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2016 Pesquisa em serviço social Prof.ª Denise da Silva Vieira Prof.ª Luiza Maria Lorenzini Gerber Copyright © UNIASSELVI 2016 Elaboração: Prof.ª Denise da Silva Vieira Prof.ª Luiza Maria Lorenzini Gerber Revisão, Diagramação e Produção: Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri UNIASSELVI – Indaial. Impresso por: 361.3072081 V657p Vieira; Denise da Silva Pesquisa em serviço social/ Denise da Silva Vieira; Luiza Maria Lorenzini Gerber : UNIASSELVI, 2016. 237 p. : il. ISBN 978-85-7830-975-6 1. Serviço social – Pesquisa - Brasil. I. Centro Universitário Leonardo da Vinci III aPresentação Prezado acadêmico! Bem-vindo aos estudos de Pesquisa em Serviço Social! Ao pensarmos em pesquisa, em um primeiro momento relembramos dos velhos trabalhos escolares nos quais, na maioria das vezes, após uma leitura superficial, fazíamos cópias, agrupávamos ideias em um texto, organizávamos uma “capa” e tínhamos finalizada a “pesquisa”. Mas será que esse processo é pesquisar? Não, a pesquisa vai muito além de tudo isso. Através deste livro vamos estudar o significado da pesquisa e, em especial, da Pesquisa Social. Vamos rever conceitos e adentrar ao mundo da pesquisa acadêmica, que irá de agora em diante influenciar sua maneira de pensar e refletir significativamente na sua formação como assistente social, que você, caro acadêmico, planeja ser, uma vez que estuda Serviço Social. Neste sentido, observamos que no cotidiano da vida social, homens e mulheres organizam/sistematizam suas vidas sob a influência do que apreenderam no convívio familiar, social, comunitário e/ou religioso. As pessoas em diferentes espaços geográficos e sociais engendram processos para organizar suas vidas baseados nas vivências e no aprendizado formal. Assim, as diferentes gerações através de diferentes maneiras e/ou narrativas transmitiam seus saberes, seus conhecimentos. Esses saberes, esses conhecimentos nos cercam e refletem na nossa organização doméstica, nas maneiras de executar determinado trabalho, nos hábitos cotidianos, no estilo de vida, no paladar, no senso estético, nas questões religiosas, entre outros aspectos. E por que isso ocorre? Não somos detentores do conhecimento por nascença, pelo contrário, adquirimos experiência conforme ocorre nosso crescimento, seja de maneira etária, a partir dos avanços da idade, ou como indivíduo que vive em sociedade. Antes de irmos, por conta própria ou porque o cotidiano nos direciona, em busca de novos saberes, fica em evidência o conhecimento denominado popular. IV Desde os primórdios os conhecimentos acumulados e repassados de geração em geração têm grande influência nos moldes da humanidade. São os valores que tanto você, acadêmico, quanto os povos do outro lado do mundo adquirem por meio de narrativas dos antepassados, hábitos, costumes culturais e religiosos etc. Porém, não é somente pelas experiências de gerações que se constrói e evolui uma sociedade. Apesar de esse modelo de repasse de conhecimento ainda existir e ter predominado durante muito tempo, houve um momento histórico, durante a evolução da humanidade, em que surgiram novas formas de aprender, experimentar e comprovar. Foi quando avançou o conhecimento sistematizado através de um treinamento específico, racional, no qual os fenômenos observados começaram a ser explicados em seus “porquês” e “como” ocorriam. Iniciou-se, então, uma tentativa de evidenciar fatos/fenômenos correlacionados a uma visão mais ampliada do mundo, mais global, isto é, o fenômeno sendo visto por diferentes ângulos e “olhares”. Essa diferença nos “olhares” para com os fenômenos é que fez a humanidade transpor do conhecimento popular para o conhecimento científico. Ou seja, trocou-se o conhecimento “comprovado” apenas por crendices para o conhecimento experimentado e colocado à prova de existência. Hoje, é na pesquisa que a percepção e a acuidade desses “olhares” mais avançados encontram âncoras. São os novos saberes, para a construção do conhecimento, que direcionam a vivência e a inteligência humana e tecnológica. Dito isso, prezado estudante, iremos neste livro adentrar ao mundo da Pesquisa Social para que, conhecendo-a, você tenha habilidades técnicas, éticas e políticas para exercitá-la na sua formação acadêmica e, principalmente, na sua atuação futuro como assistente social. Bons estudos! Prof.ª Denise da Silva Vieira Prof.ª Luiza Maria Lorenzini Gerber APRESENTAÇÃO DAS AUTORAS Denise da Silva Vieira é assistente social (CRESS n° 3780 12° Região/ SC), graduada pela Universidade Regional de Blumenau (FURB), especialista em Gestão da Política de Assistência Social pela Faculdade SPEI/PR, atua junto à Política de Assistência Social no município de Blumenau/SC, é docente (interna) do curso de Serviço Social da UNIASSELVI desde 2012. V Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfim, tanto para você que está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é veterano, há novidades em nosso material. Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é o material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura. O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova diagramação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo. Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto de nossas ações sobre o ambiente, apresenta também este livro no formato digital. Assim, você, acadêmico, tem a possibilidade de estudá-lo com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador. Eu mesmo, UNI, ganhei um novo layout, você me verá frequentemente e surgirei para apresentar dicas de vídeos e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto em questão. Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa continuar seus estudos com um material de qualidade. Aproveito o momento para convidá-lo para um bate-papo sobre o Exame Nacional de Desempenho de Estudantes – ENADE. Bons estudos! Luiza Maria Lorenzini Gerber é assistente social (CRESS nº 0968 12 R/SC), graduada pela Universidade Federal de Santa Catarina (USFC), tem especialização em Serviço Social no Trabalho pela mesma universidade e em Administração Pública pela Universidade para o Desenvolvimento do Estado de Santa Catarina (UDESC); é mestre em Serviço Social pela UFSC, atuou profissionalmente junto à Previdência Social e Saúde, é tutora externa de Serviço Social do Polo MBS – UNIASSELVI de Florianópolis/ SC desde 2010. NOTA VI VII UNIDADE 1 – A PESQUISA E SUAS PARTICULARIDADES ...................................................... 1 TÓPICO 1 – O CONHECIMENTO DA REALIDADE E A CIÊNCIA ........................................... 3 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 3 2 O CONHECIMENTO – CONCEITOS .............................................................................................. 4 3 OS DIFERENTES CAMINHOS PARA A PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO CIENTÍFICO ......................................................................................................................................... 8 LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................... 10 4 A CIÊNCIA – CONCEITOS, PARTICULARIDADES E LIMITES.............................................. 13 5 A CIÊNCIA COMO ÂNCORA PARA A CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO ...............15 RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................ 18 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 19 TÓPICO 2 – A PESQUISA: CONCEITOS E FINALIDADES ......................................................... 21 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 21 2 CONCEITOS .......................................................................................................................................... 21 LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................... 25 3 FINALIDADES DA PESQUISA ........................................................................................................ 26 4 CLASSIFICAÇÃO DA PESQUISA ................................................................................................... 29 5 O SERVIÇO SOCIAL: DE UM PROCESSO DE TRABALHO INTERVENTIVO PARA UM PROCESSO DE PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO ATRAVÉS DA PESQUISA SOCIAL ................................................................................................................................................... 41 RESUMO DO TÓPICO 2........................................................................................................................ 44 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 45 TÓPICO 3 – MÉTODOS NAS CIÊNCIAS SOCIAIS ....................................................................... 47 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 47 2 AS CIÊNCIAS SOCIAIS ...................................................................................................................... 48 3 O MÉTODO CIENTÍFICO NAS CIÊNCIAS SOCIAIS – CONCEITOS ................................... 48 4 MÉTODO INDUTIVO ........................................................................................................................ 50 5 MÉTODO DEDUTIVO ........................................................................................................................ 51 6 MÉTODO HIPOTÉTICO-DEDUTIVO ............................................................................................ 53 7 MÉTODO DIALÉTICO ....................................................................................................................... 54 7.1 AS LEIS DA DIALÉTICA ................................................................................................................ 55 8 MÉTODO FENOMENOLÓGICO .................................................................................................... 56 9 O MÉTODO DE MARX – A TEORIA, MÉTODO E PESQUISA ................................................ 57 10 O MÉTODO E OS MÉTODOS ........................................................................................................ 62 10.1 MÉTODO HISTÓRICO ................................................................................................................. 64 10.2 MÉTODO COMPARATIVO ......................................................................................................... 65 10.3 MÉTODO MONOGRÁFICO ........................................................................................................ 66 10.4 MÉTODO ESTATÍSTICO .............................................................................................................. 67 10.5 MÉTODO TIPOLÓGICO .............................................................................................................. 67 10.6 MÉTODO FUNCIONALISTA ...................................................................................................... 68 sumário VIII 10.7 MÉTODO ESTRUTURALISTA .................................................................................................... 69 10.8 MÉTODO ETNOGRÁFICO .......................................................................................................... 70 10.9 MÉTODO CLÍNICO ...................................................................................................................... 71 RESUMO DO TÓPICO 3........................................................................................................................ 72 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 75 TÓPICO 4 – A PESQUISA SOCIAL ..................................................................................................... 77 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 77 2 CONCEITOS E FINALIDADES ........................................................................................................ 77 3 O PESQUISADOR, SEU PAPEL E LIMITES ÉTICOS .................................................................. 83 4 AS ETAPAS METODOLÓGICAS DA PESQUISA SOCIAL ....................................................... 88 LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................... 92 RESUMO DO TÓPICO 4........................................................................................................................ 95 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 97 UNIDADE 2 – SUBSÍDIOS DA PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL ........................................... 99 TÓPICO 1 – PESQUISA E PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO NO SERVIÇO SOCIAL .............................................................................................................................101 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................101 2 RESGATE HISTÓRICO DO SERVIÇO SOCIAL E A RELAÇÃO COM A PESQUISA .......102 2.1 DÉCADA DE 1980 .........................................................................................................................102 2.2 DÉCADA DE 1990 .........................................................................................................................103 3 RELEVÂNCIA DA PESQUISA NO SERVIÇO SOCIAL ............................................................106 4 CARACTERÍSTICAS DA PESQUISA PARA O SERVIÇO SOCIAL .......................................108 5 RETORNO DAS PESQUISAS PARA O SERVIÇO SOCIAL .....................................................109 RESUMO DO TÓPICO 1......................................................................................................................113 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................114 TÓPICO 2 – PESQUISA SOCIAL E ÉTICA PROFISSIONAL ......................................................115 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................115 2 CONCEITOS DE ÉTICA ...................................................................................................................116 3 ÉTICA E O SABER – BIOÉTICA .....................................................................................................118 4 ÉTICA NA PESQUISA E O SERVIÇO SOCIAL ...........................................................................119 5 CENTRALIDADE DOS SUJEITOS NAS PESQUISAS EM SERVIÇO SOCIAL ...................122 RESUMO DO TÓPICO 2......................................................................................................................126AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................127 TÓPICO 3 – ATRIBUIÇÃO E COMPETÊNCIA DO ASSISTENTE SOCIAL PESQUISADOR ..............................................................................................................129 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................129 2 BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE O ATO DE PESQUISAR ...............................................129 3 TORNANDO-SE UM PESQUISADOR ..........................................................................................131 4 COMPETÊNCIA NO ATO DE PESQUISAR .................................................................................132 5 PESQUISAS: QUALITATIVA E QUANTITATIVA ......................................................................134 5.1 PESQUISA QUALITATIVA ..........................................................................................................135 5.2 PESQUISA QUANTITATIVA .......................................................................................................137 RESUMO DO TÓPICO 3......................................................................................................................141 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................142 IX TÓPICO 4 – ELEMENTOS DE UM PROJETO DE PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL ........143 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................143 2 O PROJETO DE PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL .................................................................144 3 CARACTERÍSTICAS DO PROJETO DE PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL ......................148 4 COLETA DE DADOS DA PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL ................................................151 5 RESULTADOS DA PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL ............................................................155 5.1 ANALISANDO OS DADOS .........................................................................................................155 5.2 ELABORANDO O RELATÓRIO DE PESQUISA NO SERVIÇO SOCIAL ............................157 LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................160 RESUMO DO TÓPICO 4......................................................................................................................163 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................164 UNIDADE 3 – RELATÓRIO DE PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL: PLANEJAMENTO, EXECUÇÃO E RESULTADOS .................................................................................165 TÓPICO 1 – RETOMANDO OS DADOS DE UM PROJETO DE PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL .........................................................................................................167 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................167 2 ELABORAÇÃO DE UM PROJETO DE PESQUISA ....................................................................167 3 O QUE É O PROBLEMA DE PESQUISA, JUSTIFICATIVA E HIPÓTESES ..........................170 3.1 PROBLEMA DE PESQUISA .........................................................................................................171 3.2 JUSTIFICATIVA DA PESQUISA .................................................................................................173 3.3 CONSTRUÇÃO DE HIPÓTESES ...............................................................................................174 4 METODOLOGIA E CRONOGRAMA DA PESQUISA SOCIAL .............................................177 4.1 METODOLOGIA ...........................................................................................................................177 4.2 CRONOGRAMA DE PESQUISA SOCIAL ................................................................................179 5 RECURSOS E REFERÊNCIAS DE PESQUISA SOCIAL ............................................................180 5.1 RECURSOS .....................................................................................................................................180 5.2 REFERÊNCIAS DE PESQUISA SOCIAL....................................................................................182 RESUMO DO TÓPICO 1......................................................................................................................187 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................188 TÓPICO 2 – AMOSTRAGEM NA PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL ....................................189 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................189 2 PRINCÍPIOS E FUNDAMENTOS DA AMOSTRAGEM ...........................................................189 3 TIPOS DE AMOSTRAGEM .............................................................................................................190 4 AMOSTRAS PROBABILÍSTICAS ..................................................................................................191 5 AMOSTRAS NÃO PROBABILÍSTICAS .......................................................................................193 RESUMO DO TÓPICO 2......................................................................................................................196 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................197 TÓPICO 3 – TRABALHO DE CAMPO: INSTRUMENTOS DE COLETA DE DADOS..........199 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................199 2 DEFINIÇÃO DOS INSTRUMENTOS DE COLETA DE DADOS ............................................199 3 INSTRUMENTOS: A ENTREVISTA ..............................................................................................200 4 A OBSERVAÇÃO ................................................................................................................................203 5 O QUESTIONÁRIO ...........................................................................................................................206 RESUMO DO TÓPICO 3......................................................................................................................211 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................212 X TÓPICO 4 – ANÁLISE DOS DADOS E ELABORAÇÃO DO RELATÓRIO ............................213 DE PESQUISA ........................................................................................................................................213 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................213 2 DEFININDO ANÁLISE DOS DADOS ..........................................................................................213 3 INTERPRETAÇÃO DOS DADOS COLETADOS ........................................................................214 4 ANÁLISE ESTATÍSTICA DE DADOS ...........................................................................................217 5 REDIGINDO O RELATÓRIO DE PESQUISAS ...........................................................................219 LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................224 RESUMO DO TÓPICO 4......................................................................................................................229AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................230 REFERÊNCIAS .......................................................................................................................................231 1 UNIDADE 1 A PESQUISA E SUAS PARTICULARIDADES OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir desta unidade, você será capaz de: • compreender o conceito de ciência; • relacionar os conceitos de ciência, conhecimento e saber; • compreender a importância da pesquisa no meio acadêmico; • estudar e analisar os diferentes métodos de pesquisas utilizados nas ciências sociais; • conhecer os conceitos e a classificação da pesquisa social relacionando sua importância para o Serviço Social. A Unidade 1 está dividida em quatro tópicos e, ao final de cada um deles, você realizará atividades para fixar seus conhecimentos. TÓPICO 1 – O CONHECIMENTO DA REALIDADE E A CIÊNCIA TÓPICO 2 – A PESQUISA: CONCEITOS E FINALIDADES TÓPICO 3 – MÉTODOS NAS CIÊNCIAS SOCIAIS TÓPICO 4 – A PESQUISA SOCIAL 2 3 TÓPICO 1 UNIDADE 1 O CONHECIMENTO DA REALIDADE E A CIÊNCIA 1 INTRODUÇÃO Neste tópico iremos estudar o conhecimento, como este foi sendo sistematizado pela humanidade no decorrer dos tempos através da capacidade humana de pensar. Esta complexa ação, associada aos sentidos humanos (audição, olfato, visão, tato e paladar) proporciona aos humanos a inquietude que não conforma; que os leva a buscar soluções para os fenômenos que vivenciam e que num primeiro momento não têm respostas. De maneira exata não se pode afirmar onde se iniciou a produção do conhecimento e qual foi a primeira pessoa a significá-lo, contudo a tradição do Ocidente marca a Grécia como o locus deste primeiro momento. Ao longo da história grega, pensadores se destacaram, deixando seu legado para a humanidade: • Sócrates (470 a 399 a.C.); • Platão (427 a 347 a.C.); • Aristóteles (384 a 322 a.C.). NOTA Esses três filósofos foram os inauguradores da filosofia ocidental, como a que concebemos ainda hoje em muitos aspectos. O período em que Sócrates, Platão e Aristóteles despontaram é considerado como o período áureo da Filosofia, dada a imensa contribuição deles para o avanço do pensamento filosófico. UNIDADE 1 | A PESQUISA E SUAS PARTICULARIDADES 4 Antes de se falar de Sócrates, Platão e Aristóteles, é imprescindível, também, abordar sobre os sofistas, que foram pensadores contemporâneos a Sócrates e, juntamente com ele, foram os primeiros a falar sobre as questões morais dentro do âmbito filosófico. Os sofistas eram pensadores que realizavam viagens de cidade em cidade e, através de discursos públicos, atraíam jovens discípulos, os quais pagavam taxas por essa educação recebida. Apesar de serem pessoas muito refutadas por outros filósofos, como Aristóteles, por exemplo, os sofistas exerceram um grande papel para a evolução histórica da Filosofia. As obras de Sócrates, Platão e Aristóteles serviram de base para toda a Filosofia na Idade Média, Renascentista, Idade Moderna e Contemporânea. Grandes filósofos, de várias épocas da história, têm suas bases nesses três pais da filosofia ocidental. Homens como Gregório, Tertuliano Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, no período entre a Filosofia Medieval e início da Renascença. Outros como os iluministas Rousseau, Diderot, Voltaire e Descartes e alguns mais recentes como Auguste Comte, Immanuel Kant, David Hume, Friedrich Nietzsche, Michel Foucault etc. FONTE: Disponível em: <http://origem-da-filosofia.info/socrates-platao-e-aristoteles.html>. Acesso em: 22 dez. 2015. 2 O CONHECIMENTO – CONCEITOS A palavra conhecimento tem vários significados. De acordo com o Dicionário Aurélio Online (2015), pode ser: 1 Ato ou efeito de conhecer. 2 Noção. 3 Notícia, informação. 4 Experiência. 5 Ideia. 6 Relações entre pessoas não íntimas. 7 Trato. 8 Recibo de contribuição paga. 9 Escrito representativo da fazenda recebida a bordo de um navio. 10 Ter perfeito conhecimento de si próprio, dos próprios méritos, do caráter próprio. TÓPICO 1 | O CONHECIMENTO DA REALIDADE E A CIÊNCIA 5 11 Instrução, saber. 12 Pessoas das nossas relações. 13 Conhecimento de causa: competência ou sabedoria em relação a um assunto ou a um fato. Para Costa (2001, p. 2), “conhecer é apropriar-se mentalmente de algo”, o conhecer está ligado à memória, quando a ativamos, as imagens mentais de algo vêm à tona. Então, novas ideias, novos conceitos ativam nosso sistema mental e nos fazem “apropriar” este novo conceito, o que nos leva ao conhecimento. Costa (2001) também se refere ao repertório que é a acumulação de informações e experiências vividas por uma pessoa no decorrer de sua vida. O autor se refere ao arsenal no qual a pessoa orienta-se quando percebe ou se depara com algo novo e se dá conta de que “não tem repertório” para tal, isto é, não viveu e/ou apreendeu tal fenômeno. Passa então a interrogar-se em busca de solução. O repertório é individual, cada ser tem diferentes modos, maneiras de sentir e viver experiências. Assim, “conhecer é mais do que ter na memória um conjunto de informações: é conseguir fazer com que essas informações se transformem em prática e sejam úteis sob a perspectiva pessoal, profissional, social ou política” (COSTA, 2001, p. 4). Importante sinalizar que o ser humano não é passivo ao receber toda esta gama de informações, ele é racional e, neste sentido, infere sobre a informação sua reflexão crítica acerca do fenômeno novo com o qual se depara. Isto quer dizer que “o processo de aquisição (produção) de conhecimento não é passivo (“bancário” – como diria Paulo Freire), ele é produto de reflexão crítica sobre os incontáveis itens que compõem a natureza, bem como sobre as inúmeras relações que se estabelecem entre esses itens” (COSTA, 2001, p. 4). No Serviço Social, Aglair Alencar Setúbal, em sua obra Pesquisa em Serviço Social – Utopia e realidade (2013), também reflete sobre o conhecimento e a ação humana sobre a natureza, ação que transforma e está em contínuo movimento. Ao considerarmos o conhecimento como forma de se expressar do homem no decorrer da sua história, vemos que, desde os primórdios da humanidade, ele foi sendo construído na relação entre os homens e destes com os objetos da natureza. O conhecimento foi se desenvolvendo à medida que as próprias ações humanas expandiam- se em decorrência do surgimento e crescimento das necessidades estimuladas pelas experiências sociais, muitas das quais impostas pelos sistemas de produção determinantes das relações sociais de cada época. É certo que as condições e formas pelas quais o conhecimento foi e é elaborado, e as finalidades para as quais se destina, variam, dando origem às especulações filosóficas e teóricas que distam desde a Grécia antiga (século VI – I a.C) [...] Esses diferentes entendimentos UNIDADE 1 | A PESQUISA E SUAS PARTICULARIDADES 6 fazem-nos perceber que a ação do homem não é apenas determinada biologicamente, pois concomitante a ela surgem outras variantes que lhe são incorporadas, de acordo com as suas experiências e conhecimentos acumulados (SETÚBAL, 2013, p. 30). Neste sentido, pode-se afirmar com base em Costa (2001), Setúbal (2013) e na definição do Dicionário Aurélio Online (2015), que o processo de conhecimento é uma ação transformadora, muda a natureza porque transforma o ser que a vivencia, uma vez que o mesmo se torna produtor de conhecimento, ou seja, se transforma em agente com “competência ou sabedoria em relação a um assunto ou a um fato”. Para fins metodológicos, Trujillo (1974 apud LAKATOS, MARCONI, 2009, p. 77) elencam os quatro tipos de conhecimento com base nos estudos deste autor: “Conhecimento Popular, Conhecimento Filosófico, Conhecimento Religioso (Teológico) e Conhecimento Científico”. O Conhecimento Popular é também denominado de senso comum, se caracteriza por ser não sistemático, é passado degeração em geração sem comprovação científica; difere do conhecimento científico pela forma como determinado fenômeno é observado. É valorativo porque o sujeito que o detém está imbuído de valores, do que ele pensa sobre determinado fenômeno, como o apreendeu e o conheceu. Igualmente, este conhecimento não pode ser tomado como uma formulação geral, é assistemático, isto quer dizer que o sujeito tem experiências pessoais sobre o fenômeno que não são sistematizadas como regra geral; é verificável porque se limita à vida cotidiana e se relaciona ao que se percebe no dia a dia (LAKATOS; MARCONI, 2009). Ainda de acordo com Lakatos e Marconi, é falível e inexato, “pois se conforma com a aparência e com o que se ouviu dizer a respeito do objeto. Em outras palavras, não permite a formulação de hipóteses sobre a existência de fenômenos situados além das percepções objetivas” (2009, p. 78). Por outro lado, o Conhecimento Filosófico “se relaciona ao saber e ao amor à Filosofia” (COSTA, 2001, p. 8). A palavra Filosofia, em sua classificação etimológica, se refere ao “amor à sabedoria”; é um conhecimento também caracterizado como valorativo, porque emerge da experiência e não da experimentação (TRUJILLO, 1974 apud LAKATOS; MARCONI, 2009). Não é verificável, pois hipóteses e/ou enunciados filosóficos não são verificáveis, não podem ser confirmados e nem refutados. Apresenta a característica de racional, pois a Filosofia trabalha com enunciados que são logicamente correlacionados; é dito como sistemático porque suas “hipóteses e enunciados visam uma representação coerente da realidade estudada, numa tentativa de apreendê-la em sua totalidade” (LAKATOS; MARCONI, 2009, p. 78). TÓPICO 1 | O CONHECIMENTO DA REALIDADE E A CIÊNCIA 7 As mesmas autoras também caracterizam o conhecimento filosófico como infalível e exato, “já que, seja na busca da realidade capaz de abranger todas as outras, seja na definição do instrumento capaz de apreender a realidade, seus postulados, assim como suas hipóteses, não é submetido ao decisivo teste da observação (experimentação)”. (LAKATOS; MARCONI, 2009, p. 78). Quanto ao Conhecimento Religioso (Teológico), este ancora-se na fé, em doutrinas, em proposições sagradas e que são valorativas; são determinadas pelo sobrenatural, pela inspiração. São verdades que são consideradas infalíveis e indiscutíveis, pois é a fé que as determina. É um conhecimento que parte do princípio de que as “verdades” são infalíveis e indiscutíveis porque são “revelações” de divindades (sobrenaturais). Se por um lado a ciência busca através de experimentos e pesquisas comprovar fenômenos, a fé é uma ação de crença em algo divino e que por isto não se colocam dúvidas sobre seus postulados. Neste conhecimento, a pessoa fiel acredita e por isto não procura evidências/provas do fenômeno, ela as interpreta como revelação divina e como tal não emergem dúvidas. O Conhecimento Científico é produzido pelo homem, com base na realidade, sendo testável, determinado pelas regras científicas de pesquisa (ciência). Assim, a ciência, que é base para este conhecimento, tem sua origem na palavra “scire, saber, conhecer, é uma forma especial, diferenciada de conhecimento. Caracteriza-se por buscar saídas inteligentes a problemas para cuja solução não exista repertório disponível e de tal modo que fique evidente a relação de causa e efeito existente entre os elementos envolvidos no problema” (COSTA, 2001, p. 11). O conhecimento científico é real (factual), atua com fatos/fenômenos; as proposições ou hipóteses podem ser testadas para verificação se são verdadeiras ou falsas através da experiência e não somente através da razão, tal como ocorre com o conhecimento filosófico. É um saber ordenado (sistemático), integra um sistema de ideias (teoria), as mesmas não estão dispersas/desconexas; tem como uma principal característica a verificabilidade, isto é, suas hipóteses que não podem ser verificadas não são consideradas como ciência (LAKATOS; MARCONI, 2009). É falível porque não pode ser avaliado como definitivo, final ou absoluto; segundo as autoras supracitadas, pode-se afirmar que o conhecimento científico é “aproximadamente exato: novas proposições e o desenvolvimento de técnicas podem reformular o acervo de teoria existente” (LAKATOS; MARCONI, 2009, p. 80). UNIDADE 1 | A PESQUISA E SUAS PARTICULARIDADES 8 Ainda observam as autoras que, mesmo com a separação metodológica entre os tipos de conhecimento (popular, filosófico, religioso e científico), é possível que um sujeito transite entre eles; o ser humano, ao ser estudado, pode ser avaliado e ser alvo de uma série de conclusões sobre sua vida em sociedade, “baseada no senso comum ou na experiência cotidiana; pode-se analisá-lo como um ser biológico, verificando através de investigação experimental as relações existentes entre determinados órgãos e suas funções; pode-se observá-lo como um ser criado pela divindade, à sua imagem e semelhança, e meditar sobre o que dele dizem os textos sagrados” (LAKATOS; MARCONI, 2009, p. 80). Ainda sob a mesma análise, refletem as autoras que uma mesma pessoa pode utilizar-se de todas as quatro formas de conhecimento. Exemplificam: “[...] um cientista, voltado, por exemplo, ao estudo da física, pode ser crente praticante de determinada religião, estar filiado a um sistema filosófico e, em muitos aspectos de sua vida cotidiana, agir segundo conhecimentos provenientes do senso comum”. (LAKATOS; MARCONI, 2009, p. 80). O que ressaltamos, caro(a) acadêmico(a), é que cada tipo de conhecimento tem características e especificidades distintas, contudo, em se tratando de pesquisa, o conhecimento científico é o determinante, pois sua metodologia é a que permite a ciência avançar. A partir de hipóteses, dúvidas, indagações sistematizadas através de um método escolhido pelo pesquisador é possível demonstrar, verificar, analisar, interpretar, explicar e prever uma determinada realidade e/ou fenômeno e assim poder propor, alterar, complementar ou refutar conceitos (pré)estabelecidos ou (pré)determinados anteriormente. Diante do que estudamos até o momento, descreva a diferença entre o conhecimento teológico (religioso) e o conhecimento científico. AUTOATIVIDADE 3 OS DIFERENTES CAMINHOS PARA A PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO CIENTÍFICO Como já estudado, caro acadêmico, verificamos que o conhecimento científico é metodológico e permite que a ciência evolua, avance, faz com que a humanidade aumente seu saber. Mas o que é saber? O saber está relacionado ao conhecimento. Segundo Mbarga e Fleury (2015, p. 90), saber é: “conhecer, compreender, ler ou ver, sentir, avaliar, reconhecer, considerar, analisar, praticar ou dominar”. TÓPICO 1 | O CONHECIMENTO DA REALIDADE E A CIÊNCIA 9 No aspecto da teoria, os mesmos autores Mbarga e Fleury (2015, p. 90) referem que “conhecer um tema, fato ou fenômeno significa que você pode descrevê-lo visual e virtualmente, explicar como ele interage com outros objetos ao seu redor e dizer como ele influencia seu ambiente e é influenciado por ele”. A produção do conhecimento científico se efetiva a partir do exercício da curiosidade, da observação, da coleta de informações através da razão; isto levará o ser a identificar, distinguir e descrever uma determinada realidade na sua forma mais verdadeira produzindo ciência. A raiz da palavra “racionalidade” (do latim ratio) significa “cálculo”. Razão não é o mesmo que intuição, sensação, reação espontânea, emoção ou crença. A razão começa com o senso comum e se desenvolve por meio da habilidade de contar, medir, ordenar, organizar, classificar, explicar e argumentar. O discurso racional, então, é aquele que é coerente, ponderado e construído numa espécie de “cálculo” lógico, o que é bem diferente de uma opinião pessoal. Este tipo de discurso deve ser universalmente verdadeiro. A irracionalidade, porém, se recusa a estar submetida à razão. Um indivíduo irracional não seguea lógica e age segundo propósitos desordenados. Suas decisões são frequentemente incoerentes. O mundo irracional pode ser relacionado também ao mundo desconhecido, da superstição, do misticismo e do inacessível, incluindo o que acontece contra a razão. (MBARGA; FLEURY, 2015, p. 91). Assim, o uso do saber, do conhecimento científico sistematizado com um método específico levará o ser humano que é dotado de razão a “fazer ciência”. A ciência é um conhecimento sistemático, tal como a arte, contudo ambas diferem entre si. Na arte, o conhecimento é sistematizado com base “nas preferências individuais, critérios de beleza ou, se você preferir, estética e emoções” (MBARGA; FLEURY, 2015, p. 91). A sistematização está vinculada “ao esforço de produzir uma descrição verdadeira da natureza. Aqui, sistematizar significa aprofundar, pesar, medir, cronometrar, argumentar, racionalizar e construir logicamente, rejeitando o subjetivismo, deixando de lado as preferências pessoais e mantendo o sujeito fora de questão” (MBARGA; FLEURY, 2015, p. 91). As teorias são elaboradas, construídas, escritas, mas também podem ser demonstradas de forma prática em um experimento laboratorial, por exemplo, onde o fenômeno é observado e estabelecidas suas causas e efeitos. A ciência moderna se contrapõe à ciência antiga quando o estudioso deixa de lado seus valores pessoais para questionar o “porquê” das coisas e ir em busca de respostas; a ciência antiga era fortemente atrelada ao místico, à religião que usava da autoridade teológica para combater argumentos e questionamentos. No texto a seguir, você, acadêmico, poderá observar através da biografia de Galileu Galilei este atrelamento da ciência antiga à religião. UNIDADE 1 | A PESQUISA E SUAS PARTICULARIDADES 10 GALILEU GALILEI – UMA PEQUENA BIOGRAFIA LEITURA COMPLEMENTAR Galileu Galilei foi um dos grandes cientistas da História, tendo dado grandes contributos, nomeadamente nos campos da astronomia e da física. Suas descobertas foram verdadeiramente notáveis, tendo revolucionado a forma de se fazer ciência. Foi o primeiro a utilizar o telescópio para observações astronômicas, foi um defensor do sistema heliocêntrico, entre muitas outras contribuições. A importância de Galileu para a ciência é tal que é considerado como o pai da ciência moderna. Vamos ver uma pequena biografia de Galileu Galilei, onde são apresentados alguns dos aspetos principais de sua vida e obra. Galileu Galilei (em italiano, Galileo Galilei) nasceu em Pisa (Itália) a 15 de fevereiro de 1564. Foi o filho mais velho do músico Vincenzo Galilei e de Giulia Ammannati. Galileu viveu em Florença entre 1574 e 1581, tendo depois ingressado na Universidade de Pisa para estudar medicina. Algum tempo depois abandona os estudos de medicina para se dedicar ao estudo da matemática. Nessa mesma Universidade de Pisa, em 1589 Galileu torna-se professor de matemática. Em 1592 assume a cátedra de matemática na Universidade de Pádua, onde passou os 18 anos seguintes. Em 1609, Galileu Galilei ouviu falar de um novo instrumento que consistia em um tubo com duas lentes e que permitia ver os objetos como se eles estivessem mais próximos. Com base nessa informação, Galileu criou ele próprio o seu telescópio. Não é verdade que tenha sido ele o inventor do telescópio, mas ele terá sido o primeiro a utilizá-lo para observações astronômicas e o primeiro a publicar um livro com os resultados dessas observações. A questão de quem foi o inventor do telescópio é bastante discutível, sendo normalmente atribuído ao holandês Hans Lippershey, que em 1608 pediu a patente deste instrumento óptico. Porém é provável que também não tenha sido este holandês o inventor. Existem vários outros que são considerados como potenciais inventores do telescópio. Galileu Galilei então criou seu próprio telescópio e posteriormente o aperfeiçoou. Apesar dos telescópios que ele possuía serem bastante rudimentares TÓPICO 1 | O CONHECIMENTO DA REALIDADE E A CIÊNCIA 11 e limitados, mesmo comparados com os mais simples telescópios amadores do dia de hoje, as descobertas que Galileu fez com o telescópio foram espantosas para a época. Galileu Galilei começou as suas observações em 1609, e logo em março de 1610 ele publica o resultado das suas observações na sua obra Sidereus Nuncius (Mensageiro das Estrelas). Essa obra de poucas páginas viria a ser uma das mais importantes da História da ciência. Nela, Galileu apresenta a superfície da Lua como sendo irregular, com montes e crateras; apresenta a descoberta dos quatro satélites de Júpiter, a que ele chamou de “estrelas de Médicis”; apresenta ainda a descoberta de que a Via Láctea é na realidade constituída por um enorme número de estrelas que não podem ser distinguidas a olho nu. Depois da publicação do Sidereus Nuncius, outras descobertas foram realizadas por Galileu Galilei, nomeadamente a descoberta das fases do planeta Vênus e a descoberta das manchas solares. As suas descobertas apoiavam o modelo cosmológico do heliocentrismo. O sistema heliocêntrico é aquele em que a Terra orbita em volta do Sol, e não o contrário, como se pensava naquela época. Galileu foi um forte defensor do sistema heliocêntrico, sistema esse já anteriormente defendido pelo astrônomo polaco Nicolau Copérnico. Até então o modelo cosmológico aceito na época era o geocentrismo, ou seja, a Terra está no centro do universo. Tanto o Sol como a Lua, os planetas e até as estrelas orbitam em torno da Terra. Galileu Galilei apresentou várias evidências que apoiavam o heliocentrismo. Mais tarde a defesa do heliocentrismo viria a causar problemas entre Galileu e a Igreja Católica. Em 1616, a Inquisição pronunciou-se contra a ideia de que o Sol é o centro do universo, considerando a teoria heliocêntrica como herética. Em consequência, foi proibido de falar do heliocentrismo como realidade física, mas apesar disso era permitido referir- se a este sistema como hipótese matemática. Galileu foi convocado a Roma, onde pôde expor os seus argumentos. A conclusão do Tribunal do Santo Ofício era de que não existiam provas suficientes para concluir que a Terra se movia em volta do Sol, tendo admoestado Galileu a abandonar a defesa da teoria heliocêntrica. Em 1623 entra em função o Papa Urbano VIII, amigo de Galileu e uma pessoa mais aberta a novas ideias científicas. Apesar da abertura deste novo papa, este rejeitou o pedido de Galileu de revogar o decreto de 1616 que proibia a defesa do heliocentrismo. Apesar disso, Urbano VIII encorajou Galileu a prosseguir com seus estudos sobre o heliocentrismo, porém apenas como uma hipótese matemática e não como uma realidade física. Mais tarde Galileu escreveu a sua obra “Dialogo di Galileo Galilei sopra i due Massimi Sistemi del Mondo Tolemaico e Copernicano”, por vezes referido de forma mais abreviada como “Dialogo sopra i due massimi sistemi del mondo” (Diálogo sobre os dois principais sistemas do mundo, em português), obra essa publicada em 1632 e que defendia o heliocentrismo. Em consequência, Galileu foi julgado e condenado à prisão e a abjurar as suas ideias. Passou seus últimos anos de vida em prisão domiciliária. Apesar disso, Galileu Galilei sempre se apresentou como cristão, defendendo a veracidade das Sagradas Escrituras. Galileu aceitava a Bíblia como UNIDADE 1 | A PESQUISA E SUAS PARTICULARIDADES 12 verdadeira, ele apenas estava em desacordo quanto à interpretação da Bíblia que a Igreja Católica fazia naquela época. Para a Igreja daquela época, o heliocentrismo estava em desacordo com a Bíblia. Galileu, que acreditava na Bíblia, não estava de acordo com essa interpretação da Igreja. Em 1638, estando Galileu cego, publicou a sua importante obra “Discorsi e Dimostrazioni Matematiche Intorno a Due Nuove Scienze” (em português, Discursos e demonstrações matemáticas sobre duas novas ciências). Para além das descobertas através do telescópio e da defesa do heliocentrismo, a obra de GalileuGalilei não fica por aqui: ele desenvolveu estudos sistemáticos sobre o movimento uniformemente acelerado e do movimento do pêndulo; descobriu a lei dos corpos em queda; enunciou o princípio da inércia, bem como o conceito de referencial inercial; inventou a balança hidrostática; inventou um tipo de compasso geométrico; inventou um termômetro que leva o seu nome, termômetro de Galileu. Galileu Galilei faleceu em Florença em 8 de janeiro de 1642. FIGURA 1 – SIDEREUS NUNCIUS – CAPA DO LIVRO PUBLICADO EM 1610 FONTE: Disponível em: <http://www.siteastronomia.com/galileu-galilei-uma-pequena- biografia>. Acesso em: 21 dez. 2015. TÓPICO 1 | O CONHECIMENTO DA REALIDADE E A CIÊNCIA 13 Prezado acadêmico, iremos a seguir estudar com maior ênfase a ciência. 