Logo Passei Direto

A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
209 pág.
HELENA

Pré-visualização | Página 13 de 48

como as pessoas que iam 
no carro, e encurtaram alguns minutos o caminho, com desgosto 
de Eugênia.
Voltando a Andaraí, Estácio trazia a alma pura de todas 
as más impressões que lhe deixavam usualmente as visitas à 
casa de Camargo. Nenhuma briga houve naquele dia. Eugênia 
parecia modificada. Em casa esperava, porém, uma desagradável 
notícia: a tia sentira-se incomodada pouco depois que ele saiu e 
recolheu-se ao quarto. O caso afligiu-o, mas não tardou a apare-
cer Helena, que o tranquilizou, dizendo-lhe que D. Úrsula tinha 
apenas uma forte dor de cabeça, já diminuída com o emprego 
de um remédio caseiro.
No dia seguinte de manhã, informado de que a tia dormia 
sossegadamente, Estácio abriu uma das janelas do quarto e 
passou os olhos pela chácara. A alguns passos de distância, 
entre duas laranjeiras, viu Helena a ler atentamente um papel. 
Era uma carta, longa de todas as suas quatro páginas escritas. 
Seria alguma mensagem amorosa? Esta ideia mexeu muito com 
ele. Afastou-se da janela, ajustou as cortinas, e pela fresta pro-
curou observar a irmã. Helena estava de pé, no mesmo lugar, e 
percorria rapidamente as linhas, até ao final da última página. Ali 
chegando, deu dois passos, tornou a parar, voltou ao princípio 
da carta, para a ler de novo, não já depressa, mas calmamente. 
Estácio sentiu-se movido de forte curiosidade, à qual vinha 
misturar-se uma sombra de despeito e ciúme.
Helena.indd 56 10/02/20 11:35
Clássicos da Literatura Brasileira
Machado de Assis
57
A ideia de que Helena podia repartir o coração com outra 
pessoa desconsolava-o, ao mesmo tempo que o irritava. A ra-
zão de semelhante exclusivismo não a explicou ele, nem tentou 
investigá-la; sentiu somente os efeitos, e ficou ali sem saber que 
faria. Duas vezes saiu da janela para encontrar-se com a irmã, 
mas recuou de ambas, refletindo que a curiosidade pareceria 
falta de educação, se não era talvez tirania. Ao fim de alguns 
minutos de dúvida, saiu do quarto e dirigiu-se à chácara.
Quando ali chegou, Helena passeava lentamente, com os 
olhos no chão. Estácio parou diante dela.
— Já fora de casa! Exclamou em tom de gracejo.
Helena tinha a carta na mão esquerda; instintivamente a 
amarrotou como para escondê-la melhor. Estácio, a quem não 
escapou o gesto, perguntou-lhe rindo se era alguma nota falsa.
— Nota verdadeira, disse ela, alisando tranquilamente o 
papel, e dobrando-o conforme havia recebido; é uma carta.
— Segredos de moça?
— Quer lê-la? Perguntou Helena, apresentando-lhe.
Estácio ficou vermelho e recusou com um gesto. Helena 
dobrou lentamente o papel e guardou-o no bolso do vestido. A 
inocência não teria mais puro rosto; a hipocrisia não encontraria 
mais impassível máscara. Estácio contemplava-a, a um tempo 
envergonhado e suspeitoso; a carta fazia-lhe cócegas; o olhar 
ambicionava ser como o da Providência que penetra nos mais 
íntimos cantos do coração. Vieram, entretanto, dizer a Helena 
que D. Úrsula lhe pedia que fosse ter com ela. Estácio ficou só. 
Uma vez só, entregou-se a um inquérito mental sobre a proce-
dência da misteriosa carta. Um indício havia de que podia con-
ter alguma coisa secreta: era o gesto com que ela a escondeu. 
Mas não podia ser de alguma antiga companheira do colégio, 
que lhe confiava segredos seus? Estácio abraçou com alvoroço 
esta hipótese. Depois, ocorreu-lhe que, ainda provindo de uma 
amiga, a carta podia tratar de alguma questão de colégio, em 
que Helena fosse participante, questão viva ou morta, página 
de esperança ou de saudade. Ainda nesse caso, que tinha ele 
com isso?
Helena.indd 57 10/02/20 11:35
Clássicos da Literatura Brasileira
Helena
58
Fazendo esta última reflexão, Estácio sacudiu do espírito o 
assunto e seguiu a examinar as novas obras da chácara, entre as 
quais estava um grande tanque. Já ali estavam os operários; ia 
começar o trabalho do dia. Estácio viu a obra feita e deu várias 
indicações novas. Algumas eram contrárias ao plano combinado; 
