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Geografia Regional Material Teórico Responsável pelo Conteúdo: Prof. Me. Eduardo Augusto Wellendorf Sombini Revisão Técnica: Prof.ª Dr.ª Vivian Fiori Revisão Textual: Prof. Esp. Claudio Pereira do Nascimento As Transformações dos Territórios Nacionais e Regionais com a Globalização • Introdução; • A Leitura Geográfica sobre o Atual Período da Globalização; • As transformações no Papel do Estado; • A Globalização Hegemônica; • A América Latina no Contexto da Globalização. · Analisar as visões geográficas sobre o período da globalização; · Discutir sobre o processo de globalização e as condições da América Latina; · Tratar das transformações do papel do Estado no atual período da globalização. OBJETIVO DE APRENDIZADO As Transformações dos Territórios Nacionais e Regionais com a Globalização Orientações de estudo Para que o conteúdo desta Disciplina seja bem aproveitado e haja maior aplicabilidade na sua formação acadêmica e atuação profissional, siga algumas recomendações básicas: Assim: Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte da sua rotina. Por exemplo, você poderá determinar um dia e horário fixos como seu “momento do estudo”; Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar; lembre-se de que uma alimentação saudável pode proporcionar melhor aproveitamento do estudo; No material de cada Unidade, há leituras indicadas e, entre elas, artigos científicos, livros, vídeos e sites para aprofundar os conhecimentos adquiridos ao longo da Unidade. Além disso, você também encontrará sugestões de conteúdo extra no item Material Complementar, que ampliarão sua interpretação e auxiliarão no pleno entendimento dos temas abordados; Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em fóruns de discus- são, pois irão auxiliar a verificar o quanto você absorveu de conhecimento, além de propiciar o contato com seus colegas e tutores, o que se apresenta como rico espaço de troca de ideias e de aprendizagem. Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte Mantenha o foco! Evite se distrair com as redes sociais. Mantenha o foco! Evite se distrair com as redes sociais. Determine um horário fixo para estudar. Aproveite as indicações de Material Complementar. Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar; lembre-se de que uma Não se esqueça de se alimentar e de se manter hidratado. Aproveite as Conserve seu material e local de estudos sempre organizados. Procure manter contato com seus colegas e tutores para trocar ideias! Isso amplia a aprendizagem. Seja original! Nunca plagie trabalhos. UNIDADE As Transformações dos Territórios Nacionais e Regionais com a Globalização Introdução Nesta unidade, trataremos das transformações dos territórios nacionais no período da globalização, enfatizando que a escala nacional permanece como uma variável fundamental na compreensão dos processos territoriais. A Leitura Geográfica sobre o Atual Período da Globalização Historicamente tem havido uma negligência com o espaço geográfico e suas categorias e escalas na formulação da teoria social e nas proposições do campo político: em muitas abordagens, o espaço geográfico não é tratado como uma dimensão que influencia diretamente o futuro das sociedades, mas como simples reflexo das dinâmicas sociais. Diversas propostas teóricas, bastante influentes na década de 1990, chegaram, inclusive, a sublinhar que a tendência histórica é a aniquilação do espaço pelo tem- po, isto é, que a importância dos atributos técnicos, normativos e sociais dos luga- res, regiões e países seria anulada pela constituição de redes e fluxos globais, que permitiriam a livre circulação de mercadorias, capitais e informações de todo tipo. A consequência desse processo seria o esvaziamento do caráter estratégico das diversas parcelas do espaço geográfico em relação ao sistema econômico, fazendo com que o capitalismo pudesse finalmente estar livre das barreiras territoriais, nas diversas escalas. Nas interpretações filiadas a esse pensamento, o Estado e os territórios nacionais passaram a ser tratados como entidades pouco relevantes, dos pontos de vista acadêmico e político, no período da globalização: as narrativas mais comuns faziam menção à ligação direta entre lugares e regiões e o mundo, desconsiderando os papeis desempenhados pela escala dos territórios nacionais (BRANDÃO, 2007). Em muitos casos, buscou-se desconstruir o Estado nacional e outros conceitos correlatos como tentativa de legitimação das concepções neoliberais em difusão nesse período. Os princípios neoliberais buscavam afirmar que as experiências políticas do Estado de bem-estar social (nos países do capitalismo avançado) e da matriz nacional-desenvolvimentista (em diversos países subdesenvolvidos) eram um entrave à circulação de