4 A CIÊNCIA – CONCEITOS, PARTICULARIDADES E LIMITES O termo ciência, de maneira geral, é definido como um conjunto que evolve raciocínio, método e verificação de determinado objeto e/ou fenômeno. Neste sentido, para Lakatos e Marconi (2009 apud TRUJILLO, 1974, p. 80), “[...] é todo um conjunto de atitudes e atividades racionais, dirigidas ao sistemático conhecimento com objeto delimitado capaz de ser submetido a verificação”. Ander Egg (1978, p. 15), de maneira análoga, define ciência como sendo “um conjunto de conhecimentos racionais, certos ou prováveis, obtidos metodicamente, sistematizados e verificáveis, que fazem referência a objetos de uma mesma natureza”. Nos autores(as) citados evidencia-se que o que move o ser humano em direção à ciência é a sua necessidade de entender a natureza ao seu redor, compreender para além da aparência sensível dos objetos, fenômenos ou fatos. Isto significa dizer que inicialmente a percepção sensorial humana os capta de forma superficial, com valores e críticas nascidos do senso comum, mas o homem quer ir adiante, romper com a realidade imediata, descobrir, compreender e explicar o fenômeno sobre o qual se debruça e responder às indagações iniciais que sua percepção captou. Em resumo, o ser humano quer respostas para os seus “porquês”! A ciência moderna, segundo Mbarga e Fleury (2015, p. 96), sedimenta o conhecimento através da: Observação, Experimentação, Explicação e Generalização e Previsão. Os autores afirmam a necessidade de cada uma destas etapas ser rigorosamente seguida pelo(a) cientista, ou seja, por aquele(a) que busca fazer ciência. UNIDADE 1 | A PESQUISA E SUAS PARTICULARIDADES 14 QUADRO 1 – A CIÊNCIA MODERNA E SEUS PASSOS METODOLÓGICOS OBSERVAÇÃO Observação rigorosa EXPERIMENTAÇÃO Aferição experimental cuidadosa dos fatos EXPLICAÇÃO Ao explicar o cientista deve: GENERALIZAÇÃO E PREVISÃO Quando um certo nº de fatos verificados é descoberto, deve- se prosseguir para a generalização ou indução. Observar cuidadosamente os fatos; Deixar de lado opiniões pessoais; Abandonar especulações e conhecimentos prévios; Abandonar crenças, preconceitos, expectativas e paixões; Abandonar expressões de autoridade; Formular perguntas lógicas; Propor hipóteses. As observações devem ser repetidas em diferentes situações por diferentes pessoas; Os resultados devem ser vitoriosos sobre a ignorância sem se submeter à autoridade; As relações inequívocas entre causa e efeito devem ser demonstradas; Os resultados devem ter uma confirmação clara, sem ambiguidades da verdade; Os resultados devem oferecer uma validação verdadeira e isenta de ilusões. Discutir as observações prévias, contraditórias, se houver; Demonstrar relações entre as novas observações e as observações prévias; Explicar por que certa causa tem determinado efeito; Certificar-se de que não há falhas em seu argumento. Generalizar as observações; Aceitar que os fatos demonstrados descrevem a realidade; Estabelecer leis e teorias válidas para situações semelhantes; Predizer a evolução e o futuro estado e forma dos fatos e de suas relações. FONTE: Adaptado de: Mbarga e Fleury (2015, p. 96) Caro acadêmico, pelo que estudamos, você deve ter observado que em ciência não há espaço para o “eu acho”, opiniões do senso comum do dia a dia sem sistematização com a teoria; toda e qualquer nova proposição deve ser observada, testada, experimentada para ser validada e ser generalizada para fatos ou fenômenos similares. TÓPICO 1 | O CONHECIMENTO DA REALIDADE E A CIÊNCIA 15 A ciência é fascinante, contudo, é difícil e exige do pesquisador muito estudo, empenho e dedicação. Mbarga e Fleury (2015, p. 97) refletem que no mundo de hoje, o conhecimento “[...] chega mais perto da verdade e pode ser usado para transformar a realidade de tal maneira que foi capaz de moldar o mundo moderno. De forma espetacular, a ciência remodelou a saúde, as comunicações, as moradias, a energia, a agricultura, a guerra e a própria vida”. Há disputa de poder na ciência, há no mundo moderno a preocupação com o limite da ciência, se ela revolucionou a vida humana para o bem, há a possibilidade de ser usada para o mal... Por exemplo, a radioatividade: ao mesmo tempo em que partículas radioativas são utilizadas para o tratamento de variados tipos de câncer, podem ser utilizadas também em armas químicas, bombas, em guerras para a destruição em massa, para controle geopolítico sobre nações e populações vulneráveis... Embora pareça se insinuar por todos os cantos e deter poderes que antes eram privilégios dos deuses, a ciência não é uma religião e os cientistas não são sacerdotes de uma seita. A grande e dispendiosa infraestrutura que a ciência requer parece tê-la tornado exclusiva de alguns países, mas os cientistas não pertencem a raça, sexo, idade, religião, cor de pele ou classe social determinados. Mesmo que a ciência busque a verdade, os resultados científicos não são verdades definitivas nem nada parecido com mandamentos divinos; os cientistas estão sempre questionando e nunca ficam satisfeitos com sua própria verdade. Além disso, a publicação de resultados é sempre um convite para que outros pesquisadores verifiquem sua precisão. Como um esforço humano, a ciência tem suas fraquezas. Erros, mesmo fraudes, acontecem. Algumas experiências são compradas e seus resultados, fabricados. É um mundo com sua parcela de rivalidades, ambições, ilusões e truques sujos, sobretudo em relação a quem foi o primeiro a inventar isso ou aquilo. Mas a força única da ciência – e que a distingue – é a sua habilidade de rastrear erros e corrigi-los com experimentos extras (MBARGA; FLEURY, 2015, p. 97). Toda ação científica deve ser norteada por princípios éticos de não provocar malefícios, deve visar sempre a preservação da vida no planeta, desde as mais simples às mais complexas formas de vida, visto que o planeta é um sistema interdependente onde os elementos terra, ar e água são determinantes para a preservação da vida. 5 A CIÊNCIA COMO ÂNCORA PARA A CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO Como já estudado, a racionalidade humana aliada à curiosidade e/ou busca por explicação para os fenômenos que o cercam, move o homem à procura de respostas; esta procura o impulsiona a sair do seu cotidiano, seus valores, do senso comum, em busca de um conhecimento sistematizado (conceitos, hipóteses, definições...) isto é, o conhecimento científico e que produz ciência. UNIDADE 1 | A PESQUISA E SUAS PARTICULARIDADES 16 A realidade percebida a partir de um olhar científico tem um princípio explicativo, serve como base para compreendermos toda a cadeia de relações que está além da aparência dos fenômenos, nos leva a entender o tipo de relação que há entre os fenômenos, fatos e/ou coisas, ampliando a visão humana sobre o mundo. “[...] Estima-se que na primeira década deste século tenham sido produzidos mais conteúdos e dados novos do que em toda a história anterior da humanidade. Diante de tal sobrecarga, é natural a sensação de que os fatos negativos são os mais frequentes e que o mundo é um lugar cada vez pior para viver [...]” (PAULI, 2015, p. 113). Liderançaspolíticas, intelectuais e religiosas de expressão mundial discutem conjuntamente os limites da ciência; há acordos internacionais, como o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP), que inibem o mau uso da ciência, aquele que traz malefícios para a vida. DICAS Para saber mais sobre este acordo, consulte: <http://www.infoescola.com/ geografia/tratado-de-nao-proliferacao-de-armas-nucleares/> e <https://pt.wikipedia.org/ wiki/Tratado_de_N%C3%A3o_Prolifera%C3%A7%C3%A3o_de_Armas_Nucleares>. Prossegue Pauli (2015, p. 113) em sua análise: A dificuldade de se desfazer de convicções pessoais contribui para a ansiedade causada pela mudança constante dos fatos, especialmente os científicos. Quando uma pessoa adquire um conhecimento e se convence de que ele é verdadeiro (por exemplo, de que um ovo faz mal à saúde), provoca-lhe incerteza receber a informação oposta. Contra isso, é preciso compreender que a produção de conhecimento é um processo contínuo. Há fatos que mudam rapidamente, como a previsão do tempo, e outros que são mais perenes, como o número de continentes no planeta. As mudanças mais difíceis de assimilar são aquelas que levam meses ou anos, no intervalo de tempo de uma vida humana, para ocorrer. A ciência atua diretamente para a ampliação do saber, para o progresso, enfim, para o avanço da tecnologia que traz inúmeras melhorias para a humanidade. Mas, como já exposto, ela também pode ser utilizada para fins não pacíficos; há um expressivo número de informações na atualidade que confundem o indivíduo norteado pelo senso comum. Para fins teóricos e acadêmicos e diante do amplo espectro de fenômenos que podem ser estudados, a ciência se apresenta com peculiaridades, especificidades, TÓPICO 1 | O CONHECIMENTO DA REALIDADE E A CIÊNCIA 17 assim, é classificada de acordo com seu “objeto ou tema, diferenças de enunciados e metodologia empregada” (LAKATOS; MARCONI, 2009, p. 81). QUADRO 2 – CLASSIFICAÇÃO E DIVISÃO DA CIÊNCIA Ciência Formais Lógica Matemática Factuais Naturais Física Química Biologia e outras Sociais Antropologia Cultural Direito Economia Política Psicologia Social Sociologia FONTE: Adaptado de: Lakatos e Marconi (2009, p. 81) Caro acadêmico! O Serviço Social se insere no contexto das ciências sociais; no decorrer dos estudos desta disciplina de Pesquisa Social iremos aprofundar os conhecimentos nesta área da ciência. NOTA O que é Empírico? Empírico é um fato que se apoia somente em experiências vividas, na observação de coisas, e não em teorias e métodos científicos. Empírico é aquele conhecimento adquirido durante toda a vida, no dia a dia, que não tem comprovação científica nenhuma. Método empírico é um método feito através de tentativas e erros, é caracterizado pelo senso comum, e cada um compreende à sua maneira. O método empírico gera aprendizado, uma vez que aprendemos fatos através das experiências vividas e presenciadas, para obter conclusões. O conhecimento empírico é muitas vezes superficial, sensitivo e subjetivo. O conhecimento empírico ou senso comum é o conhecimento baseado em uma experiência vulgar ou imediata, não metódica e que não foi interpretada e organizada de forma racional. Empírico também é o nome designado para aquele indivíduo que promete curar doenças, sem noções científicas, uma espécie de curandeiro, que, na verdade, é um charlatão. É por esse motivo que o antônimo de empírico é “rigoroso”, “preciso” ou “exato”. FONTE: Disponível em: <http://www.significados.com.br/empirico/>. Acesso em 7 jan. 2016. 18 Neste tópico estudamos sobre o conhecimento da realidade e a ciência, assim podemos destacar: • De maneira exata não se pode afirmar onde se iniciou a produção do conhecimento e qual foi a primeira pessoa a significá-lo, contudo a tradição do Ocidente marca a Grécia como o locus deste primeiro momento. Na história grega, pensadores como Sócrates (470 a 399 a.C.), Platão (427 a 347 a.C.) e Aristóteles (384 a 322 a.C.) se destacaram, deixando seu legado para a humanidade. • O processo de conhecimento é uma ação transformadora, muda a natureza porque transforma o ser que a vivencia, uma vez que o mesmo se torna produtor de conhecimento. • Lakatos e Marconi (2009, p. 77) elencam os quatro tipos de conhecimento com base nos estudos de Trujillo (1974): Conhecimento Popular, Conhecimento Filosófico, Conhecimento Religioso (Teológico) e Conhecimento Científico. • A produção do conhecimento científico se efetiva a partir do exercício da curiosidade, da observação, da coleta de informações através da razão; isto levará o ser a identificar, distinguir e descrever uma determinada realidade na sua forma mais verdadeira produzindo ciência. • A ciência moderna se contrapõe à ciência antiga quando o estudioso deixa de lado seus valores pessoais para questionar o “porquê” das coisas e ir em busca de respostas; a ciência antiga era fortemente atrelada ao místico, à religião que usava da autoridade teológica para combater argumentos e questionamentos. • A ciência moderna, segundo Mbarga e Fleury (2015, p. 96), sedimenta o conhecimento através da: Observação, Experimentação, Explicação e Generalização e Previsão. • Toda ação científica deve ser norteada por princípios éticos de não provocar malefícios, deve visar sempre a preservação da vida no planeta, desde as mais simples às mais complexas formas de vida, visto que o planeta é um sistema interdependente, onde os elementos terra, ar e água são determinantes para a preservação da vida. RESUMO DO TÓPICO 1 19 1 De forma breve, descreva como ocorre o conhecimento racional e sua contribuição para o avanço da ciência. 2 Como visto, a ciência pode ser benéfica ou maléfica. Descreva como isto é possível e exemplifique. 3 Disserte brevemente sobre a Ética na ciência, ressaltando sua importância. AUTOATIVIDADE 20 21 TÓPICO 2 A PESQUISA: CONCEITOS E FINALIDADES UNIDADE 1 1 INTRODUÇÃO Dando continuidade aos nossos estudos, iremos abordar a pesquisa em seu plano teórico, seus conceitos e finalidades. Ressaltamos, caros acadêmicos, a importância deste tema para o coletivo do Serviço Social, que nos últimos anos, com base na Lei de Regulamentação da Profissão (Lei nº 8.662/93), investe na formação e na qualificação continuada dos profissionais. Objetiva com isto firmar uma dimensão de intervenção voltada tecnicamente também para a sistematização de estudos e pesquisas que evidenciem as reais condições e as demandas da população brasileira com vistas à formulação, implementação e monitoramento das políticas sociais destinadas aos cidadãos nas suas singularidades e nos diferentes estágios do ciclo de vida. Uma pesquisa social com este objetivo e efetivada em consonância com o rigor metodológico retrata as reais condições e necessidades dos indivíduos, famílias e/ou grupos e pode subsidiar técnicos e gestores para a melhoria na qualidade, efetividade e/ou ampliação da oferta de serviços sociais. 2 CONCEITOS A palavra pesquisa tem origem no termo latino “perquerire” - “procurar com perseverança”. (Disponível em: <http://www.significados.com.br/pesquisa/>. Acesso em 28 dez. 2015). Neste sentido, pode-se afirmar que a pesquisa é um conjunto de ações e procedimentos que conduzem a novas descobertas e amplia os conhecimentos sobre determinado tema/área. UNIDADE 1 | A PESQUISA E SUAS PARTICULARIDADES 22 Entendendo, de acordo com Gil (1995) e Minayo (2007), o conhecimento como emergente da curiosidade, da inquietação, da inteligência e da capacidade investigativa dos indivíduos, bem como da possibilidade de confirmação ou não de algo já elaborado e sistematizado sobre a realidade social, entende-se também, como eles, que o ato de pesquisar é algo privilegiado. Privilegiado, sim, pois reúne o pensamento e a ação de uma pessoa ou grupos num esforço para elaborar o conhecimento de diferentes ângulos e aspectos do real. Além disso, destaca-se que a pesquisa, como ato humano e social, está envoltaem valores, crenças, preferências, interesses e princípios do pesquisador. Sua visão de mundo, os pontos de partida, os fundamentos que orientam sua mente norteiam a sua trajetória e isso permite reafirmar que a ciência não é neutra. O pesquisador é justamente o elemento inteligente e ativo entre o conhecimento acumulado sobre determinado tema e as novas evidências sistematizadas no novo ato de pesquisa (GERBER, 2009, p. 11). O(a) pesquisador(a) tanto pode dirigir seu foco para investigar uma área do conhecimento pouco estudada, isto é, parte de dúvidas ou indagações que ao longo do seu estudo poderão ser comprovadas ou refutadas, como também pode ampliar os conhecimentos sobre um determinado fenômeno/fato anteriormente já estudado, mas que ainda apresenta possibilidades de ter seu leque de conhecimentos ampliado ou mesmo aprimorado, como uma ideia e/ ou bem de consumo. FIGURA 2 – A PESQUISA FONTE: Disponível em: <http://www.farmaceuticas.com.br/beneficios-e-efeitos-colaterais- goji-berry/>. Acesso em: 10 jan. 2016. É necessário ressaltar que a pesquisa social sofre inúmeras influências no seu campo de estudo, a sociedade e as relações sociais não são estáticas, estão em constante movimento, e isto reflete na pesquisa. Assim, o(a) pesquisador(a) deve estar atento(a) a estas influências externas. Aglair Setúbal chama atenção sobre isto: TÓPICO 2 | A PESQUISA: CONCEITOS E FINALIDADES 23 [...] Desse modo fica evidenciado que, para nós, é imanente ao conhecimento o caráter social que tem, por sua vez, as experiências sociais como base. Experiências que pelo trabalho, cultura, lazer e política viabilizam a transformação do homem; homem que na concretização das suas experiências sociais faz a história; história que representa as experiências sociais, que se constrói pela ação, que clarifica, que interpreta e que instrumentaliza o processo de reintegração do homem numa realidade concreta; realidade concreta que é apreendida, analisada e explicitada nas suas múltiplas determinações por meio do conhecimento científico, conhecimento que representa formas de se expressar do homem e da sociedade no mundo das artes, da política e do trabalho; trabalho que nem sempre representa o desejo do homem, mas que o transforma (SETÚBAL, 2013, p. 31). A pesquisa científica envolve um procedimento sistemático e intenso para explorar e inquirir em busca de descobertas e explicações que levam à compreensão de fenômenos em um determinado contexto histórico, social ou econômico. Neste sentido, ela contribui para otimizar recursos humanos, materiais e naturais; racionalizando a produção de produtos (bens), para implementar serviços ou mesmo na descoberta de novos elementos que irão incidir para a melhoria da vida humana e animal. A pesquisa enquanto proposta teórica é alvo de estudos e conceitos de diferentes estudiosos. Assim, observa-se que para Ander-Egg (1978 apud LAKATOS; MARCONI, 2009, p. 157) ela é um “procedimento reflexivo sistemático, controlado e crítico, que permite descobrir novos fatos ou dados, relações ou leis, em qualquer campo do conhecimento”. Evidenciam-se a sistematização, o controle e a crítica como elementos- chave para uma pesquisa produzir teorias e conhecimento. Para Barros e Lehfeld (2010, p. 30), a pesquisa é definida como “uma maneira de se estudar um determinado objeto, sendo ela sistemática e realizada visando a incorporação dos resultados alcançados aos níveis de conhecimento obtidos. Considera-se que nada se faz sem auxílio da pesquisa”. A afirmação de que a pesquisa é sistemática, racional e visa resposta/ resultados também é evidenciada nos estudos de Gil (2000, p. 41): “pesquisa consiste num procedimento racional e sistemático que visa encontrar respostas aos problemas que são propostos”. Desta maneira, como já exposto, a pesquisa traz respostas, soluciona problemas, traz esclarecimentos, novos saberes e técnicas... muda o mundo! Importante frisar esta característica: a partir de indagações/dúvidas, de forma racional e sistemática, o pesquisador encontra respostas e estas podem trazer melhorias para a vida cotidiana. UNIDADE 1 | A PESQUISA E SUAS PARTICULARIDADES 24 Nesta perspectiva está o alcance social da pesquisa, o retorno dos resultados à sociedade que sob a forma de impostos financia a pesquisa em instituições governamentais e deve ser a demandatária dos resultados; contudo, a neutralidade se evidencia como difícil concretização, porque o(a) pesquisador(a) tem suas crenças e valores que interferem na sua análise. Por isso é que consideramos ingênua a concepção que tenta abstrair a pesquisa das influências socioculturais e históricas do pesquisador e objeto, para cerrá-la num gueto científico dotado de esplendorosa beleza e de pureza imaculada. Felizmente, essa não é a maneira de ver da quase totalidade dos nossos sujeitos, o que nos leva a admitir que no Serviço Social não só vem ocorrendo a expansão quantitativa de pesquisas, mas que esse, à medida que se transforma como profissão inserida num mercado de trabalho, redimensiona a sua própria maneira de ver a pesquisa e passa qualitativamente a ter com esse processo uma relação mais íntima e, consequentemente, mais comprometida com a produção de conhecimento (SETÚBAL, 2013, p. 77). Cabe ressaltar que não estamos, aqui, nos referindo a uma pesquisa “sob controle, sob encomenda” para atender a interesses particulares e/ou políticos, e sim que a pesquisa deve, quando financiada por recursos públicos, dar um retorno à sociedade, sob a forma de melhoria de serviços, maior qualificação dos técnicos, ampliação da autoridade dos centros de pesquisas e universidades, entre outros. TÓPICO 2 | A PESQUISA: CONCEITOS E FINALIDADES 25 LEITURA COMPLEMENTAR FAZER CIÊNCIA: QUAL A SUA FUNÇÃO SOCIAL? Maria Estela Vidoretti Conta-se a lenda de que o famoso matemático inglês Michael Atiyah resolveu explicar para sua mãe a natureza de suas atividades. Depois de ter ouvido atentamente as explicações do filho, a boa senhora teria dito: “Acho que entendi o que você faz, mas diga-me uma coisa, filho: por que pagam você para isso?”. A pergunta que, segundo a anedota, a senhora Atiyah teria feito ao seu filho, infelizmente também é feita com frequência por muitos administradores públicos e pela sociedade em geral, e se refere à pertinência de se investirem recursos públicos na pesquisa científica e tecnológica em quaisquer países, sobretudo aqueles em desenvolvimento, como o Brasil – que, como se sabe, apresenta muitas carências sociais. Fazer ciência proporciona aos povos que participam, de fato, de seu desenvolvimento, uma melhor qualidade de vida, além da capacidade de superação econômica em relação aos povos que lideram os avanços tecnológicos. No entanto, criar uma cultura científica exige grandes investimentos em educação e cultura, o que é dificultado pela carência que essas sociedades em desenvolvimento apresentam para gerar riquezas sem o insumo principal para isso: o conhecimento. Sim, temos aqui um círculo vicioso! Fazer ciência não significa ter alguns grandes cientistas, tampouco laboratórios abarrotados de espectrômetros, telescópios, computadores e outros equipamentos. Para construir um país com ciência é fundamental que a educação seja universal, obrigatória e de qualidade e que a sociedade cresça em meio à concepção de que a ciência, bem como os seus produtos, gera bem-estar e progresso. Veja, por exemplo: vozes da sociedade que bradam a necessidade da apropriação do saber têm a capacidade de impedir que o poder central sufoque economicamente nossas universidades, que são, hoje, os locais de maior concentração de pesquisadores de alto nível. Fazer ciência é, sobretudo, investir em educação e cultura, de modo que a promoção do crescimento econômico resultante seja capaz de reduzir a desigualdade social e promover o desenvolvimento do país. Apesar de muitos de nossos problemas sociais poderem ser resolvidos com saneamentobásico, alimentação e interesse político, o século XXI nos desafia com os dramas das doenças emergentes, dos micro-organismos resistentes a fármacos, das doenças degenerativas e das múltiplas implicações da terapia gênica. Diante desse cenário, cabe a pergunta: “Que tipo de pesquisa devemos realizar?” Esse questionamento deriva do fato de que, embora o Brasil possua um conjunto expressivo de pesquisadores de bom nível e um investimento elevado UNIDADE 1 | A PESQUISA E SUAS PARTICULARIDADES 26 no financiamento à pesquisa – levando em conta sua realidade social –, a ciência e a mentalidade científica ainda não estão incorporadas de maneira plena e eficaz em nossa sociedade. Inseridos nesse contexto, é necessário realizarmos uma avaliação crítica sobre os “porquês” de produzirmos ciência, no sentido de não apenas compreendermos o seu significado humanístico – que sustenta a nobreza da busca pelo conhecimento – e pragmático – que revela que a pesquisa é a base da inovação, essencial para a geração de riquezas, como também de repensarmos a função social da ciência num país repleto de problemas sociais como o nosso. FONTE: Disponível em: <http://caez.org.br/fazer-ciencia-funcao-social/>. Acesso em 10 jan. 2016. 1 Defina com suas palavras o que é pesquisa. 2 Como você explica a expressão: alcance social da pesquisa? 3 Discuta com seus colegas, em pequenos grupos, possíveis temas de pesquisa que envolvam usuários dos serviços sociais nos diferentes estágios do ciclo da vida humana. AUTOATIVIDADE 3 FINALIDADES DA PESQUISA A pesquisa por si só não existe, para tal ela necessita que um ser (pesquisador) que, sob o uso racional de recursos, empreenda uma pesquisa. Assim, são variadas as razões que motivam um(a) pesquisador(a), contudo, é reconhecido no meio científico que a pesquisa deve estar voltada para o benefício da sociedade. UNI “Produzir um conhecimento novo e inseri-lo no dia a dia da sociedade em prol da vida, da liberdade e da democracia. Esse deve ser o objetivo da pesquisa científica, que não pode prescindir do rigor na coleta de dados e no cruzamento dessas informações com as teorias disponíveis em determinada área de estudo”. FONTE: Disponível em: <http://noticias.pucgoias.edu.br/index.php/component/k2/item/2844- debate-sobre-fun%C3%A7%C3%A3o-social-da-pesquisa-abre-encontro-cient%C3%ADfico>. Acesso em: 29 dez. 2015. TÓPICO 2 | A PESQUISA: CONCEITOS E FINALIDADES 27 De maneira geral, os(as) pesquisadores(as) são motivados para satisfazer o desejo de adquirir conhecimentos, sem que haja necessariamente uma aplicação prática para os resultados, como é o caso da Pesquisa Pura (Pesquisa Básica); “o desejo de conhecer pela própria satisfação de conhecer” (GIL, 2000, p. 45). Ou “o desejo de conhecer com vistas a fazer algo de maneira mais eficiente e eficaz” (GIL, 2000, p. 45), sendo estimulados a contribuir com os conhecimentos adquiridos que podem ser utilizados para a aplicação prática voltada para a solução de problemas concretos da vida cotidiana moderna. Neste caso, é denominada de Pesquisa Aplicada. NOTA Pesquisa Básica X Pesquisa Aplicada [...] As pesquisas, de modo geral, podem ser classificadas também em função de objetivos (para que serve?) e de recursos (o que será usado?). Em função dos objetivos, podem ser básicas (puras) ou aplicadas. Uma pesquisa é básica (pura) quando busca produzir ou ampliar conhecimentos teóricos ligados a alguma área ou tema de interesse. Como o próprio nome sugere, a pesquisa básica não se propõe a resolver nenhum problema específico. A pesquisa aplicada, por seu turno, utiliza-se de teorias já existentes e busca solucionar problemas específicos. Cumpre lembrar que existe uma modalidade de investigação que, embora se pareça com pesquisa aplicada, às vezes, é mera prestação de serviço (LUNA, 1996). Na prestação de serviço sempre existe um cliente. O pesquisador está buscando resolver um problema do cliente. Já na pesquisa aplicada (também poderia ser básica), o interesse está centrado na produção de conhecimento novo. Assim, na pesquisa propriamente dita, é como se o cliente fosse o próprio pesquisador. Nada impede, evidentemente, que uma investigação esteja situada na interseção desses objetivos: produzir conhecimento novo e resolver um problema específico (de alguém). FONTE: Costa (2001, p. 33) Definir a finalidade da pesquisa, auxilia o(a) pesquisador(a) a argumentar para terceiros como planeja realizar seu estudo, e isto em termos metodológicos é exposto no Projeto de Pesquisa; que se constitui em “um exercício pedagógico” que deve ser iniciado na graduação. Na UNIASSELVI, você, acadêmico, vivencia esta aproximação com a prática da pesquisa na disciplina de Seminário Interdisciplinar. UNIDADE 1 | A PESQUISA E SUAS PARTICULARIDADES 28 NOTA O projeto de pesquisa e sua finalidade José Artur Teixeira Gonçalves O projeto de pesquisa é um planejamento elaborado pelo pesquisador antes do início de uma investigação científica. Mesmo a pesquisa sendo um processo dialético, não se pode dispensar a sistematização prévia do que se pretende fazer, de como proceder e a que resultados se espera chegar. Dificilmente se terá êxito em uma pesquisa cuja coleta de dados seja feita de forma assistemática e sem um norteamento teórico-metodológico. A finalidade científica do projeto, então, é esclarecer ao próprio pesquisador as questões que ele pretende enfrentar e quais as estratégias de que lançará mão para surpreendê-las. Além do caráter de planejamento prévio de uma pesquisa - antecedendo a elaboração de teses e trabalhos de conclusão de curso -, o projeto tem outras finalidades, que podemos chamar de institucionais. Em geral, os cursos de graduação exigem que os estudantes apresentem um projeto ou pré- projeto de pesquisa antes da elaboração da monografia final. É uma forma de se avaliar se o caminho adotado pelo aluno poderá surtir os efeitos esperados, auxiliando-o na formulação/ construção de um objeto de investigação. Cursos de pós-graduação também solicitam dos candidatos projetos de pesquisa. São várias razões: verificar a pertinência do projeto na linha de pesquisa do programa; analisar a exequibilidade do projeto (ou seja, se o candidato conseguirá dar conta do que está se propondo); verificar o manejo do candidato de conceitos, teorias e metodologias. As instituições de pesquisa - tais como o CNPq - também exigem a apresentação de projetos de pesquisa pelos mesmos motivos expostos acima, visando avaliar também se o projeto se enquadra nas linhas de financiamento e se o mesmo apresenta relevância científica e social para ser fomentado através de uma bolsa de estudos. Como vimos, a finalidade do projeto de pesquisa é dupla: científica e institucional. Desta forma, sua produção deve ser rigorosa, atendendo tanto às exigências da própria pesquisa, bem como das instituições nas quais ela se insere. FONTE: Disponível em: <http://metodologiadapesquisa.blogspot.com.br/2008/07/o-projeto- de-pesquisa-e-sua-finalidade.html>. Acesso em: 29 dez. 2015. TÓPICO 2 | A PESQUISA: CONCEITOS E FINALIDADES 29 4 CLASSIFICAÇÃO DA PESQUISA Para efetivar uma pesquisa é necessário confrontar dados, evidências, informações existentes sobre um determinado tema e o conhecimento teórico acumulado anteriormente sobre este mesmo assunto. Assim, o(a) pesquisador(a) poderá construir uma porção do saber, uma vez que a totalidade é impossível de ser agrupada. Neste sentido, o conhecimento sistematizado não é fruto da curiosidade, da inquietação, da inteligência e da atividade da pesquisa/investigação do(a) pesquisador(a) “X”, mas sim uma continuação do que já foi estudado e sistematizado anteriormente pelos estudiosos que se dedicaram também a este tema/assunto (LUDKE; ANDRÉ, 1986). Diante do exposto, cabe refletir: - Há um(a) único(a) “dono(a) do saber”? Ou o saber pertence à humanidade e, em cada período histórico, determinados sábios se destacam e acrescem algonovo ao arsenal de conhecimento já existente? Ainda no que se refere à classificação da pesquisa, não há entre os teóricos um consenso preestabelecido, autores diversos a classificam diferentemente de acordo com sua finalidade. Para fins pedagógicos, neste estudo iremos nos deter na finalidade proposta por Gil (2000) e Barros e Lehfeld (2010). Para Barros e Lehfeld (2010), a finalidade da pesquisa está relacionada à motivação para a qual ela se destina, assim as autoras as separam em Pesquisa Teórica, Pesquisa Metodológica e Pesquisa Empírica. A Pesquisa Teórica tem o objetivo de desenvolver conceitos, discussões, polêmicas e apresentar novas proposições teóricas; se limita à análise da teoria já existente; a Pesquisa Metodológica se volta para o estudo de métodos ou questões metodológicas e se destina a aprofundar os estudos sobre os métodos; e a Pesquisa Empírica está relacionada a levantamento de dados empíricos para comprovação ou não de uma determinada hipótese, tem seu foco nos fenômenos empíricos da realidade social e que necessitam ser comprovados/validados. Os autores citados também incluem como finalidade da pesquisa a diferenciação da mesma, que pode ser: Pesquisa Pura ou Pesquisa Básica e Pesquisa Aplicada ou Pesquisa Prática. A Pesquisa Pura ou Pesquisa Básica, segundo Gil (1999), está relacionada à motivação do(a) pesquisador(a) em conhecer algo; não há uma motivação imediata por resultados, é também denominada de Pesquisa Teórica, anteriormente já discutida neste estudo. UNIDADE 1 | A PESQUISA E SUAS PARTICULARIDADES 30 Seu objetivo está em desenvolver novos conhecimentos e que contribuam para o avanço da ciência, contudo, pode não ocorrer aplicação prática, os resultados se estabelecem no plano teórico. Por outro lado, a Pesquisa Aplicada ou Pesquisa Prática motiva o(a) pesquisador(a) a conhecer e obter resultados práticos para serem aplicados no cotidiano. Gil (1999) expõe que esta pesquisa muda o cotidiano porque tem aplicação prática, isto é, sai dos centros de pesquisas para uso/benefício da população no seu dia a dia. Caros acadêmicos, importante ressaltar que há uma hierarquia na ciência. Não basta o cientista pesquisar, descobrir algo novo, é necessário, no caso do Brasil, a validação e autorização dos órgãos de vigilância e dos respectivos ministérios para que a descoberta seja liberada para uso/usufruto da população. UNI No ano de 2015 vivemos a polêmica da substância fosfoamina/fosfoetanolamina sintética estudada pelo professor Gilberto Orivaldo Chierice (USP), que, mesmo tendo convicção do efeito da substância em células cancerígenas testadas em laboratório, viu seu estudo barrado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e Universidade de São Paulo (USP), porque seus efeitos sobre os seres humanos ainda não foram plenamente estudados e definitivamente testados. Leia a reportagem disponível em: <http://g1.globo.com/ sp/sao-carlos-regiao/noticia/2015/08/pesquisador-acredita-que-substancia-desenvolvida- na-usp-cura-o-cancer.html>. Acesso em: 12 jan. 2015. O controle de agências e ministérios é previsto na legislação brasileira e tem objetivos de proteção (humana, animal e ambiental); grande parte da polêmica com esta substância se deu por interesses econômicos, corporativos, emocionais... NOTA Ministério da Saúde - Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos (SCTIE) A Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde (SCTIE/ MS) visa ao desenvolvimento da capacidade científica, tecnológica e produtiva nacional para o fortalecimento do SUS como sistema de saúde universal. A SCTIE/MS formula e implementa políticas nacionais de ciência, tecnologia e inovação em saúde, assistência farmacêutica e fomento à pesquisa, desenvolvimento e inovação na área de saúde. Também TÓPICO 2 | A PESQUISA: CONCEITOS E FINALIDADES 31 desenvolve métodos e mecanismos para a análise da viabilidade econômico-sanitária de empreendimentos públicos no complexo industrial da saúde, promove a implementação de parcerias público-privadas no desenvolvimento tecnológico e na produção de produtos estratégicos para o país e coordena o processo de incorporação e desincorporação de tecnologias em saúde no âmbito do SUS. FONTE: Disponível em: <http://portalsaude.saude.gov.br/index.php/o-ministerio/principal/ secretarias/sctie>. Acesso em: 12 jan. 2015. É importante sinalizar que medicamentos novos envolvem muita pesquisa e principalmente um jogo de forças entre governos e grandes grupos químicos que, por deterem as patentes da descoberta e monopolizarem a produção e o comércio, determinam elevados preços. Imaginem a correlação de forças, o lobby da indústria farmacêutica com a perspectiva de um medicamento novo, no valor de R$ 0,10 cada cápsula... A comoção e a busca judicial pelo medicamento estão relacionadas à crença, à vontade de superar uma doença grave. Tentem se colocar no lugar de um doente e/ou de um familiar de um doente: como não tentar todas as possibilidades diante de uma doença tão devastadora como o câncer? Toda esta polêmica resultou em algo muito bom, a adesão de outros grupos de pesquisas para ampliarem os experimentos e os grupos de controle para validarem os efeitos desta nova droga no tratamento do câncer e a anuência governamental para incentivar a continuidade da mesma. Acadêmico, este é somente um exemplo de pesquisa, no caso relatado, de Pesquisa Pura que deriva para a Pesquisa Aplicada. Como já evidenciado neste estudo, a pesquisa, seja Pura ou Aplicada, difere nos objetivos e nos procedimentos. Neste sentido, Barros e Lehfeld (2010) afirmam que a pesquisa pode ser tipificada se considerarmos os procedimentos que serão adotados para estudar o fenômeno/objeto, isto significa que há diferentes maneiras de se alcançar o objetivo. Assim, as autoras supracitadas denominam que quanto aos procedimentos a pesquisa pode ser: Pesquisa Descritiva, Pesquisa de Campo, Pesquisa Experimental e Pesquisa Ação. A Pesquisa Descritiva se volta para descrever o fenômeno/fato observado, ele é registrado, analisado, classificado e interpretado. O(a) pesquisador(a), além da observação, realiza um levantamento de dados e se utiliza de pesquisa bibliográfica e documental. Para tal, tem o objetivo de coletar conhecimentos prévios e explorar o que já foi estudado sobre o assunto por outros(as) pesquisadores(as) (para isto pode usar os recursos da Pesquisa Exploratória). UNIDADE 1 | A PESQUISA E SUAS PARTICULARIDADES 32 A pesquisa bibliográfica e documental permite também a reconstrução histórica de um fenômeno social. Reconstruir fatos passados através da pesquisa documental é tarefa árdua, visto que o estudioso está no devir, no exterior do fenômeno, ele também não viveu o passado tal como os atores que o relatam e que participaram ativamente da produção social. O movimento em direção ao estudo desta produção social através de documentos e relatos orais faz o pesquisador se deparar com múltiplas possibilidades de escolhas. Como começar? O que privilegiar? Escolher um tema em detrimento de outro? São escolhas difíceis, mas ao mesmo tempo, se apresentam agradáveis e prazerosas porque transportam para outro tempo, outra realidade. A pesquisa desencadeada em várias fontes leva a imaginação ao passado. Quem de nós já não se desprendeu do tempo real ao manusear velhos álbuns de fotografias, quem, ao organizar gavetas e documentos, não se deixou levar por reminiscências do passado? Por outro lado, estudar a trajetória e a produção social de grupos, de instituições ou mesmo de indivíduos tem se tornado uma tarefa cada vez mais importante numa sociedade em que o descartável é a palavra de ordem e a memória é algo pouco valorizado. Explorar o passado, para aqueles que o fazem, significa colocar em movimento a própria vida social e buscar respostas para problemas e questões que estiveram presentes em outros tempos, o que significa enveredar porcaminhos além do imaginado inicialmente, o que pode vir a se tornar uma aventura (GERBER, 2009, p. 11). Para o(a) estudioso(a), as vantagens em optar pela Pesquisa Descritiva estão relacionadas ao fato de que o(a) pesquisador(a) já conhece algo sobre o assunto de interesse; quer divulgar o que já se conhece sobre o tema/assunto e também receber críticas construtivas que lhe possibilitem ampliar a pesquisa e o conhecimento sobre o tema. São utilizadas as técnicas padrão de coleta de dados (questionários, observação...). A abordagem metodológica para esta pesquisa é mais quantitativa do que qualitativa, porque envolve mensuração dos dados, percentuais, indicadores, enfim, os recursos quantificáveis utilizados nas técnicas estatísticas. Esta pesquisa permite elaborar perfis, comparar dados etc. Para Costa (2001, p. 31), o “objetivo de uma pesquisa descritiva, em geral, é construir, por ensaio e erro, um modelo de comportamento das variáveis implicadas no processo descrito. TÓPICO 2 | A PESQUISA: CONCEITOS E FINALIDADES 33 NOTA PESQUISA DESCRITIVA Na Pesquisa Descritiva realiza-se o estudo, a análise, o registro e a interpretação dos fatos do mundo físico sem a interferência do pesquisador. São exemplos de pesquisa descritiva as pesquisas mercadológicas e de opinião (BARROS; LEHFELD, 2007). A finalidade da pesquisa descritiva é observar, registrar e analisar os fenômenos ou sistemas técnicos, sem, contudo, entrar no mérito dos conteúdos. Nesse tipo de pesquisa não pode haver interferência do pesquisador, que deverá apenas descobrir a frequência com que o fenômeno acontece ou como se estrutura e funciona um sistema, método, processo ou realidade operacional. O processo descritivo visa à identificação, registro e análise das características, fatores ou variáveis que se relacionam com o fenômeno ou processo. Esse tipo de pesquisa pode ser entendido como um estudo de caso onde, após a coleta de dados, é realizada uma análise das relações entre as variáveis para uma posterior determinação dos efeitos resultantes em uma empresa, sistema de produção ou produto (PEROVANO, 2014). A pesquisa descritiva pode aparecer sob diversos tipos: documental, estudos de campo, levantamentos etc., desde que se estude a correlação de, no mínimo, duas variáveis. Espontaneidade: o pesquisador não interfere na realidade, apenas observa as variáveis que, espontaneamente, estão vinculadas ao fenômeno; – naturalidade: os fatos são estudados no seu habitat natural; – amplo grau de generalização: as conclusões levam em conta o conjunto de variáveis que podem estar correlacionadas com o objeto da investigação (PARRA FILHO; SANTOS, 2011). A pesquisa descritiva é, juntamente com a pesquisa exploratória, a mais habitualmente realizada pelos pesquisadores sociais preocupados com a atuação prática. É também a mais solicitada por organizações como instituições educacionais, empresas comerciais, partidos políticos etc. FONTE: Disponível em: <http://posgraduando.com/diferencas-pesquisa-descritiva- exploratoria-explicativa/>. Acesso em: 13 jan. 2016. A Pesquisa de Campo possibilita a observação dos fenômenos tal como eles ocorrem, não é possível isolar e/ou controlar as variáveis, mas sim perceber e estudar as relações estabelecidas. O(a) pesquisador(a) observa e explora, coleta diretamente os dados no local (campo) em que os fenômenos estão acontecendo ou ocorreram. No Serviço Social é uma pesquisa muito utilizada, uma vez que permite que o(a) pesquisador(a) se aproxime da população usuária e assim possa explorar as diferentes expressões da questão social que os usuários vivenciam em seu cotidiano. Na Pesquisa de Campo é importante que o(a) pesquisador(a) não se deixe influenciar por crenças, valores morais, preconceitos... ele(a) deverá exercitar a neutralidade, observar os fenômenos e analisá-los com isenção, porque a inferência de crenças/valores pessoais interferirá nos resultados da pesquisa. UNIDADE 1 | A PESQUISA E SUAS PARTICULARIDADES 34 Cabe ressalvar que esta pesquisa também necessita dos cuidados e regras da ética em pesquisa, principalmente sobre as questões pertinentes à pesquisa em seres humanos, como: Esclarecimentos, Termos de Consentimentos, autorização de Comitês de Ética, enfim, todo o regramento determinado pela Bioética. UNI O que é a Pesquisa de Campo? A pesquisa de campo procede à observação de fatos e fenômenos exatamente como ocorrem no real, à coleta de dados referentes aos mesmos e, finalmente, à análise e interpretação desses dados, com base numa fundamentação teórica consistente, objetivando compreender e explicar o problema pesquisado. Ciência e áreas de estudo, como a Antropologia, Sociologia, Psicologia, Economia, História, Arquitetura, Pedagogia, Política e outras, usam frequentemente a pesquisa de campo para o estudo de indivíduos, grupos, comunidades, instituições, com o objetivo de compreender os mais diferentes aspectos de uma determinada realidade. Exige também a determinação das técnicas de coleta de dados mais apropriadas à natureza do tema e, ainda, a definição das técnicas que serão empregadas para o registro e análise. Dependendo das técnicas de coleta, análise e interpretação dos dados, a pesquisa de campo poderá ser classificada como de abordagem predominantemente quantitativa ou qualitativa. Segundo Franco (1985), numa pesquisa em que a abordagem é basicamente quantitativa, o pesquisador se limita à descrição factual deste ou daquele evento, ignorando a complexidade da realidade social. FONTE: Disponível em: <http://profludfuzzimetodologia.blogspot.com.br/2010/03/o-que-e- pesquisa-de-campo.html>. Acesso em: 12 jan. 2016. A Pesquisa Experimental, como seu nome já sinaliza, envolve experimentos, tem o objetivo de criar condições para interferir no surgimento ou na mudança dos fenômenos, para ser possível explicar o que ocorre com os fenômenos correlacionados. Esta pesquisa é utilizada para testes de novas substâncias, seja com seres humanos, animais ou vegetais. Os protocolos de ética devem ser rigorosamente seguidos e previamente autorizados pelos órgãos responsáveis. Há relatos desastrosos de pesquisas experimentais com animais e seres humanos que geraram graves sequelas, mutações genéticas, nos reinos vegetal e animal, introdução de “pragas” que fugiram do controle dos pesquisadores… TÓPICO 2 | A PESQUISA: CONCEITOS E FINALIDADES 35 UNI Vejamos o texto: Pesquisa experimental: Entenda Uma pesquisa é definida como experimental quando seu propósito é realizar testes e hipóteses a respeito de um determinado assunto. Seu universo é composto por grupos de controle, seleções aleatórias e variáveis independentes que podem ou não serem manipuladas. 1 - Para que você possa fazer uma pesquisa experimental o primeiro passo consiste em provocar, de forma deliberada, variações em uma determinada variável. Para que isto aconteça é necessário que sejam escolhidos grupos contendo o mesmo número de sujeitos, todos com características comuns, e introduzir em algum deles uma variável. Portanto, em seu experimento haverá um grupo de sujeitos com características idênticas, portando uma variável previamente escolhida por você e outra com as mesmas características sem a presença desta variável. 2 - O segundo passo de uma pesquisa experimental consiste em controlar variáveis que possivelmente possam interferir em seu experimento. Este passo é muito importante para que haja um reconhecimento científico de seu trabalho, pois do contrário seu experimento poderá ter como resultado dados vindos de variáveis que não fazem parte do objeto de estudo. Uma boa maneira para controlar estas interferências consiste em distribuir aleatoriamente os sujeitos em cada grupo, desta forma os erros estarão distribuídos de forma igualitária. Nesta etapa são realizadas análises dos efeitos da introdução de sua variável a partir de parâmetros comuns entre os dois grupos, tendo os seus dados devidamente armazenados. Emseguida a variável introduzida é retirada e novamente é feita uma análise de sua ausência contendo dados a respeito de sua ausência. O mesmo, ou seja, a análise dos dados existentes no grupo sem variável também deve ser feita e seus dados armazenados. 3 - Terminado o período previamente determinado de sua pesquisa experimental é realizada uma comparação contendo todos os dados coletados nos dois grupos. Todos os parâmetros comuns são comparados e os não comuns, ou seja, as particularidades existentes em cada grupo são devidamente anotadas. Por fim, estando todos os dados devidamente comparados, são descritos e verificados os efeitos provocados pela ausência ou presença da variável em cada um dos grupos. Se em seu experimento houve diferenças significativas provocadas pela introdução da variável escolhida, você estará obtendo a prova científica necessária para comprovar que ela é realmente a causa do problema investigado. FONTE: Disponível em: <http://www.assimsefaz.com.br/sabercomo/pesquisa-experimental- entenda>. Acesso em: 12 jan. 2016. Já a Pesquisa-Ação envolve a atuação do(a) pesquisador(a) com os sujeitos integrantes da situação e/ou problema, há uma vinculação que visa a participação e a cooperação. UNIDADE 1 | A PESQUISA E SUAS PARTICULARIDADES 36 PESQUISA-AÇÃO Para Susman e Evered (1978), o termo pesquisa-ação foi introduzido por Kurt Lewin em 1946 para denotar uma abordagem pioneira da pesquisa social que combinava a geração de teoria com a mudança do sistema social através da ação do pesquisador no sistema social. A ação, por si só, é apresentada na forma de mudança no sistema e de geração de conhecimento crítico sobre a mesma. A pesquisa-ação é um tipo de pesquisa social com base empírica que é concebida e realizada em estreita associação com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo e no qual os pesquisadores e os participantes representativos da situação ou do problema estão envolvidos de modo cooperativo ou participativo (THIOLLENT, 2005). Para Oquist (1978), a pesquisa é a produção de conhecimento e ação é a modificação intencional de uma dada realidade. CARACTERÍSTICAS: • O pesquisador observa, mas também atua no objeto de estudo; • Cooperação entre pesquisador e pesquisado; • Abordagem holística; • Entendimento, planejamento e implementação de mudanças; • Exige o entendimento da estrutura ética; • Inclui todos os instrumentos de coleta de dados; • O pesquisador tem que ter um conhecimento prévio do objeto; • Deve ser conduzida em tempo real. QUANDO UTILIZAR? Coghlan e Brannick (2008) consideram que a pesquisa-ação é apropriada: • Quando a questão de pesquisa relaciona-se em descrever o desdobramento de uma série de ações ao longo do tempo em um dado grupo, comunidade ou organização; • Para explicar como e por que a ação de um membro de um grupo pode mudar ou melhorar o trabalho de alguns aspectos do sistema; • E para entender o processo de mudança ou de melhoria para aprender com ele. OBJETIVOS DA PESQUISA-AÇÃO: Objetivo técnico: Contribuir para o melhor equacionamento possível do problema considerado como central da pesquisa; Objetivo científico: Obter informações que seriam de difícil acesso por meio de outros procedimentos, visando aumentar o conhecimento (teoria) de determinadas situações. (THIOLLENT, 2005). TÓPICO 2 | A PESQUISA: CONCEITOS E FINALIDADES 37 SELECIONAR TÉCNICAS DE COLETA DE DADOS: A combinação e uso de diferentes técnicas favorece a validação da pesquisa. Woodside e Wilson (2003) afirmam que a triangulação frequentemente inclui: • Observação participante do pesquisador no ambiente da pesquisa; • Sondagens através de questionamentos dos participantes por explicações; • Interpretações dos dados operacionais e análises de documentos escritos e dos locais onde se dá o ambiente da unidade de análise estudada. Segundo Thiollent (2005), as principais técnicas utilizadas são: • Entrevista coletiva nos locais de trabalho; • Entrevista individual aplicada de modo aprofundado; • Arquivos internos da organização estudada; • Observação participante. A elaboração de um protocolo de pesquisa é recomendável para a melhoria da confiabilidade dessa pesquisa. FONTE: Adaptado de: <http://www.carlosmello.unifei.edu.br/Disciplinas/Mestrado/PCM-10/Slides- Mestrado/Metodologia_Pesquisa_2012-Slide_Aula_11_Mestrado.pdf>. Acesso em: 12 jan. 2016. Ainda sobre a finalidade da pesquisa, Gil (2000) classifica a mesma relacionando-a à abordagem do fenômeno/fato/problema. Para este autor, a pesquisa pode ser Quantitativa ou Qualitativa. A Pesquisa Quantitativa se refere à abordagem na qual o(a) pesquisador(a) cita numericamente as opiniões e informações para serem classificadas e analisadas; há uso intensivo de técnicas e regras estatísticas. Todas as opiniões coletadas sobre determinado fenômeno são quantificadas utilizando-se: média, mediana, desvio-padrão, percentagem, análises... UNIDADE 1 | A PESQUISA E SUAS PARTICULARIDADES 38 NOTA PESQUISA QUANTITATIVA Sergio Mari Jr. A Pesquisa Quantitativa é o método mais comumente utilizado, principalmente nas chamadas ciências naturais. Tem também ampla utilização no campo das ciências sociais, inclusive no Marketing. Seu objetivo é contar quantas vezes um determinado fenômeno ocorre em uma determinada população. Recorre a métodos estatísticos para calcular a probabilidade de ocorrência de uma determinada variável em uma população pesquisada. Para isso, lança mão de cálculos e escalas que visam estabelecer um grau de confiança para os dados obtidos, declarando margem de erro e nível de confiança dos números obtidos. As pesquisas estatísticas podem ser de dois tipos: a) Senso – ouve todos os indivíduos da população, se aproximando muito da realidade, uma vez que ouvir o que todos pensam diminui a margem de erro. b) Amostra – ouve um número menor de indivíduos previamente selecionados com o objetivo de generalizar os resultados encontrados nesse pequeno grupo para a população como um todo. A grande maioria das pesquisas quantitativas é realizada por meio de procedimentos de amostragem, ou seja, sem ouvir todos os indivíduos, mas apenas alguns. Isso, por um lado, aumenta a margem de erro, pois é sempre pouco preciso generalizar, mas, por outro lado, diminui os custos e o tempo envolvido em sua realização. As pesquisas quantitativas, portanto, têm um caráter reducionista. Ou seja, reduzem as possibilidades de resposta a apenas algumas alternativas e reduzem o número de pessoas ouvidas para que seja economicamente viável. Essa redução proporcionada pela pesquisa qualitativa é sempre alvo de críticas, principalmente nas ciências sociais. Muito se tem escrito sobre os atributos dos procedimentos analíticos quantitativos e qualitativos. Os procedimentos quantitativos são indispensáveis na maior parte das ciências naturais. Em ciências sociais, os procedimentos quantitativos às vezes são menos valorizados por seu caráter reducionista. Em verdade, todo procedimento, seja qualitativo, seja quantitativo, é - em grau maior ou menor - reducionista. (EPSTEIN, 2010, p. 15). PROCEDIMENTOS DE PESQUISA QUANTITATIVA Os procedimentos mais comuns para realização das pesquisas quantitativas são os questionários e formulários. Ambos são formados por um conjunto de perguntas preferencialmente com respostas fechadas, em que o participante deve escolher entre uma das alternativas de resposta apresentadas. A diferença metodológica entre os dois processos consiste no seguinte: • Questionários são entregues aos participantes da pesquisa para que eles mesmos leiam as questões e assinalem suas respostas. Neste caso é fundamental que a redação das questões evite ao máximo a possibilidade de dupla interpretação e deixe bem claro quantas alternativas se pode assinalar em cada uma. TÓPICO 2 | A PESQUISA: CONCEITOS E FINALIDADES 39 • Formulários permanecem nas mãos do pesquisador, que faz as perguntas oralmente e assinala aquelaalternativa que mais se aproxima da resposta dada pelo participante. Neste caso é possível colocar junto das questões algumas orientações técnicas sobre como o formulário deve ser preenchido. FONTE: Disponível em: <http://infonauta.com.br/?q=9/91/pesquisa-quantitativa/>. Acesso em: 10 jan. 2016. Por outro lado, a Pesquisa Qualitativa envolve a descrição do fenômeno, as informações obtidas não podem ser quantificáveis, os dados são analisados de forma indutiva (o raciocínio indutivo generaliza a observação da realidade concreta e as particularidades constatadas são relacionadas ao geral). NOTA Indução, Dedução e Silogismo A indução e a dedução são formas opostas de raciocínio. Indução: raciocínio em que, de fatos particulares, se chega a uma conclusão geral (vai de uma parte ao todo). Dedução: raciocínio que parte do geral para o particular (vai do todo a uma parte). Imagine que, visitando um país estrangeiro, você conhece uma loja de “frifas” (sem saber o que isso significa), e percebe que ela vende bonecas. No dia seguinte, ao ver uma outra loja de “frifas”, você poderá induzir que ela também vende bonecas. Se você fizer uma pesquisa em todas as lojas de “frifas” existentes e descobrir que todas vendem bonecas, sempre que encontrar qualquer uma dessas lojas, você poderá deduzir que ela também vende bonecas. A indução é o raciocínio próprio dos investigadores (quando faltam pistas de um crime) e cientistas (quando faltam dados concretos sobre uma pesquisa). A dedução é uma forma mais segura de raciocínio, porque é baseada em dados mais abrangentes e já aceitos. Silogismo: o silogismo é uma espécie de fórmula que representa o raciocínio dedutivo. Ele é formado por três enunciados: 1- Premissa maior (a que contém a totalidade que se conhece). 