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CONCILIAÇÃO DA ÉTICA CRISTÃ COM A ERA DA GLOBALIZAÇÃO - um olhar reflexivo

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com os outros e consigo mesmo. Nesses novos tempos da “era do vazio”, do vazio existencial, desorientação, incertezas e de desconsideração pelo outro há que se refletir e buscar alternativas para que o “homem novo” encontre sua identidade e seu caminho enfrentando a solidão, as mazelas e seus dilemas existenciais e “globais”. Bauman (1999, p. 54) ressalta em “Globalização: As consequências humanas” que “todo processo de transformação redundou na precarização e na desintegração dos laços humanos, onde a vida seguida de seus padrões lógicos permeou a solidão e demudou as relações sociais em relações autônomas”.
A modernidade, a qual Bauman (2011, p. 15) define como “modernidade líquida”, tem como protagonista o ser humano sujeito às regras sociais, e que convive em um espaço de tensão “entre o anseio de liberdade do indivíduo e a busca pela segurança, que só a aprovação social permite, mas cuja população de qualquer país é uma coleção de diásporas". Esta população não enfrenta apenas questões teóricas que afetam a vida dos outros, e sim realidades que afetam a vida de cada um e de suas famílias. Faz-se urgente lidar e enfrentar os dilemas e problemas contemporâneos, respaldados e conciliados pela Ética Cristã.
Para tanto, o propósito de refletir sobre esta temática é compreender como as crises econômica, ambiental e ética, reflexos de uma crise antropológica, caracterizam a era da Globalização e afetam a Ética Cristã numa sociedade fragmentada pelas contradições e ambivalências. Tal objetivo se desdobra em específicos: Analisar Ética Cristã como normas estabelecidas, fundamentadas nos princípios ensinados e exemplificados por Cristo e aplicadas na vida do cristão com o auxílio do Espírito Santo; Exemplificar os princípios que regulam a Ética Cristã como ciência normativa por meio da Bíblia (Antigo e Novo Testamento), buscando conciliá-los à vida do cristão e à sociedade onde está inserido; Avaliar o individualismo e demais mazelas que contaminam a sociedade e corroem as bases do coletivismo ferindo os princípios da Ética Cristã derivados da Fé Cristã e, pelos quais, o homem age com os outros e consigo mesmo; Refletir sobre a Ética Cristã na era da globalização.
Partindo do princípio de que estes objetivos visam conciliar a Globalização e Ética Cristã, adota-se como Metodologia a pesquisa bibliográfica, com a intenção de compreender, interpretar, analisar e refletir sobre o tratamento dado por diversos autores a este tema. O trabalho desenvolve-se numa abordagem qualitativa, descritiva, e exploratória, uma vez que a interpretação dos fenômenos e a atribuição de significados são básicas no processo de pesquisa qualitativa, que considera uma relação dinâmica entre o mundo objetivo e a subjetividade do sujeito que não pode ser traduzido em números. 
A abordagem visa descrever as características e consequências da globalização e oferece ferramentas eficazes para a interpretação das questões que envolvem a era globalizada e Ética Cristã, buscando entender, na perspectiva crítico-reflexiva, e por meio de revisão da literatura, o significado do processo da globalização e as possibilidades da sua conciliação à Ética Cristã (o processo e seu significado são os focos principais desta abordagem), bem como perceber a nova configuração da subjetividade religiosa presente neste tempo, que se manifesta no vazio existencial em que se encontra o ser humano. 
Dessa forma, além da busca e análise em textos bíblicos (Bíblia, 1990), a pesquisa e seleção dos autores são realizadas em base de dados eletrônicos na Biblioteca Virtual e em literatura específica. Assim, a pesquisa se volta para o estudo dos teóricos que abordam direta e indiretamente “Globalização e Ética Cristã” diante de um mundo econômico, tecnológico, científico, extremamente desigual e excludente. Além dos autores selecionados, maior ênfase é dada aos principais pressupostos teóricos: Bauman (1997, 1999, 2001, 2008, 2011); Beck (1999); Bittar (2007, 2009, 2013); Boff (1994, 2003, 2005, 2014); Concílio Vaticano II (1964); Dussel (2005, 2012); Honneth (2003); Kaizeler e Faustino (2008); Küng (2001, 2005); Lévinas (2008, 2010); Lima (2015). 