capital e à geração de riqueza. Nos dois casos, a premissa básica era a existência de um Estado fortemente e atuante na regulação da economia, do território e da sociedade e, em diversos países, com políticas redistributivas. O Brasil, sobretudo no período da ditadura militar, possuiu um Estado autoritário fortemente centralizador e interventor. Ao mesmo tempo, o crescimento econômico 8 9 desse período foi acompanhado por processos de concentração de renda e aumento das desigualdades regionais. Partimos de pressupostos inversos aos dessa matriz de pensamento, com base nas propostas de Milton Santos (2000, 2006), David Harvey (2004) e outros autores. Em primeiro lugar, há diversas evidências que demonstram como a constituição de lógicas econômicas, políticas e culturais que ultrapassam os limites locais, regionais ou nacionais não apagam a importância do território em relação a esses processos globais Ao contrário, as emergências de relações na escala global fazem com que as formas espaciais e os conteúdos sociais do território em suas diferentes escalas sejam ainda mais relevantes que nos períodos históricos anteriores. Em segundo lugar, o Estado não se retira da arena política ou é simplesmente substituído pela ação das corporações internacionais e demais agentes do mercado, como vários autores ressaltam. Há, certamente, uma transformação profunda das possibilidades de ação do Es- tado com a globalização econômica e a difusão do pensamento de matriz neolibe- ral, mas os Estados nacionais permanecem extremamente relevantes na condução de um conjunto de políticas. A globalização não inaugura um sistema econômico sem fronteiras, mas redes e fluxos de alcance global mediados pelos Estados nacionais. Há, portanto, uma reorientação do papel do Estado com as transformações associadas à globalização. Por exemplo, diversos fluxos materiais e imateriais passam a fugir do controle estrito dos Estados nacionais sobre as suas fronteiras, com o surgimento de novas redes de transporte e comunicação. Isso não significa, de outro lado, que se possa afirmar que os Estados não estão mais aptos a regular um conjunto de questões que dizem respeito à sociedade circunscrita nas fronteiras nacionais, como veremos adiante. Não há, portanto, uma falência histórica do Estado nacional, mas uma trans- formação de seus papeis, em grande medida direcionada à realização de ações de interesse do mercado. Como afirma Milton Santos (2000, p. 77): Ao contrário do que se repete impunemente, o Estado continua forte e a prova disso é que nem as empresas transnacionais, nem as instituições supranacio- nais dispõem de força normativa para impor, sozinhas, dentro de cada territó- rio, sua vontade política e econômica [...]. É o Estado nacional que, afinal, re- gula o mundo financeiro e constrói infraestruturas, atribuindo, assim, a grandes empresas escolhidas a condição de sua viabilidade. O mesmo pode ser dito das instituições supranacionais (FMI, Banco Mundial, Nações Unidas, Organização Mundial do Comércio), cujos editos ou recomendações necessitam de decisões internas a cadapaís para que tenham eficiência. Para termos um exemplo de como essas duas questões estão associadas, podemos retomar a discussão a respeito da guerra dos lugares entre municípios e estados da federação brasilei- ra a partir da década de 1990, com o intuito de atrair investimentos privados. 9 UNIDADE As Transformações dos Territórios Nacionais e Regionais com a Globalização Para termos um exemplo de como essas duas questões estão associadas, po- demos retomar a discussão a respeito da guerra dos lugares entre municípios e estados da federação brasileira a partir da década de 1990, com o intuito de atrair investimentos privados. Já que as grandes corporações têm hoje uma liberdade locacional muito mais ampla que nos períodos anteriores, por conta das novas possibilidades criadas com a diminuição dos custos de transporte e comunicações, esses agentes são cada vez mais seletivos no processo de tomada de decisão sobre onde instalar novas plantas industriais, por exemplo. Essas corporações, em sua maioria transnacionais, escolhem, portanto, alocar seus investimentos produtivos nos estados e municípios que reúnem as condições técnicas, normativas e sociais mais favoráveis às atividades que desenvolvem, como infraestrutura privilegiada de transporte e comunicações, acesso a mercados prioritários, mão de obra qualificada e incentivos públicos (como isenção de impostos e realização de obras e serviços). Beneficiam-se, dessa forma, das vantagens que municípios e Estados oferecem a sua instalação ou permanência, gerando uma disputa entre os entes federados que enfraquece profundamente os fundos públicos e, consequentemente, a população das diversas áreas do país. A guerra dos lugares é uma das