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Macroeconomia Material Teórico Responsável pelo Conteúdo: Prof. Esp. Valdécio Silvério Bezerra Revisão Textual: Profa. Ms. Fátima Furlan Introdução à Macroeconomia • Introdução • O Nascimento da Macroeconomia • Objetivos da Macroeconomia • Instrumentos da Macroeconomia • Oferta e Demanda Agregada · Iniciar o estudo da teoria macroeconômica falando, primeiramente do contexto histórico em que surgiu essa teoria e quais eram os seus objetivos. Vamos estudar além do surgimento da Macroeconomia; os seus conceitos básicos; os instrumentos da macroeconomia e a definição do que é Oferta e Demanda agregada. OBJETIVO DE APRENDIZADO Introdução à Macroeconomia Mantenha o foco! Evite se distrair com as redes sociais. Mantenha o foco! Evite se distrair com as redes sociais. Determine um horário fixo para estudar. Aproveite as indicações de Material Complementar. Não se esqueça de se alimentar e se manter hidratado. Aproveite as Conserve seu material e local de estudos sempre organizados. Procure manter contato com seus colegas e tutores para trocar ideias! Isso amplia a aprendizagem. Seja original! Nunca plagie trabalhos. Orientações de estudo Para que o conteúdo desta Disciplina seja bem aproveitado e haja uma maior aplicabilidade na sua formação acadêmica e atuação profissional, siga algumas recomendações básicas: Assim: Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte da sua rotina. Por exemplo, você poderá determinar um dia e horário fixos como o seu “momento do estudo”. Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar, lembre-se de que uma alimentação saudável pode proporcionar melhor aproveitamento do estudo. No material de cada Unidade, há leituras indicadas, dentre elas: artigos científicos, livros, vídeos e sites para aprofundar os conhecimentos adquiridos ao longo da Unidade. Além disso, você também encontrará sugestões de conteúdo extra no item Material Complementar, que ampliarão sua interpretação e auxiliarão no pleno entendimento dos temas abordados. Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em fóruns de discussão, pois irão auxiliar a verificar o quanto você absorveu de conhecimento, além de propiciar o contato com seus colegas e tutores, o que se apresenta como rico espaço de troca de ideias e aprendizagem. UNIDADE Introdução à Macroeconomia Contextualização Você, com certeza, em algum momento já se deparou com uma notícia ligada ao cenário econômico do nosso país que dizia: “Inflação pelo IPC-Fipe recua para 0,46% em abril”; “Produção industrial avança em março, mas recua 11,7% no 1º trimestre”; “Mercado projeta melhora para atividade econômica no próximo ano”; “Ajuste fiscal pode ampliar desigualdade, avalia pesquisador”; “O FMI aumentou a projeção de queda da economia brasileira, este ano, de 1% para 3,5%”; “As incoerências da atual política macroeconômica”. “Governo vê avanço de 0,58% para o PIB no segundo trimestre desse ano”. O que essas manchetes têm em comum? Todas estão falando de questões ligadas à Macroeconomia. São siglas, porcentagens, expressões que poucos dominam ou sabem o que representam. Vejamos o significado de algumas dessas siglas importantes: IPC (Índice de Preços ao Consumidor); Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas); FMI (Fundo Monetário Internacional), PIB (Produto Interno Bruto). Ex pl or 8 9 Introdução Mas afinal, o que é Macroeconomia? De acordo com Mankiw (2008), a Macroeconomia é o estudo da economia em sua totalidade, incluindo o crescimento em termos de renda, as variações nos preços e na taxa de desemprego. Procura oferecer políticas para melhorar o desempenho econômico e explicar os eventos econômicos. Blanchard (2007) define a Macroeconomia como o estudo de variáveis econômicas agregadas. Já Krugman e Wells (2007), no glossário de seu livro, definem Macroeconomia como o ramo da economia que trata da expansão e da retração da economia em geral. Froyen (2005) define a Macroecnomia como o estudo dos “negócios comuns da vida” de forma agregada, isto é, observando o comportamento da economia. Dornbusch e Fischer (2006) colocam que a Macroeconomia trata do comportamento global da economia com períodos de recessão e recuperação. Importante! A macroeconomia é um segmento da ciência econômica que se preocupa em explicar como a sociedade se organiza para produzir e distribuir riqueza, ou seja, é responsável pelo estudo do comportamento e da determinação dos agregados econômicos. Também aborda os fenômenos que atingem a economia em sua totalidade, tais como, infl ação, desemprego, taxa de câmbio etc. Em Síntese Houve um tempo em que ocorreu uma matematização da economia, período em que se acreditava que a economia poderia ser explicada como a física, ou seja, a partir das leis da matemática, ignorando as aplicações práticas. O que podemos afirmar é que a Macroeconomia pertence ao campo das Ciências Sociais Aplicadas, isto quer dizer que são as aplicações que justificam a sua razão de ser. Segundo Keynes, um economista precisa ser matemático, historiador, estadista, filósofo e tão alienado e tão incorruptível quanto um artista, embora algumas vezes tão próximo do planeta Terra quanto um político (MANKIW, 2008). Indispensável compreendermos que cada governo e cada período histórico apresentam problemas econômicos diferentes, uma hora é a inflação, a recessão, balança comercial, queda do PIB. Vemos assim que de nada vale uma definição abrangente se, dependendo da situação, o problema se apresenta de uma forma diferente. Ironicamente, por vezes você ouvirá que as previsões macroeconômicas se equiparam às meteorológicas, mas sempre damos ouvidos ao que a mídia anuncia sobre a previsão do tempo. No entanto o papel da previsão funciona como a busca pelo equilíbrio, evitando, por exemplo, que a euforia do consumo leve a 9 UNIDADE Introdução à Macroeconomia economia para uma inflação incontrolável; em momentos de recessão procuram favorecer certos tipos de atividades etc. Toda e qualquer ação econômica apresenta vantagens e desvantagens, ou seja, “não existe almoço grátis”, sejam no curto ou no longo prazo os custos serão cobrados. É necessário reconhecermos as limitações da nossa disciplina. Importante é pensar exaustivamente e criticamente sobre as possíveis ações de condução da economia, claro que sempre procurando acertar. O Nascimento da Macroeconomia Em se tratando do surgimento da nossa disciplina é muito importante relatar o que aconteceu após a crise de 1929 que foi um marco no desenvolvimento da Macroeconomia. Veja só por quê: Mercado, onde Começa? As informações sobre a saúde econômicadas Adam Smith (1723 - 1790) Fonte: Wikimedia / Commons nações começaram a ser coletadas a partir de 1850. No entanto em 1776, Adam Smith em sua obra referencial A Riqueza das Nações. (An Inquiry into the Nature and Causes of the Wealth of Nations). Esse título já prenunciava que a riqueza de uma nação não era determinada pelo acúmulo de metais, o que caracterizou o período mercantilista, mas pela organização social baseada na divisão do trabalho a nas motivações pessoais de seus cidadãos. A partir daí e evolução da ciência econômica cria a figura de vários mercados que teriam seu equilíbrio sempre garantido. Nesses mercados duas quantidades buscam esse equilíbrio: quantidades de itens e preços destes itens, que podem ser: bens e serviços, moeda, câmbio, títulos e mão de obra (ou trabalho). Importante! Numa conceituação mais ampla, mercado pode ser entendido como uma construção social, como um espaço de interação e troca, regido por normas e regras (formais ou informais), onde são emitidos sinais (por exemplo, os preços) que influenciam as decisões dos atores envolvidos. Importante! A seguir, explicamos cada um desses mercados e também comentamos como mantinham o equilíbrio no passado. Com certeza você vai entender! Vejamos: 10 11 · Mercadode bens e serviços: eram estabelecidos as quantidades e os preços de equilíbrio de bens e serviços em mercados individuais: o somatório de todos os mercados de bens e serviços resultava em um grande hipotético mercado, cujas leis de oferta e procura determinavam o produto da economia (quantidades totais) e o nível geral de preços (uma espécie de índice de preço médio de todas as mercadorias e serviços). · Mercado de moeda: eram estabelecidas as quantidades totais de moeda em circulação e a taxa de juros (o preço do dinheiro). No passado, era vigente o padrão ouro, ou seja, toda moeda em circulação deveria estar lastreada (assegurada, respaldada, duplicada) por igual quantidade de ouro em depósito ao governo. Isto dava certa rigidez à quantidade de moeda que poderia circular e ser emitida. Havia também a Teoria Quantitativa da Moeda (TQM), ou seja, a noção de que a quantidade de produto gerado ao longo de um ano na economia tinha forte correlação com a quantidade de moeda existente. · Mercado de câmbio: em função do padrão ouro, as transações internacionais eram feitas fisicamente com este metal. Cada país fixava o preço de suas mercadorias na sua moeda interna e esta tinha uma base fixa de troca por ouro. · Mercado de títulos: era pouco sofisticado, envolvia principalmente os títulos emitidos pelos governos. Nesses mercados eram estabelecidas as quantidades totais de títulos negociados e o seu preço. Existiam ainda as operações bancárias simples como empréstimos e desconto de duplicatas. O equilíbrio entre os agentes superavitários da economia e os deficitários se realizava nos mercados de títulos de maneira simples, por meio da Teoria dos Fundos Emprestáveis. A TFE tem origem no trabalho de Irving Fisher (1930) que analisou a determinação da taxa de juros numa economia verifi cando a razão pela qual os indivíduos poupam (isto é, não consomem toda a sua renda ou recursos correntes) e porque outros tomam emprestado. Ex pl or · Mercado de trabalho: nesse mercado era estabelecida a quantidade total de trabalhadores dispostos a trabalharem e o seu salário, ou seja, o preço do trabalho. Esse mercado de mão de obra era o somatório de mercados particulares de cada setor agrícola, industrial e de serviço. À época, a atividade econômica promovia o pleno emprego, arregimentando, inclusive, mulheres e crianças de cada domicílio que pudessem complementar a oferta de mais mão de obra diante de sua inesgotável demanda, como ocorreu na primeira e segunda revoluções industriais. Vejamos agora os mecanismos de mercado, como funcionam? Um economista famoso, Jean Baptiste Say criou uma máxima, segundo ele a oferta gera a sua própria demanda. A economia sempre estaria em equilíbrio e em 11 UNIDADE Introdução à Macroeconomia pleno emprego à medida que houvesse produção, ou seja, tudo que é produzido é vendido. Conhecida como a Lei de Say, em suma, eis a; Lei de Say: a oferta (venda) de X cria a demanda por (pela compra de) Y. Pela teoria clássica a partir da Adam Smith, Mills, Marshall e Say os vários mercados buscariam o equilíbrio e haveria sempre o pleno emprego, teoricamente. No entanto, a partir do início da coleta de dados da estatística econômica, os economistas começaram a perceber que existiam ciclos econômicos de expansão e retração da economia. Esses ciclos originavam as crises, cujos efeitos eram o crescimento do desemprego, a fome e a falência das organizações. Com o Crash da Bolsa de Nova Iorque em Outubro de 1929, os economistas passaram a emitir um conjunto de respostas totalmente contrárias ao que hoje se esperaria para a solução de um tipo de crise como aquela. Propunham os economistas: · o incentivo para que os governos mantivessem os seus orçamentos equilibrados com despesas de acordo com suas receitas. As receitas tributárias estavam diminuindo devido à crise econômica e consequentemente as despesas governamentais deveriam ser reduzidas no mesmo ritmo; · o aumento dos percentuais de impostos para contrabalançar a diminuição de arrecadação; · a estabilidade no valor da moeda para evitar a inflação que poderia ser mais um complicador na gestão da economia; · o incentivo à poupança pessoal como forma de cada indivíduo prevenir- se diante de um possível agravamento da crise; · a liberdade total de mercado com nenhuma intervenção governamental para permitir que a economia voltasse o mais rapidamente possível ao seu equilíbrio, promovendo a sua correção de maneira natural; · as barreiras alfandegárias e de proteção à economia de cada país envolvido, na expectativa de que isto aumentasse a demanda por bens produzidos internamente no país; · postergação dos investimentos na busca de um cenário econômico mais promissor no futuro entesourando recursos que poderiam estar em circulação; e · a quebra de instituições bancárias com a consequente diminuição do crédito bancário, acreditando que com isso fossem permanecer no mercado apenas as organizações mais sólidas. Como vimos, políticas econômicas que por ventura viessem a ser aplicadas seguindo essa lógica só iriam aprofundar a crise. Dois fatores, entretanto tornaram possível a recuperação econômica na época: 12 13 a) assessores econômicos no governo que acreditavam que este deveria ser um papel preponderante da economia, tomando suas rédeas, intervindo, promovendo o consumo e o investimento; b) o outro fator foi o prenúncio da Segunda Guerra Mundial que determinou um aumento na demanda em decorrência dos preparativos para a Guerra. Paralelo a tudo isso, em 1936, foram formalizadas as ideias de Keynes que se aplicadas naquele momento poderiam ter antecipado a recuperação dos EUA, da Europa e do resto do mundo. Assim as ideias keynesianas assumiam o formato de uma teoria econômica abrangente, fruto dos problemas emergentes naquela época. John Maynard Keynes foi um economista britânico cujas ideias mudaram fundamental- mente a teoria e prática da macroeconomia, bem como as políticas económicas instituídas pelos governos. Nascimento: 5 de junho de 1883, Cambridge, Reino Unido Falecimento: 21 de abril de 1946, morre em Tilton, no Reino Unido, aos 62 anos. John Maynard Keynes Fonte: Wikimedia / Commons Macroeconomia Moderna Alguns fatores condicionaram o surgimento dessa Alfred Marshall (1842 – 1924) Fonte: Wikimedia / Commons nova disciplina no campo da economia. Keynes participou de grandes acordos internacionais que visavam às reparações de guerra do primeiro confli- to mundial de 1914 a 1918. Embalado pela efer- vescência acadêmica de sua posição na Universida- de de Cambridge (ocupava a mesma cátedra que tinha tido como titular Alfred Marshall) testemunhou a amigos que acreditava estar escrevendo algo que revolucionaria a teoria econômica até então. A sua previsão estava certa e isto foi o que re- almente aconteceu quando de sua publicação em 1936, apesar de ser um livro de difícil leitura e sujeito a interpretações. Esta dificuldade e ambi- guidade fizeram com que a operacionalização de sua teoria levasse algum tempo até que fosse via- bilizada. Assim quando ela efetivamente estava pronta já não era mais necessária, pois o mundo já havia voltado ao pleno emprego e ao crescimento do produto, diante do esforço preparatório para a Segunda Guerra Mundial. 13 UNIDADE Introdução à Macroeconomia Contudo, o keynesianismo passou a dominar a agenda acadêmica nas décadas de 1940 e 1950, tendo encontrado aplicações práticas através dos consultores econômicos do governo Kennedy no início dos anos de 1960. Seu declínio ocorreu com o surto de grandes inflações do final da década de 1960 e início de 1970 em função da persistência da operação da economia ao pleno emprego e dos choques do petróleo. Objetivos da Macroeconomia Os principais objetivos da macroeconomia, ou digamos, da política macroeconômica, são aqueles que visam estabilizar as variáveis abaixo, determinar seu crescimento, atingir metas que possam serconsideradas saudáveis, como certo nível de desemprego etc. · Produto Interno Bruto (PIB). · Taxa de inflação. · Taxa de juros. · Taxa de Câmbio. · Taxa de desemprego. Produto Interno Bruto (PIB): É a medida do produto agregado que podemos considerar sob a ótica do produto (produto agregado) ou sob a ótica da renda (renda agregada), sendo assim, o produto agregado e a renda agregada são sempre iguais. · Sob a ótica do produto: o PIB é igual ao valor dos bens e serviços finais produzidos na economia em um dado período; · Ainda sob a ótica do produto: o PIB é a soma dos valores adicionados na economia em um dado período; · Sob a ótica da renda: o PIB é a soma das rendas na economia em um dado período. (BLANCHARD, 2007). Importante! PIB nominal e real O PIB nominal é a soma das quantidades de bens finais multiplicada por seus preços correntes ( os economistas usam o termo “nominal” para as variáveis expressas em preços correntes); Logo, o PIB nominal sempre aumenta pois a maioria dos preços dos bens aumentam assim como a maioria da produção aumenta ao longo do tempo. Agora, se pretendemos medir a produção e sua variação ao longo do tempo, precisamos eliminar o efeito do aumento dos preços. Isso é possível quando multiplicamos a soma das quantidades de bens finais pelos preços constantes, obtendo assim o PIB real. Importante! Por ser uma medida da atividade agregada, o PIB é a principal variável macroeconômica. 14 15 Taxa de Inflação A inflação é uma elevação sustentada do nível geral de preços na economia (nível de preços). A taxa de inflação é um percentual que mede a variação de preços durante um determinado período de tempo, mensal, semestral, anual, por exemplo. Taxa de juros Em sua essência, são os preços que vinculam o presente ao futuro, ou seja, é a taxa de crescimento do capital ou ainda, a taxa de lucratividade recebida num investimento. Os economistas chamam de taxa de juros nominal aquela paga pelo banco, enquanto que a taxa de juros real seria o aumento em seu poder de compra. Sendo assim a taxa de juros real é a diferença entre a taxa de juros nominal e a taxa de inflação. Taxa de câmbio É o preço de uma moeda estrangeira medido em unidades ou gerações da moeda nacional. No caso do Brasil, a moeda estrangeira mais negociada é o dólar norte americano e a cotação mais utilizada é referenciada nessa moeda. A taxa de câmbio nominal corresponde ao preço relativo das moedas correntes de dois países. Por exemplo, se a taxa de câmbio entre o dólar americano e o real é de R$ 3,50 para cada dólar, isso quer dizer que você pode trocar um dólar por R$ 3,50; A taxa de câmbio real corresponde ao preço relativo dos bens de dois países. Portanto, a taxa de câmbio real nos informa a taxa com a qual podemos trocar bens de um país por bens de outro país. Essa taxa é também denominada, às vezes, de termos de comércio ou termos de troca. Taxa de desemprego O desemprego é um dos problemas macroeconômicos mais preocupantes, pois afeta as pessoas de modo mais direto e cruel. Não é surpreendente que a questão do desemprego seja um tópico frequente no debate político. A taxa de desemprego é relação entre o número de pessoas desocupadas (procurando trabalho) e o número de pessoas economicamente ativas num determinado período de referência. Em uma economia sempre existe algum desemprego. A esse fenômeno damos o nome de taxa natural de desemprego, ou seja, é a taxa média de desemprego em torno da qual a economia gravita no longo prazo, consideradas todas as imperfeições do mercado de mão-de-obra que empreendem os trabalhadores de encontrar emprego instantaneamente. 15 UNIDADE Introdução à Macroeconomia O gráfico acima demonstra a variação da taxa de desemprego no período compreendido entre Janeiro de 2012 e final de 2015. Percebemos a tendência de crescimento dessa taxa no final do período. O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas) é uma fundação pública da administração federal com inúmeros dados estatísticos, indicadores e informações relacionadas as questões macroeconômicas no Brasil. Acesse: https://goo.gl/80eVaa Ex pl or Lei de Okun Arthur Okun foi um economista americano que desenvolveu essa teoria quando trabalhava no Comitê de Conselheiros Econômicos do presidente norte americano John Kennedy. É uma teoria que relaciona o crescimento do Produto Interno Bruto à variação do desemprego. É uma relação inversa, segundo a qual existe uma relação linear entre as mudanças na taxa de desemprego e o crescimento do PIB: a cada ponto percentual de diminuição do desemprego, o PIB real cresce em 3%. Essa lei está baseada em dados da década de 1950 e é válida para taxas de desemprego entre 3 e 7,5%. Você poderá se aprofundar mais no conhecimento da Lei de Okun consultado o livro: MANKIW, N. Gregory. Macroeconomia, 6 ed. Rio de Janeiro: LTC, 2008, págs.188-190) Ex pl or Tendo como base o que vimos, podemos concluir que a política macroeconômica tem como objetivos principais atingir a menor taxa de desemprego possível, buscar manter a taxa de inflação no menor patamar possível, procurar uma distribuição de renda mais justa e estimular a economia visando o crescimento econômico. 16 17 Instrumentos da Macroeconomia Como acabamos de ver, a macroeconomia tem objetivos complexos e para atingir esses objetivos a política macroeconômica conta com alguns instrumentos. Os principais instrumentos de política macroeconómica utilizados para atin- gir os objetivos apresentados anteriormente são a política monetária e a polí- tica orçamental. No caso da política monetária são utilizados instrumentos que permitem controlar a oferta de moeda e, por essa via, influenciar as taxas de juro praticadas no mercado. Quanto à política orçamental, são utilizados os dois instru- mentos orçamentais controlados pelo Estado, nomeadamente a despesa pública e os impostos. · Política fiscal. · Politica monetária. · Política cambial e comercial. · Política de Rendas. Fonte: iStock/Getty Images Política Fiscal Corresponde a todos os instrumentos de que o governo dispõe para a arrecadação de tributos (política tributária) e controlar suas despesas (política de gastos). É fundamental que a política fiscal seja controlada por regras fixas, como por meio de uma exigência constitucional de um orçamento equilibrado, ou pelos critérios dos formuladores de politicas. 