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A ÁGUA EM NOSSO PLANETA

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A ÁGUA EM NOSSO PLANETA
1 A ÁGUA EM NOSSO PLANETA
1.1 As quatro esferas do planeta terra
 
          Antes de tratarmos de algum ecossistema aquático em particular, se faz necessária a compreensão da complexidade do nosso planeta. Somente assim as informações serão justificadas e compreendidas e sua plenitude. Chamar a Terra de planeta é pouco. Não representa sua real condição. Poderíamos chamá-la de Sistema Terra, condição essa facilmente justificável.
O conhecimento do planeta em que vivemos depende do entendimento de que existem diferentes elementos envolvidos, interagindo e contribuindo para seu equilíbrio, ou seja, um sistema. Analogamente, conforme será apresentado abaixo, seria como os órgãos, tecidos e células de um ser vivo interagindo para manter sua homeostase. Esses elementos podem ser agrupados formando as quatro esferas do planeta, ou seja: hidrosfera, litosfera, atmosfera e biosfera (Figura 2) (RICKLEFS, 2012).
Embora divididos em grupos de elementos naturais a interação entre eles amplia muito seus efeitos sobre o planeta. Cada uma das esferas citadas fornece elementos para as demais de modo a permitir uma série de processos e fenômenos que modelam e controlam a evolução de nosso planeta. Uma visão assim integrada e dinâmica combina com a Teoria de Gaia, de James Lovelock, William Golding e Lynn Margulis, na década de 1970, segundo a qual o planeta seria múltiplo em seus elementos, complexo em suas interações, dinâmico em seus processos e capaz de auto regulação (VEIGA, 2012). Sendo assim, parece evidente que para conhecermos os ecossistemas é necessário entendermos como seus elementos bióticos e abióticos interagem para definir suas características e sua dinâmica.
  
1.1.1 Hidrosfera
 
Esta espera do planeta será estudada de maneira detalhada ao longo deste livro. Corresponde a toda água do planeta que pode estar na forma líquida, gasosa (ou de vapor) ou sólida (gelo e neve). Está armazenada em reservatórios naturais ou artificiais como, por exemplo, os rios, lagos, oceanos, geleiras, aquíferos (água subterrânea), ar, nuvens, seres vivos, etc. (Figura 3) (SALGADO-LABOURIAU, 2001; KARMANN, 2009; GARRISON, 2010). Durante a disciplina de Ecossistemas Terrestres foi possível entender parte da influência da água sobre os ambientes continentais.
 Embora a Hidrosfera reúna toda a água do planeta é preciso considerar que existem tipos diferentes de água (salgada, salobra e doce) assim como é preciso saber que elas estão presentes em quantidades diferentes no planeta. (GARRISON, 2010)
 1.1.2 Litosfera
 Representa toda a parte relacionada com as rochas, minerais e solos da superfície do planeta, seja sobre os continentes ou no fundo dos oceanos. Está, portanto, servindo de base para todos os ecossistemas aquáticos. Sobre ela e dentro dela há grande diversidade de seres vivos, servindo, também, como sede de importantes processos como os terremotos e a tectônica de placas (TEIXEIRA et al., 2009; RICKLEFS, 2012).
 1.1.3 Atmosfera
 Toda a massa gasosa que envolve o planeta. Embora muitas vezes invisível ao nosso olhar ela é muito importante, pois protege o planeta e os seres vivos das radiações solares, além de ser a sede de muitos processos e fenômenos que controlam, entre outras coisas, o clima mundial (SALGADO-LABOURIAU, 2001; OLIVEIRA et al., 2009). Um desses processos associados à atmosfera é o ciclo da água, conforme será detalhado adiante.
  
1.1.4 Biosfera
 
Diz respeito a toda matéria viva, desde microrganismos até gigantes como as baleias e as sequoias. Seus elementos interagem entre si e com o planeta, resultando num controle sobre diferentes processos como o ciclo hidrológico e o clima (ROSS, 2003; RICKLEFS, 2012).
2 CONHECENDO A ÁGUA
 
Qualquer que seja o tipo de ecossistema aquático pode ser notada a predominância do elemento água. Embora seja muito familiar a nós, a água possui características notáveis que a tornam uma substância incomum. Basta lembrar que, até onde se sabe, água no estado líquido só é encontrada em nosso planeta, dentro do Sistema Solar (CORDANI & PICAZZIO, 2009). Ela participa de processos que vão além dos limites desses ecossistemas, atuando de modo bastante efetivo nos ecossistemas terrestres, onde são importantes, mas não predominantes (GARRISON, 2010). Graças às suas propriedades químicas e físicas a água apresenta uma série de características que justificam seu papel decisivo na natureza. A seguir serão observados alguns aspectos básicos da água, importantes para entendermos os ecossistemas aquáticos. Embora sejam aspectos básicos e fundamentais será necessário acessar conhecimentos prévios relacionados a disciplinas como Química, Física e Biofísica.
 Água é um recurso natural importantíssimo, fundamental para a vida e para os processos que ocorrem no planeta. Para saber mais sobre esse bem renovável e finito
2.1 Características físicas e químicas
2.1.1 A molécula de água
 
