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LIVRO
TEXTO
RESPONSABILIDADE
SOCIOAMBIENTAL E
SUSTENTATBILIDADE
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FICHA CATALOGRÁFICA
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RESPONSABILIDADE SOCIOAMBIENTAL E
SUSTENTABILIDADE
TEMA 01
PARTE 01 - HOMEM E MEIO AMBIENTE: UM RELACIONAMENTO PARADOXAL
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HOMEM E MEIO AMBIENTE: UM RELACIONAMENTO PARADOXAL
Desde o seu surgimento, o homem buscou formas de se adaptar ao meio
em que vive (meio ambiente). Relacionou-se e criou ferramentas que o
auxiliariam nas necessidades impostas pelo meio. Passando por uma revolução
técnica, material, intelectual e interpessoal. Assim, destacaremos três grandes
revoluções: NEOLÍTICA, INDUSTRIAL e VERDE que marcaram essa trajetória e
que explicam o estágio atual de questionamento dos modelos de produção e
consumo. A figura 1 representa o contexto apresentado.
Figura 1: Trajetória das Revoluções.
Revolução Neolítica
O principal legado da Revolução Neolítica foi o surgimento da agricultura e
o domínio do fogo que lhes concedeu o desenvolvimento físico e intelectual dos
hominídeos e a oportunidade de transformação do seu modo de vida.
Segundo o site: https://www.petccufpb.com.br/?p=2491 essa
descoberta deu origem a Revolução Neolítica (ou Revolução Agrícola), pois com
a agricultura o homem deixou de ser nômade, e consequentemente pôde criar
animais para o consumo. Além disso, a redução dos deslocamentos em busca de
alimentos fez com que a população dos grupos aumentasse, já que com as
migrações muitos morriam de fome e sede. O domínio do fogo possibilitou o ato
de cozinhar os alimentos, se proteger do frio, tecer ferramentas de caça e se
abrigar no fundo das cavernas.
Ao longo do tempo, os primeiros centros urbanos começaram a surgir. As
comunidades agrícolas autossuficientes transformaram-se em cidades,
realizando a chamada Revolução Urbana. De acordo com alguns estudos, os
± 15
bilhões
Big Bang
± 5
bilhões
Planeta
Terra
10.000
A.C.
5000
A.C. 1789
Sec.
XVIII
Coleta
Agricultura
Antiga
Rev.
Francesa
Rev.
Industrial Rev.
Verde
II GM Final
70’s
Permacultura
0
https://www.petccufpb.com.br/?p=2491
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primeiros centros urbanos surgiram na parte sul da Mesopotâmia. Essa primeira
relação é entendida como a fase da “Descoberta”, pelo fato de conhecer as
potencialidades apresentadas pelos recursos naturais. (JORNAL PET.com,
Notícia, 2019)
Revolução Industrial
A segunda grande transformação foi a Revolução Industrial consignou
um período de grande desenvolvimento tecnológico que teve início na Inglaterra
a partir da segunda metade do século XVIII e que se espalhou pelo mundo
causando grandes transformações. A Revolução Industrial garantiu o surgimento
da indústria e consolidou o processo de formação do capitalismo.
De acordo com o site:
https://brasilescola.uol.com.br/historiag/revolucao-industrial.htm o
nascimento da indústria causou grandes transformações na economia mundial,
assim como no estilo de vida da humanidade, uma vez que acelerou a produção
de mercadorias e a exploração dos recursos da natureza. Além disso, a Revolução
Industrial foi responsável por grandes transformações no processo produtivo e
nas relações de trabalho.
O mesmo texto apresenta as fases da Revolução Industrial que
correspondeu às modificações econômicas e tecnológicas que consolidaram o
sistema capitalista e permitiram o surgimento de novas formas de organização
da sociedade. As transformações tecnológicas, econômicas e sociais vividas na
Europa Ocidental, inicialmente limitadas à Inglaterra, em meados do século XVIII,
tiveram diversos desdobramentos, os quais podemos chamar de fases. Essas
fases correspondem ao processo evolutivo das tecnologias desenvolvidas e as
consequentes mudanças socioeconômicas.
A Primeira Revolução Industrial refere-se ao processo de evolução
tecnológica vivido a partir do século XVIII na Europa Ocidental, entre 1760 e
1850, estabelecendo uma nova relação entre a sociedade e o meio, bem como
possibilitou a existência de novas formas de produção que transformaram o
setor industrial, dando início a um novo padrão de consumo.
Essa fase é marcada especialmente pela substituição da energia
produzida pelo homem por energias como a vapor, eólica e hidráulica;
https://brasilescola.uol.com.br/historiag/revolucao-industrial.htm
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a substituição da produção artesanal (manufatura) pela indústria
(maquinofatura) e também pela existência de novas relações de trabalho.
As principais invenções dessa fase que modificaram todo o cenário vivido
na época foram: a utilização do carvão como fonte de energia; o consequente
desenvolvimento da máquina a vapor e da locomotiva. Nessa fase foi, também,
desenvolvido o telégrafo, um dos primeiros meios de comunicação quase
instantânea.
A produção modificou-se, diminuindo o tempo e aumentando a
produtividade; as invenções possibilitaram o melhor escoamento de matérias-
primas, bem como de consumidores e também favoreceram a distribuição dos
bens produzidos.
A Segunda Revolução Industrial refere-se ao período entre a segunda
metade do século XIX até meados do século XX, tendo seu fim durante
a Segunda Guerra Mundial. A industrialização avançou os limites geográficos da
Europa Ocidental, espalhando-se por países como Estados Unidos, Japão e
demais países da Europa.
Compreende à fase de avanços tecnológicos ainda maiores que os
vivenciados na primeira fase, bem como o aperfeiçoamento de tecnologias já
existentes. O mundo pôde vivenciar diversas novas criações que aumentaram
ainda mais a produtividade e consequentemente aumentaram os lucros das
indústrias. Houve nesse período, também, grande incentivo às pesquisas,
especialmente no campo da medicina.
As principais invenções dessa fase estão associadas ao uso do petróleo
como fonte de energia, utilizado na nova invenção, o motor à combustão. A
eletricidade que antes era utilizada apenas para desenvolvimento de pesquisas
em laboratórios, nesse período, começa a ser usada para o funcionamento de
motores, com destaque para os motores elétricos e à explosão. O ferro que
antes era largamente utilizado, passou a ser substituído pelo aço.
A Terceira Revolução Industrial também conhecida como Revolução
Tecnocientífica, iniciou-se na metade do século XX, após a Segunda Guerra
Mundial. Essa fase representa uma revolução não só no setor industrial, visto
que passou a relacionar não só o desenvolvimento tecnológico voltado ao
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processo produtivo, mas também ao avanço científico, deixando de limitar-se a
apenas alguns países e espalhando-se por todo o mundo.
As transformações possibilitadas pelos avanços tecnocientíficos são
vivenciadas até os dias atuais, sendo que cada nova descoberta representa um
novo patamar alcançado dentro dessa fase da revolução, consolidando o que
ficou conhecido como Capitalismo Financeiro. A introdução da biotecnologia,
robótica, avanços na área da genética, telecomunicações, eletrônica,
transporte, entre outras áreas, transformaram não só a produção, como também
as relações sociais, o modo de vida da sociedade e o espaço geográfico.
Todo esse desenvolvimento proporcionado pelos avanços obtidas nas
diversas áreas científicas relacionam-se ao que chamamos de globalização: tudo
converge para a diminuição do tempo e das distâncias, ligando pessoas, lugares,
transmitindo informações instantaneamente, superando, então, os desafios e
obstáculos que permeiam a localização geográfica, as diferenças culturais, físicas
e sociais.
As Consequências da Revolução Industrial
De um modo geral, a Revolução Industrial transformou não só o setor
econômico e industrial, como também as relações sociais, as relações entre o
homem e a natureza, provocando alterações no modo de vida das pessoas,
nos padrões de consumoe no meio ambiente. Cada fase da revolução
representou diferentes transformações e consequências mediante os avanços
obtidos em cada período.
A Primeira Revolução Industrial representou uma nova organização no
modo capitalista. Nesse período houve um aumento significativo de indústrias
bem como o aumento significativo da produtividade (produção em menor
tempo). O homem ao ser substituído pela máquina, saiu da zona rural para ir
para as cidades em busca de novas oportunidades, dando início ao processo
de urbanização.
Esse processo culminou no crescimento desenfreado das cidades, na
marginalização de boa parte da população, bem como em problemas de ordem
social como miséria, violência, fome. Nessa fase, também, a sociedade
organizou-se em dois polos: de um lado a burguesia e do outro o proletariado.
https://brasilescola.uol.com.br/biologia/biotecnologia.htm
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A Segunda Revolução Industrial teve como principais consequências,
mediante o maior avanço tecnológico, o aumento da produção em massa em
bem menos tempo, consequentemente o aumento do comércio e modificação
nos padrões de consumo; muitos países passaram a se industrializar,
especialmente os mais ricos, dominando, então, economicamente diversos
outros países (expansão territorial e exploração de matéria-prima).
O avanço nos transportes possibilitou maior e melhor escoamento de
mercadorias e trânsito de pessoas; surgiram as grandes cidades e com elas
também os problemas como superpopulação; aumento das doenças;
desemprego e aumento da mão de obra barata e novas relações de trabalho.
A Terceira Revolução Industrial e nova integração entre ciência,
tecnologia e produção, possibilitou avanços na medicina; a invenção de robôs
capazes de fazer trabalho extremamente minucioso e preciso; houve avanços na
área da genética, trazendo novas técnicas que melhoraram a qualidade de vida
das pessoas; possibilitou diminuir as distâncias entre os povos e a maior difusão
de notícias e informações por meio de novos meios de comunicação; o
capitalismo financeiro consolidou-se e houve aumento do número de empresas
multinacionais.
E não menos importante, todas essas transformações possibilitadas pela
Revolução Industrial como um todo, transformou o modo como o homem
relaciona-se com o meio. A apropriação dos recursos naturais para viabilizar as
produções e os avanços tecnocientíficos têm causado grande impacto
ambiental.
Atualmente, as alterações provocadas no meio ambiente têm sido
amplamente discutidas pelas comunidades internacionais, órgãos e entidades,
que expressam a importância de mudar o modelo de desenvolvimento
econômico que explora os recursos naturais sem pensar nas gerações futuras.
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Revolução Verde
A terceira revolução foi a Revolução Verde marcada por um período de
grandes mudanças na forma pela qual a produção agrícola é vista no mundo.
Embora seu nome denote uma revolução na questão ambiental, ela não foi
exclusivamente positiva, pois trouxe inúmeros problemas, afetando em muito a
natureza.
Com base no site: https://www.estudopratico.com.br/revolucao-verde/
as ideias da Revolução Verde, embora aclamadas por muitos, carregam também
vários problemas socioambientais. Um primeiro problema está na distorção que
houve em relação aos beneficiados pelas práticas produtivas advindas da
Revolução Verde.
Isso porque, a experiência do México mostrou que a produção
abasteceria primeiramente o mercado consumidor interno, sendo
posteriormente exportados os excedentes.
No entanto, no contexto atual, diante da busca desenfreada pelo lucro,
são exportados os melhores produtos, visando-se abastecer as necessidades do
mercado consumidor externo. Portanto, ficam os refugos ou produtos de baixa
qualidade para a população interna (pelo menos no caso do Brasil).
Além disso, a produção é feita em um modelo de monocultura, ou seja, é
produzido apenas um tipo de grão (soja, milho, trigo) em uma vasta extensão de
terras. Isso ocasiona vários danos, como a redução das variedades existentes.
Um exemplo disso é que nem todo mundo sabe que existem inúmeras
variedades tradicionais de milho (milho crioulo), porque o único que é
disseminado é aquele amarelo. O mesmo acontece com frutas, sementes,
legumes, verduras, com praticamente tudo o que teve sua produção ampliada.
A produção em larga escala não veio para sanar com o problema da fome
no mundo, como imaginava-se de princípio. Isso ocorre porque a maior parte da
produção de grãos vai para alimentação de bovinos, na produção da carne, e
nem todo mundo tem acesso a alimentação com carne frequentemente.
Com a ampliação deste modelo produtivo, maiores quantidades de terras
são necessárias, originando os chamados “latifúndios”, que são grandes
https://www.estudopratico.com.br/revolucao-verde/
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extensões agricultáveis e monocultoras. Com isso, cresce o desmatamento, a
expropriação de comunidades tradicionais e indígenas, bem como de pequenos
produtores.
Além disso, deixou-se de lado conceitos tradicionais de produção e
cuidado com a terra, como a rotação de culturas e a conservação dos solos, o
que tem gerado profundos danos ambientais.
Assim, a tecnologia veio sim para ajudar em muitas coisas no progresso
material da humanidade, inclusive ampliando a qualidade de vida da população.
No entanto, tudo isso tem também um lado negativo, que é o fato de colocar-se
a lucratividade, ou o financeiro, acima dos princípios de cuidado com a
humanidade e dos recursos naturais.
O SISTEMA CAPITALISTA
O Capitalismo é um sistema econômico que está dividido em três fases:
• Capitalismo Comercial ou Mercantil (pré-capitalismo) – do século XV
ao XVIII
• Capitalismo Industrial ou Industrialismo – séculos XVIII e XIX
• Capitalismo Financeiro ou Monopolista – a partir do século XX
De acordo com Bezerra descrito no site:
https://www.todamateria.com.br/fases-do-capitalismo/ apresenta a seguinte
matéria sobre o tema a seguir:
O sistema capitalista teve início no século XV, com a decadência do
sistema feudal. Vale lembrar que o feudalismo foi uma organização econômica,
política, social e cultural baseada na posse da terra, que dominou a Europa na
Idade Média (V ao século XV) após a crise do império romano.
Uma das principais características do sistema feudal era a sociedade
estamental, ou seja, dividida em estamentos (camadas sociais estanques) e
destituída de mobilidade social. Nesse sentido, os dois grandes grupos sociais
existentes eram basicamente os senhores feudais e os servos. Acima dos
senhores feudais estavam os Reis e a Igreja.
https://www.todamateria.com.br/fases-do-capitalismo/
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O senhor feudal administrava os feudos possuindo o poder político local,
e portanto, tendo total autonomia sobre as terras, enquanto os servos
trabalhavam nos feudos (grandes extensões de terra).
A produção feudal era autossuficiente posto que se destinava ao
consumo local de seus habitantes e não às trocas comerciais. Observe que a
economia feudal era baseada nas trocas de produtos e por isso, não existiam
moedas de circulação.
A decadência do sistema feudal ocorreu por diversos motivos:
• expansões ultramarinas do século XV
• crescimento das cidades
• aumento da população
• surgimento das feiras livres
• desenvolvimento do comércio
• surgimento de uma nova classe social (a burguesia)
Esses fatores levaram a aparição da moeda como valor de troca e,
consequentemente, ao surgimento do sistema capitalista. Essa mudança
representou o fim da Idade Média e início da Idade Moderna.
A aliança entre os reis e da burguesia mercantil foram essenciais para a
decadência do sistema feudal, os quais foram assumindo o controle estatal da
economia nacional, com o intuito de fortalecer ainda mais o poder central e
obter os recursos necessários para expandir o comércio.
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Capitalismo Comercialou Mercantil
De tal modo, o controle estatal da economia tornou-se a base
do mercantilismo, o qual esteve baseado nas trocas comerciais com a finalidade
de enriquecimento.
Assim, nessa fase inicial, o capitalismo era considerado um pré-
capitalismo baseado no sistema mercantilista. No capitalismo mercantil surge a
moeda e além do controle estatal da economia, as principais características do
mercantilismo eram:
• o monopólio comercial
• o metalismo (acúmulo de metais preciosos)
• o protecionismo (surgimento de barreiras alfandegárias)
• a balança comercial favorável (exportar mais do que importar:
superávit).
Capitalismo Industrial ou Industrialismo
Com a Revolução Industrial do século XVIII, o surgimento da máquina
movida à vapor e a expansão das indústrias, o capitalismo atinge uma nova fase,
chamada de Capitalismo Industrial ou Industrialismo.
As alterações dos sistemas de produção estiveram marcadas pela
substituição de produtos manufaturados para os industrializados, os quais foram
tomando conta do cenário mundial por meio do desenvolvimento do sistema
fabril de produção e da explosão demográfica nos grandes centros urbanos
(urbanização).
Em outras palavras, o trabalho manual é, nesse momento, realizado em
grandes escalas de produção donde as máquinas substituem a força do homem.
Essa fase que durou até o século XIX estava baseada no liberalismo
econômico (o mercado e a livre concorrência sem intervenção do Estado
economia) e teve como principais características:
• A expansão e o desenvolvimento dos transportes
• O aumento da produtividade
• Diminuição nos preços das mercadorias
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• A ampliação da classe operária
• Ampliação das relações internacionais
• O surgimento do Imperialismo e da Globalização
• O excedente de produção
• A aceleração do sistema fabril
• Saturação dos mercados
• Acumulação de capital gerada pelos excedentes na Indústria
Note que a aceleração dos processos industriais trouxe diversos
problemas à população, desde condições precárias de trabalho, com as intensas
horas de trabalho, os baixos salários e o aumento do desemprego, o que mais
tarde levaria à Primeira Guerra Mundial (1914-1918).
Capitalismo Financeiro ou Monopolista
Já a terceira fase do capitalismo, denominada de Capitalismo Financeiro
ou Monopolista, surge no século XX, mais precisamente após a Segunda Guerra
Mundial (1939-1945), com a expansão da globalização e o advento da segunda
revolução industrial.
Além das Indústrias que dominaram o cenário do capitalismo industrial,
nesse momento, o sistema está fundamentado nas leis dos bancos, das empresas
multinacionais e das grandes corporações por meio do monopólio financeiro.
Sendo assim, as principais características do capitalismo monopolista,
que vigora até os dias atuais são:
• O monopólio e oligopólio comercial
• Expansão da Globalização e do Imperialismo
• Expansão das novas tecnologias e das fontes de energia
• Acelerada urbanização e aumento do mercado consumidor
• Aumento da concorrência internacional
• A expansão das empresas transnacionais ou multinacionais
(empresas globais)
• A especulação financeira e economia de mercado
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• Investimento em ações empresariais
• Fusão entre capital bancário e capital industrial
Alguns estudiosos acreditam que o capitalismo já entrou numa quarta
fase com a expansão das tecnologias de informação denominada de Capitalismo
Informacional ou Cognitivo.
Capitalismo Informacional
O capitalismo informacional, cognitivo ou do
conhecimento corresponde a quarta fase de desenvolvimento do capitalismo.
Esse termo foi utilizado primeiramente pelo sociólogo espanhol Manuel
Castells, em sua obra “A Sociedade em Rede”, escrita em 1996 e publicada em
2006.
O capitalismo informacional teve início com a quebra da bolsa de valores
de nova York (1929), ganhando força na virada do século.
No entanto, há controvérsias sobre a data de origem do capitalismo
informacional. Para alguns estudiosos, ele começou no período do pós-guerra e,
para outros, a partir da década de 80.
O capitalismo informacional corresponde ao período econômico e social
em que estamos vivendo. É marcado pelo avanço da Globalização, dos
computadores, dos telefones digitais, da robótica e da internet.
Recebe esse nome pois está intimamente relacionado com a Sociedade
da Informação ou Era da Informação.
Suas principais características englobam a expansão e o desenvolvimento
das tecnologias de informação (TI); aceleração e aumento dos fluxos de capitais,
mercadorias, informações, pessoas; e ainda, a difusão do conhecimento.
No campo social, destacam-se o aumento do fluxo de informações
via net e a dependência tecnológica, as quais foram intensificadas pelo uso das
redes sociais, que permitem receber muitas informações rapidamente.
Assim, surgem novas práticas sociais e culturais com o uso intensivo da
tecnologia figurando uma nova estrutura social.
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Características
As principais características do Capitalismo Informacional são:
• Terceira Revolução Industrial (Revolução Técnico-científica)
• Desenvolvimento acelerado do capitalismo financeiro
• Especialização e qualificação da mão-de-obra
• Otimização dos processos produtivos
• Aumento da produtividade econômica
• Mercantilização da informação
• Tecnologias de informação
• Sociedade da informação
• Inovações e revolução tecnológica
• Desenvolvimento de softwares e aplicativos
• Valorização da criatividade e da mão-de-obra jovem
• Acúmulo de riqueza por meio do conhecimento
• Marcada pelo sistema neoliberal
• Avanço da globalização e do imperialismo
• Aumento das transações comerciais via internet
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RESPONSABILIDADE SOCIOAMBIENTAL E
SUSTENTABILIDADE
TEMA 01
PARTE 02 – PROBLEMAS AMBIENTAIS
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PROBLEMAS AMBIENTAIS
A pegada ecológica está ligada à crescente demanda mundial por bens
de consumo, que coloca em risco os principais recursos naturais do planeta.
Muitas vezes a indústria e os consumidores não estão plenamente conscientes
do nível do impacto que essa exigência pode causar no equilíbrio ambiental. Em
outras palavras, quando um empresário decide abrir uma fábrica de sapatos, por
exemplo, ele vai gastar certas quantidades de recursos naturais para que o
produto final possa ser vendido. E o consumidor que precisa de um novo par de
sapatos vai adquirir o produto. Mas nenhuma das partes sabe ao certo qual foi a
demanda ecológica que o objeto causou na natureza. Essa falta de informação
complica a elaboração de políticas públicas e contribui para a sobrecarga
ecológica do planeta.
A partir das pegadas deixadas por animais na mata pode-se conseguir
muitas informações sobre: peso, tamanho, força, hábitos e inúmeros outros
dados sobre seu modo de vida. Com os seres humanos, acontece algo
semelhante. Ao andarmos na praia, por exemplo, podemos criar diferentes tipos
de rastros, conforme a maneira como caminhamos, o peso que temos, ou a força
com que pisamos na areia. Se não prestamos atenção no caminho, ou
aceleramos demais o passo, nossas pegadas se tornam bem mais pesadas e
visíveis. Porém, quando andamos num ritmo tranquilo e estamos mais atentos
ao ato de caminhar, nossas pegadas são suaves.
Assim é também a “Pegada Ecológica”. Quanto mais se acelera nossa
exploração do meio ambiente, maior se torna a marca que deixamos na Terra. O
uso excessivo de recursos naturais, o consumismo exagerado, a degradação
ambiental e a grande quantidade de resíduos gerados são rastros deixados por
uma humanidade que ainda se vê fora e distante da Natureza.
Foi pensando na dimensão crescente das marcas que deixamos, e em
formas de medi-las, que os especialistas William Rees e Mathis Wackernagel
desenvolveram, em 1996, o conceito de Pegada Ecológica.
A Pegada Ecológica foi criadapara nos ajudar a perceber o quanto de
recursos da Natureza utilizamos para sustentar nosso estilo de vida, o que inclui
a cidade e a casa onde moramos, os móveis que temos, as roupas que usamos,
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o transporte que utilizamos, aquilo que comemos, o que fazemos nas horas de
lazer, os produtos que compramos e assim por diante. Tudo o que está à nossa
volta no dia-a-dia vem da Natureza e, depois de algum tempo, retorna para ela!
A Pegada Ecológica não é uma medida exata e sim uma estimativa. Ela
nos mostra até que ponto a nossa forma de viver está de acordo com a
capacidade do planeta de oferecer, renovar seus recursos naturais e absorver os
resíduos que geramos por muitos e muitos anos. Isto con- siderando que
dividimos o espaço com outros seres vivos e que precisamos cuidar da nossa e
das próximas gerações
A Pegada Ecológica de um país, de uma cidade ou de uma pessoa,
corresponde ao tamanho das áreas produtivas de terra e de mar, necessárias
para gerar produtos, bens e serviços que sustentam determinados estilos de
vida. Em outras palavras, a Pegada Ecológica é uma forma de traduzir, em
hectares (ha), a extensão de território que uma pessoa ou toda uma sociedade
“utiliza”, em média, para se sustentar.
Para calcular as pegadas foi preciso estudar os vários tipos de territórios
pro- dutivos (agrícola, pastagens, oceanos, florestas, áreas construídas) e as
diversas formas de consumo (alimentação, habitação, energia, bens e serviços,
transporte e outros). As tecnologias usadas, os tamanhos das populações e
outros dados, também entraram na conta.
Cada tipo de consumo é convertido, por meio de tabelas específicas, em
uma área medida em hectares. Além disso, é preciso incluir as áreas usadas para
receber os detritos e resíduos gerados e reservar uma quantidade de terra e água
para a própria Natureza, ou seja, para os animais, as plantas e os ecossistemas
onde vivem, garantindo a manutenção da biodiversidade.
De acordo com o site: https://www.ecycle.com.br/3731-pegada-
ecologica-ambiental o romeno Nicholas Georgescu-Roegen, no livro The Entropy
Law and the Economic Process (A Lei da Entropia e o Processo Econômico, em
tradução livre), de 1971, foi um dos primeiros a abordar o tema, ao falar
sobre bioeconomia e a preocupação com a continuidade da vida de diversas
espécies na Terra. No livro, com base na segunda lei da termodinâmica, a lei da
entropia, Georgescu-Roegen aponta para a inevitável degradação dos recursos
https://www.ecycle.com.br/3731-pegada-ecologica-ambiental
https://www.ecycle.com.br/3731-pegada-ecologica-ambiental
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naturais em decorrência das atividades humanas. Ele criticou os economistas
liberais neoclássicos por defenderem o crescimento econômico material sem
limites, e desenvolveu uma teoria oposta e extremamente ousada para a época:
o decrescimento econômico.
Como a produção de bens e consumo tem aumentado significativamente,
o espaço físico terrestre disponível já não é suficiente para nos sustentar no
elevado padrão atual. Para assegurar a existência das condições favoráveis à vida
precisamos viver de acordo com a “capacidade” do planeta, ou seja, de acordo
com o que a Terra pode fornecer e não com o que gostaríamos que ela
fornecesse. Avaliar até que ponto o nosso impacto já ultrapassou o limite é
essencial, pois só assim poderemos saber se vivemos de forma sustentável.
Segundo o professor Geoffrey P. Hammond, o termo pegada ambiental
tem o mesmo significado que pegada ecológica e muitas vezes é referido
também como eco-pegada (Costanza, 2000). A pegada ecológica é um indicador
de sustentabilidade que acompanha a concorrência das demandas humanas
com a capacidade regenerativa do planeta, ou seja, compara a biocapacidade do
planeta com a demanda por recursos naturais necessária para a elaboração de
bens de consumo e serviços, integrando a pegada de carbono, que representa o
numero de florestas indispensáveis para a absorção das emissões de CO2 que os
oceanos não conseguem capturar - este é o único produto residual contabilizado.
Tanto a pegada ecológica quanto a biocapacidade são expressas em hectares
globais (gha), o que representa a capacidade de produção de um hectare de
terra, considerando a produtividade média mundial. Portanto, a pegada
ecológica analisa os impactos que produzimos em nossa biosfera.
Para calcular a pegada ecológica são consideradas diversas formas de
uso de recursos naturais. Essas formas podem ser medidas em unidades de área,
importantes para manter a produtividade biológica. Recursos que não podem
ser aferidos através desses termos são excluídos do cálculo - é por isso que
resíduos sólidos e a água não são contabilizados na pegada ecológica, por
exemplo. Os componentes da pegada são divididos em subpegadas que, quando
somadas, revelam a dimensão da pegada ecológica total. As subpegadas são
calculadas por meio de tabelas especificas de acordo com cada tipo de consumo
e convertidas em hectares. Como subpegadas temos:
https://www.ecycle.com.br/2375-dioxido-de-carbono-o-que-e-co2/
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• Pegada de retenção de carbono: quantidade de floresta necessária
para absorver o dióxido de carbono que os oceanos não suportaram absorver;
• Pegada de pastagem: área necessária para a criação de gado para o
abate, leiteiro, produção de couro e de lã;
• Pegada florestal: baseada no consumo anual de madeira para
diversos produtos;
• Pegada de pesqueiros: baseia-se em uma estimativa de produção
para sustentar peixes e mariscos capturados de água doce e marinhos;
• Pegadas das áreas de cultivo: representada pelas áreas necessárias
para o cultivo de alimentos humanos e rações para animais, bem como as
oleaginosas e borracha;
• Pegada de áreas construídas: são representadas por todas as áreas com
infraestrutura humana, assim como transportes, indústrias, reservatórios para a
geração de energia elétrica e habitações.
Enquanto modelos padrões de economia examinam os custos financeiros
dos produtos, o conceito das pegadas (ecológica, de água, de carbono e outras)
nos permite avaliar os custos dos recursos naturais envolvidos na produção de
determinado bem a partir das quantidades de solo, materiais e água utilizadas e
das emissões de gases que contribuem para o aquecimento global.
Todos os produtos, desde uma xícara de chá até um casaco de algodão,
possuem impactos sobre os recursos naturais em toda sua cadeia produtiva. Um
casaco de algodão, por exemplo, utiliza recursos no cultivo e na colheita do
algodão, nas operações para transformar o algodão em tecido, na produção final
do vestuário, no transporte, etc. Todas essas etapas requerem diferentes
quantidades de recursos, como solo, água, materiais e energia, que são medidas
pelos diferentes tipos de pegadas. A pegada ambiental desse item, por exemplo,
mediria a soma das subpegadas (retenção de carbono, florestal, de área de
cultivo, de pastagem, etc.) para determinar, em hectares globais, qual foi
o rastro ambiental do produto.
Para a indústria, é importante ter noção das pegadas em cada etapa do
processo de fabricação, pois esse tipo de estudo revela a eficiência de seus
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processos em relação ao uso dos recursos naturais, além de tornar possível a
identificação dos pontos de vulnerabilidade presentes em cada processo da
cadeia de abastecimento. Para o poder público, a importância se dá para a
elaboração de políticas de uso dos recursos naturais, de modo a evitar um deficit
ecológico. O impacto das pegadas depende de cada local. O impacto da pegada
ecológica vai depender da natureza da terra, como ela é usada e se existem usos
competitivos.
