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I - O QUE É CAPITAL NA VISÃO MARXISTA? - Do capital enquanto relação social

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O QUE É CAPITAL NA VISÃO MARXISTA?1
Wendell Magalhães2
A perspectiva marxista dissocia a categoria capital do senso comum, próprio da
economia burguesa, que o identifica a um conjunto de objetos diversos dissociados (meios de
produção, dinheiro, ativos financeiros etc.). Essas coisas, para Marx, mais especificamente, só
assumem a forma de capital quando inseridos num circuito de valorização que sempre se
expande, o que é específico do modo de produção capitalista que tem como pressuposto
básico a extração de mais-valor. Nesse sentido, nos alertando justamente para esse fato e para
evitar confusões a respeito do significado da categoria capital, Marx a delimita dizendo:
Ora, se tomarmos as formas particulares de manifestação que o valor que se
autovaloriza assume sucessivamente no decorrer de sua vida, chegaremos a estas
duas proposições: capital é dinheiro, capital é mercadoria. Na verdade, porém, o
valor se torna, aqui, o sujeito de um processo em que ele, por debaixo de sua
constante variação de forma, aparecendo ora como dinheiro, ora como mercadoria,
altera sua própria grandeza e, como mais-valor, repele (abstösst) a si mesmo como
valor originário valoriza a si mesmo. Pois o movimento em que ele adiciona mais-
valor é seu próprio movimento; sua valorização é, portanto, autovalorização. Por ser
valor, ele recebeu a qualidade oculta de adicionar valor. Ele pare filhotes, ou pelo
menos põe ovos de ouro. (MARX, [1867] 2013, p. 230).3
A melhor delimitação da categoria capital, por sua vez, nos conduz ao fato de que não
se pode identificar a categoria capital a toda e qualquer sociedade, fazendo-a uma categoria a-
histórica. Em Marx, capital está muito bem situado historicamente, portanto, sua extensão a
outros contextos só se faz violando seu método, recorrendo-se a generalizações mentais, coisa
completamente estranha a um pensamento como o de Marx, que supõe que as abstrações
sejam reais, ou seja, que reflitam o concreto e a constituição própria da realidade, fazendo,
assim, do pensamento, algo subordinado ao objeto de estudo e não ao seu sujeito. Como diz
Netto (2011, p. 53, grifo do autor), “É a estrutura e a dinâmica do objeto que comandam os
procedimentos do pesquisador. O método implica, pois, para Marx, uma determinada posição
1 Este material é parte adaptada de minha dissertação de mestrado intitulada Do padrão de reprodução do
capital nas economias dependentes: a Teoria Marxista da Dependência e a construção de uma categoria de
mediação de análise (2019). Mais especificamente, o texto foi extraído da seção 2.2.1 desta última com o
nome Do capital enquanto relação social.
2 Bacharel e Mestre em Economia pela Universidade Federal do Pará (UFPA).
3 É nesse sentido que Reinaldo Carcanholo (2011, p. 126-27) chama o capital, mais precisamente, de valor-
capital. Enquanto agente e paciente de suas modificações, ou seja, de suas metamorfoses que levam a sua
valorização, ele continua sendo valor, mas, diz o autor, com a capacidade peculiar de “gerar, produzir mais-
valor. É um valor mais desenvolvido, é o valor-capital”.
(perspectiva) do sujeito que pesquisa: aquela que se põe o pesquisador para, na sua relação
com o objeto, extrair dele as suas múltiplas determinações.”.4 
Não à toa, portanto, na seção II do Livro I d’O Capital, no capítulo 4, ao tratar da
transformação do dinheiro em capital e das pré-condições que isso envolve, nas quais se inclui
como a mais importante a possibilidade da compra e venda da força de trabalho, Marx,
ressaltando a historicidade do processo de produção dos pressupostos da relação social
capital, nos diz que 
a natureza não produz possuidores de dinheiro e de mercadorias, de um lado, e
simples possuidores de suas próprias forças de trabalho, de outro. Essa não é uma
relação histórico-natural (naturgeschichtliches), tampouco uma relação social
comum a todos os períodos históricos, mas é claramente o resultado de um
desenvolvimento histórico anterior, o produto de muitas revoluções econômicas, da
destruição de toda uma série de formas anteriores de produção social. (MARX,
[1867] 2013, p. 244).5
Podemos assentar, então, que a categoria capital se estabelece em Marx ([1867],
2013), antes de tudo, como uma relação social, sendo esta uma relação de produção e
apropriação do mais-valor fundada em relações contratuais entre o capitalista (comprador da
mercadoria força de trabalho) e o trabalhador (vendedor da mercadoria força de trabalho).
