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FACULDADE ÚNICA 
DE IPATINGA 
SOCIOLOGIA 
GOSHAI DAIAN LOUREIRO 
 
 
2 
 
 
 
Menu de Ícones 
Com o intuito de facilitar o seu estudo e uma melhor compreensão do conteúdo aplicado 
ao longo do livro didático, você irá encontrar ícones ao lado dos textos. Eles são para 
chamar a sua atenção para determinado trecho do conteúdo, cada uma com uma função 
específica, mostradas a seguir: 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
3 
 
Sumário 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
UMA INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA SOCIOLOGIA 
1.1 As Ciências Humanas e a Sociologia 06 
1.2. Fatos, Contextos e Níveis de Interpretação 08 
1.3. Mito, Filosofia e Ciência 10 
1.4. Matrizes Intelectuais, Origens Históricas e o Futuro da Sociologia 12 
Fixando o Conteúdo 17 
 
A TRADIÇÃO SOCIOLÓGICA CLÁSSICA, PARTE I - MARX 
2.1. Uma Distinção Crucial: O Marxismo como Cultura Política e Tradição Sociológica 20 
2.2. Alguns Conceitos Importantes: Lutas de Classes, Modo de Produção, Mais-Valia, 
Fetichismo da Mercadoria, Reificação e Alienação 22 
2.3. Algumas Dimensões Teóricas Importantes: O Materialismo Histórico e Dialético, 
Conhecimento Contra Ideologia, Mudança Social e Revolução 26 
2.4. Legado e Ressonância 29 
Fixando o Conteúdo 32 
 
UNIDADE 
02 
A TRADIÇÃO SOCIOLÓGICA CLÁSSICA, PARTE II - 
DURKHEIM 
3.1. De Marx a Durkheim: Uma Pré-História da Institucionalização da Sociologia 37 
3.2. Uma Distinção Crucial: A Leitura de Durkheim na Sociologia e na Antropologia 38 
3.3. Alguns Conceitos Importantes: Fato Social e Função do Fato Social, 
Consciência e Representação Coletiva, Solidariedade Mecânica e Orgânica, Anomia 41 
3.4. Algumas Dimensões Teóricas Importantes: Mudança Social, 
Divisão Social do Trabalho, Coesão e Integração Social, Educação como Socialização 46 
3.5. Legado e Ressonância 48 
Fixando o Conteúdo 51 
 
UNIDADE 
03 
UNIDADE 
01 
UNIDADE 
04 
A TRADIÇÃO SOCIOLÓGICA CLÁSSICA, PARTE III - WEBER 
4.1. Uma Distinção Crucial: Coletivismo e Individualismo Metodológico 55 
4.2. Alguns Conceitos Importantes: Ação Social e Sentido da Ação Social Afinidade 
Eletiva, Tipos Ideais (De Dominação, Racionalidade e Organização Estatal) 56 
4.3. Algumas Dimensões Teóricas Importantes: Modernização, 
Capitalismo, Burocracia, Desencantamento do Mundo 57 
4.4. Legado e Ressonância 60 
 Fixando o Conteúdo 61
 
 
UNIDADE 
05 
TEMAS DE SOCIOLOGIA CONTEMPORÂNEA 
5.1. Temas de Sociologia Contemporânea 65 
5.2. Educação, Cultura e Estratificação social 65 
5.2.1 A Instituição Escolar: Emancipadora ou Conservadora? 65 
5.2.2 A Relação Entre a Escola e a Cultura Através da Sociologia de Pierre Bourdieu 68 
5.3. Trabalho e Existência 70 
5.4. Consumo, Identidade e Subjetividade 72 
Fixando o Conteúdo 75 
UNIDADE 
06 
TEMAS DE SOCIOLOGIA BRASILEIRA 
6.1. Cuidado com o Mito 80 
6.2. O Mito do Encontro das Três Raças 81 
6.3. O Mito da Democracia Racial 86 
6.4. O Mito da Cordialidade Brasileira 87 
6.5. O Problema da Desigualdade Social Brasileira 91 
Fixando o Conteúdo 94 
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 97 
 
 
 
 
4 
 
Na segunda unidade, “A tradição sociológica clássica, parte I – Marx”, 
você conhecerá como o filósofo alemão Karl Marx (1818-1883), a partir 
da economia política clássica e da filosofia alemã de sua época, lançou 
as bases para uma investigação sociológica do capitalismo e dos 
conflitos estruturais entre as camadas da sociedade, que marcaram 
profundamente ambiente político e intelectual do século XX. 
CONFIRA NO LIVRO DIDÁTICO 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Na primeira unidade, “Uma introdução ao estudo da sociologia”, você 
será apresentado ao debate sobre o surgimento da sociologia como 
disciplina científica através de duas perspectivas distintas e 
complementares: a do debate sobre a especificidade do método 
científico nas ciências humanas, no âmbito da epistemologia; e sobre a 
definição e o desenvolvimento da sociologia como disciplina autônoma, 
no âmbito da história da filosofia e da ciência. 
Na terceira unidade, “A tradição sociológica clássica, parte II – 
Durkheim”, você saberá como o sociólogo francês Émile Durkheim 
(1858-1917) buscou estabelecer a sociologia como disciplina 
científica na França na virada do século XIX, delimitando a 
especificidade do método sociológico e lançando as bases para uma 
sociologia das formas de integração social e seus problemas, 
redefinindo o papel social da educação e a compreensão das causas 
da criminalidade. 
Na quarta unidade, “A tradição sociológica clássica, parte III – Weber”, 
você entenderá como o jurista e economista Max Weber (1864-1920) 
formulou um diagnóstico original do capitalismo e da modernidade 
assentado no estudo comparativo das religiões, e estendeu o seu 
método de uma sociologia compreensiva para a caracterização de 
aspectos contundentes do mundo político e cultural das nossas 
sociedades. 
 
Na quinta unidade, “Temas de sociologia contemporânea”, você 
acompanhará um percurso seletivo em torno das principais abordagens 
sobre a educação, o trabalho e o consumo enquanto objetos de 
investigação da sociologia atualmente, analisando a função da 
educação na manutenção e transformação da estrutura social, as 
principais modificações na forma e no significado do trabalho nas 
últimas décadas em nossa sociedade, a origem histórica da nossa forma 
de consumo e como isso influi na nossa percepção de nós mesmos. 
 
Na sexta unidade, “Temas de sociologia brasileira”, você perceberá o 
desenvolvimento paralelo que certas princípios fundantes da nossa 
nacionalidade possuem no senso comum e na sociologia científica, 
estudando o debate em torno de três dos nossos principais mitos 
nacionais – o mito do encontro das três raças, da democracia racial e da 
cordialidade brasileira –, e por fim se familiarizando com o debate atual 
acerca das condições especificas da desigualdade social no Brasil. 
 
 
 
5 
 
UMA INTRODUÇÃO AO ESTUDO 
DA SOCIOLOGIA 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
UNIDADE
 
 
6 
 
1.1 AS CIÊNCIAS HUMANAS E A SOCIOLOGIA 
 
Na sua vivência escolar talvez você tenha se habituado a dividir as ciências 
em: humanas, exatas e biológicas. Talvez tenha mesmo se acostumado a uma 
divisão ainda mais radical e estereotipada, que opõe as duas primeiras. Saiba, 
contudo, que essas divisões existem mais por razões sociais (administrativas, 
curriculares ou identitárias) do que metodológicas (relativas a como se produz o 
conhecimento). 
O diagrama acima representa uma divisão tradicional nesse sentido, 
formulada inicialmente por Wilhelm Dilthey (1883-1911), no âmbito da filosofia da 
ciência. Ao centro estão representados fatos diversos, misturados, sem classificação 
definida, tal como estes ocorrem no mundo. Desde o topo, de uma matriz em tese 
unificada, a ciência aparece se dividindo para abarcar a totalidade heterogênea dos 
fatos. 
A oposição estereotipada entre “exatas” e “humanas” radicaliza essa divisão, 
desconsiderando a variedade do método científico, taxando como ideologia e opinião 
uma importante parcela do conhecimento humano. A atitude é a expressão de um 
conhecido anti-intelectualismo, travestido de cientificismo. Atualmente, porém, mesmo 
as ditas “ciências duras” (hard sciences) tem sofrido sorte semelhante. 
 
Figura 1 - A diversidade da recusa à ciência 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
O anti-intelectualismo e o negacionismo 
são atitudes de desprezo pelo conhecimento, 
fundadas no mau ceticismo e na ignorância. 
Quadro justapondo exemplosde tweets satirizando o “povo de humanas”, terraplanistas convidados 
num programa de entrevistas, e uma imagem de Greta Thumberg “cancelada”. 
 
 
 
 
7 
 
 
Neste último vídeo, perceba que o historiador Saulo Goulart toma “fato social” 
como sinônimo de “fato histórico”. Cuidado: como você verá adiante nas próximas 
unidades, em Sociologia este é um conceito específico, legado pela obra de um 
sociólogo francês do final do século XIX, chamado Émile Durkheim. Essa variação 
conceitual é normal. Toda área do conhecimento tem o seu jargão específico que 
é partilhado pelos seus especialistas e representa o modo de pensar de uma 
disciplina. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Historicamente identificado ao domínio herdado das antigas filosofia e história 
naturais – de onde surgiram disciplinas como a Astronomia, a Física, a Química e a 
Biologia –, o conceito de ciência e de método científico se refere sobretudo àquele 
método indutivo, hipotético-dedutivo e experimental que é o paradigma dominante de 
interpretação dos fatos naturais. Mas seria retrógrado reduzir a ciência a isto. 
Desde o final do século XIX que a crença na irrefutabilidade dos fatos 
científicos e na superioridade moral da ciência (o positivismo cientificista) perde espaço 
na teoria científica. Isso apenas se aprofundou com o Holocausto e o risco de uma 
guerra nuclear em meados do século XX. A ciência hoje se define, ao contrário, 
enquanto o tipo de conhecimento sistemático refutável sob circunstâncias reguladas. 
Nessa perspectiva, mais modesta, há espaço para diferentes versões do 
método científico, correspondentes aos diferentes tipos de fatos investigados. A 
formulação de modelos teóricos deterministas, constituídos por leis universais, 
expressas de forma matemática, pelas quais é possível deduzir e assim prever a 
dinâmica dos fatos, serve bem à física e não à genética, por exemplo, cujo cálculo é 
probabilístico. 
 
Saiba “Por que a ativista Greta Thunberg é alvo de tanto ataque” nesta reportagem 
de Camilo Rocha para o jornal Nexo; entenda “O mal-estar nas ciências humanas” 
segundo Vladimir Safatle no seu artigo para a revista Cult; ouça essa análise do 
negacionismo científico por Alberto Saa no canal Casa do Saber, do Youtube, em 
“Terra Plana e Outras Teorias: Podemos Questionar a Ciência?”, e ainda sua breve 
introdução a “O que é fato?” (com o historiador Saulo Goulart). 
 
 
8 
 
A sociologia é uma ciência em sentido amplo e as ciências humanas 
constituíram sua variante do método científico tradicional que não é menos científica 
por causa disso. Nesta unidade você aprenderá a concebê-las assim; entenderá a 
correlação entre fatos, crenças e conhecimentos que caracteriza o conhecimento 
científico; e por fim, será apresentado às principais matrizes históricas e filosóficas da 
sociologia. 
 
1.2 FATOS, CONTEXTOS E NÍVEIS DE INTERPRETAÇÃO 
 
“O entendimento moderno do que é um fato eu acho que pode ser expresso 
da seguinte maneira: fato é qualquer coisa cuja realidade, cuja existência, 
pode ser aferida dentro de um contexto preestabelecido. (…) a afirmação de 
que o arquiduque austríaco Francisco Ferdinando foi assassinado em 1914 
em Sarajevo, isso é um fato histórico, (…) isso pode ser aferido baseado 
numa série de documentos de época que comprovam que de fato 
aconteceu. (…) A afirmação a de que a luz é desviada por uma grande 
massa estelar como o Sol, (…) isso pode ser comprovado dentro de um 
contexto muito bem estabelecido, que no caso da ciência, é o método 
científico”. (GOULART; SAA, 2019). 
 
Em um dos vídeos recomendados anteriormente, o professor e físico Alberto 
Saa qualifica os fatos em categorias específicas, com base no contexto em que estes 
podem ser aferidos, atestados ou corroborados. Isso devemos entender em sentido 
amplo: qualquer ocorrência, acontecimento ou evento cuja realidade ou existência 
possa ser afirmada no interior de um contexto específico pré-determinado. 
Podemos conceber um fato histórico (corroborado pela história), um fato 
científico (corroborado pela ciência, que como vimos, quase sempre se reduz a 
sinônimo de ciências naturais), mas também um fato religioso (corroborado pelos 
dogmas e crenças de determinada religião), um fato moral (corroborado pelos 
costumes e regras de conduta predominantes em certo grupo), e assim por diante. 
Está claro que um mesmo fato pode ser qualificado de formas diferentes, os 
fatos críveis num determinado contexto podem não sê-lo em outro, mas isso não 
significa que todos os contextos tenham uma mesma validade ou estatuto de verdade 
– sendo verdadeiro o que jaz além de qualquer dúvida razoável, e válido o que é 
correto e legítimo sob um dado ponto de vista. 
“Somos todos filhos de Adão e Eva”; “Os dinossauros jamais existiram”. 
Ambas as declarações são absurdas se relativas à origem e ao passado remoto da 
vida na Terra. Isso pois, se desejamos mesmo saber desde quando e como surgiu a 
 
 
9 
 
 
Assista a Kherian Gracher do canal SciFilo discutindo esta questão nos vídeos 
“Definição Tradicional do Conhecimento” e “O que é Epistemologia (Teoria do 
Conhecimento)?” Outro vídeo, “Metafísica na Filosofia”, de Cristiano Barroso do 
canal Saber em Foco, pode ser lhe ser útil mais adiante. 
 
vida em nosso planeta, as afirmações, para serem verídicas nesse sentido, precisam 
dar conta de fatos e evidências correspondentes – tais como a existência dos fósseis. 
Não sendo uma explicação verídica da origem da espécie humana, a primeira 
afirmativa, entretanto continua válida na perspectiva do cristianismo. Entendida de 
forma alegórica, ela ainda carrega uma importante mensagem de fraternidade entre 
pessoas de diferentes culturas. Já a segunda, dificilmente pode ser considerada válida 
para além da mera opinião pessoal não fundamentada. 
Perceba então, que para ser atestado como verdadeiro, todo fato necessita de 
dois contextos fundamentais: o contexto de observação, no qual as evidências 
correspondentes aparecem em circunstâncias independentes, e o contexto de 
interpretação, no qual o sentido dessas ocorrências é caracterizado. Deste modo, os 
fatos são identificados e compreendidos sempre na junção de vários contextos, de 
ambos os tipos. 
Afirmações e juízos sobre os fatos, articulando esses vários contextos, são 
expressos, todavia em níveis cada vez mais abrangentes e consistentes: o nível das 
opiniões, das crenças, e dos conhecimentos. A opinião tem uma validade restrita, 
porque, a rigor, fornece somente um contexto pessoal e particular para a interpretação 
dos fatos, a menos que se amparem em algum contexto maior, mais geral, e 
predefinido. 
As crenças coletivas amparam nossas opiniões; do mesmo modo os sistemas 
de crenças coletivas e de conhecimentos, como as religiões e as ciências 
(respectivamente). Se crença é a confiança de que algo é verdade, conhecimento é a 
crença verdadeira e justificada: verdadeira porque correspondente aos fatos; justificada 
porque é passível de ser comunicada de maneira metódica, não dogmática. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
10 
 
1.3 MITO, FILOSOFIA E CIÊNCIA 
 
Quando o físico Alberto Saa classifica os tipos de fatos em históricos e 
científicos; quando a isto acrescentamos outras ordens de fatos (religiosos, morais, 
políticos, jornalísticos, etc.), seguimos a taxonomia dos fatos segundo o contexto de 
interpretação. O contexto de observação varia caso a caso, porém vimos que há uma 
divisão tradicional assim na história das ciências: entre fatos humanos e naturais. 
O dia e a noite são fatos naturais, a rotina e o trabalho são fatos humanos; o 
vento e a chuva são fatos naturais, a navegação e a plantação são fatos humanos; a 
fome e a sede são fatos naturais, os jejuns e os festejos são fatos humanos; o 
nascimento e a morte são fatos naturais, os rituais e as crenças são fatos humanos, 
digamos assim. Analisemos a seguir essas proposições. 
Primeiro, essasproposições sugerem uma divisão radical entre dois tipos de 
fatos: os que ocorrem ou existem porque provocados pela ação ou vontade humana 
(fatos humanos), e os que em princípio independem disso (fatos naturais). Segundo, 
dizem respeito a fatos genéricos ou fenômenos, e não à última chuva, ao jejum para 
um exame de sangue, ao nascimento ou a morte de alguém, etc. 
É verdade que em certos casos a fome e a sede, o nascimento e a morte 
podem ser provocados por ações humanas. Em todo caso, sua existência no mundo 
de modo geral independe disso. Podemos conceber a rotina e o trabalho das abelhas, 
a navegação dos pássaros e dos morcegos do mesmo jeito. Em todo caso, isso só faz 
sentido por analogia a atividades realizadas pelos seres humanos. 
Talvez esta distinção entre fatos humanos e naturais seja bastante óbvia 
atualmente, mas isso nem sempre foi assim. Houve um tempo na história da 
humanidade em que explicações buscadas para os dois tipos de fatos não eram 
fundamentalmente diferentes. Os mitos explicam fatos humanos e naturais de forma 
semelhante: via narrativas ficcionais cheias de personagens, situações simbólicas e 
imagéticas. 
 
O que é um mito? Um mito é uma narrativa sobre a origem de alguma coisa 
(origem dos astros, da Terra, dos homens, das plantas, dos animais [...] etc.). 
[…] como o mito narra a origem do mundo e de tudo o que nele existe? 1) 
Encontrando o pai e a mãe das coisas e dos seres […]. A narração da origem 
é, assim, uma genealogia, isto é, narrativa da geração dos seres, das coisas, 
das qualidades, por outros seres, que são seus pais ou antepassados. […] 
2) Encontrando uma rivalidade ou uma aliança entre os deuses que faz surgir 
 
 
11 
 
 
O mito, a filosofia e a ciência são modos diferentes de explicar a realidade. Cada 
um tem uma maneira distinta de observar, organizar e atribuir sentido aos fatos, 
pautados por diferentes noções de verdade. 
alguma coisa no mundo. 3) […] Encontrando as recompensas ou castigos 
que os deuses dão a quem os desobedece ou a quem os obedece. […] 
 
Quais são as diferenças entre Filosofia e mito? […] O mito narrava a origem 
através de genealogias e rivalidades ou alianças entre forças divinas 
sobrenaturais e personalizadas, enquanto a Filosofia, ao contrário, explica a 
produção natural das coisas por elementos e causas naturais e impessoais. 
O mito não se importava com contradições, com o fabuloso e o 
incompreensível, (…) A Filosofia, ao contrário, não admite contradições, 
fabulação e coisas incompreensíveis, mas exige que a explicação seja 
coerente, lógica e racional; além disso, a autoridade da explicação não vem 
da pessoa do filósofo, mas da razão, que é a mesma em todos os seres 
humanos. ” (CHAUÍ, 2000, p.32-33). 
 
 
 
 
 
 
A filosofia durante muito tempo também aplicou um mesmo tipo de raciocínio 
à explicação dos fatos humanos e naturais, embora diferente dos mitos. Esse 
raciocínio era a busca da realidade fundamental de todas as coisas, que herdou da 
filosofia grega antiga o nome de metafísica, e tornou-se a base da teologia medieval. 
Já a ciência (moderna) surgiu como uma perspectiva distinta sobre os fatos naturais. 
A filosofia não rompeu com o mito, mas com a autoridade dogmática não 
fundamentada na razão; a ciência moderna não rompeu com a filosofia, mas com a 
metafísica. De que maneira? Abandonando o foco na ontologia e na teleologia dos fatos 
ou fenômenos em prol da constituição de modelos explicativos circunscritos aos 
próprios fatos ou fenômenos – isto é, ao acentuar o imanente sobre o transcendente. 
Vários mitos antigos mencionam a Terra como sendo uma superfície 
bidimensional. O fazem em primeiro lugar porque condiz com a nossa percepção 
ordinária do espaço; em segundo lugar, porque suas descrições do movimento dos 
astros, do olhar sobre o horizonte, e de outros fatos ou fenômenos com implicações 
nesse sentido, seguem um propósito mais simbólico do que descritivo. 
Em outras palavras, os mitos não buscam explicar esses fenômenos e sim 
utilizá-los como símbolos para transmissão de uma mensagem. O problema da forma 
da Terra também não diz respeito diretamente à metafísica. Esta se ocuparia em 
primeiro lugar com a tarefa de saber se a Terra como um todo possui ou não uma forma 
discernível, se os dados dos sentidos são ou não são expressão da realidade, etc. 
 
 
12 
 
Neste ponto você deve ser capaz de compreender que o mito, a filosofia 
(metafísica) e a ciência (moderna) não são formas de explicar a realidade mutuamente 
excludentes, nem incompatíveis, tão pouco se sucederam superando inteiramente 
umas às outras. Não obstante, são bastante distintas, bem como dotadas de valor e 
eficácia variável, conforme os objetivos aos quais venham a se prestar. 
 
1.4 MATRIZES INTELECTUAIS, ORIGENS HISTÓRICAS E O FUTURO DA 
SOCIOLOGIA 
 
A distinção entre fatos humanos e naturais só pode nos parecer óbvio por que 
vivemos numa sociedade na qual a ciência tem lugar central. Mas isso aconteceu aos 
poucos, num processo longo processo que começa na filosofia grega da época antiga, 
passa pela Revolução Científica (séculos XVI-XVIII), pelo Iluminismo (XVIII) e o 
Positivismo (XIX) na época moderna, até fixar o atual binômio “ciência e tecnologia” 
(C&T). 
Embora possamos traçar a origem das ideias características da sociologia até 
vários períodos da História desde a época antiga, sua identidade como disciplina 
acadêmica e universitária data do século XIX. Esta identidade foi profundamente 
influenciada por dois grandes movimentos intelectuais do início da época moderna e um 
terceiro, seu contemporâneo: o Humanismo, o Iluminismo e o Positivismo. 
No século XVI, o Humanismo – o equivalente filosófico do Renascimento (que 
de fato foi um movimento artístico e estético) – impulsionou a libertação da filosofia do 
domínio da teologia, com o seu antropocentrismo. Neste primeiro momento, os fatos 
humanos serão objeto principal da filosofia moral e da história, enquanto os fatos 
naturais permanecerão ainda em parte sob a alçada da teologia. 
A Astronomia começará a se constituir numa disciplina autônoma ainda no 
século XVI. Nos próximos três séculos, respectivamente, o mesmo ocorrerá com a 
Física, a Química e a Biologia. Mais ou menos completo no fim do século XVIII, esse 
processo é conhecido como Revolução Científica. Os outros dois grandes movimentos 
intelectuais importantes para o surgimento da sociologia serão influenciados por ela. 
Em que sentido? O Iluminismo, de um lado, radicalizou a crítica do Humanismo 
à autoridade da religião, de outro, questionou a metafísica, louvando a Ciência, mais do 
que somente o intelecto, como principal fonte de conhecimento sobre o mundo. O nome 
 
 
13 
 
do movimento, sinônimo de “esclarecimento”, diz bem qual era o seu propósito: difundir 
o conhecimento científico para afastar as “trevas” da estupidez e da ignorância. 
 
“Por Iluminismo entendemos o esforço por construir de novo, a partir da razão, 
as relações humanas libertas de todos os vínculos com a tradição e o 
preconceito – esforços que tiveram o seu apogeu no século XVIII e, em 
seguida, depressa sucumbiram a uma desvalorização céptica. […] resta, em 
boa parte, o pragmatismo e a confiança na ciência; resta sobretudo a 
humanidade da vontade reformista do social […]. Duas premissas centrais da 
Ilustração racional se tornaram sobretudo suspeitas na sociologia: a 
participação igual de todos os homens numa razão comum que eles possuem 
sem ulterior mediação institucional, e o optimismo […] em relação ao 
estabelecimento de situações justas. […] Isto separa a sociologia do 
Iluminismo ‘ingénuo’ de estilo antigo” (LUHMANN, 2005 [1967], p. 20-22). 
 
Figura 2 - A visão da ciência legada pelo Iluminismo 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
No contexto maior do Iluminismo, o desenho de Francisco de Goya ajuda a entender o quadro de 
Joseph Wright. 
 
 
14 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Ao longoda época moderna, o método científico, concebido em princípio para o 
estudo do mundo natural, transformou-se no eixo das principais críticas à filosofia e à 
teologia das épocas anteriores. Esse movimento foi o responsável por várias tentativas 
de transpor o método científico ajustado aos fatos naturais para um estudo dos fatos 
humanos. A própria sociologia alimentou essa ambição no seu início. 
 
