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o que e teoria

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Hans Joas e Wolfgang Knobl 
O que é teoria?1
Tradução: Alexandre Werneck2
Nossa decisão de iniciar esta série de conferências sobre teoria social moderna com a pergunta 
“o que é teoria?” pode fazer se erguerem algumas sobrancelhas. Afinal, boa parte de vocês fez 
cursos sobre as grandes figuras da teoria sociológica - como Émile Durkheim, George Herbert 
Mead e Max Weber - que não apresentaram nenhuma discussão sobre a “natureza” da teoria. 
Os organizadores desses cursos corretamente supuseram que vocês já detinham uma compre­
ensão intuitiva de “teoria” ou que logo a teriam. De qualquer forma, vocês devem a esta altura 
estar em condições de caracterizar as abordagens bastante diferentes da realidade social ado­
tadas por Weber, Mead ou Durkheim. Como é bem sabido, Weber descreveu os fenômenos 
do Estado ou da política de um ponto de vista completamente diferente de Durkheim; o pri­
meiro tinha, assim, uma concepção teórica sobre a natureza da política bastante diferente do 
outro, embora ambos se referissem aos mesmos fatos empíricos em suas abordagens socioló­
gicas. A concepção de Mead de ação social claramente difere e de forma marcante da de We­
ber, embora alguns dos termos que eles usassem fossem semelhantes, e assim por diante. To­
dos esses autores, portanto, sustentam suas abordagens sociológicas com diferentes teorias 
(plural!). Mas a percepção dessa diferença não nos fez avançar um passo decisivo no caminho 
de resolver a questão da “natureza” da teoria? Se fôssemos comparar todas essas teorias e ava­
liar o que elas compartilham entre si, encontrando assim seu mínimo denominador comum, 
não teríamos - poderíamos nos perguntar - já atingido uma compreensão adequada de teoria 
(singular!)? Uma comparação desse tipo certamente nos proveria, por assim dizer, com os
1 Extraído de: JOAS, Hans [e] KNÕBL, Wolfgang. Social Theory: Twenty Introductory Lectures. Cambridge (RU), 
Cambridge University Press, 2009, pp. 1-19.
2 Esta tradução foi feita a partir da edição inglesa de 2009, traduzida para o inglês por Alex Skinner. Ela não foi 
cotejada diante da edição original alemã, de 2004. (N.T.)
elementos formais que compõem uma teoria (sociológica); poderíamos entender o que a teo­
ria social de fato é.
Infelizmente, porém, essa proposta de solução não nos leva muito longe. Desde que a 
sociologia foi criada, no século XIX, seus profissionais acadêmicos nunca foram bem- 
sucedidos em alcançar um consenso verdadeiramente estável em relação a seu objeto e sua 
missão. Eles nunca chegaram realmente a um acordo nem mesmo sobre seus principais con­
ceitos. Por conseguinte, não deve ser nenhuma surpresa que a “correta” compreensão da teo­
ria também tenha sido algo ferozmente debatido. A relação entre teoria e pesquisa empírica é 
um tema controverso, porque alguns cientistas sociais consideram que primeiro precisamos 
realizar um intensivo trabalho empírico para preparar o terreno para uma teoria social cientí­
fica decente, enquanto outros afirmam que a pesquisa empírica sem uma prévia e abrangente 
reflexão teórica produziria, na melhor das hipóteses, resultados inexpressivos e, na pior delas, 
resultados errôneos. E os teóricos do pensamento social também mostraram ideias muito dife­
rentes sobre a relação entre teorias e visões de mundo. Enquanto alguns enfatizavam que teoria 
sociológica ou teoria social é uma questão puramente científica apartada de visões de mundo 
políticas ou religiosas, outros sublinharam que as humanidades e as ciências sociais nunca de­
vem romper por completo com tais crenças, e que a ideia de uma ciência “pura”, a ideia de 
sociologia por exemplo, é, portanto, quimérica. A disputa em torno da relação entre teoria e 
questões normativas ou morais estava intimamente ligada a isso. Embora alguns sociólogos 
fossem da opinião de que a ciência deve, em princípio, abster-se de fazer quaisquer declara­
ções de natureza normativa, política ou moral, outros apelaram por uma ciência sociopoliti- 
camente engajada, que não recuaria na abordagem ao “deve” (como uma pessoa deve agir? 
