Prévia do material em texto
1 SUMÁRIO INTRODUÇÃO ................................................................................................. 4 1 TEORIAS DA APRENDIZAGEM ................................................................. 5 2 TEORIAS BEHAVIORISTAS ...................................................................... 7 2.1 Behaviorismo metodológico ................................................................. 8 2.2 Behaviorismo radical ............................................................................ 8 3 UM POUCO DE HISTÓRIA SOBRE A TEORIA BEHAVIORISTAS ........... 9 3.1 Ivan Pavlov ......................................................................................... 11 3.2 John Watson ...................................................................................... 11 3.3 Dward Thorndike ................................................................................ 13 3.4 Burrhus Frederic Skinner .................................................................... 14 4 TEORIAS DE TRANSIÇÃO ENTRE O BEHAVIORISMO CLÁSSICO E O COGNITIVISMO ........................................................................................................ 15 4.1 Robert Gagné ..................................................................................... 15 4.2 Edward Tolman .................................................................................. 16 5 TEORIA DA GESTALT ............................................................................. 17 6 TEORIAS COGNITIVISTAS ...................................................................... 19 6.1 Jean Piaget e Vigotsky ....................................................................... 20 7 OS ESTÁDIOS NO DESENVOLVIMENTO COGNITIVO .......................... 25 8 SENSÓRIO-MOTORA (0 A 2 ANOS) ....................................................... 27 8.1 Subestádio I: O Exercício dos Reflexos (até 1 mês) .......................... 27 8.2 Subestádio II: As Primeiras Adaptações Adquiridas e a Reação Circular Primária (1 mês a 4 meses e meio) ....................................................................... 28 8.3 Subestádio III: As Adaptações Sensório-Motoras Intencionais e as Reações Circulares Secundárias (4 meses e meio a 8-9 meses) ......................... 29 2 8.4 Subestádio IV: A Coordenação dos Esquemas Secundários e sua Aplicação Às Situações Novas (8-9 Meses A 11-12 Meses) ................................. 30 8.5 Subestádio V: A Reação Circular Terciária e a Descoberta dos Meios Novos por Experimentação Ativa (11-12 Meses A 18 Meses) ............................... 31 8.6 Subestádio VI: A Invenção dos Meios Novos por Combinação Mental e a Representação (1 Ano e Meio A 2 Anos)............................................................ 32 9 ESTÁDIO PRÉ-OPERATÓRIO OU SIMBÓLICO (2 A 6-7 ANOS) ............ 34 10 ESTÁDIO OPERATÓRIO CONCRETO (7 A 11-12 ANOS) ................... 37 11 O ESTÁDIO DAS OPERAÇÕES FORMAIS (11 A 15-16 ANOS) .......... 37 12 ABORDAGEM HUMANISTA ................................................................. 38 12.1 Carl Rogers ..................................................................................... 39 13 TEORIA DE PIAGET E O DESENVOLVIMENTO DA MORAL .............. 41 14 TEORIA DE KOHLBERG E O DESENVOLVIMENTO DA MORAL ....... 43 14.1 1º Nível pré-convencional ............................................................... 44 14.2 2º Nível convencional ...................................................................... 44 14.3 3º Nível pós-convencional ............................................................... 45 15 PSICOLOGIA DA APRENDIZAGEM ..................................................... 46 16 MEDIAÇÃO DA APRENDIZAGEM ........................................................ 50 16.1 Critério 1. Intencionalidade e reciprocidade .................................... 53 16.2 Critério 2. Transcendência. ............................................................. 53 16.3 Critério 3. Mediação do significado. ................................................ 54 17 OS CRITÉRIOS DE MEDIAÇÃO DE REUVEN FEUERSTEIN.............. 55 17.1 Critério 1 – Mediação da Intencionalidade e Reciprocidade ........... 57 17.2 Critério 2 – Mediação de Significado ............................................... 57 17.3 Critério 3 – Mediação de Transcendência ....................................... 58 17.4 Critério 4 – Mediação do Sentimento de Competência ................... 58 3 17.5 Critério 5 – Mediação da Regulação e Controle do Comportamento 59 17.6 Critério 6 – Mediação do Comportamento de Compartilhar ............ 59 17.7 Critério 7 – Mediação da Individuação e Diferenciação Psicológica60 17.8 Critério 8 – Mediação do Planejamento para o alcance de objetivos 60 17.9 Critério 9 – Mediação do Desafio .................................................... 61 17.10 Critério 10 – Mediação da Percepção da consciência da modificabilidade humana ....................................................................................... 61 17.11 Critério 11 – Mediação da Escolha da Alternativa Otimista ............ 62 17.12 Critério 12 – Mediação do Sentimento de pertencer ....................... 62 18 CONCLUSÃO ........................................................................................ 63 19 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...................................................... 65 20 SUGESTÕES BIBLIOGRÁFICAS .......................................................... 67 4 INTRODUÇÃO Prezado aluno! O Grupo Educacional FAVENI, esclarece que o material virtual é semelhante ao da sala de aula presencial. Em uma sala de aula, é raro – quase improvável - um aluno se levantar, interromper a exposição, dirigir-se ao professor e fazer uma pergunta , para que seja esclarecida uma dúvida sobre o tema tratado. O comum é que esse aluno faça a pergunta em voz alta para todos ouvirem e todos ouvirão a resposta. No espaço virtual, é a mesma coisa. Não hesite em perguntar, as perguntas poderão ser direcionadas ao protocolo de atendimento que serão respondidas em tempo hábil. Os cursos à distância exigem do aluno tempo e organização. No caso da nossa disciplina é preciso ter um horário destinado à leitura do texto base e à execução das avaliações propostas. A vantagem é que poderá reservar o dia da semana e a hora que lhe convier para isso. A organização é o quesito indispensável, porque há uma sequência a ser seguida e prazos definidos para as atividades. Bons estudos! 5 1 TEORIAS DA APRENDIZAGEM Fonte: amenteemaravilhosa.com.br De um modo geral, a teoria pode ser entendida como uma interpretação sistemática de uma área de conhecimento, uma maneira particular de ver as coisas, de explicar observações, de resolver problemas. A aprendizagem é um processo contínuo, que pode ocorrer em qualquer situação. Nesse sentido, podemos dizer que um dos fatores essenciais do aprendizado é a cultura, pois ela molda o sujeito por meio de suas relações com o meio. Existem vários tipos de aprendizagem dentre elas podemos citar: 1. Aprendizagem cognitiva: é aquela que resulta no armazenamento organizado de informações na mente do ser que aprende 2. Aprendizagem afetiva: é aquela que resulta de sinais internos ao indivíduo e pode ser identificada como experiências tais como prazer e dor, satisfação ou descontentamento, alegria ou ansiedade. 3. Aprendizagem psicomotora: é aquela que envolve respostas musculares adquiridas mediante treino e prática. Desta forma, a teoria da aprendizagem é uma tentativa de interpretar sistematicamente, de reorganizar, de prever, conhecimentos sobre aprendizagem. Aspectos básicos (muito relacionados) de uma teoria de aprendizagem: 6 1. representa o ponto de vistade um autor/ pesquisador sobre como interpretar o tema aprendizagem, quais as variáveis independentes, dependentes e intervenientes, quais os fenômenos e perguntas mais relevantes; 2. procura resumir uma grande quantidade de conhecimentos sobre aprendizagem em uma formulação bastante compacta; 3. tenta, de maneira criativa, explicar o que é aprendizagem e porque funciona como funciona. Muitas pessoas confundem construção de conhecimento com aprendizagem. Entretanto, aprender é algo muito mais amplo, pois é a forma de o sujeito aumentar seu conhecimento. Nesse sentido, a aprendizagem faz com que o sujeito se modifique, de acordo com a sua experiência. Neste sentido, o ser humano passa por mudanças que não se referem à aprendizagem e sim aos processos maturativos, tais como: aquisição da linguagem, engatinhar, andar ou até mudanças em decorrência de doenças físicas ou psicológicas. Sendo assim, a aprendizagem é uma mudança significativa que ocorre baseada também nas experiências dos indivíduos. Todavia, para ser caracterizada como tal, é necessária a solidez, ou seja, ela deve ser incorporada definitivamente pelo sujeito. Os estudos das Teorias da aprendizagem procuram investigar, sistematizar e propor soluções relacionadas ao campo do aprendizado humano. Esta área de investigação remonta à Grécia Antiga. Neste período, o processo pelo qual uma pessoa adquire conhecimento já era tema de investigação dos filósofos gregos. Entretanto, a área de estudo ganhou destaque a partir do século XX, quando se deu o advento da psicologia. O principal fator que diferencia uma teoria de outra é o ponto de vista sob o qual cada uma trabalha. Existem as teorias que abordam a aprendizagem a partir do comportamento, outras a partir do aspecto humano ou, ainda, aquelas que consideram apenas a capacidade cognitiva de cada um. Como o campo da investigação do conhecimento humano é bastante vasto, algumas teorias obtiveram destaque ao longo do século, servindo como base teórica para os estudos nesta área. 7 2 TEORIAS BEHAVIORISTAS Fonte: psicoativo.com A abordagem comportamentalista analisa o processo de aprendizagem, desconsiderando os aspectos internos que ocorrem na mente do agente social, centrando-se no comportamento observável. Essa abordagem teve como grande precursor o norte-americano John B. Watson, sendo difundida e mais conhecida pelo termo Behaviorismo. A grande efervescência dessa teoria se deu pelo fato de ter caracterizado o comportamento como um objeto de análise que apresentava a consistência que a Psicologia científica exigia na época – caráter observável e mensurável – em função da predominância cientificista do Positivismo. Esta última sendo uma corrente de pensamento que triunfou soberana no século XIX, e que tinha como princípio fundamental à utilização do método experimental, tanto para as Ciências da Natureza quanto para as Ciências Sociais. Desse modo, o Behaviorismo desenvolveu-se num contexto em que a Psicologia buscava sua identidade como ciência, enfatizando o comportamento em sua relação com o meio. Com isso, se estabeleceu como unidades básicas para uma análise descritiva nesta ciência os conceitos de “Estímulo” e “Resposta”. A partir da definição dessa base conceitual o ser humano passou a ser estudado como produto das associações estabelecidas durante sua vida entre os estímulos do meio e as respostas que são manifestadas pelo comportamento. Apesar 8 de Watson ter sido o grande precursor do Behaviorismo, B. F. Skinner foi um dos psicólogos behavioristas que teve seus estudos amplamente divulgados, inclusive no Brasil, havendo um grau de aplicabilidade muito forte na educação. O behaviorismo tem como foco principal o comportamento, que é denominado como a resposta dada por determinado organismo a algum fator externo que o estimule, resposta observável, portanto, passível de descrição e quantificação. Essa teoria se atém, pois, somente aos comportamentos observáveis externamente. Essa corrente pode ser dividida em duas vertentes, a saber. 2.1 Behaviorismo metodológico O behaviorismo metodológico foi criado por John Brados Watson (1878-1958), Watson doutorou-se em Neuropsicologia, e produziu trabalhos em psicologia animal, estudando o comportamento de ratos e macacos, estudos que posteriormente foram replicados no comportamento humano. Segundo o autor, o objetivo teórico dessa corrente é prever e controlar o comportamento, caracterizando-se pelo empirismo. Para ele, o ser humano aprende tudo a partir do ambiente, ficando, assim, à mercê do meio. O indivíduo nasce vazio de conhecimento, é uma tabula rasa. Watson rejeita os processos mentais como objeto de estudo, pois, para ele, só poderia ser estudado aquilo que fosse passível de ser observado e mensurado. 2.2 Behaviorismo radical O behaviorismo radical tem como fundador Burrhus Frederic Skinner (1904- 1990), psicólogo americano que testou as teorias de Watson em laboratório, ampliando alguns conceitos dessas teorias para Skinner, os chamados fenômenos internos (processos mentais) são de natureza física, material e, portanto, mensuráveis. A principal diferença entre as duas vertentes é que a segunda não considera o indivíduo um ser passivo, uma tabula rasa. As pessoas respondem ao meio, mas elas também operam em seu ambiente, a fim de produzir certas consequências, contrapondo-se a Watson, que considerava o indivíduo 9 completamente moldável pelo ambiente, um ser passivo, apenas responsivo aos estímulos do ambiente de forma condicionada. O ponto fundamental dos estudos de Skinner são as relações funcionais entre o estímulo e a resposta na modificação, permanência ou extinção de um comportamento. A base de sua teoria é a metodologia denominada por ele de condicionamento operante, que ele acrescentou à noção de reflexo condicionado, formulada pelo cientista russo Ivan Pavlov. Os dois conceitos estão essencialmente ligados à fisiologia do organismo, seja animal ou humano. O reflexo condicionado é uma reação a um estímulo casual. O condicionamento operante é um mecanismo que premia ou pune uma determinada resposta de um indivíduo, até ele ficar condicionado a um comportamento positivo ou aversivo. Sendo assim, agimos e operamos sobre o mundo por meio das respostas que nossas ações provocam. A diferença entre o reflexo condicionado e o condicionamento operante é que o primeiro é uma resposta a um estímulo puramente externo e o segundo, o hábito gerado por uma ação do indivíduo. No comportamento respondente (de Pavlov), a um estímulo segue-se uma resposta. No comportamento operante (de Skinner), o ambiente é modificado e produz consequências que agem de novo sobre ele, alterando a probabilidade de ocorrência futura semelhante. O condicionamento operante é um mecanismo de aprendizagem de novo comportamento – um processo que Skinner chamou de modelagem. O instrumento fundamental de modelagem é o reforço – a consequência de uma ação quando percebida por quem a pratica. Para o behaviorismo em geral, o reforço pode ser positivo (uma recompensa) ou negativo (ação que evita uma consequência indesejada). Skinner centrou seus estudos no condicionamento operante. 