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RESPONSABILIDADE SOCIOAMBIENTAL E
SUSTENTABILIDADE
TEMA 02
PARTE 01 – DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
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DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
De acordo com BARRETOe TORRES (2019), no artigo intitulado de
“GLOBALIZAÇÃO E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL EMPRESARIAL destaca
que envolta a riscos e incertezas propagados pelas catástrofes ambientais de
ordem planetária, a comunidade global busca uma mudança de paradigma para
conciliar desenvolvimento com proteção e preservação ambiental, objetivando
garantir uma sadia qualidade de vida para a atual e futuras gerações.
No final do século XIX, o rápido desenvolvimento tecnológico e industrial
desmascarou um crescimento desorganizado e ecologicamente predatório,
tendo, por conseguinte, níveis de desmatamento e poluição excessivos, com
mudanças profundas no ecossistema mundial.
Se tornou necessário, portanto, repensar o estilo de desenvolvimento da
sociedade humana, a fim de tornar sustentável o modelo de crescimento
tecnológico, extremamente rápido e constante.
Para tanto, faz-se necessário uma rápida adaptação do modelo
tecnológico das empresas transnacionais e dos processos de modernização e
urbanização, com comprometimento efetivo de todos os países: em prol da
diminuição da poluição, pelas economias mais industrializadas; e a favor da
sustentabilidade, com menor esgotamento dos recursos naturais, pelas
economias subdesenvolvidas.
Importante salientar que todos os compromissos com foco no
desenvolvimento passaram a ser pensados como o equipamento jurídico apto a
constituir, por intermédio da normatividade, a nova ordem econômica
internacional. Essa noção nasceu bem antes da ONU tem produzido os
documentos fundamentais que delinearam a proposta da Nova Ordem
Econômica Internacional. A gestação do Direito ao Desenvolvimento teve início
em 1957 com a edição da Resolução 1161, da Assembleia Geral.
No tocante a função a ser desempenhada pelas nações envolvidas, estas
devem concretizar uma função de protagonista na cooperação, verdadeira
ferramenta de trabalho, gerando o desenvolvimento econômico e social.
Lançando então o Pacto dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, a
Assembleia Geral fundamentava a tábua de valores que ditaria os rumos do
desenvolvimento.
25
A nova Ordem Econômica Mundial pode ser considerada como o locus na
qual a cooperação internacional visando ao desenvolvimento alcançará o
objetivo e o dever comum de todos os países. A missão do direito ao
desenvolvimento consiste, pois, em fixar os termos jurídicos da solidariedade.
Enquanto o direito do desenvolvimento se restringe à normatividade, o
papel reservado ao direito ao desenvolvimento é mais amplo: seus foros de
cidadania se encontram na dimensão universalizante dos direitos humanos, da
qual forma parte como uma das projeções mais salientes.
Como criadora dos instrumentais e colaboradora das pessoas, a
cooperação econômica entre as nações pode realizar melhor aquilo que a
competição obliterou pela via do egoísmo e das disputas. Tudo o que a
cooperação econômica puder aportar de bem-estar para a humanidade deverá
estar a serviço do fim último a que se acha preordenada, desde a fundação das
Nações Unidas, a comunidade internacional: a paz.
Pautada para a sessão de 04.12.1986, a Declaração sobre o Direito ao
Desenvolvimento foi aprovada pela Resolução 41/133, da Assembleia Geral,
naquela data referencial.
26
DÉCADAS DE 70 E 80: CONFERÊNCIA DAS NAÇÕES UNIDAS SOBRE O
MEIO AMBIENTE HUMANO - ESTOCOLMO, 1972; ESTRATÉGIA DE
CONSERVAÇÃO MUNDIAL (WCS) E RELATÓRIO DE BRUNDTLAND
A Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano,
realizada em Estocolmo em 1972, representou o primeiro marco no caminho das
Nações Unidas na busca pelo desenvolvimento sustentável, onde foram
definidas como prioridades os aspectos ambientais das catástrofes e conflitos, a
gestão dos ecossistemas, a governança ambiental, as substâncias nocivas, a
eficiência dos recursos e as mudanças climáticas (Disponível em
https://nacoesunidas.org/acao/meio-ambiente/, acesso em 04/08/2018).
Nesta oportunidade, foram proclamados diversos princípios que viriam a
nortear as conferências mundiais posteriores sobre o meio ambiente e a
respectiva atuação humana, agrupados em cinco blocos:
1) Os recursos naturais deveriam ser conservados, a
capacidade da terra de produzir recursos renováveis deveria ser
mantida e os recursos não renováveis deveriam ser
compartilhados;
2) Desenvolvimento e preocupação ambiental deveriam
andar juntos e os países desenvolvidos deveriam ajudar os não
desenvolvidos a implementarem políticas de proteção
ambiental;
3) Cada país deveria estabelecer seus padrões de
administração ambiental e explorar seus recursos, mas sem
prejudicar ou colocar em perigos outros países;
4) A poluição não deveria exceder a capacidade do meio
ambiente de se recuperar. A poluição dos mares deveria ser
evitada;
5) Ciência, educação, tecnologia e pesquisa deveriam ser
utilizadas para a proteção ambiental (CARNEIRO, Beatriz
Scigliano, 2012. A construção do dispositivo meio ambiente.
Revista Ecopolítica, São Paulo, n. 4, set-dez, p 10)
Posteriormente, em 1980, a União Internacional para a Conservação da Natureza
e dos Recursos Naturais (IUCN) publicou a Estratégia de Conservação Mundial/ WCS
(Disponível em https://portals.iucn.org/library/sites/library/files/documents/WCS-004.pdf.
Acesso em 04/08/2018), que determinou um precursor do conceito de desenvolvimento
sustentável.
A Estratégia afirmava que a conservação da natureza não pode ser
alcançada sem o desenvolvimento para amenizar a pobreza e a miséria de centenas
de milhões de pessoas e ainda enfatizava que a interdependência entre
conservação e desenvolvimento depende do cuidado com a Terra. A menos que a
fertilidade e a produtividade do planeta estejam protegidas, o futuro da
https://nacoesunidas.org/acao/meio-ambiente/
https://portals.iucn.org/library/sites/library/files/documents/WCS-004.pdf
27
humanidade está em risco.
Em 1987, no Relatório Brundtland – Our Common Future, colocou o
conceito de “desenvolvimento sustentável” na agenda política:
O desenvolvimento que satisfaz as necessidades presentes, sem
comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas
próprias necessidades.
Na sua essência, o desenvolvimento sustentável é um processo de
mudança no qual a exploração dos recursos, o direcionamento dos
investimentos, a orientação do desenvolvimento tecnológico e a
mudança institucional estão em harmonia e reforçam o atual e
futuro potencial para satisfazer as aspirações e necessidades
humanas. (Disponível em
https://ambiente.files.wordpress.com/2011/03/ brundtland-
report-our-common-future.pdf, acesso em 04/08/2018)
CONFERÊNCIA DAS NAÇÕES UNIDAS - AGENDA 21 (RIO-92)
A partir da Rio-92 (Agenda 21), com base no Relatório Brundtland, a
expressão “economia verde” foi aceita oficialmente pela comunidade
internacional e popularizada no mundo. Possui como características principais, a
busca pela baixa emissão de carbono, eficiência no uso de recursos e pela
inclusão social.
Assim, passou a ser conceituada como “uma economia que resulta em
melhoria do bem-estar da humanidade e igualdade social, ao mesmo tempo em
que reduz os riscos ambientais e a escassez ecológica”
Depois da conferência, a expressão foi absorvida por governos, empresas
e pela sociedade civil, e empregada na formulação e execução tanto de políticas
públicas quanto de iniciativas privadas ligadas à responsabilidade
socioambiental.
Ainda na Conferência das Nações Unidas - Agenda 21 (Rio92), definiu-se
que “a Agenda 21 está voltada para os problemas prementes de hoje e tem o
objetivo, ainda, de preparar o mundo para os desafios do próximo século.
Reflete um consenso mundial e um compromisso político no nível mais alto no
que diz respeito a desenvolvimento e cooperação ambiental. O êxito de sua
execução é responsabilidade, antes de mais nada, dos Governos. Para
28
concretizá-la são cruciaisas estratégias, os planos, as políticas e os processos
nacionais.”
O documento da Agenda 21 apresenta 40 capítulos, divididos, por sua
vez, em 4 sessões:
Seção I: Dimensões Econômicas e Sociais (capítulo 2 a 8). Tratou de
como os problemas e soluções ambientais são interdependentes
daqueles da pobreza, saúde, comércio, dívida, consumo e
população.
Seção II: Conservação e gerenciamento de recursos para o
desenvolvimento (capítulos 9 a 22). Tratou da forma como os
recursos físicos, incluindo terra, mares, energia e lixo, precisam ser
gerenciados para assegurar o desenvolvimento sustentável.
Seção III: Fortalecimento do papel dos grupos principais (capítulos
23 a 32), inclusive os minoritários, no trabalho em direção ao
desenvolvimento sustentável.
Seção IV: Meios de implementação (capítulos 33 a 40), inclusive
financiamento e o papel das diversas atividades governamentais e
não-governamentais. (Disponível em http:
//www.mma.gov.br/responsabilidade-socioambiental/agenda-
21/documentos, acesso em 04/08/2018)
A Agenda 21 reafirmou, ainda, que o desenvolvimento sustentável deve
ser delimitado pela integração dos pilares ambiental, econômico e socio-político:
Ambiental: manutenção dos ecossistemas; manutenção da
capacidade ambiental natural; fontes de energia renováveis.
Econômico: exploração sustentável; nível ótimo de poluição;
sustentabilidade das relações.
Sócio – Político: direito das mulheres; direito das minorias; IDH.
(Disponível em http: //www.mma.gov.br/ responsabilidade-
socioambiental/ agenda-21/ documentos, acesso em 04/08/2018)
29
PROTOCOLO DE KYOTO
O Protocolo de Kyoto, por sua vez, é um tratado internacional
direcionado aos países desenvolvidos e que tem por objetivo fazer com que
assumam o compromisso de reduzir a emissão de gases agravantes do efeito
estufa, a fim de aliviar os impactos causados pelo aquecimento global. Foram,
então, realizadas discussões para estabelecer metas e criar formas de
desenvolvimento que não fossem prejudiciais ao meio-ambiente.
No tratado foi proposto que os países-membros, principalmente os mais
desenvolvidos, assumissem a obrigação de reduzir a emissão dos gases do efeito
estufa, diminuindo pelo menos 5,2% no período entre 2008 a 2012, em relação
aos níveis de 1990. Em 2012, porém, o protocolo teve sua validade prorrogada
até 2020.
As metas do Protocolo de Kyoto não foram iguais para todos os países
signatários: os países desenvolvidos deveriam assumir o compromisso de realizar
diversas ações no tocante a reforma dos setores de energia e transportes,
promoção do uso de fontes energéticas renováveis, proteção de florestas e
outros sumidouros de carbono. Por sua vez, os países em desenvolvimento
(elencados no Anexo I do Protocolo) não receberam metas obrigatórias, apenas
o dever de realizar ações sustentáveis por meio de projetos destacados pelo
Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL).
As metas estipuladas para os países desenvolvidos causaram uma série
de atritos, capitaneados principalmente pelos Estados Unidos da América, que,
em 2001, se recusou a ratificar o tratado, alegando injustiça na distribuição de
responsabilidades e risco no desenvolvimento da nação.
Das ações apresentadas para o cumprimento do tratado há três
Mecanismos de Flexibilização:
1. Implementação Conjunta (CI) - mecanismo que incentiva a
criação de projetos que reduzam a emissão dos gases estufa.
Quando dois ou mais países desenvolvidos criam projetos para
redução de gases podem fazer uma posterior comercialização;
2. Comércio de Emissões ou Comércio Internacional de
Emissões (CIE) - é um mecanismo em que os países desenvolvidos
que já reduziram a emissão de gases além de sua meta, podem
comercializar o excedente de suas emissões para países que não
atingiram a meta;
3. Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) -
mecanismo que auxilia na redução dos gases estufa. Ele consiste
30
na implementação de projetos para o desenvolvimento
sustentável que auxiliam na redução ou captura de gases
poluentes. Com isso, os países recebem um certificado chamado
'Reduções Certificadas de Emissões', emitidos pelo Conselho
Executivo do MDL e podendo ser comercializados no mercado
internacional.
Após o Protocolo de Kyoto, muitas Conferências da ONU foram realizadas
sob a égide dos mesmos princípios de desenvolvimento sustentável, incluindo: A
Segunda Conferência da ONU sobre Assentamentos humanos (Istambul, 1999);
a Sessão Especial da Assembleia Geral sobre Pequenos Estados Insulares em
Desenvolvimento (Nova York, 1999); a Cúpula do Milênio (Nova York, 2000) e
seus Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (cujo sétimo objetivo procura
“Garantir a sustentabilidade ambiental”).
CÚPULA DO MILÊNIO
Em setembro de 2000, a Cúpula do Milênio reuniu, em Nova Iorque, 189
países-membros das Nações Unidas se juntaram para refletir o propósito do
destino comum da humanidade, onde foi assinada uma Declaração sintetizando
uma séria de princípios e compromissos dos Estados em prol, dentre outros, do
desenvolvimento sustentável.
Em apertada síntese, foram traçados 8 objetivos para o ano de 2015:
1. Erradicar a extrema pobreza e a fome;
2. Atingir o ensino básico universal;
3. Promover a igualdade de gênero e a autonomia das mulheres;
4. Reduzir a mortalidade infantil;
5. Melhorar a saúde materna;
6. Combater o HIV/Aids, a malária e outras doenças;
7. Garantir a sustentabilidade ambiental;
8. Estabelecer uma parceria mundial para o desenvolvimento.
(Disponível em https://nacoesunidas.org/tema/odm/. Acesso
em 04 ago. 2018)
https://nacoesunidas.org/tema/odm/
31
CONFERÊNCIAS RIO+10 E RIO+20
A Rio+10, ou Cúpula Mundial sobre o Desenvolvimento Sustentável, foi
um evento organizado pela Organização das Nações Unidas (ONU) para discutir
sobre as questões ambientais, tendo ocorrido em Joanesburgo, África do Sul,
entre os dias 26 de agosto e 04 de setembro de 2002.
O objetivo da Rio+10 foi avaliar o progresso dos acordos estabelecidos na
Rio-92, a partir da Agenda 21. Porém, destacou-se por também incluir em suas
discussões os debates sobre problemas sociais, como a erradicação da pobreza
e o acesso da sociedade aos serviços de saneamento e à saúde.
Dez anos depois, desta vez novamente no Rio de Janeiro, foi realizada a
Rio+20, objetivando a renovação do compromisso político com o
desenvolvimento sustentável, através da avaliação do progresso e das lacunas
na implementação das decisões adotadas pelas principais cúpulas sobre o
assunto e do tratamento de temas novos e emergentes.
Ao final, foi produzido um documento intitulado “The Future We Want”,
onde restou traçado todos os princípios e compromissos necessários ao
atingimento do objetivo final em prol do desenvolvimento social e sustentável.
Esta Conferência teve dois temas principais: a economia verde no
contexto do desenvolvimento sustentável e da erradicação da pobreza; e a
estrutura institucional para o desenvolvimento sustentável.
Sob o tema “economia verde” no contexto do desenvolvimento
sustentável e da erradicação da pobreza, o desafio proposto à comunidade
internacional foi o de pensar um novo modelo de desenvolvimento que seja
ambientalmente responsável, socialmente justo e economicamente viável.
Por sua vez, a estrutura institucional para o desenvolvimento sustentável,
onde insere-se a discussão sobre a necessidade de fortalecimento do
multilateralismo como instrumento legítimo para solução dos problemas globais.
Deve buscar-se aumentar a coerência na atuação das instituições internacionais
relacionadas aos pilares social, ambiental e econômico do desenvolvimento.
32
OBJETIVOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL – AGENDA 2030
Em setembro de 2015, líderes mundiais reuniram-se na sede da
ONU, em Nova Iorque, e decidiram um plano de ação para erradicar a
pobreza, proteger o planetae garantir que as pessoas alcancem a paz e a
prosperidade: a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável:
Esta Agenda é um plano de ação para as pessoas, para o
planeta e para a prosperidade. Ela também busca fortalecer
a paz universal com mais liberdade. Reconhecemos que a
erradicação da pobreza em todas as suas formas e
dimensões, incluindo a pobreza extrema, é o maior desafio
global e um requisito indispensável para o desenvolvimento
sustentável (Disponível em
https://nacoesunidas.org/pos2015/agenda2030/. Acesso: em 04
ago. 2018)
Nesta agenda, foi estabelecido um conjunto de 17 Objetivos de
Desenvolvimento Sustentável (ODS), integrados e indivisíveis, que mesclam, de
forma equilibrada, as três dimensões do desenvolvimento sustentável: a
econômica, a social e a ambiental. Podem ser entendidos como uma lista de
tarefas a serem cumpridas pelos governos, sociedade civil, setor privado e todos
cidadãos na jornada coletiva para um 2030 sustentável. A saber:
Objetivo 1. Acabar com a pobreza em todas as suas
formas, em todos os lugares
Objetivo 2. Acabar com a fome, alcançar a segurança
alimentar e melhoria da nutrição e promover a agricultura
sustentável
Objetivo 3. Assegurar uma vida saudável e promover o
bem-estar para todos, em todas as idades
Objetivo 4. Assegurar a educação inclusiva e equitativa e
de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao
longo da vida para todos
Objetivo 5. Alcançar a igualdade de gênero e empoderar
todas as mulheres e meninas
https://nacoesunidas.org/pos2015/agenda2030/
33
Objetivo 6. Assegurar a disponibilidade e gestão
sustentável da água e saneamento para todos
Objetivo 7. Assegurar o acesso confiável, sustentável,
moderno e a preço acessível à energia para todos
Objetivo 8. Promover o crescimento econômico
sustentado, inclusivo e sustentável, emprego pleno e produtivo e
trabalho decente para todos
Objetivo 9. Construir infraestruturas resilientes, promover
a industrialização inclusiva e sustentável e fomentar a inovação
Objetivo 10. Reduzir a desigualdade dentro dos países e
entre eles
Objetivo 11. Tornar as cidades e os assentamentos
humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis
Objetivo 12. Assegurar padrões de produção e de
consumo sustentáveis Objetivo 13. Tomar medidas urgentes para
combater a mudança do clima e seus impactos
Objetivo 14. Conservação e uso sustentável dos oceanos,
dos mares e dos recursos marinhos para o desenvolvimento
sustentável
Objetivo 15. Proteger, recuperar e promover o uso
sustentável dos ecossistemas terrestres, gerir de forma sustentável
as florestas, combater a desertificação, deter e reverter a
degradação da terra e deter a perda de biodiversidade.
Objetivo 16. Promover sociedades pacíficas
e inclusiva para o desenvolvimento sustentável, proporcionar o
acesso à justiça para todos e construir instituições eficazes,
responsáveis e inclusivas em todos os níveis
Objetivo 17. Fortalecer os meios de implementação e
revitalizar a parceria global para o desenvolvimento sustentável
Como se vê, os 17 ODS deixam claro a necessidade de participação geral
da sociedade em prol da sustentabilidade:
O que estamos anunciando hoje – uma Agenda para a
ação global para os próximos quinze anos – é uma carta para as
pessoas e o planeta no século XXI. As crianças e as mulheres e
34
homens jovens são agentes fundamentais de mudança e
encontrarão nos novos Objetivos uma plataforma para canalizar as
suas capacidades infinitas pelo ativismo em prol da criação de um
mundo melhor. (Disponível em
https://nacoesunidas.org/pos2015/agenda2030/, §51. Acesso: em
04 ago. 2018)
Assim, não só os Estados-Membros das Nações Unidas, em nível de
governança internacional, mas passam a ser responsáveis e agentes do
desenvolvimento sustentável, também: (i) os próprios Governos – com ações de
comando e controle a partir de instrumentos econômicos; (ii) os Consumidores
– por meio do consumo consciente, com a recusa de produtos e serviços
incompatíveis com os Objetivos; e (iii) as Empresas – através da adoção de
medidas de auto-regulamentação, de programas e processos voltados à
melhoria da qualidade de vida dos seus empregados.
PAPEL DA SOCIEDADE NO PROCESSO DE DESENVOLVIMENTO
SUSTENTÁVEL
O desenvolvimento sustentável está inserido na Constituição de 1988,
mormente no capítulo sobre meio ambiente. Se o texto constitucional for
considerado como um todo, o art. 225 deve ser encarado como o principal
norteador do meio ambiente, uma vez que apresenta um complexo conjunto de
direitos, com a clara obrigação que Estado e a Sociedade têm na garantia de um
meio ambiente ecologicamente equilibrado, vez que se trata de um bem de uso
comum e que deve ser preservado e mantido para as presentes e futuras
gerações.
Além da busca pela preservação do meio ambiente, a Constituição
Federal definiu as competências de cada ente da federação. Sendo assim, União,
Estados, Municípios e Distrito Federal passaram a possuir competências
especificas para legislar sobre determinadas questões ligadas ao
desenvolvimento sustentável.
Diante dos dispositivos legais mencionados, pode-se chegar a conclusão
que cabe ao cidadão e a todas as esferas políticas de poder o dever de
implementar o desenvolvimento sustentável.
https://nacoesunidas.org/pos2015/agenda2030/
35
SUSTENTABILIDADE EMPRESARIAL COMO VETOR DE ORIGEM E
FOMENTO AO DESENVOLVIMENTO
A sustentabilidade empresarial pode ser entendida como um conjunto de
ações que uma empresa adota, de forma conjunta com práticas ambientais e
sociais, ou seja, desenvolvendo suas atividades de forma transparente com a
sociedade e preservando os recursos naturais. (LAPENDA, José Ticiano Beltrão
José Ticiano Beltrão Lapenda. Sustentabilidade empresarial: A sustentabilidade
empresarial alicerçada no tripé econômico, social e ambiental, levando a
empresa a obter maior competitividade.
Disponível em:
<http://www.administradores.com.br/artigos/negocios/sustentabilidade-
empresarial/104885/>
http://www.administradores.com.br/u/tlapenda/
36
RESPONSABILIDADE SOCIOAMBIENTAL E
SUSTENTABILIDADE
TEMA 02
PARTE 02 – DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL (CONTINUAÇÃO)
Link do GOOGLE drive.
37
SOCIEDADE DE RISCO COMO VETOR DE ORIGEM E FOMENTO DE
SUSTENTABILIDADE NA ATIVIDADE EMPRESARIAL
O termo “Sociedade de Risco” foi construído pelo sociólogo alemão Ulrich
Beck, em seu livro “Risikogesellschaft” de 1986 – sendo publicado no Brasil mais
de vinte anos depois com o título “Sociedade de Risco: rumo a uma outra
modernidade”.
Beck faz, em seu livro, uma análise da sociedade contemporânea,
apontando suas transformações e seus avanços tecnológicos que agora norteiam
uma nova forma de organização social; uma sociedade em que os riscos são
democráticos. Antes de abordar a sociedade de risco, imperioso se faz distinguir
os conceitos de perigo e de risco na denominada sociologia do risco.
Perigo advém da natureza. De Plácido e Silva aponta que perigo é “toda
eventualidade, que se receia ou que se teme, da qual possa resultar um mal ou dano, à
coisa ou à pessoa, ameaçando-a em sua existência.” (DE PLÁCIDO E SILVA. Vocabulário
jurídico. Rio de Janeiro: Forense, 2003. p. 1030.
Risco advém da decisão humana; é inerente a algo que se decide enfrentar; uma
probabilidade. Beck assinala que os riscos “são um produto histórico, a imagem
especular de ações e omissões humanas, expressão de forças produtivas altamente
desenvolvidas”. (BECK, Ulrich. Sociedade de Risco: rumo a uma outra modernidade. São
Paulo: 34, 2011. p. 275)
Aponta Beck (2011) que o desenvolvimento do sistema fabril, aflorado
nos séculos XVIII ao XIX, caracterizou-se por uma complexa divisão do trabalho,
rotina das tarefas, acumulação de riquezas, desigualdade social e agravamento
da miséria, sobretudopelo aumento da população ocasionado a escassez de
alimentos. Nesse sentido Michel Beaud explana:
Nesses anos de 1790-1815, o que se manifesta nitidamente aos
olhos de todos é a Revolução Francesa, são as guerras que afligem
a Europa. Menos espetacular, uma outra revolução foi iniciada na
Inglaterra. Através dela é introduzida e ampliada a lógica capitalista
de produção: exploração de um número crescente de
trabalhadores e produção de uma massa sempre maior de
mercadorias; acumulação vertiginosa de riquezas, num polo,
ampliação e agravamento da miséria, no outro. Através do
movimento de industrialização do século XIX, esta lógica vai impor
com uma força cada vez maior a setores cada vez mais amplos da
38
sociedade (BEAUD, Michel. História do capitalismo. 4. ed. São
Paulo: Brasiliense, 2004. p. 123-124)
A partir do século XX, após a Segunda Guerra Mundial, algumas empresas
começaram a exportar meios de produção por causa da alta concorrência e do
crescimento da indústria. A modernização, amparada no sistema bancário, nas
grandes corporações financeiras e no mercado globalizado, caracterizava-se por
monopólios e oligopólios comerciais; a expansão das novas tecnologias e fontes
de energia; urbanização acelerada e aumento do mercado consumidor; bem
como, pela fusão entre capital bancário e capital industrial.
Com a modernidade tardia, inúmeros problemas emergiram, através dos
riscos advindos da globalização, das facilidades de o agente poder interagir,
relacionar-se e praticar negócios com as pessoas de todo o mundo.
Sobre esse tema, Ulrich Beck expõe:
Na modernidade tardia, a produção social de riqueza é
acompanhada sistematicamente pela produção social de riscos.
Consequentemente, aos problemas e conflitos distributivos da
sociedade da escassez sobrepõem-se os problemas e conflitos
surgidos a partir da produção, definição e distribuição de riscos
científico-tecnologicamente produzidos. (BECK, Ulrich. Sociedade
de Risco: rumo a uma outra modernidade. São Paulo: 34, 2011. p.
23.)
Desta forma, com o passar dos séculos, sobremaneira no período
compreendido entre os séculos XIX ao XXI, a modernidade passou de riscos pelos
quais se podia controlar e prever para uma modernização reflexiva, com riscos
que não se podem controlar e tampouco prever. “Na reflexividade dos processos
de modernização, as forças produtivas perderam sua inocência.” (BEAUD,
Michel. História do capitalismo. 4. ed. São Paulo: Brasiliense, 2004. p. 15.)
Beck assim explana:
Os riscos e ameaças atuais diferenciam-se, portanto, de seus
equivalentes medievais, com frequências semelhantes por fora,
fundamentalmente por conta da globalidade de seu alcance (ser
humano, fauna, flora) e de suas causas modernas. São riscos da
modernização. São um produto de série e do maquinário industrial
do progresso, sendo sistematicamente agravados com seu
39
desenvolvimento ulterior. (BECK, Ulrich. Sociedade de Risco: rumo
a uma outra modernidade. São Paulo: 34, 2011. p. 26.
Vivemos uma nova era. Era em que tradições e valores estão sendo
decompostos pelo desenvolvimento tecnológico impulsionado pela
globalização desenfreada. Beck assim assevera:
A sociedade de risco também é, nesse sentido, dada a
possibilidade, uma sociedade autocrítica. Nela, são sempre
coproduzidos pontos de referência e premissas da crítica sob a
forma de riscos e ameaças. A crítica do risco não é uma crítica
normativa dos valores. Os riscos surgem justamente quando
tradições e, consequentemente, valores são decompostos. A base
da crítica encontra-se menos nas tradições do passado e mais nas
ameaças do futuro. (idem)
O homem contemporâneo, diante do elevado aumento dos riscos, tem
que ser quase que “infalível”. Dessa forma, se faz presente a busca por
conhecimento para garantir novamente a segurança do sujeito em suas relações.
Nesse sentido, aponta Ulrich Beck:
Precisamos, portanto, investigar se os avanços práticos
compreendem um “gigantismo do risco” que priva o homem de sua
humanidade, condenando-o, daqui em diante e por toda a
eternidade, à infalibilidade. O avanço científico-tecnológico
começa a entrar cada vez mais num flagrante e nova contradição:
enquanto seus fundamentos cognitivos são examinados no
autoquestionamento das ciências, o avanço tecnológico foi
imunizado contra a dúvida. Justamente com a ampliação dos riscos
e das pressões por ação, acabam sendo renovadas pretensões
absolutistas de conhecimento, de infalibilidade e de segurança que
há muito já se revelaram intoleráveis. (BECK, Ulrich. Sociedade de
Risco: rumo a uma outra modernidade. São Paulo: 34, 2011. p. 269)
Dessa forma, com as revoluções tecnológicas e industriais que
alavancaram a globalização, bem como na escolha do capitalismo como modelo
de produção por grande parte das nações mundiais, o desenvolvimento como
um todo, de forma ponderada, de forma sustentável, surge como um desafio em
relação à sobrevivência das gerações futuras. Nesse cenário, a sociedade de risco
dá ensejo à “sustentabilidade empresarial”, na perspectiva ambiental.
Antes de abordar a sustentabilidade empresarial em si, imperioso de faz
40
verificar a origem do termo “sustentabilidade”, até chegar-se à “sustentabilidade
empresarial”.
Tem-se pelo termo “sustentabilidade” a busca de suprir as necessidades
do presente sem afetar as gerações futuras. Esse conceito foi extraído, como já
referenciado anteriormente, do Relatório Brundtland, no ano de 1987,
elaborado pela Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento.
Assim Fábio Y.C. Ueno expõe:
[...] movimento em prol do desenvolvimento sustentável
propriamente dito com o “Relatório Brundtland” (BRUNDTLAND,
1987) ou, mais propriamente, o relatório intitulado “Nosso Futuro
Comum”, produzido pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente
e Desenvolvimento, liderada pela médica e política Gro Harlem
Brundtland.
