Prévia do material em texto
Claudio Cezar Henriques 2009 LÍNGUA PORTUGUESA: Semântica e Estilística IESDE Brasil S.A. Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482. CEP: 80730-200 Batel – Curitiba – PR 0800 708 88 88 – www.iesde.com.br Todos os direitos reservados. © 2009 – IESDE Brasil S.A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito dos autores e do detentor dos direitos autorais. Capa: IESDE Brasil S.A. Imagem da capa: Comstock Complete CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ H449l Henriques, Claudio Cezar, 1951- Língua portuguesa : semântica e estilística / Claudio Cezar Henriques. – Curitiba, PR : IESDE Brasil, 2009. 256 p. Inclui bibliografia ISBN 978-85-387-0661-8 1. Língua portuguesa – Semântica. 2. Língua portuguesa – Estilo. 3. Linguagem e línguas. I. Título. 09-1785. CDD: 469.5 CDU: 811.134.3’36 Pós-Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo (USP); Doutor em Letras pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ); Mestre em Letras pela Uni- versidade Federal Fluminense (UFF); Licenciado e Bacharel em Letras pela Univer- sidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Claudio Cezar Henriques Sumário Estilística, a ciência da expressividade .............................. 11 A palavra “estilo” ......................................................................................................................... 11 As origens da Estilística ........................................................................................................... 12 Principais correntes da Estilística ......................................................................................... 14 Aplicações da Estilística aos estudos do português ..................................................... 18 Estilística fônica ......................................................................... 27 Distinção entre letra e fonema ............................................................................................. 27 Expressividade das vogais e das consoantes .................................................................. 30 Relações expressivas entre a fala e a escrita .................................................................... 33 Figuras de linguagem .............................................................................................................. 34 Estilística léxica .......................................................................... 45 Conceituação de léxico ........................................................................................................... 45 Palavras lexicais e palavras gramaticais ............................................................................ 47 Neologismos lexicais e semânticos .................................................................................... 49 Figuras de linguagem .............................................................................................................. 52 Estilística sintática – I ............................................................... 65 Conceituação de sintaxe da frase ........................................................................................ 65 Organização das palavras na oração .................................................................................. 68 Extensão das frases ................................................................................................................... 71 Referenciação intrafrásica ...................................................................................................... 72 Figuras de linguagem .............................................................................................................. 74 Estilística sintática – II ............................................................. 83 Conceituação de sintaxe do período ................................................................................ 83 Organização das orações (no período) ............................................................................. 85 Referenciação interfrásica ..................................................................................................... 87 Figuras de linguagem ............................................................................................................. 92 Estilística da enunciação ......................................................101 Adequação sintática e adequação semântica .............................................................101 As pessoas do discurso e as pessoas gramaticais .......................................................106 Tipos de discurso ....................................................................................................................109 Semântica, a ciência das significações ...........................121 Significante e significado ....................................................................................................121 Principais correntes da Semântica ...................................................................................123 Semântica do texto e do contexto ...................................................................................127 Relações semânticas – I ........................................................137 Noções de Lexicologia, Lexicografia e Terminologia ..................................................137 Dicionários gerais e específicos .........................................................................................138 Sinonímia e antonímia ..........................................................................................................144 Homonímia e paronímia .......................................................................................................146 Relações semânticas – II .......................................................153 Campos associativos, conceituais e semânticos .........................................................153 Hiperonímia e hiponímia .....................................................................................................155 Antonomásia e eponímia ....................................................................................................158 Relações semânticas – III .....................................................171 Paráfrase .....................................................................................................................................171 Perífrase ......................................................................................................................................174 Ambiguidade e polissemia ..................................................................................................176 Características do texto ficcional ......................................189 Ficção e verossimilhança ......................................................................................................189 Narratividade, descritividade e argumentatividade ..................................................192 Estudo semântico-estilístico de texto ficcional ...........207 Digressão ....................................................................................................................................207 Intertextualidade .....................................................................................................................212 Estilística aplicada ao texto ficcional ................................................................................217 Gabarito .....................................................................................231 Referências ................................................................................243 Anotações .................................................................................255 Apresentação Nos estudos de Língua Portuguesa dedicamos uma boa parte do tempo aos conteúdos tradicionais da gramática, em especial a sintaxe, amorfologia e a fono- logia. Além disso, temos sempre de nos atualizar quanto às questões da ortogra- fia, fazer muitas leituras e redações. É, em suma, um grande aprendizado. Quando juntamos todas essas informações e refletimos seriamente sobre nossa vida escolar, podemos fazer um balanço dos proveitos que tanto estudo nos trouxe. Feito com dedicação, esforço, disponibilidade, as aulas e as orien- tações devem ter deixado em cada um de nós a certeza de que estamos mais conscientes de nosso papel na sociedade e de nosso compromisso com a língua portuguesa. De todas as ferramentas aprendidas após tantas aulas, as duas que fazem parte deste livro se sobressairão: a ferramenta estilística e a ferramenta semântica. Elas sin- tetizam, ou melhor, elas sublimam tudo que se estudou nas muitas disciplinas dos estudos linguísticos, desde as primeiras letras até estas Letras superiores. A ciência da expressividade e a ciência das significações. Ambas percorrem este volume, chamando de volta aquelas aulas, pesquisas e conteúdos gravados nas nossas lembranças – e agora mais repisados, amadurecidos, disponíveis para uso e para uma mudança de posição no ato de aprender e ensinar. A Estilística e a Semântica – o leitor confirmará – são disciplinas da vida acadê- mica e da vida real, levando-nos em busca de um lugar expressivo e significativo, compelindo-nos ao entendimento e à explicação, à indagação, cogitação, novas sendas filológicas, pragmáticas, discursivas. Na estrutura deste livro, optamos por trabalhar em conjunto, sempre que possível, o binômio estilística/semântica. Embora as separemos didaticamente na organização dos capítulos, uma e outra estarão muito perto nas explicações, comentários e propostas de atividades, imbricando-se nos dois últimos capítulos, quando tratamos das características do texto ficcional e fazemos dele a matéria incisiva para a aplicação dos estudos semântico-estilísticos. Carpe librum! O objetivo deste capítulo é conceituar os termos “estilo” e “estilística” e destacar a importância dos estudos estilísticos para a compreensão do funcionamento da língua portuguesa. A palavra “estilo” O termo “estilo” (registrado pela primeira vez em nossa língua no século XIV) provém do latim stilus: “qualquer objeto em forma de haste pontiagu- da, ponteiro de ferro para escrever sobre tabuinhas enceradas”, definição que reúne as informações de duas obras homônimas, o Dicionário Etimo- lógico da Língua Portuguesa, de J. P. Machado (1977), e o de A. Nascentes (1955). De instrumento empregado para escrever, passou a significar, por um processo metonímico, a própria escrita e, depois, a linguagem considera- da em relação ao que ela tem de característico. Por fim, expandindo seu campo de significação, estilo passou também a representar qualquer con- junto de tendências e características formais, estéticas, que identificam ou distinguem uma obra, artista, escritor, ou determinado período ou movi- mento, ou até mesmo um objeto. Daí, é possível encontrarmos essa palavra acompanhada de muitas e variadas referências (poema em estilo parnasiano; móvel em estilo co- lonial; atriz com um estilo afetado; filme no estilo europeu) e, generica- mente, como sinônimo de “maneira” e “elegância” (esse é o meu estilo de vida; ela não tem estilo). Estilo: qualquer objeto em forma de haste pontiaguda, pon- teiro de ferro para escrever sobre tabuinhas enceradas. IE SD E Br as il S. A . Estilística, a ciência da expressividade 12 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística Dessa palavra deriva, por exemplo, o substantivo estilete: utensílio com lâmina móvel e bastante afiada, protegido por invólucro de plástico, usado para cortar pa- pelão, couro, borracha, etc. Deriva também o substantivo estilística, tema que se aplica a variados campos de estudo, inclusive aos estudos linguísticos e literários. Nos estudos de língua, pode-se definir estilo como o modo pelo qual um in- divíduo usa os recursos fonológicos, morfológicos, sintáticos, lexicais, semânticos, discursivos da língua para expressar, oralmente ou por escrito, pensamentos, senti- mentos, opiniões, etc. Ou seja: nos estudos de língua portuguesa... estilo é escolha linguística. Essa es- colha depende da capacidade e sensibilidade de cada usuário de responder a estas perguntas: – O que tem a dizer? – Para quem vai dizer? – Como vai dizer? – Quando vai dizer? Por isso, não é exagero afirmar que: QUEM NÃO TEM O QUE ESCOLHER NÃO TEM ESTILO... ...TEM CACOETE QUEM TEM O QUE ESCOLHER, MAS ESCOLHE MAL, TAMBÉM NÃO TEM ESTILO... ... TEM MAU GOSTO... As origens da Estilística As definições de Estilística variam conforme o recorte teórico a que pertence o analista, mas não se pode negar que sua existência tem uma conexão histórica e semântica com a Poética (enquanto “teoria geral das obras literárias”) e a Retó- rica (enquanto “teoria do discurso”). As definições que seguem foram extraídas do Dicionário Houaiss: Poética – parte dos estudos literários que se propõe a investigar os proces- � sos que dizem respeito às normas versificatórias dos textos, os componen- tes teóricos de que se revestem, bem como os compêndios de poética que, desde Aristóteles até os nossos dias, abordaram o assunto (POÉTICA, 2004). Estilística, a ciência da expressividade 13 Retórica – a arte da eloquência, a arte de bem argumentar; a arte da pa- � lavra; conjunto de regras que constituem a arte do bem dizer, a arte da eloquência; oratória (RETÓRICA, 2004). A Estilística se baseia sobretudo em duas das três funções primordiais da linguagem depreendidas pelo alemão Karl Bühler (1879-1963): representação, expressão e apelo (BÜHLER, 1934). A elas correspondem, respectivamente, as faculdades de inteligência, sensibilidade e desejo ou vontade, centrando-se a Estilística na expressão e no apelo. As funções da linguagem segundo Karl Bühler representação � linguagem referencial denotativa eixo sintagmático (= posição no texto) expressão � exteriorização psíquica de nossos anseios e sentimentos denotativa / conotativa eixo paradigmático (= posição no sistema) apelo � exercício de influência sobre os interlocutores denotativa / conotativa eixo paradigmático (= posição no sistema) Exemplos: 1. “Jornalista é a pessoa que trabalha como redator, repórter, colunista ou diretor em órgão da imprensa, ou programa jornalístico no rádio ou na televisão.” (JORNALISTA, 2004). 2. “Jornalista é um homem que sabe explicar aos outros o que ele próprio não entende.” (CARPEAUX, 1967). 3. “Jornalista, você tem uma missão importante na sociedade.” (Chamada pu- blicitária). Na prática, essas três funções se integram, tanto no texto informativo quanto no literário, embora possa ocorrer o predomínio de uma ou de outra, dependen- do do gênero textual ou do tipo de discurso. Nas três frases dadas, cada uma exemplifica uma das funções do quadro, na ordem. Seguindo o esquema das funções da linguagem de Karl Bühler, a Estilística é – como dissemos – a disciplina que estuda a língua nas suas funções expressiva e apelativa. Seu criador, Charles Bally (1865-1947), “pretendeu chamar a atenção para o lado afetivo do discurso”, como explica Melo (1976, p. 16). Outros teóricos, sobretudo Karl Vossler (1872-1949) e Leo Spitzer (1887-1960), apontaram para uma linha diversa da Estilística. 14 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística Enquanto Bally, discípulo de Ferdinand de Saussure (1857-1913), buscava es- tudar a língua como expressão do pensamento que reflete determinada afeti- vidade nos atos da fala, Vossler e Spitzer optaram por estudar as relações entre expressão e indivíduo. Podemos dizer que são duas concepções excludentes: uma centrada na langue (a de Bally), outra na parole. Dessas duas origens depreendem-se obviamente dois perfis de comentários es- tilísticos: um que se aproxima, comparativa e contrastivamente, da gramática des- critiva; outro que dela se afasta para se aproximar dos estudos específicos de litera-tura, e que chegou a ser chamado de Estilística genética. Com o passar do tempo, cada perfil foi recebendo adesões e adaptações, variantes de abordagem que per- correram vertentes estatísticas, estruturais, semióticas, psicanalíticas, sociológicas. Principais correntes da Estilística As duas grandes vertentes da Estilística são chamadas de “descritiva” e “idea- lista” e têm como principal diferença o enfoque dado ao objeto de seu estudo, ou seja, o texto. A Estilística descritiva (Estilística linguística) A Estilística descritiva volta-se para os aspectos afetivos da língua, os quais estão a serviço do homem de forma viva, espontânea, porém sujeitos a um siste- ma expressivo que pode ser descrito e interpretado. Para exemplificar, vejamos uma frase citada por José de Alencar (1829-1877) no “Posfácio” de Iracema como expressão bem popular de sua terra: 4. “A mãe diz do filho que acalentou ao colo: Está dormindinho.”(ALENCAR, s.d., p. 273) O vocábulo “dormindinho” não é o diminutivo de “dormindo”, mas uma forma nominal do verbo acrescida da ideia de afetividade e carinho expressada pelo sufixo -inho, assim interpretada estilisticamente pelo escritor cearense: “Que ri- queza de expressão nesta frase tão simples e concisa! O mimo e ternura do afeto materno, a delicadeza da criança e sutileza do seu sono de passarinho, até o receio de acordá-la com uma palavra menos doce; tudo aí está nesse diminutivo verbal.” (ALENCAR, s/d, p. 273). Estilística, a ciência da expressividade 15 Nos estudos de língua portuguesa, podemos citar algumas obras que seguem essa corrente, entre as quais merecem menção: Manuel Rodrigues Lapa – � Estilística da Língua Portuguesa (1.a ed. 1945); J. Mattoso Câmara Jr. – � Contribuição à Estilística Portuguesa (1.a ed. 1952); Gladstone Chaves de Melo – � Ensaio de Estilística da Língua Portuguesa (1.a ed. 1976); José Brasileiro Vilanova – � Aspectos Estilísticos da Língua Portuguesa (1.a ed. 1977). O que a Estilística descritiva tem como alvo é a sistematização dos meios que a língua nos oferece para exteriorizarmos nossas necessidades afetivas, isto é, os elementos emocionais que acompanham o enunciado. Comparemos a expressividade dos versos de uma canção de Chico Buarque com a objetividade de uma variante referencial: 5. Dorme, minha pequena / Não vale a pena despertar / Eu vou sair / Por aí afora /Atrás da aurora / Mais serena (“Acalanto para Helena”) 6. Dorme, minha filha, não precisa acordar. Eu vou sair para o trabalho. Comentário estilístico: embora o conteúdo informativo seja idêntico, apenas o exemplo (5) mostra o sentimento e a densidade da cena, comparti- lhando com o leitor a escolha revelada do sintagma “minha pequena” e a longa representação de sua “saída para o trabalho” (= eu vou sair por aí afora atrás da aurora mais serena). Como se vê, ao se ocupar da descrição dos recursos expressivos da língua como um todo, independentemente de sua ocorrência em obras literárias, a Esti- lística descritiva não está voltada exclusivamente para a literatura e se desdobra em outras vertentes, sobretudo a chamada estilística funcional, que tem Roman Jakobson (1896-1982) como seu principal representante. Jakobson examina, a partir do processo de comunicação, a participação do emissor, do contexto, da mensagem, do contato, do código e do destinatário. E cada um desses componentes, conforme o caso, justifica a existência de funções predominantes ou concorrentes, a saber: emotiva ou expressiva (centrada no emissor), referencial ou informativa (no contexto), poética (na mensagem), fática (no contato), metalinguística (no código) ou conativa (no destinatário). 16 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística O processo básico da comunicação verbal envolve uma situação fundamen- tal de construção, que pode ser exemplificada na seguinte simulação: José pretende avisar a João que vai viajar. Em tal situação, temos seis fatores envolvidos na comunicação verbal. Partin- do da frase do exemplo, identificamos: A – José diz que vai viajar. Ele é o... ... emissor B – A ideia que vai ser proferida por José é algo abstrato e só vai ser concretizada quando for dita por ele. Essa ideia abstrata é o... ... contexto C – Ao concretizar o contexto, isto é, ao dizer: “Vou viajar”, José se vale da... ... mensagem D - Esta mensagem, para ser entendida por João, precisa ser dita de uma forma que ele conheça, isto é, com elementos que sejam comuns a ambos, no caso, as palavras, que são o... ... código E – José fala e João escuta. Isto representa o... ... contato F – João é o objeto/alvo/indivíduo a ser alcançado por José na conversação; João é, portanto, o... ... destinatário A esquematização desses seis fatores pode ser estabelecida da seguinte maneira: EMISSOR DESTINATÁRIO CONTEXTO MENSAGEM CONTATO CÓDIGO FUNÇÃO EMOTIVA FUNÇÃO CONATIVA FUNÇÃO REFERENCIAL FUNÇÃO POÉTICA FUNÇÃO FÁTICA FUNÇÃO METALINGUÍSTICA Em suma, a Estilística linguística pretende organizar e interpretar os dados expressivos “que se integram nos traços da língua e fazem da linguagem esse conjunto complexo e amplo” (CÂMARA JR., 1979, p. 15). Estilística, a ciência da expressividade 17 A Estilística idealista (Estilística literária) A Estilística idealista parte da reflexão, de cunho psicológico, a respeito dos desvios da linguagem em relação ao uso comum e considera que qualquer afas- tamento do uso linguístico normal decorre de alguma alteração do estado psíqui- co normal do escritor. Nesse sentido, a maneira pessoal de alguém se expressar é seu estilo, que reflete o mundo interior e a experiência de vida de quem escreve. Voltada especificamente para a produção literária, a Estilística idealista consi- dera que toda obra encerra um mistério cuja compreensão depende basicamen- te da intuição de quem se investe do desejo de desvendar “os mistérios de criação de uma obra e dos efeitos dessa obra sobre os leitores” (MARTINS, 1989, p. 9). Essa dimensão serviu como argumento para que alguns estudiosos defen- dessem a complementaridade entre as duas correntes principais. Amado Alonso (1896-1952), por exemplo, chega a afirmar que a Estilística literária tem como base a Estilística linguística justamente porque é esta quem cuida do lado afeti- vo, imaginativo das formas da língua, encontráveis tanto na fala como na escrita, pois são esses indícios que se sobrepõem aos signos. A partir de tais elementos, a Estilística literária examinará como é constituída a obra literária e considerará o prazer estético que ela provoca no leitor. Como tudo se engloba no valor esté- tico da obra, ela está impregnada do próprio prazer do autor ao criá-la e isso vai suscitar no leitor um prazer correspondente. Entre as obras disponíveis em língua portuguesa que seguem a corrente ide- alista, merecem citação: Vítor Manuel de Aguiar e Silva – � Teoria da Literatura (1.a ed. 1967); Eduardo Portella – � Teoria da Comunicação Literária (1.a ed. 1970); Affonso Romano de Sant’Anna – � Análise Estrutural de Romances Brasileiros (1.a ed. 1973); Luiz Costa Lima – � Dispersa Demanda (1.a ed. 1981). Eis alguns exemplos de comentários estilísticos sob o viés idealista: Até o momento presente, os mais importantes estudos sobre o lirismo drummondiano só trataram de aspectos parciais (temáticos ou formais) de sua obra, enquanto que a maior parte das visões de conjunto permanece excessivamente sintética. (MERQUIOR, 1975, p. 3) 18 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística No caso de Guimarães Rosa, embora sua obra seja das mais estudadas entre nós, o problema do magismo e de suas implicações com a apreensão estética da realidade parece completamente inexplorado. Isso propicia mal-entendidos, que mais se agravam se a ausência desta análise se combina a observações que, sendo válidas, sejam, no entanto, também tratadas parcialmente. (LIMA, 1991, p. 510) A leitura do conjunto das obras de Rubem Fonseca nos leva a destacar a existência de dois grandes núcleostemáticos: a violência e a busca da verdade. Poderíamos mesmo dizer que a íntima relação estabelecida entre esses núcleos é fonte geradora de força da ficção do autor, na medida em que determina o tipo de tratamento que será dado aos temas e a consequente busca de soluções formais adequadas. (FIGUEIREDO, 1994, p. 73) Roger Fowler (1993, p. 237) nos dá uma boa definição do que se deve en- tender por Estilística literária, dizendo que ela é “uma subdivisão historicamente isolada da crítica com seus próprios princípios e métodos”, sendo “menos difusa, mais coerente, mais mecânica do que a crítica em geral”. Em suma, a Estilística literária desvencilha-se às vezes da linguística e assume um aspecto quase genético, propondo-se a recuperar a gênese, a criação po- ética, convivendo desafiadoramente com as relações entre forma e conteúdo, materiais e estrutura. Aplicações da Estilística aos estudos do português “A Estilística vem complementar a gramática,” diz Mattoso Câmara Jr. (1979, p. 14). Por isso, para examinar que aplicações tem a Estilística nos estudos de uma língua, é preciso deixar claros seus vínculos com a gramática, ou seja, com o léxico, com a sintaxe, a morfologia, a fonética e a fonologia. Daí falarmos em estilística fônica (fonoestilística), em estilística da palavra (morfoestilística), em estilística sintática e até em estilística da enunciação. Afinal, [...] ler ou escrever um texto é muito mais do que apenas compreender ou organizar palavras em frases e parágrafos. É algo que envolve um amplo mecanismo a partir do qual o pensamento e as pretensões comunicativas do autor se apresentam para reflexão e avaliação do leitor. Como se constroem esses textos? Com palavras, sintagmas, termos e orações – elementos que mantêm entre si um relacionamento interno de concordância, de regência, de atribuição. (HENRIQUES, 2008a, p. 15) A Estilística é parceira de todos os componentes do texto, desde os fone- mas que constroem morfemas e palavras até os períodos e parágrafos que constroem a totalidade do texto. E a adequação gramatical de uma obra preci- sa estar “compatível com as pretensões e intuitos de seu autor, que – se assim julgar pertinente – procurará atingir o nível de exigência da linguagem padrão Estilística, a ciência da expressividade 19 praticada por escrito pela comunidade culta em que se insere” (HENRIQUES, 2008a, p. 16). As relações dentro de um texto são micro ou macro, conforme o ponto de vista de quem examina o objeto de estudo. Nessa tarefa, caberá notar que tipo de expressividade se percebe, se descreve e se explica nas passagens escolhidas de um texto concreto, real – produto que se tem em mãos e aos olhos para com ele se estabelecer uma “negociação de entendimento”. Para ilustrar essas considerações, vejamos dois trechos da canção intitulada “Ci- garra”, escrita por Ronaldo Bastos e Milton Nascimento e interpretada por Simone. 7. Porque você pediu uma canção para cantar / Como a cigarra arrebenta de tan- ta luz / E enche de som o ar / [...] Porque ainda é in- verno em nosso coração / Essa canção é para cantar / Como a cigarra acende o verão / E ilumina o ar / Si, si, si, si, si, si, si, si... Os versos mostram uma ex- pressiva identificação que começa na coincidência sonora que existe entre a primeira sílaba da palavra “cigarra” e do nome da cantora “Simone”. Seria coincidência, se não notássemos que a letra da música fala de alguém que “pediu uma canção para cantar”, sendo lícito supor que a onomatopeia que encerra a canção tanto poderia estar grafada com “c” como com “s” (si,si,si e ci,ci,ci). SIMONE CIGARRA SI, SI, SI... CI, CI, CI... Importa também observar que o verso inicial dos dois blocos tem uma estru- tura sintática idêntica, com uma oração adverbial que faz uma espécie de eco à composição, talvez como esboço de um estribilho, reforçado na repetição do sintagma “para cantar” e do substantivo “canção”, reiterado morfológica e se- manticamente com o verbo “cantar”. Va ne ss a Li m a. 20 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística Porque você pediu uma canção para cantar Porque ainda é inverno em nosso coração Essa canção é para cantar Esses pequenos comentários comprovam como são determinantes para a compreensão do conteúdo da canção os elementos fônicos (si/ci), os aspectos sintáticos (porque...), a escolha morfológica e lexical (canção + cantar), apenas para ficarmos nos que aqui focalizamos. Podemos, então, concluir, concordando com Mattoso Câmara Jr. (1981, p. 110), que a Estilística é uma “disciplina linguística que estuda a expressão em seu sentido estrito de expressividade da linguagem, isto é, a sua capacidade de emocionar e sugestionar.” Em resumo: Estilística considera e analisa a linguagem afetiva. Gramática considera e analisa a linguagem intelectiva. Texto complementar As tarefas da Estilística (GUIRAUD, 1978, p. 149-151) A tarefa mais urgente da Estilística é a de definir seu objeto, sua natureza, seus fins e seus métodos, começando pela própria noção de estilo. Reduzidas ao seu denominador comum, as diversas concepções de estilo limitam-se à seguinte definição: O estilo é o aspecto do enunciado que resulta da escolha dos meios de expressão determinada pela natureza e intenções do indivíduo que fala ou escreve. Definição muito ampla, que engloba a expressão, seu aspecto, o sujeito falante, sua natureza e suas intenções. 1. Os limites da expressão – As definições do estilo diferem, conforme se tome a expressão no sentido mais amplo da palavra ou numa acepção limitada: Estilística, a ciência da expressividade 21 a. A arte do escritor, que é o sentido tradicional, o emprego consciente de meios de expressão com fins estéticos ou literários. b. A natureza do escritor, a escolha espontânea, mais ou menos in- consciente, através da qual se exprimem o temperamento e a ex- periência do homem. c. A totalidade da obra, que transcende a simples forma verbal e com- preende a atitude do homem na totalidade da sua situação. 2. Os limites dos meios de expressão – O estilo é o emprego dos “meios de expressão”, termo este que pode ser tomado num sentido mais ou menos restrito: a. As estruturas gramaticais – sons, formas, palavras, construções. b. Os processos de composição – forma dos versos, gêneros, descrição, narração. c. O pensamento em sua totalidade – temas, visões do mundo, atitu- des filosóficas. 3. A natureza da expressão – A comunicação linguística comporta dife- rentes valores que se superpõem e traduzem, seja a atitude espontâ- nea do sujeito, seja o efeito que este quer produzir sobre seu interlo- cutor: a. Valores nocionais – o estilo pode ser claro, lógico, correto. b. Valores expressivos – o estilo pode ser impulsivo, infantil, provincial. c. Valores impressivos – o estilo pode ser imperioso, irônico, cômico. 4. As fontes da expressão – Numa perspectiva vizinha da precedente e que a confirma, poderemos distinguir: a. Uma psicofisiologia da expressão – estilos segundo o temperamen- to, o sexo, a idade; estilo bilioso (mal-humorado) ou melancólico. b. Uma sociologia da expressão – estilo das diversas classes e profis- sões, estilos provincianos. c. Uma função da expressão – estilo literário, administrativo, legal, oratório. 22 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística 5. O aspecto da expressão – Da natureza e das fontes da expressão surge nova série de definições puramente descritivas e baseadas sobre: a. A forma da expressão – estilo elíptico, metafórico, etc. b. A substância da expressão, o pensamento – estilo terno, triste, enér- gico, etc. c. O sujeito que fala e sua situação – estilo arcaico, poético, etc. Dicas de estudo MONTEIRO, José Lemos. “O Escopo da Estilística”, capítulo do livro A Estilística. O capítulo examina com clareza e objetividade os problemas que envolvem a delimitação do campo de estudo da Estilística e apresenta explicações didáticas para as investigações estilísticas. HENRIQUES, Claudio Cezar.“A Primeira Margem do Rio”, capítulo do livro Litera- tura: esse objeto do desejo. O capítulo trata das relações entre as palavras “estilo” e “estilística” e aborda como se processa a análise do texto literário, sob as perspectivas linguístico- -gramatical e teórico-literária. Estudos linguísticos 1. Os três comentários transcritos a seguir se referem à poesia de João Cabral de Melo Neto. Reconheça se eles se enquadram na vertente descritivista (linguís- tica) ou na vertente idealista (literária) da Estilística. Justifique sua resposta. a) Os instrumentos e meios de trabalho do projetista [João Cabral] revelam uma lúcida atividade mental que se vale da geometria como modelo de pensamento ativo, como metáfora de uma linguagem precisa que, pro- jetando formas ideativamente puras, cria mundos paralelos às realidades concretamente dadas. Estilística, a ciência da expressividade 23 b) João Cabral de Melo Neto elegeu a pedra como símbolo maior do atrito, traço ao mesmo tempo formal e temático que perpassa obsessivamente sua poesia. O atrito é adivinhado metonimicamente em seres, espaços e objetos de acidentada anatomia (esqueletos, corpos ossudos, paisagens escalavradas), evocado potencialmente em certos instrumentos (bisturi, espada, faca, forja), ou encaixado no discurso como nós ou arestas do texto (cacofonias, transgressões morfológicas, anomalias sintáticas). c) Em relação às questões propostas pelas obras anteriores, a novidade [em O Engenheiro] está na articulação que passa a existir entre a cons- trução da imagem poética e a problematização da poesia. Ou seja, o tratamento da imagem poética passa a ser a estratégia pela qual o po- eta problematiza o poema enquanto elemento de mediação entre ele e a realidade. 2. Leia atentamente o poema de João Cabral “Catar Feijão” (MELO NETO, 1994, p. 346-347) e assinale as alternativas que contêm comentários estilísticos coe- rentes a respeito do texto. Justifique suas respostas. Catar feijão se limita com escrever: jogam-se os grãos na água do alguidar e as palavras na da folha de papel; e depois, joga-se fora o que boiar. Certo, toda palavra boiará no papel, água congelada, por chumbo seu verbo; pois catar esse feijão, soprar nele, e jogar fora o leve e oco, palha e eco. Ora, nesse catar feijão entra um risco: o de que entre os grãos pesados entre um grão qualquer, pedra ou indigesto, um grão imastigável, de quebrar dente. Certo não, quando ao catar palavras: a pedra dá à frase seu grão mais vivo: obstrui a leitura fluviante, flutual, açula a atenção, isca-a com o risco. 05. 10. 15. 24 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística a) No verso 2, o pronome se tem função apassivadora e, por isso, obriga o verbo a estar na 3.a pessoa do plural, para concordar com o sujeito “os grãos”. b) O poema busca, na inter-relação de seus elementos fônicos, semânticos e sintáticos, a projeção significativa das ações de catar feijão e catar palavras. c) A pedra do feijão e a pedra do papel são iguais porque são pedras e por- que são, ambas, indigestas e imastigáveis. d) A sequência de palavras com o fonema /g/ em “jogam-se os grãos na água do alguidar” marca o ritmo de leitura desse verso. e) Os dois últimos versos empregam três verbos transitivos diretos dispos- tos em ordem lógica, direta. f) Os três últimos verbos do texto contêm uma gradação importante para a compreensão do poema, colocando o verbo “iscar” como culminante da ideia de “colher”, “captar” o sentido “mais vivo” da frase. Estilística, a ciência da expressividade 25 3. Considerando a vertente funcional dos estudos estilísticos e os componen- tes envolvidos no processo de comunicação citados por Roman Jakobson, complete as lacunas analisando corretamente a função da linguagem do tre- cho destacado. a) No mercado de cerveja, o Brasil só perde, em volume, para a China (35 bilhões de litros/ano), Estados Unidos (23,6 bilhões de litros/ano), Ale- manha (10,7 bilhões de litros/ano). O consumo da bebida, em 2007, apresentou crescimento em relação ao ano anterior, totalizando 10,34 bilhões de litros. Função __________________: na totalidade do parágrafo. b) Beba com moderação! & Se for dirigir, não beba! Função __________________: no uso dos verbos no imperativo. c) Eu bebo, sim, e vou vivendo. Tem gente que não bebe e está morrendo [...] Função __________________: no uso da primeira pessoa. d) Inventaram um verbo popular que é o mais lindo exemplo de criativida- de sob o efeito do álcool: bebemorar. Função __________________: na explicação do neologismo. e) Alô, garçom! Você está aí?! Alguém aí pode me trazer uma cerveja gelada? Função __________________: na tentativa de confirmação de que há um interlocutor. f) Cerveja... rios e mares de cerveja... O rádio toca canções de amor, mas o telefone segue mudo e as paredes continuam no lugar. Cerveja... essa é a única coisa que há. Função __________________: na escolha e organização das palavras de modo original. O objetivo deste capítulo é observar a expressividade dos aspectos fô- nicos no estudo estilístico da língua portuguesa. Distinção entre letra e fonema O estudo da Estilística fônica (ou fonoestilística, como alguns preferem) envolve necessariamente o conhecimento e domínio de um dos assuntos abordados nos estudos gramaticais, isto é, o fonema. Por esse motivo, é preciso lembrar o tema da arbitrariedade do signo linguístico e também as vinculações entre a articulação das palavras e frases no português e a convenção gráfica praticada. Em resumo: Fonema é � [...] considerado como o conjunto de articulações dos órgãos fonadores, seu efeito acústico estrutura as formas linguísticas e constitui o mínimo segmento distinto numa enunciação, o que também significa que o fonema é uma subdivisão da sílaba. (HENRIQUES, 2008b) A imagem do aparelho fonador identifica partes do corpo humano que atuam na produção dos chamados “sons da fala”, oriundos da corrente ex- piratória proveniente de nossos pulmões. Estilística fônica 28 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística IE SD E Br as il S. A . fossas nasais lábios lábios cordas vocais laringe língua faringe epiglote cavidade bucal véu palatino dentes dentes Letra – “É um sinal gráfico com � o qual se constroem na língua escrita os vocábulos. Ao con- junto de letras de uma língua chama-se alfabeto.”(grifo do autor) (HENRIQUES, 2008b) – a foto ilustrativa mostra a capa da edição de 2009 do Vocabu- lário Ortográfico da Língua Por- tuguesa (VOLP), publicado pela Academia Brasileira de Letras, obra reeditada com as novas normas ortográficas aprovadas em 29 de setembro de 2008 e com efeito desde 1.o de janeiro de 2009. Portanto, fonemas são sons da fala usados para estruturar as formas linguísticas, mas que isolados não têm signifi- cação. Um som da fala só é fonema quando tem pertinência, ou seja, valor lin- guístico, como prova a comutação praticada na série de palavras seguinte: D iv ul ga çã o A BL . Estilística fônica 29 1. [ ‘b r ã k a ] x [ ‘t r ã k a ] Comentário: a troca de [b] e [t] nos dá duas palavras (branca e tranca) e confirma que /b/ e /t/ são fonemas do português. 2. [ ‘ã d a ] x [ ‘õ d a ] Comentário: a troca de [ã] e [õ] nos dá duas palavras (anda e onda) e con- firma que /ã/ e /õ/ são fonemas do português. 3. [‘d i v a ] x [ ‘dƷ i v a ] Comentário: a troca de [d] e [dƷ] não nos dá duas palavras, mas duas pos- síveis pronúncias para uma única palavra (diva) e não confirma a perti- nência de ambos como fonemas do português, mas de apenas um deles – neste caso, o /d/, que tem o [dƷ] como seu alofone (registra uma pronún- cia típica de algumas regiões brasileiras). Alofone = variante de fonema. 4. [ ‘k u s t a ] x [ ‘k u ʃ t a ] Comentário: a troca de [s] e [ʃ] não nos dá duas palavras, mas duas possíveis pronúncias para uma única palavra (custa) e não repete a pertinência de ambos como fonemas do português (encontrável por exemplo no par “taça/ taxa”) – nesse ambiente fonético de final de sílaba, os dois fonemas sempre se neutrali- zam e caracterizam o que se chama arquifonema. Arquifonema = neutralização permanente da oposição de fonemas. 5. [ ‘p l ã t a ] x [ ‘p r ã t a ] Comentário: a troca de [l] e [r] não nos dá duas palavras, mas duas possíveis pronúncias para uma única palavra (planta) e não repete a pertinência de ambos como fonemas do português (encontrável por exemplo no par “mola / mora”) – os dois fonemas se neutralizam, neste exemplo, sem risco de confusão, mas caracterizam um caso de debordamento (e não de arquifonema), porque se o par fosse “planto / pranto” a neutralização se mostraria ambígua. 30 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística Debordamento = neutralização eventual da oposição de fonemas. O sistema ortográfico da língua, em sua versão oficial, reproduz as palavras de acordo com a convenção em vigor. Observar como acontecem as relações entre a ortografia e a sonoridade é a tarefa do estudioso da expressividade, ou seja, da Estilística. Expressividade das vogais e das consoantes Não obstante sejam portadores de um ou mais significados, os vocábulos (e seus componentes) se constituem de sons e ruídos e assim atuam no mundo físico, estando “sujeitos às mesmas análises acústicas das notas musicais e dos produtos erráticos de vibrações irregulares” (MELO, 1976, p. 57). Os valores estilísticos podem ter uma natureza sonora e se expressam tanto no âmbito das palavras como dos enunciados. Assim, além de sua concretização fonética, também atuam o ritmo, a intensidade e a entonação. Ritmo: é a distribuição de sons num enunciado, considerando de que � modo eles se organizam ou se repetem a intervalos regulares, ou a espa- ços sensíveis quanto à duração e à acentuação. Intensidade: é o maior grau de força expiratória com que o som da fala é � proferido, força que se manifesta acusticamente na maior ou menor am- plitude de vibrações. Atenção! O acento característico da língua portuguesa é a intensidade, sendo chamada de tônica a vogal ou sílaba sobre a qual recai a intensidade e de átona a vogal ou sílaba inacentuada. Além da intensidade, também atuam na articulação dos sons da fala o timbre (efeito acústico resultan- te dos diversos graus de abertura da cavidade bucal), a altura (sensação auditiva relacionada à intensidade do som) e a quantidade (duração da emissão de um som). Entonação: é a variação de � tom (fenômeno caracterizado por variações de altura no corpo do vocábulo, resultantes da velocidade e vibração das cordas vocais) que tem como domínio a sentença (oração, período ou frase). Estilística fônica 31 Tomemos como exemplo dessas referências à camada sonora o trecho abaixo, inédito: Lá vai a bola, solitária e devagar, na direção da última linha do campo. Incerteza... A alegria subterrânea se mistura com a raiva recôndita. O orgulho, com o medo. A dor pode ser uma felicidade passageira, eterna. Suspense. Angústia. Prazer. Por um breve momento, um único monossílabo pode conter todas as emoções: a palavra GOL. Ela tem três letras, mas pode ter quatro, dez… Dependendo do seu fôlego e da sua alegria, ela pode ter o tamanho do papel, pode até nem acabar: GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOLLLLLLLL… IE SD E Br as il S. A . Imaginando vários modos de se narrar um gol num jogo de futebol, percebe- -se que a intensidade da vogal “o”, sua duração e até sua musicalidade têm força expressiva potencial, ainda mais se comungarmos com a emoção do locutor. Porém, mesmo que o gol não seja a nosso favor, por ser o gol de uma derrota in- desejada, a sonoridade dessa palavra nos marcará, impregnando-nos de tristeza tanto quanto impregnará de alegria os corações dos torcedores favorecidos pela simples passagem da bola por sobre a linha que fica debaixo da baliza. O comentário acima explica uma das possibilidades de a sonoridade da língua se manifestar. Mas há outras situações em que a massa sonora tem papel importante. Na rima de um poema ou de uma letra de música: � 6. De repente do riso fez-se o pranto Silencioso e branco como a bruma E das bocas unidas fez-se a espuma E das mãos espalmadas fez-se o espanto. (MORAES, 1998) 32 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística 7. Que jamais seja um sofrimento viciosamente cultivado para transformar-se em momento de verso, espúrio intento da arte. Mas a arte que, a cumprir seu fado, por força de sonho ou tormento se volva num momento dado coisa divina, imensa e à parte... (MEIRELES, 1993) Comentário: em (6) “pranto” e “branco”; “bruma” e “espuma” rimam simetrica- mente no esquema ABBA e causam um efeito de ritmo e musicalidade; já em (7) a rima não é simétrica (o esquema é ABACBABC), mas também há ritmo e musicalidade. Numa mensagem publicitária: � 8. “Plá, plé, pli, pló, plus vita! Plus Vita! Na nossa mesa tem Plus Vita todo dia!” Comentário: a progressão vocálica em série cria um ambiente descontra- ído e apropriado para veicular o produto e causar uma reação favorável no destinatário. Na repetição de palavras ou de sílabas: � 9. Eu quero a estrela da manhã Onde está a estrela da manhã? Meus amigos meus inimigos Procurem a estrela da manhã. (BANDEIRA, 1958) Comentário: a ênfase ocorre pela reiteração do sintagma “estrela da manhã”, demonstrando a posição do “eu lírico” diante de sua (in)certeza. Na escolha estratégica de palavras com consoantes ou vogais iguais ou � semelhantes: 10. “Acalanto e acalento. Calo e canto por encanto. Enquanto encontro o es- quecimento, conto a calma escuridão.” (Canção de Cezar de Souza e N. Bulhões) Comentário: a sucessão de palavras paroxítonas com as vogais nasais e a con- soante /k/ traz um efeito especial que se encerra na palavra oxítona final. Estilística fônica 33 Na invenção de palavras imitativas ou carinhosas: � 11. “É na boca do trabuco, é no té-retê-retém... E sozinhozinho não estou.” (ROSA, 1986). 12. “E a fonte a cantar, chuá, chuá; e a água a correr, chuê, chuê.” (Canção de Pedro Sá Pereira e Ary Pavão) Comentário: a observação dos sons da realidade serve como suporte para sua reprodução ou para a afetividade de um trecho. Relações expressivas entre a fala e a escrita Uma sequência sonora realizada na emissão de uma frase se decompõe em grupos onde prevalece uma única pauta acentual (com uma sílaba tônica, uma ou mais sílabas átonas pré-tônicas ou pós-tônicas e, eventualmente, alguma sílaba subtônica). Cada um desses grupos se chama “palavra fonológica”, e esta se forma em função da relação sintagmática de seus membros. Na frase “Aquele quadro fez sucesso”, observam-se com nitidez duas palavras fonológicas e quatro palavras ortográficas. As duas palavras fonológicas são: 13. [ a k e l i ’k w a d r u ] – a sílaba tônica é [kwa], as demais são átonas. Essa palavra fonológica se formou a partir de duas palavras ortográficas. 14. [ f e ʃ s u ’s ɛ s u ] – a sílaba tônica é [sɛ], a subtônica é [feʃ], as demais são átonas. Essa palavra fonológica também se formou a partir de duas palavras ortográficas. Como se vê, a palavra fonológica é delineada por um contorno prosódico que parte de seu acento primário (no caso, das palavras quadro e sucesso). Ela repre- senta, na hierarquia da prosódia, o primeiro nível de interação entre a fonologia e a morfologia, e ultrapassa os limites da palavra lexical. 34 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística Prosódia = o estudo da variação na altura, intensidade, tom, duração e ritmo da fala, vinculando-se pois à ortoepia, que estuda a pronúncia correta das palavras. “A expressividade dos fonemas poderia passar despercebida, se os poetas não os repetissem a fim de chamar a atenção para a sua correspondência com o que exprimem” , diz Nilce Sant’Anna Martins (1989, p. 38), e podemos estender a afirmação aos publicitários, aos compositores, aos jornalistas e a qualquer um dos usuários da língua, quando agimos no processo de comunicação com o in- tuito de criar harmoniano que falamos. Figuras de linguagem Os sons, como vimos, podem sugerir dentro da frase um valor expressivo para o que dizemos. Quando isso acontece, temos figuras de linguagem. Dife- rentemente, a utilização inexpressiva ou caótica da massa sonora caracterizará desvios a que chamamos vícios de linguagem. No campo da fonoestilística, esses recursos podem ter as seguintes denominações: Aliteração – é a repetição continuada dos mesmos sons consonantais, � independente da posição que ocupam nas palavras, distribuídas em se- quência ou com proximidade. 15. “Escuta-me, não te demoro. É coisa pouca como a chuvinha que vem vin- do devagar.” (ANDRADE, 2000). Comentário: o poeta utiliza intencionalmente em quatro palavras segui- das a consoante /v/, visando a criar um efeito expressivo, afetivo. Atenção! O vício de linguagem correspondente é a colisão: repetição de- sagradável de consoantes iguais – que pode até ter como finalidade o hu- mor ou a estranheza do interlocutor. 16. Pela primeira pesquisa, percebeu-se por que as pessoas procuram o perigo. 17. Três trabalhadores tentaram trocar o turno do trabalho. Comentário: observa-se a gratuidade da repetição, sem nenhuma preten- são estilística. Estilística fônica 35 Assonância – é a repetição vocálica em sílabas tônicas. � 18. “Sou um mulato nato no sentido lato mulato democrático do litoral.” (Can- ção de Caetano Veloso) Comentário: o compositor utiliza intencionalmente uma série de palavras cuja vogal tônica é /a/, visando a criar um efeito sonoro e musical. Atenção! O vício de linguagem correspondente é o hiato: sucessão de- sagradável de vogais – que pode até ter como finalidade o humor ou a estranheza do interlocutor. 19. Ou há o aumento, ou há a autogestão. Comentário: observa-se a gratuidade e o desconforto da repetição, sem nenhuma pretensão estilística. Harmonia imitativa – ocorre quando a aliteração, combinada ou não com � assonância, se associa à ideia que expressa. 