17 UNIDADE Introdução à Macroeconomia A política de estabilização fiscal é conduzida pelo governo federal, Estados e municípios têm capacidade limitada de incorrer em déficits orçamentários. Tanto o nível de gastos estaduais e municipais como suas receitas são determinados por necessidades locais e pelo estado da economia, em lugar de serem definidos com a finalidade de atingir objetivos macroeconômicos. Se olharmos para as políticas que visam à estabilização econômica, devemos levar em conta três tipos de itens que podem ser alterados para afetar as variáveis que são objetivos da política macroeconômica: compra de bens e serviços por parte do governo federal; transferências do governo (incluindo concessões de verbas a Estados e municípios) e arrecadação tributária. A política fiscal apresenta maior eficácia quando o objetivo é uma melhoria na distribuição de renda, pelo fato de taxar as rendas mais altas ou aumentar os gastos do governo em setores menos favorecidos. Política Monetária A política monetária consiste na atuação do governo, por intermédio do Banco Central (Bacen) sobre a quantidade de moeda e títulos públicos que circulam no mercado e, em geral, as condições de crédito. A política monetária pretende influir na atividade econômica, atuando sobre o gasto total da economia e, mais especificamente, sobre o gasto das famílias e sobre os investimentos das empresas. Os instrumentos de política monetária são os seguintes: · Emissões de moeda: É o Banco Central (Bacen) que controla, por força de Lei, a emissão demoeda; · Reservas compulsórias ou obrigatórias (corresponde ao percentual sobre os depósitos que os bancos comerciais são obrigados a depositar no Bacen, se o Bacen aumenta ou diminui o percentual de depósito compulsório, há uma alteração significativa na oferta de moeda; · Mercado aberto ou open market (compra e venda de títulos públicos). Quando o Bacen compra títulos públicos no mercado de capitais, ele aumenta a oferta monetária, quando vende a diminui; · Redescontos (empréstimos que o Bacen disponibiliza aos bancos comerciais); · Regulamentação sobre crédito e taxa de juros (ocorre pela política de juros, controle de prazos e regras para o financiamento aos consumidores). No Brasil, a taxa Selic (Sistema de Liquidação e Custódia) também configura aumento ou diminuição da oferta monetária, taxa de juros menor, maior oferta de moeda e vice-versa. Podemos destacar dois tipos de política monetária: a expansionista e a contracionista; 18 19 A política monetária expansionista ocorre quando houver uma redução no percentual dos depósitos compulsórios, recompra de títulos ou diminuição da regulamentação do mercado de crédito, com redução da taxa de juros. A política monetária contracionista é caracterizada por restrições de crédito, aumento da taxa de juros e aumento dos compulsórios sobre os depósitos dos bancos comerciais. A política monetária é um dos instrumentos mais utilizados pelo governo visando o controle da inflação e isso é possível com políticas de redução de circulação monetária; restrição ao crédito; elevação da taxa de juros; aumento da taxa de reservas compulsórias e compra de títulos no open market, por exemplo. Importante! O Banco Central é o instrumento pelo qual o governo federal controla o sistema fi nanceiro do país, logo, é por intermédio dele que o governo intervém na economia. Portanto é papel do Banco Central zelar pela estabilidade da moeda por meio do controle dos meios de pagamento. Essa estabilidade consiste na manutenção do seu valor, tanto em relação às moedas estrangeiras, por meio da taxa de câmbio, como com relação às mercadorias produzidas no país. Importante! Política Cambial e Comercial A politica cambial e comercial é um tipo de política externa, pois atua sobre as variáveis relacionadas ao setor externo da economia. A política cambial, como o próprio nome diz, está relacionada à atuação do governo sobre a taxa de câmbio, já a política comercial diz respeito aos instrumentos de estímulo às exportações, assim como ao controle ou abertura das importações. É bom deixar claro: Uma taxa de câmbio elevada quer dizer que o preço da moeda estrangeira está elevado, no nosso caso o dólar, ou que a moeda nacional, o real, está desvalorizada; por outro lado quando usamos a expressão desvalorização cambial, queremos dizer que a taxa de juros aumentou, mais reais por unidade para adquirir uma unidade de moeda estrangeira. Outra forma recorrente pela qual expressamos essa relação moeda nacional- moeda estrangeira é a seguinte: Se a cotação da moeda estrangeira aumenta diz-se que ocorreu depreciação da moeda nacional, agora se a cotação da moeda estrangeira diminui diz-se que houve uma apreciação cambial da moeda nacional. A atuação do governo sobre a taxa de câmbio ocorre com a atuação do Banco Central se resume a duas situações: A determinação de uma taxa de câmbio fixa, quando ocorre a intervenção das autoridades monetárias. 19 UNIDADE Introdução à Macroeconomia Temos o caso da taxa de câmbio flexível, quando esta é determinada pelo mercado de divisas, caso específico da política cambial brasileira na atualidade. Quanto à política comercial, esta é fomentada pelos instrumentos de estímulo ou desestímulo as exportações e importações. Quando falamos em política comercial de um país, estamos nos referindo às decisões do governo que afetam as entradas e saídas de divisas do país em termos de transações comerciais (tarifas de importação, estabelecimento de quotas, incentivos à exportação etc.). Podemos destacar como estímulos fiscais e creditícios às exportações a isenção de impostos; o crédito subsidiado; as taxas de juros subsidiados etc.; e como controle das importações as tarifas e barreiras sobre importações. Outro fator que influi na política comercial é a taxa de câmbio, por exemplo: A apreciação cambial (quando há uma queda nos preços estrangeiros, queda do preço do dólar), isso reduz a competitividade dos produtos brasileiros no exte- rior, dificultando as exportações brasileiras. Por outro lado, uma depreciação cam- bial, aumento do valor do dólar em relação ao real, aumenta a competitividade dos produtos brasileiros no exterior e pode influenciar positivamente as exporta- ções brasileiras. Política de Rendas É a política exercida pelo governo que visa estabelecer controles sobre a remuneração dos fatores diretos de produção envolvidos na economia do país, podemos citar como exemplos dessa política aquelas que afetam salários, depreciações, lucro, dividendos e preços de produtos intermediários e finais. Os principais objetivos dessa política seriam: propiciar ganhos de poder aquisitivo dos salários, no caso de controle de outros preços; redistribuição de renda; reduzir o nível das tensões inflacionárias buscando a estabilização de preços. Oferta e Demanda Agregada Dando prosseguimento à nossa incursão pelos caminhos da Macroeconomia, dois conceitos muito importantes precisam ser bem apropriados por você: São os conceitos de Demanda Agregada (DA) e Oferta Agregada (OA), acompanhem-me: Demanda agregada (DA) significa a totalidade de bens e serviços (demanda total) que numa determinada economia os consumidores, as empresas e o Estado, estão dispostos a comprar, a um determinado nível de preço e em determinado momento. Na economia de um país, a demanda agregada representa o gasto total com a compra de bens e serviços que serão adquiridos, para cada nível de preço. Está 20 21 relacionada com o total da produção, PIB (Produto Interno Bruto) de um país quando os seus níveis de estoque são estáveis. A demanda agregada depende de alguns fatores como: política monetária e fiscal, da renda em poder dos consumidores disponível para consumo, dos impostos a que estão sujeitos, dos gastos públicos efetuados pelo Estado, entre outros. A curva de demanda agregada revela a quantidade de bens que os consumidores desejam comprar em cada nível de preço. Tem inclinação negativa devido aos efeitos da renda, da taxa de juros e da taxa de câmbio. Na figura abaixo, demonstramos como podemos representar graficamente a Curva de Demanda Agregada (DA) levando-se em consideração o nível geral de preços (P) numa economia e o Produto real. (Y). A Oferta Agregada (OA) representa o que as empresas, no seu conjunto, estão dispostas a produzir e a vender para cada nível geral de preços, assumindo como constantes todas as restantes variáveis determinantes da oferta agregada tais com as tecnologias disponíveis e as quantidades e preços dos fatores produtivos. A curva de oferta relaciona o preço e a quantidade oferecida de determinado bem ou serviço. No longo prazo, a curva de oferta agregada é vertical e no curto prazo ela possui inclinação positiva. Conjugada com a demanda agregada, a oferta agregada permite encontrar o equilíbrio macroeconômico, ou seja, uma situação em que tanto o PIB real quanto o nível geral de preços satisfazem compradores e vendedores. A Oferta Agregada pode ser representada num gráfico em que num dos eixos é representado o nível geral de preços (P) e no outro o produto (ou PIB) real (Q). Neste gráfico, a Oferta Agregada surgirá como uma curva com inclinação positiva, o que significa que a quantidade que as empresas desejam produzir e vender aumenta quando aumenta o nível geral de preços. 21 UNIDADE Introdução à Macroeconomia Na figura abaixo, representamos graficamente a Curva de Oferta Agregada (OA) Mas longo prazo? Curto prazo? Como podemos determinaro que é longo ou curto no decorrer do tempo? Vamos lá! Para podermos melhor explicar as diferenças nas análises entre o curto e o longo prazo é importante considerarmos as diversas classificações e nomenclaturas existentes na literatura. O curto prazo é o período de tempo em que apenas uma variável do modelo econômico é alterável, permanecendo as demais de forma constante. É tipicamente um período que vai de seis meses a três anos. O longo prazo é o período de tempo em que todas as variáveis podem mudar menos a base tecnológica e institucional da sociedade. É um período que vai de três a dez anos. Por fim, os prazos ligados ao desenvolvimento tecnológico são aqueles que assistem a mudança da base tecnológica da sociedade e de suas instituições, compreendendo períodos de dez a 50 anos. Para citarmos apenas dois autores, Mankiw (2008) dá a esta periodização o nome de curto, longo e longuíssimo prazo; Blanchard (2007) prefere chamar de curto, médio e longo prazo. Como estamos tratando do ambiente macroeconômico, precisamos agregar todos os produtos individuais distribuídos pelos fabricantes e prestadores de serviços numa suposta grande cesta. A tudo isso que foi produzido nessa economia dá-se o nome de produto agregado (Y), seja quando falamos de curto ou longo prazo. Agora, quando nos referimos ao valor global desta nossa suposta cesta, ou seja, quanto estes produtos valem sob o ponto de vista de preços de mercado, chamamos de nível geral de preços (P). 22 23 Material Complementar Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade: Vídeos Economia Noções básicas de Macroeconomia, Produto Agregado, PIB, Política Fiscal, Política Monetária, Políticas Cambial e Comercial, Fluxo Circular de Renda. https://goo.gl/blTiFh Economia Setor Externo: Globalização, Transações Comerciais Internacionais, Taxa de Câmbio, Regimes de Câmbio Fixo e Flutuante. https://goo.gl/2ysdLa Livros Macroeconomia PARKIN, Michael. Macroeconomia. 5 ed. São Paulo: Addison Wesley, 2003. Macroeconomia ABEL, A; B.; BERNANKE, B. S.; CROUSHORE, D. Macroeconomia. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2008. 23 UNIDADE Introdução à Macroeconomia Referências BLANCHARD, O. J. Macroeconomia. 4. ed. , v. ,São Paulo: Prentice Hall, 2007. DORNBUSCH, R.; FISHER, S. Macroeconomia. 5. ed. , v., São Paulo: Pearson Makron Books, 2006. FROYEN, Richard T. Macroeconomia. 5. ed. São Paulo-SP: Saraiva, 2005. LOPES, L. M.; VASCONCELLOS, M. A. S. Manual de Macroeconomia: Nível Básico e Nível Intermediário. 2. ed. , v.,São Paulo: Atlas, 2000 MANKIW, N. Gregory. Macroeconomia. 6. ed.,Rio de Janeiro: LTC-Livros Técnicos e Científicos, 2008. 24 Macroeconomia Material Teórico Responsável pelo Conteúdo: Prof. Esp. Valdécio Silvério Bezerra Revisão Textual: Profa. Ms. Fátima Furlan A Escola Clássica • Principais pressupostos • Produção e Emprego • Produto e Emprego de Equilíbrio • Moeda, Preços e Juros • O Governo e a Política Fiscal no Modelo Clássico · Nessa unidade, continuamos o estudo da Macroeconomia tendo agora como tema o Modelo Clássico e sua contribuição ao desenvol- vimento da teoria macroeconômica. Procuramos assim inserir você, aluno, no estudo da macroeconomia sob a ótica da Escola Clássica discutindo seus conceitos básicos como produção e emprego, oferta e demanda agregada; noções referentes à poupança, investimentos, taxa de juros e política monetária e fiscal e o que os clássicos pensam sobre a ação do Governo no processo econômico. OBJETIVO DE APRENDIZADO A Escola Clássica Mantenha o foco! Evite se distrair com as redes sociais. Mantenha o foco! Evite se distrair com as redes sociais. Determine um horário fixo para estudar. Aproveite as indicações de Material Complementar. Não se esqueça de se alimentar e se manter hidratado. Aproveite as Conserve seu material e local de estudos sempre organizados. Procure manter contato com seus colegas e tutores para trocar ideias! Isso amplia a aprendizagem. Seja original! Nunca plagie trabalhos. Orientações de estudo Para que o conteúdo desta Disciplina seja bem aproveitado e haja uma maior aplicabilidade na sua formação acadêmica e atuação profissional, siga algumas recomendações básicas: Assim: Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte da sua rotina. Por exemplo, você poderá determinar um dia e horário fixos como o seu “momento do estudo”. Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar, lembre-se de que uma alimentação saudável pode proporcionar melhor aproveitamento do estudo. No material de cada Unidade, há leituras indicadas, dentre elas: artigos científicos, livros, vídeos e sites para aprofundar os conhecimentos adquiridos ao longo da Unidade. Além disso, você também encontrará sugestões de conteúdo extra no item Material Complementar, que ampliarão sua interpretação e auxiliarão no pleno entendimento dos temas abordados. Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em fóruns de discussão, pois irão auxiliar a verificar o quanto você absorveu de conhecimento, além de propiciar o contato com seus colegas e tutores, o que se apresenta como rico espaço de troca de ideias e aprendizagem. UNIDADE A Escola Clássica Contextualização Uma revolução acontecia sob todos os aspectos ao término do século XVIII e transcorrer do XIX. Seja quando nos reportamos ao contexto das ideias, das relações sociais e principalmente das relações econômicas. O que vai nortear nossa preocupação aqui é entender as teorias econômicas que começam e ser desenvolvidas nesse período, como se estruturaram e influenciaram o pensamento macroeconômico no seu surgimento. Novas relações econômicas se estruturam com uma complexidade específica impondo situações que requeriam respostas e estas começavam a ser pensadas para esse novo contexto. Nessa Unidade, todas essas problematizações e situações serão estudadas, ao final você compreenderá como foi importante esse período para todo o desenvolvimento da teoria macroeconômica e a influência, que até hoje, o pensamento representado pela Escola Clássica exerce sobre as teorias econômicas contemporâneas. Preparado? Então vamos lá! 8 9 Principais Pressupostos A economia clássica surgiu como uma resposta à ortodoxia representada pelo conjunto de doutrinas econômicas conhecidas como mercantilismo. Ortodoxia: um modelo de pensamento econômico predominante representado por um determinado conjunto de ideais e teorias.Ex pl or Os principais dogmas mercantilistas atacados pelos teóricos clássicos foram: o metalismo que defendia o seguinte princípio: o que determina o poder e a riqueza de uma nação era os seus estoques de metais preciosos; o outro dogma combatido estava relacionado à necessidade de intervenção do Estado direcionando o desenvolvimento do sistema capitalista. Os economistas clássicos, contrariamente aos mercantilistas, enfatizam a importância dos fatores reais na determinação da riqueza das nações assim como as tendências otimizadoras do livre mercado e não intervenção e ausência do controle estatal nesse processo. Os principais idealizadores desses princípios foram: Adam Smith (1723 – 1790); Obra: A Riqueza das Nações (1776) David Ricardo (1772 – 1823); Obra: Princípios de Economia Política (1817) John Stuart Mill (1806 – 1873); Obra: Princípios da Economia Política (1848) Thomas Robert Malthus (1766 – 1834); Obra: Um Ensaio Sobre o Princípio da População (1798) Em suma, os economistas clássicos tinham como principais pressupostos a tese da existência de uma “Mão Invisível” capaz de eliminar as crises e a teoria do auto ajustamento dos mercados via preços e salários. Segundo Adam Smith as pessoas aplicam o seu capital para que ele renda o máximo possível, sendo assim não leva em conta o interesse da comunidade e sim o seu próprio interesse, no entanto, o que o autor defende é que ao promover seu interesse pessoal o indivíduotermina por promover o interesse geral, o coletivo. 9 UNIDADE A Escola Clássica Dessa forma ao perseguir o interesse pessoal o homem acaba por beneficiar a sociedade, guiado assim por uma espécie de “Mão Invisível”. Ainda segundo essa teoria, o mercado tenderia ao equilíbrio, ou seja, ele se autorregula segundo a lei da oferta e da procura. Por exemplo, a inflação seria corrigida pelo equilíbrio forçada dos preços orientados pelo equilíbrio entre a oferta e procura conduzido pela Mão Invisível do mercado. Produção e Emprego Produção Uma relação central no modelo clássico é a função produção agregada. Essa função produção teria como base a tecnologia das firmas. Essa relação se daria entre os níveis da produção e os níveis de insumos. Sendo assim, para cada nível de utilização de insumos, por meio da função produção teríamos um valor resultante da produção. Veja como podemos escrever essa função: y = F (K, N) Onde: y é a produção real, K é o estoque de capital (prédios e equipamentos) e N é a quantidade de mão-de-obra. Por convenção, supomos que no curto prazo o estoque da capital seja fixo, em decorrência disso temos a barra sobre o símbolo da capital. O mesmo ocorre, supostamente, com a tecnologia e a população que permanecem constantes no curto prazo. Com base nesses pressupostos obtemos um primeiro enunciado: No curto prazo, o único fator que provoca a variação da produção é a alteração na utilização de mão-de-obra (N), oriunda da população que supostamente é fixa. Na Figura 1(a) abaixo, representamos, por meio de um gráfico, o produto que representa os efeitos da utilização eficiente de diferentes quantidades de mão-de-obra. Podemos deduzir várias características interessantes de acordo com a função produção desenhada nesse gráfico. Baixos níveis de emprego, (abaixo de N’), opõe-se que a função seja uma linha reta; o que isso significa, que mesmo com o aumento na utilização da mão-de-obra os retornos constantes na produção, ou seja, não se altera; No intervalo entre N’ e N”, consideramos que qualquer acréscimo de mão-de- obra resultam em aumentos da quantidade produzida; 10 11 Mas quando avançamos à direita de N” à medida que empregamos mais trabalhadores, mais mão-de-obra, a quantidade produzida passa a ter magnitudes progressivamente menores. Isso quer dizer que além de N’’, ao aumentarmos a utilização de trabalho, não produzimos e nenhum incremento na produção, interessante, não é? Agora na Figura 1(b), representamos um gráfico de variação da produção por alteração de mão-de-obra, definido como produto marginal do trabalho (PMgN). A curva do produto marginal do trabalho é a inclinação da função produção (Δy/ΔN) na Figura 1(a). Abaixo de N’, enquanto N cresce, a linha é reta, representando um produto marginal do trabalho constante. “Além de N’, o produto marginal do trabalho é positivo, mas decrescente diminuindo até que a curva encontre o eixo horizontal em N” (FROYEN, p. 48, 2005) a. A função Produção b O Produto Marginal do Trabalho Figura 1 - As Curvas da Função Produção e do Produto Marginal do Trabalho 11 UNIDADE A Escola Clássica A parte a é o gráfico da função produção, mostrando o valor de produção (y) para cada nível de emprego (N). À medida que o emprego sobe, a produção aumenta, porém a uma taxa decrescente. A inclinação da função produção (Δy/ΔN) é positiva, mas ela diminui à medida que avançamos pela curva. O produto marginal do trabalho (PMgN), ilustrado na curva da parte b do gráfico, é o incremento ao produto resultando do acréscimo de mais uma unidade de mão-de-obra. O produto marginal do trabalho é medido pela inclinação da função produção (Δy/ΔN), e é uma curva com inclinação negativa, quando traçada contra os níveis de emprego. (O símbolo de diferenciação, Δ (delta), indica a variação no valor da variável que o segue, por exemplo, Δy é a variação de y) (FROYEN, p. 48, 2005) Emprego Você deve ter percebido quão importante é o conceito de produção para os economistas clássicos, e para o estudo macroeconômico, mas outro fator associado à produção exerce papel importante nesses estudos, o Emprego. O que caracteriza a análise clássica do mercado de trabalho é a suposição de que este funciona harmoniosamente. Segundo essa máxima, tanto as firmas quanto o trabalhadores escolhem e agem de forma ótima, ou seja, não há obstáculos aos ajustes dos salários nominais, o mercado se equilibra se ajusta naturalmente. Destacamos no capítulo anterior que para que a produção ocorra é preciso alocar mão-de-obra, é preciso trabalho. Agora vamos detalhar como isso acontece analisando a demanda por trabalho de uma firma individual. No modelo clássico, as firmas são perfeitamente competitivas e visam maximizar seus lucros otimizando as quantidades a serem produzidas. No curto prazo, a produção só pode ser alterada por meio da variação na utilização do insumo trabalho, de modo que a escolha do nível de produção e a quantidade de trabalho constituem uma única decisão (FROYEN, p. 49, 2005). Dessa forma uma firma perfeitamente competitiva buscará aumentar a sua produção até encontrar o ponto em que ocorre o equilíbrio entre o custo marginal de produção e a receita marginal recebida pela venda. Isso quer dizer que a receita marginal é igual ao preço do produto. O trabalho é o único fator variável da produção, determinando que o custo marginal de cada unidade adicionada à produção é o custo marginal do trabalho. Para encontrarmos o custo marginal do trabalho, basta dividirmos o salário monetário pelo número de unidades produzidas por unidade adicional de mão-de- obra. Parece complicado, mas não é, perceba: O produto marginal do trabalho é definido como as quantidades produzidas por unidade adicional de mão-de-obra (PMgN), como já vimos. Assim o custo marginal de uma determinada firma (CMg1) é igual ao salário monetário ou nominal (W) dividido pelo produto marginal do trabalho para essa firma (PMgN1) 12 13 1 1 W CMg PMgN = Podemos deduzir então que a condição para que uma firma maximize seu lucro no curto prazo é que: 1 1 WP CMg PMgN = = Voltando ao que afirmamos anteriormente, ocorrerá a maximização do lucro quando o salário real (W/P) pago pela firma for igual ao produto marginal do trabalho (que é medido em unidades da mercadoria, isto é, em termos reais), representando na fórmula, temos: 1 W PMgN P = Para se aprofundar mais nesse assunto leia os capítulos sobre Produto e Emprego do livro de FROYEN, Richard T. Macroeconomia. 