faces mais claras dos “vetores da fragmentação territorial” (VAINER, 2007) no Brasil, que vem corroendo os vínculos de solidariedade entre os lugares e regiões do país. Conforme explica Vainer (2007, p. 12): Com efeito, falta um pacto territorial democraticamente estabelecido que reconheça a autonomia de estados e municípios, mas, também, ao mesmo tempo, sua necessária solidariedade e complementaridade. Esta situação propicia a eclosão de uma guerra de todos contra todos, da qual saem vencedoras, como se sabe, as empresas privadas, que promovem verdadeiros leilões para os que ofereçam maiores vantagens – fiscais, fundiárias, ambientais, etc. Para encaminhar essa discussão, começaremos apresentando uma proposta de método que permite tratar os territórios nacionais como mediação entre lugares e regiões e as dinâmicas globais: o conceito de formação socioespacial. Buscamos oferecer uma conceituação de região e regionalização situando esses termos em relação aos processos associados à globalização. Não é possível ignorar, porém, o protagonismo que os territórios nacionais vêm historicamente possuindo na concretização de vínculos entre o mundo e as áreas internas dos países. 10 11 Queremos dizer que a escala nacional atua como uma mediação entre as escalas locais e regionais e os processos de alcance global. A concretização do acontecer solidário que articula as diversas escalas geográficas é, dessa forma, intermediada pelas variáveis próprias existentes em cada país. Milton Santos (2002) propõe que a discussão da escala nacional seja encaminhada a partir da retomada do conceito marxista de formação econômica e social. Este termo faz referência às características particulares de cada sistema econômico e social nacional, buscando enfatizar que o capitalismo se realiza de maneiras singulares em cada país, por conta dessas especificidades. A partir dessa proposta, o modo de produção capitalista pode ser entendido como uma abstração, já que não se realiza plenamente em nenhuma parte do mundo, ao mesmo tempo em que as formações econômicas e sociais seriam entidades concre- tas, que efetivam as diversas possibilidades oferecidas pelo modo de produção. Para resgatar o conceito de formação econômica e social como ferramenta auxiliar da Geografia, o autor propõe que o termo seja analisado a partir do espaço geográfico, isto é, que as formas e os conteúdos do território sejam vistos como entidades ativas no desenrolar da história das formações econômicas e sociais. Por isso, defende que seria mais operacional que a Geografia tratasse dessa questão a partir da ideia de formação socioespacial, conceito que se refere ao espaço geográfico como um condicionante das dinâmicas econômicas e sociais. Milton Santos (2002, p. 22) conceitua a categoria Formação Econômica Social: Daí a categoria de Formação Econômica e Social (FES) parecer-nos a mais adequada para auxiliar a formação de uma teoria válida do espaço. Esta categoria diz respeito à evolução diferencial das sociedades, no seu quadro próprio e em relação com as forças externas de onde mais frequentemente lhes provém o impulso. A própria base da explicação é a produção, isto é, o trabalho do homem para transformar, segundo leis historicamente determinadas, o espaço com o qual o grupo se confronta. Deveríamos até perguntar se é possível falar de Formação Econômica e Social sem incluir a categoria do espaço. Cada formação socioespacial poderia ser entendida como uma totalidade, um sistema coeso que reúne variáveis das esferas econômicas, políticas, sociais e territoriais. A escala nacional, portanto, não estaria mecanicamente submetida às dinâmicas globais que podem apresentar tendências à homogeneização: os territórios nacionais, ainda que sujeitos a vetores externos de dominação e dependência, podem ser entendidos como escalas ativas de formulação de projetos alternativos ou de redefinição dos eventos globais. Isto é, ainda que as verticalidades sejam um dado essencial no período da globalização, permanecem lógicas associadas às horizontalidades no interior dos países, que fazem com que os processos de regionalização, por exemplo, persistam (SANTOS, 2006). Há, dessa forma, uma constante redefinição dos limites e dos 11 UNIDADE As Transformações dos Territórios Nacionais e Regionais com a Globalização conteúdos das regiões no interior dos territórios nacionais por conta da chegada de lógicas externas, mediadas pela escala nacional. Pelo contrário, as dinâmicas territoriais das regiões e dos países estão cada vez mais associadas aos movimentos da globalização. As lógicas externas, dessa forma, constituem essas escalas com intensidades semelhantes às lógicas internas que foram privilegiadas na análise das regiões na história do pensamento geográfico. É impossível tratar dos territórios