20. Trovões trombeteavam pelas trevas, Trastes turvos tonitruantes De um turbilhão tortuoso Como a turba triste da morte. (SOUZA, 2005) 21. O vento varria as folhas, O vento varria os frutos, O vento varria as flores... E a minha vida ficava Cada vez mais cheia De frutos, de flores, de folhas. (BANDEIRA, 1958) Comentário: a sonoridade das consoantes /t/ e /r/, em (20), e /v/, /f/ e /s/, em (21), tem relação coerente com a ideia da forte tempestade, acentua- da pelas variadas possibilidades articulatórias da consoante vibrante – em (20), e da ação do vento – em (21). Homeoteleuto – é a coincidência de terminação, sobretudo em pontos � sensíveis da cadeia sonora. 22. “Ainda canto o ido o tido o dito o dado o consumido o consumado / Ato do amor morto motor da saudade... Diluído na grandicidade... / Idade de pedra [...]” (VELOSO; DUPRAT, 1969). 36 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística Comentário: a escolha de palavras com sonoridade interligada (série 1: ido/ado + t/d; série 2: ...mido/...mado; série 3: mor + t) cria um efeito de sentido, mas tem força sonora identitária. Atenção! Um dos vícios de linguagem correspondentes é o eco: repetição desagradável de terminações iguais. 23. Na frente da gente, há somente um ambiente diferente. 24. O cadeado estragado foi consertado ao lado do mercado. Comentário: observa-se a gratuidade e o desconforto das sequências -ente e -ado, sem nenhuma pretensão estilística. Onomatopeia – é a imitação acústica de um som ou ruído ou da voz de um � animal, e pode ser criada segundo três possibilidades: 25. tique-taque; zás-trás; bum; ploft; miau; cocoricó – onomatopeias puras. 26. tilintar; pifar; o cacarejo; grunhido – palavras onomatopaicas. 27. bem-te-vi; quero-quero; estou-fraco – onomatopeias interpretativas. Comentário: no primeiro grupo (25), as palavras são criadas a partir da uti- lização de fonemas que reproduzam o som; no segundo (26), há marcas morfológicas na construção de verbos, substantivos e adjetivos; no tercei- ro (27), palavras preexistentes são agrupadas sem razão semântica para tentar reproduzir o som. BAN G! zz zz z POU! PLOFT! IE SD E Br as il S. A . Estilística fônica 37 Percebe-se então que o objetivo de causar algum impacto expressivo pela es- colha da camada sonora está carregado de subjetivismo e sensibilidade. Isso sig- nifica que o êxito na construção de uma determinada combinação de sons não é algo automático e garantido, pois sempre se corre o risco de produzir um efeito malsucedido, ou seja, um vício de linguagem, cabendo ainda citar os casos de: Cacoépia – é o erro de pronúncia (que vira cacografia na escrita). � 28. *piscicologia, em vez de psicologia, ou *mortandela, em vez de mortadela. Cacófato – é o descuido no encadeamento de palavras, gerando um som � obsceno ou vulgar. 29. *Entregue-me já o relatório porque essa resposta ele já havia dado. Cacofonia e parequema – é o descuido no encadeamento de palavras, ge- � rando um som de significado concorrente ou desagradável. 30. *Já que tinha, na vez passada se interessado, apresentei-lhe uma prima minha. 31. *Deixa a chapa esquentar; *Comprei uma vaca cara; “Você fez a torta tarde”. Atenção! Como sempre, os vícios de linguagem podem ter como finali- dade produzir um efeito de humor ou de estranheza/admiração no inter- locutor. Na canção “Cálice”, de Chico Buarque e Milton Nascimento, observa-se a interessante estratégia de escrever uma palavra, o substantivo “cálice”, e sugerir o entendimento da exclamação “Cale-se!”, em versos que têm essa palavra fonológica como palavra-eco, como: 32. Quero perder de vez tua cabeça. [‘kalisi] Minha cabeça perder teu juízo. [‘kalisi] Quero cheirar fumaça de óleo diesel. [‘kalisi] Me embriagar até que alguém me esqueça. [‘kalisi] Comentário: no lugar onde transcrevemos a pronúncia, qual significação caberia melhor, a da taça de vinho ou a da ordem de silêncio? Ou ambas? Os autores, certamente, trabalharam com a palavra fonológica única, con- trastando-a com a duplicidade da palavra ortográfica (cale-se e cálice). O efeito é expressivo, sem dúvida. 38 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística Além das figuras de linguagem que aqui apresentamos, a exploração da massa sonora das palavras ainda pode produzir expressividade de muitas outras maneiras. Para nossos objetivos, basta mencionar por exemplo as questões ine- rentes à linguagem falada, em suas múltiplas variedades sociais e regionais, ou os temas específicos da arte poética ou musical, em que se pode trabalhar os conteúdos de versificação e de harmonia melódica. Enfim, as relações entre som e estilo são um caminho aberto à imaginação e arte, sempre a serviço da pre- tensão criativa, comunicativa, literária, jornalística de quem emprega a língua portuguesa na vida concreta. Texto complementar O vocábulo como massa sonora (MELO, 1976, p. 79-80) Começaremos por insistir numa distinção conhecida mas tantas vezes es- quecida: a que se deve fazer entre vocábulo e palavra. No primeiro, conside- ramos só a estrutura fônica. É uma sílaba, ou duas, ou mais, subordinadas ao mesmo acento intensivo Na cadeia da frase os vocábulos frequentemente se unem, fundindo-se a terminação de um no começo de outro, decorrendo daí fenômenos diversos, que recebem nomes adequados, mas aqui dispensáveis. Assim, “ainda agora” ou “com uma semana de espera”, por exemplo, soam como aindagora, cuma semana dispera. Há mesmo certos vocábulos que já perderam, ou ocasional- mente perdem a tonicidade, e, então, apoiam-se no acento do vocábulo an- terior ou no do seguinte. Chamam-se clíticos, distinguindo-se em enclíticos, num caso, proclíticos noutro: chamou-me; o livro. O mesmo vocábulo pode ser suporte de várias palavras, como se vê em rio, “curso d’água”, e forma do verbo rir; manga, “parte do casaco” e fruto. Para quem não conheça o significado de oscofórias ou de liço, estas duas formas são meros vocábulos. Nos casos de polissemia, isto é, multiplicidadede significados por força de um natural desdobramento, não se pode falar, creio, em multiplicidade de palavras, porque um liame, mais ou menos estreito, une esses significados. Normalmente, pois, a cada vocábulo corresponde um conceito ou um feixe de conceitos vizinhos. Tal correspondência é de si arbitrária e gratuita, segun- Estilística fônica 39 do o princípio maior, definidor da língua. Nenhuma relação natural existe entre o quadrúpede amigo do homem e a palavra cão, cachorro ou dog. No entanto, estilisticamente se pode falar em adequação ou inadequação entre a massa sonora do vocábulo e o conteúdo significativo. Assim, grito é mais expressivo que brado. Entre “por muito pouco ele não morreu” e “por um tris ele não morreu”, é preferível a segunda solução, dado que estejamos preocupados com uma forma adequada. É que a massa sonora de tris sugere melhor a mínima dependência em que ficou a vida do Fulano. Se dissermos que alguém entrou solenemente no recinto, passo cadenciado e lento, sob os olhares reverentes e admirativos da multidão, teremos escolhido um vo- cábulo cuja massa sonora quadra bem ao efeito: pentassílabo paroxítono (ou grave), com tônica média e nasal e uma combinação de /l/ e /n/ muito apropriada. Um vocábulo como abreviadamente é, com certeza, inadequado, maior, por assim dizer, do que o seu conteúdo. Arredondamento fica bem para o sentido que tem; é vocábulo adequado. Nesta sequência – grande, enorme, gigantesco – os três vocábulos traduzem a gradação do tamanho: cada sílaba a mais acrescenta, sensivelmente, uns quilates de intensidade. Os poetas são muito sensíveis à adequação da massa sonora ao significa- do, e é natural que assim seja, porque a poesia é essencialmente palavra, é o esplendor da palavra. Muitas das correções que, sobretudo os parnasianos, inserem nas suas retomadas têm por base o ajuste da massa sonora. A pro- pósito, é muito instrutiva a alteração feita por Raimundo Correia no último terceto de seu poema “Banzo”. Era assim a primeira versão, de 1885: Dos monolitos cresce a sombra infame... Tal em minh’alma vai crescente o vulto Desta tristeza aos poucos, lentamente A terceira (versão), que modifica levemente a segunda, de 1891, ficou assim: Vai co’a sombra crescendo um vulto enorme Do baobá... E cresce n’alma o vulto De uma tristeza imensa, imensamente... Além de ganhar em musicalidade e em cor local, com a substituição de “monolitos” por “baobá”, o fecho ainda se beneficiou muito com a dupla “imensa, imensamente”. 40 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística A massa sonora é adequada e há uma espécie de ilusão de ótica, digamos assim, que faz parecerem coordenadas as duas palavras, que na realidade não o são. Imensa é adjunto adnominal de “tristeza”, e imensamente é ad- junto adverbial de “cresce”: a inteligência da frase deixa isso muito claro. No entanto, a sequência faz com que se tenha a impressão do crescimento, do alongamento, de profundidade maior, de dor mais pungente. Temos, portanto, um duplo efeito, um intelectual, outro sensível, produzi- do pela boa utilização da massa sonora. A síntese final seria esta: “cresce cada vez mais uma tristeza cada vez maior”, com sólido apoio no material fônico. Dicas de estudo MARTINS, Nilce Sant’Anna. “A Estilística do Som”, capítulo do livro Introdução à Estilística. O capítulo examina minuciosamente o papel da sonoridade das palavras e dos fonemas na produção de sentido e na busca da expressividade. CÃMARA JR., Joaquim Mattoso. “Estilística Fônica”, capítulo do livro Contribuição à Estilística Portuguesa. O capítulo aborda temas como os traços estilísticos, acento e quantidade, va- riantes de estilo e a motivação sonora, entre outros. Estudos linguísticos 1. Os três comentários transcritos a seguir se referem a trechos de poemas bra- sileiros. Reconheça se o recurso estilístico indicado está adequadamente in- terpretado. Justifique sua resposta. a) Quando lemos os versos de Guilherme de Almeida “O sol é uma bola de enxofre fervendo, pondo empolhas redondas como gemas de ovos en- tre as folhas das laranjeiras”, observamos a expressividade da assonância, construída a partir da sucessão de palavras com a vogal tônica O. b) O compositor Paulo Ricardo começa uma de suas canções dizendo: “Virada do século, alvorada voraz, nos aguardam exércitos que nos guardam da paz (que paz?).” O aposto “alvorada voraz” utiliza as consoantes /v/ e /r/ Estilística fônica 41 que também estão presentes na primeira palavra da música. A repetição intencional dessas consoantes caracteriza uma figura de linguagem cha- mada onomatopeia. c) Em “Pedro pedreiro, pedreiro esperando o trem que já vem, que já vem, que já vem, que já vem...”, Chico Buarque utiliza a massa sonora da expres- são “que já vem” repetidas vezes para enfatizar o cansaço de quem está à espera do trem na estação, o que constitui um exemplo de harmonia imitativa. 2. Leia atentamente o poema de Solano Trindade “Tem Gente com Fome” (s.d., p. 7-8) e assinale as alternativas que contêm comentários fonoestilísticos coe- rentes a respeito do texto. Justifique suas respostas. Trem sujo da Leopoldina, correndo, correndo, parece dizer: tem gente com fome, 05. tem gente com fome, tem gente com fome... Piiiii! Estação de Caxias, de novo a correr, 10. de novo a dizer: tem gente com fome, tem gente com fome, tem gente com fome... IE SD E Br as il S. A . 42 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística Tantas caras tristes, 15. querendo chegar em algum destino, em algum lugar... Só nas estações quando vai parando, 20. lentamente começa a dizer: se tem gente com fome, dá de comer... se tem gente com fome, 25. dá de comer... se tem gente com fome, dá de comer... se tem gente com fome, dá de comer... 30. Mas o freio de ar, todo autoritário, manda o trem calar: Psiuuuuuuuuu...... a) A repetição do trecho “tem gente com fome” cria um ambiente de mo- notonia e tédio, incompatível com o movimento de um trem ao partir da estação. b) A onomatopeia “Piiiii!” (v. 07) e a interjeição “Psiuuuuuuuuu......” (v. 33) es- tão conjugadas pela intensificação da vogal, o que permite entender a palavra que termina o poema como uma condensação entre a interjei- ção e a onomatopeia. c) A maioria dos versos se constrói com duplas de palavras fonológicas (trensujo + daleopoldina // correndo + correndo // tengente + cunfome // estação + dicaxias // dinovo + acorrer // dinovo + adizer // sitengente + cunfome // dá + dicomer), mantendo um ritmo coeso que produz a harmonia imitativa predominante no poema. d) Na estrofe final, a referência ao trem é substituída pela participação do freio de ar, o que justifica o uso da conjunção “mas”, adversativa. Estilística fônica 43 e) Como a temática do poema é humana e social, é correto interpretar que as onomatopeias usadas como estribilho nas estrofes 1, 2 e 4 se valem de palavras preexistentes agrupadas sem razão semântica para tentar re- produzir o som do trem. f) O advérbio “lentamente”, isolado no verso 20, tem uma massa sonora e um valor semântico que destoam expressivamente do restante do poema. 3. Assinale as alternativas que contêm recursos expressivos da Estilística fônica e identifique as respectivas figuras de linguagem. a) “A gente almoça e se coça e se roça e só se vicia.” (Chico Buarque) b) “Ouço o tique-taque do relógio: apresso-me então.” (Clarice Lispector) c) “Minha vida é uma colcha de retalhos, todos da mesma cor.” (Mário Quin- tana) d) “Não serei o poeta de um mundo caduco.” (Carlos Drummond de Andrade) e) Dentro dos meus braços, os abraços hão de ser milhões de abraços.” (Vi- nícius de Moraes) f) “Sou caipira, Pirapora, Nossa Senhora de Aparecida,” (Renato Teixeira). O objetivo deste capítulo é observar a expressividade dos aspectos le- xicais no estudo estilístico da língua portuguesa. Conceituação de léxico O estudo da Estilística lexical (ou morfoestilística, como algunsprefe- rem) envolve necessariamente o conhecimento e domínio de alguns dos assuntos abordados nos estudos de morfologia, isto é, as classes gramati- cais e os morfemas. A palavra léxico é sinônima de “vocabulário”, e indica portanto o reper- tório total de palavras existentes numa determinada língua, mas pode também ter uma significação mais restrita, referindo-se, por exemplo, a uma relação de palavras usadas por um autor ou por um grupo social ou profissional. As obras que se dedicam ao estudo do léxico constituem dois campos de pesquisa bastante importantes para a sociedade: a lexicografia, ou seja, a técnica e o trabalho de elaboração de dicionários, vocabulários, glossários e afins; e a lexicologia, ou seja, o estudo do vocábulo quanto ao seu significado, estrutura morfológica e possibilidades flexionais, sua classificação em relação a outros vocábulos da mesma língua ou de outra, em perspectiva sincrônica ou diacrônica. Lexicografia e Lexicologia: estudo das palavras, a partir da obser- vação de suas relações com a gramática e com a vida. Como se pode depreender dessas explicações, a ferramenta funda- mental com que trabalham os lexicógrafos e os lexicólogos é o dicionário, palavra que está assim definida no Dicionário Houaiss: Dicionário – compilação completa ou parcial das unidades léxicas de uma língua (palavras, locuções, afixos, etc.) ou de certas categorias específicas suas, organizadas numa ordem convencionada, geralmente alfabética, e que fornece, além das definições, informações sobre sinônimos, antônimos, ortografia, pronúncia, classe gramatical, etimologia, etc. ou, pelo menos, alguns destes elementos. A tipologia dos dicionários é bastante variada; os mais correntes são aqueles em que os sentidos das palavras de Estilística léxica 46 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística uma língua ou dialeto são dados em outra língua (ou em mais de uma) e aqueles em que as palavras de uma língua são definidas por meio da mesma língua. (DICIONARIO, 2004) D iv ul ga çã o Ed ito ra O bj et iv a. Como diz Correia (1995), [...] a propriedade geral da linguagem humana que melhor se aplica ao léxico de uma língua é a arbitrariedade, ou seja, o fato de os signos que constituem as línguas não serem icônicos, isto é, a relação que se estabelece entre eles e as entidades da realidade que denotam ser meramente arbitrária ou convencional. Por isso não se deve entender o léxico apenas como uma lista de palavras que está contida num dicionário. Afinal, uma observação mais atenta dos verbe- tes dessas obras de referência mostrará que os lexicógrafos, quando redigem as definições de cada componente da nominata, fazem uso das regularidades do léxico, adotando uma estrutura redacional quase sempre simétrica e coerente. Nominata: relação de entradas de uma enciclopédia, dicionário, vocabu- lário, glossário, etc.; relação de nomes ou palavras; nomenclatura. Outro ponto a considerar começará a delinear as relações mais estreitas que o léxico mantém com o estilo, pois sabemos que a língua oferece recursos para que qualquer pessoa, escolarizada ou não, fale sobre qualquer aspecto da rea- lidade. A despeito disso, as palavras usadas para expressar a realidade vivida ou imaginada são arbitrárias e variam não apenas de língua para língua, mas de modalidade para modalidade e de uso para uso. Estilística léxica 47 Portanto, o conhecimento lexical resulta não apenas da memorização de palavras, mas também de um princípio de economia na gestão desse acervo, pois cada falante se apropria de um vocabulário compatível com o seu grau de estudo e leitura, utilizando-o, em termos numéricos variados, conforme o em- pregue na oralidade ou na produção escrita. No conjunto do léxico de uma língua existem certamente mecanismos que permitem alcançar a expressividade da comunicação, e devemos considerar que o princípio de economia linguística não é unicamente o princípio de contabilizar palavras, mas de reconhecer a forma mais adequada para se estabelecer o en- tendimento mais eficiente entre as pessoas. Palavras lexicais e palavras gramaticais O léxico, como vimos, é o conjunto de palavras de uma língua, mas é preciso distinguir nesse conjunto os elementos lexicais “plenos” e os elementos lexicais de natureza gramatical. Tomemos duas pequenas listas de palavras do português: 1. certo, hoje, torre, ver. 2. com, os, quando, se. Saberíamos explicar o que cada uma das palavras da série (1) significa? Ainda que pudesse haver algumas divergências na definição de palavras de significa- ção mais ampla ou vaga, a resposta certamente seria “sim”. E quanto às palavras da série (2)? Provavelmente, as explicações ficariam restritas aos conhecimentos gramaticais de cada um, cabendo até retrucar: de que “os” ou de que “se” você está falando? A série (1) contém as chamadas “palavras lexicais”; a série (2) contém as cha- madas “palavras gramaticais”. Na primeira, temos um adjetivo, um advérbio, um substantivo e um verbo; na segunda, temos uma preposição, um artigo, uma conjunção e um pronome. Na lista (1) poderíamos acrescentar quantos adjeti- vos, advérbios, substantivos e verbos? O número é aberto, pois a todo momento novas palavras lexicais podem ser formadas (talibanizar? / argentinização? / pa- lestra incomodacional? / chororosamente?). 48 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística O GLOBO: 29/10/2008 Palestra “incomodacional” é a novidade da vez de René Simões Técnico tricolor tem priorizado a conversa com os jogadores antes dos treinamentos Já na lista (2) o conjunto é finito, sua dimensão é relativamente reduzida, enu- merável em extensão e praticamente restrito – embora os processos de grama- ticalização permitam que as palavras se “movimentem” entre os grupos. Assim, a conjunção “porque” pode se substantivar e virar “motivo” (Não entendi o porquê de sua dúvida); o substantivo “tipo” pode vir a se gramaticalizar como conjunção (Vocal feminino possante tipo Ivete Sangalo procura banda = como) ou como preposição (Passo na sua casa tipo meio-dia = perto de). D iv ul ga çã o M K. Blogue da internet anuncia “Vocal feminino possante tipo Ivete procura banda “. “As palavras gramaticais são pouco numerosas, mas de altíssima frequência nos enunciados, desempenhando funções de grande importância”, frisa Nilce Sant’Anna Martins (1989, p. 72). Essas funções são elementos-chave na cons- trução de um texto e, paradoxalmente, embora sejam desempenhadas por um contingente pouco numeroso, carregam a responsabilidade de dar à mensagem Estilística léxica 49 que se quer transmitir o exato valor pretendido pelo emissor – a quem compete, em última análise, dominar plenamente o uso das palavras gramaticais. Em síntese, elas servem para: relacionar o enunciado com a situação de enunciação, indicando os par- � ticipantes da comunicação, o espaço e o tempo em que ela se dá (são os dêiticos: eu, tu, e suas variantes, aqui, aí, agora, possessivos e demonstrati- vos referentes à primeira e à segunda pessoas, etc.); substituir ou referir algum elemento presente no enunciado (são os anafó- � ricos ou representantes: ele, demonstrativos não relacionados à primeira e à segunda pessoas, etc.); atualizar os nomes, transformando-os de elementos do paradigma ou � palavras de dicionário em termos da frase (são os determinantes: artigos definidos e indefinidos); relacionar palavras no sintagma (preposições) e orações na frase (conjun- � ções e pronomes relativos); estabelecer coesão textual, seja dentro de uma frase, seja entre frases di- � versas (anafóricos, conjunções, operadores argumentativos, etc.). Palavras lexicais: referem-se a processos ou objetos existentes no mundo real = verbos, nomes e advérbios. Palavras gramaticais: restringem-se ao âmbito interno da língua e de seus enunciados = artigos, preposições, conectivos e palavras dêiticas. Neologismos lexicais e semânticos A criação expressiva de palavras é uma prática bastante comum na línguaportuguesa. Todos os dias observamos o emprego de palavras novas, derivadas ou formadas de outras já existentes, e a atribuição de novos sentidos a pala- vras já existentes: “melancia” e “laranja” deixam de ser apenas os nomes de duas frutas e passam a funcionar como qualificador feminino ou testa de ferro, res- pectivamente; o torcedor que vai para a geral dos estádios vira “geraldino”, a passarela do samba é o “sambódromo”... E assim a lista vai se expandindo dia 50 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística a dia, propiciando que as situações da vida sejam retratadas pelo léxico. Se os neologismos serão duradouros ou efêmeros, nunca se sabe, pois tudo depende do uso que deles se fará. Trataremos aqui de dois tipos de neologismos: os lexicais e os semânticos. Neologismos lexicais No livro Morfologia: estudos lexicais em perspectiva sincrônica, assim definimos os neologismos lexicais (ou formais): Palavras novas, isto é, não dicionarizadas ou recém-dicionarizadas, que podem ser objetivamente caracterizadas tomando-se como referência, no caso do Português do Brasil, o léxico oficial consignado no VOLP, embora os dicionários Aurélio, Houaiss e Michaëlis também possam ser fonte de consulta para esse fim. (HENRIQUES, 2008c, p. 138, grifos do autor) Formados a partir de critérios muito variados, os neologismos lexicais podem constituir-se, num extremo, como a própria invenção de uma palavra, sem ne- nhuma lógica linguística aparente, a não ser a simples junção de sons ou de letras. É o caso que Ieda Maria Alves (1990) denomina “neologismos fonológicos” (pela criação de um item lexical cujo significante é criado sem tomar como base nenhuma palavra preexistente). No samba “Idioma Esquisito”, Nélson Sargento (1996) nos mostra com muita engenhosidade uma série de palavras proparoxítonas cuja pretensão poderia ser resumida na discussão do seguinte slogan: “se beber, não componha”: Fui fazer meu samba na mesa de um botequim, Depois de umas e outras, o samba ficou assim: Estrambonático, palipopético, cibalenítico, estapafúrdico, Protopológico, antropofágico, presolopépico, atroverático, Batunitétrico, pratofinândolo, calotolético, carambolâmbolo, Posolométrico, pratofilônico, protopolágico, canecalônico. Os adjetivos que descrevem o samba feito “depois de umas e outras” se asso- ciam ao estado de embriaguez do eu poético. Alguns ainda conservam um ves- tígio de “lucidez vernacular”: antropofágico, cibalenítico (< cibalena, um compri- mido para dor de cabeça), atroverático (< atroverã, remédio para enjoo). Outros parecem pedaços cambaleantes de palavras: estrambonático (< estrambólico? + lunático?), prosolométrico (< ? + métrico), protopolágico (< proto? + ??), palipo- pético e presolopépico (< ???). Estilística léxica 51 Neologismos que não deixam pistas morfológicas nem fonológicas nem se- mânticas são palavras perdidas, como os “gratifonísticos e os pseudoferilídicos que se tengam com frédios de antimalefania”, que agora inventamos. É compre- ensível então que o eu poético do samba de Nélson Sargento, ao final daquela estrofe, confesse: “É isso aí, é isso aí / Ninguém entendeu nada / Eu também não entendi / (Eu então vou repetir)[...]”(SARGENTO, 1996). Podemos entretanto afirmar que os neologismos lexicais, na maior parte das vezes, são palavras que têm nítida inspiração em outra(s): bebemorar (para fazer par com comemorar) associa as ideias de beber e comer, embora a segunda não faça parte da estrutura do verbo (co+memorar); paitrocínio se baseia na aproxi- mação fonética com a primeira sílaba da palavra patrocínio. Caracteriza-se assim o que Ieda Alves (1990, 11-80) chama de “neologismos sintáticos” (criados a partir da combinação de elementos já existentes no idioma). Por essa denominação, só haverá neologismos sintáticos nos casos que envolverem o uso de afixos ou de combinação de radicais, ou seja, a derivação e a composição. Por esse motivo, a autora considera outro tipo de neologismo, de um lado, a conversão (ou deri- vação imprópria) e, de outro, os “processos menos produtivos” (a abreviação, a reduplicação e a regressão). Um neologismo lexical pode, em alguns casos, gerar outros neologismos le- xicais, pelos mesmos princípios. É o que ocorre em palavras geradas a partir da mencionada paitrocínio, como se vê nos exemplos (3) e (4): 3. E essa simplicidade é colocada pelo elenco como um dos méritos do su- cesso. “Começou como de brincadeira, sem dinheiro. Conseguimos na época R$ 1 mil de ‘tiotrocínio’ (empréstimo da família)”, conta a atriz Thaís Lopes da peça “Surto” (FM DIÁRIO, 2006). 4. Caro Diogo, não querendo acabar com a tua esperança, deixo-te a seguinte mensagem que um piloto de automóveis me disse num desses fóruns de inter- net. Ele disse-me o seguinte: Em Portugal há três tipos de patrocínios: o paitro- cínio ou tiotrocínio e o autotrocínio, a troca de favores (exemplo: eu patrocino-te porque a empresa do teu pai compra milhares de euros de material à minha!!!!). Por isso é melhor começares a contactar o teu familiotrocínio para poderes correr nesse troféu [...] (MOTONLINE, 2005) São situações criativas que podem testemunhar o início da gramaticalização de um radical “-trocínio” = “financiador”, embora caiba lembrar que o substantivo patrocínio contenha na sua etimologia a referência a “pai”, pois é formado pelo radical culto “patrocin-”, cuja raiz é “pater-”. Isso mostra como muitas vezes o usu- 52 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística ário contemporâneo já não tem consciência da informação diacrônica acerca de um vocábulo ou expressão. Mas um neologismo lexical pode igualmente produzir uma segunda nova formação com vínculos mais fonológicos do que semânticos. Um exemplo muito utilizado pela mídia nos anos 2005 e 2006 ocorreu com a palavra valerioduto, po- pularizada pela imprensa para se referir a um dos muitos e grandes escândalos da política brasileira. Seu segundo componente (-duto) serviu de base fonológi- ca para a formação de valerioindulto, onde o novo radical adicionado dá mostras de que, apesar de o “condutor” ser réu confesso, os “conduzidos” nem sempre são condenados. Neologismos semânticos No livro Morfologia: estudos lexicais em perspectiva sincrônica, assim defini- mos os neologismos semânticos (ou conceituais): Incorporar significados novos a vocábulos já existentes é o que caracteriza a criação de neologismos semânticos, tomando-se como referência, no caso do Português do Brasil, obras como os dicionários Aurélio, Houaiss e Michaëlis, pois o VOLP é uma fonte que não tem o objetivo de registrar as acepções das palavras. (HENRIQUES, 2008c, p. 146, grifos do autor) É bom frisar, porém, que os limites de identificação de valores semânticos novos como neológicos podem esbarrar com os do reconhecimento de valores metafóricos também novos. Por exemplo, o neologismo semântico rato prati- cado em Portugal não foi adotado no Brasil, que preferiu incorporar o estran- geirismo mouse. É nítido aqui que a palavra “rato” (ainda que por uma relação metafórica) representa um novo significado, uma peça usada em computadores. A notícia de jornal que lamenta a existência de inúmeros ratos na política nacio- nal serve também como exemplo de neologismo semântico? A datação desse significado não é nova, mas não é isso apenas que exclui a resposta afirmativa. Certamente, a metáfora dos “dinossauros”, que é muito mais recente (está regis- trada no Dicionário Houaiss, e não no Dicionário Aurélio) nos servirá como dado representativo dessa fronteira nem sempre muito demarcada entre neologismo semântico e metáfora conceitual. Figuras de linguagem Tudo o que diz respeito à construção, ao uso e à escolha das palavras, como vimos, pode sugerir dentro da frase um valor expressivo para o que pretende- Estilística léxica 53 mos comunicar. Quando isso acontece, temos figuras de linguagem. No campo da morfoestilística, esses recursos podem ser sintetizados a partir do estudo de duas figuras,a metáfora e a metonímia: Metáfora – estilisticamente, é a figura de pensamento que corresponde a uma comparação de igualdade subentendida, atuando com as relações de simi- laridade, onde a base comparativa é o elemento implícito que admite a varieda- de interpretativa. 5. Teus olhos castanhos são estrelas fulgentes. A base de comparação entre teus olhos castanhos e estrelas fulgentes está em aberto: ambos cintilam (são fulgentes), brilham, ou são tocantes, raros, lindos, ou são inspiradores de algum sentimento. IE SD E Br as il S. A . Didaticamente, é um procedimento bastante proveitoso explorar a riqueza metafórica da língua viva (presente em palavras lexicais) e exercitar as distinções entre metáforas já incorporadas à linguagem do dia a dia e aquelas que pode- riam ser chamadas de “inventivas”. Igualmente interessante é chamar a atenção para as metáforas conceituais, que se baseiam numa visão cognitivista segundo a qual conceitos abstratos que 54 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística subjazem ao pensamento humano norteiam a linguagem e a maneira como nos referimos aos objetos que nos cercam (revelando, enfim, de que maneira vemos o mundo). As metáforas conceituais nada mais são do que uma espécie de deno- minador comum das muitas metáforas cotidianas sobre um mesmo tema. Podemos, outrossim, tirar partido de outras figuras de linguagem como a prosopopeia, o eufemismo e a catacrese, que também têm base metafórica. 6. Para mim, és um anjo, uma flor, um doce ursinho. Metáforas “cotidianas” (?). 7. Nossos governantes são diafragmas. Metáfora “inventiva” (?). 8. Economize seu tempo! Invista seu tempo em coisas úteis! Metáforas conceituais (tempo = dinheiro). 9. O primo tem um alto astral, mas ele vive na fossa. Metáforas conceituais (alegria = “para cima” e tristeza = “para baixo”). 10. O vizinho entregou a alma ao Criador. Eufemismo (é um tipo de metáfora que tem o objetivo de suavizar uma ideia mais forte ou agressiva). 11. Nem seu travesseiro entenderia aquela proposta amarga. Duas prosopopeias (é um tipo de metáfora que consiste em dar vida, ação, movimento ou voz a seres inanimados). 12. Se embarcar nesse trem, finalmente verei o leito do Rio Amazonas? Duas catacreses (é um tipo de metáfora que supre, por semelhança, a au- sência de uma palavra própria para representar um significado). Metonímia (abrangendo a sinédoque) – atua com as relações de contiguida- de, em que prevalece o entendimento de um vocábulo por outro porque ambos são postos no mesmo campo semântico denotativo. 13. Presenciei o encontro entre um sem-terra e um sem-teto. Tomou-se terra e teto (terra = propriedade rural; teto = moradia) mais am- plamente do que em seu sentido literal. Estilística léxica 55 14. O menino era a alegria da família. Tomou-se alegria como substituto de “causa, responsável pela alegria”. 15. Bebemos várias garrafas de refrigerante. Tomou-se garrafas como substituto de “líquido contido nas garrafas”. Os exemplos mostram como as construções metonímicas se incorporam à linguagem do dia a dia, até distanciando o componente literal da mente do usu- ário ou do leitor. É o que se observa, por exemplo, com os nomes das equipes esportivas que representam um país, um estado, um bairro. 16. O Brasil ganhou da Alemanha na final da Copa de 2002. Tomou-se Brasil e Alemanha como substitutos de “país representado por um time de futebol” ou “seleção de jogadores brasileiros” e “seleção de joga- dores alemães”. Assim, em resumo, devemos considerar como base interpretativa para o re- conhecimento dessas duas figuras as seguintes relações: Metáfora – relação de similaridade semântica. Metonímia – relação de contiguidade semântica. Além dessas figuras, a exploração da carga expressiva das palavras também pode envolver temas ligados à flexão de gênero e número, à formação de pala- vras compostas ou derivadas e à própria desconstrução vocabular. 17. “Barato é o marido da barata.” 18. “Andando por esses Brasis é que entendemos o povo.” Flexões expressivas com intuito afetivo. 19. “Saiu agorinha mesmo.” 20. “Tens todíssima razão.” 21. “É uma data que não pode nenhumamente passar em branco.” 22. “Carnaval off-Sambódromo vai ser mais quente.” 56 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística Derivações expressivas com intuito enfático, em (19/20/21), e pretensioso, em (22). 23. “A rainha da bateria era a toda-toda Juliana Paes”. 24. “Depois dos pitboys, pitgirls, pitpais etc, veja o que dizia ontem o craque do Flamengo, comentando a ameaça do zagueiro do Vasco, de ‘quebrá-lo’ no segundo jogo da decisão no Rio: – É... já tem até pitzagueiro.” Composições expressivas com intuito enfático (23) e irônico (24). 25. “Mó num patropi, abençoá por Dê.” 26. “Tomei um chafé com um brasiguaio que não sabe falar portunhol.” Desconstrução (25) ou reconstrução (26) vocabular expressiva, com intuito artístico (25) ou irônico (26). Tudo a serviço da pretensão criativa, comunicativa, literária, jornalística de quem emprega a língua portuguesa na vida concreta. Texto complementar Relações morfológicas entre palavras (CORREIA, 1995) As regularidades possíveis dentro do léxico são mais facilmente apre- ensíveis no domínio das palavras construídas, e em particular das palavras derivadas. Neste contexto, é frequente fazer referência à produtividade e à recur- sividade das regras derivacionais, capazes de dar origem a longas séries de palavras, de várias categorias gramaticais, de significado relacionado e facil- mente analisável porque regular. Estilística léxica 57 Exemplos: nação (SUBST) nacional (ADJ) internacional (ADJ) internacionalizar (V) internacionalização (SUBST) nação (SUBST) nacional (ADJ) nacionalizar (V) nacionalização (SUBST) desnacionalização (SUBST) nação (SUBST) nacional (ADJ) nacionalizar (V) desnacionalizar (V) desnacionalização (SUBST) Mas estes mecanismos derivacionais não se limitam a construções de séries semelhantes à anterior. Efetivamente, muitas vezes o mesmo afixo, ao associar-se a uma série de bases de uma mesma categoria, mas com sig- nificados distintos, é capaz de “ler” as várias especificações semânticas das bases, construindo os significados mais adequados às várias utilizações dos derivados assim gerados. Por outras palavras, um derivado é em geral poten- cialmente polissêmico, devido a estas várias “leituras”, sendo as suas várias acepções, porque geradas por uma única RFP, perfeitamente regulares e, portanto, assimiladas e geridas intuitivamente, sem qualquer esforço suple- mentar da memória. Tome-se como exemplo o caso do sufixo -ada. Esse sufixo permite formar substantivos denominais com significados distintos conforme as caracterís- ticas semânticas das suas bases. Assim, se a base designa um objeto com o qual é possível desferir um golpe, a paráfrase composicional do derivado será “golpe/marca dado/feito com o nome-base” (ex.: martelo > martelada; faca > facada). Porém, se a base denota um produto alimentar, a paráfrase composicio- nal do derivado será “preparação feita com o nome-base” (ex.: marisco > ma- riscada; arroz > arrozada; marmelo > marmelada). Se a base denota objetos contáveis, o derivado será parafraseável por “(grande) conjunto do nome-base”, logo o derivado será um nome coletivo (ex: osso > ossada; mosquito > mosquitada). 58 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística Os nomes em -ada podem funcionar como aumentativos (ex: chuva > chuvada; asneira > asneirada; poeira > poeirada). Finalmente, se a base denota uma entidade passível de funcionar como recipiente, o significado do derivado será “conteúdo do nome-base” (ex.: tacho > tachada; alguidar > alguidarada; ninho > ninhada). Há palavras que servem de base a derivados em -ada que podem ter duas categorias diferentes, podendo ser substantivos ou adjetivos (ex.: chinês ou banana). Assim, derivados construídos com bases deste tipo são aprincípio polissêmicos, apresentando de início pelo menos dois significados: chinesada � (construído sobre chinês ADJ): “ato próprio de chinês”, sinô- nimo de chinesice; (construído sobre chinês SUBST): “grande quantida- de de chineses”; bananada � (construído sobre banana ADJ): “ato próprio de banana”, si- nônimo de bananice; (construído sobre banana SUBST): “grande quan- tidade de bananas”. Como banana, nome contável, designa um produto alimentar, bananada é também parafraseável por “preparação feita com base em banana”. Mas, considerando que o derivado, a partir do seu processo de derivação, adquiriu em potência todos os significados possíveis em função da base, do afixo e da RFP, novos contextos podem selecionar novas significações para a mesma palavra bananada. Considere-se o seguinte contexto, perfeitamente gramatical: 1. Os dois vendedores de fruta, zangados, começaram a bater-se: um deles dava bananadas no adversário. [nesta frase, o mesmo derivado atualiza mais um dos significados possíveis produzidos no processo derivacional, a saber: “golpe desferido com o nome-base (banana)”.] A partir desta análise, podemos concluir que as palavras derivadas são, em geral, potencialmente polissêmicas, isto é, no momento da sua constru- ção, além do significado básico próprio da regra que as gera, estas palavras constroem outros significados potenciais resultantes das “leituras” múltiplas que o afixo em questão pode fazer da sua base. O falante, ao utilizar estes derivados, conjuga o seu conhecimento estritamente linguístico com o seu conhecimento do mundo para selecionar, entre os múltiplos significados Estilística léxica 59 que essas palavras podem assumir, aquele que melhor se ajusta ao contexto produzido/recebido. Os contextos linguístico e situacional desempenham, pois, um papel fun- damental nesta atividade, ao eliminar, entre todas as possibilidades, as não adequadas à situação. De resto, os dados da psicolinguística parecem confir- mar esta hipótese teórica: segundo os modelos de produção e de percepção de linguagem, o falante vai reduzindo as possibilidades de escolha das unida- des a usar ou identificar em função do contexto em que a unidade ocorre. Um outro exemplo interessante é o do sufixo -eir(o/a), que permite cons- truir substantivos denominais, que apresentam também significados distin- tos segundo as características semânticas da base, dos quais podemos des- tacar os que a seguir se discriminam. Praticamente todos os nomes derivados em -eir(o/a) podem ser parafra- seáveis por “indivíduo que exerce ofício (tem profissão) relacionado(a) com o nome-base” (ex.: arcabuz > arcabuzeiro; banana > bananeiro; peixe > peixeiro). Esse ofício ou essa profissão podem concretizar-se sob diferentes formas de acordo com as características da entidade designada pela base: “cultiva o nome-base” (bananeiro); “fabrica o nome-base” (arcabuzeiro, pasteleiro); “con- fecciona com o/a partir do nome-base” (peleiro); “arranja/conserta o nome- -base” (sapateiro); “conduz o nome-base” (carroceiro); “comercializa o nome- -base” (retroseiro), etc. Porém, se a base denota uma parte de planta suficientemente relevante para que essa planta seja cultivada para sua extração, o nome corresponden- te em -eir(o/a), além de designar o profissional que cultiva/transporta/vende essa (parte de) planta, passa a designar a planta que produz o nome-base (banana > bananeira; cacau > cacaueiro, coco > coqueiro). O gênero do deri- vado é determinado pelo gênero da base: base feminina > derivado femini- no / base masculina > derivado masculino. Se a base denota uma entidade passível de ser transportada em veículo especialmente concebido para o efeito, o derivado é parafraseável por “veí- culo próprio para transportar o nome-base” (ex.: banana > bananeiro; petró- leo > petroleiro; bacalhau > bacalhoeiro). Se a base denota uma entidade passível de ser guardada em recipiente ou local próprio para o efeito, o derivado pode ainda ser parafraseável por 60 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística “recipiente/local próprio para guardar/armazenar o nome-base” (ex.: pimen- ta > pimenteiro; biscoito > biscoiteira; palha > palheiro). Aqui, ao contrário do que acontece com os nomes de plantas em -eir(o/a), o gênero dos substanti- vos parece não ser previsível. Tal como fizemos para os derivados em -ada, poderemos fazer algu- mas experiências com derivados em -eir(o/a). Tomemos o caso dos nomes bananeir(o/a) e pasteleir(o/a). Em frases como 2. A Joana pousou a *bananeira em cima da mesa e encheu-a. 2’. A Joana pousou a *pasteleira em cima da mesa e encheu-a. Ambos os derivados podem ser parafraseáveis por “recipiente próprio para guardar o nome-base (bananas/pastéis)”. Tomemos agora uma pseudopalavra (sequência de sílabas que, embora não corresponda a nenhuma palavra da língua, tem uma estrutura fonológica compatível com a de uma palavra da língua), por exemplo, “barota”. Conside- remos agora os seus “derivados” em -eir(o/a) inseridos nas frases seguintes: 3. O baroteiro levantou-se cedo e começou a trabalhar. 4. Os baroteiros perderam a folha devido à geada. 5. O baroteiro construído nas traseiras da fábrica ardeu no domingo. Feliz- mente, encontrava-se vazio. Em (3), baroteiro é parafraseável por “indivíduo que exerce atividade/tem profissão relacionada com barota” sendo barota entendido como “produto/ objeto passível de estar na base de determinado ofício/profissão”. Já em (4), é lido como “parte relevante de planta”, designando o seu derivado a “planta que produz barotas”. Em (5), baroteiro é parafraseável por “local destinado a guardar/armazenar barota(s)”. Com este “jogo”, pretendemos demonstrar como cada processo deriva- cional atribui múltiplos significados aos seus produtos, em função do sig- nificado da base envolvida. No caso da pseudopalavra em causa, o poder gerador de significações múltiplas do processo derivacional é ainda mais vi- sível, dado que, não tendo a base qualquer significado, verifica-se que, ao ser associada a -eir(o/a) e em função dos contextos em que ocorre, ela se torna passível de assumir qualquer das significações básicas permitidas pelo sufixo e pela Regra de Formação de Palavras (RFP). Estilística léxica 61 Dicas de estudo HENRIQUES, Claudio Cezar. “Outros Casos”, capítulo do livro Morfologia: estudos lexicais em perspectiva sincrônica. O capítulo examina e interpreta os casos em que vocábulos são formados sob condições específicas, que envolvem princípios de influência linguística, neces- sidade expressiva ou simplicidade. LAPA, Manuel Rodrigues. “O Vocabulário Português (I) e (II)”, capítulos do livro Estilística da Língua Portuguesa. O autor focaliza temas como a significação das palavras, a sinonímia, a plura- lidade dos meios de expressão, o eufemismo e o valor sentimental e intelectual das palavras, entre outros. Estudos linguísticos 1. Observe os exemplos abaixo, com alguns gentílicos terminados em -ense (substantivos ou adjetivos de dois gêneros), transcritos do Dicionário Houaiss: angrense � – relativo a Angra dos Reis (RJ) ou o que é seu natural ou habi- tante; berlinense � – relativo a Berlim (Alemanha) ou o que é seu natural ou habi- tante; douradense � – relativo a Dourados (SP) ou o que é seu natural ou habitante; joinvilense � – relativo a Joinvile (SC) ou o que é seu natural ou habitante; kennediense � – relativo a Pres. Kennedy (TO) ou o que é seu natural ou habitante; vienense � – relativo a ou habitante de Viena (Áustria). Um dos gentílicos dessa lista mostra uma pequena distorção redacional. Qual deles e por quê? 62 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística 2. O trecho seguinte é de Nelly Carvalho (1999, p. 13-14). Linguistas como David Crystal dividem as palavras em: lexicais (ou plenas) e gramaticais (ou vazias). Plenas e vazia referem-se ao significado, mas contêm um erro conceitual: nenhuma forma é totalmente vazia. A autora se refere às “palavras gramaticais” (artigos,preposições, conjunções, etc.). Comente a crítica de Nelly Carvalho ao termo utilizado por Crystal. Assinale as alternativas que contêm recursos de morfoestilística, explicando a expressividade de cada ocorrência. (a) “Minhoca, minhoca, me dá uma beijoca? / Não dou, não dou, não dou! / Mi- nhoco, minhoco, tu tá ficando louco, / Você beijou errado: a cara é do outro lado.” (cantiga de roda) (b) “Minha vida é uma colcha de retalhos, todos da mesma cor.” (Mário Quin- tana) (c) “Às vezes parece até que a gente deu um nó. Hoje eu quero sair só.” (Lenine) (d) “Devolva o Neruda que você me tomou e nunca leu”. (Chico Buarque) Estilística léxica 63 O objetivo deste capítulo é observar, no âmbito da oração, a expressivi- dade dos aspectos sintáticos no estudo estilístico da língua portuguesa. Conceituação de sintaxe da frase O estudo da Estilística sintática envolve necessariamente o conheci- mento de alguns dos assuntos abordados nas aulas e leituras de análise sintática, isto é, a estrutura da frase, começando pelo domínio a respeito do funcionamento dos termos na oração. Para explicar como se alcança essa capacidade, retomo algumas das ideias que expus no livro Sintaxe: estudos descritivos da frase ao texto (HEN- RIQUES, 2008a, p. 15-16), com o objetivo de enfatizar a contribuição desse tipo de conhecimento em nossas escolhas estilísticas. O estudo da análise sintática é um dos pontos fundamentais na for- mação de quem se pretende um usuário competente de sua língua. Duas das habilidades principais de uma pessoa culta repousam nas atividades de ler e de escrever, ações que podem caracterizar não só nossas carreiras profissionais, mas também nossa vida como cidadãos. Nesse sentido, sempre que pretendemos empregar a linguagem com vistas à comunicação com nossos interlocutores nós o fazemos reunin- do de modo organizado uma sequência de unidades lexicais (palavras), combinando-as coerentemente segundo nossas intenções comunicati- vas. Essa combinação é o que se chama de “relacionamento sintático”, pois a análise sintática é, em resumo, a análise das relações. Sintaxe Análise das relações Na estrutura da oração, estudamos as relações que as palavras mantêm entre si na frase. Como sabemos, essas relações são binárias: sujeito e verbo; verbo e complemento; núcleo e adjunto... Por esse motivo, quando nos Estilística sintática – I 66 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística lembramos da tradicional prática de exercícios voltados para o reconhecimento da função sintática de um termo, vemos que ela nem sempre alcança o real ob- jetivo de sua aplicação. Afinal, não se pode dizer qual é a função sintática de um termo se não se encontrar o outro termo com o qual ele se relaciona. Ou seja, não se pode encontrar o sujeito de uma oração sem que se confirme sua relação de concordância com o seu “par” (o verbo); não se pode reconhecer que existe um objeto direto sem apresentar a “prova” (o verbo transitivo direto); não se pode afirmar que determinado termo é o agente da passiva sem que seu “parceiro” sin- tático seja revelado (o verbo na voz passiva). E assim sucessivamente com todos os termos da oração, pois cada um deles só tem a classificação que tem porque possui uma relação com outro termo – e cada uma dessas relações é única, e por isso são dez os termos da oração (neste caso não contamos o vocativo). Sujeito, predicado, predicativo, objeto direto, objeto indireto, agente da passiva, complemento nominal, adjunto adverbial, adjunto adnomi- nal, aposto (e vocativo). A sintaxe tem duas parceiras especiais. Uma é a Semântica (a ciência do sig- nificado), pois o entendimento de uma frase depende da sua estrutura e das sutilezas que envolvem a construção do sentido. Outra é a Estilística (a ciência da expressividade), já que compete ao autor da frase fazer as escolhas sobre como será sua organização, a partir do repertório que a língua lhe oferece. IE SD E Br as il S. A . Estilística sintática – I 67 Cabe, porém, um lembrete: o domínio da sintaxe do português tem como pré-requisito o domínio da morfologia. São dois assuntos interligados, a ponto até de a toda hora nos depararmos com textos acadêmicos que empregam a palavra morfossintaxe. Morfologia Morfossintaxe Sintaxe Como a morfologia é o estudo dos valores associativos das formas linguísti- cas (os vocábulos) e a sintaxe é o estudo da inserção dessas formas linguísticas em enunciações lineares, é bastante pertinente a afirmação de Louis Hjelmslev (1971, p. 162), segundo a qual “malgrado todos os esforços, nunca se conseguiu separar completamente a morfologia da sintaxe”. Isso significa que ter um bom conhecimento acerca das classes de pala- vras é fundamental para entender a estrutura de uma oração e de um período. Lembremo-nos, por exemplo, que estudamos verbos, substantivos, adjetivos e advérbios nos livros e aulas de morfologia – suas flexões, significações, particu- laridades. Depois, estudamos o verbo como elemento central da oração, o subs- tantivo como núcleo de um termo, o adjetivo como um elemento periférico ou atributivo de outro, o advérbio como um determinante sobretudo dos verbos. Tudo entrelaçado, interligado, no âmbito da palavra (morfologicamente) e da oração ou da frase (sintaticamente) para permitir que alcancemos a competên- cia discursiva ou textual, que caracteriza o saber expressivo de que fala Eugenio Coseriu (1992): COMPETÊNCIA LINGUÍSTICA Saber elocutivo competência linguística geral, isto é, a capacidade de falar Saber idiomático competência linguística particular, isto é, a capacidade de falar em uma língua determinada Saber expressivo competência discursiva ou textual, isto é, a capacidade de construir textos em situações determinadas Ou seja, um uso linguístico deve estar adequado às situações e aos contex- tos em que se fala ou escreve. Assim, no nível do “saber expressivo”, o usuário competente necessita responder, antes de mais nada, a três perguntas: de que pretende falar?; com quem pretende falar?; em que contexto pretende falar? Com isso, importam-lhe não as noções de certo e errado, mas de adequado e inade- quado, ainda que também essas definições sejam deveras discutíveis e numero- sas, fixando-se em graus bastante diferentes. 