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Claudio Cezar Henriques
2009
LÍNGUA PORTUGUESA:
Semântica e Estilística
IESDE Brasil S.A. 
Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482. CEP: 80730-200 
Batel – Curitiba – PR 
0800 708 88 88 – www.iesde.com.br
Todos os direitos reservados.
© 2009 – IESDE Brasil S.A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização 
por escrito dos autores e do detentor dos direitos autorais.
Capa: IESDE Brasil S.A.
Imagem da capa: Comstock Complete
CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
H449l
Henriques, Claudio Cezar, 1951-
Língua portuguesa : semântica e estilística / Claudio Cezar Henriques. – Curitiba, 
PR : IESDE Brasil, 2009.
256 p.
Inclui bibliografia
ISBN 978-85-387-0661-8
1. Língua portuguesa – Semântica. 2. Língua portuguesa – Estilo. 3. Linguagem 
e línguas. I. Título. 
09-1785. CDD: 469.5
CDU: 811.134.3’36
Pós-Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo (USP); Doutor em Letras 
pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ); Mestre em Letras pela Uni-
versidade Federal Fluminense (UFF); Licenciado e Bacharel em Letras pela Univer-
sidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Claudio Cezar Henriques 
Sumário
Estilística, a ciência da expressividade .............................. 11
A palavra “estilo” ......................................................................................................................... 11
As origens da Estilística ........................................................................................................... 12
Principais correntes da Estilística ......................................................................................... 14
Aplicações da Estilística aos estudos do português ..................................................... 18
Estilística fônica ......................................................................... 27
Distinção entre letra e fonema ............................................................................................. 27
Expressividade das vogais e das consoantes .................................................................. 30
Relações expressivas entre a fala e a escrita .................................................................... 33
Figuras de linguagem .............................................................................................................. 34
Estilística léxica .......................................................................... 45
Conceituação de léxico ........................................................................................................... 45
Palavras lexicais e palavras gramaticais ............................................................................ 47
Neologismos lexicais e semânticos .................................................................................... 49
Figuras de linguagem .............................................................................................................. 52
Estilística sintática – I ............................................................... 65
Conceituação de sintaxe da frase ........................................................................................ 65
Organização das palavras na oração .................................................................................. 68
Extensão das frases ................................................................................................................... 71
Referenciação intrafrásica ...................................................................................................... 72
Figuras de linguagem .............................................................................................................. 74
Estilística sintática – II ............................................................. 83
Conceituação de sintaxe do período ................................................................................ 83
Organização das orações (no período) ............................................................................. 85
Referenciação interfrásica ..................................................................................................... 87
Figuras de linguagem ............................................................................................................. 92
Estilística da enunciação ......................................................101
Adequação sintática e adequação semântica .............................................................101
As pessoas do discurso e as pessoas gramaticais .......................................................106
Tipos de discurso ....................................................................................................................109
Semântica, a ciência das significações ...........................121
Significante e significado ....................................................................................................121
Principais correntes da Semântica ...................................................................................123
Semântica do texto e do contexto ...................................................................................127
Relações semânticas – I ........................................................137
Noções de Lexicologia, Lexicografia e Terminologia ..................................................137
Dicionários gerais e específicos .........................................................................................138
Sinonímia e antonímia ..........................................................................................................144
Homonímia e paronímia .......................................................................................................146
Relações semânticas – II .......................................................153
Campos associativos, conceituais e semânticos .........................................................153
Hiperonímia e hiponímia .....................................................................................................155
Antonomásia e eponímia ....................................................................................................158
Relações semânticas – III .....................................................171
Paráfrase .....................................................................................................................................171
Perífrase ......................................................................................................................................174
Ambiguidade e polissemia ..................................................................................................176
Características do texto ficcional ......................................189
Ficção e verossimilhança ......................................................................................................189
Narratividade, descritividade e argumentatividade ..................................................192
Estudo semântico-estilístico de texto ficcional ...........207
Digressão ....................................................................................................................................207
Intertextualidade .....................................................................................................................212
Estilística aplicada ao texto ficcional ................................................................................217
Gabarito .....................................................................................231
Referências ................................................................................243
Anotações .................................................................................255
Apresentação
Nos estudos de Língua Portuguesa dedicamos uma boa parte do tempo aos 
conteúdos tradicionais da gramática, em especial a sintaxe, amorfologia e a fono-
logia. Além disso, temos sempre de nos atualizar quanto às questões da ortogra-
fia, fazer muitas leituras e redações. É, em suma, um grande aprendizado.
Quando juntamos todas essas informações e refletimos seriamente sobre 
nossa vida escolar, podemos fazer um balanço dos proveitos que tanto estudo 
nos trouxe. Feito com dedicação, esforço, disponibilidade, as aulas e as orien-
tações devem ter deixado em cada um de nós a certeza de que estamos mais 
conscientes de nosso papel na sociedade e de nosso compromisso com a língua 
portuguesa.
De todas as ferramentas aprendidas após tantas aulas, as duas que fazem parte 
deste livro se sobressairão: a ferramenta estilística e a ferramenta semântica. Elas sin-
tetizam, ou melhor, elas sublimam tudo que se estudou nas muitas disciplinas dos 
estudos linguísticos, desde as primeiras letras até estas Letras superiores.
A ciência da expressividade e a ciência das significações. Ambas percorrem 
este volume, chamando de volta aquelas aulas, pesquisas e conteúdos gravados 
nas nossas lembranças – e agora mais repisados, amadurecidos, disponíveis para 
uso e para uma mudança de posição no ato de aprender e ensinar.
A Estilística e a Semântica – o leitor confirmará – são disciplinas da vida acadê-
mica e da vida real, levando-nos em busca de um lugar expressivo e significativo, 
compelindo-nos ao entendimento e à explicação, à indagação, cogitação, novas 
sendas filológicas, pragmáticas, discursivas.
Na estrutura deste livro, optamos por trabalhar em conjunto, sempre que 
possível, o binômio estilística/semântica. Embora as separemos didaticamente 
na organização dos capítulos, uma e outra estarão muito perto nas explicações, 
comentários e propostas de atividades, imbricando-se nos dois últimos capítulos, 
quando tratamos das características do texto ficcional e fazemos dele a matéria 
incisiva para a aplicação dos estudos semântico-estilísticos.
Carpe librum!
O objetivo deste capítulo é conceituar os termos “estilo” e “estilística” 
e destacar a importância dos estudos estilísticos para a compreensão do 
funcionamento da língua portuguesa.
A palavra “estilo”
O termo “estilo” (registrado pela primeira vez em nossa língua no século 
XIV) provém do latim stilus: “qualquer objeto em forma de haste pontiagu-
da, ponteiro de ferro para escrever sobre tabuinhas enceradas”, definição 
que reúne as informações de duas obras homônimas, o Dicionário Etimo-
lógico da Língua Portuguesa, de J. P. Machado (1977), e o de A. Nascentes 
(1955).
De instrumento empregado para escrever, passou a significar, por um 
processo metonímico, a própria escrita e, depois, a linguagem considera-
da em relação ao que ela tem de característico. Por fim, expandindo seu 
campo de significação, estilo passou também a representar qualquer con-
junto de tendências e características formais, estéticas, que identificam ou 
distinguem uma obra, artista, escritor, ou determinado período ou movi-
mento, ou até mesmo um objeto.
Daí, é possível encontrarmos essa palavra acompanhada de muitas e 
variadas referências (poema em estilo parnasiano; móvel em estilo co-
lonial; atriz com um estilo afetado; filme no estilo europeu) e, generica-
mente, como sinônimo de “maneira” 
e “elegância” (esse é o meu estilo de 
vida; ela não tem estilo).
Estilo: qualquer objeto em 
forma de haste pontiaguda, pon-
teiro de ferro para escrever sobre 
tabuinhas enceradas.
IE
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 A
.
Estilística, a ciência da expressividade
12
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
Dessa palavra deriva, por exemplo, o substantivo estilete: utensílio com lâmina 
móvel e bastante afiada, protegido por invólucro de plástico, usado para cortar pa-
pelão, couro, borracha, etc. Deriva também o substantivo estilística, tema que se 
aplica a variados campos de estudo, inclusive aos estudos linguísticos e literários.
Nos estudos de língua, pode-se definir estilo como o modo pelo qual um in-
divíduo usa os recursos fonológicos, morfológicos, sintáticos, lexicais, semânticos, 
discursivos da língua para expressar, oralmente ou por escrito, pensamentos, senti-
mentos, opiniões, etc.
Ou seja: nos estudos de língua portuguesa... estilo é escolha linguística. Essa es-
colha depende da capacidade e sensibilidade de cada usuário de responder a 
estas perguntas:
– O que tem a dizer?
– Para quem vai dizer?
– Como vai dizer?
– Quando vai dizer?
Por isso, não é exagero afirmar que:
QUEM NÃO TEM O QUE ESCOLHER NÃO TEM ESTILO... ...TEM CACOETE
QUEM TEM O QUE ESCOLHER, MAS ESCOLHE MAL, TAMBÉM NÃO TEM 
ESTILO... ... TEM MAU GOSTO...
As origens da Estilística
As definições de Estilística variam conforme o recorte teórico a que pertence 
o analista, mas não se pode negar que sua existência tem uma conexão histórica 
e semântica com a Poética (enquanto “teoria geral das obras literárias”) e a Retó-
rica (enquanto “teoria do discurso”).
As definições que seguem foram extraídas do Dicionário Houaiss:
Poética – parte dos estudos literários que se propõe a investigar os proces- �
sos que dizem respeito às normas versificatórias dos textos, os componen-
tes teóricos de que se revestem, bem como os compêndios de poética que, 
desde Aristóteles até os nossos dias, abordaram o assunto (POÉTICA, 2004).
Estilística, a ciência da expressividade
13
Retórica – a arte da eloquência, a arte de bem argumentar; a arte da pa- �
lavra; conjunto de regras que constituem a arte do bem dizer, a arte da 
eloquência; oratória (RETÓRICA, 2004).
A Estilística se baseia sobretudo em duas das três funções primordiais da 
linguagem depreendidas pelo alemão Karl Bühler (1879-1963): representação, 
expressão e apelo (BÜHLER, 1934). A elas correspondem, respectivamente, as 
faculdades de inteligência, sensibilidade e desejo ou vontade, centrando-se a 
Estilística na expressão e no apelo.
As funções da linguagem segundo Karl Bühler
representação � linguagem referencial denotativa
eixo sintagmático
(= posição no texto)
expressão �
exteriorização psíquica 
de nossos anseios e 
sentimentos
denotativa /
conotativa
eixo paradigmático
(= posição no sistema)
apelo � exercício de influência sobre os interlocutores
denotativa /
conotativa
eixo paradigmático
(= posição no sistema)
Exemplos:
1. “Jornalista é a pessoa que trabalha como redator, repórter, colunista ou 
diretor em órgão da imprensa, ou programa jornalístico no rádio ou na 
televisão.” (JORNALISTA, 2004).
2. “Jornalista é um homem que sabe explicar aos outros o que ele próprio 
não entende.” (CARPEAUX, 1967).
3. “Jornalista, você tem uma missão importante na sociedade.” (Chamada pu-
blicitária).
Na prática, essas três funções se integram, tanto no texto informativo quanto 
no literário, embora possa ocorrer o predomínio de uma ou de outra, dependen-
do do gênero textual ou do tipo de discurso. Nas três frases dadas, cada uma 
exemplifica uma das funções do quadro, na ordem.
Seguindo o esquema das funções da linguagem de Karl Bühler, a Estilística é 
– como dissemos – a disciplina que estuda a língua nas suas funções expressiva 
e apelativa. Seu criador, Charles Bally (1865-1947), “pretendeu chamar a atenção 
para o lado afetivo do discurso”, como explica Melo (1976, p. 16). Outros teóricos, 
sobretudo Karl Vossler (1872-1949) e Leo Spitzer (1887-1960), apontaram para 
uma linha diversa da Estilística.
14
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
Enquanto Bally, discípulo de Ferdinand de Saussure (1857-1913), buscava es-
tudar a língua como expressão do pensamento que reflete determinada afeti-
vidade nos atos da fala, Vossler e Spitzer optaram por estudar as relações entre 
expressão e indivíduo. Podemos dizer que são duas concepções excludentes: 
uma centrada na langue (a de Bally), outra na parole.
Dessas duas origens depreendem-se obviamente dois perfis de comentários es-
tilísticos: um que se aproxima, comparativa e contrastivamente, da gramática des-
critiva; outro que dela se afasta para se aproximar dos estudos específicos de litera-tura, e que chegou a ser chamado de Estilística genética. Com o passar do tempo, 
cada perfil foi recebendo adesões e adaptações, variantes de abordagem que per-
correram vertentes estatísticas, estruturais, semióticas, psicanalíticas, sociológicas.
Principais correntes da Estilística
As duas grandes vertentes da Estilística são chamadas de “descritiva” e “idea-
lista” e têm como principal diferença o enfoque dado ao objeto de seu estudo, 
ou seja, o texto.
A Estilística descritiva (Estilística linguística)
A Estilística descritiva volta-se para os aspectos afetivos da língua, os quais 
estão a serviço do homem de forma viva, espontânea, porém sujeitos a um siste-
ma expressivo que pode ser descrito e interpretado.
Para exemplificar, vejamos uma frase citada por José de Alencar (1829-1877) 
no “Posfácio” de Iracema como expressão bem popular de sua terra:
4. “A mãe diz do filho que acalentou ao colo: Está dormindinho.”(ALENCAR, 
s.d., p. 273)
O vocábulo “dormindinho” não é o diminutivo de “dormindo”, mas uma forma 
nominal do verbo acrescida da ideia de afetividade e carinho expressada pelo 
sufixo -inho, assim interpretada estilisticamente pelo escritor cearense: “Que ri-
queza de expressão nesta frase tão simples e concisa! O mimo e ternura do afeto 
materno, a delicadeza da criança e sutileza do seu sono de passarinho, até o 
receio de acordá-la com uma palavra menos doce; tudo aí está nesse diminutivo 
verbal.” (ALENCAR, s/d, p. 273).
Estilística, a ciência da expressividade
15
Nos estudos de língua portuguesa, podemos citar algumas obras que seguem 
essa corrente, entre as quais merecem menção:
Manuel Rodrigues Lapa – � Estilística da Língua Portuguesa (1.a ed. 1945);
J. Mattoso Câmara Jr. – � Contribuição à Estilística Portuguesa (1.a ed. 1952);
Gladstone Chaves de Melo – � Ensaio de Estilística da Língua Portuguesa (1.a 
ed. 1976);
José Brasileiro Vilanova – � Aspectos Estilísticos da Língua Portuguesa (1.a ed. 
1977).
O que a Estilística descritiva tem como alvo é a sistematização dos meios que 
a língua nos oferece para exteriorizarmos nossas necessidades afetivas, isto é, os 
elementos emocionais que acompanham o enunciado.
Comparemos a expressividade dos versos de uma canção de Chico Buarque 
com a objetividade de uma variante referencial:
5. Dorme, minha pequena / Não vale a pena despertar / Eu vou sair / Por aí 
afora /Atrás da aurora / Mais serena (“Acalanto para Helena”)
6. Dorme, minha filha, não precisa acordar. Eu vou sair para o trabalho.
Comentário estilístico: embora o conteúdo informativo seja idêntico, 
apenas o exemplo (5) mostra o sentimento e a densidade da cena, comparti-
lhando com o leitor a escolha revelada do sintagma “minha pequena” e a longa 
representação de sua “saída para o trabalho” (= eu vou sair por aí afora atrás da 
aurora mais serena).
Como se vê, ao se ocupar da descrição dos recursos expressivos da língua 
como um todo, independentemente de sua ocorrência em obras literárias, a Esti-
lística descritiva não está voltada exclusivamente para a literatura e se desdobra 
em outras vertentes, sobretudo a chamada estilística funcional, que tem Roman 
Jakobson (1896-1982) como seu principal representante.
Jakobson examina, a partir do processo de comunicação, a participação do 
emissor, do contexto, da mensagem, do contato, do código e do destinatário. E 
cada um desses componentes, conforme o caso, justifica a existência de funções 
predominantes ou concorrentes, a saber: emotiva ou expressiva (centrada no 
emissor), referencial ou informativa (no contexto), poética (na mensagem), fática 
(no contato), metalinguística (no código) ou conativa (no destinatário).
16
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
O processo básico da comunicação verbal envolve uma situação fundamen-
tal de construção, que pode ser exemplificada na seguinte simulação:
José pretende avisar a João que vai viajar.
Em tal situação, temos seis fatores envolvidos na comunicação verbal. Partin-
do da frase do exemplo, identificamos:
A – José diz que vai viajar. Ele é o... ... emissor
B – A ideia que vai ser proferida por José é algo abstrato e só 
vai ser concretizada quando for dita por ele. Essa ideia abstrata 
é o...
... contexto
C – Ao concretizar o contexto, isto é, ao dizer: “Vou viajar”, José 
se vale da... ... mensagem
D - Esta mensagem, para ser entendida por João, precisa ser dita 
de uma forma que ele conheça, isto é, com elementos que sejam 
comuns a ambos, no caso, as palavras, que são o...
... código
E – José fala e João escuta. Isto representa o... ... contato
F – João é o objeto/alvo/indivíduo a ser alcançado por José na 
conversação; João é, portanto, o... ... destinatário
A esquematização desses seis fatores pode ser estabelecida da seguinte 
maneira:
EMISSOR DESTINATÁRIO
CONTEXTO 
MENSAGEM
CONTATO 
CÓDIGO
FUNÇÃO EMOTIVA FUNÇÃO CONATIVA
FUNÇÃO REFERENCIAL
FUNÇÃO POÉTICA
FUNÇÃO FÁTICA
FUNÇÃO METALINGUÍSTICA
Em suma, a Estilística linguística pretende organizar e interpretar os dados 
expressivos “que se integram nos traços da língua e fazem da linguagem esse 
conjunto complexo e amplo” (CÂMARA JR., 1979, p. 15).
Estilística, a ciência da expressividade
17
A Estilística idealista (Estilística literária)
A Estilística idealista parte da reflexão, de cunho psicológico, a respeito dos 
desvios da linguagem em relação ao uso comum e considera que qualquer afas-
tamento do uso linguístico normal decorre de alguma alteração do estado psíqui-
co normal do escritor. Nesse sentido, a maneira pessoal de alguém se expressar é 
seu estilo, que reflete o mundo interior e a experiência de vida de quem escreve.
Voltada especificamente para a produção literária, a Estilística idealista consi-
dera que toda obra encerra um mistério cuja compreensão depende basicamen-
te da intuição de quem se investe do desejo de desvendar “os mistérios de criação 
de uma obra e dos efeitos dessa obra sobre os leitores” (MARTINS, 1989, p. 9).
Essa dimensão serviu como argumento para que alguns estudiosos defen-
dessem a complementaridade entre as duas correntes principais. Amado Alonso 
(1896-1952), por exemplo, chega a afirmar que a Estilística literária tem como 
base a Estilística linguística justamente porque é esta quem cuida do lado afeti-
vo, imaginativo das formas da língua, encontráveis tanto na fala como na escrita, 
pois são esses indícios que se sobrepõem aos signos. A partir de tais elementos, 
a Estilística literária examinará como é constituída a obra literária e considerará 
o prazer estético que ela provoca no leitor. Como tudo se engloba no valor esté-
tico da obra, ela está impregnada do próprio prazer do autor ao criá-la e isso vai 
suscitar no leitor um prazer correspondente.
Entre as obras disponíveis em língua portuguesa que seguem a corrente ide-
alista, merecem citação:
Vítor Manuel de Aguiar e Silva – � Teoria da Literatura (1.a ed. 1967);
Eduardo Portella – � Teoria da Comunicação Literária (1.a ed. 1970);
Affonso Romano de Sant’Anna – � Análise Estrutural de Romances Brasileiros 
(1.a ed. 1973);
Luiz Costa Lima – � Dispersa Demanda (1.a ed. 1981).
Eis alguns exemplos de comentários estilísticos sob o viés idealista:
Até o momento presente, os mais importantes estudos sobre o lirismo drummondiano só 
trataram de aspectos parciais (temáticos ou formais) de sua obra, enquanto que a maior parte 
das visões de conjunto permanece excessivamente sintética. (MERQUIOR, 1975, p. 3)
18
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
No caso de Guimarães Rosa, embora sua obra seja das mais estudadas entre nós, o 
problema do magismo e de suas implicações com a apreensão estética da realidade parece 
completamente inexplorado. Isso propicia mal-entendidos, que mais se agravam se a 
ausência desta análise se combina a observações que, sendo válidas, sejam, no entanto, 
também tratadas parcialmente. (LIMA, 1991, p. 510)
A leitura do conjunto das obras de Rubem Fonseca nos leva a destacar a existência de dois 
grandes núcleostemáticos: a violência e a busca da verdade. Poderíamos mesmo dizer que a 
íntima relação estabelecida entre esses núcleos é fonte geradora de força da ficção do autor, 
na medida em que determina o tipo de tratamento que será dado aos temas e a consequente 
busca de soluções formais adequadas. (FIGUEIREDO, 1994, p. 73)
Roger Fowler (1993, p. 237) nos dá uma boa definição do que se deve en-
tender por Estilística literária, dizendo que ela é “uma subdivisão historicamente 
isolada da crítica com seus próprios princípios e métodos”, sendo “menos difusa, 
mais coerente, mais mecânica do que a crítica em geral”.
Em suma, a Estilística literária desvencilha-se às vezes da linguística e assume 
um aspecto quase genético, propondo-se a recuperar a gênese, a criação po-
ética, convivendo desafiadoramente com as relações entre forma e conteúdo, 
materiais e estrutura.
Aplicações da Estilística 
aos estudos do português
“A Estilística vem complementar a gramática,” diz Mattoso Câmara Jr. (1979, 
p. 14). Por isso, para examinar que aplicações tem a Estilística nos estudos de 
uma língua, é preciso deixar claros seus vínculos com a gramática, ou seja, com 
o léxico, com a sintaxe, a morfologia, a fonética e a fonologia. Daí falarmos em 
estilística fônica (fonoestilística), em estilística da palavra (morfoestilística), em 
estilística sintática e até em estilística da enunciação. Afinal,
[...] ler ou escrever um texto é muito mais do que apenas compreender ou organizar palavras 
em frases e parágrafos. É algo que envolve um amplo mecanismo a partir do qual o pensamento 
e as pretensões comunicativas do autor se apresentam para reflexão e avaliação do leitor. 
Como se constroem esses textos? Com palavras, sintagmas, termos e orações – elementos 
que mantêm entre si um relacionamento interno de concordância, de regência, de atribuição. 
(HENRIQUES, 2008a, p. 15)
A Estilística é parceira de todos os componentes do texto, desde os fone-
mas que constroem morfemas e palavras até os períodos e parágrafos que 
constroem a totalidade do texto. E a adequação gramatical de uma obra preci-
sa estar “compatível com as pretensões e intuitos de seu autor, que – se assim 
julgar pertinente – procurará atingir o nível de exigência da linguagem padrão 
Estilística, a ciência da expressividade
19
praticada por escrito pela comunidade culta em que se insere” (HENRIQUES, 
2008a, p. 16).
As relações dentro de um texto são micro ou macro, conforme o ponto de 
vista de quem examina o objeto de estudo. Nessa tarefa, caberá notar que tipo 
de expressividade se percebe, se descreve e se explica nas passagens escolhidas 
de um texto concreto, real – produto que se tem em mãos e aos olhos para com 
ele se estabelecer uma “negociação de entendimento”.
Para ilustrar essas considerações, vejamos dois trechos da canção intitulada “Ci-
garra”, escrita por Ronaldo Bastos e Milton Nascimento e interpretada por Simone.
7. Porque você pediu uma 
canção para cantar / Como 
a cigarra arrebenta de tan-
ta luz / E enche de som o 
ar / [...] Porque ainda é in-
verno em nosso coração / 
Essa canção é para cantar 
/ Como a cigarra acende o 
verão / E ilumina o ar / Si, si, 
si, si, si, si, si, si...
Os versos mostram uma ex-
pressiva identificação que começa 
na coincidência sonora que existe 
entre a primeira sílaba da palavra 
“cigarra” e do nome da cantora 
“Simone”. Seria coincidência, se 
não notássemos que a letra da 
música fala de alguém que “pediu uma canção para cantar”, sendo lícito supor 
que a onomatopeia que encerra a canção tanto poderia estar grafada com “c” 
como com “s” (si,si,si e ci,ci,ci).
SIMONE  CIGARRA  SI, SI, SI... CI, CI, CI...
Importa também observar que o verso inicial dos dois blocos tem uma estru-
tura sintática idêntica, com uma oração adverbial que faz uma espécie de eco 
à composição, talvez como esboço de um estribilho, reforçado na repetição do 
sintagma “para cantar” e do substantivo “canção”, reiterado morfológica e se-
manticamente com o verbo “cantar”.
Va
ne
ss
a 
Li
m
a.
20
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
Porque você pediu uma canção para cantar
Porque ainda é inverno em nosso coração Essa canção é para cantar
Esses pequenos comentários comprovam como são determinantes para a 
compreensão do conteúdo da canção os elementos fônicos (si/ci), os aspectos 
sintáticos (porque...), a escolha morfológica e lexical (canção + cantar), apenas 
para ficarmos nos que aqui focalizamos.
Podemos, então, concluir, concordando com Mattoso Câmara Jr. (1981, p. 
110), que a Estilística é uma “disciplina linguística que estuda a expressão em 
seu sentido estrito de expressividade da linguagem, isto é, a sua capacidade de 
emocionar e sugestionar.”
Em resumo:
Estilística  considera e analisa a linguagem afetiva.
Gramática  considera e analisa a linguagem intelectiva.
Texto complementar
As tarefas da Estilística 
(GUIRAUD, 1978, p. 149-151)
A tarefa mais urgente da Estilística é a de definir seu objeto, sua natureza, 
seus fins e seus métodos, começando pela própria noção de estilo.
Reduzidas ao seu denominador comum, as diversas concepções de estilo 
limitam-se à seguinte definição: O estilo é o aspecto do enunciado que resulta 
da escolha dos meios de expressão determinada pela natureza e intenções do 
indivíduo que fala ou escreve.
Definição muito ampla, que engloba a expressão, seu aspecto, o sujeito 
falante, sua natureza e suas intenções.
1. Os limites da expressão – As definições do estilo diferem, conforme se 
tome a expressão no sentido mais amplo da palavra ou numa acepção 
limitada:
Estilística, a ciência da expressividade
21
a. A arte do escritor, que é o sentido tradicional, o emprego consciente 
de meios de expressão com fins estéticos ou literários.
b. A natureza do escritor, a escolha espontânea, mais ou menos in-
consciente, através da qual se exprimem o temperamento e a ex-
periência do homem.
c. A totalidade da obra, que transcende a simples forma verbal e com-
preende a atitude do homem na totalidade da sua situação.
2. Os limites dos meios de expressão – O estilo é o emprego dos “meios 
de expressão”, termo este que pode ser tomado num sentido mais ou 
menos restrito:
a. As estruturas gramaticais – sons, formas, palavras, construções.
b. Os processos de composição – forma dos versos, gêneros, descrição, 
narração.
c. O pensamento em sua totalidade – temas, visões do mundo, atitu-
des filosóficas.
3. A natureza da expressão – A comunicação linguística comporta dife-
rentes valores que se superpõem e traduzem, seja a atitude espontâ-
nea do sujeito, seja o efeito que este quer produzir sobre seu interlo-
cutor:
a. Valores nocionais – o estilo pode ser claro, lógico, correto.
b. Valores expressivos – o estilo pode ser impulsivo, infantil, provincial.
c. Valores impressivos – o estilo pode ser imperioso, irônico, cômico.
4. As fontes da expressão – Numa perspectiva vizinha da precedente e 
que a confirma, poderemos distinguir:
a. Uma psicofisiologia da expressão – estilos segundo o temperamen-
to, o sexo, a idade; estilo bilioso (mal-humorado) ou melancólico.
b. Uma sociologia da expressão – estilo das diversas classes e profis-
sões, estilos provincianos.
c. Uma função da expressão – estilo literário, administrativo, legal, oratório.
22
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
5. O aspecto da expressão – Da natureza e das fontes da expressão surge 
nova série de definições puramente descritivas e baseadas sobre:
a. A forma da expressão – estilo elíptico, metafórico, etc.
b. A substância da expressão, o pensamento – estilo terno, triste, enér-
gico, etc.
c. O sujeito que fala e sua situação – estilo arcaico, poético, etc.
Dicas de estudo
MONTEIRO, José Lemos. “O Escopo da Estilística”, capítulo do livro A Estilística.
O capítulo examina com clareza e objetividade os problemas que envolvem a 
delimitação do campo de estudo da Estilística e apresenta explicações didáticas 
para as investigações estilísticas.
HENRIQUES, Claudio Cezar.“A Primeira Margem do Rio”, capítulo do livro Litera-
tura: esse objeto do desejo.
O capítulo trata das relações entre as palavras “estilo” e “estilística” e aborda 
como se processa a análise do texto literário, sob as perspectivas linguístico- 
-gramatical e teórico-literária.
Estudos linguísticos
1. Os três comentários transcritos a seguir se referem à poesia de João Cabral de 
Melo Neto. Reconheça se eles se enquadram na vertente descritivista (linguís-
tica) ou na vertente idealista (literária) da Estilística. Justifique sua resposta.
a) Os instrumentos e meios de trabalho do projetista [João Cabral] revelam 
uma lúcida atividade mental que se vale da geometria como modelo de 
pensamento ativo, como metáfora de uma linguagem precisa que, pro-
jetando formas ideativamente puras, cria mundos paralelos às realidades 
concretamente dadas.
Estilística, a ciência da expressividade
23
b) João Cabral de Melo Neto elegeu a pedra como símbolo maior do atrito, 
traço ao mesmo tempo formal e temático que perpassa obsessivamente 
sua poesia. O atrito é adivinhado metonimicamente em seres, espaços e 
objetos de acidentada anatomia (esqueletos, corpos ossudos, paisagens 
escalavradas), evocado potencialmente em certos instrumentos (bisturi, 
espada, faca, forja), ou encaixado no discurso como nós ou arestas do 
texto (cacofonias, transgressões morfológicas, anomalias sintáticas).
c) Em relação às questões propostas pelas obras anteriores, a novidade 
[em O Engenheiro] está na articulação que passa a existir entre a cons-
trução da imagem poética e a problematização da poesia. Ou seja, o 
tratamento da imagem poética passa a ser a estratégia pela qual o po-
eta problematiza o poema enquanto elemento de mediação entre ele 
e a realidade.
2. Leia atentamente o poema de João Cabral “Catar Feijão” (MELO NETO, 1994, 
p. 346-347) e assinale as alternativas que contêm comentários estilísticos coe-
rentes a respeito do texto. Justifique suas respostas.
Catar feijão se limita com escrever: 
jogam-se os grãos na água do alguidar 
e as palavras na da folha de papel; 
e depois, joga-se fora o que boiar. 
Certo, toda palavra boiará no papel, 
água congelada, por chumbo seu verbo; 
pois catar esse feijão, soprar nele, 
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.
Ora, nesse catar feijão entra um risco: 
o de que entre os grãos pesados entre 
um grão qualquer, pedra ou indigesto, 
um grão imastigável, de quebrar dente. 
Certo não, quando ao catar palavras: 
a pedra dá à frase seu grão mais vivo: 
obstrui a leitura fluviante, flutual, 
açula a atenção, isca-a com o risco.
05.
10.
15.
24
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
a) No verso 2, o pronome se tem função apassivadora e, por isso, obriga o 
verbo a estar na 3.a pessoa do plural, para concordar com o sujeito “os 
grãos”.
b) O poema busca, na inter-relação de seus elementos fônicos, semânticos e 
sintáticos, a projeção significativa das ações de catar feijão e catar palavras.
c) A pedra do feijão e a pedra do papel são iguais porque são pedras e por-
que são, ambas, indigestas e imastigáveis.
d) A sequência de palavras com o fonema /g/ em “jogam-se os grãos na 
água do alguidar” marca o ritmo de leitura desse verso.
e) Os dois últimos versos empregam três verbos transitivos diretos dispos-
tos em ordem lógica, direta.
f) Os três últimos verbos do texto contêm uma gradação importante para a 
compreensão do poema, colocando o verbo “iscar” como culminante da 
ideia de “colher”, “captar” o sentido “mais vivo” da frase.
Estilística, a ciência da expressividade
25
3. Considerando a vertente funcional dos estudos estilísticos e os componen-
tes envolvidos no processo de comunicação citados por Roman Jakobson, 
complete as lacunas analisando corretamente a função da linguagem do tre-
cho destacado.
a) No mercado de cerveja, o Brasil só perde, em volume, para a China (35 
bilhões de litros/ano), Estados Unidos (23,6 bilhões de litros/ano), Ale-
manha (10,7 bilhões de litros/ano). O consumo da bebida, em 2007, 
apresentou crescimento em relação ao ano anterior, totalizando 10,34 
bilhões de litros.
 Função __________________: na totalidade do parágrafo.
b) Beba com moderação! & Se for dirigir, não beba!
 Função __________________: no uso dos verbos no imperativo.
c) Eu bebo, sim, e vou vivendo. Tem gente que não bebe e está morrendo [...]
 Função __________________: no uso da primeira pessoa.
d) Inventaram um verbo popular que é o mais lindo exemplo de criativida-
de sob o efeito do álcool: bebemorar.
 Função __________________: na explicação do neologismo.
e) Alô, garçom! Você está aí?! Alguém aí pode me trazer uma cerveja gelada?
 Função __________________: na tentativa de confirmação de que há um 
interlocutor.
f) Cerveja... rios e mares de cerveja... O rádio toca canções de amor, mas o 
telefone segue mudo e as paredes continuam no lugar. Cerveja... essa é a 
única coisa que há.
 Função __________________: na escolha e organização das palavras de 
modo original.
O objetivo deste capítulo é observar a expressividade dos aspectos fô-
nicos no estudo estilístico da língua portuguesa.
Distinção entre letra e fonema
O estudo da Estilística fônica (ou fonoestilística, como alguns preferem) 
envolve necessariamente o conhecimento e domínio de um dos assuntos 
abordados nos estudos gramaticais, isto é, o fonema.
Por esse motivo, é preciso lembrar o tema da arbitrariedade do signo 
linguístico e também as vinculações entre a articulação das palavras e 
frases no português e a convenção gráfica praticada.
Em resumo:
Fonema é �
[...] considerado como o conjunto de articulações dos órgãos fonadores, seu efeito 
acústico estrutura as formas linguísticas e constitui o mínimo segmento distinto 
numa enunciação, o que também significa que o fonema é uma subdivisão da sílaba.
(HENRIQUES, 2008b)
A imagem do aparelho fonador identifica partes do corpo humano que 
atuam na produção dos chamados “sons da fala”, oriundos da corrente ex-
piratória proveniente de nossos pulmões.
Estilística fônica
28
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
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.
fossas nasais
lábios
lábios
cordas vocais
laringe
língua
faringe
epiglote
cavidade bucal
véu palatino dentes
dentes
Letra – “É um sinal gráfico com �
o qual se constroem na língua 
escrita os vocábulos. Ao con-
junto de letras de uma língua 
chama-se alfabeto.”(grifo do 
autor) (HENRIQUES, 2008b) – a 
foto ilustrativa mostra a capa 
da edição de 2009 do Vocabu-
lário Ortográfico da Língua Por-
tuguesa (VOLP), publicado pela 
Academia Brasileira de Letras, 
obra reeditada com as novas 
normas ortográficas aprovadas 
em 29 de setembro de 2008 e 
com efeito desde 1.o de janeiro 
de 2009.
Portanto, fonemas são sons da fala 
usados para estruturar as formas linguísticas, mas que isolados não têm signifi-
cação. Um som da fala só é fonema quando tem pertinência, ou seja, valor lin-
guístico, como prova a comutação praticada na série de palavras seguinte:
D
iv
ul
ga
çã
o 
A
BL
.
Estilística fônica
29
1. [ ‘b r ã k a ] x [ ‘t r ã k a ]
 Comentário: a troca de [b] e [t] nos dá duas palavras (branca e tranca) e 
confirma que /b/ e /t/ são fonemas do português.
2. [ ‘ã d a ] x [ ‘õ d a ]
 Comentário: a troca de [ã] e [õ] nos dá duas palavras (anda e onda) e con-
firma que /ã/ e /õ/ são fonemas do português.
3. [‘d i v a ] x [ ‘dƷ i v a ]
 Comentário: a troca de [d] e [dƷ] não nos dá duas palavras, mas duas pos-
síveis pronúncias para uma única palavra (diva) e não confirma a perti-
nência de ambos como fonemas do português, mas de apenas um deles 
– neste caso, o /d/, que tem o [dƷ] como seu alofone (registra uma pronún-
cia típica de algumas regiões brasileiras).
Alofone = variante de fonema.
4. [ ‘k u s t a ] x [ ‘k u ʃ t a ]
Comentário: a troca de [s] e [ʃ] não nos dá duas palavras, mas duas possíveis 
pronúncias para uma única palavra (custa) e não repete a pertinência de ambos 
como fonemas do português (encontrável por exemplo no par “taça/ taxa”) – 
nesse ambiente fonético de final de sílaba, os dois fonemas sempre se neutrali-
zam e caracterizam o que se chama arquifonema.
Arquifonema = neutralização permanente da oposição de fonemas.
5. [ ‘p l ã t a ] x [ ‘p r ã t a ]
Comentário: a troca de [l] e [r] não nos dá duas palavras, mas duas possíveis 
pronúncias para uma única palavra (planta) e não repete a pertinência de ambos 
como fonemas do português (encontrável por exemplo no par “mola / mora”) 
– os dois fonemas se neutralizam, neste exemplo, sem risco de confusão, mas 
caracterizam um caso de debordamento (e não de arquifonema), porque se o 
par fosse “planto / pranto” a neutralização se mostraria ambígua.
30
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
Debordamento = neutralização eventual da oposição de fonemas.
O sistema ortográfico da língua, em sua versão oficial, reproduz as palavras 
de acordo com a convenção em vigor. Observar como acontecem as relações 
entre a ortografia e a sonoridade é a tarefa do estudioso da expressividade, ou 
seja, da Estilística.
Expressividade das vogais e das consoantes
Não obstante sejam portadores de um ou mais significados, os vocábulos (e 
seus componentes) se constituem de sons e ruídos e assim atuam no mundo 
físico, estando “sujeitos às mesmas análises acústicas das notas musicais e dos 
produtos erráticos de vibrações irregulares” (MELO, 1976, p. 57).
Os valores estilísticos podem ter uma natureza sonora e se expressam tanto 
no âmbito das palavras como dos enunciados. Assim, além de sua concretização 
fonética, também atuam o ritmo, a intensidade e a entonação.
Ritmo: é a distribuição de sons num enunciado, considerando de que �
modo eles se organizam ou se repetem a intervalos regulares, ou a espa-
ços sensíveis quanto à duração e à acentuação.
Intensidade: é o maior grau de força expiratória com que o som da fala é �
proferido, força que se manifesta acusticamente na maior ou menor am-
plitude de vibrações.
 Atenção! O acento característico da língua portuguesa é a intensidade, 
sendo chamada de tônica a vogal ou sílaba sobre a qual recai a intensidade 
e de átona a vogal ou sílaba inacentuada. Além da intensidade, também 
atuam na articulação dos sons da fala o timbre (efeito acústico resultan-
te dos diversos graus de abertura da cavidade bucal), a altura (sensação 
auditiva relacionada à intensidade do som) e a quantidade (duração da 
emissão de um som).
Entonação: é a variação de � tom (fenômeno caracterizado por variações de 
altura no corpo do vocábulo, resultantes da velocidade e vibração das cordas 
vocais) que tem como domínio a sentença (oração, período ou frase).
Estilística fônica
31
Tomemos como exemplo dessas referências à camada sonora o trecho 
abaixo, inédito:
Lá vai a bola, solitária e devagar, na direção da última linha do campo. Incerteza... A alegria 
subterrânea se mistura com a raiva recôndita. O orgulho, com o medo. A dor pode ser uma 
felicidade passageira, eterna. Suspense. Angústia. Prazer.
Por um breve momento, um único monossílabo pode conter todas as emoções: a palavra GOL. 
Ela tem três letras, mas pode ter quatro, dez… Dependendo do seu fôlego e da sua alegria, ela 
pode ter o tamanho do papel, pode até nem acabar:
GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOLLLLLLLL…
IE
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.
Imaginando vários modos de se narrar um gol num jogo de futebol, percebe- 
-se que a intensidade da vogal “o”, sua duração e até sua musicalidade têm força 
expressiva potencial, ainda mais se comungarmos com a emoção do locutor. 
Porém, mesmo que o gol não seja a nosso favor, por ser o gol de uma derrota in-
desejada, a sonoridade dessa palavra nos marcará, impregnando-nos de tristeza 
tanto quanto impregnará de alegria os corações dos torcedores favorecidos pela 
simples passagem da bola por sobre a linha que fica debaixo da baliza.
O comentário acima explica uma das possibilidades de a sonoridade da 
língua se manifestar. Mas há outras situações em que a massa sonora tem papel 
importante.
Na rima de um poema ou de uma letra de música: �
6. De repente do riso fez-se o pranto 
Silencioso e branco como a bruma 
E das bocas unidas fez-se a espuma 
E das mãos espalmadas fez-se o espanto. (MORAES, 1998)
32
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
7. Que jamais seja um sofrimento 
viciosamente cultivado 
para transformar-se em momento 
de verso, espúrio intento da arte. 
Mas a arte que, a cumprir seu fado, 
por força de sonho ou tormento 
se volva num momento dado 
coisa divina, imensa e à parte... (MEIRELES, 1993)
Comentário: em (6) “pranto” e “branco”; “bruma” e “espuma” rimam simetrica-
mente no esquema ABBA e causam um efeito de ritmo e musicalidade; já em 
(7) a rima não é simétrica (o esquema é ABACBABC), mas também há ritmo e 
musicalidade.
Numa mensagem publicitária: �
8. “Plá, plé, pli, pló, plus vita! Plus Vita! Na nossa mesa tem Plus Vita todo dia!”
Comentário: a progressão vocálica em série cria um ambiente descontra-
ído e apropriado para veicular o produto e causar uma reação favorável no 
destinatário.
Na repetição de palavras ou de sílabas: �
9. Eu quero a estrela da manhã 
Onde está a estrela da manhã? 
Meus amigos meus inimigos 
Procurem a estrela da manhã. (BANDEIRA, 1958)
Comentário: a ênfase ocorre pela reiteração do sintagma “estrela da manhã”, 
demonstrando a posição do “eu lírico” diante de sua (in)certeza.
Na escolha estratégica de palavras com consoantes ou vogais iguais ou �
semelhantes:
10. “Acalanto e acalento. Calo e canto por encanto. Enquanto encontro o es-
quecimento, conto a calma escuridão.” (Canção de Cezar de Souza e N. 
Bulhões)
Comentário: a sucessão de palavras paroxítonas com as vogais nasais e a con-
soante /k/ traz um efeito especial que se encerra na palavra oxítona final.
Estilística fônica
33
Na invenção de palavras imitativas ou carinhosas: �
11. “É na boca do trabuco, é no té-retê-retém... E sozinhozinho não estou.” 
(ROSA, 1986).
12. “E a fonte a cantar, chuá, chuá; e a água a correr, chuê, chuê.” (Canção de 
Pedro Sá Pereira e Ary Pavão)
Comentário: a observação dos sons da realidade serve como suporte para 
sua reprodução ou para a afetividade de um trecho.
Relações expressivas entre a fala e a escrita
Uma sequência sonora realizada na emissão de uma frase se decompõe em 
grupos onde prevalece uma única pauta acentual (com uma sílaba tônica, uma 
ou mais sílabas átonas pré-tônicas ou pós-tônicas e, eventualmente, alguma 
sílaba subtônica).
Cada um desses grupos se chama “palavra fonológica”, e esta se forma em 
função da relação sintagmática de seus membros.
Na frase “Aquele quadro fez sucesso”, observam-se com nitidez duas palavras 
fonológicas e quatro palavras ortográficas. As duas palavras fonológicas são:
13. [ a k e l i ’k w a d r u ] – a sílaba tônica é [kwa], as demais são átonas.
 Essa palavra fonológica se formou a partir de duas palavras ortográficas.
14. [ f e ʃ s u ’s ɛ s u ] – a sílaba tônica é [sɛ], a subtônica é [feʃ], as demais são 
átonas.
 Essa palavra fonológica também se formou a partir de duas palavras 
ortográficas.
Como se vê, a palavra fonológica é delineada por um contorno prosódico que 
parte de seu acento primário (no caso, das palavras quadro e sucesso). Ela repre-
senta, na hierarquia da prosódia, o primeiro nível de interação entre a fonologia 
e a morfologia, e ultrapassa os limites da palavra lexical.
34
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
Prosódia = o estudo da variação na altura, intensidade, tom, duração e 
ritmo da fala, vinculando-se pois à ortoepia, que estuda a pronúncia correta 
das palavras.
“A expressividade dos fonemas poderia passar despercebida, se os poetas 
não os repetissem a fim de chamar a atenção para a sua correspondência com o 
que exprimem” , diz Nilce Sant’Anna Martins (1989, p. 38), e podemos estender 
a afirmação aos publicitários, aos compositores, aos jornalistas e a qualquer um 
dos usuários da língua, quando agimos no processo de comunicação com o in-
tuito de criar harmoniano que falamos.
Figuras de linguagem
Os sons, como vimos, podem sugerir dentro da frase um valor expressivo 
para o que dizemos. Quando isso acontece, temos figuras de linguagem. Dife-
rentemente, a utilização inexpressiva ou caótica da massa sonora caracterizará 
desvios a que chamamos vícios de linguagem. No campo da fonoestilística, esses 
recursos podem ter as seguintes denominações:
Aliteração – é a repetição continuada dos mesmos sons consonantais, �
independente da posição que ocupam nas palavras, distribuídas em se-
quência ou com proximidade.
15. “Escuta-me, não te demoro. É coisa pouca como a chuvinha que vem vin-
do devagar.” (ANDRADE, 2000).
 Comentário: o poeta utiliza intencionalmente em quatro palavras segui-
das a consoante /v/, visando a criar um efeito expressivo, afetivo.
 Atenção! O vício de linguagem correspondente é a colisão: repetição de-
sagradável de consoantes iguais – que pode até ter como finalidade o hu-
mor ou a estranheza do interlocutor.
16. Pela primeira pesquisa, percebeu-se por que as pessoas procuram o perigo.
17. Três trabalhadores tentaram trocar o turno do trabalho.
 Comentário: observa-se a gratuidade da repetição, sem nenhuma preten-
são estilística.
Estilística fônica
35
Assonância – é a repetição vocálica em sílabas tônicas. �
18. “Sou um mulato nato no sentido lato mulato democrático do litoral.” (Can-
ção de Caetano Veloso)
	 Comentário: o compositor utiliza intencionalmente uma série de palavras 
cuja vogal tônica é /a/, visando a criar um efeito sonoro e musical.
 Atenção! O vício de linguagem correspondente é o hiato: sucessão de-
sagradável de vogais – que pode até ter como finalidade o humor ou a 
estranheza do interlocutor.
19. Ou há o aumento, ou há a autogestão.
 Comentário: observa-se a gratuidade e o desconforto da repetição, sem 
nenhuma pretensão estilística.
Harmonia imitativa – ocorre quando a aliteração, combinada ou não com �
assonância, se associa à ideia que expressa.
20. Trovões trombeteavam pelas trevas, 
 Trastes turvos tonitruantes 
 De um turbilhão tortuoso 
 Como a turba triste da morte. (SOUZA, 2005)
21. O vento varria as folhas, 
 O vento varria os frutos, 
 O vento varria as flores... 
 E a minha vida ficava 
 Cada vez mais cheia 
 De frutos, de flores, de folhas. (BANDEIRA, 1958)
 Comentário: a sonoridade das consoantes /t/ e /r/, em (20), e /v/, /f/ e /s/, 
em (21), tem relação coerente com a ideia da forte tempestade, acentua-
da pelas variadas possibilidades articulatórias da consoante vibrante – em 
(20), e da ação do vento – em (21).
Homeoteleuto – é a coincidência de terminação, sobretudo em pontos �
sensíveis da cadeia sonora.
22. “Ainda canto o ido o tido o dito o dado o consumido o consumado / Ato 
do amor morto motor da saudade... Diluído na grandicidade... / Idade de 
pedra [...]” (VELOSO; DUPRAT, 1969).
36
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
 Comentário: a escolha de palavras com sonoridade interligada (série 1: 
ido/ado + t/d; série 2: ...mido/...mado; série 3: mor + t) cria um efeito de 
sentido, mas tem força sonora identitária.
 Atenção! Um dos vícios de linguagem correspondentes é o eco: repetição 
desagradável de terminações iguais.
23. Na frente da gente, há somente um ambiente diferente.
24. O cadeado estragado foi consertado ao lado do mercado.
 Comentário: observa-se a gratuidade e o desconforto das sequências 
-ente e -ado, sem nenhuma pretensão estilística.
Onomatopeia – é a imitação acústica de um som ou ruído ou da voz de um �
animal, e pode ser criada segundo três possibilidades:
25. tique-taque; zás-trás; bum; ploft; miau; cocoricó – onomatopeias puras.
26. tilintar; pifar; o cacarejo; grunhido – palavras onomatopaicas.
27. bem-te-vi; quero-quero; estou-fraco – onomatopeias interpretativas.
 Comentário: no primeiro grupo (25), as palavras são criadas a partir da uti-
lização de fonemas que reproduzam o som; no segundo (26), há marcas 
morfológicas na construção de verbos, substantivos e adjetivos; no tercei-
ro (27), palavras preexistentes são agrupadas sem razão semântica para 
tentar reproduzir o som.
BAN
G!
zz
zz
z
POU!
PLOFT!
IE
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Estilística fônica
37
Percebe-se então que o objetivo de causar algum impacto expressivo pela es-
colha da camada sonora está carregado de subjetivismo e sensibilidade. Isso sig-
nifica que o êxito na construção de uma determinada combinação de sons não é 
algo automático e garantido, pois sempre se corre o risco de produzir um efeito 
malsucedido, ou seja, um vício de linguagem, cabendo ainda citar os casos de:
 Cacoépia – é o erro de pronúncia (que vira cacografia na escrita). �
28. *piscicologia, em vez de psicologia, ou *mortandela, em vez de mortadela.
 Cacófato – é o descuido no encadeamento de palavras, gerando um som �
obsceno ou vulgar.
29. *Entregue-me já o relatório porque essa resposta ele já havia dado.
 Cacofonia e parequema – é o descuido no encadeamento de palavras, ge- �
rando um som de significado concorrente ou desagradável.
