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Artigo - Fisiologia da dor / INÊS MARGARIDA INÁCIO JANEIRO

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pela EFIC (European Federation of 
IASP Chapters) (2). 
A principal função da dor no organismo é funcionar como um sinal de alerta, ativando 
respostas protetoras, de forma a minimizar possíveis danos nos tecidos. Acompanha a 
generalidade das situações patológicas e, por esta razão, é reconhecida como o 5º sinal vital, 
determinando, como norma de boa prática, que a presença de dor e a sua intensidade sejam 
sistematicamente valorizadas, diagnosticadas, avaliadas e registadas. O controlo da dor deve 
ser encarado como uma prioridade no âmbito da prestação de cuidados de saúde, sendo que 
o sucesso da estratégia terapêutica depende da monitorização regular da dor, em todas as 
suas vertentes (6). Neste contexto, a dor é um verdadeiro problema de saúde pública tendo 
em conta a sua frequência e potencial para causar incapacidades. 
Fisiologia da dor Inês Margarida Inácio Janeiro 
 
 
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Capítulo 1. EPIDEMIOLOGIA 
A dor é um grave problema de saúde em todo o mundo. Sejam países desenvolvidos 
ou não, é uma situação clínica que afeta grande parte da população, sendo vários os estudos 
epidemiológicos realizados ao longo dos últimos anos acerca da dor. Contudo, de acordo com 
a literatura, as conclusões retiradas são muitas vezes consideradas de baixa credibilidade, 
devido a fatores como heterogeneidade das populações estudadas, diferentes métodos 
usados nas investigações, e ainda à dificuldade em definir a dor (2,7,8). 
A dor é umas das razões primárias para a procura de cuidados de saúde nos Estados 
Unidos da América, onde aproximadamente 35 milhões de novas consultas médicas são 
realizadas a cada ano em sua decorrência e, cerca de 70 milhões das visitas médicas são 
devidas a dor (9–11). Na Europa, o maior relatório sobre prevalência da dor crónica, Pain in 
Europe, mostra que cerca de 19% da população adulta europeia (75 milhões de pessoas), 
sofre de dor crónica, sendo apenas 1-2% de origem oncológica (10). 
As principais causas de dor na Europa incluem a dor oncológica (1%), lombalgias 
(30%), dor músculo-esquelética e osteoarticular (30%), e dor de cabeça e enxaqueca (10%) 
(Figura 1) (7,10). 
 
