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Justiça no Brasil da Velha República aos governos militares

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DESCRIÇÃO
Apresentação do papel da justiça na história do Brasil republicano desde o seu início, na
República das Espadas, até o fim de uma fase, com a organização da ditadura civil-militar.
PROPÓSITO
Examinar a história do direito e da justiça no Brasil entre a Proclamação da República, em
1889, e o fim do governo militar, bem como as leis, objetos de vigorosas disputas sociais e
políticas, além da evolução delas para situações de conflitos sociais armados.
OBJETIVOS
MÓDULO 1
Reconhecer as relações entre justiça e poder durante a história da Primeira República
brasileira (1889-1930)
MÓDULO 2
Identificar o aparato jurídico desenvolvido na Era Vargas (1930-1945)
MÓDULO 3
Descrever a jurisdição implantada ao longo do governo militar (1964-1985)
INTRODUÇÃO
Para o início do nosso estudo, saiba o seguinte: onde quer que existam seres humanos
vivendo em coletividade, também haverá regras, escritas ou costumeiras, cujo objetivo mais
óbvio é regular justamente esse convívio.
Trata-se da maneira mais sensata e assertiva de dizer o que pode e o que não pode,
estabelecendo limites para a liberdade individual. Além disso, é criada e imposta a repetição de
ritos considerados fundamentais para a existência daquela comunidade.
No entanto, as leis, a justiça e o direito não regulam apenas o convívio social: antes de tudo,
sua regulação atua sobre o conflito social a partir de interesses desiguais e conflituosos.
As sociedades, sejam elas simples ou complexas, são sempre atravessadas por desigualdades
e por grupos que disputam poder político, prestígio social e riqueza material. Os mais fortes,
aqueles que vencem as disputas sociais, tendem também a ter o poder de regular o convívio
social nos moldes de seus interesses.
É por isso que, ao longo da história, pessoas foram escravizadas e valores construídos
socialmente (como a propriedade privada) foram alçados à condição de um cânone jurídico
sacralizado em forma de lei. Você imagina o porquê disso?
Será a partir dessa perspectiva, que interpreta a justiça, o direito e as leis à luz dos conflitos
que atravessam as sociedades humanas, que estudaremos justiça brasileira em três
momentos-chave da história do Brasil:
A Primeira República, entre 1889 e 1930, momento de maior transformação institucional do
país, quando a legislação da monarquia foi substituída pela republicana;

A Era Vargas, entre 1930 e 1945, quando foi formado a aparato jurídico que transformou o
Estado no centro planejador e executor do desenvolvimento nacional;

A ditadura militar, instituída no Brasil em 1964 e extinta em 1985, na qual foi erguido um
aparato jurídico que legitimou a perseguição aos adversários do regime e toda sorte de crimes
contra a humanidade que foram cometidos no período.
MÓDULO 1
 Reconhecer as relações entre justiça e poder durante a história da Primeira
República brasileira (1889-1930)
O DILEMA ENTRE REALIDADE E
IMAGINAÇÃO JURÍDICA NA PRIMEIRA
REPÚBLICA BRASILEIRA (1889-1930)
Talvez você se recorde das aulas de história do ensino fundamental nas quais a professora
fazia uma distinção entre as repúblicas, apontando seus períodos e alguns de seus
personagens. Desse aporte, o importante é saber que o marco da Proclamação da República,
em 15 de novembro de 1889, representou — além da destituição da monarquia — o início da
Primeira República (também conhecida como República Velha).
Um dos grandes e importantes personagens desse período histórico brasileiro foi o jurista e
político baiano Rui Barbosa (1840-1923). Sua figura é incontornável nos estudos acerca da
história da lei, do direito e da justiça durante a Primeira República brasileira.
Rui Barbosa foi o principal responsável pela redação da Constituição de 1891, que
sobreviveria até 1930.
Rui Barbosa tinha uma destacada atuação política desde o final da década de 1860, quando foi
eleito deputado pela então província da Bahia. A partir desse momento, ele foi uma das
principais lideranças do Partido Liberal, que, na monarquia brasileira, polarizava a disputa
política com o Partido Conservador.
Barbosa era um reformista. Defendia reformas estruturais na monarquia, o que, segundo ele,
seria indispensável para a modernização do país. A descentralização político-administrativa, a
separação entre Igreja e Estado, a implantação de eleições diretas e a abolição da escravidão
faziam a parte da agenda reformista defendida por ele.
 