3 UM POUCO DE HISTÓRIA SOBRE A TEORIA BEHAVIORISTAS O behaviorismo pode ser grosseiramente classificado em dois tipos: o behaviorismo metodológico e o radical. O criador da vertente do behaviorismo metodológico (também denominado como comportamentalismo) é John B. Watson. O 10 behaviorismo metodológico tem caráter empirista. Como já vimos anteriormente, para Watson todo ser humano aprendia tudo a partir de seu ambiente (o homem estaria à mercê do meio). Também não possuía nenhuma herança biológica ao nascer. Foi nessa época que o behaviorismo emergiu como uma oposiçãoao mentalismo europeu. A introspecção não poderia, segundo ele, ser aceita como prática científica. O Behaviorismo Metodológico tem também caráter determinista. Sendo uma teoria muito baseada em estímulo-resposta (E-R), nela há uma indicação de que o comportamento humano é previsível. Se um antecedente X ocorre, o evento Y ocorrerá como consequência. Alguns enunciados de Watson evidenciam essa característica. Outra vertente é o behaviorismo radical, criada por Burrhus Frederic Skinner. Ao contrário do behaviorismo metodológico, essa vertente não pressupõe que o ser humano seja uma tábula rasa, desprovido de qualquer dote fisiológico e genético. Essa era uma das principais diferenças entre as duas vertentes behavioristas e também é o que separa bastante os trabalhos de Skinner e Watson. Para Skinner, o behaviorismo não era um estudo científico do comportamento, mas sim, uma Filosofia da Ciência que se preocupava com os métodos e objetos de estudo da psicologia. Segundo o próprio Skinner: Se a psicologia é uma ciência da vida mental – da mente, da experiência consciente – então ela deve desenvolver e defender uma metodologia especial, o que ainda não foi feito com sucesso”. Se, por outro lado, ela é uma ciência do comportamento dos organismos, humanos ou outros, então ela é parte da biologia, uma ciência natural para a qual métodos testados e muito bem-sucedidos estão disponíveis. A questão básica não é sobre a natureza do material do qual o mundo é feito ou se ele é feito de um ou de dois materiais, mas sim as dimensões das coisas estudadas pela psicologia e os métodos pertinentes a elas (SKINNER, 1963/1969, apud CUNHA 2011, P.14) Skinner, ao contrário de Watson, não nega a visão mentalista da psicologia. Para ele, os chamados fenômenos da privacidade (processos mentais) são de natureza física, material e, portanto, mensuráveis. Faremos aqui uma breve introdução à três behavioristas: Watson (por ser o fundador dessa corrente no mundo ocidental), Thorndike (por ter criado o conceito de reforço e pela sua influência na psicologia da educação) e Skinner (por ser o mais famoso dos behavioristas e, cuja teoria, até hoje influencia o meio educacional). Além deles, falaremos também do 11 russo Ivan Pavlov, que deu bases a Watson para fundar essa linha no mundo ocidental. 3.1 Ivan Pavlov Foi no estudo com animais em laboratório, em especial a digestão de cães, que Pavlov percebeu que alguns estímulos provocavam a salivação e a secreção estomacal no animal, o que deveria ocorrer apenas quando o animal ingerisse um alimento. A partir disso, ele percebeu que o comportamento do cão estava condicionado a esses estímulos, normalmente aplicados poucos instantes antes do cão se alimentar. Por exemplo, acionando-se uma campainha antes de alimentar o cão, Pavlov percebeu que as reações no animal já se faziam presentes. Assim, o estímulo campainha provocou reflexos alimentares no cão (resposta) mesmo sem a presença do alimento. Constatou ainda, que o cão não podia ser enganado por muito tempo. Os reflexos sumiam se a comida não fosse dada ao cão logo. Pavlov postulou que o reflexo condicionado teria um papel importante no comportamento humano e, consequentemente, na educação. Assim, seu trabalho forneceu bases para que John Watson fundasse o comportamentalismo (ou behaviorismo) no mundo ocidental. 3.2 John Watson Watson é o fundador do behaviorismo no mundo ocidental e utilizou o termo behaviorismo para enfatizar sua preocupação com os aspectos observáveis do comportamento. Ele foi fortemente influenciado pelo trabalho de Pavlov e enfatizou suas pesquisas mais nos estímulos do que nas consequências destes, realizando experimentos com animais e seres humanos (bebês, inclusive). A psicologia era, para ele, parte das Ciências Naturais, tendo no comportamento seu objeto de estudo, investigado por meio de experimentos envolvendo estímulos e respostas. Essa forma de pensar tem raízes nos critérios epistemológicos do positivismo, que conhecera nos seus estudos em Filosofia. Pode-se dizer que era um empirista. 1 4 12 Para ele, a aprendizagem se dava como o condicionamento clássico de Pavlov: o estímulo neutro, quando emparelhado um número suficiente de vezes como estímulo incondicionado, passa a eliciar a mesma resposta do último, substituindo-o. As emoções humanas como, por exemplo, o medo, também poderiam ser explicadas pelo processo de condicionamento. Ou seja, o medo poderia ser condicionado emparelhando um estímulo incondicionado com um estímulo neutro. Watson descartava o mentalismo, a distinção entre corpo e mente. Para Watson, o comportamento compunha-se inteiramente de impulsos fisiológicos. Devido à influência de Pavlov, focalizou seu estudo muito mais nos estímulos do que nas consequências e, assim, encarou a aprendizagem na forma do condicionamento clássico: o estímulo condicionado, depois de ser emparelhado um número suficiente de vezes com o estímulo incondicionado, passa a eliciar a mesma resposta e pode substituí-lo. Apesar de não usar o conceito de reforço, como faz Skinner. Na aprendizagem, Watson explica tal processo através do Princípio da Frequência e do Princípio da Recentidade. O primeiro princípio diz que quanto mais frequentemente associamos uma dada resposta a um dado estímulo, mais provavelmente os associaremos outra vez. Com isso, nessa perspectiva, cabe ao professor promover o maior número de vezes possível a associação de uma resposta (desejada) a um estímulo para que o aprendiz adquira conhecimentos. Já o Princípio da Recentidade coloca que quanto mais recentemente associarmos uma dada resposta a um dado estímulo, mais provavelmente os associaremos outra vez. Assim, o professor deverá proporcionar ao estudante o vínculo mais rápido possível entre a resposta que ele quer que o aluno aprenda e o estímulo a ela relacionado. Dê-me uma dúzia de crianças saudáveis, bem formadas, e meu próprio mundo especificado para fazê-los crescer e, garanto, qualquer um que eu pegue ao acaso posso treiná-lo para se transformar em qualquer tipo de especialista que eu poderia escolher - médico, advogado, artista, o comerciante-chefe e, sim, até mesmo mendigo e ladrão, independentemente dos seus talentos, inclinações, tendências, habilidades, vocações e raça dos seus antepassados (WATSON, 1930 apud CUNHA 2011, p. 19). 13 3.3 Dward Thorndike Ao contrário de Watson, Thorndike foi um teórico do reforço (talvez devido a isso sua influência na psicologia e na educação foi muito grande) e sua principal contribuição ao behaviorismo, provavelmente, foi a Lei do Efeito. Essa lei traz consigo uma concepção de aprendizagem na qual uma conexão é fortalecida quando seguida de uma consequência satisfatória (é mais provável que a mesma resposta seja dada outra vez ao mesmo estímulo) e, inversamente, se a conexão é seguida de um estado irritante, ela é enfraquecida (é provável que a resposta não seja repetida). O professor, nesta concepção, deverá proporcionar ao aprendiz um reforço positivo (por exemplo, um elogio), caso o aluno tenha dado uma resposta desejada, ou um reforço negativo (por exemplo, uma punição) quando o aprendiz apresenta uma resposta indesejável. Além da Lei do Efeito, Thorndike propõe mais duas leis principais (Lei do Exercício e Lei da Prontidão) e cinco leis subordinadas (resposta múltipla, “set” ou atitude, preponderância de elementos, resposta por analogia e mudança associativa). A Lei do Exercício e a da Prontidão, como implicação para o ensino-aprendizagem, colocam que: É preciso praticar (lei do uso) para que haja o fortalecimento das conexões; e o enfraquecimento ou esquecimento ocorre quando a prática sofre interrupção (lei do desuso). Cabe ao professor, portanto, propor aos alunos a prática das respostas desejadas através de muitos exercíciosque fortalecem as conexões a serem aprendidas e, ao mesmo tempo, descontinuar a prática de conexões indesejáveis. É preciso praticar para melhorar o desempenho; É preciso que haja prontidão (ajustamentos preparatórios, “sets”, atitudes) para que a concretização de uma ação seja satisfatória. Assim, se o professor demonstrar ao aluno que sua resposta é culturalmente aceita (se for o caso) mais predisposto ele estará para responder de uma certa maneira. 14 3.4 Burrhus Frederic Skinner Skinner foi o teórico behaviorista que mais influenciou o entendimento do processo ensino-aprendizagem e a prática escolar. No Brasil, a influência da pedagogia tecnicista remonta à segunda metade dos anos 50, mas foi introduzida mais efetivamente no final dos anos 60 com o objetivo de inserir a escola nos modelos de racionalização do sistema de produção capitalista. A concepção skinneriana de aprendizagem está relacionada a uma questão de modificação do desempenho: o bom ensino depende de organizar eficientemente as condições estimuladoras, de modo a que o aluno saia da situação de aprendizagem diferente de como entrou. O ensino é um processo de condicionamento através do uso de reforçamento das respostas que se quer obter. Assim, os sistemas instrucionais visam o controle do comportamento individual face a objetivos pré- estabelecidos. Trata-se de um enfoque diretivo do ensino, centrado no controle das condições que cercam o organismo que se comporta. O objetivo do behaviorismo skinneriano é o estudo científico do comportamento: descobrir as leis naturais que regem as reações do organismo que aprende, a fim de aumentar o controle das variáveis que o afetam. Os componentes da aprendizagem – motivação, retenção, transferência – decorrem da aplicação do comportamento operante. Segundo Skinner, o comportamento aprendido é uma resposta a estímulos externos, controlados por meio de reforços que ocorrem com a resposta ou após a mesma: “se a ocorrência de um comportamento operante é seguida pela apresentação de um estímulo (reforçador), a probabilidade de reforçamento é aumentada”. Os métodos de ensino consistem nos procedimentos e técnicas necessários ao arranjo e controle das condições ambientais que asseguram a transmissão/recepção de informações. O professor deve, primeiramente, modelar respostas apropriadas aos objetivos instrucionais e, acima de tudo, conseguir o comportamento adequado pelo controle do ensino (através da tecnologia educacional). As etapas básicas de um processo de ensino aprendizagem na perspectiva skinneriana são: Estabelecimento de comportamentos terminais, através de objetivos instrucionais; 15 Análise da tarefa de aprendizagem, a fim de ordenar sequencialmente os passos da instrução; Executar o programa, reforçando gradualmente as respostas corretas correspondentes aos objetivos. Exemplos de aplicação da abordagem skinneriana ao ensino seriam, entre outros, a instrução programada e o método Keller. 4 TEORIAS DE TRANSIÇÃO ENTRE O BEHAVIORISMO CLÁSSICO E O COGNITIVISMO Fonte: intensivopedagogico.com.br 4.1 Robert Gagné Gagné situa-se entre o behaviorismo e o cognitivismo por falar, de um lado, em estímulos e respostas e, por outro, em processos internos da aprendizagem (parece ser o pioneiro da teoria de processamento de informação). De acordo com este autor, a aprendizagem é uma modificação na disposição ou na capacidade cognitiva do homem que não pode ser simplesmente atribuída ao processo de crescimento. Ela é ativada pela estimulação do ambiente exterior e provoca uma modificação do comportamento que é observada como desempenho humano. Mas, ao contrário de Skinner (e outros behavioristas), Gagné se preocupa 16 com o processo de aprendizagem, com o que se realiza "dentro da cabeça" do indivíduo. Com isso, ele distingue entre eventos externos e internos da aprendizagem, sendo os primeiros a estimulação que atinge o estudante e os produtos que resultam de sua resposta e os últimos são atividades internas que ocorrem no sistema nervoso central do estudante. Os eventos internos compõem o ato de aprendizagem e a série típica desses eventos pode ser analisada através das seguintes fases: fase de motivação (expectativa), fase de apreensão (atenção; percepção seletiva), fase de aquisição (entrada de armazenamento), fase de retenção (armazenamento na memória), fase de rememoração (recuperação), fase de generalização (transferência), fase de desempenho (resposta) e fase de retroalimentação (reforço). Para Gagné a aprendizagem estabelece estados persistentes no aprendiz, os quais ele chama de capacidades humanas (que são: informação verbal, habilidades intelectuais, estratégias cognitivas, atitudes e habilidades motoras). A função de ensinar, para Gagné, é organizar as condições exteriores próprias à aprendizagem com a finalidade de ativar as condições internas. Nesse sentido, cabe ao professor promover a aprendizagem através da instrução que consistiria de um conjunto de eventos externos planejados com o propósito de iniciar, ativar e manter a aprendizagem do aluno. 4.2 Edward Tolman A teoria de Tolman pode ser classificada como uma abordagem behaviorista intencional, pois, diferentemente da linha behaviorista clássica, se ocupa muito mais de variáveis intervenientes do tipo cognições e intenções, dos chamados processos mentais superiores do que de estímulos e respostas. Tolman chama de "cognição" - um construto teórico - o que intervém entre estímulos e respostas. Define este termo tanto no sentido de estímulos como de recompensas (reforços), e a experiência com eles leva ao desenvolvimento de cognições que dirigem o comportamento. Certas necessidades produzem demandas para certos objetivos. A partir das suposições básicas da proposta de Tolman podemos extrair algumas implicações para o ensino- aprendizagem: 17 É a intenção, a meta, que dirige o comportamento, e não a recompensa (reforço) em si. Assim, é mais importante o professor evidenciar ao estudante a meta que ele pode atingir caso responda corretamente a um dado estímulo do que recompensá-lo pelo comportamento exibido. As conexões que explicam o comportamento envolvem ligações entre estímulos e conexões, ou expectativas, as quais se desenvolvem como função de exposição a situações nas quais o reforço é possível. Para que o aluno apresenta um comportamento desejado, o professor deverá reforçar o maior número de vezes as conexões entre estímulos e expectativas. O que é aprendido é uma relação entre sinal e significado, o conhecimento de uma ligação entre estímulos e expectativas de atingir um objetivo. O professor deve promover a aprendizagem do aluno através do fortalecimento da ligação entre um sinal (estímulo) e um significado confirmando a expectativa de recompensa do aluno. 5 TEORIA DA GESTALT Fonte: saberespractico.com 18 A Gestalt e o behaviorismo surgem praticamente na mesma época como uma reação ao estruturalismo. No entanto, são completamente diferentes. A Gestalt foi criada pelos psicólogos alemães Max Wertheimer, Wolfgang Köhler e Kurt Koffka. A premissa básica da Gestalt é que o todo é mais do que a soma de suas partes. Tomemos como exemplo uma árvore: ela é mais do que a soma de suas partes (tronco, raiz, galhos e folhas). Ela é isso e mais: uma árvore está presente em nossa mente como um conjunto de símbolos que não são suas partes. Assim, a interpretação e a percepção desempenham papéis importantes na Gestalt. A Gestalt não era exatamente uma teoria de aprendizagem, mas uma teoria psicológica. O seu conceito mais importante para o estudo da aprendizagem é o de "insight" – súbita percepção de relações entre elementos de uma situação problemática. Uma característica da aprendizagem por insight é que algumassituações são mais favoráveis do que outras nas aliciações do insight. Com isso, em uma situação de ensino, caberia ao professor selecionar condições nas quais a aprendizagem por insight poderia ser facilitada: por exemplo, mostrar ao aluno que a solução de um problema alcançada por insight é facilmente aplicável a outros problemas. Por meio das leis de percepção/aprendizagem, na teoria da Gestalt, veem- se outras contribuições para o ensino-aprendizagem. Por exemplo, a Lei da Pregnância (do alemão Prägnanz): nossa mente tende a organizar nossas percepções de forma a capturar as sensações da forma mais simples, simétrica e ordenada possível. Em conjunto com essas leis estão outras complementares que, combinadas, tratam da percepção e da interpretação. A relação observação-interpretação foi ponto de debate também na Epistemologia. O físico e filósofo Norwood Russel Hanson argumentava que observação e interpretação são indissociáveis. Isso pode se constituir em uma forte crítica ao empirismo baconiano, que afirmava ser a observação neutra a gênese das teorias. Embora haja exemplos isolados para cada um dos princípios da Gestalt, esses princípios aparecem combinados em situações de percepção visual ambíguas que podem ser encontradas facilmente em ilusões de óptica. A percepção visual humana é um campo extensivamente estudado pela neurociência e outras ciências e tem se revelado bem mais complexa do que se 19 pensava na época em que Gestalt foi criada. Ainda assim, seu princípio mais geral de que a soma das partes não reproduz o todo é aplicável a qualquer ilusão de óptica. 