nacionais sem abordar especificamente o Estado, que tem sido o principal agente responsável pela definição de políticas territoriais na escala nacional. O debate sobre esse tema é extenso. Por isso, discutiremos especificamente as transformações recentes no papel do Estado. As Transformações no Papel do Estado O primeiro pressuposto a assumir é que os Estados nacionais são uma forma historicamente situada, isto é, são um fenômeno relativamente recente e, como toda forma social, está sujeita a profundas transformações. Lembremos que é o Tratado de Westphalia (1648) que estabelece as bases jurídicas da constituição dos Estados, que nascem associados à ideia do exercício da soberania nacional em um território circunscrito por fronteiras. De acordo com a conceituação clássica de Max Weber (2005), o Estado territorial moderno pode ser caracterizado como a entidade política detentora do monopólio da violência legítima no interior de um determinado território nacional. O Estado, portanto, seria a salvaguarda legal de eventuais agressões externas e internas, aos cidadãos no interior de suas fronteiras. A ideia de soberania no interior dos territórios nacionais é concomitante à criação de um sistema internacional de Estados, que pactuam não interferir nos assuntos internos dos demais países. A soberania nacional, ainda que não tenha sido, de fato, respeitada nos últimos séculos, éo princípio que vem orientando as relações internacionais de forma geral. A grande questão, colocada no debate sobre a globalização, diz respeito aos desdo- bramentos das redes globais e do fortalecimento de grandes agentes econômicos, como as empresas transnacionais, no exercício da soberania pelos Estados nacionais. Podemos pensar, por exemplo, nas denúncias realizadas por Edward Snowden a respeito do monitoramento de um amplo volume de comunicações brasileiras e de outros países por parte da Agência de Segurança Nacional (NSA) dos Estados Unidos da América. As informações secretas dos EUA foram vazadas pelo site WikiLeaks e revela- ram que vários quadros do alto escalão do governo federal brasileiro, incluindo a presidente Dilma Roussef, foram sistematicamente espionados nos últimos anos pelos EUA. 12 13 Figura 1 Fonte: iStock/Getty Images De acordo com as denúncias, a NSA operou uma ampla rede de interceptação de ligações e correspondências eletrônicas com o intuito de obter informações privilegiadas de estatais brasileiras (como a Petrobrás) e do núcleo político do governo federal. Esse caso recente demonstra como as atuais tecnologias de informação tornaram as fronteiras nacionais mais porosas a fluxos internacionais e, portanto, menos submetidas ao controle estatal. Essa porosidade dos territórios nacionais questiona o exercício da soberania pelos Estados, já que diversos nexos externos passam a influenciar os processos econômicos, sociais e territoriais internos dos países. O poder econômico crescente das corporações transnacionais, também, colabora para o enfraquecimento das possibilidades de o Estado realizar projetos de desenvolvimento. Nos países periféricos, sobretudo, as dinâmicas econômicas regionais e nacionais estão cada vez mais amarradas de forma dependente aos mercados internacionais. Isso significa que a margem de manobra existente para os Estados nacionais em formular projetos alternativos se torna mais estreita, ainda que permaneça presente. Em um país ainda em formação, como é o Brasil, a predominância da lógica das empresas transnacionais na ordenação das atividades econômicas conduzirá quase necessariamente a tensões inter-regionais, à exacerbação de rivalidades corporativas e à formação de bolsões de miséria, tudo apontando para a inviabilização do país como projeto nacional. É possível perceber, dessa forma, que os papéis do Estado nacional vêm se alterando fortemente nas últimas décadas. Até a década de 1960, a regulação da vida social era vista como uma atividade, por excelência, estatal. A própria política e outros termos correlatos, como governo e planejamento, eram entendidos como pressupostos exclusivos do Estado. 