68 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística IE SD E Br as il S. A . De que pretendo falar? Com quem pretendo falar? Em que contexto pretendo falar? Por conseguinte, as escolhas estilísticas concretizadas num texto precisam estar compatíveis com o planejamento (ainda que intuitivo) do seu redator. Por isso é que conhecer a fundo os mecanismos sintáticos do português – inclusive quanto ao nível de exigência da linguagem padrão – é tarefa de toda pessoa que pretenda produzir um texto expressivo. Organização das palavras na oração Todas as línguas faladas pelo homem têm uma característica em comum: são feitas de palavras que se organizam em frases segundo determinadas caracte- rísticas e relações. Se em inglês, por exemplo, só se pode colocar o adjetivo à esquerda do substantivo e não existe concordância entre eles, em português essa posição não é a mais usual e a concordância é obrigatória. Vejamos as séries (1) e (2) para exemplificar esse comentário. 1. sweetØ eyes (sim) / eyes sweet (não) / sweets eyes (não). 2. olhos doces (sim) / doces olhos (sim) / olhos doceØ (não) / doceØ olhos (não). É o que se chama de sintaxe de colocação e de sintaxe de concordância, e cada língua tem suas próprias regras quanto a isso. Estilística sintática – I 69 No português, há duas regras básicas de concordância: o verbo concorda com o sujeito em número e pessoa; � o adjetivo concorda com o substantivo em gênero e número. � E quanto à colocação? Chama-se ordem direta (ou lógica) a sequência em que o sujeito vem à esquerda do verbo, este precede os complementos e os circuns- tanciadores (o direto tem preferência sobre o indireto, e os objetos têm preferên- cia sobre os adjuntosadverbiais), os determinantes vêm depois dos determina- dos, os termos acessórios se posicionam à direita dos seus pares, os conectores e transpositores encabeçam os sintagmas ou orações por eles interligados... A frase (3) mostra um desses casos. 3. “O arrulhar destes dois corações virgens durava até oito horas da noite, quando uma senhora de certa idade chegava a uma das janelas da casa, já então iluminada.” (ALENCAR, 1975, p. 2) O trecho de Alencar exemplifica bem a ordem direta do português: a frase se inicia pelo sujeito (“o arrulhar destes dois corações virgens”) de � “durava”; o núcleo do sujeito (“o arrulhar”) precede seu determinante (“destes dois � corações virgens”); o determinante de “durava” (“até oito horas da noite”) está à direita do verbo; � a conjunção “quando” encabeça a oração subordinada adverbial, que está � posicionada depois da oração principal; o sujeito da segunda oração (“uma senhora de certa idade”) precede o � verbo que com ele concorda (“chegava”); o determinante de “chegava” (“a uma das janelas da casa”) está à direita � do verbo; o determinado “casa” precede seu determinante (“já então iluminada”). � Esses são apenas alguns comprovantes de que o trecho de Alencar está cons- truído rigorosamente em ordem direta, mas isso não significa que se trata de uma ordem obrigatória no português. O mesmo trecho poderia ter sido escrito de outra maneira, sem nenhum prejuízo para sua estrutura, como vemos em (4) e (5), exatamente com as mesmas palavras: 70 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística 4. Até oito horas da noite durava o arrulhar destes dois corações virgens, quando a uma das janelas da casa, já então iluminada, chegava uma senhora de certa idade. 5. Durava até oito horas da noite o arrulhar destes dois virgens corações, quando chegava uma senhora de certa idade a uma das janelas da casa, já então iluminada. Não há diferença sintática entre as frases (3), (4) e (5), mas elas não são iguais do ponto de vista estilístico. Qual das três representa de modo mais adequado a expressividade pretendida pelo autor? O deslocamento de um sintagma para a posição inicial da frase (sua topicalização) é justificável? A resposta, certamente, gerará boa e saudável discussão de Estilística sintática. Topicalização: termo usado para indicar o deslocamento de um sintag- ma de sua posição normal na frase para o início dela – o que geralmente se dá por razões de natureza discursivo-textual. Façamos agora uma exemplificação ao contrário, tomando um outro trecho do próprio Alencar, extraído do mesmo romance A Viuvinha. 6. “Pouco depois desapareceram os adornos da cerimônia, e na sala ficaram apenas algumas pessoas que festejavam em uma reunião de amigos e de família a felicidade dos dois corações.” (ALENCAR, 1975, p. 38) Aqui, não há a rigorosa obediência à ordem lógica do português. Alencar pri- vilegiou a ordem inversa, como destacamos nas seguintes passagens: o sujeito dos verbos “desaparecer” (“os adornos da cerimônia”) e de “fica- � ram” (“algumas pessoas”) está posposto; os determinantes de “desapareceram” (“pouco depois”) e de “ficaram” (“na � sala”) estão antes dos verbos; o complemento do verbo “festejar” (“a felicidade dos dois corações”) está � distanciado dele pela antecipação do adjunto adverbial “em uma reunião de amigos e de família”. Porém, essa opção estilística de Alencar como ficaria se reescrita na ordem direta? Estilística sintática – I 71 7. Os adornos da cerimônia desapareceram pouco depois, e apenas algumas pessoas que festejavam em uma reunião de amigos e de família a felicidade dos dois corações ficaram na sala. Observa-se que o sujeito “apenas algumas pessoas”, ao ser posicionado à es- querda de seu verbo (“ficaram”) teve de trazer consigo toda a oração subordina- da que o secundava, pois afinal essa oração do verbo “festejar” é adjetiva, isto é, determinante de “pessoas” e se posiciona depois desse substantivo. De novo cabe perguntar qual das maneiras se presta de modo mais adequa- do à expressividade pretendida pelo autor. E outra vez veremos que também aqui a resposta gerará boa e saudável discussão de Estilística sintática. De todo modo, uma conclusão se pode alcançar desde logo: a ordem direta ou lógica nem sempre é a mais recomendável ou a melhor. Cada situação discur- siva, textual, é que dirá se a escolha mais apropriada é uma, outra ou mesmo um misto de ambas. Extensão das frases Diz Mattoso Câmara Jr. que a frase é uma [...] unidade de comunicação linguística, caracterizada, como tal, do ponto de vista comunicativo – por ter um propósito definido e ser suficiente para defini-lo, e do ponto de vista fonético – por uma entoação, que lhe assinala nitidamente o começo e o fim. É assim a divisão elementar do discurso, mas pertence à estrutura linguística por obedecer a padrões sintáticos vigentes na língua, no seu sentido de sistema por que se pauta o discurso. (CÂMARA JR., 1981, p. 122) E complementa que a frase só é integralmente linguística, ou seja, está em padrão de oração, quando contém linguisticamente em si todos os dados para a comunicação do seu assunto, sem que haja necessidade de completá-los com algum gesto ou e com uma situação concreta. Decidir qual a melhor extensão para uma frase é, em resumo, uma tarefa que consiste em combinar a questão sintática com a escolha estilística, e esta levará em conta aquelas mesmas três perguntas que enumeramos há pouco, na busca do “saber expressivo” (de que pretende falar?; com quem pretende falar?; em que contexto pretende falar?). Observemos o exemplo (8), tirado de uma notícia de jornal: 72 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística 8. “Foi um show dentro e fora de campo. Com direito a pontapé inicial de Pelé e volta olímpica de Felipe Massa, a Seleção Brasileira goleou Portugal de forma convincente por 6 a 2 na noite desta quarta-feira, de virada, no Estádio Bezerrão, na cidade-satélite do Gama, no Distrito Federal”. (BRASIL se despede de 2008 com goleada sobre Portugal, 2008) O texto começa com uma frase curta, marcada pela objetividade e síntese. A segunda frase contém quase três linhas e, apesar disso, só tem um verbo, uma oração. Topicalizada com o sintagma que fala de Pelé e de Felipe Massa, o perí- odo mostra o verbo “golear” seguido por seu complemento imediato (o objeto direto “Portugal”) e depois por um longo rol de adjuntos adverbiais. Se o redator optasse por equilibrar o tamanho das duas sentenças ou se preferisse escrever três períodos, talvez diminuísse o impacto que a primeira frase exerce sobre o leitor da notícia e talvez quebrasse o fluxo das circunstâncias que acompanham o verbo “golear”. Os resultados, para nossa reflexão, estão nos trechos (9) e (10): 9. O Brasil deu um show dentro e fora de campo, na noite desta quarta-feira, no Estádio Bezerrão, na cidade-satélite do Gama, no Distrito Federal. Com direito a pontapé inicial de Pelé e volta olímpica de Felipe Massa, a seleção goleou Por- tugal de forma convincente por 6 a 2, de virada. 10. De virada, a Seleção Brasileira goleou Portugal de forma convincente por 6 a 2. O Brasil deu um show dentro e fora de campo, na noite desta quarta-feira, no Estádio Bezerrão. Com direito a pontapé inicial de Pelé e volta olímpica de Felipe Massa, o jogo aconteceu na cidade-satélite do Gama, no Distrito Federal. Como avaliar as opções (8), (9) e (10) senão pela interpretação da expressivi- dade pretendida pelo jornalista que redigiu a notícia? Referenciação intrafrásica A relação que existe entre uma expressão linguística e alguma coisa que ela seleciona no mundo real ou conceitual é o que se chama de referência. “Uma expressão linguística que refere ou aponta para alguma coisa no mundo não lin- guístico é uma expressão referencial” (TRASK, 2004, p. 251), mas os fenômenos re- ferenciais, por se configurarem como práticas discursivas, são um caso expressivo da relação entre linguagem e realidade, algo que é reciprocamente constitutivo.Se considerarmos o texto a partir de uma perspectiva micro, diremos que se trata de uma reunião de frases e que estas não passam de uma reunião de Estilística sintática – I 73 termos, sintagmas e palavras. Porém, por um ponto de vista macro, devemos ad- mitir que um texto é um conjunto de unidades micro que se formam em busca de uma unidade sistêmica, organizada e construída progressivamente com base em dois processos gerais, a sequencialidade e a topicidade. A topicidade se refere ao assunto ou tópico discursivo (às vezes mais de um) tratado ao longo do texto. A sequencialidade é um componente da progres- são referencial e se refere à apresentação, continuidade, identificação, preser- vação, retomada de referentes textuais e tidas como estratégias de designação de referentes. Nesse sentido, a sucessão de palavras que forma um texto vai muito além da mera sequencialidade, pois é preciso que um entrelaçamento coerente aproxime esses componentes para lhes dar a mencionada unidade sistêmica de textualida- de, isto é, promover sua coesão. Esta, por ser a representação linguística da coe- rência de um texto, concretiza-se nas relações entre elementos sucessivos (artigos, pronomes, adjetivos, verbos, advérbios), na organização de períodos, de parágra- fos, de cada uma das partes do todo, formando uma cadeia de sentido capaz de apresentar e desenvolver o que se pretendeu dizer sob a forma de texto. Esses mecanismos linguísticos, que têm a função de estabelecer a conectivida- de e a retomada entre as partes do texto, são chamados de referentes textuais. Os referentes textuais podem se valer, conforme o caso, dos mecanismos léxico-semânticos ou morfossintáticos (por meio de pronomes de terceira pessoa, de certos advérbios, conectivos, numerais ou por meio de substantivos e verbos cujo campo semântico permita o processo de substituição ou ainda pelo recurso da repetição enfática, da paráfrase, da restrição, entre outros). A compreensão de um texto também se dá por elementos não explicitados nele, sendo possível considerar que há fatores de coesão implícita, apoiados no co- nhecimento compartilhado que os participantes do processo comunicativo têm da língua que usam. Por exemplo: uma pessoa que está num bar tomando um refrigerante chama o garçom e lhe diz a frase (11). 11. Meu copo está vazio. Pode me trazer outro guaraná? Certamente essa pessoa não tem em mente a hipótese de que o garçom vá lhe trazer um guaraná diferente (outro guaraná = um guaraná diferente), mas que ele lhe trará o mesmo guaraná (outro guaraná = mais um copo do mesmo gua- raná), apesar do aparente contrassenso de “outro” ser equivalente de “mesmo”. 74 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística O processo comunicativo, porém, poderá resultar no entendimento do que está explícito (outro = diferente) e numa resposta como a da frase (12). 12. Infelizmente não. Só temos essa marca. Vejamos então, em dois parágrafos sucessivos (extraídos da Revista da Folha de S. Paulo, de 21/09/2008), outros exemplos de referentes textuais que atuam no interior da frase. 13. Com 240 mil veículos a mais nas ruas da capital nos últimos seis meses, que se juntaram a uma frota de seis milhões, o automóvel é cada vez mais protagonista de um pesadelo urbano no qual os paulistanos se veem mergulhados diariamente. 14. Parado nos congestionamentos – o recorde chegou a 266km em maio – ou na disputa inglória por uma vaga para estacionar, o carro virou um trambolho que coloca em xeque a própria sobrevivência da metrópole. “Não dá para todo mundo ter um carro hoje, a não ser que acabem com os espaços públicos e transformem a cidade em algo exclusivo para o automóvel”, ironiza a urbanista Raquel Rolnik. (SOLUÇÃO Radical, 2008) O parágrafo (13) possui apenas uma frase. Nela, “costuram” o interior frasal os pronomes relativos “que” (retomando “os veículos”) e “no qual” (retomando “o pe- sadelo urbano”), o pronome pessoal reflexivo “se” (em duas ocasiões: também re- tomando “os veículos” e “o pesadelo urbano”) e os substantivos “veículos”, “frota” e “automóvel” (e sua coerente hierarquia) e “capital” e “paulistanos” (também co- erentes na seleção e enfatizados no adjetivo “urbano”). Já em (14), em que há duas frases (uma do jornalista, outra em discurso direto), a coesão interna se dá com o pronome relativo “que” (retomando “trambolho”), o predicador “trambolho” (substituto pejorativo de “carro”), na primeira delas. Na segunda, vemos a locução conjuntiva “a não ser que” (conector de exclusão) e os substantivos “carro” e “automóvel” (sinônimos) e “cidade” e “urbanistas” (também coerentes na seleção). Figuras de linguagem A decisão acerca do modo de se construir uma frase, como vimos, pode insinuar ou revelar um valor expressivo para o que pretendemos comunicar. Quando isso acontece, temos figuras de linguagem. No campo da Estilística sin- tática, entre as principais figuras, destacamos as seguintes: Estilística sintática – I 75 Anacoluto e Pleonasmo � Enquanto o pleonasmo sintático ocorre pela repetição enfática de um termo oracional, geralmente topicalizado, o anacoluto consiste numa topicalização que não tem sequência sintática concreta. 15. Os meus votos, os derrotados não os anularão nunca. Pleonasmo 16. Aos eleitos, desejamos a eles um bom mandato. Pleonasmo 17. Os corruptos, é preciso acabar com eles. Anacoluto 18. Os tiranos, ainda há quem goste deles. Anacoluto Nas frases (15) e (16), os sintagmas topicalizados têm função sintática (“os meus votos” é objeto direto de “anularão”, e “aos eleitos” é objeto indireto de “desejamos”) e são repetidos adiante, numa redundância sintática enfática (o pronome oblíquo “os” é o objeto direto pleonástico de “anularão”, e “a eles” é o objeto indireto pleonástico de “desejamos”). Como se vê, em cada oração houve a redundância sintática de dois termos. Nas frases (17) e (18), os sintagmas topicalizados não têm função sintática, e sua repetição adiante não é sintática, mas apenas uma estratégia coesiva, pois afinal é preciso que o leitor entenda a frase e saiba que papel sintático deveriam fazer os sintagmas “os corruptos” e “os tiranos”. Os termos “com eles” e “deles” são objetos indiretos de “acabar” e “gostar”, mas em cada uma das frases só há um objeto indireto, pois “os corruptos” e “os tiranos” não têm função sintática em virtude da “quebra frasal” que caracteriza o anacoluto. Silepse � Uma das possibilidades de concordância no português envolve o procedi- mento de relacionar sintaticamente um elemento da frase ao que está implícito (em vez de explícito), descumprindo a regra básica de concordância entre verbo e sujeito ou entre adjetivo e substantivo. Chama-se por isso de concordância ideológica. 19. Todos os brasileiros (P6) sentimos (P4) na pele o que aconteceu. 20. Aquele discurso deixou a gente (f ) aborrecido (m) com o candidato. O sujeito da frase (19) é “os brasileiros” (= eles, P6), e o verbo poderia ser “sen- tiram”. Usar a forma “sentimos” (= nós, P4) significa incluir no sujeito a ideia da 76 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística primeira pessoa – o que não poderia acontecer se o falante da frase fosse, por exemplo, um russo. Na frase (20) o adjetivo “aborrecido” se relaciona com a palavra “gente”, femi- nina. A concordância só pôde ser aceita porque “a gente” também se refere ao falante, no caso um homem. Hipálage � Pode-se justificar a associação de um adjetivo a um substantivo que não é, do ponto de vista lógico, o seu determinado. 21. O ambulante vendia as bandeiras felizes do grande campeão. Observe-se como o adjetivo “felizes”, logicamente referido aos torcedores do time campeão, transfere sua concordância para o substantivo “bandeiras”, em vir- tude da contiguidade semântica entre os seus determinados lógico e sintático. Assíndeto e Polissíndeto � A ausência ou a reiteração de uma “conjunção coordenativa” pode ter efeito expressivo. 22. Cheguei, olhei, abafei. Assíndeto (ausênciada conjunção “e”). 23. Era sempre assim: ou chorava, ou gritava, ou morria de amor. Polissín- deto (reiteração da conjunção “ou”). Inversão (anástrofe, hipérbato e prolepse) � A alteração intencional e expressiva da ordem direta de uma oração ou frase caracteriza algum dos casos de inversão. 24. Agora você já perdeu o trem, meu caro. Prolepse (topicalização refutadora). 25. Sobre o meu passado não falaria nada. Anástrofe (inversão simples). 26. Assusta-me das águas o nível gigantesco. Hipérbato (inversão complexa). Na prolepse, além da inversão é necessário que se perceba uma possível re- futação ao interlocutor. Quando isso não ocorre, haverá a anástrofe. Outra figura de inversão é a sínquise, que consiste em criar uma frase ambígua pela interpe- netração sintática de seus termos (melhor seria dizer que se trata, então, de um vício de linguagem – e não de uma figura). Estilística sintática – I 77 Omissão (elipse e zeugma) � A omissão intencional de algum termo da oração também pode ser expressiva. 27. Sobre a cabeça, os aviões. Elipse (de “estão” ou “há”). 28. Encontrei-a sozinha, um ar triste, o rosto pálido. Elipse (de “tinha” ou “com”). 29. Peço venham todos à festa. Elipse (de “que”). 30. Você falou verdades e eu, mentiras. Zeugma (de “falei”). 31. Levei dois livros: um de contos e um de poesia. Zeugma (de “livro”). Na elipse, a palavra subentendida pode ter sido usada antes ou não. Na zeugma, a omissão é de uma palavra já empregada antes, sob forma gramatical diferente. Além dessas figuras de linguagem que aqui apresentamos, a construção de frases pode ainda produzir expressividade de muitas outras maneiras. Tudo a serviço da pretensão criativa, comunicativa, literária, jornalística de quem em- prega a língua portuguesa na vida concreta. Texto complementar Qualidades do parágrafo e da frase em geral (GARCIA, 1988, p. 253-254) A correção gramatical é, sem dúvida, uma das mais importantes qua- lidades do estilo. Mas nem sempre a mais importante: uma composição pode estar absolutamente correta do ponto de vista gramatical e revelar-se absolutamente inaproveitável. Os professores topamos todos os dias com exemplos disso. É verdade que erros grosseiros podem invalidar outras qua- lidades do estilo. Mas a experiência nos ensina que os defeitos mais graves nas redações de alunos do curso fundamental – e até superior – decorrem menos dos deslizes gramaticais que das falhas de estruturação da frase, da 78 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística incoerência das ideias, da falta de unidade, da ausência de realce. Quando o estudante aprende a concatenar ideias, a estabelecer suas relações de de- pendência, expondo seu pensamento de modo claro, coerente e objetivo, a forma gramatical vem com um mínimo de erros que não chegam a invalidar a redação. E esse mínimo de erros se consegue evitar com um mínimo de “regrinhas” gramaticais. Isoladamente, unidade e coerência têm características próprias, mas quase sempre a falta de uma resulta da ausência da outra. A primeira pode ser em grande parte conseguida graças ao expediente do tópico frasal; a segunda depende principalmente de uma ordem adequada e do emprego oportuno das partículas de transição (conjunções, advérbios, locuções ad- verbiais, certas palavras denotativas e os pronomes). Em síntese, a unidade consiste em dizer uma coisa de cada vez, omitindo- -se o que não é essencial ou não se relaciona com a ideia predominante no parágrafo. Evitem-se, portanto, digressões descabidas e indiquem-se de ma- neira clara as relações entre a ideia principal e as secundárias. A falta de unidade do parágrafo seguinte decorre da ausência de conexão entre os seus dois períodos. Acabam de chegar a Cuba reforços militares da União Soviética para o regime comunista de Fidel Castro. A condecoração de “Che” Guevara, um dos colaboradores castristas, pelo ex-presidente Jânio Quadros, por afrontosa, escandalizou a opinião pública e contribuiu para a sua renúncia (redação de aluno). Pergunta-se: qual é a ideia principal desse parágrafo? A chegada de refor- ços, a condecoração, o escândalo da opinião pública ou a renúncia do pre- sidente? Se é a chegada de reforços, que relação há – ou mostrou seu autor haver – entre esse fato e os restantes? Há, sem dúvida, uma relação implícita, histórica, ocasional, entre as três personagens referidas, mas não entre suas ações indicadas no trecho. Falta, pois, ao parágrafo qualquer traço de unida- de, coerência e ênfase. Para consegui-lo, seria necessário dar-lhe uma nova estrutura. Uma das versões possíveis seria esta: Acabam de chegar a Cuba reforços militares da União Soviética para o regime comunista de Fidel Castro. Pois foi a um dos colaboradores castristas – “Che” Guevara – que o ex- presidente Jânio Quadros condecorou, escandalizando a população e contribuindo para a sua própria renúncia. Estilística sintática – I 79 A partícula de transição “pois” (conjunção conclusiva) e a expletiva “foi... que” já denunciam certa relação com a chegada de reforços e o que se segue esse “pois” indica vestígios de um silogismo incompleto, cuja premissa maior está implícita. O raciocínio que teria levado a essa estrutura deve ter sido mais ou menos o seguinte: Acabam de chegar a Cuba reforços militares da União Soviética. Isso nos leva a admitir que o regime de Fidel Castro é comunista. Ora, os comunistas não devem ser condecorados sem que se escandalize parte da opinião pública de país não comunista. Pois esse escândalo provocou-o a condecoração de “Che” Guevara pelo ex-presidente Jânio Quadros, escândalo que foi, provavelmente, uma das causas da sua renúncia. Note-se, porém, que na versão proposta a ideia principal é “condecorar”; portanto, a “chegada de reforços”, sob a forma de tópico frasal, ilude o leitor, que supõe ver aí a ideia predominante do parágrafo. Sugere-se então nova estrutura, de forma que as ideias secundárias assumam feição gramatical mais adequada: oração subordinada ou adjunto adverbial: Com a chegada a Cuba de reforços militares da União Soviética para o regime comunista de Fidel Castro, a condecoração de “Che” Guevara pelo ex-presidente Jânio Quadros – gesto que talvez tenha contribuído para sua renúncia – torna-se ainda mais afrontosa à opinião pública. Sob a forma de adjunto adverbial, a “chegada de reforços” passa a ser uma ideia secundária, permitindo que se dê maior realce à contida na oração principal (“a condecoração... torna-se ainda mais afrontosa”). A terceira ideia desse parágrafo, por ser também irrelevante, assume uma feição de subalter- nidade sob a forma de aposto: “gesto que...” Assim, nesta última versão estão mais ou menos razoavelmente eviden- ciadas as três principais qualidades do parágrafo (que no caso são também do período): a) unidade – uma só ideia predominante; b) coerência – relação (no caso, de consequência) entre essa ideia predo- minante e as secundárias; c) ênfase – a ideia predominante não apenas aparece sob a forma de ora- ção principal mas também se coloca em posição de relevo, por estar no fim ou próximo do fim do período-parágrafo. 80 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística Dicas de estudo KOCH, Ingedore Villaça. “A Coesão Referencial”, capítulo do livro A Coesão Textual. O capítulo explica e exemplifica os casos em que ocorre a remissão de ele- mentos dentro das frases de um texto. BECHARA, Evanildo. “Figuras de Sintaxe”, capítulo da Moderna Gramática Portuguesa. O autor estuda oito situações expressivas de usos sintáticos com valor estilístico. Estudos linguísticos 1. Aqui no prédio há um casal que prestigia o nosso grupo de teatro e que só perde um ensaio quando não encontram uma pessoa que possa tomar con- ta de sua filha pequena. O trecho acima pode exemplificar por que, às vezes, a silepse é preferível à concordância lógica? Explique. Estilística sintática – I 81 2. “E quando escuta um samba-canção / Assim como ‘Eu preciso aprender a ser só’,/ Reagir e ouvir o coração responder: / Eu preciso aprender a só ser.” A letra de Gilberto Gil faz uma inversão das palavras “ser” e “só” com que fina- lidade textual? Identifique suas diferenças semânticas e morfossintáticas e, depois, explique em que outras posições da mesma frase essa palavra pode- ria ser empregada e com que consequências. 3. Assinale as alternativas que contêm recursos de Estilística sintática, explican- do a expressividade de cada ocorrência. a) Ah, se todos tivéssemos esse seu jeito especial de entender o coração humano! b) Teus braços amigos estão sempre à minha disposição, eu sei. c) Aqueles olhos azuis, cansei de admirá-los em vão. d) Fazemos de tudo um pouco. O objetivo deste capítulo é observar, no âmbito do período, a expressivi- dade dos aspectos sintáticos no estudo estilístico da língua portuguesa. Conceituação de sintaxe do período Assim como uma frase não é uma reunião aleatória de palavras ou de orações, um texto não é uma reunião aleatória de frases. As decisões de estilo, no que tange à sintaxe do período (simples ou composto) têm a ver, em primeiro lugar, com o domínio do funcionamento dos padrões frasais do português e das combinações que as orações mantêm umas com as outras dentro de uma frase verbal, a que denominamos período. No livro Sintaxe: estudos descritivos da frase ao texto (HENRIQUES, 2008a, p. 95), tratei um pouco desse tema, cabendo aqui aproveitar minhas pró- prias palavras para discutir como importam as questões sintáticas da frase na qualificação de um texto, pois sua complexidade e expressividade se medem a partir de vários parâmetros. Não resta dúvida de que um deles repousa na observação da estrutura sintática de seus períodos e parágrafos. Nesse sentido, o estudo da sinta- xe é uma das estratégias para desvendar os mecanismos composicionais escolhidos pelo autor de um texto, ainda que ele precise passar pelo cami- nho da nomenclatura e da fixação das regras básicas do relacionamento sintático para atingir seu alvo maior. Um texto coeso e coerente se organiza a partir de princípios lógicos, entre os quais se incluem os processos relacionais, que partem de uma “relação-micro” como a que existe entre o núcleo de um termo e seu ad- junto adnominal, passam por uma “relação-midi”, como a que nos mostra que uma oração é principal porque outra é sua subordinada, e se encer- ram numa “relação-macro”, que confirma por exemplo que uma notícia de jornal ou uma crônica literária teve começo, meio e fim – o que só acon- tecerá de fato se tiverem sido seguidas as regras elementares de adição, Estilística sintática – II 84 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística oposição, reiteração, substituição e conclusão, entre tantas outras regras que se baseiam em ampliações dos mecanismos primários expressos pelos conectivos, conjunções, pronomes relativos, pessoais... Microrrelações, midirrelações, macrorrelações = Sintaxe. IE SD E Br as il S. A . Nesse percurso do “mundo-micro”, feito com o estudo geral da estrutura da oração, para o “mundo-macro”, é preciso examinar como funciona a estrutura do período (o “mundo-midi”), relembrando que esses três “mundos” nada mais são do que uma repetição um do outro, em tamanhos e graus diferentes. É preciso, portanto, frisar que o estudo da Estilística sintática, no âmbito do período, é o estudo da expressividade, da pertinência e da coesão que existe no relaciona- mento que as orações mantêm entre si no enunciado. Sintaxe do período Análise das relações oracionais Estilística sintática – II 85 Interessa-nos, então, examinar como um período ou frase verbal atua em suas relações discursivas e pragmáticas com o mundo que cerca o texto. É o segundo passo no caminho da almejada qualidade e expressividade textual. Organização das orações (no período) Há em português dois tipos de orações, conforme sejam sintaticamente independentes ou dependentes. Se um período dispõe suas orações com in- dependência sintática, dizemos que há coordenação entre elas. Se, porém, as orações mantêm no período uma relação de dependência sintática, falamos em subordinação. Vejamos como acontecem essas relações, examinando algumas frases escri- tas por Graciliano Ramos no romance Angústia. 1. “Peguei um livro, abri a porta e desci os degraus do quintal, furioso com o amante de D. Mercedes. Velhaco. Devia nas lojas, devia nas mercearias, devia ao alfaiate. Atracado aos usineiros, aos banqueiros, aos homens da Associação Comercial, numa adulação torpe.” (RAMOS, 1975, p. 53) O trecho contém quatro frases, sendo a segunda um efeito retórico inter- jectivo (equivalente muito mais expressivo do que “Era um velhaco”). A quarta frase também não tem um verbo lexicalizado, mas se entende algo como “Vivia atracado...”, de modo a deixar implícita a informação redundante para destacar a descrição relevante do tal amante de D. Mercedes. Considerando a inserção dos verbos, essas frases teriam orações independentes absolutas. Sem os verbos, são frases nominais (inseridas em um contexto ou situação). Interessam-nos, porém, mais os períodos 1 e 3 do exemplo (1). Observemos a sequência de orações independentes de ambos: Período 1 oração 1: peguei um livro � oração 2: abri a porta � oração 3: e desci os degraus do quintal, furioso com o amante de D. Mer- � cedes. 86 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística Período 3: oração 1: devia nas lojas � oração 2: devia nas mercearias � oração 3: devia ao alfaiate � Nos dois períodos, a opção do escritor foi pela construção de orações in- dependentes – tanto que até poderiam ter sido escritas com a separação por pontos, como temos em (2). 2. Peguei um livro. Abri a porta. E desci os degraus do quintal, furioso com o amante de D. Mercedes. Velhaco. Devia nas lojas. Devia nas mercearias. Devia ao alfaiate. Atracado aos usineiros, aos banqueiros, aos homens da Associação Comercial, numa adulação torpe. É lícito concluir que Graciliano optou por estruturas integradas em frases desse tipo, pois preferiu privilegiar um determinado nível de informação e de descrição, associando-as a um certo ritmo pausado de leitura, típico de estrutu- ras coordenadas. Suponhamos, porém, que a escolha fosse pela construção com orações de- pendentes. Uma das possibilidades de reescritura (apenas dos períodos 1 e 3) do trecho nos daria o que está em (3); outra, buscando apenas os usos de estruturas dependentes, nos daria o que está em (4). 3. Depois que peguei um livro, abri a porta para, em seguida, descer os de- graus do quintal, furioso com o amante de D. Mercedes. Velhaco. Tanto devia nas lojas, como devia nas mercearias e devia ao alfaiate. Atracado aos usineiros, aos banqueiros, aos homens da Associação Comercial, numa adulação torpe. 4. Depois que peguei um livro, abri a porta para em seguida descer os degraus do quintal, furioso com o amante de D. Mercedes, porque o considerava um Ve- lhaco, que tanto devia nas lojas, como devia nas mercearias e devia ao alfaiate, o que o obrigava a viver atracado aos usineiros, aos banqueiros, aos homens da Associação Comercial, numa adulação torpe. Vimos quatro maneiras de construir o mesmo momento da narrativa do ro- mance Angústia, de Graciliano Ramos. Não resta dúvida de que a opção do escri- tor se mostra bastante expressiva, mas sobre as outras três a única coisa inques- tionável é que, sintaticamente, elas estão corretas, adequadas e bem-escritas. E estilisticamente? Cabe aqui uma boa e saudável discussão a esse respeito. Estilística sintática – II 87 Isso significa que estruturas sintáticas independentes são melhores do que as dependentes? Ou que, num texto narrativo, elas são mais recomendáveis? Ou então que Graciliano Ramos é que tem um estilo em que predomina a coordena- ção sobre a subordinação? Obviamente a resposta a essas perguntas é a mesma: não, necessariamente. É preciso relativizar todas essas coisas e examinar em que circunstância elas ocorrem. Para comprovaressa “fragilidade dos dogmas sintáticos”, vejamos outras duas passagens do mesmo autor, ainda em Angústia. 5. Marina apareceu, enroscando-se como uma cobra de cipó e tão bem vestida como se fosse para uma festa. Ao pegar-me a mão, ficou agarrada, os dedos contraídos, o braço estirado, mostrando-se, na faixa de luz que entrava pela janela. Isto me dava a impressão de que o meu braço havia crescido enormemente. (RAMOS, 1975, p. 67) 6. Marina parou diante de uma casinha baixa, hesitou, bateu à porta. Toda a minha atenção se concentrou num olho, porque na esquina em que me achava apenas apresentava à rua uma banda da cara. Quando ela entrou, desentoquei-me, aproximei-me da casinha e vi uma placa azul com letras brancas. (RAMOS, 1975, p. 157) Os três períodos do trecho (5) contêm o predomínio de estruturas dependen- tes, com orações substantivas, adjetivas e adverbiais, com orações desenvolvidas e reduzidas. Já no trecho (6), observa-se uma combinação entre orações inde- pendentes e dependentes dentro do mesmo período: o primeiro contém apenas orações independentes; o segundo, apenas orações dependentes; o terceiro começa com uma oração dependente e prossegue com três independentes. Algum dos trechos perdeu em expressividade? Claro que não. Isso nos per- mite concluir que a decisão sobre as estruturas que devem figurar num período depende muito do conhecimento sintático, é claro, mas depende ainda mais da sensibilidade e da percepção estilística de quem escreve. Referenciação interfrásica Todo emissor de uma mensagem faz uma representação mental (multidi- mensional) a respeito do referente do discurso que pretende elaborar. Referente: termo que denomina o componente do mundo real que é passível de argumentação, descrição ou relato por meio de palavras. 88 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística Quando se dá a produção de um texto, essa representação mental toma uma forma concreta, que tem linearidade e temporalidade, pois deve se materializar (uma ação de tempo) em unidades linguísticas (um resultado linear) com o pro- pósito de emitir uma informação. Operação cognitivo-linguística: do cérebro para o papel. IE SD E Br as il S. A . A principal questão para quem redige é a que envolve essa transferência do modelo mental (não linear e impalpável) para a forma concreta da frase. O ponto é como compatibilizar esses dois ambientes, como saber fazer essa passagem. Podemos resumi-la a duas operações, que interagem durante essa transferência: a) seleção e ajuste dos itens lexicais (em outros termos: achar a palavra certa e posicioná-la na frase de modo adequado); b) enquadramento das unidades linguísticas em relação aos enunciados que as precedem ou sucedem num texto (também chamados de cotexto). Enquanto a operação A se presta mais para a construção da oração ou do período, a operação B é a que expressa de fato a materialização do texto, sua efetiva construção como uma unidade de sentido. Estilística sintática – II 89 Observemos a notícia abaixo para vermos como se dão esses processos. 7. Ter autonomia para escolher o horário de início do trabalho – de manhã, à tarde, à noite ou de madrugada –, livrar-se dos imensos congestionamentos, que tiram o humor de qualquer pessoa, usar a roupa que achar mais confortável, decorar o ambiente com a sua cara e ser o seu próprio chefe. Quem nunca desejou pelo menos um desses privilégios? (GAZETA DO POVO, 2008) O redator inicia seu parágrafo com uma frase que combina com simetria cinco infinitivos verbais (ter, livrar-se, usar, decorar e ser). Até aí estamos na ope- ração A, que verifica a seleção e ajuste dos itens lexicais. Na frase final do trecho, há entretanto um sintagma que atua no processo B (um desses privilégios). O demonstrativo “esses” é anafórico e faz relação com o enunciado que o precede, e o substantivo “privilégios” condensa (também anaforicamente) a série liderada pelos cinco verbos no infinitivo, acrescentando um juízo de valor que o jornalista espera ser compartilhado pelos seus leitores, a saber: as ideias representadas pelos cinco verbos no infinitivo podem ser consideradas positivas (= privilégio, no bom sentido). Alternativamente, o jornalista poderia ter evitado o demonstrativo, mas pre- cisaria de uma palavra anafórica de outra classe para dar coerência à frase final – é o que se vê em (8). 8. Quem nunca desejou pelo menos um dos privilégios citados? Também poderia ter usado um substantivo anafórico mais neutro – como em (9). Isso evitaria que algum leitor percebesse alguma sutil ironia ou inveja no uso do substantivo “privilégios”, por considerar que o repórter redator, provavelmen- te, não pode trabalhar apenas em casa. 9. Quem nunca desejou pelo menos uma dessas comodidades? Uma outra questão envolve as operações de enquadramento dos enuncia- dos de um texto, ainda no que tange à conexão e à segmentação. Suas unidades fundamentais são os organizadores textuais e os sinais de pontuação, que têm a função de, primeiro, “costurar” os itens lexicais (selecionados e ajustados, como dissemos na operação A) e, depois, articular ao contexto essas unidades. Quanto aos organizadores textuais, citemos alguns deles: os aditivos (e, além disso, igualmente, também); � os alternativos (ou, ora); � 90 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística os argumentativos (mas, embora, porque, em última análise); � os sequenciadores (primeiro, antes, por fim); � os delimitadores de espaço, tempo ou fonte (naquela época, na nossa ci- � dade, para os governistas, segundo Platão). Já os sinais de pontuação são empregados, em especial, com a finalidade de demarcar ou segmentar as partes do texto por conta de seus termos, sintagmas, proposições, frases ou parágrafos. O sistema de pontuação faz parte de uma convenção gráfica, mas em síntese é um “sistema de reforço da escrita, consti- tuído de sinais sintáticos, destinados a organizar as relações e a proporção das partes do discurso e das pausas orais e escritas” (CATACH, 1994, p. 7). Sua utiliza- ção interage com outros níveis operacionais do enunciado, ou seja, esses sinais participam também de todas as funções da sintaxe: gramaticais, entonacionais, semânticas, discursivas e pragmáticas. A eles se acrescentam outros recursos gráfico-frasais, como o itálico, o negrito, a sublinha, etc. Sinais de pontuação [etc.] vírgula / ponto e vírgula / ponto final, de exclamação e de interrogação / dois pontos / reticências / aspas / travessão / parênteses e colchetes / alíneas / negritos, itálicos e sublinhas / asteriscos. Dois parágrafos de uma crônica de José Carlos Oliveira (2005, p. 72) nos servi- rão para interpretar algumas das explicações expostas neste capítulo. Reaprendo o caminho da praia. Todos os meus conhecidos estão ficando castanhos, renunciarei também aos banhos de estrelas e de luar. E assim me incluo, sábado, entre as centenas de corpos que na areia ou na água correm, cochilam, conversam, jogam frescobol, pegam jacaré, passam óleo na pele, tomam sorvete e repetem frases que é sempre agradável (ou inevitável) dizer e ouvir: “A água está geladíssima”; “se em outubro o sol já está assim, imagine em janeiro”; “este verão vai ser fogo”; “hoje as ondas estão brabas”; “amanhã não sei se venho, porque vai haver névoa seca”. Perdão, não fui eu quem falou em névoa seca; apenas ouvi. Não sei quem disse. Quando ia dar um mergulho, alguém fez essa observação como quem diz uma coisa muito natural. Não vi quem falou. Mergulhei, fiquei um instante na areia olhando o belo mar, e de repente minha cabeça refletiu sozinha: “Névoa seca… Eu, hein, rosa!” Depois reparei que aquela frase não revelava pedantismo propriamente; era mais sofisticação. E mergulhei novamente enquanto minha cabeça, emérita especuladora, propunha a si mesma um problema simples, qual seja: “Que espécie de pessoa, entre tantas, seria capaz de dizer aquilo sem mais nem menos?” Probleminha de fim de semana, creio eu. Na calada da noite é que medevem torturar as grandes dúvidas humanas, para as quais oferecerei resposta, segundo espero, nos livros que, segundo espero, vou começar a escrever amanhã. Isto é: depois de amanhã; Domingo também não é dia de salvar o mundo – creio eu. Enfim, lá estava a cabeça a funcionar gratuitamente, sem prejudicar o sabor do momento; sentei-me na areia e sem óculos escuros olhei para o sol. A ofuscação me fez fechar os olhos, o que aproveitei para cochilar um pouquinho. Estilística sintática – II 91 José Carlos Oliveira materializa sua representação mental com unidades lin- guísticas selecionadas e enquadradas em enunciados concatenados. Recursos de estilo concretizam a construção coerente dos segmentos de orações, perí- odos e parágrafos, e o cronista exercita seu domínio sobre os instrumentos da língua – aqui examinados apenas em alguns organizadores textuais e nos sinais de pontuação. Organizadores textuais: renunciarei também aos banhos de estrelas; E assim me incluo, sábado, entre as centenas de corpos; é sempre agradável (ou inevitável) dizer e ouvir; Depois reparei que aquela frase; Que espécie de pessoa, entre tantas, seria capaz de dizer aquilo; para as quais oferecerei resposta, segundo espero; Isto é: depois de amanhã; domingo também não é dia; Enfim, lá estava a cabeça a funcionar; Sinais de pontuação: dois pontos introduzindo citações diretas (pessoais ou alheias) marcadas � com aspas: Exs.: é sempre agradável dizer e ouvir: “A água está geladíssima” / qual seja: “Que espécie de pessoa, entre tantas, seria capaz?” dois pontos introduzindo citação direta (pessoais ou alheias), sem aspas � Exs.: Isto é: depois de amanhã travessões indicando separação de discurso direto: � Ex.: não é dia de salvar o mundo – creio eu reticências e exclamação revelando uma modalização do narrador: � Ex.: Névoa seca… Eu, hein, rosa! ponto e vírgula separando blocos oracionais: � Ex.: depois de amanhã; domingo também não é dia ponto de interrogação caracterizando um recurso retórico: � Ex.: seria capaz de dizer aquilo sem mais nem menos? 92 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística Mais do que o simples levantamento dessas ocorrências, que por si só não levaria a nada, vale notar como a presença desses componentes dá sentido às escolhas lexicais de substantivos, adjetivos, verbos. É preciso, enfim, haver com- petência no manejo dos recursos da língua, pois com eles pode-se conseguir a expressividade textual. Figuras de linguagem O estudo estilístico do período, obviamente, não deixa de ser também o estudo estilístico da oração, do parágrafo e do texto. E entre os elementos im- portantes da escolha consciente a ser feita no momento de produção de um texto, temos as referências fóricas. Essas unidades linguísticas englobam não apenas figuras de linguagem do campo da retórica (anáforas, epanáforas, epífo- ras, epístrofes), mas também os processos coesivos. Fóricos: termo genérico que designa a propriedade de algumas unida- des linguísticas (como alguns pronomes, advérbios, substantivos e verbos) de fazer referência a um componente do próprio texto ou ao contexto situa- cional, em vez de serem interpretados semanticamente por si sós. Vamos examinar aqui as possibilidades coesivas dessas unidades, recorrendo a alguns exemplos que incluímos no livro Sintaxe: estudos descritivos da frase ao texto (HENRIQUES, 2008a, p. 169-172). 10. Ela só faz isso quando está lá. Para entender a frase (10), é indispensável que haja algum contexto que nos permita responder a três perguntas: Quem é ela? O que ela faz? Onde ela está quando faz isso? 11. Todos os anos, Telma, o marido e os três filhos passam o Natal em Belo Horizonte, na casa dos pais de Anselmo. Ela é uma dessas mulheres que não movem uma palha dentro de casa. Aliás, não arruma nem a própria cama. Acon- tece que, como a sogra é uma megera, ela só faz isso quando está lá. Esclarecido o contexto em (11), teríamos então estas respostas: 12. Ela (Telma) só faz isso (arruma a própria cama) quando está lá (na casa da sogra). [Ou seja: Telma só arruma a própria cama quando está na casa da sogra.]. Estilística sintática – II 93 O emprego de palavras que, dentro de um contexto, fazem referência a termos usados anteriormente – e evitam sua repetição – tem o nome de “anáfo- ra”. No exemplo, as palavras anafóricas são: ela + faz isso + lá. Quando a frase remete para uma unidade linguística que está adiante, o nome que se dá é “catáfora”. É o que encontramos em (13), reescritura de uma das frases do exemplo (11). (13) Telma é uma mulher que tem um único defeito: não move uma palha dentro de casa. [Um único defeito não mover uma palha dentro de casa]. Aqui o elemento catafórico é “um único defeito”, que está à esquerda de “não move uma palha dentro de casa” e tem a finalidade de apontar para essa ideia à direita. Mas, se invertêssemos os dois componentes, colocando “esse único de- feito” à direita, ele apontaria para a ideia à esquerda e caberia ao demonstrativo “esse” fazer o papel anafórico. É o que mostra a frase (14). 