2- Premissa menor (a que menciona uma parte dessa totalidade). 3- Conclusão. Exemplo: 1- Todo homem é mortal. (Premissa maior – todo). 2- Sócrates é homem. (Premissa menor – parte). 3- Sócrates é mortal. (Conclusão – dedução). FONTE: Disponível em: <https://professoramarialucia.wordpress.com/2011/05/05/inducao-deducao- e-silogismo/>. Acesso em: 10 jan. 2016. UNIDADE 1 | A PESQUISA E SUAS PARTICULARIDADES 40 A interpretação dos fenômenos e a atribuição de significados aos mesmos são importantes no processo de pesquisa qualitativa. Igualmente neste caso, é necessário que o(a) pesquisador(a) exercite a neutralidade, não avaliando os resultados sob a ótica de valores e crenças pessoais. As diferenças entre a Pesquisa Quantitativa e a Qualitativa são resumidas no quadro a seguir: QUADRO 3 – DIFERENÇAS ENTRE PESQUISA QUALITATIVA E QUANTITATIVA Uma vez definido o tema da pesquisa, deve-se escolher entre realizar uma pesquisa qualitativa ou uma quantitativa. Uma não substitui a outra: elas se complementam. • As pesquisas qualitativas têm caráter exploratório: estimulam os entrevistados a pensar e falar livremente sobre algum tema, objeto ou conceito. Elas fazem emergir aspectos subjetivos, atingem motivações não explícitas, ou mesmo não conscientes, de forma espontânea. • As pesquisas quantitativas são mais adequadas para apurar opiniões e atitudes explícitas e conscientes dos entrevistados, pois utilizam instrumentos padronizados (questionários). São utilizados quando se sabe exatamente o que deve ser perguntado para atingir os objetivos da pesquisa. Permitem que se realizem projeções para a população representada. Elas testam, de forma precisa as hipóteses levantadas para a pesquisa e fornecem índices que podem ser comparados com outros. Amostra: • Qualitativa - não há preocupação em projetar resultados para a população. O número de entrevistados geralmente é pequeno. • Quantitativa - exige um número maior de entrevistados para garantir maior precisão nos resultados, que serão projetados para a população representada. Questionário: • Qualitativa - normalmente as informações são coletadas por meio de um roteiro. As opiniões dos participantes são gravadas e posteriormente analisadas. • Quantitativas - as informações são colhidas por meio de um questionário estruturado com perguntas claras e objetivas. Isto garante a uniformidade de entendimento dos entrevistados. Entrevista: • Qualitativa - são realizadas por meio de entrevistas em profundidade ou de discussões em grupo. Para as discussões em grupo, as pessoas (em média oito) são convidadas para um bate-papo realizado em salas especiais com circuito de gravação em áudio e vídeo. Nas entrevistas em profundidade é feito o pré-agendamento do entrevistado e a sua aplicação é individual, em local reservado. Este procedimento garante a concentração do respondente. TÓPICO 2 | A PESQUISA: CONCEITOS E FINALIDADES 41 • Quantitativa - o entrevistador identifica as pessoas a serem entrevistadas por meio de critérios previamente definidos: por sexo, por idade, por ramo de atividade, por localização geográfica etc. As entrevistas não exigem um local previamente ou em pontos de fluxo de pessoas. O importante é que sejam aplicadas individualmente e sigam as regras de seleção da amostra. Relatório: • Qualitativa - as informações colhidas na abordagem qualitativa são analisadas de acordo com o roteiro aplicado e registradas em relatório, destacando opiniões, comentários e frases mais relevantes que surgiram. • Quantitativa - o relatório da pesquisa quantitativa, além das interpretações e conclusões, deve mostrar tabelas de percentuais e gráficos. De maneira sucinta, em pesquisas qualitativas o importante é o que se fala sobre um tema, enquanto que em pesquisas quantitativas o importante é quantas vezes é falado. FONTE: Adaptado de: <http://www.pesquisaquantitativa.com.br/pesquisa-quantitativa.htm>; <http:// www.ipm.org.br/ne_man_conh php?opm=3&ctd=3>; <http://programapibicjr2010.blogspot.com. br/2011/04/diferenca-entre-pesquisa-qualitativa-e.html>. Acesso em: 10 jan. 2015. 1 Elabore um resumo sobre o tema: classificação da pesquisa e suas finalidades. AUTOATIVIDADE 5 O SERVIÇO SOCIAL: DE UM PROCESSO DE TRABALHO INTERVENTIVO PARA UM PROCESSO DE PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO ATRAVÉS DA PESQUISA SOCIAL O Conselho Federal de Serviço Social (CFESS) e os Conselhos Regionais de Serviço Social (CRESS) são responsáveis pela fiscalização e efetivação da legislação que regulamenta a profissão de assistente social no Brasil; o CFESS refere que o(a) assistente social “atua no âmbito das relações sociais, junto a indivíduos, grupos, famílias, comunidade e movimentos sociais, desenvolvendo ações que fortaleçam sua autonomia, participação e exercício de cidadania, com vistas à mudança nas suas condições de vida” (CFESS, 2010). Para tal, sua atuação está ancorada nos princípios de defesa dos direitos humanos e justiça social que são elementos fundamentais para o trabalho social, com vistas à superação da desigualdade social e de situações de violência, opressão, pobreza, fome e desemprego; estes princípios estão expressos no Código de Ética do Assistente Social. UNIDADE 1 | A PESQUISA E SUAS PARTICULARIDADES 42 Neste sentido, a formação do(a) assistente social está fundamentada no respeito às diferenças e fortalecimento das potencialidades dos sujeitos com os quais trabalha, sem discriminação de qualquer natureza. Para efetivar estes princípios o(a) profissional deve ter postura ética, competência teórica e habilitação técnica para desenvolver suas competências e atribuições articuladas a um conjunto de valores, teorias e práticas de defesa dos direitos humanos. Atualmente, a formação profissional segue as Diretrizes Curriculares de 1996 propostas pela ABEPSS – Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social, que a partir de 1996 passou a propor nas diretrizes maior ênfase na dimensão investigativa para a formação profissional, porque a construção do conhecimento no serviço social não pode estar alijada da via investigativa. A pesquisa assumiu então um espaço de destaque no cenário profissional que repercutiu emum aumento da produção de conhecimento desde os anos de 1980 para cá. Cabe ressaltar que a pesquisa está intimamente vinculada ao trabalho profissional, não deve caminhar sozinha, mas vinculada às dimensões teórico- metodológica, ético-política e técnico-operativa do(a) profissional assistente social. Nossa base teórico-metodológica, ancorada nas Ciências Sociais, na tradição marxista, preconiza a totalidade, isto é, a investigação social é uma busca para ir além da aparência, deve visualizar criticamente o real para intervir tecnicamente para as mudanças de paradigma. A nova teoria emerge do concreto pensado, a realidade deixa de ser algo a ser contemplado para ser algo a ser investigado, avaliado e, com isto, serem sistematizadas novas proposições para a mudança desta realidade. Para isto, não pode existir dicotomia entre os que “pensam” (na academia/ universidade) e os que “executam” (os profissionais nos diversos campos de atuação). A própria Lei de Regulamentação da Profissão, Lei nº 8.662, de 7 de junho de 1993, determina em seu art. 5º sobre as atribuições privativas do assistente social, e a pesquisa em Serviço Social é uma atribuição profissional: Art. 5º Constituem atribuições privativas do assistente social: I - coordenar, elaborar, executar, supervisionar e avaliar estudos, pesquisas, planos, programas e projetos na área de Serviço Social; [...] VIII - dirigir e coordenar associações, núcleos, centros de estudo e de pesquisa em Serviço Social (grifo nosso) (BRASIL, 1993). TÓPICO 2 | A PESQUISA: CONCEITOS E FINALIDADES 43 A dimensão investigativa da profissão é um componente que dá materialidade ao Projeto Ético-Político do Serviço Social. No texto do professor Marcelo Braz Moraes dos Reis isto fica evidenciado: [...] Mas o que dá materialidade ao projeto? Vimos que os profissionais individualmente podem operá-lo através das várias modalidades interventivas da profissão, ou seja, o projeto pode se concretizar em nossas próprias ações profissionais cotidianas. No entanto, o que sistematiza essas diversas modalidades interventivas, essas variadas ações profissionais, aparentemente isoladas, como projeto coletivo? Em outras palavras, que mecanismos políticos, instrumentos/documentos legais e referenciais teóricos emprestam não só legitimidade como também operacionalidade prático-política e prático-normativa ao projeto? Vejamos. O entendimento dos elementos constitutivos que emprestam materialidade ao projeto pode se dar a partir de três dimensões articuladas entre si, quais sejam: a) a dimensão da produção de conhecimentos no interior do Serviço Social; b) a dimensão político-organizativa da categoria; c) dimensão jurídico- política da profissão. [...] a) Dimensão da produção de conhecimentos no interior do Serviço Social: É a esfera de sistematização das modalidades práticas da profissão, onde se apresentam os processos. Esta dimensão investigativa da profissão tem como parâmetro a afinidade com as tendências teórico-críticas do pensamento social. Dessa forma, não cabem no projeto ético-político contemporâneo posturas teóricas conservadoras, presas que estão aos pressupostos filosóficos cujo horizonte é a manutenção da ordem (grifo nosso) (REIS, 2016, p. 5). É consenso que da década de 90 para cá, a produção de conhecimento no Serviço Social manteve um avanço expressivo tanto qualitativamente como quantitativamente, e este movimento de pensar, questionar e refletir sobre a realidade fortalece o Serviço Social como uma formação voltada teórica, técnica e eticamente para a mudança, para a negação do conformismo, para a busca contínua dos direitos de cidadania. DICAS Leia a íntegra do texto Notas sobre o Projeto ético-político do Serviço Social, de Marcelo Braz Moraes dos Reis, disponível em: <http://www.funorte.com.br/files/servico- social/29.pdf>. Acesso em: 17 fev. 2016. 44 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico estudamos sobre a pesquisa, conceitos, finalidades, classificação e sua importância para o Serviço Social. São temas que destacamos: • A pesquisa científica é um procedimento sistemático e intenso para explorar e inquirir em busca de descobertas e explicações que levam à compreensão de fenômenos em um determinado contexto histórico, social ou econômico. • Ela contribui para otimizar recursos humanos, materiais e naturais; racionalizando a produção de produtos (bens) para implementar serviços ou mesmo na descoberta de novos elementos que irão incidir para a melhoria da vida humana e animal. • Quanto à sua finalidade, a pesquisa pode ser Pura ou Aplicada. • A pesquisa está relacionada à motivação para a qual ela se destina, assim, Barros e Lehfeld (2010) a separam em: Pesquisa Teórica, Pesquisa Metodológica e Pesquisa Empírica. • Quanto aos procedimentos, para Barros e Lehfeld (2010) a pesquisa pode ser: Pesquisa Descritiva, Pesquisa de Campo, Pesquisa Experimental e Pesquisa Ação. • Quanto à abordagem do fenômeno/fato/problema, Gil (2000) classifica a pesquisa como Quantitativa ou Qualitativa. • No Serviço Social, a pesquisa assumiu, desde os anos de 1980 (século XX) para cá, um espaço de destaque no cenário profissional que repercutiu em um aumento da produção de conhecimento. • Entende-se que a pesquisa está intimamente vinculada ao trabalho profissional; não deve caminhar sozinha, mas vinculada às dimensões teórico-metodológica, ético-política e técnico-operativa do profissional assistente social. • O Projeto ético-político do Serviço Social se materializa a partir de três dimensões, segundo Reis (2016): a) a dimensão da produção de conhecimentos no interior do Serviço Social; b) a dimensão político-organizativa da categoria; c) dimensão jurídico-política da profissão. 45 1 Disserte sobre a importância da pesquisa para a produção de conhecimento em SS. 2 No texto sugerido para leitura, “Notas sobre o Projeto ético-político do Serviço Social”, de Marcelo Braz Moraes dos Reis, o autor elenca “três dimensões articuladas entre si” que materializam o Projeto ético-político do Serviço Social. Quais são estas três dimensões? Comente cada uma. AUTOATIVIDADE 46 47 TÓPICO 3 MÉTODOS NAS CIÊNCIAS SOCIAIS UNIDADE 1 1 INTRODUÇÃO Dos estudos realizados até o momento, evidencia-se que o conhecimento emerge da curiosidade, da inquietação, da inteligência e da capacidade investigativa dos indivíduos, bem como da possibilidade de confirmação ou não de algo já elaborado e sistematizado sobre a realidade social; entende-se também que o ato de pesquisar é algo privilegiado. (GIL, 1995; MINAYO, 2007). Privilegiado, sim, pois reúne o pensamento e a ação de uma pessoa ou grupos num esforço para elaborar o conhecimento de diferentes ângulos e aspectos do real. Além disso, destaca-se que a pesquisa, como ato humano e social, está envolta em valores, crenças, preferências, interesses e princípios do pesquisador. Sua visão de mundo, os pontos de partida, os fundamentos que orientam sua mente norteiam a sua trajetória e isso permite reafirmar que a ciência não é neutra. O(A) pesquisador(a) é justamente o elemento inteligente e ativo entre o conhecimento acumulado sobre determinado tema e as novas evidências sistematizadas no novo ato de pesquisa (GERBER, 2009). Assim, pode-se afirmar que não há como trabalhar/pesquisar em ciência sem o uso de um método. Para tal, se utiliza o Método Científico, que se materializa em um processo, um regramento que deve ser empregado pelo(a) pesquisador(a) para sistematizar seu estudo. “A metodologia, segundo Minayo (2007, p. 14), é o caminho do pensamento e a prática exercida na abordagem da realidade, está vinculada à visão de mundo posta à luz pela teoria, isto é, o conjunto de técnicas e as concepções teóricas do investigador/pesquisador” (GERBER, 2009, p. 16). Neste sentido, prezado acadêmico, abordaremos no Tópico 3 o Método nas Ciências Sociais, importante tema para fundamentar teoricamente os estudos de Pesquisa Social. 48 UNIDADE1 | A PESQUISA E SUAS PARTICULARIDADES 2 AS CIÊNCIAS SOCIAIS As Ciências Sociais se destacam como um conjunto de disciplinas que estudam o homem através das suas relações com a sociedade e com a cultura. Estudam o comportamento humano, as manifestações sociais, tanto na esfera material como na esfera simbólica; estas questões começaram a merecer a atenção dos estudiosos e a revestir-se de um carácter científico a partir do século XVIII. Contudo, foi no século XIX que apareceu a maior parte das disciplinas que pertencem ao domínio das Ciências Sociais: a Antropologia, a Sociologia e a Ciência Política; no século XX, tiveram seu espaço como ciência ampliado, seu estudo democratizou-se, sendo as disciplinas consolidadas em cursos de graduação universitária. (INFOPÉDIA, 2016). NOTA A Ciência Social, como disciplina científica, se consolidou no século XIX, com o objetivo de compreender e explicar as transformações pelas quais passava a sociedade moderna, tais como a Revolução Industrial, a urbanização, a expansão dos mercados, a colonização na África e na Ásia, a revolução científica. Tais fenômenos estimularam alguns pensadores a formular novos conhecimentos ou a sistematizar preocupações teóricas e práticas já existentes para dar conta das transformações e dos processos em curso. A sistematização destes conhecimentos acabou por constituir áreas específicas do saber em ciências sociais. Ainda hoje as ciências sociais são divididas em três áreas: a antropologia, voltada para o estudo da diversidade cultural e da dimensão simbólica da vida social; a ciência política, centrada nos temas do poder, e a sociologia, voltada para o estudo das relações em sociedade. FONTE: Disponível em: <http://www.dcs.ufv.br/?page_id=540>. Acesso em 18 jan. 2016. 3 O MÉTODO CIENTÍFICO NAS CIÊNCIAS SOCIAIS – CONCEITOS Como já sinalizado, não existe ciência sem a utilização de um método. Auguste Comte, o pai do positivismo, acreditava que era possível planejar o desenvolvimento da sociedade e do indivíduo com os critérios e métodos das ciências exatas e biológicas. Para este autor, não só os fenômenos naturais poderiam ser reduzidos a leis, mas também os fenômenos sociais, os fenômenos humanos, poderiam ser analisados como fenômenos naturais, e assim, tanto o pesquisador das ciências TÓPICO 3 | MÉTODOS NAS CIÊNCIAS SOCIAIS 49 naturais quanto o das ciências humanas deveria se afastar de qualquer preconceito ou pressuposto ideológico para realizar seus estudos. Como já evidenciado, a ciência não é neutra e a sociedade é multifacetada, não podendo ser analisada e controlada em laboratório como os fenômenos naturais; assim, para as Ciências Sociais o método utilizado nas Ciências Naturais não pode ter a mesma lógica de investigação. IMPORTANT E O MÉTODO CIENTÍFICO Líria Alves A palavra método vem do grego méthodos, que quer dizer “caminho para chegar a um fim”. O Método Científico é definido como um conjunto de regras básicas para desenvolver uma experiência a fim de produzir novo conhecimento, bem como corrigir e integrar conhecimentos preexistentes. [...] Esse processo ocorre para todas as leis já propostas até hoje. Veja o que é preciso fazer para uma teoria ser aceita no mundo científico: Observação Não é preciso ser um cientista para ter este hábito: o de observar, todos nós fazemos isso o tempo inteiro. Uma observação pode ser feita a olho nu (simples) ou pode exigir a utilização de instrumentos mais avançados. Mas a diferença ao se estudar Ciências é que as observações necessitam ser precisas e cuidadosas, nos mínimos detalhes. Hipótese É uma possível explicação para um fenômeno e também deve ser testada por um grande número de experimentos. Primeiramente, o pesquisador deve propor ideias lógicas ou suposições para explicar certos fenômenos e observações, e então desenvolver experimentos que testem essas hipóteses. Se confirmadas, as hipóteses podem gerar leis e teorias. Lei Depois de constatado um fenômeno, você poderá descrevê-lo em forma de enunciado, mas uma lei só pode ser formulada após certa quantidade de observações semelhantes. Uma lei tem a característica de descrever eventos que se manifestam de maneira invariável e uniforme. Teoria Depois que a hipótese é testada por vários experimentos, ela pode dar origem a uma teoria ou modelo. Ex.: Modelo atômico de Dalton, Teoria de Lavoisier. A teoria deve responder não só às questões iniciais e as que surgirem durante seu fundamento, mas deve permitir previsões sobre futuros experimentos que podem vir a modificá-la. Sendo assim, a teoria pode ser definida como sendo um modelo científico criado por meio de experimentos. Em suma, o Método Científico consiste em estudar um fenômeno da maneira mais racional possível, de modo a evitar enganos, sempre buscando evidências e provas para as ideias, conclusões e afirmações. É um conjunto de abordagens, técnicas e processos para formular e resolver problemas na aquisição do conhecimento. FONTE: Disponível em: <http://brasilescola.uol.com.br/quimica/metodo-cientifico.htm>. Acesso em: 16 jan. 2016. 50 UNIDADE 1 | A PESQUISA E SUAS PARTICULARIDADES DICAS Assista ao vídeo produzido pelo Instituto de Bioquímica Médica e conheça mais sobre o Método Científico. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=5WjZ0X_ lBeU>. Com suas palavras, defina Método. AUTOATIVIDADE Nas Ciências Sociais o(a) pesquisador(a) encontra dificuldades em ser objetivo, estas podem estar relacionadas à dificuldade de controlar as variáveis em um ambiente social no qual encontram-se pessoas com culturas, costumes, crenças, pensamentos, estilo de vida diferentes entre si. As pessoas não são iguais, isto é, um ambiente social é repleto de interferências externas, o que faz com que um(a) pesquisador(a), mais do que explicar um fenômeno, deve contextualizá-lo na história e na cultura da sociedade em questão. Iremos estudar neste livro de estudos os métodos: Indutivo, Dedutivo, Hipotético-Dedutivo, Dialético e Fenomenológico, conforme sistematização de Lakatos e Marconi (2009). 4 MÉTODO INDUTIVO A Indução, para Lakatos e Marconi (2009, p. 86), “é um processo mental por intermédio do qual, partindo de dados particulares, suficientemente constatados, infere-se uma verdade geral ou universal, não contida nas partes examinadas”. Assim, o argumento indutivo leva a conclusões cujo conteúdo é mais amplo do que o processo que o gerou. As autoras exemplificam: TÓPICO 3 | MÉTODOS NAS CIÊNCIAS SOCIAIS 51 O corvo 1 é negro. O corvo 2 é negro. O corvo 3 é negro. O corvo “n” é negro. (todo) corvo é negro. Cobre conduz energia. Zinco conduz energia. Cobalto conduz energia. Ora, cobre, zinco e cobalto são metais. Logo, (todo) metal conduz energia. Analisando os dois exemplos, podemos tirar uma série de conclusões respeitantes ao método indutivo: a. de premissas que encerram informações acerca de casos ou acontecimentos observados, passa-se para uma conclusão que contém informações sobre casos ou acontecimentos não observados; b. passa-se pelo raciocínio, dos indícios percebidos, a uma realidade desconhecida por eles revelada; c. o caminho de passagem vai do especial ao mais geral, dos indivíduos às espécies, das espécies ao gênero, dos fatos às leis ou das leis especiais às leis mais gerais; d. a extensão dos antecedentes é menor do que a da conclusão, que é generalizada pelo universalizante “todo”, ao passo que os antecedentes enumeram apenas “alguns” casos verificados; e. quando descoberta uma relação constante entre duas propriedades ou dois fenômenos, passa-se dessa descoberta à afirmação de uma relação essencial e, em consequência, universal e necessária, entre essas propriedades ou fenômenos. FONTE: Adaptado de Lakatos e Marconi (2009, p. 86-87) 5 MÉTODO DEDUTIVO O Método Dedutivo parte da compreensão da regra geral para então compreender os casos específicos, particulares; ao contrário do Método Indutivo, que parte de casos específicospara tentar chegar a uma regra geral (o que, muitas vezes, pode conduzir a uma generalização indevida). Lakatos e Marconi (2009, p. 91) expõem dois exemplos que servem para ilustrar a diferença entre argumentos dedutivos e indutivos. Dedutivo: Todo mamífero tem um coração. Ora, todos os cães são mamíferos. Logo, todos os cães têm um coração. Indutivo: Todos os cães que foram observados tinham um coração. Logo, todos os cães têm um coração. 52 UNIDADE 1 | A PESQUISA E SUAS PARTICULARIDADES Ainda sobre este tema, Salmon (1978, p. 30-31 apud LAKATOS; MARCONI, 2009, p. 91-92) elenca as duas características básicas que distinguem os argumentos dedutivos dos indutivos: DEDUTIVOS INDUTIVOS I. Se todas as premissas são verdadeiras, a conclusão deve ser verdadeira. II. Toda a informação ou conteúdo fatual da conclusão já estava, pelo menos implicitamente, nas premissas. I. Se todas as premissas são verdadeiras, a conclusão é provavelmente verdadeira, mas não necessariamente verdadeira. II. A conclusão encerra informação que não estava, nem implicitamente, nas premissas. Resumindo: FIGURA 3 – OS ARGUMENTOS DEDUTIVOS E INDUTIVOS Particulariza Generaliza Universal Particular Dedução Indução FONTE: Adaptado de: <http://livrepensamento.com/2013/09/25/metodos-cientificos-metodo- dedutivo/>. Acesso em: 14 jan. 2016. Faça um breve resumo sobre os Métodos Indutivo e Dedutivo e destaque as diferenças entre os dois. AUTOATIVIDADE TÓPICO 3 | MÉTODOS NAS CIÊNCIAS SOCIAIS 53 6 MÉTODO HIPOTÉTICO-DEDUTIVO Este método foi proposto por Karl Popper, filósofo austríaco, e busca a eliminação dos erros de uma hipótese; para isto, a partir da ideia de testar a falsidade de uma proposição, ou seja, com uma hipótese, estabelece- se a situação ou resultado experimental, nega-se essa hipótese realizando experimentos para tal. Enquanto o Método Dedutivo procura confirmar as hipóteses, a abordagem do Método Hipotético-Dedutivo é a de buscar a verdade eliminando tudo o que é falso, procuram-se evidências para “derrubar” a hipótese. Para Popper, a “ciência começa e termina com problemas”, o autor esquematizou sua teoria expondo que o Método Científico inicia com um problema (P1), para este, oferecem-se soluções provisórias que o autor denomina de teoria tentativa (TT), posteriormente inicia-se a etapa de criticar a solução para eliminar o erro (EE); para Popper, dialeticamente o processo renovaria a si mesmo e daria surgimento a novos problemas (P2) (LAKATOS; MARCONI, 2009). Esquema de Popper: P1__________TT__________EE__________P2 FONTE: Lakatos e Marconi (2009, p. 95) Para as autoras, o Método Hipotético-Dedutivo proposto por Popper poderia ser expresso desta forma: FIGURA 4 – ETAPAS DO MÉTODO HIPOTÉTICO-DEDUTIVO SEGUNDO POPPER Expectativas ou Conhecimento Prévio Problema Conjecturas Falseamento FONTE: Adaptado de: <http://livrepensamento.com/2013/10/01/o-metodo-hipotetico- dedutivo/> Acesso em: 14 jan. 2016. Assim, o processo investigatório de Karl Popper envolve os momentos em que se evidenciam: 1. problema, que surge, em geral, de conflitos ante expectativas e teorias existentes; 2. solução proposta consistindo numa conjectura (nova teoria); dedução de consequências na forma de proposições passíveis de teste; 3. testes de falseamento: tentativas de refutação, entre outros meios, pela observação e experimentação. 54 UNIDADE 1 | A PESQUISA E SUAS PARTICULARIDADES Se a hipótese não supera os testes, estará falseada, refutada, e exige nova reformulação do problema e da hipótese, que, se superar os testes rigorosos, estará corroborada, confirmada provisoriamente, não definitivamente como querem os indutivistas (LAKATOS; MARCONI, 2009, p. 95-96). Popper deixa evidente em seus estudos que os processos de aprendizagem sempre ocorrem a partir da formação de expectativas através de tentativas e erros, assim, nascemos com expectativas e, no contexto dessas expectativas, é que se dá a observação. Quando alguma coisa inesperada acontece, quando alguma expectativa é frustrada, quando alguma teoria cai em dificuldades tem-se um problema, daí decorre a afirmação de Popper de que a observação não é o ponto de partida da pesquisa, mas um problema. O crescimento do conhecimento marcha de velhos problemas para novos por intermédio de conjecturas e refutações (LAKATOS; MARCONI, 2009). Explique com suas palavras a afirmação de Popper de que “a ciência começa e termina com problemas” (LAKATOS; MARCONI, 2009, p. 95). AUTOATIVIDADE 7 MÉTODO DIALÉTICO A dialética é uma palavra que se origina do termo grego dialektiké e que significa a arte do diálogo, a arte de debater, de persuadir ou raciocinar (SIGNIFICADOS, 2016). Ela permite o debate entre ideias diferentes, onde um posicionamento é defendido e contradito logo depois; para os gregos, a dialética consistia em separar fatos, dividir as ideias para poder debatê-las com mais clareza; assim, o Método Dialético é baseado nas contradições entre a unidade e multiplicidade, o singular e o universal e o movimento da imobilidade. A realidade é analisada a partir da confrontação de teses, hipóteses ou teorias, a investigação ocorre pela contraposição de elementos conflitantes e a compreensão do papel desses elementos em um fenômeno (BARROS; LEHFELD, 2010; LAKATOS; MARCONI, 2009). O pesquisador deve confrontar todo e qualquer conceito tomado como “verdade” com outras realidades e teorias para se obter uma nova conclusão, uma nova teoria. TÓPICO 3 | MÉTODOS NAS CIÊNCIAS SOCIAIS 55 É importante ressaltar que a dialética não analisa o objeto estático, amorfo, parado, e sim o contextualiza num estudo levando em conta a dinâmica histórica, cultural e social. A argumentação dialética foi sistematizada pelo pensador Friedrich Hegel, filósofo clássico alemão que identificou três momentos básicos no método dialético: a tese (uma ideia pretensamente verdadeira), a antítese (a contradição ou negação dessa tese) e a síntese (o resultado da confrontação de ambas as ideias). A síntese se torna uma nova tese e o ciclo dialético recomeça. Como método científico, a dialética passa a ser estudada a partir de Karl Marx, que critica a filosofia clássica alemã e propõe a Dialética Materialista, que é o emprego do pensamento dialético como um método para analisar a realidade e suas contradições advindas das relações materiais que são estabelecidas. Na dialética, as coisas/fenômenos não são analisadas na qualidade de objetos fixos, mas em movimento: nenhuma coisa (nada) está “acabada”, encontrando-se sempre em vias de se transformar, desenvolver; o fim de um processo é sempre o começo de outro; há um movimento contínuo, determinado processo é concluído com análises (síntese) para aquele momento, e como síntese constitui-se em nova tese. Os fenômenos, as coisas não existem isoladas, destacadas/separadas/ independentes umas das outras, mas como um todo unido, coerente, uma unicidade. Tanto a natureza quanto a sociedade são compostas de objetos e fenômenos organicamente ligados entre si, dependendo uns dos outros e, ao mesmo tempo, condicionando-se reciprocamente (BARROS; LEHFELD, 2010; LAKATOS; MARCONI, 2009). 7.1 AS LEIS DA DIALÉTICA Não há um consenso entre os autores que tratam deste método sobre o número de suas leis, para uns há três leis, para outros, há quatro. Lakatos e Marconi (2009, p. 100) optam por evidenciar quatro leis que definem como fundamentais: 1. ação recíproca, unidade polar ou “tudo se relaciona”; 2. mudança dialética, negação da negação ou “tudo se transforma”; 3. passagem da quantidade à qualidade ou mudança qualitativa; 4. interpenetração dos contrários, contradição ou luta dos contrários. Caro acadêmico, ainda neste tópico voltaremos a este método, estudando-o sob os preceitos teóricos de Karl Marx, sob o título: O Método de Marx. 56 UNIDADE 1 | A PESQUISA E SUAS PARTICULARIDADES 8 MÉTODO FENOMENOLÓGICO O método fenomenológico proposto por Edmund Husserl(1859-1938) refere-se a uma primeira experiência do conhecimento (experiência eidética – o momento da intuição), o fenômeno/objeto e o sujeito são polos que ainda não se inter-relacionam, isto só vai ocorrer a partir da intuição. Dada a evidência da existência da consciência, a tarefa do fenomenólogo é a de descrever os modos típicos (essências eidéticas), como os fatos e as coisas apresentam-se à consciência. Assim, a fenomenologia é definida como a ciência das essências voltada à descrição e análise das mesmas, busca-se a verdade além da aparência. Para tal, num primeiro momento deve ocorrer a suspensão dos juízos com relação às nossas preconcepções, com relação às das doutrinas filosóficas, com relação às afirmações das ciências. O investigador atém-se somente ao fenômeno da experiência tal como é em si mesmo, o qual pode ser alcançado pela pura reflexão. A descrição fenomenológica é realizada conforme a perspectiva da primeira pessoa para garantir que o objeto da consciência seja descrito como é experienciado pelo sujeito. No Serviço Social, a Fenomenologia foi um marco teórico de relevância e que admitia o ser, o homem, vivendo sua própria experiência. A Fenomenologia não estuda apenas as histórias individuais das pessoas, uma vez que o homem não existe a não ser no mundo, era uma meta do Serviço Social auxiliar o(a) usuário(a) no entendimento do seu próprio “eu” e dos demais sujeitos ao seu redor. Anna Augusta de Almeida foi a autora com maior destaque nos estudos da Fenomenologia e Serviço Social. Para a mesma, o marco referencial teórico da metodologia fenomenológica é constituído por três grandes conceitos: diálogo, pessoa e transformação social. Atualmente, no estágio de amadurecimento teórico da profissão, evidencia- se o pensamento de Netto (1994), que identifica na corrente fenomenológica uma questão de reatualização do conservadorismo que marcou o início da profissão no Brasil. DICAS Veja o vídeo sobre fenomenologia, disponível em: <https://www.youtube.com/ watch?v=01tGlZL6ZIA>. TÓPICO 3 | MÉTODOS NAS CIÊNCIAS SOCIAIS 57 9 O MÉTODO DE MARX – A TEORIA, MÉTODO E PESQUISA O surgimento do Serviço Social na América Latina e no Brasil se constituiu no marco do desenvolvimento capitalista e, portanto, a sua configuração não pode ser pensada fora do contexto de formação econômica, social e política, sob uma perspectiva de totalidade. Atualmente é hegemônica a tese no Serviço Social e amplamente fundamentada na obra de Iamamoto e Carvalho (1982), no livro Relações Sociais e Serviço Social no Brasil, no qual os autores explicitam que a profissão de assistente social se constitui no marco do desenvolvimento capitalista, com a profissão sendo discutida na perspectiva histórico-crítica (GERBER, 2009). Outros estudiosos também discutem esta perspectiva, como Neto (1992), para o qual o surgimento da profissão de assistente social ocorreu no contexto do capitalismo, na sua fase monopolista, quando o Estado tomou para si o encargo de responder às demandas da questão social. Também sustentam este debate: Vicente de Paula Faleiros, Maria Lúcia Martinelli e Manuel Manrique Castro. Para estes autores, o profissional de Serviço Social desempenha um papel político, tem uma função que não se explica por si mesma, sua função somente pode ser explicada pela posição que o profissional ocupa na divisão sociotécnica do trabalho (MONTAÑO, 2007). Neste sentido, evidencia-se que o amadurecimento teórico-metodológico do Serviço Social se fortaleceu a partir do período pós-ditadura, sendo iniciado este processo com o Movimento de Reconceituação, onde se explicitou a intenção de ruptura com o conservadorismo (GERBER, 2009). Esta ruptura aproximou o coletivo da profissão e suas instituições da orientação teórico- metodológica da tradição marxista, a profissão se reorganizou sob esta vertente teórica e acompanhando o movimento da sociedade brasileira. A abertura democrática do início dos anos 80 do século XX elegeu (ainda que de forma indireta) um Governo Federal civil, uma Assembleia Nacional Constituinte, que foi responsável pela elaboração da Carta Constitucional após o fim da ditadura militar e que se materializou na Constituição de 1988. Nesta lógica de redemocratização do país, o Serviço Social atualizou sua Lei de Regulamentação Profissional (Lei 8.662/93), o Código de Ética Profissional (1993), no qual a profissão explicita o compromisso com os valores éticos e políticos emancipadores, para conquista da liberdade em defesa da classe trabalhadora. Igualmente a Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social (ABEPSS), entre 1994 e 1996 realizou aproximadamente 200 oficinas locais nas 67 unidades acadêmicas filiadas, 25 oficinas regionais e duas nacionais, para discutir e revisar o currículo, que culminou com a consolidação das Diretrizes 58 UNIDADE 1 | A PESQUISA E SUAS PARTICULARIDADES Curriculares para o Curso de Serviço Social, aprovada pela categoria em 1996 e aprimorada pela Comissão de Especialistas em documento de 1999 sob o embasamento da teoria crítica como norteadora para a formação em Serviço Social (ABEPSS/CEDEPSS, 1996). UNI Um pouco da vida de Karl Marx Karl Heinrich Marx (Tréveris, 5 de maio de 1818 - Londres, 14 de março de 1883) foi filósofo, economista, sociólogo, jornalista e revolucionário socialista. Nascido na Prússia, ele mais tarde se tornou apátrida e passou grande parte de sua vida em Londres, no Reino Unido. A obra de Marx em economia estabeleceu a base para muito do entendimento atual sobre o trabalho e sua relação com o capital, além do pensamento econômico posterior. Ele publicou vários livros durante sua vida, sendo que O Manifesto Comunista (1848) e O Capital (1867-1894) são os mais proeminentes. Marx nasceu em uma rica família de classe média em Tréveris, na Renânia prussiana, e estudou nas universidades de Bonn e Berlim, onde ficou interessado pelas ideias filosóficas dos jovens hegelianos. Depois dos estudos, ele escreveu para o Rheinische Zeitung, um jornal radical publicado em Colônia - Alemanha, e começou a trabalhar na teoria da concepção materialista da história. Ele se mudou para Paris em 1843, onde começou a escrever para outros jornais radicais e conheceu Friedrich Engels, que se tornaria seu amigo de longa data e colaborador. Em 1849 ele foi exilado e se mudou para Londres junto com sua esposa e filhos, onde continuou a escrever e formular suas teorias sobre a atividade econômica e social. Ele também fez campanha para o socialismo e tornou-se uma figura significativa na Associação Internacional dos Trabalhadores. As teorias de Marx sobre a sociedade, a economia e a política — a compreensão coletiva de que é conhecido como o marxismo — sustentam que as sociedades humanas progridem através da luta de classes: um conflito entre uma classe social que controla os meios de produção e a classe trabalhadora, que fornece a mão de obra para a produção; e que o Estado foi criado para proteger os interesses da classe dominante, embora seja apresentado como um instrumento que representa o interesse comum de todos. Além disso, ele previu que, assim como os sistemas socioeconômicos anteriores, o capitalismo produziria tensões internas que conduziriam à sua autodestruição e substituição por um novo sistema: o socialismo. Ele argumentava que os antagonismos de classe no sistema capitalista, entre a burguesia e o proletariado, resultariam na “conquista do poder político pela classe operária e, eventualmente, no estabelecimento de uma sociedade sem classes e apátrida — o comunismo —, que seria regida por uma livre associação de produtores. Marx ativamente argumentava que a classe trabalhadora deveria realizar uma ação revolucionária organizada para derrubar o capitalismo e provocar mudanças socioeconômicas. Elogiado e criticado, Marx tem sido descrito como uma das figuras mais influentes na história da humanidade. Muitos intelectuais, sindicatose partidos políticos em nível mundial foram influenciados por suas ideias, com muitas variações sobre o seu trabalho base. Marx é normalmente citado, ao lado de Émile Durkheim e Max Weber, como um dos três principais arquitetos da ciência social moderna. FONTE: Adaptado de: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Karl_Marx> e <http://www.infoescola.com/ biografias/karl-marx/>. Acesso em: 12 jan. 2016. TÓPICO 3 | MÉTODOS NAS CIÊNCIAS SOCIAIS 59 DICAS Acesse <http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/caio.html> e leia o e-book: Teoria marxista do conhecimento e método dialético materialista, de autoria de Caio Prado Jr. O “Método de Marx”, segundo Netto, na obra Introdução ao Estudo do Método de Marx (2011), emerge de longa trajetória e elaboração teórica. Ainda jovem e recém-doutorado em Filosofia, Marx expõe o caráter essencialmente histórico de seu método. Marx, após conhecer Friedrich Engels (1820-1895) e suas formulações acerca da economia política, passou a deslocar suas críticas da questão filosófica para a da economia política, tendo como problema principal de sua pesquisa a análise da sociedade burguesa com o objetivo de desvelar a sua estrutura e a sua dinâmica; como já sinalizado, foi uma longa elaboração teórica que ocupou Marx por mais de 40 anos. Esse processo histórico mostra que o método em Marx não parte de nenhuma descoberta mágica, genial, mas é resultante de uma demorada investigação que, somente depois de decorridos quase 15 anos de estudos/ pesquisas, ele formulou com precisão os elementos centrais de seu método. Netto (2011) ressalta que há apropriações problemáticas e/ou equivocadas da obra de Marx; adulterações de sua teoria que partiram tanto dos seus seguidores, como de seus adversários. Desta “deformação” da teoria de Marx, um dos principais aspectos que se apresentam são as posições que “dizem” que a teoria de Marx coloca em primeiro lugar a questão econômica. No entanto, para Netto (2011), é imprescindível apresentar o papel da teoria na obra de Marx concomitantemente ao papel do sujeito na pesquisa. Assim, para Marx, “a teoria é o movimento real do objeto transposto para o cérebro do pesquisador – é o real reproduzido e interpretado no plano ideal (do pensamento)” (NETTO, 2011, p. 21). Ou seja, a teoria (conhecimento teórico) é o próprio conhecimento do objeto, de sua “estrutura” e “dinâmica”. E esta reprodução (que constitui propriamente o conhecimento teórico) será tanto mais correta e verdadeira quanto mais fiel o sujeito for ao objeto. Marx afirma que o método com o qual trabalha é o dialético, porém não exatamente a dialética hegeliana, mas o oposto: 60 UNIDADE 1 | A PESQUISA E SUAS PARTICULARIDADES Meu método dialético, por seu fundamento, difere do método hegeliano, sendo a ele inteiramente oposto. Para Hegel, o processo do pensamento [...] é o criador do real, e o real é apenas sua manifestação externa. Para mim, ao contrário, o ideal não é mais do que o material transposto para a cabeça do ser humano e por ele interpretado (MARX, 1968, p. 16 apud NETTO, 2011, p. 21). Assim, diante desta compreensão, Netto (2011) apresenta que o objetivo de um pesquisador deve ser a distinção entre “aparência e essência”, ou seja, é apreender a essência (a estrutura e a dinâmica) do objeto. É o método de pesquisa que, por meio de procedimentos analíticos, propicia o conhecimento teórico, partindo da aparência, visa alcançar a essência do objeto. Feito isso e operando a sua síntese, o pesquisador reproduz, no plano do pensamento, ou seja, no plano ideal, a essência do objeto que investigou. Em toda pesquisa, parte-se da aparência e, conforme avança a análise sobre a pesquisa, chega-se a conceitos e novas abstrações; contudo, o procedimento analítico não se encerra neste ponto, pois, após se obter as determinações mais simples, é necessário retornar ao objeto. A teoria representa a reprodução do movimento real do objeto no plano do pensamento, assim, esta não se apresenta como um reflexo mecânico. Por isso, para Marx, o papel do sujeito é essencialmente ativo, pois cabe a ele apreender não só a aparência ou a forma dada ao objeto, mas a sua essência, que corresponde à sua estrutura e à sua dinâmica, como um processo (NETTO, 2011). Na investigação, o sujeito “tem de apoderar-se da matéria, em seus pormenores, de analisar suas diferentes formas de desenvolvimento e de perquirir a conexão que há entre elas” (MARX, 1968, p. 16 apud NETTO, 2011, p. 25). Desta maneira, o sujeito deve ser capaz de mobilizar um máximo de conhecimentos, criticá-los e revisá-los; isto faz emergir outro elemento essencial para a pesquisa, que é a capacidade de abstração do pesquisador, que nada mais é do que “a capacidade intelectiva que permite extrair de sua contextualidade determinada (de uma totalidade) um elemento, isolá-lo, examiná-lo; é um procedimento intelectual sem o qual a análise é inviável” (NETTO, 2011, p. 44). Marx realiza isto com muita presteza em suas pesquisas, começando pelo real e pelo concreto, que aparecem como dados, mas que, pela análise, os elementos são abstraídos e consequentemente chega-se a conceitos e assim progressivamente. Netto (2011, p. 45) ressalta que, para Marx, “o conhecimento concreto do objeto é o conhecimento das suas múltiplas determinações”, assim, quanto mais se refletem as determinações de um objeto, tanto mais o pensamento reflete a sua riqueza (concreção) real. As “determinações mais simples” estão postas no nível da universalidade, na imediaticidade do real, elas mostram-se como singularidades. TÓPICO 3 | MÉTODOS NAS CIÊNCIAS SOCIAIS 61 Assim, o conhecimento do concreto opera-se envolvendo universalidade, singularidade e particularidade; para isto, o sujeito deve utilizar-se dos mais variados instrumentos e também técnicas de pesquisa, desde a análise documental até as formas mais diversas de observação, coleta de dados, quantificação etc. Estes instrumentos e técnicas são meios de que se vale o pesquisador para apoderar-se da matéria, mas não devem ser de forma alguma identificados com o método (NETTO, 2011), porque são técnicas. (NETTO, 2011). Também é imprescindível compreender a diferenciação do método de pesquisa e do método de exposição, pois somente com a conclusão da pesquisa é que o investigador apresenta, expõe os resultados a que chegou. Neste sentido, Netto (2011, p. 27) ressalta: “Como se vê, para Marx, os pontos de partida são opostos: na investigação, o pesquisador parte de perguntas, questões; na exposição, ele já parte dos resultados que obteve na investigação”. O objetivo da pesquisa marxiana é conhecer as categorias que constituem a articulação interna da sociedade burguesa. Para Netto (2011), estas categorias são objetivas, reais, históricas e transitórias, sendo que as categorias próprias da sociedade burguesa só são válidas no seu marco (exemplo: trabalho assalariado). Por isso é necessário conhecer a gênese histórica de uma categoria, no entanto, deve-se ter claro que a sua gênese não determina o desenvolvimento ulterior de uma categoria. Por isso, “o estudo das categorias deve conjugar a análise diacrônica (da gênese e desenvolvimento) com a análise sincrônica (sua estrutura e função na organização atual)” (NETTO, 2011, p. 49). Assim, seria um erro compreender que há, em Marx, um método como um conjunto de regras formais que se “aplicam” a um objeto que foi recortado para uma investigação determinada sem, menos ainda, um conjunto de regras que o sujeito pesquisador escolhe, conforme a sua vontade, para “enquadrar” seu objeto de investigação (NETTO, 2011). Cabe sinalizar que o método implica numa perspectiva, do sujeito pesquisador, que o permita extrair do objeto as suas múltiplas determinações, que acontece conforme se avança no estudo. Para Netto (2011, p. 53), “o método implica, pois, para Marx, uma determinada posição (perspectiva) do sujeito que pesquisa: aquela em que põe o pesquisador para, na suarelação com o objeto, extrair dele as suas múltiplas determinações”. Outro ponto importante é que o método em Marx é indissociável da teoria; não é possível analisar o método sem a referência teórica. De acordo com os estudos de Netto (2011), se apresentam, em Marx, três categorias que são nucleares para este grande pensador: totalidade, contradição e mediação. 