O relatório, publicado em 1987, traz considerações importantes
sobre a utilização exacerbada dos recursos naturais sem respeitar
a capacidade de ciclagem dos ecossistemas. É também desse
relatório que sai a definição mais difundida de desenvolvimento
sustentável, segundo a qual ele é o desenvolvimento que supre as
necessidades do presente, sem comprometer a capacidade das
futuras gerações de suprir as suas próprias necessidades. (UENO,
Fábio Y. C. Ética e sustentabilidade. EAD: Educação a distância.
Disponível
em:<http://disciplinas.nucleoead.com.br/pdf/Livro_Etica_e_Suste
ntabilidade.pdf>
Na mesma oportunidade, Ueno aponta que o termo “Pilares da
Sustentabilidade” é a tradução do termo “Triple Bottom Line”, conceito criado
por John Elkington em 1995 para relacionar as três principais frentes de ação
da sustentabilidade: a econômica, a social e a ambiental.
Assim, no mesmo sentido, Ignacy Sachs (apud ZAMBON; RICCO) aponta
que uma sociedade é sustentável, “ao atender, simultaneamente aos critérios
de relevância social, prudência ecológica e viabilidade econômica, os três
pilares do desenvolvimento sustentável”. (ZAMBON, Bruno Pagotto; RICCO,
Adriana Sartório. Sustentabilidade empresarial: uma oportunidade para novos
negócios.
Disponível em:
http://disciplinas.nucleoead.com.br/pdf/Livro_Etica_e_Sustentabilidade.pdf
http://disciplinas.nucleoead.com.br/pdf/Livro_Etica_e_Sustentabilidade.pdf
41
http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:ls67xPf6mnYJ:xa.yimg.com/
kq/groups/21939088/1233569114/name/TEXTO%2B05.pdf+&cd=1&hl=pt-
BR&ct=clnk&gl=br>.
A sustentabilidade social baseia-se em um processo de melhoria da
qualidade de vida da sociedade como um todo, reduzindo a desigualdade social
através do nivelamento do padrão de renda, moradia e alimentação, acesso à
educação, dentre outros. A sustentabilidade ambiental estimula as pessoas a
analisarem o impacto de suas atividades sobre o meio ambiente,bem como na
forma de utilização de recursos naturais. Tem na sociologia do risco, fator de
origem e fomento. A econômica aborda a economia formal, bem como as
atividades informais que ordenam serviços para os indivíduos e grupos e
aumentam, desta forma, a renda e o padrão de vida dos indivíduos.
Utilizando-se desses três pilares – social, ambiental e econômico -, para o
mundo corporativo, verifica-se que conciliar preservação ambiental com
progresso econômico e isonomia social pode engendrar lucro e reputação para
a empresa, ajudando também no crescimento e perpetuidade dos negócios.
Dessa forma, tem-se que a sustentabilidade empresarial consiste na
procura da sequência no mercado a partir da viabilidade econômica da empresa,
de forma concomitante com o meio ambiente e a sociedade. Nas palavras de Lira
Luz Lazaro Benites e Edison Fernandes Polo:
O termo mais usado para descrever o papel das empresas com o
desenvolvimento sustentável é “sustentabilidade empresarial”
(BM&F BOVESPA, 2010). O princípio da sustentabilidade nas
empresas, como observado por Porter e Kramer (2006), aparece
frequentemente invocando o triple bottom line, que consiste na
busca da continuidade no mercado e no crescimento da
organização a partir de sua viabilidade econômica, além da
coexistência harmônica com o meio ambiente e sociedade. A
sustentabilidade se converte em um princípio fundamental da
gestão inteligente, que será difícil de ser ignorado. ALMEIDA, F. O
bom negócio da sustentabilidade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,
2002.
Assim, visualiza-se que a admissão de práticas empresariais de forma
concomitante com práticas sociais e ambientais, dá ensejo à sustentabilidade
empresarial, já que a empresa passa a não se importar somente com os seus clientes,
mas sobretudo, em ter uma relação transparente com a sociedade por meio da
42
preservação de recursos naturais, culturais, bem como diminuindo as desigualdades
sociais. Nas palavras de José Ticiano Beltrão Lapenda:
A sustentabilidade empresarial vem sendo ampliada nos últimos
anos a partir da incorporação de práticas sociais e ambientais,
visando atender as necessidades da sociedade. A sustentabilidade
não visa, tão somente, a formação de uma relação do
empreendimento com os clientes, visando o estabelecimento de
diálogos e uma relação ética e transparente com esse público.
Busca, sobretudo, a incorporação das práticas corretas de
sustentabilidade para a valorização da imagem institucional e da
marca. Objetiva, também, além a maximização da riqueza dos
acionistas, a preservação de recursos ambientais e culturais,
respeitando as diversidades, buscando a redução da desigualdade
social. A sustentabilidade empresarial tem como seus principais
resultados a maior lealdade do consumidor, a maior capacidade de
recrutar e manter talentos, a flexibilidade, a capacidade de
adaptação e, por consequente, a longevidade do
empreendimento. (LAPENDA, José Ticiano Beltrão).
Sustentabilidade empresarial: A sustentabilidade empresarial
alicerçada no tripé econômico, social e ambiental, levando a
empresa a obter maior competitividade.. Disponível em: <http:
//www.administradores.com.br/
artigos/negocios/sustentabilidade-empresarial/104885/>. Acesso
em: 16/07/2018.
A sustentabilidade empresarial passou, portanto, de uma meta de toda
empresa, para uma obrigação, um princípio norteador de gestão eficaz e em
consonância com o mundo moderno.
O desenvolvimento global deve ser pensado, antes de tudo, de maneira
local, pela sociedade que dia a dia usufrui dos recursos naturais e humanos
existentes no meio em que vivem. A região não pode ser vista apenas como um
fato geográfico, mas como um ator social, elemento vivo, dentro de um processo
planejado e sustentável.
A solução de problemas visando um bem-estar comum é fundamental
neste processo, uma vez que todos usufruem do mesmo ambiente, e sofrem, em
condições similares, com a degradação deste, seja no aspecto ambiental, seja no
aspecto político e humano.
A análise do desenvolvimento sustentável, portanto, deve ser feita sob
43
um enfoque sistêmico, interdependente em suas diversas dimensões, e
complexo em sua dinâmica. Uma base analítica contendo tais características é
extremamente complexa e, muitas vezes, exige pesquisa das realidades
peculiares de cada região, sem olvidar do aspecto global que atinge cada vez mais
os processos econômicos existentes.
Na busca por desenvolvimento, a redução de disparidades e a busca pelo
respeito à sustentabilidade são os fatores decisivos a se permitir um constante e
regular crescimento social em todos os aspectos benéficos que se espera.
44
RESPONSABILIDADE SOCIOAMBIENTAL E
SUSTENTABILIDADE
TEMA 03
PARTE 01 – EVOLUÇÃO DA GESTÃO SOCIAL E AMBIENTAL E
COMPROMETIMENTO E POLÍTICA AMBIENTAL
Link do GOOGLE drive.
45
O QUE É RESPONSABILIDADE SOCIAL?
O objetivo deste capítulo é fornecer uma base para a compreensão dos
significados e das implicações da responsabilidade social. O contexto social em
que as decisões e ações empresariais e de gestão ocorrem é dinâmico e
complexo. Assim, para compreender o significado da responsabilidade social
deve-se levar em conta que este significado muda com o tempo e as
circunstâncias.
O termo "responsabilidade social" encerra sempre a ideia de prestação
de contas: alguém deve justificar a própria atuação perante outrem. Durante
muito tempo, este foi entendido, em uma visão tradicional, como sendo a
obrigação do administrador de prestar contas dos bens recebidos por ele. Ou
seja, economicamente, a empresa é vista como uma entidade instituída pelos
investidores e acionistas, com objetivo único de gerar lucros.
Entretanto, tal perspectiva não se aplica no mundo contemporâneo. Já se
sabe que a empresa não se resume exclusivamente no capital, e que sem os
recursos naturais (matéria-prima) e as pessoas (conhecimento e mão-de-obra),
ela não gera riquezas, não satisfaz às necessidades humanas, não proporciona o
progresso e não melhora a qualidade de vida. Por isso, afirma-se que a empresa
está inserida em um ambiente social. Relaciona-se com as demais instituições e
com diversos públicos.
Assim sendo, Richard Daft (1999, p.88) define a responsabilidade social
como sendo "(...) a obrigação da administração de tomar decisões e ações que
irão contribuir para o bem-estar e os interesses da sociedade e da organização".
Oded Grajew (2001), presidente do Instituto Ethos, uma das principais
instituições responsáveis pela difusão do conceito de responsabilidade social na
sociedade brasileira, define este conceito como:
"(...) a atitude ética da empresa em todas as suas atividades. Diz respeito às
interações da empresa com funcionários, fornecedores, clientes, acionistas,
governo, concorrentes, meio ambiente e comunidade. Os preceitos da
responsabilidade social podem balizar, inclusive, todas as atividades políticas
empresariais." (GRAJEW, Instituto Ethos, 2001).
Atualmente, a intervenção dos diversos atores sociais exige das
organizações uma nova postura, calcada em valores éticos que promovam o
desenvolvimento sustentado da sociedade como um todo. Estas ideias são
reforçadas pelo Instituto Ethos1 que ao definir a responsabilidade social afirma
que:
46
"(...) a questão da responsabilidade social vai, portanto, além da postura legal
da empresa, da prática filantrópica ou do apoio à comunidade. Significa
mudança de atitude, numa perspectiva de gestão empresarial com foco na
qualidade das relações e na geração de valor para todos".
Para finalizar, é importante ressaltar que a responsabilidade social é,
ainda, um processo em crescimento em vários países do mundo e,
principalmente, no Brasil.
A questão da participação das empresas privadas na solução de
necessidades públicas está nas pautas das discussões atuais. Emboraalguns
defendam que a responsabilidade das empresas privadas na área pública limita-
se ao pagamento de impostos e ao cumprimento das leis, crescem os
argumentos de que seu papel não pode ficar restrito a isso, até por uma questão
de sobrevivência das próprias empresas.
Outro argumento é o fato de que adotar posturas éticas e compromissos
sociais com a comunidade pode ser um diferencial competitivo e um indicador
de rentabilidade e sustentabilidade no longo prazo. A ideia é de que os
consumidores passam a valorizar comportamentos nesse sentido e a preferir
produtos de empresas identificadas como éticas, "cidadãs" ou "solidárias".
Para Idalberto Chiavenato (1999, p.447), "(...) entre uma empresa que
assume uma postura de integração social e contribuição para a sociedade e outra
voltada para si própria e ignorando o resto, a tendência do consumidor é ficar
com a primeira."
Além disso, argumenta-se que ao atuar de forma ética e preocupada com
seu entorno, a empresa desenvolve valores e práticas com efeitos positivos
sobre sua cadeia produtiva e seus colaboradores, gerando melhores resultados.
A responsabilidade social empresarial tem interessado os altos
executivos das companhias. Em 2002, foi divulgado no Fórum Econômico
Mundial realizado em Nova York, uma pesquisa de opinião, feita pela empresa
de consultoria Price waterhouse Coopers, que ouviu 1.161 executivos-chefes de
corporações na Europa, Ásia e Américas. Esta pesquisa mostrou a importância
crescente da responsabilidade social entre o empresariado:
"(...) 68% concordam que a responsabilidade social das empresas é vital para a
lucratividade de todas elas (...) 60% dos executivos não acreditam que a
responsabilidade social corporativa deva assumir uma prioridade menor no
atual clima econômico." (PASSOS, 2002, p.5)
47
No Brasil, especialmente nos últimos cinco anos, a participação de
agentes privados em questões públicas tem sido mais amplamente discutida e
várias empresas já começaram a encontrar formas de disseminar a cidadania
empresarial, ou seja, a atuação da empresa com responsabilidade social.
Entidades como o Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (GIFE) e o Instituto
Ethos de Empresas e Responsabilidade Social, criados em 1995 e 1998,
respectivamente, reúnem empresas preocupadas em desenvolver ações
voltadas para a comunidade e praticar seus negócios de maneira ética e
socialmente responsável. O assunto vem ganhando significativo destaque na
mídia nacional, assim como proliferam debates, seminários, prêmios e
publicações relacionados a ele.
ABORDAGEM HISTÓRICA DA RESPONSABILIDADE SOCIAL
No Mundo:
Em 1899, Andrew Carnegie, fundador do conglomerado U.S Steel
Corporation, publicou um livro entitulado O Evangelho da Riqueza, que
estabeleceu a abordagem clássica da responsabilidade social das grandes
empresas. A visão de Carnegie baseava-se nos princípios da caridade e da
custódia. Ambos eram francamente paternalistas: o princípio da caridade exigia
que os membros mais afortunados da sociedade ajudassem os menos
afortunados, e o princípio da custódia, derivado da Bíblia, exigia que as empresas
e os ricos se enxergassem como guardiães, ou zeladores, mantendo suas
propriedades em custódia, para benefício da sociedade como um todo.
Nas décadas de 1950 e 1960, os princípios da caridade e da custódia eram
amplamente aceitos nas empresas americanas, à medida que mais e mais
companhias passaram a admitir que “o poder traz responsabilidade”. Até mesmo
companhias que não subscreviam esses princípios percebiam que, se não
aceitassem as responsabilidades sociais por sua livre vontade, seriam forçadas a
aceitá-las por imposição do governo. Muitas acreditavam que reconhecer as
responsabilidades sociais era questão de “auto-interesse esclarecido” (STONER
E FREEMAN, 1985, p.72).
Porém, um conceito de responsabilidade social proposto por H. R. Bowen
em 1953 inspirou várias idéias novas sobre o tema. Bowen insistiu que os
48
administradores de empresas tinham o dever moral de “implementar as
políticas, tomar as decisões ou seguir as linhas de ação que sejam desejáveis em
torno dos objetivos e dos valores de nossa sociedade” (BOWEN citado em
STONER E FREEMAN, 1985, p.73). Este conceito, que via as empresas como
reflexo dos “objetivos e valores” sociais estava em contraposição com os
princípios da caridade e da custódia, que eram especialmente atraentes para os
que tinham um interesse oculto em preservar o sistema de livre iniciativa com
garantia de liberdade em relação a outras formas de pressão social.
Mas na evolução da ideia de responsabilidade social viveu-se o momento
onde estudiosos acreditavam que cabia ao governo, igrejas, sindicatos e
organizações não- governamentais o suprimento das necessidades comunitárias
através de ações sociais organizadas e não às corporações, que na verdade
precisavam satisfazer seus acionistas. Um dos principais proponentes desta ideia
é Milton Friedman. De acordo com Friedman:
"Há uma, e apenas uma, responsabilidade social das empresas: usar seus
recursos e sua energia em atividades destinadas a aumentar seus lucros,
contanto que obedeçam as regras do jogo (...) [e] participem de uma
competição aberta e livre, sem enganos e fraudes (...)" " (FRIEDMAN citado em
STONER e FREEMAN, 1985, p.73).
As décadas de 1970 e 1980 chegaram com a preocupação de como e
quando a empresa deveria responder sobre suas obrigações sociais. Nestas
décadas, a ética empresarial começou a desenvolver-se e consolidou-se como
campo de estudo. Filósofos entraram em cena, aplicando teoria ética e análise
filosófica, com o objetivo de estruturar a disciplina ética empresarial. Nos EUA, o
escândalo Watergate, no governo Nixon, focalizou o interesse público na
importância da ética no governo. Conferências foram convocadas para discutir
responsabilidades sociais e questões morais e éticas no mundo dos negócios.
Surgiram centros com a missão de estudar estes assuntos. Seminários
interdisciplinares reuniram professores de administração de empresas, teólogos,
filósofos e empresários.
A doutrina se difundiu pelos países europeus, tanto nos meios
empresariais, quanto nos acadêmicos. Na Alemanha percebeu-se o rápido
desenvolvimento do tema, com cerca de 200 das maiores empresas desse país,
integrando os balanços financeiros aos objetivos sociais. Porém, a França é quem
deu o passo oficial na formalização do assunto. Foi o primeiro país a "obrigar as
49
empresas a fazerem balanços periódicos de seu desempenho social no tocante à
mão-de-obra e às condições de trabalho”.
Com uma maior participação de autores na questão da responsabilidade
social, o final da década de 1990 apresenta a discussão sobre as questões éticas
e morais nas empresas, o que contribui de modo significativo para a definição do
papel das organizações. Em Janeiro de 1999, o Secretário Geral da Organização
das Nações Unidas (ONU), Sr. Kofi Annan, lançou o Compacto Global solicitando
aos dirigentes do mundo dos negócios que aplique um conjunto de nove
princípios sobre os direitos humanos, trabalhistas e questões ambientais.
No mês de Junho de 2000, os Ministros da Organização para Cooperação
Econômica e Desenvolvimento (OCED) aprovaram uma versão revisada das
Diretrizes para Empresas Multinacionais. Esse conjunto de instruções, adotadas
em 1976, estabeleceu princípios voluntários e padrões de conduta de
responsabilidade corporativa em áreas como meio ambiente, condições de
trabalho e direitos humanos. As Diretrizes revisadas cobrem as atividades de
empresas multinacionais operando em ou a partir dos 29 países-membros da
OCED.
Em Julho de 2001, a Comissão das Comunidades Européias (2001, p.3-4),
reunida na cidade de Bruxelas, na Bélgica, apresentou à comunidade
internacional um Livro Verde sobre responsabilidade social com o seguinte título:
"Promoverum quadro europeu para a responsabilidade social das empresas".
Esta publicação visa lançar um amplo debate quanto às formas de promoção pela
União Européia da responsabilidade social das empresas tanto a nível europeu
como internacional.
De 31 de janeiro a 5 de fevereiro de 2002, aconteceu o 2º Fórum Social
Mundial (FSM) em Porto Alegre (RS). Durante esses seis dias, movimentos
sociais, Organizações Não-Governamentais (ONG's) e cidadãos de todas as
partes do planeta se reuniram para debater problemas, soluções e adotar
estratégias comuns. Da globalização e suas consequências, passando pela
superação da pobreza, a proteção do meio ambiente, os direitos humanos, o
acesso à saúde e à educação, a questão cultural e a responsabilidade social - "o
Fórum Social Mundial discutiu de tudo e com todos" (Lisboa, 2002).
50
No Brasil:
No Brasil, a responsabilidade social começa a ser discutida ainda nos anos
60 com a criação da Associação dos Dirigentes Cristãos de Empresas (ADCE). Um
dos princípios desta associação baseia-se na aceitação por seus membros de que
a empresa, além de produzir bens e serviços, possui a função social que se realiza
em nome dos trabalhadores e do bem-estar da comunidade.
Embora a idéia já motivasse discussões, apenas em 1977 mereceu
destaque a ponto de ser tema central do 2º Encontro Nacional de Dirigentes de
Empresas. Em 1984, ocorre a publicação do primeiro balanço social 2 de uma
empresa brasileira - a Nitrofértil.
No Brasil, o movimento de valorização da responsabilidade social
empresarial ganhou forte impulso na década de 90, através da ação de entidades
não governamentais, institutos de pesquisa e empresas sensibilizadas para a
questão. O trabalho do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas
(IBASE) na promoção do balanço social é uma de suas expressões e tem logrado
progressiva repercussão. Muitas vezes a história do IBASE se confunde com a
trajetória pessoal do sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, um de seus
fundadores e principal articulador.
Em 1992, o Banco do Estado de São Paulo (Banespa) publica um relatório
completo divulgando todas as suas ações sociais; e a partir de 1993, várias
empresas de diferentes setores passam a divulgar o balanço social anualmente.
Ainda no ano de 1993, Betinho e o IBASE lançam a Campanha Nacional da Ação
da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida com o apoio do Pensamento
Nacional das Bases Empresarias (PNBE). Este é o marco da aproximação dos
empresários com as ações sociais.
No ano de 1995, foi criado o GIFE, a primeira entidade que genuinamente
se preocupou com o tema da filantropia, cidadania e responsabilidade
empresarial, adotando, por assim dizer, o termo cidadania empresarial às
atividades que as corporações realizassem com vista à melhoria e transformação
da sociedade.
Em 1997, Betinho lança uma campanha nacional a favor da divulgação do
balanço social e com o apoio de lideranças empresarias, da Comissão de Valores
Mobiliários (CVM), do jornal Gazeta Mercantil, de empresas (Banco do Brasil,
51
Usiminas, entre outras); e de suas instituições representativas (FIRJAN,
ABRASCA, ABAMEC, FEBRABAN, etc.), a campanha decolou e suscitou uma série
de debates através da mídia e em seminários, encontros e simpósios.
Em novembro de 1997, novamente em parceria com a Gazeta Mercantil,
o IBASE lança o Selo do Balanço Social para estimular a participação das
companhias. O selo, num primeiro momento, é oferecido a todas as empresas
que divulgarem o balanço social no modelo proposto pelo IBASE.
No ano de 1998, Oded Grajew fundou o Instituto Ethos de Empresas e
Responsabilidade Social. O Instituto serve como ponte entre os empresários e as
causas sociais. Seu objetivo é disseminar a prática social através de publicações,
experiências vivenciadas, programas e eventos para seus associados e para os
interessados em geral, contribuindo para um desenvolvimento social,
econômico e ambientalmente sustentável e incentivando a formação de uma
nova cultura empresarial baseada na ética, princípios e valores.
Em 1999, a adesão ao movimento social se refletiu com 68 empresas
publicando seu balanço social no Brasil. Entre os anos de 1999 e 2001, o Instituto
de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA)3 realizou a Pesquisa Ação Social das
Empresas nas cinco regiões do Brasil, visando conhecer as ações sociais do setor
empresarial nacional.
No ano de 2000, para fortalecer o movimento pela responsabilidade
social no Brasil,
o Instituto Ethos concebeu os Indicadores Ethos como um sistema de
avaliação do estágio em que se encontram as práticas de responsabilidade social
nas empresas. Além disso, o Ethos vem promovendo, anualmente, a realização
da Conferência Nacional de Empresas e Responsabilidade Social no mês de junho
em São Paulo. A primeira, realizada em 2000, foi prestigiada por mais de 400
pessoas. Na Conferência de 2001, estiveram presentes 628 pessoas,
representando empresas; fundações; ONGs, instituições governamentais,
centros de pesquisas e universidades. A Conferência Nacional 2002 terá como
tema central a Gestão e o Impacto Social e pretende aprofundar como a gestão
socialmente responsável é incorporada nas diversas áreas e atividades das
empresas e quais os impactos dessas ações na sociedade (INSTITUTO ETHOS,
2002).
52
Os quatro tipos de responsabilidade social da empresa
De acordo com o modelo piramidal de Archie Carrol (citado em DAFT,
1999), a responsabilidade social da empresa pode ser subdividida em quatro
tipos: econômico, legal, ético e discricionário (ou filantrópico). A Figura 2
apresenta este modelo, onde "(...) as responsabilidades são ordenadas da base
para o topo em função de sua magnitude relativa e da freqüência dentro da qual
os gerentes lidam com cada aspecto" (DAFT, 1999, p.90). A seguir são
apresentados os conceitos referentes a cada uma destas responsabilidades:
Figura 2 - Os quatro tipos de responsabilidade social Total Responsabilidade Social da
Organização
Fonte: Archie B. Carroll
♦ Responsabilidade econômica: localiza-se na base da pirâmide, pois é o
principal tipo de responsabilidade social encontrada nas empresas,
sendo os lucros a maior razão pela qual as empresas existem. Ter
responsabilidade econômica significa produzir bens e serviços de que a
sociedade necessita, e quer, a um preço que possa garantir a
continuação das atividades da empresa, de forma a satisfazer suas
obrigações com os investidores e maximizar os lucros para seus
proprietários e acionistas. Segundo Friedman (citado em DAFT, 1999,
p.90), esta abordagem significa que o ganho econômico é a única
responsabilidade social.
♦ Responsabilidade legal: define o que a sociedade considera importante
com respeito ao comportamento adequado da empresa. Ou seja,
espera-se das empresas que atendam às metas econômicas dentro da
estrutura legal e das exigências legais, que são impostas pelos conselhos
locais das cidades, assembléias legislativas estaduais e agências de
53
regulamentação do governo federal. No mínimo, espera-se que as
empresas sejam responsáveis pela observância das leis municipais,
estaduais e federais, por parte dos seus funcionários (DAFT, 1999, p.90-
91).
♦ Responsabilidade ética: inclui comportamentos ou atividades que a
sociedade espera das empresas, mas que não são necessariamente
codificados na lei e podem não servir aos interesses econômicos diretos
da empresa (DAFT, 1999, p.91). O comportamento antiético, que ocorre
quando decisões permitem a um indivíduo ou empresa obter ganhos a
custa da sociedade, deve ser eliminado. Para serem éticos, os
tomadores de decisão das empresas devem agir com eqüidade, justiça
e imparcialidade, além de respeitar os direitos individuais.
♦ Responsabilidade discricionária ou filantrópica: é puramente voluntária
e orientada pelo desejoda empresa em fazer uma contribuição social
não imposta pela economia, pela lei ou pela ética (DAFT, 1999, p.91). A
atividade discricionária inclui: fazer doações a obras beneficentes;
contribuir financeiramente para projetos comunitários ou para
instituições de caridade que não oferecem retornos para a empresa e
nem mesmo são esperados.
AÇÕES DAS EMPRESAS EM RELAÇÃO AS DEMANDAS SOCIAIS
Nas últimas décadas as empresas passaram a se preocupar mais com suas
obrigações sociais. Proposições de que as empresas deveriam destinar parte de
seus recursos econômicos para ações que beneficiassem a sociedade nem
sempre foram bem recebidas. A literatura especializada diverge não apenas
quanto ao tipo de ação, mas também quanto a ser ou não legítimo empregar
quaisquer recursos para ações sociais. A ideia de responsabilidade social supõe
que a corporação tenha, não apenas obrigações legais e econômicas, mas
também certas responsabilidades para com a sociedade, as quais se estendem
além dessas obrigações.
Montana e Charnov (1998) e Donnelly, Gibson e Ivancevich (2000)
destacam que da diferença entre a ausência de responsabilidade social, exceto
da exigida por lei, e a adoção de uma postura socialmente responsável mais
54
ampla, surgem três níveis diferentes de abordagem da responsabilidade social
a serem adotadas como ações das empresas em relação as suas demandas
sociais. Estes três níveis de abordagem podem ser apresentados como se ilustra
na Figura 3:
Figura 3 - As três abordagens da responsabilidade social
Fonte: Baseado em MONTANA e CHARNOV, p.36 (1998) e em DONNELLY, GIBSON e
IVANCEVICH, p.86-89 (2000).
No círculo menor da Figura 2, situa-se a obrigação social: comportamento
de negócio que reflete a responsabilidade econômica e legal da empresa. O
círculo do meio, representa a reação social: comportamento exigido por grupos
que têm uma participação direta nas ações da organização. No círculo maior, a
sensibilidade social tem um comportamento antecipador, pró-ativo e
preventivo. Na prática, uma empresa pode escolher qualquer posição dentro dos
limites da Figura Ser socialmente reativo também implica a aceitação da
obrigação social por parte da empresa. De igual modo, ser socialmente sensível
requer ambos os comportamentos, o da obrigação social e o da reação social.
Num certo sentido, os três significados referem-se a vários pontos de partida
de expectativas e de desempenho econômicos normais nas empresas de
negócios.
♦ Obrigação Social: é quando uma empresa tem comportamento
socialmente responsável, procurando o lucro dentro das restrições
legais impostas pela sociedade. Um gestor pode afirmar, segundo
este ponto de vista, que cumpriu suas obrigações para com a
sociedade ao criar bens e serviços em troca de lucros, dentro dos
limites da lei. Esta perspectiva está associada ao economista Milton
Friedman e seus seguidores (DONNELY, GIBSON E IVANCEVICH,
55
2000, p.86) que afirmam que uma empresa lucrativa beneficia a
sociedade ao criar novos empregos, pagar salários justos que
melhoram a vida de seus funcionários e melhorar as condições de
trabalho de seus funcionários, além de contribuir para o bem-estar
público pagando seus impostos.
♦ Reação Social: é a abordagem que considera as empresas como
reativas. Pressionadas por certos grupos (associações comerciais,
sindicatos, ativistas sociais, consumidores etc.), as empresas
reagem, voluntária ou involuntariamente, para satisfazer estas
pressões. Empresas que adotam esta linha procuram atender a
responsabilidades econômicas, legais e éticas. Se as forças externas
exercerem pressão, os gerentes concordam em reduzir atividades
eticamente questionáveis. O fator que leva muitas empresas a
adotarem esta posição é o reconhecimento de que estas dependem
da aceitação por parte da sociedade à qual pertencem, e que ignorar
os problemas sociais pode ser destrutivo a longo prazo.
♦ Sensibilidade Social ou Pró-atividade Social: caracteriza-se por
comportamentos socialmente responsáveis mais antecipadores e
preventivos do que reativos e reparadores. A expressão
sensibilidade social tornou-se largamente utilizada para referir atos
que vão para além da mera obrigação social e da reação social. Uma
empresa socialmente sensível procura formas de resolver problemas
sociais, ou seja, corresponde a uma empresa fortemente
empenhada numa abordagem pró-ativa da responsabilidade social.
Problemas futuros são previstos, e ações são tomadas para evitar o
aparecimento do problema ou minimizar seus reflexos (MONTANA
E CHARNOV, 1998, p.39). A perspectiva da sensibilidade social é a do
significado mais lato de responsabilidade social. Coloca os gestores,
e as suas organizações numa posição de responsabilidade, bem
longe da tradicional perspectiva da mera preocupação com meios e
fins econômicos. (DONNELY, GIBSON E IVANCEVICH, 2000, p.89).
56
O objetivo deste capítulo foi apresentar conceitos para o entendimento
dos significados e das implicações da responsabilidade social nas empresas.
Mostramos pelo histórico, que estes conceitos mudaram com o tempo e com as
circunstâncias e que, no Brasil, a notoriedade do tema é mais recente, ganhando
forte impulso na década de 90.
Vimos que o contexto social em que as decisões e ações empresariais
ocorrem é dinâmico e complexo, dessa forma, a responsabilidade social
empresarial pode ser dividida em quatro tipos (econômica, legal, ética e
discricionária) e as ações de cada empresa em relação as suas demandas sociais
podem estar dentre três níveis de abordagem de responsabilidade social
(obrigação social, reação social e sensibilidade social).