6 TEORIAS COGNITIVISTAS Fonte: pt.slideshare.net Contrapondo-se ao behaviorismo que centra a sua atenção no comportamento humano, o cognitivismo propõe analisar a mente, o ato de conhecer; como o homem desenvolve seu conhecimento acerca do mundo, analisando os aspectos que intervém no processo estímulo/resposta. Seguindo esse modo de compreensão ratifica-se que a psicologia cognitiva se preocupa com o processo de compreensão, transformação, armazenamento e utilização das informações, envolvida no plano da cognição. A cognição é o processo por meio do qual o mundo de significados tem origem. Os significados não são entidades estáticas, mas pontos de partida para a atribuição de outras significações que possibilitam a origem da estrutura cognitiva sendo as primeiras equivalências utilizadas como uma ponte para a aquisição de novos significados. A abordagem cognitivista, apesar de ter surgido quase no mesmo período que o behaviorismo, teve grande efervescência nos anos de 1990, resgatando estudos teóricos da Psicologia Cognitiva como aqueles desenvolvidos por Piaget e Vigotsky. Seus estudos serviram de pressuposto para teóricos do campo educacional, que se 20 apropriando desse referencial elaboraram e desenvolveram a teoria da aprendizagem denominada de Construtivismo. Construtivismo "é a idéia que sustenta que o indivíduo - tanto nos aspectos cognitivos quanto sociais do comportamento como nos afetivos - não é um mero produto do ambiente nem um simples resultado de suas disposições internas, mas, sim, uma construção própria que vai se produzindo, dia a dia, como resultado da interação entre esses dois fatores. Em consequência, segundo a posição construtivista, o conhecimento não é uma cópia da realidade, mas, sim, uma construção do ser humano”. (CARRETERO, 1997, apud ARGENTO,2011, p.1). Com sua transposição para o contexto das práticas escolares, esta teoria, já foi equivocadamente, concebida por alguns professores e professoras como método de ensino. Atualmente, outro mito que gira em seu entorno está associado ao pensamento que a converte numa espécie de Deusa Atenas do ensino/aprendizagem ou o papado da teoria pedagógica, isto é, a denominação de que o Construtivismo é a teoria mais adequada ou mais eficiente para o bom desenvolvimento do ensino/aprendizagem dentro das escolas: Uma onda pedagógica percorre, de forma avassaladora, a educação brasileira, ameaçando tornar-se a nova ortodoxia em questões educacionais. Ela começa a se tornar hegemônica nas faculdades de educação, nos encontros científicos e até mesmo no discurso oficial sobre a educação. Com base nas teorias de Piaget, com reformulações e revisões tendo como fundamentação Vigotsky e Luria e, no que tange à área específica da leitura e da escrita, a forte influência de Emília Ferreiro, o construtivismo tornou-se, de repetente, dominante. (Silva 1996, apud SANTOS 2003, p. 101) Esse mito que paira sobre o discurso oficial pode ser confirmado por intermédio da seguinte afirmação extraída dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) de 5ª a 8ª séries: Os fracassos escolares decorrentes da aprendizagem, das pesquisas que buscam apontar como o sujeito que conhece, das teorias que provocam reflexão sobre os aspectos que interferem no ensinar e aprender, indicam que é necessário dar novo significado à unidade entre aprendizagem e ensino, uma vez que, em última instância, sem aprendizagem não há ensino. (Brasil, 1998, apud SANTOS 2003, p. 102). 6.1 Jean Piaget e Vigotsky Jean Piaget notabilizou-se por seus estudos e centenas de publicações sobre a gênese do pensamento na criança. Durante mais de cinquenta anos de pesquisa várias foram as abordagens para explicar como se inicia e como se estrutura o pensamento humano. As análises de Piaget abrangem as áreas de linguagem, 21 moralidade e lógico-matemática, sendo esta última a mais divulgada e debatida, pelo próprio Piaget e por seus discípulos. O referido autor dedica-se à compreensão do pensamento da criança em determinadas fases da vida e ao estudo das diferenças entre crianças de idades diversas. Apropriando-se do interacionismo kantiano – o conhecimento obtido a partir da interação entre o sujeito cognoscente e o objeto cognoscível – Piaget orientado por seus estudos observou que durante a aquisição do conhecimento, a criança, ao interagir com o seu meio utiliza-se de dois processos simultâneos: a organização interna e a adaptação ao meio que ocorre via assimilação e acomodação. Esses processos constituem o modo de funcionamento intelectual considerados por Piaget como invariantes funcionais, pois permanecem por toda vida. Os conceitos de assimilação, acomodação e equilibração designados pela teoria piagetiana constituem as essências do processo de ensino-aprendizagem. É parte integrante a adaptação e organização dos conhecimentos do meio no interior do organismo em busca de um equilíbrio. O crescimento cognitivo da criança se dá por assimilação e acomodação. A assimilação designa o fato que a iniciativa na interação do objeto é do organismo. O indivíduo constrói esquemas de assimilação mentais para abordar a realidade. Todo esquema de assimilação é construído e toda à abordagem da realidade supõe um esquema de assimilação. Quando o organismo (mente) assimila, ele incorpora a realidade a seus esquemas de ação, impondo-se ao meio. [...] muitas vezes os esquemas de ação da criança (ou mesmo do adulto) não conseguem assimilar determinada situação. Neste caso o organismo (mento) desiste ou se modifica. No caso da modificação, ocorre o que Piaget chama de ‘acomodação’. [...] não há acomodação sem assimilação, pois a acomodação é reestruturação da assimilação. (MOREIRA 1999, apud PREUSSLER, 2012, p. 8) Este ponto de equilíbrio entre assimilação e acomodação é uma tendência natural do sujeito, trata-se de um equilíbrio móvel, mas esta mobilidade não implica, necessariamente, em instabilidade. Todo sistema pode sofrer perturbações exteriores que tendem a modificá-lo, há equilíbrio quando estas perturbações exteriores são compensadas pelas ações do sujeito orientadas no sentido da compensação. No planejamento e na organização da atividade objetivava-se observar a força das perturbações e asreações do sujeito em busca desse equilíbrio. 22 As constantes funcionais são inerentes ao aspecto hereditário e tornam possível o aparecimento das estruturas cognitivas do indivíduo a partir das interações organismo/ambiente resultante das ações humanas. A adaptação é oriunda de tal interação, exprimindo-se por dois mecanismos – assimilação e acomodação. O primeiro consiste na modificação dos elementos do meio de modo a incorporá-los à estrutura do organismo. O segundo implica na acomodação pelo indivíduo das características específicas do objeto que está tentando assimilar. A ação adaptativa sempre pressupõe uma assimilação subjacente que é a segunda invariante funcional. Para Piaget a organização é inseparável da adaptação, pois só ocorre a adaptação quando o indivíduo organiza a sua ação em um sistema de totalidade. Essa totalidade de ações formam esquemas, estruturas cognitivas que se referem a uma classe de sequência de ações semelhantes. Conforme essa abordagem, quando uma criança entra em contato com um novo objeto, ela utiliza esquemas que fazem parte da sua organização cognitiva (olha, toca) que são assimilações do objeto desconhecido e tal ação é, ao mesmo tempo, acomodações dos esquemas. Durante a interação assimilação/acomodação ocorre uma reorganização e complexificação dos esquemas iniciais. Ao lado dessas constantes funcionais é preciso distinguir, na teoria de Piaget, as estruturas variáveis que são resultantes da organização e adaptação na busca pela equilibração das ações. Foi a partir da compreensão das estruturas que marcam as diferenças ou oposições de um nível de conduta para outro, que Piaget dividiu os seus estágios de desenvolvimento da vida humana. Estes evoluem como um espiral de modo que cada estágio engloba o anterior e o amplia. Piaget não definiu idades rígidas para os estágios, mas considera que se apresentam em uma sequência constante, a saber: sensório-motor, pré-operacional, operatório concreto e operatório formal. Distinguindo-se um pouco da perspectiva piagetiana e seguindo uma linha sócio interacionista, Vigotsky irá atribuir uma enorme importância ao papel da interação social no desenvolvimento do ser humano, tentando explicitar em seus estudos como este é socialmente constituído – razão principal de seu interesse pelo estudo da infância. Para o supracitado autor, o desenvolvimento está intimamente relacionado de forma dinâmica por meio de rupturas e desequilíbrios provocadores de contínuas reorganizações por parte do ser cultural. 23 Um ponto fundamental na obra de Vigotsky que se contrapõe à ênfase dada por Piaget é o fato de serem os fatores biológicos preponderantes sobre os sociais somente no início da vida da criança, pois aos poucos as interações com seu grupo social e com objetos de sua cultura passam a governar o comportamento e o desenvolvimento do seu pensamento. Com isso, o desenvolvimento do ser cultural se dá a partir das constantes interações com o meio social em que vive, já que as formas psicológicas mais sofisticadas emergem da vida social, utilizando se de símbolos e signos linguísticos como mediadores da construção do conhecimento. Na teoria vigotskyana identifica-se dois níveis de desenvolvimento aquele que se refere às conquistas já efetivadas – “nível de desenvolvimento real” – e o relacionado às capacidades em vias de constituição – “nível de desenvolvimento potencial”. No primeiro temos as conquistas que já estão consolidadas na criança, as funções ou capacidades que ela já aprendeu e domina. O segundo compreende aquilo que a criança é capaz de fazer mediante a ajuda de outra pessoa. Nesse caso, a criança realiza tarefas e soluciona problemas por intermédio do diálogo, da colaboração, da imitação e da experiência. Este nível é para Vigotsky bem mais indicativo de seu desenvolvimento mental. A distância que existe entre aquilo que o ser cultural é capaz de fazer de forma autônoma e as realizações em colaboração com os outros elementos de seu grupo social, caracterizam o que Vigotsky denominou de “Zona de Desenvolvimento Proximal” (ZDP). A ZDP define as funções que ainda não amadureceram, mas estão em vias de maturação, funções que amadurecerão por estarem numa fase embrionária, porém, potencialmente predispostas a se transformarem a partir da interação do agente social com seu meio cultural. Conforme o pressuposto central da teoria do desenvolvimento proposto por Vigotsky, o aprendizado é o responsável por criar a ZDP na medida em que, quando interage com outras pessoas, a criança é capaz de colocar em movimento vários processos de desenvolvimento que seriam possíveis de ocorrer. Com isso o que é ZDP num momento presente será o nível de desenvolvimento real num momento futuro. As ações e atividades cognitivas que uma criança pode fazer com assistência hoje (colaboração de um mediador ou orientador), ela será capaz de realizar sozinha amanhã. Percebe-se a partir da análise dos precursores da Teoria Cognitivista e dos 24 conceitos básicos por estes elaborados, a influência que tiveram na Teoria da Aprendizagem que apresenta como pressuposto um sujeito ativo e construtor do próprio conhecimento. No Brasil, a abordagem psicológica dos cognitivistas foi enfatizada pelos educadores que fizeram parte do movimento escolanovista nas décadas de 1920 e 1930, resgatada na década de 1980 pelas atuais teorias da educação. Desse modo a reforma curricular realizada na década de 1990, principalmente, a originária dos PCN traz uma concepção do ensino/aprendizagem que, pelo menos, do ponto de vista conceitual valoriza o aspecto do desenvolvimento cognitivo como variável resultante da construção realizada por alunos e alunas em interação com seu meio sob a mediação do professor ou da professora. Conceber o processo de aprendizagem como prioridade do sujeito implica valorizar o papel determinante da interação com o meio social e, particularmente, com a escola. Situações escolares de ensino aprendizagem são situações comunicativas, nas quais os alunos e professores coparticipam, ambos com uma influência decisiva para o êxito do processo. A abordagem construtivista de ensino e aprendizagem, a relação cooperativa entre professor e aluno, os questionamentos e as controvérsias conceituais, influenciam o processo de construção de significado e o sentido que alunos atribuem aos conteúdos escolares. (Brasil, 1998, apud SANTOS 2003, p. 102) Em relação ao discurso oficial presente nos documentos curriculares fundamentados na abordagem cognitivista fica visível um deslocamento da perspectiva curricular centrada em objetivos, para uma perspectiva em que as categorias centrais são as habilidades e competências. No âmbito desse “novo” desenho do currículo se faz mister algumas perquirições: Quais habilidades e competências o currículo atual pretende desenvolver? Estas habilidades e competências estão a serviço de quem? Para que, e para quem elas estão sendo desenvolvidas? 25 7 OS ESTÁDIOS NO DESENVOLVIMENTO COGNITIVO A capacidade de organizar e estruturar a experiência vivida vem da própria atividade das estruturas mentais que funcionam seriando, ordenando, classificando, estabelecendo relações. Há um isomorfismo entre a forma pela qual a criança organiza a sua experiência e a lógica de classes e relações. Os diferentes níveis de expressão dessa lógica são o resultado do funcionamento das estruturas mentais em diferentes momentos de sua construção. Tal funcionamento, explicitado na atividade das estruturas dinâmicas, produz, no nível estrutural, o que Piaget denomina os estádios de desenvolvimento cognitivo. Os estádios expressam as etapas pelas quais se dá a construção do mundo pela criança. Para que se possa falar em estádio nos termos propostos por Piaget, é necessário, em primeiro lugar,que a ordem das aquisições seja constante. Trata-se de uma ordem sucessiva e não apenas cronológica, que depende da experiência do sujeito e não apenas de sua maturação ou do meio social. Além desse critério, Piaget propõe outras exigências básicas para caracterizar estádios no desenvolvimento cognitivo: 1) Todo estágio tem de ser integrador, ou seja, as estruturas elaboradas em determina- todo estágio tem de ser integrador, ou seja, as estruturas elaboradas em determinada etapa devem tornar-se parte integrante das estruturas das etapas seguintes; 2) Um estádio corresponde a uma estrutura de conjunto que se caracteriza por suas leis de totalidade e não pela justaposição de propriedades estranhas umas às outras; 3) Um estádio compreende, ao mesmo tempo, um nível de preparação e um nível de acabamento; 4) É preciso distinguir, em uma sequência de estádios, o processo de formação ou génese e as formas de equilíbrio final. Com estes critérios Piaget distinguiu quatro grandes períodos no desenvolvimento das estruturas cognitivas, intimamente relacionados ao desenvolvimento da afetividade e da socialização da criança: estádio da inteligência sensório-motora (até, aproximadamente, os 2 anos); estádio da inteligência simbólica 26 ou pré-operatória (2 a 7-8 anos); estádio da inteligência operatória concreta (7-8 a 11- 12 anos); e estádio da inteligência formal (a partir, aproximadamente, dos 12 anos). O desenvolvimento por estádios sucessivos realiza em cada um desses estádios um “patamar de equilíbrio” constituindo-se em “degraus” em direção ao equilíbrio final: assim que o equilíbrio é atingido num ponto a estrutura é integrada em novo equilíbrio em formação. Os diversos estádios ou etapas surgem, portanto, como consequência das sucessivas equilibrações de um processo que se desenvolve no decorrer do desenvolvimento. Seguem o itinerário equivalente a um “creodo” (sequência necessária de desenvolvimento) e supõem uma duração adequada para a construção das competências cognitivas que os caracterizam, sendo que cada estádio resulta necessariamente do anterior e prepara a integração do seguinte. O “creodo” é, então, o caminho a ser percorrido na construção da inteligência humana, que vai do período sensório-motor (0-2 anos) aos Períodos simbólico ou pré- operatório (2-7 anos), lógico-concreto (7-12 anos) e formal (12 anos em diante). É preciso esclarecer que os estádios indicam as possibilidades do ser humano (sujeito epistêmico), não dizendo respeito aos indivíduos (sujeitos psicológicos) em si mesmos. A concretização ou realização dessas possibilidades dependerá do meio no qual a criança se desenvolve, uma vez que a capacidade de conhecer é resultado das trocas do organismo com o meio. Da mesma forma, essa capacidade de conhecer depende, também, da organização afetiva, uma vez que a afetividade e a cognição estão sempre presentes em toda a adaptação humana. 