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Cristianismo: Determinismo ou Livre-arbítrio? 
Por João Manoel Medeiros 
O embate entre os teóricos deterministas e os ativistas da liberdade vêm de muitos 
séculos. Isto porque a acepção de liberdade ou destino é de natureza de senso comum, 
influenciada por dogmas religiosos como o Cristianismo. Por tanto, o Catolicismo, 
religião predominante durante a Idade Média, e logo após os Reformistas Protestantes, de 
ascensão na Idade Moderna, ápice da produção filosófica são de forte influência nesta 
temática. Esta curta resenha tem por objetivo discutir as concepções filosóficas acerca do 
determinismo trabalhada em aula e por material didática em discussão com alguns traços 
de crenças cristãos. 
Para início de nossa discussão, é necessário um esclarecimento contraditório: Para 
o Cristianismo, Deus é onisciente, entretanto, temos o livre-arbítrio. Mas se Deus tudo 
sabe, ele sabe o que vai acontecer, e se há como prever o que vai acontecer, é porque 
estamos dentro de uma cadeia de acontecimentos, ou em outros termos, dentro de um 
destino, logo não há livre arbítrio. 
Uma resposta assumível é que Deus poderia ser o Demônio de Laplace, ou seja, 
um ente que porta a sabedoria de todos os acontecimentos causais e assim assumir qual 
futuro será tomado, visto que Deus é presente em toda criação e, como já dito, onisciente. 
Entretanto, só essa informação ainda não nos ajuda a entender o âmbito da contradição 
entre liberdade e Determinismo. 
Tudo isso nos remonta a uma discussão sobre o que é liberdade e destino: a 
primeira é trabalhada conceitualmente como a disponibilidade de opções de ações para 
uma escolha, geralmente; a segunda é trabalhada acerca de uma cadeia de ações que 
logicamente desencadeia outras ações, não podendo, portanto sair de uma cadeia de 
acontecimentos. 
Como vemos, estruturalmente, o Cristianismo segue uma lógica determinista em 
sua essência. Mas por que motivo nas doutrinas cristãs se prega o livre-arbítrio? O que é 
seria mais importante do que parecer contraditório aos olhos de um possível crítico? Para 
responder esta pergunta, precisamos remontar à um outro argumento trabalhado. 
Se o Determinismo é verdadeiro, então não agimos livremente, logo não temos 
escolhas de nossas ações. Entretanto, se nós não temos escolhas de nossas ações, nós não 
somos responsáveis por nossos atos, visto que não os escolhemos, eles são apenas um 
acontecimento inevitável dentro de uma cadeia causal. 
O argumento anterior que se apresenta como válido ao se assumir o Determinismo 
verdadeiro é muito perigoso para as doutrinas cristãs. Culturalmente, o Cristianismo 
prega a responsabilidade dos atos, em ênfase, dos pecados a cada indivíduo que o comete. 
Isto é necessário para sustentação da fé, visto que se eu não sou responsável por meus 
atos, vulgo meus pecados, logo a culpa não é minha, eu não mereço ser punido por algo 
que eu não tive escolha. 
O mesmo serve para outro traço da lógica cristã: o céu e o inferno. Se eu não sou 
os responsáveis por meus pecados, ainda que eu pense a punição como injusta, mas a 
aceite não como castigo divino, mas como uma consequência de minha ação dentro da 
cadeia causal, ainda há uma punição que está fora desta cadeia causal, até o entendimento 
cristão atual: a morte. 
Se eu não sou responsável pelos meus pecados, por que eu mereço ir para o 
inferno? Não há como assumir que o inferno é uma consequência dentro da cadeia causal 
visto que ele não está no plano físico, mas no metafísico, além de que, o responsável pela 
escolha do caminho de luz ou de trevas é de Deus, o juiz, ao julgar seu coração terreno. 
A questão é que a ausência de responsabilidade pela condenação desarticula duas 
lógicas cristãs. A primeira dela de ordem mais pragmática e atual é sobre o medo. O 
Cristianismo culturalmente é muito aceito pelo medo que causa nas pessoas em seu 
discurso sobre o inferno. E há importância nas práticas sociais para isso, isto é inegável. 
É pelo medo do inferno que as pessoas pensam antes de matar umas as outras. 
Então, por uma questão de ordem social, não só a igreja, mas a instituições sociais 
assumem a responsabilidade dos atos como consequência de um livre-arbítrio. Sem o 
medo do inferno, as pessoas não iriam renunciar às suas práticas pecaminosas e se 
dedicariam à vida cristã. 
Claro, podemos assumir que na atualidade há outras vertentes cristãs, a nova 
geração em sua maioria prega que sua acepção religiosa se dá pela proximidade com o 
amor pregado amplamente pelo líder religioso Jesus Cristo. Entretanto, dentro de uma 
estrutura social, o que prevalece é a primeira vertente do medo. 
A segunda questão, mais importante para nós, críticos filósofos, é de natureza 
lógica e estruturalmente dogmática na religião. Pois, vejamos: Se assumimos o 
determinismo, nós não somos responsáveis por nossos atos, logo, a condenação é 
inevitável. Entretanto, se Deus sabia que alguém seria condenado ao inferno, visto que 
ele sabe de tudo, porque o criou? 
Podemos assumir que ou Deus não sabia que esta pessoa seria condenada ao 
inferno, logo, ele não é onisciente, o que desestrutura um dos dogmas mais fortes da 
prática cristã, ou ainda que Deus não é bom, visto que ele criou alguém sabendo que essa 
pessoa não tinha escolha e responsabilidade sobre seus atos e que seria condenada ao 
inferno, esta segunda conclusão se choque com outros dois preceitos muito importantes 
para a sustentação do Cristianismo: O que Deus é bom e que Deus nos ama acima de 
todas as coisas. 
Algum cristão, entretanto, pode argumentar que se o Determinismo é válido, então 
nosso nascimento e condenação é inevitável, visto que está dentro dos acontecimentos da 
cadeia causal. A questão que revela problemática, entretanto é que se nosso nascimento 
é inevitável, então, Deus é obrigado a nos cria. 
Em suma, as curtas linhas desta resenha se revelam pequenas para tamanhas 
contradições. Entretanto, o Cristianismo não se importa com suas contradições, ainda que 
sejam de natureza estruturais, porque mais que uma fé, a instituição se importa com sua 
influência dentro das ações sociais.

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