30. *Já que tinha, na vez passada se interessado, apresentei-lhe uma prima 
minha.
31. *Deixa a chapa esquentar; *Comprei uma vaca cara; “Você fez a torta 
tarde”.
 Atenção! Como sempre, os vícios de linguagem podem ter como finali-
dade produzir um efeito de humor ou de estranheza/admiração no inter-
locutor.
 Na canção “Cálice”, de Chico Buarque e Milton Nascimento, observa-se a 
interessante estratégia de escrever uma palavra, o substantivo “cálice”, e 
sugerir o entendimento da exclamação “Cale-se!”, em versos que têm essa 
palavra fonológica como palavra-eco, como:
32. Quero perder de vez tua cabeça. [‘kalisi]
 Minha cabeça perder teu juízo. [‘kalisi]
 Quero cheirar fumaça de óleo diesel. [‘kalisi]
 Me embriagar até que alguém me esqueça. [‘kalisi]
 Comentário: no lugar onde transcrevemos a pronúncia, qual significação 
caberia melhor, a da taça de vinho ou a da ordem de silêncio? Ou ambas? 
Os autores, certamente, trabalharam com a palavra fonológica única, con-
trastando-a com a duplicidade da palavra ortográfica (cale-se e cálice). O 
efeito é expressivo, sem dúvida.
38
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
Além das figuras de linguagem que aqui apresentamos, a exploração da 
massa sonora das palavras ainda pode produzir expressividade de muitas outras 
maneiras. Para nossos objetivos, basta mencionar por exemplo as questões ine-
rentes à linguagem falada, em suas múltiplas variedades sociais e regionais, ou 
os temas específicos da arte poética ou musical, em que se pode trabalhar os 
conteúdos de versificação e de harmonia melódica. Enfim, as relações entre som 
e estilo são um caminho aberto à imaginação e arte, sempre a serviço da pre-
tensão criativa, comunicativa, literária, jornalística de quem emprega a língua 
portuguesa na vida concreta.
Texto complementar
O vocábulo como massa sonora
(MELO, 1976, p. 79-80)
Começaremos por insistir numa distinção conhecida mas tantas vezes es-
quecida: a que se deve fazer entre vocábulo e palavra. No primeiro, conside-
ramos só a estrutura fônica. É uma sílaba, ou duas, ou mais, subordinadas ao 
mesmo acento intensivo
Na cadeia da frase os vocábulos frequentemente se unem, fundindo-se a 
terminação de um no começo de outro, decorrendo daí fenômenos diversos, 
que recebem nomes adequados, mas aqui dispensáveis. Assim, “ainda agora” 
ou “com uma semana de espera”, por exemplo, soam como aindagora, cuma 
semana dispera. Há mesmo certos vocábulos que já perderam, ou ocasional-
mente perdem a tonicidade, e, então, apoiam-se no acento do vocábulo an-
terior ou no do seguinte. Chamam-se clíticos, distinguindo-se em enclíticos, 
num caso, proclíticos noutro: chamou-me; o livro.
O mesmo vocábulo pode ser suporte de várias palavras, como se vê em 
rio, “curso d’água”, e forma do verbo rir; manga, “parte do casaco” e fruto. Para 
quem não conheça o significado de oscofórias ou de liço, estas duas formas 
são meros vocábulos.
Nos casos de polissemia, isto é, multiplicidadede significados por força 
de um natural desdobramento, não se pode falar, creio, em multiplicidade de 
palavras, porque um liame, mais ou menos estreito, une esses significados.
Normalmente, pois, a cada vocábulo corresponde um conceito ou um feixe 
de conceitos vizinhos. Tal correspondência é de si arbitrária e gratuita, segun-
Estilística fônica
39
do o princípio maior, definidor da língua. Nenhuma relação natural existe 
entre o quadrúpede amigo do homem e a palavra cão, cachorro ou dog.
No entanto, estilisticamente se pode falar em adequação ou inadequação 
entre a massa sonora do vocábulo e o conteúdo significativo. Assim, grito é 
mais expressivo que brado. Entre “por muito pouco ele não morreu” e “por 
um tris ele não morreu”, é preferível a segunda solução, dado que estejamos 
preocupados com uma forma adequada. É que a massa sonora de tris sugere 
melhor a mínima dependência em que ficou a vida do Fulano. Se dissermos 
que alguém entrou solenemente no recinto, passo cadenciado e lento, sob 
os olhares reverentes e admirativos da multidão, teremos escolhido um vo-
cábulo cuja massa sonora quadra bem ao efeito: pentassílabo paroxítono 
(ou grave), com tônica média e nasal e uma combinação de /l/ e /n/ muito 
apropriada.
Um vocábulo como abreviadamente é, com certeza, inadequado, maior, 
por assim dizer, do que o seu conteúdo. Arredondamento fica bem para o 
sentido que tem; é vocábulo adequado. Nesta sequência – grande, enorme, 
gigantesco – os três vocábulos traduzem a gradação do tamanho: cada sílaba 
a mais acrescenta, sensivelmente, uns quilates de intensidade.
Os poetas são muito sensíveis à adequação da massa sonora ao significa-
do, e é natural que assim seja, porque a poesia é essencialmente palavra, é o 
esplendor da palavra. Muitas das correções que, sobretudo os parnasianos, 
inserem nas suas retomadas têm por base o ajuste da massa sonora. A pro-
pósito, é muito instrutiva a alteração feita por Raimundo Correia no último 
terceto de seu poema “Banzo”. Era assim a primeira versão, de 1885:
Dos monolitos cresce a sombra infame... 
Tal em minh’alma vai crescente o vulto 
Desta tristeza aos poucos, lentamente
A terceira (versão), que modifica levemente a segunda, de 1891, ficou 
assim:
Vai co’a sombra crescendo um vulto enorme 
Do baobá... E cresce n’alma o vulto 
De uma tristeza imensa, imensamente...
Além de ganhar em musicalidade e em cor local, com a substituição de 
“monolitos” por “baobá”, o fecho ainda se beneficiou muito com a dupla 
“imensa, imensamente”.
40
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
A massa sonora é adequada e há uma espécie de ilusão de ótica, digamos 
assim, que faz parecerem coordenadas as duas palavras, que na realidade 
não o são. Imensa é adjunto adnominal de “tristeza”, e imensamente é ad-
junto adverbial de “cresce”: a inteligência da frase deixa isso muito claro. No 
entanto, a sequência faz com que se tenha a impressão do crescimento, do 
alongamento, de profundidade maior, de dor mais pungente.
Temos, portanto, um duplo efeito, um intelectual, outro sensível, produzi-
do pela boa utilização da massa sonora. A síntese final seria esta: “cresce cada 
vez mais uma tristeza cada vez maior”, com sólido apoio no material fônico.
Dicas de estudo
MARTINS, Nilce Sant’Anna. “A Estilística do Som”, capítulo do livro Introdução à 
Estilística.
O capítulo examina minuciosamente o papel da sonoridade das palavras e 
dos fonemas na produção de sentido e na busca da expressividade.
CÃMARA JR., Joaquim Mattoso. “Estilística Fônica”, capítulo do livro Contribuição 
à Estilística Portuguesa.
O capítulo aborda temas como os traços estilísticos, acento e quantidade, va-
riantes de estilo e a motivação sonora, entre outros.
Estudos linguísticos
1. Os três comentários transcritos a seguir se referem a trechos de poemas bra-
sileiros. Reconheça se o recurso estilístico indicado está adequadamente in-
terpretado. Justifique sua resposta.
a) Quando lemos os versos de Guilherme de Almeida “O sol é uma bola de 
enxofre fervendo, pondo empolhas redondas como gemas de ovos en-
tre as folhas das laranjeiras”, observamos a expressividade da assonância, 
construída a partir da sucessão de palavras com a vogal tônica O.
b) O compositor Paulo Ricardo começa uma de suas canções dizendo: “Virada 
do século, alvorada voraz, nos aguardam exércitos que nos guardam da 
paz (que paz?).” O aposto “alvorada voraz” utiliza as consoantes /v/ e /r/ 
Estilística fônica
41
que também estão presentes na primeira palavra da música. A repetição 
intencional dessas consoantes caracteriza uma figura de linguagem cha-
mada onomatopeia.
c) Em “Pedro pedreiro, pedreiro esperando o trem que já vem, que já vem, 
que já vem, que já vem...”, Chico Buarque utiliza a massa sonora da expres-
são “que já vem” repetidas vezes para enfatizar o cansaço de quem está 
à espera do trem na estação, o que constitui um exemplo de harmonia 
imitativa.
2. Leia atentamente o poema de Solano Trindade “Tem Gente com Fome” (s.d., 
p. 7-8) e assinale as alternativas que contêm comentários fonoestilísticos coe-
rentes a respeito do texto. Justifique suas respostas.
 Trem sujo da Leopoldina, 
 correndo, correndo, 
 parece dizer: 
 tem gente com fome, 
05. tem gente com fome, 
 tem gente com fome... 
 Piiiii!
 Estação de Caxias, 
 de novo a correr, 
10. de novo a dizer: 
 tem gente com fome, 
 tem gente com fome, 
 tem gente com fome...
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42
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
 Tantas caras tristes, 
15. querendo chegar 
 em algum destino, 
 em algum lugar...
 Só nas estações 
 quando vai parando, 
20. lentamente 
 começa a dizer: 
 se tem gente com fome, 
 dá de comer... 
 se tem gente com fome, 
25. dá de comer... 
 se tem gente com fome, 
 dá de comer... 
 se tem gente com fome, 
 dá de comer... 
30. Mas o freio de ar, 
 todo autoritário, 
 manda o trem calar: 
 Psiuuuuuuuuu......
a) A repetição do trecho “tem gente com fome” cria um ambiente de mo-
notonia e tédio, incompatível com o movimento de um trem ao partir da 
estação.
b) A onomatopeia “Piiiii!” (v. 07) e a interjeição “Psiuuuuuuuuu......” (v. 33) es-
tão conjugadas pela intensificação da vogal, o que permite entender a 
palavra que termina o poema como uma condensação entre a interjei-
ção e a onomatopeia.
c) A maioria dos versos se constrói com duplas de palavras fonológicas 
(trensujo + daleopoldina // correndo + correndo // tengente + cunfome 
// estação + dicaxias // dinovo + acorrer // dinovo + adizer // sitengente 
+ cunfome // dá + dicomer), mantendo um ritmo coeso que produz a 
harmonia imitativa predominante no poema.
d) Na estrofe final, a referência ao trem é substituída pela participação do 
freio de ar, o que justifica o uso da conjunção “mas”, adversativa.
Estilística fônica
43
e) Como a temática do poema é humana e social, é correto interpretar que 
as onomatopeias usadas como estribilho nas estrofes 1, 2 e 4 se valem 
de palavras preexistentes agrupadas sem razão semântica para tentar re-
produzir o som do trem.
f) O advérbio “lentamente”, isolado no verso 20, tem uma massa sonora e um 
valor semântico que destoam expressivamente do restante do poema.
3. Assinale as alternativas que contêm recursos expressivos da Estilística fônica 
e identifique as respectivas figuras de linguagem.
a) “A gente almoça e se coça e se roça e só se vicia.” (Chico Buarque)
b) “Ouço o tique-taque do relógio: apresso-me então.” (Clarice Lispector)
c) “Minha vida é uma colcha de retalhos, todos da mesma cor.” (Mário Quin-
tana)
d) “Não serei o poeta de um mundo caduco.” (Carlos Drummond de Andrade)
e) Dentro dos meus braços, os abraços hão de ser milhões de abraços.” (Vi-
nícius de Moraes)
f) “Sou caipira, Pirapora, Nossa Senhora de Aparecida,” (Renato Teixeira).
O objetivo deste capítulo é observar a expressividade dos aspectos le-
xicais no estudo estilístico da língua portuguesa.
Conceituação de léxico
O estudo da Estilística lexical (ou morfoestilística, como algunsprefe-
rem) envolve necessariamente o conhecimento e domínio de alguns dos 
assuntos abordados nos estudos de morfologia, isto é, as classes gramati-
cais e os morfemas.
A palavra léxico é sinônima de “vocabulário”, e indica portanto o reper-
tório total de palavras existentes numa determinada língua, mas pode 
também ter uma significação mais restrita, referindo-se, por exemplo, a 
uma relação de palavras usadas por um autor ou por um grupo social ou 
profissional. As obras que se dedicam ao estudo do léxico constituem dois 
campos de pesquisa bastante importantes para a sociedade: a lexicografia, 
ou seja, a técnica e o trabalho de elaboração de dicionários, vocabulários, 
glossários e afins; e a lexicologia, ou seja, o estudo do vocábulo quanto 
ao seu significado, estrutura morfológica e possibilidades flexionais, sua 
classificação em relação a outros vocábulos da mesma língua ou de outra, 
em perspectiva sincrônica ou diacrônica.
Lexicografia e Lexicologia: estudo das palavras, a partir da obser-
vação de suas relações com a gramática e com a vida.
Como se pode depreender dessas explicações, a ferramenta funda-
mental com que trabalham os lexicógrafos e os lexicólogos é o dicionário, 
palavra que está assim definida no Dicionário Houaiss:
Dicionário – compilação completa ou parcial das unidades léxicas de uma língua 
(palavras, locuções, afixos, etc.) ou de certas categorias específicas suas, organizadas 
numa ordem convencionada, geralmente alfabética, e que fornece, além das definições, 
informações sobre sinônimos, antônimos, ortografia, pronúncia, classe gramatical, 
etimologia, etc. ou, pelo menos, alguns destes elementos. A tipologia dos dicionários 
é bastante variada; os mais correntes são aqueles em que os sentidos das palavras de 
Estilística léxica
46
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
uma língua ou dialeto são dados em outra língua (ou em mais de uma) e aqueles em que as 
palavras de uma língua são definidas por meio da mesma língua. (DICIONARIO, 2004)
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a.
Como diz Correia (1995), 
[...] a propriedade geral da linguagem humana que melhor se aplica ao léxico de uma língua 
é a arbitrariedade, ou seja, o fato de os signos que constituem as línguas não serem icônicos, 
isto é, a relação que se estabelece entre eles e as entidades da realidade que denotam ser 
meramente arbitrária ou convencional.
Por isso não se deve entender o léxico apenas como uma lista de palavras 
que está contida num dicionário. Afinal, uma observação mais atenta dos verbe-
tes dessas obras de referência mostrará que os lexicógrafos, quando redigem as 
definições de cada componente da nominata, fazem uso das regularidades do 
léxico, adotando uma estrutura redacional quase sempre simétrica e coerente.
Nominata: relação de entradas de uma enciclopédia, dicionário, vocabu-
lário, glossário, etc.; relação de nomes ou palavras; nomenclatura.
Outro ponto a considerar começará a delinear as relações mais estreitas que 
o léxico mantém com o estilo, pois sabemos que a língua oferece recursos para 
que qualquer pessoa, escolarizada ou não, fale sobre qualquer aspecto da rea-
lidade. A despeito disso, as palavras usadas para expressar a realidade vivida ou 
imaginada são arbitrárias e variam não apenas de língua para língua, mas de 
modalidade para modalidade e de uso para uso.
Estilística léxica
47
Portanto, o conhecimento lexical resulta não apenas da memorização de 
palavras, mas também de um princípio de economia na gestão desse acervo, 
pois cada falante se apropria de um vocabulário compatível com o seu grau de 
estudo e leitura, utilizando-o, em termos numéricos variados, conforme o em-
pregue na oralidade ou na produção escrita.
No conjunto do léxico de uma língua existem certamente mecanismos que 
permitem alcançar a expressividade da comunicação, e devemos considerar que 
o princípio de economia linguística não é unicamente o princípio de contabilizar 
palavras, mas de reconhecer a forma mais adequada para se estabelecer o en-
tendimento mais eficiente entre as pessoas.
Palavras lexicais e palavras gramaticais
O léxico, como vimos, é o conjunto de palavras de uma língua, mas é preciso 
distinguir nesse conjunto os elementos lexicais “plenos” e os elementos lexicais 
de natureza gramatical.
Tomemos duas pequenas listas de palavras do português:
1. certo, hoje, torre, ver.
2. com, os, quando, se.
Saberíamos explicar o que cada uma das palavras da série (1) significa? Ainda 
que pudesse haver algumas divergências na definição de palavras de significa-
ção mais ampla ou vaga, a resposta certamente seria “sim”. E quanto às palavras 
da série (2)? Provavelmente, as explicações ficariam restritas aos conhecimentos 
gramaticais de cada um, cabendo até retrucar: de que “os” ou de que “se” você 
está falando? 
A série (1) contém as chamadas “palavras lexicais”; a série (2) contém as cha-
madas “palavras gramaticais”. Na primeira, temos um adjetivo, um advérbio, um 
substantivo e um verbo; na segunda, temos uma preposição, um artigo, uma 
conjunção e um pronome. Na lista (1) poderíamos acrescentar quantos adjeti-
vos, advérbios, substantivos e verbos? O número é aberto, pois a todo momento 
novas palavras lexicais podem ser formadas (talibanizar? / argentinização? / pa-
lestra incomodacional? / chororosamente?).
48
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
O GLOBO: 29/10/2008
Palestra “incomodacional” é a novidade da
vez de René Simões
Técnico tricolor tem priorizado a conversa com os jogadores antes
dos treinamentos
Já na lista (2) o conjunto é finito, sua dimensão é relativamente reduzida, enu-
merável em extensão e praticamente restrito – embora os processos de grama-
ticalização permitam que as palavras se “movimentem” entre os grupos. Assim, a 
conjunção “porque” pode se substantivar e virar “motivo” (Não entendi o porquê 
de sua dúvida); o substantivo “tipo” pode vir a se gramaticalizar como conjunção 
(Vocal feminino possante tipo Ivete Sangalo procura banda = como) ou como 
preposição (Passo na sua casa tipo meio-dia = perto de).
D
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K.
Blogue da internet anuncia “Vocal feminino 
possante tipo Ivete procura banda “.
“As palavras gramaticais são pouco numerosas, mas de altíssima frequência 
nos enunciados, desempenhando funções de grande importância”, frisa Nilce 
Sant’Anna Martins (1989, p. 72). Essas funções são elementos-chave na cons-
trução de um texto e, paradoxalmente, embora sejam desempenhadas por um 
contingente pouco numeroso, carregam a responsabilidade de dar à mensagem 
Estilística léxica
49
que se quer transmitir o exato valor pretendido pelo emissor – a quem compete, 
em última análise, dominar plenamente o uso das palavras gramaticais.
Em síntese, elas servem para:
relacionar o enunciado com a situação de enunciação, indicando os par- �
ticipantes da comunicação, o espaço e o tempo em que ela se dá (são os 
dêiticos: eu, tu, e suas variantes, aqui, aí, agora, possessivos e demonstrati-
vos referentes à primeira e à segunda pessoas, etc.);
substituir ou referir algum elemento presente no enunciado (são os anafó- �
ricos ou representantes: ele, demonstrativos não relacionados à primeira e 
à segunda pessoas, etc.);
atualizar os nomes, transformando-os de elementos do paradigma ou �
palavras de dicionário em termos da frase (são os determinantes: artigos 
definidos e indefinidos);
relacionar palavras no sintagma (preposições) e orações na frase (conjun- �
ções e pronomes relativos);
estabelecer coesão textual, seja dentro de uma frase, seja entre frases di- �
versas (anafóricos, conjunções, operadores argumentativos, etc.).
Palavras lexicais: referem-se a processos ou objetos existentes no mundo 
real = verbos, nomes e advérbios. 
Palavras gramaticais: restringem-se ao âmbito interno da língua e de 
seus enunciados = artigos, preposições, conectivos e palavras dêiticas.
Neologismos lexicais e semânticos
A criação expressiva de palavras é uma prática bastante comum na línguaportuguesa. Todos os dias observamos o emprego de palavras novas, derivadas 
ou formadas de outras já existentes, e a atribuição de novos sentidos a pala-
vras já existentes: “melancia” e “laranja” deixam de ser apenas os nomes de duas 
frutas e passam a funcionar como qualificador feminino ou testa de ferro, res-
pectivamente; o torcedor que vai para a geral dos estádios vira “geraldino”, a 
passarela do samba é o “sambódromo”... E assim a lista vai se expandindo dia 
50
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
a dia, propiciando que as situações da vida sejam retratadas pelo léxico. Se os 
neologismos serão duradouros ou efêmeros, nunca se sabe, pois tudo depende 
do uso que deles se fará.
Trataremos aqui de dois tipos de neologismos: os lexicais e os semânticos.
Neologismos lexicais
No livro Morfologia: estudos lexicais em perspectiva sincrônica, assim definimos 
os neologismos lexicais (ou formais): 
Palavras novas, isto é, não dicionarizadas ou recém-dicionarizadas, que podem ser objetivamente 
caracterizadas tomando-se como referência, no caso do Português do Brasil, o léxico oficial 
consignado no VOLP, embora os dicionários Aurélio, Houaiss e Michaëlis também possam ser 
fonte de consulta para esse fim. (HENRIQUES, 2008c, p. 138, grifos do autor)
Formados a partir de critérios muito variados, os neologismos lexicais podem 
constituir-se, num extremo, como a própria invenção de uma palavra, sem ne-
nhuma lógica linguística aparente, a não ser a simples junção de sons ou de 
letras. É o caso que Ieda Maria Alves (1990) denomina “neologismos fonológicos” 
(pela criação de um item lexical cujo significante é criado sem tomar como base 
nenhuma palavra preexistente).
No samba “Idioma Esquisito”, Nélson Sargento (1996) nos mostra com muita 
engenhosidade uma série de palavras proparoxítonas cuja pretensão poderia 
ser resumida na discussão do seguinte slogan: “se beber, não componha”: 
Fui fazer meu samba na mesa de um botequim, 
Depois de umas e outras, o samba ficou assim: 
Estrambonático, palipopético, cibalenítico, estapafúrdico, 
Protopológico, antropofágico, presolopépico, atroverático, 
Batunitétrico, pratofinândolo, calotolético, carambolâmbolo, 
Posolométrico, pratofilônico, protopolágico, canecalônico.
Os adjetivos que descrevem o samba feito “depois de umas e outras” se asso-
ciam ao estado de embriaguez do eu poético. Alguns ainda conservam um ves-
tígio de “lucidez vernacular”: antropofágico, cibalenítico (< cibalena, um compri-
mido para dor de cabeça), atroverático (< atroverã, remédio para enjoo). Outros 
parecem pedaços cambaleantes de palavras: estrambonático (< estrambólico? + 
lunático?), prosolométrico (< ? + métrico), protopolágico (< proto? + ??), palipo-
pético e presolopépico (< ???).
Estilística léxica
51
Neologismos que não deixam pistas morfológicas nem fonológicas nem se-
mânticas são palavras perdidas, como os “gratifonísticos e os pseudoferilídicos 
que se tengam com frédios de antimalefania”, que agora inventamos. É compre-
ensível então que o eu poético do samba de Nélson Sargento, ao final daquela 
estrofe, confesse: “É isso aí, é isso aí / Ninguém entendeu nada / Eu também não 
entendi / (Eu então vou repetir)[...]”(SARGENTO, 1996).
Podemos entretanto afirmar que os neologismos lexicais, na maior parte das 
vezes, são palavras que têm nítida inspiração em outra(s): bebemorar (para fazer 
par com comemorar) associa as ideias de beber e comer, embora a segunda não 
faça parte da estrutura do verbo (co+memorar); paitrocínio se baseia na aproxi-
mação fonética com a primeira sílaba da palavra patrocínio. Caracteriza-se assim 
o que Ieda Alves (1990, 11-80) chama de “neologismos sintáticos” (criados a partir 
da combinação de elementos já existentes no idioma). Por essa denominação, só 
haverá neologismos sintáticos nos casos que envolverem o uso de afixos ou de 
combinação de radicais, ou seja, a derivação e a composição. Por esse motivo, 
a autora considera outro tipo de neologismo, de um lado, a conversão (ou deri-
vação imprópria) e, de outro, os “processos menos produtivos” (a abreviação, a 
reduplicação e a regressão).
Um neologismo lexical pode, em alguns casos, gerar outros neologismos le-
xicais, pelos mesmos princípios. É o que ocorre em palavras geradas a partir da 
mencionada paitrocínio, como se vê nos exemplos (3) e (4):
3. E essa simplicidade é colocada pelo elenco como um dos méritos do su-
cesso. “Começou como de brincadeira, sem dinheiro. Conseguimos na época R$ 
1 mil de ‘tiotrocínio’ (empréstimo da família)”, conta a atriz Thaís Lopes da peça 
“Surto” (FM DIÁRIO, 2006).
4. Caro Diogo, não querendo acabar com a tua esperança, deixo-te a seguinte 
mensagem que um piloto de automóveis me disse num desses fóruns de inter-
net. Ele disse-me o seguinte: Em Portugal há três tipos de patrocínios: o paitro-
cínio ou tiotrocínio e o autotrocínio, a troca de favores (exemplo: eu patrocino-te 
porque a empresa do teu pai compra milhares de euros de material à minha!!!!). 
Por isso é melhor começares a contactar o teu familiotrocínio para poderes correr 
nesse troféu [...] (MOTONLINE, 2005) 
São situações criativas que podem testemunhar o início da gramaticalização 
de um radical “-trocínio” = “financiador”, embora caiba lembrar que o substantivo 
patrocínio contenha na sua etimologia a referência a “pai”, pois é formado pelo 
radical culto “patrocin-”, cuja raiz é “pater-”. Isso mostra como muitas vezes o usu-
52
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
ário contemporâneo já não tem consciência da informação diacrônica acerca de 
um vocábulo ou expressão. 
Mas um neologismo lexical pode igualmente produzir uma segunda nova 
formação com vínculos mais fonológicos do que semânticos. Um exemplo muito 
utilizado pela mídia nos anos 2005 e 2006 ocorreu com a palavra valerioduto, po-
pularizada pela imprensa para se referir a um dos muitos e grandes escândalos 
da política brasileira. Seu segundo componente (-duto) serviu de base fonológi-
ca para a formação de valerioindulto, onde o novo radical adicionado dá mostras 
de que, apesar de o “condutor” ser réu confesso, os “conduzidos” nem sempre são 
condenados.
Neologismos semânticos
No livro Morfologia: estudos lexicais em perspectiva sincrônica, assim defini-
mos os neologismos semânticos (ou conceituais): 
Incorporar significados novos a vocábulos já existentes é o que caracteriza a criação de 
neologismos semânticos, tomando-se como referência, no caso do Português do Brasil, obras 
como os dicionários Aurélio, Houaiss e Michaëlis, pois o VOLP é uma fonte que não tem o 
objetivo de registrar as acepções das palavras. (HENRIQUES, 2008c, p. 146, grifos do autor)
É bom frisar, porém, que os limites de identificação de valores semânticos 
novos como neológicos podem esbarrar com os do reconhecimento de valores 
metafóricos também novos. Por exemplo, o neologismo semântico rato prati-
cado em Portugal não foi adotado no Brasil, que preferiu incorporar o estran-
geirismo mouse. É nítido aqui que a palavra “rato” (ainda que por uma relação 
metafórica) representa um novo significado, uma peça usada em computadores. 
A notícia de jornal que lamenta a existência de inúmeros ratos na política nacio-
nal serve também como exemplo de neologismo semântico? A datação desse 
significado não é nova, mas não é isso apenas que exclui a resposta afirmativa. 
Certamente, a metáfora dos “dinossauros”, que é muito mais recente (está regis-
trada no Dicionário Houaiss, e não no Dicionário Aurélio) nos servirá como dado 
representativo dessa fronteira nem sempre muito demarcada entre neologismo 
semântico e metáfora conceitual.
Figuras de linguagem
Tudo o que diz respeito à construção, ao uso e à escolha das palavras, como 
vimos, pode sugerir dentro da frase um valor expressivo para o que pretende-
Estilística léxica
53
mos comunicar. Quando isso acontece, temos figuras de linguagem. No campo 
da morfoestilística, esses recursos podem ser sintetizados a partir do estudo de 
duas figuras,a metáfora e a metonímia:
Metáfora – estilisticamente, é a figura de pensamento que corresponde a 
uma comparação de igualdade subentendida, atuando com as relações de simi-
laridade, onde a base comparativa é o elemento implícito que admite a varieda-
de interpretativa.
5. Teus olhos castanhos são estrelas fulgentes.
A base de comparação entre teus olhos castanhos e estrelas fulgentes está 
em aberto: ambos cintilam (são fulgentes), brilham, ou são tocantes, raros, lindos, 
ou são inspiradores de algum sentimento.
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Didaticamente, é um procedimento bastante proveitoso explorar a riqueza 
metafórica da língua viva (presente em palavras lexicais) e exercitar as distinções 
entre metáforas já incorporadas à linguagem do dia a dia e aquelas que pode-
riam ser chamadas de “inventivas”.
Igualmente interessante é chamar a atenção para as metáforas conceituais, 
que se baseiam numa visão cognitivista segundo a qual conceitos abstratos que 
54
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
subjazem ao pensamento humano norteiam a linguagem e a maneira como nos 
referimos aos objetos que nos cercam (revelando, enfim, de que maneira vemos 
o mundo). As metáforas conceituais nada mais são do que uma espécie de deno-
minador comum das muitas metáforas cotidianas sobre um mesmo tema.
Podemos, outrossim, tirar partido de outras figuras de linguagem como a 
prosopopeia, o eufemismo e a catacrese, que também têm base metafórica.
6. Para mim, és um anjo, uma flor, um doce ursinho. 
 Metáforas “cotidianas” (?).
7. Nossos governantes são diafragmas. 
 Metáfora “inventiva” (?).
8. Economize seu tempo! Invista seu tempo em coisas úteis! 
 Metáforas conceituais (tempo = dinheiro).
9. O primo tem um alto astral, mas ele vive na fossa. 
 Metáforas conceituais (alegria = “para cima” e tristeza = “para baixo”).
10. O vizinho entregou a alma ao Criador. 
 Eufemismo (é um tipo de metáfora que tem o objetivo de suavizar uma 
ideia mais forte ou agressiva).
11. Nem seu travesseiro entenderia aquela proposta amarga.
 Duas prosopopeias (é um tipo de metáfora que consiste em dar vida, ação, 
movimento ou voz a seres inanimados).
12. Se embarcar nesse trem, finalmente verei o leito do Rio Amazonas? 
 Duas catacreses (é um tipo de metáfora que supre, por semelhança, a au-
sência de uma palavra própria para representar um significado).
Metonímia (abrangendo a sinédoque) – atua com as relações de contiguida-
de, em que prevalece o entendimento de um vocábulo por outro porque ambos 
são postos no mesmo campo semântico denotativo. 
13. Presenciei o encontro entre um sem-terra e um sem-teto.
 Tomou-se terra e teto (terra = propriedade rural; teto = moradia) mais am-
plamente do que em seu sentido literal.
Estilística léxica
55
14. O menino era a alegria da família.
 Tomou-se alegria como substituto de “causa, responsável pela alegria”.
15. Bebemos várias garrafas de refrigerante.
 Tomou-se garrafas como substituto de “líquido contido nas garrafas”.
Os exemplos mostram como as construções metonímicas se incorporam à 
linguagem do dia a dia, até distanciando o componente literal da mente do usu-
ário ou do leitor. É o que se observa, por exemplo, com os nomes das equipes 
esportivas que representam um país, um estado, um bairro.
16. O Brasil ganhou da Alemanha na final da Copa de 2002.
 Tomou-se Brasil e Alemanha como substitutos de “país representado por 
um time de futebol” ou “seleção de jogadores brasileiros” e “seleção de joga-
dores alemães”.
Assim, em resumo, devemos considerar como base interpretativa para o re-
conhecimento dessas duas figuras as seguintes relações:
Metáfora – relação de similaridade semântica.
Metonímia – relação de contiguidade semântica.
Além dessas figuras, a exploração da carga expressiva das palavras também 
pode envolver temas ligados à flexão de gênero e número, à formação de pala-
vras compostas ou derivadas e à própria desconstrução vocabular.
17. “Barato é o marido da barata.”
18. “Andando por esses Brasis é que entendemos o povo.”
 Flexões expressivas com intuito afetivo.
19. “Saiu agorinha mesmo.”
20. “Tens todíssima razão.”
21. “É uma data que não pode nenhumamente passar em branco.”
22. “Carnaval off-Sambódromo vai ser mais quente.”
56
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
 Derivações expressivas com intuito enfático, em (19/20/21), e pretensioso, 
em (22).
23. “A rainha da bateria era a toda-toda Juliana Paes”.
24. “Depois dos pitboys, pitgirls, pitpais etc, veja o que dizia ontem o craque 
do Flamengo, comentando a ameaça do zagueiro do Vasco, de ‘quebrá-lo’ no 
segundo jogo da decisão no Rio: – É... já tem até pitzagueiro.”
 Composições expressivas com intuito enfático (23) e irônico (24).
25. “Mó num patropi, abençoá por Dê.”
26. “Tomei um chafé com um brasiguaio que não sabe falar portunhol.”
 Desconstrução (25) ou reconstrução (26) vocabular expressiva, com intuito 
artístico (25) ou irônico (26).
Tudo a serviço da pretensão criativa, comunicativa, literária, jornalística de 
quem emprega a língua portuguesa na vida concreta.
Texto complementar
Relações morfológicas entre palavras
(CORREIA, 1995)
As regularidades possíveis dentro do léxico são mais facilmente apre-
ensíveis no domínio das palavras construídas, e em particular das palavras 
derivadas.
Neste contexto, é frequente fazer referência à produtividade e à recur-
sividade das regras derivacionais, capazes de dar origem a longas séries de 
palavras, de várias categorias gramaticais, de significado relacionado e facil-
mente analisável porque regular. 
Estilística léxica
57
Exemplos:
nação
(SUBST)
 nacional 
(ADJ)
 internacional
(ADJ)
 internacionalizar
(V)
 internacionalização
(SUBST)
nação
(SUBST)
 nacional 
(ADJ)
 nacionalizar 
(V)
 nacionalização
(SUBST)
 desnacionalização
(SUBST)
nação
(SUBST)
 nacional 
(ADJ)
 nacionalizar 
(V)
 desnacionalizar
(V)
 desnacionalização
(SUBST)
Mas estes mecanismos derivacionais não se limitam a construções de 
séries semelhantes à anterior. Efetivamente, muitas vezes o mesmo afixo, 
ao associar-se a uma série de bases de uma mesma categoria, mas com sig-
nificados distintos, é capaz de “ler” as várias especificações semânticas das 
bases, construindo os significados mais adequados às várias utilizações dos 
derivados assim gerados. Por outras palavras, um derivado é em geral poten-
cialmente polissêmico, devido a estas várias “leituras”, sendo as suas várias 
acepções, porque geradas por uma única RFP, perfeitamente regulares e, 
portanto, assimiladas e geridas intuitivamente, sem qualquer esforço suple-
mentar da memória.
Tome-se como exemplo o caso do sufixo -ada. Esse sufixo permite formar 
substantivos denominais com significados distintos conforme as caracterís-
ticas semânticas das suas bases.
Assim, se a base designa um objeto com o qual é possível desferir um 
golpe, a paráfrase composicional do derivado será “golpe/marca dado/feito 
com o nome-base” (ex.: martelo > martelada; faca > facada).
Porém, se a base denota um produto alimentar, a paráfrase composicio-
nal do derivado será “preparação feita com o nome-base” (ex.: marisco > ma-
riscada; arroz > arrozada; marmelo > marmelada).
Se a base denota objetos contáveis, o derivado será parafraseável por 
“(grande) conjunto do nome-base”, logo o derivado será um nome coletivo 
(ex: osso > ossada; mosquito > mosquitada).
58
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
Os nomes em -ada podem funcionar como aumentativos (ex: chuva > 
chuvada; asneira > asneirada; poeira > poeirada).
Finalmente, se a base denota uma entidade passível de funcionar como 
recipiente, o significado do derivado será “conteúdo do nome-base” (ex.: 
tacho > tachada; alguidar > alguidarada; ninho > ninhada).
Há palavras que servem de base a derivados em -ada que podem ter duas 
categorias diferentes, podendo ser substantivos ou adjetivos (ex.: chinês ou 
banana). Assim, derivados construídos com bases deste tipo são aprincípio 
polissêmicos, apresentando de início pelo menos dois significados:
chinesada � (construído sobre chinês ADJ): “ato próprio de chinês”, sinô-
nimo de chinesice; (construído sobre chinês SUBST): “grande quantida-
de de chineses”;
bananada � (construído sobre banana ADJ): “ato próprio de banana”, si-
nônimo de bananice; (construído sobre banana SUBST): “grande quan-
tidade de bananas”.
Como banana, nome contável, designa um produto alimentar, bananada 
é também parafraseável por “preparação feita com base em banana”. 
Mas, considerando que o derivado, a partir do seu processo de derivação, 
adquiriu em potência todos os significados possíveis em função da base, do 
afixo e da RFP, novos contextos podem selecionar novas significações para a 
mesma palavra bananada. Considere-se o seguinte contexto, perfeitamente 
gramatical:
1. Os dois vendedores de fruta, zangados, começaram a bater-se: um deles 
dava bananadas no adversário. [nesta frase, o mesmo derivado atualiza mais 
um dos significados possíveis produzidos no processo derivacional, a saber: 
“golpe desferido com o nome-base (banana)”.]
A partir desta análise, podemos concluir que as palavras derivadas são, 
em geral, potencialmente polissêmicas, isto é, no momento da sua constru-
ção, além do significado básico próprio da regra que as gera, estas palavras 
constroem outros significados potenciais resultantes das “leituras” múltiplas 
que o afixo em questão pode fazer da sua base. O falante, ao utilizar estes 
derivados, conjuga o seu conhecimento estritamente linguístico com o seu 
conhecimento do mundo para selecionar, entre os múltiplos significados 
Estilística léxica
59
que essas palavras podem assumir, aquele que melhor se ajusta ao contexto 
produzido/recebido.
Os contextos linguístico e situacional desempenham, pois, um papel fun-
damental nesta atividade, ao eliminar, entre todas as possibilidades, as não 
adequadas à situação. De resto, os dados da psicolinguística parecem confir-
mar esta hipótese teórica: segundo os modelos de produção e de percepção 
de linguagem, o falante vai reduzindo as possibilidades de escolha das unida-
des a usar ou identificar em função do contexto em que a unidade ocorre.
Um outro exemplo interessante é o do sufixo -eir(o/a), que permite cons-
truir substantivos denominais, que apresentam também significados distin-
tos segundo as características semânticas da base, dos quais podemos des-
tacar os que a seguir se discriminam.
Praticamente todos os nomes derivados em -eir(o/a) podem ser parafra-
seáveis por “indivíduo que exerce ofício (tem profissão) relacionado(a) com o 
nome-base” (ex.: arcabuz > arcabuzeiro; banana > bananeiro; peixe > peixeiro).
Esse ofício ou essa profissão podem concretizar-se sob diferentes formas 
de acordo com as características da entidade designada pela base: “cultiva o 
nome-base” (bananeiro); “fabrica o nome-base” (arcabuzeiro, pasteleiro); “con-
fecciona com o/a partir do nome-base” (peleiro); “arranja/conserta o nome-
-base” (sapateiro); “conduz o nome-base” (carroceiro); “comercializa o nome- 
-base” (retroseiro), etc.
Porém, se a base denota uma parte de planta suficientemente relevante 
para que essa planta seja cultivada para sua extração, o nome corresponden-
te em -eir(o/a), além de designar o profissional que cultiva/transporta/vende 
essa (parte de) planta, passa a designar a planta que produz o nome-base 
(banana > bananeira; cacau > cacaueiro, coco > coqueiro). O gênero do deri-
vado é determinado pelo gênero da base: base feminina > derivado femini-
no / base masculina > derivado masculino.
Se a base denota uma entidade passível de ser transportada em veículo 
especialmente concebido para o efeito, o derivado é parafraseável por “veí-
culo próprio para transportar o nome-base” (ex.: banana > bananeiro; petró-
leo > petroleiro; bacalhau > bacalhoeiro).
Se a base denota uma entidade passível de ser guardada em recipiente 
ou local próprio para o efeito, o derivado pode ainda ser parafraseável por 
60
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
“recipiente/local próprio para guardar/armazenar o nome-base” (ex.: pimen-
ta > pimenteiro; biscoito > biscoiteira; palha > palheiro). Aqui, ao contrário do 
que acontece com os nomes de plantas em -eir(o/a), o gênero dos substanti-
vos parece não ser previsível.
Tal como fizemos para os derivados em -ada, poderemos fazer algu-
mas experiências com derivados em -eir(o/a). Tomemos o caso dos nomes 
bananeir(o/a) e pasteleir(o/a). Em frases como 
2. A Joana pousou a *bananeira em cima da mesa e encheu-a. 
2’. A Joana pousou a *pasteleira em cima da mesa e encheu-a. 
Ambos os derivados podem ser parafraseáveis por “recipiente próprio 
para guardar o nome-base (bananas/pastéis)”.
Tomemos agora uma pseudopalavra (sequência de sílabas que, embora 
não corresponda a nenhuma palavra da língua, tem uma estrutura fonológica 
compatível com a de uma palavra da língua), por exemplo, “barota”. Conside-
remos agora os seus “derivados” em -eir(o/a) inseridos nas frases seguintes:
3. O baroteiro levantou-se cedo e começou a trabalhar.
4. Os baroteiros perderam a folha devido à geada.
5. O baroteiro construído nas traseiras da fábrica ardeu no domingo. Feliz-
mente, encontrava-se vazio.
Em (3), baroteiro é parafraseável por “indivíduo que exerce atividade/tem 
profissão relacionada com barota” sendo barota entendido como “produto/
objeto passível de estar na base de determinado ofício/profissão”. Já em (4), 
é lido como “parte relevante de planta”, designando o seu derivado a “planta 
que produz barotas”. Em (5), baroteiro é parafraseável por “local destinado a 
guardar/armazenar barota(s)”.
Com este “jogo”, pretendemos demonstrar como cada processo deriva-
cional atribui múltiplos significados aos seus produtos, em função do sig-
nificado da base envolvida. No caso da pseudopalavra em causa, o poder 
gerador de significações múltiplas do processo derivacional é ainda mais vi-
sível, dado que, não tendo a base qualquer significado, verifica-se que, ao ser 
associada a -eir(o/a) e em função dos contextos em que ocorre, ela se torna 
passível de assumir qualquer das significações básicas permitidas pelo sufixo 
e pela Regra de Formação de Palavras (RFP).
Estilística léxica
61
Dicas de estudo
HENRIQUES, Claudio Cezar. “Outros Casos”, capítulo do livro Morfologia: estudos 
lexicais em perspectiva sincrônica.
O capítulo examina e interpreta os casos em que vocábulos são formados sob 
condições específicas, que envolvem princípios de influência linguística, neces-
sidade expressiva ou simplicidade.
LAPA, Manuel Rodrigues. “O Vocabulário Português (I) e (II)”, capítulos do livro 
Estilística da Língua Portuguesa.
O autor focaliza temas como a significação das palavras, a sinonímia, a plura-
lidade dos meios de expressão, o eufemismo e o valor sentimental e intelectual 
das palavras, entre outros.
Estudos linguísticos
1. Observe os exemplos abaixo, com alguns gentílicos terminados em -ense 
(substantivos ou adjetivos de dois gêneros), transcritos do Dicionário Houaiss: 
angrense � – relativo a Angra dos Reis (RJ) ou o que é seu natural ou habi-
tante;
berlinense � – relativo a Berlim (Alemanha) ou o que é seu natural ou habi-
tante;
douradense � – relativo a Dourados (SP) ou o que é seu natural ou habitante;
joinvilense � – relativo a Joinvile (SC) ou o que é seu natural ou habitante;
kennediense � – relativo a Pres. Kennedy (TO) ou o que é seu natural ou 
habitante;
vienense � – relativo a ou habitante de Viena (Áustria).
 Um dos gentílicos dessa lista mostra uma pequena distorção redacional. 
Qual deles e por quê?
62
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
2. O trecho seguinte é de Nelly Carvalho (1999, p. 13-14). 
Linguistas como David Crystal dividem as palavras em: lexicais (ou plenas) e gramaticais (ou 
vazias). Plenas e vazia referem-se ao significado, mas contêm um erro conceitual: nenhuma 
forma é totalmente vazia.
 A autora se refere às “palavras gramaticais” (artigos,preposições, conjunções, 
etc.). Comente a crítica de Nelly Carvalho ao termo utilizado por Crystal.
 Assinale as alternativas que contêm recursos de morfoestilística, explicando 
a expressividade de cada ocorrência.
(a) “Minhoca, minhoca, me dá uma beijoca? / Não dou, não dou, não dou! / Mi-
nhoco, minhoco, tu tá ficando louco, / Você beijou errado: a cara é do outro 
lado.” (cantiga de roda)
(b) “Minha vida é uma colcha de retalhos, todos da mesma cor.” (Mário Quin-
tana)
(c) “Às vezes parece até que a gente deu um nó. Hoje eu quero sair só.” (Lenine)
(d) “Devolva o Neruda que você me tomou e nunca leu”. (Chico Buarque)
Estilística léxica
63
 
O objetivo deste capítulo é observar, no âmbito da oração, a expressivi-
dade dos aspectos sintáticos no estudo estilístico da língua portuguesa.
Conceituação de sintaxe da frase
O estudo da Estilística sintática envolve necessariamente o conheci-
mento de alguns dos assuntos abordados nas aulas e leituras de análise 
sintática, isto é, a estrutura da frase, começando pelo domínio a respeito 
do funcionamento dos termos na oração.
Para explicar como se alcança essa capacidade, retomo algumas das 
ideias que expus no livro Sintaxe: estudos descritivos da frase ao texto (HEN-
RIQUES, 2008a, p. 15-16), com o objetivo de enfatizar a contribuição desse 
tipo de conhecimento em nossas escolhas estilísticas.
O estudo da análise sintática é um dos pontos fundamentais na for-
mação de quem se pretende um usuário competente de sua língua. Duas 
das habilidades principais de uma pessoa culta repousam nas atividades 
de ler e de escrever, ações que podem caracterizar não só nossas carreiras 
profissionais, mas também nossa vida como cidadãos.
Nesse sentido, sempre que pretendemos empregar a linguagem com 
vistas à comunicação com nossos interlocutores nós o fazemos reunin-
do de modo organizado uma sequência de unidades lexicais (palavras), 
combinando-as coerentemente segundo nossas intenções comunicati-
vas. Essa combinação é o que se chama de “relacionamento sintático”, pois 
a análise sintática é, em resumo, a análise das relações.
Sintaxe  Análise das relações
Na estrutura da oração, estudamos as relações que as palavras mantêm 
entre si na frase. Como sabemos, essas relações são binárias: sujeito e verbo; 
verbo e complemento; núcleo e adjunto... Por esse motivo, quando nos 
Estilística sintática – I
66
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
lembramos da tradicional prática de exercícios voltados para o reconhecimento 
da função sintática de um termo, vemos que ela nem sempre alcança o real ob-
jetivo de sua aplicação. Afinal, não se pode dizer qual é a função sintática de um 
termo se não se encontrar o outro termo com o qual ele se relaciona. Ou seja, não 
se pode encontrar o sujeito de uma oração sem que se confirme sua relação de 
concordância com o seu “par” (o verbo); não se pode reconhecer que existe um 
objeto direto sem apresentar a “prova” (o verbo transitivo direto); não se pode 
afirmar que determinado termo é o agente da passiva sem que seu “parceiro” sin-
tático seja revelado (o verbo na voz passiva). E assim sucessivamente com todos 
os termos da oração, pois cada um deles só tem a classificação que tem porque 
possui uma relação com outro termo – e cada uma dessas relações é única, e por 
isso são dez os termos da oração (neste caso não contamos o vocativo).
Sujeito, predicado, predicativo, objeto direto, objeto indireto, agente 
da passiva, complemento nominal, adjunto adverbial, adjunto adnomi-
nal, aposto (e vocativo).
A sintaxe tem duas parceiras especiais. Uma é a Semântica (a ciência do sig-
nificado), pois o entendimento de uma frase depende da sua estrutura e das 
sutilezas que envolvem a construção do sentido. Outra é a Estilística (a ciência da 
expressividade), já que compete ao autor da frase fazer as escolhas sobre como 
será sua organização, a partir do repertório que a língua lhe oferece.
IE
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.
Estilística sintática – I
67
Cabe, porém, um lembrete: o domínio da sintaxe do português tem como 
pré-requisito o domínio da morfologia. São dois assuntos interligados, a ponto 
até de a toda hora nos depararmos com textos acadêmicos que empregam a 
palavra morfossintaxe.
Morfologia  Morfossintaxe  Sintaxe
Como a morfologia é o estudo dos valores associativos das formas linguísti-
cas (os vocábulos) e a sintaxe é o estudo da inserção dessas formas linguísticas 
em enunciações lineares, é bastante pertinente a afirmação de Louis Hjelmslev 
(1971, p. 162), segundo a qual “malgrado todos os esforços, nunca se conseguiu 
separar completamente a morfologia da sintaxe”.
Isso significa que ter um bom conhecimento acerca das classes de pala-
vras é fundamental para entender a estrutura de uma oração e de um período. 
Lembremo-nos, por exemplo, que estudamos verbos, substantivos, adjetivos e 
advérbios nos livros e aulas de morfologia – suas flexões, significações, particu-
laridades. Depois, estudamos o verbo como elemento central da oração, o subs-
tantivo como núcleo de um termo, o adjetivo como um elemento periférico ou 
atributivo de outro, o advérbio como um determinante sobretudo dos verbos.
Tudo entrelaçado, interligado, no âmbito da palavra (morfologicamente) e da 
oração ou da frase (sintaticamente) para permitir que alcancemos a competên-
cia discursiva ou textual, que caracteriza o saber expressivo de que fala Eugenio 
Coseriu (1992):
COMPETÊNCIA LINGUÍSTICA
Saber elocutivo competência linguística geral, isto é, a capacidade de falar
Saber idiomático competência linguística particular, isto é, a capacidade de falar em uma língua determinada
Saber expressivo competência discursiva ou textual, isto é, a capacidade de construir textos em situações determinadas
Ou seja, um uso linguístico deve estar adequado às situações e aos contex-
tos em que se fala ou escreve. Assim, no nível do “saber expressivo”, o usuário 
competente necessita responder, antes de mais nada, a três perguntas: de que 
pretende falar?; com quem pretende falar?; em que contexto pretende falar? Com 
isso, importam-lhe não as noções de certo e errado, mas de adequado e inade-
quado, ainda que também essas definições sejam deveras discutíveis e numero-
sas, fixando-se em graus bastante diferentes.
68
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
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De que pretendo falar? 
Com quem pretendo falar? 
Em que contexto pretendo falar?