27 8 SENSÓRIO-MOTORA (0 A 2 ANOS) Fonte: cremerinfantil.com.br O período sensório-motor é de fundamental importância para o desenvolvimento cognitivo. Suas realizações formam a base de todos os processos cognitivos do indivíduo. Os esquemas sensório-motores são as primeiras formas de pensamento e expressão; são padrões de comportamento que podem ser aplicados a diferentes objetos em diferentes contextos. A evolução cognitiva da criança nesse período pode ser descrita em seis subestágios nos quais se estabelecem as bases para a construção das principais categorias do conhecimento que possibilitam ao ser humano organizar a sua experiência na construção do mundo: objeto, espaço, causalidade e tempo. 8.1 Subestádio I: O Exercício dos Reflexos (até 1 mês) Os primeiros esquemas do recém-nascido são esquemas reflexos: ações espontâneas que surgem automaticamente em presença de certos estímulos. Nas primeiras vezes que se manifestam os esquemas reflexos apresentam uma organização quase idêntica. A estimulação de qualquer ponto de zona bucal do bebé, por exemplo, desencadeia imediatamente o esquema reflexo de sucção; uma estimulação da palma da mão provoca, automaticamente, a reação reflexa de 28 preensão. Os esquemas reflexos caracterizam a atividade cognitiva da criança no seu primeiro mês de vida. 8.2 Subestádio II: As Primeiras Adaptações Adquiridas e a Reação Circular Primária (1 mês a 4 meses e meio) No transcorrer dos intercâmbios da criança com o meio ambiente logo os esquemas reflexos vão mostrar certos desajustes, exigindo transformações. O que provoca tais desajustes são as resistências encontradas na assimilação dos objetos ao conjunto de ações. Estes desajustes vão ser compensados por uma acomodação do esquema. Correspondem a uma perda momentânea de equilíbrio dos esquemas- reflexos. Os reajustes que possibilitam o êxito consistem na obtenção momentânea de um novo equilíbrio. É através desse jogo de assimilação e acomodação, de desequilíbrios e reequilíbrios, que os esquemas reflexos passam por um processo de diferenciação possibilitando a construção de novos esquemas adaptados a novas classes de situações e objetos que vão caracterizar o início do segundo subestádio. Estes novos esquemas já não são apenas esquemas reflexos, uma vez que resultam de uma construção. São os esquemas de ação: novas organizações de ações que se conservam através das situações e objetos aos quais se aplicam. Simultaneamente a esse processo de diferenciação dos esquemas reflexos iniciais há, também, um processo de coordenação dos esquemas disponíveis que dá origem, igualmente, a novos esquemas. A coordenação entre os esquemas de olhar e pegar é um exemplo de um novo esquema desse tipo que será seguido por muitos outros de complexidade crescente nas etapas seguintes: apanhar o que vê e levar à boca, apanhar o que vê para esfregar na grade do berço e explorar o ruído que isso provoca etc. No decurso do segundo mês surgem duas novas condutas típicas do início desse período: a protusão da língua e a sucção do polegar, que caracterizam a reação circular primária na qual o resultado interessante descoberto por acaso é conservado por repetição. A reação circular primária refere-se a procedimentos aplicados ao próprio corpo da criança. Esta é a fase em que as ações ou operações de deslocamento da criança são realizadas mediante “grupos práticos”, através da coordenação motora, sem dar 29 origem ainda à representação mental. A ação é que cria o espaço, a criança não tem consciência dele. Os espaços criados pela ação — oral, visual, tátil, postural, auditivo etc. — ainda não são coordenados entre si, portanto, são heterogéneos. A criança parece considerar o mundo como um conjunto de quadros que aparecem e desaparecem. O tempo é simples duração sentida no decorrer da ação própria. Neste subestádio das primeiras adaptações adquiridas as condutas observadas ainda não são inteligentes no seu verdadeiro sentido. Elas fazem a transição entre o orgânico e o intelectual, preparando a inteligência. 8.3 Subestádio III: As Adaptações Sensório-Motoras Intencionais e as Reações Circulares Secundárias (4 meses e meio a 8-9 meses) A terceira etapa desse período caracteriza-se pelo surgimento das reações circulares secundárias voltadas para os objetos. Pode-se defini-las como movimentos centralizados sobre um resultado produzido no ambiente exterior, com o único propósito de manter esse resultado. Após ter aplicado as reações circulares sobre o corpo próprio, a criança vai, pouco a pouco, utilizando esse procedimento sobre os objetos exteriores. Vai, então, elaborando o que Piaget chama de reações circulares secundárias, que marcam a passagem entre a atividade reflexa e a atividade propriamente inteligente. Pela primeira vez aparece um elemento de previsão de acontecimentos. A reação circular só começa quando umefeito casual, provocado pela ação da criança, é percebido como resultado desta ação. Por isso, se até então tudo era para ser visto, escutado, tateado, agora tudo é para ser sacudido, balançado, esfregado etc., conforme as diversas diferenciações dos esquemas manuais e visuais. Os esquemas secundários são o primeiro esboço do que serão as classes ou os conceitos da inteligência refletida do jovem adulto. Apreender um objeto como sendo para sacudir, esfregar etc., é o equivalente funcional da operação de classificação do pensamento conceptual. Paralelamente a esta construção, constitui-se a conservação do objeto permanente. Nesse período as crianças têm as primeiras antecipações de movimentos relacionados à trajetória de um objeto e já conseguem distingui-lo quando semi-oculto. Mas o objeto existe apenas em ligação com a ação própria. O mundo é, 30 portanto, um mundo de quadros cuja permanência é mais longa, mundo que a criança procura fazer durar mais longamente, mas que se desvanece como antes. No terreno espacial a criança mostra-se capaz de perceber, de modo prático, um conjunto de relações centralizadas em si própria (grupos subjetivos). A visão e a preensão já estão coordenadas. Começa a formar-se a noção de sucessão e há o início de consciência de “antes” e o “depois” embora, para a criança dessa fase, o tempo das coisas seja apenas a aplicação a estas do tempo próprio: o “antes” e o “depois” são relativos à sua própria ação. Há, também, alguma apreciação da causalidade, em ligação com as ações imediatas da criança, na procura das causas de acontecimentos e percepções inesperados. A causalidade é experimentada como resultado da própria ação. 8.4 Subestádio IV: A Coordenação dos Esquemas Secundários e sua Aplicação Às Situações Novas (8-9 Meses A 11-12 Meses) A principal novidade do quarto subestádio é a busca, pela criança, de um fim não imediatamente atingível através da coordenação de esquemas secundários. A coordenação de esquemas observa-se no fato da criança se propor a atingir um objetivo não diretamente acessível pondo em ação, nessa intenção, esquemas até então relativos a outras situações. Há uma dissociação entre os meios e os fins e uma coordenação intencional dos esquemas. Já é possível, também, a imitação de respostas que a criança não vê em si mesma. A subordinação dos meios aos fins já é observada na atividade lúdica da criança. Quanto à construção do objeto, há a busca de objetos ocultos atrás de anteparos, apesar da procura sempre recair sobre o primeiro anteparo usado para esconder o objeto. A criança é capaz, por exemplo, de esconder um objeto sob um anteparo e depois retirá-lo novamente; mas, se o objeto escondido for deslocado para outra posição, ela ainda o procurará na primeira posição. Há, portanto, a busca do objeto desaparecido, porém, sem considerar a sucessão dos deslocamentos visíveis. A permanência do objeto ainda é subjetiva, isto é, ligada à própria ação da criança. Ao lidar com as relações espaciais a criança se encontra numa situação intermediária aos grupos subjetivos e objetivos examinando 31 a constância dos objetos. O mesmo ocorre em relação à causalidade: a criança aplica os meios conhecidos às situações novas e começa a atribuir aos objetos e às pessoas uma atividade própria, o que indica a transição entre a causalidade mágico- fenomenista (que caracteriza o subperíodo anterior) e a causalidade objetiva. Ela deixa de considerar suas ações como única fonte de causalidade e considera o corpo de outra pessoa como um centro autónomo de atividade causal apreciando o arranjo espacial necessário para a ação bem-sucedida. O tempo também começa a se aplicar aos acontecimentos independentes do sujeito e a constituir séries objetivas. Este é, portanto, um subestádio de transição, no qual a eficiência da ação da criança ainda está marcada pelas características da ação própria. 8.5 Subestádio V: A Reação Circular Terciária e a Descoberta dos Meios Novos por Experimentação Ativa (11-12 Meses A 18 Meses) Na quinta etapa a atividade imitativa apresenta a imitação deliberada e a atividade lúdica apresenta a reação circular terciária, na qual a criança explora objetos desconhecidos por todos os meios que conhece: pegar, levantar, soltar, sacudir e repetições destes esquemas. Este é o subestádio da elaboração do objeto e se caracteriza pela experimentação e pela busca da novidade. O efeito novo não é apenas reprodução, mas é modificado a fim de observar a sua natureza: são as chamadas “experiências para ver”. A reação circular aparece como um esforço para captar as novidades em si mesmas. A descoberta dos meios novos por experimentação ativa explicita-se em condutas que indicam as formas mais elevadas de atividade intelectual da criança, antes do aparecimento da inteligência sistemática. São exemplos característicos desta atividade: a conduta dos suportes (a criança descobre a possibilidade de atrair para si um objeto afastado puxando a seu encontro o suporte sobre o qual está colocado); a conduta do barbante (a criança puxa para si um barbante ao qual está amarrado um objeto, para atraí-lo em sua direção); e a conduta do bastão (utilização de um bastão como instrumento intermediário para alcançar um objeto distante, fora do campo de preensão da criança). 32 Quanto à construção do objeto, há busca de objetos ocultos atrás de um anteparo, apesar da procura sempre recair no primeiro anteparo usado para esconder o objeto. Mas a criança considera os deslocamentos sucessivos do objeto, passando a buscá-lo na posição resultante do último deslocamento. Há, portanto, a descoberta da atuação sobre os objetos por meio de intermediários e se inicia o reconhecimento de que os objetos podem causar fenômenos independentemente de sua ação, bem como o domínio sobre objetos que foram ocultos sob anteparos. A criança leva em conta relações espaciais, conseguindo fazer grupos espaciais objetivos; ela agora está interessada não mais apenas em sua ação, mas, sobretudo, no objeto. Adquire a noção de deslocamento dos objetos em relação uns aos outros por contato direto. Mas, apesar de perceber as relações espaciais entre as coisas, ainda não consegue representa-las na ausência do contato direto: ela só considera os deslocamentos realizados dentro do seu campo perceptivo. Começa a ter percepção de certa sucessão no tempo e memória mais prolongada de uma sequência de deslocamentos. O tempo agora engloba sujeito e objeto, constituindo-se o elo contínuo e sistemático que une os acontecimentos do mundo exterior uns aos outros. A causalidade é objetiva sobre os objetos e as pessoas e situada no quadro espaço- temporal. 8.6 Subestádio VI: A Invenção dos Meios Novos por Combinação Mental e a Representação (1 Ano e Meio A 2 Anos) Neste subestádio ocorre a transição entre a inteligência sensório-motora e a inteligência representativa, que começa em torno dos dois anos, com o aparecimento da função simbólica. A novidade, em relação ao subperíodo anterior é que as invenções já não se efetuam de modo prático, mas passam ao nível mental. A criança começa a ser capaz de representar o mundo exterior mentalmente em imagens, memórias e símbolos, que é capaz de combinar sem o auxílio de outras ações físicas. Na atividade lúdica ela é capaz de “fingir, fazer de conta, fazer como se”, é o símbolo motivado. Invenção e representação seguem juntas, anunciando a passagem a um nível superior. A invenção aparece como uma acomodação mental brusca do conjunto de esquemas à situação nova, diferenciando os esquemas de acordo com a situação. 33 O objeto agora já está definitivamente constituído: há a representação dos deslocamentos invisíveis de objetos ocultos, que procura a partir da ideia de sua permanência. Igualmente, procura causas que nãopercebeu: sendo capaz de representar os objetos ausentes, pode reconstituir causas em presença de seus efeitos, sem percepção dessas causas. Assim, ela pode prever os efeitos futuros do objeto percebido, que é capaz de representar. As relações do antes e do depois se constituem a partir da evocação dos objetos ou das situações ausentes: a criança é capaz de situá-las num tempo representativo que engloba a si mesma e ao mundo. A representação mental estende o tempo a acontecimentos lembrados. Em resumo, nestes dois primeiros anos de vida a criança se desenvolve no sentido de uma descentração progressiva. No início está num estado de confusão total, possuindo apenas seus reflexos hereditários. É a partir de sua tomada de contato com o mundo exterior que ela vai desenvolver condutas de adaptação: seus reflexos transformam-se em hábitos, depois, pouco a pouco, os processos de acomodação e assimilação levam-na a estabelecer com o mundo relações de objetividade e, ao mesmo tempo, a construir sua própria subjetividade. Os três primeiros subestádios são de elaboração: a criança assimila o real a si própria. No terceiro já se percebe uma transição, na qual ocorre a dissociação para, no quarto subestádio, vermos a criança oscilar entre a descentralização objetiva que termina com o sexto subestádio, pela representação. No estádio sensório-motor o instrumento principal de apoio e de constituição de si mesma e do mundo é a percepção, pela qual a criança estabelece relações diretamente com o mundo exterior. A partir deste estádio essas relações com o mundo serão mediadas pela função simbólica, no plano das representações. Até o final do segundo ano de vida, uma observação cuidadosa do comportamento da criança revela a existência de um grande número de esquemas de ação diferenciados. Esses esquemas vão se combinando entre si e se coordenando, traduzindo o aparecimento das primeiras estruturas intelectuais equilibradas, que permitem à criança a estruturação espaço-temporal e causal da ação prática. A criança construiu um universo estável onde os movimentos do próprio corpo e dos objetos exteriores estão organizados em um todo presidido por leis (leis dos “grupos 34 de deslocamento”). O aparecimento da função simbólica, por volta do final do segundo ano tem, entre outras consequências, a de possibilitar que os esquemas de ação, característicos da inteligência sensório-motora, possam transformar-se em esquemas representativos, ou seja, esquemas de ação interiorizados. Esses esquemas interiorizados desempenham a mesma função que os esquemas de ação do período sensório-motor: atribuir significação à realidade. 