“As ciências que se desenvolveram antes, a matemática e a astronomia, e 
mais tarde a física, eram aquelas que lidavam com as leis da natureza mais 
gerais e mais totalmente abrangentes, que governavam fenômenos mais 
distantes do envolvimento e da manipulação humana. A partir daí a ciência 
penetrava cada vez mais na humanidade em si, dirigindo-se, por meio da 
química e da biologia, para o ponto mais alto da ciência da conduta humana 
– originalmente denominada por Comte de ’física social’, mais tarde 
renomeada como ‘sociologia’ ”. (GIDDENS apud ALCÂNTARA, 2007, p. 31) 
 
 
 
 
As duas citações anteriores pertencem a dois eminentes sociólogos do século 
XX: Niklas Luhmann (1927-1998) e Anthony Giddens (1938-). Estas parecem dizer 
coisas opostas, que de fato são complementares. Isso porque a linhagem que 
resultará na sociologia contemporânea não derivou imediatamente das ideias de 
Auguste Comte (1798-1857). Na verdade, é uma resposta a elas. 
Em maior ou menor grau, os autores como Karl Marx (1818-1883), Émile 
 
Que experimento científico está sendo representado nessa imagem? Por que ele 
está sendo realizado na sala de jantar de uma casa e não em um laboratório? Há 
alguma diferença entre a reação das crianças e dos adultos, dos homens/meninos 
e das mulheres/meninas, diante do experimento? Este que parece o pai das 
meninas (adulto n.2), o que ele está fazendo ali? Há algo verdadeiramente 
sobrenatural nesta cena ou essa seria uma observação supersticiosa? Qual a 
intenção do pintor ao representar um experimento científico numa atmosfera 
gótica? 
 
Veja as imagens em alta resolução da gravura de Goya e da pintura de Wright. 
Observe o infográfico acima. Saiba o que cada uma delas representa. Silas Martí 
comenta a gravura de Goya para a Carta Maior quando da sua exposição no MASP 
(Museu de Arte de São Paulo), em 2007; Ana Paula Gorri e Ourides Santin Filho 
analisam a tela de Wright na Química Nova Escola, n. 31, de agosto de 2009. 
 
 
 
15 
 
Durkheim (1858-1917) e Max Weber (1864-1920) guiaram a disciplina na direção a que 
Luhmann se referia: direção cética, de reconhecimento da limitação da pretensão 
iluminista e positivista de explicar e reformar a sociedade a partir de uma razão externa, 
superior e inequívoca. A sociologia buscou, com esses autores, uma outra forma de 
objetividade. 
Wilhelm Dilthey, mencionado no início da unidade, foi um dos primeiros 
filósofos a exprimir isso de forma categórica: às ciências humanas não caberia 
explicar seus fatos ou fenômenos “de fora para dentro”, reconstruindo de maneira 
hipotética as variáveis e as causas do seu funcionamento; caberia compreendê-los 
“de dentro para fora”, teorizando de forma a incluir o ponto de vista dos que os 
experienciam. 
A ignorância deliberada ou involuntária sobre este ponto fundamental do 
método científico nas humanidades – a objetividade presente no seu caráter dialético, 
filosófico-hermenêutico e compreensivo – surge disfarçada de acusação de 
irracionalidade contra essas disciplinas. Sérgio Paulo Rouanet já havia escrito sobre 
isto em meados dos anos 1980. É com suas palavras que encerramos essa unidade. 
 
 
 
“Estamos assistindo hoje, em todo o mundo, a tendências que fazem prever o 
advento de um novo irracionalismo. Mas ele é mais perturbador que o antigo, 
porque não está mais associado a posições políticas de direita. A razão não é 
mais repudiada por negar realidades transcendentes — a pátria, a religião, a 
família, o Estado –, e sim por estar comprometida com o poder. […] Para as 
subculturas jovens, a razão é experimentada como se fosse inimiga da vida; 
para alguns teóricos da comunicação, ela está a serviço de um projeto de 
nivelamento e de expulsão da espontaneidade popular; para certos dirigentes 
operários, ela é o álibi com que os intelectuais procuram justificar suas 
ambições de poder; para certos poetas, é uma potência castradora, que quer 
mumificar a emoção e sufocar a arte; para muitos, está encarnada em modelos 
estrangeiros, que querem desfigurar a autenticidade nacional. A fórmula é 
quase sempre a mesma: a prática contém sua verdade imanente e dispensa 
toda teoria, ou admite apenas uma teoria desentranhada da própria prática. 
(ROUANET, 1987, p. 11-12; 17.) 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
16 
 
 
Anti-intelectualismo: suspeição ou hostilidade contra os intelectuais ou 
profissionais do intelecto. 
Cientificismo: crença exagerada na superioridade do método científico. 
Negacionismo: distorção de fatos verídicos para negar determinado aspecto da 
realidade. 
Ceticismo: desconfiança ou recusa de verdades estabelecidas. 
Indução (método): que formula princípios e leis gerais ou universais desde casos 
particulares. 
 Hipotético-dedutivo (método): que prevê resultados particulares a partir de 
modelos teóricos. 
Experimental (método): que analisa um fato ou fenômeno em condições 
estritamente controladas. 
Positivismo: corrente filosófica do final do século XIX disseminada pela obra de 
Comte; 
Alegoria (figura de linguagem): tomar uma coisa, imagem ou ideia como o 
símbolo de outra. 
Metafísica: estudo ou teoria das categorias universais e imutáveis que 
estruturam a realidade. 
Ontologia: teoria ou estudo calcado na abstração da essência transcendental 
dos fenômenos. 
Teleologia: teoria ou estudo do propósito ou finalidade última e transcendental 
dos fenômenos. 
Imanente: que existe inseparável de uma realidade concreta passível de 
experiência. 
Transcendente: que existe para além de toda realidade concreta passível de 
experiência. 
Iluminismo: corrente filosófica do séc. XVIII manifesta nas ideias de Hume, 
Montesquieu, Kant, etc. 
Humanismo: corrente filosófica do século XVI manifesta nas ideias de Erasmo, 
Montaigne, etc. 
Antropocentrismo: concepção de mundo que valoriza o que é humano e 
histórico; 
Revolução Científica: separação do estudo do mundo natural da teologia no 
início da época. 
Dialético (método): que apreende a realidade humana a partir da síntese de 
suas contradições. 
Filosófico-hermenêutico (método): que sempre discute e reinterpreta seus 
próprios conceitos. 
Compreensivo (método): que apreende o sentido objetivo e subjetivo das ações 
dos sujeitos. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
17 
 
 
 
1. O período entre os séculos XVI e XIX foi crucial na história do pensamento ocidental 
e o surgimento das Ciências Sociais. Com referência aos marcos filosóficos 
fundadores do pensamento social no Ocidente, assinale a opção correta. 
a) O Iluminismo se opôs à crítica do Humanismo à autoridade da religião para explicar 
o comportamento humano. 
b) O Positivismo reforçou a postura civilizatória do Iluminismo ingênuo ao valorizar 
somente o método científico tradicional. 
c) O Humanismo renascentista postulou a suprema autoridade da Natureza divina que 
se tornaria a base do Positivismo. 
d) A tradição sociológica contemporânea é a soma dos movimentos filosóficos que a 
precederam. 
e) A sociologia se constitui como ciência através da negação dos movimentos 
filosóficos que a precederam. 
 
 
2. O desenvolvimento de uma ciência da sociedade está relacionado à descoberta das 
relações entre homem, natureza e sociedade. Os filósofos iluministas contribuem para 
esse processo na medida em que 
a) constroem uma visão científica de mundo marcada pela inteligibilidade da natureza. 
b) corroboram os ditames religiosos como necessários à conduta humana. 
c) regulamentam as trocas econômicas a partir de princípios socializantes. 
d) justificam a organizaçãoestamental como modelo da hierarquia social. 
e) salvaguardam as prerrogativas eclesiásticas na organização do Estado. 
 
3. “As ciências sociais não são uma atividade puramente especulativa nem o simples 
reflexo da vida social e política de uma dada época ou coletividade. As disciplinas 
surgidas no século XIX, a partir de uma revolução multifacetada e de projetos de 
colonização, devem seu desenvolvimento a um conjunto de condições intelectuais, 
sociais e institucionais que ainda devem ser elucidadas. ” 
Henry-C. Cuin e François Gresle. História da sociologia. São Paulo: Ensaio, 1994, p. 11 
(Adaptado). 
A partir do fragmento acima, analise os itens que se seguem, relacionados a aspectos 
históricos das ciências sociais. 
I) O advento das modernas tecnologias de informação coincidiu com o surgimento das 
ciências sociais. 
II) A colonização dos países de além-mar foi inspiradora para o surgimento da 
antropologia. 
III) Para os clássicos das ciências sociais era preciso explicar a passagem do mundo 
tradicional para o mundo moderno. 
IV) Os revolucionários da Revolução Francesa, como Danton e Robespierre, são os 
grandes fundadores da sociologia. 
 
 
18 
 
V) Processos de insurgência na América Latina incentivaram o surgimento das 
ciências sociais. 
Estão certos apenas os itens 
a) I e III. 
b) I e IV. 
c) II e III. 
d) II e V. 
e) IV e V. 
 
4. Na ciência, dados do mundo real precisam ser sistemática e cuidadosamente 
coletados através de procedimentos específicos para verificar uma observação. Na 
sociologia essas regras tem um caráter dialético, filosófico-hermenêutico, e 
compreensivo no tocante à relação com o objeto de pesquisa. No que diz respeito a 
cada um desses aspectos do método científico na sociologia, assinale a opção correta. 
a) As hipóteses formuladas no âmbito das ciências humanas tem um caráter mais 
probabilístico do que determinista. 
b) Nas humanidades cumpre escolher uma abordagem quantitativa ou qualitativa, pois 
ambas são incompatíveis. 
c) A sociologia constituiu no século XIX um aparato conceitual pelo qual deduzimos o 
funcionamento da sociedade hoje. 
d) Em sociologia os conceitos e as teorias são continuamente debatidos, o que 
demonstra uma falta de objetividade. 
e) A principal qualidade da pesquisa nas ciências humanas é o estabelecimento de 
um ponto de vista exterior e neutro. 
 
5. As ciências sociais contemporâneas resgatam abordagens clássicas, como aquelas 
relacionadas a classe, ideologia, cultura, entre outras, e atualizam essas ideias com 
novos temas resultantes da complexidade da sociedade atual, como demonstram as 
categorias de análise de gênero, etnia, exclusão social, identidade cultural, entre 
outras. Com relação a esses temas, assinale a opção correta. 
a) A crítica do sexo como categoria determinante do comportamento humano levou à 
desnaturalização da feminilidade e da masculinidade através da noção de gênero. 
b) A raça em sentido biológico continua um fator determinante do comportamento dos 
grupos para a sociologia contemporânea, a refletir autores como Darwin, Lamarck 
e Spencer. 
c) A cultura é um fator secundário na interpretação das ações dos sujeitos, precedida 
por uma natureza humana universal e uma hierarquia fundamental de povos e tipos 
sociais. 
d) A exclusão social é um fenômeno de origem contemporânea, inexistente antes do 
advento da sociedade de consumo, e por isso é inútil compreendê-la 
historicamente. 
e) As categorias estudadas pela sociologia são construtos intelectuais sem relação 
com a realidade empírica, que por isso passam desapercebidas da população leiga. 
 
 
19 
 
 A TRADIÇÃO SOCIOLÓGICA 
CLÁSSICA, PARTE I – MARX 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
UNIDADE
 
 
20 
 
2.1. UMA DISTINÇÃO CRUCIAL: 
O MARXISMO COMO CULTURA POLÍTICA E TRADIÇÃO SOCIOLÓGICA 
 
Que imagem você faz de Marx? O quadro acima se esforça por contextualizar 
minimamente o pensamento de um autor que se encontra tão evidente em canecas, 
camisetas e outras mídias, quanto nos currículos, nas bibliotecas e em famosos 
logradouros públicos ao redor do mundo. Como uma disciplina de introdução à 
sociologia para estudantes relativamente leigos, cumpre esclarecer certas confusões. 
As menções a Marx em nossa vida social são muitas vezes apenas símbolos 
de outras coisas que não necessariamente nos conduzem de volta aos seus textos e 
ideias. A sociologia por seu turno é uma das disciplinas acadêmicas que há muito se 
especializaram em refazer esse percurso, junto da história e da economia. Vejamos 
algumas dessas aparições vulgares, o que elas sugerem sobre o autor e suas ideias. 
 
Que Marx são esses? 
 
 
Diferentes camisetas com estampas contendo referências ao autor e ao seu pensamento: 
sobre o fundo vermelho, frases atribuídas ao próprio Marx; sobre o fundo branco, piadas e protestos. 
 
A terceira camiseta da segunda fileira contém somente um gracejo. A segunda 
da primeira fileira vai um pouco além do trocadilho. Quem diz “party” em inglês diz 
“partido” ou “festa” dependendo do contexto. Por isto Marx é representado numa festa 
com Fidel, Mao, Lênin e Stálin, líderes comunistas históricos. A representação faz 
 
 
21 
 
sentido, ao menos em parte. 
Marx não foi o líder de um Estado comunista, mas em seus escritos políticos, 
postulou a estatização dos meios de produção mais tarde encampada por aqueles 
líderes em seus países. Além disso foi como os demais uma figura de culto do 
comunismo internacional do século XX. Apenas seria absurdo tomar a cena como 
alegoria de uma total congruência das ideias dos personagens, extrapolando o 
trocadilho. 
Saibamos separar o que é de Marx do que não é de Marx: as ideias 
“marxianas” (sim, esse é um termo utilizado na literatura acadêmica) dos diferentes 
“marxismos”, políticos e sociológicos, que as sucederam. E a propósito, apontam para 
algumas dessas ideias as camisetas acima que lhe atribuem certas frases. São suas 
palavras mesmo? De que parte de sua obra? Onde as encontramos e o que dizem 
ali? 
“A luta de classes é o motor da história” pode ser entendida como uma 
paráfrase da sentença de abertura da primeira seção do Manifesto Comunista: “Até 
hoje, a história de toda sociedade é a história das lutas de classes”. A crítica aos 
filósofos e os juízos sobre a dinâmica histórica reproduzem de forma quase literal 
passagens-chave de A ideologia alemã e O 18 Brumário de Luís Bonaparte, 
respectivamente. 
Quem não reconhecer essas referências e não for capaz de acompanhá-las, 
tenderá a confundir a luta de classes com a luta política; a conceber uma apologia da 
ação em detrimento da contemplação; a crer que Marx afirme que a história é cíclica, 
ou que uma força exterior dirija as ações humanas. Essas ideias possuem um sentido 
mais sofisticado e preciso dentro da teoria marxiana. 
E existem as camisetas que marcam uma posição contrária com palavras de 
ordem. Você pode discordar da interpretação que Marx fez do capitalismo, mas dizer 
que este o “deturpou” é encará-lo como um credo, não como um sistema econômico 
e social. “Menos Marx, mais Mises”, onde? Em um curso de economia? Nas 
universidades? Na agenda político-econômica do Estado brasileiro? Na vida social? 
Um contraste entre as ideias de Karl Marx e Ludwig Von Mises (1881-1973), 
exponente da escola austríaca de economia, não é um “jogo de soma zero”. Para os 
que verdadeiramente buscam pensar uma teoria do valor, dos ciclos econômicos de 
crescimento e crise, da organização da produção, e da distribuição de renda, Marx é 
 
 
22 
 
incontornável, como o restante dos economistas clássicos. 
 
“A defesa da sentença ‘Menos Marx, Mais Mises’ não deve ser interpretada, 
de modo algum, como um clamor por ‘Nenhum Marx, Apenas Mises’, nem 
servir como justificativa para que o pensamento marxista não seja estudado 
ou sofra algum tipo de censura que o proíba. […] Adotar uma postura 
antimarxista radical, negligenciando as importantescontribuições filosóficas, 
políticas e econômicas de Karl Marx para o pensamento ocidental, seria um 
erro completamente inapropriado e injustificável. ” (CATHARINO, 2016, p. 
10) 
 
Nesta unidade você conhecerá as principais contribuições de Marx para a 
teoria sociológica, histórica e econômica (em menor grau). Você terá um panorama 
geral dos principais conceitos e obras do autor, assim como do desenvolvimento que 
tiveram na obra de seus principais continuadores nos planos político e intelectual. 
Essas vertentes caminham juntas, mas não devem ser confundidas. 
 
2.2 ALGUNS CONCEITOS IMPORTANTES: LUTA DE CLASSES, MODO DE 
PRODUÇÃO, MAIS-VALIA, FETICHISMO DA MERCADORIA, REIFICAÇÃO E 
ALIENAÇÃO 
 
O Manifesto Comunista escrito por Marx e Engels é mais do que um panfleto 
político: é além disso a versão sintética e didática de uma teoria acerca da sociedade 
e da história que os dois vinham amadurecendo em escritos anteriores, e que depois 
será densamente elaborada por Marx de forma em O Capital. Por isso o Manifesto é 
uma via de acesso aos principais pontos da teoria marxista. 
De uma perspectiva política, o manifesto é a defesa de um socialismo radical 
que lutaria pela posse comunal dos meios de produção da vida material e pelo fim da 
propriedade privada. O panfleto busca, todavia, sustentar esse ideal de luta a partir de 
uma teoria sociológica sobre o surgimento, o desenvolvimento e o funcionamento do 
capitalismo. É sobretudo essa teoria que interessa compreender aqui. 
Subjacente às diversas formas manifestas de organização dos grupos 
humanos, Marx e Engels observam uma divisão fundamental, do ponto de vista da 
relação com os meios de produção, entre três grandes classes sociais: a classe 
trabalhadora, a classe média, e a classe proprietária ou exploradora. Note que as 
classes sociais nesse sentido são estratos ou camadas sociais, não grupos. 
Portanto, a luta de classes não é uma luta política entre grupos ou facções: é 
 
 
23 
 
um fenômeno social e histórico. Marx e Engels argumentam então que este fenômeno 
é responsável em última instância por todas as grandes transformações históricas da 
humanidade: a ascensão e a queda dos impérios, os grandes fluxos migratórios e os 
empreendimentos coloniais, e assim sendo, o “motor” da história universal. 
A luta ou o conflito imanente a esta estrutura de classes é aquele que opõe a 
classe trabalhadora à classe proprietária na distribuição dos resultados da produção. 
A classe média é (como o nome mesmo diz) a classe no meio deste conflito. Não se 
confunde com a classe trabalhadora – pois não vive da venda da sua força de trabalho 
– e nem com a classe proprietária – pois não é dona dos meios de produção. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Outro conceito característico da sociologia de Marx é o modo de produção: a 
composição, dominante numa determinada época histórica, entre forças produtivas e 
relações sociais de produção. As forças produtivas significam grosso modo o estágio 
tecnológico de uma determinada sociedade, e as relações sociais de produção 
significam grosso modo a forma típica do trabalho numa dada sociedade. Melhor 
dizendo: 
“As forças produtivas são as edificações e os meios utilizados no processo de 
produção: meios de produção, de um lado, e força de trabalho, de outro. Os 
meios de produção são recursos produtivos físicos: ferramentas, maquinária, 
matéria-prima, espaço físico etc. A força de trabalho inclui não apenas a força 
física dos produtores, mas também suas habilidades e seu conhecimento 
técnico (que eles necessariamente não dominam), aplicados quando 
trabalham. […] As relações de produção são relações de poder econômico 
sobre a força de trabalho e os meios de produção, de cujo privilégio alguns 
gozam, enquanto os demais carecem. Em uma sociedade capitalista, as 
relações de produção incluem o poder econômico que os capitalistas detêm 
sobre os meios de produção, o poder econômico que os trabalhadores (ao 
contrário dos escravos) possuem sobre sua própria força de trabalho e a 
ausência de poder econômico dos trabalhadores sobre os meios de produção. 
” (COHEN, 2010, p. 64-65). 
 
As classes sociais na sociologia marxista são definidas pela sua relação com os 
meios de produção. A classificação corriqueira nos noticiários de economia – entre 
as classes A, B, C, D e E – é um modelo relativo à renda e ao consumo. Os dois 
modelos de classificação são congruentes, mas tem conotações políticas distintas. 
O modelo economicista enfatiza a mobilidade social, enquanto o modelo marxista 
enfatiza a dependência do, e as condições de trabalho. Do ponto de vista da luta 
política, o primeiro é dispersivo, e o segundo, polarizador. 
 
 
24 
 
Marx foi um grande estudioso da economia política clássica, ávido leitor de 
Adam Smith (1723-1790), Thomas Malthus (1766-1834), David Ricardo (1772-1823), 
entre outros. Deles reteve a noção de que o valor da mercadoria é determinado pela 
quantidade de trabalho socialmente necessário para a sua produção, divergindo 
fundamentalmente na explicação do lucro. 
Ao contrário dos economistas neoclássicos seus contemporâneos, Marx 
postulou que a diferença no valor das mercadorias não se devia fundamentalmente à 
diferença na satisfação relativa produzida pelo seu consumo (teoria do valor 
subjetivo), mas na apropriação desigual do excedente de trabalho não pago pelos 
proprietários dos meios de produção. Marx a isso denominou “mais-valia”. 
Os economistas clássicos escreveram sobre o capitalismo do ponto de vista 
de uma burguesia iluminista revolucionária que invocava a explicação das leis da 
natureza contra o despotismo dos reis absolutistas. Marx por sua vez observava um 
capitalismo no qual a burguesia havia se tornado a classe dominante, por isso 
questionava a naturalização do sistema de valor das mercadorias e da propriedade 
privada. 
As relações de troca, segundo Marx, não são a expressão do valor verdadeiro 
das mercadorias. Este é o produto de um “trabalho morto”, como o denomina Max, 
que se tornou intangível. A grande questão filosófica para Marx é explicar, como sendo 
o trabalho aquilo o que importava, poder-se-ia admitir que o valor fosse atribuído 
diretamente às coisas na sua relação com outras coisas (insumos, dinheiro, etc.). 
 
“O resultado é que uma ‘relação social determinada entre os próprios homens 
(…) assume, para eles, a forma fantasmagórica de uma relação entre coisas’. 
E é essa condição que define o ‘fetichismo, que se cola aos produtos do 
trabalho tão logo são produzidos como mercadorias e que, por isso, é 
inseparável da produção de mercadorias’. Isso acontece, diz ele, porque ‘os 
produtores só travam contato social mediante a troca de seus produtos do 
trabalho’, de modo que […] eles não sabem nem podem saber qual é o valor 
de sua mercadoria antes de levá-la ao mercado e efetivar sua troca. ’ A estes 
últimos (os produtores), as relações sociais entre seus trabalhos privados 
aparecem […] como relações reificadas entre pessoas e relações sociais entre 
coisas’. (HARVEY, 2013, formato ebook; citações de Marx). 
 
 
 
 
 
 
25 
 
Esse fetichismo da(s) mercadoria(s) instalado no cerne da sociedade 
capitalista é o resultado de uma condição de alienação inerente ao trabalho que é 
essencial ao funcionamento do capitalismo moderno. Esta etapa do capitalismo se 
caracterizou pela generalização do aspecto mercantil a todas as relações de produção 
e pela transformação do próprio trabalho em mercadoria. 
Quando a única forma que o trabalho assume para o trabalhador é a da 
mercadoria, este se encontra, por assim dizer, alienado do seu próprio trabalho. A 
condição essencial para a troca de mercadorias no capitalismo moderno é a 
descaracterização de todo trabalho concreto, a sua transformação em trabalho 
abstrato, abstraído do conjunto das experiências reais que ele um dia encarnou. 
O trabalho que produziu a mercadoria e foi responsável por gerar oseu valor 
existe no produto agora apenas como resíduo genérico, despojado das suas 
particularidades afetivas, reconhecível apenas, nas palavras de Marx, como uma 
“geleia de trabalho humano”. Talvez o exemplo mais dramático desse fenômeno tenha 
sido registrado pela literatura, em As Vinhas da Ira, de John Steinbeck (1902-1968). 
 
“Nas casinhas em que moravam, os arrendatários reuniam o que lhes 
pertencia e o que pertencera a seus pais e a seus avós. Preparavam-se para 
a grande viagem rumo ao oeste. (…) Carroças, armações, sementeiras, 
enxadas em penca. Tragam tudo. Juntem tudo. Ponham tudo no caminhão. 
Levem tudo para a cidade. Vendam tudo por quanto puderem. […] cinquenta 
cents [centavos] não é bastante por um arado. Essa sementeira aí custou 38 
dólares. Dois dólares são muito pouco. [...] Bem, leve tudo, todos esses troços, 
me dê 5 dólares por tudo, ‘tá bem? […] Não posso levar tudo de volta, bem, 
aceito os quatro dólares mesmo. Mas eu o estou prevenindo: o senhor está 
comprando as nossas próprias vidas. O senhor não vê isto, não quer ver isto” 
(STEINBECK apud DOMINGUES, 2015). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A cena é um diálogo de um camponês com um vendedor numa pequena cidade dos 
Estados Unidos durante a Grande Depressão. O que o vendedor é acusado de não 
enxergar nos objetos que tentam lhe vender? Por que o camponês não entende o 
valor dos objetos a partir do mercado? O vendedor não quer ver ou não seria capaz 
de ver o valor dos objetos para além do seu valor de mercado? No segundo caso, 
por que não seria capaz de vê-lo? O que o impediria de antemão? 
 