14. Telma é uma mulher que não move uma palha dentro de casa, e esse é seu único defeito. [Não mover uma palha dentro de casa esse (único defeito)]. Essas relações fóricas (a anáfora e a catáfora) são chamadas de “endofóricas”, pois atuam na esfera do texto e se explicam nesse ambiente “interno” (endo- = para dentro). Quando as relações fóricas se explicam por componentes exterio- res ao texto, elas se chamam “exofóricas” (exo- = para fora). Na língua falada, usa-se muito a menção às noções de tempo, espaço e pessoa sem as nominalizar no texto, mas apenas no cenário em que se transmite uma ideia. Se estou numa sala de aula da UERJ no último dia de aula do ano letivo de 2009 e digo “Eu espero ver vocês aqui no ano que vem”, a frase não é autoexpli- cável, mas a situação identifica os valores concretos de “eu” (= Claudio), “aqui” (= na UERJ) e “no ano que vem” (= 2010). Para concluir, acrescentemos uma outra possibilidade que ocorre no traba- lho com frases e textos. Referimo-nos àquelas situações em que há necessidade de se reiterar um conceito, reforçar um ponto de vista ou retomar a expressão de um pensamento, uma ideia, uma opinião. Fazer isso engloba uma série de aspectos da estrutura textual: a escolha de palavras, o domínio das estruturas sintáticas, a viabilidade da repetição expressiva, o conhecimento dos valores se- mânticos e a perícia Estilística. Para desenvolver essa técnica, o redator é levado a um exame panorâmico do que planeja dizer e, a partir daí, deve fazer as escolhas seguras conforme sua 94 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística intenção comunicativa. Ilustremos essas considerações com dois exemplos de paráfrase a partir dos seguintes fragmentos: 15. “Não há nada tão pernicioso à filosofia como o fato de as coisas familiares e que ocorrem com frequência não atraírem e não prenderem a reflexão dos homens, mas serem admitidas sem exame e investigação das suas causas.” (Fran- cis Bacon) 16. “Foi pelo trabalho que a mulher transpôs, em grande parte, a distância que a separava do macho; é só o trabalho que pode garantir-lhe uma liberdade concreta.” (Simone de Beauvoir) As propostas de reescritura sinonímica para os textos acima poderiam ser: 17. Nenhuma coisa é tão nociva à filosofia quanto a falta de atenção e de con- sideração dos homens em relação aos acontecimentos familiares corriqueiros, que são aceitos sem que se examinem ou se investiguem suas origens. 18. As diferenças entre os sexos começaram a ser superadas a partir do mo- mento em que a mulher começou a trabalhar. Para conseguir a liberdade com- pleta, o que ela precisa fazer é continuar trabalhando. Chamamos a esse tipo de exercício “redação sinonímica”. Seu objetivo é manter a significação global de um período ou de um parágrafo, a partir da alte- ração localizada de palavras e expressões de linguagem. Como em várias outras questões que envolvem aprodução de texto, estas possibilidades também estão a serviço da pretensão criativa, comunicativa, lite- rária, jornalística de quem emprega a língua portuguesa na vida concreta. Texto complementar Paralelismo rítmico e sintático (GARCIA, 1988, p. 274-275) A coerência consiste em ordenar e interligar as ideias de maneira clara e lógica e de acordo com um plano definido. Sem coerência é praticamente im- possível obter-se ao mesmo tempo unidade e clareza. Ela é, por assim dizer, Estilística sintática – II 95 a “alma” da composição. Os organismos vivos, os próprios mecanismos, só funcionam quando suas partes componentes se ajustam, se integram numa unidade compósita. Podem-se reunir as mil e uma peças de um aparelho de televisão, mas o conjunto só funcionará quando todas estiverem adequada- mente ajustadas e conectadas segundo o esquema de montagem. Onze ex- celentes jogadores de futebol, onze Pelés, pouco rendimento obterão numa partida, se não se conjugarem as habilidades de cada um na sua posição e movimentação dentro do campo, segundo o plano do jogo e o objetivo do gol. Em outras palavras: assim como não basta encontrarem-se em campo onze Pelés que não se entendam, que não se articulem, assim também não é suficiente dispor de excelentes ideias que não se ajustem, não se entrosem de maneira clara, harmoniosa e coerente. Em geral, escrevemos à medida que as ideias nos vão surgindo: mas, como nosso raciocínio nem sempre é lógico, ocorrem lapsos, hiatos e deslocações extremamente prejudiciais à coerência e à clareza. Para evitar esse inconve- niente, torna-se necessário planejar o desenvolvimento das ideias, pondo-as numa ordem adequada ao propósito da comunicação e interligando-as por meio de conectivos e partículas de transição. Ordem e transição constituem, pois, os principais fatores de coerência. [...] A ordem de colocação é indispensável à coerência; mas não é suficien- te. Urge cuidar também da transição entre as ideias, da conexão entre elas. Palavras desconexas são como fragmentos de um jarro de porcelana. É preci- so “colá-las”, interligá-las para se obter uma unidade de comunicação eficaz. É certo que na língua falada ou escrita, quando se traduzem situações simples, a inter-relação entre as ideias pode prescindir das partículas conec- tivas mais comuns. A justaposição mostra como o liame entre orações e pe- ríodos muitas vezes se faz implicitamente, sem a interferência desses conec- tivos: uma pausa acentuada, uma entonação de voz podem ser suficientes para interligar e inter-relacionar ideias. (1) Estou muito preocupado. Há vários dias que não recebo notícias de minha filha. Temos aí dois períodos justapostos. A pausa e o tom da voz mostram que o segundo indica o motivo ou a explicação do primeiro. A ausência da conjunção explicativa (pois, porque) não impede que se perceba nitidamente essa relação. 96 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística Mas, em situações complexas, a presença dos conectivos e locuções de transição se torna quase sempre indispensável para entrosar orações, perío- dos e parágrafos. Quanto mais civilizada é uma língua, quanto mais apta a veicular o ra- ciocínio abstrato, tanto maior o acervo desses utensílios gramaticais. Alguns são legítimos conectivos: os intervocabulares, como, ocasionalmente, as con- junções aditivas e, sempre, todas as preposições; e os interoracionais, como todas as conjunções, os pronomes relativos e os interrogativos indiretos. Outros seriam mais apropriadamente chamados palavras de referência: os pronomes em geral, certas partículas e, em determinadas situações, ad- vérbios e locuções adverbiais. Em sentido mais amplo, até mesmo orações, períodos e parágrafos servem de transição no fluxo do pensamento. A uns e outros englobamos aqui na dupla designação de partículas de transição e palavras de referência, que, na sua maioria, têm valor anafórico (quando no texto relacionam o que se diz com o que se disse) ou catafórico (quando rela- cionam o que se diz ao que se vai dizer). Tal é a importância desses elementos, que muitas vezes todo o sentido de uma frase, parágrafo ou página inteira deles depende. Dois enunciados soltos, isto é, duas orações independentes e desconexas como “Joaquim Carapuça costuma vir ao Rio” e (ele) “Ganha muito dinheiro em São Paulo” assumem con- figuração muito diversa conforme seja a conexão que entre eles se estabeleça. Joaquim Carapuça costuma vir ao Rio (quando / enquanto / porque / se / embora) ganha/ganhe muito dinheiro em São Paulo. Dicas de estudo KOCH, Ingedore Villaça. “A Coesão Sequencial”, capítulo do livro A Coesão Textual. O capítulo explica e exemplifica os casos em que ocorre a progressão de ele- mentos dentro das frases de um texto. GARCIA, Othon M. “Processos Sintáticos”, capítulo do livro Comunicação em Prosa Moderna. Estilística sintática – II 97 O autor focaliza temas como encadeamento e hierarquização, coordenação gramatical e subordinação psicológica, ênfase, paralelismo rítmico e paralelismo semântico, entre outros. Estudos linguísticos 1. Após consultar dicionários gerais ou de arte poética, explique o significado das figuras de linguagem anáfora, epanáfora, epífora e epístrofe, dando exemplo. 98 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística 2. Leia atentamente o parágrafo abaixo e escolha uma forma expressiva de pre- encher as lacunas frasais. Justifique sua escolha. Todos os anos, Telma, o marido e os três filhos passam o Natal em Belo Hori- zonte, na casa dos pais de Anselmo. Ela é uma dessas mulheres que não movem uma palha dentro de casa. Aliás, não arruma nem a própria cama. Acontece que, como a sogra é uma megera, ela só faz isso quando está lá. Assim, para manter as aparências, Telma prefere não dar chance para que ______________ encha de novo a cabeça ______________ chamando-a de parasita, ou coisa que o valha. 3. “A gravata enrolava-se como uma corda sobre a camisa rasgada e suja, das bainhas das calças e dos cotovelos puídos saíam fiapos, manchas de poeira alastravam-se na roupa, a sola dos sapatos estava gasta, os meus olhos se enevoavam por causa da fome e descobriam entre as árvores cenas irreais.” (RAMOS, 1975, p. 174) Sem considerar o caso da expressão comparativa introduzida pelo conectivo “como”, o período de Graciliano Ramos, em Angústia, é composto por seis orações independentes. Estilística sintática – II 99 Parafraseie o fragmento acima (em um ou dois períodos) evitando orações coordenadas e, depois, compare sua paráfrase com a versão original comen- tando a expressividade de ambas. O objetivo deste capítulo é observar a expressividade dos aspectos enunciativos no estudo estilístico da língua portuguesa. As definições de enunciado e enunciação variam muito, conforme o autor ou a corrente de estudos a que está filiado. Basicamente, podemos dizer que a concepção que se faz dessas palavras oscila entre o ponto de vista discursivo e o ponto de vista linguístico, mas que ambas são conciliáveis. Sob o enfoque discursivo, a enunciação está vinculada ao contexto em seus incontáveis aspectos sociais e psicológicos. Sob o enfoque linguísti- co, indica o conjunto de ações que o emissor pratica para construir e pro- duzir um enunciado, e este se define como uma “unidade de comunicação elementar, uma sequência verbal investida de sentido e sintaticamente completa” (CHARAUDEAU; MAINGUENEAU, 2004, p. 196), ou seja, um “frag- mento de fala marcado de algum modo como unidade; por exemplo, por meio de pausas e pela entonação” (TRASK, 2004, p. 92), para ficarmos com definições que atendem a nossos objetivos aqui. Adequação sintática e adequação semântica Chamamos adequação sintática a construção coerente de períodos e orações, observadas as relações existentes entre seus termos e a sua orga- nização. A inadequação sintática pode gerar desde dificuldades localiza- das de compreensão até a completa ausência de sentido. A esse vício de linguagem dá-se o nome de obscuridade.A adequação semântica ocorre quando um texto demonstra compe- tência na argumentação (ou na descrição ou na narração ou na interpreta- ção), evidenciada por seu autor a partir de uma seleção de opiniões, dados e fatos fundamentados no seu conhecimento de mundo. Mas é sempre oportuno lembrar que, embora recomendáveis para as situações referen- ciais da vida comum, os paralelismos semântico e sintático podem ser que- brados com arte e criatividade. É o que Thais Nicoleti de Camargo (2002) comenta no artigo “Falta de paralelismo semântico cria efeito de estilo”: Estilística da enunciação 102 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística Preservar o paralelismo semântico é tão importante quanto preservar o paralelismo sintático. Mas, na pena de um bom escritor, a quebra da simetria semântica pode resultar em curiosos efeitos de estilo. Não foi outra coisa o que fez Machado de Assis no conhecido trecho de Memórias Póstumas de Brás Cubas, em que, irônica e amargamente, o narrador diz: “Marcela amou-me durante 15 meses e 11 contos de réis”. No mesmo livro: “antes cair das nuvens que de um terceiro andar”. O uso desse artifício parece ser uma das marcas Estilísticas do autor. Na abertura de Dom Casmurro, o narrador diz: “encontrei um rapaz, que eu conheço de vista e de chapéu”. No conto “O Enfermeiro”, ao anunciar que vai relatar um episódio, o narrador adverte que poderia contar sua vida inteira, “mas para isso era preciso tempo, ânimo e papel”. O elemento “papel”, disposto nessa sequência, surpreende o leitor e instala o discurso irônico. Ter ou não papel para escrever é algo prosaico. A falta de ânimo, um problema pessoal, está em outro patamar semântico. (CAMARGO, 2002) Não foi o que aconteceu com a manchete de jornal ou com a placa do salão de beleza que estão reproduzidas a seguir. Ambas esbarram na falta de parale- lismo, pois a escolha sintática não representa a intenção comunicativa, que só é compreendida porque o leitor reinterpreta o que vê para constituir a adequação inexistente no enunciado. D iv ul ga çã o Fo lh a de S ão P au lo . Missa pela febre? Ou “Papa tem febre e cancela missa?” M ar ce lo M or ae s. Pinto cortado? Ou “Corto e pinto cabelo”? Estilística da enunciação 103 No livro Sintaxe: estudos descritivos da frase ao texto (HENRIQUES, 2008a, p. 17-19) exemplifico os problemas de inadequação a partir do trecho de um anúncio publicado na Folha de S. Paulo em 17 de junho de 1998. Vale aqui repassar meus comentários. IE SD E Br as il S. A . JOSÉ DA PENHA SANTOS, depois de ter ultrapassado o pórtico de um século de idade, no próximo dia 18 de junho, 98, a partir das 18h30, na LIVRARIA CUL- TURA, Av. Paulista, 2073, Conjunto Nacional, a quem o honrar com a sua presença, dará autó- grafos da 4.a edição de CONHECIMENTO E VEN- TURA, muito ampliada, pois se a 3.a edição tinha 526 páginas, tem esta 860 e 4 278 pensamen- tos dos maiores homens de todos os tempos. Propagar esta obra, não é por vaidade do autor, mas cumpre o sa- grado dever de levar a desencantados corações o encanto de viver, con- forme afirma o eminen- te economista HENRY MAKSOUD: “O livro Co- nhecimento e Ventura está entre aqueles que se deve ter à mão como recurso nos momentos em que falta a esperança e os problemas parecem intransponíveis. José da Penha Santos nos oferece a ponte sólida e amiga”. Inadequação sintática e semântica. É claro que o objetivo principal do anúncio é o aviso sobre o lançamento de um livro. No entanto, suas múltiplas inadequações sintáticas, ainda que não im- peçam a compreensão dos dados objetivos sobre local, data, horário, poderão comprometer o comparecimento do público ao evento e até mesmo a venda- gem do livro anunciado. Afinal, se o anúncio tem tantos problemas textuais, não será de estranhar que o livro citado (substituíram-se os nomes do livro e do autor) esteja no mesmo nível. 104 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística Vejamos alguns dos “problemas” sintáticos do texto: Há quase 40 palavras entre o sujeito “José da P. Santos” e o predicado “dará � autógrafos”. Esse distanciamento tira a objetividade do trecho e prejudica a compreensão da mensagem. A sequência antecipada de expressões entre vírgulas nesse mesmo trecho � é inadequada, pois mistura elementos de função diferente, a saber: “depois de ter ultrapassado o pórtico de um século de idade” refere-se � ao sujeito, mas a data que vem a seguir não é a do seu aniversário; a cadeia “no próximo dia 18 de junho, 98”, “a partir das 18h30” e “na � LIVRARIA CULTURA” refere-se circunstancialmente ao sintagma “dará autógrafos”, e o número 98 entre vírgulas é supérfluo pois o texto já usara “próximo dia 18 de junho” (de 1998 – é claro!); “Av. Paulista, 2073, Conjunto Nacional” identifica uma circunstância de � “Livraria Cultura”, por meio da ideia implícita de localização; “a quem o honrar com a sua presença” complementa o verbo “dar”. � A expressão causal “pois se a edição [...] de todos os tempos”, que encerra � o primeiro parágrafo, é mal construída porque: o sujeito (com a palavra “edição” subentendida) está depois do verbo e � há dois numerais seguidos (o primeiro com a palavra “páginas” suben- tendida); entre a palavra “pois” e o restante da expressão causal foi inserida uma � oração condicional com apenas a vírgula da direita (toda inversão de oração circunstancial deve ser marcada por duas vírgulas). O segundo parágrafo começa com três erros graves, a saber: � a vírgula entre o sujeito “propagar esta obra” e o seu predicado “não é”; � o emprego desnecessário da preposição “por” (o correto seria: “propa- � gar esta obra não é vaidade do autor”); a oração adversativa “mas cumpre o sagrado dever [...]” não dá sequên- � cia ao trecho anterior (ou seja: propagar esta obra não é vaidade – verbo de ligação + substantivo –, mas cumpre – verbo transitivo?) = a coesão Estilística da enunciação 105 se daria se estivesse assim: “propagar esta obra não é vaidade do autor, mas é o cumprimento do sagrado dever de”. Ora, se o redator do anúncio tivesse observado a ordem das palavras nas frases e considerado a hierarquização das informações, teria produzido um texto mais objetivo e claro. Um dos resultados, procurando ao máximo respeitar as escolhas lexicais do original, poderia ser: IE SD E Br as il S. A . Depois de ter ultra- passado o pórtico de um século de idade, José da PENHA SANTOS dará au- tógrafos da 4.a edição de CONHECIMENTO E VEN- TURA a partir das 18h30 do próximo dia 18 de junho, na LIVRARIA CUL- TURA (Av. Paulista, 2073, Conjunto Nacional), a quem o honrar com a sua presença. Muito am- pliada, tem esta edição 860 páginas e 4 278 pensamentos dos maio- res homens de todos os tempos, enquanto a 3.a tinha 526 páginas. Propagar esta obra não é vaidade do autor, mas o cumprimento do sagrado dever de levar a desencantados corações o encanto de viver, con- forme afirma o eminen- te economista HENRY MAKSOUD: “O livro Co- nhecimento e Ventura está entre aqueles que se deve ter à mão como recurso nos momentos em que falta a esperan- ça e os problemas pare- cem intransponíveis. José da Penha Santos nos oferece a ponte sólida e amiga”. Versão adequada sintática e semanticamente. Assim, falar em adequação sintática significa falar em “bom senso e critério nas es- colhas sintáticas”, tanto no âmbito da frase como no âmbito do parágrafo e do texto. 106 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística Fica evidente que a chamada adequação sintática é um instrumento em favor da adequação semântica, que outra coisa não é senão a realização coerente do que se pretende dizer. Por isso concordamos com Carlos Franchi (2006, p. 102) quando afirma que “a teoria gramatical visa a estabelecer a relação entre a forma das expressões e sua significação”, ou seja, que é necessário “mostrar as correla- ções entre a estrutura sintática e a estrutura semântica”. As pessoas do discurso e aspessoas gramaticais Entre os temas que envolvem a produção de um texto, precisamos incluir as decisões a respeito da forma linguística a ser usada nas referências à pessoa que escreve e também, se for o caso, às pessoas que a circundam no texto. Numa das hipóteses, o texto tem um leitor, um destinatário a quem o emissor se refere nos enunciados: uma carta, uma convocação, uma circular, por exemplo. Noutra das hipóteses, o texto menciona pessoas (ou seres) em seus enunciados e apresen- ta relatos ou considerações acerca das ações praticadas por essas pessoas (ou seres): um relatório, uma ata, um conto, uma novela, por exemplo. Por isso, o entendimento e o estudo dos mecanismos que giram em torno das “pessoas”, tanto no campo do discurso como no campo da gramática, são fundamentais para seguirmos na interpretação estilística dos textos. Todo texto emerge de um gênero e de um tipo de discurso, e a complexidade da cena de enunciação, nesse caso, deve ser igualmente considerada, pois as várias facetas do “eu” enunciador podem agir com complexidade na articulação entre o plano linguístico (as frases propriamente ditas) e o plano textual. Como diz Benveniste (1991, p. 248), é preciso procurar saber “como cada pessoa se opõe ao conjunto das outras e sobre que princípio se funda a sua oposição”, tendo em vista que não podemos chegar a elas a não ser pelo que as diferencia. E isso vale, obviamente, nas escolhas específicas que fazemos de verbos, pronomes, advérbios – em suma, todas as palavras que representam no âmbito da frase concretamente dita ou escrita as pessoas e coisas do mundo. Sim, porque as coisas também são representadas por pronomes pessoais (a caneta = ela) e por pessoas verbais (a caneta quebra = P3, 3.a p.sg.). Resumidamente, os dois quadros abaixo mostram como isso funciona no português. Estilística da enunciação 107 Pessoas do discurso (e seus pronomes de referência) 1.a quem fala = eu e nós (a gente*) 2.a com quem se fala = tu e vós (você* e vocês*)... 3.a de quem(que) se fala = ele, ela e eles e elas... Pessoas gramaticais 1.a pessoa do singular (P1) e do plural (P4) 2.a pessoa do singular (P2) e do plural (P5) 3.a pessoa do singular (P3) e do plural (P6) Obs.: “a gente” leva o verbo à P3; “você” e “vocês” levam o verbo à P3 ou à P6. Nas combinações entre os dois quadros, é preciso observar bem o que ocorre com os pronomes pessoais e, consequentemente, com as demais classes envol- vidas (verbos e pronomes possessivos, demonstrativos). Nunca é demais repetir que os usos linguísticos variam com o tempo, o espaço e a situação comunica- tiva, mas isso não significa a defesa da subversão do normativismo, e sim sua atualização, como diz Carlos Alberto Faraco (2006, p. 26): A crítica à gramatiquice e ao normativismo não significa, como pensam alguns desavisados, o abandono da reflexão gramatical e do ensino da norma-padrão. Refletir sobre a estrutura da língua e sobre seu funcionamento social é atividade auxiliar indispensável para o domínio da fala e da escrita. E conhecer a norma-padrão é parte integrante do amadurecimento das nossas competências linguístico-culturais. Portanto, não se pode deixar de considerar algumas informações essenciais quanto aos usos das “pessoas” em enunciados. A primeira delas é sobre a escolha entre os pronomes “tu” e “você(s)”, que pode ser determinada pela noção afetiva de proximidade ou intimidade entre emissor e destinatário. O tratamento de 2.a pessoa mais usual no território bra- sileiro é “você”; em Portugal predomina o tratamento “tu”. Porém, em áreas não bem delimitadas do Sul e Norte do país, o pronome “tu” também tem uso corren- te. Além disso, pode ser identificado como marca sociodialetal. 1. “Você passa e não me olha, mas eu olho pra você.” 2. “Tu és divina e graciosa, estátua majestosa.” Nas regiões do Brasil onde o pronome “tu” está em desuso, emprega-se o pro- nome de tratamento “você” no trato com pessoas de nível hierárquico igual ou inferior ou com jovens e crianças; para o tratamento formal ou respeitoso usam- se formas como “o(s) senhor(es)”, “a(s) senhora(s)”. 108 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística 3. “Você está convidado a comparecer e vibrar com nossos atletas.” 4. “Se o senhor não está lembrado, dá licença de contar.” A segunda é sobre o pronome “você”, que se refere à segunda pessoa do dis- curso, mas leva o verbo à terceira pessoa, divergindo da concordância que se faz com o pronome “tu”, que leva o verbo à segunda pessoa (embora na língua popular ambos levem o verbo à P3). Há, ainda, sobretudo no registro oral, o em- prego do pronome “você” com valor indefinido, quando não se refere à pessoa com quem se fala, mas a um ser indefinido, genérico (= qualquer pessoa). 5. “Você se lembra? Foi isso mesmo que se deu comigo.” 6. “Morena linda, onde é que tu tava, onde é que tava tu?” 7. “Pois é! Quando você (= uma pessoa, se) perde o emprego, tudo fica difícil.” A terceira é sobre o pronome “vós”, que nos dias de hoje é pouco usado tanto no Brasil quanto em Portugal, estando restrito a situações de extremo formalis- mo, ou à linguagem religiosa (8), quando se refere a Deus ou a Nossa Senhora. No entanto, o possessivo “vosso” continua em uso na linguagem corrente lusita- na (9) e se refere à segunda pessoa (= “seu”, “de você”). 8. “Vós sois o sal da terra. Vós sois a luz do mundo.” 9. “Então, como está o vosso sobrinho?” A quarta é sobre os pronomes de tratamento mais formais (Vossa Senho- ria, Vossa Excelência), que podem ser construídos com “Vossa” (abreviatura: V.) e com “Sua” (abreviatura: S.): na forma “Vossa+Nome” se refere a “com quem se fala”; “Sua+Nome”, a “de quem se fala”. O pronome de tratamento exige verbo e pronome na P3, bem como silepse de gênero com o adjetivo e o particípio, como temos em (10) e (11). 10. Prezado cliente, V.S.a foi indicado a participar da promoção... 11. Sr. Ministro, V.Ex.a está apreensivo? A última é sobre o pronome de tratamento “a gente”, exclusivo da linguagem informal brasileira (12). 12. “A gente briga, diz tanta coisa que não quer dizer.” Na linguagem formal é obrigatória a uniformidade de tratamento, mas em textos literários, musicais, jornalísticos nem sempre isso acontece. Estilística da enunciação 109 13. Eu gostaria de falar contigo (P2) ainda hoje. Você (P3) pode me esperar? 14. Vem (P2) pra Caixa você (P3) também. 15. A gente (P3) sempre acha que a nossa (P4) casa é o melhor lugar. Recomenda-se, então, que essas informações sejam devidamente considera- das pelo usuário da língua sempre que a situação comunicativa assim o exigir. Isso certamente incluirá uma apurada revisão do emprego de verbos no impera- tivo e dos pronomes oblíquos (átonos e tônicos), em especial os da P3 e P6: o, a, os, as, lhe, lhes e si, consigo. Tipos de discurso Como destaca Nilce Sant’Anna Martins (1989, p. 122), um dos assuntos mais importantes para os estudos da Estilística da enunciação “é o da intertextualida- de, do aproveitamento ou citação de enunciados por um falante”. Ela e muitos outros autores têm se dedicado a observar as maneiras e os efeitos que ocor- rem quando um discurso inclui “de forma explícita ou implícita, perceptível ou velada, palavras, expressões, enunciados tomados a outros discursos”. O tema da intertextualidade se conecta com o da polifonia. Não é o caso de enveredarmos aqui e agora por esses dois temas, bastando-nos lembrar que ambos se referem às possíveis combinações que podem ser feitas entre textos e entre vozes. Por conta dessas combinações, uma característica muito comum nos textos é a possibilidade de um mesmo enunciado ser reproduzido, reduplicado entre os usuários da língua. “Quem conta um conto aumenta um ponto”, diz o provér- bio. Com essa citação, não apenas reexplico o que está na primeira frase deste parágrafo, mas também a tomo como exemplo de um uso intertextual concreto. Afinal, esse provérbio não foi criado por mim, que apenas o incorporei ao texto porrazões didáticas discursivas. Ao nos referirmos a outros locutores e a seus enunciados, podemos usar os procedimentos disfarçados de reprodução de vozes, opiniões, sentidos que pairam no imaginário da sociedade (é o que se chama polifonia), mas também podemos ter a pretensão de reproduzir o que foi dito – pelo menos é isso que se presume. A língua oferece modos concretos de se fazer isso, e seu estudo acontece no capítulo que fala do discurso direto e do discurso indireto, os quais serão explicados a partir de um texto de Millôr Fernandes (1972, p. 196), abaixo reproduzido. 110 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística Num mundo em que a comunicação é tudo e o dinheiro sempre pouco, conta-se aqui uma história altamente moral sobre a inutilidade da primeira enquanto se economiza o segundo. E chamou o pintor e lhe encomendou a placa para anunciar a especialidade do seu negócio: “Nesta casa se vende ovos frescos”. Além dos dizeres recomendou ao pintor que bolasse uma figura, qualquer alegoria referente ao ramo. E perguntou quanto era. O pintor disse que ficaria em 50.000 cruzeiros. Cinquenta mil o quê? indagou o negociante, pensando, inutilmente, numa moeda mais desvalorizada do que o cruzeiro. Cinquenta mil cruzeiros, disse o pintor. Ah, não vale, disse então o negociante. Como não vale? retrucou o pintor, ofendido em sua arte mais do que atingido em sua economia. O senhor não poderia reduzir um pouco? arriscou o negociante. Claro que posso, disse o pintor, posso reduzir a figura e os dizeres. Como assim? disse o negociante. Olha, explicou o pintor, pra começo de conversa, não precisamos usar figura nenhuma. Se se diz que o senhor vende ovos não há necessidade de colocar nenhuma galinha pintada, não é mesmo? Se o normal são ovos de galinha o fato de não ter nenhuma outra ave faz com que os ovos sejam, presumivelmente, de galinha. É certo, concordou o negociante. Então, fez o pintor, vinte mil cruzeiros de menos. Agora, também não é necessário dizer nesta casa. Se o freguês passa por aqui e vê: Se vende ovos frescos já sabe que é nesta casa. Ele não vai pensar que é na casa do lado, não é mesmo? Certíssimo! exclamou o comerciante. Então, continuou o pintor, por que colocar Se vende? Se o freguês potencial lê Ovos Frescos já sabe que se vende. Ninguém pensaria que o senhor vai abrir uma casa comercial para alugar ovos ou apenas para expô-los, right? É mesmo! espantou-se ainda mais o comerciante. Quanto aos Frescos, continuou impávido o pintor, refletindo melhor não é de boa psicologia usar essa palavra. Frescos lembra sempre a hipótese contrária, a de ovos velhos. Não deve nem ter passado pela cabeça do comprador a ideia de que seus ovos podem ser outra coisa senão frescos. Portanto, tiremos também o frescos! Certíssimo! berrou o negociante, agora profundamente entusiasmado com a dialética do pintor. Façamos, portanto, apenas ovos. Por favor, desenhe aí só essa palavra, bem bonita, bem clara: ovos! Só ovos, ovos tout-court, ovos em si mesmos, que se vendam pela sua pura e simples aparência de ovos, pelo seu inimitável oval! Então vamos lá, concordou o pintor. Mas antes de começar a usar o pincel voltou-se para o negociante e perguntou, preocupado: Mas, me diga aqui, amigo – pensando bem, por que vender ovos? Em Comunicação em Prosa Moderna (1988, p. 129-151), Othon M. Garcia apre- senta minucioso estudo sobre o aproveitamento ou citação de enunciados, que acontece quando retransmitimos o pensamento expresso por outra pessoa (real ou fictícia). Nesse caso, o narrador pode servir-se do discurso direto ou do dis- curso indireto, e, às vezes, de uma contaminação de ambos, o chamado discurso indireto livre (também chamado misto ou semi-indireto). Aqui, combinaremos alguns dos ensinamentos da obra de Garcia com passa- gens da crônica transcrita, interpretando a expressividade de cada construção. Millôr conta uma história que envolve um vendedor de ovos e um pintor de placas. Para contá-la, o cronista nos apresenta como se passou o diálogo entre ambos. Observa-se na crônica uma interessante variação no uso das formas básicas de reprodução da fala (nesse caso, dos dois personagens). Millôr recorre ao dis- curso direto (a oratio recta do latim) para reproduzir textualmente as palavras (a fala) dos dois profissionais: 16a. Cinquenta mil o quê? indagou o negociante. Estilística da enunciação 111 17a. Cinquenta mil cruzeiros, disse o pintor. Porém, contrabalança essa possibilidade com a do discurso indireto (a oratio obliqua do latim), incorporando na sua linguagem a fala dos personagens, trans- mitindo-nos apenas a essência do pensamento a eles atribuído: 18a. E perguntou quanto era. 19a. O pintor disse que ficaria em 50.000 cruzeiros. A título de comparação, vejamos de novo essas quatro frases empregando os discursos direto e indireto de modo invertido: 16b. O negociante indagou de que natureza eram os cinquenta mil. 17b. O pintor disse que eram cinquenta mil cruzeiros. 18b. E perguntou: Quanto é? 19b. O pintor disse: Ficará em 50.000 cruzeiros. Para construir ambos os discursos, Millôr fez uso de verbos que constituem o núcleo do predicado da oração principal (disse, perguntou, indagou), aquela que explicita no nível do enunciado a integralidade da estrutura sintática. Esses verbos são chamados verbos de elocução, dicendi ou declarandi, e sua principal função é indicar que o interlocutor está com a palavra (na crônica de Millôr, o negociante ou o pintor). Mas, além desses, há uma classe bastante numerosa de verbos de elocução, que não são propriamente “de dizer” mas “de sentir”, e que, por analogia, podem ser chamados sentiendi: gemer, suspirar, lamentar(-se), queixar-se, explodir, en- cavacar, e outros, que expressam estado de espírito, reação psicológica da per- sonagem, emoções, enfim. Na crônica, Millôr também os empregou (arriscar = dizer com receio / espantar-se = dizer com espanto): 20. O senhor não poderia reduzir um pouco? arriscou o negociante. 21. É mesmo! espantou-se ainda mais o comerciante. O curioso é que, embora possamos considerar que a lista de verbos dicendi do português está praticamente fechada (Garcia aponta nove áreas semânticas para eles), a relação de verbos sentiendi não tem limite, aberta à criatividade do escritor e do falante, metafórica e metonimicamente, como vemos na lingua- gem contemporânea, onde alfinetar, destilar, tricotar é o mesmo que “dizer com 112 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística maldade” (e variantes), festejar é “dizer com alegria”, contabilizar é o mesmo que “dizer com números”. Uma outra função dos verbos dicendi é permitir a utilização de expressões mo- dalizadoras (adverbiais ou predicativas) e de orações adverbiais (quase sempre reduzidas de gerúndio) com as quais o narrador sublinha a fala das personagens, anotando-lhes a reação física ou psíquica. 22. Cinquenta mil o quê? indagou o negociante, pensando, inutilmente, numa moeda mais desvalorizada do que o cruzeiro. 23. Como não vale? retrucou o pintor, ofendido em sua arte mais do que atin- gido em sua economia. 24. Quanto aos “frescos”, continuou impávido o pintor, refletindo melhor não é de boa psicologia usar essa palavra. Convenhamos também que a reprodução de uma conversa, se tivesse todas as suas falas marcadas pela presença explícita de verbos de elocução, ficaria can- sativa para o leitor. Por isso, é uma prática comum omiti-los nas falas curtas entre apenas dois interlocutores, desde que a disposição gráfica do texto o permita. Millôr optou por não usar parágrafos e travessões para separar as falas e preferiu colocar a oração do verbo de elocução no fim da fala ou no meio dela. Por isso, sua crônica registra um altíssimo número de verbos dicendi, característica que ficaria minimizada se as frases fossem apresentadas num formato mais conven- cional, como mostra o trecho abaixo, com parágrafos e travessões. No forma- to que vemos em (25), não haveria problema se todas asorações com o verbo “dizer” fossem suprimidas, pois a alternância indicada pelos travessões bastaria para que soubéssemos quem está com a palavra. 25. – Cinquenta mil o quê? indagou o negociante, pensando, inutilmente, numa moeda mais desvalorizada do que o cruzeiro. – Cinquenta mil cruzeiros, disse o pintor. – Ah, não vale, disse então o negociante. – Como não vale? retrucou o pintor, ofendido em sua arte mais do que atingido em sua economia. – O senhor não poderia reduzir um pouco? arriscou o negociante. – Claro que posso, disse o pintor, posso reduzir a figura e os dizeres. Estilística da enunciação 113 – Como assim? disse o negociante. – Olha, explicou o pintor, pra começo de conversa, não precisamos usar fi- gura nenhuma. Se se diz que o senhor vende ovos não há necessidade de colocar nenhuma galinha pintada, não é mesmo? Se o normal são ovos de galinha o fato de não ter nenhuma outra ave faz com que os ovos sejam, presumivelmente, de galinha. – É certo, concordou o negociante. – Então, fez o pintor, vinte mil cruzeiros de menos. Como já se pôde depreender por estas explicações, as opções pelo discur- so direto ou pelo indireto representam também compromissos com a escolha de palavras, com a adequação sintática e com as formas gramaticais a serem empregadas (que incluem a conjunção integrante como o conectivo prototípi- co). Os tempos verbais, os advérbios de tempo ou de lugar, as pessoas gramati- cais e do discurso, tudo está envolvido na escrita da fala que se quer reproduzir. Se voltarmos às frases (19a) e (19b), veremos que o discurso indireto levou ao futuro do pretérito o verbo que, no discurso direto, estava no futuro do presente. Expandindo-se essa mesma frase, podemos concluir mais algumas coisas a res- peito dessas mudanças gramaticais. 26. DD: O pintor disse: “Essa placa custará, hoje, 50.000 cruzeiros”. 27. DI: O pintor disse que aquela placa custaria, naquele dia, 50.000 cruzeiros. Além da variedade de possibilidades quanto ao uso do discurso direto e do discurso indireto, há ainda um tipo de discurso, muito utilizado na narrativa de ficção, que consiste na associação dos já existentes, combinando valores estilís- ticos de um e de outro. É o discurso indireto livre, no qual o enunciado repro- duzido não é introduzido por um verbo de elocução nem por uma conjunção integrante, misturando-se às vezes com a palavra do próprio narrador, o que permite ao autor explorar os recursos psicológicos no trato da narrativa. Mattoso Câmara Jr. faz um estudo primoroso sobre esse tipo de discurso no artigo “O Discurso Indireto Livre em Machado de Assis”, publicado em Ensaios Machadianos (1977, p. 25-41). Diz o autor: “O traço mais curioso desse tipo sin- tático é que ele conserva as interrogações sob a sua forma originária” (p. 29), embora mantenha as transposições gramaticais típicas do discurso indireto es- trito. E acrescenta que o discurso indireto livre não reduz as interrogações “a uma incolor forma assertiva” e mantém “as exclamações e a espontânea reprodução 114 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística de palavras e locuções do personagem”, como mostra um trecho de Machado em Dom Casmurro (1971, p. 826): Minha mãe foi achá-lo à beira do poço e intimou-lhe que vivesse. Que maluquice era aquela de parecer que ia ficar desgraçado, por causa de uma gratificação menos, e perder um emprego interino? Não, senhor, devia ser homem, pai de família, imitar a mulher e a filha... O comentário estilístico de Mattoso Câmara (1977, p. 29), que aqui resumi- mos, destaca a série que começa no segundo período, onde se tem, em discurso indireto livre, um apanhado de palavras da mãe do narrador, D. Glória, cujo as- sunto fora sintetizado pelo romancista na oração integrante anterior (“intimou- lhe que vivesse”). Surge aí diante do leitor uma interrogação exclamativa e a locução textual “Não, senhor [...]”, apresentada com unidade no todo da frase, porque o discurso indireto livre, ao contrário daquele em que há elo subordina- tivo, mantém espontaneamente os elementos afetivos do discurso. Tem razão Mattoso ao falar dos elementos espontâneos do discurso. Imagine-se como transferir do discurso direto para o indireto uma frase como “Caramba!” ou “Valha-me Deus!” – de tão difícil transporte como o peremptório “Não, senhor [...]” do trecho machadiano. O discurso indireto livre (não apenas na linguagem ficcional, mas sobretudo nela) dá mais espaço ao personagem, que parece ocupar por vezes o lugar do narrador. Daí surgem outras formas de escritura, que abrem caminho para o mo- nólogo interior, para o monólogo entrecruzado e para o fluxo da consciência, tudo envolvendo de que forma e em que grau acontece a participação da voz do personagem ou (em textos jornalísticos mistos) dos seres reais que nos circun- dam na vida em sociedade. Não se deixe de considerar por fim que, na combinação da frase do autor com a frase que ele quer reproduzir, é ele (o relatante) quem decide qual o verbo de elocução a usar (ou se vai omiti-lo). É ele, em última análise, quem escolhe as pa- lavras que, supostamente, teriam sido proferidas pela pessoa relatada. Assim, se o porta-voz de um enunciado (o narrador, o jornalista, o eu lírico, o remetente...) é quem nos apresenta a versão de um fato, não devemos nunca esquecer que aquela é apenas a sua versão, apresentada segundo sua maneira de ver o mundo ou seus interesses particulares. Estilística da enunciação 115 Texto complementar Língua, discurso e texto (AZEREDO, 2007, p. 18-19) A aptidão humana para a comunicação através de símbolos é condição indispensável à vida na dimensão cultural. A manifestação mais ampla e ver- sátil dessa aptidão constitui o que chamamos de língua. A atividade comuni- cativa por meio de uma língua constitui o discurso. E os objetos por meio dos quais essa atividade se desenrola se chamam textos. É por meio de textos, básica e universalmente orais, mas em muitas sociedades também escritos, que os conteúdos ou informações circulam entre as pessoas. Materialmente falando, os textos são entidades construídas por meio de palavras. Mas, quando chamamos um objeto verbal qualquer de texto, não levamos em consideração apenas sua face material, representada nas pala- vras e construções. Mais que isso, os textos são objetos linguísticos investi- dos de função social no amplo e complexo jogo das interações humanas. Não são meros instrumentos, mas partes essenciais dos acontecimentos que dinamizam as relações sociais e fazem a história das sociedades, a própria face do relacionamento humano. Há uma íntima integração entre as funções sociocomunicativas dos textos e a respectiva formatação (gênero, modo de organização, registro, vocabulário, gramática). E mesmo a eventual supres- são do discurso – o silêncio – não constitui sua negação, mas uma de suas expressões. Os conteúdos e informações veiculados nos textos têm um certo “valor interlocutivo” no mercado das trocas verbais. Esse valor interlocutivo lhes é conferido pelas coordenadas do contrato de comunicação vigente em cada evento interativo. Uma receita médica, por exemplo, detém em nossa socie- dade um valor interlocutivo bem distinto do que comumente se atribui a um horóscopo. O contrato de comunicação que rege cada um desses textos só confere o status de uma prescrição ao primeiro. Certos textos são “caminhos de mão única”: o manual do Imposto de Renda, as instruções de uso de eletrodomésticos, as receitas médicas, as con- venções de condomínio. Estes são, em geral, textos utilitários, de viés institu- 116 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística cional ou normativo, típicos das práticas discursivas caracterizadas por uma assimetria dos papéis discursivos – e por consequência das prerrogativas de fala – desempenhados pelos interlocutores. Outros textos, porém, têm “sentido flutuante”, de acordo com as experiências e interesses das pessoas que se comunicam. Nesses casos, podemos dizer queos sentidos não dependem apenas daquilo que a pessoa que fala ou escreve “quer ou tem a dizer”; eles tendem a ser elaborados numa espécie de negocia- ção dialética entre o autor e o leitor. Essa heterogênea classe de textos compre- ende as obras a que o leitor responde basicamente com a reflexão. São os textos “formadores”, que veiculam valores de toda ordem – estéticos, morais, místicos, ideológicos, etc. – e que inspiram ações por opção de seus leitores. Aí se incluem os textos de ficção, de opinião, humorísticos, filosóficos, os poemas. Podemos ainda conceber uma terceira classe: a dos textos construídos com a finalidade explícita de criar ou influenciar comportamentos. É o caso do horóscopo. E também os textos publicitários e de propaganda, alguns textos religiosos, didáticos, as “correntes” e as “simpatias”. Esta categoria abriga ainda textos como o do seguinte recado, que se vê afixado em tantas portas de garagem: “Entrada e saída de veículos.” A mensagem é apenas um disfarce para amenizar o verdadeiro recado: “Não estacione!” Contribuir e atribuir sentido é a síntese do processo que chamamos de “inte- ração humana” e que codificamos em sinais de toda espécie, como gestos, de- senhos, cores, sons, palavras. Esse processo envolve múltiplos fatores de ordem afetiva, cultural, sociocultural, psicossocial e ideológica. Um dado, porém, é por si só evidente e embasa qualquer tentativa de compreender e explicar o evento comunicativo: a comunicação entre as pessoas se processa num contexto socio- comunicativo. Este não se resume no cenário físico e social objetivo, mas cor- responde, principalmente, ao condicionamento mental ou psicológico que nos predispõe ao comportamento discursivo adequado e pertinente. É claro que o cenário físico e social faz parte desse condicionamento, mas nem sempre é seu componente mais decisivo. O componente crucial é a imagem que os in- terlocutores fazem um do outro, o papel social que cada um atribui ao outro enquanto atores do evento comunicativo em curso. A atuação discursiva dos interlocutores no respectivo contexto socioco- municativo é necessariamente sensível, portanto, a um conjunto de conven- ções constitutivas do contrato de comunicação, segundo uma terminologia já corrente. Este corresponde, em última análise, a um acordo, não necessa- Estilística da enunciação 117 riamente consciente, entre os interlocutores sobre cinco pontos: 1) os respectivos papéis sociointerativos, 2) as estratégias comunicativas a serem empregadas, 3) os conteúdos oportunos, 4) a variedade de língua utilizada e 5) as formas de discurso (tipos, gêneros e modos de organização) pertinentes. Dicas de estudo BRONCKART, Jean-Paul. “Os Mecanismos Enunciativos”, capítulo do livro Ativida- de de Linguagem, Textos e Discursos. O capítulo apresenta os mecanismos enunciativos como elementos que con- tribuem para o estabelecimento da coerência pragmática de um texto. POSSENTI, Sírio. “Discurso no Texto”, capítulo do livro Discurso, Estilo e Subjetividade. A partir de um editorial de jornal, o autor examina três mecanismos coesivos, a referência, a elipse e a coesão lexical, e mostra de que maneira os elementos coesivos exercem um papel na função ideacional ou na função interpessoal. Estudos linguísticos 1. Observe a letra da música “Pense em Mim”, de Leandro e Leonardo, e comen- te o tema “formas de tratamento” no português contemporâneo brasileiro. Em vez de você ficar pensando nele Em vez de você viver chorando por ele Pense em mim, chore por mim Liga pra mim, não liga pra ele, pra ele Não chore por ele Se lembre que eu há muito tempo te amo Quero fazer você feliz Vamos pegar o primeiro avião Com destino à felicidade A felicidade pra mim é você Pense em mim, chore por mim Liga pra mim (etc.) 118 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística 2. Reescreva o trecho de Fernando Sabino (“Reunião de Mães”) empregando apenas o discurso indireto. – Meu filho – perguntei, ansioso, assim que saímos – em que turma você está? Na 12 ou na 13? – Na 14 – ele respondeu distraído. Respirei com alívio: e nem podia ser de outra maneira, não era isso mesmo? – Fico satisfeito de saber – comentei apenas. Ele não perdeu tempo. – Então eu queria te pedir um favor – aproveitou-se logo – Que você mandas- se ao Padre-Diretor um bilhete dizendo que eu não posso comer verdura. Estilística da enunciação 119 3. Notas de R$1,00 somem e os comerciantes reclamam das dificuldades na hora do troco e dos prejuízos nas vendas. Os comerciantes contam que moedas em geral e, principalmente as de um real, sumiram praticamente. A escassez de moedas também vale para as de menor valor, como as de 25 e 50 centavos de real. “A nota de R$1,00 já estava faltando, mas as moedas resolviam o problema. Mas hoje as moedas estão sumindo também”, recla- ma Júlia Roberta, caixa de uma loja que fica no centro da cidade, de bolsas e acessórios. A notícia acima contém problemas textuais localizados, causados por algumas inadequações sintáticas e semânticas. Reescreva-a de modo claro e adequado. Este capítulo tem por objetivo conceituar os termos “significante” e “significado”, apresentar as principais correntes da Semântica e destacar a importância dos estudos semânticos para a compreensão do funciona- mento da língua portuguesa. Significante e significado Para Bernard Pottier (1992, p. 11), a Semântica se preocupa com “meca- nismos e operações relativos ao sentido, através do funcionamento das lín- guas naturais [...]”, tentando “explicitar os elos que existem entre os compor- tamentos discursivos num dado envolvimento, constantemente renovado, e as representações mentais que parecem ser partilhadas pelos usuários das línguas naturais”. Essa reflexão traça um “percurso entre o individual e o universal, através do cultural” e procura conciliar “a extensão e a variedade das manifestações linguísticas e a necessidade de uma apresentação relati- vamente simples dos funcionamentos profundos da língua”. Por esse motivo, podemos entender a Semântica como o estudo do sig- nificado das expressões das línguas naturais, para ficarmos com uma defini- ção bem objetiva, escrita por Gennaro Chierchia (2003, p. vii). Todos os dias, nas situações mais comuns de nossas vidas, “praticamos” a semântica, pois sempre estamos buscando entender o significado de palavras e de frases: a manchete de um jornal, o trecho de uma música, a fala de um personagem na novela, a gíria ou o xingamento que alguém disse perto de nós... Semântica, a ciência das significações 122 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística IE SD E Br as il S. A . Minha pátria é minha língua! A Semântica examina como funciona o sistema de signos empregado pelas pessoas de uma comunidade idiomática para se comunicar. O signo linguístico é a associação convencional de uma palavra ou expressão (a que chamaremos significante) com o seu valor comunicativo (a que chamaremos significado). Experimentemos juntar os pares de significante + significado dos grupos abaixo e veremos que só é possível completar as tabelas quando conseguimos estabelecer os elos significativos entre as duas colunas. Grupo I: Significante é um... Significado Ronaldinho Gaúcho cantor de MPB Raimundo Fagner linguista brasileiro William Bonner jogador de futebol Mattoso Câmara apresentador de telejornal Grupo II: Significante é um... Significado Aldo Boaventura Lins ?????????? Percival Dias Lopes ?????????? Igor Resende Gomes ?????????? Manuel Abel de Lima ?????????? Semântica, a ciência das significações 123 Grupo III: Significado é um... Significado ?????????? lutador de caratê ?????????? cineasta português ?????????? dono da cantina da escola ?????????? patrão do seu marido Se não sabemos qual o significado ou se não reconhecemos qual o significan- te, não podemos compreender o signo linguístico. Quando isso acontece, não podemos participar do processo de comunicação, pois não sabemos do que ou dequem se está falando. Principais correntes da Semântica Maria Helena Marques (1990, p. 7) diz no primeiro parágrafo de seu livro Ini- ciação à Semântica: A semântica é um dos domínios da linguagem que tem apresentado sérias dificuldades para a investigação científica. Essas dificuldades estão intimamente ligadas à amplitude e à complexidade inerentes aos fenômenos relativos ao significado e decorrem do tipo de tratamento que a semântica tem recebido nos estudos linguísticos. A reflexão evidencia o que ela mesma chama de “pluralidade e diversidade das diretrizes teóricas e metodológicas propostas para o tratamento do signi- ficado” (p. 8). Talvez seja isso uma consequência natural da busca de atribuir à palavra significado uma explicação “científica” que dê conta de sua importância na faculdade humana da linguagem. Revela, por outro lado, a indiscutível neces- sidade de examinar os mecanismos gramaticais das línguas e suas relações com os processos semânticos de veiculação do sentido. Pode-se atribuir a Michel Bréal o emprego da palavra “semântica” como “ciên- cia das significações”. É dele um artigo publicado em 1883, no qual se lê (apud MARQUES, 1990, p. 33): O estudo que propomos ao leitor é de natureza tão nova que nem chegou ainda a receber um nome. A preocupação da maioria dos linguistas tem-se voltado sobretudo para a análise do corpo e da forma das palavras: as leis que presidem à alteração de sentidos, à escolha de novas expressões, ao nascimento e à morte das locuções foram deixadas à margem ou apenas acidentalmente assinaladas. Como este estudo, do mesmo modo que a fonética e a morfologia, merece ter seu nome, nós o chamaremos semântica (do verbo semaínein), isto é, a ciência das significações. Bréal toca no ponto essencial dos interesses da Semântica, pois fala de estu- dos que analisam “o corpo e a forma das palavras” (estes não são semânticos) e 124 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística de estudos cuja preocupação seja com a “alteração dos sentidos”, a “escolha de novas expressões”, o “nascimento e a morte das locuções” (estes são semânticos). O termo generalizou-se e foi amplamente difundido, tendo sido utilizado pela primeira vez no Brasil num livro de Manuel Pacheco Silva Jr., publicado em 1903, Noções de Semântica. Os estudos semânticos tiveram, como não poderia deixar de ser, repercus- sões em trabalhos realizados por especialistas do campo da estilística, da etimo- logia, da sintaxe – e de muitos outros, como da pragmática e da análise do dis- curso. Não é exagero dizer que a visão dos estruturalistas teve grande influência sobre os rumos que a semântica seguiu após a divulgação, na primeira metade do século passado, das ideias de Ferdinand de Saussure (a partir de 1906, na França) e Leonard Bloomfield (a partir de1914, nos Estados Unidos). Saussure propõe que se investigue a maneira como, em determinado ponto do tempo, as formas e os sentidos estão inter-relacionados num determinado sistema linguístico. Ele define a tarefa da linguística como o estudo de signos por meio dos quais se exprimem ideias. Dentre os princípios que defende podemos citar: A distinção entre língua ( � langue) e fala (parole): A língua é um produto social, um conjunto de convenções. A fala é o uso individual, concreto. A conceituação de � língua como um sistema de relações: A língua é um sistema de signos que se relacionam e cujos valores depen- dem da coexistência entre eles. A definição de signo linguístico e suas noções de significante e significa- � do, que incluem os conceitos de significação e valor, forma e substância, e as relações sintagmática (combinatória) e paradigmática (associativa): A substância é o elemento abstrato que atua no plano do conteúdo e da expressão. A forma se concretiza na dicotomia significante + significado (ex.: “Como expressar a noção de criança do sexo masculino” x menino). Semântica, a ciência das significações 125 Duas formas linguísticas podem ter uma mesma significação e valores di- ferentes (ex.: cadeira e cátedra). As relações paradigmáticas se organizam fora do discurso e se constroem a partir das associações que se podem fazer entre os signos linguísticos (ex.: os três paradigmas dos verbos). Nas relações sintagmáticas, as combinações se baseiam no encadea- mento de duas ou mais formas consecutivas num enunciado (ex.: a relação sujeito-predicado). As características de � arbitrariedade e de linearidade do signo linguístico: A relação que existe entre o significante e o significado é arbitrária. Os signos linguísticos estão dispostos linearmente no plano das dimensões es- paciais, isto é, na linha do tempo. As perspectivas sincrônica e diacrônica no tratamento dos fatos linguísticos: � A sincronia aborda os fatos da língua sob uma perspectiva estática e os analisa como ocorrem num dado momento histórico. A diacronia aborda os fatos da língua numa perspectiva evolutiva, comparativa. A descrição diacrônica é, em síntese, uma comparação entre sincronias. Bloomfield, embora sob outra perspectiva, também valorizou os estudos his- tóricos da linguagem e publicou trabalhos que favoreceram o desenvolvimento dos estudos semânticos. Para ele (1961, p. 140), o significado de uma forma lin- guística se define a partir da combinação de dois componentes: A situação em que o falante enuncia a forma linguística; e A resposta que ela provoca no ouvinte. 