62 UNIDADE 1 | A PESQUISA E SUAS PARTICULARIDADES A totalidade se deve à união dos complexos sociais que se estabelecem na sociedade, uma totalidade dinâmica que se articula à categoria da contradição, devido à constante transformação da sociedade; a categoria da mediação indica que as relações estabelecidas são mediadas pela estrutura da totalidade. Ao articular estas três categorias (totalidade, contradição e mediação), Marx estabeleceu sua perspectiva teórico-metodológica. DICAS Sugerimos a leitura do livro “Introdução ao Estudo do Método de Marx”, publicado no ano de 2011 pela Editora Expressão Popular, de autoria do professor José Paulo Netto, doutor em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1990), professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), é um dos principais teóricos marxistas do Brasil na atualidade. Disponível em: <http://ujcsp.net/wp-content/uploads/2015/09/ introducc3a3o-aos-estudos-do-mc3a9todo-de-karl-marx-j-p- netto.pdf>. Acesso em: 12 jan. 2016. Realize uma pequena pesquisa bibliográfica e elabore os conceitos das categorias marxianas: totalidade, contradição e mediação. AUTOATIVIDADE 10 O MÉTODO E OS MÉTODOS No que se refere à sua inspiração filosófica e ao seu grau de abstração, Método e Métodos são distintos. Lakatos e Marconi (2009, p. 106) fazem uma distinção entre os termos, afirmam que o Método se caracteriza por uma abordagem mais ampla, em nível de abstração mais elevado, dos fenômenos da natureza e da sociedade. Assim, teríamos, em primeiro lugar, o Método de Abordagem, assim descriminado: TÓPICO 3 | MÉTODOS NAS CIÊNCIAS SOCIAIS 63 a. método indutivo – cuja aproximação dos fenômenos caminha geralmente para planos cada vez mais abrangentes, indo das constatações mais particulares às leis e teorias (conexão ascendente); b. método dedutivo – que, partindo das teorias e leis, na maioria das vezes prediz a ocorrência dos fenômenos particulares (conexão descendente); c. método hipotético-dedutivo – que se inicia pela percepção de uma lacuna nos conhecimentos, acerca da qual formula hipóteses e, pelo processo de inferência dedutiva, testa a predição da ocorrência de fenômenos abrangidos pela hipótese; d. método dialético – que penetra o mundo dos fenômenos através de sua ação recíproca, da contradição inerente ao fenômeno e da mudança dialética que ocorre na natureza e na sociedade. QUADRO 4 – MÉTODO DE ABORDAGEM MÉTODO DE ABORDAGEM MÉTODO INDUTIVO MÉTODO DEDUTIVO MÉTODO HIPOTÉTICO-DEDUTIVO MÉTODO DIALÉTICO/MÉTODO MARXIANO FONTE: Adaptado de Lakatos e Marconi (2009) Por outro lado, Métodos de Procedimento seriam etapas mais concretas da investigação (LAKATOS; MARCONI, 2009), com finalidade mais restrita em termos de explicação geral dos fenômenos e menos abstratas. São as atitudes concretas para se estudar o fenômeno e estão limitados a um domínio particular, são de escolha do(a) pesquisador(a); e que na área das ciências sociais podem ser utilizados vários, concomitantemente. Sobre os Métodos de Procedimento, os mais comumente utilizados são: Histórico, Comparativo, Monográfico, Estatístico, Tipológico, Funcionalista, Estruturalista, Etnográfico e Clínico. 64 UNIDADE 1 | A PESQUISA E SUAS PARTICULARIDADES QUADRO 5 – MÉTODOS DE PROCEDIMENTO MÉTODOS DE PROCEDIMENTO HISTÓRICO COMPARATIVO MONOGRÁFICO ESTATÍSTICO TIPOLÓGICO FUNCIONALISTA ESTRUTURALISTA ETNOGRÁFICO CLÍNICO FONTE: Adaptado de Lakatos e Marconi (2009) 10.1 MÉTODO HISTÓRICO Este método foi sistematizado por Franz Boas, um antropólogo que partiu do princípio de que as atuais formas de vida social, as instituições e os costumes têm origem no passado, é importante pesquisar suas raízes para compreender sua natureza e função. Boas vai ser inovador em diversos conceitos e perspectivas, mas duas de suas contribuições se destacam: (I) a proposta do método histórico, ou mais especificamente a ideia do particularismo histórico, e pelo (II) conceito de cultura, que supera a visão evolucionista- naturalista e também a noção de difusão, uma vez que ele atribui à cultura um caráter mais particular, criativo, plural e não biológico ou natural. (SANTOS, 2013, p. 1). O Método Histórico busca a investigação, os acontecimentos, processos e instituições do passado para verificar a sua influência na sociedade de hoje, pois as instituições evoluíram para a forma atual através de alterações de suas partes ao longo do tempo, influenciadas pelo contexto cultural particular de cada época. Seu estudo, para uma melhor compreensão do papel que atualmente desempenham na sociedade, deve remontar aos períodos de sua formação e de suas modificações. Exemplos: • Para compreender a noção atual de família e parentesco, pesquisa-se no passado os diferentes elementos constitutivos dos vários tipos de família e as fases de sua evolução social. • Para descobrir as causas da decadência da aristocracia cafeeira, investigam-se os fatores socioeconômicos do passado (LAKATOS, 1981, p. 32 apud LAKATOS; MARCONI, 2009, p. 107). TÓPICO 3 | MÉTODOS NAS CIÊNCIAS SOCIAIS 65 Lakatos e Marconi (2009) explicam que, colocando-se os fenômenos, como, por exemplo, as instituições, no ambiente social em que nasceram, entre as suas condições “concomitantes”, torna-se mais fácil a sua análise e compreensão, sobre seu surgimento, evolução e desenvolvimento, assim como as alterações pelas quais passaram ao longo do tempo, permitindo a comparação de sociedades diferentes. Concluem as autoras citadas que: “o método histórico preenche os vazios dos fatos e acontecimentos, apoiando-se em um tempo, mesmo que artificialmente reconstruído, que assegura a percepção da continuidade e do entrelaçamento dos fenômenos”. (LAKATOS; MARCONI, 2009, p. 107). 10.2 MÉTODO COMPARATIVO Este Método, como seu nome já anuncia, realiza comparações, com a finalidade de verificar semelhanças e explicar divergências; é usado tanto para comparações de grupos no presente, no passado, ou entre os existentes e os do passado, quanto entre sociedades de iguais ou de diferentes estágios de desenvolvimento. A grande contribuição de Tylor foi sua tentativa de conciliar a evolução da cultura e sua universalidade; foi o primeiro a abordar os fatos culturais sob um prisma sistemático e geral. Quando esteve no México, Tylor elaborou um método de estudos da evolução da cultura pelo exame das sobrevivências culturais (elementos culturais do passado que sobrevivem sem explicação plausível). Pensava ser possível, através desse método, reconstituir o conjunto original, chegando à conclusão de que a cultura dos povos primitivos representava a cultura original da humanidade. Adotou a partir daí o método comparativo, pois as culturas singulares estavam ligadas umas às outras em um movimento de progresso cultural, sendo possível, dessa maneira, estabelecer uma escala de estágios da evolução humana (MELANDER FILHO, 2009, p. 1). O método contribui para melhor compreensão do comportamento humano porque estuda as semelhanças e diferenças entre diversos tipos de grupos, sociedades ou povos. Exemplos: • Modo de vida rural e urbano no Estado de São Paulo; • Características sociais da colonização portuguesa e espanhola na América Latina; • Classes sociais no Brasil, na época colonial e atualmente; • Organização de empresas norte-americanas e japonesas; • A educação entre os povos ágrafos e os tecnologicamente desenvolvidos (LAKATOS, 1981, p. 32 apud LAKATOS; MARCONI, 2009, p. 107). 66 UNIDADE 1 | A PESQUISA E SUAS PARTICULARIDADES 10.3 MÉTODO MONOGRÁFICO O Método Monográficoproposto pelo sociólogo francês Pierre Guillaume Frédéric Le Play parte do princípio de que qualquer caso que se estude em profundidade pode ser considerado representativo de muitos outros ou até de todos os casos semelhantes, o método consiste no estudo de determinados indivíduos, profissões, condições, instituições, grupos ou comunidades, com a finalidade de obter generalizações. A investigação deve examinar o tema escolhido, observando todos os fatores que o influenciaram e analisando-o em todos os seus aspectos. (Adaptado de: <https://www.passeidireto.com/ arquivo/3141055/sociologia-/12>. Acesso em: 18 fev. 2016). É sabido que, na realidade, as investigações de Le Play incidiram, principalmente, sobre as monografias de famílias operárias. Estabeleciam o orçamento de uma família normal, numa profissão, lugar e época determinados, e fixavam suas diversas despesas, consagradas à alimentação, ao vestuário, à habitação, à saúde, à instrução, aos divertimentos e à economia. Para estas monografias Le Play constituiu quadros que foram desenvolvidos por Henri de Tourville numa Nomenclature detalhada, em que os fenômenos sociais são agrupados em 25 grandes classes, subdivididas, por sua vez, em 326 elementos. Le Play estabeleceu, igualmente, um quadro para a monografia de uma nação, que aplicou na sua “Constituição da Inglaterra”: Emile Cheys-son, um quadro para as monografias de oficina, etc. (CUVILLIER, 1939, p. 1). No seu começo, o método se voltou para aspectos particulares, como, por exemplo, o orçamento familiar, as características de profissões ou de indústrias domiciliares, o custo de vida etc. Contudo, um estudo monográfico pode, também, abranger um conjunto de atividades de um grupo social particular, como no exemplo (a seguir) das cooperativas e do grupo indígena. Tem como vantagem o respeito à “totalidade solidária” dos grupos, ao estudar, em primeiro lugar, a vida do grupo na sua unidade concreta, evitando, portanto, a prematura dissociação de seus elementos. Exemplos: • Estudo de delinquentes juvenis [na nomenclatura atual (ECA), jovens em conflito com a Lei]; • Da mão de obra volante; • Do papel social da mulher ou dos idosos na sociedade; • De cooperativas; • De um grupo de índios; • De bairros rurais (LAKATOS, 1981, p. 33 apud LAKATOS; MARCONI, 2009, p. 107). TÓPICO 3 | MÉTODOS NAS CIÊNCIAS SOCIAIS 67 10.4 MÉTODO ESTATÍSTICO As estatísticas permitem obter uma representação simples de conjuntos complexos e verificar se essas representações simplificadas têm relações entre si; Adolphe Quetelet (1796-1874), importante estudioso da estatística, introduziu a noção de “homem médio” (l’homme moyen) como um meio de compreender fenômenos sociais complexos, como taxas de criminalidade, de casamento e de suicídio. Lakatos e Marconi (2009, p. 108) referem que “o método estatístico significa redução de fenômenos sociológicos, políticos, econômicos etc. a termos quantitativos e a manipulação estatística”, assim se torna possível comprovar as relações dos fenômenos entre si, e obter generalizações sobre sua natureza, ocorrência ou significado. O método estatístico permite fornecer uma descrição quantitativa da sociedade, considerada como um todo organizado; é possível definir e delimitar as classes sociais, especificar as características dos membros dessas classes, e após, medir a sua importância ou a variação, ou qualquer outro atributo quantificável que contribua para o seu melhor entendimento. Exemplos: • Verificar a correlação entre nível de escolaridade e número de filhos; • Pesquisar as classes sociais dos estudantes universitários; • O tipo de lazer preferido pelos estudantes de 1º e 2º grau (LAKATOS, 1981, p. 32-33 apud LAKATOS; MARCONI, 2009 p. 108). 10.5 MÉTODO TIPOLÓGICO Este método sistematizado por Max Weber se assemelha ao método comparativo, quando o pesquisador compara fenômenos sociais complexos, o pesquisador cria tipos ou modelos ideais, construídos a partir da análise de aspectos essenciais do fenômeno. Para Weber, a característica principal do tipo ideal é não existir na realidade, mas servir de modelo para a análise e compreensão de casos concretos, realmente existentes. Ele, através da classificação e comparação de diversos tipos de cidades, determinou as características essenciais da cidade; da mesma maneira, pesquisou as diferentes formas de capitalismo para estabelecer a caracterização ideal do capitalismo moderno; e, partindo do exame dos tipos de organização, apresentou o tipo ideal de organização burocrática (LAKATOS; MARCONI, 2009). Para o autor, a vocação prioritária do cientista é separar os juízos de realidade (o que é) e os juízos de valor (o que deve ser) da análise científica, com a finalidade de perseguir o conhecimento pelo conhecimento. 68 UNIDADE 1 | A PESQUISA E SUAS PARTICULARIDADES O tipo ideal não é uma hipótese, pois se configura como uma proposição que corresponde a uma realidade concreta; portanto, é abstrato; não é uma descrição da realidade, pois só retém, através de um processo de comparação e seleção de semelhanças, certos aspectos dela; também não pode ser considerado como um “termo médio”, pois seu significado não emerge da noção quantitativa da realidade. O tipo ideal não expressa a totalidade da realidade, mas seus aspectos significativos, os caracteres mais gerais, os que se encontram regularmente no fenômeno estudado (LAKATOS; MARCONI, 2009). Ressalta-se que podem ser objeto de estudo do método tipológico somente os fenômenos que podem ser divididos como “tipo” e “não tipo”. Os estudos de Weber evidenciam esta característica: “‘cidade’ – ‘outros tipos de povoamento’; ‘capitalismo’ – ‘outros tipos de estrutura socioeconômica’; ‘organização burocrática’ – ‘organização não burocrática’” (LAKATOS; MARCONI, 2009, p.109). Exemplo: • “Estudo de todos os tipos de governo democrático, do presente e do passado, para estabelecer as características típicas ideais da democracia” (LAKATOS, 1981, p. 33-34 apud LAKATOS; MARCONI, 2009, p. 109). 10.6 MÉTODO FUNCIONALISTA O Método Funcionalista, sob a ótica de Lakatos e Marconi (2009), é mais um método de interpretação do que de investigação, ele leva em consideração que a sociedade é formada por partes componentes, diferenciadas, inter-relacionadas e interdependentes. Cada uma destas partes realiza funções essenciais da vida social, e essas partes são melhor entendidas compreendendo-se as funções que desempenham no todo. O método funcionalista estuda a sociedade do ponto de vista da função de suas unidades, isto é, como um sistema organizado de atividades. Bronislaw Malinowski foi um dos principais expoentes da antropologia funcionalista britânica da primeira metade do século XX. Para ele, devido à influência de Wilhelm Wundt, cada sociedade deveria ser estudada como um “todo”, como um organismo possuidor de uma lógica interna e singular, subdividido através de uma complexa rede de relações entre os indivíduos. Ele também acreditava que a análise antropológica deveria se realizar de forma sincrônica, imediata e levando em conta os fatores sociais, psicológicos e biológicos dos nativos. Para compreender a complexidade social das diferentes sociedades, de acordo com Eriksen e Nielsen (2010), o funcionalismo de Malinowski, conhecido como biopsicológico, defende que as instituições sociais têm como função satisfazer as necessidades biológicas dos indivíduos. Ou seja, segundo a definição de Laplantine (2003), cada pessoa possui um conjunto de precisões, cabendo à cultura desenvolver diferentes maneiras de resolver essas necessidades, de forma coletiva, através das instituições (FERREIRA, 2012, p. 1). TÓPICO 3 | MÉTODOS NAS CIÊNCIAS SOCIAIS 69 A corrente funcionalista evidencia que o conceito de sociedade é visto como um todo em funcionamento, um sistema em operação. E o papel das partes nesse todo é compreendido como funções no complexo de estrutura e organização. Exemplos: • “Análisedas principais diferenciações de funções que devem existir num pequeno grupo isolado, para que o mesmo sobreviva. • Averiguação da função dos usos e costumes no sentido de assegurar a identidade cultural de um grupo” (LAKATOS, 1981, p. 34 apud LAKATOS; MARCONI, 2009, p. 110). 10.7 MÉTODO ESTRUTURALISTA O Estruturalismo é uma modalidade de pensamento e um método de análise praticada nas ciências sociais e humanidades no século XX, analisa os sistemas em grande escala, examinando as relações e as funções dos elementos que constituem tais sistemas, que são inúmeros, variando das línguas humanas e das práticas culturais aos contos folclóricos e aos textos literários. Este método foi desenvolvido pelo francês Claude Lévi-Strauss e parte da investigação de um fenômeno concreto, eleva -se a seguir ao nível abstrato, por intermédio da constituição de um modelo que represente o objeto de estudo, retornando, por fim, ao concreto, dessa vez como uma realidade estruturada e relacionada com a experiência do sujeito social. Assim, o método estruturalista caminha do concreto para o abstrato e vice-versa, dispondo, na segunda etapa, de um modelo para analisar a realidade concreta dos diversos fenômenos. A diferença primordial entre os métodos tipológico e estruturalista é que o “tipo ideal” do primeiro inexiste na realidade, representação concebível da realidade (LAKATOS; MARCONI, 2009). Exemplos: • Estudo das relações sociais e a posição que estas determinam para os indivíduos e os grupos, com a finalidade de construir um modelo que passa a retratar a estrutura social onde ocorrem tais relações; • Verificação das leis que regem o casamento e o sistema de parentesco das sociedades primitivas, ou modernas, através da construção do modelo que represente os diferentes indivíduos e suas relações, no âmbito do matrimônio e parentesco (no primeiro caso, basta um modelo mecânico, pois os indivíduos são pouco numerosos; no segundo, será necessário um modelo estatístico) (LAKATOS; MARCONI, 2009, p. 111). 70 UNIDADE 1 | A PESQUISA E SUAS PARTICULARIDADES 10.8 MÉTODO ETNOGRÁFICO O termo etnografia tem origem no grego ethono, que indica nação, povo; e egraphein, que quer dizer escrever. Assim, o Método Etnográfico é um conjunto de técnicas para coletar dados sobre os valores, os hábitos, as crenças, as práticas e o comportamento de um determinado grupo social. A investigação etnográfica essencialmente consiste em uma descrição dos eventos que têm lugar na vida do grupo, com especial consideração das estruturas sociais e a conduta dos sujeitos como membros do grupo, assim como de suas interpretações e significados da cultura a que pertencem (WOODS, 1987). Oferece um estilo de investigação alternativa para descrever, explicar e interpretar fenômenos sociais que têm lugar no contexto social. O enfoque etnográfico intenta descrever a totalidade de um fenômeno (grupo social, aulas, festas populares etc.) em profundidade e em seu âmbito natural, compreendê-lo desde o ponto de vista dos que estão implicados nele. O método etnográfico permite a aproximação e detecção que favorecem a coleta de dados nas respectivas fontes, utilizando os principais instrumentos, como observação participante, os entrevistados, os documentos pessoais, com o propósito de proceder a investigar dados descritos, palavras escritas e/ou orais, em condutas observáveis dos populares participantes, de conhecer as pessoas e perceber como elas desenvolvem suas próprias definições (LOPEZ, 1999, p. 46). A observação e a pesquisa de campo (in loco) são necessárias para efetivar a pesquisa. Além de diferentes fontes bibliográficas e/ou documentais, este método necessita de elevados aportes de recursos materiais, financeiros e técnicos; o(a) pesquisador(a), dependendo do tema da pesquisa, necessita deslocar-se muitas vezes entre países. O processo de investigação, segundo Wilcox (1993, p. 95-127 apud LAKATOS; MARCONI, 2009, p. 112), envolve: a) aceder, manter e desenvolver uma relação com as pessoas geradoras de dados. Essa atividade exige certas habilidades e recursos; b) empregar uma variedade de técnicas para coletar o maior número de dados e/ou informações, aspecto que redundará na validez e confiabilidade do estudo; c) permanecer no campo o tempo suficiente para assegurar uma interpretação correta dos fatos observados e discriminar o que é regular e/ou irregular; d) utilizar teorias e conhecimentos para guiar e informar as próprias observações do que viu ou ouviu, redefinir o tema e depurar o processo do estudo. TÓPICO 3 | MÉTODOS NAS CIÊNCIAS SOCIAIS 71 10.9 MÉTODO CLÍNICO É um método aplicado em estudo de caso com intervenção psicopedagógica que pode ser positiva ou não, pode ser qualitativo como quantitativo, podendo ser incluídas intenções, significados e valores. O método que permite o envolvimento do(a) pesquisador(a) com seu objeto de pesquisa e que não está inicialmente pronto, tem uma aproximação com o que faz o clínico, aquele que se “debruça sobre o paciente”, sendo o paciente “qualquer ser humano que queremos conhecer” (CASSORLA, 2003) . O método clínico é definido por André Lévy (2001, p. 28) como um método que permite a abordagem do outro, nas relações interindividuais e nas relações sociais. É também uma démarche ativa de pesquisa e de intervenção, que considera os valores e as posições subjetivas no trabalho científico, além de permitir explicitar a relação do sujeito com o saber (DINIZ, 2011, p. 4). Apresenta como caraterísticas a relação íntima, pessoal, entre o clínico e o sujeito (paciente ou cliente). O(a) pesquisador(a) utiliza-se de técnicas como: entrevista, história de vida, observação, análise de documentos, relatórios técnicos; é importante que o pesquisador(a) deixe o(a) pesquisado(a) falar livre e espontaneamente, é utilizado em estudo de doenças/análise de pacientes, com estudantes (LAKATOS; MARCONI, 2009). Caro acadêmico, as autoras Lakatos e Marconi (2009) ressaltam que, diferenciando-se do Método de Abordagem, os Métodos de Procedimento muitas vezes são utilizados em conjunto, com a finalidade de obter vários enfoques do objeto de estudo. Exemplificam o uso concomitante dos diversos métodos: • Para analisar o papel que os sindicatos desempenham na sociedade, pode-se pesquisar a origem e o desenvolvimento do sindicato, e a forma específica em que aparece nas diferentes sociedades: Método Histórico e Comparativo. • A análise de garimpos e garimpeiros de Patrocínio Paulista – tese de doutoramento da professora Marina de Andrade Marconi – foi resultado do emprego dos Métodos Histórico, Estatístico e Monográfico. O tema exigiu a pesquisa, no passado, das atividades dos garimpeiros, suas migrações e métodos de trabalho; na investigação da característica do garimpeiro de hoje, foi empregado o método estatístico; e, finalmente, ao limitar a pesquisa a determinada categoria, utilizou-se o método monográfico. A escolha do Método de Abordagem e dos Métodos de Procedimento não é rígida, ela dependerá da linha de pesquisa na qual o(a) pesquisador(a) está inserido(a), do tema e/ou campo teórico. O que sempre deve ser ressaltado é o rigor e o compromisso do(a) pesquisador(a) das ciências sociais e humanas com as questões legais e éticas, porque seu estudo, de uma maneira ou de outra, envolverá pessoas, seres humanos. 72 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico estudamos os métodos utilizados nas Ciências Sociais, e destacamos: • O Método Científico possibilita trabalhar/pesquisar nas ciências sociais. É um processo, um regramento que deve ser empregado pelo(a) pesquisador(a) para sistematizar seus estudos e pesquisas. • As Ciências Sociais são um conjunto de disciplinas que estudam o homem através das suas relações com a sociedade e com a cultura. • Estudam o comportamento humano, as manifestações sociais tanto na esfera material como na esfera simbólica. Estas questões começaram a merecer a atenção dos estudiosose a revestir-se de um carácter científico a partir do século XVIII. • No século XIX surgiu a maior parte das disciplinas que pertencem ao domínio das Ciências Sociais: a Antropologia, a Sociologia e a Ciência Política. • No século XX tiveram seu espaço como ciência ampliado, seu estudo democratizou-se, sendo as disciplinas consolidadas em cursos de graduação universitária. • O método é um caminho para se chegar a um fim, ele é imprescindível para efetivar a pesquisa. • Lakatos e Marconi (2009) destacam os métodos: Indutivo, Dedutivo, Hipotético-Dedutivo, Dialético e Fenomenológico, para efetivar pesquisas nas ciências sociais. • Karl Marx estudou e demonstrou o emprego do pensamento dialético como um método para analisar a realidade e suas contradições advindas das relações materiais que são estabelecidas. • O Método Dialético considera que os fenômenos, as coisas não existem isoladas, destacadas/separadas/independentes umas das outras, mas como um todo unido, coerente, uma unicidade. Tanto a natureza quanto a sociedade são compostas de objetos e fenômenos organicamente ligados entre si, dependendo uns dos outros e, ao mesmo tempo, condicionando-se reciprocamente. 73 • A assistente social Anna Augusta de Almeida foi a autora com maior destaque nos estudos da Fenomenologia e Serviço Social. Para ela, o marco referencial teórico da metodologia fenomenológica é constituído por três grandes conceitos: diálogo, pessoa e transformação social. • Atualmente, a fenomenologia não responde mais aos requisitos da profissão (NETTO, 1994). Identifica na corrente fenomenológica um retorno ao conservadorismo que marcou o início da profissão no Brasil. • O Serviço Social, de acordo com a obra de Iamamoto e Carvalho (1982), no livro Relações Sociais e Serviço Social no Brasil, surgiu no Brasil como profissão no marco do desenvolvimento capitalista, sendo discutida na perspectiva histórico-crítica. • Evidencia-se que o amadurecimento teórico-metodológico do Serviço Social iniciado com o Movimento de Reconceituação explicitou a intenção de ruptura com o conservadorismo. Esta ruptura aproximou o coletivo da profissão e suas instituições da orientação teórico- metodológica da tradição marxista, a profissão se reorganizou sob esta vertente teórica e acompanhando o movimento da sociedade brasileira. • Sob este paradigma teórico ancorado na tradição marxista, o Serviço Social atualizou sua Lei de Regulamentação Profissional (Lei 8.662/93), o Código de Ética Profissional (1993), no qual a profissão explicita o compromisso com os valores éticos e políticos emancipadores, para conquista da liberdade em defesa da classe trabalhadora e propôs novas Diretrizes Curriculares para o ensino de Serviço Social, aprovadas em 1996. • A pesquisa sob o Método de Marx parte da aparência, e conforme avança a análise, chega-se a conceitos e novas abstrações. Contudo, o procedimento analítico não se encerra neste ponto, pois, após se obter as determinações mais simples, é necessário retornar ao objeto. O início se dá no real, no concreto, que aparecem como dados, mas que, pela análise, os elementos são abstraídos e, consequentemente, chega-se a conceitos e assim progressivamente. • O conhecimento do concreto opera-se envolvendo universalidade, singularidade e particularidade; para isto, o sujeito deve utilizar-se dos mais variados instrumentos e também técnicas de pesquisa, desde a análise documental até as formas mais diversas de observação, coleta de dados, quantificação etc. • Para Marx, três categorias são nucleares: totalidade, contradição e mediação. 74 • Lakatos e Marconi (2009) delimitam para as ciências sociais Métodos de Abordagem e Métodos de Procedimentos. • Métodos de Abordagem: Método Indutivo, Método Dedutivo, Método Hipotético-Dedutivo e Método Dialético/Método Marxiano. • Métodos de Procedimentos: Histórico, Comparativo, Monográfico, Estatístico, Tipológico, Funcionalista, Estruturalista, Etnográfico e Clínico. 75 1 Elabore um breve resumo sobre os Métodos de Abordagem e Métodos de Procedimentos, conforme proposto por Lakatos e Marconi (2009). 2 Leia o texto: Serviço Social e tradição marxista: notas sobre a teoria social crítica, de Mathis e Santana (2009. Disponível em: <http://www. ifch.unicamp.br/formulario_cemarx/selecao/2009/trabalhos/servico- social-e-tradicao-marxista-notas-sobre-teoria-soci.pdf>.), e explique as três perspectivas teóricas do Processo de Renovação do Serviço Social discutidas por Netto (1991). AUTOATIVIDADE 76 77 TÓPICO 4 A PESQUISA SOCIAL UNIDADE 1 1 INTRODUÇÃO Pelo que estudamos até o momento, podemos afirmar de forma simplificada que o conhecimento e a ciência resultam da curiosidade do homem que não se conforma com o que está posto, é da sua natureza a inquietação e a busca contínua por explicações dos fenômenos que o cercam. Assim, o ato de pesquisar é o processo utilizado para explicar a realidade, esta explicação demanda atitudes e movimentos que irão norteá-la (método); a observação sistemática, organizada e guiada por métodos e técnicas irá resultar em uma atitude consistente de produção do conhecimento que poderá trazer benefícios para a humanidade. Neste tópico iremos nos ater à Pesquisa Social em si, conceitos, finalidades, porque, como já estudamos, a pesquisa é uma ação interventiva inerente ao trabalho profissional do assistente social e, como tal, merece destaque em nossos estudos acadêmicos. 2 CONCEITOS E FINALIDADES Evidenciou-se pelos nossos estudos que a pesquisa é um processo formal e sistemático que se utiliza das ordenações do Método Científico. Neste sentido, a Pesquisa Social, com o uso das ferramentas da Metodologia Científica, permite ao pesquisador elaborar novos conhecimentos no campo da realidade social. A realidade social é produzida histórica e coletivamente pelos homens e diz respeito ao conjunto de instrumentos (objetos, ideias, conhecimento, tecnologia etc.) com os quais os homens se relacionam com a natureza e com os outros homens para promover a sobrevivência, a forma histórica de produzir a humanidade chama-se trabalho, amplamente estudado por Marx. Assim, a Pesquisa Social assume importância ímpar ao estudar as relações sociais, as expressões da questão social e propor soluções para os problemas coletivos. 78 UNIDADE 1 | A PESQUISA E SUAS PARTICULARIDADES IMPORTANT E A PESQUISA COMO SUBSÍDIO AO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL Rosiane Maria da Silva Rosa [...] Cabe aqui discorrer sobre a pesquisa social. Para Gil (2007, p. 42) pode-se “[...] definir pesquisa social como o processo que, utilizando a metodologia científica, permite a obtenção de novos conhecimentos no campo da realidade social”. A realidade social é entendida em sentido amplo, abrangendo todos os aspectos relativos ao homem em suas múltiplas relações com outros homens e instituições. (GIL, 2007, p. 42). Portanto, pesquisa social refere- se às investigações no âmbito das diversas ciências sociais, como Sociologia, Antropologia, Psicologia, Economia, dentre outras. A pesquisa social tem como objeto de estudo a realidade social, as relações sociais entre os homens e destes com as instituições sociais. “O termo Pesquisa Social tem uma carga histórica e, assim como as teorias sociais, reflete posições frente à realidade, momentos do desenvolvimento e da dinâmica social, preocupações e interesses de classes e grupos determinados.” (MINAYO, 2004, p. 23). Para Minayo (2004, p. 25), “[...] a pesquisa enquanto atividade intelectual sofre as limitações e contradições mais amplas do campo científico, dos interesses específicos da sociedade e das ‘questões consagradas’ de cada época histórica”. Na pesquisa social na atualidade é presente um debate sobre a abordagem quantitativa e qualitativa na análise do real. Muitas vezes, a relação entre quantitativo e qualitativo é vista como dicotômica, porém essa dicotomia é aparente, na realidade estas esferas são interdependentes.Os dados quantitativos e qualitativos são complementares entre si e contribuem para o conhecimento da realidade. Porém, grande parte das pesquisas sociais tem como referência a abordagem qualitativa, que possibilita abordar aspectos da realidade que não podem e não devem ser quantificados. “Certamente qualquer pesquisa social que pretenda um aprofundamento maior da realidade não pode ficar restrita ao referencial apenas quantitativo.” (MINAYO, 2004, p. 28). É na abordagem qualitativa que desponta um universo de significados e sentidos atribuídos pelos sujeitos. FONTE: Disponível em: <http://www.franca.unesp.br/Home/Pos-graduacao/ServicoSocial/ Dissertacoes/rosiane.pdf>. Acesso em: 21 jan. 2016. Nesta linha de pensamento, o objeto principal de investigação da Pesquisa Social é o ser humano, sendo que o(a) pesquisador(a) se debruça sobre os fenômenos das relações sociais que emergem no cotidiano de sua prática e destaca destes fenômenos pontos relevantes a serem estudados profundamente. É pela via da pesquisa social que novas decisões (principalmente com políticas sociais) são tomadas em prol de uma comunidade, a partir de estudos sobre determinados problemas detectados. Da análise da pesquisa emergem possíveis soluções que, com a implantação de projetos específicos, poderão trazer melhorias na condição de vida de uma determinada parcela da população. Para tanto, o espírito investigativo do(a) pesquisador(a) deve estar presente, ele(a) deve ter no seu dia a dia a curiosidade, a vontade de ir além, TÓPICO 4 | A PESQUISA SOCIAL 79 de saber mais, de estudar a realidade para propor soluções para as questões que emergem naquela realidade e que são fatores impeditivos para o acesso aos direitos de cidadania. Assim, considerando-se a historicidade e dinamicidade das relações sociais, um conceito de pesquisa social não pode ser estático e determinado. UNI Leia um extrato do texto: A Importância da Pesquisa para o Curso de Serviço Social: Perspectiva Histórica e Atual. [...] No primeiro momento, fazer pesquisa é para produzir conhecimento e, acima de tudo, proporcionar uma melhor qualidade de vida para a população. Mas não basta apenas pesquisar por pesquisar, sem trazer nenhuma relevância para a sociedade. Principalmente no que diz respeito às Ciências Sociais, que em seu nome já condiz o que deve ser tratado, o social. Nas nossas pesquisas podemos utilizar métodos quantitativos e/ou qualitativos. Alguns fatores são extremamente relevantes para qualquer pesquisa. Primeiramente, o contexto histórico deve ser lembrado durante o trabalho. Significa que as sociedades humanas existem num determinado espaço, num determinado tempo, que os grupos sociais que as constituem são mutáveis e que tudo, instituições, leis, visões de mundo são provisórios, passageiros, estão em constante dinamismo e potencialmente tudo está para ser transformado (MINAYO, 2004, p. 20). Outro fator que precisamos ter em mente enquanto pesquisadores é a necessidade de uma identidade “entre o sujeito e o objeto de investigação” (MINAYO, 2004, p. 21), pois não podemos realizar qualquer pesquisa sem que o tema estudado instigue ao conhecimento. Outro aspecto é quanto ao trabalho com dados estatísticos, temos que ter uma leitura interpretativa dos mesmos. Para tanto, afigura-se como recursos indispensáveis ao seu conhecimento o acesso às estatísticas disponíveis nos Censos oficiais, nas Pesquisas Nacionais de Amostra de Domicílios – PNADs -, nos levantamentos efetuados pelos Estados e Municípios por suas secretarias e órgãos técnicos. (IAMAMOTO, 2007, p. 100). FONTE: Disponível em: <http://www.inicepg.univap.br/cd/INIC_2009/anais/arquivos/ RE_0283_0108_01.pdf>. Acesso em: 21 jan. 2016. 80 UNIDADE 1 | A PESQUISA E SUAS PARTICULARIDADES AUTOATIVIDADE Por que a Pesquisa Social é importante para o cotidiano do(a) assistente social? Quanto à sua Finalidade, a Pesquisa Social apresenta diferentes níveis, que são classificados como: Pesquisa Exploratória, Pesquisa Descritiva e Pesquisa Explicativa. Uma Pesquisa Exploratória tem a finalidade de levantar informações preexistentes sobre determinado assunto/tema, busca proporcionar uma visão geral, é uma aproximação de um determinado fato/fenômeno, se constitui na primeira etapa de uma investigação mais ampla. O produto final deste processo passa a ser um fenômeno/problema mais esclarecido, sendo possíveis outras investigações mediante procedimentos mais sistematizados. O objetivo de uma pesquisa exploratória é familiarizar-se com um assunto ainda pouco conhecido, pouco explorado; seu sucesso depende da intuição do(a) explorador(a) (da intuição do(a) pesquisador(a)). É um tipo de pesquisa muito específico, geralmente ela assume a forma de um estudo de caso (GIL, 2010). Para sua efetivação como qualquer outra pesquisa, ela depende também de uma pesquisa bibliográfica, pois mesmo que existam poucos estudos sobre o assunto a ser pesquisado, atualmente, no estágio de desenvolvimento da humanidade, praticamente nenhuma pesquisa começa do nada; existirá sempre algum escrito, dados ou histórias de pessoas que tiveram experiências semelhantes. FIGURA 5 – O TRIÂNGULO ESCALENO FONTE: Disponível em: <www.domíniosfantásticos.com.br>. Acesso em: 23 jan. 2016. TÓPICO 4 | A PESQUISA SOCIAL 81 NOTA Pesquisa bibliográfica: a pesquisa bibliográfica é básica e obrigatória em qualquer modalidade de pesquisa. De forma geral, qualquer informação publicada (impressa ou eletrônica) é passível de se tornar uma fonte de consulta. Os livros constituem-se nas principais fontes de referências bibliográficas. Os assuntos publicados em livros adotados como referências em sistemas formais de ensino constituem-se em um conhecimento pronto para a consulta. Na visão de Freire-Maia (1998), a ciência que já foi produzida e testada, denominada como ciência-disciplina, está disponível nos livros. Os assuntos publicados em periódicos (em nosso caso específico, em jornais e revistas científicas) geralmente são informações que estão ainda se sistematizando, pesquisas que ainda estão sendo comprovadas. Na visão de Freire-Maia (1998), a ciência dos periódicos é a ciência-processo, porque ela ainda está sendo elaborada, testada, discutida. FONTE: Disponível em: <http://www.oficinadapesquisa.com.br/APOSTILAS/PROJETO_RH/_ OF.TIPOS_PESQUISA.PDF>. Acesso em: 22 jan. 2016. Estudo de caso: o estudo de caso é um método qualitativo que consiste, geralmente, em uma forma de aprofundar uma unidade individual. Ele serve para responder questionamentos em que o pesquisador não tem muito controle sobre o fenômeno estudado. O estudo de caso contribui para compreendermos melhor os fenômenos individuais, os processos organizacionais e políticos da sociedade. É uma ferramenta utilizada para entendermos a forma e os motivos que levaram a determinada decisão. Conforme Yin (2001), o estudo de caso é uma estratégia de pesquisa que compreende um método que abrange tudo em abordagens específicas de coletas e análise de dados. Este método é útil quando o fenômeno a ser estudado é amplo e complexo e não pode ser estudado fora do contexto onde ocorre naturalmente. Ele é um estudo empírico que busca determinar ou testar uma teoria, e tem como uma das fontes de informações mais importantes as entrevistas. Através delas o entrevistado vai expressar sua opinião sobre determinado assunto, utilizando suas próprias interpretações. A tendência do estudo de caso é tentar esclarecer decisões a serem tomadas. Ele investiga um fenômeno contemporâneo partindo do seu contexto real, utilizando de múltiplas fontes de evidências. FONTE: Disponível em: <http://www.infoescola.com/sociedade/estudo-de-caso/>. Acesso em: 22 jan. 2016. Quanto à Pesquisa Descritiva, para Gil (2010), a mesma tem o objetivo de descrever as características de uma população, fenômeno ou de uma experiência, ela descreve com extremo detalhamento as características encontradas. Por exemplo,a ocupação de um determinado espaço geográfico, quais as características do grupo populacional em relação a sexo, faixa etária, renda familiar, nível de escolaridade etc.; os aspectos sociais, econômicos, políticos, culturais, religiosos dos moradores, as determinações históricas da ocupação; a pesquisa descritiva pode estabelecer relações entre variáveis (os papéis masculinos e femininos dos moradores, a renda das famílias e a escolaridade...). 82 UNIDADE 1 | A PESQUISA E SUAS PARTICULARIDADES Apresenta diferença em relação à pesquisa exploratória no sentido de que estuda/pesquisa um assunto já conhecido; sua contribuição se destaca por proporcionar novas visões sobre uma realidade já estudada/conhecida. A pesquisa descritiva também pode assumir forma de um estudo de caso; nas ciências sociais é uma das pesquisas mais solicitadas pelas instituições, porque, quando da conclusão de uma pesquisa descritiva, o(a) pesquisador(a) terá coletado, sistematizado e analisado muitas informações sobre o assunto pesquisado, o que irá contribuir significativamente para a produção do conhecimento. IMPORTANT E A PESQUISA COMO SUBSÍDIO AO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL Rosiane Maria da Silva Rosa [...] Na produção de conhecimento, o fomento ao conhecimento voltado para a atividade produtiva e aquele produzido pelas Ciências Sociais, e especificamente pelo Serviço Social, tem tratamento diferenciado, onde os estímulos financeiros voltam-se ao primeiro. Para Faleiros (2002), a ciência valorizada hoje é a ciência que pode levar ao desenvolvimento e à acumulação do capital. Essa obtém vultosos recursos e incentivos. Estas são relativas principalmente à área das ciências exatas, da tecnologia. Portanto, aqueles que desenvolvem meios para dinamizar o capital. Por certo, as ciências sociais e dentro delas o Serviço Social, não são prioridade. Ou pior, não são consideradas áreas de interesse. Pesquisas voltadas aos problemas da humanidade, como condições de vida da população que vive do trabalho, pobreza, miséria, que visam equidade e justiça social não têm interesse ao capital. Portanto, nesta área os recursos são parcos, mesmo que tenham tido uma relativa expansão por parte dos órgãos de pesquisa. Se comparados a outras áreas, são pouco significativos. (FALEIROS, 2002). No Serviço Social as pesquisas que objetivam a aplicação prática dos resultados constituem uma grande parte das produções. Porém, cabe ressaltar que nem todas são voltadas à aplicação prática de resultados. Diversos profissionais da área têm desenvolvido pesquisas que colaboram para desenvolvimento de teorias e análise da realidade social, conhecimentos estes que são usados pela área das ciências sociais, como exemplo, análises acerca da questão social na sociedade contemporânea. A profissão, portanto, tem capacidade teórica de elaborar conhecimentos que se voltam para aplicação prática, mas também que ampliam o conhecimento acumulado sobre a realidade social na sociedade capitalista. Está em constante diálogo com outras áreas, bem como com pesquisadores da América Latina. A produção científica brasileira é referência na realidade do Serviço Social latino-americano. FONTE: Disponível em: <http://www.franca.unesp.br/Home/Pos-graduacao/ServicoSocial/ Dissertacoes/rosiane.pdf>. Acesso em: 21 jan. 2016. TÓPICO 4 | A PESQUISA SOCIAL 83 A Pesquisa Explicativa, de acordo com Gil (2010), se preocupa em identificar os fatores que determinam ou que contribuem para a ocorrência dos fenômenos, ou seja, visa explicar o porquê das coisas através dos resultados oferecidos. Esta pesquisa, ainda de acordo com Gil (2010), pode ser também a continuação de uma pesquisa descritiva, uma vez que a identificação de fatores que determinam um fenômeno exige que este seja descrito e detalhado. Nas ciências naturais, as pesquisas explicativas valem-se do método experimental; nas ciências sociais, recorre-se a outros métodos, sobretudo ao observacional. Gil (2010) ressalta também que nem sempre se torna possível a realização de pesquisas rigidamente explicativas em ciências sociais. DICAS Veja o vídeo sobre a definição de pesquisa explicativa, disponível em: <https:// www.youtube.com/watch?v=JygX4kdIU_U>. Acesso em: 15 fev. 2016. 3 O PESQUISADOR, SEU PAPEL E LIMITES ÉTICOS O pesquisador é um profissional que faz pesquisa, ele está em busca de respostas de uma pergunta, assim faz uma pesquisa e elabora uma resposta, isto necessariamente não o caracteriza como um cientista, contudo, no Brasil, comumente denominamos o cientista de pesquisador. O cientista/pesquisador trabalha com pesquisa e, com os resultados e as conclusões obtidas, discute com um grupo maior, com outros pesquisadores, procurando avançar em um determinado campo do conhecimento. Como já estudamos, a pesquisa deve seguir uma metodologia e pressupostos determinados pelo Método Científico, assim o pesquisador/cientista executa, cuida do método, cumpre o planejado, tem um cronograma de ação. Ele previamente elaborou seu projeto de pesquisa e trabalha na busca dos objetivos propostos, deve ser organizado, intuitivo, crítico e persistente. Além de estar sempre atento e atualizado aos estudos que outros realizam na sua área de conhecimento, também deve participar de eventos de discussão de pesquisas, isto o leva, no percurso da sua vida profissional, a construir um perfil competente. A postura de pesquisador decorre da dedicação para exercitar a autonomia e o ato de aprender sempre. 