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Filosofia Medieval
{cultura: entre o real e o imaginário}
Embora a cena tenha sido pintada em 1559, o artista descreve um cenário tipicamente medieval, caracterizado por um contraste universal, presente na cultura e no humano de todas as épocas, simbolizado na tela por dois espaços físicos: do lado esquerdo, uma espécie de taberna, símbolo dos excessos e dos prazeres do mundo; e do lado direito, uma igreja, símbolo das virtudes e do comedimento.
O mundo do homem medieval era povoado de significados; uma sociedade simbólica que se utilizava da Bíblia como principal sistema de referências e onde tudo era percebido como manifestação divina.
Toda cultura se constitui a partir de recursos, atividades e métodos objetivos (materiais, factuais); e, ao mesmo tempo, de outras atividades subjetivas (ideias, ideais, sentimentos), visando à transmissão dos valores que dela derivam.
Através dos rituais religiosos celebrava-se e reatualizava-se a tradição. Ao revivê-la, o indivíduo se inseria na história sagrada ali revelada e, identificando-se com seus modelos, ia construindo a sua existência cotidiana.
{espaço e tempo medieval}
Considera-se Idade Média o longo período compreendido entre o século V (queda do Império Romano do Ocidente) e o século XV (queda do Império Romano do Oriente, após a tomada de Constantinopla pelos turcos). Três acontecimentos são definidores do período: o gradual desaparecimento do mundo clássico, as invasões bárbaras e os novos rumos impostos sobre o mundo europeu e a expansão e consolidação do Cristianismo na Europa Ocidental.
Assim, considerando as continuidades, dividiremos o recorte dessa história correspondente aos séculos II e XIII em dois períodos, denominados patrística e escolástica, considerando, do ponto de vista filosófico, a expansão e consolidação do Cristianismo e suas profundas alterações na cultura e nas mentalidades, consequentes da conciliação entre a consciência cristã e a razão filosófica e científica.
Nesta sociedade ruralizada, em que a agricultura era a principal atividade econômica e o uso da terra, fundamento para a sobrevivência, a natureza exercia enorme influência sobre o tempo, que se organizava atendendo ao ritmo das chuvas e das secas, do plantio e da colheita, do dia e da noite, do inverno e do verão. Existia também o tempo da Igreja e sua influência sobre os modos de vida e ações dos povos, estendendo a cultura dos mosteiros com seus costumes e ritmo de vida para fora de suas muralhas. O controle do tempo e das atividades humanas diárias atendiam ao ritmo do bater dos sinos.
Outro aspecto a considerar nesse contexto é o espaço. O modo de produção, o feudalismo, era determinante na importância da terra como base da sobrevivência e na demarcação hierárquica do lugar de cada um na esfera social: suserano ou vassalo, senhor ou servo.
Nessa época de incertezas e marcada por perseguições, guerras e epidemias, crescia o interesse por divindades e cultos salvadores do corpo e da alma, favorecendo os primeiros grupos de cristãos e o desenvolvimento de sua doutrina.
Assim, na Antiguidade tardia, inaugura-se uma nova concepção de mundo na qual um Deus oriental se torna o Deus dos cristãos, e único do Império Romano. O que fundou essa nova cultura denominada medieval foi a substituição do culto de uma pluralidade de deuses no paganismo antigo pela crença em um só Deus, o monoteísmo.
{mudança cultural e espiritual}
Após a morte do Alexandre, o Grande, a extensão territorial do seu império, aliada às diferenças culturais e à luta pelo poder, foi palco para uma série de conflitos, dificultando seu controle e administração, o que culminou na conquista e anexação da Grécia pelo Império Romano. O desejo romano de conquistar a Grécia se relaciona, em parte, por um sentimento de admiração que eles sentiam pela sua cultura e pela sua arte, o que pode ser comprovado pela fusão desses elementos à cultura romana, exercendo sobre ela consideráveis influências. Aos poucos, a antiga tradição romana foi substituída pelos novos costumes gregos.
Apesar das diferenças, há um ponto comum entre essas concepções filosóficas e religiosas: mudou-se o foco para o indivíduo e as questões éticas - uma ética voltada para a busca da felicidade, por meio da harmonização do ser humano. Nesse contexto, o modelo cultural e político da pólis e toda a produção cultural dos gregos clássicos foram desaparecendo gradativamente em meio à profusão de culturas, religiões, crenças, línguas e filosofias.
Do ponto de vista religioso, aos poucos, o helenismo se transformou numa espécie de contraposição pagã à nova religião cristã que dominou a cultura, dando início a uma nova etapa da história da Filosofia.
Ao contrário do Império Romano do Oriente, unificado em torno da cultura grega e do cristianismo oriental, a cultura no Ocidente, assim fragmentada e fragilizada, foi gravemente abalada pelas invasões dos mais variados povos. Desse sincretismo cultural, tradições orientais como as judaico-cristãs foram introduzidas no Ocidente, agregando a fé oriental à razão grega e contribuindo para a formação da mentalidade ocidental, sua forma de viver e de pensar a realidade do mundo. Assim, após a queda do Império Romano, a Igreja católica projeta-se como a principal força agregadora num mundo totalmente fragmentado por invasões bárbaras.
