no banco de dados disponível nos computadores do laboratório de informática. C. definir os conteúdos a serem trabalhados, utilizando a relação dos temas instituídos no Projeto Pedagógico da escola e o banco de dados disponível nos computadores do laboratório. D. listar os conteúdos que deverão ser ministrados durante o semestre, considerando a sequência apresentada no livro didático e os programas disponíveis nos computadores do laboratório. E. propor o estudo dos projetos que foram desenvolvidos pelo governo quanto ao uso de laboratórios de informática, relacionando o que consta no livro didático com as tecnologias existentes no laboratório. Respostas 01. Resposta: D O enunciado da questão já propõe que a mesma seja analisada a partir da teoria de Jean Piaget, assim, é possível observar que as opções A, B, C e E apresentam termos que as afastam das conclusões a que o teórico em questão chegou através de suas pesquisas. A opção correta é a D, pois refere conceitos essenciais da teoria de Piaget a fim de explicar o aprender das crianças diante da ideia que tinham sobre a baleia e os mamíferos, pois há um desequilíbrio ao serem confrontados com uma nova informação que provoca um conflito cognitivo em relação a umaaprendizagem anterior. No entanto, ao serem levadas a ter um contato com o novo conhecimento, no caso, através do filme, as crianças puderam acrescentar informações e melhorar o que já sabiam. Dessa forma, a generalização anterior sobre os mamíferos teve que passar por uma ressignificação, enriquecida por novos conhecimentos, assim houve uma mudança qualitativa. Nesse sentido, não houve uma simples anulação do conhecimento anterior e substituição deste por novos, como afirma a opção A; tampouco foi um processo meramente associativo, como infere a opção B, pois as crianças tiveram a oportunidade de refletir sobre seu conflito e tirar conclusões através do que estavam observando. Da mesma forma, não é possível afirmar que houve qualquer tipo de reforço, pois o caminho percorrido para chegar à nova conclusão foi proporcionado pela vivência do conflito cognitivo, pela oportunidade de expressão desse conflito, pelo ensejo da argumentação, pela possibilidade de contato com a nova informação mostrada às crianças através do filme, ou seja, dinâmica que se opõe ao simples ato de reforçar verdades já construídas por outros; conforme opções C e E. 02. Reposta: D LDB: Art. 37. A educação de jovens e adultos será destinada àqueles que não tiveram acesso ou continuidade de estudos no ensino fundamental e médio na idade própria. § 1º Os sistemas de ensino assegurarão gratuitamente aos jovens e aos adultos, que não puderam efetuar os estudos na idade regular, oportunidades educacionais apropriadas, consideradas as características do alunado, seus interesses, condições de vida e de trabalho, mediante cursos e exames. § 2º O Poder Público viabilizará e estimulará o acesso e a permanência do trabalhador na escola, mediante ações integradas e complementares entre si. § 3o A educação de jovens e adultos deverá articular-se, preferencialmente, com a educação profissional, na forma do regulamento. 03. Resposta E 04. As afirmações I, II e III são corretas e correspondem à alternativa de letra D. I. O processo de conhecimento deve ser refletido e encaminhado a partir da perspectiva de uma prática social. II. Saber qual conhecimento deve ser ensinado nas escolas continua sendo uma questão nuclear para o processo pedagógico. III. O processo de conhecimento deve possibilitar compreender, usufruir e transformar a realidade. 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 60 A aprendizagem é uma experiência profunda de natureza social. Cabe à escola resgatar o conhecimento histórico e socialmente produzido, como base do conhecimento escolar. Os processos historicamente percorridos precisam ser trazidos como parte integrante dos desafios das novas descobertas, em sintonia com a realidade vivida, pois as atividades educativas necessitam ser significativas para o aluno. De um lado se coloca o professor como provedor do conhecimento organizado. De outro lado, há o aluno como sujeito ativo do conhecimento. Trata-se de um sujeito submetido a condicionantes sociais que acrescentam ao conhecimento uma visão da realidade socialmente transmitida. Cada vez há mais estudos que demonstram que o conhecimento é construído socialmente. Para tanto, é preciso superar a dimensão restrita, mecânica, repetitiva e superficial da forma como o conhecimento é tratado na prática pedagógica e propiciar um saber dinâmico, relacionado à vida, prazeroso e com sentido. A capacidade de construir significados no processo de aprendizagem depende da possibilidade de o aluno estabelecer relações entre o que aprende e aquilo que já conhece. Trata-se de uma abordagem histórico-social que considera a relação pedagógica como mediação da formação social e política. Através do processo educativo o