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1 FACULDADE ÚNICA DE IPATINGA SOCIOLOGIA GOSHAI DAIAN LOUREIRO 2 Menu de Ícones Com o intuito de facilitar o seu estudo e uma melhor compreensão do conteúdo aplicado ao longo do livro didático, você irá encontrar ícones ao lado dos textos. Eles são para chamar a sua atenção para determinado trecho do conteúdo, cada uma com uma função específica, mostradas a seguir: 3 Sumário UMA INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA SOCIOLOGIA 1.1 As Ciências Humanas e a Sociologia 06 1.2. Fatos, Contextos e Níveis de Interpretação 08 1.3. Mito, Filosofia e Ciência 10 1.4. Matrizes Intelectuais, Origens Históricas e o Futuro da Sociologia 12 Fixando o Conteúdo 17 A TRADIÇÃO SOCIOLÓGICA CLÁSSICA, PARTE I - MARX 2.1. Uma Distinção Crucial: O Marxismo como Cultura Política e Tradição Sociológica 20 2.2. Alguns Conceitos Importantes: Lutas de Classes, Modo de Produção, Mais-Valia, Fetichismo da Mercadoria, Reificação e Alienação 22 2.3. Algumas Dimensões Teóricas Importantes: O Materialismo Histórico e Dialético, Conhecimento Contra Ideologia, Mudança Social e Revolução 26 2.4. Legado e Ressonância 29 Fixando o Conteúdo 32 UNIDADE 02 A TRADIÇÃO SOCIOLÓGICA CLÁSSICA, PARTE II - DURKHEIM 3.1. De Marx a Durkheim: Uma Pré-História da Institucionalização da Sociologia 37 3.2. Uma Distinção Crucial: A Leitura de Durkheim na Sociologia e na Antropologia 38 3.3. Alguns Conceitos Importantes: Fato Social e Função do Fato Social, Consciência e Representação Coletiva, Solidariedade Mecânica e Orgânica, Anomia 41 3.4. Algumas Dimensões Teóricas Importantes: Mudança Social, Divisão Social do Trabalho, Coesão e Integração Social, Educação como Socialização 46 3.5. Legado e Ressonância 48 Fixando o Conteúdo 51 UNIDADE 03 UNIDADE 01 UNIDADE 04 A TRADIÇÃO SOCIOLÓGICA CLÁSSICA, PARTE III - WEBER 4.1. Uma Distinção Crucial: Coletivismo e Individualismo Metodológico 55 4.2. Alguns Conceitos Importantes: Ação Social e Sentido da Ação Social Afinidade Eletiva, Tipos Ideais (De Dominação, Racionalidade e Organização Estatal) 56 4.3. Algumas Dimensões Teóricas Importantes: Modernização, Capitalismo, Burocracia, Desencantamento do Mundo 57 4.4. Legado e Ressonância 60 Fixando o Conteúdo 61 UNIDADE 05 TEMAS DE SOCIOLOGIA CONTEMPORÂNEA 5.1. Temas de Sociologia Contemporânea 65 5.2. Educação, Cultura e Estratificação social 65 5.2.1 A Instituição Escolar: Emancipadora ou Conservadora? 65 5.2.2 A Relação Entre a Escola e a Cultura Através da Sociologia de Pierre Bourdieu 68 5.3. Trabalho e Existência 70 5.4. Consumo, Identidade e Subjetividade 72 Fixando o Conteúdo 75 UNIDADE 06 TEMAS DE SOCIOLOGIA BRASILEIRA 6.1. Cuidado com o Mito 80 6.2. O Mito do Encontro das Três Raças 81 6.3. O Mito da Democracia Racial 86 6.4. O Mito da Cordialidade Brasileira 87 6.5. O Problema da Desigualdade Social Brasileira 91 Fixando o Conteúdo 94 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 97 4 Na segunda unidade, “A tradição sociológica clássica, parte I – Marx”, você conhecerá como o filósofo alemão Karl Marx (1818-1883), a partir da economia política clássica e da filosofia alemã de sua época, lançou as bases para uma investigação sociológica do capitalismo e dos conflitos estruturais entre as camadas da sociedade, que marcaram profundamente ambiente político e intelectual do século XX. CONFIRA NO LIVRO DIDÁTICO Na primeira unidade, “Uma introdução ao estudo da sociologia”, você será apresentado ao debate sobre o surgimento da sociologia como disciplina científica através de duas perspectivas distintas e complementares: a do debate sobre a especificidade do método científico nas ciências humanas, no âmbito da epistemologia; e sobre a definição e o desenvolvimento da sociologia como disciplina autônoma, no âmbito da história da filosofia e da ciência. Na terceira unidade, “A tradição sociológica clássica, parte II – Durkheim”, você saberá como o sociólogo francês Émile Durkheim (1858-1917) buscou estabelecer a sociologia como disciplina científica na França na virada do século XIX, delimitando a especificidade do método sociológico e lançando as bases para uma sociologia das formas de integração social e seus problemas, redefinindo o papel social da educação e a compreensão das causas da criminalidade. Na quarta unidade, “A tradição sociológica clássica, parte III – Weber”, você entenderá como o jurista e economista Max Weber (1864-1920) formulou um diagnóstico original do capitalismo e da modernidade assentado no estudo comparativo das religiões, e estendeu o seu método de uma sociologia compreensiva para a caracterização de aspectos contundentes do mundo político e cultural das nossas sociedades. Na quinta unidade, “Temas de sociologia contemporânea”, você acompanhará um percurso seletivo em torno das principais abordagens sobre a educação, o trabalho e o consumo enquanto objetos de investigação da sociologia atualmente, analisando a função da educação na manutenção e transformação da estrutura social, as principais modificações na forma e no significado do trabalho nas últimas décadas em nossa sociedade, a origem histórica da nossa forma de consumo e como isso influi na nossa percepção de nós mesmos. Na sexta unidade, “Temas de sociologia brasileira”, você perceberá o desenvolvimento paralelo que certas princípios fundantes da nossa nacionalidade possuem no senso comum e na sociologia científica, estudando o debate em torno de três dos nossos principais mitos nacionais – o mito do encontro das três raças, da democracia racial e da cordialidade brasileira –, e por fim se familiarizando com o debate atual acerca das condições especificas da desigualdade social no Brasil. 5 UMA INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA SOCIOLOGIA UNIDADE 6 1.1 AS CIÊNCIAS HUMANAS E A SOCIOLOGIA Na sua vivência escolar talvez você tenha se habituado a dividir as ciências em: humanas, exatas e biológicas. Talvez tenha mesmo se acostumado a uma divisão ainda mais radical e estereotipada, que opõe as duas primeiras. Saiba, contudo, que essas divisões existem mais por razões sociais (administrativas, curriculares ou identitárias) do que metodológicas (relativas a como se produz o conhecimento). O diagrama acima representa uma divisão tradicional nesse sentido, formulada inicialmente por Wilhelm Dilthey (1883-1911), no âmbito da filosofia da ciência. Ao centro estão representados fatos diversos, misturados, sem classificação definida, tal como estes ocorrem no mundo. Desde o topo, de uma matriz em tese unificada, a ciência aparece se dividindo para abarcar a totalidade heterogênea dos fatos. A oposição estereotipada entre “exatas” e “humanas” radicaliza essa divisão, desconsiderando a variedade do método científico, taxando como ideologia e opinião uma importante parcela do conhecimento humano. A atitude é a expressão de um conhecido anti-intelectualismo, travestido de cientificismo. Atualmente, porém, mesmo as ditas “ciências duras” (hard sciences) tem sofrido sorte semelhante. Figura 1 - A diversidade da recusa à ciência O anti-intelectualismo e o negacionismo são atitudes de desprezo pelo conhecimento, fundadas no mau ceticismo e na ignorância. Quadro justapondo exemplosde tweets satirizando o “povo de humanas”, terraplanistas convidados num programa de entrevistas, e uma imagem de Greta Thumberg “cancelada”. 7 Neste último vídeo, perceba que o historiador Saulo Goulart toma “fato social” como sinônimo de “fato histórico”. Cuidado: como você verá adiante nas próximas unidades, em Sociologia este é um conceito específico, legado pela obra de um sociólogo francês do final do século XIX, chamado Émile Durkheim. Essa variação conceitual é normal. Toda área do conhecimento tem o seu jargão específico que é partilhado pelos seus especialistas e representa o modo de pensar de uma disciplina. Historicamente identificado ao domínio herdado das antigas filosofia e história naturais – de onde surgiram disciplinas como a Astronomia, a Física, a Química e a Biologia –, o conceito de ciência e de método científico se refere sobretudo àquele método indutivo, hipotético-dedutivo e experimental que é o paradigma dominante de interpretação dos fatos naturais. Mas seria retrógrado reduzir a ciência a isto. Desde o final do século XIX que a crença na irrefutabilidade dos fatos científicos e na superioridade moral da ciência (o positivismo cientificista) perde espaço na teoria científica. Isso apenas se aprofundou com o Holocausto e o risco de uma guerra nuclear em meados do século XX. A ciência hoje se define, ao contrário, enquanto o tipo de conhecimento sistemático refutável sob circunstâncias reguladas. Nessa perspectiva, mais modesta, há espaço para diferentes versões do método científico, correspondentes aos diferentes tipos de fatos investigados. A formulação de modelos teóricos deterministas, constituídos por leis universais, expressas de forma matemática, pelas quais é possível deduzir e assim prever a dinâmica dos fatos, serve bem à física e não à genética, por exemplo, cujo cálculo é probabilístico. Saiba “Por que a ativista Greta Thunberg é alvo de tanto ataque” nesta reportagem de Camilo Rocha para o jornal Nexo; entenda “O mal-estar nas ciências humanas” segundo Vladimir Safatle no seu artigo para a revista Cult; ouça essa análise do negacionismo científico por Alberto Saa no canal Casa do Saber, do Youtube, em “Terra Plana e Outras Teorias: Podemos Questionar a Ciência?”, e ainda sua breve introdução a “O que é fato?” (com o historiador Saulo Goulart). 8 A sociologia é uma ciência em sentido amplo e as ciências humanas constituíram sua variante do método científico tradicional que não é menos científica por causa disso. Nesta unidade você aprenderá a concebê-las assim; entenderá a correlação entre fatos, crenças e conhecimentos que caracteriza o conhecimento científico; e por fim, será apresentado às principais matrizes históricas e filosóficas da sociologia. 1.2 FATOS, CONTEXTOS E NÍVEIS DE INTERPRETAÇÃO “O entendimento moderno do que é um fato eu acho que pode ser expresso da seguinte maneira: fato é qualquer coisa cuja realidade, cuja existência, pode ser aferida dentro de um contexto preestabelecido. (…) a afirmação de que o arquiduque austríaco Francisco Ferdinando foi assassinado em 1914 em Sarajevo, isso é um fato histórico, (…) isso pode ser aferido baseado numa série de documentos de época que comprovam que de fato aconteceu. (…) A afirmação a de que a luz é desviada por uma grande massa estelar como o Sol, (…) isso pode ser comprovado dentro de um contexto muito bem estabelecido, que no caso da ciência, é o método científico”. (GOULART; SAA, 2019). Em um dos vídeos recomendados anteriormente, o professor e físico Alberto Saa qualifica os fatos em categorias específicas, com base no contexto em que estes podem ser aferidos, atestados ou corroborados. Isso devemos entender em sentido amplo: qualquer ocorrência, acontecimento ou evento cuja realidade ou existência possa ser afirmada no interior de um contexto específico pré-determinado. Podemos conceber um fato histórico (corroborado pela história), um fato científico (corroborado pela ciência, que como vimos, quase sempre se reduz a sinônimo de ciências naturais), mas também um fato religioso (corroborado pelos dogmas e crenças de determinada religião), um fato moral (corroborado pelos costumes e regras de conduta predominantes em certo grupo), e assim por diante. Está claro que um mesmo fato pode ser qualificado de formas diferentes, os fatos críveis num determinado contexto podem não sê-lo em outro, mas isso não significa que todos os contextos tenham uma mesma validade ou estatuto de verdade – sendo verdadeiro o que jaz além de qualquer dúvida razoável, e válido o que é correto e legítimo sob um dado ponto de vista. “Somos todos filhos de Adão e Eva”; “Os dinossauros jamais existiram”. Ambas as declarações são absurdas se relativas à origem e ao passado remoto da vida na Terra. Isso pois, se desejamos mesmo saber desde quando e como surgiu a 9 Assista a Kherian Gracher do canal SciFilo discutindo esta questão nos vídeos “Definição Tradicional do Conhecimento” e “O que é Epistemologia (Teoria do Conhecimento)?” Outro vídeo, “Metafísica na Filosofia”, de Cristiano Barroso do canal Saber em Foco, pode ser lhe ser útil mais adiante. vida em nosso planeta, as afirmações, para serem verídicas nesse sentido, precisam dar conta de fatos e evidências correspondentes – tais como a existência dos fósseis. Não sendo uma explicação verídica da origem da espécie humana, a primeira afirmativa, entretanto continua válida na perspectiva do cristianismo. Entendida de forma alegórica, ela ainda carrega uma importante mensagem de fraternidade entre pessoas de diferentes culturas. Já a segunda, dificilmente pode ser considerada válida para além da mera opinião pessoal não fundamentada. Perceba então, que para ser atestado como verdadeiro, todo fato necessita de dois contextos fundamentais: o contexto de observação, no qual as evidências correspondentes aparecem em circunstâncias independentes, e o contexto de interpretação, no qual o sentido dessas ocorrências é caracterizado. Deste modo, os fatos são identificados e compreendidos sempre na junção de vários contextos, de ambos os tipos. Afirmações e juízos sobre os fatos, articulando esses vários contextos, são expressos, todavia em níveis cada vez mais abrangentes e consistentes: o nível das opiniões, das crenças, e dos conhecimentos. A opinião tem uma validade restrita, porque, a rigor, fornece somente um contexto pessoal e particular para a interpretação dos fatos, a menos que se amparem em algum contexto maior, mais geral, e predefinido. As crenças coletivas amparam nossas opiniões; do mesmo modo os sistemas de crenças coletivas e de conhecimentos, como as religiões e as ciências (respectivamente). Se crença é a confiança de que algo é verdade, conhecimento é a crença verdadeira e justificada: verdadeira porque correspondente aos fatos; justificada porque é passível de ser comunicada de maneira metódica, não dogmática. 10 1.3 MITO, FILOSOFIA E CIÊNCIA Quando o físico Alberto Saa classifica os tipos de fatos em históricos e científicos; quando a isto acrescentamos outras ordens de fatos (religiosos, morais, políticos, jornalísticos, etc.), seguimos a taxonomia dos fatos segundo o contexto de interpretação. O contexto de observação varia caso a caso, porém vimos que há uma divisão tradicional assim na história das ciências: entre fatos humanos e naturais. O dia e a noite são fatos naturais, a rotina e o trabalho são fatos humanos; o vento e a chuva são fatos naturais, a navegação e a plantação são fatos humanos; a fome e a sede são fatos naturais, os jejuns e os festejos são fatos humanos; o nascimento e a morte são fatos naturais, os rituais e as crenças são fatos humanos, digamos assim. Analisemos a seguir essas proposições. Primeiro, essasproposições sugerem uma divisão radical entre dois tipos de fatos: os que ocorrem ou existem porque provocados pela ação ou vontade humana (fatos humanos), e os que em princípio independem disso (fatos naturais). Segundo, dizem respeito a fatos genéricos ou fenômenos, e não à última chuva, ao jejum para um exame de sangue, ao nascimento ou a morte de alguém, etc. É verdade que em certos casos a fome e a sede, o nascimento e a morte podem ser provocados por ações humanas. Em todo caso, sua existência no mundo de modo geral independe disso. Podemos conceber a rotina e o trabalho das abelhas, a navegação dos pássaros e dos morcegos do mesmo jeito. Em todo caso, isso só faz sentido por analogia a atividades realizadas pelos seres humanos. Talvez esta distinção entre fatos humanos e naturais seja bastante óbvia atualmente, mas isso nem sempre foi assim. Houve um tempo na história da humanidade em que explicações buscadas para os dois tipos de fatos não eram fundamentalmente diferentes. Os mitos explicam fatos humanos e naturais de forma semelhante: via narrativas ficcionais cheias de personagens, situações simbólicas e imagéticas. O que é um mito? Um mito é uma narrativa sobre a origem de alguma coisa (origem dos astros, da Terra, dos homens, das plantas, dos animais [...] etc.). […] como o mito narra a origem do mundo e de tudo o que nele existe? 1) Encontrando o pai e a mãe das coisas e dos seres […]. A narração da origem é, assim, uma genealogia, isto é, narrativa da geração dos seres, das coisas, das qualidades, por outros seres, que são seus pais ou antepassados. […] 2) Encontrando uma rivalidade ou uma aliança entre os deuses que faz surgir 11 O mito, a filosofia e a ciência são modos diferentes de explicar a realidade. Cada um tem uma maneira distinta de observar, organizar e atribuir sentido aos fatos, pautados por diferentes noções de verdade. alguma coisa no mundo. 3) […] Encontrando as recompensas ou castigos que os deuses dão a quem os desobedece ou a quem os obedece. […] Quais são as diferenças entre Filosofia e mito? […] O mito narrava a origem através de genealogias e rivalidades ou alianças entre forças divinas sobrenaturais e personalizadas, enquanto a Filosofia, ao contrário, explica a produção natural das coisas por elementos e causas naturais e impessoais. O mito não se importava com contradições, com o fabuloso e o incompreensível, (…) A Filosofia, ao contrário, não admite contradições, fabulação e coisas incompreensíveis, mas exige que a explicação seja coerente, lógica e racional; além disso, a autoridade da explicação não vem da pessoa do filósofo, mas da razão, que é a mesma em todos os seres humanos. ” (CHAUÍ, 2000, p.32-33). A filosofia durante muito tempo também aplicou um mesmo tipo de raciocínio à explicação dos fatos humanos e naturais, embora diferente dos mitos. Esse raciocínio era a busca da realidade fundamental de todas as coisas, que herdou da filosofia grega antiga o nome de metafísica, e tornou-se a base da teologia medieval. Já a ciência (moderna) surgiu como uma perspectiva distinta sobre os fatos naturais. A filosofia não rompeu com o mito, mas com a autoridade dogmática não fundamentada na razão; a ciência moderna não rompeu com a filosofia, mas com a metafísica. De que maneira? Abandonando o foco na ontologia e na teleologia dos fatos ou fenômenos em prol da constituição de modelos explicativos circunscritos aos próprios fatos ou fenômenos – isto é, ao acentuar o imanente sobre o transcendente. Vários mitos antigos mencionam a Terra como sendo uma superfície bidimensional. O fazem em primeiro lugar porque condiz com a nossa percepção ordinária do espaço; em segundo lugar, porque suas descrições do movimento dos astros, do olhar sobre o horizonte, e de outros fatos ou fenômenos com implicações nesse sentido, seguem um propósito mais simbólico do que descritivo. Em outras palavras, os mitos não buscam explicar esses fenômenos e sim utilizá-los como símbolos para transmissão de uma mensagem. O problema da forma da Terra também não diz respeito diretamente à metafísica. Esta se ocuparia em primeiro lugar com a tarefa de saber se a Terra como um todo possui ou não uma forma discernível, se os dados dos sentidos são ou não são expressão da realidade, etc. 12 Neste ponto você deve ser capaz de compreender que o mito, a filosofia (metafísica) e a ciência (moderna) não são formas de explicar a realidade mutuamente excludentes, nem incompatíveis, tão pouco se sucederam superando inteiramente umas às outras. Não obstante, são bastante distintas, bem como dotadas de valor e eficácia variável, conforme os objetivos aos quais venham a se prestar. 1.4 MATRIZES INTELECTUAIS, ORIGENS HISTÓRICAS E O FUTURO DA SOCIOLOGIA A distinção entre fatos humanos e naturais só pode nos parecer óbvio por que vivemos numa sociedade na qual a ciência tem lugar central. Mas isso aconteceu aos poucos, num processo longo processo que começa na filosofia grega da época antiga, passa pela Revolução Científica (séculos XVI-XVIII), pelo Iluminismo (XVIII) e o Positivismo (XIX) na época moderna, até fixar o atual binômio “ciência e tecnologia” (C&T). Embora possamos traçar a origem das ideias características da sociologia até vários períodos da História desde a época antiga, sua identidade como disciplina acadêmica e universitária data do século XIX. Esta identidade foi profundamente influenciada por dois grandes movimentos intelectuais do início da época moderna e um terceiro, seu contemporâneo: o Humanismo, o Iluminismo e o Positivismo. No século XVI, o Humanismo – o equivalente filosófico do Renascimento (que de fato foi um movimento artístico e estético) – impulsionou a libertação da filosofia do domínio da teologia, com o seu antropocentrismo. Neste primeiro momento, os fatos humanos serão objeto principal da filosofia moral e da história, enquanto os fatos naturais permanecerão ainda em parte sob a alçada da teologia. A Astronomia começará a se constituir numa disciplina autônoma ainda no século XVI. Nos próximos três séculos, respectivamente, o mesmo ocorrerá com a Física, a Química e a Biologia. Mais ou menos completo no fim do século XVIII, esse processo é conhecido como Revolução Científica. Os outros dois grandes movimentos intelectuais importantes para o surgimento da sociologia serão influenciados por ela. Em que sentido? O Iluminismo, de um lado, radicalizou a crítica do Humanismo à autoridade da religião, de outro, questionou a metafísica, louvando a Ciência, mais do que somente o intelecto, como principal fonte de conhecimento sobre o mundo. O nome 13 do movimento, sinônimo de “esclarecimento”, diz bem qual era o seu propósito: difundir o conhecimento científico para afastar as “trevas” da estupidez e da ignorância. “Por Iluminismo entendemos o esforço por construir de novo, a partir da razão, as relações humanas libertas de todos os vínculos com a tradição e o preconceito – esforços que tiveram o seu apogeu no século XVIII e, em seguida, depressa sucumbiram a uma desvalorização céptica. […] resta, em boa parte, o pragmatismo e a confiança na ciência; resta sobretudo a humanidade da vontade reformista do social […]. Duas premissas centrais da Ilustração racional se tornaram sobretudo suspeitas na sociologia: a participação igual de todos os homens numa razão comum que eles possuem sem ulterior mediação institucional, e o optimismo […] em relação ao estabelecimento de situações justas. […] Isto separa a sociologia do Iluminismo ‘ingénuo’ de estilo antigo” (LUHMANN, 2005 [1967], p. 20-22). Figura 2 - A visão da ciência legada pelo Iluminismo No contexto maior do Iluminismo, o desenho de Francisco de Goya ajuda a entender o quadro de Joseph Wright. 14 Ao longoda época moderna, o método científico, concebido em princípio para o estudo do mundo natural, transformou-se no eixo das principais críticas à filosofia e à teologia das épocas anteriores. Esse movimento foi o responsável por várias tentativas de transpor o método científico ajustado aos fatos naturais para um estudo dos fatos humanos. A própria sociologia alimentou essa ambição no seu início. “As ciências que se desenvolveram antes, a matemática e a astronomia, e mais tarde a física, eram aquelas que lidavam com as leis da natureza mais gerais e mais totalmente abrangentes, que governavam fenômenos mais distantes do envolvimento e da manipulação humana. A partir daí a ciência penetrava cada vez mais na humanidade em si, dirigindo-se, por meio da química e da biologia, para o ponto mais alto da ciência da conduta humana – originalmente denominada por Comte de ’física social’, mais tarde renomeada como ‘sociologia’ ”. (GIDDENS apud ALCÂNTARA, 2007, p. 31) As duas citações anteriores pertencem a dois eminentes sociólogos do século XX: Niklas Luhmann (1927-1998) e Anthony Giddens (1938-). Estas parecem dizer coisas opostas, que de fato são complementares. Isso porque a linhagem que resultará na sociologia contemporânea não derivou imediatamente das ideias de Auguste Comte (1798-1857). Na verdade, é uma resposta a elas. Em maior ou menor grau, os autores como Karl Marx (1818-1883), Émile Que experimento científico está sendo representado nessa imagem? Por que ele está sendo realizado na sala de jantar de uma casa e não em um laboratório? Há alguma diferença entre a reação das crianças e dos adultos, dos homens/meninos e das mulheres/meninas, diante do experimento? Este que parece o pai das meninas (adulto n.2), o que ele está fazendo ali? Há algo verdadeiramente sobrenatural nesta cena ou essa seria uma observação supersticiosa? Qual a intenção do pintor ao representar um experimento científico numa atmosfera gótica? Veja as imagens em alta resolução da gravura de Goya e da pintura de Wright. Observe o infográfico acima. Saiba o que cada uma delas representa. Silas Martí comenta a gravura de Goya para a Carta Maior quando da sua exposição no MASP (Museu de Arte de São Paulo), em 2007; Ana Paula Gorri e Ourides Santin Filho analisam a tela de Wright na Química Nova Escola, n. 31, de agosto de 2009. 