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Monografia- A ATUAÇÃO DO ADVOGADO DIANTE OS MEIOS ADEQUADOS DE RESOLUÇÃO DE CONFLITOS

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resultando em uma formação 
acadêmica centrada no sistema contencioso.148 
Ocorre que, a graduação é fundamentalmente voltada para a solução 
contenciosa e adjudicada, ou seja, a ênfase é dada para o processo judicial, em que 
 
146 TARTUCE, Fernanda. Advocacia e meios consensuais: novas visões, novos ganhos. 
In: João José Custódio da Silveira; José Roberto Neves Amorim. (Org.). A nova ordem das soluções 
alternativas de conflitos e o Conselho Nacional de Justiça. 1ed. Brasília: Gazeta Jurídica, 2013, v. 1, p. 
5-6. 
147 TARTUCE, Fernanda. Mediação nos conflitos civis. 4 ed. Rio de Janeiro: Método, 2018. 
p. 99. 
148 Idem. 
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a Sentença proferida é a solução imperativa apresentada pelo representante do 
Estado. Esse modelo de graduação é ofertado em todos os cursos de direito do país, 
consequentemente esse é o modelo de profissional do direito que o mercado exige.149 
Em sua formação, o bacharel em Direito, foi doutrinado à prática contenciosa, 
conforme explica TARTUCE: 
 
Na formação do bacharel em Direito, a ênfase do estudo acaba sendo prioritariamente 
centrada no exercício da jurisdição estatal contenciosa, o que gera certa negligência no trato 
de meios consensuais. Reforçados os fundamentos do processo como instrumento de Direito 
público, acabou-se consolidando o entendimento de que, a partir da atuação do Estado e de 
seu elemento capaz de submeter uma das partes à pretensão da outra, justo é o que o Estado 
determina e faz cumprir. 150 
 
 
Existem inúmeras razões que justificam a resistência à utilização dos métodos 
consensuais de resolução de conflitos, TARTUCE enumera aquelas que considera as 
mais importantes, como: “i) a sensação de ameaça por estarem fora da zona de 
conforto habitual; (ii) a crença sobre a falta de programas de treinamento de alta 
qualidade; (iii) a percepção de que, embora a ideia da autocomposição pareça boa, 
pelas pautas éticas do advogado sua adoção nunca se torna uma prioridade”.151 
Segundo TARTUCE, essa resistência se justifica em duas premissas, a 
primeira é que: “as partes são adversárias e, se um ganhar, o outro deve perder”; a 
segunda premissa é que: “as disputas devem ser resolvidas pela aplicação de alguma 
lei abstrata e geral por um terceiro”. 152 
 
3.1 A CULTURA DA SENTENÇA E O DEVER DO ADVOGADO 
 
No exercício da advocacia se faz necessário dar constante atenção às 
inovações legislativas, sendo as mais atuais e merecedoras de destaque aquelas 
relacionadas aos os métodos consensuais de resolução de conflitos, o novo Código 
 
149 WATANABE, Kazuo. Cultura da sentença e da pacificação. In: YARSHELL, Flávio Luiz. 
(Coord.) Estudos em homenagem a professora Ada Pellegrini Grinover p. 684-690. [S.l.:s.n.], 
[2000?]. p. 685. 
150 TARTUCE, Fernanda. Mediação ...Op. cit., p.99. 
151 TARTUCE, Fernanda. Advocacia ... Op. cit., p. 5. 
152 Ibidem, p. 6. 
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de Processo Civil (Lei 13.105/ 2015) e a Lei de Mediação (Lei 13.140/2015) refletem 
a necessidade da observância destes institutos pelos operadores do direito.153 
No entanto, existe ainda certo preconceito contra a adoção dos meios 
alternativos de resolução de conflitos, alguns juízes possuem o sentimento de que a 
função de conciliar é uma atividade menos nobre e a sentença a função mais 
importante, esquecendo que a função jurisdicional consiste em pacificar com justiça 
os conflitantes. 154 
Os juízes preferem proferir a sentença ao conciliar as partes em busca de uma 
solução amigável, por ser mais cômodo, no que resulta a chamada “cultura da 
sentença”155. 
Ocorre que, ainda prevalece a noção de superioridade que circunda a 
sentença, de modo que, sempre vem sendo priorizada em detrimento dos reais 
interesses das partes, no entanto, por meio de um trâmite caro, demorado e até 
mesmo ineficaz, em regra, as partes ingressam com uma ação buscando uma 
sentença, que soluciona o caso, mas não se faz capaz de pacificar as partes.156 
Naturalmente, após analisar o caso apresentado pelo cliente, o advogado 
direciona ao litígio a solução judicial, defendendo sua tese e buscando o 
convencimento do juiz, no entanto, deve o advogado possuir a capacidade de 
conceber a melhor alternativa para solucionar o caso, já que o mediador não irá tomar 
a decisão como ocorre nas decisões judiciais.157 
Neste contexto, a inserção dos chamados meios alternativos de solução de 
conflitos é algo que diverge do modelo habitual, que até então sempre foi o litigioso, 
representado pela sentença judicial refletindo em uma considerável transformação na 
condução das divergências sociais, haja vista que a própria sociedade se estabeleceu 
alicerçado sob a resolução litigiosa.158 
 