No capítulo a seguir, apresentaremos as relações da responsabilidade
social com os stakeholders (partes interessadas) ligadas à empresa, como por
exemplo, os funcionários, fornecedores, clientes, acionistas, governo,
concorrentes e comunidade.
PARTES INTERESSADAS (STAKEHOLDERS)
A importância da incorporação da dimensão social na forma de gerir as
empresas está sendo bastante difundida no contexto moderno, e a gestão
empresarial que tenha como referência apenas os interesses dos seus sócios e
acionistas (shareholders) revela-se insuficiente no novo contexto.
Segundo DAFT (1999), a responsabilidade social de uma empresa deve
também considerar todas as relações e práticas existentes entre as chamadas
partes interessadas ligadas à organização (stakeholders) e o ambiente as quais
pertence.
As partes interessadas (ou stakeholders) são qualquer grupo dentro ou
fora da organização que tem interesse no desempenho da organização. Cada
parte interessada tem um critério diferente de reação porque tem um interesse
diferente na organização.
Segundo Rita de Cássia Guedes (2000), uma empresa exerce plenamente
sua responsabilidade social empresarial quando possui uma gestão eficaz de
responsabilidade social tanto com relação ao seu público interno (beneficiários
internos), quanto ao externo (beneficiários externos).
57
Melo Neto e Fróes (citados em GUEDES, 2000, p.42) conceituam
responsabilidade social interna: a responsabilidade social interna focaliza o
público-interno da empresa, seus empregados e seus dependentes, ou seja, os
beneficiários internos da empresa sem os quais a organização não pode
sobreviver.
Por outro lado, a responsabilidade social empresarial externa procura
atuar na sociedade na qual a empresa está inserida, junto a todos os seus
públicos ou beneficiários externos (fornecedores, clientes atuais, potenciais
clientes, opinião pública, governo, sociedade, etc.) e, consequentemente, a
empresa obtém maior visibilidade e admiração frente a públicos relevantes para
sua atuação.
As relações construídas com os públicos interno e externo, de forma a
satisfazer as suas necessidades e interesses, gerando valor para todos,
asseguraram asustentabilidade a longo prazo dos negócios, por estarem
sincronizadas com as novas dinâmicas que afetam a sociedade e o mundo
empresarial. Este envolvimento da organização na prática da responsabilidade
social gera sinergias, precisamente com os públicos dos quais a empresa
depende, fortalecendo o seu desempenho global. Para Melo Neto e Fróes
(citados em GUEDES, 2000, p.43), uma empresa adquire o status de empresa-
cidadã, quando atua em ambas as dimensões (responsabilidade empresarial
interna e externa).
Maignan (1999) propõe uma definição de cidadania empresarial que
integra a modelo de Carroll (1979) para a performance social corporativa e seus
respectivos quatro tipos de responsabilidade (econômica, legal, ética e
discricionária), com o conceito de stakeholder management (pela definição
adotada por CLARKSON, 1995), chegando a uma definição segundo a qual
cidadania empresarial seria a extensão pela qual as organizações atendem a suas
responsabilidades econômicas, legais, éticas e discricionárias, exigidas por seus
diversos stakeholders.
Segundo este raciocínio, a responsabilidade social da empresa está
estritamente ligada ao tipo de relacionamento desta com os seus interlocutores.
A natureza desta relação vai depender muito das políticas, valores, cultura e
sobretudo da visão estratégica que prevalecem no centro da organização e no
atendimento a essas expectativas. Assim, de acordo com Martinelli (2000), há
58
desde as empresas que tratam seus parceiros de modo relativo, limitando-se a
resolver conflitos, até aquelas que buscam estrategicamente otimizar as relações
com todos, definindo claramente políticas e linhas de ação em relação a cada um
deles.
Assim sendo, um sistema de avaliação do estágio em que se encontram
as práticas de responsabilidade social nas empresas e o grau de
comprometimento destas com as ações sociais deve levar em conta os efeitos de
suas ações sobre todas as partes interessadas. Como forma de explorar esta
análise apresentaremos, a seguir, algumas das responsabilidades sociais que
uma gestão empresarial deve considerar nas relações com as chamadas partes
interessadas (stakeholders).
ACIONISTAS
A gestão tem, perante os acionistas, a responsabilidade de utilizar os
recursos do negócio comprometendo-se com atividades desenvolvidas para
aumentar os seus lucros, dentro das restrições legais impostas pela sociedade,
além de revelar, totalmente e com exatidão, a utilização dos recursos da
empresa e os resultados dessa utilização. A lei garante aos acionistas o direito à
informação de natureza financeira e estabelece mínimos para a sua divulgação
pública. O direito fundamental de um acionista não é apenas ter garantido um
lucro, mas também a informação que possa suportar uma decisão de
investimento prudente. A última ação que um acionista pode empreender é
vender as ações e deixar de ter participação como proprietário.
Alguns estudiosos, alinhados com o pensamento de Friedman (1970),
argumentam que a única responsabilidade social da gestão é agir em benefício
dos seus acionistas, respeitando os limites legais. Estes autores defendem que
qualquer ação da gestão que vá para além do comportamento socialmente
obrigatório de benefício de outro grupo que não os acionistas constituem uma
violação da responsabilidade da gestão (e, portanto, da responsabilidade social).
Entretanto, entre os argumentos a favor da responsabilidade social
corporativa, na linha instrumental, afirma-se que existe uma relação positiva
entre o comportamento socialmente responsável e a performance econômica da
empresa. Desta forma, atuar de maneira responsável repercutiria em vantagem
competitiva para a organização. A vantagem financeira para a empresa poderia
59
ser explicada pelo fato de que com uma atuação socialmente responsável, ela
estaria agindo proativamente e, desta forma, teria uma maior consciência sobre
as questões sócioculturais e ambientais dos seus mercados de abrangência, seria
capaz de diferenciar seus produtos em relação aos concorrentes menos
responsáveis socialmente e poderia antecipar e evitar ações governamentais
restritivas a suas atividades.
Contudo, a demonstração disto é difícil, pois há pouco consenso sobre a
forma de medir a responsabilidade social e de como esta pode estar relacionada
com medidas desempenho, tais como lucro e preços das ações, que são as
preocupações dos acionistas.
EMPREGADOS
A gestão pode limitar-se a assumir o mínimo de responsabilidades para
com os empregados, respeitando apenas as obrigações legais relativas à relação
empregado- empregador. Estas leis abordam questões relativas a condições
físicas de trabalho (particularmente, as questões de segurança e saúde), fixação
de salários e tempos de trabalho, sindicatos e sindicalização, e outras análogas.
O objetivo destas leis é induzir a gestão a criar locais de trabalho seguros e
produtivos, nos quais os direitos civis básicos dos empregados não sejam postos
em causa. Para além destas responsabilidades, a prática empresarial moderna
de benefícios complementares - fundos de reforma, seguros de saúde, de
hospitalização e contra acidentes - alargou o leque das atividades socialmente
obrigatórias. Por vezes, estas práticas são respostas à pressão concertada dos
empregados, desenvolvida normalmente através da ação dos sindicatos.
Entretanto, uma empresa socialmente responsável deve ir além do
simples cumprimento das leis trabalhistas, procurando alinhar os seus objetivos
estratégicos aos interesses dos seus funcionários. Desta forma, deve-se investir
no desenvolvimento pessoal e individual de seus empregados, na melhoria das
condições de trabalho, no relacionamento interno e no incentivo a participação
dos empregados nas atividades da empresa, respeitando a cultura, as crenças, a
religião e os valores de cada um.
O incentivo do envolvimento dos empregados na solução de problemas
da empresa, que vem sendo chamado de gestão participativa, apresenta uma
série de vantagens para esta, pois aumenta o interesse dos funcionários pelos
60
processos empresariais, facilita a integração dos objetivos dos empregados com
os da empresa e favorece o desenvolvimento profissional e individual.
A empresa socialmente responsável em relação ao público interno deve
ainda impedir qualquer tipo de discriminação ao oferecer oportunidades,
garantindo direitos iguais para todos aqueles que estiverem concorrendo a uma
vaga de trabalho, recebendo um treinamento e sendo avaliados, remunerados
e/ou promovidos.
Outro ponto importante é que as demissões nunca devem ser a primeira
solução para a redução de custos e sempre que a empresa tiver realmente que
demitir funcionários, ela deve fazer isto estabelecendo critérios, ou seja,
considerando a idade do empregado, se ele tem família ou não, se é um
empregado temporário ou fixo, etc. Além disso, também devem ser empregados
esforços por parte da empresa para auxiliar os empregados a se realocar no
mercado de trabalho e assegurar os benefícios que estiverem ao seu alcance.
Uma empresa pode ainda assumir outras atividades socialmente
responsáveis, como proporcionar formação abrangente aos empregados,
progressão na carreira e aconselhamento, ou criar programas de assistência para
os empregados, nomeadamente ajuda aos que tenham problemas de álcool e
drogas
A responsabilidade social com seu público interno possibilita a criação, na
empresa, de um ambiente de trabalho saudável, que resulta em maior
produtividade, comprometimento e motivação. A empresa, com isso, aumenta
sua capacidade de recrutar e manter talentos, fator chave para seu sucesso
numa época em que criatividade e inteligência são recursos cada vez mais
valiosos.
61
FORNECEDORES
A seleção dos fornecedores já não deve se processar exclusivamente
através da apresentação de propostas competitivas.Além de se respeitar os
contratos, as relações com parceiros de alianças ou de empresas comuns e
franquiados são igualmente importantes. A longo prazo, a consolidação dessas
relações poderá resultar em expectativas, preços e termos eqüitativos, a par de
uma entrega confiável e de qualidade.
As empresas socialmente responsáveis devem utilizar critérios de
comprometimento social e ambiental na hora selecionar seus parceiros e
fornecedores, considerando, por exemplo, o código de conduta destes em
questões como relações com os trabalhadores ou com o meio ambiente.
Os valores do código de conduta da empresa devem ser difundidos por
toda a sua cadeia de fornecedores, empresas parceiras e terceirizadas, buscando
disseminar valores e contratar ou interagir com empregados terceirizados que
valorizem os mesmos conceitos sociais que os seus funcionários. Da mesma
forma, deve-se exigir para com os trabalhadores terceirizados condições
semelhantes às de seus próprios empregados, cabendo à empresa evitar que
ocorram terceirizações em que a redução de custos seja conseguida pela
degradação das condições de trabalho e das relações com os trabalhadores.
As empresas socialmente responsáveis devem também tomar
consciência do papel que efetuam sobre toda a cadeia de fornecedores, atuando
no desenvolvimento dos elos mais fracos e na valorização da livre concorrência,
devendo evitar, desta forma, a imposição de arbitrariedades comerciais nas
situações onde exista profundo desequilíbrio de poder econômico/político entre
empresa-cliente e fornecedores, particularmente nos casos de micro, pequeno e
médio portes.
62
CLIENTES
A questão da responsabilidade social perante os clientes está
relativamente bem definida num aspecto (por exemplo, nas leis específicas que
definem a segurança do produto) e mantém-se bastante fluida noutro (por
exemplo, nas expectativas gerais quanto à relação qualidade-preço.
Donnelly, Gibson e Ivancevich (2000) afirma que muitas empresas já
optam por assumir as suas responsabilidades para com os clientes, respondendo
prontamente às reclamações, fornecendo informação completa e exata sobre o
produto, implementando campanhas de publicidade absolutamente verdadeiras
quanto ao desempenho do produto e assumindo um papel ativo no
desenvolvimento de produtos que respondam às preocupações sociais dos
clientes.
Desta forma, na perspectiva dos clientes, as empresas socialmente
responsáveis devem investir permanentemente no desenvolvimento
mecanismos de melhoria de confiabilidade, eficiência, segurança, e
disponibilidade dos seus produtos e serviços, minimizando os possíveis riscos e
danos à saúde que estes produtos ou serviços possam causar aos seus
consumidores e à sociedade em geral. Informações detalhadas devem estar
incluídas nas embalagens e deve ser assegurado suporte para o cliente antes,
durante e após o consumo. A qualidade do serviço de atendimento a clientes
(SAC ou outra forma de atendimento) é uma referência importante neste
aspecto.
A publicidade das empresas, por exercer uma grande influência no
comportamento da sociedade, deve ser feita de forma educativa, garantindo o
uso dos produtos e serviços da empresa da maneira certa e informando
corretamente os seus riscos potenciais. As ações de publicidade também não
devem criar expectativas que extrapolem o que está realmente sendo oferecido,
e não devem provocar desconforto ou constrangimento a quem for recebê-la.
63
COMUNIDADE
Assim como a comunidade na qual as empresas estão inseridas oferecem
recursos para as empresas, como os empregados, parceiros e fornecedores, que
tornam possível a execução das suas atividades corporativas, o investimento na
comunidade, através da participação em projetos sociais promovidos por
organizações comunitárias e ONGs, além de uma retribuição, é uma própria
maneira de melhorar o desenvolvimento interno e externo.
Muitas empresas empenham-se em causas das comunidades locais:
apoio de ações de promoção ambiental; o recrutamento de pessoas vítimas de
exclusão social; parcerias com comunidades; donativos para ações de caridade e
etc. A empresa pode fazer o aporte de recursos direcionado para a resolução de
problemas sociais específicos para os quais se voltam entidades comunitárias e
ONGs ou pode também desenvolver projetos próprios, mobilizando suas
competências para o fortalecimento da ação social e envolvendo seus
funcionários e parceiros na execução e apoio a projetos sociais da comunidade.
Deve-se considerar, no entanto, que para que a destinação de verbas e
recursos a instituições e projetos sociais tenha resultados mais efetivos, estas
devem estar baseadas numa política estruturada da empresa, com critérios pré-
definidos. Um aspecto relevante é a garantia de continuidade das ações, que
pode ser reforçada pela constituição de instituto, fundação ou fundo social.
GOVERNO E SOCIEDADE
A empresa deve relacionar-se de forma ética e responsável com os
poderes públicos, cumprindo as leis e mantendo interações dinâmicas com seus
representantes, visando a constante melhoria das condições sociais e políticas
do país. O comportamento ético pressupõe que as relações entre a empresa e
governos sejam transparentes para a sociedade, acionistas, empregados,
clientes, fornecedores e distribuidores. Cabe à empresa manter uma atuação
política coerente com seus princípios éticos e que evidencie seu alinhamento
com os interesses da sociedade.
Com relação às contribuições para campanhas políticas, a transparência
nos critérios e nas doações para candidatos ou partidos políticos é um
importante fator de preservação do caráter ético da atuação da empresa. Ela
64
também pode ser um espaço de desenvolvimento da cidadania, viabilizando a
realização de debates democráticos que atendam aos interesses de seus
funcionários.
A empresa socialmente responsável poderá assumir um compromisso
formal com o combate à corrupção e propina, explicitando a sua posição
contrária no recebimento ou oferta, aos parceiros comerciais ou a
representantes do governo, de qualquer quantia em dinheiro ou coisa de valor,
além do determinado em contrato.
Outro compromisso que pode ser assumido pelas empresas, é o de
eliminar os vestígios de discriminação histórica (como no caso de minorias e
grupos étnicos, mulheres, deficientes, idosos etc.) e de criar um novo ambiente
de igualdade de acesso às oportunidades de emprego e à evolução econômica.
A empresa ambientalmente responsável investe em tecnologias
antipoluentes, recicla produtos e lixo gerado, implanta "auditoria verdes", cria
áreas verdes, mantém um relacionamento ético com os órgãos de fiscalização,
executa um programa interno de educação ambiental, diminui ao máximo o
impacto dos resíduos da produção no ambiente, é responsável pelo ciclo de vida
de seus produtos e serviços e dissemina para a cadeia produtiva estas práticas
relativas ao meio ambiente.
A dimensão da questão social no Brasil torna importante a participação
das empresas no seu enfrentamento, através da participação em projetos e
ações governamentais. Além de cumprir sua obrigação de recolher corretamente
impostos e tributos, as empresas podem privilegiar estas iniciativas voltadas para
o aperfeiçoamento de políticas públicas na área social.
CONCORRENTES
Para ser considerada socialmente responsável no aspecto da
concorrência a empresa deve evitar práticas monopolistas e oligopolistas,
dumpings e formação de trustes e cartéis, buscando sempre fortalecer a livre
concorrência de mercado.
A qualidade dos produtos e serviços devem ser os vetores soberanos para
influenciar o mercado, sendo caracterizados como crime e concorrência desleal
as práticas de difamação, disseminação de inverdades e maledicências,
sabotagens, espionagem industrial, contratação de funcionários de concorrentes65
para obtenção de informações privilegiadas etc.
A empresa não deve, portanto, realizar quaisquer ações ilícitas e imorais
para a obtenção de vantagem competitiva ou que visem o
enfraquecimento/destruição de concorrentes, devendo manter com estes um
relacionamento orientado por padrões éticos, de forma a não conflitarem com
os interesses das demais partes interessadas, em especial os clientes e
consumidores finais.
Para finalizar, apresentamos a seguir o Quadro 1, baseado em Duarte e
Dias (citado em Corrêa, 1997), com as partes interessadas da empresa e o
resumo de como deveria se dar o relacionamento entre ambos em empresas
socialmente responsáveis:
Quadro 1 - Stakeholders (Partes interessadas)
STAKEHOLDERS CONTRIBUIÇÕES DEMANDAS BÁSICAS
ACIONISTAS
CAPITAL
LUCROS E DIVIDENDOS; PRESERVAÇÃO
DO PATRIMÔNIO
EMPREGADOS
MÃO-DE-OBRA;
CRIATIVIDADE; IDÉIAS
SALÁRIOS JUSTOS;
SEGURANÇA E SAÚDE NO TRABALHO;
REALIZAÇÃO PESSOAL;
CONDIÇÕES DE TRABALHO
FORNECEDORES
MERCADORIAS
RESPEITO AOS CONTRATOS;
NEGOCIAÇÃO LEAL
CLIENTES
DINHEIRO; FIDELIDADE
SEGURANÇA DOS PRODUTOS; BOA
QUALIDADE DOS PRODUTOS; PREÇO
ACESSÍVEL;
PROPAGANDA HONESTA
RESPEITO AO INTERESSE COMUNITÁRIO;
CONTRIBUIÇÃO À MELHORIA DA
COMUNIDADE /
SOCIEDADE
INFRA-ESTRUTURA
QUALIDADE DE VIDA NA COMUNIDADE;
CONSERVAÇÃO DOS RECURSOS
NATURAIS
PROTEÇÃO AMBIENTAL;
RESPEITO AOS DIREITOS DE MINORIAS.
GOVERNO
SUPORTE INSTITUCIONAL,
JURÍDICO E POLÍTICO
OBEDIÊNCIA ÀS LEIS; PAGAMENTO DE
TRIBUTOS
CONCORRENTES
COMPETIÇÃO;
REFERENCIAL DE
MERCADO
LEALDADE NA CONCORRÊNCIA
Fonte: Baseado em DUARTE e DIAS citados em CORRÊA (1997)
66
RESPONSABILIDADE SOCIOAMBIENTAL E
SUSTENTABILIDADE
TEMA 03
PARTE 02 – EVOLUÇÃO DA GESTÃO SOCIAL E AMBIENTAL E
RESPONSABILIDADE SOCIAL
Link do GOOGLE drive.
67
GANHOS EMPRESARIAIS A PARTIR DA RESPONSABILIDADE SOCIAL
Neste capítulo iremos estudar as oportunidades que se apresentam para
as empresas que atuam com responsabilidade social.
Cada vez mais, valoriza-se a consciência de que uma gestão socialmente
responsável pode trazer inúmeros benefícios às empresas. Em muitos
depoimentos e pesquisas, a responsabilidade social aparece como responsável
pelo apoio da sociedade e dos consumidores, pela preferência de investidores
internacionais, por um espaço crescente aberto pela mídia, por um bom clima
organizacional, pelo recrutamento e retenção de pessoas talentosas.
De acordo com Melo Neto e Fróes (citados em GUEDES, 2000), esses
ganhos com a responsabilidade social resultariam no chamado retorno social
institucional:
O retorno social institucional ocorre quando a maioria dos consumidores
privilegia a atitude da empresa de investir em ações sociais, e o desempenho
da empresa obtém o reconhecimento público. Como conseqüência, a empresa
vira notícia, potencializa sua marca, reforça sua imagem, assegura a lealdade de
seus empregados, fideliza clientes, reforça laços com parceiros, conquista
novos clientes, aumenta sua participação no mercado, conquista novos
mercados e incrementa suas vendas. (MELO NETO e FRÓES citados em GUEDES,
2000, p. 56).
Com base no que foi dito acima, Guedes (2000) afirma que podemos
considerar que o retorno social institucional empresarial se concretiza através
dos seguintes ganhos:
♦ em imagem e em vendas, pelo fortalecimento e fidelidade à marca
e ao produto;
♦ aos acionistas e investidores, pela valorização da empresa na
sociedade e no mercado;
♦ em retorno publicitário, advindo da geração de mídia espontânea;
♦ em tributação, com as possibilidades de isenções fiscais em âmbitos
municipal, estadual e federal para empresas patrocinadoras ou diretamente para
os projetos;
♦ em produtividade e pessoas, pelo maior empenho e motivação dos
funcionários e
♦ os ganhos sociais, pelas mudanças comportamentais da sociedade.
Para Guedes (2000), uma empresa que age com responsabilidade social
68
consegue aumentar suas relações com os stakeholders e também a exposição
em mídia espontânea:
Quando uma empresa atua com responsabilidade social
aumenta o seu relacionamento com diversos públicos
relevantes (clientes atuais e em potencial, opinião pública,
acionistas, investidores, fornecedores, funcionários,
governo), aumenta a exposição positiva em mídia
espontânea onde seus produtos, serviços e marca ganham
maior visibilidade e possível aceitação. (GUEDES, 2000,
p.57).
A responsabilidade social empresarial traz ganhos expressivos para as
empresas, conforme a pesquisa "Estratégias de empresas no Brasil: atuação
social e voluntariado", do Centro de Estudos em Administração do Terceiro
Setor da Universidade de São Paulo (CEATS-USP), do qual participaram 273
companhias privadas e estatais (pequenas, médias e grandes), de nove estados
e do Distrito Federal, e realizada entre os meses de fevereiro e junho de 1999:
Investir em ações sociais melhora em 79% a imagem institucional da empresa
e amplia em 74% suas relações com a comunidade. A motivação e
produtividade dos funcionários crescem 34%; melhora o envolvimento do
funcionário com a empresa em 40%, ao mesmo tempo em que contribui para
o desenvolvimento de conhecimentos, técnicas e habilidades dos funcionários
em 52%. (FISCHER e FALCONER, 1999, p.39-40).
69
IMAGENS E VENDAS
Atualmente, reforço de imagem e marca tem sido cada vez mais
valorizado pelas empresas devido à concorrência acirrada.
Na pesquisa "Estratégias de empresas no Brasil: atuação social e
voluntariado", do CEATS-USP, das 273 empresas participantes, 79%
concordaram que investir em ações sociais por meio do voluntariado empresarial
melhora a imagem institucional da empresa e 8% concordaram parcialmente.
Segundo Melo Neto e Fróes (citados em GUEDES, 2000), a satisfação dos
stakeholders com as empresas socialmente responsáveis favorece a divulgação
de suas marcas:
Clientes de empresas socialmente responsáveis sentem orgulho de
comprar daquela empresa e os fornecedores, governo e empregados
sentem-se orgulhosos em serem parceiros da empresa. Além da
empresa poder beneficiar-se de comunicar sua marca positivamente
para potenciais clientes e a opinião pública em geral. (MELO NETO e
FRÓES citados em GUEDES, 2000, p.58).
Guimarães (citado em GUEDES, 2000, p.58) complementa afirmando que
"marca é patrimônio estratégico que associado à responsabilidade social
empresarial, gera lealdade de públicos."
As empresas expostas em mídia em função de comportamentos
socialmente responsáveis ou por patrocinarem eventos sociais, educacionais,
culturais, ressaltam atributos positivos de suas marcas ao associar o valor da
ação ou evento patrocinado à marca, podendo gerar lealdade de diversos
públicos relevantes, que é uma das garantias de perenidade, lucratividade e
competitividade atuais (GUEDES, 2000, p.58).
Pesquisas demonstram que os consumidores atualmente estão mais
propensos a consumir de empresas socialmente responsáveis:
Segundo pesquisa publicada pelo Business for Social Responsibility
(BSR), entidade americana que reúne cerca de 1.400 companhias
envolvidas com projetos de cidadania empresarial, (...) 76% dos
consumidores daquele país preferem marcas e produtos associados a
algum tipo de ação social. (CHIAVENATO, 1999, p.446)
A pesquisa Responsabilidade Social das Empresas - Percepção do
consumidor brasileiro mostrou o quanto o consumidor brasileiro é influenciado
70
pelas práticas das empresas. Para cada entrevistado foi perguntado sobre qual
atitude de uma empresa faria com que ele comprasse mais os produtos da
empresa e recomendaria a mesma aos seus amigos. Os resultadosestão no
Quadro 2 a seguir:
Quadro 2 - Brasil: atitudes valorizadas pelo consumidor
QUAL DAS SEGUINTES ATITUDES DE UMA EMPRESA ESTIMULARIA VOCÊ A COMPRAR
MAIS OS SEUS PRODUTOS E RECOMENDAR AOS SEUS AMIGOS?
▪ CONTRATA DEFICIENTES FÍSICOS 46%
▪ COLABORA COM ESCOLAS, POSTOS DE SAÚDE E ENTIDADES SOCIAIS DA
COMUNIDADE
43%
▪ MANTÉM PROGRAMAS DE ALFABETIZAÇÃO PARA FUNCIONÁRIOS E FAMILIARES
32%
▪ ADOTA PRÁTICAS EFETIVAS DE COMBATE À POLUIÇÃO 27%
▪ MANTÉM UM EXCELENTE SERVIÇO DE ATENDIMENTO AO
CONSUMIDOR 24%
▪ CUIDA PARA QUE SUAS CAMPANHAS PUBLICITÁRIAS NÃO COLOQUEM EM
SITUAÇÕES CONSTRANGEDORAS, PRECONCEITUOSAS OU ABUSIVAS
23%
▪ APOIA CAMPANHAS PARA ERRADICAÇÃO DO TRABALHO INFANTIL 22%
▪ MANTÉM PROGRAMAS DE APRENDIZAGEM PARA JOVENS NA FAIXA DE 14 A 16
ANOS
20%
▪ REALIZA CAMPANHAS EDUCACIONAIS NA COMUNIDADE 16%
▪ CONTRATA EX-DETENTOS 15%
▪ PARTICIPA DE PROJETOS DE CONSERVAÇÃO AMBIENTAL DE ÁREAS PÚBLICAS
9%
▪ LIBERA SEUS FUNCIONÁRIOS NO EXPEDIENTE COMERCIAL PARA
AJUDAR EM AÇÕES SOCIAIS
8%
▪ PROMOVE EVENTOS CULTURAIS 6%
Fonte: Pesquisa Ethos, Valor Econômico e Indicator Opinião Pública (2000)
Este quadro mostra que o quinto item mais valorizado se refere a manter
um serviço de atendimento ao consumidor (24%). Podemos notar que os quatro
primeiros, 46%, 43%, 32% e 27% se referem a atitudes que não dizem respeito
ao serviço ao consumidor, mas dizem respeito à atividade social da empresa e a
seus investimentos sociais.
Isto comprova que o consumidor brasileiro está passando a valorizar a
empresa pelos seus investimentos sociais e em cima deste fato, está passando a
privilegiar nas suas compras as empresas que tenham uma postura de
responsabilidade social e volumes de investimentos sociais significativos,
gerando mais vendas e lucros para essas empresas.
Portanto, uma empresa com boa imagem perante a sociedade e com
marca reforçada torna-se mais conhecida e ao tornar-se mais conhecida, pode
vender mais, ao vender mais aumenta seu valor patrimonial e sua
71
competitividade no mercado.
Percebemos que algumas das atitudes empresariais que influenciam
fortemente a imagem organizacional são as ações que a empresa faz, voltadas
para a sociedade. Ações que visam amenizar problemas sociais produzem um
grande impacto na formação da imagem empresarial. Estamos na era do
consumidor e ele está buscando qualidade e responsabilidade. Com a
necessidade de conquistar o "consumidor cidadão", as empresas precisam
desenvolver, cada vez mais, uma reputação empresarial de ética e
responsabilidade social.
ACIONISTAS E INVESTIDORES
Reconhecendo que uma empresa com imagem e marca reforçada,
através de atuação socialmente responsável, aproxima-se positivamente da
comunidade deduzimos que, tornando-se mais conhecida, a empresa venderá
mais e que ao vender mais consequentemente suas ações, no caso de
companhias de capital aberto, serão mais valorizadas em bolsa.
Veremos que a boa imagem na comunidade não é tudo que empresas
socialmente responsáveis estão conseguindo. Oded Grajew (2000) em entrevista
para a Revista Época aponta:
Estatísticas mostram que empresas socialmente responsáveis são mais
lucrativas, crescem mais e são mais duradouras. A página da Dow
Jones na Internet traz um levantamento que compara a lucratividade
dessas empresas com a média da Dow Jones. A rentabilidade das
socialmente responsáveis é o dobro da média das empresas da Bolsa
de Nova York (GRAJEW, 2000, p.55).
Esta tendência também está acontecendo no Brasil. Boas "ações"
começam a dar lucro no Brasil e a valorizar os papéis de companhias que incluem
entre suas atividades preocupações com o meio ambiente, governança
corporativa e atividades sociais, a exemplo de mercados mais desenvolvidos.
O Fundo Ethical, primeiro fundo de investimento socialmente
responsável do mercado brasileiro, lançado em setembro de 2001 pelo Banco
Real / ABN AMRO Bank, por exemplo, obteve resultado acumulado de 20,3%
entre 1º de novembro de 2001 a 19 de dezembro de 2001. Somente, em
dezembro de 2001, o lucro já somava 3,4% até o dia 19 (KARAM, 2001a).