15 Durkheim (1858-1917) e Max Weber (1864-1920) guiaram a disciplina na direção a que Luhmann se referia: direção cética, de reconhecimento da limitação da pretensão iluminista e positivista de explicar e reformar a sociedade a partir de uma razão externa, superior e inequívoca. A sociologia buscou, com esses autores, uma outra forma de objetividade. Wilhelm Dilthey, mencionado no início da unidade, foi um dos primeiros filósofos a exprimir isso de forma categórica: às ciências humanas não caberia explicar seus fatos ou fenômenos “de fora para dentro”, reconstruindo de maneira hipotética as variáveis e as causas do seu funcionamento; caberia compreendê-los “de dentro para fora”, teorizando de forma a incluir o ponto de vista dos que os experienciam. A ignorância deliberada ou involuntária sobre este ponto fundamental do método científico nas humanidades – a objetividade presente no seu caráter dialético, filosófico-hermenêutico e compreensivo – surge disfarçada de acusação de irracionalidade contra essas disciplinas. Sérgio Paulo Rouanet já havia escrito sobre isto em meados dos anos 1980. É com suas palavras que encerramos essa unidade. “Estamos assistindo hoje, em todo o mundo, a tendências que fazem prever o advento de um novo irracionalismo. Mas ele é mais perturbador que o antigo, porque não está mais associado a posições políticas de direita. A razão não é mais repudiada por negar realidades transcendentes — a pátria, a religião, a família, o Estado –, e sim por estar comprometida com o poder. […] Para as subculturas jovens, a razão é experimentada como se fosse inimiga da vida; para alguns teóricos da comunicação, ela está a serviço de um projeto de nivelamento e de expulsão da espontaneidade popular; para certos dirigentes operários, ela é o álibi com que os intelectuais procuram justificar suas ambições de poder; para certos poetas, é uma potência castradora, que quer mumificar a emoção e sufocar a arte; para muitos, está encarnada em modelos estrangeiros, que querem desfigurar a autenticidade nacional. A fórmula é quase sempre a mesma: a prática contém sua verdade imanente e dispensa toda teoria, ou admite apenas uma teoria desentranhada da própria prática. (ROUANET, 1987, p. 11-12; 17.) 16 Anti-intelectualismo: suspeição ou hostilidade contra os intelectuais ou profissionais do intelecto. Cientificismo: crença exagerada na superioridade do método científico. Negacionismo: distorção de fatos verídicos para negar determinado aspecto da realidade. Ceticismo: desconfiança ou recusa de verdades estabelecidas. Indução (método): que formula princípios e leis gerais ou universais desde casos particulares. Hipotético-dedutivo (método): que prevê resultados particulares a partir de modelos teóricos. Experimental (método): que analisa um fato ou fenômeno em condições estritamente controladas. Positivismo: corrente filosófica do final do século XIX disseminada pela obra de Comte; Alegoria (figura de linguagem): tomar uma coisa, imagem ou ideia como o símbolo de outra. Metafísica: estudo ou teoria das categorias universais e imutáveis que estruturam a realidade. Ontologia: teoria ou estudo calcado na abstração da essência transcendental dos fenômenos. Teleologia: teoria ou estudo do propósito ou finalidade última e transcendental dos fenômenos. Imanente: que existe inseparável de uma realidade concreta passível de experiência. Transcendente: que existe para além de toda realidade concreta passível de experiência. Iluminismo: corrente filosófica do séc. XVIII manifesta nas ideias de Hume, Montesquieu, Kant, etc. Humanismo: corrente filosófica do século XVI manifesta nas ideias de Erasmo, Montaigne, etc. Antropocentrismo: concepção de mundo que valoriza o que é humano e histórico; Revolução Científica: separação do estudo do mundo natural da teologia no início da época. Dialético (método): que apreende a realidade humana a partir da síntese de suas contradições. Filosófico-hermenêutico (método): que sempre discute e reinterpreta seus próprios conceitos. Compreensivo (método): que apreende o sentido objetivo e subjetivo das ações dos sujeitos. 17 1. O período entre os séculos XVI e XIX foi crucial na história do pensamento ocidental e o surgimento das Ciências Sociais. Com referência aos marcos filosóficos fundadores do pensamento social no Ocidente, assinale a opção correta. a) O Iluminismo se opôs à crítica do Humanismo à autoridade da religião para explicar o comportamento humano. b) O Positivismo reforçou a postura civilizatória do Iluminismo ingênuo ao valorizar somente o método científico tradicional. c) O Humanismo renascentista postulou a suprema autoridade da Natureza divina que se tornaria a base do Positivismo. d) A tradição sociológica contemporânea é a soma dos movimentos filosóficos que a precederam. e) A sociologia se constitui como ciência através da negação dos movimentos filosóficos que a precederam. 2. O desenvolvimento de uma ciência da sociedade está relacionado à descoberta das relações entre homem, natureza e sociedade. Os filósofos iluministas contribuem para esse processo na medida em que a) constroem uma visão científica de mundo marcada pela inteligibilidade da natureza. b) corroboram os ditames religiosos como necessários à conduta humana. c) regulamentam as trocas econômicas a partir de princípios socializantes. d) justificam a organizaçãoestamental como modelo da hierarquia social. e) salvaguardam as prerrogativas eclesiásticas na organização do Estado. 3. “As ciências sociais não são uma atividade puramente especulativa nem o simples reflexo da vida social e política de uma dada época ou coletividade. As disciplinas surgidas no século XIX, a partir de uma revolução multifacetada e de projetos de colonização, devem seu desenvolvimento a um conjunto de condições intelectuais, sociais e institucionais que ainda devem ser elucidadas. ” Henry-C. Cuin e François Gresle. História da sociologia. São Paulo: Ensaio, 1994, p. 11 (Adaptado). A partir do fragmento acima, analise os itens que se seguem, relacionados a aspectos históricos das ciências sociais. I) O advento das modernas tecnologias de informação coincidiu com o surgimento das ciências sociais. II) A colonização dos países de além-mar foi inspiradora para o surgimento da antropologia. III) Para os clássicos das ciências sociais era preciso explicar a passagem do mundo tradicional para o mundo moderno. IV) Os revolucionários da Revolução Francesa, como Danton e Robespierre, são os grandes fundadores da sociologia. 18 V) Processos de insurgência na América Latina incentivaram o surgimento das ciências sociais. Estão certos apenas os itens a) I e III. b) I e IV. c) II e III. d) II e V. e) IV e V. 4. Na ciência, dados do mundo real precisam ser sistemática e cuidadosamente coletados através de procedimentos específicos para verificar uma observação. Na sociologia essas regras tem um caráter dialético, filosófico-hermenêutico, e compreensivo no tocante à relação com o objeto de pesquisa. No que diz respeito a cada um desses aspectos do método científico na sociologia, assinale a opção correta. a) As hipóteses formuladas no âmbito das ciências humanas tem um caráter mais probabilístico do que determinista. b) Nas humanidades cumpre escolher uma abordagem quantitativa ou qualitativa, pois ambas são incompatíveis. c) A sociologia constituiu no século XIX um aparato conceitual pelo qual deduzimos o funcionamento da sociedade hoje. d) Em sociologia os conceitos e as teorias são continuamente debatidos, o que demonstra uma falta de objetividade. e) A principal qualidade da pesquisa nas ciências humanas é o estabelecimento de um ponto de vista exterior e neutro. 5. As ciências sociais contemporâneas resgatam abordagens clássicas, como aquelas relacionadas a classe, ideologia, cultura, entre outras, e atualizam essas ideias com novos temas resultantes da complexidade da sociedade atual, como demonstram as categorias de análise de gênero, etnia, exclusão social, identidade cultural, entre outras. Com relação a esses temas, assinale a opção correta. a) A crítica do sexo como categoria determinante do comportamento humano levou à desnaturalização da feminilidade e da masculinidade através da noção de gênero. b) A raça em sentido biológico continua um fator determinante do comportamento dos grupos para a sociologia contemporânea, a refletir autores como Darwin, Lamarck e Spencer. c) A cultura é um fator secundário na interpretação das ações dos sujeitos, precedida por uma natureza humana universal e uma hierarquia fundamental de povos e tipos sociais. d) A exclusão social é um fenômeno de origem contemporânea, inexistente antes do advento da sociedade de consumo, e por isso é inútil compreendê-la historicamente. e) As categorias estudadas pela sociologia são construtos intelectuais sem relação com a realidade empírica, que por isso passam desapercebidas da população leiga. 19 A TRADIÇÃO SOCIOLÓGICA CLÁSSICA, PARTE I – MARX UNIDADE 20 2.1. UMA DISTINÇÃO CRUCIAL: O MARXISMO COMO CULTURA POLÍTICA E TRADIÇÃO SOCIOLÓGICA Que imagem você faz de Marx? O quadro acima se esforça por contextualizar minimamente o pensamento de um autor que se encontra tão evidente em canecas, camisetas e outras mídias, quanto nos currículos, nas bibliotecas e em famosos logradouros públicos ao redor do mundo. Como uma disciplina de introdução à sociologia para estudantes relativamente leigos, cumpre esclarecer certas confusões. As menções a Marx em nossa vida social são muitas vezes apenas símbolos de outras coisas que não necessariamente nos conduzem de volta aos seus textos e ideias. A sociologia por seu turno é uma das disciplinas acadêmicas que há muito se especializaram em refazer esse percurso, junto da história e da economia. Vejamos algumas dessas aparições vulgares, o que elas sugerem sobre o autor e suas ideias. Que Marx são esses? Diferentes camisetas com estampas contendo referências ao autor e ao seu pensamento: sobre o fundo vermelho, frases atribuídas ao próprio Marx; sobre o fundo branco, piadas e protestos. A terceira camiseta da segunda fileira contém somente um gracejo. A segunda da primeira fileira vai um pouco além do trocadilho. Quem diz “party” em inglês diz “partido” ou “festa” dependendo do contexto. Por isto Marx é representado numa festa com Fidel, Mao, Lênin e Stálin, líderes comunistas históricos. A representação faz 21 sentido, ao menos em parte. Marx não foi o líder de um Estado comunista, mas em seus escritos políticos, postulou a estatização dos meios de produção mais tarde encampada por aqueles líderes em seus países. Além disso foi como os demais uma figura de culto do comunismo internacional do século XX. Apenas seria absurdo tomar a cena como alegoria de uma total congruência das ideias dos personagens, extrapolando o trocadilho. Saibamos separar o que é de Marx do que não é de Marx: as ideias “marxianas” (sim, esse é um termo utilizado na literatura acadêmica) dos diferentes “marxismos”, políticos e sociológicos, que as sucederam. E a propósito, apontam para algumas dessas ideias as camisetas acima que lhe atribuem certas frases. São suas palavras mesmo? De que parte de sua obra? Onde as encontramos e o que dizem ali? “A luta de classes é o motor da história” pode ser entendida como uma paráfrase da sentença de abertura da primeira seção do Manifesto Comunista: “Até hoje, a história de toda sociedade é a história das lutas de classes”. A crítica aos filósofos e os juízos sobre a dinâmica histórica reproduzem de forma quase literal passagens-chave de A ideologia alemã e O 18 Brumário de Luís Bonaparte, respectivamente. Quem não reconhecer essas referências e não for capaz de acompanhá-las, tenderá a confundir a luta de classes com a luta política; a conceber uma apologia da ação em detrimento da contemplação; a crer que Marx afirme que a história é cíclica, ou que uma força exterior dirija as ações humanas. Essas ideias possuem um sentido mais sofisticado e preciso dentro da teoria marxiana. E existem as camisetas que marcam uma posição contrária com palavras de ordem. Você pode discordar da interpretação que Marx fez do capitalismo, mas dizer que este o “deturpou” é encará-lo como um credo, não como um sistema econômico e social. “Menos Marx, mais Mises”, onde? Em um curso de economia? Nas universidades? Na agenda político-econômica do Estado brasileiro? Na vida social? Um contraste entre as ideias de Karl Marx e Ludwig Von Mises (1881-1973), exponente da escola austríaca de economia, não é um “jogo de soma zero”. Para os que verdadeiramente buscam pensar uma teoria do valor, dos ciclos econômicos de crescimento e crise, da organização da produção, e da distribuição de renda, Marx é 22 incontornável, como o restante dos economistas clássicos. “A defesa da sentença ‘Menos Marx, Mais Mises’ não deve ser interpretada, de modo algum, como um clamor por ‘Nenhum Marx, Apenas Mises’, nem servir como justificativa para que o pensamento marxista não seja estudado ou sofra algum tipo de censura que o proíba. […] Adotar uma postura antimarxista radical, negligenciando as importantescontribuições filosóficas, políticas e econômicas de Karl Marx para o pensamento ocidental, seria um erro completamente inapropriado e injustificável. ” (CATHARINO, 2016, p. 10) Nesta unidade você conhecerá as principais contribuições de Marx para a teoria sociológica, histórica e econômica (em menor grau). Você terá um panorama geral dos principais conceitos e obras do autor, assim como do desenvolvimento que tiveram na obra de seus principais continuadores nos planos político e intelectual. Essas vertentes caminham juntas, mas não devem ser confundidas. 2.2 ALGUNS CONCEITOS IMPORTANTES: LUTA DE CLASSES, MODO DE PRODUÇÃO, MAIS-VALIA, FETICHISMO DA MERCADORIA, REIFICAÇÃO E ALIENAÇÃO O Manifesto Comunista escrito por Marx e Engels é mais do que um panfleto político: é além disso a versão sintética e didática de uma teoria acerca da sociedade e da história que os dois vinham amadurecendo em escritos anteriores, e que depois será densamente elaborada por Marx de forma em O Capital. Por isso o Manifesto é uma via de acesso aos principais pontos da teoria marxista. De uma perspectiva política, o manifesto é a defesa de um socialismo radical que lutaria pela posse comunal dos meios de produção da vida material e pelo fim da propriedade privada. O panfleto busca, todavia, sustentar esse ideal de luta a partir de uma teoria sociológica sobre o surgimento, o desenvolvimento e o funcionamento do capitalismo. É sobretudo essa teoria que interessa compreender aqui. Subjacente às diversas formas manifestas de organização dos grupos humanos, Marx e Engels observam uma divisão fundamental, do ponto de vista da relação com os meios de produção, entre três grandes classes sociais: a classe trabalhadora, a classe média, e a classe proprietária ou exploradora. Note que as classes sociais nesse sentido são estratos ou camadas sociais, não grupos. Portanto, a luta de classes não é uma luta política entre grupos ou facções: é 23 um fenômeno social e histórico. Marx e Engels argumentam então que este fenômeno é responsável em última instância por todas as grandes transformações históricas da humanidade: a ascensão e a queda dos impérios, os grandes fluxos migratórios e os empreendimentos coloniais, e assim sendo, o “motor” da história universal. A luta ou o conflito imanente a esta estrutura de classes é aquele que opõe a classe trabalhadora à classe proprietária na distribuição dos resultados da produção. A classe média é (como o nome mesmo diz) a classe no meio deste conflito. Não se confunde com a classe trabalhadora – pois não vive da venda da sua força de trabalho – e nem com a classe proprietária – pois não é dona dos meios de produção. Outro conceito característico da sociologia de Marx é o modo de produção: a composição, dominante numa determinada época histórica, entre forças produtivas e relações sociais de produção. As forças produtivas significam grosso modo o estágio tecnológico de uma determinada sociedade, e as relações sociais de produção significam grosso modo a forma típica do trabalho numa dada sociedade. Melhor dizendo: “As forças produtivas são as edificações e os meios utilizados no processo de produção: meios de produção, de um lado, e força de trabalho, de outro. Os meios de produção são recursos produtivos físicos: ferramentas, maquinária, matéria-prima, espaço físico etc. A força de trabalho inclui não apenas a força física dos produtores, mas também suas habilidades e seu conhecimento técnico (que eles necessariamente não dominam), aplicados quando trabalham. […] As relações de produção são relações de poder econômico sobre a força de trabalho e os meios de produção, de cujo privilégio alguns gozam, enquanto os demais carecem. Em uma sociedade capitalista, as relações de produção incluem o poder econômico que os capitalistas detêm sobre os meios de produção, o poder econômico que os trabalhadores (ao contrário dos escravos) possuem sobre sua própria força de trabalho e a ausência de poder econômico dos trabalhadores sobre os meios de produção. ” (COHEN, 2010, p. 64-65). As classes sociais na sociologia marxista são definidas pela sua relação com os meios de produção. A classificação corriqueira nos noticiários de economia – entre as classes A, B, C, D e E – é um modelo relativo à renda e ao consumo. Os dois modelos de classificação são congruentes, mas tem conotações políticas distintas. O modelo economicista enfatiza a mobilidade social, enquanto o modelo marxista enfatiza a dependência do, e as condições de trabalho. Do ponto de vista da luta política, o primeiro é dispersivo, e o segundo, polarizador. 24 Marx foi um grande estudioso da economia política clássica, ávido leitor de Adam Smith (1723-1790), Thomas Malthus (1766-1834), David Ricardo (1772-1823), entre outros. Deles reteve a noção de que o valor da mercadoria é determinado pela quantidade de trabalho socialmente necessário para a sua produção, divergindo fundamentalmente na explicação do lucro. Ao contrário dos economistas neoclássicos seus contemporâneos, Marx postulou que a diferença no valor das mercadorias não se devia fundamentalmente à diferença na satisfação relativa produzida pelo seu consumo (teoria do valor subjetivo), mas na apropriação desigual do excedente de trabalho não pago pelos proprietários dos meios de produção. Marx a isso denominou “mais-valia”. Os economistas clássicos escreveram sobre o capitalismo do ponto de vista de uma burguesia iluminista revolucionária que invocava a explicação das leis da natureza contra o despotismo dos reis absolutistas. Marx por sua vez observava um capitalismo no qual a burguesia havia se tornado a classe dominante, por isso questionava a naturalização do sistema de valor das mercadorias e da propriedade privada. As relações de troca, segundo Marx, não são a expressão do valor verdadeiro das mercadorias. Este é o produto de um “trabalho morto”, como o denomina Max, que se tornou intangível. A grande questão filosófica para Marx é explicar, como sendo o trabalho aquilo o que importava, poder-se-ia admitir que o valor fosse atribuído diretamente às coisas na sua relação com outras coisas (insumos, dinheiro, etc.). “O resultado é que uma ‘relação social determinada entre os próprios homens (…) assume, para eles, a forma fantasmagórica de uma relação entre coisas’. E é essa condição que define o ‘fetichismo, que se cola aos produtos do trabalho tão logo são produzidos como mercadorias e que, por isso, é inseparável da produção de mercadorias’. Isso acontece, diz ele, porque ‘os produtores só travam contato social mediante a troca de seus produtos do trabalho’, de modo que […] eles não sabem nem podem saber qual é o valor de sua mercadoria antes de levá-la ao mercado e efetivar sua troca. ’ A estes últimos (os produtores), as relações sociais entre seus trabalhos privados aparecem […] como relações reificadas entre pessoas e relações sociais entre coisas’. (HARVEY, 2013, formato ebook; citações de Marx). 25 Esse fetichismo da(s) mercadoria(s) instalado no cerne da sociedade capitalista é o resultado de uma condição de alienação inerente ao trabalho que é essencial ao funcionamento do capitalismo moderno. Esta etapa do capitalismo se caracterizou pela generalização do aspecto mercantil a todas as relações de produção e pela transformação do próprio trabalho em mercadoria. Quando a única forma que o trabalho assume para o trabalhador é a da mercadoria, este se encontra, por assim dizer, alienado do seu próprio trabalho. A condição essencial para a troca de mercadorias no capitalismo moderno é a descaracterização de todo trabalho concreto, a sua transformação em trabalho abstrato, abstraído do conjunto das experiências reais que ele um dia encarnou. O trabalho que produziu a mercadoria e foi responsável por gerar oseu valor existe no produto agora apenas como resíduo genérico, despojado das suas particularidades afetivas, reconhecível apenas, nas palavras de Marx, como uma “geleia de trabalho humano”. Talvez o exemplo mais dramático desse fenômeno tenha sido registrado pela literatura, em As Vinhas da Ira, de John Steinbeck (1902-1968). “Nas casinhas em que moravam, os arrendatários reuniam o que lhes pertencia e o que pertencera a seus pais e a seus avós. Preparavam-se para a grande viagem rumo ao oeste. (…) Carroças, armações, sementeiras, enxadas em penca. Tragam tudo. Juntem tudo. Ponham tudo no caminhão. Levem tudo para a cidade. Vendam tudo por quanto puderem. […] cinquenta cents [centavos] não é bastante por um arado. Essa sementeira aí custou 38 dólares. Dois dólares são muito pouco. [...] Bem, leve tudo, todos esses troços, me dê 5 dólares por tudo, ‘tá bem? […] Não posso levar tudo de volta, bem, aceito os quatro dólares mesmo. Mas eu o estou prevenindo: o senhor está comprando as nossas próprias vidas. O senhor não vê isto, não quer ver isto” (STEINBECK apud DOMINGUES, 2015). A cena é um diálogo de um camponês com um vendedor numa pequena cidade dos Estados Unidos durante a Grande Depressão. O que o vendedor é acusado de não enxergar nos objetos que tentam lhe vender? Por que o camponês não entende o valor dos objetos a partir do mercado? O vendedor não quer ver ou não seria capaz de ver o valor dos objetos para além do seu valor de mercado? No segundo caso, por que não seria capaz de vê-lo? O que o impediria de antemão? 26 2.3 ALGUMAS DIMENSÕES TEÓRICAS IMPORTANTES: O MATERIALISMO HISTÓRICO E DIALÉTICO, CONHECIMENTO CONTRA IDEOLOGIA, MUDANÇA SOCIAL E REVOLUÇÃO Marx foi um herdeiro dos ideais iluministas que criticou as próprias bases do conhecimento filosófico de sua época. O principal alvo de suas críticas nesse sentido foi a dialética filosófica de Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831). Na mocidade, Marx foi um “jovem hegeliano” na Alemanha. Quando se muda para a França e trava contato com Friedrich Engels, aprofundando o seu envolvimento com o movimento operário, Marx terminará por formular, alternativamente, uma filosofia da práxis. Em 1846 os dois concluíram um manuscrito alinhavando as suas críticas à filosofia alemã que, entretanto, não encontrou editor à época, somente sendo publicado postumamente em 1932, sob o título A ideologia alemã. A sua crítica consistia em denunciar o aspecto abstrato do hegelianismo, postulando uma inversão da sua lógica dialética, sem, todavia, descartá-la. A dialética era o método filosófico praticado por Platão e inspirado por Sócrates. Trata-se de apresentar uma ideia e desenvolvê-la em diálogo com ideias contrárias que aos poucos se complementam até alcançar o que é essencial, que não varia conforme as circunstâncias. Hegel interpretou a dialética não apenas como um método argumentativo, mas como uma forma de compreender o movimento da história. O principal exemplo da dialética histórica de Hegel é a sua teoria do Estado. Para Hegel, a família corresponde à ordem moral primeira, original e natural, da qual decorre, por agregação, a sociedade civil, enquanto a associação dos indivíduos que se regem por regras impessoais e universais, independente de seus pertencimentos familiares. O conflito dialético entre família e sociedade civil culminaria no Estado. Marx reconhece o curto circuito nessa explicação. Hegel pressupõe o Estado como o gestor do direito público e privado, e isso faz com que ele busque, retroativamente, na família e na sociedade civil, em abstrato, a sua gênese. “Falta a Hegel, em verdade, não uma boa lógica, mas um modo de determinar ‘a maneira racional, adequada, de subsunção’, quer dizer, um critério que dê a cada categoria lógica uma necessidade ontológica. Para Marx, um tal critério, se desenvolvido no interior do próprio pensamento, produz apenas tautologias, razão pela qual ele deve ser buscado na realidade empírica. 