Por conseguinte, as escolhas estilísticas concretizadas num texto precisam 
estar compatíveis com o planejamento (ainda que intuitivo) do seu redator. Por 
isso é que conhecer a fundo os mecanismos sintáticos do português – inclusive 
quanto ao nível de exigência da linguagem padrão – é tarefa de toda pessoa que 
pretenda produzir um texto expressivo.
Organização das palavras na oração
Todas as línguas faladas pelo homem têm uma característica em comum: são 
feitas de palavras que se organizam em frases segundo determinadas caracte-
rísticas e relações. Se em inglês, por exemplo, só se pode colocar o adjetivo à 
esquerda do substantivo e não existe concordância entre eles, em português 
essa posição não é a mais usual e a concordância é obrigatória. Vejamos as séries 
(1) e (2) para exemplificar esse comentário.
1. sweetØ eyes (sim) / eyes sweet (não) / sweets eyes (não).
2. olhos doces (sim) / doces olhos (sim) / olhos doceØ (não) / doceØ olhos (não).
É o que se chama de sintaxe de colocação e de sintaxe de concordância, e 
cada língua tem suas próprias regras quanto a isso.
Estilística sintática – I
69
No português, há duas regras básicas de concordância:
o verbo concorda com o sujeito em número e pessoa; �
o adjetivo concorda com o substantivo em gênero e número. �
E quanto à colocação? Chama-se ordem direta (ou lógica) a sequência em que 
o sujeito vem à esquerda do verbo, este precede os complementos e os circuns-
tanciadores (o direto tem preferência sobre o indireto, e os objetos têm preferên-
cia sobre os adjuntosadverbiais), os determinantes vêm depois dos determina-
dos, os termos acessórios se posicionam à direita dos seus pares, os conectores e 
transpositores encabeçam os sintagmas ou orações por eles interligados...
A frase (3) mostra um desses casos.
3. “O arrulhar destes dois corações virgens durava até oito horas da noite, 
quando uma senhora de certa idade chegava a uma das janelas da casa, já então 
iluminada.” (ALENCAR, 1975, p. 2)
O trecho de Alencar exemplifica bem a ordem direta do português:
a frase se inicia pelo sujeito (“o arrulhar destes dois corações virgens”) de �
“durava”;
o núcleo do sujeito (“o arrulhar”) precede seu determinante (“destes dois �
corações virgens”);
o determinante de “durava” (“até oito horas da noite”) está à direita do verbo; �
a conjunção “quando” encabeça a oração subordinada adverbial, que está �
posicionada depois da oração principal;
o sujeito da segunda oração (“uma senhora de certa idade”) precede o �
verbo que com ele concorda (“chegava”);
o determinante de “chegava” (“a uma das janelas da casa”) está à direita �
do verbo;
o determinado “casa” precede seu determinante (“já então iluminada”). �
Esses são apenas alguns comprovantes de que o trecho de Alencar está cons-
truído rigorosamente em ordem direta, mas isso não significa que se trata de 
uma ordem obrigatória no português. O mesmo trecho poderia ter sido escrito 
de outra maneira, sem nenhum prejuízo para sua estrutura, como vemos em (4) 
e (5), exatamente com as mesmas palavras:
70
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
4. Até oito horas da noite durava o arrulhar destes dois corações virgens, 
quando a uma das janelas da casa, já então iluminada, chegava uma senhora de 
certa idade.
5. Durava até oito horas da noite o arrulhar destes dois virgens corações, 
quando chegava uma senhora de certa idade a uma das janelas da casa, já então 
iluminada.
Não há diferença sintática entre as frases (3), (4) e (5), mas elas não são iguais 
do ponto de vista estilístico. Qual das três representa de modo mais adequado a 
expressividade pretendida pelo autor? O deslocamento de um sintagma para a 
posição inicial da frase (sua topicalização) é justificável? A resposta, certamente, 
gerará boa e saudável discussão de Estilística sintática.
Topicalização: termo usado para indicar o deslocamento de um sintag-
ma de sua posição normal na frase para o início dela – o que geralmente se 
dá por razões de natureza discursivo-textual.
Façamos agora uma exemplificação ao contrário, tomando um outro trecho 
do próprio Alencar, extraído do mesmo romance A Viuvinha.
6. “Pouco depois desapareceram os adornos da cerimônia, e na sala ficaram 
apenas algumas pessoas que festejavam em uma reunião de amigos e de família 
a felicidade dos dois corações.” (ALENCAR, 1975, p. 38)
Aqui, não há a rigorosa obediência à ordem lógica do português. Alencar pri-
vilegiou a ordem inversa, como destacamos nas seguintes passagens:
o sujeito dos verbos “desaparecer” (“os adornos da cerimônia”) e de “fica- �
ram” (“algumas pessoas”) está posposto;
os determinantes de “desapareceram” (“pouco depois”) e de “ficaram” (“na �
sala”) estão antes dos verbos;
o complemento do verbo “festejar” (“a felicidade dos dois corações”) está �
distanciado dele pela antecipação do adjunto adverbial “em uma reunião 
de amigos e de família”.
Porém, essa opção estilística de Alencar como ficaria se reescrita na ordem 
direta?
Estilística sintática – I
71
7. Os adornos da cerimônia desapareceram pouco depois, e apenas algumas 
pessoas que festejavam em uma reunião de amigos e de família a felicidade dos 
dois corações ficaram na sala.
Observa-se que o sujeito “apenas algumas pessoas”, ao ser posicionado à es-
querda de seu verbo (“ficaram”) teve de trazer consigo toda a oração subordina-
da que o secundava, pois afinal essa oração do verbo “festejar” é adjetiva, isto é, 
determinante de “pessoas” e se posiciona depois desse substantivo.
De novo cabe perguntar qual das maneiras se presta de modo mais adequa-
do à expressividade pretendida pelo autor. E outra vez veremos que também 
aqui a resposta gerará boa e saudável discussão de Estilística sintática.
De todo modo, uma conclusão se pode alcançar desde logo: a ordem direta 
ou lógica nem sempre é a mais recomendável ou a melhor. Cada situação discur-
siva, textual, é que dirá se a escolha mais apropriada é uma, outra ou mesmo um 
misto de ambas.
Extensão das frases
Diz Mattoso Câmara Jr. que a frase é uma
[...] unidade de comunicação linguística, caracterizada, como tal, do ponto de vista comunicativo 
– por ter um propósito definido e ser suficiente para defini-lo, e do ponto de vista fonético – 
por uma entoação, que lhe assinala nitidamente o começo e o fim. É assim a divisão elementar 
do discurso, mas pertence à estrutura linguística por obedecer a padrões sintáticos vigentes 
na língua, no seu sentido de sistema por que se pauta o discurso. (CÂMARA JR., 1981, p. 122)
E complementa que a frase só é integralmente linguística, ou seja, está em 
padrão de oração, quando contém linguisticamente em si todos os dados para 
a comunicação do seu assunto, sem que haja necessidade de completá-los com 
algum gesto ou e com uma situação concreta.
Decidir qual a melhor extensão para uma frase é, em resumo, uma tarefa que 
consiste em combinar a questão sintática com a escolha estilística, e esta levará 
em conta aquelas mesmas três perguntas que enumeramos há pouco, na busca 
do “saber expressivo” (de que pretende falar?; com quem pretende falar?; em que 
contexto pretende falar?).
Observemos o exemplo (8), tirado de uma notícia de jornal:
72
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
8. “Foi um show dentro e fora de campo. Com direito a pontapé inicial de Pelé 
e volta olímpica de Felipe Massa, a Seleção Brasileira goleou Portugal de forma 
convincente por 6 a 2 na noite desta quarta-feira, de virada, no Estádio Bezerrão, 
na cidade-satélite do Gama, no Distrito Federal”. (BRASIL se despede de 2008 
com goleada sobre Portugal, 2008)
O texto começa com uma frase curta, marcada pela objetividade e síntese. A 
segunda frase contém quase três linhas e, apesar disso, só tem um verbo, uma 
oração. Topicalizada com o sintagma que fala de Pelé e de Felipe Massa, o perí-
odo mostra o verbo “golear” seguido por seu complemento imediato (o objeto 
direto “Portugal”) e depois por um longo rol de adjuntos adverbiais. Se o redator 
optasse por equilibrar o tamanho das duas sentenças ou se preferisse escrever 
três períodos, talvez diminuísse o impacto que a primeira frase exerce sobre o 
leitor da notícia e talvez quebrasse o fluxo das circunstâncias que acompanham 
o verbo “golear”. Os resultados, para nossa reflexão, estão nos trechos (9) e (10):
9. O Brasil deu um show dentro e fora de campo, na noite desta quarta-feira, 
no Estádio Bezerrão, na cidade-satélite do Gama, no Distrito Federal. Com direito 
a pontapé inicial de Pelé e volta olímpica de Felipe Massa, a seleção goleou Por-
tugal de forma convincente por 6 a 2, de virada.
10. De virada, a Seleção Brasileira goleou Portugal de forma convincente por 6 
a 2. O Brasil deu um show dentro e fora de campo, na noite desta quarta-feira, no 
Estádio Bezerrão. Com direito a pontapé inicial de Pelé e volta olímpica de Felipe 
Massa, o jogo aconteceu na cidade-satélite do Gama, no Distrito Federal.
Como avaliar as opções (8), (9) e (10) senão pela interpretação da expressivi-
dade pretendida pelo jornalista que redigiu a notícia?
Referenciação intrafrásica
A relação que existe entre uma expressão linguística e alguma coisa que ela 
seleciona no mundo real ou conceitual é o que se chama de referência. “Uma 
expressão linguística que refere ou aponta para alguma coisa no mundo não lin-
guístico é uma expressão referencial” (TRASK, 2004, p. 251), mas os fenômenos re-
ferenciais, por se configurarem como práticas discursivas, são um caso expressivo 
da relação entre linguagem e realidade, algo que é reciprocamente constitutivo.Se considerarmos o texto a partir de uma perspectiva micro, diremos que 
se trata de uma reunião de frases e que estas não passam de uma reunião de 
Estilística sintática – I
73
termos, sintagmas e palavras. Porém, por um ponto de vista macro, devemos ad-
mitir que um texto é um conjunto de unidades micro que se formam em busca 
de uma unidade sistêmica, organizada e construída progressivamente com base 
em dois processos gerais, a sequencialidade e a topicidade.
A topicidade se refere ao assunto ou tópico discursivo (às vezes mais de um) 
tratado ao longo do texto. A sequencialidade é um componente da progres-
são referencial e se refere à apresentação, continuidade, identificação, preser-
vação, retomada de referentes textuais e tidas como estratégias de designação 
de referentes.
Nesse sentido, a sucessão de palavras que forma um texto vai muito além da 
mera sequencialidade, pois é preciso que um entrelaçamento coerente aproxime 
esses componentes para lhes dar a mencionada unidade sistêmica de textualida-
de, isto é, promover sua coesão. Esta, por ser a representação linguística da coe-
rência de um texto, concretiza-se nas relações entre elementos sucessivos (artigos, 
pronomes, adjetivos, verbos, advérbios), na organização de períodos, de parágra-
fos, de cada uma das partes do todo, formando uma cadeia de sentido capaz de 
apresentar e desenvolver o que se pretendeu dizer sob a forma de texto.
Esses mecanismos linguísticos, que têm a função de estabelecer a conectivida-
de e a retomada entre as partes do texto, são chamados de referentes textuais.
Os referentes textuais podem se valer, conforme o caso, dos mecanismos 
léxico-semânticos ou morfossintáticos (por meio de pronomes de terceira 
pessoa, de certos advérbios, conectivos, numerais ou por meio de substantivos 
e verbos cujo campo semântico permita o processo de substituição ou ainda 
pelo recurso da repetição enfática, da paráfrase, da restrição, entre outros). A 
compreensão de um texto também se dá por elementos não explicitados nele, 
sendo possível considerar que há fatores de coesão implícita, apoiados no co-
nhecimento compartilhado que os participantes do processo comunicativo 
têm da língua que usam.
Por exemplo: uma pessoa que está num bar tomando um refrigerante chama 
o garçom e lhe diz a frase (11).
11. Meu copo está vazio. Pode me trazer outro guaraná?
Certamente essa pessoa não tem em mente a hipótese de que o garçom vá 
lhe trazer um guaraná diferente (outro guaraná = um guaraná diferente), mas que 
ele lhe trará o mesmo guaraná (outro guaraná = mais um copo do mesmo gua-
raná), apesar do aparente contrassenso de “outro” ser equivalente de “mesmo”. 
74
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
O processo comunicativo, porém, poderá resultar no entendimento do que está 
explícito (outro = diferente) e numa resposta como a da frase (12).
12. Infelizmente não. Só temos essa marca.
Vejamos então, em dois parágrafos sucessivos (extraídos da Revista da Folha 
de S. Paulo, de 21/09/2008), outros exemplos de referentes textuais que atuam 
no interior da frase.
13.
Com 240 mil veículos a mais nas ruas da capital nos últimos seis meses, que se juntaram a uma 
frota de seis milhões, o automóvel é cada vez mais protagonista de um pesadelo urbano no 
qual os paulistanos se veem mergulhados diariamente.
14.
Parado nos congestionamentos – o recorde chegou a 266km em maio – ou na disputa inglória 
por uma vaga para estacionar, o carro virou um trambolho que coloca em xeque a própria 
sobrevivência da metrópole. “Não dá para todo mundo ter um carro hoje, a não ser que acabem 
com os espaços públicos e transformem a cidade em algo exclusivo para o automóvel”, ironiza 
a urbanista Raquel Rolnik. (SOLUÇÃO Radical, 2008)
O parágrafo (13) possui apenas uma frase. Nela, “costuram” o interior frasal os 
pronomes relativos “que” (retomando “os veículos”) e “no qual” (retomando “o pe-
sadelo urbano”), o pronome pessoal reflexivo “se” (em duas ocasiões: também re-
tomando “os veículos” e “o pesadelo urbano”) e os substantivos “veículos”, “frota” 
e “automóvel” (e sua coerente hierarquia) e “capital” e “paulistanos” (também co-
erentes na seleção e enfatizados no adjetivo “urbano”).
Já em (14), em que há duas frases (uma do jornalista, outra em discurso direto), 
a coesão interna se dá com o pronome relativo “que” (retomando “trambolho”), 
o predicador “trambolho” (substituto pejorativo de “carro”), na primeira delas. Na 
segunda, vemos a locução conjuntiva “a não ser que” (conector de exclusão) e os 
substantivos “carro” e “automóvel” (sinônimos) e “cidade” e “urbanistas” (também 
coerentes na seleção).
Figuras de linguagem
A decisão acerca do modo de se construir uma frase, como vimos, pode 
insinuar ou revelar um valor expressivo para o que pretendemos comunicar. 
Quando isso acontece, temos figuras de linguagem. No campo da Estilística sin-
tática, entre as principais figuras, destacamos as seguintes:
Estilística sintática – I
75
Anacoluto e Pleonasmo �
Enquanto o pleonasmo sintático ocorre pela repetição enfática de um termo 
oracional, geralmente topicalizado, o anacoluto consiste numa topicalização 
que não tem sequência sintática concreta.
15. Os meus votos, os derrotados não os anularão nunca.  Pleonasmo
16. Aos eleitos, desejamos a eles um bom mandato.  Pleonasmo
17. Os corruptos, é preciso acabar com eles.  Anacoluto
18. Os tiranos, ainda há quem goste deles.  Anacoluto
Nas frases (15) e (16), os sintagmas topicalizados têm função sintática (“os 
meus votos” é objeto direto de “anularão”, e “aos eleitos” é objeto indireto de 
“desejamos”) e são repetidos adiante, numa redundância sintática enfática (o 
pronome oblíquo “os” é o objeto direto pleonástico de “anularão”, e “a eles” é o 
objeto indireto pleonástico de “desejamos”). Como se vê, em cada oração houve 
a redundância sintática de dois termos.
Nas frases (17) e (18), os sintagmas topicalizados não têm função sintática, e 
sua repetição adiante não é sintática, mas apenas uma estratégia coesiva, pois 
afinal é preciso que o leitor entenda a frase e saiba que papel sintático deveriam 
fazer os sintagmas “os corruptos” e “os tiranos”. Os termos “com eles” e “deles” 
são objetos indiretos de “acabar” e “gostar”, mas em cada uma das frases só há 
um objeto indireto, pois “os corruptos” e “os tiranos” não têm função sintática em 
virtude da “quebra frasal” que caracteriza o anacoluto.
Silepse �
Uma das possibilidades de concordância no português envolve o procedi-
mento de relacionar sintaticamente um elemento da frase ao que está implícito 
(em vez de explícito), descumprindo a regra básica de concordância entre verbo 
e sujeito ou entre adjetivo e substantivo. Chama-se por isso de concordância 
ideológica.
19. Todos os brasileiros (P6) sentimos (P4) na pele o que aconteceu.
20. Aquele discurso deixou a gente (f ) aborrecido (m) com o candidato.
O sujeito da frase (19) é “os brasileiros” (= eles, P6), e o verbo poderia ser “sen-
tiram”. Usar a forma “sentimos” (= nós, P4) significa incluir no sujeito a ideia da 
76
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
primeira pessoa – o que não poderia acontecer se o falante da frase fosse, por 
exemplo, um russo.
Na frase (20) o adjetivo “aborrecido” se relaciona com a palavra “gente”, femi-
nina. A concordância só pôde ser aceita porque “a gente” também se refere ao 
falante, no caso um homem.
Hipálage �
Pode-se justificar a associação de um adjetivo a um substantivo que não é, do 
ponto de vista lógico, o seu determinado.
21. O ambulante vendia as bandeiras felizes do grande campeão.
Observe-se como o adjetivo “felizes”, logicamente referido aos torcedores do 
time campeão, transfere sua concordância para o substantivo “bandeiras”, em vir-
tude da contiguidade semântica entre os seus determinados lógico e sintático.
Assíndeto e Polissíndeto �
A ausência ou a reiteração de uma “conjunção coordenativa” pode ter efeito 
expressivo.
22. Cheguei, olhei, abafei.  Assíndeto (ausênciada conjunção “e”).
23. Era sempre assim: ou chorava, ou gritava, ou morria de amor.  Polissín-
deto (reiteração da conjunção “ou”).
Inversão (anástrofe, hipérbato e prolepse) �
A alteração intencional e expressiva da ordem direta de uma oração ou frase 
caracteriza algum dos casos de inversão.
24. Agora você já perdeu o trem, meu caro.  Prolepse (topicalização 
refutadora).
25. Sobre o meu passado não falaria nada.  Anástrofe (inversão simples).
26. Assusta-me das águas o nível gigantesco.  Hipérbato (inversão complexa).
Na prolepse, além da inversão é necessário que se perceba uma possível re-
futação ao interlocutor. Quando isso não ocorre, haverá a anástrofe. Outra figura 
de inversão é a sínquise, que consiste em criar uma frase ambígua pela interpe-
netração sintática de seus termos (melhor seria dizer que se trata, então, de um 
vício de linguagem – e não de uma figura).
Estilística sintática – I
77
Omissão (elipse e zeugma) �
A omissão intencional de algum termo da oração também pode ser 
expressiva.
27. Sobre a cabeça, os aviões.  Elipse (de “estão” ou “há”).
28. Encontrei-a sozinha, um ar triste, o rosto pálido.  Elipse (de “tinha” ou 
“com”).
29. Peço venham todos à festa.  Elipse (de “que”).
30. Você falou verdades e eu, mentiras.  Zeugma (de “falei”).
31. Levei dois livros: um de contos e um de poesia.  Zeugma (de “livro”).
Na elipse, a palavra subentendida pode ter sido usada antes ou não. Na 
zeugma, a omissão é de uma palavra já empregada antes, sob forma gramatical 
diferente.
Além dessas figuras de linguagem que aqui apresentamos, a construção de 
frases pode ainda produzir expressividade de muitas outras maneiras. Tudo a 
serviço da pretensão criativa, comunicativa, literária, jornalística de quem em-
prega a língua portuguesa na vida concreta.
Texto complementar
Qualidades do parágrafo e da frase em geral
(GARCIA, 1988, p. 253-254)
A correção gramatical é, sem dúvida, uma das mais importantes qua-
lidades do estilo. Mas nem sempre a mais importante: uma composição 
pode estar absolutamente correta do ponto de vista gramatical e revelar-se 
absolutamente inaproveitável. Os professores topamos todos os dias com 
exemplos disso. É verdade que erros grosseiros podem invalidar outras qua-
lidades do estilo. Mas a experiência nos ensina que os defeitos mais graves 
nas redações de alunos do curso fundamental – e até superior – decorrem 
menos dos deslizes gramaticais que das falhas de estruturação da frase, da 
78
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
incoerência das ideias, da falta de unidade, da ausência de realce. Quando 
o estudante aprende a concatenar ideias, a estabelecer suas relações de de-
pendência, expondo seu pensamento de modo claro, coerente e objetivo, a 
forma gramatical vem com um mínimo de erros que não chegam a invalidar 
a redação. E esse mínimo de erros se consegue evitar com um mínimo de 
“regrinhas” gramaticais.
Isoladamente, unidade e coerência têm características próprias, mas 
quase sempre a falta de uma resulta da ausência da outra. A primeira pode 
ser em grande parte conseguida graças ao expediente do tópico frasal; a 
segunda depende principalmente de uma ordem adequada e do emprego 
oportuno das partículas de transição (conjunções, advérbios, locuções ad-
verbiais, certas palavras denotativas e os pronomes).
Em síntese, a unidade consiste em dizer uma coisa de cada vez, omitindo- 
-se o que não é essencial ou não se relaciona com a ideia predominante no 
parágrafo. Evitem-se, portanto, digressões descabidas e indiquem-se de ma-
neira clara as relações entre a ideia principal e as secundárias.
A falta de unidade do parágrafo seguinte decorre da ausência de conexão 
entre os seus dois períodos.
Acabam de chegar a Cuba reforços militares da União Soviética para o regime comunista 
de Fidel Castro. A condecoração de “Che” Guevara, um dos colaboradores castristas, pelo 
ex-presidente Jânio Quadros, por afrontosa, escandalizou a opinião pública e contribuiu 
para a sua renúncia (redação de aluno).
Pergunta-se: qual é a ideia principal desse parágrafo? A chegada de refor-
ços, a condecoração, o escândalo da opinião pública ou a renúncia do pre-
sidente? Se é a chegada de reforços, que relação há – ou mostrou seu autor 
haver – entre esse fato e os restantes? Há, sem dúvida, uma relação implícita, 
histórica, ocasional, entre as três personagens referidas, mas não entre suas 
ações indicadas no trecho. Falta, pois, ao parágrafo qualquer traço de unida-
de, coerência e ênfase. Para consegui-lo, seria necessário dar-lhe uma nova 
estrutura. Uma das versões possíveis seria esta:
Acabam de chegar a Cuba reforços militares da União Soviética para o regime comunista 
de Fidel Castro. Pois foi a um dos colaboradores castristas – “Che” Guevara – que o ex-
presidente Jânio Quadros condecorou, escandalizando a população e contribuindo para 
a sua própria renúncia.
Estilística sintática – I
79
A partícula de transição “pois” (conjunção conclusiva) e a expletiva “foi... 
que” já denunciam certa relação com a chegada de reforços e o que se segue 
esse “pois” indica vestígios de um silogismo incompleto, cuja premissa maior 
está implícita. O raciocínio que teria levado a essa estrutura deve ter sido 
mais ou menos o seguinte:
Acabam de chegar a Cuba reforços militares da União Soviética. Isso nos leva a admitir que 
o regime de Fidel Castro é comunista. Ora, os comunistas não devem ser condecorados 
sem que se escandalize parte da opinião pública de país não comunista. Pois esse 
escândalo provocou-o a condecoração de “Che” Guevara pelo ex-presidente Jânio 
Quadros, escândalo que foi, provavelmente, uma das causas da sua renúncia.
Note-se, porém, que na versão proposta a ideia principal é “condecorar”; 
portanto, a “chegada de reforços”, sob a forma de tópico frasal, ilude o leitor, 
que supõe ver aí a ideia predominante do parágrafo. Sugere-se então nova 
estrutura, de forma que as ideias secundárias assumam feição gramatical 
mais adequada: oração subordinada ou adjunto adverbial:
Com a chegada a Cuba de reforços militares da União Soviética para o regime comunista 
de Fidel Castro, a condecoração de “Che” Guevara pelo ex-presidente Jânio Quadros – 
gesto que talvez tenha contribuído para sua renúncia – torna-se ainda mais afrontosa à 
opinião pública.
Sob a forma de adjunto adverbial, a “chegada de reforços” passa a ser uma 
ideia secundária, permitindo que se dê maior realce à contida na oração 
principal (“a condecoração... torna-se ainda mais afrontosa”). A terceira ideia 
desse parágrafo, por ser também irrelevante, assume uma feição de subalter-
nidade sob a forma de aposto: “gesto que...”
Assim, nesta última versão estão mais ou menos razoavelmente eviden-
ciadas as três principais qualidades do parágrafo (que no caso são também 
do período):
a) unidade – uma só ideia predominante;
b) coerência – relação (no caso, de consequência) entre essa ideia predo-
minante e as secundárias;
c) ênfase – a ideia predominante não apenas aparece sob a forma de ora-
ção principal mas também se coloca em posição de relevo, por estar 
no fim ou próximo do fim do período-parágrafo.
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Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
Dicas de estudo
KOCH, Ingedore Villaça. “A Coesão Referencial”, capítulo do livro A Coesão Textual.
O capítulo explica e exemplifica os casos em que ocorre a remissão de ele-
mentos dentro das frases de um texto.
BECHARA, Evanildo. “Figuras de Sintaxe”, capítulo da Moderna Gramática 
Portuguesa.
O autor estuda oito situações expressivas de usos sintáticos com valor 
estilístico.
Estudos linguísticos
1. Aqui no prédio há um casal que prestigia o nosso grupo de teatro e que só 
perde um ensaio quando não encontram uma pessoa que possa tomar con-
ta de sua filha pequena.
 O trecho acima pode exemplificar por que, às vezes, a silepse é preferível à 
concordância lógica? Explique.
Estilística sintática – I
81
2. “E quando escuta um samba-canção / Assim como ‘Eu preciso aprender a ser 
só’,/ Reagir e ouvir o coração responder: / Eu preciso aprender a só ser.”
 A letra de Gilberto Gil faz uma inversão das palavras “ser” e “só” com que fina-
lidade textual? Identifique suas diferenças semânticas e morfossintáticas e, 
depois, explique em que outras posições da mesma frase essa palavra pode-
ria ser empregada e com que consequências.
3. Assinale as alternativas que contêm recursos de Estilística sintática, explican-
do a expressividade de cada ocorrência.
a) Ah, se todos tivéssemos esse seu jeito especial de entender o coração 
humano!
b) Teus braços amigos estão sempre à minha disposição, eu sei.
c) Aqueles olhos azuis, cansei de admirá-los em vão.
d) Fazemos de tudo um pouco.
O objetivo deste capítulo é observar, no âmbito do período, a expressivi-
dade dos aspectos sintáticos no estudo estilístico da língua portuguesa.
Conceituação de sintaxe do período 
Assim como uma frase não é uma reunião aleatória de palavras ou de 
orações, um texto não é uma reunião aleatória de frases. As decisões de 
estilo, no que tange à sintaxe do período (simples ou composto) têm a ver, 
em primeiro lugar, com o domínio do funcionamento dos padrões frasais 
do português e das combinações que as orações mantêm umas com as 
outras dentro de uma frase verbal, a que denominamos período.
No livro Sintaxe: estudos descritivos da frase ao texto (HENRIQUES, 2008a, 
p. 95), tratei um pouco desse tema, cabendo aqui aproveitar minhas pró-
prias palavras para discutir como importam as questões sintáticas da frase 
na qualificação de um texto, pois sua complexidade e expressividade se 
medem a partir de vários parâmetros. 
Não resta dúvida de que um deles repousa na observação da estrutura 
sintática de seus períodos e parágrafos. Nesse sentido, o estudo da sinta-
xe é uma das estratégias para desvendar os mecanismos composicionais 
escolhidos pelo autor de um texto, ainda que ele precise passar pelo cami-
nho da nomenclatura e da fixação das regras básicas do relacionamento 
sintático para atingir seu alvo maior.
Um texto coeso e coerente se organiza a partir de princípios lógicos, 
entre os quais se incluem os processos relacionais, que partem de uma 
“relação-micro” como a que existe entre o núcleo de um termo e seu ad-
junto adnominal, passam por uma “relação-midi”, como a que nos mostra 
que uma oração é principal porque outra é sua subordinada, e se encer-
ram numa “relação-macro”, que confirma por exemplo que uma notícia de 
jornal ou uma crônica literária teve começo, meio e fim – o que só acon-
tecerá de fato se tiverem sido seguidas as regras elementares de adição, 
Estilística sintática – II
84
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
oposição, reiteração, substituição e conclusão, entre tantas outras regras que se 
baseiam em ampliações dos mecanismos primários expressos pelos conectivos, 
conjunções, pronomes relativos, pessoais...
Microrrelações, midirrelações, macrorrelações = Sintaxe.
IE
SD
E 
Br
as
il 
S.
 A
.
Nesse percurso do “mundo-micro”, feito com o estudo geral da estrutura da 
oração, para o “mundo-macro”, é preciso examinar como funciona a estrutura do 
período (o “mundo-midi”), relembrando que esses três “mundos” nada mais são 
do que uma repetição um do outro, em tamanhos e graus diferentes. É preciso, 
portanto, frisar que o estudo da Estilística sintática, no âmbito do período, é o 
estudo da expressividade, da pertinência e da coesão que existe no relaciona-
mento que as orações mantêm entre si no enunciado.
Sintaxe do período  Análise das relações oracionais
Estilística sintática – II
85
Interessa-nos, então, examinar como um período ou frase verbal atua em suas 
relações discursivas e pragmáticas com o mundo que cerca o texto. É o segundo 
passo no caminho da almejada qualidade e expressividade textual.
Organização das orações (no período) 
Há em português dois tipos de orações, conforme sejam sintaticamente 
independentes ou dependentes. Se um período dispõe suas orações com in-
dependência sintática, dizemos que há coordenação entre elas. Se, porém, as 
orações mantêm no período uma relação de dependência sintática, falamos em 
subordinação.
Vejamos como acontecem essas relações, examinando algumas frases escri-
tas por Graciliano Ramos no romance Angústia.
1. “Peguei um livro, abri a porta e desci os degraus do quintal, furioso com 
o amante de D. Mercedes. Velhaco. Devia nas lojas, devia nas mercearias, devia 
ao alfaiate. Atracado aos usineiros, aos banqueiros, aos homens da Associação 
Comercial, numa adulação torpe.” (RAMOS, 1975, p. 53)
O trecho contém quatro frases, sendo a segunda um efeito retórico inter-
jectivo (equivalente muito mais expressivo do que “Era um velhaco”). A quarta 
frase também não tem um verbo lexicalizado, mas se entende algo como “Vivia 
atracado...”, de modo a deixar implícita a informação redundante para destacar a 
descrição relevante do tal amante de D. Mercedes. Considerando a inserção dos 
verbos, essas frases teriam orações independentes absolutas. Sem os verbos, são 
frases nominais (inseridas em um contexto ou situação).
Interessam-nos, porém, mais os períodos 1 e 3 do exemplo (1). Observemos a 
sequência de orações independentes de ambos: 
Período 1 
oração 1: peguei um livro �
oração 2: abri a porta �
oração 3: e desci os degraus do quintal, furioso com o amante de D. Mer- �
cedes.
86
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
Período 3:
oração 1: devia nas lojas �
oração 2: devia nas mercearias �
oração 3: devia ao alfaiate �
Nos dois períodos, a opção do escritor foi pela construção de orações in-
dependentes – tanto que até poderiam ter sido escritas com a separação por 
pontos, como temos em (2).
2. Peguei um livro. Abri a porta. E desci os degraus do quintal, furioso com o 
amante de D. Mercedes. Velhaco. Devia nas lojas. Devia nas mercearias. Devia 
ao alfaiate. Atracado aos usineiros, aos banqueiros, aos homens da Associação 
Comercial, numa adulação torpe.
É lícito concluir que Graciliano optou por estruturas integradas em frases 
desse tipo, pois preferiu privilegiar um determinado nível de informação e de 
descrição, associando-as a um certo ritmo pausado de leitura, típico de estrutu-
ras coordenadas.
Suponhamos, porém, que a escolha fosse pela construção com orações de-
pendentes. Uma das possibilidades de reescritura (apenas dos períodos 1 e 3) do 
trecho nos daria o que está em (3); outra, buscando apenas os usos de estruturas 
dependentes, nos daria o que está em (4).
3. Depois que peguei um livro, abri a porta para, em seguida, descer os de-
graus do quintal, furioso com o amante de D. Mercedes. Velhaco. Tanto devia nas 
lojas, como devia nas mercearias e devia ao alfaiate. Atracado aos usineiros, aos 
banqueiros, aos homens da Associação Comercial, numa adulação torpe.
4. Depois que peguei um livro, abri a porta para em seguida descer os degraus 
do quintal, furioso com o amante de D. Mercedes, porque o considerava um Ve-
lhaco, que tanto devia nas lojas, como devia nas mercearias e devia ao alfaiate, 
o que o obrigava a viver atracado aos usineiros, aos banqueiros, aos homens da 
Associação Comercial, numa adulação torpe.
Vimos quatro maneiras de construir o mesmo momento da narrativa do ro-
mance Angústia, de Graciliano Ramos. Não resta dúvida de que a opção do escri-
tor se mostra bastante expressiva, mas sobre as outras três a única coisa inques-
tionável é que, sintaticamente, elas estão corretas, adequadas e bem-escritas. E 
estilisticamente? Cabe aqui uma boa e saudável discussão a esse respeito.
Estilística sintática – II
87
Isso significa que estruturas sintáticas independentes são melhores do que 
as dependentes? Ou que, num texto narrativo, elas são mais recomendáveis? Ou 
então que Graciliano Ramos é que tem um estilo em que predomina a coordena-
ção sobre a subordinação? Obviamente a resposta a essas perguntas é a mesma: 
não, necessariamente. É preciso relativizar todas essas coisas e examinar em que 
circunstância elas ocorrem.
Para comprovaressa “fragilidade dos dogmas sintáticos”, vejamos outras duas 
passagens do mesmo autor, ainda em Angústia.
5.
Marina apareceu, enroscando-se como uma cobra de cipó e tão bem vestida como se fosse 
para uma festa. Ao pegar-me a mão, ficou agarrada, os dedos contraídos, o braço estirado, 
mostrando-se, na faixa de luz que entrava pela janela. Isto me dava a impressão de que o meu 
braço havia crescido enormemente. (RAMOS, 1975, p. 67)
6.
Marina parou diante de uma casinha baixa, hesitou, bateu à porta. Toda a minha atenção se 
concentrou num olho, porque na esquina em que me achava apenas apresentava à rua uma 
banda da cara. Quando ela entrou, desentoquei-me, aproximei-me da casinha e vi uma placa 
azul com letras brancas. (RAMOS, 1975, p. 157)
Os três períodos do trecho (5) contêm o predomínio de estruturas dependen-
tes, com orações substantivas, adjetivas e adverbiais, com orações desenvolvidas 
e reduzidas. Já no trecho (6), observa-se uma combinação entre orações inde-
pendentes e dependentes dentro do mesmo período: o primeiro contém apenas 
orações independentes; o segundo, apenas orações dependentes; o terceiro 
começa com uma oração dependente e prossegue com três independentes.
Algum dos trechos perdeu em expressividade? Claro que não. Isso nos per-
mite concluir que a decisão sobre as estruturas que devem figurar num período 
depende muito do conhecimento sintático, é claro, mas depende ainda mais da 
sensibilidade e da percepção estilística de quem escreve.
Referenciação interfrásica 
Todo emissor de uma mensagem faz uma representação mental (multidi-
mensional) a respeito do referente do discurso que pretende elaborar. 
Referente: termo que denomina o componente do mundo real que é 
passível de argumentação, descrição ou relato por meio de palavras. 
88
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
Quando se dá a produção de um texto, essa representação mental toma uma 
forma concreta, que tem linearidade e temporalidade, pois deve se materializar 
(uma ação de tempo) em unidades linguísticas (um resultado linear) com o pro-
pósito de emitir uma informação.
Operação cognitivo-linguística: do cérebro para o papel.
IE
SD
E 
Br
as
il 
S.
 A
.
A principal questão para quem redige é a que envolve essa transferência do 
modelo mental (não linear e impalpável) para a forma concreta da frase. O ponto 
é como compatibilizar esses dois ambientes, como saber fazer essa passagem.
Podemos resumi-la a duas operações, que interagem durante essa transferência: 
a) seleção e ajuste dos itens lexicais (em outros termos: achar a palavra certa 
e posicioná-la na frase de modo adequado);
b) enquadramento das unidades linguísticas em relação aos enunciados que 
as precedem ou sucedem num texto (também chamados de cotexto).
Enquanto a operação A se presta mais para a construção da oração ou do 
período, a operação B é a que expressa de fato a materialização do texto, sua 
efetiva construção como uma unidade de sentido.
Estilística sintática – II
89
Observemos a notícia abaixo para vermos como se dão esses processos.
7.
Ter autonomia para escolher o horário de início do trabalho – de manhã, à tarde, à noite ou de 
madrugada –, livrar-se dos imensos congestionamentos, que tiram o humor de qualquer pessoa, 
usar a roupa que achar mais confortável, decorar o ambiente com a sua cara e ser o seu próprio 
chefe. Quem nunca desejou pelo menos um desses privilégios? (GAZETA DO POVO, 2008)
O redator inicia seu parágrafo com uma frase que combina com simetria 
cinco infinitivos verbais (ter, livrar-se, usar, decorar e ser). Até aí estamos na ope-
ração A, que verifica a seleção e ajuste dos itens lexicais. Na frase final do trecho, 
há entretanto um sintagma que atua no processo B (um desses privilégios). O 
demonstrativo “esses” é anafórico e faz relação com o enunciado que o precede, 
e o substantivo “privilégios” condensa (também anaforicamente) a série liderada 
pelos cinco verbos no infinitivo, acrescentando um juízo de valor que o jornalista 
espera ser compartilhado pelos seus leitores, a saber: as ideias representadas 
pelos cinco verbos no infinitivo podem ser consideradas positivas (= privilégio, 
no bom sentido).
Alternativamente, o jornalista poderia ter evitado o demonstrativo, mas pre-
cisaria de uma palavra anafórica de outra classe para dar coerência à frase final 
– é o que se vê em (8).
8. Quem nunca desejou pelo menos um dos privilégios citados?
Também poderia ter usado um substantivo anafórico mais neutro – como em 
(9). Isso evitaria que algum leitor percebesse alguma sutil ironia ou inveja no uso 
do substantivo “privilégios”, por considerar que o repórter redator, provavelmen-
te, não pode trabalhar apenas em casa.
9. Quem nunca desejou pelo menos uma dessas comodidades? 
Uma outra questão envolve as operações de enquadramento dos enuncia-
dos de um texto, ainda no que tange à conexão e à segmentação. Suas unidades 
fundamentais são os organizadores textuais e os sinais de pontuação, que têm a 
função de, primeiro, “costurar” os itens lexicais (selecionados e ajustados, como 
dissemos na operação A) e, depois, articular ao contexto essas unidades.
Quanto aos organizadores textuais, citemos alguns deles:
os aditivos (e, além disso, igualmente, também); �
os alternativos (ou, ora); �
90
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
os argumentativos (mas, embora, porque, em última análise); �
os sequenciadores (primeiro, antes, por fim); �
os delimitadores de espaço, tempo ou fonte (naquela época, na nossa ci- �
dade, para os governistas, segundo Platão).
Já os sinais de pontuação são empregados, em especial, com a finalidade de 
demarcar ou segmentar as partes do texto por conta de seus termos, sintagmas, 
proposições, frases ou parágrafos. O sistema de pontuação faz parte de uma 
convenção gráfica, mas em síntese é um “sistema de reforço da escrita, consti-
tuído de sinais sintáticos, destinados a organizar as relações e a proporção das 
partes do discurso e das pausas orais e escritas” (CATACH, 1994, p. 7). Sua utiliza-
ção interage com outros níveis operacionais do enunciado, ou seja, esses sinais 
participam também de todas as funções da sintaxe: gramaticais, entonacionais, 
semânticas, discursivas e pragmáticas. A eles se acrescentam outros recursos 
gráfico-frasais, como o itálico, o negrito, a sublinha, etc. 
Sinais de pontuação [etc.]  vírgula / ponto e vírgula / ponto final, de 
exclamação e de interrogação / dois pontos / reticências / aspas / travessão / 
parênteses e colchetes / alíneas / negritos, itálicos e sublinhas / asteriscos.
Dois parágrafos de uma crônica de José Carlos Oliveira (2005, p. 72) nos servi-
rão para interpretar algumas das explicações expostas neste capítulo.
Reaprendo o caminho da praia. Todos os meus conhecidos estão ficando castanhos, renunciarei 
também aos banhos de estrelas e de luar. E assim me incluo, sábado, entre as centenas de 
corpos que na areia ou na água correm, cochilam, conversam, jogam frescobol, pegam jacaré, 
passam óleo na pele, tomam sorvete e repetem frases que é sempre agradável (ou inevitável) 
dizer e ouvir: “A água está geladíssima”; “se em outubro o sol já está assim, imagine em janeiro”; 
“este verão vai ser fogo”; “hoje as ondas estão brabas”; “amanhã não sei se venho, porque vai 
haver névoa seca”.
Perdão, não fui eu quem falou em névoa seca; apenas ouvi. Não sei quem disse. Quando ia 
dar um mergulho, alguém fez essa observação como quem diz uma coisa muito natural. Não 
vi quem falou. Mergulhei, fiquei um instante na areia olhando o belo mar, e de repente minha 
cabeça refletiu sozinha: “Névoa seca… Eu, hein, rosa!” Depois reparei que aquela frase não 
revelava pedantismo propriamente; era mais sofisticação. E mergulhei novamente enquanto 
minha cabeça, emérita especuladora, propunha a si mesma um problema simples, qual seja: 
“Que espécie de pessoa, entre tantas, seria capaz de dizer aquilo sem mais nem menos?” 
Probleminha de fim de semana, creio eu. Na calada da noite é que medevem torturar as 
grandes dúvidas humanas, para as quais oferecerei resposta, segundo espero, nos livros que, 
segundo espero, vou começar a escrever amanhã. Isto é: depois de amanhã; Domingo também 
não é dia de salvar o mundo – creio eu. Enfim, lá estava a cabeça a funcionar gratuitamente, 
sem prejudicar o sabor do momento; sentei-me na areia e sem óculos escuros olhei para o sol. 
A ofuscação me fez fechar os olhos, o que aproveitei para cochilar um pouquinho. 
Estilística sintática – II
91
José Carlos Oliveira materializa sua representação mental com unidades lin-
guísticas selecionadas e enquadradas em enunciados concatenados. Recursos 
de estilo concretizam a construção coerente dos segmentos de orações, perí-
odos e parágrafos, e o cronista exercita seu domínio sobre os instrumentos da 
língua – aqui examinados apenas em alguns organizadores textuais e nos sinais 
de pontuação.
Organizadores textuais:
renunciarei também aos banhos de estrelas; 
E assim me incluo, sábado, entre as centenas de corpos; 
é sempre agradável (ou inevitável) dizer e ouvir; 
Depois reparei que aquela frase; 
Que espécie de pessoa, entre tantas, seria capaz de dizer aquilo; 
para as quais oferecerei resposta, segundo espero; 
Isto é: depois de amanhã; domingo também não é dia; 
Enfim, lá estava a cabeça a funcionar;
Sinais de pontuação:
dois pontos introduzindo citações diretas (pessoais ou alheias) marcadas �
com aspas: 
 Exs.: é sempre agradável dizer e ouvir: “A água está geladíssima” / qual seja: 
“Que espécie de pessoa, entre tantas, seria capaz?”
dois pontos introduzindo citação direta (pessoais ou alheias), sem aspas �
 Exs.: Isto é: depois de amanhã
travessões indicando separação de discurso direto: �
 Ex.: não é dia de salvar o mundo – creio eu 
reticências e exclamação revelando uma modalização do narrador: �
 Ex.: Névoa seca… Eu, hein, rosa!
ponto e vírgula separando blocos oracionais: �
 Ex.: depois de amanhã; domingo também não é dia
ponto de interrogação caracterizando um recurso retórico: �
 Ex.: seria capaz de dizer aquilo sem mais nem menos?
92
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
Mais do que o simples levantamento dessas ocorrências, que por si só não 
levaria a nada, vale notar como a presença desses componentes dá sentido às 
escolhas lexicais de substantivos, adjetivos, verbos. É preciso, enfim, haver com-
petência no manejo dos recursos da língua, pois com eles pode-se conseguir a 
expressividade textual.
Figuras de linguagem 
O estudo estilístico do período, obviamente, não deixa de ser também o 
estudo estilístico da oração, do parágrafo e do texto. E entre os elementos im-
portantes da escolha consciente a ser feita no momento de produção de um 
texto, temos as referências fóricas. Essas unidades linguísticas englobam não 
apenas figuras de linguagem do campo da retórica (anáforas, epanáforas, epífo-
ras, epístrofes), mas também os processos coesivos.
Fóricos: termo genérico que designa a propriedade de algumas unida-
des linguísticas (como alguns pronomes, advérbios, substantivos e verbos) 
de fazer referência a um componente do próprio texto ou ao contexto situa-
cional, em vez de serem interpretados semanticamente por si sós.
Vamos examinar aqui as possibilidades coesivas dessas unidades, recorrendo 
a alguns exemplos que incluímos no livro Sintaxe: estudos descritivos da frase ao 
texto (HENRIQUES, 2008a, p. 169-172).
10. Ela só faz isso quando está lá.
Para entender a frase (10), é indispensável que haja algum contexto que nos 
permita responder a três perguntas: Quem é ela? O que ela faz? Onde ela está 
quando faz isso?
11. Todos os anos, Telma, o marido e os três filhos passam o Natal em Belo 
Horizonte, na casa dos pais de Anselmo. Ela é uma dessas mulheres que não 
movem uma palha dentro de casa. Aliás, não arruma nem a própria cama. Acon-
tece que, como a sogra é uma megera, ela só faz isso quando está lá.
Esclarecido o contexto em (11), teríamos então estas respostas:
12. Ela (Telma) só faz isso (arruma a própria cama) quando está lá (na casa da 
sogra). [Ou seja: Telma só arruma a própria cama quando está na casa da sogra.].
Estilística sintática – II
93
O emprego de palavras que, dentro de um contexto, fazem referência a 
termos usados anteriormente – e evitam sua repetição – tem o nome de “anáfo-
ra”. No exemplo, as palavras anafóricas são: ela + faz isso + lá.
Quando a frase remete para uma unidade linguística que está adiante, o 
nome que se dá é “catáfora”. É o que encontramos em (13), reescritura de uma 
das frases do exemplo (11).
(13) Telma é uma mulher que tem um único defeito: não move uma palha 
dentro de casa. [Um único defeito  não mover uma palha dentro de casa].
Aqui o elemento catafórico é “um único defeito”, que está à esquerda de “não 
move uma palha dentro de casa” e tem a finalidade de apontar para essa ideia à 
direita. Mas, se invertêssemos os dois componentes, colocando “esse único de-
feito” à direita, ele apontaria para a ideia à esquerda e caberia ao demonstrativo 
“esse” fazer o papel anafórico. É o que mostra a frase (14).
14. Telma é uma mulher que não move uma palha dentro de casa, e esse é seu 
único defeito. [Não mover uma palha dentro de casa  esse (único defeito)].
Essas relações fóricas (a anáfora e a catáfora) são chamadas de “endofóricas”, 
pois atuam na esfera do texto e se explicam nesse ambiente “interno” (endo- = 
para dentro). Quando as relações fóricas se explicam por componentes exterio-
res ao texto, elas se chamam “exofóricas” (exo- = para fora). 
Na língua falada, usa-se muito a menção às noções de tempo, espaço e pessoa 
sem as nominalizar no texto, mas apenas no cenário em que se transmite uma 
ideia. Se estou numa sala de aula da UERJ no último dia de aula do ano letivo de 
2009 e digo “Eu espero ver vocês aqui no ano que vem”, a frase não é autoexpli-
cável, mas a situação identifica os valores concretos de “eu” (= Claudio), “aqui” (= 
na UERJ) e “no ano que vem” (= 2010). 
Para concluir, acrescentemos uma outra possibilidade que ocorre no traba-
lho com frases e textos. Referimo-nos àquelas situações em que há necessidade 
de se reiterar um conceito, reforçar um ponto de vista ou retomar a expressão 
de um pensamento, uma ideia, uma opinião. Fazer isso engloba uma série de 
aspectos da estrutura textual: a escolha de palavras, o domínio das estruturas 
sintáticas, a viabilidade da repetição expressiva, o conhecimento dos valores se-
mânticos e a perícia Estilística.
Para desenvolver essa técnica, o redator é levado a um exame panorâmico 
do que planeja dizer e, a partir daí, deve fazer as escolhas seguras conforme sua 
94
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
intenção comunicativa. Ilustremos essas considerações com dois exemplos de 
paráfrase a partir dos seguintes fragmentos:
15. “Não há nada tão pernicioso à filosofia como o fato de as coisas familiares 
e que ocorrem com frequência não atraírem e não prenderem a reflexão dos 
homens, mas serem admitidas sem exame e investigação das suas causas.” (Fran-
cis Bacon)
16. “Foi pelo trabalho que a mulher transpôs, em grande parte, a distância 
que a separava do macho; é só o trabalho que pode garantir-lhe uma liberdade 
concreta.” (Simone de Beauvoir)
As propostas de reescritura sinonímica para os textos acima poderiam ser:
17. Nenhuma coisa é tão nociva à filosofia quanto a falta de atenção e de con-
sideração dos homens em relação aos acontecimentos familiares corriqueiros, 
que são aceitos sem que se examinem ou se investiguem suas origens.
18. As diferenças entre os sexos começaram a ser superadas a partir do mo-
mento em que a mulher começou a trabalhar. Para conseguir a liberdade com-
pleta, o que ela precisa fazer é continuar trabalhando. 
Chamamos a esse tipo de exercício “redação sinonímica”. Seu objetivo é 
manter a significação global de um período ou de um parágrafo, a partir da alte-
ração localizada de palavras e expressões de linguagem.
Como em várias outras questões que envolvem aprodução de texto, estas 
possibilidades também estão a serviço da pretensão criativa, comunicativa, lite-
rária, jornalística de quem emprega a língua portuguesa na vida concreta.