aluno desenvolve suas próprias capacidades de aprender, possibilitando a sua inserção crítica e participativa na sociedade em função da formação da cidadania, com vistas a transformar o mundo natural e social para fazer dele um mundo humano. As afirmações IV e V são incorretas. I. A escola deve ensinar os conteúdos previstos na matriz curricular, mesmo que sejam desprovidos de significado e sentido para professores e alunos. II. Os projetos curriculares devem desconsiderar a influência do currículo oculto que ocorre na escola com caráter informal e sem planejamento. O processo de aprendizagem não pode ser visto de uma forma mecânica e linear, em que alunos adquirem algumas informações que lhes chegam a partir da determinação de uma matriz curricular. Para conhecer é preciso tratar as informações, articulando-as entre si, imputando significado a elas. E a aprendizagem que se limita a um processo puramente mnemônico não favorece o surgimento de indivíduos capazes de tomar decisões satisfatórias diante de situações não previstas. Além disso, a possibilidade da aprendizagem destituída da construção ativa de significados, por parte do aprendiz, corresponde a um modelo de aprendizagem não mais valorizado nos dias de hoje. Ao contrário, concebe- se que a aprendizagem é um processo ativo em que a aquisição de conteúdos envolve um processo de atribuição de significado ao que é aprendido. Para além dos currículos oficiais, o ambiente escolar circunstancia processos e condições que denotam um currículo oculto, fonte de inumeráveis aprendizagens para o aluno. Gimeno Sacristán (1998) define o currículo oculto como sendo tudo aquilo que contribui para a aquisição de saberes, competências, valores, sentimentos, sem constar nos programas previamente elaborados. E destaca: “a acepção do currículo como conjunto de experiências planejadas é insuficiente, pois os efeitos produzidos nos alunos por um tratamento pedagógico ou currículo planejado e suas consequências são tão reais e efetivos quanto podem ser os efeitos provenientes das experiências vividas na realidade da escola sem tê-las planejado, às vezes nem sequer ser conscientes de sua existência. É o que se conhece como currículo oculto” (SACRISTÁN, 1998). Assim, para Gimeno Sacristán (2000), os projetos curriculares devem considerar a influência do currículo oculto. Compreende que o currículo depende de marcos variáveis e os conceitos estão direcionados para diferentes aspectos: aos resultados escolares observáveis e pretendidos, à práxis, ao aluno e suas experiências, o que é expresso e visível e o que está na linguagem e é invisível, nexo ou veículo de comunicação entre professor-aluno, escola-sociedade, representação cultural, dentre outros. O currículo nos dá uma visão de cultura apresentada na escola, um projeto ou processo historicamente construído no tempo e lugar históricos, portanto, pela sociedade, e se construído é culturalmente elaborado; expressa ideologias, ideias, ao mesmo tempo em que é manifestação prática. 05. Resposta: E O processo por meio do qual o indivíduo aprende a ser um membro da sociedade é designado pelo nome de socialização. É a imposição de padrões sociais à conduta individual. Esses padrões chegam mesmo a interferir nos processos fisiológicos do organismo. Os padrões impostos durante o processo de socialização são altamente relativos. Dependem não apenas das características individuais dos adultos que cuidam da criança, mas também dos vários grupamentos e classes sociais a que pertencem esses adultos. 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 61 06. Resposta: B Socialização é o processo através do qual os indivíduos são preparados para participar dos sistemas sociais. Incluída neste conceito a alguma compreensão de símbolos e sistema de idéias, linguagem e as relações que constituem os sistemas sociais. 07. Resposta: D Embora satisfaça necessidades e ocorra através das relações sociais, a linguagem representa muito mais os códigos de uma instituição do que propriamente uma instituição autônoma. Isto porque não é possível aferir à linguagem valores e comportamentos da mesma forma que ocorrem emoutras instituições, como por exemplo, a solidariedade na instituição familiar, a compaixão na instituição religiosa, o empreendedorismo nas instituições econômicas. Com essa interpretação eliminamos a alternativa A. A alternativa B além de ser generalizante é bastante imprecisa. Apesar de afirmar corretamente que a família é uma primeira instituição social, a alternativa C peca por basear-se apenas na opinião da maioria dos indivíduos. A alternativa D é a que melhor apresenta uma definição de instituição social A alternativa E é equivocada por, além retirar do Estado a definição de instituição social ainda o descaracteriza quanto as suas funções. 