13 UNIDADE As Transformações dos Territórios Nacionais e Regionais com a Globalização Essa visão passa a se alterar a partir das décadas de 1970 e 1980, com a ace- leração da globalização e as profundas transformações associadas a esse processo. Do ponto de vista técnico, as redes globais passaram a se difundir internacional- mente e permitiram, pela primeira vez na história, a instantaneidade global. Do ponto de vista político, a queda do Muro de Berlim em 1989 e a disso- lução da União Soviética em 1991 marcam a hegemonia do pensamento neo- liberal, que enfatiza o redirecionamento da ação estatal em direção às lógicas do mercado. Nessa conjuntura, as lógicas do mercado internacional passaram a comandar a vida econômica de boa parte das regiões e dos países integrados à economia internacional. Por outro lado, a difusão global de novos sistemas de valores, apoiados, so- bretudo, nos modelos de consumo dos EUA, fez com que as culturas regionais e nacionais se tornassem cada vez mais conectadas aos circuitos globalizados da economia cultural. Nos dois processos, o poder do Estado nacional em regular os diversos fluxos que perpassam seus territórios vem se tornando menos presente. Ainda que esse processo seja evidente, isso não significa que o Estado nacional tenha deixado de ser responsável por um conjunto de políticas essenciais para a reprodução da vida social. Paul Hirst e Grahame Thompson (2002) analisam detalhadamente esse percurso, colocando em evidência as novas formas de governabilidade no cenário internacional. Para os autores, três elementos são centrais para compreender a mudança das possibilidades de ação do Estado: a guerra; a homogeneidade cultural; e o controle das fronteiras. As guerras foram, historicamente, um elemento de legitimação interna dos Es- tados nacionais. Os conflitos com inimigos externos justificavam um conjunto de medidas internas que fortaleciam a coesão social, em prol de um objetivo compar- tilhado. Durante a Guerra Fria, as superpotências entraram em conflito na periferia do sistema mundial, mas a possibilidade de destruição mútua, criada pelas armas nucleares, fez com que a guerra deixasse de ser uma ferramenta viável, fazendo com que a violência militar tenha deixado de ser a fonte principal de afirmação da soberania nacional. Os autores (HIRST & THOMPSON, 2002), também, lembram que foram cria- das arenas de resolução de conflitos na escala global que tornaram os conflitos bélicos menos prováveis, sobretudo entre países militarmente bem equipados. Isso não significa, por outro lado, que as assimetrias de poder bélico entre os diversos países tenham diminuído: Os EUA continuam sendo a superpotência militar do planeta e diversos países, como a China, vêm realizando fortes investimentos em suas Forças Armadas como forma de garantia de sua soberania nacional, enquanto muitos países periféricos permaneceram frágeis do ponto de vista militar. 14 15 Figura 2 Fonte: iStock/Getty Images Em relação à homogeneidade cultural, Hirst & Thompson (2002) lembram que a construção de identidades nacionais foi um dos objetivos declarados do período de construção nacional, relacionado ao Estado de bem-estar social nos países desenvolvidos. No Brasil, em particular, é possível situar aproximadamente essas propostas de produção de uma cultura nacional a partir da década de 1930. Assim, com a criação de redes de comunicação globais, as narrativas interna- cionalmente dominantes se tornaram presentes no cotidiano de diversos países, produzindo sistemas de valores influenciados por elementos locais, regionais, na- cionais e globais. As representações da cultura nacional passam a se relacionar cada vez mais com aquelas difundidas globalmente, o que torna os esforços de homogeneidade cultural dos Estados nacionais pouco operacionais, mesmo nos países mais culturalmente fechados. Por fim, os autores (HIRST & THOMPSON, 2002) refletem sobre o controle das fronteiras pelos Estados nacionais. Em relação a essa problemática, é preciso lembrar que o movimento de pessoas é extremamente controlado pelos diversos Estados, ao contrário do fluxo de capitais e informações, geralmente mais flexíveis. Basta, para tanto, lembrar do estrito controle de imigração que os países centrais impõem sobre os fluxos de imigrantes e refugiados que têm origem em países com baixos níveis de renda ou envolvidos em conflitos internos. Em diversos casos, em todo o mundo, foram construídos muros e outros tipos de barreiras para evitar a entrada de imigrantes e refugiados, considerados indesejáveis pelos países desenvolvidos. Os fluxos financeiros se tornam móveis, mas os pobres do mundo capitalista continuam fortemente imobilizados em suas regiões e países de origem, inviabilizando as perspectivas de realização da justiça territorial. O Estado nacional, para essas populações, é uma fonte possível de bens e serviços essenciais à reprodução da vida, não um obstáculo à integração dos mercados internacionais, que são meramente uma abstração nesse caso. 15 UNIDADE As Transformações dos Territórios Nacionais e Regionais com a Globalização Hirst eThompson (2002, p. 281): Neste sentido, apesar da retórica da globalização, a maior parte da população mundialvive em mundos fechados, confinados pela loteria de seu nascimento. Para o trabalhador médio ou agricultor com uma família, o Estado-nação é uma comunidade de destino. A riqueza e a renda não são globais, mas são nacional e regionalmente distribuídas entre os Estados mais pobres e mais ricos e as