Desde nossos primeiros contatos com as Ciências, ainda na educação básica, aprendemos que a água é quimicamente representada por H2O, ou seja, possui um átomo de oxigênio e dois átomos de hidrogênio. É, portanto, uma molécula cujos átomos constituintes estão unidos por ligações químicas. Sua estrutura molecular é simples (SUGUIO, 2006).
É necessário relembrar aqui os fundamentos das ligações químicas para a compreensão das propriedades da água. Ligações químicas podem ser entendidas como relações energéticas entre átomos, fazendo com que eles permaneçam unidos. Estão baseadas nos elétrons compartilhados ou transferidos entre átomos (SUGUIO, 2006). No caso da água cada átomo de hidrogênio compartilha elétrons com o átomo de oxigênio, formando uma ligação covalente (portanto, em uma mesma molécula de água existem duas ligações covalentes) (Figura 4). Muitas outras substâncias, como dióxido de carbono (CO2), gás metano (CH4) e oxigênio (O2), possuem ligações desse tipo (GARRISON, 2010). Tais características conferem à molécula de água uma forma típica e relativamente fixa (Figura 5), podendo ser alterada em situações bem particulares, como será visto adiante. Seus átomos formam um ângulo típico de cerca de 105º.
   Sua configuração tridimensional apresentada acima é, em parte, responsável outra característica da molécula de água que é ser polar (eletricamente assimétrica). Vale lembrar que o oxigênio também tem um par de elétrons não compartilhados, perfazendo um total de 4 pares de elétrons em torno do átomo de oxigênio (dois pares compartilhados com os átomos de hidrogênio e dois pares ainda livres). Essa distribuição faz com que a molécula de água tenha uma carga negativa parcial junto ao átomo de oxigênio e cargas positivas parciais junto aos átomos de hidrogênio. Isso a define como uma molécula polar, haja vista que, à semelhança dos imãs, possui extremidades negativa e positiva (GARRISON, 2010). O efeito prático dessa polaridade é que o átomo de oxigênio atrai carga positiva de outra molécula ou átomo, enquanto os átomos de hidrogênio atraem cargas negativas de outra molécula ou átomo. Tal dinâmica é importante para a ação da água como solvente, conforme será comentado mais adiante.
As cargas elétricas positivas e negativas de uma molécula de água podem ser atraídas por outra molécula de água. No caso, um hidrogênio de uma molécula se ligaria ao oxigênio de outra molécula, estabelecendo as ligações químicas chamadas de pontes de hidrogênio (Figura 4), responsáveis por outras características da água (por exemplo, ponto de ebulição e congelamento) (GARRISON, 2010), como considerado mais adiante.
Portanto, em função de suas características químicas, as propriedades físicas e químicas da água são muito diferentes das de muitas outras substâncias, o que a caracteriza como constituinte fundamental dos seres vivos e dos ecossistemas ao redor deles.
 <Observação início>
Dificilmente poderemos atribuir uma característica química ou física da água a apenas um fator. Contudo, entender e gravar as características da molécula de água é um importante ponto de partida para que as demais característicase funções da água sejam compreendidas.
 
2.1.2 Capacidade térmica
 
Neste tema um assunto importante é o calor específico, muito útil para entendermos processos dos ecossistemas aquáticos e terrestres, como é o caso do ciclo da água. É definido como a quantidade de energia térmica necessária para elevar a temperatura de uma substância (qualquer) em 1oC (SUGUIO, 2006; GARRISON, 2010). Cada substância tem seu calor específico próprio, sempre medido em calorias por grama (veja Tabela 1). Neste contexto, diferentemente do que é utilizado em Nutrição, uma caloria corresponde à quantidade de calor necessária para se elevar em 1oC a temperatura de um grama de água pura (GARRISON, 2010). Seguindo-se o mesmo raciocínio, ao se acrescentar duas calorias a temperatura irá aumentar em 2oC, três calorias irá aumentar em 3oC, e assim por diante.
 
Tabela 1: Calor específico de substâncias comuns (Retirado de Garrison, 2010)
	SUBSTÂNCIA
	CALOR ESPECÍFICO em calorias/grama/oC
	Prata
	0,06
	Granito
	0,20
	Alumínio
	0,22
	Álcool (etílico)
	0,30
	Gasolina
	0,50
	Acetona
	0,51
	Água pura
	1,00
	Amônia (líquida)
	1,13
 
 
Vale lembrar que calor e temperatura são assuntos correlatos, porém distintos. Conforme destacado por Garrison (2010) calor é a energia produzida pela vibração das moléculas/átomos, sendo medido pela observação de quantas moléculas estão vibrando e quão rapidamente estão vibrando. Já temperatura é a resposta que se tem quando o calor entra ou sai da substância. Temperatura é medida em graus Celsius (oC) ou Fahrenheit (oF).
A atenta observação da Tabela 1 permite notar facilmente que a água tem um calor específico bem maior do que o da prata (um mineral metálico) e granito (um tipo de rocha), por exemplo. Em termos práticos isso significa que ao receberem uma pequena quantidade de calor a prata (0,06 caloria) e o granito (0,20 caloria) já aumentam suas temperaturas em 1oC, enquanto que a água, para variar sua temperatura no mesmo valor, deve receber uma quantidade bem maior de calor (1,00 caloria, ou seja, 5 vezes mais do que o granito e cerca de 16 vezes mais do que a prata). Observe, ainda, que a amônia tem um calor específico maior ainda do que a água.
 Ao esquentarmos água observamos a diferença de calor específico das substâncias. Se colocarmos uma panela (metal) com água sobre o fogo observa-se que a panela se aquece em questão de segundos, enquanto a água demora vários minutos para se aquecer. Isso evidencia a diferença de calor específico entre a panela e a água dentro dela.
2.1.3 Densidade
 Este é um atributo dependente da massa de uma substância e do volume ocupado por ela. A densidade da água pura é de 1 grama por centímetro cúbico (1g/cm3), ou seja, se observarmos um cubo com 1 centímetro de lado e cheio de água pura, a massa essa água será 1 grama (GARRISON, 2010). A exemplo do que aconteceu com o calor específico, cada substância tem sua densidade. Na prática, ao confrontarmos dois fluidos (líquido ou gás) ou um fluido e um sólido, com densidades diferentes o que tiver densidade menor se posicionará em cima e o de densidade maior embaixo. Por isso o navio flutua na água, por isso as rochas afundam na água e por isso o óleo sempre fica sobre a água quando colocados em contato.
Até a água pode variar sua densidade. Como assim?
Note que a padronização é feita em relação à água pura. No entanto, na natureza, a água não tem sempre as mesmas características e quase nunca é pura. Basta notar a água doce dos rios e a água salgada dos oceanos (GARRISON, 2010). De fato, algumas características da água interferem em sua densidade e, portanto, afetam seu papel nos ecossistemas.
 Considera-se água pura aquela que é totalmente livre de outras substâncias, sendo representada apenas por H2O, como aquela derivada dos processos de destilação. A água que bebemos e usamos para higiene, chamada de potável, não é quimicamente pura, uma vez que possui uma série de substâncias e íons dissolvidos nela. A ingestão de água extremamente pura pode ser prejudicial à saúde, pois ela irá retirar sais minerais importantes para o funcionamento do nosso corpo.
Uma dessas características é a temperatura. A temperatura afeta a densidade da água. Considerando-se, ainda, a água pura, se compararmos dois volumes iguais de água, um com temperatura maior e outro com temperatura menor, as densidades serão diferentes. O volume com temperatura menor terá densidade maior (e vice versa) (GARRISON, 2010). Com relação a essa característica a água nos reserva uma surpresa. Vejamos qual é analisando as quatro afirmações a seguir:
 
1. A diminuição da temperatura da água aumenta sua densidade;
2. A diminuição da temperatura da água, se chegar a 0oC ou menos, causa seu congelamento (água se torna sólida);
3. Substâncias em estado sólido costumam ter densidade maior do que a mesma substância em estado gasoso ou líquido;
4. Substâncias mais densas do que a água líquida afundam;
 
Assim, da análise das afirmativas a) e b) acima depreende-se que a diminuição da temperatura da água faz com que ela se torne gradativamente mais densa ao mesmo tempo em que a torna sólida (gelo). O gelo sendo sólido e frio espera-se que afunde quando colocado em contato com a água líquida. Pergunta-se: é isso o que você observa em um copo com água e gelo? De um ponto de vista ambiental, é isso o que se observa no mar que rodeia a Antártica, repleto de icebergs? (Figura 6) A resposta para ambas as perguntas é não. Isso porque a água apresenta mais uma de suas particularidades.
 