Estes pesquisadores, entre os quais teólogos, sociólogos, filósofos e professores, analisam essa questão tanto do ponto de vista filosófico e social como religioso e bíblico, contribuindo e mostrando, de forma clara e precisa, tentativas e alternativas para vencer cada um dos dilemas apresentados ao longo do texto. 
CAPÍTULO 1
GLOBALIZAÇÃO: CONCEITUAÇÕES, CARACTERÍSTICAS, PONTOS POSITIVOS E NEGATIVOS
O capítulo analisa, em grandes traços, conceitos, marcas e características da Globalização, vocábulo que deriva do substantivo latino globus, globo, e seus pontos positivos e negativos que fundamentam a idade contemporânea, fenômeno que é um instrumento metodológico de pesquisa e de compreensão da realidade social (PACE, 1997). 
Giddens (2000, p. 21) cita que “a globalização é política, tecnológica e cultural, tanto quanto econômica”. Entretanto, a perspectiva escolhida inclui, necessariamente, a identificação de condições e mudanças ocorridas na sociedade globalizada, multicultural e plurirreligiosa, em especial no sentido ético, e que permitem entender situações de incertezas e inquietações do ser humano em diferentes contextos, tendo em vista possibilidades da conciliação entre esta era globalizada e a Ética Cristã.
Vive-se na contemporaneidade, uma situação social onde se constata uma lacuna: a falta da dimensão ética na maioria das decisões políticas, culturais e sociais. Um vazio ético pode ser observado na vida das nações, empresas, instituições e partidos e que passou a ser organizada segundo padrões universais de eficácia, produtividade e lucro. O sistema de livre mercado não tem provocado a melhoria das condições sociais, uma vez que atua de forma seletiva, “escolhendo como, quando, e em que medida”, cada país será integrado ao processo de globalização econômica, resultando no empobrecimento da população no mundo.
A produção de mercadorias e a especulação financeira rompem os limites entre as nações, criando “zonas francas” de criação e acumulação de riquezas, e são nestes “lugares simbólicos” que os indivíduos experimentam a fragilidade de fronteiras, resultando no que Pace (1997, p. 28) denomina de “desenraizamento, com a subtração de território”, pois a globalização torna o mundo único, com ações interdependentes em escala global, e esta desterritorialização têm consequências e impactos globais. Assim, entende-se que o processo da globalização afeta as estruturas sociais, a organização do Estado, os padrões culturais e a vida dos indivíduos de modo desigual, não se tratando de um processo estritamente econômico, mas também um processo cultural, político e social (GIDDENS, 2008). 
Nesse contexto, Moreland e Craig (2005, p. 14) expõem que a contemporaneidade, caracterizada pela globalização, é “histórica”, pois é um tempo vivido, desenvolvido a partir da Renascença (século XVI e XVII) e do Iluminismo (século XVII a XIX); é “cronológica”, pois representa uma forma de relativismo cultural sobre a realidade, a verdade, a razão e o valor, entre outros aspectos; é uma “ideologia filosófica” caracterizada por mudanças substanciais no modo de pensar, de agir e de crer. Com cita Chauí (2008, p. 21) “os homens legitimam as condições sociais de exploração e dominação, fazendo com que pareçam verdadeiras e justas”.
1. 1 GLOBALIZAÇÃO: CONCEITOS E CARACTERÍSTICAS
Conceitua-se globalização como um processo social, econômico e cultural que estabelece uma integração entre os países e as pessoas do mundo todo. Através deste processo, as pessoas, os governos e as empresas trocam ideias, realizam transações financeiras e comerciais e espalham aspectos culturais pelos quatro cantos do planeta. É um processo múltiplo, que alcança as mais variadas dimensões da vida social e também se expressa nas circunstâncias da vida local (BAUMAN, 1999). 
Hobsbawm (1999, p. 92) afirma que a globalização é uma divisão mundial “cada vez mais elaborada