27 Assim, libertado de sua redução especulativa a simples ‘manifestação’ a Ideia lógica, e reconduzido à sua posição originária como verdadeiro sujeito, caberá ao próprio real a tarefa de guiar com segurança o pensamento rumo a sua realização” (ENDERLE, 2010, formato ebook). A dialética de Marx é uma versão reformulada da dialética hegeliana ancorada na observação das condições históricas e materiais de existência das populações humanas, donde a denominação que melhor se lhe aplica é o materialismo histórico- dialético. E como talvez você já possa ter percebido, tal método deriva da junção das suas críticas ao hegelianismo, de um lado, e aos economistas clássicos, de outro. Talvez a explicação mais articulada e concisa do método marxista tenha sido formulada por ele nessa famosa passagem da introdução ao seu livro Contribuição à crítica da Economia Política, de 1859. Nela encontramos não apenas a distinção entre a infraestrutura e a superestrutura da sociedade, como consequência da perspectiva materialista, mas também um bom resumo de sua teoria da revolução. Talvez você queira assistir O jovem Karl Marx do cineasta haitiano Raoul Peck como uma forma didática de conhecer um pouco sobre o autor. O filme cobre a sua vida em Paris, o início da amizade com Friedrich Engels, e a redação do Manifesto Comunista. Mas em se tratando de uma obra de ficção, vale a pena checar a análise dos erros e acertos do filme feita por Michael Heinrich, eminente biógrafo de Marx, para o blog da editora Boitempo. No canal da mesma editora no Youtube, você encontrará muitos bons vídeos sobre Marx e marxismo. Segue uma pequena seleção de três vídeos curtos do canal sobre Marx: • “Jovem Marx”, por Michel Löwy; • “O conceito de Ideologia", por Mauro Iasi; • “O Capital, de Max: gênese e estrutura da obra”, por Jorge Grespan. 28 “[…] na produção social da própria existência, os homens entram em relações determinadas, necessárias, independentes de sua vontade; essas relações de produção correspondem a um grau determinado de desenvolvimento de suas forças produtivas materiais. A totalidade dessas relações de produção constitui a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se eleva uma superestrutura jurídica e política e à qual correspondem formas sociais determinadas de consciência. O modo de produção da vida material condiciona o processo de vida social, política e intelectual. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser; ao contrário, é o seu ser social que determina sua consciência. Em uma certa etapa de seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes, ou, o que não é mais que sua expressão jurídica, com as relações de propriedade no seio das quais elas se haviam desenvolvido até então. De formas evolutivas das forças produtivas que eram, essas relações convertem-se em entraves. Abre-se, então, uma época de revolução social. A transformação que se produziu na base econômica transforma mais ou menos lenta ou rapidamente toda a colossal superestrutura. […] Do mesmo modo que não se julga o indivíduo pela ideia que de si mesmo faz, tampouco se pode julgar uma tal época de transformações pela consciência que ela tem de si mesma. É preciso, ao contrário, explicar essa consciência pelas contradições da vida material, pelo conflito que existe entre as forças produtivas sociais e as relações de produção. Uma sociedade jamais desaparece antes que estejam desenvolvidas todas as forças produtivas que possa conter, e as relações de produção novas e superiores não tomam jamais seu lugar antes que as condições materiais de existência dessas relações tenham sido incubadas no próprio seio da velha sociedade. Em grandes traços, podem ser os modosde produção asiático, antigo, feudal e burguês moderno designados como outras tantas épocas progressivas da formação da sociedade econômica” (MARX, 2008 [1859], p. 47-48). Compreenda que Marx não despreza o papel das ideias na manutenção de uma determinada ordem social. Ele argumenta que em última instância essas ideias são a expressão de condições materiais e relações sociais preexistentes. No tocante a sua crítica da teoria do Estado de Hegel: não é o Estado que torna possível a existência da sociedade, mas a sociedade que torna possível a existência do Estado. A toda forma de conceber o mundo que obscureça as determinações que as relações sociais em suas condições materiais de existência exercem sobre a dinâmica das ideias, Marx classificou como “ideologia”. Nesse sentido, a tradição marxista popularizou a definição da ideologia como “falsa consciência”, embora o termo ainda se confunda muito no senso comum com a ideia de uma manipulação deliberada. A ideologia é a expressão de uma consciência alienada, que ignora ou desconhece as determinações sobre a sua própria ação e o seu próprio pensamento. Na sua teoria da revolução social, Marx postula que as sociedades se transformam pela intensificação das contradições inerentes ao seu modo de produção numa determinada época histórica, que não podem mais ser encobertas pela ideologia 29 dominante. Ao analisar a história econômica e social desde a antiguidade até a sua época, Marx acreditava não só ser possível de descrever o processo que levou ao surgimento do capitalismo, como aquele que levaria à sua necessária superação. Evolução histórica dos modos de produção A seta contínua que corresponde à hipotenusa dos triângulos menores representa o desenvolvimento das forças produtivas. As setas duplas formando um ângulo agudo representam o desenvolvimento das relações sociais de produção. As perpendiculares representam as revoluções sociais que transformam os modos de produção à medida que as anteriores divergem. 2.4 LEGADO E RESSONÂNCIA O horizonte derradeiro do capitalismo parece muito mais distante atualmente do que supunha Marx inicialmente. O autor talvez tenha falhado em prever as sucessivas adaptações pelas quais o capitalismo passaria na sua evolução dialética. Isso não significa que as contradições estruturais que ele detectou pela primeira vez no seio do capitalismo tenham se tornado irrelevantes. Ao longo do século XX, enquanto o marxismo soviético – de Lênin, Trotsky e Stálin – faziam uma leitura política da teoria da revolução de Marx em direção ao socialismo de Estado, o marxismo ocidental – de Walter Benjamin, György Lukács, Antônio Gramsci, dos pensadores identificados à Escola de Frankfurt, como Max Horkheimer, Theodor Adorno, Herbert Marcuse – tratava de expandir a sua teoria social. 30 Um dos principais desenvolvimentos da sociologia marxista no século XX foi a incorporação do consumo mercadológico e da massificação da cultura ao escopo das análises marxistas. Existe nesse sentido uma teoria cultural marxista, uma sociologia da cultura marxista – muitas vezes apoiada na obra de Gramsci e dos frankfurtianos – mas não o que diversos grupos conservadores ao redor do mundo insistem em chamar de “marxismo cultural”. O rótulo não passa da atualização do “bolchevismo cultural”, aquele que os nazistas tanto repudiaram na primeira metade do século passado, associando-o à difusão da arte moderna: saí o ataque à “estética degenerada”, entra a crítica ao multiculturalismo e à “ideologia de gênero”. Fato é que nenhuma dessas duas perspectivas é particularmente marxista. O que existe apenas é uma afinidade entre o marxismo como teoria social e como teoria política com o campo político da esquerda. Isso porque à maneira de um iluminismo reformado, o marxismo sempre se viu enquanto uma filosofia da emancipação humana. Não de uma emancipação individual, e sim de uma emancipação social, capitaneada por uma classe específica: a classe trabalhadora. Leia o artigo de Isabela Petrini Moya contextualizando a noção de marxismo cultural da perspectiva de ambos os espectros do campo político. Sobre o legado teórico e político de Marx no bicentenário de seu nascimento em 2018, assista o vídeo do jornalista Breno Altman, do portal de notícias Opera Mundi, no canal homônimo do Youtube. Também disponível na mesma plataforma há um vídeo muito interessante na sua transição para a próxima unidade: a entrevista em duas partes do professor e sociólogo Gabriel Cohn sobre Karl Marx e Émile Durkheim. 31 Marxiano vs. marxismo e marxista: termos que distinguem entre as ideias de Marx e a partir dele. Jogo de soma 0: operação em que o sucesso de um lado equivale ao fracasso do outro. Meios de produção: conceito que abarca força de trabalho e forças produtivas na teoria marxista. História universal: perspectiva teórica da totalidade dos fatos humanos em todas as épocas. Economia política: estudo da produção e comércio ligado ao governo e a distribuição da riqueza. Reificação: visão das ideias e das relações sociais como coisas fechadas e autodeterminadas. Grande Depressão: grave período de crise econômica nos EUA que sucedeu à crise de 1929. Práxis: a atividade humana percebida do ponto de vista da relação dialética entre teoria e prática. Dialética: observação da dimensão essencialmente conflituosa e contraditória dos fatos humanos. Tautologia: erro de lógica que enuncia resposta ou prova apenas repetindo as premissas. Bolchevismo: doutrina política associada aos bolcheviques da Revolução Russa de 1917. Ideologia de gênero: falácia de atribuir a identidade sexual desviante a influências ideológicas. 32 1. Karl Marx foi profundamente influenciado pela tendência historicista do pensamento social alemão. De acordo com essa tendência, a existência social é um processo, cada período histórico e cada estrutura social são únicos e devem ser entendidos por meio de leis que valem somente para eles. Marx, em seus estudos sobre a dinâmica capitalista, rompe a seu modo com esse postulado. Considerando as reflexões de Marx acerca desse tema, julgue os itens a seguir. I. Marx rejeitou a interpretação predominantemente idealista do historicismo no que tange ao conteúdo do processo social, afirmando que os acontecimentos decisivos se dão no âmbito das relações sociais, e não na esfera da evolução das ideias. II. Marx considerava o capitalismo apenas como um sistema econômico, sem considerar seus efeitos sobre fenômenos tais como a ciência e a tecnologia. III. Marx se preocupou em explicar o desenvolvimento de um sistema econômico que combina os seguintes atributos: concentração dos meios de produção nas mãos de um pequeno segmento da população; realização do trabalho por uma massa de trabalhadores livres; incessante inovação técnica do sistema de produção; ganho ilimitado como objetivo da ação econômica. IV. A ação social, segundo Marx, guia-se exclusivamente pelo interesse de classe, não havendo possibilidade de que esta seja influenciada por crenças e visões de mundo, isto é, por ideologias. Estão certos apenas os itens A) II e III. B) I e IV. C) II, e IV. D) I e III. E) I e II. 2. Onde quer que tenha conquistado o poder, a burguesia calcou aos pés as relações feudais, patriarcais e idílicas. Todos os complexos e variados laços que prendiam o homem feudal a seus “superiores naturais” ela os despedaçou sem piedade, para só deixar subsistir, de homem para homem, o laço do frio interesse, as duras exigências do “pagamento à vista”. A burguesia só pode existir com a condição de revolucionar 33 incessantemente os instrumentos de produção, por conseguinte, asrelações de produção e, com isso, todas as relações sociais. […] Essa revolução contínua da produção, esse abalo constante de todo o sistema social, essa agitação permanente e essa falta de segurança distinguem a época burguesa de todas as precedentes. Dissolvem-se todas as relações sociais antigas e cristalizadas, com seu cortejo de concepções e de ideias secularmente veneradas, as relações que as substituem tornam-se antiquadas antes de se ossificar. Tudo que era sólido e estável se esfuma, tudo o que era sagrado é profanado e os homens são obrigados finalmente a encarar com serenidade suas condições de existência e suas relações recíprocas. […] As relações burguesas de produção e de troca, o regime burguês de propriedade, a sociedade burguesa moderna, que conjurou gigantescos meios de produção e de troca, assemelham-se ao feiticeiro que já não pode controlar as potências infernais que pôs em movimento com suas palavras mágicas. MARX, K.; ENGELS, F. Manifesto do partido comunista. (com adaptações). A partir do texto acima e considerando as ideias de Marx e Engels, baseadas numa perspectiva dialética, avalie as afirmações que se seguem. I. A burguesia não desempenhou um papel revolucionário na história. II. A classe social burguesa e a classe proletária surgiram a partir da sociedade capitalista. III. Nas sociedades capitalistas as relações sociais estão em constante transformação. IV. O proletariado possui a missão histórica de negar e superar a sociedade capitalista. É correto apenas o que se afirma em A) II, III e IV. B) I e III. C) II e IV. D) I, III e IV. E) I e IV. 3. Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha, e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, ligadas e transmitidas pelo passado. – MARX, K. O Dezoito Brumário de Louis Bonaparte. São Paulo: Centauro, 2006.) O trecho de autoria de Karl Marx expressa as características principais do método de 34 análise da sociedade intitulado por ele de materialismo histórico dialético. Sobre esse método, analise as afirmativas a seguir. I. Busca compreender a sociedade a partir da relação pela qual os bens de produção são distribuídos entre seus integrantes. II. As condições socioeconômicas (infraestrutura) acabavam determinando como a cultura, o regime político, a moral e os costumes (superestrutura) se configurariam. III. Seria uma das molas propulsoras fundamentais que alimentariam as transformações históricas. IV. A análise materialista histórica parte da questão de que a produção e dominação são os pilares de toda a ordem social. Estão corretas as afirmativas A) I, II, III e IV. B) II e III, apenas. C) II e IV, apenas. D) I, II e III, apenas. E) I e III, apenas. 4. Um dos importantes pensadores sobre as relações de trabalho no capitalismo foi Karl Marx; ele produziu um conjunto de ideias e conceitos a respeito dessa temática. A charge apresenta uma situação vivenciada por milhares de trabalhadores em todo mundo. (Disponível em: http://ria-muito.blogspot.com/2012/06/30-tirinhas-frank-ernest.html.) Relacionando a charge com os conceitos desenvolvidos por Karl Marx, é correto afirmar que ela se relaciona a: A) alienação. B) mais-valia. C) exploração. D) proletarização. E) fetichismo da mercadoria 35 5. As formulações teóricas de Karl Marx acerca da vida social, especialmente a análise que faz da sociedade capitalista e sua superação, provocaram desde o princípio tamanho impacto nos meios intelectuais que, para alguns, grande parte da sociologia ocidental tem sido uma tentativa incessante de corroborar ou de negar as questões por ele levantadas. (OLIVEIRA e QUINTANEIRO, 2002, p. 27.) Recentemente, na conjuntura política nacional, o pensamento marxista tem sido colocado por setores partidários e políticos como doutrinação, sendo chamado “marxismo ideológico”. Entretanto, o próprio Karl Marx tinha uma visão crítica sobre a concepção de ideologia. Para Karl Marx, a ideologia pode ser definida como: A) essência da vida. B) falsa consciência. C) produto alienado. D) conjunto de ideias. E) posicionamento político. 36 A TRADIÇÃO SOCIOLÓGICA CLÁSSICA, PARTE II – DURKHEIM UNIDADE 37 3.1 DE MARX A DURKHEIM: UMA PRÉ-HISTÓRIA DA INSTITUCIONALIZAÇÃO DA SOCIOLOGIA Marx estudou direito e filosofia, viveu como publicista e ativista político, tendo escrito em vários momentos como um sociólogo avant la lettre. De fato, pertence à geração de precursores da sociologia acadêmica e universitária que surgiria na Europa mais tarde. O primeiro departamento de Ciências Sociais surgiu na França em 1887 na Universidade de Bourdeaux. Durkheim era o seu professor de sociologia. Um pensamento sociológico em sentido amplo vinha ganhando corpo desde o início do século XIX, ligado ao socialismo político. Na França, as ideias de Jean Jacques Rousseau (1712-1778) sobre a origem das desigualdades, a Revolução Francesa de 1789 e o advento do capitalismo industrial no país, levaram pensadores como o Conde Henri de Saint-Simon (1760-1825) ver a estrutura social a partir da produção. Marx criticou Saint-Simon e outros industrialistas como Robert Owen na Inglaterra por sustentarem que os principais problemas sociais de seu tempo eram o produto de um mal funcionamento do capitalismo, argumentando com sucesso que isso fazia parte do funcionamento normal do sistema. Marx e Engels opunham a esse “socialismo utópico” um “socialismo científico” de base empírica e filosófica. Todas essas ideias expressam um viés sociológico sobre a economia política, mas ainda não configuram de forma precisa um objeto exclusivo para a sociologia. Um primeiro passo nessa direção foi dado por Auguste Comte (1798-1857), que havia sido secretário pessoal de Saint-Simon. Com o seu Curso de Filosofia Positiva de 1842, ele popularizou o termo “sociologia” e ampliou o seu objeto para além da economia. “Montesquieu e Tocqueville atribuem uma certa primazia à política, à forma do Estado; Marx, à organização econômica. A doutrina de Auguste Comte se baseia na ideia de que toda sociedade se mantém pelo acordo dos espíritos [isto é, das ideias na mente das pessoas]. Só há sociedade na medida em que seus membros têm as mesmas crenças. É a maneira de pensar que caracteriza as diferentes etapas da humanidade, e a etapa final será marcada pela generalização triunfante do pensamento positivo [isto é, racional, empírico e científico]” (ARON, 2000, p. 71). Leia o artigo da professora Lelita Benoit na Revista Cult para uma radiografia das ideias de Comte. 38 Comte escrevera de um modo bastante doutrinário. O seu objetivo era conclamar os intelectuais franceses de sua época numa determinada direção de reforma social. As ideias de Comte se tornaram muito populares a partir de 1870, com o início da Terceira República Francesa, e mais tarde influenciariam o ambiente intelectual da Primeira República no Brasil. É esse o cenário em que Durkheim se tornou professor. O curso de Ciências Sociais e Pedagogia da Universidade de Bourdeaux tinha o objetivo de formar professores e profissionais para atuar na reforma do sistema educacional francês em curso no momento. A disputa política pela expansão e laicização do sistema educacional francês durou até o começo do século XX, quando Durkheim, já professor na Sorbonne, em Paris, foi conselheiro do Ministério da Educação. Entre 1895 e 1912, entre a publicação original de As regras do método sociológico e de As formas elementares da vida religiosa, Durkheim tornou-se a grande autoridade francesa no estudo da sociologia. Os seus livros definiram um conjuntode fenômenos e um método de investigação próprio da sociologia, distinguindo os “fatos sociais” entre os diversos tipos de fatos humanos. Durkheim inaugura por sua vez uma linhagem acadêmica, uma forma de pensar e de escrever sociologia autônoma, completamente distinta da filosofia, da economia política, da história e da psicologia. Ao mesmo tempo, a fase seguinte de sua obra seguirá um caminho diferente, que fará com que esta seja incorporada, menos à sociologia moldada pela fase anterior, do que à nova ciência da antropologia. 3.2 UMA DISTINÇÃO CRUCIAL: A LEITURA DE DURKHEIM NA SOCIOLOGIA E NA ANTROPOLOGIA Nesta unidade você se concentrará no estudo das contribuições de Durkheim para a sociologia, mas não podem passar desapercebidas algumas de suas contribuições no âmbito da antropologia, até porque, essa separação não existe no pensamento do autor. Durkheim continuou praticando e escrevendo sociologia, mais suas ideias subsequentes foram incorporadas mais lentamente à disciplina, e em certas áreas. 39 Sumariamente, os sociólogos estão mais familiarizados com a obra anterior de Durkheim. Da divisão do trabalho social e As regras do método sociológico colocaram no centro do debate sociológico a questão da ordem e da solidariedade social, ou seja, da relação entre a sociedade enquanto coletividade moral e os indivíduos em seus sistemas de relações recíprocas. Já para os antropólogos, As formas elementares da vida religiosa é o principal livro de Durkheim. Mas para compreender a razão disso, é preciso antes entender melhor o contexto de formação da própria antropologia. Se o campo teórico da sociologia foi se constituindo como uma forma de explicar os fenômenos da sociedade capitalista moderna, o da antropologia o fez tentando explicar a razão da diversidade humana. A curiosidade e a vontade de explicar as diferenças entre os diferentes povos humanos é de todas as culturas, de todas as épocas, e para tanto há sempre um enorme repertório de mitos mais ou menos fantásticos. Mas com as grandes navegações e o avanço da cartografia, o mundo conhecido foi ficando geograficamente bem delimitado, de modo que a totalidade das diferenças pode ser vista sistematicamente. A medida que o moderno colonialismo europeu legitimado pelo imperativo religioso de difusão do cristianismo foi perdendo força, um novo colonialismo baseado na difusão dos padrões culturais da Civilização o sucedeu. É nesse momento que o campo teórico, acadêmico e científico da antropologia se constituiu, profundamente marcado pelo evolucionismo da biologia, e animado pelo estudo comparativo das religiões. “A Antropologia é filha do imperialismo ocidental. Ela tem raízes nas visões humanistas do Iluminismo, mas, como disciplina universitária e Ciência Moderna, surgiu nas últimas décadas do século XIX e do início do século XX. Este foi o período em que as nações ocidentais estavam fazendo seu esforço final para trazer praticamente todo o mundo pré-industrial não-ocidental sob seu controle político e econômico. A despeito da crença na neutralidade da ciência social, os antropólogos da época parecem ter desempenhado papéis característicos dos […] reformadores liberais brancos. Os antropólogos eram de status social mais alto que seus informantes; estes eram geralmente da ‘raça’ dominante e eram protegidos pela lei imperial; contudo, vivendo unicamente com os povos nativos, tendiam a participar e a tentar protegê-los das piores formas de exploração imperialista. Relações costumeiras se desenvolveram entre os antropólogos e o governo ou as várias agências privadas que as financiavam e protegiam. Outros tipos de relações habituais cresceram entre antropólogos e as pessoas cujas instituições estudaram. A Antropologia aplicada surgiu como uma espécie de trabalho social e esforço de desenvolvimento comunitário para os povos não-brancos, cujo futuro foi visto em termos de 40 educação gradual e melhoria das condições, muitas das quais realmente foram impostas por seus conquistadores ocidentais em primeiro lugar” (GOUGH, 1968, p. 12-13, tradução minha). Durkheim iniciou sua obra sociológica postulando a sociedade como uma totalidade autônoma que se impunha sobre a vontade individual, ao mesmo tempo em que a constituía – mas a segunda parte era sobretudo difícil de explicar. Não era correto deduzi-lo a partir do poder das instituições existentes, era preciso dar conta de como surge esse poder. Durkheim se volta para o estudo da religião nas sociedades primitivas com esse interesse teórico, e o resultado muda o rumo da antropologia. “A última obra de Durkheim, talvez a mais importante, [As formas elementares da vida religiosa], foi publicada dois anos antes de sua morte. Aqui, ele tenta apanhar o sentido de ‘solidariedade’ em si, da força mesma que mantém a sociedade. A solidariedade, afirma Durkheim, surge das representações coletivas – um termo polêmico na época e também nos dias atuais. As representações são ‘imagens’ simbólicas ou ‘modelos’ de vida social comuns a um grupo. Essas ‘imagens’ se desenvolvem através de relações interpessoais, mas adquirem um caráter objetivo supraindividual. Elas constituem uma realidade totalizante, virtual, ‘socialmente construída’ que ecoa Kant e Hegel, e que para as pessoas que vivem na sociedade são tão reais quanto o mundo material. Mas elas não são imagens objetivas desse mundo, e sim entidades morais, com poder sobre as emoções. A religião se torna um objeto de pesquisa importante para Durkheim, porque é aqui, mais do que em qualquer outra parte, que se estabelece e fortalece o apego emocional dos indivíduos a representações coletivas. Esse apego se forma principalmente no ritual, no qual a religião é expressa através da interação física e a solidariedade se torna uma experiência direta, corporal. […] A religião e o ritual atraíam de longa data o interesse dos antropólogos, que os haviam documentado numa grande variedade de formas empíricas. O problema da compreensão da integração social em sociedades sem Estado fora uma preocupação importante (embora em geral implícita) no evolucionismo. E a perplexidade diante dos símbolos e costumes exóticos dos ‘outros’ foi o ponto de partida de toda pesquisa antropológica. Agora Durkheiin parecia oferecer urna ferramenta analítica que integraria todos esses interesses. ‘O exótico’ podia ser compreendido corno um sistema integrado de representações coletivas cuja função era criar solidariedade social. E a religião, o fenômeno mais mistificante e ‘exótico’ de todos, acabou se transformando no dínamo racional propulsor de todo esse processo. ” (ERIKSEN; NIELSEN, 2007, p. 44-45.) Pela própria época em que viveu e os interesses intelectuais que nutriu durante toda vida, Durkheim era um herdeiro intelectual de Comte, que aos poucos foi construindo a fundamentação teórica para descrever e compreender a sociedade como determinada por padrões de crença, depurando parte dos preconceitos evolucionistas de seu antecessor. Em Durkheim a distinção entre primitivo e civilizado deixa de ser 41 uma distinção entre inferior e superior e se torna uma distinção de níveis de complexidade. Com isso, fica delineada em linhas gerais o duplo legado da obra de Durkheim para a constituição acadêmica da sociologia e da antropologia. Cumpre apenas antecipar que o seu legado tem ademais uma dimensão teórica e metodológica mais ampla, que atravessa ambas as disciplinas, antecipando duas importantes correntes das ciências sociais no século XX: o estruturalismo/funcionalismo e o interacionismo simbólico. Você compreenderá exatamente do que se trata ao final desta unidade, que agora irá avançar no sentido de explicar conceitualmente alguns dos principais fundamentos da sociologia de Durkheim. 