pequenas localidades. Para a ampla maioria dos povos, os Estados-nação não são simplesmente municipalidades ou autoridades locais, oferecendo serviços que alguém escolhe de acordo com sua relativa qualidade e custo. Em resumo, os autores (HIRST & THOMPSON, 2002) concluem que os Estados nacionais permanecem imprescindíveis para a realização da governabilidade no atual período, por conta de dois motivos principais: • O primeiro está relacionado ao controle da população continuar a ser uma tarefa essencialmente estatal: as políticas sociais de toda ordem permanecem formuladas e implementadas pelos Estados nacionais; • O segundo motivo está relacionado à regulação da economia mundial que vem se constituindo no atual período histórico. A globalização econômica não produz um sistema econômico que transcende as fronteiras nacionais, mas uma economia de escala planetária nacionalmente baseada. Por exemplo, as grandes corporações norte-americanas criaram redes globais nas últimas décadas, instalando atividades produtivas e ampliando seus mercados em diversos países do mundo. Isso não significa, por outro lado, que essas corporações abandonaram o enrai- zamento territorial que permitiu que tivessem alcance internacional, como regras macroeconômicas ou culturas empresariais distintas, associadas às características de seu país. Essas empresas, portanto, não se desnacionalizaram, deixando para trás os vínculos dos países de origem e tampouco têm condições de criar, na escala interna- cional, as garantias econômicas e políticas oferecidas pelos Estados nacionais. Com isso, para Hirst & Thompson (2002), mesmo as corporações transnacio- nais, ainda, dependem do suporte dos Estados nacionais em diversas questões. Não existe uma regulação efetiva da economia internacional por agências mul- tilaterais, por exemplo, já que o sistema internacional se baseia, sobretudo, em múltiplos acordos entre os países. A segurança necessária para os investimentos e a circulação do capital, dessa forma, permanece sendo uma tarefa essencialmente realizada pelos Estados nacionais. 16 17 Importante! Com isso, as próprias condições e características da soberania nacional se redefi nem. Os Estados passam a se legitimar, principalmente, por dois aspectos: por representarem, nas arenas internacionais, os territórios circunscritos pelas fronteiras nacionais; e por serem, no plano interno, as únicas entidades constitucionalmente legítimas de regulação da totalidade das populações e dos territórios nacionais (HIRST & THOMPSON, 2002). Importante! Além desses dois fatos, os Estados nacionais continuam a ser os agentes produtores, por excelência, das normas jurídicas que definem os marcos da vida social no âmbito das formações socioespaciais, incluindo um conjunto de processos relacionados à regionalização. As desigualdades entre Estados nacionais, contudo, permanece um dado essencial na compreensão das dinâmicas mundiais. Trataremos, nas próximas unidades, da regionalização do espaço mundial e discutiremos a trajetória desses processos. A Globalização Hegemônica Para Milton Santos (2000), a ideia de globalização pode ser tratada de três formas distintas. A primeira diz respeito aos discursos dominantes que buscam legitimar o ideário neoliberal em escala planetária: a globalização seria uma fábula, já que não encontra respaldo nas realidades territoriais existentes. Entre essas representações, podemos incluir as ideias de aldeia global e de enfraquecimento dos Estados e territórios nacionais. A ideia de aldeia global defende a convergência entre diversos povos e culturas que poderiam, com a globalização em curso, estreitar vínculos e reduzir os distanciamentos historicamente existentes. Temos visto, porém, que os processos tradicionais de separação de distintas populações permanecem atuantes, como os rígidos controles sobre os fluxos internacionais de migrantes e refugiados e as crescentes desigualdades existentes entre os países do sistema mundial. Por isso, o autor (SANTOS, 2000) defende que a globalização atual pode ser entendida como perversidade. A financeirização da economia global, comandada principalmente pelos EUA, vem sufocando possibilidades de desenvolvimento econômico dos países periféricos. Ao mesmo tempo, aumentam as desigualdades econômicas, sociais e territoriais nas diversas escalas, criando instabilidades e crises constantes nas áreas mais vulneráveis do planeta. 