Texto complementar
Paralelismo rítmico e sintático
(GARCIA, 1988, p. 274-275)
A coerência consiste em ordenar e interligar as ideias de maneira clara e 
lógica e de acordo com um plano definido. Sem coerência é praticamente im-
possível obter-se ao mesmo tempo unidade e clareza. Ela é, por assim dizer, 
Estilística sintática – II
95
a “alma” da composição. Os organismos vivos, os próprios mecanismos, só 
funcionam quando suas partes componentes se ajustam, se integram numa 
unidade compósita. Podem-se reunir as mil e uma peças de um aparelho de 
televisão, mas o conjunto só funcionará quando todas estiverem adequada-
mente ajustadas e conectadas segundo o esquema de montagem. Onze ex-
celentes jogadores de futebol, onze Pelés, pouco rendimento obterão numa 
partida, se não se conjugarem as habilidades de cada um na sua posição e 
movimentação dentro do campo, segundo o plano do jogo e o objetivo do 
gol. Em outras palavras: assim como não basta encontrarem-se em campo 
onze Pelés que não se entendam, que não se articulem, assim também não 
é suficiente dispor de excelentes ideias que não se ajustem, não se entrosem 
de maneira clara, harmoniosa e coerente.
Em geral, escrevemos à medida que as ideias nos vão surgindo: mas, como 
nosso raciocínio nem sempre é lógico, ocorrem lapsos, hiatos e deslocações 
extremamente prejudiciais à coerência e à clareza. Para evitar esse inconve-
niente, torna-se necessário planejar o desenvolvimento das ideias, pondo-as 
numa ordem adequada ao propósito da comunicação e interligando-as por 
meio de conectivos e partículas de transição. Ordem e transição constituem, 
pois, os principais fatores de coerência.
[...] A ordem de colocação é indispensável à coerência; mas não é suficien-
te. Urge cuidar também da transição entre as ideias, da conexão entre elas. 
Palavras desconexas são como fragmentos de um jarro de porcelana. É preci-
so “colá-las”, interligá-las para se obter uma unidade de comunicação eficaz.
É certo que na língua falada ou escrita, quando se traduzem situações 
simples, a inter-relação entre as ideias pode prescindir das partículas conec-
tivas mais comuns. A justaposição mostra como o liame entre orações e pe-
ríodos muitas vezes se faz implicitamente, sem a interferência desses conec-
tivos: uma pausa acentuada, uma entonação de voz podem ser suficientes 
para interligar e inter-relacionar ideias.
(1) Estou muito preocupado. Há vários dias que não recebo notícias de 
minha filha.
Temos aí dois períodos justapostos. A pausa e o tom da voz mostram que o 
segundo indica o motivo ou a explicação do primeiro. A ausência da conjunção 
explicativa (pois, porque) não impede que se perceba nitidamente essa relação.
96
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
Mas, em situações complexas, a presença dos conectivos e locuções de 
transição se torna quase sempre indispensável para entrosar orações, perío-
dos e parágrafos.
Quanto mais civilizada é uma língua, quanto mais apta a veicular o ra-
ciocínio abstrato, tanto maior o acervo desses utensílios gramaticais. Alguns 
são legítimos conectivos: os intervocabulares, como, ocasionalmente, as con-
junções aditivas e, sempre, todas as preposições; e os interoracionais, como 
todas as conjunções, os pronomes relativos e os interrogativos indiretos. 
Outros seriam mais apropriadamente chamados palavras de referência: os 
pronomes em geral, certas partículas e, em determinadas situações, ad-
vérbios e locuções adverbiais. Em sentido mais amplo, até mesmo orações, 
períodos e parágrafos servem de transição no fluxo do pensamento. A uns 
e outros englobamos aqui na dupla designação de partículas de transição e 
palavras de referência, que, na sua maioria, têm valor anafórico (quando no 
texto relacionam o que se diz com o que se disse) ou catafórico (quando rela-
cionam o que se diz ao que se vai dizer).
Tal é a importância desses elementos, que muitas vezes todo o sentido de 
uma frase, parágrafo ou página inteira deles depende. Dois enunciados soltos, 
isto é, duas orações independentes e desconexas como “Joaquim Carapuça 
costuma vir ao Rio” e (ele) “Ganha muito dinheiro em São Paulo” assumem con-
figuração muito diversa conforme seja a conexão que entre eles se estabeleça.
Joaquim Carapuça costuma vir ao Rio (quando / enquanto / porque / se / 
embora) ganha/ganhe muito dinheiro em São Paulo.
Dicas de estudo
KOCH, Ingedore Villaça. “A Coesão Sequencial”, capítulo do livro A Coesão 
Textual.
O capítulo explica e exemplifica os casos em que ocorre a progressão de ele-
mentos dentro das frases de um texto.
GARCIA, Othon M. “Processos Sintáticos”, capítulo do livro Comunicação em Prosa 
Moderna.
Estilística sintática – II
97
O autor focaliza temas como encadeamento e hierarquização, coordenação 
gramatical e subordinação psicológica, ênfase, paralelismo rítmico e paralelismo 
semântico, entre outros.
Estudos linguísticos
1. Após consultar dicionários gerais ou de arte poética, explique o significado das 
figuras de linguagem anáfora, epanáfora, epífora e epístrofe, dando exemplo.
98
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
2. Leia atentamente o parágrafo abaixo e escolha uma forma expressiva de pre-
encher as lacunas frasais. Justifique sua escolha.
Todos os anos, Telma, o marido e os três filhos passam o Natal em Belo Hori-
zonte, na casa dos pais de Anselmo. Ela é uma dessas mulheres que não movem 
uma palha dentro de casa. Aliás, não arruma nem a própria cama. Acontece que, 
como a sogra é uma megera, ela só faz isso quando está lá. Assim, para manter 
as aparências, Telma prefere não dar chance para que ______________ encha de 
novo a cabeça ______________ chamando-a de parasita, ou coisa que o valha.
3. “A gravata enrolava-se como uma corda sobre a camisa rasgada e suja, das 
bainhas das calças e dos cotovelos puídos saíam fiapos, manchas de poeira 
alastravam-se na roupa, a sola dos sapatos estava gasta, os meus olhos se 
enevoavam por causa da fome e descobriam entre as árvores cenas irreais.” 
(RAMOS, 1975, p. 174)
 Sem considerar o caso da expressão comparativa introduzida pelo conectivo 
“como”, o período de Graciliano Ramos, em Angústia, é composto por seis 
orações independentes.
Estilística sintática – II
99
 Parafraseie o fragmento acima (em um ou dois períodos) evitando orações 
coordenadas e, depois, compare sua paráfrase com a versão original comen-
tando a expressividade de ambas.
O objetivo deste capítulo é observar a expressividade dos aspectos 
enunciativos no estudo estilístico da língua portuguesa. 
As definições de enunciado e enunciação variam muito, conforme o autor 
ou a corrente de estudos a que está filiado. Basicamente, podemos dizer 
que a concepção que se faz dessas palavras oscila entre o ponto de vista 
discursivo e o ponto de vista linguístico, mas que ambas são conciliáveis.
Sob o enfoque discursivo, a enunciação está vinculada ao contexto em 
seus incontáveis aspectos sociais e psicológicos. Sob o enfoque linguísti-
co, indica o conjunto de ações que o emissor pratica para construir e pro-
duzir um enunciado, e este se define como uma “unidade de comunicação 
elementar, uma sequência verbal investida de sentido e sintaticamente 
completa” (CHARAUDEAU; MAINGUENEAU, 2004, p. 196), ou seja, um “frag-
mento de fala marcado de algum modo como unidade; por exemplo, por 
meio de pausas e pela entonação” (TRASK, 2004, p. 92), para ficarmos com 
definições que atendem a nossos objetivos aqui.
Adequação sintática e adequação semântica 
Chamamos adequação sintática a construção coerente de períodos e 
orações, observadas as relações existentes entre seus termos e a sua orga-
nização. A inadequação sintática pode gerar desde dificuldades localiza-
das de compreensão até a completa ausência de sentido. A esse vício de 
linguagem dá-se o nome de obscuridade.A adequação semântica ocorre quando um texto demonstra compe-
tência na argumentação (ou na descrição ou na narração ou na interpreta-
ção), evidenciada por seu autor a partir de uma seleção de opiniões, dados 
e fatos fundamentados no seu conhecimento de mundo. Mas é sempre 
oportuno lembrar que, embora recomendáveis para as situações referen-
ciais da vida comum, os paralelismos semântico e sintático podem ser que-
brados com arte e criatividade. É o que Thais Nicoleti de Camargo (2002) 
comenta no artigo “Falta de paralelismo semântico cria efeito de estilo”:
Estilística da enunciação
102
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
Preservar o paralelismo semântico é tão importante quanto preservar o paralelismo sintático. 
Mas, na pena de um bom escritor, a quebra da simetria semântica pode resultar em curiosos 
efeitos de estilo. Não foi outra coisa o que fez Machado de Assis no conhecido trecho de 
Memórias Póstumas de Brás Cubas, em que, irônica e amargamente, o narrador diz: “Marcela 
amou-me durante 15 meses e 11 contos de réis”. No mesmo livro: “antes cair das nuvens que 
de um terceiro andar”.
O uso desse artifício parece ser uma das marcas Estilísticas do autor. Na abertura de Dom 
Casmurro, o narrador diz: “encontrei um rapaz, que eu conheço de vista e de chapéu”.
No conto “O Enfermeiro”, ao anunciar que vai relatar um episódio, o narrador adverte que 
poderia contar sua vida inteira, “mas para isso era preciso tempo, ânimo e papel”. O elemento 
“papel”, disposto nessa sequência, surpreende o leitor e instala o discurso irônico. Ter ou não 
papel para escrever é algo prosaico. A falta de ânimo, um problema pessoal, está em outro 
patamar semântico. (CAMARGO, 2002)
Não foi o que aconteceu com a manchete de jornal ou com a placa do salão 
de beleza que estão reproduzidas a seguir. Ambas esbarram na falta de parale-
lismo, pois a escolha sintática não representa a intenção comunicativa, que só é 
compreendida porque o leitor reinterpreta o que vê para constituir a adequação 
inexistente no enunciado.
D
iv
ul
ga
çã
o 
Fo
lh
a 
de
 S
ão
 P
au
lo
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Missa pela febre? Ou “Papa tem febre e cancela 
missa?” 
M
ar
ce
lo
 M
or
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s.
Pinto cortado? Ou “Corto e pinto cabelo”?
Estilística da enunciação
103
No livro Sintaxe: estudos descritivos da frase ao texto (HENRIQUES, 2008a, p. 17-19) 
exemplifico os problemas de inadequação a partir do trecho de um anúncio publicado 
na Folha de S. Paulo em 17 de junho de 1998. Vale aqui repassar meus comentários.
IE
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E 
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S.
 A
.
JOSÉ DA PENHA 
SANTOS, depois de ter 
ultrapassado o pórtico 
de um século de idade, 
no próximo dia 18 de 
junho, 98, a partir das 
18h30, na LIVRARIA CUL-
TURA, Av. Paulista, 2073, 
Conjunto Nacional, a 
quem o honrar com a 
sua presença, dará autó-
grafos da 4.a edição de 
CONHECIMENTO E VEN-
TURA, muito ampliada, 
pois se a 3.a edição tinha 
526 páginas, tem esta 
860 e 4 278 pensamen-
tos dos maiores homens 
de todos os tempos.
Propagar esta obra, 
não é por vaidade do 
autor, mas cumpre o sa-
grado dever de levar a 
desencantados corações 
o encanto de viver, con-
forme afirma o eminen-
te economista HENRY 
MAKSOUD: “O livro Co-
nhecimento e Ventura 
está entre aqueles que 
se deve ter à mão como 
recurso nos momentos 
em que falta a esperança 
e os problemas parecem 
intransponíveis. José da 
Penha Santos nos oferece 
a ponte sólida e amiga”.
Inadequação sintática e semântica.
É claro que o objetivo principal do anúncio é o aviso sobre o lançamento de 
um livro. No entanto, suas múltiplas inadequações sintáticas, ainda que não im-
peçam a compreensão dos dados objetivos sobre local, data, horário, poderão 
comprometer o comparecimento do público ao evento e até mesmo a venda-
gem do livro anunciado. Afinal, se o anúncio tem tantos problemas textuais, não 
será de estranhar que o livro citado (substituíram-se os nomes do livro e do autor) 
esteja no mesmo nível.
104
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
Vejamos alguns dos “problemas” sintáticos do texto:
Há quase 40 palavras entre o sujeito “José da P. Santos” e o predicado “dará �
autógrafos”. Esse distanciamento tira a objetividade do trecho e prejudica a 
compreensão da mensagem.
A sequência antecipada de expressões entre vírgulas nesse mesmo trecho �
é inadequada, pois mistura elementos de função diferente, a saber:
“depois de ter ultrapassado o pórtico de um século de idade” refere-se �
ao sujeito, mas a data que vem a seguir não é a do seu aniversário;
a cadeia “no próximo dia 18 de junho, 98”, “a partir das 18h30” e “na �
LIVRARIA CULTURA” refere-se circunstancialmente ao sintagma “dará 
autógrafos”, e o número 98 entre vírgulas é supérfluo pois o texto já 
usara “próximo dia 18 de junho” (de 1998 – é claro!);
“Av. Paulista, 2073, Conjunto Nacional” identifica uma circunstância de �
“Livraria Cultura”, por meio da ideia implícita de localização;
“a quem o honrar com a sua presença” complementa o verbo “dar”. �
A expressão causal “pois se a edição [...] de todos os tempos”, que encerra �
o primeiro parágrafo, é mal construída porque:
o sujeito (com a palavra “edição” subentendida) está depois do verbo e �
há dois numerais seguidos (o primeiro com a palavra “páginas” suben-
tendida);
entre a palavra “pois” e o restante da expressão causal foi inserida uma �
oração condicional com apenas a vírgula da direita (toda inversão de 
oração circunstancial deve ser marcada por duas vírgulas).
O segundo parágrafo começa com três erros graves, a saber: �
a vírgula entre o sujeito “propagar esta obra” e o seu predicado “não é”; �
o emprego desnecessário da preposição “por” (o correto seria: “propa- �
gar esta obra não é vaidade do autor”);
a oração adversativa “mas cumpre o sagrado dever [...]” não dá sequên- �
cia ao trecho anterior (ou seja: propagar esta obra não é vaidade – verbo 
de ligação + substantivo –, mas cumpre – verbo transitivo?) = a coesão 
Estilística da enunciação
105
se daria se estivesse assim: “propagar esta obra não é vaidade do autor, 
mas é o cumprimento do sagrado dever de”.
Ora, se o redator do anúncio tivesse observado a ordem das palavras nas 
frases e considerado a hierarquização das informações, teria produzido um texto 
mais objetivo e claro. Um dos resultados, procurando ao máximo respeitar as 
escolhas lexicais do original, poderia ser:
IE
SD
E 
Br
as
il 
S.
 A
.
Depois de ter ultra-
passado o pórtico de um 
século de idade, José da 
PENHA SANTOS dará au-
tógrafos da 4.a edição de 
CONHECIMENTO E VEN-
TURA a partir das 18h30 
do próximo dia 18 de 
junho, na LIVRARIA CUL-
TURA (Av. Paulista, 2073, 
Conjunto Nacional), a 
quem o honrar com a 
sua presença. Muito am-
pliada, tem esta edição 
860 páginas e 4 278 
pensamentos dos maio-
res homens de todos os 
tempos, enquanto a 3.a 
tinha 526 páginas.
Propagar esta obra 
não é vaidade do autor, 
mas o cumprimento do 
sagrado dever de levar a 
desencantados corações 
o encanto de viver, con-
forme afirma o eminen-
te economista HENRY 
MAKSOUD: “O livro Co-
nhecimento e Ventura 
está entre aqueles que 
se deve ter à mão como 
recurso nos momentos 
em que falta a esperan-
ça e os problemas pare-
cem intransponíveis. José 
da Penha Santos nos 
oferece a ponte sólida 
e amiga”.
Versão adequada sintática e semanticamente.
Assim, falar em adequação sintática significa falar em “bom senso e critério nas es-
colhas sintáticas”, tanto no âmbito da frase como no âmbito do parágrafo e do texto. 
106
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
Fica evidente que a chamada adequação sintática é um instrumento em favor 
da adequação semântica, que outra coisa não é senão a realização coerente do 
que se pretende dizer. Por isso concordamos com Carlos Franchi (2006, p. 102) 
quando afirma que “a teoria gramatical visa a estabelecer a relação entre a forma 
das expressões e sua significação”, ou seja, que é necessário “mostrar as correla-
ções entre a estrutura sintática e a estrutura semântica”.
As pessoas do discurso e aspessoas gramaticais 
Entre os temas que envolvem a produção de um texto, precisamos incluir as 
decisões a respeito da forma linguística a ser usada nas referências à pessoa que 
escreve e também, se for o caso, às pessoas que a circundam no texto. Numa das 
hipóteses, o texto tem um leitor, um destinatário a quem o emissor se refere nos 
enunciados: uma carta, uma convocação, uma circular, por exemplo. Noutra das 
hipóteses, o texto menciona pessoas (ou seres) em seus enunciados e apresen-
ta relatos ou considerações acerca das ações praticadas por essas pessoas (ou 
seres): um relatório, uma ata, um conto, uma novela, por exemplo.
Por isso, o entendimento e o estudo dos mecanismos que giram em torno 
das “pessoas”, tanto no campo do discurso como no campo da gramática, são 
fundamentais para seguirmos na interpretação estilística dos textos.
Todo texto emerge de um gênero e de um tipo de discurso, e a complexidade 
da cena de enunciação, nesse caso, deve ser igualmente considerada, pois as 
várias facetas do “eu” enunciador podem agir com complexidade na articulação 
entre o plano linguístico (as frases propriamente ditas) e o plano textual.
Como diz Benveniste (1991, p. 248), é preciso procurar saber “como cada 
pessoa se opõe ao conjunto das outras e sobre que princípio se funda a sua 
oposição”, tendo em vista que não podemos chegar a elas a não ser pelo que 
as diferencia. E isso vale, obviamente, nas escolhas específicas que fazemos de 
verbos, pronomes, advérbios – em suma, todas as palavras que representam no 
âmbito da frase concretamente dita ou escrita as pessoas e coisas do mundo. 
Sim, porque as coisas também são representadas por pronomes pessoais (a 
caneta = ela) e por pessoas verbais (a caneta quebra = P3, 3.a p.sg.).
Resumidamente, os dois quadros abaixo mostram como isso funciona no 
português.
Estilística da enunciação
107
Pessoas do discurso (e seus pronomes de referência)
1.a  quem fala = eu e nós (a gente*)
2.a  com quem se fala = tu e vós (você* e vocês*)...
3.a  de quem(que) se fala = ele, ela e eles e elas...
Pessoas gramaticais
1.a pessoa do singular (P1) e do plural (P4)
2.a pessoa do singular (P2) e do plural (P5)
3.a pessoa do singular (P3) e do plural (P6)
Obs.: “a gente” leva o verbo à P3; “você” e “vocês” levam o verbo à P3 ou à P6.
Nas combinações entre os dois quadros, é preciso observar bem o que ocorre 
com os pronomes pessoais e, consequentemente, com as demais classes envol-
vidas (verbos e pronomes possessivos, demonstrativos). Nunca é demais repetir 
que os usos linguísticos variam com o tempo, o espaço e a situação comunica-
tiva, mas isso não significa a defesa da subversão do normativismo, e sim sua 
atualização, como diz Carlos Alberto Faraco (2006, p. 26):
A crítica à gramatiquice e ao normativismo não significa, como pensam alguns desavisados, 
o abandono da reflexão gramatical e do ensino da norma-padrão. Refletir sobre a estrutura 
da língua e sobre seu funcionamento social é atividade auxiliar indispensável para o domínio 
da fala e da escrita. E conhecer a norma-padrão é parte integrante do amadurecimento das 
nossas competências linguístico-culturais.
Portanto, não se pode deixar de considerar algumas informações essenciais 
quanto aos usos das “pessoas” em enunciados.
A primeira delas é sobre a escolha entre os pronomes “tu” e “você(s)”, que 
pode ser determinada pela noção afetiva de proximidade ou intimidade entre 
emissor e destinatário. O tratamento de 2.a pessoa mais usual no território bra-
sileiro é “você”; em Portugal predomina o tratamento “tu”. Porém, em áreas não 
bem delimitadas do Sul e Norte do país, o pronome “tu” também tem uso corren-
te. Além disso, pode ser identificado como marca sociodialetal. 
1. “Você passa e não me olha, mas eu olho pra você.”
2. “Tu és divina e graciosa, estátua majestosa.”
Nas regiões do Brasil onde o pronome “tu” está em desuso, emprega-se o pro-
nome de tratamento “você” no trato com pessoas de nível hierárquico igual ou 
inferior ou com jovens e crianças; para o tratamento formal ou respeitoso usam-
se formas como “o(s) senhor(es)”, “a(s) senhora(s)”.
108
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
3. “Você está convidado a comparecer e vibrar com nossos atletas.”
4. “Se o senhor não está lembrado, dá licença de contar.”
A segunda é sobre o pronome “você”, que se refere à segunda pessoa do dis-
curso, mas leva o verbo à terceira pessoa, divergindo da concordância que se 
faz com o pronome “tu”, que leva o verbo à segunda pessoa (embora na língua 
popular ambos levem o verbo à P3). Há, ainda, sobretudo no registro oral, o em-
prego do pronome “você” com valor indefinido, quando não se refere à pessoa 
com quem se fala, mas a um ser indefinido, genérico (= qualquer pessoa).
5. “Você se lembra? Foi isso mesmo que se deu comigo.”
6. “Morena linda, onde é que tu tava, onde é que tava tu?”
7. “Pois é! Quando você (= uma pessoa, se) perde o emprego, tudo fica difícil.” 
A terceira é sobre o pronome “vós”, que nos dias de hoje é pouco usado tanto 
no Brasil quanto em Portugal, estando restrito a situações de extremo formalis-
mo, ou à linguagem religiosa (8), quando se refere a Deus ou a Nossa Senhora. 
No entanto, o possessivo “vosso” continua em uso na linguagem corrente lusita-
na (9) e se refere à segunda pessoa (= “seu”, “de você”).
8. “Vós sois o sal da terra. Vós sois a luz do mundo.”
9. “Então, como está o vosso sobrinho?”
A quarta é sobre os pronomes de tratamento mais formais (Vossa Senho-
ria, Vossa Excelência), que podem ser construídos com “Vossa” (abreviatura: V.) 
e com “Sua” (abreviatura: S.): na forma “Vossa+Nome” se refere a “com quem se 
fala”; “Sua+Nome”, a “de quem se fala”. O pronome de tratamento exige verbo 
e pronome na P3, bem como silepse de gênero com o adjetivo e o particípio, 
como temos em (10) e (11).
10. Prezado cliente, V.S.a foi indicado a participar da promoção...
11. Sr. Ministro, V.Ex.a está apreensivo? 
A última é sobre o pronome de tratamento “a gente”, exclusivo da linguagem 
informal brasileira (12).
12. “A gente briga, diz tanta coisa que não quer dizer.”
Na linguagem formal é obrigatória a uniformidade de tratamento, mas em 
textos literários, musicais, jornalísticos nem sempre isso acontece. 
Estilística da enunciação
109
13. Eu gostaria de falar contigo (P2) ainda hoje. Você (P3) pode me esperar?
14. Vem (P2) pra Caixa você (P3) também.
15. A gente (P3) sempre acha que a nossa (P4) casa é o melhor lugar.
Recomenda-se, então, que essas informações sejam devidamente considera-
das pelo usuário da língua sempre que a situação comunicativa assim o exigir. 
Isso certamente incluirá uma apurada revisão do emprego de verbos no impera-
tivo e dos pronomes oblíquos (átonos e tônicos), em especial os da P3 e P6: o, a, 
os, as, lhe, lhes e si, consigo.
Tipos de discurso 
Como destaca Nilce Sant’Anna Martins (1989, p. 122), um dos assuntos mais 
importantes para os estudos da Estilística da enunciação “é o da intertextualida-
de, do aproveitamento ou citação de enunciados por um falante”. Ela e muitos 
outros autores têm se dedicado a observar as maneiras e os efeitos que ocor-
rem quando um discurso inclui “de forma explícita ou implícita, perceptível ou 
velada, palavras, expressões, enunciados tomados a outros discursos”. O tema da 
intertextualidade se conecta com o da polifonia. Não é o caso de enveredarmos 
aqui e agora por esses dois temas, bastando-nos lembrar que ambos se referem 
às possíveis combinações que podem ser feitas entre textos e entre vozes. 
Por conta dessas combinações, uma característica muito comum nos textos 
é a possibilidade de um mesmo enunciado ser reproduzido, reduplicado entre 
os usuários da língua. “Quem conta um conto aumenta um ponto”, diz o provér-
bio. Com essa citação, não apenas reexplico o que está na primeira frase deste 
parágrafo, mas também a tomo como exemplo de um uso intertextual concreto. 
Afinal, esse provérbio não foi criado por mim, que apenas o incorporei ao texto 
porrazões didáticas discursivas.
Ao nos referirmos a outros locutores e a seus enunciados, podemos usar 
os procedimentos disfarçados de reprodução de vozes, opiniões, sentidos 
que pairam no imaginário da sociedade (é o que se chama polifonia), mas 
também podemos ter a pretensão de reproduzir o que foi dito – pelo menos é 
isso que se presume. A língua oferece modos concretos de se fazer isso, e seu 
estudo acontece no capítulo que fala do discurso direto e do discurso indireto, 
os quais serão explicados a partir de um texto de Millôr Fernandes (1972, p. 
196), abaixo reproduzido.
110
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
Num mundo em que a comunicação é tudo e o dinheiro sempre pouco, 
 conta-se aqui uma história altamente moral sobre a inutilidade 
da primeira enquanto se economiza o segundo.
E chamou o pintor e lhe encomendou a placa para anunciar a especialidade do seu negócio: 
“Nesta casa se vende ovos frescos”. Além dos dizeres recomendou ao pintor que bolasse uma 
figura, qualquer alegoria referente ao ramo. E perguntou quanto era. O pintor disse que ficaria 
em 50.000 cruzeiros. Cinquenta mil o quê? indagou o negociante, pensando, inutilmente, 
numa moeda mais desvalorizada do que o cruzeiro. Cinquenta mil cruzeiros, disse o pintor. Ah, 
não vale, disse então o negociante. Como não vale? retrucou o pintor, ofendido em sua arte 
mais do que atingido em sua economia. O senhor não poderia reduzir um pouco? arriscou o 
negociante. Claro que posso, disse o pintor, posso reduzir a figura e os dizeres. Como assim? 
disse o negociante. Olha, explicou o pintor, pra começo de conversa, não precisamos usar 
figura nenhuma. Se se diz que o senhor vende ovos não há necessidade de colocar nenhuma 
 galinha pintada, não é mesmo? Se o normal são ovos de galinha o fato de não ter nenhuma 
outra ave faz com que os ovos sejam, presumivelmente, de galinha. É certo, concordou o 
negociante. Então, fez o pintor, vinte mil cruzeiros de menos. Agora, também não é necessário 
dizer nesta casa. Se o freguês passa por aqui e vê: Se vende ovos frescos já sabe que é nesta casa. 
Ele não vai pensar que é na casa do lado, não é mesmo? Certíssimo! exclamou o comerciante. 
Então, continuou o pintor, por que colocar Se vende? Se o freguês potencial lê Ovos Frescos 
já sabe que se vende. Ninguém pensaria que o senhor vai abrir uma casa comercial para 
alugar ovos ou apenas para expô-los, right? É mesmo! espantou-se ainda mais o comerciante. 
Quanto aos Frescos, continuou impávido o pintor, refletindo melhor não é de boa psicologia 
usar essa palavra. Frescos lembra sempre a hipótese contrária, a de ovos velhos. Não deve 
nem ter passado pela cabeça do comprador a ideia de que seus ovos podem ser outra coisa 
senão frescos. Portanto, tiremos também o frescos! Certíssimo! berrou o negociante, agora 
profundamente entusiasmado com a dialética do pintor. Façamos, portanto, apenas ovos. Por 
favor, desenhe aí só essa palavra, bem bonita, bem clara: ovos! Só ovos, ovos tout-court, ovos 
em si mesmos, que se vendam pela sua pura e simples aparência de ovos, pelo seu inimitável 
oval! Então vamos lá, concordou o pintor. Mas antes de começar a usar o pincel voltou-se para 
o negociante e perguntou, preocupado: Mas, me diga aqui, amigo – pensando bem, por que 
vender ovos?
Em Comunicação em Prosa Moderna (1988, p. 129-151), Othon M. Garcia apre-
senta minucioso estudo sobre o aproveitamento ou citação de enunciados, que 
acontece quando retransmitimos o pensamento expresso por outra pessoa (real 
ou fictícia). Nesse caso, o narrador pode servir-se do discurso direto ou do dis-
curso indireto, e, às vezes, de uma contaminação de ambos, o chamado discurso 
indireto livre (também chamado misto ou semi-indireto).
Aqui, combinaremos alguns dos ensinamentos da obra de Garcia com passa-
gens da crônica transcrita, interpretando a expressividade de cada construção. 
Millôr conta uma história que envolve um vendedor de ovos e um pintor de placas. 
Para contá-la, o cronista nos apresenta como se passou o diálogo entre ambos. 
Observa-se na crônica uma interessante variação no uso das formas básicas 
de reprodução da fala (nesse caso, dos dois personagens). Millôr recorre ao dis-
curso direto (a oratio recta do latim) para reproduzir textualmente as palavras (a 
fala) dos dois profissionais:
16a. Cinquenta mil o quê? indagou o negociante.
Estilística da enunciação
111
17a. Cinquenta mil cruzeiros, disse o pintor.
Porém, contrabalança essa possibilidade com a do discurso indireto (a oratio 
obliqua do latim), incorporando na sua linguagem a fala dos personagens, trans-
mitindo-nos apenas a essência do pensamento a eles atribuído:
18a. E perguntou quanto era.
19a. O pintor disse que ficaria em 50.000 cruzeiros.
A título de comparação, vejamos de novo essas quatro frases empregando os 
discursos direto e indireto de modo invertido:
16b. O negociante indagou de que natureza eram os cinquenta mil.
17b. O pintor disse que eram cinquenta mil cruzeiros.
18b. E perguntou: Quanto é?
19b. O pintor disse: Ficará em 50.000 cruzeiros.
Para construir ambos os discursos, Millôr fez uso de verbos que constituem 
o núcleo do predicado da oração principal (disse, perguntou, indagou), aquela 
que explicita no nível do enunciado a integralidade da estrutura sintática. Esses 
verbos são chamados verbos de elocução, dicendi ou declarandi, e sua principal 
função é indicar que o interlocutor está com a palavra (na crônica de Millôr, o 
negociante ou o pintor).
Mas, além desses, há uma classe bastante numerosa de verbos de elocução, 
que não são propriamente “de dizer” mas “de sentir”, e que, por analogia, podem 
ser chamados sentiendi: gemer, suspirar, lamentar(-se), queixar-se, explodir, en-
cavacar, e outros, que expressam estado de espírito, reação psicológica da per-
sonagem, emoções, enfim. Na crônica, Millôr também os empregou (arriscar = 
dizer com receio / espantar-se = dizer com espanto):
20. O senhor não poderia reduzir um pouco? arriscou o negociante.
21. É mesmo! espantou-se ainda mais o comerciante.
O curioso é que, embora possamos considerar que a lista de verbos dicendi 
do português está praticamente fechada (Garcia aponta nove áreas semânticas 
para eles), a relação de verbos sentiendi não tem limite, aberta à criatividade do 
escritor e do falante, metafórica e metonimicamente, como vemos na lingua-
gem contemporânea, onde alfinetar, destilar, tricotar é o mesmo que “dizer com 
112
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
maldade” (e variantes), festejar é “dizer com alegria”, contabilizar é o mesmo que 
“dizer com números”. 
Uma outra função dos verbos dicendi é permitir a utilização de expressões mo-
dalizadoras (adverbiais ou predicativas) e de orações adverbiais (quase sempre 
reduzidas de gerúndio) com as quais o narrador sublinha a fala das personagens, 
anotando-lhes a reação física ou psíquica. 
22. Cinquenta mil o quê? indagou o negociante, pensando, inutilmente, numa 
moeda mais desvalorizada do que o cruzeiro.
23. Como não vale? retrucou o pintor, ofendido em sua arte mais do que atin-
gido em sua economia.
24. Quanto aos “frescos”, continuou impávido o pintor, refletindo melhor não 
é de boa psicologia usar essa palavra.
Convenhamos também que a reprodução de uma conversa, se tivesse todas 
as suas falas marcadas pela presença explícita de verbos de elocução, ficaria can-
sativa para o leitor. Por isso, é uma prática comum omiti-los nas falas curtas entre 
apenas dois interlocutores, desde que a disposição gráfica do texto o permita. 
Millôr optou por não usar parágrafos e travessões para separar as falas e preferiu 
colocar a oração do verbo de elocução no fim da fala ou no meio dela. Por isso, 
sua crônica registra um altíssimo número de verbos dicendi, característica que 
ficaria minimizada se as frases fossem apresentadas num formato mais conven-
cional, como mostra o trecho abaixo, com parágrafos e travessões. No forma-
to que vemos em (25), não haveria problema se todas asorações com o verbo 
“dizer” fossem suprimidas, pois a alternância indicada pelos travessões bastaria 
para que soubéssemos quem está com a palavra.
25. – Cinquenta mil o quê? indagou o negociante, pensando, inutilmente, 
numa moeda mais desvalorizada do que o cruzeiro.
 – Cinquenta mil cruzeiros, disse o pintor. 
 – Ah, não vale, disse então o negociante. 
 – Como não vale? retrucou o pintor, ofendido em sua arte mais do que 
atingido em sua economia. 
 – O senhor não poderia reduzir um pouco? arriscou o negociante. 
 – Claro que posso, disse o pintor, posso reduzir a figura e os dizeres.
Estilística da enunciação
113
 – Como assim? disse o negociante. 
 – Olha, explicou o pintor, pra começo de conversa, não precisamos usar fi-
gura nenhuma. Se se diz que o senhor vende ovos não há necessidade de 
colocar nenhuma galinha pintada, não é mesmo? Se o normal são ovos de 
galinha o fato de não ter nenhuma outra ave faz com que os ovos sejam, 
presumivelmente, de galinha. 
 – É certo, concordou o negociante. 
 – Então, fez o pintor, vinte mil cruzeiros de menos.
Como já se pôde depreender por estas explicações, as opções pelo discur-
so direto ou pelo indireto representam também compromissos com a escolha 
de palavras, com a adequação sintática e com as formas gramaticais a serem 
empregadas (que incluem a conjunção integrante como o conectivo prototípi-
co). Os tempos verbais, os advérbios de tempo ou de lugar, as pessoas gramati-
cais e do discurso, tudo está envolvido na escrita da fala que se quer reproduzir. 
Se voltarmos às frases (19a) e (19b), veremos que o discurso indireto levou ao 
futuro do pretérito o verbo que, no discurso direto, estava no futuro do presente. 
Expandindo-se essa mesma frase, podemos concluir mais algumas coisas a res-
peito dessas mudanças gramaticais.
26. DD: O pintor disse: “Essa placa custará, hoje, 50.000 cruzeiros”.
27. DI: O pintor disse que aquela placa custaria, naquele dia, 50.000 cruzeiros.
Além da variedade de possibilidades quanto ao uso do discurso direto e do 
discurso indireto, há ainda um tipo de discurso, muito utilizado na narrativa de 
ficção, que consiste na associação dos já existentes, combinando valores estilís-
ticos de um e de outro. É o discurso indireto livre, no qual o enunciado repro-
duzido não é introduzido por um verbo de elocução nem por uma conjunção 
integrante, misturando-se às vezes com a palavra do próprio narrador, o que 
permite ao autor explorar os recursos psicológicos no trato da narrativa.
Mattoso Câmara Jr. faz um estudo primoroso sobre esse tipo de discurso no 
artigo “O Discurso Indireto Livre em Machado de Assis”, publicado em Ensaios 
Machadianos (1977, p. 25-41). Diz o autor: “O traço mais curioso desse tipo sin-
tático é que ele conserva as interrogações sob a sua forma originária” (p. 29), 
embora mantenha as transposições gramaticais típicas do discurso indireto es-
trito. E acrescenta que o discurso indireto livre não reduz as interrogações “a uma 
incolor forma assertiva” e mantém “as exclamações e a espontânea reprodução 
114
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
de palavras e locuções do personagem”, como mostra um trecho de Machado 
em Dom Casmurro (1971, p. 826):
Minha mãe foi achá-lo à beira do poço e intimou-lhe que vivesse. Que maluquice era aquela de 
parecer que ia ficar desgraçado, por causa de uma gratificação menos, e perder um emprego 
interino? Não, senhor, devia ser homem, pai de família, imitar a mulher e a filha...
O comentário estilístico de Mattoso Câmara (1977, p. 29), que aqui resumi-
mos, destaca a série que começa no segundo período, onde se tem, em discurso 
indireto livre, um apanhado de palavras da mãe do narrador, D. Glória, cujo as-
sunto fora sintetizado pelo romancista na oração integrante anterior (“intimou-
lhe que vivesse”). Surge aí diante do leitor uma interrogação exclamativa e a 
locução textual “Não, senhor [...]”, apresentada com unidade no todo da frase, 
porque o discurso indireto livre, ao contrário daquele em que há elo subordina-
tivo, mantém espontaneamente os elementos afetivos do discurso.
Tem razão Mattoso ao falar dos elementos espontâneos do discurso. Imagine-se 
como transferir do discurso direto para o indireto uma frase como “Caramba!” ou 
“Valha-me Deus!” – de tão difícil transporte como o peremptório “Não, senhor 
[...]” do trecho machadiano.
O discurso indireto livre (não apenas na linguagem ficcional, mas sobretudo 
nela) dá mais espaço ao personagem, que parece ocupar por vezes o lugar do 
narrador. Daí surgem outras formas de escritura, que abrem caminho para o mo-
nólogo interior, para o monólogo entrecruzado e para o fluxo da consciência, 
tudo envolvendo de que forma e em que grau acontece a participação da voz do 
personagem ou (em textos jornalísticos mistos) dos seres reais que nos circun-
dam na vida em sociedade.
Não se deixe de considerar por fim que, na combinação da frase do autor com 
a frase que ele quer reproduzir, é ele (o relatante) quem decide qual o verbo de 
elocução a usar (ou se vai omiti-lo). É ele, em última análise, quem escolhe as pa-
lavras que, supostamente, teriam sido proferidas pela pessoa relatada. Assim, se 
o porta-voz de um enunciado (o narrador, o jornalista, o eu lírico, o remetente...) 
é quem nos apresenta a versão de um fato, não devemos nunca esquecer que 
aquela é apenas a sua versão, apresentada segundo sua maneira de ver o mundo 
ou seus interesses particulares.
Estilística da enunciação
115
Texto complementar
Língua, discurso e texto 
(AZEREDO, 2007, p. 18-19)
A aptidão humana para a comunicação através de símbolos é condição 
indispensável à vida na dimensão cultural. A manifestação mais ampla e ver-
sátil dessa aptidão constitui o que chamamos de língua. A atividade comuni-
cativa por meio de uma língua constitui o discurso. E os objetos por meio dos 
quais essa atividade se desenrola se chamam textos. É por meio de textos, 
básica e universalmente orais, mas em muitas sociedades também escritos, 
que os conteúdos ou informações circulam entre as pessoas.
Materialmente falando, os textos são entidades construídas por meio de 
palavras. Mas, quando chamamos um objeto verbal qualquer de texto, não 
levamos em consideração apenas sua face material, representada nas pala-
vras e construções. Mais que isso, os textos são objetos linguísticos investi-
dos de função social no amplo e complexo jogo das interações humanas. 
Não são meros instrumentos, mas partes essenciais dos acontecimentos que 
dinamizam as relações sociais e fazem a história das sociedades, a própria 
face do relacionamento humano. Há uma íntima integração entre as funções 
sociocomunicativas dos textos e a respectiva formatação (gênero, modo de 
organização, registro, vocabulário, gramática). E mesmo a eventual supres-
são do discurso – o silêncio – não constitui sua negação, mas uma de suas 
expressões.
Os conteúdos e informações veiculados nos textos têm um certo “valor 
interlocutivo” no mercado das trocas verbais. Esse valor interlocutivo lhes é 
conferido pelas coordenadas do contrato de comunicação vigente em cada 
evento interativo. Uma receita médica, por exemplo, detém em nossa socie-
dade um valor interlocutivo bem distinto do que comumente se atribui a um 
horóscopo. O contrato de comunicação que rege cada um desses textos só 
confere o status de uma prescrição ao primeiro.
Certos textos são “caminhos de mão única”: o manual do Imposto de 
Renda, as instruções de uso de eletrodomésticos, as receitas médicas, as con-
venções de condomínio. Estes são, em geral, textos utilitários, de viés institu-
116
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
cional ou normativo, típicos das práticas discursivas caracterizadas por uma 
assimetria dos papéis discursivos – e por consequência das prerrogativas de 
fala – desempenhados pelos interlocutores.
Outros textos, porém, têm “sentido flutuante”, de acordo com as experiências 
e interesses das pessoas que se comunicam. Nesses casos, podemos dizer queos sentidos não dependem apenas daquilo que a pessoa que fala ou escreve 
“quer ou tem a dizer”; eles tendem a ser elaborados numa espécie de negocia-
ção dialética entre o autor e o leitor. Essa heterogênea classe de textos compre-
ende as obras a que o leitor responde basicamente com a reflexão. São os textos 
“formadores”, que veiculam valores de toda ordem – estéticos, morais, místicos, 
ideológicos, etc. – e que inspiram ações por opção de seus leitores. Aí se incluem 
os textos de ficção, de opinião, humorísticos, filosóficos, os poemas.
Podemos ainda conceber uma terceira classe: a dos textos construídos 
com a finalidade explícita de criar ou influenciar comportamentos. É o caso 
do horóscopo. E também os textos publicitários e de propaganda, alguns 
textos religiosos, didáticos, as “correntes” e as “simpatias”. Esta categoria 
abriga ainda textos como o do seguinte recado, que se vê afixado em tantas 
portas de garagem: “Entrada e saída de veículos.” A mensagem é apenas um 
disfarce para amenizar o verdadeiro recado: “Não estacione!”
Contribuir e atribuir sentido é a síntese do processo que chamamos de “inte-
ração humana” e que codificamos em sinais de toda espécie, como gestos, de-
senhos, cores, sons, palavras. Esse processo envolve múltiplos fatores de ordem 
afetiva, cultural, sociocultural, psicossocial e ideológica. Um dado, porém, é por 
si só evidente e embasa qualquer tentativa de compreender e explicar o evento 
comunicativo: a comunicação entre as pessoas se processa num contexto socio-
comunicativo. Este não se resume no cenário físico e social objetivo, mas cor-
responde, principalmente, ao condicionamento mental ou psicológico que nos 
predispõe ao comportamento discursivo adequado e pertinente. É claro que 
o cenário físico e social faz parte desse condicionamento, mas nem sempre é 
seu componente mais decisivo. O componente crucial é a imagem que os in-
terlocutores fazem um do outro, o papel social que cada um atribui ao outro 
enquanto atores do evento comunicativo em curso.
A atuação discursiva dos interlocutores no respectivo contexto socioco-
municativo é necessariamente sensível, portanto, a um conjunto de conven-
ções constitutivas do contrato de comunicação, segundo uma terminologia 
já corrente. Este corresponde, em última análise, a um acordo, não necessa-
Estilística da enunciação
117
riamente consciente, entre os interlocutores sobre cinco pontos: 1) os respectivos 
papéis sociointerativos, 2) as estratégias comunicativas a serem empregadas, 
3) os conteúdos oportunos, 4) a variedade de língua utilizada e 5) as formas de 
discurso (tipos, gêneros e modos de organização) pertinentes.
Dicas de estudo
BRONCKART, Jean-Paul. “Os Mecanismos Enunciativos”, capítulo do livro Ativida-
de de Linguagem, Textos e Discursos.
O capítulo apresenta os mecanismos enunciativos como elementos que con-
tribuem para o estabelecimento da coerência pragmática de um texto.
POSSENTI, Sírio. “Discurso no Texto”, capítulo do livro Discurso, Estilo e 
Subjetividade.
A partir de um editorial de jornal, o autor examina três mecanismos coesivos, 
a referência, a elipse e a coesão lexical, e mostra de que maneira os elementos 
coesivos exercem um papel na função ideacional ou na função interpessoal.
Estudos linguísticos
1. Observe a letra da música “Pense em Mim”, de Leandro e Leonardo, e comen-
te o tema “formas de tratamento” no português contemporâneo brasileiro.
Em vez de você ficar pensando nele 
Em vez de você viver chorando por ele 
Pense em mim, chore por mim 
Liga pra mim, não liga pra ele, pra ele 
Não chore por ele
Se lembre que eu há muito tempo te amo 
Quero fazer você feliz 
Vamos pegar o primeiro avião 
Com destino à felicidade 
A felicidade pra mim é você 
Pense em mim, chore por mim 
Liga pra mim (etc.)
118
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
2. Reescreva o trecho de Fernando Sabino (“Reunião de Mães”) empregando 
apenas o discurso indireto.
 – Meu filho – perguntei, ansioso, assim que saímos – em que turma você 
está? Na 12 ou na 13?
 – Na 14 – ele respondeu distraído. Respirei com alívio: e nem podia ser de 
outra maneira, não era isso mesmo?
 – Fico satisfeito de saber – comentei apenas.
 Ele não perdeu tempo.
 – Então eu queria te pedir um favor – aproveitou-se logo – Que você mandas-
se ao Padre-Diretor um bilhete dizendo que eu não posso comer verdura. 
Estilística da enunciação
119
3. Notas de R$1,00 somem e os comerciantes reclamam das dificuldades na 
hora do troco e dos prejuízos nas vendas. Os comerciantes contam que 
moedas em geral e, principalmente as de um real, sumiram praticamente. 
A escassez de moedas também vale para as de menor valor, como as de 25 
e 50 centavos de real. “A nota de R$1,00 já estava faltando, mas as moedas 
resolviam o problema. Mas hoje as moedas estão sumindo também”, recla-
ma Júlia Roberta, caixa de uma loja que fica no centro da cidade, de bolsas 
e acessórios.
 A notícia acima contém problemas textuais localizados, causados por algumas 
inadequações sintáticas e semânticas. Reescreva-a de modo claro e adequado.
Este capítulo tem por objetivo conceituar os termos “significante” e 
“significado”, apresentar as principais correntes da Semântica e destacar 
a importância dos estudos semânticos para a compreensão do funciona-
mento da língua portuguesa.
Significante e significado 
Para Bernard Pottier (1992, p. 11), a Semântica se preocupa com “meca-
nismos e operações relativos ao sentido, através do funcionamento das lín-
guas naturais [...]”, tentando “explicitar os elos que existem entre os compor-
tamentos discursivos num dado envolvimento, constantemente renovado, 
e as representações mentais que parecem ser partilhadas pelos usuários 
das línguas naturais”. Essa reflexão traça um “percurso entre o individual e o 
universal, através do cultural” e procura conciliar “a extensão e a variedade 
das manifestações linguísticas e a necessidade de uma apresentação relati-
vamente simples dos funcionamentos profundos da língua”.
Por esse motivo, podemos entender a Semântica como o estudo do sig-
nificado das expressões das línguas naturais, para ficarmos com uma defini-
ção bem objetiva, escrita por Gennaro Chierchia (2003, p. vii). Todos os dias, 
nas situações mais comuns de nossas vidas, “praticamos” a semântica, pois 
sempre estamos buscando entender o significado de palavras e de frases: a 
manchete de um jornal, o trecho de uma música, a fala de um personagem 
na novela, a gíria ou o xingamento que alguém disse perto de nós... 
Semântica, a ciência das significações
122
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
IE
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Br
as
il 
S.
 A
.
Minha pátria é 
minha língua!
A Semântica examina como funciona o sistema de signos empregado pelas 
pessoas de uma comunidade idiomática para se comunicar. O signo linguístico 
é a associação convencional de uma palavra ou expressão (a que chamaremos 
significante) com o seu valor comunicativo (a que chamaremos significado).
Experimentemos juntar os pares de significante + significado dos grupos 
abaixo e veremos que só é possível completar as tabelas quando conseguimos 
estabelecer os elos significativos entre as duas colunas.
Grupo I:
Significante é um... Significado
Ronaldinho Gaúcho cantor de MPB
Raimundo Fagner linguista brasileiro
William Bonner jogador de futebol
Mattoso Câmara apresentador de telejornal
Grupo II:
Significante é um... Significado
Aldo Boaventura Lins ??????????
Percival Dias Lopes ??????????
Igor Resende Gomes ??????????
Manuel Abel de Lima ??????????
Semântica, a ciência das significações
123
Grupo III:
Significado é um... Significado
?????????? lutador de caratê
?????????? cineasta português
?????????? dono da cantina da escola
?????????? patrão do seu marido
Se não sabemos qual o significado ou se não reconhecemos qual o significan-
te, não podemos compreender o signo linguístico. Quando isso acontece, não 
podemos participar do processo de comunicação, pois não sabemos do que ou 
dequem se está falando.
Principais correntes da Semântica 
Maria Helena Marques (1990, p. 7) diz no primeiro parágrafo de seu livro Ini-
ciação à Semântica:
A semântica é um dos domínios da linguagem que tem apresentado sérias dificuldades 
para a investigação científica. Essas dificuldades estão intimamente ligadas à amplitude 
e à complexidade inerentes aos fenômenos relativos ao significado e decorrem do tipo de 
tratamento que a semântica tem recebido nos estudos linguísticos.
A reflexão evidencia o que ela mesma chama de “pluralidade e diversidade 
das diretrizes teóricas e metodológicas propostas para o tratamento do signi-
ficado” (p. 8). Talvez seja isso uma consequência natural da busca de atribuir à 
palavra significado uma explicação “científica” que dê conta de sua importância 
na faculdade humana da linguagem. Revela, por outro lado, a indiscutível neces-
sidade de examinar os mecanismos gramaticais das línguas e suas relações com 
os processos semânticos de veiculação do sentido.
Pode-se atribuir a Michel Bréal o emprego da palavra “semântica” como “ciên-
cia das significações”. É dele um artigo publicado em 1883, no qual se lê (apud 
MARQUES, 1990, p. 33):
O estudo que propomos ao leitor é de natureza tão nova que nem chegou ainda a receber 
um nome. A preocupação da maioria dos linguistas tem-se voltado sobretudo para a análise 
do corpo e da forma das palavras: as leis que presidem à alteração de sentidos, à escolha 
de novas expressões, ao nascimento e à morte das locuções foram deixadas à margem ou 
apenas acidentalmente assinaladas. Como este estudo, do mesmo modo que a fonética e a 
morfologia, merece ter seu nome, nós o chamaremos semântica (do verbo semaínein), isto é, 
a ciência das significações. 