3.3 ALGUNS CONCEITOS IMPORTANTES: FATO SOCIAL E FUNÇÃO DO FATO SOCIAL, CONSCIÊNCIA E REPRESENTAÇÃOCOLETIVA, SOLIDARIEDADE MECÂNICA E ORGÂNICA, ANOMIA É verdade que, em As regras do método sociológico, Durkheim atribui à sociologia o estudo dos fatos sociais, mas o que isso significa? Sabê-lo não é simplesmente repetir a definição de fato social – algo como: todo o acontecimento humano de caráter coletivo, geral e recorrente, que se manifesta independentemente da vontade ou ação de indivíduos ou grupos específicos, como se dotado de força própria, coercitiva. Sabê-lo é, isto sim, ser capaz de formular conceitualmente o fato social a partir dos dados preliminares da experiência. Identificar ou apontar um fato social diretamente pressupõe uma série de operações lógicas nem sempre mencionadas pelos estudiosos do fato, pois se pressupõe num ambiente acadêmico que o interlocutor tem o domínio da teoria, eis o que costuma dificultar o entendimento do leigo. Portanto, o melhor modo de compreender o que é o fato social é praticar a sua formulação conceitual com alguns exemplos. É final de uma sexta-feira qualquer, você sai de casa para tomar uma cerveja. Essa frase expressa no máximo um fato ordinário e, portanto, desprezível no conjunto da sua biografia. Houvesse você desistido ou sido incapaz de sair, tal fato em si desapareceria. Mas o que não desapareceria? Não desapareceria o costume das pessoas saírem de casa para tomar cerveja no final de uma sexta-feira. Mas esse ainda não é o fato social em si, já que este deve 42 ser formulado de forma geral, ou melhor dizendo, genérica. O que a segunda formulação exprime na verdade é uma instituição em sentido amplo: um conjunto integrado de valores, regras e práticas instituídas pela coletividade. O fato social correspondente a este caso seria o consumo recreativo de álcool. Perceba que definido corretamente, de forma genérica, podemos observar as manifestações do fato social variando em relação a diversas instituições: isto é o que é fundamental na sociologia durkheimiana. Como dogmas religiosos, a jornada de trabalho, os valores sociais e os padrões de utilização do espaço público influenciam este fato? Em suma, a externalidade, a generalidade e a coercitividade são os três critérios principais para classificação de um fato social. Se independe da vontade ou ação de um sujeito determinado, existe fora dele, autonomamente; se não se esgota em uma única ocorrência do fato, nem a uma única instituição que estabelece um padrão de ocorrências particulares, então é algo geral/genérico; e a coercitividade? Durkheim pondera de forma magistral que a coercitividade nem sempre é visível, mas que tende a ser mais evidente na medida que os sujeitos impõem alguma resistência à manifestação do fato social. A coerção nesse sentido não é o sinônimo de intimidação, força ou violência, mas de variados graus de constrangimento. O sujeito que recusa o consumo de álcool em certas circunstâncias é tido como “antissocial”. Um único exemplo não é suficiente. Você precisa praticar! Tente identificar e formular adequadamente, de modo preliminar, um ou mais fatos sociais e instituições implicadas nestas reportagens. • Rio registrou aumento de 31% no número de turistas durante o carnaval. • Defensoria Pública de Minas promove casamento comunitário em Ribeirão das Neves. • Damares Alves propõe meninos de azul e meninas de rosa para ‘nova era’ no Brasil. • “Na Copinha, todo jogo é uma chance de melhorar a vida dos meus pais”. • Quem tem medo da masculinidade frágil dos homens do BBB19? • Número de mortos por chuvas no litoral paulista sobe para 35. • Como o ‘like’ matou o “quer sair comigo”? 43 Pela via do exemplo é possível perceber que análise dos fatos sociais proposta por Durkheim não se esgota na definição ou identificação do próprio fato, mas avança na direção de compreender qual a sua função em uma determinada estrutura social. E por “estrutura” devemos entender o conjunto de hábitos, costumes, crenças e instituições presentes de antemão no ambiente social em que vivemos. O principal fato social que intrigava Durkheim desde o seu estudo anterior, Da divisão do social trabalho, e o levará a estudar depois o fenômeno do título de O Suicídio, é o que ele denominou de “solidariedade social”. Trata-se de um conceito com um sentido específico na obra de Durkheim e que não deverá ser tomado em sentido coloquial, como sinônimo de caridade. Solidariedade ali é sinônimo de interdependência. O efeito de interdependência produzido pelas relações sociais intrigava Durkheim pelo seguinte: ao mesmo tempo em que diversas instituições assumiam um caráter moral e impunham aos indivíduos de forma mais ou menos coercitiva certas regras, muitas vezes a obediência ou a conformação às regras se dá de bom grado, a tal ponto que passamos a percebê-las menos como regras e mais como hábitos. Num primeiro momento, Durkheim não responde à questão. Limita-se a distinguir entre duas formas de consciência: consciência individual e consciência coletiva. A primeira é uma consciência que possuímos de nossos próprios atos, desejos e pensamentos. A segunda é uma consciência formada pelas ideias, crenças e valores amplamente compartilhados na sociedade. Mas como essa segunda consciência se forma? Como você já viu anteriormente nesta unidade, é graças ao aspecto simbólico dos rituais em sentido amplo, práticas sociais repetidas de maneira ritualizada, que as instituições emergem e se consolidam segundo Durkheim – ou seja, porque essas são representações coletivas. Essa teoria da representação é o que explica como se constituem sociologicamente os laços entre os seres humanos na sociologia durkheimiana. Sem ter desvendado ainda a “essência da solidariedade”, Durkheim em Da divisão do trabalho social pode, entretanto, tipificar as formas de solidariedade conforme a organização social. Nas sociedades primitivas predomina uma espécie de “solidariedade mecânica”, automática. Nas sociedades complexas predomina uma espécie de “solidariedade orgânica”, funcional. Vejamos o que isso significa. 44 Os indivíduos nas sociedades primitivas tenderiam pois a se relacionar entre si reproduzindo o padrão das relações entre as principais instituições às quais elas estão vinculadas: gênero, idade, família, clã, comunidade, povo, nação, religião, etc. Já nas sociedades complexas, o como se posicionar e se relacionar com outras pessoas não seria predefinido, pois a função dos laços tenderia a variar dentro da estrutura. Durkheim argumenta no estudo supramencionado que é o aprofundamento da divisão social do trabalho que leva à passagem de um tipo de solidariedade à outra, de um tipo de sociedade ao outro. Esse processo teria produzido um aumento de liberdade e, por outro lado, uma espécie de disfunção sistêmica. Nas sociedades complexas, os indivíduos não têm com frequência consciência dos laços sociais que os conectam, e em várias situações não sabem exatamente como agir. O autor chamou esse fenômeno de anomia, neologismo formado pela junção em grego do prefixo negativo “a” e da palavra “nomos”, que significa algo como “lei” ou “ordem” em sentido amplo. Em que pese a etimologia sugerir ao leigo alguma proximidade com o conceito político de anarquia, também usados frequentemente para significar a ausência de ordem, estes não têm nada em comum. A diferença fundamental na base desses dois conceitos é entre uma noção de ordem baseada na autoridade política e outra que é fruto do próprio arranjo cumulativo das relações sociais. Mais uma vez, não basta repetir a definição do conceito! Talvez o melhor exemplo que possamos encontrar de anomia na sociedade capitalista contemporânea é a do tratamento dispensado às pessoas em situação de rua. O grau de solidariedade manifesto por um cidadão comum a uma pessoa nessa situação é em geral bastante indefinido, dependentede diversos fatores: a hora do dia, a região da cidade, as condições de higiene pessoal, a aparência física, sem falar de fatores altamente subjetivos, como os sentimentos pessoais de afeto. Uma pessoa em situação de rua vive confusão semelhante, mas que no caso afeta sua dignidade. Em O Suicídio, de 1897, Durkheim utilizou sua teoria da anomia e da solidariedade social mostrar a dimensão sociológica daquilo que na época era entendido somente enquanto uma tragédia pessoal e familiar. Ao mostrar que as condições de integração social das pessoas, sob certas circunstâncias, tinham um impacto sobre determinadas formas de suicídio, demonstrou que isso era um problema de saúde pública. 45 No livro, Durkheim tipifica diferentes formas de suicídio: o suicídio altruísta dos mártires religiosos; o suicídio fatalista comum entre doentes terminais antes dos avanços da medicina moderna; o suicídio egoísta no qual se enquadrariam aqueles que em função de elevados graus de depressão decidem dar cabo da própria vida; e o suicídio anômico daqueles que são levados a cometê-lo por uma súbita perda de referenciais. O autor explica as formas típicas do suicídio em função do grau de integração social do indivíduo. O suicídio “altruísta” tende a ocorrer entre indivíduos altamente integrados à sociedade, pois do contrário ele prescindiria dos próprios valores que o levam a dar cabo da própria vida. O suicídio “egoísta” é o oposto: a pessoa só pode desprezar a sua vida a ponto de dar-lhe fim se sente profundamente desajustada. O suicídio egoísta e o suicídio anômico podem ser entendidos como tipos autônomos. Porque há uma diferença crucial entre a série de falhas de integração social do indivíduo que no primeiro caso são circunstanciais, e no segundo deriva da ausência sistemática de uma ordem capaz de integrar o sujeito. Perceba, pois, que o suicídio fatalista é menos um tipo autônomo do que uma forma do suicídio anômico. O célebre escritor uruguaio Horácio Quiroga (1878-1937) se suicidou com uma dose de cianureto depois que foi diagnosticado com um câncer de estômago, à época, intratável. Não se suicidou como um poeta que enxerga beleza na própria morte, e tão pouco tinha para com a própria vida o desprezo alimentado por um desajuste em relação à sociedade. Era, digamos assim, um sujeito “funcional”. O fator determinante para o seu suicídio foi se ver subitamente numa profunda condição de incerteza: não saber se viveria muito ou pouco, se convalesceria por muito tempo e com muita dor ou se morreria de súbito. É como se ele houvesse perdido o seu lugar na sociedade – e essa, em síntese, é a característica fundamental desta forma de suicídio. A mesma situação produz hoje muito menos suicídios. 46 3.4 ALGUMAS DIMENSÕES TEÓRICAS IMPORTANTES: MUDANÇA SOCIAL, DIVISÃO SOCIAL DO TRABALHO, COESÃO E INTEGRAÇÃO SOCIAL, EDUCAÇÃO COMO SOCIALIZAÇÃO Durkheim refutará uma perspectiva teleológica da mudança social como aquela vista em Marx, argumentando que esta se processa de forma puramente contingencial. Mas os fatores que levam a esse tipo de mudança são conhecidos: elas dependem das condições demográficas e materiais de vida das populações. Durkheim explica isso em termos de volume e densidade. O volume da sociedade é simplesmente o tamanho de a sua população. A disposição da população num determinado território tem, contudo, dois aspectos diferentes. Essa razão (no sentido matemático) tem o aspecto físico, que ele chama de “densidade material” da sociedade; mas também possui um aspecto intangível, relativo ao conjunto de relações entre os indivíduos, aspecto que denomina “densidade moral”. Os fenômenos de urbanização, industrialização e da emergência de uma economia de mercado correspondem são correspondem, segundo Durkheim, ao aumento de volume e densidade material das sociedades. Todavia, o inverso ocorre em relação à densidade moral: quanto mais populosas, concentradas e urbanizadas se tornam as sociedades, tanto mais os laços sociais entre os indivíduos se tornam rarefeitos. Durkheim localiza a causa deste fenômeno num processo de divisão social do trabalho, acrescente especialização e diferenciação das profissões. Sobre este assunto, diversos filósofos já haviam se debruçado, mas sobretudo, da perspectiva da economia política, incluso Adam Smith e Karl Marx. O primeiro, apontou o processo como fator determinante do aumento da produtividade, embora criticando os males da rotina maçante na vida do trabalhador. O outro, formula a partir daí sua teoria da alienação. Durkheim será o primeiro a analisar o processo e as suas consequências de um ponto de vista estritamente social, separado do seu aspecto econômico. Desde de uma primitiva divisão sexual do trabalho nas sociedades primitivas, até o diverso mercado de trabalho das sociedades capitalistas modernas, este processo de divisão gera um relativo grau de interdependência entre as pessoas. Essa interdependência é baseada fundamentalmente nas relações de troca do trabalho e dos produtos do trabalho individual. Enquanto tais relações de troca são 47 determinadas de maneira mecânica, através de obrigações e lealdades, encontramo- nos em meio uma sociedade moralmente “densa”, coesa ou integrada. Mas na medida em que essas relações se tornam contingentes, o mesmo acontece com a coesão social. Durkheim refuta uma explicação utilitarista para a origem da divisão do trabalho: na totalidade histórica, não são os indivíduos que racionalmente formulam a separação das suas funções produtivas, mas a separação dessas funções que permitirá às pessoas enxergarem-se enquanto indivíduos. E o avanço da divisão social do trabalho leva ao predomínio da solidariedade orgânica sobre a solidariedade mecânica. “À medida que se acentua a divisão do trabalho social, a solidariedade mecânica se reduz e é gradualmente substituída por uma nova: a solidariedade orgânica ou derivada da divisão do trabalho. Institui-se então um processo de individualização dos membros dessa sociedade que passam a ser solidários por terem uma esfera própria de ação. Com isso ocorre uma interdependência entre todos e cada um dos demais membros que compõem tal sociedade. A função da divisão do trabalho é, enfim, a de integrar o corpo social, assegurar- lhe a unidade. É, portanto, uma condição de existência da sociedade organizada, uma necessidade. Sendo esta sociedade “um sistema de funções diferentes e especiais”, onde cada órgão tem um papel diferenciado, a função que o indivíduo desempenha é o que marca seu lugar na sociedade, e os grupos formados por pessoas unidas por afinidades especiais tornam-se órgãos, e “chegará o dia em que toda organização social e política terá uma base exclusivamente ou quase exclusivamente profissional”. Daí deriva a ideia de que a individuação é um processo intimamente ligado ao desenvolvimento da divisão do trabalho social e a uma classe de consciência que gradativamente ocupa o lugar da consciência comum e que só ocorre quando os membros das sociedades se diferenciam. E é esse mesmo processo que os torna interdependentes. Segundo Durkheim, somente existem indivíduos no sentido moderno da expressão quando se vive numa sociedade altamente diferenciada, ou seja, onde a divisão do trabalho está presente, e na qual a consciência coletiva ocupa um espaço já muito reduzido em face da consciência individual. ” (QUINTANEIRO, 1995, p. 15-57) A missão profissional da sociologia para Durkheim é combater a perda de densidade moral das sociedades, não pela imposição de uma moral integradora unilateral, mas favorecendo formas de integração mais ajustas ao novo tipo de solidariedade vigente nas sociedades complexas. Perceba que isso está intimamente relacionado com o contexto político francês da época, e que Durkheim lecionava sociologia em um curso universitário de pedagogia.Talvez a sua mais importante contribuição para esse campo do conhecimento tenha sido a demonstração do papel da educação formal como instrumento de socialização ou de integração social, e não apenas de formação intelectual. A família 48 tende a ser o primeiro e mais imediato núcleo desse processo, mas depois as pessoas constituem seus valores no contato com outras instituições ao longo de suas vidas. Durkheim advoga, politicamente, a importância da escola nesse segundo momento, como uma instituição capaz de oferecer às pessoas desde cedo uma “visão de conjunto” sobre a vida no mundo e a sua história, rompendo com o isolamento dos indivíduos em seus respectivos grupos sociais. Mais uma vez estamos diante de um ideal de emancipação humana que remonta, como você já sabe, ao Iluminismo. 3.5 LEGADO E RESSONÂNCIA Em termos políticos, o principal legado de Durkheim talvez tenha sido mesmo essa sua concepção de educação, que influenciou e impulsionou o desenvolvimento dos sistemas educacionais ao redor do mundo ao longo do século XX. No que tange a teoria sociológica no ambiente acadêmico, cumpre evidenciar as principais escolas de pensamento e campos de estudo que possuem afinidade com a sua obra. Entre 1915 e 1935, alcançaram grande projeção internacional na área, as pesquisas feitas pelo Departamento de Sociologia da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos. A primeira geração da chamada “Escola de Chicago” dedicou-se ao estudo da sociologia urbana via métodos quantitativos e demográficos, a exemplo da obra de Robert Ezra Park (1864-1944). Um dos principais temas de pesquisa da escola eram as relações entre criminalidade e meio sócia, que até o momento permaneciam vinculadas ao redor do mundo a uma criminologia fundamentada numa antropologia física de viés marcadamente racista. As conclusões de pesquisas empíricas da primeira geração da Escola de Chicago têm diversos pontos de contato com a teoria da integração social durkheimiana. Após a Segunda Guerra Mundial, a segunda geração da escola avança numa direção mais próxima da última fase da obra de Durkheim, inaugurando aquela corrente teórica e metodológica conhecida como “interacionismo simbólico”. Erving Goffman (1922-1982) é o principal autor que exemplifica a corrente, que se volta para a investigação das formas de estruturação da sociedade, mais do que o funcionamento da estrutura social já pronta, convergindo para os conceitos de ritual e representação. 49 A todo momento nesta unidade você viu a importância de não somente saber definir adequadamente os conceitos, mas sobretudo, de saber explicá-los e aplicá- los. É como na física e na matemática do ensino superior: não bata conhecer as fórmulas, é necessário ser capaz de demonstrá-las. Demonstrar, nesse sentido, significa expor as condições de validade de uma fórmula ou ideia. É, como se diz em epistemologia, ser capaz de justificar os enunciados do conhecimento. De uma perspectiva macrossociológica, a teoria dos sistemas sociais de Talcott Parsons (1902-1079) e de Niklas Luhmann (1927-1998) levou a premissa do estruturalismo/funcionalismo ao seu patamar mais sofisticado até o momento. Se os fenômenos sociais devem ser estudados em termos do seu funcionamento no interior de uma estrutura, é fundamental complexificar a última, de modo a não fazer monolítica. Em linhas muito gerais, esses autores buscaram formular uma teoria sociológica geral que pudesse dar conta da variação no interior da estrutura social, conceituando-a como um agregado de sistemas sociais sobrepostos, relativamente autônomos, e num constante processo de diferenciação mútua. Mas este é certamente assunto para um curso mais avançado de sociologia. 50 Publicista: espécie de jornalista, escritor de jornal, que debate os assuntos da vida pública; Avant la lettre: expressão francesa para caracterizar algo que surgiu antes do próprio termo; Barão de Montesquieu (1689-1755): filósofo iluminista autor de O Espírito das Leis. Alexis Tocqueville (1805-1859): teórico político francês autor de A democracia na América. Espírito (filosofia): refere-se às faculdades intelectuais de um povo, sem conotação sobrenatural. Laicização: processo de tornar leigo ou laico, separando as instituições dos dogmas religiosos. Gênero (sociologia): características sociais e culturais identificadas ao sexo masculino e feminino. Neologismo (linguística): palavra nova ou acepção nova dada uma palavra existente. Utilitarismo: filosofia moral consequencialista que valoriza a ação pela chance de gerar bem-estar; Escola de pensamento: tradição intelectual simbolizada por certo conjunto de autores e obras; Interacionismo simbólico: teoria da produção simbólica ao nível das relações interpessoais; Macro e microssociologia: respectivamente, a sociologia das grandes e pequenas agregações; Estruturalismo/funcionalismo: abordagens que focam a estrutura e a função dos fatos sociais. 