 
26 
 
2.3 ALGUMAS DIMENSÕES TEÓRICAS IMPORTANTES: O MATERIALISMO 
 HISTÓRICO E DIALÉTICO, CONHECIMENTO CONTRA IDEOLOGIA, 
MUDANÇA SOCIAL E REVOLUÇÃO 
 
Marx foi um herdeiro dos ideais iluministas que criticou as próprias bases do 
conhecimento filosófico de sua época. O principal alvo de suas críticas nesse sentido 
foi a dialética filosófica de Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831). Na mocidade, 
Marx foi um “jovem hegeliano” na Alemanha. Quando se muda para a França e trava 
contato com Friedrich Engels, aprofundando o seu envolvimento com o movimento 
operário, Marx terminará por formular, alternativamente, uma filosofia da práxis. 
Em 1846 os dois concluíram um manuscrito alinhavando as suas críticas à 
filosofia alemã que, entretanto, não encontrou editor à época, somente sendo 
publicado postumamente em 1932, sob o título A ideologia alemã. A sua crítica 
consistia em denunciar o aspecto abstrato do hegelianismo, postulando uma inversão 
da sua lógica dialética, sem, todavia, descartá-la. 
A dialética era o método filosófico praticado por Platão e inspirado por 
Sócrates. Trata-se de apresentar uma ideia e desenvolvê-la em diálogo com ideias 
contrárias que aos poucos se complementam até alcançar o que é essencial, que não 
varia conforme as circunstâncias. Hegel interpretou a dialética não apenas como um 
método argumentativo, mas como uma forma de compreender o movimento da 
história. 
O principal exemplo da dialética histórica de Hegel é a sua teoria do Estado. 
Para Hegel, a família corresponde à ordem moral primeira, original e natural, da qual 
decorre, por agregação, a sociedade civil, enquanto a associação dos indivíduos que 
se regem por regras impessoais e universais, independente de seus pertencimentos 
familiares. O conflito dialético entre família e sociedade civil culminaria no Estado. 
Marx reconhece o curto circuito nessa explicação. Hegel pressupõe o Estado 
como o gestor do direito público e privado, e isso faz com que ele busque, 
retroativamente, na família e na sociedade civil, em abstrato, a sua gênese. 
 
“Falta a Hegel, em verdade, não uma boa lógica, mas um modo de determinar 
‘a maneira racional, adequada, de subsunção’, quer dizer, um critério que dê a 
cada categoria lógica uma necessidade ontológica. Para Marx, um tal critério, 
se desenvolvido no interior do próprio pensamento, produz apenas 
tautologias, razão pela qual ele deve ser buscado na realidade empírica. 
 
 
27 
 
Assim, libertado de sua redução especulativa a simples ‘manifestação’ a Ideia 
lógica, e reconduzido à sua posição originária como verdadeiro sujeito, caberá 
ao próprio real a tarefa de guiar com segurança o pensamento rumo a sua 
realização” (ENDERLE, 2010, formato ebook). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A dialética de Marx é uma versão reformulada da dialética hegeliana ancorada 
na observação das condições históricas e materiais de existência das populações 
humanas, donde a denominação que melhor se lhe aplica é o materialismo histórico-
dialético. E como talvez você já possa ter percebido, tal método deriva da junção das 
suas críticas ao hegelianismo, de um lado, e aos economistas clássicos, de outro. 
Talvez a explicação mais articulada e concisa do método marxista tenha sido 
formulada por ele nessa famosa passagem da introdução ao seu livro Contribuição à 
crítica da Economia Política, de 1859. Nela encontramos não apenas a distinção entre 
a infraestrutura e a superestrutura da sociedade, como consequência da perspectiva 
materialista, mas também um bom resumo de sua teoria da revolução. 
 
 
Talvez você queira assistir O jovem Karl Marx do cineasta 
haitiano Raoul Peck como uma forma didática de conhecer um 
pouco sobre o autor. O filme cobre a sua vida em Paris, o início 
da amizade com Friedrich Engels, e a redação do Manifesto 
Comunista. Mas em se tratando de uma obra de ficção, vale a 
pena checar a análise dos erros e acertos do filme feita por 
Michael Heinrich, eminente biógrafo de Marx, para o blog da 
editora Boitempo. No canal da mesma editora no Youtube, 
você encontrará muitos bons vídeos sobre Marx e marxismo. 
Segue uma pequena seleção de três vídeos curtos do canal 
sobre Marx: 
• “Jovem Marx”, por Michel Löwy; 
• “O conceito de Ideologia", por Mauro Iasi; 
• “O Capital, de Max: gênese e estrutura da obra”, por Jorge 
Grespan. 
 
 
28 
 
 “[…] na produção social da própria existência, os homens entram em relações 
determinadas, necessárias, independentes de sua vontade; essas relações 
de produção correspondem a um grau determinado de desenvolvimento de 
suas forças produtivas materiais. A totalidade dessas relações de produção 
constitui a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se 
eleva uma superestrutura jurídica e política e à qual correspondem formas 
sociais determinadas de consciência. O modo de produção da vida material 
condiciona o processo de vida social, política e intelectual. Não é a 
consciência dos homens que determina o seu ser; ao contrário, é o seu ser 
social que determina sua consciência. Em uma certa etapa de seu 
desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em 
contradição com as relações de produção existentes, ou, o que não é mais 
que sua expressão jurídica, com as relações de propriedade no seio das quais 
elas se haviam desenvolvido até então. De formas evolutivas das forças 
produtivas que eram, essas relações convertem-se em entraves. Abre-se, 
então, uma época de revolução social. A transformação que se produziu na 
base econômica transforma mais ou menos lenta ou rapidamente toda a 
colossal superestrutura. […] Do mesmo modo que não se julga o indivíduo 
pela ideia que de si mesmo faz, tampouco se pode julgar uma tal época de 
transformações pela consciência que ela tem de si mesma. É preciso, ao 
contrário, explicar essa consciência pelas contradições da vida material, pelo 
conflito que existe entre as forças produtivas sociais e as relações de 
produção. Uma sociedade jamais desaparece antes que estejam 
desenvolvidas todas as forças produtivas que possa conter, e as relações de 
produção novas e superiores não tomam jamais seu lugar antes que as 
condições materiais de existência dessas relações tenham sido incubadas no 
próprio seio da velha sociedade. Em grandes traços, podem ser os modosde 
produção asiático, antigo, feudal e burguês moderno designados como outras 
tantas épocas progressivas da formação da sociedade econômica” (MARX, 
2008 [1859], p. 47-48). 
 
Compreenda que Marx não despreza o papel das ideias na manutenção de 
uma determinada ordem social. Ele argumenta que em última instância essas ideias 
são a expressão de condições materiais e relações sociais preexistentes. No tocante 
a sua crítica da teoria do Estado de Hegel: não é o Estado que torna possível a 
existência da sociedade, mas a sociedade que torna possível a existência do Estado. 
A toda forma de conceber o mundo que obscureça as determinações que as 
relações sociais em suas condições materiais de existência exercem sobre a dinâmica 
das ideias, Marx classificou como “ideologia”. Nesse sentido, a tradição marxista 
popularizou a definição da ideologia como “falsa consciência”, embora o termo ainda 
se confunda muito no senso comum com a ideia de uma manipulação deliberada. 
 A ideologia é a expressão de uma consciência alienada, que ignora ou 
desconhece as determinações sobre a sua própria ação e o seu próprio pensamento. 
Na sua teoria da revolução social, Marx postula que as sociedades se transformam 
pela intensificação das contradições inerentes ao seu modo de produção numa 
determinada época histórica, que não podem mais ser encobertas pela ideologia 
 
 
29 
 
dominante. 
Ao analisar a história econômica e social desde a antiguidade até a sua época, 
Marx acreditava não só ser possível de descrever o processo que levou ao surgimento 
do capitalismo, como aquele que levaria à sua necessária superação. 
 
Evolução histórica dos modos de produção 
 
A seta contínua que corresponde à hipotenusa dos triângulos menores representa o 
desenvolvimento das forças produtivas. As setas duplas formando um ângulo agudo representam o 
desenvolvimento das relações sociais de produção. As perpendiculares representam as revoluções 
sociais que transformam os modos de produção à medida que as anteriores divergem. 
 
2.4 LEGADO E RESSONÂNCIA 
 
O horizonte derradeiro do capitalismo parece muito mais distante atualmente 
do que supunha Marx inicialmente. O autor talvez tenha falhado em prever as 
sucessivas adaptações pelas quais o capitalismo passaria na sua evolução dialética. 
Isso não significa que as contradições estruturais que ele detectou pela primeira vez 
no seio do capitalismo tenham se tornado irrelevantes. 
Ao longo do século XX, enquanto o marxismo soviético – de Lênin, Trotsky e 
Stálin – faziam uma leitura política da teoria da revolução de Marx em direção ao 
socialismo de Estado, o marxismo ocidental – de Walter Benjamin, György Lukács, 
Antônio Gramsci, dos pensadores identificados à Escola de Frankfurt, como Max 
Horkheimer, Theodor Adorno, Herbert Marcuse – tratava de expandir a sua teoria 
social. 
 
 
30 
 
Um dos principais desenvolvimentos da sociologia marxista no século XX foi 
a incorporação do consumo mercadológico e da massificação da cultura ao escopo 
das análises marxistas. Existe nesse sentido uma teoria cultural marxista, uma 
sociologia da cultura marxista – muitas vezes apoiada na obra de Gramsci e dos 
frankfurtianos – mas não o que diversos grupos conservadores ao redor do mundo 
insistem em chamar de “marxismo cultural”. 
O rótulo não passa da atualização do “bolchevismo cultural”, aquele que os 
nazistas tanto repudiaram na primeira metade do século passado, associando-o à 
difusão da arte moderna: saí o ataque à “estética degenerada”, entra a crítica ao 
multiculturalismo e à “ideologia de gênero”. Fato é que nenhuma dessas duas 
perspectivas é particularmente marxista. 
O que existe apenas é uma afinidade entre o marxismo como teoria social e 
como teoria política com o campo político da esquerda. Isso porque à maneira de um 
iluminismo reformado, o marxismo sempre se viu enquanto uma filosofia da 
emancipação humana. Não de uma emancipação individual, e sim de uma 
emancipação social, capitaneada por uma classe específica: a classe trabalhadora. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Leia o artigo de Isabela Petrini Moya contextualizando a noção de marxismo 
cultural da perspectiva de ambos os espectros do campo político. Sobre o legado 
teórico e político de Marx no bicentenário de seu nascimento em 2018, assista o 
vídeo do jornalista Breno Altman, do portal de notícias Opera Mundi, no canal 
homônimo do Youtube. Também disponível na mesma plataforma há um vídeo 
muito interessante na sua transição para a próxima unidade: a entrevista em duas 
partes do professor e sociólogo Gabriel Cohn sobre Karl Marx e Émile Durkheim. 
 
 
31 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Marxiano vs. marxismo e marxista: termos que distinguem entre as ideias de 
Marx e a partir dele. 
Jogo de soma 0: operação em que o sucesso de um lado equivale ao fracasso 
do outro. 
Meios de produção: conceito que abarca força de trabalho e forças produtivas 
na teoria marxista. 
História universal: perspectiva teórica da totalidade dos fatos humanos em 
todas as épocas. 
Economia política: estudo da produção e comércio ligado ao governo e a 
distribuição da riqueza. 
Reificação: visão das ideias e das relações sociais como coisas fechadas e 
autodeterminadas. 
Grande Depressão: grave período de crise econômica nos EUA que sucedeu à 
crise de 1929. 
Práxis: a atividade humana percebida do ponto de vista da relação dialética entre 
teoria e prática. 
Dialética: observação da dimensão essencialmente conflituosa e contraditória 
dos fatos humanos. 
Tautologia: erro de lógica que enuncia resposta ou prova apenas repetindo as 
premissas. 
Bolchevismo: doutrina política associada aos bolcheviques da Revolução Russa 
de 1917. 
Ideologia de gênero: falácia de atribuir a identidade sexual desviante a 
influências ideológicas. 
 
 
 
32 
 
 
 
1. Karl Marx foi profundamente influenciado pela tendência historicista do pensamento 
social alemão. De acordo com essa tendência, a existência social é um processo, cada 
período histórico e cada estrutura social são únicos e devem ser entendidos por meio 
de leis que valem somente para eles. Marx, em seus estudos sobre a dinâmica 
capitalista, rompe a seu modo com esse postulado. Considerando as reflexões de 
Marx acerca desse tema, julgue os itens a seguir. 
I. Marx rejeitou a interpretação predominantemente idealista do historicismo no que 
tange ao conteúdo do processo social, afirmando que os acontecimentos decisivos se 
dão no âmbito das relações sociais, e não na esfera da evolução das ideias. 
II. Marx considerava o capitalismo apenas como um sistema econômico, sem 
considerar seus efeitos sobre fenômenos tais como a ciência e a tecnologia. 
III. Marx se preocupou em explicar o desenvolvimento de um sistema econômico que 
combina os seguintes atributos: concentração dos meios de produção nas mãos de 
um pequeno segmento da população; realização do trabalho por uma massa de 
trabalhadores livres; incessante inovação técnica do sistema de produção; ganho 
ilimitado como objetivo da ação econômica. 
IV. A ação social, segundo Marx, guia-se exclusivamente pelo interesse de classe, 
não havendo possibilidade de que esta seja influenciada por crenças e visões de 
mundo, isto é, por ideologias. 
Estão certos apenas os itens 
A) II e III. 
B) I e IV. 
C) II, e IV. 
D) I e III. 
E) I e II. 
 
2. Onde quer que tenha conquistado o poder, a burguesia calcou aos pés as relações 
feudais, patriarcais e idílicas. Todos os complexos e variados laços que prendiam o 
homem feudal a seus “superiores naturais” ela os despedaçou sem piedade, para só 
deixar subsistir, de homem para homem, o laço do frio interesse, as duras exigências 
do “pagamento à vista”. A burguesia só pode existir com a condição de revolucionar 
 
 
33 
 
incessantemente os instrumentos de produção, por conseguinte, asrelações de 
produção e, com isso, todas as relações sociais. […] Essa revolução contínua da 
produção, esse abalo constante de todo o sistema social, essa agitação permanente 
e essa falta de segurança distinguem a época burguesa de todas as precedentes. 
Dissolvem-se todas as relações sociais antigas e cristalizadas, com seu cortejo de 
concepções e de ideias secularmente veneradas, as relações que as substituem 
tornam-se antiquadas antes de se ossificar. Tudo que era sólido e estável se esfuma, 
tudo o que era sagrado é profanado e os homens são obrigados finalmente a encarar 
com serenidade suas condições de existência e suas relações recíprocas. […] As 
relações burguesas de produção e de troca, o regime burguês de propriedade, a 
sociedade burguesa moderna, que conjurou gigantescos meios de produção e de 
troca, assemelham-se ao feiticeiro que já não pode controlar as potências infernais 
que pôs em movimento com suas palavras mágicas. 
MARX, K.; ENGELS, F. Manifesto do partido comunista. (com adaptações). 
A partir do texto acima e considerando as ideias de Marx e Engels, baseadas numa 
perspectiva dialética, avalie as afirmações que se seguem. 
I. A burguesia não desempenhou um papel revolucionário na história. 
II. A classe social burguesa e a classe proletária surgiram a partir da sociedade 
capitalista. 
III. Nas sociedades capitalistas as relações sociais estão em constante transformação. 
IV. O proletariado possui a missão histórica de negar e superar a sociedade capitalista. 
É correto apenas o que se afirma em 
A) II, III e IV. 
B) I e III. 
C) II e IV. 
D) I, III e IV. 
E) I e IV. 
 
3. Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem 
sob circunstâncias de sua escolha, e sim sob aquelas com que se defrontam 
diretamente, ligadas e transmitidas pelo passado. 
– MARX, K. O Dezoito Brumário de Louis Bonaparte. São Paulo: Centauro, 2006.) 
O trecho de autoria de Karl Marx expressa as características principais do método de 
 
 
34 
 
análise da sociedade intitulado por ele de materialismo histórico dialético. Sobre esse 
método, analise as afirmativas a seguir. 
I. Busca compreender a sociedade a partir da relação pela qual os bens de produção 
são distribuídos entre seus integrantes. 
II. As condições socioeconômicas (infraestrutura) acabavam determinando como a 
cultura, o regime político, a moral e os costumes (superestrutura) se configurariam. 
III. Seria uma das molas propulsoras fundamentais que alimentariam as 
transformações históricas. 
IV. A análise materialista histórica parte da questão de que a produção e dominação 
são os pilares de toda a ordem social. 
Estão corretas as afirmativas 
A) I, II, III e IV. 
B) II e III, apenas. 
C) II e IV, apenas. 
D) I, II e III, apenas. 
E) I e III, apenas. 
 
4. Um dos importantes pensadores sobre as relações de trabalho no capitalismo foi 
Karl Marx; ele produziu um conjunto de ideias e conceitos a respeito dessa temática. 
A charge apresenta uma situação vivenciada por milhares de trabalhadores em todo 
mundo. 
 
 
 
 
(Disponível em: http://ria-muito.blogspot.com/2012/06/30-tirinhas-frank-ernest.html.) 
Relacionando a charge com os conceitos desenvolvidos por Karl Marx, é correto 
afirmar que ela se relaciona a: 
A) alienação. 
B) mais-valia. 
C) exploração. 
D) proletarização. 
E) fetichismo da mercadoria 
 
 
 
35 
 
5. As formulações teóricas de Karl Marx acerca da vida social, especialmente a análise 
que faz da sociedade capitalista e sua superação, provocaram desde o princípio 
tamanho impacto nos meios intelectuais que, para alguns, grande parte da sociologia 
ocidental tem sido uma tentativa incessante de corroborar ou de negar as questões 
por ele levantadas. (OLIVEIRA e QUINTANEIRO, 2002, p. 27.) 
Recentemente, na conjuntura política nacional, o pensamento marxista tem sido 
colocado por setores partidários e políticos como doutrinação, sendo chamado 
“marxismo ideológico”. Entretanto, o próprio Karl Marx tinha uma visão crítica sobre a 
concepção de ideologia. Para Karl Marx, a ideologia pode ser definida como: 
A) essência da vida. 
B) falsa consciência. 
C) produto alienado. 
D) conjunto de ideias. 
E) posicionamento político. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
36 
 
A TRADIÇÃO SOCIOLÓGICA 
CLÁSSICA, PARTE II – 
DURKHEIM 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
UNIDADE
 
 
37 
 
3.1 DE MARX A DURKHEIM: UMA PRÉ-HISTÓRIA DA INSTITUCIONALIZAÇÃO DA 
SOCIOLOGIA 
 
Marx estudou direito e filosofia, viveu como publicista e ativista político, tendo 
escrito em vários momentos como um sociólogo avant la lettre. De fato, pertence à 
geração de precursores da sociologia acadêmica e universitária que surgiria na 
Europa mais tarde. O primeiro departamento de Ciências Sociais surgiu na França em 
1887 na Universidade de Bourdeaux. Durkheim era o seu professor de sociologia. 
Um pensamento sociológico em sentido amplo vinha ganhando corpo desde o 
início do século XIX, ligado ao socialismo político. Na França, as ideias de Jean Jacques 
Rousseau (1712-1778) sobre a origem das desigualdades, a Revolução Francesa de 
1789 e o advento do capitalismo industrial no país, levaram pensadores como o Conde 
Henri de Saint-Simon (1760-1825) ver a estrutura social a partir da produção. 
Marx criticou Saint-Simon e outros industrialistas como Robert Owen na 
Inglaterra por sustentarem que os principais problemas sociais de seu tempo eram o 
produto de um mal funcionamento do capitalismo, argumentando com sucesso que isso 
fazia parte do funcionamento normal do sistema. Marx e Engels opunham a esse 
“socialismo utópico” um “socialismo científico” de base empírica e filosófica. 
Todas essas ideias expressam um viés sociológico sobre a economia política, 
mas ainda não configuram de forma precisa um objeto exclusivo para a sociologia. Um 
primeiro passo nessa direção foi dado por Auguste Comte (1798-1857), que havia sido 
secretário pessoal de Saint-Simon. Com o seu Curso de Filosofia Positiva de 1842, ele 
popularizou o termo “sociologia” e ampliou o seu objeto para além da economia. 
 
“Montesquieu e Tocqueville atribuem uma certa primazia à política, à forma 
do Estado; Marx, à organização econômica. A doutrina de Auguste Comte se 
baseia na ideia de que toda sociedade se mantém pelo acordo dos espíritos 
[isto é, das ideias na mente das pessoas]. Só há sociedade na medida em 
que seus membros têm as mesmas crenças. É a maneira de pensar que 
caracteriza as diferentes etapas da humanidade, e a etapa final será marcada 
pela generalização triunfante do pensamento positivo [isto é, racional, 
empírico e científico]” (ARON, 2000, p. 71). 
 
 
 
 
 
Leia o artigo da professora Lelita Benoit na Revista Cult para uma radiografia das 
ideias de Comte. 
 
 
38 
 
Comte escrevera de um modo bastante doutrinário. O seu objetivo era 
conclamar os intelectuais franceses de sua época numa determinada direção de 
reforma social. As ideias de Comte se tornaram muito populares a partir de 1870, com 
o início da Terceira República Francesa, e mais tarde influenciariam o ambiente 
intelectual da Primeira República no Brasil. É esse o cenário em que Durkheim se tornou 
professor. 
O curso de Ciências Sociais e Pedagogia da Universidade de Bourdeaux tinha 
o objetivo de formar professores e profissionais para atuar na reforma do sistema 
educacional francês em curso no momento. A disputa política pela expansão e 
laicização do sistema educacional francês durou até o começo do século XX, quando 
Durkheim, já professor na Sorbonne, em Paris, foi conselheiro do Ministério da 
Educação. 
Entre 1895 e 1912, entre a publicação original de As regras do método 
sociológico e de As formas elementares da vida religiosa, Durkheim tornou-se a grande 
autoridade francesa no estudo da sociologia. Os seus livros definiram um conjuntode 
fenômenos e um método de investigação próprio da sociologia, distinguindo os “fatos 
sociais” entre os diversos tipos de fatos humanos. 
Durkheim inaugura por sua vez uma linhagem acadêmica, uma forma de pensar 
e de escrever sociologia autônoma, completamente distinta da filosofia, da economia 
política, da história e da psicologia. Ao mesmo tempo, a fase seguinte de sua obra 
seguirá um caminho diferente, que fará com que esta seja incorporada, menos à 
sociologia moldada pela fase anterior, do que à nova ciência da antropologia. 
 
3.2 UMA DISTINÇÃO CRUCIAL: A LEITURA DE DURKHEIM NA SOCIOLOGIA E NA 
ANTROPOLOGIA 
 
Nesta unidade você se concentrará no estudo das contribuições de Durkheim 
para a sociologia, mas não podem passar desapercebidas algumas de suas 
contribuições no âmbito da antropologia, até porque, essa separação não existe no 
pensamento do autor. Durkheim continuou praticando e escrevendo sociologia, mais 
suas ideias subsequentes foram incorporadas mais lentamente à disciplina, e em certas 
áreas. 
 
 
39 
 
Sumariamente, os sociólogos estão mais familiarizados com a obra anterior de 
Durkheim. Da divisão do trabalho social e As regras do método sociológico colocaram 
no centro do debate sociológico a questão da ordem e da solidariedade social, ou seja, 
da relação entre a sociedade enquanto coletividade moral e os indivíduos em seus 
sistemas de relações recíprocas. 
Já para os antropólogos, As formas elementares da vida religiosa é o principal 
livro de Durkheim. Mas para compreender a razão disso, é preciso antes entender 
melhor o contexto de formação da própria antropologia. Se o campo teórico da 
sociologia foi se constituindo como uma forma de explicar os fenômenos da sociedade 
capitalista moderna, o da antropologia o fez tentando explicar a razão da diversidade 
humana. 
A curiosidade e a vontade de explicar as diferenças entre os diferentes povos 
humanos é de todas as culturas, de todas as épocas, e para tanto há sempre um enorme 
repertório de mitos mais ou menos fantásticos. Mas com as grandes navegações e o 
avanço da cartografia, o mundo conhecido foi ficando geograficamente bem delimitado, 
de modo que a totalidade das diferenças pode ser vista sistematicamente. 
A medida que o moderno colonialismo europeu legitimado pelo imperativo 
religioso de difusão do cristianismo foi perdendo força, um novo colonialismo baseado 
na difusão dos padrões culturais da Civilização o sucedeu. É nesse momento que o 
campo teórico, acadêmico e científico da antropologia se constituiu, profundamente 
marcado pelo evolucionismo da biologia, e animado pelo estudo comparativo das 
religiões. 
 
“A Antropologia é filha do imperialismo ocidental. Ela tem raízes nas visões 
humanistas do Iluminismo, mas, como disciplina universitária e Ciência 
Moderna, surgiu nas últimas décadas do século XIX e do início do século XX. 
Este foi o período em que as nações ocidentais estavam fazendo seu esforço 
final para trazer praticamente todo o mundo pré-industrial não-ocidental sob seu 
controle político e econômico. 
A despeito da crença na neutralidade da ciência social, os antropólogos da 
época parecem ter desempenhado papéis característicos dos […] 
reformadores liberais brancos. Os antropólogos eram de status social mais 
alto que seus informantes; estes eram geralmente da ‘raça’ dominante e eram 
protegidos pela lei imperial; contudo, vivendo unicamente com os povos 
nativos, tendiam a participar e a tentar protegê-los das piores formas de 
exploração imperialista. Relações costumeiras se desenvolveram entre os 
antropólogos e o governo ou as várias agências privadas que as financiavam 
e protegiam. Outros tipos de relações habituais cresceram entre antropólogos 
e as pessoas cujas instituições estudaram. A Antropologia aplicada surgiu 
como uma espécie de trabalho social e esforço de desenvolvimento 
comunitário para os povos não-brancos, cujo futuro foi visto em termos de 
 
 
40 
 
educação gradual e melhoria das condições, muitas das quais realmente 
foram impostas por seus conquistadores ocidentais em primeiro lugar” 
(GOUGH, 1968, p. 12-13, tradução minha). 
 