5.ed São Paulo: Saraiva, 2005Ex pl or Produto e Emprego de Equilíbrio A terminologia mais utilizada afirma que o produto, o emprego e o salário real são tidos como variáveis endógenas ao modelo clássico. Isso quer dizer que são variáveis determinadas dentro do modelo, ou por ele. Ilustramos o equilíbrio do produto e emprego no contexto do modelo clássico na Figura 2. Na parte (a) demonstramos no gráfico como ocorre o equilíbrio entre o emprego (N0) e do salário real (W/P)0, ou seja, no ponto de intersecção entre as curvas da demanda agregada por trabalho e da oferta total de trabalho. Atingindo esse nível de trabalho de equilíbrio (N0), obtemos um nível de equilíbrio do produto (y0), que está definido pela função produção, representado na parte (b) da Figura 2. 13 UNIDADE A Escola Clássica a. Equilíbrio no Mercado de Trabalho b. Equilíbrio no Mercado de Trabalho Figura 2 - A Teoria Clássica do Produto e do Emprego A parte a ilustra a determinação do equilíbrio no mercado de trabalho ao nível de salário real (W/P)0, que iguala perfeitamente a oferta com a demanda por trabalho. O nível de equilíbrio de emprego resultante é N0. Uma vez determinado o nível de equilíbrio de emprego, achamos o nível de equilíbrio de produção, y0, na curva da função produção da parte b. (FROYEN, p. 56, 2005) Agora vamos destacar alguns dos fatores fundamentais que determinam o produto e o emprego no modelo clássico. Nesse modelo, os fatoresque determinam as posições das curvas de oferta e demanda por trabalho, assim como a posição da função produção agregada, são os que determinam a produção e o emprego, os fatores são: Mudança de tecnologia; alteração do estoque de capital no decorrer do tempo. 14 15 Concluímos assim que no modelo clássico, os níveis de produção e emprego são determinados exclusivamente por fatores associados à oferta, sendo assim o nível de demanda agregada não terá efeito sobre o produto. Importante! Duas suposições estão implícitas na representação clássica do mercado de trabalho: 1 Os preços e salários são perfeitamente fl exíveis e; 2 Todos os participantes desse mercado têm informação perfeita sobre os preços. Importante! As duas suposições acima são essências para a defesa da natureza do equilíbrio do emprego e do produto na teoria clássica, Keynes atacará esses elementos em sua teoria. Moeda, Preços e Juros A Teoria Quantitativa da Moeda O que você precisa entender para determinar o nível de preços no modelo clássico? É necessário analisar o papel da moeda. Na teoria clássica, a quantidade de moeda determina o nível de demanda agregada, que, por sua vez, determina o nível de preços. Começamos com a equação de trocas, origem da teoria quantitativa da moeda (TQM). O primeiro pensador a tratar a teoria quantitativa da moeda foi o filósofo David Hume no século XVIII, a fórmula abaixo é o ponto de partida da medida da velocidade de circulação da moeda. M V = P Y M = quantidade de moeda; V = velocidade de transação de moeda; P = nível geral de preços e; Y = renda ou produto real. Como a velocidade é defi nida ex post, essa relação é uma identidade. Segundo a TQM, um aumento do meio circulante provoca um aumento geral nos preços. Isso implica em que o poder aquisitivo da moeda seria inversamente proporcional ao seu montante em circulação. A equação acima nos diz que o produto da quantidade de moeda, legal e/ou escritura, pela sua velocidade de circulação, é igual à soma de todos os preços multiplicados pelo produto. No sistema clássico existe um vínculo direto entre moeda e preços, uma oferta excessiva de moeda causaria um aumento na demanda por mercadorias e exerceria pressão de alta sobre o nível de geral de preços. 15 UNIDADE A Escola Clássica Demanda Agregada e Oferta Agregada Para os economistas clássicos a moeda possui uma única função, meio de troca. Dessa forma, os agentes econômicos demandam moeda pelos motivos “transação” e “precaução”, ambos relacionados com a renda de forma positiva, não há a possibilidade de entesouramento. Utiliza-se a moeda para demandar bens e serviços. Portanto, um aumento no estoque de moeda aumenta a demanda agregada, deduzimos então que a TQM é ao mesmo tempo uma teoria de demanda por moeda e demanda agregada. Se o produto real é dado pela oferta, a única variável determinada pela demanda é o nível geral de preços. No modelo clássico, políticas monetárias expansionistas ampliam a demanda e, como a oferta é dada pelas condições reais, as únicas variáveis afetadas pela moeda são as nominais (preços). Na Figura 3, representamos a curva de demanda agregada no modelo clássico. Figura 3 - Curva de Demanda Agregada Clássica Importante! Uma mudança na quantidade de moeda é o único fator que desloca a curva de demanda, ou seja, um aumento no estoque de moeda desloca a curva de demanda agregada para cima e para a direita, curva de DA1. Importante! A oferta agregada clássica se define de acordo com algumas hipóteses: 1. Completa flexibilidade de preços e salários: como os preços e salários são flexíveis, as forças de mercado tendem a equilibrar a economia a pleno emprego, sendo este o ponto em que a oferta e a demanda de mão-de-obra se igualam. 2. Neutralidade da moeda: como o nível de emprego é determinado pelas forças de mercado, a quantidade de moeda na economia afeta apenas o nível 16 17 geral de preços, ou seja, as variáveis reais, bem como os preços relativos, não são afetados pela política monetária. 3. Segundo a Lei de Say: a oferta cria sua própria demanda, sendo assim, a demanda agregada não é um fator determinante do nível de produto da economia. Sendo assim a curva de oferta agregada clássica é vertical e atende à dicotomia clássica, uma vez que o nível de produto é independente da demanda agregada e, portanto, independe da oferta de moeda. Este nível de produto de longo prazo, Y, é chamado de nível de produto de pleno emprego: é o nível de produto no qual os recursos da economia estão plenamente empregados, ou, de forma mais realista, em que o desemprego está em sua taxa natural. A redução na demanda agregada afeta o nível de preços, mas não o nível do produto. Figura 4 - Curva de Oferta Agregada Clássica O aumento do estoque da moeda, de M0 para M1, desloca a curva de demanda agregada para a direita, de DA0 (M0) para DA1 (M1). O nível de preços aumenta de P0 para P1. No entanto, o produto que é determinado pela oferta, permanece inalterado (y0 = y1) A Teoria Clássica (Poupança, Investimentos e Taxa de Juros) Na teoria clássica a taxa de juros era aquela que garantia que o montante de fundos que os indivíduos desejavam emprestar fosse exatamente igual ao montante que os outros indivíduos desejavam tomar emprestado. No entanto, a taxa de juros também influenciará na decisão da renda entre poupança e consumo, ou seja, uma escolha entre consumir hoje ou no futuro. O prêmio por essa espera é expressa no tamanho da taxa de juros que remunerará a poupança do indivíduo. Quanto maior a taxa de juros mais caro será o consumo presente em termos do consumo futuro, dessa forma a poupança será estimulada. 17 UNIDADE A Escola Clássica Você percebe que a poupança é estimulada positivamente com a taxa de juros alta, por outro lado, o consumo apresenta uma relação inversa com a taxa real de juros, à medida que ela aumenta o consumo diminui. Podemos deduzir então que o volume de poupança corresponde à oferta de fundos no mercado financeiro, Quanto maior a taxa de juros, maior será a quantidade de recursos ofertados, Assim sendo, a função poupança será crescente, em relação à taxa de juros. Aqueles que desejam investir buscam a demanda por fundos. Esse investimento corresponde ao acréscimo no estoque de capital numa economia específica, isso tem como objetivo ampliar a produção futura. O custo do investimento é a taxa de juros que o agente paga para obter o empréstimo com o objetivo de adquirir um bem de capital, ou o custo de oportunidade, quando o detentor de recursos incorre ao não aplicar sua poupança em títulos e imobilizar esses recursos na produção. No entanto, a produtividade marginal do capital é decrescente, isso quer dier que, para que o investimento se amplie, isto é, para que as empresas utilizem mais capital é necessário que a taxa real de juros reduza. Conclui-se assim que a demanda de recursos no mercado financeiro é inversamente relacionada com a taxa de juros, o aumento desta incorre em diminuição dos investimentos. Na Figura 5, demonstramos por intermédio de uma gráfico o equilíbrio entre poupança e investimento no modelo clássico. Figura 5 - Equilíbrio entre Poupança e Investimento no Modelo Clássico No gráfico representado na Figura 5 a taxa real de juros de equilíbrio (rE), o Investimento de equilíbrio (IE) e a Poupanças de equilíbrio (SE), são os valores de equilíbrio da taxa real de juros, dos investimentos e da poupança agregada 18 19 Duas conclusões podem ser deduzidas: a partir do exposto acima: Primeiro: No modelo clássico, a taxa de juros não é afetada pela política monetária, esta ao afetar o nível de preços, pode afetar a taxa nominal de juros, mas não a real, não afeta também as decisões de poupança e investimentos na economia. Segundo: O mercado financeiro é visto como do tipo concorrência perfeita, a flexibilidade da taxa de juros garante que a parcela da renda que não for consumida será investida, validando a Leide Say, isso porque não há obstáculos do lado da demanda à determinação do produto. Com uma taxa de juros acima da (rE), onde ocorre a igualdade entre poupança e investimento, haverá pressão por parte dos poupadores pela aquisição de títulos e fará com que esta se reduza, incentivando o investimento e diminuindo a poupança até que ambas se igualem. Por outro lado se esta taxa estiver abaixo da (rE), haverá excesso por recursos (mais investimentos e menos poupança), provocando pressão por parte dos investidores para que a taxa de juros suba até que o mercado se equilibre. O Governo e a Política Fiscal no Modelo Clássico A política fiscal refere-se a alocação de recursos com base no orçamento público, sendo composta das decisões governamentais sobre gastos e tributação. Vamos partir da análise dos gastos do Governo nesse modelo. O que você pode conceber como concreto é que o governo trabalha com uma restrição orçamentária, da mesma forma que você em sua casa, ou uma empresa. Essa limitação impede que o governo gaste mais do que arrecada. O governo tem três fontes de recursos: a tributação, a venda de títulos ao público (empréstimos de recursos do público) ou o financiamento pela criação de moeda. Suponha que, para efeito didático, a oferta de moeda seja fixa e a cobrança de impostos também. Com isso, ainda por suposição, o financiamento do aumento dos gastos do governo será financiado pela venda de títulos ao público. Esse tipo de política não afetará os valores de equilíbrio do produto ou do nível de preços. Notamos isso ao construirmos as curvas de demanda e oferta agregadas e veremos como juntas determinam o produto e o nível de preços, sem referência ao nível de gastos do governo. “Como o produto não é afetado pelas mudanças nos gastos do governo, o emprego também não é afetado pelas mudanças nos gastos do governo, o emprego deverá permanecer inalterado” (FROYEN, p. 79, 2005), Hipótese que mais tarde será contestado por Keynes. 19 UNIDADE A Escola Clássica Para que você entenda como isso ocorre, vamos examinar os efeitos de uma mudança nos gastos do governo sobre a taxa de juros. A Figura 6 mostra o efeito provocado pelo aumento nos gastos do gover- no financiado pela venda de títulos ao público sobre o mercado de fundos de empréstimos. O déficit do governo é equivalente ao montante de aumento em seus gastos. Se não há déficit, a demanda por fundos de empréstimos corresponde somente ao financiamento dos investimentos privados, representado pela curva i na Figura 6. Ocorrendo o aumento nos gastos governamentais a demanda por fundos de empréstimos se desloca para a curva i + Δg na figura. A distância do deslocamento horizontal da curva (Δg) mede a magnitude do aumento nos gastos do governo. Como o governo emite e vende títulos ao público ocorre um aumento na demanda por fundos de empréstimos. Isso provoca um excesso de agentes dispostos a tomar empréstimos com relação aos que estão dispostos a concedê-los à taxa inicial r0 e a taxa sobe para r1. Figura 6 - Efeito do Aumento nos Gastos do Governo (Modelo Clássico) O aumento nos gastos do governo desloca a curva de demanda por fundos de empréstimos para a direita, de i para i + Δg. A taxa de juros de equilíbrio aumenta de r0 para r1. O aumento na taxa de juros causa uma queda nos investimentos, de i0 para i1 a distância B, e um aumento na poupança igual à queda no consumo de s0 para s1, a distância A. A queda nos investimentos e do consumo compensa exatamente o aumento nos gastos do governo. (FROYEN, p. 80, 2005) O que podemos observar, ilustrado no gráfico acima é que o montante de redução no consumo – aumento na poupança (distância A), somado à redução nos investimentos (distância B) é igual ao aumento nos gastos do governo (Δg). Concluímos que com o aumento da taxa de juros desestimulam as famílias ao consumo e estas substituem o consumo presente por consumo futuro. Os investimentos privados diminuem, pois se tornam desestimulantes em virtude do 20 21 maior custo. Dessa forma, a demanda agregada não é alterada, os aumentos dos gastos do governo financiados por títulos não afetam o nível de preços. Este é um ponto crucial, um aumento nos gastos do governo não tem nenhum efeito independente sobre a demanda agregada. (FROYEN, 2005) Importante! Os economistas clássicos davam ênfase às tendências de auto ajuste na economia. Livre das ações do governo que causam instabilidade, o setor privado permaneceria estável, e o pleno emprego seria atingido. O primeiro desses mecanismos auto-estabilizadores é a taxa de juros, que se ajusta para evitar que mudanças nos diferentes componentes da demanda afetem a demanda agregada. O segundo conjunto de estabilizadores no sistema clássico é a fl exibilidade de preços e salários nominais, que impede que as mudanças da demanda agregada afetem o produto. A fl exibilidade de preços e salários é vital para garantir as propriedades de pleno emprego do sistema clássico. A estabilidade inerente do setor privado levou os economistas clássicos a concluir por políticas econômicas não intervencionistas.(FROYEN, p. 86, 2005) Em Síntese 21 UNIDADE A Escola Clássica Material Complementar Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade: Livros Princípios de Economia Política e Considerações sobre sua Aplicação Prática MALTHUS, Thomas Robert. Princípios de economia política e considerações sobre sua aplicação prática. São Paulo: Nova Cultural Ltda., 1996. Princípios de Economia Política MILL, John Stuart. Princípios de Economia Política. São Paulo: Nova Cultural Ltda., 1996 Princípios da Economia Política e Tributação RICARDO, David. Princípios da Economia Política e Tributação. São Paulo. Nova Cultural Ltda, 1996 Princípios da Economia Política e Tributação SMITH, Adam. A Riqueza das Nações. São Paulo: Nova Cultural Ltda. 1996 22 23 Referências BLANCHARD, O. J. Macroeconomia. 4. ed. , v., São Paulo: Prentice Hall, 2007. DORNBUSCH, R.; FISHER, S. Macroeconomia. 5. ed., v., São Paulo: Pearson Makron Books, 2006. FROYEN, Richard T. Macroeconomia. 5. ed. São Paulo-SP: Saraiva, 2005. LOPES, L. M.; VASCONCELLOS, M. A. S. Manual De Macroeconomia: Nível Básico e Nível Intermediário. 2. ed. , v.,São Paulo: Atlas, 2000 MANKIW, N. Gregory. Macroeconomia. 6. ed., Rio de Janeiro: LTC-Livros Técnicos e Científicos, 2008. 23 Macroeconomia Material Teórico Responsável pelo Conteúdo: Prof. Esp. Valdécio Silvério Bezerra Revisão Textual: Profa. Ms. Fátima Furlan A Teoria Keynesiana • O Problema do Desemprego • Condições para o Produto de Equilíbrio • Componentes da Demanda Agregada • Gastos do Governo e Impostos • Renda de Equilíbrio • Política Fiscal e Estabilização • A Moeda no Sistema Keynesiano e a Armadilha da Liquidez · Expor ao aluno os fatores que propiciaram o desenvolvimento teórico elaborado por Keynes relativo, por exemplo, ao problema do desemprego, os conceitos de demanda agregada, consumo e investimentos. Esclarecer ao aluno o que é renda de equilíbrio, política fiscal e moeda no sistema keynesiano. OBJETIVO DE APRENDIZADO A Teoria Keynesiana Mantenha o foco! Evite se distrair com as redes sociais. Mantenha o foco! Evite se distrair com as redes sociais. Determine um horário fixo para estudar. Aproveite as indicações de Material Complementar. Não se esqueça de se alimentar e se manter hidratado. Aproveite as Conserve seu material e local de estudos sempre organizados. Procure manter contato com seus colegas e tutores para trocar ideias! Isso amplia a aprendizagem. Seja original! Nunca plagie trabalhos. Orientações de estudo Para que o conteúdo desta Disciplina seja bem aproveitado e haja uma maior aplicabilidade na sua formação acadêmica e atuação profissional, siga algumas recomendações básicas: Assim: Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte da sua rotina. Por exemplo, você poderá determinar um dia ehorário fixos como o seu “momento do estudo”. Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar, lembre-se de que uma alimentação saudável pode proporcionar melhor aproveitamento do estudo. No material de cada Unidade, há leituras indicadas, dentre elas: artigos científicos, livros, vídeos e sites para aprofundar os conhecimentos adquiridos ao longo da Unidade. Além disso, você também encontrará sugestões de conteúdo extra no item Material Complementar, que ampliarão sua interpretação e auxiliarão no pleno entendimento dos temas abordados. Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em fóruns de discussão, pois irão auxiliar a verificar o quanto você absorveu de conhecimento, além de propiciar o contato com seus colegas e tutores, o que se apresenta como rico espaço de troca de ideias e aprendizagem. UNIDADE A Teoria Keynesiana Contextualização A economia keynesiana desenvolveu-se tendo como pano de fundo a Depressão mundial da década de 1930. A atividade econômica entrou em um declínio em extensão e gravidade sem precedentes na época. O efeito da Depressão sobre a economia dos Estados Unidos pode ser visto e exemplificado tendo como base a taxa de desemprego que subiu de 3,2% da força de trabalho, em 1929, para 25,2% da força de trabalho, em 1933, o ponto mais baixo da atividade econômica durante a Depressão. O desemprego permaneceu acima de 10% durante toda a década. O produto nacional bruto (PNB) real caiu 30% entre 1929 e 1933, e não voltou a retornar ao nível de 1929 antes de 1939. O economista britânico John Maynard Keynes, cujo livro A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda (1936) é a base do sistema keynesiano, foi mais influenciado pelos eventos de seu próprio país do que pelos dos Estados Unidos. Na Grã-Bretanha, o alto desemprego começou nos primeiros anos da década de 1920 e persistiu por toda a década de 19301 . Os altos índices de desemprego na Grã-Bretanha levariam a um debate entre economistas e responsáveis pelas políticas econômicas sobre as causas e os remédios apropriados contra o aumento no desemprego. Keynes foi um eminente participante deste debate, durante o qual desenvouveu sua teoria macroeconômica. (FROYEN, p.88, 2005) 1 A taxa de desemprego na Grã-Bretanha já era de 10% em 1923 e, exceto por uma breve redução para 9,8%, permaneceu acima de lO% até 1936, ano em que A teoria geral foi publicada. 