9 ESTÁDIO PRÉ-OPERATÓRIO OU SIMBÓLICO (2 A 6-7 ANOS) Fonte: edupp.com.br O período pré-operatório realiza a transição entre a inteligência propriamente sensório-motora e a inteligência representativa. Essa passagem não ocorre através de mutação brusca, mas de transformações lentas e sucessivas. Ao atingir o pensamento representativo a criança precisa reconstruir o objeto, o tempo, o espaço, as categorias lógicas de classes e relações nesse novo plano da representação. Tal reconstrução estende-se dos dois aos doze anos, abrangendo os estádios pré- operatório e operatório concreto. A primeira etapa dessa reconstrução, que Piaget denomina período pré- operatório, é dominada pela representação simbólica. A criança não pensa, no sentido estrito desse termo, mas ela vê mentalmente o que evoca. O mundo para ela não se organiza em categorias lógicas gerais, mas distribui-se em elementos particulares, 35 individuais, em relação com sua experiência pessoal. O egocentrismo intelectual é a principal forma assumida pelo pensamento da criança neste estádio. Seu raciocínio procede por analogias, por transdução, uma vez que lhe falta a generalidade de um verdadeiro raciocínio lógico. O advento da capacidade de representação vai possibilitar o desenvolvimento da função simbólica, principal aquisição deste período, que assume as suas diferentes formas — a linguagem, a imitação diferida, a imagem mental, o desenho, o jogo simbólico — compreendidos como diferentes meios de expressão daquela função. A passagem da inteligência sensório-motora para a inteligência representativa se realiza pela imitação. Imitar, no sentido estrito, significa reproduzir um modelo. Já presente no estádio sensório-motor, a imitação só vai se interiorizar no sexto subestádio, quando a criança pode praticar o “faz-de-conta”, agir “como se”, por imitação deferida ou imitação interiorizada. Interiorizando-se a imitação, as imagens elaboram-se e tornam-se substitutos dos objetos dados à percepção. O significante é, então, dissociado do significado, tornando possível a elaboração do pensamento representativo. A inteligência tem acesso, então, ao nível da representação, pela interiorização da imitação (que, por sua vez, é favorecida pela instalação da função simbólica). A criança tem acesso, dessa forma, à linguagem e ao pensamento. Ela pode elaborar, igualmente, imagens que lhe permitem, de certa forma, transportar o mundo para a sua cabeça. Entre 2 e 5 anos, aproximadamente, a criança adquire a linguagem e forma, de alguma maneira, um sistema de imagens. Entretanto, a palavra não tem ainda, para ela, o valor de um conceito; ela evoca uma realidade particular ou seu correspondente imagístico. Tendo que reconstruir o mundo no plano representativo, ela o reconstrói a partir de si mesma. O egocentrismo intelectual está no auge no decurso dessa etapa. A dominação do pensamento por imagens encerra a criança em si mesma. O pensamento imagístico egocêntrico, característico desta fase, pode ser observado no jogo simbólico, no qual a criança transforma o real ao sabor das necessidades e dos desejos do momento. O real é transformado pelo pensamento simbólico, na medida em que o jogo se desenvolve, ao sabor das exigências do desejo expresso no e pelo 36 jogo. É por isso que Piaget considera o jogo simbólico como o egocentrismo no estado puro. Um pensamento assim dominado pelo simbolismo essencialmente particular, pessoal e, por isso, incomunicável, não é um pensamento socializado. Ele não repousa em conceitos, mas no que Piaget chama pré-conceitos, que são particulares, no sentido em que evocam realidades particulares, tendo seu correlato imagístico ou simbólico próprio à experiência, de cada criança. Entre os 5 e 7 anos, período geralmente chamado de “intuitivo”, ocorre uma evolução que leva a criança, pouco a pouco, à maior generalidade. Seu pensamento agora repousa sobre configurações representativas de conjunto mais amplas, mas ainda está dominado por elas. A intuição é uma espécie de ação realizada em pensamento e vista mentalmente: transvasar, encaixar, seriar, deslocar etc. ainda são esquemas de ação aos quais a representação assimila o real. Mas a, intuição é, também, por outro lado, um pensamento imagístico, versando sobre configurações de conjunto e não mais sobre simples coleções sincréticas, como no período anterior. O pensamento da criança entre dois e sete anos é dominado pela representação imagística de caráter simbólico. A criança trata as imagens como verdadeiros substitutos do objeto e pensa efetuando relações entre imagens. A criança é capaz de, em vez de agir em atos sobre os objetos, agir mentalmente sobre seu substituto ou imagem, que ela nomeia. Proveniente da interiorização da imitação, a representação simbólica possui o caráter estático da imitação, motivo pelo qual versa, essencialmente, sobre as configurações, por oposição às transformações. Com a instalação das estruturas operatórias do período seguinte, a imagem vai ser subordinada às operações. Na passagem da ação sensório-motora para a representação, pela imitação, é possível apreender melhor as ligações entre as operaçõese a ação, tornando mais compreensível a origem de certos distúrbios dos processos figurativos: espaço, tempo, esquema corporal etc. 37 10 ESTÁDIO OPERATÓRIO CONCRETO (7 A 11-12 ANOS) Por volta dos sete anos a atividade cognitiva da criança torna-se operatória, com a aquisição da reversibilidade lógica. A reversibilidade aparece como uma propriedade das ações da criança, suscetíveis de se exercerem em pensamento ou interiormente. O domínio da reversibilidade no plano da representação — a capacidade de se representar uma ação e a ação inversa ou recíproca que a anula — ajuda na construção de novos invariantes cognitivos, desta vez de natureza representativa: conservação de comprimento, de distâncias, de quantidades discretas e contínuas, de quantidades físicas (peso, substância, volume etc.). O equilíbrio das trocas cognitivas entre a criança e a realidade, característico das estruturas operatórias, é muito mais rico e variado, mais estável, mais sólido e mais aberto quanto ao seu alcance do que o equilíbrio próprio às estruturas da inteligência sensório-motora. [...] a sequência dos estágios de desenvolvimento é sempre a mesma, o que pode mudar é o ritmo com que cada um realiza as mudanças e adquiri novas habilidades. O que é importante é compreender que a tendência de toda atividade humana é marchar rumo ao equilíbrio. ‘E a razão – que exprime as formas superiores deste equilíbrio – reúne nela a inteligência e a afetividade’” (PIAGET, apud PILETTI & ROSSATO, 2001, p. 65). 11 ESTÁDIO DAS OPERAÇÕES FORMAIS (11 A 15-16 ANOS) Tanto as operações como as estruturas que se constroem até aproximadamente os onze anos, são de natureza concreta; permanecem ligadas indissoluvelmente à ação da criança sobre os objetos. Entre os 11 e os 15-16 anos, aproximadamente, as operações se desligam progressivamente do plano da manipulação concreta. Como resultado da experiência lógico matemática, o adolescente consegue agrupar representações de representações em estruturas equilibradas (ocorrendo, portanto, uma nova mudança na natureza dos esquemas) e tem acesso a um raciocínio hipotético-dedutivo. Agora, poderá chegar a conclusões a partir de hipóteses, sem ter necessidade de observação e manipulação reais. Esta possibilidade de operar com operações caracteriza o período das operações formais, 38 com o aparecimento de novas estruturas intelectuais e, consequentemente, de novos invariantes cognitivos. A mudança de estrutura, a possibilidade de encontrar formas novas e originais de organizar os esquemas não termina nesse período, mas continua se processando em nível superior. As estruturas operatórias formais são o ponto de partida das estruturas lógico-matemáticas da lógica e da matemática, que prolongam, em nível superior, a lógica natural do lógico e do matemático. 12 ABORDAGEM HUMANISTA Fonte:annimabrasil.com A abordagem humanista prioriza como base fulcral da aprendizagem a autorealização do aprendiz, havendo uma valorização tanto do aspecto cognitivo, quanto do motor e do afetivo. Para tal abordagem o desenvolvimento do sujeito da aprendizagem deve se dar de forma integral. Tomando como princípio o ser que aprende tal abordagem diferencia-se das duas anteriores, já que, o Behaviorismo enfatiza os estímulos como sendo fundamentais à aprendizagem, e a cognitivista valoriza a cognição – responsável pela formação das ideias que são exteriorizadas pelo educando. Um dos principais teóricos da abordagem humanista relacionada às Teorias da Aprendizagem foi o psicólogo norte-americano Carl Rogers, relegado ao esquecimento pelos estudos mais recentes relacionados ao campo educacional. Ao contrário de Piaget, Vigotsky e Wallon que aparecem na maioria dos estudos que 39 tratam do ensino/aprendizagem, Rogers já não é mais citado. Diante desse fato emergem outras indagações provocativas: • Na atual conjuntura de globalização e/ou de intolerância entre os povos, em que se insere a educação não existe mais espaço para as ideias legadas por Carl Rogers? • O humanismo rogeriano está morto e sepultado num túmulo demoníaco, no qual quem ousar tocar será amaldiçoado? A intenção não é dar respostas prontas e acabadas para essas indagações, mas apresentar as ideias de Rogers como precursor da abordagem humanista e qual a aplicabilidade dessas ideias à educação. As questões levantadas ficam como sugestão para novas pesquisas e espera-se que os leitores deste ensaio se sintam verdadeiramente instigados a realizá-las. 12.1 Carl Rogers Carl Rogers nasceu em 1902, em Chicago e dedicou grande parte de sua vida profissional na aplicação de uma Psicologia clínica centrada na pessoa. Esta experiência foi transposta por Rogers para situações de ensino/aprendizagem. Como psicólogo, Rogers parte do princípio de que o terapeuta deve ter o papel de levar o seu “cliente” à compreensão de seus males para conseguir modificar e superar seu estado atual. Partindo de tal concepção propõe um “não diretivismo” como forma de ação do terapeuta, o qual terá como função proporcionar um ambiente para que o sujeito explicite todos os males que traz consigo. Com isso, Rogers irá propor uma transposição didática de sua Psicologia para o ensino, a partir da formulação de princípios de aprendizagem. Conforme tais princípios o aluno ou aluna deve, em primeiro lugar, ser compreendido pelo professor ou professora como sujeito que apresenta um potencial para a aprendizagem e está, para que tenha significado, deve envolver a pessoa do aluno ou aluna. De acordo com a concepção rogeriana a motivação dos sujeitos da aprendizagem está condicionada à coerência dos conteúdos com suas expectativas. Dessa forma o ambiente educacional não deve ser ameaçador ao 108 aprendiz, pois a aceitação do novo pelo aluno e aluna dar-se-á de maneira espontânea e não por meio de imposições do professor e professora, havendo um trabalho com a 40 autoestima do aluno e aluna. Outro aspecto enfatizado por Rogers é a necessidade de se colocar o sujeito da aprendizagem em contato com situações experimentais para que na prática este consiga promover sua aprendizagem, participando ativamente de sua formação cultural. A influência de Rogers na educação brasileira é constatada de forma mais evidente nas ideias consubstanciadoras do movimento da Escola Nova concedendo que o principal objetivo desta tendência pedagógica é o confronto com as ideias da Pedagogia Tradicional. Nesse sentido, o escolanovismo irá propor uma mudança na concepção de mundo, de ser humano, de sociedade transcrita para o modelo de aprendizagem desenhado por esta tendência. Para os defensores do escolanovismo o aluno deve ser o centro do processo de ensino/aprendizagem e percebido como um ser idiossincrático, portador de experiências e expectativas subjetivas com relação a aprendizagem. Destarte, o ensino deve ser pautado na individualidade de cada educando a partir de suas necessidades específicas. Além disso, o professor e professora devem criar um ambiente experimental em sala de aula que favoreça uma aprendizagem prazerosa, deixando seu aluno e aluna livres para descobrir novos conhecimentos. A ação docente deve se situar no âmbito da mediação facilitadora e do não diretivismo pedagógico. As ideias humanistas calcadas no pensamento de Carl Rogers ao serem aplicadas na escola sofreram uma profunda distorção, sendo confundidas com afrouxamento da disciplina e certa libertinagem pedagógica. Essa deturpação tornou a abordagem humanista das Teorias da Aprendizagem alvo de duras críticas. A má interpretação dessa abordagem fez com que fossem expatriadas das discussões mais recentes, que apontam de forma constante, o construtivismo piagetiano ou sócio- interacionismo vigotskiano como as Teorias da Aprendizagem mais adequadas para o desenvolvimento das capacidadespotenciais dos educandos mediante as exigências da sociedade globalizada. 41 13 TEORIA DE PIAGET E O DESENVOLVIMENTO DA MORAL Fonte: sabereduca.com.br Em suas buscas conceituais Piaget pesquisou crianças entre 4 e 13 anos de idade em variadas atividades de jogos com regras com a finalidade de evidenciar e compreender o funcionamento do desenvolvimento moral, haja vista, que os jogos não sejam morais de fato, contudo ação colaboradora em decorrência de cultivar muitos valores durante a atividade de jogar. Nesse norte a evolução do desenvolvimento moral apresenta-se bem definida em três etapas, ou seja: anomia, heteronomia e autonomia. Em suas buscas e conclusões ainda observou como sendo possível que adultos se encontrem na fase da anomia ou heteronomia, desta forma não atingindo a fase em que destaca a autonomia do indivíduo. O desenvolvimento moral na criança caracteriza-se por etapas, de acordo com as fases do desenvolvimento humano e os jogos colaboram com o processo de moralidade isso acontece por representar regras que mesmo advindas de outras gerações podem sofrer alterações de acordo com os combinados estipulados pelos jogadores ação essa envolvendo em cada jogada questões que dizem respeito à justiça e honestidade, auxiliando no respeito e na aceitação das regras então estipuladas pelos jogadores. 42 Toda moral consiste num sistema de regras e a essência de toda moralidade deve ser procurada no respeito que o indivíduo adquire por estas regras. Por conseguinte, essas regras estão de fato vinculadas à vida cotidiana. A qual a criança estabelece relações e delas absorve as noções para o convívio social. Nesse contexto do Educar Moralmente conclui-se que essa ação tem por premissa: [...] “levar a criança a compreender que a moral exige de cada um o melhor de si, porque conhecer e interpretar princípios não são coisas simples: pede esforço e pede perseverança” (DE LA TAILLE, 2000, apud ZAMPIN, 2017 p. 47). Diante das experiências vivenciadas, a criança se oportuniza a se educar quanto à moralidade, aos poucos, até atingir a fase autônoma. As pesquisas de Piaget sobre o desenvolvimento moral mostraram que como a inteligência, a moralidade faz parte de um processo construtivo. Com relação as regras do jogo, encontraram níveis diferentes tanto de consciência das regras como sobre sua prática. 1º estágio - crianças até 2 anos - nesse estágio as crianças simplesmente jogam, não há nenhuma regra ou lei, é puramente uma atividade motora, não há nenhuma consciência de regras. 2º estágio - crianças de 2 a 6 anos - nesse estágio a criança observa os maiores jogarem e começa a imitar o ritual que observa. A criança percebe que existem regras que regulam a atividade e considera as regras sagradas e invioláveis. Ainda que nesse estágio a criança saiba as regras do jogo, ela não joga "com os outros", ela joga como que sozinha, é uma atividade egocêntrica, ainda que esteja jogando com outros companheiros. É uma atividade que produz prazer psicomotor. 