Durkheim iniciou sua obra sociológica postulando a sociedade como uma 
totalidade autônoma que se impunha sobre a vontade individual, ao mesmo tempo em 
que a constituía – mas a segunda parte era sobretudo difícil de explicar. Não era 
correto deduzi-lo a partir do poder das instituições existentes, era preciso dar conta de 
como surge esse poder. Durkheim se volta para o estudo da religião nas sociedades 
primitivas com esse interesse teórico, e o resultado muda o rumo da antropologia. 
 
“A última obra de Durkheim, talvez a mais importante, [As formas elementares 
da vida religiosa], foi publicada dois anos antes de sua morte. Aqui, ele tenta 
apanhar o sentido de ‘solidariedade’ em si, da força mesma que mantém a 
sociedade. A solidariedade, afirma Durkheim, surge das representações 
coletivas – um termo polêmico na época e também nos dias atuais. As 
representações são ‘imagens’ simbólicas ou ‘modelos’ de vida social comuns 
a um grupo. Essas ‘imagens’ se desenvolvem através de relações 
interpessoais, mas adquirem um caráter objetivo supraindividual. Elas 
constituem uma realidade totalizante, virtual, ‘socialmente construída’ que 
ecoa Kant e Hegel, e que para as pessoas que vivem na sociedade são tão 
reais quanto o mundo material. Mas elas não são imagens objetivas desse 
mundo, e sim entidades morais, com poder sobre as emoções. A religião se 
torna um objeto de pesquisa importante para Durkheim, porque é aqui, mais 
do que em qualquer outra parte, que se estabelece e fortalece o apego 
emocional dos indivíduos a representações coletivas. Esse apego se forma 
principalmente no ritual, no qual a religião é expressa através da interação 
física e a solidariedade se torna uma experiência direta, corporal. […] A 
religião e o ritual atraíam de longa data o interesse dos antropólogos, que os 
haviam documentado numa grande variedade de formas empíricas. O 
problema da compreensão da integração social em sociedades sem Estado 
fora uma preocupação importante (embora em geral implícita) no 
evolucionismo. E a perplexidade diante dos símbolos e costumes exóticos dos 
‘outros’ foi o ponto de partida de toda pesquisa antropológica. Agora Durkheiin 
parecia oferecer urna ferramenta analítica que integraria todos esses 
interesses. ‘O exótico’ podia ser compreendido corno um sistema integrado 
de representações coletivas cuja função era criar solidariedade social. E a 
religião, o fenômeno mais mistificante e ‘exótico’ de todos, acabou se 
transformando no dínamo racional propulsor de todo esse processo. ” 
(ERIKSEN; NIELSEN, 2007, p. 44-45.) 
 
Pela própria época em que viveu e os interesses intelectuais que nutriu durante 
toda vida, Durkheim era um herdeiro intelectual de Comte, que aos poucos foi 
construindo a fundamentação teórica para descrever e compreender a sociedade como 
determinada por padrões de crença, depurando parte dos preconceitos evolucionistas 
de seu antecessor. Em Durkheim a distinção entre primitivo e civilizado deixa de ser 
 
 
41 
 
uma distinção entre inferior e superior e se torna uma distinção de níveis de 
complexidade. 
Com isso, fica delineada em linhas gerais o duplo legado da obra de Durkheim 
para a constituição acadêmica da sociologia e da antropologia. Cumpre apenas 
antecipar que o seu legado tem ademais uma dimensão teórica e metodológica mais 
ampla, que atravessa ambas as disciplinas, antecipando duas importantes correntes 
das ciências sociais no século XX: o estruturalismo/funcionalismo e o interacionismo 
simbólico. Você compreenderá exatamente do que se trata ao final desta unidade, que 
agora irá avançar no sentido de explicar conceitualmente alguns dos principais 
fundamentos da sociologia de Durkheim. 
 
3.3 ALGUNS CONCEITOS IMPORTANTES: FATO SOCIAL E FUNÇÃO DO FATO 
SOCIAL, CONSCIÊNCIA E REPRESENTAÇÃOCOLETIVA, SOLIDARIEDADE 
MECÂNICA E ORGÂNICA, ANOMIA 
 
É verdade que, em As regras do método sociológico, Durkheim atribui à 
sociologia o estudo dos fatos sociais, mas o que isso significa? Sabê-lo não é 
simplesmente repetir a definição de fato social – algo como: todo o acontecimento 
humano de caráter coletivo, geral e recorrente, que se manifesta independentemente 
da vontade ou ação de indivíduos ou grupos específicos, como se dotado de força 
própria, coercitiva. 
Sabê-lo é, isto sim, ser capaz de formular conceitualmente o fato social a partir 
dos dados preliminares da experiência. Identificar ou apontar um fato social diretamente 
pressupõe uma série de operações lógicas nem sempre mencionadas pelos estudiosos 
do fato, pois se pressupõe num ambiente acadêmico que o interlocutor tem o domínio 
da teoria, eis o que costuma dificultar o entendimento do leigo. 
Portanto, o melhor modo de compreender o que é o fato social é praticar a sua 
formulação conceitual com alguns exemplos. É final de uma sexta-feira qualquer, você 
sai de casa para tomar uma cerveja. Essa frase expressa no máximo um fato ordinário 
e, portanto, desprezível no conjunto da sua biografia. Houvesse você desistido ou sido 
incapaz de sair, tal fato em si desapareceria. Mas o que não desapareceria? 
Não desapareceria o costume das pessoas saírem de casa para tomar cerveja 
no final de uma sexta-feira. Mas esse ainda não é o fato social em si, já que este deve 
 
 
42 
 
ser formulado de forma geral, ou melhor dizendo, genérica. O que a segunda 
formulação exprime na verdade é uma instituição em sentido amplo: um conjunto 
integrado de valores, regras e práticas instituídas pela coletividade. 
O fato social correspondente a este caso seria o consumo recreativo de álcool. 
Perceba que definido corretamente, de forma genérica, podemos observar as 
manifestações do fato social variando em relação a diversas instituições: isto é o que é 
fundamental na sociologia durkheimiana. Como dogmas religiosos, a jornada de 
trabalho, os valores sociais e os padrões de utilização do espaço público influenciam 
este fato? 
Em suma, a externalidade, a generalidade e a coercitividade são os três critérios 
principais para classificação de um fato social. Se independe da vontade ou ação de um 
sujeito determinado, existe fora dele, autonomamente; se não se esgota em uma única 
ocorrência do fato, nem a uma única instituição que estabelece um padrão de 
ocorrências particulares, então é algo geral/genérico; e a coercitividade? 
Durkheim pondera de forma magistral que a coercitividade nem sempre é 
visível, mas que tende a ser mais evidente na medida que os sujeitos impõem alguma 
resistência à manifestação do fato social. A coerção nesse sentido não é o sinônimo de 
intimidação, força ou violência, mas de variados graus de constrangimento. O sujeito 
que recusa o consumo de álcool em certas circunstâncias é tido como “antissocial”. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Um único exemplo não é suficiente. Você precisa praticar! Tente identificar e 
formular adequadamente, de modo preliminar, um ou mais fatos sociais e 
instituições implicadas nestas reportagens. 
• Rio registrou aumento de 31% no número de turistas durante o carnaval. 
• Defensoria Pública de Minas promove casamento comunitário em Ribeirão das 
Neves. 
• Damares Alves propõe meninos de azul e meninas de rosa para ‘nova era’ no 
Brasil. 
• “Na Copinha, todo jogo é uma chance de melhorar a vida dos meus pais”. 
• Quem tem medo da masculinidade frágil dos homens do BBB19? 
• Número de mortos por chuvas no litoral paulista sobe para 35. 
• Como o ‘like’ matou o “quer sair comigo”? 
 
 
43 
 
Pela via do exemplo é possível perceber que análise dos fatos sociais proposta 
por Durkheim não se esgota na definição ou identificação do próprio fato, mas avança 
na direção de compreender qual a sua função em uma determinada estrutura social. E 
por “estrutura” devemos entender o conjunto de hábitos, costumes, crenças e 
instituições presentes de antemão no ambiente social em que vivemos. 
O principal fato social que intrigava Durkheim desde o seu estudo anterior, Da 
divisão do social trabalho, e o levará a estudar depois o fenômeno do título de O 
Suicídio, é o que ele denominou de “solidariedade social”. Trata-se de um conceito com 
um sentido específico na obra de Durkheim e que não deverá ser tomado em sentido 
coloquial, como sinônimo de caridade. Solidariedade ali é sinônimo de 
interdependência. 
O efeito de interdependência produzido pelas relações sociais intrigava 
Durkheim pelo seguinte: ao mesmo tempo em que diversas instituições assumiam um 
caráter moral e impunham aos indivíduos de forma mais ou menos coercitiva certas 
regras, muitas vezes a obediência ou a conformação às regras se dá de bom grado, a 
tal ponto que passamos a percebê-las menos como regras e mais como hábitos. 
Num primeiro momento, Durkheim não responde à questão. Limita-se a 
distinguir entre duas formas de consciência: consciência individual e consciência 
coletiva. A primeira é uma consciência que possuímos de nossos próprios atos, desejos 
e pensamentos. A segunda é uma consciência formada pelas ideias, crenças e valores 
amplamente compartilhados na sociedade. Mas como essa segunda consciência se 
forma? 
Como você já viu anteriormente nesta unidade, é graças ao aspecto simbólico 
dos rituais em sentido amplo, práticas sociais repetidas de maneira ritualizada, que as 
instituições emergem e se consolidam segundo Durkheim – ou seja, porque essas são 
representações coletivas. Essa teoria da representação é o que explica como se 
constituem sociologicamente os laços entre os seres humanos na sociologia 
durkheimiana. 
Sem ter desvendado ainda a “essência da solidariedade”, Durkheim em Da 
divisão do trabalho social pode, entretanto, tipificar as formas de solidariedade conforme 
a organização social. Nas sociedades primitivas predomina uma espécie de 
“solidariedade mecânica”, automática. Nas sociedades complexas predomina uma 
espécie de “solidariedade orgânica”, funcional. Vejamos o que isso significa. 
 
 
44 
 
Os indivíduos nas sociedades primitivas tenderiam pois a se relacionar entre si 
reproduzindo o padrão das relações entre as principais instituições às quais elas estão 
vinculadas: gênero, idade, família, clã, comunidade, povo, nação, religião, etc. Já nas 
sociedades complexas, o como se posicionar e se relacionar com outras pessoas não 
seria predefinido, pois a função dos laços tenderia a variar dentro da estrutura. 
Durkheim argumenta no estudo supramencionado que é o aprofundamento da 
divisão social do trabalho que leva à passagem de um tipo de solidariedade à outra, de 
um tipo de sociedade ao outro. Esse processo teria produzido um aumento de liberdade 
e, por outro lado, uma espécie de disfunção sistêmica. Nas sociedades complexas, os 
indivíduos não têm com frequência consciência dos laços sociais que os conectam, e 
em várias situações não sabem exatamente como agir. 
O autor chamou esse fenômeno de anomia, neologismo formado pela junção 
em grego do prefixo negativo “a” e da palavra “nomos”, que significa algo como “lei” ou 
“ordem” em sentido amplo. Em que pese a etimologia sugerir ao leigo alguma 
proximidade com o conceito político de anarquia, também usados frequentemente para 
significar a ausência de ordem, estes não têm nada em comum. 
A diferença fundamental na base desses dois conceitos é entre uma noção de 
ordem baseada na autoridade política e outra que é fruto do próprio arranjo cumulativo 
das relações sociais. Mais uma vez, não basta repetir a definição do conceito! Talvez o 
melhor exemplo que possamos encontrar de anomia na sociedade capitalista 
contemporânea é a do tratamento dispensado às pessoas em situação de rua. 
O grau de solidariedade manifesto por um cidadão comum a uma pessoa nessa 
situação é em geral bastante indefinido, dependentede diversos fatores: a hora do dia, 
a região da cidade, as condições de higiene pessoal, a aparência física, sem falar de 
fatores altamente subjetivos, como os sentimentos pessoais de afeto. Uma pessoa em 
situação de rua vive confusão semelhante, mas que no caso afeta sua dignidade. 
Em O Suicídio, de 1897, Durkheim utilizou sua teoria da anomia e da 
solidariedade social mostrar a dimensão sociológica daquilo que na época era 
entendido somente enquanto uma tragédia pessoal e familiar. Ao mostrar que as 
condições de integração social das pessoas, sob certas circunstâncias, tinham um 
impacto sobre determinadas formas de suicídio, demonstrou que isso era um problema 
de saúde pública. 
 
 
45 
 
No livro, Durkheim tipifica diferentes formas de suicídio: o suicídio altruísta dos 
mártires religiosos; o suicídio fatalista comum entre doentes terminais antes dos 
avanços da medicina moderna; o suicídio egoísta no qual se enquadrariam aqueles que 
em função de elevados graus de depressão decidem dar cabo da própria vida; e o 
suicídio anômico daqueles que são levados a cometê-lo por uma súbita perda de 
referenciais. 
O autor explica as formas típicas do suicídio em função do grau de integração 
social do indivíduo. O suicídio “altruísta” tende a ocorrer entre indivíduos altamente 
integrados à sociedade, pois do contrário ele prescindiria dos próprios valores que o 
levam a dar cabo da própria vida. O suicídio “egoísta” é o oposto: a pessoa só pode 
desprezar a sua vida a ponto de dar-lhe fim se sente profundamente desajustada. 
O suicídio egoísta e o suicídio anômico podem ser entendidos como tipos 
autônomos. Porque há uma diferença crucial entre a série de falhas de integração social 
do indivíduo que no primeiro caso são circunstanciais, e no segundo deriva da ausência 
sistemática de uma ordem capaz de integrar o sujeito. Perceba, pois, que o suicídio 
fatalista é menos um tipo autônomo do que uma forma do suicídio anômico. 
O célebre escritor uruguaio Horácio Quiroga (1878-1937) se suicidou com uma 
dose de cianureto depois que foi diagnosticado com um câncer de estômago, à época, 
intratável. Não se suicidou como um poeta que enxerga beleza na própria morte, e tão 
pouco tinha para com a própria vida o desprezo alimentado por um desajuste em 
relação à sociedade. Era, digamos assim, um sujeito “funcional”. 
O fator determinante para o seu suicídio foi se ver subitamente numa profunda 
condição de incerteza: não saber se viveria muito ou pouco, se convalesceria por muito 
tempo e com muita dor ou se morreria de súbito. É como se ele houvesse perdido o seu 
lugar na sociedade – e essa, em síntese, é a característica fundamental desta forma de 
suicídio. A mesma situação produz hoje muito menos suicídios. 
 
 
 
 
 
 
 
46 
 
3.4 ALGUMAS DIMENSÕES TEÓRICAS IMPORTANTES: MUDANÇA SOCIAL, 
DIVISÃO SOCIAL DO TRABALHO, COESÃO E INTEGRAÇÃO SOCIAL, 
EDUCAÇÃO COMO SOCIALIZAÇÃO 
 
Durkheim refutará uma perspectiva teleológica da mudança social como aquela 
vista em Marx, argumentando que esta se processa de forma puramente contingencial. 
Mas os fatores que levam a esse tipo de mudança são conhecidos: elas dependem das 
condições demográficas e materiais de vida das populações. Durkheim explica isso em 
termos de volume e densidade. 
O volume da sociedade é simplesmente o tamanho de a sua população. A 
disposição da população num determinado território tem, contudo, dois aspectos 
diferentes. Essa razão (no sentido matemático) tem o aspecto físico, que ele chama de 
“densidade material” da sociedade; mas também possui um aspecto intangível, relativo 
ao conjunto de relações entre os indivíduos, aspecto que denomina “densidade moral”. 
Os fenômenos de urbanização, industrialização e da emergência de uma 
economia de mercado correspondem são correspondem, segundo Durkheim, ao 
aumento de volume e densidade material das sociedades. Todavia, o inverso ocorre em 
relação à densidade moral: quanto mais populosas, concentradas e urbanizadas se 
tornam as sociedades, tanto mais os laços sociais entre os indivíduos se tornam 
rarefeitos. 
Durkheim localiza a causa deste fenômeno num processo de divisão social do 
trabalho, acrescente especialização e diferenciação das profissões. Sobre este assunto, 
diversos filósofos já haviam se debruçado, mas sobretudo, da perspectiva da economia 
política, incluso Adam Smith e Karl Marx. O primeiro, apontou o processo como fator 
determinante do aumento da produtividade, embora criticando os males da rotina 
maçante na vida do trabalhador. O outro, formula a partir daí sua teoria da alienação. 
Durkheim será o primeiro a analisar o processo e as suas consequências de 
um ponto de vista estritamente social, separado do seu aspecto econômico. Desde de 
uma primitiva divisão sexual do trabalho nas sociedades primitivas, até o diverso 
mercado de trabalho das sociedades capitalistas modernas, este processo de divisão 
gera um relativo grau de interdependência entre as pessoas. 
Essa interdependência é baseada fundamentalmente nas relações de troca do 
trabalho e dos produtos do trabalho individual. Enquanto tais relações de troca são 
 
 
47 
 
determinadas de maneira mecânica, através de obrigações e lealdades, encontramo-
nos em meio uma sociedade moralmente “densa”, coesa ou integrada. Mas na medida 
em que essas relações se tornam contingentes, o mesmo acontece com a coesão 
social. 
Durkheim refuta uma explicação utilitarista para a origem da divisão do trabalho: 
na totalidade histórica, não são os indivíduos que racionalmente formulam a separação 
das suas funções produtivas, mas a separação dessas funções que permitirá às 
pessoas enxergarem-se enquanto indivíduos. E o avanço da divisão social do trabalho 
leva ao predomínio da solidariedade orgânica sobre a solidariedade mecânica. 
 
“À medida que se acentua a divisão do trabalho social, a solidariedade 
mecânica se reduz e é gradualmente substituída por uma nova: a solidariedade 
orgânica ou derivada da divisão do trabalho. Institui-se então um processo de 
individualização dos membros dessa sociedade que passam a ser solidários 
por terem uma esfera própria de ação. Com isso ocorre uma interdependência 
entre todos e cada um dos demais membros que compõem tal sociedade. A 
função da divisão do trabalho é, enfim, a de integrar o corpo social, assegurar-
lhe a unidade. É, portanto, uma condição de existência da sociedade 
organizada, uma necessidade. Sendo esta sociedade “um sistema de funções 
diferentes e especiais”, onde cada órgão tem um papel diferenciado, a função 
que o indivíduo desempenha é o que marca seu lugar na sociedade, e os 
grupos formados por pessoas unidas por afinidades especiais tornam-se 
órgãos, e “chegará o dia em que toda organização social e política terá uma 
base exclusivamente ou quase exclusivamente profissional”. Daí deriva a ideia 
de que a individuação é um processo intimamente ligado ao desenvolvimento 
da divisão do trabalho social e a uma classe de consciência que gradativamente 
ocupa o lugar da consciência comum e que só ocorre quando os membros das 
sociedades se diferenciam. E é esse mesmo processo que os torna 
interdependentes. Segundo Durkheim, somente existem indivíduos no sentido 
moderno da expressão quando se vive numa sociedade altamente diferenciada, 
ou seja, onde a divisão do trabalho está presente, e na qual a consciência 
coletiva ocupa um espaço já muito reduzido em face da consciência individual. 
” (QUINTANEIRO, 1995, p. 15-57) 
 
A missão profissional da sociologia para Durkheim é combater a perda de 
densidade moral das sociedades, não pela imposição de uma moral integradora 
unilateral, mas favorecendo formas de integração mais ajustas ao novo tipo de 
solidariedade vigente nas sociedades complexas. Perceba que isso está intimamente 
relacionado com o contexto político francês da época, e que Durkheim lecionava 
sociologia em um curso universitário de pedagogia.Talvez a sua mais importante contribuição para esse campo do conhecimento 
tenha sido a demonstração do papel da educação formal como instrumento de 
socialização ou de integração social, e não apenas de formação intelectual. A família 
 
 
48 
 
tende a ser o primeiro e mais imediato núcleo desse processo, mas depois as pessoas 
constituem seus valores no contato com outras instituições ao longo de suas vidas. 
Durkheim advoga, politicamente, a importância da escola nesse segundo 
momento, como uma instituição capaz de oferecer às pessoas desde cedo uma “visão 
de conjunto” sobre a vida no mundo e a sua história, rompendo com o isolamento dos 
indivíduos em seus respectivos grupos sociais. Mais uma vez estamos diante de um 
ideal de emancipação humana que remonta, como você já sabe, ao Iluminismo. 
 
3.5 LEGADO E RESSONÂNCIA 
 
Em termos políticos, o principal legado de Durkheim talvez tenha sido mesmo 
essa sua concepção de educação, que influenciou e impulsionou o desenvolvimento 
dos sistemas educacionais ao redor do mundo ao longo do século XX. No que tange a 
teoria sociológica no ambiente acadêmico, cumpre evidenciar as principais escolas de 
pensamento e campos de estudo que possuem afinidade com a sua obra. 
Entre 1915 e 1935, alcançaram grande projeção internacional na área, as 
pesquisas feitas pelo Departamento de Sociologia da Universidade de Chicago, nos 
Estados Unidos. A primeira geração da chamada “Escola de Chicago” dedicou-se ao 
estudo da sociologia urbana via métodos quantitativos e demográficos, a exemplo da 
obra de Robert Ezra Park (1864-1944). 
Um dos principais temas de pesquisa da escola eram as relações entre 
criminalidade e meio sócia, que até o momento permaneciam vinculadas ao redor do 
mundo a uma criminologia fundamentada numa antropologia física de viés 
marcadamente racista. As conclusões de pesquisas empíricas da primeira geração da 
Escola de Chicago têm diversos pontos de contato com a teoria da integração social 
durkheimiana. 
Após a Segunda Guerra Mundial, a segunda geração da escola avança numa 
direção mais próxima da última fase da obra de Durkheim, inaugurando aquela corrente 
teórica e metodológica conhecida como “interacionismo simbólico”. Erving Goffman 
(1922-1982) é o principal autor que exemplifica a corrente, que se volta para a 
investigação das formas de estruturação da sociedade, mais do que o funcionamento 
da estrutura social já pronta, convergindo para os conceitos de ritual e representação. 
 
 
49 
 
 
A todo momento nesta unidade você viu a importância de não somente saber 
definir adequadamente os conceitos, mas sobretudo, de saber explicá-los e aplicá-
los. É como na física e na matemática do ensino superior: não bata conhecer as 
fórmulas, é necessário ser capaz de demonstrá-las. Demonstrar, nesse sentido, 
significa expor as condições de validade de uma fórmula ou ideia. É, como se diz 
em epistemologia, ser capaz de justificar os enunciados do conhecimento. 
De uma perspectiva macrossociológica, a teoria dos sistemas sociais de Talcott 
Parsons (1902-1079) e de Niklas Luhmann (1927-1998) levou a premissa do 
estruturalismo/funcionalismo ao seu patamar mais sofisticado até o momento. Se os 
fenômenos sociais devem ser estudados em termos do seu funcionamento no interior 
de uma estrutura, é fundamental complexificar a última, de modo a não fazer monolítica. 
Em linhas muito gerais, esses autores buscaram formular uma teoria 
sociológica geral que pudesse dar conta da variação no interior da estrutura social, 
conceituando-a como um agregado de sistemas sociais sobrepostos, relativamente 
autônomos, e num constante processo de diferenciação mútua. Mas este é certamente 
assunto para um curso mais avançado de sociologia. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
50 
 
 
Publicista: espécie de jornalista, escritor de jornal, que debate os assuntos da vida 
pública; 
Avant la lettre: expressão francesa para caracterizar algo que surgiu antes do 
próprio termo; 
Barão de Montesquieu (1689-1755): filósofo iluminista autor de O Espírito das 
Leis. 
Alexis Tocqueville (1805-1859): teórico político francês autor de A democracia na 
América. 
Espírito (filosofia): refere-se às faculdades intelectuais de um povo, sem 
conotação sobrenatural. 
Laicização: processo de tornar leigo ou laico, separando as instituições dos 
dogmas religiosos. 
Gênero (sociologia): características sociais e culturais identificadas ao sexo 
masculino e feminino. 
Neologismo (linguística): palavra nova ou acepção nova dada uma palavra 
existente. 
Utilitarismo: filosofia moral consequencialista que valoriza a ação pela chance de 
gerar bem-estar; 
Escola de pensamento: tradição intelectual simbolizada por certo conjunto de 
autores e obras; 
Interacionismo simbólico: teoria da produção simbólica ao nível das relações 
interpessoais; 
Macro e microssociologia: respectivamente, a sociologia das grandes e 
pequenas agregações; 
Estruturalismo/funcionalismo: abordagens que focam a estrutura e a função dos 
fatos sociais. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
51 
 
 
 
1. “A história de toda sociedade até nossos dias é a história das lutas de classe. 
Homem livre e escravo, patrício e plebeu, barão e servo, mestre de ofício e 
companheiro, em resumo, opressores e oprimidos se encontraram sempre em 
constante oposição, travaram uma luta sem trégua, ora disfarçada, ora aberta, que 
terminou sempre por uma transformação revolucionária de toda a sociedade, ou 
então pela ruína das diversas classes em luta.” 
– Karl Marx. Manifesto comunista (com adaptações). 
“Uma religião é um sistema solidário de crenças e de práticas relativas a coisas 
sagradas, isto é, separadas, proibidas; crenças e práticas que unem, numa mesma 
comunidade moral chamada Igreja, todos os que a elas aderem.” 
– Émile Durkheim. As formas elementares da vida religiosa. 
Com base nos trechos acima, assinale a opção correta. 
a) Marx postula que é por meio da revolução pacífica que se podem superar os 
conflitos entre os membros da sociedade. 
b) Durkheim considera a religião como um sistema autônomo e subjetivo de práticas 
sagradas formado por crenças. 
c) Durkheim teoriza a religião enquanto um sistema de classificação que se baseia 
na moral humana. 
d) Marx formula a ideia da luta de classes a partir das questões de gênero, de etnia 
e de representação das minorias. 
e) As transformações revolucionárias ocorridas no Leste Europeu no século XX 
foram previstas por Marx. 
 