8 9 O Problema do Desemprego Em 1936, John Maynard Keynes lança o livro “A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda”. A partir dessa obra, muitos economistas aderem às ideias defendidas por Keynes. Essa obra tinha como base um conjunto de ideias que propunham a intervenção estatal na vida econômica com o objetivo de conduzir a um regime de pleno emprego. As teorias keynesianas tiveram enorme influência na renovação das teorias clássicas e na reformulação da política de livre mercado. Acreditava-se que a economia seguiria o caminho do pleno emprego, sendo o desemprego uma situação temporária que desapareceria graças às forças do mercado. O objetivo fundamental era o crescimento da demanda em paridade com a capacidade produtiva da economia a ponto de garantir o pleno emprego, mas sem excessos, pois qualquer descontrole nesse crescimento poderia provocar o aumento da inflação. É com Keynes que ganha força a noção de desemprego involuntário. Apesar de manter várias hipóteses do modelo clássico, sua teoria rompe com esse modelo e o levam a obter conclusões que contestam os clássicos. Rompe em primeiro lugar com a ideia de que os salários reais não seriam determinados pelo equilíbrio de oferta e demanda de mão de obra. O equilíbrio no mercado de trabalho determinaria, na verdade, os salários nominais. Para Keynes, os trabalhadores também eram suscetíveis à ilusão monetária e resistiriam às reduções nos salários nominais, mas não nos salários reais. Desta forma, os salários nominais seriam rígidos e não flexíveis à baixa. O salário nominal corresponde ao valor do trabalho expresso em moeda, enquanto que o salário real corresponde ao poder de compra de bens e serviços com a moeda recebida.Ex pl or A teoria keynesiana fornecerá a base às teorias econômicas de combate ao desemprego, isso seria possível ao se estimular a demanda agregada por intermédio de políticas monetária e fiscal. Como a demanda agregada afeta a atividade econômica, é ela que determina o nível de emprego, de forma simplificada, o nível de emprego é determinado no mercado de bens e serviços pelas expectativas dos empresários. O desemprego involuntário surge então por deficiências de demanda. Sendo assim, o desemprego involuntário existe em Keynes, independente de haver flexibilidade no mercado de trabalho. É o desemprego classificado modernamente como desemprego cíclico, possível de ser atenuado pela intervenção do governo na economia. 9 UNIDADE A Teoria Keynesiana Condições para o Produto de Equilíbrio Para que o produto esteja em equilíbrio, é necessário que o produto seja igual à demanda agregada. Essa é uma noção fundamental no modelo keynesiano. Simplificadamente, podemos representar essa assertiva como segue abaixo: Y = DA ( 1 ) Sendo Y igual ao Produto Nacional Bruto (PNB) ou produto total e DA é a Demanda Agregada. Já a (DA) é formada por três componentes: consumo total das famílias ( C ), a demanda por investimentos desejados pelas firmas ( I ) e a demanda por bens e serviços por parte do Governo ( G ). Como ficará nossa igualdade acima? Y = DA = C + I + G ( 2 ) Verificamos nesse modelo que são desconsiderados as exportações e importações, isso porque se trata de uma economia “fechada”. Como a depreciação também é omitida, tornamos o PNB equivalente a renda nacional. Com o produto nacional Y correspondendo a renda nacional, podemos escrever: Y ≡ C + S + T ( 3 ) Entendemos que a equação ( 3 ) é uma identidade que afirma que a renda nacional é consumida ( C ), poupada ( S ) ou paga em impostos ( T ). Logo: C + S + T ≡ Y = C + I + G Cujo equivalente é: S + T = I + G ( 4 ) Uma vez que Y é o produto nacional, podemos escrever: Y ≡ C + Ir + G ( 5 ) Na equação ( 5 ) o produto nacional é igual ao consumo ( C ), ao investimento realizado ( Ir ), mais os gastos do governo ( G ) Estabelecendo o equilíbrio entre as equações ( 2 ) e ( 5 ), temos? C + Ir + G ≡ Y = C + I + G 10 11 Ou cancelando: Ir = I ( 6 ) Dessa forma concluímos que existem três formas equivalentes de expressar o equilíbrio no modelo keynesiano: Y = C + I + G ( 2 ) S + T = I + G ( 4 ) Ir = I ( 6 ) O fluxograma da Figura 1 possibilita uma visão mais clara dessas condições. As variáveis são medidas em unidades monetárias num determinado intervalo de tempo, tais como, bilhões de reais por trimestre, semestre ou por ano. O fluxo representado na figura consiste em pagamentos monetários aos serviços dos fatores (salários, juros, aluguéis. lucros). A renda nacional é distribuída pelas famílias em três fluxos: Para as firmas em forma de consumo; ao mercado financeiro em forma de poupança e ao governo em forma de impostos. “Portanto o ciclo interno de nosso diagrama ilustra um processo pelo qual as firmas produzem o produto (Y), gerando um montante igual de renda para as famílias, que por sua vez, geram a demanda pelos produtos fabricados.” (FROYEN, p. 95, 2005). Renda Nacional (Y) Consumo (C) Poupança (S) Impostos (T ) Investimento (I) Gastos do Governo (G) FirmasFamílias Mercados Financeiros Governo Figura 1 – Fluxo Circular da Renda e do Produto Fonte: FROYEN p. 95, 2005 Para se aprofundar mais nesse tema uma boa fonte de consulta é o livro: FROYEN, Richard T. Macroeconomia, 5 ed. São Paulo: Saraiva, 2005)Ex pl or 11 UNIDADE A Teoria Keynesiana Componentes da Demanda Agregada Ao desenvolver o Princípio da Demanda Efetiva, Keynes rompe com a ideia de passividade da demanda e sua forma automática de ajuste à oferta, conforme formulado na Lei de Say. Isso porque, ainda segundoKeynes, os empresários definiam quantos empregados contratar e quanto produzir com base em quanto ele espera vender. Duas curvas virtuais se apresentam para o empresário: a) Oferta Agregada: a renda necessária para o empresário oferecer determinado volume de emprego; b) Demanda Agregada: a renda que o empresário espera receber por oferecer determinado volume de emprego. Como vimos, de acordo com o modelo keynesiano simples, alguns fatores afetam esses componentes da demanda agregada e determinam o nível de renda. Vamos examinar melhor cada um desses componentes agora, o consumo, o investimento e os gastos do governo. Consumo As decisões de consumo das famílias dependem de vários fatores sendo o principal o seu rendimento corrente disponível, ou seja, o rendimento deduzido de impostos e incluindo as transferências sociais do Estado. Predominantemente, quando o rendimento disponível das famílias aumenta, estas tendem a comprar mais bens e serviços, por outro lado, quando o seu rendimento disponível diminui, as famílias tendem a comprar menos bens e serviços. Keynes sabia que outros fatores afetavam o aumento do consumo das famílias, mas entendia que a renda era o fator dominante para a determinação do consumo. Para efeito de estudos convém deixar esses outros fatores de lado por enquanto. Tomando como base essa relação consumo-renda, o autor propõe a função consumo abaixo: C = a + bYD a > 0 0 > b > 1 Na Figura 2, ilustramos essa relação, onde: a supomos positivo, esse intercepto representa o valor do consumo quando a renda disponível é igual a zero. Já o parâmetro b é a inclinação da função, representa o aumento nos dispêndios com o consumo por aumento unitário de renda disponível: Notação básica que utilizamos: 12 13 ∆ ∆ C b= YD Figura 2 – Função Consumo Keynesiana Fonte: FROYEN, p.99, 2005 A Função consumo mostra o nível de consumo (C) correspondente a cada nível de renda disponível (YD). A inclinação da função consumo (ΔC/ΔYD) é a propensão marginal a consumir (b), isto é, a variação no consumo por aumento unitário de renda disponível. O intercepto da função consumo (a) é o nível (positivo) de consumo que ocorreria a um nível de renda disponível igual a zero. Tomando como referência a definição de renda nacional, Y ≡ C + S + T Podemos escrever então: YD ≡ Y – T ≡ C + S Deduzimos com isso que a renda disponível é igual ao consumo somado à poupança. O que você pode concluir dessa ralação? Por definição a relação renda-consumo determina também a relação renda-poupança. Na teoria keynesiana, temos: S = - a + (1 – b) YD Agora, por que (a) unidades é negativo? 13 UNIDADE A Teoria Keynesiana Como o consumo para YD igual a zero é de (a) unidades, neste ponto S ≡ YD – C = 0 – a = - a Por outro lado, um aumento unitário na renda disponível leva a um aumento em b unidades no consumo, o resíduo da elevação unitária na renda (1 – b), representa o aumento na poupança: D 1 Y ∆ = − ∆ S b Entendemos que o incremento da poupança por aumento unitário na renda disponível (1 – b) significa propensão marginal a poupar (PMgS). No gráfico da Figura 3, representamos a função poupança. Po up an ça Renda Disponível - a S Inclinação = (1 – b) ΔS S = - a + (1 – b) Y� Y� ΔY� Figura 3 - Função Poupança Keynesiana Fonte: (FROYEN, p. 100, 2005) A função poupança mostra o nível de poupança (S) correspondente a cada nível de renda disponível (YD). A inclinação da função poupança é a propensão marginal a poupar (1 – b), o aumento na poupança por aumento unitário da renda disponível. O intercepto da função poupança (- a) é o nível (negativo) de poupança quando a renda disponível é nula. Investimento No sistema keynesiano, o investimento é uma variável chave, mudanças no dispêndio dessa variável representa um dos principais fatores responsáveis por mudanças na renda. 14 15 Enquanto o consumo é compreendido como uma variável induzida, dependente do nível de renda, o investimento, ao contrário, era um componente da demanda agregada, autônomo e sua variabilidade é a principal responsável pela instabilidade da renda. Segundo Keynes, duas variáveis são fundamentais como determinantes à propensão aos investimentos no curto prazo: a taxa de juros e as expectativas das firmas. Ao estabelecer a relação entre investimentos e taxa de juros, Keynes não diferiu da visão clássica, ou seja, ele supunha que o nível de investimentos mantém uma relação inversa com o valor da taxa de juros. Gastos do Governo e Impostos Os gastos do governo (G), no modelo keynesiano, é concebido como o segundo elemento dos dispêndios autônomos. Supõe-se que estes gastos sejam controlados pelos formuladores de política econômicos, em decorrência disso não dependem diretamente da renda. O componente gasto do governo refere-se àqueles gastos com a aquisição de bens e serviços pelos governos federal, estadual e municipal. Os gastos do governo são considerados como despesas autônomas. Sendo assim, não dependem de variáveis que possam afetar diretamente o modelo keynesiano. Isso pode ser explicado em função de que esses gastos são controlados e definidos pelas autoridades econômicas e não dependem do nível de renda. A partir dos conceitos definidos no modelo keynesiano simples, pode-se determinar o nível de renda ou do produto de equilíbrio numa determinada economia. Para tanto, a seguinte forma de expressão demonstra a condição de equilíbrio, Y = C + I + G ( 1 ) Supondo uma determinada economia (fechada), vamos considerar as seguintes informações: C = 60 + 0,3Y I = 150 G = 45 Para determinarmos a renda ou produto de equilíbrio, efetuaremos um cálculo a partir da identidade básica em uma economia com governo. 15 UNIDADE A Teoria Keynesiana Y = 60 + 0,3Y + 150 + 45 Y – 0,3Y = 60 + 150 + 45 0,7Y = 255 Y = 255 / 0,7, logo Y = 364,28 unidades. Numa economia com governo, a renda nacional (Y) será destinada ao consumo (C), à poupança (S) e aos impostos (T) também, assim temos: Y = C + S + T ( 2 ) Dessa forma, pelas equações ( 1 ) e ( 2 ), temos: C + S + T = Y = C + I + G Para que ocorra equilíbrio da renda é preciso que ocorra: S + T = I + G Dessa forma, conhecendo-se os valores de C, I e G ou os valores de ( C, S e T), encontra-se o valor da renda de equilíbrio. Se tomarmos como referência, o valor de Y segundo a equação ( 1 ), a função consumo agora não depende da renda nacional (Y), mas da renda disponível (YD), ou seja, C = a + bYD Por outro lado, a renda disponível é igual à renda nacional (Y) menos os impostos (T). Temos então, YD = Y – T É preciso que fique claro o fato de que os impostos (T) podem assumir três formas diferentes: um valor autônomo, um valor relacionado à renda e um valor misto. Segundo o seu ponto de vista, de que forma os impostos influenciam na renda e no consumo de uma economia ?Ex pl or 16 17 Renda de Equilíbrio Bom, agora já temos todos os componentes que nos possibilitam encontrar a renda de equilíbrio supondo uma economia fechada. A renda de equilíbrio (Y) é a variável endógena que buscamos determinar. Os termos que são dados são os dispêndios autônomos I e G, assim como o nível de T, e são variáveis exógenas, ou seja, determinadas por fatores externos ao modelo. O consumo é um dispêndio, em sua maior parte, determinado endogenamente pela função consumo. C = a + bTD = a + bY – bT ( 3 ) A segunda igualdade leva em consideração a definição de renda disponível (YD ≡ Y – T). Agora façamos a seguinte substituição: equação de consumo ( 3 ) na condição de equilíbrio ( 2 ), resolvemos a equação para Ῡ, como nível de equilíbrio da renda, conforme segue: Y = C + I + G Y = a + bY – bT + I + G Y – bY = a – bT + I + G Y(1 – b) = a – bT + I + G 1 Y 1-b = (a – bT + I + G) ( 4 ) A teoria de Keynes, em sua forma mais simples, pode ser expressa da seguinte forma: o consumo é uma função estável da renda, isso quer dizer que a propensão marginal a consumir é estável. As mudançasna renda refletem o que ocorre com a variável investimento, extremamente instável. A equação (4) deixa claro que, caso o governo não aplique políticas que visem estabilizar a economia, a renda ficará instável em decorrência da instabilidade dos investimentos. Nessa mesma equação podemos perceber também se ocorrerem mudanças corretas nos gastos do governo (G) e nos impostos (T), o governo poderia neutralizar os efeitos das mudanças nos investimento. As mudanças adequadas em G e T poderiam manter constante a soma dos termos entre parênteses (dispêndios autônomos), até em face as mudanças indesejáveis do termo investimentos. Essa é a base das conclusões por políticas econômicas intervencionistas a que chegou Keynes. 17 UNIDADE A Teoria Keynesiana Política Fiscal e Estabilização Como vimos, a renda de equilíbrio é afetada pelas mudanças nos gastos do governo e nos impostos. Existem várias formas possíveis de aplicação de políticas fiscais na busca de eliminar os efeitos das mudanças indesejáveis na demanda privada por investimentos. O que queremos dizer com isso? O governo pode utilizar esses instrumentos de políticas fiscais como forma de estabilizar os dispêndios autônomos totais e também a renda de equilíbrio, mesmo que os investimentos dos dispêndios autônomos se mostrem instáveis. Na Figura 4, ilustramos um exemplo de política de estabilização seguindo o modelo keynesiano. Vamos supor que a economia esteja em equilíbrio em nível de pleno emprego (potencial) YF. com a DA igual a (C + I + G0). Agora suponhamos que, a partir desse ponto, os investimentos autônomos caiam de I0 para I1, resultado de mudança desfavorável nas expectativas das firmas. Vemos que na ausência de políticas, a demanda agregada cai para DA1, igual a (C + I + G0). Sendo assim, em Y1, ou seja, um equilíbrio da renda está abaixo do nível de pleno emprego. Vejamos então como podemos ilustrar esse exemplo no gráfico da Figura 4 a seguir: D em an da A gr eg ad a Renda C + I + G DA� = (C + I + G ) = (C + I1 + G1) DA = (C + I1 + G0) 45o Y Y Y� Figura 4 - Um Exemplo de Política Fiscal de Estabilização (FROYEN, p. 114, 2005) A queda nos dispêndios autônomos de I0 para I1 desloca a demanda agregada para baixo, de DAF = (C + I0 + G0) para DAL = (C + IL + G0). Um aumento compensatório nos gastos do governo de G0 para G1, reverte o deslocamento da curva de demanda agregada para C + I1 + G1 = DAF = C + I0 + G0. A renda de equilíbrio está de novo em YF . 18 19 A Moeda no Sistema Keynesiano e a Armadilha da Liquidez Keynes considerava três motivos para a manutenção da moeda, o motivo de transação, precaução e especulação. Os indivíduos não supõem tão pouco conseguem associar parcelas bem definidas do montante de moeda que carrega a cada um dos três motivos, no entanto Keynes julgava importante analisar cada um dos motivos separadamente entender o que está por detrás dos estoques monetários mantidos pelos indivíduos. Demanda por Transações Em primeiro lugar a moeda é um meio de troca, logo Keynes considera como primeiro motivo de demanda por moeda, o motivo transação. A relação estabelecida entre o recebimento de renda e os dispêndios é viabilizada pela moeda. A soma de moeda reservada para viabilizar transações variaria positivamente de acordo com o volume de transações nas quais os indivíduos estão envolvidos. Uma das transações viabilizadas pela aquisição de moeda é aquela utilizada para a aquisição de títulos para posteriormente serem vendidos para a aquisição de moeda como forma de quitar gastos, o que nem sempre gera ganhos, ou seja, não é atrativo. Mesmo assim há espaço para redução de estoques monetários para transações, optando pela compra de títulos. Keynes não colocou muita ênfase na taxa de juros ao examinar o motivo transacional para a manutenção de moeda, mas a importância está provada principalmente na demanda por transações no setor empresarial. Demanda por Precaução Outro motivo destacado por Keynes é aquele em que são guardados saldos monetários adicionais para quitar possíveis gastos imprevistos, contas inesperadas, possíveis emergências, é o motivo precaução. O valor guardado para esse fim dependia positivamente da renda. Da mesma forma que na demanda por transações, nesse caso a taxa de juros poderia ser um fator importante caso houvesse uma tendência das pessoas para reduzir o montante de moeda guardado por precaução a medida que os juros subissem. Demanda Especulativa O terceiro motivo destacado por Keynes para explicar a demanda por moeda era o motivo especulativo, maior novidade da análise keynesiana da demanda por moeda. 19 UNIDADE A Teoria Keynesiana Keynes faz a seguinte pergunta: O que motivaria um indivíduo guardar uma quantidade de moeda maior que a necessária para transações ou por precaução, uma vez que os títulos pagam juros e a moeda, pura e simples, não? A resposta é simples. Em razão da incerteza sobre as taxas de juros futuras. Caso as taxas fossem se alterar de forma a causar perdas de capital com os títulos. Sendo assim, essa moeda seria retida pelos que “especulam” com mudanças futuras das taxas de juros. Demanda Total por Moeda Para construir a função demanda total por moeda, vamos agora juntar os três motivos keynesianos para manutenção da moeda. Observamos que a demanda por transações e a demanda por precaução variam positivamente com a renda e negativamente em relação a taxa de juros, já a demanda especulativa por moeda se relaciona negativamente com a taxa de juros. Juntando-as podemos escrever a função da seguinte forma: Md = L(Y,r) Sendo: L demanda por moeda, Y a renda, e r é a taxa de juros. O crescimento da renda aumenta a demanda por moeda; o aumento da taxa de juros, por outro lado, provoca a redução da demanda por moeda. Supostamente podemos usar a função demanda por moeda na forma linear, Md = c0 + c1Y –c2 r c1 > 0 e c2 > 0 c1 mede a elevação da demanda por moeda por aumento unitário da renda, e; c2 reflete quanto a demanda por moeda diminui por aumento unitário da taxa de juros. Essa equação indica que podemos traçar a função demanda por moeda como uma linha reta em nossos gráficos. 20 21 A Armadilha da Liquidez Segundo a teoria de Keynes, é possível supor que os indivíduos têm uma visão preconcebida de uma taxa normal de juros. A previsão é que todas as taxas de juros acima dessa taxa normal tendam a cair a esses juros, com isso a demanda por títulos será preferida à moeda. No entanto, há uma taxa de juros abaixo dessa taxa normal que a perda de capital com títulos, que aumenta à medida que a taxa de juros cai abaixo da taxa considerada normal, dessa forma acabará sendo exatamente igual às rendas com os juros dos títulos. Chamamos esse valor de taxa de juros crítica, abaixo dessa taxa a demanda por moeda será preferida aos títulos. Keynes, no entanto, não entende que existiria uma taxa específica que se atingida estimularia todos os investidores individuais a vender títulos e optar pela retenção de moeda, mas entendia que se a taxa de juros, em movimento de queda constante, desestimulando a demanda especulativa uma vez que a taxa crítica de juros de vários investidores seria atingida, em vista da taxa normal, a moeda seria o ativo preferido. Valores muito baixos das taxas de juros fariam com que quase todos os investidores optassem por esperar que as taxas de juros fossem subir significativamente no futuro. A essas taxas próximas de zero ou abaixo desse patamar, os incrementos à riqueza seriam retidos diretamente sob a forma de moeda, sem ampliar a queda de juros. Essa situação foi denominada por Keynes de armadilha da liquidez. Com base na teoria keynesiana a política monetária é ineficaz. A taxa de juros é tão baixa que as pessoas já retêm bastante moeda e a taxa não pode baixar mais, por mais moeda que seja despejada na economia, o que impede que os investimentos e o consumo sejam incrementados. A situação da armadilhada liquidez trata-se de um caso particular do modelo IS-LM onde a curva LM é horizontal. Trata-se de uma situação limite na qual os agentes estão dispostos a demandar toda a oferta de moeda a uma dada taxa de juros constante. Os casos do Japão na década de 1990 e dos Estados Unidos na década de 1930 são citados como exemplos dessa situação, pois nesses casos as taxas de juros alcançaram níveis muito baixos e permanecerem por anos nesses níveis. 21 UNIDADE A Teoria Keynesiana A Figura 5 ilustra em gráfico como representamos a curva LM numa situação de armadilha de liquidez. r r1 r� Y� Y1 Y LM Figura 5 - A Armadilha da Liquidez Keynesiana Fonte: Elaboração própria Na Figura 5 podemos verificar o caso denominado por Keynes como armadilha da liquidez representado no gráfico pelo trecho indicado pela seta até Y0 , onde a função demanda por moeda torna-se quase horizontal a baixas taxas de juros, próximas de zero. Essa particularidade sobre a demanda por moeda é uma discussão que ainda provoca muitas interpretações e justificativas diversas, mas que encontra respaldo no campo do estudo das políticas econômicas em situações particulares no ambiente macroeconômico. 