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Disciplina: Obstetrícia Data: 21/07/2020 Curso: Medicina / UFC Diabetes na gestação Apesar de que 7% das gestações são complicadas pela DM, cerca de 86% das diabetes na gestação são do tipo gestacional, apenas 1-2% das gestantes tem diabetes pré-gestacional. A tendência nas últimas décadas foi o aumento progressivo. A diabetes é um estado de aumento da resistência à insulina devido a ação de hormônios diabetogênicos, tais como o lactogênio placentário, prolactina, progesterona, fator de necrose tumoral, cortisol e leptina. Rastreio e diagnóstico ACOG: Deve-se rastrear diabetes em todas as gestantes. O rastreio deve ocorrer entre 24-28 semanas de gestação, entretanto, será mais precoce em gestantes com fatores de risco. A testagem será em duas etapas, a primeira TOTG 50g (1h), caso o resultado dê maior que 130-140 será feita a segunda etapa. A segunda etapa é TOTG em jejum/1h/2h/3h. Assistência Pré-natal brasileira: o rastreio para DM será diferente de acordo com a IG na primeira consulta pré-natal. Caso a IG for < 20 semanas, será feita Glicemia de Jejum (GJ) na primeira consulta, glicemia de jejum baixo de 92mg/dl configura normalidade; essa gestante deverá realizar entre 24-28 semanas o teste TOTG 75g (jejum/1h/2h). Resultado entre 92 e 125 delimita DMG, já valor ≥ 126mg/dl configura DM pré-gestacional. Gestante que iniciou o pré-natal entre 20-28 semanas, fará entre 24-28 semanas TOTG 75g. Aquelas que foram na primeira consulta pré-natal > 28 semanas, irão realizar imediatamente TOTG 75g. Ao menos um valor alterado em jejum (entre 92-125mg/dl), 1h (≥ 180) e 2h (entre 153-199mg/dl) nos dá o diagnóstico de DMG. Já, pelo menos, um valor alterado em jejum (≥ 126) e 2h (≥ 200) configura DM pré-gestacional. HbA1c (hemoglobina glicada): ela sozinha não é bom parâmetro para rastreio e diagnóstico de DMG, entretanto, nos dá uma visão retrospectiva do quadro da paciente, por exemplo, naquelas pacientes com DM pré-gestacional, os níveis de HbA1c serão importantes para predizer chances de malformações, macrossomia e natimortalidade. Disciplina: Obstetrícia Data: 21/07/2020 Curso: Medicina / UFC O ideal é manter níveis de hemoglobina glicada abaixo de 6-7% para se obter melhores desfechos obstétricos. Complicações obstétricas Diabetes na gestação eleva o risco de pré-eclâmpsia, além do mais, uma parcela das gestantes com DMG (25% das medicadas e 17% das não medicadas) irão necessitar passar por cesariana. Cerca de 70% das mulheres diagnosticadas com DMG irão desenvolver DM nos próximos 22-28 anos. Outras complicações obstétricas são parto prematuro, RPMO, polidrâmnio (devido a diurese osmótica fetal aumentada), macrossomia fetal (decorrência da hiperinsulinemia e hiperglicemia fetal), abortamento, RCIU e distocia de ombros de traumas no parto. Além do mais, temos retinopatia e nefropatia diabéticas, sendo a última tendo a capacidade de aumentar o risco de insuficiência placentária. HAS prévia aumento o risco de natimortalidade. Gestantes com DM prévia têm maior risco de IAM. Ainda podemos ter neuropatia autonômica, que quando cursa com gastroparesia leva a maior incidência de hiperêmese. Por fim, temos a cetoacidose diabética, que atinge cerca de 5-10% das gestantes com DM prévia (principalmente DM1), que pode ser desencadeada por infeções, má adesão ao tratamento, uso de corticoides e administração de tocolíticos betamiméticos. Complicações fetais e neonatais Uma complicação é a hipoglicemia do RN, devido a hiperinsulinemia dele, portanto, se fez necessário o controle rígido da glicemia em RN de mãe com diabetes na gestação. Outro ponto a