84 UNIDADE 1 | A PESQUISA E SUAS PARTICULARIDADES Para se apegar à ciência, a ação individual é imprescindível, pois ela permite a descoberta para os estudos, e esta leva à vontade de conhecer e a envolver-se na área da pesquisa (BARROS; LEHFELD, 2010). A iniciação científica ocorre durante a graduação e tem um caráter pedagógico que leva o(a) acadêmico(a) a desenvolver habilidades necessárias para a prática da pesquisa, quanto para a da análise crítica da realidade social. Este processo articula os diferentes conhecimentos teórico-metodológicos, teorias importantes que vão sendo adquiridas no decorrer da graduação. No Serviço Social, a iniciação científica se constitui em um importante processo para a construção da identidade profissional do assistente social como pesquisador e da pesquisa como campo de ação do Serviço Social. Barros e Lehfeld (2010, p. 24) destacam que os programas de iniciação científica durante a graduação podem: a) Alargar os horizontes dos educandos, incentivando-os a ter um olhar mais analítico-crítico sobre a realidade social em que estão inseridos e da qual fazem parte; b) Construir questionamentos importantes sobre acontecimentos e objetos que possam induzir à realização de estudos científicos; c) Compreender que devemos fugir ao que nos é apresentado como dogmático (determinante de certezas), alienado (longe da realidade) e a-histórico, ao se elaborar suas metodologias de estudo. d) Relacionar o prazer em produzir cientificamente o conhecimento com o prazer de se formar como profissional, unindo essas competências para a mudança da sociedade como um todo. A iniciação científica não se efetiva como é necessária, não contempla nem a maioria dos(as) acadêmicos(as); a totalidade é um sonho a ser conquistado; o fomento através de bolsas e iniciação científica ainda é bastante reduzido, o que por vezes inviabiliza a iniciação científica pela necessidade dos estudantes de trabalharem para a sua manutenção. Por outro lado, mesmo que o(a) acadêmico(a) se disponha a desenvolver pesquisa sem apoio financeiro, nem sempre encontrará professor com disponibilidade para orientação, há que se considerar o reduzido número de professores nas instituições; há cortes nos recursos financeiros e que inviabilizam a contratação de professores para se dedicarem especificamente à pesquisa. Mesmo com estes fatores de ordem econômica que atingem a educação no país, temos uma legislação, tanto educacional quanto profissional,que estabelece o incentivo à pesquisa nas universidades, e no Serviço Social ela vem se sedimentando ano a ano. TÓPICO 4 | A PESQUISA SOCIAL 85 Referente aos limites éticos, a profissão tem, desde seu início no país, determinações éticas estabelecidas em seus códigos; estes, ao longo do tempo, foram sendo atualizados acompanhando a evolução da sociedade e da profissão. Assim, a ética profissional é ministrada na graduação e as pesquisas realizadas na área atendem aos ditames do Código de Ética Profissional do Assistente Social e da Resolução nº 196/96 do Conselho Nacional de Saúde. DICAS Acesse o site: <http://conselho.saude.gov.br/web_comissoes/conep/aquivos/ resolucoes/23_out_versao_final_196_ENCEP2012.pdf> e leia na íntegra a Resolução nº 196 do Conselho Nacional de Saúde. Ainda no que diz respeito à ética, a mesma é um importante ramo da filosofia que deve balizar a vida em sociedade: Ética é o conjunto de valores e princípios que usamos para responder a três grandes questões da vida: (1) quero?; (2) devo?; (3) posso? Nem tudo que eu quero eu posso; nem tudo que eu posso eu devo; e nem tudo que eu devo eu quero. Você tem paz de espírito quando aquilo que você quer é ao mesmo tempo o que você pode e o que você deve. (Mario Sergio Cortella, disponível em: <http://pensador.uol.com.br/ frase/MTI0ODIxMA/>. Acesso em: 26 jan. 2016). A ética em pesquisa necessita ser regulada. Osvaldo Dalberio (2008), na sua tese de doutorado: Os Desafios Éticos da Pesquisa Social, ressalta a importância desta regulação no Brasil (Resolução nº 196/96 - CNS), que indica a orientação sobre as pesquisas realizadas com seres humanos: A resolução em destaque mostra esta direção para que os cientistas e pesquisadores possam ser norteados quanto ao processo e o resultado de suas investigações. Em outros termos, tudo que envolve a ação relativa ao homem é pautada por preocupação estrutural cujas consequências devem ser previstas. Antes da resolução essa ideia não era foco de discussão. O que se visualizava era o resultado. Embora tenhamos todos os requisitos necessários para sabermos das vantagens e prejuízos para a humanidade, com o produto de nossas pesquisas nas ciências, ainda assim, carecemos de posturas éticas durante o processo de pesquisa e o uso dos resultados advindos de tais procedimentos. É nesse sentido que destacamos a importância sem medida da Resolução 196/1996, CNS. A intenção aqui é a de explicitar, com base nesta discussão, as contribuições que esta resolução apresenta para a pesquisa social. Observamos que sendo o foco dela 86 UNIDADE 1 | A PESQUISA E SUAS PARTICULARIDADES voltado para as questões da saúde, faz-se necessário refletirmos com outro olhar: o olhar das ciências sociais. E de posse dessas informações, fazer a transposição ou adaptação, ou melhor, observar e destacar as contribuições que esta resolução oferece para a pesquisa social [...] Assim, ao pesquisador cabe observar o “Risco da pesquisa, [ou seja], possibilidade de danos à dimensão física, psíquica, moral, intelectual, social, cultural ou espiritual do ser humano, em qualquer fase de uma pesquisa e dela decorrente” (Resolução n.196/1996, item II. 9). Significa que a responsabilidade com as questões envolvendo seres humanos é efetivamente séria. Isto é, quando a pesquisa ao ser realizada acenar para qualquer tipo de risco ao homem, o pesquisador precisa tomar a decisão responsável e competente de reverter o caminho a seguir ou até mesmo interromper a pesquisa. Sob pena de prejudicar todo o investimento feito até aquele momento. Portanto, os resultados obtidos só serão válidos eticamente se, e somente se, levar em conta o homem em primeira e última instância. Destaca a resolução que “o sujeito da pesquisa - é o(a) participante pesquisado(a), individual ou coletivamente, de caráter voluntário” (DALBERIO, 2008, p. 90-91). O Código de Ética do Assistente Social define a liberdade como valor ético central, assim, não podemos cogitar nenhuma ação profissional que se interponha a esta definição, devemos primar sempre pelo exercício pleno da liberdade, que é uma condição inerente do ser humano. Nesta direção, a citada resolução determina que os sujeitos da pesquisa sejam orientados e esclarecidos sobre o teor e os objetivos da pesquisa da qual farão parte, esta orientação e esclarecimentos deverão culminar com a assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido e que deve constar dos autos da pesquisa. Caro acadêmico, leia as orientações da Resolução nº 196/96 sobre o Consentimento Livre e Esclarecido: [...] IV - CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO O respeito devido à dignidade humana exige que toda pesquisa se processe após consentimento livre e esclarecido dos sujeitos, indivíduos ou grupos que por si e/ou por seus representantes legais manifestem a sua anuência à participação na pesquisa. IV.1 - Exige-se que o esclarecimento dos sujeitos se faça em linguagem acessível e que inclua necessariamente os seguintes aspectos: a) a justificativa, os objetivos e os procedimentos que serão utilizados na pesquisa; b) os desconfortos e riscos possíveis e os benefícios esperados; c) os métodos alternativos existentes; d) a forma de acompanhamento e assistência, assim como seus responsáveis; e) a garantia de esclarecimentos, antes e durante o curso da pesquisa, sobre a metodologia, informando a possibilidade de inclusão em grupo controle ou placebo; f) a liberdade do sujeito se recusar a participar ou retirar seu consentimento, em qualquer fase da pesquisa, sem penalização alguma e sem prejuízo ao seu cuidado; TÓPICO 4 | A PESQUISA SOCIAL 87 g) a garantia do sigilo que assegure a privacidade dos sujeitos quanto aos dados confidenciais envolvidos na pesquisa; h) as formas de ressarcimento das despesas decorrentes da participação na pesquisa; e i) as formas de indenização diante de eventuais danos decorrentes da pesquisa. IV.2 - O termo de consentimento livre e esclarecido obedecerá aos seguintes requisitos: a) ser elaborado pelo pesquisador responsável, expressando o cumprimento de cada uma das exigências acima; b) ser aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa que referenda a investigação; c) ser assinado ou identificado por impressão dactiloscópica, por todos e cada um dos sujeitos da pesquisa ou por seus representantes legais; e d) ser elaborado em duas vias, sendo uma retida pelo sujeito da pesquisa ou por seu representante legal e uma arquivada pelo pesquisador. IV.3 - Nos casos em que haja qualquer restrição à liberdade ou ao esclarecimento necessários para o adequado consentimento, deve-se ainda observar: a) em pesquisas envolvendo crianças e adolescentes, portadores de perturbação ou doença mental e sujeitos em situação de substancial diminuição em suas capacidades de consentimento, deverá haver justificação clara da escolha dos sujeitos da pesquisa, especificada no protocolo, aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa, e cumprir as exigências do consentimento livre e esclarecido, através dos representantes legais dos referidos sujeitos, sem suspensão do direito de informação do indivíduo, no limite de sua capacidade; b) a liberdade do consentimento deverá ser particularmente garantida para aqueles sujeitos que, embora adultos e capazes, estejam expostos a condicionamentos específicos ou à influência de autoridade, especialmente estudantes, militares, empregados, presidiários, internos em centros de readaptação, casas-abrigo, asilos, associações religiosas e semelhantes, assegurando-lhes a inteira liberdade de participar ou não da pesquisa, sem quaisquer represálias; c) nos casos em que seja impossível registrar o consentimento livre e esclarecido, tal fato deve ser devidamente documentado, com explicação das causas da impossibilidade, e parecer do Comitê de Ética em Pesquisa; d) as pesquisas em pessoas com o diagnóstico de morte encefálica só podem ser realizadas desde que estejam preenchidas as seguintescondições: - documento comprobatório da morte encefálica (atestado de óbito); - consentimento explícito dos familiares e/ou do responsável legal, ou manifestação prévia da vontade da pessoa; - respeito total à dignidade do ser humano sem mutilação ou violação do corpo; - sem ônus econômico financeiro adicional à família; - sem prejuízo para outros pacientes aguardando internação ou tratamento; - possibilidade de obter conhecimento científico relevante, novo e que não possa ser obtido de outra maneira; e) em comunidades culturalmente diferenciadas, inclusive indígenas, deve-se contar com a anuência antecipada da comunidade através dos seus próprios líderes, não se dispensando, porém, esforços no sentido de obtenção do consentimento individual; 88 UNIDADE 1 | A PESQUISA E SUAS PARTICULARIDADES f) quando o mérito da pesquisa depender de alguma restrição de informações aos sujeitos, tal fato deve ser devidamente explicitado e justificado pelo pesquisador e submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa. Os dados obtidos a partir dos sujeitos da pesquisa não poderão ser usados para outros fins que os não previstos no protocolo e/ou no consentimento. [...] (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2012, p. 6). AUTOATIVIDADE Elabore um breve texto sobre a importância do consentimento livre e esclarecido para as pesquisas em Serviço Social. 4 AS ETAPAS METODOLÓGICAS DA PESQUISA SOCIAL Lakatos e Marconi (2009) delimitam as quatro etapas que devem nortear uma pesquisa social: Preparação da Pesquisa, Fases da Pesquisa, Execução da Pesquisa e o Relatório da Pesquisa. Cabe ressaltar que estas etapas no decorrer da pesquisa não são segmentadas, separadas, elas estão assim sistematizadas para fins de estudo e melhor compreensão de suas etapas, entende-se que a realidade não é estanque, que ela não se apresenta de forma linear, as etapas podem, no decorrer da pesquisa, se intercalarem. Ao mesmo tempo em que se toma a decisão de realizar a pesquisa e, por exemplo, se aguarda a autorização da mesma pelos respectivos comitês/órgãos de pesquisa, dependendo do tema, já pode ser iniciada a revisão da literatura (bibliográfica), levantamentos estatísticos oficiais, elaborar apontamentos teóricos, a descrição do cotidiano dos atores, as situações e os acontecimentos; definir as entrevistas, sendo importante destacar o papel das transcrições, a fidelidade das entrevistas e depoimentos, realizar buscas em arquivos, para levantar fotografias, do material iconográfico e extratos de documentos... TÓPICO 4 | A PESQUISA SOCIAL 89 QUADRO 6 – ETAPA DE PREPARAÇÃO DA PESQUISA PREPARAÇÃO DA PESQUISA 1 Decisão Momento de decidir pela realização da pesquisa, pressupõe um conhecimento anterior sobre o que se pretende investigar e sobre a metodologia adequada ao seu estudo. 2 Especificação dos objetivos Determina o que se pretende alcançar; devem responder às perguntas: Por quê? Para quê? Para quem? 3 Elaboração de um esquema O esquema permite a visualização das etapas, do seu planejamento e permite que o pesquisador visualize a ordem lógica do trabalho. 4 Constituição da equipe de trabalho Uma pesquisa pode ser realizada por uma só pessoa, se necessitar o envolvimento de outras deve ser planejado o recrutamento, treinamento e distribuição das tarefas e funções. Deve responder à pergunta: Quem? 5 Levantamento de recursos e cronograma Quando a pesquisa é patrocinada, é necessário realizar previsão aproximada dos gastos e estes devem ser especificados, devem ser controlados de acordo com a previsão. Devem responder às perguntas: Quanto? Quando? FONTE: Adaptado de Lakatos e Marconi (2009, p. 158-159) QUADRO 7 – ETAPA DAS FASES DA PESQUISA FASES DA PESQUISA 1 Escolha do tema É o assunto escolhido para estudar e pesquisar. Deve responder à pergunta: O que será explorado? 2 Levantamento de dados Envolve a obtenção dos dados, pesquisa documental, bibliográfica e contatos para pesquisa de campo, laboratórios, todas as fontes possíveis de informações de acordo com o tema escolhido. 3 Formulação do problema O problema é a dificuldade para a qual se busca resposta, soluções. Deve responder às perguntas: O quê? Como? 4 Definição dos termos Decodificar os termos, tornando-os compreensivos, objetivos e adequados. 5 Construção das hipóteses A hipótese é uma proposição que se faz na tentativa de verificar a validade de resposta para o problema. 6 Indicação de variáveis Definem-se as variáveis que podem interferir ou afetar o estudo. 90 UNIDADE 1 | A PESQUISA E SUAS PARTICULARIDADES 7 Delimitação da pesquisa Estabelece-se os limites da pesquisa, geralmente o assunto e os objetivos podem estabelecer os limites. 8 Amostragem É a parcela selecionada do universo (população) a ser estudada. 9 Seleção de métodos e técnicas Os métodos e técnicas podem ser selecionados desde a proposição do problema e da formulação das hipóteses e devem ser adequados aos mesmos. 10 Organização do instrumental da pesquisa É uma etapa importante e trabalhosa, deve conter resumo dos livros, notas, material iconográfico, listagem das entrevistas, visitas...de acordo com o tema delimitado. 11 Teste de instrumentos e procedimentos Necessário para testar a validade dos instrumentos e procedimentos. FONTE: Adaptado de Lakatos e Marconi (2009, p. 160-167) QUADRO 8 – ETAPA DA EXECUÇÃO DA PESQUISA EXECUÇÃO DA PESQUISA 1 Coleta de dados Inicia-se a aplicação dos instrumentos de coleta de dados, que geralmente envolve: coleta de documentos, observação, entrevistas, questionários, formulários, medidas de opinião e atitudes, técnicas mercadológicas, testes, sociometria, análise de conteúdo, história de vida. 2 Elaboração dos dados Elaboram-se e classificam-se os dados por seleção, codificação, tabulação. 3 Análise e interpretação dos dados É a parte central da pesquisa. Envolve a interpretação, explicação e especificação, deve ser cuidadosa porque irá subsidiar o Relatório. 4 Representação dos dados É a sistematização estatística, com a apresentação de tabelas, quadros, gráficos de acordo com a metodologia estatística. 5 Conclusões Explicita os resultados obtidos e considerados mais relevantes, apresentam-se as inferências sobre os resultados evidenciando a finalização do trabalho da pesquisa. FONTE: Adaptado de Lakatos e Marconi (2009, p. 167-173) TÓPICO 4 | A PESQUISA SOCIAL 91 QUADRO 9 – ETAPA DO RELATÓRIO DA PESQUISA RELATÓRIO DA PESQUISA Relatório da pesquisa Exposição geral da pesquisa, desde o seu planejamento às conclusões, incluindo a metodologia empregada; o texto deve ser lógico, preciso, em linguagem simples, clara e objetiva, tem a finalidade de expor os resultados obtidos com a pesquisa, se possível com detalhes. FONTE: Adaptado de Lakatos e Marconi (2009, p. 173) Prezado acadêmico, o mundo do trabalho do(a) assistente social está organicamente vinculado à intervenção junto às sequelas das expressões da questão social. Neste sentido, o processo de trabalho do profissional o(a) coloca muitas vezes em contato direto com usuários(as) em diferentes estágios do ciclo de vida humana e que vivenciam as diferentes expressões da questão social. Isto significa que diferentes fenômenos sociais podem ser fonte de pesquisa, e que esta, se planejada e executada de acordo com o que estudamos até o momento, poderá resultar em um “retrato” da realidade vivenciada pelos(as) usuários(as) e apresentar como conclusões propostas para o enfrentamento das expressões das questões sociais através de programas e projetos vinculados às diversas políticas sociais, como: Educação, Saúde, Assistência Social, Previdência Social, Habitação, entre outras. 92 UNIDADE 1 | A PESQUISA E SUAS PARTICULARIDADES LEITURA COMPLEMENTAR A PRODUÇÃO CIENTÍFICA PARA O SERVIÇO SOCIAL Rosiane Maria da Silva Rosa Os programas de pós-graduação em Serviço Social são relevantes no desenvolvimento da pesquisa nesta área, porém isso não significa que não haviapesquisa na profissão antes da instituição da pós-graduação brasileira. Setúbal (2005) destaca que, antes da criação destes programas, se vislumbram na profissão de forma mais precisa duas linhas de pesquisa: uma relacionada ao Centro Brasileiro de Cooperação e Intercâmbio de Serviço Social (CBCISS), que vai dar origem aos documentos de Araxá (1967) e Teresópolis (1970). E outra aportada pelo Centro Latino-Americano de Trabalho Social (CELATS), dentro da qual se desenvolve o conhecido “Método B.H”. Cabe lembrar ainda que, no Brasil, em outras áreas a pesquisa científica começa a desenvolver-se bem distante dos cursos de pós-graduação, sendo desenvolvida em institutos de pesquisa vinculados à administração pública. Por exemplo, o Instituto Butantã e o Instituto Osvaldo Cruz, entre outros. [...] “diferentemente de outras profissões, o movimento da pesquisa como produção de um conhecimento científico sistemático ocorreu em sentido diferente no Serviço Social, pois, de forma mais maciça, essa tem se apresentado a partir da criação dos cursos de pós-graduação” (SETÚBAL, 2005, p. 77). O primeiro programa de pós-graduação em Serviço Social foi criado em 1971, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), logo em seguida (1972) veio o da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ); o da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 1976; o da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) em 1977; o da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) em 1978; e o da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) em 1979. Com a pós-graduação em Serviço Social, a produção na área tem um impulso, a partir da década de 1970. Com o crescimento da produção nesta área são criados veículos de divulgação desta produção. É criada então a Cortez Editora, que publicava principalmente produção de assistentes sociais. No caso das revistas, já havia a Debates Sociais, e é fundada também a Serviço Social & Sociedade (1979). A revista Serviço Social & Sociedade foi criada a partir da necessidade de um espaço próprio para divulgação de um pensamento emergente no Serviço Social brasileiro. Esta foi criada por sugestão de um grupo de assistentes sociais de São Paulo, associado ao avanço da pós-graduação, permitindo produções e debates intelectuais mais sistematizados em nível nacional. (BRANDÃO, 2007, p. 28). TÓPICO 4 | A PESQUISA SOCIAL 93 Vão surgindo também revistas vinculadas às universidades, para divulgar a produção dos programas de pós-graduação. O espaço da pós-graduação constituiu-se em espaço privilegiado de incentivo e fomento à pesquisa. Com este a produção científica cresceu, e foram criadas associações para coordenar e estimular as investigações e pesquisas. O Serviço Social começa a receber bolsas de incentivo para alunos da pós- graduação a partir dos anos de 1970, e passa a ser reconhecido pelas agências de fomento pertencentes à área de Ciências Sociais Aplicadas. Porém, só nos anos 1980 começa a receber auxílio para pesquisa. Ao falar da criação da pós-graduação, Yazbek e Silva (2005) relatam que esta se iniciou impulsionada por professores e profissionais motivados a desenvolver a vida acadêmica, a produção científica e também a prática profissional com fundamentos teórico-metodológicos. Foi uma expressão de rompimento com a postura positivista que determinava a separação do pensar e do agir; do construir conhecimento, do intervir na realidade social. Essa forma de pensar orientou, durante décadas, o pensamento profissional e situou os assistentes sociais no estágio de meros sujeitos de intervenção profissional e consumidores de teorias construídas por outras disciplinas profissionais. A pós-graduação assumiu papel fundamental na superação desse viés positivista que marcou o Serviço Social, contribuindo largamente para capacitar os profissionais também enquanto cientistas sociais preocupados em mudar a realidade social opressora e produzir conhecimento sobre essa realidade para embasar a prática profissional e contribuir para o avanço científico das Ciências Sociais. (YASBEK; SILVA, 2005, p. 42). A produção de conhecimento na área do Serviço Social começa a desenvolver-se com mais profundidade a partir de 1980. Esta década marcou um processo de amadurecimento da produção teórica da área, com protagonismo da universidade, principalmente sob a égide da influência marxista inserida no Serviço Social no movimento de reconceituação pelos profissionais da chamada intenção de ruptura. [...] o conhecimento produzido nos programas de pós-graduação a partir dos anos 1970 permitiu a incorporação do pensamento crítico que sustentou, nos anos de 1980, a construção de um novo projeto profissional. A apropriação do pensamento dos autores clássicos das Ciências Sociais sustentou a recriação da capacidade de análise, de interpretar e de intervir no real do Serviço Social, que emergia como área de conhecimento. (CARVALHO; SILVA e SILVA, 2005, p. 73). O Serviço Social deixou de ser mero consumidor do saber produzido pelas outras áreas de conhecimento das ciências humanas e sociais, e passou a produzir conhecimentos acerca da realidade social. A profissão passa de consumidora destes conhecimentos a interlocutora, e começa e responder por uma produção teórica própria. 94 UNIDADE 1 | A PESQUISA E SUAS PARTICULARIDADES Atualmente o Serviço Social traz grandes contribuições no debate da realidade, que são utilizadas por diversas áreas das ciências sociais. Apresenta uma densa produção teórica construída por importantes expoentes da profissão na contemporaneidade. Como já ressaltado, essa produção tem alcance e visibilidade mesmo fora do âmbito do Serviço Social. O Serviço Social [...] produz conhecimentos sobretudo articulados com a possibilidade de intervir na realidade social. No caso brasileiro, face ao agravamento da questão social, cujas manifestações mais visíveis são os indicadores de desigualdade e pobreza, o Serviço Social vem acumulando conhecimentos e pesquisas que expressam a particularidade de sua inserção na sociedade. Seja no âmbito da realidade nacional, seja internacional, o Serviço Social vem se especializando no tratamento de questões relacionadas às políticas do Estado e às iniciativas da sociedade civil no campo do enfrentamento de demandas e necessidades sociais da população, além da centralidade que historicamente vem atribuindo à produção do conhecimento sobre temáticas específicas da produção. (CARVALHO; SILVA e SILVA 2005, p. 91). Os programas de pós-graduação têm por objetivo formar não somente professores para o Ensino Superior, mas também formar pesquisadores para a área. FONTE: Disponível em: <http://www.franca.unesp.br/Home/Pos-graduacao/ServicoSocial/ Dissertacoes/rosiane.pdf>. Acesso em: 21 jan. 2016. 95 RESUMO DO TÓPICO 4 Neste tópico vimos que: • O ato de pesquisar é o processo utilizado para explicar a realidade, esta explicação demanda atitudes e movimentos que irão norteá-la (método); a observação sistemática, organizada e guiada por métodos e técnicas irá resultar em uma atitude consistente de produção do conhecimento que poderá trazer benefícios para a humanidade. • A Pesquisa Social, com o uso das ferramentas da Metodologia Científica, permite ao pesquisador elaborar novos conhecimentos no campo da realidade social. • A realidade social é produzida histórica e coletivamente pelos homens e diz respeito ao conjunto de instrumentos (objetos, ideias, conhecimento, tecnologia etc.) com os quais os homens se relacionam com a natureza e com os outros homens para promover a sobrevivência. A forma histórica de produzir a humanidade chama-se trabalho, amplamente estudado por Marx. • A Pesquisa Social assume importância ímpar ao estudar as relações sociais, as expressões da questão social e propor soluções para os problemas coletivos. • O objeto principal de investigação da Pesquisa Social é o ser humano, sendo que o(a)pesquisador(a) se debruça sobre os fenômenos das relações sociais que emergem no cotidiano de sua prática e destaca, destes fenômenos, pontos relevantes a serem estudados profundamente. • Através da pesquisa social é possível que novas decisões (principalmente com políticas sociais) sejam tomadas em prol de uma comunidade, a partir de estudos sobre determinados problemas detectados. Da análise da pesquisa emergem possíveis soluções que, com a implantação de projetos específicos, poderão trazer melhorias na condição de vida de uma determinada parcela da população. • Quanto à sua Finalidade, a pesquisa social apresenta diferentes níveis, que são classificados como: Pesquisa Exploratória, Pesquisa Descritiva e Pesquisa Explicativa. • A Pesquisa Exploratória tem a finalidade de levantar informações preexistentes sobre determinado assunto/tema, busca proporcionar uma visão geral, é uma aproximação de um determinado fato/fenômeno. 96 • Para a pesquisa bibliográfica, os livros constituem-se nas principais fontes de referências. Os assuntos publicados em livros adotados como referências em sistemas formais de ensino constituem-se em um conhecimento pronto para a consulta. • O Estudo de Caso é um método qualitativo que consiste, geralmente, em uma forma de aprofundar uma unidade individual. Ele serve para responder questionamentos em que o pesquisador não tem muito controle sobre o fenômeno estudado. O estudo de caso contribui para compreendermos melhor os fenômenos individuais, os processos organizacionais e políticos da sociedade. • A Pesquisa Descritiva tem o objetivo de descrever as características de uma população, fenômeno ou de uma experiência, ela descreve com extremo detalhamento as características encontradas. • A Pesquisa Explicativa se preocupa em identificar os fatores que determinam ou que contribuem para a ocorrência dos fenômenos, ou seja, visa explicar o porquê das coisas através dos resultados oferecidos. • A Resolução nº 190/96 do Conselho Nacional de Saúde determina que os sujeitos da pesquisa sejam orientados e esclarecidos sobre o teor e os objetivos da pesquisa da qual farão parte. • O consentimento dado pelos sujeitos da pesquisa ao pesquisador deve ser livre e esclarecido. • Quatro etapas norteiam uma pesquisa social: Preparação da Pesquisa, Fases da Pesquisa, Execução da Pesquisa e o Relatório da Pesquisa. 97 AUTOATIVIDADE 1 Qual a importância da pesquisa para as políticas sociais? 2 Elabore um esquema sobre as etapas da pesquisa e resuma os procedimentos de cada uma. 98 99 UNIDADE 2 SUBSÍDIOS DA PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS Esta unidade tem por objetivos: • apresentar um resgate histórico do Serviço Social e a relação com a pesquisa, sua importância e a produção de conhecimento para a área de atuação do Serviço Social; • identificar a importância da ética para a pesquisa no campo do Serviço Social, pois através dela se busca estratégias para qualificar ainda mais as demandas apresentadas; • esclarecer sobre as atribuições e competências do assistente social pesqui- sador, apresentar as características relevantes quando for tornar-se um pesquisador, bem como suas competências; • conhecer os elementos que fazem parte do projeto de pesquisa, bem como a relevância e o significado do projeto de pesquisa no Serviço Social. Des- tacaremos as características que contemplam o projeto de pesquisa. Esta unidade está dividida em quatro tópicos. Em cada um deles você encontrará atividades visando à compreensão dos conteúdos apresentados. TÓPICO 1 – PESQUISA E PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO NO SERVIÇO SOCIAL TÓPICO 2 – PESQUISA SOCIAL E ÉTICA PROFISSIONAL TÓPICO 3 – RELEVÂNCIA DA PESQUISA NO SERVIÇO SOCIAL TÓPICO 4 – CARACTERÍSTICAS DA PESQUISA PARA O SERVIÇO SOCIAL 100 101 TÓPICO 1 PESQUISA E PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO NO SERVIÇO SOCIAL UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Caro acadêmico, neste tópico apresentaremos um breve resgate histórico do Serviço Social e a relação com a pesquisa social. O movimento de pesquisa já vem ocorrendo ao longo das décadas de 1980 e 1990, apresentando a pesquisa científica com um significado importante no processo de construção de conhecimento. Tornando-se disciplina obrigatória na academia, esta prática já vem sendo inserida nos currículos escolares como um método de aprendizagem. A partir deste método fundamentaremos a importância da pesquisa social para o Serviço Social e as características da pesquisa nesta área. Destacamos que o método de pesquisa constitui parte relevante para o campo das profissões. Compreender a importância do ato de pesquisar, bem como das perspectivas e limites do uso de metodologia qualificada, estabelece amplos desafios às profissões, em especial ao Serviço Social, no sentido de ultrapassar ou minimizar as dificuldades atribuídas à realidade social. Na construção histórica e trajetória do Serviço Social foi se desenvolvendo a prática da pesquisa na medida em que a profissão enfrentava demandas sociais decorrentes do adensamento da questão social, tendo como referência a perspectiva teórico-metodológica crítica. Faz-se necessário que a maneira investigativa esteja presente, pois a prática profissional está integrada à teoria/ prática, que busca a compreensão de maneira crítica dos acontecimentos sociais, para assim fundamentar ainda mais a sua intervenção baseando-se na produção de conhecimento através das pesquisas e nas intervenções profissionais. Por fim, destacaremos o retorno e avanços das pesquisas para o Serviço Social, onde, ao realizar uma pesquisa social, no campo do Serviço Social, devemos sempre nos preocuparmos com o sujeito da história, sua preservação no processo de investigação, permitindo através da pesquisa maior visibilidade ao sujeito envolvido. Neste sentido, a abrangência da pesquisa e sua vinculação com a prática profissional se estabelecem no movimento histórico da própria profissão, sugerindo um conjunto de probabilidades e progressos teórico-práticos, coerentes com o projeto ético-político da profissão. UNIDADE 2 | SUBSÍDIOS DA PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL 102 2 RESGATE HISTÓRICO DO SERVIÇO SOCIAL E A RELAÇÃO COM A PESQUISA Observa-se que a pesquisa é um método de construção de um conhecimento ou de um saber, que poderá apresentar novas informações, aprovando ou desconstruindo um conceito já existente. A pesquisa social, em diferentes interesses, é um excelente método de aprendizagem, proporcionando benefícios tanto para quem desenvolve e aplica a pesquisa como para a sociedade e/ou grupos. Para tanto, a pesquisa social vem crescendo aceleradamente no âmbito das profissões. Apresenta-se como instrumento fundamental no campo do Serviço Social, caracterizando avanços expressivos em diversos campos da atuação profissional, bem como na abrangência das políticas públicas, dentre outros aspectos relevantes para a profissão. Segundo Bourguignon (2007, p. 50), A categoria ‘particularidade’, em sua complexidade e riqueza ontológica, possibilita-nos compreender a pesquisa em sua vinculação orgânica com a prática profissional. Esta vinculação se constrói no movimento histórico da própria profissão e se constitui como possibilidade de avanço teórico-prático, coerente com o projeto ético- político do Serviço Social. Este movimento vem ocorrendo ao longo das décadas de 1980 e 1990, onde destacamos estes dois períodos históricos como sendo de suma importância para o Serviço Social. 2.1 DÉCADA DE 1980 A década de 1980 foi marcada por um período de amadurecimento da produção teórica da profissão, destacando a universidade como sendo a principal protagonista deste método de evolução. A partir da década de 1980, institui-se, de modo mais sistemático, o debate acadêmico do Serviço Social, marcando um processo de ruptura com o conservadorismo presente na constituição da profissão. Durante esta década, o processo de rompimento com o conservadorismo gerouno interior da profissão uma cultura que reconhece a pluralidade teórico-metodológica, no entanto, fortalece a orientação marxista como direção hegemônica para o projeto ético-político profissional. (BOURGUIGNON, 2007, p. 47). Ainda segundo a autora, TÓPICO 1 | PESQUISA E PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO NO SERVIÇO SOCIAL 103 A década de 80 marca o reencontro do Serviço Social consigo mesmo, no que se refere à busca de estabelecimento de novas bases para a compreensão do seu passado histórico, das particularidades de sua prática na sociedade marcada por relações de classe, da sua relação com o Estado e com as forças da sociedade civil e de sua posição quanto às demandas sociais, cada vez mais complexas, situando-se no âmbito da divisão sociotécnica do trabalho. (BOURGUIGNON, 2007, p. 47). O Serviço Social, ainda nesta década, enfrenta questões sobre as políticas sociais, especialmente no que se refere à concretização de políticas públicas nas áreas da seguridade social (abrangendo o tripé saúde, assistência e previdência social), entre outras. Estes assuntos vêm sendo pauta do debate da profissão, originando produções acadêmicas que dão visibilidade às temáticas, bem como à ação profissional desencadeada nestas áreas. Tais preocupações colaboraram para que o Serviço Social enfrentasse, e continue enfrentando junto à sociedade civil organizada, os impasses, desafios e dilemas que a democracia, a cidadania e os direitos sociais colocam à prática social, em especial, à prática do profissional de Serviço Social. (BOURGUIGNON, 2007). Para a autora (BOURGUIGNON, 2007), grande parte dos temas de pesquisa dos anos 80, e seguem abordados nos anos 90, diz respeito às políticas públicas na sua interface com o Estado. Com destaque à seguridade social e também à preocupação com os usuários da política social. Para tanto, surgem avanços que percorrem a década seguinte, a qual será destacada a seguir. Lembrando que a década de 1980 foi marcada pela ruptura do conservadorismo presente na constituição da profissão, ou seja, idealização de uma nova prática. ATENCAO 2.2 DÉCADA DE 1990 É na década de 90 que foi possível analisarmos os avanços das investigações sobre a sociedade civil, a gestão e controle das políticas públicas, bem como o papel dos Conselhos de Direitos. Esta época foi registrada com marcos históricos relevantes para o Serviço Social, como os 10 anos da Lei Orgânica de Assistência Social – LOAS e 10 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA. Eventos que retratam diversas conquistas no campo dos direitos sociais, principalmente em relação à proteção UNIDADE 2 | SUBSÍDIOS DA PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL 104 social, destinada aos segmentos vítimas do processo de exclusão social, como famílias, crianças, adolescentes, idosos e portadores de necessidades especiais (BOURGUIGNON, 2007). “Em 1993 a regulamentação da LOAS garante maioridade jurídica à assistência social, trazendo-a para o campo do direito com responsabilização do Estado, e expressa a recusa da tradição clientelista, assistencialista e tutelar presente, ainda, em suas ações”. (BOURGUIGNON, 2007, p. 47). A assistência social adquire estatuto de política pública e enfrenta desafios, conforme Bourguignon (2007, p. 48): • superar a cultura apontada pelo assistencialismo; • avançar com o processo de avaliação da gestão da política em suas diferentes instâncias; • assegurar financiamento adequado à complexidade das ações de enfrentamento à pobreza garantindo os mínimos sociais; • repensar as ações destinadas às famílias de extrema pobreza. Podemos observar que são diversos os desafios que se apresentam no campo de atuação do Serviço Social; desafios merecedores de pesquisas para aprofundamento das expressões sociais. Apesar de terem surgido nos anos 90, ainda ocorrem nos dias atuais. Sendo de suma importância neste contexto a produção de conhecimento por parte das pesquisas sociais, para que os desafios sejam superados, subsidiando a prática profissional. Segundo Bourguignon (2007, p. 48), “a pesquisa tem sido privilegiada, em alguns contextos, no âmbito da profissão, estimulando a atitude investigativa na postura e no exercício profissional”. De acordo com Simão e Souza (2008, p. 124), O Serviço Social, profissão caracterizada pela sua ação interventiva, durante boa parte de sua trajetória no Brasil destinou uma parcela expressiva de seus esforços para os fins, ou seja, para a execução de ações que colaborassem para uma mudança estrutural das desigualdades sociais que ainda imperam em nosso meio. Contudo, num país com tantas desigualdades sociais é imprescindível a ampliação da assistência social em novos parâmetros de proteção e promoção dos direitos sociais. “No movimento das transformações societárias, e de forma inerente no movimento de repensar a profissão, há um processo de construção e afirmação de um projeto ético-político comprometido com a cidadania” (BOURGUIGNON, 2007, p. 48). Nesta perspectiva, busca-se uma nova direção para atuação profissional, no sentido de renovação na direção social, bem como na formação profissional. “É neste novo contexto que a pesquisa social passa a ter importância fundamental na formação dos novos assistentes sociais” (SIMÃO; SOUZA, 2008, p. 125). TÓPICO 1 | PESQUISA E PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO NO SERVIÇO SOCIAL 105 Outro destaque neste período dos anos 90 foi o esforço na construção do Sistema Único de Assistência Social – SUAS. Este sistema foi viabilizado pela Secretaria Nacional de Assistência Social em 2004, respondendo às deliberações da IV Conferência Nacional de Assistência Social, realizada em 2003, sendo materializada pelas diretrizes da LOAS. A compreensão do SUAS em processo de construção e implementação possibilita o reconhecimento de uma lógica de gestão e processos utilizados, relacionados à concepção do sistema, que têm conformado seu ordenamento e sinalizam desafios centrais para a universalização do acesso aos direitos socioassistenciais. (BATTINI, 2007, p. 66). A implementação do SUAS foi um avanço na área de Assistência Social, para tanto, passou a exigir um constante processo de acompanhamento e investigação por parte dos núcleos de estudos, dos profissionais e pesquisadores da área, tendo em vista as diversas formas de expressão da questão social presentes na sociedade. Bourguignon (2007) destaca que nesta década ganham maior visibilidade as várias formas de expressão da questão social, havendo um grande esforço teórico- crítico no sentido de apreendê-las no movimento contraditório da sociedade, possibilitando maior consistência à prática profissional no enfrentamento destas expressões. O SUAS representa um avanço significativo para o Serviço Social, como fortalecimento do sistema descentralizado e participativo. É a partir destes avanços e conquistas que a pesquisa social tem sido privilegiada, estimulando a atitude investigativa no exercício profissional. Bourguignon (2007) ressalta que a formação profissional funda-se na interlocução com o conjunto de conhecimentos científicos, acumulados pelas diversas áreas das ciências humanas e sociais e nos diferentes campos de atuação profissional. No entendimento acerca da importância da pesquisa social no campo de atuação do Serviço Social, coloca-se um grande desafio no que tange às dificuldades inerentes à realidade social, buscando através de uma prática inovadora incentivos às pesquisas, capazes de produzir conhecimentos a partir da prática profissional, contribuindo com o desenvolvimento da profissão. Destacamos a relevância da pesquisa no Serviço Social, a qual será abordada, especificamente, no próximo item. UNIDADE 2 | SUBSÍDIOS DA PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL 106 3 RELEVÂNCIA DA PESQUISA NO SERVIÇO SOCIAL A pesquisa social é conhecida como método científico, sendo uma prática de suma importância para o campo do Serviço Social, por conta das várias transformações ocorridas na organizaçãoe sistematização do conhecimento, bem como suas expressões em cada conjuntura histórica. Neste sentido, para melhor compreensão da pesquisa, é necessário entendermos o conceito de pesquisa. Gil (2010, p. 26) define pesquisa como o “processo formal e sistemático de desenvolvimento do método científico”. Ou seja, a pesquisa tem como objetivo proporcionar respostas às dificuldades que serão propostas. A pesquisa é ampliada a partir dos conhecimentos disponíveis e o emprego cuidadoso de método e técnicas de investigação científica. (GIL, 2010). O entendimento acerca da relevância do ato de pesquisar, bem como das probabilidades e limites do uso de metodologia qualificada, impõe grande desafio ao Serviço Social, no sentido de superar ou minimizar as dificuldades impostas à realidade social. Bourguignon (2007) enfatiza que o Serviço Social como profissão sócio- histórica apresenta em sua natureza a pesquisa como meio de construção de um conhecimento comprometido com as demandas específicas da profissão e com as possibilidades de seu enfrentamento. Percebe-se que ao mesmo tempo em que a pesquisa social representa no campo do Serviço Social possibilidade de objetivação da prática profissional, também representa um desafio constante para os profissionais críticos e propositivos no cenário atual e em relação ao processo de formação profissional. É de suma importância compreender o processo de produção de conhecimento como meio transformador da realidade social pela mediação do trabalho, reconhecendo o conhecimento como uma das expressões da práxis, frente aos desafios impostos pela relação entre o homem, a natureza e a sociedade. (BOURGUIGNON, 2007, p. 49). Segundo Simionatto (2005), a pesquisa no Serviço Social vem se consolidando e está sendo cada vez mais utilizada no âmbito das políticas sociais, investigação sobre a profissão, nos espaços sócio-ocupacionais, no ambiente da graduação e pós-graduação, entre outros. Ainda conforme a autora, há desafios de: Delimitar objetos de investigação; consolidar os grupos de pesquisa e avançar na construção de pesquisas interdisciplinares e interinstitucionais; criar mecanismos institucionais entre pesquisadores da mesma universidade ou universidades diferentes; e, por fim, ampliar a participação de pesquisadores não docentes, que ainda é bastante reduzida, buscando superar o distanciamento entre pesquisadores inseridos no âmbito acadêmico e aqueles inseridos nas práticas profissionais. (SIMIONATTO, 2005, p. 59). TÓPICO 1 | PESQUISA E PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO NO SERVIÇO SOCIAL 107 Conforme salientado, a pesquisa social decorre por um processo de crescimento e desafios perante as profissões, especialmente na prática do Serviço Social, que se põe como construção histórica que se processa na medida em que a profissão “enfrenta as demandas sociais decorrentes do agravamento da questão social, tendo como referência a perspectiva teórico-metodológica crítica que sustenta a produção de conhecimento e a intervenção na profissão”. (BOURGUIGNON, 2007, p. 50). Ainda para a autora (BOURGUIGNON, 2007), na trajetória histórica da profissão, a maneira investigativa se faz presente, sendo indispensável e constituinte. Pois a prática está fundamentada na relação dinâmica teoria/ prática, fazendo parte da natureza da profissão buscar compreender de maneira crítica os acontecimentos sociais, para fundamentar sua intervenção. A seguir apresentaremos as principais características da pesquisa. NOTA A pesquisa pode construir o conhecimento científico, isto porque ela favorece a ruptura do senso comum e gera um novo conhecimento com base em fundamentos teóricos relevantes, construídos com base em uma metodologia adequada. FONTE: Disponível em: <http://www.portaleducacao.com.br/pedagogia/artigos/24940/a- importancia-da-pesquisa-no-servico-social#ixzz406ZPRdzJ>. Acesso em: 13 fev. 2016. FIGURA 6 – PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL FONTE: Disponível em: <http://www.contornospesquisa.org/2014/06/a-construcao-da- metodologia-na-pesquisa.html>. Acesso em: 13 fev. 2016. UNIDADE 2 | SUBSÍDIOS DA PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL 108 4 CARACTERÍSTICAS DA PESQUISA PARA O SERVIÇO SOCIAL Para a elaboração de um projeto de pesquisa devemos considerar as características fundamentais que farão parte de todo o processo da pesquisa. Para tanto, vamos aprender sobre a particularidade da pesquisa conforme os ensinamentos de Bourguignon (2007). A autora lembra que a categoria “particularidade” vem colaborar para uma aproximação ao processo sócio-histórico em que a pesquisa ganha expressão e força no âmbito do Serviço Social, considerando as décadas de 1980 e 1990. (BOURGUIGNON, 2007). A particularidade da pesquisa em Serviço Social destaca-se na necessidade de introduzir esta discussão no contexto socioeconômico, político e cultural contemporâneo, busca-se apreender as determinações mais gerais e sua repercussão no âmbito da prática singular da profissão, especialmente quando se depara com as diversas demandas sociais, bem como as exigências no seu modo de avaliar. (BOURGUIGNON, 2007). Para a autora, a compreensão da pesquisa e sua vinculação com a prática profissional se constroem no movimento histórico da própria profissão, indicando um conjunto de perspectivas e avanços teórico-práticos, coerentes com o projeto ético-político da profissão. (BOURGUIGNON, 2007). Entendemos que a pesquisa mantém a atividade do conhecimento e apresenta subsídios para uma atualização das ações diante da realidade social. Pois, mesmo sendo uma prática teórica, vincula-se ao pensamento e à ação, ou seja, as investigações estão diretamente ligadas aos interesses e circunstâncias sociais condicionadas. Segundo Bourguignon (2007, p. 50), É notório o protagonismo dos assistentes sociais nesta construção, que, através das suas organizações representativas – Conselho Federal de Serviço Social (CFESS), Conselho Regional de Serviço Social (CRESS) e Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social (ABEPSS) – e dos espaços de socialização de conhecimentos (congressos, conferências, encontros, seminários, cursos, publicações, entre outros), têm se mobilizado e se feito presentes como sujeitos políticos diante das questões que afetam o exercício profissional e a garantia dos direitos sociais no campo das políticas públicas, bem como têm mantido importante interlocução com os movimentos sociais da sociedade civil, ampliando seu potencial de enfrentamento das crises e transformações do mundo contemporâneo. Podemos perceber que são diversos espaços que servem de base na busca pela produção de conhecimento através de pesquisas sociais para o campo do Serviço Social, com o intuito de apresentar novas estratégias para o enfrentamento das demandas apresentadas no cotidiano da prática profissional. TÓPICO 1 | PESQUISA E PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO NO SERVIÇO SOCIAL 109 Entendemos que a pesquisa social se apresenta como uma das exigências impostas para os assistentes sociais, sendo necessária uma reflexão de como ela pode criar espaços ricos e profícuos para os profissionais da área atuarem de maneira crítica e criativa, contribuindo para a transformação da realidade social. (SIMÃO; SOUZA, 2008, p. 124). Neste sentido, destacamos a relevância em realizar pesquisa científica no campo do Serviço Social, pois vem acrescentar novos conhecimentos para contribuir com as demandas advindas das questões sociais presentes no cotidiano profissional. Conforme veremos a seguir, com o retorno das pesquisas no campo do Serviço Social. 