O diretor executivo do ABN Amro Asset Management, Luiz Maia, em
reportagem para o Jornal Valor Econômico, ressalva que este resultado do fundo
72
coincidiu com a recuperação da bolsa, mas acredita que a prática de
investimentos que passam por um filtro ético se consolida no Brasil. Em países
como os Estados Unidos, de cada US$ 8 investidos, segundo ele, US$ 1 já é
canalizado para empresas socialmente responsáveis (KARAM, 2001a).
De acordo com Maia, o Ethical é fruto de observação do mercado, onde
"os investidores são movidos não apenas pelo tamanho de seu bolso, mas
também por seus valores" (KARAM, 2001a).
Luiz Maia, em entrevista para Miriam Karam, complementa: "Queremos
mostrar para o investidor que essas empresas têm sucesso e devem se sustentar
ao longo dos anos, porque têm visão do futuro." (Karam, 2001a). O investidor
estrangeiro já reconhece que empresas socialmente responsáveis têm sucesso e
até preferem investir nestas empresas.
Conforme a reportagem "Exigências Internacionais", publicada no Jornal
do Brasil em 26/12/2001, os investidores internacionais estão de olho nos
indicadores sociais das empresas brasileiras. Dados como receita líquida ou o
lucro operacional continuam relevantes, mas para exportar ou conseguir
financiamento externo é cada vez mais premente que as firmas cumpram seu
papel social. Rosângela Bacima Quilici, gerente geral do Instituto Pão de Açúcar,
diz nesta reportagem que "as empresas socialmente responsáveis atraem mais
investidores, são mais valorizadas e têm mais credibilidade, porque são vistas
como empresas que não estão só explorando."
Os resultados obtidos até aqui sugerem que a ética empresarial gera
lucros para a empresa, para os acionistas e para os investidores.
73
RETORNO PUBLICITÁRIO EM MÍDIA ESPONTÂNEA
O retorno publicitário tem sido medido pelas assessorias de imprensa das
empresas, através da exposição da empresa na mídia de forma espontânea.
Considera-se mídia espontânea a exposição obtida por uma empresa de forma
espontânea, isto é, não paga, nos meios de comunicação. As empresas expostas
em mídia em função de comportamentos socialmente responsáveis,
caracterizados pela coerência ética de suas ações e relações com seus diversos
públicos, tendem a destacar-se positivamente da concorrência e,
consequentemente, conquistar a simpatia do consumidor, reforçando também
as suas marcas e imagem e ampliando suas participações no mercado.
Empresas que promovem ações socialmente responsáveis recebem
atenção da mídia e viram notícia. Isto ocorre porque se direcionam para atender
problemas que são de interesse de toda a sociedade.
Por exemplo, a CBN, rede de emissoras que atua em 21 cidades do Brasil,
vem, desde o início de maio de 2001, divulgando uma série de reportagens de
vários formatos sobre empresas que desenvolvem ações sociais através do
projeto Empresa Voluntária.
Os investimentos sociais expostos na mídia espontânea acabam
funcionando como propaganda para as próprias empresas, e estas passam a se
destacar ainda mais para os consumidores.
Devemos considerar que a exposição de mídia espontânea,
principalmente editorial, enquanto formadora de imagem, é considerada uma
mídia de maior credibilidade e portanto maior peso ou valor para uma empresa.
O retorno obtido em mídia espontânea, em noticiários positivos, poderá
vir a reforçar a fidelização e a lealdade à marca pelo consumidor - aspecto este
que poderá ser medido e avaliado pela empresa no longo prazo.
Há grandes oportunidades mercadológicas e estratégicas para as
empresas que decidam oferecer sua parcela de contribuição social de forma
séria, sistemática e responsável junto à sociedade, pois ética e responsabilidade
social são conceitos capazes de proporcionar expressivageração de mídia
espontânea, fortalecendo a imagem das empresas e portanto proporcionando
diferencial frente ao mercado junto a clientes atuais e potenciais.
74
TRIBUTAÇÃO
A legislação brasileira incentiva o desenvolvimento através dos benefícios
fiscais concedidos às organizações e empresas que promovem através de
patrocínios ou doações ações socialmente responsáveis.
Não é objetivo deste trabalho analisar o conteúdo das leis brasileiras de
incentivos fiscais. Queremos, no entanto, destacar que existem Leis Municipais,
Estaduais e Federais que promovem incentivos fiscais na área cultural e artística,
concedidos para as pessoas jurídicas, que através de patrocínios ou doações
praticam o marketing socialmente responsável e colaboram com o
fortalecimento das organizações.
As pessoas jurídicas que contribuem para projetos culturais, sob a forma
de doações ou patrocínios, gozam de incentivo fiscal de âmbito federal, ou seja,
de dedução do imposto de renda.
PRODUTIVIDADE E PESSOAS
Os benefícios de imagem, vendas, mídia e fiscais, não são os únicos
ganhos para as empresas que atuam em ações socialmente responsáveis.
A empresa socialmente responsável fortalece também o trabalho do
endomarketing4 por ganhar a admiração de seu público interno - funcionários e
colaboradores: "Segundo pesquisa publicada pelo Business for Social
Responsibility (BSR), (...) 68% dos jovens norte-americanos preferem trabalhar
em uma empresa ligada a algum projeto social (...)" (Chiavenato, 1999, p.446).
O Quadro 3 a seguir apresenta alguns resultados da pesquisa "Estratégias
de empresas no Brasil: atuação social e voluntariado", do CEATS-USP, que
analisou as opiniões de 273 empresas sobre os benefícios do voluntariado em
relação aos funcionários:
75
Quadro 3 - Opiniões das empresas a respeito dos benefícios do voluntariado em relação
aos funcionários
EM RELAÇÃO AOS FUNCIONÁRIOS, O VOLUNTARIADO
EMPRESARIAL:
CONCORDA CONCORDA
PARCIALMENTE
DISCORDA
▪ CONTRIBUI PARA O DESENVOLVIMENTO DE
CONHECIMENTOS, TÉCNICAS E
HABILIDADES
52%
30%
5%
▪ MELHORA O ENVOLVIMETO DO FUNCIONÁRIO
COM A EMPRESA
40% 41% 5%
▪ AUMENTA A MOTIVAÇÃO E
PRODUTIVIDADE DOS FUNCIONÁRIOS
34% 43% 9%
Fonte: FISCHER e FALCONER, 1999, p.39.
Com base neste quadro, pode-se observar que como instrumento de
gestão de pessoas, o voluntariado é apontado como benéfico.
Em suma, nota-se que o voluntariado empresarial, como instrumento de
responsabilidade social, apresenta fortes benefícios tanto para a empresa como
para o desempenho profissional e motivação dos funcionários.
SOCIAIS
Por fim, destacaremos o retorno social, que corresponde ao lucro social ou
aos ganhos sociais gerados pela ação empresarial socialmente responsável para
a sociedade, propriamente dita. Os ganhos sociais podem ser identificados de
diversas formas, como por exemplo:
1.1.1 pelas novas frentes de oportunidades abertas às empresas para
assumirem seu papel de intervenção social em conjunto com os demais
setores da economia. Nesse sentido é importante que a sociedade perceba
que o governo não vai resolver sozinho os problemas do país;
1.1.2 pela mudança de atitude da comunidade frente aos problemas
do país evitando-se a divisão entre público e privado;
1.1.3 e ainda, pela melhoria das condições de vida da comunidade,
sendo o ganho social mais visível e importante destes três.
No Brasil, como em toda a parte, cresce o entendimento de que uma
política de desenvolvimento social está a exigir a participação de novos atores.
O Estado, sem dúvida, deve ser o principal protagonista. Contudo, face às
76
limitações da ação estatal e à natureza do fenômeno da exclusão social, torna-se
necessário buscar parceiros fora do Estado, isto é, na sociedade ou, mais
especificamente, nas empresas privadas.
Nos últimos anos, tem sido observado que as empresas privadas vêm
mobilizando um volume cada vez maior de recursos destinados a iniciativas
sociais. O protagonismo dos cidadãos e de suas organizações rompe a divisão
entre público e privado, no qual o público era sinônimo de estatal, e o privado,
de empresarial. A atuação das empresas em atividades sociais dá origem a uma
esfera pública não estatal.
E finalmente, temos o retorno social mais importante, que corresponde a
melhoria das condições de vida da comunidade. Em muitos casos, este ganho
social é obtido pela adoção de uma política de voluntariado, gerado por ações
sociais empresariais e que visa solucionar os problemas sociais existentes na
comunidade.
O Quadro 4 a seguir apresenta alguns resultados da pesquisa "Estratégias
de empresas no Brasil: atuação social e voluntariado", do CEATS-USP, referentes
aos benefícios do voluntariado em relação a comunidade:
Quadro 4 - Opiniões das empresas a respeito dos benefícios do
voluntariado em relação a comunidade
EM RELAÇÃO A COMUNIDADE, O VOLUNTARIADO
EMPRESARIAL:
CONCORDA CONCORDA
PARCIALMENTE
DISCORDA
▪ MELHORA AS CONDIÇÕES DE VIDA NA
COMUNIDADE
78% 9% 1%
▪ MELHORA A RELAÇÃO DA EMPRESA COM A
COMUNIDADE
74% 14% 0%
▪ BENEFICIA MAIS A COMUNIDADE E OS
FUNCIONÁRIOS DO QUE A EMPRESA
27% 34% 26%
Fonte: FISCHER e FALCONER, 1999, p.39.
Baseado nos dados do Quadro 4, nota-se que, o voluntariado
empresarial, como forma de responsabilidade social, apresenta grandes
benefícios tanto para a comunidade como para a empresa.
Vimos que as empresas que adotam a responsabilidade social podem
conseguir muitas vantagens nos mais variados sentidos, desde a influência
positiva na imagem da empresa perante o mercado até a criação de uma
sociedade mais justa que, em última instância, será imprescindível para a
continuidade da empresa.
77
No capítulo a seguir, destacaremos as perdas empresariais ocasionadas
por ações sem responsabilidade social e também alguns casos de empresas como
exemplo disto.
PERDAS EMPRESARIAIS DEVIDO A FALTA DE RESPONSABILIDADE
SOCIAL
Neste iremos apontar as perdas empresariais originadas por
comportamentos não éticos e sem responsabilidade social. Também
pretendemos mostrar dois casos de empresas envolvidas em atividades não
socialmente responsáveis e que foram muito divulgados pela mídia internacional
e nacional. Por fim, apresentaremos dados de uma pesquisa que revela a
disposição dos consumidores brasileiros em punir empresas que agem sem
responsabilidade social.
Responsabilidade social e consumo ético consciente são conceitos que
permeiam as relações sócio-econômicas no mundo inteiro. As empresas estão
sendo mais exigidas a assumir uma conduta ética e responsável nas suas relações
com os stakeholders - clientes/consumidores, funcionários, acionistas,
fornecedores, governo, comunidade, concorrentes, grupos e movimentos.
O consumidor, por exemplo, já começa a ter noção do poder e do impacto
transformador de seu ato de consumo e faz suas escolhas levando em
consideração as atitudes sociais e ambientais adotadas pelas empresas.
A questão é que hoje os stakeholders estão sendo vistos como uma
espécie de sócios do negócio, prontos para compartilhar resultados. A empresa
e o empresário que trata os seus stakeholders com negligência, ocasionando
problemas econômicos, sociais e ambientais, pode pagar muito caro por isso.
Uma empresa que age sem ética e responsabilidade social, pode sofrer variadas
perdas empresariais, conforme citadas a seguir:
♦ má imagem e diminuição nas vendas, pelo enfraquecimento e
boicote à marca e ao produto;
♦ quedas das ações e afastamento dos investidores, pela
desvalorização da empresa na sociedade e no mercado;
♦ publicidade negativa, advindo da geração na mídia de denúncias e
propagandas contrárias às ações da empresa;
78
♦ reclamações de clientes e perda de futuros consumidores, devido
a propaganda enganosa e a falta de qualidade e segurançados produtos;
♦ pagamentos de multas e indenizações, ocasionadas por desastres ao
meio-ambiente; danos físicos ou morais aos funcionários e consumidores;
desobediência às leis e escândalos econômicos e políticos;
♦ baixa produtividade, pela maior exploração, insatisfação ou
desmotivação dos empregados.
No item a seguir, mostraremos dois casos de empresas de petróleo
envolvidas em desastre ambiental. Esses casos foram bastante divulgados pela
imprensa e resultaram em muitas perdas empresariais para as acusadas.
CASOS DE EMPRESAS: DESASTRE AMBIENTAL
Acidentes ecológicos de maior ou menor extensão tem ocorrido,
violentando fortemente o equilíbrio natural, por ações, omissões ou falhas de
algumas empresas. Dentre esses acidentes, alguns configuram verdadeiros
desastres ao meio ambiente e à sociedade, pela extensão e gravidade dos danos
que causaram e que ainda vem causando.
Além da destruição da natureza e da própria deterioração da qualidade
de vida de toda a sociedade, que envolve uma questão moral, existe também a
questão das perdas econômicas. Na mesma medida que a destruição do meio
ambiente traz o ônus das multas e dos processos por crimes ambientais, a
fiscalização e a intervenção por parte do poder público e as reações da própria
sociedade podem gerar muitas perdas num período de tempo muito curto.
No caso das companhias de petróleo, um impacto ambiental é inerente a
todo o processo de produção - e previsto pela avaliação realizada para que um
empreendimento seja autorizado. Porém, os prejuízos são enormes quando
ocorrem acidentes e incidentes resultado da negligência e descuido das
empresas exploradoras.
Começaremos comentando o derramamento de óleo no mar, envolvendo
a Exxon, e finalizaremos com o caso da Petrobras.
A Exxon opera nos Estados Unidos e em mais de 79 outros países. A maior
parte de sua receita é derivada da exploração do petróleo e do gás natural,
79
refinação e marketing (Lowe, 1993, p.24).
Em 1989, a Exxon esteve envolvida no maior derramamento de petróleo
em território norte-americano, ocorrido no Alasca. Stoner e Freeman (1985)
relataram os acontecimentos do pior vazamento de óleo da história dos EUA no
caso ilustrativo "O Exxon Valdez: Responsabilidade das Empresas e o Meio
Ambiente":
Logo depois da meia-noite do dia 24 de março de 1989, o petroleiro
Exxon Valdez, levando mais de 1,2 milhão de barris de petróleo, bateu
[em um recife] (...) no Alasca. Durante vários dias, o navio ficou
precariamente encalhado num recife, ameaçando partir-se. Mais de
300.000 barris de petróleo vazaram no mar, cobrindo mais de 1.600
km de costa com uma mancha venenosa que matou milhares de
pássaros, peixes e criaturas marinhas, e pôs em perigo todos os que
dependiam do estreito. (...) A administração da Exxon foi culpada de
causar o derramamento. Mais tarde, revelou-se que (...) o navio
[estava] nas mãos de um terceiro oficial, que não era licenciado para
pilotar o petroleiro. " (STONER e FREEMAN, 1985, p.71)
Stoner e Freeman (1985, p.76) destacam que a Exxon, ao ficar ciente do
problema, tomou uma decisão reativa (reatividade social) que foi o esforço da
companhia em limpar o vazamento: "Na primavera de 1991, a Exxon avaliou ter
gasto 2,5 bilhões de dólares em esforços de limpeza nos verões de 1989 e 1990,
parando apenas no inverno."
As imagens marcantes dos esforços de limpeza do meio ambiente foram
mostradas pela mídia americana por vários meses, representando um
instrumento de publicidade negativa da empresa:
Durante meses os meios de comunicação estiveram ocupados por
imagens dos esforços remunerados e de voluntários para limpar as
praias e resgatar pássaros e outros animais doentes e agonizantes.
Talvez essa tenha sido a imagem que mais ficou marcada nas mentes
dos americanos entre as vistas em 1989. (STONER e FREEMAN, 1985,
p.71)
A Exxon, como todos os imensos conglomerados petrolíferos, químicos e
minerais, "anda num campo minado", onde um passo em falso pode detonar
uma explosão de animosidade pública. (LOWE, 1993, p.23). Desde o início do
caso Exxon Valdez, a companhia recebeu críticas dos seus stakeholders.
A Exxon sofreu uma queda enorme na estima pública, principalmente,
por parte de alguns stakeholders -- a comunidade e os clientes:
Naquele mesmo ano [1989], mais de 330 processos foram instaurados
80
contra a Exxon por causa do acidente, inclusive por parte de
pescadores de salmão e mais de uma dúzia de tribos nativas do Alasca.
Cinqüenta mil portadores de cartões de crédito da Exxon, enojados,
devolveram seus cartões à companhia." (LOWE, 1993,p.20)
Janet Lowe (1993) comenta que mais stakeholders, como os acionistas e
ambientalistas, também desaprovaram o acidente no Alasca:
(...) apenas um mês depois do derramamento de óleo do Exxon Valdez
(...) o Presidente da Junta Diretora da Exxon, Lawrence G. Rawl, teve
que encarar uma turba de acionistas irados, sem falar em um bando
de ambientalistas que conseguiu entrar como acionistas, tendo
comprado algumas ações da Exxon." (LOWE, 1993, p.19-20).
Segundo Russell Mokhiber (2002), em 1991, a Exxon admitiu a culpa de
acusações de crimes federais em conexão com o derramamento de petróleo do
Exxon Valdez. A companhia teve que pagar uma multa por crime ambiental no
valor de US$ 125 milhões.
Stoner e Freeman (1985) resumem quais foram as lições que ficaram
deste caso para a Exxon e para a indústria petrolífera:
Ao mesmo tempo que o derramamento ajudou a lançar
estrondosamente um movimento ambiental vindo das bases da
população e que passou a fazer parte da agenda política, ele deixou a
Exxon e a indústria petrolífera com um "olho roxo" e levantou
questões sobre a responsabilidade social e ética das empresas que
ainda permanecem. " (STONER e FREEMAN, 1985, p.71)
No Brasil, também ocorreram casos de derramamento de óleo
semelhantes ao da Exxon no Alasca. Só que aqui, a companhia petrolífera
acusada foi a Petrobras. A Petrobras está entre as dez maiores empresas de
exploração de petróleo no mundo, e detém hoje os recordes de perfuração e
produção em águas profundas.
No mês de janeiro de 2000, a Petrobras foi acusada pelo acidente de
derramamento de óleo na Baía de Guanabara no Rio de Janeiro:
Em janeiro de 2000, houve o rompimento de um duto da Petrobras
que deveria levar óleo combustível para a Refinaria Duque de Caxias
(REDUC). Por quatro horas, 1,3 milhão de litros de óleo se misturaram
às águas da Baía de Guanabara no Rio de Janeiro, causando danos aos
manguezais da região e a morte dos peixes, crustáceos e aves
marinhas. O relatório oficial da empresa deduz que o duto se rompeu
por fadiga de material. O problema teria decorrido de um erro de
projeto e de uma falha no programa de computador que controla o
transporte de óleo. Se o programa tivesse funcionado, o vazamento
seria detectado num prazo máximo de meia hora. Não funcionou, e o
desastre demorou quatro horas para aparecer nos monitores.
("Petrobras: A lição da baía de todos os males", Revista Época, edição
n. 89 de 31/01/2000)
81
Para a limpeza do óleo derramado, a Petrobras deslocou para a Baía 2.213
trabalhadores, importou 22.000 metros de bóias de contenção para evitar que a
mancha se espalhasse ainda mais e trouxe especialistas estrangeiros em
preservação do meio ambiente.
Numa ação reativa aos danos causados aos pescadores da região, a
Petrobras distribuiu 8.234 cestas básicas a quem estivesse sem condições de
sobreviver em razão da decadência da atividade pesqueira na Guanabara. Além
disso, "segundo a assessoria da Petrobras, (...) foram indenizadas, no valor total
de R$ 6,7 milhões, 9.523 pessoas, que exerciam atividades ligadas à pesca e
captura de caranguejos nas áreas afetadas."
Perguntado pela Revista Época se a imagem da empresa tinha sido
afetada, Henri Philippe Reichstul, o presidente da Petrobras naquela época, disse
que:"Sim, com certeza. Mas no momento estamos preocupados com ações
muito mais concretas, de recuperação da área atingida."
Estimulado pela indignação dos fluminenses, traduzida pelo tom áspero
do noticiário de jornais, revistas e emissoras de TV, o governo acabou aplicando
uma multa ambiental à Petrobras no valor de R$ 51 milhões, que ao ser paga no
final de janeiro de 2000 teve um desconto de 30%, passando para R$ 35,7
milhões.
Reichstul declarou que a diferença de R$ 15,3 milhões, referente ao
desconto, foi depositada numa conta no Banco do Brasil sob a rubrica Petrobras-
Fundo da Baía de Guanabara para serem usados na despoluição da Baía.
Em julho de 2000, a Petrobras esteve envolvida em outro acidente de
derramamento de óleo, desta vez na refinaria Presidente Getúlio Vargas no
Paraná, e que provocou um estrago maior. Quatro milhões de litros de óleo
vazaram no rio Barigui e atingiram o rio Iguaçu, em Araucária (PR).
Por causa deste acidente, o Instituto Ambiental do Paraná anunciou que
a estatal seria multada em R$ 150 milhões, valor três vezes maior do que o do
acidente anterior na Baía de Guanabara. A justificativa é a de "reincidência
específica" - mesmo crime e mesma empresa (KARAM, 2001b).
Pressionada pela opinião pública, que colocava em dúvida sua capacidade
de prevenir e evitar acidentes, a empresa teve de melhorar seu Programa
Tecnológico de Dutos (PRODUT), criado em 1998, para desenvolver tecnologia
para seu sistema dutoviário.5
82
A Petrobras passou a fazer parcerias com universidades brasileiras para
desenvolver mais rapidamente novas tecnologias para enfrentar o desafio que o
crescimento na malha de dutos nos últimos anos vem exigindo. A empresa
estima que a malha dutoviária nacional passe dos atuais 12.000 km para 21.000
km ainda no ano de 2002.
Mesmo após os acidentes, a Petrobras mostrou que conseguiu se
recuperar e terminou o ano de 2000 com um lucro recorde de 5 bilhões de
dólares.
A Exxon e a Petrobras fazem parte de um grupo de elite internacional das
companhias petrolíferas mais poderosas do mundo, chegando a cruzar fronteiras
nacionais e culturais.
A preocupação das empresas de petróleo com a preservação do meio
ambiente precisa ser constante devido, naturalmente, ao seu setor de atuação.
Tratando-se de empresas cujas atividades podem causar impactos ambientais,
as empresas petrolíferas estão sempre sob o risco de serem identificadas como
empresas poluidoras e, portanto, nocivas à sociedade.
Dessa forma, elas devem sempre minimizar os possíveis efeitos
prejudiciais à natureza decorrentes de suas atividades, adotando rígidos
controles de preservação ambiental.
A seguir apresentaremos dados de uma pesquisa que revelam as opiniões
dos consumidores brasileiros em punir empresas que agem sem
responsabilidade social.
A pesquisa Responsabilidade Social das Empresas - Percepção do
consumidor brasileiro mostrou o quanto o consumidor brasileiro é influenciado
pelas práticas das empresas. Para cada entrevistado foi perguntado sobre qual
atitude de uma empresa faria com que ele não voltasse jamais a comprar os
produtos desta empresa ou usar os serviços da mesma. Os resultados estão no
Quadro 5 a seguir:
83
Quadro 5 - Brasil: atitudes desvalorizadas pelo consumidor
QUAL DESTAS ATITUDES DA EMPRESA FARIAM COM QUE VOCÊ NÃO VOLTASSE
JAMAIS A COMPRAR SEUS PRODUTOS OU USAR SEUS SERVIÇOS?
▪ PROPAGANDA ENGANOSA 49%
▪ CAUSOU DANOS FÍSICOS OU MORAIS AOS SEUS TRABALHADORES 43%
▪ COLABOROU COM POLÍTICOS CORRUPTOS 42%
▪ VENDEU PRODUTOS NOCIVOS À SAÚDE DOS CONSUMIDORES 32%
▪ COLOCA MULHERES, CRIANÇAS E IDOSOS EM SITUAÇÕES
CONSTRANGEDORAS EM SUAS PROPAGANDAS
32%
▪ USA MÃO-DE-OBRA INFANTIL 28%
▪ POLUI O AMBIENTE 27%
▪ SONEGA IMPOSTOS 22%
▪ PROVOCA FECHAMENTO DE PEQUENOS EMPRESÁRIOS
REGIONAIS/LOCAIS
13%
▪ SUBORNOU AGENTES PÚBLICOS 11%
Fonte: Pesquisa Ethos, Valor Econômico e Indicator Opinião Pública (2000)
Os dados deste quadro revelam uma percepção, por parte do
consumidor, do que significa a responsabilidade social da empresa e quais as
atitudes que ele desvaloriza nas empresas. Estas informações indicam as
possíveis mudanças, que deverão ocorrer nos próximos anos, nas relações da
empresa para com a sociedade.
Vimos neste que as empresas precisam levar com seriedade e
honestidade as suas relações com todos os stakeholders, pois, nos últimos anos,
essas relações tornaram-se uma questão de estratégia financeira e de
sobrevivência empresarial, devido ao lado ético e humano trazido pela
responsabilidade social.
Desta forma, as empresas precisam atentar ao fato de que auferir
grandes lucros à custa, por exemplo, da destruição do meio-ambiente, da saúde
física e mental dos empregados e do desprezo por uma parcela considerável da
sociedade e dos consumidores; pode acabar gerando prejuízos a longo prazo.
Vimos neste trabalho, que nos países desenvolvidos, os conceitos de
responsabilidade social empresarial já são discutidos há mais tempo do que no
Brasil, onde o movimento de valorização deste tema passou a ganhar forte
impulso na década de 90.
Notamos também que as partes interessadas ligadas à empresa
(stakeholders), conscientes dos seus papéis, estão exercendo um maior poder de
pressão sobre as empresas, chegando a influenciar a visão do empresariado a
respeito da responsabilidade social. Conforme apresentado, as pesquisas
84
realizadas, recentemente, mostraram que a consciência da importância da
responsabilidade social tem aumentado entre os empresários e os consumidores
brasileiros. É uma preocupação que traz resultados positivos para a comunidade,
para os funcionários, para o governo e, principalmente, para a empresa que
consegue contribuir, por exemplo, para a melhoria da sociedade e sua imagem
corporativa.
Mostramos que os ganhos empresariais obtidos a partir da
responsabilidade social é passível de se revestir de um valor econômico direto.
Embora a primeira obrigação das empresas seja a obtenção de lucros, estas
podem, ao mesmo tempo, contribuir para o cumprimento de objetivos sociais e
ambientais mediante a integração da responsabilidade social, enquanto
investimento estratégico, no núcleo da sua estratégia empresarial, nos seus
instrumentos de gestão e nas suas operações. Assim, a responsabilidade social
de uma empresa deve ser considerada como um investimento, e não como um
encargo.
Demonstrar comprometimento social deixou de ter uma conotação
puramente filantrópica e ganhou dimensão estratégica para as empresas, uma
espécie de garantia de sucesso econômico no longo prazo. Atualmente, uma das
condições para a empresa obter lucro e ser competitiva é relacionar sua marca a
conceitos e valores éticos. Afinal, para conquistar o consumidor, que exerce com
mais consciência a sua cidadania, as companhias precisam comprovar que
adotam uma postura correta, tanto na relação com funcionários, consumidores,
fornecedores e clientes, como no que diz respeito às leis, aos direitos humanos
e ao meio-ambiente. As perdas empresariais oriundas dos casos de desastre
ambiental apresentados aqui mostram o quanto as empresas estão pressionadas
pelos stakeholders em agir com responsabilidade social.
Vale lembrar, que as atuações sociais são atitudes louváveis e devem ser
usadas para a valorização da empresa no mercado. No entanto, essa valorização
deve associar os valores e objetivos da empresa à ética, gerando resultados que
irão, ao mesmo tempo, colaborar para a melhoria das condições sociais da
comunidade onde ela está inserida.
Dessa forma, a gestão socialmente responsável é o fator que pode
contribuir para a evolução das empresas nesse processo. Ao adotar um efetivo
compromisso com a ética e a sustentabilidade social e ambiental do planeta, as
85
companhias estarão exercendo plenamente sua responsabilidade social e
ajudando a construirum mundo melhor para todos.
As enormes carências e desigualdades sociais existentes em nosso país
dão à responsabilidade social empresarial relevância ainda maior. A sociedade
brasileira espera que as empresas cumpram um novo papel no processo de
desenvolvimento: sejam agentes de uma nova cultura, sejam atores de mudança
social e sejam também construtores de uma sociedade melhor.
O grande foco atual, independente das adversidades, é a construção de
uma nação sem excluídos. Talvez este foco seja utópico, entretanto, é imperativo
que a distância entre o Brasil rico e o Brasil desigual diminua. O fato de os órgãos
governamentais não atenderem aos anseios da sociedade abre um importante
espaço para a formação de parcerias entre o governo e as empresas privadas no
intuito de assumir e implementar ações de responsabilidade social.
86
RESPONSABILIDADE SOCIOAMBIENTAL E
SUSTENTABILIDADE
TEMA 04
PARTE 01 – SISTEMA DE GESTÃO AMBIENTAL (SGA)
87
SISTEMAS DE GESTÃO AMBIENTAL (SGA)
A preocupação com o esgotamento dos recursos naturais surgiu com a
percepção, após a Revolução Industrial, de que a capacidade do ser humano de
alterar o meio ambiente aumentou significativamente, levando a consequências
positivas e negativas e evidenciando uma interdependência entre a economia e
o meio ambiente.
A constatação da existência de limites ambientais ao crescimento
econômico vem levando a uma preocupação crescente com a elaboração de
políticas que permitam a conciliação da atividade econômica com a proteção
ambiental, ainda que em um primeiro momento pareça inviável conciliar essa
dualidade. (SEIFFERT, 2011).
Nesse contexto Pereira e Tocchetto (2007) defendem que a
responsabilidade pela poluição gerada nos processos produtivos deve recair
sobre as organizações que o produzem e que a variável ambiental deve ser
incorporada nas práticas gerenciais independentes das exigências de leis,
decretos e normas técnicas.