Foto: Shutterstock.com
 Rui Barbosa, Brasil. Nota de dez cruzados, 1987.
O modelo para o reformismo barbosiano era a monarquia inglesa. “Reformas para conjurar a
revolução” era o lema da ala política liderada por Rui Barbosa. Seu intuito era adaptar a
monarquia aos “novos tempos” para impedir a ruptura revolucionária e a Proclamação da
República.
O Establishment político monárquico estava convencido de que a república era uma forma
de organização política inferior e potencialmente anárquica, sendo, por isso, inadequada ao
Brasil.
Em discurso proferido no início da década de 1870, Rui Barbosa deixou claro os princípios que
orientavam a agenda de reformas estruturais defendida pelo Partido Liberal:
ESTABLISHMENT
Grupo sociopolítico que, exercendo autoridade, controle ou influência, defende seus
privilégios.
A CORRENTE SE AVOLUMA E DIA A DIA REDOBRA DE
FORÇA: ONTEM POBRE VERTENTE, DEPOIS REGATO;
HOJE RIO MAJESTOSO, AMANHÃ SERÁ OCEANO [...]
COMO DIZEM TODOS QUE VERDADEIRAMENTE SE
INTERESSAM PELA SORTE DA NAÇÃO: REFORMAI
SEM DEMORA, REFORMAI RADICALMENTE ESTE
SISTEMA CORROMPIDO; ALIÁS, QUANDO
PROCURARDES PELAS INSTITUIÇÕES, ELAS SE
TERÃO AFUNDADO NO ABISMO COM O SISTEMA QUE
A ELAS SE AGARRANDO, COMO NOCIVA PARASITA,
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AS DESCONJUNTAM, E ABALAM EM SEUS
FUNDAMENTOS.
BARBOSA, 1987, p. 15-16.
Os anos seguintes mostraram que a monarquia não foi capaz de fazer uma autorreforma
na velocidade que as circunstâncias exigiam. Pelo contrário: a década de 1870 acelerou
o desgaste das instituições monárquicas.
O fim da Guerra do Paraguai (1864-1870) teve como grande consequência o empoderamento
do Exército. Foi a partir de então que ele se tornou força de desestabilização institucional, o
que culminou no golpe militar que efetivamente derrubou a monarquia em novembro de 1889.
Em 1873, no interior de São Paulo, na cidade de Itu, foi fundado o Partido Republicano, evento
indicativo de que a monarquia deixava de ser um consenso entre a elite política brasileira.
Cada vez mais lideranças liberais seriam capturadas para a causa republicana.
Como demonstra Christian Lynch (2007), aconteceu exatamente isso com Rui Barbosa. Ele
inclusive recusou, em junho de 1889, o convite do Visconde de Ouro Preto para compor aquele
que seria o último governo da monarquia.
Sua ideia era finalmente tentar promover a principal reforma demandada pelas elites políticas e
econômicas em ascensão: a federação, o que significava o fortalecimento dos governos locais
sobre a autoridade do governo central.
Porém, como você sabe, já era tarde demais.
A conspiração republicana já estava em marcha, sendo movida pela aliança entre militares e
civis. Entre os participantes, destacava-se o próprio Rui Barbosa, que assumiu o cargo de
ministro da Economia do governo de Marechal Deodoro da Fonseca (1827-1892). Ele durou
apenas dois anos: teve início em novembro de 1889 e terminou em 23 de novembro de
1891.
Já nos primeiros momentos do governo de Deodoro da Fonseca, estava claro o conflito travado
entre militares positivistas e liberais federalistas. Os militares defendiam a implementação de
uma ditadura para modernizar o país. A palavra “modernização” era entendida aqui como
industrialização e urbanização.
Já os liberais federalistas, liderados por Rui Barbosa, preferiam a descentralização
administrativa e a instituição de uma democracia liberal baseada na representação política e
em eleições diretas.
 
Fonte: Wikimedia Commons.
 Proclamação da República do Brasil, Benedito Calixto, 1893.
Rui Barbosa teve êxito nas disputas

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