126 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística Por isso, defende que a descrição linguística não pode ser meramente física, pois deve demonstrar, de preferência, os fatos estruturais, ou seja, o papel que os sons/fonemas representam no funcionamento da língua. Na segunda metade do século XX, um tipo de estudo semântico que esteve em voga tinha como foco o campo vocabular, examinando possibilidades de análise para o léxico e estudando os “campos semânticos” e a esfera conceitu- al das palavras. Hjelmslev (1971), por exemplo, ao retomar a noção saussuriana de que a língua é forma e distinguir, no signo linguístico, uma expressão e um conteúdo, tendo ambos forma e substância, não se afasta da maior fonte para os semanticistas. Não nos parece totalmente desviada desse foco no léxico a chamada teoria gerativista (ou transformacional), pois afinal também lida com as sentenças que se podem formar a partir de regras dominadas pelos falantes quando fazem uso da língua. A diferença principal é que o gerativismo investiga regras subjacentes, as estruturas invariantes (ou profundas) que, por supressão, acréscimo ou per- muta de constituintes, definem as estruturas superficiais. Na versão inicial de sua teoria, Chomsky reconhece a existência de correlações sistemáticas entre forma e sentido, mas, em face da complexidade das questões semânticas e da alegada independência do plano sintático em relação ao semântico, declara ser possível deixar o estudo do significado “para depois”. (MARQUES, 1990, p. 52) Certamente por isso, a pergunta que Chomsky (2002, p. 93) faz, “Como se pode construir uma gramática que não apele para o significado?”, é mostrada adiante por ele como uma questão malformulada, pois o correto seria indagar “Como se pode construir uma gramática?”. Sua conclusão, depois de dizer que não está seguro para apresentar um propósito rigoroso e específico quanto ao uso da informação semântica na construção de uma gramática, é direta: gramá- tica e significado são autônomos e independentes. A despeito disso, é inegável que as correspondências entre “estruturas superficiais” e “estruturas profundas” giram em torno de entendimentos e equivalências de significados entre pala- vras, sintagmas e expressões. A gramática gerativa, em qualquer de suas fases, não foge portanto do trabalho com o significado, ainda que se possa concordar com sua recomendação de que o interesse pela semântica precisa ser acompa- nhado de um aprofundamento nos estudos da sintaxe. Semântica, a ciência das significações 127 Semântica do textoe do contexto O estudo da significação recebe muito pouca atenção nas aulas de língua portuguesa. Rodolfo Ilari (2001, p. 11) considera essa uma das características do empobrecimento no ensino. E argumenta: O tempo dedicado a esse tema é insignificante, comparado àquele que se gasta com “problemas” como a ortografia, a acentuação, a assimilação de regras gramaticais de concordância e regência, e tantos outros, que deveriam dar aos alunos um verniz de “usuário culto da língua”. Esse descompasso, prossegue Ilari, é “problemático quando se pensa na im- portância que as questões da significação têm, desde sempre, para a vida de todos os dias”, isso sem falar no peso que se atribui às questões de interpretação de textos como instrumento de avaliação em exames importantes para ingresso em cursos superiores. Para identificar e descrever as questões de semântica, uma boa estratégia é utilizar atividades que abordem “fatos de semântica”, que familiarizarão o estu- dante com a nomenclatura básica que faz referência a esse tipo de análise – com a ressalva de que a ênfase na discussão terminológica, nesse âmbito, é desmoti- vadora e prejudicial ao conhecimento do que é realmente importante no estudo dos significados. Por exemplo, pode-se tomar como objetivo buscar a interpretação de frases ou textos utilizando-se versões lógicas que ajudem a captar determinados as- pectos do significado. Outra estratégia é confrontar os princípios de verdade e de falsidade em relação ao significado. Também se pode tentar explicar as rela- ções entre a forma linguística de um enunciado e as situações ou ainda o con- texto em que ele ocorre. D iv ul ga çã o O E st ad o de S ão P au lo . 128 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística Na tira de Calvin, o menino fala ao pai de uma convenção, uma espécie de pacto que existe entre os falantes. O diálogo é revelador: podemos trocar os significados dos significantes para não sermos compreendidos. Isso é muito “lubrificante”... A tirinha foi utilizada numa das perguntas do “Provão” de Letras de 2001 como um dos textos que serviam para examinar as proposições de Saussure sobre a arbitrariedade do signo linguístico. Já no exame de 2008 (Enade), uma das questões de múltipla escolha usava a expressão “relações semânticas” no seu enunciado. As alternativas nos mostram que a banca aproveitou o farto material à disposição da ciência do significado para incluir nas mencionadas “relações” elementos morfológicos, sintáticos e le- xicais, pois obviamente é com esses elementos (mas não só) que se faz a cons- trução do sentido. A questão 12 queria saber qual “a opção incorreta a respeito das relações se- mânticas do texto verbal”, transcrito a seguir com a imagem alusiva que o acom- panhava na prova: D iv ul ga çã o O E st ad ão . Shirley Paes Leme tem no desenho a alma de sua obra. Os galhos retorcidos e enegrecidos pela fumaça são seus traços a lápis, que ela articula ora em feixes escultóricos, ora em instalações. Produz também delicados desenhos com a sinuosidade da fumaça. Para fazer a peça em homenagem à companhia de dança goiana Quasar, Shirley conta ter se inspirado na grande Semântica, a ciência das significações 129 concentração de energia no espaço necessária para que um espetáculo de dança se realize. “A ideia da coreografia só consegue ser concretizada com movimento porque todos ficam antenados para um trabalho conjunto”, diz. A obra de Shirley tem linhas-galhos que se movem em tempos diferentes, impulsionadas por motores ocultos. (TERRITÓRIO Expandido, 1999, p. 12-13. Adaptado) As cinco alternativas confirmam uma das dimensões universais da lingua- gem, a semanticidade. Afinal, como lembra E. Bechara (1999, p. 29), “na lingua- gem tudo significa, tudo é semântico”. a) Mudando-se o foco da ênfase, que está na autora, “Shirley Paes Leme” (linha 1), para a ên- fase na obra, “desenho” (linha 1), a alteração da primeira oração do texto ficaria adequada da seguinte forma: Está no desenho a alma da obra de Shirley Paes Leme. b) Na linha 3, a preposição “com” tem a função semântica de introduzir uma característica para “delicados desenhos”. c) Depreende-se do emprego do conector “ora [...] ora” em “ora em feixes escultóricos, ora em instalações” (linha 2), que “feixes escultóricos” se transformam em “instalações” e “instala- ções” se transformam em “feixes escultóricos”. d) A noção de reflexividade, ou seja, a de que agente e paciente de um verbo reportam-se ao mesmo referente, está presente tanto em “Shirley conta ter se inspirado” (linha 5) como em “linhas-galhos que se movem” (linha 8). e) O desenvolvimento do texto permite depreender o significado da palavra “linhas-galhos” (linha 8) a partir dos significados de galho e de linha. [A resposta correta está na letra C] A opção (A) fala em foco da ênfase, algo que pode nos lembrar o fenômeno da topicalização, pois consiste em identificar o componente frasal que está à frente do enunciado. No texto original, o primeiro sintagma é o sujeito da oração, fato normal quando se escreve em ordem direta. A alteração proposta é que o foco passe a ser a palavra “desenho”, resultando na frase oferecida na alternativa, que coloca o foco no predicado: Está no desenho a alma da obra de Shirley Paes Leme. A opção (B) sugere que há uma conexão entre “delicados desenhos” e “com a sinuosidade da fumaça”, pois considera que o objeto direto e seu verbo formam um conglomerado semântico do qual depende o adjunto adverbial: A desenhista produz (alguma coisa, isto é, delicados desenhos) com a sinuosidade da fumaça. A resposta a ser marcada está na opção (C), pois os dois componentes da série alternativa (os feixes escultóricos e as instalações) são autoexcludentes e não podem se transformar mutuamente um no outro. Pelo contrário, quem se trans- forma em feixes escultóricos ou em instalações são os traços a lápis da artista. 130 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística Na opção (D), fala-se em noção de reflexividade, algo que nos dois trechos transcritos se confirma pela presença do pronome “se”. Os verbos “inspirar + se” e “mover + se” estão construídos na chamada “voz reflexiva”, sim. Uma simplifica- ção bem banal mostraria que significam, respectivamente, “Shirley tinha inspi- rado Shirley” (= Shirley tinha se inspirado) e “as linhas movem as linhas” (= linhas- -galhos que se movem). Por fim, na opção (E), afirma-se que o significado do substantivo compos- to neológico “linhas-galhos” pode ser depreendido a partir dos significados de cada um de seus membros, o que de fato se confirma pela leitura do texto, onde as palavras “galhos” e “linhas” estão empregadas em seu sentido literal. Para concluir, retomamos novamente as palavras de Ilari (2001, p. 12), que enfatiza: “as atividades voltadas para a significação não são contra outras práti- cas pedagógicas”, o que se deseja é que o professor saiba combiná-las de modo adequado e proveitoso. Texto complementar Relação linguagem e conhecimento (MARCUSCHI, 2004, p. 263-268) Parece que entre as contribuições mais importantes da linguística con- temporânea para o estudo da relação entre língua e conhecimento está jus- tamente a descoberta de que a língua funciona como um sistema de conhe- cimento estreitamente ligado ao ser humano em todos os aspectos. Assim, caberia discutir e analisar relações tais como: linguagem e mente (processos cognitivos na relação com a língua); � processos referenciais e sua relação com a noção de verdade; � formação de categorias, prototipicidade e constituição de conceitos; � metáforas, metonímias (espaços mentais de um modo geral). � Sem negar que a língua se porta por regras e que obedece a determina- ções específicas e precisas para sua organização morfossintática, a aborda- Semântica, a ciência das significações 131 gem experiencial da linguagem, proposta por Lakoff e boa parte da linguísti- ca funcionalista atual, acentua o aspecto prático do uso diário que as pessoasfazem da língua. Por exemplo: se alguém pede para descrever o que nos vem à mente quando ouvimos a palavra “carro”, podemos dizer que se trata de um objeto do tipo de um grande caixão, com portas, janelas, assentos, motor, freio, mudanças, freios, pneus, etc. Mas podemos também mencionar que se trata de um veículo confortável, prático, rápido, que dá mobilidade, e que dá status ao seu dono, ou então associar “carro” a certas experiências, como o primeiro caso de amor ou algum acidente, se tivermos tais experiências. Há mais “legitimidade” em alguma dessas associações do que em outras? É deste modo que a experiência entra nas categorias que com a língua vamos construindo e nos seus usos. E os conhecimentos partilhados pelas pessoas que vivem em culturas similares permitem que se consiga intera- gir sem maiores problemas. Mas isto exigirá ir além dos aspectos lógicos da língua, ou seja, exigirá que nos voltemos também para os usos ditos figurati- vos e metafóricos como modos naturais de operar com a língua. Suponha-se que alguém chega a nós e diz: “Meu carro quebrou.” Mesmo não sabendo com certeza o que ocorreu (o que foi que pifou no carro), sabemos que o carro não anda mais; também sabemos que ele não quebrou do mesmo modo que uma cadeira quebra, ou que a ponta do lápis quebra e assim por diante. A transferência de experiências no uso de itens lexicais de um espaço mental estável para outro emergente é feita sem problemas. Fauconnier (1997) mostra isso com elegância suficiente. Assim, podemos usar o verbo “quebrar” para uma série de situações mesmo que a quebra não seja caracterizada pelo mesmo tipo de ação. Por exemplo: - quebrar um copo (destruir fisicamente algo) - quebrar um juramento (romper um compromisso) - quebrar um recorde (ultrapassar um dado limite anterior) - quebrar um banco (levar uma instituição à falência) - quebrar a cabeça (tentar resolver um problema difícil) - quebrar a cara (dar-se mal em alguma iniciativa) 132 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística Além desses, podemos fazer muitos outros usos desse verbo, todos possí- veis e inteligíveis, desde que saibamos ordenar as experiências de que tratam. Isto é interessante, pois tem relevância nos usos diários da língua. Aquilo que damos a entender com nossos usos linguísticos não está previsto de uma vez por todas no sistema da língua e sim nas formas de vida. Talvez, como lembra Ariel (2002), seja este aspecto aquele mínimo que constitui o “sentido literal” e que deve ser visto sempre dentro de um formato de produção. [...] Já não é irrelevante indagar-se quais as relações entre experiência e língua. Contudo, as respostas vão variar muito, pois há quem negue que a experiência entre na língua (por exemplo, os gerativistas em geral); e outros afirmam que a língua está intimamente ligada à experiência (por exemplo, Lakoff). Mas há os que julgam que a língua é um organizador da experiência e que nossos sentidos só são responsáveis pela sensação primária. Também há a posição de Austin (1962), para quem o mundo da sensação e da experi- ência é incorporado como uma instância de decisões pragmáticas, de modo que eu posso fazer certas asserções com base em conteúdos mínimos. Supo- nhamos, com Austin, que uma certa tarde estamos reunidos na casa de um amigo e de repente ouvimos um estampido e sem que se tenha qualquer outra informação além desse som, o dono da casa diz: - É a terceira batida de carro nesta semana nessa esquina. De onde ele tirou essa conclusão? Que informações ele usou? Como se relacionam conhecimentos sensoriais e conhecimentos linguísticos? O co- nhecimento linguístico é um estado mental, como quer Chomsky, ou é um estado sociocultural também? [...] Segundo a posição de G. Lakoff (1977), “não há propriamente nenhu- ma habilidade puramente linguística”, já que todas elas são permeadas e me- diadas pela experiência em vários níveis de modo integrado. [...] Mas preten- do ressaltar um aspecto fundamental: o século XX dedicou-se como nenhum outro ao estudo das relações entre linguagem e conhecimento. Cada vez mais, no século XX, a linguística foi se aproximando de questões cognitivas. Neste século XXI parece claro que trabalhar linguagem é trabalhar um fenô- meno essencialmente cognitivo. Isso veio se firmando de tal modo que já é comum ouvir-se que a linguagem é um empreendimento sociocognitivo. Semântica, a ciência das significações 133 Assim, pode-se dizer que a contribuição da linguística contemporânea para a compreensão da atividade cognitiva e para o próprio processo de pro- dução e recepção do conhecimento se dá precisamente no entendimento da natureza cognitiva da linguagem. Dicas de estudo MARQUES, Maria Helena D. “O Objeto da Semântica”, primeiro capítulo do livro Iniciação à Semântica. A autora mostra os pontos de vista de quem procura delimitar o objeto da se- mântica e afirma que os mais variados aspectos da linguagem merecem exame quanto ao significado. ULLMAN, Stephen. “Como se Constrói a Língua”, primeiro capítulo do livro Se- mântica: uma introdução à ciência do significado. O capítulo explica didaticamente temas importantes para os estudos semân- ticos: o ato da fala, signos e símbolos, língua e fala, as unidades da língua (som, significado e relação). Estudos linguísticos 1. Preencha as lacunas convenientemente. Nos estudos semânticos é importante a definição de signo linguísti- co, que inclui as noções de _____________________________ e significado, de ___________________________ e substância, as relações sintagmática e ____________________________ e o conceito de __________________________ e linearidade do signo, o que implica saber fazer a distinção entre os enfoques _______________________ e diacrônico. 134 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística 2. Os quatro textos transcritos a seguir podem ser classificados a partir das suas relações de sentido (internas e externas). Reconheça qual deles (A) contém coerência, mas não tem coesão; (B) contém coesão, mas não tem coerência; (C) contém coesão e coerência; (D) não contém nem coerência nem coesão. Primeiro texto ( ): Tenho uma casa em Santos. O meu bisavô era português. Gosto muito do Rio de Janeiro. Na infância eu tomava banho quente. Quando os carros dos bombeiros passam, uma nuvem estava ontem no céu. Conheço bem a Filomena. Sempre tive um fascínio pelos bailes populares. Foi mesmo um susto! Segundo texto ( ): Manuel comprou um pastel. O pastel é feito com massa. A massa é uma substância mole e pastosa que se põe no fogo. Se onde há fumaça, há fogo, também onde há fogo há fumaça. Aliás, dizem que inalar fumaça pode até matar uma pessoa. Mas a gente não conhece uma pessoa só nesta vida. Por outro lado, a vida que a gente leva pode nos marcar para sempre. Mas isso é um tema que pode nos levar a falar em eternidade – aí eu desisto. Terceiro texto ( ): Ouvi falar de uma bicicleta elétrica que usa uma bateria de íon e pode ser recarregada em apenas 30 minutos. Cada carga tem autonomia suficiente para quase 50km de uso, e o melhor de tudo é que ela pode ser recarregada em qualquer tomada elétrica. Ela também funciona como uma bicicleta comum, com câmbio de 8 marchas e um corpo de alumínio. Quarto texto ( ): O jogo. O ingresso. A vontade. O amigo. O empréstimo. A fila. A compra. A camisa. A corneta. O Maracanã. A arquibancada. A entrada em campo. A charanga. Os gols. A goleada. O êxtase. O delírio. O pós-jogo. Quanta emoção! Epa, o dia seguinte... Semântica, a ciência das significações 135 3. Leia atentamente a letra de Cazuza “Codinome Beija-Flor” (1985) e assinale as alternativas que contêm afirmações corretas a respeito das relações semânti- cas do texto. Pra que mentir, fingir que perdoou, Tentar ficar amigos sem rancor? A emoção acabou, que coincidência é o amor: A nossa música nunca mais tocou 05. Pra que usar de tanta educação Pra destilar terceiras intenções, Desperdiçando o meumel, devagarzinho flor em flor, Entre os meus inimigos, Beija-Flor Eu protegi seu nome por amor, 10. em um codinome Beija-Flor Não responda nunca meu amor, nunca pra qualquer um na rua Beija-Flor Que só eu que podia, Dentro da tua orelha fria, 15. Dizer segredos de liquidificador. Você sonhava acordada Um jeito de não sentir dor, Prendia o choro e aguava o bom do amor. Prendia o choro e aguava o bom do amor. a. ( ) A primeira estrofe da canção fala do início e do fim de um roman- ce. Para isso, associa as palavras “amor” e “música” e se vale dos significados que ambas assumem no texto. b. ( ) Os dois primeiros versos da segunda estrofe empregam a prepo- sição “para” com valores idênticos e afirmativos quanto aos objeti- vos da pessoa recém-separada. c. ( ) Ao dizer “protegi teu nome por amor” fica claro que a necessidade de resguardar a identidade da pessoa amada tinha o amor como uma concessão. d. ( ) No trecho final da canção, a ênfase está na pessoa amada, como mostra o foco na palavra “você” no verso 16. Partindo dos conceitos de Lexicologia, Lexicografia e Terminologia, este capítulo tem o objetivo de identificar características semânticas do léxico, examinando os casos de sinonímia, antonímia, homonímia e paronímia. Noções de Lexicologia, Lexicografia e Terminologia Para se começar a fazer qualquer estudo semântico que focalize o léxico em suas incontáveis possibilidades de significação, é indispensável conhe- cer as disciplinas que lidam com ele de modo sistemático e científico. São três as ciências do léxico: a Lexicologia, a Lexicografia e a Terminologia. Vamos examiná-las a partir de perguntas e respostas disponíveis na página do GTLex (Grupo de Trabalho de Lexicografia, Lexicologia e Termi- nologia da Associação Nacional de Pós-Graduação em Letras e Linguística [ANPOLL]).1 Selecionamos alguns trechos, com pequenas adaptações aos nossos objetivos neste capítulo. O que é léxico? � Léxico é o conjunto das palavras de uma língua, também chamadas de lexias. As lexias são unidades de características complexas cuja orga- nização enunciativa é interdependente, ou seja, a sua textualização no tempo e no espaço obedece a certas combinações. Embora possa pare- cer um conjunto finito, o léxico de cada uma das línguas é tão rico e dinâ- mico que mesmo o melhor dos lexicólogos não seria capaz de enumerá- -lo. Isso ocorre porque dele faz parte a totalidade das palavras, desde as preposições, conjunções ou interjeições, até os neologismos, regionalis- mos, passando pelas terminologias, pelas gírias, expressões idiomáticas e palavrões. 1 As respostas são dos colegas de GT Adriana Zavaglia, Herbert Welker, Magali Duran, Patrícia Chittoni Reuillard, Gladis Maria de Bar- cellos Almeida e Margarita Correia. O acesso ao GTLex está em: <www.mel.ileel.ufu.br/gtlex/> (para os três links). Relações semânticas – I 138 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística O que é Lexicologia? � Lexicologia é uma disciplina que estuda o léxico e a sua organização a partir de pontos de vista diversos. Cada palavra remete a particularidades diversas re- lacionadas ao período histórico ou à região geográfica em que ocorre, à sua rea- lização fonética, aos morfemas que a compõem, à sua distribuição sintagmática, ao seu uso social e cultural, político e institucional. Desse modo, cabe à Lexico- logia dizer cientificamente em seus variados níveis o que diz o léxico, ou seja, a sua significação. Ao lexicólogo, especialista da área, incumbe levar a termo essa tarefa tão complexa sobre uma ou mais línguas. O que é Lexicografia? � Lexicografia é uma disciplina intimamente ligada à Lexicologia. Ela se ocupa da descrição do léxico de uma ou mais línguas, a fim de produzir obras de refe- rência, principalmente dicionários (em formato impresso ou eletrônico) e bases de dados lexicológicas. Dessa lexicografia prática distingue-se a lexicografia te- órica, ou metalexicografia, que estuda todas as questões ligadas aos dicionários (história, problemas de elaboração, análise, uso). O que é Terminologia? � A palavra terminologia pode ter duas acepções distintas. A primeira refere-se ao conjunto vocabular próprio de uma ciência, técnica, arte ou atividade pro- fissional, como por exemplo a terminologia da Informática, da Biotecnologia, do Direito, da Música, etc. A segunda acepção designa não só o conjunto de práticas e métodos utilizados na compilação, descrição, gestão e apresentação dos termos de uma determinada linguagem de especialidade (= terminologia enquanto atividade), como também o conjunto de postulados teóricos neces- sários para dar suporte à análise de fenômenos linguísticos concernentes à co- municação especializada, incluídos aí os termos, evidentemente (= terminologia enquanto teoria). Dicionários gerais e específicos Há dicionários de todos os tipos, desde os que chegam às nossas mãos nos primeiros momentos de nossa vida de leitores (geralmente os encontramos em Relações semânticas – I 139 casa e nas escolas sob a forma de minidicionários ou pequenos dicionários) até os mais sofisticados (muitos se assemelham a enciclopédias). Para falar de dicionários, é preciso primeiro lembrar que chamamos de verbe- te cada um dos itens que nos dão informações sobre uma palavra. Outro termo importante no manuseio de um dicionário é o que se chama de entrada, ou seja, a própria palavra que é incluída na abertura de um verbete. O conjunto de ver- betes recebe o nome de nominata. Os dicionários variam muito quanto ao número de verbetes e quanto às fina- lidades. Também variam quanto à temática ou ao modo de apresentar o léxico. Há os dicionários gerais, assim denominados porque seu objetivo é apresentar as palavras sem qualquer distinção quanto ao campo semântico (são monolín- gues, bilíngues, trilíngues ou multilíngues) e os específicos, que podem tratar de qualquer assunto em particular (sinônimos, termos jurídicos, publicidade, pala- vras cruzadas, filosofia, verbos, gírias, etc.). IE SD E Br as il S. A . Alguns são verdadeiros tesouros lexicais (às vezes com mais de cem mil en- tradas); outros prestam apoio didático (dicionários pedagógicos) e cultural (di- cionários enciclopédicos, normalmente ilustrados). 140 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística A maioria dos dicionários se estrutura no modelo “palavra por palavra” (cha- mam-se semasiológicos ou alfabéticos), mas há os que são organizados no modelo “ideia por ideia” (chamam-se analógicos ou onomasiológicos). Como o hábito das pessoas é saber qual o significado de uma palavra, a prática comum é consultar os dicionários alfabéticos. Os dicionários de ideias têm como principal diferença o fato de que o consulente pode recorrer a eles quando está à procura de uma palavra que não sabe qual é. Vejamos a seguir como se organizam normalmente os verbetes dos dicioná- rios alfabéticos. Para isso, reproduzimos o conteúdo do verbete “cada”, da edição eletrônica do Dicionário Aurélio (vrs. 5.0): Na primeira linha a entrada do verbete. Na segunda linha, uma informação etimológica (a origem da palavra), que poderia ser acrescida da sua datação na língua portuguesa (quando foi registra- da por escrito pela primeira vez em nosso idioma). Na terceira linha, a classe gramatical e o gênero. Nas linhas seguintes, apresentam-se as informações semânticas, separadas por acepção (neste caso há duas acepções). As acepções são ilustradas por exemplos abonados (com autoria) ou não. Relações semânticas – I 141 Ao final, duas locuções em que a palavra “cada” está presente, também com suas acepções e exemplos. Observemos agora uma das maneiras como se pode organizar um dicionário analógico. O exemplo que escolhemos é do Dicionário Mais: da ideia às palavras. Escaneamos a página 518, onde destacamos o verbete “sapato”. Num dicioná- rio alfabético comum, encontraríamos os significados desse substantivo. Aqui, o que se encontra são as palavras do campo semântico de “sapato”,incluindo uma ilustração que ajuda a identificar o vocabulário específico desse tipo de calçado, seja por um determinado uso (mocassim, sabrina, escarpim, sapatilha, tênis, ta- manco, soca, chanca, chinelo, chinela, alpercata, alpergata, alparcata, alpargata, galocha, botina, patim, cáliga, sandália, botas de neve, babucha, soco, coturno, borzeguim), um dado relativo a ele (biqueira, gáspea, pala, palmilha, sola, tacão, atacador, salto, encospas, encóspias, alargadeira, forma, empenha, pomada, lustro, verniz, sapateira, sapateiro) ou uma expressão idiomática em que apareça (desconfiar = ter a pedra no sapato). D iv ul ga çã o Li sb oa E di to ra . 142 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística D iv ul ga çã o Li sb oa E di to ra . Relações semânticas – I 143 Assim, qualquer que seja o resultado da obra elaborada pelo lexicógra- fo (nome que se dá ao especialista da área), um dicionário tem o objetivo de levar ao seu leitor informações desconhecidas ou esquecidas. Por isso, elaborar e publicar dicionários é realizar um trabalho de utilidade pública, que serve ao homem comum e ao intelectual, ao estudante e ao pesquisador, disseminando o conhecimento e a cultura. O primeiro dicionário de que se tem notícia foi feito há mais de 4 mil anos, como conta Mauro Villar. Isso aconteceu [...] no tempo em que os amoritas dominavam a Babilônia e a Mesopotâmia, e no Egito o Médio Império florescia. A biblioteca em que foi encontrado pertencia aos reis de Ebla, cidade bíblica cujo fastígio se deu na Idade do Bronze, e que, destruída pelos hititas em 1600 a.C., só em 1968 seria redescoberta no Norte da Síria. A biblioteca é formada por cerca de 17 mil tabletes de argila e fragmentos, e o dicionário, bilíngue, eblaíta-sumeriano, foi compilado entre 2350 e 2300 a.C. Os gregos, a partir do século I de nossa, fizeram dicionários, assim como houve lexicógrafos escolásticos durante a Idade Média. Mas qual a afinidade dos primitivos dicionários com os atuais. Como nasceram os dicionários modernos? Sua gênese está ligada a dois fenômenos. Em primeiro lugar, ao estabelecimento dos romanços como línguas nacionais, processo que se inicia seguramente já no fim do século IV, com a fixação posterior de sua gramática e seu levantamento lexical em relação ao latim. Em segundo lugar, com a prática das chamadas anotações interlineares (glosae) nos cimélios medievais (a partir do século VII), glosas essas que acabaram por grupar-se no final dos livros e posteriormente tornaram-se livros autônomos (glosarii). Os primeiros dicionários dessa nova fase, assim como acontecia com a maior parte dos da Antiguidade, eram bilíngues, geralmente confrontando o latim com as línguas vernáculas. Seu público-alvo eram, não só os estudantes, mas viajantes, comerciantes, evangelizadores, diplomatas, etc. O primeiro dicionário do português é considerado o do bacharel formado em Cânones e poeta Jerônimo Cardoso – uma obra bilíngue: Hieronymi Cardosi Lamacensis Dictionarium ex Lusitanico in latinum sermonem. Ulissipone: Ex offic. Joannis Alvari 1562. Houve antes do seu aparecimento alguns glossários, mas obras pequenas, pouco importantes. Cardoso foi professor de Humanidades na Universidade, quando esta tinha sede em Lisboa e morreu nessa cidade em 1569. Este seu famoso dicionário teve diversas edições, até 1694. (VILLAR, 2002, p. 195-196) Para seguirmos com essa história até chegarmos aos dicionários brasileiros, vamos dar um pequeno salto no tempo, sem deixar de dizer que, no século XVIII, foi publicado em Portugal um trabalho monumental, em dez volumes (dois eram suplementos), o Vocabulário Português e Latino, do padre Rafael Bluteau (primei- ro tomo no ano de 1712, e o décimo tomo em 1728). Embora seja um dicionário bilíngue, a parte relativa à nossa língua é praticamente uma descrição do léxico português daquela época. Essa referência é importante porque é a obra de Bluteau que dá origem ao mais conhecido dicionário brasileiro do século XIX, o Dicionário de Morais, de Antônio 144 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística de Morais Silva, natural do Rio de Janeiro (onde nasceu em 1757). O livro foi pu- blicado (com a autoria principal atribuída a Bluteau) em Portugal em 1789 e, por isso, muitos não o consideram o primeiro dicionário brasileiro. A segunda edição (de 1813) já estava inteiramente sob a responsabilidade de Morais, que também é o autor das edições de 1823 e de 1831 (póstuma), e é nesta que encontramos um argumento para defender a ideia de que Antônio Morais Silva é sim o autor do pri- meiro dicionário brasileiro, como explica Gladstone Chaves de Melo (1947, p. 14): Entretanto, o velho Morais prosseguia na sua penosíssima faina de vocabularista, “no sertão de Pernambuco”, como nos informam os referidos editores, e, ali, “em horas furtadas à vida rústica, tornava a ler e conferir os autores capitais da Língua Portuguesa e ainda achava que recopilar deles artigos que não vêm nos dicionários mais amplos” (Prólogo dos editores da 4.a edição). O Morais, como ficou conhecido, teve depois disso sucessivas reedições, as quais foram sendo desvirtuadas por seus editores e reorganizadores. Gozou, porém, de alto prestígio, como atesta o seguinte comentário de Machado de Assis sobre uma palavra cujo uso ele defendia sob a alegação de que “lá a pôs no seu dicionário o nosso velho patrício Morais” (Bons Dias!, 22 mar. 1889). Entre os principais dicionários gerais brasileiros contemporâneos, podemos citar os Dicionários Houaiss, Aurélio, Caldas Aulete2, Michaëlis e Borba. Sinonímia e antonímia Relações semânticas entre palavras podem ter muitas facetas a explorar. Duas das mais conhecidas são a sinonímia e a antonímia, que podem ser definidas a partir da propriedade que dois termos têm de serem empregados como substi- tutos um do outro. Se, a princípio, esse emprego não causar prejuízo no que se pretende comu- nicar, diremos que há sinonímia entre eles. Se a substituição, porém, resultar em significações opostas, haverá antonímia entre eles. Sinonímia = equivalência semântica Antonímia = oposição semântica 2 O dicionário Caldas Aulete só existe na versão on-line (não possui uma versão impressa). É instalado gratuitamente nos computadores de qualquer usuário da internet. Por ser permanentemente atualizado, constitui-se num extraordinário banco de dados da língua portuguesa. Para baixá-lo, basta entrar na página: <www.lexikon.com.br/colaboracao/convide.aspx> e clicar em “download”. Relações semânticas – I 145 Vamos exemplificar os dois casos imaginando a situação do diretor de uma firma que vai sortear passagens aéreas entre os funcionários por ocasião dos fes- tejos de fim de ano. Se ele escolher qualquer das frases seguintes, nada mudará na sua comunicação para os empregados: 1. Amanhã é dia de fazer o sorteio das duas passagens para Salvador. 2. Amanhã é dia de realizar o sorteio das duas passagens para Salvador. 3. Amanhã é dia de proceder ao sorteio das duas passagens para Salvador. Os verbos “fazer”, “realizar” e “proceder”, nesse contexto, são intercambiá- veis, são sinônimos. O chefe diz que vai fazer/realizar/proceder (a)o sorteio, mas escuta um dos funcionários comentar, desconfiado: 4. Será que este ano corremos de novo o risco de, depois, ele desfazer o sor- teio e entregar as duas passagens para algum puxa-saco? 5. Será que este ano corremos de novo o risco de, depois, ele melar o sorteio e entregar as duas passagens para algum puxa-saco? 6. Será que este ano corremos de novo o risco de, depois, ele anular o sorteio e entregar as duas passagens para algum puxa-saco? Agora, o trio de verbos é outro. Também são intercambiáveis e, nessa situa- ção, servem como sinônimos entre si. No entanto, também servem como antôni- mos dos três anteriores, haja vista que, no primeiro caso, o sorteio “tem validade” e, no segundo, “fica inválido”. As relações de antonímia e de sinonímia podem acontecer no âmbito da mor- fologia, com atroca dos significantes (fazer = realizar) ou com o acréscimo de algum morfema (fazerXdes+fazer), mas também podem se expressar por meio de estruturas sintáticas diferentes. É o que temos nas duas frases seguintes: 7. Assassinaram o camarão. Assim começou a tragédia no fundo do mar. O caranguejo levou preso o tubarão. 8. Alguém assassinou o camarão. Assim começou a tragédia no fundo do mar. O tubarão foi levado preso pelo caranguejo. Em (7) estão transcritos os três primeiros versos do samba “O Assassinato do Camarão”, de Zerê e Ibraim. Na reescritura (8), a sinonímia acontece por substi- tuição sintática, alterando-se o tipo de sujeito ou a voz do verbo, mas mantendo- -se a significação original. 146 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística Homonímia e paronímia Duas outras relações semânticas importantes que se estabelecem entre palavras são a homonímia e a paronímia, que acontecem em decorrência da propriedade que dois termos têm de se aproximarem em virtude de sua composição fonológica. Se as duas palavras tiverem uma estrutura fonológica idêntica, diremos que há homonímia entre elas, mas se suas pronúncias forem apenas semelhantes, haverá paronímia entre elas. Homonímia = identificação fono-ortográfica Paronímia = aproximação fono-ortográfica Os vocábulos que se pronunciam da mesma forma, mas cujos sentidos e gra- fias são diferentes são chamados homônimos homófonos, como nos casos de “cessão” (= ato de ceder), “seção” (= repartição) e “sessão” (= espaço de tempo) ou de “coser” (= costurar) e “cozer” (= cozinhar). Palavras que se escrevem com as mesmas letras, mas cujas pronúncias e sig- nificados são diferentes são chamadas homônimas homógrafas, o que não deixa de ser uma contradição quanto à definição, pois nesse caso não há estrutura fo- nológica idêntica, mas apenas ortográfica. De todo modo, a tradição gramatical assim classifica pares como “consolo” (ô) e “consolo” (ó) ou “gelo” (ê) e “gelo” (é). Os vocábulos de significado diverso que se pronunciam e se escrevem do mesmo modo são homônimos perfeitos: “cedo” (advérbio) e “cedo” (presente de “ceder”); “manga” (fruta) e “manga” (parte do vestuário). Nesses exemplos há homonímia, que não deve ser confundida com a polissemia (proprieda- de semântica de uma única palavra recobrir mais de uma significação, como “anjo”: ser espiritual ou pessoa boa). Repita-se: na homonímia há duas palavras (e dois significados), e na polissemia há apenas uma palavra (e mais de um significado). Homonímia – duas ou mais palavras, cada uma com a sua significação Polisssemia – uma única palavra com dois ou mais sentidos Relações semânticas – I 147 Diferenças entre sinônimos (ULLMAN, 1964, p. 291-295) “As palavras”, observou certo dia o Dr. Johnson, “raras vezes são exatamente sinônimas”. Macaulay exprimiu a mesma ideia em termos que se recomendam por si próprios ao linguista moderno: “Modifica a estrutura da oração, substitui um sinônimo por outro; e todo o efeito será destruído.” Na linguística contem- porânea tornou-se quase axiomático que a completa sinonímia não existe. Se- gundo as palavras de Bloomfield, “cada forma linguística tem um significado constante e específico. Se as formas são fonemicamente diferentes, supomos que os seus significados são também diferentes... Supomos, em resumo, que não há sinônimos reais.” Muito antes de Bloomfield, Bréal tinha falado de uma “lei de repartição” na linguagem, segundo a qual “palavras que deveriam ser sinônimas, e que o eram efetivamente, tomaram, entretanto, sentidos diferen- tes e não mais ser empregadas uma por outra” (1925 e 1992, p. 33). Embora haja de fato uma grande dose de verdade em tais afirmações, seria errôneo negar a possibilidade de completa sinonímia. Bastante para- doxalmente, encontra-se onde menos seria de esperar: nas nomenclaturas técnicas. O fato de os termos científicos serem precisamente delimitados e emocionalmente neutros permite-nos averiguar de modo absolutamente E os vocábulos de significado e pronúncia diversos que se distinguem grafi- camente apenas pela acentuação gráfica são homógrafos imperfeitos: “convém” e “convêm” (do verbo convir); “camelo” (animal) e “camelô” (vendedor ambulante) Há paronímia quando os vocábulos são diferentes, mas sua pronúncia e grafia são semelhantes. É o que ocorre em “ratificar” (confirmar) e “retificar” (corrigir) ou “segmento” (pedaço de um todo) e “seguimento” (continuidade). A homonímia e a paronímia são fenômenos que acontecem nas fronteiras das distinções fonológica e semântica e, por isso, é um procedimento didático natural redobrar a atenção contra os perigos de se empregar um homônimo ou um parônimo pelo outro. Texto complementar 148 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística definido se dois deles são completamente permutáveis, e a sinonímia abso- luta não é, de modo algum, pouco vulgar. Estudos recentes sobre a formação de terminologias industriais mostraram que vários sinônimos surgirão por vezes em torno de uma nova invenção, até que, eventualmente, se separam. Tal sinonímia pode mesmo persistir durante um período indefinido. [...] Em fonética, consoantes como s e z são conhecidas como espirantes ou fricati- vas e o mesmo escritor pode empregar ambos os termos sinonimamente. A própria semântica tem um sinônimo um tanto deselegante em semasiologia, que é agora pouco usada em inglês e em francês, mas que está firmemente estabelecida nalgumas outras línguas. [...] No entanto, é perfeitamente verdade que a absoluta sinonímia vem contra o nosso modo habitual de considerar a linguagem. Quando vemos palavras diferentes, supomos que deve haver também alguma diferença no significado, e, na vasta maioria dos casos, há de fato uma distinção, muito embora ela possa ser difícil de formular. Muito poucas palavras são comple- tamente sinônimas no sentido de serem permutáveis em qualquer contexto, sem a mais leve alteração do significado objetivo, do tom sentimental ou do valor evocativo. W. E. Collinson (1939, p. 61-2) fez uma interessante tentativa de es- quematizar as diferenças mais típicas entre sinônimos. Distingue nove possibilidades1:3 1) Um termo é mais geral que outro – recusar – rejeitar. 2) Um termo é mais intenso que outro – repudiar – rejeitar. 3) Um termo é mais emotivo que outro – declinar – rejeitar. 4) Um termo pode implicar aprovação ou censura moral enquanto o ou- tro é neutro – despida – nua – pelada. 5) Um termo é mais profissional que outro – óbito – morte. 6) Um termo é mais literário que outro – descansar – morrer. 7) Um termo é mais coloquial que outro – marrento – zangado. 8) Um termo é mais local ou dialetal que outro – farol – semáforo. 9) Um dos sinônimos pertence à linguagem infantil – dindinha – madrinha. 1 Os exemplos foram adaptados ou atualizados para este capítulo. Relações semânticas – I 149 Dicas de estudo BORBA, Francisco da Silva. “Expansão e Retração Semântica”, item 2 do capítulo “Alterações Semânticas”, do livro Organização de Dicionários. O trecho mostra variadas ocorrências de polissemia, homonímia, sinonímia, paronímia. ILARI, Rodolfo; GERALDI, João Wanderley. “A Significação das Palavras”, capítulo do livro Semântica. Os autores examinam o sentido das construções gramaticais, descrevendo e interpretando como as oposições, as relações e os implícitos atuam em frases completas. Estudos linguísticos 1. Reconheça se as afirmativas são verdadeiras (V) ou falsas (F), corrigindo-as conforme o caso. a. ( ) O estudo do léxico segundo suas peculiaridades históricas, geográfi- cas, gramaticais, sociais, culturais e políticas é tarefa da Lexicologia. b. ( ) A Lexicografia tem como objeto de estudo a descrição do léxico de uma ou mais línguas, a fim de produzir obras de referência, princi- palmente dicionários. c. ( ) Um dos objetivos da Terminologia é reunir um conjunto vocabular próprio de uma ciência, técnica, arte ou atividade profissional. d. ( ) O conjunto de entradas de um dicionáriochama-se verbete ou no- minata, indicando cada um dos itens que nos dão informações so- bre uma palavra. e. ( ) Os dicionários gerais se estruturam num modelo alfabético, diferin- do dos dicionários específicos, que são organizados por ideias. 2. O poema a seguir se chama “Manhã” e é de autoria de Murilo Mendes (1972, p. 128). As estátuas sem mim não podem mover os _______________ (braços / seios) 150 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística Minhas antigas namoradas sem mim não podem amar seus ____________ (maridos / esposos) Muitos versos sem mim não poderão ________________ (viver / existir). É inútil deter as aparições da __________________ (divindade / musa) É difícil não amar a __________________ (existência / vida) Mesmo explorado pelos outros __________________ (indivíduos / homens) É absurdo achar mais realidade na lei que nas ___________ (estrelas / sereias) Sou poeta __________________ (irrefutavelmente / irrevogavelmente). Preencha as lacunas com as palavras que, do ponto de vista semântico, lhe pareçam as mais apropriadas ao texto, justificando sua escolha. Identifique se há palavras que não podem preencher as lacunas coerentemente. 