 
2. Émile Durkheim e Marcel Mauss figuram entre grandes expoentes da sociologia 
francesa. Ambos contribuíram para a elaboração de noções como “representações 
individuais” e “representações coletivas”. Em uma de suas formulações clássicas, a 
noção de representações coletivas — em oposição à de representações individuais 
– é definida como as maneiras de agir e pensar, consagradas pela tradição e 
impostas pela sociedade aos indivíduos. Considerando essa definição, assinale a 
opção correta. 
a) A prece, na qualidade de fenômeno religioso, é um ato individual e, logo, uma 
representação unicamente individual. 
b) Durante a realização de ritos funerários, o choro e a lamentação são expressão de 
uma representação individual. 
c) Uma vez criada, a tradição se transmite de geração a geração de forma facultativa 
nas representações coletivas. 
d) Direito e moral, religião e magia, mitos e contos são formados por representações 
coletivas. 
e) O nome e os sobrenomes são escolhidos individualmente de forma livre pelos 
próprios membros de uma sociedade. 
 
 
52 
 
3. “Quando desempenho meus deveres de irmão, de esposo ou de cidadão, quando 
me desincumbo de encargos que contraí, pratico deveres que estão definidos fora de 
mim e de meus atos, no direito e nos costumes. Mesmo estando de acordo com 
sentimentos que me são próprios, sentindo-lhes interiormentea realidade, esta não 
deixa de ser objetiva; pois não fui eu quem os criou, mas recebi-os por meio da 
educação. Assim, também o devoto, ao nascer, encontra prontas as crenças e as 
práticas da vida religiosa; o sistema de sinais de que me sirvo para exprimir 
pensamentos; o sistema de moedas que emprego para pagar dívidas; os 
instrumentos de crédito que utilizo nas relações comerciais; as práticas seguidas na 
profissão etc., etc., funcionam independentemente do uso que delas faço. Tais 
afirmações podem ser estendidas a cada um dos membros de que é composta uma 
sociedade, tomados uns após outros. Estamos, pois, diante de maneiras de agir, de 
pensar e de sentir que apresentam a propriedade marcante de existir fora das 
consciências individuais. Esses tipos de conduta ou de pensamento não são apenas 
exteriores ao indivíduo, são também dotados de um poder imperativo e coercitivo, em 
virtude do qual se lhe impõem, quer queira, quer não”. 
– Émile Durkheim. As regras do método sociológico. Apud. José Albertino 
Rodrigues (Org.). Trad. Laura Natal Rodrigues. Rio de Janeiro: Companhia 
Editora Nacional, 1984, p. 1-2 (com adaptações). 
No segmento de texto acima, Durkheim trata, sobretudo, 
a) do fato social. 
b) da solidariedade social. 
c) da anomia social. 
d) da consciência coletiva. 
e) das representações coletivas 
 
4. Para Durkheim, existem correntes sociais ou tendências coletivas que levam os 
indivíduos ao suicídio, denominadas por ele de “correntes suicidogêneas”. Para tal, 
ele define três correntes: egoísmo, altruísmo ou anomia. 
 
( ) É visto como um dever, se não for cumprido, é punido pela desonra, perda da 
estima pública ou castigos religiosos. 
( ) A depressão, a melancolia e a sensação de desamparo moral provocadas pela 
desintegração social tornam-se, então, causas desse tipo de suicídio. 
( ) Ocorre devido a uma situação de desregramento social em que as normas estão 
ausentes ou perderam o respeito. 
 
Desta forma, assinale a alternativa que refere, respectivamente, essas formas típicas 
de suicídio. 
a) anômico, altruísta e egoísta 
b) egoísta, anômico, altruísta. 
c) altruísta, anômico, egoísta. 
d) anômico, egoísta, altruísta. 
e) egoísta, altruísta, anômico. 
 
 
 
 
53 
 
5. A respeito das contribuições de Émile Durkheim para a sociologia, assinale a 
alternativa correta. 
a) Retomando as intenções de Augusto Comte, toda obra de Durkheim estava voltada 
para dotar a sociologia do que ele julgava ser seu maior limite até aquele momento: 
a falta de um método consistente e elaborado de análise sociológica. 
b) A análise de produção burguesa será o objeto da maior parte das obras de 
Durkheim, onde ele afirma que “as relações de produção burguesas são a última 
forma antagônica do processo de produção social”. 
c) Para ele, a cultura ocidental que se encarna em instituições como o mercado 
capitalista, a burocracia estatal, o direito e a ciência carrega a possibilidade da 
perda da liberdade e do sentido da vida 
d) D) Durkheim vai orientar toda sua produção sociológica com base no primado do 
sujeito. A ideia de que o indivíduo é o elemento fundante na explicação da 
realidade social. 
e) Durkheim elevou um objeto clássico da disciplina – os rituais das religiões 
primitivas – ao status de categoria genérica fundamental de entendimento das 
representações coletivas de todas as sociedades.
 
 
54 
 
 A TRADIÇÃO SOCIOLÓGICA 
CLÁSSICA, PARTE III – WEBER 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
UNIDADE
 
 
55 
 
4.1 UMA DISTINÇÃO CRUCIAL: COLETIVISMO E INDIVIDUALISMO 
METODOLÓGICO 
 
Ás vezes os textos de introdução à sociologia insistem em opor Weber a Marx 
e Durkheim nesses termos: os dois representariam um tipo de “coletivismo” 
metodológico”, pelo qual o coletivo explicaria o individual, enquanto para Weber o 
individual explicaria o coletivo, donde o seu dito “individualismo metodológico”. Mal 
entendida, a oposição sugeriria que Weber foi mais um cronista do que um sociólogo. 
Weber foi um estudioso da obra de Marx, que aos poucos rejeitou e formulou 
conceitos e teorias alternativas para lidar, por exemplo, com o problema do 
surgimento do capitalismo. Afastando-se da economia política marxiana, Weber será 
um crítico da tese de que a “superestrutura” é só um reflexo da “infraestrutura”. As 
ideias e as condições materiais de existência se relacionam reciprocamente para 
Weber. 
Quanto a Durkheim, podemos dizer com segurança que Weber rejeitava a sua 
concepção de que a sociedade se descolaria dos indivíduos e agiria sobre eles de 
forma externa e coercitiva. Preferia falar em “formações sociais” como o produto de 
complexos desenvolvimentos e concatenações de ações sociais dos indivíduos. 
Enquanto Durkheim privilegia o “fato social”, Weber prefere tratar da “ação social”. 
Marx e Durkheim concebem os sujeitos dos fenômenos sociais enquanto 
entidades coletivas (classes, instituições, etc.) de forma monolítica, de modo que o 
todo ganharia precedência sobre as partes na formulação do argumento. Weber 
concebe essas entidades coletivas como conjuntos de elementos agregados, então, 
o todo só pode ser explicado como produto das partes. Eis o sentido correto daquela 
distinção. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A sociologia de Weber foi tão importante no desenvolvimento das correntes 
sociológicas mencionadas no final da unidade anterior quanto a de Durkheim. 
Mais sobre isso ao final desta unidade. 
 
 
 
56 
 
4.2 ALGUNS CONCEITOS IMPORTANTES: AÇÃO SOCIAL E SENTIDO DA AÇÃO 
SOCIAL, AFINIDADE ELETIVA, TIPOS IDEAIS (DE DOMINAÇÃO, 
RACIONALIDADE E ORGANIZAÇÃO ESTATAL) 
 
Uma ação social no sentido weberiano é toda ação individual orientada pela 
percepção e antecipação das ações sociais de outros indivíduos. Esse é apenas um 
ponto de partida. O que interessa à sociologia na perspectiva de Weber é discernir e 
compreender o sentido geral da ação social num determinado contexto, sentido esse 
que é composto pelo sentido subjetivo e pelo sentido objetivo da ação. 
O sentido subjetivo de uma ação equivale à sua intenção abstrata concebida 
na mente do indivíduo, ao passo que o sentido objetivo de uma ação equivale à 
direção concreta que ela toma no mundo social. Weber propõe que os fenômenos 
sociais sejam analisados a partir da correlação, bem como da discrepância entre 
esses dois níveis da ação social e também as suas consequências inesperadas. 
As consequências inesperadas de uma ação social são importantes na medida 
em que dão pistas sobre como esta é percebida pelos outros sujeitos, e sugerem a 
existência do que ele chamou de “afinidades eletivas” entre diferentes conjuntos de 
ações. A expressão original em alemão tem origem num conceito da alquimia 
medieval usado como metáfora pelo romancista Johan von Goethe (1749-1842). 
Goethe é um dos maiores escritores da literatura alemã, bastante reverenciado 
na época de Weber. As afinidades eletivas é o título de um de seus romances. O 
termo era utilizado na alquimia para referir-se à propriedade demonstrada por certos 
corpos e elementos de se atraírem reciprocamente até se fundirem. O romance nada 
tem a ver com a alquimia, e Goethe ali o utiliza como uma metáfora para o amor. 
Weber, por sua vez, percebe o alcance do conceito para além do amor 
romântico, e passa a utilizá-lo para referir um tipo específico de interação entre certas 
formações sociais num determinado processo histórico. O autor jamais formulou uma 
teoria geral das afinidades eletivas entre formações sociais, entretanto, o conceito é 
o ponto-chave de A ética protestante e o espírito do capitalismo, publicado em 1905. 
Mais sobre isso adiante. Uma outra categoria importante do pensamento 
weberiano que cumpre destacar é a formulação de tipos de ideais. Weber busca 
condensar a observação empírica em tipos abstratos, genéricos, capazes de 
 
 
57 
 
identificar assim a forma geral de um determinadofenômeno, que entretanto, jamais 
se manifesta concretamente nessa forma “pura” em que foi formulado. 
Um exemplo disso na obra weberiana é a sua teoria das três principais formas 
de autoridade ou de dominação legítima: tradicional, legal e carismática. A dominação 
tradicional é aquela que se apoia no costume compartilhado, legal é a que se legitima 
a partir da lei instituída, e carismática a que se sustenta na personalidade de uma 
figura poderosa. Weber intuiu antes do fascismo o vulto que esta teria na 
modernidade. 
Um segundo exemplo disso na obra weberiana é a sua distinção entre dois 
tipos de racionalidade e de irracionalidade. A conduta afetiva e tradicional são para 
Weber irracionais, mas a conduta racional não seria somente aquela onde a ação é 
ajustada aos fins (racionalidade instrumental); incluiria ainda o tipo de ação racional 
em relação a princípios (racionalidade ética), do contrário considerada irracional. 
Um terceiro exemplo da formulação de tipos ideais por Weber é a sua 
caracterização de duas formas de organização política do Estado. Nas sociedades 
antigas, os Estados surgem como organização do poder político de um grupo ou 
classe, que a ele pertence, e por Weber se refere a esse modelo como “Estado 
patrimonial”. Nas sociedades modernas, dotadas de sistemas representativos, vige o 
“Estado burocrático”. 
 
4.3 ALGUMAS DIMENSÕES TEÓRICAS IMPORTANTES: MODERNIZAÇÃO, 
CAPITALISMO, BUROCRACIA, DESENCANTAMENTO DO MUNDO 
 
Marx, Durkheim e Weber avançaram a sua maneira explicações sobre a 
passagem da sociedade tradicional para a sociedade moderna, todas completas 
naquilo o que pretendem explicar, mas Weber produziu dessas três a mais 
multifacetada. No plano econômico, a modernização corresponde ao advento do 
capitalismo; no plano político, ao avanço da burocracia; no plano cultural, ao 
desencantamento do mundo. 
Todavia, uma vez que Weber não concebe uma precedência da infraestrutura 
sobre a superestrutura, o tempo todo ele busca compreender a lógica das ideias e o 
sentido da ação social na modernidade. Weber era dono de uma formação intelectual 
 
 
58 
 
multifacetada. Jurista e economista alinhado à escola histórica da economia alemã, 
Weber era ainda um estudioso de religiões antigas. 
Enquanto Durkheim apenas se voltou para o estudo da religião no fim de sua 
vida, sobretudo das religiões primitivas, Weber dialoga desde o começo de sua obra 
com o estudo das religiões comparadas, sobretudo das grandes religiões mundiais: 
o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Além disso, mais tarde em sua carreira, 
passou apoiar-se também no estudo dos monoteísmos orientais. 
Weber criticava as explicações sobre o surgimento do capitalismo baseadas 
no simples aumento do volume da riqueza. Outras épocas, ele argumentava, 
conheceram um grau elevado de concentração de riquezas, contudo não se tornaram 
capitalistas. Este é o caso da Índia na antiguidade, onde as riquezas permaneceram 
sob o controle de um Estado patrimonial, sem se converter em capital. 
Weber também criticava as explicações do surgimento do capitalismo 
baseadas no simples aumento do volume da produção. Diversas regiões do mundo 
ampliaram a escala da produção incorporando o avanço tecnológico da Revolução 
Industrial europeia, e nem por isso se tornaram imediatamente capitalistas. Na China 
– e é por isso que Weber estudará mais tarde as religiões chinesas – haviam valores 
sociais conflitantes que frearam a generalização imediata do modo de pensar 
capitalista. 
Disso, Weber conclui que o advento do capitalismo, sua generalização como 
modo de produção típico da sociedade moderna, dependia da generalização 
correspondente de uma mentalidade capitalista específica. Em A ética protestante e 
o espírito do capitalismo, Weber mostrou com sucesso como o surgimento dessa 
mentalidade era o produto de um desenvolvimento particular da religiosidade 
ocidental. 
 
“Este ponto é decisivo para o argumento de Weber sobre a singularidade 
do racionalismo ocidental. Sem a internalização de um ethos da 
mentalidade racional, não haveria capitalismo como o conhecemos, No 
argumento weberiano, essa racionalização da condução da vida é produto 
da racionalização religiosa ocidental, que, muito especialmente no 
protestantismo ascético, elimina os vestígios de magia de maneira 
crescente e interpreta o 'caminho da salvação' religiosa como contribuição 
individual para o aumento da glória divina na Terra. Como essa contribuição 
individual passa a ser interpretada, cada vez mais, de modo econômico, o 
‘sinal da salvação’ – como na versão calvinista do ascetismo – passa a ser 
visto como produto do acúmulo de riquezas materiais. Decisivo para a 
constituição do ethos capitalista econômico – o que não significa reduzir o 
impacto desse ‘espírito’ apenas á atividade econômica – é o fato de a 
 
 
59 
 
acumulação de riquezas deixar de ter relação com as necessidades 
naturais dos indivíduos. O vínculo da atividade econômica com as 
necessidades individuais era a marca do tradicionalismo econômico, antes 
dominante em todas as culturas e em todas as épocas. Apenas no 
capitalismo é que esse ethos passa a ter urna orientação para a 
acumulação ampliada como fim em si. Se antes um pescador, com apenas 
dois dias de pescaria por semana, podia alimentar a si e á família, por que 
deveria trabalhar mais? No capitalismo, as necessidades naturais deixam 
de ser o critério da atividade econômica; a acumulação crescente e 
ampliada, rigorosamente sem limites, passa a ser a regra. Essa atitude de 
acumular riquezas sem vínculo com necessidades, uma atitude ‘irracional’ 
se avaliada pela ética econômica do tradicionalismo anterior, só pode ser 
explicada pelo peculiar caminho da salvação protestante ascética. Trata-se 
de urna ideia historicamente inédita e servirá de estímulo para o 
comportamento prático na esfera econômica moderna, ao vincular o 
interesse ideal na salvação com uma forma de atividade econômica que 
percebe a acumulação, entendida como ‘sinal da salvação’ eterna, como 
fim em si mesma” (SOUZA, 2006, p. 109-110). 
 
 
 
 
 
 
 
O desenvolvimento de uma mentalidade que aceita a acumulação de riquezas 
sem limitar-se pelo parâmetro da necessidade é o que explica o advento do 
capitalismo, argumenta Weber. Então esse desenvolvimento depende, primeiro, da 
redução da crença no sobrenatural em prol de uma concepção da realidade como 
potencialmente racional. É isso o que Weber denominou de “desencantamento do 
mundo”. 
A redução progressiva da crença na superstição apenas aos aspectos mais 
insondáveis da existência (como por exemplo a questão do pós-vida) corresponde o 
que Weber chamou de processo de “racionalização” da vida social, processo que, no 
limite, tenderia a enfatizar em excesso a racionalidade de tipo instrumental. A 
secularização é o outro lado do processo, onde a crença religiosa vai se tornando 
subjetiva. 
Por fim, Weber observa no plano da política uma tendência à especialização e 
diferenciação crescente no interior da classe política, que se separa da classe militar 
ou guerreira, bem como da classe intelectual de perfil sacerdotal. Constitui-se assim 
 
 
Você diria que o ethos protestante se transformou no ethos capitalista moderno? 
Ou seria melhor dizer que o ethos protestante apresentava uma afinidade eletiva 
com o ethos capitalista moderno ainda incipiente, e ambos evoluíram numa 
direção convergente? 
 
 
60 
 
 
Na próxima unidade você poderá perceber como a sociologia de Pierre Bourdieu 
também tem grande influência da obra de Max Weber, sobretudo pelo seu foco 
na dimensão simbólica da estrutura de classes e dos conflitos sociais. 
uma classe de funcionários profissionais que encarna o poder do Estado de forma 
necessariamente fragmentada e interconectada. 
Weber concebe a burocracia como um fenômeno positivo, expressão da 
tendência mais geral de racionalização e de secularização da sociedadeno âmbito 
administrativo. A burocracia seria a principal responsável pela constituição de órgãos 
e mecanismos impessoais de exercício do poder. O conceito no senso comum é 
associado à lentidão e ao excesso de regras. Mas não é disso que se trata para 
Weber. 
 
 
 
 
 
 
4.4 LEGADO E RESSONÂNCIA 
 
Enquanto Weber aplicava o seu método ao sabor de suas pesquisas, Talcott 
Parsons foi quem buscou fundar uma teoria geral dos sistemas de ação social, mais 
tarde retrabalhada por Luhmann. O interacionismo simbólico, no privilegio que atribui 
ao sentido que as ações possuem para os próprios agentes, também é de uma clara 
inspiração weberiana. 
Adiante você poderá perceber a influência de Weber também no tocante à 
sociologia brasileira. O conceito de “homem cordial” formulado por Sérgio Buarque 
de Holanda, por exemplo, é um tipo ideal, um modelo hipotético que condensa o que 
seria mais importante na observação do que é determinante no nosso caráter 
nacional. Raymundo Faoro por sua vez caracterizou o Estado brasileiro como 
patrimonial. 
 
 
 
 
 
 
 
Você já assistiu à entrevista do sociólogo Gabriel Cohn sobre Marx e Durkheim. 
Agora pode assistir ao restante da conversa, sobre Max Weber, disponível no 
site da TV Cultura. 
 
 
61 
 
 
 
1. Karl Marx, Max Weber e Émile Durkheim, considerados fundadores das ciências 
sociais, desenvolveram interpretações e conceitos sobre o mundo social que 
permanecem como referências de análise até os tempos atuais. Nesse sentido, 
assinale a opção correta a respeito de interpretações e conceitos elaborados pelos 
referidos autores. 
A) Karl Marx, ao trabalhar a esfera dos valores, elaborou o conceito de capital 
simbólico; Max Weber, na sua crítica à modernidade, referiu-se ao 
“desencantamento do mundo”; Émile Durkheim, ao analisar a determinação da 
sociedade sobre o indivíduo, formulou os conceitos de consciência coletiva e fato 
social. 
B) Karl Marx decodificou as leis do capitalismo e analisou as relações de produção 
como relações de exploração; Max Weber, a partir do estudo das religiões, concluiu 
que a economia é fator preponderante do desenvolvimento do capitalismo; Émile 
Durkheim, ao desenvolver o conceito de fato social, afirmou que a coerção é interna 
aos indivíduos. 
C) Karl Marx desenvolveu os conceitos de relações de produção e alienação; Max 
Weber elaborou os conceitos de ação social e poder; Émile Durkheim estabeleceu 
os conceitos de fato social e anomia. 
D) Karl Marx utilizou as metáforas de infra-estrutura e superestrutura, para explicar 
as relações sociais; Max Weber considerou diferentes níveis de racionalidade na 
sociedade capitalista ocidental; Émile Durkheim sustentou que o indivíduo determina 
a sociedade. 
E) Karl Marx estudou o caráter civilizador das religiões; Max Weber analisou as 
relações entre as classes sociais como relações de exploração; Émile Durkheim 
desenvolveu, em detalhes, a idéia de fetichismo. 
 
2. A respeito dos estudos comparativos, a resposta de Weber foi a elaboração de 
“tipos ideais”, que constituem um dispositivo generalizante, um modelo heurístico, 
sobre o qual era possível aplicar a comparação. Nas suas explicações históricas 
comparadas, Weber rejeita sempre a hipótese de leis ou de monocausalidade; ele 
pensa, portanto, que um evento pode ter diversas causas e que conjuntos diversos 
 
 
62 
 
de causas podem ter o mesmo efeito. A validade das comparações em Weber 
provém das suas construções empíricas dos processos de indução e de 
introspecção mais do que de uma verificação causal de hipóteses. 
– Paola Rebughini. A comparação qualitativa de objetos complexos e o efeito da 
reflexividade. In: Alberto Melluci (org.) Por uma sociologia reflexiva: pesquisa 
qualitativa e cultura. Petrópolis: Vozes, 2005, p. 242 (com adaptações). 
Tendo o fragmento de texto acima como referência inicial, assinale a opção correta 
a respeito de “tipos ideais”, segundo a formulação proposta por Max Weber. 
A) Os “tipos ideais” não são construções empíricas. 
B) A causalidade única é a base dos “tipos ideais”. 
C) A comparação não é essencial para a construção dos “tipos ideais”. 
D) Os “tipos ideais” não permitem uma explicação histórica. 
E) Os “tipos ideais” são construídos essencialmente a partir da verificação causal de 
hipóteses. 
 
3. As categorias de poder e dominação são centrais na sociologia de Max Weber. O 
autor construiu três tipos puros de dominação explicitando os fundamentos que 
tornam legítima a autoridade ou justificam a dominação de cada tipo, válidos em 
diferentes contextos históricos. Segundo esse autor, com relação à dominação legal 
racional, qual das afirmativas subseqüentes é correta? 
A) A legitimidade da dominação legal racional encontra-se na crença de que o poder 
de mando tem um caráter sagrado ou herdado do passado. 
B) A legitimidade do mando se dá em razão das qualidades excepcionais de um(a) 
líder. 
C) Os aparatos burocráticos, na modernidade, só atrapalham a dominação legal 
racional, cuja legitimidade deve ser buscada na confiança no chefe. 
D) A dominação legal racional legitima-se na crença na validade do estatuto legal, 
da competência funcional e em torno de autoridades baseadas em uma ordem 
impessoal. 
E) O ordenamento da dominação legal racional está fixado na tradição e sua 
violação seria uma afronta à legitimidade do dominante. 
 
 
 
 
63 
 
4. Acerca dos tipos de dominação e sua legitimação, assinale a alternativa correta. 
A) A dominação carismática baseia-se na crença do caráter sagrado das tradições, 
sendo legítimo o poder e os que a ele são convocados em razão do costume. 
B) A dominação tradicional baseia-se no valor pessoal do indivíduo que se distingue 
por virtudes pessoais (heroísmo, santidade). 
C) A dominação legal possui caráter racional e impessoal, baseando-se na validade 
das normas estabelecidas racionalmente, sendo legítimo o poder e os que a eles 
são convocados nos termos da lei. 
D) A dominação carismática baseia-se no culto a uma personalidade famosa que 
exibe padrões de beleza e consumo dominantes na sociedade e é idolatrada por 
isso. 
E) A dominação tradicional possui um aspecto econômico positivo ao garantir a 
denominação de origem dos produtos típicos de uma determinada região. 
 