Como uma sociedade boa ou justa deve ser estruturada?). Desse ponto de vista, a ciência e, 
particularmente, as ciências sociais não devem agir como se apenas disponibilizassem os re­
sultados de pesquisa sem nenhuma responsabilidade por como eles são utilizados. A pesquisa 
em ciências sociais certamente tem consequências. Devido a isso, a disciplina não pode ser 
indiferente ao que é feito com suas descobertas. E finalmente, a relação entre teoria e conheci­
mento cotidiano, de senso comum, também tem sido objeto de intenso debate. Enquanto al­
guns têm postulado que a ciência, incluindo as ciências sociais, é de maneira geral superior ao 
senso comum, outros afirmam que as ciências humanas e sociais são por demais enraizadas 
neste mundo cotidiano e dependentes dele para ter pretensões tão presunçosas assim. Assim, 
como se pode ver, o próprio conceito de teoria é altamente controverso. Qualquer tentativa,
do tipo acima insinuado, de se encontrar um denominador comum das teorias produzidas 
pelas principais figuras da sociologia não chegaria a nada; permaneceria impossível responder 
à pergunta: “O que é teoria?”. E mesmo um empreendimento desse tipo não contribuiria ern 
nada para se chegar a uma decisão em relação aos debates que brevemente descrevemos.
Mas será que precisamos mesmo debater e esclarecer de forma precisa o que é “teoria”? 
No final das contas, você “entendeu” os autores clássicos da sociologia, e talvez tenha partici­
pado de cursos sobre eles sem ter que explicitamente questionar o conceito de teoria. Por que, 
então, propomos um debate sobre princípios básicos enfrentando a “natureza” da teoria ape­
nas neste ponto - ao nos determos sobre teoria sociológica ou teoria social moderna? Há duas 
respostas para essa pergunta. A primeira é conformada pela história como um todo ou pela 
história da disciplina em específico. Quando, entre outros, Weber, Durkheim e Simmel, os 
chamados pais fundadores, trouxeram a disciplina “sociologia” ao mundo, esse processo em 
geral envolveu indivíduos lutando para fazer valer a reputação científica do objeto e confron­
tos com outras disciplinas que desejavam negar a legitimidade da sociologia. Obviamente, os 
sociólogos também discordavam uns dos outros, de fato muitas vezes, mas isso não era nada 
comparado com a situação que lhe era própria quando a sociologia foi finalmente estabelecida 
nas universidades, a partir de meados do século XX em diante. A sociologia moderna, tal qual 
as ciências sociais modernas como um todo, agora apresenta uma pletora de escolas teóricas 
concorrentes - não sem uma boa razão é que precisaremos de mais 19 conferências para aju­
dar a apreciar essa diversidade. E nesse contexto de tremenda competição teórica, questões 
epistemológicas - questões relativas aos pré-requisitos e características da ciência e da cons­
trução da teoria científica - desem penham um papel significativo. As disputas entre as diver­
sas escolas teóricas das ciências sociais disseram e geralmente dizem respeito à correta com­
preensão da teoria. A esse respeito, é preciso pelo menos um certo grau de compreensão des­
sas questões a fim de compreender como e por que as modernas teorias em ciências sociais se 
desenvolveram como se desenvolveram.
A segunda resposta diz respeito tanto à história da disciplina quanto a questões pedagó­
gicas. As ciências sociais modernas são caracterizadas não apenas por um grande número de 
teorias concorrentes, mas também por uma divisão extremamente danosa entre conhecimen­
to teórico e conhecimento empírico. Uma espécie de divisão do trabalho, por assim dizer, sur­
giu entre aqueles que se veem como teóricos e aqueles que se veem como pesquisadores soci­
ais empiristas ou empíricos. Como resultado dessa rígida divisão do trabalho, esses dois gru­
pos quase não percebem mais os resultados um do outro. Mas os

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