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SEDATIVOS E HIPNÓTICOS INTRODUÇÃO: ESTRESSE O estresse é considerado como toda e qualquer tipo de condição que venha afetar o equilíbrio do organismo, ou sua homeostasia. Esse estresse pode ser tanto bom como ruim, ainda que geralmente se associa o estresse como algo ruim ou não benéfico para o paciente. Um exemplo de estresse bom ou benéfico são exercícios físicos, que retiram o organismo da condição de repouso basal e levam ao aumento das atividades basais, a fim de aumentar o metabolismo. Entre as consequências do estresse estão: o aumento dos reflexos autonômicos, principalmente quando citados os reflexos das porções do sistema nervoso simpático como as que ocorrem em situações de luta e fuga, ocorre ainda o aumento das secreções da adrenal como noradrenalina e adrenalina, além de glicocorticoides que atravessam a barreira hematocefálica, e ainda, frente a eventos muito estressantes o despertar e alerta ficam avantajados, além de comportamentos de defesa e emoções negativas como a ansiedade. A curva ou lei de Yerkes-Dodson representa como ocorre o balanceamento do estresse ao longo das variações. Em situações de apatia ou calma excessiva (mais à esquerda do gráfico) o indivíduo pode apresentar problemas, já em situações extremas opostas como fadiga, exaustão e o colapso físico e mental também são alarmantes. BASES NEUROQUÍMICAS DO ESTRESSE Assim como todo e qualquer desequilíbrio neurológico, o estresse apresenta também um desbalanço entre as vias inibitórias e as vias excitatórias do SNC. No caso do estresse, assim como ocorre nas epilepsias, há um aumento exagerado das vias excitatórias como as vias noradrenérgica, serotoninérgica, glicocorticoide e ainda a via glutamatérgica (que pode ser toxica e provocar lesões neuronais que levam a neurodegeneração). As vias tipo inibitórias como GABAérgica, endocanabióides e também a serotoninérgica. A serotonina pode agir tanto de maneira inibitória como de maneira excitatória dependendo da quantidade que é produzida e está presente no organismo. Esse é o maior problema dos farmacos que agem nessa transmissão. Em casos de sedativos e hipnóticos, serão utilizados os farmacos que possuem como principal mecanismo de ação, o aumento da via inibitória GABAérgica, a fim de tentar manter o equilíbrio inibitório/excitatório. O NEUROTRANSMISSOR GABA O principal tipo de neurotransmissor GABA que participa da transmissão nervosa é p GABAa pentamérico, ou seja, que possui 5 subunidades: 2alfa, 2beta e 1gama. Como o GABA é um pentâmero que se localiza entre as membranas da célula, permite que ocorra a entrada de íons cloreto para o interior da célula, tornando o interior mais negativo, enquanto o exterior torna-se mais positivo o que leva a dificultar o processo de despolarização das células e consequentemente a transmissão neuronal e a passagem do impulso nervoso. Os sítios de ligação de GABA se concentram entre os tipos de monômeros citados, por isso a importância de saber quais são os monômeros que participam da composição da estrutura GABA. Por exemplo, os benzodiazepínicos se ligam ao GABA entre os sítios αγ, já os barbitúricos ligam- se entre os sítios αβ, assim como os neurotransmissores do tipo GABA. SEDATIVOS E HIPNÓTICOS Os sedativos ou hipnóticos são utilizados principalmente em situações de sedação emergencial como em casos de pacientes muito agitados, é utilizado como um adjuvante anestésico podendo provocar amnesia, em casos insônia e transtornos de sono principalmente. Outras situações como anticonvulsivantes, transtornos de ansiedade e humor, relaxante muscular, em casos ainda de esquizofrenia e para o controle de abstinência. Alguns farmacos ou classes de farmacos se destacam em agentes sedativos e hipnóticos como os barbitúricos, os benzodiazepínicos e mais atualmente, os compostos Z como são conhecidos. BARBITÚRICOS O barbitúrico mais utilizado atualmente é o fenobarbital também conhecido como Gardenal, usado como um tipo de anticonvulsivante