Segundo Campos e Melo (2008) os acidentes ambientais e as
conferências internacionais foram algumas das principais contribuições para que
uma nova consciência ambiental seja formada e das regulamentações para
empreendimentos, manifestando-se atenção e maiores cuidados na questão
ambiental.
Uma das mais importantes providências tomadas pelas empresas foi à
implementação dos sistemas de gestão ambiental, a partir dos quais as
atividades humanas deveriam ser monitoradas com vistas a gerar menores danos
ou impactos ao ambiente.
Entende-se por gestão ambiental empresarial as diferentes atividades
administrativas e operacionais realizadas pela empresa para abordar problemas
ambientais decorrentes da sua atuação para evitar que ele ocorra no futuro
(BARBIERI, 2007).
A gestão do meio ambiente vai aos poucos se tornando fato relevante,
diante das várias dificuldades apresentadas pela escassez de alguns recursos.
Dessa forma a questão ambiental passa a ser uma das variáveis principais nesse
novo cenário onde a sociedade e o mercado juntos buscam uma melhor condição
vital. O meio ambiente passa a ser visto como uma oportunidade e não como um
88
problema. (FARIA, 2000)
O SGA promove uma abordagem distinta da atual, buscando uma maior
sinergia entre a preocupação com os recursos naturais e uma maior efetividade
da empresa em todos os seus setores otimizando recursos. A abordagem
consciente em uma organização é resultado de SGA efetivo e promove uma série
de benefícios sociais, ambientais e econômicos, como mostra a figura a seguir:
Segundo Martins (2015), um SGA efetivo e eficiente é aquele no qual o
foco está voltado para as atividades e produtos da empresa. Esses elementos
asseguram que o SGA tem uma gestão geral e as ações técnicas necessárias para
uma eficiente realização dos objetivos ambientais da companhia.
As atividades desenvolvidas dentro de um programa de SGA estão
voltadas especificamente para os possíveis impactos ambientais (as emissões
atmosféricas, efluentes líquidos, contaminação do solo e do subsolo, das águas
superficiais e subterrâneas, consumo de recursos, produção e manuseio de
resíduos, minimização da produção de resíduos, o planeta e a vida animal, etc.)
e dependem de como isso é visto pela empresa. (MARTINS, 2015 apud DNV –
LOSS CONTROL MANAGEMENT, 1995; RAGGI e MORAES, 2007)
No início da década de 1990, tornou-se urgente o desenvolvimento de
89
normas ambientais, a fim de proteger a natureza dos malefícios causados pelo
processo industrial. Nesse sentido, a ISO - (International Organization for
Standardization) viu a necessidade de padronização de processos de empresas
que utilizam recursos tirados da natureza e/ou causassem algum dano ambiental
decorrente de suas atividades. (SCHUMACHER, 2011)
International Organization for Standardization- (Organização Internacional para
Padronizações) – ISO 14001
A ISO, que possui sede em Genebra, Suíça e foi fundada em 1947 é uma
organização não governamental que congrega mais de 100 países, inclusive o
Brasil. Tem como objetivo o desenvolvimento de normas internacionais e
voluntárias para modelos de fabricação, comunicação, comércio e sistemas de
gerenciamento. (ASSUMPÇÃO, 2014)
Seiffert (2011) afirma que a série ISO 14000 é resultado da discussão
entorno dos problemas ambientais e da busca de soluções com a utilização de
um sistema de gestão ambiental internacional, organizado e eficiente que
procuram estimular alternativas para a gestão ambiental. Ribeiro (2006) afirma
que as diretrizes da série ISO 14000 foram responsáveis pelo surgimento de
auditoria ambiental de sistema de gestão.
Cavalcanti (2005) defende que as normas da série ISO 14000 foram
criadas com os seguintes objetivos:
▪Harmonizar iniciativas de normalização pelos países;
▪Estabelecer padrões que levem à excelência ambiental;
▪Servir de guia para avaliação de performance ambiental;
▪Simplificar exigências de registros e selos ambientais;
▪Minimizar barreiras comerciais.
Assumpção (2014) afirma que em 1996 foi homologada a primeira norma
internacional da série 14000, a ISO 14001 e no Brasil isto ocorreu através da
norma ABNTNBRISO 14001/1996 “Sistema da Gestão Ambiental; Especificações
e Diretrizes para uso”. A segunda edição foi lançada em 2004. A partir de sua
publicação, a norma adquire caráter global e é usada para comprovar mundial-
mente a qualidade ambiental das empresas, substituindo as normas nacionais de
90
SGA.
A ISO 14001 é uma referência para a certificação das organizações
preocupadas com o meio ambiente. Contempla um grupo de normas técnicas
capazes de garantir que um determinado agente produtor de bens ou serviços
se utiliza de processos gerenciais que visam à redução das possibilidades de
ocorrência de danos ambientais. (VITERBO, 1998)
O sistema é baseado no ciclo de melhora contínua PDCA, sigla das iniciais
em inglês dos verbos planejar (Plan), executar (Do), verificar (Check) e agir
corretivamente (Act), mostrado na Figura 3. Por um lado, isso se traduz na
necessidade de haver objetivos e metas para melhorias. Por outro, as ações
preventivas e corretivas devem ser planejadas e realizadas em função das
deficiências encontradas no sistema. (BRUNA; PHILIPPI JUNIOR; ROMERO, 2004,
p.843)
A auditoria ambiental se localiza na fase verificação desse ciclo,
funcionando como uma análise crítica de todo o processo de gestão ambiental
com a finalidade de observar quais aspectos o sistema está adequado a norma
ISO 14000 e onde o mesmo deve se enquadrar, conforme mostra a figura 3.
Figura 3. Ciclo de melhoria continua no sistema de gestao ambiental ISO 14001 Fonte:
Barbieri (2007)
As organizações têm sofrido pressão crescente para administrar melhor
a questão ambiental e por este motivo verifica-se um movimento de implantação
de SGAs (FRYXELL; SZETO,2002), que podem ser definidos como ferramentas de
identificação de problemas e soluções ambientais baseadas no conceito de melhoria
contínua (PEROTTO et al., 2008).
O propósito dos sistemas de gestão ambiental pode ser sintetizado como
uma possibilidade de desenvolver, implementar, organizar, coordenar e
91
monitorar as atividades organizacionais relacionadas ao meio ambiente visando
conformidade e redução de resíduos (MELNYK; SROUFE; CALANTONE, 2002).
Além de contribuir com a responsabilidade social e com o cumprimento
da legislação, estes sistemas possibilitam identificar oportunidades de redução
do uso de materiais e energia e melhorar a eficiência dos processos (CHAN;
WONG, 2006).
Um sistema de gestão ambiental (SGA) apoia as organizações no controle
e a redução contínua de seus impactos ambientais (ROWLAND-JONES; PRYDE;
CRESSER, 2005) e consiste basicamente de políticas, processos e protocolos de
auditoria para operações que geram desperdício de materiais ou emissões de
poluentes (MATTHEWS, 2003). Ele objetiva dotar as empresas de instrumentos
que permitam reduzir os danos ao meio ambiente, mas de modo que seus
benefícios excedam aos custos de sua implantação.
O sistema de gestão ambiental com base na norma ISO 14001 tem como
objetivo prover as organizações de elementos de um SGA eficaz que possam ser
integrados a outros requisitos da gestão e auxiliá-las a alcançar seus objetivos
ambientais e econômicos. A sua finalidade geral é equilibrar a proteção ambiental
e a prevenção de poluição com as necessidades socioeconômicas. Muitos desses
requisitos podem ser abordados simultaneamente ou reapreciados a qualquer
momento (ISO, 2004).
Um dos méritos da norma ISO 14001, de acordo com Valle (2002), é a
uniformização das rotinas e dos procedimentos necessários para uma organização
certificar-se ambientalmente, cumprindo um roteiro padrão de exigências válido
internacionalmente. Esta norma não substitui a legislação local vigente, mas a
reforça ao exigir o seu cumprimento integral para que seja concedida a
certificação.
A estrutura da norma ISO 14001:2004 é a seguinte: introdução; objetivo;
referências normativas; termos e definições; requisitos do sistema de gestão
ambiental (requisitos gerais, política ambiental, planejamento, implantação e
operação, verificação e ação corretiva, e análise crítica pela administração); e
orientações para o uso da norma (ISO, 2004). Seus principais elementos são
representados pela espiral apresentada na Figura 1.
É possível relacionar as principais motivações para a implantação da ISO
14001 com os benefícios que a certificação proporciona, que são (ZENG et al.,
92
2005; FRYXELL; SZETO, 2002):
• abertura de mercados domésticos e internacionais;
• melhoria na gestão como um todo;
• aumento da satisfação dos consumidores;
• resposta à legislação específica de cada país;
• padronização dos procedimentos de gestão
ambiental nas operações internas;
• redução do desperdício e economia de recursos utilizados no
processo (redução de custos);
• melhoria da imagem da empresa;
• aumento da consciência ambiental na cadeia de suprimentos;
• desenvolvimento de procedimentos de produção limpa;
• atendimento às pressões dos grupos externos; e melhoria na
performance ambiental como um todo.
Porém tais benefícios somente serão alcançados se vinculados a fatores
como comprometimento da alta direção, gestão da mudança e monitoramento
dos aspectos externos, sociais e técnicos (SAMBASIVAN; FEI, 2008).
Quanto às dificuldades para sua implantação, destacam-se a alta
dependência do comprometimento dos empregados e, consequentemente, a
forma como foram motivados para isto, as falhas na comunicação e as distorções
nas estruturas de poder (CHAN; WONG, 2006).
MUDANÇA ORGANIZACIONAL E GESTÃO DE PESSOAS
A cultura organizacional pode ser definida como “[...] um conjunto de
significados compartilhados entre os membros da organização que a distingue
das outras [...]” (TOLFO; WAZLAWICK, 2008,
p. 2). Assim, mudar este conjunto não é uma tarefa simples, pois requer
iniciativas que interfiram na maneira de pensar, se comunicar, se relacionar e
trabalhar dos colaboradores em prol do SGA que está sendo implantado.
Considerando estas características culturais, Stone (2006) ressalta que é
necessário identificar maneiras positivas de comunicação, conscientização,
reconhecimento dos esforços e publicação de práticas de sucesso que ocorrem
dentro da empresa. Isto gera envolvimento com atividades do programa de
93
gestão ambiental, unindo consciência às estratégias de reconhecimento dos
esforços dos colaboradores. Se um projeto ambiental não é compatível com a
cultura ou com outros projetos da organização, ou vice-versa, isto pode afetar
seu sucesso.
Figura 1. Espiral do sistema de gestão ambiental. Fonte: ISO (2004).
A mudança organizacional pode ser entendida como fruto de uma ruptura
passível de gerar contradições por ter base no construto social anterior, contexto
em que o indivíduo fica em uma situação de impasse: contestar/modificar seus
valores adotando nova postura ou conservá-los resistindo aos novos projetos
(VASCONCELOS, I. F. G.; VASCONCELOS, F. C.,
2002). Schein (1997) define cultura organizacional como um sistema de
normas, valores compartilhados e crenças que são entendidos e aceitos pelos
membros da organização. Ela inclui regras formais e escritas, mas diz respeito
principalmente às regras implícitas. Entender a cultura de uma organização
significa conhecer suas “regras do jogo”, ou seja, os elementos que definem como
as pessoas agem. Essas regras são compartilhadas por todas as pessoas já
socializadas, isto é, que já se integraram à cultura da organização (FLEURY, 1996).
Segundo Bouyer, Campos e Ponciano (2006), para a implantação de
qualquer novo projeto ou ação é importante que se considere o “fator
organização”, com suas coordenadas humanas e culturais. Isto não é diferente
para a implantação de sistemas de gestão ambiental. Muitas dificuldades são
encontradas durante este processo, das quais se destaca a resistência à mudança.
As pessoas não resistem à mudança propriamente dita, mas à perda de
status, à possibilidade de redução da remuneração e à saída da zona de conforto.
As causas da resistência estão relacionadas à incerteza, à ameaça de interesses
94
próprios, a diferentes percepções sobre a necessidade da mudança e à falta de
tolerância. Por isso, um dos fatores mais importantes no processo de mudança é a
atitude das pessoas. Se elas forem devidamente esclarecidas e conseguirem
entender os motivos por que ela está ocorrendo, podem espontaneamente
aceitá-la, facilitando, por exemplo, o processo de implantação de um SGA
(FROESE; PAK; CHONG, 2008).
A resistência à mudança está intimamente ligada à forma de pensar e agir
das pessoas e à cultura organizacional e tem sido entendida como um dos
principais entraves à melhoria das organizações (COSTA et al., 2002). Trata-se de
um fenômeno complexo causado por fatores variados, mas que precisa ser
efetivamente considerado quando da implantação ou integração de sistemas de
gestão certificáveis. Contudo, seus efeitos podem ser minimizados se
observadas experiências anteriores semelhantes e técnicas apropriadas
(WADDELL; SOHAL, 1998).
Tanto em relação à resistência dos colaboradores como nas demais
dificuldades encontradas nos processos de implantação de SGAs certificáveis, a
área de gestão de pessoas pode dar importantes contribuições.
A Figura 2 apresenta a proposta de um modelo de gestão de pessoas que
contempla os seguintes processos: recrutamento, seleção e contratação;
treinamento e desenvolvimento; e gestão da cultura organizacional
(TACHIZAWA; FERREIRA; FORTUNA, 2001).
O recrutamento pode ser definido como um método utilizado pelas
empresas para atrair e cadastrar candidatoscapazes de atender aos requisitos de
uma vaga oferecida. Pode ser interno, realizado entre os próprios funcionários
da empresa, ou externo, com a divulgação de vagas para pessoas de fora da
instituição. Já o processo de seleção tem como objetivo escolher, entre os
candidatos atraídos pelo recrutamento, aqueles que correspondem ao perfil do
cargo desejado pela empresa. Ele inclui análise curricular, entrevistas em grupo
e entrevista técnica com um responsável pelo setor interessado (PONTELO; CRUZ,
2006). O recrutamento representa uma interessante oportunidade de se selecionar
candidatos com, além das competências técnicas para a sua futura função,
características voltadas para o trabalho coletivo e dotados de senso de
responsabilidade social, fatores que podem contribuir significativamente com o
95
SGA.
Os processos de educação e treinamento são elementos críticos para o
aumento das competências desejadas para os colaboradores. Eles devem
contemplar elementos como política ambiental, requisitos do SGA, objetivos e
metas, benefícios da melhoria das ações ambientais e as consequências da falta
de comprometimento. A frequência e a profundidade dos treinamentos influenciam
diretamente no grau de consciência ambiental dos colaboradores e impactará a
implantação do SGA com base na norma ISO 14001 (SAMBASIVAN; FEI, 2008).
A finalidade básica de um programa de educação em uma organização é
promover o desenvolvimento das competências empresariais e humanas
consideradas essenciais para a viabilização das estratégias de negócios de uma
forma sistemática, estratégica e contínua (EBOLI; HOURNEAUX; MANCINI, 2005).
No caso específico dos SGAs, a elevação do nível médio de educação da
força de trabalho colabora com a conscientização sobre as consequências dos
atos individuais sobre o meio ambiente, desenvolve o senso de responsabilidade
socioambiental do grupo e colabora com o aumento da precisão na execução das
atividades pela maior facilidade na interpretação e entendimento da política
ambiental e dos procedimentos escritos.
O processo de treinamento pode ser definido como o conjunto de métodos
usados para transmitir aos funcionários novos e antigos as habilidades necessárias
para o desempenho do seu trabalho (DESSLER, 2003). O autor sugere cinco passos
para um processo de treinamento eficiente: levantamento das necessidades,
projeto instrucional (adequação de materiais e recursos), validação
(apresentação do treinamento a um público significativo), implantação e
avaliação/ follow up (reação, aprendizado, comportamento e resultados).
Em relação à questão ambiental, o treinamento tem papel fundamental,
pois possibilita suscitar continuamente o interesse e a atenção dos funcionários
para a importância do tema na empresa, desenvolver cada vez mais suas
habilidades e conhecimento em aspectos que afetam diretamente o
desempenho ambiental da organização (precisão na execução das atividades,
conservação e manutenção de equipa- mentos, racionalização no uso de água,
energia elétrica, combustíveis, etc.) e desenvolver lideranças que possam auxiliar na
eficácia dos processos do SGA.
96
Figura 2. Modelo de gestão de pessoas. Fonte: Adaptado de Tachizawa, Ferreira e Fortuna (2001).
COMITÊ DE GESTÃO AMBIENTAL
A formação de um comitê de gestão ambiental é um requisito da norma ISO
14001, contudo acrescenta-se neste trabalho a sugestão de que ele tenha um
caráter multidisciplinar e integrado, pois isso proporciona melhor troca de
informações e gera um número maior e melhor de ideias, dada a
heterogeneidade do grupo. Seu bom relacionamento e interação com a alta
administração aumentam consideravelmente as chances de sucesso do SGA.
É importante a constante atualização dos profissionais membros do
comitê e, para isso, a parceria com a área de recursos humanos é fundamental, pois
o apoio ao SGA inclui a realização de treinamentos, desenvolvimento de
estratégias de comunicação e motivação dos colaboradores.
Os treinamentos devem ser sistematicamente planejados para que todos
os membros utilizem-se da mesma linguagem durante o desenvolvimento do
SGA. Esta preocupação foi observada nos estudos de caso e neles gerou
interessantes resultados. Portanto, a formação de um comitê de gestão
ambiental pode seguir os seguintes critérios:
Diversidade: o comitê pode ser formado por um representante de cada
setor, inclusive da área de gestão de pessoas, valorizando o trabalho em equipe e
evitando decisões isoladas.
Quantidade de membros: não existe um número exato de profissionais
que precisam fazer parte do comitê, porém é importante que haja profissionais
suficientes para possibilitar a troca profunda e constante de informações sobre
o SGA em toda a empresa, mas que não seja excessivo a ponto de tornar
contraproducentes as reuniões do grupo.
Habilidades: os membros do grupo precisam ter as seguintes habilidades
desenvolvidas: flexibilidade, comunicação e dinamismo. Isto pode ser
conseguido com especial atenção do setor de gestão de pessoas.
97
ALINHAMENTO DO SISTEMA DE GESTÃO AMBIENTAL COM A
MISSÃO E DEMAIS POLÍTICAS DA EMPRESA
Ao se projetarem as características gerais do SGA quando do início dos
trabalhos de seu desenvolvimento, devem-se considerar a cultura empresarial, a
missão e as demais políticas e sistemas de gestão da empresa, como, por exemplo,
os sistemas de gestão da qualidade e/ou de segurança e saúde do trabalho, de
forma a integrá-los, reduzir duplicações de documentos e esforços e também
para gerar sinergia.
Uma das principais reflexões que se faz neste artigo está relacionada com
uma possível mudança na missão da empresa em função da intensidade das
modificações na cultura, estrutura e funções que a implantação de um SGA
produz.
Este alinhamento possibilita o incentivo de atitudes pró-ativas e a
consolidação de um padrão de mudança. Ele também deve ser objeto da parceria
do SGA com a área de gestão de pessoas. Ele pode ser realizado a partir dos
seguintes elementos:
• introdução da questão ambiental na missão da empresa;
• estabelecimento de metas ambientais na visão da organização;
• considerar o meio ambiente nos valores empresariais;
• integrar o SGA com demais sistemas da empresa; e
• elaborar política ambiental com base na missão, visão e valores da
empresa.
Vale destacar também a importância da formulação da política ambiental
para o bom desempenho do sistema. Ela deve refletir os anseios da empresa em
relação ao seu desempenho ambiental, mas deve ser realista a ponto de
considerar as características da força de trabalho e da infraestrutura que estará
à disposição do SGA.
Como a própria norma ISO 14001 destaca, ela deve ser apropriada às
atividades, aos produtos e processos da empresa, deve incluir o comprometimento
de todos com a melhoria contínua e a prevenção da poluição, refletir os valores e
princípios da organização, atentar para o cumprimento da legislação vigente,
garantir o fornecimento da infraestrutura necessária, ser documentada e
divulgada para toda a organização e deve estar disponível para o público externo.
98
RESPONSABILIDADE SOCIOAMBIENTAL E
SUSTENTABILIDADE
TEMA 04
PARTE 02 – CERTIFICAÇÃO E AUDITORIA AMBIENTAL
Link do GOOGLE drive.
99
AUDITORIA AMBIENTAL
A Norma NBR ISO 19011 (2002) substituiu e cancelou as normas 14010,
14011 e 14012 e assumiu o lugar da compatibilização das normas ISO 14000 e
9000 em relação às auditorias. Esta norma surgiu como um guia sobre
auditorias da qualidade e do meio ambiente, estabelecendo diretrizes
orientações sobre suas etapas e procedimentos.
Usualmente, uma auditoria completa de um SGA deve ser realizada, pelo
menos, uma vez ao ano. A norma NBR ISO 19011 é indicada, principalmente para
organizações que possuem Sistema de Gestão Ambiental (SGA)
implantado.Quando o sistema de gestão é recém-implantado, as auditorias
devem ser mais frequentes visando um maior controle sobre todo o processo de
gestão. Conforme o SGA vai se estabelecendo, a frequência de auditorias tende
a diminuir.
ORIGEM, HISTÓRICO E ASPECTOS GERAIS
Auditoria é um exame ou uma avaliação independente realizada por um
especialista, que faça uso de julgamento profissional e comunique os resultados
aos interessados (clientes).
Ela pode ser restrita aos resultados de um dado domínio ou, mais ampla,
abrangendo aspectos operacionais, de decisão e de controle. (CORTESE, 2003)
Segundo Barbieri (2007), as auditorias ambientais surgiram no início do
século XX como parte de trabalhos de avaliação de desastres de grandes
proporções envolvendo explo- sões e vazamentos. Porém é a partir da década
de 1970 que ela se torna um instrumento autônomo de gestão ambiental,
inicialmente com o objetivo de averiguar o cumprimento das leis ambientais,
principalmente sob a influência da Conferência das Nações Unidas em 1972.
No Brasil, as primeiras experiências de auditoria ambiental datam da
primeira metade da década de 80, como decorrência da expansão de programas
de auditorias das empresas americanas instaladas no país. (COLOMBO, 2008)
Campos e Lerípio (2009) afirmam que as auditorias ambientais ganharam
importância em virtude da abordagem multidisciplinar do gerenciamento
ambiental, baseado em leis, normas, regulamentos, relações com as partes
100
interessadas – principalmente as comunidades-, exigências de mercado e tantas
outras questões associadas ao tema.
Segundo Cerqueira (2005), são características básicas das auditorias de
gestão:
▪ Sistemática e Periódica – Processo rigoroso que é planejado,
metódico e conduzido periodicamente;
▪ Documentada – Protocolada em registros e constatações utilizando
lista de verificações e formulários;
▪ Independente – Conduzida por pessoas independentes das
atividades auditadas.
▪ Objetiva – Precisão científica para reduzir o nível de variações.
EVOLUÇÃO, CONCEITO E OBJETIVO DAS AUDITORIAS
No começo, as auditorias ambientais buscavam essencialmente garantir
a adequação das empresas às leis ambientais de maneira defensiva, ou seja,
procuravam identificar problemas relacionados com multas, indenizações e
outras penalidades ou restrições (BARBIERI, 2007). Em seguida, teve sua
evolução voltada para se tornar uma ferramenta para o desenvolvimento
empresarial e a preservação ambiental. (KINLAW, 1997)
Entre os diversos motivos que fizeram as auditorias se tornarem mais do
que apenas um requisito legal, está as normas ISO 14000, que estabeleceu as
auditorias ambientais como parte trivial do sistema de gestão ambiental e
indispensável para o seu êxito.
Segundo a norma ISO 19011 (2012), auditoria ambiental é: Um processo
sistemático, documentado e independente para obter evidências de auditoria
(registros, apresentação de fatos ou outras infor- mações, pertinentes aos
critérios de auditorias e verificáveis, podendo ser qualitativas ou quantitativas),
avaliá-las objetivamente para determinar a extensão na qual os critérios da
auditoria (conjunto de políticas, procedimentos ou requisitos) são atendidos. Os
resultados ou constatações de auditoria podem indicar tanto conformidade
101
quanto não conformidade com o critério de auditoria ou oportunidades para
melhoria.
La Roverre et al (2001) faz uma analogia entre a auditoria ambiental e o
exame médico. Nesse sentido a auditoria ambiental é o exame que o médico
(auditor) faz em seu paciente (empresa) para verificar seu estado de saúde
(desempenho ambiental). Este pode ser aplicado periódica ou, eventualmente,
no caso de suspeita de alguma disfunção no organismo (empresa) pode ser
específico para algum determinado órgão do corpo (algum setor da empresa) ou
geral (abrange todos os setores da empresa).
Vieira (2011) define que a auditoria contábil visa medir a saúde financeira
de uma organização e a auditoria ambiental, com objetivo semelhante, vem se
tornando uma ferramenta básica na avaliação da saúde ambiental de uma
organização, diagnosticando riscos que possam se transformar em sérios
passivos ambientais.
Através do caráter investigativo, a auditoria ambiental assegura que as
medidas de prevenção, recuperação e monitoramento formalizadas pela
empresa estejam sendo efetivamente praticadas. (UHLMANN, CRUZ, FILHO,
2007).
CLASSIFICAÇÃO E TIPOS DAS AUDITORIAS
A ferramenta auditoria ambiental é utilizada para os dois tipos voluntária
e compulsória, entretanto, as consequências dos seus resultados diferem
dependendo do tipo adotado. A auditoria ambiental é praticamente a mesma
para os dois casos, aplicada da mesma forma e com os mesmos resultados, no
entanto, suas consequências não são as mesmas para os dois casos. (MARTINS,
2015)
Campos e Lerípio (2009) utilizam a classificação das auditorias:
▪ Quanto à aplicabilidade;
▪ Quanto ao tipo;
▪ Quanto à execução.
102
Quanto à aplicabilidade e a execução - Quanto à aplicabilidade, as
auditorias são classificadas em primeira, segunda e terceira parte. A
categorização de acordo com a execução se dá nas formas – internas e externas.
A figura 4 mostra que há uma sinergia entre as classificações e modo da
realização das auditorias podem ser realizadas pela própria organização, por
partes interessadas nela ou empresas externas.
Figura 4: Processos de Auditoria. Fonte: Adaptado de ISO 9001 (2000), SANCHEZ (2011) e
CERQUEIRA (2005).
As auditorias podem ser de ordem interna ou externa, e se
complementam nas suas finalidades, já que uma auditoria externa, de
certificação, se torna mais palpável se precedida de um trabalho de auditoria
interna da empresa. (DALL’AGNOL, 2008). Quanto ao tipo – Conforme é
demonstrado na tabela 2 logo abaixo. A diferença entre os tipos de auditoria se
dá na distinção de sua finalidade para a organização.
Tabela 2. Categorias de Auditoria Ambiental
Tipos de Auditoria Definição
Conformidade Legal Também conhecida como compliance, avalia a adequação da unidade auditada
em relação aos requisitos legais aplicáveis.
Desempenho
Ambiental
Seu enfoque é na avaliação da unidade auditada em relação ao atendimento aos
requisitos legais aplicáveis e outros requisitos, além dos Indicadores de
Desempenho Ambiental (IDA).
SGA Avalia o grau de atendimento aos requisitos estabelecidos no Sistema Gestão
Ambiental, sua adequação e eficácia.
Certificação
Realizada por Organismo de Certificação Ambiental independente, é muito
similar à de SGA. A equipe de auditoria recomenda ou não a certificação em
função da avaliação realizada e dos resultados obtidos.
Descomissionamento
No caso de uma desativação (paralisação definitiva das atividades) de uma
organização, são avaliados os danos ao ecossistema e à população do entorno
da unidade, também conhecida como decommissioning.
103
Responsabilidade
Usualmente chamada de duediligence, seu enfoque é na avaliação do
passivo ambiental. Atualmente, muito aplicada, especialmente, no caso de
fusões, incorporações, compras de organizações.
Sítios Aplicada quando o objetivo é avaliar o grau de contaminação de um
deter- minado local.
Pontual O objetivo, nesse caso, é avaliar as oportunidades de melhorias do
processo produtivo, a otimização da gestão dos recursos.
Fonte: ROVERE et al., (2001)
No caso da auditoria ambiental utilizada como instrumento de política
pública, as possíveis não conformidades podem gerar aplicação de penalidades
legais, como multas e processos judiciais por crimes ambientais. Já no caso da
auditoria de SGA voluntário, as possíveis não conformidades não tem objetivo
punitivo, e são encaradas dentro de um processo de melhoria contínua.
(MARTINS, 2015)
RESPONSABILIDADES DO AUDITOR E DO AUDITADO
Conforme afirma Barbieri (2007) a auditoria deve ser planejadade modo
que cada pessoa envolvida no processo, incluindo auditores, administradores e
funcionários da organização auditada, compreenda bem suas funções e
responsabilidades.
Como qualquer outro projeto, a auditoria ambiental deve estabelecer seu
escopo, objetivo, recursos, cronograma entre outros. Todas essas etapas devem
ser definidas na fase de planejamento da para sua melhor clareza e eficiência
como demonstra a figura 5.
Figura 5. Elementos essenciais para o sucesso das auditorias. Fonte: VILLELA, (2006)
Campos e Lerípio (2009) estabelece que, normalmente, são previstos
cinco atores diferentes no processo de auditoria ambiental, cada qual com suas
funções e responsabilidades específicas. São eles:
104
▪ Auditor líder - O auditor líder é a figura principal no processo
de condução da auditoria ambiental. É responsável por assegurar ao cliente
a eficiência e eficácia da auditoria.
▪ Auditor - Algumas das responsabilidades do auditor são:
Seguir as instruções do auditor líder, dando-lhe apoio; planejar e executar a
tarefa que lhe for incumbida com objetividade, eficácia e eficiência, dentro
do escopo da auditoria; Coletar a analisar evidências de auditoria, relevantes
e suficientes, para definir as constatações de auditoria e etc.