51 1. “A história de toda sociedade até nossos dias é a história das lutas de classe. Homem livre e escravo, patrício e plebeu, barão e servo, mestre de ofício e companheiro, em resumo, opressores e oprimidos se encontraram sempre em constante oposição, travaram uma luta sem trégua, ora disfarçada, ora aberta, que terminou sempre por uma transformação revolucionária de toda a sociedade, ou então pela ruína das diversas classes em luta.” – Karl Marx. Manifesto comunista (com adaptações). “Uma religião é um sistema solidário de crenças e de práticas relativas a coisas sagradas, isto é, separadas, proibidas; crenças e práticas que unem, numa mesma comunidade moral chamada Igreja, todos os que a elas aderem.” – Émile Durkheim. As formas elementares da vida religiosa. Com base nos trechos acima, assinale a opção correta. a) Marx postula que é por meio da revolução pacífica que se podem superar os conflitos entre os membros da sociedade. b) Durkheim considera a religião como um sistema autônomo e subjetivo de práticas sagradas formado por crenças. c) Durkheim teoriza a religião enquanto um sistema de classificação que se baseia na moral humana. d) Marx formula a ideia da luta de classes a partir das questões de gênero, de etnia e de representação das minorias. e) As transformações revolucionárias ocorridas no Leste Europeu no século XX foram previstas por Marx. 2. Émile Durkheim e Marcel Mauss figuram entre grandes expoentes da sociologia francesa. Ambos contribuíram para a elaboração de noções como “representações individuais” e “representações coletivas”. Em uma de suas formulações clássicas, a noção de representações coletivas — em oposição à de representações individuais – é definida como as maneiras de agir e pensar, consagradas pela tradição e impostas pela sociedade aos indivíduos. Considerando essa definição, assinale a opção correta. a) A prece, na qualidade de fenômeno religioso, é um ato individual e, logo, uma representação unicamente individual. b) Durante a realização de ritos funerários, o choro e a lamentação são expressão de uma representação individual. c) Uma vez criada, a tradição se transmite de geração a geração de forma facultativa nas representações coletivas. d) Direito e moral, religião e magia, mitos e contos são formados por representações coletivas. e) O nome e os sobrenomes são escolhidos individualmente de forma livre pelos próprios membros de uma sociedade. 52 3. “Quando desempenho meus deveres de irmão, de esposo ou de cidadão, quando me desincumbo de encargos que contraí, pratico deveres que estão definidos fora de mim e de meus atos, no direito e nos costumes. Mesmo estando de acordo com sentimentos que me são próprios, sentindo-lhes interiormentea realidade, esta não deixa de ser objetiva; pois não fui eu quem os criou, mas recebi-os por meio da educação. Assim, também o devoto, ao nascer, encontra prontas as crenças e as práticas da vida religiosa; o sistema de sinais de que me sirvo para exprimir pensamentos; o sistema de moedas que emprego para pagar dívidas; os instrumentos de crédito que utilizo nas relações comerciais; as práticas seguidas na profissão etc., etc., funcionam independentemente do uso que delas faço. Tais afirmações podem ser estendidas a cada um dos membros de que é composta uma sociedade, tomados uns após outros. Estamos, pois, diante de maneiras de agir, de pensar e de sentir que apresentam a propriedade marcante de existir fora das consciências individuais. Esses tipos de conduta ou de pensamento não são apenas exteriores ao indivíduo, são também dotados de um poder imperativo e coercitivo, em virtude do qual se lhe impõem, quer queira, quer não”. – Émile Durkheim. As regras do método sociológico. Apud. José Albertino Rodrigues (Org.). Trad. Laura Natal Rodrigues. Rio de Janeiro: Companhia Editora Nacional, 1984, p. 1-2 (com adaptações). No segmento de texto acima, Durkheim trata, sobretudo, a) do fato social. b) da solidariedade social. c) da anomia social. d) da consciência coletiva. e) das representações coletivas 4. Para Durkheim, existem correntes sociais ou tendências coletivas que levam os indivíduos ao suicídio, denominadas por ele de “correntes suicidogêneas”. Para tal, ele define três correntes: egoísmo, altruísmo ou anomia. ( ) É visto como um dever, se não for cumprido, é punido pela desonra, perda da estima pública ou castigos religiosos. ( ) A depressão, a melancolia e a sensação de desamparo moral provocadas pela desintegração social tornam-se, então, causas desse tipo de suicídio. ( ) Ocorre devido a uma situação de desregramento social em que as normas estão ausentes ou perderam o respeito. Desta forma, assinale a alternativa que refere, respectivamente, essas formas típicas de suicídio. a) anômico, altruísta e egoísta b) egoísta, anômico, altruísta. c) altruísta, anômico, egoísta. d) anômico, egoísta, altruísta. e) egoísta, altruísta, anômico. 53 5. A respeito das contribuições de Émile Durkheim para a sociologia, assinale a alternativa correta. a) Retomando as intenções de Augusto Comte, toda obra de Durkheim estava voltada para dotar a sociologia do que ele julgava ser seu maior limite até aquele momento: a falta de um método consistente e elaborado de análise sociológica. b) A análise de produção burguesa será o objeto da maior parte das obras de Durkheim, onde ele afirma que “as relações de produção burguesas são a última forma antagônica do processo de produção social”. c) Para ele, a cultura ocidental que se encarna em instituições como o mercado capitalista, a burocracia estatal, o direito e a ciência carrega a possibilidade da perda da liberdade e do sentido da vida d) D) Durkheim vai orientar toda sua produção sociológica com base no primado do sujeito. A ideia de que o indivíduo é o elemento fundante na explicação da realidade social. e) Durkheim elevou um objeto clássico da disciplina – os rituais das religiões primitivas – ao status de categoria genérica fundamental de entendimento das representações coletivas de todas as sociedades. 54 A TRADIÇÃO SOCIOLÓGICA CLÁSSICA, PARTE III – WEBER UNIDADE 55 4.1 UMA DISTINÇÃO CRUCIAL: COLETIVISMO E INDIVIDUALISMO METODOLÓGICO Ás vezes os textos de introdução à sociologia insistem em opor Weber a Marx e Durkheim nesses termos: os dois representariam um tipo de “coletivismo” metodológico”, pelo qual o coletivo explicaria o individual, enquanto para Weber o individual explicaria o coletivo, donde o seu dito “individualismo metodológico”. Mal entendida, a oposição sugeriria que Weber foi mais um cronista do que um sociólogo. Weber foi um estudioso da obra de Marx, que aos poucos rejeitou e formulou conceitos e teorias alternativas para lidar, por exemplo, com o problema do surgimento do capitalismo. Afastando-se da economia política marxiana, Weber será um crítico da tese de que a “superestrutura” é só um reflexo da “infraestrutura”. As ideias e as condições materiais de existência se relacionam reciprocamente para Weber. Quanto a Durkheim, podemos dizer com segurança que Weber rejeitava a sua concepção de que a sociedade se descolaria dos indivíduos e agiria sobre eles de forma externa e coercitiva. Preferia falar em “formações sociais” como o produto de complexos desenvolvimentos e concatenações de ações sociais dos indivíduos. Enquanto Durkheim privilegia o “fato social”, Weber prefere tratar da “ação social”. Marx e Durkheim concebem os sujeitos dos fenômenos sociais enquanto entidades coletivas (classes, instituições, etc.) de forma monolítica, de modo que o todo ganharia precedência sobre as partes na formulação do argumento. Weber concebe essas entidades coletivas como conjuntos de elementos agregados, então, o todo só pode ser explicado como produto das partes. Eis o sentido correto daquela distinção. A sociologia de Weber foi tão importante no desenvolvimento das correntes sociológicas mencionadas no final da unidade anterior quanto a de Durkheim. Mais sobre isso ao final desta unidade. 56 4.2 ALGUNS CONCEITOS IMPORTANTES: AÇÃO SOCIAL E SENTIDO DA AÇÃO SOCIAL, AFINIDADE ELETIVA, TIPOS IDEAIS (DE DOMINAÇÃO, RACIONALIDADE E ORGANIZAÇÃO ESTATAL) Uma ação social no sentido weberiano é toda ação individual orientada pela percepção e antecipação das ações sociais de outros indivíduos. Esse é apenas um ponto de partida. O que interessa à sociologia na perspectiva de Weber é discernir e compreender o sentido geral da ação social num determinado contexto, sentido esse que é composto pelo sentido subjetivo e pelo sentido objetivo da ação. O sentido subjetivo de uma ação equivale à sua intenção abstrata concebida na mente do indivíduo, ao passo que o sentido objetivo de uma ação equivale à direção concreta que ela toma no mundo social. Weber propõe que os fenômenos sociais sejam analisados a partir da correlação, bem como da discrepância entre esses dois níveis da ação social e também as suas consequências inesperadas. As consequências inesperadas de uma ação social são importantes na medida em que dão pistas sobre como esta é percebida pelos outros sujeitos, e sugerem a existência do que ele chamou de “afinidades eletivas” entre diferentes conjuntos de ações. A expressão original em alemão tem origem num conceito da alquimia medieval usado como metáfora pelo romancista Johan von Goethe (1749-1842). Goethe é um dos maiores escritores da literatura alemã, bastante reverenciado na época de Weber. As afinidades eletivas é o título de um de seus romances. O termo era utilizado na alquimia para referir-se à propriedade demonstrada por certos corpos e elementos de se atraírem reciprocamente até se fundirem. O romance nada tem a ver com a alquimia, e Goethe ali o utiliza como uma metáfora para o amor. Weber, por sua vez, percebe o alcance do conceito para além do amor romântico, e passa a utilizá-lo para referir um tipo específico de interação entre certas formações sociais num determinado processo histórico. O autor jamais formulou uma teoria geral das afinidades eletivas entre formações sociais, entretanto, o conceito é o ponto-chave de A ética protestante e o espírito do capitalismo, publicado em 1905. Mais sobre isso adiante. Uma outra categoria importante do pensamento weberiano que cumpre destacar é a formulação de tipos de ideais. Weber busca condensar a observação empírica em tipos abstratos, genéricos, capazes de 57 identificar assim a forma geral de um determinadofenômeno, que entretanto, jamais se manifesta concretamente nessa forma “pura” em que foi formulado. Um exemplo disso na obra weberiana é a sua teoria das três principais formas de autoridade ou de dominação legítima: tradicional, legal e carismática. A dominação tradicional é aquela que se apoia no costume compartilhado, legal é a que se legitima a partir da lei instituída, e carismática a que se sustenta na personalidade de uma figura poderosa. Weber intuiu antes do fascismo o vulto que esta teria na modernidade. Um segundo exemplo disso na obra weberiana é a sua distinção entre dois tipos de racionalidade e de irracionalidade. A conduta afetiva e tradicional são para Weber irracionais, mas a conduta racional não seria somente aquela onde a ação é ajustada aos fins (racionalidade instrumental); incluiria ainda o tipo de ação racional em relação a princípios (racionalidade ética), do contrário considerada irracional. Um terceiro exemplo da formulação de tipos ideais por Weber é a sua caracterização de duas formas de organização política do Estado. Nas sociedades antigas, os Estados surgem como organização do poder político de um grupo ou classe, que a ele pertence, e por Weber se refere a esse modelo como “Estado patrimonial”. Nas sociedades modernas, dotadas de sistemas representativos, vige o “Estado burocrático”. 4.3 ALGUMAS DIMENSÕES TEÓRICAS IMPORTANTES: MODERNIZAÇÃO, CAPITALISMO, BUROCRACIA, DESENCANTAMENTO DO MUNDO Marx, Durkheim e Weber avançaram a sua maneira explicações sobre a passagem da sociedade tradicional para a sociedade moderna, todas completas naquilo o que pretendem explicar, mas Weber produziu dessas três a mais multifacetada. No plano econômico, a modernização corresponde ao advento do capitalismo; no plano político, ao avanço da burocracia; no plano cultural, ao desencantamento do mundo. Todavia, uma vez que Weber não concebe uma precedência da infraestrutura sobre a superestrutura, o tempo todo ele busca compreender a lógica das ideias e o sentido da ação social na modernidade. Weber era dono de uma formação intelectual 58 multifacetada. Jurista e economista alinhado à escola histórica da economia alemã, Weber era ainda um estudioso de religiões antigas. Enquanto Durkheim apenas se voltou para o estudo da religião no fim de sua vida, sobretudo das religiões primitivas, Weber dialoga desde o começo de sua obra com o estudo das religiões comparadas, sobretudo das grandes religiões mundiais: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Além disso, mais tarde em sua carreira, passou apoiar-se também no estudo dos monoteísmos orientais. Weber criticava as explicações sobre o surgimento do capitalismo baseadas no simples aumento do volume da riqueza. Outras épocas, ele argumentava, conheceram um grau elevado de concentração de riquezas, contudo não se tornaram capitalistas. Este é o caso da Índia na antiguidade, onde as riquezas permaneceram sob o controle de um Estado patrimonial, sem se converter em capital. Weber também criticava as explicações do surgimento do capitalismo baseadas no simples aumento do volume da produção. Diversas regiões do mundo ampliaram a escala da produção incorporando o avanço tecnológico da Revolução Industrial europeia, e nem por isso se tornaram imediatamente capitalistas. Na China – e é por isso que Weber estudará mais tarde as religiões chinesas – haviam valores sociais conflitantes que frearam a generalização imediata do modo de pensar capitalista. Disso, Weber conclui que o advento do capitalismo, sua generalização como modo de produção típico da sociedade moderna, dependia da generalização correspondente de uma mentalidade capitalista específica. Em A ética protestante e o espírito do capitalismo, Weber mostrou com sucesso como o surgimento dessa mentalidade era o produto de um desenvolvimento particular da religiosidade ocidental. “Este ponto é decisivo para o argumento de Weber sobre a singularidade do racionalismo ocidental. Sem a internalização de um ethos da mentalidade racional, não haveria capitalismo como o conhecemos, No argumento weberiano, essa racionalização da condução da vida é produto da racionalização religiosa ocidental, que, muito especialmente no protestantismo ascético, elimina os vestígios de magia de maneira crescente e interpreta o 'caminho da salvação' religiosa como contribuição individual para o aumento da glória divina na Terra. Como essa contribuição individual passa a ser interpretada, cada vez mais, de modo econômico, o ‘sinal da salvação’ – como na versão calvinista do ascetismo – passa a ser visto como produto do acúmulo de riquezas materiais. Decisivo para a constituição do ethos capitalista econômico – o que não significa reduzir o impacto desse ‘espírito’ apenas á atividade econômica – é o fato de a 59 acumulação de riquezas deixar de ter relação com as necessidades naturais dos indivíduos. O vínculo da atividade econômica com as necessidades individuais era a marca do tradicionalismo econômico, antes dominante em todas as culturas e em todas as épocas. Apenas no capitalismo é que esse ethos passa a ter urna orientação para a acumulação ampliada como fim em si. Se antes um pescador, com apenas dois dias de pescaria por semana, podia alimentar a si e á família, por que deveria trabalhar mais? No capitalismo, as necessidades naturais deixam de ser o critério da atividade econômica; a acumulação crescente e ampliada, rigorosamente sem limites, passa a ser a regra. Essa atitude de acumular riquezas sem vínculo com necessidades, uma atitude ‘irracional’ se avaliada pela ética econômica do tradicionalismo anterior, só pode ser explicada pelo peculiar caminho da salvação protestante ascética. Trata-se de urna ideia historicamente inédita e servirá de estímulo para o comportamento prático na esfera econômica moderna, ao vincular o interesse ideal na salvação com uma forma de atividade econômica que percebe a acumulação, entendida como ‘sinal da salvação’ eterna, como fim em si mesma” (SOUZA, 2006, p. 109-110). O desenvolvimento de uma mentalidade que aceita a acumulação de riquezas sem limitar-se pelo parâmetro da necessidade é o que explica o advento do capitalismo, argumenta Weber. Então esse desenvolvimento depende, primeiro, da redução da crença no sobrenatural em prol de uma concepção da realidade como potencialmente racional. É isso o que Weber denominou de “desencantamento do mundo”. A redução progressiva da crença na superstição apenas aos aspectos mais insondáveis da existência (como por exemplo a questão do pós-vida) corresponde o que Weber chamou de processo de “racionalização” da vida social, processo que, no limite, tenderia a enfatizar em excesso a racionalidade de tipo instrumental. A secularização é o outro lado do processo, onde a crença religiosa vai se tornando subjetiva. Por fim, Weber observa no plano da política uma tendência à especialização e diferenciação crescente no interior da classe política, que se separa da classe militar ou guerreira, bem como da classe intelectual de perfil sacerdotal. Constitui-se assim Você diria que o ethos protestante se transformou no ethos capitalista moderno? Ou seria melhor dizer que o ethos protestante apresentava uma afinidade eletiva com o ethos capitalista moderno ainda incipiente, e ambos evoluíram numa direção convergente? 60 Na próxima unidade você poderá perceber como a sociologia de Pierre Bourdieu também tem grande influência da obra de Max Weber, sobretudo pelo seu foco na dimensão simbólica da estrutura de classes e dos conflitos sociais. uma classe de funcionários profissionais que encarna o poder do Estado de forma necessariamente fragmentada e interconectada. Weber concebe a burocracia como um fenômeno positivo, expressão da tendência mais geral de racionalização e de secularização da sociedadeno âmbito administrativo. A burocracia seria a principal responsável pela constituição de órgãos e mecanismos impessoais de exercício do poder. O conceito no senso comum é associado à lentidão e ao excesso de regras. Mas não é disso que se trata para Weber. 4.4 LEGADO E RESSONÂNCIA Enquanto Weber aplicava o seu método ao sabor de suas pesquisas, Talcott Parsons foi quem buscou fundar uma teoria geral dos sistemas de ação social, mais tarde retrabalhada por Luhmann. O interacionismo simbólico, no privilegio que atribui ao sentido que as ações possuem para os próprios agentes, também é de uma clara inspiração weberiana. Adiante você poderá perceber a influência de Weber também no tocante à sociologia brasileira. O conceito de “homem cordial” formulado por Sérgio Buarque de Holanda, por exemplo, é um tipo ideal, um modelo hipotético que condensa o que seria mais importante na observação do que é determinante no nosso caráter nacional. Raymundo Faoro por sua vez caracterizou o Estado brasileiro como patrimonial. Você já assistiu à entrevista do sociólogo Gabriel Cohn sobre Marx e Durkheim. Agora pode assistir ao restante da conversa, sobre Max Weber, disponível no site da TV Cultura. 61 1. Karl Marx, Max Weber e Émile Durkheim, considerados fundadores das ciências sociais, desenvolveram interpretações e conceitos sobre o mundo social que permanecem como referências de análise até os tempos atuais. Nesse sentido, assinale a opção correta a respeito de interpretações e conceitos elaborados pelos referidos autores. A) Karl Marx, ao trabalhar a esfera dos valores, elaborou o conceito de capital simbólico; Max Weber, na sua crítica à modernidade, referiu-se ao “desencantamento do mundo”; Émile Durkheim, ao analisar a determinação da sociedade sobre o indivíduo, formulou os conceitos de consciência coletiva e fato social. B) Karl Marx decodificou as leis do capitalismo e analisou as relações de produção como relações de exploração; Max Weber, a partir do estudo das religiões, concluiu que a economia é fator preponderante do desenvolvimento do capitalismo; Émile Durkheim, ao desenvolver o conceito de fato social, afirmou que a coerção é interna aos indivíduos. C) Karl Marx desenvolveu os conceitos de relações de produção e alienação; Max Weber elaborou os conceitos de ação social e poder; Émile Durkheim estabeleceu os conceitos de fato social e anomia. D) Karl Marx utilizou as metáforas de infra-estrutura e superestrutura, para explicar as relações sociais; Max Weber considerou diferentes níveis de racionalidade na sociedade capitalista ocidental; Émile Durkheim sustentou que o indivíduo determina a sociedade. E) Karl Marx estudou o caráter civilizador das religiões; Max Weber analisou as relações entre as classes sociais como relações de exploração; Émile Durkheim desenvolveu, em detalhes, a idéia de fetichismo. 2. A respeito dos estudos comparativos, a resposta de Weber foi a elaboração de “tipos ideais”, que constituem um dispositivo generalizante, um modelo heurístico, sobre o qual era possível aplicar a comparação. Nas suas explicações históricas comparadas, Weber rejeita sempre a hipótese de leis ou de monocausalidade; ele pensa, portanto, que um evento pode ter diversas causas e que conjuntos diversos 62 de causas podem ter o mesmo efeito. A validade das comparações em Weber provém das suas construções empíricas dos processos de indução e de introspecção mais do que de uma verificação causal de hipóteses. – Paola Rebughini. A comparação qualitativa de objetos complexos e o efeito da reflexividade. In: Alberto Melluci (org.) Por uma sociologia reflexiva: pesquisa qualitativa e cultura. Petrópolis: Vozes, 2005, p. 242 (com adaptações). Tendo o fragmento de texto acima como referência inicial, assinale a opção correta a respeito de “tipos ideais”, segundo a formulação proposta por Max Weber. A) Os “tipos ideais” não são construções empíricas. B) A causalidade única é a base dos “tipos ideais”. C) A comparação não é essencial para a construção dos “tipos ideais”. D) Os “tipos ideais” não permitem uma explicação histórica. E) Os “tipos ideais” são construídos essencialmente a partir da verificação causal de hipóteses. 3. As categorias de poder e dominação são centrais na sociologia de Max Weber. O autor construiu três tipos puros de dominação explicitando os fundamentos que tornam legítima a autoridade ou justificam a dominação de cada tipo, válidos em diferentes contextos históricos. Segundo esse autor, com relação à dominação legal racional, qual das afirmativas subseqüentes é correta? A) A legitimidade da dominação legal racional encontra-se na crença de que o poder de mando tem um caráter sagrado ou herdado do passado. B) A legitimidade do mando se dá em razão das qualidades excepcionais de um(a) líder. C) Os aparatos burocráticos, na modernidade, só atrapalham a dominação legal racional, cuja legitimidade deve ser buscada na confiança no chefe. D) A dominação legal racional legitima-se na crença na validade do estatuto legal, da competência funcional e em torno de autoridades baseadas em uma ordem impessoal. E) O ordenamento da dominação legal racional está fixado na tradição e sua violação seria uma afronta à legitimidade do dominante. 63 4. Acerca dos tipos de dominação e sua legitimação, assinale a alternativa correta. A) A dominação carismática baseia-se na crença do caráter sagrado das tradições, sendo legítimo o poder e os que a ele são convocados em razão do costume. B) A dominação tradicional baseia-se no valor pessoal do indivíduo que se distingue por virtudes pessoais (heroísmo, santidade). C) A dominação legal possui caráter racional e impessoal, baseando-se na validade das normas estabelecidas racionalmente, sendo legítimo o poder e os que a eles são convocados nos termos da lei. D) A dominação carismática baseia-se no culto a uma personalidade famosa que exibe padrões de beleza e consumo dominantes na sociedade e é idolatrada por isso. E) A dominação tradicional possui um aspecto econômico positivo ao garantir a denominação de origem dos produtos típicos de uma determinada região. 5. “A ética protestante e o espírito do capitalismo” , obra de Max Weber é uma importante referência do pensamento sociológico sobre todas as ciências humanas. A respeito de tal obra assinale a alternativa incorreta: A) A predestinação é taxada por Weber como uma ideia que impelia os protestantes a almejarem enriquecer materialmente B) Na análise de Weber o indivíduo tem destaque em detrimento dos fatores materiais que o circunscreve C) Weber relacionou a ascese protestante ao desenvolvimento do capitalismo D) O hedonismo segundo Weber é uma das características fundantes do protestantismo E)Weber debruçado sobre a questão da origem do capitalismo elaborou as reflexões reunidas em “ A assim chamada acumulação primitiva” 64 TEMAS DE SOCIOLOGIA CONTEMPORÂNEA UNIDADE 65 5.1 TEMAS DE SOCIOLOGIA CONTEMPORÂNEA Diferente das últimas três unidades, esta busca tangenciar três grandes temas da sociologia contemporânea, a partir da última metade do século XX. Os temas são a educação, trabalho e consumo, cada qual abordado por um viés específico, a saber: a relações entre educação, cultura e estratificação social; entre trabalho e existência em sentido amplo, incluindo o meio ambiente; entre consumo, identidade e subjetividade. Portanto ficam de fora vários outros temas: a constituição social dos papéis de gênero, os conflitos intergeracionais, a dinâmica dos movimentos sociais, os fatores da violência e da criminalidade, etc. A escolha daqueles temas e não destes ou de outros,é fundada na premissa de que são temas com os quais o estudante pode se relacionar pela própria experiência universitária e vivência numa sociedade capitalista. 