{mensagem de amor à humanidade}
O triunfo do cristianismo (únicas alternativas capazes de comover e acalmar as mentes e dar-lhes esperanças para seguir em direção a um futuro de incertezas) está intimamente relacionado às mudanças culturais posteriores ao declínio do helenismo: o movimento da razão grega se desloca para a emoção e a revelação. Isso é compreensível em meio a uma sociedade assolada por guerras, fome, doenças e uma transição cultural que vai alterar completamente a concepção que ser humano tinha do mundo e de si mesmo.
Os vestígios do pensamento mítico e de seus cultos, ainda presentes no helenismo, ganham força e seguidores em busca da salvação. Nesse mundo desencantado e abalado espiritualmente, o cristianismo surgiu como uma nova esperança, dando à vida um novo significado.
O cristianismo acaba por preencher o vazio deixado pela cidade e pelo Estado romano e oferecia uma relação pessoal e profunda com Deus. Os excluídos (pobres, escravos e oprimidos) se sentiram atraídos pela mensagem cristã de amor à humanidade (independentemente de origem, riqueza, educação ou talento) e da promessa da vida eterna, de um reino dos céus, dando ao sujeito comum aquilo que os valores aristocráticos da civilização greco-romana lhe negara: esperança, dignidade e força interior.
A difusão e a aceitação do cristianismo como religião universal foram facilitadas por alguns fatores específicos, entre eles:
• o cenário de um mundo desencantado, que perdeu a fé em seus deuses;
• o predomínio do idioma e da cultura grega, fundindo as culturas locais e facilitando o intercâmbio
cultural e a propagação da nova doutrina.
Monoteísmo: a ideia da existência de um único Deus emcontraposição à ideia grega da existência de vários deuses (politeísmo);
Criacionismo: a crença de que o universo e todos os seres vivos foram criados por um ser sobrenatural, Deus, a partir do nada.
Antropocentrismo/teocentrismo: no cristianismo, a espécie humana recebe um tratamento relevante, justificada pela crença do humano como ser criado à imagem e semelhança divina, diferenciando-se da visão grega, cosmocêntrica, que tinha a natureza como referência de todas as investigações filosóficas. Posteriormente, essa visão se torna teocêntrica, concebendo Deus como o centro de todo conhecimento.
Pecado: a virtude é servir a Deus, obedecer aos seus mandamentos. Então, o pecado é concebido como o seu contrário, a desobediência a seus mandamentos.
Foi um longo tempo, cerca de 500 anos, para a construção e consolidação do cristianismo como doutrina. Foi, em especial, no pensamento de Platão e Aristóteles que os filósofos fundamentaram o desenvolvimento do pensamento cristão. O objetivo era usar a razão paraconvencer os descrentes sobre a superioridade da fé e a grande questão discutida é a relação entre a fé e a razão, entre Filosofia e Teologia.
{patrística}
A patrística compreende o período do século II ao século VIII, a partir das pregações dos apóstolos e primeiros padres da Igreja, considerada a época de constituição, difusão e consolidação do cristianismo. Essas ideias eram difundidas por meio de dogmas, verdades irrefutáveis e inquestionáveis reveladas por Deus, embora não fossem transmitidas pela força, mas pela conquista espiritual. O grande tema da filosofia patrística foi a tentativa de conciliação entre a razão e a fé.
O principal nome da patrística é Agostinho, que viveu de 354 a 430 e foi bispo de Hipona, uma cidade no norte da África, onde fundou uma comunidade. Inspirado na teoria platônica das ideias, Agostinho substitui o mundo inteligível de Platão pelo mundo divino, pela fé. Defendia a superioridade e a responsabilidade da alma humana sobre o corpo físico no direcionamento à prática do bem, sendo influenciado pelo maniqueísmo (uma teoria dualista que divide o mundo em Bem e Mal, Deus e Demônio), do qual foi seguidor, e do neoplatonismo (um conjunto de doutrinas que surgiram nos primeiros séculos da Era Cristã, inspiradas no pensamento de Platão, que exerceu grande influência sobre a Teologia cristã). Na teoria de Agostinho, Deus é identificado com a ideia do “Bem”. A verdade está em Deus, fundamento e criador de tudo o que existe, e pode ser alcançada pela fé.
Embora participem da mesma verdade, razão e fé são formas diferentes de conhecimento e possuem autonomia em seus objetivos e áreas do saber. Embora o cristianismo não seja uma filosofia, ele afeta de forma profunda o pensamento filosófico da época, uma vez que o filósofo cristão depara com o problema da sua realidade diante da realidade de Deus. Dessa relação entre razão e fé, que se complementam na busca da verdade, surge uma nova ciência cristã: a Teologia.