▪ Cliente - São responsabilidades do cliente: determinar a
necessidade da auditoria; contatar o auditado para obter sua total
cooperação e iniciar o processo; quando o auditado e o cliente não forem a
mesma organização; definir os objetivos da auditoria e etc.
▪ Auditado - Entre as atribuições e responsabilidades do
auditado, citam-se: informar aos funcionários os objetivos e o escopo da
auditoria, conforme necessário; prover à equipe de auditoria, recursos
necessários para assegurar um processo de auditoria eficaz e eficiente;
designar pessoal responsável e competente para acompanhar os membros
da equipe de auditoria, atuando como guias e assegurando que os
auditores estejam atentos aos aspectos de saúde, segurança e outros
requisitos apropriados; prover acesso às instalações, ao pessoal e às
informações e registros pertinentes, conforme solicitado pelos auditores.
▪ Demais membros da equipe de auditoria - Além das partes
citadas, funções como: secretário, cronometrista, observador de
externalidades e fotógrafo podem ser necessários no processo de auditoria
ambiental. A tabela 3 a seguir realça de forma simples e objetiva, as escalas
de papéis dentro do processo.
105
Tabela 3. Fases e ciclos da Auditoria e seus Respectivos Responsáveis.
Fase do Ciclo da Auditoria Responsáveis
Programar a auditoria Cliente interessado na auditoria
Preparar a auditoria
Auditor ou equipe auditoria autorizada Conduzir e avaliar a auditoria
Preparar o relatório para o cliente
Analisar criticamente os resultados Clientes interessados na auditoria
Concluir a auditoria empreendendo as
ações corretivas
Auditado
Acompanhar as ações corretivas
empreendidas
Auditor ou equipe auditora autorizada
Fonte: Cerqueira (2005)
Um programa de auditoria deve ser planejado levando em consideração
a situação e a importância dos processos e áreas a serem auditadas, bem como
o resultado das auditorias anteriores. (SCHUMACHER, 2011)
INSTRUMENTOS E ETAPAS DA AUDITORIA
Segundo Campos (2009) os instrumentos de uma auditoria ambiental
são: Questionários- instrumento onde é enviada antecipadamente a unidade
auditada para agilizar o processo de visita, com a finalidade de fornecer
informações sobre o processo de produção e de como são gerenciados os
assuntos ambientais;
▪ Lista de lembrete - instrumento aplicado na execução e no
planejamento da auditoria, com finalidade de facilitar e lembrar os processos,
geralmente é desenvolvido pelo auditor líder;
▪ Protocolos - instrumento auxiliar na coleta e documentação de dados
apurados, fornecer orientação para o auditor em relação às normas e
procedimentos a serem seguidos com o intuito de garantir qualidade da
auditoria;
▪ Lista de Verificação “checklist” - instrumento auxiliar do auditor
caracterizada por questões com respostas “sim” ou “não” e “conforme” ou “não
conforme” adaptadas a cada auditor e auditoria com função de seus objetivos,
escopo, tipo da unidade dentre outras. Informações básicas necessárias para
elaboração da“checklist”ou protocolo de pré-auditoria:
106
Tabela 4. Informações básicas “check-list” ou Protocolo de pré-auditoria
Item Descrição
1
Razão Social, registros e licenciamentos pertinentes à unidade
auditada.
2
Organograma da unidade com identificação das
responsabilidades.
3
Estrutura de gestão da unidade (política, sistema de
comunicação e informação) e da corporação (se for o caso).
4 Mercado de operação da unidade.
5 Planta da unidade.
6 Fluxograma do processo de produção
7
Registro e inventário de poluentes (líquidos, gasosos, sólidos e
material radioativo), ruídos, vibrações e odores.
8 Registro de acidentes.
9 Relação de matérias primas e insumos.
10 Legislações, normas e regulamentos pertinentes.
11 Exigências específicas para a unidade a ser auditada.
12 Registros de treinamentos (capacitação).
13
Relatórios de auditorias ambientais anteriores ou inspeções
anteriores.
Fonte: PHILIPPI JR e AGUIAR (2006)
Um programa de auditoria deve ser planejado levando em consideração
a situação e a importância dos processos e áreas a serem auditadas, bem como
o resultado das auditorias anteriores. (SCHUMACHER, 2011)
Antes de ser realizada a auditoria, é importante que os auditores
entrem em contato com os auditados. Segundo Philippi Jr, e Aguiar (2006) esse
contato deve seguir as seguintes fases:
▪ Reunião de abertura - Apresentação dos auditores e auditados com
a presença do auditor líder e dos principais membros da organização auditada;
▪ Conhecimento Geral da Unidade - Visita a organização;
▪ Coleta de Evidências - Parte mais longa do processo. Verificação se
os auditados estão cumprindo os critérios pré-estabelecidos. Nessa parte
aparecem as não conformidades e para um melhor diagnóstico são utilizadas
técnicas como: entre- vistas, observação, verificação de documentos e dados,
verificação de registros ambientais e testes;
107
▪ Reunião da Equipe Auditora - Troca de informações entre os
auditores;
▪ Reunião de encerramento - Apresentação dos resultados;
▪ Formalização do relatório - É o documento que registra o resultado
do trabalho.
Conforme citado anteriormente, estabelecido o contato entre as partes
e a separação de responsabilidades dos atores envolvidos, inicia-se a auditoria
baseada em seus escopo e critérios.
Cortese (2003) explica que o escopo delimita o campo de ação da
auditoria de acordo com seu objetivo. Para a definição do escopo é necessário
considerar variáveis como a localização geográfica, limites organizacionais, o
período da auditoria com a definição de datas e o tema ambiental com a
definição dos itens a serem avaliados: poluição da água, do ar, geração de
resíduos e riscos ambientais.
Os critérios de auditoria são os procedimentos, práticas e requisitos que
são utilizados pela empresa ou auditor como padrões para avaliar as práticas
operacionais da empresa auditada, sua documentação e outras atividades
previstas na contratação da auditoria. (MOURA, 2011)
A Figura 6 fornece uma visão geral do processo de auditoria desde a
coleta de informações ate o a avaliação dos resultados.
Figura 6. Modelos dos estágios de auditoria ambiental. Fonte: Ledgerwooxd; Street and
Therivel (1992) adaptado por OLIVEIRA FILHO (2002).
Conforme citado nos capítulos anteriores, estabelecidos o escopo e os
108
critérios o processo de auditoria se inicia com a coleta de evidências por meio de
seus instrumentos.
Baseado nas evidências coletadas, os auditores elaboram relatórios para
os clientes (audi- tados)que podem utilizar os dados apontados para realizar
mudanças (ou não) em seu processo produtivo.
VANTAGENS E DESVANTAGENS DA AUDITORIA
A auditoria ambiental é uma ferramenta da gestão ambiental para o
princípio da prevenção. Se bem conduzida, pode proporcionar benefícios para as
empresas que se utilizam de recursos naturais ou mesmo tenham atividades
impactantes. Com ela pode-se avaliar a probabilidade de ocorrências ambientais
danosas. Uma política ambiental empresarial que utiliza a auditoria pode auxiliar
a melhoria da imagem geral da empresa por incorporar as eventuais
externalidades poluidoras. (OLIVEIRA, 2010)
Oliveira Filho (2002) lista as vantagens da auditoria ambiental tais como:
▪ Ajuda a proteger o meio ambiente interno e externo da
empresa;
▪ Identifica e documenta o cumprimento de políticas,
diretrizes, padrões ambientais e da legislação ambiental;
▪ Conduz a melhorias no desempenho ambiental da unidade
auditada;
▪ Contribui para evitar ou minimizar o uso de recursos naturais
e atua com um instrumento de educação ambiental conscientizando e
desenvolvendo uma maior responsabilidade ambiental de funcionários e
dirigentes;
▪ Melhora a imagem institucional da empresa, dando margem o uso do
marketing ambiental e etc.
Philippi e Aguiar (2006) afirmam que as empresas adotam a auditoria em
sistema de gestão ambiental para atingir objetivos distintos. O primeiro é
orientar a empresa para atender as exigências da legislação aplicável,
identificando os problemas e os riscos ambientais de modo a corrigi-los.
109
O segundo é atender os requisitos estabelecidos no SGA, buscando a
conformidade com a política ambiental adotada pela empresa. Em terceiro lugar,
verifica a eficácia da gestão ambiental. Nesta etapa, a empresa, em geral,
considera que a melhoria do seu desempenho ambiental pode trazer vantagens
econômicas, como por exemplo, novos mercados internos e externos.
Com a auditoria ambiental passa a ser possível identificar os pontos
“fracos”, aqueles passíveis de falhas frequentes, e os pontos “fortes”, nos quais
não se registram problemas na maioria das análises. A aplicação sistemática e
periódica deste instrumento de verificação possibilita uma análise estatística das
ocorrências de falhas mais frequentes (LA ROVERE, 2001). Conforme ilustra a
figura 7 abaixo, a auditoria ambiental, da mesma forma que o SGA baseado na
ISO 14001 funciona em um processo cíclico e baseado na melhora contínua.
Figura 7. Ciclo de melhorias de ações corretivas de auditoria. Fonte: PHILIPPI JR e AGUIAR
(2006).
No tocante as desvantagens na aplicação de auditorias ambientais em programas
de SGA pela ISO 14001. La Rovere (2008) cita:
▪ Necessidade de recursos adicionais para implementar o programa de
auditoria ambiental;
▪ Possibilidade de incorrer em dispêndio inesperado e expressivo de recursos
para atender às não conformidades detectadas na auditoria ambiental;
▪ Indicar falsa sensação de segurança sobre os riscos ambientais, caso a
auditoria ambiental seja conduzida de forma inexperiente ou incompleta; Possibilidade de
que as indústrias sofram pressões de órgãos governamentais e de grupos ambientais para
demonstrar os resultados das auditorias ambientais.
110
IMPACTOS ECONÔMICOS, COMPORTAMENTAIS E AMBIENTAIS
Todo o processo de auditoria causa impactos significantes no cotidiano dentro de
uma organização. Estes podem estar relacionados ao comportamento dos colaboradores
e em seus processos e produtos, causando consequências de cunho econômico,
comportamental e ambiental em curto, médio e longo prazo.
▪ Econômicos - Os resultados da auditoria ambiental podem provocar gastos
(negativo) e investimentos (positivo) referentes ao SGA. Se os resultados mostrarem que a
organização obedeceu a normatização e legislação vigente e conseguiu resultados (menos
despesas) com essa conduta, as chances de um maior investimento e aperfeiçoamento
destas auditorias se amplia. Por outro lado, se os resultados não forem os esperados (não
conformidades) e não ocorra o devido resultado financeiro, a tendência é uma
desmotivação da organização sobre o tema e um maior investimento e capital humano
resultando em impactos comportamentais.
▪ Comportamentais - Quando há a eficiência do processo de gestão e a
auditoria aponta os resultados (econômicos) a alta administração da organização se
mobiliza para que esse cenário se mantenha e busca conscientizar toda a empresa sobre
seus benefícios e, por consequência, há uma maior excelência no sistema de gestão
ambiental um maior vinculo da organização com a questão ambiental (marketing
ambiental) é importante citar a importância da periodicidade das auditorias internas e
externas para que a normas se tornem mais “familiares aos colaboradores”
▪ Ambientais - A auditoria ambiental demonstra a responsabilidade ambiental
da organização com base em seu processo de gestão e, com a demanda do mercado e da
socie- dade por desenvolvimento sustentável, tende a crescer cada vez mais, levando a
uma maior preservação dos recursos naturais e uma educação ambiental indireta.
A intensidade da ocorrência desses impactos se dará na condição da quantidade
de recursos da empresa e na vontade da alta administração para investir nessa linha. Haja
vista todos os benefícios de um sistema corporativo ambiental.
A auditoria ambiental na visão de muitas organizações, não passa de uma
perspectiva de atendimento legal e de uma abordagem estritamente técnica. Porém seu
impacto de utilização vai muito além de um atendimento legal, pois caracteriza uma
preocupação incessante pela busca de melhores alternativas relacionadas aos insumos e
produtos que se revelem menos agressivos ao meio ambiente. (DONAIRE, 1999)
Segundo Oliveira Filho (2002), após a auditoria ambiental, ocorre a revisão da
111
minuta do relatório e o desenvolvimento do plano de ação. O plano de ação não pertence
ao escopo da auditoria ambiental, mas propicia o seu desenvolvimento por parte dos
responsáveis pela administração da unidade auditada. (SILVA, 2009)
112
M RESPONSABILIDADE SOCIOAMBIENTAL E
SUSTENTABILIDADE
TEMA 05
PARTE 01 - POLÍTICA NACIONAL DE RESÍDUOS SÓLIDOS (PNRS)
113
POLÍTICA NACIONAL DE RESÍDUOS SÓLIDOS (PNRS)
Hoje o Brasil possui uma lei que regulamenta a Política Nacional de
Resíduos Sólidos (PNRS). A lei 12.605 foi sancionada em 02 de agosto de 2010 e
é um importante instrumento que traz muitos benefícios, principalmente para
as empresas. Além do mais coloca o país no caminho da melhoria da qualidade
de vida, da preservação ambiental e da sustentabilidade.
Um dos aspectos que a PNRS influencia no negócio é o valor econômico
dado ao resíduo. O resíduo sólido não é mais visto como algo sem utilidade,
agora é visto como algo rentável e que promove a socialização e a cidadania.
Além disso, sendo também, um gerador de trabalho e renda.
A Política Nacional de Resíduos Sólidos vem para dispor sobre o
tratamento dos resíduos. Não deve ser vista apenas como uma obrigação dos
fabricantes, importadores, distribuidores e vendedores para destinar
corretamente os resíduos. Deve ser entendida como um instrumento que
influencia positivamente o negócio
LOGÍSTICA REVERSA NA POLÍTICA NACIONAL DE RESÍDUOS
SÓLIDOS
Tornar um negócio sustentável, com o menor impacto possível para o
ambiente, não é mais uma opção, e sim uma obrigação de qualquer organização.
A Política Nacional de Resíduos Sólidos exige que muitas empresas
desenvolvam um sistema de logística reversa, que permita o retorno dos
resíduos à indústria para serem reaproveitados. Essa é umas das influências da
PNRS no negócio de uma empresa.
A lei cita explicitamente que alguns setores como os fornecedores de
agrotóxicos, pneus e produtos químicos devem implementar programas para a
coleta e destinação adequadados resíduos produzidos após o fim da vida útil de
seus produtos.
A logística reversa é um instrumento usado para viabilizar a coleta e a
restituição dos resíduos as empresas, para reaproveitamento. As organizações
podem reaproveitar esses resíduos em seu próprio ciclo ou em outros ciclos
produtivos. Também, podem dá a outra destinação final ambientalmente
adequada.
https://www.vgresiduos.com.br/blog/diretrizes-para-implementacao-do-sistema-de-logistica-reversa/
114
A Política Nacional de Resíduos Sólidos definiu três instrumentos para
serem usados na implantação do sistema: regulamento, acordo setorial e termo
de compromisso.
ORDEM DE PRIORIDADE NO GERENCIAMENTO DE RESÍDUOS
Outro fator que a Política Nacional de Resíduos Sólidos influencia é
a ordem de prioridade no gerenciamento de resíduos.
A organização deve observa a seguinte ordem de prioridade:
▪ primeiro priorizar a não geração;
▪ depois desenvolver meios para a redução;
▪ reutilização;
▪ reciclagem;
▪ tratamento;
▪ disposição final ambientalmente adequada.
As empresas devem cumprir as exigências da PNRS em relação à ordem
de prioridade no gerenciamento de resíduos. As consequências do não
cumprimento podem ser impactos que podem prejudicar o meio ambiente e a
população. Além disso, as empresas estão sujeitas a autuações por parte do
poder público.
As organizações são responsáveis por evitar que resíduos sejam
descartados de maneira incorreta ou transformados em lixo quando poderiam
ser reaproveitados ou reutilizados. Como também são responsáveis em criar
métodos para não gerar ou reduzir.
Por determinação da Política Nacional de Resíduos Sólidos os geradores,
tratadores e transportadores de resíduos sólidos são obrigados a elaborarem
os Planos de Gerenciamento de Resíduos Sólidos. O PGRS demonstra a
capacidade de a organização dar uma destinação final ambientalmente
adequada aos resíduos.
Esses documentos devem ser disponibilizados anualmente ao órgão
municipal competente, ao órgão licenciador do SISNAMA e às demais
autoridades competentes.
As empresas que elaboram o PGRS, além de cumprirem com a lei,
também, demonstram que seus processos são controlados para evitar
grandes poluições ambientais e consequências para a saúde humana.
https://www.vgresiduos.com.br/blog/diferenca-entre-lixo-residuo-rejeito/
115
SÃO OBRIGADOS A ELABORAR O PGRS:
A elaboração do PGRS é obrigatória para um determinado segmento de
empresas. São de responsabilidade das geradoras e tratadoras dos:
▪ resíduos dos serviços públicos de saneamento básico, exceto os
resíduos sólidos urbanos domiciliares e de limpeza urbana, originários da
varrição, limpeza de logradouros e vias públicas e outros serviços de limpeza
urbana. Nessa categoria são consideradas as empresas de tratamento de água e
esgoto, drenagem de água pluvial, as prefeituras que prestam os serviços
públicos de saneamento básico por conta própria, entre outros.
▪ resíduos industriais: se aplica a toda e qualquer indústria no país.
Desde a indústria alimentícia, automobilística, de equipamentos eletrônicos, as
serrarias, entre outras.
▪ resíduos de serviços de saúde: os resíduos desta categoria de
geradores são gerados principalmente em hospitais, clínicas, consultórios, mas
também na indústria farmacêutica.
▪ resíduos da construção civil: as empresas de construção, de
reformas, reparos e demolições de obras de construção civil, incluídos os
resultantes da preparação e escavação de terrenos para obras civis.
▪ resíduos perigosos, ou caracterizados como não perigosos, por sua
natureza, composição ou volume: os geradores dessa categoria devem se
cadastrar em órgãos específicos e detalhar o gerenciamento de resíduos
perigosos periodicamente aos órgãos controladores, mesmo se gerarem um
volume pequeno de resíduo.
▪ resíduos de serviços de transporte: neste grupo entram as empresas
de transporte originários de portos, aeroportos, terminais alfandegários,
rodoviários e ferroviários e passagens de fronteira.
▪ resíduos das atividades agropecuárias e silviculturas, incluídos os
relacionados a insumos utilizados nessas atividades: as empresas pertencentes a
essa categoria são: frigoríficos, matadouros, abatedouros, açougues, indústria de
processamento de produtos agrícolas como arroz, mandioca, milho, soja, feijão,
etc.
116
AFASTE AS PENALIDADES
A empresa que descumprir as regras da Política Nacional de Resíduos
Sólidos estará sujeito a punições da Lei de Crimes Ambientais. As penas pelo
descumprimento vão desde a reclusão e detenção até o pagamento de multas.
Indústrias e outras empresas, incluindo as tratadoras podem ser autuadas
em valores de R$ 500,00 a R$ 2 milhões. Concluímos que a Política Nacional de
Resíduos Sólidos influencia muito um negócio, principalmente na oportunidade
de desenvolver outros mercados como os que trabalham com tratamento. A
PNRS contribui para redução dos custos de produção e aumenta a
competitividade. A gestão de resíduos deve obedecer a uma ordem de ações
visando os objetivos previstos na lei.
No artigo Art. 3o Para os efeitos da Lei de PNRS, entende-se por:
I - acordo setorial: ato de natureza contratual firmado entre o poder
público e fabricantes, importadores, distribuidores ou comerciantes, tendo em
vista a implantação da responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida do
produto;
II - área contaminada: local onde há contaminação causada pela
disposição, regular ou irregular, de quaisquer substâncias ou resíduos;
III - área órfã contaminada: área contaminada cujos responsáveis
pela disposição não sejam identificáveis ou individualizáveis;
IV - ciclo de vida do produto: série de etapas que envolvem o
desenvolvimento do produto, a obtenção de matérias-primas e insumos, o
processo produtivo, o consumo e a disposição final;
V - coleta seletiva: coleta de resíduos sólidos previamente
segregados conforme sua constituição ou composição;
VI - controle social: conjunto de mecanismos e procedimentos que
garantam à sociedade informações e participação nos processos de formulação,
implementação e avaliação das políticas públicas relacionadas aos resíduos
sólidos;
VII - destinação final ambientalmente adequada: destinação de
resíduos que inclui a reutilização, a reciclagem, a compostagem, a recuperação e
o aproveitamento energético ou outras destinações admitidas pelos órgãos
competentes do Sisnama, do SNVS e do Suasa, entre elas a disposição final,
observando normas operacionais específicas de modo a evitar danos ou riscos à
117
saúde pública e à segurança e a minimizar os impactos ambientais adversos;
VIII - disposição final ambientalmente adequada: distribuição
ordenada de rejeitos em aterros, observando normas operacionais específicas
de modo a evitar danos ou riscos à saúde pública e à segurança e a minimizar os
impactos ambientais adversos;
IX - geradores de resíduos sólidos: pessoas físicas ou jurídicas, de
direito público ou privado, que geram resíduos sólidos por meio de suas
atividades, nelas incluído o consumo;
X - gerenciamento de resíduos sólidos: conjunto de ações exercidas,
direta ou indiretamente, nas etapas de coleta, transporte, transbordo,
tratamento e destinação final ambientalmente adequada dos resíduos sólidos e
disposição final ambientalmente adequada dos rejeitos, de acordo com plano
municipal de gestão integrada de resíduos sólidos ou com plano de
gerenciamento de resíduos sólidos, exigidos na forma desta Lei;
XI - gestão integrada de resíduos sólidos: conjunto de ações voltadas
para a busca de soluções para os resíduos sólidos, de forma a considerar as
dimensões política, econômica, ambiental, cultural e social, com controle social
e sob a premissa do desenvolvimento sustentável;
XII - logística reversa: instrumento de desenvolvimento econômico e
social caracterizado por um conjunto de ações,procedimentos e meios
destinados a viabilizar a coleta e a restituição dos resíduos sólidos ao setor
empresarial, para reaproveitamento, em seu ciclo ou em outros ciclos
produtivos, ou outra destinação final ambientalmente adequada;
XIII - padrões sustentáveis de produção e consumo: produção e
consumo de bens e serviços de forma a atender as necessidades das atuais
gerações e permitir melhores condições de vida, sem comprometer a qualidade
ambiental e o atendimento das necessidades das gerações futuras;
XIV - reciclagem: processo de transformação dos resíduos sólidos
que envolve a alteração de suas propriedades físicas, físico-químicas ou
biológicas, com vistas à transformação em insumos ou novos produtos,
observadas as condições e os padrões estabelecidos pelos órgãos competentes
do Sisnama e, se couber, do SNVS e do Suasa;
XV - rejeitos: resíduos sólidos que, depois de esgotadas todas as
possibilidades de tratamento e recuperação por processos tecnológicos
118
disponíveis e economicamente viáveis, não apresentem outra possibilidade que
não a disposição final ambientalmente adequada;
XVI - resíduos sólidos: material, substância, objeto ou bem
descartado resultante de atividades humanas em sociedade, a cuja destinação
final se procede, se propõe proceder ou se está obrigado a proceder, nos estados
sólido ou semissólido, bem como gases contidos em recipientes e líquidos cujas
particularidades tornem inviável o seu lançamento na rede pública de esgotos
ou em corpos d’água, ou exijam para isso soluções técnica ou economicamente
inviáveis em face da melhor tecnologia disponível;
XVII - responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos
produtos: conjunto de atribuições individualizadas e encadeadas dos
fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes, dos consumidores e
dos titulares dos serviços públicos de limpeza urbana e de manejo dos resíduos
sólidos, para minimizar o volume de resíduos sólidos e rejeitos gerados, bem
como para reduzir os impactos causados à saúde humana e à qualidade
ambiental decorrentes do ciclo de vida dos produtos, nos termos desta Lei;
XVIII - reutilização: processo de aproveitamento dos resíduos sólidos
sem sua transformação biológica, física ou físico-química, observadas as
condições e os padrões estabelecidos pelos órgãos competentes do Sisnama e,
se couber, do SNVS e do Suasa;
XIX - serviço público de limpeza urbana e de manejo de resíduos
sólidos: conjunto de atividades previstas no art. 7º da Lei nº 11.445, de 2007.
Art. 6o São princípios da Política Nacional de Resíduos Sólidos: I - a
prevenção e a precaução;
II - o poluidor-pagador e o protetor-recebedor;
III - a visão sistêmica, na gestão dos resíduos sólidos, que considere
as variáveis ambiental, social, cultural, econômica, tecnológica e de saúde
pública;
IV - o desenvolvimento sustentável;
V - a ecoeficiência, mediante a compatibilização entre o
fornecimento, a preços competitivos, de bens e serviços qualificados que
satisfaçam as necessidades humanas e tragam qualidade de vida e a redução do
119
impacto ambiental e do consumo de recursos naturais a um nível, no mínimo,
equivalente à capacidade de sustentação estimada do planeta;
VI - a cooperação entre as diferentes esferas do poder público, o
setor empresarial e demais segmentos da sociedade;
VII - a responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos
produtos;
VIII - o reconhecimento do resíduo sólido reutilizável e reciclável
como um bem econômico e de valor social, gerador de trabalho e renda e
promotor de cidadania;
IX - o respeito às diversidades locais e regionais;
X - o direito da sociedade à informação e ao controle social; XI - a
razoabilidade e a proporcionalidade.
Art. 7o São objetivos da Política Nacional de Resíduos Sólidos: I - proteção
da saúde pública e da qualidade ambiental;
II - não geração, redução, reutilização, reciclagem e tratamento dos
resíduos sólidos, bem como disposição final ambientalmente adequada dos
rejeitos;
III - estímulo à adoção de padrões sustentáveis de produção e
consumo de bens e serviços;
IV - adoção, desenvolvimento e aprimoramento de tecnologias
limpas como forma de minimizar impactos ambientais;
V - redução do volume e da periculosidade dos resíduos perigosos;
VI - incentivo à indústria da reciclagem, tendo em vista fomentar o
uso de matérias-primas e insumos derivados de materiais recicláveis e
reciclados;
VII - gestão integrada de resíduos sólidos;
VIII - articulação entre as diferentes esferas do poder público, e
destas com o setor empresarial, com vistas à cooperação técnica e financeira
para a gestão integrada de resíduos sólidos;
IX - capacitação técnica continuada na área de resíduos sólidos;
X - regularidade, continuidade, funcionalidade e universalização da
prestação dos serviços públicos de limpeza urbana e de manejo de resíduos
sólidos, com adoção de mecanismos gerenciais e econômicos que assegurem a
recuperação dos custos dos serviços prestados, como forma de garantir sua
120
sustentabilidade operacional e financeira, observada a Lei nº 11.445, de 2007;
XI - prioridade, nas aquisições e contratações governamentais, para:
a) produtos reciclados e recicláveis;
b) bens, serviços e obras que considerem critérios compatíveis com
padrões de consumo social e ambientalmente sustentáveis;
XII - integração dos catadores de materiais reutilizáveis e recicláveis
nas ações que envolvam a responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos
produtos;
XIII - estímulo à implementação da avaliação do ciclo de vida do
produto;
XIV - incentivo ao desenvolvimento de sistemas de gestão ambiental
e empresarial voltados para a melhoria dos processos produtivos e ao
reaproveitamento dos resíduos sólidos, incluídos a recuperação e o
aproveitamento energético;
XV - estímulo à rotulagem ambiental e ao consumo sustentável.
No capítulo III da referida Lei estabelece os instrumentos no art. 8o São
instrumentos da Política Nacional de Resíduos Sólidos, entre outros: I - os planos
de resíduos sólidos;
II - os inventários e o sistema declaratório anual de resíduos sólidos;
III - a coleta seletiva, os sistemas de logística reversa e outras
ferramentas relacionadas à implementação da responsabilidade compartilhada
pelo ciclo de vida dos produtos;
IV - o incentivo à criação e ao desenvolvimento de cooperativas ou
de outras formas de associação de catadores de materiais reutilizáveis e
recicláveis;
V - o monitoramento e a fiscalização ambiental, sanitária e
agropecuária;
VI - a cooperação técnica e financeira entre os setores público e
privado para o desenvolvimento de pesquisas de novos produtos, métodos,
processos e tecnologias de gestão, reciclagem, reutilização, tratamento de
resíduos e disposição final ambientalmente adequada de rejeitos;
VII - a pesquisa científica e tecnológica; VIII - a educação ambiental;
IX - os incentivos fiscais, financeiros e creditícios;
X - o Fundo Nacional do Meio Ambiente e o Fundo Nacional de
121
Desenvolvimento Científico e Tecnológico;
XI - o Sistema Nacional de Informações sobre a Gestão dos Resíduos
Sólidos (Sinir); XII - o Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico
(Sinisa);
XIII - os conselhos de meio ambiente e, no que couber, os de saúde;
XIV - os órgãos colegiados municipais destinados ao controle social
dos serviços de resíduos sólidos urbanos;
XV - o Cadastro Nacional de Operadores de Resíduos Perigosos; XVI -
os acordos setoriais;
XVII - no que couber, os instrumentos da Política Nacional de Meio
Ambiente, entre eles: a) os padrões de qualidade ambiental;
b) o Cadastro Técnico Federal de Atividades Potencialmente
Poluidoras ou Utilizadoras de Recursos Ambientais;
c) o Cadastro Técnico Federal de Atividades e Instrumentos de
Defesa Ambiental;
d) a avaliação de impactos ambientais;e) o Sistema Nacional de Informação sobre Meio Ambiente (Sinima);
f) o licenciamento e a revisão de atividades efetiva ou
potencialmente poluidoras;
XVIII - os termos de compromisso e os termos de ajustamento de
conduta; XIX - o incentivo à adoção de consórcios ou de outras formas de
cooperação entre os entes federados, com vistas à elevação das escalas de
aproveitamento e à redução dos custos envolvidos.