5 RETORNO DAS PESQUISAS PARA O SERVIÇO SOCIAL Um ponto central referente à pesquisa social é a preocupação com o sujeito da história e sua preservação no processo de investigação do real e produção do conhecimento profissional, ou seja, o sujeito administrador da prática profissional, usuário das políticas públicas, protagonista da sua própria história. Não podemos perder de vista o contexto sócio-históricono qual se inserem e em que se apresentam as relações entre o profissional e o cidadão. A preocupação com o reconhecimento do sujeito está presente no projeto ético-político da profissão, sendo de extrema relevância a necessidade de se destacar no âmbito da prática profissional em organizações sociais, bem como no desenvolvimento de pesquisas científicas. (BOURGUIGNON, 2007). Conforme Bourguignon (2007, p. 51), O grande desafio para o pesquisador assistente social, que se preocupa com a centralidade do sujeito ‘enquanto condição ontológica e não como estratégia metodológica de pesquisa’, é possibilitar através da pesquisa maior visibilidade ao sujeito, à sua experiência e ao seu conhecimento, cuja natureza, se desvendada, poderá permitir desenvolver práticas cada vez mais comprometidas ética e politicamente com a realidade, buscando no coletivo e na troca de saberes alternativas de superação das condições de privação e exclusão social. Neste sentido, podemos perceber que com as várias expressões das questões sociais que se apresentam, vivenciadas pelos sujeitos, o assistente social, nas suas intervenções baseadas no código de ética e pautadas no projeto ético- político da profissão e conquistas dos direitos sociais, pressupõe que a viabilização destes direitos passa pela compreensão das necessidades sociais. Para Bourguignon (2007), os objetivos do zelo profissional, relacionado às pesquisas e no âmbito da intervenção, trazem à tona as experiências e os conhecimentos destes sujeitos, os quais necessitam ser compartilhados, compreendidos e traduzidos à luz de um diálogo crítico com o conhecimento já acrescentado pelo Serviço Social. UNIDADE 2 | SUBSÍDIOS DA PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL 110 Bourguignon (2007, p. 51) lembra que: A pesquisa para o Serviço Social deve gerar um conhecimento que reconheça os usuários dos serviços públicos como sujeitos políticos que são, capazes, também, de conhecer e intervir em sua própria realidade com autonomia, desvencilhando-se das estratégias de assistencialismo, clientelismo e subalternidade, tão presentes nas ações governamentais e políticas públicas. A pesquisa social trabalha com sujeitos, com atores sociais em relação, com grupos específicos. Esses sujeitos de investigação, primeiramente, são construídos teoricamente enquanto componentes do objeto de estudo. No campo, fazem parte de uma relação de intersubjetividade, de interação social com o pesquisador, daí resultando um produto novo e confrontante tanto com a realidade concreta como com as hipóteses e pressupostos teóricos, num processo mais amplo de construção de conhecimentos. A pesquisa tem como possibilidade a valorização do povo, suas riquezas e histórias, suas experiências individuais/coletivas e mobilizadoras de novas formas de sociabilidade. Contribuindo para a ampliação de uma prática capaz de possibilitar aos usuários das políticas públicas a experiência de assumir-se como ser social e histórico, fazendo parte de uma sociedade como ser pensante, comunicante e transformadora da realidade social. (BOURGUIGNON, 2007) Ressaltamos que, através do conhecimento produzido juntamente com as pesquisas sociais, é necessária uma reflexão sobre os impactos gerados na realidade social, com intuito de qualificar ainda mais a intervenção profissional, bem como avaliar as dimensões das transformações e mudanças ocorridas na profissão. Nesta direção, evidenciamos uma dimensão política neste aspecto, no sentido do conhecimento produzido, para que tenha uma direção estratégica na intervenção profissional, comprometida com processos concretos que possam garantir materialidade ao seu projeto ético-político (BOURGUIGNON, 2007). Percebemos que o Serviço Social, em sua trajetória histórica, avançou quanto ao acúmulo de conhecimentos sobre o seu objeto de intervenção e sobre a natureza da própria profissão. Deixou de ser consumidor do saber produzido por outras áreas de conhecimento das ciências sociais e humanas, passando a ser protagonista de um processo que exige o acompanhamento sistemático e crítico das transformações da sociedade, que rebatem no exercício profissional. (BOURGUIGNON, 2007). No entanto, Bourguignon (2007, p. 53) traz algumas reflexões sobre a pesquisa e Serviço Social: TÓPICO 1 | PESQUISA E PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO NO SERVIÇO SOCIAL 111 - O conhecimento, resultado do processo de investigação permanente da realidade, deve ter como referência os seus frutos, materializados na prática social humana e em alterações que geram nas condições de vida dos seres humanos, nos seus comportamentos, nas suas atitudes e relações que estabelecem entre si e com a natureza e nas determinações sociais que impedem o rompimento com as condições de subalternidade em que se encontram. - Os objetos de atenção de profissionais/pesquisadores são reconstruções teóricas que se processam, vinculados aos objetivos do profissional, à sua experiência pessoal e social, e retratam o nível de engajamento ao seu tempo histórico e ao acúmulo de conhecimentos produzidos socialmente. - O campo empírico das inquietações profissionais e estimulador da atitude investigativa é a prática profissional. A prática profissional, problematizada, constitui-se em fonte de reflexão e construção de conhecimentos sobre seu objeto de intervenção e suas expressões particulares no contexto sócio-ocupacional, onde o profissional está inserido. Também é fonte de questionamento da própria prática, buscando alternativas de repensá-la e redefini-la, conforme as exigências contemporâneas para o seu exercício. - As articulações entre o conhecimento produzido pelo conjunto da categoria e as demandas profissionais são feitas através de mediações. A intervenção, através de suas intenções, seus projetos e ações cotidianas, estabelece as mediações entre os conhecimentos e as demandas sociais. Desta forma, estas mediações são apreendidas no real e reconstruídas teoricamente, na medida em que o profissional passa da intenção à intervenção, apoiando-se em pesquisa sistemática e crítica dos fenômenos sociais que define estratégias, meios e recursos necessários para o alcance de seus fins. - A relevância social de uma pesquisa está na sua capacidade de apreender a realidade e de servir de referência para os profissionais da categoria e de outras áreas de conhecimento, sendo assim alimentadora de práticas profissionais. “Consolidar os avanços já conquistados pela profissão em relação à produção de conhecimento requer que o conhecimento produzido extrapole os muros da academia” (BOURGUIGNON, 2007, p. 53). Para que isso ocorra é necessário haver uma política de formação que possa articular graduação, pós-graduação e processos de capacitação constantes. Segundo Bourguignon (2007), Neste conjunto, o eixo de sustentação deve assentar-se nas demandas e nos impasses vivenciados pelos profissionais no contexto do exercício da profissão, considerando as determinações sociais, econômicas, políticas e culturais que expressam a realidade contemporânea e o projeto ético-político profissional. (BOURGUIGNON, 2007, p. 53). Com o entendimento acerca da pesquisa social foi possível perceber que a prática da pesquisa deve estar relacionada com a atuação profissional, considerando que a produção de conhecimento se materializa via pesquisa UNIDADE 2 | SUBSÍDIOS DA PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL 112 no campo do Serviço Social, colocando alguns elementos como mediações possíveis ao exercício da pesquisa. Sendo que podemos evidenciar a necessidade de vinculação orgânica com a prática profissional, a garantia de centralidade ao sujeito participante, como condição ontológica a ser recuperada pelas pesquisas, bem como o compromisso com o retorno e alcance social das mesmas. (BOURGUIGNON, 2007). Por fim, diante das discussões apresentadas, observou-se que a pesquisa social se apresenta como uma estratégia de grande relevância para o Serviço Social, com o intuito de contribuirpara o aperfeiçoamento das políticas públicas, na prática profissional e na formação de futuros assistentes sociais. UNI Um outro tom de qualidade na produção do conhecimento em Serviço Social procedeu da direção social da prática profissional orientada por um projeto ético-coletivo. FONTE: Disponível em: <https:/periódicos.ufsc.br/índex.php/katalysis/article/view/ s141449802007000300002>. Acesso em: 15 fev. 2016. DICAS Para um aprofundamento do conteúdo estudado neste tópico sugerimos a leitura do artigo: Pesquisa e produção de conhecimento no campo do Serviço Social (Aldaíza Sposati). Disponível em: <https://periodicos.ufsc.br/index.php/katalysis/article/view/S1414- 49802007000300002>. Acesso em: 30 mar. 2016. 113 RESUMO DO TÓPICO 1 Neste tópico você estudou: • O resgate histórico e a trajetória do Serviço Social como profissão, e os avanços e conquistas ocorridos no período de 1980 e 1990. A busca por novos conhecimentos com apoio da pesquisa social para complemento da sustentação teórica. • A pesquisa social tem se apresentado como de suma importância para a prática profissional. • A década de 1980 é marcada pela ruptura do conservadorismo presente na construção da profissão. • A década de 1990 representa avanços e conquistas referentes à consolidação do projeto ético-político da profissão. • Em sua trajetória histórica, o Serviço Social estabelece diálogo crítico com outras áreas do conhecimento, sendo intermediador no sentido das reflexões pertinentes sobre a questão social e o enfrentamento através das políticas públicas. • A pesquisa social tornou-se um exercício diário para levantar as indagações da realidade apresentada no campo da profissão, tornando-se elemento transformador da realidade social por intermédio do trabalho. • A pesquisa social vem se consolidando e apresenta-se cada vez mais relevante no âmbito das políticas sociais. • A pesquisa social decorre de um processo de crescimento e desafios perante as profissões, especialmente no campo do Serviço Social. • A pesquisa social no campo do Serviço Social se preocupa com o sujeito da história e sua preservação no processo de investigação do real e produção do conhecimento profissional, possibilitando, através da pesquisa, maior visibilidade ao sujeito. 114 AUTOATIVIDADE A partir dos conteúdos estudados neste tópico, vamos exercitar sua construção do conhecimento, bem como aproveitar para as futuras avaliações, respondendo às seguintes questões. 1 De forma breve, descreva os principais acontecimentos ocorridos nas décadas de 1980 e 1990, referentes ao Serviço Social com relação à pesquisa. 2 Sabemos que ocorreram diversos avanços na prática de pesquisa no campo do Serviço Social, tais como: a construção de conhecimento para a prática profissional, a valorização do sujeito e o reconhecimento de suas histórias. A pesquisa passa a ser reconhecida como elemento de construção através do conhecimento envolvido com as demandas específicas da profissão e com as possibilidades no seu enfrentamento perante a realidade social. Portanto, classifique V para as sentenças verdadeiras que apresentem avanços na prática de pesquisa no Serviço Social e F para as falsas: ( ) A pesquisa social apresenta-se como sendo um processo de crescimento e desafios para as profissões, especialmente no campo do Serviço Social. ( ) A pesquisa social é direcionada somente para o campo das ciências exatas, não contemplando outra área de atuação. ( ) Não é possível relacionar a pesquisa social com a prática profissional, pois não contribui na solução dos problemas sociais apresentados. ( ) A compreensão da pesquisa e a vinculação com a prática profissional e o conjunto de possibilidades e avanços teórico-práticos coerentes com o projeto ético-político da profissão de assistente social. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) F – V – F – V. b) ( ) V – F – F – F. c) ( ) V – F – F – V. d) ( ) V – V – V – V. 115 TÓPICO 2 PESQUISA SOCIAL E ÉTICA PROFISSIONAL UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Caro acadêmico, neste tópico apresentaremos brevemente a ética e sua importância para a pesquisa no Serviço Social. Iniciaremos apresentando seu conceito, especificamente relacionado com as questões voltadas à pesquisa com o sujeito, a bioética. A partir dos conceitos de ética vamos entender os ensinamentos com que a ética vem se preocupando, com a tentativa de formular códigos e princípios de procedimento moral. Ou seja, embora a ética e a moral possuam diferentes significados, devem estar integradas. A ética influencia as regras de conduta de uma sociedade, já a moral as regras de conduta do indivíduo. A compreensão da questão da bioética apresenta um conjunto de pesquisas, discursos e práticas, sendo que na maioria são multidisciplinares. No entanto, é necessário que os assuntos de discriminação, desrespeito e a violação dos direitos dos sujeitos envolvidos na pesquisa, sejam respeitados. A partir da década de 1990 o Serviço Social apresenta amadurecimento em sua prática de intervenção. Com a revisão do código de ética e o atual código de 1993, relacionado às questões do Serviço Social, a condução da produção do conhecimento vem apresentando destaques, com ênfase nas pesquisas sociais. Por fim, destacamos a centralidade dos sujeitos nas pesquisas em Serviço Social. Devemos garantir respeito aos sujeitos pertencentes à pesquisa, bem como a centralidade destes em diversos estudos. UNIDADE 2 | SUBSÍDIOS DA PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL 116 2 CONCEITOS DE ÉTICA Primeiramente vamos entender o significado da palavra “ética”, que vem do grego ethos e significa aquilo que compete ao “bom costume”/”costume superior”, ou “portador de caráter”. Princípios universais, ações em que acreditamos e não mudam independentemente do lugar onde estamos. (WIKIPÉDIA, 2016b). May (2004) destaca que a ética se preocupa com a tentativa de formular códigos e princípios de comportamento moral. Segundo o Dicionário de Filosofia (JULIA, 1969, p. 100), “[...] ética (do grego ethos, costumes), ciência dos princípios da moral. A moral designa, mais especificamente, a aplicação desses princípios nos atos particulares da vida”. Neste sentido, esta percepção deixa bastante intensa a ideia de como a ética analisa e orienta os princípios da moral. Embora estes conceitos se apresentem distintos, existe uma estreita articulação entre si, na medida em que a ética tem como objeto de estudo a própria moral, não existindo desligadas uma da outra, mas sendo independentes entre si. Ética está sendo entendida por “[...] ciência do bem e das regras da ação humana [...]” (JULIA, 1969, p. 208). Vázquez define a ética como sendo “[...] a teoria ou ciência do comportamento moral dos homens em sociedade”. (VÁZQUEZ, 2006, p. 23). Já por moral, [...] um sistema de normas, princípios e valores, segundo o qual são regulamentadas as relações mútuas entre os indivíduos ou entre estes e a comunidade, de tal maneira que estas normas, dotadas de um caráter histórico e social, sejam acatadas livre e conscientemente, por uma convicção íntima, e não de uma maneira mecânica, externa ou impessoal (VÁZQUEZ, 2006, p. 84). Ainda segundo o autor, [...] a moral só pode surgir – e efetivamente surge – quando o homem supera a sua natureza puramente natural, instintiva, e possui já uma natureza social: isto é, quando já é membro de uma coletividade (gens, várias famílias aparentadas entre si, ou tribo, constituída por várias gens). Como regulamentação do comportamento dos indivíduos entre si e destes com a comunidade, a moral exige necessariamente não só que o homem esteja em relação com os demais, mas também certa consciência – por limitada e imprecisa que seja – desta relação para que se possa comportar de acordo com as normas ou prescrições que o governam. (VÁZQUEZ, 2006, p. 39). Muito embora a ética e a moral sustentem as suas especificidades e particularidades que as diferenciam no seumodus operandi, de fato esta relação TÓPICO 2 | PESQUISA SOCIAL E ÉTICA PROFISSIONAL 117 complementar torna-se não só desejável como indispensável, na medida em que admite que a moral queira uma abertura à comunicação e ao diálogo ético-moral, para o desenvolvimento de uma capacidade de interrogação, reflexão e avaliação de cada sistema de moralidade existente, relacionados à natureza e atribuição das suas normas e regras morais. Contudo, estes conceitos são de suma importância na condução da pesquisa no Serviço Social, ou seja, a relevância de cada um deles para a construção do conhecimento, bem como para a compreensão do fazer ético humano nos mais variados contextos em que o sujeito da pesquisa se insere. Diante do exposto, podemos compreender sobre as definições de ética e moral, e para ampliar nossos conhecimentos, discutiremos a questão da ética na pesquisa e o Serviço Social, a seguir. FIGURA 7 – ÉTICA E MORAL ÉTICA Princípios Éticos Código de Conduta MORAL ÉTICA É PRINCÍPIO MORAL É CONDUTA ESPECÍFICA MORAL É TEMPORAL MORAL É CULTURAL MORAL É CONDUTA DA REGRA MORAL É PRÁTICA MORAL É AÇÃO MORAL TRATA DO CERTO/ERRADO ÉTICA É PERMANENTE ÉTICA É UNIVERSAL ÉTICA É REGRA ÉTICA É TEORIA ÉTICA É REFLEXÃO ÉTICA TRATA DO BEM/MAL Aético = Ausência de ética Antiético = Contrário à ética Amoral = Ausência de moral Imoral = Contrário à moral FONTE: Disponível em: <http://pmkb.com.br/artigo/projetos-realizados-sem-etica-tendem-a-ser- caoticos/>. Acessado em 20 de fevereiro de 2016. Conforme a figura anterior, podemos verificar a diferença entre os princípios éticos e a moral (código de conduta), ou seja, seguir os padrões convencionais relacionados à ética e à conduta moral cumprindo os valores estabelecidos pela sociedade. UNIDADE 2 | SUBSÍDIOS DA PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL 118 NOTA Ser ético é agir dentro dos padrões convencionais, é proceder bem, é não prejudicar o próximo. Ser ético é cumprir os valores estabelecidos pela sociedade em que se vive. FONTE: Disponível em: <http://www.significados.com.br/etica-profissional/>. Acesso em: 20 fev. 2016. 3 ÉTICA E O SABER – BIOÉTICA Bioética (grego: bios, vida + ethos, relativo à ética) é o estudo transdisciplinar entre Ciências Biológicas, Ciências da Saúde, Filosofia e Direito, que investiga as condições necessárias para uma administração responsável da vida humana, ambiental e animal. O termo foi utilizado pela primeira vez em uma revisão do relacionamento ético dos humanos em relação aos animais e plantas. (WIKIPÉDIA, 2016a). Na década de 1970 o termo foi pertinente, com o objetivo de deslocar a discussão acerca dos novos problemas impostos pelo desenvolvimento tecnológico, ou seja, de um viés mais tecnicista para uma passagem mais ajustada pelo humanismo, ultrapassando a dicotomia dentre os acontecimentos esclarecidos pela ciência, bem como seus valores observáveis pela ética. Contudo, o debate sobre ética na pesquisa é recente nos espaços das ciências humanas e na ciência em geral. No campo da bioética, surgiu para atender demandas históricas, com o intuito de responder eticamente a situações de conflito, decorrentes do uso da ciência, em experimentos com seres humanos. (BARROCO, 2005). No contexto das declarações e tratados internacionais de direitos humanos acordados no pós-guerra, tendo em vista as denúncias sobre os experimentos dos campos de concentração nazistas durante a segunda guerra mundial, são criadas as bases históricas que legitimam a necessidade de criação de parâmetros éticos universais relativos ao uso da pesquisa e das experiências científicas. (BARROCO, 2005, p. 103). Neste sentido, surge em Seatle, em 1962, o primeiro Comitê de Bioética, ao mesmo tempo em que ocorre um conjunto de denúncias sobre experimentos médicos antiéticos. O Comitê foi instituído a partir de um avanço tecnológico da medicina, a criação da hemodiálise, e do conflito ético gerado com a existência de demanda maior que a capacidade de atendimentos, o que poderia resultar na morte dos usuários. (BARROCO, 2005). TÓPICO 2 | PESQUISA SOCIAL E ÉTICA PROFISSIONAL 119 Conforme a autora, esta iniciativa foi considerada precursora, pois ampliou o poder decisório para um comitê composto por pessoas em sua maioria leigas em medicina. (BARROCO, 2005). Ainda neste período surgiram diversas denúncias relacionadas a práticas antiéticas em pesquisas científicas com seres humanos. Henry Beecher, médico anestesista que colecionava relatos de pesquisas científicas publicadas em periódicos internacionais, publica, em 1966, o artigo “Ética e investigação clínica”. (BARROCO, 2005). Segundo a autora, De modo geral, todos concordam com a importância da discussão e do enfrentamento da ética na pesquisa; no entanto, apesar de ser um debate colocado há mais de 30 anos, o seu enfrentamento é bastante problemático, pela natureza dos dilemas que o envolve. Quando se refere à pesquisa em ciências humanas, a discussão é ainda mais rara. (BARROCO, 2005, p. 106). Para tanto, o que foi exposto revela a multiplicidade de intervenções que envolvem a reflexão acerca da ética na pesquisa. O desenvolvimento da bioética veio como resposta a demandas históricas resultantes de situações de discriminação e desrespeito aos direitos humanos. (BARROCO, 2005). Como ação prática, a ética é considerada a objetivação concreta dos valores, princípios, escolhas, entre outros, bem como, posicionamentos produzidos pela ação consciente dos homens perante situações de afirmação/negação da vida, dos direitos e valores. Conceber a ética como uma ação crítica de um sujeito histórico que reflete teoricamente, faz escolhas conscientes, se responsabiliza, se compromete socialmente por elas e age praticamente para objetivá-las é conceber a ética como parte da práxis. (BARROCO, 2005). Neste sentido, devemos seguir os padrões éticos e morais estabelecidos na sociedade em que vivemos, sempre reconhecendo a ética como parte fundamental da práxis profissional. A seguir veremos a importância da ética na pesquisa e no campo do Serviço Social. 4 ÉTICA NA PESQUISA E O SERVIÇO SOCIAL Cabe ressaltar a importância da ética profissional nas ações e práticas interventivas, seguindo os valores e normas orientados pelo código de ética da profissão e buscando estratégias coletivas para a sua efetivação no trabalho dos profissionais. UNIDADE 2 | SUBSÍDIOS DA PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL 120 A partir da década de 1990 o Serviço Social demonstra um amadurecimento em relação a seu verso teórico-político da questão ética, processo vinculado à ruptura, onde teve início, com o código de ética de 1986 e sua revisão, com o atual código de 1993. Este avanço, embora essencial do código, conseguiu superá-lo ao longo do método por ele desencadeado. (BARROCO, 2001). Para Barroco (2001), Os valores éticos se objetivam mediante posicionamento e ações práticas, e seu conteúdo é resultado da escolha e decisão de um sujeito coletivo – a categoria profissional –, de onde a importância da reflexão ética que desvela o significado e a fundação dos valores, da discussão coletiva que rege os princípios, valores e normas orientadoras da ética profissional, definindo estratégias coletivas para sua concretização, e do trabalho educativo que exercita os profissionais para uma vivência comprometida com valores emancipatórios. (BARROCO, 2001, p. 32). Apesar do código de ética desempenhar seu papel fundamental, nos últimos dez anos vêm se ampliando seus espaços de reflexão e intervenção acerca da ética profissional, distribuindo-se embasamentos para uma dupla superação. De um lado, busca romper com a visão formal de limitar a ética profissional a um conjunto de normas e deveres, no sentido de colaborar historicamente, ocultando o conjunto de mediações que constituiu a ética profissional. Já de outro lado, enfrentar a problemática apontada como a necessidade de organização teórica, baseada de forma adequada, o ethosprofissional, valores, princípios e teleologia. (BARROCO, 2001). A autora afirma que o meio de debate, a sistematização teórica e a capacitação profissional foram um processo determinado pela conjuntura dos anos 90, com investimentos de interesses da categoria em atuações dirigidas à reflexão ética e à educação, instrumentalizadora da ética profissional. (BARROCO, 2001). Como vimos, a década de 90 foi marcada significativamente em relação à quantidade e qualidade dos debates e discussões e atividades concentradas no que diz respeito à questão da ética profissional. Já que a sociedade aloca demandas para que esta questão seja discutida na atualidade, a categoria profissional, por intermédio de suas instituições, locais de estudos e trabalho, tem a obrigação de investir taticamente de forma a materializá-las, buscando sempre consolidar a hegemonia do projeto ético-político da profissão. (BARROCO, 2001). Este movimento faz com que se perceba a qualidade dessa intervenção, trazendo ganhos e avanços à profissão. Já no início do século XXI, a ética permanece como tema em destaque, seja nos debates e também na produção teórica, apresentando como estratégias de capacitação profissional e ampliando assim para outros espaços e atividades. TÓPICO 2 | PESQUISA SOCIAL E ÉTICA PROFISSIONAL 121 Contudo, a abertura do debate profissional acerca da ética para a interlocução com outras profissões, bem como outros espaços de discussões, inclusive internacional, amplia-se a partir de 2000, em especial com a presença do Brasil nas edições do Fórum Social Mundial em 2001. Destacam-se também outras participações em 2000, sendo que uma delas resultou na aprovação do documento “Princípios éticos e políticos para as organizações profissionais de trabalho social do Mercosul” (BARROCO, 2001). Para Barroco (2001, p. 38), O novo século também aponta para outro espaço de capacitação ética: o campo da pesquisa e da reflexão em nível de pós-graduação, o que vem atender a demandas colocadas historicamente nos encontros e reinvindicações da categoria, especialmente quanto à pesquisa, a capacitação para a docência e para o enfrentamento crítico dos desafios éticos do trabalho profissional. A pesquisa no campo do Serviço Social é essencial, pois através dela se buscam estratégias para qualificar ainda mais as demandas apresentadas, como forma de novos conhecimentos que venham a garantir o respeito à ética profissional junto à população envolvida com as mais variadas pesquisas na área. A reflexão sobre a ética na pesquisa em Serviço Social supõe perguntas sobre o significado e a importância de nossa atuação em relação à pesquisa; ou seja, o que é autêntico e justo fazer nesta atividade, esta pode ser analisada como uma ação capaz de formar mediações práticas para a objetivação de escolhas e valores éticos, sendo que as escolhas são referentes às condições históricas determinadas socialmente. Entretanto, nossos parâmetros éticos são dados pelos referenciais teóricos e políticos inscritos em nosso código de ética e em nosso plano profissional. (BARROCO, 2005). Destacamos a relevância da pesquisa social para o campo do Serviço Social, as contribuições vêm qualificar ainda mais a prática profissional, em busca de estratégias e novos conhecimentos. Adentraremos agora na centralidade dos sujeitos nas pesquisas para o Serviço Social. UNIDADE 2 | SUBSÍDIOS DA PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL 122 NOTA A Resolução 196/96 coloca aspectos importantes quanto à defesa dos direitos humanos dos sujeitos envolvidos na pesquisa, dentre eles, a elaboração do termo de consentimento livre e esclarecido; no caso de crianças e adolescentes opta-se pelo termo de assentimento; o cuidado em relação aos riscos da pesquisa; as formas de recrutamento dos sujeitos; o ressarcimento dos gastos pessoais e indenização de danos decorrentes de participação dos sujeitos; o estabelecimento de critérios éticos para a quebra de sigilo; a avaliação da relevância social da pesquisa e da confiabilidade sobre a origem das informações (DINIZ; GUILLEM, 2005). FONTE: Disponível em: <http://servicosocialportugues.blogspot.com.br/2007/02/consideraes- sobre-tica-na-pesquisa.html>. Acessado em: 27 de fevereiro de 2016. FIGURA 8 – ÉTICA EM PESQUISA FONTE: Disponível em: <http://www.esponjacultural.com.br/?p=1435>. Acesso em: 27 fev. 2016. 5 CENTRALIDADE DOS SUJEITOS NAS PESQUISAS EM SERVIÇO SOCIAL Quando falamos na centralidade dos sujeitos envolvidos na pesquisa, destacamos as estratégias que abrange desempenhar soluções que garantam o respeito e a centralidade destes nos diversos estudos a serem concretizados. Debater a pesquisa buscando seus embasamentos teóricos ou aspectos de natureza operacional, que abrangem domínio de procedimentos metodológicos capazes de apoiar a construção de objetos de investigação, tem sido debate recorrente. Já no Serviço Social, profissão de natureza interventiva, estas inquietações se fazem presentes e evidenciam avanços em se tratando de consistências relacionadas às produções acadêmicas no âmbito das Ciências Sociais Aplicadas. (BOURGUIGNON, 2008). TÓPICO 2 | PESQUISA SOCIAL E ÉTICA PROFISSIONAL 123 Em se tratando de pesquisa social, devemos destacar o comprometimento ético, de respeito com os sujeitos envolvidos na pesquisa. Ressaltando que a centralidade dos sujeitos envolve desempenhar resoluções para que venha garantir o respeito, bem como, a centralidade destes em diversos estudos, no qual será realizado. No entanto, encontramos alguns desafios no exercício da pesquisa, um exemplo é a preocupação com a particularidade da produção de conhecimento que tem como horizonte alimentar práticas profissionais comprometidas com processos emancipatórios. Há um espaço nas produções sobre a pesquisa em Serviço Social, que é exatamente a questão da centralidade do sujeito e sua preservação no processo metodológico de investigação do real e consequente produção de conhecimento profissional (BOURGUIGNON, 2008). Ainda para a autora, a preocupação com o reconhecimento do sujeito está presente no projeto ético-político da profissão, necessitando maior relevância no âmbito da prática profissional em organizações sociais e no desenvolvimento de pesquisas científicas (BOURGUIGNON, 2008). O Código de Ética Profissional preconiza que o assistente social deve se empenhar na “eliminação de todas as formas de preconceito, incentivando o respeito à diversidade, à participação de grupos socialmente discriminados e à discussão das diferenças”. (CFESS, 1993, p. 2). No âmbito da pesquisa, segundo Bourguignon (2008), A pesquisa deve destinar-se não só a compreender as questões estruturais, mas numa perspectiva de totalidade, o processo de reprodução material e espiritual da existência do ser social. Por isso não podem passar despercebidas nas pesquisas da área as diferentes formas como o sujeito se relaciona com a realidade social. O grande desafio para o pesquisador assistente social, que se preocupa com a centralidade do sujeito enquanto condição ontológica e não como estratégia metodológica de pesquisa, é possibilitar, através da pesquisa, maior visibilidade ao sujeito, à sua experiência e ao seu conhecimento, cuja natureza, se desvendada, poderá permitir aos profissionais desenvolver práticas cada vez mais comprometidas ética e politicamente com a realidade dos mesmos, buscando no coletivo e na troca de saberes alternativas de superação das condições de privação e exclusão social (BOURGUIGNON, 2008, p. 303). Ressaltamos que a pesquisa no campo do Serviço Social deve motivar um conhecimento que reconheça os usuários dos serviços públicos como sujeitos políticos que são, também capazes de conhecer e intervir em sua própria realidade com autonomia, desvencilhando-se das estratégias de assistencialismo. É necessário ilustrar que este sujeito, antes de ser participante de nossas pesquisas, é usuário, beneficiário e/ou destinatário das políticas públicase dos serviços sociais, através de nossa intervenção nos diversos campos de atuação. (BOURGUIGNON, 2008). UNIDADE 2 | SUBSÍDIOS DA PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL 124 Ainda conforme a autora, A aproximação ao sujeito que participa de nossas pesquisas se faz através da busca da compreensão da sua experiência, do conhecimento gerado a partir desta experiência e da sua vivência cotidiana, que, tomadas em relação ao nosso objeto de estudo, compõem um dos elementos a serem apreendidos na sua relação com as múltiplas determinações de natureza econômica, social, política e cultural (BOURGUIGNON, 2008, p. 305). Para tanto, ao planejar uma pesquisa construímos uma metodologia de investigação que busca constituir um tipo de relação com estes sujeitos, que poderá ter diferentes enfoques teóricos. Com uma metodologia fundamentada pela teoria social que nos alimenta, espontaneamente norteada por nossas finalidades de investigação, bem como pela natureza de nosso objeto de estudo (BOURGUIGNON, 2008). O âmbito da atividade investigativa exige o respeito à autonomia do sujeito envolvido na pesquisa, o que implica no seu consentimento quanto à sua participação, e em relação ao uso dos resultados, garantindo o sigilo profissional, relativos a todas as etapas da pesquisa, com posicionamento e respeito aos valores, hábitos e costumes do sujeito entrevistado. Neste sentido, estabelecendo relações democráticas, não discriminatórias, entre outras (BARROCO, 2005). Trabalhar num ponto de vista que envolve o sujeito supõe uma forma de tratamento, uma maneira que subentende que a relação estará fundamentada em princípios de participação. Para tanto, pressupõe ética, interação, devolução, respeito à dignidade e à experiência do sujeito, entre outros. (BOURGUIGNON, 2008). A autora destaca que: O Serviço Social tem uma rica experiência e conhecimento acumulado sobre as formas de aproximação ao sujeito e academicamente ele é preparado para isso. A questão que se coloca hoje é que os procedimentos metodológicos de pesquisa preservem a centralidade do sujeito, bem como que o assistente social trabalhe com o conjunto das informações colhidas na realidade de forma a potencializar em sua intervenção as alternativas que garantam consolidação dos direitos fundamentais do cidadão (BOURGUIGNON, 2008, p. 310). Contudo, são vários os desafios presentes na pesquisa em Serviço Social e, em especial, para garantir centralidade ao sujeito que, como participante, tem colaborado para o avanço da produção de conhecimento na área. Neste sentido, faz-se necessário que o assistente social também participe de um processo de investimento em capacitação continuada, com o intuito de revigorar seus fundamentos teórico-metodológicos, como mecanismo que dê conta de abranger as mediações que se manifestam em seu cotidiano de trabalho e nas relações que estabelece com os usuários das políticas públicas. (BOURGUIGNON, 2008). TÓPICO 2 | PESQUISA SOCIAL E ÉTICA PROFISSIONAL 125 Estas estratégias que contribuíram para a eficácia e eficiência da prática profissional também fornecerão subsídios para que se desvele o cotidiano que se apresenta no existir de cada sujeito. Sempre com o comprometimento ético, que conduz na busca de respostas na atuação profissional. Por fim, segundo Bourguignon (2008), o assistente social precisa criar mecanismos para socializar, difundir seus conhecimentos, ao ponto de ampliar os horizontes de sua intervenção e dos resultados de suas pesquisas. Principalmente, no contexto de suas práticas, potencializar conhecimentos, meios e recursos que garantam visibilidade ao sujeito que, pelo seu protagonismo individual e/ ou coletivo, tem, no seu cotidiano, construído alternativas de luta e resistência social e política (BOURGUIGNON, 2008, p. 310). A realização da pesquisa está atrelada à socialização dos resultados, tanto com os sujeitos envolvidos como também no coletivo, como forma de esclarecer os conhecimentos pesquisados e as estratégias de enfrentamento da realidade social. NOTA Podemos entender o “termo sujeito como aquele que faz a ação ou a dirige, ou, num sentido mais filosófico, o homem como sujeito livre e igual, dono de si mesmo e da natureza, construtor do seu mundo, defensor de direitos e da subjetividade” (WANDERLEY, 1992, p. 142). DICAS Leia na íntegra do artigo: Considerações sobre a ética na pesquisa a partir do código de ética profissional do assistente social (Maria Lucia Silva Barroco). Disponível em: <http://www.cpihts.com/PDF02/Lucia%20Barroco.pdf>. 126 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico vimos: • Alguns conceitos de ética. • A ética se preocupa com a tentativa de formular códigos e princípios de comportamento moral. • Entender a compreensão da bioética, superando os conflitos morais, a discriminação e desrespeitos, bem como, a violação de direitos, dos sujeitos envolvidos na pesquisa. • Henry Beecher, médico anestesista que colecionava relatos de pesquisas científicas publicadas em periódicos internacionais, publica, em 1966, o artigo “Ética e investigação clínica”. • A década de 1990 foi marcada pela quantidade e qualidade dos debates e discussões e atividades concentradas na questão da ética profissional. • Os avanços da ética com relação às pesquisas sociais. • A reflexão sobre a ética na pesquisa em Serviço Social supõe perguntas sobre o significado e a importância de nossa atuação em relação à pesquisa. • Os desafios presentes na pesquisa em Serviço Social, em especial para garantir centralidade do sujeito que, como participante, tem colaborado para o avanço da produção de conhecimento na área. 127 AUTOATIVIDADE 1 Na sua compreensão, o que significa a Bioética? 2 Disserte sobre quais as principais contribuições da ética na pesquisa no campo do Serviço Social. 128 129 TÓPICO 3 ATRIBUIÇÃO E COMPETÊNCIA DO ASSISTENTE SOCIAL PESQUISADOR UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Neste tópico apresentaremos informações fundamentais para compreensão e estudo das pesquisas no Serviço Social, iniciaremos com breves considerações sobre o ato de pesquisar, as competências específicas para realizar uma pesquisa científica, quais as razões para se fazer uma pesquisa e as características fundamentais da pesquisa. Abordaremos a seriedade em saber pesquisar, bem como a escolha de informações que, a partir delas, e de experiências profissionais, irão levantar conhecimentos que subsidiarão a prática. A relevância que obteve a pesquisa social, como uma real necessidade na atual sociedade e em todas as profissões. Por fim, exibiremos os conceitos de pesquisa qualitativa e quantitativa e suas diferenças. Veremos também sobre a escolha do método científico de pesquisa, sua precedência de métodos sistemáticos, para o significado e esclarecimento dos acontecimentos. 2 BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE O ATO DE PESQUISAR Há muitas razões para a determinação em realizar uma pesquisa, sendo que a única maneira de aprender a pesquisar é fazendo uma pesquisa. Outro fator relevante além de leituras e conversar com pesquisadores experientes para obter uma maior compreensão e informações referentes às dificuldades das pesquisas, que geralmente não são abordados em manuais ou texto. 130 UNIDADE 2 | SUBSÍDIOS DA PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL Para tanto, não existe uma fórmula mágica e única para realizar uma pesquisa dita ideal, toda a pesquisa haverá novas descobertas, melhor compreensão na aplicação das técnicas e metodologia aplicada. Gil (2010) classifica a pesquisa em dois grandes grupos: razões de ordem intelectual e razões de ordem prática. Sendo que a primeira consiste no ato de conhecer pela própria satisfação, a outra se trata do desejo de conhecer com objetivo de fazer algo de maneira mais eficiente ou eficaz. (GIL, 2010). Para uma boa pesquisa é indispensável, primeiramente, um bom planejamento. “A moderna concepção de planejamento, apoiada na Teoria Geral dos Sistemas, envolve quatro elementos necessários à suacompreensão: processo, eficiência, prazos e metas”. (GIL, 2010, p. 3). “O planejamento da pesquisa concretiza-se mediante a elaboração de um projeto, que é o documento explicitador das ações a serem desenvolvidas ao longo do processo de pesquisa”. (GIL, 2010, p. 3). O ato de pesquisar requer do pesquisador as diferentes atribuições e comprometimento com o desenvolvimento da pesquisa. A pesquisa tornou-se uma necessidade importante no cenário atual. O saber pesquisar, a busca de conhecimentos que irão contribuir nas práticas profissionais, vem ganhando destaque nas universidades, especialmente no campo do Serviço Social. A pesquisa vem contribuindo positivamente na atuação frente às diversas expressões das questões sociais. Destacamos a importância do incentivo à pesquisa nas escolas e universidades, pois a educação contemporânea não deve se limitar a formar alunos para dominar determinados conteúdos, e sim que saibam pensar, refletir, propor soluções sobre problemas e questões atuais, trabalhar e cooperar em conjunto na busca de novos conhecimentos. A escola deve favorecer a formação de seres críticos e participativos, conscientes de seu papel nas mudanças sociais. (TOMAZ, 2009). O incentivo às pesquisas sociais na vida acadêmica faz-se imprescindível no mundo atual. Para tanto, vamos aprofundar ainda mais o nosso conhecimento sobre a competência no ato de pesquisar, assunto que veremos a seguir. NOTA Pesquisa: “sf. 1. Ato ou efeito de pesquisar (1 e 2). 2. Investigação e estudo, minuciosos e sistemáticos, com o fim de descobrir fatos relativos a um campo de conhecimento” (FERREIRA, 2004, p. 549). FONTE: Disponível em: http://slideplayer.com.br/slide/44251/. Acessado em: 28 de fevereiro de 2016. TÓPICO 3 | ATRIBUIÇÃO E COMPETÊNCIA DO ASSISTENTE SOCIAL PESQUISADOR 131 NOTA A pesquisa é um processo em que é impossível prever todas as etapas. O pesquisador está sempre em estado de tensão porque sabe que seu conhecimento é parcial e limitado – o “possível” para ele. FONTE: Disponível em: <http://www.reveduc.ufscar.br/index.php/reveduc/article/ viewFile/839/299>. Acessado em 21 de fevereiro de 2016. 3 TORNANDO-SE UM PESQUISADOR Somente se obtém a postura de pesquisador se houver disponibilidade e dedicação de tempo, para que se desempenhe com autonomia o ato de aprender. Decorre disso a grande importância da leitura. Para se afeiçoar à ciência, a ação individual é imprescindível, pois ela permite a descoberta para os estudos, e esta leva à vontade de conhecer. Segundo Rocha (2009, p. 2), “ao realizar uma pesquisa científica, o pesquisador reúne informações e as analisa para construir um novo conhecimento, ainda não disponível em uma determinada área ou disciplina”. A pesquisa social para construir um novo conhecimento torna-se desafiadora, sendo que não existe receita, é preciso analisar e compreender, decifrando seus enigmas que vão surgindo no decorrer da pesquisa, sendo necessária qualidade e relevância em pesquisar, assim será garantida a resolução deste enigma que a realidade estabelece (ROCHA, 2009). Conforme Goldenberg (2002, p. 14), Anteriormente as ciências se pautavam em um modelo quantitativo de pesquisa, em que a veracidade de um estudo era verificada pela quantidade de entrevistados. Muitos pesquisadores, no entanto, questionam a representatividade e o caráter de objetividade de que a pesquisa quantitativa se revestia. É preciso encarar o fato de que, mesmo nas pesquisas quantitativas, a subjetividade do pesquisador está presente. Neste sentido, o olhar e o conhecimento do pesquisador estão presentes, afinal é necessária a escolha do tema, da metodologia, a bibliografia, entre outros. O pesquisador necessita de um olhar crítico, ativo, com a capacidade de pensar e agir, ou seja, saber pesquisar e elaborar as informações, e a partir delas e das experiências, construir o conhecimento. Sendo que no Serviço Social o ato de pesquisar vai contribuir para a efetividade, eficiência e eficácia do fazer profissional. 132 UNIDADE 2 | SUBSÍDIOS DA PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL NOTA “Alguns atributos necessários para o pesquisador são: a curiosidade, criatividade, intuição e sensibilidade para perceber o sujeito e o fenômeno como eles se apresentam”. (CANZONIERI, 2010, p. 27). 4 COMPETÊNCIA NO ATO DE PESQUISAR Destacamos que em todas as profissões existem as competências essenciais, onde o pesquisador deve se embasar. Segundo Gil (2010), pode-se definir a pesquisa como o processo formal e sistemático de desenvolvimento do método científico. Segundo Gil (2010, p. 17), “pode-se definir pesquisa como o procedimento racional e sistemático que tem como objetivo proporcionar respostas aos problemas que são propostos”. Neste sentido, não podemos confundir a pesquisa com a simples coleta de dados ou enquetes, a pesquisa social vai além disso, ou seja, a necessidade de desenvolver uma atitude autocrítica em relação à própria pesquisa. Segundo Gil (2010), toda a discussão realizada pelo próprio pesquisador, ou outras pessoas, deve ser analisada de dois pontos de vista: sua veracidade ou falsidade, como se pode medir sua falsidade ou veracidade. O autor destaca ainda que a atitude do pesquisador exige reorganização do conceito de saber, nova visão que permita reconhecer a incerteza, falta de clareza, relatividade, instrumentalização e ambiguidade do conceito “verdade científica”. (GIL, 2010, p. 18). No momento em que consegue analisar esta posição, deve-se levar a importantes avanços na produção do conhecimento, muito mais do que a simples aceitação (sem questionar) do que aparece nos livros e também na mente de especialistas. (GIL, 2010). Contudo, a pesquisa social pode ser classificada como o processo que, utilizando a metodologia científica, admite o alcance de novos conhecimentos no campo da realidade social. (GIL, 2010). O autor ressalta que a realidade social é compreendida em sentido amplo, envolvendo todos os aspectos relativos ao homem em seus múltiplos relacionamentos com outros e com as instituições sociais. (GIL, 2010). TÓPICO 3 | ATRIBUIÇÃO E COMPETÊNCIA DO ASSISTENTE SOCIAL PESQUISADOR 133 Conforme Chizzotti (2006, p. 82), O pesquisador não se transforma em mero relator passivo: sua imersão no cotidiano, a familiaridade com os acontecimentos diários e a percepção das concepções que embasam práticas e costumes supõem que os sujeitos da pesquisa têm representações, parciais e incompletas, mas construídas com relativa coerência em relação à sua visão e à sua experiência. Neste sentido, destacamos que o pesquisador deve manter uma conduta participante, no sentido de partilha substantiva na vida e nos problemas do sujeito, e na medida em que serão identificados os problemas, manter o compromisso, bem como a necessidade de estabelecer estratégias de superação dessas necessidades ou resolvidos os obstáculos que interferiam na ação dos sujeitos. (CHIZZOTTI, 2006). O pesquisador, ao pensar em realizar uma pesquisa, deverá ter em mente que vai entrar numa aposta criativa de aprender como pensar e olhar cientificamente. Sendo que fazer uma pesquisa significa instruir-se a pôr ordem nas próprias ideias. (GOLDENBERG, 2002). De acordo com as reflexões de Simão e Souza (2008, p. 125), O entendimento acerca da importância do ato de pesquisar e das possibilidades e limites do uso de metodologias de natureza distintas coloca um grande desafio ao Serviço Social: o de pensar e repensar a formação dos profissionais da área para que os mesmos possam, cada dia mais, não só ser capazes de minimizar e/ou superar os desafios e dificuldades inerentes à realidade social através de uma prática inovadora e coerente com as necessidades humanas e sociais, mas também capazes de produzir conhecimento a partir da prática profissional. As considerações aqui apresentadas reforçam o que já é visto no meio acadêmico, como a relevância da pesquisa científica para o campo de atuação do Serviço Social, apresentandoestratégias que possam dar subsídio à prática profissional. 134 UNIDADE 2 | SUBSÍDIOS DA PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL FIGURA 9 – ATO DE PESQUISAR FONTE: Disponível em: <http://pt.slideshare.net/viviprof/aula1arquivoalunos>. Acesso em: 12 mar. 2016. A seguir abordaremos os tipos de pesquisa: qualitativa e quantitativa e suas comparações para a realização dos métodos de pesquisa. 5 PESQUISAS: QUALITATIVA E QUANTITATIVA Caro acadêmico, neste item vamos compreender o significado da pesquisa qualitativa e quantitativa e suas diferenças. O método científico de pesquisa significa a preferência de procedimentos sistemáticos, para a definição e explicação de acontecimentos. “Entendemos por metodologia o caminho do pensamento e a prática exercida na abordagem da realidade” (MINAYO, 1994, p. 16). Para tanto, cabe ressaltar a relevância da escolha da metodologia, pois esta ocupa um lugar central no interior das teorias [...]. Dizia Lênin (1965) que “o método é a alma da teoria” (p. 148), distinguindo a forma exterior com que muitas vezes é abordado tal tema (como técnicas e instrumentos) do sentido generoso de pensar a metodologia como a articulação entre conteúdos, pensamentos e existência. (MINAYO, 1994, p. 16). A metodologia de pesquisa e a teoria andam juntas, sendo que no “conjunto de técnicas, a metodologia deve dispor de um instrumental claro, coerente, elaborado, capaz de encaminhar os impasses teóricos para o desafio da prática” (MINAYO, 1994, p. 16). TÓPICO 3 | ATRIBUIÇÃO E COMPETÊNCIA DO ASSISTENTE SOCIAL PESQUISADOR 135 Para melhor compreensão do procedimento de escolha da metodologia, poderemos seguir dois métodos de pesquisa, ou seja, a pesquisa qualitativa ou quantitativa. Na sequência veremos a diferença entre ambas. 5.1 PESQUISA QUALITATIVA Agora vamos acompanhar o significado da pesquisa qualitativa e suas finalidades para a pesquisa científica. “A palavra qualidade tem origem do latim com a palavra qualitate, de qualis, que indica ‘qual o tipo’”. (CANZONIERI, 2010, p. 38). Segundo a autora (CANZONIERI, 2010), esta modalidade é usada quando está direcionada para responder à pergunta “qual”, realizada pelo pesquisador por meio de observação, entrevistas, coleta de dados e outras que expressem o pensamento do sujeito ou o fenômeno, enquanto elemento de pesquisa. “A pesquisa qualitativa pode ser caracterizada como a tentativa de uma compreensão detalhada dos significados e características situacionais apresentadas pelos entrevistadores” (RICHARDSON, 2011, p. 90). Para Minayo (1994, p. 22), A pesquisa qualitativa se preocupa, nas ciências sociais, com um nível de realidade que não pode ser quantificado. Ou seja, ela trabalha com o universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes, o que corresponde a um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis. Este tipo de pesquisa busca entender o contexto onde ocorre o fenômeno, vai delimitar a quantidade dos sujeitos da pesquisa e também intensificar o estudo sobre ele. (CANZONIERI, 2010). Segundo Triviños (1987, p. 120), Alguns autores entendem a pesquisa qualitativa como uma “expressão genérica”. Isto significa, por um lado, que ela compreende atividades de investigação que podem ser denominadas específicas. E por outro, que todas elas podem ser caracterizadas por traços comuns. Esta é uma ideia fundamental que pode ajudar a ter uma visão mais clara do que pode chegar a realizar um pesquisador que tem por objetivo atingir uma interpretação da realidade do ângulo qualitativo. A pesquisa qualitativa estabelece a observação de situação habitual em ocasião real e solicita uma descrição e análise subjetiva da experiência. Procura “a busca da compreensão de ‘como’ ocorrem os fenômenos. Preocupa- se em compreender e se refere ao mundo dos significados e do simbolismo”. (CANZONIERI, 2010, p. 38). 