22 23 Material Complementar Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade: Sites Cruzeiro do Sul Virtual Bibliotecas do Grupo Cruzeiro do Sul https://goo.gl/2uQPmj Livros Macroeconomia do Emprego e da Renda, Keynes e o Keynesianismo LIMA, G. T.; SICSÚ, J. (Org.) Macroeconomia do Emprego e da Renda, Keynes e o Keynesianismo. Barueri, SP: Manole, 2003. Vídeos As Teorias Econômicas de Keynes - Análise do Professor Luíz Belluzzo Abordagem dos aspectos da teoria Keynesiana, comparando-as com a teoria Clássica e relacionando com a Grande Depressão. Uma visão do Professor Luíz Gonzaga de Mello Belluzzo - ECONOMIA Unicamp. https://goo.gl/P7pSRX Leitura A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda KEYNES, J. M. A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda. São Paulo: Abril Cultural, 1996. https://goo.gl/ZhSEFg Keynes: o liberalismo econômico como mito. FONSECA, Pedro Cezar Dutra. Keynes: o liberalismo econômico como mito. Econ. soc., Campinas, v. 19, n. 3, p. 425-447, dez. 2010 https://goo.gl/QcterP 23 UNIDADE A Teoria Keynesiana Referências BLANCHARD, J. O. Macroeconomia. 4 ed. São Paulo: Prentice Hall, 2007. DORNBUSCH, R.; FISHER, S. Macroeconomia. 5. ed. , v., São Paulo: Pearson Makron Books, 2006. FROYEN, Richard T. Macroeconomia. 5. ed. São Paulo-SP: Saraiva, 2005. LOPES, L. M.; VASCONCELLOS, M. A. S. Manual de Macroeconomia: Nivel Básico e Nível Intermediário. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2000. MANKIW, N. Gregory. Macroeconomia. 6.ed., Rio de Janeiro: LTC-Livros Técnicos e Científicos, 2008. 24 Macroeconomia Material Teórico Responsável pelo Conteúdo: Prof. Esp. Valdécio Silvério Bezerra Revisão Textual: Profa. Ms. Fátima Furlan A Teoria Kaleckiana • Contextualização da sua Obra • O Modelo Básico de Kalecki • A Estratégia de Crescimento da Economia • O Princípio da Demanda Efetiva • O Ciclo de Negócios na Macroeconomia • Diferenças e Semelhanças entre Kalecki e Keynes • Pontos Problemáticos no Modelo Kaleckiano · Expor ao aluno os fatores que propiciaram o desenvolvimento teórico elaborado por Kalecki e qual o seu modelo básico. Assegurar ao aluno o entendimento do conceito de demanda efetiva, ciclo de negócios e outros conceitos deste autor. Mostrar ao aluno quais são as diferenças e semelhanças teóricas entre Kalecki e Keynes, assim como os pontos problemáticos, destacados por alguns autores, do modelo kaleckiano. OBJETIVO DE APRENDIZADO A Teoria Kaleckiana Mantenha o foco! Evite se distrair com as redes sociais. Mantenha o foco! Evite se distrair com as redes sociais. Determine um horário fixo para estudar. Aproveite as indicações de Material Complementar. Não se esqueça de se alimentar e se manter hidratado. Aproveite as Conserve seu material e local de estudos sempre organizados. Procure manter contato com seus colegas e tutores para trocar ideias! Isso amplia a aprendizagem. Seja original! Nunca plagie trabalhos. Orientações de estudo Para que o conteúdo desta Disciplina seja bem aproveitado e haja uma maior aplicabilidade na sua formação acadêmica e atuação profissional, siga algumas recomendações básicas: Assim: Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte da sua rotina. Por exemplo, você poderá determinar um dia e horário fixos como o seu “momento do estudo”. Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar, lembre-se de que uma alimentação saudável pode proporcionar melhor aproveitamento do estudo. No material de cada Unidade, há leituras indicadas, dentre elas: artigos científicos, livros, vídeos e sites para aprofundar os conhecimentos adquiridos ao longo da Unidade. Além disso, você também encontrará sugestões de conteúdo extra no item Material Complementar, que ampliarão sua interpretação e auxiliarão no pleno entendimento dos temas abordados. Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em fóruns de discussão, pois irão auxiliar a verificar o quanto você absorveu de conhecimento, além de propiciar o contato com seus colegas e tutores, o que se apresenta como rico espaço de troca de ideias e aprendizagem. UNIDADE A Teoria Kaleckiana Contextualização A contribuição de Kalecki é importante e transcende o fato que antecipou Keynes em alguns aspectos, o que é superdimensionado por seus admiradores. Para os dois, a determinação do nível de demanda efetiva depende do nível de investimento. A diferença reside nos estímulos ao investimento. Um aspecto interessante em alguns modelos de Kalecki é que ele introduz, explicitamente, a distribuição de renda, como fizeram Malthus, Ricardo, Stuart Mill e Marx. Mas, afinal, o que separa Keynes de Kalecki? Nada mais simples: Keynes trabalhou para salvar o capitalismo; Kalecki, para provar que ele não pode ser salvo! O realmente importante é que, para ambos, o maior pecado de uma organização social é ser incapaz de proporcionar emprego para todos que querem e podem trabalhar, oferecendo-lhes salários decentes proporcionais às suas habilidades e bastante para dar-lhes identidade e recepcioná-los na cidadania. Ambos sabiam que o nível de atividade da economia, enquanto existem fatores de produção disponíveis, é função da demanda efetiva, cujo nível, por sua vez, depende, fundamentalmente, do volume do investimento (público + privado). Para Keynes, o investimento privado é função do “espírito animal” do empresário. Se estiver desativado, o governo pode emitir dívida pública, capturar a poupança privada e investi-la em projetos de infraestrutura que terão efeitos duradouros sobre a produtividade do sistema. Acabarão modificando a “expectativa” dos empresários e levando-os a voltar a investir, recuperando a renda e o emprego. Num famoso e revelador artigo de 1943, “Political aspects of full employment”, Kalecki, implicitamente, considerou ingênuo o argumento anterior. Afirma que a “hipótese de que um governo manterá o pleno emprego numa economia capitalista, mesmo se soubesse como fazê-lo, é uma falácia”, por três motivos. Os empresários: 1. “Se oporão ao pleno emprego produzido pelo governo, porque isso amplia a área de sua intervenção”. 2. “Não apreciam os investimentos públicos e são contra os subsídios ao consumo” e, principalmente, 3. “Não gostam das consequências do pleno emprego, porque ele destrói o instrumento que disciplina o trabalhador: o desemprego”. Logo, pleno emprego e capitalismo se excluem. Se desejarmos o primeiro, temos de acabar com o segundo. O fato é que Kalecki, no auge do seu prestígio intelectual e poder (1955-1965), e seus modelos não produziram o desenvolvimento da Polônia. Apenas o mesmo “pleno emprego” com baixa produtividade que parasitou todo o socialismo “real” e custou a liberdade de duas gerações de poloneses.Delfim Netto — https://goo.gl/rnOO9F Ex pl or 8 9 Contextualização da sua obra Michal Kalecki nasceu em Lodz, Polônia, Michal Kalecki (1899 – 1970) Fonte: Commons.Wikimedia.org em 22 de junho de 1899. Estudou na Escola Politécnica de Varsóvia e depois na de Gdanski, mas não chegou a graduar-se. Seu primeiro título acadêmico foi obtido aos 57 anos de idade, já era internacionalmente re- conhecido, quando o governo polonês o no- meou professor universitário; e em 1964 a Universidade de Varsóvia lhe conferiu o títu- lo de doutor honoris causa. Foi um autodi- data. Em sua formação como economista, recebeu profunda influência das obras de Marx e de outros autores marxistas. Seu primeiro emprego como economista foi no Instituto de Pesquisa de Conjuntura e Preços, de Varsóvia, em 1927. Em 1935, quando já tinha publicado seu estudo inovador em teoria dos ciclos econômicos, viajou para a Suécia com uma bolsa de estudos. No ano seguinte, mudou-se para a Inglaterra, onde trabalhou na Escola de Economia de Londres e depois na Universidade de Cambridge (1937/39) e no Instituto de Estatística da Universidade de Oxford (1940/45). Terminada a Segunda Guerra Mundial, Kalecki prestou serviços durante algum tempo para a Organização Internacional do Trabalho e para o Governo polonês. Daí foi para o departamento econômico do Secretariado da ONU, onde ficou até 1954. Retornando à Polônia, ocupou diversos cargos: diretor de pesquisas no departamento de ciências econômicas da Academia Polonesa de Ciências (1955/56), presidente da Comissão de Planejamento de Longo Prazo (1957/60), vice-presidente do Conselho Econômico do Estado (1957/63), e também, ao longo de todo esse tempo (isto é, de 1956 a 1969), professor na Escola Central de Planificação e Estatística. Kalecki morreu em Varsóvia no dia 17 de abril de 1970. Seus trabalhos podem ser separados em três grupos: os que tratam sobre as economias capitalistas desenvolvidas; sobre as economias subdesenvolvidas e sobre as economias socialistas. Antes de surgir a Teoria Geral de Keynes, Kalecki já havia publicado, em polonês, três estudos que constituíram, em conjunto, a primeira formulação precisa e sistemática do papel da demanda efetiva no processo de reprodução capitalista. Nesses estudos pode-se constatar claramente a influência de Marx, Tugan- Baranovski e Rosa Luxemburgo, como o próprio Kalecki o reconhece. E a partir deles Kalecki foi ampliando e aprimorando suas concepções, que culminaram com a publicação de sua Teoria da Dinâmica Econômica em 1954. 9 UNIDADE A Teoria Kaleckiana Apesar de sua formação marxista e da originalidade de suas concepções, que precederam o aparecimento da Teoria Geral de Keynes, durante muito tempo Kalecki foi identificado como um “keynesiano”. Na verdade, aconteceu o contrário: foi ele quem introduziu diversas ideias que depois foram adotadas pela chamada “Economia Keynesiana”; como escreveu Joan Robinson: “Poucos da atual geração de ‘keynesianos’ param para indagar quanto eles devem a Kalecki e quanto realmente a Keynes”. A partir da segunda metade da década de 1950 — e graças à divulgação feita, entre outros, por Joan Robinson, Paul Baran, Paul Sweezy e Lawrence Klein — a originalidade das ideias de Kalecki e sua formação marxista começaram a ser mais conhecidas. Muitos economistas marxistas passaram a perceber que a obra de Kalecki sobre as economias capitalistas, embora desprovida do vocabulário marxista tradicional e com todo o estilo formal e as expressões matemáticas, constituía um desenvolvi- mento do velho “problema da realização”. Problema da realização: se relacionava a necessidade de vender o produto produzido para transformar a mais valia de sua forma trabalho, por meio de forma mercadoria, em lucro, sua forma dinheiro. Ex pl or “A grande crise econômica de 1929/33 exerceu uma influência decisiva sobre as preocupações teóricas de Kalecki. Em 1933 ele publicou ‘Esboço de uma Teoria do Ciclo Econômico’, que se tornou um dos seus trabalhos mais famosos, e dessa época até o fim de sua vida ele se empenhou em estudar os problemas da dinâmica (flutuações cíclicas e mudanças de longo prazo) das economias capitalistas.” (KALECKI, p. 7, 1977). O Modelo Básico de Kalecki O início das análises da Kalecki tem como base os esquemas de reprodução de Marx. No entanto, enquanto Marx divide o sistema econômico em dois departamentos: um de bens de produção (bens de capital) e um de bens de consumo. Kalecki divide o sistema em três, isso porque o departamento de bens de consumo é dividido em bens de consumo dos trabalhadores e bens de consumo dos capitalistas. Assim temos: Departamento I produtor de bens de capital; Departamento II produtor de bens de consumo para os capitalistas; e Departamento III produtor de bens de consumo para os trabalhadores. A segunda diferença entre os esquemas de Marx e Kalecki está no fato de que para Marx a produção é vista como valor, dividindo-se em capital constante, capital 10 11 variável e mais-valia, para Kalecki o esquema de produção de cada departamento é avaliado em termos de preço e não de valor. Distribuindo-se nas categorias de lucros e salários. O produto final de cada departamento já é o próprio valor adicionado de cada departamento. Vejamos esse modelo supondo uma economia fechada e sem governo: Y = P + W Y = renda bruta; P = lucros e W = salários. Como o produto bruto é decomposto na produção dos departamentos? O Departamento I (DI) corresponde ao investimento (I) da economia; O Departamento II (DII) corresponde ao consumo dos capitalistas (CK). O Departamento III (DIII) corresponde ao consumo dos trabalhadores (CW) Em cada departamento o valor da produção divide-se em lucros e salários pagos, veja: I = P1 + W1 CK = P2 + W2 CW = P3 + W3 Podemos escrever então: Y = I + CK + CW ou Y = P + W ( 1 ) Para Kalecki, a hipótese é que os trabalhadores gastam tudo o que recebem, dessa forma a poupança dos trabalhadores é igual a zero. W – CW = SW ou seja, SW = 0, assim W = CW Já a poupança dos capitalistas (SK) é obtida subtraindo-se o total de lucro do consumo dos capitalistas. SK = P – CK Como a poupança total (S) é igual a SW + SK, e a poupança dos trabalhadores é igual a zero, concluímos que: S = SK 11 UNIDADE A Teoria Kaleckiana Reproduzindo a equação (1) temos: Y + W + P = I + CK + CW Como os trabalhadores gastam todo o salário com consumo, ou seja: W = CW, deduzimos então que: CW + P = I + CK + CW, portanto: P = I + CK Subtraindo-se CK de ambos os lados chegamos a seguinte conclusão: P – CK = I Então: S = I Da mesma forma que no caso keynesiano, a poupança não representa um en- trave ao investimento. Isso porque a qualquer investimento realizado corresponde- rá uma poupança de igual valor, o que isso quer dizer? Que o investimento gerará poupança para financiá-lo: Importante! A teoria kaleckiana, ao mesmo tempo que é uma teoria de determinação da renda, é uma teoria de distribuição, diferentemente de Keynes Importante! A Estratégia de Crescimento da Economia Estudaremos agora como Kalecki imaginava uma estratégia de crescimento para uma economia em desenvolvimento. É um exercício mais ou menos especulativo, pois o autor nunca formulou uma proposta específica. Apesar disso, quando discutiu os problemas das economias em desenvolvimento, e mais ainda quando atuou como consultor convidado, ele forneceu muitas pistas de como imaginava uma estratégia econômica. Dessa forma priorizaremos uma economia subdesenvolvida semi-industrializada, isso porque nos possibilitará combinar três linhas teóricas desenvolvidas por Kalecki, que são: a dinâmica do capitalismo monopolista, o crescimento sob o socialismo e a teoria e prática do planejamento do desenvolvimento em economias mistas (economias de mercado onde participam tanto o setor privado como o setor público). 12 13 Kalecki deu mais atenção aos estudos teóricos e aplicados às economias semi-industrializadasjustamente por ocuparem um lugar intermediário entre as economias de capitalismo avançado e as economias realmente subdesenvolvidas. Duas características destacam-se nas economias subdesenvolvidas: Primeiro: não é possível eliminar o desemprego no curto e médio prazo, mesmo que estas utilizem plenamente todos os seus bens de capital. Segundo: nessas economias a elasticidade renda da demanda por alimentos é alta, por outro lado a elasticidade oferta agrícola é baixa, provocados pelos fatores técnicos e institucionais. Essa relação provoca fortes pressões inflacionárias ou déficits externos ou ambos quando a renda per capita aumenta. O que viabilizaria uma taxa elevada e sustentada de crescimento da produção para as economias mistas? Para Kalecki três condições precisavam ser preenchidas: a) controle do comércio exterior e do financiamento externo, b) controle dos investimentos privados a fim de evitar projetos indesejáveis e prontidão do Estado para levar a efeito projetos prioritários, e c) estabilidade de preços, exceto para correções de alterações nas relações de troca. Em decorrência da existência de capacidade ociosa, no curto prazo supõe- se que nas economias semi-industrializadas o produto final poderia crescer significativamente. Para que isso ocorresse, em primeiro lugar a demanda efetiva precisaria crescer. Kalecki destacou três maneiras de se obter o crescimento suficiente da demanda (interna) para assegurar o pleno emprego, tanto da força de trabalho como dos bens de capital, isso para as economias capitalistas avançadas: · Através de gastos governamentais em investimento público ou subsídios para o consumo de massa desde que esses gastos sejam financiados pelo déficit orçamentário; · Estimulando os investimentos privados; · Redistribuindo renda das classes altas para as classes de baixa renda. Em suma, podemos concluir que, na visão de Kalecki, a demanda efetiva deveria ser estimulada com base em uma elevação dos gastos públicos, financiada por impostos sobre os lucros. Além disso, o investimento público deveria ser planejado de tal modo que sempre que faltassem os investimentos privados, o governo viesse em socorro, para que o investimento total pudesse alcançar o nível desejável. Simultaneamente, os gastos governamentais deveriam subsidiar os grupos de baixa renda. Quanto ao crescimento de longo prazo, segundo Kalecki, o problema crucial para a economia subdesenvolvida era aumentar a taxa de acumulação. 13 UNIDADE A Teoria Kaleckiana Kalecki tinha como referência economias com abundância de mão de obra, sua referência era uma economia socialista, mas sua visão pode ser aplicada às economias mistas. O modelo proposto por Kalecki é bem simples: digamos que i seja a taxa (bruta) de investimento e k a relação técnica capital-produto (ou seja, o número de unidades de capital efetivamente em uso, necessário para produzir uma unidade de produto final). A taxa de depreciação seria d e u a taxa extra de crescimento da produção anual que o país poderia obter se aperfeiçoasse os bens de capital existentes (expressamos i, u e d como proporções do PIB). Representamos por r a taxa de crescimento da capacidade produtiva, o modelo de crescimento de longo prazo seria representado como segue: r i k u d= + − Com base nessa equação, deduzimos que a capacidade produtiva crescerá somente se a parcela de investimentos aumentar, dados k, u e d. parâmetros, que segundo Kalecki, um país pode modificar com medidas de política econômica. Assim, é possível aumentar u usando mais (e melhor) os bens de capital. Além disso, é possível reduzir d alongando a vida útil dos bens de capital. Finalmente, é possível reduzir a relação capital-produto k recorrendo a técnicas mais intensivas de mão-de-obra. Podemos deduzir que para Kalecki, canalizar adequadamente os investimentos ou realizá-los com tecnologias apropriadas pode ser tão importante quanto acelerar seu crescimento. O Princípio da Demanda Efetiva Trata-se de um princípio da demanda efetiva (PDE), justamente por antecipar, ser anterior à formulação de teorias macroeconômicas, tanto por sua generalidade (uma crítica à “Lei de Say”), quanto por sua essencialidade (por estabelecer as relações básicas de determinação da Macroeconomia). A proposta de demanda efetiva de Kalecki é essencialmente idêntica a de Keynes. Sendo que Kalecki destaca sua preocupação com a distribuição de renda sobre a demanda agregada. Na teoria da demanda efetiva parte-se da premissa de que em uma economia mercantil, como a capitalista, se produz com o propósito de realizar as mercadorias – isto é, vende-las pelo seu preço de produção – e com isso obter o lucro que elas contêm. Por essa razão é o mercado quem determina os níveis de atividade econômica (produto, emprego, lucros e salários). O limite último de tais níveis, obviamente, está fixado no 14 15 curto prazo, pela amplitude das capacidades produtivas existentes. O que importa, entretanto, é que o nível concreto de atividade econômica [...] é definido pelo mercado, isto é, pela demanda efetiva. Há que considerar, ademais, que no capitalismo desenvolvido a demanda é normalmente, inferior ao produto que, potencialmente, ´poderia gerar-se. Assim o comum é que exista sempre uma capacidade produtiva ociosa, o que permite que a oferta tenha alguma elasticidade mesmo no curto prazo. Em outras palavras, quando a demanda excede a oferta, a produção aumenta; por outro lado, quando a demanda é inferior à oferta, a produção diminui. (GALLARDO, p. 59, 1986) Em síntese, numa dada economia mercantil — e, portanto monetária, onde o dinheiro cumpre todas as suas funções (meio de circulação, unidade de conta, meio de pagamento) —, em toda transação de compra e venda existe apenas uma decisão autônoma: a de gastar. Em consequência, todo gasto determina uma receita de igual magnitude. Por agregação, o total do gasto em um dado período contábil é sempre igual e determina o total da receita. Para Kalecki, a determinação do consumo diretamente pela distribuição de renda é a primeira diferença importante em relação ao Keynes dominante na Teoria Geral. A segunda diferença relevante diz respeito à concepção dos mercados e, a partir daí, aos tipos de retornos vigentes e ao processo de formação de preços. Enquanto Keynes mantém os pressupostos neoclássicos da concorrência perfeita e dos retornos decrescentes, Kalecki trabalha com a hipótese de diversidade das estruturas produtivas, contemplando aquelas caracterizadas pela concorrência imperfeita e, desse modo, pela formação de estruturas monopolistas e oligopolistas. POSSAS, Mário Luiz. Demanda Efetiva, investimento e dinâmica: a atualidade de Kalecki para a teoria macroeconômica. Revista de Economia Contemporânea, Rio de Janeiro, Brasil, v. 3, n.2, p. 17-46, 1999 Demanda efetiva, investimento e dinâmica a atualidade de kalecki para a teoria macroeconômica https://goo.gl/69tCNK Ex pl or O Ciclo de Negócios na Macroeconomia As crises cíclicas têm sido um fenômeno comum na economia capitalista e são muitas as tentativas de explicar e identificar esses ciclos. Kalecki foi um dos principais colaboradores na busca de análise dinâmica da macroeconomia, onde diferentes variáveis em um modelo são definidas em períodos distintos. 