 
A água está presente em nosso planeta em três estados físicos (gasoso, líquido e sólido) que nada mais são do que os reflexos das suas características físico-químicas. Ao receber calor a água deixa o estado líquido e se torna gás (vapor de água). Por outro lado, ao perder calor ela tende a se aproximar de seu ponto de congelamento (gelo). Ocorre que, contrariando o que ocorre com a maioria das outras substâncias químicas, o estado sólido da água tem uma densidade menor do que seu estado líquido (GARRISON, 2010). A maior densidade da água é atingida quando ela chega por volta dos 4ºC, sendo que, a partir daí, quanto mais ela se aproxima do zero grau a densidade volta a diminuir. Isso faz com que o gelo flutue sobre a água sendo esta uma importante característica para regular a temperatura do planeta e dos ambientes aquáticos (GARRISON, 2010).
 Ao se aproximar do ponto de congelamento cada vez mais o ângulo entre os átomos de hidrogênio e oxigênio da molécula de água se modificam, saindo dos originais 105º para até 109º, criando os cristais de gelo. Isso tudo diminui os espaços existentes de modo que o número de moléculas de água num mesmo volume diminui (densidade diminui) e por isso seu volume deve aumentar cerca de 9% (GARRISON, 2010).
2.1.4 Dissolução
 A água líquida apresenta outra característica que a torna importante nos meios naturais, no nosso dia a dia e até mesmo na indústria. É conhecida por sua grande capacidade de dissolver outras substâncias (processo de solubilização) formando assim as soluções aquosas. Isso ocorre devido a suas características químicas (polaridade). Nessa solução o material dissolvido fica representado por íons, o que aumenta bastante a condutividade elétrica da água (GARRISON, 2010). Vale considerar que a água que está na natureza é, em sua grande maioria, uma solução aquosa e não água pura. Nela estão dissolvidas diferentes substâncias que fazem com que a composição dessa solução também varie de acordo com o local do planeta, os materiais com os quais teve contato, etc. Gases como O2 e CO2 são comumente encontrados dissolvidos na água, em quantidades diferentes dependendo do ambiente (GARRISON, 2010).
Costumamos aprender (e dizer) que a água é um solvente universal. De fato ela pode dissolver uma grande quantidade de substâncias, mas nem todas. Óleos não são dissolvidos pela água por mais que sejam agitados. Por outro lado, substâncias bem mais resistentes como rochas podem ser dissolvidas pela água, sendo esta, inclusive, a origem do sal marinho(KARMANN, 2009).
 