Figura 1- Causas da dor na Europa 
Neste mesmo estudo observaram-se diferenças significativas entre os diversos países 
da Europa, o que impossibilita a execução de estimativas seguras para Portugal. No entanto, 
o aumento da esperança média de vida pressupõe um maior envelhecimento da população, 
1%
30%
30%10%
29%
Oncológica Músculo-esquelética e Osteoarticular
 Lombalgias Dor de cabeça e Enxaqueca
Outros
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com o aumento da longevidade de doentes com patologias acompanhadas de dor, e faz 
prever um aumento da prevalência da dor crónica no futuro (7,12). Da mesma forma, não temos 
conhecimento de quais as principais causas de dor crónica em Portugal, mas os vários 
estudos internacionais atribuem esse lugar á lombalgia. A dor oncológica é encarada como 
uma das principais causas de dor crónica, mas representa uma pequena percentagem dos 
doentes que padecem de dor. No entanto, tem uma importância especial porque, sendo a 
segunda causa de morte em Portugal, mais de 90% dos doentes em situação oncológica 
terminal apresentam dor moderada a intensa (7,10,13). 
O relatório “Dor crónica em Portugal” no âmbito da iniciativa internacional Pain 
Proposal, sugere que 3 milhões de adultos padecem de dor crónica, cuja prevalência ronda 
os 36% da população. Em 16% dos doentes adultos, esta dor apresenta-se moderada a grave, 
tendo impacto na qualidade de vida e na atividade profissional de cerca de 50%. 
Presenciamos valores de extrema relevância na vida dos doentes, cuja insatisfação com o 
tratamento se estima em 35% dos casos. Em relação à idade, a faixa etária com maior 
prevalência de dor crónica encontrava-se entre os 55 e os 64 anos (8). 
A nível socioeconómico, nos EUA, cerca de 89 bilhões de dólares são gastos 
anualmente para tratamento e compensações, entre outros. Devido à dor, cerca de 50% a 
60% da população torna-se parcial ou totalmente incapacitada, podendo esta incapacidade 
ser transitória ou permanente (9,14–16). No Reino Unido estimou-se que a despesa de saúde 
relativa à patologia crónica mais frequente, a lombalgia, foi de 2,5 mil milhões de euros. 
Adicionando a esta despesa os custos indiretos, em consequência, nomeadamente, das 
perdas de produtividade, do absentismo e das reformas antecipadas, esse número sobe para 
quase 20 mil milhões de euros (17). 
Em Portugal, a dor e a sua prevenção é uma das preocupações principais das 
autoridades de saúde, pelo que a avaliação do impacto social e económico da dor torna-se 
importante, sendo a estimativa dos seus custos económicos, diretos e indiretos, um dos seus 
componentes. Os custos diretos correspondem ao valor dos recursos consumidos em 
cuidados de saúde (serviços médicos e de enfermagem, medicamentos e outros); os custos 
indiretos referem-se ao absentismo, reformas antecipadas e à perda de emprego causada por 
morbilidade ou mortalidade devido à dor(2,13,18). Os custos indiretos da dor crónica estimados 
para Portugal em 2010 e 2011, ascendem aos 738,85 milhões de euros, 
sendo 280,95 milhões devidos ao absentismo gerado pela incapacidade de curto prazo 
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e 458,90 milhões devidos à redução de emprego por reformas antecipadas e outras formas 
de não participação no mercado de trabalho (8,18). 
1.1 TIPOS DE DOR 
Uma dor pode ter diversas causas, afetar diversos tecidos e ter diferentes durações. 
A sua complexidade exige uma classificação igualmente complexa. Por isso, para se 
classificar a dor tem que se ter em conta a duração, a localização e a eventual associação a 
alguma patologia (19). 
Na década de 1930, o neurocirurgião Wilder Penfield, operou vários pacientes com 
epilepsia. Durante essas cirurgias, investigou e levantou dados, de forma a descobrir quais 
as partes do córtex cerebral que controlavam cada um dos movimentos corporais voluntários 
e sensações. Com todos os seus trabalhos descobriu uma visão muito distorcida do corpo 
humano: o homúnculo cortical. O homúnculo cortical, representa a forma como o nosso 
cérebro vê o nosso corpo a partir do interior, isto é, a importância de várias partes do corpo 
determinadas pelo nosso próprio cérebro (20,21). 
 
Figura 2 - Homúnculo Cortical. 
Nesta representação, a área neural correspondente a cada porção do corpo. Assim como a face tem uma maior 
quantidade de nervos e consequentemente de neurónios, o desenho terá uma grande face, com um tronco 
pequeno, braços grandes com mãos enormes, pernas pequenas com pés médios. Adaptado de Marieb, E., Hoehn 
K. Human Anatomy and Physiology. 7.a Ed. 2007. 
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Muitas vezes retratado como um desenho animado, o homúnculo motor ou cortical (o 
ser humano em miniatura), é representado com características desenhadas de acordo com a 
quantidade de espaço que ocupam no cérebro (Figura 2).Embora o homúnculo cortical seja 
uma curiosidade, o trabalho de Penfield em mapear a relação do cérebro para o corpo foi 
inestimável (Figura 3) (20,21). 
 
Figura 3 - Mapa Somatosensorial. 
Representação da relação do córtex cerebral com cada parte do corpo, Adaptado de Guyton AC, Hall JE. Tratado 
de Fisiologia Médica. 12.a ed. Rio de Janeiro: Elsevier; 2011. 617-630 p. 
O homúnculo é, então, o espelho da riqueza sensitiva/motora de cada território 
corporal (20,21). 
1.1.1 - Classificação quanto à duração 
1.1.1.1- Dor Aguda 
A dor aguda é definida como “dor de início recente