3º estágio - entre os 7 e 10 anos - nesse estágio a criança passa do prazer psicomotor dos estágios anteriores ao prazer da competição segundo uma série de regras e um consenso comum. Esse estágio está ainda dominado pela heteronomia, as regras são sagradas, mas já são reconhecidas como necessárias para bem dirigir o jogo. Há um forte desejo de entender as regras e de jogar respeitando o combinado. As crianças vigiam-se mutuamente para se certificar de que todos jogam respeitando as regras. 43 4º estágio - entre 11 e 12 anos - é a passagem para a autonomia. O adolescente desenvolve a capacidade de raciocínio abstrato e as regras já são bem assimiladas. Há um grande interesse em estudar as regras em si mesmas, discutem muitas vezes sobre quais as regras que vão ser estabelecidas para o jogo. Para Piaget o desenvolvimento da moralidade se dá principalmente através da atividade de cooperação, do contato com iguais, da relação com companheiros e do desenvolvimento da inteligência. 14 TEORIA DE KOHLBERG E O DESENVOLVIMENTO DA MORAL Fonte: amenteemaravilhosa.com.br Existem seis estágios no desenvolvimento moral, dividido em três níveis. Lembrando que Piaget estudou somente a vida moral até a adolescência e Kohlberg até o desabrochar pleno da maturidade e da vida moral. Kohlberg não dá muita importância ao comportamento moral externo. Por exemplo um adulto e um adolescente que roubam uma maçã, o comportamento externo é o mesmo, mas as razões, a moralidade interna, o nível de maturidade moral é diferente nesses casos. Kohlberg baseia a sua classificação no nível de consciência que se tem das regras e normas, das suas razões e motivações, da consciência da sua utilidade e necessidade. 44 14.1 1º Nível pré-convencional A moralidade da criança é marcada pelas consequências de seus atos: punição ou recompensa, elogio ou castigo, e baseia-se no poder físico (de punir ou recompensar) daqueles que estipulam as normas. Estágio 1 - O que determina a bondade ou maldade de um ato são as consequências físicas do ato (punição). Respeita-se a ordem apenas por medo à punição, e não se tem consciência nenhuma do valor e do significado humano das regras. Estágio 2 - A ação justa é aquela que satisfaz as minhas necessidades, a que me gera recompensa e prazer, e, ocasionalmente aos outros. As relações humanas são vistas como trocas comerciais. Mais ou menos assim "Tu me gratificas e eu te gratifico". A pessoa tenta obter recompensas pelas suas ações. 14.2 2º Nível convencional Nesse nível a manutenção das expectativas da família, do grupo, da nação, da sociedade é vista como válida em si mesma e sem muitos questionamentos ou porquês. É uma atitude de conformidade com a ordem social, mas também uma atitude de lealdade e amor à família, ao grupo, ao social. Estágio 3 - É bom aquele comportamento que agrada aos outros e por eles é aprovado. De certa forma, é bom o que é socialmente aceito, aquilo que segue o padrão. O comportamento é muitas vezes julgado com base na intenção, e a intenção torna-se pela primeira vez importante. É a busca do desejo de aprovação familiar e social. Estágio 4 - Há o desenvolvimento da noção de dever, de comportamento correto, de cumprir a própria obrigação. Há o desejo de manter a ordem social especificamente pelo desejo de mantê-la, isto é, por que isso é justo. 45 14.3 3º Nível pós-convencional Há um esforço do indivíduo para definir os valores morais, para definir conscientemente e livremente o que é certo e o que é errado, e o porquê... prescinde- se muitas vezes da autoridade dos grupos e das pessoas que mantém a autoridade sobre os princípios morais. Estágio 5 - É a tomada da consciência da existência do outro, da maioria, do bem comum, dos direitos humanos... A ação justa é a ação que leva em conta os direitos gerais do indivíduo, isto é, o bem comum. Valores pessoais são claramente considerados relativos, é a lei da maioria e da utilidade social. Estágio 6 - O justo e correto é definido pela decisão da consciência de acordo com os princípios éticos escolhidos e baseados na compreensão lógica, universalidade, coerência, solidariedade universal. Guia-se por princípios universais de justiça, de reciprocidade, de igualdade de direitos, de respeito pela dignidade dos seres humanos, por um profundo altruísmo, pela fraternidade. Os padrões próprios de justiça têm mais peso do que as regras e leis existentes na sociedade. A moralidade humana e seu desenvolvimento são essencialmente dialéticos. Tanto no modelo de Piaget como no de Kohlberg, a moralidade de um indivíduo depende tanto de fatores psicológicos e biológicos (quem é a pessoa, quem são seus pais, qual sua bagagem genética...), como de elementos sociais e culturais (onde nasceu, em queépoca, quem são seus vizinhos, amigos, mestres, grau de instrução, condição financeira...). Torna-se claro que diferentes situações sociais, culturais, psicológicas e biológicas irão propiciar diferentes comportamentos, diferentes moralidades. 46 15 PSICOLOGIA DA APRENDIZAGEM Fonte:riovalejornal.com.br O comportamento humano é apreendido, no meio social em que se encontra, desta forma uma das questões centrais dos estudos da Psicologia é a aprendizagem. O homem é de todas as espécies animais, a mais evoluída, desta forma, seu modo de ser evoluiu, ao longo da história de tal forma que os comportamentos instintivos foram aos poucos sendo deixados para trás, hoje correspondendo apenas aqueles necessários a sobrevivência de nossa espécie. Dependemos da aprendizagem para sobreviver, pois, precisamos aprender a come, andar, falar, enfim, a ser homens. Esse processo se estende do momento em que nascemos até nossa morte. Para estar no mundo, sobreviver, necessitamos apreender. Essa possibilidade, dada pela aprendizagem, faz com que seja possível, as gerações tirar proveito de experiências anteriores a nossa, acrescentando a contribuição de nosso tempo, promovendo o progresso. Em nossa caminhada, aprendemos comportamentos úteis, e necessários a nosso crescimento pessoal e profissional, porém nesse processo também aprendemos comportamentos inúteis e prejudiciais, podemos dar como exemplo o hábito de fumar ou beber. A análise psicológica a respeito da aprendizagem se baseia em vários conceitos, que levam em conta a forma como esse processo se dá, nos diferentes sujeitos. Para tanto se observa a maturação física, as descobertas, o erro, que nos 47 levam a apresentar um comportamento que anteriormente não existia a respeito de determinado evento ou conteúdo. Dessa forma: São muitas as questões consideradas importantes pelos teóricos da aprendizagem. Qual o limite da aprendizagem? Qual participação do aprendiz no processo? Qual a natureza da aprendizagem? Há ou não motivação subjacente ao processo? As respostas a essas questões têm originado controvérsias entre os estudiosos. (BOCK, 2008, apud AZEVEDO, 2017, p.1). Existem diversas teorias sobre aprendizagem, mas podemos dividi-las em dois grupos: as comportamentais e as cognitivas. As teorias comportamentais defendem que a aprendizagem acontece com base no comportamento dos indivíduos, desta forma devem ser levadas em conta questões ambientais, que segundo esta proposta proporciona a aprendizagem. A aprendizagem diante desta proposta se dá através de uma vinculação entre estimulo e resposta. Segundo esta concepção, aprendemos hábitos, isto é, através da prática. As teorias cognitivistas, defendem que a aprendizagem acontece através da relação do sujeito com o meio que o circunda, levando a uma organização interna como forma de interação com o mundo. Defendem que aprendemos por uma associação entre ideias e nossa experiência. Aprofundando o conceito de cognição pode-se dizer que: Cognição é o “processo através do qual o mundo de significados tem origem. À medida que o ser se situa no mundo, estabelece relações de significação, isto é, atribui significados à realidade em que se encontra. Esses significados não são entidades estáticas, mas pontos de partida para a atribuição de outros significados. Tem origem, então, a estrutura cognitiva (os primeiros significados), constituindo-se nos ‘pontos básicos de ancoragem’ dos quais derivam outros significados”. (BOCK, 2008, apud AZEVEDO, 2017, p.2). A denominação dos cognitivistas dada à aprendizagem se refere à integração entre a organização das informações e o material, a estrutura cognitiva. Dentro desta perspectiva existem duas formas de aprendizagem, sendo elas: A aprendizagem mecânica – onde o processo de aprendizagem acontece sem uma conexão com informações anteriores, este não se liga a conceitos específicos. Podemos utilizar como exemplo quando 48 memorizamos um conteúdo para uma prova específica, sem relacioná- lo a outros conceitos. A aprendizagem significativa – esta se relaciona com outros conceitos disponíveis na estrutura cognitiva, servindo de ponto de ancoragem para outros conceitos que se seguirão. Os pontos de ancoragem são de grande relevância para a aprendizagem significativa. Assim pode-se dizer que: Os pontos de ancoragem são formados com a incorporação, à estrutura cognitiva de elementos (informações ou ideias) relevantes para a aquisição de novos conhecimentos e com a organização destes, de forma a, progressivamente, progressivamente, generalizarem-se, formando conceitos. (BOCK, 2008, apud AZEVEDO, 2017, p.2). Partindo de conceitos simples é possível a criança diferenciar conceitos e chegar até outros mais complexos, não só a criança, mas todo o indivíduo que está inserido no processo de aprendizagem, seja de modo formal ou informal. A partir das concepções acima descritas surgem várias teorias com o objetivo de analisar, discutir e desenvolver formas de tornar a aprendizagem mais interessante para os educandos. Jerome Bruner, famoso psicólogo, desenvolveu um grande trabalho com respeito a teoria cognitivista de aprendizagem, sendo considerado um o representante máximo dessa corrente. Sua teoria enfatiza a importância da motivação, a respeito salienta: [...] acredita que há dentro do indivíduo, desde o nascimento, forças poderosas que o levam a aprendizagem, como a curiosidade, o desejo de adquirir competência e o desejo de trabalhar cooperativamente com outras pessoas, que Bruner chama reciprocidade. (BARROS,1998, apud AZEVEDO, 2017, p.2). De acordo com tal teoria, considera-se o valor do reforço como uma questão transitória, por se apresentar como uma motivação externa, defende a necessidade do feedback, que se caracteriza pelo retorno ao aprendiz a respeito de seu processo de conhecimento. Toda a aprendizagem, que se baseia na instrução do educando deve, segundo o teórico dar meios para que este desenvolva a capacidade de autocorreção, ou seja, o reforço deve criar meios para que com o próprio desenvolvimento o estudante sinta-se capaz de avaliar seus próprios erros. 49 Dentro dessa proposta salienta-se a necessidade de despertar junto aos educandos a investigação para que estes sejam capazes de ir adiante, motivados. Para se dar conta do primeiro aspecto (estrutura da matéria), propõe-se que os especialistas nas disciplinas auxiliem a estruturar o conteúdo de ensino a partir dos conceitos mais gerais e essenciais da matéria e, a partir daí, desenvolvam-no como uma espiral – sempre dos conceitos mais gerais para os particulares, aumentando gradativamente a complexidade das informações. Este método sugere que o ensino seja voltado para a compreensão do educando, para tanto é fundamental que os professores conheçam a realidade de seus aprendizes. A motivação é um dos fatores mais importantes no processo de aprendizagem, onde devem estar relacionadas as questões da necessidade, do ambiente e do objeto a ser apreendido, na tarefa de compreender conceitos, o aprendiz deve ser instigado a satisfazer sua necessidade, criando assim uma aprendizagem significativa. No panorama contemporâneo, as teorias de Vygotsky e Piaget, se destacam na relação de ensino-aprendizagem, por salientarem uma construção da aprendizagem centrada no desenvolvimento infantil e suas possibilidades, levando em conta o meio que cerca a criança em seu desenvolvimento. Desta forma fica claro o papel da criança como um agente ativo na aprendizagem, assim o foco que anteriormente se remetia à escola, volta à atenção para o sujeito que conhece. Como forma de situação de aprendizagem, propõe-se a valorização das histórias contadas pela criança e de suas tentativas de escrita, características que geram a descoberta do uso social da linguagem, comisso o conhecimento espontâneo da criança passa a fazer parte do ensino tornando-o mais significativo. A escrita possui um caráter evolutivo, onde é possível observar: [...] que os primeiros registros da sílaba são feitos com apenas uma letra, à qual se agregarão outras, posteriormente, levou à interpretação de que estes são fatos naturais do percurso, ou seja, são erros naturais e necessários à construção da aprendizagem. (BOCK, 2008, apud AZEVEDO, 2017, p.3). 50 A construção do conhecimento se caracteriza como um processo evolutivo, onde deve se levar em conta as capacidades da criança de apreender o objeto e possibilitar esta interação de forma que seu mundo de significados seja respeitado e levado em conta. Nossa aprendizagem formal e informal se caracteriza por uma construção que envolve o erro como possibilidade de caminhada rumo ao acerto. Valorizar essa possibilidade no educando é uma forma de construir com ele uma aprendizagem significativa, onde o sujeito de tal processo passa a ser levado em conta, não como mero deposito de conhecimentos, mas como um agente ativo, que possui uma história além da instituição, onde se exprime um conhecimento. A desconsideração total pela formação integral do ser humano e a sua redução a puro treino fortalecem a maneira autoritária de falar de cima para baixo. Nesse caso, falar a, que na perspectiva democrática é um possível momento da com falar com, nem sequer é ensaiado. A desconsideração total pela formação integral do ser humano, a sua redução a puro treino fortalecem a maneira autoritária de falar de cima para baixo a que falta, por isso mesmo, a intenção de sua democratização no falar com. (FREIRE, 1999, apud AZEVEDO, 2017, p.3). Na construção de uma aprendizagem significativa, cabe ao educador levar em conta a perspectiva do educando, como forma de qualificar o processo de ensino- aprendizagem. 16 MEDIAÇÃO DA APRENDIZAGEM Fonte: educacaoinfantil.aix.com.br 51 O mundo vem sofrendo mudanças e isso está ocorrendo a uma velocidade sem precedentes, principalmente na área da Educação. A interação professor-aluno está se tornando muito mais dinâmica nos últimos anos. [...] saber que ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção. Quando entro em uma sala de aula devo estar sendo um ser aberto a indagações, à curiosidade, às perguntas dos alunos, a suas inibições; um ser crítico e inquiridor, inquieto em face da tarefa que tenho. (FREIRE, 2011, apud DIAS 2014, p. 17) O professor tem deixado de ser um mero transmissor de conhecimentos para ser mais um orientador, um estimulador dos alunos para construção de valores, atitudes e habilidades. Tendo em vista que, para a transformação da prática educativa, um dos elementos-chave é o professor, torna-se imprescindível fazê-lo refletir sobre as concepções que embasam a educação, bem como oferecer-lhe algumas ferramentas que o estimulem a enfrentar o desafio da integração entre a teoria e a prática educativas. A mediação de aprendizagem é uma forma especial de interação entre um sujeito que ensina e outro que aprende. Mediação é o inter-relacionamento, orientado pelo professor, entre ele, os alunos e o que se pretende ensinar, utilizando linguagem, ação e recursos múltiplos. Martín-Barbero nos reforça a ideia de pensar a formação docente através das mediações: um lugar onde é possível compreender a interação entre o espaço da produção e da recepção: [...] mudar o lugar das perguntas, para tornar investigáveis os processos de constituição do massivo para além da chantagem culturalista que os converte inevitavelmente em processos de degradação cultural. E para isso, investiga- los a partir das mediações e dos sujeitos, isto é, a partir das articulações entre práticas de comunicação e movimentos sociais [...]