2.1.5 Tensão superficial
 
Esse curioso fenômeno também resulta das propriedades físicas e químicas da água. Na água líquida suas moléculas estão em contato o tempo todo fazendo com que se atraiam mutuamente. Contudo, as moléculas da superfície estão em contato com outras moléculas apenas em sua parte de baixo e dos seus lados, uma vez que acima delas existe ar. Essa atração entre as molécula, quando vem de todos os lados resulta numa força praticamente nula (a força exercida por uma molécula é anulada pela atração da outra molécula sobre ela). Contudo, na superfície as moléculas de água não têm a mesma relação com as moléculas do ar fazendo com que essa região se torne uma superfície mais resistente e, até certo ponto, elástica (GARRISON, 2010). Entre outros efeitos a tensão superficial da água permite que alguns seres vivos se apoiem e até vivam sobre ela.
 2.1.6 Viscosidade
 È um tema também relacionado às características físico químicas da água e se refere à resistência presente no momento do fluxo. Quando a água flui, ou seja, se movimenta, a movimentação de suas moléculas define se a água terá uma dificuldade maior (menor velocidade) ou menor (maior velocidade). Normalmente seu aumento está relacionado com a diminuição da temperatura e aumento do teor de sais dissolvidos (SUGUIO, 2006).
2.1.7 Capilaridade
 Diz respeito à capacidade que a água tem de penetrar em espaços reduzidos como aqueles existentes nos solos ou nas rochas. Isso permite que ela se movimente internamente nos materiais e já áreas que não estejam em contato direto com o maior volume de água do ambiente. Resulta da interação de alguns fatores ambientais como a composição da solução aquosa, as dimensões do espaço por onde deve passar, viscosidade, temperatura, entre outras (KARMANN, 2009).
2.2 Origem da água
 A água nos cerca em diversas situações cotidianas sendo fundamental para nossa existência e para o funcionamento do planeta. Vale lembrar que no estado líquido está presente apenas na Terra. E isso faz muita diferença. Mas, enfim, qual a origem da água em nosso planeta? Desde quando ela integra nossa natureza?
A origem desse bem tão precioso não é única definir sua origem ainda é um assunto bastante controverso. Costuma-se considerar duas prováveis origens, sendo elas: terrestre e extraterrestre. A primeira se refere à água originada no próprio planeta enquanto a segunda se refere à água que chegou ao planeta através de corpos extraterrestre como asteroides (SUGUIO, 2006; KARMANN, 2009).
Quando tratamos da origem terrestre da água é necessário voltarmos ao início do planeta, quando ele ainda estava em processo de formação. De acordo com os modelos científicos, a Terra teria se formado há aproximadamente 4 bilhões e 600 milhões de anos (4,6 bilhões de anos) através de um processo chamado acresçam planetária (CORDANI & PICAZZIO, 2009).
 O processo da acresçam planetária considera que os planetas rochosos do Sistema Solar teriam se formado através da colisão e fusão de partículas sólidas, ou seja, asteroides de diferentes tamanhos, com liberação de bastante energia e grande aumento de temperatura. Assim, enquanto os asteroides não acabaram os planetas continuaram crescendo.
          Como resultado a aparência do planeta era de uma imensa esfera de material em fusão e incandescente, desde a sua superfície até o interior. Aos poucos, à medida que os impactos de novos asteroides diminuiu, o planeta foi se resfriando de fora para dentro e sofrendo o processo de dê gaseificação (também chamado de gaseificação por alguns autores). Assim, os gases contidos no material em fusão foram sendo liberados conforme o material endurecia, ficando acumulados ao redor da Terra e formando nossa atmosfera primitiva (CORDANI & PICAZZIO, 2009; KARMANN, 2009; GARRISON, 2010). Entre esses gases estaria a água na forma de vapor.
          Todo este raciocínio surgiu por analogia a um processo semelhante que ocorre desde aquela época. Quando o magma extravasa do interior do planeta pela abertura de um vulcão e chega à superfície terrestre há liberação de gases contidos no material em fusão (Figura 7), à semelhança do ocorrido durante a dê gaseificação nos primórdios do planeta. Esses gases correspondem a uma rica combinação de substâncias variadas como monóxido de carbono (CO), dióxido de carbono (CO2), nitrogênio (N2), hidrogênio (H2), amônia (CH4), água (H2O), entre outros (SALGADO-LABOURIAU, 2001; CORDANI & PICAZZIO, 2009; OLIVEIRA et al., 2009), algo muito semelhante ao que teria existido em nossa atmosfera primitiva.
Na década de 1950 o cientista norte americano Stanley Miller realizou um experimento científico no qual simulava as condições da Terra primitiva e investigava a possibilidade de surgimento de matéria orgânica a partir de material inorgânico. Os gases selecionados para representar a atmosfera, entre eles o vapor de água, indicavam uma atmosfera primitiva bem diferente da atual.
          A partir das evidências apontadas acima é possível entender como vapor de água se acumulou na atmosfera. Mas como e quando a água líquida chegou à superfície? A água se manteve na atmosfera na forma de vapor enquanto a temperatura do planeta esteve alta o suficiente para impedir que houvesse a condensação (CORDANI & PICAZZIO, 2009; KARMANN, 2009). Conforme mencionado anteriormente a Terra estava em processo de resfriamento de fora para dentro, o que atingiu a atmosfera que foi resfriando até o momento (algo entre 4,4 e 4 bilhões e anos no passado) em que água líquida de formou e as primeiras gotas de chuva caíram sobre a superfície e puderam infiltrar no solo e se acumular nas suas depressões formando os primeiros lagos, rios e oceanos (BALL, 2015). Normalmente a água que se forma por esses meios é chamada de juvenil (KARMANN, 2009). Há autores que sugerem que essas primeiras chuvas do planeta tenham caído por cerca de 20 milhões de anos em grande quantidade e de maneira incessante (GARRISON, 2010).
          Ao longo dos anos de pesquisa científica foram surgindo evidências de que os corpos rochosos que vagam no espaço (isto é, asteroides e cometas) e chegam até a superfície da Terra contêm pequenas e variadas quantidades de água em sua composição (MARLY, 2012). Cometas são formados por gases congelados e entre esses gases pode haver vapor de água. Os asteroides, por sua vez, são materiais sólidos de natureza rochosa ou metálica e podem conter água na forma de minerais hidratados (KARMANN, 2009). Esta corresponderia à origem extraterrestre da água no planeta, embora seja difícil calcular a exata contribuição dessa fonte para o planeta (MARLY, 2012). Vale lembrar, entretanto, que a Terra foi formada pela colisão e fusão de asteroides e que durante muito tempo sofreu com os impactos frequentes desses corpos. Sendo assim, esta pode ter sido uma importante fonte de água do planeta (GENDA & IKOMA, 2008; MARLY, 2012).
          Há estimativas de que o volume de água do planeta tem se mantido praticamente o mesmo há bilhões de anos (KARMANN, 2009). Esta informação merece destaque pelo fato de se referir ao volume total de água (vapor, líquida e sólida) e não apenas a água líquida. Parece certo, de acordo com os registros geológicos, que a Terra passou por momentos de mais calor ou de mais frio e isso tudo altera o estado físico da água (SALGADO-LABOREAU, 2001; TEIXEIRA et al., 2009). No entanto há uma diferença importante entre alterar o estado físico e desaparecer com a água (ou destruí-la). Nos períodos em que a Terra esteve mais quente a cobertura de gelo diminuiu (o gelo derreteu) e a água líquida foi transformada em vapor. Por outro lado, em momentos mais frios a cobertura de gelo aumentou na superfície do planeta (FAIRCHILD, 2009). Repare que isso é diferente de destruir a molécula de água e usar seus átomos fundamentais para compor outras moléculas.
          Por fim, mas não menos importante, ocorrem em nosso planeta alguns processos que trabalham com a geração e destruição de água. Os principais são as reações da fotossíntesee da respiração (Figura 9). Na primeira há consumo e destruição de água e gás carbônico para fabricação de carboidratos, oxigênio e mais água. Na segunda, água e carboidrato são degradados para formação de mais água e gás carbônico (KARMANN, 2009).
 O microbiologista holandês C. Van Niel, em 1932, foi responsável por investigações iniciais a respeito da fotossíntese, sendo famoso seu experimento com sulfobactérias onde comparou o processo desenvolvido por elas à fotossíntese, o que permitiu identificar a quebra da molécula de água e consequente liberação de oxigênio.
2.3 Água no planeta
2.3.1 Diversidade
 No item 3 foi apresentada a origem da água em nosso planeta. Mas quais as condições em que essa água se apresenta? Os primeiros corpos de água já tinham as mesmas características de hoje em dia? Para responder a essas e outras questões temos que fazer analogias com os processos equivalentes que ocorrem hoje em dia. A chuva é resultado de um processo de condensação do vapor de água da atmosfera e posterior aglutinação das pequenas gotas formadas (Figura 10) (SALGADO-LABOURIAU, 2001; KARMANN, 2009).
 O vapor é água em estado gasoso e livre de sais ou outras substâncias. Quando condensa resulta em água pura, a qual em seu trajeto até a superfície do planeta acaba incorporando gases ou partículas sólidas dispersas na atmosfera. Ao chegar à superfície tem características de uma solução levemente ácida, estando longe de ser uma água salgada ou salobra. Portanto, fica fácil perceber que os primeiros oceanos não eram formados por águas salgadas. De fato, os corpos d’água do início do planeta continham apenas água doce (KARMANN, 2009). Contudo, a realidade atual é outra.
Na natureza a água pode ser encontrada em três condições no que diz respeito à salinidade. Podemos encontrar água com baixíssima salinidade (próxima de zero), chamada de água doce, formando os rios e a maioria dos lagos. Águas com salinidade intermediária, chamada de salobra, formando lagunas, alguns lagos e regiões de estuário. Por fim temos a água com salinidade alta, chamada de salgada ou marinha, encontrada nos oceanos ao redor do mundo (GARRISON, 2010).
 Dependendo da área de estudo a representação da salinidade pode ser feita usando-se a unidade partes por mil (%O) ao invés de partes por cem (porcentagem, %), isso porque as variações observadas na casa de 0,1% são bastante significativas, por exemplo, na Oceanografia.
2.3.2 Definição da Salinidade
 A salinidade da água é definida pela concentração de sólidos inorgânicos presentes. Nos oceanos atuais pode variar entre 3,3% e 3,7% (média é de 3,5%) dependendo de fatores como evaporação, precipitação (chuva, por exemplo) e chegada de água doce pelos rios. É o equivalente a se dizer que cada litro da água do mar contém cerca de 35 gramas de sal. Regiões com altas taxas de evaporação possuem maior salinidade, enquanto seu valor diminui em áreas mais frias e com aporte de água doce. A água menos salina do planeta é encontrada no Golfo da Finlândia, no Mar Báltico. É possível que alguns corpos d’água tenham salinidade maior que a média (por exemplo, Mar Morto), mas representam exceções (GARRISON, 2010).
A evaporação de toda a água dos oceanos deixaria uma gigantesca cobertura de sal em nossa superfície. Estimativas apontam que toda a superfície ficaria debaixo de uma camada de mais de 40 metros de sal (GARRISON, 2010).
          Apenas sete íons correspondem a 99% de todo material dissolvido na água. Destaque para os íons cloreto (Cl-) e sódio (Na+) que se combinam quando a água evapora, formando o cloreto de sódio ou sal de cozinha (NaCl) (Figura 11) (GARRISON, 2010).
 Além dos íons considerados componentes principais dos oceanos é possível encontrarmos nutrientes, gases (por exemplo, O2, CO2, N2, H2), compostos orgânicos (por exemplo, lipídios, proteínas, carboidratos, hormônios, vitaminas) e elementos traço (aqueles que apresentam concentrações inferiores a 1 parte por milhão – ppm; por exemplo Mn, Pb, Hg, Au, I, Fe). (GARRISON, 2010).
Mas qual a origem desses sólidos dissolvidos, levando-se em conta que a chuva é de água doce? Para essa resposta é necessário lembrarmos-nos da capacidade solvente da água. Durante os bilhões de anos em que a chuva tem caído no planeta ela escorre e se infiltra por rochas e solos de composição bastante variada. Muitos dos minerais que formam essas rochas são solúveis em água, liberando íons que irão fazer parte da composição da solução aquosa (GARRISON, 2010). Sempre que a água possui um fluxo (movimentação) se desloca das áreas mais altas para as mais baixas carregando consigo os íons dissolvidos. Os oceanos representam exatamente essas áreas mais baixas e a água sai deles apenas por evaporação, deixando para trás os íons (principalmente cálcio e bicarbonato).
Contudo, estudos tem demonstrado que a composição média das águas dos oceanos não combina exatamente com a composição média das águas dos rios que desembocam nos oceanos. Sendo assim, a salinidade tem outra fonte além daquela já descrita. Estudos apontam que o processo de desgaseificação que ocorre desde os primórdios do planeta contribui com a liberação de alguns compostos e elementos químicos (por exemplo, CO2, Cl, S, H) do manto terrestre, os quais completariam a composição da água salgada observada atualmente (GARRISON, 2010). Assim, dia após dia, desde o início das chuvas no planeta, a salinidade tem sido definida.
Era de se esperar, no entanto, que pela quantidade de tempo envolvido nesse processo (bilhões de anos) a salinidade fosse maior do que a observada. No entanto, a natureza tem mecanismos que retiram o sal da água do mar e o deixa armazenado em rochas e minerais (TEIXEIRA et al., 2009; WICANDER & MONROE, 2009). Esse fenômeno pode ser visto ocorrendo atualmente nas margens do Mar Morto, cobertas por depósitos de sal.
 
