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Oralidade e Escrita - Linguagem verba e não verbal

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não representa um signo para ele, não comunica 
nada: o nome do escritor inglês é interpretado como algo para beber. 
Os signos podem ser verbais (as palavras) ou não verbais (gestos, símbolos, 
cores, até o tom de voz). Repare que em um anúncio de sorvetes, por exemplo, 
há, normalmente, sol e uma luz alaranjada, signos que representam o calor. Da 
mesma maneira, propagandas que querem sugerir uma certa intelectualidade 
costumam usar atores com óculos, signo de uma possível bagagem cultural. Tais 
signos, juntos, ajudam o interlocutor a perceber a intenção da mensagem que se 
quer passar. 
São signos os sinais verbais ou não verbais, que apresentam dois eixos de 
significação: uma parte perceptível (sons, letras) e uma parte inteligível (con-
ceito). Assim, no campo das palavras, entende-se por signo linguístico a unidade 
constituída de expressão e de conteúdo, de significante e de significado, respec-
tivamente 
 
significante → coroa 
significado → 1. arranjo de flores; 2. ornamento de reis, rainhas; 3. idoso. 
 
Veja que a propaganda acima explora os recursos do significado do signo 
“coroa”. Por se tratar de uma propaganda de empresa funerária, a palavra está 
ligada ao arranjo de flores presente em funerais; no entanto, a figura do senhor 
em destaque também faz alusão à gíria usada para idosos, ou seja, arranjar uma 
companheira. 
 
 
Leia este anúncio da LPCE (Liga portuguesa contra epilepsia): 
 
 
(Recolhido do site: http://www.lpce.pt) 
 
A intenção do anunciante é divulgar a ideia do voluntariado para ajudar à 
associação. Os questionamentos dirigidos ao público (“Sente necessidade de ser 
útil? Necessidade de dar apoio e suporte?”) se juntam à conclusão simples, po-
rém fundamental: “com pequenos gestos podemos melhorar a vida de outras 
pessoas… seja voluntário”. 
Repare que o anúncio mostra várias mãos juntas como num “cabo de 
guerra”. Tal procedimento dá ao público uma imagem de que a associação pre-
cisa de sua colaboração nesse “jogo”. Ora, essa imagem nos remete à ideia de 
que quanto mais pessoas estiverem ajudando, a tarefa a ser cumprida será menos 
árdua. A imagem das mãos no “cabo de guerra” é, portanto, um sinal que ajuda 
a perceber a intenção da mensagem do anúncio. É um signo não verbal. 
O ser humano utiliza diferentes tipos de linguagem, como a da música, da 
dança, da pintura, da fotografia. Essas várias linguagens se organizam em dois 
grupos: a linguagem verbal, que tem por unidade os signos verbais, as palavras; 
e as linguagens não verbais, que têm como unidade signos não verbais, como o 
gesto, a imagem, o movimento, como analisado acima. Há, ainda, as linguagens 
mistas, como a das histórias em quadrinhos, o cinema, a televisão, que utilizam 
a palavra e a imagem. 
Numa situação de comunicação, se empregamos palavras, gestos, movi-
mentos, estamos empregando um código. Código é um conjunto de sinais con-
vencionados socialmente para a transmissão da mensagem. 
Não só as palavras, gestos, são códigos, mas também os sinais de trânsito, 
os símbolos, o código morse, as buzinas de automóveis. É importante notar que 
só haverá comunicação utilizando um código se os interlocutores tiverem essa 
convenção internalizada. Determinados gestos podem representar sentidos di-
ferentes dependendo das comunidades em que se vive. 
Na nossa comunidade, usamos a língua portuguesa como principal código. 
Língua é um tipo de código formado por palavras e leis combinatórias por meio 
do qual as pessoas se comunicam e interagem entre si. Em cada sistema linguís-
tico, há regras de diversas naturezas, sejam lexicais, sejam sintáticas. Quando 
escutamos palavras como love ou sun, percebemos que estamos diante do có-
digo empregado na língua inglesa, pois se trata de palavras do vocabulário desse 
idioma. 
Porém, dominar bem uma língua não significa apenas saber seu vocabulá-
rio; é preciso também ter domínio de suas leis combinatórias, de suas ordens 
internas, de sua sintaxe. Saber, por exemplo, que no código da língua inglesa o 
adjetivo vem sempre anteposto ao substantivo, enquanto que, na língua portu-
guesa, a anteposição do adjetivo pode, inclusive, alterar o sentido da palavra. 
Outro traço fundamental em jogo nesse sistema linguístico é o aspecto fo-
nético. Quantas vezes ouvimos nas resenhas internacionais sobre jogos da sele-
ção brasileira a pronúncia “errada” do meio-campo Falcão, hoje comentarista 
de futebol? Invariavelmente ouvíamos “Falcao”, sem o til. Essa nasalização, 
característica da língua, causa dificuldades em falantes não nativos. Da mesma 
maneira, nós, falantes de língua portuguesa, apresentamos grandes dificuldades 
para a realização de certos fonemas de outros códigos linguísticos, como a pro-
núncia do inglês the (com a língua entre os dentes, inclusive), ou ainda o ich 
alemão. 
Além disso, um conhecedor da língua é, presumivelmente, um conhecedor 
das nuances que regem essa língua. Um estrangeiro poderá ter dificuldades ao 
receber como resposta um “pois não”. Entrar na “lista negra” não significará 
uma cor dessa tal lista. Quando se fala em saber usar a língua, percebe-se que a 
intenção do falante é o que realmente importa, ele é o sujeito dessa ação e é 
fundamental dominá-la, até mesmo para jogar com suas possibilidades, com 
suas ambiguidades, seus duplos sentidos. Em outras palavras, em uma situação 
de conversação, será sempre o falante o sujeito da ação de escolher os enuncia-
dos que melhor se ajustem às suas intenções. Toma-se um exemplo recolhido 
da fala do professor Agostinho Dias Carneiro, em uma palestra para professores 
de Língua Portuguesa no Colégio Pedro II: 
 
A menina, adolescente, chega a casa altas horas da noite. O pai, sisudo, 
esperando por ela: 
 
– A senhora sabe que horas são? 
– O pneu do carro do Rodrigo furou. 
– Que isso nunca mais se repita. 
 
Repare que a menina não respondeu ao que o pai perguntou. Ela jogou com 
a língua da maneira mais conveniente para ela. E o pai, ao lançar a fala final, 
definitiva, sabe que, na maioria dos casos, aquilo se repete, sim. 
Um usuário da língua deverá entender a nuance que regeu esse diálogo, no 
qual não vale o que se está dizendo, mas o que está subentendido. Dessa forma, 
como afirma o linguista russo Mikhail Bakhtin, a verdadeira substância da lín-
gua não está num sistema abstrato de formas linguísticas, mas no fenômeno 
social da interação verbal, realizado através da enunciação. Diz ele: “A intera-
ção verbal constitui assim a realidade fundamental da língua”.