ser levantado é o maior risco de desenvolvimento de obesidade e DM no futuro. Disciplina: Obstetrícia Data: 21/07/2020 Curso: Medicina / UFC A ainda relação com malformações, principalmente cardíacas (risco dez vezes maior). Filhos de gestantes com diabetes na gestação também podem desenvolver autismo. Avaliação pré-concepcional É de suma importância e dever de todo médico que acompanha mulher em idade fértil com diabetes. Informar sobre riscos e condutas a serem tomadas. Busca-se presença de retinopatia e nefropatia diabéticas. O ácido fólico é administrado em todas as mulheres de forma pré-concepcional, independentemente de terem DM ou não, mas naquelas mulheres com DM, a administração é ainda mais importante, devido ao risco aumentado de defeitos no tubo neural. Essencial avaliar a função tireoidiana dessa mulher. Assistência pré-natal Além da rotina de exames do primeiro trimestre, faz-se necessário a solicitação de outros exames, como a proteinúria de 24 horas, fundoscopia, ECG, lipidograma, creatinina e Hb glicosilada. A paciente descompensada terá um acompanhamento mais rigoroso e individualizado. O rastreio de retinopatia é mandatório em toda gestante com diabetes, esse rastreio será feito na primeira consulta pré-natal e com 28 semanas. Entretanto, caso a Disciplina: Obstetrícia Data: 21/07/2020 Curso: Medicina / UFC paciente apresente retinopatia, essa segunda verificação pode ser adiantada para 16- 20 semanas. Rastreio é com fundoscopia. O rastreio de nefropatia é realizado via creatinina e albuminúria. Será feito USG morfológica para avaliação da morfologia fetal, consequentemente de malformações, por volta da vigésima semana. Ademais, a partir da 28a semana, será feita USG fetal mensal para avaliação de crescimento fetal e volume do líquido amniótico. Ecocardiograma fetal também precisa ser realizado devido a aumento das chances de malformações cardíacas. Ela será feita entre 24-26 semanas. O controle glicêmico deve ser revisado a cada 1-2 semanas. O AAS deve ser administrado em gestantes com DM prévia. Sua dose será entre 81-150mg/dia, entre 12-28 semanas de gestação, iniciando preferencialmente antes da décima sexta. PBF será feito entre uma a duas vezes por semana, será realizado se CTG não tranquilizadora. Dieta e atividade física da gestante com DMG Dieta deve ser composta principalmente por carboidratos, seguida de gorduras ricas em poli-insaturados e proteínas. Na não obesa a composição será 30kcal/kg/dia, já na obesa será 25kcal/kg/dia. A atividade física tem como objetivo ajudar no controle glicêmico e do peso. Ela deve ser uma atividade aeróbica de baixo impacto (esforço moderado ou 50% da FC máxima) com duração de 30 minutos. Não deve ser realizada caso glicemia < 60 ou >250mg/dl. Avaliação fetal Controle glicêmico desejado O alvo terapêutico é o equilíbrio da glicemia, portanto, evita-se tanto a hiperglicemia como a hipoglicemia. Os valores que devem ser alcançados são jejum < Disciplina: Obstetrícia Data: 21/07/2020 Curso: Medicina / UFC 95, 1 hora pós prandial < 140, 2 horas pós prandial <120 e <120 antes de dormir. Cabe ressaltar que em qualquer horário, evita-se glicemia abaixo de 70. As medições da glicemia vão ocorrer em momentos diferentes de acordo com a patologia da gestante. Naquelas com DM1 e DM2/DMG com uso de insulina (exceto insulina de dose única) as medições serão: jejum, antes das refeições e 1 hora após e antes de dormir. Nas outras condições, a glicemia será aferida no jejum e em 1 hora após as refeições. Na DMG, a primeira conduta a ser implementada é a tentativa de diminuição da glicemia via dieta saudável e exercícios físicos. A atividade