5. “A ética protestante e o espírito do capitalismo” , obra de Max Weber é uma 
importante referência do pensamento sociológico sobre todas as ciências humanas. 
A respeito de tal obra assinale a alternativa incorreta: 
A) A predestinação é taxada por Weber como uma ideia que impelia os protestantes 
a almejarem enriquecer materialmente 
B) Na análise de Weber o indivíduo tem destaque em detrimento dos fatores 
materiais que o circunscreve 
C) Weber relacionou a ascese protestante ao desenvolvimento do capitalismo 
D) O hedonismo segundo Weber é uma das características fundantes do 
protestantismo 
E)Weber debruçado sobre a questão da origem do capitalismo elaborou as reflexões 
reunidas em “ A assim chamada acumulação primitiva” 
 
 
 
 
 
 
 
 
64 
 
TEMAS DE SOCIOLOGIA 
CONTEMPORÂNEA 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
UNIDADE
 
 
65 
 
5.1 TEMAS DE SOCIOLOGIA CONTEMPORÂNEA 
 
Diferente das últimas três unidades, esta busca tangenciar três grandes temas 
da sociologia contemporânea, a partir da última metade do século XX. Os temas são a 
educação, trabalho e consumo, cada qual abordado por um viés específico, a saber: a 
relações entre educação, cultura e estratificação social; entre trabalho e existência em 
sentido amplo, incluindo o meio ambiente; entre consumo, identidade e subjetividade. 
Portanto ficam de fora vários outros temas: a constituição social dos papéis de 
gênero, os conflitos intergeracionais, a dinâmica dos movimentos sociais, os fatores da 
violência e da criminalidade, etc. A escolha daqueles temas e não destes ou de outros,é fundada na premissa de que são temas com os quais o estudante pode se relacionar 
pela própria experiência universitária e vivência numa sociedade capitalista. 
 
5.2 EDUCAÇÃO, CULTURA E ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL 
5.2.1 A instituição escolar: emancipadora ou conservadora? 
 
Paulo Freire (1921-1977) é um dos autores mais citados em periódicos 
acadêmicos no mundo inteiro, consideradas todas as áreas do conhecimento. Até o 
princípio dos anos 1960, o método preferido de alfabetização para todas as idades era 
a utilização de frases de estrutura fonética, sintática e semântica bastante simples. Ao 
lecionar para adultos por essa época, Freire revolucionou isso. 
Angico, no interior do Rio Grande do Norte, começou a abandonar a regra da 
simplicidade, e substituí-la pelo uso de palavras e enunciados retirados da experiência 
cotidiana de cada pessoa. O que isso tem de revolucionário? Ora, aqueles adultos 
carentes de instrução não eram crianças, mas o método de alfabetização utilizado os 
fazia se sentir como tal, reforçando a humilhação e o preconceito que sofriam. 
Para além do método de alfabetização, Paulo Freire desenvolveu uma filosofia 
da educação, expressa na sua obra-prima, A pedagogia do oprimido, de 1974. Esse 
livro ajuda a fundar uma nova corrente pedagógica, que ficou conhecida como 
“pedagogia crítica”. Um ponto-chave do livro é o diagnóstico da prevalência, no sistema 
escolar da época, do tipo de ensino-aprendizagem que chamou de educação 
“bancária”. 
 
 
 
66 
 
“Quanto mais analisarmos as relações educador-educandos, na escola, em 
qualquer de seus níveis (ou fora dela), parece que mais nos podemos 
convencer de que estas relações apresentam um caráter especial e marcante 
— o de serem relações fundamentalmente narradoras, dissertadoras. 
Narração de conteúdos que, por isto mesmo, tendem a petrificar-se ou a fazer-
se algo quase morto, sejam valores ou dimensões concretas da realidade. […] 
Há uma quase enfermidade da narração. […] 
A narração, de que o educador é o sujeito, conduz os educandos à 
memorização mecânica do conteúdo narrado. Mais ainda, a narração os 
transforma em “vasilhas”, em recipientes a serem “enchidos” pelo educador. 
Quanto mais vá “enchendo” os recipientes com seus “depósitos”, tanto melhor 
educador será. Quanto mais se deixem docilmente “encher”, tanto melhores 
educandos serão. 
Desta maneira, a educação se torna um ato de depositar, em que os 
educandos são os depositários e o educador, o depositante. Em lugar de 
comunicar-se, o educador faz “comunicados” e depósitos que os educandos, 
meras incidências, recebem pacientemente, memorizam e repetem. Eis aí a 
concepção “bancária” da educação, em que a única margem de ação que se 
oferece aos educandos é a de receberem os depósitos, guardá-lo se arquivá-
los. [...] 
Na visão “bancária” da educação, o “saber” é uma doação dos que se julgam 
sábios aos que julgam nada saber. Doação que se funda numa das 
manifestações instrumentais da ideologia da opressão — a absolutização da 
ignorância, que constitui o que chamamos de alienação da ignorância, 
segundo a qual esta se encontra sempre no outro” (FREIRE, 2013 [1974], 
formato ebook). 
 
No mesmo período em que Paulo Freire começava o seu trabalho como 
educador em Angico, um sociólogo francês um pouco mais jovem que ele, Pierre 
Bourdieu (1966), publicou um artigo de periódico acadêmico sustentando uma posição 
bem distinta daquela de Freire, mas não necessariamente oposta. Este artigo será o 
ponto de partida das mais importantes observações do sociólogo sobre a educação. 
A comparação entre as perspectivas de um e de outro servirá neste momento 
para aqui para esclarecer as diferenças fundamentais entre as abordagens da 
pedagogia, da filosofia e da sociologia sobre a educação. Em que pese o seu arcabouço 
teórico, a pedagogia tem uma dimensão metodológica mais pronunciada. A filosofia 
formula formula os princípios éticos e os objetivos últimos de uma certa educação. 
A filosofia e a pedagogia se ocupam (de formas distantes e complementares) 
de como deve ser a educação no seu melhor sentido. A sociologia investiga a 
educação como ela se dá na realidade e quais os seus efeitos concretos na sociedade. 
Assim, perceba a seguir como Bourdieu é um crítico do que ele classifica como 
“ideologia da educação libertadora”, sem todavia se constituir num reacionário. 
 
 
 
67 
 
“É provavelmente por um efeito de inércia cultural que continuamos tomando 
o sistema escolar corno um fator de mobilidade social, segundo a ideologia da 
“escola libertadora”, quando, ao contrário, tudo tende a mostrar que ele é um 
dos fatores mais eficazes de conservação social, pois fornece a aparência de 
legitimidade às desigualdades sociais, e sanciona a herança cultural e o dom 
social tratado como dom natural. 
Justamente porque os mecanismos de eliminação agem durante todo o 
[percurso], é legitimo apreender o efeito desses mecanismos nos graus mais 
elevados da carreira escolar. Ora, vê-se nas oportunidades de acesso ao 
ensino superior o resultado de uma seleção direta ou indireta que, ao longo 
da escolaridade, pesa com rigor desigual sobre os sujeitos das diferentes 
classes sociais. Um jovem da camada superior tem oitenta vezes mais 
chances de entrar na Universidade que o filho de um assalariado agrícola e 
quarenta vezes mais que um filho de operário, e suas chances são, ainda, 
duas vezes superiores àquelas de um jovem de classe média. É digno de nota 
o fato de que as instituições de ensino mais elevadas tenham também o 
recrutamento mais aristocrático: assim, os filhos dos quadros superiores e de 
profissionais liberais constituem 57% dos alunos da Escola Politécnica, 54% 
dos da Escola Normal Superior (frequentemente citada por seu recrutamento 
‘democrático’), 47% dos da Escola Central e 44% dos do Instituto de Estudos 
Políticos. 
Mas não é suficiente enunciar o fato da desigualdade diante da escola, é 
necessário descrever os mecanismos objetivos que determinam a eliminação 
contínua das crianças desfavorecidas. Parece, com efeito, que a explicação 
sociológica pode esclarecer completamente as diferenças de êxito que se 
atribuem, mais frequentemente, às diferenças de dons. A ação do privilégio 
cultural só é percebida, na maior parte das vezes, sob suas formas mais 
grosseiras, isto é, como recomendações ou relações, ajuda no trabalho 
escolar ou ensino suplementar, informação sobre o sistema de ensino e as 
perspectivas profissionais. Na realidade, cada família transmite a seus filhos, 
mais por vias indiretas que diretas, um certo capital cultural e um certo ethos, 
sistema de valores implícitos e profundamente interiorizados, que contribui 
pua definir, entre coisas, as atitudes face ao capital cultural e à instituição 
escolar. A herança cultural, que difere, sob os dois aspectos, segundo as 
classes sociais, é a responsável pela diferença das crianças diante da 
experiência escolar e, consequentemente, pelas taxas de êxito.” (BOURDIEU, 
1998 [1966], 41-42). 
 
Não é que Pierre Bourdieu fosse contra uma educação libertadora. Aliás, ele 
não era. Ele apenas está indicando neste fragmento como a instituição escolar tende 
a funcionar como instância de reprodução do privilégio cultural das elites. Paulo Freire 
pensa como sociólogo quando diagnostica o modelo de educação bancária, contudo 
o faz como meio para outro fim: mudar os métodos e os princípios da educação. 
Na sociologia da educação, rigorosamente falando, esse meio é o fim. A 
finalidade da investigação sociológica sobre a educação é conceber, em profundidade 
e com riqueza de detalhes extraídos da experiência, o que é responsável por este 
funcionamento do processo educativo e das instituições educacionais na nossa 
sociedade. Cabe às políticas públicas, orientadas científica e filosoficamente, lidar com 
isso. 
 
 
 
68 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
5.2.2 A relação entre a escola e a cultura através da sociologiade 
Pierre Bourdieu 
 
Algumas das contribuições mais importantes da obra sociológica posterior de 
Pierre Bourdieu dizem respeito aos seus conceitos de habitus, campo, poder 
simbólico, além de sua redefinição conceitual do capital como “forma” e não somente 
como “substância”. Você verá adiante como todas elas se aplicam ao tema da 
educação. O problema central dessa sociologia é a construção social do mérito e do 
talento. 
Trata-se de um problema no sentido metodológico do termo: eis o que a sua 
sociologia pretende explicar. Atente para o fato de que tradicionalmente a concepção 
do mérito e do talento como algo “construído” é um oxímoro ou uma contradição em 
termos. Tanto o mérito é a expressão de um merecimento individual, quanto o talento 
a expressão de uma aptidão individual. 
Como a sua constituição e não apenas o seu reconhecimento podem ter um 
caráter “social”, isto é, estrutural? De forma mais geral, como algo que é em princípio 
 
Na unidade sobre Weber, você aprendeu a distinguir entre a neutralidade como a 
isenção de valores e como objetividade. É nesse segundo sentido que a sociologia 
de Pierre de Bourdieu e em geral a própria sociologia da educação é “neutra” em 
relação à realidade da educação. Por que pela própria tradição intelectual da 
disciplina, herdeira do humanismo e do iluminismo, o ideal da emancipação humana 
faz parte do seu conjunto de valores arraigados. 
 
Assista a José Sérgio Leite Lopes, professor de antropologia do Museu Nacional 
do Rio de Janeiro, apresentar quem foi Pierre Bourdieu para o Canal Curta! No 
tocante ao patrono da pedagogia brasileira e um dos fundadores da pedagogia 
crítica, é mais importante destacar atualmente quem não é Paulo Freire, como 
nesse vídeo do canal Meteoro Brasil, no Youtube. Também disponível na 
plataforma há um bom vídeo do jornal Nexo sobre quem foi Paulo Freire e seu 
trabalho como professor. 
 
 
69 
 
uma característica estritamente individual pode possuir um componente social? Para 
responder a essa pergunta, Bourdieu cunhará o conceito de habitus. O autor utiliza o 
termo em latim para evitar a confusão com a moderna noção de hábito. 
Há centenas de livros por aí que aconselham como desenvolver e consolidar 
hábitos pessoais. Os hábitos, como nós os concebemos, são produto da repetição. O 
habitus de Bourdieu é produto de uma reprodução: a reprodução de um determinado 
conjunto de disposições. E aí ele utiliza o termo vernáculo mesmo, para se valer 
ativamente da sua polissemia. A disposição a que se refere é, simultaneamente, a 
maneira como as coisas se encontram distribuídas, e uma tendência à ação. 
Compreenda que, nesse sentido, não se trata de disposição como vigor físico ou força 
de vontade. O habitus de um indivíduo significa um conjunto de disposições 
socialmente incorporadas por ele através de processos específicos de socialização. 
Assim, Bourdieu distingue entre um habitus familiar, profissional, de classe, etc. 
Analisemos agora aquele diagrama do regime de distinções no campo sócio-
alimentar situado na abertura desta unidade. Este representa grosso modo um 
sistema de preferências que define um padrão de gosto na sociedade. Note que esse 
sistema varia em função de dois eixos: o nível de capital econômico e o nível de capital 
cultural dos indivíduos. 
A verdade é que essas “preferências” não são tão voluntárias quanto 
possamos imaginar, nem se explicam unicamente em função da imitação ou do 
“modismo”. Bourdieu vai sustentar que elas também variam em função dos habitus de 
classe, só que as classes sociais na sua sociologia não são reflexo direto das 
“relações sociais de produção” – como diria Marx. 
“Capital” nomeia de forma coloquial um recurso ou uma vantagem monetária, 
normalmente utilizada para alguma compra ou investimento. Nesse sentido, tratamos 
do capital como uma substância. Bourdieu fala na sua obra de um “capital social”, de 
um “capital cultural”, de um “capital político”, etc. Faz isso de modo metafórico: as 
relações interpessoais como recurso, o pertencimento cultural como recurso, etc. 
Para Bourdieu as diferenças entre as classes sociais, claro, refletem a 
distribuição desigual do capital econômico, mas não só: elas sobretudo refletem a má 
distribuição do capital cultural na sociedade. A cultura é uma dimensão hierarquizada: 
o bom gosto e o mau gosto, o que é belo e o que é feio, o que é admirável e o que 
não é, etc. Essa hierarquia é rígida, mas é relativa. 
 
 
70 
 
Aí vem à baila a redefinição que Bourdieu faz do conceito marxista da luta de 
classes, como sendo sempre revestidas por “lutas de classificação”. Quis com isto 
dizer que as classes sociais não se percebem umas às outras e ao seu conflito de um 
modo transparente. Elas estão o tempo rejeitando determinadas classificações e 
defendendo outras a seu respeito, das demais, e de sua relação com as demais. 
Considere a seguinte situação: uma festa com uma “mesa mineira”. No quintal 
de uma típica casa de família de periferia, importaria a sustância, o tempero, a fartura, 
etc. Num salão de festas alugado para alguma ocasião especial, a mise em place seria 
muito importante, haveria talvez “releituras” de certos pratos, e de um modo geral, os 
convidados debateriam sobre o “bom gosto” das escolhas. 
Percebemos imediatamente que essas preferências tem um componente 
social muito forte precisamente no momento em que somos deslocados de um 
ambiente com o qual estamos familiarizados para um outro. Ao contrário do capital 
econômico, o capital cultural não pode ser ganho ou perdido de forma súbita. Ele 
necessariamente é o produto de uma lenta acumulação. 
Isso é válido tanto para práticas simples, como a forma de se portar à mesa, 
como complexas, como o exercício de uma profissão. O ponto-chave é que nem todo 
capital cultural tem o mesmo valor na sociedade. Existe uma hierarquia. E por isso se 
coloca a questão fundamental das condições de acesso ao tipo de capital cultural mais 
valorizado pela sociedade. 
Bourdieu, como Paulo Freire, compreendeu o desajuste de certos estudantes 
em relação à instituição escolar. No caso de Freire, era o sentimento de menoridade 
ligado ao analfabetismo. No caso de Bourdieu, a indisciplina quase endêmica nas 
escolas de periferia. Para o sociólogo, a educação formal para certas classes sociais é 
um processo de tomada de posse dum patrimônio que lhe pertence, para outras, parece 
a anulação da sua cultura, da maneira de agir, pensar e sentir na qual foram 
socializados. A sociologia indica caminhos para a filosofia da educação e a pedagogia. 
 
5.3 TRABALHO E EXISTÊNCIA 
 
Outro tema importante na sociologia contemporânea é o estudo das 
transformações recentes no mundo do trabalho. Nos últimos vinte a trinta anos 
emergiu uma nova morfologia do trabalho (novo padrão de relações de trabalho); uma 
 
 
71 
 
nova semiologia do trabalho (novo conjunto dos seus significados na nossa vida 
pessoal); uma nova ecologia do trabalho (nova relação do montante de trabalho 
humano com a natureza). Ora vamos rapidamente pincelar algumas dessas questões. 
Tem se tornado corrente no debate atual sobre a morfologia da classe 
trabalhadora o conceito de “precariado”, inventado pelo sociólogo britânico Guy 
Standing, no seu livro homônimo. Essa seria uma nova expressão histórica da classe 
trabalhadora, depois do proletariado e do campesinato. Uma definição exata do que 
constitui o precariado ainda não é consenso na literatura sociológica. 
Autores brasileiros como Ruy Braga, Ricardo Antunes e Giovanni Alves, tem 
em maior ou menor grau, incorporado o conceito aos seus trabalhos. O ponto-chave, 
novamente, é a noção de expressão ou forma predominante da classe trabalhadora, 
que um dia já foi muito caracterizada pela fixação do trabalhador à terra (campesinato), 
pela extrema dificuldade em aurir os frutos do próprio trabalho para além do sustento 
da própria prole (proletariado),e agora seria caracterizada pela situação precária dos 
vínculos e responsabilidades patronais para com o trabalhador. 
 
“Exemplo emblemático [dessa situação] é o do zero hour contract, modalidade 
perversa de trabalho que viceja no Reino Unido e se esparrama pelo mundo, 
em que os contratos não têm determinação de horas - daí sua denominação. 
Nessa modalidade, trabalhadores das mais diversas atividades ficam à 
disposição esperando uma chamada. Quando a recebem, ganham 
estritamente pelo que fizeram, nada recebendo pelo tempo que ficaram à 
disposição da nova dádiva. Essa forma de contratação engloba um leque 
imenso de trabalhadores e trabalhadoras de que são exemplos médicos, 
enfermeiros, trabalhadores do care (cuidadores de idosos, crianças, doentes, 
portadores de necessidades especiais etc.), motoristas, eletricistas, 
advogados, profissionais dos serviços de limpeza, de consertos domésticos, 
dentre tantos outros. E os capitais informáticos e financeirizados, numa 
engenhosa forma de escravidão digital, se utilizam cada vez mais dessa 
pragmática de flexibilização total do mercado de trabalho.” (ANTUNES, 2018, 
formato ebook). 
 
Não é de hoje que essa modificação nos regimes de trabalho vem afetando o 
próprio sentido subjetivo que esse adquire na vida das pessoas, e a sociologia começa 
a se indagar sobre os impactos estruturais dessa transformação. O sociólogo britânico 
Richard Sennett, em A corrosão do caráter, de 2008, mostra como nas últimas gerações 
o trabalho veio perdendo centralidade na definição da identidade pessoal. 
O seu estudo mostra como os trabalhadores norte-americanos altamente 
sindicalizados dos anos 1940 e 1950 construíram uma vida familiar e pessoal no 
subúrbio das grandes cidades na qual o trabalho era a principal fonte de prestígio e 
 
 
72 
 
reconhecimento social. Vivia-se “da casa para o trabalho” e do “trabalho para a casa”, 
digamos assim. E isso garantia uma determinada rigidez e estabilidade emocional. 
Com a precarização das condições e dos vínculos – um trabalho temporário, 
intermitente, informal, à distância, etc. – as novas gerações experimentam o trabalho 
como um aspecto profundamente angustiante da sua própria existência. Sennett 
escreveu antes do boom das redes sociais, mas o seu trabalho antecipa de certo modo 
essa deriva e gravitação das fontes da identidade pessoal para outros planos da vida 
social, como o lazer e o consumo. 
Já da perspectiva da totalidade do trabalho humano e do seu impacto e 
relação com a natureza, uma das principais contribuições da sociologia 
contemporânea diz respeito à formulação de uma teoria sociológica do risco 
ambiental. A sociedade de risco, de 1986, escrito pelo sociólogo alemão Ulrich Bech, 
foi publicado com uma antecedência de meses em relação ao desastre nuclear de 
Chernobyl. No livro, Bech argumenta que a estrutura das desigualdades sociais sob o 
capitalismo não diz respeito somente à distribuição da riqueza, mas também, à 
distribuição dos riscos sociais e ambientais: o privilégio de estar longe da 
criminalidade, das catástrofes, etc. 
 
 
5.4 CONSUMO, IDENTIDADE E SUBJETIVIDADE 
 
Para tratar aqui finalmente do tema do consumo, é importante reconhecer as 
distinções entre a perspectiva do marketing, da sociologia e da psicologia sobre o 
fenômeno. A perspectiva do marketing até leva em consideração fatores sociológicos 
e psicológicos, mas o objetivo é claro: compreender para promover o consumo. A 
psicologia, por seu turno, lida com as mazelas psíquicas ligadas ao consumo. 
 
Se você puder, assista à mini-série Chernobyl d HBO, que ganhou diversos prêmios 
em 2019. A série expõe bastante os meandros políticos do desastre, na demora a 
reconhecer a gravidade do acidente, a oferecer uma resposta cientificamente eficaz 
para o problema, até a ocultação da extensão dos seus impactos reais. Contudo, 
tente observar ali essa dimensão da distribuição desigual do risco. Especialmente 
nos primeiros episódios. 
 
 
73 
 
A sociologia, enquanto ciência empírica, busca dar conta da totalidade do 
fenômeno, da sua origem histórica até as suas relações com a produção das 
identidades pessoais. A socióloga brasileira Gisela Taschner, no seu artigo Raízes da 
Cultura do Consumo, de 1996, faz um balanço das principais contribuições teóricas 
para o estudo do fenômeno na área. 
Marx e os economistas clássicos consideravam o consumo de mercadorias 
como uma atividade exclusivamente econômica, a absorção final do produto da cadeia 
produtiva. Os insights que aparecem nesses autores são esporádicos, mas não 
deixam de ser iluminadores. 
 
“O próprio Marx, no entanto, deixa uma abertura (que ele pessoalmente não 
explora) para se perceber que o consumo, ainda que determinado pela 
produção, é um momento que tem seus desdobramentos e condicionantes: 
por exemplo, na Contribuição à Crítica da Economia Política ele afirma: 
[…] A fome é a fome, mas fome que se satisfaz com carne cozinhada, comida 
com faca e garfo, não é a mesma fome que come a carne crua, servindo-se 
das mãos, das unhas, dos dentes.” 
É nesses termos que Marx abre as possibilidades de se perceber a dimensão 
simbólica que os processos de consumo envolvem e, portanto, a sua relação 
com a dimensão cultural da sociedade (TASCHNER, 1996, p. 26 et. seq.) 
 
No tocante ao estudo da gênese histórica do consumo, é importante a 
caracterização que o filósofo norte-americano Thorstein Veblen faz da nossa forma de 
consumir mercadorias como consumo “conspícuo”: o consumo que tem como objetivo 
adicional exibir-se. Sabemos que essa não é uma característica generalizada em toda 
a sociedade em todos os momentos da história. O consumo conspícuo era uma prática 
dos chefes tribais, que consumiam publicamente e a vista de todos os troféus das suas 
conquistas. A sociedade de corte europeia dos séculos XVI-XVIII generaliza esse tipo 
de consumo entre os nobres palacianos, que vivem próximo do rei. A burguesia 
industrial e comercial do século XIX vai se apropriar dessa forma de consumo, 
reagindo contra os valores de ostentação da aristocracia e desenvolvendo padrões de 
gosto mais sóbrios, mas com um consumo ainda muito realizado em função de um 
status social de classe. É somente no século XX que o consumo conspícuo se 
transforma num fator de competição por status entre os grupos no interior de uma 
determinada classe social, e aí que os gostos pessoais ascendem ao primeiro plano. 
 
“É evidente que o que compramos diz algo sobre quem somos. Não poderia 
ser de outra forma. Mas o que estou sugerindo é que o verdadeiro local onde 
 
 
74 
 
 
reside a nossa identidade deve ser encontrado em nossas reações aos 
produtos e não aos produtos em si. […] 
É importante notar que a nossa maneira de conceber a própria identidade é 
muito nova. Realmente, levando-se conta o tempo histórico, acabou de 
acontecer. Por isso, é pouquíssimo provável que nossos avós, até mesmo 
nossos pais, pensassem sobre esse assunto dessa maneira. Para eles, antes 
de tudo, a identidade estava muito mais relacionada ao status e à posição que 
ocupavam em várias instituições e associações, como família, trabalho, 
religião, raça, etnia e nacionalidade. Tudo isso era muito mais importante do 
que algo tão insignificante quanto o gosto pessoal. Consequentemente, suas 
autodefinições tendiam a enfatizar seu status de fazendeiro, pescador, pai, 
presbiteriano, católico, inglês ou sueco etc., e não seu gosto por vinho, 
literatura, música ou atividades de lazer. (CAMPBELL, 2006, p.47 et. seq.) 
 
Diante do caráter necessariamente limitado desse tipo de introdução à 
sociologia, feita neste material didático, nunca é demais lembrar o quão preliminar são 
essas notícias dos diferentes caminhos da sociologia atual. Isso porque são temas 
muito globais. Na próxima unidade, embora também continuemos nesse formato de 
texto mais “exploratório”, você verá que existe um certo conjunto bem delimitado de 
autores,questões e debates específicos relativos aos temas que vamos abordar. Isso 
porque vamos nos circunscrever na próxima unidade a um contexto nacional 
específico: o da sociologia da sociedade brasileira. 
 