2.3.3 Gases dissolvidos
           Nos ambientes aquáticos as características químicas da água são importantes para definir os processos biogeoquímicos. Parte dessas características é dada pelos gases atmosféricos que se dissolvem nas águas superficiais de rios, lagos e oceanos. Os gases mais abundantes nas águas marinhas são o nitrogênio, oxigênio e dióxido de carbono. Deve ser mencionado que características físicas da água como temperatura e densidade afetam sobremaneira a solubilidade dos gases (GARRISON, 2010).
 A temperatura das águas é decisiva para a definição da solubilidade dos gases. Águas polares possuem maior volume de gases dissolvidos do que as águas tropicais.
          Entre os gases mais abundantes o Nitrogênio aparece no topo da lista. Essencial aos seres vivos (faz parte das proteínas, por exemplo), está presente em grande concentração na atmosfera (aproximadamente 78%) e também de maneira saturada nas camadas superiores dos oceanos (cerca de 48% dos gases dissolvidos). Contudo, sua utilização pela maioria dos seres vivos não ocorre de maneira direta, dependendo de sua fixação em substâncias químicas por seres vivos específicos como bactérias. Em segundo lugar, o Oxigênio corresponde a cerca de 36% dos gases dissolvidos nas águas dos oceanos. Além de ser assimilado a partir da própria atmosfera o oxigênio resulta da fotossíntese de algas, cianobactérias e vegetais (GARRISON, 2010).
Por sua vez o dióxido de carbono é muito solúvel em água e corresponde a aproximadamente 15 dos gases dissolvidos. Vale destacar que ele pode-se combinar com a água formando o ácido carbônico, pode ser rapidamente usado pelas plantas em seu crescimento e pode formar o íon carbonato que dará origem a minerais (calcários) e pode ser usado por animais para construir suas carapaças e conchas, o que faz com que a quantidade sempre esteja abaixo daquela que poderia estar. Ainda assim, existe mais dióxido de carbono dissolvido nos oceanos do que na atmosfera (GARRISON, 2010).
          Levando-se em conta os ciclos biogeoquímicos que envolvem O2 e CO2 pode ser observado que seu comportamento na água, sobretudo oceânica, é bem diferente. Como o O2 é originado pela fotossíntese ascamadas mais superficiais da água, local de vida dos seres fotossintetizantes, são as mais ricas nesse gás, que diminui de quantidade em partes mais profundas. Já com o CO2 ocorre o inverso. Como ele é um composto muito usado pelos seres fotossintetizantes sua concentração é pequena nas águas oceânicas superficiais e aumenta em direção ao fundo, onde há poucos seres que irão consumi-lo (GARRISON, 2010).
 