15 UNIDADE A Teoria Kaleckiana Contrariando a ortodoxia econômica de seu tempo, que usava modelos estáticos para buscar soluções de equilíbrio, Kalecki primava pelos modelos dinâmicos. Mesmo hoje, o conceito de ciclo de negócios Kaleckiano é uma das teorias mais negligenciadas pelas escolas do pensamento econômico porque sintetiza uma instabilidade dinâmica intrínseca da economia mundial, em longo prazo, como resultado do que denominou duplo caráter de investimento. Kalecki e Schumpeter abordam o fenômeno dos ciclos de negócios de forma diferente, mas tem no cerne algo em comum: Na visão de Kalecki, a inovação tecnológica é um dos fatores determinantes paraa decisão de investimento e o investimento é a chave para justificar os ciclos de negócios. Tendo como base estudos econométricos sobre o comportamento da taxa de juros norte americana, Kalecki concluiu que as taxas de juros no curto prazo são voláteis, no entanto, no longo prazo tem pouca oscilação, podendo assim ser considerada estável ou constante. Apesar de atribuir o ciclo de negócios a causas distintas, a visão de Kalecki e de Schumpeter é muito próxima quanto ao entendimento que as inovações e rupturas tecnológicas são os fatores relevantes para a formação do ciclo de negócios. Para conhecer melhor Schumpeter leia o Livro: SCHUMPETER, Joseph Alois. A Teoria do Desenvolvimento Econômico. São Paulo: Abril Cultural, 1997. Ex pl or Para Kalecki, o estimulo ao investimento é provocado pela concorrência entre os capitalistas, cada um é levado a introduzir inovações tecnológicas e com isso estimulado a investir. As inovações estão embutidas nos novos equipamentos de capital. Kalecki, em sua obra Teoria da Dinâmica Econômica, responde uma pergunta que ele mesmo formulou, ou seja. “O que causa as crises periódicas? Poderia ser respondida brevemente: É o fato de que o investimento não apenas é produzido, mas também é produtor. O investimento considerado como despesa é a fonte de prosperidade, e cada aumento dele melhoram os negócios e estimula uma posterior elevação do investimento.” Outro conceito importante elaborado por Kalecki é o que ele denominou de princípio do risco crescente. 16 17 Segundo esse princípio, quanto maior for o capital da empresa e seu tamanho, mais facilidade esta terá de obter empréstimos, isso porque tem como oferecer uma quantidade maior de garantias ao emprestador. Por dedução concluímos que o tamanho da firma limita o tamanho dos investimentos que pode realizar. Entretanto, dado o capital da empresa, o risco inerente a dado investimento será tanto maior quanto maior o recurso a empréstimos, isto porque estes envolvem pagamentos fixos (principal e juros) por parte das empresas. Assim, quanto maior a alavancagem da empresa, maior o seu risco. Alavancagem: termo usado no mercado fi nanceiro para designar a obtenção de recursos para realizar determinadas operações. Num sentido mais preciso, signifi ca a relação entre endividamento de longo prazo e o capital empregado por uma empresa. Assim, o quociente Endividamento de Longo Prazo/Capital Total Empregado refl ete o grau de alavancagem aplicado. Quanto maior for o quociente, maior será o grau de alavancagem. SANDRONI, 1999 Ex pl or Diferenças e Semelhanças entre Kalecki e Keynes Vamos pontuar algumas discussões conceituais procurando relacionar aproxi- mações e afastamentos entre esses dois grandes teóricos da economia, contempo- râneos, mas separados pela linha ideológica com que elaboraram suas teorias que tanto contribuíram e nos auxiliam nos estudos macroeconômicos. John Maynard Keynes e Michal Kalecki, considerados os fundadores da teoria da demanda efetiva, foram os primeiros a enfatizar o papel central do investimento na determinação de demanda e do produto agregado, assim como do curso do ciclo econômico. Tanto Keynes quanto Kalecki notaram que as quedas dos salários nominais provavelmente seriam acompanhadas de preços decrescentes. No entanto, Kalecki criticou a teoria do investimento de Keynes alegando que não levou em consideração a dinâmica necessária à determinação do investimento. Em sua crítica à Teoria Geral, Kalecki escreveu: O conceito de Keynes, que nos diz somente quão elevado deve ser o investimento para que um certo desequilíbrio possa converter-se em equilíbrio, encontra também uma séria dificuldade ao longo dessa trajetória. De fato, o crescimento do investimento não resulta, de maneira nenhuma, em um processo que leva o sistema na direção do equilíbrio. Assim, é 17 UNIDADE A Teoria Kaleckiana difícil considerar satisfatória a solução de Keynes para o problema do investimento. A razão para esse fracasso encontra-se em uma abordagem basicamente estática para uma questão dinâmica por natureza. (LIMA; SICSÚ. p. 231, 2003) Kalecki concorda com Keynes que o investimento somente ocorre se a taxa de juros for menor do que a taxa de retorno. No entanto, para Keynes, a taxa de juros representa o segundo fator decisivo e Kalecki simplesmente atribui-lhe um papel secundário, por considerar que a taxa realmente relevante é de longo prazo, que é relativamente estável por ser definida pela média das taxas de juros, recentes, de curto prazo. Embora Kalecki não tenha chegado a elaborar uma teoria do investimento tão completa e sofisticada como a de Keynes, inclusive pela abrangência monetária e financeira deste último, teve ao menos o mérito de formulá-la de modo diretamente voltado para os seus efeitos dinâmicos. Em contrapartida, seu maior defeito em comparação com Keynes é a ausência de um tratamento explícito das expectativas. (POSSAS, p. 32, 1999) Em comparação com a teoria de Keynes, as principais lacunas do modelo de Kalecki seriam a ausência de tratamento da taxa de juros e da formação de expectativas de longo prazo. No modelo kaleckiano, a função consumo não tem importância, uma vez que os investimentos determinam a atividade econômica, diferentemente de Keynes. A determinação do consumo diretamente pela distribuição de renda é a primeira diferença importante do que defende Kalecki em relação ao que é dominante na Teoria Geral de Keynes. Outra diferença relevante diz respeito à concepção dos mercados e, a partir daí, aos tipos de retornos vigentes e ao processo de formação de preços. Enquanto Keynes mantém os pressupostos neoclássicos da concorrência perfeita e dos retornos decrescentes, Kalecki trabalha com a hipótese de diversidade das estruturas produtivas, contemplando aquelas caracterizadas pela concorrência imperfeita e, desse modo, pela formação de estruturas monopolistas e oligopolistas. Podemos destacar também como distinção importante entre Keynes e Kalecki a observação do fato de que o primeiro defende que a maneira fundamental de estimular o emprego se resume em realizar maior volume de investimento. Pois o modelo kaleckiano demonstra que a renda, antes de responder a qualquer lei psicológica, é influenciada pela distribuição de renda. Com isso, surge a possibilidade de se observar o aumento no volume de emprego envolvido na produção destinada a atender um certo volume de gastos. Segundo essa teoria, quanto maior a participação da remuneração do trabalho na renda, maior será o multiplicador e maior a variação do produto dado o investimento. Kalecki mostra a importância da distribuição no comportamento dinâmico da economia. 18 19 Pontos Problemáticos no Modelo Kaleckiano É indiscutivelmente valioso o legado teórico deixado pelos estudos desenvolvidos por Kalecki como forma de consolidar a macroeconomia como um segmento da economia de fundamental importância no contexto da compreensão estrutural das diversas economias. No entanto, alguns pontos defendidos ou não abordados em seus estudos têm sido objeto de críticas e precisam passar por revisão. Vamos procurar destacar alguns desses pontos passíveis de análises mais específicas, assim como um incentivo a reflexão e estímulo ao seu posicionamento a respeito. Procurando fomentar a reflexão e aprofundamento de pesquisa, vamos destacar algumas críticas ao modelo kaleckiano que são mais recorrentes e importantes: a) a ausência de tendências; b) o duplo papel atribuído às inversões de capital; c) a ruptura confusa da poupança como elemento influenciador no processo decisório do investimento e d) a falta de uma clara distinção entre taxa de juros e taxa de lucro. Claro que existem outras críticas, mas vamos nos limitar a discutir essas principais. a) ausência de tendências Em toda a sua obra, Kalecki não integra uma tendência às flutuações. Sua obra se caracteriza pelo estudo das flutuações cíclicas e de seus determinantes.Não discutir a tendência (crescimento) destas flutuações (ciclo), implica em aceitar que independentemente do comportamento das flutuações, tem-se uma coisa dada que é o retorno ao estágio original (o ciclo puro despreza a fase de expansão do ciclo). Este raciocínio implica, por outro lado, em não admitir que a reprodução ampliada seja tão inerente ao capitalismo quanto as flutuações o são. A reprodução ampliada é vista pelo autor como resultado único do problema de demanda efetiva e como um dos tantos casos possíveis. b) o duplo papel atribuído às inversões de capital O duplo papel que o autor atribui à inversão de capital (o princípio de ajustamento do estoque de capital), no qual este gera lucros e amplia a massa de capital pelo qual se define a taxa de lucros, é duvidosa e resulta da compreensão de que o ciclo não comporta a expansão (CASTRO, 1979). Além disso, uma ampliação do estoque de capital não necessariamente representa uma reação negativa, pode também significar um estímulo quando investir ou não se torna uma questão de sobrevivência. 19 UNIDADE A Teoria Kaleckiana c) a ruptura confusa da poupança como elemento influenciador no processo decisório do investimento A confusão teórica sobre a poupança atribui-se à necessidade de transparecer uma ruptura teórica definitiva com os clássicos, que afirmavam ser a poupança o único limite ao investimento. Esta ruptura procura enfatizar que o capitalista (individual), no curto prazo, não precisa de poupança, mas de crédito. Contudo, Kalecki tinha consciência de que a empresa não poderia investir infinitamente baseado em capital de terceiros e conclui que no longo prazo a poupança é fundamental. A poupança (S) no modelo kaleckiano é só a poupança privada. Mas para um modelo macroeconômico é necessário a poupança nacional que inclui a poupança pública. No caso, se esta for negativa (G > T), a poupança macroeconômica se diminui com a consequência que a formação de capital se diminui. d) a falta de uma clara distinção entre taxa de juros e taxa de lucro. Claro que existem outras críticas, mas vamos nos limitar a discutir essas principais. Kalecki não faz distinção nítida entre a taxa de juros e taxa de lucros. Portanto, não estabelece a diferença entre capital financeiro e capital industrial, o que leva a pensar que o movimento relativo da taxa de juros e da taxa de lucros seja irrelevante na determinação das flutuações econômicas (CASTRO,1979). O retorno a Kalecki não deve ser, portanto, um simples aceno de reconhecimento e justiça a um grande pensador econômico pouco difundido e precocemente esquecido; mas um gesto de sobrevivência crítica, e, portanto científica, de uma disciplina essencial para a vida social e para a ação pública no capitalismo, mas que se esvai em perda de substância científica e falta de rumo ao mesmo tempo em que se infla de saber convencional. (POSSAS, p. 23, 1999) 20 21 Material Complementar Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade: Livros O Capitalismo ainda é aquele CASTRO, Antonio Barros de O capitalismo ainda é aquele. Rio de Janeiro: Forense, 1979. Michal Kalecki e a Teoria da Demanda Efetiva GALLARDO. Julio López. Michal Kalecki e a teoria da demanda efetiva. São Paulo: Revista de Economia Política v. 6, nº 3, jul/set, 1986 Macroeconomia do Emprego e da Renda: Keynes e o Keynesianismo LIMA, Gilberto Tadeu; SICSÚ, João (orgs.). Macroeconomia do emprego e da renda: Keynes e o keynesianismo, Barueri, SP: Manole, 2003. Demanda Efetiva, Investimento e Dinâmica: a Atualidade de Kalecki para a Teoria Macroeconômica POSSAS, Mário Luiz. Demanda Efetiva, investimento e dinâmica: a atualidade de Kalecki para a teoria macroeconômica. Revista de Economia Contemporânea, Rio de Janeiro, Brasil, v. 3, n.2, p. 17-46, 1999. Novíssimo Dicionário de Economia SANDRONI, Paulo. Novíssimo Dicionário de Economia. São Paulo: Ed. Best Seller, 1999. A Teoria do Desenvolvimento Econômico SCHUMPETER, Joseph Alois. A Teoria do Desenvolvimento Econômico. São Paulo: Abril Cultural, 1997. 21 UNIDADE A Teoria Kaleckiana Referências LOPES, L. M.; VASCONCELLOS, M. A. S. Manual De Macroeconomia: Nível Básico e Nível Intermediário. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2000 KALECKI, Michal. Teoria da dinâmica econômica: ensaio sobre as mudanças cíclicas e a longo prazo da economia capitalista. São Paulo: Nova Cultural, 1977. 22 Macroeconomia Material Teórico Responsável pelo Conteúdo: Prof. Esp. Valdécio Silvério Bezerra Revisão Textual: Profa. Ms. Fátima Furlan O Modelo IS – LM • O Modelo IS-LM • Equilíbrio no Mercado de Bens e Serviços e a Curva IS • Equilíbrio no Mercado Monetário: A Curva LM • Equilíbrio no Mercado de Bens e Serviços e no Mercado Monetário • Demanda Agregada no Modelo IS-LM • Interação Demanda Agregada e Oferta Agregada no Modelo IS-LM • Políticas Monetária e Fiscal no Modelo IS-LM · Detalhar como surgiu o Modelo IS–LM e quais foram os seus idealizadores e a partir desse conhecimento definir o que representa a curva IS e a curva LM, o que é equilíbrio de mercado de bens e serviços e monetário. Assim como explicar os efeitos das políticas fiscal e monetária nesse modelo. · Entender e interpretar gráficos e os resultados possíveis dessas políticas de acordo com as inclinações das curvas IS e LM e suas combinações e o que acontece com a taxa de juros, os investimentos, o estoque de moedas, a renda e outras variáveis passíveis de serem explicadas pelo modelo. OBJETIVO DE APRENDIZADO O Modelo IS – LM Mantenha o foco! Evite se distrair com as redes sociais. Mantenha o foco! Evite se distrair com as redes sociais. Determine um horário fixo para estudar. Aproveite as indicações de Material Complementar. Não se esqueça de se alimentar e se manter hidratado. Aproveite as Conserve seu material e local de estudos sempre organizados. Procure manter contato com seus colegas e tutores para trocar ideias! Isso amplia a aprendizagem. Seja original! Nunca plagie trabalhos. Orientações de estudo Para que o conteúdo desta Disciplina seja bem aproveitado e haja uma maior aplicabilidade na sua formação acadêmica e atuação profissional, siga algumas recomendações básicas: Assim: Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte da sua rotina. Por exemplo, você poderá determinar um dia e horário fixos como o seu “momento do estudo”. Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar, lembre-se de que uma alimentação saudável pode proporcionar melhor aproveitamento do estudo. No material de cada Unidade, há leituras indicadas, dentre elas: artigos científicos, livros, vídeos e sites para aprofundar os conhecimentos adquiridos ao longo da Unidade. Além disso, você também encontrará sugestões de conteúdo extra no item Material Complementar, que ampliarão sua interpretação e auxiliarão no pleno entendimento dos temas abordados. Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em fóruns de discussão, pois irão auxiliar a verificar o quanto você absorveu de conhecimento, além de propiciar o contato com seus colegas e tutores, o que se apresenta como rico espaço de troca de ideias e aprendizagem. UNIDADE O Modelo IS – LM Contextualização Juros Altos Favorecem Investimento em Renda Fixa; Poupança é Opção Ruim A taxa de juros no Brasil continua elevada, o que favorece o investimento em renda fixa e afasta o investidor de um risco desnecessário, como aplicação em Bolsa, para garantir um bom rendimento. A poupança continua sendo uma opção ruim. Consultores econômicos afirmam que o cenário econômico no país ainda é incerto, pois precisa passar pela avaliação da força do governo que procura aprovar no Congresso projetos que podem resultar em aumento de impostos. O cenário econômico exige do governo tomada de ações impopulares para acertar a economia. Se essas ações de ajuste forem tomadas com sucesso, só então os especialistasacreditam que a Bolsa poderá subir, terminando o ano em curso perto dos 60 mil pontos. Dólar deve cair a R$ 3,10 no mesmo período e a taxa de juros poderá baixar para 13% ao ano. Com a atual taxa elevada de juros se mantendo, a renda fixa continua bem atraente: ela garante uma rentabilidade alta a um risco menor, dizem os especialistas, por outro lado, dependendo do apetite de risco do investidor, é possível já começar a diversificar até 20% do seu capital em investimentos mais arriscados, tais como ações. 8 9 O Modelo IS-LM Atribui-se a origem do Modelo IS–LM ao artigo “Mr. Keynes and the classics: a suggested interpretation”, de autoria do economista britânico John Richard Hicks em 1937. Neste artigo, Hicks procurava sintetizar as principais ideias contidas no livro, então recentemente publicado, A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, de John Maynard Keynes. Alvin Hansen - (1887-1975) John Richard Hicks (1904-1989) Fonte: Adaptado de Wikimedia/Commons Alvin Hansen - https://goo.gl/MpJhhv Ex pl or Neste artigo, o autor procurava descrever, de maneira simplificada, um sistema de equações relacionado aos mercados de bens, monetários e de ativos, ao mesmo tempo buscava resumir tais ideias com base em termos geométricos, a partir de gráficos com duas curvas assim definidas por ele. “SI” (que representava o equilíbrio de mercado de bens ou a igualdade entre poupança e investimento), e a curva “LL” (representando o equilíbrio no mercado monetário ou a igualdade entre oferta e demanda por moeda). Essa análise foi posteriormente ampliada pelo economista norte americano Alvin Hansen. Hicks e Hansen chamaram essa formulação de modelo IS–LM, também conhecida como modelo de Hicks-Hansen. 9 UNIDADE O Modelo IS – LM Uma das partes do modelo é composta pela curva IS (do inglês Investiment Saving) corresponde a “investimento” e “poupança”, a curva IS representa aquilo que está acontecendo no mercado de bens e serviços. O outro componente do modelo é a curva LM (do inglês Liquidity Money), representa aquilo que está acontecendo com a oferta e demanda por moeda. Como a taxa de juros influencia tanto o investimento quanto a demanda por moeda, ela é a variável que faz a ligação entre as duas metades do modelo IS–LM . “O modelo demonstra como interações entre o mercado de bens e serviços e o mercado de moeda determinam a posição e a inclinação da curva de demanda agregada e, consequentemente, o nível da renda nacional no curto prazo” (MANKIW, p. 206, 2008). Agora que você conheceu um pouco sobre o surgimento do modelo objeto de nosso estudo, passemos agora aos principais conceitos relacionados, suas aplicações, objetivos e representações gráficas. Vamos lá! Equilíbrio no Mercado de Bens e Serviços e a Curva IS Como vimos, a curva IS representa graficamente a relação entre a taxa de juros e o nível de renda que surge no mercado de bens e serviços. Representamos a condição de equilíbrio no mercado de bens e serviços assim como segue: Y = C + I + G, também equivalente à expressão: I + G = S + T Na maioria das vezes, representamos a curva de equilíbrio no mercado de bens, denominada curva IS, tendo como referência a segunda forma acima da condição de equilíbrio. Tomando como base um caso simplificado, no qual não levaremos em conta o setor governamental (G e T são iguais a zero), chegamos a seguinte conclusão: I (r) = S (Y) Indicamos assim a dependência do investimento em relação à taxa de juros e a dependência da poupança em relação ao nível de renda. 