08. Resposta: E A alternativa E é correta na medida em que ratifica a concepção de que inovar é estabelecer um vínculo entre o passado e o presente, ao mesmo tempo em que se busca o novo. Nessa dimensão, “considerar o que deve ser preservado no contexto do processo educativo” significa produzir novos conhecimentos, transformando os que já foram acumulados pela humanidade, a partir das experiências vivenciadas num determinado contexto sócio-histórico-cultural, o que vai ao encontro do que afirma a autora. As demais alternativas distanciam-se da afirmativa da autora na medida em que negam a concepção de Educação como um processo que ocorre ao longo da história da humanidade, na relação do homem com o outro, transformando-se de acordo com cada povo e cada época. 09. Resposta: A 10. Resposta: A É importante, para que se possa argumentar a análise dessa questão, em sua proposta alternativa de respostas, esclarecer as compreensões do papel de um Laboratório de Informática, em termos de sua integração na escola, e do favorecimento dos processos de ensino e de aprendizagem numa perspectiva de uma abordagem da Pedagogia de Projetos. Entende-se Laboratório de Informática em uma escola, não como uma possibilidade oferecida aos alunos para que, por meio dele, se apropriem dos mais diferentes aspectos do Currículo, rompendo com a visão limitada de ser visto como especialidade/atividade extracurricular ou de uso eventual em determinadas disciplinas e de específicas aplicações didáticas, mas um espaço de uso cotidiano, de busca, de criação, de pesquisa, visando à construção de conhecimento e favorecimento dos processos de ensino e de aprendizagem. Trata-se de um ambiente diversificado de aprendizagem que valoriza as informações disponíveis no processo de construção do conhecimento. A Pedagogia de Projetos pressupõe uma abordagem que tem como incentivo a capacidade do aluno de adquirir sua própria educação, investindo em sua autonomia para gerenciar a aprendizagem e, assim, aprender questionando, respondendo, buscando desafios educativos e formativos exigidos pela sociedade atual. Tem seu foco em uma investigação problemática, situação-problema, significativa para os alunos, com o objetivo de oportunizar a construção e a reconstrução de seus conhecimentos. Necessárias se fazem, para tanto, a abertura e a flexibilidade do professor em relativizar suas práticas, repensar as potencialidades de aprendizagem de seus alunos e o seu papel de professor nessa perspectiva pedagógica, oportunizando a integração entre conteúdos de várias áreas do conhecimento, bem como entre diferentes mídias disponíveis (computador, internet, livros, televisão) e entre outros recursos existentes no contexto da instituição de ensino em que está inserido. “É ter coragem de romper com as limitações do cotidiano, muitas vezes autoimpostas” e “delinear um percurso possível que pode levar a outros, não imaginados a priori”. Feitas essas considerações, justifica-se estar correta a assertiva A. As alternativas B, C, D e E não estão corretas por apresentarem, respectivamente, um planejamento que se propõe a relacionar conteúdos previamente instituídos no início do período letivo e os constantes em bancos de dados; definir conteúdos a serem trabalhados utilizando a relação dos temas instituídos no projeto pedagógico das 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS . 62 escolas e, também, no banco de dados disponível; listar conteúdos que deverão ser ministrados durante o semestre considerando a sequência apresentada no livro didático e os programas disponíveis nos computadores dos laboratórios e estudo de projetos desenvolvidos pelo governo quanto ao uso de laboratórios de informática, relacionando o que consta no livro didático com as tecnologias existentes no laboratório. Se for levado em consideração que nem todos os conteúdos curriculares previstos para serem estudados numa determinada série/nível de escolaridade podem ser abordados no contexto de um projeto, é possível pensar que um projeto não pode ser concebido, como apresentado nas alternativas B, C, D e E, uma “camisa de força”, pois existem momentos em que outras estratégias pedagógicas precisam ser colocadas em ação para que os alunos possam aprender determinados conceitos. Importante se faz compreender que no trabalho por projetos, as pessoas se envolvem para descobrir ou produzir algo novo, procurando respostas para questões ou problemas reais. “Não se faz projeto quando se têm certezas, ou quando se está imobilizado por dúvidas”. Projeto não pode ser confundido com um conjunto de atividades que o professor propõe para que os alunos realizem, a partir de um tema dado, predeterminado, restrito a determinadas fontes também indicadas, resultando numa mera apresentação de trabalho. Portanto, uma vez que a Pedagogia de Projetos não pressupõe a definição prévia de conteúdos, mas a resolução de questão-problema integrada a situações vividas, as alternativas B, C, D e E estão incorretas. 1265097 E-book gerado especialmente para SELMA APARECIDA FERNANDES DE MORAIS