. (MARTÍN, 2001, apud DIAS 2014, p. 18) Através das mediações ocorrem as interações sociais nas quais as pessoas produzem processos de aprendizagem que lhes possibilitam apropriar-se de conhecimento e reelabora-los, chegando a elevados patamares de conhecimento. A mediação está presente: [...] quando o professor faz perguntas, dá devoluções aos alunos sobre suas colocações e produções, problematiza o conteúdo, com o objetivo de colocar o pensamento do aluno em movimento e, também, quando estimula os alunos a dialogarem entre si sobre suas atividades. À medida que o ensino passa a 52 ser entendido como um processo de mediação, o professor deixa de ser o centro do processo para se tornar-se uma ponte entre o aluno e o conhecimento. Assim, as perguntas costumeiras do professor, como: “o que devo ensinar? ”, “Como poderei ensinar todos os conteúdos? ”, são substituídas por: “quais são os conteúdos prioritários em termos de compreensão dos alunos? ”, “Como sei se eles estão compreendendo esses conteúdos? ”, “Quais as expectativas dos alunos em relação às aulas e à disciplina como um todo? ”. (NADAL,2007, apud DIAS 2014, p. 18) A mediação exige uma postura de muita disponibilidade e responsabilidade por parte do mediador. É importante salientar a dificuldade do professor em trabalhar com pessoas distintas em uma única sala. Deparando-se com realidades educacionais e condições sociais fragilizadas e que não possibilitam a realização de um trabalho de qualidade. Salas de aulas com quantidade excessiva de alunos, baixos salários, falta de estrutura física, falta de tempo entre outras situações, acabam limitando o desempenho do professor. A partir do momento que o professor mediador, apesar das dificuldades encontradas no cotidiano, acreditar não apenas no potencial do aluno, mas também no seu, poderá sim obter bons resultados. Uma das maneiras de propor uma mediação pedagógica significativa frente aos desafios decorrentes da síndrome da privação cultural no contexto escolar é sem dúvidas mediar, pois a base da teoria de Feuerstein é que todas as pessoas podem se modificar independente de sua condição. Para que haja uma interação com qualidade, e que alcance os objetivos pretendidos, o mediador deve planejar suas ações e intenções e organizar o processo de ensino aprendizagem baseado nos doze critérios, estabelecidos na teoria da aprendizagem mediada, sendo que os três primeiros são critérios universais, pois sem eles não existe mediação. E os demais potencializam a mediação, e devem ser usados dependendo da situação e do contexto de vida do aluno. Serão descritos os três primeiros critérios da mediação, pois estes devem sempre estar presentes durante a interação mediador - mediado. A utilização dos demais critérios deve ser selecionada para, focalizar e intensificar a mediação em relação às necessidades identificadas, a fim de produzir uma aprendizagem apropriada, alcançando as mudanças no sujeito. 53 16.1 Critério 1. Intencionalidade e reciprocidade A intencionalidade é a soma de todas as ações realizadas pelo professor para que a aprendizagem aconteça, deve haver envolvimento e intenções objetivas do mediador para ensinar, e reciprocidade do mediado para aprender. Esse envolvimento resulta em uma transformação. Todo esforço adicional do professor para ajudar o aluno aprender, vai além dos objetivos traçados, materializa a intencionalidade. Conquistar a reciprocidade do aluno é um grande desafio, mas, sem ela, o trabalho de ensinar será inútil. 16.2 Critério 2. Transcendência. A mediação da transcendência acontece quando a aprendizagem ocorre além das necessidades imediatas, os conceitos adquiridos podem ser assimilados numa situação futura, que vai perpassar os limites da escola. A transcendência ocorre quando o aluno aplica corretamente um conceito aprendido em uma área diferente da inicial. A mediação a partir da transcendência visa que o mediado busque significados, indo além dos objetivos propostos:É a orientação consciente do mediador em ensinar olhando para o futuro, para outros contextos, para situações além do "aqui-e-agora". O ensino não deve ser pontual, restrito a uma única situação ou contexto, precisa ser passível de aplicação, precisa ser capaz de ser útil e integrável a outras estruturas conceituais, outros saberes, outros momentos da vida do aprendiz e em outros contextos (MEIER & GARCIA, 2008, apud BAGOZZI, 2015, p. 24090). A mediação acontece quando o processo de ensino e aprendizagem é compartilhado, quando o aluno vivência cognitivamente, fisicamente e emocionalmente o que está sendo proposto. Um bom mediador consegue perceber que na mesma sala de aula, diante da realização de uma tarefa, alguns alunos alcançaram os objetivos propostos, outros estão imaturos e outros totalmente distantes. Foram descritos os três critérios universais da mediação, pois os outros nove, ainda que importantes, dependem do contexto e da situação do processo de ensino e aprendizagem. Sendo que sem a utilização e realização dos três primeiros critérios não existe mediação. 54 16.3 Critério 3. Mediação do significado. Os significados atribuídos pelo conteúdo ao qual o mediado está sendo apresentado são externos, consequentemente são frutos culturais. Esse é um critério importante perante a síndrome da privação cultural, pois se a criança foi privada de receber estímulos culturais, como vai conseguir atribuir significado aos conteúdos que estão sendo propostos? Sem significações, a transmissão cultural de umas gerações para outras não seria viável. Deixar os indivíduos na pura exploração das tarefas não lhes vai permitir atingir as significações, é preciso orientá-los no sentido de delas se apropriarem. O mediador (psicólogo ou professor, reeducador ou terapeuta) está incumbido, e culturalmente comprometido, de transmitir significações. Sem tais atribuições, as tarefas de aprendizagem, por si só, não produzem a desejada modificabilidade cognitiva. (FONSECA,1998, apud MEIR & GARCIA, 2008, p.139) Portanto tudo o que mediamos deve ter mais valor em si, do que o próprio conteúdo. O indivíduo aprende melhor aquilo que tem um significado. Para ampliar o significado a interdisciplinaridade é uma grande ajuda. O uso de conceitos de outras áreas do conhecimento amplia a compreensão por trazer significado ao que está estudando. O mediador deve atribuir valores ao que ensina, pois estes vão fazer ligações às necessidades presentes no contexto de vida do mediado, aumentando a motivação, desenvolvendo a autonomia e a disposição para aprender. Superando assim gradativamente os efeitos deixados pela privação de cultura. 55 17 OS CRITÉRIOS DE MEDIAÇÃO DE REUVEN FEUERSTEIN Fonte: prezi.com A mediação da aprendizagem incorpora algumas características que a particularizam. A ação do mediador deve selecionar, dar forma, focalizar, intensificar os estímulos e retroalimentar o aprendiz em relação às suas experiências a fim de produzir aprendizagem apropriada intensificando as mudanças no sujeito. Feuerstein criou 12 critérios de mediação, entretanto há três deles que são concebidos como “universais”, ou seja, estão sempre presentes em um ato mediado, são eles: intencionalidade e reciprocidade, significado e transcendência. 1. Intencionalidade e Reciprocidade- Provocar curiosidade e obter respostas. O mediador intencionalmente cria desequilíbrio, dissonância, para atrair a atenção do mediado e despertar nele a necessidade de elaborar conceitos que revelem aprendizagem. 2. Significado Atribuir e compartilhar significados e valores- O mediador deve atribuir significado afetivo e social nas atividades de aprendizagem, tornando-as relevantes para o mediado. 3. Transcendência- Extrair e transferir conhecimento. O mediador deve ligar uma atividade específica com outras, formando uma ponte entre a atividade imediata e outras atividades relacionadas. 56 4. Sentimento de competência- Desenvolver a autoconfiança do mediado. Proporcionar ao mediado as condições para interpretação do próprio desempenho e para atribuição de valor social ao seu funcionamento eficiente. 5. Regulação e Controle do Comportamento- Reduzir a impulsividade do mediado. Trata-se de uma preparação mais direta para a metacognição, de modo que o mediado possa pensar, aplicar e aperfeiçoar a informação necessária para a resolução do problema. 6. Comportamento de compartilhar- Incentivar a adquirir consciência do interesse comum. Expressa a necessidade da pessoa de sair de seu próprio “eu” para participar de atividades com os outros. A base do compartilhamento é a ideia de que as pessoas estão ligadas umas às outras, o que caracteriza a interação como social. 7. Individuação e diferenciação psicológica- Incentivar a adquirir consciência das diferenças interpessoais. Envolve desenvolver o desenvolvimento autônomo do indivíduo e de sua personalidade única. 8. Planejamento para o alcance de objetivos- Estabelecer metas e objetivos. Encorajar e orientar o mediado para que estabeleça objetivos e discuta os meios para alcançá-los de forma explícita. 9. Desafio- Evocar no mediado a motivação para tentar algo novo e a determinação para perseverar em algo difícil. 10. Percepção da consciência da modificabilidade humana- Perceber o ser humano como sujeito modificável. Desenvolver no mediado a responsabilidade de estar a par das contínuas mudanças que ocorrem com ele. 11. Escolha da alternativa otimista- Favorecer uma abordagem otimista e confiante. Estimular no mediado a crença na possibilidade de resolver problemas, vencer obstáculos, corrigir deficiências. 12. Sentimento de pertencer- Enfatizar a pertença ao grupo. O ser humano necessita estar incluído em um grupo. Desenvolver no aluno o sentimento de coletividade. 57 17.1 Critério 1 – Mediação da Intencionalidade e Reciprocidade O primeiro critério de mediação de Feuerstein é a intencionalidade e reciprocidade. O objetivo desse critério é desenvolver, no mediado, processos de sincronização cognitiva e afetiva de modo a adequar a aprendizagem às suas necessidades intrínsecas. Para que isso ocorra, o mediador precisa estimular e provocar reações no mediado, despertando-lhe a capacidade de analisar situações e encontrar respostas aos desafios apresentados. A resposta/reação do aluno ao estímulo é a reciprocidade. Por isso, a intencionalidade e a reciprocidade não podem manter-se sozinhas, elas são indissociáveis. Pelo critério da intencionalidade, o mediador interage com o mediado e ajudam a compreender o que está sendo aprendido. Já a reciprocidade envolve troca, permuta. Ela ocorre quando existe uma resposta positiva do mediado e uma indicação de que ele está receptivo e envolvido na EAM (Experiência de Aprendizagem Mediada). A reciprocidade torna-se possível quando mediador compartilha, com seu interlocutor, a intenção que move a proposta de interação: coloca à disposição do aluno processos didáticos que ele utilizará quando tomar suas próprias decisões. A reciprocidade manifesta a interiorização do ato de mediação. Manifesta-se como uma mediação vicariante: nela, o sujeito torna- se seu próprio mediador. (DA ROS, 2002, apud DIAS, 2014, p.27) O mediador com intencionalidade muda os estímulos, faz com que sejam mais poderosos e enfatizados. Os estímulos se tornam mais compreensíveis e importantes para o receptor da mediação. Porém, se o mediador observar que suas intervenções não estão sendo eficazes, ele deverá adaptá-las para garantir que o que está sendo retratado será absorvido pelo aluno. 17.2 Critério 2 – Mediação de Significado A mediação de significado atribui importância ao conteúdo a ser ministrado durante a aula. Perguntas como: “Por que este conteúdo é importante? ”, “Por que precisa ser aprendido? ” São a base desse critério. Osignificado permite a transmissão cultural de gerações para outras. Deixar os indivíduos na pura exploração das tarefas não lhes permite atingirem as significações. Sem tais atribuições, as 58 tarefas de aprendizagem, por si só, não produzem a desejada modificabilidade cognitiva. É nesse intuito que Freire fala da escola que ensina conteúdos “vazios”: Na concepção “bancária” que estamos criticando, para a qual a educação é o ato de depositar, de transferir, de transmitir valores e conhecimentos, não se verifica nem pode verificar-se esta superação. Pelo contrário, refletindo a sociedade opressora, sendo dimensão da “cultura do silêncio”, a “educação bancária” matem e estimula a contradição. (FREIRE, 2005, apud DIAS, 2014, p.27) 17.3 Critério 3 – Mediação de Transcendência A mediação de transcendência não se limita a satisfazer as necessidades imediatas ou a resolver problemas. É ensinar olhando para o futuro, para outros contextos, situações além do “aqui e agora”. A transcendência permite o desenvolvimento do pensamento reflexivo sobre o que está subjacente à situação, de modo a estendê-la para outros contextos. Ela estimula a curiosidade dos alunos quando o mediador relaciona uma atividade específica com outras. Para exercer esse critério, o mediador pode relacionar a experiência de aprendizagem com objetivos transcendentes, fazer perguntas como: “Por que” e “Como”, explicar as razões das suas ações e decisões, sugerir situações-problema e fornecer “pontes” entre a área dada e outras áreas correlacionadas. [...] as mediações alargam o campo de conhecimento do aluno, incluindo não só a informação ou a necessidade imediata, mas uma rede de relações que contempla as próprias experiências dos alunos, a de seus pares, os conteúdos científicos e populares, a dimensão presente, passada e futura do conhecer. Isso permite ao indivíduo situar-se – e situar seu objeto de estudo – no tempo e no contexto histórico social, ampliando sua visão e seu leque de sentidos e significados. (DA ROS, 2002, apud DIAS, 2014, p.28) 17.4 Critério 4 – Mediação do Sentimento de Competência A mediação do sentimento de competência mostra ao mediado que ele é capaz de executar as tarefas, cumprir desafios, lidar com situações novas, que possui capacidade em focar, em prestar atenção, enfim, que possui competência. Porém, é importante distinguir entre o sentimento de competência e a competência em si. Muitas pessoas funcionam em baixo nível porque lhes falta o senso de competência, 59 muitas vezes em contraste com sua real habilidade. Indivíduos podem ser competentes e capazes sem sentirem que são. Nelas falta o senso de competência, valor próprio e autoestima. Por isso, é importante ao mediador desenvolver este sentimento nos mediados para que a EAM ocorra. Cabe ao mediador preparar o mediado, instrumentalizá-lo para possibilitar a emergência dessa capacidade de olhar para si mesmo e perceber-se competente. Esse critério não ocorre por meio de falsos elogios e da supervalorização de atitudes e sim através da oportunização de conquistas reais, de acordo com suas capacidades. Uma das formas pode ser pela promoção do feedback sobre o êxito com reflexão dos motivos que o ocasionaram. 17.5 Critério 5 – Mediação da Regulação e Controle do Comportamento Ao regular o comportamento, inibindo a impulsividade e o tempo de resposta do mediado, estabelece a mediação da regulação e controle do comportamento. O mediador deve ensinar o mediado a pensar sobre suas próprias formas de pensar (metacognição), para elaborar, em melhores condições, a informação necessária para programar e controlar a resposta adaptada. Esse critério auxilia na autorreflexão do indivíduo, propiciando o retorno necessário para tomada de decisões relativas à propriedade e impropriedade de certas condutas em situações específicas. [...] a regulação da conduta inclui a redução da impulsividade da criança, a introdução de uma frequência diferente da direção e do ritmo da conduta, da programação do tempo e do espaço. Seguramente, o aspecto mais importante é o desenvolvimento de uma posição de controle interna. Orienta- se à criança a tomar suas próprias decisões e ser cada vez mais responsável por seus atos. (FEUERSTEIN, 1989 apud PISACCO, 2006, p.29). 