Bréal toca no ponto essencial dos interesses da Semântica, pois fala de estu-
dos que analisam “o corpo e a forma das palavras” (estes não são semânticos) e 
124
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
de estudos cuja preocupação seja com a “alteração dos sentidos”, a “escolha de 
novas expressões”, o “nascimento e a morte das locuções” (estes são semânticos). 
O termo generalizou-se e foi amplamente difundido, tendo sido utilizado pela 
primeira vez no Brasil num livro de Manuel Pacheco Silva Jr., publicado em 1903, 
Noções de Semântica. 
Os estudos semânticos tiveram, como não poderia deixar de ser, repercus-
sões em trabalhos realizados por especialistas do campo da estilística, da etimo-
logia, da sintaxe – e de muitos outros, como da pragmática e da análise do dis-
curso. Não é exagero dizer que a visão dos estruturalistas teve grande influência 
sobre os rumos que a semântica seguiu após a divulgação, na primeira metade 
do século passado, das ideias de Ferdinand de Saussure (a partir de 1906, na 
França) e Leonard Bloomfield (a partir de1914, nos Estados Unidos).
Saussure propõe que se investigue a maneira como, em determinado ponto do 
tempo, as formas e os sentidos estão inter-relacionados num determinado sistema 
linguístico. Ele define a tarefa da linguística como o estudo de signos por meio dos 
quais se exprimem ideias. Dentre os princípios que defende podemos citar:
 A distinção entre língua ( � langue) e fala (parole):
A língua é um produto social, um conjunto de convenções.
A fala é o uso individual, concreto.
 A conceituação de � língua como um sistema de relações:
A língua é um sistema de signos que se relacionam e cujos valores depen-
dem da coexistência entre eles.
 A definição de signo linguístico e suas noções de significante e significa- �
do, que incluem os conceitos de significação e valor, forma e substância, e 
as relações sintagmática (combinatória) e paradigmática (associativa):
A substância é o elemento abstrato que atua no plano do conteúdo e da 
expressão. A forma se concretiza na dicotomia significante + significado (ex.: 
“Como expressar a noção de criança do sexo masculino” x menino).
Semântica, a ciência das significações
125
Duas formas linguísticas podem ter uma mesma significação e valores di-
ferentes (ex.: cadeira e cátedra).
As relações paradigmáticas se organizam fora do discurso e se constroem 
a partir das associações que se podem fazer entre os signos linguísticos (ex.: 
os três paradigmas dos verbos).
Nas relações sintagmáticas, as combinações se baseiam no encadea-
mento de duas ou mais formas consecutivas num enunciado (ex.: a relação 
sujeito-predicado).
As características de � arbitrariedade e de linearidade do signo linguístico:
A relação que existe entre o significante e o significado é arbitrária. Os 
signos linguísticos estão dispostos linearmente no plano das dimensões es-
paciais, isto é, na linha do tempo. 
As perspectivas sincrônica e diacrônica no tratamento dos fatos linguísticos: �
A sincronia aborda os fatos da língua sob uma perspectiva estática e os 
analisa como ocorrem num dado momento histórico.
A diacronia aborda os fatos da língua numa perspectiva evolutiva, 
comparativa. A descrição diacrônica é, em síntese, uma comparação entre 
sincronias.
Bloomfield, embora sob outra perspectiva, também valorizou os estudos his-
tóricos da linguagem e publicou trabalhos que favoreceram o desenvolvimento 
dos estudos semânticos. Para ele (1961, p. 140), o significado de uma forma lin-
guística se define a partir da combinação de dois componentes: 
A situação em que o falante enuncia a forma linguística;
e
A resposta que ela provoca no ouvinte. 
126
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
Por isso, defende que a descrição linguística não pode ser meramente física, 
pois deve demonstrar, de preferência, os fatos estruturais, ou seja, o papel que 
os sons/fonemas representam no funcionamento da língua.
Na segunda metade do século XX, um tipo de estudo semântico que esteve 
em voga tinha como foco o campo vocabular, examinando possibilidades de 
análise para o léxico e estudando os “campos semânticos” e a esfera conceitu-
al das palavras. Hjelmslev (1971), por exemplo, ao retomar a noção saussuriana 
de que a língua é forma e distinguir, no signo linguístico, uma expressão e um 
conteúdo, tendo ambos forma e substância, não se afasta da maior fonte para 
os semanticistas.
Não nos parece totalmente desviada desse foco no léxico a chamada teoria 
gerativista (ou transformacional), pois afinal também lida com as sentenças que 
se podem formar a partir de regras dominadas pelos falantes quando fazem uso 
da língua. A diferença principal é que o gerativismo investiga regras subjacentes, 
as estruturas invariantes (ou profundas) que, por supressão, acréscimo ou per-
muta de constituintes, definem as estruturas superficiais.
Na versão inicial de sua teoria, Chomsky reconhece a existência de correlações sistemáticas 
entre forma e sentido, mas, em face da complexidade das questões semânticas e da alegada 
independência do plano sintático em relação ao semântico, declara ser possível deixar o 
estudo do significado “para depois”. (MARQUES, 1990, p. 52)
Certamente por isso, a pergunta que Chomsky (2002, p. 93) faz, “Como se 
pode construir uma gramática que não apele para o significado?”, é mostrada 
adiante por ele como uma questão malformulada, pois o correto seria indagar 
“Como se pode construir uma gramática?”. Sua conclusão, depois de dizer que 
não está seguro para apresentar um propósito rigoroso e específico quanto ao 
uso da informação semântica na construção de uma gramática, é direta: gramá-
tica e significado são autônomos e independentes. A despeito disso, é inegável 
que as correspondências entre “estruturas superficiais” e “estruturas profundas” 
giram em torno de entendimentos e equivalências de significados entre pala-
vras, sintagmas e expressões. A gramática gerativa, em qualquer de suas fases, 
não foge portanto do trabalho com o significado, ainda que se possa concordar 
com sua recomendação de que o interesse pela semântica precisa ser acompa-
nhado de um aprofundamento nos estudos da sintaxe.
Semântica, a ciência das significações
127
Semântica do textoe do contexto
O estudo da significação recebe muito pouca atenção nas aulas de língua 
portuguesa. Rodolfo Ilari (2001, p. 11) considera essa uma das características do 
empobrecimento no ensino. E argumenta:
O tempo dedicado a esse tema é insignificante, comparado àquele que se gasta com “problemas” 
como a ortografia, a acentuação, a assimilação de regras gramaticais de concordância e 
regência, e tantos outros, que deveriam dar aos alunos um verniz de “usuário culto da língua”.
Esse descompasso, prossegue Ilari, é “problemático quando se pensa na im-
portância que as questões da significação têm, desde sempre, para a vida de 
todos os dias”, isso sem falar no peso que se atribui às questões de interpretação 
de textos como instrumento de avaliação em exames importantes para ingresso 
em cursos superiores.
Para identificar e descrever as questões de semântica, uma boa estratégia é 
utilizar atividades que abordem “fatos de semântica”, que familiarizarão o estu-
dante com a nomenclatura básica que faz referência a esse tipo de análise – com 
a ressalva de que a ênfase na discussão terminológica, nesse âmbito, é desmoti-
vadora e prejudicial ao conhecimento do que é realmente importante no estudo 
dos significados.
Por exemplo, pode-se tomar como objetivo buscar a interpretação de frases 
ou textos utilizando-se versões lógicas que ajudem a captar determinados as-
pectos do significado. Outra estratégia é confrontar os princípios de verdade e 
de falsidade em relação ao significado. Também se pode tentar explicar as rela-
ções entre a forma linguística de um enunciado e as situações ou ainda o con-
texto em que ele ocorre.
D
iv
ul
ga
çã
o 
O
 E
st
ad
o 
de
 S
ão
 P
au
lo
.
128
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
Na tira de Calvin, o menino fala ao pai de uma convenção, uma espécie de 
pacto que existe entre os falantes. O diálogo é revelador: podemos trocar os 
significados dos significantes para não sermos compreendidos. Isso é muito 
“lubrificante”... 
A tirinha foi utilizada numa das perguntas do “Provão” de Letras de 2001 como 
um dos textos que serviam para examinar as proposições de Saussure sobre a 
arbitrariedade do signo linguístico.
Já no exame de 2008 (Enade), uma das questões de múltipla escolha usava a 
expressão “relações semânticas” no seu enunciado. As alternativas nos mostram 
que a banca aproveitou o farto material à disposição da ciência do significado 
para incluir nas mencionadas “relações” elementos morfológicos, sintáticos e le-
xicais, pois obviamente é com esses elementos (mas não só) que se faz a cons-
trução do sentido.
A questão 12 queria saber qual “a opção incorreta a respeito das relações se-
mânticas do texto verbal”, transcrito a seguir com a imagem alusiva que o acom-
panhava na prova:
D
iv
ul
ga
çã
o 
O
 E
st
ad
ão
.
Shirley Paes Leme tem no desenho a alma de sua obra. Os galhos retorcidos e enegrecidos pela 
fumaça são seus traços a lápis, que ela articula ora em feixes escultóricos, ora em instalações. 
Produz também delicados desenhos com a sinuosidade da fumaça. Para fazer a peça em 
homenagem à companhia de dança goiana Quasar, Shirley conta ter se inspirado na grande 
Semântica, a ciência das significações
129
concentração de energia no espaço necessária para que um espetáculo de dança se realize. 
“A ideia da coreografia só consegue ser concretizada com movimento porque todos ficam 
antenados para um trabalho conjunto”, diz. A obra de Shirley tem linhas-galhos que se movem 
em tempos diferentes, impulsionadas por motores ocultos. (TERRITÓRIO Expandido, 1999, 
p. 12-13. Adaptado)
As cinco alternativas confirmam uma das dimensões universais da lingua-
gem, a semanticidade. Afinal, como lembra E. Bechara (1999, p. 29), “na lingua-
gem tudo significa, tudo é semântico”. 
a) Mudando-se o foco da ênfase, que está na autora, “Shirley Paes Leme” (linha 1), para a ên-
fase na obra, “desenho” (linha 1), a alteração da primeira oração do texto ficaria adequada 
da seguinte forma: Está no desenho a alma da obra de Shirley Paes Leme.
b) Na linha 3, a preposição “com” tem a função semântica de introduzir uma característica 
para “delicados desenhos”.
c) Depreende-se do emprego do conector “ora [...] ora” em “ora em feixes escultóricos, ora em 
instalações” (linha 2), que “feixes escultóricos” se transformam em “instalações” e “instala-
ções” se transformam em “feixes escultóricos”.
d) A noção de reflexividade, ou seja, a de que agente e paciente de um verbo reportam-se ao 
mesmo referente, está presente tanto em “Shirley conta ter se inspirado” (linha 5) como em 
“linhas-galhos que se movem” (linha 8).
e) O desenvolvimento do texto permite depreender o significado da palavra “linhas-galhos” 
(linha 8) a partir dos significados de galho e de linha.
[A resposta correta está na letra C]
A opção (A) fala em foco da ênfase, algo que pode nos lembrar o fenômeno da 
topicalização, pois consiste em identificar o componente frasal que está à frente 
do enunciado. No texto original, o primeiro sintagma é o sujeito da oração, fato 
normal quando se escreve em ordem direta. A alteração proposta é que o foco 
passe a ser a palavra “desenho”, resultando na frase oferecida na alternativa, que 
coloca o foco no predicado: Está no desenho a alma da obra de Shirley Paes Leme.
A opção (B) sugere que há uma conexão entre “delicados desenhos” e “com a 
sinuosidade da fumaça”, pois considera que o objeto direto e seu verbo formam 
um conglomerado semântico do qual depende o adjunto adverbial: A desenhista 
produz (alguma coisa, isto é, delicados desenhos) com a sinuosidade da fumaça.
A resposta a ser marcada está na opção (C), pois os dois componentes da 
série alternativa (os feixes escultóricos e as instalações) são autoexcludentes e não 
podem se transformar mutuamente um no outro. Pelo contrário, quem se trans-
forma em feixes escultóricos ou em instalações são os traços a lápis da artista.
130
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
Na opção (D), fala-se em noção de reflexividade, algo que nos dois trechos 
transcritos se confirma pela presença do pronome “se”. Os verbos “inspirar + se” 
e “mover + se” estão construídos na chamada “voz reflexiva”, sim. Uma simplifica-
ção bem banal mostraria que significam, respectivamente, “Shirley tinha inspi-
rado Shirley” (= Shirley tinha se inspirado) e “as linhas movem as linhas” (= linhas- 
-galhos que se movem).
Por fim, na opção (E), afirma-se que o significado do substantivo compos-
to neológico “linhas-galhos” pode ser depreendido a partir dos significados de 
cada um de seus membros, o que de fato se confirma pela leitura do texto, onde 
as palavras “galhos” e “linhas” estão empregadas em seu sentido literal.
Para concluir, retomamos novamente as palavras de Ilari (2001, p. 12), que 
enfatiza: “as atividades voltadas para a significação não são contra outras práti-
cas pedagógicas”, o que se deseja é que o professor saiba combiná-las de modo 
adequado e proveitoso.
Texto complementar
Relação linguagem e conhecimento
(MARCUSCHI, 2004, p. 263-268)
Parece que entre as contribuições mais importantes da linguística con-
temporânea para o estudo da relação entre língua e conhecimento está jus-
tamente a descoberta de que a língua funciona como um sistema de conhe-
cimento estreitamente ligado ao ser humano em todos os aspectos. Assim, 
caberia discutir e analisar relações tais como:
linguagem e mente (processos cognitivos na relação com a língua); �
processos referenciais e sua relação com a noção de verdade; �
formação de categorias, prototipicidade e constituição de conceitos; �
metáforas, metonímias (espaços mentais de um modo geral). �
Sem negar que a língua se porta por regras e que obedece a determina-
ções específicas e precisas para sua organização morfossintática, a aborda-
Semântica, a ciência das significações
131
gem experiencial da linguagem, proposta por Lakoff e boa parte da linguísti-
ca funcionalista atual, acentua o aspecto prático do uso diário que as pessoasfazem da língua. Por exemplo: se alguém pede para descrever o que nos vem 
à mente quando ouvimos a palavra “carro”, podemos dizer que se trata de 
um objeto do tipo de um grande caixão, com portas, janelas, assentos, motor, 
freio, mudanças, freios, pneus, etc. Mas podemos também mencionar que se 
trata de um veículo confortável, prático, rápido, que dá mobilidade, e que dá 
status ao seu dono, ou então associar “carro” a certas experiências, como o 
primeiro caso de amor ou algum acidente, se tivermos tais experiências. Há 
mais “legitimidade” em alguma dessas associações do que em outras?
É deste modo que a experiência entra nas categorias que com a língua 
vamos construindo e nos seus usos. E os conhecimentos partilhados pelas 
pessoas que vivem em culturas similares permitem que se consiga intera-
gir sem maiores problemas. Mas isto exigirá ir além dos aspectos lógicos da 
língua, ou seja, exigirá que nos voltemos também para os usos ditos figurati-
vos e metafóricos como modos naturais de operar com a língua.
Suponha-se que alguém chega a nós e diz: “Meu carro quebrou.”
Mesmo não sabendo com certeza o que ocorreu (o que foi que pifou 
no carro), sabemos que o carro não anda mais; também sabemos que ele 
não quebrou do mesmo modo que uma cadeira quebra, ou que a ponta do 
lápis quebra e assim por diante. A transferência de experiências no uso de 
itens lexicais de um espaço mental estável para outro emergente é feita sem 
problemas. Fauconnier (1997) mostra isso com elegância suficiente. Assim, 
podemos usar o verbo “quebrar” para uma série de situações mesmo que a 
quebra não seja caracterizada pelo mesmo tipo de ação. 
Por exemplo:
- quebrar um copo (destruir fisicamente algo)
- quebrar um juramento (romper um compromisso)
- quebrar um recorde (ultrapassar um dado limite anterior)
- quebrar um banco (levar uma instituição à falência)
- quebrar a cabeça (tentar resolver um problema difícil)
- quebrar a cara (dar-se mal em alguma iniciativa)
132
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
Além desses, podemos fazer muitos outros usos desse verbo, todos possí-
veis e inteligíveis, desde que saibamos ordenar as experiências de que tratam. 
Isto é interessante, pois tem relevância nos usos diários da língua. Aquilo que 
damos a entender com nossos usos linguísticos não está previsto de uma 
vez por todas no sistema da língua e sim nas formas de vida. Talvez, como 
lembra Ariel (2002), seja este aspecto aquele mínimo que constitui o “sentido 
literal” e que deve ser visto sempre dentro de um formato de produção.
[...] Já não é irrelevante indagar-se quais as relações entre experiência e 
língua. Contudo, as respostas vão variar muito, pois há quem negue que a 
experiência entre na língua (por exemplo, os gerativistas em geral); e outros 
afirmam que a língua está intimamente ligada à experiência (por exemplo, 
Lakoff). Mas há os que julgam que a língua é um organizador da experiência 
e que nossos sentidos só são responsáveis pela sensação primária. Também 
há a posição de Austin (1962), para quem o mundo da sensação e da experi-
ência é incorporado como uma instância de decisões pragmáticas, de modo 
que eu posso fazer certas asserções com base em conteúdos mínimos. Supo-
nhamos, com Austin, que uma certa tarde estamos reunidos na casa de um 
amigo e de repente ouvimos um estampido e sem que se tenha qualquer 
outra informação além desse som, o dono da casa diz: 
- É a terceira batida de carro nesta semana nessa esquina.
De onde ele tirou essa conclusão? Que informações ele usou? Como se 
relacionam conhecimentos sensoriais e conhecimentos linguísticos? O co-
nhecimento linguístico é um estado mental, como quer Chomsky, ou é um 
estado sociocultural também?
[...] Segundo a posição de G. Lakoff (1977), “não há propriamente nenhu-
ma habilidade puramente linguística”, já que todas elas são permeadas e me-
diadas pela experiência em vários níveis de modo integrado. [...] Mas preten-
do ressaltar um aspecto fundamental: o século XX dedicou-se como nenhum 
outro ao estudo das relações entre linguagem e conhecimento. Cada vez 
mais, no século XX, a linguística foi se aproximando de questões cognitivas. 
Neste século XXI parece claro que trabalhar linguagem é trabalhar um fenô-
meno essencialmente cognitivo. Isso veio se firmando de tal modo que já é 
comum ouvir-se que a linguagem é um empreendimento sociocognitivo.
Semântica, a ciência das significações
133
Assim, pode-se dizer que a contribuição da linguística contemporânea 
para a compreensão da atividade cognitiva e para o próprio processo de pro-
dução e recepção do conhecimento se dá precisamente no entendimento 
da natureza cognitiva da linguagem.
Dicas de estudo
MARQUES, Maria Helena D. “O Objeto da Semântica”, primeiro capítulo do livro 
Iniciação à Semântica.
A autora mostra os pontos de vista de quem procura delimitar o objeto da se-
mântica e afirma que os mais variados aspectos da linguagem merecem exame 
quanto ao significado.
ULLMAN, Stephen. “Como se Constrói a Língua”, primeiro capítulo do livro Se-
mântica: uma introdução à ciência do significado.
O capítulo explica didaticamente temas importantes para os estudos semân-
ticos: o ato da fala, signos e símbolos, língua e fala, as unidades da língua (som, 
significado e relação).
Estudos linguísticos
1. Preencha as lacunas convenientemente.
 Nos estudos semânticos é importante a definição de signo linguísti-
co, que inclui as noções de _____________________________ e significado, 
de ___________________________ e substância, as relações sintagmática e 
____________________________ e o conceito de __________________________ e 
linearidade do signo, o que implica saber fazer a distinção entre os enfoques 
_______________________ e diacrônico.
134
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
2. Os quatro textos transcritos a seguir podem ser classificados a partir das 
suas relações de sentido (internas e externas). Reconheça qual deles (A) 
contém coerência, mas não tem coesão; (B) contém coesão, mas não tem 
coerência; (C) contém coesão e coerência; (D) não contém nem coerência 
nem coesão.
 Primeiro texto ( ):
 Tenho uma casa em Santos. O meu bisavô era português. Gosto muito do 
Rio de Janeiro. Na infância eu tomava banho quente. Quando os carros 
dos bombeiros passam, uma nuvem estava ontem no céu. Conheço bem 
a Filomena. Sempre tive um fascínio pelos bailes populares. Foi mesmo 
um susto!
 Segundo texto ( ):
 Manuel comprou um pastel. O pastel é feito com massa. A massa é uma 
substância mole e pastosa que se põe no fogo. Se onde há fumaça, há 
fogo, também onde há fogo há fumaça. Aliás, dizem que inalar fumaça 
pode até matar uma pessoa. Mas a gente não conhece uma pessoa só 
nesta vida. Por outro lado, a vida que a gente leva pode nos marcar para 
sempre. Mas isso é um tema que pode nos levar a falar em eternidade – aí 
eu desisto.
 Terceiro texto ( ):
 Ouvi falar de uma bicicleta elétrica que usa uma bateria de íon e pode 
ser recarregada em apenas 30 minutos. Cada carga tem autonomia 
suficiente para quase 50km de uso, e o melhor de tudo é que ela pode 
ser recarregada em qualquer tomada elétrica. Ela também funciona 
como uma bicicleta comum, com câmbio de 8 marchas e um corpo de 
alumínio.
 Quarto texto ( ):
 O jogo. O ingresso. A vontade. O amigo. O empréstimo. A fila. A compra. 
A camisa. A corneta. O Maracanã. A arquibancada. A entrada em campo. 
A charanga. Os gols. A goleada. O êxtase. O delírio. O pós-jogo. Quanta 
emoção! Epa, o dia seguinte...
Semântica, a ciência das significações
135
3. Leia atentamente a letra de Cazuza “Codinome Beija-Flor” (1985) e assinale as 
alternativas que contêm afirmações corretas a respeito das relações semânti-
cas do texto.
 Pra que mentir, fingir que perdoou, 
 Tentar ficar amigos sem rancor? 
 A emoção acabou, que coincidência é o amor: 
 A nossa música nunca mais tocou
05. Pra que usar de tanta educação 
 Pra destilar terceiras intenções, 
 Desperdiçando o meumel, devagarzinho flor em flor, 
 Entre os meus inimigos, Beija-Flor 
 Eu protegi seu nome por amor, 
10. em um codinome Beija-Flor 
 Não responda nunca meu amor, nunca 
 pra qualquer um na rua Beija-Flor 
 Que só eu que podia, 
 Dentro da tua orelha fria, 
15. Dizer segredos de liquidificador.
 Você sonhava acordada 
 Um jeito de não sentir dor, 
 Prendia o choro e aguava o bom do amor. 
 Prendia o choro e aguava o bom do amor.
a. ( ) A primeira estrofe da canção fala do início e do fim de um roman-
ce. Para isso, associa as palavras “amor” e “música” e se vale dos 
significados que ambas assumem no texto.
b. ( ) Os dois primeiros versos da segunda estrofe empregam a prepo-
sição “para” com valores idênticos e afirmativos quanto aos objeti-
vos da pessoa recém-separada.
c. ( ) Ao dizer “protegi teu nome por amor” fica claro que a necessidade 
de resguardar a identidade da pessoa amada tinha o amor como 
uma concessão. 
d. ( ) No trecho final da canção, a ênfase está na pessoa amada, como 
mostra o foco na palavra “você” no verso 16.
Partindo dos conceitos de Lexicologia, Lexicografia e Terminologia, este 
capítulo tem o objetivo de identificar características semânticas do léxico, 
examinando os casos de sinonímia, antonímia, homonímia e paronímia.
Noções de Lexicologia, 
Lexicografia e Terminologia
Para se começar a fazer qualquer estudo semântico que focalize o léxico 
em suas incontáveis possibilidades de significação, é indispensável conhe-
cer as disciplinas que lidam com ele de modo sistemático e científico. São 
três as ciências do léxico: a Lexicologia, a Lexicografia e a Terminologia.
Vamos examiná-las a partir de perguntas e respostas disponíveis na 
página do GTLex (Grupo de Trabalho de Lexicografia, Lexicologia e Termi-
nologia da Associação Nacional de Pós-Graduação em Letras e Linguística 
[ANPOLL]).1 Selecionamos alguns trechos, com pequenas adaptações aos 
nossos objetivos neste capítulo.
O que é léxico? �
Léxico é o conjunto das palavras de uma língua, também chamadas 
de lexias. As lexias são unidades de características complexas cuja orga-
nização enunciativa é interdependente, ou seja, a sua textualização no 
tempo e no espaço obedece a certas combinações. Embora possa pare-
cer um conjunto finito, o léxico de cada uma das línguas é tão rico e dinâ-
mico que mesmo o melhor dos lexicólogos não seria capaz de enumerá- 
-lo. Isso ocorre porque dele faz parte a totalidade das palavras, desde as 
preposições, conjunções ou interjeições, até os neologismos, regionalis-
mos, passando pelas terminologias, pelas gírias, expressões idiomáticas 
e palavrões.
1 As respostas são dos colegas de GT Adriana Zavaglia, Herbert Welker, Magali Duran, Patrícia Chittoni Reuillard, Gladis Maria de Bar-
cellos Almeida e Margarita Correia. O acesso ao GTLex está em: <www.mel.ileel.ufu.br/gtlex/> (para os três links).
Relações semânticas – I
138
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
O que é Lexicologia? �
Lexicologia é uma disciplina que estuda o léxico e a sua organização a partir 
de pontos de vista diversos. Cada palavra remete a particularidades diversas re-
lacionadas ao período histórico ou à região geográfica em que ocorre, à sua rea-
lização fonética, aos morfemas que a compõem, à sua distribuição sintagmática, 
ao seu uso social e cultural, político e institucional. Desse modo, cabe à Lexico-
logia dizer cientificamente em seus variados níveis o que diz o léxico, ou seja, a 
sua significação. Ao lexicólogo, especialista da área, incumbe levar a termo essa 
tarefa tão complexa sobre uma ou mais línguas.
O que é Lexicografia? �
Lexicografia é uma disciplina intimamente ligada à Lexicologia. Ela se ocupa 
da descrição do léxico de uma ou mais línguas, a fim de produzir obras de refe-
rência, principalmente dicionários (em formato impresso ou eletrônico) e bases 
de dados lexicológicas. Dessa lexicografia prática distingue-se a lexicografia te-
órica, ou metalexicografia, que estuda todas as questões ligadas aos dicionários 
(história, problemas de elaboração, análise, uso).
O que é Terminologia? �
A palavra terminologia pode ter duas acepções distintas. A primeira refere-se 
ao conjunto vocabular próprio de uma ciência, técnica, arte ou atividade pro-
fissional, como por exemplo a terminologia da Informática, da Biotecnologia, 
do Direito, da Música, etc. A segunda acepção designa não só o conjunto de 
práticas e métodos utilizados na compilação, descrição, gestão e apresentação 
dos termos de uma determinada linguagem de especialidade (= terminologia 
enquanto atividade), como também o conjunto de postulados teóricos neces-
sários para dar suporte à análise de fenômenos linguísticos concernentes à co-
municação especializada, incluídos aí os termos, evidentemente (= terminologia 
enquanto teoria).
Dicionários gerais e específicos
Há dicionários de todos os tipos, desde os que chegam às nossas mãos nos 
primeiros momentos de nossa vida de leitores (geralmente os encontramos em 
Relações semânticas – I
139
casa e nas escolas sob a forma de minidicionários ou pequenos dicionários) até 
os mais sofisticados (muitos se assemelham a enciclopédias).
Para falar de dicionários, é preciso primeiro lembrar que chamamos de verbe-
te cada um dos itens que nos dão informações sobre uma palavra. Outro termo 
importante no manuseio de um dicionário é o que se chama de entrada, ou seja, 
a própria palavra que é incluída na abertura de um verbete. O conjunto de ver-
betes recebe o nome de nominata.
Os dicionários variam muito quanto ao número de verbetes e quanto às fina-
lidades. Também variam quanto à temática ou ao modo de apresentar o léxico. 
Há os dicionários gerais, assim denominados porque seu objetivo é apresentar 
as palavras sem qualquer distinção quanto ao campo semântico (são monolín-
gues, bilíngues, trilíngues ou multilíngues) e os específicos, que podem tratar de 
qualquer assunto em particular (sinônimos, termos jurídicos, publicidade, pala-
vras cruzadas, filosofia, verbos, gírias, etc.).
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Alguns são verdadeiros tesouros lexicais (às vezes com mais de cem mil en-
tradas); outros prestam apoio didático (dicionários pedagógicos) e cultural (di-
cionários enciclopédicos, normalmente ilustrados).
140
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
A maioria dos dicionários se estrutura no modelo “palavra por palavra” (cha-
mam-se semasiológicos ou alfabéticos), mas há os que são organizados no 
modelo “ideia por ideia” (chamam-se analógicos ou onomasiológicos). Como o 
hábito das pessoas é saber qual o significado de uma palavra, a prática comum é 
consultar os dicionários alfabéticos. Os dicionários de ideias têm como principal 
diferença o fato de que o consulente pode recorrer a eles quando está à procura 
de uma palavra que não sabe qual é.
Vejamos a seguir como se organizam normalmente os verbetes dos dicioná-
rios alfabéticos. Para isso, reproduzimos o conteúdo do verbete “cada”, da edição 
eletrônica do Dicionário Aurélio (vrs. 5.0):
Na primeira linha a entrada do verbete.
Na segunda linha, uma informação etimológica (a origem da palavra), que 
poderia ser acrescida da sua datação na língua portuguesa (quando foi registra-
da por escrito pela primeira vez em nosso idioma).
Na terceira linha, a classe gramatical e o gênero.
Nas linhas seguintes, apresentam-se as informações semânticas, separadas 
por acepção (neste caso há duas acepções). As acepções são ilustradas por 
exemplos abonados (com autoria) ou não.
Relações semânticas – I
141
Ao final, duas locuções em que a palavra “cada” está presente, também com 
suas acepções e exemplos.
Observemos agora uma das maneiras como se pode organizar um dicionário 
analógico. O exemplo que escolhemos é do Dicionário Mais: da ideia às palavras. 
Escaneamos a página 518, onde destacamos o verbete “sapato”. Num dicioná-
rio alfabético comum, encontraríamos os significados desse substantivo. Aqui, o 
que se encontra são as palavras do campo semântico de “sapato”,incluindo uma 
ilustração que ajuda a identificar o vocabulário específico desse tipo de calçado, 
seja por um determinado uso (mocassim, sabrina, escarpim, sapatilha, tênis, ta-
manco, soca, chanca, chinelo, chinela, alpercata, alpergata, alparcata, alpargata, 
galocha, botina, patim, cáliga, sandália, botas de neve, babucha, soco, coturno, 
borzeguim), um dado relativo a ele (biqueira, gáspea, pala, palmilha, sola, tacão, 
atacador, salto, encospas, encóspias, alargadeira, forma, empenha, pomada, 
lustro, verniz, sapateira, sapateiro) ou uma expressão idiomática em que apareça 
(desconfiar = ter a pedra no sapato).
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Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
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Relações semânticas – I
143
Assim, qualquer que seja o resultado da obra elaborada pelo lexicógra-
fo (nome que se dá ao especialista da área), um dicionário tem o objetivo de 
levar ao seu leitor informações desconhecidas ou esquecidas. Por isso, elaborar 
e publicar dicionários é realizar um trabalho de utilidade pública, que serve ao 
homem comum e ao intelectual, ao estudante e ao pesquisador, disseminando 
o conhecimento e a cultura.
O primeiro dicionário de que se tem notícia foi feito há mais de 4 mil anos, 
como conta Mauro Villar. Isso aconteceu
[...] no tempo em que os amoritas dominavam a Babilônia e a Mesopotâmia, e no Egito o Médio 
Império florescia. A biblioteca em que foi encontrado pertencia aos reis de Ebla, cidade bíblica 
cujo fastígio se deu na Idade do Bronze, e que, destruída pelos hititas em 1600 a.C., só em 1968 
seria redescoberta no Norte da Síria. A biblioteca é formada por cerca de 17 mil tabletes de argila 
e fragmentos, e o dicionário, bilíngue, eblaíta-sumeriano, foi compilado entre 2350 e 2300 a.C.
Os gregos, a partir do século I de nossa, fizeram dicionários, assim como houve lexicógrafos 
escolásticos durante a Idade Média. Mas qual a afinidade dos primitivos dicionários com os 
atuais. Como nasceram os dicionários modernos?
Sua gênese está ligada a dois fenômenos. Em primeiro lugar, ao estabelecimento dos 
romanços como línguas nacionais, processo que se inicia seguramente já no fim do século 
IV, com a fixação posterior de sua gramática e seu levantamento lexical em relação ao latim. 
Em segundo lugar, com a prática das chamadas anotações interlineares (glosae) nos cimélios 
medievais (a partir do século VII), glosas essas que acabaram por grupar-se no final dos livros 
e posteriormente tornaram-se livros autônomos (glosarii). Os primeiros dicionários dessa nova 
fase, assim como acontecia com a maior parte dos da Antiguidade, eram bilíngues, geralmente 
confrontando o latim com as línguas vernáculas. Seu público-alvo eram, não só os estudantes, 
mas viajantes, comerciantes, evangelizadores, diplomatas, etc.
O primeiro dicionário do português é considerado o do bacharel formado em Cânones e 
poeta Jerônimo Cardoso – uma obra bilíngue: Hieronymi Cardosi Lamacensis Dictionarium ex 
Lusitanico in latinum sermonem. Ulissipone: Ex offic. Joannis Alvari 1562. Houve antes do seu 
aparecimento alguns glossários, mas obras pequenas, pouco importantes. Cardoso foi professor 
de Humanidades na Universidade, quando esta tinha sede em Lisboa e morreu nessa cidade em 
1569. Este seu famoso dicionário teve diversas edições, até 1694. (VILLAR, 2002, p. 195-196)
Para seguirmos com essa história até chegarmos aos dicionários brasileiros, 
vamos dar um pequeno salto no tempo, sem deixar de dizer que, no século XVIII, 
foi publicado em Portugal um trabalho monumental, em dez volumes (dois eram 
suplementos), o Vocabulário Português e Latino, do padre Rafael Bluteau (primei-
ro tomo no ano de 1712, e o décimo tomo em 1728). Embora seja um dicionário 
bilíngue, a parte relativa à nossa língua é praticamente uma descrição do léxico 
português daquela época.
Essa referência é importante porque é a obra de Bluteau que dá origem ao mais 
conhecido dicionário brasileiro do século XIX, o Dicionário de Morais, de Antônio 
144
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
de Morais Silva, natural do Rio de Janeiro (onde nasceu em 1757). O livro foi pu-
blicado (com a autoria principal atribuída a Bluteau) em Portugal em 1789 e, por 
isso, muitos não o consideram o primeiro dicionário brasileiro. A segunda edição 
(de 1813) já estava inteiramente sob a responsabilidade de Morais, que também é 
o autor das edições de 1823 e de 1831 (póstuma), e é nesta que encontramos um 
argumento para defender a ideia de que Antônio Morais Silva é sim o autor do pri-
meiro dicionário brasileiro, como explica Gladstone Chaves de Melo (1947, p. 14):
Entretanto, o velho Morais prosseguia na sua penosíssima faina de vocabularista, “no sertão de 
Pernambuco”, como nos informam os referidos editores, e, ali, “em horas furtadas à vida rústica, 
tornava a ler e conferir os autores capitais da Língua Portuguesa e ainda achava que recopilar 
deles artigos que não vêm nos dicionários mais amplos” (Prólogo dos editores da 4.a edição).
O Morais, como ficou conhecido, teve depois disso sucessivas reedições, as 
quais foram sendo desvirtuadas por seus editores e reorganizadores. Gozou, 
porém, de alto prestígio, como atesta o seguinte comentário de Machado de 
Assis sobre uma palavra cujo uso ele defendia sob a alegação de que “lá a pôs no 
seu dicionário o nosso velho patrício Morais” (Bons Dias!, 22 mar. 1889).
Entre os principais dicionários gerais brasileiros contemporâneos, podemos 
citar os Dicionários Houaiss, Aurélio, Caldas Aulete2, Michaëlis e Borba.
Sinonímia e antonímia
Relações semânticas entre palavras podem ter muitas facetas a explorar. Duas 
das mais conhecidas são a sinonímia e a antonímia, que podem ser definidas a 
partir da propriedade que dois termos têm de serem empregados como substi-
tutos um do outro.
Se, a princípio, esse emprego não causar prejuízo no que se pretende comu-
nicar, diremos que há sinonímia entre eles. Se a substituição, porém, resultar em 
significações opostas, haverá antonímia entre eles.
Sinonímia = equivalência semântica
Antonímia = oposição semântica
2 O dicionário Caldas Aulete só existe na versão on-line (não possui uma versão impressa). É instalado gratuitamente nos computadores de qualquer 
usuário da internet. Por ser permanentemente atualizado, constitui-se num extraordinário banco de dados da língua portuguesa. Para baixá-lo, 
basta entrar na página: <www.lexikon.com.br/colaboracao/convide.aspx> e clicar em “download”.
Relações semânticas – I
145
Vamos exemplificar os dois casos imaginando a situação do diretor de uma 
firma que vai sortear passagens aéreas entre os funcionários por ocasião dos fes-
tejos de fim de ano. Se ele escolher qualquer das frases seguintes, nada mudará 
na sua comunicação para os empregados:
1. Amanhã é dia de fazer o sorteio das duas passagens para Salvador.
2. Amanhã é dia de realizar o sorteio das duas passagens para Salvador.
3. Amanhã é dia de proceder ao sorteio das duas passagens para Salvador.
Os verbos “fazer”, “realizar” e “proceder”, nesse contexto, são intercambiá-
veis, são sinônimos. O chefe diz que vai fazer/realizar/proceder (a)o sorteio, mas 
escuta um dos funcionários comentar, desconfiado:
4. Será que este ano corremos de novo o risco de, depois, ele desfazer o sor-
teio e entregar as duas passagens para algum puxa-saco?
5. Será que este ano corremos de novo o risco de, depois, ele melar o sorteio 
e entregar as duas passagens para algum puxa-saco?
6. Será que este ano corremos de novo o risco de, depois, ele anular o sorteio 
e entregar as duas passagens para algum puxa-saco?
Agora, o trio de verbos é outro. Também são intercambiáveis e, nessa situa-
ção, servem como sinônimos entre si. No entanto, também servem como antôni-
mos dos três anteriores, haja vista que, no primeiro caso, o sorteio “tem validade” 
e, no segundo, “fica inválido”.
As relações de antonímia e de sinonímia podem acontecer no âmbito da mor-
fologia, com atroca dos significantes (fazer = realizar) ou com o acréscimo de 
algum morfema (fazerXdes+fazer), mas também podem se expressar por meio 
de estruturas sintáticas diferentes. É o que temos nas duas frases seguintes:
7. Assassinaram o camarão. Assim começou a tragédia no fundo do mar. O 
caranguejo levou preso o tubarão.
8. Alguém assassinou o camarão. Assim começou a tragédia no fundo do mar. 
O tubarão foi levado preso pelo caranguejo.
Em (7) estão transcritos os três primeiros versos do samba “O Assassinato do 
Camarão”, de Zerê e Ibraim. Na reescritura (8), a sinonímia acontece por substi-
tuição sintática, alterando-se o tipo de sujeito ou a voz do verbo, mas mantendo- 
-se a significação original.
146
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
Homonímia e paronímia
Duas outras relações semânticas importantes que se estabelecem entre palavras 
são a homonímia e a paronímia, que acontecem em decorrência da propriedade que 
dois termos têm de se aproximarem em virtude de sua composição fonológica.
Se as duas palavras tiverem uma estrutura fonológica idêntica, diremos que 
há homonímia entre elas, mas se suas pronúncias forem apenas semelhantes, 
haverá paronímia entre elas.
Homonímia = identificação fono-ortográfica
Paronímia = aproximação fono-ortográfica
Os vocábulos que se pronunciam da mesma forma, mas cujos sentidos e gra-
fias são diferentes são chamados homônimos homófonos, como nos casos de 
“cessão” (= ato de ceder), “seção” (= repartição) e “sessão” (= espaço de tempo) ou 
de “coser” (= costurar) e “cozer” (= cozinhar).
Palavras que se escrevem com as mesmas letras, mas cujas pronúncias e sig-
nificados são diferentes são chamadas homônimas homógrafas, o que não deixa 
de ser uma contradição quanto à definição, pois nesse caso não há estrutura fo-
nológica idêntica, mas apenas ortográfica. De todo modo, a tradição gramatical 
assim classifica pares como “consolo” (ô) e “consolo” (ó) ou “gelo” (ê) e “gelo” (é).
Os vocábulos de significado diverso que se pronunciam e se escrevem do 
mesmo modo são homônimos perfeitos: “cedo” (advérbio) e “cedo” (presente 
de “ceder”); “manga” (fruta) e “manga” (parte do vestuário). Nesses exemplos 
há homonímia, que não deve ser confundida com a polissemia (proprieda-
de semântica de uma única palavra recobrir mais de uma significação, como 
“anjo”: ser espiritual ou pessoa boa). Repita-se: na homonímia há duas palavras 
(e dois significados), e na polissemia há apenas uma palavra (e mais de um 
significado).
Homonímia – duas ou mais palavras, cada uma com a sua significação
Polisssemia – uma única palavra com dois ou mais sentidos
Relações semânticas – I
147
Diferenças entre sinônimos
(ULLMAN, 1964, p. 291-295)
“As palavras”, observou certo dia o Dr. Johnson, “raras vezes são exatamente 
sinônimas”. Macaulay exprimiu a mesma ideia em termos que se recomendam 
por si próprios ao linguista moderno: “Modifica a estrutura da oração, substitui 
um sinônimo por outro; e todo o efeito será destruído.” Na linguística contem-
porânea tornou-se quase axiomático que a completa sinonímia não existe. Se-
gundo as palavras de Bloomfield, “cada forma linguística tem um significado 
constante e específico. Se as formas são fonemicamente diferentes, supomos 
que os seus significados são também diferentes... Supomos, em resumo, que 
não há sinônimos reais.” Muito antes de Bloomfield, Bréal tinha falado de uma 
“lei de repartição” na linguagem, segundo a qual “palavras que deveriam ser 
sinônimas, e que o eram efetivamente, tomaram, entretanto, sentidos diferen-
tes e não mais ser empregadas uma por outra” (1925 e 1992, p. 33).
Embora haja de fato uma grande dose de verdade em tais afirmações, 
seria errôneo negar a possibilidade de completa sinonímia. Bastante para-
doxalmente, encontra-se onde menos seria de esperar: nas nomenclaturas 
técnicas. O fato de os termos científicos serem precisamente delimitados e 
emocionalmente neutros permite-nos averiguar de modo absolutamente 
E os vocábulos de significado e pronúncia diversos que se distinguem grafi-
camente apenas pela acentuação gráfica são homógrafos imperfeitos: “convém” 
e “convêm” (do verbo convir); “camelo” (animal) e “camelô” (vendedor ambulante)
Há paronímia quando os vocábulos são diferentes, mas sua pronúncia e grafia 
são semelhantes. É o que ocorre em “ratificar” (confirmar) e “retificar” (corrigir) ou 
“segmento” (pedaço de um todo) e “seguimento” (continuidade).
A homonímia e a paronímia são fenômenos que acontecem nas fronteiras 
das distinções fonológica e semântica e, por isso, é um procedimento didático 
natural redobrar a atenção contra os perigos de se empregar um homônimo ou 
um parônimo pelo outro.
Texto complementar
148
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
definido se dois deles são completamente permutáveis, e a sinonímia abso-
luta não é, de modo algum, pouco vulgar. Estudos recentes sobre a formação 
de terminologias industriais mostraram que vários sinônimos surgirão por 
vezes em torno de uma nova invenção, até que, eventualmente, se separam. 
Tal sinonímia pode mesmo persistir durante um período indefinido. [...] Em 
fonética, consoantes como s e z são conhecidas como espirantes ou fricati-
vas e o mesmo escritor pode empregar ambos os termos sinonimamente. A 
própria semântica tem um sinônimo um tanto deselegante em semasiologia, 
que é agora pouco usada em inglês e em francês, mas que está firmemente 
estabelecida nalgumas outras línguas. [...]
No entanto, é perfeitamente verdade que a absoluta sinonímia vem 
contra o nosso modo habitual de considerar a linguagem. Quando vemos 
palavras diferentes, supomos que deve haver também alguma diferença no 
significado, e, na vasta maioria dos casos, há de fato uma distinção, muito 
embora ela possa ser difícil de formular. Muito poucas palavras são comple-
tamente sinônimas no sentido de serem permutáveis em qualquer contexto, 
sem a mais leve alteração do significado objetivo, do tom sentimental ou do 
valor evocativo.
W. E. Collinson (1939, p. 61-2) fez uma interessante tentativa de es-
quematizar as diferenças mais típicas entre sinônimos. Distingue nove 
possibilidades1:3
1) Um termo é mais geral que outro – recusar – rejeitar.
2) Um termo é mais intenso que outro – repudiar – rejeitar.
3) Um termo é mais emotivo que outro – declinar – rejeitar.
4) Um termo pode implicar aprovação ou censura moral enquanto o ou-
tro é neutro – despida – nua – pelada.
5) Um termo é mais profissional que outro – óbito – morte.
6) Um termo é mais literário que outro – descansar – morrer.
7) Um termo é mais coloquial que outro – marrento – zangado.
8) Um termo é mais local ou dialetal que outro – farol – semáforo.
9) Um dos sinônimos pertence à linguagem infantil – dindinha – madrinha.
1 Os exemplos foram adaptados ou atualizados para este capítulo.
Relações semânticas – I
149
Dicas de estudo
BORBA, Francisco da Silva. “Expansão e Retração Semântica”, item 2 do capítulo 
“Alterações Semânticas”, do livro Organização de Dicionários.
O trecho mostra variadas ocorrências de polissemia, homonímia, sinonímia, 
paronímia.
ILARI, Rodolfo; GERALDI, João Wanderley. “A Significação das Palavras”, capítulo 
do livro Semântica.
Os autores examinam o sentido das construções gramaticais, descrevendo 
e interpretando como as oposições, as relações e os implícitos atuam em frases 
completas.
Estudos linguísticos
1. Reconheça se as afirmativas são verdadeiras (V) ou falsas (F), corrigindo-as 
conforme o caso.
a. ( ) O estudo do léxico segundo suas peculiaridades históricas, geográfi-
cas, gramaticais, sociais, culturais e políticas é tarefa da Lexicologia.
b. ( ) A Lexicografia tem como objeto de estudo a descrição do léxico de 
uma ou mais línguas, a fim de produzir obras de referência, princi-
palmente dicionários.
c. ( ) Um dos objetivos da Terminologia é reunir um conjunto vocabular 
próprio de uma ciência, técnica, arte ou atividade profissional.
d. ( ) O conjunto de entradas de um dicionáriochama-se verbete ou no-
minata, indicando cada um dos itens que nos dão informações so-
bre uma palavra.
e. ( ) Os dicionários gerais se estruturam num modelo alfabético, diferin-
do dos dicionários específicos, que são organizados por ideias.
2. O poema a seguir se chama “Manhã” e é de autoria de Murilo Mendes (1972, 
p. 128).
 As estátuas sem mim não podem mover os _______________ (braços / seios)
150
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
 Minhas antigas namoradas sem mim não podem amar seus ____________ 
(maridos / esposos)
 Muitos versos sem mim não poderão ________________ (viver / existir).
 É inútil deter as aparições da __________________ (divindade / musa)
 É difícil não amar a __________________ (existência / vida)
 Mesmo explorado pelos outros __________________ (indivíduos / homens)
 É absurdo achar mais realidade na lei que nas ___________ (estrelas / sereias)
 Sou poeta __________________ (irrefutavelmente / irrevogavelmente).
 Preencha as lacunas com as palavras que, do ponto de vista semântico, lhe 
pareçam as mais apropriadas ao texto, justificando sua escolha. Identifique 
se há palavras que não podem preencher as lacunas coerentemente.
3. Reescreva o texto abaixo, corrigindo os empregos equivocados das palavras 
homônimas e parônimas.
 Nossos colegas pediram despensa do serviço porque já se sabe que infrigi-
ram o regulamento. Por não terem comprido o disposto, colocaram em xeque 
suas carreiras e por hora vão espiar suas culpas numa xácara longínqua.
Relações semânticas – I
151
Este capítulo tem por objetivo identificar características semânticas 
do léxico, examinando os casos de hiperonímia, hiponímia, eponímia e 
antonomásia.
Campos associativos, conceituais e semânticos 
A imagem empregada por Ferdinand de Saussure (1972, p. 146) para 
explicar as associações que as palavras mantêm entre si sugere que cada 
uma delas é como se fosse o centro de uma constelação, “o ponto para 
onde convergem outros termos coordenados cuja soma é indefinida”.
cruzamento
interseção fumacento
cruzar isolamento
esquina suculento
cruzador fechamento
etc.
etc. etc.
etc.
A associação entre palavras pode ser feita a partir de ligações de sen-
tido, mas também pode acontecer por razões puramente formais ou até 
por uma combinação entre forma e significado. A “constelação” da palavra 
“cruzamento” mostra quatro linhas, assim justificáveis:
linha 1 – “cruzamento / interseção / esquina”: associação semântica; �
linha 2 – “cruzamento / cruzar / cruzador”: associação morfosse- �
mântica externa (identidade do radical, fator determinante para re-
conhecer palavras cognatas, também chamadas palavras da mesma 
família etimológica);
Relações semânticas – II
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Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
linha 3 – “cruzamento / isolamento / fechamento”: associação morfosse- �
mântica interna (identidade do sufixo formador de substantivo abstrato);
linha 4 – “cruzamento / fumacento / suculento”: associação fonológica �
(identidade das terminações). 
Como Saussure diz que “a soma é infinita”, a título de ilustração poderíamos 
pensar em fazer outras associações a partir dessa palavra.
Por exemplo, uma linha 5 nos levaria a uma série como “cruzamento / trânsito / au-
tomóveis” ou a outra como “cruzamento / chute / gol”, se as associações fossem feitas 
considerando o cruzamento de duas ruas ou o cruzamento como uma jogada numa 
partida de futebol. Aqui, teríamos também associações exclusivamente semânticas.
Mas uma linha 6 talvez nos mostrasse uma série de palavras com quatro 
sílabas e dez letras: “cruzamento / flamejante / supertinta” (associação fono- 
-ortográfica). E assim outras “linhas” poderiam ser formadas mediante outras 
hipóteses coerentes.