física deve ser preferencialmente aeróbica e 30 minutos diários/5x por semana. Caso a mudança de estilo de vida seja insuficiente, medicação será utilizada. Nas DM prévias, haverá o ajuste das medicações. A droga de primeira linha na gestação é a insulina. A metformina também pode ser utilizada, principalmente naquelas gestantes que faziam uso antes da gestação. Apesar de que a metformina atravessa a barreira placentária, os estudos até o momento não identificam danos ao feto. Já aglibenclamida é droga de segunda linha e tem pior controle glicêmico que as anteriores. Insulina: será necessária em cerca de 15-20% das gestantes com DMG com falha no controle apenas com mudança de estilo de vida. A insulina utilizada deve ser humana, sendo 2/3 de insulina NPH e 1/3 de insulina regular. Naquelas que já faziam o uso de insulina antes da gravidez, a administração deve ser mantida e ajustada de acordo com o perfil glicêmico. Usualmente, no início, há redução de 10-20% da dose previamente usada. Importante lembrar que a quantidade de insulina necessária será progressiva durante a gestação, havendo aumento de dose entre 18-24 semanas e no terceiro trimestre. Lembrar que nas primeiras 48 horas, por segurança, utiliza-se metade da dose calculada. Sempre se deve preferir esquemas com insulinas prandiais. A monitorização glicêmica será de 3 a 7 vezes por dia. Parto Naquelas gestantes com DM prévia e com bom controle glicêmico, o parto será feito entre 39-39s6d; já naquelas com mau controle glicêmico, vasculopatas, nefropatas e/ou com óbito fetal anterior, o período ideal é entre 36-38s6d. Conduta expectante até 40s6d não é recomendada. Já nas gestantes do DMG, será feita conduta expectante até 40s6d para aquelas com bom controle glicêmico sem uso de medicações, entretanto, naquelas que mesmo que tenham bom controle glicêmico, mas usam medicamentos, o momento ideal será entre 39-39s6d. Nas com controle domiciliar inadequado, o melhor momento será entre 37-38s6d. Nos casos mais delicado (controle inadequado mesmo em ambiente hospitalar), o melhor momento é entre 34-36s6d. É importante ressaltar que macrossomia por si só não é recomendação de parto cesáreo. Será feita cesariana naqueles com peso >4500g. Disciplina: Obstetrícia Data: 21/07/2020 Curso: Medicina / UFC O trabalho de parto induzido ou cesariana eletiva devem ser programados para o período da manhã. Durante o trabalho de parto (induzido ou não), deve-se manter glicemia entre 70-110 para evitar hipoglicemia neonatal. Insulinoterapia intraparto Cesárea: deve-se reduzir em 50% a dose de insulina na noite anterior e suspender a insulina na manhã do parto. Vaginal: deve-se suspender insulina assim que o diagnóstico de trabalho de parto for feito. Importante lembrar que a bomba de infusão contínua de insulina deve ser suspensa imediatamente após o parto. Pós-parto Imediatamente após o parto, a necessidade de insulina decai. Por exemplo, naquelas mulheres com DM prévia, a dose de insulina será cerca de 1/3 da pré-natal. Outro ponto importante é aumentar a ingesta calórica (em 500kcal) para evitar hipoglicemia durante amamentação. A grande maioria das mulheres que tiveram DMG irão regularizar os níveis de glicemia nos primeiros dias do puerpério, portanto, as medicações que foram utilizadas na gestação serão suspensas. Contudo, é importante que essa mulher mantenha hábitos de vida saudável e controle o peso. Cabe ressaltar que amamentar diminui o risco de desenvolvimento de DM2 para essa mulher. Após 6 semanas do parto será realizado TOTG 75, sendo o método padrão-ouro para identificar DM nessa fase; caso dê negativo, o rastreio será anualmente.