Para Agostinho, a verdade não é uma construção humana, mas uma revelação divina àqueles que creem. Revelação divina é a forma como se denomina todo conhecimento transmitido ao ser humano diretamente por um deus ou deuses. A fé torna-se, portanto, a condição para o conhecimento da verdade que está em Deus, e o conhecimento racional deve se subordinar ao conhecimento alcançado por meio da revelação. Ocorre, assim, uma tentativa de conciliação entre o conhecimento natural, que surge da razão humana, a Filosofia, com suas leis e métodos próprios, e o conhecimento sobrenatural, que não se origina da razão humana, mas da revelação divina.
{crer para compreender}
Os cristãos acreditam que o homem e o Universo foram criados por Deus. A autonomia da razão grega é ameaçada diante dos questionamentos sobre a existência divina, verdades que ela, sozinha, não é capaz de penetrar e explicar. Nessa concepção de conhecimento, a razão e a fé não são opostas. A razão é vista como uma qualidade inata, criada por Deus, um dom, uma luz que Deus concedeu ao homem para que ele possa discernir o conhecimento do “bem e do mal”.
O cristianismo busca na razão uma compreensão mais ampla e elaborada dos mistérios da fé. “Crer para compreender.” Não basta crer: as verdades professadas pela fé precisam ser demonstradas por meio de uma lógica, de uma coerência baseada nos princípios da razão. Enquanto a razão desvenda os conhecimentos sobre a verdade das questões referentes ao desenvolvimento da natureza e da humanidade, a fé é para os que creem, fazendo-os aceitar e conviver com as questões dos mistérios da existência, que apenas o homem e a razão não são capazes de solucionar.
Enquanto a filosofia grega identificava o homem com o cidadão e a política, Agostinho ressalta a vinculação pessoal do homem com Deus. Para ele, só é possível alcançar a verdade por meio da luz de Deus no íntimo de nossa alma. A liberdade é a capacidade que o espírito humano possui para discernir e escolher, de forma livre e consciente, o Bem absoluto e perfeito. A salvação individual depende da submissão total a Deus.
Esta é a causa dos pecados da humanidade, o livre-arbítrio. Pela perversão da vontade, o homem escolhe a privação do ser. Este quadro só encontra redenção em Jesus Cristo, o mediador entre Deus e os homens. Para essa elevação do espírito, é necessário o autoconhecimento. Estando a alma purificada, está preparado o terreno para conhecer. A fé chama a razão para algo além dela própria, para o mistério.
À razão cabe investigar os conteúdos da fé. Para entender, uma condição é crer. Mas o que é entendido, o que é inteligível, exige novamente a fé, e assim por diante. Há uma precedência do invisível sobre o visível, do transcendente (inteligível) sobre o sensível. A alma é hierarquicamente superior ao corpo. O homem precisa crer para entender.
{escolástica}
A escolástica se estende do século IX ao século XIII e é marcada como o período de apogeu do cristianismo. Corresponde à Filosofia e à Teologia ensinadas nas escolas medievais, com seu método próprio de ensino, inspirado nos diálogos de Platão. Ao aliarem o saber filosófico clássico e o saber das Sagradas Escrituras, os escolásticos estimulavam a dialética, em uma discussão entre Filosofia e Teologia, ampliando e aperfeiçoando pontos de vista e divulgando a doutrina cristã.
Entre os grandes nomes da escolástica, destaca-se o italiano Tomás de Aquino, que viveu entre os anos de 1225 e 1274 e estudava os fundamentos da teoria aristotélica, em busca de argumentos racionais capazes de explicar e alicerçar as ideias do cristianismo. Seu maior mérito foi a síntese do cristianismo com a visão aristotélica do mundo. Agora, conheça os fundamentos de sua doutrina.
Tomás reconhece que a Filosofia e a Teologia são campos diferentes e autônomos de conhecimento, sendo a Filosofia o conhecimento adquirido pela razão e pela experiência sensível, enquanto a Teologia vem da revelação, da fé e da graça divina. Contudo, ele enfatiza que razão e fé não se opõem, pois ambas derivam da mesma origem, que é Deus: a Revelação, recebida pela fé, e os princípios evidentes da razão foram infundidos em nossa natureza racional, originados da mesma sabedoria divina, na qual não pode existir nenhuma contradição. Portanto, a razão, fundamento da Filosofia, se usada retamente, e a revelação, fundamento da Teologia, tendo sua origem na autoridade infalível de Deus, jamais poderão induzir o ser humano a algum erro. Enquanto formas de conhecimento, ambas buscam a verdade.
{lei de deus e lei humana}
Segundo Tomás, existe uma lei eterna, superior às outras, que traduz ao homem a vontade de Deus e que organiza a ordem que existe no Universo como um todo. O homem tem acesso a essa lei revelada por Deus, por meio das Sagradas Escrituras. Assim como Agostinho, Tomás de Aquino acreditava na existência de uma lei originada de Deus e outras originadas dos homens.