Como se percebe, as associações não são feitas apenas nas relações gramati-
cais, pois se constroem a partir do raciocínio humano e, portanto, não há limites 
para elas. A razão para o surgimento do verbo “bebemorar” (incorporado recente-
mente aos dicionários portugueses) é o verbo “comemorar”. A associação semân-
tica que serviu de base para essa criação é morfologicamente infundada: “come-
morar” é derivado de “memorar” e não de “comer”. Apesar disso, as duas primeiras 
sílabas fazem uma homonímia com o verbo “comer” e por esse motivo, “comemo-
rar” pode dar origem a “bebemorar” (e – por que não? – a fumamorar ou a dormi-
morar...), se pensarmos na coerência da aproximação de “comer” com “beber”.
Como a Lexicologia procura definir os campos linguísticos, é preciso distin-
guir os tipos de relações associativas entre as palavras e, para isso, usaremos as 
expressões campo associativo, campo conceitual e campo semântico.
Campo associativo – expressão genérica que permite reunir palavras a �
partir de qualquer associação coerente (semântica ou não) que exista ou 
se faça entre elas: nos seis exemplos dados a partir da palavra “cruzamento”, 
todas as “linhas” são de campos associativos.
Campo conceitual – expressão que se refere ao contingente de palavras �
que se agrupam, ideologicamente, por meio de uma rede de associações 
e interligações de sentido: nos seis exemplos dados a partir da palavra “cru-
zamento”, apenas as “linhas” 1 e 5 são de campos conceituais.
Relações semânticas – II
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Campo semântico – expressão que se refere ao contingente de palavras �
que se agrupam, linguisticamente, por meio de uma rede de associações 
e interligações de sentido: nos seis exemplos dados a partir da palavra “cru-
zamento”, apenas as “linhas” 2 e 3 são de campos semânticos.
Por esse raciocínio, a teoria dos campos conceituais (que alguns autores 
também chamam, por comodidade didática, de campos associativos) considera 
os agrupamentos de palavras para construir os esquemas representacionais da 
sociedade. Já a teoria dos campos semânticos privilegia a estrutura lexical como 
um todo. Convém, porém, advertir que é uma prática comum usar a expressão 
campo semântico genericamente, com o mesmo sentido que aqui demos apenas 
para campo associativo.
Hiperonímia e hiponímia 
Nos estudos do léxico, as relações semânticas podem ser estabelecidas por 
meio de um critério que conjuga as ideias de “parte” e “todo”. Durante a redação 
de um texto, quando precisamos evitar a repetição de uma palavra, temos à dis-
posição uma ferramenta coesiva importante: os hiperônimos e os hipônimos.
Uma definição bem simples para essas palavras dirá que o hipônimo é a pala-
vra particularizadora e que o hiperônimo é a palavra generalizadora.
Hiperonímia = do significado geral para o específico.
Hiponímia = do significado específico para o geral.
Por exemplo: se nos pedirem uma pequena lista com o nome de quatro 
animais, talvez nossas lembranças imediatas recaiam sobre aqueles com os 
quais convivemos, como o cachorro, o gato, o cavalo e o papagaio. Talvez nos 
venham ideias menos óbvias e a lista seja feita de animais nada amistosos, 
como o lobo, o jacaré, o orangotango e o urubu. Quem sabe, poderíamos fazer 
um rol apenas com os nomes daqueles que, quando se aproximam, nós é que 
ficamos hostis, como a barata, o rato, o mosquito e a lacraia. Mas nada im-
pediria que uma preferência “politicamente correta” nos levasse a fazer uma 
lista-denúncia, com nomes de animais já extintos ou em extinção, como o di-
nossauro, o mamute, o auroque e o dodó (extintos) ou o panda, o tucano, a 
ariranha e o mico-leão (em extinção).
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Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
Todos esses substantivos são específicos, se considerarmos que os tomamos 
pensando num termo genérico dado: a palavra “animal” é o hiperônimo, e cada 
bichinho citado é um dos hipônimos.
Hipo- (prefixo grego): posição inferior, subordinada (= sob, sub)
Hiper- (prefixo grego): posição superior, elevada (= sobre, super)
No entanto, essa relação entre o termo geral e o termo específico pode ser 
outra. Uma palavra específica como “dinossauro”, hipônimo em relação ao con-
junto “animais”, seu hiperônimo, pode fazer parte de um outro conjunto, onde 
assumeo papel de termo genérico. É o que mostra a figura abaixo, com o agora 
hiperônimo “dinossauros” e os hipônimos que listam alguns de seus tipos: o bra-
quiossauro, o diplodoco, o camptossauro, o ancilossauro, o hadrossauro, o tira-
nossauro, o estegossauro e o celófise.
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Vamos examinar um texto de informação científica sobre um desses dinos-
sauros, marcamos em itálico todas as palavras ou expressões substantivas que 
Relações semânticas – II
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se referem especificamente aos celófises. O objetivo é verificar como o redator 
colocou em uso as relações de hipo- e hiper(o)- nímia que esse termo possui.
(1) Em 1947, em uma expedição ao Ghost Ranch, no Novo México, EUA, paleontólogos 
fizeram uma grande descoberta: um grande número de fósseis de dinossauros, mais tarde 
denominados celófises. Esses fósseis eram todos parte de um grupo provavelmente devastado 
por uma inundação no período triássico tardio. Os animais variavam de filhotes recém-saídos 
do ovo a adultos com pouco mais de dois metros de comprimento.
O corpo do celófise tinha uma cauda longa e esguia. Suas mandíbulas eram dotadas de dezenas 
de dentes afiados. O celófise era um predador incomum, pois vivia em grandes rebanhos, algo que 
não acontece no mundo atual. Animais como o caribu ou o gnu, que se alimentam pastando, vivem 
em rebanhos, mas o mesmo não ocorre com os predadores, que não vivem em grandes grupos. 
Áreas pisoteadas em torno do Ghost Ranch sugerem que os rebanhos de celófises migravam.
As patas traseiras do animal eram fortes e ágeis. Ele tinha pés com três dedos longos e um 
curto, e saltava rapidamente para escapar de predadores de maior porte, como o phytossauro, 
um animal semelhante ao crocodilo. As patas dianteiras do celófise eram pequenas e 
provavelmente não eram usadas para caminhar. O mais provável é que fossem usadas para 
recolher alimentos. A cabeça do animal era grande, com um focinho pontudo e olhos grandes. 
O celófise era um mestre da emboscada. É possível que esse predador com cerca de 45 quilos 
se alimentasse de peixes e, por isso, vivesse à margem de rios, caminhando entre a vegetação 
rasteira e sempre atento a inimigos. Também comia insetos, répteis semelhantes a lagartos e 
outros pequenos dinossauros.
Além dos esqueletos do Ghost Ranch, no Novo México, foram encontrados celófises no Painted 
Desert do Arizona. Os troncos petrificados encontrados lá, muitos com comprimento superior a 
30 metros, mostram que aparência tinham as florestas pelas quais esses dinossauros corriam. 
Eles estão entre os mais antigos (se não são os mais antigos) dinossauros da América do Norte. 
O nome celófise quer dizer “forma oca”, em referência aos ossos ocos de suas pernas, que 
se assemelhavam aos ossos dos pássaros, desenvolvidos para ter o mínimo de peso com o 
máximo de força. A única espécie conhecida é o Coelophysis bauri. 
Nas caixas torácicas de dois adultos encontrados no Ghost Ranch havia esqueletos de jovens 
celófises. Eles eram grandes e desenvolvidos demais para que fossem bebês ainda não nascidos. 
Isso sugere que os celófises podem ter sido canibais e que a presa teria sido engolida inteira. 
Os parentes do celófise incluem o podoquessauro; o halticossauro e o protocompsógnato, da 
Alemanha; e o sintarso do Zimbábue e Arizona. (CELÓFISE, 2008)
Sem incluirmos na contagem as ocorrências em que o nome do animal foi 
substituído por outros processos coesivos (como os pronomes retos, oblíquos e 
possessivos ou a elipse), o texto empregou por dezenove vezes uma forma subs-
tantiva que nos informa algo sobre os celófises, sendo onze as passagens em 
que a opção foi pela própria palavra “celófise”. Mas o redator também usou os 
hiperônimos “animal” (três vezes), predador e dinossauro (duas vezes cada um) e 
o hipônimo sinônimo Coelophysis bauri (uma vez). A estratégia mostra que, em 
cada parágrafo, o substantivo principal foi usado comedidamente, a saber: uma 
vez no 1.o; três vezes no 2.o; duas vezes no 3.o; uma vez no 4.o; uma vez no 5.o; 
duas vezes no 6.o e uma vez no 7.o. 
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Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
O terceiro parágrafo, que é o maior do texto, tem sete informações sobre o 
celófise. Duas delas aparecem com o próprio hipônimo, duas com o hiperônimo 
“animal”, uma com o hiperônimo “predador” e duas (indiretas) com as expressões 
que sublinhamos “predadores de maior porte” (o que mostra o celófise como um 
predador de menor porte) e “outros pequenos dinossauros” (o que confirma que 
o celófise não é de grande porte).
A conclusão a que se chega é que o autor do artigo organizou adequadamente 
esse jogo alternativo entre o hipônimo e seus hiperônimos (mais de um, como vimos 
pela explicação). Afinal, nessa relação entre o específico e o geral, uma regra de três 
se reproduz quando pensamos na progressão: assim como todo celófise é um di-
nossauro, todo dinossauro é um predador, e todo predador é um animal. A recíproca 
(partindo do geral para o específico), porém, é falsa, pois nem todo animal é preda-
dor, nem todo predador é um dinossauro e nem todo dinossauro é um celófise.
Antonomásia e eponímia 
Um outro tipo de relação semântica que se pode examinar no estudo do 
léxico é o que costuma ocorrer nos intercâmbios funcionais entre substantivos 
próprios e comuns, ainda conjugando as ideias de “parte” e “todo”. Se escreve-
mos um texto sobre uma pessoa ou sobre um lugar, é provável que tenhamos 
de pensar em algo que nos faça evitar a repetição desse nome próprio – caso 
em que entra em cena a antonomásia. Numa outra situação, o que está à nossa 
disposição não é uma palavra substituta, mas um substantivo próprio transfor-
mado metonimicamente em comum – caso da eponímia.
Pode-se dizer, então, que esses dois recursos estão interligados por uma es-
pécie de cruzamento morfossemântico.
A antonomásia faz parte de um grupo de termos (epítetos, cognomes, apeli-
dos e alcunhas) e consiste no emprego de substantivos comuns (ou expressões 
substantivas) tomados a partir de uma motivação metonímica ou metafórica – 
conhecida ou desconhecida – como substitutos de um nome próprio e, em de-
corrência disso, às vezes redigidos também como substantivos próprios.
Ilustram o que dissemos acima as referências que se fazem a alguns escritores, 
ao longo do tempo, utilizando-se um sem-número de antonomásias, algumas 
das quais ultrapassam gerações e se mostram como “sinônimos” perfeitos para 
suas matrizes semânticas. Estão neste caso expressões como “Boca do Inferno”, 
“Poeta dos Escravos”, “Águia de Haia” e “Poetinha”, que podem ser empregadas 
Relações semânticas – II
159
como identificadoras dos nomes dos autores no lugar dos quais se põem, com 
pouca margem de risco quanto a uma possível incompreensão.
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Antonomásia: “poetinha” substitui na manchete o antropônimo Vinicius de Moraes.
Mas as antonomásias não são recursos exclusivos dos antropônimos. Também 
os nomes de lugar (topônimos) podem ser substituídos, como vemos em “Veneza 
Brasileira” (em lugar de Recife), “Cidade Maravilhosa” (em lugar de Rio de Janeiro) 
ou “Princesa do Sertão” (Feira de Santana).
Recife, a Veneza brasileira (antonomásia com motivação metafórica por cau-
sa dos canais que passam por dentro das duas cidades).
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lic
o.
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Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
Lugares famosos, vilarejos perdidos no mapa, pessoas comuns, personagens 
da história, políticos, artistas, atletas e escritores – todo substantivo próprio se 
enquadra da mesma forma nesse processo de combinação entre nome qualifi-
cado e qualificador do nome. 
Um estádio de futebol pode ser conhecido como o Caldeirão do Boca tanto 
quanto uma praia pode ser a Princesinha do Mar. Se um bairro fica famoso como 
o Berço do Samba, por que não dizer que a minha cidade é o Túmulo do Funk? 
Alguém pode ser o Fenômeno, o Matador, o Patriarca da Independência, o 
Mestre do Suspense, o Deusda Raça, a Namoradinha do Brasil, a Musa do Verão, 
o Nazareno, o Careca do 302, a Garota de Ipanema. Tudo se admite nessa relação, 
desde que se estabeleça alguma coerência entre os dois componentes: de um 
lado o substantivo próprio, de outro o seu “apelido”, sua antonomásia. 
De todo modo, sempre que se usa uma expressão em vez de uma única pa-
lavra para se fazer essa substituição, diz-se que a antonomásia é também uma 
perífrase (pois substitui o que poderia ser expresso por um menor número de 
palavras). Isso quer dizer que esses dois termos, embora não sejam sinônimos, 
às vezes coincidem. Por exemplo, os ex-jogadores Romário e Edmundo têm an-
tonomásias (ou apelidos, epítetos, cognomes) muito conhecidas, “Baixinho” e 
“Animal” (não há perífrase em nenhum dos dois casos). Mas chamar Pelé de “Rei 
do Futebol” e Zico de “Galinho de Quintino” é o que caracteriza uma antonomá-
sia perifrástica.
Os dois trechos seguintes mostram o emprego da antonomásia como ele-
mento de coesão textual: o primeiro é o recorte de uma notícia de jornal; o se-
gundo reproduz os dois parágrafos iniciais de um texto acadêmico. Ambos se 
referem a Machado de Assis.
(2) Há três meses, o Ministério da Cultura anunciou que 2008 será o Ano Nacional de 
Machado de Assis. Em setembro, completam-se 100 anos da morte do escritor carioca. As 
editoras se apressam e colocam nas prateleiras, ainda em 2007, os primeiros lançamentos da 
comemoração. 
A humildade em tom de elegância, cortesia da mentalidade ainda romântica que o escritor 
cultivava, soa irônica às vésperas do centenário de sua morte. Hoje, quem declarar o carioca 
como o maior escritor da Literatura Brasileira vai encontrar poucas pessoas dispostas a discordar. 
Ao que parece, o Bruxo aprontou mais uma das suas. Adivinhou seu futuro e escondeu sua 
profecia sob o véu da ironia. (O ANO DO BRUXO, 2007)
(3) O jogo intertextual é um dos traços mais fascinantes da prosa de Machado de Assis. E, 
se é verdade que todo grande escritor é, antes de tudo, um leitor contumaz, isto se aplica 
perfeitamente ao nosso Bruxo, cujo intercâmbio com a literatura universal é um fator 
constituinte da natureza de seus escritos.
Relações semânticas – II
161
Há, na ficção de Machado, uma enorme enciclopédia literária, a que ele faz alusões, de que faz 
citações (literais ou não), sempre pressupondo no leitor um parceiro à altura, capaz de decifrar- 
-lhes as significações. O repertório é imenso. Desde Contos Fluminenses, publicado em 1869, 
até o último romance, Memorial de Aires, cuja primeira edição é de 1908, ano da morte do 
escritor, Machado é um citador incansável. (SENNA, 2008, p. 7)
Machado tem um dos epítetos mais difundidos da literatura brasileira. Talvez 
seja muito difícil encontrar um texto sobre ele que não recorra à antonomásia 
“Bruxo do Cosme Velho” ou apenas “Bruxo”. Observe-se porém que, para quem 
escreve, esse apelido é uma alternativa a mais para se evitar a repetição do nome 
do romancista. Aliás, como devemos agir ao escrever um texto longo sobre Ma-
chado. Quais os limites para se usar o seu nome? E para substituí-lo? Machado e 
suas anáforas: “escritor carioca”, “o romancista”, “o criador de Capitu”, “o autor de 
Brás Cubas”, “o fundador da Academia”...
Por fim, vamos falar da eponímia. Passagem de antropônimo a substantivo 
comum, o epônimo costuma ser apresentado como resultado de um processo 
metonímico que se baseia numa relação de contiguidade entre nomes de pes-
soas e significações que não têm uma palavra própria para exprimi-las ou para as 
quais se propõe uma nova denominação. Essa passagem a substantivo comum 
não caracteriza mudança de classe, mas de subcategoria (substantivo próprio > 
substantivo comum).
Há epônimos sincrônicos, os que têm vínculos referenciais ainda muito níti-
dos com o antropônimo que lhes deu origem (amélia, arquibaldo, barbie, belzebu, 
camões, cupido, drácula, he-man*, quixote, sansão, tarzã...), e há epônimos diacrô-
nicos, os que só podem ser assim identificados mediante uma informação histó-
rica que contextualize sua criação a partir de um antropônimo (baderna, carras-
co, gandula, gari, gilete, winchester...). Em ambos os casos, todas as palavras dos 
exemplos representam nomes de pessoas que viraram nomes de coisas, sendo 
pertinente falar-se que, numa língua, assim como existe o processo de “personi-
ficação” (exs.: o Hino Nacional, a Pátria), há também o processo de “coisificação”:
A palavra baderna, de acordo com o dicionário de Macedo Soares (apud Houaiss), tem origem 
no antropônimo Marieta Baderna, dançarina italiana que esteve no Rio de Janeiro em 1851, 
provocando “um certo frisson”. Seus admiradores eram chamados de “os badernas”; daí, por 
extensão, seu principal significado em nossa língua: situação em que reina a desordem; confusão, 
bagunça. 
Já o vocábulo gandula está datado no dicionário Houaiss como de 1975. A origem do termo 
é o antropônimo Bernardo Gandulla, futebolista argentino que atuou num clube do Rio de 
Janeiro no final da década de 1930 e que tinha o hábito de buscar as bolas que saíam de 
campo. O termo expandiu-se do uso restrito do jogo de futebol e, hoje, se refere àquele que 
apanha e devolve aos jogadores as bolas que saem do campo durante uma partida, sobretudo 
de futebol. 
162
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
Finalmente, o substantivo gari, inspirado no nome Aleixo Gary, pessoa responsável pela 
empresa à qual esteve confiado o serviço público de limpeza das ruas, no Rio de Janeiro. 
Segundo o dicionário Houaiss, a palavra foi empregada pela primeira vez na revista Careta, 
em 1909. Notícia publicada no Jornal do Brasil em 1.o de setembro de 1892 dá conta de que 
“foi rescindido o contrato assinado com os Srs. Aleixo Gary & C. para a limpeza da cidade.” 
(HENRIQUES, 2008c, p. 146)
As relações entre a eponímia e a antroponímia têm uma condição que as 
limita, pois a transposição de substantivo próprio para substantivo comum só 
ocorre mediante a atribuição de um sentido impessoal ao nome próprio. E só 
se pode fazer essa “ponte” tomando-se uma certeza ou suposição a respeito do 
ser humano real. Assim, ao princípio metonímico norteador da criação de um 
epônimo, devemos acrescentar a possibilidade de uma interpretação metafórica 
que justifique sua existência ou emprego.
Os epônimos, no entanto, não são criados apenas a partir de pessoas reais. Há 
também os que se inspiram em seres fictícios, como é o caso da palavra amélia (= 
mulher amorosa, passiva e serviçal), significação extraída do contexto do samba 
Ai! que saudades da Amélia, de autoria de Ataulfo Alves e Mário Lago, de 1942. 
A canção fala de uma “mulher de verdade”, que “às vezes passava fome ao meu 
lado / E achava bonito não ter o que comer / Mas, quando me via contrariado, 
dizia: Meu filho, que se há de fazer!”.
Nesses casos de epônimos de base ficcional incluem-se as referências a per-
sonagens de obras do cinema, do teatro, da televisão, da literatura e até da in-
dústria de consumo. Esses epônimos dependem da repercussão e permanência, 
na cultura e/ou imaginário da sociedade, dos antropônimos que os originaram. 
Muitos têm vida curta e saem de cena tão logo cesse sua presença na mídia.
E, como nas relações semânticas tudo pode acontecer, a roda das significa-
ções não para de girar. Nosso último exemplo focaliza a possibilidade de uma 
palavra mudar sucessivamente de sentido, primeiro por antonomásia, depois 
por eponímia.
Esse caso, normalmente, acontece pela situação habitual de o traço físico 
de alguém ser usado para denominá-lo (como os personagens infantis Bolinha, 
Cascão, João Bafo de Onça, Capitão Gancho...). Por causa das famosas pernas 
tortas de seu dono, o substantivo “garrincha” eponimizou-se exatamente com 
esse sentido, nas referências coloquiais a pessoas que têm algum tipo de arque-
amento nas pernas. Acontece que o jogador Garrincha recebeu esse apelido 
porque gostava de caçar passarinhos, e não porque tinha as pernas tortas. De 
posse dessas informações semânticas,fechamos o círculo: 
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1. garrincha
4. “garrincha” 3. pernas do 
Garrincha
2. Garrincha
1 > 2 por antonomásia 2+3 > 4 por eponímia
(1) garrincha (subst. comum = passarinho) > (2) Garrincha (subst. próprio = Manuel Francisco dos 
Santos + (3) o “craque das pernas tortas” > (4) “garrincha” (gíria, subst. comum = pessoa com as 
pernas tortas).
Texto complementar
O que há por trás de um nome 
(ARRAIS, 2008, p. 1-3. Adaptado)
São 26 as letras do alfabeto, mas infinitas as combinações que podem ser 
feitas com elas. Diversas empresas de tecnologia trabalham duro para criar 
nomes que caiam na boca do povo e se transformem em referência. Afinal, 
164
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
muita gente quer um iPod, e não um Zune, prefere o Orkut ao Facebook e 
assim por diante.
É pelo nome que uma marca começa a vender sua filosofia. E o processo para 
chegar a ele é trabalhoso. O nome tem que ser original, criativo; deve transmitir 
o conceito do produto e não pode ser ofensivo a um determinado grupo.
“O nome tem que ser único e diferente de todo o resto. Tem que ser 
apelativo, inspirador, sem ser completamente descritivo. Não pode entrar 
na vala do vulgar, do comum, do usual”, afirma Vanessa Pasquini, especia-
lista em naming, que é o nome da área de atuação responsável por esse 
tipo de trabalho.
Segundo ela, o processo envolve pesquisas, busca de referências e entre-
vista com consumidores. “O primeiro passo é saber se o nome pode ser regis-
trado. Também pensamos como o nome será visto em diversos países”, diz. 
“O nome é uma convergência de significados, letras, sons, cores, texturas, as-
sociações. É um trabalho ao mesmo tempo muito criativo e muito técnico.”
David Placek, especialista norte-americano que criou nomes como Black-
Berry (o onipresente celular especializado em e-mails) e Zune (a tentativa da 
Microsoft de enfrentar o iPod), conta com uma equipe de 26 pessoas em seu 
escritório, o Lexicon Branding, sediado em Sausalito, Califórnia. O naming 
é requisitado por grandes empresas, como Apple, Microsoft e RIM. Mais 80 
linguistas espalhados por 40 países ao redor do mundo fazem análises para 
garantir que uma palavra em inglês, por exemplo, não tem uma conotação 
completamente negativa quando levada para outra cultura. 
Placek ressalta o caráter duradouro do nome: “Olhando a competição, a 
longo prazo o nome é a única coisa que não podem tirar de você. Podem até 
mexer com cores, padrões, logotipos, mas o nome você pode proteger pelo 
tempo que durar o produto”, diz.
Famosos
A criação do nome de uma marca também pode seguir caminhos inusi-
tados e bem mais simples. Reza a lenda que o nome Apple surgiu quando, 
depois de três meses de trabalho, Steve Jobs decretou: “Se não me entrega-
rem um nome até as cinco da tarde, a empresa vai ter o nome da minha fruta 
favorita, maçã.”
Relações semânticas – II
165
Já a Adobe, empresa que faz programas como o Photoshop, teve seu 
nome tirado do rio Adobe Creek, que corria nos fundos da casa do fundador 
da empresa, John Warnock.
Google é que nem Bombril. Além de ter mil e uma utilidades, caiu no 
imaginário de usuários e virou referência, tendo sido até dicionarizado – e 
pelo prestigioso Oxford English Dictionary. A ideia para o nome da empresa 
surgiu quando Larry Page e Sergey Brin desenvolviam o projeto acadêmico 
que deu origem ao buscador. “Eles queriam dizer que a pesquisa seria capaz 
de juntar um sem-número de informações”, explica Félix Ximenes, diretor de 
comunicação do Google Brasil. Foi então que receberam a sugestão de fazer 
um trocadilho com a palavra “googol”, expressão matemática que designa 
o número representado por um seguido de cem zeros. O uso do termo, diz 
o Google, reflete a missão da empresa de organizar o enorme montante de 
informações disponíveis na internet e no mundo.
A escolha do nome de produtos do Google segue lógicas distintas, se-
gundo Ximenes. “Os nomes nascem de uma preferência de um programador, 
de uma brincadeira.” O nome do serviço de fotografias Picasa, por exemplo, 
teve origem numa brincadeira entre a palavra picture (imagem) e o nome do 
pintor Pablo Picasso.
Outro caso interessante é sobre a origem do nome Yahoo!, que tem expli-
cações diversas. A oficial é que os fundadores David Filo e Jerry Yang usaram 
as iniciais de Yet Another Hierarchical Officious Oracle, que significa algo 
como uma forma alternativa de classificar a hierarquia dos dados. “Mas eles 
insistem que escolheram o nome inspirado no livro As Viagens de Gulliver, 
que tem um povo chamado Yahoo, que é rude e imperfeito”, afirma Fábio 
Boucinhas, diretor de produtos do Yahoo! Brasil. “Há quem diga, também, 
que o nome foi inspirado em um leite achocolatado, chamado Yoho, que eles 
tomavam na época”, completa.
O Yahoo! tem um site de fotos, o Flickr. Esse nome teve origem no flick 
que a máquina fotográfica faz. “A expressão faz sentido em inglês. Aí coloca-
ram o a letra R e formaram o verbo”, afirma Boucinhas.
Já o mecanismo de buscas Cadê?, que era bastante popular nos pri-
mórdios da internet, teve origem no caráter intuitivo das pesquisas. “Acho 
que é o melhor nome que alguém poderia dar para um mecanismo de 
busca”, diz. 
166
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
A explicação sobre o Orkut é a mais simples possível. Rede social mais 
popular no Brasil, ela ganhou o nome do próprio criador, o engenheiro turco 
Orkut Buyukkokten.
Agora, se é para conquistar as crianças, nada melhor do que simplicidade. 
O Habbo Hotel, um site com foco em crianças e adolescentes, teve o seu 
nome escolhido de forma mais simples. A ideia era criar um nome universal. 
“Habbo é um nome inventado. Nós precisávamos de um nome que funcio-
nasse em todos os países e chegamos a esse em uma sessão de brainstorm-
ing antes da festa de Natal”, disse Sampo Karjalainen, diretor-executivo da 
empresa que administra o Habbo.
Foi também a simplicidade que levou os criadores do Club Penguin a es-
colher pinguins como protagonistas da rede social. A associação dos bichi-
nhos ao nome foi imediata. Além de serem figuras fáceis para fazer anima-
ções, os pinguins funcionam em comunidades – todos dependem de todos 
para sobreviver. Para isso, eles precisam interagir e trabalhar em conjunto. Os 
fundadores do Club Penguin querem transmitir esse conceito às crianças, es-
timulando brincadeiras e interações na comunidade, para que elas resolvam 
problemas e se ajudem mutuamente.
Dicas de estudo
ALI, M. Said. “Alterações Semânticas”, capítulo do livro Meios de Expressão e Alte-
rações Semânticas.
O autor apresenta uma seleção de expressões da língua portuguesa que pas-
saram por alterações semânticas, identifica as épocas em que aconteceram e 
explica as causas da mudança.
ILARI, Rodolfo. “Termos Genéricos e Termos Específicos”, capítulo do livro Intro-
dução ao Estudo do Léxico.
O capítulo apresenta as noções de hiponímia e hiperonímia e propõe várias 
atividades em que se aplicam esses conceitos.
Relações semânticas – II
167
Estudos linguísticos
1. Observe a letra da canção “Amor e Sexo” (RITA LEE, 2003), de Rita Lee, Roberto 
de Carvalho e Arnaldo Jabor, e faça uma tabela com duas colunas, uma para 
a palavra “sexo”, outra para a palavra “amor”. Transcreva da canção as palavras 
ou expressões usadas pelos autores para caracterizar cada uma das duas. 
Ao final, interprete os dados recolhidos, tanto do ponto de vista conceitual 
quanto semântico, e responda qual dos dois substantivos é apresentado de 
modo mais favorável na canção.
 Amor é um livro. Sexo é esporte 
 Sexo é escolha. Amor é sorte 
 Amor é pensamento, teorema 
 Amor é novela. Sexo é cinema 
 05. Sexo é imaginação, fantasia 
 Amor é prosa. Sexo é poesia 
 O amor nos torna patéticos 
 Sexo é uma selva de epiléticos 
 Amor é cristão. Sexo é pagão 
 10. Amor é latifúndio. Sexo é invasão 
 Amor é divino. Sexo é animal 
 Amor ébossa nova. Sexo é carnaval 
 Amor é para sempre. Sexo também 
 Sexo é do bom. Amor é do bem 
 15. Amor sem sexo é amizade. 
 Sexo sem amor é vontade. 
 Amor é um. Sexo é dois 
 Sexo antes. Amor depois 
 Sexo vem dos outros e vai embora. 
 20. Amor vem de nós e demora.
168
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
2. Tomando por base a imagem de uma constelação que Ferdinand de Saus-
sure empregou para explicar as associações que as palavras mantêm entre 
si, parta da palavra “brancura” e forme duas séries de cinco palavras: uma 
apenas por razões formais, outra por razões morfossemânticas.
3. Complete os espaços abaixo coerentemente:
a) A palavra “eletrodoméstico” é um hiperônimo destas cinco palavras: ____
___________________________________________________________________ .
b) Juquinha, Marina, Pedro, Tonhão e Luciana são hipônimos de __________
___________________________________________________________________ .
c) Meu time é conhecido pela antonomásia _____________________________
___________________________________________________________________.
d) A definição é “a saliência da cartilagem tireoide”, o nome popular é “gogó”, 
mas o epônimo é __________________________________.
Relações semânticas – II
169
Este capítulo tem por objetivo identificar características semânticas 
do léxico, examinando os casos de paráfrase, perífrase, ambiguidade e 
polissemia.
Paráfrase
Ocorre paráfrase quando um enunciado possui a mesma informação 
que outro enunciado no qual ele se inspira. Geralmente, quem parafraseia 
uma sentença, um parágrafo (ou mesmo um texto) executa uma tarefa de 
reescritura no âmbito do léxico e da morfossintaxe, e não deveria compro-
meter o teor informativo, descritivo ou opinativo do texto original.
Para- (proximidade) + Frase (elocução)
É, no entanto, improvável que uma paráfrase não deixe de apresentar 
alguma marca estilística ou ideológica de seu autor, que escolhe novos 
verbos, adjetivos, procura sinônimos, inverte sintagmas, muda os focos 
dos enunciados. Tudo isso tem alguma consequência pragmática, discur-
siva, sendo possível inclusive que o texto parafraseado fique melhor do 
que o original.
Os dois pequenos parágrafos abaixo contêm um texto de divulgação. 
Um deles é o original, o outro é a paráfrase:
1. Às vésperas de completar 36 anos, Júlia decide ser mãe solteira. Assim 
começam nove meses de estudos, pesquisas e leitura de publicações es-
pecializadas. Em Perto do Ninho, Lídia Zoitman, um dos grandes nomes 
da literatura contemporânea, mostra que domina a arte do romance de 
humor e que conhece bem a alquimia do riso.
2. Júlia resolve ser mãe solteira quando está prestes a completar 36 
anos. Serão nove meses estudando, pesquisando e lendo matérias espe-
cializadas no assunto. Lídia Zoitman, um dos destaques da literatura atual, 
Relações semânticas – III
172
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
mostra em Perto do Ninho que o romance de humor é uma de suas especialida-
des e que a química do riso está na sua veia de escritora.
Qual é o original? Qual é a paráfrase? Não é preciso responder, pois o objetivo 
aqui é mostrar que o trabalho de reescrever/repetir o que outra pessoa já disse 
é uma operação comum – e não representa falsidade ideológica, pois nos casos 
científicos e acadêmicos o recurso precisa estar devidamente acompanhado dos 
créditos de autoria (segundo Bakhtin... de acordo com Bechara... para Fiorin...).
Agora, voltemos ao parágrafo do exemplo e imaginemos que a tarefa é rees-
crever a mesma informação para publicar numa revista jovem. A paráfrase vai ter 
de ser diferente, escolhendo palavras que pareçam mais adequadas aos leitores 
da revista:
3. Júlia já passou dos 35 e quer arranjar um filho numa produção indepen-
dente. Vai ter que ralar nove meses traçando tudo que pintar sobre gravidez e 
parto. Essa é a história que Lídia Zoitman escreveu em Perto do Ninho. Ela é uma 
fera da literatura atual, saca tudo de romance de humor e escreve de um jeito 
bem maneiro.
Os exemplos (1-3) mostram que há variados recursos a serem empregados 
cumulativa e simultaneamente na construção de trechos, períodos ou parágra-
fos inteiros parafraseados. Como mostra Ilari (2001, p. 140-61), uma parte desses 
recursos consiste em aplicar transformações de caráter sintático, e outra parte 
depende do conhecimento do léxico e da capacidade de percepção das equiva-
lências de palavras e construções.
Vamos examinar, resumidamente, algumas das estratégias de redação conti-
das nos exemplos dados:
Exemplo (1) Exemplo (2) Exemplo (3)
Às vésperas de completar 36 
anos
prestes a completar 36 anos já passou dos 35
Júlia decide ser mãe solteira Júlia resolve ser mãe solteira Júlia quer arranjar um filho 
numa produção independente
Assim começam nove meses de 
estudos, pesquisas e leituras
Serão nove meses estudando, 
pesquisando e lendo
Vai ter que ralar nove meses 
traçando tudo que pintar
um dos grandes nomes da li-
teratura contemporânea
um dos destaques da literatu-
ra atual
uma fera da literatura atual
As mudanças podem ser apenas de palavra por palavra (decide X resolve) ou 
de locução por locução (às vésperas de X prestes a), mas também podem ser mor-
. . 
Relações semânticas – III
173
fossintáticas (meses de estudo, pesquisas e leituras X meses estudando, pesquisan-
do e lendo) ou simplesmente sintáticas (o exemplo 1 começa com o predicador da 
idade de Júlia X os exemplos 2 e 3 começam com o sujeito da oração). No caso do 
texto (3), o dado que se sobressai tem ainda um outro componente, a que cha-
maremos de “tom”. A paráfrase, nesse caso, depende do domínio de um outro 
recurso, além dos dois mencionados por Ilari. A equivalência de palavras e cons-
truções, em (3), é léxico-semântica e morfossintática, mas não é pragmático-dis-
cursiva, já que o vocabulário agora é mais coloquial, íntimo, jovem. Ele precisa 
estar adequado ao público a que se destina a informação sobre o livro escrito por 
uma “fera” da literatura – observe que, na minha frase, a palavra está entre aspas, 
mas no parágrafo hipotético da revista, ela não precisaria desse recurso gráfico, pois 
ali a gíria da juventude e o coloquialismo são o tom de redação esperado.
A paráfrase também pode ser usada como um elemento de sequenciação 
textual e tem por finalidade repetir com outras palavras o que o próprio texto 
disse. Nesse caso, a língua oferece certas expressões introdutórias típicas, como 
“isto é / ou seja / quer dizer / em outras palavras / em resumo / em síntese / em 
suma / ou melhor / explicando melhor”.
(4)
A cultura da elite engrandece personagens que na sua maioria não significaram nada para 
o país, mas que, por um fato considerado importante pela elite dominante, passou a ser um 
herói. Em outras palavras, a elite cria heróis ou fatos culturais que atendam às suas necessidades 
e que conduzam o povo a uma falsa admiração. (FOLHA DE IRATI, 2008)
(5)
Nos lares, nas ruas, nas cidades, por todos os lugares triunfam as nulidades, prospera a desonra, 
reina a corrupção, crescem as injustiças, multiplica-se a violência bestial, agiganta-se o poder 
dos maus. Em resumo, o mal está vencendo o bem de mil a zero. Só não vê quem não quer. 
(KHAREIS, 2008)
(6)
Um sinal de que a situação econômica das famílias está se degradando é o fato de que 
também aumentam as situações em que o casal trabalha sem que seu rendimento mensal 
seja suficiente para suportar as despesas de habitação, alimentação e educação dos filhos. Em 
suma, a situação econômica de algumas famílias está piorando, e os serviços públicos preveem 
que no próximo ano letivo aumentem os pedidos de auxílio econômico escolar. (JORNAL DA 
BATALHA, 2008)
Os três recortes de matérias de jornal mostram como o trecho que está à 
direita da expressão destacada repete (por condensação, reiteração ou reajuste 
informacional) o que foi dito antes.
174
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
Perífrase
Ao se escrever um texto, eventualmente é preciso praticar umaação de pro-
longamento frasal. Esse recurso pode ser empregado por uma simples necessi-
dade retórica de “não se ir direto ao assunto”, mas também pode ser um vício de 
linguagem, caracterizando um uso excessivo de palavras na construção de um 
enunciado que não chega a ser expresso totalmente ou com clareza. Nesse caso, 
o efeito vira defeito, e o que poderia ser uma boa estratégia de redação se trans-
forma num fiasco, chamado na linguagem polida de “rodeio” e popularmente de 
“enchimento de linguiça”.
Peri- (em torno de) + Frase (elocução)
Quando a técnica é bem-sucedida, dizemos que há uma perífrase expressiva; 
quando é um problema textual, dizemos que há uma perífrase viciosa ou um 
circunlóquio. Vejamos alguns exemplos:
7. Convidamos a redação dos cadernos de cultura desse prestigioso jornal 
para um projeto intercultural de teatro contemporâneo em nossa cidade. Bus-
cando a visibilidade como instrumento de nossa sustentabilidade, pedimos o 
apoio fundamental da imprensa.
8. Na sua multipluralidade significativa, a unidade da língua escrita situada 
entre dois espaços em branco muitas vezes vacila ao posicionar-se definitoria-
mente na conceituação que expõe numa folha de papel.
Há um circunlóquio na segunda frase do exemplo (7), que poderia dizer 
apenas: “Pedimos o seu apoio na divulgação”, ou seja, “Divulguem senão vai ser 
um fracasso”. O mesmo acontece em (8). Será que “a unidade da língua escrita si-
tuada entre dois espaços em branco” não poderia ser apenas “palavra”? No caso 
de “multipluralidade significativa”, o interessante é uso hiperbólico do prefixo 
multi-, pois “pluralidade” já é algo múltiplo. Por fim, “ao posicionar-se definitoria-
mente na conceituação que expõe numa folha de papel” ficaria bem mais claro 
se fosse apenas “ao tentar definir um conceito”.
9. Hoje, às oito horas, terá início, em todo o território nacional, a colheita 
de votos na maior e mais importante consulta popular de toda a história republi-
cana. Dos 11 milhões de eleitores inscritos esperam os partidos que compareçam 
às urnas um mínimo de 8 milhões, em todo o país. Observadores extrapartidá-
Relações semânticas – III
175
rios consideram, entretanto, esses cálculos com algum pessimismo, levando em 
conta, sobretudo, a circunstância de não ter sido declarado feriado o dia de hoje.
10. A obra ceciliana é, ao mesmo tempo, universal e atemporal, porque per-
tence ao seleto grupo de autores que se sobrepõem ao seu tempo e a todos 
os tempos, e sua obra se eterniza. Emprega o português clássico e usa com o 
mesmo desembaraço metros e rimas variados.
11. Não falte com a verdade, menina. Não é porque seu pai entregou final-
mente a alma ao Criador que vamos esquecer que ele enriqueceu por meios 
ilícitos.
12. Quero que o senhor indique qual é o lado maior desse triângulo 
retângulo.
O exemplo (9) é a transcrição de uma notícia publicada no dia 3 de outubro 
de 1950, data em que haveria “a colheita de votos” (eleição) “na maior e mais im-
portante consulta popular de toda a história republicana” (para Presidente da Re-
pública). A linguagem jornalística da época era dada a perífrases, como também 
se percebe no longo objeto direto que encerra o parágrafo. Em (10), o texto aca-
dêmico enaltece as qualidades de Cecília Meireles com um texto de tamanho 
ampliado. Se fosse para dizer o mesmo em poucas palavras, bastaria escrever 
“Cecília Meireles é uma ótima escritora, e sua obra é eterna”.
Em (9-10), a perífrase expressiva foi usada para valorizar o texto, mas há casos 
em que ela pode ocorrer para suavizar uma ideia mais forte, como em (11), onde 
as três perífrases são por eufemismo: Não minta, menina. Não é porque seu pai 
morreu que vamos esquecer que ele foi um ladrão. Ou para tornar mais claro o en-
tendimento, como em (12), onde não se usou o termo técnico “hipotenusa”.
Vimos até aqui exemplos de perífrase lexical, em que o conceito a ser trans-
mitido acontece por meio de uma expressão ou frase inteira, mas há também 
a perífrase morfológica, apresentada sob a forma de locução. Nesse caso, o vo-
cábulo da esquerda é o auxiliar gramatical, e o vocábulo principal concentra o 
significado lexical. As conjugações perifrásticas (locuções cujo auxiliar não con-
serva sua significação verbal), as locuções adjetivas e as locuções adverbiais são 
alguns desses casos.
13. Lecionei numa escola do subúrbio, mas gostava de ver como os alunos 
estudavam com empenho.
176
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
Em (13), empregou-se a locução adjetiva “do subúrbio” em lugar de “subur-
bano” e a locução adverbial “com empenho” em lugar de “empenhadamente”. O 
exemplo mostra que, as perífrases morfológicas têm uma finalidade diferente 
da que vimos nas perífrases lexicais, pois não há nenhuma das três mencionadas 
justificativas que vimos em (9-12).
Quanto às conjugações perifrásticas, basta que nos lembremos dos seguintes 
tipos de locuções verbais do português:
verbo � ter ou haver + particípio = tempo composto [tinham ou haviam saído];
verbo � ser ou estar + particípio de verbo transitivo direto = voz passiva [era, 
estava ou ficava cercado pelos alunos];
verbo � ir + infinitivo = aspecto aproximativo de ação ou estado [ia falar / 
vai ser];
verbo � estar + gerúndio (ou preposição “a” + infinitivo) = aspecto durativo 
[estou escrevendo ou a escrever];
verbo � ir (sem indicar ação) + gerúndio = aspecto durativo [vou escrevendo].
Os casos descritos excluem as locuções cujo auxiliar conserva sua significa-
ção verbal. Não há perífrase em locuções como “fomos conversando até o aero-
porto”, “preciso sair”, “temos de conversar”, etc.
Ambiguidade e polissemia
A ambiguidade ocorre quando há duplo sentido. Isso significa que ela não 
é necessariamente um vício de linguagem, pois muitas vezes a usamos inten-
cionalmente. Os textos de humor e de publicidade, por exemplo, lidam com a 
ambiguidade para atingir seus objetivos.
14. Quando eu era criança, todo mundo na minha casa tinha medo de “untar”. 
Era só chegar “untar” de cobrador que a tristeza tomava conta da tropa.
15. Pare de reclamar. Nunca mais você verá o seu carro sujo... Ele acaba de ser 
roubado!
16. Vende-se cama de solteiro dobrável... Depois que a pessoa casa, fica mais 
difícil de dobrar.
Relações semânticas – III
177
17. – Pedrinho, diga quanto é o dobro de dois mais dois?
– É oito, professora.
– É seis, Joãozinho.
– Como assim, professora?.
– O dobro de dois é quatro; mais dois dá seis. Vê se presta mais atenção da 
próxima vez!
18. Conselho útil: A sua mãe disse que o seu jantar vai ser servido na mesa do 
seu quarto? Nessa hora só me resta perguntar: quem tem uma mesa no quarto, 
você ou ela?
19. “LINDA E SEM ROUPA”, diz a frase principal de um comercial de máquina 
de lavar roupa.
20. “De manhã... cedo; de tarde... cedo; de noite... cedo. 
Eu também estou solidário com a campanha de educação 
no trânsito”, é a legenda de um prospecto do Departamen-
to de Trânsito, cujo slogan é “Dirija sem violência, tenha 
fair-play ao volante”.
21. “O mundo todo só fala nele” – é a chamada de um comercial de telefone 
celular.
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om
ín
io
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úb
lic
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D
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N
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.
178
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
Como lembra Ullmann (1964, p. 323), “a ambiguidade é uma situação linguís-
tica que pode surgir por vários modos”, mas que do ponto de vista puramen-
te linguístico pode ocorrer por razões fonéticas, gramaticais ou lexicais – mas 
acrescentamos: sempre no ambiente pragmático-discursivo.
A ambiguidade fonética, obviamente, restringe-se à língua falada e ocorre ge-
ralmente pelas coincidências que podem existir entre palavras fonéticas e pala-
vras ortográficas, como se vê em (14), onde “untar” é combinação de “um+tal”. Na 
ambiguidade gramatical, é possível encontrar uma combinação de palavras apta 
a gerar dupla interpretação, como em (15-17), ou então ocorrer um emprego de 
palavra que, por admitir mais de uma referência gramatical, também pode criar 
confusão, como se vê em (18)com o possessivo ambíguo. Na frase (19) a duplici-
dade de compreensão não é concomitante, pois a chamada do comercial parece 
associar os dois sintagmas a uma figura de mulher. Porém, como no português o 
gênero feminino não é prerrogativa de seres humanos, o entendimento inicial fica 
diluído quando se lê a frase seguinte, revelando que linda é a máquina de lavar.
Os exemplos (19-21) mostram a ambiguidade lexical, feita em virtude da exis-
tência de casos de homonímia (20) e de polissemia (21) na língua. No caso de 
“cedo”, explorando-se a homonímia entre o advérbio de tempo e o indicativo 
do verbo. O recurso tem sucesso porque a frase do comercial começa com um 
par de termos que admite a duplicidade de compreensão: de manhã cedo X de 
manhã, eu cedo. Nos dois trechos seguintes, isso não é possível, pois não se diz o 
advérbio “cedo” junto das locuções “de tarde” e “de noite”. Na frase (21), “falar” é a 
fonte da ambiguidade, pois tanto pode ser usado literalmente (= conversar, fazer 
ligações telefônicas) como em sentido figurado (= comentar com intensidade).
Para que haja homonímia, é preciso haver mais de uma palavra (como em 
“cedo”, o advérbio de tempo e a flexão do verbo). Para que haja polissemia, só 
pode haver uma palavra (como em “falar”, com dois significados interligados a 
partir de uma única base semântica). Com isso chegamos a uma outra questão 
que envolve a polissemia, a continuidade de sentidos que uma palavra pode 
assumir (na homonímia, há descontinuidade).
Ullmann (1964, p. 331) diz que “a polissemia é um traço fundamental da fala 
humana, que pode surgir de maneiras múltiplas” e cita as fontes que poderiam 
explicitar esse fenômeno em uma língua. Adaptando-as um pouco à língua por-
tuguesa, ei-las:
Mudanças de aplicação – um determinado item lexical pode expandir sua �
quantidade de sentidos graças ao emprego que ele abarca num determi-
Relações semânticas – III
179
nado contexto de uso. Às vezes essas ramificações semânticas ocorrem 
em função do funcionamento da palavra na frase, como ocorre muito com 
os adjetivos. Em português podemos dizer que o adjetivo “belo” é sinôni-
mo de “lindo” e significa “dotado de formas e proporções esteticamente 
harmônicas”, tendo como antônimo o adjetivo “feio”. Mas, quando dize-
mos que uma pessoa apareceu um belo dia na nossa casa ou que vamos 
receber um belo aumento de salário, não haverá risco de alguém pensar 
que “belo dia” é o mesmo que “bonito dia” ou que um “belo aumento” é o 
contrário de “feio aumento”.
Especialização num meio social – um item lexical pode adquirir um certo �
número de significados específicos, cada qual aplicável em determinado 
campo de ação e atuação. A palavra “cadeira”, num ambiente acadêmico, 
não significa apenas “peça do mobiliário”, mas pode ser um sinônimo de 
“disciplina”, palavra que também tem um sentido restrito ao meio escolar, 
onde quer dizer “matéria de ensino”, diferente do significado comum de 
“obediência às regras e aos superiores”.
Linguagem figurada – um item lexical pode assumir um ou mais sentidos �
figurados, que coexistem lado a lado sem se confundirem e sem haver a 
perda do seu significado original. Aqui as novas acepções ocorrem por 
ação da metáfora ou da metonímia, figuras fundamentais para a ativida-
de da língua. Na linguagem contemporânea, a palavra “monstro” assumiu 
o papel de qualificador positivo (liquidação monstro, comício monstro), e 
o verbo “chutar” expandiu seu uso no jargão esportivo e pode ser usado 
quando um jogador de basquete arremessa (= chuta) uma bola para a 
cesta: ambos por metáfora. Uma acepção nova, por metonímia, aconte-
ceu com a palavra “trilha”, usada para representar a música que toca num 
filme ou numa novela: a “trilha” e o “trilho”, confundidos com os sulcos dos 
antigos discos de vinil, passam a representar a música que passa por esses 
trilhos, trilhas ou sulcos.
Parônimos reinterpretados – dois itens lexicais de som semelhante e de sig- �
nificação diferente (de fato ou supostamente) tendem a ser considerados 
uma única palavra com dois sentidos ou então passam a ser duas palavras 
com uma única pronúncia. Ou seja, mudam do grupo da paronímia para o 
da polissemia (uma palavra com dois sentidos) ou o da homonímia (duas pa-
lavras com uma pronúncia), conforme o caso. É o que se chama “etimologia 
popular”. Assim, “fusível” vira “fuzil”, “fígado” vira “figo” (criando homonímias, 
pois os significados não são aproximáveis) e o verbo “soltar” assume o signi-
180
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
ficado de “soltar” quando uma pessoa diz que vai “soltar do ônibus” (nesse 
caso, há polissemia, pois a significação dos dois verbos é aproximável).
Influência estrangeira – um item lexical já existente na língua sofre influência �
da importação do significado de uma palavra estrangeira, o que cria a coexis-
tência dos dois significados, o antigo e o novo, e origina a polissemia. O subs-
tantivo “cachorro” é, hoje, no português, sinônimo de um tipo de sanduíche 
de salsicha, acepção oriunda da importação do anglicismo “hot-dog”.
De todo modo, pode-se dizer que a polissemia é um fenômeno bastante 
comum numa língua, servindo como um fator de economia e de flexibilida-
de para o léxico. Como lembra Ilari (2002, p.151), a polissemia “afeta a maioria 
das construções gramaticais”. Seu exemplo mostra o caso do aumentativo dos 
nomes, como acontece com a palavra “Paulão”. As razões para que alguém seja 
assim chamado podem ser muitas: “porque é alto, porque é grande, porque 
é grosseiro, porque é desajeitado, porque é uma pessoa com quem todos se 
sentem à vontade.” Como conclui Ilari, é mesmo “difícil dizer até que ponto vale 
cada uma dessas explicações”, já que “da ideia de tamanho passa-se à de um 
certo modo de ser e de relacionar-se.”