122
RESPONSABILIDADE SOCIOAMBIENTAL E
SUSTENTABILIDADE
TEMA 05
PARTE 02 - LOGÍSTICA REVERSA (LR)
Link do GOOGLE drive.
123
LOGÍSTICA REVERSA (LR)
A Logística Reversa tem sido citada com frequência e de forma crescente
em livros modernos de Logística Empresarial, em artigos internacionais e
nacionais, demonstrando sua aplicabilidade e interesse em diversos setores
empresariais e apresentando novas oportunidades de negócios no Supply Chain
Reverso, criado por esta nova área da Logística Empresarial. No Brasil, mais
recentemente, seu interesse empresarial tem sido demonstrado por inúmeras
palestras, seminários e consultas que temos realizado em associações, empresas
e universidades e o interesse acadêmico pela sua inclusão como disciplina
curricular em cursos de especialização em Logística Empresarial.
Após uma série de artigos nesta revista sobre o Canais de Distribuição
Reversos1 é oportuno, portanto, considerar o escopo da Logística Reversa, suas
áreas de atuação nestes canais reversos, os objetivos estratégicos empresariais
em sua implementação, o seu relacionamentos com outras áreas das empresas
e com outras áreas de conhecimento, bem como e principalmente, mostrar o seu
“estado de arte” atual no nível internacional e nacional, que pretendemos com
esta nova série de artigos.
Inicialmente para posicionar o leitor destacamos de fuma forma sintética
a evolução de definições da Logística Reversa:
Em C.L.M. (1993:323): “Logística reversa é um amplo termo relacionado às
habilidades e atividades envolvidos no gerenciamento de redução, movimentação e
disposição de resíduos de produtos e embalagens...”.
Em Stock(1998:20) encontra-se a definição: “ Logística Reversa: em uma
perspectiva de logística de negócios, o termo refere-se ao papel da logística no retorno
de produtos, redução na fonte, reciclagem, substituição de materiais, reuso de materiais,
disposição de resíduos, reforma, reparação e remanufatura....”
Em Rogers e Tibben-Lembke (1999:2) a Logística Reversa é definida como:
“Processo de planejamento, implementação e controle da eficiência, do custo efetivo do
fluxo de matérias-primas, estoques de processo, produtos acabados e as respectivas
informações, desde o ponto de consumo até o ponto de origem, com o propósito de
recapturar valor ou adequar o seu destino”. A definição da Logística apresentada pelos
autores Dornier et al (2000:39) abrange áreas de atuação novas incluindo o
gerenciamento dos fluxos reversos:
124
Logística é a gestão de fluxos entre funções de negócio. A
definição atual de logística engloba maior amplitude de fluxos
que no passado. Tradicionalmente as companhias incluíam a
simples entrada de matérias-primas ou o fluxo de saída de
produtos acabados em sua definição de logística. Hoje, no
entanto, essa definição expandiu-se e inclui todas as formas de
movimentos de produtos e informações...
Bowersox e Closs (2001: 51,52) apresentam, por sua vez, a ideia de
“Apoio ao Ciclo de Vida” como um dos objetivos operacionais da Logística
moderna referindo-se ao prolongamento da Logística além do fluxo direto dos
materiais e a necessidade de considerar os fluxos reversos de produtos em geral.
As diversas definições e citações de Logística Reversa até então revelam
que o conceito ainda está em evolução face às novas possibilidades de negócios
relacionados ao crescente interesse empresarial e o interesse de pesquisas nesta
área na última década.
Entendemos a Logística Reversa como a área da Logística Empresarial que
planeja, opera e controla o fluxo, e as informações logísticas correspondentes,
do retorno dos bens de pós-venda e de pós - consumo ao ciclo de negócios ou ao
ciclo produtivo, através dos Canais de Distribuição Reversos, agregando-lhes
valor de diversas naturezas: econômico, ecológico, legal, logístico, de imagem
corporativa, entre outros.
Sendo a literatura ainda escassa e dispersa nesta área, o foco principal
desta série de artigos é o de apresentar uma sistematização e estruturação dos
principais conceitos, resumindo não só a literatura existente como os exemplos,
casos e aplicações da Logística Reversa em empresas internacionais e nacionais,
fruto de um intenso trabalho de pesquisa que temos realizado nos últimos anos.
Para este fim elaboramos o esquema da Figura 1 onde reunimos duas
grandes áreas de atuação da Logística Reversa, que têm sido tratadas
independentemente até então pela literatura, diferenciadas pelo estágio ou fase
do ciclo de vida útil do produto retornado. Esta distinção se faz necessária,
embora existam inúmeras interdependências que serão examinadas a seguir,
pois o produto logístico e os Canais de Distribuição Reversos pelos quais fluem,
bem como os objetivos estratégicos e técnicas operacionais utilizadas em cada
área de atuação são, via de regra, distintos.
125
Figura 1: Logística Reversa – Área de Atuação e Etapas Reversas
Denominaremos de Logística Reversa de Pós – Venda a específica área de
atuação que se ocupa do equacionamento e operacionalização do fluxo físico e
das informações logísticas correspondentes de bens de pós – venda, sem uso ou
com pouco uso, que por diferentes motivos retornam aos diferentes elos da
cadeia de distribuição direta, que se constituem de uma parte dos Canais
Reversos pelo qual fluem estes produtos. Seu objetivo estratégico é o de agregar
valor a um produto logístico que é devolvido por razões comerciais, erros no
processamento dos pedidos, garantia dada pelo fabricante, defeitos ou falhas de
funcionamento no produto, avarias no transporte, entre outros motivos. Este
fluxo de retorno se estabelecerá entre os diversos elos da cadeia de distribuição
direta dependendo do objetivo estratégico ou motivo de seu retorno.
Denominaremos de Logística Reserva de Pós – Consumo à área de
atuação da Logística Reversa que igualmente equaciona e operacionaliza o fluxo
físico e as informações correspondentes de bens de pós – consumo descartados
pela sociedade em geral que retornam ao ciclo de negócios ou ao ciclo produtivo
através de canais de distribuição reversos específicos. Constituem-se bens de
pós-consumo os produtos em fim de vida útil ou usados com possibilidade de
utilização e os resíduos industriais em geral. Seu objetivo estratégico é o de
agregar valor a um produto logístico constituído por bens inservíveis ao
proprietário original, ou que ainda possuam condições de utilização, por
produtos descartados por terem atingido o fim de vida útil e por resíduos
industriais. Estes produtos de pós-consumo poderão se originar de bens duráveis
ou descartáveis e fluírem por canais reversos de Reuso, Desmanche, Reciclagem
até a destinação final.
Na Figura 2 resumimos, tanto quanto possível para o entendimento e sem
126
a pretensão de exaurir todas as possibilidades, o campo de atuação da Logística
Reversa através das principais etapas dos fluxos reversos nas duas áreas de
atuação citadas, observando-se a sua interdependência.
A Logística Reversa de Pós-Venda deve, portanto, planejar, operar e
controlar o fluxo de retorno dos produtos de pós-venda por motivos agrupados
nas classificações: “Garantia / Qualidade”, “Comerciais” e de “Substituição de
Componentes”.
Figura 2 – Foco de Atuação da Logística Reversa
Classificam-se como devoluções por “Garantia/Qualidade”, aquelas nas
quais os produtos apresentam defeitos de fabricação ou de funcionamento
(verdadeirosou não), avarias no produto ou na embalagem, etc. Estes produtos
poderão ser submetidos a consertos ou reformas que permitam retornar ao
mercado primário, ou a mercados diferenciados que denominamos secundários
agregando-lhes valor comercial novamente.
Classificam-se como devoluções por “Garantia/Qualidade”, aquelas nas
quais os produtos apresentam defeitos de fabricação ou de funcionamento
(verdadeiros ou não), avarias no produto ou na embalagem, etc. Estes produtos
poderão ser submetidos a consertos ou reformas que permitam retornar ao
mercado primário, ou a mercados diferenciados que denominamos secundários
agregando-lhes valor comercial novamente.
Na classificação “Comerciais” são destacadas a categoria de “Estoques”,
Mercad
o de 2ª
Retorno ao Ciclo
Mercado
Secundário de
Rem
anufatura
R
eciclagem
Retorno ao
Ciclo de
Conser
to
Em
Condiç
Substituição
de
Fim
de
Bens de
Mercado Secundário
de Componentes
Mercado
Secundário
Disposiç
ão
Co
D
R
euso
Q
Co
merciais
R
esíduos
Bens de
Comercio
127
caracterizada pelo retorno devido a erros de expedição, excesso de estoques no
canal de distribuição, mercadorias em consignação, liquidação de estação de
vendas, pontas de estoques, etc., que serão retornados ao ciclo de negócios
através de redistribuição em outros canais de vendas.
Devido ao término de validade de produtos ou a problemas observados
após a venda, o denominado “recall” de produtos, os produtos serão devolvidos
por motivos legais ou por diferenciação de serviço ao cliente e se constituirão na
classificação “Validade” em nosso esquema.
A classificação “Substituição de Componentes” decorre da substituição
de componentes de bens duráveis e semi-duráveis em manutenções e consertos
ao longo de sua vida útil e que são remanufaturados, quando tecnicamente
possível, e retornam ao mercado primário ou secundário, ou são enviados à
reciclagem ou para um destino final, na impossibilidade de reaproveitamento.
A Logística Reversa de Pós- Consumo deverá planejar, operar e controlar
o fluxo de retorno dos produtos de pós – consumo ou de seus materiais
constituintes classificados em função de seu estado de vida e origem: “Em
condições de uso”, “Fim de vida útil”, e“Resíduos Industriais”.
A classificação “Em condições de uso” refere-se às atividades em que o
bem durável e semi - durável apresenta interesse de reutilização sendo sua vida
útil estendida adentrando no canal reverso de “Reuso” em mercado de 2ª mão
até ser atingir o “fim de vida útil”, constituindo o “looping” apresentado na
Figura 2.
Nas atividades da classificação “ Fim de vida útil” a Logística Reversa
poderá atuar em duas áreas não destacadas no esquema: dos bens duráveis ou
descartáveis. Na área de atuação de duráveis ou semi-duráveis estes entrarão no
canal reverso de Desmontagem e Reciclagem Industrial, sendo desmontados na
etapa de “desmanche”, seus componentes poderão ser aproveitados ou
remanufaturados, retornando ao mercado secundário ou à própria industria que
o reutilizará, sendo uma parcela destinada ao canal reverso de “Reciclagem”.
No caso de bens de pós - consumo descartáveis, havendo condições
logísticas, tecnológicas e econômicas, os produtos de pós - consumo são
retornados através do canal reverso de “Reciclagem Industrial ”, onde os
materiais constituintes são reaproveitados e se constituirão em matérias-primas
secundárias, que retornam ao ciclo produtivo através do mercado
128
correspondente, ou no caso de não haver as condições acima mencionadas,
serão destinadas ao “Destino Final”, os aterros sanitários, lixões e incineração
com recuperação energética.
O CICLO DE VIDA ÚTIL DOS PRODUTOS E A LOGÍSTICA REVERSA
Seria infindável a lista de autores analisando o acelerado ritmo de
redução do ciclo de vida dos produtos nas últimas décadas, como forma e busca
de diferenciação mercadológica, motivada por evoluções técnicas de
performance em processo ou na aplicação, motivada pela redução de custos em
geral e em particular os logísticos, além de outras razões.
Em 1970 foram lançados 1.365 novos produtos nos Estados Unidos, em
1986 este número foi de 8.042 novos produtos, em 1991 este número cresceu
para 13.244 e em 1994 alcançou a marca de 20.074 novos produtos lançados de
acordo com dados de New Products News 1
Exemplos clássicos de bens com ciclo de vida rapidamente decrescentes
são o dos computadores e seus periféricos, que se revelam expressivos na visão
da Logística Reversa quando observamos alguns dados do Instituto Gardner
Group estimando em 680 milhões as vendas de computadores no ano de 2005 e
de 150 milhões o número deles que serão descartados somente nos Estados
Unidos. O nível de obsolescência atual nos Estados Unidos é de 2:3, ou seja, a
cada três computadores produzidos dois tornam-se obsoletos, com tendência de
que esta razão de obsolescência se torne 1:1 nos próximos anos.
Em 1960 a produção mundial de plásticos era de 6 milhões de toneladas
por ano e em 1994 passou a 110 milhões de toneladas. No Brasil a produção de
plásticos teve um aumento de cerca de 50% entre os anos de 1993 e 1998,
valores altos quando comparados com o crescimento dos metais mais comuns.
Ainda no Brasil, o consumo de garrafas descartáveis de PET (denominação da
resina constituinte - Polietileno Tereftalato) usadas como embalagem de
refrigerantes e outras bebidas, iniciou-se em 1989 e alcança níveis de produção
de 6 bilhões de garrafas por ano em 1998, o que corresponde a mais de 70% da
embalagem do setor de refrigerantes. Este expressivo crescimento é devido
principalmente às suas características de transparência e de suas vantagens
logísticas na distribuição direta, substituindo a embalagem de garrafas de vidro
129
retornável.
Um dos indicadores do crescimento desta “descartabilidade” é o
aumento do lixo urbano em diversas partes do mundo, conforme comprovam os
dados da Prefeitura Municipal de São Paulo, através de seu departamento de
limpeza pública, Limpurb ( Departamento de Limpeza Pública Urbana da cidade
de São Paulo), o lixo urbano cresceu de 4.450t por dia em 1985 para 16.000 t por
dia em 2.000, na cidade de São Paulo, decrescendo as quantidades de lixo
orgânicos e aumentando a de produtos descartáveis.
O esquema da Figura 3 sintetiza a ideia de como a crescente
descartabilidade dos produtos tende a tornar mais expressiva a atuação da
Logística Reversa, tanto no setor de pós-venda como no de pós - consumo.
Tecnologia, Marketing, Logística e outras áreas empresariais, através de redução
de ciclo de vida de produtos, geram necessidades de aumento de velocidade
operacional de um lado e provocam exaustão acelerada dos meios tradicionais
de destinos dos produtos de pós consumo.
Figura 3 - O Impacto da Redução do Ciclo de Vida Útil dos Produtos na Logística
Reversa
A obsolescência e a descartabilidade crescentes dos produtos observados
nesta última década têm-se refletido em alterações estratégicas empresariais,
dentro da própria organização e principalmente em todos os elos de sua rede
operacional. Estas alterações se traduzem por aumento de “velocidade de
resposta” em suas operações desde a concepção do projeto do produto até sua
RECIC
LAGEM
R
EUSO
R
ETORNO
LOGÍSTICA
REVERSA
EXAUSTÃ
O DOS SISTEMAS
TRADICIONAIS DE
AUMENTO DE
VELOCIDADE
REDUÇÃO DO
CICLO DE VIDA ÚTIL
TECNOLOGIA
MARKETING
130
colocação no mercado, pela adoção de sistemas operacionais de alta
“flexibilidade operacional” que permitam, além da velocidade do fluxo logística,
a capacidade de adaptação constante às exigências do cliente e pela adoção de
“ responsabilidade ambiental ” em relação aos seus produtos após serem
vendidos e consumidos, o que costuma ser identificado como “EPR”(Extend
Product Responsability) a chamada “ Extensão de Responsabilidadeao Produto”.
Explica-se desta forma a crescente implementação da Logística Reversa
em empresas líderes do mercado em diversos setores, constituindo-se parte
integrante de suas estratégias empresariais.
LOGÍSTICA REVERSA: PRATICANDO A SUSTENTABILIDADE
De início é necessário destacar a importância econômica da distribuição
dos produtos industrializados, a qual ocupa posição vital nas empresas, haja
vista os enormes volumes transacionados, os quais decorrem do processo de
globalização, e, por sua vez, necessita operacionalizar, de forma precisa, a
movimentação dessa alta quantidade de produtos no tempo e lugar corretos,
além de atender aos níveis de qualidade exigidos pelo mercado.
Os chamados canais de distribuição são formados pelo conjunto de
etapas pelas quais ocorre a comercialização dos bens produzidos, considerando
todo o caminho percorrido até chegar ao seu destino final para consumo, seja
para pessoa física ou uma empresa. Ou seja, “a distribuição física dos bens é a
atividade que realiza a movimentação e disponibiliza esses produtos ao
consumidor final” (KOTLER apud LEI- TE, 2003, p.4).
Já os canais de distribuição reversos permitem que um considerável
montante de produtos com pouco uso após a venda, com ciclo de vida útil
ampliado ou após extinta a sua vida útil, retorne ao seu ciclo produtivo ou de
negócio, readquirindo valor em mercados secundários pelo reuso ou pela
reciclagem de seus materiais constituintes, conforme afirma Paulo Roberto Leite
(LEITE, 2003, p. 4). O autor vai além e complementa a caracterização do referido
cenário com informações sobre a realidade prática do tema abordado:
A velocidade de lançamento de produtos, o rápido crescimento
da tecnologia de informação e do comércio eletrônico, a busca
por competitividade por meio de novas estratégias de
relacionamento entre empresas e, principalmente, a
conscientização ecológica relativa aos impactos que os
131
produtos e os materiais provocam no meio ambiente estão
modificando as relações de mercado em geral e justificando de
maneira crescente as preocupações estratégicas de empresas,
do governo e da sociedade com relação aos canais de
distribuição reversos. [Grifou-se] (LEITE, 2003, p. 5).
De modo geral, os canais de distribuição reversos são classifica- dos em
duas categorias: (i) pós-consumo e (ii) pós-venda.
A primeira classificação se caracteriza pelas diferentes formas de
processamento e de comercialização dos produtos de pós-consumo oude seus
materiais constituintes, “desde sua coleta até sua reintegração ao ciclo produtivo
como matéria prima secundária” (LEITE apud LEITE, 2003, p. 6). Temos, ainda,
uma divisão em subestruturas reversas de reciclagem e reuso, por meio da qual
uma parcela destes produtos pode ter destinação final controlada ou segura. São
considerados produtos de pós-consumo e, ainda, resíduos sólidos em geral, os
bens industriais com ciclos de vida útil reduzidos, ou não, que são descartados
após sua utilização.
A segunda categoria permite o reingresso dos produtos de pós-venda ao
ciclo de negócios. Esses bens, industrializados, são devolvi- dos por diversos
motivos, dos quais podemos citar prazo de validade, estoques em seu nível
máximo, mercadorias em consignação, entre outros quesitos qualitativos. Assim,
eles podem ser direcionados às outras subestruturais, tais como mercados
secundários, à reciclagem, desmanche, etc. Casos práticos das respectivas
categorias são melhor visualizados nos seguintes exemplos: leilões de empresas
(canal reverso de reuso); e-commerce (canal reverso de pós-venda); embalagens
descartáveis (canal reverso de pós consumo); lojas de varejo (canal reverso de
pós-venda).
Após os devidos esclarecimentos, adentramos, especificamente, na
abordagem sobre o conceito de logística reversa. Existem diversas definições
sobre esta ferramenta, o que nos mostra que este conceito está em constante
evolução, muito por conta das diversas possibili- dades, econômica e ambiental,
que o tema permite explorar. De todo modo, neste artigo, trazemos o conceito
de Leite (2003, p. 16), o qual entende a:
Logística reversa como área da logística empresarial que
planeja, opera e controla o fluxo e as informações logísticas
correspondentes, do retorno dos bens de pós-venda e de pós-
consumo ao ciclo de negócios ou ao ciclo produtivo, por meio
dos canais de distribuição, agregando-lhes valor de diversas
132
naturezas: econômico, ecológico, legal, logístico, de imagem
corporativa, entre outros.
Ou seja, podemos concluir que a logística reversa tem, por essência,
objetivo de possibilitar o reingresso dos bens ou de seus materiais constituintes
ao ciclo de negócios ou produtivo, por meio de uma estrutura de fluxos reversos.
A partir desta concepção, podemos compreender que a logística reversa
de pós-venda deve estar direcionada ao planejamento, opera- ção e controle do
fluxo dos produtos de pós-venda. E a logística reversa de pós-consumo, por sua
vez, deve estar focada no planejamento, operação e controle do fluxo dos
produtos de pós-consumo e os materiais de sua composição.
Outrossim, é cada vez mais evidente a preocupação global sobre aspectos
do equilíbrio ecológico, por suas inúmeras motivações. O apelo à todas as áreas
da sociedade, frente aos enormes desafios ambientais a serem superados,
evidencia a necessidade real de se rever a estrutura produtiva, que, por
consequência, nos leva a analisar e refletir sobre as cadeias de distribuição
reversas desta estrutura.
A enorme quantidade de produtos que são descartados no meio
ambiente após atingir sua finalidade, aliada a produção de produtos
descartáveis, bem como a ausência de uma estrutura eficiente de canais de
distribuição reversas de pós-consumo, evidentemente, tende a proporcionar um
enorme desequilíbrio entre o que é descartado e o que consegue ser
reaproveitado, sendo que os aumentos na produção/consumo de produtos de
pós-consumo são claros agravantes deste complexo cenário.
Ocorre que essas grandes quantidades de produtos descartados, sem a
devida destinação, vão parar em aterros, “lixões”, obras abando- nadas, rios,
córregos que transpassam as cidades, mares e oceanos. Estes mesmos dejetos,
por vezes, também são enterrados ou incinerados sem qualquer plano
ambientalmente preventivo.
Diante desta realidade, incluindo os pontos destacados no capítulo
anterior, as preocupações ecológicas devem estar cada vez mais presentes no
diálogo estratégico e nas ações das empresas, governos e demais organizações,
a fim de atuar, direta ou indiretamente, nas diversas vertentes, visando a
redução dos impactos, e buscando a total extinção dos danos, ambientais,
protegendo e preservando, automaticamente, a interação entre homem e
133
natureza.
É interessante destacar, além da evidente e urgente necessidade de
preservação e conservação do meio ambiente com consequentes mu- danças
globais, que as estruturas de logística reversa, funcionando de forma eficiente,
contribuindo para o reaproveitamento, à reutilização, o reprocessamento, a
reciclagem, dentre outras possibilidades de retorno dos produtos e seus
materiais constituintes ao ciclo produtivo ou de negócios, apresenta enormes
oportunidades econômicas às organizações.
A necessidade de mudanças e contribuição, principalmente, do setor
produtivo em relação ao meio ambiente deve ser prioridade na pauta de todas
as empresas, uma vez que diante a busca por maior conscientização das
sociedades sobre os problemas ambientais, quem não estiver atento a estas
alterações, muito provavelmente perderá competitividade e poderá sucumbir
na própria inércia ou solidão – desconexão com a realidade – em que está
inserida.
Esta temática foi alvo de estudos nos Estados Unidos, já na década de 90.
Segundo a CLM (Council of Logistics Management) (apud LEITE, 2003, p. 21),uma
pesquisa realizada pela Cambridge Report, no ano de 1992, com um grupo de
1250 adultos, demonstrou que 70% concordavam em pagar preços maiores por
produtos que apresentassem menores impactos ao meio ambiente. Outro
estudo, realizado pela Havard Business Review, indicou que “o meio ambiente, a
disposição de resíduos sólidos e a poluição estão entre as principais
preocupações de mais de 12 mil gerentes pesquisados” (LOZADA; MINTU-
WIMSATT apud LEITE, 2003, p. 22).
Diante destes indicativos, há muito pode-se notar terras férteis a
mudanças em prol do desenvolvimento sustentável, o desafio está em
transformar essas intenções em resultados reais e positivos para o meio
ambiente e a sociedade. Assim, a Logística Reversa se apresenta como uma das
ferramentas capazes de contribuir para o alcance de tais objetivos.
134
CONECTANDO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL E LOGÍSTICA
REVERSA
Superado um breve contexto histórico, alguns termos técnicos, a
caracterização das estruturas e alguns objetivos pretendidos, podemos, com
maior clareza, colocar lado a lado os conceitos de Desenvolvimento sustentável
e Logística Reversa e verificarmos quais são as conexões existentes.
Sem delongas, me atrevo a dizer que essa intersecção, sim, existe. E, indo
além, considero que os respectivos conceitos se complementam, na medida em
que um pode colaborar com o outro para sua efetivação ou, no mínimo, acredito
que eles podem ser ótimos amigos, abusando da metáfora.
Se observarmos que objetivo central do desenvolvimento sus- tentável é
conseguir satisfazer as necessidades atuais da sociedade sem comprometer a
habilidade das futuras gerações de atender suas próprias demandas, chegamos
à conclusão que é preciso rever a dinâmica dos atuais modelos e padrões de
produção e comércio, ou seja, a própria relação entre o homem e o meio
ambiente. Sem dúvida, é um trabalho complexo e com inúmeras peculiaridades,
entretanto, de extrema importância para todas as formas de vida existente no
Planeta Terra.
Em seguida, considerando que a Logística ocupa uma posição de
destaque nos modelos e padrões citados no parágrafo anterior, lembramos que
a Logística Reversa tem como escopo planejar, operar e controlar o fluxo e as
informações logísticas em relação aos bens comercializados, a fim de possibilitar
o seu retorno ao ciclo produtivo ou de negócios, agregando outros valores ao
respectivo bem. Entre eles estão valores ecológico e econômico, uma vez que
esta ferramenta pode contribuir com a redução dos produtos descartados após
seu consumo, muitas vezes, de forma incorreta direto no meio ambiente, bem
como possibilitar ganhos econômicos à estrutura que a utiliza.
Ou seja, o processo de mudança inerente a forma de pensar e agir,
principalmente a institucional, em busca de uma maior e melhor harmonização
na relação entre o ser humano e meio ambiente, a qual necessita ser objetivada
por todos os segmentos da sociedade, deve se utilizar dos mais diversos recursos
intelectuais (acadêmicos, científicos, etc.), a fim de efetivar, por meio das
ferramentas disponíveis, esses resultados. Por sua vez, considerando a
relevância das cadeias de distribuição existentes na atual estrutura produtiva e
135
econômica global, informar, estimular e proporcionar a utilização eficiente da
sistemática da Logística Reversa se faz necessário, o que nos leva a compreensão
de que este segmento, crucial no cenário global, pode contribuir de forma
significativa com a redução da poluição ambiental, decorrente das enormes
quantidades de mercadorias produzidas e lançadas no mercado cotidianamente.
Outros fatores que se conectam entre os conceitos abordados, que
podem impulsionar a sua implementação, são os avanços almeja- dos nas
legislações ambientais, os novos padrões de competitividade empresarial, as
imagens corporativas e a já destacada dimensão da economia reversa.
Por outro lado, relembra-se que o presente trabalho tem como es- copo
apresentar os conceitos em questão, possibilitando a compreensão e melhor
visualização das conexões existente entre eles, contribuindo com o debate na
busca por mudanças nas condutas produtivas, visando ser cada vez mais
sustentáveis.
Contudo, seria injusto não revelar, além dos ótimos – possíveis –
resultados que a referida interação pode construir, que a transformação destes
objetivos em práticas reais enfrentará, como já enfrenta, muitos obstáculos.
Tendo em vista não ser o foco deste artigo, aliado a robustez de conteúdo que
tais desafios envolvem, limito-me a registrar que já existem estudos que
analisam os sistemas de logística reversa em dimensões operacionais.
A título de sugestão, e exemplificativo, vale destacar o ótimo artigo
produzido por Maria Claudia Lima Couto e Liséte Celina Lange, intitulado Análise
dos sistemas de logística reversa no Brasil, no qual tratam sobre a variedade de
desafios que os setores produtivos estão enfrentando ou estimam enfrentar no
decorrer da implementação da Logística Reversa em suas estruturas, distribuídos
em três categorias, relacionadas aos aspectos políticos, legais, operacionais e
sociais, que, por sua vez, podem interferir no alcance das metas estabelecidas
pelos instrumentos reguladores desses sistemas.
Ainda, no sentido de complementar as informações sobre o cenário em
que estão inseridos os referidos conceitos, destacamos que no Brasil a principal
legislação que rege os sistemas de logística reversa – SLR é a lei n° 12.305/2010,
regulamentada pelo decreto n° 7.404/2010, e, devido a interdisciplinaridade que
o tema abarca, pois inserem-se no ambiente observado os resíduos sólidos
urbanos – RSU, podemos citar, também, a Lei nº 11.445/2007 (decreto n°
136
7.217/2010) e a Lei nº 11.107/2005 (decreto nº 6.017/2007). Registrando,
ainda, que tais dispositivos legais se mostram importantes objetos de estudo,
principal- mente no tocante ao tema em território brasileiro, que merecem
análise mais apurada.
Por fim, retomando as ideias principais deste trabalho, frisa-se que a
adoção de práticas que levam uma empresa a se responsabilizar pela coleta e
reciclagem de seus produtos pós-consumo e, também, dos produtos pós-venda,
é positiva não apenas do ponto de vista ambiental, mas também como um
importante instrumento de geração de empregos e inclusão social que,
juntamente com a preservação do meio ambiente, formam as bases do
desenvolvimento sustentável.
Analisando os conceitos de Desenvolvimento Sustentável e Logística
Reversa, aqui abordados, podemos concluir que ambas as definições têm como
escopo a busca por uma transformação da realidade posta, visando alcançar
condutas mais sustentáveis. Com base na Agenda 2030 para o Desenvolvimento
Sustentável, a qual inclui os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS),
destacando o objetivo 12 e algumas de suas metas, identificamos a Logística
Reversa como um dos instrumentais capazes de contribuir de forma efetiva para
o alcance dos referidos objetivos, frente ao ideal de tornar a cadeia produtiva,
hoje, preponderantemente horizontal, um fluxo cíclico, onde os resíduos sólidos
tenham uma destinação segura, e não acabem descartados incorretamente na
natureza, o que causa imensos prejuízos ambientais, podendo agravar, inclusive,
a questão social.
Por fim, apresenta-se, a seguir, no apêndice, os fluxogramas feitos com
objetivo de demostrar visualmente a diferença existente entre o sistema
produtivo horizontal e o sistema produtivo com a aplicação da Logística Reversa,
transformando-o em uma cadeia cíclica.
137
RESPONSABILIDADE SOCIOAMBIENTAL E
SUSTENTABILIDADE
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O texto apresentado que serviu de material de apoio foi baseado e copiado do
artigo de Mariana de Uzeda Barreto e Rafael Lima Torres extraído do site:
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