10 11 Com base nessas informações, podemos agora construir a curva IS, que representamos graficamente na Figura 1 abaixo: r r2 r1 r0 C Y2 B Y1 A Y0 IS Y A Curva IS Renda Ta xa d e Ju ro s Figura 1 – Construção da Curva IS (T = G = 0) Nas combinações taxa de juros-renda (r0, Y0), (r1, Y1) e (r2, Y2) obtemos os pontos (A, B, C) ao longo da curva IS. Cada ponto na curva IS (A, B, C) representa equilíbrio no mercado de bens. Além disso, a curva ilustra o modo como o nível de renda de equilíbrio depende da taxa de juros. Percebemos também como o aumento na taxa de juros, por exemplo, de r0 para r1 provoca uma queda no investimento, o que implica em redução na renda, de Y0 para Y1, a curva IS apresenta uma inclinação negativa (descendente). Mas o que determinará se esta curva for muito ou pouco inclinada? Veremos mais a frente que o declive da curva IS é o fator que determina a efetividade relativa das politicas de estabilização monetária e fiscal. Quando a curva IS é traçada muito inclinada, indica que o investimento não é muito sensível a mudanças na taxa de juros, a elasticidade de demanda por investimento em relação aos juros é baixa. Agora, se a curva IS apresenta pouca inclinação, isso significa que a elasticidade de demanda por investimento em relação aos juros é baixa. Ver Figura 2. O conceito de elasticidade refere-se à mudança percentual em uma variável resultante de uma mudança de 1% em outra variável. No caso da elasticidade da demanda por investimento em relação aos juros, a elasticidade é negativa. Um aumento de 1% na taxa de juros causará uma queda da demanda por investimento. Essa demanda será muito ou pouco elástica (sensível) às mudanças na taxa de juros. Ex pl or 11 UNIDADE O Modelo IS – LM IS’ Y C A r1 r r2 Y1 Y2 B IS Y’2 Renda A Curva IS Ta xa d e Ju ro s Figura 2 - Elasticidade da Demanda de Investimento em Relação aos Juros e a Inclinação da Curva IS Para exemplificar o que descrevemos acima, o gráfico da Figura 2 demonstra como seriam as curvas IS muito ou pouco elástica (sensível) a mudanças da taxa de juros. A curva IS (vermelha) é pouco elástica em relação a variação da taxa de juros, ocorre um pequeno aumento da renda (poupança) para que se estabeleça o equilíbrio do mercado de bens. A curva é mais inclinada. A curva IS’ (preta) é mais elástica (sensível) a variação da taxa de juros. O investimento aumenta num montante maior, com a queda da taxa de juros. Assim como a poupança e também a renda devem aumentar numa magnitude maior. A curva IS’ será pouco inclinada. Equilíbrio no Mercado Monetário: A Curva LM Vamos agora estudar a curva LM e como se dá o equilíbrio no mercado monetá- rio. Vimos anteriormente que a curva LM representa graficamente a relação entre a taxa de juros e o nível de renda que ocorre no mercado por encaixes monetários (o dinheiro que pertence aos bancos é mantido junto ao Banco Central em forma de garantia ou lastro). Para que você entenda essa relação é preciso, antes de qual- quer coisa, compreender a teoria relacionada à taxa de juros denominada teoria da preferência pela liquidez. A preferência pela liquidez, segundo Keynes, determina a quantidade de moeda que o público deseja reter de acordo com a taxa de juros, [...] sendo a taxa de juros, a qualquer momento, a recompensa da renúncia à liquidez, é uma medida de relutância dos que possuem dinheiro alienar o seu direito de dispor do mesmo. A taxa de juros não é o “preço” que equilibra a demanda de recursos para investir e a propensão de abster-se do consumo imediato. É o “preço” mediante o qual o desejo de manter a riqueza em forma líquida se concilia com a quantidade de moeda disponível. Isso implica que, se a taxa de juros fosse menor, isto é, se a recompensa da renúncia à liquidez se reduzisse, o montante agregado de moeda que o público desejaria conservar excederia a oferta disponível 12 13 e que, se a taxa de juros se elevasse, haveria um excedente de moeda que ninguém estaria disposto a reter. Se esta explicação for correta, a quantidade de moeda é outro fator que, aliado à preferência pela liquidez, determina a taxa corrente de juros em certas circunstâncias. A preferência pela liquidez é uma potencialidade ou tendência funcional que fixa a quantidade de moeda que o público reterá quando a taxa de juros for dada. (KEYNES, 1996, 174) Dessa forma, tendo como base a teoria da preferência porliquidez, podemos explicar o que determina a taxa de juros, e a partir dessa teoria podemos derivar a curva LM. Em síntese, uma renda alta implica em gasto alto, as pessoas se envolvem em um maior número de transações que exigem o uso de moeda. Portanto, de acordo com a teoria da preferência pela liquidez, uma renda mais alta acarreta uma taxa de juros mais alta, isso porque a oferta de encaixes monetários permanecerá inalterada provocando o aumento da taxa de juros. Vejamos como podemos ilustrar essa relação com base no gráfico da Figura 3 abaixo: Encaixes monetários reais, M/P Ta xa d e Ju ro s Renda, produto, Y Aumento na renda, aumenta a demanda por moeda. LM B Y2 A r1 r1 r2 r r r2 L(r2 ,Y2) L(r1 ,Y1) Y1M/P a) O Mercado de Encaixes Monetários Reais b) A Curva LM Figura 3 Fonte: MANKIW, 2008 Derivando a Curva LM: O painel (a) apresenta o mercado de encaixes monetários reais, um crescimento na renda, de Y1 para Y2, faz crescer a demanda por moeda e, por conseguinte, faz crescer a taxa de juros, de r1 para r2. O painel (b) apresenta a curva LM, sintetizando essa relação entre a taxa de juros e a renda, quanto mais alto o nível de renda, maior a taxa de juros. (MANKIW, p. 218, 2008) A curva LM, ilustrada na Figura 3, sintetiza a relação entre o nível de renda e a taxa de juros. Cada ponto na curva LM (A e B), por exemplo, representa equilíbrio no mercado monetário, e a curva ilustra no modelo como a taxa de juros de equilíbrio depende do nível de renda. Quanto mais alto o nível de renda, maior a demanda por encaixes monetários reais, maior a taxa de juros de equilíbrio. Por essa razão, a curva LM tem inclinação ascendente (positiva). 13 UNIDADE O Modelo IS – LM Equilíbrio no Mercado de Bens e Serviços e no Mercado Monetário Como já vimos, a curva IS tem inclinação negativa e mostra todos os pontos de equilíbrio no mercado de bens, já a curva LM tem inclinação positiva e nos mostra todos os pontos de equilíbrio no mercado monetário. Agora vamos combinar essas duas curvas, IS e LM. O ponto de intersecção entre as duas curvas (E) é o único ponto de equilíbrio geral para ambos os mercados. Todos os pontos fora dessa intersecção indica algum tipo de desequilíbrio. A Figura 4 abaixo ilustra graficamente essa combinação: r A D Renda Ta xa d e Ju ro s B C Y Y0 IS F E LM r0 Figura 4 - Ajuste ao Equilíbrio no Modelo das Curvas IS -LM O ponto de intersecção (E) das curvas IS e LM representa a combinação da taxa de juros e a renda (r0 e Y0), que produz o equilíbrio tanto para o mercado de bens quanto para o mercado monetário. Importante a compreensão desse equilíbrio no modelo IS–LM se levarmos em consideração as razões pelas quais os pontos fora da intersecção das duas curvas não são pontos de equilíbrio e o que cada um desses pontos quer nos dizer. Os pontos acima da curva LM indicam que há um excesso de oferta de moeda. A renda associada a qualquer dos pontos A ou B (Figura 4), a taxa de juros correspondente é excessivamente alta para o equilíbrio do mercado monetário. Há um excesso de oferta de moeda, com isso há pressão de baixa sobre a taxa de juros. Por outro lado, nos pontos abaixo da curva LM, por exemplo, C e D, haverá excesso de demanda por moeda, e consequentemente, pressão de alta sobre a taxa de juros. 14 15 Agora, nossa referência será a curva IS, sendo agora observados os pontos B e C, que estão à direita da curva IS, a produção excederá a demanda agregada, ou da mesma forma, o valor da poupança somado aos impostos excederá o do investimento somado aos gastos do governo. Há, portanto um excesso de oferta de bens, consequentemente uma pressão sobre a produção. Por outro lado, nos pontos que ficam à esquerda da curva IS, pontos A e D, a produção está abaixo do nível que equilibra o mercado de bens. Há um excesso de demanda por bens, haverá, portanto, pressão para aumento da produção. Um ponto na curva IS, por exemplo, o ponto F, representa equilíbrio no mercado de bens, mas, ao mesmo tempo, um ponto ao longo da curva IS que não seja o ponto E, resulta em desequilíbrio no mercado monetário. Já um ponto ao longo da curva LM, indica equilíbrio no mercado monetário, no entanto, com exceção do ponto E, qualquer outro ponto ao longo da curva LM implica em desequilíbrio, ou seja, aplica-se a lógica do ponto acima ou abaixo da curva IS. Demanda Agregada no Modelo IS-LM A curva da demanda agregada sintetiza os resultados do modelo IS-LM, mostrando a renda de equilíbrio em qualquer nível de preços determinado. A curva da demanda agregada tem inclinação negativa, uma vez que o nível de preços mais baixo faz crescer a quantidade de encaixes monetários reais, reduz a taxa de juros, estimula o gasto com investimento e, com isso, faz crescer a renda de equilíbrio. Agora, substituiremos a teoria quantitativa pelo modelo IS–LM para explicar os determinantes de demanda agregada. Nesse modelo a renda nacional cai à medida que o nível de preços cresce, isso explica por que a curva da demanda agregada tem inclinação negativa e nos mostra o conjunto de pontos de equilíbrio que surge no modelo IS–LM à medida que variamos o nível de preços e verificamos o que acontece com a renda. Na Figura 5, derivamos a curva de demanda agregada com o modelo IS-LM para facilitar a compreensão do que definimos acima. Figura 5 15 UNIDADE O Modelo IS – LM Derivando a Curva da Demanda Agregada com o Modelo IS-LM. O painel (a) mostra o modelo IS-LM um aumento no nível de preços, de P1 para P2, diminui os encaixes monetários reais e, por conseguinte, desloca a curva LM para cima. O deslocamento da curva LM diminui a renda, de Y1 para Y2. O painel (b) mostra a curva de demanda agregada, sintetizando essa relação entre o nível de preços e a renda, quanto mais alto o nível de preços, mais baixo o nível de renda. (MANKIW, p. 232, 2008) Em síntese, quando ocorre uma variação no modelo IS–LM em decorrência de uma variação no nível de preços representa um movimento ao longo da curva da demanda agregada. Uma variação na renda nesse mesmo modelo, para um determinado nível de preços provoca um deslocamento na curva da demanda agregada. Interação Demanda Agregada e Oferta Agregada no Modelo IS-LM O modelo de Demanda Agregada (DA) e Oferta Agregada (OA) e o Modelo IS–LM podem ser considerados modelos equivalentes. Ambos são baseados nas mesmas premissas sobre o comportamento e ajuste de preços e quando utilizados para analisar os efeitos de vários choques na economia dão as mesmas respostas. O modelo IS–LM relaciona a taxa de juros real ao produto, já o modelo DA–OA relaciona o nível de preços ao produto. A escolha de um modelo ou outro dependerá sempre da variável que queremos analisar expressando a maior aproximação possível da realidade. Portanto, se tratamos de assuntos relacionados ao comportamento da taxa de juros real será crucial utilizarmos o modelo IS–LM. Por outro lado, assuntos relacionados ao nível de preços ou inflação, o uso do modelo DA–OA é mais conveniente. A escolha da estrutura IS–LM ou da estrutura DA–OA é uma questão de conveniência, os dois modelos expressam a mesma teoria macroeconômica básica. Curva de Demanda Agregada A curva de demanda agregada representa a relação entre quantidade agregada de bens demandados, Cd + Id + G e o nível de preços P, e tem inclinação negativa, assim como a demanda por um produto único. O que diferencia uma curva da outra e que é muito importante: demanda por um produto, por exemplo, batata, relaciona a demanda por esse produto com o preço desse produto em relação aos preços de outros bens. Já a curva DA relaciona a quantidade agregada de produto demandada ao nível geral de preço. Destaque-se que, para um dado nível de preços, a quantidade agregada de produto que as famílias, as empresas e o governo decidem demandar é onde a curva IS e a curva LM se cruzam. 16 17 Como a demanda agregada é determinada pela interseção entreas curvas IS e LM, mantido o nível de preços constante, qualquer fator que desloque para a direita esse ponto de interseção entre as curvas IS e LM eleva a demanda agregada e desloca a curva DA para cima e para a direita. Assim como, qualquer fator que desloque para a esquerda o ponto de interseção entre as curvas IS e LM, desloca a curva DA para baixo e para a esquerda. Na Figura 6, a curva DA tem inclinação negativa porque um aumento no nível de preços reduz a oferta real de moeda deslocando a curva LM para cima e para a esquerda; a redução na oferta real de moeda eleva a taxa de juros real, reduzindo a demanda de famílias e empresas por bens. Os pontos E e F na Figura 6a corresponde respectivamente aos pontos E e F na Figura 6b. LM2(P=P2) LM2(P=P1) Y2 Y1 F E IS r 2 r 1 (a) IS-LM (b) Curva de demanda agredada Ta xa d e j ur os re al r Ni ve l d e p re ço s, P Produto, Y Produto, Y F E DA Y2 Y1 P1 P2 Figura 6 Fonte: ABEL, BERNANKE e CROUSHORE, 2008 Curva de Oferta Agregada A curva de oferta agregada mostra a relação entre o nível de preços e a quantidade agregada de produtos que as empresas ofertam. Importante salientar que no modelo IS–LM destacamos a premissa de que as empresas se comportam de forma diferente no curto prazo e no longo prazo. Segundo essa premissa com os preços fixos no curto prazo, é que as empresas ofertam a quantidade de produto demandada a esse nível de preços fixos. Assim a curva de oferta agregada de curto prazo OACP é uma linha horizontal. 17 UNIDADE O Modelo IS – LM No longo prazo, preços e salários se ajustam para equilibrar todos os mercados na economia. As empresas ofertam Y para qualquer nível de preços e, assim a curva de oferta agregada de longo prazo OALP é uma linha vertical em Y = Y como mostra a Figura 7. Figura 7 Fonte: ABEL, BERNANKE e CROUSHORE, 2008 Qualquer fator que aumente o pleno emprego do produto, Y, desloca a curva OALP para a direita e qualquer fator que reduza Y desloca a curva OALP para a esquerda. Sendo assim, qualquer alteração que desloque a linha de pleno emprego para a direita no diagrama IS–LM também desloca a curva OALP para a direita. Políticas Monetária e Fiscal no Modelo IS-LM Vamos iniciar nossos estudos relacionados às políticas econômicas estabelecen- do algumas relações que nos facilitarão compreender os resultados proporcionados por dois instrumentos dessas políticas, o monetário e o fiscal que podem ser utiliza- dos para afetar o nível de renda. A “eficácia”, ou seja, o tamanho do efeito sobre a renda de uma determinada mudança na variável de política econômica (monetária ou fiscal) depende das inclinações das curvas IS e LM. A tabela abaixo nos possibi- lita visualizar os efeitos dessas ações. M, estoque de moeda; G, nível de gastos do governo; T, impostos. O sinal + indica que uma mudança no instrumento de política faz com que a variável nessa coluna (Y ou r) se mova na mesma direção. O sinal - indica o oposto. Efeitos das Variáveis das Políticas Monetária e Fiscal Efeito de M G F Sobre Y + + - Sobre r - + - (FROYEN, p.178, 2005) Em primeiro lugar vamos analisar os efeitos da política monetária com base em três situações de inclinação da curva IS, ou seja, muito inclinada, pouco inclinada e vertical. 18 19 No caso da curva IS muito inclinada (baixa elasticidade da demanda por investimentos em relação aos juros), Figura 8a, observamos que a política monetária é relativamente ineficaz. A renda aumenta muito pouco como resultado do aumento do estoque de moeda e a curva LM desloca-se de LM0 para LM1. No caso da Figura 8b, a curva IS está bem menos inclinada, refletindo uma maior elasticidade da demanda por investimentos em relação aos juros. Verificamos nesse caso que a política monetária torna-se mais eficaz. Agora simulando um caso extremo, a curva IS vertical, Figura 8c investimento completamente insensível às variações da taxa de juros (elasticidade zero). O efeito do aumento do estoque de moeda simplesmente deslocará a curva LM para baixo ao longo da curva IS, ou seja, nesse caso o investimento não é afetado pela política monetária, não depende da taxa de juros. Importante! Quanto maior for a inclinação da curva IS, mais nos aproximamos desse caso extremo, e a política monetária será menos efi caz. Importante! Figura 8 Fonte: FROYEN, 2005 19 UNIDADE O Modelo IS – LM Agora, vamos analisar os efeitos da política fiscal com base nas mesmas três situações de inclinação da curva IS, ou seja, muito inclinada, pouco inclinada e vertical. Nos casos mostrados nas Figuras 9a e 9b, o aumento nos gastos do governo, seja a curva IS muito ou pouco inclinada, em ambos os casos, esta se desloca de IS0 para IS1. A distância horizontal, ΔG (1/1-b), é a mesma nos dois casos, podemos deduzir que a magnitude do impacto da política é igual em ambos os casos. Observamos nos gráficos que a política fiscal é muito mais eficaz quando a curva IS é mais inclinada, Figura 9a. A curva IS muito inclinada ocorre quando o investimento, como vimos, é relativamente inelástico aos juros, com isso maior será o efeito de uma determinada política fiscal. “Qual a importância desse efeito no investimento, em geral chamado de crowding out (ou efeito deslocamento)? Um fator que determina a importância desse deslocamento no investimento privado é a inclinação da curva IS.”(FROYEN, p. 183, 2005). No caso da curva IS vertical, como mostrado na Figura 9c, o investimento é completamente sensível aos juros. O aumento dos gastos do governo faz subir a taxa de juros, mas não interfere nos investimentos. a. Curva IS muito inclinada b. Curva IS pouco inclinada 20 21 c. Curva IS pouco inclinada Figura 9 Fonte:FROYEN, 2005 O Efeito da Política Fiscal e a Inclinação da Curva IS Comparando os resultados das duas políticas tratadas acima, verificamos que a política fiscal é mais eficaz quando a curva IS é muito inclinada (elasticidade da demanda por investimento em relação a juros é baixa), por outro lado, a política monetária é mais eficaz quando a curva IS é pouco inclinada (elasticidade da demanda por investimento em relação aos juros é alta). Agora, nosso foco será a inclinação da curva LM, sabemos que essa inclinação depende da elasticidade da demanda por moeda em relação aos juros. Veremos agora como a eficácia das políticas monetária e fiscal depende da inclinação da curva LM, ou seja, da elasticidade da demanda por moeda em relação aos juros. Na Figura 10, ilustramos os efeitos do aumento na quantidade de moeda em relação à inclinação da curva LM, muito ou pouco inclinada ou vertical. Nos casos exemplificados, supomos que o aumento no estoque de moeda desloque a curva LM, de LM1 para LM0. A inclinação da curva IS é a mesma em todos os gráficos. Nos três casos, o aumento no estoque de moeda desloca a curva LM a uma distância (∆M/c1) igual, de LM0 para LM1. 21 UNIDADE O Modelo IS – LM No gráfico da Figura 10ª, onde a curva LM é relativamente pouco inclinada, a política monetária é menos eficaz (a elasticidade da demanda por moeda em relação aos juros é alta). O efeito sobre a renda do aumento no estoque de moeda é sucessivamente maior quando consideramos a Figura 10b, caso em que a elasticidade da demanda por moeda em relação aos juros é menor, e depois a Figura 10c, onde a elasticidade da demanda por moeda em relação aos juros é zero, ou seja, a curva LM é vertical. Figura 10 22 23 A tabela abaixo faz um resumo dos efeitos das Políticas Fiscal e Monetária no contexto do Modelo IS–LM. Efeitos das Políticas Fiscal e Monetária Deslocamento de IS Deslocamento de LM Mudança no produto Mudança na taxa de juros Aumentos dos impostos esquerda nenhum diminui diminui Diminuição dos impostos direita nenhum aumenta aumenta Aumento dos gastos do governo direita nenhum aumenta aumenta Diminuição dos gastos do governo esquerda nenhum diminui diminui Aumento da moeda nenhum para baixo aumenta diminui Diminuiçãoda moeda nenhum para cima diminui aumenta Fonte: BLANCHARD, 2007 23 UNIDADE O Modelo IS – LM Material Complementar Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade: Livros Macroeconomia ABEL, B. A; BERNANKE, B. S.; CROUSHORE, D. Macroeconomia. 6. ed. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2008. Leitura IS-LM: uma história? ANDRADE, A. A. S. & MAGALHÃES, M. A. IS-LM: uma história? v. 24, nº 4.,São Paulo: Revista de Economia Política, out./dez. 2004. https://goo.gl/W61Yo5 As primeiras impressões de Hicks sobre a Teoria Geral SOROMENHO, J. E. de C. As primeiras impressões de Hicks sobre a Teoria Geral. v. 34, nº 2, São Paulo: Revista de Eco. Pol., pp. 327-343, abr./jun. 2014. https://goo.gl/cRrrSU 24 25 Referências BLANCHARD, Olivier. Macroeconomia. 4. ed. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2007. FROYEN, Richard T. Macroeconomia. 5. ed. São Paulo-SP: Saraiva, 2005. KEYNES, John Maynard. A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda. São Paulo: Nova Cultural, 1996. LOPES, L. M.; VASCONCELLOS, M. A. S. Manual de Macroeconomia: Nivel Básico e Nível Intermediário. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2000. MANKIW, N. Gregory. Macroeconomia. 6. ed. ,Rio de Janeiro: LTC-Livros Técnicos e Científicos, 2008. 25 Cruzeiro do Sul Educacional Macroeconomia Material Teórico Responsável pelo Conteúdo: Prof. Esp. Valdécio Silvério Bezerra Revisão Textual: Profa. Ms. Fátima Fulan Debates Recentes • Os Monetaristas • A Teoria da Taxa Natural • Política Monetária, Produto e Inflação • Visão Keynesiana do Trade-off Produto-Inflação · Destacar alguns dos debates recentes ligados à interpretação macroeconômica que tem como foco novas interpretações sob a ótica dos monetaristas, novo-clássicos e novo-keynesianos. Entender como essas teorias procuram reformular conceitos defendidos pelos teóricos fundadores dos estudos macroeconômicos. Despertar o interesse pelo estudo macroeconômico, assim como pela pesquisa nessa área em constante atualização e repleta de novos desafios. OBJETIVO DE APRENDIZADO Debates Recentes Mantenha o foco! Evite se distrair com as redes sociais. Mantenha o foco! Evite se distrair com as redes sociais. Determine um horário fixo para estudar. Aproveite as indicações de Material Complementar. Não se esqueça de se alimentar e se manter hidratado. Aproveite as Conserve seu material e local de estudos sempre organizados. Procure manter contato com seus colegas e tutores para trocar ideias! Isso amplia a aprendizagem. Seja original! Nunca plagie trabalhos. Orientações de estudo Para que o conteúdo desta Disciplina seja bem aproveitado e haja uma maior aplicabilidade na sua formação acadêmica e atuação profissional, siga algumas recomendações básicas: Assim: Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte da sua rotina. Por exemplo, você poderá determinar um dia e horário fixos como o seu “momento do estudo”. Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar, lembre-se de que uma alimentação saudável pode proporcionar melhor aproveitamento do estudo. No material de cada Unidade, há leituras indicadas, dentre elas: artigos científicos, livros, vídeos e sites para aprofundar os conhecimentos adquiridos ao longo da Unidade. Além disso, você também encontrará sugestões de conteúdo extra no item Material Complementar, que ampliarão sua interpretação e auxiliarão no pleno entendimento dos temas abordados. Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em fóruns de discussão, pois irão auxiliar a verificar o quanto você absorveu de conhecimento, além de propiciar o contato com seus colegas e tutores, o que se apresenta como rico espaço de troca de ideias e aprendizagem. UNIDADE Debates Recentes Contextualização Com recados claros para o mercado financeiro, governo e Congresso Nacional, o Banco Central (BC) afirmou que não pode cortar juros neste momento, apesar da recessão econômica. A ata do Comitê de Política Monetária (Copom) aponta para um período maior de taxa básica em 14,25% ao ano. Nela, os dirigentes da autoridade monetária disseram que não há espaço para um alívio na política de controle inflacionário porque as expectativas para os preços — feita pelos analistas — ainda estão muito longe da meta de 4,5%. Frisaram também que a velocidade do processo de desinflação depende da aprovação das medidas de controle de gastos enviadas ao Legislativo. Os membros do Copom concordam que houve melhora perceptível do cenário macroeconômico e que indicadores recentes mostram perspectiva de estabilização da atividade econômica no curto prazo. Houve progressos também no controle da inflação, principalmente por causa das quedas das estimativas para os próximos dois anos, mas numa velocidade aquém da almejada. O BC falou claramente que a sua política depende das projeções do mercado: “O Comitê deve procurar conduzir a política monetária de modo que suas projeções de inflação, inclusive no cenário de mercado, apontem inflação na meta nos horizontes relevantes”. A aposta do mercado está em IPCA de 7,25% para este ano. Está mais alta que as previsões feitas nos modelos do BC. Tanto no chamado cenário de referência (quando o Copom faz a conta com juros e câmbio estáveis), quanto no cenário de mercado (quando usa as estimativas dos analistas para fazer as projeções), os cálculos apontam para inflação em torno de 6,75%. O BC observa que contempla desinflação na economia brasileira nos próximos anos, mas aponta que as expectativas do mercado ainda não convergiram. Fonte: O Globo 8 9 Os Monetaristas O termo Monetarismo ou Monetaristas tem origem na década de 1960 quando um grupo de economistas, liderados por Milton Friedman, (1912 - 2006), economista norte-americano, ar- gumentava que a política monetária exercia gran- de efeito sobre a atividade econômica. Podemos resumir as proposições monetaristas nas quatro características seguintes: 1. A oferta de moeda é a influência dominante sobre a renda nominal; 2. No longo prazo, a influência da moeda re- vela-se, basicamente, nos preços e em ou- tras magnitudes nominais. No longo prazo, variáveis reais, como produto real e nível de emprego, são determinadas por fatores reais, e não monetários. 3. No curto prazo, a oferta de moeda influencia variáveis reais. A moeda é o fator dominante que causa movimentos cíclicos na produção e nível de emprego. 4. O setor privado é inerentemente estável. A instabilidade na economia resulta, basicamente, de políticas econômicas governamentais. (FROYEN, p. 239, 2005) Com base nessas quatro proposições, duas conclusões são possíveis sobre a política econômica. Primeiro, “a estabilidade no crescimento do estoque de moeda é fundamental para a estabilidade econômica”. Em segundo lugar, “a política fiscal, em si, tem pouco efeito sistemático sobre a renda real ou nominal, não sendo instrumento eficiente de estabilização”. Foi Milton Friedman quem defendeu veementemente que a política fiscal tem pouca participação independente como instrumento eficiente de estabilização econômica, mas outros monetaristas não aceitam uma forma tão forte dessa proposição, no entanto a posição monetarista geral concorda com Friedman. Para conhecer mais detalhes sobre a concepção monetarista consulte o Capítulo 9 – A Contra-Revolução Monetarista. Livro; Macroeconomia. Richard Froyen, 2005Ex pl or Milton Friedman (1912 – 2006) Fonte: commons.wikimedia.org 9 UNIDADE Debates Recentes Importante destacar, por hora, um elemento central do monetarismo, a posição forte da reformulação da teoria quantitativa da moeda, que produz conclusões de política econômica bastante diferente das visões keynesianas modernas. Na Figura 1, ilustramos as curvas IS-LM como faria um teórico do quantitativismo forte, o que facilitará comparar monetaristas e keynesianos. A curva LM é quase, mas não completamente, vertical, pois, segundo Friedman a elasticidadeda demanda por moeda em relação aos juros é bastante baixa. Figura 1- IS–LM Uma Versão Monetarista Fonte: FROYEN, 2005 Na visão monetarista, a curva IS é bastante plana, refletindo uma alta elasticidade da demanda agregada em relação aos juros. A curva LM é quase vertical, refletindo uma baixíssima elasticidade da demanda por moeda em relação aos juros. (FROYEN, p. 253, 2005) Por fim, após um caloroso debate entre duas correntes formuladoras de políticas econômicas e muita pesquisa, chegou-se à conclusão de que tanto a política fiscal quanto a política monetária afetavam claramente a economia. Para os formuladores dessas políticas que se preocupavam não apenas com o nível, mas também com a composição do produto, a melhor política seria, na verdade, a combinação das duas, a fiscal com a monetária. 10 11 A Teoria da Taxa Natural Partindo-se da seguinte proposição: “No longo prazo a influência da moeda é basicamente sobre o nível de preços e outras magnitudes nominais. No longo prazo, variáveis reais, como o produto real e o emprego, são determinadas por fatores reais, não monetários.” (FROYEN, p. 268, 2005) A teoria das taxas naturais de desemprego e produto desenvolvida por Milton Friedman é a base dessa proposição. Essa teoria defende que existe um nível de equilíbrio do produto e uma taxa de emprego a ele associada que são determinados pela oferta de fatores de produção, tecnologia e instituições da economia, determinadas por fatores reais. Esta é a taxa natural segundo Friedman. Ele acreditava que mudanças na demanda agregada, basicamente na oferta de moeda, causariam movimentos temporários na economia, afastando-a da taxa natural. Por exemplo, uma política expansionista moveria o produto para cima da taxa natural, temporariamente deslocando a taxa de desemprego para baixo da taxa natural. “Os monetaristas não concordam com a posição clássica de que o produto é completamente determinado pela oferta, mesmo no curto prazo.” Na Figura 2, simbolizamos graficamente as taxas naturais de Emprego e Produto. Figura 2 – Taxas Naturais de Emprego e Produto Fonte: FROYEN, 2005 Na parte a, a taxa natural de emprego (N*) é determinada no ponto em que a oferta de mão de obra é igual a demanda com os ofertantes de mão de obra avaliando corretamente o nível de preços (Ps = P). A taxa natural do produto (y*) é, então, determinada na parte b pela função produção. (FROYEN, p. 269, 2005) 11 UNIDADE Debates Recentes Encontramos a taxa natural de desemprego pela subtração da quantidade de trabalhadores empregados da força de trabalho total e, então, pela expressão do número encontrado como uma porcentagem da força de trabalho total. Política Monetária, Produto e Inflação Friedman e outros monetaristas defendem que produto e emprego divergem de suas taxas naturais temporariamente, mas convergirão em um determinado momento. Agora vamos ver como Friedman analisa as consequências de curto e longo prazo provocado pelo aumento de crescimento do estoque de moeda. Se ocorrer um aumento na taxa de crescimento do estoque de moeda, a demanda agregada será estimulada, consequentemente a renda nominal também. Friedman descreve os resultados de curto prazo desse aumento da seguinte forma: Para começar, muito, ou a maior parte, da elevação da renda assumirá a forma de um aumento no produto e no emprego, mas não nos preços. As pessoas vinham esperando preços estáveis e, com base nisso, os preços e salários foram fixados para certo tempo futuro. Leva algum tempo para que as pessoas se ajustem a um novo estado da demanda. Os produtores tenderão a reagir à expansão inicial da demanda agregada aumentando a produção, os empregados, trabalhando por mais horas e, os desempregados, aceitando, agora, trabalhos oferecidos a salários nominais anteriores. Isso é basicamente a doutrina padrão. (apud FROYEN, p. 271, 2005) Friedman está definindo como doutrina padrão a ideia da curva de Phillips. A curva de Phillips é uma relação negativa entre a taxa de desemprego (μ) e a taxa de inflação (π). A Figura 3 simboliza graficamente essa curva, mostrando uma relação de trade-off entre inflação e desemprego. William Phillips (1914 – 1975) Fonte: commons.wikimedia.org 12 13 TRADE-OFF - Em economia, expressão que defi ne situação de escolha confl itante, isto é, quando uma ação econômica que visa à resolução de determinado problema acarreta, inevitavelmente, outros. Ex pl or Figura 3 - Curva de Phillips Fonte: FROYEN, 2005 No curto prazo, um aumento na taxa de crescimento no estoque de moeda move a economia do ponto A para o ponto B ao longo da curva de Phillips de curto prazo. O desemprego diminui e a infl ação sobe. (FROYEN, p. 272, 2005) Para Friedman, taxas mais baixas de desemprego só podem ser obtidas ao custo de taxas de inflação mais altas, concordando assim com a tese de trade-off entre inflação e desemprego no curto prazo. Fundamentalmente, o elemento central da análise de Friedman é sua visão dos efeitos de longo prazo da política monetária, é nessa análise que a ideia de taxa natural de desemprego entra em cena. Para os monetaristas, a política monetária expansionista só consegue mover a taxa de desemprego para baixo da taxa natural temporariamente, ou seja, no curto prazo. Quando a inflação é totalmente antecipada e teve tempo de se ajustar à taxa de inflação efetiva ( π = πe) podemos representar essa situação com a curva de Phillips de longo prazo, ou seja, vertical. Conforme ilustramos na Figura 4. 13 UNIDADE Debates Recentes Figura 4 - Efeito de uma Tentativa de Fixar a Taxa de Desemprego Abaixo da Taxa Natural Fonte: FROYEN, 2005 Aumentos adicionais no crescimento da moeda, para... A teoria de Friedman da taxa natural de desemprego e produto é a base teórica para a crença monetarista de que, no longo prazo, a influência do estoque de moeda atua, basicamente, sobre o nível de preços e outras variáveis nominais. Variáveis reais como produto e emprego têm tempo para se ajustar a seus níveis naturais de longo prazo. Essas taxas naturais de produto e desemprego dependem de variáveis reais, como oferta de fatores (mão de obra e capital) e tecnologia. (FROYEN, p. 276, 2005) A teoria da taxa natural fortalece a tese dos monetaristas favorável a políticas econômicas não intervencionistas. Sendo assim, para Friedman, a curva de Phillips apresenta uma inclinação negativa no curto prazo, no entanto, é vertical no longo prazo. Visão Keynesiana do Trade-off Produto-Inflação Agora vamos procurar responder algumas questões: Qual a visão keynesiana da curva de Phillips e como ela se difere da teoria da taxa natural? Como defender política intervencionista se a teoria da taxa natural estiver correta? A visão keynesiana obedece a seguinte lógica: O salário monetário é flexível e a oferta de mão de obra é considerada dependente do salário real esperado (W/Pe), o salário monetário conhecido dividido pelo nível de preços esperado. 14 15 O modelo keynesiano também estabelece uma relação de trade-off entre inflação e desemprego: altas taxas de crescimento da demanda incorre em baixos níveis de desemprego e altas taxas de inflação. A curva de Phillips nesse modelo tem inclinação negativa. No curto prazo, produto, nível de preços e nível de emprego irão subir. Para os keynesianos o longo prazo difere do curto prazo, pois o preço esperado ajusta-se ao preço efetivo. Aqueles que ofertam mão de obra percebem a inflação resultante da política de expansão da demanda agregada. O emprego aumenta no modelo keynesiano apenas porque a elevação dos preços reduz os salários reais, aumentando a demanda por mão de obra. Dessa forma a quantidade de mão de obra ofertada aumenta à medida que o salário monetário (W) sobe. Isso muda no longo prazo, quando o preço esperado se ajusta ao preço efetivamente praticado. Figura 5 - A Curva de Phillips: A Perspectiva Keynesiana Fonte: FROYEN, 2005 No curto prazo, a curva Phillips, no modelokeynesiano, tem inclinação negativa. No longo prazo, tanto no modelo keynesiano como na análise de Friedman, a curva Phillips é vertical. (FROYEN, p. 282, 2005) Importante ter em mente que no modelo keynesiano chegamos à conclusão que um aumento no nível de demanda agregada eleva os níveis de produto e emprego, diminuindo a taxa de desemprego somente no curto prazo. Agora, percebemos que tanto na visão keynesiana como na monetarista a curva de Phillips de longo prazo é vertical, mas para os keynesianos isso não implica, no longo prazo, em consequências importantes para a política de estabilização de curto prazo. Os keynesianos levantam dúvidas quanto ao próprio conceito de taxa natural. Para Robert Solow, “Uma taxa natural que varia... sob a influência de forças inesperadas, incluindo taxas de desemprego anteriores, não pode ser ‘natural’” (apud FROYEN, p. 288, 2005). 15 UNIDADE Debates Recentes Os Custos da Inflação Basicamente, a inflação ocorre quando a quantidade de bens demandados a qualquer nível de preços específico está subindo mais rápido que a quantidade agregada de bens a esse nível de preços. Alguns dos fatores que podem provocar aumentos rápidos e desproporcionais entre demanda agregada e oferta agregada por bens. Podemos destacar: aumentos no consumo ou nos gastos com investimento, políticas fiscais expansionistas e choques diversos na oferta. Em geral, um único fator pode gerar aumentos prolongados na demanda agregada, consequentemente, na inflação corrente. Este fator é uma taxa de crescimento monetário. Vários são os custos advindos do processo inflacionário que acomete uma economia. O mais cruel deles á o fato de que sob uma inflação permanente ocorre transferência de renda de um grupo para outro. Essa transferência ocorre do grupo daqueles que não tem como se precaver da inflação para aqueles que dominam os instrumentos que os protege do processo inflacionário, aumentando com isso a desigualdade social. Os economistas keynesianos defendem uma estratégia de combate inflacionário gradual, ou seja, uma redução gradual do crescimento monetário e da inflação ao longo dos anos. Esse gradualismo pode minimizar os custos de aumento do desemprego cíclico, além disso, os ajustes necessários dos preços, salários e expectativas ajustem-se a desinflação. As curvas de Phillips de curto e longo prazo ilustram de forma mais clara como se dá o processo de custos provocados pela inflação e a taxa de desemprego segundo a expectativa de inflação dos ofertantes de mão de obra. Figura 6 - Curvas de Phillips de Curto e de Longo Prazo Fonte: FROYEN, 2005 16 17 Quando os ofertantes de mão de obra passam a ter expectativa de uma taxa de infl ação mais alta, a curva de Phillips de curto prazo desloca-se de CP(πe = 0) para CP(πe = 2%). A taxa de desemprego retorna à taxa natural de 6%, e a taxa de infl ação permanece mais alta, em 2% (movemo-nos do ponto B para o ponto C) A Economia Novo-Clássica A teoria novo-clássica foi desenvolvida durante de década de 1970 tendo como fatores centrais de discussão a alta inflação e as taxas de desemprego no período em diversas economias. Nasce como resposta a insatisfação com a ortodoxia keynesiana dominante. A principal crítica sustentada pelos economistas novo-clássicos conclui que medidas sistemáticas de política fiscal e monetária de alteração da demanda agregada não alterarão o produto e o emprego, nem mesmo no curto-prazo. A isso denominaram de ineficácia das políticas econômicas. Um conceito central da teoria novo-clássica se refere às expectativas racionais e suas aplicações. Duas hipóteses caracterizam essa teoria, primeiro, as economias não admitem a constituição de estoque indesejado após as trocas no mercado, com isso os preços se ajustam instantaneamente, garantindo o permanente equilíbrio do mercado como resultado do comportamento dos agentes, como resposta ótima de suas percepções dos preços. A segunda hipótese defende que as decisões racionais tomadas pelos empresários e trabalhadores refletem o comportamento otimizador de sua parte. Segundo essa hipótese, os indivíduos utilizam as informações relevantes disponíveis sobre a variável que está sendo prevista. Os ofertantes de mão de obra, por exemplo, terão como referência as informações passadas relevantes na realização de uma previsão para o valor do nível agregado de preços para o período corrente, e não apenas as informações sobre o comportamento dos preços no passado. A elaboração das suas expectativas passa por essa análise e estimativa. No entanto, os economistas novo-clássicos entendem que os agentes não têm como perceber os efeitos sobre o nível de preços exercidos pelas mudanças imprevistas na demanda agregada. Mesmo assim não atribuem nenhum papel significativo para as políticas de estabilização macroeconômicas. Uma linha de pesquisa recente cujo líder intelectual é o economista norte americano Edward Prescott, defende a tese de que os macroeconomistas deveriam ver até que ponto podiam explicar as flutuações como efeitos de choques nos mercados competitivos com preços e salários totalmente flexíveis. Pesquisas desenvolvidas por Prescott e seus seguidores desenvolveram modelos que ficaram conhecidos como modelos dos ciclos econômicos reais (CER). Esses modelos supõem que o produto está sempre em seu nível natural. Isso significa que todas as flutuações do produto são movimentos do nível natural de produto, e não variações em relação ao nível natural de produto. Para Prescott 17 UNIDADE Debates Recentes tais movimentos resultam do progresso tecnológico. À medida que surgem novas descobertas, a produtividade cresce provocando o aumento do produto. O aumento da produtividade leva a um aumento do salário, levando o trabalhador a trabalhar mais. Dessa forma, os aumentos da produtividade levam a aumentos tanto do produto quanto do emprego, exatamente como vemos no mundo real. Essa conclusão defendida pelo enfoque CER têm recebido críticas de várias frentes. O desenvolvimento tecnológico ocorre em vários setores como resultado de muitas inovações, sendo processado no longo prazo, difícil de gerar grandes flutuações do produto no curto prazo. Podemos destacar também evidências muito fortes de que variações da moeda, que não têm efeito sobre o produto nos modelos CER, na verdade exercem forte efeito sobre o produto no mundo real. A Economia Novo-Keynesiana A corrente teórica identificada como novo-keynesiana tem como característica a identificação com a tradição keynesiana, mas buscam explicações adicionais para o desemprego involuntário. Importantes contribuições foram desenvolvidas para a economia novo-keynesiana por Mankiw e David Romer, principalmente na busca da construção de uma macroeconomia sobre uma microeconômica sólida. A economia novo-keynesiana é sustentada por uma literatura de ampla diversidade de abordagens. Seguem alguns dos elementos de abordagem comuns. Primeiro: esse modelo pressupõe alguma forma de concorrência imperfeita para o mercado de produtos, o que contraria os modelos keynesianos anteriores que defendem a concorrência perfeita; Segundo: nos modelos keynesianos anteriores, o salário nominal era a principal rigidez nominal, já os modelos novo-keynesianos também se voltam para a rigidez nos preços dos produtos; Terceiro: Os modelos novo-keynesianos introduzem a rigidez real, ou seja, fatores que provocam a rigidez do salário real ou do preço relativo das firmas diante de mudanças na demanda agregada. Vejamos três tipos de modelos novo-keynesianos: modelos de preços rígidos, modelos do salário eficiência e modelos incluído-excluído. Modelos de preços rígidos: O conceito fundamental nesses modelos defende que a firma não precisa estar em concorrência perfeita. Caso tenhamos concorrência perfeita os preços são definidos pela lei da oferta e demanda. Mas, outro fator pode implicar em rigidez dos preços, ou seja, se os custos percebidos com a alteração de preçosforem suficientemente altos, existirá rigidez de preços. Custos como informação aos clientes, emissão de novas tabelas de preços etc. 18 19 Modelos de Salário-Eficiência: Esses modelos têm como premissa maior: a eficiência dos trabalhadores depende positivamente do salário real que eles recebem. Segundo a premissa desses modelos de salário-eficiência, em muitos setores, os salários são definidos com base em determinados cálculos de eficiência. Os salários reais não se ajustam para equilibrar o mercado de trabalho., na verdade as firmas, nesses modelos definirão o salário real acima do nível de equilíbrio de mercado, resultando num estado de desemprego involuntário persistente. Modelos Incluído-Excluído e Histerese Estes modelos estão mais relacionados às persistentes altas taxas de desemprego observadas na Europa desde a década de 1980. Procuram explicar por que altas taxas de desemprego persistem mesmo depois que sua causa inicial, há muito tempo deixou de existir. Sendo assim, no modelo incluído-excluído, o desemprego resulta de um salário real fixado acima do nível de equilíbrio do mercado (desemprego de excluídos) e de uma resposta cíclica a mudanças na demanda agregada. Os incluídos seriam aqueles que usufruiriam das negociações dos sindicatos, mas os incluídos só empurrarão o salario real para cima do nível de equilíbrio do mercado. A conclusão a que chegamos é que o desemprego passado também causa o de- semprego atual por transformar incluídos em excluídos, esse é o fenômeno da histe- rese, o desemprego atual sendo fortemente influenciado pelo desemprego passado. BLANCHARD, Olivier. Macroeconomia. 5 ed. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2011. Biblioteca Virtual - https://goo.gl/EAp09mEx pl or 19 UNIDADE Debates Recentes Material Complementar Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade: Livros A Evolução da Macroeconomia Moderna entre Perspectivas em Busca da Síntese Perdida AGUILAR Fo. H. A.; SAVIANI Fo., H. A evolução da macroeconomia moderna entre perspectivas em busca da síntese perdida. https://goo.gl/4kvsCP Regimes Monetários: teoria e a experiência do real. MODENESI, André de Melo. Regimes monetários: teoria e a experiência do real. Barueri: Manole, 2005 A Moeda Importa? A macroeconomia pós-keynesiana e a não-neutralidade da moeda LIRA, Vitor Carvalho; JESUS, Cleiton Silva de. A moeda importa? A macroeconomia pós-keynesiana e a não-neutralidade da moeda. v. 18, nº 34, Chapecó, SC: Cadernos de Economia, 2016. https://goo.gl/TO1M5B 20 21 Referências BLANCHARD, J. O. Macroeconomia. 4 ed. São Paulo: Prentice Hall, 2007. DORNBUSCH, R.; FISHER, S. Macroeconomia. 5. ed. , v., São Paulo: Pearson Makron Books, 2006. FROYEN, Richard T. Macroeconomia. 5. ed. São Paulo-SP: Saraiva, 2005. LOPES, L. M.; VASCONCELLOS, M. A. S. Manual de Macroeconomia: Nivel Básico e Nível Intermediário. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2000. MANKIW, N. Gregory. Macroeconomia. 6. ed. ,Rio de Janeiro: LTC-Livros Técnicos e Científicos, 2008. 21