5.2 EDUCAÇÃO, CULTURA E ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL 5.2.1 A instituição escolar: emancipadora ou conservadora? Paulo Freire (1921-1977) é um dos autores mais citados em periódicos acadêmicos no mundo inteiro, consideradas todas as áreas do conhecimento. Até o princípio dos anos 1960, o método preferido de alfabetização para todas as idades era a utilização de frases de estrutura fonética, sintática e semântica bastante simples. Ao lecionar para adultos por essa época, Freire revolucionou isso. Angico, no interior do Rio Grande do Norte, começou a abandonar a regra da simplicidade, e substituí-la pelo uso de palavras e enunciados retirados da experiência cotidiana de cada pessoa. O que isso tem de revolucionário? Ora, aqueles adultos carentes de instrução não eram crianças, mas o método de alfabetização utilizado os fazia se sentir como tal, reforçando a humilhação e o preconceito que sofriam. Para além do método de alfabetização, Paulo Freire desenvolveu uma filosofia da educação, expressa na sua obra-prima, A pedagogia do oprimido, de 1974. Esse livro ajuda a fundar uma nova corrente pedagógica, que ficou conhecida como “pedagogia crítica”. Um ponto-chave do livro é o diagnóstico da prevalência, no sistema escolar da época, do tipo de ensino-aprendizagem que chamou de educação “bancária”. 66 “Quanto mais analisarmos as relações educador-educandos, na escola, em qualquer de seus níveis (ou fora dela), parece que mais nos podemos convencer de que estas relações apresentam um caráter especial e marcante — o de serem relações fundamentalmente narradoras, dissertadoras. Narração de conteúdos que, por isto mesmo, tendem a petrificar-se ou a fazer- se algo quase morto, sejam valores ou dimensões concretas da realidade. […] Há uma quase enfermidade da narração. […] A narração, de que o educador é o sujeito, conduz os educandos à memorização mecânica do conteúdo narrado. Mais ainda, a narração os transforma em “vasilhas”, em recipientes a serem “enchidos” pelo educador. Quanto mais vá “enchendo” os recipientes com seus “depósitos”, tanto melhor educador será. Quanto mais se deixem docilmente “encher”, tanto melhores educandos serão. Desta maneira, a educação se torna um ato de depositar, em que os educandos são os depositários e o educador, o depositante. Em lugar de comunicar-se, o educador faz “comunicados” e depósitos que os educandos, meras incidências, recebem pacientemente, memorizam e repetem. Eis aí a concepção “bancária” da educação, em que a única margem de ação que se oferece aos educandos é a de receberem os depósitos, guardá-lo se arquivá- los. [...] Na visão “bancária” da educação, o “saber” é uma doação dos que se julgam sábios aos que julgam nada saber. Doação que se funda numa das manifestações instrumentais da ideologia da opressão — a absolutização da ignorância, que constitui o que chamamos de alienação da ignorância, segundo a qual esta se encontra sempre no outro” (FREIRE, 2013 [1974], formato ebook). No mesmo período em que Paulo Freire começava o seu trabalho como educador em Angico, um sociólogo francês um pouco mais jovem que ele, Pierre Bourdieu (1966), publicou um artigo de periódico acadêmico sustentando uma posição bem distinta daquela de Freire, mas não necessariamente oposta. Este artigo será o ponto de partida das mais importantes observações do sociólogo sobre a educação. A comparação entre as perspectivas de um e de outro servirá neste momento para aqui para esclarecer as diferenças fundamentais entre as abordagens da pedagogia, da filosofia e da sociologia sobre a educação. Em que pese o seu arcabouço teórico, a pedagogia tem uma dimensão metodológica mais pronunciada. A filosofia formula formula os princípios éticos e os objetivos últimos de uma certa educação. A filosofia e a pedagogia se ocupam (de formas distantes e complementares) de como deve ser a educação no seu melhor sentido. A sociologia investiga a educação como ela se dá na realidade e quais os seus efeitos concretos na sociedade. Assim, perceba a seguir como Bourdieu é um crítico do que ele classifica como “ideologia da educação libertadora”, sem todavia se constituir num reacionário. 67 “É provavelmente por um efeito de inércia cultural que continuamos tomando o sistema escolar corno um fator de mobilidade social, segundo a ideologia da “escola libertadora”, quando, ao contrário, tudo tende a mostrar que ele é um dos fatores mais eficazes de conservação social, pois fornece a aparência de legitimidade às desigualdades sociais, e sanciona a herança cultural e o dom social tratado como dom natural. Justamente porque os mecanismos de eliminação agem durante todo o [percurso], é legitimo apreender o efeito desses mecanismos nos graus mais elevados da carreira escolar. Ora, vê-se nas oportunidades de acesso ao ensino superior o resultado de uma seleção direta ou indireta que, ao longo da escolaridade, pesa com rigor desigual sobre os sujeitos das diferentes classes sociais. Um jovem da camada superior tem oitenta vezes mais chances de entrar na Universidade que o filho de um assalariado agrícola e quarenta vezes mais que um filho de operário, e suas chances são, ainda, duas vezes superiores àquelas de um jovem de classe média. É digno de nota o fato de que as instituições de ensino mais elevadas tenham também o recrutamento mais aristocrático: assim, os filhos dos quadros superiores e de profissionais liberais constituem 57% dos alunos da Escola Politécnica, 54% dos da Escola Normal Superior (frequentemente citada por seu recrutamento ‘democrático’), 47% dos da Escola Central e 44% dos do Instituto de Estudos Políticos. Mas não é suficiente enunciar o fato da desigualdade diante da escola, é necessário descrever os mecanismos objetivos que determinam a eliminação contínua das crianças desfavorecidas. Parece, com efeito, que a explicação sociológica pode esclarecer completamente as diferenças de êxito que se atribuem, mais frequentemente, às diferenças de dons. A ação do privilégio cultural só é percebida, na maior parte das vezes, sob suas formas mais grosseiras, isto é, como recomendações ou relações, ajuda no trabalho escolar ou ensino suplementar, informação sobre o sistema de ensino e as perspectivas profissionais. Na realidade, cada família transmite a seus filhos, mais por vias indiretas que diretas, um certo capital cultural e um certo ethos, sistema de valores implícitos e profundamente interiorizados, que contribui pua definir, entre coisas, as atitudes face ao capital cultural e à instituição escolar. A herança cultural, que difere, sob os dois aspectos, segundo as classes sociais, é a responsável pela diferença das crianças diante da experiência escolar e, consequentemente, pelas taxas de êxito.” (BOURDIEU, 1998 [1966], 41-42). Não é que Pierre Bourdieu fosse contra uma educação libertadora. Aliás, ele não era. Ele apenas está indicando neste fragmento como a instituição escolar tende a funcionar como instância de reprodução do privilégio cultural das elites. Paulo Freire pensa como sociólogo quando diagnostica o modelo de educação bancária, contudo o faz como meio para outro fim: mudar os métodos e os princípios da educação. Na sociologia da educação, rigorosamente falando, esse meio é o fim. A finalidade da investigação sociológica sobre a educação é conceber, em profundidade e com riqueza de detalhes extraídos da experiência, o que é responsável por este funcionamento do processo educativo e das instituições educacionais na nossa sociedade. Cabe às políticas públicas, orientadas científica e filosoficamente, lidar com isso. 68 5.2.2 A relação entre a escola e a cultura através da sociologiade Pierre Bourdieu Algumas das contribuições mais importantes da obra sociológica posterior de Pierre Bourdieu dizem respeito aos seus conceitos de habitus, campo, poder simbólico, além de sua redefinição conceitual do capital como “forma” e não somente como “substância”. Você verá adiante como todas elas se aplicam ao tema da educação. O problema central dessa sociologia é a construção social do mérito e do talento. Trata-se de um problema no sentido metodológico do termo: eis o que a sua sociologia pretende explicar. Atente para o fato de que tradicionalmente a concepção do mérito e do talento como algo “construído” é um oxímoro ou uma contradição em termos. Tanto o mérito é a expressão de um merecimento individual, quanto o talento a expressão de uma aptidão individual. Como a sua constituição e não apenas o seu reconhecimento podem ter um caráter “social”, isto é, estrutural? De forma mais geral, como algo que é em princípio Na unidade sobre Weber, você aprendeu a distinguir entre a neutralidade como a isenção de valores e como objetividade. É nesse segundo sentido que a sociologia de Pierre de Bourdieu e em geral a própria sociologia da educação é “neutra” em relação à realidade da educação. Por que pela própria tradição intelectual da disciplina, herdeira do humanismo e do iluminismo, o ideal da emancipação humana faz parte do seu conjunto de valores arraigados. Assista a José Sérgio Leite Lopes, professor de antropologia do Museu Nacional do Rio de Janeiro, apresentar quem foi Pierre Bourdieu para o Canal Curta! No tocante ao patrono da pedagogia brasileira e um dos fundadores da pedagogia crítica, é mais importante destacar atualmente quem não é Paulo Freire, como nesse vídeo do canal Meteoro Brasil, no Youtube. Também disponível na plataforma há um bom vídeo do jornal Nexo sobre quem foi Paulo Freire e seu trabalho como professor. 69 uma característica estritamente individual pode possuir um componente social? Para responder a essa pergunta, Bourdieu cunhará o conceito de habitus. O autor utiliza o termo em latim para evitar a confusão com a moderna noção de hábito. Há centenas de livros por aí que aconselham como desenvolver e consolidar hábitos pessoais. Os hábitos, como nós os concebemos, são produto da repetição. O habitus de Bourdieu é produto de uma reprodução: a reprodução de um determinado conjunto de disposições. E aí ele utiliza o termo vernáculo mesmo, para se valer ativamente da sua polissemia. A disposição a que se refere é, simultaneamente, a maneira como as coisas se encontram distribuídas, e uma tendência à ação. Compreenda que, nesse sentido, não se trata de disposição como vigor físico ou força de vontade. O habitus de um indivíduo significa um conjunto de disposições socialmente incorporadas por ele através de processos específicos de socialização. Assim, Bourdieu distingue entre um habitus familiar, profissional, de classe, etc. Analisemos agora aquele diagrama do regime de distinções no campo sócio- alimentar situado na abertura desta unidade. Este representa grosso modo um sistema de preferências que define um padrão de gosto na sociedade. Note que esse sistema varia em função de dois eixos: o nível de capital econômico e o nível de capital cultural dos indivíduos. A verdade é que essas “preferências” não são tão voluntárias quanto possamos imaginar, nem se explicam unicamente em função da imitação ou do “modismo”. Bourdieu vai sustentar que elas também variam em função dos habitus de classe, só que as classes sociais na sua sociologia não são reflexo direto das “relações sociais de produção” – como diria Marx. “Capital” nomeia de forma coloquial um recurso ou uma vantagem monetária, normalmente utilizada para alguma compra ou investimento. Nesse sentido, tratamos do capital como uma substância. Bourdieu fala na sua obra de um “capital social”, de um “capital cultural”, de um “capital político”, etc. Faz isso de modo metafórico: as relações interpessoais como recurso, o pertencimento cultural como recurso, etc. Para Bourdieu as diferenças entre as classes sociais, claro, refletem a distribuição desigual do capital econômico, mas não só: elas sobretudo refletem a má distribuição do capital cultural na sociedade. A cultura é uma dimensão hierarquizada: o bom gosto e o mau gosto, o que é belo e o que é feio, o que é admirável e o que não é, etc. Essa hierarquia é rígida, mas é relativa. 70 Aí vem à baila a redefinição que Bourdieu faz do conceito marxista da luta de classes, como sendo sempre revestidas por “lutas de classificação”. Quis com isto dizer que as classes sociais não se percebem umas às outras e ao seu conflito de um modo transparente. Elas estão o tempo rejeitando determinadas classificações e defendendo outras a seu respeito, das demais, e de sua relação com as demais. Considere a seguinte situação: uma festa com uma “mesa mineira”. No quintal de uma típica casa de família de periferia, importaria a sustância, o tempero, a fartura, etc. Num salão de festas alugado para alguma ocasião especial, a mise em place seria muito importante, haveria talvez “releituras” de certos pratos, e de um modo geral, os convidados debateriam sobre o “bom gosto” das escolhas. Percebemos imediatamente que essas preferências tem um componente social muito forte precisamente no momento em que somos deslocados de um ambiente com o qual estamos familiarizados para um outro. Ao contrário do capital econômico, o capital cultural não pode ser ganho ou perdido de forma súbita. Ele necessariamente é o produto de uma lenta acumulação. Isso é válido tanto para práticas simples, como a forma de se portar à mesa, como complexas, como o exercício de uma profissão. O ponto-chave é que nem todo capital cultural tem o mesmo valor na sociedade. Existe uma hierarquia. E por isso se coloca a questão fundamental das condições de acesso ao tipo de capital cultural mais valorizado pela sociedade. Bourdieu, como Paulo Freire, compreendeu o desajuste de certos estudantes em relação à instituição escolar. No caso de Freire, era o sentimento de menoridade ligado ao analfabetismo. No caso de Bourdieu, a indisciplina quase endêmica nas escolas de periferia. Para o sociólogo, a educação formal para certas classes sociais é um processo de tomada de posse dum patrimônio que lhe pertence, para outras, parece a anulação da sua cultura, da maneira de agir, pensar e sentir na qual foram socializados. A sociologia indica caminhos para a filosofia da educação e a pedagogia. 5.3 TRABALHO E EXISTÊNCIA Outro tema importante na sociologia contemporânea é o estudo das transformações recentes no mundo do trabalho. Nos últimos vinte a trinta anos emergiu uma nova morfologia do trabalho (novo padrão de relações de trabalho); uma 71 nova semiologia do trabalho (novo conjunto dos seus significados na nossa vida pessoal); uma nova ecologia do trabalho (nova relação do montante de trabalho humano com a natureza). Ora vamos rapidamente pincelar algumas dessas questões. Tem se tornado corrente no debate atual sobre a morfologia da classe trabalhadora o conceito de “precariado”, inventado pelo sociólogo britânico Guy Standing, no seu livro homônimo. Essa seria uma nova expressão histórica da classe trabalhadora, depois do proletariado e do campesinato. Uma definição exata do que constitui o precariado ainda não é consenso na literatura sociológica. Autores brasileiros como Ruy Braga, Ricardo Antunes e Giovanni Alves, tem em maior ou menor grau, incorporado o conceito aos seus trabalhos. O ponto-chave, novamente, é a noção de expressão ou forma predominante da classe trabalhadora, que um dia já foi muito caracterizada pela fixação do trabalhador à terra (campesinato), pela extrema dificuldade em aurir os frutos do próprio trabalho para além do sustento da própria prole (proletariado),e agora seria caracterizada pela situação precária dos vínculos e responsabilidades patronais para com o trabalhador. “Exemplo emblemático [dessa situação] é o do zero hour contract, modalidade perversa de trabalho que viceja no Reino Unido e se esparrama pelo mundo, em que os contratos não têm determinação de horas - daí sua denominação. Nessa modalidade, trabalhadores das mais diversas atividades ficam à disposição esperando uma chamada. Quando a recebem, ganham estritamente pelo que fizeram, nada recebendo pelo tempo que ficaram à disposição da nova dádiva. Essa forma de contratação engloba um leque imenso de trabalhadores e trabalhadoras de que são exemplos médicos, enfermeiros, trabalhadores do care (cuidadores de idosos, crianças, doentes, portadores de necessidades especiais etc.), motoristas, eletricistas, advogados, profissionais dos serviços de limpeza, de consertos domésticos, dentre tantos outros. E os capitais informáticos e financeirizados, numa engenhosa forma de escravidão digital, se utilizam cada vez mais dessa pragmática de flexibilização total do mercado de trabalho.” (ANTUNES, 2018, formato ebook). Não é de hoje que essa modificação nos regimes de trabalho vem afetando o próprio sentido subjetivo que esse adquire na vida das pessoas, e a sociologia começa a se indagar sobre os impactos estruturais dessa transformação. O sociólogo britânico Richard Sennett, em A corrosão do caráter, de 2008, mostra como nas últimas gerações o trabalho veio perdendo centralidade na definição da identidade pessoal. O seu estudo mostra como os trabalhadores norte-americanos altamente sindicalizados dos anos 1940 e 1950 construíram uma vida familiar e pessoal no subúrbio das grandes cidades na qual o trabalho era a principal fonte de prestígio e 72 reconhecimento social. Vivia-se “da casa para o trabalho” e do “trabalho para a casa”, digamos assim. E isso garantia uma determinada rigidez e estabilidade emocional. Com a precarização das condições e dos vínculos – um trabalho temporário, intermitente, informal, à distância, etc. – as novas gerações experimentam o trabalho como um aspecto profundamente angustiante da sua própria existência. Sennett escreveu antes do boom das redes sociais, mas o seu trabalho antecipa de certo modo essa deriva e gravitação das fontes da identidade pessoal para outros planos da vida social, como o lazer e o consumo. Já da perspectiva da totalidade do trabalho humano e do seu impacto e relação com a natureza, uma das principais contribuições da sociologia contemporânea diz respeito à formulação de uma teoria sociológica do risco ambiental. A sociedade de risco, de 1986, escrito pelo sociólogo alemão Ulrich Bech, foi publicado com uma antecedência de meses em relação ao desastre nuclear de Chernobyl. No livro, Bech argumenta que a estrutura das desigualdades sociais sob o capitalismo não diz respeito somente à distribuição da riqueza, mas também, à distribuição dos riscos sociais e ambientais: o privilégio de estar longe da criminalidade, das catástrofes, etc. 5.4 CONSUMO, IDENTIDADE E SUBJETIVIDADE Para tratar aqui finalmente do tema do consumo, é importante reconhecer as distinções entre a perspectiva do marketing, da sociologia e da psicologia sobre o fenômeno. A perspectiva do marketing até leva em consideração fatores sociológicos e psicológicos, mas o objetivo é claro: compreender para promover o consumo. A psicologia, por seu turno, lida com as mazelas psíquicas ligadas ao consumo. Se você puder, assista à mini-série Chernobyl d HBO, que ganhou diversos prêmios em 2019. A série expõe bastante os meandros políticos do desastre, na demora a reconhecer a gravidade do acidente, a oferecer uma resposta cientificamente eficaz para o problema, até a ocultação da extensão dos seus impactos reais. Contudo, tente observar ali essa dimensão da distribuição desigual do risco. Especialmente nos primeiros episódios. 73 A sociologia, enquanto ciência empírica, busca dar conta da totalidade do fenômeno, da sua origem histórica até as suas relações com a produção das identidades pessoais. A socióloga brasileira Gisela Taschner, no seu artigo Raízes da Cultura do Consumo, de 1996, faz um balanço das principais contribuições teóricas para o estudo do fenômeno na área. Marx e os economistas clássicos consideravam o consumo de mercadorias como uma atividade exclusivamente econômica, a absorção final do produto da cadeia produtiva. Os insights que aparecem nesses autores são esporádicos, mas não deixam de ser iluminadores. “O próprio Marx, no entanto, deixa uma abertura (que ele pessoalmente não explora) para se perceber que o consumo, ainda que determinado pela produção, é um momento que tem seus desdobramentos e condicionantes: por exemplo, na Contribuição à Crítica da Economia Política ele afirma: […] A fome é a fome, mas fome que se satisfaz com carne cozinhada, comida com faca e garfo, não é a mesma fome que come a carne crua, servindo-se das mãos, das unhas, dos dentes.” É nesses termos que Marx abre as possibilidades de se perceber a dimensão simbólica que os processos de consumo envolvem e, portanto, a sua relação com a dimensão cultural da sociedade (TASCHNER, 1996, p. 26 et. seq.) No tocante ao estudo da gênese histórica do consumo, é importante a caracterização que o filósofo norte-americano Thorstein Veblen faz da nossa forma de consumir mercadorias como consumo “conspícuo”: o consumo que tem como objetivo adicional exibir-se. Sabemos que essa não é uma característica generalizada em toda a sociedade em todos os momentos da história. O consumo conspícuo era uma prática dos chefes tribais, que consumiam publicamente e a vista de todos os troféus das suas conquistas. A sociedade de corte europeia dos séculos XVI-XVIII generaliza esse tipo de consumo entre os nobres palacianos, que vivem próximo do rei. A burguesia industrial e comercial do século XIX vai se apropriar dessa forma de consumo, reagindo contra os valores de ostentação da aristocracia e desenvolvendo padrões de gosto mais sóbrios, mas com um consumo ainda muito realizado em função de um status social de classe. É somente no século XX que o consumo conspícuo se transforma num fator de competição por status entre os grupos no interior de uma determinada classe social, e aí que os gostos pessoais ascendem ao primeiro plano. “É evidente que o que compramos diz algo sobre quem somos. Não poderia ser de outra forma. Mas o que estou sugerindo é que o verdadeiro local onde 74 reside a nossa identidade deve ser encontrado em nossas reações aos produtos e não aos produtos em si. […] É importante notar que a nossa maneira de conceber a própria identidade é muito nova. Realmente, levando-se conta o tempo histórico, acabou de acontecer. Por isso, é pouquíssimo provável que nossos avós, até mesmo nossos pais, pensassem sobre esse assunto dessa maneira. Para eles, antes de tudo, a identidade estava muito mais relacionada ao status e à posição que ocupavam em várias instituições e associações, como família, trabalho, religião, raça, etnia e nacionalidade. Tudo isso era muito mais importante do que algo tão insignificante quanto o gosto pessoal. Consequentemente, suas autodefinições tendiam a enfatizar seu status de fazendeiro, pescador, pai, presbiteriano, católico, inglês ou sueco etc., e não seu gosto por vinho, literatura, música ou atividades de lazer. (CAMPBELL, 2006, p.47 et. seq.) Diante do caráter necessariamente limitado desse tipo de introdução à sociologia, feita neste material didático, nunca é demais lembrar o quão preliminar são essas notícias dos diferentes caminhos da sociologia atual. Isso porque são temas muito globais. Na próxima unidade, embora também continuemos nesse formato de texto mais “exploratório”, você verá que existe um certo conjunto bem delimitado de autores,questões e debates específicos relativos aos temas que vamos abordar. Isso porque vamos nos circunscrever na próxima unidade a um contexto nacional específico: o da sociologia da sociedade brasileira. Subjetividade: dimensão da consciência íntima que o indivíduo tem de seus sentimentos e ideias; Reacionário: pessoa radicalmente contrária à determinada mudança social; Oxímoro: tipo de expressão linguística que consiste em relacionar termos contrários, ex: fogo frio; Vernáculo: nome ou adjetivo usado para indicar a língua corrente de um país; Polissemia: pluralidade de significados; Mise em place (culinária): gesto de organizar e montar a disposição dos pratos; Morfologia (biologia): estudo da estrutura e da forma dos órgãos e organismos vivos; Semiologia (linguística): idem. semiótica, teoria geral dos signos e da formação dos símbolos. 