17 UNIDADE As Transformações dos Territórios Nacionais e Regionais com a Globalização O Consenso de Washington, que representou as orientações de matriz neoliberal formuladas pelos EUA para os países latino-americanos, impôs a redução dos gastos públicos, a privatização de serviços essenciais e a integração a qualquer custo às arenas comerciais de escala global. Com isso, os territórios nacionais tendem a se fragmentar com a diminuição das complementariedades inter-regionais construídas no período nacional-desenvolvimentista, e o desemprego e a pobreza têm como tendência o aumento acelerado. Figura 3 Fonte: iStock/Getty Images Podemos pensar, por exemplo, nos macrossistemas técnicos de energia e tele- comunicações no Brasil: com a privatização das empresas estatais desses setores na década de 1990, a definição dos investimentos estruturantes nessas áreas se tornou uma responsabilidade de corporações transnacionais preocupadas priorita- riamente com cálculos globais de rentabilidade e não com a expansão distributiva das redes de infraestrutura no território nacional. Esse processo tem feito com que os centros de decisão que ditam os ritmos da economia e da sociedade nacionais se alienem desses territórios e que, portanto, o planejamento territorial venha per- dendo ferramentas efetivas de formulação de estratégias de futuro. Esses processos, dessa forma, têm efeitos de longo prazo: ao adotar políticas de “ajuste estrutural” ou promover privatizações, as consequências são duradouras e dificilmente revertidas, como mostram as experiências de diversos países da América Latina que aplicaram o receituário do Consenso de Washington na década de 1990. Privatizações anunciadas como essenciais para o orçamento público, pagamento dos juros da dívida, necessidade e destino do superávit primário são alguns dos ditames contemporâneos. Não é mais a nação quem decide o quê, como e onde produzir, mas um punhado de empresas que rebatem, no território nacional, suas próprias demandas. A vida social também é reduzida a equações contábeis. 18 19 A América Latina no Contexto da Globalização Para analisar o desenvolvimento histórico das economias nacionais, José Luis Fiori (2009) propõe uma hierarquização dos países em três grupos: • O primeiro grupo é composto por aqueles diretamente associados à potência hegemônica de cada período, com acesso preferencial a esses mercados. São os casos do Canadá, Austrália e Nova Zelândia (no período de hegemonia inglesa) e Alemanha, Japão e Coreia (no período de hegemonia dos Estados Unidos). • Fazem parte do segundo grupo os Estados que formulam estratégias próprias para se reposicionar no sistema mundial, aproveitando períodos propícios de crescimento econômico, geralmente de enfraquecimento da hegemonia da potência mundial. Os principais exemplos são, para o autor, os Estados Unidos, a Alemanha e o Japão entre o século XIX e o início do século XX, e a China, a Índia e a Rússia no começo do século XXI. Em muitos casos, a potência hegemônica age para bloquear essa trajetória, como podemos ver nas inúmeras tentativas dos EUA para enfrentar a ascensão da China como potência global no período atual. • No terceiro grupo, estão todas asoutras nações que não conseguem romper os nexos que as colocam na periferia do sistema mundial. Há uma enorme heterogeneidade nesse conjunto, mas, essencialmente, o que une esses países é a incapacidade de romper a dependência e trilhar uma trajetória de desenvolvimento autônomo. Por fim, num terceiro grupo muito mais amplo se localizam quase todas as demais economias nacionais do sistema mundial, que atuam como “periferia econômica do sistema”, fornecendo insumos primários e industriais especializados para as economias dos “andares superiores”. São economias nacionais que podem ter fortes ciclos de crescimento e alcançar altos níveis de renda per capita, como no caso dos países nórdicos e da Argentina, que podem se industrializar, como no caso do Brasil e do México, e seguir sendo economias periféricas. Resumindo: a desigualdade no desenvolvimento da distribuição da riqueza entre as nações é uma dimensão econômica essencial do “sistema mundial moderno”. Mas existe a possibilidade seletiva de mobilidade nacional dentro desse sistema, de- pendendo da estratégia política e econômica de cada país” (FIORI, 2009, p. 176). Portanto, de acordo com essa interpretação, é possível situar os territórios na- cionais latino-americanos como periféricos no sistema mundial, apesar do dina- mismo econômico das últimas décadas e da vigorosa industrialização que diversos países do subcontinente tiveram condições de realizar. 