2.3.4 Balanço ácido base
           Com exceção da água pura, as demais apresentam desequilíbrio em suas proporções de íons hidrogênio (H+) e hidróxido (OH-), tornando-se ácida ou básica. A água marinha é, na maioria das vezes, levemente alcalina (pH 7,8). Esse valor depende, sobremaneira, da solubilidade do CO2 e, conforme visto no item anterior, ela pode variar com a profundidade e a temperatura da água, por exemplo. Sendo assim o pH da água dos oceanos também varia nesses termos, podendo variar entre 7,0 e 8,5 (GARRISON, 2010).
 Água ou solução quando é ácida possui excesso de íons H+, e quando é básica (também chamada alcalina) possui excesso de íons OH-, o que pode ser medido pela escala de pH, sendo pH 7 considerado neutro.
          Por sua vez, as águas continentais tem pH variando entre 6,0 e 8,0, embora valores mais extremos possam ser encontrados. A influenciar essa variação estão os ácidos orgânicos (por exemplo ácido sulfúrico, nítrico, oxálico) resultantes da decomposição da matéria orgânica nos continentes ou na própria água. Exemplos brasileiros de áreas com águas ácidas (podendo chegar a 4,0) são a Amazônia, as áreas de restinga no litoral e regiões com turfeiras. Nesses locais a água tem a cor de chá típica, resultante também do tanino presente na vegetação decomposta (ESTEVES, 2011).
          Corpos d’água com grande alcalinidade (podendo chegar a 8,9) se desenvolvem em locais onde as condições de decomposição de matéria orgânica não são muito desenvolvidas, em regiões com precipitação menor do que a evaporação, em regiões continentais muito influenciadas pelo mar (lagunas) e em regiões com relevo acróstico que inclui cavernas (ESTEVES, 2011).
Basta uma ida à loja de aquário e peixes ornamentais para constatar que cada espécie necessita de um pH ideal para viver. Tal fato é reflexo do pH específico do local original de vida desses animais.
 Comunidades biológicas em corpos d’água de qualquer parte do planeta apresentam grande interação com o pH. As comunidade interferem no pH, bem como o pH interfere no desenvolvimento e funcionamento destas comunidades. O pH atua diretamente nos processos de permeabilidade da membrana celular, interferindo, portanto, no transporte iônico intra e extra celular e entre os organismos e o meio (ESTEVES, 2011).
 
2.4 Distribuições da água no planeta
 
Sem pensarmos em um ecossistema específico podemos avaliar como a água está distribuída em nosso planeta. Primeiro é preciso lembrar que ela pode se apresentar na forma de vapor, gelo ou líquido. Especificamente para esta última condição, devemos considerar também sua salinidade. Em seguida deve-se considerar todos os possíveis reservatórios de água da hidrosfera (SUGUIO & BIGARELLA, 1990). O resultado está sintetizado na figura 12.
 Logo de cara é possível observar a supremacia da água salgada (97%) sobre a água doce (Figuras 12 e 13) (SUGUIO & BIGARELLA, 1990). Vale lembrar que os oceanos são o lar de incontáveis espécies e desempenham papel fundamental no controle da temperatura do planeta. Contudo, para os ecossistemas terrestres e para a maioria das atividades humanas ela não pode ser usada diretamente. O volume relativamente pequeno e a importância da água doce para a humanidade fazem desse um recurso natural precioso e ameaçado.
 