75 1. A noção de campo desenvolvida por Pierre Bourdieu propõe-se a resolver um dilema teórico. Até então, para explicar os produtos culturais — arte, literatura, religião, ideologia —, escolhia-se entre duas vias exclusivas: o estruturalismo e o marxismo. Em síntese, isso significava o confronto entre duas tradições, em que se privilegiavam os produtos dotados de coerência interna, subtraindo-se os determinantes externos, ou então, caracterizavam-se tais produtos pelas funções sociais que eles exerciam, notadamente as funções ideológicas de justificação dos interesses das classes dominantes. Segundo esse autor, a noção de campo A) consiste na separação entre o poder e a violência. B) sintetiza o mundo subjetivo e o mundo objetivo, articulando a ordem do simbólico em uma realidade complexa, em que a cooperação entre ambos transforma forças contrárias em aliados que agem graças ao seu embate e não apesar dele. C) considera língua, mito, arte e religião como estruturas estruturantes, ou seja, objetivas, atribuindo-lhes papel ativo. D) pressupõe que mito, religião e arte, apesar de forte presença simbólica, não cumprem nenhum papel político no jogo da dominação. E) assume que as esferas da arte, da literatura, da educação, da religião são sistemas de posições de universos sociais particulares cujas regras do jogo são compartilhadas. 2. Um objeto de pesquisa só pode ser definido e construído em função de uma problemática teórica que permita submeter a uma interrogação sistemática os aspectos da realidade colocados em relação entre si pela questão que lhes é formulada. O cientista social que recusa a construção controlada e consciente de seu distanciamento ao real e de sua ação sobre o real pode não só impor aos sujeitos determinadas questões que não fazem parte da experiência deles e deixar de formular as questões suscitadas por tal experiência, mas ainda formular-lhes, com toda a ingenuidade, as questões que ele próprio se formula a respeito deles, por uma confusão positivista entre as questões que se colocam objetivamente aos sujeitos e as questões que eles formulam de forma consciente. Sem dúvida, pode-se e deve-se coletar os mais irreais discursos, mas com a condição de ver neles, não a explicação do comportamento, mas um aspecto do comportamento a ser explicado. – Pierre Bourdieu; Jean-Claude Chamboredon; Jean-Claude Passeron. Ofício de sociólogo: metodologia da pesquisa na sociologia. 4.ª ed. Trad. Guilherme João de Freitas Teixeira. Petrópolis: Vozes, 2004. Considerando os argumentos apresentados no texto com relação à construção do objeto de pesquisa nas ciências sociais, assinale a opção correta: A) Os discursos e problemas sociais já se encontram previamente elaborados para os sujeitos sociais; cabe ao cientista social, aceitá-lo. 76 B) Problemas teóricos e metodologias de investigação são partes acessórias das ciências sociais e não substituem a identificação com a realidade investigada. C) Todos estão sujeitos ao exercício de uma observação espontânea da realidade, menos o cientista social, que sempre observa a realidade através da teoria. D) Métodos e técnicas de pesquisa aplicados ao acaso e sem a orientação de uma problemática teórica, contribuem pouco para a construção de uma perspectiva sociológica. E) A metodologia das ciências sociais busca uma reprodução do senso comum na transformação dos problemas sociais como problemas de pesquisa. 3. O conceito de habitus, desenvolvido por Pierre Bourdieu, constituiu-se como a chave- mestra de sua sociologia. De modo geral, o habitus refere-se a um sistema de disposições duráveis adquiridos pelo indivíduo no curso de seu processo de socialização. Apresenta-se como um produto das condições sociais passadas e como princípio gerador das práticas e das representações, permitindo ao indivíduo construir as estratégias antecipadoras. Segundo Bourdieu, essa noção contribui para a superação da oposição entre os pontos de vista objetivista e subjetivista, entre as forças exteriores da estrutura social e as forças interiores resultantes das decisões livres dos indivíduos. – FERREOL, G. Dictionnaire de Sociologie. Paris: Armand Colin, 1991. (com adaptações) Considerando o texto acima, analise as afirmações a seguir. I. O termo habitus, adotado para marcar a diferença com conceitos correntes, tais como hábito, costume, praxe e tradição, faz a mediação entre a função e a ordem. II. A instituição escolar tem por função produzir indivíduos dotados de sistema de esquemas inconscientes que constituem sua cultura, ou melhor, o seu habitus, com potencial para transformar a sua herança coletiva em inconsciente individual e comum. III. Nas sociedades onde inexiste a escola, a função de inculcação do habitus é garantida pelas formas primitivas de classificação (bem/mal, bonito/feio, bom/mau), constituídas pelos mitos e pelos ritos. IV. O habitus, como capacidade de engendrar as novas práticas, funciona como uma gramática geradora da conduta, ou seja, como um sistema de esquemas interiorizados que permitem engendrar todos os pensamentos, as percepções e as ações características de uma cultura. V. O habitus é totalmente dependente, pois reside entre o inconsciente-condicionado e o intencional calculado. É correto apenas o que se afirma em A) I, II, e V. B) I, III e IV. C) I, IV e V. D) II, III e IV. E) II, IV e V. 77 4. “A ambientalização dos conflitos sociais está relacionada à construção de uma nova questão social, uma nova questão pública. Pode-se supor que a construção dessa questão tenha-se iniciado, nos países desenvolvidos industriais, relacionada à produção de acidentes industriais, ampliados de grandes riscos e de sua internacionalização. Nesses países industriais, a aplicação da ciência numa escala industrial, entre outras, leva autores, como Giddens, a caracterizarem tais sociedades como sendo de modernização reflexiva e de incerteza industrial, enquanto outros, como Ulrick Beck, as classificam como sociedades de risco.” – J. S. Leite Lopes (Coord.). A ambientalização dos conflitos sociais. Rio: Relume-Dumará, 2004 (com adaptações). À luz da reflexão acima, assinale a opção correta. A. A aplicação do progresso científico de forma não controlada pode levar à geração de riscos ambientais. B. As noções de sociedade de risco e de modernização reflexiva fazem avançar os estudos sociológicos apenas no Terceiro Mundo. C. A condição de país desenvolvido industrial não é essencial para a discussão sobre meio ambiente. D. As noções de sociedade de risco e de modernização reflexiva são formuladas por correntes do pensamento sociológico contemporâneo que não dialogam entre si. E. A discussão sobre meio ambiente, nos países desenvolvidos, não se aplica aos países menos desenvolvidos. 5. GOSTOS E PRÁTICAS CULTURAIS POR CLASSE SOCIAL (%) – CODATO, A.; LEITE, F. Classe Social. In: ALMEIDA, H.B.; SZWAKO, J. (Orgs.). Diferenças, igualdade. São Paulo: Berlendis & Vertecchia, 2009. p. 50. (Tabela Adaptada e resumida a partir da obra de PierreBourdieu). Pierre Bourdieu analisou, em sua obra A Distinção, a manifestação do gosto dos indivíduos conforme suas posições na estratificação da sociedade francesa. A tabela acima resume uma parte dos achados da pesquisa de Bourdieu. Considerando a tabela apresentada e as ideias de Bourdieu acerca do gosto dos indivíduos, analise as afirmações abaixo. 78 I. As opções de gosto não variam em relação às classes, o que se explica pelo habitus, ou seja, as preferências fazem parte das disposições incorporadas socialmente. II. As preferências variam de acordo com a posição dos indivíduos na estratificação social, o que reflete a ação do capital simbólico, que homogeneiza a sociedade ao instituir padrões massificados de consumo. III. As opções de gosto variam em relação às classes, já que o consumo dos bens envolve mecanismos de distinção e disputas pela legitimidade intra e entre as classes. IV. As preferências variam conforme o posicionamento de classe, pois envolvem habitus diferenciados e lutas simbólicas que unem ou distanciam agentes conforme seus estilos de vida. É correto apenas o que se afirma em: A) I e II B) I e III C) II e III D) II e IV E) III e IV 79 TEMAS DE SOCIOLOGIA BRASILEIRA UNIDADE 80 6.1 CUIDADO COM O MITO Esta última unidade é toda dedicada a alguns dos principais temas da sociologia brasileira. Aqui você conhecerá um pouco da crítica aos três grandes mitos que informam uma determinada perspectiva tradicional da sociedade brasileira: o mito do “encontro das três raças”, o mito da “democracia racial” e o mito da “cordialidade brasileira”, estes que são alguns dos nossos principais mitos nacionais. A percepção que a sociedade brasileira faz de si mesma é, em larga medida, tributária desses mitos ou das críticas movidas contra eles no âmbito da sociologia, e absorvidas pelas instituições públicas, dentro e fora do Estado. Este sendo o percurso que organiza essa unidade, convém retomar e aprofundar a menção feita ao mito na unidade 1, pois a referência ali era o mito antigo, e ora interessa o mito moderno. É curioso refletir sobre isso hoje em dia em língua portuguesa. Uma gíria recente deslocou a palavra “mito” no léxico popular, de substantivo em si para a forma substantivada de um verbo inexistente: “mitou”. Mito vira quem “mitou” e “mita” quem chama a atenção nas redes sociais, “adorado” por muitos likes. Há pouco, sobretudo na escola, “mita” era um substantivo, e não o presente do indicativo do verbo “mitar”. Deslizamento semântico do “mito” no léxico brasileiro atual Mas... qual é a forma do mito moderno? Montagem justapondo resultados sobre a palavra “mito” numa ferramenta de busca, o cartaz original do filme “Eu sou a Lenda”, filme de 2007 estrelando Will Smith, e a paródia do cartaz que começou a circular em 2016 estampando Jair Bolsonaro. 81 A metáfora do mito e da lenda desliza historicamente entre a glória e a mentira desde os primórdios da cultura ocidental. O mito antigo é uma narrativa fabulosa, cheia de feitos e personagens extraordinários, frequentemente heroicos, que pretende – e isso é importante – não explicar a realidade, mas sustentar uma determinada crença sobre ela. Explicá-la significaria torná-la inteligível. Mas o mito não torna a realidade inteligível, ele a torna aceitável ou inaceitável. E isso o faz reafirmando o dogma, amparado na tradição. A filosofia grega antiga rompera com o mito em vários níveis. Primeiramente, reconhecendo os seus limites: não cabe à filosofia tratar de tudo, somente o que pode ser explicado pela razão. Segundo, negando autoridade última à tradição moral ou à palavra de inspiração divina. Ao fazer isso, a filosofia rompia com os profetas e os oráculos, os “donos da verdade”, e inaugurava uma tradição de “mestres da verdade”, uma tradição intelectual. Esse caminho aberto pela filosofia, e reiterado pela ciência, irá restringindo o alcance das crenças sustentadas com base no mito, culminando no processo que Weber denominou “desencantamento do mundo”. Ainda assim, o mito não desapareceu e provavelmente jamais desaparecerá. As metáforas correntes do mito antigo vivem da nostalgia do seu aspecto épico e fabuloso, de um lado, e de uma imagem simplificada da ruptura operada pela filosofia, de outro, imagem esta que é mais o produto da ciência moderna do que da própria filosofia. A ciência moderna, de cunho iluminista e positivista, buscou rechaçar o mito. Na perspectiva das ciências humanas, o mito é algo para ser explicado. Sem o alcance da fantasia, sem o suporte de uma sociedade de contadores de histórias, o mito sobrevive na forma crua do esquema narrativo genérico. Os mitos nacionais, por exemplo, reafirmam dogmas essenciais da nacionalidade, amparados numa versão tradicional (e não científica) da história. 6.2 O MITO DO ENCONTRO DAS TRÊS RAÇAS O que distinguiria essencialmente a história do Brasil – do seu passado e de seu futuro – da história de outros países, sobretudo da história de outras ex-colônias de Portugal? Nas primeiras décadas após a fundação do Império do Brasil, essa era 82 uma questão relevante para os intelectuais e as elites letradas radicadas na corte, no Rio de Janeiro. Uma questão intelectual, mas também política. Tratava-se de simultaneamente de definir o lugar do Brasil na história universal e formular uma pedagogia da nação. Em 1840, o recém-criado Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) – dedicado a fomentar o registro, o estudo e o ensino da história no país – promoveu um concurso de monografias para responder a questão. Em 1847, venceu o naturalista alemão Carl Phillip Von Martius (1794-1868). Em Como se deve escrever a história do Brasil, Von Martius traçou um poderoso programa historiográfico. Não seria uma história política da saga da dinastia de Bragança, desde a idade média portuguesa até a fundação do Império do Brasil. Não seria uma história eclesiástica da expansão da fé cristã na América, desde as primeiras missões catequistas até o estabelecimento do Padroado Civil na constituição de 1824. Seria uma história do povo brasileiro da seguinte maneira: “Qualquer que se encarregar de escrever a história do Brasil jamais deverá perder de vista quais os elementos que de aí concorreram para o desenvolvimento do homem. São, porém, estes elementos de natureza muito diversa, tendo para a formação do homem convergido de um modo particular três raças, a saber: a de cor de cobre ou americana, a branca ou caucasiana e, enfim, a preta ou etiópica. Do encontro, da mescla, das relações mútuas e mudanças dessas três raças, formou-se a atual população, cuja história por isso mesmo tem um cunho muito particular. Pode-se dizer que a cada uma das raças humanas compete, segundo a sua índole inata, segundo as circunstâncias debaixo das quais ela vive e se desenvolve, um movimento histórico característico e particular. Portanto, vendo nós um povo novo nascer e desenvolver-se da reunião e contato de tão diferentes raças humanas, podemos avançar que a sua história se deve desenvolver segundo uma lei particular das forças diagonais. Cada uma das particularidades físicas e morais, que distinguem as diversas raças, oferece a este respeito um motor especial; e tanto maior será a sua influência para o desenvolvimento comum, quanto maior for a energia, número e dignidade da sociedade de cada uma dessas raças. Disso necessariamente se segue que o português que, como descobridor, conquistador e senhor, poderosamente influiu naquele desenvolvimento, o português, que deu as condições e garantias morais e físicas para um reino independente; que o português se apresenta como o mais poderoso e essencialmotor. Mas também de certo seria um grande erro para todos os princípios da historiografia pragmática, se se desprezassem as forças dos indígenas e dos negros importados, forças estas que igualmente concorreram para o desenvolvimento físico, moral e civil da totalidade da população. Tanto os indígenas como os negros reagiram sobre a raça predominante.” (VON MARTIUS apud ROMERO, 1902, p. 13-14). Von Martius estabelece um programa para uma historiografia pragmática, o que no jargão do século XIX significa uma história capaz de instilar pedagogicamente valores cívicos e patrióticos na população brasileira. Note que a linguagem conceitual 83 evoca a “física social” de Comte: o “motor” da história do Brasil seria a “força diagonal” composta (pelos vetores) do “movimento” histórico particular de cada raça. Tal modelo “explicativo” da história nacional sofrerá uma modificação radical nas mãos de Sílvio Romero, influente crítico literário brasileiro do final do século XIX, e expoente da geração intelectual de 1870. No século XIX, a literatura era vista como a síntese da cultura nacional, e a crítica literária alçava-se ao estatuto de uma crítica da cultura com pretensões ao foro de ciência social de inspiração darwiniana. “Pois bem, se procurarmos numa fórmula genérica e exata definir a psicologia do povo brasileiro; se intentarmos, segundo a velha frase consagrada, penetrar na consciência nacional, para apreender-lhe os contornos e a moldura, muito atilados seremos, se conseguirmos o nosso anelo. Povo que descendemos de um estragado e corrupto ramo da velha raça latina, a que juntara-se o concurso de duas das velhas raças mais degradadas do globo, os negros da costa e os peles-vermelhas da América, nós ainda não nos distinguimos por uma só qualidade digna de apreço, a não ser o fraco lastimável de mascarar-nos de grandezas que não nos assentam, imitando, macaqueando sem alvo nem critério todos os vícios e loucuras que trazem uma etiqueta de Paris! O servilismo do negro, a preguiça do índio e o gênio autoritário e tacanho do português produziram uma nação informe, sem qualidades fecundas e originais. […] As três raças que constituíram o povo brasileiro ainda não se embeberam de todo entre si. Além de ser ainda tosca a formação do mestiço, os três povos distintos, como no primeiro século da conquista, ainda acampam um ao lado do outro. […] O povo brasileiro não é pois, um povo feito, um tipo étnico definido, determinado original. Poderá vir a sê-lo um dia, e nós o cremos; esta é a obra dos séculos por vir. O gênio brasileiro não achou ainda o seu caminho; é por isso que não temos uma indústria nossa, uma literatura nossa, uma arte, uma filosofia nossas; vivemos de contrafações do pensamento alheio […]. É por isso que não temos, nunca tivemos, uma opinião pública esclarecida em política, nem uma intuição literária própria. Ainda entre nós as três raças, não desapareceram confundidas num tipo novo, e este trabalho será lentíssimo. Por enquanto a mescla nas cores e a confusão nas ideias é o nosso apanágio.” (ROMERO, 1902, p. 266-267). Influenciado pelo positivismo, mas sobretudo pelo darwinismo social, Romero formulará uma versão negativa do mito do encontro das três raças, cuja repercussão pode ser observada ainda hoje. Entretanto, essa ainda não é a versão mais perversa do mito. Note que Romero valoriza a miscigenação como matriz de uma autenticidade brasileira capaz de romper a subalternidade cultural em relação à Europa. Apesar de tudo, Romero concebe a raça como entidade histórica que encarna o modo de ser de uma população definido por características hereditárias moldadas pela genética e pela adaptação ambiental. Essa concepção é ligeiramente distinta 84 desta que pautou o movimento eugenista brasileiro do começo do século XX, este que advogava políticas públicas para o “branqueamento” da população brasileira. Coube a Gilberto Freyre (1900-1987), em Casa Grande & Senzala, de 1933, hoje um clássico da sociologia brasileira, como que a última pá de cal sobre o estatuto científico dessas teorias. Freyre registrou o seu testemunho a respeito deste debate no prefácio original do livro, fazendo dele uma espécie de grande resposta ao movimento eugenista, e um documento importante da nossa história. “Era como se tudo dependesse de mim e dos de minha geração; da nossa maneira de resolver questões seculares. E dos problemas brasileiros, nenhum que me inquietasse tanto como o da miscigenação. Vi uma vez, depois de mais de três anos maciços de ausência do Brasil, um bando de marinheiros nacionais – mulatos e cafuzos – descendo não me lembro se do São Paulo ou do Minas pela neve mole de Brooklyn. Deram-me a impressão de caricaturas de homens. [...] A miscigenação resultava naquilo. Faltou-me quem me dissesse então, como em 1929 Roquette-Pinto aos arianistas do Congresso Brasileiro de Eugenia, que não eram simplesmente mulatos ou cafuzos os indivíduos que eu julgava representarem o Brasil, mas cafuzos e mulatos doentes. Foi o estudo de antropologia sob a orientação do professor Boas que primeiro me revelou o negro e o mulato no seu justo valor – separados dos traços de raça os efeitos do ambiente ou da experiência cultural. Aprendi a considerar fundamental a diferença entre raça e cultura; a discriminar entre os efeitos de relações puramente genéticas e os de influências sociais, de herança cultural e de meio. Neste critério de diferenciação fundamental entre raça e cultura assenta todo o plano deste ensaio. Também no da diferenciação entre hereditariedade de raça e hereditariedade de família. Por menos inclinados que sejamos ao materialismo histórico, tantas vezes exagerado nas suas generalizações – principalmente em trabalhos de sectários e fanáticos – temos que admitir influência considerável, embora nem sempre preponderante, da técnica da produção econômica sobre a estrutura das sociedades; na caracterização da sua fisionomia moral. É uma influência sujeita a reação de outras; porém poderosa como nenhuma na capacidade de aristocratizar ou de democratizar as sociedades; de desenvolver tendências para a poligamia ou a monogamia; para a estratificação ou a mobilidade. Muito do que se supõe, nos estudos ainda tão flutuantes de eugenia e de cacogenia, resultado de traços ou taras Para saber mais sobre isso, nada melhor do que começar ouvindo a antropóloga e historiadora Lilia Schwarcz sobre a entrada das teorias raciais no Brasil, no seu próprio canal no Youtube. Ela é a autora do estudo pioneiro sobre este assunto no país – O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil (1870-1930) –, publicado pela primeira vez em 1993. Além disso, assista a Racismo: uma história (documentário em 3 episódios da BBC), compartilhado e comentado pela professora Joelza Rodrigues em seu blog profissional. 85 hereditárias preponderando sobre outras influências, deve-se antes associar à persistência, através de gerações, de condições econômicas e sociais, favoráveis ou desfavoráveis ao desenvolvimento humano” (FREYRE, 2003, p. 31). Casa Grande & Senzala não é um texto de sociologia acadêmico-universitária, mas um ensaio sociológico-literário sobre a origem da família patriarcal no Brasil. Freyre preferia se dizer um escritor com formação sociológica, formação esta que faz questão de destacar neste prefácio. Note como ele habilmente incorpora a teoria antropológica e sociológica da época – de Boas e Marx. Ao distinguir raça e cultura, herança genética e herança material, Freyre ainda utiliza uma linguagem próxima da dos darwinistas sociais, ainda utiliza um esquema narrativo que privilegia o “encontro das três raças”, entretanto, – e isso é importante – apenas como ponto de partida e moldura para um trabalho investigativo e especulativo de grande profundidade histórica e sociológica.Entretanto – e isso pode ser difícil de perceber a princípio –, nenhum desses autores postula a matriz do povo brasileiro no “encontro das três raças” enquanto um mito. Todos eles o fazem como um modelo explicativo ancorado por uma teoria centrada no conceito de raça. Paralelamente, esse modelo é vulgarizado na vida social, escapando ao debate intelectual, e sobrevivendo a despeito das correções na teoria. Os eugenistas falharam, mas souberam capitalizar sobre o darwinismo social para pressionar politicamente a adoção de políticas de segregação racial no país. Na contramão desse movimento, os governos de Getúlio Vargas depois da revolução de 1930 transformarão parte dos argumentos de Freyre propaganda política. Diga-se de passagem, uma propaganda responsável pela difusão do mito da democracia racial. É importante que no tocante à sociologia brasileira você se familiarize com a obra de Gilberto Freyre. Pode lhe ajudar nesse sentido assistir aos dois blocos do programa Imagem da Palavra sobre Casa Grande & Senzala produzidos pela Rede Minas.em 2013, e ainda ao episódio completo do programa Globo Ciência sobre Gilberto Freyre, de 2009. 