136 UNIDADE 2 | SUBSÍDIOS DA PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL A mesma autora traz alguns pilares relevantes na modalidade qualitativa, tais como (CANZONIERI, 2010): • A busca da compreensão, da significação do fenômeno em si mesmo. • O sujeito é o objeto da pesquisa, não há variáveis ou comparações entre grupo, há a significação dada pelo sujeito ou grupo. • O pesquisador faz parte do processo de pesquisa, suas observações, percepções e conhecimentos sobre o tema pesquisado são de extrema importância e relevância para a realização da pesquisa. • A metodologia qualitativa trata exclusivamente de significados e processos e não de medidas; os resultados são apresentados de forma descritiva, explicativa e não numérica. • A validade ocorre por intermédio da descrição precisa da aproximação do pesquisador com o fenômeno. • A generalização se torna possível a partir da construção do conhecimento; leva a pensar, a refletir sobre os dados encontrados. O fenômeno pesquisado revela algo que instiga o pesquisador para a busca de novos conhecimentos. Para tanto, não poderemos esquecer que a escolha não deverá ser aleatória ou eliminatória, porém adequada àquilo que se almeja investigar para a obtenção de respostas ao problema levantado. (CANZONIERI, 2010). A pesquisa qualitativa está mais relacionada aos levantamentos de dados sobre as motivações de um sujeito ou grupo, a compreensão e interpretação de determinados comportamentos, opiniões e expectativas do sujeito pesquisado. Este tipo de pesquisa é exploratório, não levanta números como resultados, mas sim a análise dos dados. Sendo que os recursos mais utilizados neste método são as entrevistas semiestruturadas, as observações de campo, entre outras. A explicação dos fenômenos e a atribuição de significados são básicas no processo de pesquisa qualitativa. Não solicita o uso de métodos e técnicas estatísticas. Porém, o ambiente natural é a fonte direta para coleta de dados e o pesquisador é o instrumento-chave. É descritiva. Os pesquisadores tendem a analisar seus dados indutivamente, sendo que o processo e seu significado são os focos principais de abordagem (LAKATOS; MARCONI, 1985). NOTA Na entrevista semiestruturada, o investigador tem uma lista de questões ou tópicos para serem preenchidos ou respondidos, como se fosse um guia. A entrevista tem relativa flexibilidade. As questões não precisam seguir a ordem prevista no guia e poderão ser formuladas novas questões no decorrer da entrevista (MATTOS, 2005). Mas, em geral, a entrevista seguirá o que se encontra planejado. As principais vantagens das entrevistas semiestruturadas são as seguintes: possibilidade de acesso à informação além do que se listou; esclarecer aspectos da entrevista; geração de pontos de vista, orientações e hipóteses para o aprofundamento da investigação e definição de novas estratégias e outros instrumentos. (TOMAR, 2007). FONTE: Disponível em: <http://www.webartigos.com/artigos/conceitos-em-pesquisa- cientifica/10409>. Acesso em: 7 mar. 2016. TÓPICO 3 | ATRIBUIÇÃO E COMPETÊNCIA DO ASSISTENTE SOCIAL PESQUISADOR 137 5.2 PESQUISA QUANTITATIVA Abordaremos agora sobre a pesquisa quantitativa, a compreensão do seu conceito, bem como a sua importância para a pesquisa social. “A palavra quantidade tem origem no latim com a palavra quantitate, de quantus, que indica ‘quanto’” (CANZONIERI, 2010, p. 37). Para a autora, é uma modalidade utilizada quando o desenho da pesquisa está direcionado para responder à pergunta “quantos”, realizada pelo pesquisador por meio de dados numéricos, estatísticos, para fazer comparações entre o que foi pesquisado. Este método confere segurança para provar uma realidade frente a hipóteses formuladas, com o intuito de revelar dados, indicadores e observação, que comprovem medidas confiáveis, generalizáveis e sem vieses. (CANZONIERI, 2010). Conforme os ensinamentos de Richardson (2011), esta técnica de pesquisa quantitativa caracteriza-se pela arte da quantificação, seja nas modalidades de coletade informações, quanto no tratamento dessas através de técnicas estatísticas, ou seja, das mais simples até as mais complexas. Esta técnica possui como diferencial a finalidade de garantir a exatidão dos trabalhos concretizados, com o intuito de chegar a um resultando com poucas chances de incoerências. O método quantitativo caracteriza-se pelo emprego da quantificação, seja na modalidade de coleta de dados, quanto no tratamento deles através de técnicas estatísticas. Usados frequentemente nos estudos descritivos, aqueles que procuram encontrar e classificar a relação entre as variáveis, que acabam investigando a relação de causalidade entre fenômenos (RICHARDSON, 2011). O estudo descritivo pode abordar aspectos amplos de uma sociedade, como, por exemplo, descrição da população economicamente ativa, do emprego de rendimentos e consumo, do efetivo de mão de obra; levantamento da opinião e atitudes da população acerca de determinada situação; caracterização do funcionamento de organizações; identificação do comportamento de grupos minoritários (RICHARDSON, 2011, p. 71). Tomando como exemplo um caso específico, um tipo de estudo dessa ordem que busca saber sobre a reação do administrador escolar sobre o uso de novas técnicas no ensino da matemática. A investigação visa apenas identificar as possíveis reações do administrador, não se propondo investigar quais fatores estariam contribuindo para tais reações, também não estaria interessada em verificar a relação entre as reações do administrador e seu modo de administrar a escola (RICHARDSON, 2011). 138 UNIDADE 2 | SUBSÍDIOS DA PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL Os estudos que procuram investigar a correlação entre as variáveis são fundamentais para diversas ciências sociais, porque permitem controlar, simultaneamente, grande número de variáveis e, por meio de técnicas estatísticas de correlação, especificar o grau pelo qual diferentes variáveis são relacionadas, oferecendo ao pesquisador entendimento do modo como as variáveis estão operando (RICHARDSON, 2011, p. 71). No âmbito da pesquisa, este tipo de estudo poderá ser realizado quando o pesquisador almeja obter melhor entendimento do comportamento de diferentes fatores que venham influenciar sobre determinado fenômeno (RICHARDSON, 2011). Através da pesquisa quantitativa busca-se entender os elementos básicos da análise por meio de números, sendo que o pesquisador mantém distanciamento do procedimento, ou seja, dos sujeitos, independente do contexto, teste de hipóteses, no qual o raciocínio deverá ser lógico e dedutivo, estabelecendo relações, causas, buscando generalizações e preocupando-se com as quantidades, utilizando instrumentos específicos. Apresentamos na figura a seguir as comparações entre a pesquisa quantitativa e qualitativa e seus aspectos para a pesquisa científica, comparando da menor à maior ênfase no desenvolvimento destas categorias. FIGURA 10 – PESQUISA QUALITATIVA E QUANTITATIVA Aspecto PesquisaQuantitativa Pesquisa Qualitativa Ênfase na interpretação do entrevistado em relação à pesquisa Menor Maior Importância do contexto da organização da pesquisa Menor Maior Proximidade do pesquisador em relação aos fenômenos estudados Menor Maior Alcance do estudo no tempo Instantâneo Intervalo maior Número de fontes de dados Uma Várias Ponto de vista do pesquisador Externo à organização Interno à organização Quadro teórico e hipóteses Definidos rigorosamente Menos estruturados COMPARAÇÕES FONTE: Disponível em: <http://pt.slideshare.net/jlpaesjr/pesquisa-qualitativa-e-quantitativa>. Acesso em: 12 março 2016. TÓPICO 3 | ATRIBUIÇÃO E COMPETÊNCIA DO ASSISTENTE SOCIAL PESQUISADOR 139 Das comparações acima citadas, destaca-se a importância e cuidado ao desenvolver a pesquisa, utilizando o método coerente com os elementos utilizados no processo da elaboração da pesquisa e no alcance dos resultados. Podemos observar, em seguida, que as pesquisas quantitativa e qualitativa possuem diferenças nas suas características, porém as duas são interligadas, a escolha vai depender do método utilizado na pesquisa, como também podem ser abordados os dois elementos numa mesma pesquisa, uma com teoria e outra com dados quantitativos. Vejamos as comparações. FIGURA 11 – PESQUISA QUALITATIVA E QUANTITATIVA – COMPARAÇÕES QUANTITATIVO QUALITATIVO Objetivo Subjetivo Testa a Teoria Desenvolve a Teoria Uma realidade: o foco é conciso e limitado Múltiplas realidades: o foco é complexo e amplo Redução, controle, precisão Descoberta, descrição, compreensão, interpretação partilhada Mensuração Interpretação Mecanicista: partes são iguais ao todo Organicista: o todo é mais do que as partes Possibilita análises estatísticas Possibilita narrativas ricas, interpretações individuais Os elementos básicos da análise são os números Os elementos básicos da análise são palavras e ideias O pesquisador mantém distância do processo O pesquisador participa do processo Sujeitos Participantes Independe do contexto Depende do contexto Teste de hipóteses Gera ideias e questões para pesquisa O raciocínio é lógico e dedutivo O raciocínio é dialético e indutivo Estabelece relações, causas Descreve os significados, descobertas Busca generalizações Busca particularidades Preocupa-se com as quantidades Preocupa-se com a qualidade das informações e respostas Utiliza instrumentos específicos Utiliza a comunicação e observação COMPARAÇÕES FONTE: Disponível em: <http://pt.slideshare.net/jlpaesjr/pesquisa-qualitativa-e-quantitativa>. Acesso em: 12 mar. 2016. 140 UNIDADE 2 | SUBSÍDIOS DA PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL Para uma melhor compreensão, veja a seguir um comparativo das pesquisas qualitativa e quantitativa quanto à diferença nos elementos que compõem cada método. Poderemos observar as diferenças entre elas no que se refere ao foco da investigação, as raízes filosóficas de cada uma, os conceitos associados a cada método, os objetivos de investigação e características. Vamos comparar a seguir: FIGURA 12 – PESQUISA QUALITATIVA X QUANTITATIVA PESQUISA QUALITATIVA X PESQUISA QUANTITATIVA Pesquisa Qualitativa Pesquisa Quantitativa Foco da Investigação Qualidade (natureza, essência) Quantidade (quanto, quantos) Raízes Filosóficas Fenomenologia Positivismo, empirismo lógico Conceitos associados Trabalho de campo,etnografia Experimental, empírico, estatística Objeto de Investigação Compreensão, descrição, geração de hipótese Controle, confirmação, comprovação de hipótese Características Flexível Predeterminado,estruturado FONTE: Disponível em: <http://pt.slideshare.net/ericarigo/pesquisa-qualitativa>. Acesso em: 12 mar. 2016. DICAS Sugerimos que faça a leitura do artigo: Pesquisa em serviço social: reflexões sobre os desafios para a formação e atuação profissional. De Andréa Branco Simão e Robson Sávio Reis Souza. Revista Serviço Social & Sociedade, São Paulo, v. 29, n. 96, p. 110- 127, nov. 2008. 141 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico vimos: • Breves considerações sobre o ato de pesquisar, as muitas razões para a realização de uma pesquisa. • Como se tornar um pesquisador, observando elementos fundamentais ao realizar uma pesquisa. • As competências específicas para a realização de pesquisas científicas. • A pesquisa social tornou-se uma necessidade da atual sociedade em todas as profissões, não devendo ser confundida com uma simples coleta de dados ou enquete de opiniões. • As características das pesquisas qualitativa e quantitativa e suas diferenças. • Que a escolha do método científico de pesquisa significa a precedência de procedimentos sistemáticos, para a definição e explicação de acontecimentos. 142 1 Disserte brevemente sobre quais as competências no ato de realizar uma pesquisa científica. 2 Explique, a partir do seu entendimento, a diferença entre a pesquisa qualitativa e pesquisa quantitativa. AUTOATIVIDADE 143 TÓPICO 4 ELEMENTOS DE UM PROJETO DE PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL UNIDADE 21 INTRODUÇÃO Neste tópico apresentaremos, inicialmente, a relevância e o significado do projeto de pesquisa no campo do Serviço Social. Destacamos que a pesquisa científica é desempenhada por diversas áreas do conhecimento, em especial no campo do Serviço Social, pois vem acrescentando vários conhecimentos que contribuem na atuação profissional frente às demandas sociais. Veremos as características que contemplam o projeto de pesquisa. Exibiremos também o processo de coleta de dados, bem como sua importância e alguns instrumentos utilizados na pesquisa social. O projeto de pesquisa é um procedimento para elaboração teórica, metodológica, instrumental e da proposição dos sujeitos para o desenvolvimento e avaliação da pesquisa. Apontaremos a importância do projeto de pesquisa para o Serviço Social, onde procurar adequar particularidades fundamentais e suas características, na qual procura evidenciar a evolução das ideias e objetivos propostos na pesquisa. Por fim, veremos considerações sobre a importância de mensurar e exibir os resultados obtidos na pesquisa ocorrida e da prática realizada. Deve-se ter seriedade na coleta de dados quando da elaboração da pesquisa, bem como cuidados essenciais devem ser tomados em todo o processo, garantindo qualidade das informações que se deseja obter com o sujeito da pesquisa e, posteriormente, obter uma boa análise de dados, esclarecendo a natureza do problema pesquisado, contribuindo para excelentes resultados da pesquisa. 144 UNIDADE 2 | SUBSÍDIOS DA PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL 2 O PROJETO DE PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL A pesquisa científica é empregada em diferentes áreas do conhecimento, em especial no campo do Serviço Social. Sendo que para iniciar a sistematização do estudo indica-se a elaboração de um projeto de pesquisa. Para melhor compreensão, apresentaremos o conceito de projeto de pesquisa. O projeto de pesquisa é a descrição de um empreendimento a ser realizado. Busca respostas para problemas que necessitam de soluções a curto ou longo prazo (ABNT, 2011; SILVEIRA, 2010). Ainda segundo a ABNT (2011), o projeto de pesquisa especifica as autênticas finalidades propostas pelo pesquisador, abrangendo o foco, a importância e o questionamento por ele determinado. O projeto de pesquisa é um documento através do qual se articula e se organiza uma proposta de pesquisa e que se elabora, conforme Deslandes (1995), norteado pelos seguintes aspectos: definição de um conjunto de recortes na realidade social; cartografia das escolhas para abordar a realidade, ou seja, o que pesquisar, por que pesquisar e como pesquisar. Também procuramos responder a uma série de perguntas, tais como: o que iremos fazer, como, quando, onde, entre outras. Ao pensar num projeto de pesquisa, devemos mapear um percurso a ser seguido durante a investigação, evitando assim imprevistos no decorrer da pesquisa que poderiam até mesmo inviabilizar a sua realização (MINAYO, 1994). Ainda segundo a autora, o projeto de pesquisa deve, essencialmente, responder às seguintes perguntas: • O que pesquisar? (Definição do problema, hipótese, base teórica e conceitual); • Por que pesquisar? (Justificativa da escolha do problema); • Para que pesquisar? (Propósitos do estudo, seus objetivos); • Como pesquisar? (Metodologia); • Quando pesquisar? (Cronograma de execução); • Com que recursos? (Orçamento); • Pesquisado por quem? (Equipe de trabalho, pesquisadores, coordenadores, orientadores) (MINAYO, 1994, p. 36). A partir destas perguntas, ressaltamos que o projeto de pesquisa deverá esclarecer sobre os diversos elementos que irão compor a investigação, ou seja, a definição do tema e escolha do problema ou definição do objeto (MINAYO, 1994). TÓPICO 4 | ELEMENTOS DE UM PROJETO DE PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL 145 Sabemos que a construção de um projeto de pesquisa é uma etapa importante e delicada da pesquisa científica, fazer um recorte do objeto, ordenar as próprias ideias, sistematizar as questões estudadas. Conforme os ensinamentos de Goldenberg (2002, p. 75), a formulação de um projeto de pesquisa passa por diversas etapas: • O problema que exige respostas deve ser delimitado dentro de um campo de estudo; • A tarefa de pesquisa precisa ser reduzida ao que é possível ser realizado pelo pesquisador; • É preciso evitar que a coleta de dados seja feita de forma a favorecer uma determinada resposta; • É preciso definir os conceitos que serão usados; • É necessário prever as etapas do processo de pesquisa, mesmo sabendo-se que elas poderão ser reformuladas. Segundo Rocha (2009), É importante escrever o projeto de pesquisa por várias razões, entre as quais destaco: para registrar as decisões que serão o guia de suas ações no decorrer de todo o processo; para sistematizar suas ideias e submetê-las a crítica e autocrítica e, por fim, para ter a visão de conjunto das decisões e observar melhor as relações entre decisões, fundamentos e diretrizes da pesquisa (ROCHA, 2009, p. 4). O projeto de pesquisa é o documento onde são registrados esses fenômenos, as diretrizes da pesquisa, bem como as deliberações adotadas (ROCHA, 2009). Para melhor compreensão, apontaremos, então, uma sugestão para a formulação de um projeto de pesquisa. 146 UNIDADE 2 | SUBSÍDIOS DA PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL QUADRO 10 – SUGESTÃO PARA ELABORAR UM PROJETO DE PESQUISA CAPA 1. INSTITUIÇÃO (local onde será desenvolvida a pesquisa) 2. TÍTULO 3. SUBTÍTULO 4. NOME DO PESQUISADOR 5. MÊS E ANO I. INTRODUÇÃO 1. Objetivo Geral (questão principal da pesquisa, problema a ser resolvido) (o quê? Principal) 2. Objetivos Específicos (questões secundárias a serem respondidas, relacionadas à questão principal) (os quês? Secundários) 3. Objeto (indivíduo, grupo ou instituição pesquisada) (quem? Onde?) II. JUSTIFICATIVA (importância do tema proposto; motivação individual, profissional, social e teórica para escolher o tema) (por quê?); III. HIPÓTESES DE TRABALHO (algo provável antecipa algo que será ou não confirmado) (eu acredito que); IV. DISCUSSÃO TEÓRICA (contextualizar o tema dentro do debate teórico existente; principais conceitos e categorias; estudos precedentes; diálogo com os autores) (a partir de quem?); V. METODOLOGIA (caminhos possíveis, instrumentos e fontes de pesquisa) (como?); VI. CRONOGRAMA (quanto tempo?); EXEMPLO: Etapa I: Revisão da bibliografia. Etapa II: Construção dos instrumentos de pesquisa. Etapa III: Entrevistas. Etapa IV: Análise do material coletado. Etapa V: Redação do trabalho final. Meses jan. fev. mar. abr. maio. jun. jul. ago. set. out. nov. dez. Etapas I X XX II X III X XXX IV X V X XX TÓPICO 4 | ELEMENTOS DE UM PROJETO DE PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL 147 VII. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS (livros e artigos citados no corpo do texto). FONTE: Adaptado de Goldenberg (2002, p. 76-77) Para iniciar um projeto é necessário ter em mente estas perguntas: O que pesquisar? Como? Por quê? Quando? Para quê? Quais? Quantos?, conforme a fi gura a seguir. Sendo assim, com estas defi nições já se poderá esboçar um pré- projeto de pesquisa, seguindo a metodologia e as referências teóricas sobre o tema proposto. FIGURA 13 – PROJETO DE PESQUISA PESQUISAR O que? Como? Por quê? Para quê? Onde? Quando? Quantos? Quais? FONTE: Disponível em: <https://fernandonogueiracosta.wordpress.com/2012/05/20/como- elaborar-projeto-de-pesquisa/>. Acesso em: 13 mar. 2016. A seguir apresentaremos brevemente um esboço passo a passo para a realização de um projeto de pesquisa, com alguns dos elementos fundamentais neste processo, desde a elaboraçãoda pergunta até a análise da solução que será implementada. Conforme podemos observar na fi gura a seguir. 148 UNIDADE 2 | SUBSÍDIOS DA PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL FIGURA 14 – PROJETO DE PESQUISA Passo a Passo do Projeto de Pesquisa Iniciação ao Método Científi co Inovação incremental Inovação radical Elaborar a pergunta de pesquisa Pesquisar em diferentes fontes de informação Revisar as soluções existentes Desenvolver a solução inovadora Compartilhar a ideia e a solução Analisar como a solução será implementada FONTE: Disponível em: <http://www.portaldaindustria.com.br/sesi/iniciativas/programas/torneio- de-robotica-fl l/2015/06/1,65513/documentos-da-temporada.html>. Acesso em: 13 mar. 2016. Na fi gura acima pudemos observar algumas dicas importantes na elaboração de um projeto de pesquisa, que visam contribuir na iniciação ao método científi co, ou seja, lembretes para qualifi car todo o processo de preparação da pesquisa. Em seguida, trataremos das características da pesquisa. 3 CARACTERÍSTICAS DO PROJETO DE PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL No Serviço Social um projeto de pesquisa deverá proporcionar particularidades fundamentais. Conforme Best (1972 apud MARCONI; LAKATOS, 2002), podem-se resumir as características da pesquisa da seguinte maneira: • Procedimento sistematizado: é aquele por meio do qual novos conhecimentos são coletados, de fontes primárias ou de primeira mão. A pesquisa não é apenas confi rmação ou reorganização de dados, nem a elaboração de ideias, exige comprovação e verifi cação. • Exploração técnica, sistemática e exata: o investigador, baseando-se em conhecimentos teóricos anteriores, planeja cuidadosamente o método a ser utilizado, formula problemas e hipóteses, registra sistematicamente os dados e os analisa. Para a coleta de dados utiliza instrumentos adequados, emprega todos os meios mecânicos possíveis, obtendo maior exatidão na observação humana, no registro e na comprovação dos dados. TÓPICO 4 | ELEMENTOS DE UM PROJETO DE PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL 149 • Pesquisa lógica e objetiva: deve utilizar todas as provas possíveis para o controle dos dados e dos procedimentos empregados. O investigador não se pode deixar envolver pelo problema; deve olhá-lo objetivamente, sem emoção. Não deve tentar persuadir, justificar ou buscar somente os dados que confirmem suas hipóteses, mas comprovar, o que é mais importante do que justificar. • Organização quantitativa dos dados: os dados devem ser, quanto possível, expressos com medidas numéricas. O pesquisador deve ser paciente e não ter pressa, pois as descobertas significativas resultam de procedimentos cuidadosos e não apressados. Não deve fazer juízo de valor, mas deixar que os dados e a lógica levem à solução real, verdadeira. • Relato e registro meticulosos e detalhados da pesquisa: a metodologia deve ser indicada, assim como as referências bibliográficas, a terminologia cuidadosamente definida, os fatores limitativos apontados e todos os resultados registrados com a maior objetividade. As conclusões e generalizações devem ser feitas com precaução, levando-se em conta as limitações da metodologia, dos dados recolhidos e dos erros humanos de interpretação. Segundo Ander-Egg (1978, p. 33 apud MARCONI; LAKATOS, 2002, p. 20), há dois tipos de pesquisas: a. Pesquisa básica pura ou fundamental. É aquela que procura o progresso científico, a ampliação de conhecimentos teóricos, sem a preocupação de utilizá-los na prática. É a pesquisa formal, tendo em vista generalizações, princípios, leis. Tem por meta o conhecimento pelo conhecimento. b. Pesquisa aplicada. Como o próprio nome indica, caracteriza-se por seu interesse prático, isto é, que os resultados sejam aplicados ou utilizados, imediatamente, na solução de problemas que ocorrem na realidade. Além dessas classificações citadas acima, Best (1972, p. 12-13 apud MARCONI; LAKATOS, 2002, p. 20) acrescenta mais três: a. Histórica. “Descreve o que era” – o processo enfoca quatro aspectos: investigação, registro, análise e interpretação de fatos ocorridos no passado, para, por meio de generalizações, compreender o presente e predizer o futuro. b. Descritiva. “Delineia o que é” – aborda também quatro aspectos: descrição, registro, análise e interpretação de fenômenos atuais, objetivando o seu funcionamento no presente. c. Experimental. “Descreve o que será” – quando há controle sobre determinados fatores; a importância encontra-se nas relações de causa e efeito. 150 UNIDADE 2 | SUBSÍDIOS DA PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL Como observamos, são alguns elementos do projeto de pesquisa em Serviço Social que devemos seguir, bem como considerar a descrição dos elementos que constituem um projeto. Sendo que a forma de apresentação pode variar muito conforme o pesquisador, porém guiada pelas normas da ABNT. (MINAYO, 1994). Na Unidade 3 deste livro de estudos ilustraremos mais detalhadamente o roteiro de projeto de pesquisa, com base em modelo socializado por autores do Serviço Social. Caro acadêmico, apresentaremos algumas perguntas que tornam-se fundamentais para a escolha do tema, identificar o problema, bem como seus objetivos e o que se pretende pesquisar, dicas que vão facilitar a elaboração da pesquisa, conforme a figura a seguir. FIGURA 15 – ELEMENTOS DO PROJETO DE PESQUISA Tema Problema Hipótese (s) Objetivos Justificativa Metodologia Cronograma Bibliografia Referencial Teórico O quê? Para quê? Por quê? Como? Quando? Com quê? Revisão da Literatura Resposta promissória FONTE: Disponível em: <http://pt.slideshare.net/dcartoni/metolodogia-daniela-cartoni-slides- parte-08-estrutura-do-projeto>. Acesso em: 15 mar. 2016. A figura acima esclarece por que se faz as perguntas relacionadas à metodologia de pesquisa, tem a finalidade didática de sugerir e facilitar procedimentos que contribuem para uma melhor compreensão na elaboração do projeto. Estas perguntas irão promover a escolha do tema, identificando o problema e todo o processo metodológico da pesquisa. TÓPICO 4 | ELEMENTOS DE UM PROJETO DE PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL 151 4 COLETA DE DADOS DA PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL Sabemos que a coleta de dados é de suma importância no processo de pesquisa. Serão coletados os dados com base nos objetivos a serem alcançados para análise final. Segundo Richardson (2011), o interesse por interpretar documentos é uma prática bastante antiga, que surgiu antes da Idade Média. Já a análise de conteúdo é um assunto central para todas as ciências humanas, e com o decurso do tempo tem se transformado em um instrumento extraordinário para o estudo da interação entre o indivíduo. “A coleta de dados representa a pesquisa de campo propriamente dita” (CANZONIERI, 2010, p. 94). Richardson (2011) destaca alguns pontos importantes para a coleta de dados na pesquisa, tais como: • O planejamento de todo o processo da pesquisa; • Agendar horário e local para entrevista; • Discrição nas atitudes do pesquisador; • Explicar os motivos da pesquisa para o sujeito envolvido. A coleta de dados da pesquisa, no Serviço Social, consiste na precisão de selecionar os instrumentos adequados para a utilização da pesquisa. Sendo indispensável por parte do pesquisador cautela e cuidado em todo seu planejamento, escolhas de métodos e instrumentos, bem como no número de sujeitos, assim a coleta de dados não representará uma dificuldade, nem para execução e nem para a análise dos dados (CANZONIERI, 2010). A coleta de dados é a base da pesquisa, na qual se reúnem dados por meio de técnicas específicas, sendo necessário determinar parâmetros que servirão de guia em todo o desenvolvimento do projeto. Ressaltamos a importância desta fase na elaboração de qualquer pesquisa científica, pois os cuidados nesta etapa tendem a garantir a qualidade das informações que se deseja obter junto ao sujeito da pesquisa. A figura a seguir esclarece os tipos de classificações relacionados à coleta de dados na pesquisa, observe.152 UNIDADE 2 | SUBSÍDIOS DA PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL FIGURA 16 – COLETA DE DADOS EM PESQUISA Classificação da Coleta de Dados • A coleta de dados pode ser dividida em contínua, periódica ou ocasional: • Coleta de dados contínua: quando os eventos que acontecem durante determinado estudo, são registrados à medida que ocorrem; • Coleta de dados periódica: acontece de ciclo em ciclo, como exemplo o censo do Brasil; • Coleta de dados ocasional: é aquela realizada sem a preocupação de continuidade ou periodicidade. FONTE: Disponível em: <http://pt.slideshare.net/gallojunior/coleta-de-dados-29212026>. Acesso em: 13 mar. 2016. Analisando a figura acima, percebemos a diferença nas classificações quanto à coleta de dados da pesquisa, os conceitos explicam qual o tipo a ser usado de acordo com a metodologia escolhida para o desenvolvimento da pesquisa. Existem alguns instrumentos de coleta de dados a serem utilizados quando se faz uma pesquisa científica. Para conhecimento, vejamos o que as normas da ABNT trazem sobre estes instrumentos. Conforme a ABNT (2011), os instrumentos de coleta de dados mais comuns são: questionários (com perguntas abertas e/ou fechadas), entrevistas (estruturadas ou não), observação (assistemática/sistemática, participante/não participante). Lembrando que a entrevista e o questionário são instrumentos que consentem coletar elementos com embasamento no relato dos sujeitos da pesquisa. Abordaremos brevemente os conceitos destes instrumentos de coleta de dados. No questionário a elaboração consiste em traduzir os objetivos específicos da pesquisa em componentes bem dirigidos, é um instrumento utilizado para o levantamento de informações, sendo preenchido pelo próprio entrevistado, indiretamente, pelo entrevistador. O questionário pode ser definido como uma técnica de investigação social composta por um conjunto de questões que são submetidas a pessoas com o propósito de obter informações sobre conhecimentos, crenças, sentimentos, valores, interesses, expectativas, aspirações, temores, comportamento presente ou passado (GIL, 2008, apud Numa et al.2011). Construir um questionário consiste basicamente em traduzir os objetivos da pesquisa em questões específicas. As respostas irão proporcionar dados ao pesquisador para descrever as características do sujeito da pesquisa (GIL, 2008). TÓPICO 4 | ELEMENTOS DE UM PROJETO DE PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL 153 Destacamos os tipos de questionários a seguir: QUADRO 11 – TIPOS DE QUESTIONÁRIOS ABERTO: o questionário do tipo aberto é aquele que utiliza questões de resposta aberta. Este tipo de questionário proporciona respostas de maior profundidade, ou seja, dá ao sujeito maior liberdade de resposta, podendo esta ser regida pelo próprio. O pesquisador preocupa-se com a opinião mais elaborada do sujeito. FECHADO: tem na sua construção questões de resposta fechada, permitindo obter respostas que possibilitam a comparação com outros instrumentos de recolha de dados. Este tipo de questionário facilita o tratamento e análise da informação, exigindo menos tempo. Por outro lado, a aplicação deste tipo de questionário pode não ser vantajosa, pois facilita a resposta para um sujeito que não saberia ou que poderia ter dificuldade acrescida em responder a uma determinada questão. Este tipo de questionário é com questões fechadas de múltipla escolha. SEMIABERTO OU MISTO (combinado): mescla as duas formas anteriores. FONTE: Adaptado de: <http://pt.scribd.com/doc/66962162/Questionario-como-instrumento- de-pesquisa#scribd>. Acesso em: 13 mar. 2016. No quadro anterior vimos as características dos tipos de questionários, podendo ser questionário aberto, fechado e semiaberto ou misto. Veremos agora o conceito de entrevista. Entrevista: “as entrevistas geram compreensões ricas das biografias, experiências, opiniões, valores, atitudes e sentimentos dos sujeitos” (MAY, 2004, p. 145). A entrevista apresenta maior flexibilidade, podendo assumir várias formas: Pode se caracterizar como informal, quando se distingue da simples conversação apenas por ter como objetivo básico a coleta de dados. Pode ser focalizada quando, embora livre, enfoca tema bem específico, cabendo ao entrevistador esforçar-se para que o entrevistado retorne ao assunto após alguma digressão. Pode ser parcialmente estruturada, quando guiada por relação de pontos de interesses que o entrevistador vai explorando ao longo do curso. Pode ser totalmente estruturada, quando se desenvolve a relação fixa de perguntas. Neste caso, a entrevista confunde-se com o formulário (GIL, 2010, p. 105). A realização de entrevistas de pesquisa é bem complexa que outras entrevistas, isto porque o sujeito escolhido não é o solicitante, ou seja, o entrevistador constitui a única fonte de motivação para o entrevistado. Portanto, as entrevistas nos levantamentos deverão ser desenvolvidas com estratégias e táticas adequadas (GIL, 2010). 154 UNIDADE 2 | SUBSÍDIOS DA PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL Na sequência abordaremos os tipos de entrevistas, que podem ser entrevista estruturada, não estruturada ou semiestruturada, conforme mostra a figura a seguir, observe as suas diferenças. FIGURA 17 – TIPOS DE ENTREVISTAS TIPOS DE ENTREVISTA Entrevista Não estruturada Nas entrevistas não estruturadas, o entrevistador segue o informante, mas faz perguntas ocasionais para ajustar o foco ou para clarificar aspectos importantes. O pesquisador tem geralmente um guia com os tópicos a serem cobertos na entrevista, mas não tem uma ordem para perguntar sobre estes tópicos. Entrevista Estruturada As perguntas estão claramente definidas. Nas entrevistas estruturadas, o entrevistador quer ter certeza de que ele faz as mesmas perguntas para cada informante. Entrevista Semiestruturada As entrevistas contém sugestões de perguntas e dicas a serem usadas pelo pesquisador para garantir que todos os tópicos de interesse sejam abordados. FONTE: Disponível em: <http://pt.slideshare.net/FlviaDeMattosMotta/entrevista- sociologia-19167182>. Acesso em: 13 mar. 2016. Destacamos que ambos os tipos de entrevistas são utilizados nas pesquisas pelo Serviço Social, porém a escolha depende da finalidade que se busca com a pesquisa. Outro recurso a ser utilizado para coleta de dados é a observação. “A observação é o exame minucioso ou mirada atenta sobre um fenômeno no seu todo ou algumas de suas partes: é a captação precisa do objeto examinado” (RICHARDSON, 2011, p. 259). A observação em qualquer processo de pesquisa científica é fundamental, pois tanto pode conjugar a outra técnica de coleta de dados, como também poderá ser empregada de forma independente e/ou exclusiva. “Genericamente, a observação é a base de toda investigação no campo social, podendo ser utilizada em trabalho científico de qualquer nível, desde os mais simples estágios até os mais avançados” (RICHARDSON, 2011, p. 259). Ainda segundo o autor, “a observação apresenta muitas nuances em face de sua flexibilidade, pois seu objeto de estudo, e o objetivo da pesquisa que a utiliza, determinam seu tipo e sua metodologia” (RICHARDSON, 2011, p. 259). TÓPICO 4 | ELEMENTOS DE UM PROJETO DE PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL 155 FIGURA 18 – OBSERVAÇÃO FONTE: Disponível em: <http://observacao5.pbworks.com/w/page/6860824/FrontPage>. Acesso em: 13 mar. 2016. Na sequência apresentaremos a importância dos resultados das pesquisas em Serviço Social. 5 RESULTADOS DA PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL A partir da coleta de dados, o pesquisador se organiza com muito zelo para a leitura e análise dos dados pesquisados. Vejamos na sequência. 5.1 ANALISANDO OS DADOS O método de análise dos dados da pesquisa é um momento importantíssimo, pois é através desses dados precisos que obteremos o resultado. Análise “é a tentativa de evidenciar as relações existentes entre o fenômeno estudado e outros fatores” (MARCONI; LAKATOS, 2002, p. 35). Gil (2010, p. 156) considera que “a análisetem como objetivo organizar e sumariar os dados de forma tal que possibilitem o fornecimento de respostas ao problema proposto para investigação”. Entretanto, os métodos de análise variam expressivamente em função do plano de pesquisa, sendo possível considerar que em boa parte das pesquisas sociais ressaltam os seguintes passos: 156 UNIDADE 2 | SUBSÍDIOS DA PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL • Estabelecimento de categorias; • Codificação; • Tabulação; • Análises estatísticas dos dados; • Avaliação das generalizações obtidas com os dados; • Inferência de relações causais; • Interpretação dos dados. (GIL, 2010, p. 156). Para Marconi e Lakatos (2002, p. 35), a elaboração da análise é realizada em três níveis: • Interpretação: atividade intelectual que procura dar um significado mais amplo às respostas, vinculando-as a outros conhecimentos. Em geral, a interpretação significa a exposição do verdadeiro significado do material apresentado, em relação aos objetivos propostos e ao tema. • Explicação: esclarecimento sobre a origem da variável dependente e a necessidade de encontrar a variável antecedente (anterior às variáveis independente e dependente). • Especificação: Explicitação sobre até que ponto as relações entre as variáveis independente e dependente são válidas (como, onde e quando). Este processo de análise dos dados é considerado um momento de extrema importância para a pesquisa, pois é a partir desta fase que se busca as respostas pretendidas, através dos métodos de raciocínio indutivo, dedutivo, comparativo, entre outros. E a partir daí destaca-se que o êxito da análise dos dados da pesquisa para o Serviço Social vai depender da própria organização do pesquisador, relacionando com o seu nível de conhecimento, criatividade, imaginação, capacidade de argumentação e da elaboração dos dados propriamente ditos. NOTA Análise final: “Neste momento, procuramos estabelecer articulações entre os dados e os referenciais teóricos da pesquisa, respondendo às questões da pesquisa com base em seus objetivos. Assim, promovemos relações entre o concreto e o abstrato, o geral e o particular, a teoria e prática”. (MINAYO, 1994, p. 78). TÓPICO 4 | ELEMENTOS DE UM PROJETO DE PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL 157 5.2 ELABORANDO O RELATÓRIO DE PESQUISA NO SERVIÇO SOCIAL Chegamos à última etapa do processo de pesquisa, para tanto é necessária a elaboração do relatório de pesquisa, sendo indispensável, pois após os resultados obtidos, estes só terão fundamento de valor se forem socializados com os sujeitos envolvidos e com o coletivo. Ou seja, esta comunicação dos resultados é também uma das responsabilidades do pesquisador, devendo receber atenção especial como todo o processo de pesquisa. Existe ainda muita discussão sobre como se deve proceder ao relatar uma pesquisa científica. As razões são várias, uma delas diz respeito à falta de preparo da parte de pesquisadores para bem escrever e, assim, descrever e explicar satisfatoriamente os resultados de seus trabalhos científicos. Para isso é necessária muita dedicação, aprendizado, leituras, sendo que só escrevendo é que se aprende a escrever (RICHARDSON, 2011). Relatório “é a exposição escrita na qual se descrevem fatos verificados mediante pesquisas ou se historia a execução de serviços ou de experiências. É geralmente acompanhado de documentos demonstrativos: tabelas, gráficos estatísticos e outros” (UFPR, 1996, p. 2). Para Schrader (1974, p. 257 apud RICHARDSON, 2011, p. 297), [...] o relatório inicia com a formulação do problema, expõe dados da literatura existente sobre o tema, explicita a posição teórico-científica. Apresenta uma lista completa das hipóteses, descreve problemas da técnica de mensuração, fundamenta a escolha de um ou vários métodos, explica o procedimento mensurativo, a amostra e as técnicas de análise, compara os dados com as hipóteses e formula, a partir das hipóteses explicativas confirmadas, refutadas ou reformuladas, um ou mais enunciados teóricos com os quais se responde à pergunta inicial de investigação. O relatório é a última etapa do processo de pesquisa, sendo categoricamente indispensável, visto que após os resultados alcançados, tem valor quando informado aos outros. Como todo instrumento destinado à comunicação, o relatório de pesquisa deverá considerar o público a ser atingido (GIL, 2010). O mesmo autor destaca que “o relatório de pesquisa deverá conter informações suficientes para esclarecer acerca da natureza do problema pesquisado e dos resultados” (GIL, 2010, p. 181). Sugere-se ainda que o relatório seja subdividido em partes que envolvam os seguintes itens: • O problema; • A metodologia; • Os resultados; e • As conclusões e sugestões. 158 UNIDADE 2 | SUBSÍDIOS DA PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL Selltiz (1965, p. 517) aponta quatro aspectos que o relatório de pesquisa deve abranger: • Apresentação do problema ao qual se destina o estudo. • Processos de pesquisa: plano de estudo, método de manipulação da variável independente (se o estudo assumir a forma de uma experiência), natureza da amostra, técnicas de coleta de dados, método de análise estatística. • Os resultados. • Consequências deduzidas dos resultados. Por fim, o relatório é considerado um conjunto de conhecimentos usado para reportar resultados parciais ou totais de uma determinada atividade, projeto, ação, pesquisa. “Para a obtenção de um bom relatório científico que atenda a certos requisitos julgados essenciais na pesquisa, existem certas normas que, se observadas, conduzem a bons resultados” (RICHARDSON, 2011, p. 298). A figura a seguir ilustra dicas para a elaboração do relatório de pesquisa. FIGURA 19 – RELATÓRIO DE PESQUISA RELATÓRIOS DE PESQUISA • Parte final da pesquisa. • Apresentação dos resultados obtidos em todas as dimensões. • ESTRUTURA DO RELATÓRIO 1. Seção Preliminar 2. Corpo do Relatório 3. Seção de Referências FONTE: Disponível em: <http://slideplayer.com.br/slide/5639799/>. Acesso em: 14 mar. 2016. Conforme a figura anterior, a parte final da pesquisa é o relatório, através deste você vai detalhar todo o processo de pesquisa, bem como os resultados e indicações do que poderá ser realizado para tornar estes resultados mais significativos. NOTA Fundamentação Teórica: o texto de fundamentação teórica precisa ser elaborado respondendo à questão: o que foi escrito sobre o meu objeto de estudo? Atenção! Substitua o título do capítulo “Fundamentação Teórica” por um título pertinente ao seu tema de estudo. FONTE: Disponível em: <http://www.miniweb.com.br/educadores/artigos/pdf/roteiro_ projeto_pesquisa.pdf>. Acesso em: 13 mar. 2016. TÓPICO 4 | ELEMENTOS DE UM PROJETO DE PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL 159 DICAS Sugestões de leitura: GIL, Antônio Carlos. Como elaborar projetos de Pesquisa. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2010. MINAYO, M. C.S. (Org.) Pesquisa social: teoria, método e criatividade. 21. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1994. (Col. Temas Sociais). Caro acadêmico, na próxima unidade você poderá praticar os conhecimentos até aqui alcançados, através da elaboração de um projeto de pesquisa, sendo que todo o conteúdo trabalhado vai contribuir na construção do projeto. Exercite! 160 UNIDADE 2 | SUBSÍDIOS DA PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL LEITURA COMPLEMENTAR A ATITUDE INVESTIGATIVA NO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL Cristina Kologeski Fraga [...] Historicamente o Serviço Social foi considerado vocação, habilidade, ocupação, ofício ou até mesmo arte. Atualmente é reconhecido como profissão, uma especialização do trabalho coletivo, inscrita na divisão social e técnica do trabalho, de nível superior, regulamentada no Brasil pela Lei n. 8.662/9, de 7 de junho de 1993. [...] Embora não tendo atingido o patamar de “ciência”, o Serviço Social conseguiu se constituir como uma área de produção de conhecimentos, inserida na grande área de Ciências Sociais Aplicadas (assim é identificada nas agências de fomento como CNPq, Capes e Fapergs), isto é, constróiconhecimento científico. O Serviço Social é uma profissão reconhecida na sociedade na medida em que é socialmente necessária e exercida por um grupo social específico, uma categoria profissional que compartilha um sentimento de pertencimento e possui uma identidade profissional. [...] Atualmente, além de ser uma profissão, o Serviço Social é considerado trabalho. A abordagem do Serviço Social como trabalho foi protagonizada por Iamamoto em 1982 (IAMAMOTO; CARVALHO, 1995), corroborada, posteriormente, pela Abepss, a partir do processo de revisão curricular de ensino de graduação em Serviço Social no Brasil, que redundou na proposta de Diretrizes Gerais para o Curso de Serviço Social, respondendo a uma exigência da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (IAMAMOTO, 1998). [...] A atitude investigativa no cotidiano de trabalho do assistente social A Abepss (1996), na proposta das Diretrizes Gerais para o Curso de Serviço Social, postula como princípios da formação profissional (entre outros) o estabelecimento das dimensões investigativas e interventiva como princípios formativos que devem perpassar a formação profissional e da relação teoria e realidade; recomenda a questão do caráter interdisciplinar nas várias dimensões do projeto de formação profissional do assistente social. [...] TÓPICO 4 | ELEMENTOS DE UM PROJETO DE PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL 161 A Pesquisa em Serviço Social é apresentada como uma das matérias básicas do curso. Antes de se problematizar acerca da atitude investigativa no exercício profissional do assistente social, é importante ter presente que o atual Código de Ética do Assistente Social prevê como um dos seus 11 princípios fundamentais a questão do compromisso com a qualidade dos serviços prestados à população e com o aprimoramento intelectual, na perspectiva de competência profissional. [...] Nessa perspectiva, Battini refere que a atitude investigativa é a permanente busca do novo pela reconstrução de categorias teórico-metodológicas de leitura e intervenção na realidade social, pois: Pensar os fatos, os acontecimentos, as relações, exige questionar, investigar a realidade, criticá-la, tornando-a evidente pela contínua recolocação de questões, fazendo-a emergir de forma cada vez mais rica e viva, recriando-a num contínuo percurso entre a aparência e a essência, entre a parte e o todo, entre o universal e o particular, numa visão dialética. (BATTINI, 1994, p. 144). De acordo com a mesma autora, a atitude investigativa torna possível a superação da visão pragmática na ação profissional, centrada na imediaticidade dos fatos e que privilegia sequências empíricas. Além disso, no exercício profissional do AS, a atitude investigativa desmistifica o fato de que só fazem ciência ou só agem cientificamente aqueles que têm o privilégio de construir o saber, ou seja, os assistentes sociais que estão inseridos nas academias como docentes e pesquisadores, uma vez que tal atitude propicia desvendar, pelas mediações, a realidade aparente. [...] O exercício profissional do assistente social: uma equação tensionada pela postura investigativa e pela interdisciplinaridade O trabalho em conjunto tem sido uma tendência discutida como uma possibilidade em diversas áreas, não somente no Serviço Social. Atualmente os profissionais estão cada vez mais se conscientizando de que o trabalho solitário e isolado compromete as intervenções. No cotidiano de atuação profissional do AS não parece ser diferente; o que talvez precise mudar é o despertar generalizado dos profissionais no sentido de envidar esforços para que seja construída uma trajetória de trabalho conjunta, cada área oferecendo a sua contribuição e especificidade. [...] No Serviço Social, a interdisciplinaridade pode ser trabalhada como uma possibilidade já nos cursos de formação de graduação. Isso pode ser viabilizado na medida em que: 162 UNIDADE 2 | SUBSÍDIOS DA PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL a) há uma profunda articulação do conhecimento advindo de uma formação que se pretende generalista, voltado para a busca da unidade; b) o campo de atuação do Serviço Social é múltiplo e amplo, o que o torna particularmente complexo e promissor na interação, troca e parceria na intervenção profissional; c) o projeto profissional da categoria prima por princípios profissionais que enaltecem a liberdade, a defesa dos direitos humanos, a luta pela ampliação e consolidação da cidadania, a defesa da democracia, o empenho na eliminação de todas as formas de preconceito, a garantia do pluralismo, o compromisso com a qualidade dos serviços prestados e com o aprimoramento intelectual. [...] A atitude investigativa no cotidiano de trabalho do assistente social precisa ser concebida na medida em que possibilita uma ação profissional reflexiva nutrida pela intencionalidade e pelo planejamento. A ação planejada define um horizonte direcionado pelo desbravamento de ações permeadas de intencionalidade, portanto, plenas de sentido. [...] Finalmente, a atitude investigativa é o que fomenta uma ação do assistente social consistente, consequente e vice-versa. Enquanto a atitude investigativa é um movimento constante de busca, questionamentos, debruçamentos, planejamento para atuar na profissão, a ação profissional é consequência e, ao mesmo tempo, subsídio para essa investigação. Sendo assim, é preciso se desvencilhar dos limites do pragmatismo e incorporar a postura investigativa na ação do assistente social. Justamente daí que reside o mote do tensionamento da equação (postura investigativa + intervenção profissional + interdisciplinaridade = ação profissional com alcance social) que está posto pela possibilidade da atitude interdisciplinar que só poderá ser incorporado plenamente com a postura investigativa. FONTE: Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/sssoc/n101/04.pdf>. Acesso em: 29 fev. 2016. 163 RESUMO DO TÓPICO 4 Neste tópico você estudou que: • A pesquisa científica é empregada por diferentes áreas do conhecimento, em especial no campo do Serviço Social. • O projeto de pesquisa é um procedimento para elaboração teórica, metodológica, instrumental e da proposição dos sujeitos para o desenvolvimento e avaliação da pesquisa. • A coleta de dados da pesquisa, no Serviço Social, consiste na precisão de selecionar os instrumentos adequados para a utilização da pesquisa. • A coleta de dados é importante na elaboração de qualquer pesquisa científica, pois os cuidados nesta etapa tendem a garantir a qualidade das informações que se deseja obter com o sujeito da pesquisa. • A análise tem como objetivo organizar e sumariar os dados de forma tal que possibilitem o fornecimento de respostas ao problema proposto para investigação. • O relatório de pesquisa é a última etapa do processo e deverá conter informações suficientes para esclarecer acerca da natureza do problema pesquisado e dos resultados. • O relatório é considerado um conjunto de conhecimentos usado para reportar resultados parciais ou totais de uma determinada atividade, projeto, ação, pesquisa, sendo de suma importância para a socialização de todo o processo de resultado da pesquisa. 