como lhe fizessem tal observação, Estácio retificou-as. Depois 
admirou-se de não ver um vaso, que aliás dois dias antes ha-
via mandado remover; enfim, recomendou que regassem uma 
planta, ainda úmida da água que o serviçal lhe havia colocado 
nessa manhã.
D. Úrsula não estava de todo boa, mas pôde almoçar à mesa 
comum. O sobrinho apareceu aborrecido, a sobrinha triste; o 
diálogo foi mastigado como o almoço. No fim deste, recebeu 
Estácio uma carta de Eugênia. Era uma tagarelice meio boba, 
meio sentimental, mistura de risos e suspiros, sem objeto defi-
nido a não ser pedir-lhe que escrevesse se não pudesse ir vê-la.
Acabava ele de ler a carta, quando Helena lhe apareceu à 
porta do gabinete. Não a escondeu; lembrou-se de mostrá-la à 
irmã na esperança de que ela, pagando-lhe com igual confiança, 
lhe mostrasse a sua. Helena percorreu com os olhos a carta de 
Eugênia e esteve algum tempo silenciosa.
— Permite-me um conselho? Perguntou ela.
E como se Estácio respondesse com um gesto de confir-
mação:
— Vá ter com Eugênia, solicite licença para ir pedi-la a seu 
pai, e conclua isso quanto antes. Não é verdade que se amam? 
Dela creio poder afirmar que sim; de você...
— De mim?
— Penso que é mais duvidoso; ou você é mais hábil. Há 
de ser isso. Naturalmente parece que amar é fraqueza para 
você, — isto é, a coisa mais natural do mundo, — a mais bela, 
— não direi a mais sublime. Os homens sérios têm preconceitos 
extravagantes. Confesse que ama, que não é indiferente a esse 
sentimento inexprimível que liga, ou para sempre, ou por algum 
tempo, duas criaturas humanas.
“Ou por algum tempo!” Repetiu mentalmente Estácio.
E estas quatro palavras, tão naturais e tão comuns, ti-
Helena.indd 58 10/02/20 11:35
Clássicos da Literatura Brasileira
Machado de Assis
59
nham ares de uma revelação nova no estado de espírito em 
que ele se achava. Se Helena tivesse propósito de lhe lançar 
a perplexidade na alma, não empregaria mais eficaz conceito. 
Seria na verdade aquele amor, tão travado de desânimos, 
dissentimentos e alternativas, tão discutido em seu próprio 
coração, uma afeição destinada a perecer no se pôr da primeira 
lua matrimonial?
— Pois sim, concordou ele, ao fim de alguns instantes, é 
verdade. Eugênia não é indiferente a mim; mas poderei estar 
certo dos sentimentos dela? Ela mesma poderá afirmar alguma 
coisa a tal respeito? Há ali muita frivolidade que me assusta; 
ilude-a, talvez, uma impressão passageira.
— Pode ser; mas ao marido cabe a tarefa de fixar essa 
impressão passageira... O casamento não é uma solução, 
penso eu; é um ponto de partida. O marido fará a mulher. 
Convenho que Eugênia não tem todas as qualidades que 
você desejaria; mas, não se pode exigir tudo: alguma coisa é 
preciso sacrificar, e do sacrifício recíproco é que nasce a feli-
cidade doméstica.
As reflexões eram exatas; por isso mesmo Estácio as interrom-
peu. O filho do conselheiro achava-se numa posição difícil. Cami-
nhava para o casamento com os olhos fechados; ao abri-los, viu-se 
à beira de uma coisa que lhe pareceu abismo, e era simplesmente 
um fosso estreito. De um pulo poderia transpô-lo; mas, se não era 
irresoluto nem débil, tinha ele por acaso vontade de dar esse salto?
Insistindo Helena, prometeu ele que nessa tarde iria visitar 
Camargo. De tarde desabou um temporal violento. A força do 
vento e da trovoada abrandou; mas a chuva continuou a cair 
com a mesma violência; era impossível ir ao Rio Comprido. 
Estácio estimou aquele obstáculo; era melhor adorar de longe 
a imagem da moça do que ir colher algum desgosto junto a ela.
De pé, encostado a uma das vidraças da sala de visitas, via 
cair as grossas toalhas de água. Ao lado estava sentada Helena, 
não alegre, mas sombria e melancólica.
— E tão bom ver chover quando estamos abrigados! Ex-
clamou ele. Tenho lá na estante um poeta latino que diz alguma 
coisa neste sentido... Que tem você?
Helena.indd 59 10/02/20 11:35
Clássicos da Literatura Brasileira
Helena
60
— Estou pensando nos que não têm abrigo ou
Página1...91011121314151617...48