Levando-se em conta o volume total de água, a pequena porcentagem de água doce (Figura 12) ainda assim representa um grande volume. No entanto, a água doce não está apenas nos rios e lagos. Pelo contrário, cerca de 99% de toda água doce está aprisionada na forma de geleiras e água subterrânea. Concluindo-se a análise é possível observar que apenas 1% de toda a água doce líquida da superfície está nos rios (Figura 12) (SUGUIO & BIGARELLA, 1990). Ainda assim esse corresponde a um grande volume.
A Organização Mundial da Saúde (OMS), órgão da Organização das Nações Unidas (ONU), estima cerca de 1500 m3/habitante/ano de água doce como a quantidade mínima para cada ser humano manter um nível confortável de saúde e higiene. Se for feito o cálculo repartindo-se sobre toda a água doce líquida do planeta pela estimativa da população mundial, pode-se observar facilmente que essa meta é superada em muitos metros cúbicos, havendo cerca de 6500 m3/habitante/ano (HIRATA et al., 2009). Por que, então, ainda hoje em dia são comuns cenas de escassez de água em diferentes partes do mundo como o nordeste brasileiro e algumas regiões africanas.
 Para a compreensão desses cenários de seca deve-se levar em conta o fato de que a existência de um grande volume de água doce líquida no planeta não significa que ela está distribuída de forma igual por todos os continentes e nem por todos os países. A água doce, que se apresenta na forma de rios, lagos e aquíferos, depende de uma série de variáveis que incluem desde condições climáticas, passando por relevo e indo até a porosidade das rochas da região. Por exemplo, grande parte da região sudeste brasileira apresentou diminuição dos seus reservatórios de água doce líquida na metade da segunda década do século XXI devido a variações climáticas que causaram diminuição das chuvas, fazendo com que grande parte da população tivesse seu acesso à água limitado pelas autoridades (HIRATA et al., 2009).
     A ANA – Agência Nacional de Águas é um órgão do governo que tem como missão “implementar e coordenar a gestão compartilhada e integrada dos recursos hídricos e regular o acesso a água, promovendo seu uso sustentável em benefício das atuais e futuras gerações.” Em seu site estão disponíveis várias publicações sobre o tema. Apenas a conjunção de condições ótimas poderá garantir à localidade ou região o aporte de água necessário para atingir as metas da OMS. Além disso, questões culturais, algumas delas milenares, fazem com que existam populações de seres humanos vivendo nas áreas em que sabidamente há pouca água disponível.
          Situações de escassez como as mencionadas acima dependem de ações governamentais ou de mobilização da sociedade civil para que sejam contornadas, levando mais qualidade de vida às populações na forma de água potável e irrigação, por exemplo. Existem muitos casos pelo mundo (HIRATA et al., 2009), mas um exemplo brasileiro merece atenção. A região nordeste do Brasil sofre sabidamente com a estiagem duradoura, especialmente em sua região semiárida. Medidas mitigadoras sugeridas envolvem a transposição das águas do Rio São Francisco. Essa é uma ideia, embora apenas recentemente tenha sido colocada em prática, circula na sociedade brasileira desde a metade do século XIX (CRISPIM & WATANABE, 2000).
Ao longo do século XX algumas medidas governamentais (criação de órgãos e programas para lidar com a questão da seca) foram realizadas, embora os resultados tenham ficado aquém das expectativas e a vida pouco mudou no Semiárido (CASTRO, 2011). Na primeira década do século XXI teve início o desenvolvimento de um projeto que visa garantir água a cerca de 12 milhões de habitantes até 2025, em vários estados do nordeste. Trata-se do Projeto de Integração do Rio São Francisco com as Bacias Hidrográficas do Nordeste Setentrional, popularmente conhecido como Projeto de Transposição do Rio São Francisco (CASTRO, 2011).
3 CICLO HIDROLÓGICO
 Também conhecido como ciclo da água, corresponde a um dos importantes ciclos que mantém o planeta funcionando e em equilíbrio. Avaliando ainda seus resultados, é responsável pela reciclagem da água no planeta, realizando o intercâmbio entre os diferentes reservatórios de água da Hidrosfera (SUGUIO & BIGARELLA, 1990; SALGADO-LABOURIAU, 2001). É fundamental não apenas para os ecossistemas aquáticos, mas tambémpara os terrestres.
Para compreender sua abrangência e importância é necessário observar seus processos, produtos e interações. A Figura 15 ilustra o ciclo.
  Existem vários reservatórios de água na superfície e interior do planeta. Entre eles podemos citar rios, lagos, oceano, açudes, vegetação, animais, piscinas, entre tantos outros. Durante o ciclo hidrológico algumas condições fazem com que a água saia desses reservatórios e se posicione em outro local. A variação da temperatura ambiente e do gradiente de umidade do ar (quantidade de umidade no ar em relação ao reservatório) são fatores reguladores dessa parte do ciclo (SUGUIO & BIGARELLA, 1990).
Quando está muito calor ou o ar está muito seco (baixa umidade relativa), a água disponível nos reservatórios começa a se transformar em vapor e se desloca para longe da superfície, na atmosfera. Quando esse vapor se forma a partir de corpos d’água diz-se que ocorreu evaporação (ou vaporização) (Figuras 15 e 16). Por outro lado, quando se forma a partir de um ser vivo, diz-se que ocorreu transpiração (Figura 15). Frequentemente, entretanto, estudos tratam do total de água que virou vapor e usam o termo evapotranspiração. Há, também, embora em menor quantidade, um processo semelhante que atua sobre o gelo, fazendo com que a água contida nele passe diretamente do estado sólido para gasoso. Este processo é chamado sublimação (Figura 16) (SUGUIO & BIGARELLA, 1990; SALGADO-LABOURIAU, 2001).
 Todo o ciclo hidrológico é baseado nas características da água, em especial suas mudanças de estado físico. Ocorrem de maneira natural, alimentadas pela energia do Sol, e realizam a transferência e armazenamento dessa energia entre os reservatórios de água do planeta.
           O vapor de água sobe na atmosfera porque tem densidade menor do que o ar, além de receber ajuda dos ventos. Esse vapor corresponde à umidade do ar e se distribui por toda a atmosfera. Assim, locais com maior presença de corpos d’água e/ou vegetação tendem a apresentar índices maiores de umidade. Quando é levado para regiões mais altas da atmosfera o vapor se condensa, ou seja, passa para o estado líquido, processo governado pelas baixas temperaturas dessa região da atmosfera. É o chamado processo de condensação (ou liquefação) (Figura 16) (SALGADO-LABOURIAU, 2001).
          Esse liquida recém-formado está representado por minúsculas gotículas de água que, de tão leves, podem facilmente ficar suspensas no ar formando as nuvens, a neblina, a serração ou o nevoeiro.
 Em duas situações domésticas podemos ver as minúsculas gotas de água sendo levadas pelo vento. A fumaça que sai de uma panela com água em ebulição não é vapor de água, mas sim gotinhas. De maneira similar, no banheiro podemos ver gotinhas de água tomando conta do ambiente e deixando todo o local nublado, especialmente nos dias frios.
           Condições especiais podem fazer com que essas gotículas se concentrem ao redor de um núcleo higroscópico (com afinidade pela água) dando início ao processo de precipitação (Figura 15) (SALGADO-LABOURIAU, 2001). Esses núcleos de atração das gotículas são os aerossóis dispersos pela atmosfera (por exemplo, sal marinho, poeira). Quanto mais são atraídas, maior e mais pesado fica o conjunto, até se tornar sem sustentação no ar e cair em direção à superfície. No caminho gotas de diferentes tamanhos podem se juntar a ela. É isso que identificamos como chuva.
          Outros produtos da precipitação são a neve e o granizo, embora bem menos frequentes do que a chuva. O primeiro tipo se forma quando o vapor de água passa diretamente para o estado sólido, mediante temperaturas muito baixas (Figura 17). Esse processo também é conhecido como sublimação. Já o granizo se forma quando as gotas de chuva são submetidas a temperaturas baixas e congelam, formando pedras de gelo de diferentes tamanhos (Figura 17) (WICANDER & MONROE, 2009).
     O processo de formação dos flocos de neve e informações sobre o estudo dessas estruturas pode ser visto no documentário “O poder da água”, que deixa claro o fato de que cada floco de neve é único no mundo. 