Entre eles, trava-se uma troca de equivalentes no processo de circulação de mercadorias: a
força de trabalho, mercadoria que é a única propriedade do trabalhador, é comprada pelo
capitalista durante determinado período de tempo – o que configura sua jornada de trabalho –
por um determinado salário. Este salário é a forma monetária que o valor da força de trabalho
assume no mercado, ou também chamado preço da mercadoria força de trabalho. Esta
última, no entanto, possui um valor menor que aquele que é capaz de produzir sob a forma
mercadoria durante determinada jornada de trabalho em que opera. À diferença entre o valor
da força de trabalho e o valor produzido por ela durante tal jornada, dá-se o nome de mais-
valor. 
4 Neste sentido, o método dialético materialista se confronta com as abordagens metafísicas, incluindo a
lógica formal, que se estruturam em torno de generalizações mentais. Por serem tautológicas, externas aos
objetos e por suas propriedades comuns poderem possuir níveis de complexidade diferentes, não tendo
relação direta com o concreto, necessariamente, sendo mais subordinada à inventividade do sujeito que
pesquisa, tais generalizações mentais não têm validade geral na nossa perspectiva. Por isso, a dialética
materialista com a qual trabalhamos, no lugar de tais generalizações mentais, recomenda a análise baseada
em abstrações concretas ou reais. Ver sobre isso Saad Filho (2011, p. 20-23) e Netto (2004), (2011).
5 A respeito desse processo de “desenvolvimento histórico anterior” responsável pela produção das condições
de existência da relação capital, Marx deixou para tratar dele detalhadamente ao final do Livro I d’O Capital
dando-lhe o nome de acumulação primitiva. Cf. MARX, K. O Capital. Livro I, op. cit., capítulo 24, A assim
chamada acumulação primitiva.
A partir dessas considerações, podemos resgatar aquilo que diz Saad Filho sobre o
capital com base no estudo aprofundado da obra de Marx, e que, a nosso ver, sintetiza o que
foi exposto acima:
O capital é uma relação entre duas classes, os capitalistas e os trabalhadores, que
aparece através das coisas. Essa relação social se estabelece quando os meios de
produção […] são monopolizados pela classe capitalista, que emprega trabalhadores
assalariados na produção para o lucro. […] Uma vez colocada essa relação de classe
na produção, o capital toma a forma, e existe através, de meios de produção,
mercadorias e moeda empregados no processo de autoexpansão do valor, que Marx
chama de valorização. (SAAD FILHO, 2011, p. 68).
REFERÊNCIAS
CARCANHOLO, R. Capital: essência e aparência. Vol. 1. São Paulo: Expressão Popular, 
2011.
 
MAGALHÃES, W. C. Do padrão de reprodução do capital nas economias dependentes: a 
Teoria Marxista da Dependência e a construção de uma categoria de mediação de análise. 
2019. 182 f. Dissertação (Mestrado em Economia) – Programa de Pós-Graduação em 
Economia, Universidade Federal do Pará, Belém, 2019.
MARX, K. [1867]. O Capital: crítica da economia política, Livro I: o processo de produção 
do capital. São Paulo: Boitempo, 2013.
NETTO, J. P. Introdução ao estudo do método de Marx. São Paulo: Expressão Popular, 2011.
NETTO, J. P. Marxismo Impenitente: contribuição à história das ideias marxistas. São Paulo: 
Cortez Editora, 2004.
SAAD FILHO, A. A. O valor de Marx: economia política para o capitalismo contemporâneo. 
Campinas, SP: Editora