Se procurarmos no âmbito morfossintático, também encontraremos a polis-
semia, responsável por alterações na regência de alguns verbos. Foi a aproxima-
ção dos sentidos de verbos como “demorar”, “custar” e “faltar” que fez com que se 
identificassem suas regências, pelo menos na linguagem do cotidiano.
22. (Ela) demorou a fazer um sinal para nós.
23. (Ela) custou a fazer um sinal para nós [em vez de Custou-lhe fazer um sinal 
para nós./ Custou a ela fazer um sinal para nós].
24. (Ela) faltou fazer um sinal para nós [em vez de Faltou-lhe fazer um sinal 
para nós / Faltou a ela fazer um sinal para nós].
Os três verbos parece que assumiram os significados uns dos outros, ou seja, 
cada um ganhou uma nova acepção, a qual está em processo de incorporação à 
língua padrão (HENRIQUES, 2008c, p. 49). Como mostram esses exemplos,
[...] uma análise voltada para a variação dos meios ou dos modos de expressão de significados 
semelhantes leva à percepção de que os fenômenos de transferência de significado envolvem 
tanto a seleção lexical quanto a seleção de estruturas discursivas que são utilizadas metáforas 
ou metonímias. (MARQUES, 1990, p. 158)
A conclusão a que se chega nos estudos semânticos é que, dentro dos meca-
nismos em uso na estruturação da língua, as redes de significação do léxico geral 
Relações semânticas – III
181
estão sempre em condições de estabelecer uma conexão de sentido. Cabe ao 
falante colocar em funcionamento esse sistema que está à disposição de todos 
os membros de uma comunidade idiomática. Ao estudioso compete observar, 
descrever, interpretar e analisar – semanticamente também.
Texto complementar
De quando o povo modifica o povo: 
a etimologia popular influenciando 
a vida de toda uma comunidade 
(SIQUEIRA, 2008, p. 1)
Cidade Ocian é um dos trinta e dois bairros do município de Praia Grande 
(SP). O local como hoje se conhece tem suas origens datadas da década de 
1950, impulsionadas pela construção de 22 prédios, num total de aproxima-
damente 1 600 apartamentos e é hoje um dos bairros mais importantes de 
Praia Grande, com mais de 10 mil moradores, cerca de 4% da atual popula-
ção do município que, em 2008, tinha cerca de 250 mil habitantes.
Estagrandiosa obra, inaugurada em 27 de maio de 1956, quando Praia 
Grande ainda pertencia a São Vicente (desmembrou-se em 19 de janeiro de 
1967), foi considerada até 1960, ano de fundação de Brasília, “a cidade mais 
bem planejada” e “a estrutura urbana mais moderna do Brasil”, como afirma 
o número 28 do Informativo Cultural da Associação Centro de Estudos Ama-
zônicos de Praia Grande, de abril de 1980.
D
iv
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e.
182
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
O conjunto de edificações (figura 01) e, por consequência, todo o bairro 
ganharam a alcunha de “Cidade Ocian” devido à infraestrutura, que não era 
encontrada nem mesmo em cidades emancipadas, e à sigla OCIAN da em-
presa responsável pela execução da obra, a Organização Construtora e Incor-
poradora Andraus (figura 2).
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e.
A Cidade Ocian tinha – e ainda tem, mais de 50 anos depois de sua inau-
guração – como seu símbolo-maior a estátua de Netuno, localizada (figura 3) 
defronte à atual praça Roberto Andraus e ao Espaço Ocian.
D
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o.
[...] O tempo passa, os mais velhos se vão e deixam seus lugares aos mais 
jovens. Muitas vezes, nessas idas e vindas, a história se perde. Alguns anos 
Relações semânticas – III
183
depois de sua fundação, o bairro passou a ser grafado, nos mais diversos 
locais, como Cidade Ocean ou, simplesmente, Ocean (figuras 4 e 5).
Temos aí um caso típico de etimologia popular, que se deu no âmbito 
vocabular, pois a alteração se concretiza apenas na grafia e não na fonética. 
As razões estão intimamente ligadas à forte presença da estátua de Netuno 
– marco que presenciou a comemoração de muitas conquistas do município, 
como a vitória do plebiscito pró-emancipação político-administrativa, em 
1963, quando muitas pessoas se reuniram em volta do Netuno, festejando 
o fato entusiasticamente. Além disso, trata-se de um bairro praiano (é bom 
lembrar que “ocean” significa “oceano”, em inglês).
Há ainda de se ressaltar que o nome de um dos logradouros mais impor-
tantes da Cidade Ocian é a Rua Oceânica Amábile (figura 6), situada para-
lelamente às avenidas D. Pedro II e Vicente de Carvalho, principal corredor 
comercial do bairro.
D
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ín
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 p
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lic
o.
D
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ín
io
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lic
o.
184
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
[...] A grafia “Ocean” também é encontrada em muitas propagandas e 
anúncios (figura 5), sendo curioso observar como são detectadas as duas 
formas num mesmo impresso comercial, o que permite deduzir que há uma 
convivência entre elas e que ambas permitem plenamente a mesma recep-
ção. [...] A presença maciça da grafia com “e” em vez de “i” (Ocean) é bastan-
te percebida em websites, chats e páginas de relacionamento da internet. 
Muito provavelmente, isso se deve ao fato de os internautas moradores de 
Ocian desconhecerem a história oficial do bairro, ou terem sofrido influên-
cia, desde a infância, da variante irregular, só reconhecendo essa grafia por 
julgarem-na padrão.
D
iv
ul
ga
çã
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G
oo
gl
e 
M
ap
.
Mesmo com o esforço do poder público de, ao longo dos anos, vir subs-
tituindo placas grafadas erroneamente, com o intuito de divulgar o nome e 
a história oficiais da Cidade Ocian, só o tempo poderá elucidar qual a forma 
que haverá de prevalecer, com Netuno a espreitar a sucessão de aconteci-
mentos desse dilema.
Relações semânticas – III
185
Dicas de estudo
AZEREDO, José Carlos de. “Relações Semânticas no Léxico”, capítulo da Gramáti-
ca Houaiss da Língua Portuguesa.
O capítulo aborda os traços semânticos e as relações de sentido.
ILARI, Rodolfo. “Implícitos (I) e (II)”, capítulos do livro Introdução à Semântica.
O autor apresenta casos em que a compreensão de um enunciado não pode 
ser feita apenas a partir de seu sentido literal e propõe várias atividades em que 
se aplicam os conceitos das implicaturas conversacionais.
Estudos linguísticos
1. Por não existir como reproduzir a entonação, frases imperativas podem ge-
rar mal-entendidos. Redija quatro frases que exemplifiquem o emprego do 
modo imperativo exprimindo ideias de ordem, conselho, convite, pedido. 
Depois interprete cada uma delas e explique as possíveis ambiguidades dis-
cursivo-pragmáticas.
2. Complete as lacunas coerentemente.
a) “Palmeiras joga com o Bahia no seu campo” – a manchete do jornal con-
tém ambiguidade porque ___________________________________________
___________________________________________________________________ .
b) O jornalista recebe a tarefa de escrever uma coluna para a revista. O es-
paço é limitado em algo equivalente a uma folha de caderno, mas o tema 
é amplo: A História da República no Brasil… Uma das coisas que, com 
certeza, o jornalista vai fazer é evitar as perífrases, pois _________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________ .
c) Uma frase solta como “vou deitar e rolar” pode servir para ilustrar a dife-
rença entre a linguagem literal e a linguagem _________________________
_________ . Na primeira hipótese, a expressão significa _________________
___________________________________________________ ; na segunda, ___
___________________________________________________________________.
186
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
d) O jornal diz: “O escritor colombiano Gabriel García Márquez, ganhador do 
prêmio Nobel de literatura em 1982, publicará antes do fim de 2008 um 
novo livro sobre o amor.” Se quiséssemos reescrever essa frase aumentan-
do consideravelmente seu tamanho, um dos resultados poderia ser: ____
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________ .
3. Para Barbosa (1996, p. 245-249), um item lexical polissêmico é aquele que 
preserva uma unidade de significado, isto é, a sua unidade é garantida pelo 
núcleo semântico comum aos múltiplos setores de traços semânticos. Com 
efeito, esse núcleo comum é que permite ao falante identificar um único sig-
no linguístico em suas diferentes realizações no discurso.
 A partir dessas considerações, reconheça, entre as frases abaixo, aquelas que 
contêm no par destacado um exemplo de polissemia.
a) Não beberei suas palavras nem brindarei às suas ideias.
b) Parto sem dor para fazer o parto do meu amor.
c) Não me compete decidir quem poderá competir nas Olimpíadas.
d) A roupa de quem está no xadrez não devia ser listrada, mas xadrez.
e) À noite, não use o farol alto quando passar por algum cruzamento com 
farol.
f) “Sonhei que estava sonhando e que no meu sonho havia um outro sonho 
esculpido”. (Drummond)
g) “A morte não existe para os mortos.” (Drummond)
h) “Esse amanhecer mais noite que a noite.” (Drummond)
Relações semânticas – III
187
Este capítulo tem por objetivo apresentar as características do texto 
ficcional e explicar os conceitos de narratividade, descritividade e 
argumentatividade.
Ficção e verossimilhança
A palavra ficção se opõe à palavra realidade.
No nosso dia a dia, usamos a palavra ficção não apenas para nos refe-
rirmos às manifestações artísticas que têm natureza ficcional, como filmes, 
novelas, contos e romances. Também a usamos com os significados de:
Ficção: �
 Ato ou efeito de fingir; simulação, fingimento. 
 Criação ou invenção de coisas imaginárias; fantasia. (FICÇÃO, 2004)
Por outro lado, a palavra realidade nos remete a fatos concretos e tem 
os significados de:
Realidade: �
 Qualidade do que é verdadeiro. 
 Aquilo que existe efetivamente. (REALIDADE, 2004)
O adjetivo ficcional, quando aplicado a textos literários, não tem ne-
nhuma carga pejorativa, pois se trata de um termo técnico usado nos es-
tudos de literatura. Além disso, essa dicotomiaentre ficção e realidade não 
é excludente. Quantas vezes não vivemos em nossa realidade situações 
tipicamente fictícias? E na literatura ou no cinema quantas vezes não nos 
deparamos com histórias criadas a partir de situações, fatos e indivíduos 
extraídos da vida real?
Mas, para se compreender um texto, há um pressuposto elementar: é 
preciso identificar o que se lê, e esse processo de identificação só pode 
Características do texto ficcional
190
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
ser feito a partir das experiências de mundo que o leitor possui. Por esse motivo, 
mesmo no tipo de texto literário que se chama “ficção científica”, por mais fan-
tasiosa e incrível que a obra se apresente, ela terá sempre traços da realidade. 
Afinal, não é possível se contar uma história que não tenha nem um componen-
te do mundo real.
Se os personagens representam pessoas, “pessoas” remete ao mundo real. 
Se os personagens não são pessoas, certamente eles se comunicam por meio 
de palavras, gestos ou pensamentos, o que também remete ao mundo real. Se 
existe algum cenário na obra de ficção ou se não existe cenário, isso também 
remete ao mundo real pelas visões e conhecimentos de mundo que são pré- 
-requisitos para que se compreenda um texto.
No texto ficcional, o autor cria um mundo na sua imaginação. Um trecho do 
quinto capítulo do romance O Ateneu, de Raul Pompeia (1976, p. 85), pode nos 
ajudar a explicar isso mais objetivamente.
Íamos à missa aos domingos. Todos abriam os livrinhos, para que o dire-
tor os visse atentos. Eu não abria o meu. Deixava apenas fugir-me o espíri-
to para o alto e aderir à abobada como as decorações sagradas, ajustar-me 
estreitamente aos detalhes da arquitetura do templo como o ouro sutil dos 
douradores, conservar-se lá em cima, ávido ainda de ascensão, ambicioso do 
céu como a baforada dos turíbulos.
Havia acessos comunicativos de tosse que lavravam nas fileiras. Eu não 
tossia. Havia convulsões de riso, mal contidas no lenço, mal dominadas por 
um olhar de Aristarco, de joelhos à frente do colégio, e mãos cruzadas sobre 
o castão do unicórnio, como certa vez que um cão brejeiro e sem princípios, 
mesmo ao elevar-se a santa Partícula, entrou e escapou-se com o casquete 
de um fiel contrito. Eu resistia ao riso.
Em O Ateneu, Sérgio é o nome do narrador em primeira pessoa que nos conta 
a história dos dois anos que foi obrigado a passar num internato por determi-
nação de seu pai. A cena transcrita descreve alguns acontecimentos das missas 
dominicais e mostra traços dos personagens, como o autoritarismo do professor 
Aristarco, diretor do colégio, e o comportamento das crianças.
O romance de Raul Pompeia tematiza o drama da solidão e o desajuste de um 
indivíduo em relação ao meio em que vive. É uma obra de ficção com caracte-
Características do texto ficcional
191
rísticas apegadas à realidade e exemplifica o que se pode chamar de verossimi-
lhança do texto ficcional.
Verossímil = vero (verdadeiro) + simil (semelhante)
Podemos falar em duas modalidades ou formas principais de verossimilhan-
ça. Uma delas acontece no interior do próprio texto literário, a partir da obser-
vação de que há coerência interna entre as partes constitutivas da narrativa 
(verossimilhança interna). Outra examina as eventuais relações que há entre a 
estrutura do discurso narrativo e os demais discursos encontráveis na socieda-
de (verossimilhança externa). Em outras palavras, pode-se dizer que nem toda 
verossimilhança interna corresponde necessariamente a uma verossimilhança 
externa, pois existe uma realidade imaginada pelo escritor não necessariamente 
reduplicadora da realidade existente no mundo concreto e exterior à literatura.
Podemos exemplificar isso com um trecho do conto “Os Cavalinhos de Plati-
planto”, de José J. Veiga (1972, p. 34).
Os cavalos não podiam sair dali, ninguém tinha poder para tirá-los. Se 
alguém algum dia conseguisse levar um para outro lugar, ele virava mos-
quito e voltava voando. Passamos o portão e entramos num pátio parecido 
com largo de cavalhada, até arquibancadas tinha, só que no meio, em vez de 
gramado, tinha era uma piscina de ladrilhos de água muito limpa.
De repente a assistência soltou uma exclamação de surpresa, como se 
tivesse ensaiado antes. Meninos pulavam e gritavam, puxavam os braços de 
quem estivesse perto, as meninas levantavam-se e sentavam batendo pal-
minhas. Do meio das árvores, iam aparecendo cavalinhos de todas as cores, 
pouco maiores do que um bezerro pequeno, vinham empinadinhos mar-
chando, de vez em quando olhavam uns para os outros como para comentar 
a bonita figura que estavam fazendo. Quando chegaram à beira da piscina 
estacaram todos ao mesmo tempo como soldados na parada. Depois um 
deles, um vermelhinho, empinou-se, rinchou e começou um trote dançado, 
que os outros imitaram, parando de vez em quando para fazer mesuras à as-
sistência. O trote foi aumentando de velocidade, aumentando aumentando, 
e daí a pouco a gente só via um risco colorido e ouvia um zumbido como de 
zorra. Isso durou algum tempo, até eu pensei que os cavalinhos tinham se 
sumido no ar para sempre, quando então o zumbido foi morrendo, as cores 
foram se separando, até os bichinhos aparecerem de novo.
192
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
O mundo que o autor do texto ficcional cria na sua imaginação pode ser um 
misto de verossimilhança e de inverossimilhança. No caso do conto de José J. 
Veiga, a criança narra uma história mágica, que envolve a realidade numa au-
réola de sonhos. Os cavalinhos de platiplanto que o narrador descreve partici-
pam de ações compatíveis com a realidade interna e externa. Embora não sejam 
eles (os cavalinhos que podiam virar mosquitos) verossímeis se encarados sob o 
prisma externo ao texto, são verossímeis internamente no conto.
Esse tipo de texto ficcional, que trabalha com crenças, ritos e lendas e os faz 
conviver numa atmosfera de realidade social, psicológica, humana, consagrou- 
-se com a denominação “realismo fantástico”, expressão bastante apropriada para 
o que vimos buscando explicar acerca das relações entre ficção e realidade.
Narratividade, descritividade 
e argumentatividade 
Na tipologia do texto ficcional trabalha-se com a clássica tripartição utilizada 
para o ensino da redação escolar, que divide os textos em três tipos:
o narrativo, definido como “sequência de fatos”; �
o descritivo, definido como uma “sequência de aspectos”; �
o argumentativo-expositivo, definido como “sequência de opiniões”. �
Essa tripartição pode não ser a ideal. Luiz Antônio Marcuschi (2002) fala que 
os modos de organização do texto podem ser cinco, subdividindo o terceiro da 
lista clássica e acrescentando o injuntivo (como o praticado na redação dos ma-
nuais de instruções, receituários, etc.).
É evidente, no entanto, que essas categorias não dão conta da imensa variedade de “tipos” de 
textos orais e escritos existentes nas mais variadas culturas. Faltava algo a essa classificação. 
Como classificar, por exemplo, uma carta comercial, um ofício, um memorando, um soneto, 
um editorial, etc.?
A resposta é que uma tipologia textual necessita de no mínimo dois critérios – um estritamente 
textual (referente à estrutura do texto) e um situacional, que o associe com a situação 
comunicativa em que é produzido e interpretado, dentro de um ramo da atividade humana: 
jornalístico, empresarial, didático, literário, etc. (OLIVEIRA, 2004, p. 184)
Aqui, vamos focalizar os três tipos que interessam à ficção.
Vivemos num mundo de narrativas. O ser humano é um contador e recontador 
de histórias. Ele registra, relata, expõe, diz, narra para si mesmo e para seus inter-
Características do texto ficcional
193
locutores cotidianos ou ocasionais as situações, ações e experiências que viveu, 
que viu ou soube que alguém viveu, que supôs ou inventou que alguém viveu. 
A narratividade é, por excelência, o tipo de texto que se espera encontrar na 
obra literária classificada como ficcional. Em geral,uma história se conta num texto 
em prosa, mas há muitos exemplos de histórias contadas e cantadas em versos.
Exemplo 1:
Os Lusíadas, de Luís de Camões, têm como assunto central a viagem de Vasco 
da Gama às Índias. É um poema épico que narra as perigosas viagens do herói 
português “por mares nunca dantes navegados” e seus encontros com povos e 
costumes diferentes. Exalta o navegador, soldado, aventureiro, cavaleiro e amante 
Vasco da Gama e mostra o sentimento heroico e conquistador dos portugueses, 
algo bastante apropriado para a época antropocêntrica do Renascimento.
A obra de Camões tem um cunho enciclopédico e conta não apenas a des-
coberta do caminho marítimo para as Índias. Fala da história de Portugal, de 
seus reis, de seus heróis e de suas batalhas, destacando as grandes navegações 
e a conquista do Império Português do Oriente. Para contá-la, Camões cria uma 
ação mitológica, onde deuses pagãos atuam como defensores dos portugueses 
(Vênus e Marte) e como seus opositores (Baco e Netuno).
D
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o.
Os Lusíadas: ficção (em diálogo com a História) contada em versos. 
194
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
Exemplo 2:
Na música “Domingo no Parque”, Gilberto Gil nos conta uma história domini-
cal de amor, traição e morte (em versos):
O rei da brincadeira (ê, José) 
O rei da confusão (ê, João) 
Um trabalhava na feira (ê, José) 
Outro na construção (ê, João)
A semana passada, no fim da semana 
João resolveu não brigar 
No domingo de tarde saiu apressado 
E não foi pra Ribeira jogar capoeira 
Não foi pra lá pra Ribeira, foi namorar
O José como sempre no fim da semana 
Guardou a barraca e sumiu 
Foi fazer no domingo um passeio no parque 
Lá perto da Boca do Rio 
Foi no parque que ele avistou Juliana 
Foi que ele viu, foi que ele viu 
Juliana na roda com João 
Uma rosa e um sorvete na mão 
Juliana, seu sonho, uma ilusão 
Juliana e o amigo João 
O espinho da rosa feriu Zé 
E o sorvete gelou seu coração
O sorvete e a rosa (ô, José) 
A rosa e o sorvete (ô, José) 
Oi dançando no peito (ô, José) 
Do José brincalhão (ô, José) 
O sorvete e a rosa (ô, José) 
A rosa e o sorvete (ô, José) 
Oi girando na mente (ô, José) 
Do José brincalhão (ô, José) 
Juliana girando (ô, girando) 
Oi, na roda gigante (ô, girando) 
Oi, na roda gigante (ô, girando) 
O amigo João (ô, João) 
Características do texto ficcional
195
O sorvete é morango (é vermelho) 
Oi, girando e a roda (é vermelha) 
Oi, girando, girando (é vermelha) 
Oi, girando, girando...
Olha a faca! (Olha a faca!) 
Olha o sangue na mão (ê, José) 
Juliana no chão (ê, José) 
Outro corpo caído (ê, José) 
Seu amigo João (ê, José) 
Amanhã não tem feira (ê, José) 
Não tem mais construção (ê, João) 
Não tem mais brincadeira (ê, José) 
Não tem mais confusão (ê, João)
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.
“Domingo no parque”: ficção (com base na realidade) contada em versos.
O texto de “Domingo no Parque” conta-nos (na voz de um narrador-cantor) 
um acontecimento que envolve personagens num determinado lugar e mo-
mento (espaço e tempo). João, José e Juliana formam o trio amoroso, no qual os 
dois amigos disputam a mesma mulher. As ações dramáticas transcorrem num 
parque de diversões e se misturam com o ambiente lúdico da roda gigante, do 
sorvete. A história que Gil compôs é, como Os Lusíadas, um texto inspirado em 
fatos verossímeis, narrado em versos.
196
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
Exemplo 3:
Observemos agora um trecho do romance As Três Marias, de Rachel de Quei-
roz (2000, p. 73).
No outro dia o vi. Chamava-se Raul. Passávamos diante dum café, e ele lá 
estava numa mesa, sozinho, entre as nuvens do seu cigarro.
De dia me pareceu mais velho, mais cansado. E também mais romântico 
e misterioso, prometendo grandes momentos.
Maria José, que ia comigo, viu-o quando me cumprimentou. Também o 
conhecia. Era pintor e fazia farras medonhas. Diziam até que tomava cocaína. 
Um boêmio sem eira nem beira, que conhecia metade da Europa e todos os 
cafés de artistas de Paris. Quase morrera num hospital, em Nápoles, de onde 
conseguira se repatriar com um falso passaporte de emigrante. Num dos 
acasos do seu voo, arribara aqui, anos atrás, e, ninguém sabe por que, aqui 
casara, carregando depois a mulher consigo pelos apartamentos de luxo, 
nos tempos bons, pelas pensõezinhas de terceira ordem, nas vacas magras.
Voltara agora, emergindo de nova crise, pedindo hospitalidade ao sogro 
para descansar um pouco. Começou a pintar, a vender os quadros, arranjou 
alunos, ia ficando há mais de um ano. Chegava em casa de madrugada, a 
mulher brigava, os vizinhos ouviam. Um perdido. 
Ouvi a biografia sem surpresa; era a única história que se harmonizaria 
com ele e com o que eu dele imaginara.
O café era na esquina e nós dobramos a rua, contornando o canto. Tornei 
a vê-lo, ele se ergueu um pouco e os seus olhos fundos me sorriram, saíram 
da sua névoa. Sorri também, atraída pelas terríveis promessas das histórias 
de vício e de aventura. 
Nessa noite dormi pensando em Raul.
As Três Marias têm as mesmas características de narratividade dos dois exem-
plos anteriores, com a diferença formal de estar escrito em prosa, como nor-
malmente se espera de uma história contada por escrito. Guta é a narradora e 
encarna uma heroína jovem e ingênua que se apaixona por um pintor casado, 
interessado apenas em tê-la como amante. No trecho transcrito, ela está acom-
panhada de sua amiga Maria José quando vê Raul sentado numa mesa de bar. 
Características do texto ficcional
197
Contado em primeira pessoa, pois quem narra a história é um personagem 
(neste caso, a própria protagonista), o romance de Rachel de Queiroz faz uma 
investigação dos conflitos da individualidade do ser humano e, como no poema 
épico de Camões e na canção de Gil, também se inspira em fatos verossímeis.
Se fizermos, porém, a releitura dos textos transcritos até aqui neste capítulo, 
observaremos que, além de haver “uma história sendo contada”, há passagens 
descritivas e argumentativo-expositivas.
Na verdade, só se nos abstrairmos do material palpável que é o texto escrito é 
que conseguiremos pensar nesses tipos classificatórios separadamente.
Um texto nunca é apenas narrativo, 
descritivo ou argumentativo.
Falta a essa denominação didática 
o advérbio “predominantemente”, 
que sempre deveria precedê-la.
Voltando então às transcrições dos textos, notamos que em todos predomina a 
narratividade do ato de se contar uma história. Porém, descrevem-se personagens, 
cenários, ambientes, emoções, movimentos. Fazem-se considerações, julgamen-
tos sobre modos de agir, falar, sobre a temperatura, a época. Expõem-se opiniões 
próprias e alheias. Tudo em função dos objetivos de quem prepara o texto para 
seu leitor – e este, por sua vez, atuará na recepção do que se pretendeu apresentar 
e avaliará esse produto segundo a ótica de sua experiência como “leitor”. 
Observemos adiante algumas descrições extraídas de textos de ficção. Nessas 
novas passagens perceberemos que a narrativa está desacelerada, pois a intenção 
do escritor é apresentar informações que ele julga importantes para o que ainda 
vai contar. Os exemplos também nos servirão para mostrar como a descrição 
pode ser explorada na elaboração do texto ficcional, seja pela especificação das 
ações dos personagens, seja pela identificação de traços estáticos da narrativa.
No começo havia somente aquela igrejinha pobre, caiada de branco, de-
baixo do coqueiral. Casa de palha pela beira do mar, caiçaras por onde os 
pescadores dormiam a sesta e guardavam as jangadas no descanso.
Fonte: Riacho Doce, José Lins do Rego: 1987, p. 87.
198
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
Comentário: Descrição de uma praia de pescadores, contendo traços estáti-
cos do presente da narrativa e referências ao passado dos personagens.
A rua em que estava situada sua casa desenvolvia-se no plano e, quando 
chovia, encharcava e ficava que nem um pântano; entretanto, era povoada 
ese fazia caminho obrigado das margens da Central para a longínqua e ha-
bitada freguesia de Inhaúma. Carroções, carros, autocaminhões que, quase 
diariamente, andam por aquelas bandas a suprir os retalhistas e gêneros que 
os atacadistas lhes fornecem, percorriam-na do começo ao fim. 
Fonte: Clara dos Anjos, Lima Barreto: 2001, p. 639.
Comentário: Descrição parcialmente estática de uma rua, sem referência aos 
personagens.
É sol de maio, que já brilha pelas devesas floridas do Tinto. Sob a cúpula 
diáfana de um céu de primavera, tudo é luz, graça e harmonia. Os esplen-
dores da tarde douram as veigas e adiamantam as águas. Flores, sorrisos do 
prado, e sorrisos, flores dos lábios, desabrocham por toda a parte, e engas-
tam-se onde quer que aparece um rosal perfumado ou um rosto mimoso. 
Vão de envolta nas asas da brisa, trinos das aves, rumores do campo, e os 
ledos descantes de rústico travador.
Fonte: As Minas de Prata, José de Alencar: 1958, p. 651.
Comentário: Descrição do campo, com referências ao tempo e à paisagem e 
sem menção aos personagens.
Logo na quina da rua, então chamada de Vala e agora da Uruguaiana, a 
Rua do Ouvidor apresentava ao lado esquerdo a casa de três pavimentos, que 
ainda hoje se vê, e que abre a porta e corredor de entrada para aquela tendo 
defronte na quina do lado direito casa de dois pavimentos ou sobrado de um 
só andar, como atualmente se conserva.
Ambos esses tetos devem guardar, senão importantes, ao menos curiosas 
recordações.
Fonte: Memórias da Rua do Ouvidor, Joaquim Manuel de Macedo: 1963, p. 152-153.
Características do texto ficcional
199
Comentário: Descrição estática de uma casa, sem referência aos personagens.
Fora, chovia a cântaros. André de Belfort sorria fatigado. Godofredo de 
Alencar fumava. Hortênsio Gomes parecia entre o pesar e uma vaga e tênue 
alegria. Alexandre estava abatidíssimo. Os quatro acabavam de jantar, no 
imenso salão deserto do mais elegante e mais detestável hotel da cidade. 
Ninguém poderia exprimir o sorriso do barão André. Era impossível definir a 
atitude de Godofredo. Hortênsio tinha o aspecto do revelador. O pobre Ale-
xandre parecia um trapo de paixão. E aos sucessivos cigarros de Godofredo, 
embebidos em essência oriental, uma densa nuvem aromática os envolvia.
Fonte: Créssida, João do Rio: 1995, p. 18.
Comentário: Descrição de ações dos personagens, com inclusão de referên-
cias ao tempo e ao cenário.
Madalena batia no teclado da máquina. Seu Ribeiro escrevia com len-
tidão trêmula, às vezes se aperreava procurando a régua, a borracha, o 
frasco de cola, que se ausentavam, porque d. Glória tinha o mau costu-
me de mexer nos objetos e não os pôr nunca onde os encontrava. Eu me 
danava com essa desordem, fechava a cara, dava ordens secas rapidamen-
te e saía para não estourar.
Fonte: São Bernardo, Graciliano Ramos: 1980, p. 111.
Comentário: Descrição de ações e reações secundárias dos personagens, sem 
outras referências.
Vamos agora exemplificar a presença predominante do tipo argumentativo- 
-expositivo. Nessa hipótese, a narrativa também se desacelera, em virtude da 
decisão de dar voz ao narrador para que ele opine ou exponha a opinião de 
algum personagem. Essa possibilidade, por vezes, se interpenetra com a pró-
pria narrativa.
Chegados os dragões em frente aos Canjicas houve um instante de es-
tupefação. Os Canjicas não queriam crer que a força pública fosse manda-
da contra eles; mas o barbeiro compreendeu tudo e esperou. Os dragões 
200
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
pararam, o capitão intimou à multidão que se dispersasse; mas, conquanto 
uma parte dela estivesse inclinada a isso, a outra parte apoiou fortemente o 
barbeiro, cuja resposta consistiu nestes termos alevantados:
– Não nos dispersaremos. Se quereis os nossos cadáveres, podeis to-
má-los; mas só os cadáveres; não levareis a nossa honra, o nosso crédito, os 
nossos direitos, e com eles a salvação de Itaguaí.
Nada mais imprudente do que essa resposta do barbeiro; e nada mais 
natural. Era a vertigem das grandes crises. Talvez fosse também um excesso 
de confiança na abstenção das armas por parte dos dragões; confiança que 
o capitão dissipou logo, mandando carregar sobre os Canjicas. O momento 
foi indescritível. A multidão urrou furiosa; alguns, trepando às janelas das 
casas ou correndo pela rua fora, conseguiram escapar; mas a maioria ficou 
bufando de cólera, indignada, animada pela exortação do barbeiro. A der-
rota dos Canjicas estava iminente quando um terço dos dragões – qualquer 
que fosse o motivo, as crônicas não o declaram – passou subitamente para o 
lado da rebelião. Este inesperado reforço deu alma aos Canjicas, ao mesmo 
tempo que lançou o desanimo às fileiras da legalidade. Os soldados fiéis não 
tiveram coragem de atacar os seus próprios camaradas, e um a um foram 
passando para eles, de modo que, ao cabo de alguns minutos, o aspecto das 
coisas era totalmente outro. O capitão estava de um lado com alguma gente 
contra uma massa compacta que o ameaçava de morte. Não teve remédio, 
declarou-se vencido e entregou a espada ao barbeiro.
Fonte: O Alienista, Machado de Assis: 1974, p. 273.
Comentário: Argumentação do narrador pela sua própria ótica ou pelo ponto 
de vista do protagonista Simão Bacamarte, como justificativa para ações narra-
das no trecho.
Não é bem do meu gosto remexer essas coisas que considero mortas, se 
bem que nem todas tenham sido convenientemente esclarecidas, e nem tudo 
signifique uma acusação aos entes que delas participaram. Além do mais, 
acredito que uma família, como a dos Meneses, que tanto lustre deram à his-
tória de nosso município, tenha direito ao silêncio que vem buscando através 
dos anos, e que não consegue, pela violência dos fatos que viveu – e que no 
entanto só nos merecem compreensão e esquecimento. Pesa-me a consci-
ência, no entanto, ocultar fatos que poderiam elucidar alguns daqueles mis-
Características do texto ficcional
201
térios que na época tanto abalaram nosso povoado. Pensando bem, este é o 
motivo por que me encontro aqui, reajustando sobre o passado essas lentes, 
que apesar de trêmulas só procuram servir à verdade. Naturalmente não me 
é fácil desenterrar essas figuras, pois elas se acham visceralmente presas ao 
que eu próprio fui, às minhas emoções daquele tempo. E apesar disto, o que 
se passou é tão vivo ainda, que parece recente: os cenários se erguem com 
facilidade e a casa reponta perfeita do sono que desde então a circunda.
Não me lembro mais se foi pela segunda ou terceira vez que um fato in-
sólito me chamou à Chácara, e digo insólito porque já fora lá várias vezes, 
mas era realmente a primeira ou a segunda que ia a chamado daquilo que 
poderia chamar de ocorrência fora da órbita banal.
Fonte: Crônica da Casa Assassinada, Lúcio Cardoso: 1979, p. 143.
Comentário: Exposição de argumentos do narrador em primeira pessoa, 
como preparação para as ações a serem narradas adiante.
Num texto ficcional, as passagens onde predomina o tipo descritivo ou o tipo 
argumentativo-expositivo devem estar a serviço da sua principal finalidade, que 
é a narratividade. A despeito disso, a criatividade e a arte dos escritores podem 
lhes permitir qualquer tipo de organização do texto ficcional – inclusive contra-
riando a expectativa do leitor de encontrar uma narrativa.
Texto complementar
Estilo e heterogeneidade
(DISCINI, 2003, p. 67-70)
É por meio de perguntas e respostas, entre vozes que se cortam e se 
atravessam, na interseção de linhas quebradas e não retas, que se cons-
titui o diálogo no discurso. É um diálogo entre uma enunciação, que re-
constrói o mundo, e um mundo que a coage, para que nele se possa inse-
rir. Assim se perpetuam, no estilo, convergências e polêmicas, de vozes, 
de pontos de vista. Assim vai-se sedimentando a direção ideológica de 
uma totalidade.
202
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
A totalidade de estilo é homogênea e heterogênea. O fato de estilo ga-
rante essa homogeneidade, já que pressupõeuma semelhança de procedi-
mentos na construção do sentido que, por sua vez, constrói o ator da enun-
ciação, efeito de individuação de uma totalidade. É heterogênea, pois supõe 
uma relação dialógica entre a grandeza inteira e discreta, o unus, com outras 
unidades integrais, num desdobramento do diálogo do discurso com as for-
mações ideológicas de uma cultura. É do diálogo que falamos, ao pensar 
numa heterogeneidade constitutiva de um estilo, que não se mantém fecha-
do em si mesmo, aprisionado nos próprios limites que o definem. Esta defini-
ção de limites, que aponta para o eu que fala por meio de uma totalidade, se 
faz exatamente pela relação com o não limite, com o não eu, com o outro. A 
homogeneidade do sentido, condição para a unidade do estilo, é, portanto, 
constitutivamente diversificada, mesmo porque em cada enunciação pres-
suposta a cada totalidade já se pressupõem dois sujeitos. Só assim esta ou 
aquela totalidade pode se constituir como signo, pode significar. O signo, 
no estilo, longe de se fechar em si mesmo, salta para o exterior de si, onde 
encontra o outro, constituindo-se assim ideologicamente. Ideologia é signo 
e a recíproca é verdadeira, também em se tratando de estilo.
O fato de estilo, portanto, se permanecesse apenas coincidente com a 
própria natureza, não significaria, não seria uma realidade sígnica. Ultrapas-
sa, pois, a si mesmo, porque reflete e retrata a “realidade”, construindo outra 
“realidade”, no interior do próprio discurso.
[...] Ao considerar o estilo como efeito do discurso, pressupomos o estilo 
como fato ideológico. A constituição interdiscursiva, unidade constituinte 
do discurso do estilo, conjunto de micronarrativas resultante de um conglo-
merado de núcleos temáticos e de núcleos figurativos, variações temáticas 
e variações figurativas, constitui, por sua vez, instrumento de uma “refração 
ideológica verbal”, tomando a expressão de Bakhtin (1988, p. 38).
Mas essa configuração interdiscursiva resulta de uma colocação recorren-
te em discurso de valores sociais e individuais, em relação de (re)construção 
mútua. Tais valores se apoiam, por sua vez, em universais, como vida/morte, 
natureza/cultura, convocáveis e realizáveis de maneira própria, na constru-
ção de uma totalidade.
[...] Na virtualidade do sentido, a homogeneidade; na atualização e rea-
lização, a heterogeneidade. Assim se demarca o estilo, sempre lembrando 
que homogeneidade e heterogeneidade são interdependentes.
Características do texto ficcional
203
Dicas de estudo
FIORIN, José Luiz; SAVIOLI, Francisco Platão. “Presença do Narrador no Texto”, 
lição 12 do livro Lições de Texto: leitura e redação.
Os autores analisam trechos de textos literários, abordam a questão do 
ponto de vista narrativo e a construção implícita ou explícita da imagem do 
interlocutor.
OLIVEIRA, Helênio Fonseca de. “Os Gêneros da Redação Escolar e o compromisso 
com a variedade padrão da língua”, artigo publicado no livro Língua e Cidadania: 
novas perspectivas para o ensino.
O artigo explica a tipologia textual tradicionalmente exercitada na escola e 
acrescenta comentários e interpretações sobre outros tipos de texto, com o ob-
jetivo de discutir suas relações com as práticas de ensino da variedade padrão.
Estudos linguísticos
1. Utilize o texto da canção “Domingo no Parque”, de Gilberto Gil, e faça uma 
transposição da narrativa para o formato em prosa.
204
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
2. Leia atentamente o trecho transcrito de O Cortiço, de Aluísio de Azevedo 
(1981, p. 59-60) e identifique passagens descritivas, narrativas e argumenta-
tivo-expositivas.
 Amanhecera um domingo alegre no cortiço, um bom dia de abril. Muita luz 
e pouco calor.
 As tinas estavam abandonadas; os coradouros despidos. Tabuleiros e tabu-
leiros de roupa engomada saiam das casinhas, carregados na maior parte 
pelos filhos das próprias lavadeiras que se mostravam agora quase todas de 
fato limpo; os casaquinhos brancos avultavam por cima das saias de chita 
de cor. Desprezavam-se os grandes chapéus de palha e os aventais de ania-
gem; agora as portuguesas tinham na cabeça um lenço novo de ramagens 
vistosas e as brasileiras haviam penteado o cabelo e pregado nos cachos ne-
gros um ramalhete de dois vinténs; aquelas trancavam no ombro xales de 
lã vermelha, e estas de crochê, de um amarelo desbotado. Viam-se homens 
de corpo nu, jogando a placa, com grande algazarra. Um grupo de italianos, 
assentado debaixo de uma árvore, conversava ruidosamente, fumando ca-
chimbo. Mulheres ensaboavam os filhos pequenos debaixo da bica, muito 
zangadas, a darem-lhes murros, a praguejar, e as crianças berravam, de olhos 
fechados, esperneando. A casa da Machona estava num rebuliço, porque a 
família ia sair a passeio; a velha gritava, gritava Nenen, gritava o Agostinho. 
De muitas outras saíam cantos ou sons de instrumentos; ouviam-se harmô-
nicas e ouviam-se guitarras, cuja discreta melodia era de vez em quando in-
terrompida por um ronco forte de trombone.
 Os papagaios pareciam também mais alegres com o domingo e lançavam 
das gaiolas frases inteiras, entre gargalhadas e assobios. À porta de diver-
sos cômodos, trabalhadores descansavam, de calça limpa e camisa de meia 
lavada, assentados em cadeira, lendo e soletrando jornais ou livros; um de-
clamava em voz alta versos de Os Lusíadas, com um empenho feroz, que o 
punha rouco. Transparecia neles o prazer da roupa mudada depois de uma 
semana no corpo. As casinhas fumegavam um cheiro bom de refogados de 
carne fresca fervendo ao fogo. Do sobrado do Miranda só as duas últimas 
janelas já estavam abertas e, pela escada que descia para o quintal, passava 
uma criada carregando baldes de águas servidas. Sentia-se naquela quieta-
ção de dia inútil a falta do resfolegar aflito das máquinas da vizinhança, com 
que todos estavam habituados. Para além do solitário capinzal do fundo a 
pedreira parecia dormir em paz o seu sono de pedra; mas, em compensação, 
o movimento era agora extraordinário à frente da estalagem e à entrada da 
Características do texto ficcional
205
venda. Muitas lavadeiras tinham ido para o portão, olhar quem passava; ao 
lado delas o Albino, vestido de branco, com o seu lenço engomado ao pes-
coço, entretinha-se a chupar balas de açúcar, que comprara ali mesmo ao 
tabuleiro de um baleiro freguês do cortiço.
3. A narradora de Verão no Aquário, de Lygia Fagundes Telles (1993, p. 26) é a 
protagonista do romance. O trecho transcrito contém uma descrição estáti-
ca ou dinâmica? Explique.
 Revolvi papéis e livros de minha mesa. Abri gavetas. Por onde andariam 
meus retratos? Era preciso mostrá-los a André, ele precisava me ver menina, 
nem o inimigo resiste ao retrato da infância. Ele tinha que me conhecer com 
aquela perplexidade, com aquela inconsciência diante do futuro escondido 
dentro da máquina fotográfica. Vi um retrato assim do meu pai: um menino 
débil e louro na sua roupa de marinheiro, a mão direita pousada na mesinha 
com uma toalha de franja e um vaso de flores em cima, a mão esquerda na 
cintura, os olhos graciosamente imobilizados pelo fotógrafo, “vamos olhe 
nesta direção!...” O olhar ainda limpo do rancor pela bem-amada que havia 
de traí-lo um dia, pela mãe falhando no momento em que não podia falhar, 
pelo amigo que não era amigo, por Deus que não apareceria para salvá-lo 
quando ele próprio se erguesse para ferir o próximo assim como foi ferido 
também. Os ídolos ainda estão inteiros. O menino então sorri e nem o inimi-
go mais feroz resistirá a esse sorriso de quem se oferece tão sem defesa.
Este capítulo tem por objetivo apresentar os conceitos de digressão 
e intertextualidade e aplicar os conhecimentos de Semântica (a ciência 
da significação) e Estilística (a ciência da expressividade) ao estudo do 
texto ficcional.
Digressão
Suponha que, antes de explicarmos o que é digressão, em vez de entrar 
no assunto para dizer o que significa essa palavra e dar exemplos de sua 
ocorrência, começássemos a dissertarsobre a importância da objetividade 
na vida humana. Ou então que resolvêssemos falar da literatura brasileira 
ou da redação de textos argumentativos. Poderíamos disfarçar um pouco 
melhor, talvez: desandaríamos a comentar como a Semântica e a Estilística 
prestam relevante contribuição para os estudos de língua portuguesa.
Pronto! Tudo o que se dissesse durante o tal percurso de rodeios e sub-
terfúgios até se entrar propriamente na explicação do que é e para que 
serve a digressão teria sido um excelente exemplo de digressão.
Digressão = Desvio do assunto ou “desconversação”
As estratégias de produção de um texto, em especial o narrativo, 
podem justificar o emprego de digressões, e há autores consagrados que 
dela fizeram uso com perícia, como Machado de Assis e Eça de Queiroz, 
para dar apenas dois exemplos.
A interrupção da narrativa pode se prestar para introduzir reflexões, 
especulações, comentários do narrador ou do próprio personagem, mas 
pode também ser apenas uma forma de corte na história que está sendo 
contada – até para inserir outra história na principal.
Vejamos um exemplo de digressão em que o narrador faz o seu próprio 
elogio, fala da marcha da civilização e de D. Quixote, entre outros temas:
Estudo semântico-estilístico 
de texto ficcional
208
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
Essas minhas interessantes viagens hão de ser uma obra prima, erudita, 
brilhante, de pensamentos novos, uma coisa digna do século. Preciso de o 
dizer ao leitor, para que ele esteja prevenido; não cuide que são quaisquer 
dessas rabiscaduras da moda que, com o título de Impressões de Viagem, 
ou outro que tal, fatigam as imprensas da Europa sem nenhum proveito da 
ciência e do adiantamento da espécie. 
Primeiro que tudo, a minha obra é um símbolo... é um mito, palavra grega, 
e de moda germânica, que se mete hoje em tudo e com que se explica tudo... 
quanto se não sabe explicar. 
É um mito porque – porque... Já agora rasgo o véu, e declaro abertamen-
te ao benévolo leitor a profunda ideia que está oculta debaixo desta ligeira 
aparência de uma viagenzinha que parece feita a brincar, e no fim de contas 
é uma coisa séria, grave, pensada como um livro novo da feira de Leipzig, não 
das tais brochurinhas dos boulevards de Paris.
Houve aqui há anos um profundo e cavo filósofo de além Reno, que es-
creveu uma obra sobre a marcha da civilização, do intelecto – o que diría-
mos, para nos entenderem todos melhor, o Progresso. Descobriu ele que há 
dois princípios no mundo: o espiritualista, que marcha sem atender à parte 
material e terrena desta vida, com os olhos fitos em suas grandes e abstratas 
teorias, hirto, seco, duro, inflexível, e que pode bem personalizar-se, simbo-
lizar-se pelo famoso mito do cavaleiro da mancha, D. Quixote – o materialis-
ta, que, sem fazer caso nem cabedal dessas teorias, em que não crê, e cujas 
impossíveis aplicações declara todas utopias, pode bem representar-se pela 
rotunda e anafada presença do nosso amigo velho, Sancho Pança.
Mas, como na história do malicioso Cervantes, estes dois princípios tão 
avessos, tão desencontrados, andam contudo juntos sempre, ora um mais 
atrás, ora outro mais adiante, empecendo-se muitas vezes, coadjuvando-se 
poucas, mas progredindo sempre. 
E aqui está o que é possível ao progresso humano. 
E eis aqui a crônica do passado, a história do presente, o programa do futuro. 
Hoje o mundo é uma vasta Barataria, em que domina el-rei Sancho. 
Depois há de vir D. Quixote. 
O senso comum virá para o milênio, reinado dos filhos de Deus! Está pro-
metido nas divinas promessas – como el-rei de Prússia prometeu uma cons-
Estudo semântico-estilístico de texto ficcional
209
Comentário: O trecho é o que inicia o segundo capítulo do romance. A nar-
rativa propriamente dita só se inicia no último trecho que se transcreveu, após 
onze parágrafos de digressão.
A digressão entra como uma estratégia de variados matizes: uma sutil provo-
cação com o leitor, uma revelação de pensamentos, divagações. Mas pode ser 
uma ruptura mais radical, como a que vemos no desdobramento do exemplo 
seguinte:
Isabel tinha bastante senso de humor para (mais uma vez) sorrir da frase. 
Mas, como sabia que não há nada mais sério que uma graça, levou a sério a 
graça e a frase, e retomou sua posição contrária à contratação de uma babá 
para Einstein.
Era o que tínhamos a dizer neste final de capítulo, deixando a frase com 
o leitor para traduzi-la. Se o leitor vai ou não achar graça nela, o problema é 
unicamente dele. Não é de Isabel, nem é do autor.
Fonte: Einstein, o Minigênio, Herberto Sales: 1983, p. 109-113.
Comentário: A frase que o leitor poderá traduzir encerra o antepenúltimo pa-
rágrafo do capítulo: “Ne croyez pas trop à ce que l’homme dit, sourtout quand il 
le dit dans les réclames.1” O último parágrafo é o que contém a digressão-interlo-
cutória, citando o leitor como terceira pessoa do discurso, mas fazendo-lhe uma 
provocação. Não bastasse isso, o romance prossegue com duas páginas de inter-
valos comerciais, uma na página 111 (ver imagem) e outra na página 113, com 
uma lista das obras de Herberto Sales e o aviso: “Estes livros não são encontrados 
1 Tradução livre: Não acredite muito no que o homem diz, sobretudo se ele diz durante os comerciais.
tituição; e não faltou ainda, porque, porque o contrato não tem dia; prome-
teu, mas não disse quando. 
Ora nesta minha viagem Tejo arriba está simbolizada a marcha do nosso 
progresso social: espero que o leitor entendesse agora. Tomarei cuidado de 
lho lembrar de vez em quando, porque receio muito que se esqueça. 
Somos chegados ao triste desembarcadouro de Vila Nova da Rainha, que 
é o mais feio pedaço de terra aluvial em que ainda pousei os meus pés. O sol 
arde como ainda não ardeu este ano.
Fonte: Viagens na Minha Terra, Almeida Garrett: 1997, p. 42-44.
210
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
nas livrarias dos aeroportos brasileiros”. Feito o intervalo comercial, a narrativa 
retorna, na página 115, como se nada tivesse acontecido.
Intervalo comercial como digressão.
D
ig
ita
l J
ui
ce
.
Por amor da coerência, sugere-se ao leitor que, 
depois de ler o texto-aviso acima, se esforce no 
sentido de mentalmente reproduzir aquele inde-
fectível sorriso com que em circunstâncias seme-
lhantes os locutores de televisão brindam a curio-
sidade malograda dos telespectadores.
Às vezes as digressões desempenham uma função metaficcional, ou seja, 
referem-se ao próprio ato de narrar, sendo enfim uma metalinguagem da narra-
tiva, como os dois exemplos anteriores fazem, cada qual a seu modo. Porém, as 
digressões também podem ser interrupções hipertextuais, à semelhança do que 
acontece durante uma consulta a um endereço virtual, onde a leitura de uma 
página pode remeter a outra e a outra, sucessivamente. A diferença é que, na 
internet, a página inicial de consulta pode ser esquecida, mas no texto de ficção 
a história precisa ser retomada em algum momento – espera-se.
Estudo semântico-estilístico de texto ficcional
211
No próximo exemplo, temos uma passagem que mostra uma digressão fun-
cionando como hipertexto.