 Algumas regiões do planeta passam por momentos em que as nuvens se formam, mas não o suficiente para gerarem chuva. Nesse contexto existem técnicas que pulverização ou semeadura de nuvens com partículas bem pequenas de substâncias como o Iodeto de prata, ao redor das quais as gotículas de água irão se acumular.
           A neve pode se acumular no alto das montanhas e permanecer assim durante séculos. Em outros locais, a chegada de temperaturas mais elevadas faz com que a neve acumulada durante o inverno derreta e forneça água para o ambiente. Toda a água líquida resultante do processo de precipitação tem dois caminhos a seguir: infiltração e escoamento superficial (Figura 15) (WICANDER & MONROE, 2009).
          Na infiltração a água se move para o subsolo através de poros, fendas ou qualquer tipo de abertura existente no solo, areia ou rochas. É dependente, portanto, da porosidade e permeabilidade da superfície. Uma vez no subsolo pode se movimentar livremente em todas as direções e dessa forma abastecer aquíferos ou alimentar corpos de água na superfície como lagos e rios. No escoamento superficial a água se move sobre a superfície do terreno, sob influência da força da gravidade e, portanto, sempre de um local mais alto para outro mais baixo. Com isso a água chegará até os corpos d’água da superfície (WICANDER & MONROE, 2009).          Dessa forma, o ciclo se completa e a água abastece os mesmos corpos d’água e seres vivos de onde se tornou vapor um dia. Mas quanto tempo demora para que ele se complete? A resposta para essa questão não é precisa, uma vez que depende do reservatório onde a água se acumulou. Podem ser horas ou séculos. Diz-se que um ciclo hidrológico é curto quando ele ocorre apenas pela evaporação da água, e longo quando ele ocorre pela evapotranspiração, uma vez que o tempo que passa dentro dos seres vivos pode ser muito grande (KARMANN, 2009). A observação atenta do ciclo da água revela que a água, num sentido amplo, é um bem infinito e renovável no planeta. No entanto, quando nos referimos à água doce essa relação pode ser diferente, desde que se acabe com os reservatórios desse recurso ou prejudiquem sua qualidade. A água doce pode se esgotar, e pode não se renovar rapidamente, mas água sempre existirá no planeta (HIRATA et al., 2009).
4 INTERAÇÕES DA ÁGUA COM O MEIO
4.1 Chuvas ácidas
 A água, independente do estado físico em que se apresente, desempenha diferentes papéis no meio aquático e terrestre. Sobre o primeiro este livro irá dedicar as próximas duas unidades a desvendar seus caminhos e efeitos. Tratemos, então, de algumas intervenções da água nos ambientes terrestres.
Ao precipitar na forma de chuva a água dissolve ou incorpora alguns dos componentes da atmosfera, sejam eles gases ou partículas sólidas, formando assim uma solução aquosa que pode ser levemente ácida. Trata-se da chuva ácida. Seus componentes mais comuns são o dióxido de enxofre (SO2), os óxidos de nitrogênio (NOx) e o ozônio (O3) (Figura 18). Estes são compostos que naturalmente ocorrem na atmosfera, mas suas concentrações podem ser muito aumentadas pelas atividades humanas. Desde que a emissão de gases e material particulado resultantes das atividades humanas aumentou, de acordo com indícios a partir da revolução industrial, a chuva ácida tem sido a responsável por graves problemas ambientais, tendo sido chamada de praga invisível da era industrial (SUGUIO, 2006, PARK, 2013).
 A chuva ácida é incolor e não tem gosto ou cheiro característico. Devido à sua composição representa, inclusive, benefício para alguns ambientes que apresentam deficiência natural em, por exemplo, enxofre. No entanto, seu efeito devastador não é rápido ou dramático, mas sim lento e cumulativo. Acidificação de corpos d’água, de solos, destruição de vegetação (florestas e culturas) e de monumentos são alguns desses efeitos (Figuras 19 e 20) (SUGUIO, 2006, PARK, 2013).
 4.2 Intemperismo ou meteorizarãoA chuva, enquanto produto da precipitação, participa do processo de intemperismo do ambiente, também conhecido como meteorizarão. Sua ação pode ser física (intemperismo físico) ou química (intemperismo químico), além de estimular o crescimento de seres vivos que irão fazer também seu papel no intemperismo (intemperismo biológico). Todo processo de intemperismo age sobre alguns dos elementos abióticos do planeta, especificamente as rochas, os minerais e o solo, causando modificações nesses materiais. Há outros elementos que agem como agentes de intemperismo (por exemplo, o vento), mas apenas o efeito da água será tratado neste livro (GIANNINI & MELO, 2009; WICANDER & MONROE, 2009).
          No intemperismo físico a água age através do impacto, fazendo valer o ditado popular: “Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.” O impacto da água ocorre através das gotas da chuva, da água que cai de uma cachoeira, ou da ação das ondas do mar. Em qualquer um dos casos o que se observa é o impacto sobre o material mineral, podendo arrancar pequenas partículas deste, e fazendo com que ele seja desgastado, quebrado ou fragmentado (GIANNINI & MELO, 2009; WICANDER & MONROE, 2009). Como resultado (Figura 21), temos:
· A formação ou evolução dos solos, importante para que a vegetação e a fauna edáfica possa se desenvolver.
· Modelagem do relevo, criando formas variadas na superfície do planeta que irão interagir com os ventos e água, gerando ecossistemas particulares.
· Formação de material particulado, chamado genericamente de sedimentos (areia, silte, cascalho), presente em diferentes ambientes como praias, assoalho marinho, leitos de rios, etc.
          Mas não apenas a água liquida é responsável pelo intemperismo físico. O gelo no alto das montanhas ou nas calotas polares é o agente de intemperismo mais eficiente que existe. Pela movimentação das geleiras (também chamadas de glaciares) pedaços de rocha de diferentes tamanhos são arrancados das encostas das montanhas e pressionados contra outros pedaços de rocha, fazendo com que eles sejam literalmente triturados. Como resultado formam-se sedimentos característicos chamados de morenas (originalmente chamadas de morainas) com fragmentos de rochas de diferentes tamanhos. Outra evidência a eficiência desse intemperismo são os vales em forma de “U” entre montanhas e pavimentos ou encostas de montanhas com rochas lisas e estriadas pela passagem do gelo (ROCHA-CAMPOS & SANTOS, 2009; WICANDER & MONROE, 2009).
    Embora o Brasil seja um país tropical, o interior de São Paulo guarda um verdadeiro tesouro geológico em um parque nos município de Salto. São rochas com centenas de milhões de anos que guardam as marcas do intemperismo do gelo. 
           Por sua vez, o intemperismo da água pode ser químico. Nesse caso ocorre a dissolução das rochas e minerais, mediante uma reação química onde a água atua como solvente. Diferentemente do intemperismo físico, nestes casos não ocorre quebra ou fragmentação dos materiais. Eles são desgastados aos poucos, numa taxa que varia de acordo com a composição de cada rocha, uma vez que os minerais constituintes podem ou não ser dissolvidos pela água (WICANDER & MONROE, 2009). O resultado, além do desgaste do material é a formação de solução aquosa com íons variados, que podem ser carregados para diferentes ambientes ou para o subsolo. Muitos desses íons gerados podem representar nutrientes para animais e vegetais, o que aumenta a importância desse processo na natureza (GIANNINI & MELO, 2009).
 
4.3 Erosão
 
          Embora seja tratada por muitas pessoas como sinônimo de intemperismo, erosão é um processo distinto, porém complementar. Corresponde ao transporte de algum material natural como íons, sedimentos ou solo (Figura 22). É realizada pela água líquida ou pelo gelo, além de outros agentes que não serão tratados neste livro (por exemplo, o vento) (GIANNINI & MELO, 2009; WICANDER & MONROE, 2009).
           O escoamento superficial e a infiltração da água no solo são os caminhos principais de erosão em água doce. Ondas e correntes oceânicas fazem papel semelhante no ambiente marinho (TESSLER & MAHIQUES, 2009). Sua ação provoca resultados (Figuras 22, 23, 24) como:
· muda paisagens;
· transporta materiais que serão usados por seres vivos na construção de seus locais de vida;
· transporta nutrientes vitais para animais e vegetais;
· muda a estrutura de solos mexendo, inclusive, com sua riqueza de nutrientes;
· causa assoreamento (entulha mento) dos canais fluviais e lagos;

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