 
 
Subjetividade: dimensão da consciência íntima que o indivíduo tem de seus 
sentimentos e ideias; 
Reacionário: pessoa radicalmente contrária à determinada mudança social; 
Oxímoro: tipo de expressão linguística que consiste em relacionar termos contrários, 
ex: fogo frio; 
Vernáculo: nome ou adjetivo usado para indicar a língua corrente de um país; 
Polissemia: pluralidade de significados; 
Mise em place (culinária): gesto de organizar e montar a disposição dos pratos; 
Morfologia (biologia): estudo da estrutura e da forma dos órgãos e organismos vivos; 
Semiologia (linguística): idem. semiótica, teoria geral dos signos e da formação dos 
símbolos. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
75 
 
 
 
1. A noção de campo desenvolvida por Pierre Bourdieu propõe-se a resolver um dilema 
teórico. Até então, para explicar os produtos culturais — arte, literatura, religião, 
ideologia —, escolhia-se entre duas vias exclusivas: o estruturalismo e o marxismo. Em 
síntese, isso significava o confronto entre duas tradições, em que se privilegiavam os 
produtos dotados de coerência interna, subtraindo-se os determinantes externos, ou 
então, caracterizavam-se tais produtos pelas funções sociais que eles exerciam, 
notadamente as funções ideológicas de justificação dos interesses das classes 
dominantes. Segundo esse autor, a noção de campo 
A) consiste na separação entre o poder e a violência. 
B) sintetiza o mundo subjetivo e o mundo objetivo, articulando a ordem do simbólico em 
uma realidade complexa, em que a cooperação entre ambos transforma forças 
contrárias em aliados que agem graças ao seu embate e não apesar dele. 
C) considera língua, mito, arte e religião como estruturas estruturantes, ou seja, 
objetivas, atribuindo-lhes papel ativo. 
D) pressupõe que mito, religião e arte, apesar de forte presença simbólica, não 
cumprem nenhum papel político no jogo da dominação. 
E) assume que as esferas da arte, da literatura, da educação, da religião são sistemas 
de posições de universos sociais particulares cujas regras do jogo são compartilhadas. 
 
2. Um objeto de pesquisa só pode ser definido e construído em função de uma 
problemática teórica que permita submeter a uma interrogação sistemática os aspectos 
da realidade colocados em relação entre si pela questão que lhes é formulada. O 
cientista social que recusa a construção controlada e consciente de seu distanciamento 
ao real e de sua ação sobre o real pode não só impor aos sujeitos determinadas 
questões que não fazem parte da experiência deles e deixar de formular as questões 
suscitadas por tal experiência, mas ainda formular-lhes, com toda a ingenuidade, as 
questões que ele próprio se formula a respeito deles, por uma confusão positivista entre 
as questões que se colocam objetivamente aos sujeitos e as questões que eles 
formulam de forma consciente. Sem dúvida, pode-se e deve-se coletar os mais irreais 
discursos, mas com a condição de ver neles, não a explicação do comportamento, mas 
um aspecto do comportamento a 
ser explicado. 
– Pierre Bourdieu; Jean-Claude Chamboredon; Jean-Claude Passeron. Ofício 
de sociólogo: metodologia da pesquisa na sociologia. 4.ª ed. Trad. 
Guilherme João de Freitas Teixeira. Petrópolis: Vozes, 2004. 
 
Considerando os argumentos apresentados no texto com relação à construção do 
objeto de pesquisa nas ciências sociais, assinale a opção correta: 
A) Os discursos e problemas sociais já se encontram previamente elaborados para 
os sujeitos sociais; cabe ao cientista social, aceitá-lo. 
 
 
76 
 
B) Problemas teóricos e metodologias de investigação são partes acessórias das 
ciências sociais e não substituem a identificação com a realidade investigada. 
C) Todos estão sujeitos ao exercício de uma observação espontânea da realidade, 
menos o cientista social, que sempre observa a realidade através da teoria. 
D) Métodos e técnicas de pesquisa aplicados ao acaso e sem a orientação de uma 
problemática teórica, contribuem pouco para a construção de uma perspectiva 
sociológica. 
E) A metodologia das ciências sociais busca uma reprodução do senso comum na 
transformação dos problemas sociais como problemas de pesquisa. 
 
3. O conceito de habitus, desenvolvido por Pierre Bourdieu, constituiu-se como a chave-
mestra de sua sociologia. De modo geral, o habitus refere-se a um sistema de 
disposições duráveis adquiridos pelo indivíduo no curso de seu processo de 
socialização. Apresenta-se como um produto das condições sociais passadas e como 
princípio gerador das práticas e das representações, permitindo ao indivíduo construir 
as estratégias antecipadoras. Segundo Bourdieu, essa noção contribui para a 
superação da oposição entre os pontos de vista objetivista e subjetivista, entre as forças 
exteriores da estrutura social e as forças interiores resultantes das decisões livres dos 
indivíduos. 
– FERREOL, G. Dictionnaire de Sociologie. Paris: Armand Colin, 1991. (com 
adaptações) 
Considerando o texto acima, analise as afirmações a seguir. 
I. O termo habitus, adotado para marcar a diferença com conceitos correntes, tais como 
hábito, costume, praxe e tradição, faz a mediação entre a função e a ordem. 
II. A instituição escolar tem por função produzir indivíduos dotados de sistema de 
esquemas inconscientes que constituem sua cultura, ou melhor, o seu habitus, com 
potencial para transformar a sua herança coletiva em inconsciente individual e comum. 
III. Nas sociedades onde inexiste a escola, a função de inculcação do habitus é 
garantida pelas formas primitivas de classificação (bem/mal, bonito/feio, bom/mau), 
constituídas pelos mitos e pelos ritos. 
IV. O habitus, como capacidade de engendrar as novas práticas, funciona como uma 
gramática geradora da conduta, ou seja, como um sistema de esquemas interiorizados 
que permitem engendrar todos os pensamentos, as percepções e as ações 
características de uma cultura. 
V. O habitus é totalmente dependente, pois reside entre o inconsciente-condicionado e 
o intencional calculado. 
É correto apenas o que se afirma em 
A) I, II, e V. 
B) I, III e IV. 
C) I, IV e V. 
D) II, III e IV. 
E) II, IV e V. 
 
 
 
77 
 
4. “A ambientalização dos conflitos sociais está relacionada à construção de uma nova 
questão social, uma nova questão pública. Pode-se supor que a construção dessa 
questão tenha-se iniciado, nos países desenvolvidos industriais, relacionada à produção 
de acidentes industriais, ampliados de grandes riscos e de sua internacionalização. 
Nesses países industriais, a aplicação da ciência numa escala industrial, entre outras, 
leva autores, como Giddens, a caracterizarem tais sociedades como sendo de 
modernização reflexiva e de incerteza industrial, enquanto outros, como Ulrick Beck, as 
classificam como sociedades de risco.” 
– J. S. Leite Lopes (Coord.). A ambientalização dos conflitos sociais. Rio: 
Relume-Dumará, 2004 (com adaptações). 
À luz da reflexão acima, assinale a opção correta. 
A. A aplicação do progresso científico de forma não controlada pode levar à geração de 
riscos ambientais. 
B. As noções de sociedade de risco e de modernização reflexiva fazem avançar os 
estudos sociológicos apenas no Terceiro 
Mundo. 
C. A condição de país desenvolvido industrial não é essencial para a discussão sobre 
meio ambiente. 
D. As noções de sociedade de risco e de modernização reflexiva são formuladas por 
correntes do pensamento sociológico contemporâneo que não dialogam entre si. 
E. A discussão sobre meio ambiente, nos países desenvolvidos, não se aplica aos 
países menos desenvolvidos. 
 
5. 
GOSTOS E PRÁTICAS CULTURAIS POR CLASSE SOCIAL (%) 
– CODATO, A.; LEITE, F. Classe Social. In: ALMEIDA, H.B.; SZWAKO, J. 
(Orgs.). Diferenças, igualdade. São Paulo: Berlendis & Vertecchia, 2009. p. 50. 
(Tabela Adaptada e resumida a partir da obra de PierreBourdieu). 
 
Pierre Bourdieu analisou, em sua obra A Distinção, a manifestação do gosto dos 
indivíduos conforme suas posições na estratificação da sociedade francesa. A tabela 
acima resume uma parte dos achados da pesquisa de Bourdieu. Considerando a tabela 
apresentada e as ideias de Bourdieu acerca do gosto dos indivíduos, analise as 
afirmações abaixo. 
 
 
78 
 
I. As opções de gosto não variam em relação às classes, o que se explica pelo habitus, 
ou seja, as preferências fazem parte das disposições incorporadas socialmente. 
II. As preferências variam de acordo com a posição dos indivíduos na estratificação 
social, o que reflete a ação do capital simbólico, que homogeneiza a sociedade ao 
instituir padrões massificados de consumo. 
III. As opções de gosto variam em relação às classes, já que o consumo dos bens 
envolve mecanismos de distinção e disputas pela legitimidade intra e entre as classes. 
IV. As preferências variam conforme o posicionamento de classe, pois envolvem habitus 
diferenciados e lutas simbólicas que unem ou distanciam agentes conforme seus estilos 
de vida. 
É correto apenas o que se afirma em: 
A) I e II 
B) I e III 
C) II e III 
D) II e IV 
E) III e IV 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
79 
 
TEMAS DE SOCIOLOGIA 
BRASILEIRA 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
UNIDADE
 
 
80 
 
6.1 CUIDADO COM O MITO 
 
Esta última unidade é toda dedicada a alguns dos principais temas da 
sociologia brasileira. Aqui você conhecerá um pouco da crítica aos três grandes mitos 
que informam uma determinada perspectiva tradicional da sociedade brasileira: o mito 
do “encontro das três raças”, o mito da “democracia racial” e o mito da “cordialidade 
brasileira”, estes que são alguns dos nossos principais mitos nacionais. 
A percepção que a sociedade brasileira faz de si mesma é, em larga medida, 
tributária desses mitos ou das críticas movidas contra eles no âmbito da sociologia, e 
absorvidas pelas instituições públicas, dentro e fora do Estado. Este sendo o percurso 
que organiza essa unidade, convém retomar e aprofundar a menção feita ao mito na 
unidade 1, pois a referência ali era o mito antigo, e ora interessa o mito moderno. 
É curioso refletir sobre isso hoje em dia em língua portuguesa. Uma gíria 
recente deslocou a palavra “mito” no léxico popular, de substantivo em si para a forma 
substantivada de um verbo inexistente: “mitou”. Mito vira quem “mitou” e “mita” quem 
chama a atenção nas redes sociais, “adorado” por muitos likes. Há pouco, sobretudo 
na escola, “mita” era um substantivo, e não o presente do indicativo do verbo “mitar”. 
Deslizamento semântico do “mito” no léxico brasileiro atual 
 
 
Mas... qual é a forma do mito 
moderno? 
 
 
 
 
 
 
Montagem justapondo resultados sobre a palavra “mito” numa ferramenta de busca, o cartaz 
original do filme “Eu sou a Lenda”, filme de 2007 estrelando Will Smith, e a paródia do cartaz que 
começou a circular em 2016 estampando Jair Bolsonaro. 
 
 
81 
 
A metáfora do mito e da lenda desliza historicamente entre a glória e a mentira 
desde os primórdios da cultura ocidental. O mito antigo é uma narrativa fabulosa, cheia 
de feitos e personagens extraordinários, frequentemente heroicos, que pretende – e 
isso é importante – não explicar a realidade, mas sustentar uma determinada crença 
sobre ela. Explicá-la significaria torná-la inteligível. 
Mas o mito não torna a realidade inteligível, ele a torna aceitável ou 
inaceitável. E isso o faz reafirmando o dogma, amparado na tradição. A filosofia grega 
antiga rompera com o mito em vários níveis. Primeiramente, reconhecendo os seus 
limites: não cabe à filosofia tratar de tudo, somente o que pode ser explicado pela 
razão. Segundo, negando autoridade última à tradição moral ou à palavra de 
inspiração divina. 
Ao fazer isso, a filosofia rompia com os profetas e os oráculos, os “donos da 
verdade”, e inaugurava uma tradição de “mestres da verdade”, uma tradição 
intelectual. Esse caminho aberto pela filosofia, e reiterado pela ciência, irá restringindo 
o alcance das crenças sustentadas com base no mito, culminando no processo que 
Weber denominou “desencantamento do mundo”. 
Ainda assim, o mito não desapareceu e provavelmente jamais desaparecerá. 
As metáforas correntes do mito antigo vivem da nostalgia do seu aspecto épico e 
fabuloso, de um lado, e de uma imagem simplificada da ruptura operada pela filosofia, 
de outro, imagem esta que é mais o produto da ciência moderna do que da própria 
filosofia. A ciência moderna, de cunho iluminista e positivista, buscou rechaçar o mito. 
Na perspectiva das ciências humanas, o mito é algo para ser explicado. Sem 
o alcance da fantasia, sem o suporte de uma sociedade de contadores de histórias, o 
mito sobrevive na forma crua do esquema narrativo genérico. Os mitos nacionais, por 
exemplo, reafirmam dogmas essenciais da nacionalidade, amparados numa versão 
tradicional (e não científica) da história. 
 
6.2 O MITO DO ENCONTRO DAS TRÊS RAÇAS 
 
O que distinguiria essencialmente a história do Brasil – do seu passado e de 
seu futuro – da história de outros países, sobretudo da história de outras ex-colônias 
de Portugal? Nas primeiras décadas após a fundação do Império do Brasil, essa era 
 
 
82 
 
uma questão relevante para os intelectuais e as elites letradas radicadas na corte, no 
Rio de Janeiro. Uma questão intelectual, mas também política. 
Tratava-se de simultaneamente de definir o lugar do Brasil na história 
universal e formular uma pedagogia da nação. Em 1840, o recém-criado Instituto 
Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) – dedicado a fomentar o registro, o estudo e 
o ensino da história no país – promoveu um concurso de monografias para responder 
a questão. Em 1847, venceu o naturalista alemão Carl Phillip Von Martius (1794-1868). 
Em Como se deve escrever a história do Brasil, Von Martius traçou um 
poderoso programa historiográfico. Não seria uma história política da saga da dinastia 
de Bragança, desde a idade média portuguesa até a fundação do Império do Brasil. 
Não seria uma história eclesiástica da expansão da fé cristã na América, desde as 
primeiras missões catequistas até o estabelecimento do Padroado Civil na 
constituição de 1824. Seria uma história do povo brasileiro da seguinte maneira: 
 
“Qualquer que se encarregar de escrever a história do Brasil jamais deverá 
perder de vista quais os elementos que de aí concorreram para o 
desenvolvimento do homem. São, porém, estes elementos de natureza muito 
diversa, tendo para a formação do homem convergido de um modo particular 
três raças, a saber: a de cor de cobre ou americana, a branca ou caucasiana 
e, enfim, a preta ou etiópica. Do encontro, da mescla, das relações mútuas e 
mudanças dessas três raças, formou-se a atual população, cuja história por 
isso mesmo tem um cunho muito particular. Pode-se dizer que a cada uma 
das raças humanas compete, segundo a sua índole inata, segundo as 
circunstâncias debaixo das quais ela vive e se desenvolve, um movimento 
histórico característico e particular. Portanto, vendo nós um povo novo nascer 
e desenvolver-se da reunião e contato de tão diferentes raças humanas, 
podemos avançar que a sua história se deve desenvolver segundo uma lei 
particular das forças diagonais. Cada uma das particularidades físicas e 
morais, que distinguem as diversas raças, oferece a este respeito um motor 
especial; e tanto maior será a sua influência para o desenvolvimento comum, 
quanto maior for a energia, número e dignidade da sociedade de cada uma 
dessas raças. Disso necessariamente se segue que o português que, como 
descobridor, conquistador e senhor, poderosamente influiu naquele 
desenvolvimento, o português, que deu as condições e garantias morais e 
físicas para um reino independente; que o português se apresenta como o 
mais poderoso e essencialmotor. Mas também de certo seria um grande erro 
para todos os princípios da historiografia pragmática, se se desprezassem as 
forças dos indígenas e dos negros importados, forças estas que igualmente 
concorreram para o desenvolvimento físico, moral e civil da totalidade da 
população. Tanto os indígenas como os negros reagiram sobre a raça 
predominante.” (VON MARTIUS apud ROMERO, 1902, p. 13-14). 
 
Von Martius estabelece um programa para uma historiografia pragmática, o 
que no jargão do século XIX significa uma história capaz de instilar pedagogicamente 
valores cívicos e patrióticos na população brasileira. Note que a linguagem conceitual 
 
 
83 
 
evoca a “física social” de Comte: o “motor” da história do Brasil seria a “força diagonal” 
composta (pelos vetores) do “movimento” histórico particular de cada raça. 
Tal modelo “explicativo” da história nacional sofrerá uma modificação radical 
nas mãos de Sílvio Romero, influente crítico literário brasileiro do final do século XIX, 
e expoente da geração intelectual de 1870. No século XIX, a literatura era vista como 
a síntese da cultura nacional, e a crítica literária alçava-se ao estatuto de uma crítica 
da cultura com pretensões ao foro de ciência social de inspiração darwiniana. 
 
“Pois bem, se procurarmos numa fórmula genérica e exata definir a psicologia 
do povo brasileiro; se intentarmos, segundo a velha frase consagrada, 
penetrar na consciência nacional, para apreender-lhe os contornos e a 
moldura, muito atilados seremos, se conseguirmos o nosso anelo. 
Povo que descendemos de um estragado e corrupto ramo da velha raça 
latina, a que juntara-se o concurso de duas das velhas raças mais degradadas 
do globo, os negros da costa e os peles-vermelhas da América, nós ainda não 
nos distinguimos por uma só qualidade digna de apreço, a não ser o fraco 
lastimável de mascarar-nos de grandezas que não nos assentam, imitando, 
macaqueando sem alvo nem critério todos os vícios e loucuras que trazem 
uma etiqueta de Paris! 
O servilismo do negro, a preguiça do índio e o gênio autoritário e tacanho do 
português produziram uma nação informe, sem qualidades fecundas e 
originais. […] As três raças que constituíram o povo brasileiro ainda não se 
embeberam de todo entre si. 
Além de ser ainda tosca a formação do mestiço, os três povos distintos, como 
no primeiro século da conquista, ainda acampam um ao lado do outro. […] O 
povo brasileiro não é pois, um povo feito, um tipo étnico definido, determinado 
original. Poderá vir a sê-lo um dia, e nós o cremos; esta é a obra dos séculos 
por vir. O gênio brasileiro não achou ainda o seu caminho; é por isso que não 
temos uma indústria nossa, uma literatura nossa, uma arte, uma filosofia 
nossas; vivemos de contrafações do pensamento alheio […]. É por isso que 
não temos, nunca tivemos, uma opinião pública esclarecida em política, nem 
uma intuição literária própria. Ainda entre nós as três raças, não 
desapareceram confundidas num tipo novo, e este trabalho será lentíssimo. 
Por enquanto a mescla nas cores e a confusão nas ideias é o nosso 
apanágio.” (ROMERO, 1902, p. 266-267). 
 
Influenciado pelo positivismo, mas sobretudo pelo darwinismo social, Romero 
formulará uma versão negativa do mito do encontro das três raças, cuja repercussão 
pode ser observada ainda hoje. Entretanto, essa ainda não é a versão mais perversa 
do mito. Note que Romero valoriza a miscigenação como matriz de uma autenticidade 
brasileira capaz de romper a subalternidade cultural em relação à Europa. 
Apesar de tudo, Romero concebe a raça como entidade histórica que encarna 
o modo de ser de uma população definido por características hereditárias moldadas 
pela genética e pela adaptação ambiental. Essa concepção é ligeiramente distinta 
 
 
84 
 
desta que pautou o movimento eugenista brasileiro do começo do século XX, este que 
advogava políticas públicas para o “branqueamento” da população brasileira. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Coube a Gilberto Freyre (1900-1987), em Casa Grande & Senzala, de 1933, 
hoje um clássico da sociologia brasileira, como que a última pá de cal sobre o estatuto 
científico dessas teorias. Freyre registrou o seu testemunho a respeito deste debate 
no prefácio original do livro, fazendo dele uma espécie de grande resposta ao 
movimento eugenista, e um documento importante da nossa história. 
 
“Era como se tudo dependesse de mim e dos de minha geração; da nossa 
maneira de resolver questões seculares. E dos problemas brasileiros, 
nenhum que me inquietasse tanto como o da miscigenação. Vi uma vez, 
depois de mais de três anos maciços de ausência do Brasil, um bando de 
marinheiros nacionais – mulatos e cafuzos – descendo não me lembro se do 
São Paulo ou do Minas pela neve mole de Brooklyn. Deram-me a impressão 
de caricaturas de homens. [...] A miscigenação resultava naquilo. Faltou-me 
quem me dissesse então, como em 1929 Roquette-Pinto aos arianistas do 
Congresso Brasileiro de Eugenia, que não eram simplesmente mulatos ou 
cafuzos os indivíduos que eu julgava representarem o Brasil, mas cafuzos e 
mulatos doentes. 
Foi o estudo de antropologia sob a orientação do professor Boas que primeiro 
me revelou o negro e o mulato no seu justo valor – separados dos traços de 
raça os efeitos do ambiente ou da experiência cultural. Aprendi a considerar 
fundamental a diferença entre raça e cultura; a discriminar entre os efeitos de 
relações puramente genéticas e os de influências sociais, de herança cultural 
e de meio. Neste critério de diferenciação fundamental entre raça e cultura 
assenta todo o plano deste ensaio. Também no da diferenciação entre 
hereditariedade de raça e hereditariedade de família. 
Por menos inclinados que sejamos ao materialismo histórico, tantas vezes 
exagerado nas suas generalizações – principalmente em trabalhos de 
sectários e fanáticos – temos que admitir influência considerável, embora 
nem sempre preponderante, da técnica da produção econômica sobre a 
estrutura das sociedades; na caracterização da sua fisionomia moral. É uma 
influência sujeita a reação de outras; porém poderosa como nenhuma na 
capacidade de aristocratizar ou de democratizar as sociedades; de 
desenvolver tendências para a poligamia ou a monogamia; para a 
estratificação ou a mobilidade. Muito do que se supõe, nos estudos ainda tão 
flutuantes de eugenia e de cacogenia, resultado de traços ou taras 
 
Para saber mais sobre isso, nada melhor do que começar ouvindo a antropóloga 
e historiadora Lilia Schwarcz sobre a entrada das teorias raciais no Brasil, no seu 
próprio canal no Youtube. Ela é a autora do estudo pioneiro sobre este assunto 
no país – O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil 
(1870-1930) –, publicado pela primeira vez em 1993. Além disso, assista a 
Racismo: uma história (documentário em 3 episódios da BBC), compartilhado e 
comentado pela professora Joelza Rodrigues em seu blog profissional. 
 
 
85 
 
hereditárias preponderando sobre outras influências, deve-se antes associar 
à persistência, através de gerações, de condições econômicas e sociais, 
favoráveis ou desfavoráveis ao desenvolvimento humano” (FREYRE, 2003, 
p. 31). 
 
Casa Grande & Senzala não é um texto de sociologia acadêmico-universitária, 
mas um ensaio sociológico-literário sobre a origem da família patriarcal no Brasil. 
Freyre preferia se dizer um escritor com formação sociológica, formação esta que faz 
questão de destacar neste prefácio. Note como ele habilmente incorpora a teoria 
antropológica e sociológica da época – de Boas e Marx. 
Ao distinguir raça e cultura, herança genética e herança material, Freyre ainda 
utiliza uma linguagem próxima da dos darwinistas sociais, ainda utiliza um esquema 
narrativo que privilegia o “encontro das três raças”, entretanto, – e isso é importante – 
apenas como ponto de partida e moldura para um trabalho investigativo e especulativo 
de grande profundidade histórica e sociológica.Entretanto – e isso pode ser difícil de perceber a princípio –, nenhum desses 
autores postula a matriz do povo brasileiro no “encontro das três raças” enquanto um 
mito. Todos eles o fazem como um modelo explicativo ancorado por uma teoria 
centrada no conceito de raça. Paralelamente, esse modelo é vulgarizado na vida 
social, escapando ao debate intelectual, e sobrevivendo a despeito das correções na 
teoria. 
Os eugenistas falharam, mas souberam capitalizar sobre o darwinismo social 
para pressionar politicamente a adoção de políticas de segregação racial no país. Na 
contramão desse movimento, os governos de Getúlio Vargas depois da revolução de 
1930 transformarão parte dos argumentos de Freyre propaganda política. Diga-se de 
passagem, uma propaganda responsável pela difusão do mito da democracia racial. 
 
 
É importante que no tocante à sociologia brasileira você se familiarize com a obra 
de Gilberto Freyre. Pode lhe ajudar nesse sentido assistir aos dois blocos do 
programa Imagem da Palavra sobre Casa Grande & Senzala produzidos pela 
Rede Minas.em 2013, e ainda ao episódio completo do programa Globo Ciência 
sobre Gilberto Freyre, de 2009. 
 
 
86 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
6.3 O MITO DA DEMOCRACIA RACIAL 
 
Em Casa Grande & Senzala, Gilberto Freyre descreve com riqueza de 
detalhes nunca antes alcançada os horrores da escravidão no Brasil e aqueles 
aspectos da cultura brasileira de matriz africana e portuguesa. A tese principal do livro 
é que a escravidão no Brasil aproximou as diferentes raças de um modo mais íntimo 
e intenso, embora não menos violento, que nos Estados Unidos e outras partes do 
mundo. 
A escravidão, mais do que o encontro das raças, é o eixo da explicação 
freyriana. Nisso ele é tributário de um outro importante precursor da sociologia 
brasileira, quem primeiro formulou a ideia da escravidão como uma estrutura social 
duradoura, transcendendo a sua existência como forma de trabalho e sistema de 
produção: Joaquim Nabuco (1849-1910). 
 