Capítulo CXVII
A história do casamento de Maria Benedita é curta; e, posto Sofia a ache 
vulgar, vale a pena dizê-la. Fique desde já admitido que, se não fosse a epide-
mia das Alagoas, talvez não chegasse a haver casamento; donde se conclui 
que as catástrofes são úteis, e até necessárias. Sobejam exemplos; mas basta 
um contozinho que ouvi em criança, e que aqui lhes dou em duas linhas. Era 
uma vez uma choupana que ardia na estrada; a dona – um triste molambo de 
mulher – chorava o seu desastre, a poucos passos, sentada no chão. Senão 
quando, indo a passar um homem ébrio, viu o incêndio, viu a mulher, pergun-
tou-lhe se a casa era dela.
– É minha, sim, meu senhor; é tudo o que eu possuía neste mundo.
– Dá-me então licença que acenda ali o meu charuto?
O padre que me contou isto certamente emendou o texto original; não é 
preciso estar embriagadopara acender um charuto nas misérias alheias. Bom 
padre Chagas! – Chamava-se Chagas. – Padre mais que bom, que assim me in-
cutiste por muitos anos essa ideia consoladora, de que ninguém, em seu juízo, 
faz render o mal dos outros; não contando o respeito que aquele bêbado tinha 
ao princípio da propriedade – a ponto de não acender o charuto sem pedir 
licença à dona das ruínas. Tudo ideias consoladoras. Bom padre Chagas!
Fonte: Quincas Borba, Machado de Assis: 1974, p. 743-744.
Comentário: O trecho reproduz na íntegra o capítulo, que começa falando da 
história do casamento de uma personagem secundária do romance. Porém, sob 
o pretexto da lembrança de uma epidemia das Alagoas, o narrador pede licença 
para nos dar “um contozinho” que ouviu em criança. A narrativa estaca, e ficamos 
sabendo do caso do respeito que o bêbado “tinha ao princípio da propriedade”, 
uma micronarrativa dentro da macronarrativa.
Qualquer que seja o formato da digressão, sempre será desejável manter a 
participação do leitor, nem que seja pela sua perplexidade, como a que temos 
na ruptura da seguinte digressão:
212
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
CAPÍTULO CXXXIX
De como não fui ministro d’Estado
............................................................................................................................................
.............................................................................................................................................
............................................................................................................................................
.............................................................................................................................................
............................................................................................................................................
Fonte: Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis: 1974, p. 627.
Comentário: O capítulo tem apenas o título. A ele se segue uma digressão de 
cinco linhas pontilhadas. No capítulo seguinte, uma digressão-justificativa explica 
que “há coisas que melhor se dizem calando; tal é a matéria do capítulo anterior”.
Informado sobre esta e outras técnicas adotadas na narrativa, o leitor deixará 
de lado a expectativa ingênua de que uma história só pode ser contada em es-
truturas convencionais e horizontais. O que importa é fazer da leitura um diálo-
go permanente entre o leitor e o texto.
Intertextualidade
Todo texto se constrói como mosaico de citações. Todo texto é absorção e 
transformação de um outro texto. Com essas palavras e apropriando-se das 
ideias da Bakhtin, Julia Kristeva (1974, p. 64) introduziu e definiu a intertextuali-
dade, palavra fundamental no campo da Linguística Textual e que nos interessa 
em especial no estudo do texto ficcional.
Esse “mosaico de citações” é, na verdade, um passaporte para se fazer qualquer 
tipo de referência (pequena, mediana ou enorme), implícita ou explícita, na forma 
ou no conteúdo, a outros textos. E o que se deve entender por texto, nesse caso, é 
algo bem amplo – eu diria que nem há um limite para o seu entendimento.
Cada enunciado é pleno de ecos e ressonâncias de outros enunciados 
com os quais está ligado pela identidade da esfera de comunicação discur-
siva. Cada enunciado deve ser visto antes de tudo como uma resposta aos 
enunciados precedentes de um determinado campo: ela os rejeita, confirma, 
Estudo semântico-estilístico de texto ficcional
213
Há muitos hipônimos para a palavra intertextualidade: polifonia, dialogismo, 
heterogeneidade, citação, paródia, paráfrase, estilização, apropriação, plágio, 
pastiche. Cada um desses nomes (e outros mais que se queira acrescentar) se 
enquadra num viés próprio. E, se quisermos olhar de novo para os degraus dessa 
escada Semântica, ainda podemos falar da interdiscursividade, que não implica 
a intertextualidade mas é implicada por esta. Pergunto: todo discurso não é um 
texto? Todo texto não é um discurso?
Interdiscursividade = “diálogo” entre discursos
Nas discussões de Análise do Discurso certamente não haverá unanimidade 
quanto a uma dupla resposta afirmativa. Mas, se o texto for considerado como 
algo que está acima da sua materialidade linguística, então ele será também um 
discurso... Talvez aí haja consenso quanto a um duplo sim e, depois disso, quem 
sabe não aparece alguém para dizer que interdiscursividade, intertextualidade, 
polifonia e dialogismo são, no fundo, no fundo, a mesma coisa…
Polifonia = presença simultânea de 
várias “vozes” no enunciado
Não está nos objetivos deste capítulo enveredar por essa polêmica. Basta-nos 
chamar a atenção para o fato, a fim de que sempre se procure saber qual o ponto 
de vista do estudioso que se está consultando.
A rigor, a intertextualidade no texto ficcional em nada difere da que se pode 
praticar no momento mais trivial de nosso cotidiano. Pensemos, por exemplo, 
na figura de um vizinho sempre bem-humorado que todo dia de manhã, ao sair 
para o trabalho, tem o hábito de cumprimentar a quem ele encontra na gara-
gem de seu prédio usando um repertório intertextual bem variado: “Que a Força 
esteja com você, vizinho!” ou “Ave, César!” ou “Deus ajuda a quem cedo madruga, 
vizinho!” ou “Alô, alô, marciano!” – cada citação-saudação devidamente selecio-
nada conforme seu grau de intimidade com o condômino interlocutor.
completa, baseia-se neles, subentende-os como conhecidos, de certo modo 
os leva em conta. (BAKHTIN, 2003, p. 297)
Intertextualidade = “diálogo” entre textos
214
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
IE
SD
E 
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as
il 
S.
 A
.
Ave, César!
IE
SD
E 
Br
as
il 
S.
 A
.
Que a força esteja 
com você, vizinho!
“Quem não pratica a intertextualidade que atire a 
primeira pedra!”
Na literatura, além das incontáveis possibilidades de ocorrências intertex-
tuais, também pode existir o diálogo de uma obra literária com outra. Quando 
esse diálogo se constrói entre obras de escritores diferentes, configura-se um 
caso de intertextualidade externa. Se, diferentemente, o escritor dialoga com 
sua própria obra, estamos diante do que chamamos de intertextualidade inter-
na ou intratextualidade. 
Estudo semântico-estilístico de texto ficcional
215
Vejamos nos trechos abaixo alguns exemplos:
Este Quincas Borba, se acaso me fizeste o favor de ler as Memórias Póstu-
mas de Brás Cubas, é aquele mesmo náufrago da existência que ali aparece, 
mendigo, herdeiro inopinado, e inventor de uma filosofia.
Fonte: Quincas Borba, Machado de Assis: 1974, p. 644.
Comentário: Intertextualidade interna, referência explícita do narrador a um 
personagem e a um livro do próprio Machado.
O leitor deve estar lembrado de crise semelhante, que o assaltou, anos 
antes, quando era pouco mais que um adolescente, também numa igreja, 
ou, mais precisamente, na capela do seminário em Mariana. Mas daquela 
feita o choro era fruto de suas meditações, ao passo que agora decorria de 
constatação nascida da mesma dúvida que o levara, em menino, a interpelar 
o padre Limeiro em Rio Acima: meditar em quê?
Fonte: O Grande Mentecapto, Fernando Sabino: 1979, p. 149.
Comentário: Intertextualidade interna, referência explícita do narrador a uma 
passagem anterior do próprio livro. 
Por isso mesmo não era da conta de ninguém. Muito menos daquele Co-
missário safado. Se não tivera sequer a felicidade original de conhecer pai, 
nem tão pouco de nascer rica, a culpa não era sua. Quem teria a faculdade 
de escolher pai e o lugar de nascer! Lição até mesmo dada por Cristo, o maior 
Homem do mundo. Ele, que foi um Deus na terra, o mais sábio dos sábios, 
nasceu de pais pobres e numa estrebaria.
Fonte: Palha de Arroz, Fontes Ibiapina: 2002, p. 23.
Comentário: Intertextualidade externa, referência explícita do narrador à 
vida de Cristo.
Pode também a intertextualidade ser explícita, confessada pelo escritor 
como vimos acima, ou ser implícita, o que significa quedependerá unicamente 
do leitor o reconhecimento do “diálogo”. Caso ele não reconheça/recupere a in-
tertextualidade praticada pelo escritor, a compreensão do trecho se fará apenas 
216
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
na esfera daquela narrativa, não tendo como estabelecer o diálogo pretendido 
pelo escritor. É o que temos no exemplo abaixo:
A casa que o Viajante escolhera para habitar em sua estada no Rio de Ja-
neiro, durante o ano de 1993, era conhecida na vizinhança da rua Duquesa 
de Bragança, e em todo o bairro do Grajaú, como casa da Maria Joana.
Fonte: Nictóbata Infesto, Claudio C. Henriques: 1999, p. 23.
Comentário: Intertextualidade externa, referência implícita do narrador ao 
parágrafo inicial de Os Maias, de Eça de Queirós (1997, p. 1041), onde se lê: A 
casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no outono de 1875, era conhecida na 
vizinhança da rua de S. Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janelas Verdes, 
pela casa do Ramalhete, ou simplesmente o Ramalhete.
Cérebro, coração e pavio
Um mês após, um homem trajando violentas polainas demi-saison subia 
calmamente a Avenue des Champs Elyseés em Paris.
Os leitores já terão adivinhado que era Serafim Ponte Grande.
Fonte: Serafim Ponte Grande, Oswald de Andrade: 1980, p. 65.
Comentário: Intertextualidade externa no título do capítulo, que faz referência im-
plícita ao título do romance de Camilo Castelo Branco Coração, Cabeça e Estômago.
Uma outra classificação diz respeito mais ao conteúdo e à forma sob a qual 
ocorre a intertextualidade. Entre elas, enumeram-se as seguintes:
intertextualidade de conteúdo (por exemplo, textos literários que se refe- �
rem a personagens, temas ou assuntos contidos em outros textos.);
intertextualidade formal (por exemplo, a “imitação” da tipologia textual: �
uma cantiga de amigo escrita hoje, um conto escrito em linguagem bíbli-
ca, jurídica ou de funk; outro exemplo: a “imitação” do estilo de um autor ou 
de uma obra); 
intertextualidade corrente (consiste no uso de frases ou expressões consa- �
gradas pela tradição cultural de uma comunidade, como provérbios, ditos 
populares, citações desgastadas, clichês, etc.) 
Estudo semântico-estilístico de texto ficcional
217
Capitu sou eu
(TREVISAN, 2003) 
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S.
 A
.
A professora de Letras irrita-se cada vez que, início da aula, ouve no pátio 
os estampidos da maldita moto.
Aos saltos de três ou quatro degraus, lá vem ele na corrida, atrasado 
sempre. Esbaforido, se deixa cair na carteira, provocante de pernas abertas. 
Mal se desculpa ou nem isso. Ela reconhece o tipo: contestador, rebelde sem 
causa, beligerante.
O selvagem da moto é, na verdade, um tímido em pânico, denunciado 
no rubor da face, que a barba não esconde. E, aos olhos dela, o torna assim 
atraente, um cacho do negro cabelo na testa.
Na prova do curso, o único que sustenta a infidelidade de Capitu. Confuso, 
na falta de argumentos, supre-os com a veemência e gesticulação arrebata-
da: infiel, a nossa heroína, pela perfídia fatal que mora em todo coração femi-
nino. Insiste na coincidência dos nomes: Ca-ro-li-na, da mulher do autor (com 
os amores duvidosos na cidade do Porto), e o da personagem Ca-pi-to-li-na...
Estilística aplicada ao texto ficcional
218
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
A traição da pobre criatura, para ele, é questão pessoal, não debate literá-
rio ou análise psicológica. Capitu? Simples mulherinha à toa. “Mulherinha, já 
pensou?”, ela se repete, indignada. “Meu Deus, este, sim, é o machista supre-
mo. Um monstro moral à solta na minha classe!” E por fim: “Ai da moça que 
se envolver com tal bruto sem coração...”
Na prova escrita os erros graves de sintaxe e mera ortografia já não são 
disfarçados pelo orador com pedrinhas na boca. E por que, ao sublinhá-los 
na caneta vermelha, tanto a perturbam as garatujas canhestras?
Nas aulas, por sua vez, ela que o confunde: sadista e piedosa, arrogante e 
singela. Sentada no canto da mesa, cruza as longas pernas, um lampejo da 
coxa imaculada. E, no tornozelo esquerdo, a correntinha trêmula – o signo do 
poder da domadora que, sem chicotinho ou pistola, de cada aluno faz uma 
fera domesticada. Elegante, blusa com decote generoso, os seios redondos 
em flor – ou duas taças plenas de vinho branco?
Finda a aula, deparam-se os dois no pátio, já desaba com fúria o temporal. 
Condoída, oferece-lhe carona de carro, não moram no mesmo bairro? No 
veículo fechado, o seu toque casual a estremece, perna cabeluda à mostra 
com o bermudão e botinas de couro. A cabeleira revolta não esconde, agora 
de perto, o princípio de calvície.
Ao clarão do poste, as gotas de chuva lá fora desenham no rosto da pro-
fessora fios tremidos de sombra. Com susto, o moço descobre que, sim, é 
bela: as bochechas rosadas pedem mordidas, sob a coroa solar dos grandes 
cachos loiros. Sem aviso, inclina-se e beija-a docemente. Para sua surpresa, 
em vez de se defender, a feroz inimiga lhe oferece a boquinha pintada, com 
a língua insinuante.
Dia seguinte ela telefona, propõe irem ao teatro, já tem os convites. Essa, 
a norma no futuro: tudo ela paga – o ingresso, o sorvete na lanchonete, a 
conta do restaurante.
Na volta, ela comenta o espetáculo. Ele ouve apenas. Silêncio inteligente? 
Ou não tem mesmo o que dizer? No carro, mais beijo, mais amasso.
“Louca! Louca! O que está fazendo? Nada de se envolver. Logo esse, um 
babuíno iletrado, que coça o joelho e odeia Capitu? E o teu filho, mulher? 
Não pensa que...?” É tarde: língua contra língua, apenas uma boca faminta 
que pede mais e mais.
Estudo semântico-estilístico de texto ficcional
219
Dias depois, convida-o para jantar. Música em surdina, luz de vela, vinho 
branco. Um filme clássico no vídeo, nenhum dos dois chega a ver. É a confu-
são da primeira vez:
– Como é que desabotoa? Não consigo...
– Cuidado, bem. Assim você rasga!
Só o bruxuleio da tela. Tudo acontece no falso tapete persa da sala, onde 
ele derruba o seu copo de vinho: ó dunas calipígias movediças! E sai de 
joelho todo esfolado.
Flutua dois palmos acima do chão: “Como é gostosa, a minha 
professorinha!”
À sua mercê, na pose lânguida de pomba branca arrulhante. O queixo 
apoiado na mãozinha esquerda (com tais dedos fofinhos, tal Mariazinha estaria 
perdida na gaiola da bruxa). O sestro de apertar o olhinho glauco que a faz tão 
sensual – e era apenas, ele soube depois, o da míope sem a lente de contato.
Uma semana mais tarde, de volta do cinema, ele entra para um cálice de 
vinho do Porto. Daí se queixa do joelho esfolado. Ela o recolhe no quarto, a 
ampla cama redonda.
Ao clarão da lua na janela. Sempre a luz apagada, uma cicatriz de cesaria-
na? Arrepiado, ele evita acariciar-lhe o ventre. Mais excitante:
– Eu não sei fazer direito. Com ele... nunca fiz.
Casada sete anos com um dentista. Divorciada há dois. Um filho de cinco.
– Com o tal nunca senti prazer. Me ensine.
O que ela não conta: dez anos mais velha.
– Eu quero aprender. Só para te agradar.
– ...
– Com você é por amor.
[...]
A suposta aprendiz, na verdade, mestra com louvor em toques e 
blandícias.
220
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
[...]
– Aqui, beba o teu vinho.
Quer viciá-lo, ela, a droga fatal?
– E mate a tua sede!
Se domina com fluência quatro ou cinco línguas, mais graduada é a lin-
guinha poliglota em ciências e artes.
[...]
Ó grande gata angorá – luxo, preguiça e volúpia –, os olhos azuis corus-
cantes no escuro.
– Fale, você. Ei, por que não fala?
Ele, durão. Nem um pio. Aturdido com tamanho delírio verbal.
De repente, batidas na porta. Fracas, mas insistentes.
– Pô, quem será?
O moço, um coração latindo no joelho trêmulo. Decerto o maldito ex- 
-marido (Não é minha? É de mais ninguém!).
– Orra, o que eu... agora...
Nu, só de meia branca. “E agora, cara? Se esgueirar para debaixo da cama? 
Pular a janela? Sair voando pelo telhado?”
Um fio de voz:
– Mãe, por favor.
Ela já enfia o roupão.
– Mãezinha, estou com medo!
De chinelinho, a mão na suaboca:
– Não se mexa. Quietinho. Já volto.
Fecha a porta. As vozes se afastam. Ele acende o abajur: mania dela, só no 
escuro. Algum defeito, além da famosa cicatriz? Vergonha do grosso tornozelo?
Todo vestido, espera sentado no sofá. “Nu, já não me pegam. Nunca mais.”
Estudo semântico-estilístico de texto ficcional
221
De volta, ela explica que, isso mesmo, o menino se assustou. Medroso, 
quer dormir na cama da mãe. Sossega-o, mas não deixa: nada de fixação 
edipiana. Sempre as malditas fórmulas do velho charlatão, diz ele. Ou pensa, 
mas não diz.
Dois beijos, ele se despede. E sai de mansinho.
Dias depois, ela o convida, ele dá uma desculpa. Outro convite, outra des-
culpa. Na terceira vez, o encontro no teatro.
Logo no início da peça, ela não se contém. Voz alta e estridente, chaman-
do a atenção dos espectadores, exige uma explicação. Cansada de amores 
furtivos. Não é mulherinha qualquer. O moço que se decida: assume o 
compromisso?
Em pânico, ele encolhe-se na cadeira.
– Eu passo a tomar pílula?
Olha fixo para o palco – depois dessa, Beckett nunca mais.
– Ou é o fim?
Ah, bandido querido, ela começa a chorar por dentro. Mil palavras nada 
podem contra o brado retumbante do seu silêncio. Não encobre, certo, ver-
dades profundas e caladas. É apenas uma linda cabecinha vazia de ideias – e 
sentimentos. Desesperada, agarra-lhe a mão. Geme, baixinho:
– Me perdoa... Me perdoa...
Não ele. E aproveita a deixa:
– Você tem razão. É o fim.
Só falar em enigma de Capitu, ele já passa a mão no revólver.
– Sou muito moço para...
Sem perdão ela foi condenada, sequer o benefício da dúvida.
– Isso aí. Já falou. É o fim.
Dia e noite, ela telefona. E pede, roga, suplica, por favor. Que volte, por 
Jesus Maria José. Ele acaba cedendo. E já os mesmos não são: o doce leite 
que, só para ele, secretava [...] azedou.
222
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
O mau aluno revela o pior: bebe o seu uísque, o seu vinho, o seu licor. 
Perde o acanho, prepotente e abusivo. Só deixar um tímido à vontade nos 
jogos do amor – e sua audácia não tem limite. Quer tudo, e já. Se, dengosa, 
ela nega para, entre agradinhos e ternurinhas, logo ceder – não com ele. Se-
gunda vez não pede, o bruto simplesmente toma à força.
Ali na cama do casal, sob o crucifixo bento e a santa de sua devoção, ela se 
descobre uma bem-dotada contorcionista. É ela? é a sua gata angorá? pos-
sessa e possuída, aos uivos, em batalhas sangrentas pelos telhados na noite 
quente de verão?
Pela manhã, depois que ele se vai, chora de vergonha. “Como eu fui capaz... 
Não só concordei. Quem acabou tomando a iniciativa? Só eu. Euzinha. Não 
jurei que nunca, nunca eu faria... Meu Deus, como beijar agora o meu filho? 
Ó Jesus, sou mulherinha à toa? Eu, culpada. Eu... Capitu?”
Muito desconfia que, apesar da fanfarronice, ele o mais inexperiente. Dis-
farça o enleio com a feroz truculência. Chegará logo logo ao tabefe de mão 
aberta (que não deixa marca) e às palmadas sonoras [...]. Não é o que merece 
uma cadelinha feminista, advogada graciosa da filha do Pádua?
Deixa-o de carro diante do barzinho, para encontrar os amigos. Amigos? 
As coleguinhas lindas e frescas, além de desfrutáveis. Boa safra, essa, para um 
jovem garanhão!
Ao sentir que o perde, tudo o que ela faz para retê-lo mais o afasta. Ah, 
quão pouco lhe serve agora a prosápia dos barões legendários: com a paixão 
e o desespero, vem o ciúme furioso. Não esquece que ele pode ter quantas 
queira – dez anos mais novas que... a tia? E que, elas mesmas, se oferecem 
agressivas. Sem promessa de constância ou fidelidade.
A tia bem o sufoca, executora de promissórias vencidas e extintas. Tão 
diferente da outra (vestida só de cabeleira dourada – adeus, nunca mais, ó 
dunas calipígias movediças!). Agora exige votos de eterno amor antes, du-
rante e depois do amor efêmero.
Até que uma noite ele cavalga a moto, selvagens a máquina e o piloto, 
impávido na jaqueta negra de couro – surdo aos gritos que o estampido do 
motor abafa –, fruindo a liberdade da cabeleira ao vento (merda para o capa-
cete!) e antegozando a próxima conquista.
– Adeus, gorda grotesca de coxa grossa!
Estudo semântico-estilístico de texto ficcional
223
Ela, arrependida e já resignada com o seu próximo calvário: a persegui-
ção humilhante pelos bares, onde ele exibe o troféu de guerra da correnti-
nha do tornozelo (essa tia louca lá fora, sabe quem é?), a longa vigília diante 
da sua casa (mora com a mãe viúva), as preces não atendidas, as cartas 
patéticas, ainda que sem erros de sintaxe ou ortografia – merda para a cor-
reção gramatical!
Um babuíno tatibitate, ah, é, que coça o joelho? Quem dera, ainda uma 
vez, beijar esse joelho esfolado e, rastejando aos uivos, lamber as suas feri-
das... Ai dela, mesma situação da outra, enjeitada lá na Suíça pelo bem-ama-
do, desgracido machista. E, apesar da péssima prova, graduado por média, 
com distinção em Literatura.
Essa mesma que, ciosa de sua dignidade, rejeitara uma carona de moto, ao 
ver que ele se vai, dela esquecido, quer segurá-lo – tarde demais. Na fantasia 
doida, alcança-o e salta-lhe na garupa, agarrada firme à cintura. Lá seguem 
os dois, abraçados, à caça de aventuras.
Depois que ele recolhe a moto na garagem e dorme serenamente na 
cama, ela continua na dura garupa. Condenada a vigiá-lo, a guardá-lo, 
sempre a esperá-lo.
Caminha descalça pelo inferno de brasas vivas. Uma série vergonho-
sa de casos: fotógrafo homo, pintor futurista, professor impotente, sei lá, 
poeta bêbado.
E, última tentativa de reconquistar o seu amor, acaba de publicar na Revis-
ta de Letras um artigo em que sustenta a traição de Capitu.
A sonsa, a oblíqua, a perdida Capitu. Essa mulherinha à toa.
Uma análise dos recursos estilísticos empregados em um texto inclui a obser-
vação das figuras de linguagem mais representativas, da temática e dos recursos 
de estruturação, com o objetivo de mostrar a expressividade do texto. A isso se 
associa o estudo dos elementos semânticos, verificando o escopo da significa-
ção tanto no âmbito lexical quanto discursivo.
O conto “Capitu Sou Eu”, de Dalton Trevisan, é o primeiro dos vinte e um contos 
lançados em 2003 no livro homônimo. Intertextual no título, utiliza o nome da 
mais famosa personagem de Machado de Assis para narrar uma história de amor 
e sexo entre a professora de Letras e seu aluno motoqueiro.
224
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
Os dois personagens nos são apresentados em plena prova de Literatura, na 
qual ele é o único aluno a sustentar “a infidelidade de Capitu”. A prova deve ser oral, 
pois o examinado não tem argumentos e “supre-os com a veemência e gesticula-
ção arrebatada”. Na sua opinião, a heroína de Machado é infiel porque, como toda 
mulher, tem uma perfídia fatal que mora em seu coração. Além disso, há um argu-
mento fônico que a incrimina e, mais, leva a suspeição de infidelidade ao próprio lar 
do escritor: Ca-pi-tu-li-na e Ca-ro-li-na não são apenas uma rima, mas uma dupla de 
mulheres infiéis, pois a mulher do autor teria tido seus “amores duvidosos na cidade 
do Porto”, antes de mudar-se para o Brasil.
A professora não aceita o epíteto “mulherinha à toa” atribuído a Capitu e, por 
considerar seu aluno “um bruto sem coração”, ainda lamenta a sorte da moça 
que com ele se envolver.
Não bastasse a inexistência de debate literário ou de análise psicológica 
durante o exame oral, há ainda as informações que o narrador nos transmite 
sobre o pífio desempenho do rapaz na prova escrita. Dessa feita, “erros graves 
de sintaxe e mera ortografia” caem sobre os seus ombros. É nesse momento da 
narrativa que o narrador começa a revelar os pensamentos dos personagens. 
Oscilando no uso do discurso interior e do discurso indireto livre, o narrador 
parece passar a voz primeiro para o rapaz e depois, prioritariamente, para ela. 
Continua, porém, usando a terceira pessoa, como no trecho em que, ao final da 
aula, quando desaba com fúria um temporal, “condoída, oferece-lhe carona, nãomoram no mesmo bairro?”.
O narrador prossegue na técnica do discurso indireto e do discurso interior 
para mostrar como se prepara o esperado envolvimento emocional/sexual/sen-
timental (não se sabe ainda direito) dos dois personagens. Mas o beijo trocado 
no carro logo revela que o envolvimento de ambos será o mote da narrativa do-
ravante. O rapaz é “um babuíno iletrado, que coça o joelho e odeia Capitu”, pensa 
a professora que lembra ter um filho.
Após mais algumas descrições de outros encontros, o narrador passa a pala-
vra aos personagens. Estrategicamente, os diálogos em discurso direto passam 
a predominar, o teor das falas parece mais propício e explícito para mostrar o 
calor dos amantes.
Na intertextualidade implícita dessas passagens, o leitor pode começar a 
juntar as pistas do escritor: o enigma aparente do título do conto parece desfei-
to, as falas da mulher-amante contrastam com as da mulher-professora. Mas a 
relação se desgasta. O jovem parece enjoar-se da mulher mais velha, que sofre 
Estudo semântico-estilístico de texto ficcional
225
e se desespera. Não há como escapar de sua sina. O recurso do discurso interior, 
usado em boa parte da narrativa para mostrar os pensamentos da mulher, fica 
balanceado. Agora “a tia bem o sufoca” e exige “votos de eterno amor antes, du-
rante e depois do amor efêmero”, paradoxo que serve como senha para a frase 
hiperbólica “Adeus, gorda grotesca da coxa grossa!”
O narrador retoma a palavra e não emprega mais o discurso direto com tra-
vessões. Revela-nos que ela está arrependida, embora seja um arrependimen-
to inútil, pois não muda sua atitude “neocapitu” de mulherinha à toa tentando 
reconquistar o amante: faz vista grossa para sua péssima prova, gradua-o “por 
média, com distinção em Literatura” e publica na Revista de Letras “um artigo em 
que sustenta a traição de Capitu”.
Na frase final do conto, vemos a apropriação dos adjetivos “sonsa, oblíqua 
e perdida” para atribuí-los a Capitu, “essa mulherinha à toa” – a personagem 
consagrada ou a professora do conto? Eis um novo enigma para a próxima aula 
de Literatura.
Texto complementar
A importância de um bom final
(GIOSTRI, 2006, p. 79-80)
Se há um ponto de partida, há um de chegada. O final é o desfecho da 
ação; é nele que se revelam todos os conflitos que foram apresentados e 
esticados durante a trama.
O final de uma trama é fundamental para seu entendimento e para o pró-
prio convencimento. Nele, o autor deve amarrar todas as ferramentas que apre-
sentou ao longo do desenvolvimento. Para isso é primordial que tenha traçado 
uma narrativa funcional com personagens e diálogos bem desenvolvidos, além 
das passagens de tempo, que são as que dialogam com o ritmo do todo.
Ora, na trama o autor apresenta o início dos fatos, as personagens, es-
tabelece os núcleos em que se dará a ação de cada um, apresenta os con-
flitos internos e externos, liga-os de modo que os fios de condução fiquem 
evidentes à plateia, apresenta indiretamente aonde quer chegar e impõe os 
226
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
obstáculos que impedirão e contribuirão para o desenvolvimento. Amarra 
tudo, leva a trama ao ápice e inicia o fim da trajetória, que é a solução de 
tudo que foi apresentado. E nisso se inclui a solução de todos os núcleos, 
todas as personagens, da trama em si. Apresentada a reta final, o autor vai 
pincelando os conflitos, condenando quem deve ser condenado, absolvendo 
quem merece seu perdão e pondo as pedras sobre os conflitos solucionados. 
Resolvido tudo que foi apresentado e desenvolvido, verificada a questão da 
verossimilhança interna e externa da estrutura, o autor finaliza sua obra.
[...] O final não é o simples desfecho; a solução barata. O autor deve pensar 
um final elaborado, de preferência que surpreenda os espectadores/leitores 
e que, de um modo ou de outro, já esteja no inconsciente coletivo.
A questão do inconsciente coletivo não é complicada. Uma vez que o 
autor elabora o que quer contar e aonde quer chegar para preparar as ferra-
mentas que conduzirão os espectadores/leitores a absorver possíveis con-
clusões subjetivas sobre a trama apresentada, para, a partir delas, no plano 
do inconsciente, abrir portas subjetivas que possibilitarão a aceitação e iden-
tificação através da verossimilhança proposta na estrutura interna da narrati-
va. É o que se pode dizer do ato de surpreender.
O espectador/leitor quer ser surpreendido pelo autor, mas não quer 
ser enganado. Nesse sentido, o autor deve dosar sua arquitetura para não 
ultrapassar essa linha que é fina e delicada. É como se o autor fizesse um 
paralelo entre a mentira e a omissão e o transferisse para o jogo da sur-
presa e da enganação. Sua escrita deve amparar-se do lado da omissão e 
da surpresa.
O autor, quando apresenta alguns fatos em sua trama, oferece ao espec-
tador/leitor algumas explicações/justificativas que, naquele momento, se 
empenham apenas em amparar dramaticamente seu ato na escrita e o ato 
na ação. No entanto, essa “dica dramática” serve apenas para criar expecta-
tiva e curiosidade sobre o que está sendo apresentado. O desenvolvimento 
da ação mesma deve ser elaborado em seus mínimos detalhes, pois é atra-
vés dessas “dicas dramáticas” que o autor conduzirá a trama e a levará até 
o final junto dos espectadores/leitores, que estarão abarcados na trama e 
repletos de dúvidas e certezas.12
1 As opiniões e recomendações do autor do artigo se referem a um protótipo de leitor/espectador e de texto ficcional. Em muitos casos, o 
bom final de uma narrativa é exatamente o oposto desse protótipo.
Estudo semântico-estilístico de texto ficcional
227
Dicas de estudo
DISCINI, Norma. “Intertextualidade”, capítulo do livro O Estilo nos Textos.
O capítulo aborda a questão do diálogo entre a voz do outro e a voz do um e 
faz considerações a respeito da relação entre intertextualidade e estilo.
FIORIN, José Luiz; SAVIOLI, Francisco Platão. “Personagens e Espaço”, lição 13 do 
livro Lições de Texto: leitura e redação.
Os autores analisam trechos de textos literários e explicam particularidades 
na construção de personagens e na utilização do espaço.
Estudos linguísticos
1. Esse mundo de fadistas, de faias, parecia a Carlos merecer um estudo, um ro-
mance... Isto levou logo a falar-se do Assommoir, de Zola e do realismo: – e o 
Alencar imediatamente, limpando os bigodes dos pingos de sopa, suplicou 
que se não discutisse, à hora asseada do jantar, essa literatura latrinária. Ali 
todos eram homens de asseio, de sala, hein? Então, que se não mencionasse 
o excremento!
 Pobre Alencar! O naturalismo; esses livros poderosos e vivazes, tirados a mi-
lhares de edições; essas rudes análises, apoderando-se da Igreja, da Realeza, 
da Burocracia, da Finança, de todas as coisas santas, dissecando-as brutal-
mente e mostrando-lhes a lesão, como a cadáveres num anfiteatro; esses 
estilos novos, tão precisos e tão dúcteis, apanhando em flagrante a linha, a 
cor, a palpitação mesma da vida; tudo isso (que ele, na sua confusão mental, 
chamava a Ideia nova) caindo assim de chofre e escangalhando a catedral 
romântica, sob a qual tantos anos ele tivera altar e celebrara missa, tinha des-
norteado o pobre Alencar e tornara-se o desgosto literário da sua velhice. Ao 
princípio reagiu. «Para pôr um dique definitivo torpe maré», como ele disse 
em plena Academia, escreveu dois folhetins cruéis; ninguém os leu; a «maré 
torpe» alastrou-se, mais profunda, mais larga. Então Alencar refugiou-se na 
moralidade como numa rocha sólida. O naturalismo, com as suas aluviões de 
obscenidade, ameaçava corromper o pudor social? Pois bem, ele, Alencar, 
seria o paladino da Moral, o gendarme dos bons costumes. Então o poeta 
das Vozes d’Aurora, que durante vinte anos, em cançoneta e ode, propusera 
comércios lúbricos a todas as damas da capital; então o romancista de Elvira 
228
Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
que, em novela e drama, fizera a propaganda do amor ilegítimo, represen-
tando os deveresconjugais como montanhas de tédio, dando a todos os 
maridos formas gordurosas e bestiais, e a todos os amantes a beleza, o es-
plendor e o gênio dos antigos Apolos; então Thomaz Alencar que (a acredita-
rem-se as confissões autobiográficas da Flor de Martírio) passava ele próprio 
uma existência medonha de adultérios, lubricidades, orgias, entre veludos 
e vinhos de Chipre – de ora em diante austero, incorruptível, todo ele uma 
torre de pudicícia, passou a vigiar atentamente o jornal, o livro, o teatro. E 
mal lobrigava sintomas nascentes de realismo num beijo que estalava mais 
alto, numa brancura de saia que se arregaçava de mais – eis o nosso Alencar 
que soltava por sobre o país um grande grito de alarme, corria à pena, e as 
suas imprecações lembravam (a acadêmicos fáceis de contentar) o rugir de 
Isaias. Um dia porém, Alencar teve uma destas revelações que prostram os 
mais fortes; quanto mais ele denunciava um livro como imoral, mais o livro 
se vendia como agradável! O Universo pareceu-lhe coisa torpe, e o autor de 
Elvira encavacou... 
 No trecho transcrito de Os Maias, de Eça de Queiroz (1997, p. 1151-2), o nar-
rador em terceira pessoa apresenta a perspectiva do personagem Tomás 
Alencar, poeta romântico que combate o Realismo/Naturalismo. O narrador 
se vale de estratégias redacionais que incluem a digressão, a alusão, a ironia, 
o discurso indireto livre para revelar suas próprias convicções sobre o Realis-
mo/Naturalismo. Quais são elas?
Estudo semântico-estilístico de texto ficcional
229
2. Comente os valores estilísticos dos diminutivos em -inho empregados por 
Dalton Trevisan no conto “Capitu Sou Eu”.
Estilística, a ciência da expressividade
1. Opções (a) e (c): Estilística literária.
 Justificativa: os dois comentários contêm reflexões de cunho psicoló-
gico a respeito da maneira de João Cabral se expressar e de revelar seu 
mundo interior e experiência de vida.
 Opção (b): Estilística linguística.
 Justificativa: o comentário aborda uma questão do léxico, examina sua 
carga semântica na obra e destaca aspectos linguísticos objetivos para 
buscar a interpretação do texto.
2. As opções (a) e (e), embora corretas, não contêm comentários estilís-
ticos, mas observações sintáticas objetivas, que não fazem nenhuma 
interpretação do texto.
 As opções (b), (d) e (f ) apresentam comentários estilísticos baseados 
em questões linguísticas e procuram interpretar a expressividade das 
escolhas do poeta.
 A opção (c) contém uma interpretação equivocada, pois o texto distin-
gue “a pedra do papel” como a “que dá à frase o seu grão mais vivo”, ou 
seja, ela é inovadora, pois “açula a atenção” e é força criativa.
3.
a) Função referencial (ou informativa).
b) Função conativa.
c) Função emotiva (ou expressiva) – Obs.: trecho de canção compos-
ta por Luiz Antônio.
d) Função metalinguística.
e) Função fática.
Gabarito
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Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
f) função poética – Obs.: tradução livre de uma estrofe do poema Beer, de 
Charles Bukowski.
Estilística fônica
1. A opção (a) está correta, havendo erro na opção (b), pois a figura é a alite-
ração, e na opção (c), já que o intuito da harmonia imitativa é reproduzir o 
ruído dos freios do trem.
2. A opção (a) contém interpretação equivocada, pois repetir “tem gente com 
fome” não causa monotonia, e sim ideia de movimento. Também há erro de 
interpretação na opção (e), pois as palavras usadas nas onomatopeias como 
estribilho conservam seu valor semântico para confirmar a temática social. 
Por fim, há erro na opção (d), pois o comentário feito é de Estilística sintática.
3. As opções (b), (c) e (f ) estão corretas.
 As alternativas (c) e (d) não contêm recursos de Estilística fônica. Nas demais op-
ções, temos: (a) aliteração; (b) onomatopeia; (e) assonância; (f ) homeoteleuto.
Estilística léxica
1. Destoa o gentílico “vienense”, pois o que predomina no modelo desse tipo 
de verbete é a estrutura “relativo a (nome da cidade + estado ou país) + ou o 
que é seu natural ou habitante”. Para haver simetria com o modelo adotado 
pela obra, o verbete deveria estar assim apresentado:
 vienense – relativo a Viena (Áustria) ou o que é seu natural ou habitante.
2. A autora critica a possível interpretação de que as chamadas palavras gra-
maticais seriam totalmente vazias de sentido, quando na verdade o linguista 
opõe a ideia de plenitude semântica à de esvaziamento semântico levando 
em conta os valores extragramaticais das palavras lexicais. No entanto, é cor-
reto o entendimento de que as palavras gramaticais também possuem al-
gum valor semântico “externo”. Assim, pode-se concluir que palavras plenas 
não são as lexicais e, sim, as gramaticais.
233
Gabarito
3. 
a) O substantivo “minhoca” é epiceno e não tem flexão de gênero; mas a 
cantiga fala em “minhoco”, uma flexão expressiva que tem valor afetivo e 
humanizador.
b) Há uma metáfora expressiva, que iguala a vida do eu lírico a uma col-
cha de retalhos, ou seja, a vida é uma amontoado de ocorrências que se 
costuram aleatoriamente – embora, frise-se, sejam todos da mesma cor 
(outra metáfora, para dizer que é uma vida monótona).
c) A imagem que Lenine usa está na expressão metafórica “deu um nó”, pela 
similaridade com a ideia de “estar preso, amarrado” na relação amorosa.
d) Chico Buarque usa “Neruda” em lugar de “livro do Neruda”, exemplo sim-
ples de metonímia, em que o nome do autor é usado em lugar do nome 
da obra.
Estilística sintática – I
1. A silepse de número ocorre no trecho final (quando não encontram uma 
pessoa que possa tomar conta de sua filha pequena), cujo sujeito tem como 
antecedente o substantivo “casal”, palavra singular com significado plural (= 
eles). O distanciamento entre o verbo “encontrar” e o referente “casal” justifica 
a silepse como forma mais apropriada ao trecho, que correria algum risco se 
usasse o singular “quando não encontra uma pessoa que possa tomar conta 
de sua filha pequena”.
2. Em “preciso aprender a ser só”, “só” significa “sozinho” (é adjetivo). Em “preciso 
aprender a só ser”, “só” significa “apenas” (é palavra denotativa de restrição). 
Como adjetivo, desempenha a função de predicativo do sujeito, devendo 
manter-se na posição final da frase (sua antecipação, mesmo colocado entre 
vírgulas, poderia gerar ambiguidade). Como palavra denotativa, “só” não tem 
função sintática, podendo deslocar-se para outros pontos da oração, mas 
passaria a restringir outras palavras (na letra original, só restringe o verbo ser, 
sinônimo de existir). Pode-se dizer que a finalidade do autor foi fazer uma re-
ferência intertextual (com o citado samba-canção) vinculada ao argumento 
do combate à tristeza e à solidão.
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Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
3. 
a) A silepse de pessoa se explica pela pretensão do autor de se incluir no 
sujeito “todos”.
b) A hipálage mostra a transferência de relação sintática de “amigos” – logica-
mente atribuído ao interlocutor, mas sintaticamente atribuído a “braços”.
c) O pleonasmo ocorre na duplicação do objeto direto de “admirar”. É uma 
forma de ênfase Estilística.
d) Na ordem direta, a frase seria “fazemos um pouco de tudo”. A inversão 
dá destaque ao indefinido “tudo” e não tem maior complexidade, o que 
caracteriza a anástrofe.
Estilística sintática – II
1. Anáfora – repetição de uma ou mais palavras no princípio de dois ou mais 
segmentos sintáticos ou poéticos sucessivos.
 Exemplos: 
 “É pau, é pedra, é o fim do caminho.” (Tom Jobim) 
 “Sonharei em Mariana, / sonharei no trem de ferro, / sonharei no acaba-mun-
do.” (Alphonsus de Guimaraens Filho)
 Epanáfora – tipo de anáfora que ocorre quando a repetição se dá no início de 
parágrafos ou estrofes sucessivas. Para alguns autores, epanáfora e anáfora 
são termos sinônimos.
 Exemplos:
 [“Tragédia no Mar”, que faz parte do poema O Navio Negreiro, de Castro Al-
ves, tem suas quatro primeiras estrofes iniciadas pela expressão “‘Stamos em 
pleno mar”]
 [A letra da música “Construção”, de Chico Buarque,repete o início de cada um 
dos versos da primeira estrofe nas estrofes subsequentes, alterando apenas 
as palavras finais dos versos]
 Epífora – repetição de uma ou mais palavras no final de dois ou mais seg-
mentos sintáticos ou poéticos sucessivos.
235
Gabarito
 Exemplos: 
 “Ninguém se lembra de nada. Estrelas ermas na altura, se brilham, não dizem 
nada.” (Emílio Moura)
 “A noite esfriou, / o dia não veio, / o bonde não veio, / o riso não veio, / não 
veio a utopia / e tudo acabou.” (Carlos Drummond de Andrade)
 Epístrofe – tipo de epífora que ocorre quando a repetição do termo ou ex-
pressão se dá em toda a estrofe ou em muitos segmentos sintáticos sucessi-
vos. Para alguns autores, epístrofe e epífora são termos sinônimos.
 Exemplos:
 “Nunca morrer assim! Nunca morrer num dia assim! de um sol assim!” (Olavo 
Bilac)
 “Talvez isto realmente se desse... / Verdadeiramente se desse... / Sim, carnal-
mente se desse...” (Fernando Pessoa)
2. As sugestões são: na primeira lacuna, “a mãe de seu marido” ou “Dona Maria”; 
na segunda lacuna, “de Anselmo” ou “do filho”.
 Na primeira lacuna, “a mãe de seu marido” substitui perfeitamente a palavra 
“sogra” (empregada duas linhas antes) e evita uma repetição viciosa. A opção 
por “Dona Maria” também seria adequada, pois o contexto da segunda lacu-
na identificaria sem dúvida a que personagem se referiria. 
 Na segunda lacuna, “do filho” parece-nos mais conveniente do que a locução 
“de Anselmo”, embora aqui não esteja caracterizada a repetição viciosa por-
que a outra ocorrência de “Anselmo” está distante, no início do parágrafo.
 Em ambos os casos, porém, o redator teve de se valer de seu vocabulário pes-
soal para buscar os sinônimos adequados às suas necessidades e às do texto.
3. Eis uma reescritura possível:
 A gravata enrolava-se parecendo uma corda colocada por cima da camisa 
rasgada e suja, ao mesmo tempo em que apareciam fiapos nas bainhas das 
calças e nos cotovelos puídos. A roupa estava cada vez mais empoeirada, 
combinando com a sola gasta dos sapatos e com o que fazia a fome com os 
meus olhos, que descobriam, entre as árvores, cenas irreais. [Dois períodos 
com orações apenas dependentes].
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Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
 O comentário, com essa reescritura, deve destacar que as duas redações são 
expressivas, mas que há mais força descritiva no texto original do que na 
nova redação. A sucessão de orações independentes dá equilíbrio às ima-
gens fortes e arrastadas que o narrador quis retratar. 
Estilística da enunciação
1. Na letra da música, o eu lírico faz uma proposta à sua amada, que no dis-
curso ocupa a posição da 2.a pessoa (com quem se fala). A letra, no entanto, 
emprega de modo irregular as formas de tratamento de P2 e P3 gramaticais 
quando se refere a essa pessoa. Comprovam essa afirmação os pronomes 
“você” (4 ocorrências) e “te” (1 ocorrência) e os verbos no imperativo: pense, 
chore, não chore e (se) lembre (P3) e liga, não liga (P2) – embora o imperativo 
negativo não tenha a forma “não liga” na variante padrão. Essa flutuação é 
típica da oralidade do português brasileiro contemporâneo.
2. Eis uma reescritura possível, mantendo ao máximo os itens lexicais do texto 
original:
 Perguntei, ansioso, a meu filho, assim que saímos, em que turma ele está, se na 
12 ou na 13. Ele me respondeu distraído que está na 14. Respirei com alívio: e 
nem podia ser de outra maneira, não era isso mesmo?
 Comentei apenas que ficava satisfeito de saber. Ele não perdeu tempo e logo se 
aproveitou para dizer que queria então me pedir um favor. Queria que eu man-
dasse ao Padre-Diretor um bilhete dizendo que ele não pode comer verdura. 
3. Eis uma reescritura possível, mantendo ao máximo os itens lexicais do texto 
original:
 Notas de R$1,00 somem, e comerciantes reclamam das dificuldades no troco e 
dos prejuízos nas vendas. Eles contam que as moedas, em especial as de um real, 
praticamente sumiram. A escassez também vale para as de menor valor, como 
as de 25 e 50 centavos. “As notas de R$1,00 já estavam faltando, mas as moedas 
resolviam o problema. Hoje até elas estão sumindo”, reclama Júlia Roberta, cai-
xa de uma loja de bolsas e acessórios que fica no centro da cidade.
237
Gabarito
Semântica, a ciência das significações
1. Nos estudos semânticos é importante a definição de signo linguístico, que 
inclui as noções de significante e significado, de forma e substância, as re-
lações sintagmática e paradigmática e o conceito de arbitrariedade e line-
aridade do signo, o que implica saber fazer a distinção entre os enfoques 
sincrônico e diacrônico.
2. A marcação correta é: (D), (B), (C), (A).
3. As opções (a) e (d) estão corretas; a opção (b) é falsa, pois no verso 5 a pre-
posição introduz uma interrogação (o poeta quer saber qual a finalidade de 
“usar tanta educação”); também é falsa a opção (c), pois o amor é mostrado 
como a causa da proteção da pessoa amada. 
Relações semânticas – I
1. São verdadeiras as afirmações (a), (b) e (c). Na letra (d) é o conjunto de verbe-
tes que se chama “nominata”. Na letra (e), tanto os dicionários gerais como os 
específicos podem ser estruturados num modelo alfabético, ou seja “palavra 
por palavra”.
2. A transcrição correta do poema é a que segue: “As estátuas sem mim não po-
dem mover os braços / Minhas antigas namoradas sem mim não podem amar 
seus maridos / Muitos versos sem mim não poderão existir. // É inútil deter as 
aparições da musa / É difícil não amar a vida / Mesmo explorado pelos outros 
homens / É absurdo achar mais realidade na lei que nas estrelas / Sou poeta 
irrevogavelmente.”
 A única palavra que parece não se ajustar ao texto é “seios” (1.o verso), tendo 
em vista se relacionar com o verbo “mover” (apesar disso, a ideia de “mover 
os seios” não é de todo incoerente). No penúltimo verso, não haveria incoe-
rência dizer “sereias” em vez de “estrelas”, pois o poeta também poderia, de 
alguma forma, comparar a realidade da lei com a das sereias. Nos demais 
versos, a substituição não mudaria o significado do verso, mas poeticamente 
talvez houvesse variações de expressividade.
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Língua Portuguesa: Semântica e Estilística
3. O parágrafo, reescrito com as correções, ficará assim: Nossos colegas pediram 
dispensa do serviço porque já se sabe que infringiram o regulamento. Por não 
terem cumprido o disposto, colocaram em cheque suas carreiras e por ora vão 
expiar suas culpas numa chácara longínqua.
Relações semânticas – II
1. A coluna da palavra “amor” terá os seguintes elementos: livro + sorte + pen-
samento + teorema + novela + prosa + torna patético + cristão + latifúndio 
+ divino + bossa nova + para sempre + do bem + amizade + um + depois + 
vem de nós + demora.
 A coluna da palavra “sexo” terá: esporte + escolha + cinema + imaginação + fan-
tasia + poesia + selva de epiléticos + pagão + invasão + animal + carnaval + para 
sempre + do bom + vontade + dois + antes + vem dos outros + vai embora.
 Nenhum dos dois grupos contêm palavras que representem, necessaria-
mente, uma ideia de inferioridade ou negatividade – tanto do ponto de vista 
conceitual quanto semântico. Os autores trabalharam com pares opositivos 
alternativos (p. ex.: esporte x cultura; novela x cinema; cristão x pagão; bossa 
nova x carnaval) e, mesmo quando ao final dizem que “o amor vem de nós 
e demora” e que “o sexo vem dos outros e vai embora”, nem aí é possível ga-
rantir a supremacia de um dos campos sobre o outro. Parece que o intuito 
é fazer com que nossa conclusão seja pela combinação dos dois, pois afinal 
“sexo sem amor é vontade” e “amor sem sexo é amizade”, ou seja, sexo não 
é amizade e amor não é vontade, como quem diz: melhor é amor com sexo e 
sexo com amor...
2. [sugestões] série formal, apenas com palavras que rimam com “brancura”: 
dentadura, formosura, segura, tortura, loucura // série morfossemântica, 
com palavras da mesma família etimológica: branco, branquear, esbranqui-
çar, branqueamento, branqueador.
3.
a) [sugestão] geladeira,

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