17.6 Critério 6 – Mediação do Comportamento de Compartilhar Vivemos em um mundo em que é crescente a busca pelo isolamento e individualismo. As pessoas estão se tornando cada vez mais distantes uma das outras, sem compartilhar as experiências diárias vividas com o próximo. Em grandes cidades, observam-se pessoas vivendo em um mesmo prédio, com grande proximidade física, porém não se conhecem ou sequer se cumprimentam ao se encontrarem por acaso. Para algumas pessoas talvez seja mais seguro e confortável 60 reduzir ou evitar potenciais áreas de atrito. Mas, para muitos, a consequência é um senso de isolamento e até mesmo alienação social. O compartilhamento de ideias, emoções e comportamentos são condições de uma aprendizagem com sucesso. [...] repartir o sucesso e o êxito é uma característica da condição humana, repartir ideias, informações e conhecimentos é um processo inerente à EAM. O mediatizador deve mostrar aos mediatizadores que estamos orgulhosos com seus êxitos. Transmitir aos mediatizados o sentido de compartilhar coisas boas, boas experiências e iniciativas, é algo fundamental, porque no fundo, e no essencial, se promove a socialização entre indivíduos em situação de interação. (FONSECA, 1998, apud DIAS, 2014, p.30). 17.7 Critério 7 – Mediação da Individuação e Diferenciação Psicológica O critério da individuação e diferenciação psicológica pode parecer um contraste em relação ao critério do comportamento de compartilhar, porém um complementa o outro. O processo de individuação representa a necessidade do indivíduo de tornar-se único, especial, diferenciado dos demais sujeitos com os quais entra em contato. Para isso, é necessário que o professor conheça cada um de seus alunos e saiba lidar com eles de forma personalizada e específica. O mediado precisa se perceber como uma pessoa única e autônoma. Através desse critério é possível enfatizar a diversidade dos indivíduos em termos de sua experiência de vida. O mediador pode obter êxito com esse critério incentivando respostas originais, diferentes, que traduzem um modo peculiar de pensar; ou quando reconhece as diferenças individuais, valoriza experiências passadas, habilidades e estilos próprios de comportamento. 17.8 Critério 8 – Mediação do Planejamento para o alcance de objetivos Ao colocar um objetivo possível, desejável e alcançável aos alunos, amplia-se a esfera de experiência de alguém por meio da entrada num mundo que está além da realidade sensorial imediatamente percebida, ultrapassa o “aqui e agora”. Quando o mediador orienta o mediado a explicitar o que quer e como alcançará os objetivos, favorece a habilidade do ser humano de usar formas abstratas de pensamento, a imaginação, na representação do que ainda não existe. 61 [...] a presença de um objetivo no repertório mental reflete a modalidade representacional de pensamento. Procurar um objetivo e lutar por ele exige do indivíduo ampliar seus horizontes para um mundo que está além da realidade percebida imediatamente. Mediar a necessidade de pesquisar e procurar objetivos para a mediação enriquece e articula suas vidas enquanto entidades que aprendem. (FEUERSTEIN, 2002, apud DIAS, 2014, p.30). 17.9 Critério 9 – Mediação do Desafio A escola deve promover situações em que os alunos se sintam desafiados na execução de suas tarefas. Alunos desafiados a aprender certamente investirão maiores esforços na conquista dos objetivos da aprendizagem. O desafio não deverá ser tão simples nem tão complexo. Para isso, é necessário dosar o nível do desafio, pois se formuito simples talvez não gere motivação intrínseca no mediado; e se for muito complexo, o objetivo pode se tornar inatingível. O desafio envolve a motivação para ousar e perseverar em algo difícil, cabendo ao mediador ajudar o mediado a superar o medo do desconhecido e a adquirir resistência para se manter em situações que proporcionam desequilíbrio. O desafio deve representar um objetivo em todos os programas que buscam aumentar a adaptabilidade do indivíduo para mudanças e complexidades do nosso mundo. Assim, respostas como: “Eu nunca vi”, “Eu nunca fiz isso antes” com a qual alguém justificaria para não realizar uma tarefa, são disfuncionais em um mundo que muda constantemente. 17.10 Critério 10 – Mediação da Percepção da consciência da modificabilidade humana A ideia de modificabilidade está presente em todo o trabalho de Feuerstein e sua teoria diz que “todas as pessoas são modificáveis”. Ao acreditar na capacidade do aluno em modificar-se, em aprender, em desenvolver-se, o professor pode escolher uma metodologia carregada de esforços positivos, ao invés de desistir nos casos mais difíceis. O mediador deve trabalhar para criar na pessoa o sentimento de ser modificável. Quando se tem uma expectativa positiva, é possível obter melhores resultados de seus mediados. Muitas pessoas resistem à mudança, porque não querem sentir-se desafiadas e desconfortáveis. Porém, quando o indivíduo se percebe capaz de modificar, sua visão de si mesmo pode ser fortemente influenciada e sua 62 história de vida pode ser modificada. A crença na modificabilidade pode tornar-se um poderoso determinante de mudanças em indivíduos com dificuldades, tendo como objetivo auxiliar o aprendiz no seu “re-desenvolvimento. ” 17.11 Critério 11 – Mediação da Escolha da Alternativa Otimista A escola deve ser um local que deve objetivar criar condições positivas nos indivíduos. Uma visão otimista da vida cria no indivíduo mecanismos para superar as dificuldades, contribui para a criatividade e para a experimentação de novas alternativas. A escolha da alternativa pessimista induz a passividade nos que a escolhem: “Eu não tenho chance nisso, então não vale a pena investir esforço ou fazer esforço”. Por outro lado, a escolha da alternativa otimista – saber que é possível – cria na pessoa o impulso para mobilizar os meios e forças requeridos para realizar isso. Também impõe a responsabilidade de agir para materializar o que vemos como possível. (FEUERSTEIN, 2014, apud DIAS, 2014, p.32) 17.12 Critério 12 – Mediação do Sentimento de pertencer Mediar o pertencimento é possibilitar ao mediado a descoberta de que é parte integrante de um grupo, fomentando o sentimento de acolhimento por uma comunidade, escola, religião, ou qualquer outro grupo social. É importante pertencer não somente ao núcleo familiar, sem ligação com uma família estendida maior. O indivíduo que está centrado muito em si mesmo ou somente ao núcleo familiar não percebe a importância de outros pontos de vista. Assim, para que esse indivíduo possa crescer e refletir sobre outros pontos de vista necessita estabelecer vínculos com outros grupos (grupos verticais), pois a dimensão de sua própria vida e de pessoas muito próprias é apenas horizontal. A dimensão vertical pode desenvolver no mediado o sentimento de coletividade, de não estar sozinho, de poder fazer parte da sociedade e de não ser marginalizado por ela. Concluindo, para sermos mediadores, devemos contar com uma série de crenças que irão permear nossas ações educativas. A crença na modificabilidade do ser humano, a eficiência da intervenção, a competência e a flexibilidade do mediador, 63 e a percepção de que as pessoas precisam umas das outras são algumas dessas crenças que possibilitarão o desenvolvimento de uma sociedade mais crítica e construtiva. 18 CONCLUSÃO Pode-se considerar que as abordagens das Teorias da Aprendizagem são de fundamental importância para a formação docente, já que, seus pressupostos exercem influência direta ou indireta nas discussões e ações pedagógicas que envolvem o ensino/aprendizagem nas escolas. O conhecimento das diversas abordagens que buscam servir de orientação para a prática pedagógica não pode mais ser relegado por aqueles e aquelas que estão envolvidos (as), como também, para os (as) que pretendem envolver-se com a dura e árdua tarefa da docência. A análise descritiva de tais abordagens indica que cada corrente representa um papel relevante na educação e, atualmente, existe um ranço das ideias desenvolvidas por cada uma delas no âmbito do sistema educacional, mesmo que, de umas seja mais acentuado do que outras. Desse modo busca-se a superação desse partidarismo teórico em torno de tais abordagens e, a defesa da tese que considera a estruturação da prática pedagógica e a ação docente por intermédio do diálogo com ambas as abordagens e extraindo de cada uma delas sua substância útil para que a prática educativa consiga apreender os aspectos cognitivos, socioculturais e afetivos na promoção de uma educação que contribua para a constituição de seres humanos ativos e coletivos, responsáveis e autônomos capazes de elaborar e modificar seus conhecimentos e transformar a realidade, na qual, estão inseridos. Todavia, convêm ressaltar, que no ensino brasileiro as teorias educacionais quando transpostas para a prática pedagógica geralmente encontram nas falhas do nosso sistema educacional barreiras que dificultam a realização dos princípios teóricos por elas idealizados. Evidentemente, ainda há muito por ser feito em relação ao estabelecimento de um diálogo entre as diferentes abordagens educacionais para que se tenha amplo marco explicativo, do ponto de vista teórico, para orientar as 64 decisões referentes à política educacional de uma forma geral, como também as ações educativas de forma particular no âmbito das instituições de ensino. Está claro, entretanto, por tudo que hoje se sabe sobre as relações entre a educação institucionalizada e as estruturas políticas, sociais, econômicas, que um projeto que tenha por centro uma teoria única, seja ela da aprendizagem ou pedagógica ou qualquer outra, por mais “progressista” que pareça, não terá êxito. Nesse sentido precisa-se, urgentemente, que todos (as) educadores (as), sejam conservadores, progressistas, feministas, machistas, revolucionários, extremistas entre outros saírem de seu campo ideológico particularizado para um debate aberto e coletivizado que possibilite um diálogo e uma aprendizagem socializadora do quantum de suas experiências na busca por uma educação mais responsável e mais instigante no tocante ao aprendizado da unilateralidade do ser humano em sua totalidade. 65 19 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ____________. FEUERSTEIN, R. In: OTMSSNS, W. Sobre la inteligencia humana. Madri, S. A. Del Ediciones, 1983. ____________. Pensamento e Linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 1993. ALMEIDA, M. I. de. Formação do professor do Ensino Superior: desafios e políticas institucionais. São Paulo: Cortez, 1ª Ed., 2012. BATTISTUZZO, L. H. C. Experiência de aprendizagem mediada de Reuven Feuerstein: a modificabilidade em alunos de cursos profissionalizantes. Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade de Sorocaba. Sorocaba, 2009. BOCK, Ana Mercê Bahia. Psicologia: uma introdução ao estudo de psicologia. 13º ed. São Paulo: Saraiva. 2008. BRASIL. Ministério da Educação e Cultura. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais. Evolução da Educação Superior – Graduação – 1991 – 2007. Disponível em: Pedagogia e mediação em Reuven Feuerstein. São Paulo: Plexus Editora, 2002. BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: terceiro equarto ciclos do ensino fundamental: introdução aos parâmetros curriculares nacionais. Brasília: MEC/SEF, 1998. PIAGET, J. Epistemologia Genética. São Paulo: Martins Fontes, 1990. BUDEL, G.; MEIER, M. Mediação da aprendizagem na educação especial. Editora Ibpex, Curitiba, 2012. DA ROSS, S. Z. Pedagogia e mediação em Reuven Feuerstein. O processo de mudança em adultos com história de deficiência. Rio de Janeiro: Grupo Summus - Plexus, 2002. FEUERSTEIN, R.; FEUERSTEIN, R. S.; FALIK, L. H. Além da Inteligência: Aprendizagem mediada e a capacidade de mudança do cérebro. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014. FONSECA, V. da. Aprender a aprender: a educabilidade cognitiva. Porto Alegre: Artmed, 1998. FONSECA, V. da. Educação Especial: programa de estimulação precoce, uma introdução às ideias de Feuerstein. 2 eds. Porto Alegre: Artmed, 1995. FOULIN, Jean-Noël. Psicologia da educação. Porto Alegre: Artes Médicas Sul. 2000. FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. São Paulo: Paz e Terra, 2005. 66 FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 43ª edição, 2011. GOMES, C. M. A. Feuerstein e a Construção Mediada do Conhecimento. Porto Alegre: Artmed, 2002. LIBANEO, J. C. Democratização da escola pública: a pedagogia crítico-social dos conteúdos. São Paulo: Loyola, 1985. HENICKA, G. S. Comportamentalismo, cognitivismo e humanismo: análise da aplicação em escolas. Cuiabá: Universidade Federal de Mato Grosso. 2012. ILLERIS, K. (Org.). Teorias Contemporâneas da Aprendizagem. Porto Alegre: Penso, 2013. LEFRANÇOIS, G. Teorias da Aprendizagem. São Paulo: Cengage Learning, 2012. MARTÍN-BARBERO, J. Dos meios às mediações. Rio de Janeiro: UFRJ, 2001. MEDIAÇÃO. In: BUENO, S. Minidicionário da língua portuguesa. 2 ed. São Paulo: FTD, 2007. MEIER, M. O professor mediador na ótica dos alunos do ensino médio. Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Paraná. Curitiba, 2004. MEIER, M.; GARCIA, S. Mediação da aprendizagem: Contribuições de Feuerstein e de Vygotsky. Curitiba: 4ª edição, 2008. 212 p. MEIER, M.; GARCIA, S. Mediação da aprendizagem: contribuições de Feuerstein e de Vygotsky. 4°ed. Curitiba: Kapok, 2008. MOREIRA, M. A. Teorias de Aprendizagem. São Paulo: EPU, 1999 MOREIRA, M. A.; OSTERMANN, F. Teorias construtivistas. Porto Alegre: UFRGS, 1999. OGASAWARA, J. O conceito de aprendizagem de Skinner e Vigotsky: um diálogo possível. Salvador: Universidade do Estado da Bahia. 2009. MOREIRA, M.A. Aprendizagem significativa: um conceito subjacente. Aprendizagem Significativa em Revista, SP.2011. NADAL, B. G.; PAPI, S. O trabalho de ensinar: desafios contemporâneos. In: NADAL, B. G. (Org.). Práticas pedagógicas nos anos iniciais: concepção e ação. Ponta Grossa. 2007. OLIVEIRA, M. K. de. Vygotsky: Aprendizado e Desenvolvimento, um processo sócio histórico. 4. ed. São Paulo: Editora Scipione, 2004. OLIVEIRA, R. M. L. de. A modalidade no discurso de professores de ensino de jovens e adultos sobre a experiência da aprendizagem mediada de Feuerstein. Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Linguística 67 Aplicada e Estudos de Linguagem da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. São Paulo, 2006. PIAGET, J. Seis Estudos de Psicologia. 24 eds. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2004. PISACCO, N. M. T. A mediação em sala de aula sob a perspectiva de Feuerstein: uma pesquisa ação sobre a interação professor – aluno – objeto da aprendizagem. Dissertação de Mestrado. Universidade Estadual de Ponta Grossa, Ponta Grossa, RN, 2006. SILVA, T. T. Identidades terminais: as transformações na política da pedagogia e na pedagogia da política. Petrópolis: Vozes, 1996. ROYO, M. Á. L.; URQUÍZAR, N. L. Bases Psicopedagógicas da Educação Especial. Petrópolis, Editora Vozes, 2012. SOUZA, A. M. M. de; DEPRESBITERIS, L.; MACHADO, O. T. M. A mediação como princípio educacional: bases teóricas das abordagens de Reuven Feuerstein. São Paulo. Editora Senac São Paulo, 2004. TURRA, N. C. Reuven Feuerstein: “Experiência de Aprendizagem Mediada: um salto para a modificabilidade cognitiva estrutural”. Educere et Educare, vol. 2, n. 4, jul. /dez. 2007, p. 297-310. VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1989. ZANOLLA, S. R. da S. O conceito de mediação em Vigotsky e Adorno. Psicologia e Sociedade, São Paulo 2012. 20 SUGESTÕES BIBLIOGRÁFICAS MELLO, L. G. Antropologia Cultural: Iniciação Teoria e Temas. 9 ed. Petrópolis, Editora Vozes, 2002. MOREIRA, M. A. Teorias da aprendizagem. São Paulo, 1999. REGO, T. C. Vigotsky: uma perspectiva histórico-cultural da educação. 8. ed. Petrópolis/RJ: Vozes, 1995.