importante, ainda que não seja um fármaco primeira escolha. Outro barbitúrico que chama a atenção, mas não efeito anticonvulsivante como o fenobarbital é o Tiopental que possui um importante efeito anestésico usado até os dias atuais. Devido a sua estrutura química muito lipofílica, o tiopental consegue se acumular em maiores quantidades no sistema nervoso central, tendo um caráter anestésico muito rápido e eficiente. Os barbitúricos apresentam como mecanismo de ação, a partir da ligação nas fendas entre os monômeros αβ, um aumento da afinidade do neurotransmissor GABA com o próprio canal GABAa, fazendo com que o canal fique mais tempo aberto e aumente a entrada de sódio e logo, uma hiperpolarização. Além disso, os barbitúricos fazem com que ocorra um aumento de afinidade dos BZD com o canal GABAa, potencializando seu efeito. Outro mecanismo de ação é que os barbitúricos atuem diminuindo a ação de outros canais transmissores como os canais AMPA, relacionados com a transmissão do tipo excitatória. E o grande perigo desses farmacos relaciona- se com seu poder, em doses mais altas, de eles mesmos abrirem os canais GABA. Apesar dos efeitos anticonvulsivantes, anestésicos geral e sedativo, os barbitúricos apresentam um perfil bastante indesejado, o que faz seu uso ter diminuído muito com o passar dos anos. Como efeitos indesejados: são grandes indutores enzimáticos, podendo provocar inúmeros tipos de reações adversas no organismo, causam tolerância e dependência ao paciente, causam uma tolerância do tipo cruzada, que faz com que os pacientes adquiram também tolerância a outros farmacos, provoca hiperalgesia caso utilizados separadamente em sedações e em casos mais graves e em doses mais altas, provocam depressão do SNC que pode levar a morte dos pacientes. Com relação a intoxicação por barbitúricos, possuem uma janela terapêutica extremamente estreita, ou seja, a dose mínima para fazer efeito é muito próxima a dose máxima que o organismo suporta. Essa intoxicação leva depressão cardiorrespiratória, perda de consciência, cianose e até promover a morte do paciente. Era muito comum o uso de barbitúricos com outros depressores do SNC como o álcool. A cinética dos barbitúricos está intimamente relacionada as suas características químicas, por serem uma molécula bastante lipossolúvel, tende em um primeiro momento a se acumular no cérebro e vísceras, por isso os efeitos são tão rápidos. Se acumulam ainda com o passar do tempo em tecidos gordurosos, sendo muito comum os pacientes que fazem uso crônico desse tipo de fármaco tenham um acumulo dessas substancias e efeitos constantes sobre o organismo. A duração dos efeitos e a aplicação clinica estão de certa forma, extremamente relacionados: enquanto o tiopental é usado como anestésico devido sua ação rápida inicial e total, o fenobarbital é usado como anticonvulsivante já que possui duração longa e início mais tardio. BENZODIAZEPÍNICOS (BZD) Os benzodiazepínicos são farmacos mais novos e também mais aceitáveis que os barbitúricos, por possuírem perfil menos indesejado, assim como, menos efeitos colaterais e problemas como por exemplo, depressão do SNC que os barbitúricos causavam. Esse perfil mais aceitável dos benzodiazepínicos relaciona se com seu mecanismo de ação: esses farmacos se ligam as fendas entre os monômeros αγ e aumentam afinidade do GABA com os neurotransmissores GABAa. No entanto diferente dos barbitúricos, proporcionam um aumento da frequência de abertura do canal e não do tempo em que o canal permanece aberto. Explicando melhor, aumentar o tempo de abertura como fazem os barbitúricos, permitem que entre mais íons de cloro para a célula, intensificando a hiperpolarização da membrana, promovendo maior depressão do SNC. Porem quando se aumenta a frequência, menor é a quantidade de íons cloro que entra na célula, diminuindo também a hiperpolarizaçãoe o efeito depressor do SNC. Esse é um dos motivos dos BZD possuírem um perfil farmacológico mais aceitável que os barbitúricos. Outro motivo desse perfil mais seguro é