19 UNIDADE As Transformações dos Territórios Nacionais e Regionais com a Globalização As mudanças na participação desses países na divisão internacional do trabalho (a industrialização, por exemplo) não significou o rompimento dos mecanismos de dependência internacional. Cabe fazer a ressalva que o subcontinente latino- -americano, por ser constituído de formações socioespaciais com particularidades muito marcantes, não pode ser entendido como um conjunto unitário. Durante toda a segunda metade do século XX, os países latino-americanos foram verdadeiros laboratórios de aplicação de políticas econômicas, regionais e urbanas formuladas nos países centrais. Essas políticas, ao desconsiderarem as necessidades prementes desses países, criaram owbstáculos à superação dos problemas sociais latino-americanos. Nas décadas de 1980 e 1990, a América Latina, de forma geral, aplicou à exaustão o receituário neoliberal, minando as possibilidades de um crescimento econômico sustentado e de combate às enormes desigualdades sociais e territoriais existentes no subcontinente. Os anos 2000, por sua vez, foram marcados por fortes críticas às políticas de orien- tação neoliberal, que culminaram na eleição, em diversos países, de governos mais à esquerda. São os casos do Brasil (Luiz Inácio Lula da Silva, 2003), Argentina (Néstor Kirchner, 2003), Venezuela (Hugo Chavez, 1999), Evo Morales (2006), entre outros. De laboratório de aplicação das ideias neoliberais do Consenso de Washington, o subcontinente passou a ser exemplo internacional de lutas sociais e resistência ao pensamento único da globalização hegemônica. As trajetórias desses e de outros países, contudo, demonstram que não houve intenção ou condições políticas efetivas para enfrentar as lógicas imperialistas que interferem constantemente nos territórios nacionais latino-americanos. Por outro lado, avançou em diversos sentidos as propostas de integração latino-americana. Podemos concluir, portanto, que a maior parte dos países da América Latina mantém a histórica inserção subordinada na divisão internacional do trabalho e nas dinâmicas do sistema mundial, ainda que muitos dos territórios nacionais tenham, atualmente, dinâmicas econômicas, sociais e culturais mais complexas que nos períodos precedentes. Desse modo, permanecem muito ativas as lógicas imperialistas no subconti- nente, que dificultem a construção de projetos nacionais de desenvolvimento. Por outro lado, a integração dos países, sobretudo da América do Sul, tem sido um processo lento e descontínuo, marcado pela fraqueza de prioridades claras e resul- tados concretos. 20 21 Material Complementar Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade: Leitura Questões Territoriais na América Latina ARROYO, Mónica. In: LEMOS, Amalia; SILVEIRA, María Laura; ARROYO,Mónica. Questões territoriais na América Latina. Buenos Aires: CLACSO, 2006. https://goo.gl/7mUjyS Critica y Emancipación FIORI, José Luis. O poder global e a nova geopolítica das nações. Critica y Emancipación, v. 1, n. 2, 2009. https://goo.gl/tssUuH O Fator Político na Formação Nacional FURTADO, Celso. O fator político na formação nacional. Estudos Avançados, v. 14, n. 40, 2000. https://goo.gl/ijfZwe Região e Globalização: Pensando um Esquema de Análise SILVEIRA, Maria Laura. Região e globalização: pensando um esquema de análise. Redes, v. 15, n. 1, 2010. https://goo.gl/Nqbzvt 21 UNIDADE As Transformações dos Territórios Nacionais e Regionais com a Globalização Referências ARROYO, Mónica. A vulnerabilidade dos territórios nacionais latino-americanos: o papel das finanças. In: LEMOS, Amalia; SILVEIRA, María Laura; ARROYO, Mónica. Questões territoriais na América Latina. Buenos Aires: CLACSO, 2006. Disponível em: http://www.geografia.fflch.usp.br/inferior/laboratorios/ laboplan/ artigos/arroyo_01.pdf. BRANDÃO, Carlos. Território e desenvolvimento: as múltiplas escalas entre o local e o global. Campinas: Editora da Unicamp, 2007. CALIXTRE, André & BARROS, Pedro Silva. A integração sul-americana, além da circunstância: do Mercosul à Unasul. In: IPEA. Brasil em Desenvolvimento: Estado, planejamento e políticas públicas. Brasília: IPEA, 2010. Disponível em: http://www. ipea.gov.br/bd/pdf/Livro_BD_vol2.pdf FIORI, José Luis. O poder global e a nova geopolítica das nações. Critica y Emancipación, v. 1, n. 2, 2009. Disponível em: http://bibliotecavirtual.clacso. org. ar/ar/libros/secret/CyE/CyE2/06opo.pdf FURTADO, Celso. O fator político na formação nacional. Estudos Avançados, v. 14, n. 40, 2000. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ea/v14n40/ v14n40a02.pdf HARVEY, David. O novo imperialismo. São Paulo: Loyola, 2004. HIRST, Paul & THOMPSON, Grahame. Globalização em questão – a economia internacional e as possibilidades de governabilidade. Petrópolis: Editora Vozes, 2002. SANTOS, Milton. A natureza do espaço. São Paulo: Edusp, 2006. _______________. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro: Editora Record, 2000. _______________. Sociedade e espaço: a formação social como teoria e como método. In: ______. Da totalidade ao lugar. São Paulo: Edusp, 2002. SILVEIRA, María Laura. Por uma teoria do espaço latino-americano. In: LEMOS, Amalia; SILVEIRA, María Laura; ARROYO, Mónica. Questões territoriais na América Latina. Buenos Aires: CLACSO, 2006. 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