3. Reescreva o texto abaixo, corrigindo os empregos equivocados das palavras homônimas e parônimas. Nossos colegas pediram despensa do serviço porque já se sabe que infrigi- ram o regulamento. Por não terem comprido o disposto, colocaram em xeque suas carreiras e por hora vão espiar suas culpas numa xácara longínqua. Relações semânticas – I 151 Este capítulo tem por objetivo identificar características semânticas do léxico, examinando os casos de hiperonímia, hiponímia, eponímia e antonomásia. Campos associativos, conceituais e semânticos A imagem empregada por Ferdinand de Saussure (1972, p. 146) para explicar as associações que as palavras mantêm entre si sugere que cada uma delas é como se fosse o centro de uma constelação, “o ponto para onde convergem outros termos coordenados cuja soma é indefinida”. cruzamento interseção fumacento cruzar isolamento esquina suculento cruzador fechamento etc. etc. etc. etc. A associação entre palavras pode ser feita a partir de ligações de sen- tido, mas também pode acontecer por razões puramente formais ou até por uma combinação entre forma e significado. A “constelação” da palavra “cruzamento” mostra quatro linhas, assim justificáveis: linha 1 – “cruzamento / interseção / esquina”: associação semântica; � linha 2 – “cruzamento / cruzar / cruzador”: associação morfosse- � mântica externa (identidade do radical, fator determinante para re- conhecer palavras cognatas, também chamadas palavras da mesma família etimológica); Relações semânticas – II 154 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística linha 3 – “cruzamento / isolamento / fechamento”: associação morfosse- � mântica interna (identidade do sufixo formador de substantivo abstrato); linha 4 – “cruzamento / fumacento / suculento”: associação fonológica � (identidade das terminações). Como Saussure diz que “a soma é infinita”, a título de ilustração poderíamos pensar em fazer outras associações a partir dessa palavra. Por exemplo, uma linha 5 nos levaria a uma série como “cruzamento / trânsito / au- tomóveis” ou a outra como “cruzamento / chute / gol”, se as associações fossem feitas considerando o cruzamento de duas ruas ou o cruzamento como uma jogada numa partida de futebol. Aqui, teríamos também associações exclusivamente semânticas. Mas uma linha 6 talvez nos mostrasse uma série de palavras com quatro sílabas e dez letras: “cruzamento / flamejante / supertinta” (associação fono- -ortográfica). E assim outras “linhas” poderiam ser formadas mediante outras hipóteses coerentes. Como se percebe, as associações não são feitas apenas nas relações gramati- cais, pois se constroem a partir do raciocínio humano e, portanto, não há limites para elas. A razão para o surgimento do verbo “bebemorar” (incorporado recente- mente aos dicionários portugueses) é o verbo “comemorar”. A associação semân- tica que serviu de base para essa criação é morfologicamente infundada: “come- morar” é derivado de “memorar” e não de “comer”. Apesar disso, as duas primeiras sílabas fazem uma homonímia com o verbo “comer” e por esse motivo, “comemo- rar” pode dar origem a “bebemorar” (e – por que não? – a fumamorar ou a dormi- morar...), se pensarmos na coerência da aproximação de “comer” com “beber”. Como a Lexicologia procura definir os campos linguísticos, é preciso distin- guir os tipos de relações associativas entre as palavras e, para isso, usaremos as expressões campo associativo, campo conceitual e campo semântico. Campo associativo – expressão genérica que permite reunir palavras a � partir de qualquer associação coerente (semântica ou não) que exista ou se faça entre elas: nos seis exemplos dados a partir da palavra “cruzamento”, todas as “linhas” são de campos associativos. Campo conceitual – expressão que se refere ao contingente de palavras � que se agrupam, ideologicamente, por meio de uma rede de associações e interligações de sentido: nos seis exemplos dados a partir da palavra “cru- zamento”, apenas as “linhas” 1 e 5 são de campos conceituais. Relações semânticas – II 155 Campo semântico – expressão que se refere ao contingente de palavras � que se agrupam, linguisticamente, por meio de uma rede de associações e interligações de sentido: nos seis exemplos dados a partir da palavra “cru- zamento”, apenas as “linhas” 2 e 3 são de campos semânticos. Por esse raciocínio, a teoria dos campos conceituais (que alguns autores também chamam, por comodidade didática, de campos associativos) considera os agrupamentos de palavras para construir os esquemas representacionais da sociedade. Já a teoria dos campos semânticos privilegia a estrutura lexical como um todo. Convém, porém, advertir que é uma prática comum usar a expressão campo semântico genericamente, com o mesmo sentido que aqui demos apenas para campo associativo. Hiperonímia e hiponímia Nos estudos do léxico, as relações semânticas podem ser estabelecidas por meio de um critério que conjuga as ideias de “parte” e “todo”. Durante a redação de um texto, quando precisamos evitar a repetição de uma palavra, temos à dis- posição uma ferramenta coesiva importante: os hiperônimos e os hipônimos. Uma definição bem simples para essas palavras dirá que o hipônimo é a pala- vra particularizadora e que o hiperônimo é a palavra generalizadora. Hiperonímia = do significado geral para o específico. Hiponímia = do significado específico para o geral. Por exemplo: se nos pedirem uma pequena lista com o nome de quatro animais, talvez nossas lembranças imediatas recaiam sobre aqueles com os quais convivemos, como o cachorro, o gato, o cavalo e o papagaio. Talvez nos venham ideias menos óbvias e a lista seja feita de animais nada amistosos, como o lobo, o jacaré, o orangotango e o urubu. Quem sabe, poderíamos fazer um rol apenas com os nomes daqueles que, quando se aproximam, nós é que ficamos hostis, como a barata, o rato, o mosquito e a lacraia. Mas nada im- pediria que uma preferência “politicamente correta” nos levasse a fazer uma lista-denúncia, com nomes de animais já extintos ou em extinção, como o di- nossauro, o mamute, o auroque e o dodó (extintos) ou o panda, o tucano, a ariranha e o mico-leão (em extinção). 156 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística Todos esses substantivos são específicos, se considerarmos que os tomamos pensando num termo genérico dado: a palavra “animal” é o hiperônimo, e cada bichinho citado é um dos hipônimos. Hipo- (prefixo grego): posição inferior, subordinada (= sob, sub) Hiper- (prefixo grego): posição superior, elevada (= sobre, super) No entanto, essa relação entre o termo geral e o termo específico pode ser outra. Uma palavra específica como “dinossauro”, hipônimo em relação ao con- junto “animais”, seu hiperônimo, pode fazer parte de um outro conjunto, onde assumeo papel de termo genérico. É o que mostra a figura abaixo, com o agora hiperônimo “dinossauros” e os hipônimos que listam alguns de seus tipos: o bra- quiossauro, o diplodoco, o camptossauro, o ancilossauro, o hadrossauro, o tira- nossauro, o estegossauro e o celófise. D iv ul ga çã o Li sb oa E di to ra e S ie be na le r. Vamos examinar um texto de informação científica sobre um desses dinos- sauros, marcamos em itálico todas as palavras ou expressões substantivas que Relações semânticas – II 157 se referem especificamente aos celófises. O objetivo é verificar como o redator colocou em uso as relações de hipo- e hiper(o)- nímia que esse termo possui. (1) Em 1947, em uma expedição ao Ghost Ranch, no Novo México, EUA, paleontólogos fizeram uma grande descoberta: um grande número de fósseis de dinossauros, mais tarde denominados celófises. Esses fósseis eram todos parte de um grupo provavelmente devastado por uma inundação no período triássico tardio. Os animais variavam de filhotes recém-saídos do ovo a adultos com pouco mais de dois metros de comprimento. O corpo do celófise tinha uma cauda longa e esguia. Suas mandíbulas eram dotadas de dezenas de dentes afiados. O celófise era um predador incomum, pois vivia em grandes rebanhos, algo que não acontece no mundo atual. Animais como o caribu ou o gnu, que se alimentam pastando, vivem em rebanhos, mas o mesmo não ocorre com os predadores, que não vivem em grandes grupos. Áreas pisoteadas em torno do Ghost Ranch sugerem que os rebanhos de celófises migravam. As patas traseiras do animal eram fortes e ágeis. Ele tinha pés com três dedos longos e um curto, e saltava rapidamente para escapar de predadores de maior porte, como o phytossauro, um animal semelhante ao crocodilo. As patas dianteiras do celófise eram pequenas e provavelmente não eram usadas para caminhar. O mais provável é que fossem usadas para recolher alimentos. A cabeça do animal era grande, com um focinho pontudo e olhos grandes. O celófise era um mestre da emboscada. É possível que esse predador com cerca de 45 quilos se alimentasse de peixes e, por isso, vivesse à margem de rios, caminhando entre a vegetação rasteira e sempre atento a inimigos. Também comia insetos, répteis semelhantes a lagartos e outros pequenos dinossauros. Além dos esqueletos do Ghost Ranch, no Novo México, foram encontrados celófises no Painted Desert do Arizona. Os troncos petrificados encontrados lá, muitos com comprimento superior a 30 metros, mostram que aparência tinham as florestas pelas quais esses dinossauros corriam. Eles estão entre os mais antigos (se não são os mais antigos) dinossauros da América do Norte. O nome celófise quer dizer “forma oca”, em referência aos ossos ocos de suas pernas, que se assemelhavam aos ossos dos pássaros, desenvolvidos para ter o mínimo de peso com o máximo de força. A única espécie conhecida é o Coelophysis bauri. Nas caixas torácicas de dois adultos encontrados no Ghost Ranch havia esqueletos de jovens celófises. Eles eram grandes e desenvolvidos demais para que fossem bebês ainda não nascidos. Isso sugere que os celófises podem ter sido canibais e que a presa teria sido engolida inteira. Os parentes do celófise incluem o podoquessauro; o halticossauro e o protocompsógnato, da Alemanha; e o sintarso do Zimbábue e Arizona. (CELÓFISE, 2008) Sem incluirmos na contagem as ocorrências em que o nome do animal foi substituído por outros processos coesivos (como os pronomes retos, oblíquos e possessivos ou a elipse), o texto empregou por dezenove vezes uma forma subs- tantiva que nos informa algo sobre os celófises, sendo onze as passagens em que a opção foi pela própria palavra “celófise”. Mas o redator também usou os hiperônimos “animal” (três vezes), predador e dinossauro (duas vezes cada um) e o hipônimo sinônimo Coelophysis bauri (uma vez). A estratégia mostra que, em cada parágrafo, o substantivo principal foi usado comedidamente, a saber: uma vez no 1.o; três vezes no 2.o; duas vezes no 3.o; uma vez no 4.o; uma vez no 5.o; duas vezes no 6.o e uma vez no 7.o. 158 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística O terceiro parágrafo, que é o maior do texto, tem sete informações sobre o celófise. Duas delas aparecem com o próprio hipônimo, duas com o hiperônimo “animal”, uma com o hiperônimo “predador” e duas (indiretas) com as expressões que sublinhamos “predadores de maior porte” (o que mostra o celófise como um predador de menor porte) e “outros pequenos dinossauros” (o que confirma que o celófise não é de grande porte). A conclusão a que se chega é que o autor do artigo organizou adequadamente esse jogo alternativo entre o hipônimo e seus hiperônimos (mais de um, como vimos pela explicação). Afinal, nessa relação entre o específico e o geral, uma regra de três se reproduz quando pensamos na progressão: assim como todo celófise é um di- nossauro, todo dinossauro é um predador, e todo predador é um animal. A recíproca (partindo do geral para o específico), porém, é falsa, pois nem todo animal é preda- dor, nem todo predador é um dinossauro e nem todo dinossauro é um celófise. Antonomásia e eponímia Um outro tipo de relação semântica que se pode examinar no estudo do léxico é o que costuma ocorrer nos intercâmbios funcionais entre substantivos próprios e comuns, ainda conjugando as ideias de “parte” e “todo”. Se escreve- mos um texto sobre uma pessoa ou sobre um lugar, é provável que tenhamos de pensar em algo que nos faça evitar a repetição desse nome próprio – caso em que entra em cena a antonomásia. Numa outra situação, o que está à nossa disposição não é uma palavra substituta, mas um substantivo próprio transfor- mado metonimicamente em comum – caso da eponímia. Pode-se dizer, então, que esses dois recursos estão interligados por uma es- pécie de cruzamento morfossemântico. A antonomásia faz parte de um grupo de termos (epítetos, cognomes, apeli- dos e alcunhas) e consiste no emprego de substantivos comuns (ou expressões substantivas) tomados a partir de uma motivação metonímica ou metafórica – conhecida ou desconhecida – como substitutos de um nome próprio e, em de- corrência disso, às vezes redigidos também como substantivos próprios. Ilustram o que dissemos acima as referências que se fazem a alguns escritores, ao longo do tempo, utilizando-se um sem-número de antonomásias, algumas das quais ultrapassam gerações e se mostram como “sinônimos” perfeitos para suas matrizes semânticas. Estão neste caso expressões como “Boca do Inferno”, “Poeta dos Escravos”, “Águia de Haia” e “Poetinha”, que podem ser empregadas Relações semânticas – II 159 como identificadoras dos nomes dos autores no lugar dos quais se põem, com pouca margem de risco quanto a uma possível incompreensão. D iv ul ga çã o O E st ad o de S ão P au lo . Antonomásia: “poetinha” substitui na manchete o antropônimo Vinicius de Moraes. Mas as antonomásias não são recursos exclusivos dos antropônimos. Também os nomes de lugar (topônimos) podem ser substituídos, como vemos em “Veneza Brasileira” (em lugar de Recife), “Cidade Maravilhosa” (em lugar de Rio de Janeiro) ou “Princesa do Sertão” (Feira de Santana). Recife, a Veneza brasileira (antonomásia com motivação metafórica por cau- sa dos canais que passam por dentro das duas cidades). D om ín io p úb lic o. 160 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística Lugares famosos, vilarejos perdidos no mapa, pessoas comuns, personagens da história, políticos, artistas, atletas e escritores – todo substantivo próprio se enquadra da mesma forma nesse processo de combinação entre nome qualifi- cado e qualificador do nome. Um estádio de futebol pode ser conhecido como o Caldeirão do Boca tanto quanto uma praia pode ser a Princesinha do Mar. Se um bairro fica famoso como o Berço do Samba, por que não dizer que a minha cidade é o Túmulo do Funk? Alguém pode ser o Fenômeno, o Matador, o Patriarca da Independência, o Mestre do Suspense, o Deusda Raça, a Namoradinha do Brasil, a Musa do Verão, o Nazareno, o Careca do 302, a Garota de Ipanema. Tudo se admite nessa relação, desde que se estabeleça alguma coerência entre os dois componentes: de um lado o substantivo próprio, de outro o seu “apelido”, sua antonomásia. De todo modo, sempre que se usa uma expressão em vez de uma única pa- lavra para se fazer essa substituição, diz-se que a antonomásia é também uma perífrase (pois substitui o que poderia ser expresso por um menor número de palavras). Isso quer dizer que esses dois termos, embora não sejam sinônimos, às vezes coincidem. Por exemplo, os ex-jogadores Romário e Edmundo têm an- tonomásias (ou apelidos, epítetos, cognomes) muito conhecidas, “Baixinho” e “Animal” (não há perífrase em nenhum dos dois casos). Mas chamar Pelé de “Rei do Futebol” e Zico de “Galinho de Quintino” é o que caracteriza uma antonomá- sia perifrástica. Os dois trechos seguintes mostram o emprego da antonomásia como ele- mento de coesão textual: o primeiro é o recorte de uma notícia de jornal; o se- gundo reproduz os dois parágrafos iniciais de um texto acadêmico. Ambos se referem a Machado de Assis. (2) Há três meses, o Ministério da Cultura anunciou que 2008 será o Ano Nacional de Machado de Assis. Em setembro, completam-se 100 anos da morte do escritor carioca. As editoras se apressam e colocam nas prateleiras, ainda em 2007, os primeiros lançamentos da comemoração. A humildade em tom de elegância, cortesia da mentalidade ainda romântica que o escritor cultivava, soa irônica às vésperas do centenário de sua morte. Hoje, quem declarar o carioca como o maior escritor da Literatura Brasileira vai encontrar poucas pessoas dispostas a discordar. Ao que parece, o Bruxo aprontou mais uma das suas. Adivinhou seu futuro e escondeu sua profecia sob o véu da ironia. (O ANO DO BRUXO, 2007) (3) O jogo intertextual é um dos traços mais fascinantes da prosa de Machado de Assis. E, se é verdade que todo grande escritor é, antes de tudo, um leitor contumaz, isto se aplica perfeitamente ao nosso Bruxo, cujo intercâmbio com a literatura universal é um fator constituinte da natureza de seus escritos. Relações semânticas – II 161 Há, na ficção de Machado, uma enorme enciclopédia literária, a que ele faz alusões, de que faz citações (literais ou não), sempre pressupondo no leitor um parceiro à altura, capaz de decifrar- -lhes as significações. O repertório é imenso. Desde Contos Fluminenses, publicado em 1869, até o último romance, Memorial de Aires, cuja primeira edição é de 1908, ano da morte do escritor, Machado é um citador incansável. (SENNA, 2008, p. 7) Machado tem um dos epítetos mais difundidos da literatura brasileira. Talvez seja muito difícil encontrar um texto sobre ele que não recorra à antonomásia “Bruxo do Cosme Velho” ou apenas “Bruxo”. Observe-se porém que, para quem escreve, esse apelido é uma alternativa a mais para se evitar a repetição do nome do romancista. Aliás, como devemos agir ao escrever um texto longo sobre Ma- chado. Quais os limites para se usar o seu nome? E para substituí-lo? Machado e suas anáforas: “escritor carioca”, “o romancista”, “o criador de Capitu”, “o autor de Brás Cubas”, “o fundador da Academia”... Por fim, vamos falar da eponímia. Passagem de antropônimo a substantivo comum, o epônimo costuma ser apresentado como resultado de um processo metonímico que se baseia numa relação de contiguidade entre nomes de pes- soas e significações que não têm uma palavra própria para exprimi-las ou para as quais se propõe uma nova denominação. Essa passagem a substantivo comum não caracteriza mudança de classe, mas de subcategoria (substantivo próprio > substantivo comum). Há epônimos sincrônicos, os que têm vínculos referenciais ainda muito níti- dos com o antropônimo que lhes deu origem (amélia, arquibaldo, barbie, belzebu, camões, cupido, drácula, he-man*, quixote, sansão, tarzã...), e há epônimos diacrô- nicos, os que só podem ser assim identificados mediante uma informação histó- rica que contextualize sua criação a partir de um antropônimo (baderna, carras- co, gandula, gari, gilete, winchester...). Em ambos os casos, todas as palavras dos exemplos representam nomes de pessoas que viraram nomes de coisas, sendo pertinente falar-se que, numa língua, assim como existe o processo de “personi- ficação” (exs.: o Hino Nacional, a Pátria), há também o processo de “coisificação”: A palavra baderna, de acordo com o dicionário de Macedo Soares (apud Houaiss), tem origem no antropônimo Marieta Baderna, dançarina italiana que esteve no Rio de Janeiro em 1851, provocando “um certo frisson”. Seus admiradores eram chamados de “os badernas”; daí, por extensão, seu principal significado em nossa língua: situação em que reina a desordem; confusão, bagunça. Já o vocábulo gandula está datado no dicionário Houaiss como de 1975. A origem do termo é o antropônimo Bernardo Gandulla, futebolista argentino que atuou num clube do Rio de Janeiro no final da década de 1930 e que tinha o hábito de buscar as bolas que saíam de campo. O termo expandiu-se do uso restrito do jogo de futebol e, hoje, se refere àquele que apanha e devolve aos jogadores as bolas que saem do campo durante uma partida, sobretudo de futebol. 162 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística Finalmente, o substantivo gari, inspirado no nome Aleixo Gary, pessoa responsável pela empresa à qual esteve confiado o serviço público de limpeza das ruas, no Rio de Janeiro. Segundo o dicionário Houaiss, a palavra foi empregada pela primeira vez na revista Careta, em 1909. Notícia publicada no Jornal do Brasil em 1.o de setembro de 1892 dá conta de que “foi rescindido o contrato assinado com os Srs. Aleixo Gary & C. para a limpeza da cidade.” (HENRIQUES, 2008c, p. 146) As relações entre a eponímia e a antroponímia têm uma condição que as limita, pois a transposição de substantivo próprio para substantivo comum só ocorre mediante a atribuição de um sentido impessoal ao nome próprio. E só se pode fazer essa “ponte” tomando-se uma certeza ou suposição a respeito do ser humano real. Assim, ao princípio metonímico norteador da criação de um epônimo, devemos acrescentar a possibilidade de uma interpretação metafórica que justifique sua existência ou emprego. Os epônimos, no entanto, não são criados apenas a partir de pessoas reais. Há também os que se inspiram em seres fictícios, como é o caso da palavra amélia (= mulher amorosa, passiva e serviçal), significação extraída do contexto do samba Ai! que saudades da Amélia, de autoria de Ataulfo Alves e Mário Lago, de 1942. A canção fala de uma “mulher de verdade”, que “às vezes passava fome ao meu lado / E achava bonito não ter o que comer / Mas, quando me via contrariado, dizia: Meu filho, que se há de fazer!”. Nesses casos de epônimos de base ficcional incluem-se as referências a per- sonagens de obras do cinema, do teatro, da televisão, da literatura e até da in- dústria de consumo. Esses epônimos dependem da repercussão e permanência, na cultura e/ou imaginário da sociedade, dos antropônimos que os originaram. Muitos têm vida curta e saem de cena tão logo cesse sua presença na mídia. E, como nas relações semânticas tudo pode acontecer, a roda das significa- ções não para de girar. Nosso último exemplo focaliza a possibilidade de uma palavra mudar sucessivamente de sentido, primeiro por antonomásia, depois por eponímia. Esse caso, normalmente, acontece pela situação habitual de o traço físico de alguém ser usado para denominá-lo (como os personagens infantis Bolinha, Cascão, João Bafo de Onça, Capitão Gancho...). Por causa das famosas pernas tortas de seu dono, o substantivo “garrincha” eponimizou-se exatamente com esse sentido, nas referências coloquiais a pessoas que têm algum tipo de arque- amento nas pernas. Acontece que o jogador Garrincha recebeu esse apelido porque gostava de caçar passarinhos, e não porque tinha as pernas tortas. De posse dessas informações semânticas,fechamos o círculo: Relações semânticas – II 163 D om ín io P úb lic o, d iv ul ga çã o U FP A e C ar lo s V ie ira . 1. garrincha 4. “garrincha” 3. pernas do Garrincha 2. Garrincha 1 > 2 por antonomásia 2+3 > 4 por eponímia (1) garrincha (subst. comum = passarinho) > (2) Garrincha (subst. próprio = Manuel Francisco dos Santos + (3) o “craque das pernas tortas” > (4) “garrincha” (gíria, subst. comum = pessoa com as pernas tortas). Texto complementar O que há por trás de um nome (ARRAIS, 2008, p. 1-3. Adaptado) São 26 as letras do alfabeto, mas infinitas as combinações que podem ser feitas com elas. Diversas empresas de tecnologia trabalham duro para criar nomes que caiam na boca do povo e se transformem em referência. Afinal, 164 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística muita gente quer um iPod, e não um Zune, prefere o Orkut ao Facebook e assim por diante. É pelo nome que uma marca começa a vender sua filosofia. E o processo para chegar a ele é trabalhoso. O nome tem que ser original, criativo; deve transmitir o conceito do produto e não pode ser ofensivo a um determinado grupo. “O nome tem que ser único e diferente de todo o resto. Tem que ser apelativo, inspirador, sem ser completamente descritivo. Não pode entrar na vala do vulgar, do comum, do usual”, afirma Vanessa Pasquini, especia- lista em naming, que é o nome da área de atuação responsável por esse tipo de trabalho. Segundo ela, o processo envolve pesquisas, busca de referências e entre- vista com consumidores. “O primeiro passo é saber se o nome pode ser regis- trado. Também pensamos como o nome será visto em diversos países”, diz. “O nome é uma convergência de significados, letras, sons, cores, texturas, as- sociações. É um trabalho ao mesmo tempo muito criativo e muito técnico.” David Placek, especialista norte-americano que criou nomes como Black- Berry (o onipresente celular especializado em e-mails) e Zune (a tentativa da Microsoft de enfrentar o iPod), conta com uma equipe de 26 pessoas em seu escritório, o Lexicon Branding, sediado em Sausalito, Califórnia. O naming é requisitado por grandes empresas, como Apple, Microsoft e RIM. Mais 80 linguistas espalhados por 40 países ao redor do mundo fazem análises para garantir que uma palavra em inglês, por exemplo, não tem uma conotação completamente negativa quando levada para outra cultura. Placek ressalta o caráter duradouro do nome: “Olhando a competição, a longo prazo o nome é a única coisa que não podem tirar de você. Podem até mexer com cores, padrões, logotipos, mas o nome você pode proteger pelo tempo que durar o produto”, diz. Famosos A criação do nome de uma marca também pode seguir caminhos inusi- tados e bem mais simples. Reza a lenda que o nome Apple surgiu quando, depois de três meses de trabalho, Steve Jobs decretou: “Se não me entrega- rem um nome até as cinco da tarde, a empresa vai ter o nome da minha fruta favorita, maçã.” Relações semânticas – II 165 Já a Adobe, empresa que faz programas como o Photoshop, teve seu nome tirado do rio Adobe Creek, que corria nos fundos da casa do fundador da empresa, John Warnock. Google é que nem Bombril. Além de ter mil e uma utilidades, caiu no imaginário de usuários e virou referência, tendo sido até dicionarizado – e pelo prestigioso Oxford English Dictionary. A ideia para o nome da empresa surgiu quando Larry Page e Sergey Brin desenvolviam o projeto acadêmico que deu origem ao buscador. “Eles queriam dizer que a pesquisa seria capaz de juntar um sem-número de informações”, explica Félix Ximenes, diretor de comunicação do Google Brasil. Foi então que receberam a sugestão de fazer um trocadilho com a palavra “googol”, expressão matemática que designa o número representado por um seguido de cem zeros. O uso do termo, diz o Google, reflete a missão da empresa de organizar o enorme montante de informações disponíveis na internet e no mundo. A escolha do nome de produtos do Google segue lógicas distintas, se- gundo Ximenes. “Os nomes nascem de uma preferência de um programador, de uma brincadeira.” O nome do serviço de fotografias Picasa, por exemplo, teve origem numa brincadeira entre a palavra picture (imagem) e o nome do pintor Pablo Picasso. Outro caso interessante é sobre a origem do nome Yahoo!, que tem expli- cações diversas. A oficial é que os fundadores David Filo e Jerry Yang usaram as iniciais de Yet Another Hierarchical Officious Oracle, que significa algo como uma forma alternativa de classificar a hierarquia dos dados. “Mas eles insistem que escolheram o nome inspirado no livro As Viagens de Gulliver, que tem um povo chamado Yahoo, que é rude e imperfeito”, afirma Fábio Boucinhas, diretor de produtos do Yahoo! Brasil. “Há quem diga, também, que o nome foi inspirado em um leite achocolatado, chamado Yoho, que eles tomavam na época”, completa. O Yahoo! tem um site de fotos, o Flickr. Esse nome teve origem no flick que a máquina fotográfica faz. “A expressão faz sentido em inglês. Aí coloca- ram o a letra R e formaram o verbo”, afirma Boucinhas. Já o mecanismo de buscas Cadê?, que era bastante popular nos pri- mórdios da internet, teve origem no caráter intuitivo das pesquisas. “Acho que é o melhor nome que alguém poderia dar para um mecanismo de busca”, diz. 166 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística A explicação sobre o Orkut é a mais simples possível. Rede social mais popular no Brasil, ela ganhou o nome do próprio criador, o engenheiro turco Orkut Buyukkokten. Agora, se é para conquistar as crianças, nada melhor do que simplicidade. O Habbo Hotel, um site com foco em crianças e adolescentes, teve o seu nome escolhido de forma mais simples. A ideia era criar um nome universal. “Habbo é um nome inventado. Nós precisávamos de um nome que funcio- nasse em todos os países e chegamos a esse em uma sessão de brainstorm- ing antes da festa de Natal”, disse Sampo Karjalainen, diretor-executivo da empresa que administra o Habbo. Foi também a simplicidade que levou os criadores do Club Penguin a es- colher pinguins como protagonistas da rede social. A associação dos bichi- nhos ao nome foi imediata. Além de serem figuras fáceis para fazer anima- ções, os pinguins funcionam em comunidades – todos dependem de todos para sobreviver. Para isso, eles precisam interagir e trabalhar em conjunto. Os fundadores do Club Penguin querem transmitir esse conceito às crianças, es- timulando brincadeiras e interações na comunidade, para que elas resolvam problemas e se ajudem mutuamente. Dicas de estudo ALI, M. Said. “Alterações Semânticas”, capítulo do livro Meios de Expressão e Alte- rações Semânticas. O autor apresenta uma seleção de expressões da língua portuguesa que pas- saram por alterações semânticas, identifica as épocas em que aconteceram e explica as causas da mudança. ILARI, Rodolfo. “Termos Genéricos e Termos Específicos”, capítulo do livro Intro- dução ao Estudo do Léxico. O capítulo apresenta as noções de hiponímia e hiperonímia e propõe várias atividades em que se aplicam esses conceitos. Relações semânticas – II 167 Estudos linguísticos 1. Observe a letra da canção “Amor e Sexo” (RITA LEE, 2003), de Rita Lee, Roberto de Carvalho e Arnaldo Jabor, e faça uma tabela com duas colunas, uma para a palavra “sexo”, outra para a palavra “amor”. Transcreva da canção as palavras ou expressões usadas pelos autores para caracterizar cada uma das duas. Ao final, interprete os dados recolhidos, tanto do ponto de vista conceitual quanto semântico, e responda qual dos dois substantivos é apresentado de modo mais favorável na canção. Amor é um livro. Sexo é esporte Sexo é escolha. Amor é sorte Amor é pensamento, teorema Amor é novela. Sexo é cinema 05. Sexo é imaginação, fantasia Amor é prosa. Sexo é poesia O amor nos torna patéticos Sexo é uma selva de epiléticos Amor é cristão. Sexo é pagão 10. Amor é latifúndio. Sexo é invasão Amor é divino. Sexo é animal Amor ébossa nova. Sexo é carnaval Amor é para sempre. Sexo também Sexo é do bom. Amor é do bem 15. Amor sem sexo é amizade. Sexo sem amor é vontade. Amor é um. Sexo é dois Sexo antes. Amor depois Sexo vem dos outros e vai embora. 20. Amor vem de nós e demora. 168 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística 2. Tomando por base a imagem de uma constelação que Ferdinand de Saus- sure empregou para explicar as associações que as palavras mantêm entre si, parta da palavra “brancura” e forme duas séries de cinco palavras: uma apenas por razões formais, outra por razões morfossemânticas. 3. Complete os espaços abaixo coerentemente: a) A palavra “eletrodoméstico” é um hiperônimo destas cinco palavras: ____ ___________________________________________________________________ . b) Juquinha, Marina, Pedro, Tonhão e Luciana são hipônimos de __________ ___________________________________________________________________ . c) Meu time é conhecido pela antonomásia _____________________________ ___________________________________________________________________. d) A definição é “a saliência da cartilagem tireoide”, o nome popular é “gogó”, mas o epônimo é __________________________________. Relações semânticas – II 169 Este capítulo tem por objetivo identificar características semânticas do léxico, examinando os casos de paráfrase, perífrase, ambiguidade e polissemia. Paráfrase Ocorre paráfrase quando um enunciado possui a mesma informação que outro enunciado no qual ele se inspira. Geralmente, quem parafraseia uma sentença, um parágrafo (ou mesmo um texto) executa uma tarefa de reescritura no âmbito do léxico e da morfossintaxe, e não deveria compro- meter o teor informativo, descritivo ou opinativo do texto original. Para- (proximidade) + Frase (elocução) É, no entanto, improvável que uma paráfrase não deixe de apresentar alguma marca estilística ou ideológica de seu autor, que escolhe novos verbos, adjetivos, procura sinônimos, inverte sintagmas, muda os focos dos enunciados. Tudo isso tem alguma consequência pragmática, discur- siva, sendo possível inclusive que o texto parafraseado fique melhor do que o original. Os dois pequenos parágrafos abaixo contêm um texto de divulgação. Um deles é o original, o outro é a paráfrase: 1. Às vésperas de completar 36 anos, Júlia decide ser mãe solteira. Assim começam nove meses de estudos, pesquisas e leitura de publicações es- pecializadas. Em Perto do Ninho, Lídia Zoitman, um dos grandes nomes da literatura contemporânea, mostra que domina a arte do romance de humor e que conhece bem a alquimia do riso. 2. Júlia resolve ser mãe solteira quando está prestes a completar 36 anos. Serão nove meses estudando, pesquisando e lendo matérias espe- cializadas no assunto. Lídia Zoitman, um dos destaques da literatura atual, Relações semânticas – III 172 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística mostra em Perto do Ninho que o romance de humor é uma de suas especialida- des e que a química do riso está na sua veia de escritora. Qual é o original? Qual é a paráfrase? Não é preciso responder, pois o objetivo aqui é mostrar que o trabalho de reescrever/repetir o que outra pessoa já disse é uma operação comum – e não representa falsidade ideológica, pois nos casos científicos e acadêmicos o recurso precisa estar devidamente acompanhado dos créditos de autoria (segundo Bakhtin... de acordo com Bechara... para Fiorin...). Agora, voltemos ao parágrafo do exemplo e imaginemos que a tarefa é rees- crever a mesma informação para publicar numa revista jovem. A paráfrase vai ter de ser diferente, escolhendo palavras que pareçam mais adequadas aos leitores da revista: 3. Júlia já passou dos 35 e quer arranjar um filho numa produção indepen- dente. Vai ter que ralar nove meses traçando tudo que pintar sobre gravidez e parto. Essa é a história que Lídia Zoitman escreveu em Perto do Ninho. Ela é uma fera da literatura atual, saca tudo de romance de humor e escreve de um jeito bem maneiro. Os exemplos (1-3) mostram que há variados recursos a serem empregados cumulativa e simultaneamente na construção de trechos, períodos ou parágra- fos inteiros parafraseados. Como mostra Ilari (2001, p. 140-61), uma parte desses recursos consiste em aplicar transformações de caráter sintático, e outra parte depende do conhecimento do léxico e da capacidade de percepção das equiva- lências de palavras e construções. Vamos examinar, resumidamente, algumas das estratégias de redação conti- das nos exemplos dados: Exemplo (1) Exemplo (2) Exemplo (3) Às vésperas de completar 36 anos prestes a completar 36 anos já passou dos 35 Júlia decide ser mãe solteira Júlia resolve ser mãe solteira Júlia quer arranjar um filho numa produção independente Assim começam nove meses de estudos, pesquisas e leituras Serão nove meses estudando, pesquisando e lendo Vai ter que ralar nove meses traçando tudo que pintar um dos grandes nomes da li- teratura contemporânea um dos destaques da literatu- ra atual uma fera da literatura atual As mudanças podem ser apenas de palavra por palavra (decide X resolve) ou de locução por locução (às vésperas de X prestes a), mas também podem ser mor- . . Relações semânticas – III 173 fossintáticas (meses de estudo, pesquisas e leituras X meses estudando, pesquisan- do e lendo) ou simplesmente sintáticas (o exemplo 1 começa com o predicador da idade de Júlia X os exemplos 2 e 3 começam com o sujeito da oração). No caso do texto (3), o dado que se sobressai tem ainda um outro componente, a que cha- maremos de “tom”. A paráfrase, nesse caso, depende do domínio de um outro recurso, além dos dois mencionados por Ilari. A equivalência de palavras e cons- truções, em (3), é léxico-semântica e morfossintática, mas não é pragmático-dis- cursiva, já que o vocabulário agora é mais coloquial, íntimo, jovem. Ele precisa estar adequado ao público a que se destina a informação sobre o livro escrito por uma “fera” da literatura – observe que, na minha frase, a palavra está entre aspas, mas no parágrafo hipotético da revista, ela não precisaria desse recurso gráfico, pois ali a gíria da juventude e o coloquialismo são o tom de redação esperado. A paráfrase também pode ser usada como um elemento de sequenciação textual e tem por finalidade repetir com outras palavras o que o próprio texto disse. Nesse caso, a língua oferece certas expressões introdutórias típicas, como “isto é / ou seja / quer dizer / em outras palavras / em resumo / em síntese / em suma / ou melhor / explicando melhor”. (4) A cultura da elite engrandece personagens que na sua maioria não significaram nada para o país, mas que, por um fato considerado importante pela elite dominante, passou a ser um herói. Em outras palavras, a elite cria heróis ou fatos culturais que atendam às suas necessidades e que conduzam o povo a uma falsa admiração. (FOLHA DE IRATI, 2008) (5) Nos lares, nas ruas, nas cidades, por todos os lugares triunfam as nulidades, prospera a desonra, reina a corrupção, crescem as injustiças, multiplica-se a violência bestial, agiganta-se o poder dos maus. Em resumo, o mal está vencendo o bem de mil a zero. Só não vê quem não quer. (KHAREIS, 2008) (6) Um sinal de que a situação econômica das famílias está se degradando é o fato de que também aumentam as situações em que o casal trabalha sem que seu rendimento mensal seja suficiente para suportar as despesas de habitação, alimentação e educação dos filhos. Em suma, a situação econômica de algumas famílias está piorando, e os serviços públicos preveem que no próximo ano letivo aumentem os pedidos de auxílio econômico escolar. (JORNAL DA BATALHA, 2008) Os três recortes de matérias de jornal mostram como o trecho que está à direita da expressão destacada repete (por condensação, reiteração ou reajuste informacional) o que foi dito antes. 174 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística Perífrase Ao se escrever um texto, eventualmente é preciso praticar umaação de pro- longamento frasal. Esse recurso pode ser empregado por uma simples necessi- dade retórica de “não se ir direto ao assunto”, mas também pode ser um vício de linguagem, caracterizando um uso excessivo de palavras na construção de um enunciado que não chega a ser expresso totalmente ou com clareza. Nesse caso, o efeito vira defeito, e o que poderia ser uma boa estratégia de redação se trans- forma num fiasco, chamado na linguagem polida de “rodeio” e popularmente de “enchimento de linguiça”. Peri- (em torno de) + Frase (elocução) Quando a técnica é bem-sucedida, dizemos que há uma perífrase expressiva; quando é um problema textual, dizemos que há uma perífrase viciosa ou um circunlóquio. Vejamos alguns exemplos: 7. Convidamos a redação dos cadernos de cultura desse prestigioso jornal para um projeto intercultural de teatro contemporâneo em nossa cidade. Bus- cando a visibilidade como instrumento de nossa sustentabilidade, pedimos o apoio fundamental da imprensa. 8. Na sua multipluralidade significativa, a unidade da língua escrita situada entre dois espaços em branco muitas vezes vacila ao posicionar-se definitoria- mente na conceituação que expõe numa folha de papel. Há um circunlóquio na segunda frase do exemplo (7), que poderia dizer apenas: “Pedimos o seu apoio na divulgação”, ou seja, “Divulguem senão vai ser um fracasso”. O mesmo acontece em (8). Será que “a unidade da língua escrita si- tuada entre dois espaços em branco” não poderia ser apenas “palavra”? No caso de “multipluralidade significativa”, o interessante é uso hiperbólico do prefixo multi-, pois “pluralidade” já é algo múltiplo. Por fim, “ao posicionar-se definitoria- mente na conceituação que expõe numa folha de papel” ficaria bem mais claro se fosse apenas “ao tentar definir um conceito”. 9. Hoje, às oito horas, terá início, em todo o território nacional, a colheita de votos na maior e mais importante consulta popular de toda a história republi- cana. Dos 11 milhões de eleitores inscritos esperam os partidos que compareçam às urnas um mínimo de 8 milhões, em todo o país. Observadores extrapartidá- Relações semânticas – III 175 rios consideram, entretanto, esses cálculos com algum pessimismo, levando em conta, sobretudo, a circunstância de não ter sido declarado feriado o dia de hoje. 10. A obra ceciliana é, ao mesmo tempo, universal e atemporal, porque per- tence ao seleto grupo de autores que se sobrepõem ao seu tempo e a todos os tempos, e sua obra se eterniza. Emprega o português clássico e usa com o mesmo desembaraço metros e rimas variados. 11. Não falte com a verdade, menina. Não é porque seu pai entregou final- mente a alma ao Criador que vamos esquecer que ele enriqueceu por meios ilícitos. 12. Quero que o senhor indique qual é o lado maior desse triângulo retângulo. O exemplo (9) é a transcrição de uma notícia publicada no dia 3 de outubro de 1950, data em que haveria “a colheita de votos” (eleição) “na maior e mais im- portante consulta popular de toda a história republicana” (para Presidente da Re- pública). A linguagem jornalística da época era dada a perífrases, como também se percebe no longo objeto direto que encerra o parágrafo. Em (10), o texto aca- dêmico enaltece as qualidades de Cecília Meireles com um texto de tamanho ampliado. Se fosse para dizer o mesmo em poucas palavras, bastaria escrever “Cecília Meireles é uma ótima escritora, e sua obra é eterna”. Em (9-10), a perífrase expressiva foi usada para valorizar o texto, mas há casos em que ela pode ocorrer para suavizar uma ideia mais forte, como em (11), onde as três perífrases são por eufemismo: Não minta, menina. Não é porque seu pai morreu que vamos esquecer que ele foi um ladrão. Ou para tornar mais claro o en- tendimento, como em (12), onde não se usou o termo técnico “hipotenusa”. Vimos até aqui exemplos de perífrase lexical, em que o conceito a ser trans- mitido acontece por meio de uma expressão ou frase inteira, mas há também a perífrase morfológica, apresentada sob a forma de locução. Nesse caso, o vo- cábulo da esquerda é o auxiliar gramatical, e o vocábulo principal concentra o significado lexical. As conjugações perifrásticas (locuções cujo auxiliar não con- serva sua significação verbal), as locuções adjetivas e as locuções adverbiais são alguns desses casos. 13. Lecionei numa escola do subúrbio, mas gostava de ver como os alunos estudavam com empenho. 176 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística Em (13), empregou-se a locução adjetiva “do subúrbio” em lugar de “subur- bano” e a locução adverbial “com empenho” em lugar de “empenhadamente”. O exemplo mostra que, as perífrases morfológicas têm uma finalidade diferente da que vimos nas perífrases lexicais, pois não há nenhuma das três mencionadas justificativas que vimos em (9-12). Quanto às conjugações perifrásticas, basta que nos lembremos dos seguintes tipos de locuções verbais do português: verbo � ter ou haver + particípio = tempo composto [tinham ou haviam saído]; verbo � ser ou estar + particípio de verbo transitivo direto = voz passiva [era, estava ou ficava cercado pelos alunos]; verbo � ir + infinitivo = aspecto aproximativo de ação ou estado [ia falar / vai ser]; verbo � estar + gerúndio (ou preposição “a” + infinitivo) = aspecto durativo [estou escrevendo ou a escrever]; verbo � ir (sem indicar ação) + gerúndio = aspecto durativo [vou escrevendo]. Os casos descritos excluem as locuções cujo auxiliar conserva sua significa- ção verbal. Não há perífrase em locuções como “fomos conversando até o aero- porto”, “preciso sair”, “temos de conversar”, etc. Ambiguidade e polissemia A ambiguidade ocorre quando há duplo sentido. Isso significa que ela não é necessariamente um vício de linguagem, pois muitas vezes a usamos inten- cionalmente. Os textos de humor e de publicidade, por exemplo, lidam com a ambiguidade para atingir seus objetivos. 14. Quando eu era criança, todo mundo na minha casa tinha medo de “untar”. Era só chegar “untar” de cobrador que a tristeza tomava conta da tropa. 15. Pare de reclamar. Nunca mais você verá o seu carro sujo... Ele acaba de ser roubado! 16. Vende-se cama de solteiro dobrável... Depois que a pessoa casa, fica mais difícil de dobrar. Relações semânticas – III 177 17. – Pedrinho, diga quanto é o dobro de dois mais dois? – É oito, professora. – É seis, Joãozinho. – Como assim, professora?. – O dobro de dois é quatro; mais dois dá seis. Vê se presta mais atenção da próxima vez! 18. Conselho útil: A sua mãe disse que o seu jantar vai ser servido na mesa do seu quarto? Nessa hora só me resta perguntar: quem tem uma mesa no quarto, você ou ela? 19. “LINDA E SEM ROUPA”, diz a frase principal de um comercial de máquina de lavar roupa. 20. “De manhã... cedo; de tarde... cedo; de noite... cedo. Eu também estou solidário com a campanha de educação no trânsito”, é a legenda de um prospecto do Departamen- to de Trânsito, cujo slogan é “Dirija sem violência, tenha fair-play ao volante”. 21. “O mundo todo só fala nele” – é a chamada de um comercial de telefone celular. D om ín io p úb lic o. D iv ul ga çã o N ok ia . 178 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística Como lembra Ullmann (1964, p. 323), “a ambiguidade é uma situação linguís- tica que pode surgir por vários modos”, mas que do ponto de vista puramen- te linguístico pode ocorrer por razões fonéticas, gramaticais ou lexicais – mas acrescentamos: sempre no ambiente pragmático-discursivo. A ambiguidade fonética, obviamente, restringe-se à língua falada e ocorre ge- ralmente pelas coincidências que podem existir entre palavras fonéticas e pala- vras ortográficas, como se vê em (14), onde “untar” é combinação de “um+tal”. Na ambiguidade gramatical, é possível encontrar uma combinação de palavras apta a gerar dupla interpretação, como em (15-17), ou então ocorrer um emprego de palavra que, por admitir mais de uma referência gramatical, também pode criar confusão, como se vê em (18)com o possessivo ambíguo. Na frase (19) a duplici- dade de compreensão não é concomitante, pois a chamada do comercial parece associar os dois sintagmas a uma figura de mulher. Porém, como no português o gênero feminino não é prerrogativa de seres humanos, o entendimento inicial fica diluído quando se lê a frase seguinte, revelando que linda é a máquina de lavar. Os exemplos (19-21) mostram a ambiguidade lexical, feita em virtude da exis- tência de casos de homonímia (20) e de polissemia (21) na língua. No caso de “cedo”, explorando-se a homonímia entre o advérbio de tempo e o indicativo do verbo. O recurso tem sucesso porque a frase do comercial começa com um par de termos que admite a duplicidade de compreensão: de manhã cedo X de manhã, eu cedo. Nos dois trechos seguintes, isso não é possível, pois não se diz o advérbio “cedo” junto das locuções “de tarde” e “de noite”. Na frase (21), “falar” é a fonte da ambiguidade, pois tanto pode ser usado literalmente (= conversar, fazer ligações telefônicas) como em sentido figurado (= comentar com intensidade). Para que haja homonímia, é preciso haver mais de uma palavra (como em “cedo”, o advérbio de tempo e a flexão do verbo). Para que haja polissemia, só pode haver uma palavra (como em “falar”, com dois significados interligados a partir de uma única base semântica). Com isso chegamos a uma outra questão que envolve a polissemia, a continuidade de sentidos que uma palavra pode assumir (na homonímia, há descontinuidade). Ullmann (1964, p. 331) diz que “a polissemia é um traço fundamental da fala humana, que pode surgir de maneiras múltiplas” e cita as fontes que poderiam explicitar esse fenômeno em uma língua. Adaptando-as um pouco à língua por- tuguesa, ei-las: Mudanças de aplicação – um determinado item lexical pode expandir sua � quantidade de sentidos graças ao emprego que ele abarca num determi- Relações semânticas – III 179 nado contexto de uso. Às vezes essas ramificações semânticas ocorrem em função do funcionamento da palavra na frase, como ocorre muito com os adjetivos. Em português podemos dizer que o adjetivo “belo” é sinôni- mo de “lindo” e significa “dotado de formas e proporções esteticamente harmônicas”, tendo como antônimo o adjetivo “feio”. Mas, quando dize- mos que uma pessoa apareceu um belo dia na nossa casa ou que vamos receber um belo aumento de salário, não haverá risco de alguém pensar que “belo dia” é o mesmo que “bonito dia” ou que um “belo aumento” é o contrário de “feio aumento”. Especialização num meio social – um item lexical pode adquirir um certo � número de significados específicos, cada qual aplicável em determinado campo de ação e atuação. A palavra “cadeira”, num ambiente acadêmico, não significa apenas “peça do mobiliário”, mas pode ser um sinônimo de “disciplina”, palavra que também tem um sentido restrito ao meio escolar, onde quer dizer “matéria de ensino”, diferente do significado comum de “obediência às regras e aos superiores”. Linguagem figurada – um item lexical pode assumir um ou mais sentidos � figurados, que coexistem lado a lado sem se confundirem e sem haver a perda do seu significado original. Aqui as novas acepções ocorrem por ação da metáfora ou da metonímia, figuras fundamentais para a ativida- de da língua. Na linguagem contemporânea, a palavra “monstro” assumiu o papel de qualificador positivo (liquidação monstro, comício monstro), e o verbo “chutar” expandiu seu uso no jargão esportivo e pode ser usado quando um jogador de basquete arremessa (= chuta) uma bola para a cesta: ambos por metáfora. Uma acepção nova, por metonímia, aconte- ceu com a palavra “trilha”, usada para representar a música que toca num filme ou numa novela: a “trilha” e o “trilho”, confundidos com os sulcos dos antigos discos de vinil, passam a representar a música que passa por esses trilhos, trilhas ou sulcos. Parônimos reinterpretados – dois itens lexicais de som semelhante e de sig- � nificação diferente (de fato ou supostamente) tendem a ser considerados uma única palavra com dois sentidos ou então passam a ser duas palavras com uma única pronúncia. Ou seja, mudam do grupo da paronímia para o da polissemia (uma palavra com dois sentidos) ou o da homonímia (duas pa- lavras com uma pronúncia), conforme o caso. É o que se chama “etimologia popular”. Assim, “fusível” vira “fuzil”, “fígado” vira “figo” (criando homonímias, pois os significados não são aproximáveis) e o verbo “soltar” assume o signi- 180 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística ficado de “soltar” quando uma pessoa diz que vai “soltar do ônibus” (nesse caso, há polissemia, pois a significação dos dois verbos é aproximável). Influência estrangeira – um item lexical já existente na língua sofre influência � da importação do significado de uma palavra estrangeira, o que cria a coexis- tência dos dois significados, o antigo e o novo, e origina a polissemia. O subs- tantivo “cachorro” é, hoje, no português, sinônimo de um tipo de sanduíche de salsicha, acepção oriunda da importação do anglicismo “hot-dog”. De todo modo, pode-se dizer que a polissemia é um fenômeno bastante comum numa língua, servindo como um fator de economia e de flexibilida- de para o léxico. Como lembra Ilari (2002, p.151), a polissemia “afeta a maioria das construções gramaticais”. Seu exemplo mostra o caso do aumentativo dos nomes, como acontece com a palavra “Paulão”. As razões para que alguém seja assim chamado podem ser muitas: “porque é alto, porque é grande, porque é grosseiro, porque é desajeitado, porque é uma pessoa com quem todos se sentem à vontade.” Como conclui Ilari, é mesmo “difícil dizer até que ponto vale cada uma dessas explicações”, já que “da ideia de tamanho passa-se à de um certo modo de ser e de relacionar-se.” Se procurarmos no âmbito morfossintático, também encontraremos a polis- semia, responsável por alterações na regência de alguns verbos. Foi a aproxima- ção dos sentidos de verbos como “demorar”, “custar” e “faltar” que fez com que se identificassem suas regências, pelo menos na linguagem do cotidiano. 