que ao contrário dos barbitúricos, os benzodiazepínicos não proporcionam abertura dos canais GABAa em doses mais elevadas, aliás dependem do neurotransmissor GABA para que o canal seja aberto. Com isso, menor é a possibilidade de casos de intoxicação por benzodiazepínicos, já que a conexão de GABA com o canal GABAa é um fator limitante. Alguns farmacos bastante conhecidos como o diazepam bromazepam e midazolam utilizados como sedativos de ação rápida, principalmente antes de procedimentos do tipo cirúrgicos. E outros farmacos mais fortes, entre eles o Clonazepam e o alprazolam que além de utilizados como sedativos, são utilizados ainda como anticonvulsionantes por exemplo. EFEITOS FARMACOLÓGICOS DOS BZD Os principais efeitos dos benzodiazepínicos relaciona-se com a função sedativa e hipnótica, além de outros efeitos como ansiolíticos e anticonvulsivante como é o caso do Clonazepam (Rivotril) que bloqueia os canais do tipo T de cálcio. Além disso, podem atuar como relaxante muscular, como amnésico, atingindo principalmente regiões da medula espinal e do córtex e hipocampo respectivamente como efeitos. Podem ser utilizados ainda para tratamento de casos mais agudos de ansiedade, ainda que não sejam de primeira escolha como é o caso do Clonazepam. Usado em ataques de pânico e epilepsia como já citado e ainda podem ser usados como adjuvantes anestésicos pré procedimentos cirúrgicos como é o caso do midazolam (comprimidinho azul usado para acalmar os pacientes antes da anestesia por exemplo). O uso crônico e abuso desses farmacos levaram a problemas adversos em uma parcela gradual da população. Em relação ao caráter cinético dos benzodiazepínicos, é bastante semelhante a farmacocinética dos barbitúricos em que, por serem muito lipossolúveis, tendem acumular nos tecidos adiposos e ali permanecerem como reserva plasmática, tendo um tempo de meia vida aparente um tanto quanto elevado, podendo, a longo prazo, levar a um quadro de intoxicação, ainda que muito raro. Pode ser administrado de diversas maneiras, como por via oral, injetável: intravenosa e intramuscular e também por via retal. O tempo de ação e a concentração podem variar dependendo da via administrada. TEMPO DE MEIA VIDA E METABÓLITOS ATIVOS Os benzodiazepínicos possuem tempos de ativação mais semelhantes entre si, variando de 1 hora até 6 horas para que os efeitos comecem a aparece no entanto, fato que difere esses farmacos são o tempo de meia vida que eles possuem: exemplos do alprazolam e do triazolam que possuem tempos bastante rápidos de meia vida, outros como o diazepam, flurazepam e o clorazepato possuem um tempo de meia vida que pode ultrapassar 80 horas de ação. É por esse motivo também, que alguns farmacos são optados em determinadas situações do que outros dessa mesma classe. Um fato que provoca essa distinção de tempos de meia vida tão significativas entre os farmacos dessa mesma classe é a presença de metabolitos ativos na molécula, ou seja, quando um composto é degradado, produz novos metabolitos resultantes daquela reação química, e esse novo metabolito pode ou não ser ativo e permanecer no organismo liberando os efeitos do fármaco e garantindo maior duração do tempo de meia vida. Um exemplo bem básico é a comparação entre o diazepam e o midazolam: enquanto o diazepam quando degradado produz outro metabolito denominado nordiazepam que também é um metabolito ativo (e de duração longa), que é também degradado e produz outro metabólito ativo chamado de oxazepam de duração intermediaria. Todo esse processo garante uma duração longa e um tempo de meia vida do diazepam também elevada, já o midazolam quando ele é degradado, produz um metabólito inativo que conjuga-se e é eliminado pelo rim rapidamente, em comparação com o diazepam. É por esse motivo que o diazepam é utilizado como casos anticonvulsivantes e ansiolíticos devido maior tempo de duração de seus efeitos, podendo ultrapassar barreiras de 48 horas de ação. Enquanto o midazolam é utilizado mais em casos anestésicos ou para tratamento