153 FERREIRA, Camille G. J.; MACABEU, André Luís Vieira. Advocacia e Adequada solução 
de conflitos na esfera judicial. _in. Revista do Fórum Nacional de Mediação e Conciliação, v. 1, n. 
Rio de Janeiro: EMERJ, 2017 p. 74. 
154 WATANABE, Kazuo. Cultura... Op. Cit., p.686. 
155 Idem. 
156 FERREIRA, Camille G. J.; MACABEU, André Luís Vieira. Advocacia e Adequada solução 
de conflitos na esfera judicial. _in. Revista do Fórum Nacional de Mediação e Conciliação, v. 1, n. 
Rio de Janeiro: EMERJ, 2017 p. 74. 
157 BARBADO, Michelle Tonon. Op. cit., p. 372. 
158 FERREIRA, Camille G. J.; MACABEU, André Luís Vieira. Op. cit., p. 74. 
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Muitos cursos jurídicos passaram a disponibilizar disciplinas específicas para 
a correta abordagem do conflito, no entanto a providência se faz insuficiente, haja 
vista o pequeno espaço de tempo dedicado ao exame da matéria, fator este que 
colabora pela manutenção da tradição no tratamento das controvérsias.159 
A falta de valorização pelos elementos não materiais, ou seja, pela redução 
em condenação monetária pode ser outro elemento que resulte na resistência, se o 
resultado do processo enseja a condenação pecuniária, o valor deverá ser atendido 
plenamente, algo que normalmente pode não ocorrer pelas vias alternativas.160 
Neste sentido, TARTUCE esclarece que a resistência decorre do medo de 
reduzir os ganhos ou mesmo a perda de controle do advogado, conforme: 
 
“Há, porém, resistências. Leonard Riskin e James Westbrook apontam haver um medo 
generalizado de que o advogado vá ganhar menos dinheiro ou perder o controle ao se 
envolver nos métodos alternativos, lembrando que muitos entendem que o papel primário do 
causídico é mesmo o de advocate (atuar como advogado litigante. 
(...) 
A cobrança segundo a lógica contenciosa acaba tornando o advogado focado na extensão 
do litígio, de onde poderá extrair ganhos conforme o ampliado desenrolar do tramite 
processual.”161 
 
TARTUCE acrescenta que a cobrança de honorários se justifica, ao passo 
que se aumenta a intensidade e a complexidade dos processos aumentando o foco 
na extensão do litígio visando aumentar os ganhos dos advogados. 162 
No entanto, muitas vezes o indivíduo não é movido por questões econômicas, 
pode estar em busca de outros interesses, como reconhecimento, poder ou 
segurança, necessidades que se enquadram em outras categorias, como as 
emocionais, psicológicas, físicas ou sociais.163 
Nesta situação a condenação pecuniária não será suficiente para solucionar 
a questão, o fator emocional pode ser a causa maior das exigências, de modo que 
outros interesses podem mobilizar a busca pela reparação. 164 
 
159 TARTUCE, Fernanda. Mediação nos conflitos civis. 4 ed. Rio de Janeiro: Método, 2018. 
p. 99. 
160 TARTUCE, Fernanda. Advocacia e meios consensuais: novas visões, novos ganhos. 
In: João José Custódio da Silveira; José Roberto Neves Amorim. (Org.). A nova ordem das soluções 
alternativas de conflitos e o Conselho Nacional de Justiça. 1ed. Brasília: Gazeta Jurídica, 2013, v. 1, p. 
7. 
161 Idem. 
162 Idem. 
163 Idem 
164 Idem. 
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