22. (Ela) demorou a fazer um sinal para nós. 23. (Ela) custou a fazer um sinal para nós [em vez de Custou-lhe fazer um sinal para nós./ Custou a ela fazer um sinal para nós]. 24. (Ela) faltou fazer um sinal para nós [em vez de Faltou-lhe fazer um sinal para nós / Faltou a ela fazer um sinal para nós]. Os três verbos parece que assumiram os significados uns dos outros, ou seja, cada um ganhou uma nova acepção, a qual está em processo de incorporação à língua padrão (HENRIQUES, 2008c, p. 49). Como mostram esses exemplos, [...] uma análise voltada para a variação dos meios ou dos modos de expressão de significados semelhantes leva à percepção de que os fenômenos de transferência de significado envolvem tanto a seleção lexical quanto a seleção de estruturas discursivas que são utilizadas metáforas ou metonímias. (MARQUES, 1990, p. 158) A conclusão a que se chega nos estudos semânticos é que, dentro dos meca- nismos em uso na estruturação da língua, as redes de significação do léxico geral Relações semânticas – III 181 estão sempre em condições de estabelecer uma conexão de sentido. Cabe ao falante colocar em funcionamento esse sistema que está à disposição de todos os membros de uma comunidade idiomática. Ao estudioso compete observar, descrever, interpretar e analisar – semanticamente também. Texto complementar De quando o povo modifica o povo: a etimologia popular influenciando a vida de toda uma comunidade (SIQUEIRA, 2008, p. 1) Cidade Ocian é um dos trinta e dois bairros do município de Praia Grande (SP). O local como hoje se conhece tem suas origens datadas da década de 1950, impulsionadas pela construção de 22 prédios, num total de aproxima- damente 1 600 apartamentos e é hoje um dos bairros mais importantes de Praia Grande, com mais de 10 mil moradores, cerca de 4% da atual popula- ção do município que, em 2008, tinha cerca de 250 mil habitantes. Estagrandiosa obra, inaugurada em 27 de maio de 1956, quando Praia Grande ainda pertencia a São Vicente (desmembrou-se em 19 de janeiro de 1967), foi considerada até 1960, ano de fundação de Brasília, “a cidade mais bem planejada” e “a estrutura urbana mais moderna do Brasil”, como afirma o número 28 do Informativo Cultural da Associação Centro de Estudos Ama- zônicos de Praia Grande, de abril de 1980. D iv ul ga çã o Pr ef ei tu ra M un ic ip al d e Pr ai a G ra nd e. 182 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística O conjunto de edificações (figura 01) e, por consequência, todo o bairro ganharam a alcunha de “Cidade Ocian” devido à infraestrutura, que não era encontrada nem mesmo em cidades emancipadas, e à sigla OCIAN da em- presa responsável pela execução da obra, a Organização Construtora e Incor- poradora Andraus (figura 2). D iv ul ga çã o Pr ef ei tu ra M un ic ip al d e Pr ai a G ra nd e. A Cidade Ocian tinha – e ainda tem, mais de 50 anos depois de sua inau- guração – como seu símbolo-maior a estátua de Netuno, localizada (figura 3) defronte à atual praça Roberto Andraus e ao Espaço Ocian. D om ín io p úb lic o. [...] O tempo passa, os mais velhos se vão e deixam seus lugares aos mais jovens. Muitas vezes, nessas idas e vindas, a história se perde. Alguns anos Relações semânticas – III 183 depois de sua fundação, o bairro passou a ser grafado, nos mais diversos locais, como Cidade Ocean ou, simplesmente, Ocean (figuras 4 e 5). Temos aí um caso típico de etimologia popular, que se deu no âmbito vocabular, pois a alteração se concretiza apenas na grafia e não na fonética. As razões estão intimamente ligadas à forte presença da estátua de Netuno – marco que presenciou a comemoração de muitas conquistas do município, como a vitória do plebiscito pró-emancipação político-administrativa, em 1963, quando muitas pessoas se reuniram em volta do Netuno, festejando o fato entusiasticamente. Além disso, trata-se de um bairro praiano (é bom lembrar que “ocean” significa “oceano”, em inglês). Há ainda de se ressaltar que o nome de um dos logradouros mais impor- tantes da Cidade Ocian é a Rua Oceânica Amábile (figura 6), situada para- lelamente às avenidas D. Pedro II e Vicente de Carvalho, principal corredor comercial do bairro. D om ín io p úb lic o. D om ín io p úb lic o. 184 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística [...] A grafia “Ocean” também é encontrada em muitas propagandas e anúncios (figura 5), sendo curioso observar como são detectadas as duas formas num mesmo impresso comercial, o que permite deduzir que há uma convivência entre elas e que ambas permitem plenamente a mesma recep- ção. [...] A presença maciça da grafia com “e” em vez de “i” (Ocean) é bastan- te percebida em websites, chats e páginas de relacionamento da internet. Muito provavelmente, isso se deve ao fato de os internautas moradores de Ocian desconhecerem a história oficial do bairro, ou terem sofrido influên- cia, desde a infância, da variante irregular, só reconhecendo essa grafia por julgarem-na padrão. D iv ul ga çã o G oo gl e M ap . Mesmo com o esforço do poder público de, ao longo dos anos, vir subs- tituindo placas grafadas erroneamente, com o intuito de divulgar o nome e a história oficiais da Cidade Ocian, só o tempo poderá elucidar qual a forma que haverá de prevalecer, com Netuno a espreitar a sucessão de aconteci- mentos desse dilema. Relações semânticas – III 185 Dicas de estudo AZEREDO, José Carlos de. “Relações Semânticas no Léxico”, capítulo da Gramáti- ca Houaiss da Língua Portuguesa. O capítulo aborda os traços semânticos e as relações de sentido. ILARI, Rodolfo. “Implícitos (I) e (II)”, capítulos do livro Introdução à Semântica. O autor apresenta casos em que a compreensão de um enunciado não pode ser feita apenas a partir de seu sentido literal e propõe várias atividades em que se aplicam os conceitos das implicaturas conversacionais. Estudos linguísticos 1. Por não existir como reproduzir a entonação, frases imperativas podem ge- rar mal-entendidos. Redija quatro frases que exemplifiquem o emprego do modo imperativo exprimindo ideias de ordem, conselho, convite, pedido. Depois interprete cada uma delas e explique as possíveis ambiguidades dis- cursivo-pragmáticas. 2. Complete as lacunas coerentemente. a) “Palmeiras joga com o Bahia no seu campo” – a manchete do jornal con- tém ambiguidade porque ___________________________________________ ___________________________________________________________________ . b) O jornalista recebe a tarefa de escrever uma coluna para a revista. O es- paço é limitado em algo equivalente a uma folha de caderno, mas o tema é amplo: A História da República no Brasil… Uma das coisas que, com certeza, o jornalista vai fazer é evitar as perífrases, pois _________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ . c) Uma frase solta como “vou deitar e rolar” pode servir para ilustrar a dife- rença entre a linguagem literal e a linguagem _________________________ _________ . Na primeira hipótese, a expressão significa _________________ ___________________________________________________ ; na segunda, ___ ___________________________________________________________________. 186 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística d) O jornal diz: “O escritor colombiano Gabriel García Márquez, ganhador do prêmio Nobel de literatura em 1982, publicará antes do fim de 2008 um novo livro sobre o amor.” Se quiséssemos reescrever essa frase aumentan- do consideravelmente seu tamanho, um dos resultados poderia ser: ____ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ . 3. Para Barbosa (1996, p. 245-249), um item lexical polissêmico é aquele que preserva uma unidade de significado, isto é, a sua unidade é garantida pelo núcleo semântico comum aos múltiplos setores de traços semânticos. Com efeito, esse núcleo comum é que permite ao falante identificar um único sig- no linguístico em suas diferentes realizações no discurso. A partir dessas considerações, reconheça, entre as frases abaixo, aquelas que contêm no par destacado um exemplo de polissemia. a) Não beberei suas palavras nem brindarei às suas ideias. b) Parto sem dor para fazer o parto do meu amor. c) Não me compete decidir quem poderá competir nas Olimpíadas. d) A roupa de quem está no xadrez não devia ser listrada, mas xadrez. e) À noite, não use o farol alto quando passar por algum cruzamento com farol. f) “Sonhei que estava sonhando e que no meu sonho havia um outro sonho esculpido”. (Drummond) g) “A morte não existe para os mortos.” (Drummond) h) “Esse amanhecer mais noite que a noite.” (Drummond) Relações semânticas – III 187 Este capítulo tem por objetivo apresentar as características do texto ficcional e explicar os conceitos de narratividade, descritividade e argumentatividade. Ficção e verossimilhança A palavra ficção se opõe à palavra realidade. No nosso dia a dia, usamos a palavra ficção não apenas para nos refe- rirmos às manifestações artísticas que têm natureza ficcional, como filmes, novelas, contos e romances. Também a usamos com os significados de: Ficção: � Ato ou efeito de fingir; simulação, fingimento. Criação ou invenção de coisas imaginárias; fantasia. (FICÇÃO, 2004) Por outro lado, a palavra realidade nos remete a fatos concretos e tem os significados de: Realidade: � Qualidade do que é verdadeiro. Aquilo que existe efetivamente. (REALIDADE, 2004) O adjetivo ficcional, quando aplicado a textos literários, não tem ne- nhuma carga pejorativa, pois se trata de um termo técnico usado nos es- tudos de literatura. Além disso, essa dicotomiaentre ficção e realidade não é excludente. Quantas vezes não vivemos em nossa realidade situações tipicamente fictícias? E na literatura ou no cinema quantas vezes não nos deparamos com histórias criadas a partir de situações, fatos e indivíduos extraídos da vida real? Mas, para se compreender um texto, há um pressuposto elementar: é preciso identificar o que se lê, e esse processo de identificação só pode Características do texto ficcional 190 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística ser feito a partir das experiências de mundo que o leitor possui. Por esse motivo, mesmo no tipo de texto literário que se chama “ficção científica”, por mais fan- tasiosa e incrível que a obra se apresente, ela terá sempre traços da realidade. Afinal, não é possível se contar uma história que não tenha nem um componen- te do mundo real. Se os personagens representam pessoas, “pessoas” remete ao mundo real. Se os personagens não são pessoas, certamente eles se comunicam por meio de palavras, gestos ou pensamentos, o que também remete ao mundo real. Se existe algum cenário na obra de ficção ou se não existe cenário, isso também remete ao mundo real pelas visões e conhecimentos de mundo que são pré- -requisitos para que se compreenda um texto. No texto ficcional, o autor cria um mundo na sua imaginação. Um trecho do quinto capítulo do romance O Ateneu, de Raul Pompeia (1976, p. 85), pode nos ajudar a explicar isso mais objetivamente. Íamos à missa aos domingos. Todos abriam os livrinhos, para que o dire- tor os visse atentos. Eu não abria o meu. Deixava apenas fugir-me o espíri- to para o alto e aderir à abobada como as decorações sagradas, ajustar-me estreitamente aos detalhes da arquitetura do templo como o ouro sutil dos douradores, conservar-se lá em cima, ávido ainda de ascensão, ambicioso do céu como a baforada dos turíbulos. Havia acessos comunicativos de tosse que lavravam nas fileiras. Eu não tossia. Havia convulsões de riso, mal contidas no lenço, mal dominadas por um olhar de Aristarco, de joelhos à frente do colégio, e mãos cruzadas sobre o castão do unicórnio, como certa vez que um cão brejeiro e sem princípios, mesmo ao elevar-se a santa Partícula, entrou e escapou-se com o casquete de um fiel contrito. Eu resistia ao riso. Em O Ateneu, Sérgio é o nome do narrador em primeira pessoa que nos conta a história dos dois anos que foi obrigado a passar num internato por determi- nação de seu pai. A cena transcrita descreve alguns acontecimentos das missas dominicais e mostra traços dos personagens, como o autoritarismo do professor Aristarco, diretor do colégio, e o comportamento das crianças. O romance de Raul Pompeia tematiza o drama da solidão e o desajuste de um indivíduo em relação ao meio em que vive. É uma obra de ficção com caracte- Características do texto ficcional 191 rísticas apegadas à realidade e exemplifica o que se pode chamar de verossimi- lhança do texto ficcional. Verossímil = vero (verdadeiro) + simil (semelhante) Podemos falar em duas modalidades ou formas principais de verossimilhan- ça. Uma delas acontece no interior do próprio texto literário, a partir da obser- vação de que há coerência interna entre as partes constitutivas da narrativa (verossimilhança interna). Outra examina as eventuais relações que há entre a estrutura do discurso narrativo e os demais discursos encontráveis na socieda- de (verossimilhança externa). Em outras palavras, pode-se dizer que nem toda verossimilhança interna corresponde necessariamente a uma verossimilhança externa, pois existe uma realidade imaginada pelo escritor não necessariamente reduplicadora da realidade existente no mundo concreto e exterior à literatura. Podemos exemplificar isso com um trecho do conto “Os Cavalinhos de Plati- planto”, de José J. Veiga (1972, p. 34). Os cavalos não podiam sair dali, ninguém tinha poder para tirá-los. Se alguém algum dia conseguisse levar um para outro lugar, ele virava mos- quito e voltava voando. Passamos o portão e entramos num pátio parecido com largo de cavalhada, até arquibancadas tinha, só que no meio, em vez de gramado, tinha era uma piscina de ladrilhos de água muito limpa. De repente a assistência soltou uma exclamação de surpresa, como se tivesse ensaiado antes. Meninos pulavam e gritavam, puxavam os braços de quem estivesse perto, as meninas levantavam-se e sentavam batendo pal- minhas. Do meio das árvores, iam aparecendo cavalinhos de todas as cores, pouco maiores do que um bezerro pequeno, vinham empinadinhos mar- chando, de vez em quando olhavam uns para os outros como para comentar a bonita figura que estavam fazendo. Quando chegaram à beira da piscina estacaram todos ao mesmo tempo como soldados na parada. Depois um deles, um vermelhinho, empinou-se, rinchou e começou um trote dançado, que os outros imitaram, parando de vez em quando para fazer mesuras à as- sistência. O trote foi aumentando de velocidade, aumentando aumentando, e daí a pouco a gente só via um risco colorido e ouvia um zumbido como de zorra. Isso durou algum tempo, até eu pensei que os cavalinhos tinham se sumido no ar para sempre, quando então o zumbido foi morrendo, as cores foram se separando, até os bichinhos aparecerem de novo. 192 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística O mundo que o autor do texto ficcional cria na sua imaginação pode ser um misto de verossimilhança e de inverossimilhança. No caso do conto de José J. Veiga, a criança narra uma história mágica, que envolve a realidade numa au- réola de sonhos. Os cavalinhos de platiplanto que o narrador descreve partici- pam de ações compatíveis com a realidade interna e externa. Embora não sejam eles (os cavalinhos que podiam virar mosquitos) verossímeis se encarados sob o prisma externo ao texto, são verossímeis internamente no conto. Esse tipo de texto ficcional, que trabalha com crenças, ritos e lendas e os faz conviver numa atmosfera de realidade social, psicológica, humana, consagrou- -se com a denominação “realismo fantástico”, expressão bastante apropriada para o que vimos buscando explicar acerca das relações entre ficção e realidade. Narratividade, descritividade e argumentatividade Na tipologia do texto ficcional trabalha-se com a clássica tripartição utilizada para o ensino da redação escolar, que divide os textos em três tipos: o narrativo, definido como “sequência de fatos”; � o descritivo, definido como uma “sequência de aspectos”; � o argumentativo-expositivo, definido como “sequência de opiniões”. � Essa tripartição pode não ser a ideal. Luiz Antônio Marcuschi (2002) fala que os modos de organização do texto podem ser cinco, subdividindo o terceiro da lista clássica e acrescentando o injuntivo (como o praticado na redação dos ma- nuais de instruções, receituários, etc.). É evidente, no entanto, que essas categorias não dão conta da imensa variedade de “tipos” de textos orais e escritos existentes nas mais variadas culturas. Faltava algo a essa classificação. Como classificar, por exemplo, uma carta comercial, um ofício, um memorando, um soneto, um editorial, etc.? A resposta é que uma tipologia textual necessita de no mínimo dois critérios – um estritamente textual (referente à estrutura do texto) e um situacional, que o associe com a situação comunicativa em que é produzido e interpretado, dentro de um ramo da atividade humana: jornalístico, empresarial, didático, literário, etc. (OLIVEIRA, 2004, p. 184) Aqui, vamos focalizar os três tipos que interessam à ficção. Vivemos num mundo de narrativas. O ser humano é um contador e recontador de histórias. Ele registra, relata, expõe, diz, narra para si mesmo e para seus inter- Características do texto ficcional 193 locutores cotidianos ou ocasionais as situações, ações e experiências que viveu, que viu ou soube que alguém viveu, que supôs ou inventou que alguém viveu. A narratividade é, por excelência, o tipo de texto que se espera encontrar na obra literária classificada como ficcional. Em geral,uma história se conta num texto em prosa, mas há muitos exemplos de histórias contadas e cantadas em versos. Exemplo 1: Os Lusíadas, de Luís de Camões, têm como assunto central a viagem de Vasco da Gama às Índias. É um poema épico que narra as perigosas viagens do herói português “por mares nunca dantes navegados” e seus encontros com povos e costumes diferentes. Exalta o navegador, soldado, aventureiro, cavaleiro e amante Vasco da Gama e mostra o sentimento heroico e conquistador dos portugueses, algo bastante apropriado para a época antropocêntrica do Renascimento. A obra de Camões tem um cunho enciclopédico e conta não apenas a des- coberta do caminho marítimo para as Índias. Fala da história de Portugal, de seus reis, de seus heróis e de suas batalhas, destacando as grandes navegações e a conquista do Império Português do Oriente. Para contá-la, Camões cria uma ação mitológica, onde deuses pagãos atuam como defensores dos portugueses (Vênus e Marte) e como seus opositores (Baco e Netuno). D om ín io p úb lic o. Os Lusíadas: ficção (em diálogo com a História) contada em versos. 194 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística Exemplo 2: Na música “Domingo no Parque”, Gilberto Gil nos conta uma história domini- cal de amor, traição e morte (em versos): O rei da brincadeira (ê, José) O rei da confusão (ê, João) Um trabalhava na feira (ê, José) Outro na construção (ê, João) A semana passada, no fim da semana João resolveu não brigar No domingo de tarde saiu apressado E não foi pra Ribeira jogar capoeira Não foi pra lá pra Ribeira, foi namorar O José como sempre no fim da semana Guardou a barraca e sumiu Foi fazer no domingo um passeio no parque Lá perto da Boca do Rio Foi no parque que ele avistou Juliana Foi que ele viu, foi que ele viu Juliana na roda com João Uma rosa e um sorvete na mão Juliana, seu sonho, uma ilusão Juliana e o amigo João O espinho da rosa feriu Zé E o sorvete gelou seu coração O sorvete e a rosa (ô, José) A rosa e o sorvete (ô, José) Oi dançando no peito (ô, José) Do José brincalhão (ô, José) O sorvete e a rosa (ô, José) A rosa e o sorvete (ô, José) Oi girando na mente (ô, José) Do José brincalhão (ô, José) Juliana girando (ô, girando) Oi, na roda gigante (ô, girando) Oi, na roda gigante (ô, girando) O amigo João (ô, João) Características do texto ficcional 195 O sorvete é morango (é vermelho) Oi, girando e a roda (é vermelha) Oi, girando, girando (é vermelha) Oi, girando, girando... Olha a faca! (Olha a faca!) Olha o sangue na mão (ê, José) Juliana no chão (ê, José) Outro corpo caído (ê, José) Seu amigo João (ê, José) Amanhã não tem feira (ê, José) Não tem mais construção (ê, João) Não tem mais brincadeira (ê, José) Não tem mais confusão (ê, João) IE SD E Br as il S. A . “Domingo no parque”: ficção (com base na realidade) contada em versos. O texto de “Domingo no Parque” conta-nos (na voz de um narrador-cantor) um acontecimento que envolve personagens num determinado lugar e mo- mento (espaço e tempo). João, José e Juliana formam o trio amoroso, no qual os dois amigos disputam a mesma mulher. As ações dramáticas transcorrem num parque de diversões e se misturam com o ambiente lúdico da roda gigante, do sorvete. A história que Gil compôs é, como Os Lusíadas, um texto inspirado em fatos verossímeis, narrado em versos. 196 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística Exemplo 3: Observemos agora um trecho do romance As Três Marias, de Rachel de Quei- roz (2000, p. 73). No outro dia o vi. Chamava-se Raul. Passávamos diante dum café, e ele lá estava numa mesa, sozinho, entre as nuvens do seu cigarro. De dia me pareceu mais velho, mais cansado. E também mais romântico e misterioso, prometendo grandes momentos. Maria José, que ia comigo, viu-o quando me cumprimentou. Também o conhecia. Era pintor e fazia farras medonhas. Diziam até que tomava cocaína. Um boêmio sem eira nem beira, que conhecia metade da Europa e todos os cafés de artistas de Paris. Quase morrera num hospital, em Nápoles, de onde conseguira se repatriar com um falso passaporte de emigrante. Num dos acasos do seu voo, arribara aqui, anos atrás, e, ninguém sabe por que, aqui casara, carregando depois a mulher consigo pelos apartamentos de luxo, nos tempos bons, pelas pensõezinhas de terceira ordem, nas vacas magras. Voltara agora, emergindo de nova crise, pedindo hospitalidade ao sogro para descansar um pouco. Começou a pintar, a vender os quadros, arranjou alunos, ia ficando há mais de um ano. Chegava em casa de madrugada, a mulher brigava, os vizinhos ouviam. Um perdido. Ouvi a biografia sem surpresa; era a única história que se harmonizaria com ele e com o que eu dele imaginara. O café era na esquina e nós dobramos a rua, contornando o canto. Tornei a vê-lo, ele se ergueu um pouco e os seus olhos fundos me sorriram, saíram da sua névoa. Sorri também, atraída pelas terríveis promessas das histórias de vício e de aventura. Nessa noite dormi pensando em Raul. As Três Marias têm as mesmas características de narratividade dos dois exem- plos anteriores, com a diferença formal de estar escrito em prosa, como nor- malmente se espera de uma história contada por escrito. Guta é a narradora e encarna uma heroína jovem e ingênua que se apaixona por um pintor casado, interessado apenas em tê-la como amante. No trecho transcrito, ela está acom- panhada de sua amiga Maria José quando vê Raul sentado numa mesa de bar. Características do texto ficcional 197 Contado em primeira pessoa, pois quem narra a história é um personagem (neste caso, a própria protagonista), o romance de Rachel de Queiroz faz uma investigação dos conflitos da individualidade do ser humano e, como no poema épico de Camões e na canção de Gil, também se inspira em fatos verossímeis. Se fizermos, porém, a releitura dos textos transcritos até aqui neste capítulo, observaremos que, além de haver “uma história sendo contada”, há passagens descritivas e argumentativo-expositivas. Na verdade, só se nos abstrairmos do material palpável que é o texto escrito é que conseguiremos pensar nesses tipos classificatórios separadamente. Um texto nunca é apenas narrativo, descritivo ou argumentativo. Falta a essa denominação didática o advérbio “predominantemente”, que sempre deveria precedê-la. Voltando então às transcrições dos textos, notamos que em todos predomina a narratividade do ato de se contar uma história. Porém, descrevem-se personagens, cenários, ambientes, emoções, movimentos. Fazem-se considerações, julgamen- tos sobre modos de agir, falar, sobre a temperatura, a época. Expõem-se opiniões próprias e alheias. Tudo em função dos objetivos de quem prepara o texto para seu leitor – e este, por sua vez, atuará na recepção do que se pretendeu apresentar e avaliará esse produto segundo a ótica de sua experiência como “leitor”. Observemos adiante algumas descrições extraídas de textos de ficção. Nessas novas passagens perceberemos que a narrativa está desacelerada, pois a intenção do escritor é apresentar informações que ele julga importantes para o que ainda vai contar. Os exemplos também nos servirão para mostrar como a descrição pode ser explorada na elaboração do texto ficcional, seja pela especificação das ações dos personagens, seja pela identificação de traços estáticos da narrativa. No começo havia somente aquela igrejinha pobre, caiada de branco, de- baixo do coqueiral. Casa de palha pela beira do mar, caiçaras por onde os pescadores dormiam a sesta e guardavam as jangadas no descanso. Fonte: Riacho Doce, José Lins do Rego: 1987, p. 87. 198 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística Comentário: Descrição de uma praia de pescadores, contendo traços estáti- cos do presente da narrativa e referências ao passado dos personagens. A rua em que estava situada sua casa desenvolvia-se no plano e, quando chovia, encharcava e ficava que nem um pântano; entretanto, era povoada ese fazia caminho obrigado das margens da Central para a longínqua e ha- bitada freguesia de Inhaúma. Carroções, carros, autocaminhões que, quase diariamente, andam por aquelas bandas a suprir os retalhistas e gêneros que os atacadistas lhes fornecem, percorriam-na do começo ao fim. Fonte: Clara dos Anjos, Lima Barreto: 2001, p. 639. Comentário: Descrição parcialmente estática de uma rua, sem referência aos personagens. É sol de maio, que já brilha pelas devesas floridas do Tinto. Sob a cúpula diáfana de um céu de primavera, tudo é luz, graça e harmonia. Os esplen- dores da tarde douram as veigas e adiamantam as águas. Flores, sorrisos do prado, e sorrisos, flores dos lábios, desabrocham por toda a parte, e engas- tam-se onde quer que aparece um rosal perfumado ou um rosto mimoso. Vão de envolta nas asas da brisa, trinos das aves, rumores do campo, e os ledos descantes de rústico travador. Fonte: As Minas de Prata, José de Alencar: 1958, p. 651. Comentário: Descrição do campo, com referências ao tempo e à paisagem e sem menção aos personagens. Logo na quina da rua, então chamada de Vala e agora da Uruguaiana, a Rua do Ouvidor apresentava ao lado esquerdo a casa de três pavimentos, que ainda hoje se vê, e que abre a porta e corredor de entrada para aquela tendo defronte na quina do lado direito casa de dois pavimentos ou sobrado de um só andar, como atualmente se conserva. Ambos esses tetos devem guardar, senão importantes, ao menos curiosas recordações. Fonte: Memórias da Rua do Ouvidor, Joaquim Manuel de Macedo: 1963, p. 152-153. Características do texto ficcional 199 Comentário: Descrição estática de uma casa, sem referência aos personagens. Fora, chovia a cântaros. André de Belfort sorria fatigado. Godofredo de Alencar fumava. Hortênsio Gomes parecia entre o pesar e uma vaga e tênue alegria. Alexandre estava abatidíssimo. Os quatro acabavam de jantar, no imenso salão deserto do mais elegante e mais detestável hotel da cidade. Ninguém poderia exprimir o sorriso do barão André. Era impossível definir a atitude de Godofredo. Hortênsio tinha o aspecto do revelador. O pobre Ale- xandre parecia um trapo de paixão. E aos sucessivos cigarros de Godofredo, embebidos em essência oriental, uma densa nuvem aromática os envolvia. Fonte: Créssida, João do Rio: 1995, p. 18. Comentário: Descrição de ações dos personagens, com inclusão de referên- cias ao tempo e ao cenário. Madalena batia no teclado da máquina. Seu Ribeiro escrevia com len- tidão trêmula, às vezes se aperreava procurando a régua, a borracha, o frasco de cola, que se ausentavam, porque d. Glória tinha o mau costu- me de mexer nos objetos e não os pôr nunca onde os encontrava. Eu me danava com essa desordem, fechava a cara, dava ordens secas rapidamen- te e saía para não estourar. Fonte: São Bernardo, Graciliano Ramos: 1980, p. 111. Comentário: Descrição de ações e reações secundárias dos personagens, sem outras referências. Vamos agora exemplificar a presença predominante do tipo argumentativo- -expositivo. Nessa hipótese, a narrativa também se desacelera, em virtude da decisão de dar voz ao narrador para que ele opine ou exponha a opinião de algum personagem. Essa possibilidade, por vezes, se interpenetra com a pró- pria narrativa. Chegados os dragões em frente aos Canjicas houve um instante de es- tupefação. Os Canjicas não queriam crer que a força pública fosse manda- da contra eles; mas o barbeiro compreendeu tudo e esperou. Os dragões 200 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística pararam, o capitão intimou à multidão que se dispersasse; mas, conquanto uma parte dela estivesse inclinada a isso, a outra parte apoiou fortemente o barbeiro, cuja resposta consistiu nestes termos alevantados: – Não nos dispersaremos. Se quereis os nossos cadáveres, podeis to- má-los; mas só os cadáveres; não levareis a nossa honra, o nosso crédito, os nossos direitos, e com eles a salvação de Itaguaí. Nada mais imprudente do que essa resposta do barbeiro; e nada mais natural. Era a vertigem das grandes crises. Talvez fosse também um excesso de confiança na abstenção das armas por parte dos dragões; confiança que o capitão dissipou logo, mandando carregar sobre os Canjicas. O momento foi indescritível. A multidão urrou furiosa; alguns, trepando às janelas das casas ou correndo pela rua fora, conseguiram escapar; mas a maioria ficou bufando de cólera, indignada, animada pela exortação do barbeiro. A der- rota dos Canjicas estava iminente quando um terço dos dragões – qualquer que fosse o motivo, as crônicas não o declaram – passou subitamente para o lado da rebelião. Este inesperado reforço deu alma aos Canjicas, ao mesmo tempo que lançou o desanimo às fileiras da legalidade. Os soldados fiéis não tiveram coragem de atacar os seus próprios camaradas, e um a um foram passando para eles, de modo que, ao cabo de alguns minutos, o aspecto das coisas era totalmente outro. O capitão estava de um lado com alguma gente contra uma massa compacta que o ameaçava de morte. Não teve remédio, declarou-se vencido e entregou a espada ao barbeiro. Fonte: O Alienista, Machado de Assis: 1974, p. 273. Comentário: Argumentação do narrador pela sua própria ótica ou pelo ponto de vista do protagonista Simão Bacamarte, como justificativa para ações narra- das no trecho. Não é bem do meu gosto remexer essas coisas que considero mortas, se bem que nem todas tenham sido convenientemente esclarecidas, e nem tudo signifique uma acusação aos entes que delas participaram. Além do mais, acredito que uma família, como a dos Meneses, que tanto lustre deram à his- tória de nosso município, tenha direito ao silêncio que vem buscando através dos anos, e que não consegue, pela violência dos fatos que viveu – e que no entanto só nos merecem compreensão e esquecimento. Pesa-me a consci- ência, no entanto, ocultar fatos que poderiam elucidar alguns daqueles mis- Características do texto ficcional 201 térios que na época tanto abalaram nosso povoado. Pensando bem, este é o motivo por que me encontro aqui, reajustando sobre o passado essas lentes, que apesar de trêmulas só procuram servir à verdade. Naturalmente não me é fácil desenterrar essas figuras, pois elas se acham visceralmente presas ao que eu próprio fui, às minhas emoções daquele tempo. E apesar disto, o que se passou é tão vivo ainda, que parece recente: os cenários se erguem com facilidade e a casa reponta perfeita do sono que desde então a circunda. Não me lembro mais se foi pela segunda ou terceira vez que um fato in- sólito me chamou à Chácara, e digo insólito porque já fora lá várias vezes, mas era realmente a primeira ou a segunda que ia a chamado daquilo que poderia chamar de ocorrência fora da órbita banal. Fonte: Crônica da Casa Assassinada, Lúcio Cardoso: 1979, p. 143. Comentário: Exposição de argumentos do narrador em primeira pessoa, como preparação para as ações a serem narradas adiante. Num texto ficcional, as passagens onde predomina o tipo descritivo ou o tipo argumentativo-expositivo devem estar a serviço da sua principal finalidade, que é a narratividade. A despeito disso, a criatividade e a arte dos escritores podem lhes permitir qualquer tipo de organização do texto ficcional – inclusive contra- riando a expectativa do leitor de encontrar uma narrativa. Texto complementar Estilo e heterogeneidade (DISCINI, 2003, p. 67-70) É por meio de perguntas e respostas, entre vozes que se cortam e se atravessam, na interseção de linhas quebradas e não retas, que se cons- titui o diálogo no discurso. É um diálogo entre uma enunciação, que re- constrói o mundo, e um mundo que a coage, para que nele se possa inse- rir. Assim se perpetuam, no estilo, convergências e polêmicas, de vozes, de pontos de vista. Assim vai-se sedimentando a direção ideológica de uma totalidade. 202 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística A totalidade de estilo é homogênea e heterogênea. O fato de estilo ga- rante essa homogeneidade, já que pressupõeuma semelhança de procedi- mentos na construção do sentido que, por sua vez, constrói o ator da enun- ciação, efeito de individuação de uma totalidade. É heterogênea, pois supõe uma relação dialógica entre a grandeza inteira e discreta, o unus, com outras unidades integrais, num desdobramento do diálogo do discurso com as for- mações ideológicas de uma cultura. É do diálogo que falamos, ao pensar numa heterogeneidade constitutiva de um estilo, que não se mantém fecha- do em si mesmo, aprisionado nos próprios limites que o definem. Esta defini- ção de limites, que aponta para o eu que fala por meio de uma totalidade, se faz exatamente pela relação com o não limite, com o não eu, com o outro. A homogeneidade do sentido, condição para a unidade do estilo, é, portanto, constitutivamente diversificada, mesmo porque em cada enunciação pres- suposta a cada totalidade já se pressupõem dois sujeitos. Só assim esta ou aquela totalidade pode se constituir como signo, pode significar. O signo, no estilo, longe de se fechar em si mesmo, salta para o exterior de si, onde encontra o outro, constituindo-se assim ideologicamente. Ideologia é signo e a recíproca é verdadeira, também em se tratando de estilo. O fato de estilo, portanto, se permanecesse apenas coincidente com a própria natureza, não significaria, não seria uma realidade sígnica. Ultrapas- sa, pois, a si mesmo, porque reflete e retrata a “realidade”, construindo outra “realidade”, no interior do próprio discurso. [...] Ao considerar o estilo como efeito do discurso, pressupomos o estilo como fato ideológico. A constituição interdiscursiva, unidade constituinte do discurso do estilo, conjunto de micronarrativas resultante de um conglo- merado de núcleos temáticos e de núcleos figurativos, variações temáticas e variações figurativas, constitui, por sua vez, instrumento de uma “refração ideológica verbal”, tomando a expressão de Bakhtin (1988, p. 38). Mas essa configuração interdiscursiva resulta de uma colocação recorren- te em discurso de valores sociais e individuais, em relação de (re)construção mútua. Tais valores se apoiam, por sua vez, em universais, como vida/morte, natureza/cultura, convocáveis e realizáveis de maneira própria, na constru- ção de uma totalidade. [...] Na virtualidade do sentido, a homogeneidade; na atualização e rea- lização, a heterogeneidade. Assim se demarca o estilo, sempre lembrando que homogeneidade e heterogeneidade são interdependentes. Características do texto ficcional 203 Dicas de estudo FIORIN, José Luiz; SAVIOLI, Francisco Platão. “Presença do Narrador no Texto”, lição 12 do livro Lições de Texto: leitura e redação. Os autores analisam trechos de textos literários, abordam a questão do ponto de vista narrativo e a construção implícita ou explícita da imagem do interlocutor. OLIVEIRA, Helênio Fonseca de. “Os Gêneros da Redação Escolar e o compromisso com a variedade padrão da língua”, artigo publicado no livro Língua e Cidadania: novas perspectivas para o ensino. O artigo explica a tipologia textual tradicionalmente exercitada na escola e acrescenta comentários e interpretações sobre outros tipos de texto, com o ob- jetivo de discutir suas relações com as práticas de ensino da variedade padrão. Estudos linguísticos 1. Utilize o texto da canção “Domingo no Parque”, de Gilberto Gil, e faça uma transposição da narrativa para o formato em prosa. 204 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística 2. Leia atentamente o trecho transcrito de O Cortiço, de Aluísio de Azevedo (1981, p. 59-60) e identifique passagens descritivas, narrativas e argumenta- tivo-expositivas. Amanhecera um domingo alegre no cortiço, um bom dia de abril. Muita luz e pouco calor. As tinas estavam abandonadas; os coradouros despidos. Tabuleiros e tabu- leiros de roupa engomada saiam das casinhas, carregados na maior parte pelos filhos das próprias lavadeiras que se mostravam agora quase todas de fato limpo; os casaquinhos brancos avultavam por cima das saias de chita de cor. Desprezavam-se os grandes chapéus de palha e os aventais de ania- gem; agora as portuguesas tinham na cabeça um lenço novo de ramagens vistosas e as brasileiras haviam penteado o cabelo e pregado nos cachos ne- gros um ramalhete de dois vinténs; aquelas trancavam no ombro xales de lã vermelha, e estas de crochê, de um amarelo desbotado. Viam-se homens de corpo nu, jogando a placa, com grande algazarra. Um grupo de italianos, assentado debaixo de uma árvore, conversava ruidosamente, fumando ca- chimbo. Mulheres ensaboavam os filhos pequenos debaixo da bica, muito zangadas, a darem-lhes murros, a praguejar, e as crianças berravam, de olhos fechados, esperneando. A casa da Machona estava num rebuliço, porque a família ia sair a passeio; a velha gritava, gritava Nenen, gritava o Agostinho. De muitas outras saíam cantos ou sons de instrumentos; ouviam-se harmô- nicas e ouviam-se guitarras, cuja discreta melodia era de vez em quando in- terrompida por um ronco forte de trombone. Os papagaios pareciam também mais alegres com o domingo e lançavam das gaiolas frases inteiras, entre gargalhadas e assobios. À porta de diver- sos cômodos, trabalhadores descansavam, de calça limpa e camisa de meia lavada, assentados em cadeira, lendo e soletrando jornais ou livros; um de- clamava em voz alta versos de Os Lusíadas, com um empenho feroz, que o punha rouco. Transparecia neles o prazer da roupa mudada depois de uma semana no corpo. As casinhas fumegavam um cheiro bom de refogados de carne fresca fervendo ao fogo. Do sobrado do Miranda só as duas últimas janelas já estavam abertas e, pela escada que descia para o quintal, passava uma criada carregando baldes de águas servidas. Sentia-se naquela quieta- ção de dia inútil a falta do resfolegar aflito das máquinas da vizinhança, com que todos estavam habituados. Para além do solitário capinzal do fundo a pedreira parecia dormir em paz o seu sono de pedra; mas, em compensação, o movimento era agora extraordinário à frente da estalagem e à entrada da Características do texto ficcional 205 venda. Muitas lavadeiras tinham ido para o portão, olhar quem passava; ao lado delas o Albino, vestido de branco, com o seu lenço engomado ao pes- coço, entretinha-se a chupar balas de açúcar, que comprara ali mesmo ao tabuleiro de um baleiro freguês do cortiço. 3. A narradora de Verão no Aquário, de Lygia Fagundes Telles (1993, p. 26) é a protagonista do romance. O trecho transcrito contém uma descrição estáti- ca ou dinâmica? Explique. Revolvi papéis e livros de minha mesa. Abri gavetas. Por onde andariam meus retratos? Era preciso mostrá-los a André, ele precisava me ver menina, nem o inimigo resiste ao retrato da infância. Ele tinha que me conhecer com aquela perplexidade, com aquela inconsciência diante do futuro escondido dentro da máquina fotográfica. Vi um retrato assim do meu pai: um menino débil e louro na sua roupa de marinheiro, a mão direita pousada na mesinha com uma toalha de franja e um vaso de flores em cima, a mão esquerda na cintura, os olhos graciosamente imobilizados pelo fotógrafo, “vamos olhe nesta direção!...” O olhar ainda limpo do rancor pela bem-amada que havia de traí-lo um dia, pela mãe falhando no momento em que não podia falhar, pelo amigo que não era amigo, por Deus que não apareceria para salvá-lo quando ele próprio se erguesse para ferir o próximo assim como foi ferido também. Os ídolos ainda estão inteiros. O menino então sorri e nem o inimi- go mais feroz resistirá a esse sorriso de quem se oferece tão sem defesa. Este capítulo tem por objetivo apresentar os conceitos de digressão e intertextualidade e aplicar os conhecimentos de Semântica (a ciência da significação) e Estilística (a ciência da expressividade) ao estudo do texto ficcional. Digressão Suponha que, antes de explicarmos o que é digressão, em vez de entrar no assunto para dizer o que significa essa palavra e dar exemplos de sua ocorrência, começássemos a dissertarsobre a importância da objetividade na vida humana. Ou então que resolvêssemos falar da literatura brasileira ou da redação de textos argumentativos. Poderíamos disfarçar um pouco melhor, talvez: desandaríamos a comentar como a Semântica e a Estilística prestam relevante contribuição para os estudos de língua portuguesa. Pronto! Tudo o que se dissesse durante o tal percurso de rodeios e sub- terfúgios até se entrar propriamente na explicação do que é e para que serve a digressão teria sido um excelente exemplo de digressão. Digressão = Desvio do assunto ou “desconversação” As estratégias de produção de um texto, em especial o narrativo, podem justificar o emprego de digressões, e há autores consagrados que dela fizeram uso com perícia, como Machado de Assis e Eça de Queiroz, para dar apenas dois exemplos. A interrupção da narrativa pode se prestar para introduzir reflexões, especulações, comentários do narrador ou do próprio personagem, mas pode também ser apenas uma forma de corte na história que está sendo contada – até para inserir outra história na principal. Vejamos um exemplo de digressão em que o narrador faz o seu próprio elogio, fala da marcha da civilização e de D. Quixote, entre outros temas: Estudo semântico-estilístico de texto ficcional 208 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística Essas minhas interessantes viagens hão de ser uma obra prima, erudita, brilhante, de pensamentos novos, uma coisa digna do século. Preciso de o dizer ao leitor, para que ele esteja prevenido; não cuide que são quaisquer dessas rabiscaduras da moda que, com o título de Impressões de Viagem, ou outro que tal, fatigam as imprensas da Europa sem nenhum proveito da ciência e do adiantamento da espécie. Primeiro que tudo, a minha obra é um símbolo... é um mito, palavra grega, e de moda germânica, que se mete hoje em tudo e com que se explica tudo... quanto se não sabe explicar. É um mito porque – porque... Já agora rasgo o véu, e declaro abertamen- te ao benévolo leitor a profunda ideia que está oculta debaixo desta ligeira aparência de uma viagenzinha que parece feita a brincar, e no fim de contas é uma coisa séria, grave, pensada como um livro novo da feira de Leipzig, não das tais brochurinhas dos boulevards de Paris. Houve aqui há anos um profundo e cavo filósofo de além Reno, que es- creveu uma obra sobre a marcha da civilização, do intelecto – o que diría- mos, para nos entenderem todos melhor, o Progresso. Descobriu ele que há dois princípios no mundo: o espiritualista, que marcha sem atender à parte material e terrena desta vida, com os olhos fitos em suas grandes e abstratas teorias, hirto, seco, duro, inflexível, e que pode bem personalizar-se, simbo- lizar-se pelo famoso mito do cavaleiro da mancha, D. Quixote – o materialis- ta, que, sem fazer caso nem cabedal dessas teorias, em que não crê, e cujas impossíveis aplicações declara todas utopias, pode bem representar-se pela rotunda e anafada presença do nosso amigo velho, Sancho Pança. Mas, como na história do malicioso Cervantes, estes dois princípios tão avessos, tão desencontrados, andam contudo juntos sempre, ora um mais atrás, ora outro mais adiante, empecendo-se muitas vezes, coadjuvando-se poucas, mas progredindo sempre. E aqui está o que é possível ao progresso humano. E eis aqui a crônica do passado, a história do presente, o programa do futuro. Hoje o mundo é uma vasta Barataria, em que domina el-rei Sancho. Depois há de vir D. Quixote. O senso comum virá para o milênio, reinado dos filhos de Deus! Está pro- metido nas divinas promessas – como el-rei de Prússia prometeu uma cons- Estudo semântico-estilístico de texto ficcional 209 Comentário: O trecho é o que inicia o segundo capítulo do romance. A nar- rativa propriamente dita só se inicia no último trecho que se transcreveu, após onze parágrafos de digressão. A digressão entra como uma estratégia de variados matizes: uma sutil provo- cação com o leitor, uma revelação de pensamentos, divagações. Mas pode ser uma ruptura mais radical, como a que vemos no desdobramento do exemplo seguinte: Isabel tinha bastante senso de humor para (mais uma vez) sorrir da frase. Mas, como sabia que não há nada mais sério que uma graça, levou a sério a graça e a frase, e retomou sua posição contrária à contratação de uma babá para Einstein. Era o que tínhamos a dizer neste final de capítulo, deixando a frase com o leitor para traduzi-la. Se o leitor vai ou não achar graça nela, o problema é unicamente dele. Não é de Isabel, nem é do autor. Fonte: Einstein, o Minigênio, Herberto Sales: 1983, p. 109-113. Comentário: A frase que o leitor poderá traduzir encerra o antepenúltimo pa- rágrafo do capítulo: “Ne croyez pas trop à ce que l’homme dit, sourtout quand il le dit dans les réclames.1” O último parágrafo é o que contém a digressão-interlo- cutória, citando o leitor como terceira pessoa do discurso, mas fazendo-lhe uma provocação. Não bastasse isso, o romance prossegue com duas páginas de inter- valos comerciais, uma na página 111 (ver imagem) e outra na página 113, com uma lista das obras de Herberto Sales e o aviso: “Estes livros não são encontrados 1 Tradução livre: Não acredite muito no que o homem diz, sobretudo se ele diz durante os comerciais. tituição; e não faltou ainda, porque, porque o contrato não tem dia; prome- teu, mas não disse quando. Ora nesta minha viagem Tejo arriba está simbolizada a marcha do nosso progresso social: espero que o leitor entendesse agora. Tomarei cuidado de lho lembrar de vez em quando, porque receio muito que se esqueça. Somos chegados ao triste desembarcadouro de Vila Nova da Rainha, que é o mais feio pedaço de terra aluvial em que ainda pousei os meus pés. O sol arde como ainda não ardeu este ano. Fonte: Viagens na Minha Terra, Almeida Garrett: 1997, p. 42-44. 