de insônia já que o tempo de duração é basicamente de 6 horas, ou seja, muito rápido. ALTERAÇÕES FARMACOCINÉTICAS E OS EFEITOS INDESEJADOS Os benzodiazepínicos precisam sempre de um ajuste das doses constantemente, já que, principalmente pacientes idosos, tendem a ter alterações na massa adiposa que levam ao acumulo dessas farmacos muito lipofílicos no organismo. Além disso, alterações renais e hepáticas que acometem de maneira constante as populações idosas prejudicam eliminação e metabolização, respectivamente desses farmacos. Como efeitos indesejados, os benzodiazepínicos causam o efeito paradoxal, além de sedação e hipnose, sendo esses últimos os efeitos mais comuns de quem faz o uso desse tipo de fármaco. Outro efeito bastante interessante é a amnesia anterógrada e relaxamento muscular, sendo utilizado na composição da droga “Boa noite Cinderela” já que tanto a amnesia quanto o relaxamento muscular são sintomas de extremas vulnerabilidade para o indivíduo. Podem provocar dependência e tolerância, além de uma síndrome de retirada, mesmo em doses graduais, quando o benzodiazepínico possui uma potência elevada e um tempo de meia vida mais baixo. Por isso, as crises que são provocadas por abstinência do alprazolam são muito mais fortes e significativas que as crises causadas por diazepam por exemplo. Dificilmente os benzodiazepínicos provocam depressão ao sistema nervoso central como os barbitúricos causam no entanto, o uso desses fármacos com outros depressor pode provocar um sinergismo supra aditivo e logo, riscos de intoxicação e em casos mais graves, até de morte. Por isso é importante ficar atento ao misturar esses farmacos com álcool, por exemplo. Em casos de intoxicação grave de benzodiazepínicos, há farmacos que agem em GABA como antagonistas como é o caso do flumazenil, evitando que o benzodiazepínico se ligue aos sítios da molécula de GABAa. E existem ainda, os farmacos denominados de agonistas inversos como é o caso do abecarnil, que gera efeitos contrários ao uso dos benzodiazepínicos, por exemplo, podendo causar casos de convulsão. Esses últimos farmacos não são usados em tratamento terapêutico, apenas encontrados em plantas e usados em casos de intoxicação. EXPLORANDO AS DIFERENÇAS EM GABAA Os receptores GABA são pentâmeros, no entanto, eles apresentam diferentes conformações conforme o tipo de receptor GABAA e o local em que são encontrados no SNC logo, isso faz com que essas diferentes conformações dos pentâmeros, provoquem diferentes efeitos e usos. Por exemplo, a subunidade α possui 6 diferentes tipos de subunidades. Assim sendo, anestésicos gerais e etanol possuem mais afinidades com subunidades α4 e α6, já os anticonvulsivantes, farmacos sedativos e hipnóticos que provocam amnesia e dependência possuem afinidade com α1 e os ansiolíticos possuem mais afinidade com os receptores com subunidades α2. Conhecer essas ligações permite que seja encontrados perfis mais limpos e com menos efeitos indesejados, ainda que a maioria dos tipos de benzodiazepínicos não possuem seletividade e nem o flumazenil (o que é bom, já que pode converter todos os tipos de intoxicação). OBS: não existem farmacos que se liguem exclusivamente aos receptores GABA com subunidades α2, e portanto, que possuam efeitos ansiolíticos seletivos e exclusivos nos pacientes. No entanto, existem hoje, farmacos seletivos para a subunidade α1, atuando exclusivamente como sedativos e hipnóticos, são os chamados “Compostos Z” ou Zolpidem. “COMPOSTOS Z” OU ZOLPIDEM SELETIVOS α1 Esses compostos são os hipnóticos da nova geração que são representados principalmente pelo Zolpidem com um nome comercial de Stilnox,tendo um mecanismo de ação seletivo para receptores GABAA com α1. Não são benzodiazepínicos e possuem um efeito muito curto, de cerca de 4 a 6 horas, por isso são utilizados no tratamento de insônia. São mais indicados que midazolam por conta de menores efeitos indesejados, não geram a dependência e nem tolerância dos BZD, porem possuem um efeito ansiolítico praticamente nulo.