86 6.3 O MITO DA DEMOCRACIA RACIAL Em Casa Grande & Senzala, Gilberto Freyre descreve com riqueza de detalhes nunca antes alcançada os horrores da escravidão no Brasil e aqueles aspectos da cultura brasileira de matriz africana e portuguesa. A tese principal do livro é que a escravidão no Brasil aproximou as diferentes raças de um modo mais íntimo e intenso, embora não menos violento, que nos Estados Unidos e outras partes do mundo. A escravidão, mais do que o encontro das raças, é o eixo da explicação freyriana. Nisso ele é tributário de um outro importante precursor da sociologia brasileira, quem primeiro formulou a ideia da escravidão como uma estrutura social duradoura, transcendendo a sua existência como forma de trabalho e sistema de produção: Joaquim Nabuco (1849-1910). “A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil. Ela espalhou por nossas vastas solidões uma grande suavidade; seu contato foi a primeira forma que recebeu a natureza virgem do país, e foi a que ele guardou; ela povoou-o. como se fosse uma religião natural e viva, com os seus mitos, suas legendas, seus encantamentos; insuflou-lhe sua alma infantil, suas tristezas sem pesar, suas lágrimas sem amargor, seu silêncio sem concentração, suas alegrias sem causa, sua felicidade sem dia seguinte… É ela o suspiro indefinível que exalam ao luar as nossas noites do Norte. Quanto a mim, absorvi-a no leite preto que me amamentou; ela envolveu-me como uma carícia muda toda a minha infância; aspirei-a da dedicação de velhos servidores que me reputavam o herdeiro presuntivo do pequeno domínio de que faziam parte. Entre mim e eles deve ter-se dado uma troca contínua de simpatia, de que resultou a terna e reconhecida admiração que vim mais tarde a sentir pelo seu papel. Este pareceu-me, por contraste com o instinto mercenário da nossa época, sobrenatural à força de naturalidade humana, e no dia em que a escravidão foi abolida, senti distintamente que um dos mais absolutos desinteresses de que o coração humano se tenha mostrado capaz não encontraria mais as condições que o tornaram possível” (NABUCO, 1949 [1900], p.182). Nenhum desses autores criou o mito do “encontro das três raças”, nem os governos de Getúlio Vargas criaram o mito da democracia racial. Porque um mito não se cria, não nasce, apenas toma forma. Diferentes instituições adotam o mito, sustentam interesses e crenças ligadas à sua manutenção. Porém, a rigor, não o controlam. Porque o mito é um produto da vida social, ainda que não tenha sido completamente inventado por ela. 87 Findo o período da escravidão, o padrão de relações sociais urdido em seus meandros caracterizaria de forma singular a sociedade, atenuando as distâncias sociais e culturais. Essa seria, por assim dizer, a vantagem da cultura brasileira sobre a cultura de outros países que no passado implantaram o regime escravista. E embora essa não seja uma ideia defendida no livro, Freyre a corroborou em sua vida pública. Novamente, um modelo teórico explicativo transcende o debate intelectual e adquire uma vida própria no mundo social sob a forma do mito. Se o mito das três raças se difundiu sobretudo como uma espécie de “pecado original” da sociedade brasileira, o mito da democracia racial representou por um tempo a sua expiação. Logo após a Segunda Guerra Mundial, o Brasil era tido como um exemplo nesse sentido. Apesar das sucessivas gerações de sociólogos e antropólogos desmentirem a ideia, evidenciando, descrevendo e analisando conflitos de caráter racial no Brasil; apesar do teatro, da literatura, e dos movimentos sociais o denunciarem e criticarem duramente, o mito democracia racial permaneceu como um importante pilar ideológico dos governos brasileiros no século XX, e um ativo da diplomacia brasileira. Depois da Conferência de Durban em 2001, no final de seu segundo mandato, Fernando Henrique Cardoso foi o primeiro Presidente da República a reconhecer oficialmente a existência de preconceito racial no Brasil, dando início a um programa de ações afirmativas que seria encampado e desenvolvido em seguida pelo próximo presidente eleito, Luís Inácio Lula da Silva. 6.4 O MITO DA CORDIALIDADE BRASILEIRA Os mitos anteriores dizem respeito à formação da matriz étnica do povo brasileiro e à estrutura das relações entre os principais grupos que a compõe, enquanto este diz respeito ao modo de ser dos brasileiros. Qual seria a principal característica da sociabilidade brasileira? Qual seria a forma típica das relações interpessoais na nossa sociedade? E o que isso significa? O mito da cordialidade brasileira consiste naquela prefiguração de narrativas que sustentam que o brasileiro é em essência mais passional e menos racional dodo que os representantes de outros povos. Pode ser que, ao contrário dos mitos mencionados antes, este tenha um fundamento empírico mais próximo da nossa 88 experiência cotidiana. Mas também foi impulsionado por leituras equivocas da sociologia. A explicação do caráter nacional é possível dentro de uma teoria sociológica, dentro da qual aliás é debatido é um fator mais ou menos determinante do funcionamento das instituições. Testemunho da predominância do mito da cordialidade como explicação do caráter nacional brasileiro é o fracasso de caracterizações alternativas como a do modernista Paulo Prado (1869-1943) em Retrato do Brasil, de 1928. Talvez nada seja mais estranho para nós do que a afirmação de que o brasileiro é essencialmente um povo triste. O livro de Paulo Prado tem o subtítulo de “ensaio sobre a tristeza brasileira”, e misturando prosa literária, pesquisa histórica e vagas ideias sociológicas, busca sustentar precisamente essa caracterização. Chega a comparar o povo brasileiro ao jaburu: ave avantajada, mas estagnada e cabisbaixa. O diagnóstico de Paulo Prado na verdade simboliza a angústia das elites intelectuais e políticas brasileiras diante de uma sociedade que ainda era predominantemente rural e arcaica. Gilberto Freyre assume uma visão muito distinta, partindo da cultura popular, caracterizando nossa sociabilidade pela presença de “antagonismos em equilibro”, na feliz expressão do antropólogo Ricardo Benzaquen de Araújo. Em meados da década de 1930, um livro moveu essa reflexão do âmbito da cultura em geral para o da cultura política em específico: Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, publicado pela primeira vez em 1936. O seu ponto de partida é a análise da relação entre sociabilidade e instituições políticas no Brasil e na Europa. “A tentativa de implantação da cultura europeia em extenso território, dotado de condições naturais, se nãoadversas, largamente estranhas à sua tradição milenar, é, nas origens da sociedade brasileira, o fato dominante e mais rico em consequências. Trazendo de países distantes nossas formas de convívio, nossas instituições, nossas ideias, e timbrando em manter tudo isso em ambiente muitas vezes desfavorável e hostil, somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra. […] Precisamente a comparação entre elas e as da Europa de além-Pirineus faz ressaltar uma característica bem peculiar à gente da península Ibérica, uma característica que ela está longe de partilhar, pelo menos na mesma intensidade, com qualquer de seus vizinhos do continente. É que nenhum desses vizinhos soube desenvolver a tal extremo essa cultura da personalidade que parece constituir o traço mais decisivo na evolução da gente hispânica, a desde tempos imemoriais. […] É dela que resulta largamente a singular tibieza das formas de organização, de todas as associações que impliquem solidariedade e ordenação entre esses povos. Em terra onde todos são 89 barões não é possível acordo coletivo durável, a não ser por uma força exterior respeitável e temida” (HOLANDA, 1995, p. 31). A matriz da cultura brasileira não seria centro-europeia, mas ibérica. A principal característica dessa matriz transposta para o ambiente brasileiro através da colonização seria a cultura da personalidade ou personalismo: maneira de agir, pensar e sentir que valoriza sobremaneira a dimensão da pessoa, a tudo concebendo e interpretando de forma pessoal. Disso deriva uma tendência específica ao autoritarismo, na medida em que a autoridade fundada em princípios abstratos e impessoais se veria prejudicada. Até aí essa seria uma herança cultural da matriz ibérica, ligada a diversos fenômenos como o clientelismo, o favoritismo, o coronelismo, etc. A cultura brasileira todavia era distinta da cultura ibérica num aspecto específico que lhe seria singular: a cordialidade. “Já se disse, numa expressão feliz, que a contribuição brasileira para a civilização será de cordialidade – daremos ao mundo o ‘homem cordial’. A lhaneza no trato, a hospitalidade, a generosidade, virtudes tão gabadas por estrangeiros que nos visitam, representam, com efeito, um traço definido do caráter brasileiro, na medida, ao menos, em que permanece ativa e fecunda a influência ancestral dos padrões de convívio humano, informados no meio rural e patriarcal. Seria engano supor que essas virtudes possam significar ‘boas maneiras’, civilidade. São antes de tudo expressões legítimas de um fundo emotivo extremamente rico e transbordante. Na civilidade há qualquer coisa de coercitivo – ela pode exprimir-se em mandamentos e em sentenças. Entre os japoneses, onde, como se sabe, a polidez envolve os aspectos mais ordinários do convívio social, chega a ponto de confundir-se, por vezes, com a reverência religiosa. Já houve quem notasse esse fato significativo, de que as formas exteriores de veneração à divindade, no cerimonial xintoísta, não diferem essencialmente das maneiras sociais de demonstrar respeito. Nenhum povo está mais distante dessa noção ritualista da vida do que o brasileiro. Nossa forma ordinária de convívio social é, no fundo, justamente o contrário da polidez. […] Nada mais significativo dessa aversão ao ritualismo social, que exige, por vezes, uma personalidade fortemente homogênea e equilibrada em todas as suas partes, do que a dificuldade em que se sentem, geralmente, os brasileiros, de uma reverência prolongada ante um superior. Nosso temperamento admite fórmulas de reverência, e até de bom grado, mas quase somente enquanto não suprimam de todo a possibilidade de convívio mais familiar. A manifestação normal do respeito em outros povos tem aqui sua réplica, em regra geral, no desejo de estabelecer intimidade. E isso é tanto mais específico, quanto se sabe do apego frequente dos portugueses, tão próximos de nós em tantos aspectos, aos títulos e sinais de reverência” (HOLANDA, 1995, p. 146-147). A noção de cordialidade formulada por Sérgio Buarque de Holanda foi muito mal interpretada à época, confundida como sinônima de bondade ou de pura passionalidade. O mito da cordialidade brasileira ou do brasileiro como “homem 90 cordial” por excelência se identificou de forma mais explicita àquele primeiro sentido, pela própria conotação da palavra no nosso português. A raiz da palavra em todo caso é o termo cór, que significa coração em latim. Nesse sentido, cordial não designa aquele que age com bondade, e sim com o coração. Coração que, segundo uma antiga teoria dos sentimentos morais, é a sede das emoções e dos sentimentos, tanto bons, quanto ruins. Sérgio Buarque utiliza o termo certamente nesse sentido, mas como conceito, o usa para designar algo específico. A cordialidade buarqueana se refere precisamente à demanda por intimidade pessoal que caracterizaria as nossas relações sociais. A cordialidade brasileira seria, por sua vez, o desenvolvimento autônomo e singular da cultura da personalidade de matriz ibérica em nosso ambiente social. Perceba como as ideias de Sérgio Buarque e Gilberto Freyre se complementam nesse sentido. O mito da cordialidade brasileira esteve associado ao longo de todo o século XX à ideia de bondade e gentileza mais explicitamente. Em parte isso continua. Mais recente, porém, é uma outra forma que o mito assumiu em nossa sociedade: a prefiguração de narrativas que atribuem a totalidade dos problemas políticos e sociais do país a essa característica típica da nossa sociabilidade. A sociabilidade brasileira é por essa via entendida como essencialmente desonesta, interesseira e corrupta no sentido que este termo possui no mundo político. O mito despreza e obscurece as dinâmicas estruturais do capitalismo, de um lado, e É importante que no tocante à sociologia brasileira você se familiarize com a obra de Sérgio Buarque de Holanda. Raízes do Brasil fez 80 anos de sua publicação original em 2016, e então vários especialistas na obra do autor apareceram na mídia a fim de apresentar e comentar a obra para um público leigo. Aproveite e assista à fala do sociólogo Pedro Meira Monteiro sobre Raízes do Brasil para o jornal Nexo. Depois você pode assistir a Lilia Schwarcz sobre Raízes do Brasil em 2018, num episódio do programa do Clube do Livro, da revista Veja. Os dois são os organizadores da reedição comemorativa do livro, que documenta as reedições e interpretações do livro ao longo do século XX. 91 da desigualdade social brasileira, de outro. O capitalismo é um fenômeno global, de modo que a sociologia brasileira se volta mais para esse segundo aspecto da teoria. 6.5 O PROBLEMA DA DESIGUALDADE SOCIAL BRASILEIRA O conceito de desigualdade social tem origem no socialismo do século XIX. Ele parte do princípio de que a propriedade privada não é natural, que o seu estabelecimento e acumulação se dá de forma desigual em função da manutenção do privilégio de grupos específicos. Todas as teorias da desigualdade social, seja na economia, seja na sociologia, vão buscar então explicar, criticar e mitigar essa situação. Autores mais recentes, como Jessé de Souza, sociólogo e ex-diretor do Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (IPEA), órgão do governo federal dedicado a dar suporte estatístico e científico às ações do Ministério do Planejamento, tem rebatido algumas das premissas dos clássicos da sociologia brasileira, em especial, Sérgio Buarque de Holanda. A tese de que o personalismo e a cultura da cordialidade teriam deformado a constituição de um Estado burocrático moderno no Brasil foi sugerida por Sérgio Buarque, embora tenha sido articulada por Raymundo Faoro (1925-2003) em Os Donos do Poder, livro de 1958. A crítica de Jessé de Souza se dirige sobretudo a Faoro, por interpretar o Estado brasileiro como desviante tendo como caso normalos EUA. “Foi a partir da leitura da obra de Gilberto Freyre, especialmente de seu melhor livro, Sobrados e mutambos, que me veio a ideia de que a interpretação dominante do Brasil moderno poderia e deveria ser refeita. A descrição freyriana do processo de modernização brasileiro mostrava a importação não só de roupas e salamaleques europeus, mas de instituições fundamentais do mundo moderno como um incipiente mercado competitivo e Estado centralizado. A tese do personalismo e da ‘teoria emocional da ação’ interpretava e interpreta a dinâmica dessas instituições como se elas não desempenhassem qualquer papel importante na redefinição da estrutura social e no desempenho dos papéis sociais concretos” (SOUZA, 2006, p. 55 et. seq.). Essa nova teoria da desigualdade social brasileira redefine os termos do problema. As condições sociais que respondem pela nossa desigualdade não tem a ver com a formação do Estado, não tem a ver com as características da nossa 92 singularidade cultural, mas como o modo como as classes sociais no país foram se integrando à economia capitalista moderna. “Gostaria de tentar demonstrar como a naturalização da desigualdade social e a consequente produção de ‘subcidadãos’ como um fenômeno de massa, em países periféricos de modernização recente como o Brasil, pode ser mais adequadamente percebida como consequência, não de uma suposta herança pré-moderna e personalista, mas precisamente do fato contrário, ou seja, como resultante de um efetivo processo de modernização de grandes proporções que se implanta paulatinamente no país a partir de inícios do século XIX.” (SOUZA, 2006, p.23-24) Por essa via, Jessé de Souza recupera e aprofunda as análises do Florestan Fernandes (1920-1995) de A integração do negro na sociedade de classes, um estudo pioneiro sobre estratificação e integração social no país, publicado em 1964. O livro apresenta o resultado das pesquisas de Florestan em São Paulo, capital industrial do país, e mostra as contradições do início do mercado de trabalho pós-abolição. Com base em estatísticas e depoimentos dos setores negros e mestiços da classe trabalhadora em São Paulo, Florestan argumenta como os descendentes dos ex-escravos libertos ingressaram na nova ordem capitalista com uma brutal desvantagem cognitiva. Enquanto a elite culta e a classe média absorviam os valores do capitalismo, parte da classe trabalhadora sentia isso como continuação do escravismo. “O dado essencial de todo o processo de desagregação da ordem servil e senhorial foi, como nota corretamente Florestan, o abandono do liberto à própria sorte (ou azar). Os antigos senhores, na sua imensa maioria, o Estado, a Igreja, ou qualquer outra instituição jamais se interessaram pelo destino do liberto. Este, imediatamente depois da abolição, se viu, agora, responsável por si e por seus familiares, sem que dispusesse dos meios materiais ou morais para sobreviver numa nascente economia competitiva de tipo capitalista e burguês. Ao negro, fora do contexto tradicional, restava o deslocamento social na nova ordem. Ele não apresentava os pressupostos sociais e psicossociais que são os motivos últimos do sucesso no meio ambiente concorrencial. Fatava-lhe vontade de se ocupar com as funções consideradas degradantes (que lhe lembravam o passado) – pejo que os imigrantes italianos, por exemplo, não tinham –, não eram suficientemente industriosos nem poupadores, e, acima de tudo, faltava-lhes o aguilhão da ânsia pela riqueza. Nesse contexto, acrescentando-se a isso o abandono pelos antigos donos e pela sociedade como um todo, estava de certo modo, prefigurado o destino da marginalidade social e da pobreza econômica” (SOUZA, 2006, 55 et. seq.). 93 É aí que a teoria sociológica se distingue e complementa a luta política, evitando reduzir a desigualdade social ao preconceito racial, e enfatizando a sua dimensão estrutural e de classe. Como você pode ver pelo infográfico que abre a unidade, os dados estatísticos mostram que a desigualdade é real e possui um aspecto racial. Mas este não é a causa do problema, senão o efeito de uma fraca integração social. O modo como o tema da desigualdade social se encaminha nesta unidade leva novamente ao tema da educação. Você consegue perceber agora como a proposta de uma educação libertadora atualmente não se limita a uma dimensão intelectual e cognitiva? Qual o papel da educação hoje como instrumento de integração social? Quais os obstáculos a isso hoje na sociedade contemporânea? 94 1. Gilberto Freire, no livro Casa Grande e Senzala, analisa aspectos das relações inter- raciais no Brasil. Considerando a maneira como esse autor desenvolve, em sua análise, o mito da harmonia entre as três raças que constituíram a nação brasileira, assinale a opção correta. A) Segundo esse autor, a miscigenação produz uma sociedade singular nos trópicos, caracterizada principalmente pela convivência pacífica entre as raças. B) A análise de Gilberto Freire está focada na idéia de dissidência entre as três raças, o que constitui o principal ponto de conflito da nação brasileira. C) No mito da harmonia racial, Gilberto Freire sugere a preponderância absoluta do elemento branco sobre os negros e os índios. D) O preconceito racial é, segundo esse autor, um elemento fundador do mito da nação brasileira. E) Para o autor, o fenômeno da miscigenização indica um desequilíbrio entre as três raças constitutivas da nação brasileira. 2. Em Casa-Grande & Senzala, Gilberto Freyre oferece uma interpretação da formação da sociedade brasileira, destacando as características do patriarcado brasileiro e o processo de interpenetração de etnias e culturas. Nesse processo de formação, o português, o índio e o escravo de origem africana exerceram influências específicas. Considerando esse assunto e as idéias do autor citado, qual das opções abaixo apresenta duas características que não podem ser atribuídas ao colonizador português nesse processo de formação? A) mobilidade e miscigenação B) vulnerabilidade e preconceito étnico ou racial C) adaptabilidade e aclimatabilidade D) hibridização e preconceito religioso E) flexibilidade e plasticidade 95 3. “O Estado não é uma ampliação do círculo familiar e, ainda menos, uma integração de certos agrupamentos, decertas vontades particularistas, de que a família é o melhor exemplo. Não existe, entre o círculo familiar e o Estado, uma gradação, mas antes uma descontinuidade e até uma oposição. A indistinção fundamental entre as duas formas é prejuízo romântico que teve os seus adeptos mais entusiastas durante o século XIX. De acordo com esses doutrinadores, o Estado e as suas instituições descenderiam em linha reta, e por evolução simples, da família. A verdade, bem outra, é que pertencem a ordens diferentes em essência. Só pela transgressão da ordem doméstica e familiar é que nasce o Estado e que o simples indivíduo se faz cidadão, contribuinte, eleitor, elegível, recrutável e responsável, ante as leis da cidade. Há nesse fato um triunfo do geral sobre o particular, do intelectual sobre o material, do abstrato sobre o corpóreo e não uma depuração sucessiva, uma espiritualização de formas mais naturais e rudimentares, uma procissão das hipóstases, para falar como na filosofia alexandrina. A ordem familiar, em sua forma pura, é abolida por uma transcendência”. – Sérgio Buarque de Holanda. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 141. Com base no texto acima, assinale a opção correta. A) A formação do Estado representa o surgimento de uma nova ordem independente do círculo familiar. B) O Estado é uma evolução natural da ordem doméstica e familiar. C) A ordem familiar só pode existir em sua forma pura. D) Indivíduo e cidadão são sinônimos. E) As diferenças entre ordem familiar eordem estatal são superficiais. 4. “Já se disse, numa expressão feliz, que a contribuição brasileira para a civilização será de cordialidade - dare-mos ao mundo o ‘homem cordial’. A lhaneza [afabilidade] no trato, a hospitalidade, a generosidade, virtudes tão gabadas por estrangeiros que nos visitam, representam, com efeito, um traço definido do caráter brasileiro, na medida, ao menos, em que permanece ativa e fecunda a influência ancestral dos padrões de convívio humano, informados no meio rural e patriarcal. Seria engano supor que essas virtudes possam significar ‘boas manei-ras’, civilidade. São antes expressões de um fundo emo-tivo extremamente rico e transbordante. Nossa forma ordinária de convívio social é, no fundo, justamente o contrário da polidez”. 96 – HOLANDA, S. B. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, pp. 146-147. Em Raízes do Brasil, Sérgio Buarque de Holanda utiliza o conceito de “homem cordial” A) para definir o caráter nacional brasileiro, cuja origem encontra-se em nossos ancestrais ibéricos. B) como fruto da análise da psicologia do brasileiro, por meio da qual busca estabelecer os traços genéricos da cultura nacional. C) para descrever o modo de ser de todo brasileiro, isto é, um indivíduo afetuoso e acolhedor, características elogiadas pelos estrangeiros que visitam o país. D) como um tipo ideal, sem existência efetiva; com esse conceito, busca compreender a conduta dos agentes sociais sem pretender fixar um caráter nacional. E) para indicar como a cordialidade foi imprescindível para a consolidação da democracia no Brasil, criando instituições marcadas pelas relações familiares e pesso- ais. 5. A obra de Jessé Souza tem inspirado as pesquisas recentes sobre a nova estrutura de classes da sociedade brasileira. Dada a perspectiva adotada pelo autor, essas pesquisas têm criticado: A) o atraso histórico do Brasil em relação a países ple-namente modernos. B) o caráter ideológico da interpretação patrimonialista sobre a formação social brasileira. C) a natureza populista dos programas estatais de redis-tribuição de renda. D) a política clientelista que impossibilita o desenvolvi-mento de uma cidadania plena. E) a exploração midiática da tese que caracteriza o es-paço público como ineficiente. 97 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALTMAN, Breno. 20 Minutos História – Qual o legado de Karl Marx? [S.D.] Disponível em: https://youtu.be/FuLGsSWhFgI. Acesso em: 03 mar. 2020. ANTUNES, Ricardo. O privilégio da servidão: o novo proletariado de serviços na era digital. São Paulo: Boitempo Editorial, 2018. (Formato Ebook.) ARON, Raymond. As etapas do pensamento sociológico. Trad. Sérgio Bath. 5a. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000. BAUDELOT, Christian. Le buste d'Émile Durkheim. 16 mar. 2005. Fotografia. 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