210 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística nas livrarias dos aeroportos brasileiros”. Feito o intervalo comercial, a narrativa retorna, na página 115, como se nada tivesse acontecido. Intervalo comercial como digressão. D ig ita l J ui ce . Por amor da coerência, sugere-se ao leitor que, depois de ler o texto-aviso acima, se esforce no sentido de mentalmente reproduzir aquele inde- fectível sorriso com que em circunstâncias seme- lhantes os locutores de televisão brindam a curio- sidade malograda dos telespectadores. Às vezes as digressões desempenham uma função metaficcional, ou seja, referem-se ao próprio ato de narrar, sendo enfim uma metalinguagem da narra- tiva, como os dois exemplos anteriores fazem, cada qual a seu modo. Porém, as digressões também podem ser interrupções hipertextuais, à semelhança do que acontece durante uma consulta a um endereço virtual, onde a leitura de uma página pode remeter a outra e a outra, sucessivamente. A diferença é que, na internet, a página inicial de consulta pode ser esquecida, mas no texto de ficção a história precisa ser retomada em algum momento – espera-se. Estudo semântico-estilístico de texto ficcional 211 No próximo exemplo, temos uma passagem que mostra uma digressão fun- cionando como hipertexto. Capítulo CXVII A história do casamento de Maria Benedita é curta; e, posto Sofia a ache vulgar, vale a pena dizê-la. Fique desde já admitido que, se não fosse a epide- mia das Alagoas, talvez não chegasse a haver casamento; donde se conclui que as catástrofes são úteis, e até necessárias. Sobejam exemplos; mas basta um contozinho que ouvi em criança, e que aqui lhes dou em duas linhas. Era uma vez uma choupana que ardia na estrada; a dona – um triste molambo de mulher – chorava o seu desastre, a poucos passos, sentada no chão. Senão quando, indo a passar um homem ébrio, viu o incêndio, viu a mulher, pergun- tou-lhe se a casa era dela. – É minha, sim, meu senhor; é tudo o que eu possuía neste mundo. – Dá-me então licença que acenda ali o meu charuto? O padre que me contou isto certamente emendou o texto original; não é preciso estar embriagadopara acender um charuto nas misérias alheias. Bom padre Chagas! – Chamava-se Chagas. – Padre mais que bom, que assim me in- cutiste por muitos anos essa ideia consoladora, de que ninguém, em seu juízo, faz render o mal dos outros; não contando o respeito que aquele bêbado tinha ao princípio da propriedade – a ponto de não acender o charuto sem pedir licença à dona das ruínas. Tudo ideias consoladoras. Bom padre Chagas! Fonte: Quincas Borba, Machado de Assis: 1974, p. 743-744. Comentário: O trecho reproduz na íntegra o capítulo, que começa falando da história do casamento de uma personagem secundária do romance. Porém, sob o pretexto da lembrança de uma epidemia das Alagoas, o narrador pede licença para nos dar “um contozinho” que ouviu em criança. A narrativa estaca, e ficamos sabendo do caso do respeito que o bêbado “tinha ao princípio da propriedade”, uma micronarrativa dentro da macronarrativa. Qualquer que seja o formato da digressão, sempre será desejável manter a participação do leitor, nem que seja pela sua perplexidade, como a que temos na ruptura da seguinte digressão: 212 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística CAPÍTULO CXXXIX De como não fui ministro d’Estado ............................................................................................................................................ ............................................................................................................................................. ............................................................................................................................................ ............................................................................................................................................. ............................................................................................................................................ Fonte: Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis: 1974, p. 627. Comentário: O capítulo tem apenas o título. A ele se segue uma digressão de cinco linhas pontilhadas. No capítulo seguinte, uma digressão-justificativa explica que “há coisas que melhor se dizem calando; tal é a matéria do capítulo anterior”. Informado sobre esta e outras técnicas adotadas na narrativa, o leitor deixará de lado a expectativa ingênua de que uma história só pode ser contada em es- truturas convencionais e horizontais. O que importa é fazer da leitura um diálo- go permanente entre o leitor e o texto. Intertextualidade Todo texto se constrói como mosaico de citações. Todo texto é absorção e transformação de um outro texto. Com essas palavras e apropriando-se das ideias da Bakhtin, Julia Kristeva (1974, p. 64) introduziu e definiu a intertextuali- dade, palavra fundamental no campo da Linguística Textual e que nos interessa em especial no estudo do texto ficcional. Esse “mosaico de citações” é, na verdade, um passaporte para se fazer qualquer tipo de referência (pequena, mediana ou enorme), implícita ou explícita, na forma ou no conteúdo, a outros textos. E o que se deve entender por texto, nesse caso, é algo bem amplo – eu diria que nem há um limite para o seu entendimento. Cada enunciado é pleno de ecos e ressonâncias de outros enunciados com os quais está ligado pela identidade da esfera de comunicação discur- siva. Cada enunciado deve ser visto antes de tudo como uma resposta aos enunciados precedentes de um determinado campo: ela os rejeita, confirma, Estudo semântico-estilístico de texto ficcional 213 Há muitos hipônimos para a palavra intertextualidade: polifonia, dialogismo, heterogeneidade, citação, paródia, paráfrase, estilização, apropriação, plágio, pastiche. Cada um desses nomes (e outros mais que se queira acrescentar) se enquadra num viés próprio. E, se quisermos olhar de novo para os degraus dessa escada Semântica, ainda podemos falar da interdiscursividade, que não implica a intertextualidade mas é implicada por esta. Pergunto: todo discurso não é um texto? Todo texto não é um discurso? Interdiscursividade = “diálogo” entre discursos Nas discussões de Análise do Discurso certamente não haverá unanimidade quanto a uma dupla resposta afirmativa. Mas, se o texto for considerado como algo que está acima da sua materialidade linguística, então ele será também um discurso... Talvez aí haja consenso quanto a um duplo sim e, depois disso, quem sabe não aparece alguém para dizer que interdiscursividade, intertextualidade, polifonia e dialogismo são, no fundo, no fundo, a mesma coisa… Polifonia = presença simultânea de várias “vozes” no enunciado Não está nos objetivos deste capítulo enveredar por essa polêmica. Basta-nos chamar a atenção para o fato, a fim de que sempre se procure saber qual o ponto de vista do estudioso que se está consultando. A rigor, a intertextualidade no texto ficcional em nada difere da que se pode praticar no momento mais trivial de nosso cotidiano. Pensemos, por exemplo, na figura de um vizinho sempre bem-humorado que todo dia de manhã, ao sair para o trabalho, tem o hábito de cumprimentar a quem ele encontra na gara- gem de seu prédio usando um repertório intertextual bem variado: “Que a Força esteja com você, vizinho!” ou “Ave, César!” ou “Deus ajuda a quem cedo madruga, vizinho!” ou “Alô, alô, marciano!” – cada citação-saudação devidamente selecio- nada conforme seu grau de intimidade com o condômino interlocutor. completa, baseia-se neles, subentende-os como conhecidos, de certo modo os leva em conta. (BAKHTIN, 2003, p. 297) Intertextualidade = “diálogo” entre textos 214 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística IE SD E Br as il S. A . Ave, César! IE SD E Br as il S. A . Que a força esteja com você, vizinho! “Quem não pratica a intertextualidade que atire a primeira pedra!” Na literatura, além das incontáveis possibilidades de ocorrências intertex- tuais, também pode existir o diálogo de uma obra literária com outra. Quando esse diálogo se constrói entre obras de escritores diferentes, configura-se um caso de intertextualidade externa. Se, diferentemente, o escritor dialoga com sua própria obra, estamos diante do que chamamos de intertextualidade inter- na ou intratextualidade. Estudo semântico-estilístico de texto ficcional 215 Vejamos nos trechos abaixo alguns exemplos: Este Quincas Borba, se acaso me fizeste o favor de ler as Memórias Póstu- mas de Brás Cubas, é aquele mesmo náufrago da existência que ali aparece, mendigo, herdeiro inopinado, e inventor de uma filosofia. Fonte: Quincas Borba, Machado de Assis: 1974, p. 644. Comentário: Intertextualidade interna, referência explícita do narrador a um personagem e a um livro do próprio Machado. O leitor deve estar lembrado de crise semelhante, que o assaltou, anos antes, quando era pouco mais que um adolescente, também numa igreja, ou, mais precisamente, na capela do seminário em Mariana. Mas daquela feita o choro era fruto de suas meditações, ao passo que agora decorria de constatação nascida da mesma dúvida que o levara, em menino, a interpelar o padre Limeiro em Rio Acima: meditar em quê? Fonte: O Grande Mentecapto, Fernando Sabino: 1979, p. 149. Comentário: Intertextualidade interna, referência explícita do narrador a uma passagem anterior do próprio livro. Por isso mesmo não era da conta de ninguém. Muito menos daquele Co- missário safado. Se não tivera sequer a felicidade original de conhecer pai, nem tão pouco de nascer rica, a culpa não era sua. Quem teria a faculdade de escolher pai e o lugar de nascer! Lição até mesmo dada por Cristo, o maior Homem do mundo. Ele, que foi um Deus na terra, o mais sábio dos sábios, nasceu de pais pobres e numa estrebaria. Fonte: Palha de Arroz, Fontes Ibiapina: 2002, p. 23. Comentário: Intertextualidade externa, referência explícita do narrador à vida de Cristo. Pode também a intertextualidade ser explícita, confessada pelo escritor como vimos acima, ou ser implícita, o que significa quedependerá unicamente do leitor o reconhecimento do “diálogo”. Caso ele não reconheça/recupere a in- tertextualidade praticada pelo escritor, a compreensão do trecho se fará apenas 216 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística na esfera daquela narrativa, não tendo como estabelecer o diálogo pretendido pelo escritor. É o que temos no exemplo abaixo: A casa que o Viajante escolhera para habitar em sua estada no Rio de Ja- neiro, durante o ano de 1993, era conhecida na vizinhança da rua Duquesa de Bragança, e em todo o bairro do Grajaú, como casa da Maria Joana. Fonte: Nictóbata Infesto, Claudio C. Henriques: 1999, p. 23. Comentário: Intertextualidade externa, referência implícita do narrador ao parágrafo inicial de Os Maias, de Eça de Queirós (1997, p. 1041), onde se lê: A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no outono de 1875, era conhecida na vizinhança da rua de S. Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janelas Verdes, pela casa do Ramalhete, ou simplesmente o Ramalhete. Cérebro, coração e pavio Um mês após, um homem trajando violentas polainas demi-saison subia calmamente a Avenue des Champs Elyseés em Paris. Os leitores já terão adivinhado que era Serafim Ponte Grande. Fonte: Serafim Ponte Grande, Oswald de Andrade: 1980, p. 65. Comentário: Intertextualidade externa no título do capítulo, que faz referência im- plícita ao título do romance de Camilo Castelo Branco Coração, Cabeça e Estômago. Uma outra classificação diz respeito mais ao conteúdo e à forma sob a qual ocorre a intertextualidade. Entre elas, enumeram-se as seguintes: intertextualidade de conteúdo (por exemplo, textos literários que se refe- � rem a personagens, temas ou assuntos contidos em outros textos.); intertextualidade formal (por exemplo, a “imitação” da tipologia textual: � uma cantiga de amigo escrita hoje, um conto escrito em linguagem bíbli- ca, jurídica ou de funk; outro exemplo: a “imitação” do estilo de um autor ou de uma obra); intertextualidade corrente (consiste no uso de frases ou expressões consa- � gradas pela tradição cultural de uma comunidade, como provérbios, ditos populares, citações desgastadas, clichês, etc.) Estudo semântico-estilístico de texto ficcional 217 Capitu sou eu (TREVISAN, 2003) IE SD E Br as il S. A . A professora de Letras irrita-se cada vez que, início da aula, ouve no pátio os estampidos da maldita moto. Aos saltos de três ou quatro degraus, lá vem ele na corrida, atrasado sempre. Esbaforido, se deixa cair na carteira, provocante de pernas abertas. Mal se desculpa ou nem isso. Ela reconhece o tipo: contestador, rebelde sem causa, beligerante. O selvagem da moto é, na verdade, um tímido em pânico, denunciado no rubor da face, que a barba não esconde. E, aos olhos dela, o torna assim atraente, um cacho do negro cabelo na testa. Na prova do curso, o único que sustenta a infidelidade de Capitu. Confuso, na falta de argumentos, supre-os com a veemência e gesticulação arrebata- da: infiel, a nossa heroína, pela perfídia fatal que mora em todo coração femi- nino. Insiste na coincidência dos nomes: Ca-ro-li-na, da mulher do autor (com os amores duvidosos na cidade do Porto), e o da personagem Ca-pi-to-li-na... Estilística aplicada ao texto ficcional 218 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística A traição da pobre criatura, para ele, é questão pessoal, não debate literá- rio ou análise psicológica. Capitu? Simples mulherinha à toa. “Mulherinha, já pensou?”, ela se repete, indignada. “Meu Deus, este, sim, é o machista supre- mo. Um monstro moral à solta na minha classe!” E por fim: “Ai da moça que se envolver com tal bruto sem coração...” Na prova escrita os erros graves de sintaxe e mera ortografia já não são disfarçados pelo orador com pedrinhas na boca. E por que, ao sublinhá-los na caneta vermelha, tanto a perturbam as garatujas canhestras? Nas aulas, por sua vez, ela que o confunde: sadista e piedosa, arrogante e singela. Sentada no canto da mesa, cruza as longas pernas, um lampejo da coxa imaculada. E, no tornozelo esquerdo, a correntinha trêmula – o signo do poder da domadora que, sem chicotinho ou pistola, de cada aluno faz uma fera domesticada. Elegante, blusa com decote generoso, os seios redondos em flor – ou duas taças plenas de vinho branco? Finda a aula, deparam-se os dois no pátio, já desaba com fúria o temporal. Condoída, oferece-lhe carona de carro, não moram no mesmo bairro? No veículo fechado, o seu toque casual a estremece, perna cabeluda à mostra com o bermudão e botinas de couro. A cabeleira revolta não esconde, agora de perto, o princípio de calvície. Ao clarão do poste, as gotas de chuva lá fora desenham no rosto da pro- fessora fios tremidos de sombra. Com susto, o moço descobre que, sim, é bela: as bochechas rosadas pedem mordidas, sob a coroa solar dos grandes cachos loiros. Sem aviso, inclina-se e beija-a docemente. Para sua surpresa, em vez de se defender, a feroz inimiga lhe oferece a boquinha pintada, com a língua insinuante. Dia seguinte ela telefona, propõe irem ao teatro, já tem os convites. Essa, a norma no futuro: tudo ela paga – o ingresso, o sorvete na lanchonete, a conta do restaurante. Na volta, ela comenta o espetáculo. Ele ouve apenas. Silêncio inteligente? Ou não tem mesmo o que dizer? No carro, mais beijo, mais amasso. “Louca! Louca! O que está fazendo? Nada de se envolver. Logo esse, um babuíno iletrado, que coça o joelho e odeia Capitu? E o teu filho, mulher? Não pensa que...?” É tarde: língua contra língua, apenas uma boca faminta que pede mais e mais. Estudo semântico-estilístico de texto ficcional 219 Dias depois, convida-o para jantar. Música em surdina, luz de vela, vinho branco. Um filme clássico no vídeo, nenhum dos dois chega a ver. É a confu- são da primeira vez: – Como é que desabotoa? Não consigo... – Cuidado, bem. Assim você rasga! Só o bruxuleio da tela. Tudo acontece no falso tapete persa da sala, onde ele derruba o seu copo de vinho: ó dunas calipígias movediças! E sai de joelho todo esfolado. Flutua dois palmos acima do chão: “Como é gostosa, a minha professorinha!” À sua mercê, na pose lânguida de pomba branca arrulhante. O queixo apoiado na mãozinha esquerda (com tais dedos fofinhos, tal Mariazinha estaria perdida na gaiola da bruxa). O sestro de apertar o olhinho glauco que a faz tão sensual – e era apenas, ele soube depois, o da míope sem a lente de contato. Uma semana mais tarde, de volta do cinema, ele entra para um cálice de vinho do Porto. Daí se queixa do joelho esfolado. Ela o recolhe no quarto, a ampla cama redonda. Ao clarão da lua na janela. Sempre a luz apagada, uma cicatriz de cesaria- na? Arrepiado, ele evita acariciar-lhe o ventre. Mais excitante: – Eu não sei fazer direito. Com ele... nunca fiz. Casada sete anos com um dentista. Divorciada há dois. Um filho de cinco. – Com o tal nunca senti prazer. Me ensine. O que ela não conta: dez anos mais velha. – Eu quero aprender. Só para te agradar. – ... – Com você é por amor. [...] A suposta aprendiz, na verdade, mestra com louvor em toques e blandícias. 220 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística [...] – Aqui, beba o teu vinho. Quer viciá-lo, ela, a droga fatal? – E mate a tua sede! Se domina com fluência quatro ou cinco línguas, mais graduada é a lin- guinha poliglota em ciências e artes. [...] Ó grande gata angorá – luxo, preguiça e volúpia –, os olhos azuis corus- cantes no escuro. – Fale, você. Ei, por que não fala? Ele, durão. Nem um pio. Aturdido com tamanho delírio verbal. De repente, batidas na porta. Fracas, mas insistentes. – Pô, quem será? O moço, um coração latindo no joelho trêmulo. Decerto o maldito ex- -marido (Não é minha? É de mais ninguém!). – Orra, o que eu... agora... Nu, só de meia branca. “E agora, cara? Se esgueirar para debaixo da cama? Pular a janela? Sair voando pelo telhado?” Um fio de voz: – Mãe, por favor. Ela já enfia o roupão. – Mãezinha, estou com medo! De chinelinho, a mão na suaboca: – Não se mexa. Quietinho. Já volto. Fecha a porta. As vozes se afastam. Ele acende o abajur: mania dela, só no escuro. Algum defeito, além da famosa cicatriz? Vergonha do grosso tornozelo? Todo vestido, espera sentado no sofá. “Nu, já não me pegam. Nunca mais.” Estudo semântico-estilístico de texto ficcional 221 De volta, ela explica que, isso mesmo, o menino se assustou. Medroso, quer dormir na cama da mãe. Sossega-o, mas não deixa: nada de fixação edipiana. Sempre as malditas fórmulas do velho charlatão, diz ele. Ou pensa, mas não diz. Dois beijos, ele se despede. E sai de mansinho. Dias depois, ela o convida, ele dá uma desculpa. Outro convite, outra des- culpa. Na terceira vez, o encontro no teatro. Logo no início da peça, ela não se contém. Voz alta e estridente, chaman- do a atenção dos espectadores, exige uma explicação. Cansada de amores furtivos. Não é mulherinha qualquer. O moço que se decida: assume o compromisso? Em pânico, ele encolhe-se na cadeira. – Eu passo a tomar pílula? Olha fixo para o palco – depois dessa, Beckett nunca mais. – Ou é o fim? Ah, bandido querido, ela começa a chorar por dentro. Mil palavras nada podem contra o brado retumbante do seu silêncio. Não encobre, certo, ver- dades profundas e caladas. É apenas uma linda cabecinha vazia de ideias – e sentimentos. Desesperada, agarra-lhe a mão. Geme, baixinho: – Me perdoa... Me perdoa... Não ele. E aproveita a deixa: – Você tem razão. É o fim. Só falar em enigma de Capitu, ele já passa a mão no revólver. – Sou muito moço para... Sem perdão ela foi condenada, sequer o benefício da dúvida. – Isso aí. Já falou. É o fim. Dia e noite, ela telefona. E pede, roga, suplica, por favor. Que volte, por Jesus Maria José. Ele acaba cedendo. E já os mesmos não são: o doce leite que, só para ele, secretava [...] azedou. 222 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística O mau aluno revela o pior: bebe o seu uísque, o seu vinho, o seu licor. Perde o acanho, prepotente e abusivo. Só deixar um tímido à vontade nos jogos do amor – e sua audácia não tem limite. Quer tudo, e já. Se, dengosa, ela nega para, entre agradinhos e ternurinhas, logo ceder – não com ele. Se- gunda vez não pede, o bruto simplesmente toma à força. Ali na cama do casal, sob o crucifixo bento e a santa de sua devoção, ela se descobre uma bem-dotada contorcionista. É ela? é a sua gata angorá? pos- sessa e possuída, aos uivos, em batalhas sangrentas pelos telhados na noite quente de verão? Pela manhã, depois que ele se vai, chora de vergonha. “Como eu fui capaz... Não só concordei. Quem acabou tomando a iniciativa? Só eu. Euzinha. Não jurei que nunca, nunca eu faria... Meu Deus, como beijar agora o meu filho? Ó Jesus, sou mulherinha à toa? Eu, culpada. Eu... Capitu?” Muito desconfia que, apesar da fanfarronice, ele o mais inexperiente. Dis- farça o enleio com a feroz truculência. Chegará logo logo ao tabefe de mão aberta (que não deixa marca) e às palmadas sonoras [...]. Não é o que merece uma cadelinha feminista, advogada graciosa da filha do Pádua? Deixa-o de carro diante do barzinho, para encontrar os amigos. Amigos? As coleguinhas lindas e frescas, além de desfrutáveis. Boa safra, essa, para um jovem garanhão! Ao sentir que o perde, tudo o que ela faz para retê-lo mais o afasta. Ah, quão pouco lhe serve agora a prosápia dos barões legendários: com a paixão e o desespero, vem o ciúme furioso. Não esquece que ele pode ter quantas queira – dez anos mais novas que... a tia? E que, elas mesmas, se oferecem agressivas. Sem promessa de constância ou fidelidade. A tia bem o sufoca, executora de promissórias vencidas e extintas. Tão diferente da outra (vestida só de cabeleira dourada – adeus, nunca mais, ó dunas calipígias movediças!). Agora exige votos de eterno amor antes, du- rante e depois do amor efêmero. Até que uma noite ele cavalga a moto, selvagens a máquina e o piloto, impávido na jaqueta negra de couro – surdo aos gritos que o estampido do motor abafa –, fruindo a liberdade da cabeleira ao vento (merda para o capa- cete!) e antegozando a próxima conquista. – Adeus, gorda grotesca de coxa grossa! Estudo semântico-estilístico de texto ficcional 223 Ela, arrependida e já resignada com o seu próximo calvário: a persegui- ção humilhante pelos bares, onde ele exibe o troféu de guerra da correnti- nha do tornozelo (essa tia louca lá fora, sabe quem é?), a longa vigília diante da sua casa (mora com a mãe viúva), as preces não atendidas, as cartas patéticas, ainda que sem erros de sintaxe ou ortografia – merda para a cor- reção gramatical! Um babuíno tatibitate, ah, é, que coça o joelho? Quem dera, ainda uma vez, beijar esse joelho esfolado e, rastejando aos uivos, lamber as suas feri- das... Ai dela, mesma situação da outra, enjeitada lá na Suíça pelo bem-ama- do, desgracido machista. E, apesar da péssima prova, graduado por média, com distinção em Literatura. Essa mesma que, ciosa de sua dignidade, rejeitara uma carona de moto, ao ver que ele se vai, dela esquecido, quer segurá-lo – tarde demais. Na fantasia doida, alcança-o e salta-lhe na garupa, agarrada firme à cintura. Lá seguem os dois, abraçados, à caça de aventuras. Depois que ele recolhe a moto na garagem e dorme serenamente na cama, ela continua na dura garupa. Condenada a vigiá-lo, a guardá-lo, sempre a esperá-lo. Caminha descalça pelo inferno de brasas vivas. Uma série vergonho- sa de casos: fotógrafo homo, pintor futurista, professor impotente, sei lá, poeta bêbado. E, última tentativa de reconquistar o seu amor, acaba de publicar na Revis- ta de Letras um artigo em que sustenta a traição de Capitu. A sonsa, a oblíqua, a perdida Capitu. Essa mulherinha à toa. Uma análise dos recursos estilísticos empregados em um texto inclui a obser- vação das figuras de linguagem mais representativas, da temática e dos recursos de estruturação, com o objetivo de mostrar a expressividade do texto. A isso se associa o estudo dos elementos semânticos, verificando o escopo da significa- ção tanto no âmbito lexical quanto discursivo. O conto “Capitu Sou Eu”, de Dalton Trevisan, é o primeiro dos vinte e um contos lançados em 2003 no livro homônimo. Intertextual no título, utiliza o nome da mais famosa personagem de Machado de Assis para narrar uma história de amor e sexo entre a professora de Letras e seu aluno motoqueiro. 224 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística Os dois personagens nos são apresentados em plena prova de Literatura, na qual ele é o único aluno a sustentar “a infidelidade de Capitu”. A prova deve ser oral, pois o examinado não tem argumentos e “supre-os com a veemência e gesticula- ção arrebatada”. Na sua opinião, a heroína de Machado é infiel porque, como toda mulher, tem uma perfídia fatal que mora em seu coração. Além disso, há um argu- mento fônico que a incrimina e, mais, leva a suspeição de infidelidade ao próprio lar do escritor: Ca-pi-tu-li-na e Ca-ro-li-na não são apenas uma rima, mas uma dupla de mulheres infiéis, pois a mulher do autor teria tido seus “amores duvidosos na cidade do Porto”, antes de mudar-se para o Brasil. A professora não aceita o epíteto “mulherinha à toa” atribuído a Capitu e, por considerar seu aluno “um bruto sem coração”, ainda lamenta a sorte da moça que com ele se envolver. Não bastasse a inexistência de debate literário ou de análise psicológica durante o exame oral, há ainda as informações que o narrador nos transmite sobre o pífio desempenho do rapaz na prova escrita. Dessa feita, “erros graves de sintaxe e mera ortografia” caem sobre os seus ombros. É nesse momento da narrativa que o narrador começa a revelar os pensamentos dos personagens. Oscilando no uso do discurso interior e do discurso indireto livre, o narrador parece passar a voz primeiro para o rapaz e depois, prioritariamente, para ela. Continua, porém, usando a terceira pessoa, como no trecho em que, ao final da aula, quando desaba com fúria um temporal, “condoída, oferece-lhe carona, nãomoram no mesmo bairro?”. O narrador prossegue na técnica do discurso indireto e do discurso interior para mostrar como se prepara o esperado envolvimento emocional/sexual/sen- timental (não se sabe ainda direito) dos dois personagens. Mas o beijo trocado no carro logo revela que o envolvimento de ambos será o mote da narrativa do- ravante. O rapaz é “um babuíno iletrado, que coça o joelho e odeia Capitu”, pensa a professora que lembra ter um filho. Após mais algumas descrições de outros encontros, o narrador passa a pala- vra aos personagens. Estrategicamente, os diálogos em discurso direto passam a predominar, o teor das falas parece mais propício e explícito para mostrar o calor dos amantes. Na intertextualidade implícita dessas passagens, o leitor pode começar a juntar as pistas do escritor: o enigma aparente do título do conto parece desfei- to, as falas da mulher-amante contrastam com as da mulher-professora. Mas a relação se desgasta. O jovem parece enjoar-se da mulher mais velha, que sofre Estudo semântico-estilístico de texto ficcional 225 e se desespera. Não há como escapar de sua sina. O recurso do discurso interior, usado em boa parte da narrativa para mostrar os pensamentos da mulher, fica balanceado. Agora “a tia bem o sufoca” e exige “votos de eterno amor antes, du- rante e depois do amor efêmero”, paradoxo que serve como senha para a frase hiperbólica “Adeus, gorda grotesca da coxa grossa!” O narrador retoma a palavra e não emprega mais o discurso direto com tra- vessões. Revela-nos que ela está arrependida, embora seja um arrependimen- to inútil, pois não muda sua atitude “neocapitu” de mulherinha à toa tentando reconquistar o amante: faz vista grossa para sua péssima prova, gradua-o “por média, com distinção em Literatura” e publica na Revista de Letras “um artigo em que sustenta a traição de Capitu”. Na frase final do conto, vemos a apropriação dos adjetivos “sonsa, oblíqua e perdida” para atribuí-los a Capitu, “essa mulherinha à toa” – a personagem consagrada ou a professora do conto? Eis um novo enigma para a próxima aula de Literatura. Texto complementar A importância de um bom final (GIOSTRI, 2006, p. 79-80) Se há um ponto de partida, há um de chegada. O final é o desfecho da ação; é nele que se revelam todos os conflitos que foram apresentados e esticados durante a trama. O final de uma trama é fundamental para seu entendimento e para o pró- prio convencimento. Nele, o autor deve amarrar todas as ferramentas que apre- sentou ao longo do desenvolvimento. Para isso é primordial que tenha traçado uma narrativa funcional com personagens e diálogos bem desenvolvidos, além das passagens de tempo, que são as que dialogam com o ritmo do todo. Ora, na trama o autor apresenta o início dos fatos, as personagens, es- tabelece os núcleos em que se dará a ação de cada um, apresenta os con- flitos internos e externos, liga-os de modo que os fios de condução fiquem evidentes à plateia, apresenta indiretamente aonde quer chegar e impõe os 226 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística obstáculos que impedirão e contribuirão para o desenvolvimento. Amarra tudo, leva a trama ao ápice e inicia o fim da trajetória, que é a solução de tudo que foi apresentado. E nisso se inclui a solução de todos os núcleos, todas as personagens, da trama em si. Apresentada a reta final, o autor vai pincelando os conflitos, condenando quem deve ser condenado, absolvendo quem merece seu perdão e pondo as pedras sobre os conflitos solucionados. Resolvido tudo que foi apresentado e desenvolvido, verificada a questão da verossimilhança interna e externa da estrutura, o autor finaliza sua obra. [...] O final não é o simples desfecho; a solução barata. O autor deve pensar um final elaborado, de preferência que surpreenda os espectadores/leitores e que, de um modo ou de outro, já esteja no inconsciente coletivo. A questão do inconsciente coletivo não é complicada. Uma vez que o autor elabora o que quer contar e aonde quer chegar para preparar as ferra- mentas que conduzirão os espectadores/leitores a absorver possíveis con- clusões subjetivas sobre a trama apresentada, para, a partir delas, no plano do inconsciente, abrir portas subjetivas que possibilitarão a aceitação e iden- tificação através da verossimilhança proposta na estrutura interna da narrati- va. É o que se pode dizer do ato de surpreender. O espectador/leitor quer ser surpreendido pelo autor, mas não quer ser enganado. Nesse sentido, o autor deve dosar sua arquitetura para não ultrapassar essa linha que é fina e delicada. É como se o autor fizesse um paralelo entre a mentira e a omissão e o transferisse para o jogo da sur- presa e da enganação. Sua escrita deve amparar-se do lado da omissão e da surpresa. O autor, quando apresenta alguns fatos em sua trama, oferece ao espec- tador/leitor algumas explicações/justificativas que, naquele momento, se empenham apenas em amparar dramaticamente seu ato na escrita e o ato na ação. No entanto, essa “dica dramática” serve apenas para criar expecta- tiva e curiosidade sobre o que está sendo apresentado. O desenvolvimento da ação mesma deve ser elaborado em seus mínimos detalhes, pois é atra- vés dessas “dicas dramáticas” que o autor conduzirá a trama e a levará até o final junto dos espectadores/leitores, que estarão abarcados na trama e repletos de dúvidas e certezas.12 1 As opiniões e recomendações do autor do artigo se referem a um protótipo de leitor/espectador e de texto ficcional. Em muitos casos, o bom final de uma narrativa é exatamente o oposto desse protótipo. Estudo semântico-estilístico de texto ficcional 227 Dicas de estudo DISCINI, Norma. “Intertextualidade”, capítulo do livro O Estilo nos Textos. O capítulo aborda a questão do diálogo entre a voz do outro e a voz do um e faz considerações a respeito da relação entre intertextualidade e estilo. FIORIN, José Luiz; SAVIOLI, Francisco Platão. “Personagens e Espaço”, lição 13 do livro Lições de Texto: leitura e redação. Os autores analisam trechos de textos literários e explicam particularidades na construção de personagens e na utilização do espaço. Estudos linguísticos 1. Esse mundo de fadistas, de faias, parecia a Carlos merecer um estudo, um ro- mance... Isto levou logo a falar-se do Assommoir, de Zola e do realismo: – e o Alencar imediatamente, limpando os bigodes dos pingos de sopa, suplicou que se não discutisse, à hora asseada do jantar, essa literatura latrinária. Ali todos eram homens de asseio, de sala, hein? Então, que se não mencionasse o excremento! Pobre Alencar! O naturalismo; esses livros poderosos e vivazes, tirados a mi- lhares de edições; essas rudes análises, apoderando-se da Igreja, da Realeza, da Burocracia, da Finança, de todas as coisas santas, dissecando-as brutal- mente e mostrando-lhes a lesão, como a cadáveres num anfiteatro; esses estilos novos, tão precisos e tão dúcteis, apanhando em flagrante a linha, a cor, a palpitação mesma da vida; tudo isso (que ele, na sua confusão mental, chamava a Ideia nova) caindo assim de chofre e escangalhando a catedral romântica, sob a qual tantos anos ele tivera altar e celebrara missa, tinha des- norteado o pobre Alencar e tornara-se o desgosto literário da sua velhice. Ao princípio reagiu. «Para pôr um dique definitivo torpe maré», como ele disse em plena Academia, escreveu dois folhetins cruéis; ninguém os leu; a «maré torpe» alastrou-se, mais profunda, mais larga. Então Alencar refugiou-se na moralidade como numa rocha sólida. O naturalismo, com as suas aluviões de obscenidade, ameaçava corromper o pudor social? Pois bem, ele, Alencar, seria o paladino da Moral, o gendarme dos bons costumes. Então o poeta das Vozes d’Aurora, que durante vinte anos, em cançoneta e ode, propusera comércios lúbricos a todas as damas da capital; então o romancista de Elvira 228 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística que, em novela e drama, fizera a propaganda do amor ilegítimo, represen- tando os deveresconjugais como montanhas de tédio, dando a todos os maridos formas gordurosas e bestiais, e a todos os amantes a beleza, o es- plendor e o gênio dos antigos Apolos; então Thomaz Alencar que (a acredita- rem-se as confissões autobiográficas da Flor de Martírio) passava ele próprio uma existência medonha de adultérios, lubricidades, orgias, entre veludos e vinhos de Chipre – de ora em diante austero, incorruptível, todo ele uma torre de pudicícia, passou a vigiar atentamente o jornal, o livro, o teatro. E mal lobrigava sintomas nascentes de realismo num beijo que estalava mais alto, numa brancura de saia que se arregaçava de mais – eis o nosso Alencar que soltava por sobre o país um grande grito de alarme, corria à pena, e as suas imprecações lembravam (a acadêmicos fáceis de contentar) o rugir de Isaias. Um dia porém, Alencar teve uma destas revelações que prostram os mais fortes; quanto mais ele denunciava um livro como imoral, mais o livro se vendia como agradável! O Universo pareceu-lhe coisa torpe, e o autor de Elvira encavacou... No trecho transcrito de Os Maias, de Eça de Queiroz (1997, p. 1151-2), o nar- rador em terceira pessoa apresenta a perspectiva do personagem Tomás Alencar, poeta romântico que combate o Realismo/Naturalismo. O narrador se vale de estratégias redacionais que incluem a digressão, a alusão, a ironia, o discurso indireto livre para revelar suas próprias convicções sobre o Realis- mo/Naturalismo. Quais são elas? Estudo semântico-estilístico de texto ficcional 229 2. Comente os valores estilísticos dos diminutivos em -inho empregados por Dalton Trevisan no conto “Capitu Sou Eu”. Estilística, a ciência da expressividade 1. Opções (a) e (c): Estilística literária. Justificativa: os dois comentários contêm reflexões de cunho psicoló- gico a respeito da maneira de João Cabral se expressar e de revelar seu mundo interior e experiência de vida. Opção (b): Estilística linguística. Justificativa: o comentário aborda uma questão do léxico, examina sua carga semântica na obra e destaca aspectos linguísticos objetivos para buscar a interpretação do texto. 2. As opções (a) e (e), embora corretas, não contêm comentários estilís- ticos, mas observações sintáticas objetivas, que não fazem nenhuma interpretação do texto. As opções (b), (d) e (f ) apresentam comentários estilísticos baseados em questões linguísticas e procuram interpretar a expressividade das escolhas do poeta. A opção (c) contém uma interpretação equivocada, pois o texto distin- gue “a pedra do papel” como a “que dá à frase o seu grão mais vivo”, ou seja, ela é inovadora, pois “açula a atenção” e é força criativa. 3. a) Função referencial (ou informativa). b) Função conativa. c) Função emotiva (ou expressiva) – Obs.: trecho de canção compos- ta por Luiz Antônio. d) Função metalinguística. e) Função fática. Gabarito 232 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística f) função poética – Obs.: tradução livre de uma estrofe do poema Beer, de Charles Bukowski. Estilística fônica 1. A opção (a) está correta, havendo erro na opção (b), pois a figura é a alite- ração, e na opção (c), já que o intuito da harmonia imitativa é reproduzir o ruído dos freios do trem. 2. A opção (a) contém interpretação equivocada, pois repetir “tem gente com fome” não causa monotonia, e sim ideia de movimento. Também há erro de interpretação na opção (e), pois as palavras usadas nas onomatopeias como estribilho conservam seu valor semântico para confirmar a temática social. Por fim, há erro na opção (d), pois o comentário feito é de Estilística sintática. 3. As opções (b), (c) e (f ) estão corretas. As alternativas (c) e (d) não contêm recursos de Estilística fônica. Nas demais op- ções, temos: (a) aliteração; (b) onomatopeia; (e) assonância; (f ) homeoteleuto. Estilística léxica 1. Destoa o gentílico “vienense”, pois o que predomina no modelo desse tipo de verbete é a estrutura “relativo a (nome da cidade + estado ou país) + ou o que é seu natural ou habitante”. Para haver simetria com o modelo adotado pela obra, o verbete deveria estar assim apresentado: vienense – relativo a Viena (Áustria) ou o que é seu natural ou habitante. 2. A autora critica a possível interpretação de que as chamadas palavras gra- maticais seriam totalmente vazias de sentido, quando na verdade o linguista opõe a ideia de plenitude semântica à de esvaziamento semântico levando em conta os valores extragramaticais das palavras lexicais. No entanto, é cor- reto o entendimento de que as palavras gramaticais também possuem al- gum valor semântico “externo”. Assim, pode-se concluir que palavras plenas não são as lexicais e, sim, as gramaticais. 233 Gabarito 3. a) O substantivo “minhoca” é epiceno e não tem flexão de gênero; mas a cantiga fala em “minhoco”, uma flexão expressiva que tem valor afetivo e humanizador. b) Há uma metáfora expressiva, que iguala a vida do eu lírico a uma col- cha de retalhos, ou seja, a vida é uma amontoado de ocorrências que se costuram aleatoriamente – embora, frise-se, sejam todos da mesma cor (outra metáfora, para dizer que é uma vida monótona). c) A imagem que Lenine usa está na expressão metafórica “deu um nó”, pela similaridade com a ideia de “estar preso, amarrado” na relação amorosa. d) Chico Buarque usa “Neruda” em lugar de “livro do Neruda”, exemplo sim- ples de metonímia, em que o nome do autor é usado em lugar do nome da obra. Estilística sintática – I 1. A silepse de número ocorre no trecho final (quando não encontram uma pessoa que possa tomar conta de sua filha pequena), cujo sujeito tem como antecedente o substantivo “casal”, palavra singular com significado plural (= eles). O distanciamento entre o verbo “encontrar” e o referente “casal” justifica a silepse como forma mais apropriada ao trecho, que correria algum risco se usasse o singular “quando não encontra uma pessoa que possa tomar conta de sua filha pequena”. 2. Em “preciso aprender a ser só”, “só” significa “sozinho” (é adjetivo). Em “preciso aprender a só ser”, “só” significa “apenas” (é palavra denotativa de restrição). Como adjetivo, desempenha a função de predicativo do sujeito, devendo manter-se na posição final da frase (sua antecipação, mesmo colocado entre vírgulas, poderia gerar ambiguidade). Como palavra denotativa, “só” não tem função sintática, podendo deslocar-se para outros pontos da oração, mas passaria a restringir outras palavras (na letra original, só restringe o verbo ser, sinônimo de existir). Pode-se dizer que a finalidade do autor foi fazer uma re- ferência intertextual (com o citado samba-canção) vinculada ao argumento do combate à tristeza e à solidão. 234 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística 3. a) A silepse de pessoa se explica pela pretensão do autor de se incluir no sujeito “todos”. b) A hipálage mostra a transferência de relação sintática de “amigos” – logica- mente atribuído ao interlocutor, mas sintaticamente atribuído a “braços”. c) O pleonasmo ocorre na duplicação do objeto direto de “admirar”. É uma forma de ênfase Estilística. d) Na ordem direta, a frase seria “fazemos um pouco de tudo”. A inversão dá destaque ao indefinido “tudo” e não tem maior complexidade, o que caracteriza a anástrofe. Estilística sintática – II 1. Anáfora – repetição de uma ou mais palavras no princípio de dois ou mais segmentos sintáticos ou poéticos sucessivos. Exemplos: “É pau, é pedra, é o fim do caminho.” (Tom Jobim) “Sonharei em Mariana, / sonharei no trem de ferro, / sonharei no acaba-mun- do.” (Alphonsus de Guimaraens Filho) Epanáfora – tipo de anáfora que ocorre quando a repetição se dá no início de parágrafos ou estrofes sucessivas. Para alguns autores, epanáfora e anáfora são termos sinônimos. Exemplos: [“Tragédia no Mar”, que faz parte do poema O Navio Negreiro, de Castro Al- ves, tem suas quatro primeiras estrofes iniciadas pela expressão “‘Stamos em pleno mar”] [A letra da música “Construção”, de Chico Buarque,repete o início de cada um dos versos da primeira estrofe nas estrofes subsequentes, alterando apenas as palavras finais dos versos] Epífora – repetição de uma ou mais palavras no final de dois ou mais seg- mentos sintáticos ou poéticos sucessivos. 235 Gabarito Exemplos: “Ninguém se lembra de nada. Estrelas ermas na altura, se brilham, não dizem nada.” (Emílio Moura) “A noite esfriou, / o dia não veio, / o bonde não veio, / o riso não veio, / não veio a utopia / e tudo acabou.” (Carlos Drummond de Andrade) Epístrofe – tipo de epífora que ocorre quando a repetição do termo ou ex- pressão se dá em toda a estrofe ou em muitos segmentos sintáticos sucessi- vos. Para alguns autores, epístrofe e epífora são termos sinônimos. Exemplos: “Nunca morrer assim! Nunca morrer num dia assim! de um sol assim!” (Olavo Bilac) “Talvez isto realmente se desse... / Verdadeiramente se desse... / Sim, carnal- mente se desse...” (Fernando Pessoa) 2. As sugestões são: na primeira lacuna, “a mãe de seu marido” ou “Dona Maria”; na segunda lacuna, “de Anselmo” ou “do filho”. Na primeira lacuna, “a mãe de seu marido” substitui perfeitamente a palavra “sogra” (empregada duas linhas antes) e evita uma repetição viciosa. A opção por “Dona Maria” também seria adequada, pois o contexto da segunda lacu- na identificaria sem dúvida a que personagem se referiria. Na segunda lacuna, “do filho” parece-nos mais conveniente do que a locução “de Anselmo”, embora aqui não esteja caracterizada a repetição viciosa por- que a outra ocorrência de “Anselmo” está distante, no início do parágrafo. Em ambos os casos, porém, o redator teve de se valer de seu vocabulário pes- soal para buscar os sinônimos adequados às suas necessidades e às do texto. 3. Eis uma reescritura possível: A gravata enrolava-se parecendo uma corda colocada por cima da camisa rasgada e suja, ao mesmo tempo em que apareciam fiapos nas bainhas das calças e nos cotovelos puídos. A roupa estava cada vez mais empoeirada, combinando com a sola gasta dos sapatos e com o que fazia a fome com os meus olhos, que descobriam, entre as árvores, cenas irreais. [Dois períodos com orações apenas dependentes]. 236 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística O comentário, com essa reescritura, deve destacar que as duas redações são expressivas, mas que há mais força descritiva no texto original do que na nova redação. A sucessão de orações independentes dá equilíbrio às ima- gens fortes e arrastadas que o narrador quis retratar. Estilística da enunciação 1. Na letra da música, o eu lírico faz uma proposta à sua amada, que no dis- curso ocupa a posição da 2.a pessoa (com quem se fala). A letra, no entanto, emprega de modo irregular as formas de tratamento de P2 e P3 gramaticais quando se refere a essa pessoa. Comprovam essa afirmação os pronomes “você” (4 ocorrências) e “te” (1 ocorrência) e os verbos no imperativo: pense, chore, não chore e (se) lembre (P3) e liga, não liga (P2) – embora o imperativo negativo não tenha a forma “não liga” na variante padrão. Essa flutuação é típica da oralidade do português brasileiro contemporâneo. 2. Eis uma reescritura possível, mantendo ao máximo os itens lexicais do texto original: Perguntei, ansioso, a meu filho, assim que saímos, em que turma ele está, se na 12 ou na 13. Ele me respondeu distraído que está na 14. Respirei com alívio: e nem podia ser de outra maneira, não era isso mesmo? Comentei apenas que ficava satisfeito de saber. Ele não perdeu tempo e logo se aproveitou para dizer que queria então me pedir um favor. Queria que eu man- dasse ao Padre-Diretor um bilhete dizendo que ele não pode comer verdura. 3. Eis uma reescritura possível, mantendo ao máximo os itens lexicais do texto original: Notas de R$1,00 somem, e comerciantes reclamam das dificuldades no troco e dos prejuízos nas vendas. Eles contam que as moedas, em especial as de um real, praticamente sumiram. A escassez também vale para as de menor valor, como as de 25 e 50 centavos. “As notas de R$1,00 já estavam faltando, mas as moedas resolviam o problema. Hoje até elas estão sumindo”, reclama Júlia Roberta, cai- xa de uma loja de bolsas e acessórios que fica no centro da cidade. 237 Gabarito Semântica, a ciência das significações 1. Nos estudos semânticos é importante a definição de signo linguístico, que inclui as noções de significante e significado, de forma e substância, as re- lações sintagmática e paradigmática e o conceito de arbitrariedade e line- aridade do signo, o que implica saber fazer a distinção entre os enfoques sincrônico e diacrônico. 2. A marcação correta é: (D), (B), (C), (A). 3. As opções (a) e (d) estão corretas; a opção (b) é falsa, pois no verso 5 a pre- posição introduz uma interrogação (o poeta quer saber qual a finalidade de “usar tanta educação”); também é falsa a opção (c), pois o amor é mostrado como a causa da proteção da pessoa amada. Relações semânticas – I 1. São verdadeiras as afirmações (a), (b) e (c). Na letra (d) é o conjunto de verbe- tes que se chama “nominata”. Na letra (e), tanto os dicionários gerais como os específicos podem ser estruturados num modelo alfabético, ou seja “palavra por palavra”. 2. A transcrição correta do poema é a que segue: “As estátuas sem mim não po- dem mover os braços / Minhas antigas namoradas sem mim não podem amar seus maridos / Muitos versos sem mim não poderão existir. // É inútil deter as aparições da musa / É difícil não amar a vida / Mesmo explorado pelos outros homens / É absurdo achar mais realidade na lei que nas estrelas / Sou poeta irrevogavelmente.” A única palavra que parece não se ajustar ao texto é “seios” (1.o verso), tendo em vista se relacionar com o verbo “mover” (apesar disso, a ideia de “mover os seios” não é de todo incoerente). No penúltimo verso, não haveria incoe- rência dizer “sereias” em vez de “estrelas”, pois o poeta também poderia, de alguma forma, comparar a realidade da lei com a das sereias. Nos demais versos, a substituição não mudaria o significado do verso, mas poeticamente talvez houvesse variações de expressividade. 238 Língua Portuguesa: Semântica e Estilística 3. O parágrafo, reescrito com as correções, ficará assim: Nossos colegas pediram dispensa do serviço porque já se sabe que infringiram o regulamento. Por não terem cumprido o disposto, colocaram em cheque suas carreiras e por ora vão expiar suas culpas numa chácara longínqua. Relações semânticas – II 1. A coluna da palavra “amor” terá os seguintes elementos: livro + sorte + pen- samento + teorema + novela + prosa + torna patético + cristão + latifúndio + divino + bossa nova + para sempre + do bem + amizade + um + depois + vem de nós + demora. A coluna da palavra “sexo” terá: esporte + escolha + cinema + imaginação + fan- tasia + poesia + selva de epiléticos + pagão + invasão + animal + carnaval + para sempre + do bom + vontade + dois + antes + vem dos outros + vai embora. Nenhum dos dois grupos contêm palavras que representem, necessaria- mente, uma ideia de inferioridade ou negatividade – tanto do ponto de vista conceitual quanto semântico. Os autores trabalharam com pares opositivos alternativos (p. ex.: esporte x cultura; novela x cinema; cristão x pagão; bossa nova x carnaval) e, mesmo quando ao final dizem que “o amor vem de nós e demora” e que “o sexo vem dos outros e vai embora”, nem aí é possível ga- rantir a supremacia de um dos campos sobre o outro. Parece que o intuito é fazer com que nossa conclusão seja pela combinação dos dois, pois afinal “sexo sem amor é vontade” e “amor sem sexo é amizade”, ou seja, sexo não é amizade e amor não é vontade, como quem diz: melhor é amor com sexo e sexo com amor... 2. [sugestões] série formal, apenas com palavras que rimam com “brancura”: dentadura, formosura, segura, tortura, loucura // série morfossemântica, com palavras da mesma família etimológica: branco, branquear, esbranqui- çar, branqueamento, branqueador. 3. a) [sugestão] geladeira,