164 O relatório de pesquisa tem algumas características na elaboração, tais como: apresentação do problema ao qual se destina o estudo; processos de pesquisa: plano de estudo, método de manipulação da variável independente (se o estudo assumir a forma de uma experiência), natureza da amostra, técnicas de coletas de dados, método de análise estatística; os resultados; consequências deduzidas dos resultados (SELLTIZ, 1965). Por conseguinte, assinale a alternativa que apresente consequências dedutivas nos resultados. a) ( ) No resultado deverá constar somente a formulação clara do problema pesquisado. b) ( ) Nos resultados da pesquisa convém indicar questões ou sugestões que não puderam ser respondidas pela pesquisa. c) ( ) Nos resultados da pesquisa as consequências dedutivas dizemrespeito somente aos resultados obtidos na pesquisa. d) ( ) Os resultados exigem prévia descrição dos dados, que geralmente são obtidos através de entrevistas. AUTOATIVIDADE 165 UNIDADE 3 RELATÓRIO DE PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL: PLANEJAMENTO, EXECUÇÃO E RESULTADOS OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS Nesta unidade vamos: • compreender e exercitar os elementos para elaboração do projeto de pesquisa no Serviço Social; • entender os conceitos de problema e justificativa na pesquisa e o por que são utilizados; • elaborar as hipóteses para a definição do delineamento de um projeto de pesquisa; • compreender a metodologia e suas finalidades num projeto de pesquisa, bem como o cronograma de prazos a serem realizados; • verificar os lançamentos dos recursos que serão utilizados no projeto de pesquisa e a relevância das referências bibliográficas com base na teoria utilizada para a pesquisa. Esta unidade está dividida em quatro tópicos. Em cada um deles você encontrará atividades visando à compreensão dos conteúdos apresentados. TÓPICO 1 – RETOMANDO OS DADOS DE UM PROJETO DE PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL TÓPICO 2 – AMOSTRAGEM NA PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL TÓPICO 3 – TRABALHO DE CAMPO: INSTRUMENTOS DE COLETA DE DADOS TÓPICO 4 – ANÁLISE DOS DADOS E ELABORAÇÃO DO RELATÓRIO DE PESQUISA 166 167 TÓPICO 1 RETOMANDO OS DADOS DE UM PROJETO DE PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Neste tópico retomaremos as informações de um projeto de pesquisa, exibiremos como redigir um projeto de pesquisa na área do Serviço Social, ou seja, o mapeamento de todo o caminho a ser percorrido durante o processo de investigação. Identificaremos alguns elementos importantes para esta fase de elaboração do projeto. Posteriormente, veremos como formular um problema específico que possa ser pesquisado por processos científicos, bem como a justificativa, a resposta para este problema a ser pesquisado, por que se torna importante esta pesquisa. Você também será instigado a elaborar o seu projeto, conforme os exemplos citados no texto, como forma de aprendizagem e exercício acadêmico. Por fim, destacamos como elaborar a metodologia, cronograma, recursos a serem utilizados na pesquisa e as referências bibliográficas citadas no corpo do texto. 2 ELABORAÇÃO DE UM PROJETO DE PESQUISA A pesquisa científica vem ganhando cada vez mais espaços, especialmente na atividade acadêmica, tendo em vista que esta proporciona uma abertura já aplicada para a elaboração de um projeto de pesquisa, com o intuito de produzir conhecimentos. Como também proporciona através do estudo a obtenção dos objetivos a serem pesquisados. Abrangendo não somente uma ideia, mas também o desenvolvimento de estratégias para alcançar os objetivos da pesquisa científica. “A construção do projeto de pesquisa é uma etapa importante e delicada da pesquisa científica” (GOLDENBERG, 2002, p. 74). Segundo a autora, a partir do projeto de pesquisa se delimita o problema a ser estudado, ou seja, colocar ordem nas próprias ideias, sistematizando as questões que serão estudadas, UNIDADE 3 | RELATÓRIO DE PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL: PLANEJAMENTO, EXECUÇÃO E RESULTADOS 168 devendo ser objetivo e rigoroso ao transformar suas boas ideias em um projeto (GOLDENBERG, 2002). A construção de um projeto de pesquisa é mapear um caminho a ser percorrido durante todo o processo de investigação, ou seja, um planejamento de todas as atividades. “O planejamento da pesquisa concretiza-se mediante a elaboração de um projeto, que é o documento explicitador das ações a serem desenvolvidas ao longo do processo de pesquisa” (GIL, 2010, p. 3). O projeto deverá especificar os objetivos da pesquisa, apresentando a justificativa para sua realização, definição de modalidade e determinando os procedimentos de coleta e análise de dados, além do cronograma especificando a indicação de recursos humanos, financeiros e materiais necessários para afiançar o êxito da pesquisa científica (GIL, 2010). Para Gil (2010, p. 4), o projeto de pesquisa apresenta alguns elementos requeridos, tais como: a) formulação do problema; b) construção de hipóteses ou especificação dos objetivos; c) identificação do tipo de pesquisa; d) operacionalização das variáveis; e) seleção da amostra; f) elaboração dos instrumentos e determinação da estratégia de coleta de dados; g) determinação do plano de análise dos dados; h) previsão da forma de apresentação dos resultados; i) cronograma da execução da pesquisa; j) definição dos recursos humanos, materiais e financeiros a serem alocados. A partir destes elementos, podemos definir que a elaboração de um projeto de pesquisa depende de inúmeros fatores, sendo que o primeiro e de grande relevância refere-se à natureza do problema. Um projeto só poderá seguir em frente quando se tem delimitado o problema, com objetivos bem determinados, assim o pesquisador terá noção sobre o que deseja pesquisar para obter um resultado final com êxito. Cabe ressaltar que a delimitação do tema representa um momento complexo, pois o pesquisador definirá um aspecto para desenvolver sua pesquisa. Isso significa que para a delimitação é necessário um conhecimento prévio do assunto, isto sugere que o pesquisador já tenha realizado algumas leituras exploratórias sobre o assunto a ser pesquisado, buscando aprofundar através de referências bibliográficas. TÓPICO 1 | RETOMANDO OS DADOS DE UM PROJETO DE PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL 169 A elaboração de um projeto de pesquisa consiste na construção de etapas necessárias para seu desenvolvimento. Para facilitar a compreensão apresentamos um fluxo de pesquisa, porém, cabe lembrar que a ordem destas etapas não é absolutamente rígida, podendo, em muitos casos, simplificá-la ou modificá-la. Na sequência apresentaremos a definição do problema e da justificativa para melhor compreensão destes elementos da pesquisa científica. A figura a seguir apresenta um diagrama de pesquisa a ser seguido na elaboração de uma pesquisa científica. FIGURA 20 – DIAGRAMA DE PESQUISA FORMULAÇÃO DO PROBLEMA CONSTRUÇÃO DE HIPÓTESES DETERMINAÇÃO DO PLANO OPERACIONALIZAÇÃO DAS VARIÁVEIS ELABORAÇÃO DOS INSTRUMENTOS DE COLETA DE DADOS PRÉ-TESTE DOS INSTRUMENTOS SELEÇÃO DA AMOSTRA COLETA DE DADOS ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DOS DADOS REDAÇÃO DO RELATÓRIO DA PESQUISA FONTE: Adaptado de Gil (2010, p. 5) Conforme a figura demonstrada acima, quando for elaborar um projeto de pesquisa, deveremos seguir um diagrama que vai nos auxiliar na construção do projeto seguindo os itens indicados neste diagrama. Já a figura a seguir nos mostra etapas nesta construção do projeto. UNIDADE 3 | RELATÓRIO DE PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL: PLANEJAMENTO, EXECUÇÃO E RESULTADOS 170 FIGURA 21 – ETAPAS DA ELABORAÇÃO DO PROJETO DE PESQUISA FONTE: Disponível em: <http://slideplayer.com.br/slide/3204538/>. Acesso em: 18 mar. 2016. Conforme observamos, a figura acima apresenta indicativos que contribuem na escolha do objetivo, problema, justificativa, metodologia e referência. NOTA “A Introdução deve apresentar um esboço geral da fundamentação teórica que orientará o estudo, a formulação do problema, os objetivos da pesquisa, as hipóteses, bem como os aspectos metodológicos. Deverá incluir, naturalmente, uma visão do contexto do problema, ressaltando sua utilidade, viabilidade, originalidade e importância”. (TRIVIÑOS, 1987, p. 91). 3 O QUE É O PROBLEMA DE PESQUISA, JUSTIFICATIVA E HIPÓTESES Caro acadêmico, na sequência abordaremos os conceitos de problema, justificativa e hipóteses. TÓPICO 1 | RETOMANDO OS DADOS DE UM PROJETO DE PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL 171 3.1 PROBLEMA DE PESQUISA Ao pensar em realizar uma pesquisa científica, temos que ter em mente o problema como objeto de suma importância, pois em função do problema buscamos a investigação, sendo que no transcorrer da pesquisa o pesquisador precisa apresentar uma resposta ao problema apresentado. Neste sentido,para melhor compreensão vamos rever alguns conceitos. Segundo o dicionário Michaelis, problema é “proposição que afirma qualquer coisa que deve ser tratada ou demonstrada”. FONTE: Disponível em: <http://michael is .uol.com.br/moderno/portugues/index. php?lingua=portugues-portugues&palavra=problema>. Acesso em: 25 maio 2016. De acordo com Gil (2010, p. 33), “Uma acepção bastante corrente identifica problema com questão que dá margem a hesitação ou perplexidade, por difícil de explicar ou resolver”. Já o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (apud GIL, 2010, p. 7) apresenta os seguintes significados de problema: • Assunto controverso, ainda não satisfatoriamente respondido em qualquer campo do conhecimento, e que pode ser objeto de pesquisas científicas ou discussões acadêmicas. • Obstáculos, contratempo, dificuldade que desafia a capacidade de solucionar de alguém. • Situação difícil; conflito. • Mau funcionamento crônico de alguma coisa que acarreta transtornos, pobreza, miséria, desgraças etc., e que exigiria grande esforço e determinação para ser solucionado. • Distúrbio, disfunção orgânica ou psíquica. • Pessoa, coisa ou situação incômoda, fora de controle etc. • Questão levantada para inquirição, consideração, discussão ou solução. Como podemos observar, são inúmeras razões de ordem intelectual que conduzem à formulação de problemas de pesquisa. Pode ocorrer que um pesquisador se interesse em pesquisar sobre um objeto conhecido, ou já pesquisado (GIL, 2010). Para tanto, “muitas vezes a escolha de um problema é determinado não só por sua relevância, mas pela oportunidade que oferecem determinadas instituições” (GIL, 2010, p. 35). Há instituições que oferecem recursos financeiros para a realização de pesquisa em determinada área, outras, embora não ofereçam recursos financeiros, proporcionam condições materiais para o desenvolvimento de pesquisa (GIL, 2010). UNIDADE 3 | RELATÓRIO DE PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL: PLANEJAMENTO, EXECUÇÃO E RESULTADOS 172 Contudo, “a escolha do problema de pesquisa sempre implica algum tipo de comprometimento” (GIL, 2010, p. 36), ou seja, o pesquisador deve estar envolvido com a pesquisa, seja uma pesquisa de seu interesse ou uma pesquisa proposta pela instituição ou clientes. Ressaltamos que não existem regras absolutamente rígidas para a formulação de problemas, e sim recomendações baseadas na experiência de pesquisadores, que quando aplicadas irão facilitar a formulação do problema (GIL, 2010). Gil (2010, p. 36) apresenta algumas regras práticas para a formulação de problemas: • O problema deve ser formulado como pergunta: podendo ser simples ou direta. • O problema deve ser delimitado a uma dimensão viável: problemas amplos ou genéricos se tornam inviáveis. • O problema deve ter clareza: os termos utilizados na formulação do problema devem se claros, deixando explícito o significado com que estão sendo utilizados. • O problema deve ser preciso: há termos considerados claros, mas não são precisos, pois não informam acerca dos limites de sua aplicabilidade. • O problema deve apresentar referências empíricas: sem juízos de valor. • O problema deve conduzir a uma pesquisa factível: não basta formular o problema delimitado, mas considerar toda a metodologia. • O problema deve ser ético: pesquisas que envolvem seres humanos devem caracterizar-se pela observância dos princípios éticos definidos por normas aceitas internacionalmente. Goldenberg (2002, p. 71) ressalta como formular um problema específico que possa ser pesquisado por processos científicos, tornando o problema concreto e explícito através: • “da imersão sistemática no assunto; • do estudo da literatura existente; • da discussão com pessoas que acumularam experiência prática no campo de estudo”. Ainda segundo a autora, “a boa resposta depende da boa formulação da pergunta! O pesquisador deve estar consciente da importância da pergunta que faz e deve saber colocar as questões necessárias para o sucesso de sua pesquisa”. (GOLDENBERG, 2002, p. 71). A partir da formulação do problema, teremos que justificar por que escolhemos o tema. Para melhor compreensão, apresentaremos os conceitos e a importância da justificativa para a pesquisa, bem como as hipóteses. TÓPICO 1 | RETOMANDO OS DADOS DE UM PROJETO DE PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL 173 3.2 JUSTIFICATIVA DA PESQUISA Na justificativa da pesquisa você irá justificar a importância dessa pesquisa, explicar de forma clara e precisa por que é necessário fazer esta pesquisa, considerando a ordem teórica e prática. De acordo com Canzonieri (2010, p. 76), “a justificativa representa o porquê da escolha do assunto”. “Trata-se da relevância, do por que tal pesquisa deve ser realizada. Quais motivos a justificam? Que contribuições para a compreensão, intervenção ou solução para o problema trará a realização de tal pesquisa?” (MINAYO, 1994, p. 42). Segundo Richardson (2011, p. 55), na justificativa explicitam-se os motivos de ordem teórica e prática que justificam a pesquisa, ou seja, deve-se responder à pergunta “por que se deseja fazer a pesquisa?”. Para isso, é necessária a presença de alguns pontos indicados a seguir: 1. Modo como foi escolhido o fenômeno para ser pesquisado e como surgiu o problema levantado para estudo. 2. Apresentação das razões em defesa do estudo realizado. 3. Relação do problema estudado com o contexto social. 4. Explicação dos motivos que justificam a pesquisa nos planos teórico e prático, considerando as possíveis contribuições do estudo para o conhecimento humano e para a solução do problema em questão. 5. Fundamentação da viabilidade da execução da proposta de estudo. 6. Referência aos possíveis aspectos inovadores do trabalho. Esse é um ponto básico e deve estar presente nos aspectos já mencionados. No entanto, quando o objetivo do pesquisador for replicar um estudo anteriormente realizado por considerar que não houve aplicação correta e/ou precisa de determinada metodologia ou abordagem teórica, não se faz necessário o critério de inovação, pelo menos dentro de uma visão restrita, posto que as características do projeto não precisam ser modificadas. Nesse caso, a inovação só poderá ocorrer nos resultados obtidos com a nova metodologia e/ou abordagem teórica aplicada. 7. Considerações sobre a escolha do(s) local(is) que será(ão) pesquisado(s). Relatar se a pesquisa será realizada em nível local, regional, nacional ou internacional. Com relação a estes indicativos acima citados, não existe nenhuma regra rígida relacionada à sequência, inclusão ou exclusão de itens ao conteúdo da justificativa. Cabe destacar que com relação à justificativa é importante que se torne claro ao leitor qual o interesse do pesquisador e qual a relevância para a área em que se insere a pesquisa, contendo informações sobre qual metodologia será utilizada, para que o leitor já direcione sua forma de pensar e analisar a pesquisa a partir dessas direções (CANZONIERI, 2010). UNIDADE 3 | RELATÓRIO DE PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL: PLANEJAMENTO, EXECUÇÃO E RESULTADOS 174 Por fim, ressaltamos que “a forma de justificar em pesquisa que produz maior impacto é aquela que articula a relevância intelectual e prática do problema investigado à experiência do investigador” (MINAYO, 1994, p. 42). UNI Resumindo... Na justificativa o pesquisador deve responder em redação única às questões abaixo: Por que a pesquisa é importante? Qual a sua relevância? Quais as suas contribuições? FONTE: Disponível em: <http://pt.slideshare.net/marildabacana/lista-de-verbos-para-projeto- de-pesquisa>. Acesso em: 26 mar. 2016 3.3 CONSTRUÇÃO DE HIPÓTESES Sabemos que no projeto de pesquisa, quando já se delimitou o problema, é necessário apresentar algumas hipóteses ou possibilidades para definir o problema central da pesquisa. Neste sentido, a argumentação das hipóteses estará sempre ligada à resposta que o pesquisador busca para o problema da pesquisa, ou seja, probabilidadespara solucioná-lo. “As hipóteses podem ser definidas como soluções tentativas, previamente selecionadas, do problema de pesquisa” (RICHARDSON, 2011, p. 104). Para Triviños (1987, p. 105-106), A hipótese surge após a formulação do problema. A dificuldade está presente. Diante dela o investigador vislumbra prováveis soluções. A hipótese envolve uma possível verdade, um resultado provável. É a verdade preestabelecida, intuída, com o apoio de uma teoria. Os fatos poderão verificar ou não a hipótese. [...]. A hipótese indica caminhos ao investigador, orienta seu trabalho, assinala rumos à investigação. A hipótese é o passo seguinte à delimitação do problema da pesquisa, após isto deve-se perguntar quais serão as possíveis respostas, escolher as que lhe parecem mais adequadas para proceder a seu teste, com base nas informações coletadas (RICHARDSON, 2011). Existem duas classificações de hipóteses utilizadas nas Ciências Sociais, segundo o número de variáveis e a relação entre elas, conforme aponta Richardson (2011, p. 108-109): TÓPICO 1 | RETOMANDO OS DADOS DE UM PROJETO DE PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL 175 Hipótese com uma variável: postula a existência de determinadas uniformidades em uma população ou universo. As uniformidades podem ser quantitativas ou qualitativas. As primeiras quantificam a proporção da variável no universo. As segundas especificam alguma qualidade ou atributo do universo. Exemplos: 1. Os ciganos não se interessam pela política. Variável: interesse pela política. Tipo: qualitativa. [...] 2. A renda mensal média dos operários de Belo Horizonte é de três salários mínimos. Variável: renda mensal. Tipo: quantitativa. Hipótese com duas ou mais variáveis e uma relação de associação: refere-se a todas aquelas hipóteses que implicam diversos tipos de relações entre as variáveis, sem incluir relações de causalidade (influência): relação de reciprocidade, igualdade, superioridade, inferioridade, precedência etc. Exemplos: 1. As mulheres são mais conservadoras que os homens. Variáveis: sexo e conservadorismo. Tipo de relação: superioridade. 2. Os alunos que apresentam bom aproveitamento em Matemática também apresentam bom aproveitamento em Português. Variáveis: aproveitamento escolar em Matemática e Português. Tipo de relação: igualdade. 3. A participação política dos idosos é menor que a participação política dos jovens. Variáveis: idade e participação política. Tipo de relação: inferioridade. Hipótese com duas ou mais variáveis e uma relação de dependência: postula a influência de duas ou mais variáveis independentes sobre uma variável dependente. UNIDADE 3 | RELATÓRIO DE PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL: PLANEJAMENTO, EXECUÇÃO E RESULTADOS 176 Exemplos: 1. O desejo de migrar depende das aspirações e expectativas educacionais do indivíduo. Variável dependente: desejo de migrar. Variável independente: aspirações educacionais, expectativas educacionais. 2. Quanto maior o grau de frustração dos adolescentes, maior a percentagem de delinquência juvenil. Variável dependente: delinquência juvenil. Variável independente: frustração. Com relação às hipóteses de pesquisa, estas são formuladas com base em marco referencial que o pesquisador elabora, denominadas hipóteses de pesquisa ou hipóteses de trabalho. Ou seja, o pesquisador acredita que suas hipóteses são verdadeiras, à medida que derivam de uma teoria adequada (RICHARDSON, 2011). “As hipóteses de nulidade são o inverso das hipóteses de pesquisa. Também são asserções sobre os fenômenos sociais, mas servem para rejeitar ou negar as colocações de hipóteses de pesquisa” (RICHARDSON, 2011, p. 111). Neste sentido, a hipótese seria uma suposta resposta ao problema identificado, ou seja, será aceita ou rejeitada depois que for devidamente testada, após explicar os fatos. Observe na figura a seguir os tipos de hipóteses de pesquisa, bem como sua finalidade. FIGURA 22 – HIPÓTESES TIPOS DE HIPÓTESES DE PESQUISA • As casuísticas: afirmam que um objeto, pessoa ou fato possuem determinada característica. • As que se referem à frequência de acontecimentos: indicam se determinada característica ocorre com maior ou menor intensidade. • As que estabelecem relações entre variáveis: permitem classificações entre duas ou mais categorias; ex: gênero, classe social. FONTE: Disponível em: <http://slideplayer.com.br/slide/1778830/>. Acesso em: 26 mar. 2016. TÓPICO 1 | RETOMANDO OS DADOS DE UM PROJETO DE PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL 177 A figura anterior deixou evidente a finalidade dos tipos de hipóteses, a escolha depende de cada tipo de hipótese que poderá ser usada na explicação para os fatos da pesquisa. NOTA Objetivos: são a descrição do que se pretende como resultado do trabalho e qual a contribuição da pesquisa para o universo científico. Devem ser escritos de forma clara, sucinta e direta. Objetivos gerais: são os que demonstram de forma mais abrangente o que a pesquisa quer responder. Objetivos específicos: são os que representam o desdobramento dos objetivos gerais, demonstrando de forma mais específica o que se deseja saber. (CANZONIERI, 2010, p. 74-75). 4 METODOLOGIA E CRONOGRAMA DA PESQUISA SOCIAL Acadêmico, a escolha da metodologia que será utilizada na pesquisa geralmente é uma parte complexa que requer muito cuidado por parte do pesquisador. 4.1 METODOLOGIA A metodologia é uma técnica muito utilizada nas pesquisas científicas, pois favorece todo o processo de evolução de elaboração. Ou seja, para o conhecimento se tornar científico, faz-se necessário identificar as intervenções técnicas que permitam produzir o melhor método de chegar ao conhecimento através da pesquisa. Sendo mais que uma descrição formal de métodos e técnicas a serem utilizados, pois indica as opções e leitura operacional que o pesquisador fez de todo quadro teórico. (MINAYO, 1994). A mesma autora destaca que: A metodologia não só contempla a fase de exploração de campo (escolha do espaço da pesquisa, escolha do grupo de pesquisa, estabelecimento dos critérios de amostragem e construção de estratégias para entrada em campo), como a definição de instrumentos e procedimentos para análise dos dados (MINAYO, 1994, p. 43). UNIDADE 3 | RELATÓRIO DE PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL: PLANEJAMENTO, EXECUÇÃO E RESULTADOS 178 A metodologia consiste no processo de organizar o método, colocando ordem a tudo o que foi intencionalmente pensado, pesquisado e planejado, bem como, desenvolver a escrita do trabalho fundamentada no método escolhido para direcionar a pesquisa (MINAYO, 1994). De acordo com Minayo (1994, p. 230 apud BARDIN, 1979, p. 95), as fases da análise de conteúdo organizam-se cronologicamente em: • A pré-análise: é a fase de organização propriamente dita. Visa operacionalizar e sistematizar as ideias, elaborando um esquema preciso de desenvolvimento do trabalho. Permitindo flexibilidade referente à eliminação, substituição e introdução de novos elementos que contribuam para uma melhor explicação do fenômeno estudado e entre outros elementos. • A análise do material: consiste basicamente na codificação, categorização e quantificação da informação. • O tratamento dos resultados, a inferência e a interpretação: visam o tratamento quantitativo que não exclui a interpretação qualitativa. Na atualidade, os procedimentos para esse tipo de tratamento são numerosos. O mais simples consiste no cálculo de frequências e percentagens que permitem estabelecer a importância dos elementos analisados, por exemplo, as palavras. Uma vez estabelecidas as características do problema da pesquisa, formulados os objetivos e escolhidos os documentos, o investigador está em condições de dar uma resposta bastante precisa às perguntas por que e o que analisar. A seguir abordaremos a elaboração do cronograma de pesquisa. Para facilitar o entendimento, observe a seguir um exemplo que poderá ser seguido na construção da metodologia. FIGURA23 – METODOLOGIA DE PESQUISA FONTE: Disponível em: <http://slideplayer.com.br/slide/286738/>. Acesso em: 26 mar. 2016. TÓPICO 1 | RETOMANDO OS DADOS DE UM PROJETO DE PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL 179 A figura anterior apresenta um pequeno esboço de como deverá iniciar a metodologia de pesquisa, ou seja, um exemplo bem prático para facilitar quando for fazer o registro das informações teóricas. 4.2 CRONOGRAMA DE PESQUISA SOCIAL O cronograma da pesquisa é de extrema importância, pois a pesquisa social se desenvolve em várias etapas, sendo necessário fazer a previsão do tempo para passar de uma fase para outra. Também é importante determinar as fases desenvolvidas simultaneamente, com indicação de quando vai ocorrer cada etapa do processo de pesquisa. O cronograma deverá ter clareza no tempo de execução previsto para as diversas fases e os momentos em que estas se interpõem. O cronograma, também conhecido como gráfico de Gannt, é constituído por linhas indicando as fases da pesquisa e colunas que indicam o tempo previsto em cada fase. (GIL, 2010). Para Minayo (1994, p. 44), “o projeto deve traçar o tempo necessário para a realização de cada uma das etapas propostas, muitas poderão ser realizadas simultaneamente”. Caro acadêmico, veja a seguir um exemplo de cronograma a ser utilizado na pesquisa científica. FIGURA 24 – EXEMPLO DE CRONOGRAMA ETAPAS MAI JUN JUL AGO SET OUT NOV DEZ Elaboração do Projeto X Levantamento e realização de leituras necessárias à pesquisa X X X Seleção dos atores observados e entrevistados X Elaboração dos instrumentos de pesquisa X X X Contatos com o grupo pesquisado X Coleta de dados X X X Análise dos dados X X X Elaboração do trabalho final X X X Entrega e apresentação do trabalho final X CRONOGRAMA FONTE: Disponível em: <http://pt.slideshare.net/elieteoliveira14606/ comoelaborarumprojetodepesquisa-100323013200phpapp01>. Acesso em: 26 mar. 2016. UNIDADE 3 | RELATÓRIO DE PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL: PLANEJAMENTO, EXECUÇÃO E RESULTADOS 180 A figura anterior apresenta as etapas da elaboração da pesquisa, bem como o cronograma dos prazos estabelecidos para a finalização de todo o processo de pesquisa. 5 RECURSOS E REFERÊNCIAS DE PESQUISA SOCIAL Abordaremos agora a importância de expor nas pesquisas científicas os recursos que serão utilizados, sejam recursos humanos ou materiais, e também as referências bibliográficas utilizadas como base de estudo para o desenvolvimento teórico da pesquisa. 5.1 RECURSOS Os recursos também são elementos fundamentais na realização da pesquisa, pois quando se apresenta o projeto, seja para uma instituição financiadora de projetos, ou de pesquisa, é necessária a apresentação do orçamento, material ou aquisição de equipamentos que serão utilizados para a realização da pesquisa. Para isso é importante elaborar um orçamento, que deverá considerar os custos relacionados a cada etapa da pesquisa, onde serão discriminados os itens de despesas, com indicação das quantidades, do custo unitário e do total. Conforme Gil (2010, p. 165), para as discriminações dos itens convém que sejam agrupados em seções, tais como: • Material Permanente: é aquele que tem durabilidade prolongada e permanece após o encerramento do projeto. Podem ser: despesas com aquisição de máquinas, equipamentos hospitalares, equipamentos para acampamentos, computadores, impressoras, móveis, livros etc. • Material de Consumo: são aqueles materiais que não têm durabilidade prolongada. Normalmente são consumidos durante a realização da pesquisa. Podem ser: papel, tinta para impressora, canetas, material para fotografia e filmagem, material de proteção, material de limpeza, combustível etc. • Diárias: despesas com alimentação e pousada do pessoal envolvido na execução do projeto. • Passagens e despesas com locomoção: despesas com aquisição de passagens aéreas e terrestres, taxas de embarque etc. • Outros Serviços de terceiros: podem incluir fretes e carretos, conservação; despesas com congressos, simpósio, conferências ou exposições etc. TÓPICO 1 | RETOMANDO OS DADOS DE UM PROJETO DE PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL 181 As discriminações acima citadas podem parecer exagero para alguns pesquisadores, porém são de suma importância, sobretudo quando se deseja obter recursos para a realização da pesquisa (GIL, 2010). A seguir apresentamos um quadro que exemplifica a elaboração de um orçamento de pesquisa baseado nos itens e despesas previstas. QUADRO 12 – ORÇAMENTOS MATERIAL PERMANENTE ITEM DESCRIÇÃO QUANTIDADE CUSTO UNITÁRIO TOTAL 1.1 CADERNO 03 R$ 10,00 R$ 30,00 1.2 CARTUCHO IMPRESSORA 02 R$ 30,00 R$ 60,00 1.3 FOLHA A4 500 R$ 45,00 R$ 45,00 TOTAL GERAL: R$ 135,00 MATERIAL DE CONSUMO ITEM DESCRIÇÃO QUANTIDADE CUSTO UNITÁRIO TOTAL 2.1 COMPUTADOR 01 R$ 1.300,00 R$ 1.300,00 2.2 MÁQUINA FOTOGRÁFICA 01 R$ 350,00 R$ 350,00 TOTAL GERAL: R$ 1.650,00 DESPESAS COM LOCOMOÇÃO ITEM DESCRIÇÃO QUANTIDADE CUSTO UNITÁRIO TOTAL 3.1 PASSAGEM 10 R$ 100,00 R$ 1.000,00 3,2 LIMENTAÇÃO 10 R$ 30,00 R$ 300,00 TOTAL GERAL: R$ 1.300,00 FONTE: Adaptado de Gil (2010, p. 166). Dados fictícios. Também é preciso ficar atento, caso a pesquisa exija por parte das instituições a especificação das metas e indicadores de desempenho. Assim, para cada meta é necessário definir as atividades para execução, conforme o quadro a seguir. UNIDADE 3 | RELATÓRIO DE PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL: PLANEJAMENTO, EXECUÇÃO E RESULTADOS 182 QUADRO 13 – METAS META 01 (DESCRIÇÃO): ATIVIDADES INÍCIO TÉRMINO RESULTADOS A SEREM ATINGIDOS PESSOAL ENVOLVIDO HORAS SEMANAIS CUSTO ESTIMADO (EM R$) TOTAL GERAL: FONTE: Adaptado de Gil (2010, p. 167) A figura a seguir esclarece o conceito dos materiais que poderão ser utilizados. FIGURA 25 – RECURSOS MATERIAIS • Os meteriais ou recursos são as listagens quantitativas de tudo que será utilizado no desenvolvimento do projeto de pesquisa, podendo ser divididas em: • Recursos humanos; • Materiais; • Financeiros e outros. • A divisão vai ser definida a partir dos critérios de organização de cada instituição onde está sendo apresentado o projeto. FONTE: Disponível em: <http://slideplayer.com.br/slide/1247654/>. Acesso em: 27 mar. 2016. 5.2 REFERÊNCIAS DE PESQUISA SOCIAL As referências são essenciais em todo corpo do texto e no relatório científico, devendo ser utilizadas de acordo com cada citação, seguindo as normas técnicas, devendo ser referenciadas somente as fontes bibliográficas utilizadas no texto. TÓPICO 1 | RETOMANDO OS DADOS DE UM PROJETO DE PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL 183 Sabemos que todos os trabalhos citados no corpo do texto devem ser referenciados em ordem alfabética, seguindo as normas da NBR 6023:2000, da ANBT. (GIL, 2010). Segundo Richardson (2011, p. 300), “parte do instrumento com que conta um pesquisador está constituído por tudo aquilo que ele leu em toda e qualquer espécie de publicação, notadamente as de caráter científico”. De acordo com Gil (2010, p. 190), “as referências são essenciais ao relatório técnico-científico e devem ser relacionadas de acordo com o sistema utilizado para citação”. “Pode-se dizer que referência é um conjunto de elementos que permitem a identificação, a posteriori, da obra ou autor citado em um escrito” (CANZONIERI, 2010, p. 98). Ainda segundo a autora, as referências devem conter obrigatoriamente estes elementos, nesta ordem: • Autor; • Título; • Edição; • Local de publicação; • Editora; • Data de publicação (ano). Exemplo: GIL, Antônio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2010. Na sequência apresentaremos um exemplo da elaboração das referências bibliográficas conforme as normas da ABNT. Caro acadêmico, observe no quadro a seguir como referenciar no relatório final, sendo que cada autor deverá estar citado no corpo do texto. UNIDADE 3 | RELATÓRIO DE PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL: PLANEJAMENTO, EXECUÇÃO E RESULTADOS 184 QUADRO 14 – REFERÊNCIAS REFERÊNCIASASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS - ABNT. NBR 15287: informação e documentação: projeto de pesquisa: apresentação. Rio de Janeiro, 2011. BATTINI, Odária. Sistema Único de Assistência Social em debate. São Paulo: Veras Editora; Curitiba, PR: CIPEC, 2007. BARROCO, Maria Lucia Silva. Reflexões sobre ética, pesquisa e serviço social. Temporalis: Revista da Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social, v. 5, n. 9, p. 103-116, jan./jun. 2005. ______. A inscrição da ética e dos direitos humanos no projeto ético-político do Serviço Social. Revista Serviço Social e Sociedade, n. 79. São Paulo, Cortez, 2001. BEST, J. W. Como investigar em educación. 2. ed. Madri: Morata, 1972. cap. 1-2. BOURGUIGNON, Jussara Ayres. A particularidade histórica da pesquisa no serviço social. Revista Katálysis, Florianópolis, v. 10, número especial, 2007. Disponível em: <http:/www.scielo.br/pdf/rk/v10nspe/a0510spe.pdf>. Acesso em: 25 jan. 2016. ______. A centralidade ocupada pelos sujeitos que participam das pesquisas do Serviço Social. Revista Textos & Contextos, Porto Alegre, v. 7, n. 2, p. 302-312, jul./dez. 2008. CANZONIERI, Ana Maria. Metodologia da pesquisa qualitativa na saúde. Petrópolis, RJ: Vozes, 2010. CHIZZOTTI, Antônio. Pesquisa em ciências humanas e sociais. 8. ed. São Paulo: Cortez, 2006. CFESS. Conselho Federal de Serviço Social. Código de Ética Profissional dos Assistentes Sociais. Brasília: CFESS, 1993. FONTE: A autora. Observe alguns exemplos de como fazer referências bibliográficas: TÓPICO 1 | RETOMANDO OS DADOS DE UM PROJETO DE PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL 185 FIGURA 26 – COMO FAZER REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS FONTE: Adaptado de: <http://pt.slideshare.net/veramoreiramatos/slide-referenciao-bibliogrfica- segundo-normas-da-abnt-slide>. Acesso em: 27 mar. 2016. FIGURA 27 – REFERÊNCIAS ATÉ TRÊS AUTORES FONTE: Adaptado de: <http://slideplayer.com.br/slide/397746/>. Acesso em: 27 mar. 2016. UNIDADE 3 | RELATÓRIO DE PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL: PLANEJAMENTO, EXECUÇÃO E RESULTADOS 186 FIGURA 28 – REFERÊNCIAS DE MESMO AUTOR FONTE: Disponível em: <http://pt.slideshare.net/brendell/referencias-bibliogrficas-abnt-2014>. Acessado em: 27 mar. 2016. NOTA ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas): É o órgão responsável pela normalização técnica no país. Essa associação foi fundada em 1940 e é uma instituição privada, sem fins lucrativos. FONTE: Disponível em: <http://pt.slideshare.net/veramoreiramatos/slide-referenciao- bibliogrfica-segundo-normas-da-abnt-slide>. Acesso em: 27 mar. 2016. As figuras 26, 27 e 28 trazem exemplos de citações com um ou três autores. Também apresentamos o conceito da ABNT, justificando qual o órgão responsável por esta norma técnica. DICAS Para um maior aprofundamento do conteúdo estudado neste tópico, sugerimos a leitura do artigo: BARROCO, Maria Lucia Silva. Reflexões sobre ética, pesquisa e serviço social. Temporalis: Revista da Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social, v. 5, n. 9, p. 103-116, jan./jun. 2005. 187 Neste tópico você estudou: • A retomada das informações acerca da elaboração de um projeto de pesquisa. • Os elementos utilizados para elaborar um projeto de pesquisa científica. • A pesquisa antes de iniciar tem que ser planejada, ela consiste em um conjunto de ações e propostas para localizar a solução de um problema. • Identificado o problema da pesquisa, é necessário partir para a justificativa, a resposta para a solução deste problema. • A justificativa significa argumentar, esclarecer por que o trabalho é relevante, tanto para a comunidade acadêmica, sujeitos envolvidos e para a sociedade. • Identificar as hipóteses, verificando a relação existente entre os fenômenos, buscando alcançar a certeza. • Nos objetivos deve-se identificar e esclarecer o que se pretende atingir com a realização da pesquisa. • A metodologia deve detalhar todo o desenvolvimento do trabalho, todas as etapas e público-alvo. • O cronograma incide no detalhamento de prazos a serem atingidos durante o processo de pesquisa. • Os recursos detalham os gastos com recursos humanos e materiais, para serem apresentados no projeto ou para a instituição financiadora do projeto de pesquisa. • As referências bibliográficas são de extrema relevância para o projeto, pois fornecem embasamento à teoria e conceitos utilizados. RESUMO DO TÓPICO 1 188 1 Compreendemos que a prática de pesquisa no campo do Serviço Social é fundamental, bem como em outros campos, pois através da pesquisa científica é possível obter a construção de conhecimento para a prática profissional e também o reconhecimento da valorização do sujeito e suas histórias. Ressaltamos que a pesquisa é reconhecida como componente de construção através do conhecimento envolvido com as demandas específicas da profissão. Portanto, sobre a pesquisa científica, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: ( ) Para a construção de uma pesquisa social é necessário mapear um caminho a ser percorrido durante todo o processo de investigação. ( ) Na pesquisa social não há necessidade de traçar uma metodologia específica, basta apresentar o problema e justificá-lo. ( ) Os objetivos da pesquisa devem mapear o que se pretende alcançar através da pesquisa social. ( ) O planejamento da pesquisa concretiza-se mediante a elaboração de um estudo de caso na área de Serviço Social. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) F – V – F – V. b) ( ) V – F – F – V. c) ( ) V – F – V – F. d) ( ) V – V – V – V. 2 De forma breve, descreva o que se entende por problema de pesquisa e justificativa. AUTOATIVIDADE 189 TÓPICO 2 AMOSTRAGEM NA PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Caro acadêmico, neste tópico contextualizaremos os princípios e os procedimentos para a definição da amostragem na pesquisa em Serviço Social, bem como o conceito e suas finalidades. A amostra na pesquisa vai demarcar uma porção ou subconjunto de um grupo, ou seja, delimitar a população que fará parte da pesquisa. Ainda em se tratando da amostragem, destacamos que se classifica em dois grandes grupos: amostra probabilística (ou aleatória) e amostra não probabilística. Assim, este tópico contribuirá para você se apropriar dos conceitos dos dois grupos, suas finalidades e diferenças na pesquisa científica. E também as outras classificações das amostragens. 2 PRINCÍPIOS E FUNDAMENTOS DA AMOSTRAGEM As pesquisas sociais, de modo geral, envolvem um universo de elementos que compõem o processo de pesquisa, sendo impossível considerá-los em sua totalidade. Por conta disso que é necessário trabalhar com amostras, uma pequena parte dos elementos que compõem este universo. Para trabalhar com amostras é fundamental entender o seu conceito. De acordo com Fink (1995, p. 1 apud MAY, 2004, p. 114), Uma amostra é uma porção ou subconjunto de um grupo maior denominado população. A população é o universo a ser amostrado. Populações de amostra poderiam incluir todos os americanos, os residentes na Califórnia durante o terremoto de 1994 e todas as pessoas acima de 85 anos de idade... Uma amostra boa é uma versão em miniatura da população – idêntica a ela, somente menor. 190 UNIDADE 3 | RELATÓRIO DE PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL: PLANEJAMENTO, EXECUÇÃO E RESULTADOS A amostra da pesquisa vai delimitar uma porção da população ou sujeito que vai fazer parte da pesquisa, por isso destacamos sua importância, sendo um desenho central na elaboração do processo de pesquisa. No caso da necessidade de realizar um estudo através de amostras em geral, “resulta impossível obter informações de todos os indivíduos ou elementos que formam parte do grupo que se deseja estudar” (RICHARDSON, 2011, p. 157). Neste sentido, faz-se necessário trabalhar com uma parte dos elementos delimitando seu universo a ser pesquisado. Segundo Richardson (2011, p. 157), “universo é o conjunto de elementos que possuemdeterminadas características. E fala-se população ao se referir a todos os habitantes de determinado lugar”. Contudo, o universo da pesquisa é representado pelo conjunto de elementos que possuem propriedades específicas determinadas para o estudo em questão, sendo que cada unidade do universo é denominada elemento da pesquisa. Gil (2010, p. 90) acrescenta que amostragem se fundamenta em leis estatísticas que lhe conferem fundamentação científica: • A lei dos grandes números (aproximação); • A lei de regularidade estatística (característica do grupo maior); • A lei da inércia dos grandes números (parte igual do mesmo grupo variação oposta); • A lei da permanência dos pequenos números (primeira amostra encontrada, características raras, na segunda, encontradas em igual proporção). Na sequência apresentaremos os tipos de amostragem e suas características para a pesquisa. 3 TIPOS DE AMOSTRAGEM Nas pesquisas científicas são utilizados diversos tipos de amostragem, que podem ser classificados em dois grandes grupos: amostra probabilística (ou aleatória) e amostra não probabilística. Estes são os dois grupos de amostra, o primeiro grupo é rigorosamente científico e baseia-se nas leis citadas no item anterior, já o segundo grupo não apresenta fundamentação matemática ou estatística, depende unicamente de critérios do pesquisador. Porém, os procedimentos neste último grupo são bem mais críticos em relação à validade de seus resultados, no entanto, apresentam algumas vantagens, principalmente no que se refere ao custo e tempo despendido. (GIL, 2010). TÓPICO 2 | AMOSTRAGEM NA PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL 191 O mesmo autor destaca que nos tipos de amostragem as probabilidades mais utilizadas são: aleatória simples, sistemática, estratificada, por conglomerado e por etapas. Já nas não probabilísticas, os mais conhecidos são: por acessibilidade, por tipicidade e por cotas. A seguir detalharemos cada tipo de amostragem, conforme descrição na figura, observe: FIGURA 29 – TIPOS DE AMOSTRAS FONTE: Disponível em: <http://pt.slideshare.net/marquespalagi/metodologia-da-pesquisa>. Acesso em: 3 mar. 2016. Caro acadêmico, vamos exemplificar cada tipo de amostragem, conforme a figura acima. 4 AMOSTRAS PROBABILÍSTICAS Este tipo de amostragem é o procedimento básico da amostra científica. Pode-se dizer que todos os outros procedimentos seguidos para compor a amostra são variações do tipo aleatório. Segundo May (2004, p. 114), “as amostras probabilísticas são denominadas assim porque é possível expressar a probabilidade matemática das características da amostra sendo reproduzidas na população”. Ou seja, é possível atribuir a cada elemento da população um número único para depois selecionar alguns desses de forma casual. 192 UNIDADE 3 | RELATÓRIO DE PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL: PLANEJAMENTO, EXECUÇÃO E RESULTADOS Conforme May (2004, p. 114), Aleatória não se refere a uma seleção fortuita de nomes ou endereços, mas, ao contrário, significa matematicamente aleatória, onde cada pessoa ou endereço na moldura da amostragem recebe um único número – começando do um – e depois é feita uma seleção aleatória da amostra. Neste sentido, para entender melhor basta analisar uma regra prática, que é quanto menor a população, maior tem que ser a razão da amostra em relação à população, ou seja, as populações maiores comportam razões de amostragem menor. Contudo, os pesquisadores necessitam de “números” suficientes para trabalhar quando forem analisar os dados (MAY, 2004). Este tipo de amostra é realizado de maneira aleatória, por sorteio, sendo que as chances de serem escolhidas são as mesmas. Podendo também ser uma amostra aleatória estratificada, por meio de acordo com características como faixa etária, gênero, entre outras, posteriormente é retirada uma amostra aleatória de cada uma das listas estratificadas (MAY, 2004). Segundo os ensinamentos de Gil (2010, p. 91-94), os tipos de amostragem e as probabilidades mais utilizadas são caracterizadas por: • Amostragem Aleatória simples: é o procedimento básico da amostragem científica, consiste em atribuir a cada elemento da população um número. • Amostragem Sistemática: é uma variação da amostragem aleatória simples. Sua aplicação requer que a população seja ordenada de modo tal qual cada um de seus elementos possa ser unicamente identificado pela posição. • Amostragem Estratificada: caracteriza-se pela seleção de uma amostra de cada subgrupo da população considerada. O fundamento para delimitar os subgrupos ou estratos pode ser encontrado em propriedades como sexo, idade ou classe social. Podendo ser proporcional ou não proporcional. • Amostragem por Conglomerados: é indicada em situações em que é bastante difícil a identificação de seus elementos, por exemplo, de pesquisa cuja população seja constituída por todos os habitantes de uma cidade. • Amostragem por Etapas: pode ser utilizada quando a população se compõe de unidades que podem ser distribuídas em diversos estágios. Torna-se muito útil quando se deseja pesquisar uma população cujos elementos se encontram dispersos numa grande área, como um estado ou um país. • Amostragem por Acessibilidade ou por Conveniência: constitui o menos rigoroso de todos os tipos de amostragem. Por isso mesmo é destituída de qualquer rigor estatístico. TÓPICO 2 | AMOSTRAGEM NA PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL 193 • Amostragem por Tipicidade ou Intencional: também constitui um tipo de amostragem não probabilística e consiste em selecionar um subgrupo da população que, com base nas informações disponíveis, possa ser considerado representativo de toda a população. A principal vantagem da amostragem por tipicidade está nos baixos custos de sua seleção. • Amostragem por Cotas: de todos os procedimentos definidos como não probabilísticos, este é o que apresenta maior rigor. Este procedimento é usualmente aplicado em levantamentos de mercado e em prévias eleitorais. Tem como principais vantagens o baixo custo e o fato de conferir alguma estratificação à amostra. Vejamos agora a definição de amostra não probabilística e suas finalidades na pesquisa. 5 AMOSTRAS NÃO PROBABILÍSTICAS Na amostragem não probabilística os sujeitos são escolhidos por determinados critérios. “Requer a existência de algum tipo de moldura de amostragem, mesmo se a mesma é apenas um número n de apartamentos de uma localidade particular” (MAY, 2004, p. 116). Sendo importante que o número seja conhecido, porém nem sempre terá uma moldura de amostragem disponível de forma imediata, e também nem sempre será o caso de requerer a generalização da amostra para a população. (MAY, 2004). Neste caso, os elementos não poderão ser escolhidos de forma aleatória, pois esta metodologia não permite a generalização dos resultados das pesquisas realizadas, relacionadas à população. Sendo assim, a amostra não probabilística não terá garantia de certeza relacionada à representatividade do universo pesquisado. As amostras não probabilísticas são desenvolvidas em: acidentais e intencionais ou de seleção racional. Na sequência descreveremos cada uma das amostras não probabilísticas, conforme os ensinamentos de Richardson (2011, p. 106-161). • Amostra Acidental: é um subconjunto da população formado pelos elementos que se pôde obter, porém sem nenhuma segurança de que constituam uma amostra exaustiva de todos os possíveis subconjuntos do universo. Exemplo: - os pacientes que têm sido atendidos em hospital determinado; - as crianças disléxicas de um estabelecimento educacional. 194 UNIDADE 3 | RELATÓRIO DE PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL: PLANEJAMENTO, EXECUÇÃO E RESULTADOS • Amostra Intencional ou de Seleção Racional: os elementos que formam a amostra relacionam-se intencionalmente de acordo com certas características que definem a população, é necessário assegurar a presença do sujeito-tipo. Desse modo, a amostra intencional apresenta-se como representativa do universo.