“A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional 
do Brasil. Ela espalhou por nossas vastas solidões uma grande suavidade; 
seu contato foi a primeira forma que recebeu a natureza virgem do país, e foi 
a que ele guardou; ela povoou-o. como se fosse uma religião natural e viva, 
com os seus mitos, suas legendas, seus encantamentos; insuflou-lhe sua 
alma infantil, suas tristezas sem pesar, suas lágrimas sem amargor, seu 
silêncio sem concentração, suas alegrias sem causa, sua felicidade sem dia 
seguinte… É ela o suspiro indefinível que exalam ao luar as nossas noites do 
Norte. Quanto a mim, absorvi-a no leite preto que me amamentou; ela 
envolveu-me como uma carícia muda toda a minha infância; aspirei-a da 
dedicação de velhos servidores que me reputavam o herdeiro presuntivo do 
pequeno domínio de que faziam parte. Entre mim e eles deve ter-se dado uma 
troca contínua de simpatia, de que resultou a terna e reconhecida admiração 
que vim mais tarde a sentir pelo seu papel. Este pareceu-me, por contraste 
com o instinto mercenário da nossa época, sobrenatural à força de 
naturalidade humana, e no dia em que a escravidão foi abolida, senti 
distintamente que um dos mais absolutos desinteresses de que o coração 
humano se tenha mostrado capaz não encontraria mais as condições que o 
tornaram possível” (NABUCO, 1949 [1900], p.182). 
 
 
Nenhum desses autores criou o mito do “encontro das três raças”, nem os governos 
de Getúlio Vargas criaram o mito da democracia racial. Porque um mito não se cria, 
não nasce, apenas toma forma. Diferentes instituições adotam o mito, sustentam 
interesses e crenças ligadas à sua manutenção. Porém, a rigor, não o controlam. 
Porque o mito é um produto da vida social, ainda que não tenha sido completamente 
inventado por ela. 
 
 
87 
 
Findo o período da escravidão, o padrão de relações sociais urdido em seus 
meandros caracterizaria de forma singular a sociedade, atenuando as distâncias 
sociais e culturais. Essa seria, por assim dizer, a vantagem da cultura brasileira sobre 
a cultura de outros países que no passado implantaram o regime escravista. E embora 
essa não seja uma ideia defendida no livro, Freyre a corroborou em sua vida pública. 
Novamente, um modelo teórico explicativo transcende o debate intelectual e 
adquire uma vida própria no mundo social sob a forma do mito. Se o mito das três 
raças se difundiu sobretudo como uma espécie de “pecado original” da sociedade 
brasileira, o mito da democracia racial representou por um tempo a sua expiação. Logo 
após a Segunda Guerra Mundial, o Brasil era tido como um exemplo nesse sentido. 
Apesar das sucessivas gerações de sociólogos e antropólogos desmentirem 
a ideia, evidenciando, descrevendo e analisando conflitos de caráter racial no Brasil; 
apesar do teatro, da literatura, e dos movimentos sociais o denunciarem e criticarem 
duramente, o mito democracia racial permaneceu como um importante pilar ideológico 
dos governos brasileiros no século XX, e um ativo da diplomacia brasileira. 
Depois da Conferência de Durban em 2001, no final de seu segundo mandato, 
Fernando Henrique Cardoso foi o primeiro Presidente da República a reconhecer 
oficialmente a existência de preconceito racial no Brasil, dando início a um programa 
de ações afirmativas que seria encampado e desenvolvido em seguida pelo próximo 
presidente eleito, Luís Inácio Lula da Silva. 
 
6.4 O MITO DA CORDIALIDADE BRASILEIRA 
 
Os mitos anteriores dizem respeito à formação da matriz étnica do povo 
brasileiro e à estrutura das relações entre os principais grupos que a compõe, 
enquanto este diz respeito ao modo de ser dos brasileiros. Qual seria a principal 
característica da sociabilidade brasileira? Qual seria a forma típica das relações 
interpessoais na nossa sociedade? E o que isso significa? 
O mito da cordialidade brasileira consiste naquela prefiguração de narrativas 
que sustentam que o brasileiro é em essência mais passional e menos racional dodo 
que os representantes de outros povos. Pode ser que, ao contrário dos mitos 
mencionados antes, este tenha um fundamento empírico mais próximo da nossa 
 
 
88 
 
experiência cotidiana. Mas também foi impulsionado por leituras equivocas da 
sociologia. 
A explicação do caráter nacional é possível dentro de uma teoria sociológica, 
dentro da qual aliás é debatido é um fator mais ou menos determinante do 
funcionamento das instituições. Testemunho da predominância do mito da 
cordialidade como explicação do caráter nacional brasileiro é o fracasso de 
caracterizações alternativas como a do modernista Paulo Prado (1869-1943) em 
Retrato do Brasil, de 1928. 
Talvez nada seja mais estranho para nós do que a afirmação de que o 
brasileiro é essencialmente um povo triste. O livro de Paulo Prado tem o subtítulo de 
“ensaio sobre a tristeza brasileira”, e misturando prosa literária, pesquisa histórica e 
vagas ideias sociológicas, busca sustentar precisamente essa caracterização. Chega 
a comparar o povo brasileiro ao jaburu: ave avantajada, mas estagnada e cabisbaixa. 
O diagnóstico de Paulo Prado na verdade simboliza a angústia das elites 
intelectuais e políticas brasileiras diante de uma sociedade que ainda era 
predominantemente rural e arcaica. Gilberto Freyre assume uma visão muito distinta, 
partindo da cultura popular, caracterizando nossa sociabilidade pela presença de 
“antagonismos em equilibro”, na feliz expressão do antropólogo Ricardo Benzaquen 
de Araújo. 
Em meados da década de 1930, um livro moveu essa reflexão do âmbito da 
cultura em geral para o da cultura política em específico: Raízes do Brasil, de Sérgio 
Buarque de Holanda, publicado pela primeira vez em 1936. O seu ponto de partida é 
a análise da relação entre sociabilidade e instituições políticas no Brasil e na Europa. 
 
“A tentativa de implantação da cultura europeia em extenso território, 
dotado de condições naturais, se nãoadversas, largamente estranhas à 
sua tradição milenar, é, nas origens da sociedade brasileira, o fato 
dominante e mais rico em consequências. Trazendo de países distantes 
nossas formas de convívio, nossas instituições, nossas ideias, e timbrando 
em manter tudo isso em ambiente muitas vezes desfavorável e hostil, 
somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra. […] Precisamente a 
comparação entre elas e as da Europa de além-Pirineus faz ressaltar uma 
característica bem peculiar à gente da península Ibérica, uma característica 
que ela está longe de partilhar, pelo menos na mesma intensidade, com 
qualquer de seus vizinhos do continente. É que nenhum desses vizinhos 
soube desenvolver a tal extremo essa cultura da personalidade que parece 
constituir o traço mais decisivo na evolução da gente hispânica, a desde 
tempos imemoriais. […] É dela que resulta largamente a singular tibieza das 
formas de organização, de todas as associações que impliquem 
solidariedade e ordenação entre esses povos. Em terra onde todos são 
 
 
89 
 
barões não é possível acordo coletivo durável, a não ser por uma força 
exterior respeitável e temida” (HOLANDA, 1995, p. 31). 
 
A matriz da cultura brasileira não seria centro-europeia, mas ibérica. A 
principal característica dessa matriz transposta para o ambiente brasileiro através da 
colonização seria a cultura da personalidade ou personalismo: maneira de agir, pensar 
e sentir que valoriza sobremaneira a dimensão da pessoa, a tudo concebendo e 
interpretando de forma pessoal. 
Disso deriva uma tendência específica ao autoritarismo, na medida em que a 
autoridade fundada em princípios abstratos e impessoais se veria prejudicada. Até aí 
essa seria uma herança cultural da matriz ibérica, ligada a diversos fenômenos como 
o clientelismo, o favoritismo, o coronelismo, etc. A cultura brasileira todavia era distinta 
da cultura ibérica num aspecto específico que lhe seria singular: a cordialidade. 
 
“Já se disse, numa expressão feliz, que a contribuição brasileira para a 
civilização será de cordialidade – daremos ao mundo o ‘homem cordial’. A 
lhaneza no trato, a hospitalidade, a generosidade, virtudes tão gabadas por 
estrangeiros que nos visitam, representam, com efeito, um traço definido do 
caráter brasileiro, na medida, ao menos, em que permanece ativa e fecunda 
a influência ancestral dos padrões de convívio humano, informados no meio 
rural e patriarcal. Seria engano supor que essas virtudes possam significar 
‘boas maneiras’, civilidade. São antes de tudo expressões legítimas de um 
fundo emotivo extremamente rico e transbordante. Na civilidade há qualquer 
coisa de coercitivo – ela pode exprimir-se em mandamentos e em 
sentenças. Entre os japoneses, onde, como se sabe, a polidez envolve os 
aspectos mais ordinários do convívio social, chega a ponto de confundir-se, 
por vezes, com a reverência religiosa. Já houve quem notasse esse fato 
significativo, de que as formas exteriores de veneração à divindade, no 
cerimonial xintoísta, não diferem essencialmente das maneiras sociais de 
demonstrar respeito. 
Nenhum povo está mais distante dessa noção ritualista da vida do que o 
brasileiro. Nossa forma ordinária de convívio social é, no fundo, justamente 
o contrário da polidez. […] Nada mais significativo dessa aversão ao 
ritualismo social, que exige, por vezes, uma personalidade fortemente 
homogênea e equilibrada em todas as suas partes, do que a dificuldade em 
que se sentem, geralmente, os brasileiros, de uma reverência prolongada 
ante um superior. Nosso temperamento admite fórmulas de reverência, e 
até de bom grado, mas quase somente enquanto não suprimam de todo a 
possibilidade de convívio mais familiar. A manifestação normal do respeito 
em outros povos tem aqui sua réplica, em regra geral, no desejo de 
estabelecer intimidade. E isso é tanto mais específico, quanto se sabe do 
apego frequente dos portugueses, tão próximos de nós em tantos aspectos, 
aos títulos e sinais de reverência” (HOLANDA, 1995, p. 146-147). 
 
A noção de cordialidade formulada por Sérgio Buarque de Holanda foi muito 
mal interpretada à época, confundida como sinônima de bondade ou de pura 
passionalidade. O mito da cordialidade brasileira ou do brasileiro como “homem 
 
 
90 
 
cordial” por excelência se identificou de forma mais explicita àquele primeiro sentido, 
pela própria conotação da palavra no nosso português. 
A raiz da palavra em todo caso é o termo cór, que significa coração em latim. 
Nesse sentido, cordial não designa aquele que age com bondade, e sim com o 
coração. Coração que, segundo uma antiga teoria dos sentimentos morais, é a sede 
das emoções e dos sentimentos, tanto bons, quanto ruins. Sérgio Buarque utiliza o 
termo certamente nesse sentido, mas como conceito, o usa para designar algo 
específico. 
A cordialidade buarqueana se refere precisamente à demanda por intimidade 
pessoal que caracterizaria as nossas relações sociais. A cordialidade brasileira seria, 
por sua vez, o desenvolvimento autônomo e singular da cultura da personalidade de 
matriz ibérica em nosso ambiente social. Perceba como as ideias de Sérgio Buarque 
e Gilberto Freyre se complementam nesse sentido. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
O mito da cordialidade brasileira esteve associado ao longo de todo o século 
XX à ideia de bondade e gentileza mais explicitamente. Em parte isso continua. Mais 
recente, porém, é uma outra forma que o mito assumiu em nossa sociedade: a 
prefiguração de narrativas que atribuem a totalidade dos problemas políticos e sociais 
do país a essa característica típica da nossa sociabilidade. 
A sociabilidade brasileira é por essa via entendida como essencialmente 
desonesta, interesseira e corrupta no sentido que este termo possui no mundo político. 
O mito despreza e obscurece as dinâmicas estruturais do capitalismo, de um lado, e 
 
É importante que no tocante à sociologia brasileira você se familiarize com a obra 
de Sérgio Buarque de Holanda. Raízes do Brasil fez 80 anos de sua publicação 
original em 2016, e então vários especialistas na obra do autor apareceram na 
mídia a fim de apresentar e comentar a obra para um público leigo. Aproveite e 
assista à fala do sociólogo Pedro Meira Monteiro sobre Raízes do Brasil para o 
jornal Nexo. Depois você pode assistir a Lilia Schwarcz sobre Raízes do Brasil 
em 2018, num episódio do programa do Clube do Livro, da revista Veja. Os dois 
são os organizadores da reedição comemorativa do livro, que documenta as 
reedições e interpretações do livro ao longo do século XX. 
 
 
91 
 
da desigualdade social brasileira, de outro. O capitalismo é um fenômeno global, de 
modo que a sociologia brasileira se volta mais para esse segundo aspecto da teoria. 
 
6.5 O PROBLEMA DA DESIGUALDADE SOCIAL BRASILEIRA 
 
O conceito de desigualdade social tem origem no socialismo do século XIX. 
Ele parte do princípio de que a propriedade privada não é natural, que o seu 
estabelecimento e acumulação se dá de forma desigual em função da manutenção do 
privilégio de grupos específicos. Todas as teorias da desigualdade social, seja na 
economia, seja na sociologia, vão buscar então explicar, criticar e mitigar essa 
situação. 
Autores mais recentes, como Jessé de Souza, sociólogo e ex-diretor do 
Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (IPEA), órgão do governo federal 
dedicado a dar suporte estatístico e científico às ações do Ministério do Planejamento, 
tem rebatido algumas das premissas dos clássicos da sociologia brasileira, em 
especial, Sérgio Buarque de Holanda. 
A tese de que o personalismo e a cultura da cordialidade teriam deformado a 
constituição de um Estado burocrático moderno no Brasil foi sugerida por Sérgio 
Buarque, embora tenha sido articulada por Raymundo Faoro (1925-2003) em Os 
Donos do Poder, livro de 1958. A crítica de Jessé de Souza se dirige sobretudo a 
Faoro, por interpretar o Estado brasileiro como desviante tendo como caso normalos 
EUA. 
 
“Foi a partir da leitura da obra de Gilberto Freyre, especialmente de seu 
melhor livro, Sobrados e mutambos, que me veio a ideia de que a 
interpretação dominante do Brasil moderno poderia e deveria ser refeita. A 
descrição freyriana do processo de modernização brasileiro mostrava a 
importação não só de roupas e salamaleques europeus, mas de instituições 
fundamentais do mundo moderno como um incipiente mercado competitivo 
e Estado centralizado. A tese do personalismo e da ‘teoria emocional da 
ação’ interpretava e interpreta a dinâmica dessas instituições como se elas 
não desempenhassem qualquer papel importante na redefinição da 
estrutura social e no desempenho dos papéis sociais concretos” (SOUZA, 
2006, p. 55 et. seq.). 
 
Essa nova teoria da desigualdade social brasileira redefine os termos do 
problema. As condições sociais que respondem pela nossa desigualdade não tem a 
ver com a formação do Estado, não tem a ver com as características da nossa 
 
 
92 
 
singularidade cultural, mas como o modo como as classes sociais no país foram se 
integrando à economia capitalista moderna. 
 
“Gostaria de tentar demonstrar como a naturalização da desigualdade social 
e a consequente produção de ‘subcidadãos’ como um fenômeno de massa, 
em países periféricos de modernização recente como o Brasil, pode ser mais 
adequadamente percebida como consequência, não de uma suposta 
herança pré-moderna e personalista, mas precisamente do fato contrário, 
ou seja, como resultante de um efetivo processo de modernização de 
grandes proporções que se implanta paulatinamente no país a partir de 
inícios do século XIX.” (SOUZA, 2006, p.23-24) 
 
Por essa via, Jessé de Souza recupera e aprofunda as análises do Florestan 
Fernandes (1920-1995) de A integração do negro na sociedade de classes, um estudo 
pioneiro sobre estratificação e integração social no país, publicado em 1964. O livro 
apresenta o resultado das pesquisas de Florestan em São Paulo, capital industrial do 
país, e mostra as contradições do início do mercado de trabalho pós-abolição. 
Com base em estatísticas e depoimentos dos setores negros e mestiços da 
classe trabalhadora em São Paulo, Florestan argumenta como os descendentes dos 
ex-escravos libertos ingressaram na nova ordem capitalista com uma brutal 
desvantagem cognitiva. Enquanto a elite culta e a classe média absorviam os valores 
do capitalismo, parte da classe trabalhadora sentia isso como continuação do 
escravismo. 
 
“O dado essencial de todo o processo de desagregação da ordem servil e 
senhorial foi, como nota corretamente Florestan, o abandono do liberto à 
própria sorte (ou azar). Os antigos senhores, na sua imensa maioria, o 
Estado, a Igreja, ou qualquer outra instituição jamais se interessaram pelo 
destino do liberto. Este, imediatamente depois da abolição, se viu, agora, 
responsável por si e por seus familiares, sem que dispusesse dos meios 
materiais ou morais para sobreviver numa nascente economia competitiva 
de tipo capitalista e burguês. Ao negro, fora do contexto tradicional, restava 
o deslocamento social na nova ordem. Ele não apresentava os pressupostos 
sociais e psicossociais que são os motivos últimos do sucesso no meio 
ambiente concorrencial. Fatava-lhe vontade de se ocupar com as funções 
consideradas degradantes (que lhe lembravam o passado) – pejo que os 
imigrantes italianos, por exemplo, não tinham –, não eram suficientemente 
industriosos nem poupadores, e, acima de tudo, faltava-lhes o aguilhão da 
ânsia pela riqueza. Nesse contexto, acrescentando-se a isso o abandono 
pelos antigos donos e pela sociedade como um todo, estava de certo modo, 
prefigurado o destino da marginalidade social e da pobreza econômica” 
(SOUZA, 2006, 55 et. seq.). 
 
 
 
93 
 
É aí que a teoria sociológica se distingue e complementa a luta política, 
evitando reduzir a desigualdade social ao preconceito racial, e enfatizando a sua 
dimensão estrutural e de classe. Como você pode ver pelo infográfico que abre a 
unidade, os dados estatísticos mostram que a desigualdade é real e possui um 
aspecto racial. Mas este não é a causa do problema, senão o efeito de uma fraca 
integração social. 
 
 
 
 
 
O modo como o tema da desigualdade social se encaminha nesta unidade leva 
novamente ao tema da educação. Você consegue perceber agora como a 
proposta de uma educação libertadora atualmente não se limita a uma dimensão 
intelectual e cognitiva? Qual o papel da educação hoje como instrumento de 
integração social? Quais os obstáculos a isso hoje na sociedade contemporânea? 
 
 
94 
 
 
 
1. Gilberto Freire, no livro Casa Grande e Senzala, analisa aspectos das relações inter-
raciais no Brasil. Considerando a 
maneira como esse autor desenvolve, em sua análise, o mito da harmonia entre as 
três raças que constituíram a nação brasileira, assinale a opção correta. 
A) Segundo esse autor, a miscigenação produz uma sociedade singular nos trópicos, 
caracterizada principalmente pela 
convivência pacífica entre as raças. 
B) A análise de Gilberto Freire está focada na idéia de dissidência entre as três raças, 
o que constitui o principal ponto de conflito da nação brasileira. 
C) No mito da harmonia racial, Gilberto Freire sugere a preponderância absoluta do 
elemento branco sobre os negros e os índios. 
D) O preconceito racial é, segundo esse autor, um elemento fundador do mito da 
nação brasileira. 
E) Para o autor, o fenômeno da miscigenização indica um desequilíbrio entre as três 
raças constitutivas da nação brasileira. 
 
2. Em Casa-Grande & Senzala, Gilberto Freyre oferece uma interpretação da 
formação da sociedade brasileira, destacando as características do patriarcado 
brasileiro e o processo de interpenetração de etnias e culturas. Nesse processo de 
formação, o português, o índio e o escravo de origem africana exerceram influências 
específicas. Considerando esse assunto e as idéias do autor citado, qual das opções 
abaixo apresenta duas características que não podem ser atribuídas ao colonizador 
português nesse processo de formação? 
A) mobilidade e miscigenação 
B) vulnerabilidade e preconceito étnico ou racial 
C) adaptabilidade e aclimatabilidade 
D) hibridização e preconceito religioso 
E) flexibilidade e plasticidade 
 
 
 
 
 
95 
 
3. “O Estado não é uma ampliação do círculo familiar e, ainda menos, uma integração 
de certos agrupamentos, decertas vontades particularistas, de que a família é o melhor 
exemplo. Não existe, entre o círculo familiar e o Estado, uma gradação, mas antes 
uma descontinuidade e até uma oposição. A indistinção fundamental entre as duas 
formas é prejuízo romântico que teve os seus adeptos mais entusiastas durante o 
século XIX. De acordo com esses doutrinadores, o Estado e as suas instituições 
descenderiam em linha reta, e por evolução simples, da família. A verdade, bem outra, 
é que pertencem a ordens diferentes em essência. Só pela transgressão da ordem 
doméstica e familiar é que nasce o Estado e que o simples indivíduo se faz cidadão, 
contribuinte, eleitor, elegível, recrutável e responsável, ante as leis da cidade. Há 
nesse fato um triunfo do geral sobre o particular, do intelectual sobre o material, do 
abstrato sobre o corpóreo e não uma depuração sucessiva, uma espiritualização de 
formas mais naturais e rudimentares, uma procissão das hipóstases, para falar como 
na filosofia alexandrina. A ordem familiar, em sua forma pura, é abolida por uma 
transcendência”. 
– Sérgio Buarque de Holanda. Raízes do Brasil. 
São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 141. 
Com base no texto acima, assinale a opção correta. 
A) A formação do Estado representa o surgimento de uma nova ordem independente 
do círculo familiar. 
B) O Estado é uma evolução natural da ordem doméstica e familiar. 
C) A ordem familiar só pode existir em sua forma pura. 
D) Indivíduo e cidadão são sinônimos. 
E) As diferenças entre ordem familiar eordem estatal são superficiais. 
 
4. “Já se disse, numa expressão feliz, que a contribuição brasileira para a civilização 
será de cordialidade - dare-mos ao mundo o ‘homem cordial’. A lhaneza [afabilidade] 
no trato, a hospitalidade, a generosidade, virtudes tão gabadas por estrangeiros que 
nos visitam, representam, com efeito, um traço definido do caráter brasileiro, na 
medida, ao menos, em que permanece ativa e fecunda a influência ancestral dos 
padrões de convívio humano, informados no meio rural e patriarcal. Seria engano 
supor que essas virtudes possam significar ‘boas manei-ras’, civilidade. São antes 
expressões de um fundo emo-tivo extremamente rico e transbordante. Nossa forma 
ordinária de convívio social é, no fundo, justamente o contrário da polidez”. 
 
 
96 
 
– HOLANDA, S. B. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, 
pp. 146-147. 
Em Raízes do Brasil, Sérgio Buarque de Holanda utiliza o conceito de “homem cordial” 
A) para definir o caráter nacional brasileiro, cuja origem 
encontra-se em nossos ancestrais ibéricos. 
B) como fruto da análise da psicologia do brasileiro, por meio da qual busca 
estabelecer os traços genéricos da cultura nacional. 
C) para descrever o modo de ser de todo brasileiro, isto é, um indivíduo afetuoso e 
acolhedor, características elogiadas pelos estrangeiros que visitam o país. 
D) como um tipo ideal, sem existência efetiva; com esse conceito, busca compreender 
a conduta dos agentes sociais sem pretender fixar um caráter nacional. 
E) para indicar como a cordialidade foi imprescindível para a consolidação da 
democracia no Brasil, criando instituições marcadas pelas relações familiares e pesso-
ais. 
 
5. A obra de Jessé Souza tem inspirado as pesquisas recentes sobre a nova estrutura 
de classes da sociedade brasileira. Dada a perspectiva adotada pelo autor, essas 
pesquisas têm criticado: 
A) o atraso histórico do Brasil em relação a países ple-namente modernos. 
B) o caráter ideológico da interpretação patrimonialista sobre a formação social 
brasileira. 
C) a natureza populista dos programas estatais de redis-tribuição de renda. 
D) a política clientelista que impossibilita o desenvolvi-mento de uma cidadania plena. 
E) a exploração midiática da tese que caracteriza o es-paço público como ineficiente. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
97 
 
 
 
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GABARITO – FIXANDO O CONTEÚDO 
UNIDADE 1 UNIDADE 2 UNIDADE 3 
Questão 1 B Questão 1 D Questão 1 C 
Questão 2 A Questão 2 A Questão 2 D 
Questão 3 C Questão 3 C Questão 3 A 
Questão 4 A Questão 4 A Questão 4 C 
Questão 5 A Questão 5 B Questão 5 A 
 
UNIDADE 4 UNIDADE 5 UNIDADE 6 
Questão 1 C Questão 1 B Questão 1 A 
Questão 2 A Questão 2 D Questão 2 B 
Questão 3 D Questão 3 D Questão 3 A 
Questão 4 C Questão 4 A Questão 4 D 
Questão 5 C Questão 5 E Questão 5 E

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